domingo, novembro 9

O louco

Vestido de luto, com minha barba nazarena e meu chapéu preto curto, devo assumir uma aparência estranha cavalgando na suavidade cinzenta de Platero.

Quando, a caminho dos vinhedos, atravesso as últimas ruas, brancas de cal sob o sol, as crianças ciganas, oleosas e peludas, por cima de seus trapos verdes, vermelhos e amarelos, com suas barrigas bronzeadas e esticadas, correm atrás de nós, gritando sem parar:

—O louco! O louco! O louco!

...À frente estende-se o campo, já verdejante. Diante do imenso e puro céu, de um índigo flamejante, meus olhos — tão distantes dos meus ouvidos! — abrem-se nobremente, acolhendo em sua serenidade aquela placidez indizível, aquela serenidade harmoniosa e divina que habita o horizonte infinito...

E permanecem, ao longe, nas altas eiras, alguns gritos agudos, finamente velados, quebrados, ofegantes, entediados:

—A louca! A louca!
Juan Ramón Jiménez, "Platero e eu"

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