sexta-feira, maio 15

Porta da liberdade

 


A lua dos fodidos

No céu azul alto, muito distante, a pequena nuvem solitária ganhou forma de algodão-doce. Talvez fosse a fome. Voltou no tempo e, feliz, na cidadezinha do interior, escondeu-se atrás da guloseima. Enorme, branca, a haste de madeira fina perdida entre seus dedos de criança. O carrossel girando sonhos, cavalinhos subindo e descendo, parque de diversões. Houve um tempo em que sabia rir.

Um vento gelado espetou-lhe as orelhas, desceu pelo pescoço até o peito, arrepiou-lhe o corpo encolhido. Outono, maio, a rua deserta no final da tarde parecia vazia demais. Ou era o estômago roncando? Ergueu a lapela do paletó puído, tentou enfiar o queixo sob a gola da camiseta; o bafo quente da própria respiração deu-lhe algum conforto. Que frio! A noite seria pior. Quem disse que o inferno é quente?

Quando o cheiro de pizza atravessou a calçada, apalpou os bolsos vazios. Talvez mais tarde conseguisse alguma sobra. Apesar da carestia. Margherita. E ânimo para adiantar o pedido, deixar acertado com o porteiro? Simpático até, o cearense. Engoliu em seco. Ar sem gosto.

Começou a tremer. Batendo os dentes, viu de repente o pesadelo do irmão. Embora miseravelmente triste, sorriu. A caveira dançando, abrindo e fechando a boca, o ruído estridente dos maxilares se chocando. Calma, Zé, fantasma não existe! Não naquele tempo. Apenas mais tarde eles o assombrariam. Tentou controlar o sacudir involuntário. Mas o frio era tanto… Ainda não tinha reparado na dor daquele balanço das carnes. Poucas, magras, feridas. E tremeu tudo o que podia tremer. Tanto assim que se desapercebeu do sacolejar, acostumou-se.

A sonolência chegou meio fora de hora. Junto com a lua. Não a dos apaixonados. Aquela em que recebeu o primeiro beijo na boca, na pracinha. Margarida, namorada. Algodão-doce, carrossel, Margarida. O pensamento insistia em carregar seu coração para trás. Encolhido, resolveu deitar-se. Quase se sentiu bem. Torpor, um cansaço tão grande… Tentou cantar, mas percebeu a língua enrolando, as palavras tropeçando, escorregando na saliva. Apalpou do lado e encontrou a garrafa. Puxou a rolha e deu um gole. O fogo desceu, aquecendo as entranhas. Se tivesse um cobertor, certamente o poria de lado, calor bom. Acomodou-se melhor e pareceu-lhe estar em Riacho Velho. Uma charrete passou. Era o Edvaldo e seu amigo Tordilho. Certamente voltavam para a fazenda. Dona Ermelinda, professora, escurecendo a calçada. Diacho de velha ruim! Por detrás dela, a parede caiada do cemitério pichada: Aqui vivem os mortos! Margarida na janela. Saudade.

Aos poucos, foi amolecendo, quieto, respirando pouco, lentamente, quase nada. Ainda se lembrou dos seis graus anunciados. Será? Tão frio… Devia ser menos. Cidade grande, enorme, monstra. A parede dura ofendeu-lhe a nuca. Mas não mudou de posição. Fechou os olhos assim, molambo. Pano velho e sujo. Amolengado. E esqueceu-se de viver.

O padre então chorou. Pobrezinhos dos viventes da rua! Com os olhos rasos, olhou para cima e viu a mesma lua. Enorme. A lua dos fodidos.

Off Price

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado...
Thiago de Mello

Os desastres de Sofia

Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão, e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o que sabíamos dele.

O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho:

— Cale-se ou expulso a senhora da sala.

Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto do ódio daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava. Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia. Eu o espicaçava, e ao conseguir exacerbá-lo sentia na boca, em glória de martírio, a acidez insuportável da begônia quando é esmagada entre os dentes; e roía as unhas, exultante. De manhã, ao atravessar os portões da escola, pura como ia com meu café com leite e a cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homem que me fizera devanear por um abismal minuto antes de dormir. Em superfície de tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos séculos de escuríssima doçura. De manhã — como se eu não tivesse contado com a existência real daquele que desencadeara meus negros sonhos de amor — de manhã, diante do homem grande com seu paletó curto, em choque eu era jogada na vergonha, na perplexidade e na assustadora esperança. A esperança era o meu pecado maior.

Cada dia renovava-se a mesquinha luta que eu encetara pela salvação daquele homem. Eu queria o seu bem, e em resposta ele me odiava. Contundida, eu me tornara o seu demônio e tormento, símbolo do inferno que devia ser para ele ensinar aquela turma risonha de desinteressados. Tornara-se um prazer já terrível o de não deixá-lo em paz. O jogo, como sempre, me fascinava. Sem saber que eu obedecia a velhas tradições, mas com uma sabedoria com que os ruins já nascem — aqueles ruins que roem as unhas de espanto —, sem saber que obedecia a uma das coisas que mais acontecem no mundo, eu estava sendo a prostituta e ele o santo. Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar — uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer desabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras. Assim, pois, não falarei mais no sorvedouro que havia em mim enquanto eu devaneava antes de adormecer. Senão eu mesma terminarei pensando que era apenas essa macia voragem o que me impelia para ele, esquecendo minha desesperada abnegação. Eu me tornara a sua sedutora, dever que ninguém me impusera. Era de se lamentar que tivesse caído em minhas mãos erradas a tarefa de salvá-lo pela tentação, pois de todos os adultos e crianças daquele tempo eu era provavelmente a menos indicada. "Essa não é flor que se cheire", como dizia nossa empregada. Mas era como se, sozinha com um alpinista paralisado pelo terror do precipício, eu, por mais inábil que fosse, não pudesse senão tentar ajudá-lo a descer. O professor tivera a falta de sorte de ter sido logo a mais imprudente quem ficara sozinha com ele nos seus ermos. Por mais arriscado que fosse o meu lado, eu era obrigada a arrastá-lo para o meu lado, pois o dele era mortal. Era o que eu fazia, como uma criança importuna puxa um grande pela aba do paletó. Ele não olhava para trás, não perguntava o que eu queria, e livrava-se de mim com um safanão. Eu continuava a puxá-lo pelo paletó, meu único instrumento era a insistência. E disso tudo ele só percebia que eu lhe rasgava os bolsos. É verdade que nem eu mesma sabia ao certo o que fazia, minha vida com o professor era invisível. Mas eu sentia que meu papel era ruim e perigoso: impelia-me a voracidade por uma vida real que tardava, e pior que inábil, eu também tinha gosto em lhe rasgar os bolsos. Só Deus perdoaria o que eu era porque só Ele sabia do que me fizera e para o quê. Eu me deixava, pois, ser matéria d'Ele. Ser matéria de Deus era a minha única bondade. E a fonte de um nascente misticismo. Não misticismo por Ele, mas pela matéria d'Ele, mas pela vida crua e cheia de prazeres: eu era uma adoradora. Aceitava a vastidão do que eu não conhecia e a ela me confiava toda, com segredos de confessionário. Seria para as escuridões da ignorância que eu seduzia o professor? e com o ardor de uma freira na cela. Freira alegre e monstruosa, ai de mim. E nem disso eu poderia me vangloriar: na classe todos nós éramos igualmente monstruosos e suaves, ávida matéria de Deus.

