quarta-feira, maio 20

O país que ama livros, mas despreza quem os escreve

Portugal gosta de se olhar ao espelho como país de poetas, de cronistas, de romancistas maiores. Evoca Camões, Fernando Pessoa, Sophia, Saramago como quem recita uma ladainha identitária. Repete, com orgulho quase automático, que “somos um país de cultura”. O problema é que, no mercado real do livro, essa ideia nobre desaba à primeira folha de contrato. O autor português, hoje, é glorificado na retórica e anémico na prática.


Comecemos pelos números, porque a elegância da crítica não dispensa a frieza dos factos. A esmagadora maioria dos contratos editoriais em Portugal fixa os direitos de autor entre 8% e 10% do preço de capa. É um valor assumido como padrão do setor e amplamente contestado por criadores, associações e petições públicas dirigidas ao Parlamento e ao Ministério da Cultura. Não se trata de uma perceção subjetiva; trata-se de um modelo estrutural em que o criador é o elemento menos remunerado de toda a cadeia do livro.

Chamemos-lhes pelo nome exato: migalhas.

Num livro vendido a 18 ou 20 euros, o autor recebe pouco mais de um euro por exemplar, pago meses ou anos depois, sem salário mínimo, sem proteção laboral, sem estabilidade. Todo o risco criativo é seu. Todo o risco financeiro, também. Ainda assim, o sistema insiste em chamar a isto “parceria”.

O paradoxo torna-se ainda mais gritante quando se olha para o mercado no seu conjunto. Em 2024, segundo dados da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), baseados na auditoria da GfK, o mercado livreiro português cresceu cerca de 9% em valor, ultrapassando os 200 milhões de euros em vendas. Há crescimento, há celebração, há comunicados otimistas. Mas a pergunta essencial raramente é feita: quem beneficia realmente deste crescimento?

Certamente não os autores.

A cadeia funciona como um organismo bem treinado. E aqui a metáfora impõe-se, não por provocação fácil, mas por precisão biológica. O sistema editorial − sobretudo nas suas formas dominantes − comporta-se como uma sanguessuga elegante. Não mata o hospedeiro, porque precisa dele vivo. Limita-se a sugar o suficiente para prosperar, garantindo que o autor nunca recupera forças para ter autonomia. O contrato é legal, o discurso é cultural, a sangria é contínua.

Mas as editoras não estão sozinhas neste ecossistema. Há um outro silêncio, mais incómodo, mais sensível − e talvez por isso menos discutido. O silêncio dos grandes autores.

Os consagrados. Os premiados. Os omnipresentes nas feiras, nos festivais, nos jornais, nos programas culturais de televisão. Aqueles que ocupam, ano após ano, os mesmos espaços de visibilidade. Não se lhes pede que salvem o mundo editorial, nem que adotem escritores emergentes como causa pessoal. Pede-se apenas o essencial: solidariedade cultural, reconhecimento do outro, um mínimo de humildade histórica. Humanidade.

Mas essa mão estendida raramente existe.

Os grandes autores portugueses quase nunca recomendam autores emergentes. Não os citam, não os divulgam, não os convidam para conversas públicas, não usam o seu capital simbólico para abrir o campo. O êxito transforma-se em enclave. A literatura, em escada retirada após a subida.

Não se trata aqui de intenções morais nem de acusações individuais. Trata-se de responsabilidade estrutural. Num país pequeno, com hábitos de leitura frágeis − como reconhecem os próprios estudos nacionais, que mostram uma leitura irregular e uma média anual de livros lidos em queda −, a falta de circulação simbólica é culturalmente devastadora. Um sistema que não passa o testemunho condena-se à repetição e, a prazo, à irrelevância.

E onde está a comunicação social neste processo? Onde estão as televisões, os jornais, as revistas, as rádios, que se dizem atentos à cultura?

Em demasiados casos, estão a reforçar exatamente a mesma lógica. Os programas culturais de televisão convidam sempre os mesmos rostos, exploram a mesma nómina segura, evitam o risco. As páginas literárias dos jornais preferem nomes reconhecíveis, prémios já atribuídos, autores com chancela validada. Não por má-fé, certamente, mas por comodidade editorial e medo do fracasso de audiência.

A cultura, quando entra na lógica televisiva, torna-se espetáculo domesticado. O livro deixa de ser pergunta e passa a ser decoração. Incomodar dá menos cliques do que repetir.

As grandes feiras do livro são o espelho mais cruel desta engrenagem. Apresentadas como celebrações da diversidade e da leitura, funcionam, na prática, como montras hierarquizadas. Em 2025, várias editoras independentes denunciaram publicamente a dificuldade em crescer no principal evento literário do País, acusando a entidade organizadora de favorecer grandes grupos editoriais e de bloquear sistematicamente pedidos de maior espaço. Menos espaço significa menos visibilidade; menos visibilidade legitima menos espaço no ano seguinte. O ciclo fecha-se com a elegância de um mecanismo administrativo.

E, mais uma vez, o silêncio. Onde estavam os grandes autores a questionar este modelo? Onde estavam os que têm palco garantido a dizer: “Isto não é justo”? Onde estavam os que se dizem herdeiros de uma tradição crítica a exercer, finalmente, essa tradição no presente?

O desprezo pelos autores não é declarado. É educado. Institucional. Está nos contratos, nas percentagens, nos convites que nunca chegam, nas listas que se repetem, nos elogios vazios sobre “qualidade” que escondem uma palavra mais feia: segurança comercial.

Portugal continua a dizer que ama livros. Mas amar livros não chega. É preciso amar quem os escreve quando ainda ninguém os conhece. É preciso aceitar o risco da novidade. É preciso que a consagração venha acompanhada de memória, de gratidão e de responsabilidade.

Enquanto isso não acontecer, o mercado continuará a crescer à superfície e a secar por dentro. As sanguessugas continuarão elegantes. E os autores − esses − continuarão vivos, sim, mas permanentemente enfraquecidos.

E um país que trata assim os seus criadores pode ler muito, vender muito, celebrar muito − mas dificilmente será um país verdadeiramente culto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário