Quando me vejo hoje, antigo e amargo, o que vou dizer agora parece imaginação. Mas, na longínqua manhã que a memória traz de volta, tenho certeza: eu estava com 5 anos e era véspera de Natal. Minha mãe me encheu a caneca de leite, preparou meu pão e, como se fosse revelar o maior segredo da história da humanidade, cochichou:
— Esta noite nós vamos poder ver Papai Noel aqui em casa.
Eu, que já era um menino de poucas palavras, fiquei sem nenhuma. Perplexo não é um termo simpático, nem eu conhecia na época, mas foi perplexo que eu me senti. Sabia que era o velhinho de roupa escarlate e barbas brancas quem recebia os pedidos das crianças. Sabia também que era ele quem fazia os brinquedos e ele mesmo, com seu trenó e suas renas, quem os entregava. Mas jamais, na plenitude dos meus 5 anos, tinha ouvido alguém dizer que em qualquer uma dessas atividades a incansável e eterna criatura se deixava surpreender por olhos mortais. Lembrava-me de ter consultado uma vez minha mãe sobre essa capacidade do santo homem de fazer tantas coisas sem ser visto por ninguém. A resposta havia sido convincente: ele, além de tímido, tinha o dom da invisibilidade. Só aparecia quando queria mesmo aparecer.
No instante em que me recordei dessa conversa sobre os poderes do bom velhinho, eu já não estava só perplexo. Estava também atônico, estupefato e aparvalhado. Se Papai Noel se mostrava apenas onde e quando bem entendia, como é que minha mãe podia garantir que ele viria à nossa casa naquela noite?
Quando recuperei a voz, quis saber mais sobre a inacreditável notícia. Supliquei, pedi, implorei. Invoquei os sagrados direitos da infância e os incontestáveis privilégios de filho caçula. Esperneei, fingi um ataque de asma, ameacei chorar. Tudo que consegui extorquir com a encenação foi um agradinho em meus cabelos encaracolados – eu tinha cabelos nessa manhã distante! Sobre a visita anunciada, minha mãe só fez duas recomendações: que eu tivesse paciência de esperar a noite e mantivesse segredo. Papai Noel era arisco e, se notasse algum movimento, por menor que fosse, não viria.
Eu, que até aquele momento só tinha em meu currículo vítimas sem importância, como besouros e formigas, fui para a rua com a missão de matar nada mais nada menos do que o tempo. Procurei o amigo Jorge, com a esperança de que ele me ensinasse a rodar pião, mas a única lição que aprendi naquela manhã longa e naquela tarde arrastada foi a de que nem sempre os dias têm 24 horas.
Quando finalmente anoiteceu, não vacilei. Tomei posição na mesa da sala, bem ao lado da árvore de Natal, e avisei à minha mãe: não sairia dali enquanto Papai Noel não aparecesse com a bicicleta que eu tinha pedido. Dali a pouco meu pai chegou do trabalho e, muito camarada, resolveu me ajudar. Ficou de prontidão ali comigo. Na cozinha, mamãe cuidava do jantar. Nossa vigília deve ter durado dez minutos. No décimo primeiro, minha mãe nos chamou.
— Acho que ele está aqui no quintal – disse, agitada.
Meti a mão no trinco, ansioso, mas meu pai recomendou calma. Se não, o bondoso velhinho poderia levar um susto e fugir. Apesar de toda minha impaciência, aceitei a sugestão de contar até 20 antes de abrir a porta. Quando eu ia pronunciar o 14, ouvi gritos na sala. Minha mãe, que tinha saído da cozinha sem eu perceber, estava dando o alarme:
— Corre, menino! Ele está aqui!
Cheguei a tempo de ver, pela ampla janela escancarada, uma cintilação rubra de cetim no céu estrelado. Junto à árvore, havia uma reluzente bicicleta.
Durante dois ou três anos censurei minha mãe pelo que aconteceu naquele 24 de dezembro. Achava que, se ela não tivesse sido tão espalhafatosa ao me chamar, eu poderia ver algo além da fulguração grená. Hoje, lembrando o esforço que ela sempre fazia para tirar de meu pai o dinheiro para uma boa ceia de Natal, lamento não haver entendido, naquela noite, que devia minha bicicleta e minha alegria não à centelha escarlate que imaginava ter visto, mas aos olhos azuis que já não posso ver.
Raul Drewnick, “Antes de Madonna”

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