Clarice Lispector, "A Legião Estrangeira"

O bolo

Eu estava viajando. A paisagem em que me encontrava era de uma grandeza e de uma nobreza irresistíveis. Sem dúvida nesse momento algo disso passou pela minha alma. Meus pensamentos volteavam com leveza igual à da atmosfera; as paixões usuais, tais como ódio e amor profano, pareciam-me agora tão afastadas quanto as nuvens que desfilavam no fundo dos abismos sob meus pés; minha alma parecia-me tão vasta e tão pura quanto a cúpula do céu pelo qual eu estava envolvido; a lembrança das coisas terrestres só chegava a meu coração enfraquecida e diminuída, como o som da campainha dos animais imperceptíveis que passavam longe, bem longe, na vertente de outra montanha. No pequeno lago imóvel, negro por sua imensa profundidade, passava às vezes a sombra de uma nuvem, como o reflexo do manto de um gigante aéreo voando pelo céu. E me lembro de que essa sensação solene e rara, causada por um grande movimento perfeitamente silencioso, me enchia de uma alegria misturada com medo. Em suma, eu me sentia, graças à entusiasmante beleza que me circundava, em perfeita paz comigo mesmo e com o universo; creio até que, em minha perfeita beatitude e em meu total esquecimento de todo o mal terrestre, acabei por não mais achar tão ridículos os jornais que pretendem que o homem nasceu bom; como então a matéria incurável renovava suas exigências, pensei em reparar o cansaço e aliviar o apetite causados por uma subida tão longa. Tirei do bolso um grande pedaço de pão, um copo de couro e um frasco de certo elixir que os farmacêuticos nessa época vendiam aos turistas para o misturarem, quando fosse o caso, com água de neve.

Cortava tranquilamente meu pão, quando um ruído muito leve fez-me erguer os olhos. Diante de mim estava um pequeno ser esfarrapado, negro, desgrenhado, cujos olhos encovados, ariscos e como que suplicantes, devoravam o pedaço de pão. Ouvi-o suspirar, com voz baixa e rouca, a palavra: bolo! Não pude deixar de rir ao ouvir a denominação com que queria honrar meu pão quase branco e cortei para ele uma bela fatia, que lhe ofereci. Lentamente ele se aproximou, sem que os olhos abandonassem o objeto de sua cobiça; depois, agarrando com a mão o pedaço, recuou abruptamente, como se tivesse medo de que meu oferecimento não fosse sincero ou de que eu já estivesse arrependido.

Todavia, no mesmo instante ele foi derrubado por outro pequeno selvagem, saído não sei de onde e tão perfeitamente parecido com o primeiro que seria possível tomá-lo por seu irmão gêmeo. Juntos rolaram pelo chão, disputando a preciosa presa, pois, sem dúvida, nenhum deles desejava sacrificar a metade para o irmão. O primeiro, exasperado, agarrou o segundo pelos cabelos; este pegou-lhe a orelha com os dentes e cuspiu um pequeno pedaço sangrento com um esplêndido palavrão em dialeto. O legítimo proprietário do bolo tentou enfiar suas pequenas garras nos olhos do usurpador; este, por sua vez, aplicou todas as forças para estrangular o adversário com uma das mãos, enquanto com a outra tentava enfiar em seu bolso o prêmio do combate. No entanto, reanimado pelo desespero, o vencido ergueu-se e fez com que o vencedor rolasse por terra com uma cabeçada no estômago. Para que descrever uma luta horrível que durou na verdade mais tempo que suas forças infantis pareciam prometer? O bolo viajava de mão em mão e mudava de bolso a todo momento; mas, infelizmente, mudava também de volume; e quando por fim, extenuados, ofegantes, ensanguentados, pararam pela impossibilidade de continuar, não havia mais, para dizer a verdade, nenhum objeto de batalha; o pedaço de pão tinha desaparecido, e estava desfeito em migalhas semelhantes aos grãos de areia com os quais estava misturado.

Esse espetáculo havia toldado para mim a paisagem, e a calma alegria em que minha alma se regozijava, antes de ter visto esses pequenos homens, tinha desaparecido por completo; fiquei bastante tempo triste com isso, repetindo-me constantemente: “Há, portanto, um país esplêndido onde pão se chama bolo, iguaria tão rara que basta para engendrar uma guerra perfeitamente fratricida!”.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"

quinta-feira, maio 14

Bandeira de todos

 


Além do possível

Coisa fácil é julgar os outros e difícil é compreendê-los. Já afirmei, aqui, que quem admite a complexidade da realidade não pode ser radical nem sectário, pela simples razão de que, se os problemas são complexos, não serão resolvidos de uma penada. Alias, toda vez que se tenta fazê-lo, o desastre é inevitável. Mas a tendência mais comum é acreditar nas soluções milagrosas, mesmo porque aceitar que as coisas são complicadas custa muito, a não ser se se trata de nós mesmos. Claro, quando alguém nos acusa de ter agido mal, nossa resposta é sempre que não deu pra fazer melhor. “As coisas são complicadas”, a gente argumenta. E são mesmo, mas para os outros também.

Essas considerações vêm a propósito de uma conversa que tive com uma amiga muito querida, que vive sonhando. Devo esclarecer que nasci sob o signo de Virgo e sou, portanto, segundo a discutível astrologia, um tipo da terra, que vive pesando e medindo tudo, sem tirar os pés do chão. Tanto isso é verdade que muito raramente escrevo poesia, uma vez que a poesia nos obriga a voar. Essa é a razão por que, quando me perguntam se eu sou o poeta Ferreira Gullar, eu respondo: “Às vezes”. Dá então para entender a dificuldade que tenho de discutir certas coisas com uma pessoa do signo de Balança, por exemplo. Essa minha amiga é de Balança, isto é, não só hesita, sobe e desce, como flutua o tempo todo. E por isso, apesar do carinho que nos une, frequentemente nos desentendemos.

- Mas você não vê que isso é loucura, menina?

- Loucura? Só porque desejo ir pro deserto de Atacama catar múmia?

- Não sabia que você virou arqueóloga!

- E precisa ser arqueóloga pra ir catar múmia em Atacama?

- Precisa, sim. Mesmo porque aquilo deve ser um campo arqueológico, supervisionado pelo governo chileno. Não pode qualquer pessoa chegar lá e começar a cavucar.

- Você é um chato, ouviu! É por isso que não suporto os virginianos!

- Você não suporta é a realidade, meu amor!

Pedi a conta e saímos amuados do restaurante. Ao chegar em casa, refleti.

