Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sábado, outubro 3
Saber ouvir a voz do Destino
Julinha acreditava em destino. E acreditava com tanto fervor que, para respeitar um de seus direitos de personagem, refaço a frase e digo que ela acreditava no Destino (assim, com maiúscula). Tinha tanta reverência pelo Destino que o confundia com Deus. Houve um tempo em que ela via a teia do Destino em todos os acontecimentos do seu dia a dia, mesmo os mais insignificantes: pegar ou perder o ônibus das sete, chegar ou não chegar dez minutos atrasada ao trabalho, conseguir ou não marcar as férias para janeiro.
Depois, concluiu que a intervenção do Destino não podia se dar nesse nível do faz-frio-ou-calor, do chove-ou-deixa-de-chover. E, por atribuir tão importante papel ao Destino, ela se pôs a esperar que ele a recompensasse. Não pedia muito: um emprego melhor e um amor que merecesse o nome.
Trabalhava fazia dois anos na lojinha e, apesar das contínuas promessas de promoção, continuava na mesma. Quando falava com o dono, ele dizia que a loja ia mal, como se Julinha não visse que das oito às dezoito os fregueses formigavam ali, tanto que outra garota havia sido contratada para ajudar.
Esse não era o maior desgosto de Julinha. Poderia suportá-lo, se, ao sair do trabalho, triturada de cansaço, tivesse alguém que a levasse ao cinema, ou ao shopping, ou ao restaurante, e lhe dissesse Julinha eu te amo. Não faltava quem se dispusesse a fazer isso, e até mais. Toda semana, dois ou três se candidatavam. Mas nenhum vinha recomendado pelo Destino. Se viesse, Julinha saberia reconhecer os sinais.
Certa manhã, Julinha viu no balcão um jornal aberto nos classificados. Um freguês devia tê-lo esquecido ali. Quando ela leu o anúncio que estava no alto da página, sentiu que era um recado do Destino. Uma grande loja precisava de uma balconista e oferecia um salário cinco vezes superior ao dela. Julinha não pensou duas vezes. Eram nove horas e, se ela hesitasse, perderia a oportunidade. Pôs a mão na cabeça e começou a gemer. A outra garota disse ao dono da loja que Julinha estava passando mal. Julinha pediu licença para ir à farmácia. Saiu já sabendo que jamais voltaria a trabalhar lá. O Destino já havia escrito a sequência da história.
Andou dois quarteirões, pegou um ônibus e meia hora depois estava na grande loja, pondo numa ficha suas qualificações. O rapaz incumbido de orientar as candidatas piscou para ela e disse, baixo, que ela era muito bonita, sabia? Não havia mais dúvida. Era o Destino, atendendo de uma só vez os dois pedidos de Julinha.
O rapaz, ao pedir que Julinha voltasse às seis da tarde, para saber a resposta, piscou de novo. Ela foi à lojinha e pediu as contas.
O dono não mostrou surpresa e disse que aquilo era até bom. Podia, assim, promover a outra garota, que já estava merecendo. E a garota abriu para Julinha um sorriso estranho.
Julinha foi para casa, almoçou e dormiu até as três. Depois, tomou um banho bem longo, vestiu a melhor roupa e saiu. Chegou à loja cinco minutos antes das seis. O rapaz a recebeu com a terceira piscada do dia e pediu que ela esperasse um pouco. Às seis, todos foram saindo. Ele saiu também, com ela.
“Bom, fui aprovada?”, ela perguntou.
“Aconteceu um problema. O gerente deu o lugar para uma prima.”
Ela quase disse que aquilo era impossível, que o Destino não se enganaria assim, mas o rapaz já a estava fazendo entrar num carro, no estacionamento do prédio. Bom, ela pensou, se não se pode ter tudo, que se tenha pelo menos o amor.
O rapaz ligou o carro, deslizou a mão pela perna dela ao pôr a primeira marcha e disse:
“Olha, antes de qualquer coisa você precisa saber que eu sou casado e tenho três filhos.”
Depois, concluiu que a intervenção do Destino não podia se dar nesse nível do faz-frio-ou-calor, do chove-ou-deixa-de-chover. E, por atribuir tão importante papel ao Destino, ela se pôs a esperar que ele a recompensasse. Não pedia muito: um emprego melhor e um amor que merecesse o nome.
Trabalhava fazia dois anos na lojinha e, apesar das contínuas promessas de promoção, continuava na mesma. Quando falava com o dono, ele dizia que a loja ia mal, como se Julinha não visse que das oito às dezoito os fregueses formigavam ali, tanto que outra garota havia sido contratada para ajudar.
Esse não era o maior desgosto de Julinha. Poderia suportá-lo, se, ao sair do trabalho, triturada de cansaço, tivesse alguém que a levasse ao cinema, ou ao shopping, ou ao restaurante, e lhe dissesse Julinha eu te amo. Não faltava quem se dispusesse a fazer isso, e até mais. Toda semana, dois ou três se candidatavam. Mas nenhum vinha recomendado pelo Destino. Se viesse, Julinha saberia reconhecer os sinais.
Certa manhã, Julinha viu no balcão um jornal aberto nos classificados. Um freguês devia tê-lo esquecido ali. Quando ela leu o anúncio que estava no alto da página, sentiu que era um recado do Destino. Uma grande loja precisava de uma balconista e oferecia um salário cinco vezes superior ao dela. Julinha não pensou duas vezes. Eram nove horas e, se ela hesitasse, perderia a oportunidade. Pôs a mão na cabeça e começou a gemer. A outra garota disse ao dono da loja que Julinha estava passando mal. Julinha pediu licença para ir à farmácia. Saiu já sabendo que jamais voltaria a trabalhar lá. O Destino já havia escrito a sequência da história.
Andou dois quarteirões, pegou um ônibus e meia hora depois estava na grande loja, pondo numa ficha suas qualificações. O rapaz incumbido de orientar as candidatas piscou para ela e disse, baixo, que ela era muito bonita, sabia? Não havia mais dúvida. Era o Destino, atendendo de uma só vez os dois pedidos de Julinha.
O rapaz, ao pedir que Julinha voltasse às seis da tarde, para saber a resposta, piscou de novo. Ela foi à lojinha e pediu as contas.
O dono não mostrou surpresa e disse que aquilo era até bom. Podia, assim, promover a outra garota, que já estava merecendo. E a garota abriu para Julinha um sorriso estranho.
Julinha foi para casa, almoçou e dormiu até as três. Depois, tomou um banho bem longo, vestiu a melhor roupa e saiu. Chegou à loja cinco minutos antes das seis. O rapaz a recebeu com a terceira piscada do dia e pediu que ela esperasse um pouco. Às seis, todos foram saindo. Ele saiu também, com ela.
“Bom, fui aprovada?”, ela perguntou.
“Aconteceu um problema. O gerente deu o lugar para uma prima.”
Ela quase disse que aquilo era impossível, que o Destino não se enganaria assim, mas o rapaz já a estava fazendo entrar num carro, no estacionamento do prédio. Bom, ela pensou, se não se pode ter tudo, que se tenha pelo menos o amor.
O rapaz ligou o carro, deslizou a mão pela perna dela ao pôr a primeira marcha e disse:
“Olha, antes de qualquer coisa você precisa saber que eu sou casado e tenho três filhos.”
Alegrias da velhice
Até ficar velho, operação antigamente simples e natural, resumível na venerável sentença “quem não morre fica velho”, está se tornando cada vez mais complicado, a ponto de, receio eu, causar algumas crises de identidade nesse cada vez mais vasto contingente da população. Acho que vou sugerir a criação, nas faculdades de Filosofia, de um curso de epistemologia da velhice, porque a confusão, pelo menos entre os menos ilustrados, como eu, aumenta a cada dia. Talvez até os próprios geriatras se beneficiem desse estudo, porque tenho praticamente certeza de que, entre eles, há divergências sobre o conceito de “velho”.
A mim, confesso, já enche um pouco o saco esse negócio. Começou, se não me falham os rateantes neurônios, com essa conversa de terceira idade, inventada pelos americanos, que são muito bons de eufemismo, como testemunha a exemplar frase “lide com preconceito extremo”, que, dizem, a CIA usava quando ordenava um assassinato. Passou a não pegar bem chamar velho de velho mesmo e agora a velharada é agredida com designações tais como “boa idade”, “melhor idade”, “feliz idade” e outras qualificações ofensivas. E, dentro dessas categorias, já me contaram que há subcategorias. Ninguém mais é velho, fica até feio o sujeito hoje em dia dizer que é velho.
De minha parte, reivindico apenas alguns direitos, entre os quais devo ressaltar não ser obrigado a entrar na fila dos idosos dos bancos. Aliás, a não entrar em fila de idoso nenhum, a não ser que, na hora, o que raramente sucede, isso apresente alguma vantagem. Fila de banco é uma furada séria, porque não só alguns de nossa variegada turma ou são surdos ou requerem primeiros socorros se começam a lhes explicar o que significa “o sistema caiu”, por exemplo. Me contaram que, numa agência aqui do bairro, uma senhora teve um pitaco, porque pensou que isso queria dizer que o banco falira e suas economias de viúva tinham ido juntar-se à vaca no brejo.
Imagino que, pelo tom acima, talvez alguém entre vocês tenha antecipado que vou lembrar outra vez o que Jorge Amado, entre as incontáveis peças de sabedoria que me presenteou ao longo de nossa convivência de décadas, me disse a respeito da velhice. Aliás, vou dar um furo de reportagem — sou do tempo do furo de reportagem, espero ser cumprimentado pela direção do jornal. Jorge não me falou somente uma vez sobre a velhice, embora não fosse seu assunto favorito. Há muitas outras frases, mas não se destaca entre elas somente a que divulguei aqui: “Compadre, já me falaram muito das alegrias da velhice, mas ainda não me apresentaram a nenhuma.” Teve outra, saquem agora o tremendo furo: “Compadre, não importa o que lhe digam, a gente não aprende nada com a velhice; a única coisa que a gente aprende com a velhice é que velhice é uma merda.”
Entrevendo os setentinha a média distância, temo que, como tudo mais que o compadre me ensinou, isso tudo seja a impiedosíssima verdade. Pode ser que, a depender da categoria empregada, eu não seja velho (cartas sobre o que é ser velho, principalmente as escritas por velhos como eu, que vão dizer que a velhice está na mente etc. etc., para o editor, por caridade), mas, outro dia, não lembro onde, fui descer dois degraus do palco aonde havia antes subido e quatro jovens pressurosas me apararam as costas e me seguraram os cotovelos como se eu fosse um hipopótamo paraplégico tentando um salto ornamental. Eu talvez pareça um hipopótamo paraplégico, mas sou no máximo uma anta com artrite e ainda tenho lepidez bastante para descer um meio-fio com relativa confiança. (A velhice não está na mente, está nas juntas.)
Quanto ao aspecto didático da velhice, também parece confirmar-se o que me falou meu amigo. A vida pode ensinar alguma coisa e geralmente ensina, embora quase sempre a gente aprenda tarde demais — besteira, esse negócio de “nunca é tarde demais”, costuma ser tarde demais mesmo. Mas a velhice mesmo só ensina o que ele disse. Certo, talvez eu não seja velho o suficiente para esta confirmação, mas os indícios são claros. Calçar meias, para citar um caso, já me parece uma modalidade olímpica e nem me passa pela cabeça alcançar um centésimo do índice. Um dos meus joelhos volta e meia faz um barulho alarmante, dói uma besteirinha e depois volta ao silêncio enigmático com que minhas noites são atormentadas por visões de ossinhos se esfarelando, enquanto eu vou à banca de jornal. E por aí vai, o pudor me cala.
Mas Jorge não testemunhou o que hoje testemunho. As alegrias da velhice, afinal, não são meramente individuais. E não é que agora vejo o Brasil a transformar-se mesmo num grande canteiro de obras? Falam até que o Bolsa Família será gradualmente extinto, pois o governo vai chamar cada beneficiário e dar a ele um emprego. Claro, não há empregos nem para os que estão fora do BF, mas também não se pode querer tudo. E as coletividades que agora verão instalar-se a concórdia e a prosperidade, através dos Territórios da Cidadania? Até mesmo as eleições municipais, frequentemente causa de rancor e hostilidade, deverão ser bem mais tranquilas. E, finalmente, o Big Brother Brazil deixou de ocupar o primeiro lugar entre as contribuições do Brasil para o progresso da Humanidade neste século. Agora, através da visão e da generosidade do Nosso Guia, o Brasil deu um passo muito à frente de Orwell e até do BBB. Não disse ele que d. Dilma Rousseff é a mãe do PAC? O PAC não é o nascimento de um novo Brasil, para o povo e não para a Zelite? Então, além do Nosso Guia, temos a nossa Big Mother. Perfeito, até do ponto de vista psicanalítico. A única desvantagem sobre o BBB é que eles não deixam a gente ver o que eles fazem, mesmo entrando compulsoriamente para o pay-per-view.
