'O Diário', de Anne Frank enfrenta uma disputa legal pelos direitos de edição do livro, que expiram em 2016. A atual lei dos Países Baixos prevê domínio público de uma obra após 70 anos de morte do autor. Anne Frank morreu em março de 1945, no campo de concentração alemão de Bergen-Belsen. Atual proprietário dos direitos de edição dos diários, o Fundo Anne Frank argumenta que o pai da menina, Otto Frank, que morreu em 1980, seria coautor dos escritos, o que daria à fundação o direito ao copyright até 2050.quarta-feira, novembro 25
'O diário', de Anne Frank, em disputa judicial
'O Diário', de Anne Frank enfrenta uma disputa legal pelos direitos de edição do livro, que expiram em 2016. A atual lei dos Países Baixos prevê domínio público de uma obra após 70 anos de morte do autor. Anne Frank morreu em março de 1945, no campo de concentração alemão de Bergen-Belsen. Atual proprietário dos direitos de edição dos diários, o Fundo Anne Frank argumenta que o pai da menina, Otto Frank, que morreu em 1980, seria coautor dos escritos, o que daria à fundação o direito ao copyright até 2050.terça-feira, novembro 24
Galeria de artes e letras


A galeria Bortier, construída em 1848 por Jean-Pierre
Cluysenaer, em Bruxelas reúne galerias de arte e sebos
Brasil ainda tem 13 milhões de analfabetos
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| David Park |
Mais 42 mil crianças entraram mais cedo na escola, enquanto 13,2 milhões de brasileiros ainda continuam sem saber ler nem escrever. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014, divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE, aponta uma expansão da educação infantil no Brasil: a faixa etária em que mais cresceu o número de pessoas frequentando a escola no país, entre 2013 e o ano passado, foi a de 4 a 5 anos de idade, na qual as crianças estão na pré-escola. Apesar desse avanço, a Pnad também mostra deficiências que se perpetuaram no setor no mesmo período: com menos cem mil analfabetos, o Brasil ainda tem 8,3% de cidadãos que não leem nem escrevem — o que faz com que não tenha atingido meta da ONU que estabelecia que o país chegasse a 2015 com 93,5% da população alfabetizada, ou 6,5% de pessoas iletradas, segundo pesquisadores da área.
Mesmo o avanço na educação infantil está ameaçado pela crise econômica atual, já que, dentro do corte no orçamento do Ministério da Educação em 2015, a maior redução, afirmam pesquisadores, foi no ProInfância (Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil), programa federal que enfoca justamente a construção de creches e pré-escolas.
Ao analisar a Educação no país, um dos destaques da Pnad de 2014 foi a taxa de escolarização, que é o percentual de pessoas dentro de uma faixa etária que está frequentando a escola. O maior aumento de taxa de escolarização foi na faixa de 4 a 5 anos: 82,7% das crianças nessa faixa (4,556 milhões de crianças) estavam frequentando a pré-escola em 2014, contra 81,4% (4,514 milhões) em 2013.
— Essa melhora na educação infantil foi, em grande parte, causada pela Emenda Constitucional 59, aprovada em 2009 e que determinou a obrigatoriedade, a partir de 2016, da educação básica para todos que tenham de 4 a 17 anos de idade. Até aqui, a obrigatoriedade não incluía a educação infantil. Os governos, as prefeituras passaram a se organizar para começar a atender a Emenda 59 a partir do ano que vem, abrindo mais vagas e contratando mais professores para esse nível de ensino — analisa Priscila Cruz, diretora-executiva do Movimento Todos Pela Educação. — Apesar disso, ainda é grande o déficit de vagas na rede pública na educação infantil, que abrange as creches (para crianças até 3 anos) e pré-escolas (de 4 a 6 anos).
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O sabiá e o poeta
Se há alguém que sabe assobiar, é o sabiá. Tem um aqui na chácara cantando cedinho, de tarde e noitinha. Canta tanto que espanta, a gente se pergunta como pode. É a energia do amor, diz Dalva, ele canta para encantar a sabiá.
O cantor apaixonado lembra o poeta Gonçalves Dias da Canção do Exílio: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”…
É que ele tinha sido rapazola pobre e órfão que, conforme Stevie Wonder, podia ser pior, podia ser negro. E era mesmo “pior”: mestiço de negro e índia, somava dois preconceitos. Mas era também tão talentoso que foi estudar Direito em Portugal custeado por amigos, principalmente Teófilo Leal.
Voltando ao Brasil advogado e já com renome literário, conheceu em Fortaleza a irmã do amigo, linda mocinha a quem dedicou poemas mas esqueceu, indo morar no Rio de Janeiro. Mas o destino não esqueceu: voltando ao Maranhão anos depois, ele se apaixona pela bela mulher, sabendo que a família não aprovaria a união. Ela sugere ser raptada, mas ele prefere respeitar a família benfeitora, e novamente volta ao Rio sozinho.
Adoecendo, volta à Europa, já famoso poeta, com casamento desfeito – como ela, quando se reencontram em Paris e ela magoada o desconhece. Ele então escreve o doloroso poema Mais Uma Vez, Adeus, com versos como estes: “Mas que tens? Não me conheces? / De mim afastas teu rosto? / Pois tanto pode o desgosto / transformar o rosto meu? / Sei a aflição quanto pode, / sei quanto ela desfigura, / e eu não vivi na ventura… / Olha-me bem, que sou eu!”
