terça-feira, janeiro 27

Livros, para que te quero?

Vejo uma postagem em rede social do jornalista e compositor Nelson Motta, em que ele diz ter tomado decisão importante: desapegar geral. Contou que tinha em casa um quarto inteiro com livros e discos, que iam do chão ao teto. Doou tudo. Estou segurando o meu queixo desde que li.

Ele disse exatamente isso: doei todos. “Fiquei me perguntando por que guardar tudo aquilo? Então resolvi doar todos”. Repassou, segundo afirmou, livros e discos a um cara que fazia arrecadações para dar acesso a pessoas que jamais teriam como comprá-los.

Somente uma coleção sobre Música Popular Brasileira, reunindo cerca de 700 obras, não foi dada a essa mesma pessoa. Mas, sim, ao Museu da Imagem e do Som. Não Conheço Nelson Motta, apenas de nome, mas não tenho adjetivo para lhe atribuir a não ser o de nobreza de alma. Foi sim um gesto generoso, bonito, exemplar.

Eu, por exemplo, não sou uma pessoa com essa grandeza, embora tente praticar o desapego. Entendo que o nosso burrico só deve carregar, sob o sol, os tesouros imprescindíveis. Entre eles estão os meus livros. Logo, o meu desapego tem limites: favor não tocar nos meus livros. Não vendo, não empresto, não doo.

Doar todos os meus livros que tenho nas estantes, para mim, seria uma morte simbólica. Os livros que li e guardo são minha intimidade. Foram eles, lidos cada um a seu tempo, que fizeram de mim esta pessoa levemente alegre, levemente melancólica, crítica, e um tanto cínica. Os livros que eu li são a minha história.

Claro, sei que parados numa estante os livros não têm serventia alguma. Eles poderiam e podem contribuir para o crescimento de muita gente. Mas, eu não sou um sujeito evoluído espiritualmente a ponto de doá-los.

Comecei falando de Nelson Motta porque ele é conhecido, mas sou amigo de um casal, Nara Lúcia (Narinha) e Camilo Brollo, que aos poucos vêm se desfazendo de seus livros. Já doaram grande parte do que tinham. Narinha e Camilo estão relendo o que têm em casa e, ao final, repassam para os amigos. Eu e as jornalistas Cleide Alves e Cláudia Parente somos herdeiros de verdadeiras preciosidades literárias.

São livros que estão fora de catálogo, coisas raras, romances, contos e ensaios escritos nas décadas de 1960, 1970. Lendo esses, você conclui que a grande maioria das coisas escritas hoje não têm novidade alguma. Os “originais” são melhores.

Recebo os livros de Nara e Camilo e me pergunto: algum dia vou atingir esse estágio de plenitude? Ai de mim. Acho que terei que voltar pelo menos mais duas encarnações para ascender a essa dimensão de ser a pessoa que doa os próprios livros.

Dizem que o desapego é um processo de libertação, é um entendimento de que tudo o que possuímos é fruto de ilusões. Como eu ia dizendo, até tenho doado várias coisas minhas e aceitado muitas perdas sem mágoas. Mas, em se tratando de livros, sou mesquinho.

Livros parados são meros objetos. Mas, até aqui, para mim, doá-los seria como eu mesmo partisse antes de mim mesmo.
Cícero Belmar

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