sexta-feira, julho 3

Socorrista em tempo de guerra

 


Quantos Césares fui

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.

Isto não vem a propósito de nada.

Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender.

Napoleão, seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.

Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina.

Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.

Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto.
Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade de um domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.

Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.

Mas quantos Césares fui!

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

É sempre Outono no sebo


Os livros espalham o ouro esmaecido de seu outono pelas estantes escuras do sebo. 
Raul Drewnick

Maturidade

Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.

A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.

Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.

Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.
Lya Luft

O sonho de Pedro Henriquez Urena

O sonho que Pedro Henriquez Urena teve ao amanhecer de um dos dias de 1946 não constava de imagens, mas tão somente de pausadas palavras. A voz que as pronunciava não era a sua, porém parecia-se com ela. O tom, em que pese as possibilidades patéticas que o tema permitia, era impessoal e comum. Durante o sonho, que foi breve, Pedro sabia que estava dormindo em seu quarto e que sua mulher estava a seu lado. Na obscuridade do sonho, a voz lhe disse: Há quantas noites passadas, em uma esquina da Rua Córdoba, discutiste com Borges a invocação do anônimo Sevilhano Ó Morte, vem calada / como costumas vir na flecha. Suspeitaram que era o eco deliberado de algum texto latino, já que estas versões correspondiam aos costumes da época, completamente alheias ao nosso conceito de plágio, sem dúvida menos literário do que comercial. O que não suspeitaram, o que não podiam suspeitar, é que o diálogo era profético.

Dentro de poucas horas correrás para a última estação da Constituición, para tua aula na Universidade de La Plata. Alcançarás o trem, colocares a pasta no porta-volumes e te acomodarás na tua poltrona, junto à janela. Alguém, cujo nome ignoro mas cujo rosto estou vendo, te dirigirá algumas palavras. Não lhe responderás porque ambos estarão mortos. Já te terás despedido para sempre de tua mulher e de tuas filhas. Não te lembrarás deste sonho porque teu esquecimento é necessário para que se cumpram os fatos.
Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"

Dias perfeitos

Dias perfeitos são esses em que Meteorologia afirma, vai chover e chove mesmo: não os outros, quando se anda de capa e guarda-chuva para cá e para lá, até se perder um dos dois ou os dois juntos.

Dias perfeitos são esses em que todos os relógios amanhecem certos: o do pulso, o da cozinha, o da igreja, o da Glória, o da Carioca, excetuando-se apenas os das relojoarias, pois a graça, destes, é marcarem todos horas diferentes.

Dias perfeitos são esses em que os pneus não amanhecem vazios: as ruas acordam com dois ou três buracos consertados, pelo menos; o ônibus não vem em cima de nós, buzinando e na contramão; e os sinais de cruzamento não estão enguiçados e os guardas estão no seu posto, sem conversa para as morenas nem para os colegas.


Dias perfeitos são esses em que não cai botão nenhum da nossa roupa ou, se cair, uma pessoa amável aparecerá correndo, gastando o coração, para no-lo oferecer como quem oferece uma rosa, deplorando não dispor de linha e agulha para voltar a pô-lo no lugar.

Dias perfeitos são esses em que ninguém pisa nos nossos sapatos, nem esbarra com uma cesta nas nossas meias, ou, se isso acontecer, pede milhões de desculpas, hábito que se vai perdendo com uma velocidade supervostokiana.

Dias perfeitos são esses em que os guichês do Correio dispõem de gentis senhoritas e respeitáveis senhores que não estão fazendo crochê nem jogando xadrez sozinhos e não se aborrecem com o mísero pretendente à expedição de uma carta aérea, e até sabem quanto pesa a missiva e qual o seu destino, no mapa, e têm troco certo na gaveta, e não atiram os selos pelo ar como quem solta pombos da cartola. (Ah, esses são dias perfeitíssimos! ...).

Dias perfeitos são esses em que o motorista do carro de trás não buzina como um doido, os da direita e da esquerda não dançam quadrilha na nossa frente, e os velhotes não leem jornal no meio da rua, e as mocinhas que carregam à cabeça seus tabuleiros de penteados não resolvem atravessar, com suas perninhas trepadas em metro e meio de saltos, justamente por lugares por onde nem a bola de futebol doméstico se arrisca.

