Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quarta-feira, agosto 26
Deliciosas alegrias
Octave Uzanne
A casa à noite
Sonho domado
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Largue a tela, leia um livro!
E a literatura exige tempo e estamos perdendo, pouco a pouco, a disposição para permanecer diante de algo que exige tempo. Um romance de seiscentas, oitocentas ou mil páginas, ou mais, não cabe na lógica do imediatismo. Não pode ser consumido enquanto se espera o elevador, entre duas notificações ou durante alguns minutos de intervalo. Um grande romance pede silêncio, concentração, memória. Pede que o leitor aceite não saber imediatamente onde a história vai chegar. Talvez seja justamente isso que esteja em conflito com o espírito do nosso tempo.
Vivemos cercados por telas que disputam permanentemente a nossa atenção. Rolamos páginas, vídeos e imagens em uma sequência praticamente interminável. Um conteúdo substitui o outro antes mesmo que tenhamos tempo de assimilá-lo. A novidade não está mais em descobrir algo, mas em descobrir o próximo.
Com a leitura é diferente, ou seja, funciona de maneira inversa. Ela não nos oferece a próxima coisa. Ela nos convida a permanecer. Há algo de “revolucionário” em desligar o celular, afastar as notificações e permanecer durante uma hora diante de algumas páginas. É um gesto de resistência contra a velocidade. Não porque toda tecnologia seja inimiga da cultura, mas porque uma vida submetida integralmente à velocidade corre o risco de perder a capacidade de contemplação.
Quanto a isso, Zygmunt Bauman chamou atenção para a fluidez das relações e das estruturas da modernidade contemporânea. Tudo parece provisório, substituível, descartável. Até mesmo a atenção humana entrou nessa lógica. Consumimos notícias, opiniões, imagens, vídeos e até ideias como quem percorre uma prateleira de supermercado. A literatura, porém, não funciona assim. Um personagem precisa de tempo para existir. Uma paisagem precisa de tempo para ser percebida. Uma tragédia precisa de tempo para amadurecer. Uma ideia precisa de tempo para incomodar.
Emma Bovary não cabe em um vídeo de quinze segundos. Hans Castorp não pode ser compreendido em um resumo de algumas linhas. Diadorim não é apenas um personagem de uma história sobre o sertão. Fantine não é somente uma mulher pobre de Os Miseráveis. Oblómov não é simplesmente um homem preguiçoso. Quaderna não é apenas um personagem excêntrico em busca de um reino perdido. A literatura não entrega apenas histórias; ela constrói experiências. É por isso que ler um grande romance é também viajar. Viajar sem sair do lugar.
Podemos atravessar os mares com Simbad, perder-nos nas histórias de Sherazade, conversar com Tieta do Agreste, acompanhar Emma Bovary em seus sonhos e frustrações, subir A Montanha Mágica ao lado de Hans Castorp, atravessar o sertão com Diadorim e Riobaldo, caminhar pelas terras do Sul com Ana Terra e Capitão Rodrigo, sentir o sofrimento de Fantine pelas ruas de Paris, acompanhar Maheude e os mineiros de Germinal na luta pela sobrevivência ou entrar no universo delirante de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. A cada livro, uma época. A cada personagem, uma possibilidade de existência. A cada página, uma janela.
É justamente aí que reside a força da literatura. O leitor não sai exatamente igual de um grande romance. Pode até fechar o livro sem concordar com o autor, sem gostar dos personagens ou sem encontrar respostas para suas próprias perguntas. Mas alguma coisa se deslocou. A literatura nos obriga a habitar outras consciências. Coloca-nos diante de pessoas que pensam, amam, sofrem e desejam de maneiras diferentes das nossas. E talvez esse seja um dos últimos grandes espaços de encontro em uma sociedade cada vez mais fragmentada.
Quando lemos Tolstói, entramos na Rússia de outro século. Quando lemos Flaubert, encontramos uma sociedade burguesa em transformação. Quando atravessamos as páginas de Euclides da Cunha, somos confrontados com um Brasil profundo, marcado pela violência, pela desigualdade e pelo abandono. Quando lemos Jorge Amado, penetramos no coração que bombeia cultura para Brasil a fora, a Bahia. Quando lemos Guimarães Rosa, descobrimos que o sertão pode ser geografia, linguagem, filosofia e existência ao mesmo tempo. Quando lemos Graciliano Ramos, adentramos num país flagelado pela seca. A literatura amplia o mundo porque amplia aquilo que conseguimos imaginar.
Mas há um paradoxo. Nunca tivemos tanto acesso aos livros e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar tempo para lê-los. Bibliotecas inteiras cabem dentro de um aparelho. Obras que antes eram raras estão disponíveis em poucos cliques. Podemos carregar dezenas de romances no bolso. O que parece faltar não é acesso. É atenção!
