Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quarta-feira, maio 20
'Precisa-se'
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito:
Precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
Precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
Clarice Lispector
Tio Einar
— É só um minutinho — pediu a doce esposa de Tio Einar.
– Eu me recuso — respondeu. — E antes que eu me esqueça, só demora um segundinho.
A esposa plantou as mãos nas ancas delgadas.
– Trabalhei a manhã inteira, e você se recusa a dar u’a mãozinha? Está trovejando, vai chover.
Tio Einar retrucou, casmurro:
– Pois deixe que chova. Não quero ser perfurado por um raio só para ir secar a roupa.
– Mas você faz isso num instantinho.
– Me recuso, mesmo assim.
As imensas asas de Tio Einar, de lona encerada, vibraram, nervosas, em suas costas indignadas.
A esposa estendeu-lhe um cordão em que estavam amarradas quatro dúzias de peças de roupa recém-lavadas. A contragosto, Tio Einar enrolou o cordão no dedo e murmurou, amargo:
– Então, estou reduzido a isso! A isso!
E quase derramou lágrimas enfurecidas, ácidas.
– Não chore; vai molhar a roupa de novo. Pule agora, dê uma volta com a roupa.
– Dar uma volta com a roupa…
A voz saíra oca, profunda e muito magoada.
– Não! Pois que caiam os raios! Que chova! A esposa ponderou:
– Se o dia estivesse bonito, se estivesse fazendo sol, eu não pediria. Se você não for, será trabalho perdido, vou ter que estender a roupa pela casa…
Aquilo o convenceu. Acima de tudo, detestava roupas penduradas, em bandeiras festonadas, que o faziam abaixar-se para atravessar a sala. Tio Einar subiu, bateu as imensas asas verdes.
– Mas só vou até a cerca do pasto!
Girou: deu um salto, as asas mascaram, deliciaram-se com o ar fresco. E antes mesmo que você pronuncie Tio Einar Tem Asas Verdes, Tio Einar navegou, em vôo baixo, pela fazenda, estendendo a roupa num círculo imenso, farfalhante, secando-a com a concussão, contundente, da lavagem de costas que suas asas proporcionavam!
– Segura!
De volta do giro, manobrou a roupa, seca como pipoca, fazendo-a pousar numa série de cobertores limpos que a esposa estendera para servir de plataforma de aterrissagem.
– Obrigada!
– Ora, não amole!
Voando, Tio Einar foi amargar debaixo da macieira.
Aquelas lindas asas sedosas, dobradas sobre as costas de Tio Einar qual duas velas de cor verde-marinho, faziam desprender dele, sobre os ombros, um chiado, um sussurro, sempre que espirrava ou se virava de repente. Era, na Família, dos poucos cujo talento era visível. Tinha primos, sobrinhos e irmãos obscuros, escondidos pelo mundo, em cidadezinhas, e todos realizavam coisas invisíveis com a mente, ou coisas relacionadas com dedos de feiticeiros, com dentes brancos, ou sopravam labaredas de fogo no céu, galopavam em florestas como se fossem lobos enluarados, prateados. E, comparativamente, viviam bem protegidos dos humanos normais, coisa que, para um homem de asas verdes, imensas, era praticamente impossível.
Não que detestasse suas asas. Nada disso! Quando jovem, costumava voar à noite, pois a noite é uma ocasião rara para os homens alados! O dia oferecia perigo, sempre ofereceu e sempre oferecerá; à noite, porém, ah, a noite, Tio Einar sobrevoara ilhas de nuvens e mares de céu de verão. Sem perigo algum. Foram vôos bem altos, proveitosos, regozijo absoluto.
Mas agora já não mais conseguia voar à noite.
Quando voltava para casa, no alto de um certo desfiladeiro, na Europa, depois de uma reunião familiar comemorativa em Mellin Town, Illinois (alguns anos atrás), bebera muito vinho tinto, forte. Estarei bem, disse para si mesmo, vago, e prosseguiu a longa jornada, sob as estrelas da manhã, sobre as colinas dos campos, que sonham com a lua, para lá de Mellin Town. E então… desastre nos céus.
Uma torre de alta tensão.
Um pato na rede! Que chiado! As faíscas azuis do fio empreteceram-lhe o rosto, ele conseguiu desgarrar-se da eletricidade com uma estupenda percussão das asas, num estupendo salto de costas, e caiu.
Estatelar na ravina enluarada, ali debaixo da torre, foi como o ruído de um enorme catálogo telefônico despencado do céu.
No dia seguinte, de manhã cedinho, batendo com violência as asas encharcadas de orvalho, levantou-se. Ainda estava escuro. Uma faixa tênue de alvorada estendia-se a leste. E logo iria se colorir, e logo os vôos estariam restritos. Assim, nada a fazer senão refugiar-se na floresta e esperar a passagem do dia, nalgum bosque cerrado, até que a nova noite permitisse às suas asas o movimento oculto nos céus.
E, dessa maneira, conheceu a esposa.
Passava o dia, quente para primeiro de novembro, na rural Illinois, e a bela Brunilla Wexley foi ordenhar uma vaca desgarrada, pois levava uma caçamba na mão e, pelo bosque, caminhava de lado, suplicando, esperta, para que a vaca invisível por favor voltasse para casa; do contrário, iria explodir a barriga de tanto leite acumulado. O fato de que a vaca com certeza voltar quando as tetas necessitassem de ordenha não tocou Brunilla Wexley. Pretexto meigo para ir passear na floresta, soprar cardos e mascar flores, o que ela fazia quando tropeçou em Tio Einar.
Adormecido, junto a uma touceira, parecia um homem debaixo de um abrigo verde.
– Chii! — exclamou Brunilla. — Um homem! Numa barraca!
Tio Einar acordou. Para trás, a barraca se abriu, imenso leque verde
– Chii!…
Brunilla, que procurava a vaca, exclamou.
—… Um homem alado!
Foi assim que Brunilla viu as coisas. Assustou-se, é claro, mas, como nunca se machucara na vida, não tinha medo de ninguém, e encontrar um homem alado era algo fantástico. Orgulhou-se em conhecê-lo. Começou a conversar. Em uma hora, já eram velhos amigos, e em duas horas, já se esquecera de que o homem possuía asas. E ele, de certa forma, confessou como viera parar ali no bosque.
– Claro, eu percebi; você está meio bombardeado. A asa direita está mal. É melhor irmos até lá em casa, eu trato dela. De qualquer modo, você não vai conseguir voar para a Europa desse jeito. E, afinal, hoje em dia, quem vai querer morar na Europa?
Tio Einar agradeceu, mas não via jeito de aceitar.
– Mas eu moro sozinha. Como você vê, sou muito feia. Ele insistiu que não.
– É bondade sua. Mas eu sou sim, não adianta me enganar. Minha família já morreu, eu tenho uma fazenda, grande, todinha para mim, bem distante de Mellin Town, e estou precisando de gente com quem conversar.
A menina não sentia medo dele?, Einar perguntou.
– Orgulhosa, e com inveja; isso sim. Você me dá licença?
Cuidadosa, Brunilla acariciou aquelas imensas asas verdes, membranosas, invejando-as. Ao sentir o toque, Tio Einar estremeceu, trincou a língua com os dentes.
Assim, a única coisa a fazer seria mesmo ir até a casa da fazenda e deixar que ela cuidasse dele, com remédios e ungüentos, e, meu Deus!, que queimadura feia no rosto, bem embaixo dos olhos! Sorte você não ter ficado cego! Como foi que aconteceu?
– Bem…
Tio Einar mal começou a contar, e já estavam na casa da fazenda, sem terem percebido que haviam caminhado dois quilômetros, entreolhando-se.
Um dia se passou, e mais outro, e Tio Einar agradeceu, na porta, dizendo que teria que ir-se, agora, que apreciara o unguento, demais, o cuidado, as acomodações. O crepúsculo chegara, e daqui, seis horas da tarde, até as cinco de manhã, ele teria que atravessar um oceano e um continente.
– Muito obrigado! Adeus!
Na penumbra, decolou e chocou-se contra uma acerácea.
– Caramba!
Brunilla correu até o corpo desacordado.
Ao acordar, uma hora depois, Tio Einar percebeu que não poderia voar à noite; sua percepção noturna, delicada, se fora. A telepatia alada que o alertava contra as torres, árvores e colinas que se encontrassem à frente, a visão e a sensibilidade, límpidas, que o guiavam através do labirinto das florestas, colinas e nuvens estavam cauterizadas para sempre por aquela queimadura no rosto, por aquela tritura azul, eletrificada, tostada.
Meigo, Tio Einar queixou-se.
– Como vou conseguir chegar à Europa? Se eu voar de dia, serei visto e — piada macabra! — alguém pode me abater! Ou então querer me levar para um jardim zoológico; que vidão, não? Brunilla, me diga, o que devo fazer?
Brunilla fitava as próprias mãos.
– Ora, vamos dar um jeito nisso… Casaram-se.
A Família veio para o casamento. Numa imensa avalanche outonal, de folhas de aceráceas, plátanos, carvalhos e elmos, mergulhavam numa chuva de castanheiras da índia, tocaram o chão com o ruído surdo da queda das maçãs de inverno, e com o vento impregnado do aroma do adeus do verão partiram. A cerimônia? A cerimônia foi breve como a luz de uma vela negra, acesa e soprada, a fumaça deixada no ar. A brevidade, a escuridão, a natureza invertida, de trás para diante, tudo isso escapou a Brunilla, que ouviu apenas o murmúrio tênue do imenso vagalhão das asas de Tio Einar, ao fim do rito. Ê, no que diz respeito a Tio Einar, a ferida no nariz já quase curada, tomando Brunilla pelo braço, sentiu a Europa esvair-se, diluir-se na distância.
Mas, para voar na vertical, em linha reta, e descer, não era preciso enxergar bem. Nada mais natural, portanto, que tomasse Brunilla nos braços e com ela subisse num vôo reto, vertical, céu adentro.
Um fazendeiro, a uns dez quilômetros dali, viu uma nuvem baixa à meia- noite, viu ligeiros reflexos, ligeiros estrépitos.
– Relâmpagos de verão — comentou, e foi dormir.
Só desceram no dia seguinte, de manhãzinha, com o orvalho.
O casamento vingou. Tudo o que ela fazia era olhar para ele e inflar-se só em imaginar-se a única mulher no mundo casada com um homem alado. Quem diria?, perguntou ao espelho. A resposta veio: Ninguém!
Ele, por seu turno, viu muita beleza oculta por trás do rosto de Brunilla, muita bondade, muita compreensão. Para ajustar-se às ideias da esposa, fez algumas alterações no regime alimentar e tomava cuidado com as asas pela casa; bibelôs lascados e lâmpadas quebradas poderiam ferir-lhe os nervos; deles, procurou distância. Mudou o horário de dormir, já que não mais voaria à noite. Quanto a Brunilla, ajeitou as poltronas para que ficassem confortáveis para as asas de Tio Einar, nalguns lugares colocou almofadas adicionais, de outros, retirou-as, e as coisas que dizia eram precisamente as coisas por que Tio Einar a amava.
– Estamos em casulos, todos nós. Veja como sou feia! Mas, um dia, vou florescer e vou ter asas tão bonitas e elegantes como as suas!
– Você já floresceu há muito tempo! Brunilla refletiu e teve de admiti-lo.
– É, já mesmo. E sei em que dia foi, também. Foi no bosque, eu procurava uma vaca e achei uma barraca!
Os dois riram, e com ele a envolvê-la, Brunilla sentiu-se maravilhosa, sabia que o casamento a fizera desabrochar da feiura, como uma espada resplandecentes, desembainhada.
Tiveram filhos. No início, sentiram medo, mais por parte de Tio Einar, de que nascessem alados.
– Que bobagem! Eu gostaria demais. Estariam protegidos contra os pisões.
– Bem, então, vão ter o seu cabelo!
– Ah, essa não…
Nasceram quatro filhos, três meninos e uma menina, que, de tanta energia, pareciam alados. Em quatro anos, espoucaram como cogumelos; nos dias quentes de verão, pediam ao pai que sentasse debaixo da macieira, os abanasse com suas asas refrescantes e lhes contasse a história romântica, estrelada, das ilhas de nuvens, dos oceanos celestes, da textura da bruma e do vento, de como o gosto da estrela derrete na boca, de como beber o ar frio da montanha, de qual a sensação de ser uma pedra rolada caindo pelo Monte Everest, e transformar-se num broto verde que vem florir-lhe as asas antes mesmo que se chegue lá embaixo!
Assim era o casamento de Tio Einar.
E hoje, seis anos depois, ali estava Tio Einar, sentado, criando úlceras debaixo da macieira, ficando impaciente e indelicado; não porque assim o desejasse, mas porque, depois de longa espera, ainda não conseguia viajar pelo céu da noite, aventuresco; jamais recuperara o sentido superior. Ali estava ele, sentado, acabrunhado, apenas uma barraca de verão, verde, descartada, abandonada, pela temporada, por veranistas indiferentes que outrora buscavam refúgio em sua sombra translúcida. Teria que ficar aqui sentado para sempre, com medo de voar de dia, de que alguém o visse? Teria que voar apenas para secar a roupa para a esposa; ficaria ali apenas a abanar as crianças nas tardes de outono? Sua única ocupação sempre fora transportar mensagens familiares, mais rápido que as tempestades. Um bumerangue, saía a girar por colinas, vales e, como um cardo, aterrissava. Andava sempre com dinheiro; a Família fazia bom uso de seus membros alados! Mas, e agora? Amargura? As asas bateram rápidas, agitaram o ar, num trovão cativo.
– Papai! — chamou a pequenina Meg.
As crianças fitavam-lhe o rosto obscurecido pelo pensamento.
– Papai — pediu Ronald. — Faz mais trovão!
– Hoje está frio — respondeu Tio Einar —, estamos em março, logo vamos ter muita chuva, muito trovão.
– Você vem ver a gente? — perguntou Michael.
– Andem, andem, meninos! Deixem papai descansar!
Tio Einar estava fechado para o amor, as crianças do amor, o amor das crianças. Pensava apenas no firmamento, no céu, nos horizontes, nos infinitos, de noite, de dia, iluminados pelas estrelas, pela lua ou pelo sol, nublados ou límpidos, eram sempre o mesmo céu, o mesmo firmamento, o mesmo horizonte ali à frente, e você, amargurado. E lá estava ele, a navegar pelo pasto, com medo de ser visto.
A desgraça, num poço profundo. Meg chamou:
– Papai, vem ver a gente; estamos em março! E nós vamos à Colina com os guris da cidade!
Tio Einar resmungou:
– Que colina?
– A Colina das Pipas, é claro! — cantaram em coro. Tio Einar olhou para as crianças.
Cada uma com uma pipa grande nas mãos, os rostos transpiravam por antecipação, um brilho animalesco. Nos dedinhos, rolos de linha branca. Nas pipas vermelhas, azuis, amarelas e verdes, estiravam-se caudas, tiras de algodão e seda. Ronald insistiu.
– Nós vamos empinar papagaio! Por que não vem? Tio Einar estava triste.
– Não, se alguém me vir, estarei em apuros.
– Você poderia ficar escondido no bosque e olhar — disse Meg. — Nós mesmos fizemos as pipas. Porque sabemos fazê-las.
– E como é que vocês sabem?
