Lembro-me do que a leitura representou para mim. Naquela época eu não sabia ser real, isto é, não me sentia parte da realidade — então sonhava. Quando aprendi a ler percebi que era possível sonhar acompanhado. Nunca mais me senti sozinho. Lia no quintal, empoleirado num dos ramos de um enorme abacateiro; lia no carro, a caminho da escola; lia, à noite, escondido sob os lençóis, iluminando as páginas com uma pequena lanterna.
Mais tarde conheci um outro garoto que também gostava de ler. Ficamos amigos. Com ele atravessei toda a infância, e uma boa parte da adolescência, trocando livros, gargalhadas e ideias.
Tinha 18 anos quando comecei a escrever contos e poesia. Escrever consiste em fechar os olhos para melhor encontrar caminhos no meio da escuridão. Para mim, foi um segundo movimento de libertação — um deslumbramento.
Assisto ao vídeo de Kianda, compenetrada, tropeçando nas sílabas, e o que vejo é um passarinho aprendendo a voar. A partir do momento em que uma criança começa a ler, o mundo abre-se para ela, expõe-se, revela-se, em todo o seu brilho, mas também com todos os seus perigos.
Os meus pais gostavam de livros. Aconselhavam-me títulos que achavam mais apropriados para a minha idade, mas nunca me impediram de ler fosse o que fosse. Fui explorando a biblioteca enquanto crescia, começando pelas estantes que estavam ao alcance das minhas mãos. Talvez porque cada livro era uma descoberta, nunca deixei de associar a leitura à emoção do imprevisto. Frequento livrarias com o mesmo espírito com que Indiana Jones explorava as pirâmides.
Tenho feito jogos com Kianda. Deixo bilhetes na cama dela para que os encontre ao acordar: “Papai te ama.” “Segue o mapa dos biscoitos.” “Vamos ao cinema?” Quero que ela compreenda que ler nos permite comunicar não apenas informações úteis, mas também sentimentos e emoções. Ler é um mapa do tesouro. Ler nos traz autonomia. Ler nos torna pessoas melhores.
O desenvolvimento tecnológico, se não for acompanhado por um idêntico avanço cultural, ético e moral, não aprimora a civilização. Pelo contrário, degrada-a, conduzindo a uma espécie de barbárie tecnológica. A chamada “literatura de ficção científica” ou, de forma mais precisa, “ficção especulativa”, é pródiga em distopias tecnológicas — em futuros que deram errado.
Kianda é perfeccionista. Tem medo de ler, porque tem medo de ler mal. Tem medo de falhar. Digo-lhe que só se aprende repetindo e repetindo e repetindo. É assim em qualquer disciplina. Como os copistas sufis que reescreviam uma e outra vez o mesmo livro, porque o objetivo não era chegar ao fim, nem sequer alcançar a perfeição, o objetivo era a escrita em si mesma — o caminho era o objetivo. Um mestre é um principiante que insistentemente principia.
Um abraço a todos os professores que, enquanto escrevo esta coluna, estão ensinando a ler crianças como a minha filha. Nem consigo imaginar ofício mais bonito.
José Eduardo Agualusa
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