Talvez por isso os grandes calhamaços estejam se transformando em objetos de decoração. Livros alinhados nas estantes, fotografados, exibidos, organizados por cor enquanto permanecem intocados. Tornaram-se, em alguns casos, sinais exteriores de cultura, quando sua verdadeira função é outra: serem abertos, riscados, dobrados, emprestados, esquecidos sobre a mesa e retomados no dia seguinte. Um livro não foi feito para combinar com o sofá. Foi feito para interromper a nossa vida. E é precisamente essa interrupção que pode nos salvar da superficialidade.
Não é necessário transformar a leitura em obrigação. Nem estabelecer uma competição sobre quem leu mais clássicos. A literatura não deveria ser um vestibular permanente de erudição. Há livros difíceis, livros divertidos, livros ruins, livros maravilhosos. Há momentos para Dostoiévski e momentos para uma crônica de poucas páginas, como Conto de Natal de Charles Dickens, ou mesmo a história do Analista de Bagé de Luiz Fernando Verissimo, ou ainda Leão de Chácara de João Antônio. O importante é recuperar o prazer de ler. Sentar. Abrir. Começar. E permanecer.
No mundo das telas, de dopamina, o desafio é encontrar leitores. Não milhões. Não multidões. Apenas aqueles que ainda acreditam que algumas histórias merecem ser escritas, contadas e romanceadas; aqueles que aceitam atravessar centenas de páginas para descobrir que, ao final, não encontraram apenas uma história, mas alguma coisa de si mesmos. Porque um livro não precisa ser lido por todos. Precisa encontrar alguém. Alguém disposto a deixar a tela de lado por algumas horas. Alguém disposto a trocar a rolagem infinita por uma página. Alguém disposto a suportar o silêncio.
Então, leitores, fica o convite, quase uma provocação: largue a tela. Pegue um livro. Desligue por um instante o ruído do mundo. Abra Tolstói. Flaubert. Proust. Thomas Mann. Euclides. Guimarães Rosa. Machado de Assis. Lima Barreto. Abra Olhai os Lírios do Campo, O Quinze, Memorias Póstumas de Braz Cuba, Fogo Morto, Boa do Inferno, As Minas de Prata ou qualquer outro livro de sua preferência. Não procure apenas uma história. Procure um mundo. Uma cultura. E, quem sabe, ao terminar a última página, você descubra que o mundo que encontrou dentro do livro também estava, silenciosamente, dentro de você.
Boa leitura!
Dicas para não envelhecer
Desde já, aconselho também a não exibir sua idade em qualquer circunstância. Para que e por que? Se você tem 60 anos e alguém lhe pergunta a idade, não diminua, aumente-a. Diga que tem 80. Aí a pessoa termina exclamando: “Mentira! Você tem muito menos!”.
Jamais fique remoendo coisas do passado. Nunca diga que antigamente era muito melhor do que hoje. Não pronuncie expressões tais como “no meu tempo não era assim”. O seu tempo é este que você está vivendo. Ou será que você já morreu? Antigamente, a vida era uma pasmaceira. Até para satisfazer suas necessidades fisiológicas você tinha que andar um quilômetro. O peso dos preconceitos era maior. Os meios de comunicação eram precários. Houve tempo em que uma carta chegava ao destino em um mês. E vinha em navios, apelidados de paquetes. Ninguém sonhava com a Internet...
Evite a ociosidade. Tudo que estaciona termina enferrujando.
Esteja sempre muito bem informado e muito ocupado. Jamais hostilize as mudanças. Se for homem, não use gorro, e se mulher, evite os trajes muitos fechados. Não perca o apetite pela vida. Lembre-se que é pra frente que se anda. Aceite de bom grado as novidades.
Ocupe todo o seu tempo com coisas úteis. O trabalho (sem exagero) é uma excelente terapia, chamada ergoterapia. Multiplique seus interesses. A vida é uma emocionante aventura. Fique certo de que toda idade tem sua beleza. Se você está aposentado, ótimo. É mais uma oportunidade para fazer o que gosta. Que tal se dedicar a um serviço comunitário?
Nada mais estimulante do que o exercício de uma vocação. Se você passou o tempo todo como funcionário público, procure agora uma atividade diferente. Que tal pintar ou pescar?
Vejamos agora o sorriso. Olhe-se no espelho e sorria. O sorriso espalha as rugas, já reparou? Portanto, nada de cara amarrada. Procure ver o lado bom e belo da vida, assumindo uma atitude otimista diante das pessoas e dos acontecimentos. Dedique-se a um ideal. Orgulhe-se das experiências vividas, da sabedoria adquirida ao longo dos anos.
E o traje? Não vá nessa onda de que tal roupa ou tal vestido não ficam bem na sua idade. Use indumentárias de que você gosta. Veja as antigas árvores. Elas estão sempre florindo, enfeitando a paisagem. O mar nunca envelhece. Sabe por que? Porque está sempre em movimento, sempre sorrindo o seu sorriso de espuma, sempre mudando.
terça-feira, agosto 25
Lua depois da chuva
cada gota de água
como um bago de uva
A chuva lava a rua
a viúva leva o guarda-chuva e a luva
olha a chuva molha a luva
e o guarda-chuva da viúva
vai a chuva e chega a lua
lua de chuva.
