terça-feira, setembro 8

Um belo e doce nome de menina

Os dois homens estavam no balcão da padaria, tomando cerveja. Um deles não aguentava mais a ansiedade de falar de futebol, porque seu time, na noite anterior, tinha disputado uma partida decisiva.

“Você viu o…?”.

Mas o outro não estava ouvindo o que ele dizia. Sua preocupação e seu assunto eram outros:

“Minha mulher está com palpite de que ela vai vir antes da hora.”

“Ela quem?”

“A nossa filha. Ela anda chutando a barriga da minha mulher com vontade.”

Lee White


“Vai ver que ela vai ser jogadora de futebol”, comentou o primeiro homem e, esperançoso de que o assunto enveredasse pelo rumo que ele queria, completou a pergunta: “Você viu o jogo ontem?”

“Jogo? Você acha que eu tenho disposição de ficar vendo futebol, com essa história de nome me esquentando a cabeça?”

“Aquele gol que a bandeirinha e o VAR anularam foi um escândalo. Nem sei o que eu faço, se me aparece pela frente aquela…”

“Eu só consigo pensar no nome da minha filha.”

“… Ana Paula.”

“Ana Paula? Não, não acho um bom nome. É, sei lá, muito comum.”

“O que você acha de Escarola?”, disse o amante de futebol, furioso.

“Eu não gosto muito. Prefiro alface.”

“Não estou falando de verdura. Estou falando de nome.”

“Nome? Que nome?”

“Para a sua filha.”

“Escarola?”

“É. Você disse que não quer um nome comum e eu então achei que… Se você não gostou, esquece. Você não viu nem um pedacinho do jogo ontem?”

“Você está brincando comigo. Escarola? Se você não fosse meu amigo faz tanto tempo, eu ia achar que você quer arranjar briga comigo.”

“Briga? Eu brigar com você? Não tem hipótese. Briga saiu foi no jogo, ontem, você viu aquilo?”

“Não adianta desconversar. Eu quero saber se você está falando sério. Escarola? Só eu estivesse louco.”

“Louco por quê?”

“Você ainda pergunta? Escarola pode ser um bom nome só se for para a filha dos outros.”

“É isso que eu estou tentando dizer faz meia hora. Escarola eu acho um ótimo nome para a sua filha. Toninho, ô, Toninho, me traz outra. Você viu o gol anulado, Toninho? Como é que pode uma coisa assim?”
Raul Drewnick

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