terça-feira, outubro 17

Semeiam o descontentamento e a maldade

Dois terços da gente do meu país leem esta espécie de jornal; leem de manhã e à noite coisas escritas neste tom, são trabalhados permanentemente, incitados, açulados; semeiam-se neles o descontentamento e a maldade, e a meta final de tudo isso é outra vez a guerra, a próxima guerra, que já está chegando e que, sem dúvida alguma, será muito mais horrenda do que a última. Tudo isso é claro e simples, qualquer pessoa pode compreendê-lo; com uma hora de meditação todos poderiam chegar ao mesmo resultado. Mas ninguém quer agir assim, ninguém quer evitar a próxima guerra, quer livrar-se nem livrar a seus filhos das mortes aos milhares, nem quer parar por um instante e pensar voluntariamente. Uma hora de reflexão, um momento de entrar em si mesmo e perguntar pela parte da culpa que lhe cabe nesta desordem e na maldade que impera no mundo… mas ninguém quer fazê-lo! E assim tudo continua como estava e a próxima guerra vai-se preparando a cada dia que passa, com o auxílio de milhares e milhares de pessoas diligentes. Estas coisas sempre me desesperam: para mim não existe “pátria”, não existe “ideal” algum. Tudo isso não passa de frases inculcadas por aqueles que preparam a próxima carnificina. Não tem sentido pensar ou escrever algo que seja humano, de nada vale ter boas ideias na mente… são duas ou três pessoas que agem assim; em compensação, há milhares de jornais, de revistas, de conferências, reuniões públicas ou secretas que, dia após dias insistem no contrário, e acabarão por alcançá-lo.

Hermínia permaneceu ouvindo com interesse.

- Sim - disse em seguida -, você tem razão. Naturalmente, haverá outra guerra; não é preciso ler nos jornais para saber. É certo, embora isso nos entristeça, que o homem, apesar de tudo e de todos, apesar do que possa fazer, o homem tem inevitavelmente de morrer. A luta contra a morte, meu caro Harry, é sempre uma coisa bela, nobre, prodigiosa e digna, da mesma forma que a luta contra a guerra. Mas há de ser sempre uma quixotada sem esperanças.

- Talvez seja verdade - exclamei enérgico -, mas com verdades semelhantes a esta de que temos todos de morrer e que, por conseguinte, tudo é igual é que convertemos a vida em algo monótono e estúpido. Desta forma teremos de renunciar a tudo, ao espírito, às aspirações; teremos de destruir a humanidade, teremos de permitir que reine o egoísmo e o dinheiro e esperar a próxima guerra com um copo de cerveja à mão.

Hermann Hesse, "O Lobo da Estepe"

Os livros em segunda vida

Está amarelado. Não sabemos de que ano é. Só podemos ter uma ideia. Encontra-se naquele estado em que tanto pode ter 10 ou 25 anos. Nota-se que foi minimamente bem tratado, mas quem o vê percebe que foi preterido, porém, não está abandonado.

Ao seu lado, encontram-se outros tantos de dimensões e propriedades diferentes. Há uns em pior condição. Este está de muito boa saúde, pois ainda vive, mas parece tristonho e, se calhar, até está, porque não sente o toque humano há demasiado tempo. Ele só quer que a próxima mão o leve para a vida seguinte. É um livro em segunda mão.

Talvez sejamos nós o seu salvador. Se o autor ou a história nos interessar, pode ser que o levemos para casa, mas temos tendência para ser criteriosos. Não podemos salvar todos os livros em segunda mão. Podemos, sim, salvar quatro ou cinco de cada vez que entramos num alfarrabista. Mais do que isso é gulodice. Se tivéssemos mais mãos do que livros que queremos ler, seria mais fácil transportá-los e suportar o seu peso. Contentemo-nos com aquilo que temos, que já é bom. Também sabemos há algum tempo que temos menos anos de vida do que livros que queremos ler. É uma causa que está perdida desde o início.

Não sei até que ponto é que nos interessamos pela economia circular e por correntes sustentáveis. É certo que sabemos o impacto que a compra de livros em segunda mão tem na conservação da natureza, mas tenho receio de que liguemos mais ao prazer pessoal de estar dentro destas nobres livrarias e de sentir o cheiro a velho: uma mistura de felicidade, mofo e pó.

"Não podemos salvar todos os livros em segunda mão. Podemos, sim, salvar quatro ou cinco de cada vez que entramos num alfarrabista."

Podemos ser egoístas, mas não somos más pessoas. De facto, à conta do nosso hedonismo, aliviamos a agenda do planeta, que fica a ganhar. E nós também ganhamos, assim como as nossas estantes, que ganham novos velhos livros. Abatem-se menos árvores. Lêem-se mais livros.

Percorremos os alfarrabistas e as feiras do livro em segunda mão das nossas cidades (e das dos outros!), porque somos curiosos e porque sabemos que um livro usado é um livro vivido. Por ter sido lido por um número indeterminado de pessoas antes de nós, o livro em segunda mão reúne, dentro de si, um número indeterminado de vidas.

Não temos como calcular quantos cigarros foram fumados na sua companhia, nem quantos dedos folhearam as suas páginas. Imaginamos a identidade das pessoas que o leram antes de nós e tentamos adivinhar o ano em que o leram; por que razão o leram; se gostaram dele e se o recomendaram a alguém.

O livro amarelado, bem paciente, espera pelo nosso comando. Entretanto, escolhemo-lo. Hoje, é só aquele. Em breve, faremos parte do lote de pessoas que leram e viveram o livro, deixando um parte de si no seu interior. A decisão é fácil e o preço, baratinho. Levamo-lo para casa, porque gostamos de ler, claro, mas, acima de tudo, porque gostamos de histórias. Gostamos tanto de histórias que procuramos histórias dentro de histórias e vidas dentro de livros.

segunda-feira, outubro 16

Depois da arrumação...

 


Como o de um menino

Em sua autobiografia, "A guerra: uma memória", Marguerite Duras conta como procedeu para ajudar a resistência francesa a assassinar um oficial nazista. Esse sempre foi um de meus sonhos irrealizáveis, sobretudo da forma como ela o fez. Mas, infelizmente, eu nem havia nascido naquela época. Duras conta que, na noite francesa, esse oficial de alta patente havia se apaixonado por ela. Parece que era mesmo uma mulher linda, o que talvez explique todas as paixões que ela manteve, incluindo a inesquecível relação narrada no livro "O amante", depois transformado em filme, e que conta sua história com um homem muito mais velho, ainda da época em que ela vivia na Indochina.

O alemão começou a segui-la insistentemente, oferecendo-lhe garantias de segurança e também a seus amigos — que ele decerto sabia pertencerem à resistência — caso ela se rendesse a seus apelos. Aos poucos, ela fez que ia cedendo, tudo para finalmente emboscá-lo num encontro em que o oficial apaixonado acreditava que os dois iriam planejar uma fuga, apenas para que seus camaradas da resistência pudessem mirá-lo com precisão e matá-lo. O plano e sua execução seguem uma estratégia tão precisa e a sensação de vitória dela e dos amigos, ainda que mínima, é tão contagiante, que não resta ao leitor futuro mais do que sonhar que estivesse também ali, participando da pequena revolta contra o imponderável.