– Você não é o nosso pai? — resposta imediata. — É por isso que sabemos, ora!
Tio Einar fitou as crianças por longo tempo. Suspirou:
– Um Festival de Pipas, não é?
– Isso mesmo!
– Eu vou ganhar — afirmou Meg.
– Eu é que vou — contradisse Michael.
– Não, sou eu, sou eu — esganiçou Stephen.
Tio Einar saltou, com um rufar surdo, ensurdecedor, das asas, e urrou:
– Por Deus! Se não foi Deus quem me apareceu pela frente! Meus filhos!
Meus filhos! Eu amo vocês, demais!
Michael recuou.
– Papai, o que é que houve? Einar entoou:
– Nada! Nada!
E flexionou as asas, em propulsão, em extensão máximas. Pam! Bateu-as qual pratos de banda! Com a percussão, as crianças estatelaram-se de costas.
– Descobri! Descobri! Estou livre de novo! Fogo nas turbinas! Penas ao vento! Brunilla!
Einar gritou na direção da casa. Brunilla apareceu. Einar gritou, exuberante, esguio, na ponta dos dedos.
– Estou livre, Brunilla. Ouça, não preciso mais da noite! Posso voar de dia! Não preciso da noite! De agora em diante, vou voar todo dia, qualquer dia do ano! Mas, meu Deus, estou perdendo tempo, conversando. Olhe!
Ante o olhar preocupado dos familiares, Einar pegou a cauda de algodão de uma das pipas, amarrou-a atrás do cinto, segurou o rolo de barbante, abocanhou uma das extremidades, estendeu a outra às crianças, e subiu, voou para o céu, afastando-se ao vento de março!
Pelos prados, pelos campos das fazendas, as crianças correram, soltando linha para o céu diurno, espumando, tropeçando; Brunilla ficou no quintal para ver, acenava, ria. Os filhos partiram para a Colina das Pipas, lá longe, e pararam, os quatro, a segurar o rolo de linha nos dedinhos ávidos e orgulhosos, cada um dando seus puxões, manobrando, empinando. E as crianças de Mellin Town vieram correndo para empinar seus pequeninos papagaios ao vento, viram a imensa pipa verde empinar, planar no céu, e exclamaram:
– Caramba! Que pipa! Que pipa! Eu queria ter uma pipa assim! Onde foi que vocês compraram?
– Foi nosso pai que fez.
Meg, Michael, Stephen e Ronald responderam, e, exultantes, puxaram a linha, e a pipa sibilante, trovejante, lá no céu, mergulhou e subiu, formando, com a nuvem, um ponto, mágico, de exclamação!
– Eu me recuso — respondeu. — E antes que eu me esqueça, só demora um segundinho.
A esposa plantou as mãos nas ancas delgadas.
– Trabalhei a manhã inteira, e você se recusa a dar u’a mãozinha? Está trovejando, vai chover.
Tio Einar retrucou, casmurro:
– Pois deixe que chova. Não quero ser perfurado por um raio só para ir secar a roupa.
– Mas você faz isso num instantinho.
– Me recuso, mesmo assim.
As imensas asas de Tio Einar, de lona encerada, vibraram, nervosas, em suas costas indignadas.
A esposa estendeu-lhe um cordão em que estavam amarradas quatro dúzias de peças de roupa recém-lavadas. A contragosto, Tio Einar enrolou o cordão no dedo e murmurou, amargo:
– Então, estou reduzido a isso! A isso!
E quase derramou lágrimas enfurecidas, ácidas.
– Não chore; vai molhar a roupa de novo. Pule agora, dê uma volta com a roupa.
– Dar uma volta com a roupa…
A voz saíra oca, profunda e muito magoada.
– Não! Pois que caiam os raios! Que chova! A esposa ponderou:
– Se o dia estivesse bonito, se estivesse fazendo sol, eu não pediria. Se você não for, será trabalho perdido, vou ter que estender a roupa pela casa…
Aquilo o convenceu. Acima de tudo, detestava roupas penduradas, em bandeiras festonadas, que o faziam abaixar-se para atravessar a sala. Tio Einar subiu, bateu as imensas asas verdes.
– Mas só vou até a cerca do pasto!
Girou: deu um salto, as asas mascaram, deliciaram-se com o ar fresco. E antes mesmo que você pronuncie Tio Einar Tem Asas Verdes, Tio Einar navegou, em vôo baixo, pela fazenda, estendendo a roupa num círculo imenso, farfalhante, secando-a com a concussão, contundente, da lavagem de costas que suas asas proporcionavam!
– Segura!
De volta do giro, manobrou a roupa, seca como pipoca, fazendo-a pousar numa série de cobertores limpos que a esposa estendera para servir de plataforma de aterrissagem.
– Obrigada!
– Ora, não amole!
Voando, Tio Einar foi amargar debaixo da macieira.
Aquelas lindas asas sedosas, dobradas sobre as costas de Tio Einar qual duas velas de cor verde-marinho, faziam desprender dele, sobre os ombros, um chiado, um sussurro, sempre que espirrava ou se virava de repente. Era, na Família, dos poucos cujo talento era visível. Tinha primos, sobrinhos e irmãos obscuros, escondidos pelo mundo, em cidadezinhas, e todos realizavam coisas invisíveis com a mente, ou coisas relacionadas com dedos de feiticeiros, com dentes brancos, ou sopravam labaredas de fogo no céu, galopavam em florestas como se fossem lobos enluarados, prateados. E, comparativamente, viviam bem protegidos dos humanos normais, coisa que, para um homem de asas verdes, imensas, era praticamente impossível.
Não que detestasse suas asas. Nada disso! Quando jovem, costumava voar à noite, pois a noite é uma ocasião rara para os homens alados! O dia oferecia perigo, sempre ofereceu e sempre oferecerá; à noite, porém, ah, a noite, Tio Einar sobrevoara ilhas de nuvens e mares de céu de verão. Sem perigo algum. Foram vôos bem altos, proveitosos, regozijo absoluto.
Mas agora já não mais conseguia voar à noite.
Quando voltava para casa, no alto de um certo desfiladeiro, na Europa, depois de uma reunião familiar comemorativa em Mellin Town, Illinois (alguns anos atrás), bebera muito vinho tinto, forte. Estarei bem, disse para si mesmo, vago, e prosseguiu a longa jornada, sob as estrelas da manhã, sobre as colinas dos campos, que sonham com a lua, para lá de Mellin Town. E então… desastre nos céus.
Uma torre de alta tensão.
Um pato na rede! Que chiado! As faíscas azuis do fio empreteceram-lhe o rosto, ele conseguiu desgarrar-se da eletricidade com uma estupenda percussão das asas, num estupendo salto de costas, e caiu.
Estatelar na ravina enluarada, ali debaixo da torre, foi como o ruído de um enorme catálogo telefônico despencado do céu.
No dia seguinte, de manhã cedinho, batendo com violência as asas encharcadas de orvalho, levantou-se. Ainda estava escuro. Uma faixa tênue de alvorada estendia-se a leste. E logo iria se colorir, e logo os vôos estariam restritos. Assim, nada a fazer senão refugiar-se na floresta e esperar a passagem do dia, nalgum bosque cerrado, até que a nova noite permitisse às suas asas o movimento oculto nos céus.
E, dessa maneira, conheceu a esposa.
Passava o dia, quente para primeiro de novembro, na rural Illinois, e a bela Brunilla Wexley foi ordenhar uma vaca desgarrada, pois levava uma caçamba na mão e, pelo bosque, caminhava de lado, suplicando, esperta, para que a vaca invisível por favor voltasse para casa; do contrário, iria explodir a barriga de tanto leite acumulado. O fato de que a vaca com certeza voltar quando as tetas necessitassem de ordenha não tocou Brunilla Wexley. Pretexto meigo para ir passear na floresta, soprar cardos e mascar flores, o que ela fazia quando tropeçou em Tio Einar.
Adormecido, junto a uma touceira, parecia um homem debaixo de um abrigo verde.
– Chii! — exclamou Brunilla. — Um homem! Numa barraca!
Tio Einar acordou. Para trás, a barraca se abriu, imenso leque verde
– Chii!…
Brunilla, que procurava a vaca, exclamou.
—… Um homem alado!
Foi assim que Brunilla viu as coisas. Assustou-se, é claro, mas, como nunca se machucara na vida, não tinha medo de ninguém, e encontrar um homem alado era algo fantástico. Orgulhou-se em conhecê-lo. Começou a conversar. Em uma hora, já eram velhos amigos, e em duas horas, já se esquecera de que o homem possuía asas. E ele, de certa forma, confessou como viera parar ali no bosque.
– Claro, eu percebi; você está meio bombardeado. A asa direita está mal. É melhor irmos até lá em casa, eu trato dela. De qualquer modo, você não vai conseguir voar para a Europa desse jeito. E, afinal, hoje em dia, quem vai querer morar na Europa?
Tio Einar agradeceu, mas não via jeito de aceitar.
– Mas eu moro sozinha. Como você vê, sou muito feia. Ele insistiu que não.
– É bondade sua. Mas eu sou sim, não adianta me enganar. Minha família já morreu, eu tenho uma fazenda, grande, todinha para mim, bem distante de Mellin Town, e estou precisando de gente com quem conversar.
A menina não sentia medo dele?, Einar perguntou.
– Orgulhosa, e com inveja; isso sim. Você me dá licença?
Cuidadosa, Brunilla acariciou aquelas imensas asas verdes, membranosas, invejando-as. Ao sentir o toque, Tio Einar estremeceu, trincou a língua com os dentes.
Assim, a única coisa a fazer seria mesmo ir até a casa da fazenda e deixar que ela cuidasse dele, com remédios e ungüentos, e, meu Deus!, que queimadura feia no rosto, bem embaixo dos olhos! Sorte você não ter ficado cego! Como foi que aconteceu?
– Bem…
Tio Einar mal começou a contar, e já estavam na casa da fazenda, sem terem percebido que haviam caminhado dois quilômetros, entreolhando-se.
Um dia se passou, e mais outro, e Tio Einar agradeceu, na porta, dizendo que teria que ir-se, agora, que apreciara o unguento, demais, o cuidado, as acomodações. O crepúsculo chegara, e daqui, seis horas da tarde, até as cinco de manhã, ele teria que atravessar um oceano e um continente.
– Muito obrigado! Adeus!
Na penumbra, decolou e chocou-se contra uma acerácea.
– Caramba!
Brunilla correu até o corpo desacordado.
Ao acordar, uma hora depois, Tio Einar percebeu que não poderia voar à noite; sua percepção noturna, delicada, se fora. A telepatia alada que o alertava contra as torres, árvores e colinas que se encontrassem à frente, a visão e a sensibilidade, límpidas, que o guiavam através do labirinto das florestas, colinas e nuvens estavam cauterizadas para sempre por aquela queimadura no rosto, por aquela tritura azul, eletrificada, tostada.
Meigo, Tio Einar queixou-se.
– Como vou conseguir chegar à Europa? Se eu voar de dia, serei visto e — piada macabra! — alguém pode me abater! Ou então querer me levar para um jardim zoológico; que vidão, não? Brunilla, me diga, o que devo fazer?
Brunilla fitava as próprias mãos.
– Ora, vamos dar um jeito nisso… Casaram-se.
A Família veio para o casamento. Numa imensa avalanche outonal, de folhas de aceráceas, plátanos, carvalhos e elmos, mergulhavam numa chuva de castanheiras da índia, tocaram o chão com o ruído surdo da queda das maçãs de inverno, e com o vento impregnado do aroma do adeus do verão partiram. A cerimônia? A cerimônia foi breve como a luz de uma vela negra, acesa e soprada, a fumaça deixada no ar. A brevidade, a escuridão, a natureza invertida, de trás para diante, tudo isso escapou a Brunilla, que ouviu apenas o murmúrio tênue do imenso vagalhão das asas de Tio Einar, ao fim do rito. Ê, no que diz respeito a Tio Einar, a ferida no nariz já quase curada, tomando Brunilla pelo braço, sentiu a Europa esvair-se, diluir-se na distância.
Mas, para voar na vertical, em linha reta, e descer, não era preciso enxergar bem. Nada mais natural, portanto, que tomasse Brunilla nos braços e com ela subisse num vôo reto, vertical, céu adentro.
Um fazendeiro, a uns dez quilômetros dali, viu uma nuvem baixa à meia- noite, viu ligeiros reflexos, ligeiros estrépitos.
– Relâmpagos de verão — comentou, e foi dormir.
Só desceram no dia seguinte, de manhãzinha, com o orvalho.
O casamento vingou. Tudo o que ela fazia era olhar para ele e inflar-se só em imaginar-se a única mulher no mundo casada com um homem alado. Quem diria?, perguntou ao espelho. A resposta veio: Ninguém!
Ele, por seu turno, viu muita beleza oculta por trás do rosto de Brunilla, muita bondade, muita compreensão. Para ajustar-se às ideias da esposa, fez algumas alterações no regime alimentar e tomava cuidado com as asas pela casa; bibelôs lascados e lâmpadas quebradas poderiam ferir-lhe os nervos; deles, procurou distância. Mudou o horário de dormir, já que não mais voaria à noite. Quanto a Brunilla, ajeitou as poltronas para que ficassem confortáveis para as asas de Tio Einar, nalguns lugares colocou almofadas adicionais, de outros, retirou-as, e as coisas que dizia eram precisamente as coisas por que Tio Einar a amava.
– Estamos em casulos, todos nós. Veja como sou feia! Mas, um dia, vou florescer e vou ter asas tão bonitas e elegantes como as suas!
– Você já floresceu há muito tempo! Brunilla refletiu e teve de admiti-lo.
– É, já mesmo. E sei em que dia foi, também. Foi no bosque, eu procurava uma vaca e achei uma barraca!
Os dois riram, e com ele a envolvê-la, Brunilla sentiu-se maravilhosa, sabia que o casamento a fizera desabrochar da feiura, como uma espada resplandecentes, desembainhada.
Tiveram filhos. No início, sentiram medo, mais por parte de Tio Einar, de que nascessem alados.
– Que bobagem! Eu gostaria demais. Estariam protegidos contra os pisões.
– Bem, então, vão ter o seu cabelo!
– Ah, essa não…
Nasceram quatro filhos, três meninos e uma menina, que, de tanta energia, pareciam alados. Em quatro anos, espoucaram como cogumelos; nos dias quentes de verão, pediam ao pai que sentasse debaixo da macieira, os abanasse com suas asas refrescantes e lhes contasse a história romântica, estrelada, das ilhas de nuvens, dos oceanos celestes, da textura da bruma e do vento, de como o gosto da estrela derrete na boca, de como beber o ar frio da montanha, de qual a sensação de ser uma pedra rolada caindo pelo Monte Everest, e transformar-se num broto verde que vem florir-lhe as asas antes mesmo que se chegue lá embaixo!
Assim era o casamento de Tio Einar.