- Que diabo tenho eu que ficar botando areia no sonho dos outros?

E, como bom virginiano, aleguei que só falara aquilo temendo que ela entrasse numa fria, se tocasse para o deserto de Atacama e desse com os burros n’água.

No dia seguinte, liguei para ela e me desculpei, expliquei-lhe que minha intenção era apenas alertá-la.

- E você pensa que eu sou maluca? Acha que eu ia mesmo me tocar para Atacama semana que vem?

- Temia que...

- O que você não entende é que tenho necessidade de sonhar, de imaginar coisas maravilhosas. Se as levarei à prática ou não, é secundário. Às vezes levo, como a viagem que fiz ao Himalaia e a outra, a Machu Picchu. Sei muito bem que fazer é mais difícil que sonhar, e por isso mesmo é que eu sonho.

Caí em mim. Lembrei-me de uma coisa que sei e de que às vezes me esqueço: a vida não é só o possível. Sem o impossível, não se vai muito além da próxima esquina.

Ferreira Gullar, "Ferreira Gullar: crônicas para jovens"

Os três astronautas

Era uma vez a Terra. E era uma vez Marte.

Estavam muito distantes um do outro, no meio do céu, e em volta havia milhões de planetas e de galáxias.

Os homens que moravam na Terra queriam alcançar Marte e os outros planetas: mas estavam tão longe!

De qualquer forma eles fizeram o possível. Primeiro lançaram satélites que giravam em volta da Terra durante dois dias e depois voltavam.

Depois lançaram foguetes que também giravam algumas vezes em volta da Terra, mas em vez de voltar, escapavam da atração terrestre e se perdiam no espaço infinito.


Primeiro colocaram cães nos foguetes: mas os cães não sabiam falar; e pelo rádio só transmitiam “au-au”. E os homens não entendiam o que eles tinham visto e aonde haviam chegado.

No fim encontraram homens corajosos que queriam ser astronautas.

O astronauta se chamava assim porque partia para explorar o espaço infinito, com os astros, os planetas, as galáxias e tudo aquilo que existe em volta.

Os astronautas partiam sem saber se iriam voltar. Queriam conquistar as estrelas, para que um dia todos pudessem viajar de um planeta para o outro, porque a Terra tinha ficado muito apertada, e os homens aumentavam dia a dia.

Uma bela manhã partiram da Terra, de três pontos diferentes, três foguetes. No primeiro tinha um americano que assobiava alegremente uma musiquinha de jazz. No segundo tinha um russo que cantava com voz profunda “Volga, Volga”. No terceiro tinha um chinês que cantava uma bela canção, que aos outros dois parecia desafinada.

Cada um dos três queria ser o primeiro a chegar a Marte, para mostrar que era o melhor. Na verdade o americano não gostava do russo, o russo não gostava do americano, e o chinês desconfiava dos outros dois. E isso porque o americano, para dizer bom dia, dizia: “how do you do” e o russo dizia: “fig.”. Por isso não se entendiam e se achavam diferentes.

Mas como todos os três eram muito bons, chegaram a Marte quase ao mesmo tempo. Desceram das astronaves, de capacete e macacão espacial... e encontraram uma paisagem maravilhosa e inquietante: o solo era sulcado por longos canais cheios de uma água verde-esmeralda. Havia estranhas árvores azuis com pássaros jamais vistos, com plumas de cor estranhíssima. No horizonte se viam montanhas vermelhas que mandavam estranhos reflexos.

Os astronautas olhavam-se uns aos outros, e cada um ficava no seu canto, um desconfiado do outro.

Depois chegou a noite. Havia em volta um estranho silêncio, e a Terra brilhava no céu como se fosse uma estrela longínqua.

Os astronautas se sentiam tristes e perdidos, e o americano, na escuridão, chamou a mãe. Disse “Mommy...” E o russo disse: “Mama”. E o chinês disse: “MaMa”.

Mas logo entenderam que estavam falando a mesma coisa e tinham os mesmos sentimentos. Assim um sorriu para o outro, se aproximaram, acenderam juntos uma bela fogueira, e cada um cantou as músicas da sua terra. Então criaram coragem e, esperando a manhã, aprenderam a se conhecer.

Enfim chegou a manhã: fazia muito frio. E de repente, detrás de uma moita saiu um marciano. Era mesmo horrível de se ver! Todo verde, com duas antenas no lugar das orelhas, uma tromba e seis braços.

O marciano olhou-os e disse: “GRRRR!” Que na língua dele queria dizer: “Minha nossa, quem são aqueles seres horríveis?!”

Mas os terrestres não o entenderam e acharam que aquilo fosse um rugido de guerra. Era tão diferente deles que não conseguiam entendê-lo nem amá-lo. Subitamente se sentiram de acordo e se uniram contra ele. Frente àquele monstro, suas pequenas diferenças sumiam. Que importância tinha se falavam línguas diferentes? Compreenderam que eram todos os três seres humanos. O outro não. Era muito feio, e os terrestres pensavam que quem é feio é também mau. Assim decidiram matá-lo com seus desintegradores atômicos.

Mas de repente, no grande frio da manhã, um passarinho marciano, que com certeza tinha escapado do ninho, caiu no chão tremendo de frio e medo. Piava desesperadamente, mais ou menos como um passarinho terrestre. Dava mesmo pena. O americano, o russo e o chinês o olharam e não conseguiam segurar uma lágrima de compaixão.

E naquele momento aconteceu um fato estranho. Também o marciano se aproximou do passarinho, olhou-o e deixou escapar dois filetes de fumaça da tromba. E os terrestres, imediatamente, compreenderam que o marciano estava chorando. À sua maneira, como fazem os marcianos. Depois viram que ele se inclinava sobre o passarinho e o erguia com seus seis braços, tentando aquecê-lo.

O chinês se virou então para seus dois amigos terrestres.

“Entenderam?”, ele falou. “Nós achávamos que este monstro fosse diferente de nós, mas ele também ama os animais, sabe comover-se, tem um coração e, sem dúvida, também um cérebro! Acreditam que seja ainda o caso de matá-lo?’’

Nem era preciso perguntar. Os terrestres já tinham entendido a lição: não é porque dois seres são diferentes que têm que ser inimigos. Por isso se aproximaram do marciano e lhe estenderam a mão. E o marciano, que tinha seis mãos, apertou de uma só vez a mão dos três, enquanto com as livres fazia gestos de saudação. E apontando a Terra lá no céu, deixou entender que queria fazer uma viagem, para conhecer os outros habitantes e estudar junto com eles a maneira de fundar uma grande república espacial, na qual todos vivessem em paz e harmonia.

Bem contentes, os terrestres disseram que sim. E para festejar o acontecimento lhe ofereceram uma garrafinha de água fresquíssima trazida da Terra. O marciano, todo feliz, enfiou o nariz na garrafa, aspirou, e depois disse que tinha gostado muito daquela bebida, mesmo que o tivesse deixado um pouco tonto. Mas agora mais nada surpreendia os terrestres.

