sábado, janeiro 31

O mundo sagrado da Amazônia

Da varanda do meu apartamento no décimo pavimento de um prédio na Avenida Floriano Peixoto, em frente ao exuberante Rio Negro, de suntuosa beleza, vejo o sol nascer e se pôr ao final do dia. Inaugurado em 1951, modernista, o edifício se transformou em um ícone da arquitetura e da história de Manaus. Embora o sol nasça sempre no oriente e se ponha no ocidente, nenhum dia é exatamente igual ao outro. A profusão de nuvens que navegam livres na vastidão do céu, maior ainda do que o já monumental rio, me surpreende a cada dia com um espetáculo único e sempre magnífico. Às vezes o sol mal consegue lugar no horizonte, coberto por poderosas nuvens, e sai por aí, procurando brechas, aqui e acolá, para impor a sua majestosa soberania.

Da varanda do meu apartamento, vejo também as inúmeras embarcações ancoradas e, igualmente, uma profusão de barcos, lanchas e canoas que, de diversos tamanhos e formas, com sonoros apitos, chegam e partem do flutuante Porto de Manaus, levando – sinto receio em pôr isso no papel, com risco de cometer sacrilégio – o que, pela distância, me parecem sonhos, sonhos meus, talvez dos tripulantes, talvez dos passageiros. Então, quase que peço licença para adentrar esse terreno sagrado que me desperta tantas emoções contraditórias.

Enquanto me sirvo de uma fatia de abacaxi, aperto uma pacovã (banana da terra), para me certificar se ela já está no ponto de fritar. Preparo meu café e a tapioca de goma do norte e me dirijo à varanda para apreciar o estonteante espetáculo que tenho à minha frente. Posso também substituir a goma pela farinha d’água, que hidrato previamente para preservar os meus dentes (amarela, baguda e dura, ela é mesmo conhecida como quebra-dentes; hidratada, ela quadruplica de volume), ou pelo açaí com farinha de tapioca na forma de pequenos flocos, batata doce, macaxeira, pupunha…

Em visita ou trabalhando em Belém do Pará, o gracejo era marcar encontro depois da chuva do final da tarde. Também costumávamos dizer que chovia todo dia, quando não chovia o dia todo (floresta tropical, em inglês, é chamada de rainforest). Andando pelas ruas desta Ma-ná-os empobrecida e abandonada, em várias ocasiões o céu já desabou sobre a minha cabeça. Da varanda, mesmo quando o céu está aberto, às vezes vejo uma nuvem, escura e comprida, que acompanha o Rio Negro, fazendo sombra e tornando o rio tenebroso, mais negro do que já é (nestes casos, nas margens, o céu permanece claro, brilhante).


No Porto do Ceasa, a pouca distância rio abaixo, começa a polêmica Rodovia BR-319 – começa com a travessia para o Município de Careiro da Várzea, por balsa. E na balsa estão o ônibus, o motorista e os passageiros que acabaram de embarcar na Rodoviária de Manaus com destino a Porto Velho, capital de Rondônia (900 km, 11 horas de automóvel e 24 horas de ônibus). Ou seja, mesmo só parcialmente asfaltada, com trechos críticos de chão batido, intransitáveis na chuva, travessias por balsas e poucos postos de gasolina, a BR-319 continua cortando uma das últimas grandes áreas de floresta intacta da Amazônia. A polêmica atinge os outdoors da cidade.

