Os insetos dispersaram, mas um segundo depois estavam de volta e uma vez mais circundavam a chama trémula. O Dr. Fischelson limpou o suor da testa enrugada e suspirou, “tal como os homens eles não querem mais nada do que o prazer do momento.” Na mesa havia um livro aberto, escrito em latim, e nas suas largas margens estavam anotações e comentários rabiscados em letra pequena pelo Dr. Fischelson. O livro era a Ethica de Spinoza que o Dr. Fischelson estudava há 30 anos. Conhecia-lhe de memória todas as preposições, todas as provas, todos os corolários e cada nota. Quando ele queria encontrar uma passagem em particular, geralmente abria o livro no lugar exacto sem ter de procurar. Mas, ainda assim, continuava a estudar a Ethica horas a fio todos os dias, com uma lupa nas suas mãos magras, murmurando e acenado a cabeça. A verdade é que quanto mais o Dr. Fischelson estudava, mais frases surpreendentes encontrava, mais passagens pouco claras e mais observações crípticas. Cada frase continha pistas inimagináveis para qualquer dos estudiosos de Spinoza. Na verdade, o filósofo antecipara toda a crítica da razão pura feita por Kant e pelos seus seguidores. O Dr. Fischelson estava a escrever um comentário à Ethica. Tinha gavetas cheias de anotações e rascunhos, mas parecia que nunca iria completar o trabalho. O problema de estômago que o atormentava há anos piorava de dia para dia. Agora o estômago começava a doer-lhe logo às primeiras colheradas de farinha de aveia. “Deus do céu, é difícil, muito difícil”, dizia para si próprio usando a mesma entoação do seu pai, o falecido rabino de Tishevitz. “É muito, muito difícil.”
O Dr. Fischelson não tinha medo de morrer. Primeiro, porque já não era um homem novo. Segundo, como declara a quarta parte da Ethica, “um homem livre pensa apenas na morte e a sua sabedoria é uma meditação, não na morte, mas da vida.” Terceiro, porque também se diz que “a mente humana não pode ser absolutamente destruída com o corpo humano pois há uma parte dela que permanece eterna.” Ainda assim, a úlcera do Dr. Fischelson (ou talvez fosse cancro) continuava a importuná-lo. A sua língua sabia-lhe sempre mal. Arrotava frequentemente e emitia um gás nauseabundo de cada vez que o fazia. Sofria de azia e cãibras. Umas vezes apetecia-lhe vomitar, mas outras vezes tinha apetite para alho, cebolas e fritos. Há muito que deitara fora os medicamentos receitados pelos médicos e procurava os seus próprios remédios. Descobrira os benefícios de comer rábano ralado após as refeições e de ficar deitado na cama, de barriga para baixo, com a cabeça pendida para um dos lados. Mas estes remédios caseiros ofereciam apenas um alívio temporário. Alguns dos médicos que consultara garantiam-lhe que não tinha doença alguma. “É só nervos”, disseram-lhe. “Você pode viver até aos 100 anos.”
Mas, nesta noite quente de Verão, faltavam as forças ao Dr. Fischelson. Os joelhos tremiam-lhe e tinha o pulso fraco. Sentou-se para ler, mas a visão tornou-se nublada. As letras dançavam na página, ora verdes, ora douradas. As linhas ondulavam, saltando umas sobre as outras, criando largos intervalos em branco, como se pedaços do texto tivessem desaparecido de forma misteriosa. O calor era insuportável e vinha diretamente do teto de lata; o Dr. Fischelson sentia-se dentro de um forno. Por várias vezes subiu os quatro degraus em direção à janela e pôs a cabeça à mercê da brisa refrescante da noite. Ficava naquela posição até que os joelhos lhe começavam a tremer. “Oh, que bela brisa!”, murmurava ele, “um verdadeiro encanto”, e lembrava-se que, segundo Spinoza, moralidade e felicidade eram idênticas, e que a maior ação moral a que um homem podia aspirar era entregar-se a um qualquer prazer que não fosse contrário à razão.
Isaac Bashevis Singer, "47 contos"

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