sábado, março 31

Páscoa do leitor

A Sociedade

— Filha minha não casa com filho de carcamano!

A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas.

Teresa Rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta. O Conselheiro José Bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque.

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O esperado grito do cláxon fechou o livro de Henri Ardel e trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço.

O Lancia passou como quem não quer. Quase parando.

A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino.

Uiiiiia-uiiiiia! Adriano Meli calcou o acelerador. Na primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do número 259-C sabe: uiiiiia-uiiiiia!

— O que você está fazendo aí no terraço, menina?

— Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais?

Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na rua. Vestido de Camilo, verde, grudado à pele, serpejando no terraço.

— Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando ele chegar!

— Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus!

Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista.

Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiçorra para gritar:

Dizem que Cristo nasceu em Belém…

Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado furúnculo inflamou o pescoço do Conselheiro José Bonifácio) ela estava achando um suco aquela vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais.

Os pares dançarinos maxixavam colados. No meio do salão eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de mamãs, moças feitas e moços enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxixe. O banjo é que ritmava os passos.

— Sua mãe me fez ontem uma desfeita na cidade.

— Não!

— Como não? Sim senhora. Virou a cara quando me viu.

… mas a história se enganou!

As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes contavam episódios de farra muito engraçados. O professor da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um sujeitinho de óculos. Sob a vaia do saxofone: turururu-turururum!

— Meu pai quer fazer um negócio com o seu.

— Ah sim?

Cristo nasceu na Bahia, meu bem…

O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrático o engasgou. Alegria de vozes e sons.

… e o baiano criou!

— Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão da Teresa para o filho, você aponte o olho da rua para ele, compreendeu?

— Já sei, mulher, já sei.

Alcântara Machado

sexta-feira, março 30

Pronta para começar o feriadão

Seráque Seráque


Susa Monteiro
Agora estou entre dois livros, o que é sempre uma altura difícil para mim. O medo de ter secado, a angústia de não ser capaz de escrever. Quando digo que estou entre dois livros não é verdade: o que acabei desapareceu para sempre e o próximo não passa de uma inquietação informe, meia dúzia de palavras que às vezes se aproximam umas das outras em frases sem nexo que se dissolvem na minha cabeça, vagas, truncadas, se reúnem mais adiante de um modo diferente, se afastam de novo, deixam uma baba vaga no papel, se perdem, desaparecem, prometem voltar e não voltam, surgem outras, igualmente sem nexo, no lugar delas, risco tudo, deito a página fora, continuo à espera, de Bic na mão, que uma frase poise por aí, infelizmente passam a voar muito longe, num vazio que a esferográfica não alcança, tento um esboço de plano, desisto, recomeço, nem um parágrafo se aproxima de mim, qualquer coisa lá ao fundo, na cabeça, que ao chegar devagarinho, na esperança que não dê por ela, reparo que não é nada e isto durante horas, dias, semanas, onde pára o meu livro, ponham-no aí à minha frente porque quero escrevê-lo, a minha vida inteira, palavra de honra, depende de escrevê-lo, como se faz uma frase, digam-me, ensinem-me a compor uma frase, uma frasezinha chegava, dado que, se a conseguir, as outras principiam a aparecer uma a uma, aí estão elas poisadas numa estante ou empoleiradas no cinzeiro a olharem-me, não façam barulho agora para que o livro não fuja, são tão escorregadios os livros, tão difíceis de apanhar, tão furtivos, e isto durante horas, dias, semanas, até que de repente, quando já não espero nada, fecho a mão e está ali todo dentro dos meus dedos, sinto-lhe a forma, a pulsação, a cadência, fecho a outra mão, por cima da primeira, com ele a agitar-se ainda, tranco devagarinho a gaiola da página porque no interior da gaiola não conseguem escapar-se, acho que tenho um livro, acho que tenho um livro, à terceira ou quarta página é meu, não logra deixar-me mas agora não tenho nada, continuo à procura, afigura-se-me que qualquer coisa ali, será que, será que, seráque, seráque, tento aproximar-me por trás, onde o livro não vê, quando era pequeno apanhava moscas na vidraça assim, lá ficavam a zumbir-me na palma, em criança o meu irmão Pedro na casa de banho, já nu, caçava uma na janela, arrancava-lhe as asas, deitava-se na água da tina, só com a ponta da pilinha de fora, colocava a mosca em cima da ponta e enquanto ela passeava naquele bocadinho de pele, sem poder deixá-lo, garantia que as patas do insecto eram óptimas, logo a seguir a desmancha-prazeres da minha mãe entrava, debruçava-se intrigada

– Que parvoíce vem a ser esta?

ralhava com o Pedro

– Já tens cinco anos não és nenhuma criança

como logo a seguir ao banho era o jantar, a fim de não irmos para a cama demasiado sujos, o jantar a altura do dia em que o pai se sentava connosco à mesa

(a mãe e o pai ocupavam, cada qual na sua cabeceira, as únicas cadeiras de braços)

dava-me ideia que divertido enquanto a mãe zangada, ambos em silêncio mas com a cara de quem tinha falado antes de coisas que não queriam que ouvíssemos, intrigava-me a mãe indignada enquanto o pai ia apostar que de certa maneira orgulhoso do Pedro dado que a certa altura um risinho que secou logo no guardanapo, de queixo apontado ao Pedro

– Este miúdo

no que quase ia apostar ser uma espécie de admiração orgulhosa enquanto a mãe abanava a cabeça

(tradução para Português do abanar de cabeça da mãe

– Francamente)

o meu pai, antes de se esconder no guardanapo


– Ai de vocês se apanho uma mosca sem asas no quarto de banho

de onde surgia uma espécie de soluço divertido enquanto o Pedro engolia a toda a pressa a sopa detestável que nos obrigavam a comer

(nessa época não havia sopa que não fosse detestável)

no arzinho inocente que conservou a vida inteira. Mais crescidos, aí por volta dos dezassete ou dezoito anos, o Pedro, o único de nós moreno, de cabelo preto e olhos escuros, que a vida presenteara com uma beleza física extraordinária, deu em namoriscar uma menina feia como a noite dos trovões. Estávamos à mesa ainda, os meus manos interrogavam-se acerca da menina e das razões do entusiasmo do Pedro até que eu comentei

– Se calhar é melhor do que as moscas

a que se seguiu um silêncio de espera e o comentário do Pedro, de olhos quase fechados

– Melhor melhor não digo mas capaz de andar ela por ela.

E nós, esperançados

– Tem irmãs?

e infelizmente não tinha. Mas olhando melhor quase se lhe notavam as patinhas.

António Lobo Antunes

quinta-feira, março 29

Porta de livraria original

Arte de parede de livraria Alsácia, França
Alsácia (França)

Notas pessoais de um escritor após uma feira do livro

Entre os últimos dias 15 e 18 de março estive pela terceira vez na Feira do Livro de Leipzig. Trata-se de um evento bastante antigo e de longa tradição, realizado, de uma forma ou de outra, desde o século 17. É o segundo maior evento editorial da Alemanha, depois da Feira do Livro de Frankfurt.

Este ano, 197 mil visitantes e 2.635 expositores passaram pelos pavilhões em Leipzig, na Saxônia, entrando pelo imponente arco de vidro inaugurado em 1991 e projetado pelo arquiteto britânico Ian Ritchie em colaboração com o grupo hamburguês Gerkan, Marg & sócios.

Jovens fantasiados de personagens na entrada da Feira de Leipzig
Estive por lá pela primeira vez para o lançamento de uma antologia de poetas germânicos e lusófonos em 2009 e retornei em 2013 para o lançamento da minha própria antologia de poemas, com tradução de Odile Kennel, lançada pela Verlagshaus Berlin.

Desta vez, o convite veio da Embaixada de Portugal e do Instituto Camões, que trazia uma comitiva de escritores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa para leituras: os portugueses Hélia Correia (Prêmio Camões em 2015), Almeida Faria, Rui Cardoso Martins, Isabela Figueiredo, Marta Chaves e Miguel-Manso; o brasileiro Bernardo Carvalho; os cabo-verdianos Arménio Vieira (Prémio Camões em 2009) e Filinto Elísio; assim como o angolano Kalaf Epalanga. Houve leituras no Fórum dos Tradutores e no estande da Embaixada de Portugal.

