Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sábado, setembro 12
Pensar é transgredir
Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
Lya Luft
Os justos
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, “A Cifra”
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, “A Cifra”
Como se faz um homem
Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.
Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro.
Algumas árvores haviam ali crescido com enraizado vagar até atingir o alto das próprias copas e o limite de seu destino. Outras já haviam saído da terra em bruscos tufos. Os canteiros tinham uma ordem que procurava concentradamente servir a uma simetria. Se esta era discernível do alto da sacada do grande hotel, uma pessoa estando ao nível dos canteiros não descobria essa ordem; entre os canteiros o caminho se pormenorizava em pequenas pedras talhadas.
No entanto, de dia a paisagem era outra, e os grilos vibrando ocos e duros deixavam a extensão inteiramente aberta, sem uma sombra. Enquanto o cheiro era o seco cheiro de pedra exasperada que o dia tem no campo. Ainda nesse mesmo dia Martim ficara de pé na sacada procurando, com inútil obediência, não perder nada do que se passava. Mas o que se passava não era muito: antes de começar a estrada que se perdia em suspensa poeira de sol, apenas o jardim nada mais que contemplável; compreensível e simétrico do alto da sacada; emaranhado quando se fazia parte dele – e esta lembrança o homem há duas semanas guardava nos pés com aplicação cuidadosa, conservando-a para um uso eventual.
Mas enquanto o homem dormia o carro se tornava enorme como é gigantesca uma máquina parada. E de noite o jardim era ocupado pela secreta urdidura com que o escuro se mantém, num trabalho cuja existência os vaga-lumes inesperadamente traem; certa umidade também denunciava o labor. E a noite era um elemento em que a vida, por se tornar estranha, era reconhecível.
Foi nessa noite que, atingindo o hotel vazio e adormecido, o motor do carro se sacudiu. Lentamente o escuro se pusera em movimento.
Em vez de acordar e diretamente ouvir, foi através de um sono ainda mais profundo que Martim passou para o outro lado da escuridão e ouviu o ruído que as rodas fizeram cuspindo areia seca. Depois seu nome foi pronunciado, destacado e limpo, de algum modo agradável de se ouvir. Era o alemão quem falara. No sono Martim fruiu o som do próprio nome. Em seguida o arrebatado grito de uma ave, cujas asas haviam sido espantadas na sua imobilidade, esse modo como o espanto parece com a grande alegria.
Quando o silêncio se refez dentro do silêncio, Martim adormeceu ainda mais longe. Embora no fundo do sono alguma coisa ecoasse difícil, tentando se organizar. Até que, sem nenhum sentido e livre do incômodo de precisar ser compreendido, o ruído do carro se refez na sua memória com as minúcias mais finamente discriminadas. A ideia do carro despertou um aviso suave que ele não entendeu de pronto. Mas que já espalhara pelo mundo um vago alarme, cujo centro irradiador era o próprio homem: “assim, pois, eu”, pensou seu corpo se comovendo. Continuou deitado, remotamente gozando.
Há duas semanas aquele homem viera para o hotel, encontrado no meio da noite quase sem surpresa, de tal modo a exaustão tornava tudo possível. Era um hotel vazio, só com o alemão e o criado, se criado era. E durante duas semanas, enquanto Martim recuperava as forças num sono quase ininterrupto, o carro continuara parado numa das alamedas, com as rodas enterradas na areia. E tão imóvel, tão resistente ao hábito de incredulidade do homem e ao seu cuidado em não se deixar ludibriar, que Martim terminara finalmente por considerá-lo à sua disposição.
Mas a verdade é que já naquela noite de pés cambaleantes – quando ele enfim se deixara cair meio morto numa cama verdadeira com verdadeiros lençóis – já naquele instante o carro representara a garantia de nova fuga, caso os dois homens se mostrassem mais curiosos pela identidade do hóspede. E este tombara confiante no sono como se ninguém jamais conseguisse tirar de sua firme garra, que prendia apenas o lençol, a roda imaginária de um volante.
O alemão, no entanto, nada lhe havia perguntado e o criado, se o era, mal o olhara. A relutância com que o tinham aceito não vinha da desconfiança, mas do fato do hotel não ser mais hotel havia muito tempo – há tanto tempo quanto estava inutilmente à venda, explicara-lhe o alemão, e, para não ter um ar suspeito, Martim balançara a cabeça sorrindo. Enquanto não tinham construído a estrada nova, era por ali que passavam os carros, e o casarão isolado não poderia estar melhor situado como pouso forçado para pernoites. Quando a nova estrada fora traçada e asfaltada a cinquenta quilômetros dali, desviando para longe o curso de passagem, o lugar todo morrera e não havia mais motivo de alguém vir a precisar de hotel na zona agora entregue ao vento. Mas apesar da indiferença aparente dos dois homens, a obstinada procura de segurança de Martim se ancorara naquele carro sobre o qual também as aranhas, tranquilizadas pela imobilidade envernizada, haviam executado o aéreo trabalho ideal.
Era esse carro que em plena noite se desenraizara com rouquidão.
Dentro do silêncio de novo intato, o homem agora olhou estupidamente o teto invisível que no escuro era tão alto quanto o céu. Largado de costas na cama, tentou num esforço de prazer gratuito reconstituir o ruído das rodas, pois enquanto não sentia dor era de um modo geral prazer que ele sentia. Da cama não via o jardim. Um pouco de bruma entrava pelas venezianas abertas, o que se denunciou ao homem pelo cheiro de algodão úmido e por uma certa ânsia física de felicidade que a cerração dá. Fora apenas um sonho, então. Cético, embora, ele se ergueu.
Nas trevas nada viu da sacada, e nem sequer adivinhou a simetria dos canteiros. Algumas manchas mais negras que o próprio negrume indicaram o provável lugar das árvores. O jardim não passava ainda de um esforço de sua memória, e o homem olhou quieto, adormecido. Um ou outro vaga-lume tornava mais vasta a escuridão.
Esquecido do sonho que o guiara até a sacada, o corpo do homem achou bom se sentir saudavelmente de pé: é que o ar suspenso mal alterava a escura posição das folhas. Ali, pois, deixou-se ficar, dócil, atordoado, com a sucessão de quartos desocupados atrás de si. Sem emoção aqueles quartos vazios repetiam-no e repetiam-no até se apagarem aonde o homem já não se alcançava mais. Martim suspirou dentro de seu largo sono acordado. Sem insistir demais, tentou atingir a noção dos últimos quartos como se ele próprio se tivesse tornado grande demais e espalhado, e, por algum motivo que já esquecera, precisasse obscuramente se recolher para talvez pensar ou sentir. Mas não conseguiu, e estava muito aprazível. Assim ele ficou, com o ar cortês de um homem que levou uma pancada na cabeça. Até que – como quando um relógio para de bater e só então nos adverte que antes batia – Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.
Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras se dividiram em flores ainda irresolutas – com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros se delinearam cheios, macios. O homem grunhiu aprovando: com certa dificuldade acabara de reconhecer o jardim que nessas duas semanas de sono constituíra em intervalos a sua irredutível visão.
Foi nesse momento que uma lua desfalecida perpassou uma nuvem em grande silêncio, em silêncio derramou-se sobre pedras calmas, desaparecendo em silêncio na escuridão. A cara enluarada do homem se dirigiu então para a alameda onde o Ford estaria imóvel.
Mas o carro desaparecera.
O corpo inteiro do homem subitamente despertou. Num relance astuto seus olhos percorreram a escuridão toda do jardim – e, sem um gesto de aviso, ele se virou para o quarto em leve pulo de macaco.
Nada porém se mexia no oco do aposento que de escuro se tornara enorme. O homem ficou resfolegando atento e inutilmente feroz, com as mãos avançadas para o ataque. Mas o silêncio do hotel era o mesmo da noite. E sem limites visíveis, o quarto prolongava no mesmo exalar-se a escuridão do jardim. Para se despertar o homem esfregou várias vezes os olhos com o dorso de uma das mãos enquanto deixava a outra livre para a defesa. Foi inútil sua nova sensibilidade: nas trevas os olhos totalmente abertos não viram sequer as paredes.
Era como se o tivessem depositado solto num campo. E enfim ele acordasse de um longo sonho do qual haviam feito parte um hotel agora desmanchado num chão vazio, um carro apenas imaginado pelo desejo, e sobretudo tivessem desaparecido os motivos de um homem estar todo expectante num lugar que também este era expectativa.
De real só lhe restou a sagacidade que o fizera dar um pulo para indistintamente se defender. A mesma que o levava agora a raciocinar com inesperada lucidez que se o alemão tivesse ido denunciá-lo levaria algum tempo para ir e voltar com a Polícia.
O que ainda o deixava temporariamente livre – a menos que o criado tivesse sido encarregado de vigiá-lo. E nesse caso o criado, se o era, estaria neste mesmo instante à porta daquele mesmo quarto com o ouvido atento ao menor movimento do hóspede.
Assim pensou ele. E findo o raciocínio, ao qual chegara com a maleabilidade com que um invertebrado se torna menor para deslizar, Martim mergulhou de novo na mesma ausência anterior de razões e na mesma obtusa imparcialidade, como se nada tivesse a ver consigo mesmo, e a espécie se encarregasse dele. Sem um olhar para trás, guiado por uma escorregadia destreza de movimentos, começou a descer pela sacada apoiando pés inesperadamente flexíveis na saliência dos tijolos. Na sua atenta remotidão o homem sentia perto da cara o cheiro malévolo das heras quebradas como se nunca o fosse esquecer. Sua alma agora apenas alerta não distinguia o que era ou não importante, e a toda operação ele deu a mesma consideração escrupulosa.
Num pulo macio, que fez o jardim asfixiar-se em suspiro retido, ele se achou em pleno centro de um canteiro – que se arrepiou todo e depois se fechou. Com o corpo advertido o homem esperou que a mensagem de seu pulo fosse transmitida de secreto em secreto eco até se transformar em longínquo silêncio; seu baque terminou se espraiando nas encostas de alguma montanha. Ninguém ensinara ao homem essa conivência com o que se passa de noite, mas um corpo sabe.
Ele esperou um pouco mais. Até que nada aconteceu. Só então tateou com minúcia os óculos no bolso: estavam inteiros. Suspirou com cuidado e finalmente olhou em torno. A noite era de uma grande e escura delicadeza.
Clarice Lispector, "A maça no escuro"
Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro.
Algumas árvores haviam ali crescido com enraizado vagar até atingir o alto das próprias copas e o limite de seu destino. Outras já haviam saído da terra em bruscos tufos. Os canteiros tinham uma ordem que procurava concentradamente servir a uma simetria. Se esta era discernível do alto da sacada do grande hotel, uma pessoa estando ao nível dos canteiros não descobria essa ordem; entre os canteiros o caminho se pormenorizava em pequenas pedras talhadas.
Sobretudo numa das alamedas o Ford estava parado há tanto tempo que já fazia parte do grande jardim entrelaçado e de seu silêncio.
No entanto, de dia a paisagem era outra, e os grilos vibrando ocos e duros deixavam a extensão inteiramente aberta, sem uma sombra. Enquanto o cheiro era o seco cheiro de pedra exasperada que o dia tem no campo. Ainda nesse mesmo dia Martim ficara de pé na sacada procurando, com inútil obediência, não perder nada do que se passava. Mas o que se passava não era muito: antes de começar a estrada que se perdia em suspensa poeira de sol, apenas o jardim nada mais que contemplável; compreensível e simétrico do alto da sacada; emaranhado quando se fazia parte dele – e esta lembrança o homem há duas semanas guardava nos pés com aplicação cuidadosa, conservando-a para um uso eventual.
Por mais atenção, no entanto, o dia era inescalável; e como um ponto desenhado sobre o mesmo ponto, a voz do grilo era o próprio corpo do grilo, e nada informava. A única vantagem do dia é que na extrema luz o carro se tornava um pequeno besouro que facilmente alcançaria a estrada.
Mas enquanto o homem dormia o carro se tornava enorme como é gigantesca uma máquina parada. E de noite o jardim era ocupado pela secreta urdidura com que o escuro se mantém, num trabalho cuja existência os vaga-lumes inesperadamente traem; certa umidade também denunciava o labor. E a noite era um elemento em que a vida, por se tornar estranha, era reconhecível.
Foi nessa noite que, atingindo o hotel vazio e adormecido, o motor do carro se sacudiu. Lentamente o escuro se pusera em movimento.
Em vez de acordar e diretamente ouvir, foi através de um sono ainda mais profundo que Martim passou para o outro lado da escuridão e ouviu o ruído que as rodas fizeram cuspindo areia seca. Depois seu nome foi pronunciado, destacado e limpo, de algum modo agradável de se ouvir. Era o alemão quem falara. No sono Martim fruiu o som do próprio nome. Em seguida o arrebatado grito de uma ave, cujas asas haviam sido espantadas na sua imobilidade, esse modo como o espanto parece com a grande alegria.
Quando o silêncio se refez dentro do silêncio, Martim adormeceu ainda mais longe. Embora no fundo do sono alguma coisa ecoasse difícil, tentando se organizar. Até que, sem nenhum sentido e livre do incômodo de precisar ser compreendido, o ruído do carro se refez na sua memória com as minúcias mais finamente discriminadas. A ideia do carro despertou um aviso suave que ele não entendeu de pronto. Mas que já espalhara pelo mundo um vago alarme, cujo centro irradiador era o próprio homem: “assim, pois, eu”, pensou seu corpo se comovendo. Continuou deitado, remotamente gozando.
