terça-feira, fevereiro 28

Primeiros passos

 


O sonho

Mais e mais me assemelho ao caranguejo: olhos fora do colpo, vou sonhando de lado hesitante entre duas almas: a da água e a da terra.
Curozero Muando 


Eis o que sonhei: que o coveiro Curozero Muando tinha escavado em terras fora do cemitério, longe da vila. Procurara as mais distantes paragens, nas bermas das lagoas, nos outeiros de Zipene, nos vales de Xitulundo. Em todos os lugares sucedia o mesmo: não era possível penetrar no solo. Tentou-se mesmo até. na secreta sombra de Ximhambanine, a sagrada floresta dos anciãos. O coveiro desabara, joelhos na areia: os deuses nos acudissem e amolecessem o chão. Mas nem reza nem lamento resultaram. Invariavelmente, a pá chocava com um duro manto de pedra. Era como se, em todo o lado, a terra inteira tivesse fechado.
Chegaram amigos da cidade e disseram-me que o mesmo fenômeno estava ocorrendo noutros lugares. Em todo o país, a terra negava abrir o seu ventre aos humanos desígnios. Enviei mensagem para o exterior. E o mesmo se passava também por lá. Em todos os continentes o chão endurecera, intransponível. O assunto tornara-se uma catástrofe de proporções mundiais. Não era apenas a impossibilidade de enterrar os cadáveres. A agricultura paralisara. Os trabalhos de construção, as minas, as dragagens nos portos, tudo estava parado.

Dirigentes internacionais procuravam apressadamente explicações, cientistas de reputação pesquisavam motivos, multiplicavam-se comissões, viagens e expedições. Ninguém fazia ideia que a raiz de tão grave desequilíbrio se localizava, afinal, na nossa pequena Ilha. Ninguém sabia que tudo começara na pessoa do Avô Mariano.

No sonho, eu regressava ao cemitério. Não encontrava o coveiro Curozero. Mas lá estava a sua irmã, Nyembeti, mais convidativa que nunca, trajando a movediça capulana que mostrava mais que cobria.


Instigando-me com gestos e assobios a moça me conduziu para um local que só ela conhecia, no sopé de um monte. Escolheu entre fragas e cavernas e se meteu por um esconso recanto. Ali onde a luz mal chegava, ela se deitou na terra escura e me chamou. Era uma gruta sombria e o cheiro me era familiar. Hesitei antes de me estender no chão. Me fazia temor o não ver onde me pendia.

– Deite-se em cima de mim! Afinal, Nyembeti falava? E falava português? Meu corpo cobriu o dela, os braços me suportaram para não pesar sobre ela. Mas ela me puxou os pulsos e levou as minhas mãos a que lhe cobrissem os seios. E depois visitassem o seu corpo, seus húmidos segredos. Ali no escuro fizemos amor. Nossos gemidos se amplificavam, ecoando nos redondos da caverna. No final, uma ave se soltou do tecto, esbranquiçando as penumbras.

Só quando me recompunha, arfante, é que reparei: aquele cheiro da gruta era o mesmo do quarto de arrumos. E o gosto daquela mulher, a voz, o perfume, tudo era o mesmo. Podia Nyembeti ter estado naquele dia em Nyumba-Kaya? Podia ser ela a incógnita amante que antes me assaltara? – Se admira de eu falar português? Me espantava ela falar. Mas a moça explicou: queria escapar aos vários Ultímios que lhe apareciam, com ares citadinos. Se fazia assim, tonta e indígena, para os afastar de intentos.

– Com você posso falar qualquer língua. E mesmo em nenhuma língua.
Beijámo-nos. De novo, me veio a sensação de regressar ao escuro do quarto de arrumos. O braço dela me afasta, com doçura mas sem vacilar.

– Agora, venha comigo. Eu trouxe-lhe aqui para lhe mostrar.

As mãos, em concha, escavaram a terra. E o assombro me catapultou o peito. O solo ali era fofo, minhocável, esfarelento. Nyembeti descobrira onde se podia cavar a sepultura do Avô.

– Como é que você encontrou este lugar? Mas ela negou. Os lugares não se encontram, constroem-se. A diferença daquele chão não estava na geografia. Apontou para nós dois e embrulhou as mãos para, em seguida, as levar ao coração. Ela queria dizer que a terra ficou assim porque nela nos amáramos? Seria o amor que reparara a terra? Fazer do chão um leito nupcial, seria isso que amoleceria a terra e nos punha de bem com a nossa mais antiga morada? Talvez. Talvez fosse tudo tão simples como o lençol do velho Mariano, esse onde ele agora repousa. É esse lençol, quem sabe, com todos os cheiros de antigos amores, é esse lençol que vai prendendo o velho à vida.

Nyembeti me olhou, curiosa de me ver ausente. Sorriu e com um gesto sugeriu que eu regressasse à vila. Ela ficaria na gruta. Ainda me dirigiu um pedido, à despedida: – Sei que você irá para a cidade. Mas quando voltar deve trazer-me uma prenda de lembrança.

Estranho o que ela queria que eu trouxesse: saliva de cobra, cuspo de lagarto. Ou antes, caso eu pudesse: seivas de arbusto maligno, gosma de cacto. Qualquer coisa desde que fosse da ordem dos venenos, das mortais peçonhas que certos bichos e plantas confeccionam em seus interiores infernos. Isso eu sonhei, naquela noite quente.

Manhã cedo me ergo e vou à deriva. Preciso separar-me das visões do sonho anterior. Pretendo apenas visitar o passado. Dirijo-me às encostas onde, em menino, eu pastoreara os rebanhos da família. As cabras ainda ali estão, transmalhadas. Parecem as mesmas, esquecidas de morrer. Se afastam, sem pressa, dando passagem. Para elas, todo o homem deve ser pastor. Alguma razão têm. Em Luar-do-Chão não conheço quem não tenha pastoreado cabra.

Ao pastoreio devo a habilidade de sonhar. Foi um pastor quem inventou o primeiro sonho. Ali, face ao nada, esperando apenas o tempo, todo o pastor entreteceu fantasias com o fio da solidão.

As cabras me atiram para lembranças antigas. E o rosto de Mariavilhosa, minha doce mãe, vai neblinando o meu olhar. Porque naquelas pastagens muitas vezes aquele rosto me visitara proéurando refúgio em minha pequena alma. Minha mãe tinha engravidado, antes de mim. Mas alguma coisa não correra bem. Diz-se que abortara, mas a história se distorcia no tempo. O médico, sempre o mesmo Mascarenha, tinha assegurado que Dona Mariavilhosa jamais poderia voltar a conceber. A medicina se engana e eu sou prova viva disso. Depois de mim, a mãe ainda voltou a engravidar. Mas a velha profecia desta vez se confirmou. Aquele meu irmãozito, dentro do ventre dela, não se abraçara à vida. Para Mariavilhosa aquilo foi motivo de loucura. Podia ser estranho, mas o parto – chamemos parto àquele acto vazio – se deu na noite da Independência. Naquela noite, enquanto a vila celebrava o deflagrar de todo o futuro, minha mãe morria de um passado: o corpo frio daquele que seria o seu último filho. Meu pai me levou para dentro de casa enquanto Mariavilhosa, com o recém-falecido ao colo, se arrastou pelo pátio. Ainda a vimos erguer o corpo do bebé para o apresentar à lua nova. Como se faz com os meninos recém-nascidos. Meu pai lhe entregou um pedaço de lenha ardendo. E ela atirou o tição para a lua enquanto gritava: – Leva-o, lua, leva o teu marido! Aquele fogo riscando o escuro me ficou gravado como se fosse um astro subindo alto para depois tombar em mil cadências de luzes. Anos mais tarde, já minha mãe falecida, eu olhava a lua enquanto pastoreava no escuro e via Mariavilhosa com o menino em suas costas. E escutava o seu pranto aflito, aferroado pela fome. Então eu acorria à fogueira e apagava o lume. Matando o fogo eu me expunha aos bichos e ao frio. Mas isso não tinha importância. Eram as trevas que eu necessitava. Só no escuro minha mãe encontrava conforto e guarida. Nesse recanto ela calava meu falecido irmão, esse que, por nunca ter vivido, não haveria nunca de morrer.
Mia Couto, "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra"

A flor de vidro

“E haverá um dia conhecido do Senhor que não será dia nem noite, e na tarde desse dia aparecerá a luz.” Zacarias, XIV, 7.