Como todo ano desde o início deste século, alguns prêmios importantes foram entregues a escritores. O Prêmio da Feira do Livro de Leipzig foi, na categoria "Belletristik”, para Esther Kinsky, pelo romance Hain, editado pela Suhrkamp; na categoria Ensaio, para Karl Schlögel, por Das sowjetische Jahrhundert. Archäologie einer untergegangenen Welt [O século soviético: arqueologia de um mundo desaparecido]; e na categoria Tradução, para Juri Durkot e Sabine Stöhr pela tradução do romance Internat [Internato], do ucraniano Serhiy Zhadan.

O Prêmio para Compreensão Mútua na Europa foi para a jornalista norueguesa Åsne Seierstad, pelo livro Einer von uns. Die Geschichte eines Massenmörders [Um de nós: história de um genocida], sobre o terrorista de extrema-direita Anders Breivik, autor dos atentados de 22 de julho de 2011 na Noruega, com um carro-bomba em Oslo que deixou oito mortos e o massacre de 69 jovens militantes do Partido dos Trabalhadores norueguês na ilha de Utøya.

Não tenho dúvidas de que seja importante ou ao menos inevitável participar de eventos como este. Mas é muito cansativo. Desconfortável. E em muitos aspectos até ligeiramente traumatizante para um escritor.

Claro, talvez seja maravilhoso estar sob os holofotes, para um grande mágico das vendas de páginas aos milhares. Mas para os que estão acostumados a certa calma, a outra velocidade de apreensão das coisas e das palavras, a sensação é de que a palavra "feira" é realmente a mais adequada. Como naquelas feiras de rua em Pinheiros, onde o vendedor de pepinos tenta gritar mais alto do que o vendedor de cebolas, enquanto a máquina de garapa mói a cana-de-açúcar, e os vizinhos brigam na tenda do pastel.

Os estandes são abertos. Durante as leituras, por exemplo, no Fórum de Tradutores, o estande da França logo em frente havia tido a ideia estapafúrdia de convidar seus visitantes a rodar uma roleta com palavras em francês, uma espécie de Roletrando fazendo seu trac-trac-trac, enquanto poetas e romancistas tentavam pronunciar cuidadosos suas palavrinhas suadas.

Nos corredores e cafés improvisados pelos pavilhões, adolescentes suados perambulavam vestidos como personagens dos livros de Harry Potter, Senhor dos Anéis, e só orixás sabem de que outras séries de livros de fantasia. Percebi que estava mal informado sobre os últimos sucessos do gênero. Só me perguntava: "Que criatura azul é essa?”

Não que eu tenha qualquer coisa contra livros de fantasia ou ficção científica. Vida longa às obras de Ursula K. Le Guin e Stanislaw Lem, de quem, aliás, hoje é aniversário do óbito. Mas havia uns segundos em que eu me sentia no meio de uma vertigem e me perguntava se estava em um manicômio. É que sempre me atinge algo de tristeza ao ver estes jovens tão atolados em mundos fictícios, por sentir neles um desejo tão forte de não ser quem são, não estar onde estão, não viver no mundo e corpo que são seus. Não me parece sempre uma necessidade saudável de fantasia.

Enfim, chegava ao hotel estafado tanto física quanto psicologicamente. O prazer que restava era o de encontrar pelos corredores, de surpresa, com colegas do nosso trabalho quieto e solitário de escrita, como a suíça Nora Gomringer, o ucraniano Andriy Lyubka, o tcheco Ondřej Buddeus, ou poder ler com meu editor e amigo Jo Frank, ainda que a roleta do estande francês estivesse fazendo meu sangue borbulhar de raiva.

Sim, eu sei. Esses não são realmente eventos literários, mas eventos do mercado editorial. Importantes, incontornáveis. Eu sei. Mas não vejo a hora da próxima leitura em uma sala minúscula com apenas dez ou 20 pessoas realmente interessadas em palavras, e não necessariamente em livros.

Ricardo Domeneck

A troca que enriquece

Uma boa biblioteca proporciona muito mais conhecimento do mundo do que um pacote de viagem em que se promete "conhecer" 15 cidades em tantos dias
 Alberto Manguel

Pecado original

Não é só cá

booksandnerds: (Por: Jaime Martorano) (via adhdad)
Não, não é só cá... Aqui há tempos, li já não sei em que jornal que, pela primeira vez em décadas, o Reino Unido, que sempre tinha tido altos índices de leitura, perdera muitíssimos leitores de ficção literária – e perdera-os para os smartphones... Aqui a coisa não anda melhor, não só pelas rendas impossíveis de pagar pelos livreiros (o lado negro do turismo) que fazem fechar muitas livrarias, mesmo as históricas, mas também por um tempo veloz que afasta as pessoas de uma leitura mais lenta e as atira para os seus telefones, onde se sucedem mensagens curtinhas que não obrigam a grande discernimento. (Leio no Público de sexta-feira passada : "Só 0,8% não tem telemóvel; enviam, em média, 93 SMS e fazem 27 minutos de chamadas por dia. Estes são os números sobre a utilização do telemóvel reportados por jovens entre os 15 e os 22 anos, inquiridos no âmbito do projeto Faqtos. Já o acesso à Internet e às redes sociais no telemóvel quadruplicou em seis anos.") Será talvez pela diminuição do número de leitores de livros que no Reino Unido, segundo leio no The Guardian, o condado de Northampton quer fechar 21 das suas 36 bibliotecas? Chi, e ainda pretende reduzir o horário das que ficam abertas? O governo diz que vai provavelmente interferir (haja alguém), até porque a média europeia é de uma biblioteca para 16.000 leitores e em Northampton ficaria uma biblioteca para 60.000. Mas, com ajuda do Estado ou não, a médio prazo haverá mesmo leitores suficientes a frequentá-las?

quarta-feira, março 28

Volta das compras

Vorratshaltung...

Adão e Eva


by Eu amo Ler.
Relendo velhos textos, observo que a todo instante me preocupa uma única situação. A solidão do homem, a solidão da mulher. Não a solidão dos homens, do gênero humano: do homem com relação à mulher e vice-versa. Suspeito que o momento supremo da nossa aventura ocorreu quando o Senhor Deus exorbitou de suas funções, por assim dizer. Ele já havia feito tudo e só lhe restava descansar, pois era domingo, e, sábado, toda a Criação tinha passado a noite no Jirau, inclusive Ele. Mas parece que o Homem, Adão, achava aquela festa muito aborrecida, pois não dançou com ninguém, bebeu demais e é possível até que tenha dado um vexame. Suponho que no meio da noite ele tenha decidido apanhar de qualquer maneira a fêmea do Canguru, aliás exímia dançarina de twist, e senhora um tanto leviana, pois mal emergira da argila e já se punha a flertar com o Rei da Criação. Mas não fica bem, a um cavalheiro, estar a julgar a conduta da mulher alheia: esqueçamos isso e voltemos a Adão, ébrio e cafardento, lançado num Paraíso em que todos os bichos estavam acompanhados, menos ele. Todo o mundo reparou que ele não estava feliz. As senhoras, no toalete, não fizeram outro comentário — todas elas dispostas a fazer qualquer coisa para consolá-lo, porque os machos tristonhos sempre gozaram de grande prestígio junta às fêmeas de toda a escala zoológica, e o Senhor Deus, psicólogo de rara penetração, adivinhou que o Paraíso estava resvalando para o perigoso terreno da galhofa — como diria, muitos milhões de anos depois, um cronista particularmente femeeiro… Não apenas estávamos à beira do adultério, como diante de algo muito mais grave — uma degradação. Imaginem se Adão, no auge do pileque, fazendo um papel muito mais feio do que Noé, inaugurasse o cruzamento de homem com, digamos, sapo, ou percevejo, ou jacaré, ou cobra d’água! Felizmente — ou graças a Deus: parece que ele, em sua infinita sabedoria, foi servindo mais e mais uísque à medida que Adão esvaziava o copo, de modo que o velho Adão foi apagando, apagando e — zás! emborcou.

…Foi quando extraímos uma costela, com a qual esculpimos uma forma nova, cheia de graça, com cabelos habilmente manipulados pelo Reinaud e tendo sobre o alvo ventre uma folha de parreira confeccionada por José Ronaldo… Assim nasceu Dona Eva, na intimidade Vivi sem sobrenome, porque não tinha pai nem mãe. E ela chamou Adão para irem ao Bob’s, digo, ao bosque, onde estava a afamada Árvore da Sabedoria. E a serpente disse a Eva: “Olha, Eva, a coisa mais bacaninha que há para fazer, hoje em dia é comer daquela maçã que você vê ali naquela árvore. É a coqueluche de Paris — todo mundo comendo maçã no New Jimmys, no Maxim’s, no Plaza Athenée Rellays, no Bois de Bologne!” Eva achou a idéia fabulosa e perguntou a Adão que tal lhe parecia. Adão no momento não tinha dinheiro no bolso (estava nu, coitado), mas a Serpente emprestou, Adão comprou a maçã e Eva disse: “Morde aqui”.Adão mordeu. Eva também.

