domingo, julho 5
Primavera ao correr da máquina
Os primeiros calores da nova estação, tão antigos como um primeiro sopro. E que me faz não poder deixar de sorrir. Sem me olhar ao espelho, é um sorriso que tem a idiotice dos anjos.
Muito antes de vir a nova estação já havia o prenúncio: inesperadamente uma tepidez de vento, as primeiras doçuras do ar. Impossível! impossível que essa doçura de ar não traga outras! diz o coração se quebrando.
Impossível, diz em eco a mornidão ainda tão mordente e fresca da primavera. Impossível que esse ar não traga o amor do mundo! repete o coração que parte sua secura crestada num sorriso. E nem sequer reconhece que já o trouxe, que aquilo é amor. Esse primeiro calor ainda fresco traz: tudo. Apenas isso, e indiviso: tudo.
E tudo é muito para um coração de repente enfraquecido que só suporta o menos, só pode querer o pouco e aos poucos. Sinto hoje, e também mordente, uma espécie de lembrança ainda vindoura do dia de hoje. E dizer que nunca, nunca dei isto que estou sentindo a ninguém e a nada. Dei a mim mesma? Só dei na medida em que a pungência do que é bom cabe dentro de nervos tão frágeis, de mortes tão suaves. Ah, como quero morrer. Nunca ainda experimentei morrer – que abertura de caminho tenho ainda à frente. Morrer terá a mesma pungência indivisível do bom. A quem darei a minha morte? que será como os primeiros calores frescos de uma nova estação. Ah, como a dor é mais suportável e compreensível que essa promessa de frígida e líquida alegria da primavera. É com tal pudor que espero morrer: a pungência do bom. Mas nunca morrer antes de realmente morrer: pois é tão bom prolongar essa promessa. Quero prolongá-la com tal finura. Eu me banho, nutro-me da vida melhor e mais fina, pois nada é bom demais para me preparar para o instante dessa nova estação. Quero os melhores óleos e perfumes, quero a vida da melhor espécie, quero as esperas as mais delicadas, quero as melhores carnes finas e também as pesadas para comer, quero a quebra de minha carne em espírito e do espírito se quebrando em carne, quero essas finas misturas – tudo o que secretamente me adestrará para aqueles primeiros momentos que virão. Iniciada, pressinto a mudança de estação. E desejo a vida mais cheia de um fruto enorme. Dentro desse fruto quem em mim se prepara, dentro desse fruto que é suculento, há lugar para a mais leve das insônias que é a minha sabedoria de bicho acordado: um véu de alerteza, esperta apenas o bastante para apenas pressentir. ah, pressentir é mais ameno do que o intolerável agudo do bom. E que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. E que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. Pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir. E não consigo, nesse adestramento contínuo, me apoderar do primeiro regozijo da vida.
Conseguirei captar o regozijo infinitamente doce de morrer? Ah, como me inquieta não conseguir viver o melhor, e assim poder enfim morrer o melhor. Como me inquieta que alguém possa não compreender que morrerei numa ida para uma tonta felicidade de primavera. Mas não apressarei de um instante a vinda dessa felicidade – pois esperá-la vivendo é a minha vigília de vestal. Dia e noite não deixo apagar-se a vela – para prolongá-la na melhor das esperas. Os primeiros calores da primavera. . mas isso é amor! A felicidade me deixa com um sorriso de filha. Estou toda bem penteada. Só que a espera quase já não cabe mais em mim. É tão bom que corro o risco de me ultrapassar, de vir a perder a minha primeira morte primaveril, e, no suor de tanta espera tépida, morrer antes. Por curiosidade, morrer antes: pois já quero saber como é a nova estação.
Mas vou esperar. Vou esperar comendo com delicadeza e recato e avidez controlada cada mínima migalha de tudo, quero tudo pois nada é bom demais para a minha morte que é a minha vida tão eterna que hoje mesmo ela já existe e já é.
Clarice Lispector, "A descoberta do mundo"
Muito antes de vir a nova estação já havia o prenúncio: inesperadamente uma tepidez de vento, as primeiras doçuras do ar. Impossível! impossível que essa doçura de ar não traga outras! diz o coração se quebrando.
Impossível, diz em eco a mornidão ainda tão mordente e fresca da primavera. Impossível que esse ar não traga o amor do mundo! repete o coração que parte sua secura crestada num sorriso. E nem sequer reconhece que já o trouxe, que aquilo é amor. Esse primeiro calor ainda fresco traz: tudo. Apenas isso, e indiviso: tudo.
E tudo é muito para um coração de repente enfraquecido que só suporta o menos, só pode querer o pouco e aos poucos. Sinto hoje, e também mordente, uma espécie de lembrança ainda vindoura do dia de hoje. E dizer que nunca, nunca dei isto que estou sentindo a ninguém e a nada. Dei a mim mesma? Só dei na medida em que a pungência do que é bom cabe dentro de nervos tão frágeis, de mortes tão suaves. Ah, como quero morrer. Nunca ainda experimentei morrer – que abertura de caminho tenho ainda à frente. Morrer terá a mesma pungência indivisível do bom. A quem darei a minha morte? que será como os primeiros calores frescos de uma nova estação. Ah, como a dor é mais suportável e compreensível que essa promessa de frígida e líquida alegria da primavera. É com tal pudor que espero morrer: a pungência do bom. Mas nunca morrer antes de realmente morrer: pois é tão bom prolongar essa promessa. Quero prolongá-la com tal finura. Eu me banho, nutro-me da vida melhor e mais fina, pois nada é bom demais para me preparar para o instante dessa nova estação. Quero os melhores óleos e perfumes, quero a vida da melhor espécie, quero as esperas as mais delicadas, quero as melhores carnes finas e também as pesadas para comer, quero a quebra de minha carne em espírito e do espírito se quebrando em carne, quero essas finas misturas – tudo o que secretamente me adestrará para aqueles primeiros momentos que virão. Iniciada, pressinto a mudança de estação. E desejo a vida mais cheia de um fruto enorme. Dentro desse fruto quem em mim se prepara, dentro desse fruto que é suculento, há lugar para a mais leve das insônias que é a minha sabedoria de bicho acordado: um véu de alerteza, esperta apenas o bastante para apenas pressentir. ah, pressentir é mais ameno do que o intolerável agudo do bom. E que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. E que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. Pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir. E não consigo, nesse adestramento contínuo, me apoderar do primeiro regozijo da vida.
Conseguirei captar o regozijo infinitamente doce de morrer? Ah, como me inquieta não conseguir viver o melhor, e assim poder enfim morrer o melhor. Como me inquieta que alguém possa não compreender que morrerei numa ida para uma tonta felicidade de primavera. Mas não apressarei de um instante a vinda dessa felicidade – pois esperá-la vivendo é a minha vigília de vestal. Dia e noite não deixo apagar-se a vela – para prolongá-la na melhor das esperas. Os primeiros calores da primavera. . mas isso é amor! A felicidade me deixa com um sorriso de filha. Estou toda bem penteada. Só que a espera quase já não cabe mais em mim. É tão bom que corro o risco de me ultrapassar, de vir a perder a minha primeira morte primaveril, e, no suor de tanta espera tépida, morrer antes. Por curiosidade, morrer antes: pois já quero saber como é a nova estação.
Mas vou esperar. Vou esperar comendo com delicadeza e recato e avidez controlada cada mínima migalha de tudo, quero tudo pois nada é bom demais para a minha morte que é a minha vida tão eterna que hoje mesmo ela já existe e já é.
Clarice Lispector, "A descoberta do mundo"
Soneto da chuva
Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.
Carlos de Oliveira
O tesouro
O barco aproximava-se da terra. A baía ia-se alargando e um recorte de espuma branca, que banhava os rochedos da margem, marcava o ponto em que o pequeno rio se lançava no mar. Uma linha de verde mais escuro indicava seu curso sinuoso, desde a encosta assaz distante.
A floresta chegava até a beira da praia. No horizonte, em vago contorno semelhante ao das nuvens, erguiam-se montanhas que, assim de longe, tinham o aspecto de ondas congeladas.
O mar era calmo: um marulho apenas perceptível. No céu estrelas rutilavam.
O barco parou. Um dos remadores disse, estendendo um braço:
— Deve ser por aqui perto.
O outro homem, sentado à proa, examinava atentamente a margem. Tinha sobre os joelhos uma folha de papel amarelecido pelo tempo.
— Venha ver isto, Evans respondeu ele afinal.
Falavam em voz baixa. O que se chamava Evans atravessou, cambaleando, o barco e por cima do ombro do seu companheiro olhou.
Sobre o papel estava grosseiramente traçada uma espécie de mapa com dizeres, que mal se podiam ler, e um desenho em que podia-se distinguir vagamente, a traço de lápis quase apagado, o desenho da baía.
Pousando um dedo sobre esse papel, Evans disse:
— Aqui, são os recifes de coral; além, a baía.
— É isso mesmo. E esta linha caprichosa é o rio. Se eu agora pudesse beber um pouco d’água seria capaz de um arranco… O lugar deve ser este aqui, marcado por uma cruz.
— Sim. E veja esta linha ponteada: vai da embocadura do rio direito a um bosque de palmeiras. A cruz está justamente no ponto em que a linha corta a corrente. Teremos de assinalar o local quando entrarmos no estuário.
— Mas— perguntou ainda Evans após um silêncio — que significam estes riscos? Dir-se-ia a planta de uma casa, de uma edificação qualquer. Também não compreendo o que podem significar estes tracinhos aqui dirigidos num e outro sentido. E estes rabiscos…
— Isso é escrita chinesa.
— Naturalmente, visto que ele era chinês.
— Eram todos.
Os dois homens ficaram imóveis durante alguns minutos, examinando com atenção a terra. O barco derivava lentamente.
— Bem; agora cabe a você remar — disse Evans.
Hooker dobrou o mapa, sem se apressar, meteu-o na algibeira, passou com precaução para o lugar de Evans e tomou os remos. Seus movimentos eram lânguidos, como os de um homem que está a cabo de forças.
O outro, sentado, fitava com os olhos semicerrados a espuma do recife de coral, que parecia aproximar-se. Embora estivessem quase a alcançar o tesouro não se sentia exaltado. A tensão nervosa necessária à luta em que se tinham apoderado do mapa e depois aquela longa viagem à noite, sem víveres, sem água… tudo isso tinha-o fatigado a tal ponto que ele se sentia agora incapaz de uma sensação nova. Tentou recobrar a energia concentrando sua imaginação sobre as luzentes barras de ouro de que os chineses haviam falado. Mas seu espírito recusava-se a reconstruir a visão, que o havia deslumbrado no primeiro momento, e o ruído monótono do mar dava-lhe uma sonolência irresistível.
E naquela semi-inconsciência reviu mais uma vez a noite em que Hooker surpreendera o segredo dos chineses.
Fora em uma clareira do pequeno bosque, uma clareira que a lua iluminava fortemente. Os três celestes estavam agachados em torno de uma pequena fogueira de modo que suas silhuetas apareciam vermelhas de um lado pelo fulgor das brasas e prateadas do outro pelo luar.
Hooker, que estivera por muito tempo em Shangai e compreendia melhor o chinês, fora o primeiro a perceber o sentido geral da palestra e fizera-lhe sinal para prestar ouvidos.
Então haviam compreendido que se tratava de um tesouro: um galeão espanhol vindo das Filipinas naufragara ali e sua tripulação enterrara no litoral o carregamento de ouro que trazia, com a esperança de vir buscá-lo mais tarde. Mas depois, buscando terra habitada em barcos pequenos, tinham morrido todos no mar, ou perdidos nas ilhotas áridas dos arredores. O tesouro ali ficara ignorado, durante dezenas de anos, até que um dos três chineses, Chan-Li, descobrira-o por acaso.
E era Chang-Li quem agora revelava o segredo a dois compatriotas para que juntos fossem buscá-lo em benefício de uma misteriosa empresa revolucionaria, insistindo em afirmar que o ouro estava em absoluta segurança porque seria impossível encontrá-lo sem o roteiro ou mapa, que traçara e ali tinha em seu poder: sem esse roteiro e sem sua presença.
Imaginem a impressão que poderia causar semelhante conversa, caindo em ouvido de dois ingleses sem recursos, que tinham deixado todos os escrúpulos em aventuras de todo o gênero pelo vasto mundo…
O sonho de Evans precipitou-se e ele viu-se no momento em que agarrara Chang-Li pelo rabicho. O chinês tentara resistir; depois vendo-se perdido, começara a vociferar ameaças terríveis, afirmando e jurando que mesmo depois de o terem massacrado de terem deitado mão ao itinerário não haviam de alcançar o ouro, pois morreriam antes disso!
Tolices! O idiota queria impressioná-los.
Um choque brusco despertou Evans. Tinham chegado à entrada do estuário e Hooker explicava:
— Ali estão as três palmeiras. O lugar dever ser na direção daquele arvoredo. É seguir em linha reta das palmeiras ao arvoredo e encontraremos o ouro no ponto em que essa linha corta o rio.
Porém, Evans mal ouvia. O tormento da sede tornara-se alucinante. Curvou-se sobre a borda da embarcação e apanhou a água, que cuspiu com fúria. Ainda era salgada.
— Vamos seguindo — rosnou ele em tom de súplica exasperada. — Enquanto não alcançarmos o rio, não conte comigo para coisa alguma. Estou morrendo de sede.
Hooker começou a remar, mas seus movimentos pareciam-lhe de uma morosidade intolerável. Tomou-lhe os remos e bracejou com fúria. Agora era Hooker quem se curvara à proa e, de instante a instante, provava a água, sacudindo a cabeça com desespero.
Quando, afinal, a água tonou-se boa, Hooker não teve tempo para pronunciar uma palavra. Apenas avisou ao amigo com um gesto e começou a beber com ânsia.