Da flor de vidro restava somente uma reminiscência amarga. Mas havia a saudade de Marialice, cujos movimentos se insinuavam pelos campos — às vezes verdes, também cinzentos. O sorriso dela brincava na face tosca das mulheres dos colonos, escorria pelo verniz dos móveis, desprendia-se das paredes alvas do casarão. Acompanhava o trem de ferro que ele via passar, todas as tardes, da sede da fazenda. A máquina soltava fagulhas e o apito gritava: Marialice, Marialice, Marialice. A última nota era angustiante.

— Marialice!

Foi a velha empregada que gritou e Eronides ficou sem saber se o nome brotara da garganta da Rosária ou do seu pensamento.

— Sim, ela vai chegar. Ela vai chegar!

Uma realidade inesperada sacudiu-lhe o corpo com violência. Afobado, colocou uma venda negra na vista inutilizada e passou a navalha no resto do cabelo que lhe rodeava a cabeça.

Lançou-se pela escadaria abaixo, empurrado por uma alegria desvairada. Correu entre aleias de eucaliptos, atingindo a várzea.

Marialice saltou rápida do vagão e abraçou-o demoradamente:

— Oh, meu general russo! Como está lindo!

Não envelhecera tanto como ele. Os seus trinta anos, ágeis e lépidos, davam a impressão de vinte e dois — sem vaidade, sem ânsia de juventude.

Antes que chegassem a casa, apertou-a nos braços, beijando-a por longo tempo. Ela não opôs resistência e Eronides compreendeu que Marialice viera para sempre.

Horas depois (as paredes conservavam a umidade dos beijos deles), indagou o que fizera na sua ausência.

Preferiu responder à sua maneira:

— Ontem pensei muito em você.

A noite surpreendeu-os sorrindo. Os corpos unidos, quis falar em Dagô, mas se convenceu de que não houvera outros homens. Nem antes nem depois.
As moscas de todas as noites, que sempre velaram a sua insônia, não vieram.
Acordou cedo, vagando ainda nos limites do sonho. Olhou para o lado e, não vendo Marialice, tentou reencetar o sono interrompido. Pelo seu corpo, porém, perpassava uma seiva nova. Jogou-se fora da cama e encontrou, no espelho, os cabelos antigos. Brilhavam lhe os olhos e a venda negra desaparecera.

Ao abrir a porta, deu com Marialice:

— Seu preguiçoso, esqueceu-se do nosso passeio?

Contemplou-a maravilhado, vendo-a jovem e fresca. Dezoito anos rondavam-lhe o corpo esbelto. Agarrou-a com sofreguidão, desejando lembrar-lhe a noite anterior. Silenciou-o a convicção de que doze anos tinham-se esvanecido.

O roteiro era antigo, mas algo de novo irrompia pelas suas faces. A manhã mal despontara e o orvalho passava do capim para os seus pés. Os braços dele rodeavam os ombros da namorada e, amiúde, interrompia a caminhada para beijar-lhe os cabelos. Ao se aproximarem da mata — termo de todos os seus passeios — o sol brilhava intenso. Largou-a na orla do cerrado e penetrou no bosque. Exasperada, ela acompanhava-o com dificuldade:

— Bruto! Ó bruto! Me espera!

Rindo, sem voltar-se, os ramos arranhando o seu rosto, Eronides desapareceu por entre as árvores. Ouvia, a espaços, os gritos dela:

— Tomara que um galho lhe fure os olhos, diabo!

De lá, trouxe-lhe uma flor azul.

Marialice chorava. Aos poucos acalmou-se, aceitou a flor e lhe deu um beijo rápido. Eronides avançou para abraçá-la, mas ela escapuliu, correndo pelo campo afora.

Mais adiante tropeçou e caiu. Ele segurou-a no chão, enquanto Marialice resistia, puxando-lhe os cabelos.

A paz não tardou a retornar, porque neles o amor se nutria da luta e do desespero.

Os passeios sucediam-se. Mudavam o horário e acabavam na mata. Às vezes, pensando ter divisado a flor de vidro no alto de uma árvore, comprimia Marialice nos braços. Ela assustava-se, olhava-o silenciosa, à espera de uma explicação. Contudo, ele guardava para si as razões do seu terror.

O final das férias coincidiu com as últimas chuvas. Debaixo de tremendo aguaceiro, Eronides levou-a à estação.

Quando o trem se pôs em movimento, a presença da flor de vidro revelou-se imediatamente. Os seus olhos se turvaram e um apelo rouco desprendeu-se dos seus lábios.

O lenço branco, sacudido da janela, foi a única resposta. Porém os trilhos, paralelos, sumindo-se ao longe, condenavam-no a irreparável solidão.

Na volta, um galho cegou lhe a vista.
Murilo Rubião, "O Pirotécnico Zacarias"

segunda-feira, fevereiro 27

O chalé da praça Quinze

Thierry Haentjens
O chalé fazia parte da gente. Me lembro do Bilu, com o seu perfil perpendicular de cegonho sábio, o longo bico mergulhado — não no gargalo do gomil da fábula, não propriamente no canecão de chope, que era de fato o que estava acontecendo —, mas no poço artesiano de si mesmo.

Me lembro do Reynaldo, redondo, pacato, amável, tão amável, pacato e redondo que parecia um desses personagens de romance policial que ninguém desconfia que seja o autor do último crime da mala.

Me lembro do Cavalcanti, com a sua cara silenciosa e receptiva de mata-borrão.
Me lembro de mim, silencioso. Sim, a determinada hora éramos todos silenciosos... essa hora em que não é preciso dizer nada, nem mesmo o verso inesquecível de Valéry: “Oh mon bon compagnon de silence!”

Este silêncio era apenas quebrado quando chegava o Athos, o Athos centrífugo e pirotécnico. Mas isto não perturbava o nosso silêncio, nem o próprio silêncio do Athos... Pois havia um profundo e misterioso rio de silêncio que corria subterraneamente a todas as nossas palavras.

Era o rio da poesia?

O rio da harmoniosa confusão das almas?

Agora é apenas o rio do tempo que passou.

Mário Quintana, "Caderno H"

Livreiro na 'trincheira'

 


Sombrus

Fabio Hurtado
Perde-se na noite dos tempos a memória do primeiro navegador que desembarcou na ilha de Sombrus. Não se sabe quando isto se deu nem a nossa humanidade foi capaz de buscar mesmo a data aproximada da arriscada façanha.

É que em Sombrus vivem e latem, noite e dia, os cães selvagens do Arquipélago, que ali fizeram morada não se sabe igualmente como e muito menos por meio de quem. Aliás, pouco se sabe da história primeira de Sombrus, suja, sem dúvida, de lendas sinistras e ainda mais sinistros eventos de sangue e mar, sal e insistência.

Não convém, de nenhum modo, entretanto, ficar aqui lembrando a história pregressa de uma ilha que emergiu das águas do Pacífico feito uma flor monstruosa e triste. O que vale anotar é o presente. Este se dá, em Sombrus, de forma sumamente enigmática — as horas passam não em direção ao futuro, mas num lentíssimo escoar-se passado e saudade afora. Herança, odores, perfumes — esvaídos nas dobras dos dias, puro reverso, notícias longínquas, ecos de tardes soterradas pelo Tempo.

Em Sombrus, primeiro vêm as noites e depois delas o entardecer e, na sequência, a própria tarde, a manhã, o alvorecer, a madrugada inteira, para só então sobrevir de novo a noite antes da meia-noite, a lua e as estrelas.

É sempre assim. Conosco também retornam as faces que a mó dos anos puiu e gastou, e, tudo o que era sulcos e rugas reverte, o que é ainda mais inquietante, até uma temida infância que ameaça as gentes com o retorno ao útero e do útero ao aéreo nada de que fomos feitos um dia. A morte de não haver?

Contudo, os cães de Sombrus são os únicos seres que alcançam vencer a marcha á ré do Tempo. Nascem, crescem, procriam e morrem— os alvos ossos nas praias desertas, cada vez mais desertas.

Ninguém até hoje conseguiu explicar por que de toda ilha são os únicos seres vivos capazes do que chamamos, em Sombrus, ou fora dela, escassamente, de futuro. Então é que se dá de Sombrus o inenarrável encanto – os cães, diz a lenda, são os testemunhos fiéis de que, mesmo ao , contrário, os anos andam e andam, consumindo seres e coisas, vegetais e pedras.

Por isso, aturdidos, os cães latem, tarde da noite, e vão aos bandos pelas praias da ilha, como se sentissem a dor do Tempo atravessada na garganta.

Isso um dia vimos e ouvimos, nós, os navegadores de Hérida, há muitos e muitos séculos. Desconhecemos apenas se, pelos indizíveis meses que passamos ao mar, e o nenhum calendário, eles, os séculos, se encontravam ou não ao revés.

