– Eu me recuso — respondeu. — E antes que eu me esqueça, só demora um segundinho.
A esposa plantou as mãos nas ancas delgadas.
– Trabalhei a manhã inteira, e você se recusa a dar u’a mãozinha? Está trovejando, vai chover.
Tio Einar retrucou, casmurro:
– Pois deixe que chova. Não quero ser perfurado por um raio só para ir secar a roupa.
– Mas você faz isso num instantinho.
– Me recuso, mesmo assim.
As imensas asas de Tio Einar, de lona encerada, vibraram, nervosas, em suas costas indignadas.
A esposa estendeu-lhe um cordão em que estavam amarradas quatro dúzias de peças de roupa recém-lavadas. A contragosto, Tio Einar enrolou o cordão no dedo e murmurou, amargo:
– Então, estou reduzido a isso! A isso!
E quase derramou lágrimas enfurecidas, ácidas.
– Não chore; vai molhar a roupa de novo. Pule agora, dê uma volta com a roupa.
– Dar uma volta com a roupa…
A voz saíra oca, profunda e muito magoada.
– Não! Pois que caiam os raios! Que chova! A esposa ponderou:
– Se o dia estivesse bonito, se estivesse fazendo sol, eu não pediria. Se você não for, será trabalho perdido, vou ter que estender a roupa pela casa…
Aquilo o convenceu. Acima de tudo, detestava roupas penduradas, em bandeiras festonadas, que o faziam abaixar-se para atravessar a sala. Tio Einar subiu, bateu as imensas asas verdes.
– Mas só vou até a cerca do pasto!
Girou: deu um salto, as asas mascaram, deliciaram-se com o ar fresco. E antes mesmo que você pronuncie Tio Einar Tem Asas Verdes, Tio Einar navegou, em vôo baixo, pela fazenda, estendendo a roupa num círculo imenso, farfalhante, secando-a com a concussão, contundente, da lavagem de costas que suas asas proporcionavam!
– Segura!
De volta do giro, manobrou a roupa, seca como pipoca, fazendo-a pousar numa série de cobertores limpos que a esposa estendera para servir de plataforma de aterrissagem.
– Obrigada!
– Ora, não amole!
Voando, Tio Einar foi amargar debaixo da macieira.
Aquelas lindas asas sedosas, dobradas sobre as costas de Tio Einar qual duas velas de cor verde-marinho, faziam desprender dele, sobre os ombros, um chiado, um sussurro, sempre que espirrava ou se virava de repente. Era, na Família, dos poucos cujo talento era visível. Tinha primos, sobrinhos e irmãos obscuros, escondidos pelo mundo, em cidadezinhas, e todos realizavam coisas invisíveis com a mente, ou coisas relacionadas com dedos de feiticeiros, com dentes brancos, ou sopravam labaredas de fogo no céu, galopavam em florestas como se fossem lobos enluarados, prateados. E, comparativamente, viviam bem protegidos dos humanos normais, coisa que, para um homem de asas verdes, imensas, era praticamente impossível.
Não que detestasse suas asas. Nada disso! Quando jovem, costumava voar à noite, pois a noite é uma ocasião rara para os homens alados! O dia oferecia perigo, sempre ofereceu e sempre oferecerá; à noite, porém, ah, a noite, Tio Einar sobrevoara ilhas de nuvens e mares de céu de verão. Sem perigo algum. Foram vôos bem altos, proveitosos, regozijo absoluto.
Mas agora já não mais conseguia voar à noite.
Quando voltava para casa, no alto de um certo desfiladeiro, na Europa, depois de uma reunião familiar comemorativa em Mellin Town, Illinois (alguns anos atrás), bebera muito vinho tinto, forte. Estarei bem, disse para si mesmo, vago, e prosseguiu a longa jornada, sob as estrelas da manhã, sobre as colinas dos campos, que sonham com a lua, para lá de Mellin Town. E então… desastre nos céus.
Uma torre de alta tensão.
Um pato na rede! Que chiado! As faíscas azuis do fio empreteceram-lhe o rosto, ele conseguiu desgarrar-se da eletricidade com uma estupenda percussão das asas, num estupendo salto de costas, e caiu.
Estatelar na ravina enluarada, ali debaixo da torre, foi como o ruído de um enorme catálogo telefônico despencado do céu.
No dia seguinte, de manhã cedinho, batendo com violência as asas encharcadas de orvalho, levantou-se. Ainda estava escuro. Uma faixa tênue de alvorada estendia-se a leste. E logo iria se colorir, e logo os vôos estariam restritos. Assim, nada a fazer senão refugiar-se na floresta e esperar a passagem do dia, nalgum bosque cerrado, até que a nova noite permitisse às suas asas o movimento oculto nos céus.