Dias perfeitos são esses em que se vai ao teatro, como mandam os amigos, e os atores sabem o que estão fazendo, e a vizinha de trás não conversa do prólogo ao epílogo sobre assuntos particulares, e a menina da frente não chupa, não mastiga e não assovia caramelos e o cavalheiro da esquerda não pega no sono, resvalando insensivelmente para cima de nós o seu mavioso ronco.

Dias perfeitos, esses em que voltamos para a casa e a encontramos intacta, no mesmo lugar, e intactos estão os nossos tristes ossos, e podemos dormir em paz, tranquilos e felizes como se voltássemos apenas de um passeio pelos anéis de Saturno.
Cecília Meireles

quinta-feira, julho 2

Dia de vadiar

 


A complicada arte de ver


Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.


Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que veem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”.
Rubem Alves

Sobre leituras obrigatórias e lunetas

Andou circulando recentemente em Portugal uma polêmica sobre leituras obrigatórias e leituras sugeridas para estudantes do ensino médio. A discussão entre professores e escritores orbita em torno de quais livros deveriam constar da lista obrigatória. Poderíamos nos deter, antes, no ponto da obrigatoriedade: será sempre um pouco triste que a leitura de um livro de literatura seja imposta a alguém. Que um estudante tenha em seu repertório ainda embrionário de leitura este ou aquele autor, este ou aquele livro importante, simplesmente porque foi obrigado a passar por eles.


Por que não oferecer ao adolescente um leque de excelentes opções pré-selecionadas, todas como leituras sugeridas, dando ao próprio adolescente o direito de escolha? Pergunto isso pensando na estudante que eu mesma fui e no quanto me custou ter sido obrigada a ler A luneta mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, entre meus doze e treze anos.

O estilo do autor, seus longos períodos, seu vocabulário luxuoso, a roupagem de época, a ironia, tudo colaborava para tornar a obrigatoriedade daquela leitura ainda mais penosa. Sim, foi penoso ler esse livro. Eu não estava pronta para aproveitá-lo aos treze anos. Porque há ironias que levamos anos de experiência de vida (e leitura) para desfrutar. Porque há lucubrações a que só nos devotamos depois da madureza. Porque há uma importância nos livros que lemos, para além das razões canônicas, que só desvendamos por nós mesmos.

Mais de trinta anos depois, li como pela primeira vez A luneta mágica e então pude rir deliciosamente de sua ironia, saborear seu léxico e perceber o atemporal da fábula ali contida. Livro menos conhecido de Joaquim Manuel de Macedo, sem dúvida menos lido que A moreninha, vale a pena resgatá-lo — como leitura sugerida — para os nossos tempos. A história conta as desventuras de Simplício, sujeito incorrigivelmente míope de vista e de espírito, em sua tragicômica jornada pessoal do senso comum ao bom senso.

Ambientado no tempo do império de D. Pedro II, publicado originalmente em folhetim, em 1869, o romance é contemporâneo de O idiota, de Dostoievski, publicado no mesmo ano, também em folhetim. Simplício é um parente brasileiro não distante do idiota russo (ambos parentes do avoengo Cândido, de Voltaire). Enquanto sujeito míope, Simplício é um exemplar do senso comum, muito bem aceito na família e socialmente. Mas, quando dotado do poder da visão do mal na alma das pessoas, graças a uma luneta mágica, ele é tomado por louco. A seguir, dotado do poder da visão do bem, graças a uma segunda luneta mágica, é considerado um néscio e abusado por todos. Apenas depois dessa infeliz iniciação nos excessos do bem e do mal, quase banido da sociedade, enganado, roubado, quase destruído, Simplício ganha o poder de ver através de uma terceira luneta: a do bom senso.

Quão distante do nosso tempo está a fábula de Joaquim Manuel de Macedo? Uma fábula em que “bom senso é senso raro” e, justamente, por ser raro, dele ficam dispensados, em nome da ordem geral e do senso comum, magistrados, deputados, senadores e ministros. Uma fábula em que a opinião pública é caprichosa e, por contágio moral entre seus cidadãos, pode exaltar aquilo ou aquele que antes condenava (e vice-versa) num intervalo de poucos dias. Uma fábula em que é sintoma inequívoco de loucura para a sociedade alguém “dizer a verdade sem rebuço”.