Wilson Bueno, "Ilhas, Dulcinéia Catadora"

Amanhecer em Copacabana

Amanhece, em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos, no mesmo banco de praia. Todos, que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah, que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas! Mil vezes a obscuridade dos que amam, dos que cegam de ciúmes, dos que sentem falta e saudade. Nós somos um imenso vácuo, que o pensamento ocupa friamente. E, isso, no amanhecer de Copacabana.


As pessoas e as coisas começaram a movimentar-se. A moça feia, com o seu caniche de olhos ternos. O homem de roupão, que desce à praia e faz ginástica sueca. O bêbado, que vem caminhando com um esparadrapo na boca e a lapela suja de sangue. Automóveis, com oficiais do Exército Nacional, a caminho da batalha. Ônibus colegiais e, lá dentro, os nossos filhos, com cara de sono. O banhista gordo, de pernas brancas, vai ao mar cedinho, porque as pessoas da manhã são poucas e enfrentam, sem receios, o seu aspecto. Um automóvel deixou uma mulher à porta do prédio de apartamentos — pelo estado em que se encontra a maquillage, andou fazendo o que não devia. Os ruídos crescem e se misturam. Bondes, lotações, lambretas e, do mar, que se vinha escutando algum rumor, não se tem o que ouvir.

Enerva-me o tom de ironia que não consigo evitar nestas anotações. Em vezes outras, quando aqui estive, no lugar destas censuras, achei sempre que tudo estava lindo e não descobri os receios do homem gordo, que vem à praia de manhã cedinho. E Copacabana é a mesma. Nós é que estamos burríssimos aqui, neste banco de praia. Nós é que estamos velhíssimos, à beira-mar. Nós é que estamos sem ressonância para a beleza e perdemos o poder de descobrir o lado interessante de cada banalidade. Um homem assim não tem direito ao amanhecer de sua cidade. Deve levantar-se do banco de praia e ir-se embora, para não entediar os outros, com a descabida má-vontade dos seus ares.
Antônio Maria

domingo, fevereiro 26

Leitura navegante

 


Quem sou eu?

Eu sou aquele cara preguiçoso que, numa noite de inverno, está lendo na cama, todo enrolado nos edredons. Na hora de dormir, ele precisa levantar e ir até a parede do quarto para desligar a luz, mas o frio o impede. Uma noite ele joga o chinelo e acerta o interruptor, apagando a luz. E desse dia em diante a hora de dormir se transforma num campeonato-contra-si-mesmo, em que ele arremessa chinelos, livros, travesseiros, tudo que tiver à mão, até que lá pela décima-quinta tentativa consegue acertar o interruptor e apagar a luz.

Eu sou aquele velhinho que no sábado manda comprar um saco de milho e no domingo pede para ser levado à praça pela manhã, para dar milho aos pombos; e que no domingo em que por algum motivo não pode ir, fica tendo palpitações porque acha que os pombos vão sentir sua falta.

Eu sou aquele troll rancoroso que passa o dia inteiro pulando de saite em saite e insultando pessoas que não conhece, a respeito de assuntos que não entende, e quando sai do computador começa a chutar a mobília, machuca o dedo do pé e fica pulando num pé só e gemendo de dor no meio da sala e berrando “vocês vão ver uma coisa, vocês vão ver!”.

Eu sou aquela noivinha cansada de pensar no futuro, e que acha que a penúltima coisa da vida dela vai ser o casamento e a última vai ser a viagem de lua de mel, e que depois disso vai ser uma imagem congelada de um beijo e uma música de violinos tocando em loop até o final dos tempos.

Eu sou o taxista que pega um passageiro à noite para uma corrida longa, pergunta a ele de onde é aquele sotaque, recebe a resposta, diz que já morou lá, o passageiro pergunta o que ele fazia, ele diz que jogava futebol, o passageiro manda acender a luz interna do táxi, ele acende, o passageiro olha a cara dele e diz: “Adroaldo, lateral-esquerdo do Juventus!”, e ele grita: “Está paga a corrida!”.

Eu sou aquele cara que acorda no meio da noite silenciosa, aterrorizado, lembrando que pediu emprestado a um amigo um captador de violão caríssimo, 28 anos atrás, e agora não lembra mais se devolveu ou não.

Eu sou a dona de casa que desenvolveu um sistema memorizador de todas as coisas da casa, por ordem alfabética, e antes de dormir vai repassando todas, uma por uma, enquanto discute com o marido fleumático que fala, “minha filha, vem te deitar, aproveita que eu tou novo ainda”.

Eu sou o cara que um dia toma um pileque e vai bater na porta da casa onde morou quando menino, e não consegue explicar à família assustada que quer apenas saber se o carrinho que enterrou no quintal continua a salvo dos ladrões, dos meninos invejosos, da chuva, da ferrugem, do moinho implacável do Tempo.

O mar na Rua Chile

Quando estudante universitário, uma das coisas que gostava era de ir à Rua Chile. Quase todos os dias, visitava a Livraria Civilização Brasileira como uma necessidade que o tempo impunha, semelhante àquela quando se tem sede ou fome. Na Livraria Civilização percorria as prateleiras, procurando achar algumas dessas raridades literárias, que há algum tempo estivessem com a edição esgotada. Perguntava ao vendedor Toninho se havia chegado algum livro novo de literatura. Examinava na vitrina as obras de Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Lima Barreto. Os livros de Dostoiewski, Hemingway, Faulkner, Sartre e Camus. Sagarana, de João Guimarães Rosa, e Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, lá estavam para causar impacto e opiniões acaloradas entre os companheiros de geração.

Era na Livraria Civilização que me encontrava com os companheiros de geração, à qual alguns deles pertenciam por afinidades eletivas, enquanto outros em razão da idade. Ildásio Tavares, Alberto Silva, Ricardo Cruz, Marcos Santarrita, Orlando Sena, Olney São Paulo, João Ubaldo Ribeiro, Adelmo Oliveira, Davi Sales, João de Góes Berbert, Carlos Falk e Carlos Nelson Coutinho. Encontrava, quase todos os dias, com três ou quatro desses companheiros de militância cultural, que se iniciava como botão ou rosa entreaberta no mundo da ideia.

Conversava com Calasans Neto, Jurema Pena e Florisvaldo Mattos. Via o professor Machado Neto com os olhos atentos por trás dos óculos de lentes fortes perscrutando algum exemplar, provavelmente de sociologia ou filosofia. Cruzava com Hélio Rocha, Nélson de Araújo, Vivaldo Costa Lima, João Carlos Teixeira Gomes, Sonia Coutinho. Era comum naquele tempo Glauber Rocha aparecer com Paulo Gil Soares e Fernando da Rocha Peres, ou ainda com Carlos Anísio Melhor e Oto Bastos. Inteligência privilegiada, Glauber Rocha formava com os seus companheiros de geração um grupo de intelectuais irrequietos, que na época agitavam os meios culturais de Salvador.

Na Rua Chile, às sextas-feiras, pelo fim da tarde, gostava de ficar olhando nas vitrinas as camisas da última moda, a serem usadas pelos jovens no verão. Depois, naquele momento antecedido de ânsia, lá ficava no passeio de alguma loja, recostado à parede, vendo as garotas que desfilavam com uma ginga provocante. Mulatas, morenas, louras. Nelas aquele cheiro bom de maresia e ventos por toda a extensão da pele. Minhas preferidas eram as mulatas. De olhos gateados, seios despontantes, curvas sensuais. Não podia ver uma dessas mulatas com os quadris rebolando, com todo aquele sabor na pele de fruta gostosa, como já me referi. O romancista João Ubaldo Ribeiro está aí mesmo e não me deixa mentir.



Refaço agora os rastros daquele calendário solto. A camisa esporte, os cabelos cheios na tarde de marinheiro. O amor pulsando nas veias, a emoção dando água na boca, quantas aventuras memoráveis. O moço veio do interior para se formar em advocacia, mas aos poucos foi descobrindo sua paixão pela literatura. Na vitrina, livros anunciavam viagens, novas e tão velhas. No calor do verão, ventos impulsivos queriam de repente mudar o mundo. Pela tarde, quase toda a cidade movimentava-se naquela rua quase estreita e nem tão comprida. Ali, a cidade como fêmea e fruta carnuda que se oferta num gesto de aventura e risco. Tudo a soar fervoroso no passo esplêndido da vida com seus metais ao sol, incandescendo a tarde em ritual que se renova a cada instante sorvido. Posso dizer, plagiando Carlos Drummond de Andrade, que o meu aprendizado de que amar se aprende amando teve início na Rua Chile, começo dos anos 60. Dentro de mim o amor permanece até hoje com os seus vestígios de maresia. A pele bronzeada com o azul das marés e hálito quente dos ventos destacava a rosa no calor do tempo.