E, dessa maneira, conheceu a esposa.
Passava o dia, quente para primeiro de novembro, na rural Illinois, e a bela Brunilla Wexley foi ordenhar uma vaca desgarrada, pois levava uma caçamba na mão e, pelo bosque, caminhava de lado, suplicando, esperta, para que a vaca invisível por favor voltasse para casa; do contrário, iria explodir a barriga de tanto leite acumulado. O fato de que a vaca com certeza voltar quando as tetas necessitassem de ordenha não tocou Brunilla Wexley. Pretexto meigo para ir passear na floresta, soprar cardos e mascar flores, o que ela fazia quando tropeçou em Tio Einar.
Adormecido, junto a uma touceira, parecia um homem debaixo de um abrigo verde.
– Chii! — exclamou Brunilla. — Um homem! Numa barraca!
Tio Einar acordou. Para trás, a barraca se abriu, imenso leque verde
– Chii!…
Brunilla, que procurava a vaca, exclamou.
—… Um homem alado!
Foi assim que Brunilla viu as coisas. Assustou-se, é claro, mas, como nunca se machucara na vida, não tinha medo de ninguém, e encontrar um homem alado era algo fantástico. Orgulhou-se em conhecê-lo. Começou a conversar. Em uma hora, já eram velhos amigos, e em duas horas, já se esquecera de que o homem possuía asas. E ele, de certa forma, confessou como viera parar ali no bosque.
– Claro, eu percebi; você está meio bombardeado. A asa direita está mal. É melhor irmos até lá em casa, eu trato dela. De qualquer modo, você não vai conseguir voar para a Europa desse jeito. E, afinal, hoje em dia, quem vai querer morar na Europa?
Tio Einar agradeceu, mas não via jeito de aceitar.
– Mas eu moro sozinha. Como você vê, sou muito feia. Ele insistiu que não.
– É bondade sua. Mas eu sou sim, não adianta me enganar. Minha família já morreu, eu tenho uma fazenda, grande, todinha para mim, bem distante de Mellin Town, e estou precisando de gente com quem conversar.
A menina não sentia medo dele?, Einar perguntou.
– Orgulhosa, e com inveja; isso sim. Você me dá licença?
Cuidadosa, Brunilla acariciou aquelas imensas asas verdes, membranosas, invejando-as. Ao sentir o toque, Tio Einar estremeceu, trincou a língua com os dentes.
Assim, a única coisa a fazer seria mesmo ir até a casa da fazenda e deixar que ela cuidasse dele, com remédios e ungüentos, e, meu Deus!, que queimadura feia no rosto, bem embaixo dos olhos! Sorte você não ter ficado cego! Como foi que aconteceu?
– Bem…
Tio Einar mal começou a contar, e já estavam na casa da fazenda, sem terem percebido que haviam caminhado dois quilômetros, entreolhando-se.
Um dia se passou, e mais outro, e Tio Einar agradeceu, na porta, dizendo que teria que ir-se, agora, que apreciara o unguento, demais, o cuidado, as acomodações. O crepúsculo chegara, e daqui, seis horas da tarde, até as cinco de manhã, ele teria que atravessar um oceano e um continente.
– Muito obrigado! Adeus!
Na penumbra, decolou e chocou-se contra uma acerácea.
– Caramba!
Brunilla correu até o corpo desacordado.
Ao acordar, uma hora depois, Tio Einar percebeu que não poderia voar à noite; sua percepção noturna, delicada, se fora. A telepatia alada que o alertava contra as torres, árvores e colinas que se encontrassem à frente, a visão e a sensibilidade, límpidas, que o guiavam através do labirinto das florestas, colinas e nuvens estavam cauterizadas para sempre por aquela queimadura no rosto, por aquela tritura azul, eletrificada, tostada.
Meigo, Tio Einar queixou-se.
– Como vou conseguir chegar à Europa? Se eu voar de dia, serei visto e — piada macabra! — alguém pode me abater! Ou então querer me levar para um jardim zoológico; que vidão, não? Brunilla, me diga, o que devo fazer?
Brunilla fitava as próprias mãos.
– Ora, vamos dar um jeito nisso… Casaram-se.