Buquinagem
Desconhecer o que viemos fazer aqui nos livra de fadigas e decepções. Esqueçamos nossas presunções e gozemos a suprema delícia de não termos missão nenhuma.
Quando chovia forte, Mário de Andrade, que dizia ser trezentos e cinquenta, não saía de casa. Mandava em seu lugar um dos trezentos e quarenta e nove outros.
Bom tempo foi aquele em que o amor nos alimentava com fartura, para que cumpríssemos suas demandas noturnas e, se delas nos descurássemos, pudéssemos resistir ao rancor do seu chicote.
O que está sempre em jogo no amor é a fixação de um domínio, de uma primazia. Mesmo que esse domínio e essa primazia consistam, para quem os fixa, em submeter-se, de plena vontade, ao domínio e à primazia do parceiro amoroso.
Se eu fosse um apóstolo do amor, se eu fosse digno dessa missão, o livro-base do meu culto – a bíblia, por assim dizer – seria O museu da inocência, de Orhan Pamuk. Não conheço nenhum que se equipare a ele em força lírica, em delicadeza, em suavidade. Eu daria a alma para tê-lo escrito – o que, na verdade, significa que gostaria de ter vivido a história do personagem Kemal, subjugado por uma lembrança amorosa tão pungentemente agradável de ser sofrida que ele bem mereceria mais de uma vida para vivê-la. O museu da inocência é um livro para aqueles que não se envergonhariam de lamber uma estátua do amor, ainda que fosse obra do pior dos escultores e feita com a mais reles das argilas.
Quem se julga heroico quando se declara disposto a dar a vida pelo amor não faz nada além de reproduzir hoje um hábito muito comum outrora.
Porque nossos braços já não são os mesmos, as árvores derrubam gentilmente seus frutos para nós. Não são os melhores, sabemos, mas já aprendemos a não nos lamentar.
O que o amor de mais cruel tem é quando nós lhe dizemos que sem ele morreremos, e ele, distraído, diz: hem?
Quem mais fala de amor e quem menos o define são os poetas.
Que alma seria suficientemente tola para querer ser a minha?
Todos os poetas deveriam morrer por amor. É a única coisa que, em sua biografia, pode legitimá-los.
Sou um entusiasmado adepto da apatia.
Ter existido um homem chamado Shakespeare, que fez o que fez, é quase tão inacreditável quanto existir Deus.
Poemas de amor deveriam ser vendidos em floriculturas.
Para os suicidas mais convictos, morrer acaba se tornando um projeto de vida.
Os jovens e as ‘Noites brancas’ de Dostoiévski
“Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida?”, escreveu Antônio Maria.
“O amor é a coisa mais triste quando se desfaz”, compôs Vinicius de Moraes.
O poeta mineiro sentado no calçadão de Copacabana me disse uma vez que o amor é isso que se está vendo: alguém que um dia beija, que amanhã já não beija e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Hoje é segunda-feira, eu acabei de ler essa história de Dostoiévski em que um jovem se apaixona ao encontrar a moça chorando numa ponte das noites claras de São Petersburgo. Posso dizer o seguinte: o amor é uma novela russa, um cenário de charme lúgubre recheado de ghosting e friendzone, nomes novos para as eternas trapaças da paixão. Acho que não dou spoiler – tudo acaba mal.
É um livro de educação sentimental, o primeiro amor, o coração aos pulos, e isso deve ter chamado a atenção dos jovens. O fracasso sentimental não costuma dar as caras no TikTok, a plataforma mundial de exibição de dancinhas e felicidades diversas. Foi de lá, no entanto, que veio essa onda capaz de transformar em best-seller um texto de 1848 – sem carícias, sem vias de fato, sem senta-e-toma, e com um final de infelicidade lindamente arrasadora. Lupicínio Rodrigues ia morrer de inveja da dor de cotovelo do chapa Dostói, tão dodói quanto ele.
É duro ter um amor, ter loucura por uma mulher – e essa é a história do livro, de todos os livros, de todos nós, o início, o fim e o meio de todas as canções. No penúltimo capítulo, quando tudo parece se aproximar do felizes para sempre e a lágrima furtiva já ameaça escorrer olho abaixo do leitor, eis que ela, a doce e confusa Nástiènka, abandona quem a acompanhou pelo livro inteiro – e se vai nos braços de outro qualquer. No TikTok, uma jovem mandou a real: “É um livro de terror!”.
Hoje, repito, é segunda-feira. Se Drummond, o poeta sentado de costas para o mar de Copacabana, disse não saber o que é o amor num dia desses, não sou eu que vou definir se é uma pegadinha que nos torna patéticos, a faca amolada no meio da aorta ou uma bet em que se apostam todos os Pix.
