Tudo era silêncio a bordo do barco. Em sua gaiola fétida abaixo do convés os remadores dormiam sentados, acorrentados em seus bancos estreitos. No convés, marinheiros dormiam ou sentavam-se em pequenos grupos jogando dados. A proa era reservada, ao que parecia, para os passageiros distintos. Duas figuras, um homem e uma mulher, lá estavam reclinados em espreguiçadeiras, os rostos e os membros semidespidos ruborizados pela sombra colorida do grande toldo vermelho esticado acima deles.
Eram um nobre, os marinheiros tinham ouvido dizer, e sua amante que estavam a bordo. Os dois tinham comprado passagem em Scanderoon e voltavam para casa, na Espanha. Orgulhosos como o pecado eram esses espanhóis; o homem os tratava como escravos ou cachorros. Quanto à mulher, ela era razoável, mas em sua nativa Gênova eles podiam encontrar rostos e bustos que se comparassem aos dela. Se alguém apenas olhasse para ela, mesmo a uma distância de meio navio entre eles, seu proprietário ficava uma fúria. Ele batera num homem por ter sorrido para ela. Maldito catalão, ciumento como um cervo; deste a marujada lhe desejava os chifres e a disposição.
Fazia um calor intenso, mesmo sob o toldo. O homem acordou de seu sono difícil e esticou a mão para uma mesinha a seu lado, onde havia uma funda taça de prata de vinho misturado com água. Bebeu um gole; estava quente como sangue e não refrescou sua garganta. Voltou-se e, apoiando-se no cotovelo, olhou para sua companheira — esta deitada de costas, respirando silenciosamente através dos lábios entreabertos, ainda adormecida. Inclinou-se e beliscou-a no seio, de modo que ela acordou de um salto e com um grito de dor.
– Por que me acordou? — perguntou.
Ele riu e deu de ombros. Na verdade, não tivera razão para fazer isso, mas o caso é que não gostava que ela dormisse confortavelmente enquanto ele estava acordado e tão consciente do desagradável calor.
– Está mais quente que nunca — comentou, com uma espécie de sombria satisfação ao pensar que ela agora teria de sofrer o mesmo desconforto que ele.
– O vinho queima em vez de refrescar; o sol não parece ter se movido no céu.
A mulher mostrou-se aborrecida:
– Você me beliscou com maldade — disse. — E ainda não sei por que quis me acordar.
Ele tornou a sorrir, dessa vez com lascívia bem-humorada.
– Queria beijar você — disse. Possessivo, passou a mão pelo corpo dela, como um homem que acariciasse um cachorro.
De repente a calma da tarde foi rompida. Ergueu-se um grande clamor, áspero e irregular. Gritos agudos trespassavam o estrondo surdo de vozes graves, atravessavam o som de tambores percutidos e metais martelados.
– Que é que estão fazendo na cidade? — a mulher perguntou ansiosamente ao amante.
– Só Deus sabe — ele respondeu. — Talvez os cães pagãos estejam criando problemas com nossos homens.
Levantou-se e caminhou até a murada do navio. A trezentos metros de distância, além das águas calmas da baía, ficava a pequena cidade africana que eles tinham parado para visitar. A luz do sol exibia todas as coisas com uma nitidez áspera e impiedosa. Céu, palmeiras, casas brancas, domos e torres pareciam feitos de algum metal rijo e esmaltado. Uma fila de montes baixos e vermelhos estendia-se para a direita e para a esquerda. O brilho do sol dava a todas as coisas do cenário a mesma clareza de detalhes, de modo que para os olhos do espectador não havia impressão de distância. Tudo parecia pintado num mesmo plano.