No conforto do meu apartamento em frente ao Parque Augusta, na região central da pauliceia desvairada, havia escrito, em Um país em busca de sua identidade, que entre todos os crimes contra os povos da floresta, desequilíbrios ecológicos e desastres ambientais em curso – invasão de reservas indígenas e extrativistas, desmatamento, garimpo, mineração, poluição do solo e das águas –, a recuperação e pavimentação da Rodovia BR-319 da Ditadura Militar, entre Manaus e Porto Velho, só não foi ainda implementada por falta de recursos. Durante a pandemia do coronavírus, o governador do Estado do Amazonas se lamentou pela impossibilidade de vacinar os moradores da região da BR-319, como se a rodovia, caso recuperada, não fosse, por excelência, a porta principal de entrada do vírus e como se a exposição de seus habitantes aos ávidos forasteiros não fosse mais danosa do que o próprio vírus. “Os que vivem no cosmo há milênios são perseguidos por mãos de ganância, olhos ávidos: minério, fogo, serragem, fim.” (O fim que se aproxima, do poeta manauara Milton Hatoum)

Me recuso a fazer passeios turísticos, falsos como uma nota de três. No início dos anos 1970, percorri o trecho Manaus a Belém a bordo do navio da ENASA, que na época era a única companhia que fazia esse percurso regularmente. Em toda a Amazônia, o transporte continua sendo essencialmente fluvial. Inúmeras embarcações transportam passageiros e cargas em todas as direções e para todos os confins. Belém, no Amazonas, é acessível em aproximadamente 4 dias; São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, em 3 dias; Porto Velho, no Madeira, em 4 dias; e Tabatinga, no Solimões, na fronteira com a Colômbia e o Peru, em 6 dias de viagem (lanchas rápidas conseguem reduzir para quase um terço o tempo de viagem).

Atravessei de balsa os rios Negro e Solimões de Manaus a Careiro da Várzea. Fui de lancha de linha até Manacapuru, no Solimões, a 100 km de Manaus. O porto flutuante da cidade abriga, interligados por tábuas, o cais, casas comerciais e restaurantes, que sobem e descem, acompanhando o nível da água do rio. Catalão, uma comunidade no Município de Iranduba, em frente a Manaus, agrega mais de 100 casas flutuantes, que se adaptam às cheias e às vazantes. A comunidade flutuante de Manaus, com mais de 2 mil casas e 12 mil moradores, foi desativada em meados dos anos 1960.

Manacapuru, com 100 mil habitantes, é também acessível por terra e é um porto de partida para vários povoados, Solimões acima. Entrei em um pequeno barco rústico, repleto de redes de dormir armadas por ribeirinhos, e tive vontade de seguir viagem… um sonho – mas não embarquei. Não quero fazer folclore. Digamos que a floresta não é o meu habitat natural e que meus olhos não brilham ao me servir de um tucumã. Admiro a cultura dos povos da Amazônia, mas conheço os limites da minha cultura forasteira. Escritores russos narraram os desastres perpetrados por românticos “civilizados” que tentaram viver entre “selvagens” ciganos (Pushkin) e cossacos (Tolstoy). No final de Os ciganos, o velho expulsa o russo que matou a sua filha por ciúmes – “Deixe-nos em paz, homem orgulhoso! Somos selvagens, não temos leis… Mas não queremos viver com um assassino… Você não nasceu para a vida selvagem.”

Para conhecer a cultura dos povoados, achei por bem me dirigir ao Centro Cultural Povos da Amazônia em Manaus, que reúne fotos, vídeos e coleções riquíssimas de arte e artefatos. Também assisti ao histórico documentário mudo, lançado em 1922, No paiz das Amazonas de Silvino Santos. Falei com alguns indígenas idosos que me contaram que preferiam ficar sob os “cuidados” da descompromissada FUNAI do que sob a tutela dos dedicados padres e freiras das missões religiosas, empenhados em civilizar o índio, salvar sua alma, enquanto o despersonalizava, destruindo língua, tradições, cultura, história, ou seja, sua identidade e sua humanidade. Estive com missionários salesianos, que se defendiam dizendo que protegiam os índios para que não fossem escravizados ou meramente exterminados pelos brancos que cobiçam suas terras. Bem, parece que sempre pode ser pior; mas, também, sempre pode ser melhor.