João Ubaldo Ribeiro, "O rei da noite"
A mim, confesso, já enche um pouco o saco esse negócio. Começou, se não me falham os rateantes neurônios, com essa conversa de terceira idade, inventada pelos americanos, que são muito bons de eufemismo, como testemunha a exemplar frase “lide com preconceito extremo”, que, dizem, a CIA usava quando ordenava um assassinato. Passou a não pegar bem chamar velho de velho mesmo e agora a velharada é agredida com designações tais como “boa idade”, “melhor idade”, “feliz idade” e outras qualificações ofensivas. E, dentro dessas categorias, já me contaram que há subcategorias. Ninguém mais é velho, fica até feio o sujeito hoje em dia dizer que é velho.
De minha parte, reivindico apenas alguns direitos, entre os quais devo ressaltar não ser obrigado a entrar na fila dos idosos dos bancos. Aliás, a não entrar em fila de idoso nenhum, a não ser que, na hora, o que raramente sucede, isso apresente alguma vantagem. Fila de banco é uma furada séria, porque não só alguns de nossa variegada turma ou são surdos ou requerem primeiros socorros se começam a lhes explicar o que significa “o sistema caiu”, por exemplo. Me contaram que, numa agência aqui do bairro, uma senhora teve um pitaco, porque pensou que isso queria dizer que o banco falira e suas economias de viúva tinham ido juntar-se à vaca no brejo.
Imagino que, pelo tom acima, talvez alguém entre vocês tenha antecipado que vou lembrar outra vez o que Jorge Amado, entre as incontáveis peças de sabedoria que me presenteou ao longo de nossa convivência de décadas, me disse a respeito da velhice. Aliás, vou dar um furo de reportagem — sou do tempo do furo de reportagem, espero ser cumprimentado pela direção do jornal. Jorge não me falou somente uma vez sobre a velhice, embora não fosse seu assunto favorito. Há muitas outras frases, mas não se destaca entre elas somente a que divulguei aqui: “Compadre, já me falaram muito das alegrias da velhice, mas ainda não me apresentaram a nenhuma.” Teve outra, saquem agora o tremendo furo: “Compadre, não importa o que lhe digam, a gente não aprende nada com a velhice; a única coisa que a gente aprende com a velhice é que velhice é uma merda.”
Entrevendo os setentinha a média distância, temo que, como tudo mais que o compadre me ensinou, isso tudo seja a impiedosíssima verdade. Pode ser que, a depender da categoria empregada, eu não seja velho (cartas sobre o que é ser velho, principalmente as escritas por velhos como eu, que vão dizer que a velhice está na mente etc. etc., para o editor, por caridade), mas, outro dia, não lembro onde, fui descer dois degraus do palco aonde havia antes subido e quatro jovens pressurosas me apararam as costas e me seguraram os cotovelos como se eu fosse um hipopótamo paraplégico tentando um salto ornamental. Eu talvez pareça um hipopótamo paraplégico, mas sou no máximo uma anta com artrite e ainda tenho lepidez bastante para descer um meio-fio com relativa confiança. (A velhice não está na mente, está nas juntas.)
Quanto ao aspecto didático da velhice, também parece confirmar-se o que me falou meu amigo. A vida pode ensinar alguma coisa e geralmente ensina, embora quase sempre a gente aprenda tarde demais — besteira, esse negócio de “nunca é tarde demais”, costuma ser tarde demais mesmo. Mas a velhice mesmo só ensina o que ele disse. Certo, talvez eu não seja velho o suficiente para esta confirmação, mas os indícios são claros. Calçar meias, para citar um caso, já me parece uma modalidade olímpica e nem me passa pela cabeça alcançar um centésimo do índice. Um dos meus joelhos volta e meia faz um barulho alarmante, dói uma besteirinha e depois volta ao silêncio enigmático com que minhas noites são atormentadas por visões de ossinhos se esfarelando, enquanto eu vou à banca de jornal. E por aí vai, o pudor me cala.
Mas Jorge não testemunhou o que hoje testemunho. As alegrias da velhice, afinal, não são meramente individuais. E não é que agora vejo o Brasil a transformar-se mesmo num grande canteiro de obras? Falam até que o Bolsa Família será gradualmente extinto, pois o governo vai chamar cada beneficiário e dar a ele um emprego. Claro, não há empregos nem para os que estão fora do BF, mas também não se pode querer tudo. E as coletividades que agora verão instalar-se a concórdia e a prosperidade, através dos Territórios da Cidadania? Até mesmo as eleições municipais, frequentemente causa de rancor e hostilidade, deverão ser bem mais tranquilas. E, finalmente, o Big Brother Brazil deixou de ocupar o primeiro lugar entre as contribuições do Brasil para o progresso da Humanidade neste século. Agora, através da visão e da generosidade do Nosso Guia, o Brasil deu um passo muito à frente de Orwell e até do BBB. Não disse ele que d. Dilma Rousseff é a mãe do PAC? O PAC não é o nascimento de um novo Brasil, para o povo e não para a Zelite? Então, além do Nosso Guia, temos a nossa Big Mother. Perfeito, até do ponto de vista psicanalítico. A única desvantagem sobre o BBB é que eles não deixam a gente ver o que eles fazem, mesmo entrando compulsoriamente para o pay-per-view.
João Ubaldo Ribeiro, "O rei da noite"
Congresso Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
Carlos Drummond de Andrade, "Sentimento do Mundo"
Carta da Herdade
Amigo longínquo e querido:
Apresento-lhe a charneca ao entardecer, a minha triste charneca donde nasceu a minha triste alma. Selvagem e rude, patética e trágica, tem a suprema graça, cheia de amargura, dos infinitamente tristes, a quem foi negada a doçura das lágrimas. É enorme e é simples; fala e escuta. O que eu lhe tenho ouvido! O que eu lhe tenho dito! Toda morena do sol, que a queima em verões sem fim, e como eu uma revoltada, sem gestos e sem gritos. Nesta hora do entardecer, toda ela palpita em misteriosas vibrações, toda ela é cor, vida, chama e alvoroço, contido e encadeado por uma secreta maldição!
Mas como ela é bonita, a minha charneca!
Borboletas azuis, minúsculas, tombam lá do alto como bocadinhos de céu. Outras roxas... as urzes, talvez, a que, por milagre, tivessem nascido asas. Os crepúsculos, nestas imensas extensões, são longos, longos; um êxtase que se prolonga e que chega a fatigar-nos. O sol constela o poente de pedrarias, e são uma maravilha os montes azulados de Espanha, brumas perdidas ao longe, vagas, aéreas, irreais.
A noite desce por fim, arrastada, luarenta, uma claridade que se confunde com o crepúsculo.
Voltam os homens do trabalho, volta o gado ao seu estábulo caiado como uma ermida. Ladram os cães, festivos, enchendo o silêncio de brados. Começa a cegarrega dos grilos. Cai no espaço, como gotas de água, o lamento dos sapos sequiosos.
Volto para o grande monte iluminado, lá ao fundo, lentamente, sem grande pressa de chegar. A noite envolve-me toda, anestesia-me, mãos pálidas e suaves que afagassem devagarinho um mendigo leproso. Sinto-me mais pura nesta pureza imensa, mais limpa, mais lavada de culpas do que se tivesse nascido agora.
O grande cão de guarda, o Morgado, caminha ao meu encontro, solene e grave, a dar-me as boas-noites como quem cumpre uma missão diplomática. Baloiça o farto penacho da cauda como uma pluma doirada. Há nos seus olhos, cor de tabaco loiro, ao fixar-me, qualquer coisa de humano, de compreensivo," de caricioso: a sua linda alma de cão que não sabe que tem alma. Numa amabilidade de bruto, roça-se por mim sem nenhuma piedade pelo meu vestido branco, onde as grandes patas desenham a carvão flores desgrenhadas em tragos futuristas, e o meu rosto tenta-o para um beijo amigo que — ingrata! — resolvo desdenhar, sem explicações supérfluas. Não se aproxima do monte para onde me dirijo: solitário, sente o máximo desprezo pelas multidões ululantes; aristocrata, tem horror aos gritos e às vozes sonoras dos seus outros irmãos de sangue vermelho, de raça plebeia. Fica de longe a ver-me, e o seu olhar, que me segue, dá-me uma impressão de calor, de bem-estar, de ternura, como um olhar humano. Adivinho que tem piedade de mim, que me estudou nos nossos longos passeios solitários pela planície, que sabe no que eu penso e o que eu vim esquecer, que vê como os fantasmas me saem ao caminho. Aquela sombra, ao longe, não será aquele meu irmão, cavaleiro de lenda, que um dia partiu para não voltar? Quem sabe! Amigos vivos que me morreram, amigos mortos cheios de vida, quem sabe se, como eu, o luar os tenta nesta doce noite misericordiosa e pura! Estendo as mãos ao luar branco, como a uma fogueira, e a recordação doutros beijos enche-me da nostalgia amarga dos que se sabem exilados para sempre. Ergo os olhos ao céu: um jasmineiro florido, longe, longe! As estrelas empalidecem deslumbra- das, elas também, pela brancura milagrosa.
0 Morgado é agora uma grande sombra imóvel. Que pensará, ele também, sozinho, na imensidade da charneca luarenta?... Ouve-se mais próxima a algazarra da chegada, no monte iluminado. O vozeirão dos homens, as vozes mais agudas das mulheres, o tropear dos machos nas pedras do pátio formam uma sinfonia bárbara que perturba a noite nos seus sonhos de paz.
A senhora lavradora, o senhor lavrador, os filhos e os netos rodeiam-me solícitos e acolhem-me com um sorriso claro. Naqueles rostos, tostados de sol, o sorriso é uma fogueira a arder. Calada, sento-me a porta, e enquanto os arabescos azulados do meu «Muratti’s», saboreado com volúpia e olhado com reprovação, traçam no ar palavras que não entendo, outras palavras recordo; erguidas do mais profundo de mim mesma como dum túmulo, mortas que não querem morrer, que não se resignam a fria mortalha do esquecimento em que um dia as envolvi, para as sepultar.
Janela aberta, noite alta, o luar canseiroso vem ainda dar a última demão de cal às paredes do meu quarto, e quando o sono me vem, enfim, fechar os olhos, ainda fica a trabalhar até de madrugada, até a esse instante em que a andorinha, a primeira ave acordada, solta o seu grito de oiro e atravessa, como uma flecha, o céu ainda pálido sobre a charneca ainda adormecida.
Amigo, longínquo e querido, a triste charneca desdenhada envia-lhe, em nome doutra desdenhada ainda mais triste, um braçado de saudades acabadinhas de colher.
Alentejo, Junho 1930
Maria
Apresento-lhe a charneca ao entardecer, a minha triste charneca donde nasceu a minha triste alma. Selvagem e rude, patética e trágica, tem a suprema graça, cheia de amargura, dos infinitamente tristes, a quem foi negada a doçura das lágrimas. É enorme e é simples; fala e escuta. O que eu lhe tenho ouvido! O que eu lhe tenho dito! Toda morena do sol, que a queima em verões sem fim, e como eu uma revoltada, sem gestos e sem gritos. Nesta hora do entardecer, toda ela palpita em misteriosas vibrações, toda ela é cor, vida, chama e alvoroço, contido e encadeado por uma secreta maldição!
Mas como ela é bonita, a minha charneca!
Borboletas azuis, minúsculas, tombam lá do alto como bocadinhos de céu. Outras roxas... as urzes, talvez, a que, por milagre, tivessem nascido asas. Os crepúsculos, nestas imensas extensões, são longos, longos; um êxtase que se prolonga e que chega a fatigar-nos. O sol constela o poente de pedrarias, e são uma maravilha os montes azulados de Espanha, brumas perdidas ao longe, vagas, aéreas, irreais.