Depois, renovados de ânimo, procuraram um lugar onde desembarcassem mais próximos do grupo de palmeiras a fim de alcançar a linha ideal, que devia conduzi-los ao tesouro.
Saltaram. Levavam, para abrir caminho no mato, apenas um remo — largo e pesado — e um machado nativo, em forma de L, com uma pedra polida na extremidade.
Começaram a rasgar uma vereda através de um emaranhado de cipós e bambus. Os primeiros passos foram penosos, mas em pouco entraram numa região de árvores mais espaçadas e maiores. Tiveram sombra, encontraram frutas…
Mas, de súbito, tiveram uma surpresa alarmante, encontrando-se diante de outro caminho aberto no mato, certamente um atalho, que evidentemente era obra humana e não tinha muito tempo.
Seguiram por ela com precauções, de olhos abertos e mãos crispadas sobre as improvisadas armas.
Mais alguns passos e viram entre os troncos um largo filete d’água brilhante ao Sol nascente. Era o rio.
— Devemos estar perto — disse Hooker com voz fraca.
E o coração batia-lhe no peito com força. De um lado, havia um charco imenso e traiçoeiro, em que Evans chegou a enterrar-se até os joelhos, contendo as pragas pela preocupação de que podia ser ouvido; do outro, a vegetação muito espessa desafiava os esforços de dois homens. Diante deles, abria-se misterioso e sombrio o atalho, que não podia ser o caminho de Chang-Li, porque ele estivara ali cinco anos antes. A uberdade prodigiosa daquele solo não deixaria aberto um caminho há tanto tempo no meio da floresta. Alguém passara por ali meses antes. Dias antes, talvez.
Observando atentamente o rio, os dois aventureiros notaram que, à esquerda, uma pequena cachoeira assinalava a curva, a curva junto à qual deveria estar o tesouro.
— Quer-me parecer que nos desviamos um pouco da linha reta.
— Não — afirmou Evans.
Mas não teve coragem de acrescentar que se julgava no bom caminho, porque aquele era o caminho que o outro seguira, o outro antes deles.
Caminharam mais um pouco. O atalho terminava em uma clareira. O rio estava a dois passos.
Devia ser ali. Olharam em torno. O terreno estendia-se pantanoso e acidentado.
— Onde estará? — perguntou Hooker, volteando devagar.
Chang-Li falara em pequenos montes de pedras.
Fitaram-se profundamente, com olhar cheio de recordações sangrentas, e voltaram a observar o solo.
— O que será aquilo? — Evans exclamou, de súbito, estendendo o braço.
Hooker olhou naquela direção e viu alguma coisa azul.
Subiram a um montículo a fim de observar melhor e distinguiram um braço, que saía do solo, com a mão crispada… Adiantaram-se rapidamente. A manga que cobria esse braço era de lã azul. O morto era um chinês: estava hirto, horrivelmente contorcido, meio enterrado em uma escavação apenas começada.
Os dois aventureiros curvaram-se em silêncio, observando aquele cadáver de mau agouro, que tinha ao lado uma enxada de formato chinês e várias pedras espalhadas.
— Maldição! — resmungou Hooker. — Então não era apenas Chang-Li quem conhecia o segredo.
Evans empalideceu e começou a desfiar todo o medonho repertório de pragas que aprendera na África e na Austrália.
Seu companheiro, mais calmo, ajoelhou-se atento e notou que o morto tinha o pescoço, os pulsos e os tornozelos muito inflamados. Depois, examinando a escavação, deu um grito de alegria.
— Eh, Evans! Não foi nada. Tudo vai bem. O ouro ainda está aqui. Esse idiota não chegou a levar coisa alguma.
Evans curvou-se também e, na meia-luz da clareira, distinguiu umas barras amarelas, que apareciam ainda envoltas em terra.
Então, atirou-se numa ânsia febril, afastando a terra com as mãos. Um espinho feriu-o no dedo. Ele o arrancou com as unhas e continuou extraindo barras de metal do chão.
À primeira que que conseguiu levantar, exclamou com expressão triunfante:
— Apenas o ouro e o chumbo podem pesar assim!
Entretanto, Hooker parecia intrigado com o aspecto do chinês morto e murmurava:
— Este canalha veio apenas com um dia de avanço sobre nós. Não há decerto nem vinte e quatro horas que está morto. Mas de que teria ele morrido? Quer me parecer que foi picado por alguma serpente excepcionalmente venenosa. Em todo caso, resta saber como diabos ele conhecia o lugar do tesouro.
Porém, Evans nem o ouvia. Que importa um chinês morto, quando se tem à mão uma barra de ouro?
— Mas que trabalheira! — exclamou ele, com um riso nervoso e irresistível. — Se cada uma das barras pesa tanto como esta, vamos ter que carregá-las uma a uma. E mesmo não poderemos conduzir todas numa só viagem com uma canoa tão pequena.
Tirou casaco, abriu-o no chão e depôs dentro dele a primeira barra de ouro. Quando ia apanhar a segunda, um novo espinho feriu-o na mão. Não se importou com isso e atirou uma terceira barra de ouro dentro da roupa.
— Pronto! — exclamou. Isto é o máximo que podemos carregar numa viagem. Toca a andar.
E, vendo que Hooker continuava imóvel diante do chinês morto, teve um movimento de mau-humor.
— Ó, homem! Você está magnetizando esse defunto? Vamos com isso!
Hooker voltou-se tão pálido que também parecia morto.
—É muito esquisito — disse ele. — Muito esquisito. De que teria morrido esse homem, santo Deus?
— Ora, adeus! Morreu e acabou-se — disse Evans brutalmente. — Também nós haveremos de morrer um dia.
— Mas eu acho esses sintomas esquisitos…
— Ora, não me aborreça! Deu agora para estudar medicina?
— Cale-se! — murmurou o outro. — Em tudo isto, há indícios que me assustam.
— Pois sim; porém nós viemos aqui para carregar ouro e estamos perdendo um tempo precioso. Vamos levar estas barras até o barco. Se andarmos ligeiro, podemos fazer quatro viagens antes da noite.
Hooker não se moveu. Parecia refletir e o seu olhar inquieto observava as árvores dos arredores. Voltou a olhar o rosto disforme do chinês morto e estremeceu violentamente.
Evans impacientava-se.
— Vens ou não vens?
Hooker agarrou duas pontas do casaco, Evans levantou as outras duas e puseram-se a caminho.
Mas, ao fim de alguns passos, Evans cambaleou e detendo-se, disse:
— Não sei o que é isto. Estou sentindo uma aflição!… Uma dor leve nos braços… uma espécie de cansaço torturante…
Hooker fitava-o com os olhos dilatados por um pavor intenso.
— O que é que você está sentindo? — perguntou ele com a voz estrangulada.
— Não sei — murmurou Evans.
Deixou cair o casaco e, encostando-se a um tronco de árvore, passou a mão pela testa, gemendo:
— Que aflição!
Tentou segurar-se ao tronco, mas suas mãos pareciam entorpecidas e ele resvalou, caiu e ficou estendido no solo com o corpo horrendamente estorcido, arquejando…
Então Hooker viu que o pescoço e os pulsos do companheiro começavam a ficar avermelhados.
Essa constatação causou-lhe tamanho choque que ele sentiu as pernas sumirem sob o corpo e caiu de joelhos, apoiando as mãos sobre as barras de ouro.
Mas logo ergueu-se num salto. Sentira um espinho, oculto na terra agarrada às barras de ouro, picar-lhe a ponta de um dedo. Com um rugido abafado e trêmulo, olhou para o ferimento e ficou gelado de horror.
— Deus!
Foi essa a única palavra. O espinho longo e muito fino ele bem conhecia. Era um daqueles que os nativos dakays usavam em suas sarabatanas e cujo veneno não perdoa.
O olhar de Hooker vagueou em torno. Evans continuava imóvel, contorcido, e sua boca muito aberta parecia sorver inutilmente o ar. A pequena distância a mancha azul assinalava a mão do chinês, que parecia chamá-lo.
Hooker compreendia agora por que razão Chang-Li insistia em afirmar que o tesouro estava em segurança, que só ele poderia buscá-lo sem perigo. Compreendia agora o ricto zombeteiro de sua boca quando Evans lhe esmagava a cabeça a pauladas.
— Evans!
Seu grito foi inútil. Agora, o companheiro manifestava vida apenas pelo pequenino tremor que lhe movia os pés.
Em torno, era silêncio completo.
Hooker levou o dedo à boca e começou a chupar o ferimento com a ânsia que lhe cavava o peito. Mas já sentia uma dormência em todo o braço e tinha dificuldade de dobrar os dedos.
Então compreendeu que a sucção era inútil e, num desânimo completo, deixou-se cair, sentado ali mesmo, entre Evans já semimorto e o ouro, que já não lhe merecia a atenção. Encostou os ombros ao tronco da mesma árvore a que o seu companheiro se agarrara e ajeitou-se bem para morrer assim.
A careta macabra e triunfante de Chang-Li não lhe saía da memória. A dor surda ia-se estendendo dos braços aos ombros e ao pescoço, tomava-lhe a garganta com a intensidade que aumentava a cada instante.
Felizmente, uma sonolência invencível também vinha pouco a pouco, e o desgraçado teve a esperança de ficar insensível antes de morrer.
Em cima, o vento começou a zunir com força, desfolhando grandes flores azuis, que ele não conhecia, e que caíam esvoaçando como flocos de neve.
A floresta chegava até a beira da praia. No horizonte, em vago contorno semelhante ao das nuvens, erguiam-se montanhas que, assim de longe, tinham o aspecto de ondas congeladas.
O mar era calmo: um marulho apenas perceptível. No céu estrelas rutilavam.
O barco parou. Um dos remadores disse, estendendo um braço:
— Deve ser por aqui perto.
O outro homem, sentado à proa, examinava atentamente a margem. Tinha sobre os joelhos uma folha de papel amarelecido pelo tempo.
— Venha ver isto, Evans respondeu ele afinal.
Falavam em voz baixa. O que se chamava Evans atravessou, cambaleando, o barco e por cima do ombro do seu companheiro olhou.
Sobre o papel estava grosseiramente traçada uma espécie de mapa com dizeres, que mal se podiam ler, e um desenho em que podia-se distinguir vagamente, a traço de lápis quase apagado, o desenho da baía.
Pousando um dedo sobre esse papel, Evans disse:
— Aqui, são os recifes de coral; além, a baía.
— É isso mesmo. E esta linha caprichosa é o rio. Se eu agora pudesse beber um pouco d’água seria capaz de um arranco… O lugar deve ser este aqui, marcado por uma cruz.
— Sim. E veja esta linha ponteada: vai da embocadura do rio direito a um bosque de palmeiras. A cruz está justamente no ponto em que a linha corta a corrente. Teremos de assinalar o local quando entrarmos no estuário.
— Mas— perguntou ainda Evans após um silêncio — que significam estes riscos? Dir-se-ia a planta de uma casa, de uma edificação qualquer. Também não compreendo o que podem significar estes tracinhos aqui dirigidos num e outro sentido. E estes rabiscos…
— Isso é escrita chinesa.
— Naturalmente, visto que ele era chinês.
— Eram todos.
Os dois homens ficaram imóveis durante alguns minutos, examinando com atenção a terra. O barco derivava lentamente.
— Bem; agora cabe a você remar — disse Evans.
Hooker dobrou o mapa, sem se apressar, meteu-o na algibeira, passou com precaução para o lugar de Evans e tomou os remos. Seus movimentos eram lânguidos, como os de um homem que está a cabo de forças.
O outro, sentado, fitava com os olhos semicerrados a espuma do recife de coral, que parecia aproximar-se. Embora estivessem quase a alcançar o tesouro não se sentia exaltado. A tensão nervosa necessária à luta em que se tinham apoderado do mapa e depois aquela longa viagem à noite, sem víveres, sem água… tudo isso tinha-o fatigado a tal ponto que ele se sentia agora incapaz de uma sensação nova. Tentou recobrar a energia concentrando sua imaginação sobre as luzentes barras de ouro de que os chineses haviam falado. Mas seu espírito recusava-se a reconstruir a visão, que o havia deslumbrado no primeiro momento, e o ruído monótono do mar dava-lhe uma sonolência irresistível.
E naquela semi-inconsciência reviu mais uma vez a noite em que Hooker surpreendera o segredo dos chineses.
Fora em uma clareira do pequeno bosque, uma clareira que a lua iluminava fortemente. Os três celestes estavam agachados em torno de uma pequena fogueira de modo que suas silhuetas apareciam vermelhas de um lado pelo fulgor das brasas e prateadas do outro pelo luar.
Hooker, que estivera por muito tempo em Shangai e compreendia melhor o chinês, fora o primeiro a perceber o sentido geral da palestra e fizera-lhe sinal para prestar ouvidos.
Então haviam compreendido que se tratava de um tesouro: um galeão espanhol vindo das Filipinas naufragara ali e sua tripulação enterrara no litoral o carregamento de ouro que trazia, com a esperança de vir buscá-lo mais tarde. Mas depois, buscando terra habitada em barcos pequenos, tinham morrido todos no mar, ou perdidos nas ilhotas áridas dos arredores. O tesouro ali ficara ignorado, durante dezenas de anos, até que um dos três chineses, Chan-Li, descobrira-o por acaso.
E era Chang-Li quem agora revelava o segredo a dois compatriotas para que juntos fossem buscá-lo em benefício de uma misteriosa empresa revolucionaria, insistindo em afirmar que o ouro estava em absoluta segurança porque seria impossível encontrá-lo sem o roteiro ou mapa, que traçara e ali tinha em seu poder: sem esse roteiro e sem sua presença.