Foi quando dos grandes Céus os exércitos de anjos desceram céleres sobre o Paraíso, e suas vozes faziam um clamor de tempestade, e eles clamavam: “Nós também queremos! Nós também queremos!”.

Mas só Adão e Eva tiveram permissão. Na verdade, Eva é que acabou sendo a dona do negócio, tanto que certa ocasião, depois de folhear a revista Playboy, Adão lhe aplicou um beijo no cangote e disse: “Vamos comer maçã? Que dia lindo para comer maçã!” E Eva, bocejante, sob os cabelos enrolados em bob: “Hoje não, Adão. Hoje estou com muita dor de cabeça”.

José Carlos Oliveira

terça-feira, março 27

Bom passeio!

Visitar las librerías con nuestros hijos y regalarles libros es genial para fomentar la lectura (ilustracion de Claire Keay)
Claire Keay

Ser Gagá

in some situations, reading is about as comfortable as it's going to get...
Ser Gagá não é viver apenas nos idos do passado: é muito mais! É saber que todos os amigos já morreram e os que teimam em viver, são entrevados. É sorrir, interminavelmente, não por necessidade interior, mas porque a boca não fecha ou a dentadura é maior do que a arcada.

Ser Gagá é ficar pensando o dia inteiro em como seria bom ter trinta anos ou, vá lá, quarenta, ou mesmo, ó Deus, sessenta! É ficar olhando os brotinhos que passeiam, com o olhar esclerosado, numa inútil esperança. É ficar aposentado o dia inteiro, olhando no vazio, pensando em morrer logo, e sair subitamente, andando a meia hora que o separa dos cem metros da esquina, porque é preciso resistir. É dobrar o jornal encabulado, quando chega alguém jovem da família, mas ficar olhando, de soslaio, para os íntimos da coluna funerária. Ser Gagá é saber todos os mortos inscritos no Time, em Milestones. Não é saber o Who is who, mas os WHEN. É só pensar em comer, como na infância. E em certo dia passar fome as vinte e quatro horas, só de melancolia. É, na hora mais ativa do mais veloz Bang-Bang, descobrir, lá no terceiro plano, uni ator antigo, do cinema mudo, e sentir no peito a punhalada. É surpreender, subitamente, um olhar irônico que trocam dois brotinhos, que, no entanto, o ouvem seriamente. É querer aderir à bossa nova, falar “Sossega Leão” e morrer de vergonha ao perceber o fora. É não querer, não querer, mas cada dia ficar mais necessitado de amparo do que outrora. É ter estado em Paris, em 19. É descobrir, de repente, um buraco na roupa e dar graças a Deus, por ser na roupa.

Ser Gagá é sentir plenamente que tudo que se leu, que se aprendeu, que se viu e se viveu não vale nada diante do que estua. Ser Gagá é estar sempre na iminência de ouvir em plena rua: “Olha o tarado!” É ficar contente em ver Chaplin e Picasso como os “mais charmosos” de sessenta! É chamar de menina à quarentona. É ter uma esperança senil nos cientistas. É reparar, nos mais jovens, o imperceptível sinal de decadência. É ficar olhando o detalhe, nos amigos; a lentigem nas mãos, o cabelo que afina, a pele que vai desidratando. Ser Gagá é o orgulho vão de ainda ter cabelo e poucos brancos! A vaidade tola de não ter barriga; a felicidade de ter dentes próprios. E fazer grandes planos qüinqüenais que espantam os jovens que acham cinco anos a própria eternidade, mas que o Gagá sabe que voam como voaram tantos, tantos, tantos.

É se apegar, desesperadamente, pelo tremendo impulso da existência, aos filhos, aos netos e aos bisnetos, embora saiba que eles não o querem, que a convivência com eles é apenas parte e total do egoísmo vital que o enterra. É sentir que agora, outra vez, está bem de saúde. É sentir a saúde ocasional. É carregar o corpo o tempo todo. É sentir o caixão no próprio corpo. É saber que já não há quem tenha prazer em lhe acarinhar a pele. É já não ter prazer em passar a mão na própria pele. É esquecer de coisas importantes e lembrar, sem saber por que, um gosto, um calor, uma palavra há tempos esquecidos.

Ser Gagá é procurar com afã a importância do cargo para de novo ser solicitado, embora pelo cargo. É sentir que nada do que faça, espantoso que seja, terá a importância do feito de outro homem, nos inícios da vida. Ser Gagá é quando dormir tarde se torna uma loucura, resgatada em feroz resfriado que dura uma semana. É ter sabido francês, e esquecido. É já não jogar xadrez como outrora! É olhar o retrato amarelado e lembrar que fotógrafo usava magnésio. É dizer, como um feito, que ainda lê sem óculos. É ouvir que alguém diz, quando passa na rua: “inda está firme!” É ficar galante e baboseiro na terceira taça de champanha. É casar com uma mulher mais jovem e querer dar logo ao mundo a inegável prova de um filhinho.

Ser Gagá é, num esforço mortal, aceitar tudo que inventam, todas as idéias, as modas, a música, o ritmo de vida, mas não deixar de dizer numa ironia profunda e amargurada. “Eu não entendo”. É sentir de repente o isolamento. É ficar egoísta, e amedrontado. É não ter vez e nem misericórdia.

Ser Gagá é fogo. Ou melhor, é muito frio.
Millôr Fernandes

Poesia, se caça

Assim começa o livro...

Ao pegar da pena para, em completos ócio e retiro — gozando de boa saúde, aliás, embora também cansado, muito cansado (de modo que provavelmente só poderei avançar por pequenas etapas e fazendo muitas pausas para descansar), ao me preparar, enfim, para confiar minhas confissões a este paciente papel, na caligrafia limpa e agradável que me é peculiar, sou tomado por um receio fugaz de, com meus conhecimentos e minha instrução, não estar à altura de um empreendimento intelectual dessa natureza. Como, porém, tudo o que tenho a relatar se constitui de minhas experiências, erros e paixões mais pessoais e imediatos e, portanto, estou em pleno domínio de minha matéria, tais dúvidas não poderiam se referir senão ao meu tato e ao decoro com que me expresso, e quanto a isso, segundo me parece, os estudos regulares e concluídos a contento são menos decisivos que o talento natural e um bom berço. Este último não me faltou, pois procedo de uma casa burguesa distinta, embora licenciosa; ao longo de vários meses minha irmã Olympia e eu estivemos sob os cuidados de uma senhorita de Vevey, que, contudo, teve de bater em retirada quando se estabeleceu uma relação de rivalidade feminina entre ela e minha mãe — tendo meu pai por objeto —; meu padrinho Schimmelpreester, ao qual me ligavam os laços de uma intimidade profunda, era um artista muito apreciado, a quem todos na cidade chamavam de “senhor professor”, embora oficialmente ele talvez não fizesse jus a este título tão belo e desejável; meu pai, por sua vez, embora gordo e fornido, tinha muito encanto pessoal, e sempre deu grande importância a um modo claro e bem cuidado de se expressar. Herdara da avó o sangue francês, ele mesmo passara um período de aprendizado na França e afirmava conhecer Paris como o bolso de seu colete. De bom grado — e com excelente pronúncia — utilizava em sua conversação locuções como c’est ça, épatant ou parfaitement; também dizia com frequência “isso me amusa demais!” e foi, até o fim de seus dias, um favorito das mulheres. Digo isso apenas à guisa de antecipação e fora da ordem cronológica. Quanto ao meu dom natural para a elegância da forma, desde sempre estive seguro de possuí-lo, como bem o demonstra toda a minha vida de fraudes, e creio também poder confiar nele sem restrições nesta minha estreia por escrito. De resto, estou decidido a proceder com a mais absoluta franqueza em meu relato e não temer nem a acusação de vaidade nem a de despudor. Pois que valor e sentido moral se poderiam atribuir a confissões redigidas sob outro princípio que não o da veracidade?