A noite desce por fim, arrastada, luarenta, uma claridade que se confunde com o crepúsculo.
Voltam os homens do trabalho, volta o gado ao seu estábulo caiado como uma ermida. Ladram os cães, festivos, enchendo o silêncio de brados. Começa a cegarrega dos grilos. Cai no espaço, como gotas de água, o lamento dos sapos sequiosos.
Volto para o grande monte iluminado, lá ao fundo, lentamente, sem grande pressa de chegar. A noite envolve-me toda, anestesia-me, mãos pálidas e suaves que afagassem devagarinho um mendigo leproso. Sinto-me mais pura nesta pureza imensa, mais limpa, mais lavada de culpas do que se tivesse nascido agora.
O grande cão de guarda, o Morgado, caminha ao meu encontro, solene e grave, a dar-me as boas-noites como quem cumpre uma missão diplomática. Baloiça o farto penacho da cauda como uma pluma doirada. Há nos seus olhos, cor de tabaco loiro, ao fixar-me, qualquer coisa de humano, de compreensivo," de caricioso: a sua linda alma de cão que não sabe que tem alma. Numa amabilidade de bruto, roça-se por mim sem nenhuma piedade pelo meu vestido branco, onde as grandes patas desenham a carvão flores desgrenhadas em tragos futuristas, e o meu rosto tenta-o para um beijo amigo que — ingrata! — resolvo desdenhar, sem explicações supérfluas. Não se aproxima do monte para onde me dirijo: solitário, sente o máximo desprezo pelas multidões ululantes; aristocrata, tem horror aos gritos e às vozes sonoras dos seus outros irmãos de sangue vermelho, de raça plebeia. Fica de longe a ver-me, e o seu olhar, que me segue, dá-me uma impressão de calor, de bem-estar, de ternura, como um olhar humano. Adivinho que tem piedade de mim, que me estudou nos nossos longos passeios solitários pela planície, que sabe no que eu penso e o que eu vim esquecer, que vê como os fantasmas me saem ao caminho. Aquela sombra, ao longe, não será aquele meu irmão, cavaleiro de lenda, que um dia partiu para não voltar? Quem sabe! Amigos vivos que me morreram, amigos mortos cheios de vida, quem sabe se, como eu, o luar os tenta nesta doce noite misericordiosa e pura! Estendo as mãos ao luar branco, como a uma fogueira, e a recordação doutros beijos enche-me da nostalgia amarga dos que se sabem exilados para sempre. Ergo os olhos ao céu: um jasmineiro florido, longe, longe! As estrelas empalidecem deslumbra- das, elas também, pela brancura milagrosa.
0 Morgado é agora uma grande sombra imóvel. Que pensará, ele também, sozinho, na imensidade da charneca luarenta?... Ouve-se mais próxima a algazarra da chegada, no monte iluminado. O vozeirão dos homens, as vozes mais agudas das mulheres, o tropear dos machos nas pedras do pátio formam uma sinfonia bárbara que perturba a noite nos seus sonhos de paz.
A senhora lavradora, o senhor lavrador, os filhos e os netos rodeiam-me solícitos e acolhem-me com um sorriso claro. Naqueles rostos, tostados de sol, o sorriso é uma fogueira a arder. Calada, sento-me a porta, e enquanto os arabescos azulados do meu «Muratti’s», saboreado com volúpia e olhado com reprovação, traçam no ar palavras que não entendo, outras palavras recordo; erguidas do mais profundo de mim mesma como dum túmulo, mortas que não querem morrer, que não se resignam a fria mortalha do esquecimento em que um dia as envolvi, para as sepultar.
Janela aberta, noite alta, o luar canseiroso vem ainda dar a última demão de cal às paredes do meu quarto, e quando o sono me vem, enfim, fechar os olhos, ainda fica a trabalhar até de madrugada, até a esse instante em que a andorinha, a primeira ave acordada, solta o seu grito de oiro e atravessa, como uma flecha, o céu ainda pálido sobre a charneca ainda adormecida.
Amigo, longínquo e querido, a triste charneca desdenhada envia-lhe, em nome doutra desdenhada ainda mais triste, um braçado de saudades acabadinhas de colher.
Alentejo, Junho 1930
Maria
Florbela Espanca, "Charneca em Flor"
O barril de Amontillado
Suportei o melhor que pude as injúrias de Fortunato; mas, quando ousou insultar-me, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza de meu caráter, não havereis de supor, no entanto, que eu tenha proferido qualquer ameaça. No fim, eu seria vingado. Este era um ponto definitivamente assentado, mas a própria decisão com que eu assim decidira excluía qualquer ideia de perigo. Assim devia apenas castigar, mas castigar impunemente. Uma injúria permanece irreparada, quando o castigo alcança aquele que se vinga. Permanece, igualmente, sem reparado, quando o vingador deixa de fazer com que aquele que o ofendeu compreenda que e ele quem se vinga.
É preciso que se saiba que, nem por meio de palavras, nem de qualquer ato, dei a Fortunato motivo para que duvidasse de minha boa vontade. Continuei, como de costume, a sorrir em sua presença, e ele não percebia que o meu sorriso, agora, tinha como origem a ideia da sua imolação.
Esse tal Fortunato tinha um ponto fraco, embora, sob outros aspectos, fosse um homem digno de ser respeitado e, até mesmo, temido. Vangloriava-se sempre de ser entendido em vinhos. Poucos italianos possuem verdadeiro talento para isso. Na maioria das vezes, seu entusiasmo se adapta aquilo que a ocasião e a oportunidade exigem, tendo em vista enganar os milionários ingleses e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunado, como todos os seus compatriotas, era um intrujão; mas, com respeito a vinhos antigos, era sincero. Sob este aspecto, não havia grande diferença entre nós – pois que eu também era hábil conhecedor de vinhos italianos, comprando-os sempre em grande quantidade, sempre que podia. Uma tarde, quase ao anoitecer, em plena loucura do carnaval, encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessiva cordialidade, pois que havia bebido muito. Usava um traje de truão, muito justo e listrado, tendo à cabeça um chapéu cônico, guarnecido de guizos.
Fiquei tão contente de encontrá-lo, que julguei que jamais estreitaria a sua mão como naquele momento.
– Meu caro Fortunato – disse-lhe eu -, foi uma sorte encontrá-lo. Mas, que bom aspecto tem você hoje! Recebi um barril como sendo de Amontillado, mas tenho minhas duvidas.
– Como? – disse ele. – Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno carnaval!
– Tenho minhas dúvidas – repeti – e seria tolo que o pagasse como sendo de Amontillado antes de consultá-lo sobre o assunto. Não conseguia encontrá-lo em parte alguma, e receava perder um bom negócio.
– Amontillado!
– Tenho minhas dúvidas.
– Amontillado!
– E preciso efetuar o pagamento.
– Amontillado!
– Mas, como você esta ocupado, irei à procura de Luchesi. Se existe alguém que conheça o assunto, esse alguém é ele. Ele me dirá …
– Luchesi é incapaz de distinguir entre um Amontillado e um Xerez.
– Não obstante, há alguns imbecis que acham que o paladar de Luchesi pode competir com o seu.
-Vamos, vamos embora.
– Para onde?
– Para as suas adegas.
– Não, meu amigo. Não quero abusar de sua bondade. Penso que você deve ter algum compromisso. Luchesi…
– Não tenho compromisso algum. Vamos.
– Não, meu amigo. Embora você não tenha compromisso algum, vejo que esta com muito frio. E as adegas são insuportavelmente úmidas. Estão recobertas de salitre.
– Apesar de tudo, vamos. Não importa o frio. Amontillado! Você foi enganado. Quanto a Luchesi, não sabe distinguir entre Xerez e Amontillado.
Assim falando, Fortunato tomou-me pelo braço. Pus uma máscara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo.
Não havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam saído para celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que não regressaria antes da manhã seguinte, e lhes dera ordens estritas para que não arredassem pé da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurai o seu desaparecimento imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, através de uma seqüência de compartimentos, à passagem abobadada que levava à adega.
Chegamos, por fim, aos últimos degraus e detivemo-nos sobre o solo úmido das catacumbas dos Montresor.
O andar de meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos.
– E o barril? – perguntou.
– Está mais adiante – respondi. – Mas observe as brancas teias de aranha que brilham nas paredes dessas cavernas.
Voltou-se para mim e olhou-me com suas nubladas pupilas, que destilavam as lágrimas da embriaguez.
– Salitre? – perguntou, por fim.
– Salitre – respondi. – Há quanto tempo você tem essa tosse?
Meu pobre amigo pôs-se a tossir sem cessar e, durante muitos minutos, não lhe foi possível responder.
– Não é nada – disse afinal.
– Vamos – disse-lhe com decisão. – Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz, como eu também o era. Você é um homem cuja falta será sentida. Quanto a mim, não impor-ta. Vamos embora. Você ficará doente, e não quero arcar com essa responsabilidade. Além disso, posso procurar Luchesi . . .
– Basta – exclamou ele. – Esta tosse não tem importância; não me matará. Não morrerei por causa de uma simples tosse.
-É verdade, é verdade – respondi. – E eu, de fato, não tenho intenção alguma de alarmá-lo sem motivo. Mas você deve tomar precauções. Um gole deste Medoc nos defenderá da umidade.
E, dizendo isto, parti o gargalo de uma garrafa que se achava numa longa
fila de muitas outras iguais, sobre o chão úmido.
– Beba – disse, oferecendo-lhe o vinho.
Levou a garrafa aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e saudou-me com familiaridade, enquanto seus guizos soavam.
– Bebo – disse ele – à saúde dos que repousam enterrados, em torno de nós.
– E eu para que você tenha vida longa. Tomou-me de novo o braço e prosseguimos. – Estas cavernas – disse-me – são extensas.
– Os Montresor – respondi – formavam uma família grande e numerosa.
– Esqueci qual o seu brasão.
– Um grande pé de ouro, em campo azul. O pé esmaga uma serpente ameaçadora, cujas presas se acham cravadas no salto.
– E a divisa?
– Nemo me impune lacessit.
– Muito bem! – exclamou.
O vinho brilhava em seus olhos e os guizos retiniam. Minha própria imaginação se animou, devido ao Medoc. Através de paredes de ossos empilhados, entremeados de barris e tonéis, penetramos nos recintos mais profundos das catacumbas. Detive-me de novo e, essa vez, me atrevi a segurar Fortunato pelo braço, acima do cotovelo.
– O salitre! – exclamei. – Veja como aumenta. Prende-se, como musgo, nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade filtram-se por entre os ossos. Vamos. Voltemos, antes que seja tarde demais. Sua tosse…
– Não é nada – respondeu ele. – Prossigamos. Mas, antes, tomemos outro gole do Medoc.
Parti o gargalo de uma garrafa de vinho De Grâve a dei-a a Fortunato. Ele a esvaziou de um trago. Seus olhos cintilaram com brilho ardente. Pôs-se a rir e atirou a garrafa para o ar, com gesticulação que não compreendi.
Olhei-o, surpreso. Repetiu o movimento, um movimento grotesco.
– Você não compreende? – perguntou.
– Não, não compreendo – respondi.
– Então é porque você não pertence à irmandade.
– Como?
– Não pertence à maçonaria.
– Sim, sim. Pertenço.
– Você? Impossível! Um maçom?
– Um maçom – respondi.
– Prove-o – disse ele.
– Eis aqui – respondi, tirando de debaixo das dobras de meu roquelaire uma colher de pedreiro.
– Você está gracejando! – exclamou recuando alguns passos. – Mas prossigamos: vamos ao Amontillado.
– Está bem – disse eu, guardando outra vez a ferramenta debaixo da capa e oferecendo-lhe o braço. Apoiou-se pesadamente em mim. Continuamos nosso caminho, em busca do Amontillado. Passamos através de uma série de baixas abóbadas, descemos, avançamos ainda, tornamos a descer e chegamos, afinal, a uma profunda cripta, cujo ar, rarefeito, fazia com que nossas velas bruxuleassem, ao invés de arder normalmente.