E hoje, seis anos depois, ali estava Tio Einar, sentado, criando úlceras debaixo da macieira, ficando impaciente e indelicado; não porque assim o desejasse, mas porque, depois de longa espera, ainda não conseguia viajar pelo céu da noite, aventuresco; jamais recuperara o sentido superior. Ali estava ele, sentado, acabrunhado, apenas uma barraca de verão, verde, descartada, abandonada, pela temporada, por veranistas indiferentes que outrora buscavam refúgio em sua sombra translúcida. Teria que ficar aqui sentado para sempre, com medo de voar de dia, de que alguém o visse? Teria que voar apenas para secar a roupa para a esposa; ficaria ali apenas a abanar as crianças nas tardes de outono? Sua única ocupação sempre fora transportar mensagens familiares, mais rápido que as tempestades. Um bumerangue, saía a girar por colinas, vales e, como um cardo, aterrissava. Andava sempre com dinheiro; a Família fazia bom uso de seus membros alados! Mas, e agora? Amargura? As asas bateram rápidas, agitaram o ar, num trovão cativo.
– Papai! — chamou a pequenina Meg.
As crianças fitavam-lhe o rosto obscurecido pelo pensamento.
– Papai — pediu Ronald. — Faz mais trovão!
– Hoje está frio — respondeu Tio Einar —, estamos em março, logo vamos ter muita chuva, muito trovão.
– Você vem ver a gente? — perguntou Michael.
– Andem, andem, meninos! Deixem papai descansar!
Tio Einar estava fechado para o amor, as crianças do amor, o amor das crianças. Pensava apenas no firmamento, no céu, nos horizontes, nos infinitos, de noite, de dia, iluminados pelas estrelas, pela lua ou pelo sol, nublados ou límpidos, eram sempre o mesmo céu, o mesmo firmamento, o mesmo horizonte ali à frente, e você, amargurado. E lá estava ele, a navegar pelo pasto, com medo de ser visto.
A desgraça, num poço profundo. Meg chamou:
– Papai, vem ver a gente; estamos em março! E nós vamos à Colina com os guris da cidade!
Tio Einar resmungou:
– Que colina?
– A Colina das Pipas, é claro! — cantaram em coro. Tio Einar olhou para as crianças.
Cada uma com uma pipa grande nas mãos, os rostos transpiravam por antecipação, um brilho animalesco. Nos dedinhos, rolos de linha branca. Nas pipas vermelhas, azuis, amarelas e verdes, estiravam-se caudas, tiras de algodão e seda. Ronald insistiu.
– Nós vamos empinar papagaio! Por que não vem? Tio Einar estava triste.
– Não, se alguém me vir, estarei em apuros.
– Você poderia ficar escondido no bosque e olhar — disse Meg. — Nós mesmos fizemos as pipas. Porque sabemos fazê-las.
– E como é que vocês sabem?
– Você não é o nosso pai? — resposta imediata. — É por isso que sabemos, ora!
Tio Einar fitou as crianças por longo tempo. Suspirou:
– Um Festival de Pipas, não é?
– Isso mesmo!
– Eu vou ganhar — afirmou Meg.
– Eu é que vou — contradisse Michael.
– Não, sou eu, sou eu — esganiçou Stephen.
Tio Einar saltou, com um rufar surdo, ensurdecedor, das asas, e urrou:
– Por Deus! Se não foi Deus quem me apareceu pela frente! Meus filhos!
Meus filhos! Eu amo vocês, demais!
Michael recuou.
– Papai, o que é que houve? Einar entoou:
– Nada! Nada!
E flexionou as asas, em propulsão, em extensão máximas. Pam! Bateu-as qual pratos de banda! Com a percussão, as crianças estatelaram-se de costas.
– Descobri! Descobri! Estou livre de novo! Fogo nas turbinas! Penas ao vento! Brunilla!
Einar gritou na direção da casa. Brunilla apareceu. Einar gritou, exuberante, esguio, na ponta dos dedos.
– Estou livre, Brunilla. Ouça, não preciso mais da noite! Posso voar de dia! Não preciso da noite! De agora em diante, vou voar todo dia, qualquer dia do ano! Mas, meu Deus, estou perdendo tempo, conversando. Olhe!
Ante o olhar preocupado dos familiares, Einar pegou a cauda de algodão de uma das pipas, amarrou-a atrás do cinto, segurou o rolo de barbante, abocanhou uma das extremidades, estendeu a outra às crianças, e subiu, voou para o céu, afastando-se ao vento de março!
Pelos prados, pelos campos das fazendas, as crianças correram, soltando linha para o céu diurno, espumando, tropeçando; Brunilla ficou no quintal para ver, acenava, ria. Os filhos partiram para a Colina das Pipas, lá longe, e pararam, os quatro, a segurar o rolo de linha nos dedinhos ávidos e orgulhosos, cada um dando seus puxões, manobrando, empinando. E as crianças de Mellin Town vieram correndo para empinar seus pequeninos papagaios ao vento, viram a imensa pipa verde empinar, planar no céu, e exclamaram:
– Caramba! Que pipa! Que pipa! Eu queria ter uma pipa assim! Onde foi que vocês compraram?
– Foi nosso pai que fez.
Meg, Michael, Stephen e Ronald responderam, e, exultantes, puxaram a linha, e a pipa sibilante, trovejante, lá no céu, mergulhou e subiu, formando, com a nuvem, um ponto, mágico, de exclamação!
Ray Bradbury
O país que ama livros, mas despreza quem os escreve
Portugal gosta de se olhar ao espelho como país de poetas, de cronistas, de romancistas maiores. Evoca Camões, Fernando Pessoa, Sophia, Saramago como quem recita uma ladainha identitária. Repete, com orgulho quase automático, que “somos um país de cultura”. O problema é que, no mercado real do livro, essa ideia nobre desaba à primeira folha de contrato. O autor português, hoje, é glorificado na retórica e anémico na prática.
Comecemos pelos números, porque a elegância da crítica não dispensa a frieza dos factos. A esmagadora maioria dos contratos editoriais em Portugal fixa os direitos de autor entre 8% e 10% do preço de capa. É um valor assumido como padrão do setor e amplamente contestado por criadores, associações e petições públicas dirigidas ao Parlamento e ao Ministério da Cultura. Não se trata de uma perceção subjetiva; trata-se de um modelo estrutural em que o criador é o elemento menos remunerado de toda a cadeia do livro.
Chamemos-lhes pelo nome exato: migalhas.
Num livro vendido a 18 ou 20 euros, o autor recebe pouco mais de um euro por exemplar, pago meses ou anos depois, sem salário mínimo, sem proteção laboral, sem estabilidade. Todo o risco criativo é seu. Todo o risco financeiro, também. Ainda assim, o sistema insiste em chamar a isto “parceria”.
O paradoxo torna-se ainda mais gritante quando se olha para o mercado no seu conjunto. Em 2024, segundo dados da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), baseados na auditoria da GfK, o mercado livreiro português cresceu cerca de 9% em valor, ultrapassando os 200 milhões de euros em vendas. Há crescimento, há celebração, há comunicados otimistas. Mas a pergunta essencial raramente é feita: quem beneficia realmente deste crescimento?
Certamente não os autores.
A cadeia funciona como um organismo bem treinado. E aqui a metáfora impõe-se, não por provocação fácil, mas por precisão biológica. O sistema editorial − sobretudo nas suas formas dominantes − comporta-se como uma sanguessuga elegante. Não mata o hospedeiro, porque precisa dele vivo. Limita-se a sugar o suficiente para prosperar, garantindo que o autor nunca recupera forças para ter autonomia. O contrato é legal, o discurso é cultural, a sangria é contínua.
Mas as editoras não estão sozinhas neste ecossistema. Há um outro silêncio, mais incómodo, mais sensível − e talvez por isso menos discutido. O silêncio dos grandes autores.
Os consagrados. Os premiados. Os omnipresentes nas feiras, nos festivais, nos jornais, nos programas culturais de televisão. Aqueles que ocupam, ano após ano, os mesmos espaços de visibilidade. Não se lhes pede que salvem o mundo editorial, nem que adotem escritores emergentes como causa pessoal. Pede-se apenas o essencial: solidariedade cultural, reconhecimento do outro, um mínimo de humildade histórica. Humanidade.
Mas essa mão estendida raramente existe.
Os grandes autores portugueses quase nunca recomendam autores emergentes. Não os citam, não os divulgam, não os convidam para conversas públicas, não usam o seu capital simbólico para abrir o campo. O êxito transforma-se em enclave. A literatura, em escada retirada após a subida.
Não se trata aqui de intenções morais nem de acusações individuais. Trata-se de responsabilidade estrutural. Num país pequeno, com hábitos de leitura frágeis − como reconhecem os próprios estudos nacionais, que mostram uma leitura irregular e uma média anual de livros lidos em queda −, a falta de circulação simbólica é culturalmente devastadora. Um sistema que não passa o testemunho condena-se à repetição e, a prazo, à irrelevância.
E onde está a comunicação social neste processo? Onde estão as televisões, os jornais, as revistas, as rádios, que se dizem atentos à cultura?
Em demasiados casos, estão a reforçar exatamente a mesma lógica. Os programas culturais de televisão convidam sempre os mesmos rostos, exploram a mesma nómina segura, evitam o risco. As páginas literárias dos jornais preferem nomes reconhecíveis, prémios já atribuídos, autores com chancela validada. Não por má-fé, certamente, mas por comodidade editorial e medo do fracasso de audiência.
A cultura, quando entra na lógica televisiva, torna-se espetáculo domesticado. O livro deixa de ser pergunta e passa a ser decoração. Incomodar dá menos cliques do que repetir.
As grandes feiras do livro são o espelho mais cruel desta engrenagem. Apresentadas como celebrações da diversidade e da leitura, funcionam, na prática, como montras hierarquizadas. Em 2025, várias editoras independentes denunciaram publicamente a dificuldade em crescer no principal evento literário do País, acusando a entidade organizadora de favorecer grandes grupos editoriais e de bloquear sistematicamente pedidos de maior espaço. Menos espaço significa menos visibilidade; menos visibilidade legitima menos espaço no ano seguinte. O ciclo fecha-se com a elegância de um mecanismo administrativo.
E, mais uma vez, o silêncio. Onde estavam os grandes autores a questionar este modelo? Onde estavam os que têm palco garantido a dizer: “Isto não é justo”? Onde estavam os que se dizem herdeiros de uma tradição crítica a exercer, finalmente, essa tradição no presente?
O desprezo pelos autores não é declarado. É educado. Institucional. Está nos contratos, nas percentagens, nos convites que nunca chegam, nas listas que se repetem, nos elogios vazios sobre “qualidade” que escondem uma palavra mais feia: segurança comercial.
Portugal continua a dizer que ama livros. Mas amar livros não chega. É preciso amar quem os escreve quando ainda ninguém os conhece. É preciso aceitar o risco da novidade. É preciso que a consagração venha acompanhada de memória, de gratidão e de responsabilidade.
Enquanto isso não acontecer, o mercado continuará a crescer à superfície e a secar por dentro. As sanguessugas continuarão elegantes. E os autores − esses − continuarão vivos, sim, mas permanentemente enfraquecidos.
E um país que trata assim os seus criadores pode ler muito, vender muito, celebrar muito − mas dificilmente será um país verdadeiramente culto.
Comecemos pelos números, porque a elegância da crítica não dispensa a frieza dos factos. A esmagadora maioria dos contratos editoriais em Portugal fixa os direitos de autor entre 8% e 10% do preço de capa. É um valor assumido como padrão do setor e amplamente contestado por criadores, associações e petições públicas dirigidas ao Parlamento e ao Ministério da Cultura. Não se trata de uma perceção subjetiva; trata-se de um modelo estrutural em que o criador é o elemento menos remunerado de toda a cadeia do livro.
Chamemos-lhes pelo nome exato: migalhas.
Num livro vendido a 18 ou 20 euros, o autor recebe pouco mais de um euro por exemplar, pago meses ou anos depois, sem salário mínimo, sem proteção laboral, sem estabilidade. Todo o risco criativo é seu. Todo o risco financeiro, também. Ainda assim, o sistema insiste em chamar a isto “parceria”.
O paradoxo torna-se ainda mais gritante quando se olha para o mercado no seu conjunto. Em 2024, segundo dados da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), baseados na auditoria da GfK, o mercado livreiro português cresceu cerca de 9% em valor, ultrapassando os 200 milhões de euros em vendas. Há crescimento, há celebração, há comunicados otimistas. Mas a pergunta essencial raramente é feita: quem beneficia realmente deste crescimento?
Certamente não os autores.
A cadeia funciona como um organismo bem treinado. E aqui a metáfora impõe-se, não por provocação fácil, mas por precisão biológica. O sistema editorial − sobretudo nas suas formas dominantes − comporta-se como uma sanguessuga elegante. Não mata o hospedeiro, porque precisa dele vivo. Limita-se a sugar o suficiente para prosperar, garantindo que o autor nunca recupera forças para ter autonomia. O contrato é legal, o discurso é cultural, a sangria é contínua.
Mas as editoras não estão sozinhas neste ecossistema. Há um outro silêncio, mais incómodo, mais sensível − e talvez por isso menos discutido. O silêncio dos grandes autores.
Os consagrados. Os premiados. Os omnipresentes nas feiras, nos festivais, nos jornais, nos programas culturais de televisão. Aqueles que ocupam, ano após ano, os mesmos espaços de visibilidade. Não se lhes pede que salvem o mundo editorial, nem que adotem escritores emergentes como causa pessoal. Pede-se apenas o essencial: solidariedade cultural, reconhecimento do outro, um mínimo de humildade histórica. Humanidade.
Mas essa mão estendida raramente existe.
Os grandes autores portugueses quase nunca recomendam autores emergentes. Não os citam, não os divulgam, não os convidam para conversas públicas, não usam o seu capital simbólico para abrir o campo. O êxito transforma-se em enclave. A literatura, em escada retirada após a subida.
Não se trata aqui de intenções morais nem de acusações individuais. Trata-se de responsabilidade estrutural. Num país pequeno, com hábitos de leitura frágeis − como reconhecem os próprios estudos nacionais, que mostram uma leitura irregular e uma média anual de livros lidos em queda −, a falta de circulação simbólica é culturalmente devastadora. Um sistema que não passa o testemunho condena-se à repetição e, a prazo, à irrelevância.
E onde está a comunicação social neste processo? Onde estão as televisões, os jornais, as revistas, as rádios, que se dizem atentos à cultura?
Em demasiados casos, estão a reforçar exatamente a mesma lógica. Os programas culturais de televisão convidam sempre os mesmos rostos, exploram a mesma nómina segura, evitam o risco. As páginas literárias dos jornais preferem nomes reconhecíveis, prémios já atribuídos, autores com chancela validada. Não por má-fé, certamente, mas por comodidade editorial e medo do fracasso de audiência.
A cultura, quando entra na lógica televisiva, torna-se espetáculo domesticado. O livro deixa de ser pergunta e passa a ser decoração. Incomodar dá menos cliques do que repetir.
As grandes feiras do livro são o espelho mais cruel desta engrenagem. Apresentadas como celebrações da diversidade e da leitura, funcionam, na prática, como montras hierarquizadas. Em 2025, várias editoras independentes denunciaram publicamente a dificuldade em crescer no principal evento literário do País, acusando a entidade organizadora de favorecer grandes grupos editoriais e de bloquear sistematicamente pedidos de maior espaço. Menos espaço significa menos visibilidade; menos visibilidade legitima menos espaço no ano seguinte. O ciclo fecha-se com a elegância de um mecanismo administrativo.