Imaginem a impressão que poderia causar semelhante conversa, caindo em ouvido de dois ingleses sem recursos, que tinham deixado todos os escrúpulos em aventuras de todo o gênero pelo vasto mundo…
O sonho de Evans precipitou-se e ele viu-se no momento em que agarrara Chang-Li pelo rabicho. O chinês tentara resistir; depois vendo-se perdido, começara a vociferar ameaças terríveis, afirmando e jurando que mesmo depois de o terem massacrado de terem deitado mão ao itinerário não haviam de alcançar o ouro, pois morreriam antes disso!
Tolices! O idiota queria impressioná-los.
Um choque brusco despertou Evans. Tinham chegado à entrada do estuário e Hooker explicava:
— Ali estão as três palmeiras. O lugar dever ser na direção daquele arvoredo. É seguir em linha reta das palmeiras ao arvoredo e encontraremos o ouro no ponto em que essa linha corta o rio.
Porém, Evans mal ouvia. O tormento da sede tornara-se alucinante. Curvou-se sobre a borda da embarcação e apanhou a água, que cuspiu com fúria. Ainda era salgada.
— Vamos seguindo — rosnou ele em tom de súplica exasperada. — Enquanto não alcançarmos o rio, não conte comigo para coisa alguma. Estou morrendo de sede.
Hooker começou a remar, mas seus movimentos pareciam-lhe de uma morosidade intolerável. Tomou-lhe os remos e bracejou com fúria. Agora era Hooker quem se curvara à proa e, de instante a instante, provava a água, sacudindo a cabeça com desespero.
Quando, afinal, a água tonou-se boa, Hooker não teve tempo para pronunciar uma palavra. Apenas avisou ao amigo com um gesto e começou a beber com ânsia.
Depois, renovados de ânimo, procuraram um lugar onde desembarcassem mais próximos do grupo de palmeiras a fim de alcançar a linha ideal, que devia conduzi-los ao tesouro.
Saltaram. Levavam, para abrir caminho no mato, apenas um remo — largo e pesado — e um machado nativo, em forma de L, com uma pedra polida na extremidade.
Começaram a rasgar uma vereda através de um emaranhado de cipós e bambus. Os primeiros passos foram penosos, mas em pouco entraram numa região de árvores mais espaçadas e maiores. Tiveram sombra, encontraram frutas…
Mas, de súbito, tiveram uma surpresa alarmante, encontrando-se diante de outro caminho aberto no mato, certamente um atalho, que evidentemente era obra humana e não tinha muito tempo.
Seguiram por ela com precauções, de olhos abertos e mãos crispadas sobre as improvisadas armas.
Mais alguns passos e viram entre os troncos um largo filete d’água brilhante ao Sol nascente. Era o rio.
— Devemos estar perto — disse Hooker com voz fraca.
E o coração batia-lhe no peito com força. De um lado, havia um charco imenso e traiçoeiro, em que Evans chegou a enterrar-se até os joelhos, contendo as pragas pela preocupação de que podia ser ouvido; do outro, a vegetação muito espessa desafiava os esforços de dois homens. Diante deles, abria-se misterioso e sombrio o atalho, que não podia ser o caminho de Chang-Li, porque ele estivara ali cinco anos antes. A uberdade prodigiosa daquele solo não deixaria aberto um caminho há tanto tempo no meio da floresta. Alguém passara por ali meses antes. Dias antes, talvez.
Observando atentamente o rio, os dois aventureiros notaram que, à esquerda, uma pequena cachoeira assinalava a curva, a curva junto à qual deveria estar o tesouro.
— Quer-me parecer que nos desviamos um pouco da linha reta.
— Não — afirmou Evans.
Mas não teve coragem de acrescentar que se julgava no bom caminho, porque aquele era o caminho que o outro seguira, o outro antes deles.
Caminharam mais um pouco. O atalho terminava em uma clareira. O rio estava a dois passos.
Devia ser ali. Olharam em torno. O terreno estendia-se pantanoso e acidentado.
— Onde estará? — perguntou Hooker, volteando devagar.
Chang-Li falara em pequenos montes de pedras.
Fitaram-se profundamente, com olhar cheio de recordações sangrentas, e voltaram a observar o solo.
— O que será aquilo? — Evans exclamou, de súbito, estendendo o braço.
Hooker olhou naquela direção e viu alguma coisa azul.
Subiram a um montículo a fim de observar melhor e distinguiram um braço, que saía do solo, com a mão crispada… Adiantaram-se rapidamente. A manga que cobria esse braço era de lã azul. O morto era um chinês: estava hirto, horrivelmente contorcido, meio enterrado em uma escavação apenas começada.
Os dois aventureiros curvaram-se em silêncio, observando aquele cadáver de mau agouro, que tinha ao lado uma enxada de formato chinês e várias pedras espalhadas.
— Maldição! — resmungou Hooker. — Então não era apenas Chang-Li quem conhecia o segredo.
Evans empalideceu e começou a desfiar todo o medonho repertório de pragas que aprendera na África e na Austrália.
Seu companheiro, mais calmo, ajoelhou-se atento e notou que o morto tinha o pescoço, os pulsos e os tornozelos muito inflamados. Depois, examinando a escavação, deu um grito de alegria.
— Eh, Evans! Não foi nada. Tudo vai bem. O ouro ainda está aqui. Esse idiota não chegou a levar coisa alguma.
Evans curvou-se também e, na meia-luz da clareira, distinguiu umas barras amarelas, que apareciam ainda envoltas em terra.
Então, atirou-se numa ânsia febril, afastando a terra com as mãos. Um espinho feriu-o no dedo. Ele o arrancou com as unhas e continuou extraindo barras de metal do chão.
À primeira que que conseguiu levantar, exclamou com expressão triunfante:
— Apenas o ouro e o chumbo podem pesar assim!
Entretanto, Hooker parecia intrigado com o aspecto do chinês morto e murmurava:
— Este canalha veio apenas com um dia de avanço sobre nós. Não há decerto nem vinte e quatro horas que está morto. Mas de que teria ele morrido? Quer me parecer que foi picado por alguma serpente excepcionalmente venenosa. Em todo caso, resta saber como diabos ele conhecia o lugar do tesouro.
Porém, Evans nem o ouvia. Que importa um chinês morto, quando se tem à mão uma barra de ouro?
— Mas que trabalheira! — exclamou ele, com um riso nervoso e irresistível. — Se cada uma das barras pesa tanto como esta, vamos ter que carregá-las uma a uma. E mesmo não poderemos conduzir todas numa só viagem com uma canoa tão pequena.
Tirou casaco, abriu-o no chão e depôs dentro dele a primeira barra de ouro. Quando ia apanhar a segunda, um novo espinho feriu-o na mão. Não se importou com isso e atirou uma terceira barra de ouro dentro da roupa.
— Pronto! — exclamou. Isto é o máximo que podemos carregar numa viagem. Toca a andar.
E, vendo que Hooker continuava imóvel diante do chinês morto, teve um movimento de mau-humor.
— Ó, homem! Você está magnetizando esse defunto? Vamos com isso!
Hooker voltou-se tão pálido que também parecia morto.
—É muito esquisito — disse ele. — Muito esquisito. De que teria morrido esse homem, santo Deus?
— Ora, adeus! Morreu e acabou-se — disse Evans brutalmente. — Também nós haveremos de morrer um dia.
— Mas eu acho esses sintomas esquisitos…
— Ora, não me aborreça! Deu agora para estudar medicina?
— Cale-se! — murmurou o outro. — Em tudo isto, há indícios que me assustam.
— Pois sim; porém nós viemos aqui para carregar ouro e estamos perdendo um tempo precioso. Vamos levar estas barras até o barco. Se andarmos ligeiro, podemos fazer quatro viagens antes da noite.
Hooker não se moveu. Parecia refletir e o seu olhar inquieto observava as árvores dos arredores. Voltou a olhar o rosto disforme do chinês morto e estremeceu violentamente.
Evans impacientava-se.
— Vens ou não vens?
Hooker agarrou duas pontas do casaco, Evans levantou as outras duas e puseram-se a caminho.
Mas, ao fim de alguns passos, Evans cambaleou e detendo-se, disse:
— Não sei o que é isto. Estou sentindo uma aflição!… Uma dor leve nos braços… uma espécie de cansaço torturante…
Hooker fitava-o com os olhos dilatados por um pavor intenso.
— O que é que você está sentindo? — perguntou ele com a voz estrangulada.
— Não sei — murmurou Evans.
Deixou cair o casaco e, encostando-se a um tronco de árvore, passou a mão pela testa, gemendo:
— Que aflição!
Tentou segurar-se ao tronco, mas suas mãos pareciam entorpecidas e ele resvalou, caiu e ficou estendido no solo com o corpo horrendamente estorcido, arquejando…
Então Hooker viu que o pescoço e os pulsos do companheiro começavam a ficar avermelhados.
Essa constatação causou-lhe tamanho choque que ele sentiu as pernas sumirem sob o corpo e caiu de joelhos, apoiando as mãos sobre as barras de ouro.
Mas logo ergueu-se num salto. Sentira um espinho, oculto na terra agarrada às barras de ouro, picar-lhe a ponta de um dedo. Com um rugido abafado e trêmulo, olhou para o ferimento e ficou gelado de horror.
— Deus!
Foi essa a única palavra. O espinho longo e muito fino ele bem conhecia. Era um daqueles que os nativos dakays usavam em suas sarabatanas e cujo veneno não perdoa.
O olhar de Hooker vagueou em torno. Evans continuava imóvel, contorcido, e sua boca muito aberta parecia sorver inutilmente o ar. A pequena distância a mancha azul assinalava a mão do chinês, que parecia chamá-lo.
Hooker compreendia agora por que razão Chang-Li insistia em afirmar que o tesouro estava em segurança, que só ele poderia buscá-lo sem perigo. Compreendia agora o ricto zombeteiro de sua boca quando Evans lhe esmagava a cabeça a pauladas.
— Evans!
Seu grito foi inútil. Agora, o companheiro manifestava vida apenas pelo pequenino tremor que lhe movia os pés.
Em torno, era silêncio completo.
Hooker levou o dedo à boca e começou a chupar o ferimento com a ânsia que lhe cavava o peito. Mas já sentia uma dormência em todo o braço e tinha dificuldade de dobrar os dedos.
Então compreendeu que a sucção era inútil e, num desânimo completo, deixou-se cair, sentado ali mesmo, entre Evans já semimorto e o ouro, que já não lhe merecia a atenção. Encostou os ombros ao tronco da mesma árvore a que o seu companheiro se agarrara e ajeitou-se bem para morrer assim.
A careta macabra e triunfante de Chang-Li não lhe saía da memória. A dor surda ia-se estendendo dos braços aos ombros e ao pescoço, tomava-lhe a garganta com a intensidade que aumentava a cada instante.
Felizmente, uma sonolência invencível também vinha pouco a pouco, e o desgraçado teve a esperança de ficar insensível antes de morrer.
Em cima, o vento começou a zunir com força, desfolhando grandes flores azuis, que ele não conhecia, e que caíam esvoaçando como flocos de neve.
H. G. Wells
Ando a ler um dicionário
Há poucos dias, na Feira do Livro de Lisboa, um homem parou diante de mim, e depois de me cumprimentar apresentou-me o filho, um menino dos seus onze anos: “Este é o António. Diga-lhe alguma coisa que o faça ler. Lá em casa todos nós temos a paixão pelos livros, há livros em toda parte, mas ele não se interessa por nenhum. O que fazer?”
Tentei, um tanto assustado, fugir ao desafio. Dei uma resposta qualquer, evasiva, mas depois que eles se foram embora pus-me a pensar naquilo. Como foi que eu próprio descobri a literatura? Devia ter a idade do António quando encontrei na biblioteca dos meus pais uma belíssima enciclopédia ilustrada, do início do século vinte, em dois volumes. Procurava-se a palavra “aves”, por exemplo, e havia uma ou duas páginas com preciosas estampas coloridas de aves de todo o mundo. Tinha, além disso, imensas mulheres nuas — um deslumbramento! Lembro-me em particular da famosa tela de Rubens, “O Julgamento de Paris”, talvez o primeiro concurso de misses de que há notícia. Paris, Príncipe de Tróia, tem de decidir quem é a mais bela: Hera, Atena ou Afrodite. São três mocetonas bem nutridas, três deusas clássicas, de rijas e luminosas carnes brancas. A bem dizer foi por causa das mulheres que eu me apaixonei pelos livros. Descobri que por detrás daquelas imagens, por detrás de cada mulher, mais ou menos despida, havia um enredo, e passei a interessar-me por essas histórias.
Nunca mais deixei de ler. Leio de tudo um pouco, romances, ensaios, poesia, e, é claro, continuo a interessar-me por enciclopédias e dicionários. Gosto particularmente de ler dicionários. A minha última paixão, em matéria de dicionários, chama-se Houaiss. Esperei por ele uns bons seis anos. Sempre que ia a uma bienal do livro, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, perguntava pelo Houaiss. “Sai para o ano”, respondiam-me imperturbáveis os responsáveis pelo projecto, e, para manterem aceso o meu interesse, agitavam factos e números: mais de 228 mil verbetes, extensos grupos de sinónimos e antónimos, levantamentos de homónimos, parónimos, colectivos, informações de gramática e uso, bem como da origem de cada palavra; é o primeiro dicionário a registar a data em que a palavra entrou na língua, etc. e tal. Finalmente, há alguns meses, o embaixador do Brasil em Berlim, Roberto Abdenur, ofereceu-me um exemplar (três quilos e seiscentos gramas em papel bíblia!), e pude assim confirmar a justeza da publicidade. Mais recentemente pedi a uma amiga que me enviasse, de São Paulo, a versão electrónica do Houaiss. Não me desiludiu.