Tinham compreendido que na Terra, como nos outros planetas, cada um tem seus próprios gostos, e que é só uma questão de se entenderem uns aos outros.

Umberto Eco e Eugênio Carmi, "Os três astronautas"

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Carlos Drummond de Andrade, “Antologia poética”

O cérebro é um moleque

Ser realista não lhe caiu bem. Era menos infeliz outrora, quando dava olhos à pirotecnia do sol e ouvidos à demagogia matinal dos bem-te-vis.

***

Desde os quinze anos, o que mais venho fazendo é escrever. Se você me acha escritor, eu lhe agradeço. Se não, eu lhe agradeço se não me disser.

***

Há quatro dias não escrevo. Há quatro dias, como se fosse um cão abandonado, uma frase me segue, aflita: “Há de ser um lugar tranquilo.” Não é literatura, mas eu a registro aqui. A vida é assim, direta e pedinchona como um manifesto.

***

Às vezes, meu cérebro age como se fosse um moleque endiabrado. Hoje, por exemplo, me sugeriu este exercício como o mais adequado para a minha idade e meu futuro próximo: fechar os olhos, sempre que possível, e mantê-los assim, cada dia com maior determinação.

***

É fácil ser sábio quando os caminhos se reduzem a só um e o cansaço economiza cada passo.

***

Discípulo de Rimbaud, perdeu a calça de veludo num lupanar e o estilo num joguinho de dados.

terça-feira, maio 12

Lembre-se!

 


Areias de Portugal

No meio do quintal, ao lado da casa, havia a mangueira, enorme, de um de seus ramos o pai pendurara um balanço que teve seus dias de glória até que meu irmão dele se despencou. Minha mãe iniciou campanha feroz e bem-sucedida, o balanço serviu de lenha numa fogueira de Santo Antônio.

Naqueles dias, Humberto de Campos publicara uma página de suas memórias, evocando o cajueiro de sua infância. Meu pai lera a crônica para mim. Recortei-a do jornal e quase a decorei. Pior: procurei imitar o menino que subia nos galhos mais altos e gritava: "Assobe, assobe, gajeiro, naquele topo real, para ver se tu avistas terras de Espanha, Otolina, areias de Portuga!!".


Passei a subir nos galhos mais altos, onde descobri um nicho no meio das folhas verdes e perfumadas – como só as mangueiras sabem ter. E lá de cima eu também gritava aos ventos da Boca do Mato, garantindo que via terras de Espanha, quando, na verdade, via apenas os tetos cor de moringa da vizinhança, ao longe a torre mais-que-branca da Matriz de Nossa Senhora da Guia e, depois, a formidável massa azulada do pico da Tijuca.

Pois ontem, tantos anos depois, sonhei com a mangueira dos dias antigos do passado. No sonho, ela surgia destacada, talvez mais alta e mais espetacular. E como na paisagem do sonho era quase noite, ela parecia iluminada por dentro, um pouco fosforescente, mas sem dúvida era a minha mangueira, intacta, esperando por mim.

Olhei-a bem e não foi difícil encontrar, em seus ramos mais altos, o nicho de folhas verdes e perfumadas – como só as mangueiras sabem ter. Lá estava ele, também, intacto, reconheci até mesmo o galho mais forte em que me segurava com maior confiança, deixando a outra mão livre para proteger os olhos do sol e dos ventos do mar largo. E de onde o menino, que nada vira do mundo até então, assombrado, avistava terras de Espanha, areias de Portugal.
Carlos Heitor Cony

Chuva

Chuva morna, chuva de verão
Borbulha de arvores e arbustos.
Oh! Como é bom e cheio de bênção
Uma vez mais sonhar de verdade!

Quanto tempo fiquei aqui fora,
Quão estranha essa sensação:
Habitar a própria alma,
O estranho, sem atração.

Nada quero, nada peço.
Baixinho cantarolo sons de criança,
E, surpreso, chego ao berço
Dos sonhos quentes de folgança.

Coração, como estás machucado
Porem feliz, remexendo cegamente,
Nada pensar, nada saber,
Respirar e sentir, somente.
Hermann Hesse

A máscara da Morte Rubra

Por muito tempo a “Morte Rubra” devastara o país. Jamais pestilência alguma fora tão mortífera ou tão terrível. O sangue era seu avatar e seu sinal — a vermelhidão e o horror do sangue. Surgia com dores agudas, súbitas vertigens; depois, vinha profusa sangueira pelos poros e a decomposição. As manchas vermelhas no corpo, em particular no rosto da vítima, estigmatizavam-na, isolando-a da compaixão e da solidariedade de seus semelhantes. A irrupção, o progresso e o desenlace da moléstia eram coisa de apenas meia hora.


Mas o príncipe Próspero sabia-se feliz, intrépido e sagaz. Quando seus domínios começaram a despovoar-se, chamou à sua presença um milheiro de amigos sadios e frívolos, escolhidos entre os fidalgos e damas da corte, e com eles se encerrou numa de suas abadias fortificadas. Era um edifício vasto e magnífico, criação do gosto excêntrico, posto que majestoso, do próprio príncipe. Forte e alta muralha, com portões de ferro, cercava-o por todos os lados. Uma vez lá dentro, os cortesãos, com auxílio de forjas e pesados martelos, rebitaram os ferrolhos, a fim de cortar todos os meios de ingresso ao desespero dos de fora, e de escape, ao frenesi dos de dentro. A abadia estava amplamente abastecida. Com tais precauções, podiam os cortesãos desafiar o contágio. O mundo externo que se arranjasse. Por enquanto, era loucura pensar nele ou afligir-se por sua causa. O príncipe tomara todas as providências para garantir o divertimento dos hóspedes. Contratara bufões, improvisadores, bailarinos, músicos. Beleza, vinho e segurança estavam dentro da abadia. Além de seus muros, campeava a “Morte Rubra”.
Ao fim do quinto ou sexto mês de reclusão, quando mais furiosamente lavrava a pestilência lá fora, o príncipe Próspero decidiu entreter seus amigos com um baile de máscaras de inédita magnificência.