Hoje de regresso, vejo a rua desbotada, aceno para velhos companheiros. Triste canção assovio. Despeço-me nos passos monótonos de alguém que segue em silêncio. No amarelo das lojas, na fenda dos passeios, na calma desse fim de tarde, vejo como é duro saber que tudo aquilo, no apogeu solar dos frutos maduros, de repente se esquiva e, como uma onda na vazante, nunca mais se repete.

sexta-feira, fevereiro 24

A destruição do conhecimento

Com o avanço de nossa tecnologia, conseguimos vislumbrar o futuro e o espaço sideral com um olhar diferente do que tinham os cientistas e pensadores do início do século XX. Do mesmo modo, hoje podemos analisar o passado com maior percepção e conhecimento tecnológico, pois assim como pudemos imaginar um futuro diferente daquele que nossos avós conseguiram idealizar, nós também podemos olhar o passado de forma distinta daquela imaginada pelos cientistas e especialistas de um século atrás.

Assim como nosso escopo do universo foi forçado a recuar até os mais distantes pontos do espaço, temos hoje condição de recuar até os pontos mais remotos da história. E muitos pesquisadores estão fazendo exatamente isso.

A Atlântida, com sua cultura avançada, é mencionada em textos antigos. Para começar, é citada nos Diálogos de Platão (extraídos, segundo o texto, de antigos registros egípcios), e quase todas as antigas culturas do planeta têm mitos e lendas sobre um mundo anterior e sobre o cataclismo que o destruiu. Maias, astecas e hopis acreditavam na destruição de quatro mundos (ou mais) antes do nosso. Pode ser que a destruição da Atlântida não seja sequer o mais recente cataclismo a afligir a Terra.

Os livros mais conhecidos do mundo, como a Bíblia, o Mahabharata, o Corão e até o Tao Te Ching mencionam cataclismos e antigas civilizações destruídas. Antigas civilizações e histórias a respeito delas preencheram milhares, até centenas de milhares de volumes de livros que eram guardados em bibliotecas espalhadas pelo mundo na Antiguidade. Muitas das bibliotecas antigas eram tão vastas que ficaram famosas entre os historiadores locais. A Biblioteca de Alexandria é um exemplo conhecido.

Infelizmente, é fato que, ao longo da história, bibliotecas e arquivos imensos foram deliberadamente destruídos. Segundo o famoso astrônomo Carl Sagan, existiu um livro intitulado A verdadeira história da humanidade nos últimos 100 mil anos, e encontrava-se no acervo de Alexandria. Infelizmente, este livro, como milhares de outros, foi queimado por cristãos fanáticos no século III. Os exemplares que se salvaram foram queimados alguns séculos depois pelos muçulmanos para aquecer a água do banho.

Todos os textos chineses antigos foram destruídos em 212 a.C. por ordem do imperador Chin Shih Huang Ti, construtor da famosa Muralha da China. Enormes lotes de textos antigos - praticamente tudo que dizia respeito à história, à filosofia e à ciência - foram apreendidos e queimados. Bibliotecas inteiras foram destruídas, inclusive a biblioteca real, e algumas das obras de Confúcio e de Mêncio também desapareceram nessa devastação do conhecimento. Felizmente, alguns livros sobreviveram porque algumas pessoas os ocultaram em cavernas subterrâneas, e muitas obras foram escondidas em templos taoístas, onde até hoje são religiosamente mantidas e preservadas.

Os conquistadores espanhóis destruíram todos os códices maias que encontraram. Dos muitos milhares de livros encontrados, tem-se conhecimento de apenas três ou quatro ainda existentes. Tal como as seitas cristãs fanáticas do século III e o imperador Chin Shih Huang Ti no século III a.C., os conquistadores espanhóis quiseram apagar todo e qualquer conhecimento do passado e os registros que o preservavam.

A Europa e o Mediterrâneo mergulharam na infame Idade das Trevas, quando a igreja cristã sofreu seu primeiro Cisma após uma série de concílios, a começar pelo de Nicéia, em 325. O último patriarca da igreja cristã primitiva, Nestório, foi deposto pelo Concílio de Éfeso em 431, sendo banido para a Líbia e provocando o deslocamento da igreja nestoriana para o Oriente. O conflito dizia respeito à antiga doutrina cristã da reencarnação, e à ideia de que Cristo teria natureza dupla: Jesus seria um Mestre, enquanto Cristo seria o arcanjo Melquisedeque.
No ímpeto desse conflito, todos os livros do império bizantino foram destruídos, exceto a nova versão da Bíblia, autorizada pela Igreja Católica. A Biblioteca de Alexandria foi destruída nessa época, quando a grande matemática e filósofa Hypatia foi arrastada de sua carruagem e dilacerada por uma multidão, que depois se dirigiu à biblioteca e incendiou-a. Assim teve início a supressão da ciência e do conhecimento, particularmente de nosso passado mais remoto. O conhecimento tem sido suprimido ao longo dos últimos dois mil anos. Às vezes, diz-se que a história é escrita pelos vencedores das guerras, e não pelos perdedores; e tendo em vista a quantidade de propaganda política reconhecidamente bélica que ainda é tida como “história” popular no século XX, deveríamos realmente examinar boa parte da história antiga sob esse prisma.

Sabendo dessa supressão, é espantoso que os poucos textos antigos que sobreviveram abordem, com efeito, civilizações avançadas e os cataclismos que as destruíram. Do mesmo modo, falam de sábios que viviam em harmonia com a Terra e com o funcionamento natural de todas as coisas. Em algum momento do passado remoto, porém, o homem perdeu a harmonia com a natureza, e uma catástrofe atingiu todo o planeta.

Vemos aqui um notável paralelo entre o antigo “mito” da Atlântida e a situação em que o homem moderno se encontra hoje. Será que o homem moderno irá sobreviver à sua própria tecnologia e tribalismo? Ou será que irá se destruir nos mecanismos naturais de suas práticas nocivas e em desarmonia com a Terra?
David Hatcher Childress, "A incrível tecnologia dos antigos"

Livros sob guarda

 


A aranha

Então viu, bem acima deles, uma aranha de pernas compridas subindo de cabeça para baixo rumo a um canto do quarto. Tanto propósito numa cabeça tão diminuta. A aranha parou de subir de repente, balançando-se nas pernas finas como cabelos, gingando como se movida por uma melodia oculta. Alguém saberia dizer o que ela estava fazendo? Nenhum predador para enganar, nenhuma outra aranha para seduzir ou intimidar, nada que a impedisse de subir. Mas ainda assim ela esperava, dançando no mesmo lugar. Quando a aranha enfim retomou seu caminho, a atenção de Lawrence já estava longe.

Ian McEwan, "Lições"

Apareceu um canário

Mulher, às vezes aparece alguma; vêm por desfastio ou imaginação, essas voluntárias; não voltam muitas vezes. Assusta-as, talvez, o ar tranquilo com que as recebo, e a modéstia da casa.

Passarinho, desisti de ter. É verdade, eu havia desistido de ter passarinhos; distribuí-os pelos amigos; o último a partir foi o corrupião Pirapora, hoje em casa do escultor Pedrosa. Continuo a jogar, no telhado de minha água-furtada, pedaços de miolo de pão. Isso atrai os pardais; não gosto especialmente de pardais, mas também não gosto de miolo de pão. Uma vez ou outra aparecem alguns tico-ticos; nas tardes quentes, quando ameaça chuva, há um cruzar de andorinhas no ar, em voos rasantes sobre o telhado do vizinho. Vem também, às vezes, um casal de sanhaços; ainda esta manhã, às 5h15m, ouvi canto de sanhaço lá fora; frequentam ou uma certa antena de televisão (sempre a mesma) ou o pinheiro do Paraná que sobe, vertical, até minha varanda. Fora disso, há, como em toda parte, bem-te-vis; passam gaivotas, mais raramente urubus. Quando me lembro, mando a empregada comprar quirera de milho para as rolinhas andejas.

Mas a verdade é que um homem, para ser solteiro, não deve ter nem passarinho em casa; o melhor de ser solteiro é ter sossego quando se viaja; viajar pensando que ninguém vai enganar a gente nem também sofrer por causa da gente; viajar com o corpo e a alma, o coração tranquilo.

Pois nesse dia eu ia mesmo viajar para Belo Horizonte; tinha acabado de arrumar a mala, estava assobiando distraído, vi um passarinho pousar no telhado. Pela cor não podia ser nenhum freguês habitual; fui devagarinho espiar. Era um canário; não um desses canarinhos-da-terra que uma vez ou outra ainda aparece um, muito raro, extraviado, mas um canário estrangeiro, um roller, desses nascidos e criados em gaiola. Senti meu coração bater quase com tanta força como se me tivesse aparecido uma dama loura no telhado. Chamei a empregada: “Vá depressa comprar uma gaiola, e alpiste...”