Estou passando aqui apenas para dizer que há adolescentes lendo novelas de amor e, num mundo dominado pela grosseria, isso é bom. Eles se reconhecem nas histórias. Quando são bem escritas, não se importam se terminam com um beijo na boca ou o torturante “eu gosto de você, mas te quero apenas como amigo”, dito naquele canto mais escuro do pátio, na hora do recreio, naquela veia mais sensível do coração.
A mulher do famacêutico
Há muito tempo que tudo está dormindo. A única que não dorme é a jovem mulher do boticário Tchornomordik, proprietário da farmácia de B… Já tentou deitar-se três vezes, mas, não sabe por quê, o sono teima em não querer chegar. Sentada, a janela aberta, veste apenas uma camisola e olha para a rua. Sente calor, tédio, desgosto. Tanto desgosto que lhe dá até vontade de chorar; de novo, não sabe por quê. Sente um nó no peito que de repente lhe chega a garganta… Poucos passos atrás dela, colado à parede, dorme Tchornomordik e ronca baixinho. Uma pulga esfomeada suga-o a raiz do nariz, mas ele não percebe e até sorri, pois está sonhando que todos na cidade estão com tosse e compram dele, interminavelmente, as gotas do rei da Dinamarca. Nenhuma picada poderia acordá-lo agora, nem um canhão, nem uma carícia.
Como a farmácia encontra-se quase no limite da cidade, a mulher do boticário consegue ver o campo, ao longe… Vê como o céu aos poucos faz-se branco, do lado do leste, e depois se torna púrpura, como que devido a um grande incêndio. Inesperadamente, de trás de um longínquo arbusto desponta o grande rosto da lua. Ela é vermelha (não sabe por que a lua saindo detrás dos arbustos sempre tem um quê de terrivelmente confuso).
De repente, no meio da calma noturna, ressoam passos e o retinir de esporas. Ouvem-se vozes.
Pouco depois surgem dois vultos e dois uniformes brancos de oficiais: um é grande e gordo, o outro menor e mais fino… Arrastam, preguiçosos, uma perna atrás da outra, ao longo da sebe, e conversam ruidosamente. Diante da farmácia diminuem ainda mais o passo e olham para as janelas.
– Sente-se cheiro de farmácia… – diz o magro. – E é uma farmácia! Ah, estou lembrando… Na semana passada vim aqui comprar óleo de rícino. O farmacêutico tem um rosto azedo e uma queixada de burro. Pois é, meu amigo, a queixada! Aquela mesma com que Sansão deu cabo dos filisteus.
– S-sim… – diz o gordo, com sua voz de baixo. – O farmacêutico dorme e dorme a mulher do farmacêutico. Por sinal, Obtiossov, ela não é de se atirar aos cães.
– Eu a vi. E gostei… Diga-me doutor, será que ela pode gostar de uma queixada dessas? O senhor acha isso possível?
– Não, provavelmente, não gosta – suspira o médico com uma expressão como que de pena pelo farmacêutico. – A mamãezinha está dormindo atrás das janelas. Que acha, Obtiossov? Deitou-se, de tanto calor… a boca entreaberta… a perna caída, fora da cama. E a besta do farmacêutico não está com nada… Para ele, provavelmente, uma mulher ou um vidro de fenol são a mesma coisa.
– Sabe de uma coisa, doutor? – diz o oficial, parando.
– Que tal entrar na farmácia e comprar alguma coisa? Quem sabe a gente vê a farmacêutica?
– Imagine – de madrugada!
– E daí? De madrugada também tem de atender. Entremos, por favor…
A farmacêutica escondida atrás da cortina ouve o som rouco da campainha. Olha para o marido que, como dantes, ronca baixinho e sorri. Veste rapidamente a roupa, calça o sapato sem meia e corre para a loja.
Atrás da porta de vidro veem-se duas sombras… A farmacêutica aumenta a luz da lamparina e abre a porta depressa. Já não sente tédio, nem desgosto, nem vontade de chorar; apenas o coração bate, forte. Entram o doutor gorducho e o esbelto Obtiossov. Agora pode olhá-los à vontade. O doutor barrigudo é moreno, barbado e lerdo. Ao menor movimento seu uniforme estala e seu rosto cobre-se de gotas de suor. Ao contrário, o oficial é rosado, sem barba, feminino e flexível como um chicote inglês.
– O que desejam? – pergunta a farmacêutica, segurando com uma das mãos o decote do vestido.
– Bem… dê-nos quinze copeques de pastilhas de hortelã. Sem se apressar, a mulher retira da prateleira a lata e começa a pesar. Os clientes olham para ela, de costas, sem pestanejar: o médico de olhos semicerrados, como um gato satisfeito, e o tenente, sério.
– É a primeira vez que vejo uma senhora trabalhar numa farmácia – diz o médico.