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O Rheingau me trouxe ao mundo, aquela província privilegiada, amena e sem asperezas tanto pelas condições climáticas quanto pela constituição do solo, rica em cidades e vilarejos e com uma população alegre, sem dúvida uma das regiões mais aprazíveis de toda a superfície habitada da Terra. Aqui florescem, protegidas do rigor dos ventos pelas colinas do Rheingau e estiradas deleitosamente sob o sol sulino, aquelas povoações famosas, ao som de cujos nomes o coração de um bom bebedor sorri, tais como Rauenthal, Johannisberg, Rüdesheim, ou ainda a cidadezinha venerável na qual, poucos anos depois da gloriosa fundação do império alemão, eu vi a luz do dia. Localizada um pouco a oeste do cotovelo que o Reno descreve nas proximidades de Mainz, famosa pela sua produção de vinho espumante, é um dos principais ancoradouros dos barcos que singram velozes as águas rio acima e rio abaixo, e conta cerca de quatro mil habitantes. A alegre Mainz, portanto, ficava bem próxima, e também os elegantes balneários do Taunus, tais como Wiesbaden, Homburg, Langenschwalbach e Schlangenbad, o último dos quais se podia alcançar após meia hora de viagem num trem de bitola estreita. Quantas vezes meus pais, minha irmã Olympia e eu não fizemos, na mais bela estação do ano, excursões de barco, de carro e de trem aos quatro cantos da região: pois de toda parte nos atraíam os encantos e as belezas criados pela natureza e pelo engenho humano. Ainda vejo meu pai num confortável traje de verão xadrez sentado conosco no jardim de alguma hospedaria — um pouco afastado da mesa, pois sua barriga o impedia de aproximar-se mais — a degustar com infinito prazer um prato de caranguejos e uma taça de vinho dourado. Muitas vezes meu padrinho Schimmelpreester nos acompanhava, observando com um olhar agudo o lugar e as pessoas através das lentes redondas de seus óculos de pintor, gravando em sua alma de artista o que havia ali de grande e de pequeno. Meu pobre pai era proprietário da firma Engelbert Krull, produtora do champanhe da marca Lorley Extra Cuvée, hoje extinta. Lá embaixo, junto ao Reno, não muito longe dos ancoradouros, ficavam suas adegas e, quando garoto, não foram poucas as vezes em que me esgueirei pelas frias abóbadas, trilhando meditativo os corredores pavimentados de pedras que conduziam a torto e a direito por entre as altas prateleiras, observando as fileiras de garrafas que repousavam meio inclinadas e empilhadas umas sobre as outras. “Aí estão vocês”, pensava comigo mesmo (embora, é claro, ainda não soubesse exprimir meus pensamentos em palavras tão precisas), “aí estão vocês, nesta penumbra subterrânea, e dentro de vocês se purifica e se prepara em silêncio o picante sumo dourado que irá vivificar as batidas de tantos corações, despertar um fulgor mais intenso em tantos olhos! Ainda estão nuas e desataviadas, mas um dia, suntuosamente adornadas, subirão à superfície do mundo a fim de disparar para o teto com um estampido insolente suas rolhas em festas, cerimônias de casamento e reuniões exclusivas, disseminando o êxtase, a despreocupação e o prazer entre os homens.” Assim falava o menino; e era verdade que a firma Engelbert Krull dava uma importância extraordinária pelo menos ao exterior de suas garrafas, àquela última vestimenta que os especialistas chamam de coiffure. As rolhas comprimidas eram firmadas com arame prateado e barbante dourado, e seladas com lacre púrpura, não faltando nem mesmo, pendente de um fio dourado, o requinte de um selo arredondado como os que se veem em bulas e antigos documentos oficiais; o pescoço das garrafas era luxuosamente revestido de papel-alumínio e sua barriga ostentava um rótulo com moldura de arabescos dourados criada com exclusividade para a firma por meu padrinho Schimmelpreester, na qual, além de vários brasões e estrelas, da rubrica de meu pai e da marca Lorley Extra Cuvée gravada a ouro, se podia ver uma figura de mulher vestida apenas com braceletes e colares, sentada de pernas cruzadas na ponta de um rochedo, os braços erguidos para pentear a cabeleira ondulada. A qualidade do vinho, entretanto, parecia não corresponder de todo a essa apresentação deslumbrante.

segunda-feira, março 26

Recantos de leitura



Mortos e vivos

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Há quem reclame do calendário cristão que dedica um dia aos mortos, para lembrá-los e, em alguns casos, para chorá-los. Civilizações inteiras, construídas em torno da memória e até mesmo do culto aos mortos, tiveram momentos de poder e glória. Todas as religiões prolongam esse culto que foi a base de antigas civilizações como a caldeia e a egípcia.

Mesmo uma religião voltada para a vida, como a judaica, tem no respeito aos mortos um dos alicerces de sua força milenar. Daí que o Dia de Finados é até mesmo um pleonasmo. Todos os dias o são.

Ligo a TV e vejo um desfile de mortos, Kennedy prometendo chegar à Lua, Ingrid Bergman pedindo para Sam tocar "As time goes by", o casal Curie fazendo experiências, Tom Jobim fumando charuto, o papa Pio 12 visitando um bairro de Roma atingido pelas bombas, Coco Chanel fazendo caras e bocas, Garrincha driblando uns joões na Suécia.

Se ligo o som, ouço a voz de Jean Sablon ou de Maria Callas, de Elvis Presley ou de Silvinha Telles, vozes que não mais existem, e tantas, e que tanto marcaram a vida de tantos, a minha inclusive.

Bem, fiquemos nos livros, que são mais prestativos e nossos. Ler Faulkner ou Flaubert, Pessoa ou Eliot, Zé Lins ou Sartre -para onde meus olhos vão, nas estantes que forrei de volumes durante tantos anos, encontro nomes queridos, que muito me deram e nada me roubaram.

Uns melhores do que outros mas todos com um ponto em comum: estão mortos, dormindo profundamente como naquele poema de Bandeira, outro morto, por sinal.

Não concordo em que os mortos governam os vivos. Potencialmente, todos seremos mortos. Mas sempre me inquietei com o futuro, perguntava à minha mãe se quando crescesse poderia fazer isso ou aquilo. Ela dizia que sim, tudo era uma questão de tempo.

Acho que "crescer" talvez não seja boa coisa. De qualquer forma, no Dia de Finados prefiro mesmo estar com os vivos. Tenho o resto do ano para pensar nos mortos.
Carlos Heitor Cony

domingo, março 25

Toda a Memória do Mundo

Estrela guia

Receita de crônica

A melhor crônica é quase sempre a que nasce do nada. Quem vai escrevê-la nem está pensando nela. Pode ser até um profissional, alguém que vive disso: de fazer crônicas para revista ou jornal. Mas nesse dia, aquele em que escreverá sua melhor crônica, ele não pensa em texto nenhum.

É sábado e ele acaba de acordar. Abre a janela do apartamento e um sol glorioso, de puro ouro, o obriga a fechar os olhos por um instante. Ele enche os pulmões com o ar matutino, que lhe traz o perfume das flores e da grama do jardim do condomínio. Já habituado à claridade, ele reabre os olhos e vê um passarinho bicando uma flor.

Ilya Repin, Leo Tolstoy Working At The Round Table, 1891
Leo Tolstoy(1891), Ilya Repin
Ah, ele sorri. É seu primeiro dia de férias. Como estava precisando delas. Quando ele diz que seu trabalho o esgota, ninguém acredita: escrever três crônicas por semana era por acaso uma epopeia? Três crônicas por semana! E sem precisar sair de casa, sem os incômodos do transporte e os emaranhados do trânsito. Que problema havia em escrever três crônicas por semana?

Ele, meio bem, meio mal-humorado, dá sempre a mesma resposta. O problema está exatamente naquilo: em escrever três crônicas por semana. E, fazendo o dedo médio estalar no polegar, pergunta: pensam que uma crônica nasce assim, por geração espontânea?

Todos imaginam que é assim mesmo: um estalar de dedos e pronto! Só ele sabe o terror que é conseguir um assunto e desenvolvê-lo. Como é penoso, pensando haver encontrado o tema ideal e às vezes tendo escrito dez, doze, catorze parágrafos, do primeiro ao último, descobrir que tem dez, doze, catorze parágrafos, mas não tem uma crônica. Ah, nada como um dia, como uma semana, como um mês longe do tormento de começar, prosseguir, concluir e novamente começar, prosseguir e concluir. Ele suspira: como a vida, sem a obrigação de escrever crônicas, é boa.