E, mais uma vez, o silêncio. Onde estavam os grandes autores a questionar este modelo? Onde estavam os que têm palco garantido a dizer: “Isto não é justo”? Onde estavam os que se dizem herdeiros de uma tradição crítica a exercer, finalmente, essa tradição no presente?
O desprezo pelos autores não é declarado. É educado. Institucional. Está nos contratos, nas percentagens, nos convites que nunca chegam, nas listas que se repetem, nos elogios vazios sobre “qualidade” que escondem uma palavra mais feia: segurança comercial.
Portugal continua a dizer que ama livros. Mas amar livros não chega. É preciso amar quem os escreve quando ainda ninguém os conhece. É preciso aceitar o risco da novidade. É preciso que a consagração venha acompanhada de memória, de gratidão e de responsabilidade.
Enquanto isso não acontecer, o mercado continuará a crescer à superfície e a secar por dentro. As sanguessugas continuarão elegantes. E os autores − esses − continuarão vivos, sim, mas permanentemente enfraquecidos.
E um país que trata assim os seus criadores pode ler muito, vender muito, celebrar muito − mas dificilmente será um país verdadeiramente culto.
O funileiro
O funileiro que se instalou à sombra de uma árvore, na minha rua, é um italiano do Sul.
– Nós somos quase todos italianos – diz ele. – Mas tem de tudo. Tem muito cigano. Aí para Engenho de Dentro tem cigano que faz até tacho de cobre.
– O senhor não faz?
Abana a cabeça. Trabalha entre Copacabana e Ipanema, onde ninguém quer tacho de cobre. Sinto, por um instante, a tentação de lhe encomendar um tacho de cobre. Mas percebo que é um grande desejo pueril, um eco da infância.
O grande e belo tacho de cobre que eu desejo, ele não poderia fazê-lo; ninguém o poderia. Não é apenas um objeto de metal, é o centro de muitas cenas perdidas, e a distância no tempo o faz quase sagrado, como se o fogo vermelho e grosso em que se faziam as goiabadas cheirosas fossem as chamas da pira de um rito esquecido. Em volta desse tacho há sombras queridas que sumiram, e vozes que se apagaram. As mãos diligentes que areavam o metal belo também já secaram, mortas.
Inútil enfeitar uma sala com vasilhame de cobre; a lembrança dos grandes tachos vermelhos da infância é incorruptível, e seria transformar uma parte da própria vida em motivo de decoração. Que emigrado da roça não sentiu uma indefinível estranheza e talvez um secreto mal-estar a primeira vez que viu, pregada na parede de um apartamento de luxo, um estribo de caçamba? É como se algo de sólido, de belo, de antigo, fosse corrompido; a caçamba sustenta, no lugar da bota viril de algum alto e rude tio da lavoura, um ramalhete de flores cor-de-rosa…
A beleza, suprema benção das coisas e das criaturas, é também um pecado, punido pelo desvirtuamento que desliga o que é belo de sua própria função para apresentá-lo apenas em sua forma. O antique tem sempre um certo ar corrupto e vazio; é como se a sua beleza viesse de sua função e utilidade; e desligada destas assume um ar equívoco… O antique é sempre falso; é uma coisa antiga que deixa de ser coisa para ser apenas antiga. A caçamba de teu apartamento jamais é autêntica. Pode tê-lo sido, não é mais: é apenas um vaso de metal, para flores.
A mulher bela que amaste com as tuas mãos e tua boca e teus músculos e todo o fervor de teu sangue e todo o desvario de teus olhos, e tua respiração e teu desespero – que valem, perto dela, as mais esplêndidas belezas de show? O show desliga insidiosamente a mulher de sua beleza, que então começa a esplender solta, mas com prejuízo de sua força humana. É uma coisa complexa, infinita, necessária, sagrada – a mulher bela – que se dissolve, e perde a transcendência e o pathos.
A tua caçamba, homem do apartamento, pode estar perfeita e brilhante; falta-lhe a lama dos humildes caminhos noturnos por onde teu cavalo não marchou; nunca terás por ela a amizade inconsciente mas profunda do homem que a usou longamente como estribo, que a teve na sua função, e não como vaso de flores.
O velho italiano conversa comigo enquanto bate, sabiamente, contra o ferro do cabeceiro, com um martelo grosso, o fundo de uma panela de alumínio. Mas são longas as conversas do funileiro; são longas como as ruas em que ele anda, longas como os caminhos da recordação.
– Nós somos quase todos italianos – diz ele. – Mas tem de tudo. Tem muito cigano. Aí para Engenho de Dentro tem cigano que faz até tacho de cobre.
– O senhor não faz?
Abana a cabeça. Trabalha entre Copacabana e Ipanema, onde ninguém quer tacho de cobre. Sinto, por um instante, a tentação de lhe encomendar um tacho de cobre. Mas percebo que é um grande desejo pueril, um eco da infância.
O grande e belo tacho de cobre que eu desejo, ele não poderia fazê-lo; ninguém o poderia. Não é apenas um objeto de metal, é o centro de muitas cenas perdidas, e a distância no tempo o faz quase sagrado, como se o fogo vermelho e grosso em que se faziam as goiabadas cheirosas fossem as chamas da pira de um rito esquecido. Em volta desse tacho há sombras queridas que sumiram, e vozes que se apagaram. As mãos diligentes que areavam o metal belo também já secaram, mortas.
Inútil enfeitar uma sala com vasilhame de cobre; a lembrança dos grandes tachos vermelhos da infância é incorruptível, e seria transformar uma parte da própria vida em motivo de decoração. Que emigrado da roça não sentiu uma indefinível estranheza e talvez um secreto mal-estar a primeira vez que viu, pregada na parede de um apartamento de luxo, um estribo de caçamba? É como se algo de sólido, de belo, de antigo, fosse corrompido; a caçamba sustenta, no lugar da bota viril de algum alto e rude tio da lavoura, um ramalhete de flores cor-de-rosa…
A beleza, suprema benção das coisas e das criaturas, é também um pecado, punido pelo desvirtuamento que desliga o que é belo de sua própria função para apresentá-lo apenas em sua forma. O antique tem sempre um certo ar corrupto e vazio; é como se a sua beleza viesse de sua função e utilidade; e desligada destas assume um ar equívoco… O antique é sempre falso; é uma coisa antiga que deixa de ser coisa para ser apenas antiga. A caçamba de teu apartamento jamais é autêntica. Pode tê-lo sido, não é mais: é apenas um vaso de metal, para flores.
A mulher bela que amaste com as tuas mãos e tua boca e teus músculos e todo o fervor de teu sangue e todo o desvario de teus olhos, e tua respiração e teu desespero – que valem, perto dela, as mais esplêndidas belezas de show? O show desliga insidiosamente a mulher de sua beleza, que então começa a esplender solta, mas com prejuízo de sua força humana. É uma coisa complexa, infinita, necessária, sagrada – a mulher bela – que se dissolve, e perde a transcendência e o pathos.
A tua caçamba, homem do apartamento, pode estar perfeita e brilhante; falta-lhe a lama dos humildes caminhos noturnos por onde teu cavalo não marchou; nunca terás por ela a amizade inconsciente mas profunda do homem que a usou longamente como estribo, que a teve na sua função, e não como vaso de flores.
O velho italiano conversa comigo enquanto bate, sabiamente, contra o ferro do cabeceiro, com um martelo grosso, o fundo de uma panela de alumínio. Mas são longas as conversas do funileiro; são longas como as ruas em que ele anda, longas como os caminhos da recordação.
Rubem Braga
O desmemoriado de Vigário Geral
Lembrava-se, como se fosse ontem, isto é, há quarenta séculos, que um exército de pirâmides o contemplava. Mas não saberia precisar onde, a que luz ou em que sol de que extinta constelação. Não ob
stante preferia que fosse na estrela mais branca do cinturão de Órion.
É verdade: havia uma mulher que telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos – o xeque do pastor, o pau de amarrar égua, o mal-assombrado de Guapi, futura cidade, ele dissimulava. Era então horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.
Manuel Bandeira, "Estrela da manhã"
stante preferia que fosse na estrela mais branca do cinturão de Órion.
É verdade: havia uma mulher que telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos – o xeque do pastor, o pau de amarrar égua, o mal-assombrado de Guapi, futura cidade, ele dissimulava. Era então horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.
Manuel Bandeira, "Estrela da manhã"
terça-feira, maio 19
O medo
Depois de jantarmos, retornamos ao convés do navio. Diante de nós, a superfície lisa do Mediterrâneo refletia uma lua tranquila. O enorme navio sulcava as águas sob um céu semeado de estrelas, e a esteira branca que deixava para trás brincava em espumas, parecendo retorcer-se em claridades tão buliçosas, que se poderia dizer que a luz da lua estava fervendo.
Seis ou sete homens permanecíamos ali, em silenciosa admiração, enquanto viajávamos para a África distante. O capitão retomou a conversa que havíamos tido durante o jantar:
— Sim, naquele dia eu tive medo. Meu navio permaneceu seis horas açoitado pelas ondas, com um penhasco encravado no ventre. Por sorte, à noite passou um navio mercante inglês, que nos viu e nos recolheu.
Então um dos presentes resolveu contestar a expressão usada pelo capitão. Era um homem alto, de cara bronzeada pelo sol, com aspecto grave; um desses homens que à primeira vista nos dão a impressão de haver percorrido vastos países desconhecidos em meio a incessantes perigos, e cujo olhar sereno parecia guardar, na sua profundidade, algo das estranhas paisagens que vira; um desses homens que adivinhamos dotado de têmpera extraordinária.
— Capitão, o Sr. diz que teve medo, mas não o creio. O Sr. parece enganar-se sobre a palavra e sobre a sensação que teve. Um homem enérgico como o senhor nunca sente medo diante do perigo. Sente emoção, nervosismo, ansiedade, mas medo é outra coisa.
— Discordo! Asseguro-vos que tive medo!
— Permita-me que lhe explique. Até os homens mais intrépidos podem ter medo. Mas o medo é algo espantoso, uma sensação atroz, como uma desintegração da alma, um espasmo horrível do pensamento e do coração, cuja simples recordação dá estremecimentos de angústia. Mas quando se é valente, isso não ocorre nem diante de uma batalha, nem diante da morte inevitável nem diante de nenhuma das formas conhecidas do perigo. Acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas e diante de riscos indefinidos. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos fantásticos terrores primitivos. Um homem que acredita em fantasmas, e que imagina ver um espectro na noite, deve experimentar o medo em todo seu espantoso horror.
Eu descobri o que de fato é o medo há uns dez anos, em pleno dia. E pude experimentá-lo também no último inverno, numa noite de dezembro. Na verdade, passei já por muitas situações, muitos reveses, muitas aventuras que pareciam mortais: em certa ocasião, uns ladrões me deixaram como morto; na América, fui condenado à forca por motivo de rebelião; na China, fui jogado ao mar, da proa de um navio. Cada vez que me julguei perdido, tomei minhas decisões imediatamente, sem vacilar, e até mesmo sem pensar. Mas isso não é o medo.
Observem, senhores, que entre os orientais a vida não conta para nada. Logo se resignam. As noites são claras, órfãs das sombrias inquietudes que atormentam os cérebros nos países frios. No Oriente pode-se conhecer o pânico, mas se ignora o medo. Vou narrar-lhes o que me aconteceu na África.
Percorria eu as grande planícies ao sul de Ouargla. É um dos mais estranhos países do mundo. Os senhores conhecem a areia fina, a areia lisa das intermináveis praias do oceano. Imaginem agora o próprio oceano convertido em areia, em meio a um furacão. Imaginem uma tempestade silenciosa das ondas imóveis de pó amarelo. Essas ondas desiguais são altas como montanhas, encrespadas como torrentes desencadeadas, mas maiores ainda, e estriadas como a ágata. Sobre esse mar furioso, mudo e sem movimento, o sol devorador do Sul lança sua chama implacável e direta. Tem-se que subir nessas ondas de cinza dourada, subir mais uma vez, mais outra, subir sem cessar, sem descanso e sem proteção. Os animais se atolam até os joelhos, e resvalam ao descer pela outra vertente das surpreendentes colinas.
Éramos dois amigos, escoltados por oito spahis seguidos de quatro camelos com seus cameleiros. Íamos por aquele deserto ardente sem falar, assolados pelo calor, pelo cansaço e pela sede. Subitamente um dos homens deu um grito, e todos paramos e permanecemos imóveis, surpreendidos por um inexplicável fenômeno que os viajantes dessas regiões perdidas conhecem bem. Em algum lugar, perto de nós, numa direção indeterminada, soava um misterioso tambor, o misterioso tambor das dunas. Soava claramente, ora mais vibrante ora menos, cessando e logo recomeçando seu som fantástico. Os árabes, espantados, olhavam-se uns aos outros. Um deles disse:
— A morte vem para cima de nós.
De repente meu companheiro, meu amigo quase como um irmão, caiu do cavalo, de bruços, mortalmente atingido pela insolação. Durante duas horas, enquanto eu procurava em vão salvá-lo, aquele tambor, sempre impossível de localizar, me aturdia os ouvidos com seu ruído monótono, intermitente, inexplicável. Então senti que o medo, o verdadeiro medo, o horrível medo, me penetrava até à medula dos ossos, diante daquele cadáver querido, naquela depressão vergastada pelo sol entre quatro montes de areia, enquanto o eco desconhecido nos lançava, a duzentas léguas do povoado francês mais próximo, o dobre rápido de um inatingível tambor. Naquele dia eu compreendi o que é ter medo. Mas houve uma outra vez em que compreendi melhor ainda...
— Perdão, senhor, mas o que era esse tambor? — interrompeu o capitão.
— Não sei. Ninguém sabe. Os oficiais que depararam com esse surpreendente ruído geralmente o atribuem ao eco aumentado, multiplicado, desmesuradamente insuflado pelas ondulações das dunas, de um granizo de areia que o vento lança contra uma mata de ervas secas, pois já se notou que o fenômeno sempre se produz nas proximidades de pequenas plantas queimadas pelo sol, duras como o pergaminho. Segundo essa teoria, aquele tambor nada mais seria do que uma espécie de reflexo ampliado desse som. Mas eu só vim a saber disso mais tarde.
Agora vou lhes contar minha segunda sensação de medo. Aconteceu no inverno passado, num bosque do Noroeste da França. O céu estava tão sombrio naquele dia, que a noite caiu duas horas mais cedo. Era meu guia um camponês, que caminhava ao meu lado por uma trilha estreita numa floresta de abetos. O vento arrancava dessas árvores uma espécie de alarido. Por entre as copas das árvores eu via as nuvens que corriam, como que fugindo de um cataclismo. Às vezes, ante uma forte lufada de vento, todo o bosque se inclinava no mesmo sentido, com um gemido de sofrimento, e o frio me invadia, apesar do meu passo rápido e da minha grossa roupa de lã.
Tínhamos que chegar à casa de um guarda florestal, para jantar e dormir. Não estava muito distante, e eu me encontrava ali como caçador. Meu guia às vezes levantava os olhos e murmurava: “Que tempo triste!” Falou-me sobre as pessoas para cuja casa nos dirigíamos. O pai havia matado um caçador furtivo, dois anos antes, e desde então andava preocupado, como que atormentado por uma lembrança. Seus filhos, já casados, moravam com ele.
