domingo, março 9

Serafita, uma gata burguesa!

Conquistar a amizade de um gato é tarefa difícil. É um animal filosófico, metódico, tranquilo, seguro de seus hábitos, amigo da ordem e da limpeza, e que não dedica suas afeições imponderadamente: ele quer ser seu amigo, se você fizer por merecer, mas não o seu escravo. Em sua estima ele mantém o livre-arbítrio, e não fará por você o que julgar irrazoável; mas uma vez que ele se entregue a você, que confiança absoluta, que fidelidade de afeição! Ele se torna o seu companheiro nas horas de solidão, de melancolia e de trabalho. Ele permanece noites inteiras sobre os seus joelhos, ronronando e feliz à sua volta, a desconsiderar, desse modo, a companhia de animais de sua espécie. Em vão os miados hão de ressoar sobre o telhado, convidando-o a um desses saraus para gatos nos quais o chá é substituído por um suco de arenque defumado; contudo, ele não ser verá tentado, e prolongará a vigília com você. Se você colocá-lo no chão, ele rapidamente voltará ao seu lugar com uma espécie de arrulho que soa como suave repreensão. Às vezes, sentando à sua frente, ele lhe contempla com os olhos tão comoventes, tão ternos e tão humanos, que há nisso algo de assustador; pois é impossível supor que sua mente seja desprovida de pensamentos.


Don Pierrot de Navarra tinha um companheiro de mesma raça, e não menos branco do que ele. Tenho acumulado na “Sinfonia em Branco Maior” todas as expressões para dar ideia de que uma brancura como a da neve seria insuficiente para qualificar a pelagem imaculada de minha gata, ao lado da qual a pele do arminho pareceria amarela. Eu a chamei Seraphita, em memória ao romance swedenborgiano de Balzac. Jamais a heroína dessa lenda maravilhosa, quando escalava com Minna os picos cobertos de neve de Falberg, deixava de irradiar brancura mais pura. Seraphita tinha um temperamento sonhador e contemplativo. Passava longas horas imóvel sobre uma almofada, sem dormir, os olhos a seguir, com uma atenção de extrema intensidade, espetáculos invisíveis para os simples mortais. Ela gostava de carícias, embora as aceitasse de forma muito reservada, e apenas de pessoas a quem houvera honrado com sua aprovação, dificilmente concedida. O luxo lhe agradava, e sempre estávamos seguros de encontrá-la enovelada na poltrona mais nova ou sobre a peça estofada que mais se assemelhasse a um encosto com penas de cisne. Sua toalete levava um tempo enorme; sua pelagem era cuidadosamente alisada todas as manhãs. Ela usava suas patas para lavar-se; e cada pelo do seu velo, depois de escovado com a sua língua rosada, brilhava como prata nova. Quando tocada, ela imediatamente apagava os vestígios do contato, pois não suportava estar desalinhada. Sua elegância e distinção sugeriam uma ideia de aristocracia; e, entre os de sua raça, deve ter sido ao menos uma duquesa. Ela se deleitava com perfumes, mergulhava o focinho nos buquês, mordendo, com pequenos espasmos de prazer, os tecidos impregnados com o olor; caminhava sobre a penteadeira entre os frascos de perfumes, farejando as rolhas; e se houvesse sido autorizada a fazê-lo, ter-se-ia lançado pó de arroz com prazer. Tal era Seraphita; e jamais uma gata justificou melhor um nome 
tão poético.
Theóphile Gautier

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