O rapaz voltou para sua espreguiçadeira sob o toldo e deitou-se. Estava mais quente que nunca, ou assim parecia, pelo menos, já que ele fizera o esforço de levantar-se. Pensou nas frescas pastagens nos montes, com o som agradável dos regatos bem fundos e escondidos em seus canais profundos. Pensou nos ventos que eram frescos e perfumados — ventos que não eram apenas alentos de poeira e fogo. Pensou na sombra dos ciprestes, uma faixa de escuridão estreita e opaca; e pensou também no frescor verde, mais difuso, fluído e transparente, dos castanhais. E pensou nas pessoas de quem se lembrava sentadas sob as árvores – pessoas jovens, alegres e vestidas em cores brilhantes, cuja vida era só diversão e delícia. Havia canções que elas cantavam; ele recordou as vozes e a dança das cordas. E havia perfumes e, quando se chegava mais perto, a fragrância inebriante de um corpo de mulher. Pensou nas histórias que contavam; uma em particular veio-lhe à mente, uma ótima história de um feiticeiro que se ofereceu para transformar a mulher de um camponês em uma égua, e como ele enganou o camponês e divertiu-se com a mulher na frente dele, e as desculpas deliciosas que ele inventou por não ter transformado a mulher. Sorriu para si mesmo ao pensar nisso, e estendendo o braço tocou em sua amante. O seio dela era tão macio sob seus dedos e úmido de suor; ele teve a ideia desagradável de que ela estava derretendo no calor.
– Por que você me toca? — ela perguntou.
Ele não respondeu e deu-lhe as costas. Perguntou-se como seria o corpo das pessoas ao ressuscitarem. Parecia curioso, considerando-se a manifesta atividade dos vermes. E se a pessoa ressuscitasse com o corpo que tinha na velhice? Ele estremeceu, imaginando como seria essa mulher aos sessenta, setenta anos. Ela seria repulsiva para além das palavras. Os velhos também eram horríveis. Eles fediam, e seus olhos eram remelentos e viscosos como os olhos de uma corça. Resolveu que iria matar-se antes de ficar velho. Tinha vinte e oito anos. Daria a si mesmo mais doze anos. Depois acabaria com tudo. Seus pensamentos tornaram- se mais vagos e desapareceram no sono.
A mulher contemplou-o enquanto dormia. Era um bom homem, pensou, embora cruel às vezes. Ele era diferente de todos os outros homens que ela conhecera. Antes, quando tinha dezesseis anos e pouco sabia o que era o amor, pensara que todos os homens estavam sempre bêbados quando faziam amor. Eram todos sujos e como animais; ela se sentia superior a eles. Mas esse homem era um nobre. Ela não conseguia compreendê-lo; seus pensamentos eram sempre obscuros. Ela se sentia infinitamente inferior a ele. Tinha medo dele e de sua crueldade ocasional; mas ainda assim ele era um bom homem, e podia fazer o que quisesse dela.
De longe veio o som de remos, seu mergulho e guincho ritmados. Alguém gritou, e surpreendentemente próximo um dos marinheiros respondeu ao chamado.
O rapaz acordou com um susto.
– Que foi isso? — perguntou, voltando-se para a moça com um olhar furioso, como se a considerasse responsável por essa interrupção em seu cochilo.
– O bote, eu acho — disse ela. — Deve estar voltando da praia.
A tripulação do bote subiu pela lateral, e toda a vida estagnada da galé fluiu excitadamente em torno dos recém-chegados. Eles eram o centro de um vórtice para onde todos eram atraídos. Até mesmo o jovem catalão, apesar de todo o seu ódio desses malcheirosos marinheiros genoveses, foi sugado pelo redemoinho. Todos falavam ao mesmo tempo, e na confusão geral de perguntas e respostas nada se conseguia entender de coerente. Agudamente nítida acima de todo o barulho chegou a voz do pequeno camareiro, que tinha ido à praia com a tripulação do bote. Ele corria para cada um, repetindo:
– Acertei um deles. Sabe, eu acertei um. Com uma pedrada na testa. Como ele sangrou, ah, como sangrou! — E dançava em incontrolável agitação.
O capitão ergueu o braço e gritou por silêncio.
– Um de cada vez — ordenou, e, quando a ordem tinha sido ligeiramente restaurada, acrescentou um resmungo: — Como um bando de cães com um osso. Fale você, contramestre.
– Eu acertei um deles — começou o rapaz. Alguém lhe deu um soco na cabeça, e ele silenciou.
Quando a história do contramestre conseguiu vencer os labirintos de digressões, os inúmeros obstáculos de interrupções e emendas, até chegar ao fim, o espanhol voltou para junto de sua companheira sob o toldo. Assumira mais uma vez sua habitual indiferença.