Que cena voluptuosa, essa mascarada! Mas me permitam, primeiramente, falar das salas em que se realizou. Era uma série imperial de sete salões. Na maioria dos palácios, tais séries formam longas perspectivas em linha reta, as portas abrindo-se de par em par, possibilitando a visão de todo o conjunto. Aqui, o caso era diverso, como se devia esperar do gosto bizarro do duque. Os apartamentos estavam dispostos de forma tão irregular que a vista abarcava pouco mais de um por vez. A cada vinte ou trinta metros, havia um cotovelo brusco, proporcionando novas perspectivas. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica abria-se para o corredor fechado que acompanhava as sinuosidades do conjunto. Essas janelas estavam providas de vitrais cuja cor variava de acordo com o tom predominante da decoração da sala para a qual davam. A sala da extremidade oriental, por exemplo, fora decorada em azul, e intensamente azuis eram suas janelas. A segunda sala tinha ornamento e tapeçarias purpúreas; purpúreas eram as vidraças. A terceira fora pintada de verde, sendo também verdes as armações das janelas. A quarta havia sido decorada e iluminada de alaranjado; a quinta, de branco; a sexta, de violeta. O sétimo aposento estava completamente revestido de veludo preto, que, pendendo do teto e ao longo das paredes, caía em dobras pesadas sobre um tapete de mesmo estofo e cor. Nesse aposento, entretanto, a cor das janelas não correspondia à das decorações. Suas vidraças eram vermelhas, de uma escura tonalidade sanguínea. Cumpre notar que em nenhum dos aposentos havia lâmpada ou candelabro pendendo do teto ricamente ornamentado a ouro. Luz alguma emanava de lâmpada ou candelabro em qualquer das salas. Contudo, nos corredores que as acompanhavam, em frente de cada janela, havia um pesado trípode a sustentar um braseiro cuja luz, filtrando-se através dos vitrais, iluminava o aposento, ocasionando uma infinidade de vistosas e fantásticas aparências. Na sala negra, porém, o clarão, infletindo sobre as negras cortinas através dos vitrais sanguíneos, produzia um efeito extremamente lívido e dava aparência tão estranha à fisionomia dos que ali entrassem que poucos tinham coragem de atravessar-lhe o umbral.

Era nesse mesmo aposento que havia, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo ia e vinha num tique-taque lento, pesado, monótono. Quando o ponteiro dos minutos completava a volta do mostrador e a hora estava para soar, saía dos brônzeos pulmões do relógio um som limpo, alto, agudo, extremamente musical, mas de ênfase e timbre tão peculiares que, a cada intervalo de hora, os músicos da orquestra viam-se constrangidos a interromper momentaneamente a execução para ouvi-lo. Nesses momentos, era forçoso que os dançarinos parassem de dançar, e um breve desconcerto se apoderava da alegre companhia. Enquanto vibrava o carrilhão do relógio, os mais afoitos empalideciam, e os mais idosos e sensatos passavam a mão pela fronte, como em sonho ou meditação confusa. Tão logo se esvaíam os ecos, um riso ligeiro percorria a assembleia. Os músicos se entreolhavam, sorrindo da própria nervosidade e loucura, fazendo juras sussurradas, uns aos outros, de que o próximo carrilhonar do relógio não mais produziria neles tal comoção. Todavia, sessenta minutos mais tarde (que abrangem três mil e seiscentos segundos do tempo que voa), quando vinha outro carrilhonar do relógio, de novo se dava o mesmo desconcerto, o mesmo tremor, a mesma meditação de antes.

A despeito de tudo isso, a folia ia alegre e magnífica. Os gostos do duque eram originais. Tinha ele olho esperto para cores e efeitos. Desprezava as maneiras da moda em vigor. Seus projetos eram audazes e vivos; suas concepções esplendiam de um lustro bárbaro. Muitos acreditariam tratar-se de um louco. Seus adeptos, porém, sabiam que não. Era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para assegurar-se de seu juízo perfeito.

Em grande parte, ele comandara pessoalmente a caprichosa decoração das salas para a grande fête; sob sua orientação, haviam sido escolhidas as fantasias. Sem dúvida, elas eram grotescas. Havia muito brilho, muita pompa, muita coisa fantástica, muito daquilo que, desde então, pode-se ver em Hernani. Havia figuras arabescas, com membros e adornos desproporcionados. Havia fantasias delirantes, invenções de louco. Havia muito de belo, de atrevido, de bizarro, algo de terrível, capaz em não pouca medida de provocar aversão. Para lá e para cá, nas sete salas, movimentava-se uma multidão de sonhos. E esses sonhos andavam de um canto a outro, impregnando-se do colorido das salas, fazendo a música extravagante da orquestra soar como o eco de seus passos. Mas logo cantava o relógio de ébano na sala aveludada; por um momento, tudo se fazia imobilidade e silêncio, perturbado apenas por aquela voz. Os sonhos paravam, retesados. Porém, quando os ecos do carrilhão se esvaíam — tinham durado apenas um instante —, um frouxo de riso os acompanhava. E, mais uma vez, a música era reiniciada, os sonhos tornavam a viver e a circular mais alegremente que nunca, banhados pelas cores que a luz dos trípodes, atravessando os vitrais, projetava sobre eles. Entretanto, à última das sete salas, ninguém se aventurava, porque, avançando a noite, a luz filtrada pelas rubras vidraças fazia-se mais sanguínea; e a negrura dos panejamentos causava medo. Aqueles cujos pés pisassem o tapete veludoso ouviriam o som abafado do relógio, e o ouviriam mais solenemente enfático que os convivas dos demais salões.

Esses outros salões estavam cheios de gente; neles, pulsava febril o coração da vida. E a folia continuou, rodopiante, até que o relógio começou a bater meia-noite. A música parou, como já descrevi; acalmou-se o rodopio dos dançarinos; e, como antes, uma constrangida imobilidade tomou conta de todas as coisas. Doze foram as badaladas; por isso, os que meditavam entre os foliões tiveram tempo de meditar mais longa e profundamente. E antes que se esvanecesse o eco da última badalada, muitos dos convivas puderam perceber a presença de um novo mascarado, que, até então, não atraíra as atenções. Entre murmúrios, propagou-se a notícia da nova presença; elevou-se da companhia um zum-zum, um rumor de desaprovação e surpresa, a princípio; de terror, de horror e de náusea, depois.

Numa assembleia de fantasmas, como a que descrevi, era de supor que tal agitação não seria causada por aparição vulgar. Na realidade, a licença carnavalesca da noite fora praticamente ilimitada, mas o novo mascarado excedia em extravagância ao próprio Herodes; ultrapassava, inclusive, os indecisos limites de decoro impostos pelo príncipe. Há fibras no coração dos mais levianos que não podem ser tocadas impunemente. Mesmo para os pervertidos, para quem vida e morte são brinquedos igualmente frívolos, há assuntos sobre os quais não se admitem brincadeiras. Todos os presentes pareciam se dar conta de que, nos trajes e nas atitudes do estranho, nada havia de espirituoso ou de conveniente. Alto e lívido, vestia uma mortalha que o cobria da cabeça aos pés. A máscara que lhe escondia as feições imitava com tanta perfeição a rigidez facial de um cadáver que nem mesmo a um exame atento se perceberia o engano. E, no entanto, tudo isso seria, se não aprovado, ao menos tolerado pelos presentes, não fora a audácia do mascarado em disfarçar-se de Morte Rubra. Suas vestes estavam salpicadas de sangue; sua ampla fronte, assim como toda a face, fora borrifada com horrendas manchas escarlates.

Quando os olhos do príncipe Próspero caíram sobre aquela figura espectral (que, para melhor representar seu papel, caminhava entre os dançarinos com passos lentos e solenes), viram-no ser tomado de convulsões e arrepios de terror ou asco, no primeiro instante; logo depois, porém, seu rosto congestionou-se de raiva.

