Simón de Torres, boticário do Panamá, queria dormir, mas não pode soltar o olhar do buraco do teto. Cada vez que fecha as pálpebras, os olhos abrem sozinhos e se grudam ali. Simón acende e apaga e acende o cachimbo, enquanto espanta mosquitos com a fumaça e com a mão, e dá voltas e reviravoltas, empapado, fervendo, na cama torta por causa do desmoronamento do outro dia. As estrelas piscam os olhos pelo buraco do teto e ele gostaria de não pensar. Assim vão passando as horas até que canta o galo, anunciando o dia ou exigindo galinhas.
Há uma semana, uma mulher caiu do teto sobre Simón.
– Quem, quem, quem és? – gaguejou o boticário.
– Temos pouco tempo – disse ela, enquanto arrancava as roupas.
Ao amanhecer ergueu-se, luminosa, saborosa, e vestiu-se em um instante.
– Aonde vais?
– A Nombre de Deus. Lá deixei o pão no forno.
– Mas está a vinte léguas! – assombrou-se o boticário.
– Dezoito – corrigiu ela. E enquanto desaparecia, avisou:
– Cuide-se. Quem entra em mim, perde a memória.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
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