– Quase chacinados — disse languidamente, em resposta às ansiosas perguntas dela. — Eles — fez um gesto com a mão apontando a cidade — estavam apedrejando um velho que viera pregar a fé. Deixaram-no morto na praia. Nossos homens precisaram correr.
Ela não conseguiu arrancar mais nada; ele voltou-se e fingiu adormecer.
À tardinha receberam a visita do capitão. Era um homem alto e belo, com argolas de ouro brilhando nas orelhas em meio aos cabelos negros.
– A divina providência — sentenciou gravemente, depois das cortesias costumeiras — nos chamou para executarmos um trabalho notável.
– É mesmo? — perguntou o rapaz.
– Nada menos — continuou o capitão — do que salvar das garras dos pagãos e infiéis os preciosos despojos de um santo mártir.
O capitão abandonou seu jeito pretensioso. Era evidente que tinha preparado essas sentenças beatas, elas saíam facilmente de sua boca. Mas agora estava ansioso por continuar sua história, e em tom mais simples continuou:
– Se vocês conhecessem esses mares tão bem quanto eu, e já faz quase vinte anos que navego neles, teriam conhecimento desse mesmo santo homem que esses malditos árabes, que Deus apodreça suas almas, mataram aqui. Ouvi falar dele mais de uma vez, e nem sempre bem; para falar a verdade, ele fez mais mal aos bons mercadores cristãos com suas prédicas do que fez bem aos cães infiéis de coração negro. Deixe as abelhas em paz, é o que sempre digo, e se você conseguir tirar um pouco de mel delas tranquilamente, tanto melhor; mas ele ia até as colmeias com uma vara de pau, criando confusão para si mesmo e para os outros também. Deixe-os em paz com sua danação, é o que digo, e consiga o que puder deles do lado de cá do inferno. Mas, mesmo assim, ele teve a morte de um santo mártir. Que Deus acolha sua alma! Um mártir é uma coisa maravilhosa, sabe, e não nos compete entender o que eles fazem.
“Dizem também que ele sabia fazer ouro. E, para mim, seria uma coisa mais agradável a Deus e ao homem se ele ficasse em casa fazendo dinheiro para os pobres e doando-o, de modo que não haveria mais necessidade de trabalhar e de se matar por um pedaço de pão. É, ele era muito bom em fazer ouro, e com os livros também. Dizem que ele era chamado de Doutor Iluminado. Mas eu ainda o conheço só como Lully. Costumava ouvir meu pai falar dele, apenas Lully, e ele nunca foi mais que isso.”
“Meu pai era construtor de navios em Minorca nessa época”, continuou. “Há quanto tempo? Cinquenta, sessenta anos talvez. Ele o conheceu então; muitas vezes me contou a história. E ele era um sujeitinho bem à toa. Bebendo, andando com prostitutas ou jogando dados, ele era o melhor de todos, e no intervalo das farras escrevia poemas, dizem, o que era mais do que os outros podiam fazer. Mas desistiu de tudo de repente. Doou suas terras, largou os antigos companheiros e virou eremita nas montanhas, vivendo sozinho como uma raposa em sua toca, bem acima das parreiras. E tudo por causa de uma mulher e de seu próprio estômago sensível.”
O capitão fez uma pausa e serviu-se de um pouco de vinho.
– E que foi que essa mulher fez? — perguntou a jovem, curiosa.