Entretanto, embora parecendo se esmerar nos detalhes, Marguerite Duras silencia sobre algo que, ao menos para leitores brasileiros, é extremamente relevante: entre seus camaradas, estava ninguém menos do que Rubem Braga. É claro, a autobiografia é dela, é de si mesma que está falando, e não há como nem por que ela declarar os nomes de todos os colegas que tiveram parte nesse plano.

É bem conhecido que Rubem Braga foi jornalista e cobriu ativamente o envolvimento do Exército brasileiro nas batalhas italianas. Mas, quando podia, em seus momentos de folga, Braga ia também a outros lugares, entre eles Paris. E foi lá, em 1944, quando, mesmo já próximo do final da guerra, o nazismo recrudescia terrivelmente, que Braga conheceu Duras — nada se sabe sobre algum namoro entre eles, embora tudo conspire para que, sim, os dois tenham tido algum envolvimento (ao menos eu daria tudo para que assim tenha acontecido) — e pôde ajudá-la a realizar seu plano. É claro que Braga jamais contaria isso a alguém, muito menos publicamente, já que uma de suas características mais conhecidas — e mais elogiáveis — era a extrema humildade. Além do mais, cabia apenas a ela narrar algo dessa natureza, extremamente íntimo e possivelmente condenável.

Quem acabou por me relatar essa história, depois que confessei que eu mesma gostaria de ter estado no lugar de Duras, foi uma tia de Joana, a mulher a quem Braga costumava dedicar várias das crônicas publicadas na coluna “Ordem do Dia”, que saía por aquela época no Diário Carioca e que era, folclórica mas também verdadeiramente, uma das namoradas do cronista. Eu a conheci por acaso, quando estive uma vez, há não muito tempo, em Fortaleza. Uma senhora simpática e já idosa, que mais nada tinha a perder se me contasse essa curiosidade, como ela disse. Preciso confessar que nem fiquei tão surpresa. Não podia esperar nada menos do que isso de Rubem Braga, um dos maiores de nossa literatura — sem dúvida o maior cronista — e também uma das criaturas de alma grande que já viveram no país.

Desde logo, Braga nunca fez segredo de sua posição contrária à política getulista e fez advertências precoces sobre o nazismo:

“Não temos dois caminhos a seguir. Nossa tarefa é clara: ajudar a arrebentar a máquina monstruosa do nazismo, ameaça ao Brasil e ao mundo. Isso é o essencial, é o urgente — é a um só tempo a necessidade, a honra e o dever. A estupidez nazista já se encarregou de vir até nós fazer demonstrações frias e covardes de si mesma. […] Unamo-nos para a guerra.”

De forma inclusive discutível, e que até lhe rendeu inimigos, Braga foi francamente favorável à participação dos pracinhas na guerra mundial.

Numa de suas crônicas, o autor confessa ter inveja dos jovens soldados brasileiros que iriam à guerra e como ele mesmo gostaria de estar em seu lugar. Talvez tenha sido esse o motivo que o fez ajudar Duras, não sabemos.

A nonagenária tia de Joana, embora temerosa, concedeu em me mostrar rapidamente uma carta escrita por Braga e endereçada a Duras. Fiquei tão nervosa com o inusitado da coisa que a vista embaçou e não consegui reter todas as palavras, mas lembro de algumas frases — embora não possa atestar sua veracidade, muito contaminada pela emoção. Logo ao sair, anotei num papel qualquer o que pude lembrar.

Havia passagens assim: “E por ser impessoal e não ter pressa nem rumo, por ter um capote e sapatos grossos e por andar entre meus desconhecidos irmãos, eu me senti mais livre. E cumpri os ritos da multidão, comprei meu jornal, tomei meu café, li o placar das últimas notícias, fiquei um instante distraído mirando os frangos que giravam se tostando numa rotisseria”. E esta outra: “Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por quê, para quê, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?”. Ou ainda, e aqui, creio que ele assentia em tomar parte da empreitada com ela: “Eu disse apenas, humilde: ‘Prometo’. E então pela primeira vez em muitos e muitos anos de longas noites, eu pude adormecer sorrindo, porque meu coração era puro como o de um menino”.

Não coube a Braga nem a Duras legar essa história à posteridade. Para Duras, deve ter se tratado de mais um entre tantos que tiveram a alegria passageira de participar dessa operação. Para Braga, depois de tudo o que ele já havia testemunhado na Itália, tantos gestos nobres por meninos bem mais jovens do que ele, não se tratava de algo a ser relatado ou de que se gabar. Mas para a tia de Joana e para mim, que não temos sapatos grossos nem um capote, e que não andamos entre desconhecidos irmãos, Rubem Braga nos fez sentir mais livres, um pouco que seja.
Noemi Jaffe, "Não está mais aqui quem falou"

Atividades noturnas


Ah! esses vizinhos habilidosos que estão sempre consertando coisas, martelando coisas, nas horas mais insólitas, enquanto eu me acho entregue apenas a este silencioso vício: a leitura.
Mario Quintana, "Caderno H"

Sem comunicação

O menino parece estar voltando da escola e aparenta cansaço. Não tira o capuz da cabeça, embora não esteja frio. Parece entediado e sonolento. Ocupa um dos assentos do ônibus que percorre o centro e segue para o morro, onde parece morar e talvez ainda tenha que enfrentar a escadaria com a mochila nas costas.

É dos poucos que não usa o celular. Os demais passageiros ignoram sua presença discreta de roupas simples, fazendo supor que não possui o viciante aparelho. Nem a mãe, sentada um banco à frente com o bebê nos braços. Quando ela se prepara para descer sem olhar para trás, ele a acompanha, ajudando a levar a sacola.

Um garoto sem sorrisos nem brilho no olhar, como tantos que encontro por aí. A quem não lhe dirigem a palavra, muito menos, afagos. Tem mãos bonitas, quem sabe se torne um pianista, se a sorte ajudar. Ou as ocupe no teclado do celular, quando tiver acesso a algum. Por enquanto, é quase uma sombra…

Na sala de espera do laboratório, a jovem esposa retorna do exame e chama o marido pelo nome, mas ele está distraído com o celular. A moça precisa percorrer as cadeiras em fila, para tocar em seu braço. Ele reage levantando, sem tirar os olhos da telinha ou perguntar como foi a consulta.

Ela desce a escada na frente, ele a segue vagarosamente, ainda conectado ao telefone. Não há comunicação verbal entre eles. E talvez sigam assim, em paralelas, até o caminho de casa, até o resto de suas vidas, que sei eu?
Madô Martins

domingo, outubro 15

Porta de livraria

 


A volta do guerreiro

Os homens que voltaram da guerra traziam feridas e pesadelos. Encontraram suas amadas indiferentes. Passara tanto tempo que algumas nem se lembravam deles, e muitas tinham estabelecido novos amores.

Uma, entretanto, permaneceu lembrada e fiel, e atirou-se com fúria passional aos braços do ex-guerreiro. Ele a repeliu, dizendo:

― Não quero mais ver a guerra diante de mim.

― Eu não sou a guerra, sou o amor, querido ― respondeu-lhe a mulher, assustada.

― Você é a imagem da guerra, você me agarrou como o inimigo na luta corpo a corpo, eu não quero saber de você.

― Então farei carícias lentas e suaves.

― O inimigo também passa a mão de leve pelo corpo do soldado caído, para tirar o que houver no uniforme.

― Ficarei quieta, não farei nada.

― Não fazer nada é a atitude mais suspeita e mais perigosa do inimigo, que nos observa para nos atacar à traição.

