Nos primeiros anos do século XX, nos Bálcãs, havia um homem que viajava negociando palavras. Ele recolhia palavras em uma cidade, pagava por elas e as oferecia na cidade seguinte. Preferia comprar palavras fluidas, que não se referissem a um objeto fixo ou conhecido. Nomes de plantas ignoradas, de seres obscuros ou de animais inexistentes. Palavras que, precariamente, perseguem coisas que as repelem, como as emoções vagas, os assombros e os estados sutis do espírito.
Em seu caderno de viajante, o negociante dispunha as palavras por rubricas, mas nunca encontrava uma classificação adequada. Na verdade, duvidava que tal classificação existisse. Mesmo assim, acreditava que, negociando palavras, ajudava os homens a viver melhor. Nós, seres falantes, nos sentimos desprovidos daquilo que não conseguimos nomear. Muitas vezes, experimentamos algo que queremos capturar e transmitir, mas as palavras nos faltam. Nessas horas, um buraco se abre em nosso peito.
A partir da metade do século, o negócio de nosso viajante entrou em decadência.
Com o pós-guerra, as línguas se dissolveram no mundo homogêneo do pragmatismo. A era do ready-made e do prêt-à-porter transformou a linguagem em um instrumento banal – como uma chave de fenda ou abridor de latas. A busca do funcional massacrou a beleza do singular. A maldição de Babel – uma infernal mistura de línguas incompreensíveis – se realizava ao contrário. No mundo de hoje, todos dizemos as mesmas coisas, usando quase sempre as mesmas palavras. A clareza é nosso deus. Com isso, temos a ilusão de nos entender; quando, na verdade, nunca estivemos tão distantes uns dos outros.
Contos filosóficos do mundo inteiro é uma espécie de segundo volume de O círculo dos mentirosos, editado no Brasil em 2004 pela Conex. Nele, Jean-Claude Carrière se afirma, ele também, como um notável comerciante de histórias. Ele as recolhe em suas andanças pelo mundo e depois as oferece aos leitores. Foge, porém, das histórias míticas (que contêm explicações fechadas do mundo) e das moralistas (que se baseiam em princípios e certezas). Busca, ao contrário, relatos que – marca fundamental da ficção – digam aquilo que não pode ser dito de nenhuma outra maneira.
Contos filosóficos do mundo inteiro é uma espécie de segundo volume de O círculo dos mentirosos, editado no Brasil em 2004 pela Conex. Nele, Jean-Claude Carrière se afirma, ele também, como um notável comerciante de histórias. Ele as recolhe em suas andanças pelo mundo e depois as oferece aos leitores. Foge, porém, das histórias míticas (que contêm explicações fechadas do mundo) e das moralistas (que se baseiam em princípios e certezas). Busca, ao contrário, relatos que – marca fundamental da ficção – digam aquilo que não pode ser dito de nenhuma outra maneira.
Certa vez, Carrière perguntou ao neurologista Oliver Sacks o que é, afinal, um homem normal. A resposta se refere mais à literatura que à neurologia: “Um homem normal é, talvez, aquele capaz de contar sua própria história”. Para viver, precisamos habitar uma narrativa. O homem que nada pode narrar sobre si, diz Carrière, “não sabe mais nada, nem quem é, nem o que deve fazer”. Não narramos, porém, para chegar ao verdadeiro – esse reino de pedra onde se guardam as certezas categóricas. Uma palavra não precisa ter um significado para ter força. A verdade, para as palavras, vem de outra esfera. É sua capacidade de surpreender e de agitar o espírito que define se uma palavra é verdadeira ou não.
O cineasta Alfred Hitchcock, lembra Carrière em outra história, detestava revelar os segredos guardados em seus filmes. Em Notorius, de 1946, intitulado no Brasil Interlúdio, toda a ação se desenrola em torno da luta pela posse de uma maleta. O que a mala contém? Terminamos o filme sem saber. Mas é justamente essa ausência de conteúdo que lhe confere poder. Para dar um nome ao que não pode ser nomeado, Hitchcock chama o segredo guardado na maleta de “McGuffin”. Quando insistiam que ele explicasse o que isso significa, o cineasta costumava contar uma história.
Dois desconhecidos viajam em um trem. Um deles leva uma maleta. “O que há dentro dela?”, o outro pergunta. “É um McGuffin”, seu companheiro diz. O companheiro pede que ele explique melhor. Ouve, então, uma resposta sem sentido: “É um aparelho que serve para capturar leões nos Adirondacks”. Os Adirondacks são um maciço, sem grande importância, localizado no Estado de Nova York. Todos sabem que lá não existem leões, o homem rebate, aborrecido. “Então pode ser que não seja um McGuffin”, o outro se limita a dizer. Toda resposta esbarra em um desconhecimento que, sem sucesso, ela sem empenha em encobrir.
Jean-Claude Carrière é um admirador de histórias que nos deixam em alerta. Relatos que trabalham não com as “belas mensagens” ou respostas adequadas, mas com o casual, o brusco e o fortuito. Inimigo dos relatos categóricos, ele privilegia as histórias que guardam a fluidez e a desordem das narrativas que, secretamente, contamos para nós mesmos. Estas podem ser desconcertantes, incoerentes e até mentirosas. Mas são as mais verdadeiras das histórias: porque são vivas.
As histórias reunidas nesses Contos filosóficos revelam, antes de tudo, e para usar uma expressão grata a Carrière, nossa “essência de vidro”. Como não existem “explicações finais”, nos sentimos sempre despedaçados pelos acontecimentos.
Ficções nos ajudam a suportar a rispidez dos fatos. Muitas vezes, não precisamos sequer mudar de palavras, mas só de perspectiva. Como ensina uma das mais célebres histórias de Nasreddin Hodja, o lendário fabulista turco do século XIII.
Nasreddin sai de casa à noite, de camisolão, com os braços estendidos para a frente. Um vizinho, espantado, pergunta o que ele está fazendo. “Minha mulher contou para todo mundo que sou sonâmbulo. Eu quis verificar”, responde. O vizinho, curioso, pede que ele explique o que conseguiu descobrir. “Psiu! Você pode me fazer correr um grave perigo! Sobretudo, não me acorde!”.
Nasreddin sai de casa à noite, de camisolão, com os braços estendidos para a frente. Um vizinho, espantado, pergunta o que ele está fazendo. “Minha mulher contou para todo mundo que sou sonâmbulo. Eu quis verificar”, responde. O vizinho, curioso, pede que ele explique o que conseguiu descobrir. “Psiu! Você pode me fazer correr um grave perigo! Sobretudo, não me acorde!”.
Em um mundo dominado pela maldição de Babel, no qual tudo se explica e se demonstra, nos sentimos muitas vezes – como os psicóticos – acorrentados ao real. É bom recordar, aqui, as sábias palavras de Virginia Woolf: “Fatos são uma forma de ficção bastante inferior”.
José Castello, "Sábados inquietos"
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