segunda-feira, abril 15

Hora do café

 Clodi_z

É preciso voracidade



Tem que ser um leitor voraz. De todos os gêneros literários. De todos os estilos possíveis. Sem nenhum preconceito 
Stela Maris Rezende

Cheiro de livro


Uma tarde, em Buenos Aires

Uma tarde em Buenos Aires eu estava meio triste – mas não bebi, não telefonei, não procurei nenhuma pessoa amiga. Fechado no meu capote e no meu silêncio, pus-me a andar pela rua cheia de gente. As grandes luzes só se acendem às dez da noite e, desde muito cedo, no inverno, é escuro. Há um poder nessa multidão que desfila pela penumbra como um rio grosso com seu murmúrio. Deixei-me ir pela Florida, dobrei talvez em Tucuman, subi até Suipacha, desemboquei em Corrientes, e eu era mais um homem de capote no meio da multidão, e a multidão me embalava e me fazia bem. E, por ser impessoal e não ter pressa nem rumo, por ter um capote e sapatos grossos e por andar entre meus desconhecidos irmãos, eu me senti mais livre. E cumpri os ritos da multidão, comprei meu jornal, tomei meu café, li o placar das últimas notícias, fiquei um instante distraído mirando os frangos que giravam se tostando numa rotisseria.


Quando voltava para meu hotel, por Florida, me lembrei do primeiro verso de um soneto que li há muito tempo, parece que de Alfonsina Storni, "lo encontré en una esquina de la calle Florida...". Fiquei com esse verso na cabeça, pensando vagamente que esse homem sem nome que alguém encontrou em uma esquina de "la calle Florida" podia ser eu, como podia ser milhões de outros, e tirei disso não sei que vago e particular consolo.

Não foi em uma esquina, mas foi ainda na Florida que encontrei alguém: era um casal de amigos brasileiros em lua de mel. Os dois estavam felizes, alegres deles mesmos e tudo o mais, falando do prazer das compras de lã e da carne soberba dos restaurantes. Estimei encontrá-los, e a felicidade do casal me fez bem, mas senti, com certa curiosidade, que no fundo de mim não havia a menor inveja. Ide-vos, noivos morenos, por Florida e Corrientes, ide-vos felizes por todos os caminhos da vida. Só vos invejarão os que também procuram ser felizes; minha longa tarefa é outra, é não ser infeliz e me proteger e guardar, ser forte dentro de mim, forte, quieto e sereno. Essa tarefa me distrai; e, vendo em vossos olhos a felicidade, eu descobri que em verdade não a procuro mais. Já passei por esse caminho; sobre minha cabeça, quando ia por ele, mais de uma árvore deixou cair flores. Não choro esse tempo; simplesmente ele passou. Assim vai passando a multidão, e dentro dela caminho outra vez, lentamente, distraído e tranquilo como um boi.
Rubem Braga

sábado, abril 13

Dica de passeio


De armas na mão pela liberdade

Não estou inventando: saiu no jornal: "Em Porto Alegre, senhora de noventa anos (noventa, sim!) arma-se com dois (dois!) revólveres e abre caminho para a rua, garantindo o seu direito de ir e vir". Não lhe dou o nome porque não sou dedo-duro; conta-se o milagre sem precisar dizer o nome do santo. 

Os revólveres, no caso, eram dois trinta e oito. Ou, como se diz na gíria, dois trezoitões. E tinham bala dentro, e a idosa dona, pelo jeito leve com que os empunhava, mostrava que sabia atirar. 

Assim mesmo foi detida pelos policiais, tiraram-lhe as armas, sob os veementes protestos da anciã. E, mostrando-se as autoridades curiosas quanto à procedência dos revólveres, ela declarou que haviam pertencido ao seu falecido pai, e que os guardava num velho baú, no porão da "casa de idosos", onde mora. Recebendo uma pensão de uns dois salários mínimos, não podia, logicamente, pagar a mensalidade que lhe cobrariam por um quarto normal, na "casa de idosos". Deram-lhe então o tal porão, a preço módico, escuro, sem janelas – imagine o calor que não faz lá, nos meses de verão, principalmente janeiro, em Porto Alegre! E no inverno, no frio, como não deve ser escuro e mal arejado. Assim mesmo, parece que a diretoria da casa não lhe permitia saídas. E a repórter o confirma: a direção a proibia de sair, receando que, assim idosa, ela se perdesse pela rua, sofresse algum acidente ou assalto. Na mentalidade da maioria das pessoas, velho é pra viver preso, na casa, no quarto; o ideal é uma cadeira de rodas, mas nem sempre a conseguem. E o infeliz do idoso quase nunca pode se defender da solicitude dos mais moços, filhos, parentes, guardiões: "Não coma esse doce, olha o diabetes!" (como se o doce fosse de arsênico). "Cuidado, não vá tropeçar!" "Calma, segure bem no corrimão!" "Olha o buraco na calçada, veja onde está pisando!" E os mais solícitos ou mais medrosos nos seguram com tanta força o braço que até parecem estar carregando às grades um preso renitente. 