A Família veio para o casamento. Numa imensa avalanche outonal, de folhas de aceráceas, plátanos, carvalhos e elmos, mergulhavam numa chuva de castanheiras da índia, tocaram o chão com o ruído surdo da queda das maçãs de inverno, e com o vento impregnado do aroma do adeus do verão partiram. A cerimônia? A cerimônia foi breve como a luz de uma vela negra, acesa e soprada, a fumaça deixada no ar. A brevidade, a escuridão, a natureza invertida, de trás para diante, tudo isso escapou a Brunilla, que ouviu apenas o murmúrio tênue do imenso vagalhão das asas de Tio Einar, ao fim do rito. Ê, no que diz respeito a Tio Einar, a ferida no nariz já quase curada, tomando Brunilla pelo braço, sentiu a Europa esvair-se, diluir-se na distância.
Mas, para voar na vertical, em linha reta, e descer, não era preciso enxergar bem. Nada mais natural, portanto, que tomasse Brunilla nos braços e com ela subisse num vôo reto, vertical, céu adentro.
Um fazendeiro, a uns dez quilômetros dali, viu uma nuvem baixa à meia- noite, viu ligeiros reflexos, ligeiros estrépitos.
– Relâmpagos de verão — comentou, e foi dormir.
Só desceram no dia seguinte, de manhãzinha, com o orvalho.
O casamento vingou. Tudo o que ela fazia era olhar para ele e inflar-se só em imaginar-se a única mulher no mundo casada com um homem alado. Quem diria?, perguntou ao espelho. A resposta veio: Ninguém!
Ele, por seu turno, viu muita beleza oculta por trás do rosto de Brunilla, muita bondade, muita compreensão. Para ajustar-se às ideias da esposa, fez algumas alterações no regime alimentar e tomava cuidado com as asas pela casa; bibelôs lascados e lâmpadas quebradas poderiam ferir-lhe os nervos; deles, procurou distância. Mudou o horário de dormir, já que não mais voaria à noite. Quanto a Brunilla, ajeitou as poltronas para que ficassem confortáveis para as asas de Tio Einar, nalguns lugares colocou almofadas adicionais, de outros, retirou-as, e as coisas que dizia eram precisamente as coisas por que Tio Einar a amava.
– Estamos em casulos, todos nós. Veja como sou feia! Mas, um dia, vou florescer e vou ter asas tão bonitas e elegantes como as suas!
– Você já floresceu há muito tempo! Brunilla refletiu e teve de admiti-lo.
– É, já mesmo. E sei em que dia foi, também. Foi no bosque, eu procurava uma vaca e achei uma barraca!
Os dois riram, e com ele a envolvê-la, Brunilla sentiu-se maravilhosa, sabia que o casamento a fizera desabrochar da feiura, como uma espada resplandecentes, desembainhada.
Tiveram filhos. No início, sentiram medo, mais por parte de Tio Einar, de que nascessem alados.
– Que bobagem! Eu gostaria demais. Estariam protegidos contra os pisões.
– Bem, então, vão ter o seu cabelo!
– Ah, essa não…
Nasceram quatro filhos, três meninos e uma menina, que, de tanta energia, pareciam alados. Em quatro anos, espoucaram como cogumelos; nos dias quentes de verão, pediam ao pai que sentasse debaixo da macieira, os abanasse com suas asas refrescantes e lhes contasse a história romântica, estrelada, das ilhas de nuvens, dos oceanos celestes, da textura da bruma e do vento, de como o gosto da estrela derrete na boca, de como beber o ar frio da montanha, de qual a sensação de ser uma pedra rolada caindo pelo Monte Everest, e transformar-se num broto verde que vem florir-lhe as asas antes mesmo que se chegue lá embaixo!
Assim era o casamento de Tio Einar.
E hoje, seis anos depois, ali estava Tio Einar, sentado, criando úlceras debaixo da macieira, ficando impaciente e indelicado; não porque assim o desejasse, mas porque, depois de longa espera, ainda não conseguia viajar pelo céu da noite, aventuresco; jamais recuperara o sentido superior. Ali estava ele, sentado, acabrunhado, apenas uma barraca de verão, verde, descartada, abandonada, pela temporada, por veranistas indiferentes que outrora buscavam refúgio em sua sombra translúcida. Teria que ficar aqui sentado para sempre, com medo de voar de dia, de que alguém o visse? Teria que voar apenas para secar a roupa para a esposa; ficaria ali apenas a abanar as crianças nas tardes de outono? Sua única ocupação sempre fora transportar mensagens familiares, mais rápido que as tempestades. Um bumerangue, saía a girar por colinas, vales e, como um cardo, aterrissava. Andava sempre com dinheiro; a Família fazia bom uso de seus membros alados! Mas, e agora? Amargura? As asas bateram rápidas, agitaram o ar, num trovão cativo.