Durante esses momentos de divagação, ele tirou sua atenção do passarinho que bicava a flor. Agora, voltando a olhar para ele, se apavora. Félix, o gato do zelador do condomínio, aproximou-se felinamente do passarinho e o examina com ar guloso. Mais um instante e a buliçosa ave vai virar almoço.

Sem ter como agir, o cronista prepara-se para ver uma cena horrível. Mas o que acontece? O passarinho não parece nada assustado com o gato e, em vez de continuar bicando a flor, canta para ele, como uma prima-dona na ópera. E Félix, quem diria, o acompanha com miados de barítono.

O cronista está encantado com o espetáculo. E mais encantado ainda fica quando a loirinha do sexto andar, a mais linda mulher do condomínio, caminha na direção do gato e do passarinho e abre freneticamente a bolsa. Quando ela puxa o celular, já é tarde. O passarinho voou. O cronista pode ver, então, como continuam belos os lábios dela, mesmo quando dizem um palavrão.

Alguma coisa maravilhosa e muito terna o faz ir para o micro, como se precisasse. Ele imagina que a cena do gato e do passarinho talvez possa ser apreciada pelos seus leitores.

Vai escrever a crônica e testá-la, na volta das férias. Faz muito tempo que não se sente assim. Tem o prazer que tinha quando ainda nem pensava em se tornar um cronista profissional, quando era um amador. Envolve-o uma sensação de honestidade. Parece justo, isso. Afinal, os leitores são amadores, não são?

sábado, março 24

Dia do supermercado

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Um plano genial

over lezers ,boeken ,letters en cijfers
Joaquim Rebolão estava desempregado e lutava com grandes dificuldades para se manter. A sua situação ainda mais se agravava pelo fato de ter que dar assistência a um filho, rapaz inexperiente que também estava no desvio.

Joaquim Rebolão, porém, defendia-se como um autêntico leão da Núbia, neste deserto de homens e ideias.

O seu cérebro, torturado pela miséria, era fértil e brilhante, engendrando planos verdadeiramente geniais, graça; aos quais sempre se saía galhardamente das aperturas diárias com que o destino cruel o torturava.

Naquele dia, o seu grude já estava garantido. Recebera convite para um banquete de cerimônia, em homenagem a um alto figurão que estava necessitando de claque. Mas o nosso herói não estava satisfeito, porque não conseguira um convite para o filho.

À hora marcada, porém, Rebolão, acompanhado do rapaz, dirige-se para o salão, onde se celebraria a cerimônia. Antes de penetrar no recinto, diz a seu filho faminto:

— Fica firme aqui na porta um momento, porque preciso dar um jeito a fim de que tu também tomes parte no festim. Já estavam todos os convidados sentados nos respectivos lugares, na grande mesa em forma de ferradura, quando, ao começar o bródio, Rebolão se levanta .e exclama:

— Senhores, em vista da ausência do Sr. Vigário nesta festa, tomo a liberdade de benzer a mesa. Em nome do Padre e do Espírito Santo!

— E o filho? — perguntou-lhe um dos convivas.

— Está na porta — responde prontamente. E, voltando-se para o rapaz, ordena, autoritário e enérgico:

— Entra de uma vez, menino! Não vês que estes senhores te estão chamando?

Barão de Itararé (1955)

Salve o caramujo

S for Snail

'A Livraria': sobre livros e solidões

No começo sinto preguiça para embarcar em A Livraria, o último filme de Isabel Coixet, já que, com exceção do lindo Cosas que Nunca te Dije, meu desencontro com seu cinema tem sido permanente. A frase que encabeça seu cartaz de divulgação (“Entre livros, ninguém pode se sentir sozinho”) é alentadora, mas também discutível. Mallarmé começa assim um poema: “A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.” Conclusão desoladora e verdadeira em alguns casos trágicos. Existiram e existirão sensíveis devoradores de poesia e literatura que acabam se lançando ao vazio, puderam mais a solidão e a falta de saída que a inestimável ajuda e o prazer que os livros proporcionam. O primeiro encontro com esse cobiçado livro sempre será presidido pela magia, como descreve maravilhosamente ítalo Calvino no início de Se Um Viajante Numa Noite de Inverno. Este filme fala dessas sensações. E faz isso com linguagem, nuances, tom e capacidade de sugerir que me comovem e que em um par de sequências modelares protagonizadas pela dedicada livreira e um homem que blindou seu ancestral isolamento e sua sobrevivência graças às páginas impressas (nessa época nenhum amante dos livros poderiam nem iria querer imaginar essa coisa tão antinatural e gélida do e-book) conseguem fazer meus olhos se umedecerem.

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Isabel Coixet adapta um romance de Penelope Fitzgerald (o sobrenome se impõe literariamente) que desconheço, mas desejo ler. Sua temática poderá parecer muito leve aos espíritos intensos. Eu acho que é muito rica. Narra o esforço de uma viúva para abrir uma livraria em uma pequena cidade da Inglaterra com nenhuma empatia pela necessidade ou paixão de ler. Para ela esse ato serve para suprir carência afetivas, para viver outras vidas, para sonhar junto ao mar com os personagens e os sentimentos que habitam os livros, esses objetos nos quais sempre acontecem coisas. Os poderosos da cidadezinha, predadores por trás de seus modos aristocráticos, declaram uma guerra surda a essa doce intrusa, convencida de que o que pretende vender pode representar prazer, conhecimento, aventura ou bálsamo para alguns moradores. Será ajudada em sua laboriosa missão por uma menina cheia de imaginação, inteligente, prática e sonhadora ao mesmo tempo, e manterá emocionante contato com um velho misantropo que está há 45 anos trancado em sua mansão, alguém que me faz pensar no arrebatador poema de Gil de Biedma: “Num povoado junto ao mar possuir uma casa e poucos bens e memória nenhuma. Não ler, não sofrer, não escrever, não pagar contas, e viver como um nobre arruinado entre as ruínas de minha inteligência". No entanto, meu herói lê, sim, e paga contas.

A livraria o levará a descobrir o soberbo Ray Bradbury e seu As Crônicas Marcianas. E a existência do misantropo anseia pela publicação de As Maçãs Douradas do Sol e O Vinho da Alegria. E o grande Nabokov desafiará a moral convencional com a perturbadora e extraordinária Lolita. E surgirão vínculos muito belos entre esses dois náufragos, que desejariam ter se conhecido em outra vida.

Coixet descreve tudo isso com uma delicadeza e um tom próximos da ourivesaria. Imagens, diálogos, silêncios, gestos pequenos e reveladores convivem em harmonia, abrigados em uma atmosfera magnética e veraz. Seu intimismo é contagiante. E a história que me contaram segue comigo durante o resto do dia. Supõe-se que acontecem poucas coisas, mas me tocou e reconheço em que fibras emocionais. Eu a levo dentro.

Carlos Boyero

sexta-feira, março 23

Para enfrentar tempestades

De volta ao passado



Algum dia você terá idade suficiente para começar a ler contos de fadas novamente
C. S. Lewis

O verdadeiro tapete voador

Photo

Cem cruzeiros a mais

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Ao receber certa quantia num guichê do Ministério, verificou que o funcionário lhe havia dado cem cruzeiros e mais. Quis voltar para devolver, mas outras pessoas protestaram: entrasse na fila.

Esperou pacientemente a vez, para que o funcionário lhe fechasse na cara a janelinha de vidro:

– Tenham paciência, mas está na hora do meu café.

Agora era uma questão de teimosia. Voltou à tarde, para encontrar fila maior – não conseguiu sequer aproximar-se do guichê antes de encerrar-se o expediente.

No dia seguinte era o primeiro da fila:

– Olha aqui: o senhor ontem me deu cem cruzeiros a mais.

– Eu?

Só então reparou que o funcionário era outro.

– Seu colega, então. Um de bigodinho.

– O Mafra.

– Se o nome dele é Mafra, não sei dizer.

– Só pode ter sido o Mafra. Aqui só trabalhamos eu e o Mafra. Não fui eu. Logo…

Ele coçou a cabeça, aborrecido:

– Está bem, foi o Mafra. E daí?

O funcionário lhe explicou com toda urbanidade que não podia responder pela distração do Mafra:

– Isto aqui é uma pagadoria, meu chapa. Não posso receber, só posso pagar. Receber, só na recebedoria. O próximo!

O próximo da fila, já impaciente, empurrou-o com o cotovelo. Amar o próximo como a ti mesmo! Procurou conter-se e se afastou, indeciso. Num súbito impulso de indignação – agora iria até o fim – dirigiu-se à recebedoria.