Conheci o António Houaiss há muitos anos, numa ocasião em que veio a Lisboa defender o Acordo Ortográfico. Fiquei imediatamente seduzido pelo esplendor do seu português, o rigor, a riqueza, o entusiasmo com que aquele frágil velhinho carioca, filho de imigrantes libaneses, falava a nossa língua. Ouvir o António Houaiss discursar era uma alegria para a alma. Lembro-me de Natália Correia (a falta que ela faz a Portugal!), aos gritos, numa das salas da Assembleia da República: “Ajoelhem-se! Ajoelhem-se diante da erudição deste homem! Aprendam como se fala a nossa língua!”
O dicionário em que António Houaiss trabalhou durante tantos anos, e que acabou por ser concluído, com o apoio de uma vasta equipa de especialistas, brasileiros, portugueses e africanos, já após a morte do seu mentor, é o melhor monumento à memória do grande lexicógrafo. Por incrível que pareça, porém, não vi na Feira do Livro nenhum exemplar à venda — e refiro-me à edição brasileira, da Editora Objetiva, porque (ó escândalo!) não existe ainda uma versão portuguesa.
O velho Houaiss teria sabido, certamente, o que dizer ao outro António, de onze anos, de forma a cativá-lo para a literatura. O que quer que ele dissesse parecia ser sempre novo. As palavras saíam-lhe dos lábios vigorosas e polidas, a brilhar, como se tivessem sido estreadas naquele mesmo instante. Suspeito que o pequeno António iria à procura dos livros, depois de ouvir António Houaiss, apenas no afã de descobrir neles, uma outra vez, a luz da nossa língua.
José Eduardo Agualusa
Tentei, um tanto assustado, fugir ao desafio. Dei uma resposta qualquer, evasiva, mas depois que eles se foram embora pus-me a pensar naquilo. Como foi que eu próprio descobri a literatura? Devia ter a idade do António quando encontrei na biblioteca dos meus pais uma belíssima enciclopédia ilustrada, do início do século vinte, em dois volumes. Procurava-se a palavra “aves”, por exemplo, e havia uma ou duas páginas com preciosas estampas coloridas de aves de todo o mundo. Tinha, além disso, imensas mulheres nuas — um deslumbramento! Lembro-me em particular da famosa tela de Rubens, “O Julgamento de Paris”, talvez o primeiro concurso de misses de que há notícia. Paris, Príncipe de Tróia, tem de decidir quem é a mais bela: Hera, Atena ou Afrodite. São três mocetonas bem nutridas, três deusas clássicas, de rijas e luminosas carnes brancas. A bem dizer foi por causa das mulheres que eu me apaixonei pelos livros. Descobri que por detrás daquelas imagens, por detrás de cada mulher, mais ou menos despida, havia um enredo, e passei a interessar-me por essas histórias.
Nunca mais deixei de ler. Leio de tudo um pouco, romances, ensaios, poesia, e, é claro, continuo a interessar-me por enciclopédias e dicionários. Gosto particularmente de ler dicionários. A minha última paixão, em matéria de dicionários, chama-se Houaiss. Esperei por ele uns bons seis anos. Sempre que ia a uma bienal do livro, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, perguntava pelo Houaiss. “Sai para o ano”, respondiam-me imperturbáveis os responsáveis pelo projecto, e, para manterem aceso o meu interesse, agitavam factos e números: mais de 228 mil verbetes, extensos grupos de sinónimos e antónimos, levantamentos de homónimos, parónimos, colectivos, informações de gramática e uso, bem como da origem de cada palavra; é o primeiro dicionário a registar a data em que a palavra entrou na língua, etc. e tal. Finalmente, há alguns meses, o embaixador do Brasil em Berlim, Roberto Abdenur, ofereceu-me um exemplar (três quilos e seiscentos gramas em papel bíblia!), e pude assim confirmar a justeza da publicidade. Mais recentemente pedi a uma amiga que me enviasse, de São Paulo, a versão electrónica do Houaiss. Não me desiludiu.
Conheci o António Houaiss há muitos anos, numa ocasião em que veio a Lisboa defender o Acordo Ortográfico. Fiquei imediatamente seduzido pelo esplendor do seu português, o rigor, a riqueza, o entusiasmo com que aquele frágil velhinho carioca, filho de imigrantes libaneses, falava a nossa língua. Ouvir o António Houaiss discursar era uma alegria para a alma. Lembro-me de Natália Correia (a falta que ela faz a Portugal!), aos gritos, numa das salas da Assembleia da República: “Ajoelhem-se! Ajoelhem-se diante da erudição deste homem! Aprendam como se fala a nossa língua!”
O dicionário em que António Houaiss trabalhou durante tantos anos, e que acabou por ser concluído, com o apoio de uma vasta equipa de especialistas, brasileiros, portugueses e africanos, já após a morte do seu mentor, é o melhor monumento à memória do grande lexicógrafo. Por incrível que pareça, porém, não vi na Feira do Livro nenhum exemplar à venda — e refiro-me à edição brasileira, da Editora Objetiva, porque (ó escândalo!) não existe ainda uma versão portuguesa.
O velho Houaiss teria sabido, certamente, o que dizer ao outro António, de onze anos, de forma a cativá-lo para a literatura. O que quer que ele dissesse parecia ser sempre novo. As palavras saíam-lhe dos lábios vigorosas e polidas, a brilhar, como se tivessem sido estreadas naquele mesmo instante. Suspeito que o pequeno António iria à procura dos livros, depois de ouvir António Houaiss, apenas no afã de descobrir neles, uma outra vez, a luz da nossa língua.
José Eduardo Agualusa
sábado, julho 4
Pedra filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
A arte de ser feliz
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles
O homem que amava as Ilhas
Havia um homem que amava as ilhas. Nascera numa, mas não lhe agradava por ter gente demais. Queria uma ilha só para ele: não necessariamente para lá viver sozinho, mas para fazer dela um mundo seu.
Uma ilha grande demais não é melhor do que um continente. Para ser sentida como tal, uma ilha tem de ser, de facto, bastante pequena - e este conto mostra como tem de ser minúscula, para podermos ter a sensação de que está cheia da nossa personalidade.
Ora as coisas proporcionaram-se de modo a este apaixonado por ilhas vir, realmente, a comprar uma ilha quando chegou aos trinta e cinco anos. Não a possuía em termos absolutos, mas comprara-a a noventa e nove anos, o que, pela parte que toca a um homem e a uma ilha, vale uma eternidade.
D. H. Lawrence, "Amor no Feno e Outros Contos"
«»
Uma ilha grande demais não é melhor do que um continente. Para ser sentida como tal, uma ilha tem de ser, de facto, bastante pequena - e este conto mostra como tem de ser minúscula, para podermos ter a sensação de que está cheia da nossa personalidade.
Ora as coisas proporcionaram-se de modo a este apaixonado por ilhas vir, realmente, a comprar uma ilha quando chegou aos trinta e cinco anos. Não a possuía em termos absolutos, mas comprara-a a noventa e nove anos, o que, pela parte que toca a um homem e a uma ilha, vale uma eternidade.
D. H. Lawrence, "Amor no Feno e Outros Contos"
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Amor antigo
O frio me aumenta a vontade de ter um gato. Mas vontade é coisa que dá e passa, por isso não levo o desejo muito a sério e me contento em ver vídeos de gracinhas felinas. Cresci tendo gatos à volta, de todas as raças, cores e personalidades. Ouço na memória o miado e ronronar de cada um. As mãos procuram em vão o macio dos pelos e o calor de seu corpo, as orelhas que eu gostava de dobrar – e eles permitiam -, simulando um turbante. Houve um dia em que coloquei laços em seus pescoços e alguns, como o veterano Chanão, ostentaram com garbo o adereço.
Com o tempo, a casa pequena e a ausência constante, em consequência do trabalho, acabaram por eliminá-los do convívio. Amenizava a saudade durante as visitas a meu filho e família, quando Rubenisa ainda vivia. Ela se juntava ao grupo para me receber á porta e desfrutava de meu colo sem pedir licença. Nesta época, estaria com as orelhas geladinhas. Morreu há poucos anos, já com certa idade e acima do peso. Guardo suas fotos e o coração fica encolhido, quando as revejo.
Quando idealizo o gato que não terei, gostaria que fosse laranja, arteiro e bem-humorado, como todo representante da raça. Difícil é escolher o nome. Os donos atuais costumam batizá-los com nomes de pessoas, o que tem sua lógica, já que eles se tornam membros da família. Personagens de obras literárias ou peças teatrais e filmes também me agradam. Meu pai acreditava que eles se sentissem mais atraídos por nomes que chiavam, como Xerxes e o próprio Chanão. Mas em casa tínhamos o branco Ingrid, só tardiamente reconhecido como macho, Lanjal, nosso laranjinha endiabrado, Mitz, frajola esperta e cheia de manha, entre outros.
Muitas vezes, a mana e eu dividimos as camas com eles, nossos irmãos discretos e elegantes. Saíam pouco pela vizinhança e, na volta, era comum trazerem presentes para minha mãe: uma lagartixa pela metade, uma barata morta, um passarinho moribundo na boca, para nosso desespero. As fêmeas davam cria protegidas em caixas de papelão forradas com panos. Depois acomodavam a prole nas gavetas do guarda-roupa dos pais e armários, subindo as escadas do sobrado. Era comum encontrar um filhote nos degraus, enquanto a mãe transportava quantos podia para o esconderijo, de uma só vez.
Todos vingavam, aumentando a turma de bigodudos, que chegou a ter nada menos que 14 indivíduos. Dormiam na área de serviço envidraçada e, quando a mãe os soltava, parecia estouro de boiada. Nem sempre, porém, dependiam da intervenção humana. Os mais espertos logo aprenderam a abrir a porta por conta própria, reforçando a independência.
O laranjinha imaginário haveria de gostar da cama de viúva e das muitas cobertas. A casa é silenciosa e cheia de estofados. Bate sol em todas as janelas. Mas vontade é coisa que dá e passa, então namoro os felinos virtuais e, quando dou sorte, acaricio algum na rua, torcendo para que ele não me siga, senão…
Com o tempo, a casa pequena e a ausência constante, em consequência do trabalho, acabaram por eliminá-los do convívio. Amenizava a saudade durante as visitas a meu filho e família, quando Rubenisa ainda vivia. Ela se juntava ao grupo para me receber á porta e desfrutava de meu colo sem pedir licença. Nesta época, estaria com as orelhas geladinhas. Morreu há poucos anos, já com certa idade e acima do peso. Guardo suas fotos e o coração fica encolhido, quando as revejo.
Quando idealizo o gato que não terei, gostaria que fosse laranja, arteiro e bem-humorado, como todo representante da raça. Difícil é escolher o nome. Os donos atuais costumam batizá-los com nomes de pessoas, o que tem sua lógica, já que eles se tornam membros da família. Personagens de obras literárias ou peças teatrais e filmes também me agradam. Meu pai acreditava que eles se sentissem mais atraídos por nomes que chiavam, como Xerxes e o próprio Chanão. Mas em casa tínhamos o branco Ingrid, só tardiamente reconhecido como macho, Lanjal, nosso laranjinha endiabrado, Mitz, frajola esperta e cheia de manha, entre outros.
Muitas vezes, a mana e eu dividimos as camas com eles, nossos irmãos discretos e elegantes. Saíam pouco pela vizinhança e, na volta, era comum trazerem presentes para minha mãe: uma lagartixa pela metade, uma barata morta, um passarinho moribundo na boca, para nosso desespero. As fêmeas davam cria protegidas em caixas de papelão forradas com panos. Depois acomodavam a prole nas gavetas do guarda-roupa dos pais e armários, subindo as escadas do sobrado. Era comum encontrar um filhote nos degraus, enquanto a mãe transportava quantos podia para o esconderijo, de uma só vez.
Todos vingavam, aumentando a turma de bigodudos, que chegou a ter nada menos que 14 indivíduos. Dormiam na área de serviço envidraçada e, quando a mãe os soltava, parecia estouro de boiada. Nem sempre, porém, dependiam da intervenção humana. Os mais espertos logo aprenderam a abrir a porta por conta própria, reforçando a independência.
O laranjinha imaginário haveria de gostar da cama de viúva e das muitas cobertas. A casa é silenciosa e cheia de estofados. Bate sol em todas as janelas. Mas vontade é coisa que dá e passa, então namoro os felinos virtuais e, quando dou sorte, acaricio algum na rua, torcendo para que ele não me siga, senão…
O noivado infeliz de Aurélia
Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jovem da bela cidade de San José.
Devo esclarecer que não conheço, em absoluto, a signatária do referido documento, que se assina simplesmente Aurélia Maria – provavelmente um pseudônimo.
A pobre garota tem o coração transtornado pelos infortúnios que vem sofrendo. E sente-se tão perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.
Nervosa, recorre a mim, suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos, falando-me com uma eloqüência extraordinária, que tocaria o coração de uma estátua.
Ouçamos a sua triste história.
Aurélia tinha dezesseis anos – diz ela – quando encontrou e amou, com todo o ardor de uma alma apaixonada, um rapaz de New Jersey, chamado Wilhamson Brockinridge Caruthers, quase seis anos mais velho que ela.
Com o consentimento de seus pais, ficaram noivos, e durante um largo período tudo correu muito bem, como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgraça que sempre tocam à humanidade.
Um dia, entretanto, a face da realidade transformou-se. O jovem Caruthers caiu de cama com varíola, e da espécie mais virulenta e terrível. Quando ficou bom, tinha o rosto desfigurado, a pele marcada pelas bexigas. Já não era o mesmo, porque a sua beleza desaparecera para sempre.
Aurélia pensou logo em romper o seu compromisso, mas, por uma questão de piedade para com o infeliz, limitou-se a transferir o casamento para depois, como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz.
Acontece que na véspera do casamento, Caruthers, quando acompanhava com os olhos um balão que subia aos céus, caiu, distraído, num poço, e quebrou uma perna. Tiveram de amputá-la acima do joelho.
