sexta-feira, julho 25

O pai

Dizia que a vida só é dura para quem é mole. Na sua idade, filho, diversão em demasia é desperdício de tempo, não é bom, tudo na vida tem a sua medida exata, até na quantidade de brincadeiras. Vejo que você exagera até em tempo de regime escolar, se houver na semana um dia de feriado, lá se vai com o bando de amigos tomar banho no rio, jogar futebol nos terrenos baldios, caçar passarinho, esquecido de que o mundo tem mais dias difíceis do que fáceis para se obter as conquistas.

O pai era trabalho, acordar cedo, gastar o necessário, economizar sempre. A mãe era leite e mel. Falava para ele não ser tão rigoroso com o filho, tinha direito a se divertir no dia de feriado, o tempo que quisesse nas férias. Era um bom estudante, tirava boas notas nas provas. Tudo tem seu tempo na vida, o menino vai aprender isso um dia.

Não mudava seu método de compreender a vida e como fazer para enfrentar o seu lado áspero. Sério e disposto no trabalho, acordava cedo, fazia a refeição matinal, saía rumo ao bairro da Conceição, que ficava no outro lado do rio. O pai estava construindo uma avenida de casinhas para alugar às gentes populares, de pouca renda. O filho levava o almoço para o pai na marmita. No local do trabalho, às vezes o pai fazia o papel de pedreiro, servente, carpinteiro, armador de ferragem para ser batida a laje. Era hábil e caprichoso nas tarefas que aprendia com facilidade. Tornou-se um exímio mestre de obra em pouco tempo.

Levava consigo para o trabalho diário sua maneira de ser regrada com preceito, simplicidade, paciência, concentração, objetividade e a fé ferrenha de que um dia seria um homem abastado. Tempos depois o filho viu que o pai estava formando um patrimônio razoável constituído de casas e prédios. Dera para emprestar dinheiro a juros altos, com isso seus rendimentos aumentavam e o patrimônio se expandia.

A mãe falou que a vida do pai sempre foi difícil desde o começo até se tornar um homem rico. Cedo suas mãos ficaram com calos, de tanto pegar no pesado. O pai chegara na pequena cidade quando o aglomerado de pessoas parecia ainda com uma vila. Veio só com a roupa do corpo, calçava uma sandália de couro grosso. Foi balconista em um armazém de portas largas na rua do comércio. Dormia embaixo do balcão. Lavava a sua roupa no rio quando entardecia, mas com o sol ainda quente no verão abafado. Ficava atrás das pedras vendo a roupa secar. Economizava o salário pequeno que ganhava no serviço de balconista. Com o dinheiro que ganhou comprou um quiosque de madeira. Vendia no quiosque cachaça, charuto, cigarro, caramelos e pastel. Vendeu o quiosque e comprou uma bodega onde vendia agora carne charqueada, farinha, feijão, arroz e milho. Tempo depois vendeu o quiosque e foi construir as primeiras casinhas populares. Daí em diante com aluguel das casas foi economizando e crescendo na vida.

Era rigoroso com o filho porque queria que ele estudasse com afinco para ser gente, não passar na vida as dificuldades que ele teve de enfrentar. O pai gostava de aquecer os pensamentos na espreguiçadeira quando o domingo amanhecia com o ar morno. Tinha o sestro de torcer os dedos quando as ideias que chegavam no íntimo falavam das benesses do dinheiro. Cada vez mais se convencia de que o homem nesta vida só valia alguma coisa, era respeitado pelos outros, quando tinha muito dinheiro.

Assim, quando estava recolhido aos pensamentos, que lhe afirmavam como era bom ser rico, certas frases, tiradas da vida diária, gostava de dizer para ele mesmo. Uma delas informava que quem disser que tem amigo tem de si pouca ciência, amigo só existe aquele, o da própria conveniência. Outra, que, no final, fazia com que mordesse o lábio inferior, surgia como um apelo dirigido a alguém que estava oculto, mas que somente ele via. “Dinheiro você diz que me quer bem, no meu bolso faz mais bem quando vem.”

Menino desobediente, atrevido, não ouviu os conselhos do pai, gastou a nota de dez cruzeiros com besteira no parque. O prêmio que tinha ganho por ter sido aprovado no exame de admissão foi jogado fora com as besteiras que achou de comprar para comer e para se divertir nos brinquedos do parque, que se instalara na semana para ganhar o dinheiro dos tolos.

Tudo que o pai aprendera foi na escola da vida. Já homem amadurecido, o filho soube o quanto ele estava certo quando dizia que o dinheiro era uma coisa difícil de conseguir, cedo se devia saber como gastá-lo.

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