Separaram-se para sempre.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"

Cesariny, Rock Star

Mário Cesariny tinha jeito de uma autêntica estrela rock da poesia nacional. Talvez a única. Certamente a única que assinou uma obra de tão extrema qualidade nunca se prejudicando pela excentricidade ou exagero do aparato teatral que montava pessoalmente.

Claro que era porque nos comovia com os seus poemas, mas que pudesse conseguir aquela profundidade e, ao mesmo tempo, se mantivesse como um espírito terrível, indisciplinado e exercendo o surrealismo contra toda a hipocrisia, era o que aumentava o fascínio. Mário Cesariny tinha jeito de uma autêntica estrela rock da poesia nacional. Talvez a única. Certamente a única que assinou uma obra de tão extrema qualidade nunca se prejudicando pela excentricidade ou exagero do aparato teatral que montava pessoalmente.

Tinha pouca paciência para eventos formais, já não queria entrevistas, gostava, contudo, de companhia. Divertia-se com as pessoas, queria ser visitado e falava em sair para jantar ou revisitar algum lugar que mostrasse pintura. Estava sempre a falar de gatos e também se relacionava com algumas pequenas pinturas em seu quarto como se fossem gatos. Eram companhia. Havia uma obra de Vieira da Silva e ele admirava-a com orgulho. Mostrava-a como alguém evidenciando a virtude dos filhos ou o garbo de um rosto mais belo. Na confusão barroca do seu quarto, tudo conspirava em seu redor como todos os objetos lhe fossem afeiçoados.

Fazia parte da sua excentricidade encontrar todas as visitas ali. Deixava-se mesmamente sentado na cama e fumava sorrindo ou rindo de tudo. Dizia que já não escrevia, encontrava escrito, porque tinha acabado de fazer umas colagens em que dispunha palavras. Procurava-as em revistas vulgares e não lhe era muito importante que compusessem grandes versos. Parecia-lhe sobretudo importante que dissessem alguma bizarria e resultassem como elementos de ver na página criada.

Contava que o primeiro-ministro lá passara, ou era o presidente, e que se tornava uma porcaria ter de receber prémios, porque não queria ir à Gulbenkian nem ao Museu Nacional de Arte Antiga. Se ganhara, que lhos viessem entregar ali, no mesmo quarto onde dormia, onde tudo era tumulto, um somatório material de sua vida, como se cada coisa ambicionasse a fusão com seu próprio corpo. Coroado ou constrangido por seus objetos, Cesariny criava-me a impressão de se metamorfosear. Era um velho homem mutante cujos versos podiam ser alguns dos mais belos versos que a nossa Língua alguma vez conheceu.

Falava por sumários. Tinha uma espécie de reserva arquivada para cada assunto, e quem lhe voltasse a perguntar, diria exatamente o mesmo. Já não elaborava, não precisava de esconder coisa alguma, era frontal e usava o que lhe interessava lembrar. Respondia invariavelmente que o melhor de todos eles era o António Maria Lisboa. Mas a impressão com que fiquei foi sempre a de uma paixão que não tinha que ver expressamente com a poesia. Curiosamente, o Cruzeiro Seixas tinha por Maria Lisboa o mesmo suspiro. Morrera-lhes o mais encantado dos escolhidos. Talvez parte do encanto viesse de não estar ali e não ter assistido à peripécia heróica da vida de alguns deles. Não estava mais, podia também significar que se tinha furtado a tanto engodo, tanta zanga e verso que, afinal, não impediram que todos envelhecessem e se vissem como animais magoados. Debilitados com suas medicações na mão para resistir a mais um dia.

Cesariny, de todo o modo, não citava constantemente. Era sucinto, portava-se como se tudo lhe roubasse a atenção e mudasse a direção a cada par de segundos. Para o acompanharmos, tínhamos de ir à aventura. Jamais saberíamos o ponto de chegada. Era demasiado à sorte e também porque gostava de não ter consequência. Mas nada era um disparate. Tudo servia para catar beleza, notar o deslumbre, ficar grato para mais um instante em que se confirmava a simples existência de uma moça ou um moço bonitos. Um luz qualquer do céu. Os saltos dos bichos pelas ruas. Os pássaros que por vezes vinham perto. Como nos filmes, divertia-se a gostar dessas coisas. E achava certamente burro que nós, mais novos, não falássemos dessas coisas também.

De tudo quanto lhe reconheço, o que mais me enternecia era a forma como atirava para os outros qualquer lisonja. Tratado como um génio, constantemente adorado e celebrado, talvez soubesse tão perfeitamente o seu valor que não precisasse de ser ele a afirmá-lo. Elogiava os outros. Usava qualquer coisa que lhe disséssemos para evocar outro nome, repartindo ou atribuindo o mérito por inteiro a outro artista, outro criador. Neste sentido, a figura jocosa que criava, um certo gozão imparável, não passava como reclamando o lugar do nobre. Muito ao contrário. A sua natureza era periférica, de contra-poder, de contra-cultura, aburguesava o elementar para o corpo, mas jamais a consciência. No que respeita à consciência, preferia estar livre até da bajulação, livre da glória. Queria ser um homem de visões fortes, paixões fortes, preferia dizer foder do que dizer bom dia.

Italo Calvino: em centenário, autor passa no 'teste de clássicos' que ele mesmo criou

Numa conversa com estudantes em maio de 1983, o escritor Italo Calvino (1923-1985) ouviu a seguinte pergunta: “Você tem uma arma secreta para alcançar o sucesso?”. A pergunta fazia sentido. O italiano era celebraddiga o em todo o planeta por joias literárias como “Cidades invisíveis” e “Se um viajante numa noite de inverno”. “Não é questão de sucesso”, respondeu o escritor, que completaria cem anos neste dia 15 de outubro. “Penso sempre em escrever algo que tenha um significado e que se insira naquilo que é o desenvolvimento da literatura moderna”, disse. Conhecido pela modéstia, talvez ele não tivesse (ou revelasse) o segredo do sucesso, mas sem dúvida contribuiu um bocado para o desenvolvimento da literatura moderna.

Calvino é um clássico, de acordo com as definições que ele próprio apresentou no ensaio “Por que ler os clássicos” (1981). Deixou ali duas máximas inquestionáveis: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer” e “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo...’”. Calvino, ele mesmo, certamente ainda tem muito a dizer — e ser relido.

E nada como um centenário para incentivar a releitura de um autor. Nessas efemérides, reedições costumam se multiplicar pelas livrarias. A Companhia das Letras, que edita a obra completa do italiano no país, já lançou três: “Todas as cosmicômicas”, “Se um viajante numa noite de inverno” e “Por que ler os clássicos”. E promete mais uma para 2024: a trilogia “Os nossos antepassados” (formada pelos romances “O visconde partido ao meio”, “O barão nas árvores” e “O cavaleiro inexistente”).


Amanhã, saem dois audiolivros: “As cidades invisíveis” e “Se um viajante...”, narrados respectivamente por Dan Stulbach e Antônio Fagundes (que é leitor de Calvino desde o início da publicação do autor no Brasil, na década de 1980).

— Conheci Calvino através da trilogia “Os nossos antepassados”. Mesmo que ele não tivesse escrito mais nada, para mim, já seria um clássico — afirma Fagundes. — É como ele mesmo disse: “Ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos”.