– Ah, não foi o que ela fez e sim o que ela não fez — respondeu o capitão com uma careta e uma piscadela. — Ela o mantinha à distância, com a exceção de uma vez; só uma vez. E foi isso que o colocou no caminho do martírio. Bem, mas estou me apressando demais. Tenho que ir mais devagar. Havia na ilha uma mulher de alguma importância. Uma Castello, acho que era; o primeiro nome me fugiu à memória. Anastasia ou qualquer coisa assim. Lully toma-se de paixão por ela, e suspira e a busca com insistência durante não sei quantos meses e anos. A história correu depois de tudo terminado, quando ele já tinha virado eremita nas montanhas. O que aconteceu, como eu disse, foi isso. Ela finalmente lhe diz que ele pode ir vê-la, marcando um lugar e uma hora sombrios, o próprio quarto dela ao cair da noite. Vocês podem imaginar como ele se lava, se penteia e se perfuma, faz a barba, mastiga hortelã; disfarça tudo que nele pudesse recender a bode. Lá vai ele, sonhando com êxtases, antecipando doçuras inconcebíveis. Ao chegar, ele encontra a moça um pouco melancólica; ela era assim mesmo, mas um homem espera um sorriso em uma ocasião como essa. Mesmo assim, nem um pouco desanimado, ele se joga aos pés dela e derrama seu caso desesperado, contando a ela como tem suspirado durante sete anos, e não fecha os olhos por mais de cem noites, e está magro como uma sombra, e, em uma palavra, vai morrer se ela não mostrar alguma piedade. Ela, ainda melancólica (seu humor de sempre, lembrem-se), responde que está pronta para ceder, e que seu corpo é inteiramente dele. Com isso, ela se deixa possuir como ele quis, mas sempre com tristeza. “Você é toda minha”, ele diz, “toda minha”, e desata o corpete dela para provar o fato. Mas ele estava errado, outro amante frequentava seu peito, e seus beijos tinham sido apaixonados — ah, abrasadoramente apaixonados, pois ele devorara metade do seu seio esquerdo. Do mamilo para baixo ele tinha sido carcomido por um câncer.
“Ora, um homem pode ver coisa pior na rua ou na porta das igrejas, onde os mendigos se juntam ’, continuou o capitão. “Garanto que é uma visão desagradável; a carne comida pelos vermes, mas, mesmo assim, não é o suficiente, vocês vão concordar, para transformar alguém em eremita. Mas eu já disse que ele tinha o estômago fraco. Sem dúvida isso tudo fazia parte dos planos de Deus de fazer dele um santo mártir. Não fosse por essa fraqueza, ele ainda estaria vivendo lá, um velho libertino; ou então teria tido uma morte malcheirosa, em vez de entrar pelas portas do paraíso em odor de santidade. Não sei o que lhe aconteceu entre o tempo de ermitão e o martírio. A primeira vez que o vi foi há doze anos, em Túnis. Ele estava sempre sendo jogado na prisão, ou então lhe arrancavam a barba, por causa de seus sermões. Desta vez parece que fizeram dele um santo mártir, fizeram o serviço direito, sem erros. Bem, que ele possa rezar por nossas almas junto ao trono de Deus. Esta noite vou secretamente à praia para roubar seu corpo. Está lá na praia, depois do cais. Vai ser uma obra notável, eu lhe digo, trazer de volta para a Cristandade um corpo tão precioso. Uma obra bem notável…”
O capitão esfregava as mãos.
Passava de meia-noite, mas ainda se ouvia agitação a bordo da galé. Esperavam para qualquer momento a chegada do bote com o corpo do mártir. Uma cama cuidadosamente forrada de preto, com pares de velas ardendo nas extremidades, tinha sido colocada no tombadilho para receber o corpo. O capitão chamou o jovem espanhol e sua amante para ver o esquife.
– Eis aí um bom trabalho — disse ele, com orgulho justificado. — Desafio qualquer um a fazer um lugar melhor que este para um mártir descansar. Não sairia melhor em terra, com todos os recursos à mão. Mas nós, marinheiros, fazemos milagres. Uma cama de rodas, um pedaço de lona alcatroada e quatro velas de sebo das lanternas das cabinas e pronto, um ataúde para um rei.
Afastou-se, apressado, e pouco depois o rapaz e a moça ouviram-no gritar ordens e maldições em algum lugar lá embaixo. As chamas das velas ardiam quase imóveis no ar sem vento, e os reflexos das estrelas eram trilhas de fogo longas e finas sobre a água inteiramente parada.
– Se houvesse flores perfumadas e o som de um alaúde, a noite estremeceria de paixão — disse o jovem espanhol. — O amor devia surgir sem ser procurado numa noite como esta, entre essas águas escuras e as estrelas que dormem tão calmamente em seu seio.
Abraçou a jovem e inclinou a cabeça para beijá-la. Mas ela desviou o rosto.