Quando a empregada voltou, o canarinho já estava dentro da sala; ele e eu, com janelas e portas fechadas. Se quiserem que explique o que fiz para que ele entrasse eu não saberei. Joguei pedacinhos de miolo de pão na varanda; assobiei para dentro; aproximei-me do telhado bem devagarinho, longe do ponto em que ele estava, murmurei muito baixo: “Entra, canarinho...” Pus um pires com água ali perto. Que foi que o atraiu? Sei apenas que ele entrou; suponho que tenha ficado impressionado com meus bons modos e com a doçura de meu olhar.

Dentro da sala fechada (fazia calor, estava chegando a hora de eu ir para o aeroporto) ficamos esperando a empregada com a gaiola e o alpiste. O que fiz para que ele entrasse na gaiola também não sei; andou pousado na cabeça de Baby, a finlandesa (terracota de Ceschiatti); fiquei completamente imóvel, imaginando — quem sabe, a esta hora, em Paris ou onde andar, a linda Baby é capaz de ter tido uma ideia engraçada, por exemplo: “Se um passarinho pousasse em minha cabeça...”

Depois desceu para a estante, voou para cima do bar. Consegui colocar a gaiola (com a portinha aberta, presa por um barbante) bem perto dele, sem que ele o notasse; andei de quatro, rastejei, estalei os dedos, assobiei — venci. Quando telefonei para o táxi ele já tinha bebido água e comido alpiste, e estava tomando banho. Dias depois, quando voltei de Minas, ele estava cantando que era uma beleza.

Está cantando neste momento. Por um anel de chumbo que tem preso à pata já o identifiquei, telefonando para a Associação dos Criadores de Rollers; nasceu em 1959 e seu dono mudou-se para Brasília. Naturalmente deixou-o de presente para algum amigo, que não soube tomar conta dele. (Seria o milionário assassinado da Toneleros?

Um dos assaltantes carregou dois canários e depois os soltou, com medo.) Está cantando agora mesmo; como canta macio, melodioso, variado, bonito... Agora pára de cantar e fica batendo de um modo um pouco estranho. Telefono para um amigo que já criou rollers, pergunto o que isso quer dizer. “Ele está querendo casar, homem: é a primavera...”

Casar! O verbo me espanta. Tão gracioso, tão pequenininho, e já com essas ideias!

Abano a cabeça com melancolia; acho que vou dar esse passarinho à minha irmã, de presente. É pena, eu já estava começando a gostar dele; mas quero manter nesta casa um ambiente solteiro e austero; e se for abrir exceção para uma canarinha estarei criando um precedente perigoso. Com essas coisas não se brinca. Adeus, canarinho.
Rubem Braga, "A traição das elegantes"

quarta-feira, fevereiro 22

Notas

Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo extremamente suculento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta do sol; porquanto: – a) a natureza não inventou a morte, senão com o fim de dar vida a algumas indústrias – armadores, segeiros, empresas funerárias, tipografias, e outras que ela sagazmente previu; – b) mortas essas indústrias, pela ausência da morte humana, não é improvável que viessem a morrer os respectivos industriais; o que dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capítulo que não escrevo.

Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

Resistentes

 


33 livros

1
Aquele livro de uma editora descolada e moderna, que a gente pega no balcão da livraria e leva alguns minutos tentando entender as letras do título.

2
Aquele livro grosso, caro, de texto cerrado em fonte pequena, que a gente compra sem folhear e guarda na estante sem abrir.

3
Aquele romance estrangeiro de capa instigante, contracapa cheia de fragmentos elogiosos, que a gente compra, começa a ler, e por volta da página 50 percebe que se trata do volume 3 de uma série cujos dois primeiros ninguém se lembrou de publicar aqui.

4
Aquele livro de contos de um dos seu autores preferidos, projeto gráfico sedutor, preço caríssimo, mas você acaba comprando porque dos quinze contos incluídos tem dois que você não tem ainda.

5
Aquele livro chato pra caramba que você devolveu à prateleira várias vezes, e quando abre agora encontra dentro dele a conta de luz que acabou não pagando e que resultou naquela tremenda confusão do ano passado, a festa-de-aniversário com energia cortada.

6
Aquele livro de Fantasia Heróica, com 500 páginas, que você estava lendo no maior entusiasmo, mas precisou fazer uma viagem, a viagem se prolongou, na volta teve problemas de saúde, a vida veio em ondas como o mar, e agora você percebe que tinha parado na página 322... e agora não lembra nem como é o nome do rei.

7
Aquele livro que você tem, mas nenhuma bio-bibliografia do autor registra; e agora?

8
Aquele romance de um autor de quem você já leu (e gostou de) todo o resto, menos este, cuja leitura até hoje não engatou.

9
Aquele livro lido, querido e amado na infância, que você reencontrou na idade adulta, e guardou sem ler, para não estragar tudo.

10
Aquele livro estrangeiro que veio com muitas páginas faltando, você mandou um email com foto para o autor, explicando, e recebeu um exemplar perfeito, com dedicatória.

11
Aquele livro cuja sinopse é até promissora, mas você não se anima a ler porque o autor é um chato.

12
Aquele livro cuja prosa é tão energética que você lê meia página e corre para o teclado, com a cabeça a mil.

13
Aquela coletânea enorme, bem produzida, futura referência para muitos anos, e para a qual você foi convidado a contribuir... mas não levou fé.

14
Aquele livro que você comprou por engano, leu por uma questão de amor-próprio, e gostou por mera teimosia.

15
Aquele livro que qualquer frase, de qualquer página aberta ao acaso, serve de oráculo.

16
Aquele livro que, pela data anotada com sua letra na página de rosto, é o que está com você há mais tempo, na vida inteira.

17
Aquele livro todo sublinhado e anotado com sua letra, e que você não lembra de ter lido.

18
Aquele livro que alguém lhe emprestou há 25 anos, e que você ainda guarda, com a firme intenção de devolver.

19
Aquele livro precioso e insubstituível, mas já esbagaçado de tanto manuseio, e que você não manda pro encadernador com medo que ele suma.

20
Aquele livro que você já leu e releu sem compreender muito bem, mas sente ali verdade, sente ali grandeza, sai dali fortificado.

21
Aquele livro onde o autor não é ninguém, o texto não é nada, mas o que a dedicatória diz é tudo.

22
Aquele livro que você comprou num sebo por curiosidade, leu, guardou, se desfez dele numa mudança, precisa dele agora para um trabalho, e não anotou nem o título nem o autor.

23
Aquele livro que foi seguro a quatro mãos, lido a quatro olhos, recitado baixinho a duas bocas.

24
Aquele romance que é até legal, mas você acha os nomes dos personagens totalmente equivocados.

25
Aquele livro que, mal começa a ler, você tem a sensação de que já tinha lido antes, e que o autor dele também.

26
Aquele livro que por alguma razão misteriosa você leu e releu e não teve coragem de sublinhar.

27
Aquele livro que, a cada vez que você pega para ler, a lombada se quebra mais um pouco, e mais páginas se soltam.

28
Aquele romance cujo enredo, antes de chegar na metade, já deu três vezes a impressão de que estava acabando.

29
Aquela 1ª. edição raríssima que você achou por 10 reais na lona da calçada.

30
Aquele volume bobinho que você comprou somente pelo hábito de trazer um livro de cada cidade que visitava.

31
Aquele livro obscuro que um amigo lhe presenteou há dez anos, e toda vez que você o encontra ele pergunta: “E aí, leu?... Não é genial?...”

32
Aquele livro que só presta a capa.

33
Aquele livro de lombada à base de cola, que precisa ser sujeitado com as duas mãos para ser lido, porque se você o larga ele dá um pulo, feito menino birrento, e volta a se fechar.

Preâmbulo

Rever a minha infância? Já lá se vão mais de dez lustros, mas minha vista cansada talvez pudesse ver a luz que dela ainda dimana, não fosse a interposição de obstáculos de toda espécie, verdadeiras montanhas: todos esses anos e algumas horas de minha vida.


O doutor recomendou-me que não me obstinasse em perscrutar longe demais. Os fatos recentes são igualmente preciosos, sobretudo as imagens e os sonhos da noite anterior. Mas é preciso estabelecer uma certa ordem para poder começar ab ovo. Mal deixei o consultório do médico, que deverá estar ausente de Trieste por algum tempo, corri a comprar um compêndio de psicanálise e li-o no intuito de facilitar-me a tarefa. Não o achei difícil de entender, embora bastante enfadonho.