– O Mafra? Não trabalha aqui, meu amigo, nem nunca trabalhou.

– Eu sei. Ele é da pagadoria. Mas foi quem me deu os cem cruzeiros a mais.

Informaram-lhe que não podiam receber: tratava-se de uma devolução, não era isso mesmo? E não de pagamento. Tinha trazido a guia? Pois então? Onde já se viu pagamento sem guia? Receber mil cruzeiros a troco de quê?

– Mil não: cem. A troco de devolução.

– Troco de devolução. Entenda-se.

– Pois devolvo e acabou-se.

– Só com o chefe. O próximo!

O chefe da seção já tinha saído: só no dia seguinte. No dia seguinte, depois de fazê-lo esperar mais de meia hora, o chefe informou-se que deveria redigir um ofício historiando o fato e devolvendo o dinheiro.

– Já que o senhor faz tanta questão de devolver.

– Questão absoluta.

– Louvo o seu escrúpulo.

– Mas o nosso amigo ali do guichê disse que era só entregar ao senhor – suspirou ele.

– Quem disse isso?

– Um homem de óculos naquela seção do lado de lá. Recebedoria, parece.

– O Araújo. Ele disse isso, é? Pois olhe: volte lá e diga-lhe para deixar de ser besta. Pode dizer que fui eu que falei. O Araújo sempre se metendo a entendido!

– Mas e o ofício? Não tenho nada com essa briga, vamos fazer logo o ofício.

– Impossível: tem de dar entrada no protocolo.

Saindo dali, em vez de ir ao protocolo, ou ao Araújo para dizer-lhe que deixasse de ser besta, o honesto cidadão dirigiu-se ao guichê onde recebera o dinheiro, fez da nota de cem cruzeiros uma bolinha, atirou-a lá dentro por cima do vidro e foi-se embora.
Fernando Sabino

quinta-feira, março 22

Servido?

Ler e equilibrar

Aprender a ler

Tive muita dificuldade em aprender a ler. Não me parecia lógico que a letra "m" se chamasse "éme" e, no entanto, com a vogal seguinte não se dissesse "éme" e sim "ma". Era-me impossível ler assim. Por fim, quando cheguei ao Montessori, a professora não me ensinou os nomes mas sim os sons das consoantes.

Buenas noches, buena lectura (ilustración de Ilya Green)
Ilya Green
Assim pude ler o primeiro livro que encontrei numa arca poeirenta da arrecadação da casa. Estava descosido e incompleto, mas absorveu-me de uma forma tão intensa que o namorado da Sara, ao passar, deixou cair uma premonição aterradora: «Caramba!, este menino vai ser escritor».

Dito por ele, que vivia de escrever, causou-me uma grande impressão. Passaram vários anos antes de saber que o livro era «As Mil e Uma Noites». O conto de que mais gostei – um dos mais curtos e o mais simples que li — continuou a parecer-me o melhor para o resto da minha vida, embora agora não esteja seguro de que fosse lá que o li nem ninguém me tenha podido esclarecer.

O conto é este: um pescador prometeu a uma vizinha oferecer-lhe o primeiro peixe que pescasse se ela lhe emprestasse um chumbo para a sua rede e, quando a mulher abriu o peixe para o frigir, tinha dentro um diamante do tamanho de uma amêndoa.

Gabriel García Márquez, "Viver para Contá-la"

Cheiro de novo

Livro sublime

أَلَمْ نَشْرَح لَكَ صَدْرَك ﴾اللهم بعُمق هذه الآيه ،إشرح صدورنا وأرح قلوبنا ،وأزل همومنا يارب ،إنك على كل شيء قدير ..❤️
Na elegante tradução turca, devida ao brilhante Lami, dos Doze Perfumes da Amizade, de Djami — obra na qual o grande poeta persa expõe a história dos santos —, está escrito que no ateliê de Djahan Xá, soberano da Horda do Carneiro Negro, o famoso Sheik Ali, de Tabriz, havia ilustrado um magnífico exemplar de Khosrow e Shirin. Pelo que me disseram, nesse lendário manuscrito, ao qual o grande mestre dedicou onze anos da sua existência, Sheik Ali dava mostra de tanto engenho e arte, pintara tão esplêndidas imagens que, entre os grandes nomes da pintura antiga, somente Bihzad teria podido igualá-lo. Djahan Xá compreendeu, antes mesmo de a maravilhosa obra ser concluída, que logo iria possuir um livro sublime, único no mundo. Mas Djahan Xá vivia num temor e numa inveja perene do jovem soberano da Horda do Carneiro Branco, Hassan, o Alto, a quem tinha como seu arquiinimigo. E logo pressentiu que, se seu prestígio aumentaria imensamente depois que esse livro fosse terminado, sempre poderia ser realizada uma versão superior para Hassan do Carneiro Branco. Sendo um desses homens invejosos que estragam a sua felicidade martirizando-se com a idéia de que outro também pode vir a ser feliz, o Carneiro Negro Djahan Xá deu de cismar que, se o seu prodigioso miniaturista fizesse uma cópia do livro, ou até uma versão melhor, esta seria necessariamente para seu arquiinimigo, o Carneiro Branco Hassan, o Alto. Assim, para evitar que qualquer outro, além dele, possuísse aquela obra magnífica, Djahan Xá mataria o mestre miniaturista Sheik Ali, assim que ele concluísse a obra. Mas uma bela circassiana pertencente a seu harém, ouvindo seu bom coração, observou que bastava sacrificar a visão do mestre. Djahan Xá acatou essa boa idéia, que revelou a seus acólitos, e o boato logo chegou aos ouvidos de Sheik Ali. Mas este nem sequer cogitou de fugir para Tabriz, deixando o livro incompleto, como teria feito qualquer pintor medíocre. Tampouco recorreu ao subterfúgio de trabalhar mais lentamente em sua obra ou de enfear sua pintura, para evitar que ficasse perfeita e, com isso, escapar de ter os olhos furados. Ao contrário, passou a trabalhar com maior ardor, fé e concentração. Agora, na casa em que vivia recluso, começava a trabalhar bem cedinho, logo depois da prece matinal, e continuava a pintar noite adentro, à luz de vela, os mesmos cavalos, os mesmos ciprestes, os mesmos amantes, dragões e belos príncipes, até jorrarem lágrimas amargas dos seus olhos avermelhados. A maior parte do tempo, ele ficava dias a fio olhando para a mesma imagem pintada por um dos antigos grandes mestres de Herat e fazendo numa folha posta ao lado uma cópia exata dela, sem olhar para o papel. Quando por fim terminou a obra destinada a Djahan Xá, o Carneiro Negro, o velho pintor, como previsto, depois de ter sido coberto de elogios e de moedas de ouro, teve os dois olhos furados com uma comprida agulha usada para prender as plumas no turbante. Sheik Ali ainda sofria enormemente, quando partiu de Herat para se pôr a serviço do Carneiro Branco, Hassan, o Alto. “Estou cego, é verdade”, disse a este, “mas guardo na memória todas as maravilhas daquele manuscrito que iluminei nestes últimos onze anos, lembro-me de cada traço de cálamo, de cada pincelada que dei, e minha mão é capaz de reproduzi-los todos de cor. Grande Xá, posso ilustrar para o senhor o mais belo livro de todos os tempos. Meus olhos não se distrairão mais com as imundícies deste mundo e poderei pintar de memória todas as glórias de Alá em sua mais pura forma.” Hassan, o Alto, acreditou no grande mestre miniaturista, que realizou de memória para o Carneiro Branco, conforme se comprometera, o mais belo livro já feito. Todos sabem que foi a força espiritual proporcionada por este novo livro que permitiu a Hassan, o Alto, vencer o Carneiro Negro e matar seu rival, Djahan Xá, após a grande derrota que lhe infligiu na localidade de Mil Lagos. Essa obra-prima, entre tantas outras que Sheik Ali havia produzido para a biblioteca de Djahan Xá, passou a fazer parte das coleções do tesouro otomano quando o sempre triunfador Hassan, o Alto, foi derrotado na Batalha dos Pastos, pelo sultão Mehmet Cã, o Conquistador, descanse em paz. Os que sabem ver, verão e saberão.
Ohran Pamuk, "Meu Nome é Vermelho"

quarta-feira, março 21

Em qualquer canto se lê

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O boi velho

Uma das coisas mais ingênuas e comoventes da vida do Barão do Rio Branco era o seu sonho de fazendeiro. Homem nascido e vivido em cidade, traça de bibliotecas, urbano até a medula, cada vez que uma coisa o aborrecia em meio às batalhas diplomáticas, seu desabafo era o mesmo, em carta a algum amigo: “Penso em largar tudo, ir para São Paulo, comprar uma fazenda de café, me meter lá para o resto da vida…”

Nunca foi, naturalmente; mas viveu muito à custa desse sonho infantil, que era um consolo permanente.