Ele sentiu que um arrepio percorria o corpo dela.
– Hoje não — sussurrou ela. — Estou pensando no coitado do morto.
Prefiro rezar.
– Não, não — exclamou ele. — Esqueça-o. Lembre-se apenas de que
estamos vivos e de que temos pouco tempo, nenhum a perder.
Puxou-a para a sombra sob o parapeito e, sentando-se sobre um rolo de corda, apertou-lhe o corpo contra o seu e começou a beijá-la com fúria.
A princípio ela estava inerte e dura em seus braços, mas gradualmente a paixão dele atiçou-a.
Um ruído de remos anunciou a aproximação do bote. O capitão gritou para a escuridão:
– Vocês o encontraram?
– Sim, ele está aqui — veio a resposta.
– Ótimo. Encostem, e vamos içá-lo. Temos o féretro pronto. Ele permanecerá exposto às homenagens de todos esta noite.
– Mas ele não está morto — gritou de volta a voz na noite.
– Não está morto? — repetiu o capitão, perturbado. — Mas então, e o ataúde?
Uma voz fina e fraca respondeu.
– Seu trabalho não será perdido, meu amigo. Dentro de pouco tempo vou precisar dele.
O capitão, confuso, respondeu em tom mais suave:
– Nós pensávamos, santo padre, que os infiéis tinham feito o pior e que o Todo-Poderoso já lhe havia concedido a coroa dos mártires.
A essa altura o bote emergia da escuridão. Nos lençóis da proa jazia um velho, os cabelos e a barba brancos manchados de sangue, o hábito de dominicano rasgado e sujo de poeira. Ao vê–lo, o capitão arrancou o chapéu e caiu de joelhos.
– Dê-nos sua bênção, santo padre — pediu. O velho ergueu a mão e desejou-lhe paz.
Ergueram-no para bordo e, a seu próprio pedido, deitaram-no no esquife que fora preparado para seu cadáver.
– Seria um desperdício me colocar em outro lugar, já que logo estarei aí mesmo — disse ele.
E assim ele ficou deitado ali, imóvel sob as quatro velas. Podia-se imaginar que ele já estava morto, porém seus olhos, quando os abria, brilhavam fortemente.
Pediu que saíssem todos da proa, menos o jovem espanhol.
– Somos conterrâneos, e ambos de sangue nobre. Preferia ter você a meu lado a qualquer outra pessoa.
Os marinheiros ajoelharam-se para uma bênção e desapareceram; logo podiam ser ouvidos levantando a âncora; era mais seguro partir antes do amanhecer. Curados, o espanhol e sua amante postaram-se de cada lado do esquife iluminado como duas carpideiras. O corpo do velho, ainda vivo, jazia quieto sob as velas. O mártir ficou em silêncio por algum tempo, mas finalmente abriu os olhos e olhou para o rapaz e para a mulher.
– Eu também me apaixonei uma vez — disse. — Este ano é o jubileu de minha última paixão terrena; cinquenta anos se passaram desde que pela última vez desejei a carne; cinquenta anos desde que Deus abriu meus olhos para o horror da corrupção que o homem fez cair sobre si. Vocês são jovens e seus corpos são limpos e eretos, sem manchas, úlceras ou lepra para macular sua desejável beleza; mas, por causa de seu orgulho externo, pode ser que suas almas estejam tomadas de pústulas e escarras por dentro. No entanto, Deus nos fez todos perfeitos; são apenas os acidentes e o mal da vontade os responsáveis pela corrupção. Todos os metais deveriam ser ouro, não fosse por seus elementos terem o arroubo infesto em seu desejo de se combinar. É o mesmo com os homens: o enxofre ardente da paixão, o sal da sabedoria, a ágil alma mercurial deveriam juntar-se para formar um ser dourado, incorruptível e inoxidável. Mas os elementos colidem e, trêmulos, se combinam, não na harmonia pura do amor, e o ouro é raro, enquanto o chumbo, o ferro e o bronze venenoso, com o gosto que deixa, semelhante ao do remorso, são comuns em toda parte.