Mas não é só com reedições que se comemora o centenário de um clássico. Quatro títulos do italiano até agora inéditos no Brasil acabam de ser publicados: “Nasci na América...”, reunião de 101 entrevistas do autor (que nasceu em Santiago de Las Vegas, em Cuba, e viveu na Itália a partir dos 2 anos); “Um otimista na América” (relatos de sua temporada nos Estados Unidos, entre 1959 e 1960, quando se apaixonou por Nova York, ouviu discursos de Martin Luther King Jr. e não viu graça nenhuma nos beatniks); e duas antologias de contos: “Por último vem o corvo” (1949) e “A entrada na guerra” (1954). Ambas recuperam a experiência do autor durante a Segunda Guerra Mundial, quando se engajou na Resistência italiana e, depois, no Partido Comunista.

Autobiográficas, as histórias de “A entrada na guerra” expressam uma crítica moral ao fascismo. Calvino denuncia o desprezo dos patriotas pelos refugiados, a infantilidade de Mussolini e a vulgaridade de seus seguidores.

Professor da USP e tradutor do italiano, Maurício Santana Dias explica que esses contos memorialísticos pertencem à primeira fase de autor, mais realista, antes que ele abraçasse o experimentalismo que resultou em obras-primas como “Se um viajante...”, romance que é protagonizado por um “Leitor” à procura de um livro que tem dez começos diferentes, um de cada gênero literário. As narrativas da juventude, diz o especialista, já davam indícios dos mundos fabulosos que ele seria capaz de criar.

— No conto “Por último vem o corvo” aparece um jovenzinho com uma pontaria absurda. A atmosfera não chega a ser fantástica, mas há um estranhamento, um tom lúdico — afirma o professor, que traduziu e organizou uma seleta de cartas do italiano, a ser publicada no ano que vem. — Há uma motivação política por trás dessa primeira ficção, que é mostrar a miséria do fascismo. Mas Calvino escolhe narrar da perspectiva de jovens, de adolescentes, o que permite um distanciamento crítico e uma ironia muito autoconsciente, que não atrapalham a fruição do leitor.

Na USP, Dias oferece uma disciplina intitulada “Italo Calvino e outros narradores do século XX”, bastante procurada pelos alunos.

O italiano também está entre os preferidos de escritores brasileiros contemporâneos. O professor Uzzi-Tuzzi, personagem de “Se um viajante...”, por exemplo, faz até uma ponta no romance “O vilarejo”, de Raphael Montes. Autora de “A verdadeira história do alfabeto”, Noemi Jaffe tampouco esconde a influência de Calvino. Ela descobriu o escritor nos anos 1980, quando topou com a trilogia “Os nossos antepassados” (elogiada com fervor por todos ouvidos para esta reportagem). “O visconde partido ao meio” é sobre um aristocrata que é metade bom e metade ruim (e inteiramente insuportável). Em “O barão nas árvores”, um outro aristocrata escolhe observar a vida longe do chão, da copa de carvalhos, olmos e oliveiras. E “O cavaleiro inexistente” é protagonizado por uma armadura vazia (sem ninguém dentro), que, não obstante, comporta-se como soldado exemplar.

— Você lê “O cavaleiro inexistente” e morre de rir. É uma alegoria daquelas pessoas que não têm existência própria, mas vivem para a obediência e a submissão. Em outro livro que eu adoro, “O dia de um escrutinador”, sobre um militante comunista que fiscaliza uma eleição, fica evidente o quanto Calvino combatia a obediência cega, que caracterizou o regime de Mussolini — diz Noemi. — Ele é um clássico por definição, capaz de fazer uma combinação muito rara de clareza e erudição e de levantar questões políticas recorrendo ao absurdo e à imaginação, como se escrevesse contos de fadas.

O escritor Ricardo Lísias, que vem relendo Calvino e compartilhando suas impressões nas redes sociais, descreve o italiano como um “clássico incontornável”. Ele lembra que as “Seis propostas para o próximo milênio” (leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência), anunciadas pelo autor em 1984, continuam na ordem no dia. E destaca a habilidade do italiano de conjugar lucidez e humor.

— Calvino tem textos muito engraçados, mas é um humor ácido. Você lê e pensa: “como eu posso estar rindo disso?”. Causa um certo embaraço, que leva à reflexão. Às vezes, o humor muito ácido pode despolitizar, mas isso não acontece em Calvino. Ele faz graça com profundidade — diz o autor de “Divórcio”. — Por exemplo: “Marcovaldo” é um romance sobre um operário que só tem olhos para a natureza. Ele é um sujeito completamente avoado, mas agora, com ondas históricas de calor no inverno, parece que ele tinha razão.

Certa vez o italiano escreveu que um clássico “tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo”.

Autora de “Cara paz” (Nós, 2023), a italiana Lisa Ginzburg acredita que Calvino seria o melhor candidato para dar tratamento literário ao “barulho de fundo” mais ensurdecedor de nossos dias: a “angústia” causada pelas mudanças climáticas. Textos de juventude, como “A formiga argentina” e os contos de “Por último vem o corvo”, mostram um autor consciente do “poder absoluto” da natureza, diz ela.

Calvino era filho de um agrônomo e de uma botânica e chegou a iniciar o curso de agronomia. “A salvação da natureza é uma questão da civilização”, afirmou em uma entrevista.

Lisa gosta sobretudo das primeiras obras de Calvino, escritas sob o impacto da guerra, nas quais irrompe o lado mais “emocional” do autor, que depois passou a escrever de “cabeça fria” e desenvolveu uma “capacidade quase geométrica” de fabulação literária.

Ela o chama de “o mais lúcido” dos escritores italianos. E fala com propriedade, pois nasceu em uma família conhecida pela lucidez: é filha do historiador Carlo Ginzburg e neta da romancista Natalia Ginzburg, que trabalhou com Calvino na editora Einaudi. Ainda menina, ela o encontrou algumas vezes na casa da avó.

— Calvino era muito tímido. Mas as crianças amam pessoas tímidas — recorda ela, hoje com 56 anos. — Era muito agradável e íntegro. Nunca quis o sucesso fácil. Tenho a impressão de que escolhia muito bem o que amava.

sexta-feira, outubro 13

Embalando livros para transporte

 


O vento

O único da casa que enxerga o vento é o cachorro. Detém-se à porta da cozinha, rosnando para o pátio ventado, cheio de latas inquietas e papéis decididamente malucos.

E nos seus olhos fixos e rancorosos vê-se o desvario do vento, a incurabilidade do vento, os seus cabelos em corrupio, os seus braços que parecem mil, os seus trapos flutuantes de espantalho, toda aquela agitação sem causa e que é ainda menos instável, no entretanto, que a terrível desordem de sua cabeça: pois o vento nunca pode assentar suas ideias...

Mário Quintana

Os carros automáticos

Sentamos no banco embaixo do velho carvalho. Dali dava para avistar toda a extensão do pequeno lago e a rodovia particular que tínhamos do lado oposto. Era um dia quente, os carros estavam do lado de fora, distraindo-se – uns trinta deles, pelo menos. Mesmo a distância eu podia ver que Jeremiah estava entregue à sua brincadeira de costume, acompanhando em marcha lenta um dos modelos mais sérios, mais antigos, e de repente arrancando em plena potência, cantando pneus e o ultrapassando com estridência em questão de segundos. Há duas semanas ele tinha assustado o velho Angus, fazendo-o perder a direção e sair do asfalto; aí tive que desligar seu motor por dois dias.