O cantor apaixonado lembra o poeta Gonçalves Dias da Canção do Exílio: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”…
Ele escreveu isso na Europa, onde tentava melhorar da tuberculose, mas piorou. E lá, doente, encontrou ao acaso sua paixão Ana Amélia, que fez não o reconhecer.
É que ele tinha sido rapazola pobre e órfão que, conforme Stevie Wonder, podia ser pior, podia ser negro. E era mesmo “pior”: mestiço de negro e índia, somava dois preconceitos. Mas era também tão talentoso que foi estudar Direito em Portugal custeado por amigos, principalmente Teófilo Leal.
Voltando ao Brasil advogado e já com renome literário, conheceu em Fortaleza a irmã do amigo, linda mocinha a quem dedicou poemas mas esqueceu, indo morar no Rio de Janeiro. Mas o destino não esqueceu: voltando ao Maranhão anos depois, ele se apaixona pela bela mulher, sabendo que a família não aprovaria a união. Ela sugere ser raptada, mas ele prefere respeitar a família benfeitora, e novamente volta ao Rio sozinho.
Adoecendo, volta à Europa, já famoso poeta, com casamento desfeito – como ela, quando se reencontram em Paris e ela magoada o desconhece. Ele então escreve o doloroso poema Mais Uma Vez, Adeus, com versos como estes: “Mas que tens? Não me conheces? / De mim afastas teu rosto? / Pois tanto pode o desgosto / transformar o rosto meu? / Sei a aflição quanto pode, / sei quanto ela desfigura, / e eu não vivi na ventura… / Olha-me bem, que sou eu!”
Domingos Pellegrini
Volta ao Brasil muito doente, em navio veleiro que naufraga no litoral do Maranhão, e o poeta é o único que não se salva, esquecido no leito do camarote, já diante da praia com palmeiras e sabiás como no seu poema: “Não permita Deus que eu morra / sem que volte para lá. / Sem que ainda aviste as palmeiras / onde canta o sabiá!”
Sua morte, aos 41 anos, causou tanta comoção que seus versos foram inseridos no Hino Nacional: “Nossos bosques tem mais vida / nossa vida mais amores”.
Rapazola, fui apaixonado por seus poemas, que sabia de cor, ou seja, guardados no coração. E hoje, pensando em sua morte tão precoce e trágica, por estar vivo dou graças a Deus sempre que canta nosso sabiá.
Volta ao Brasil muito doente, em navio veleiro que naufraga no litoral do Maranhão, e o poeta é o único que não se salva, esquecido no leito do camarote, já diante da praia com palmeiras e sabiás como no seu poema: “Não permita Deus que eu morra / sem que volte para lá. / Sem que ainda aviste as palmeiras / onde canta o sabiá!”
Sua morte, aos 41 anos, causou tanta comoção que seus versos foram inseridos no Hino Nacional: “Nossos bosques tem mais vida / nossa vida mais amores”.
Rapazola, fui apaixonado por seus poemas, que sabia de cor, ou seja, guardados no coração. E hoje, pensando em sua morte tão precoce e trágica, por estar vivo dou graças a Deus sempre que canta nosso sabiá.
Bibliotecas-parque podem fechar no Rio

A estrela do projeto é a Biblioteca Parque Estadual, que ocupa uma construção de 150 mil metros quadrados na Avenida Presidente Vargas, no Centro, e tem acervo de 250 mil livros. O prédio foi reinaugurado em março do ano passado, depois de extenso trabalho de ampliação e modernização.
O último repasse estadual ocorreu em agosto. Sem alternativas, o conselheiro Ricardo Piquet, do IDG, afirmou, nesta segunda-feira, que fizeram o possível para evitar o pior.
- Tentamos ir até o nosso limite e estamos chegando nele agora. Estamos apostando na negociação da secretária estadual de Cultura (Eva Doris Rosental) com o governador (Luiz Fernando Pezão) e a Secretaria de Fazenda. O aviso prévio é de 30 dias, mas pode ser suspenso a qualquer momento — observou.
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segunda-feira, novembro 23
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Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.Agostinho Silva
Memórias de livreiro de Orwell
(Na esquina entre Pound Street e South End Green em Londres existia uma livraria onde George Orwell trabalhou entre 1934 e 1935, hoje transformada em pizaria. Orwell viveu nesse mesmo edifício onde escreveu o texto “Bookshop Memories”)
No fim de contas, acaba-se por identificar estas pessoas mal se as vislumbra. Muitas vezes, quando estávamos perante um paranóico autêntico, colocávamos de parte os livros que ele pedia e depois voltávamos a pô-los nas prateleiras mal ele se ia embora. Reparei que nenhuma destas pessoas alguma vez tentou levar os livros sem os pagar. Encomendá-los era suficiente – suponho que lhes dava a ilusão de estarem de facto a gastar dinheiro.