Novamente Aurélia teve a intenção de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. O casamento foi transferido e ela deixou que o tempo corresse.
Outra infelicidade aguardava o noivo caipora. Caruthers perdeu um braço quando de uma descarga imprevista de um canhão, numa festa cívica. Ainda na convalescença. três meses depois, teve o outro esmagado numa prensa agrícola.
O coração da pobre Aurélia foi horrivelmente machucado por essas verdadeiras calamidades. Era enorme a sua aflição, por ver seu jovem noivo abandoná-la pedaço por pedaço e imaginar que, com esse sistema de progressiva redação, com pouco nada mais restaria do rapaz. E doía-lhe verificar que nada podia fazer por ele.
Em seu desespero, coitada, como um negociante que teima num negócio e tem prejuízo regularmente, todos os dias, Aurélia sentia um grande e profundo arrependimento por não haver casado logo de início com Caruthers. antes que ele sofresse tão alarmante depreciação. Mas, encarando a situação com ânimo firme, resolveu pôr à prova, ainda uma vez, as lamentáveis disposições do seu noivo.
Foi marcado o dia do casório e de novo turvou-se o céu com as nuvens da desilusão. É que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi então que perdeu um dos olhos.
Os pais e os amigos da moça, tendo em vista que a sua generosa obstinação já excedia os limites normais, novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado.
Aurélia chegou a hesitar, apesar da sua imensa bondade de sentimentos, porém respondeu a todos que, refletindo direito sobre o assunto, verificara que não tinha nenhuma razão de queixa contra o noivo.
Foi transferida a data do casamento, e eis que Caruthers quebra a outra perna.
Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que, no hospital. viu os cirurgiões mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado.
Aurélia sentiu uma emoção cruel, percebendo que mais um pedaço do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. Sentiu, sobretudo, que o campo de suas afeições mais puras diminuía a olhos vistos. Contudo, não atendeu aos rogos dos seus, quanto à anulação do seu compromisso, e só fez mesmo transferir o casamento.
Enfim, poucos dias antes da data fixada, aconteceu outra desgraça. Foi o seguinte: durante o ano, os índios de Owen River arrancaram o couro cabeludo de um só homem, e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Ca-ruthers, de New Jersey.
Ainda assim, o pobre-diabo fez-se transportar imediatamente para a casa de sua noiva, o coração transbordante de alegria, embora tivesse perdido os cabelos para sempre. Apesar de todo o seu desgosto, ainda deu graças a Deus por haver-se salvo, mesmo por esse preço exorbitante.
A esta altura, Aurélia está indecisa quanto à atitude que deve tomar. Ainda ama o noivo – é o que ela me escreve em sua carta. O noivo ou o pedaço de noivo que lhe resta. Ama-o de todo o coração, porém sua família se opõe terminantemente ao casamento.
Caruthers é pobre e não pode mais trabalhar. Por sua vez, Aurélia não temo necessário para que possam viver os dois juntos, com relativo conforto.
– Que devo fazer? – eis o que ela me pergunta, numa indecisão cruel.
Esta é, com efeito, uma questão delicada. Questão cuja resposta deve decidir sobre o destino de uma mulher e de um pedaço de homem.
Estou certo de que seria assumir uma grande responsabilidade responder indo além de uma simples sugestão.
Quanto custaria a reconstituição de um Caruthers completo? Se Aurélia tem algum recurso, deve comprar para o seu noivo mutilado umas pernas artificiais, um olho de vidro e uma cabeleira postiça, para torná-lo apresentável. Feito isto, seria conveniente que lhe desse um prazo improrrogável de noventa dias, ao fim do qual, se o rapaz não torcer o pescoço, poderá arriscar-se a casar com ele.
Não creio que assim procedendo Aurélia se aventure a grande risco, de qualquer maneira. Se Caruthers ainda uma vez cede à tentação estranha de quebrar alguma coisa sempre que se lhe apresenta a ocasião propícia, sua próxima experiência na certa será fatal, e então a pobre noiva poderá ficar tranqüila, casada ou não. Casada, as pernas de pau e outros objetos, propriedade do defunto, ficarão como herança para a viúva, e assim Aurélia não perderá nada, a não ser, na realidade, o último pedaço vivo dum esposo honesto e infeliz, que durante a vida toda não fez outra coisa senão contentar os seus extraordinários instintos de autodestruição.
É tentar a sorte, portanto. Refleti bastante sobre o assunto, e este me parece o melhor partido a tomar no caso.
Decerto, Caruthers teria agido com acerto se houvesse tentado quebrar o o pescoço logo da primeira vez, tratando de fazer coisa definitiva. Já que escolheu outro método, dispondo-se a prolongar o sacrifício o mais possível, não se pode criticá-lo, por haver feito o que lhe pareceu melhor. Deve-se é procurar tirar o melhor proveito das circunstâncias, sem o menor ressentimento.
Devo esclarecer que não conheço, em absoluto, a signatária do referido documento, que se assina simplesmente Aurélia Maria – provavelmente um pseudônimo.
A pobre garota tem o coração transtornado pelos infortúnios que vem sofrendo. E sente-se tão perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.
Nervosa, recorre a mim, suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos, falando-me com uma eloqüência extraordinária, que tocaria o coração de uma estátua.
Ouçamos a sua triste história.
Aurélia tinha dezesseis anos – diz ela – quando encontrou e amou, com todo o ardor de uma alma apaixonada, um rapaz de New Jersey, chamado Wilhamson Brockinridge Caruthers, quase seis anos mais velho que ela.
Com o consentimento de seus pais, ficaram noivos, e durante um largo período tudo correu muito bem, como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgraça que sempre tocam à humanidade.
Um dia, entretanto, a face da realidade transformou-se. O jovem Caruthers caiu de cama com varíola, e da espécie mais virulenta e terrível. Quando ficou bom, tinha o rosto desfigurado, a pele marcada pelas bexigas. Já não era o mesmo, porque a sua beleza desaparecera para sempre.
Aurélia pensou logo em romper o seu compromisso, mas, por uma questão de piedade para com o infeliz, limitou-se a transferir o casamento para depois, como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz.
Acontece que na véspera do casamento, Caruthers, quando acompanhava com os olhos um balão que subia aos céus, caiu, distraído, num poço, e quebrou uma perna. Tiveram de amputá-la acima do joelho.
Novamente Aurélia teve a intenção de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. O casamento foi transferido e ela deixou que o tempo corresse.
Outra infelicidade aguardava o noivo caipora. Caruthers perdeu um braço quando de uma descarga imprevista de um canhão, numa festa cívica. Ainda na convalescença. três meses depois, teve o outro esmagado numa prensa agrícola.
O coração da pobre Aurélia foi horrivelmente machucado por essas verdadeiras calamidades. Era enorme a sua aflição, por ver seu jovem noivo abandoná-la pedaço por pedaço e imaginar que, com esse sistema de progressiva redação, com pouco nada mais restaria do rapaz. E doía-lhe verificar que nada podia fazer por ele.
Em seu desespero, coitada, como um negociante que teima num negócio e tem prejuízo regularmente, todos os dias, Aurélia sentia um grande e profundo arrependimento por não haver casado logo de início com Caruthers. antes que ele sofresse tão alarmante depreciação. Mas, encarando a situação com ânimo firme, resolveu pôr à prova, ainda uma vez, as lamentáveis disposições do seu noivo.
Foi marcado o dia do casório e de novo turvou-se o céu com as nuvens da desilusão. É que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi então que perdeu um dos olhos.
Os pais e os amigos da moça, tendo em vista que a sua generosa obstinação já excedia os limites normais, novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado.
Aurélia chegou a hesitar, apesar da sua imensa bondade de sentimentos, porém respondeu a todos que, refletindo direito sobre o assunto, verificara que não tinha nenhuma razão de queixa contra o noivo.
Foi transferida a data do casamento, e eis que Caruthers quebra a outra perna.
Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que, no hospital. viu os cirurgiões mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado.
Aurélia sentiu uma emoção cruel, percebendo que mais um pedaço do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. Sentiu, sobretudo, que o campo de suas afeições mais puras diminuía a olhos vistos. Contudo, não atendeu aos rogos dos seus, quanto à anulação do seu compromisso, e só fez mesmo transferir o casamento.
Enfim, poucos dias antes da data fixada, aconteceu outra desgraça. Foi o seguinte: durante o ano, os índios de Owen River arrancaram o couro cabeludo de um só homem, e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Ca-ruthers, de New Jersey.
Ainda assim, o pobre-diabo fez-se transportar imediatamente para a casa de sua noiva, o coração transbordante de alegria, embora tivesse perdido os cabelos para sempre. Apesar de todo o seu desgosto, ainda deu graças a Deus por haver-se salvo, mesmo por esse preço exorbitante.
A esta altura, Aurélia está indecisa quanto à atitude que deve tomar. Ainda ama o noivo – é o que ela me escreve em sua carta. O noivo ou o pedaço de noivo que lhe resta. Ama-o de todo o coração, porém sua família se opõe terminantemente ao casamento.
Caruthers é pobre e não pode mais trabalhar. Por sua vez, Aurélia não temo necessário para que possam viver os dois juntos, com relativo conforto.
– Que devo fazer? – eis o que ela me pergunta, numa indecisão cruel.
Esta é, com efeito, uma questão delicada. Questão cuja resposta deve decidir sobre o destino de uma mulher e de um pedaço de homem.
Estou certo de que seria assumir uma grande responsabilidade responder indo além de uma simples sugestão.
Quanto custaria a reconstituição de um Caruthers completo? Se Aurélia tem algum recurso, deve comprar para o seu noivo mutilado umas pernas artificiais, um olho de vidro e uma cabeleira postiça, para torná-lo apresentável. Feito isto, seria conveniente que lhe desse um prazo improrrogável de noventa dias, ao fim do qual, se o rapaz não torcer o pescoço, poderá arriscar-se a casar com ele.
Não creio que assim procedendo Aurélia se aventure a grande risco, de qualquer maneira. Se Caruthers ainda uma vez cede à tentação estranha de quebrar alguma coisa sempre que se lhe apresenta a ocasião propícia, sua próxima experiência na certa será fatal, e então a pobre noiva poderá ficar tranqüila, casada ou não. Casada, as pernas de pau e outros objetos, propriedade do defunto, ficarão como herança para a viúva, e assim Aurélia não perderá nada, a não ser, na realidade, o último pedaço vivo dum esposo honesto e infeliz, que durante a vida toda não fez outra coisa senão contentar os seus extraordinários instintos de autodestruição.
É tentar a sorte, portanto. Refleti bastante sobre o assunto, e este me parece o melhor partido a tomar no caso.
Decerto, Caruthers teria agido com acerto se houvesse tentado quebrar o o pescoço logo da primeira vez, tratando de fazer coisa definitiva. Já que escolheu outro método, dispondo-se a prolongar o sacrifício o mais possível, não se pode criticá-lo, por haver feito o que lhe pareceu melhor. Deve-se é procurar tirar o melhor proveito das circunstâncias, sem o menor ressentimento.
Mark Twain
sexta-feira, julho 3
Quantos Césares fui
A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender.
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina.
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender.
Napoleão, seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina.
Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto.
Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade de um domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Maturidade
Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.
A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.
Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.
Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.
A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.
Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.
Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.
Lya Luft
O sonho de Pedro Henriquez Urena
O sonho que Pedro Henriquez Urena teve ao amanhecer de um dos dias de 1946 não constava de imagens, mas tão somente de pausadas palavras. A voz que as pronunciava não era a sua, porém parecia-se com ela. O tom, em que pese as possibilidades patéticas que o tema permitia, era impessoal e comum. Durante o sonho, que foi breve, Pedro sabia que estava dormindo em seu quarto e que sua mulher estava a seu lado. Na obscuridade do sonho, a voz lhe disse: Há quantas noites passadas, em uma esquina da Rua Córdoba, discutiste com Borges a invocação do anônimo Sevilhano Ó Morte, vem calada / como costumas vir na flecha. Suspeitaram que era o eco deliberado de algum texto latino, já que estas versões correspondiam aos costumes da época, completamente alheias ao nosso conceito de plágio, sem dúvida menos literário do que comercial. O que não suspeitaram, o que não podiam suspeitar, é que o diálogo era profético.
Dentro de poucas horas correrás para a última estação da Constituición, para tua aula na Universidade de La Plata. Alcançarás o trem, colocares a pasta no porta-volumes e te acomodarás na tua poltrona, junto à janela. Alguém, cujo nome ignoro mas cujo rosto estou vendo, te dirigirá algumas palavras. Não lhe responderás porque ambos estarão mortos. Já te terás despedido para sempre de tua mulher e de tuas filhas. Não te lembrarás deste sonho porque teu esquecimento é necessário para que se cumpram os fatos.
Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"
Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"
Dias perfeitos
Dias perfeitos são esses em que Meteorologia afirma, vai chover e chove mesmo: não os outros, quando se anda de capa e guarda-chuva para cá e para lá, até se perder um dos dois ou os dois juntos.
Dias perfeitos são esses em que todos os relógios amanhecem certos: o do pulso, o da cozinha, o da igreja, o da Glória, o da Carioca, excetuando-se apenas os das relojoarias, pois a graça, destes, é marcarem todos horas diferentes.
Dias perfeitos são esses em que os pneus não amanhecem vazios: as ruas acordam com dois ou três buracos consertados, pelo menos; o ônibus não vem em cima de nós, buzinando e na contramão; e os sinais de cruzamento não estão enguiçados e os guardas estão no seu posto, sem conversa para as morenas nem para os colegas.
Dias perfeitos são esses em que não cai botão nenhum da nossa roupa ou, se cair, uma pessoa amável aparecerá correndo, gastando o coração, para no-lo oferecer como quem oferece uma rosa, deplorando não dispor de linha e agulha para voltar a pô-lo no lugar.