Imagine o grau de indignação, de constrangimento, de "cólera que espuma", como dizia o soneto, que sufocava o coração da nossa heroína. A vontade louca de ver o céu, luz, rua, pessoas desconhecidas, e não as caras severas dos seus guardiões. No jornal de Porto Alegre diz-se que ela é solteira, ou "inupta" (a que não convolou núpcias), segundo a fórmula legal. Fadada a viver sozinha, na sua nua solidão, sem nem ter a companhia de outro velho, de um companheiro ao seu lado, que lhe fizesse massagens contra o reumatismo, com quem dividisse a surdez, as deficiências visuais; ou, viúva que fosse, tivesse do companheiro as perenes lembranças de uma vida comum, até mesmo lembranças de amor. Digo isso timidamente, temendo risos, pois quem vai admitir que um velho ou velha, de noventa anos, tenha lembranças de amor?

Verdade que nessas campanhas caritativas em prol da "terceira idade" eles brincam carinhosamente com a ideia de dois velhos dançando (na televisão os velhotes dançarinos sempre ensaiam um tango argentino e são vestidos à moda de 1925, ela já de saia meio curta de melindrosa e ele de colete e polainas!). Botam os velhos para estudar vestibular, ou pra fazer ioga, para treinar pintura a óleo (flores e paisagens rústicas), a cantar em coros etc. etc. Ninguém parece entender que a primeira condição para o velho não se sentir tão velho é deixá-lo sentir-se livre. Resolver seus problemas pessoais; ser ele próprio quem conte os seus sintomas ao médico, ser ele próprio quem decide se toma ou não os remédios prescritos – como o faz todo mundo. Deixar que ele se liberte um instante ao menos da tutela dos "entes queridos" e não lhe aviltar se ele, liberado, der uma topada, um tropicão, no exercício dessa liberdade. Deixá-lo que durma só, que não lhe apareça ninguém no quarto à meia-noite, perguntando se ele está insone (está muito feliz, lendo), se esqueceu de tomar o Lexotan... 

Ah, como a gente entende a velha pistoleira do Rio Grande do Sul. E fico preocupada – que estarão fazendo com ela, sem nem ao menos serem os filhos que a tiranizem, vítima da ácida vigilância dos estranhos. E agora, então, as coisas devem ter piorado. Já que a nossa nonagenária pistoleira e fujona confessou que guardava as suas armas num velho baú. Cuidado, velhos e velhas, meus colegas: vocês vão ver que, de hoje em diante, ninguém mais vai nos deixar possuir um baú!
Rachel de Queiroz

sexta-feira, abril 12

Leitores do Jurássico


Último recurso

Zinaida Serebriacova
Que Deus me acuda.
Perdi a fé em tudo, até
Nos livrinhos de autoajuda.

Hora de acordar

Como conheci Castro Alves

Camille Pissarro
Foi nos idos de 1953. Saltei do bonde na parada próxima ao Restaurante Cacique e Cine Guarani, com o firme propósito de conhecer aquele monumento de mais de dez metros, um homem lá no alto encimando o pedestal. Aquele homem de cabeleira negra e basta devia ser muito importante para que fosse homenageado em monumento tão grandioso.

Atravessei a rua com a luz forte do verão caindo no asfalto e me aproximei do monumento. Meu olhar curioso viu que em um dos lados estava um livro aberto com um sabre atravessado, tendo em letras douradas os versos: “Não cora o sabre do hombrear com o livro”. Em placa de mármore, numa das faces da base, lia-se: “A Bahia a Castro Alves.”