Como a maior parte dos alfarrabistas, tínhamos alguns negócios paralelos. O principal era uma biblioteca de empréstimo – a habitual biblioteca «dois pennies sem depósito», com cinco ou seis centenas de volumes, todos de ficção. A loja ficava exactamente na fronteira entre Hampstead e Camden Town e era frequentada por toda a espécie de pessoas, desde baronetes a motoristas de autocarro. Provavelmente, os membros da nossa biblioteca constituíam uma razoável amostra dos leitores londrinos. É por isso que vale a pena salientar que, de todos os autores que havia na biblioteca, aquele que «saía» mais era... Hemingway? Walpole? Wodehouse? Não. Era Ethel M. Dell. Os romances de Dell, claro, são lidos exclusivamente por mulheres, mas por mulheres de todos os géneros e idades, e não apenas, como poderia supor-se, por solteironas melancólicas e pelas anafadas mulheres dos tabaqueiros. Não é verdade que os homens não lêem romances, mas é verdade que há todo um naipe de géneros de ficção que eles evitam. Falando no geral, aquilo que pode designar-se como o romance comum parece existir apenas para as mulheres. Os homens lêem somente romances que mereçam algum respeito, ou histórias de detectives. Ainda assim, o seu consumo de histórias de detectives é impressionante.
Numa biblioteca de empréstimo apercebemo-nos do verdadeiro gosto das pessoas, e não daquele que elas pretendem mostrar. Uma das coisas mais notórias é o facto de os romancistas ingleses «clássicos» terem perdido completamente o favoritismo. É absolutamente inútil colocar na biblioteca de empréstimo o Dickens, o Thackeray, a Jane Austen, o Trollope, etc. Ninguém pega neles. Basta as pessoas avistarem um romance do século dezanove para dizerem «Oh, isso é velho!», fugindo imediatamente. Todavia, é relativamente fácil vender Dickens, tal como é sempre fácil vender Shakespeare. Dickens é um daqueles autores que as pessoas têm «sempre a intenção de» ler e, do mesmo modo que a Bíblia, é bastante popular entre os livros em segunda mão. As pessoas sabem, por ouvirem dizer, que Bill Sikes era um gatuno e que o Sr. Micawber era careca, tal como sabem por ouvirem dizer que Moisés foi encontrado num cesto de juncos e viu a traseira do Senhor.
Será que eu gostaria de ser livreiro de métier? Considerando tudo – apesar da gentileza do meu patrão e de alguns dias felizes que passei na livraria – não. Com uma posição satisfatória e o capital adequado, qualquer pessoa instruída é capaz de viver razoavelmente de uma livraria. A não ser que se aventure nos livros «raros», não é um negócio de aprendizagem difícil e começa-se com vantagem se se souber alguma coisa acerca do interior dos livros. Para além disso, é uma ocupação humana e portanto não é susceptível de banalização a partir de certo ponto. Os consórcios nunca poderão espremer e aniquilar o pequeno livreiro independente, como fizeram com o merceeiro e o leiteiro. Mas são longuíssimas as horas de trabalho e é uma vida pouco saudável. Em regra, as livrarias são terrivelmente frias no Inverno, porque se estiver muito quente as montras ficam embaciadas e um livreiro vive das suas montras. E os livros ficam com mais pó, e um pó mais desagradável, do que qualquer outra espécie de objectos jamais inventada; para além disso, o topo de um livro é o lugar preferido da mosca azul para morrer.
Mas a verdadeira razão que me faz rejeitar a ideia de passar o resto da vida no negócio dos livros é o facto de, enquanto me dediquei a ele, ter perdido o amor pelos livros. Um livreiro tem de mentir acerca dos livros e isso faz com que passe a não gostar deles; ainda pior é o facto de estar constantemente a limpar-lhes o pó e a puxá-los para a frente ou a empurrá-los para trás. Houve uma época em que eu de facto adorava livros – quero dizer, adorava vê-los, cheirá-los e senti-los, pelo menos se tivessem cinquenta ou mais anos. Mas assim que fui trabalhar para o alfarrabista, deixei de comprar livros. Hoje em dia, compro um livro de vez em quando, mas só se for um livro que quero ler e não posso pedir emprestado, e jamais compro porcaria. O cheiro doce do papel envelhecido já não me seduz. Está demasiado associado, na minha cabeça, a clientes paranóicos e a moscas azuis mortas.
( Transcrito de Pó dos Livros com tradução e adaptação de Madalena Alfaia)
Como a maior parte dos alfarrabistas, tínhamos alguns negócios paralelos. O principal era uma biblioteca de empréstimo – a habitual biblioteca «dois pennies sem depósito», com cinco ou seis centenas de volumes, todos de ficção. A loja ficava exactamente na fronteira entre Hampstead e Camden Town e era frequentada por toda a espécie de pessoas, desde baronetes a motoristas de autocarro. Provavelmente, os membros da nossa biblioteca constituíam uma razoável amostra dos leitores londrinos. É por isso que vale a pena salientar que, de todos os autores que havia na biblioteca, aquele que «saía» mais era... Hemingway? Walpole? Wodehouse? Não. Era Ethel M. Dell. Os romances de Dell, claro, são lidos exclusivamente por mulheres, mas por mulheres de todos os géneros e idades, e não apenas, como poderia supor-se, por solteironas melancólicas e pelas anafadas mulheres dos tabaqueiros. Não é verdade que os homens não lêem romances, mas é verdade que há todo um naipe de géneros de ficção que eles evitam. Falando no geral, aquilo que pode designar-se como o romance comum parece existir apenas para as mulheres. Os homens lêem somente romances que mereçam algum respeito, ou histórias de detectives. Ainda assim, o seu consumo de histórias de detectives é impressionante.
