quinta-feira, setembro 17

A escrita humana espelha a do universo

XXVIII

 Ditas ou escritas, as palavras avançam e inscrevem-se umas atrás das outras no seu espaço próprio: a folha de papel, a parede de ar. Vão daqui para ali, traçam um caminho: transcorrem, são tempo. Apesar de não pararem de se mover de um ponto para outro , desenhando assim uma linha horizontal ou vertical ( conforme a índole da escrita), de outra perspectiva, a simultânea ou convergente, que é a da poesia , as frases que compõem o texto surgem como grandes blocos imóveis e transparentes : o texto não transcorre, a linguagem deixa de fluir. Quietude vertiginosa por ser um tecido de claridades : em cada página refletem-se as outras e cada uma é o eco da que a precede ou sucede - o eco e a resposta, a rima e a metáfora . Não há fim e também não há princípio: tudo é centro: Nem antes nem depois, nem à frente nem atrás, nem fora nem dentro, : tudo está em tudo. Como com o caracol do mar, todos os tempos são este tempo de agora que não é nada excepto, como quartzo de cristal de rocha, a condensação instantânea dos outros tempos numa claridade insubstancial. A condensação e a dispersão, o sinal de inteligência que se faz a si mesmo, o agora no momento de se dissipar. A perspectiva simultânea não contempla a linguagem como um caminho porque não é orientada pela procura do sentido. A poesia não quer saber o que existe no fim do caminho; concebe o texto como uma série de estratos translúcidos em cujo interior as distintas partes - as distintas correntes verbais e semânticas - , ao se entrelaçarem , refletirem ou anularem , produzem configurações momentâneas . A poesia procura, contempla-se, funde-se e anula-se nas cristalizações da linguagem. Aparições, metamorfoses, volatilizações, precipitações de presenças Essas configurações são tempo cristalizado: apesar de estarem em perpétuo movimento , dão sempre a mesma hora - a hora da mudança. Cada uma delas contém as outras, cada uma está nas outras: a mudança é apenas a repetida e sempre metáfora da identidade.


A visão da poesia é a da convergência de todos os pontos. Fim do caminho. É a visão de Hanuman ao saltar (géiser) do vale para o pico do monte ou ao precipitar-se (aerólito) do astro até ao fundo do mar: a visão vertiginosa e transversal que revela o universo não como uma sucessão, um movimento mas como uma assembleia de espaços e tempos, uma quietude. A convergência é quietude porque no seu cume os distintos movimentos, ao fundirem-se, anulam-se; ao mesmo tempo, do alto dessa imobilidade, percebemos o universo como uma assembleia de mundos em rotação. Poemas: cristalizações do jogo universal da analogia, objetos diáfanos que ao reproduzirem o mecanismo e o movimento rotativo da analogia, são fonte de novas analogias. Neles, o mundo brinca ao mundo, que é o jogo das semelhanças geradas pelas diferenças e o das semelhanças contraditórias. Hanuman escreveu nas rochas uma peça de teatro, “Mahanataka”, cujo tema era o mesmo de Ramayana; ao lê-la, Valmiki temeu que esta ofuscasse o seu poema e suplicou-lhe que a ocultasse. O Macaco cedeu ao pedido do poeta, quebrou a montanha e lançou as rochas para o oceano. A tinta e a pena de Valmiki no papel são uma metáfora do raio e da chuva com que Hanuman escreveu o seu drama nos penhascos. A escrita humana espelha a do universo, é a sua tradução, mas igualmente a sua metáfora, diz algo totalmente diferente e diz o mesmo...

Todos os poemas dizem o mesmo e cada poema é único. Cada parte reproduz as outras e cada parte é distinta. Ao começar estas páginas decidi seguir literalmente a metáfora do título da coleção a que estão destinadas, “Los Caminos de La Creación”, e escrever, traçar um texto que fosse efetivamente um caminho e que pudesse ser lido, percorrido como tal. À medida que ia escrevendo, o caminho de Galta apagava-se e eu desviava-me e perdia-me nos seus despenhadeiros. Vezes sem conta tinha de voltar ao ponto de partida. Em vez de avançar, o texto rodava sobre si mesmo. A destruição é criação? Não sei, mas sei que a criação não é destruição. A cada curva o texto desdobrava-se num outro, simultaneamente a sua tradução e a sua transposição: uma espiral de repetições e reiterações que se consolidaram numa negação da escrita enquanto caminho. Agora me apercebo de que o meu texto não ia a lado nenhum, a não ser ao encontro de si mesmo. Advirto também que as repetições são metáforas e que as reiterações são analogias: um sistema de espelhos que pouco a pouco foram revelando outro texto. 
Octávio Paz, "O Macaco Gramático"

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