A escuridão era profunda, e eu não via nada ao redor de mim. As ramagens de todas as árvores, ao agitar-se, enchiam a noite de um rumor incessante. Afinal vi uma luz, e meu guia chamou a uma porta. Ouvimos gritos de mulheres lá dentro. Logo depois, uma voz de homem, como que estrangulada, perguntou: “Quem está aí?” Meu guia se identificou, a porta se abriu e entramos.
A cena que vimos é impossível de esquecer. Um homem velho, de cabelos brancos e com olhar arregalado e fixo, como de louco, nos aguardava de pé no meio da cozinha, tendo na mão uma espingarda carregada. Dois rapazes com pedaços de pau guardavam a porta. Na obscuridade, percebemos duas mulheres ajoelhadas, com os rostos voltados para a parede. Identificamo-nos, explicamos o motivo de nossa presença ali, e então o velho largou a arma e deu ordens para que nos preparassem acomodações. As duas mulheres continuavam imóveis, então ele me explicou: “Há exatamente dois anos, numa noite como esta, eu matei um homem. Quando se completou um ano, ele veio chamar-me, e esta noite eu estou certo de que voltará novamente. Por isso estamos todos intranquilos”.
Procurei tranquilizá-los o melhor que pude, mas intimamente estava satisfeito por ter chegado exatamente naquela noite e presenciar aquele espetáculo de terror supersticioso. Contei algumas histórias, e acabei por acalmá-los quase por completo.
Perto da lareira, um cachorro velho e quase cego — um desses cães que nos lembram alguma pessoa conhecida — dormia com o focinho entre as patas. Fora, a tormenta açoitava a choupana. Por uma estreita vidraça eu via passar, projetadas por grandes relâmpagos, as sombras de árvores agitadas pelo vento.
As duas mulheres voltaram a cair de joelhos, cobrindo os rostos, e os filhos pegaram de novo os seus paus. Já ia eu tentar novamente tranquilizá-los, quando o cachorro despertou bruscamente, levantou a cabeça, esticou o pescoço, olhando para a lareira com seu olhar quase apagado, e lançou um desses ganidos lúgubres, que fazem estremecer os caminhantes quando cruzam de noite locais ermos. Todos os olhos se voltaram para o animal, que permanecia agora imóvel sobre as patas, como obcecado por uma visão. O cão se pôs a ganir frente a algo invisível, desconhecido, espantoso sem dúvida, pois todo seu pelo estava eriçado.
As mulheres, como loucas, fizeram coro aos ganidos do cachorro. Um grande calafrio me percorreu a espinha. A visão do animal naquele lugar, naquela hora, em meio a pessoas apavoradas, era algo horrível. Durante uma meia hora o cão ganiu sem mover-se. Um medo espantoso me ia penetrando. Medo de quê? Lá sei eu. Era medo, pura e simplesmente.
Permanecemos imóveis, lívidos, à espera de um acontecimento horrendo, com o ouvido atento, o coração agitado, transtornados ao menor ruído. O cachorro se pôs a dar voltas ao redor da cozinha, farejando as paredes, sem cessar de gemer. O animal nos punha loucos. Então o meu guia se lançou sobre ele, numa espécie de paroxismo de terror furioso, agarrou-o, abriu uma porta de trás, que dava para uma espécie de cercado, e o lançou para fora da casa.
O cachorro se calou logo, e permanecemos algum tempo envoltos num silêncio ainda mais terrível. De repente, todos tivemos uma espécie de sobressalto: algo deslizava contra a parede externa, em direção ao bosque. Depois passou junto à porta, que pareceu apalpar com mãos trêmulas. Novo silêncio durante uns dois minutos, que nos deixou aterrorizados. Depois voltou, roçando sempre a parede, como uma criança com suas unhas. Subitamente apareceu junto à vidraça uma cabeça branca, com dois olhos luminosos como os das feras, e emitiu um gemido — um murmúrio como de quem se lamenta.
Nesse momento se ouviu um ruído formidável. O velho havia disparado sua arma, e em seguida os filhos se precipitaram para a vidraça, cobrindo-a com o tampo de uma grande mesa que reviraram. Com o estrépito do inesperado disparo, senti tal angústia no coração, na alma e no corpo, que me imaginei prestes a perder os sentidos, disposto a morrer de medo. Continuamos ali até o amanhecer, incapazes de mover-nos, de dizer uma palavra, crispados, desvairados. Ninguém se atreveu a abrir a porta antes de entrever alguma claridade fora, pelas frestas das madeiras.
Ao lado do muro, junto à porta, jazia o corpo do velho cachorro, com o focinho desfeito por uma bala. Havia saído do cercado, e procurara abrir alguma passagem junto à porta.
Naquela noite eu não corri nenhum perigo. Mas preferiria voltar a enfrentar todos os riscos mais terríveis que já enfrentei, para não ter de viver aquele único minuto em que o tiro foi disparado na cabeça que surgiu na vidraça.
Guy de Maupassant
Seis ou sete homens permanecíamos ali, em silenciosa admiração, enquanto viajávamos para a África distante. O capitão retomou a conversa que havíamos tido durante o jantar:
— Sim, naquele dia eu tive medo. Meu navio permaneceu seis horas açoitado pelas ondas, com um penhasco encravado no ventre. Por sorte, à noite passou um navio mercante inglês, que nos viu e nos recolheu.
Então um dos presentes resolveu contestar a expressão usada pelo capitão. Era um homem alto, de cara bronzeada pelo sol, com aspecto grave; um desses homens que à primeira vista nos dão a impressão de haver percorrido vastos países desconhecidos em meio a incessantes perigos, e cujo olhar sereno parecia guardar, na sua profundidade, algo das estranhas paisagens que vira; um desses homens que adivinhamos dotado de têmpera extraordinária.
— Capitão, o Sr. diz que teve medo, mas não o creio. O Sr. parece enganar-se sobre a palavra e sobre a sensação que teve. Um homem enérgico como o senhor nunca sente medo diante do perigo. Sente emoção, nervosismo, ansiedade, mas medo é outra coisa.
— Discordo! Asseguro-vos que tive medo!
— Permita-me que lhe explique. Até os homens mais intrépidos podem ter medo. Mas o medo é algo espantoso, uma sensação atroz, como uma desintegração da alma, um espasmo horrível do pensamento e do coração, cuja simples recordação dá estremecimentos de angústia. Mas quando se é valente, isso não ocorre nem diante de uma batalha, nem diante da morte inevitável nem diante de nenhuma das formas conhecidas do perigo. Acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas e diante de riscos indefinidos. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos fantásticos terrores primitivos. Um homem que acredita em fantasmas, e que imagina ver um espectro na noite, deve experimentar o medo em todo seu espantoso horror.
Eu descobri o que de fato é o medo há uns dez anos, em pleno dia. E pude experimentá-lo também no último inverno, numa noite de dezembro. Na verdade, passei já por muitas situações, muitos reveses, muitas aventuras que pareciam mortais: em certa ocasião, uns ladrões me deixaram como morto; na América, fui condenado à forca por motivo de rebelião; na China, fui jogado ao mar, da proa de um navio. Cada vez que me julguei perdido, tomei minhas decisões imediatamente, sem vacilar, e até mesmo sem pensar. Mas isso não é o medo.
Observem, senhores, que entre os orientais a vida não conta para nada. Logo se resignam. As noites são claras, órfãs das sombrias inquietudes que atormentam os cérebros nos países frios. No Oriente pode-se conhecer o pânico, mas se ignora o medo. Vou narrar-lhes o que me aconteceu na África.
Percorria eu as grande planícies ao sul de Ouargla. É um dos mais estranhos países do mundo. Os senhores conhecem a areia fina, a areia lisa das intermináveis praias do oceano. Imaginem agora o próprio oceano convertido em areia, em meio a um furacão. Imaginem uma tempestade silenciosa das ondas imóveis de pó amarelo. Essas ondas desiguais são altas como montanhas, encrespadas como torrentes desencadeadas, mas maiores ainda, e estriadas como a ágata. Sobre esse mar furioso, mudo e sem movimento, o sol devorador do Sul lança sua chama implacável e direta. Tem-se que subir nessas ondas de cinza dourada, subir mais uma vez, mais outra, subir sem cessar, sem descanso e sem proteção. Os animais se atolam até os joelhos, e resvalam ao descer pela outra vertente das surpreendentes colinas.
Éramos dois amigos, escoltados por oito spahis seguidos de quatro camelos com seus cameleiros. Íamos por aquele deserto ardente sem falar, assolados pelo calor, pelo cansaço e pela sede. Subitamente um dos homens deu um grito, e todos paramos e permanecemos imóveis, surpreendidos por um inexplicável fenômeno que os viajantes dessas regiões perdidas conhecem bem. Em algum lugar, perto de nós, numa direção indeterminada, soava um misterioso tambor, o misterioso tambor das dunas. Soava claramente, ora mais vibrante ora menos, cessando e logo recomeçando seu som fantástico. Os árabes, espantados, olhavam-se uns aos outros. Um deles disse:
— A morte vem para cima de nós.
De repente meu companheiro, meu amigo quase como um irmão, caiu do cavalo, de bruços, mortalmente atingido pela insolação. Durante duas horas, enquanto eu procurava em vão salvá-lo, aquele tambor, sempre impossível de localizar, me aturdia os ouvidos com seu ruído monótono, intermitente, inexplicável. Então senti que o medo, o verdadeiro medo, o horrível medo, me penetrava até à medula dos ossos, diante daquele cadáver querido, naquela depressão vergastada pelo sol entre quatro montes de areia, enquanto o eco desconhecido nos lançava, a duzentas léguas do povoado francês mais próximo, o dobre rápido de um inatingível tambor. Naquele dia eu compreendi o que é ter medo. Mas houve uma outra vez em que compreendi melhor ainda...
— Perdão, senhor, mas o que era esse tambor? — interrompeu o capitão.
— Não sei. Ninguém sabe. Os oficiais que depararam com esse surpreendente ruído geralmente o atribuem ao eco aumentado, multiplicado, desmesuradamente insuflado pelas ondulações das dunas, de um granizo de areia que o vento lança contra uma mata de ervas secas, pois já se notou que o fenômeno sempre se produz nas proximidades de pequenas plantas queimadas pelo sol, duras como o pergaminho. Segundo essa teoria, aquele tambor nada mais seria do que uma espécie de reflexo ampliado desse som. Mas eu só vim a saber disso mais tarde.
Agora vou lhes contar minha segunda sensação de medo. Aconteceu no inverno passado, num bosque do Noroeste da França. O céu estava tão sombrio naquele dia, que a noite caiu duas horas mais cedo. Era meu guia um camponês, que caminhava ao meu lado por uma trilha estreita numa floresta de abetos. O vento arrancava dessas árvores uma espécie de alarido. Por entre as copas das árvores eu via as nuvens que corriam, como que fugindo de um cataclismo. Às vezes, ante uma forte lufada de vento, todo o bosque se inclinava no mesmo sentido, com um gemido de sofrimento, e o frio me invadia, apesar do meu passo rápido e da minha grossa roupa de lã.
Tínhamos que chegar à casa de um guarda florestal, para jantar e dormir. Não estava muito distante, e eu me encontrava ali como caçador. Meu guia às vezes levantava os olhos e murmurava: “Que tempo triste!” Falou-me sobre as pessoas para cuja casa nos dirigíamos. O pai havia matado um caçador furtivo, dois anos antes, e desde então andava preocupado, como que atormentado por uma lembrança. Seus filhos, já casados, moravam com ele.
A escuridão era profunda, e eu não via nada ao redor de mim. As ramagens de todas as árvores, ao agitar-se, enchiam a noite de um rumor incessante. Afinal vi uma luz, e meu guia chamou a uma porta. Ouvimos gritos de mulheres lá dentro. Logo depois, uma voz de homem, como que estrangulada, perguntou: “Quem está aí?” Meu guia se identificou, a porta se abriu e entramos.
A cena que vimos é impossível de esquecer. Um homem velho, de cabelos brancos e com olhar arregalado e fixo, como de louco, nos aguardava de pé no meio da cozinha, tendo na mão uma espingarda carregada. Dois rapazes com pedaços de pau guardavam a porta. Na obscuridade, percebemos duas mulheres ajoelhadas, com os rostos voltados para a parede. Identificamo-nos, explicamos o motivo de nossa presença ali, e então o velho largou a arma e deu ordens para que nos preparassem acomodações. As duas mulheres continuavam imóveis, então ele me explicou: “Há exatamente dois anos, numa noite como esta, eu matei um homem. Quando se completou um ano, ele veio chamar-me, e esta noite eu estou certo de que voltará novamente. Por isso estamos todos intranquilos”.
Procurei tranquilizá-los o melhor que pude, mas intimamente estava satisfeito por ter chegado exatamente naquela noite e presenciar aquele espetáculo de terror supersticioso. Contei algumas histórias, e acabei por acalmá-los quase por completo.
Perto da lareira, um cachorro velho e quase cego — um desses cães que nos lembram alguma pessoa conhecida — dormia com o focinho entre as patas. Fora, a tormenta açoitava a choupana. Por uma estreita vidraça eu via passar, projetadas por grandes relâmpagos, as sombras de árvores agitadas pelo vento.
Apesar dos meus esforços, aquela gente estava dominada por um terror profundo. Cada vez que eu parava de falar, todos os ouvidos estavam atentos ao menor ruído. Cansado desses temores imbecis, eu já ia recolher-me quando o velho pulou da cadeira e pegou de novo a espingarda, balbuciando com voz trêmula: “Aí está! Aí está! Já o estou ouvindo!”
As duas mulheres voltaram a cair de joelhos, cobrindo os rostos, e os filhos pegaram de novo os seus paus. Já ia eu tentar novamente tranquilizá-los, quando o cachorro despertou bruscamente, levantou a cabeça, esticou o pescoço, olhando para a lareira com seu olhar quase apagado, e lançou um desses ganidos lúgubres, que fazem estremecer os caminhantes quando cruzam de noite locais ermos. Todos os olhos se voltaram para o animal, que permanecia agora imóvel sobre as patas, como obcecado por uma visão. O cão se pôs a ganir frente a algo invisível, desconhecido, espantoso sem dúvida, pois todo seu pelo estava eriçado.
Lívido, o guarda gritou: “Ele o está farejando! Está farejando! Ele estava exatamente aí, quando o matei!”
As mulheres, como loucas, fizeram coro aos ganidos do cachorro. Um grande calafrio me percorreu a espinha. A visão do animal naquele lugar, naquela hora, em meio a pessoas apavoradas, era algo horrível. Durante uma meia hora o cão ganiu sem mover-se. Um medo espantoso me ia penetrando. Medo de quê? Lá sei eu. Era medo, pura e simplesmente.
Permanecemos imóveis, lívidos, à espera de um acontecimento horrendo, com o ouvido atento, o coração agitado, transtornados ao menor ruído. O cachorro se pôs a dar voltas ao redor da cozinha, farejando as paredes, sem cessar de gemer. O animal nos punha loucos. Então o meu guia se lançou sobre ele, numa espécie de paroxismo de terror furioso, agarrou-o, abriu uma porta de trás, que dava para uma espécie de cercado, e o lançou para fora da casa.