Dias perfeitos são esses em que ninguém pisa nos nossos sapatos, nem esbarra com uma cesta nas nossas meias, ou, se isso acontecer, pede milhões de desculpas, hábito que se vai perdendo com uma velocidade supervostokiana.
Dias perfeitos são esses em que os guichês do Correio dispõem de gentis senhoritas e respeitáveis senhores que não estão fazendo crochê nem jogando xadrez sozinhos e não se aborrecem com o mísero pretendente à expedição de uma carta aérea, e até sabem quanto pesa a missiva e qual o seu destino, no mapa, e têm troco certo na gaveta, e não atiram os selos pelo ar como quem solta pombos da cartola. (Ah, esses são dias perfeitíssimos! ...).
Dias perfeitos são esses em que o motorista do carro de trás não buzina como um doido, os da direita e da esquerda não dançam quadrilha na nossa frente, e os velhotes não leem jornal no meio da rua, e as mocinhas que carregam à cabeça seus tabuleiros de penteados não resolvem atravessar, com suas perninhas trepadas em metro e meio de saltos, justamente por lugares por onde nem a bola de futebol doméstico se arrisca.
Dias perfeitos são esses em que se vai ao teatro, como mandam os amigos, e os atores sabem o que estão fazendo, e a vizinha de trás não conversa do prólogo ao epílogo sobre assuntos particulares, e a menina da frente não chupa, não mastiga e não assovia caramelos e o cavalheiro da esquerda não pega no sono, resvalando insensivelmente para cima de nós o seu mavioso ronco.
Dias perfeitos, esses em que voltamos para a casa e a encontramos intacta, no mesmo lugar, e intactos estão os nossos tristes ossos, e podemos dormir em paz, tranquilos e felizes como se voltássemos apenas de um passeio pelos anéis de Saturno.
Cecília Meireles
Dias perfeitos são esses em que todos os relógios amanhecem certos: o do pulso, o da cozinha, o da igreja, o da Glória, o da Carioca, excetuando-se apenas os das relojoarias, pois a graça, destes, é marcarem todos horas diferentes.
Dias perfeitos são esses em que os pneus não amanhecem vazios: as ruas acordam com dois ou três buracos consertados, pelo menos; o ônibus não vem em cima de nós, buzinando e na contramão; e os sinais de cruzamento não estão enguiçados e os guardas estão no seu posto, sem conversa para as morenas nem para os colegas.
Dias perfeitos são esses em que não cai botão nenhum da nossa roupa ou, se cair, uma pessoa amável aparecerá correndo, gastando o coração, para no-lo oferecer como quem oferece uma rosa, deplorando não dispor de linha e agulha para voltar a pô-lo no lugar.
Dias perfeitos são esses em que ninguém pisa nos nossos sapatos, nem esbarra com uma cesta nas nossas meias, ou, se isso acontecer, pede milhões de desculpas, hábito que se vai perdendo com uma velocidade supervostokiana.
Dias perfeitos são esses em que os guichês do Correio dispõem de gentis senhoritas e respeitáveis senhores que não estão fazendo crochê nem jogando xadrez sozinhos e não se aborrecem com o mísero pretendente à expedição de uma carta aérea, e até sabem quanto pesa a missiva e qual o seu destino, no mapa, e têm troco certo na gaveta, e não atiram os selos pelo ar como quem solta pombos da cartola. (Ah, esses são dias perfeitíssimos! ...).
Dias perfeitos são esses em que o motorista do carro de trás não buzina como um doido, os da direita e da esquerda não dançam quadrilha na nossa frente, e os velhotes não leem jornal no meio da rua, e as mocinhas que carregam à cabeça seus tabuleiros de penteados não resolvem atravessar, com suas perninhas trepadas em metro e meio de saltos, justamente por lugares por onde nem a bola de futebol doméstico se arrisca.
Dias perfeitos são esses em que se vai ao teatro, como mandam os amigos, e os atores sabem o que estão fazendo, e a vizinha de trás não conversa do prólogo ao epílogo sobre assuntos particulares, e a menina da frente não chupa, não mastiga e não assovia caramelos e o cavalheiro da esquerda não pega no sono, resvalando insensivelmente para cima de nós o seu mavioso ronco.
Dias perfeitos, esses em que voltamos para a casa e a encontramos intacta, no mesmo lugar, e intactos estão os nossos tristes ossos, e podemos dormir em paz, tranquilos e felizes como se voltássemos apenas de um passeio pelos anéis de Saturno.
Cecília Meireles
quinta-feira, julho 2
A complicada arte de ver
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que veem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.
Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”.
Rubem Alves
Sobre leituras obrigatórias e lunetas
Andou circulando recentemente em Portugal uma polêmica sobre leituras obrigatórias e leituras sugeridas para estudantes do ensino médio. A discussão entre professores e escritores orbita em torno de quais livros deveriam constar da lista obrigatória. Poderíamos nos deter, antes, no ponto da obrigatoriedade: será sempre um pouco triste que a leitura de um livro de literatura seja imposta a alguém. Que um estudante tenha em seu repertório ainda embrionário de leitura este ou aquele autor, este ou aquele livro importante, simplesmente porque foi obrigado a passar por eles.
Por que não oferecer ao adolescente um leque de excelentes opções pré-selecionadas, todas como leituras sugeridas, dando ao próprio adolescente o direito de escolha? Pergunto isso pensando na estudante que eu mesma fui e no quanto me custou ter sido obrigada a ler A luneta mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, entre meus doze e treze anos.
O estilo do autor, seus longos períodos, seu vocabulário luxuoso, a roupagem de época, a ironia, tudo colaborava para tornar a obrigatoriedade daquela leitura ainda mais penosa. Sim, foi penoso ler esse livro. Eu não estava pronta para aproveitá-lo aos treze anos. Porque há ironias que levamos anos de experiência de vida (e leitura) para desfrutar. Porque há lucubrações a que só nos devotamos depois da madureza. Porque há uma importância nos livros que lemos, para além das razões canônicas, que só desvendamos por nós mesmos.
Mais de trinta anos depois, li como pela primeira vez A luneta mágica e então pude rir deliciosamente de sua ironia, saborear seu léxico e perceber o atemporal da fábula ali contida. Livro menos conhecido de Joaquim Manuel de Macedo, sem dúvida menos lido que A moreninha, vale a pena resgatá-lo — como leitura sugerida — para os nossos tempos. A história conta as desventuras de Simplício, sujeito incorrigivelmente míope de vista e de espírito, em sua tragicômica jornada pessoal do senso comum ao bom senso.
Ambientado no tempo do império de D. Pedro II, publicado originalmente em folhetim, em 1869, o romance é contemporâneo de O idiota, de Dostoievski, publicado no mesmo ano, também em folhetim. Simplício é um parente brasileiro não distante do idiota russo (ambos parentes do avoengo Cândido, de Voltaire). Enquanto sujeito míope, Simplício é um exemplar do senso comum, muito bem aceito na família e socialmente. Mas, quando dotado do poder da visão do mal na alma das pessoas, graças a uma luneta mágica, ele é tomado por louco. A seguir, dotado do poder da visão do bem, graças a uma segunda luneta mágica, é considerado um néscio e abusado por todos. Apenas depois dessa infeliz iniciação nos excessos do bem e do mal, quase banido da sociedade, enganado, roubado, quase destruído, Simplício ganha o poder de ver através de uma terceira luneta: a do bom senso.
Quão distante do nosso tempo está a fábula de Joaquim Manuel de Macedo? Uma fábula em que “bom senso é senso raro” e, justamente, por ser raro, dele ficam dispensados, em nome da ordem geral e do senso comum, magistrados, deputados, senadores e ministros. Uma fábula em que a opinião pública é caprichosa e, por contágio moral entre seus cidadãos, pode exaltar aquilo ou aquele que antes condenava (e vice-versa) num intervalo de poucos dias. Uma fábula em que é sintoma inequívoco de loucura para a sociedade alguém “dizer a verdade sem rebuço”.
O que vê através da luneta mágica do bom senso, Simplício não pode dizer, porque jurou sigilo, ainda que desejasse contá-lo e, mais, que fosse a favor da distribuição de lunetas dessas entre membros do ministério e do governo do país. E nós? Usamos de que magias ou miopias para formulação dos nossos juízos? Temos visto algumas vezes pela lente do bom senso?
Revejo agora a polêmica das leituras obrigatórias e penso no tormento da dificuldade e da incompreensão dos meus treze anos convertido no entusiasmo de finalmente ver bem e ainda alcançar o riso. Porque, malograda, aquela primeira leitura de A luneta mágica foi para mim inesquecível. No tempo certo, voltei ao livro e finalmente o descobri. Talvez o desconhecesse até hoje, não tivesse sido obrigada a encará-lo um dia, antes da hora. De algum modo, então, devo uma coisa à outra: o tormento de antes ao entusiasmo de depois. Ainda que toda imposição de leitura, para o caso de livros de literatura, seja sempre um pouco triste, sim.
Por que não oferecer ao adolescente um leque de excelentes opções pré-selecionadas, todas como leituras sugeridas, dando ao próprio adolescente o direito de escolha? Pergunto isso pensando na estudante que eu mesma fui e no quanto me custou ter sido obrigada a ler A luneta mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, entre meus doze e treze anos.
O estilo do autor, seus longos períodos, seu vocabulário luxuoso, a roupagem de época, a ironia, tudo colaborava para tornar a obrigatoriedade daquela leitura ainda mais penosa. Sim, foi penoso ler esse livro. Eu não estava pronta para aproveitá-lo aos treze anos. Porque há ironias que levamos anos de experiência de vida (e leitura) para desfrutar. Porque há lucubrações a que só nos devotamos depois da madureza. Porque há uma importância nos livros que lemos, para além das razões canônicas, que só desvendamos por nós mesmos.
Mais de trinta anos depois, li como pela primeira vez A luneta mágica e então pude rir deliciosamente de sua ironia, saborear seu léxico e perceber o atemporal da fábula ali contida. Livro menos conhecido de Joaquim Manuel de Macedo, sem dúvida menos lido que A moreninha, vale a pena resgatá-lo — como leitura sugerida — para os nossos tempos. A história conta as desventuras de Simplício, sujeito incorrigivelmente míope de vista e de espírito, em sua tragicômica jornada pessoal do senso comum ao bom senso.
Ambientado no tempo do império de D. Pedro II, publicado originalmente em folhetim, em 1869, o romance é contemporâneo de O idiota, de Dostoievski, publicado no mesmo ano, também em folhetim. Simplício é um parente brasileiro não distante do idiota russo (ambos parentes do avoengo Cândido, de Voltaire). Enquanto sujeito míope, Simplício é um exemplar do senso comum, muito bem aceito na família e socialmente. Mas, quando dotado do poder da visão do mal na alma das pessoas, graças a uma luneta mágica, ele é tomado por louco. A seguir, dotado do poder da visão do bem, graças a uma segunda luneta mágica, é considerado um néscio e abusado por todos. Apenas depois dessa infeliz iniciação nos excessos do bem e do mal, quase banido da sociedade, enganado, roubado, quase destruído, Simplício ganha o poder de ver através de uma terceira luneta: a do bom senso.
Quão distante do nosso tempo está a fábula de Joaquim Manuel de Macedo? Uma fábula em que “bom senso é senso raro” e, justamente, por ser raro, dele ficam dispensados, em nome da ordem geral e do senso comum, magistrados, deputados, senadores e ministros. Uma fábula em que a opinião pública é caprichosa e, por contágio moral entre seus cidadãos, pode exaltar aquilo ou aquele que antes condenava (e vice-versa) num intervalo de poucos dias. Uma fábula em que é sintoma inequívoco de loucura para a sociedade alguém “dizer a verdade sem rebuço”.
O que vê através da luneta mágica do bom senso, Simplício não pode dizer, porque jurou sigilo, ainda que desejasse contá-lo e, mais, que fosse a favor da distribuição de lunetas dessas entre membros do ministério e do governo do país. E nós? Usamos de que magias ou miopias para formulação dos nossos juízos? Temos visto algumas vezes pela lente do bom senso?
Revejo agora a polêmica das leituras obrigatórias e penso no tormento da dificuldade e da incompreensão dos meus treze anos convertido no entusiasmo de finalmente ver bem e ainda alcançar o riso. Porque, malograda, aquela primeira leitura de A luneta mágica foi para mim inesquecível. No tempo certo, voltei ao livro e finalmente o descobri. Talvez o desconhecesse até hoje, não tivesse sido obrigada a encará-lo um dia, antes da hora. De algum modo, então, devo uma coisa à outra: o tormento de antes ao entusiasmo de depois. Ainda que toda imposição de leitura, para o caso de livros de literatura, seja sempre um pouco triste, sim.
Ode à paz
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos.
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa passar a Vida!
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos.
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa passar a Vida!
Natália Correia
Desgraçador
Um dia na cidade do Porto presenciei uma cena entre um homem e uma mulher que nunca mais pude esquecer. O cenário onde isto se passou é dos mais pitorescos que os meus olhos viram: a Ribeira, ou a Ribeira Velha, creio eu que lhe chamam. É um cais sobre o Douro, perto da ponte de D. Luís. Todo o aspecto em redor é pesado e amontoado, conforme o carácter da cidade. Desde aquele cais a cidade sobe sempre em todas as direções até à Torre dos Clérigos. Na outra margem a ascensão iguala-se à de cá, de modo que o rio parece ter metido pelo mais alto de um monte que ficou dividido. Tudo isto faz com que o cais nos dê a estúpida impressão de estar enterrado. Lembro-me de umas interessantíssimas casas cujos alicerces se adivinham por causa da solidez com que as suas fachadas intimam os nossos olhos. Julgo serem vermelhas, ou foi a impressão violenta da cor que me deixaram. Do que bem me lembro é dos arcos em vez de portas e de umas janelas que pareciam desviadas dos seus respectivos lugares. Os arcos abriam umas lojas não sei de quê, pois fixei apenas os seus fundos negros, os mais negros e os mais fundos que tenho conhecido.