– Não há nada de estranho – responde a farmacêutica olhando de viés para o rosto rosado de Obtiossov. – Como meu marido não tem ajudantes, quem o ajuda sou eu.
– É assim? Pois a senhora tem uma linda farmácia! Um montão dessas… latas! E a senhora não tem medo de estar sempre às voltas com venenos? Brrr!
A farmacêutica embrulha as pastilhas e as entrega ao médico. Obtiossov dá-lhe uma moeda de quinze copeques. Meio minuto de silêncio.. Os homens entreolham-se, dão um passo em direção à porta, olham-se de novo.
– Dê-me dez copeques de bicarbonato de sódio! – diz o médico.
De novo a farmacêutica move-se devagar e estende lentamente o braço para a prateleira.
– Será que aqui na farmácia não tem alguma coisa… – resmunga Obtiossov mexendo os dedos -, alguma coisa, assim, a senhora sabe, de alegórico, algum licor revigorante… gasosa, isso! A senhora tem gasosa?
– Tenho – responde a farmacêutica.
– Excelente! A senhora não é uma mulher, é uma feiticeira. Arranje-nos então umas três garrafas.
Ela embrulha o bicarbonato de sódio e desaparece na sombra atrás da porta.
– Uma fruta! – diz o medico, piscando; – Um ananás como esse, Obtiossov, você não encontra nem sequer na ilha da Madeira. Hem? O que você acha? Porém.. está ouvindo o ronco? É o senhor farmacêutico que resolveu dormir em santa paz.
Um minuto mais tarde a farmacêutica está de volta com cinco garrafas que coloca no balcão. Acaba de subir do porão, por isso ela está corada e um pouco agitada.
– Sss… mais baixinho – diz Obtiossov quando ela deixa cair o abridor, após ter destampado as garrafas. – Não faça tanto barulho, senão acorda seu marido.
– E daí, o que é que tem se ele acordar?
– Ele dorme tão bem… está sonhando com a senhora… À sua saúde!
– Além do que – acrescenta o médico com sua voz de baixo, após um gole de gasosa -, quanto ao marido, é uma coisa tão cacete que seria bom ele dormir sempre. Eh, com essa água, até que um vinhozinho ia bem.
– O que mais o senhor quer inventar! – ri a farmacêutica.
– Seria magnífico. É uma pena que não se vendam bebidas alcoólicas em farmácia. Mas… a senhora deve vender vinho, como remédio. A senhora por acaso tem vinum gallicum rubrum ?
– Tenho.
– Viva! Traga-o, traga-o, com os diabos!
– Quanto o senhor quer?
– Quantum satis. Para começo de conversa, traga uma onça num copo de água, depois veremos… Não é assim, Obtiossov? Primeiro com a água, depois já per se…
O médico e Obtiossov sentam-se perto do balcão, tiram seus quepes e começam a beber o vinho tinto.
– É preciso convir, é horrível. Vinum malissimum. Embora em companhia de… he, he, he… ele pareça um néctar. Madame, a senhora é encantadora! Beijo-lhe a mão em pensamento.
– E o que eu daria para não fazê-lo em pensamento! – falou Obtiossov. – Palavra de honra! Daria a vida.
– Deixe disso… – falou a senhora Tchernomódrik, corando e assumindo um ar de seriedade.
– E, no entanto, como a senhora é coquete – ri o doutor baixinho, olhando-a de baixo, maliciosamente. – Seus olhos disparam: pam! pam! Parabéns, a senhora ganhou! Fomos atingidos!
A farmacêutica olha para seus rostos corados, ouve suas palavras e logo ela também se anima. É tão divertido! Entra na conversa, ri, flerta e até, após tantos pedidos, consente em beber duas onças de vinho tinto.
– Ah, se vocês oficiais viessem mais vezes do acampamento para a cidade – diz ela. – Aqui é tão aborrecido. Morro de tanto tédio.
– Não faça isso! – exclama o doutor horrorizado. – Uma fruta dessas… um milagre da natureza nesse lugar perdido. Bem que Griboiédov disse: “Para o deserto, para Sarátov!” Infelizmente, já está na hora. Tive imenso prazer em conhecê-la. .. Imenso. Quanto lhe devemos?
A farmacêutica levanta os olhos para o teto e move demoradamente os lábios.
– Doze rublos e quarenta e oito copeques – diz, afinal. Obtiossov tira do bolso uma carteira recheada, fica um tempão remexendo entre as notas e acerta a conta.
– Seu marido dorme em paz… sonha… – resmunga ele, apertando o braço da farmacêutica, ao despedir-se.
– Não gosto de ficar ouvindo besteiras…
– Mas que besteiras… Já Shakespeare dizia: “Feliz daquele que foi jovem quando jovem”.
– Solte meu braço!
Finalmente, depois de longas conversas, os clientes beijam a mão da farmacêutica e, incertos, como se temessem ter esquecido alguma coisa, saem da farmácia.
