sábado, agosto 2

O homem só


Deixo-me ficar no canto mais refrigerado da boate, sozinho, ansioso por continuar sozinho. À minha direita, um cidadão exageradamente magro, com os ombros em desenho de âncora e uma dessas bocas que, em certos rostos, envelhecem antes dos olhos e dos cabelos. Conheço-o de ouvir dizer e sei que o seu maior empenho é passar por ex-perigosíssimo gangster. Examino-o. Não tem nada de Bogart ou de Raft. Nem sequer teve parecença com Hercule Poirot, dos “policiais” de Agatha Christie. Tira a cabeça do prato e elogia o cantor, puxando conversa. Concordo, com um gesto de cabeça. Anima-se e diz uma frase, em espanhol, definindo a vida. Gostaria de ter-lhe avisado que sua definição ainda não era irrevogável definição de tudo isso que estamos fazendo ou fingindo fazer. Mas não lhe disse nada e o desesperanço de qualquer entendimento entre nós, pelo menos naquela noite. Essa coisa de a gente ficar sozinho é, de vez em quando, muito importante. O convívio distrai muito, abstrai muito. E é preciso que a gente se fixe, ao menos uma vez por dia, no exame de certas pessoas. Nós somos muito atacados. Ninguém se livra da campanha constante de um inimigo medíocre e desonesto. E é preciso pensar nele um pouquinho, porque a perseverança dos medíocres é, no fim das coisas, uma adição de certa força. Então, penso nos meus possíveis inimigos, não com vontade de destruí-los, mas desejoso de que eles sejam menos inquietos e mais amáveis, mais tranquilos e decentes. Penso em construí-los, então. Não por ambicionar que eles resolvam amar-me, de um momento para outro. Mas para que ao menos eles durmam sem sobressaltos, suas noites de medo, em companhia de sua vigente insegurança.

Noutra mesa mais distante, há uma senhora de óculos. Fala e ri livremente, numa espécie de simpatia além de qualquer modelo de bons modos, comum e invariável nas mulheres do “Society” diário. Bate nas costas do companheiro ou lhe acende o cigarro na brasa do seu. Mas em tudo isso muito bonita, de óculos, prendendo-me a atenção pela beleza dos seus maus modos. Depois, um pouco mais à esquerda, formou-se uma mesa de políticos. O político brasileiro, numa boate conversa de um jeito especial como quem já sabe de todas as coisas apuradas ou ocasionalmente futuras. Não sei se posso descrever-lhe o ar. Mas fala com a cabeça baixa e os olhos levantados, existindo certo mistério e grande convicção.

Há coisas que são ditas entre dentes. Outras não são ditas, mas entendidas, num simples manejo lateral de cabeça. No fundo, eles não sabem de nada, nem vão resolver coisa alguma, porque, na maioria, são políticos de conquistas, apoios e oposições pessoais. Mesmo assim, convencem-me de sua autoridade sobre mim, por exemplo, que sou povo, da maneira mais lírica possível — povo! Continuo sozinho, preservado por uma série de acasos. Bastaria que entrasse um conterrâneo, um colega de jornal, um credor, e teria eu que sair da intimidade que estava tratando a mim mesmo, para dividir-me ou compartilhar, para fazer concessões e, certamente, constranger-me. Lembro-me de um amigo que morreu e da minha falha em não ter improvisado certa coragem de abraçar sua família.

Penso numa conhecida, de quem imaginei vir a ser um convívio útil, leal, bom. Mas ela, sem se aperceber disso, não me quis para nada. A seguir, vou-me tornando ambicioso. Agita-me a ideia de viajar outra vez e de poder descansar de tudo quanto venho fazendo sem tréguas, escrevendo, escrevendo... As certezas que tenho de mim mesmo sobrevivem às suposições que de mim fazem. Mas é preciso que o homem se realize dentro de suas certezas e não à base do que dele se pensa ou se diz. Eu só tenho dado o que de mim esperaram. E recebido, sempre gratamente, sem medir ou pesar. O homem está sempre além e aquém do juízo e da confiança do seu próximo. Nunca foi pensado ou dito exatamente de mim. Na maioria das vezes, pensaram demais. Em tristes e resignadas ocasiões, pensaram de menos. Mas é bom que nunca acertem a fim de que o homem se mantenha irrevelado para, naquela rara intimidade de si mesmo, sentir-se consolado ou perdido, morto ou vivo, mas irrevelado e intenso.

O pianista toca uma canção desconhecida. O homem à minha esquerda (o que não se parece em nada com Bogart) mastiga com algum barulho. A moça de óculos tira os óculos. Os políticos começam a comer. E no rosto do cigarreiro que, à esquerda de mim, recebe uma gorjeta, descubro uma ingênua melancolia. Mais nada.
Antonio Maria

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