Aquela estátua de bronze assentada no alto representava um poeta, muito querido pelo povo baiano, estava ali na atitude de fala importante, de quem declamava, tendo a cabeça descoberta, fronte erguida, olhar perdido no infinito, chapéu mole de estudante à mão esquerda, braço direito estendido. De um lado da coluna no monumento, vi um grupo em bronze, representando um anjo em posição de voo, a levantar uma mulher escrava pelo braço, erguendo-a ao alto. E também um casal de escravos.

Quem era esse poeta que a Bahia dedicava imenso amor? Lembrei da biblioteca da agremiação estudantil no Colégio dos Irmãos Maristas. E foi lá, durante a semana, à hora do recreio, folheando o livro ABC de Castro Alves, de Jorge Amado, que fiquei conhecendo a vida e a obra daquele grande poeta, que os baianos com orgulho chamavam de gênio.

Era um rapaz esbelto, que vivera pouco. Nasceu na fazenda Cabaceiras, próxima a Curralinhos, na Bahia, em 14 de março de 1847. Tinha grandes olhos vivos, maneiras que impressionavam a quem o assistisse declamando versos de amor, às flores e em solidariedade aos escravos. Causava admiração aos homens e arrebatava paixões às mulheres. Seu estilo contestador contra a situação da escravidão dos negros na Bahia o tornou conhecido como O Poeta dos Escravos. Além de abolicionista exaltado, foi um liberal atuante, que clamava pela instalação da República no Brasil. Teve como colega Rui Barbosa no Colégio Abílio Borges, em Salvador, e na Faculdade de Direito do Recife. Faleceu aos seis de julho de 1871, aos 24 anos, em Salvador, vítima de tuberculose.

Depois de conhecer um pouco a vida do poeta romântico, interessei-me por sua poesia. Fui ler, um a um, os livros desse poeta, cantor do amor, da água, das pétalas, dos negros escravos e da liberdade. Publicara em vida apenas um livro: Espumas Flutuantes, em 1870. Seus outros livros, A Cachoeira de Paulo Afonso, 1876, Os Escravos, 1883, Hinos do Equador, 1921, tiveram edição póstuma.

Na medida em que fazia a leitura duma poesia cativante e libertária, ia anotando alguns versos no caderno, que me enriqueciam a sensibilidade.

Como esses: Senhor Deus dos desgraçados!/Dizei-me vós, Senhor Deus,/Se eu deliro… ou se é verdade/ Tanto horror perante os céus?!… / Ó mar, por que não apagas/ Co’a esponja de tuas vaga/ Do teu manto este borrão? / Astros! noites! tempestades! /Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! …

Ou esses: Oh! Bendito o que semeia/ Livros à mão cheia/ E manda o povo pensar!/O livro, caindo n’alma/ É germe – que faz a palma,/ É chuva – que faz o mar!

Ou ainda esses, escritos com graça e leveza: Prendi meus afetos, formosa Pepita…/ mas, onde?/ No tempo? No espaço? Nas névoas?/ Não rias…/ Prendi-me num laço de fita!

Perguntava-se como era que no coração de um poeta tão jovem como Castro Alves cabia tanta afetividade e solidariedade aos excluídos. Com a leitura de cada livro do poeta, minha alma foi-se impregnando da beleza e da verdade postas de maneira maior em versos comoventes, em tons vários escorridos com amor e talento raro, que só os gênios possuem. Castro Alves tornou-se em pouco tempo um ídolo para o moço do interior, desses em que a marca de uma época ou de um tema brilha com a individualidade manifestada numa espécie de criador, a permanecer sempre ante a vida que passa.
Cyro de Mattos

quinta-feira, abril 11

Insônia


Obrigado a ler

A cultura francesa sempre foi um exemplo para muitos países, e várias gerações de portugueses foram, durante a ditadura, formadas pelo ensaio e a ficção vindos de França, quer de autores francófonos, quer em tradução. Mas também por lá os índices de leitura têm vindo a baixar com o visionamento apelativo das séries em streaming e o recurso constante ao smartphone. Leio, porém, no L’Humanité uma notícia sobre uma medida tomada por uma escola de Paris, com o apoio da associação Silence, on lit!, que parece boa para combater o problema. Depois do toque do fim do recreio da hora de almoço, exactamente às 13h25, estejam em que lugar estiverem dentro da escola, todos têm de pegar num livro e ler durante um quarto de hora (e atenção: até podem já estar sentados na sala de aula!). E não são apenas os alunos que têm esta obrigação, mas todo o pessoal da escola, incluindo auxiliares e professores. A escolha do livro é à vontade do freguês: aconselha-se o aluno a continuar o livro que já começou, mas não há restrições a temas, géneros ou autores, e isso torna o momento especial, porque é leitura obrigatória sem livro obrigatório. Os miúdos contam que antes não liam muito mas que, depois de aquele momento se tornar um ritual, começaram a gostar, sobretudo porque os relaxava a seguir à refeição e criava motivos de conversa com os colegas e posteriores trocas de livros. Muitos deles passaram então a comprar mais livros e ir à biblioteca com mais regularidade. Não seria de aplicar isto por cá?

