— Imagine que aquele sem-vergonha mandou aqui um contínuo para me avisar que ele não vem jantar, tem de ficar até mais tarde no escritório. Fiquei desconfiada, telefonei para o escritório e o vigia é que atendeu, me disse que todos já foram embora, não tem ninguém mais no escritório! O que é que eu faço?
— Vem para cá — disse-lhe a irmã.
Mais velha e experiente, a irmã se dispôs a ajudá-la. Enquanto as duas jantavam, tentando concertar um plano, a esposinha se lastimava, chorosa entre garfadas:
— Nem dois meses de casada! Nunca pensei que ele fosse capaz de uma coisa dessas — me enganar dessa maneira!
— É assim que eles começam, minha filha — pontificou a outra, conformada no ceticismo, fruto das desilusões de um casamento já desfeito. — Mas chorar não resolve: vamos ver o que se pode fazer. Você não deve deixar a coisa passar em brancas nuvens. Se não reagir, amanhã nem avisar ele manda.
— Imagine que o contínuo estava até com cara de riso! Foi o que me fez desconfiar.
A irmã começou a ditar-lhe instruções. Mastigando lentamente, ela escutava atenta, uma lágrima fácil ainda a equilibrar-se no rostinho mimoso. Findo o jantar, sentaram-se na sala, a irmã mais velha acendeu um cigarro, ofereceu outro à irmã mais nova. Tão perturbada se achava esta que, distraída, aceitou, embora até então nunca tivesse fumado. Logo à primeira tragada engasgou, aproveitando o acesso de tosse para romper em soluços:
— Ele deve ter uma amante! Nunca pensei!
— Tenha calma, minha filha — tranquilizou a outra: — Você dá uma lição nele. Quando você saiu, disse aonde ia?
— Dizer a quem? Deixei um bilhete assim: “Roberto — eu vou sair — Vera Lúcia.”
E Vera Lúcia apoiou o rosto na mão, fitando o espaço, pensativa:
— Eu devia ter aproveitado e dado uma busca nas coisas dele, para ver se descobria alguma coisa...
Eram onze horas quando as duas se dirigiram ao apartamento da esposa ultrajada. Logo ao chegar, tiveram uma surpresa: no bilhete deixado sobre a mesa, abaixo do recado “Roberto — eu vou sair — Vera Lúcia”, estava escrito: “Eu também — Roberto.” Vera Lúcia olhou a irmã interrogativamente: aquilo atrapalhava todos os planos.
— Nada disso: ele esteve aqui e tornou a sair, mas não tem importância. Você tem uma mala, das grandes?
Puseram a mala sobre a cama, ao lado de um monte de roupas e vestidos, tudo ainda do enxoval, e sentaram-se à espera.
— E se ele não voltar? Vai ver que esteve aqui para mudar de roupa, buscar dinheiro. Vai ver que me abandonou. Olha só como ele escreveu aqui: “Eu também — Roberto”, tranquilamente, sem uma palavra de explicação! Meu Deus, que desilusão.
A vida é mesmo um mar de desilusões — era o que a outra, a experiente, parecia estar pensando, a olhar a irmã, entre irônica e compassiva. Ela própria, porém, ia navegando:
— Não liga pra isso não, minha filha. Os homens não prestam mesmo.
À meia-noite, afinal, chegou o que não prestava. Assim que ouviram o ruído da chave na porta as duas saltaram da cama e a esposa pôs-se a arrumar estabanadamente a mala. Ele, porém, não se dirigiu logo ao quarto. Tirou o paletó, jogou-o na cadeira e foi ao banheiro, onde se aliviou, sem se lembrar de fechar a porta. Depois atravessou a sala assobiando, entrou na cozinha, abriu a geladeira, deu uma olhada, tornou a fechar. Atentas, as duas acompanhavam lá do quarto todos os seus passos. Comeu uma banana, atirou a casca no mármore da pia, ligou o gás. A irmã mais velha foi ver o que ele fazia, surpreendeu-o tentando requentar um café:
— Você por aqui? — estranhou ele, enquanto farejava o interior da cafeteira: — Este café deve estar de amargar. Que horas são?
— Meia-noite — respondeu a cunhada, imperturbável como uma esfinge.
Ele desistiu do café, comeu outra banana, apanhou um palito e passou por ela, bocejando:
— Estou morto de sono.
No quarto, ao dar com a mala sobre a cama, voltou-se para a mulher, intrigado:
— Ué, quem é que vai viajar?
Ela se voltou, muito digna:
— Eu. Vou para a casa de mamãe.
Ele riu:
— A essa hora? Sua mãe já deve estar dormindo.
Desconcertada, a esposinha o olhava sem saber o que fazer. Aquela reação levava por água abaixo o plano minuciosamente estudado. Quando ele, perplexo, perguntasse: “Por quê?”, ela saltaria, dramática: “Porque não me casei para me sujeitar a...” e iria por aí afora. No fim ele, patético, pediria perdão, explicaria tudo, inventava umas mentiras, ela perdoava, a irmã iria embora e tudo se harmonizava — ele tendo aprendido sua lição. Em vez disso limitava-se a rir. Vera Lúcia olhava a irmã por cima do ombro do marido, como a perguntar: “E agora? O que é que eu faço?”
— Roberto, exijo uma explicação — improvisou ela, gravemente, plantando-se diante dele. A irmã aprovou com o olhar.
— De quê, minha filha?
— Onde você estava? — e ela o olhava com firmeza, como se da resposta dependesse o destino de ambos.
— Na cozinha — respondeu ele, cada vez mais intrigado. Olhou para a cunhada, como a pedir explicação.
— Não seja cínico! Eu quero saber onde você foi hoje à noite. É meu direito de esposa.
— Que brincadeira é essa? — e ele tornou a rir: — Parece novela de televisão! Ia haver serão no escritório, não houve, estive aqui, você não estava, jantei com o Jorge, jogamos um buraco. Dei azar. Não ganhei uma só vez.
Caminhou preguiçosamente até a cadeira, palitando os dentes, sentou-se, descalçou os sapatos com um suspiro de alívio:
— Tira essa mala da cama que eu quero dormir.
— Vou para a casa de mamãe — repetiu ela, chorosa, sem saber mais o que dizer.
— Está bem, mas amanhã: hoje já é tarde.
A essa altura, vendo que não havia mais nada a fazer, a irmã resolveu se despedir. Sua experiência de vida de nada adiantara. A outra ficou a sós com o marido no quarto, resolveu voltar ao que era, sem planos, sem direitos de esposa. Abraçou-se a ele:
— Me desculpe, meu bem, ter desconfiado de você. A gente perde a cabeça, fica pensando coisas.
Mais tarde, já deitados, luz apagada, ela chamou-o num sussurro:
— Roberto...
— Ahn? — resmungou ele, de dentro do sono.
Ela pediu, com voz suave:
— Um dia você me ensina a jogar buraco?
Ele não respondeu; dormia a sono solto e ela, num arrepio de prazer, já quase dormindo também, reparou pela primeira vez que ele roncava.
Fernando Sabino, "Os melhores contos"

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