Depois do almoço, comodamente esparramado numa poltrona de braços, eis-me de lápis e papel na mão. Tenho a fronte completamente descontraída, pois eliminei da mente todo e qualquer esforço. Meu pensamento parece dissociado de mim. Chego a vê-lo. Ergue-se, torna a baixar... e esta é sua única atividade. Para recordar-lhe que é meu pensamento e que tem por obrigação manifestar-se, empunho o lápis. Eis que minha fronte se enruga ao pensar nas palavras que são compostas de tantas letras. O presente imperioso ressurge e ofusca o passado.

Ontem tentei um abandono total. A experiência terminou no sono mais profundo e não obtive outro resultado senão um grande descanso e a curiosa sensação de haver visto alguma coisa importante durante o sono. Mas esqueci-me do que era, perdendo-a para sempre.”
Italo Svevo, "A consciência de Zeno"

segunda-feira, fevereiro 20

Segunda de leitura

 




A grande descoberta

 

Àngela Pérez

Com algum jeito de poesia

Tudo que na vida fiz eu assim resumiria: não fui nem o homem que quis nem o homem que poderia.

***

Conhece-te a ti mesmo e, tão cedo quanto puderes, troca-te por outro qualquer.

***

Por que insistir? Você sabe há muito que não pode existir, mais triste que o seu, um canto. No entanto, você insiste.

***

Marita Hornberger

 Não deves esmorecer. Tudo tu conseguirás. Se um tolo é o que podes ser, um tolo é o que tu serás.

***

No meu sonho então ele apareceu e disse-me: não chore, é primavera. Não revelou o nome, mas sei que era Casimiro José Marques de Abreu.

***

Quando descobriu que era do mal de amor que padecia, rogou a Deus que o matasse aos poucos, bem aos pouquinhos.

***

Tornou-se um velhote sentimental. Hoje, chorou ao rever a cicatriz do joelho e a mancha do pescoço – uma do tempo em que, moleque, ia pilhar frutas em casas alheias, a outra da época em que, já um homem, viveu com uma espanhola fogosa.

***

Os concretistas reivindicam, com toda a razão, a autoria dos únicos castelos de autêntica areia da literatura.

***

Vejam como caminha. Parece um rei visto pelo olhar amoroso de sua rainha.

A leitura ouvida

Certa noite, poucos meses antes de sua morte, circa 547 – treze séculos antes dos lectores cubanos –, são Bento de Núrsia teve uma visão. Quando estava orando diante de sua janela aberta, olhando para a escuridão lá fora, “o mundo todo pareceu reunir-se em um raio de sol e surgir diante de seus olhos”. Nessa visão, o velho homem deve ter visto, com lágrimas nos olhos, “aquele objeto secreto e conjetural de cujo nome os homens se apoderaram, mas que ninguém jamais contemplou: o inconcebível universo”.

Bento renunciara ao mundo aos catorze anos de idade e abandonara a fortuna e os títulos de sua rica família romana. Por volta de 529, fundou um mosteiro no monte Cassino — um morro escarpado de 450 metros de altura, ao lado de um antigo santuário pagão, a meio caminho entre Roma e Nápoles – e estabeleceu para seus frades uma série de regras, nas quais a autoridade de um código de leis substituía a vontade absoluta do superior do mosteiro. Talvez porque buscasse nas Escrituras a visão universal que lhe seria concedida anos depois, ou talvez porque acreditasse, como sir Thomas Browne, que Deus nos oferecia o mundo sob dois aspectos, como natureza e como livro. Bento decretou que a leitura seria uma parte essencial da vida diária do mosteiro. O artigo 38 de sua regra explicitava o procedimento:

Na hora da refeição dos irmãos, sempre haverá leitura; ninguém deverá ousar pegar o livro aleatoriamente e começar a ler dali; mas aquele escolhido para ler durante toda a semana deverá começar seus deveres no domingo. E. entrando em seu ofício depois da Missa e Comunhão, deverá pedir a todos que orem por ele, que Deus o afaste do espírito de exaltação. E este verso deverá ser dito no oratório três vezes por todos, sendo ele o primeiro: “Oh, Senhor, abre meus lábios e que minha boca manifeste Teu louvor”. E assim, tendo recebido a bênção, ele deverá assumir seus deveres de leitor. E deverá haver o maior silêncio à mesa, de tal forma que nenhum sussurro ou voz, exceto a do leitor, seja ouvido. E o que quer que seja necessário no tocante a comida, os irmãos deverão passar uns para os outros, de tal forma que ninguém precise pedir nada.

Tal como nas fábricas cubanas, o livro a ser lido não era escolhido por acaso, mas, diferentemente do que ocorria nas fábricas, onde os títulos eram escolhidos por consenso, no mosteiro a escolha era feita pelas autoridades da comunidade. Para os trabalhadores cubanos, os livros podiam se tornar (muitas vezes isso acontecia) a posse íntima de cada ouvinte, mas, para os discípulos de são Bento, era preciso evitar exaltação, prazer pessoal e orgulho. pois a fruição do texto deveria ser comunitária, não individual. A oração a Deus, pedindo-lhe que abrisse os lábios do leitor, colocava o ato de ler nas mãos do Todo-Poderoso. Para são Bento, o texto – a Palavra de Deus – estava acima do gosto pessoal, senão acima da compreensão. O texto era imutável e o autor (ou Autor), a autoridade definitiva. Por fim, o silêncio à mesa, a falta de resposta da audiência, era necessário não só para garantir a concentração, mas também para impedir qualquer vestígio de comentário particular sobre os livros sagrados.

Mais tarde, nos mosteiros cistercienses, fundados em toda a Europa a partir do começo do século XII, a regra de são Bento foi usada para assegurar um fluxo ordeiro à vida monástica, na qual as angústias e os desejos pessoais se submetiam às necessidades comunais. As violações das regras eram punidas com flagelação e os infratores eram separados da congregação, isolados de seus irmãos. Solidão e privacidade eram consideradas punições; os segredos eram de conhecimento comum as buscas individuais de qualquer tipo, intelectuais ou não, eram firmemente desestimuladas; a disciplina era a recompensa daqueles que viviam bem dentro da comunidade. Na vida cotidiana, os monges cistercienses jamais ficavam sozinhos. Às refeições, seus espíritos eram distraídos dos prazeres da carne e reuniam-se na palavra sagrada através da leitura prescrita por são Bento.

Reunir-se para ouvir alguém ler tornou-se também uma prática necessária e comum no mundo laico da Idade Média. Até a invenção da imprensa, a alfabetização era rara e os livros, propriedade dos ricos, privilégio de um pequeno punhado de leitores. Embora alguns desses senhores afortunados ocasionalmente emprestassem seus livros, eles o faziam para um número limitado de pessoas da própria classe ou família. As pessoas que queriam familiarizar-se com determinado livro ou autor tinham amiúde mais chance de ouvir o texto recitado ou lido em voz alta do que de segurar o precioso volume nas mãos.

Havia diferentes maneiras de ouvir um texto. A partir do século XI, em todos os reinos da Europa joglars itinerantes recitavam ou cantavam versos deles mesmos ou de autoria dos mestres trovadores, armazenados em suas prodigiosas memórias. Esses joglars eram artistas públicos que se apresentavam em feiras e mercados, bem como diante das cortes. Eram, em sua maioria, de origem pobre e em geral negavam a eles a proteção da lei e os sacramentos da Igreja. Os trovadores, como Guilaume da Aquitânia, avô de Eleanora, e Bertran de Born, senhor de Hautefort, descendiam de linhagens nobres e escreviam canções formais em louvor de seus amores inatingíveis. Dos cerca de cem trovadores conhecidos pelo nome que atuaram entre o começo do século XII e o início do século XIII, quando floresceu essa moda, cerca, de vinte eram mulheres. Parece que em geral os joglars eram mais populares que os trovadores, de tal forma que artistas com pretensões intelectuais, como Pedro Pictor, queixavam-se de que “alguns dos altos eclesiásticos preferem ouvir os versos tolos de um jogral às estrofes bem compostas de um poeta latino sério” – querendo referir-se a si mesmo.

Ouvir a leitura de um livro era uma experiência um tanto diferente. O recital dos jograis tinha todas as características óbvias de uma representação teatral, e seu sucesso ou fracasso dependia, em larga medida, da capacidade do intérprete de variar expressões, uma vez que o tema era bastante previsível. Ao mesmo tempo em que dependia também da capacidade de “desempenho” do leitor, a leitura pública punha mais ênfase no texto do que no leitor. A plateia dos recitais observaria um jogral cantar as canções de determinado trovador, como o célebre Sordelo; a plateia de uma leitura pública podia ouvir a anônima História de Renard, a raposa lida por qualquer membro alfabetizado da casa.

