terça-feira, junho 3

O cavaleiro do balde

Todo o carvão consumido; vazia a tina; sem sentido a pá; respirando frio o fogão; o quarto cheio dos sopros da friagem gelada; diante da janela, árvores rígidas na geada; o céu, um escudo prateado voltado contra aquele que quer a ajuda dele. Preciso de carvão; afinal de contas não posso morrer congelado; atrás de mim a lareira inclemente, diante de mim o céu igual, em razão disso preciso cavalgar vigorosamente entre eles e buscar no meio dos dois a ajuda do comerciante de carvão. Ele, no entanto, já está embotado diante de meus pedidos usuais; eu preciso lhe mostrar com toda a exatidão que não tenho mais um único grãozinho de pó de carvão. Preciso chegar como o mendigo que, estertorando de fome, está prestes a morrer à míngua na soleira da porta, e ao qual, por isso, a cozinheira do senhorio se decide por pingar em sua boca a borra do último café; do mesmo jeito, o comerciante será obrigado a arremessar, furioso, mas sob o raio do mandamento, “Não matarás!”, uma pá cheia de carvão em meu balde.

Já minha subida tem de decidir tudo; por isso, eu cavalgo no balde até lá. Como cavaleiro do balde, a mão em cima, na alça, a mais simples das rédeas, eu me viro com dificuldade descendo a escada; lá embaixo, porém, meu balde se levanta, suntuoso, suntuoso; camelos, deitados junto do chão, não sobem mais bonito, se sacudindo sob a vara do guia. Pela ruela paralisada pelo gelo, todos seguem em trote regular; muitas vezes sou levantado até a altura do primeiro andar; jamais afundo até a porta do prédio. E pairo extraordinariamente alto diante da abóbada do porão do comerciante, na qual ele se agacha fundo, lá embaixo, junto à sua mesinha, e escreve; para permitir que o calor excessivo saia, ele abriu a porta.

– Vendedor de carvão! – eu chamo com o oco da voz queimada de tanto frio, envolvida nas nuvens de fumaça da respiração. – Por favor, comerciante de carvão, me dá um pouco de carvão. Meu balde já está tão vazio que posso cavalgar sobre ele. Tenha a bondade. Assim que eu puder, pagarei por ele.

O comerciante bota a mão no ouvido.

– Estou ouvindo bem? – ele pergunta por sobre os ombros à mulher, que tricota no banco da lareira. – Estou ouvindo bem? Um cliente.

– Eu não ouço absolutamente nada – diz a mulher, inspirando e expirando com tranquilidade sobre a agulha de tricô, aquecida agradavelmente às costas.

– Oh, sim – eu estou chamando –, sou eu, um antigo cliente, sempre fiel, apenas sem meios no momento.

– Mulher – diz o comerciante –, há alguém, sim; afinal de contas não posso me enganar tanto assim; deve ser um cliente antigo, bem antigo, para conseguir me falar tanto assim ao coração.

– O que tu tens, homem? – diz a mulher e aperta, descansando por um momento, o trabalho manual junto ao peito. – Não é ninguém, a ruela está vazia, toda a nossa clientela está abastecida; podemos fechar o negócio por vários dias e descansar.

– Mas eu estou sentado aqui, sobre o balde – eu chamo, e as lágrimas insensíveis do frio me nublam os olhos. Por favor, olhem para cima; se o fizerem, logo me descobrirão; estou pedindo uma pá cheia e, se me derem duas, me farão extremamente feliz. Ora, toda a clientela restante já foi abastecida. Ah, se eu já ouvisse o estrépito do carvão no balde!

– Estou indo – diz o comerciante e, de pernas curtas, quer subir a escada do porão, mas a mulher já está junto dele, segura-o pelo braço e diz:

– Tu ficas. Se não abrires mão de tua teimosia, eu mesma vou subir. Lembra-te da tua tosse pesada hoje à noite. Mas por um negócio, e ainda que seja apenas imaginado, tu esqueces mulher e filho e sacrificas teus pulmões. Eu vou.

– Nesse caso, menciona a ele todos os tipos que temos em estoque; os preços eu mesmo gritarei para ti.

– Muito bem – diz a mulher, e sobe até a ruela. Naturalmente ela me vê logo.

– Senhora comerciante de carvão – eu grito –, minha mais cordial saudação; só uma pá de carvão; logo aqui, no balde; eu mesmo o levarei para casa; uma pá do pior. Eu naturalmente vou pagar o preço todo, mas não logo, não logo. – Que som de sino é o das duas palavras “não logo”! E como elas se misturam, confundindo os sentidos, com as batidas do anoitecer, que justo agora podem ser ouvidas da torre da igreja próxima!

– Mas o que ele quer, afinal de contas? – grita o comerciante.

– Nada – grita a mulher de volta –, não é nada; não vejo nada, não ouço nada; é apenas o sino das 6 horas que está tocando, e nós fecharemos. O frio é monstruoso; amanhã provavelmente ainda teremos muito trabalho.

Ela não vê nada e não ouve nada; mas mesmo assim solta a amarra do avental e tenta me rechaçar abanando-o. Lamentavelmente consegue. Meu balde tem todas as vantagens de uma boa montaria; não tem força para resistir; é leve demais; um avental de mulher lhe arranca as patas do chão.

– Mulher cruel – eu ainda grito de volta, enquanto ela, se voltando para a loja, meio desprezando, meio satisfeita, golpeia o ar com a mão. – Mulher cruel! Implorei apenas por uma pá do pior e tu não a deste a mim. – E com isso subo para a região das montanhas geladas e me perco para nunca mais ser visto.
Franz Kafka

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