Manaus, com 11 km2, ocupa menos de 1% da área total do Estado do Amazonas, mas seus 2,3 milhões de habitantes representam mais da metade da população. Itacoatiara, Manacapuru – ambos da Região Metropolitana de Manaus – e Parintins têm 100 mil habitantes; nenhum outro município do Estado atinge este número. A densidade de Manaus é de 202 habitantes por km2.

No extremo oposto, o Município de São Gabriel da Cachoeira, com 109.181 km2 (a título de comparação, Portugal ocupa uma área de 92.230 km2), agrega 52 mil habitantes, uma densidade de 0,5 habitante por km2. Hoje, o prefeito, 12 dos 13 vereadores e nove a cada dez habitantes de São Gabriel são indígenas – de mais de 20 diferentes etnias: Arapaço, Baniwa, Barasana, Baré, Desana, Hupda, Karapanã, Kubeo, Kuripako, Makuna, Miriti-tapuya, Nadob, Pira-tapuya, Siriano, Tariano, Tukano, Tuyuka, Yanomami, Wanana, Werekena…

Barcelos, no Médio Rio Negro, ocupa 122.452 km2 e Altamira, no Xingu, 159.533 km2 – com densidades de 0,2 e 0,8 hab/km2, respectivamente. A densidade no Município de São Paulo é de 7.528 hab/km2. Os forasteiros diriam: “Muita terra para pouco índio; eles são os habitantes mais ricos do planeta!” São mesmo, mas o conceito de riqueza desses guardiões da floresta não é o mesmo que o utilizado pelos selvagens europeus que, sem visto de entrada, invadiram o continente, exterminaram e subjugaram as populações nativas da região – e a festa continua.

Desde 1992, a Universidade Federal do Amazonas – UFAM promove cursos universitários presenciais em São Gabriel da Cachoeira. Em 2022, o reitor da universidade se aventurou pelas matas e rios, percorreu longas distâncias em pequenas embarcações, atravessando corredeiras e se protegendo de galhos ao furar os igarapés, para alcançar longínquos povoados e participar das cerimônias de titulação dos indígenas. Em 2023 foi criada a primeira turma de mestrado e em 2026 a primeira turma de doutorado em São Gabriel, onde um novo campus da UFAM está sendo construído.

O Governo Federal está empenhado em criar a Universidade Federal Indígena – UNIND, com sede em Brasília e início das atividades em 2027. Mas Ailton Krenak, cético em relação ao modelo ocidental de educação e universidade, é crítico a essa iniciativa, que visa inserir os indígenas no mundo dos brancos. Krenak defende o princípio de autodeterminação, que reserva aos povos nativos da floresta o direito de assumir o seu próprio destino ancestral e não ficar sujeito ao “progresso” e à modernidade distópica.

Embora a Constituição de 1988 reconheça os indígenas como cidadãos plenos, a ideologia do ultrapassado Estatuto do Índio permanece impregnada no imaginário popular – indivíduos relativamente incapazes, sujeitos à tutela do Estado encarregado de promover a sua assimilação e integração à sociedade nacional. A Constituição reserva aos povos indígenas o direito de se manterem isolados e preservarem o seu modo de vida tradicional. Além disso, o Estado assumiu o dever de protegê-los, evitando contatos forçados e garantindo a sua integridade física, cultural e territorial – coisa que está longe de cumprir.

Eu acharia por bem criar uma nação indígena soberana na Sagrada Amazônia, que possa se relacionar com as demais nações do mundo, preservando a sua cultura, cosmovisão, relação com a natureza e integridade dos povos nativos, juntando partes do Equador, Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia, Brasil, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, com capital em São Gabriel da Cachoeira, que já é oficialmente multilíngue.

Na contramão, enquanto traço essas linhas no início de janeiro de 2026, acompanho apreensivo as manchetes dos diários de notícias de todo o mundo sobre os desdobramentos da investida de Trump na Venezuela, não muito longe da minha varanda em frente ao Rio Negro.

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