O cachorro se calou logo, e permanecemos algum tempo envoltos num silêncio ainda mais terrível. De repente, todos tivemos uma espécie de sobressalto: algo deslizava contra a parede externa, em direção ao bosque. Depois passou junto à porta, que pareceu apalpar com mãos trêmulas. Novo silêncio durante uns dois minutos, que nos deixou aterrorizados. Depois voltou, roçando sempre a parede, como uma criança com suas unhas. Subitamente apareceu junto à vidraça uma cabeça branca, com dois olhos luminosos como os das feras, e emitiu um gemido — um murmúrio como de quem se lamenta.
Nesse momento se ouviu um ruído formidável. O velho havia disparado sua arma, e em seguida os filhos se precipitaram para a vidraça, cobrindo-a com o tampo de uma grande mesa que reviraram. Com o estrépito do inesperado disparo, senti tal angústia no coração, na alma e no corpo, que me imaginei prestes a perder os sentidos, disposto a morrer de medo. Continuamos ali até o amanhecer, incapazes de mover-nos, de dizer uma palavra, crispados, desvairados. Ninguém se atreveu a abrir a porta antes de entrever alguma claridade fora, pelas frestas das madeiras.
Ao lado do muro, junto à porta, jazia o corpo do velho cachorro, com o focinho desfeito por uma bala. Havia saído do cercado, e procurara abrir alguma passagem junto à porta.
Naquela noite eu não corri nenhum perigo. Mas preferiria voltar a enfrentar todos os riscos mais terríveis que já enfrentei, para não ter de viver aquele único minuto em que o tiro foi disparado na cabeça que surgiu na vidraça.
Guy de Maupassant
É minha
– E minha! disse eu comigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a ideia entranhando no espírito, não à força de martelo, mas de verruma, que é mais insinuativa.
– E minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.
Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela.
Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.
– E minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.
Mandei a carta e almocei tranquilo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciência valsara tanto na véspera, que chegou a ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à larga. Ventilai as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunstâncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta.
– Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsâmico, é uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?
E a boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da véspera, redonda, brilhante, nítida, multiplicando-se por si mesma, – ser dez – depois trinta – depois quinhentas, – exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um pouquinho mais.
Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Talvez não entendas o que ai fica; talvez queiras uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
– E minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.
Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela.
Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.
– E minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.
Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repelões da consciência, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo.
Cumpria restituir a moeda e o melhor meio, o único meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia. Enviei um carta ao chefe de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvê-lo às mãos do verdadeiro dono.
Mandei a carta e almocei tranquilo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciência valsara tanto na véspera, que chegou a ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à larga. Ventilai as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunstâncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta.
– Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsâmico, é uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?
E a boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da véspera, redonda, brilhante, nítida, multiplicando-se por si mesma, – ser dez – depois trinta – depois quinhentas, – exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um pouquinho mais.
Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Talvez não entendas o que ai fica; talvez queiras uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
Sentimento do tempo
Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.
Paulo Mendes Campos
A galinha fuzilada
Naquele tempo era coronel. Hoje, passados que são uns anos, deve ser muito mais. Declaro, em seu favor, que foi o militar mais militar que conheci. Morava em Jacarepaguá, em frente à minha casa, e sua família, muito numerosa, era sua tropa, perfeitamente instruída e disciplinada. Na rua, mesmo em passeio, andavam todos de passo certo, mulher, filhos e cachorro. Seu ardor patriótico fazia-o acordar às cinco da manhã e, no banheiro, cantava todos os hinos que conhecia. Apenas reservava o Hino Nacional, com introdução e tudo, para os dias santos e feriados. A farda era seu invólucro: nunca o vi na rua à paisana.
Esperava o bonde perfeitamente empertigado, quase em posição de sentido, e continência, apenas para as senhoras e superiores. A roupa (a farda) era sempre impecável, de vinco firme, com botas que poderiam servir de espelhos. No tempo da guerra, que acompanhou todinha pelo Repórter Esso, redobrou de austeridade. Aí já não cumprimentava os vizinhos, e as continências às senhoras, como tudo na época, foram drasticamente racionadas. No bairro, todos o respeitavam e não havia ladrão que se atrevesse a passar na esquina daquela rua. As filhas é que não olhavam com bons olhos aquele excesso de austeridade. Embora jeitosas, corriam o risco de ficar solteiras, pois nenhum mancebo se atrevia a aproximar-se da casa, ou melhor, do quartel.
Tinha um hobby: criar galinhas. Possuía umas cinquenta cabeças, algumas de boa raça. Todo domingo, num espetáculo inédito, soltava as galinhas na rua e, de pijama e cinturão — com um bruto revólver do lado —, ficava vigiando o piquenique. Passados uns trinta minutos, bastava que fizesse um “Xô, galinha” para que as cinquenta, uma a uma, fossem voltando para o jardim da casa e, finalmente, ao galinheiro. Era uma prova eloquente de que a disciplina naquela casa era igual para todos.
Até que um domingo não foi bem assim. Lembro-me bem de uma galinha preta que não atendeu ao primeiro “xô”, provocando, com esse ato de rebeldia, uma repetição do mesmo, em tom menos amigo. Ocorreu uma nova desobediência, seguida de novo “xô”.
Mas a doida, naturalmente julgando-se uma galinha civil, novamente desatendeu a ordem. Considerando-a insubmissa, e passível de crime militar, uma vez que estávamos em guerra, o valente coronel sacou de sua arma e fez partir um balaço que deve ter ido direto ao coração da galinha. Que nem estrebuchou. Ficou o dia inteiro por ali mesmo, gelando o sangue, até que foi encontrada por um mulato que, à noite, na encruzilhada, ao lado do corpo de penas pretas fez acender sete velas de cera. Até hoje, porém, não se sabe se foi macumba ou velório. E a única testemunha do crime foi este seu criado que, a respeito, nunca prestou declarações, mesmo porque, até agora, nada lhe foi perguntado.
Esperava o bonde perfeitamente empertigado, quase em posição de sentido, e continência, apenas para as senhoras e superiores. A roupa (a farda) era sempre impecável, de vinco firme, com botas que poderiam servir de espelhos. No tempo da guerra, que acompanhou todinha pelo Repórter Esso, redobrou de austeridade. Aí já não cumprimentava os vizinhos, e as continências às senhoras, como tudo na época, foram drasticamente racionadas. No bairro, todos o respeitavam e não havia ladrão que se atrevesse a passar na esquina daquela rua. As filhas é que não olhavam com bons olhos aquele excesso de austeridade. Embora jeitosas, corriam o risco de ficar solteiras, pois nenhum mancebo se atrevia a aproximar-se da casa, ou melhor, do quartel.
Tinha um hobby: criar galinhas. Possuía umas cinquenta cabeças, algumas de boa raça. Todo domingo, num espetáculo inédito, soltava as galinhas na rua e, de pijama e cinturão — com um bruto revólver do lado —, ficava vigiando o piquenique. Passados uns trinta minutos, bastava que fizesse um “Xô, galinha” para que as cinquenta, uma a uma, fossem voltando para o jardim da casa e, finalmente, ao galinheiro. Era uma prova eloquente de que a disciplina naquela casa era igual para todos.
Até que um domingo não foi bem assim. Lembro-me bem de uma galinha preta que não atendeu ao primeiro “xô”, provocando, com esse ato de rebeldia, uma repetição do mesmo, em tom menos amigo. Ocorreu uma nova desobediência, seguida de novo “xô”.
Mas a doida, naturalmente julgando-se uma galinha civil, novamente desatendeu a ordem. Considerando-a insubmissa, e passível de crime militar, uma vez que estávamos em guerra, o valente coronel sacou de sua arma e fez partir um balaço que deve ter ido direto ao coração da galinha. Que nem estrebuchou. Ficou o dia inteiro por ali mesmo, gelando o sangue, até que foi encontrada por um mulato que, à noite, na encruzilhada, ao lado do corpo de penas pretas fez acender sete velas de cera. Até hoje, porém, não se sabe se foi macumba ou velório. E a única testemunha do crime foi este seu criado que, a respeito, nunca prestou declarações, mesmo porque, até agora, nada lhe foi perguntado.
Max Nunes
O cemitério
Pelas ruas de túmulos, fomos calados. Eu olhava vagamente aquela multidão de sepulturas, que trepavam, tocavam-se, lutavam por espaço, na estreiteza da vaga e nas encostas das colinas aos lados. Algumas pareciam se olhar com afeto, roçando-se amigavelmente; em outras, transparecia a repugnância de estarem juntas. Havia solicitações incompreensíveis e também repulsões e antipatias; havia túmulos arrogantes, imponentes, vaidosos e pobres e humildes; e, em todos, ressumava o esforço extraordinário para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas.
Amontoavam-se esculturas de mármore, vasos, cruzes e inscrições; iam além; erguiam pirâmides de pedra tosca, faziam caramanchéis extravagantes, imaginavam complicações de matos e plantas – coisas brancas e delirantes, de um mau gosto que irritava. As inscrições exuberavam; longas, cheias de nomes, sobrenomes e datas, não nos traziam à lembrança nem um nome ilustre sequer; em vão procurei ler nelas celebridades, notabilidades mortas; não as encontrei. E de tal modo a nossa sociedade nos marca um tão profundo ponto, que até ali, naquele campo de mortos, mudo laboratório de decomposição, tive uma imagem dela, feita inconscientemente de um propósito, firmemente desenhada por aquele acesso de túmulos pobres e ricos, grotescos e nobres, de mármore e pedra, cobrindo vulgaridades iguais umas às outras por força estranha às suas vontades, a lutar…
Fomos indo. A carreta, empunhada pelas mãos profissionais dos empregados, ia dobrando as alamedas, tomando ruas, até que chegou à boca do soturno buraco, por onde se via fugir, para sempre do nosso olhar, a humildade e a tristeza do contínuo da Secretaria dos Cultos.
Antes que lá chegássemos, porém, detive-me um pouco num túmulo de límpidos mármores, ajeitados em capela gótica, com anjos e cruzes que a rematavam pretensiosamente.
Nos cantos da lápide, vasos com flores de biscuit e, debaixo de um vidro, à nívea altura da base da capelinha, em meio corpo, o retrato da morta que o túmulo engolira. Como se estivesse na Rua do Ouvidor, não pude suster um pensamento mau e quase exclamei:
— Bela mulher!
Estive a ver a fotografia e logo em seguida me veio à mente que aqueles olhos, que aquela boca provocadora de beijos, que aqueles seios túmidos, tentadores de longos contatos carnais, estariam àquela hora reduzidos a uma pasta fedorenta, debaixo de uma porção de terra embebida de gordura.
Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo, e fugaz.
Abalei-me! Eu que dizia a todo o mundo que amava a vida, eu que afirmava a minha admiração pelas coisas da sociedade – eu meditar como um cientista profeta hebraico! Era estranho! Remanescente de noções que se me infiltraram e cuja entrada em mim mesmo eu não percebera! Quem pode fugir a elas?
Continuando a andar, adivinhei as mãos da mulher, diáfanas e de dedos longos; compus o seu busto ereto e cheio, a cintura, os quadris, o pescoço, esguio e modelado, as espáduas brancas, o rosto sereno e iluminado por um par de olhos indefinidos de tristeza e desejos…
Já não era mais o retrato da mulher do túmulo; era de uma, viva, que me falava.
Com que surpresa, verifiquei isso.
Pois eu, eu que vivia desde os dezesseis anos, despreocupadamente, passando pelos meus olhos, na Rua do Ouvidor, todos os figurinos dos jornais de modas, eu me impressionar por aquela menina do cemitério! Era curioso.
E, por mais que procurasse explicar, não pude.
Amontoavam-se esculturas de mármore, vasos, cruzes e inscrições; iam além; erguiam pirâmides de pedra tosca, faziam caramanchéis extravagantes, imaginavam complicações de matos e plantas – coisas brancas e delirantes, de um mau gosto que irritava. As inscrições exuberavam; longas, cheias de nomes, sobrenomes e datas, não nos traziam à lembrança nem um nome ilustre sequer; em vão procurei ler nelas celebridades, notabilidades mortas; não as encontrei. E de tal modo a nossa sociedade nos marca um tão profundo ponto, que até ali, naquele campo de mortos, mudo laboratório de decomposição, tive uma imagem dela, feita inconscientemente de um propósito, firmemente desenhada por aquele acesso de túmulos pobres e ricos, grotescos e nobres, de mármore e pedra, cobrindo vulgaridades iguais umas às outras por força estranha às suas vontades, a lutar…
Fomos indo. A carreta, empunhada pelas mãos profissionais dos empregados, ia dobrando as alamedas, tomando ruas, até que chegou à boca do soturno buraco, por onde se via fugir, para sempre do nosso olhar, a humildade e a tristeza do contínuo da Secretaria dos Cultos.
Antes que lá chegássemos, porém, detive-me um pouco num túmulo de límpidos mármores, ajeitados em capela gótica, com anjos e cruzes que a rematavam pretensiosamente.
Nos cantos da lápide, vasos com flores de biscuit e, debaixo de um vidro, à nívea altura da base da capelinha, em meio corpo, o retrato da morta que o túmulo engolira. Como se estivesse na Rua do Ouvidor, não pude suster um pensamento mau e quase exclamei:
— Bela mulher!
Estive a ver a fotografia e logo em seguida me veio à mente que aqueles olhos, que aquela boca provocadora de beijos, que aqueles seios túmidos, tentadores de longos contatos carnais, estariam àquela hora reduzidos a uma pasta fedorenta, debaixo de uma porção de terra embebida de gordura.
Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo, e fugaz.
Abalei-me! Eu que dizia a todo o mundo que amava a vida, eu que afirmava a minha admiração pelas coisas da sociedade – eu meditar como um cientista profeta hebraico! Era estranho! Remanescente de noções que se me infiltraram e cuja entrada em mim mesmo eu não percebera! Quem pode fugir a elas?
Continuando a andar, adivinhei as mãos da mulher, diáfanas e de dedos longos; compus o seu busto ereto e cheio, a cintura, os quadris, o pescoço, esguio e modelado, as espáduas brancas, o rosto sereno e iluminado por um par de olhos indefinidos de tristeza e desejos…
Já não era mais o retrato da mulher do túmulo; era de uma, viva, que me falava.
Com que surpresa, verifiquei isso.
Pois eu, eu que vivia desde os dezesseis anos, despreocupadamente, passando pelos meus olhos, na Rua do Ouvidor, todos os figurinos dos jornais de modas, eu me impressionar por aquela menina do cemitério! Era curioso.
E, por mais que procurasse explicar, não pude.
Lima Barreto
domingo, maio 17
San Martín de los Andes
Uma choça abandonada nos indicou a fronteira. Eu já estava livre. Escrevi na parede da cabana: “Até breve, minha pátria. Vou-me embora mas levo-te comigo.”
Em San Martín de los Andes devia nos aguardar um amigo chileno. Essa cidadezinha da cordilheira argentina é tão pequena que me tinham dito como indicação única:
– Vai para o melhor hotel que ali Pedrito Ramírez irá te buscar.
Mas assim são as coisas. Em San Martín de los Andes não havia um melhor hotel: havia dois. Qual deles escolher? Decidimo-nos pelo mais caro, situado num bairro mais afastado, preterindo o primeiro que tínhamos visto defronte da bela praça da cidade.
Aconteceu que o hotel que escolhemos era tão de primeira classe que não quiseram nos aceitar. Observaram com hostilidade os efeitos de vários dias de viagem a cavalo, nossos casacos ao ombro, nossas caras com barba por fazer e poeirentas. A qualquer um dava medo de nos receber.