Há duas semanas aquele homem viera para o hotel, encontrado no meio da noite quase sem surpresa, de tal modo a exaustão tornava tudo possível. Era um hotel vazio, só com o alemão e o criado, se criado era. E durante duas semanas, enquanto Martim recuperava as forças num sono quase ininterrupto, o carro continuara parado numa das alamedas, com as rodas enterradas na areia. E tão imóvel, tão resistente ao hábito de incredulidade do homem e ao seu cuidado em não se deixar ludibriar, que Martim terminara finalmente por considerá-lo à sua disposição.
Mas a verdade é que já naquela noite de pés cambaleantes – quando ele enfim se deixara cair meio morto numa cama verdadeira com verdadeiros lençóis – já naquele instante o carro representara a garantia de nova fuga, caso os dois homens se mostrassem mais curiosos pela identidade do hóspede. E este tombara confiante no sono como se ninguém jamais conseguisse tirar de sua firme garra, que prendia apenas o lençol, a roda imaginária de um volante.
O alemão, no entanto, nada lhe havia perguntado e o criado, se o era, mal o olhara. A relutância com que o tinham aceito não vinha da desconfiança, mas do fato do hotel não ser mais hotel havia muito tempo – há tanto tempo quanto estava inutilmente à venda, explicara-lhe o alemão, e, para não ter um ar suspeito, Martim balançara a cabeça sorrindo. Enquanto não tinham construído a estrada nova, era por ali que passavam os carros, e o casarão isolado não poderia estar melhor situado como pouso forçado para pernoites. Quando a nova estrada fora traçada e asfaltada a cinquenta quilômetros dali, desviando para longe o curso de passagem, o lugar todo morrera e não havia mais motivo de alguém vir a precisar de hotel na zona agora entregue ao vento. Mas apesar da indiferença aparente dos dois homens, a obstinada procura de segurança de Martim se ancorara naquele carro sobre o qual também as aranhas, tranquilizadas pela imobilidade envernizada, haviam executado o aéreo trabalho ideal.
Era esse carro que em plena noite se desenraizara com rouquidão.
Dentro do silêncio de novo intato, o homem agora olhou estupidamente o teto invisível que no escuro era tão alto quanto o céu. Largado de costas na cama, tentou num esforço de prazer gratuito reconstituir o ruído das rodas, pois enquanto não sentia dor era de um modo geral prazer que ele sentia. Da cama não via o jardim. Um pouco de bruma entrava pelas venezianas abertas, o que se denunciou ao homem pelo cheiro de algodão úmido e por uma certa ânsia física de felicidade que a cerração dá. Fora apenas um sonho, então. Cético, embora, ele se ergueu.
Nas trevas nada viu da sacada, e nem sequer adivinhou a simetria dos canteiros. Algumas manchas mais negras que o próprio negrume indicaram o provável lugar das árvores. O jardim não passava ainda de um esforço de sua memória, e o homem olhou quieto, adormecido. Um ou outro vaga-lume tornava mais vasta a escuridão.
Esquecido do sonho que o guiara até a sacada, o corpo do homem achou bom se sentir saudavelmente de pé: é que o ar suspenso mal alterava a escura posição das folhas. Ali, pois, deixou-se ficar, dócil, atordoado, com a sucessão de quartos desocupados atrás de si. Sem emoção aqueles quartos vazios repetiam-no e repetiam-no até se apagarem aonde o homem já não se alcançava mais. Martim suspirou dentro de seu largo sono acordado. Sem insistir demais, tentou atingir a noção dos últimos quartos como se ele próprio se tivesse tornado grande demais e espalhado, e, por algum motivo que já esquecera, precisasse obscuramente se recolher para talvez pensar ou sentir. Mas não conseguiu, e estava muito aprazível. Assim ele ficou, com o ar cortês de um homem que levou uma pancada na cabeça. Até que – como quando um relógio para de bater e só então nos adverte que antes batia – Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.
Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras se dividiram em flores ainda irresolutas – com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros se delinearam cheios, macios. O homem grunhiu aprovando: com certa dificuldade acabara de reconhecer o jardim que nessas duas semanas de sono constituíra em intervalos a sua irredutível visão.
Foi nesse momento que uma lua desfalecida perpassou uma nuvem em grande silêncio, em silêncio derramou-se sobre pedras calmas, desaparecendo em silêncio na escuridão. A cara enluarada do homem se dirigiu então para a alameda onde o Ford estaria imóvel.
Mas o carro desaparecera.
O corpo inteiro do homem subitamente despertou. Num relance astuto seus olhos percorreram a escuridão toda do jardim – e, sem um gesto de aviso, ele se virou para o quarto em leve pulo de macaco.
Nada porém se mexia no oco do aposento que de escuro se tornara enorme. O homem ficou resfolegando atento e inutilmente feroz, com as mãos avançadas para o ataque. Mas o silêncio do hotel era o mesmo da noite. E sem limites visíveis, o quarto prolongava no mesmo exalar-se a escuridão do jardim. Para se despertar o homem esfregou várias vezes os olhos com o dorso de uma das mãos enquanto deixava a outra livre para a defesa. Foi inútil sua nova sensibilidade: nas trevas os olhos totalmente abertos não viram sequer as paredes.
Era como se o tivessem depositado solto num campo. E enfim ele acordasse de um longo sonho do qual haviam feito parte um hotel agora desmanchado num chão vazio, um carro apenas imaginado pelo desejo, e sobretudo tivessem desaparecido os motivos de um homem estar todo expectante num lugar que também este era expectativa.
De real só lhe restou a sagacidade que o fizera dar um pulo para indistintamente se defender. A mesma que o levava agora a raciocinar com inesperada lucidez que se o alemão tivesse ido denunciá-lo levaria algum tempo para ir e voltar com a Polícia.
O que ainda o deixava temporariamente livre – a menos que o criado tivesse sido encarregado de vigiá-lo. E nesse caso o criado, se o era, estaria neste mesmo instante à porta daquele mesmo quarto com o ouvido atento ao menor movimento do hóspede.
Assim pensou ele. E findo o raciocínio, ao qual chegara com a maleabilidade com que um invertebrado se torna menor para deslizar, Martim mergulhou de novo na mesma ausência anterior de razões e na mesma obtusa imparcialidade, como se nada tivesse a ver consigo mesmo, e a espécie se encarregasse dele. Sem um olhar para trás, guiado por uma escorregadia destreza de movimentos, começou a descer pela sacada apoiando pés inesperadamente flexíveis na saliência dos tijolos. Na sua atenta remotidão o homem sentia perto da cara o cheiro malévolo das heras quebradas como se nunca o fosse esquecer. Sua alma agora apenas alerta não distinguia o que era ou não importante, e a toda operação ele deu a mesma consideração escrupulosa.
Num pulo macio, que fez o jardim asfixiar-se em suspiro retido, ele se achou em pleno centro de um canteiro – que se arrepiou todo e depois se fechou. Com o corpo advertido o homem esperou que a mensagem de seu pulo fosse transmitida de secreto em secreto eco até se transformar em longínquo silêncio; seu baque terminou se espraiando nas encostas de alguma montanha. Ninguém ensinara ao homem essa conivência com o que se passa de noite, mas um corpo sabe.
Ele esperou um pouco mais. Até que nada aconteceu. Só então tateou com minúcia os óculos no bolso: estavam inteiros. Suspirou com cuidado e finalmente olhou em torno. A noite era de uma grande e escura delicadeza.
Clarice Lispector, "A maça no escuro"
A célebre rã saltadora do Condado de Calaveras
Atendendo ao pedido de um amigo, que me escrevera de Leste, fui visitar Simão Wheeler, bom homem, sem outro defeito que urna grande loquacidade. Ia pedir-lhe notícias de um tal Leônidas W. Smiley, amigo de meu amigo, como este me recomendara. Cumprida a missão, venho relatar aqui o resultado da visita. Tenho uma vaga desconfiança de que Leônidas W. Smiley não passa de um mito e de que meu amigo não o conheceu senão em pensamento. Penso que ele tenha feito apenas conjeturas, pois falando ao velho Simão Wheeler, este naturalmente se lembraria do infame Jim Smiley, aborrecendo-me com alguma incrível reminiscência dele, não somente longa e fastidiosa, como também inútil para mim. Se foi essa a intenção, não há dúvida de que foi bem sucedido.
Encontrei Simão Wheeler dormindo confortavelmente, junto ao fogão da sala comum, numa velha e arruinada taverna do antigo campo mineiro do Anjo. Observei que ele era gordo e calvo, possuindo uma expressão de urbanidade insinuante e de simplicidade tranquila na fisionomia. Levantou-se e me deu os bons dias. Disse-lhe então que um dos meus amigos me encarregara de lhe fazer algumas perguntas acerca de um querido companheiro de infância chamado Leônidas W. Smiley — o Reverendo. Leônidas W. Smiley, jovem ministro evangélico que, segundo ele ouvira dizer, residira durante algum tempo no campo do Anjo. Acrescentei que se Mr. Wheeler me pudesse dizer alguma coisa sobre ele, os meus agradecimentos e os do meu amigo seriam eternos.
Havia aqui um indivíduo conhecido pelo nome de Jim Smiley, no inverno de 1849 — ou talvez na primavera de 50 — não posso recordar exatamente, pois o que me faz crer numa ou noutra data é a lembrança de que o grande canal ainda não estava concluído quando ele apareceu pela primeira vez. Mas, em 49 ou 50, o fato é que ele era o homem mais notável que se pode imaginar. A propósito de qualquer coisa, estava sempre disposto a fazer uma aposta. Era a sua mania. Se não podia levar o adversário para o lado contrário, mudava de opinião. O que ele queria era apostar. Tinha sorte extraordinária: ganhava sempre. Não se podia falar no objeto mais isolado sem que o tal camarada logo sugerisse uma apostazinha, pró ou contra. Se se tratava de uma corrida de cavalos o nosso homem enriquecia ou ficava a nenhum. Se era de luta de cães, apostava; se uma briga de galos, apostava; se estavam dois pássaros pousados numa árvore, queria logo apostar qual dos dois voaria primeiro; se havia reunião no campo era certo apresentar-se a apostar pelo Cura Walker, que ele afirmava ser o melhor pregador da redondeza.
Ainda vivem inúmeras pessoas que o conheceram e que lhe poderão contar muitos casos sobre ele. O fato é que ninguém jamais notou a mínima diferença no seu estado de ânimo: estava sempre pronto a fazer uma aposta. Uma vez a mulher do Cura Walker esteve muito doente e parecia que não se salvaria. Certa manhã este veio ao campo e Smiley perguntou-lhe por ela. Respondeu-lhe o cura que ela estava consideravelmente melhor — graças à infinita misericórdia do Senhor e que se sentia já tão forte que, com o fervor da Providência, em breve estaria completamente restabelecida. Smiley, sem pensar no que dizia, retrucou-lhe:
Este mesmo Smiley possuía uma égua a que os rapazes — por brincadeira, está claro — chamavam “Lerdona”. A verdade é que ele ganhava seus bons cobres com ela, apesar da sua lerdice e das suas doenças, pois estava sempre. com asma, disenteria, tísica ou qualquer outra coisa parecida. Nas corridas costumavam dar-lhe cem, duzentos ou trezentos metros de vantagem e assim mesmo passavam-lhe adiante sem dificuldade. Mas no fim da carreira ela sempre se excitava, enfurecendo-se e o resultado é que chegava — à custa de coices, corcoveios, de muita poeira levantada e muitos rinchos e roncos — à meta quase sempre em primeiro lugar e pela diferença exatamente de uma cabeça.
Smiley possuía, também, um pequeno buldogue tão insignificante que ao vê-lo não se podia imaginar valesse coisa alguma. Chegava mesmo a parecer um cão que vivia a vaguear à espera de uma oportunidade para roubar qualquer coisa. Bastava, porém, haver dinheiro em lance para que o cão se tomasse outro. O queixo alongava-se como o castelo de proa de um vapor, os dentes brilhantes, ferozes e unidos como as muralhas de uma fortaleza. Qualquer cão podia agarrá-lo e mordê-lo à vontade, girando-o para todos os lados, até pô-lo em fuga. Andrew Jackson — assim se chamava o “bull-dog” — mantinha-se firme, sem denotar surpresa alguma, até que as apostas se desdobrassem ou multiplicassem. Quando já não havia mais dinheiro para ser jogado, ele, num salto imprevisto, agarrava o adversário pela junta da pata direita e, fincando-lhe os dentes, suspendia-o como que por brincadeira, assim permanecendo, se fosse preciso, um ano inteiro. Smiley ganhava sempre com ele. Um dia, porém, trouxeram um cão que não possuía a pata direita. Quando as coisas estavam no ponto desejado e em apostas todo o dinheiro que havia, Andrew Jackson atirou-se ao ponto predileto, mas viu, num relance, que fora logrado. Parou surpreendido e desorientado, sem fazer o menor esforço para vencer. Dirigiu a Smiley um olhar cheio de lástima, como que para lhe dizer que o seu coração estava partido e que o culpado era ele, por ter colocado à sua frente um adversário sem pata direita. Soltou, depois, um longo e angustiado gemido e, estendendo-se no chão, ali soltou o último suspiro. Era um excelente cachorro o tal Andrew Jackson. Prometia vir a ter um grande nome se vivesse, pois possuía estofo para tanto. Era genial, não há dúvida; as circunstâncias é que não o favoreceram. Concordareis comigo que se requer grande talento para lutar da maneira como ele fazia. Ainda fico triste quando me lembro do seu último combate e do modo como ele terminou. Continuemos, porém.
O tal Smiley possuía galos de briga, gatos bravos e tudo o mais que se pode imaginar no gênero. Ninguém podia permanecer quieto perto dele, pois não era possível apresentar-lhe nenhum objeto de aposta que ele não tivesse logo outro para opor.
Um dia Smiley apanhou uma rã e levando-a para casa nos disse que ia domesticá-la. Durante três meses não fez outra coisa senão ensiná-la a saltar. Dava-lhe. uma pancadinha atrás e logo em seguida via-se a rã dar uma ou duas voltas no ar, segundo o impulso recebido, indo cair lá adiante, sobre as patas, como um gato. Exercitou-a na arte de apanhar moscas e fez desse exercício uma prática tão constante que as moscas, por mais longe que passassem, eram logo abocanhadas. Smiley costumava dizer que às rãs faltava somente a educação e que, uma vez educadas, seria possível fazer com elas o que bem quiséssemos. Não uma, mas inúmeras vezes vi Daniel Webster — era o nome da rã — exibir as suas habilidades. Smiley dizia-lhe:
— Moscas, Daniel. moscas!
Num abrir e fechar de olhos Daniel dava um pulo, apanhava 11 moscas, e punha-se a coçar a cabeça com uma das pernas traseiras, como se não tivesse a menor ideia de ter realizado uma proeza superior a qualquer outra rã. Não há memória de se ter visto rã tão modesta e simples, levando-se em conta, está claro, os extraordinários dotes do que ela era dotada. Quando se tratava de avançar em terreno plano, dava pulos de que nenhum outro animal da sua espécie seria capaz. O salto para a frente constituía o seu forte. Neste caso Smiley apostava nela todo o dinheiro que possuía no momento. Tinha um monstruoso orgulho da sua rã, e nada mais razoável do que isso, porque pessoas que tinham viajado e visto inúmeras coisas, ao chegarem ali, ficavam boquiabertas.
Smiley guardava a rã numa gaiola e frequentemente a levava à cidade para apostas.
Um dia, um indivíduo — estranho ao lugar — vendo-o com a gaiola perguntou-lhe:
Smiley respondeu-lhe, com grande indiferença:
— Isto podia ser um papagaio ou um canário, mas não é; é simplesmente uma rã.
O outro pegou na gaiola, olhando-a por todos os lados atentamente e depois lhe disse:
— É verdade! E para que serve esse animal?
— Para que serve? Para muitas coisas. Pode bater, no salto, toda e qualquer rã do condado de Calaveras.
O outro torna a pegar na gaiola, examina-a com todo o cuidado e, restituindo-a ao dono, exclama com ar decidido:
— Já vi! E não creio que esta rã seja melhor ou pior de que qualquer outra.
— É possível, — respondeu Smiley. — Talvez o senhor entenda muito do assunto, ou talvez não entenda nada. Tenho, porém, minha opinião e aposto quarenta dólares em como esta rã será capaz de bater, no salto, qualquer outra rã do condado de Calaveras.
O outro esteve a meditar um instante depois disse com ar de tristeza:
– Pois bem: sou estrangeiro e não trago comigo nenhuma rã. Mas se tivesse uma aceitaria a aposta.
— Tudo se arranja, tudo se arranja, respondeu Smiley. Se quiser segurar a gaiola por um instante, irei buscar-lhe uma rã. O estrangeiro toma a gaiola, coloca seus quarenta dólares sobre os de Smiley e senta-se, para esperar.
Como Smiley tardasse, teve tempo para pensar sobre o caso. E imagine do que foi ele se lembrar!... Agarrou Daniel, abriu-lhe a boca com uma colher de chá, encheu-lhe o bucho de chumbo e, depois de enchê-la bem, colocou-a novamente no chão. Smiley, durante esse tempo, esteve a patinhar no charco, até que por fim conseguiu apanhar uma rã, trazendo-a ao seu adversário:
— Agora, se está pronto coloque-a ao lado de Daniel, com os pés dianteiros na mesma linha. Eu darei o sinal. Em seguida, gritou:
— Um, dois, três — salta. — E tanto Smiley como o estrangeiro tocaram, cada um, sua rã, para dar-lhes o impulso inicial. A nova rã saltou vivamente, mas Daniel limitou-se a soltar um gemido e, por mais esforços que fizesse, não conseguiu sair do lugar. Não podia mover-se. Estava cravada na terra mais solidamente do que uma catedral. Era como se estivesse ancorada. Smiley estava surpreendido e desgostoso, mas não desconfiava de coisa alguma.
O estrangeiro apanhou o dinheiro e preparou-se para ir embora, mas ao partir, com um ar impertinente, ainda murmurou:
— Não vejo no que esta rã é melhor do que as outras.
Smiley permaneceu um tempão a coçar a cabeça, com os olhos fitos em Daniel, até que por fim disse:
— Não posso explicar como diabo é que esta rã se recusa a saltar... A não ser que tenha alguma coisa... Doente, não está... Parece isto sim, mais gorda...
Agarra, então, Daniel, pela pele do pescoço e ao levantá-la exclama: — Os diabos me levem se ela não pesa cinco libras...
Voltou-a de cabeça para baixo e a infeliz vomitou duas mãos cheias de chumbo. Quando Smiley percebeu o que sucedera, ficou como louco. Pôs a rã no chão e desatou a correr à. procura do estrangeiro mas não pôde alcançá-la. E...
Neste ponto da sua narrativa, Simão Wheeler ouviu que o chamavam e foi ver quem era. Antes disso, porém, voltou-se para mim, dizendo: — Espere-me um instante, que não tardarei...
Mas, com licença de quem me ouve, não me pareceu que o resto da história de Jim Smiley pudesse trazer algum discernimento a respeito do Reverendo Leônidas W. Smiley e por isso tratei, também, de sair.
À porta, encontro o amável Simão Wheeler, que, segurando-me pelo braço, recomeçou:
— Pois este Smiley possuía uma vaca amarela, muito gorda, cega de um olho e sem rabo, isto é...
— Oh! Mande Smiley e sua vaca amarela para o inferno — resmunguei eu. E, desejando-lhes boas tardes parti.
Mark Twain, "A célebre rã saltadora do Condado de Calaveras e outros contos"
Encontrei Simão Wheeler dormindo confortavelmente, junto ao fogão da sala comum, numa velha e arruinada taverna do antigo campo mineiro do Anjo. Observei que ele era gordo e calvo, possuindo uma expressão de urbanidade insinuante e de simplicidade tranquila na fisionomia. Levantou-se e me deu os bons dias. Disse-lhe então que um dos meus amigos me encarregara de lhe fazer algumas perguntas acerca de um querido companheiro de infância chamado Leônidas W. Smiley — o Reverendo. Leônidas W. Smiley, jovem ministro evangélico que, segundo ele ouvira dizer, residira durante algum tempo no campo do Anjo. Acrescentei que se Mr. Wheeler me pudesse dizer alguma coisa sobre ele, os meus agradecimentos e os do meu amigo seriam eternos.
Simão Wheeler colocou-me de costas a um canto da sala e ali me bloqueou com uma cadeira; fez-me então sentar e desenrolou a monótona história que se vai ouvir. Simão Wheeler não sorriu nem se alterou uma única vez; manteve, até o fim, o mesmo tom de voz manso e fluente com que iniciou a narrativa. No entanto, através do interminável raconto, transparecia a seriedade com que ele encarava o assunto. Pude convencer-me de que, longe de ver qualquer coisa de ridículo na sua história, ele a considerava como realmente importante, e admirava os seus dois heróis como homens geniais, sobretudo, quanto à delicadeza de maneiras. Para mim, o espetáculo de um homem deslizando tão serenamente em meio a tão extravagante enredo, sem sorrir uma vez sequer, era perfeitamente absurdo. Como já disse, pedi-lhe que me informasse o que sabia a respeito do Reverendo Leônidas W. Smiley. Deixei-o falar, sem interrompê-lo uma única vez:
Havia aqui um indivíduo conhecido pelo nome de Jim Smiley, no inverno de 1849 — ou talvez na primavera de 50 — não posso recordar exatamente, pois o que me faz crer numa ou noutra data é a lembrança de que o grande canal ainda não estava concluído quando ele apareceu pela primeira vez. Mas, em 49 ou 50, o fato é que ele era o homem mais notável que se pode imaginar. A propósito de qualquer coisa, estava sempre disposto a fazer uma aposta. Era a sua mania. Se não podia levar o adversário para o lado contrário, mudava de opinião. O que ele queria era apostar. Tinha sorte extraordinária: ganhava sempre. Não se podia falar no objeto mais isolado sem que o tal camarada logo sugerisse uma apostazinha, pró ou contra. Se se tratava de uma corrida de cavalos o nosso homem enriquecia ou ficava a nenhum. Se era de luta de cães, apostava; se uma briga de galos, apostava; se estavam dois pássaros pousados numa árvore, queria logo apostar qual dos dois voaria primeiro; se havia reunião no campo era certo apresentar-se a apostar pelo Cura Walker, que ele afirmava ser o melhor pregador da redondeza.
Se visse uma barata encaminhar-se para qualquer parte, queria logo apostar para saber quanto tempo ela levaria para chegar ao ponto do seu destino, e se pegassem na sua palavra iria atrás da barata até o México, sem pensar na distância ou no tempo que iria perder.
Ainda vivem inúmeras pessoas que o conheceram e que lhe poderão contar muitos casos sobre ele. O fato é que ninguém jamais notou a mínima diferença no seu estado de ânimo: estava sempre pronto a fazer uma aposta. Uma vez a mulher do Cura Walker esteve muito doente e parecia que não se salvaria. Certa manhã este veio ao campo e Smiley perguntou-lhe por ela. Respondeu-lhe o cura que ela estava consideravelmente melhor — graças à infinita misericórdia do Senhor e que se sentia já tão forte que, com o fervor da Providência, em breve estaria completamente restabelecida. Smiley, sem pensar no que dizia, retrucou-lhe:
“Aposto o que quiser como ela não vai melhorar!”
Este mesmo Smiley possuía uma égua a que os rapazes — por brincadeira, está claro — chamavam “Lerdona”. A verdade é que ele ganhava seus bons cobres com ela, apesar da sua lerdice e das suas doenças, pois estava sempre. com asma, disenteria, tísica ou qualquer outra coisa parecida. Nas corridas costumavam dar-lhe cem, duzentos ou trezentos metros de vantagem e assim mesmo passavam-lhe adiante sem dificuldade. Mas no fim da carreira ela sempre se excitava, enfurecendo-se e o resultado é que chegava — à custa de coices, corcoveios, de muita poeira levantada e muitos rinchos e roncos — à meta quase sempre em primeiro lugar e pela diferença exatamente de uma cabeça.
Smiley possuía, também, um pequeno buldogue tão insignificante que ao vê-lo não se podia imaginar valesse coisa alguma. Chegava mesmo a parecer um cão que vivia a vaguear à espera de uma oportunidade para roubar qualquer coisa. Bastava, porém, haver dinheiro em lance para que o cão se tomasse outro. O queixo alongava-se como o castelo de proa de um vapor, os dentes brilhantes, ferozes e unidos como as muralhas de uma fortaleza. Qualquer cão podia agarrá-lo e mordê-lo à vontade, girando-o para todos os lados, até pô-lo em fuga. Andrew Jackson — assim se chamava o “bull-dog” — mantinha-se firme, sem denotar surpresa alguma, até que as apostas se desdobrassem ou multiplicassem. Quando já não havia mais dinheiro para ser jogado, ele, num salto imprevisto, agarrava o adversário pela junta da pata direita e, fincando-lhe os dentes, suspendia-o como que por brincadeira, assim permanecendo, se fosse preciso, um ano inteiro. Smiley ganhava sempre com ele. Um dia, porém, trouxeram um cão que não possuía a pata direita. Quando as coisas estavam no ponto desejado e em apostas todo o dinheiro que havia, Andrew Jackson atirou-se ao ponto predileto, mas viu, num relance, que fora logrado. Parou surpreendido e desorientado, sem fazer o menor esforço para vencer. Dirigiu a Smiley um olhar cheio de lástima, como que para lhe dizer que o seu coração estava partido e que o culpado era ele, por ter colocado à sua frente um adversário sem pata direita. Soltou, depois, um longo e angustiado gemido e, estendendo-se no chão, ali soltou o último suspiro. Era um excelente cachorro o tal Andrew Jackson. Prometia vir a ter um grande nome se vivesse, pois possuía estofo para tanto. Era genial, não há dúvida; as circunstâncias é que não o favoreceram. Concordareis comigo que se requer grande talento para lutar da maneira como ele fazia. Ainda fico triste quando me lembro do seu último combate e do modo como ele terminou. Continuemos, porém.
O tal Smiley possuía galos de briga, gatos bravos e tudo o mais que se pode imaginar no gênero. Ninguém podia permanecer quieto perto dele, pois não era possível apresentar-lhe nenhum objeto de aposta que ele não tivesse logo outro para opor.