Nas cortes, e às vezes também em casas mais humildes, os livros eram lidos em voz alta para familiares e amigos, tanto com finalidade de instrução quanto de entretenimento. As leituras ao jantar não tinham a intenção de distrair das alegrias do paladar; ao contrário, pretendiam realçá-las com diversão criativa, uma prática trazida dos tempos do Império Romano. Plínio, o Jovem, mencionou em uma carta que, quando comia com sua mulher ou com um grupo pequeno de amigos, gostava que lessem em voz alta um livro divertido?

No início do século XIV, a condessa Mahaut de Artois viajava com sua biblioteca em grandes malas de couro, e, à noite, uma dama de companhia lia para ela obras filosóficas ou relatos interessantes sobre terras estrangeiras, como as Viagens de Marco Polo. Pais alfabetizados liam para seus filhos. Em 1399, o notário toscano Ser Lapo Mazzei escreveu a um amigo, o mercador Francesco di Marco Datini, pedindo-lhe emprestado As pequenas flores de são Francisco, a fim de lê-lo em voz alta para os filhos: “Os meninos vão se deliciar nas noites de inverno, pois se trata, como sabes, de leitura muito fácil”. Em Montail ou, no começo do século XIV, Pierre Clergue, o pároco da aldeia, lia em voz alta, em diferentes ocasiões, um assim chamado Livro da fé dos hereges, para os que se sentavam em torno da lareira na casa das pessoas; na aldeia de Ax-les-Thermes, mais ou menos na mesma época, o camponês Guil aume Andorran, descoberto lendo um evangelho herético para sua mãe, foi processado pela Inquisição.

Os Évangiles des quenouilles [Evangelhos das rocas] do século XV mostram quão fluidas podiam ser essas leituras informais. O narrador, um velho letrado, “uma noite, depois da ceia, durante as longas noites de inverno entre o Natal e a Candelária”, visita a casa de uma anciã, onde várias vizinhas reúnem-se amiúde para “fiar e conversar sobre muitas coisas alegres e sem importância”. As mulheres, observando que os homens de seu tempo “escrevem incessantemente pasquins difamatórios e livros infecciosos contra a honra do sexo feminino”, pedem ao narrador que frequente suas reuniões – uma espécie de grupo de leitura avant la lettre – e funcione como escrivão, enquanto as mulheres leem em voz alta certos trechos sobre os sexos, casos de amor, relações entre marido e mulher, superstições e costumes locais, bem como tecem comentários sobre eles de um ponto de vista feminino. “Uma de nós começará a leitura e lerá alguns capítulos para todas as outras presentes”, explica uma das fiandeiras com entusiasmo, “de tal forma a prendê-los e fixá-los permanentemente em nossas memórias.” Durante seis dias as mulheres leem, interrompem, comentam, fazem objeções e explicam, parecendo divertir-se imensamente, a ponto de o narrador achar a descontração delas cansativa, e, embora registrando fielmente suas palavras, julga que seus comentários “não têm rima nem razão”. O narrador, sem dúvida, está acostumado com as dissertações escolásticas mais formais dos homens.
Alberto Manguel, "História da leitura"

domingo, fevereiro 19

Fora do mundo

 


A força dos livros

Tudo começou durante a campanha eleitoral, fazendo dos livros uma arma poderosa. Nas redes sociais, o desafio era cada leitor de esquerda ou simpatizante escolher 13 livros de capa vermelha, reunindo o número do candidato Lula e a cor do partido num único pacote. Inimitável, porque a direita seguidora de Bolsonaro não lia e não lê… Talvez nem tenha compreendido o espírito da iniciativa, porque não reagiram.

A iniciativa foi bastante prazerosa para os que têm intimidade com a literatura. Vasculhar as estantes à procura de obras com capas vermelhas foi como ressignificá-las, enquanto recordávamos os autores, prosa e poesia preferidos, a época em que foram lançadas, quem éramos então.

Participo de alguns grupos de Haicai e, entre os poetas, a feliz brincadeira ganhou outros ares. Agora pesquisamos livros desse gênero (poesia de origem japonesa composta por três versos e 17 sílabas tônicas, inspiradas na natureza) e compomos haicais com os títulos, o que deu origem ao apelido de “hailombadas”.

A cada poema, novas descobertas. Obras de grandes mestres, de haicaístas consagrados e iniciantes que – garanto – nunca mais deixaram de enxergar o mundo de uma forma muito especial e estão sempre a abrir novas possibilidades, janelas, horizontes, a partir da observação e do silêncio. Porque escrever haicais é também meditar.

Tudo cabe dentro daquelas três enxutas linhas: as estações, a fauna, a flora, os fenômenos atmosféricos, a geografia, as vivências. E podem surgir carregadas de ternura, gratidão pela vida, humor, ironia, saudades. Ao escrever, é comum nos sentirmos acompanhados por mestres como Issa, Bashô e muitos outros que também experimentaram essa poesia de séculos, que até samurais praticavam.

Os hailombadas nos ajudam a enfrentar com mais coragem o árido dia a dia, nos inserem no privilegiado grupo que busca se aprimorar na delicadeza, nos oferecem abrigo das agressões rotineiras. Quando provocados, relevamos. Ou abrimos livros e atiramos versos.

Monos olhando o rio

Como é que foi feito o mundo, por que é que aqui tem este bicho e ali não tem? Olhem que já não pergunto por que não há girafas no Piauí nem hipopótamos no Acre. Não há, acabou-se. Mas o pequeno mistério do mono é que me fascina.
Na linguagem comum “mono” pode ser qualquer macaco, mas no interior do Brasil, onde as pessoas falam certo, assim se chama apenas um certo macaco, cujo cartão de visitas em latim é Eriodes arachnoides.

É exatamente o maior macaco do Brasil, país, como se sabe, de grande macacada; como nas Américas não temos gorilas, o rei da macacada é o nosso prezado mono, com seus setenta centímetros de corpo e mais setenta de cauda. É fácil de distinguir — ensina Rodolpho Von Ihering, — pelo seu polegar atrofiado, um simples coto sem unha. Goeldi (não o nosso querido gravador, mas o pai dele) diz que a gente encostando o dedo na extremidade da cauda de um mono morto de fresco, ele (o mono) agarra o dedo da gente. Nunca brinquei com mono morto para conferir.

Para ser entendido pelos caçadores direi que o mono também é conhecido por “buriqui” ou “muriquina”, e seu pelo é um amarelo desbotado. Sei que há monos no Estado do Rio, em Minas, em S. Paulo, até onde ele existe no Sul não sei. Mas para o Norte o mono tem uma divisa, e é isso que me invoca e fascina: ele só vai até o rio Doce, um rio que nasce em Minas e atravessa o Espírito Santo. Quem me contou isso foi um caçador da terra, o Luís Alves, de Cachoeiro, que hoje mora em Vitória. Depois perguntei a muitos caboclos da beira do rio Doce e todos confirmaram: “Naquele lado tem muito mono, neste não é capaz.”

Ora, uma noite destas eu estava sozinho em minha casa, e contrariado com umas histórias de mulher; me deu insônia. De repente, não sei por que, comecei a pensar no mono, e mais tarde, quando dormi, o mono entrou pelo meu sonho; acordei logo, com o mono na cabeça. Quanta angústia não passaram os monos quando começaram a ser derrubadas as matas de S. Paulo, do Estado do Rio, do Espírito Santo! Assustados pelos caçadores e tangidos pela falta de comida, eles foram emigrando para o Norte e com certeza subiram muita serra e passaram muito rio com o rabo agarrado a uma ponta de cipó.

Mas quando chegaram ao rio Doce, pararam. Ali no Espírito Santo o rio tem centenas de metros de largura. A derrubada e os incêndios começaram do lado de cá, na margem sul. Imagino os olhos tristes dos grandes monos olhando, dos altos galhos da floresta, a grande massa líquida — e, do outro lado, a Floresta Proibida, ou a Terra Prometida dos Monos Perseguidos.

Hoje há pontes sobre o grande rio; mas onde há essas pontes — em Colatina e em Linhares — o mono não ousa passar porque ali enxameiam esses estranhos monos sem cauda, os homens, bichos cruéis que matam outros bichos só pelo prazer de matar.

Devo fazer um apelo patético pela salvação dos monos do Brasil?

Não, ele não seria ouvido. Mas me deixem a liberdade de ter pena desses nossos tristes irmãos peludos e condenados. Levá-los para o outro lado do rio Doce já pouco adiantaria, que o machado e o fogo já passaram em sua frente. Talvez pudéssemos levar um casal de monos para a Amazônia...

