sábado, outubro 13

Quatro contos inédiitos do jovem García Márquez

O silêncio de uma cidade do interior do Caribe colombiano. O microcosmos de Aracataca, o impacto emocional provocado por um lugar ao qual se regressa, essa matéria-prima da qual Macondo nasceu. “Aquilo era como voltar a olhar as ilustrações de um livro conhecido na infância”, escreveu Gabriel García Márquez em Relato de las Barritas de Menta (Conto das barrinhas de menta), um texto inédito que vem à tona com outros três originais escritos entre 1948 e 1952. O Banco da República da Colômbia os reuniu em Los Papeles de Gabo, ao lado de textos datilografados e manuscritos do então jovem jornalista.


“Talvez eu os tivesse conhecido a todos e agora eles me olhavam passar e me reconheciam pensando ‘veja, o morto regressou’. E, de certa forma, eles tinham razão.” Assim narrou o escritor em uma viagem à sua cidade natal, provavelmente na segunda vez que voltava e na primeira que o fazia sozinho. O prêmio Nobel de Literatura relatou suas sensações nessa narração, apresentada no Festival García Márquez de Medellín, onde também vieram a público Olor Antiguo (cheiro antigo), El Ahogado Que Nos Traía Caracoles (o afogado que nos trazia conchas) e um relato sem título. Trata-se de textos que serão expostos na Biblioteca Luis Ángel Arango de Bogotá, adquiridos pelo Banco da República da Colômbia e que se somam às 44 caixas doadas à rede de bibliotecas da entidade pela viúva do escritor, Mercedes Marcha, e por seu filho Gonzalo García Barcha.

Durante o “Bogotazo”, a revolta ocorrida em 1949 na capital colombiana após o magnicídio do líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, foi incendiada a casa onde García Márquez morava. O jovem estudante de Direito, nascido em Aracataca em 1927, subiu então num caminhão dos correios e retornou à costa. Em Cartagena, em meio à luta contra a indigência, ele começou a escrever como aprendiz no jornal El Universal. A essa época, até 1952, remontam os textos apresentados por Alberto Abello Vives, diretor da Biblioteca Luis Ángel Arango, pelo pesquisador Sergio Sarmiento e por Jaime Abello Banfi, diretor-geral da Fundação do Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI, na sigla em espanhol), que leu Relato de Las Barritas de Menta e salientou a importância desse acervo. García Barcha recordou que o romancista rasgava “as folhas de papel que não lhe serviam”. “Acredito que Gabo teria gostado de ser como Vermeer”, disse, em referência ao pintor holandês. “Gostaria que ninguém nunca soubesse quais eram as costuras por trás de seus quadros”.

No entanto, por seu valor, hoje se conhecem alguns desses rascunhos. O primeiro é um conto sem título, que faria parte de Relatos de Un Viajero Imaginario (contos de um viajante imaginário) e que finalmente foi eliminado da série. Descreve o que acontece numa pequena cidade durante um eclipse solar. De El Ahogado Que Nos Traía Caracoles, conservaram-se os únicos fragmentos que García Márquez escreveu. O romancista se referiu a esse texto num artigo publicado no EL PAÍS em 1982. “Durante muitos anos (...), sonhei em escrever um conto do qual só tinha o título: El Ahogado Que Nos Traía Caracoles. Lembro que falei sobre isso com Álvaro Cepeda Samudio [escritor e jornalista colombiano] numa estrepitosa noite de amores de Pilar Ternera, e ele me disse: ‘Esse título é tão bom que nem é preciso escrever o conto’... Quase 40 anos depois, surpreendo-me ao ver quão certeira foi aquela réplica. De fato, a imagem do homem imenso e encharcado que devia chegar de noite com um punhado de conchas para as crianças ficou para sempre no desvão dos contos sem escrever.”

Em Olor Antiguo, Gabo começa a experimentar com influências novas, deixa o estilo kafkiano e se aproxima de Ernest Hemingway, explica Sergio Sarmiento. “Imagine um casal que comemora 50 anos de casamento. O homem está sentado num quarto contando como a conheceu, e a mulher pensa que o homem tem que deixar de recordar...” Até que “ele percebe que se casou com a gêmea errada, casou-se com a gêmea que odiava, não com a que amava.”

"Relato de las Barritas de Menta“ descreve Aracataca muito brevemente de uma forma muito dura, é uma versão muito pessoal de ficção”, prossegue o pesquisador. Fala, por exemplo, de um lugar onde migrantes recém-chegados vendiam alguns produtos. “O armazém escuro dos italianos, onde vendiam botas para as crianças e sardinhas para os adultos e barras de menta para pequenos e grandes e cujo interior cheirava a pão dormido e petróleo cru”, escreveu García Márquez. Esse lugar ainda reverbera na memória do povoado. Aqueles italianos – explicou Rafael Darío Jiménez, responsável pela Casa de Gabriel García Márquez, durante uma visita realizada por ocasião do quinquagésimo aniversário de Cem Anos de Solidão – viajaram até o departamento colombiano de Magdalena e organizaram os primeiros sindicatos da plantação de bananas da United Fruit Company, cujo massacre de trabalhadores fará 90 anos em dezembro. E também eles, como todo o resto, povoaram esse imaginário que deu vida a Macondo.
Francesco Manetto

Conto das barrinhas de menta (Início)

Finalmente cessou o som agudo dos freios. A roda calçou no trilho abrasado, e o esgotador e poeirento silêncio do povoado penetrou no vagão. Era um silêncio igual ao vilarejo, feito de seus mesmos e desolados ingredientes, de suas ruas retas, largas e vazias, de seus enormes quintais quadrados, frescos sob a penetrante umidade das bananas e de suas velhas casas de madeiras arruinadas sob o pó com antigos mobiliários e mulheres escuras sem idade nem pressentimentos estendidas na letargia da sesta. Não tinha mais de 20 anos esse silêncio, mas sua maturidade, sua devastadora experiência lhe davam um aspecto secular e o faziam parecer um silêncio tão antigo quanto o resplendor da poeira nas ruas ou como a claridade dos espelhos que haviam perdido a memória dos últimos rostos. A sensação da morte estava presente.

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