Um dia Smiley apanhou uma rã e levando-a para casa nos disse que ia domesticá-la. Durante três meses não fez outra coisa senão ensiná-la a saltar. Dava-lhe. uma pancadinha atrás e logo em seguida via-se a rã dar uma ou duas voltas no ar, segundo o impulso recebido, indo cair lá adiante, sobre as patas, como um gato. Exercitou-a na arte de apanhar moscas e fez desse exercício uma prática tão constante que as moscas, por mais longe que passassem, eram logo abocanhadas. Smiley costumava dizer que às rãs faltava somente a educação e que, uma vez educadas, seria possível fazer com elas o que bem quiséssemos. Não uma, mas inúmeras vezes vi Daniel Webster — era o nome da rã — exibir as suas habilidades. Smiley dizia-lhe:
— Moscas, Daniel. moscas!
Num abrir e fechar de olhos Daniel dava um pulo, apanhava 11 moscas, e punha-se a coçar a cabeça com uma das pernas traseiras, como se não tivesse a menor ideia de ter realizado uma proeza superior a qualquer outra rã. Não há memória de se ter visto rã tão modesta e simples, levando-se em conta, está claro, os extraordinários dotes do que ela era dotada. Quando se tratava de avançar em terreno plano, dava pulos de que nenhum outro animal da sua espécie seria capaz. O salto para a frente constituía o seu forte. Neste caso Smiley apostava nela todo o dinheiro que possuía no momento. Tinha um monstruoso orgulho da sua rã, e nada mais razoável do que isso, porque pessoas que tinham viajado e visto inúmeras coisas, ao chegarem ali, ficavam boquiabertas.
Smiley guardava a rã numa gaiola e frequentemente a levava à cidade para apostas.
Um dia, um indivíduo — estranho ao lugar — vendo-o com a gaiola perguntou-lhe:
— Que diabo levas aí?
Smiley respondeu-lhe, com grande indiferença:
— Isto podia ser um papagaio ou um canário, mas não é; é simplesmente uma rã.
O outro pegou na gaiola, olhando-a por todos os lados atentamente e depois lhe disse:
— É verdade! E para que serve esse animal?
— Para que serve? Para muitas coisas. Pode bater, no salto, toda e qualquer rã do condado de Calaveras.
O outro torna a pegar na gaiola, examina-a com todo o cuidado e, restituindo-a ao dono, exclama com ar decidido:
— Já vi! E não creio que esta rã seja melhor ou pior de que qualquer outra.
— É possível, — respondeu Smiley. — Talvez o senhor entenda muito do assunto, ou talvez não entenda nada. Tenho, porém, minha opinião e aposto quarenta dólares em como esta rã será capaz de bater, no salto, qualquer outra rã do condado de Calaveras.
O outro esteve a meditar um instante depois disse com ar de tristeza:
– Pois bem: sou estrangeiro e não trago comigo nenhuma rã. Mas se tivesse uma aceitaria a aposta.
— Tudo se arranja, tudo se arranja, respondeu Smiley. Se quiser segurar a gaiola por um instante, irei buscar-lhe uma rã. O estrangeiro toma a gaiola, coloca seus quarenta dólares sobre os de Smiley e senta-se, para esperar.
Como Smiley tardasse, teve tempo para pensar sobre o caso. E imagine do que foi ele se lembrar!... Agarrou Daniel, abriu-lhe a boca com uma colher de chá, encheu-lhe o bucho de chumbo e, depois de enchê-la bem, colocou-a novamente no chão. Smiley, durante esse tempo, esteve a patinhar no charco, até que por fim conseguiu apanhar uma rã, trazendo-a ao seu adversário:
— Agora, se está pronto coloque-a ao lado de Daniel, com os pés dianteiros na mesma linha. Eu darei o sinal. Em seguida, gritou:
— Um, dois, três — salta. — E tanto Smiley como o estrangeiro tocaram, cada um, sua rã, para dar-lhes o impulso inicial. A nova rã saltou vivamente, mas Daniel limitou-se a soltar um gemido e, por mais esforços que fizesse, não conseguiu sair do lugar. Não podia mover-se. Estava cravada na terra mais solidamente do que uma catedral. Era como se estivesse ancorada. Smiley estava surpreendido e desgostoso, mas não desconfiava de coisa alguma.
O estrangeiro apanhou o dinheiro e preparou-se para ir embora, mas ao partir, com um ar impertinente, ainda murmurou:
— Não vejo no que esta rã é melhor do que as outras.
Smiley permaneceu um tempão a coçar a cabeça, com os olhos fitos em Daniel, até que por fim disse:
— Não posso explicar como diabo é que esta rã se recusa a saltar... A não ser que tenha alguma coisa... Doente, não está... Parece isto sim, mais gorda...
Agarra, então, Daniel, pela pele do pescoço e ao levantá-la exclama: — Os diabos me levem se ela não pesa cinco libras...
Voltou-a de cabeça para baixo e a infeliz vomitou duas mãos cheias de chumbo. Quando Smiley percebeu o que sucedera, ficou como louco. Pôs a rã no chão e desatou a correr à. procura do estrangeiro mas não pôde alcançá-la. E...
Neste ponto da sua narrativa, Simão Wheeler ouviu que o chamavam e foi ver quem era. Antes disso, porém, voltou-se para mim, dizendo: — Espere-me um instante, que não tardarei...
Mas, com licença de quem me ouve, não me pareceu que o resto da história de Jim Smiley pudesse trazer algum discernimento a respeito do Reverendo Leônidas W. Smiley e por isso tratei, também, de sair.
À porta, encontro o amável Simão Wheeler, que, segurando-me pelo braço, recomeçou:
— Pois este Smiley possuía uma vaca amarela, muito gorda, cega de um olho e sem rabo, isto é...
— Oh! Mande Smiley e sua vaca amarela para o inferno — resmunguei eu. E, desejando-lhes boas tardes parti.
Mark Twain, "A célebre rã saltadora do Condado de Calaveras e outros contos"
sexta-feira, setembro 11
Canção do dia de sempre
Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
Mario Quintana
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
Mario Quintana
Das discretas razões que Sancho passava com o amo e da aventura que lhes sucedeu com um defunto
— O que me está parecendo, senhor meu, é que as desventuras, que estes dias me têm sucedido, têm sido, sem nenhuma dúvida, todas castigo do pecado cometido por Vossa Mercê contra a ordem da sua cavalaria, por não ter desempenhado o juramento que fez de:
não comer pão em toalha
nem coa Rainha folgar,
com o mais que a trova reza, e que Vossa Mercê jurou de cumprir, até que não tirasse para si o elmete de Malandrino, ou como se chama o tal mouro (que o nome não me lembra muito bem).
— Embora não jurasses — tornou D. Quixote — entendo que de participante não estás livre; e, pelo sim pelo não bom será provermo-nos de remédio.
— Se assim é — disse Sancho — olhe, Vossa Mercê não se esqueça também disto como do juramento, que talvez aos fantasmas lhes tornasse a gana de se divertirem comigo, e até com Vossa Mercê, se o virem tão sem emenda.
Nestas e noutras práticas os tomou a noite no meio do caminho, sem terem, nem descobrirem, onde pernoitar; o que nisso nada tinha de bom é que iam mortos à fome, pois com o sumiço dos alforjes se lhes tinha ido embora despensa e matalotagem; e, para complemento de tamanha desgraça, sucedeu-lhes uma coisa, que, sem ser de propósito, bem o parecia; e foi que a noite se fechou assaz de escura. Iam não obstante caminhando, que, visto ser aquela a estrada real, por boa razão a uma ou duas léguas se encontraria nela alguma venda.
Indo pois desta maneira, a noite escura, o escudeiro esfaimado, e o amo com boa vontade de comer, viram que, pelo caminho mesmo que levavam, se dirigia para eles grande multidão de luzes, que não pareciam senão estrelas errantes.
Pasmou Sancho quando as avistou, e D. Quixote não deixou de as estranhar.
Sofreou um pelo cabresto ao asno, e o outro pelas rédeas ao rocim, e ficaram parados à espera do que surdiria. Viram que as luzes se lhes iam aproximando, e, quanto mais se aproximavam, maiores pareciam. Àquela vista Sancho pôs-se a tremer como um azougado, e ao próprio D. Quixote se arrepiaram os cabelos. Este, porém, animando-se um tanto, disse:
— Esta é, que sem dúvida, Sancho, deve ser grandíssima e perigosíssima aventura, e será necessário mostrar eu nela todo o meu valor e esforço.
— Malfadado de mim! — respondeu Sancho — se acaso esta aventura for de fantasmas, segundo me vai parecendo, onde haverá costelas que lhes bastem?
— Por mais fantasmas que venham — respondeu D. Quixote — não consentirei que te ponham mão nem num pelinho do fato. Se da outra vez zombaram contigo, foi porque não pude saltar as paredes do pátio; mas agora estamos em terreno raso, onde posso à vontade esgrimir a espada.
— E se o encantam e o tolhem, como da outra vez fizeram — disse Sancho — que valerá estar ou não em terreno raso?
— Apesar disso tudo — replicou D. Quixote — peço-te, Sancho, que tenhas ânimo; verás o meu.
— Hei-de ter, se Deus quiser — respondeu Sancho.
E, apartando-se ambos para a orla do caminho, tornaram a olhar atentamente no que poderia ser aquilo, e as luzes que lá vinham. Dentro em pouco descobriram muitos encamisados. Aquela fantasmagoria pavorosa de todo o ponto deu mate ao ânimo de Sancho, que entrou a bater os dentes como em frio de quartã; mais ainda cresceu nele o bater dos dentes, quando distintamente se viu o que era, porque descobriram uns vinte encamisados, todos a cavalo, com suas tochas acesas nas mãos, após eles uma liteira coberta de luto, seguida de outros seis a cavalo, enlutados até os pés das mulas, que bem se via que o eram, e não cavalos, pelo sossego com que andavam.
Iam os encamisados sussurrando em voz baixa e lastimosa.
Tão estranha vista, e tão a desoras, e num despovoado, era bastante para pôr medo no coração de Sancho, e até no de seu amo. Assim sucedeu a D. Quixote, o qual, a despeito de todas as suas valentias, já tinha virado de avesso todo o esforço de Sancho; mas ao amo, pelo contrário, naquele ponto se representou ao vivo na imaginação ser aquela uma das aventuras dos seus livros.
Figurou-se-lhe que a liteira era umas andas, em que devia vir algum malferido ou morto cavaleiro, cuja vingança lhe estava só a ele reservada; e, sem fazer mais discurso, enristou a sua chuça, firmou-se bem na sela, e com gentil brio e garbo se atravessou no meio do caminho, por onde os encamisados forçosamente haviam de passar; e quando os viu ao pé, levantou a voz e disse:
— Parai, cavaleiros, quem quer que sejais, e dai-me conta de quem sois, de donde vindes, onde ides, e que levais nas andas, que, segundo as mostras, ou vós outros haveis feito, ou vos hão feito a vós, algum desaguisado, e convém, e é mister, que eu o saiba, ou para vos castigar do mal que perpetrastes, ou para vos vingar da sem-razão que vos fizeram a vós.
— Vamos com pressa — respondeu um dos encamisados — que fica ainda longe a venda, e não nos podemos dilatar a dar tantas respostas como nos pedis; — e, picando a mula, passou para diante.
Sentiu-se grandemente D. Quixote desta resposta, e, travando-lhe do freio, disse-lhe:
— Detende-vos, e sede mais bem criado, e dai-me conta do que vos eu perguntei, quando não, tendes de vos haver todos comigo em batalha.
Era a mula espantadiça; e, ao tomarem-lhe o freio, de tal maneira se sobressaltou, que, levantando-se nos dois pés traseiros, despejou pelas ancas o dono para o chão.
Um moço, que ia a pé, vendo caído o encamisado, começou a injuriar D. Quixote, o qual já encolerizado, e sem mais esperas, enristando a sua chuça, arremeteu a um dos enlutados, e deu com ele em terra malferido; voltando-se para os demais, era para ver como os acometia, e desbaratava, que não parecia senão que naquele momento haviam nascido asas a Rocinante, segundo campeava ligeiro e orgulhoso.
Eram todos os encamisados gente timorata e sem armas; e assim, com facilidade, num instante deixaram a refrega, e começaram a correr por aquele campo com as tochas acesas, que não pareciam senão mascarados a revolver em noite de festa e regozijo.
Os enlutados, revoltos e envoltos nas suas lobas e opas compridas, mal se podiam mover; pelo que, muito a seu salvo, D. Quixote os foi a todos apaleando, e os fez deixar o sítio a seu mau grado, por se lhes representar não ser aquilo homem, senão o próprio diabo do inferno, que lhes saía a tirar-lhes o defunto que ia na liteira.
Estava Sancho a ver tudo maravilhado do desembaraço e atrevimento do fidalgo; e dizia entre si:
— Sem dúvida que este meu amo é tão valente e esforçado como ele diz.
Estava por terra uma tocha a arder junto ao primeiro que a mula derrubara. D. Quixote, que o pôde ver àquela claridade, chegou-se a ele, e, apontando-lhe ao rosto a chuça, lhe intimou que se rendesse, quando não o mataria; ao que o derrubado respondeu:
— Rendido demais estou eu, pois não me posso mover; tenho uma perna quebrada. Suplico a Vossa Mercê, se é cavaleiro cristão, me não mate, pois grande sacrilégio seria isso, sendo eu, como sou, licenciado, e tendo as primeiras ordens, como tenho.