Ela corre logo para o quarto e senta-se à mesma janela. Vê que o doutor e o tenente, após terem saído da loja, andam uns vinte passos sem vontade, depois param e começam a bisbilhotar entre si. O coração dela bate. Sobre o que será? As têmporas também latejam, por quê, ela mesma não sabe… O coração bate forte, como se aqueles dois, bisbilhotando lá fora, fossem decidir seu destino.
Uns cinco minutos depois o médico se afasta de Obtiossov e prossegue, enquanto o outro retorna. Passa pela farmácia uma, duas vezes… Para perto da porta, começa a andar de novo. Afinal, toca com cuidado a campainha.
– O que há? Quem está aí? – a farmacêutica ouve de repente a voz do marido. – Estão tocando e você não escuta? Que droga!
Ele levanta, veste o robe e balançando, meio sonado, arrasta os chinelos e vai até a loja.
– O que… o senhor quer? – pergunta a Obtiossov.
– Dê-me… dê-me quinze copeques de pastilhas de hortelã.
Tchornomordik sopra, boceja, ainda dormindo, bate com os joelhos no banco, sobe na prateleira e apanha a lata.
Dois minutos mais tarde a farmacêutica vê Obtiossov sair da loja e, depois de alguns passos, jogar na estrada poeirenta as pastilhas de hortelã. Da esquina o médico vem a seu encontro.. Ambos se juntam e, gesticulando com as mãos, desaparecem na bruma da manhã.
– Como eu sou infeliz! – diz a farmacêutica, olhando com ódio o marido que se despe depressa para deitar de novo.
– Oh, como eu sou infeliz! – repete ela, e de repente seus olhos se enchem de lágrimas. – E ninguém, ninguém desconfia…
– Esqueci quinze copeques no balcão – resmunga o marido desaparecendo sob o cobertor. Esconda-os na caixa, por favor…
Anton Tchekhov
segunda-feira, agosto 24
Ver claro
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade
A peste limpou as terras
O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.
A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
A Fazenda Califórnia
Quem decidiu o local da sede foi o açude, alimentado por dois grandes riachos. A barragem se levantou pela mão dos negros – terra puxada em couro de boi, aguada, batida a malho. O grande prato d´água ainda lá está hoje, serenando.
Em terreno plano, o cavaleiro do vale do sangradouro, alisou-se uma esplanada, levantou-se a capela. E, fechando os três lados ao redor da igrejinha, “a rua”, composta numa das faces pela morada do sinhô e, por trás e defronte à igreja, as casas de agregados, o vaqueiro, a professora. Adiante, no caminho da Croa Grande, o cemitério.
Houve inveja e falatório diante do arrojo inovador de Miguel Francisco. Era o tempo da descoberta das célebres minas de ouro da Califórnia, nos Estados Unidos, e até no sertão se falava e se sonhava com aquelas riquezas. Um primo e rival mandou recado irônico: como ia seu Miguel com a sua Califórnia? O velho riu, gostou do nome, e assim a fazenda se batizou por “São Francisco da Califórnia”. Na capela inaugurou-se a imagem do orago, um São Francisco de talha primitiva e forte; que hoje, aliás, está na capela do cemitério, onde o refugiamos para salvar da fúria airada de um vigário alemão que pretendia incinerar “aquela feiura barroca” e o substituiu por um santo de gesso, loiro, rosado, coberto de dourados.
Meu tio Miguel não tinha fihos: deixou tudo que era seu para meu avô, o dr. Arcelino; e nas mãos do novo dono a Califórnia virou realmente um condado. Mudou-se a casa-grande (que, no sertão, nós chamamos simplesmente “a fazenda”) para o outro cabeço, do lado de lá do sangradouro. Imensa, rodeada por fundos alpendres de 3 metros, 57 portas e janelas, salas e salões, quartos e alcovas onde se podem armar 120 redes. Nas festas do centenário, lá se hospedaram 125 pessoas. Por trás da “fazenda”, o vale profundo do sítio, o cano de irrigação partindo do açude, as valetas regando em sucessão primeiro a famosa horta de minha avó, depois o pomar onde se cultivavam até fruta-pão e jambo, até uvas. Além do pomar, o vale se alargava mais, e era o canavial.
Entre a “fazenda” e o açude, a “fábrica”: o engenho a vapor, os tachos de apurar a garapa, o locomóvel que apitava como um trem, o alambique, os paióis de rapadura e, por fim, em plano mais baixo, no escuro, deitando um cheiro forte que tonteava, a adega onde dormiam os toneis de cachaça.Saiba mais
Pena grande foi meu avô morrer cedo, deixando a viúva com dez filhos. Mas, mesmo em mão de viúva, a fazenda não decaiu. Ao contrário, parecia mais viva, com a presença frequente dos filhos, genros, noras e nós, as dezenas de netos. Dos sete filhos, cinco tiraram grau de doutor, o sexto fez seminário até o último ano, só o caçula não se formou. Concluídos os preparatórios, foi ele o escolhido para morar com a mãe e tomar conta da Califórnia. Só depois que ela morreu é que ele, solteirão, casou com uma prima. (A gente, na minha família, casava preferencialmente co primos. Dos dez da Califórnia, metade casou com primo ou prima.)