Na extremidade mais distante da cripta aparecia uma outra, menos espaçosa. Despojos humanos empilhavam-se ao longo de seus muros, até o alto das abóbadas, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três dos lados dessa cripta eram ainda adornados dessa maneira. Do quarto, os ossos haviam sido retirados e jaziam espalhados pelo chão, formando, num dos cantos, um monte de certa altura. Dentro da parede, que, com a remoção dos ossos, ficara exposta, via-se ainda outra cripta ou recinto interior, de uns quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia haver sido construída para qualquer uso determinado, mas constituir apenas um intervalo entre os dois enormes pilares que sustinham a cúpula das catacumbas, tendo por fundo uma das paredes circundantes de sólido granito.
Foi em vão que Fortunato, erguendo sua vela bruxuleante, procurou divisar a profundidade daquele recinto. A luz, fraca, não nos permitia ver o fundo.
– Continue – disse-lhe eu. – O Amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi. . .
– É um ignorante – interrompeu o meu amigo, enquanto avançava com passo vacilante, seguido imediatamente por mim.
Num momento, chegou ao fundo do nicho e, vendo o caminho interrompido pela rocha, deteve-se, estupidamente perplexo. Um momento após, eu já o havia acorrentado ao granito, pois que, em sua superfície, havia duas argolas de ferro, separadas uma da outra, horizontalmente, por um espaço de cerca de dois pés. De uma delas pendia uma corrente; da outra, um cadeado. Lançar a corrente em torno de sua cintura, para prendê-lo, foi coisa de segundos. Ele estava demasiado atônito para oferecer qualquer resistência.
Retirando a chave, recuei alguns passos.
– Passe a mão pela parede – disse-lhe eu. – Não poderá deixar de sentir o salitre. Está, com efeito, muito úmida. Permita-me, ainda uma vez, que lhe implore para voltar. Não? Então, positivamente, tenho de deixá-lo. Mas, primeiro, devo prestar-lhe todos os pequenos obséquios ao meu alcance.
– O Amontillado! – exclamou o meu amigo, que ainda não se refizera de seu assombro.
– É verdade – respondi -, o Amontillado.
E, dizendo essas palavras, pus-me a trabalhar entre a pilha de ossos a que já me referi. Jogando-os para o lado, deparei logo com uma certa quantidade de pedras de construção e argamassa. Com este material e com a ajuda de minha colher de pedreiro, comecei ativamente a tapar a entrada do nicho.
Mal assentara a primeira fileira de minha obra de pedreiro, quando descobri que a embriaguez de Fortunato havia, em grande parte, se dissipado. O primeiro indício que tive disso foi um lamentoso grito, vindo do fundo do nicho. Não era o grito de um homem embriagado. Depois, houve um longo e obstinado silêncio. Coloquei a segunda, a terceira e a quarta fileiras. Ouvi, então, as furiosas sacudidas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para deleitar-me com ele, interrompi o meu trabalho e sentei-me sobre os ossos. Quando, por fim, o ruído cessou, apanhei de novo a colher de pedreiro e acabei de colocar, sem interrupção, a quinta, a sexta e a sétima fileiras. A parede me chegava, agora, até a altura do peito. Fiz uma nova pausa e, segurando a vela por cima da obra que havia executado, dirigi a fraca luz sobre a figura que se achava no interior.
Uma sucessão de gritos altos e agudos irrompeu, de repente, da garganta do vulto acorrentado, e pareceu impelir-me violentamente para trás. Durante breve instante, hesitei… tremi. Saquei de minha espada e pus-me a desferir golpes no interior do nicho; mas um momento de reflexão bastou para tranqüilizar-me. Coloquei a mão sobre a parede maciça da catacumba e senti-me satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede e respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os, acompanhei-os e os venci em volume e em força. Fiz isso, e o que gritava acabou por silenciar.
Já era meia-noite, a minha tarefa chegava ao fim. Completara a oitava, a nona e a décima fileiras. Havia terminado quase toda a décima primeira – e restava apenas uma pedra a ser colocada e rebocada em seu lugar. Ergui-a com grande esforço, pois que pesava muito, e coloquei-a, em parte, na posição a que se destinava. Mas, então, saiu do nicho um riso abafado que me pôs os cabelos em pé. Seguiu-se-lhe uma voz triste, que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. A voz dizia:
– Ah! ah! ah! . . . eh! eh! eh! . . . Esta é uma boa piada… uma excelente piada! Vamos rir muito no palazzo por causa disso . . . ah! ah! ah! . . . por causa do nosso vinho… ah! ah! ah!
– O Amontillado! – disse eu.
– Ah! ah! ah! . . . sim, sim . . . o Amontillado. Mas não está ficando tarde? Não estarão nos esperando no palácio. . . a Sra. Fortunato e os outros? Vamos embora.
– Sim – respondi -, vamos embora.
– Pelo amor de Deus, Montresor!
– Sim – respondi -, pelo amor de Deus!
Mas esperei em vão qualquer resposta a estas palavras. Impacientei-me.
Gritei, alto:
– Fortunato!
Nenhuma resposta.
Tornei a gritar:
– Fortunato!
Ainda agora, nenhuma resposta. Introduzi uma vela pelo orifício que restava e deixei-a cair dentro do nicho. Chegou até mim, como resposta, apenas um tilintar de guizos. Senti o coração opresso, sem dúvida devido à umidade das catacumbas. Apressei-me para terminar o meu trabalho. Com esforço, coloquei em seu lugar a última pedra – e cobri-a com argamassa. De encontro à nova parede, tornei a erguer a antiga muralha de ossos. Durante meio século, mortal algum os perturbou.
Edgar Allan Poe
sexta-feira, outubro 2
O sono das águas
Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
João Guimarães Rosa
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
João Guimarães Rosa
O chalé da praça Quinze
O chalé fazia parte da gente. Me lembro do Bilu, com o seu perfil perpendicular de cegonho sábio, o longo bico mergulhado — não no gargalo do gomil da fábula, não propriamente no canecão de chope, que era de fato o que estava acontecendo —, mas no poço artesiano de si mesmo.
Me lembro do Reynaldo, redondo, pacato, amável, tão amável, pacato e redondo que parecia um desses personagens de romance policial que ninguém desconfia que seja o autor do último crime da mala.
Me lembro do Cavalcanti, com a sua cara silenciosa e receptiva de mata-borrão.
Me lembro de mim, silencioso. Sim, a determinada hora éramos todos silenciosos... essa hora em que não é preciso dizer nada, nem mesmo o verso inesquecível de Valéry: “Oh mon bon compagnon de silence!”
Este silêncio era apenas quebrado quando chegava o Athos, o Athos centrífugo e pirotécnico. Mas isto não perturbava o nosso silêncio, nem o próprio silêncio do Athos... Pois havia um profundo e misterioso rio de silêncio que corria subterraneamente a todas as nossas palavras.
Era o rio da poesia?
O rio da harmoniosa confusão das almas?
Agora é apenas o rio do tempo que passou.
Mario Quintana, "Caderno H"
Me lembro do Reynaldo, redondo, pacato, amável, tão amável, pacato e redondo que parecia um desses personagens de romance policial que ninguém desconfia que seja o autor do último crime da mala.
Me lembro do Cavalcanti, com a sua cara silenciosa e receptiva de mata-borrão.
Me lembro de mim, silencioso. Sim, a determinada hora éramos todos silenciosos... essa hora em que não é preciso dizer nada, nem mesmo o verso inesquecível de Valéry: “Oh mon bon compagnon de silence!”
Este silêncio era apenas quebrado quando chegava o Athos, o Athos centrífugo e pirotécnico. Mas isto não perturbava o nosso silêncio, nem o próprio silêncio do Athos... Pois havia um profundo e misterioso rio de silêncio que corria subterraneamente a todas as nossas palavras.
Era o rio da poesia?
O rio da harmoniosa confusão das almas?
Agora é apenas o rio do tempo que passou.
Mario Quintana, "Caderno H"
Um cavalo de raça
É bastante feia. Mas, é deliciosa! O Tempo e o Amor marcaram-na com suas garras e lhe ensinaram o que cada minuto e cada beijo encerram de juventude e frescor.
É mesmo feia: formiga, aranha, e até esqueleto, se quiserem. Mas é bebida, magistério, feitiço! Em suma, é esquisita.
O Tempo não pôde quebrar-lhe a crepitante harmonia do andar, nem a elegância indestrutível do porte. O Amor não lhe alterou a suavidade do hálito de criança. Nada lhe tirou o Tempo da farta cabeleira que exala, em selváticos perfumes, toda a endiabrada vitalidade do Meio-dia francês: Nimes, Aix, Arles, Avignon, Narbonne, Toulose, cidades abençoadas de sol, encantadoras e amorosas! O Tempo e o Amor morderam-na em vão com seus grandes dentes: nada diminuíram o encanto vago, mas eterno, do seu colo de moça.
Gasta, talvez, mas não fatigada, e sempre heroica, ela faz pensar nesses cavalos puro-sangue que os olhos do verdadeiro amador reconhecem, mesmo quando atrelados a um carro de aluguel ou a uma pesada carroça.
Além disso, como é delicada e ardente! Ama como se ama no outono: dir-se-ia que a aproximação do inverno lhe acende no coração um fogo novo, e a servilidade de sua ternura nada tem de fatigante.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
É mesmo feia: formiga, aranha, e até esqueleto, se quiserem. Mas é bebida, magistério, feitiço! Em suma, é esquisita.
O Tempo não pôde quebrar-lhe a crepitante harmonia do andar, nem a elegância indestrutível do porte. O Amor não lhe alterou a suavidade do hálito de criança. Nada lhe tirou o Tempo da farta cabeleira que exala, em selváticos perfumes, toda a endiabrada vitalidade do Meio-dia francês: Nimes, Aix, Arles, Avignon, Narbonne, Toulose, cidades abençoadas de sol, encantadoras e amorosas! O Tempo e o Amor morderam-na em vão com seus grandes dentes: nada diminuíram o encanto vago, mas eterno, do seu colo de moça.
Gasta, talvez, mas não fatigada, e sempre heroica, ela faz pensar nesses cavalos puro-sangue que os olhos do verdadeiro amador reconhecem, mesmo quando atrelados a um carro de aluguel ou a uma pesada carroça.
Além disso, como é delicada e ardente! Ama como se ama no outono: dir-se-ia que a aproximação do inverno lhe acende no coração um fogo novo, e a servilidade de sua ternura nada tem de fatigante.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Tônico para todos os sentidos
Os livros oferecem uma experiência profunda e transformadora que deixa as pessoas mais felizes do que simplesmente ao continuarem a fazer scroll numa tela
Markus Dohle, fundador e antigo CEO da Penguin Random House
Teresa
Entrei no elevador, dois sujeitos grandes gordos estavam lá dentro. Um apartamento desse tamanho e só moram lá o velho e aquela vigarista, disse um deles. A filha da puta só quer o dinheiro do velho, respondeu o outro, mas ele não morre, noventa anos e não morre, ela deve estar muito decepcionada, já atura o velho há cinco anos.
Depois ficaram calados, saíram na minha frente. Na portaria perguntei ao porteiro, quem são esses dois caras que acabaram de sair? São filhos do doutor Gumercindo, ele respondeu. É a primeira vez que os vejo por aqui, eu disse. Eles não se dão com o velho, respondeu o porteiro. Desde que ele casou com dona Teresa só apareceram agora.
Eu sempre via o doutor Gumercindo saindo de braço com dona Teresa. Eles moravam no apartamento que ficava em cima do meu, costumávamos descer juntos no elevador, então trocávamos amabilidades. Eu abria a porta para eles, que agradeciam amavelmente. Dona Teresa não parecia de jeito nenhum uma mulher que tivesse casado por interesse.
Um dia depois de ouvir a conversa dos filhos no elevador, desci com o doutor Gumercindo e dona Teresa. Sem que percebessem, olhei dona Teresa atentamente. Ela cuidava do doutor Gumercindo com carinho e desvelo, nenhuma outra mulher do prédio tratava o marido daquela maneira.
Um dia o doutor Gumercindo teve um acidente vascular cerebral. Tempos depois, descemos os três pelo elevador, o doutor Gumercindo numa cadeira de rodas.
Vamos passear na praça, disse dona Teresa. Você gosta de passear na praça, não gosta?, perguntou ela. Gumercindo meneou a cabeça afirmativamente. Posso ir junto?, perguntei.
Depois de darmos uma volta pela praça sentamos à sombra de uma árvore. O doutor Gumercindo começou a cochilar e dona Teresa limpou um pouco de saliva que escorria pelos cantos da boca do marido. Notei que os olhos dela se encheram de lágrimas.
