quarta-feira, março 26

O caminho

A manhã estava cheia de sol, e eu deixei-me ir indo pela estrada fora. De um lado e outro, os campos verdes jaziam na luz, desenrolados como tapetes imensos que
desaparecessem nos horizontes longínquos sem, contudo, parecerem acabar. Os meus olhos é que já não podiam abrangê-los. Uma arvorezinha direita, fina, com os galhos sem folhas enfeitados de flores cor-de-rosa, recortou-se no azul do céu quase como um desenho. Depois ficou para trás, porque eu ia indo sempre. Quando voltei a cabeça, já não a vi. 


Certamente me adiantara muito, se é que não mudara de estrada. Como, a espaços, me perdia num devaneio que nem por ser vago, sem objeto definível, deixava de ser profundo e absorvente, era isso possível: ter mudado de estrada e não ter dado por tal. Continuava, todavia, por uma estrada perfeitamente semelhante à primeira, se primeira e segunda houvera. Os mesmos campos rasos, verdes, se estendiam extáticos de um lado e outro, e nenhuma árvore voltou a aparecer. Nenhuma árvore, nenhum arbusto. Não soprava a mais leve aragem. Também não passava ninguém. Só o devaneio em que tombava, e que não fitava nada de concreto, me permitiria ir assim avançando por aquela estrada erma,
possivelmente por aquelas estradas ermas, não chegando a sentir, mas quase sentindo, que talvez já se fizesse tarde para regressar a horas. A dada altura, este quase sentimento definiu-se-me, e tive uma ligeira perturbação. Antes uma inquietação mal consciente, e que não vinha só de eu pensar (porque depois o pensei claramente) que já devia ser tarde para regressar a horas: Vinha também de aquele silêncio, de aquela calma, de aquela solidão, de aquela própria luz imutável, - o Sol continuava alto - e de aquela espécie de irrealidade que o silêncio, a calma, a solidão, a luz, criavam àquela Natureza tão real. Não era a primeira vez que o natural me parecia penetrado de sobrenaturalidade,- várias vezes tenho tido sensações idênticas em sítios solitários cheios de luz ou, pelo contrário, mergulhados na sombra - e a minha inquietação não passava de uma ligeira inquietação... ligeira e subtil.

Apenas desejei que passasse alguém. Era compreensível que sucedesse passar alguém! E também não sabia se bastaria voltar, refazer em sentido inverso, ou que julgasse inverso, o que supunha ter andado, para na verdade regressar a casa; a Vila Meã, onde aluguei casa.

Não sabia ainda o que verdadeiramente andara, ou por onde passara, pois desconhecia estes caminhos, e me deixara vir vindo, ir andando, numa daquelas abstrações a que sou sujeito. Se passasse alguém informar-me-ia... Ah, oxalá passasse alguém!

José Régio

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