— Quem se atreve — perguntou roucamente aos cortesãos que o cercavam —, quem se atreve a insultar-nos com essa brincadeira blasfema? Agarrem-no, desmascarem-no! Assim saberemos quem deverá ser enforcado ao amanhecer!

Essas palavras vieram da sala azul, onde se achava o príncipe quando as pronunciou. Ecoavam pelas sete salas, alta e claramente, porque o príncipe era homem destemido e forte, e a música havia cessado, a um gesto seu.
Vieram da sala azul, onde estava o príncipe, rodeado de cortesãos empalidecidos.

No primeiro momento que se seguiu à fala do príncipe, houve um ligeiro movimento de avanço do grupo em direção ao intruso. Este se achava perto e, com passos deliberados e firmes, aproximou-se do anfitrião. Mas, devido ao indefinível terror produzido pelo mascarado no ânimo de todos, ninguém se atreveu a agarrá-lo. Sem empecilho, ele se afastou, passando a um metro do lugar onde estava o príncipe. À sua passagem, toda a vasta assembleia, como que movida pelo mesmo impulso, afastou-se do centro das salas para as paredes, e o mascarado pôde seguir seu caminho com desembaraço, e com os mesmos passos solenes e medidos com que passara da sala azul à vermelha, da vermelha à verde, da verde à alaranjada, desta para a branca, e para a violeta, sem que nenhum dos circunstantes tivesse esboçado um gesto para detê-lo. Foi quando, louco de raiva e vergonha da própria e momentânea covardia, o príncipe Próspero cruzou apressadamente as seis salas, sem ninguém a segui-lo: o terror se apoderara de todos. Brandindo o punhal, avançava impetuosa e rapidamente; já estava a três ou quatro passos do vulto que se retirava, quando este, atingindo a extremidade da sala aveludada, virou-se bruscamente e enfrentou seu perseguidor. Nesse instante ouviu-se um grito agudo, e o punhal caiu cintilante no tapete negro, sobre o qual tombou também, instantaneamente e ferido de morte, o príncipe Próspero. Recorrendo à selvática coragem do desespero, um grupo de foliões correu para a sala negra e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, detiveram-se eles, horrorizados, ao descobrir que a mortalha e a máscara mortuária que tão rudemente haviam agarrado não continham nenhuma forma tangível.

Só então se reconheceu a presença da Morte Rubra. Viera como um ladrão na noite. E, um a um, caíram os foliões nos ensanguentados salões da orgia, e morreram, conservando a mesma desesperada postura da queda. E a vida do relógio de ébano extinguiu-se simultaneamente com a do último dos foliões. E as chamas dos trípodes apagaram-se. E a Escuridão, a Ruína e a Morte Rubra estenderam seu domínio ilimitado sobre tudo.
Edgar Allan Poe, “A causa secreta: e outros contos de horror"

Epidemia polissilábica

Já se disse que a crise é de dicionário. Paulo Rónai denunciou a existência de uma geração sem palavras. Uma só, não, digo eu. Várias. A crise é semântica, disse um professor na Sorbonne, que convocou um seminário. Pode ser, diz o Pedro Gomes. Mas é também polissilábica. E me expõe a sua tese: nenhum país aguenta tantos palavrões como os que circulam agora por aí. Palavrão no sentido estrito de palavra grande.

A maior delas, como aprendemos na remota infância, tem até governado o Brasil. É essa mesmo: inconstitucionalissimamente. Depois deste advérbio, no seu hoje modesto pioneirismo, apareceram verdadeiros bondes vocabulares. Autênticos minhocões. São cada vez mais numerosos e compridos, como a composição ferroviária que transporta minérios. A perder de vista, todos têm de cinco sílabas para cima. São centopeias de tirar o fôlego e de destroncar a língua.

Na porta do Jockey, depois do almoço, um sujeito conversava outro dia, sereno, sobre a atratividade do investimento superavitário. Temi pela sua digestão, se é que não foi vítima de uma congestão. Ou de um insulto cerebral. Mas há pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral. É o caso do cidadão que discorreu sobre o obstaculizado caminho que o Brasil tem de percorrer, se quiser alcançar um nível de competitividade num cenário de internacionalização do livre-cambismo.

Até a carta-testamento do Getúlio, obstaculizar não tinha feito a sua aparição triunfal. Dizem que foi ideia do Maciel Filho, que tinha este vezo nacionalista da palavra complicada. Na verdade, é difícil inovar o jargão político. Para atacar José Américo de Almeida, história antiga, Benedito Valladares lançou no mercado a palavra boquirroto. Logo os adversários disseram que era soprado pelo Orozimbo Nonato, um íntimo do Vieira e do Bernardes. Arrazoava com um cunho seiscentista.

Enfim, tudo hoje em dia gera distorções. Gerar é um verbo-ônibus. Serve para tudo. Confiemos, porém, que a seu tempo, a nível de país, na expressão abominável que hoje é corrente, a solução seja equacionada. A desestabilização extrapola de qualquer colocação. Longe de mim o catastrofismo, mas no caminho polissilábico em que vamos, a ingovernabilidade é fatal. E talvez passemos antes pela platino-dolarização contingencial.
Otto Lara Resende

Muita tela, pouco livro

Um dos dados mais relevantes do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância, divulgado na semana passada pela OCDE, diz respeito não ao que acontece nas escolas, mas, sim, ao que ocorre dentro das casas. E os resultados são preocupantes no contexto brasileiro, representado a partir de uma amostra em três estados (São Paulo, Ceará e Pará).

Por aqui, apenas 14% das famílias com crianças de 5 anos de idade reportaram que liam livros para elas numa frequência superior a três dias por semana. A média dos demais países investigados (Inglaterra, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda, Azerbaijão e Malta) é de 54%.


Uma primeira hipótese para explicar essa diferença estaria na maior situação de vulnerabilidade das famílias brasileiras. Pais com instrução precária, sem recursos para comprar livros, ou que precisam se desdobrar em escalas de trabalho excessivas (ou em duplas jornadas, em especial no caso das mães), teriam menos condições de ter esse tempo de qualidade com seus filhos.

É certamente uma variável a ser considerada, mas não explica tudo, afinal, mesmo nas famílias de maior renda e escolaridade, o percentual de leitura frequente com os filhos é de apenas 24% por aqui, ainda muito abaixo da média dos demais países. Há, portanto, uma questão cultural também a ser enfrentada.

Se as famílias brasileiras têm pouco hábito de leitura com os filhos na comparação internacional, a lógica se inverte quando a variável investigada é o tempo excessivo que as crianças passam em tela. Por aqui, metade (50,4%) dos responsáveis admitem que seus filhos usam dispositivos digitais todos os dias. Na média dos países participantes do estudo, esse percentual é de 46%, o que evidencia que estamos diante de uma epidemia global.

