Camilo enriqueceu enormemente o léxico do nosso idioma comum, incorporando, nos mais de 260 títulos que publicou, um grande número de palavras que recolhia não só das ruas e dos campos de Portugal, mas também de outros territórios lusófonos, incluindo o Brasil.
O escritor português correspondia-se com amigos, em Angola e no Brasil, que lhe enviavam vocábulos raros, ou raramente utilizados em Portugal. Por exemplo, terá sido dos primeiros escritores portugueses a utilizar a palavra quizila, com o significado de aversão ou briga. Quizila, ou quezília, tem origem em kijila, palavra que em quimbundo, idioma falado na região de Luanda, significa interdito. No Brasil, nos terreiros de candomblé, quizila continua sendo utilizada com o seu sentido original.
Durante décadas os leitores portugueses dividiram-se ferozmente entre camilianos e queirosianos. Camilo morreu em 1890, e Eça, que era 20 anos mais velho, em 1900. No século XIX, a disputa entre Camilo e Eça refletia a divisão entre duas escolas literárias — a romântica e a realista/naturalista. A divisão não era apenas estética, mas também geracional e ideológica. A escola naturalista — que contava entre os seus expoentes com o poeta Antero de Quental (um socialista utópico) — condenava o sentimentalismo exacerbado, a linguagem artificial e o conservadorismo de costumes da geração anterior, defendendo uma literatura mais próxima da dura realidade, da oralidade e da vida das pessoas comuns.
Camilo desprezava Eça e os seus livros, que considerava indecentes e imorais. Eça troçou algumas vezes de Camilo, com uma ironia sofisticada, mas também elogiou o talento e a riqueza vocabular do adversário.
Creio que Eça envelheceu melhor do que Camilo. Os livros de Eça continuam a incomodar o pensamento dominante. Pensemos apenas em “Os Maias” e “A Relíquia”. O primeiro é um romance sobre um casal de amantes que descobrem ser irmãos, e ainda assim insistem em manter a relação incestuosa. O segundo, divertidíssimo, conta a história de um jovem diletante, que convence uma velha tia, senhora devota e conservadora, a financiar-lhe uma expedição à Terra Santa, com a promessa de que lhe traria uma relíquia sagrada. No regresso, por equívoco, oferece à velha tia, em vez da prometida relíquia, a camisola de uma moça inglesa, Miss Mary, “comerciante de luvas e flores de cera”, que conhecera na viagem.
O que Eça mais admirava em Camilo, a extraordinária riqueza lexical, continua sendo o melhor motivo para ler, ou reler, os seus romances. O escritor português usa mais palavras diferentes numa única página do que Jair Bolsonaro (só para dar um exemplo de indigência vocabular) durante um ano inteiro — provavelmente, a vida toda. Agora imaginem o que podemos encontrar em 260 títulos! Para quem ama a língua portuguesa, e está interessado em conhecê-la melhor, Camilo continua sendo leitura obrigatória.
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