segunda-feira, maio 1

No meio da tarde

A princípio, pensei que um deles havia se machucado ao chegar ao meio-fio, depois de atravessar a avenida. Casal de idosos, permanecia agachado bem junto à pista, de costas para a via de tráfico intenso, ignorando o perigo.

Vi que se falavam, mas não se erguiam. Fui até eles, mesmo com as mãos tomadas pelos pacotes do supermercado. Só então, percebi que o drama era outro: procuravam algo entre os mosaicos portugueses.

A uma distância respeitosa, perguntei se precisavam de ajuda. Enfim, pude ver seus rostos. A senhora logo tratou de esclarecer: “Perdi uma moeda e não estávamos encontrando, agora achamos”. Com alívio mútuo, nos despedimos e, de braços dados, os dois seguiram caminho contrário ao meu.


Fui para casa pensando que, tempos atrás, talvez até o trânsito parasse, para verificar o que acontecia, e algumas pessoas teriam ido em direção ao casal, mas desta vez só eu notara os dois: idosos são quase sempre invisíveis.

Também em outros tempos, quem sabe a dupla não se importasse com a moeda perdida, mas agora parecia fazer falta. O salário dos idosos não costuma acompanhar a inflação ou compensar perdas causadas pela crise econômica.

Queria saber mais sobre aqueles dois. O que faziam no meio daquela tarde, de onde vinham? Teriam filhos e/ou netos? Morariam nas redondezas? Como se chamariam? Minha cabeça fantasiosa criava enredos, todos sem nada que os comprovasse.

Perdi os idosos de vista, devem ter entrado no supermercado. A vida, esta sim, me atropelou com seus afazeres urgentes. Espero que tenham usado a moeda.

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