Pondo por cima disto tudo uma camada de antiguidade cor de ardósia e de ferrugem, de nevoeiro fabril e de salitre, a descrição deve ficar aproximada, descontando, é claro, o autor e a circunstância de ter gozado esta vista apenas uma vez.
Pondo por cima disto tudo uma camada de antiguidade cor de ardósia e de ferrugem, de nevoeiro fabril e de salitre, a descrição deve ficar aproximada, descontando, é claro, o autor e a circunstância de ter gozado esta vista apenas uma vez.
No cais as pessoas são bem as das respectivas casas. A aglomeração de gente é como a do casario. Um mercado justifica aquela frequência. Além disto, a carga e a descarga das fragatas ocupa uma quantidade imensa de mulheres e de homens, mas sobretudo mulheres. É uma raça diferente da do mercado. Poucas vezes me foi dado compreender melhor o que significam aquelas: ganhar o pão de cada dia, do que ao ver essas mulheres que iam e vinham sobre duas grossas e compridas pranchas de madeira lançadas desde a borda da fragata até ao cais, numa distância parecida com uns dez metros. O equilíbrio dessas mulheres não tinha uma hesitação à altura de três homens da água, e em menos de três palmos de largura durante os dez metros. Acrescente-se a isto que levavam à cabeça as canastras, umas vezes vazias e outras vezes cheias até acima, em pirâmide, conforme iam ou vinham da fragata. Daquela vez não me lembro do que descarregavam; apetecia-me que fossem laranjas, mas não insisto com a memória; tenho, contudo, ainda na mente a maneira rápida como davam conta daquele serviço, conservando sempre um tempo ginástico, e não digo militar, porque além dos gestos sóbrios e simplificados, corrigidos para o próprio trabalho repetido em que andavam, havia também uma beleza de linhas e de formas à qual não era estranha a sua natureza feminina. O gesto de abaixarem-se para acertar a cabeça ao meio da canastra carregada, a marcha sobre a prancha com o peso todo à cabeça, o modo de despejar a canastra inclinando o corpo de lado pela cintura eram exactos e cheios de graça. As alcochetanas que descarregam das fragatas o carvão inglês nos cais de Lisboa por este mesmo processo não podem infelizmente ser-lhes comparadas. Se não lhes falta a graça, a sua graça é outra, mas não dispõem das ossaturas opulentas das mulheres do Norte e muito menos daquela dignidade externa, a qual me surpreendeu em mulheres de pé descalço. Eram umas dezenas de mulheres todas semelhantes. Por contraste com a sua actividade havia no cais uns homens sentados e outros deitados ao sol em sacas de sarapilheira cheias de mercadoria. Para um destes homens aquelas dezenas de mulheres não eram todas a mesma; esperava sempre que essa passasse mais perto donde ele estava para lhe dizer o que tinha a dizer-lhe. A rapariga não fazia caso e seguia como as outras. Era um dito qualquer e talvez sempre o mesmo de todas as vezes que acontecia chegar a altura de ela passar por onde ele estava. Centenas de vezes e não falhou uma! Mas de uma vez a rapariga vinha a meio da prancha com a canastra carregadinha, e ele começou logo como de costume a gracejar com ela; sem ninguém esperar, ali mesmo de cima da prancha, parou de repente, despejou a canastra no rio, apontou o braço livre em direcção ao tal homem e com o sangue todo nas faces disse-lhe esta única palavra:
— Desgraçador!
Nunca mais esqueci esta palavra.
Almada Negreiros, "Nome de Guerra"
— Desgraçador!
Nunca mais esqueci esta palavra.
Almada Negreiros, "Nome de Guerra"
A cidade pequena
A cidade pequena vive sua infância tropeçando nas ruas enlameadas quando é chegado o tempo de chuva pesada. Lateja nas veias a vontade visível de como ela quer crescer através do trabalho de seu povo. Move-se pela riqueza de poucos abastados e o esforço da maioria pobre, mas sem miséria. É evidente que se mostra como uma cidade ainda acanhada nos gestos e nas coisas. Há pouco movimento de carro na rua, os primeiros sobrados começam a ser erguidos no local onde moram as famílias ricas. Essa cidade caminha nos dias atribulados, sem hesitar nos passos incansáveis, tornozelos e pulsos no esforço dos que levantam coisas pesadas.
Mãos rústicas arrumam maxixes, quiabos e pimentões sobre a tábua rústica da mesa armada perto do ponto de ônibus. O verdureiro carrega o tabuleiro na cabeça mercando pelas ruas couve, alface e coentro, alardeando o verde na semana, feito de verduras e legumes. Por onde passa, segue com a voz que não para, entoa uma música com notas vagarosas, quentes, que agrada a quem escuta. Merca seu produto batido pelos raios de sol, enquanto o verão aquece todas as coisas através do seu brilho trazido do infinito e que se reflete pelas pedras irregulares das ruas estreitas.
Entra e sai verão, o sol atira seus raios como flechas luminosas sobre todos os cantos da cidade. No inverno, o aguaceiro bate no dorso do rio, escorrendo pelas valetas, deixando com lama as ruas sem calçamento. No tempo de estio, a cidade esbanja ardor debaixo dos azuis do céu e por entre os verdes que gramam os barrancos do rio. Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos nas águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos rasgando fendas no silêncio da natureza. Era quando mais sorria. Isso acontecia quando o rio, pleno de inocências e purezas, tinha peixe em abundância.
Havia a cidade vizinha de praias belíssimas. Lá acontecia o veraneio em cada verão com o sol iluminando os seres e as coisas postas no mundo por Deus para que sejam alcançadas, contempladas, apanhadas e utilizadas. Aquela cidade marinha havia sido abençoada pela natureza, o mar batia, voltava, batia. O sol se admirava nos mil espelhos que espalhavam nas ondas que jogavam pra lá, pra cá.
No entanto, a cidade pequena, com um rio que a dividia em duas partes, ofertava ao menino de calção, peito nu, pé no chão as aventuras mais incríveis. Sustos esplêndidos, surpresas inesquecíveis. Ah, a vida era compreendida com suas marcas ardorosas no verão, aconchegantes no sono quando o inverno chegava com suas toalhas esvoaçantes e envolvia na manhã fria a paisagem escondida no fumo das horas.
Aquela cidade pequena enchia de sentimentos a alma do menino. Era mais envolvente por isso. Muito linda.
Mãos rústicas arrumam maxixes, quiabos e pimentões sobre a tábua rústica da mesa armada perto do ponto de ônibus. O verdureiro carrega o tabuleiro na cabeça mercando pelas ruas couve, alface e coentro, alardeando o verde na semana, feito de verduras e legumes. Por onde passa, segue com a voz que não para, entoa uma música com notas vagarosas, quentes, que agrada a quem escuta. Merca seu produto batido pelos raios de sol, enquanto o verão aquece todas as coisas através do seu brilho trazido do infinito e que se reflete pelas pedras irregulares das ruas estreitas.
Entra e sai verão, o sol atira seus raios como flechas luminosas sobre todos os cantos da cidade. No inverno, o aguaceiro bate no dorso do rio, escorrendo pelas valetas, deixando com lama as ruas sem calçamento. No tempo de estio, a cidade esbanja ardor debaixo dos azuis do céu e por entre os verdes que gramam os barrancos do rio. Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos nas águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos rasgando fendas no silêncio da natureza. Era quando mais sorria. Isso acontecia quando o rio, pleno de inocências e purezas, tinha peixe em abundância.
Havia a cidade vizinha de praias belíssimas. Lá acontecia o veraneio em cada verão com o sol iluminando os seres e as coisas postas no mundo por Deus para que sejam alcançadas, contempladas, apanhadas e utilizadas. Aquela cidade marinha havia sido abençoada pela natureza, o mar batia, voltava, batia. O sol se admirava nos mil espelhos que espalhavam nas ondas que jogavam pra lá, pra cá.
No entanto, a cidade pequena, com um rio que a dividia em duas partes, ofertava ao menino de calção, peito nu, pé no chão as aventuras mais incríveis. Sustos esplêndidos, surpresas inesquecíveis. Ah, a vida era compreendida com suas marcas ardorosas no verão, aconchegantes no sono quando o inverno chegava com suas toalhas esvoaçantes e envolvia na manhã fria a paisagem escondida no fumo das horas.
Aquela cidade pequena enchia de sentimentos a alma do menino. Era mais envolvente por isso. Muito linda.
quarta-feira, julho 1
Buquinagem
Percorrer as estantes de um sebo, no exercício da saudável buquinagem, é às vezes um prazer leve como uma pescaria e às vezes tão excitante quanto uma busca sexual. Surpreendi um dia um setentão no canto menos iluminado da sala apalpando um livro de Erica Jong e falando baixo com ele, como se lhe propusesse algo.
Desconhecer o que viemos fazer aqui nos livra de fadigas e decepções. Esqueçamos nossas presunções e gozemos a suprema delícia de não termos missão nenhuma.
Quando chovia forte, Mário de Andrade, que dizia ser trezentos e cinquenta, não saía de casa. Mandava em seu lugar um dos trezentos e quarenta e nove outros.
Bom tempo foi aquele em que o amor nos alimentava com fartura, para que cumpríssemos suas demandas noturnas e, se delas nos descurássemos, pudéssemos resistir ao rancor do seu chicote.
O que está sempre em jogo no amor é a fixação de um domínio, de uma primazia. Mesmo que esse domínio e essa primazia consistam, para quem os fixa, em submeter-se, de plena vontade, ao domínio e à primazia do parceiro amoroso.
Se eu fosse um apóstolo do amor, se eu fosse digno dessa missão, o livro-base do meu culto – a bíblia, por assim dizer – seria O museu da inocência, de Orhan Pamuk. Não conheço nenhum que se equipare a ele em força lírica, em delicadeza, em suavidade. Eu daria a alma para tê-lo escrito – o que, na verdade, significa que gostaria de ter vivido a história do personagem Kemal, subjugado por uma lembrança amorosa tão pungentemente agradável de ser sofrida que ele bem mereceria mais de uma vida para vivê-la. O museu da inocência é um livro para aqueles que não se envergonhariam de lamber uma estátua do amor, ainda que fosse obra do pior dos escultores e feita com a mais reles das argilas.
Quem se julga heroico quando se declara disposto a dar a vida pelo amor não faz nada além de reproduzir hoje um hábito muito comum outrora.
Porque nossos braços já não são os mesmos, as árvores derrubam gentilmente seus frutos para nós. Não são os melhores, sabemos, mas já aprendemos a não nos lamentar.
O que o amor de mais cruel tem é quando nós lhe dizemos que sem ele morreremos, e ele, distraído, diz: hem?
Quem mais fala de amor e quem menos o define são os poetas.
Que alma seria suficientemente tola para querer ser a minha?
Todos os poetas deveriam morrer por amor. É a única coisa que, em sua biografia, pode legitimá-los.
Sou um entusiasmado adepto da apatia.
Ter existido um homem chamado Shakespeare, que fez o que fez, é quase tão inacreditável quanto existir Deus.
Poemas de amor deveriam ser vendidos em floriculturas.
Para os suicidas mais convictos, morrer acaba se tornando um projeto de vida.
***
Desconhecer o que viemos fazer aqui nos livra de fadigas e decepções. Esqueçamos nossas presunções e gozemos a suprema delícia de não termos missão nenhuma.
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Quando chovia forte, Mário de Andrade, que dizia ser trezentos e cinquenta, não saía de casa. Mandava em seu lugar um dos trezentos e quarenta e nove outros.
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Bom tempo foi aquele em que o amor nos alimentava com fartura, para que cumpríssemos suas demandas noturnas e, se delas nos descurássemos, pudéssemos resistir ao rancor do seu chicote.
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O que está sempre em jogo no amor é a fixação de um domínio, de uma primazia. Mesmo que esse domínio e essa primazia consistam, para quem os fixa, em submeter-se, de plena vontade, ao domínio e à primazia do parceiro amoroso.
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Se eu fosse um apóstolo do amor, se eu fosse digno dessa missão, o livro-base do meu culto – a bíblia, por assim dizer – seria O museu da inocência, de Orhan Pamuk. Não conheço nenhum que se equipare a ele em força lírica, em delicadeza, em suavidade. Eu daria a alma para tê-lo escrito – o que, na verdade, significa que gostaria de ter vivido a história do personagem Kemal, subjugado por uma lembrança amorosa tão pungentemente agradável de ser sofrida que ele bem mereceria mais de uma vida para vivê-la. O museu da inocência é um livro para aqueles que não se envergonhariam de lamber uma estátua do amor, ainda que fosse obra do pior dos escultores e feita com a mais reles das argilas.
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Quem se julga heroico quando se declara disposto a dar a vida pelo amor não faz nada além de reproduzir hoje um hábito muito comum outrora.
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Porque nossos braços já não são os mesmos, as árvores derrubam gentilmente seus frutos para nós. Não são os melhores, sabemos, mas já aprendemos a não nos lamentar.
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O que o amor de mais cruel tem é quando nós lhe dizemos que sem ele morreremos, e ele, distraído, diz: hem?
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Quem mais fala de amor e quem menos o define são os poetas.
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Que alma seria suficientemente tola para querer ser a minha?
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Todos os poetas deveriam morrer por amor. É a única coisa que, em sua biografia, pode legitimá-los.
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Sou um entusiasmado adepto da apatia.
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Ter existido um homem chamado Shakespeare, que fez o que fez, é quase tão inacreditável quanto existir Deus.
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Poemas de amor deveriam ser vendidos em floriculturas.
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Para os suicidas mais convictos, morrer acaba se tornando um projeto de vida.
