domingo, novembro 1

Leitura com café

 


Vacina contra o medo: o papel da literatura infantil no enfrentamento de emoções difíceis

Um gesto comum em famílias com crianças até 8-10 anos, quando chega a hora da leitura: evitar o contato com o medo, a tristeza, a perda e outros sentimentos difíceis. O adulto chega à página do lobo, da bruxa ou da floresta escura, hesita, e vira duas de uma vez. Às vezes o livro vai parar no fundo da estante. A intenção é boa: queremos poupar do que acreditamos representar sofrimento ou angústia. Mas vale perguntar o que estamos tirando deles junto com o medo.

Uma história assustadora é, antes de tudo, uma aventura. Na ficção — e, portanto, na imaginação —, a criança se perde no bosque, se defronta com o vilão malvado, cai na armadilha, consegue fugir. Ela passa por perigos que a vida real não lhe oferece, e passa por eles no lugar mais seguro que existe: o colo de alguém, com a voz conhecida lendo ao lado. Ela sabe que está em segurança, e o risco é na imaginação. Mas tem que lidar com a emoção que sente no momento.

E emoções precisam ser exercitadas. É um pouco como a imunidade: um corpo mantido longe de toda sujeira não aprende a se defender, ou pode acabar reagindo demais, de forma alérgica, a um elemento estranho. Com a mente infantil acontece um processo semelhante. Sentir medo em pequenas doses, em um ambiente protegido, vai criando “anticorpos emocionais”, preparando o sistema nervoso para lidar com emoções difíceis como medos e tristezas, quando chegarem de verdade. A coragem vai se construindo aos poucos, com sustos de tamanho adequado.

Cada criança lê uma mesma história de modos diferentes. Para uma, o susto vai fazer rir, para outra, se encolher de medo. O detalhe que uma esquece na hora, outra carrega por semanas. Essa diferença é justamente o que torna a literatura uma experiência pessoal e insubstituível. O que importa é que haja alguém por perto quando a emoção aparece.

A leitura compartilhada tem esse valor. Quando o monstro surge, o adulto está ali para parar e perguntar: você ficou com medo? E para admitir: eu também fiquei. Dar nome ao que se sente, em companhia, pode criar oportunidades ótimas para uma boa conversa. Reconhecer e falar sobre emoções fortalece o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança, e esse aprendizado a acompanha pela vida.

Muitas vezes o medo que atrapalha não é o da criança. É o nosso medo de que ela sinta medo. Ler todos os dias com os filhos é um ritual que presenteia todo mundo. Produz memórias afetivas que duram, ajuda a criança a ser mais inteligente e criativa e a lidar melhor com o que sente, inclusive com o medo.

O túmulo da Múmia

Tinha vindo ao museu pesquisar sobre o Egito para o meu caderno de História. Passei pela enorme arcada e entrei na primeira das cinco salas que constituíam a coleção egípcia. As paredes altas pareciam húmidas e sombrias. A única coisa que iluminava a sala era a serena luz cinzenta de um dia de chuva. Sombras escuras espreitavam por trás das vitrinas e das estátuas, escondendo‑se nos cantos. Um cheiro bolorento dominava o ar gelado que me atravessava os ossos.

Encontrava‑me sozinha neste memorial de tempos antigos. Os únicos pontos luminosos eram algumas tapeçarias desinteressantes. Nas vitrinas havia algumas joias danificadas do período egípcio. Junto a uma parede havia imponentes blocos de pedra, gravados com figuras grotescas. Fiz algumas anotações acerca do tipo de material usado na época egípcia, e passei depressa para a sala seguinte. Era inteiramente dedicada à cerâmica. Passei os olhos pela acumulação de obras tradicionais: as cores dominantes nos vasos eram o almagre, o verde‑água e o preto. As figuras representadas eram pintadas em cores contrastantes. Eram‑me familiares dos tempos da escola básica: rostos e pernas de perfil, busto e olhos de frente. A terceira sala continha apenas uma entediante quantidade de ferramentas e utensílios usados pelos egípcios. Listei alguns deles e passei para a quarta sala.
Nesta sala havia sobretudo cópias de mobiliário. Poucas peças verdadeiras enfeitavam as paredes.