Mas seria preciso que nós, os homens, fôssemos, pelo menos, humanos.
Rubem Braga, "A traição das elegantes"

sexta-feira, fevereiro 17

Leitura refrescante

 


Consciência de juiz

Bem próximo da aposentadoria. Poucos meses faltavam. Trinta e cinco anos de exercício na nobre função de prestar justiça aos que são ofendidos por atos ilegítimos. Por ele mesmo continuava na função até a última gota de vida, aposentadoria nem falar, só se não tivesse jeito. Acostumado a julgar demandas como um fato natural. De todos os tipos. Sentenças memoráveis, dignas da mulher com a venda nos olhos, a balança com o peso ideal de cada lado, a espada sustentando a luta pelo direito.

Neutro acima de tudo, dando a cada pessoa o que é seu, reparando os danos, preservando a vida individual, do homem na história como ser social, cumpridor de seu destino gregário.

Sem a prestação da justiça, não haveria a paz, sobrevivência da espécie humana, o caos instalado pela lei do mais forte. A esperança banida pelos instintos impiedosos do insano animal sem trégua.

A sentença justa, fundamentada nas provas dos autos. Documentais, periciais, testemunhais. O que estava fora dos autos não tinha valia para formar convicções. Não adiantava dizer, senhor juiz estou inocente, juro pelo amor a Deus, pela alma de minha mãe, por todos os santos, amém. Rogasse o réu, derramasse lágrimas: Acredite, eu vos peço, de joelho, absolva-me, quero criar meus filhos, não tenho marido, sou uma pobre viúva, vivo de cozinhar para os outros, não quero morrer na prisão. Não adiantava a cena convulsiva, o direito não se media pela condição da pessoa, tamanho do dano, todos eram iguais perante a lei. A razão sempre esteve acima da emoção, ajustada nos artigos, proclamada nos considerados, a sentença reta e certa sempre no final da lide.

Determinava categórico, retirem essa mulher do recinto, procedimento inadequado, precisamos ouvir as testemunhas de acusação.

Uma máscara sólida o rosto, a pele enrugada, não se via um sorriso, os olhos absorvidos pelas cavidades grandes das órbitas, sobrancelhas grossas, unidas na curva das pontas, como se fossem uma, os cabelos brancos, bem penteados, alisados, lustrados com brilhantina, a camada espessa não esvoaçava ao vento.

Aposentado, andava equilibrado, passos meticulosos, concentrado no rosto, duro por onde passava. Passeio matinal pelo jardim. Parecia fora do mundo. Não escutava o gorjeio dos pássaros. Não se encantava com os raios de sol no tronco das árvores inventando aranhas. Foi quando ouviu os gritos da menina, estava sendo estuprada por dois homens grandes e fortes. A cena desalmada não lhe perturbava. A polícia chegou rápida, a área isolada pelo cinturão dos guardas e viaturas. O sargento perguntou-lhe se tinha visto a cena brutal que vitimou a menina. Disse que viu tudo, mas não tinha palavras para descrever o que presenciara. Ainda não se acostumara com o mundo visto aqui de fora, seus movimentos diversos, inesperados, na dura lei da vida suas abomináveis ciladas.

Destituído de emoção, discípulo da razão que julgava os fatos com a letra fria da lei, desaprendera a ter a emoção que acompanha a espécie humana desde tempos imemoriais.

Sem essa condição, que dá ao homem o que lhe pertenceu sempre, razão e emoção, escutara os gritos lancinantes da menina, sem sentir a crueldade da cena: a menina morta com a força dos estupradores na sanha inconcebível, o que indubitavelmente deixou todos perplexos.

É preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos mas não esquecer que ela é careca

Não somos um país, somos um enorme convento de carmelitas autistas em silenciosa comunicação com o seu écranzinho que os põe em contacto com um estranho universo inexistente, cheio de palavras e imagens irreais. Os humanos já não falam: dialogam em silêncio com o nada, isto é com o que pensam ser os outros e o mundo.

Andei agora uma série de dias no estrangeiro e o que mais me surpreendeu foi não ter visto uma única pessoa de iphone na mão, a carregar nas teclas, alheada do mundo. Eu como todos os dias fora, num restaurante aqui perto, vou e venho a pé, cruzo-me com gente na rua, passo por uma paragem de autocarro e é extraordinário o que Portugal mudou. Por exemplo o que mais me aborrecia, nos sítios onde almoçava e jantava, eram os guinchos de meninas e meninos a correrem entre as mesas, enlouquecendo todo o mundo sob o olhar desvelado ou ausente dos pais. Não é que as crianças se tenham tornado bem educadas, isso seria pedir demais aos lusitanos, é que em lugar de gritarem, incomodarem e empurrarem os vizinhos estão caladinhas ao lado dos adultos, cada uma com o seu iphone, a carregarem nas teclas num autismo absoluto, concentradas num jogo qualquer. Como os pais não conversam com elas ou entre si, ocupados a comerem, de olhos no prato

(se calhar existem iphones escondidos no puré)

completamente sozinhos, tenho a sensação de estar, com o bacalhau à Brás em frente, num silêncio de capela. A mesma coisa nos transportes, a mesma coisa nas esplanadas, a mesma coisa nas paragens de autocarro

(há semanas, ao passar por uma delas, vi sete pessoas sete à espera, todas de olhos baixos, a picarem o seu quadradinho de plástico com o indicador, alheadas do universo.)


Não somos um país, somos um enorme convento de carmelitas autistas em silenciosa comunicação com o seu écranzinho que os põe em contacto com um estranho universo inexistente, cheio de palavras e imagens irreais. Os humanos já não falam: dialogam em silêncio com o nada, isto é com o que pensam ser os outros e o mundo, trocando banalidades arrasadoras com criaturas e acontecimentos tão fantasmáticos quanto elas. Não se relacionam entre si: relacionam-se com silhuetas vazias, interessam-se por acontecimentos ocos, os afectos transformam-se em siglas, a ternura em bjs sem carne, meia dúzia de consoantes e de k estratégicos substituem os sentimentos e as emoções. Os corpos transformam-se em silhuetas, a partilha em frases feitas, o amor no supermercado do facebook onde as pessoas se apaixonam por criaturas irreais, ou seja fotografias minúsculas e ideias sem carne, encharcando os iphones de lugares comuns patetas nos quais se sente o enorme peso de uma solidão irremediável. Tenho muito dó desses infelizes fantasmas procurando desesperadamente outros infelizes fantasmas na esperança de uma relação fantasmática que, ao fim e ao cabo, não é possível porque não se pode amar uma ausência sem espessura de gente. O poeta Fernando Pessoa, por exemplo, parece-me não uma criatura mas um nada falante. Não é ao artista que me refiro agora, é ao homem que tentava existir através da bebida na esperança de obter, por intermédio de um substituto do leite materno, a densidade carnal que não tinha e, portanto, os seus escritos não respiram. Fingem que respiram, num sofrimento imenso. As criaturas dos iphones não pensam, não lhes interessa pensar, interessa-lhes existir no vazio, relacionando-se com vazios tão brancos quanto os deles, procurando desesperadamente bjs sem substância. Conversam com ninguéns em diálogos de uma pobreza afectiva absoluta que é o único anteparo de que são capazes para tentarem lutar contra a depressão, porque ao princípio não era o Verbo, era a Depressão, e as nossas almas tão sozinhas, tão pobres. O que queremos de facto, o que esperamos ainda é encontrar um modo de nos acharmos menos desamparados, menos indefesos, menos perdidos, e esperamos, como crianças que esqueceram o caminho para casa, que um bj nos aponte o caminho. E não aponta porque nenhum bj se transforma em beijo, é uma metamorfose impossível. Toma o meu bj, dá-me o teu bj em troca. E ficamos cada um com o bj do outro na palma a pensar

– O que faço eu com isto?

enquanto as duas letras se dissolvem ou se evaporam num écranzinho que não responde. Na fila dos automóveis de regresso a casa ao fim do dia vemos as pessoas sentadas no carro, olhando fixamente em frente, imóveis e sérias. Se repararmos nos olhos delas estão todas mortas atrás dos olhos. Não faz mal: o iphone está aqui no bolso; em chegando a casa ligo-o e encontro outros desgraçados, tão defuntos quanto eu, à espera de um colo que não existe. Há uma ausência apenas e lá ao fundo, na cozinha, uma torneira que não veda bem a pingar no lava-loiças o ritmo angustiado do nosso desespero. Talvez um bj ajude um bocadinho a torná-lo suportável: é que somos tão pobres que nos contentamos com uma côdeazita de nada. E amanhã encontraremos na fronha algumas migalhas que sobraram. Se as metermos na boca têm um gosto a lágrimas.
António Lobo Antunes