Foi assim que começou meu projeto de reutilização literária criativa. Ou, como meu primo, delegado de polícia, prefere chamar: crime contra o patrimônio público.
Tudo começou numa tarde nublada, com a minha estante implorando por relevância. Peguei emprestado (veja bem, emprestado com intenção artística) um volume esquecido da biblioteca: História da artilharia do século 19, tomo II. Havia um volume I, mas pesava como uma vaca morta, e eu estava sem carro naquele dia.
Em casa, retirei o casaco, o livro e qualquer vestígio de culpa. Colei todas as páginas com cola branca escolar (ah, aquele aroma nostálgico do ensino fundamental) e furei um buraco no centro da capa com a ajuda de um saca-rolha. Pronto! Agora eu tinha um belíssimo porta-vela tremeluzente, que transmitia uma aura de intelectualidade gótica.
Descobri que livros antigos são ótimos para esconder coisas. Um dicionário de latim virou meu estojo de escovas de dentes para visitas. A coletânea de romances russos agora guarda minhas meias perdidas. O que, preciso admitir, também transmite uma certa melancolia existencial.
Mas foi com O jogador, de Dostoiévski, que atingi o ápice da arte: transformei-o em um porta-contas atrasadas, uma homenagem ao espírito da inadimplência de Fiódor.
Recebi algumas críticas, é claro. A bibliotecária me reconheceu na câmera de segurança e enviou uma intimação. Que, ironicamente, agora repousa enrolada dentro de O crime do padre Amaro, fazendo jus ao título. Há quem diga que fui longe demais, mas reitero que fui apenas até a página três. Depois, ficou tudo colado.
A verdade é que, hoje em dia, os livros perderam a batalha contra as telas. Ninguém mais se dá ao trabalho de folhear páginas quando pode assistir a um vídeo de 30 segundos que resume Finnegans wake com emojis e trilha sonora de kuduro. As estantes viraram cenário de videoconferência. E os livros, coitados, coadjuvantes decorativos. Muitas vezes, são comprados por metro, como papel de parede. Diante disso, nada mais justo do que ressignificar seu uso: se já não informam, que pelo menos combinem com o sofá da Tok&Stok. Afinal, entre a sabedoria de Wittgenstein e o tom exato do bege da cortina, o segundo é que realmente causa impacto nas visitas.
Se reaproveitar livros é um crime, então me declaro culpado. Porque, no fim das contas, quem precisa ler quando pode decorar?

Nenhum comentário:
Postar um comentário