A quinta sala, porém, fascinou‑me. As paredes estavam cobertas de velhos sarcófagos, e no centro deste misterioso lugar estendia‑se uma fileira de vitrinas baixas. Controlei o meu entusiasmo pelas múmias e aproximei‑me primeiro da fileira de mesas. O meu olhar distraído foi subitamente arrebatado por algo que brilhava no meio dos pendentes. Passou‑me pela cabeça que fosse um olho. Um olho humano! Costumo gabar‑me de possuir um temperamento calmo, resistente e curioso, mas naquele momento comecei a tremer por dentro e por fora. A roupa colava‑se‑me ao corpo, húmida de suor, ao mesmo tempo que um calafrio gélido me subia pelas costas. Enquanto tentava refazer os resquícios confusos daquilo a que gosto de chamar a minha compostura, li a legenda por baixo do olho. Era apenas feito de ágata! No entanto, sob o meu olhar frenético, tinha um aspecto gelatinoso, e a pupila parecia dilatar‑se ao fitar‑me.

Afastei‑me com alívio da vitrina e apressei‑me a ver os seis sarcófagos. Os primeiros cinco eram interessantes: tinham‑se soltado algumas lascas de tinta, o que lhes dava um agradável ar de antiguidade. Os rostos lisos e sérios desenhados no exterior dos sarcófagos olhavam diretamente para cima, como se tentassem ver além do pesado teto e obter um vislumbre dos céus soalheiros que não avistavam há tantos anos. Parei, espantada, em frente do sexto sarcófago. Dele saía um forte odor a carne putrefata!

— É claro que não pode haver nenhuma múmia antiga aqui — disse para comigo.
De repente, ocorreu‑me uma ideia horripilante… mas era demasiado improvável, demasiado horrível, para ser concebida pela mente humana. Enquanto pensava nisso, ouvi passos furtivos atrás de mim. Virei‑me depressa.

Na minha cabeça, imaginei toda a espécie de espetros sangrentos. No entanto, senti‑me tranquilizada por uma risada rouca provinda do velhote enrugado ao meu lado ao perceber a minha surpresa. Disse‑me então:

— Estava a observá‑la de trás daquela coluna ali; vi‑a a admirar o globo ocular na vitrina. Parece real, não é?

O velhote soltou outra risada das suas e levou‑me de volta à vitrina. Senti que estava a ser impelida por algum feitiço invisível, inédito, tal como acontece em sonhos, quando estamos a ser perseguidos e não conseguimos mexer nenhum músculo. Impotente, vi o homem de cabelo branco tirar do bolso uma minúscula lupa, que colocou sobre o olho. Para meu terror, o olho mexia‑se e fitava‑me lastimosamente à medida que o homem deslocava a lupa sobre o horrível órgão.

Fui‑me embora em bicos de pés, depois de lançar um olhar furtivo à figura curvada, ainda alegremente absorta no seu bizarro jogo.

Durante toda a noite, fui assombrada por ideias terríveis. Não conseguia adormecer, porque visões assustadoras de olhos líquidos e múmias vivas desfilavam diante de mim. Tentei convencer‑me de que o facto de o olho ser real não passava de uma invenção do velhote, mas foi em vão.

Ainda estava a chover, quando os primeiros sinais da madrugada surgiram no horizonte. Acordei e vesti‑me. Depois comecei a refletir sobre a melhor estratégia a seguir. Não era altura para gestos imprudentes. Às cinco e meia da tarde o museu fechava, e eu não poderia escapar ao sensor fotoelétrico. Tive, então, uma ideia: se ao menos resultasse! Entretanto já eram oito e meia, por isso tomei o pequeno‑almoço com a dona da pensão e fui de seguida ao First National do bairro, onde comprei um pão e um frasco de manteiga de amendoim. Quando regressei ao quarto, preparei quatro sandes de manteiga de amendoim e embrulhei‑as em papel de cera antes de as colocar num saco de papel. Pus também de lado um chapéu de abas largas e um guarda‑chuva. Às quatro horas, peguei nas sandes e no guarda‑chuva, pus o chapéu na cabeça, puxei a gola do casaco para cima e apanhei o autocarro das 4h10 para o museu.