Ele era tão cheio de vida, ela disse, com um sorriso triste.
Encontrei-me com eles outras vezes e notei que dona Teresa ficara muito abatida com a doença do marido. Ela tinha setenta anos, mas aparentava muito mais, emagrecera, seu rosto ficara muito pálido. Há casos em que o cônjuge doente acaba matando o que cuida dele.
Fiquei alguns dias em São Paulo fazendo um serviço para o Despachante, um freguês fácil de despachar.
Na volta subi ao apartamento dos velhos. Dona Teresa abriu a porta, seu aspecto era tão doentio que me senti obrigado a dizer, dona Teresa, a senhora devia arranjar uma enfermeira, alguém para ajudar a senhora a cuidar do doutor Gumercindo.
Ele não quer, ela respondeu, ele quer que eu mesma cuide dele, somente eu, e acho que ele tem razão, uma enfermeira não o trataria como ele merece.
Viajei durante uma semana fazendo outro serviço para o Despachante, esse mais complicado, o freguês tinha um guarda-costas que deu trabalho. Ao voltar tornei a encontrar no elevador os dois filhos grandes gordos do doutor Gumercindo, acompanhados de duas mulheres magras. Eles me cumprimentaram amavelmente e saíram na minha frente.
Aqueles são os filhos e as noras do doutor Gumercindo?
São, respondeu o porteiro, agora estão morando aqui, o doutor Gumercindo morreu, mas o apartamento é grande, dá para morar todo mundo nele. E dona Teresa?, perguntei. Ela não tem aparecido, respondeu o porteiro.
Voltei a encontrar os novos moradores do apartamento do doutor Gumercindo. As duas mulheres tinham cara de putas. Eu conheço putas. Os dois filhos estavam cada vez mais gordos. Falavam dos novos carros que haviam comprado. As duas mulheres estavam vestidas com roupas caras. Esses caras andaram fazendo coisas erradas, pensei. No meu trabalho sou obrigado a sacar quem é perigoso, quem não é, quem é filho da puta, quem não é. Eles eram as duas coisas.
Depois de um mês achei estranho não encontrar mais dona Teresa no elevador. Ela gostava de passear na praça, sentar num dos bancos para apanhar sol. Perguntei ao porteiro, tem visto dona Teresa? Não, ele respondeu.
Subi ao apartamento do doutor Gumercindo, toquei a campainha. Uma empregada abriu a porta.
Vim visitar dona Teresa, eu disse. A mulher bateu com a porta na minha cara. Toquei novamente a campainha. Ouvi a voz da empregada, gritando do lado de dentro, dona Teresa não pode receber visitas. Eu gritei, e a senhora não pode abrir a porta para falar comigo? Tenho ordem de não abrir a porta para estranhos, a mulher gritou do lado de dentro.
Dois dias depois voltei ao apartamento de dona Teresa. Sabia que a empregada estava de folga. Era a hora do almoço do porteiro. Antes tirei algo de dentro da maleta de couro onde guardava os folhetos sobre informática. Toquei a campainha e notei que o olho mágico havia escurecido, alguém me olhava de dentro.
Um dos grandões entreabriu a porta. Vim visitar dona Teresa, eu disse. Ela não pode receber visitas, ele respondeu irritado, dá o fora. Começou a fechar a porta, mas não deixei. Abre essa merda, eu disse, encostando a pistola nos cornos dele.
Em pé na sala estava o irmão dele. Onde é que ela está, seus filhos da puta? Ela viajou, balbuciou um deles. Viajou o caralho, eu disse, dando uma porrada com a pistola na cara dele, em cima do nariz.
Dona Teresa estava numa cama dessas de hospital, os dois pulsos amarrados no estrado de ferro. Solta ela, eu disse. Eles soltaram. Senta ela naquela poltrona.
A senhora está bem?, perguntei. Ela meneou a cabeça dizendo que sim. A senhora é capaz de guardar um segredo? Sou, ela respondeu com voz fraca. Um segredo terrível? Sim, seu José, ela respondeu.
Levei os dois grandões para o banheiro, mandei entrarem na banheira e dei um tiro na cabeça de cada um. Sempre atiro na cabeça. Tirei as carteiras com cartões de crédito dos bolsos deles. Voltei para a sala.
Matei aqueles dois canalhas, ninguém pode saber que fui eu, diga que foi um ladrão. Sim, ela respondeu.
Fui ao quarto das putas e peguei as joias das gavetas. Depois saí, deixando a porta aberta.
No meu apartamento botei aquele bagulho todo em várias sacolinhas de supermercado. Coloquei tudo na minha maleta de couro, saí, peguei um táxi, saltei bem longe, noutro bairro, joguei cada saco numa lata de lixo diferente.
Quando voltei para casa havia uma grande movimentação no prédio. Assaltaram o apartamento do doutor Gumercindo, disse o porteiro, mataram os dois filhos dele.
É mesmo? Como isso foi possível?
Foi na hora do meu almoço, respondeu o porteiro.
E dona Teresa?
Ela está bem, respondeu o porteiro.
Subi para o apartamento do doutor Gumercindo. As duas putas estavam lá dentro, choramingando.
Vocês podem fazer as malas e ir baixar noutro terreiro, eu disse, o apartamento pertence à dona Teresa.
Quando as duas putas saíram, dona Teresa deu um beijo na minha mão, o senhor é um santo, seu José, vou guardar até morrer o nosso segredo.
Voltei para o meu apartamento. Um santo. Um santo porra nenhuma. Sou um assassino profissional, mato por dinheiro.
Nem sempre.
Rubem Fonseca, "Ela e Outras Mulheres"
Depois ficaram calados, saíram na minha frente. Na portaria perguntei ao porteiro, quem são esses dois caras que acabaram de sair? São filhos do doutor Gumercindo, ele respondeu. É a primeira vez que os vejo por aqui, eu disse. Eles não se dão com o velho, respondeu o porteiro. Desde que ele casou com dona Teresa só apareceram agora.
Eu sempre via o doutor Gumercindo saindo de braço com dona Teresa. Eles moravam no apartamento que ficava em cima do meu, costumávamos descer juntos no elevador, então trocávamos amabilidades. Eu abria a porta para eles, que agradeciam amavelmente. Dona Teresa não parecia de jeito nenhum uma mulher que tivesse casado por interesse.
Um dia depois de ouvir a conversa dos filhos no elevador, desci com o doutor Gumercindo e dona Teresa. Sem que percebessem, olhei dona Teresa atentamente. Ela cuidava do doutor Gumercindo com carinho e desvelo, nenhuma outra mulher do prédio tratava o marido daquela maneira.
Um dia o doutor Gumercindo teve um acidente vascular cerebral. Tempos depois, descemos os três pelo elevador, o doutor Gumercindo numa cadeira de rodas.
Vamos passear na praça, disse dona Teresa. Você gosta de passear na praça, não gosta?, perguntou ela. Gumercindo meneou a cabeça afirmativamente. Posso ir junto?, perguntei.
Depois de darmos uma volta pela praça sentamos à sombra de uma árvore. O doutor Gumercindo começou a cochilar e dona Teresa limpou um pouco de saliva que escorria pelos cantos da boca do marido. Notei que os olhos dela se encheram de lágrimas.
Ele era tão cheio de vida, ela disse, com um sorriso triste.
Encontrei-me com eles outras vezes e notei que dona Teresa ficara muito abatida com a doença do marido. Ela tinha setenta anos, mas aparentava muito mais, emagrecera, seu rosto ficara muito pálido. Há casos em que o cônjuge doente acaba matando o que cuida dele.
Fiquei alguns dias em São Paulo fazendo um serviço para o Despachante, um freguês fácil de despachar.
Na volta subi ao apartamento dos velhos. Dona Teresa abriu a porta, seu aspecto era tão doentio que me senti obrigado a dizer, dona Teresa, a senhora devia arranjar uma enfermeira, alguém para ajudar a senhora a cuidar do doutor Gumercindo.
Ele não quer, ela respondeu, ele quer que eu mesma cuide dele, somente eu, e acho que ele tem razão, uma enfermeira não o trataria como ele merece.
Viajei durante uma semana fazendo outro serviço para o Despachante, esse mais complicado, o freguês tinha um guarda-costas que deu trabalho. Ao voltar tornei a encontrar no elevador os dois filhos grandes gordos do doutor Gumercindo, acompanhados de duas mulheres magras. Eles me cumprimentaram amavelmente e saíram na minha frente.
Aqueles são os filhos e as noras do doutor Gumercindo?
São, respondeu o porteiro, agora estão morando aqui, o doutor Gumercindo morreu, mas o apartamento é grande, dá para morar todo mundo nele. E dona Teresa?, perguntei. Ela não tem aparecido, respondeu o porteiro.
Voltei a encontrar os novos moradores do apartamento do doutor Gumercindo. As duas mulheres tinham cara de putas. Eu conheço putas. Os dois filhos estavam cada vez mais gordos. Falavam dos novos carros que haviam comprado. As duas mulheres estavam vestidas com roupas caras. Esses caras andaram fazendo coisas erradas, pensei. No meu trabalho sou obrigado a sacar quem é perigoso, quem não é, quem é filho da puta, quem não é. Eles eram as duas coisas.
Depois de um mês achei estranho não encontrar mais dona Teresa no elevador. Ela gostava de passear na praça, sentar num dos bancos para apanhar sol. Perguntei ao porteiro, tem visto dona Teresa? Não, ele respondeu.
Subi ao apartamento do doutor Gumercindo, toquei a campainha. Uma empregada abriu a porta.
Vim visitar dona Teresa, eu disse. A mulher bateu com a porta na minha cara. Toquei novamente a campainha. Ouvi a voz da empregada, gritando do lado de dentro, dona Teresa não pode receber visitas. Eu gritei, e a senhora não pode abrir a porta para falar comigo? Tenho ordem de não abrir a porta para estranhos, a mulher gritou do lado de dentro.
Dois dias depois voltei ao apartamento de dona Teresa. Sabia que a empregada estava de folga. Era a hora do almoço do porteiro. Antes tirei algo de dentro da maleta de couro onde guardava os folhetos sobre informática. Toquei a campainha e notei que o olho mágico havia escurecido, alguém me olhava de dentro.
Um dos grandões entreabriu a porta. Vim visitar dona Teresa, eu disse. Ela não pode receber visitas, ele respondeu irritado, dá o fora. Começou a fechar a porta, mas não deixei. Abre essa merda, eu disse, encostando a pistola nos cornos dele.
Em pé na sala estava o irmão dele. Onde é que ela está, seus filhos da puta? Ela viajou, balbuciou um deles. Viajou o caralho, eu disse, dando uma porrada com a pistola na cara dele, em cima do nariz.
Dona Teresa estava numa cama dessas de hospital, os dois pulsos amarrados no estrado de ferro. Solta ela, eu disse. Eles soltaram. Senta ela naquela poltrona.
A senhora está bem?, perguntei. Ela meneou a cabeça dizendo que sim. A senhora é capaz de guardar um segredo? Sou, ela respondeu com voz fraca. Um segredo terrível? Sim, seu José, ela respondeu.
Levei os dois grandões para o banheiro, mandei entrarem na banheira e dei um tiro na cabeça de cada um. Sempre atiro na cabeça. Tirei as carteiras com cartões de crédito dos bolsos deles. Voltei para a sala.
Matei aqueles dois canalhas, ninguém pode saber que fui eu, diga que foi um ladrão. Sim, ela respondeu.
Fui ao quarto das putas e peguei as joias das gavetas. Depois saí, deixando a porta aberta.
No meu apartamento botei aquele bagulho todo em várias sacolinhas de supermercado. Coloquei tudo na minha maleta de couro, saí, peguei um táxi, saltei bem longe, noutro bairro, joguei cada saco numa lata de lixo diferente.
Quando voltei para casa havia uma grande movimentação no prédio. Assaltaram o apartamento do doutor Gumercindo, disse o porteiro, mataram os dois filhos dele.
É mesmo? Como isso foi possível?
Foi na hora do meu almoço, respondeu o porteiro.
E dona Teresa?
Ela está bem, respondeu o porteiro.
Subi para o apartamento do doutor Gumercindo. As duas putas estavam lá dentro, choramingando.