Até à morte de Dona Rachel, a Califórnia era mesmo o centro do nosso mundo. Era lá que nós os netos passávamos as férias, nas danças ao som de piano ou gramofone, cavalgatas, novenas, namoros.
Morta a avó, ficou de dono o caçula; nos anos em que lá esteve, se não fez melhoramentos, pelo menos não deixou que Nara arruinasse. Mas aí ele morreu (já viúvo) e a consanguinidade tinha atacado os herdeiros, jovens e irresponsáveis. Fazendeiro nordestino tem terras e senhoria, mas dinheiro vê muito pouco. E os órfãos queriam ver dinheiro na mão. Começaram vendendo cabras e ovelhas, depois passaram ao gado. Venderam o engenho, o locomóvel, o alambique.
E, parte a parte, foram vendendo afinal a terra da Califórnia – e por tutameia. A família não se envolveu – os moços faziam tudo às ocultas, “tinham cisma de parentes”. Quando se viu, acabavam de vender até a casa-grande, que aliás está caindo em ruínas.
Agora surgiu um problema que já deu até crime de morte. Acontece que os velhos moradores, descendentes da indiada e da escravaria do tempo de meu tio Miguel, sempre moraram na rua e plantaram nas croas do rio. Roçados que passam de pais a filhos há mais de século. A rua fica no Patrimônio, isto é, à terra do santo. Como é sabido, quem constrói igreja rural, tem que doar ao orago um patrimônio em terras que lhe sustente os serviços do culto. O velho Miguel demarcou para esse fim um retângulo generoso, que vai da “rua” ao cemitério e desce em procura do rio por mais de 1 quilômetro. Na degringolada os herdeiros deixaram que caducasse o aforamento perpétuo com que o velho garantira a posse efetiva do terreno: o Patrimônio reverteu à Cúria de Quixadá, que o administra. E os padres, por sua vez, passaram a lotear o Patrimônio. A velha rua se “urbaniza”, desfigurada em arruado, pululante de bodegas e biroscas. Mas o pessoal antigo que ainda mora lá quer continuar plantando nos seus velhos roçados que hoje pertencem a novos donos, diversos. Os donos novos querem reaver a terra; a disputa se envenena e, como já se disse, deu até crime de morte.
Na Califórnia, que já foi um condado, só existe hoje miséria e rixa.
A casa-grande assiste a tudo e protesta se desmoronando. No inverno passado caiu a queijaria de minha avó. Antes, ruíra o terraço empedrado. De longe a “fazenda” ainda faz figura, mas de perto está morrendo.
O que não tem resposta, nem nunca terá
Eu faria a Diadorim, herói/heroína de "Grande Sertão: Veredas", algumas perguntas indiscretas, talvez até impróprias: "Diadorim, como você conseguiu se passar por homem durante tanto tempo no meio daqueles jagunços abrutalhados? Eles faziam xixi em pé no mato, em grupo, e davam as três pancadinhas. E você? E se eles, entre uma batalha e outra, te desafiassem para um xixi à distância? Como era na hora de tomar banho, com todo mundo se jogando nu no rio? E, com todo respeito, como você se virava quando estava naqueles dias?". Uma pergunta de cada vez, claro, para não dar chance a Diadorim de me engabelar.
Mas não sei se a maioria das pessoas irá primeiro a Diadorim. Ninguém resistirá a tentar espremer a personagem mais enigmática, cuja intimidade todos gostariam de invadir —a insuperável Capitu, de "Dom Casmurro"—, para fazer a pergunta fatal: "Capitu, você, afinal, traiu ou não o Bentinho, seu marido, com o Escobar?" Ninguém se conforma com que Machado de Assis tenha deixado essa dúvida no ar, gerando dezenas de especulações e até romances que se atreveram a recontar a história.
Nas garras da IA, Capitu seria crivada de perguntas: "Capitu querida, o Bentinho era mesmo um bolha, mas, pelo amor de Deus, o que você viu no Escobar?". Ou então: "O Brás Cubas, outro personagem de Machado, era muito melhor. Por que você não pulou de livro e foi ter um caso com ele? Na ficção, tudo é possível!".
Enfim, são perguntas válidas. Só não confio nas respostas da IA, uma idiota da objetividade, incapaz de competir com os escritores naquilo que caracteriza a verdadeira criação: o intangível, o mágico, o que não tem resposta, nem nunca terá.
sábado, agosto 22
A mãe do menino
A casa era pequena, mas os dias tinham sempre as mãos zelosas da mãe. Colocavam nos vasos as rosas colhidas na roseira que ela mesma plantara, as quais agora como sonho enfeitado de pétalas davam a sensação de que a manhã era rosada e perfumada. Esbanjavam pelos ares só ternura.