Ato de contrição
Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei
— por tudo, vida, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei
— por tudo, vida, perdão!
Adolfo Casais Monteiro
Inverno nos Abruzos
Deus nobis haec otia fecit
Nos Abruzos há só duas estações: o Inverno e o Verão. A Primavera é nevada e ventosa como o Inverno, e o Outono é quente e límpido como o Verão. O Verão começa em Junho e termina em Novembro. Os longos dias ensolarados sobre as colinas baixas e abrasadas, a poeira amarela da rua e a disenteria das crianças acabam e o Inverno começa. As pessoas deixam então de viver nas ruas: os rapazes descalços desaparecem das escadas da igreja. Na aldeia de que falo, os homens desapareciam quase completamente após as últimas colheitas: iam trabalhar para Terni, para Sulmona, para Roma. Era uma aldeia de pedreiros: e algumas das casas eram construídas com graça, tinham terraços e colunazinhas como pequenas villas, e era surpreendente encontrar nelas, ao entrar, grandes cozinhas sombrias onde havia presuntos pendurados e grandes quartos desolados e vazios. O lume estava aceso nas cozinhas e havia lumes de várias espécies, havia grandes lumes de azinho, lumes de ramadas e folhas, lumes de galhos apanhados do chão um a um. Era fácil distinguir os pobres dos ricos vendo que lume acendiam; mais fácil do que vendo as casas e as pessoas, as roupas e o calçado, que eram sempre mais ou menos iguais. Quando cheguei à aldeia de que falo, nos primeiros tempos todos os rostos me pareciam iguais, todas as mulheres se assemelhavam umas às outras, ricas e pobres, novas e velhas. Tinham quase todas a boca desdentada: as mulheres ali perdiam os dentes aos trinta anos, devido às fadigas e à má alimentação, aos esforços dos partos e dos aleitamentos, que se seguiam sem trégua. Mas depois comecei pouco a pouco a distinguir a Vincenzina da Secondina, a Annunziata da Addolorata, e também a entrar em todas as casas e a aquecer ‑me aos seus diferentes lumes. Quando a primeira neve começava a cair, apoderava ‑se de nós uma lenta tristeza. Era um exílio, o nosso: a nossa cidade estava longe e estavam longe os livros, os amigos, as coisas várias e volúveis de uma verdadeira existência. Acendíamos a nossa estufa verde, com o seu tubo comprido que atravessava o tecto: reuníamo‑nos todos na divisão onde estava a estufa, e aí cozinhávamos e comíamos, o meu marido escrevia sentado à grande mesa oval, as crianças espalhavam os seus brinquedos pelo chão. No tecto da sala havia uma águia pintada: e eu olhava a água e pensava que era aquilo o exílio. O exílio era a águia, era a estufa verde que zumbia, era o campo silencioso e vasto e a neve imóvel. Às cinco soavam os sinos da Igreja de Santa Maria, e as mulheres iam à bênção, com os seus xailes pretos e o rosto vermelho. Todas as tardes o meu marido e eu dávamos um passeio: todas as tardes caminhávamos de braço dado, enterrando os pés na neve. As casas que ladeavam a rua eram habitadas por gente conhecida e amiga: e todos apareciam à porta e nos diziam: “Que tenham boa saúde.” Por vezes alguém perguntava: “Mas quando é que voltam para a vossa casa?” O meu marido dizia: “Quando a guerra acabar.” “E quando é que guerra acaba? Sabes tudo e és professor, quando é que ela acaba?” Chamavam ao meu marido “o professor”, não sabendo pronunciar o nome dele, e vinham de longe consultá‑lo sobre as coisas mais variadas, sobre a melhor época do ano para se tirarem os dentes, sobre os subsídios concedidos pelo município e sobre as contribuições e os impostos. De Inverno uma pneumonia levava algum velho, os sinos de Santa Maria dobravam a finados, e Domenico Orecchia, o carpinteiro, fabricava o caixão. Uma mulher enlouqueceu e levaram ‑na para o manicómio de Collemaggio, e a aldeia falou do caso durante algum tempo. Era uma mulher nova e asseada, a mais asseada de toda a aldeia: e disseram que aquilo lhe acontecera por causa do seu grande asseio. A Gigetto di Calcedonio nasceram duas gémeas, além dos dois gémeos que já tinha em casa, e ele armou um escândalo no município porque não queriam dar ‑lhe o subsídio, por ter já muitas terras e um pomar do tamanho de sete cidades. Uma vizinha cuspiu no olho de Rosa, a porteira da escola, e esta começou a andar com uma venda no olho para que lhe pagassem uma indemnização. “O olho é delicado, o cuspo é salgado”, explicava ela. E também do seu caso se falou durante algum tempo, até mais nada haver a dizer sobre ele. A nostalgia crescia em nós de dia para dia. Por vezes era até agradável, como uma companhia terna e ligeiramente inebriante. Chegavam cartas da nossa cidade, com notícias de casamentos e de mortes que nos excluíam. Por vezes a nostalgia fazia ‑se aguda e amarga, e tornava‑se ódio: então odiávamos Domenico Orecchia, Gigetto di Calcedonio, Annunziatina, os sinos de Santa Maria. Mas era um ódio que mantínhamos escondido, porque o reconhecíamos injusto: e a nossa casa estava sempre cheia de gente, que vinha pedir favores e que vinha oferecê‑los. Por vezes a costureira vinha fazer‑nos sagnoccole. Atava um pano à cintura e batia os ovos, e mandava Crocetta procurar na aldeia alguém que pudesse em prestar‑nos um caldeirão bem grande. O seu rosto vermelho tinha uma expressão absorta e os olhos resplandeciam ‑lhe de uma vontade imperiosa. Teria sido capaz de deitar fogo à casa para que as sagnoccole lhe saíssem bem.
Ficava com a roupa e os cabelos brancos de farinha, e, em cima da mesa oval onde o meu marido escrevia, iam sendo depositadas as sagnocolle. Crocetta era a nossa mulher a dias. A verdade é que não era uma mulher porque tinha catorze anos. Fora a costureira quem no ‑la descobrira. A costureira dividia o mundo em dois campos: os que se penteiam e os que não se penteiam. Devem evitar ‑se os que não se penteiam, porque natural mente têm piolhos. Crocetta penteava ‑se: e por isso ficou a servir‑nos, e contava às crianças longas histórias de mortos e de cemitérios. Era uma vez um menino a quem a mãe morreu. O pai arranjou outra mulher e a madrasta não gostava do menino. Por isso matou ‑o enquanto o pai estava nos campos e fez com ele um cozido. O pai volta para casa e come, mas, depois de ter acabado de comer, os ossos que tinham ficado no prato põem ‑se a cantar:
Minha madrasta a maldita
cozeu‑me numa marmita
e depois de me cozer
deu‑me ao meu pai a comer.
Então o pai mata a mulher com a foice e pendura ‑a num prego na porta. Por vezes surpreendo ‑me a murmurar as palavras desta canção, e então toda a aldeia torna a aparecer diante de mim, juntamente com o sabor particular das suas estações, juntamente com o sopro gelado do vento e o som dos sinos Todas as manhãs eu saía com os meus filhos e as pessoas espantavam ‑se e desaprovavam ver ‑me expô‑los assim ao frio e à neve. “Que pecado fizeram estas criaturas?”, diziam. “Não está tempo para passeios, signò. Volta para casa.”
Nós andávamos muito tempo pelo campo branco e deserto, e as raras pessoas que encontrava olhavam para os meus filhos com piedade. “Que pecado fizeram?”, diziam ‑me. Quando ali nasce uma criança no Inverno, não a tiram de dentro do quarto antes de ter chegado o Verão. Ao meio ‑dia o meu marido vinha ter comigo trazendo o correio, e voltávamos todos para casa. Eu falava aos meus filhos da nossa cidade. Eram muito pequenos quando a deixáramos, e não tinham recordação nenhuma dela. Eu dizia ‑lhes que lá as casas tinham muitos andares, e que havia muitas casas e muitas ruas, e muitas lojas bonitas. “Mas aqui também há o Girò”, diziam os meus filhos. A loja do Girò ficava mesmo em frente da nossa casa. O Girò ficava à porta da loja como um velho mocho, e os seus olhos redondos e indiferentes fixavam a rua. Vendia um pouco de tudo: produtos alimentares e velas, postais, sapatos e laranjas. Quando chegava a mercadoria e Girò descarregava os caixotes, os rapazes corriam a comer as laranjas podres que ele deitava fora. No Natal chegavam também o torrão, os licores, os rebuçados. Mas Girò não cedia um soldo nos preços. “És muito ruim, Girò”, diziam ‑lhe as mulheres. Ele respondia: “Quem é bom os cães o comem.” No Natal os homens voltavam de Terni, de Sulmona, de Roma, ficavam por uns dias e tornavam a partir, depois de matarem o porco. Nos dias seguintes não se comia senão torresmos e salsichas, e não se fazia senão beber: depois os grunhidos dos pequenos porcos novos enchiam a rua. Em Fevereiro o ar tornava ‑se húmido e mole. Vagueavam no céu nuvens cinzentas e pesadas. Houve um ano em que durante o degelo se romperam as caleiras. Então começou a chover dentro de casa e os quartos transformaram ‑se em verdadeiros charcos. Mas foi a mesma coisa em toda a al deia: não ficou enxuta uma só casa. As mulheres despejavam baldes de água pelas janelas e varriam a água para fora de casa pelas portas.
Minha madrasta a maldita
cozeu‑me numa marmita
e depois de me cozer
deu‑me ao meu pai a comer.
Então o pai mata a mulher com a foice e pendura ‑a num prego na porta. Por vezes surpreendo ‑me a murmurar as palavras desta canção, e então toda a aldeia torna a aparecer diante de mim, juntamente com o sabor particular das suas estações, juntamente com o sopro gelado do vento e o som dos sinos Todas as manhãs eu saía com os meus filhos e as pessoas espantavam ‑se e desaprovavam ver ‑me expô‑los assim ao frio e à neve. “Que pecado fizeram estas criaturas?”, diziam. “Não está tempo para passeios, signò. Volta para casa.”
Nós andávamos muito tempo pelo campo branco e deserto, e as raras pessoas que encontrava olhavam para os meus filhos com piedade. “Que pecado fizeram?”, diziam ‑me. Quando ali nasce uma criança no Inverno, não a tiram de dentro do quarto antes de ter chegado o Verão. Ao meio ‑dia o meu marido vinha ter comigo trazendo o correio, e voltávamos todos para casa. Eu falava aos meus filhos da nossa cidade. Eram muito pequenos quando a deixáramos, e não tinham recordação nenhuma dela. Eu dizia ‑lhes que lá as casas tinham muitos andares, e que havia muitas casas e muitas ruas, e muitas lojas bonitas. “Mas aqui também há o Girò”, diziam os meus filhos. A loja do Girò ficava mesmo em frente da nossa casa. O Girò ficava à porta da loja como um velho mocho, e os seus olhos redondos e indiferentes fixavam a rua. Vendia um pouco de tudo: produtos alimentares e velas, postais, sapatos e laranjas. Quando chegava a mercadoria e Girò descarregava os caixotes, os rapazes corriam a comer as laranjas podres que ele deitava fora. No Natal chegavam também o torrão, os licores, os rebuçados. Mas Girò não cedia um soldo nos preços. “És muito ruim, Girò”, diziam ‑lhe as mulheres. Ele respondia: “Quem é bom os cães o comem.” No Natal os homens voltavam de Terni, de Sulmona, de Roma, ficavam por uns dias e tornavam a partir, depois de matarem o porco. Nos dias seguintes não se comia senão torresmos e salsichas, e não se fazia senão beber: depois os grunhidos dos pequenos porcos novos enchiam a rua. Em Fevereiro o ar tornava ‑se húmido e mole. Vagueavam no céu nuvens cinzentas e pesadas. Houve um ano em que durante o degelo se romperam as caleiras. Então começou a chover dentro de casa e os quartos transformaram ‑se em verdadeiros charcos. Mas foi a mesma coisa em toda a al deia: não ficou enxuta uma só casa. As mulheres despejavam baldes de água pelas janelas e varriam a água para fora de casa pelas portas.
Havia quem se deitasse na cama com um guarda ‑chuva aberto. Domenico Orecchia dizia que aquilo era castigo de algum pecado. Foi assim durante mais de uma semana: os últimos rastos de neve desapareceram por fim dos telhados, e Aristide reparou as caleiras. O fim do Inverno despertava em nós uma espécie de desassossego. Talvez viesse alguém visitar ‑nos: talvez acontecesse finalmente alguma coisa. Alguma vez o nosso exílio teria de acabar. Os caminhos que nos separavam do mundo pareciam mais curtos; o correio chegava com mais frequência. Todas as nossas frieiras se iam curando lentamente. Há uma certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. As nossas existências desenvolvem ‑se segundo leis antigas e imutáveis, segundo um seu ritmo uniforme e antigo. Os sonhos nunca se tornam verdade, e no momento em que os vemos despedaçados compreendemos de súbito que as maiores alegrias da nossa vida estão fora da realidade. A nossa sorte corre nesta alternância de esperanças e de nostalgias. O meu marido morreu em Roma na Prisão de Regina Coeli, poucos meses depois de termos deixado a aldeia. Perante o horror da morte solitária, perante as alternativas cheias de angústia que precederam a sua morte, pergunto ‑me se isto nos aconteceu a nós, a nós que comprávamos laranjas na loja de Girò e passeávamos na neve. Então eu tinha fé num futuro fácil e alegre, cheio de desejos satisfeitos, de experiências e de iniciativas comuns. Mas esse tempo era o melhor da minha vida, e só agora que me fugiu para sempre, só agora o sei.
Natalia Ginzburg, "As Pequenas Virtudes"
Natalia Ginzburg, "As Pequenas Virtudes"
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