— Pois quem diabo o trouxe aqui — instou D. Quixote — sendo homem da Igreja?
— Quem, senhor? — replicou o caído — a minha desdita.
— Pois outra maior vos ameaça — disse D. Quixote — se me não satisfazeis a tudo que ao princípio vos perguntei.
— Com facilidade será Vossa Mercê satisfeito — respondeu o licenciado — e portanto saberá Vossa Mercê que, ainda que primeiro lhe disse, que era licenciado, não sou senão bacharel, e chamo-me Afonso Lopes; sou natural de Alcobendas; venho da cidade de Baeça com outros onze sacerdotes, que são os que fugiram com as tochas; vamos à cidade de Segóvia acompanhando um morto, que vai naquela liteira, que é um cavaleiro que faleceu em Baeça, onde foi depositado; e agora, como lhe digo, levamos os seus ossos ao seu sepulcro, que está em Segóvia, que é a sua naturalidade.
— E quem o matou? — perguntou D. Quixote.
— Matou-o Deus por meio dumas febres pestilenciais que lhe deram — respondeu o bacharel.
— Dessa maneira — disse D. Quixote — livrou-me Nosso Senhor do trabalho que eu tomaria de vingar-lhe a morte, se outrem qualquer o tivera morto; mas, sendo quem foi o matador, não há senão calar, e encolher os ombros, que é o mesmo que eu havia de fazer se ele me matara a mim; e quero que saiba Vossa Reverência, que eu sou um cavaleiro da Mancha chamado D. Quixote; e é o meu ofício e exercício andar pelo mundo endireitando tortos, e desfazendo agravos.
— Não sei como pode ser isso de endireitar tortos — disse o bacharel — pois bem direito era eu, e vós agora é que me entortastes, deixando-me uma perna quebrada, que nunca mais em dias de vida me tornará a ser direita; e o agravo que a mim me desfizestes foi deixardes-me agravado de maneira que hei-de ficar agravado para sempre; e desventura grande há sido para mim encontrar-me convosco nesse buscar de aventuras.
— Nem todas as coisas — respondeu D. Quixote — sucedem do mesmo modo; a desgraça foi, senhor bacharel Afonso Lopes, o virdes, como viestes, de noite, vestidos com aquelas sobrepelizes, com as tochas acesas, rezando, cobertos de luto, que parecíeis tal qual coisas más e do outro mundo; por isso é que não pude deixar de cumprir a minha obrigação acometendo-vos, e à fé que vos acometeria, ainda que soubera serdes os próprios Satanases do inferno, que por tais vos julguei e tive sempre.
— Já que assim o quis a minha desgraça — disse o bacharel — suplico a Vossa Mercê, senhor cavaleiro andante, que tão má andança me há dado, me ajude a sair debaixo desta mula, que me tem presa esta perna entre o estribo e a sela.
— Até amanhã ficaria eu a palestrar — redarguiu D. Quixote — mas para quando deixáveis o queixar-vos?
Nisto entrou logo a bradar por Sancho que viesse; mas Sancho é que não fez caso de acudir, porque andava ocupado em aliviar uma azêmola carregada de vitualhas, que os bons dos padres traziam. Engenhou Sancho do seu gabão uma espécie de saco; e, recolhendo nele tudo o que pôde e lhe coube dentro, o cargou para cima do seu jumento, e para logo acudiu aos brados do amo, e ajudou a livrar o senhor bacharel da opressão da mula; pô-lo para cima dela, e lhe deu a sua tocha, e D. Quixote lhe disse que seguisse na direção dos companheiros, e que da parte dele lhes pedisse perdão do agravo, que não tinha estado em sua mão deixar de lhes fazer.
A isto ajuntou ainda Sancho:
— Se por acaso quiserem saber esses senhores quem há sido o valoroso que tais os pôs, Vossa Mercê lhes dirá que foi o senhor D. Quixote de la Mancha, que por outro nome se chama “O Cavaleiro da Triste Figura”.
Com isto se foi o bacharel; e D. Quixote perguntou a Sancho por que motivo lhe ocorrera chamar-lhe “Cavaleiro da Triste Figura”, naquela ocasião precisamente.
— Eu lhe digo — respondeu Sancho — é porque o estive considerando um pouco à luz da tocha que vai na mão do mal andante cavaleiro, e deveras reconheci em Vossa Mercê, de pouco para cá, a mais má figura que nunca vi; do que deve ter sido causa ou o cansaço deste combate, ou talvez a falta dos dentes queixais.
— Não é isso — respondeu D. Quixote — é que ao sábio, a cujo cargo deve estar o escrever a história das minhas façanhas, haverá parecido bem que eu tome algum nome apelativo, como o tomavam os cavaleiros passados, que um se chamava da ardente espada, outro do unicórnio, aquele o das donzelas este o da ave Fênix, outro o cavaleiro do grifo, estoutro o da morte; e por estes nomes e insígnias eram conhecidos por toda a redondeza da terra; e assim, considera que o sobredito sábio te haverá posto na língua e na ideia, que me chamasses agora “Cavaleiro da Triste Figura”, como tenciono ficar-me nomeando de hoje avante; e, para que melhor me acerte o nome, determino mandar pintar no meu escudo, quando para isso houver oportunidade, uma figura muito triste.
— Não é preciso gastar tempo nem dinheiro para se fazer essa figura — disse Pança; — o mais acertado é que Vossa Mercê descubra a sua própria cara aos que o olharem, que, sem mais nem mais, e sem outro retrato nem escudo, todos o chamarão logo “o da Triste Figura”; e olhe que lhe digo a pura verdade, porque lhe certifico a Vossa Mercê, senhor meu (embora tome por gracejo), que tão má cara está sendo a sua com a fome, e a falta dos queixais, que muito bem se poderá dispensar, como já lhe disse, a tal pintura triste.
Riu-se D. Quixote com o chiste do seu escudeiro; contudo assentou em chamar-se com aquele nome, logo que pudesse conseguir que pintassem o seu escudo ou rodela, como fantasiava. Disse-lhe depois:
— Entendo eu, Sancho, que fiquei excomungado por haver posto as mãos em coisa sagrada, juxta illud; si quis suadente diabolo, etc., ainda que estou bem certo de que não foram as mãos que lhe eu pus, mas sim esta lancita; quanto mais que não pensei que ofendia a sacerdote nem a coisas da Igreja, a quem respeito e adoro, como católico e fiel cristão que sou, senão a fantasmas e coisas do outro mundo; e, quando isso assim fosse, em memória tenho o que sucedeu ao Cid Rui Dias, quando quebrou diante do Papa a cadeira do embaixador daquele reino; pelo que o mesmo Papa o excomungou, e naquele dia andou o bom Rodrigo de Bivar como muito honrado e valente cavaleiro.
Tendo partido o bacharel, como dito fica, sem responder mais palavra, deu na vontade a D. Quixote ir ver se o corpo que vinha na liteira era ossada ou não, mas não lho consentiu Sancho, dizendo-lhe:
— Senhor, saiu-se Vossa Mercê desta aventura o mais a seu salvo de todas quantas eu tenho visto; esta gente, ainda que vencida e desbaratada, bem poderia ser que, afinal, reparasse em que a tinha derrotado uma só pessoa, e, corridos e envergonhados disto, voltassem a refazer-se e buscar-nos, e nos dessem que fazer. O jumento prestes está, a montanha à mão; e a fome aperta; não há mais que fazer senão retirarmo-nos muito airosos, e, como dizem, o morto à cova, e o vivo à fogaça.
E, tocando o jumento, pediu ao amo que o acompanhasse. Este, achando razão a Sancho, sem mais resposta lhe foi no encalço.
A poucos passos por entre dois oiteiros, deram num espaçoso e encoberto vale, em que se apearam. Sancho aliviou o jumento, e, estendidos no ervaçal viçoso, com o tempero da fome que traziam, almoçaram, jantaram, merendaram e cearam, tudo junto, satisfazendo os estômagos com várias carnes frias, que os senhores clérigos do defunto (que poucas vezes se deixam passar mal) traziam de prevenção às costas da azêmola.
Mas aqui lhes sucedeu outra desgraça, que a Sancho pareceu a pior de todas; e foi não terem vinho que beber, e até nem água para chegar à boca; e, perseguidos da sede, vendo Sancho que o prado estava coberto de erva miúda e viçosa, disse o que se ouvirá no seguinte capítulo.
Miguel de Cervantes, "Dom Quixote de La Mancha"
não comer pão em toalha
nem coa Rainha folgar,
com o mais que a trova reza, e que Vossa Mercê jurou de cumprir, até que não tirasse para si o elmete de Malandrino, ou como se chama o tal mouro (que o nome não me lembra muito bem).
— Tens muita razão, Sancho — disse D. Quixote — mas, para te dizer a verdade, tinha-me esquecido; e podes também ter por certo que, pela culpa de tu mo não teres lembrado a tempo, é que te sucedeu a ti aquilo da manta; porém eu farei a emenda, que para tudo há modos de composição na ordem da cavalaria.
— Pois eu jurei porventura alguma coisa? — respondeu Sancho.
— Pois eu jurei porventura alguma coisa? — respondeu Sancho.
— Embora não jurasses — tornou D. Quixote — entendo que de participante não estás livre; e, pelo sim pelo não bom será provermo-nos de remédio.
— Se assim é — disse Sancho — olhe, Vossa Mercê não se esqueça também disto como do juramento, que talvez aos fantasmas lhes tornasse a gana de se divertirem comigo, e até com Vossa Mercê, se o virem tão sem emenda.
Nestas e noutras práticas os tomou a noite no meio do caminho, sem terem, nem descobrirem, onde pernoitar; o que nisso nada tinha de bom é que iam mortos à fome, pois com o sumiço dos alforjes se lhes tinha ido embora despensa e matalotagem; e, para complemento de tamanha desgraça, sucedeu-lhes uma coisa, que, sem ser de propósito, bem o parecia; e foi que a noite se fechou assaz de escura. Iam não obstante caminhando, que, visto ser aquela a estrada real, por boa razão a uma ou duas léguas se encontraria nela alguma venda.
Indo pois desta maneira, a noite escura, o escudeiro esfaimado, e o amo com boa vontade de comer, viram que, pelo caminho mesmo que levavam, se dirigia para eles grande multidão de luzes, que não pareciam senão estrelas errantes.
Pasmou Sancho quando as avistou, e D. Quixote não deixou de as estranhar.
Sofreou um pelo cabresto ao asno, e o outro pelas rédeas ao rocim, e ficaram parados à espera do que surdiria. Viram que as luzes se lhes iam aproximando, e, quanto mais se aproximavam, maiores pareciam. Àquela vista Sancho pôs-se a tremer como um azougado, e ao próprio D. Quixote se arrepiaram os cabelos. Este, porém, animando-se um tanto, disse:
— Esta é, que sem dúvida, Sancho, deve ser grandíssima e perigosíssima aventura, e será necessário mostrar eu nela todo o meu valor e esforço.
— Malfadado de mim! — respondeu Sancho — se acaso esta aventura for de fantasmas, segundo me vai parecendo, onde haverá costelas que lhes bastem?
— Por mais fantasmas que venham — respondeu D. Quixote — não consentirei que te ponham mão nem num pelinho do fato. Se da outra vez zombaram contigo, foi porque não pude saltar as paredes do pátio; mas agora estamos em terreno raso, onde posso à vontade esgrimir a espada.
— E se o encantam e o tolhem, como da outra vez fizeram — disse Sancho — que valerá estar ou não em terreno raso?
— Apesar disso tudo — replicou D. Quixote — peço-te, Sancho, que tenhas ânimo; verás o meu.
— Hei-de ter, se Deus quiser — respondeu Sancho.
E, apartando-se ambos para a orla do caminho, tornaram a olhar atentamente no que poderia ser aquilo, e as luzes que lá vinham. Dentro em pouco descobriram muitos encamisados. Aquela fantasmagoria pavorosa de todo o ponto deu mate ao ânimo de Sancho, que entrou a bater os dentes como em frio de quartã; mais ainda cresceu nele o bater dos dentes, quando distintamente se viu o que era, porque descobriram uns vinte encamisados, todos a cavalo, com suas tochas acesas nas mãos, após eles uma liteira coberta de luto, seguida de outros seis a cavalo, enlutados até os pés das mulas, que bem se via que o eram, e não cavalos, pelo sossego com que andavam.
Iam os encamisados sussurrando em voz baixa e lastimosa.
Tão estranha vista, e tão a desoras, e num despovoado, era bastante para pôr medo no coração de Sancho, e até no de seu amo. Assim sucedeu a D. Quixote, o qual, a despeito de todas as suas valentias, já tinha virado de avesso todo o esforço de Sancho; mas ao amo, pelo contrário, naquele ponto se representou ao vivo na imaginação ser aquela uma das aventuras dos seus livros.
Figurou-se-lhe que a liteira era umas andas, em que devia vir algum malferido ou morto cavaleiro, cuja vingança lhe estava só a ele reservada; e, sem fazer mais discurso, enristou a sua chuça, firmou-se bem na sela, e com gentil brio e garbo se atravessou no meio do caminho, por onde os encamisados forçosamente haviam de passar; e quando os viu ao pé, levantou a voz e disse:
— Parai, cavaleiros, quem quer que sejais, e dai-me conta de quem sois, de donde vindes, onde ides, e que levais nas andas, que, segundo as mostras, ou vós outros haveis feito, ou vos hão feito a vós, algum desaguisado, e convém, e é mister, que eu o saiba, ou para vos castigar do mal que perpetrastes, ou para vos vingar da sem-razão que vos fizeram a vós.