Mas a combinação perversa de alto tempo em telas e baixíssimo tempo em leitura torna o caso brasileiro mais grave. Afinal, essas são variáveis que o estudo confirma o que a literatura acadêmica já evidencia: o estímulo ao hábito de leitura desde cedo melhora o desempenho escolar e o bem-estar, ao passo que o tempo excessivo em telas tem efeito negativo.

O estudo da OCDE analisou diferentes dimensões do desenvolvimento infantil: aprendizagens fundamentais, como a literacia e numeracia emergente (etapas anteriores ao processo formal de alfabetização); funções executivas como a memória de trabalho, flexibilidade mental e controle inibitório; e habilidade socioemocionais. Os achados confirmam que desigualdades já aparecem desde antes do ensino fundamental, e o Brasil, em quase todos os quesitos, aparece em situação pior.

Mas, ao olhar também para o que ocorre no ambiente doméstico, o estudo contribui para o diagnóstico do problema, pois políticas de primeira infância não podem se restringir ao acesso à escola, o que não é pouco, mas é insuficiente.

Desde a década de 90, a pesquisa sobre o desenvolvimento infantil evoluiu muito, evidenciando que a primeira infância é uma etapa muito mais importante para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional do que se acreditava até então. Hoje já há evidências de que essa etapa é a de maior impacto no longo prazo. Mas os estudos com resultados mais promissores sempre se basearam em intervenções que melhoravam não apenas as condições de oferta de creches e pré-escolas, incluindo também ações em saúde, assistência social e orientação aos pais.

Estimular e garantir tempo de qualidade para que os pais possam participar de atividades ao ar livre, brincadeiras lúdicas, músicas e conversas sobre sentimentos com seus filhos são ações de baixo custo e alto impacto no desenvolvimento infantil. Precisam, portanto, entrar também no radar de nossas políticas públicas.

segunda-feira, maio 11

Abastecendo

 


Paisagem de após-chuva

A relva, os cavalos, as reses, as folhas,
tudo envernizadinho como no dia inolvidável
da inauguração do paraíso...
Mario Quintana

Revolta na Vila

Aquele oiti cresceu junto comigo. Enchi, muitas vezes, meu pequeno regador verde na bica do jardim pra dar de beber ao meu amigo. Fiz, é verdade, um ou outro xixizinho nele. Mas tudo na maior camaradagem. Sempre repartiu comigo a terra que o alimentava, pra que eu enchesse o balde e as forminhas de praia nas tardes em que batia a saudade da ilha de Paquetá. Nunca me deu esporro nos momentos que gravei meu nome, a canivete, em sua pele. Sabíamos que era uma coisa dolorosa e difícil de explicar, mas, quase sempre, são assim as grandes amizades. Salvou muitos gols dos inimigos nos jogos-contra, trave heroica. Jamais enredou em seus ramos honestos a linha da minha pipa. Nunca mais vou esquecer sua alegria no supercampeonato de 58, Vasco doente, balançava os galhos com a conquista do título, e eu repetia, todo emocionado:

— Casaca, oiti. Mais uma estrela na nossa bandeira.

Tinha o dia em que as árvores da Rua dos Artistas cortavam seus cabelos verdes. Vinham os cadetes da L.U. e deixavam as calçadas cobertas de galhos, que nem ficava, assim de cabelo, o chão da barbearia do Seu Teófilo. Meu amigo oiti usava um corte parecido com o meu, “Príncipe Danilo”, e eu mandava selo, carimbo, estampilha nele. Coração que não cabia no tronco, se preocupava muito com os ninhos que sustentava e, nos dias de vento, eu ficava tranquilizando da janela:

— Calma que tá tudo bem.

Esse negoço de elogiar muito um amigo costuma acontecer quando o cara empacota e é sempre a maior xaropada. Meus prezados leitores vão me desculpar, mas é que no caso do oiti não foi morte natural. Ele foi assassinado covardemente por uma imobiliária sem escrúpulos, sem mãe, em nome do pogresso. Pogresso é que nem, nos apartamentos que eles mesmos constroem, o que acontece nos tais respiradouros do banheiro: Você ouve o barulho, mas não sente o cheiro. Fica aí a sugestão para slogan do Sérgio Dourado.

Pois é, meu amigo dançou. Mas vai ter forra. Em cada morador da Vila cresce, prodigiosa, a revolta. Protestaremos sempre contra mais esse crime, nós, os sanhaços, os bem-te-vis, os coleiros, as tímidas juritis a quem ele abrigou; nós, os vira-latas, que urinamos em seu tronco amistoso; nós, os bêbados, que vomitamos amparados em seu ombro compreensivo; nós, os varredores das ruas, que limpamos a testa à sua sombra; nós, as crianças que nos escondemos atrás de seu corpo, trinta e um de janeiro, lá vou eu; nós, goiabeiras, avencas, samambaias, pequenas ervas sem nome, protestaremos contra essa covardia, irmãozinho.

E traremos, aliadas, as cigarras, com seu otimismo, e elas convidarão os decididos grilos de Vila Isabel, os mais boêmios da cidade.

Virão sabiás e pintassilgos, cágados e cabritos, gatos vadios e papagaios que falam palavrão. A denúncia desse crime estará nas pipas pastorinhas dos carneiros do céu; estará nos balões — do mais humilde balão japonês passando pelos grandes balões-tangerina cheios de lanterninhas até o balão visto pelo Zeca em Cachambi retratando, com cento e trinta e um figurantes, a Queda da Bastilha.

A denúncia desse crime estará nas estrelas e na lua — na lua, que vezes incontáveis mascarou-se, linda, com teus galhos. Criaremos códigos e senhas. O apito do guarda-noturno contará que te mataram. Contará que te mataram o assovio das facas do amolador. O grito do garrafeiro falará dessa covardia, assim como os livros de histórias, os gibis e as figurinhas. Leremos mensagens no desenho das nuvens, conspiraremos com os botões e as pétalas da primavera, ouviremos os conselhos das sábias folhas de outono. Seguirão notícias em gaivotas nas salas de aula e em barcos de jornal nas enchentes provocadas pelas chuvas de verão. O Penteado, tremendo gozador, inventará lorotas sobre o passado dos donos de imobiliárias atrás da bananeira. E o Esmeraldo passará, uma por uma, as mulheres deles na cara.

Porque sabemos que deve haver um pedaço teu, meu amigo, vivo. Embaixo da terra, em algum lugar, há um pedaço teu. E vivo.

E nós, que com nossos olhos secos e amargurados, com nossos galhos cobertos de fuligem, com nossas plumagens descoloridas, nós que, testemunhando mais esse crime, não deixamos que morresses de todo, nós vamo partir pra briga.
Volta logo. Combateremos à tua sombra, e que não falte cachaça e cervejinha pros nossos rapazes.

Volta logo, que nós vamos botar de novo as cadeiras na calçada e distribuir maços de Lincoln e chupar rebuçado e vestir pijamas de listras e usar chapéu panamá.
E cada vez que ouvirmos burrices do tipo “é preciso assumir” ou “o senso deve prevalecer”, responderemos, orgulhosos do que somos: dá o pé, louro! E mais: uma aqui pro nossa-amizade!