Quinze minutos depois, ao subir a escadaria de mármore, constatei que o museu estava vazio, com exceção de dois ou três guardas. Não havia ninguém por perto, quando passei pelo sensor fotoelétrico. Peguei, então, no guarda‑chuva e passei‑o pelo sensor como se alguém estivesse a sair. Levantei o útil guarda‑chuva e percorri os longos e escuros corredores do museu. Ninguém me conseguia ver na escuridão cerrada, mas (engoli em seco) eu também não conseguia ver ninguém. Não tinha lanterna! Esquecera‑me talvez da coisa mais importante. Com cuidado, atravessei depois o átrio que ia dar à sala egípcia. Encontrei um banco num canto escuro da entrada. Ali me deitei, tremendo de excitação. Devorei com fome as sandes e adormeci logo.

Não sei durante quanto tempo me agitei no meu sono perturbado ou o que me terá acordado, mas sentei‑me e fui, então, surpreendida por um débil raio de luz que atravessava a noite escura como uma faca. Vinha da sala egípcia, da zona do túmulo da múmia! O pungente cheiro a carne podre chegou‑me de novo às narinas. Entrei às escondidas na sala. O que ali vi deixou‑me paralisada de horror. Sentia o corpo dormente, e só conseguia observar de forma impotente as ações quase inconcebíveis praticadas por um monstro desumano, desprovido de sanidade.

A luz da vela acesa no túmulo tremeluzia ao sabor das correntes de ar, projetando sombras assustadoras na parede. Essa luz permitiu‑me entrever as feições loucas do empregado de cabelo branco que já tinha conhecido — na véspera. Carregava um corpo vivo, enfaixado em ligaduras brancas, com aberturas apenas nos olhos e no nariz. A figura soltava gemidos abafados e contorcia‑se. O empregado abriu depois o quinto sarcófago, ao lado daquele de onde vinha o peculiar cheiro. Para meu horror, vi que a metade de cima se abria como a tampa de um caixão e estava revestida de espigões compridos e afiados: decerto para torturar a vítima aprisionada! O empregado deitou, então, a criatura humana na caixa, mas não a fechou. Aproximei‑me aos poucos, colada às sombras na parede. O empregado pegara, entretanto, numa colher afiada e inclinava‑se para arrancar os olhos da vítima aterrorizada, quando me viu aparecer. Reconheceu‑me!!

— Ah! — comentou, lançando‑me um olhar de soslaio. — Conseguiste fugir ontem, mas hoje vai ser diferente. Vou abafar os teus gritos de angústia e deixar‑te esvair em sangue numa agonia terrível. Tens de ir ao encontro dos deuses egípcios. Vou cortar‑te devagar os olhos e endurecê‑los antes de os expor na vitrina.

Quando avançou na minha direção, bati‑lhe com o guarda‑chuva e ele caiu inanimado no chão com um baque surdo. Demasiados anos naquela silenciosa câmara de tortura tinham‑lhe enfraquecido o coração e enlouquecido os sentidos.

Soltei a rapariga, que desmaiara com o susto, e amarrei o empregado com o generoso rolo de gaze e fita adesiva. Depois percorri os corredores já familiares que iam dar ao escritório do museu, onde telefonei à polícia para contar que tinha descoberto a rapariga desaparecida, cuja fotografia fora publicada em todos os jornais, bem como o louco raptor e futuro assassino. Quando regressei à fatídica sala para tranquilizar a rapariga restabelecida, o estrépito das sirenes policiais já fustigava o ar.