Ainda mais o gerente de um hotel que hospedava nobres ingleses procedentes da Escócia e que tinham vindo para pescar salmão na Argentina. Nós não tínhamos nada de lords. O gerente deu-nos o vade retro, alegando com ademanes e gestos teatrais que o último quarto disponível tinha sido reservado há dez minutos. Nisso assomou à porta um elegante cavalheiro de inconfundível tipo militar, acompanhado por uma loura cinematográfica, que gritou com voz trovejante:
– Alto! Não se manda os chilenos embora de nenhuma parte. Eles ficam aqui!
E ficamos. Nosso protetor parecia-se tanto com Perón e sua dama com Evita que pensamos todos: São eles! Mas depois, já de banho tomado e vestidos com roupa limpa, sentados à mesa e degustando uma garrafa de champanha duvidosa, soubemos que o homem era comandante da guarnição local e ela uma atriz de Buenos Aires que vinha visitá-lo.
Passamos por madeireiros chilenos dispostos a fazer bons negócios. O comandante me chamava “o Homem Montanha”. Víctor Bianchi, que até ali me acompanhava por amizade e por amor à aventura, descobriu uma guitarra e com suas pícaras canções chilenas encantava a argentinos e argentinas. Porém passaram-se três dias com suas noites e Pedrito Ramírez não chegava para me buscar. Fiquei apreensivo. Já não nos restava camisa limpa nem dinheiro para comprar novas. Um bom negociante de madeira, dizia Víctor Bianchi, pelo menos deve ter camisas.
Enquanto isso, o comandante nos ofereceu um almoço em seu regimento. Sua amizade conosco fez-se mais estreita e confessou-nos que, apesar de sua semelhança física com Perón, era antiperonista. Passávamos longas horas discutindo quem teria pior presidente, se o Chile ou a Argentina.
Certa manhã Pedrito Ramírez entrou de improviso em meu quarto.
– Desgraçado! – gritei. – Por que demoraste tanto?
Tinha sucedido o inevitável. Ele esperava tranquilamente minha chegada no outro hotel, no da praça.
Dez minutos depois estávamos rodando pelo pampa infinito. E continuamos rodando dia e noite. De vez em quando os argentinos detinham o automóvel para preparar um mate e depois continuávamos atravessando aquela monotonia interminável.
Pablo Neruda, "Confesso que Vivi"
Em San Martín de los Andes devia nos aguardar um amigo chileno. Essa cidadezinha da cordilheira argentina é tão pequena que me tinham dito como indicação única:
– Vai para o melhor hotel que ali Pedrito Ramírez irá te buscar.
Mas assim são as coisas. Em San Martín de los Andes não havia um melhor hotel: havia dois. Qual deles escolher? Decidimo-nos pelo mais caro, situado num bairro mais afastado, preterindo o primeiro que tínhamos visto defronte da bela praça da cidade.
Aconteceu que o hotel que escolhemos era tão de primeira classe que não quiseram nos aceitar. Observaram com hostilidade os efeitos de vários dias de viagem a cavalo, nossos casacos ao ombro, nossas caras com barba por fazer e poeirentas. A qualquer um dava medo de nos receber.
Ainda mais o gerente de um hotel que hospedava nobres ingleses procedentes da Escócia e que tinham vindo para pescar salmão na Argentina. Nós não tínhamos nada de lords. O gerente deu-nos o vade retro, alegando com ademanes e gestos teatrais que o último quarto disponível tinha sido reservado há dez minutos. Nisso assomou à porta um elegante cavalheiro de inconfundível tipo militar, acompanhado por uma loura cinematográfica, que gritou com voz trovejante:
– Alto! Não se manda os chilenos embora de nenhuma parte. Eles ficam aqui!
E ficamos. Nosso protetor parecia-se tanto com Perón e sua dama com Evita que pensamos todos: São eles! Mas depois, já de banho tomado e vestidos com roupa limpa, sentados à mesa e degustando uma garrafa de champanha duvidosa, soubemos que o homem era comandante da guarnição local e ela uma atriz de Buenos Aires que vinha visitá-lo.
Passamos por madeireiros chilenos dispostos a fazer bons negócios. O comandante me chamava “o Homem Montanha”. Víctor Bianchi, que até ali me acompanhava por amizade e por amor à aventura, descobriu uma guitarra e com suas pícaras canções chilenas encantava a argentinos e argentinas. Porém passaram-se três dias com suas noites e Pedrito Ramírez não chegava para me buscar. Fiquei apreensivo. Já não nos restava camisa limpa nem dinheiro para comprar novas. Um bom negociante de madeira, dizia Víctor Bianchi, pelo menos deve ter camisas.
Enquanto isso, o comandante nos ofereceu um almoço em seu regimento. Sua amizade conosco fez-se mais estreita e confessou-nos que, apesar de sua semelhança física com Perón, era antiperonista. Passávamos longas horas discutindo quem teria pior presidente, se o Chile ou a Argentina.
Certa manhã Pedrito Ramírez entrou de improviso em meu quarto.
– Desgraçado! – gritei. – Por que demoraste tanto?
Tinha sucedido o inevitável. Ele esperava tranquilamente minha chegada no outro hotel, no da praça.
Dez minutos depois estávamos rodando pelo pampa infinito. E continuamos rodando dia e noite. De vez em quando os argentinos detinham o automóvel para preparar um mate e depois continuávamos atravessando aquela monotonia interminável.
Pablo Neruda, "Confesso que Vivi"
Acordai
Acordai!
Acordai, homens que dormis
A embalar a dor
Dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raiz!
Acordai!
Acordai, raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações...
Acordai!
Acendei, de almas e de sóis,
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!
E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais.
Acordai!
Acordai, homens que dormis
A embalar a dor
Dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raiz!
Acordai!
Acordai, raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações...
Acordai!
Acendei, de almas e de sóis,
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!
E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais.
Acordai!
José Gomes Ferreira
O caluniador
O professor de caligrafia Sergey Kapitonech Akhineiev casou-se com sua filha Natália com o professor de história e geografia Ivan Petrovich Lochdinei. A festa se realizou no meio da maior alegria. No salão se cantava, jogava e dançava. Corriam de um lado para outro das salas os investidores emprestados pelo clube, vestidos de negras casacas e gravatas brancas, bem sujas. Reinava em toda a casa alegre boatos de conversas.
O professor de matemática Tarantuloff, o francês Padekoi e o inspetor de segunda classe da Câmara de Comprovação, Egor Venedictech Mzda, sentados em fila no divã, relataram, um depois do outro, a alguns convidados, casos de enterrados vivos e expunham a sua opinião sobre o espiritismo. Nenhum dos três acreditava nisso, mas admitiam que neste mundo há muitas coisas que a inteligência humana não pode conceber.
Na sala contínua, o professor de literatura Duduski explicou um outro grupo de questionados os casos em que uma sentinela pode atirar sobre os transeuntes. As conversas, como veem eram espantosas, mas muito decididas. Pelas janelas que davam para o pátio olhavam pessoas que, pela sua situação ou posição social, não tinham o direito de entrar na casa.
À meia-noite em ponto, o dono da casa, Akhineiev, entrou na cozinha para ver se estava tudo em ordem para a ceia. Encontrou a cozinha cheia do agradável cheiro dos gansos e patos assados. Sobre as mesas expostas em artes desordem os zakuskas e as bebidas. Junto das mesas passando e tornava a passar, muito atarefada, a cozinheira Marta, mulher rubicunda, de volumoso ventre envolvida em faixas.
— Vamos ver, querida, onde está o esturjão? — disse Khineiev esfregando as mãos e requebrando-se. — Que cheiro magnífico! Eu sou capaz de comer toda a cozinha. Vamos, vamos, onde está o esturjão?
Marta mudou-se de um dos bancos e cuidadosamente chamou uma folha de jornal engordurado. Debaixo dessa folha, em enorme travessa, jazia um enorme esturjão enfeitado com azeitonas, alcaparras e cenouras, Akhineiev contemplou o peixe e soltou um ah! O seu rosto resplandeceu e os olhos se lhe lançaram. Inclinou-se e produzido com os lábios som iguais ao de uma roda sem sebo.
—Ah! Som de um beijo apaixonado!… Marta, com quem você está beijando por aí?
Ouviu-se uma voz dizer isto da sala ao lado e à porta assomou a cabeça pelada do auxiliar Vankin.
— Com quem você está beijando? Muito bem! Com quem? Com Sergey Kapitonech? Fora com o avô! Tête-à-tête com uma mulher!
— Eu não estou beijando com ninguém — respondeu Akhineiev, algo confuso. — Quem você disse coisa semelhante, maluco? Fui eu que fiz com os lábios esse ruído, encantado pelo esturjão.
— Não me venha com histórias!
Vankin deixou escapar e sumiu da porta. Akhineiev ficou vermelho.
— Que bobagem! — pensar.
— Agora este maroto vai sair com chocarrices… Esse animal vai me ridicularizar pela cidade toda…
Akhineiev entrou timidamente no salão e olhou para Vankin de Soslaio. Este estava de pé junto do piano e, inclinado, em atitude decidida, disse alguma coisa em voz em baixa à cunhada do inspetor, que ria.
— Está falando de mim — inventou Akhineiev. — De mim! Assim, maldito! E ela acredita! Está rindo! Meu Deus! Não, isto não pode ficar assim!… De maneira alguma! Tenho que arranjar as coisas de modo que ninguém acredita… Falarei com todos e ele ficará sendo um mexeriqueiro estúpido.
Akhineiev coçou a nuca e, sem deixar de ficar confuso, mudou-se de Padekoi.
Estive agora mesmo na cozinha a dar ordens para a ceia — disse ao francês. — Creio que o senhor gosta muito de peixe. Mandei prepara um esturjão de primeira! Tem duas varas! Hé, hé, hé!… A propósito… Já me ia esquecendo. Com este esturjão ocorreu-me agora, na cozinha, um caso divertido. Eu estava de entrar na cozinha para deitar uma olhadela no manjar… Ao contemplar o esturjão, fiz com os lábios um ruído acabou parecido com um beijo forte, ao ver como ele estava apetitoso, e nesse momento entrou o imbecil do Vankin, que disse: “Ah! Com Marta, com a cozinheira!… Que coisas acontecem a essa idiota! Essa mulher não tem nem cara nem corpo! Parece um animal e ele… “Estão vocês se beijando!” Que homem tão vulgar!
— Quem é vulgar?! Disse Tarantuloff, que eles se mudaram nesse instante.
— Esse Vankin. Entrei na cozinha…
E começou a contar o que aconteceu.
— Fez-me rir esse homem vulgar. Parece-me que é mais agradável beijar o cachorro do que Marta — acrescentou Akhineiev, olhando em derredor e vendo Mzda atrás de si.
— Aqui estamos falando de Vankin — disse-lhe. — Que tipo! Entrei na cozinha e me vi junto de Marta; e toca a inventar coisas.
— Que disse ele?
— “Vocês estão se beijando?” Talvez estejamos embriagados e por isso pensei ver que estávamos nos beijando. Garanto que antes beijaria um peru do que Marta. Além disso, o idiota sabe que sou casado. Que vontade tenho de rir!
Quem o fez rir? — disse a Akhineiev, o professor de religião, unindo-se ao grupo.
-Vankin. Estava eu na cozinha Vendo o estuário…
Ao cabo de uns vinte minutos, toda a gente estava inteirada da história de Vankin e do esturjão.
— Que vá agora contar! — inventou Akhineiev, esfregando as mãos. — Começará com as suas tolices e todos logo lhe dirão: "Basta de maluquices, estúpido! Já sabemos tudo!"
E Akhineiev se tranquilizou a tal ponto que bebeu uns copos além do traje. Ao acompanhar depois da ceia os recém-casados ao dormitório, foi em seguida para o seu quarto e ficou dormindo como uma criança inocente, e no dia seguinte já não se lembrava de mais nada da história do esturjão.
Mas o homem põe e Deus apresenta. As mais línguas fizeram das suas e de nada serviram a Akhineiev na estratégia. Ao cabo de quatro semanas exatas, precisamente na quarta-feira, após a terceira lição, quando Akhineiev se dirigia para a sala dos professores e tratava das inclinações viciosas do aluno Vesekin, ele se mudou para o diretor, que o chamou à parte.
— Trata-se de Sergey Kapitonech — disse o diretor. — O senhor me desculpará… Não é coisa minha… Sem dúvida, espero fazer-lo compreender… A minha obrigação… O senhor verificará… Correm rumores de que o senhor vive com essa… com a cozinheira… Não é coisa minha, mas… mas… O senhor vive com ela… Beijam-se… Façam o que quiserem; mas, por favor, não o faça publicamente! Peço-lhe! Não se esqueça de que é um pedagogo!
Akhineiev ficou petrificado. Foi para casa tão dolorido como se o tivesse picado um enxame de abelhas ou como se ele tivesse despejado pela cabeça abaixo de um balde de água fervendo. Dirigiu-se para sua casa e pareceu-lhe que toda gente o olhou como se tivesse untado de breu!… Em sua casa esperava-o nova destruição.
—Por que não vem? — Disse-lhe a esposa, à refeição. — O que você pensa? Nos amores? Você está apreciando menos a Marta? Sei de tudo, canalha! Houve boas almas que me abriram os olhos Uh!, uh, uh!… Miserável!
E, zás, um bofetão em pleno rosto. Akhineiev declarou-se da mesa e, tonto sem gorro nem capote, partiu para a casa de Vankin. Justamente, o encontrei em casa.
—Canalha! É um canal! — exclamou Akhineiev, dirigindo-se a Vankin. — Por que eu me enlamei diante de toda a gente? Por que lançaste essa calúnia?
—Que calúnia? O que você está inventando?
— E quem tal que fez correr a mentira de que eu beijei Marta? Você vai querer dizer que não foste seu bandido?
Vankin pestanejou e agitou todo o seu rosto consumido; além dos olhos para o ícone e disse:
— Que Deus me castigue, que eu fique sem olhos, ou morra agora mesmo, se disse uma só palavra a teu respeito!
A sinceridade de Vankin não permitia menor dúvida. Evidentemente não fora ele o autor da Calúnia.
—Mas, quem teria dito? Quem? — pensei Akhineiev, passando em revista mental todos os seus conhecidos e dando pancadas no peito. — Quem terá sido?
Quem terá sido? — perguntamos nós também, ao leitor…
O professor de matemática Tarantuloff, o francês Padekoi e o inspetor de segunda classe da Câmara de Comprovação, Egor Venedictech Mzda, sentados em fila no divã, relataram, um depois do outro, a alguns convidados, casos de enterrados vivos e expunham a sua opinião sobre o espiritismo. Nenhum dos três acreditava nisso, mas admitiam que neste mundo há muitas coisas que a inteligência humana não pode conceber.
Na sala contínua, o professor de literatura Duduski explicou um outro grupo de questionados os casos em que uma sentinela pode atirar sobre os transeuntes. As conversas, como veem eram espantosas, mas muito decididas. Pelas janelas que davam para o pátio olhavam pessoas que, pela sua situação ou posição social, não tinham o direito de entrar na casa.