Numa biblioteca de empréstimo apercebemo-nos do verdadeiro gosto das pessoas, e não daquele que elas pretendem mostrar. Uma das coisas mais notórias é o facto de os romancistas ingleses «clássicos» terem perdido completamente o favoritismo. É absolutamente inútil colocar na biblioteca de empréstimo o Dickens, o Thackeray, a Jane Austen, o Trollope, etc. Ninguém pega neles. Basta as pessoas avistarem um romance do século dezanove para dizerem «Oh, isso é velho!», fugindo imediatamente. Todavia, é relativamente fácil vender Dickens, tal como é sempre fácil vender Shakespeare. Dickens é um daqueles autores que as pessoas têm «sempre a intenção de» ler e, do mesmo modo que a Bíblia, é bastante popular entre os livros em segunda mão. As pessoas sabem, por ouvirem dizer, que Bill Sikes era um gatuno e que o Sr. Micawber era careca, tal como sabem por ouvirem dizer que Moisés foi encontrado num cesto de juncos e viu a traseira do Senhor.
Será que eu gostaria de ser livreiro de métier? Considerando tudo – apesar da gentileza do meu patrão e de alguns dias felizes que passei na livraria – não. Com uma posição satisfatória e o capital adequado, qualquer pessoa instruída é capaz de viver razoavelmente de uma livraria. A não ser que se aventure nos livros «raros», não é um negócio de aprendizagem difícil e começa-se com vantagem se se souber alguma coisa acerca do interior dos livros. Para além disso, é uma ocupação humana e portanto não é susceptível de banalização a partir de certo ponto. Os consórcios nunca poderão espremer e aniquilar o pequeno livreiro independente, como fizeram com o merceeiro e o leiteiro. Mas são longuíssimas as horas de trabalho e é uma vida pouco saudável. Em regra, as livrarias são terrivelmente frias no Inverno, porque se estiver muito quente as montras ficam embaciadas e um livreiro vive das suas montras. E os livros ficam com mais pó, e um pó mais desagradável, do que qualquer outra espécie de objectos jamais inventada; para além disso, o topo de um livro é o lugar preferido da mosca azul para morrer.
Mas a verdadeira razão que me faz rejeitar a ideia de passar o resto da vida no negócio dos livros é o facto de, enquanto me dediquei a ele, ter perdido o amor pelos livros. Um livreiro tem de mentir acerca dos livros e isso faz com que passe a não gostar deles; ainda pior é o facto de estar constantemente a limpar-lhes o pó e a puxá-los para a frente ou a empurrá-los para trás. Houve uma época em que eu de facto adorava livros – quero dizer, adorava vê-los, cheirá-los e senti-los, pelo menos se tivessem cinquenta ou mais anos. Mas assim que fui trabalhar para o alfarrabista, deixei de comprar livros. Hoje em dia, compro um livro de vez em quando, mas só se for um livro que quero ler e não posso pedir emprestado, e jamais compro porcaria. O cheiro doce do papel envelhecido já não me seduz. Está demasiado associado, na minha cabeça, a clientes paranóicos e a moscas azuis mortas.
( Transcrito de Pó dos Livros com tradução e adaptação de Madalena Alfaia)
domingo, novembro 22
Assim começa o livro...
A forma como se desenrolou minha amizade com Sensini sem dúvida escapa ao costumeiro. Naquela época eu tinha vinte e tantos anos e era mais pobre que um rato. Morava nos arredores de Girona, numa casa em ruínas que minha irmã e meu cunhado tinham me deixado depois de irem para o México, e acabava de perder um trabalho de vigia noturno num camping de Barcelona, o qual havia acentuado minha propensão a não dormir de noite. Quase não tinha amigos e a única coisa que fazia era escrever e dar longos passeios que começavam às sete da noite, depois de acordar, momento em que meu corpo experimentava uma coisa parecida com o jet lag, uma sensação de estar e não estar, de distância com respeito ao que me rodeava, de indefinida fragilidade. Vivia com o que tinha economizado durante o verão e, embora quase não gastasse dinheiro, meu pé‑de‑meia ia minguando com o passar do outono. Talvez tenha sido isso que me levou a participar do Concurso Nacional de Literatura de Alcoy, aberto para escritores de língua castelhana, qualquer que fosse sua nacionalidade e seu lugar de residência. O prêmio era dividido em três modalidades: poesia, conto e ensaio. Primeiro pensei me apresentar em poesia, mas enviar à luta com os leões (ou com as hienas) o que eu fazia melhor me pareceu indecoroso. Depois pensei me apresentar em ensaio, mas quando me mandaram o regulamento descobri que o ensaio devia versar sobre Alcoy, seus arredores, sua história, seus homens ilustres, sua projeção no futuro, e isso estava além da minha competência. Decidi, pois, me apresentar em conto: enviei em três cópias o melhor que eu tinha (não eram muitos) e me sentei à espera.