Na manhã seguinte, acordei por volta das dez horas com o telefone a tocar e atendi sonolentamente, pois ainda sentia o corpo dorido e uma dor de cabeça fortíssima. Era o chefe da polícia, que me contou que o empregado tinha confessado um assassinato e uma tentativa de assassinato antes de cair morto com um segundo ataque cardíaco. O chefe da polícia também me disse que o pai da rapariga me ia dar uma grande recompensa. Sorri ao lembrar‑me dela e disse ao chefe da polícia para agradecer ao pai em meu nome, mas para lhe dizer que guardasse a recompensa. Depois de desligar, voltei para a cama, mergulhando de imediato num sono tranquilo, liberto de sonhos.
Sylvia Plath, "Prosa Reunida"

A criança que ri na rua

A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo —
Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo

Fernando Pessoa, "Poesia 1931-1935"

Conjugal

Telefonou para a irmã, indignada:

— Imagine que aquele sem-vergonha mandou aqui um contínuo para me avisar que ele não vem jantar, tem de ficar até mais tarde no escritório. Fiquei desconfiada, telefonei para o escritório e o vigia é que atendeu, me disse que todos já foram embora, não tem ninguém mais no escritório! O que é que eu faço?

— Vem para cá — disse-lhe a irmã.

Mais velha e experiente, a irmã se dispôs a ajudá-la. Enquanto as duas jantavam, tentando concertar um plano, a esposinha se lastimava, chorosa entre garfadas:

— Nem dois meses de casada! Nunca pensei que ele fosse capaz de uma coisa dessas — me enganar dessa maneira!

— É assim que eles começam, minha filha — pontificou a outra, conformada no ceticismo, fruto das desilusões de um casamento já desfeito. — Mas chorar não resolve: vamos ver o que se pode fazer. Você não deve deixar a coisa passar em brancas nuvens. Se não reagir, amanhã nem avisar ele manda.

— Imagine que o contínuo estava até com cara de riso! Foi o que me fez desconfiar.

A irmã começou a ditar-lhe instruções. Mastigando lentamente, ela escutava atenta, uma lágrima fácil ainda a equilibrar-se no rostinho mimoso. Findo o jantar, sentaram-se na sala, a irmã mais velha acendeu um cigarro, ofereceu outro à irmã mais nova. Tão perturbada se achava esta que, distraída, aceitou, embora até então nunca tivesse fumado. Logo à primeira tragada engasgou, aproveitando o acesso de tosse para romper em soluços:

— Ele deve ter uma amante! Nunca pensei!

— Tenha calma, minha filha — tranquilizou a outra: — Você dá uma lição nele. Quando você saiu, disse aonde ia?

— Dizer a quem? Deixei um bilhete assim: “Roberto — eu vou sair — Vera Lúcia.”

E Vera Lúcia apoiou o rosto na mão, fitando o espaço, pensativa:

— Eu devia ter aproveitado e dado uma busca nas coisas dele, para ver se descobria alguma coisa...

Eram onze horas quando as duas se dirigiram ao apar­tamen­to da esposa ultrajada. Logo ao chegar, tiveram uma surpre­sa: no bilhete deixado sobre a mesa, abaixo do recado “Roberto — eu vou sair — Vera Lúcia”, estava escrito: “Eu também — Roberto.” Vera Lúcia olhou a irmã interrogativamente: aquilo atrapalhava todos os planos.

— Nada disso: ele esteve aqui e tornou a sair, mas não tem importância. Você tem uma mala, das grandes?

Puseram a mala sobre a cama, ao lado de um monte de roupas e vestidos, tudo ainda do enxoval, e sentaram-se à espera.

— E se ele não voltar? Vai ver que esteve aqui para mudar de roupa, buscar dinheiro. Vai ver que me abandonou. Olha só como ele escreveu aqui: “Eu também — Roberto”, tran­quilamente, sem uma palavra de explicação! Meu Deus, que desilusão.

A vida é mesmo um mar de desilusões — era o que a outra, a experiente, parecia estar pensando, a olhar a irmã, entre irônica e compassiva. Ela própria, porém, ia navegando:

— Não liga pra isso não, minha filha. Os homens não prestam mesmo.

