Devia ter entre 8 e 9 anos quando tive uma iluminação. Diria epifania, se conhecesse a palavra naquela época. Era algo fascinante (esse adjetivo eu sabia, só faltava ocasião para usá-lo): um texto sem versos ou rimas, mas com os dons encantatórios de um poema. Não contava uma história, como num conto — era mais um comentário, quase confidência. E tinha humor. Muito. Eu, incapaz de rimar ou metrificar e sem me sentir à vontade ao inventar enredos, intuí — com um tiquinho de ingenuidade e muita pretensão — que aquilo eu conseguiria escrever. Bastava ser eu mesmo, tirando partido de tudo o que ignorava (e era coisa pra caramba). Só bem depois vim a saber que aquela camaradagem por escrito se chamava crônica.
Do texto em si, não ficou uma sílaba na memória, ainda que eu o tenha copiado no caderno e tentado datilografá-lo, catando milho na Remington do meu pai. Só me lembro do esquisitíssimo nome do autor: Millôr. Ele me pareceu um adulto que não se esquecera de um dia ter sido criança.
Anos mais tarde, topei com Carlos Eduardo Novaes, outro que ria com as palavras — mas eu não havia sido apresentado ao substantivo “lúdico” para definir o que me atraía nele. Então chegaram Stanislaw Ponte Preta, Leon Eliachar, Luís Fernando Veríssimo — todos eles adultos brincalhões, dando uma pista de que eu não precisaria abrir mão de ser quem eu era quando virasse gente grande (mal sabia que ser cronista é nunca virar gente grande).
Fui aos poucos descobrindo a prosa amena de Drummond, um avô de quem era bom ouvir os casos. De Fernando Sabino, o tio amoroso. De Rubem Braga, o padrinho cuja presença silenciava tudo à sua volta. Mais adiante, Antônio Maria se juntou à família — e a estante quase que só tinha esse povo que escreve em língua de gente, não de livro.
Um dia, depois de ter sido arquiteto por quatro décadas e ter desistido (temporariamente) do atrevimento de ser psicanalista, lá estava eu, escrevendo crônica em jornal, em revista e coordenando uma oficina em que aquele arrebatamento pelo Millôr fosse compartilhado com quem tivesse tido experiências similares com Cecília, Rachel, Machado, Clarice.
Nesta semana, na oficina, acompanhamos Ruth de Aquino fazer de Atafona personagem de uma saga familiar, e André Gabeh reinventar, pela via do riso, os perrengues do subúrbio. Experimentamos com Ivan Lessa a sensação de ser estrangeiros no tempo, na geografia, dentro de nós mesmos. Pelos olhos de Carlos Heitor Cony, nos vimos no dia seguinte ao golpe de 1964. Nélson Rodrigues nos levou por um Rio de Janeiro que renascia, pós-gripe espanhola, no carnaval de 1920. E aí percebemos serem as crônicas — raramente vistas nas chamadas de primeira página — aquilo que melhor retrata o festival de besteiras que assola o país, a alma encantadora das ruas, o caos nosso de cada dia, a comédia da vida privada. E que é preciso muito treino para ser natural, muito vocabulário para escrever como se fala.
Quem quer que, ainda aos 8 anos ou já pelos 80, tenha lido Artur Xexéo, Danuza Leão ou João Ubaldo há de ter tido a ilusão de sermos todos cronistas em suspensão, capazes de tanger, com a mesma leveza, uma nuvem de palavras.
Eduardo Affonso
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