Quando o prêmio saiu, eu trabalhava de vendedor ambulante numa feira de artesanato onde absolutamente ninguém vendia artesanato. Obtive o terceiro prêmio e dez mil pesetas que a prefeitura de Alcoy me pagou religiosamente. Pouco depois recebi o livro, no qual não escasseavam as erratas, com o vencedor e os seis finalistas. Claro, meu conto era melhor do que o que havia ganhado o primeiro prêmio, o que me levou a amaldiçoar o júri e dizer a mim mesmo que, enfim, isso sempre acontece. Mas o que realmente me surpreendeu foi encontrar no mesmo livro Luis Antonio Sensini, o escritor argentino, segundo prêmio, com um conto em que o narrador ia para o campo e ali morria seu filho ou com um conto em que o narrador ia para o campo porque na cidade seu filho tinha morrido, não ficava claro, o caso é que no campo, um campo plano e um tanto ermo, o filho do narrador continuava morrendo, enfim, o conto era claustrofóbico, bem no estilo de Sensini, dos grandes espaços geográficos de Sensini que de repente se reduziam até ter o tamanho de um caixão, e superior ao ganhador e primeiro prêmio e também superior ao terceiro prê‑ mio e ao quarto, quinto e sexto.
Eu roubo livros

O que no início era uma aventura tornou-se um vício. Hoje sou profissional de roubar livros. Entra-se na livraria, começa-se a olhar os livros expostos, controlam-se as pessoas presentes (funcionários, estes especialmente, e clientes), escolhe-se um livro ou vários livros e sai-se da loja. É necessário passar o mais despercebido possível. Controlar os funcionários, mas pelo canto do olho. Mas eu estou de tal forma associado com o Mal que olho-os bem nos olhos e não me vêem. Sou invisível. Há duas livrarias (que são só uma) em Lisboa que são uma autêntica maravilha para o furto de livros. Entra-se, ninguém me vê, pego no(s) livro(s) e saio. Tudo numa questão de segundos e profissionalmente. Um espetáculo.
O furto de livros tornou-se-me uma doença. Eu gosto muito de livros, mais do que ler, apesar de ler bastante, todos os dias, e mais de um livro. Sempre fui viciado em colecções. Agora meti-me numa sem fim: a de ter todos os livros do mundo. Há épocas em que roubo livros todos os dias, e já cheguei a roubar, num dia, em três sítios diferentes. Há que se ser profissional... Já roubei uma vez numa loja com aqueles sistemas electrónicos à entrada que apitam quando algo não desmagnetizado passa por eles. Foi no Fórum de Almada, na Livraria Bertrand, em que consegui roubar um livro que pesa uns bons quilos: o «Dom Quixote», de Miguel de Cervantes, da editora Dom Quixote (a edição do ano passado que saiu em comemoração dos 500 anos da edição da 1ª parte da imensa obra do manchebo), com tradução de Miguel Serras Pereira. Andei às voltas pelo centro comercial. Fui duas vezes à casa de banho, até que me decidi arriscar. Entrei na loja, o livro estava logo na bancada da entrada, peguei nele e disparei. Sai e não tocou alarme algum. Eu devo ter posto os braços de tal forma que anularam o toque de alarme. É que trazia o livro entre as duas mãos (já disse que é enorme o bloco), como se trouxesse um bebé nas mãos. Assim com as mãos estendidas, mas com o livro entre os braços. Os braços anularam o efeito electrónico. Ou então, por ser precisamente electrónico, o alarme não estava a funcionar na altura. Deve ser mais esta a causa. A alarme falhou. E eu passei e fui apanhar o autocarro. Foi o meu maior furto. O magnífico. Um livro que custava 10 contos.
Nas Feiras do Livro de Lisboa roubo dezenas e dezenas de livros de cada vez que lá vou. Aí é escolher o que me agrada na bancada em causa (estão todas em causa) , dar uma olhadela nos feirantes e pegar no livro e metê-lo no saco. E é ir enchendo o saco... Todos os anos roubo 60-70 livros. É fácil. Há dois anos fiz uma razia no «stand» da Relógio d'Água e foi um fartote. Roubei tudo. Durante dias seguidos, o que ainda é mais amazing. Levo sempre três sacos da Caminho, daqueles azuis, e são extremamente pesados quando cheios. Quando está concluída a função, e é época sempre de calor, é suar que não é brincadeira. Ossos do ofício. Dá-me imenso prazer roubar os livros, é verdade, e chegar a casa e ver de o que o lote se compõe. É certo que o meu crítério é elevado e são livros que já conheço os que eu roubo, mas há sempre algumas «novidades». Ler os prefácios e introduções: uma maravilha.
Isto de roubar livros é da ordem da anormalidadde, apesar de sempre terem existido grandes ladrões de livros. De bibliotecas (que eram onde eles se encontavam, claro), sobretudo. Não é normal praticar o furto só para consumo próprio, sem que haja o fito do lucro. Eu não roubo para os vender depois. São para a minha biblioteca pessoal. As pessoas ficam espantadíssimas de me verem a roubar. É claro que já fui apanhado, e até levado à entrada de uma esquadra de polícia, da PSP. Quando sou apanhado, devolvo de imediato os livros e fico cheio de mal-estar no meu corpo. Já levei no tronco pesados estalos de um energúmeno que me apanhou e tratou de me tratar como se de um reles ladraozeco se tratasse. O filha-da-puta tem agora a loja fechada. Faliu. Quem tem a alma associada com o Diabo só pode esperar tal de tão garboso aliado. Roubo para mim. Para meu desfrute, por que gosto muito de ler, e não tenho dinheiro para comprar todos os livros que cobiço. É muito simples. Mais complicado é protagonizar os actos de furto, claro. Por isso aconselho a quem queira entrar no universo do roubo de livros que o não faça, pois é perigoso e tem pouquísima recompensa, a não ser que seja tão louco por livros quanto eu.
Sempre roubei. Livros de banda-desenhada. Cassetes de audio. Pilhas Duracell. Essencialmente, livros de BD. Comprava um, e levava outros dois. Compensava. Aí metia-os entre os cadernos escolares. É preciso tem grande lata e sangue-fio para se roubar como se respira o ar. É assim comigo. É necessário controlar quem controla a loja. Essencial. Agora como tudo é magnetizado estamos mais fodidos. Numa livraria, a rapariga que me atendia virou costas e eu metia debaixo do sovaco esquerdo o livro «Gulag», do ano passado. Ou seja, um grosso volume. Era como se trouxesse comigo tal objecto. Ela ainda olhou desconfiada para o livro, mas não passou disso. É necessário grande desplante, que é o que eu mais tenho. E pouca consideração por nós próprios, claro, pois só rouba quem tem a auto-estima muito embaixo. Sou doente. Só não digo agora de quê.
Tenho centenas de livros roubados em casa. E assiná-los, com um «palmado». Em todos os livros faço uma espécie de ficha técnica: diga a data da compra ou do roubo, o valor, se é palmado, quanto seria se não fosse roubado, a livraria ou feira do livro, e a rua ou cidade. Assim sei sempre quando entrou para a minha biblioteca. Ter uma biblioteca pejada de livros roubados nãp me pesa minimamente na consciência: quando se ama algo não se olha a meios para atinguir os fins. É como o dinheiro: não tem cor. Nõo entram aqui valores, nem éticas (e o ladrão tem uma ética muito sua) nem questóes de conscìência: há que obter certo livro para poder ter a possiblidade de aceder a ele quando me aprover. É só isso. Deseja-se ler o livro, não interessa como se conseguiu o livro. Eu compro imensos livros nos alfarrabistas: os livros vêm cheios de anotações, e amarelos, e mal-cheirosos, e isso não me aflinge minimamente. Eu sei que tenho o livro e que há a possibilidade de a qualquer momento pegar nele e começar a lê-lo. É só isso. Eu antes de ser um ladrão de livros sou um leitor. Ávido. É essa a minha hierarquia ética.
Confesso que roubo muitos livros por que me aconteceram coisas na minha vida que me revelaram a verdadeira face do humano, e esta é medonha. Por isso eu que é que se fodam! Roubo por saber a natureza humana. De que é feita a essencia do ser humano, de como é hedionda, abominável, desprezível por natureza, mesquinha, pequeníssima. Roubo por que senti na pele a repelência humana. De como somos ostracizados por sermos diferentes. Proscritos, transformados em animais acossados. A raiva de animais acossados é a que alimenta. Isto foi no início, agora é mera profissionalização.
Sobre isto há ainda algo a dizer (há tudo a dizer). É que o Mal faz-nos ser invisíveis. É como eu me sinto quando entro numa loja, pego no livro e saio, e a loja está vazia de clientes, só com os funcionários. É como se não existisse. O Mal faz-nos sermos intangíveis. Estamos cheios de Mal quando entramos numa livraria e nada nos pode atinguir. Já me senti assim inúmeras vezes. É como se fossemos meros agentes de forças desconhecidas, não-humanas, puros de malificiência, intocáveis. A união, a osmose, com o Mal é um valor seguro para seres tão desesperados como eu. Há momentos de puro êxtase quando saimos da loja com um livro caríssimo e ninguém no mundo suspeita de tal. É a perfeição.
O Ilusionista
sábado, novembro 21
Hipopótamo na Costa do Cacau
Arnon Miquiazi, viúvo sem filhos, sanitarista municipal aposentado, era um homem totalmente integrado à natureza. Preocupado com as questões ambientais, filiou-se ao Partido Verde. Residia numa casa banhada de luz no verão, situada no bairro próximo ao pequeno bosque, que ele costumava visitar na semana. Ali ficava contemplando o ambiente formado de árvores frondosas, penetradas dos raios solares, que inventavam aranhas de ouro descendo pelos troncos. Encantava-se com plantas e flores. Comovido ficava horas ouvindo o canto dos passarinhos.
Defensor ferrenho da fauna e flora de nossa Mata Atlântica, desfalcada de maneira vil pelas agressões seculares do bicho-homem. Tinha uma paixão especial pela onça, rainha dos bichos na selva brasileira, nos últimos anos vítima de matança desenfreada por caçadores inescrupulosos. Uma lástima.