Pelo que vejo agora, não adiantou muito; parece que não há nada a fazer. Jeremiah é um desses modelos esportivos, eles são assim mesmo, dão o maior trabalho.

- Muito bem, Sr. Gellhorn – falei. – Quais são as informações que deseja?

Mas o cara estava distraído, olhando em redor.

- Que lugar fantástico, Sr. Folkers.

- Pode me chamar de Jake. Todo mundo chama.

- Ok, Jake. Quantos carros você tem aqui?

- Cinquenta e um. Todo ano chegam mais um ou dois. Houve um ano em que vieram cinco. Até agora não perdemos nenhum. Estão todos funcionando perfeitamente. Temos até mesmo um Mat-O-Mot de 2015 em perfeito funcionamento. Um dos primeiros automáticos. Foi o primeiro carro que trouxemos para cá.

O velho Matthew. Agora ele costumava ficar na garagem a maior parte do dia, afinal de contas ele era o avô de todos os carros positrônicos. Da época em que os carros automáticos eram utilizados apenas por veteranos de guerra, paraplégicos e chefe de Estado. Mas naquela época Samson Harridge era meu patrão, ele era rico o bastante para ter um carro automático. Eu era seu chofer.

Pensar naquilo fez com que me sentisse velho. Sou do tempo em que não existia um único automóvel no mundo capaz de encontrar sozinho o caminho de casa. Já dirigi umas coisas enormes e desajeitadas cujo motorista não podia tirar as mãos do volante por um só momento. Monstrengos desse tipo matavam dezenas de milhares de pessoas todo ano.


Os automáticos resolveram esse problema. Um cérebro positrônico pode reagir muito mais rápido do que um cérebro humano, claro, e as pessoas não tinham que manter as mãos nos controles o tempo inteiro. Sentavam ao volante, digitavam as instruções sobre o trajeto e o carro fazia o resto sozinho.

Hoje em dia todo mundo já está acostumado, mas eu me lembro de quando surgiram as primeiras leis retirando das autoestradas os carros velhos e só autorizando viagens em carros automáticos. Deus do céu, que balbúrdia. Disseram que isso era fascismo, que era comunismo, mas o fato é que as estradas ficaram muito mais tranquilas e as mortes por acidentes pararam como por encanto; um número muito maior de pessoas passou a viajar com muito mais segurança.

Claro que os automáticos eram de dez a cem vezes mais caros do que os carros manuais, e não havia muita gente que pudesse pagar esse preço. A indústria começou a derivar para a produção de ônibus automáticos. A qualquer momento você podia chamar uma empresa e em poucos minutos ter um desses ônibus à sua porta, indo na direção que você queria. Você tinha que viajar ao lado de outras pessoas que iam para o mesmo lado, mas qual era o problema?

Samson Harridge, no entanto, tinha um automóvel particular, e eu fui contra ele desde o instante em que o vi. Naquele tempo, eu não via o tal carro como “Matthew”, não podia imaginar que ele se tornaria no futuro o decano de nossa Fazenda. A única coisa que eu sabia era que aquele carro ia me jogar no desemprego, por isto o odiei.

Falei:

- Bem, acho que não vai mais precisar de mim, Sr. Harridge.

- Ora, Jake, que bobagem está me dizendo? – foi a resposta dele. – Você não está pensando que vou deixar essa geringonça tomar conta de mim, não é mesmo? Você é quem vai ficar ao volante.

Eu falei:

- Mas esse carro funciona sozinho, Sr. Harridge. Ele capta e analisa a imagem da estrada, evita os obstáculos, sejam eles carros ou pedestres, e arquiva os trajetos na memória.

- Sim, é o que dizem. Mesmo assim, prefiro que você esteja sentado ao volante, no caso de alguma coisa não correr bem.

É engraçado como a gente pode chegar a se afeiçoar a um carro. De um dia para o outro eu já o tinha batizado de Matthew e passava a maior parte do tempo dando polimento nele, checando o motor. Um cérebro positrônico funciona melhor quando está em contato permanente com o seu “corpo”, ou seja, o chassi, de modo que ajuda bastante se a gente mantiver o tanque cheio para que o motor possa ficar ligado dia e noite. Depois de algum tempo acostumei-me tanto àquilo que bastava ouvir o som do motor para saber como Matthew estava se sentindo.

O Sr. Harridge também gostava muito de Matthew, ao seu modo. Ele não tinha ninguém mais para gostar. Tinha ficado sem três esposas, através da viuvez ou do divórcio; e acabou vivendo mais tempo do que cinco filhos e três netos. Desse modo, quando morreu não foi surpresa para ninguém que ele fizesse converter suas propriedades numa Fazenda para Automóveis Aposentados, onde eu era o curador e Matthew o primeiro membro de uma família que viria a se tornar ilustre.

Minha vida passou a ser apenas isso. Nunca me casei. Você não pode ser casado e ao mesmo tempo se dedicar a carros automáticos de uma maneira adequada.
Isaac Asimov, "Sonhos de Robô"

A cada releitura, um livro novo

Eu também sinto a necessidade de reler os livros que já li - diz um terceiro leitor -, mas em cada releitura parece-me ler pela primeira vez um livro novo. Serei eu que continuo a mudar e vejo coisas novas que antes não tinha notado? Ou a leitura é uma construção que ganha forma juntando um grande número de variáveis e não se pode repetir duas vezes de acordo com o mesmo desenho? Sempre que tento reviver a emoção de uma leitura anterior, obtenho impressões diferentes e inesperadas, e não reencontro as anteriores. Em certas alturas parece-me que entre uma leitura e outra existe um progresso: no sentido por exemplo de penetrar mais no espírito do texto, ou de aumentar a distanciação crítica. Noutras alturas em contrapartida parece-me conservar a lembrança das leituras do mesmo livro uma junto da outra, entusiásticas ou frias ou hostis, dispersas no tempo sem uma perspectiva, sem um fio que as una. A conclusão a que cheguei é de que a leitura é uma operação, sem objeto; ou que o seu verdadeiro objeto é ela própria. O livro é um suporte acessório ou inclusivamente um pretexto.

Italo Calvino, "Se numa noite de inverno um viajante"

O travesseiro de pena

Sua lua-de-mel foi um longo arrepio. Loura, angelical e tímida, o temperamento rude de seu marido enregelou seus sonhos infantis de noiva. Amava-o muito, entretanto, às vezes com um leve estremecimento quando, voltando à noite juntos pela rua, lançava um olhar furtivo à alta estatura de Jordán, silencioso já há uma hora. Ele, por sua vez, a amava profundamente, sem revelar seu amor.
Durante três meses — casaram-se em abril — viveram uma felicidade toda especial.

Ela sem dúvida desejaria menos rigidez naquele austero céu de amor, uma ternura mais atrevida e expansiva, mas o impassível semblante do marido sempre a continha.

A casa em que viviam influía um pouco em seus tremores. A brancura do pátio silencioso — frisos, colunas e estátuas de mármore — produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Dentro, o brilho glacial do gesso, sem o mais leve arranhão nas altas paredes, acentuava aquela sensação de frio desagradável. Ao passar de um cômodo a outro, os passos ecoavam por toda a casa, como se um longo abandono tivesse acentuado sua ressonância.