— Vamos com pressa — respondeu um dos encamisados — que fica ainda longe a venda, e não nos podemos dilatar a dar tantas respostas como nos pedis; — e, picando a mula, passou para diante.
Sentiu-se grandemente D. Quixote desta resposta, e, travando-lhe do freio, disse-lhe:
— Detende-vos, e sede mais bem criado, e dai-me conta do que vos eu perguntei, quando não, tendes de vos haver todos comigo em batalha.
Era a mula espantadiça; e, ao tomarem-lhe o freio, de tal maneira se sobressaltou, que, levantando-se nos dois pés traseiros, despejou pelas ancas o dono para o chão.
Um moço, que ia a pé, vendo caído o encamisado, começou a injuriar D. Quixote, o qual já encolerizado, e sem mais esperas, enristando a sua chuça, arremeteu a um dos enlutados, e deu com ele em terra malferido; voltando-se para os demais, era para ver como os acometia, e desbaratava, que não parecia senão que naquele momento haviam nascido asas a Rocinante, segundo campeava ligeiro e orgulhoso.
Eram todos os encamisados gente timorata e sem armas; e assim, com facilidade, num instante deixaram a refrega, e começaram a correr por aquele campo com as tochas acesas, que não pareciam senão mascarados a revolver em noite de festa e regozijo.
Os enlutados, revoltos e envoltos nas suas lobas e opas compridas, mal se podiam mover; pelo que, muito a seu salvo, D. Quixote os foi a todos apaleando, e os fez deixar o sítio a seu mau grado, por se lhes representar não ser aquilo homem, senão o próprio diabo do inferno, que lhes saía a tirar-lhes o defunto que ia na liteira.
Estava Sancho a ver tudo maravilhado do desembaraço e atrevimento do fidalgo; e dizia entre si:
— Sem dúvida que este meu amo é tão valente e esforçado como ele diz.
Estava por terra uma tocha a arder junto ao primeiro que a mula derrubara. D. Quixote, que o pôde ver àquela claridade, chegou-se a ele, e, apontando-lhe ao rosto a chuça, lhe intimou que se rendesse, quando não o mataria; ao que o derrubado respondeu:
— Rendido demais estou eu, pois não me posso mover; tenho uma perna quebrada. Suplico a Vossa Mercê, se é cavaleiro cristão, me não mate, pois grande sacrilégio seria isso, sendo eu, como sou, licenciado, e tendo as primeiras ordens, como tenho.
— Pois quem diabo o trouxe aqui — instou D. Quixote — sendo homem da Igreja?
— Quem, senhor? — replicou o caído — a minha desdita.
— Pois outra maior vos ameaça — disse D. Quixote — se me não satisfazeis a tudo que ao princípio vos perguntei.
— Com facilidade será Vossa Mercê satisfeito — respondeu o licenciado — e portanto saberá Vossa Mercê que, ainda que primeiro lhe disse, que era licenciado, não sou senão bacharel, e chamo-me Afonso Lopes; sou natural de Alcobendas; venho da cidade de Baeça com outros onze sacerdotes, que são os que fugiram com as tochas; vamos à cidade de Segóvia acompanhando um morto, que vai naquela liteira, que é um cavaleiro que faleceu em Baeça, onde foi depositado; e agora, como lhe digo, levamos os seus ossos ao seu sepulcro, que está em Segóvia, que é a sua naturalidade.
— E quem o matou? — perguntou D. Quixote.
— Matou-o Deus por meio dumas febres pestilenciais que lhe deram — respondeu o bacharel.
— Dessa maneira — disse D. Quixote — livrou-me Nosso Senhor do trabalho que eu tomaria de vingar-lhe a morte, se outrem qualquer o tivera morto; mas, sendo quem foi o matador, não há senão calar, e encolher os ombros, que é o mesmo que eu havia de fazer se ele me matara a mim; e quero que saiba Vossa Reverência, que eu sou um cavaleiro da Mancha chamado D. Quixote; e é o meu ofício e exercício andar pelo mundo endireitando tortos, e desfazendo agravos.
— Não sei como pode ser isso de endireitar tortos — disse o bacharel — pois bem direito era eu, e vós agora é que me entortastes, deixando-me uma perna quebrada, que nunca mais em dias de vida me tornará a ser direita; e o agravo que a mim me desfizestes foi deixardes-me agravado de maneira que hei-de ficar agravado para sempre; e desventura grande há sido para mim encontrar-me convosco nesse buscar de aventuras.
— Nem todas as coisas — respondeu D. Quixote — sucedem do mesmo modo; a desgraça foi, senhor bacharel Afonso Lopes, o virdes, como viestes, de noite, vestidos com aquelas sobrepelizes, com as tochas acesas, rezando, cobertos de luto, que parecíeis tal qual coisas más e do outro mundo; por isso é que não pude deixar de cumprir a minha obrigação acometendo-vos, e à fé que vos acometeria, ainda que soubera serdes os próprios Satanases do inferno, que por tais vos julguei e tive sempre.
— Já que assim o quis a minha desgraça — disse o bacharel — suplico a Vossa Mercê, senhor cavaleiro andante, que tão má andança me há dado, me ajude a sair debaixo desta mula, que me tem presa esta perna entre o estribo e a sela.
— Até amanhã ficaria eu a palestrar — redarguiu D. Quixote — mas para quando deixáveis o queixar-vos?
Nisto entrou logo a bradar por Sancho que viesse; mas Sancho é que não fez caso de acudir, porque andava ocupado em aliviar uma azêmola carregada de vitualhas, que os bons dos padres traziam. Engenhou Sancho do seu gabão uma espécie de saco; e, recolhendo nele tudo o que pôde e lhe coube dentro, o cargou para cima do seu jumento, e para logo acudiu aos brados do amo, e ajudou a livrar o senhor bacharel da opressão da mula; pô-lo para cima dela, e lhe deu a sua tocha, e D. Quixote lhe disse que seguisse na direção dos companheiros, e que da parte dele lhes pedisse perdão do agravo, que não tinha estado em sua mão deixar de lhes fazer.
A isto ajuntou ainda Sancho:
— Se por acaso quiserem saber esses senhores quem há sido o valoroso que tais os pôs, Vossa Mercê lhes dirá que foi o senhor D. Quixote de la Mancha, que por outro nome se chama “O Cavaleiro da Triste Figura”.
Com isto se foi o bacharel; e D. Quixote perguntou a Sancho por que motivo lhe ocorrera chamar-lhe “Cavaleiro da Triste Figura”, naquela ocasião precisamente.
— Eu lhe digo — respondeu Sancho — é porque o estive considerando um pouco à luz da tocha que vai na mão do mal andante cavaleiro, e deveras reconheci em Vossa Mercê, de pouco para cá, a mais má figura que nunca vi; do que deve ter sido causa ou o cansaço deste combate, ou talvez a falta dos dentes queixais.
— Não é isso — respondeu D. Quixote — é que ao sábio, a cujo cargo deve estar o escrever a história das minhas façanhas, haverá parecido bem que eu tome algum nome apelativo, como o tomavam os cavaleiros passados, que um se chamava da ardente espada, outro do unicórnio, aquele o das donzelas este o da ave Fênix, outro o cavaleiro do grifo, estoutro o da morte; e por estes nomes e insígnias eram conhecidos por toda a redondeza da terra; e assim, considera que o sobredito sábio te haverá posto na língua e na ideia, que me chamasses agora “Cavaleiro da Triste Figura”, como tenciono ficar-me nomeando de hoje avante; e, para que melhor me acerte o nome, determino mandar pintar no meu escudo, quando para isso houver oportunidade, uma figura muito triste.
— Não é preciso gastar tempo nem dinheiro para se fazer essa figura — disse Pança; — o mais acertado é que Vossa Mercê descubra a sua própria cara aos que o olharem, que, sem mais nem mais, e sem outro retrato nem escudo, todos o chamarão logo “o da Triste Figura”; e olhe que lhe digo a pura verdade, porque lhe certifico a Vossa Mercê, senhor meu (embora tome por gracejo), que tão má cara está sendo a sua com a fome, e a falta dos queixais, que muito bem se poderá dispensar, como já lhe disse, a tal pintura triste.
Riu-se D. Quixote com o chiste do seu escudeiro; contudo assentou em chamar-se com aquele nome, logo que pudesse conseguir que pintassem o seu escudo ou rodela, como fantasiava. Disse-lhe depois:
— Entendo eu, Sancho, que fiquei excomungado por haver posto as mãos em coisa sagrada, juxta illud; si quis suadente diabolo, etc., ainda que estou bem certo de que não foram as mãos que lhe eu pus, mas sim esta lancita; quanto mais que não pensei que ofendia a sacerdote nem a coisas da Igreja, a quem respeito e adoro, como católico e fiel cristão que sou, senão a fantasmas e coisas do outro mundo; e, quando isso assim fosse, em memória tenho o que sucedeu ao Cid Rui Dias, quando quebrou diante do Papa a cadeira do embaixador daquele reino; pelo que o mesmo Papa o excomungou, e naquele dia andou o bom Rodrigo de Bivar como muito honrado e valente cavaleiro.
Tendo partido o bacharel, como dito fica, sem responder mais palavra, deu na vontade a D. Quixote ir ver se o corpo que vinha na liteira era ossada ou não, mas não lho consentiu Sancho, dizendo-lhe:
— Senhor, saiu-se Vossa Mercê desta aventura o mais a seu salvo de todas quantas eu tenho visto; esta gente, ainda que vencida e desbaratada, bem poderia ser que, afinal, reparasse em que a tinha derrotado uma só pessoa, e, corridos e envergonhados disto, voltassem a refazer-se e buscar-nos, e nos dessem que fazer. O jumento prestes está, a montanha à mão; e a fome aperta; não há mais que fazer senão retirarmo-nos muito airosos, e, como dizem, o morto à cova, e o vivo à fogaça.
E, tocando o jumento, pediu ao amo que o acompanhasse. Este, achando razão a Sancho, sem mais resposta lhe foi no encalço.
A poucos passos por entre dois oiteiros, deram num espaçoso e encoberto vale, em que se apearam. Sancho aliviou o jumento, e, estendidos no ervaçal viçoso, com o tempero da fome que traziam, almoçaram, jantaram, merendaram e cearam, tudo junto, satisfazendo os estômagos com várias carnes frias, que os senhores clérigos do defunto (que poucas vezes se deixam passar mal) traziam de prevenção às costas da azêmola.
Mas aqui lhes sucedeu outra desgraça, que a Sancho pareceu a pior de todas; e foi não terem vinho que beber, e até nem água para chegar à boca; e, perseguidos da sede, vendo Sancho que o prado estava coberto de erva miúda e viçosa, disse o que se ouvirá no seguinte capítulo.
Miguel de Cervantes, "Dom Quixote de La Mancha"
A fazenda que desapareceu do mapa
- Às vezes me assalta o remorso de, sendo filho, neto e bisneto de fazendeiros, ter contribuído para que morresse a nossa fazenda. No momento em que chegou a minha vez de trabalho no campo, fugi da responsabilidade, alegando falta de jeito para lidar com a terra e com os animais. Cedi a minha parte e fui cuidar de nuvens, no exercício da literatura. Passaram-se os tempos, e a fazenda acabou vendida a uma empresa estatal, que ali instalou uma represa para depósito de rejeito do minério de ferro por ela explorado. Assim terminou, submersa, a Fazenda do Pontal, antiga dos Doze Vinténs, ou Fazenda dos Doze.
E continua a apresentação:
Lembro-me de sua descrição, feita no começo deste século, bastante enfática (voz do dono...): “Compreende uma área de 200 alqueires em campos de ótima qualidade, com pastagens de capim-gordura e grande parte de capim-jaguará. Os 100 alqueires restantes acham-se ainda em matas e capoeiras de superior qualidade para cultura, contendo grande quantidade de madeira de lei. Existem 20.000 pés de café, ocupando uma área de 5 alqueires. A propriedade acha-se em parte fechada a valo, tendo diversos apartadores. É servida por excelentes aguadas, movendo a mais alta um engenho de serrar madeira, e a outra, igualmente abundante, um engenho de socar café e um moinho”.
“A casa de vivenda é magnífica, sendo um sobrado de 60 palmos de frente por 40 de fundo, com dois andares na frente e três no fundo, todo forrado e assoalhado com tábuas. Os cômodos são amplos e arejados, com janelas envidraçadas, portais e portas pintados a óleo, sendo as paredes e os cômodos superiores forrados a papel”.
Não tinha o luxo de orgulhosas fazendas de café da província do Rio de Janeiro, em que se podia admirar pinturas artísticas e alfaias importadas da Europa. Mas era casarão bastante confortável, bem diferente das tristes moradas de fazendeiro de Minas Gerais no começo do século 19, visitadas por Saint-Hilaire, com certa “miserável choupana construída sem a menor arte, e onde não se encontrava outro mobiliário além de uma mesa e mesquinhos bancos”. Proprietários antigos habitavam cômodos mais ou menos iguais aos de seus trabalhadores escravos, e o único objeto, entre decorativo e útil, neles observado pelo futuro marechal-de-campo Cunha Matos, em 1823, foi o chifre de veado servindo de cabide para arreios e espingardas.