Vibrou quando descobriu na internet o Resort Olivença Hotel. Fora construído em uma área grande na Costa do Cacau, dentro de um exemplar conceito ecológico. Entre o mar, com suas ondas verdes e azuis, uma praia belíssima, e a Mata Atlântica. O Resort Olivença podia ser considerado como um Éden situado entre o mar e a mata com árvores nativas, dizia o anúncio que aparecia na internet, sustentado por um grande mico-leão. Sua área ecológica era constituída de trilhas temáticas, árvores frutíferas, plantas medicinais, fauna e flora diversificadas, Recanto das Cabras, Ilha das Araras e Casa do Tarzan na copa das árvores.
Adversário contumaz do insaciável bicho-homem, o destruidor milenar da natureza, o funcionário público aposentado aproveitaria os dias que passasse no Resort Olivença para conhecer todos os atrativos naturais do bosque ecológico. Quando deparou na internet com aquele mico-leão risonho, convidando-o para passar as festas do final do ano no Resort Olivença, não hesitou e fez a reserva do pacote para dez dias. Tratava-se de um hotel que há muito ele sonhava para manter um contato direto e saudável com a Mata Atlântica. Embora tivesse em Brasília o pequeno bosque para visitar quando quisesse, estava cansado com os ares da cidade, a monotonia de nuvens cinzentas pesadas quando chegava o inverno, a expansão imobiliária de edifícios que surgiam todos os meses, enfim, a vida crescendo entre prédios, cada vez mais movimentada com os carros no asfalto das ruas. Queria ficar alagado de azul só de ver o mar. Ficar molhado com a pureza do verde só de caminhar nas trilhas por entre árvores nativas da Mata Atlântica. Admirar o mico-leão e, quem sabe, filmar de longe alguma onça, em seus passos macios e ladinos, de preferência a pintada, embora admirasse também a suçuarana e a temível lombo-preto, conhecida como pantera.
No seu primeiro dia como hóspede do Resort Olivença tudo ia muito bem. Teve uma surpresa desagradável pela tarde, ao retornar do banho de mar. Foi tirar o sal do corpo no chuveirão externo perto da piscina. Lá estava aquele bicho pesado, corpo achatado, orelhas diminutas, pernas curtas, que nada tinha a ver com o ambiente da nossa Mata Atlântica. Controlou-se para não explodir com tanta raiva que concentrou no corpo.
Arrumou a mala. Disse na recepção:
– Ontem à noite cheguei e hoje à noite retorno. Não fico mais aqui nem que minha mãe me peça ajoelhada.
A dona do Resort foi chamada às pressas. Ela perguntou:
– O senhor foi tratado mal?
– Minha senhora, eu vim de Brasília para encontrar aqui bichos da Mata Atlântica. Bichos vivos, observou, de cara enfezada. – Podia ser até bicho em escultura ou no quadro pintado a óleo – prosseguiu -, com o registro educativo ao lado, na tabuleta, informando ao visitante que a espécie está em extinção, se fosse o caso, devendo ser preservada.
– Isto nós já fazemos com o nosso querido mico-leão de cara dourada, o mais procurado aqui pelos contrabandistas de animais.
– Mas devia fazer também com a nossa ladina onça, considerada a nossa majestade insubstituível da selva brasileira! – vociferou.
Depois de pagar a conta:
– Colocassem a onça em uma escultura digna e não um hipopótamo junto do chuveirão, aquele bicho feio, desajeitado, que nem é do nosso ambiente aquático nem terrestre, vivendo lá na África na vida que pediu a Deus. Bicho que muito brasileiro nem faz idéia do que ele é, onde vive e como faz o coito dentro da água para reproduzir sua espécie.
Completou.
Defensor ferrenho da fauna e flora de nossa Mata Atlântica, desfalcada de maneira vil pelas agressões seculares do bicho-homem. Tinha uma paixão especial pela onça, rainha dos bichos na selva brasileira, nos últimos anos vítima de matança desenfreada por caçadores inescrupulosos. Uma lástima.
Vibrou quando descobriu na internet o Resort Olivença Hotel. Fora construído em uma área grande na Costa do Cacau, dentro de um exemplar conceito ecológico. Entre o mar, com suas ondas verdes e azuis, uma praia belíssima, e a Mata Atlântica. O Resort Olivença podia ser considerado como um Éden situado entre o mar e a mata com árvores nativas, dizia o anúncio que aparecia na internet, sustentado por um grande mico-leão. Sua área ecológica era constituída de trilhas temáticas, árvores frutíferas, plantas medicinais, fauna e flora diversificadas, Recanto das Cabras, Ilha das Araras e Casa do Tarzan na copa das árvores.
Adversário contumaz do insaciável bicho-homem, o destruidor milenar da natureza, o funcionário público aposentado aproveitaria os dias que passasse no Resort Olivença para conhecer todos os atrativos naturais do bosque ecológico. Quando deparou na internet com aquele mico-leão risonho, convidando-o para passar as festas do final do ano no Resort Olivença, não hesitou e fez a reserva do pacote para dez dias. Tratava-se de um hotel que há muito ele sonhava para manter um contato direto e saudável com a Mata Atlântica. Embora tivesse em Brasília o pequeno bosque para visitar quando quisesse, estava cansado com os ares da cidade, a monotonia de nuvens cinzentas pesadas quando chegava o inverno, a expansão imobiliária de edifícios que surgiam todos os meses, enfim, a vida crescendo entre prédios, cada vez mais movimentada com os carros no asfalto das ruas. Queria ficar alagado de azul só de ver o mar. Ficar molhado com a pureza do verde só de caminhar nas trilhas por entre árvores nativas da Mata Atlântica. Admirar o mico-leão e, quem sabe, filmar de longe alguma onça, em seus passos macios e ladinos, de preferência a pintada, embora admirasse também a suçuarana e a temível lombo-preto, conhecida como pantera.