À meia-noite em ponto, o dono da casa, Akhineiev, entrou na cozinha para ver se estava tudo em ordem para a ceia. Encontrou a cozinha cheia do agradável cheiro dos gansos e patos assados. Sobre as mesas expostas em artes desordem os zakuskas e as bebidas. Junto das mesas passando e tornava a passar, muito atarefada, a cozinheira Marta, mulher rubicunda, de volumoso ventre envolvida em faixas.
— Vamos ver, querida, onde está o esturjão? — disse Khineiev esfregando as mãos e requebrando-se. — Que cheiro magnífico! Eu sou capaz de comer toda a cozinha. Vamos, vamos, onde está o esturjão?
Marta mudou-se de um dos bancos e cuidadosamente chamou uma folha de jornal engordurado. Debaixo dessa folha, em enorme travessa, jazia um enorme esturjão enfeitado com azeitonas, alcaparras e cenouras, Akhineiev contemplou o peixe e soltou um ah! O seu rosto resplandeceu e os olhos se lhe lançaram. Inclinou-se e produzido com os lábios som iguais ao de uma roda sem sebo.
—Ah! Som de um beijo apaixonado!… Marta, com quem você está beijando por aí?
Ouviu-se uma voz dizer isto da sala ao lado e à porta assomou a cabeça pelada do auxiliar Vankin.
— Com quem você está beijando? Muito bem! Com quem? Com Sergey Kapitonech? Fora com o avô! Tête-à-tête com uma mulher!
— Eu não estou beijando com ninguém — respondeu Akhineiev, algo confuso. — Quem você disse coisa semelhante, maluco? Fui eu que fiz com os lábios esse ruído, encantado pelo esturjão.
— Não me venha com histórias!
Vankin deixou escapar e sumiu da porta. Akhineiev ficou vermelho.
— Que bobagem! — pensar.
— Agora este maroto vai sair com chocarrices… Esse animal vai me ridicularizar pela cidade toda…
Akhineiev entrou timidamente no salão e olhou para Vankin de Soslaio. Este estava de pé junto do piano e, inclinado, em atitude decidida, disse alguma coisa em voz em baixa à cunhada do inspetor, que ria.
— Está falando de mim — inventou Akhineiev. — De mim! Assim, maldito! E ela acredita! Está rindo! Meu Deus! Não, isto não pode ficar assim!… De maneira alguma! Tenho que arranjar as coisas de modo que ninguém acredita… Falarei com todos e ele ficará sendo um mexeriqueiro estúpido.
Akhineiev coçou a nuca e, sem deixar de ficar confuso, mudou-se de Padekoi.
Estive agora mesmo na cozinha a dar ordens para a ceia — disse ao francês. — Creio que o senhor gosta muito de peixe. Mandei prepara um esturjão de primeira! Tem duas varas! Hé, hé, hé!… A propósito… Já me ia esquecendo. Com este esturjão ocorreu-me agora, na cozinha, um caso divertido. Eu estava de entrar na cozinha para deitar uma olhadela no manjar… Ao contemplar o esturjão, fiz com os lábios um ruído acabou parecido com um beijo forte, ao ver como ele estava apetitoso, e nesse momento entrou o imbecil do Vankin, que disse: “Ah! Com Marta, com a cozinheira!… Que coisas acontecem a essa idiota! Essa mulher não tem nem cara nem corpo! Parece um animal e ele… “Estão vocês se beijando!” Que homem tão vulgar!
— Quem é vulgar?! Disse Tarantuloff, que eles se mudaram nesse instante.
— Esse Vankin. Entrei na cozinha…
E começou a contar o que aconteceu.
— Fez-me rir esse homem vulgar. Parece-me que é mais agradável beijar o cachorro do que Marta — acrescentou Akhineiev, olhando em derredor e vendo Mzda atrás de si.
— Aqui estamos falando de Vankin — disse-lhe. — Que tipo! Entrei na cozinha e me vi junto de Marta; e toca a inventar coisas.
— Que disse ele?
— “Vocês estão se beijando?” Talvez estejamos embriagados e por isso pensei ver que estávamos nos beijando. Garanto que antes beijaria um peru do que Marta. Além disso, o idiota sabe que sou casado. Que vontade tenho de rir!
Quem o fez rir? — disse a Akhineiev, o professor de religião, unindo-se ao grupo.
-Vankin. Estava eu na cozinha Vendo o estuário…
Ao cabo de uns vinte minutos, toda a gente estava inteirada da história de Vankin e do esturjão.
— Que vá agora contar! — inventou Akhineiev, esfregando as mãos. — Começará com as suas tolices e todos logo lhe dirão: "Basta de maluquices, estúpido! Já sabemos tudo!"
E Akhineiev se tranquilizou a tal ponto que bebeu uns copos além do traje. Ao acompanhar depois da ceia os recém-casados ao dormitório, foi em seguida para o seu quarto e ficou dormindo como uma criança inocente, e no dia seguinte já não se lembrava de mais nada da história do esturjão.
Mas o homem põe e Deus apresenta. As mais línguas fizeram das suas e de nada serviram a Akhineiev na estratégia. Ao cabo de quatro semanas exatas, precisamente na quarta-feira, após a terceira lição, quando Akhineiev se dirigia para a sala dos professores e tratava das inclinações viciosas do aluno Vesekin, ele se mudou para o diretor, que o chamou à parte.
— Trata-se de Sergey Kapitonech — disse o diretor. — O senhor me desculpará… Não é coisa minha… Sem dúvida, espero fazer-lo compreender… A minha obrigação… O senhor verificará… Correm rumores de que o senhor vive com essa… com a cozinheira… Não é coisa minha, mas… mas… O senhor vive com ela… Beijam-se… Façam o que quiserem; mas, por favor, não o faça publicamente! Peço-lhe! Não se esqueça de que é um pedagogo!
Akhineiev ficou petrificado. Foi para casa tão dolorido como se o tivesse picado um enxame de abelhas ou como se ele tivesse despejado pela cabeça abaixo de um balde de água fervendo. Dirigiu-se para sua casa e pareceu-lhe que toda gente o olhou como se tivesse untado de breu!… Em sua casa esperava-o nova destruição.
—Por que não vem? — Disse-lhe a esposa, à refeição. — O que você pensa? Nos amores? Você está apreciando menos a Marta? Sei de tudo, canalha! Houve boas almas que me abriram os olhos Uh!, uh, uh!… Miserável!
E, zás, um bofetão em pleno rosto. Akhineiev declarou-se da mesa e, tonto sem gorro nem capote, partiu para a casa de Vankin. Justamente, o encontrei em casa.
—Canalha! É um canal! — exclamou Akhineiev, dirigindo-se a Vankin. — Por que eu me enlamei diante de toda a gente? Por que lançaste essa calúnia?
—Que calúnia? O que você está inventando?
— E quem tal que fez correr a mentira de que eu beijei Marta? Você vai querer dizer que não foste seu bandido?
Vankin pestanejou e agitou todo o seu rosto consumido; além dos olhos para o ícone e disse:
— Que Deus me castigue, que eu fique sem olhos, ou morra agora mesmo, se disse uma só palavra a teu respeito!
A sinceridade de Vankin não permitia menor dúvida. Evidentemente não fora ele o autor da Calúnia.
—Mas, quem teria dito? Quem? — pensei Akhineiev, passando em revista mental todos os seus conhecidos e dando pancadas no peito. — Quem terá sido?
Quem terá sido? — perguntamos nós também, ao leitor…
Anton Tchekhov
Minha rua
Era estreita a nossa rua. No verão de céu azul, os raios de sol coavam a manhã fresca. Não existiam fronteiras em nossa rua, pelo menos no quarteirão onde eu morava. As famílias pareciam uma só, tamanha a intimidade que existia entre elas. Havia convívio harmonioso entre os vizinhos, fosse dia de festa ou de tristeza.
No tempo das férias escolares, havia nos passeios jogo de tampilha, pião e leilão de brinquedos. Jogar bola de gude ou bola era no meio da rua. Natural que durante o jogo surgissem disputas acaloradas, bate-boca, empurrões e até briga. Em pouco tempo tudo voltava ao normal. Os dias retomavam a sua temperatura agradável, como se nada de mais houvesse acontecido entre os que brigavam durante o jogo de futebol. Agora de vez em quando podia haver discussão acirrada, às vezes terminando em briga quando alguém dizia reiteiradas vezes que ali na rua o melhor jogador de bola não era seu irmão mais velho.
Naqueles idos que já vão longe não havia educação ambiental, os pais não se importavam se o menino tivesse uma atiradeira, andasse pelos quintais e outros locais da cidade caçando passarinho. Era uma atividade normal, que aperfeiçoava os brios de cada garoto. Os tempos eram outros, as brincadeiras e diversões não aconteciam com os jogos eletrônicos de hoje. Os meninos inventavam as aventuras, que tornavam a vida cheia de sustos esplêndidos, vitórias memoráveis.
Ninguém duvidasse, o estilingue mais certeiro não era o do irmão Orlando. No fim da tarde, o irmão chegava com a capanga cheia de passarinhos, eram abatidos com bala de estilingue no Jardim da Prefeitura ou em alguma roça próxima à cidade. O irmão no estilingue era mesmo um campeão. Ninguém ali na rua duvidasse da pontaria dele. Cada balaço que ele desferia acertava em passarinho pousado até em cocuruto de árvore alta.
Nossa rua ficava impregnada de um aroma verde, quando o homem passava com o tabuleiro de verduras na cabeça. Os ares coloridos, todos os dias, com o roxo da beterraba, o verde do repolho e o laranja da cenoura.
Era iluminada com a gritaria dos companheiros. Zoada havia de canto a canto. Corneta, apito, bangue-bangue, jogo de bola, pião rodava na mão e no chão.
Do que eu mais gostava era do jogo de bola. Quando a mulher gorda chegava no batente da porta, segurando a bola, que ela no mesmo instante furava, não encontrava um menino sequer pra perguntar quem foi o pestinho que acertou daquela vez a sua vidraça, dando-lhe outra vez um prejuízo danado.
Cedo, no outro dia, os companheiros voltavam ao jogo com bola de pano. Os lances aguerridos, rosto vermelho e suado, cabelos assanhados. Palavrão, bate-boca e, aos gritos, a comemoração da vitória.
A vidraça da janela de algum dos moradores de nossa rua não deixaria de ser acertada.
Ó que saudade da minha rua! Hoje, vejo-a estreita e nem tão comprida. Outrora tão grande para mim e os companheiros. O mundo ali cabia dentro das cores da verdura no tabuleiro. Bastava no leilão dos brinquedos, troca de gibi ou figurinhas do álbum de artistas do cinema americano, bala de estilingue nos quintais frutíferos, para não se falar no jogo de bola.
Ah, viver era uma canção verde como verde todos os dias a gente ouvia a voz do verdureiro. Era verde na voz dos companheiros colhendo coentro nos passeios.
Abóbora nas valetas. Couve-flor nos calçamentos.
No tempo das férias escolares, havia nos passeios jogo de tampilha, pião e leilão de brinquedos. Jogar bola de gude ou bola era no meio da rua. Natural que durante o jogo surgissem disputas acaloradas, bate-boca, empurrões e até briga. Em pouco tempo tudo voltava ao normal. Os dias retomavam a sua temperatura agradável, como se nada de mais houvesse acontecido entre os que brigavam durante o jogo de futebol. Agora de vez em quando podia haver discussão acirrada, às vezes terminando em briga quando alguém dizia reiteiradas vezes que ali na rua o melhor jogador de bola não era seu irmão mais velho.
Naqueles idos que já vão longe não havia educação ambiental, os pais não se importavam se o menino tivesse uma atiradeira, andasse pelos quintais e outros locais da cidade caçando passarinho. Era uma atividade normal, que aperfeiçoava os brios de cada garoto. Os tempos eram outros, as brincadeiras e diversões não aconteciam com os jogos eletrônicos de hoje. Os meninos inventavam as aventuras, que tornavam a vida cheia de sustos esplêndidos, vitórias memoráveis.
Ninguém duvidasse, o estilingue mais certeiro não era o do irmão Orlando. No fim da tarde, o irmão chegava com a capanga cheia de passarinhos, eram abatidos com bala de estilingue no Jardim da Prefeitura ou em alguma roça próxima à cidade. O irmão no estilingue era mesmo um campeão. Ninguém ali na rua duvidasse da pontaria dele. Cada balaço que ele desferia acertava em passarinho pousado até em cocuruto de árvore alta.
Nossa rua ficava impregnada de um aroma verde, quando o homem passava com o tabuleiro de verduras na cabeça. Os ares coloridos, todos os dias, com o roxo da beterraba, o verde do repolho e o laranja da cenoura.
Era iluminada com a gritaria dos companheiros. Zoada havia de canto a canto. Corneta, apito, bangue-bangue, jogo de bola, pião rodava na mão e no chão.
Do que eu mais gostava era do jogo de bola. Quando a mulher gorda chegava no batente da porta, segurando a bola, que ela no mesmo instante furava, não encontrava um menino sequer pra perguntar quem foi o pestinho que acertou daquela vez a sua vidraça, dando-lhe outra vez um prejuízo danado.
Cedo, no outro dia, os companheiros voltavam ao jogo com bola de pano. Os lances aguerridos, rosto vermelho e suado, cabelos assanhados. Palavrão, bate-boca e, aos gritos, a comemoração da vitória.
A vidraça da janela de algum dos moradores de nossa rua não deixaria de ser acertada.
Ó que saudade da minha rua! Hoje, vejo-a estreita e nem tão comprida. Outrora tão grande para mim e os companheiros. O mundo ali cabia dentro das cores da verdura no tabuleiro. Bastava no leilão dos brinquedos, troca de gibi ou figurinhas do álbum de artistas do cinema americano, bala de estilingue nos quintais frutíferos, para não se falar no jogo de bola.
Ah, viver era uma canção verde como verde todos os dias a gente ouvia a voz do verdureiro. Era verde na voz dos companheiros colhendo coentro nos passeios.
Abóbora nas valetas. Couve-flor nos calçamentos.
sábado, maio 16
O cachorro e o frasco
– Que fofo, que amado, que lindo cãozinho; venha cá cheirar este excelente perfume comprado na melhor botica da cidade.
E o cachorro, abanando o rabo, gesto que creio ser o equivalente do riso e do sorriso entre essas pobres criaturas, aproximou-se e apoiou curioso o focinho úmido na boca do frasco destampado; depois, recuando de um pulo, ainda latiu contra mim, como para reclamar.
– Ah, cachorro maldito, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o farejaria deliciado, e possivelmente o devorava. E assim, companheiro indigno da minha triste vida, descubro-te tal qual o público, a quem não convém jamais oferecer perfumes delicados, que o exasperam, mas vilezas cuidadosamente escolhidas.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
E o cachorro, abanando o rabo, gesto que creio ser o equivalente do riso e do sorriso entre essas pobres criaturas, aproximou-se e apoiou curioso o focinho úmido na boca do frasco destampado; depois, recuando de um pulo, ainda latiu contra mim, como para reclamar.
– Ah, cachorro maldito, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o farejaria deliciado, e possivelmente o devorava. E assim, companheiro indigno da minha triste vida, descubro-te tal qual o público, a quem não convém jamais oferecer perfumes delicados, que o exasperam, mas vilezas cuidadosamente escolhidas.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
No mundo há muitas armadilhas
No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Troia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Troia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.
Ferreira Gullar
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