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Por que não confessar que agora mesmo, neste último carnaval, visitando a fazenda de um amigo, eu, pela décima vez, também não me deixei sonhar o mesmo sonho? Com fazenda não, isso não sonhei; os pobres têm o sonho curto; sonhei com o mesmo que sonham todos os oficiais administrativos, todos os pilotos de aviação comercial, todos os desenhistas de publicidade, todos os bichos urbanos mais ou menos pobres, mais ou menos remediados: pegar um dinheirinho, comprar um sítio jeitoso, ir melhorando a casa e a lavoura, vai ver que no primeiro ano dava para se pagar, depois quem sabe daria uma renda modesta, mas suficiente para uma pessoa viver sossegada; com o tempo comprar, talvez mais uns alqueires…

Meu pai foi durante algum tempo sitiante, minha mãe era filha de fazendeiro, meus tios eram todos da lavoura… Mas que brasileiro não é mais ou menos assim, não guarda alguma coisa da roça e não tem a melancólica fantasia, de vez em quando, de voltar?

Aqui estou eu, falso fazendeiro, montado no meu cavalo, a olhar minhas terras. Chego até o curral, um camarada está ordenhando as vacas. Suas mãos hábeis fazem cruzar-se dois jatos finos de leite que se perdem na espuma alva do balde. Parece tão fácil, sei que não é. Deixo-me ficar entre os mugidos e o cheiro de estrume, assisto à primeira aula de um boizinho que estão experimentando para ver se é bom para carro. Seu professor não é o carreiro que vai tocando as juntas nem o pretinho candeeiro que vai na frente com a vara: é um outro boi, da guia, que suporta com paciência suas más-criações, obrigando-o a levantar-se quando se deita de pirraça, arrasta-o quando é preciso, não deixa que ele desgarre, ensina-lhe ordem e paciência.

No coice há um boi amarelo que me parece mais bonito que os outros. O carreiro explica que aquele é seu melhor boi de carro, mas tem inimizade àquele zebu branco vindo de Montes Claros, seu companheiro de canga; implica aliás com todos esses bois brancos vindos de Montes Claros. O caboclo sabe o nome, o sestro, as simpatias e os problemas de cada boi, sabe agradar a cada um com uma palavra especial de carinho, sabe ameaçar um teimoso – “Mando te vender para o corte, desgraçado!” – com seriedade e segurança.

Ah, não dou para fazendeiro; sinto-me um boi velho, qualquer dia um novo diretor de revista acha que já vou arrastando devagar demais o carro de boi de minha crônica, imagina se minhas arrobas já não valem mais que meu serviço, manda-me vender para o corte…

Rubem Braga

terça-feira, março 20

Alien

Prefeitura multa barraca de praia por... distribuir livros de graça

A barraca 37 da Praia do Leme, no Rio, foi multada pela prefeitura em R$ 360 por... distribuir livros de graça. Também foi ameaçada de cassação da licença.
O crime dos livros
Era iniciativa do embaixador Jerônimo Moscardo, ministro da Cultura de Itamar.
Ancelmo Gois

Mundo de aventura

Anti-biblioteca

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Pouco tempo depois da morte de Eduardo Prado Coelho, a Casa Fernando Pessoa organizou uma homenagem ao crítico e professor, em que amigos, conhecidos e admiradores liam excertos ou pequenos textos da sua autoria. Na ocasião, escolhi uma crónica que tinha que ver com o facto de uma biblioteca só ser realmente uma coisa interessante quando existem nela tantos livros não lidos como livros lidos. (Se pensarmos bem, os livros lidos que não sejam obras de consulta são, afinal, os mais inúteis que lá estão…) Foi também esta ideia que encontrei recentemente num artigo de Jessica Stillman sobre o facto de nunca nos devermos sentir culpados por nas nossas estantes haver tantos volumes não lidos. A autora do artigo cita, de resto, o autor e estatístico Nassim Nicholas Taleb, que chama ao conjunto destes livros não lidos uma «anti-biblioteca» e diz que todos precisamos de uma para nos lembrar constantemente de tudo o que ainda não sabemos (Umberto Eco também dizia isto). A anti-biblioteca, ao que parece, vai crescendo com a idade do dono e, quanto mais conhecimentos este adquire, mais livros não lidos acumulará. Às tantas, esses livros não lidos (tantos, tantos) vão parecer até ameaçadores, mas o melhor é não nos sentirmos culpados, porque a nossa biblioteca, segundo o artigo, nunca deve ser um mostruário do que lemos que acene aos outros a nossa cultura, mas um repositório daquilo que em algum momento nos despertou curiosidade e interesse e quisemos – ou ainda queremos – saber. Gosto da ideia.

segunda-feira, março 19

Chegando o café!

Hora de leer: ¿qué libro degustamos hoy? (ilustración de Noemí Villamuza)
 Noemí Villamuza

Noites de junho, noites de outrora

Junho acabou e eu nem sofri com isso. Sei que alguns lugares as festas ainda teimam em sobreviver, mais por vício de calendário e pesquisa mercadológica do que por necessidade.

Considero obscena a decoração que as lojas comerciais promovem em nome de uma tradição que não mais existem, as bandeirinhas de papel fino, os balões armados com arame e plástico, as fogueiras de mentirinha, movidas a ventilador. No adro de algumas igrejas, também há movimento, mas sem empolgação, lucro das barraquinhas mudará as telhas quebradas dos templos, alguns deles aos pedaços.

Não sei como as coisas se passam em outros sítios. Aqui, no Rio, é uma calamidade, os jardins de infância faturam por fora em nome dos santos juninos, e os pais são obrigados a gastar os tubos com fantasias caipiras que as crianças sem entender e sem amar. Até o presidente da republica bota na cabeça um chapéu de palha em frangalhos e convida os ministros para um quentão oficial geralmente substituído por uísque 12 anos.

Da antiga e bonita tradição das festas de Santo Antônio e São João não sobrou nada, apenas a referencia no calendário e a advertência anual das autoridades a respeito de os balões e fogos.

Pois foi por aí que a festa acabou. Reconheço os motivos que obrigaram o governo, em seus diferentes níveis, a proibir os balões. Mas que diabos na minha infância, o céu ficava pintado de balão-como lembra a marchinha de Assis Valente. As casas eram mais frágeis, mais espaçadas, havia matagais em abundancia na paisagem e mesmo assim os incêndios eram poucos.

Que me lembre nunca vi incêndio provocado por balão, embora meu pai, nos anos de infância, fosse famoso baloeiro entre os baloeiros mais famosos. Foi talvez a única arte em que se distinguiu,nas demais foi um desastre.

Clarence H. White, American, 1871–1925 Place made: Maine, United States Maynard and Lewis White, Maine, ca. 1907–1908 Platinum print Fuente:rivesveronique
Clarence H. White

Os preparativos começavam no mês de maio, as resmas de papel fino sueco, era o melhor e o mais resistente, de cores mais cintilantes e duradouras. Os balões se amontoavam pelas salas e quartos, pendurados em varas, ganchos, em cima dos armários, deles saia um cheiro de cola de farinha de trigo e do papel importado. Ali eles aguardavam a noite mágica em que subiriam ao céu.

Murchos, coloridos e disformes, pareciam monstruosas fantasias de palhaços, sem alma, sem chama, à espera do momento em que entrariam em cena , no imenso espaço da noite de junho.

Mas dia 13 (Santo Antônio) ou dia 24 (São João), eles se erguiam, iluminados, varando espaço majestosamente, enquanto aqui embaixo ficávamos, ao redor da fogueira, olhando atônitos aquela beleza que subia, frágil e poderosa. Eram enormes os balões e belos.

Lá distante, da sala onde funcionava a primeira radio vitrola que meu pai comprara na casa Edison, provavelmente a prazo, vinha a marchinha de Assis Valente na voz de Carlos Galhardo. “Cai, cai balão/ não deixa o vento te levar/ quem sobe muito/ cai depressa sem voar/ e a ventania/ de tua queda vai zombar/ cai, cai balão/não deixa o vento te levar ”

Mas os ventos levavam os balões e eles sumiam na imensa enseada da noite. Mais um pouco e as fogueiras ficavam reduzidas a cinza, onde se assavam batatas-doce e roletes de cana. Enquanto isso os balões voavam pela madrugada, silenciosos, buchas apagadas. Manoel Bandeira tem versos pungentes sobre os balões apagados das madrugadas, no poema que foi o primeiro que entendi e amei. (“Profundamente”).