No seu primeiro dia como hóspede do Resort Olivença tudo ia muito bem. Teve uma surpresa desagradável pela tarde, ao retornar do banho de mar. Foi tirar o sal do corpo no chuveirão externo perto da piscina. Lá estava aquele bicho pesado, corpo achatado, orelhas diminutas, pernas curtas, que nada tinha a ver com o ambiente da nossa Mata Atlântica. Controlou-se para não explodir com tanta raiva que concentrou no corpo.
Arrumou a mala. Disse na recepção:
– Ontem à noite cheguei e hoje à noite retorno. Não fico mais aqui nem que minha mãe me peça ajoelhada.
A dona do Resort foi chamada às pressas. Ela perguntou:
– O senhor foi tratado mal?
– Minha senhora, eu vim de Brasília para encontrar aqui bichos da Mata Atlântica. Bichos vivos, observou, de cara enfezada. – Podia ser até bicho em escultura ou no quadro pintado a óleo – prosseguiu -, com o registro educativo ao lado, na tabuleta, informando ao visitante que a espécie está em extinção, se fosse o caso, devendo ser preservada.
– Isto nós já fazemos com o nosso querido mico-leão de cara dourada, o mais procurado aqui pelos contrabandistas de animais.
– Mas devia fazer também com a nossa ladina onça, considerada a nossa majestade insubstituível da selva brasileira! – vociferou.
Depois de pagar a conta:
– Colocassem a onça em uma escultura digna e não um hipopótamo junto do chuveirão, aquele bicho feio, desajeitado, que nem é do nosso ambiente aquático nem terrestre, vivendo lá na África na vida que pediu a Deus. Bicho que muito brasileiro nem faz idéia do que ele é, onde vive e como faz o coito dentro da água para reproduzir sua espécie.
Completou.
A antinarrativa
É uma pena, mas a verdade é que, no Brasil, pega mal fazer algo simples, emocionante e divertido. Na literatura, por exemplo, a ideia vigente é a de que o livro que diverte é necessariamente subliteratura. E, em via oposta, o livro que não diverte, aquele impenetrável, um eterno marasmo entre as linhas, é necessariamente literatura de qualidade. Os dois extremos estão errados. Não é ruim que uma obra seja divertida, só é negativo que ela sejaapenas divertida. A literatura que só diverte, sem trazer nada além, funciona como um jogo de palavras cruzadas, um quebra-cabeça — mero passatempo descartável. A literatura pode muito mais. Ao mesmo tempo, é bom lembrar que divertir não é demérito. Fazer literatura de qualidade não é escrever livros chatos. Literatura de qualidade é aquela que, além de trazer elementos interessantes, experimentações de linguagem e reflexões pertinentes, consegue divertir seu leitor, fazê-lo mergulhar naquele universo. A dificuldade está justamente aí: escrever algo com conteúdo e que entretenha.
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| Tavik Frantisek Simon |
Naturalmente, cada arte tem suas peculiaridades e seus instrumentos próprios. Na literatura, a “arma” do escritor é a linguagem. O escritor que apenas se preocupa em contar uma boa história, sem aprofundar as possibilidades de linguagem, está perdendo a essência de sua narrativa. Em lado oposto, o escritor que apenas se preocupa em burilar a linguagem, com firulas semânticas e jogos de palavras, sem se importar em contar uma boa história, mais parece estar preocupado em alimentar seu ego e ser finalista de prêmios. Na história da literatura brasileira, em algum momento, criou-se a noção de que diversão e qualidade são elementos obrigatoriamente dissociados: o que diverte não tem qualidade, o que tem qualidade não diverte. Nessa lógica deturpada, onde se situam autores como Machado de Assis, Pedro Nava e Jorge Amado? Teríamos que assumir que “Memórias póstumas de Brás Cubas”, por exemplo, é um livro de qualidade literária que não diverte ou que é um livro divertido, mas sem qualquer profundidade artística. Ambas as ideias são absurdas. Machado unia os dois lados e, assim, fazia boa literatura. Para citar outro mestre, Nelson Rodrigues: “Só eu sei o trabalho que me dá empobrecer os meus diálogos”.
Raphael Montessexta-feira, novembro 20
'Quando a gente escreve...'
não importa se estar triste ou alegre
não importa ser eterno ou breve
não importa trabalhar sozinho ou muito
ou fazer greve de tudo
quando agente escreve
o que importa
é a porta que se abre de leve.
não importa ser eterno ou breve
não importa trabalhar sozinho ou muito
ou fazer greve de tudo
quando agente escreve
o que importa
é a porta que se abre de leve.
Paulo George
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