Para boa viagem


O atrabiliário

Eis o senhor Antônio Maria d'Albuquerque de Moraes (Zé Maria, para os íntimos), outra vez, cansado de trabalhar. De trabalhar, de ser pobre, mas especialmente cansado de si mesmo, de sua burrice progressiva. Deita-se na cama, liga a refrigeração, o oxigênio e, com uma mão sobre o peito, procura os batimentos do seu, outrora, insensato coração. Dão para viver.

É aquele cansaço intimíssimo das sextas-feiras, quando começam os fins de semana. Aquela vontade (não sei se serei merecidamente compreendido) de ser um homem franzino, sardento, de óculos, vesgo, se possível, funcionário do IAPC. Aquela vontade de não saber nada e de sentir no ônibus (vesgo e de óculos) o imenso desejo de conhecer Buenos Aires. Ah, como queria ter vontade de conhecer Buenos Aires. Melhor ainda, de tramar dentro de mim minha transferência para o IAPC de São Paulo. E dizer, suspiroso, a alguns íntimos:

– O dinheiro está em São Paulo, seu compadre!

O que atrapalhou minha vida foi ter visto e feito muita coisa, desde pequenininho.

E respiro, fundamente, o oxigênio. Fundamente.

Na revista, que leio, os cientistas afirmam que é o cigarro, na realidade, que produz o câncer. Todas as provas são feitas, todos os dados estatísticos mostram que o número de cancerosos era pequeníssímo, em 1900, quando se fumava muito pouco. A leitura me dá enorme vontade de fumar e, apesar do incêndio que poderei causar, com combinação fogo-oxigênio, acendo unzinho. Que maravilha! A tragada é funda e lenta. O homem tem necessidade de sufocar-se, por isso gosta de tragar funda e lentamente. Minha mulher não fuma e acredita em tudo o que se diz contra os cigarros. Eu também acredito, mas descomponho os cientistas usando este argumento de homem banal:

– Esses caras falam isso porque não fumam. Os culpados são eles, que vivem estudando câncer, noite e dia, e ainda não descobriram nada.

Não há nada melhor do que a gente discutir sem razão, apelando para a ignorância. É como o jogador que aposta sem dinheiro e aposta muito, até o parceiro sair da parada. Minha mulher se cala e me detesta, não sei se por alguns minutos ou se para sempre. Eu também me detesto e vou revezando as tragadas – ora o oxigênio, ora o cigarro. Digo, propositadamente, uma burrice bem irritante:

– Quem garante que o oxigênio também não produz o câncer?

Na vida conjugal, o marido precisa dizer besteiras constantemente. Senão, não é marido. É uma visita. Não só o marido, mas a mulher também precisa dizer besteiras, para que o casamento seja, de fato, um elo indestrutível. Família que diz besteira permanece unida. Nas famílias inteligentes e cultas, é maior o número de divórcios e os filhos seguem a carreira diplomática, para estar sempre longe de casa.

Cá estou eu, horizontal. Leio as confissões de Evtuchenko e tenho muita pena dele, quando descobriu que a mãe após a guerra usava peruca. Os alemães lhe rasparam a cabeça. Se raspassem a cabeça de minha mãe (penso), eu iria para a rua, de revólver, e...

Minha mãe, longe daqui, deve estar comendo alguma coisa. Ela está sempre comendo alguma coisa proibida. Saiu a mim. Saiu a mim. Foi a mãe que nasceu mais parecida com o filho. Não houve outra.

Agora, a crônica está pronta e irei para Cabo Frio, onde tenho uma vontade imensa de não ver Brigitte Bardot. Não é por nada. Seria para dizer aos meus netos:

– Olha aqui, eu juro que nunca vi Brigitte Bardot.

