Das páginas de “Machado de Assis - Caminhos de suas moradias na cidade do Rio de Janeiro” (Editora Lacre), surgem uma casa esquecida na Rua da Alfândega, placas instaladas em imóveis errados e a revelação de que a residência de Laranjeiras, dada como demolida, segue de pé.
O “desaparecimento” do sobrado — sétima morada do autor de Quincas Borba, localizado na Rua das Laranjeiras, 22 —, teria ocorrido devido a um equívoco em antiga publicação que buscava atualizar a numeração nos logradouros da cidade. Nireu esmiúça a descoberta com direito à reprodução de farto material iconográfico, uma característica marcante em todo o livro, aliás.
Em outro trecho, Nireu aponta para uma habitação ainda não conhecida no rol das moradias machadianas: um sobrado na Rua da Alfândega, 123. No capítulo em que apresenta a terceira residência da lista, o livro trata de descartar a informação, amplamente difundida, de que, a exemplo de Bentinho e Capitu, personagens imortais de Dom Casmurro, Machado tenha vivido na antiga Rua de Matacavalos, atual Rua do Riachuelo. A história que se conta é que, ali, ele teria dividido a casa com o amigo Francisco Ramos Paz.
— Tem toda a aparência de autopromoção. O sujeito (Ramos Paz) dizia que morou com Machado, mas não deu endereço, não apresentou prova. Eles realmente se conheciam. Talvez Machado tenha ficado alguns meses hospedado ali, um período curto. Mas não há documentação, não vou dar fé a um depoimento desses sem prova — explica o autor.
A evidência trazida pelo historiador para afirmar que Machado morou na Rua da Alfândega é uma autodeclaração de residência feita pelo próprio ao ser apresentado para ingressar como sócio efetivo na Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.
As revelações trazidas por Nireu começam logo na origem: durante muito tempo se acreditou que Machado havia nascido em uma casa no Morro do Livramento, mas o autor garante que não. No livro, é citado um documento de 1845 no qual Francisco José de Assis, pai de Machado, é apontado como residente na Rua Nova do Livramento, 131. O endereço corresponde ao atual nº 151 da Rua do Livramento, no bairro da Gamboa.
— Quando ele nasceu, a chácara já estava sendo loteada e já tinha sido aberta a Rua Nova do Livramento, em 1828. Nessa casa ele perdeu a mãe, de tuberculose, e a irmã, de sarampo, o que certamente foi um trauma — diz Nireu.
| Nireu Cavalcanti na casa onde Machado de Assis morou na Lapa |
Dona Leopoldina Machado de Assis, nascida na Ilha de São Miguel, nos Açores, morreu em 1849, quando o pequeno Joaquim Maria Machado de Assis tinha 9 anos. A irmã, Maria Machado de Assis, faleceu antes, em julho de 1845. Ele ainda ficaria no endereço até 1854, quando o pai se casou novamente. A família, então, seguiu para São Cristóvão, a segunda casa, onde permaneceria pelos próximos 13 anos.
Em novembro de 1869, o “bruxo do Cosme Velho” se casa com Carolina Augusta Xavier de Novaes e os dois vão para a Rua dos Andradas. É a quarta casa de Machado de Assis na cidade. Da velha construção, hoje, só resta a fachada. Daqui para frente, o casal segue unido até o fim, passando por mais cinco endereços da cidade.
A parada seguinte foi na Rua Santa Luzia, no Centro, e, na sequência, na Rua da Lapa, mais precisamente no segundo andar de um sobrado que está de pé até hoje. O local precisa de reformas, mas, observa o autor, guarda características da época em que o casal famoso viveu por lá. Em 2008, a prefeitura instalou uma placa indicando que ali morou o maior dos escritores brasileiros. Ótima iniciativa, mas imprecisa, diz Nireu:
— Colocaram a placa em outro prédio, limpo e pintado, provavelmente para não precisarem restaurar o verdadeiro imóvel. O sobrado correto fica na Rua da Lapa, 264. Está lá, muito degradado.
O mesmo, segundo Nireu Cavalcanti, aconteceu no Cosme Velho, bairro da nona e última residência de Machado e Carolina — antes de seguir para lá, os dois viveram na Rua do Catete, em casa térrea derrubada por ocasião das obras do metrô.
O chalé para onde o casal se mudou no Cosme Velho, em 1884, fazia parte de um conjunto de três construções idênticas. Duas delas foram derrubadas e uma permanece de pé. A placa evocando a presença do ilustre morador foi instalada no nº 174 da rua que leva o mesmo nome do bairro, mas, pelas pesquisas de Nireu, o correto é que estivesse no prédio vizinho, atual nº 136:
— A placa deveria estar no prédio de três andares ao lado.
Foi no período do Cosme Velho que Machado publicou muitas de suas obras, entre elas os romances “Quincas Borba” (1891), “Dom Casmurro” (1900), “Esaú e Jacó” (1904) e o derradeiro, “Memorial de Aires” (1908).
Funcionário — assíduo e dedicado, lembra Nireu — do Ministério da Agricultura e escritor renomado, não consta que Machado, de origem humilde, tenha padecido de dificuldades financeiras na vida adulta. Ainda assim, é curioso notar que sempre morou de aluguel.
— Chegou praticamente ao cargo de secretário do ministro, tinha um ótimo salário. Mesmo assim, nunca comprou uma casa. Não encontrei documento em que ele manifestasse desejo de comprar um imóvel — conta Nireu.
As nove casas são o ponto de partida. O livro extrapola a função de compilar esse pequeno condomínio machadiano e acaba virando um retrato da própria cidade entre a segunda metade do século XIX e o início do XX. Retrato não apenas geográfico, mas da sociedade, seus costumes, suas mazelas. Tudo costurado pelo caminho das muitas moradas de Machado:
— Gostaria que a sociedade carioca, as autoridades e as grandes empresas entendessem que existe uma oportunidade histórica de transformar o Rio na cidade de Machado de Assis. Restaurar os lugares onde ele viveu e dar a eles funções culturais criaria uma característica única para a cidade.
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