– Papai! — chamou a pequenina Meg.
As crianças fitavam-lhe o rosto obscurecido pelo pensamento.
– Papai — pediu Ronald. — Faz mais trovão!
– Hoje está frio — respondeu Tio Einar —, estamos em março, logo vamos ter muita chuva, muito trovão.
– Você vem ver a gente? — perguntou Michael.
– Andem, andem, meninos! Deixem papai descansar!
Tio Einar estava fechado para o amor, as crianças do amor, o amor das crianças. Pensava apenas no firmamento, no céu, nos horizontes, nos infinitos, de noite, de dia, iluminados pelas estrelas, pela lua ou pelo sol, nublados ou límpidos, eram sempre o mesmo céu, o mesmo firmamento, o mesmo horizonte ali à frente, e você, amargurado. E lá estava ele, a navegar pelo pasto, com medo de ser visto.
A desgraça, num poço profundo. Meg chamou:
– Papai, vem ver a gente; estamos em março! E nós vamos à Colina com os guris da cidade!
Tio Einar resmungou:
– Que colina?
– A Colina das Pipas, é claro! — cantaram em coro. Tio Einar olhou para as crianças.
Cada uma com uma pipa grande nas mãos, os rostos transpiravam por antecipação, um brilho animalesco. Nos dedinhos, rolos de linha branca. Nas pipas vermelhas, azuis, amarelas e verdes, estiravam-se caudas, tiras de algodão e seda. Ronald insistiu.
– Nós vamos empinar papagaio! Por que não vem? Tio Einar estava triste.
– Não, se alguém me vir, estarei em apuros.
– Você poderia ficar escondido no bosque e olhar — disse Meg. — Nós mesmos fizemos as pipas. Porque sabemos fazê-las.
– E como é que vocês sabem?
– Você não é o nosso pai? — resposta imediata. — É por isso que sabemos, ora!
Tio Einar fitou as crianças por longo tempo. Suspirou:
– Um Festival de Pipas, não é?
– Isso mesmo!
– Eu vou ganhar — afirmou Meg.
– Eu é que vou — contradisse Michael.
– Não, sou eu, sou eu — esganiçou Stephen.
Tio Einar saltou, com um rufar surdo, ensurdecedor, das asas, e urrou:
– Por Deus! Se não foi Deus quem me apareceu pela frente! Meus filhos!
Meus filhos! Eu amo vocês, demais!
Michael recuou.
– Papai, o que é que houve? Einar entoou:
– Nada! Nada!
E flexionou as asas, em propulsão, em extensão máximas. Pam! Bateu-as qual pratos de banda! Com a percussão, as crianças estatelaram-se de costas.
– Descobri! Descobri! Estou livre de novo! Fogo nas turbinas! Penas ao vento! Brunilla!
Einar gritou na direção da casa. Brunilla apareceu. Einar gritou, exuberante, esguio, na ponta dos dedos.
– Estou livre, Brunilla. Ouça, não preciso mais da noite! Posso voar de dia! Não preciso da noite! De agora em diante, vou voar todo dia, qualquer dia do ano! Mas, meu Deus, estou perdendo tempo, conversando. Olhe!
Ante o olhar preocupado dos familiares, Einar pegou a cauda de algodão de uma das pipas, amarrou-a atrás do cinto, segurou o rolo de barbante, abocanhou uma das extremidades, estendeu a outra às crianças, e subiu, voou para o céu, afastando-se ao vento de março!
Pelos prados, pelos campos das fazendas, as crianças correram, soltando linha para o céu diurno, espumando, tropeçando; Brunilla ficou no quintal para ver, acenava, ria. Os filhos partiram para a Colina das Pipas, lá longe, e pararam, os quatro, a segurar o rolo de linha nos dedinhos ávidos e orgulhosos, cada um dando seus puxões, manobrando, empinando. E as crianças de Mellin Town vieram correndo para empinar seus pequeninos papagaios ao vento, viram a imensa pipa verde empinar, planar no céu, e exclamaram:
– Caramba! Que pipa! Que pipa! Eu queria ter uma pipa assim! Onde foi que vocês compraram?
– Foi nosso pai que fez.
Meg, Michael, Stephen e Ronald responderam, e, exultantes, puxaram a linha, e a pipa sibilante, trovejante, lá no céu, mergulhou e subiu, formando, com a nuvem, um ponto, mágico, de exclamação!
Ray Bradbury
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