domingo, setembro 30

Noite prosaica, calma na minha rua

Sozinho em casa, minha mulher foi a um coquetel de trabalho, estava linda e sorridente quando saiu. Minha filha foi ver a Bienal com um convite especial, a mostra ainda não estava aberta para o público. Sozinho, me deu fome. Desci para o Vianna, bar na rua atrás da minha, onde fiz o lançamento de um livro há alguns anos e o bairro inteiro compareceu, foi uma festa nossa que me lembrou a atmosfera do primeiro jantar do jovem personagem de Roma, filme de Fellini. Todos se conheciam, conversavam, sabiam da vida de uns e outros. Noite bastante fresca, pedi uma omelete de queijo gruyère, com uma saladinha e tudo me pareceu a França, imaginação é tudo...

Gostei de ver um casalzinho que tomava chope e conversava, conversava, conversava. Os celulares ficaram abandonados na mesa, soltos, nem chamaram, nem foram chamados, nada daquela fissura de ficar mandando e recebendo mensagens ou instagrams ou o que fosse. Na saída, passei pela mesa deles e confessei: “Há muito não via duas pessoas a conversar realmente. Nem por um minuto olharam para os telefones, entretidos um com o outro. Viva”. Surpresos, eles riram, agradeceram. Nem tudo está perdido.

Dado o friozinho não havia muita gente na rua. E olhe que por aqui está cheio de bares. Passei por um casal talvez cinquentão, os dois me cumprimentaram: “Boa noite, escritor”. Assim me chamam por aqui. Outros dizem mestre. Há quem prefira professor, para eles é um título honorífico. Esse tempo já existiu. Segui, o dono da farmácia me apertou a mão, “leva nada hoje?”, como se a cada dia ou noite eu levasse alguma coisa. Continuei, jovens me acenaram do outro lado da calçada, da hamburgueria Underdog, excelente carne, principalmente um shoulder maravilhoso. Reino de jovens, enchem a calçada, cervejas na mão, conversam, é o mesmo clima do antigo footing. Na outra quadra tem o Cão Veio, cheio de tatuados, barbudos, casacos de couro, há tempos, curioso e faminto, quase consegui lugar, mas éramos três e uma garçonete nos disse: “Pena, essa mesa é para quatro, não pode”.

Mais à frente uma japonesinha (mora no meu prédio): “Boa noite, escritor”. Uma noite de paz, tranquila, de vida calma, normal, cotidiana, prosaica, pessoas se cumprimentando, entrando na padaria, no supermercadinho expresso, para compras rápidas, boa noite escritor, daqui e dali, como se fosse – e é – uma vila do interior, nos conhecemos todos, sabemos o que cada um faz, quem é mulher de quem, marido ou namorado de quem, alguns levam os cachorros para o último xixi, alguém passa apressado com uma cesta cheia de Heinekens, o restaurante Arturito, chique, caro, sempre com fila na porta, parece deserto, a lojinha de produtos de beleza desce as portas, sigo para casa.

Muitas vezes essa paz me contamina, gosto, preciso dela, é a vida normal pulsando, escorrendo. Entro em casa, os gatos me esperam na porta, dou comida aos dois. Não sei se vejo tevê ou se leio um livro. Bom ter acabado o romance, entregue, vê-lo publicado. Porque acabou aquela ânsia de escrever continuamente, resolver problemas, a cada dia, cada momento, ter dúvidas sobre um trecho, um nome, uma situação. Ao mesmo tempo, vem um vazio, uma coisa estranha, de paz e inutilidade. Prefiro abrir um livro que me chamou na livraria, dia desses. Não tem essas coisas com vocês? Um livro chamar? E quando vê você está comprado?

Esse foi uma pequena antologia poética de Anna Akhmátova, excelente poeta russa, nascida em 1889 e falecida em 1966. Considerada hoje uma das mais importantes poetas da Rússia, viveu um vida dramática, foi perseguida pelo governo stalinista, que não a deixava publicar, viu o primeiro marido fuzilado, o terceiro marido morreu em um campo de concentração e o filho dela foi preso. Segundo Lauro Machado Coelho, belo crítico, tradutor e especialista em ópera (comprei seus livros para minha filha), Anna produziu um dos maiores testemunhos literários do sofrimento individual sob a opressão política. Apago a luz, a noite está sem um ruído.

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