Vocês podem fazer as malas e ir baixar noutro terreiro, eu disse, o apartamento pertence à dona Teresa.
Quando as duas putas saíram, dona Teresa deu um beijo na minha mão, o senhor é um santo, seu José, vou guardar até morrer o nosso segredo.
Voltei para o meu apartamento. Um santo. Um santo porra nenhuma. Sou um assassino profissional, mato por dinheiro.
Nem sempre.
Rubem Fonseca, "Ela e Outras Mulheres"
quinta-feira, outubro 1
Luto pela família Silva
A assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem está morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.
João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos os imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à Silva.
João da Silva – nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue-azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telha de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.
Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.
Rubem Braga
João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos os imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à Silva.
João da Silva – nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue-azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telha de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.
Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.
Rubem Braga
Versos na Luz
A última pessoa deste mundo que alguém julgaria um criminoso era a sra. Avis Lardner. Viúva do grande mártir da Astronáutica, era filantropa, colecionadora de arte, uma extraordinária anfitriã e, todos concordavam, um gênio artístico. Acima de tudo, era o mais gentil e bondoso ser humano que se podia imaginar.
O marido, William J. Lardner, morreu, como todos sabemos, devido aos efeitos da radiação da luz solar, após ter deliberadamente permanecido no espaço, a fim de que uma espaçonave de passageiros pudesse levar seu veículo espacial em segurança à Estação Espacial n°5.
Por isso a sra. Lardner havia recebido uma generosa pensão, a qual investira bem e com muita sabedoria. Ao fim da meia-idade, estava rica.
Sua casa era uma espécie de exposição permanente, um verdadeiro museu, contendo uma coleção de lindas jóias, pequena, porém de extremo bom-gosto. De uma dúzia de diferentes culturas havia conseguido relíquias de quase toda peça de artesanato concebível que pudessem ser engastadas de jóias para servir à aristocracia daquela mesma cultura. Possuía um dos primeiros relógios de pulso, adornado de pedras preciosas, fabricado na América, uma adaga incrustada de pedras preciosas, procedente do Camboja, um par de óculos, decorado com jóias, vindo da Itália, e assim por diante, interminavelmente.
Tudo estava aberto ao público. As peças de artesanato não estavam no seguro, e não havia nenhuma providência comum no sentido de garanti-las. Não havia a necessidade de nada convencional, porquanto a sra. Lardner mantinha um corpo de auxiliares, constituído de robôs-servos, a cada um dos quais podia se confiar a guarda de cada um dos objetos, tendo eles imperturbável concentração, irrepreensível honestidade e irrevogável eficiência.
Todos sabiam da existência dos robôs e não há registro de ter algum dia ocorrido alguma tentativa de furto.
E havia também, é claro, sua escultura-luz.
Como a sra. Lardner descobriu seu próprio gênio para a arte, nenhum convidado de suas pródigas reuniões conseguia adivinhar. Contudo, em cada ocasião, quando a sra. Lardner abria a casa para os convidados, uma nova sinfonia de luz percorria os aposentos de um lado ao outro; curvas e sólidos tridimensionais, numa mescla de cores, algumas puras, outras difusas, em surpreendentes efeitos cristalinos que mergulhavam no assombro cada convidado, e que se ajustavam por si mesmos, de forma a embelezar os cabelos macios e azulados e o rosto de contornos pouco definidos da sra. Lardner.
Era por causa da escultura-luz, mais do que por qualquer outra coisa, que os convidados apareciam. Nunca era a mesma duas vezes, e nunca deixava de explorar novos enfoques da arte.
Muitas pessoas que podiam comprar consolo-luz preparavam esculturas-luz por diversão, mas ninguém chegava nem de longe a igualar a perícia da sra. Lardner. Nem mesmo aqueles que se consideravam artistas profissionais.
Ela mesma era encantadoramente modesta a respeito disso – Não, não – dizia ela, quando alguém ressudava lirismo. – Eu não a denominaria “poesia na luz”. Isto é ser bondosa demais. No máximo, eu diria que se trata de meros “versos na luz” – e todos sorriam da sutil tirada de espírito.
Embora fosse solicitada frequentemente a fazê-lo, jamais criava “escultura-luz” em outras ocasiões, salvo em suas próprias festas.
– Seria comercialização – costumava dizer.
Contudo, não objetava à preparação de elaborados hologramas de suas esculturas, de forma que se tornassem permanentes e fossem reproduzidos em todos os museus do mundo. Tampouco nunca cobrou nada pelo uso que pudesse ser feito de suas “esculturas-luz”.
– Eu não teria coragem de cobrar um centavo – dizia ela, abrindo bem os braços. – É de graça para todos. Afinal de contas, eu mesma a uso durante pouco tempo.
Era verdade, ela nunca utilizava duas vezes a mesma “escultura-luz”.
Ela própria cooperava quando eram feitos os hologramas. Observando benignamente cada etapa, estava sempre pronta a mandar que os robôs ajudassem.
– Por favor, Courtney – quer ter a bondade de ajustar a escadinha?
Era o seu estilo. Sempre se dirigia aos robôs com a mais formal das cortesias.
Certa ocasião, há muitos anos, quase fora repreendida por um funcionário federal do “Bureau of Robots and Mechanical Men”:
– Não pode fazer isto – disse ele severamente. – Interfere na eficiência deles. São construídos para cumprir ordens e quanto mais claramente lhes der ordens, mais eficientes as cumprirão. Quando pede com elaborada polidez, compreendem com dificuldade que está sendo dada uma ordem. Reagem mais lentamente.
A sra. Lardner ergueu a aristocrática cabeça:
– Não exijo rapidez e eficiência – disse ela. – Peço boa vontade. Meus robôs me amam.
O funcionário poderia ter explicado que robôs não podem amar, mas murchou sob o olhar ofendido, ainda que meigo, dela.
Era fato conhecido de todos que a sra. Lardner jamais remeteu um robô à fábrica para ajustamentos. Seus cérebros positrônicos eram de enorme complexidade, e quando saem da fábrica, um em dez não está perfeitamente regulado. Às vezes o desajuste não se revela durante um período de tempo, mas sempre que um engano se manifesta, a “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation” efetua a correção gratuitamente.
A sra. Lardner sacudiu a cabeça:
– A partir do momento em que o robô está em minha casa – disse – e cumpre com seus deveres, as excentricidades secundárias devem ser toleradas. Não permitirei que seja maltratado.
Era a pior coisa possível tentar explicar que um robô era apenas uma máquina. Ela dizia inflexivamente:
– Nada que seja tão inteligente como um robô pode ser apenas uma máquina. Trato-os como gente.
E pronto!
Ela conservava até mesmo Max, embora fosse quase inútil. Mal se podia compreender o que se esperava dele. Contudo, a sra. Lardner insistia:
– Absolutamente – dizia firmemente – ele é capaz de pegar e guardar chapéus e casacos perfeitamente. Segura objetos para mim. Sabe fazer muitas coisas.
– Mas por que não manda regulá-lo? – perguntou um amigo, certa ocasião.
– Oh, eu não teria coragem. Ele é ele mesmo. É muito amável, sabe? Afinal de contas, um cérebro positrônico é tão complexo que ninguém consegue saber onde está enguiçado. Se fosse ajustado para a perfeita normalidade, não haveria meios de recuperá-lo para a amabilidade que possui agora. E eu não quero desfazer-me dele.
– Mas, se ele está mal regulado – disse o amigo, olhando nervosamente para a sra. Lardner – não poderá ser perigoso?
– Nunca – a sra. Lardner deu uma risada. – Tenho-o há anos. É completamente inofensivo e é um amor.
Na verdade, ele tinha a mesma aparência de todos os outros robôs: liso, metálico, vagamente humano, mas inexpressivo.
Contudo, para a bondosa sra. Lardner, todos eram gente, pessoas, todos meigos, todos adoráveis. Ela era assim.
Como poderia cometer um crime?
A última pessoa que alguém esperaria que fosse assassinado seria John Semper Travis. Introvertido e de modos suaves, estava no mundo, mas não pertencia a ele. Possuía aquele peculiar talento para a Matemática que lhe tornava possível resolver mentalmente o complexo entrelaçamento de uma miríade de circuitos positrônicos cerebrais da mente de um robô.
Era o engenheiro-chefe da “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation”.
Mas era também um entusiasmado amador em “escultura-luz”. Havia escrito um livro sobre a matéria, no qual tentava mostrar que o tipo de Matemática que utilizava para resolver problemas de circuitos de cérebros positrônicos poderia ser modificado para servir de guia na produção da estética da “escultura-luz”.
No entanto, sua tentativa de colocar a teoria em prática foi um fracasso desanimador. As esculturas que produziu, segundo seus princípios matemáticos, eram pesadas, mecânicas e sem interesse.
Era a única razão de infelicidade em sua vida tranquila, introvertida e segura, no entanto era razão suficiente para sentir-se profundamente infeliz. Ele sabia que suas teorias eram corretas, se bem que não conseguisse pô-las em ação. Se não conseguisse produzir uma boa peça de “escultura-luz”…
Naturalmente, estava a par da “escultura-luz” da sra. Lardner. Ela era universalmente aplaudida como um gênio, muito embora Travis soubesse que era incapaz de compreender mesmo o mais simples aspecto da matemática dos robôs. Havia trocado correspondência com ela, mas ela recusava-se obstinadamente a explicar seus métodos, levando-o a perguntar-se se ela possuía mesmo algum. Não seria mera intuição? – mas mesmo a intuição pode ser reduzida à matemática. Finalmente, ele conseguiu receber um convite para uma das festas. Precisava avistar-se com ela a todo custo.
O sr. Travis chegou bem tarde. Havia feito uma última tentativa com uma peça de “escultura-luz”, que resultará num fracasso desalentador.
Cumprimentou a sra. Lardner com uma espécie de enigmático respeito e disse:
– Estranho aquele robô que pegou meu chapéu e casaco.
– Aquele é Max – disse a sra. Lardner.
– Está muito desregulado e é um modelo bem antigo. Por que razão não o manda para a fábrica?
– Oh, não – disse a sra. Lardner. – Seria demasiado trabalho.
– De modo nenhum, sra. Lardner – disse Travis. – A sra. ficaria surpresa com a simplicidade do trabalho. De vez que sou da U.S. Robots, tomei a liberdade de ajustá-lo pessoalmente. Não levou tempo e a sra. verá que ele está agora em perfeitas condições de funcionamento.
Uma estranha mudança ocorreu no rosto da sra. Lardner. A fúria estampou-se nele pela primeira vez em sua existência sossegada. Era como se os traços fisionômicos não soubessem qual posição tomar.
– Ajustou-o? – perguntou com voz aguda. – Mas foi ele que criou as minhas “esculturas-luz”. Foi o ajustamento defeituoso, o desajuste, que você jamais conseguirá restaurar… aquele…
Foi uma grande desgraça que ela estivesse mostrando sua coleção naquele momento e que a adaga com cabo cravejado com pedras preciosas, procedente do Camboja, estivesse sobre o tampo de mármore na mesa em frente dela.
A fisionomia de Travis também se distorceu:
– A sra. quer dizer que, se eu tivesse estudado o estranho cérebro positrônico dele, eu poderia ter aprendido…
Ela avançou com a arma com demasiada rapidez para alguém detê-la. Ele não tentou se esquivar ao golpe. Há quem diga que foi ao encontro dele – como se quisesse morrer.
Isaac Asimov, "Nós, Robôs"
O marido, William J. Lardner, morreu, como todos sabemos, devido aos efeitos da radiação da luz solar, após ter deliberadamente permanecido no espaço, a fim de que uma espaçonave de passageiros pudesse levar seu veículo espacial em segurança à Estação Espacial n°5.
Por isso a sra. Lardner havia recebido uma generosa pensão, a qual investira bem e com muita sabedoria. Ao fim da meia-idade, estava rica.
Sua casa era uma espécie de exposição permanente, um verdadeiro museu, contendo uma coleção de lindas jóias, pequena, porém de extremo bom-gosto. De uma dúzia de diferentes culturas havia conseguido relíquias de quase toda peça de artesanato concebível que pudessem ser engastadas de jóias para servir à aristocracia daquela mesma cultura. Possuía um dos primeiros relógios de pulso, adornado de pedras preciosas, fabricado na América, uma adaga incrustada de pedras preciosas, procedente do Camboja, um par de óculos, decorado com jóias, vindo da Itália, e assim por diante, interminavelmente.
