Você que me lê, preste atenção. Não deixe passar nenhuma palavra ou locução atual pelo seu ouvido sem registrá-la. Amanhã, pode precisar dela. E cuidado ao conversar com seu avô; talvez ele não entenda o que você diz.
O malote, o cassete, o spray, o fuscão, o copião, a Vemaguette, a chacrete, o linóleo, o nylon, o nycron, o ditafone, a informática, a dublagem, o sinteco, o telex… existiam em 1940?
Ponha aí o computador, os anticoncepcionais, os mísseis, a motoneta, a Velosolex, o biquíni, o módulo lunar, o antibiótico, o enfarte, a acupuntura, a biônica, o acrílico, o tá legal, o apartheid, o som pop, a arte op, as estruturas e a infraestrutura.
Não esqueça também (seria imperdoável) o Terceiro Mundo, a descapitalização, o desenvolvimento, o unissex, o bandeirinha, o mass media, o Ibope, a renda per capita, a mixagem.
De passagem, anote a reunião de cúpula, a minicopa, a conjuntura, o Porcão, a reflexologia, a ioga, o iogurte, os alucinógenos, o morfema, o semantema, o estocástico, o ergódigo e o markoviano.
Só? Não. Têm seu lugar ao sol a metalinguagem, o servomecanismo, as algias, a coca-cola, o superego, a futurologia, a homeostasia, a Adecif, a Transamazônica, a Sudene, o Incra, a Unesco, o Isop, a OEA e a ONU.
Estão reclamando porque não citei a conotação, o conglomerado, a diagramação, o ideologema, o idioleto; o ICM, a IBM, o falou, as operações triangulares, o zoom e a guitarra elétrica.
Mas por sua vez se esqueceram de lembrar chuchu-beleza, ecumenismo, tremendo barato, monema, parâmetro, gerontologia, genocídio, cronograma, PIB, política habitacional, gol de letra, mercado fracionário de balcão.
Olhe aí na fila — quem? Embreagem, defasagem, barra tensora, vela de ignição, engarrafamento, Detran, poliéster, parafernália, filhotes de bonificação, letra imobiliária, conservacionismo, carnê da girafa, poluição.
Mas há de haver espaço para setorial, tônica, mafagafe (José Cândido de Carvalho descobriu um ninho deles, e diverte-nos com a descoberta, em delicioso livro), complexo de castração, inseminação artificial, napalm, ovos de codorna, teste de Cooper, sesquicentenário, didascália, passarela, gelo-baiano.
E o vestibular para milhões? O cursinho e o cursilho? O mestrado? Ah, faltava a análise sinótica do mapa meteorológico. A custódia de títulos nominativos. O transplante, variadíssimo e nem sempre letal. A implantação e os implementos industriais. O audiovisual e seus flanelógrafos, para uso de aloglotas. A macrobiótica, pois não. E o offset.
Fundos de investimento, e daí? Também os de incentivos fiscais. Know-how. Barbeador elétrico de noventa microrranhuras. Fenolite. Baquelite. LP e compacto. Alimentos supergelados. Viagens pelo crediário. Circuito fechado de TV na rodoviária. Argh! Pow! Click!
Não havia nada disso no jornal do tempo de Venceslau Brás, ou mesmo de Washington Luís. Algumas dessas coisas começam a aparecer sob Getúlio Vargas. Hoje estão ali na esquina, para consumo geral. A enumeração caótica não é invenção crítica de Leo Spitzer. Está aí, na vida de todos os dias. Entre palavras e combinações de palavras circulamos, vivemos, morremos, e palavra somos, finalmente, mas com que significado, que não sabemos ao certo?
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"

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