Péssimo descendente de senhores da terra, não cheguei a morar no Pontal, pois a família já se instalara na cidade, a três quartos de légua (não se falava em quilômetros). Era fácil chegar até lá, mesmo a pé, para um dia de prazer campestre. Na caminhada, passava-se a certa distância de um matagal onde o eco repercutia os gritos da meninada. Não me saiu da memória aquele rumor soturno e misterioso, que provocávamos.
Na fazenda, a incapacidade de assimilar os interesses da vida rural fazia de mim um exilado que preferia isolar-se na copoa de uma jabuticabeira para, em posição bastante insegura, regalar-me com as frutinhas, ao mesmo tempo em que lia velhas revistas encontradas no escritório do sobrado. A extensa variedade de assuntos relacionados com a vida dos bois, cavalos, porcos, galinhas e patos, das pacas e capivaras encontráveis nos longes da fazenda, bem como os cuidados com as épocas do plantio e colheita do milho, o desenvolvimento da lavoura de café, as frutas silvestres que constituíam a mais imprevista merenda – nada disso empolgava o garoto citadino, que buscava na irrealidade da cisma outros motivos de fascinação.
Hoje que tantos sóis já são passados, e não é mais hora de retocar a vida, sinto falta do que não tive ou perdi por debilidade minha, e chego a considerar-me fazendeiro do ar, porque é no ar que diviso minha boiada, separando gado de leite e gado de corte (reservado ao matadouro), minhas plantações, meus perdigueiros, minhas botas, estribos, selas e rédeas de campear – os mesmos atributos que faziam o orgulho singelo de meu pai, afeiçoado geneticamente à terra e emprenhado em transmiti-la aos filhos e netos, em obediência ao estatuto familiar.
Minha geração assistiu ao final do processo de dissolução da propriedade rural, patrimônio tradicional de clãs, em troca de uma industrialização e uma urbanização que aumentaram o número de pobres e só distribuíram felicidade a pouca gente. Passo os olhos pelo Brasil de hoje e não encontro nele traços daquele antigo “país essencialmente agrícola”, como o qualificava a frase feita dos primeiros anos da República. Ao lado de empreendimentos rurais de envergadura, controlados por empresas de vultosa expressão econômica (e política), faliram ou passaram adiante seus bens os antigos fazendeiros que alimentavam o país com seu trabalho suado, nada ou mal assistidos pelos órgãos oficiais.
Fala-se muito em dar prioridade à agricultura, nos planos de ação governamental, mas resta apurar até que ponto as palavras correspondem aos atos. Numa época de “pensar grande”, talvez não se dê a devida atenção à média e à pequena propriedade, que constituem o núcleo fundamental da vida pastoril e agrícola brasileira. Quanta gente desistiu de cultivar o solo por falta de condições mínimas de financiamento e escoamento da produção? Por outra causa não desapareceu a bonita Fazenda do Pontal, além da falta de estímulo à atividade no campo. Afinal, meu remorso é infundado. Não dependeria de mim a sorte de uma entre tantas fazendas condenadas à morte pelo chamado desenvolvimento.
E continua a apresentação:
Lembro-me de sua descrição, feita no começo deste século, bastante enfática (voz do dono...): “Compreende uma área de 200 alqueires em campos de ótima qualidade, com pastagens de capim-gordura e grande parte de capim-jaguará. Os 100 alqueires restantes acham-se ainda em matas e capoeiras de superior qualidade para cultura, contendo grande quantidade de madeira de lei. Existem 20.000 pés de café, ocupando uma área de 5 alqueires. A propriedade acha-se em parte fechada a valo, tendo diversos apartadores. É servida por excelentes aguadas, movendo a mais alta um engenho de serrar madeira, e a outra, igualmente abundante, um engenho de socar café e um moinho”.
“A casa de vivenda é magnífica, sendo um sobrado de 60 palmos de frente por 40 de fundo, com dois andares na frente e três no fundo, todo forrado e assoalhado com tábuas. Os cômodos são amplos e arejados, com janelas envidraçadas, portais e portas pintados a óleo, sendo as paredes e os cômodos superiores forrados a papel”.
Não tinha o luxo de orgulhosas fazendas de café da província do Rio de Janeiro, em que se podia admirar pinturas artísticas e alfaias importadas da Europa. Mas era casarão bastante confortável, bem diferente das tristes moradas de fazendeiro de Minas Gerais no começo do século 19, visitadas por Saint-Hilaire, com certa “miserável choupana construída sem a menor arte, e onde não se encontrava outro mobiliário além de uma mesa e mesquinhos bancos”. Proprietários antigos habitavam cômodos mais ou menos iguais aos de seus trabalhadores escravos, e o único objeto, entre decorativo e útil, neles observado pelo futuro marechal-de-campo Cunha Matos, em 1823, foi o chifre de veado servindo de cabide para arreios e espingardas.
Péssimo descendente de senhores da terra, não cheguei a morar no Pontal, pois a família já se instalara na cidade, a três quartos de légua (não se falava em quilômetros). Era fácil chegar até lá, mesmo a pé, para um dia de prazer campestre. Na caminhada, passava-se a certa distância de um matagal onde o eco repercutia os gritos da meninada. Não me saiu da memória aquele rumor soturno e misterioso, que provocávamos.
Na fazenda, a incapacidade de assimilar os interesses da vida rural fazia de mim um exilado que preferia isolar-se na copoa de uma jabuticabeira para, em posição bastante insegura, regalar-me com as frutinhas, ao mesmo tempo em que lia velhas revistas encontradas no escritório do sobrado. A extensa variedade de assuntos relacionados com a vida dos bois, cavalos, porcos, galinhas e patos, das pacas e capivaras encontráveis nos longes da fazenda, bem como os cuidados com as épocas do plantio e colheita do milho, o desenvolvimento da lavoura de café, as frutas silvestres que constituíam a mais imprevista merenda – nada disso empolgava o garoto citadino, que buscava na irrealidade da cisma outros motivos de fascinação.
Hoje que tantos sóis já são passados, e não é mais hora de retocar a vida, sinto falta do que não tive ou perdi por debilidade minha, e chego a considerar-me fazendeiro do ar, porque é no ar que diviso minha boiada, separando gado de leite e gado de corte (reservado ao matadouro), minhas plantações, meus perdigueiros, minhas botas, estribos, selas e rédeas de campear – os mesmos atributos que faziam o orgulho singelo de meu pai, afeiçoado geneticamente à terra e emprenhado em transmiti-la aos filhos e netos, em obediência ao estatuto familiar.
Minha geração assistiu ao final do processo de dissolução da propriedade rural, patrimônio tradicional de clãs, em troca de uma industrialização e uma urbanização que aumentaram o número de pobres e só distribuíram felicidade a pouca gente. Passo os olhos pelo Brasil de hoje e não encontro nele traços daquele antigo “país essencialmente agrícola”, como o qualificava a frase feita dos primeiros anos da República. Ao lado de empreendimentos rurais de envergadura, controlados por empresas de vultosa expressão econômica (e política), faliram ou passaram adiante seus bens os antigos fazendeiros que alimentavam o país com seu trabalho suado, nada ou mal assistidos pelos órgãos oficiais.
Fala-se muito em dar prioridade à agricultura, nos planos de ação governamental, mas resta apurar até que ponto as palavras correspondem aos atos. Numa época de “pensar grande”, talvez não se dê a devida atenção à média e à pequena propriedade, que constituem o núcleo fundamental da vida pastoril e agrícola brasileira. Quanta gente desistiu de cultivar o solo por falta de condições mínimas de financiamento e escoamento da produção? Por outra causa não desapareceu a bonita Fazenda do Pontal, além da falta de estímulo à atividade no campo. Afinal, meu remorso é infundado. Não dependeria de mim a sorte de uma entre tantas fazendas condenadas à morte pelo chamado desenvolvimento.
Carlos Drummond de Andrade
As três experiências
Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha estarei cumprindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.
Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.
Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música?
Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.
Clarice Lispector, "Crônicas para jovens: de escrita e vida"
E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha estarei cumprindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.
Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.
Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música?
Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.
Clarice Lispector, "Crônicas para jovens: de escrita e vida"
quinta-feira, setembro 10
Urupês
Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem índios num gabinete, com reminiscências de Chateaubriand na cabeça e a Iracema aberta sobre os joelhos, metem-se a palmilhar sertões de Winchester em punho.
Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobrelevava em beleza d’alma e corpo.
Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.
Por felicidade nossa – a de D. Antonio de Mariz – não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau. Do contrário lá teríamos o filho de Arará a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer.
A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Todo o clã plumitivo deu de forjar seu indiozinho refegado de Peri e Atala. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora.
Vindo o público a bocejar de farto, já céptico ante o crescente desmantelo do ideal, cessou no mercado literário a procura de bugres homéricos, inúbias, tacapes, borés, piágas e virgens bronzeadas. Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos. E lá acamam poeira cochichando reminiscências com a barba de D. João de Castro, com os frankisks de Herculano, com os frades de Garrett e que tais…
Não morreu, todavia.
Evoluiu.
O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de “caboclismo”. O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; o ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxadal o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito.
Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Perís e Ubirajaras.
Este setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu “I Juca Pirama”, o seu “Canto do Piaga” e talvez dê ópera lírica.
Mas, completado o ciclo, virão destroçar o inverno em flor da ilusão indianista os prosaicos demolidores de ídolos – gente má e sem poesia. Irão os malvados esgaravatar o ícone com as curetas da ciência. E que feias se hão de entrever as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varela! E que chambões e sornas os Peris de calça, camisa e faca à cinta!
Isso, para o futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: o caboclo é o “Ai Jesus!” nacional.
É de ver o orgulhoso entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com altivez: sou raça de caboclo!
Anos atrás o orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare.
Dia virá em que os veremos, murchos de prosápia, confessar o verdadeiro avô: – um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Souza¹ num barco daqueles tempos, nosso mui nobre e fecundo “Mayflower”.
Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.
Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrouvinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo.
Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uf! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, ‘magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo.
A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifíca-se ante o inopinado da mudança.² O caboclo não dá pela coisa.
Vem Florianol estouram as granadas de Custódiol Gumercidndo bate às portas de Roimal Incitatus derranca o país.³ O caboclo continua de cócoras, a modorrar…
Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.
Jéca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.
Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.
– “Não vê que…
De pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.
De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para “aquentá-lo”, imitado da mulher e da prole.
Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.
Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.
Pobre Jéca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca fisólofo…
Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquara-poca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõesinhos, colheres de pau.
Nada Mais.
Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço – e nisto vai longo.
Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido.
Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas – para hospedes. Três pernas permitem equilíbrio inútil, portanto, meter a Quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?
Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo – colher, garfo e faca a um tempo?
No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.
Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhosl um que traz no uso e outro na lavagem.
Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.
Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto, alí pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.
Da parede pende a espingarda picapau, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.
Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão Quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.
Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu.
Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante…
Remendo… Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam “apenas ” nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos.
Na mansão de Jéca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. Afim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas conseqüências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela – santo de mascate.
– “Por que não remenda essa parede, homem de Deus?
– “Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?
Não obstante, “por via das dúvidas” , quando ronca a trovoada Jéca abandona a toca e vai agachar-se no ôco dum velho embirussu do quintal – para se saborear de longe com a eficácia da escora santa.
Um pedaço de pau dispensaria o milagre! mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente.
Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores – nada revelador de permanência.
Há mil razões para isso; porque não é sua a terral porque se o “tocarem” não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a “criação” come; porque…
– “Mas, criatura, com um vedozinho por ali… A madeira está à mão, o cipó é tanto…”
Jéca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.
– “Não paga a pena”.
Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.
Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha.
Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jéca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio.
Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jéca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem massetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura.
Todavia, est modus in rebus. E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jéca a opulência de um seu vizinho e compadre que “está muito bem.” A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca.
Vive num corrupio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo. A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas ainda assim valia dez mil réis mais do que o rossinante zanaga.
Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, grangeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jéca, para quem, fino como o compadre, “home” … nem mesmo o vigário de Itaóca!.
Aos domingos vai à vila bifurcado na magreza ventruda da Serena; leva apenso à garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no chale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora.
O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras, entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária.
Vota. Não sabe em quam, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama “sua graça”.
Se há tumulto, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, afim de novamente lhe depor nas mão o “diploma”.
Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de munheca e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão.
Representa este freguês o tipo clássico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, díscolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jéca Tatu.
O mobiliário cerebral de Jéca, à parte o suculento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de idéias: são as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos.
O sentimento de pátria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do país em que vive. Sabe que o mundo é grande, que há sempre terras para diante, que muito longe está a Corte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde vêm baianos pernósticos e cocos.
Perguntem ao Jéca quem é o presidente da República.
– “O homem que manda em nós tudo?
– “Sim.
– “Pois de certo que há de ser o imperador.
Em matéria de civismo não sobe de ponto.
– “Guerra? T’esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato p’ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. (4) Eu, para escapar do “reculutamento”, sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço…
Guerra, defesa nacional, ação administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante – “reculutamento”.
Quando em princípios da Presidência Hermes andou na balha um recenseamento esquecido a Offenbach, o caboclo tremeu e entrou a casar em massa. Aquilo “havera de ser reculutamento”, e os casados, na voz corrente, escapavam à redada.