Nesse espantoso ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Entretanto, acabou por lançar um véu sobre seus antigos sonhos e vivia entorpecida na casa hostil, sem querer pensar em coisa alguma até que chegasse o marido.
Não era estranho que emagrecesse. Contraiu uma leve gripe que se arrastou insidiosa por dias e dias; Alicia não se recuperava. Finalmente, uma tarde pôde ir ao jardim apoiada no braço do marido. Olhava indiferente de um lado para outro. De repente, com profunda ternura, Jordán passou-lhe a mão na cabeça, e Alicia imediatamente começou a soluçar, envolvendo-lhe o pescoço com os braços. Chorou longamente todo o seu medo silencioso, redobrando o pranto à menor tentativa de carícia. Então os soluços foram rareando e ela ficou ainda por algum tempo escondida em seu colo, sem se mexer ou falar.

Foi esse o último dia que Alicia passou de pé. No dia seguinte amanheceu desfalecida. O médico de Jordán examinou-a com todo o cuidado, ordenando-lhe calma e descanso absolutos.

-- Não sei — disse a Jordán na porta da casa, com a voz ainda baixa. _ Ela sofre de uma grande debilidade que não consigo explicar, e sem vômitos, nada... Se amanhã acordar como hoje, me chame imediatamente.

No dia seguinte, Alicia continuava a piorar. Nova consulta. Constatou-se uma anemia de evolução agudíssima, completamente inexplicável. Alicia não sofreu outros desmaios, mas estava visivelmente a caminho da morte. Durante todo o dia o quarto esteve com as luzes acesas e em total silêncio. Passavam-se horas sem que se ouvisse qualquer ruído. Alicia dormitava. Jordán praticamente vivia na sala. Também com todas as luzes acesas. Andava sem parar de um extremo a outro, com incansável obstinação. O tapete abafava seus passos. De vez em quando, entrava no quarto e continuava seu mudo vaivém ao lado da cama. Olhando para a mulher sempre que caminhava na sua direção.

Logo Alicia começou a ter alucinações, confusas e nebulosas no início, e que logo desceram ao nível do chão. A jovem, olhos esbugalhados, só fazia olhar para o tapete dos dois lados da cabeceira da cama. Uma noite, parou de repente com o olhar fixo. Imediatamente abriu a boca para gritar e suas narinas e lábios se cobriram de suor.

- Jordán! Jordán! — gritou, tensa de espanto, sem parar de olhar para o tapete.
Jordán correu para o quarto e, ao vê-lo, Alícia deu um grito de horror.

- Sou eu, Alícia, sou eu!
Alícia olhou-o aturdida, olhou para o tapete, olhou de novo para ele e, depois de um longo momento de perplexa comparação, acalmou-se. Sorriu e tomou entre as suas à mão do marido, acariciando-a tremendo.

Entre suas alucinações mais frequentes havia um macaco, apoiado no tapete sobre os dedos, que mantinha os olhos fixos nela.

Os médicos voltaram inutilmente. Ali estava, diante deles, uma vida que se acabava, definhando dia a dia, hora a hora, sem que se soubesse como.
Na última consulta, Alicia jazia em estupor enquanto eles lhe tomavam o pulso, passando uns aos outros o punho inerte. Observaram-na por muito tempo em silêncio e se dirigiram à sala de jantar.

- Xi... - ergueu os ombros o médico, desanimado. É um caso sério... quase nada a fazer...

- Era só o que me faltava! — grunhiu Jordán. E tamborilou bruscamente sobre a mesa.

Alicia foi se extinguindo em seu delírio de anemia, agravado à tarde, mas que sempre cedia nas primeiras horas. Durante o dia sua enfermidade não avançava, mas todas as manhãs amanhecia lívida, quase em síncope. Parecia que durante a noite se lhe esvaía a vida em novas ondas de sangue. Tinha sempre ao despertar a sensação de estar derrubada na cama com um milhão de quilos por cima. A partir do terceiro dia esse desmoronamento não mais a abandonou. Mal conseguia mover a cabeça. Não quis que tocassem na cama, nem que lhe arrumassem o travesseiro. Seus terrores crepusculares avançaram em forma de monstros que se arrastavam até a cama e subiam com dificuldade pela colcha.


Logo perdeu a razão. Nos dois dias finais delirou sem parar, a meia voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. No silêncio agonizante da casa, nada se ouvia além do delírio monótono que saía da cama e do ruído abafado dos eternos passos de Jordán.

Finalmente morreu. A criada, que entrou depois para desfazer a cama, já vazia, olhou surpresa para o travesseiro.

-- Senhor! — chamou Jordán em voz baixa. – No travesseiro há manchas que parecem de sangue.

Jordán aproximou-se rapidamente e se inclinou por sua vez. De fato, sobre a fronha, em ambos os lados do buraco deixado pela cabeça de Alicia, viam-se manchinhas escuras.

-- Parecem picadas — murmurou a criada depois de um instante de imóvel observação.

-- Levante-o perto da luz — disse-lhe Jordán.

A criada levantou-o, mas logo o deixou cair e ficou olhando para aquilo, lívida e tremendo. Sem saber por quê, Jordán sentiu que seus pelos se eriçavam.

- O que há? — murmurou com voz rouca.

- Está muito pesado — balbuciou a criada, sem parar de tremer. Jordán levantou-o; estava pesadíssimo. Saíram com ele e, sobre a mesa de jantar, Jordán cortou fronha e capa de um só golpe. As penas superiores voaram e a criada deu um grito de horror com a boca muito aberta, levando à cabeça as mãos crispadas: no fundo, entre as penas, movendo lentamente as patas peludas, havia um animal monstruoso, uma bola viva e viscosa. Estava tão inchado que mal se distinguia sua boca.

Noite após noite, desde que Alicia caíra de cama, aplicara secretamente sua boca, sua tromba, melhor dizendo — às têmporas da moça, chupando-lhe o sangue. A picada era quase imperceptível. A remoção diária do travesseiro sem dúvida impedira seu crescimento, mas desde que a jovem deixou de se mover, a sucção foi vertiginosa. Em cinco dias, em cinco noites, esvaziara Alícia.

Esses parasitas das aves, diminutos em seu habitat natural, chegam a adquirir, em determinadas condições, proporções enormes. O sangue humano lhes parece ser especialmente favorável, e não é raro encontrá-los em travesseiros de penas.

Horácio Quiroga, “Os Melhores Contos de Medo, Horror e Morte”

terça-feira, outubro 10

Formação do homem


 

Espera para nada

Um silêncio estranho reinava sobre a aldeia. Naquela época do ano havia muito a ser recolhido na praia, mas não havia ninguém à vista na areia. Mesmo as crianças sentiam o humor dos adultos e não estavam brincando e correndo pela trilha. Depois de esconder todo o arroz e as outras coisas nas montanhas, os habitantes da aldeia passaram os dias enfurnados em casa, contendo a respiração. A mãe de Isaku cuidou dos ferimentos enquanto secava grãos vindos da outra aldeia ou tecia panos no tear.

Isaku passou o tempo reparando seu material de pesca, e ocasionalmente olhava pela porta dos fundos para a trilha que seguia até a aldeia vizinha, ou para o mar. Se os homens da agência de transporte viessem, seria ou pelo passo nas montanhas ou de barco pela costa. Tinham falado em colocar vigias perto do passo e nos promontórios, mas desistiram da ideia porque, como alguém observara, se eles percebessem os vigias, isso iria levantar suspeitas.