À meia-noite, afinal, chegou o que não prestava. Assim que ouviram o ruído da chave na porta as duas saltaram da cama e a esposa pôs-se a arrumar estabanadamente a mala. Ele, porém, não se dirigiu logo ao quarto. Tirou o paletó, jogou-o na cadeira e foi ao banheiro, onde se aliviou, sem se lembrar de fechar a porta. Depois atravessou a sala assobiando, entrou na cozinha, abriu a geladeira, deu uma olhada, tornou a fechar. Atentas, as duas acompanhavam lá do quarto todos os seus passos. Comeu uma banana, atirou a casca no mármore da pia, ligou o gás. A irmã mais velha foi ver o que ele fazia, surpreendeu-o tentando requentar um café:

— Você por aqui? — estranhou ele, enquanto farejava o interior da cafeteira: — Este café deve estar de amargar. Que horas são?

— Meia-noite — respondeu a cunhada, imperturbável como uma esfinge.

Ele desistiu do café, comeu outra banana, apanhou um palito e passou por ela, bocejando:

— Estou morto de sono.

No quarto, ao dar com a mala sobre a cama, voltou-se para a mulher, intrigado:
— Ué, quem é que vai viajar?

Ela se voltou, muito digna:

— Eu. Vou para a casa de mamãe.

Ele riu:

— A essa hora? Sua mãe já deve estar dormindo.

Desconcertada, a esposinha o olhava sem saber o que fazer. Aquela reação levava por água abaixo o plano minuciosamente estudado. Quando ele, perplexo, perguntasse: “Por quê?”, ela saltaria, dramática: “Porque não me casei para me sujeitar a...” e iria por aí afora. No fim ele, patético, pediria perdão, explicaria tudo, inventava umas mentiras, ela perdoava, a irmã iria embora e tudo se harmonizava — ele tendo aprendido sua lição. Em vez disso limitava-se a rir. Vera Lúcia olhava a irmã por cima do ombro do marido, como a perguntar: “E agora? O que é que eu faço?”

— Roberto, exijo uma explicação — improvisou ela, gravemente, plantando-se diante dele. A irmã aprovou com o olhar.

— De quê, minha filha?

— Onde você estava? — e ela o olhava com firmeza, como se da resposta dependesse o destino de ambos.

— Na cozinha — respondeu ele, cada vez mais intrigado. Olhou para a cunhada, como a pedir explicação.

— Não seja cínico! Eu quero saber onde você foi hoje à noite. É meu direito de esposa.

— Que brincadeira é essa? — e ele tornou a rir: — Parece novela de televisão! Ia haver serão no escritório, não houve, estive aqui, você não estava, jantei com o Jorge, jogamos um buraco. Dei azar. Não ganhei uma só vez.

Caminhou preguiçosamente até a cadeira, palitando os dentes, sentou-se, descalçou os sapatos com um suspiro de alívio:

— Tira essa mala da cama que eu quero dormir.

— Vou para a casa de mamãe — repetiu ela, chorosa, sem saber mais o que dizer.
— Está bem, mas amanhã: hoje já é tarde.

A essa altura, vendo que não havia mais nada a fazer, a irmã resolveu se despedir. Sua experiência de vida de nada adiantara­. A outra ficou a sós com o marido no quarto, resolveu voltar ao que era, sem planos, sem direitos de esposa. Abraçou-se a ele:

— Me desculpe, meu bem, ter desconfiado de você. A gente perde a cabeça, fica pensando coisas.

Mais tarde, já deitados, luz apagada, ela chamou-o num sussurro:

— Roberto...

— Ahn? — resmungou ele, de dentro do sono.

Ela pediu, com voz suave:

— Um dia você me ensina a jogar buraco?

Ele não respondeu; dormia a sono solto e ela, num arrepio de prazer, já quase dormindo também, reparou pela primeira vez que ele roncava.
Fernando Sabino, "Os melhores contos"