Tudo estava aberto ao público. As peças de artesanato não estavam no seguro, e não havia nenhuma providência comum no sentido de garanti-las. Não havia a necessidade de nada convencional, porquanto a sra. Lardner mantinha um corpo de auxiliares, constituído de robôs-servos, a cada um dos quais podia se confiar a guarda de cada um dos objetos, tendo eles imperturbável concentração, irrepreensível honestidade e irrevogável eficiência.
Todos sabiam da existência dos robôs e não há registro de ter algum dia ocorrido alguma tentativa de furto.
E havia também, é claro, sua escultura-luz.
Como a sra. Lardner descobriu seu próprio gênio para a arte, nenhum convidado de suas pródigas reuniões conseguia adivinhar. Contudo, em cada ocasião, quando a sra. Lardner abria a casa para os convidados, uma nova sinfonia de luz percorria os aposentos de um lado ao outro; curvas e sólidos tridimensionais, numa mescla de cores, algumas puras, outras difusas, em surpreendentes efeitos cristalinos que mergulhavam no assombro cada convidado, e que se ajustavam por si mesmos, de forma a embelezar os cabelos macios e azulados e o rosto de contornos pouco definidos da sra. Lardner.
Era por causa da escultura-luz, mais do que por qualquer outra coisa, que os convidados apareciam. Nunca era a mesma duas vezes, e nunca deixava de explorar novos enfoques da arte.
Muitas pessoas que podiam comprar consolo-luz preparavam esculturas-luz por diversão, mas ninguém chegava nem de longe a igualar a perícia da sra. Lardner. Nem mesmo aqueles que se consideravam artistas profissionais.
Ela mesma era encantadoramente modesta a respeito disso – Não, não – dizia ela, quando alguém ressudava lirismo. – Eu não a denominaria “poesia na luz”. Isto é ser bondosa demais. No máximo, eu diria que se trata de meros “versos na luz” – e todos sorriam da sutil tirada de espírito.
Embora fosse solicitada frequentemente a fazê-lo, jamais criava “escultura-luz” em outras ocasiões, salvo em suas próprias festas.
– Seria comercialização – costumava dizer.
Contudo, não objetava à preparação de elaborados hologramas de suas esculturas, de forma que se tornassem permanentes e fossem reproduzidos em todos os museus do mundo. Tampouco nunca cobrou nada pelo uso que pudesse ser feito de suas “esculturas-luz”.
– Eu não teria coragem de cobrar um centavo – dizia ela, abrindo bem os braços. – É de graça para todos. Afinal de contas, eu mesma a uso durante pouco tempo.
Era verdade, ela nunca utilizava duas vezes a mesma “escultura-luz”.
Ela própria cooperava quando eram feitos os hologramas. Observando benignamente cada etapa, estava sempre pronta a mandar que os robôs ajudassem.
– Por favor, Courtney – quer ter a bondade de ajustar a escadinha?
Era o seu estilo. Sempre se dirigia aos robôs com a mais formal das cortesias.
Certa ocasião, há muitos anos, quase fora repreendida por um funcionário federal do “Bureau of Robots and Mechanical Men”:
– Não pode fazer isto – disse ele severamente. – Interfere na eficiência deles. São construídos para cumprir ordens e quanto mais claramente lhes der ordens, mais eficientes as cumprirão. Quando pede com elaborada polidez, compreendem com dificuldade que está sendo dada uma ordem. Reagem mais lentamente.
A sra. Lardner ergueu a aristocrática cabeça:
– Não exijo rapidez e eficiência – disse ela. – Peço boa vontade. Meus robôs me amam.
O funcionário poderia ter explicado que robôs não podem amar, mas murchou sob o olhar ofendido, ainda que meigo, dela.
Era fato conhecido de todos que a sra. Lardner jamais remeteu um robô à fábrica para ajustamentos. Seus cérebros positrônicos eram de enorme complexidade, e quando saem da fábrica, um em dez não está perfeitamente regulado. Às vezes o desajuste não se revela durante um período de tempo, mas sempre que um engano se manifesta, a “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation” efetua a correção gratuitamente.
A sra. Lardner sacudiu a cabeça:
– A partir do momento em que o robô está em minha casa – disse – e cumpre com seus deveres, as excentricidades secundárias devem ser toleradas. Não permitirei que seja maltratado.
Era a pior coisa possível tentar explicar que um robô era apenas uma máquina. Ela dizia inflexivamente:
– Nada que seja tão inteligente como um robô pode ser apenas uma máquina. Trato-os como gente.
E pronto!
Ela conservava até mesmo Max, embora fosse quase inútil. Mal se podia compreender o que se esperava dele. Contudo, a sra. Lardner insistia:
– Absolutamente – dizia firmemente – ele é capaz de pegar e guardar chapéus e casacos perfeitamente. Segura objetos para mim. Sabe fazer muitas coisas.
– Mas por que não manda regulá-lo? – perguntou um amigo, certa ocasião.
– Oh, eu não teria coragem. Ele é ele mesmo. É muito amável, sabe? Afinal de contas, um cérebro positrônico é tão complexo que ninguém consegue saber onde está enguiçado. Se fosse ajustado para a perfeita normalidade, não haveria meios de recuperá-lo para a amabilidade que possui agora. E eu não quero desfazer-me dele.
– Mas, se ele está mal regulado – disse o amigo, olhando nervosamente para a sra. Lardner – não poderá ser perigoso?
– Nunca – a sra. Lardner deu uma risada. – Tenho-o há anos. É completamente inofensivo e é um amor.
Na verdade, ele tinha a mesma aparência de todos os outros robôs: liso, metálico, vagamente humano, mas inexpressivo.
Contudo, para a bondosa sra. Lardner, todos eram gente, pessoas, todos meigos, todos adoráveis. Ela era assim.
Como poderia cometer um crime?
A última pessoa que alguém esperaria que fosse assassinado seria John Semper Travis. Introvertido e de modos suaves, estava no mundo, mas não pertencia a ele. Possuía aquele peculiar talento para a Matemática que lhe tornava possível resolver mentalmente o complexo entrelaçamento de uma miríade de circuitos positrônicos cerebrais da mente de um robô.
Era o engenheiro-chefe da “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation”.
Mas era também um entusiasmado amador em “escultura-luz”. Havia escrito um livro sobre a matéria, no qual tentava mostrar que o tipo de Matemática que utilizava para resolver problemas de circuitos de cérebros positrônicos poderia ser modificado para servir de guia na produção da estética da “escultura-luz”.
No entanto, sua tentativa de colocar a teoria em prática foi um fracasso desanimador. As esculturas que produziu, segundo seus princípios matemáticos, eram pesadas, mecânicas e sem interesse.
Era a única razão de infelicidade em sua vida tranquila, introvertida e segura, no entanto era razão suficiente para sentir-se profundamente infeliz. Ele sabia que suas teorias eram corretas, se bem que não conseguisse pô-las em ação. Se não conseguisse produzir uma boa peça de “escultura-luz”…
Naturalmente, estava a par da “escultura-luz” da sra. Lardner. Ela era universalmente aplaudida como um gênio, muito embora Travis soubesse que era incapaz de compreender mesmo o mais simples aspecto da matemática dos robôs. Havia trocado correspondência com ela, mas ela recusava-se obstinadamente a explicar seus métodos, levando-o a perguntar-se se ela possuía mesmo algum. Não seria mera intuição? – mas mesmo a intuição pode ser reduzida à matemática. Finalmente, ele conseguiu receber um convite para uma das festas. Precisava avistar-se com ela a todo custo.
O sr. Travis chegou bem tarde. Havia feito uma última tentativa com uma peça de “escultura-luz”, que resultará num fracasso desalentador.
Cumprimentou a sra. Lardner com uma espécie de enigmático respeito e disse:
– Estranho aquele robô que pegou meu chapéu e casaco.
– Aquele é Max – disse a sra. Lardner.
– Está muito desregulado e é um modelo bem antigo. Por que razão não o manda para a fábrica?
– Oh, não – disse a sra. Lardner. – Seria demasiado trabalho.
– De modo nenhum, sra. Lardner – disse Travis. – A sra. ficaria surpresa com a simplicidade do trabalho. De vez que sou da U.S. Robots, tomei a liberdade de ajustá-lo pessoalmente. Não levou tempo e a sra. verá que ele está agora em perfeitas condições de funcionamento.
Uma estranha mudança ocorreu no rosto da sra. Lardner. A fúria estampou-se nele pela primeira vez em sua existência sossegada. Era como se os traços fisionômicos não soubessem qual posição tomar.
– Ajustou-o? – perguntou com voz aguda. – Mas foi ele que criou as minhas “esculturas-luz”. Foi o ajustamento defeituoso, o desajuste, que você jamais conseguirá restaurar… aquele…
Foi uma grande desgraça que ela estivesse mostrando sua coleção naquele momento e que a adaga com cabo cravejado com pedras preciosas, procedente do Camboja, estivesse sobre o tampo de mármore na mesa em frente dela.
A fisionomia de Travis também se distorceu:
– A sra. quer dizer que, se eu tivesse estudado o estranho cérebro positrônico dele, eu poderia ter aprendido…
Ela avançou com a arma com demasiada rapidez para alguém detê-la. Ele não tentou se esquivar ao golpe. Há quem diga que foi ao encontro dele – como se quisesse morrer.
Isaac Asimov, "Nós, Robôs"
Viver
Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?
Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?
O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?
Carlos Drummond de Andrade
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?
Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?
O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?
Carlos Drummond de Andrade
Mudos e isolados
Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra- pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.
Franz Kafka, "Conversas com Kafka"
Franz Kafka, "Conversas com Kafka"
Aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna?
— A senhora está vendo aquela janela, dona Fausta, lá na Media Luna, onde a luz sempre ficava acesa?
— Não, Angeles. Não vejo nenhuma janela.
— É que justinho agora ficou escura. Será que aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna? Faz mais de três anos que aquela janela está alumbrada, noite a noite. Dizem, quem esteve lá, que é o quarto onde habita a mulher de Pedro Páramo, uma coitadinha louca que tem medo do escuro. E olha só: agora mesmo, a luz apagou. Não será um acontecimento ruim?
— Talvez tenha morrido. Estava muito doente. Dizem que já nem reconhecia as pessoas, e dizem que falava sozinha. Bom castigo deve ter suportado Pedro Páramo casando-se com essa mulher.
— Coitado do senhor dom Pedro.
— Não, Fausta. Ele merece. Isso e muito mais.
— Olha, a janela continua escura.
— Deixa essa janela em paz e vamos dormir, que é noite alta para que nós duas, esse par de velhas, andemos soltas pela rua.
— Escuta, dona Fausta, não parece que o senhor ali é o doutor Valência?
— Parece mesmo, mas ando tão cega que não conseguiria reconhecê-lo.
— Não se esqueça que ele veste sempre calças brancas e paletó preto. Eu aposto que está acontecendo alguma coisa ruim na Media Luna. E olha só como ele vai rijo, como se a urgência o empurrasse.
— Pode ser de verdade uma coisa ruim. Sinto vontade de voltar e dizer ao padre Rentería que se achegue por lá, vai que essa infeliz morre sem se confessar.
— Nem pense nisso, Angeles. Nem Deus queira. Depois de tudo que ela sofreu neste mundo, ninguém desejaria que se fosse sem os auxílios espirituais e continuasse a penar na outra vida. Embora os bruxos digam que nos loucos a confissão não vale, pois mesmo quando têm a alma impura são inocentes. Isso só Deus sabe... Veja só, já tornaram a acender a luz na janela. Oxalá tudo dê certo. Imagine só em aonde iria dar o trabalho que tivemos todos esses dias para arrumar a igreja para que pareça bonita agora no Natal, se alguém morrer naquela casa. Com o poder que tem, dom Pedro aguaria a nossa festa num triz.
— A senhora sempre pensa o pior, dona Fausta. Era melhor fazer como eu: encomende tudo à Providência Divina. Reze uma ave-maria à Virgem e tenho certeza que nada vai acontecer de hoje para amanhã. Depois, que seja feita a vontade de Deus; afinal de contas, ela não deve estar tão contente assim nesta vida.