Sim, porque eles precisarão ouvir alguma coisa que eu nunca fiz.
Antônio Maria

quarta-feira, abril 10

Livros esquecidos


Não há nada tão insatisfatório como um fio com pontas soltas, essa tendência moderna de deixar os livros a meio
Isabel Allende

Leitora


Uma simples folha de papel

Ontem, num programa da TV, discutíamos entre escritores e jornalistas o drama do papel em branco na máquina e, diante dele, o pobre de nós, obrigado a espremer o juízo até produzir qualquer coisa que encha as laudas necessárias e possa ir para a impressão. Acho que essa angústia existe desde que o primeiro escriba de cuneiforme, na Mesopotâmia, se afligia por uma ideia a gravar no tijolinho fresco, e depressa, antes que o barro secasse. Ou o emissário real, no Egito, diante do papiro virgem, rabiscando tentativamente um começo de hieroglifo sem saber o que contar na mensagem para o faraó.

O curioso é que nem sempre desse esforço de última hora sai um resultado pífio. Às vezes, depois de minutos e minutos de indecisão e bloqueio, brota de repente uma ideia que é um clarão, o escriba bate freneticamente na máquina, tentando forçar os dedos a uma marcha mais veloz que a dos miolos e, em pouco, ele entrega à oficina a sua melhor reportagem do mês. Quando esse branco se dá na produção de livro, não tem tanta importância. O romance espera, o conto espera. E o poema só nasce na hora que quer. O jornal, que vive à custa do cotidiano e é voraz por fatos atuais e comentários sobre esses fatos, mal se consolando com projeções sobre o futuro ou meditações sobre o passado, o jornal é que é o grande tirano. Ele é como um alto-forno de usina siderúrgica, que não pode se apagar nunca e exige dia e noite combustível, minério e a atenção infatigável dos seus alimentadores e manobreiros.

Aliás, para fazer justiça, não é propriamente o jornal o nosso tirano. O déspota implacável é mesmo o público, de quem o jornal é apenas o humilde, solícito serviçal. O público é quem dá sentença de vida e morte, o público é que boceja ou aplaude. Ele é quem recorta com amor o tópico feliz, é ele que amarrota a folha enfadonha a caminho da cesta. Nessa trêmula serventia vivemos todos os que dependemos da fera e por isso a bajulamos, hesitamos num fraseado, trocamos um verbo mais incisivo por outro mais ameno, polvilhamos com um sal de malícia qualquer flagrante inocente, descobrimos interpretações sutis ou sibilinas para o que seria apenas massudo e incolor, sem o nosso intempestivo "inuendo". Mas quanto equilíbrio e cuidados são necessários para não se transpor o frágil limite da verdade dos fatos e não se cair no perigoso terreno da invenção! Às vezes basta insinuar que o figurão sorriu antes de dar a sua resposta e se derruba todo um laborioso esforço de credibilidade em hora de crise política.

Há um ditado que diz: "O papel leva tudo". O mais certo seria dizer: "O papel (no caso, o jornal) leva a tudo". Todo o bem e todo o mal do mundo podem nascer de uma folha de diário. Um telegrama falsificado, uma frase apócrifa, já desencadearam guerras. E continuam desencadeando.
Rachel de Queiroz

terça-feira, abril 9

Leitura no jardim

Dung Ho

Ah, o palco!

Eu podia fazer grandes papéis, também; as pessoas, quando me avistavam na entrada do palco, ficavam sempre espantadas de encontrar, no que elas chamam de vida real, não o grandalhão desgrenhado e bamboleante que esperavam, mas a pessoa esbelta, alinhada, com o andar felino de um bailarino. Eu havia trabalhado duro naquilo, percebem, havia estudado homens corpulentos e compreendido que o que os define não é musculatura sólida, ou vigor, ou força, mas uma vulnerabilidade essencial. Os sujeitos pequenos são todos ímpeto e autoconfiança, ao passo que os grandes, mesmo quando não parecem minimamente apresentáveis, passam uma impressão atraente de confusão, de estar perdidos, de angústia, até. São menos agressores que agredidos. Ninguém se move mais delicadamente que o gigante, embora seja sempre ele a despencar do pé de feijão ou a ter o olho vazado por uma estaca ardente. Tudo isso eu aprendi, aprendi a encenar. Foi um dos segredos do meu sucesso, no palco e fora dele, que eu poderia atribuir ao tamanho. E à imobilidade, uma qualidade de absoluta imobilidade mesmo no meio da confusão, esse era outro dos meus truques. Era isto que os críticos tentavam decifrar quando falavam de meu assombroso Iago ou do meu atormentado Ricardo Corcunda. A fera à espreita é sempre mais sedutora do que a que salta.