Isaku ouviu os homens da aldeia discutindo como seria a punição. Ficou aterrorizado. Falaram sobre pessoas sendo chicoteadas, depois arrastadas e puxadas por uma corda e então crucificadas de cabeça para baixo e espetadas com lanças até as entranhas caírem. Falaram sobre pessoas sendo cortadas com uma serra antes de ser crucificadas. Se descobrissem que tinham roubado a carga de um navio e espancado o capitão até matá-lo, sem dúvida o destino de todos seria similar a isso.

Apenas uma trilha levava para fora da aldeia, e para chegar à aldeia vizinha era preciso seguir as trilhas mais estreitas cortadas no coração das montanhas, passando por um vale e picos pelo caminho. Isaku havia ido até a aldeia vizinha pela primeira vez quando seu pai partira para a servidão, e a sensação de poder que lhe causara fora suficiente para deixá-lo zonzo. Fileiras de casas e lojas vendendo todo tipo de coisa, assim como construções de dois andares para acomodar viajantes. As ruas eram cheias de gente, e ele vira coisas das quais tinha apenas ouvido falar mas nunca vira antes, tais como um boi, que passara diante dele com carga amarrada nas costas. No porto ele vira navios de carga e de barcos de pesca. Não parara de se mover por um segundo, olhando tudo de forma incansável, até ficar exausto.

Tinham passado apenas uma noite no chão de terra da casa do intermediário, mas Isaku nunca iria se esquecer da sublime tranquilidade que experimentara quando atravessara novamente o passo nas montanhas e avistara as casas de sua aldeia lá embaixo. Estava certo de que nunca poderia viver em outro lugar que não fosse aquele.

No momento em que ouviu dizer que os agentes da transportadora estavam procurando um navio desaparecido, a aldeia vizinha passou a representar para Isaku tudo que era misterioso e assustador. A vila vizinha ficava localizada na mesma ilha e pertencia à vasta extensão de terra do outro lado do mar. Cada aldeia tinha seu próprio código de leis, passado adiante através das eras.

Raro como era, via-se o aparecimento de O-fune-sama sob a mesma luz dos inesperados cardumes de peixes que às vezes apareciam perto da costa, ou quantidades especialmente grandes de cogumelos ou legumes da montanha encontrados na floresta. O-fune-sama era parte dos presentes oferecidos pelo mar, e seu aparecimento acabara de salvar as pessoas da aldeia da fome. Para a aldeia de Isaku, o naufrágio de O-fune-sama era a coisa mais alegre possível, mas para outras pessoas, em outros lugares, tais como a aldeia vizinha, era algo ruim e que merecia a punição máxima. Mas se O-fune-sama não abençoasse sua praia, a aldeia havia muito teria deixado de existir, e a baía não seria mais que uma área de mar rodeada por pedras. Seus ancestrais haviam vivido ali, e eles, por sua vez, só podiam sobreviver graças a O-fune-sama.

Diziam que as almas dos mortos da aldeia iam para longe pelo mar e que, com o tempo, voltariam para encontrar abrigo no útero de uma mulher grávida. Não havia nenhum lugar para onde elas poderiam retornar além da aldeia. Se retornassem para um lugar onde as regras fossem diferentes, onde eventos festivos fossem considerados crimes, o resultado não seria bom. Se Isaku viesse a constituir sua própria família, sabia que teria de ir até a aldeia vizinha vender sal e outras coisas, mas estava determinado a evitar tais viagens. Queria permanecer na segurança da aldeia onde seguiam princípios fixos de como viver.

Às vezes ele pensava sobre sua própria morte. Seu corpo sendo queimado e os ossos enterrados no chão, sua alma deixando a aldeia e seguindo por cima da água, realizando uma longa jornada antes de alcançar o lugar longínquo no mar onde as almas dos outros mortos da aldeia estariam esperando. Os espíritos tinham uma moradia no fundo do mar onde tudo era claro e brilhante. Densos campos de algas marinhas balançavam como bosques de árvores, e todo tipo de mariscos e outras conchas coloridas se agarravam às pedras, brilhando como madrepérola.

Cardumes de peixes pequenos, as escamas prateadas brilhando enquanto nadavam., viravam ao mesmo tempo quando o líder mudava de direção, da mesma forma que um grupo de flocos de neve dançando no ar.

O fundo do mar era sempre calmo e a temperatura da água não mudava. As almas mortas pareciam águas-vivas em suas vestes transparentes, e tinham um brilho saudável nos cabelos. Sempre sorriam e nunca eram admoestados. Estavam no estado de profunda serenidade induzido pela morte. Ali ele viu a avó, de quem tinha apenas uma vaga lembrança, e Teru, sua irmãzinha que morrera dois anos antes. As pessoas mais atrás deviam ser seus ancestrais.

Ele se moveu até eles e parou junto de Teru. Antes que se desse conta, ele também foi envolto em vestes transparentes, e sua face tinha sempre um sorriso gentil. Ele se sentiu agradavelmente aquecido dentro daquela roupa.

Às vezes, alguns espíritos se afastavam, levados por aqueles que tinham ficado para trás. Eram as almas voltando para a aldeia para reencarnar no útero através da união sexual de um homem e uma mulher. E quando a reencarnação ocorreria? Muito provavelmente, um longo tempo depois da morte.

Ele não tinha dúvidas de que ele, também, era um espírito reencarnado no útero de sua mãe. Acreditava que a moradia das almas mortas lá longe no mar não era apenas imaginação, mas algo que podia visualizar tão claramente porque se tratava de um lugar do qual ele uma vez fizera parte.

Não tinha medo de morrer, especialmente porque acreditava que havia um lugar onde se vivia em paz depois da morte. Mas, se fosse levado para longe e morresse em um lugar distante, achava que seria difícil para seu espírito conseguir alcançar o santuário das almas mortas de sua aldeia. Sem dúvida, seu espírito seria condenado a um inferno cheio de almas de estranhos com expressões tristes.

Se os homens da agência de transporte viessem até a aldeia e descobrissem que os habitantes tinham roubado a carga de um navio naufragado, eles seriam presos e mortos, não poderiam saborear a tranquilidade depois da morte. Isaku orou para que os homens da agência de transporte nunca aparecessem.
Akira Yoshimura, "Naufrágios"

Empobrecimento da língua é a ruína do pensamento

O QI médio da população mundial, que sempre aumentou desde o pós-guerra até ao final dos anos 90, diminuiu nos últimos vinte anos. É a inversão do efeito Flynn.

Parece que o nível de inteligência, medido pelos testes, diminui nos países mais desenvolvidos. Pode haver muitas causas para este fenómeno. Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem.

Na verdade, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não é apenas a redução do vocabulário utilizado, mas também as subtilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos.

O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento: incapaz de projeções no tempo.

A simplificação dos tutoriais, o desaparecimento das letras maiúsculas e da pontuação são exemplos de “golpes mortais” na precisão e variedade de expressão.

Apenas um exemplo: eliminar a palavra “signorina/senhorita/mademoiselle” (agora obsoleta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, mas também promover involuntariamente a ideia de que entre uma menina e uma mulher não existem fases intermediárias.

Menos palavras e menos verbos conjugados significam menos capacidade de expressar emoções e menos capacidade de processar um pensamento. Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada decorre diretamente da incapacidade de descrever as emoções em palavras.

Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível.

Quanto mais pobre a linguagem, mais o pensamento desaparece.

A história está cheia de exemplos e muitos livros (George Orwell – “1984”; Ray Bradbury – “Fahrenheit 451”) contam como todos os regimes totalitários sempre atrapalharam o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras.

Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. E não há pensamento sem palavras. Como construir um pensamento hipotético-dedutivo sem o condicional? Como pensar o futuro sem uma conjugação com o futuro? Como é possível captar uma temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e a sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga entre o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia ser, e o que será depois do que pode ter acontecido, realmente aconteceu?

Caros pais e professores: Façamos com que os nossos filhos, os nossos alunos falem, leiam e escrevam. Ensinemos e pratiquemos o idioma nas suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade.

Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem dos seus “defeitos”, abolir géneros, tempos, nuances, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana. Não há liberdade sem necessidade. Não há beleza sem o pensamento da beleza.

Barra limpa

E como as páginas dos jornais estivessem mais sujas de sangue que as que embrulham o peso de carne nos açougues, eu resolvi desligar e buscar um pouco de beleza no mundo. Olhei minha nova casa em torno, toda caiada de branco, modesta em seu recolhimento, e os belos arraiolos no piso de tábuas, e fui espiar meu escritório ainda incompleto, pintado de amarelo-acácia, e vi minha mesa de trabalho com a Smith Corona em posição de sentido e o maço de folhas quadriculadas à minha espera para o artigo, o poema, a canção. À esquerda, o Pequeno dicionário, de mestre Aurélio, o tubo plástico de cola-tudo, a caixa de clipes e o copinho de couro ornado em cobre com as esferográficas e os lápis prontos para tudo. Pedi um café e sentei-me, tomado de grande paz. Vinha daquele ambiente um silêncio tão antigo; aquela casa era a tal ponto a representação de outras em que eu nunca tinha estado - como o reflexo ao infinito de uma imagem num espelho - que eu poderia dizer naquele instante como viviam e pensavam os homens mais remotos no tempo. Foi então que vi, através da janela, a pedra dos Dois Irmãos, na luz pura da manhã na Gávea; e ela estava de tal modo precisa em seus contornos, tão íntegra em sua estrutura milenar, que sorri para ela e ela me correspondeu sensível à onda de percepção que eu irradiava.

Senti como se estivesse nascendo naquele momento. Uma vida nova, passada a limpo, me esperava em direção a um Norte mais nítido, a uma morte mais próxima e sem alternativa. Mas aquela casa me protegia, e dentro dela uma mulher se esforçava por me fazer feliz. Aquelas folhas de papel me esperavam também, intocadas, e era minha obrigação escurecê-las de idéias, histórias, sortilégios capazes, talvez, de fazer alguém parar no seu cotidiano e se pôr a sonhar. Era bela a minha missão. "E sou um poeta", pensei, "um homem dotado de um dom mágico com relação às palavras; a bem dizer, um encantador de palavras, com a habilidade de ordená-las no seu caos e fazê-las significar, torná-las cruéis, pungentes, desesperadas, ou boas, úteis, generosas; com o poder de interpretar para alguém o milagre de um sentimento ignorado; de dar expressão ao inexprimível; de associar idéias, cores, sons aparentemente contrastantes; de emprestar sentido e beleza ao terrível paradoxo da vida..." E senti como nunca dantes a necessidade de uma disciplina física e mental que pudesse ajudar meu corpo a tornar-se cada dia mais apto para usufruir, meu espírito mais lúcido para receber, meu coração mais simples para dar.


Pensei em seres lindos semeados ao longe do meu caminho, que comeram o pão que o diabo amassou, e nem por isso se deixaram envenenar pelo ressentimento; pelo contrário, a cada sofrimento vivido pareciam crescer em consciência, amor e perdão - e como que deles emanava uma paz. Pensei que alguns desses seres já se foram, transpuseram o muro do silêncio, e suas imagens, fixadas na eternidade, continuam a transmitir-me esse recado de perdão. Perdoar... Transcender o efêmero de cada sentimento, de cada ressentimento, e tentar compreender o ser humano em sua fragilidade, em sua transitoriedade e inabilidade intrínseca para demarcar os limites de sua solidão; em sua inútil e permanente mania de viver esbanjando a própria morte: a única coisa de que é realmente possuidor. Ah, que conquista tão bela, a do perdão... - e não o perdão autocomplacente; mas o perdão punitivo, o que responsabiliza aquele que perdoa, como o de Sócrates com seus juízes, o de Cristo com a adúltera, o da mulher que ama com o homem que acabou de traí-la. O amor que transcende.

Que seres difíceis de digerir se tornaram os cosmonautas, em seu mundo mecânico e pasteurizado... Tomara que tenham êxito em sua badalação cósmica, que nos tragam, de preferência, antibióticos contra a guerra e não vírus contra a paz, que possam olhar o espaço invertido, com perdão da palavra, em noite de terra-cheia, e ver também, como nós vemos de cá, o Santo Guerreiro vencendo o Dragão da Maldade - que já não é sem tempo! E sobretudo que ao voltarem - e faço votos do fundo do meu coração - não comecem com muitas explicações cibernéticas quando ouvirem Frank Sinatra ou Ella Fitzgerald cantar velhas baladas como "Blue Moon" e outras do mesmo lunário em louvor da outrora bela e mágica Silene, a que apaixonou Endimião, e a quem tudo o que se pode dizer hoje em dia é que não lhe cairia mal um face peeling. Porque, ou muito me engano, ou uma grande onda romântica deve vir por aí, em contagem regressiva, em reação aos pops & ops, hips & trops, concs & struts, de que já está todo o mundo cheio.

Depois de todas essas considerações, umas pertinentes, outras ímper, peguei meu carro e fui até a Barra, visitar um antigo cosmonauta: meu amigo Zanine. Zanine é um construtor terrestre, no mais amplo sentido da palavra, isto é, não apenas de casas, mas de sua própria vida. Gosta de fazer tudo com as mãos, ou orientando as de seus obreiros como se fossem o prolongamento das suas. Ele ama a terra, a pedra, a areia, a água, o barro cozido, a madeira nua, a cal branca, o ferro batido, a mulher baiana. É um artista no que planeja como visão de conjunto, e um artesão na pureza e simplicidade do que faz - com tudo o que essa palavra contém de beleza e sensualidade. Fórmica com ele não tem vez. Zanine acabou de construir uma bela casa - a sua casa - onde mora com a mulher e a filhinha, a alto cavaleiro do mar: um marzão que é uma bestialidade, povoado de ilhas toscas e peixes ferozes. O crepúsculo que Zanine me ofereceu esse dia, naquele horizonte imenso, era de dar vontade de ter asas. Aliás, voavam por ali tudo balõezinhos de julho, retardatários, que por não serem impulsionados por nenhum foguete - no que muito bem obravam - acabaram por cair no mar, em obediência a uma antiga lei de física, qual seja a da gravidade dos corpos, que, diga-se de passagem, qualquer dia é bem capaz de fazer uma falseta a um desses cosmonautas que teimam em desrespeitá-la.

Para mim não há nada mais inocente que essas revistas pseudo-eróticas que andam por aí. As moças nuas, em off-set, parecem-me de tal modo cândidas, malgrado o esforço em contrário dos fotógrafos, que para mim constituem verdadeiros breves contra a luxúria. Já o mesmo não pode ser dito da natureza: pelo menos tal como ela se me oferecia, ao voltar da Barra. Pois imaginem que ao olhar o céu rubro do crepúsculo (eu diria melhor: ruborizado!) constatei, nada mais, nada menos - veja só! - que a tarde estava com a Lua toda de fora...