“Deus abriu meus olhos para isso antes que minha juventude tivesse sido inteiramente desperdiçada em podridão” — continuou o velho. “Foi há meio século, mas ainda a vejo, minha Ambrósia, com seu rosto pálido e triste e seu corpo nu e aquela doença monstruosa devorando-lhe o seio. Desde então vivi tentando consertar o mal, tentando restaurar, tanto quanto minhas pobres forças me permitiram, parte da perfeição original a esse mundo corrompido. Lutei para dar a todos os metais sua verdadeira natureza, fazer ouro verdadeiro dos metais falsos, irreais, acidentais, chumbo e cobre e estanho e ferro. E tentei aquela alquimia mais difícil, a transformação dos homens. Agora morro em meu esforço de purgar o lixo imundo da heresia das almas desses infiéis. Consegui alguma coisa? Não sei.”
A galé movia-se agora voltada para o mar. As velas estremeceram ao vento de sua velocidade, jogando sombras incertas e cambiantes no rosto dele. Houve um longo silêncio no tombadilho. Os remos estalavam e batiam na água. De vez em quando surgia um grito de baixo, ordens dadas pelo feitor dos escravos, uma praga, o som de um golpe. O velho tornou a falar, agora mais fraco, como se consigo mesmo.
– Já tenho oitenta anos disso — falou. — Oitenta anos no meio desse mar corrosivo de ódio e luta. Um homem precisa manter a pureza de seu coração de ouro, esse pequeno centro de perfeição com o qual todos nós, mesmo em nosso declínio de tempo, nascemos. Todos os outros metais, mesmo que duros como o aço, brilhantes como o bronze, derreterão diante da insaciável amargura da vida. Ódio, luxúria, raiva — as paixões vis vão corroer sua vontade de ferro, a majestade guerreira de seu escudo de bronze. É preciso a perfeição dourada do amor puro e do conhecimento puro para suportá-los. Deus desejou que eu fosse a pedra — fraca, é verdade, em virtude — que tocasse e transformasse pelo menos um pouco do mais vil metal no ouro que está acima da decadência. Mas é trabalho árduo e ingrato. O homem fez de seu mundo um inferno e ergueu deuses de sofrimento para governá-lo. Deuses caprinos, que se deleitam e festejam a agonia de tudo, observando o mundo torturado, como esses horríveis amantes cuja luxúria transforma-se em negra crueldade.
“A febre nos leva através da vida num delírio de loucura”, continuou. “Sedento dos pântanos do mal de onde veio a febre, sedento das miragens de seu próprio delírio, o homem ruma de cabeça sem saber para onde. E todo o tempo um câncer devorador lhe morde as entranhas. Vai matá-lo no final, quando até mesmo a horrível inspiração da febre não será suficiente para fustigá-lo para a frente. Ele vai cair, um estorvo sobre a terra, monturo de podridão e dor, até que venha finalmente o fogo purificador para varrer o horror. Febre e câncer; ácidos que queimam e corroem… Tive oitenta anos disso. Graças a Deus chegou o fim.”
Já era madrugada; as velas mal eram visíveis à luz, desaparecendo até sumir, como almas em ascensão. Pouco depois o velho dormia.
O capitão aproximou-se na ponta dos pés e chamou o jovem espanhol para uma conversa confidencial.
– Acha que ele vai morrer hoje? — perguntou. O rapaz assentiu.
– Que Deus o tenha — disse o capitão fervorosamente. — Mas acha melhor levarmos o corpo dele para Minorca ou para Gênova? Em Minorca dariam muito para ter seu próprio mártir padroeiro. Ao mesmo tempo aumentaria a glória de Gênova se ela possuísse uma relíquia tão santa, embora ele não tenha ligação alguma com a cidade. Nisso reside minha dificuldade. Vamos imaginar que meu pessoal em Gênova não queira o corpo, sendo ele de Minorca e não um deles. Eu então iria parecer um tolo, levando-o com todas as honras. Ah, é difícil, é difícil. Há tanto em que pensar… Não tenho certeza se não seria melhor parar em Minorca primeiro. Que acha?
O espanhol deu de ombros.
– Não tenho conselho algum a oferecer.
– Meu Deus — dizia o capitão, afastando-se apressado —, a vida é um nó difícil de desatar.
Aldous Huxley
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