A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília – em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há rir, lúgubre como é o epílogo. A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça.
Quem aplica as mezinhas é o “curador”, um Eusébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como muita de taquaruçu. O veículo usual das drogas é sempre a pinga – meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos.
Doenças hajam que remédios não faltam.
Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo…
Para “quebranto de ossos”, já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã! mete-se tudo numa gamela d’água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível.
O específico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto.
Para dor de peito que “responde na cacunda”, cataplasma de “jasmim de cachorro” é um porrete.
Além desta alopatia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano.
O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jéca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-fólio d’alto fôlego ao Sílvio Romero bastante operoso que se propusesse a compendiá-lo.
Num parto difícil nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de S. Benedito.
Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe. A criança morreria pagã. A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém-nascido.
A posse de certos objetos confere dotes sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia.
Esta planta, conta Jéca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhe-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre – mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida.
Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhes as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não havendo distinguir onde pára uma e começa outra.
A ideia de Deus e dos santos torna-se jéco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou – tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos.
Daí o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamação, muito parenta do “Allah Kébir” do beduíno.
E na arte?
Nada.
A arte rústica do campônio europeu é opulenta a ponto de constituir preciosa fonte de sugestões para os artistas de escol. Em nenhum país o povo vive sem a ela recorrer para um ingênuo embelezamento da vida. Já não se fala no camponês italiano ou teutônico, filho de alfobres mimosos, propícios a todas as florações estéticas. Mas o russo, o hirsuto mujique a meio atolado em barbarie crassa. Os vestuários nacionais da Ucrânia nos quais a cor viva e o sarapantado da ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, os isbas da Lituânia, sua cerâmica, os bordados, os móveis, os utensílios de cozinha, tudo revela no mais rude dos campônios o sentimento da arte.
No samoieda, no pele-vermelha, no abexim, no Papua, un arabesco ingênuo costuma ornar-lhes as armas – como lhes ornam a vida canções repassadas de ritmos sugestivos.
Que nada é isso, sabido como já o homem pré-histórico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de mamutes em chifres de rena.
Egresso à regra, não denuncia o nosso caboclo o mais remoto traço de um sentimento nascido com o troglodita.
Esmerilhemos o seu casebre: que é que ali denota a existência do mais vago senso estético? Uma chumbada no cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do porretinho de guatambu. É tudo.
Às vezes surge numa família um gênio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Ei-lo na viola concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro, fere as cordase “tempera” , E fica nisso, no tempero.
Dirão: e a modinha?
A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d’envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro.
O caboclo é soturno.
Não canta senão rezas lúgubres.
Não dança senão o cateretê aladainhado.
Não esculpe o cabo da faca, como o cabila.
Não compõe sua canção, como o felá do Egito.
No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas.
Só ele não fala, não canta, não ri, não ama.
Só ele, no meio da tanta vida, não vive…
Monteiro Lobato
Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobrelevava em beleza d’alma e corpo.
Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.
Por felicidade nossa – a de D. Antonio de Mariz – não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau. Do contrário lá teríamos o filho de Arará a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer.
A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Todo o clã plumitivo deu de forjar seu indiozinho refegado de Peri e Atala. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora.
Vindo o público a bocejar de farto, já céptico ante o crescente desmantelo do ideal, cessou no mercado literário a procura de bugres homéricos, inúbias, tacapes, borés, piágas e virgens bronzeadas. Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos. E lá acamam poeira cochichando reminiscências com a barba de D. João de Castro, com os frankisks de Herculano, com os frades de Garrett e que tais…
Não morreu, todavia.
Evoluiu.
O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de “caboclismo”. O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; o ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxadal o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito.
Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Perís e Ubirajaras.
Este setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu “I Juca Pirama”, o seu “Canto do Piaga” e talvez dê ópera lírica.
Mas, completado o ciclo, virão destroçar o inverno em flor da ilusão indianista os prosaicos demolidores de ídolos – gente má e sem poesia. Irão os malvados esgaravatar o ícone com as curetas da ciência. E que feias se hão de entrever as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varela! E que chambões e sornas os Peris de calça, camisa e faca à cinta!
Isso, para o futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: o caboclo é o “Ai Jesus!” nacional.
É de ver o orgulhoso entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com altivez: sou raça de caboclo!
Anos atrás o orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare.
Dia virá em que os veremos, murchos de prosápia, confessar o verdadeiro avô: – um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Souza¹ num barco daqueles tempos, nosso mui nobre e fecundo “Mayflower”.
Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.
Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrouvinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo.
Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uf! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, ‘magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo.
A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifíca-se ante o inopinado da mudança.² O caboclo não dá pela coisa.
Vem Florianol estouram as granadas de Custódiol Gumercidndo bate às portas de Roimal Incitatus derranca o país.³ O caboclo continua de cócoras, a modorrar…
Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.
Jéca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.
Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.
– “Não vê que…
De pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.
De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para “aquentá-lo”, imitado da mulher e da prole.
Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.
Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.
Pobre Jéca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca fisólofo…
Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquara-poca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõesinhos, colheres de pau.
Nada Mais.
Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço – e nisto vai longo.
Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido.
Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas – para hospedes. Três pernas permitem equilíbrio inútil, portanto, meter a Quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?
Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo – colher, garfo e faca a um tempo?
No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.
Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhosl um que traz no uso e outro na lavagem.
Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.
Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto, alí pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.
Da parede pende a espingarda picapau, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.
Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão Quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.
Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu.
Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante…
Remendo… Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam “apenas ” nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos.
Na mansão de Jéca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. Afim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas conseqüências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela – santo de mascate.
– “Por que não remenda essa parede, homem de Deus?
– “Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?
Não obstante, “por via das dúvidas” , quando ronca a trovoada Jéca abandona a toca e vai agachar-se no ôco dum velho embirussu do quintal – para se saborear de longe com a eficácia da escora santa.
Um pedaço de pau dispensaria o milagre! mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente.
Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores – nada revelador de permanência.
Há mil razões para isso; porque não é sua a terral porque se o “tocarem” não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a “criação” come; porque…
– “Mas, criatura, com um vedozinho por ali… A madeira está à mão, o cipó é tanto…”
Jéca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.
– “Não paga a pena”.
Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.
Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha.
Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jéca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio.
Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jéca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem massetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura.
Todavia, est modus in rebus. E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jéca a opulência de um seu vizinho e compadre que “está muito bem.” A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca.
Vive num corrupio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo. A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas ainda assim valia dez mil réis mais do que o rossinante zanaga.
Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, grangeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jéca, para quem, fino como o compadre, “home” … nem mesmo o vigário de Itaóca!.
Aos domingos vai à vila bifurcado na magreza ventruda da Serena; leva apenso à garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no chale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora.
O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras, entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária.
Vota. Não sabe em quam, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama “sua graça”.
Se há tumulto, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, afim de novamente lhe depor nas mão o “diploma”.
Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de munheca e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão.
Representa este freguês o tipo clássico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, díscolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jéca Tatu.
O mobiliário cerebral de Jéca, à parte o suculento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de idéias: são as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos.
O sentimento de pátria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do país em que vive. Sabe que o mundo é grande, que há sempre terras para diante, que muito longe está a Corte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde vêm baianos pernósticos e cocos.
Perguntem ao Jéca quem é o presidente da República.
– “O homem que manda em nós tudo?
– “Sim.
– “Pois de certo que há de ser o imperador.
Em matéria de civismo não sobe de ponto.
– “Guerra? T’esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato p’ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. (4) Eu, para escapar do “reculutamento”, sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço…
Guerra, defesa nacional, ação administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante – “reculutamento”.
Quando em princípios da Presidência Hermes andou na balha um recenseamento esquecido a Offenbach, o caboclo tremeu e entrou a casar em massa. Aquilo “havera de ser reculutamento”, e os casados, na voz corrente, escapavam à redada.
A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília – em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há rir, lúgubre como é o epílogo. A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça.
Quem aplica as mezinhas é o “curador”, um Eusébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como muita de taquaruçu. O veículo usual das drogas é sempre a pinga – meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos.
Doenças hajam que remédios não faltam.
Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo…
Para “quebranto de ossos”, já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã! mete-se tudo numa gamela d’água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível.
O específico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto.
Para dor de peito que “responde na cacunda”, cataplasma de “jasmim de cachorro” é um porrete.
Além desta alopatia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano.
O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jéca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-fólio d’alto fôlego ao Sílvio Romero bastante operoso que se propusesse a compendiá-lo.
Num parto difícil nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de S. Benedito.
Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe. A criança morreria pagã. A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém-nascido.
A posse de certos objetos confere dotes sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia.
Esta planta, conta Jéca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhe-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre – mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida.
Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhes as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não havendo distinguir onde pára uma e começa outra.
A ideia de Deus e dos santos torna-se jéco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou – tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos.
Daí o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamação, muito parenta do “Allah Kébir” do beduíno.
E na arte?
Nada.
A arte rústica do campônio europeu é opulenta a ponto de constituir preciosa fonte de sugestões para os artistas de escol. Em nenhum país o povo vive sem a ela recorrer para um ingênuo embelezamento da vida. Já não se fala no camponês italiano ou teutônico, filho de alfobres mimosos, propícios a todas as florações estéticas. Mas o russo, o hirsuto mujique a meio atolado em barbarie crassa. Os vestuários nacionais da Ucrânia nos quais a cor viva e o sarapantado da ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, os isbas da Lituânia, sua cerâmica, os bordados, os móveis, os utensílios de cozinha, tudo revela no mais rude dos campônios o sentimento da arte.
No samoieda, no pele-vermelha, no abexim, no Papua, un arabesco ingênuo costuma ornar-lhes as armas – como lhes ornam a vida canções repassadas de ritmos sugestivos.
Que nada é isso, sabido como já o homem pré-histórico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de mamutes em chifres de rena.
Egresso à regra, não denuncia o nosso caboclo o mais remoto traço de um sentimento nascido com o troglodita.
Esmerilhemos o seu casebre: que é que ali denota a existência do mais vago senso estético? Uma chumbada no cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do porretinho de guatambu. É tudo.
Às vezes surge numa família um gênio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Ei-lo na viola concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro, fere as cordase “tempera” , E fica nisso, no tempero.
Dirão: e a modinha?
A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d’envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro.
O caboclo é soturno.
Não canta senão rezas lúgubres.
Não dança senão o cateretê aladainhado.
Não esculpe o cabo da faca, como o cabila.
Não compõe sua canção, como o felá do Egito.
No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas.
Só ele não fala, não canta, não ri, não ama.
Só ele, no meio da tanta vida, não vive…
Monteiro Lobato
O relógio
Os chineses veem a hora no olho dos gatos.
Um dia um missionário, passeando nos subúrbios de Nanquim, percebeu que havia esquecido seu relógio e perguntou a hora a um garoto.
O menino do Império celeste primeiro hesitou; depois, mudando de ideia, respondeu: “Vou dizer-lhe”. Poucos instantes depois reapareceu, tendo nos braços um gato muito gordo, e, olhando-o, como se diz, no branco dos olhos, afirmou sem hesitar: “Ainda não é exatamente meio-dia”. O que era verdade.
E se alguém importuno viesse incomodar-me enquanto meu olhar repousa nesse delicioso quadrante, se algum Gênio desonesto e intolerante, algum Demônio do contratempo viesse dizer-me: “O que você está olhando aí com tanta atenção? O que você procura nos olhos dessa criatura? Mortal pródigo e preguiçoso, você está vendo a hora?”, eu responderia sem hesitar: “Sim, estou vendo a hora; é a Eternidade!”.Não lhe parece, senhora, que este é um madrigal verdadeiramente meritório, e tão enfático quanto a senhora mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esse pretensioso galanteio, que não lhe pedirei nada em troca.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Um dia um missionário, passeando nos subúrbios de Nanquim, percebeu que havia esquecido seu relógio e perguntou a hora a um garoto.
O menino do Império celeste primeiro hesitou; depois, mudando de ideia, respondeu: “Vou dizer-lhe”. Poucos instantes depois reapareceu, tendo nos braços um gato muito gordo, e, olhando-o, como se diz, no branco dos olhos, afirmou sem hesitar: “Ainda não é exatamente meio-dia”. O que era verdade.
Quanto a mim, se me inclino para a bela Féline, cujo nome lhe cabe tão bem, e que é ao mesmo tempo honra de seu sexo, orgulho de meu coração e perfume de meu espírito, seja de noite, seja de dia, na luz plena ou na escuridão opaca, no fundo de seus olhos adoráveis sempre vejo a hora com clareza, sempre a mesma, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisões de minutos nem de segundos — uma hora imóvel que não é marcada nos relógios, e todavia leve como um suspiro, rápida como uma espiadela.
E se alguém importuno viesse incomodar-me enquanto meu olhar repousa nesse delicioso quadrante, se algum Gênio desonesto e intolerante, algum Demônio do contratempo viesse dizer-me: “O que você está olhando aí com tanta atenção? O que você procura nos olhos dessa criatura? Mortal pródigo e preguiçoso, você está vendo a hora?”, eu responderia sem hesitar: “Sim, estou vendo a hora; é a Eternidade!”.Não lhe parece, senhora, que este é um madrigal verdadeiramente meritório, e tão enfático quanto a senhora mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esse pretensioso galanteio, que não lhe pedirei nada em troca.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
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