E, como golpe de misericórdia, a terrível sentença: conheceu, papudo?

Volta logo, e traz com você muitos bondes, bondes cheios de passarinhos e cachorros, mariolas, petecas e sonhadores. Faremos subir novas pipas com a forma dos nossos sonhos, novos balões que derramam lágrimas de ouro barato, e depois virá a lua, e desfilarão os ranchos e seremos todos palhaços, índios, piratas, e todos usaremos sutiã de casquinha de sorvete e nos apaixonaremos pela mesma deslumbrante odalisca, arrumadeira do 257.

As crianças baterão nos postes, como nas antigas noites de Ano-Novo. Acenderemos fogueiras e brincaremos de roda, nós, pássaros, nós, árvores, nós, homens, ao som da flauta inesquecível do Benedito Lacerda, do violão de Noel.

Vovó Noemia fará uma feijoada, coisa simples, e convidaremos Cosme e Damião pra ouvir as piadas do Waldyr Iapetec, a Maria da Ave pra ajudar minha vó, Papai Noel pra levar um esporro e parar de ficar feito prostituta em porta de loja; convidaremos o coelho da Páscoa (ô cara chato!), o santo casamenteiro pra tomar umas batidas feitas pelo Lindauro, o Pena Branca, todos os avôs do mundo, que é tão difícil a alegria sem avô, o lago da Quinta da Boa Vista, os brinquedos do Parque Shangai, os personagens do presépio, o time supercampeão do glorioso Vasco da Gama, os ciganos do carro-preto, o Armindo, que também foi assassinado, a turma toda, até o Ceceu Rico, que não gosta de festa. Que participem da nossa conjura abilolada, da nossa inconfidência delirante.
Pode ser que os sicários do verde, os carrascos da esperança, os verdugos da alegria — em nome do pogresso — tentem nos dispersar a cacetada, imponham o toque de silêncio a nossas flautas e violões e declarem estado de sítio nos fios,telhados e copas verdes onde zoneiam nossos passarinhos.

Será inútil, imobiliárias sem escrúpulos, sem mãe: a Vila avisa que resistirá até o último pardal, até o último oiti, até o último sonhador embriagado.
Aldir Blanc, Pasquim, nº 362

Os anjos contam histórias

O chefe da família na máquina de trabalhar. A mulher na enceradeira. A cozinheira no fogão. O passarinho na gaiola. Os peixes no mar. A gaivota pescando. A menina rolando no chão. O menino, doente, na cama. Todos nós somos deste mundo, menos as crianças. E o menino, perseguido de visões febris, vai falando sem parar:

“O filho da vaca é o bezerrinho, o pai da vaca é o boi. Não é? Eu vou morar num sítio. Morar muito. Um dia, quando eu fui fazer pipi, vi duas professoras de inglês. Igual. Eu vou trazer um pato do sítio e botar em cima da cabeça do Didi. Quando eu ficar bom, quero ir no circo. Eu já cortei a mão. Papai, papai-i: conta uma história de camelinho. História triste, não. Nova e alegre. Mãe, tá doendo, tou com dor de cabeça. Eu só gosto daquele remédio cor de laranja. Cafiaspirina eu não gosto. O gatinho caiu no poço, vestido de amarelo, todo mundo veio em volta pensando que era marmelo. Quando eu fui no colégio vi nuvens. A nuvem estava passando nas nuvens. Não estava chovendo. Ai, eu quero sair da cama! Laurita, eu não vou comer aquela coisa que arde. Papai é um burro, mamãe é a mulher do burro, e eu sou um burrinho. Mãe-i, você vai um dia naquela esquina longe? Lá tem anzol. Você compra uma vara nova, que o peixinho não gosta de vara velha, não. Eu te dou um bombom. Galibi é menina, mas ela gosta de pescar. Se não fizer um poleiro, o galo sobe na árvore e estraga as pitangas. Pai-i, quando eu crescer, vou ganhar um trem de ferro elétrico. Você vai dar. Meu dodói dói. Eu não comi muita azeitona. Maionese eu não gosto. Maionese é aquele remédio que eu tomei agora. Eu só gosto de remédio vermelho. Elefante gosta de amendoim. Tia Edir sabe fazer espantalho: snowman ela não sabe, não: aqui não tem inverno. Se você fala inglês, papagaio também fala. Mas fala também paracopaco, não fala? Leão de circo não come você, não; de jardim zoológico come. Galibi, conta uma história...”

A irmã sobe na cama e começa a contar uma história:

“Era uma vez um nenê. Era só cantar ‘Dorme, nenê’, que ele dormia. Mas logo depois precisava de chegar uma porção de anjos. Já conheciam a dona daquela casa, e por isso tinham dado o nenê para ela. A mãe fazia roupa para o seu nenê querido. Um dia, a família foi viajar; o nenê foi de roupa muito bonita. Quando voltaram da linda viagem, quem adorou mais foi o nenê. Era só o que faltava! Os anjos! Sim, sua mãe sempre precisava dos anjos para ajudar. O nenê adorava sua mãe, mas não podia faltar nada para ele, e, assim, não deixava ela fazer nada, gritava, chorava, fazia tantas molecagens que a mamãe não podia trabalhar. A mãe um dia chamou os anjos e pediu que eles dessem um jeito. Os anjos, muito espertos, levaram o nenê para a mata, para o galho duma árvore. O nenê ficou contente da vida! Os passarinhos traziam flores para ele, as abelhas traziam mel, o nenê ria. Enquanto isso, seu pai tinha viajado e sua mãe também. Antes de voltar da viagem, a mãe, de tanta saudade daquele nenê querido, mandou o irmão buscar ele na mata. Quando o irmão chegou, o nenê estava brincando com as estrelas do céu, e os anjos estavam procurando diamantes. Já era bem de noite e o sol estava se escondendo. Até o seu corrupião estava com fome. Mas, aí, sua mãe já era tão pobre que não tinha mais empregada. Todos eram pobres, o cachorro, a árvore, o cavalo. Mas enfim tudo estava em silêncio e quieto. Era uma hora da madrugada, e já estava quase ficando de dia. A noite era tão triste e a mãe não tinha comida. Na hora de jantar, só tinha dado leite, bife, batata, sopa, salada e aveia. Então chegou um anjinho e contou uma história para o nenê: ‘Era uma vez uma cidade que tinha muitas casas de frutas, mas o sol estava tão quente que mandava seus raios para todos os lados’. O nenê sentiu muito o sol da história, e o anjo então mandou que os raios de luz começassem a ir embora. Quando ficou de noite outra vez, o sol foi para a China. A China não é perto, é muito longe. O nenê também foi para a China, porque não gostava de escuro. E todo dia, quando ficava escuro, ia para a China. E os anjinhos nunca mais encontraram o nenê naquela caminha tão boa.”

O menino diz: “Pai, a Inês me ensinou a fazer navio”.

Paulo Mendes Campos, "Elenco de cronistas modernos - 7"