Davam vida à máquina de costura as suas pernas ativas. Os bordados, como beleza tecida por mãos até certo ponto divinas, ganhavam admiração de quem fizesse a encomenda e fosse recebê-la quando estava pronta. Como o mundo de Deus era grandão. Os doces que a mãe fazia cativavam com açúcar.
Uma mãe é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe, certo dia ela disse, mas só depois como homem crescido o filho saberia o sentido justo do que a mãe quis dizer com isso. Conheceria então nos dias ásperos quanta falta as suas mãos faziam, pois já não mais cuidavam, não limpavam os caminhos na lei da vida para que ele estivesse seguro para fazer a travessia. Teriam de ser um dia com o filho sozinho os caminhos a percorrer na jornada da vida.
Da balaustrada no jardim gostava de olhar as nuvens acima do rio levando castelos, gente e carga. Antes que a noite chegasse, desenhavam gigantes, às vezes velhos barbudos, um deles apareceu em pé no tapete. De calção, peito nu, lá no pátio da casa, ficava vendo a passagem das nuvens no azul do céu. Como elas que retornavam naquele pedaço de céu, ele voltaria um dia para brincar com os amigos de infância quando já fosse um homem? Só havia um jeito de regressar ao passado, rindo, a mãe disse, sonhando acordado. Um homem com o menino conversando.
— Você quer ser peixe ou ser gente? — preocupada, a mãe perguntou. — Primeiro a obrigação, depois a diversão, só anda agora com o bando de amigos nadando e pescando no rio. Finalizou séria e se dirigiu calada para a cozinha.
A mãe alimentava com o marido a ideia de que o filho deveria estudar para se tornar um dia um homem formado, um cidadão de bem, exercendo na sociedade uma profissão importante como a de advogado, médico ou engenheiro civil.
A mãe e o pai ficaram contentes de alegria quando o filho regressou à cidade natal formado em advocacia. Era tudo que queriam para o filho caçula, o mais velho tornou-se em pouco tempo um médico cirurgião dos mais conceituados na cidade.
Cyro de Mattos
Dentro dos livros
marcas de quando os lemos.
Bilhetes de cinema,
autocarro, apontamentos
com demasiadas
abreviaturas, folhas
que dizem «não esquecer»
e foram esquecidas.
Nesta tarde li este verso.
O romance na página 89.
Agrupar os eventos
por contiguidade, remissão,
a data muito precisa
destes acasos
mais importantes
que a biografia.
Pedro Mexia
Pequena digressão
Logo no começo da fundação dos Quinze-Vingts, sabe-se que os asilados eram todos iguais e seus assuntos se decidiam por votação. Distinguiam perfeitamente, pelo tato, a moeda de cobre da de prata; nenhum deles tomou jamais vinho de Brie por vinho de Borgonha. Seu olfato era mais fino que o de seus patrícios que tinham dois olhos. Aprofundaram-se perfeitamente nos quatro sentidos. Isto é, ficaram sabendo acerca deles tudo quanto é possível; e viveram tranqüilos e felizes na medida em que os cegos o podem ser. Infelizmente, um de seus professores julgou possuir noções claras sobre o sentido da vista; fez-se ouvir, intrigou, granjeou partidários; reconheceram-no afinal como chefe da comunidade. Pôs-se a julgar soberanamente em matéria de cores, e aí é que foi a perdição.
Esse primeiro ditador dos Quinze-Vingts formou primeiro um pequeno conselho, com o qual se tornou depositário de todas as esmolas. Por esse motivo, ninguém se atreveu a resistir-lhe. Decidiu ele que todas as roupas do Quinze-Vingts eram brancas; os cegos acreditaram; não falavam senão de seus belos trajes brancos, embora não houvesse entre eles um único dessa cor. Como todo o mundo começasse então a zombar deles, foram queixar-se ao ditador, que os recebeu muito mal; tratou-os de inovadores, de espíritos fortes, de rebeldes, que se deixavam seduzir pelas opiniões errôneas daqueles que tinham olhos e ousavam duvidar da infalibilidade de seu senhor. Dessa querela, formaram-se dois partidos.
O ditador, para os apaziguar, baixou um decreto segundo o qual todas as suas vestes eram vermelhas. Não havia uma única veste vermelha entre os Quinze-Vingts. Riram-se deles mais do que nunca. Novas queixas da comunidade. O ditador enfureceu-se, os outros cegos também. Disputaram longamente, e só se restabeleceu a concórdia quando foi permitido, a todos os Quinze-Vingts, suspenderem o juízo sobre a cor de sua roupa.
Um surdo, ao ler esta pequena história, confessou que os cegos tinham feito muito mal em querer julgar a respeito de cores, mas permaneceu firme na opinião de que só aos surdos compete falar de música.
Voltaire