Outro dia percebi um fato curioso: não existe o Dia do Cronista. Existe o do cronista esportivo, figura respeitável que sofre em público por causa do impedimento e da lateral mal cobrada, mas o cronista comum, o cronista raiz, aquele que escreve sobre o elevador que nunca chega ou sobre o cachorro que pensa que é gente, esse ficou sem calendário.
É estranho. Temos o Dia do Abraço, o Dia do Café, o Dia da Toalha, o Dia do Orgulho Geek e certamente deve existir o Dia Internacional do Fio Embolado Atrás da Mesa. O calendário contemporâneo abraça tudo. Qualquer objeto que permaneça parado tempo suficiente acaba homenageado. O cronista, porém, segue órfão de data.
Talvez seja justo.
O cronista vive do que escapa às datas. Ele trabalha no território do acontecimento inútil. Não o grande fato histórico, mas o pequeno desastre doméstico: a torrada que cai sempre do lado da manteiga, o sujeito que aperta o botão do elevador dezessete vezes como se estivesse enviando uma mensagem em código morse, a criança que faz perguntas surreais aos pais.
O cronista é uma espécie de arqueólogo do irrelevante.
Enquanto o repórter corre atrás da notícia, o cronista tenta alcançar a senhora que conversa com as plantas na sacada. E geralmente não a alcança, porque ela entra antes no elevador onde estava o sujeito do código morse.
Dar ao cronista um único dia talvez seja limitar sua atuação. Afinal, ele opera em tempo integral. O cronista está sempre de plantão diante da banalidade. Basta alguém espirrar de forma dramática num ônibus e pronto: nasce uma reflexão sobre a fragilidade humana e a circulação do vírus.
Há também outro problema. Se existir o Dia do Cronista, inevitavelmente surgirão eventos oficiais. Haverá palestras. Mesas-redondas na Flip. Painéis chamados “A crônica hodierna”. O cronista seria obrigado a usar crachá, e nada combina menos com um cronista do que uma identificação pendurada no peito.
Imagino até a cerimônia.
Alguém subiria ao palco para homenagear “os profissionais que transformam o cotidiano em alta literatura”, enquanto, no fundo do auditório, um cronista estaria escrevendo justamente sobre o microfone que não funciona. Ou sobre o garçom que serve café com expressão de quem desistiu da humanidade em 2007.
Por isso, proponho uma solução alternativa: teremos o Dia do Cronista, sim, mas ele seria em um feriado. Em um dia em que ninguém escreveria nada. Os jornais sairiam em branco. Os leitores leriam bula de remédio por falta de opção. Mas algum cronista, claro, inevitavelmente, acabaria anotando num guardanapo: “Hoje não aconteceu nada. Ainda bem. Já temos assunto.”
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