Não me passou despercebido o uso do tempo passado em tudo acima.

Ah, o palco, o palco; vou sentir sua falta, eu sei. Aquelas velhas máximas sobre a camaradagem da gente de teatro, é bom que se diga, são todas verdadeiras. Filhos da noite, nós nos fazemos companhia contra a escuridão insidiosa encenando que somos adultos. Não considero meus semelhantes particularmente adoráveis, apenas preciso fazer parte de um elenco. Nós, atores, gostamos de nos queixar dos tempos difíceis, das restrições nos repertórios provincianos, das instalações caóticas e das turnês à beira-mar canceladas pela chuva, mas era justamente a indigência daquele mundo espalhafatoso que eu secretamente amava. Quando olho para trás, para minha carreira, que parece encerrada agora, o que lembro com mais carinho é o aperto aconchegante de algum salão imundo no meio do nada protegido da escuridão barrenta de uma noite de outono e cheirando a fumaça de cigarro e a sobretudos molhados; em nossa caixa de luz, nós, os atores, nos pavoneamos e declamamos, rindo e chorando, enquanto ali, na obscuridade aveludada à nossa frente, aquela massa indistinta de múltiplos olhos se pendura em cada palavra berrada, se agarra a cada gesto exagerado nosso. Neste canto do país, quando éramos crianças, costumávamos dizer dos exibicionistas no playground da escola que eles estavam apenas "se achando"; esse é um hábito que nunca perdi; fiz do me achar o meu ganha-pão; na verdade, fiz uma vida. Não é a realidade, eu sei, mas para mim era a segunda melhor coisa -por vezes a única coisa- mais real que o real. Quando fugi desse mundo povoado não havia ninguém além de mim para me impedir de me desgraçar. E me desgracei.

Atuar foi inevitável. Desde cedo, a vida para mim foi um perpétuo estado de ser observado. Mesmo quando estava sozinho, eu me comportava com velada circunspeção, mantendo as aparências, encenando. Esta é a presunção do ator, imaginar que o mundo possui um olho único e ávido fixo sempre e exclusivamente nele. E ele, é claro, ao atuar, se acha a única coisa real, a sombra mais substancial num mundo de sombras. Tenho uma lembrança particular -embora lembrança não seja a palavra, o que estou pensando é vívido demais para ser uma lembrança real- de estar parado na ruela que desce do lado da casa, num final de manhã de primavera, quando era menino. O dia estava úmido e fresco como um graveto descascado. Uma luz forte irrealmente clara repousa sobre tudo, até nas árvores mais altas consigo discernir folhas individuais. Uma teia de aranha pesada de orvalho cintila num arbusto. Pelo caminho aproxima-se coxeando uma velha, encurvada quase até o chão, seu andar uma repetida e lenta oscilação dolorida em torno do pivô de um quadril danificado. Eu a observei se aproximar. É a pobre e inofensiva Peg, eu a vi muitas vezes perto da cidade. A cada passo penoso, ela me atira um olhar de soslaio intenso, inquisitivo. Ela usa um xale, um velho chapéu de palha e um par de botas de borracha cortadas toscamente nos tornozelos. No braço, carrega um cesto. Quando se aproxima do nível em que estou, ela para e me lança avidamente um olhar torto, com a língua à mostra, e murmura algo que não consigo entender. Ela me mostra o cesto com cogumelos que havia colhido nos campos e talvez os esteja oferecendo para me vender. Seus olhos são de um azul baço, quase transparente, como os meus, agora. Ela espera que eu fale, ofegando um pouco, e quando não digo nada, não ofereço nada, ela suspira, balança a cabeça velha e retoma seu penoso coxear, conservando-se à beira gramada. O que foi que tanto me afetou no momento? Terá sido o ar acariciante, aquela luz vasta, a sensação das euforias da primavera que me rodeavam? Seria a velha pedinte, sua materialidade insondável? Alguma coisa se avolumou em mim, uma exultação indefinida. Uma multidão de vozes lutava em meu interior para se expressar, pareceu-me uma multidão. Eu as proferiria, essa seria a minha tarefa, sê-las, as sem voz! Assim nasceu o ator. Quatro décadas depois, ele morreu no meio do último ato e cambaleou para fora do palco, em suada ignomínia, justo quando a ação estava chegando ao clímax.