Vivi a mesma experiência: acordava no meio da noite e pensava em todos os que estavam dormindo, profundamente, e de repente um balão apagado passava em silêncio pela minha janela, vindo de longe, cansado sem gloria, cumprindo seu destino de balão. Todos estavam dormindo, menos eu, vigiando o céu, esperando que um deles viesse cair em nosso quintal. Alvoroçado acordava meu pai e íamos juntos e orgulhosos apanhar a dádiva que os céus nos mandara.

Pois é! As fogueiras acabaram mesmo. As noites de junho eram as mais frias do ano. E as festas também estão acabando. Mas não posso deixar de lembrar os balões que nunca me libertaram do seu legado de tristeza, mansidão e fragilidade.

Carlos Heitor Cony

domingo, março 18

Ouça o canto dos pássaros

Books can fly, we all know that.  [previous pinner's caption]:

Sol na sala

Um poema com homem, jornal, cão e sofá. Uma cena comum que se desenrola enquanto os personagens do mundo se matam.

***

CEZANNE,1866 - Louis-Auguste Cézanne, Père de l'Artiste lisant L'Evénement (Washington) - 0 -  TAGS/ details détail détails detalles "peinture 19e" "19th-century paintings" "French paintings" Museum musée famille people pose model portrait portraits face faces visage family famille man homme father daylynews newspaper journal quotidien reader reading lecteur lecture fauteuil armchair old elder aîné Etats-Unis USA United-States "Nature morte" still-life "still life"
Louis-Auguste Cézanne 
Como toda manhã
o homem lê o jornal
sentado no sofá

Como toda manhã
o cão espera
ao lado do sofá

O mundo de sempre está
no jornal esta manhã –
os mesmos fatos
as mesmas disputas
entre as mesmas facções rivais
os mesmos estupros e assassinatos
hediondos todos
alguns mais

O cachorro sabe que logo
o homem fechará o jornal
e como toda manhã
irá providenciar sua ração

É sempre assim mas hoje não –
o tempo corre e o cão
começa a se tornar impaciente
ameaça gemer
mas o homem não se move

O jornal continua aberto em suas mãos
desliza agora um pouco para o colo
e é como se o homem
lendo uma notícia boa afinal
tivesse se concedido
dormir um pouco
reconciliar-se com o mundo
como se já não houvesse
estupros assassinatos
peste fome
suplícios danação
jovens vozes caladas por balas
porque ousaram
colocar a esperança
entre as palavras
de sua canção

Como se o mundo
fosse só um homem
cochilando no sofá
observado pela fome
agora aflita do cão.
Raul Drewnick

Leitura ao luar

A comer dióspiros aveludados

Para Marielle Franco, assassinada no Rio. Quem será amanhã?

LISBOA – Amigos muito amados tinham me recomendado um pequenino restaurante na Rua das Flores. Depois de marcação cerrada nos encaixamos e foi magnífico termos sido entregues às mãos de Carminda (na cozinha), José no balcão e Susana (a filha) no salão. Este é um “dos segredos mais mal guardados de Lisboa”, diz Tiago Pais, que sabe tudo sobre as tascas na cidade. Adorável o bacalhau à lagareira, os croquetes de vitela, o coelho à caçador e o arroz de leite. Feliz, de repente me veio uma questão: por que havia algo familiar?

Logo descobri. Era a rua. A Tragédia da Rua das Flores é um romance póstumo de Eça de Queirós, história de um incesto, escrito em 1877, mas publicado somente 25 anos depois que Eça morreu. Eu olhava para os prédios e queria saber de que janela teria Genoveva, a personagem, saltado ao saber que se apaixonara e transara com o próprio filho.

Aos sábados, às 10 horas, grupos saem da Praça Luís de Camões seguindo para os itinerários das personagens de Eça. Onde viveram, amaram, sofreram. Tome uma ginginha, coma um pastel de nata e siga o professor David Santos, “queirosiano” de primeira.

Outro dia, assim que pagamos a conta na tasca Toma lá, Dá Cá, onde fomos levados por Bizuka e Zwy, a garçonete conferiu o dinheiro, apanhou várias moedas e sorrindo devolveu algumas: “Obrigada, não é preciso deixar tanto”. Ficamos estupefatos. Não há outra palavra. Em momentos assim percebemos que vivemos em um país selvagem. Lisboa ferve com turistas, mas há uma vantagem, não são, por enquanto, aquelas multidões devastadoras seguindo guias com guarda-chuvas colorido, nem atravancam calçadas, superlotam os museus. Os turistas em Portugal estão na quantia ideal para o comércio, os restaurantes e bares e o consumo de grifes. E para a economia.

Pegamos a temporada de saldos e descontos e me admirei, não vi as palavras off, sale e discount nas vitrines, ou montras como dizem. Tudo em português mesmo. O Banco de Portugal divulgou que em fevereiro os turistas deixaram no país ¤ 42 milhões por dia.

Tive sorte, na semana em que cheguei, a caminho de Póvoa de Varzim, a revista Time Out colocou nas bancas uma edição especial dedicada à reconquista da Baixa, ou seja o território que vai do Terreiro do Paço ao Rossio, onde, asseguram, “resiste a maior rede de lojas históricas de Lisboa e se preserva um dos melhores circuitos de tascas e balcões para almoçar à lisboeta”. 

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Ler Devagar é gira 
Há outra coisa fundamental que dá inveja. Se você coloca o pé na faixa, os carros param, você atravessa tranquilo. Em Póvoa de Varzim, ao norte, não vi um único semáforo. Essas coisas vêm com a educação, mas sabemos que aqui no Brasil as verbas para ensino foram diminuídas, para aumentar as do asfalto em nossa cidade e as campanhas políticas de políticos obscenos. 

Algumas dicas da Time Out: se você tem interesse, como eu, em armações de óculos diferenciadas passe pela Optica Jomil, Rua do Ouro 249. Há peças de ¤ 90 e também algumas de 750 a mil. Como o meu interesse são chapéus, indico dois endereços. A Chapelaria na Rua do Comércio 16 e a Azevedo, na Rua na Praça D. Pedro IV, 69. Mudam mesmo a cabeça da gente. Tostas a metro? Procure o Café Penta, na Rua do Ouro, 115. Quer uma bela vista da Baixa? Vá ao número 276 da Rua dos Fanqueiros, suba ao último andar e contemple.

Imaginem se um escritor não vai a uma livraria? A Bertrand do Chiado, fundada em 1732, é considerada a mais antiga do mundo. Nos fundos ainda há um trecho de uma parede original. Agora, adoro mesmo passar o domingo entre as prateleiras vertiginosas da Ler Devagar, na LX Factory, conjunto de fábricas de 1846 abandonado e depois restaurado e hoje ponto descolado, onde encontrei o romance Relógio Sem Ponteiros, de Carson Mccullers, de 1961, que procurava havia 20 anos. A LX fica na margem do rio, embaixo da monumental ponte 25 de Abril. Só vendo para acreditar o que é este lugar.

arde fresca, no Mercado de Ouriques escolhi um dióspiro (*) que me parecia laqueado de tão vermelho, a polpa um creme aveludado e comecei a caminhar degustando devagar. Lisboa é ideal para circular a pé. Eu tinha vontade de trazer o prefeito de São Paulo, o demagogo da limpeza, para ver o que é limpeza pública e calçamento. Dá gosto caminhar, é fácil caminhar. No final de semana, vá ao Cais Sodré, olhando cada parede azulejada, cada portal, janela, terraço, cafés de uma portinhola. Pegue a balsa (compre ida e volta), atravesse para Cacilhas. Ao descer, pegue a primeira rua à direita e entre no restaurante A Cabrinha. Além do cabrito que se desmancha, vocês encontram tudo o que o mar produz de bom, de lagostas a camarões, mariscos, ostras, caranguejos, patolas, percebes, lulas, polvos, mexilhões, sapateiras, sardinhas. Faça sua reserva ou prepare-se para esperar, tomando uma bebida refrescante e comendo camarões à provençal.

* Não vá ao dicionário: Dióspiro é o nosso caqui.