— Acredite em mim, Angeles, a senhora sempre me repõe o ânimo. Vou dormir levando ao sono esses pensamentos. Dizem por aí que os pensamentos dos sonhos vão direto para o céu. Tomara que os meus alcancem esta altura. Amanhã nos vemos.
— Até amanhã, Fausta.
As duas velhas, porta a porta, se meteram em suas casas. O silêncio voltou a fechar a noite sobre o povoado.
Juan Rulfo, "Pedro Páramo"
— Não, Angeles. Não vejo nenhuma janela.
— É que justinho agora ficou escura. Será que aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna? Faz mais de três anos que aquela janela está alumbrada, noite a noite. Dizem, quem esteve lá, que é o quarto onde habita a mulher de Pedro Páramo, uma coitadinha louca que tem medo do escuro. E olha só: agora mesmo, a luz apagou. Não será um acontecimento ruim?
— Talvez tenha morrido. Estava muito doente. Dizem que já nem reconhecia as pessoas, e dizem que falava sozinha. Bom castigo deve ter suportado Pedro Páramo casando-se com essa mulher.
— Coitado do senhor dom Pedro.
— Não, Fausta. Ele merece. Isso e muito mais.
— Olha, a janela continua escura.
— Deixa essa janela em paz e vamos dormir, que é noite alta para que nós duas, esse par de velhas, andemos soltas pela rua.
E as duas mulheres, que saíam da igreja muito perto das onze da noite, perderam-se debaixo dos arcos do portal, olhando como a sombra de um homem cruzava a praça na direção da Media Luna.
— Escuta, dona Fausta, não parece que o senhor ali é o doutor Valência?
— Parece mesmo, mas ando tão cega que não conseguiria reconhecê-lo.
— Não se esqueça que ele veste sempre calças brancas e paletó preto. Eu aposto que está acontecendo alguma coisa ruim na Media Luna. E olha só como ele vai rijo, como se a urgência o empurrasse.
— Pode ser de verdade uma coisa ruim. Sinto vontade de voltar e dizer ao padre Rentería que se achegue por lá, vai que essa infeliz morre sem se confessar.
— Nem pense nisso, Angeles. Nem Deus queira. Depois de tudo que ela sofreu neste mundo, ninguém desejaria que se fosse sem os auxílios espirituais e continuasse a penar na outra vida. Embora os bruxos digam que nos loucos a confissão não vale, pois mesmo quando têm a alma impura são inocentes. Isso só Deus sabe... Veja só, já tornaram a acender a luz na janela. Oxalá tudo dê certo. Imagine só em aonde iria dar o trabalho que tivemos todos esses dias para arrumar a igreja para que pareça bonita agora no Natal, se alguém morrer naquela casa. Com o poder que tem, dom Pedro aguaria a nossa festa num triz.
— A senhora sempre pensa o pior, dona Fausta. Era melhor fazer como eu: encomende tudo à Providência Divina. Reze uma ave-maria à Virgem e tenho certeza que nada vai acontecer de hoje para amanhã. Depois, que seja feita a vontade de Deus; afinal de contas, ela não deve estar tão contente assim nesta vida.
— Acredite em mim, Angeles, a senhora sempre me repõe o ânimo. Vou dormir levando ao sono esses pensamentos. Dizem por aí que os pensamentos dos sonhos vão direto para o céu. Tomara que os meus alcancem esta altura. Amanhã nos vemos.
— Até amanhã, Fausta.
As duas velhas, porta a porta, se meteram em suas casas. O silêncio voltou a fechar a noite sobre o povoado.
Juan Rulfo, "Pedro Páramo"
quarta-feira, setembro 30
O mito fundador
Sento-me diante do computador, abro a IA e leio na tela:
— O que vamos criar hoje?
— Eu tenho algumas ideias para uma história, mas não tenho certeza se funcionam.
— Claro! Escreva aqui suas ideias, que eu vou analisá-las do ponto de vista dos personagens, conflito, ritmo e coerência interna.
— Um homem sobrevive a uma catástrofe natural, que pode ser uma enchente, um terremoto ou um tsunami. Outra hipótese: ele sobrevive a um atentado individual, como dez tiros à queima-roupa. Ele se vê como objeto de um milagre, escolhido para ser o mensageiro de uma revelação. Depois, sente o impulso de transmitir essa revelação ao mundo. Aqueles que o seguirem serão recompensados.
— Acho que aqui há uma história muito forte. Mas eu analisaria com cuidado as duas possibilidades que você mencionou. Há uma diferença importante entre a catástrofe natural e o atentado. A primeira é um acontecimento coletivo, e a sobrevivência do personagem pode ser interpretada como acaso ou sorte. A segunda é um acontecimento privado e intencional. Se, contra toda expectativa, ele sobrevive, isso pode tornar mais plausível que o personagem atribua um significado pessoal à sobrevivência.
— E se o personagem sobrevivesse tanto ao terremoto quanto aos tiros?
— Aqui eu teria alguma cautela. Talvez seja mais verossímil escolher uma das duas situações. As duas tragédias poderiam parecer apenas dois milagres sucessivos, e isso reduziria sua força.
— E se ele interpretasse a sobrevivência à primeira tragédia como sorte, mas, ao escapar da segunda, começasse a se sentir um predestinado?
— Isso poderia funcionar muito bem. Na primeira vez, o personagem atribui a sobrevivência ao acaso, mas, na segunda, o que era apenas uma coincidência passa a ser interpretado como indício de uma intervenção que ele não havia compreendido. As tragédias passam a funcionar como etapas da formação de uma crença.
— Temos que decidir qual das duas acontece primeiro.
— Se a catástrofe natural vier primeiro, a progressão será: sobrevivência coletiva → sorte → sobrevivência individual → predestinação. Se o atentado vier primeiro: sobrevivência individual → intervenção divina → sobrevivência coletiva → confirmação progressiva da fé. Eu tenderia a escolher a primeira se a intenção é mostrar como um homem comum se transforma gradualmente em alguém que acredita ser predestinado.
— Temos então um mito fundador.
— Sim, há aqui características de um mito fundador. Você está pensando em criar uma religião?
— Uma seita já estaria bem.
— Nesse caso, devemos pensar não apenas no mito, mas em quem você quer que acredite nele e no que essa crença promete.
— Acreditarão nele os homens de fé a quem ele dirigirá sua palavra.
— Então já temos o público-alvo.
— Num segundo momento, a revelação se propaga.
— Defesa da marca.
— Quanto àquilo que a crença promete: que tal imortalidade?
— Imortalidade é competitivo, mas está saturado. Teria dificuldade de diferenciação.
— E verdade?
— Verdade é uma proposta difícil de posicionar. É um conceito amplo e disputado. Muitos já afirmaram possuir a verdade.
— E que tal a vida eterna, só que não depois da morte? A vida eterna aqui mesmo.
— Esse é um posicionamento interessante. Desenvolva.
— O fiel não morre nunca.
— Mas e quando as pessoas começarem a morrer?
— Quem morrer é porque não era fiel de verdade.
— Isso resolve o problema da promessa. A morte passa a ser interpretada como prova de que a pessoa não cumpriu as condições.
— Isso é fantástico! E, ao mesmo tempo, verossímil.
— Esse contraste tem se mostrado muito eficaz.
— Acho que também deve haver lugares sagrados, que serão a casa em que ele se encontrava quando a terra começou a tremer e o bar onde bebia quando lhe deram os tiros. E, nas datas em que os dois episódios aconteceram, os fiéis farão peregrinações.
— Isso ajudaria a materializar o mito. As peregrinações funcionariam como rituais de coesão do grupo.
— Então já temos uma seita?
—Temos algo mais próximo de um modelo de negócio. Público-alvo: pessoas aterrorizadas pela morte e pelas catástrofes. Promessa: você não morrerá. Posicionamento: vida eterna aqui e agora. Oferta: adesão à nova seita. Fidelização: permanecer fiel para continuar vivo.
— Agora só falta uma coisa.
— O quê?
— Como eu vou monetizar isso?
— Quer que eu ajude a transformar essa ideia num modelo sustentável?
— O que vamos criar hoje?
— Eu tenho algumas ideias para uma história, mas não tenho certeza se funcionam.
— Claro! Escreva aqui suas ideias, que eu vou analisá-las do ponto de vista dos personagens, conflito, ritmo e coerência interna.
— Um homem sobrevive a uma catástrofe natural, que pode ser uma enchente, um terremoto ou um tsunami. Outra hipótese: ele sobrevive a um atentado individual, como dez tiros à queima-roupa. Ele se vê como objeto de um milagre, escolhido para ser o mensageiro de uma revelação. Depois, sente o impulso de transmitir essa revelação ao mundo. Aqueles que o seguirem serão recompensados.
— Acho que aqui há uma história muito forte. Mas eu analisaria com cuidado as duas possibilidades que você mencionou. Há uma diferença importante entre a catástrofe natural e o atentado. A primeira é um acontecimento coletivo, e a sobrevivência do personagem pode ser interpretada como acaso ou sorte. A segunda é um acontecimento privado e intencional. Se, contra toda expectativa, ele sobrevive, isso pode tornar mais plausível que o personagem atribua um significado pessoal à sobrevivência.
— E se o personagem sobrevivesse tanto ao terremoto quanto aos tiros?
— Aqui eu teria alguma cautela. Talvez seja mais verossímil escolher uma das duas situações. As duas tragédias poderiam parecer apenas dois milagres sucessivos, e isso reduziria sua força.
— E se ele interpretasse a sobrevivência à primeira tragédia como sorte, mas, ao escapar da segunda, começasse a se sentir um predestinado?
— Isso poderia funcionar muito bem. Na primeira vez, o personagem atribui a sobrevivência ao acaso, mas, na segunda, o que era apenas uma coincidência passa a ser interpretado como indício de uma intervenção que ele não havia compreendido. As tragédias passam a funcionar como etapas da formação de uma crença.
— Temos que decidir qual das duas acontece primeiro.
— Se a catástrofe natural vier primeiro, a progressão será: sobrevivência coletiva → sorte → sobrevivência individual → predestinação. Se o atentado vier primeiro: sobrevivência individual → intervenção divina → sobrevivência coletiva → confirmação progressiva da fé. Eu tenderia a escolher a primeira se a intenção é mostrar como um homem comum se transforma gradualmente em alguém que acredita ser predestinado.
— Temos então um mito fundador.
— Sim, há aqui características de um mito fundador. Você está pensando em criar uma religião?
— Uma seita já estaria bem.
— Nesse caso, devemos pensar não apenas no mito, mas em quem você quer que acredite nele e no que essa crença promete.
— Acreditarão nele os homens de fé a quem ele dirigirá sua palavra.
— Então já temos o público-alvo.
— Num segundo momento, a revelação se propaga.
— Defesa da marca.
— Quanto àquilo que a crença promete: que tal imortalidade?
— Imortalidade é competitivo, mas está saturado. Teria dificuldade de diferenciação.
— E verdade?
— Verdade é uma proposta difícil de posicionar. É um conceito amplo e disputado. Muitos já afirmaram possuir a verdade.
— E que tal a vida eterna, só que não depois da morte? A vida eterna aqui mesmo.
— Esse é um posicionamento interessante. Desenvolva.
— O fiel não morre nunca.
— Mas e quando as pessoas começarem a morrer?
— Quem morrer é porque não era fiel de verdade.
— Isso resolve o problema da promessa. A morte passa a ser interpretada como prova de que a pessoa não cumpriu as condições.
— Isso é fantástico! E, ao mesmo tempo, verossímil.
— Esse contraste tem se mostrado muito eficaz.
— Acho que também deve haver lugares sagrados, que serão a casa em que ele se encontrava quando a terra começou a tremer e o bar onde bebia quando lhe deram os tiros. E, nas datas em que os dois episódios aconteceram, os fiéis farão peregrinações.
— Isso ajudaria a materializar o mito. As peregrinações funcionariam como rituais de coesão do grupo.
— Então já temos uma seita?
—Temos algo mais próximo de um modelo de negócio. Público-alvo: pessoas aterrorizadas pela morte e pelas catástrofes. Promessa: você não morrerá. Posicionamento: vida eterna aqui e agora. Oferta: adesão à nova seita. Fidelização: permanecer fiel para continuar vivo.
— Agora só falta uma coisa.
— O quê?
— Como eu vou monetizar isso?
— Quer que eu ajude a transformar essa ideia num modelo sustentável?
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