O que vê através da luneta mágica do bom senso, Simplício não pode dizer, porque jurou sigilo, ainda que desejasse contá-lo e, mais, que fosse a favor da distribuição de lunetas dessas entre membros do ministério e do governo do país. E nós? Usamos de que magias ou miopias para formulação dos nossos juízos? Temos visto algumas vezes pela lente do bom senso?

Revejo agora a polêmica das leituras obrigatórias e penso no tormento da dificuldade e da incompreensão dos meus treze anos convertido no entusiasmo de finalmente ver bem e ainda alcançar o riso. Porque, malograda, aquela primeira leitura de A luneta mágica foi para mim inesquecível. No tempo certo, voltei ao livro e finalmente o descobri. Talvez o desconhecesse até hoje, não tivesse sido obrigada a encará-lo um dia, antes da hora. De algum modo, então, devo uma coisa à outra: o tormento de antes ao entusiasmo de depois. Ainda que toda imposição de leitura, para o caso de livros de literatura, seja sempre um pouco triste, sim.

Ode à paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos.
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,


Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa passar a Vida!
Natália Correia

Desgraçador

Um dia na cidade do Porto presenciei uma cena entre um homem e uma mulher que nunca mais pude esquecer. O cenário onde isto se passou é dos mais pitorescos que os meus olhos viram: a Ribeira, ou a Ribeira Velha, creio eu que lhe chamam. É um cais sobre o Douro, perto da ponte de D. Luís. Todo o aspecto em redor é pesado e amontoado, conforme o carácter da cidade. Desde aquele cais a cidade sobe sempre em todas as direções até à Torre dos Clérigos. Na outra margem a ascensão iguala-se à de cá, de modo que o rio parece ter metido pelo mais alto de um monte que ficou dividido. Tudo isto faz com que o cais nos dê a estúpida impressão de estar enterrado. Lembro-me de umas interessantíssimas casas cujos alicerces se adivinham por causa da solidez com que as suas fachadas intimam os nossos olhos. Julgo serem vermelhas, ou foi a impressão violenta da cor que me deixaram. Do que bem me lembro é dos arcos em vez de portas e de umas janelas que pareciam desviadas dos seus respectivos lugares. Os arcos abriam umas lojas não sei de quê, pois fixei apenas os seus fundos negros, os mais negros e os mais fundos que tenho conhecido.

Pondo por cima disto tudo uma camada de antiguidade cor de ardósia e de ferrugem, de nevoeiro fabril e de salitre, a descrição deve ficar aproximada, descontando, é claro, o autor e a circunstância de ter gozado esta vista apenas uma vez.

No cais as pessoas são bem as das respectivas casas. A aglomeração de gente é como a do casario. Um mercado justifica aquela frequência. Além disto, a carga e a descarga das fragatas ocupa uma quantidade imensa de mulheres e de homens, mas sobretudo mulheres. É uma raça diferente da do mercado. Poucas vezes me foi dado compreender melhor o que significam aquelas: ganhar o pão de cada dia, do que ao ver essas mulheres que iam e vinham sobre duas grossas e compridas pranchas de madeira lançadas desde a borda da fragata até ao cais, numa distância parecida com uns dez metros. O equilíbrio dessas mulheres não tinha uma hesitação à altura de três homens da água, e em menos de três palmos de largura durante os dez metros. Acrescente-se a isto que levavam à cabeça as canastras, umas vezes vazias e outras vezes cheias até acima, em pirâmide, conforme iam ou vinham da fragata. Daquela vez não me lembro do que descarregavam; apetecia-me que fossem laranjas, mas não insisto com a memória; tenho, contudo, ainda na mente a maneira rápida como davam conta daquele serviço, conservando sempre um tempo ginástico, e não digo militar, porque além dos gestos sóbrios e simplificados, corrigidos para o próprio trabalho repetido em que andavam, havia também uma beleza de linhas e de formas à qual não era estranha a sua natureza feminina. O gesto de abaixarem-se para acertar a cabeça ao meio da canastra carregada, a marcha sobre a prancha com o peso todo à cabeça, o modo de despejar a canastra inclinando o corpo de lado pela cintura eram exactos e cheios de graça. As alcochetanas que descarregam das fragatas o carvão inglês nos cais de Lisboa por este mesmo processo não podem infelizmente ser-lhes comparadas. Se não lhes falta a graça, a sua graça é outra, mas não dispõem das ossaturas opulentas das mulheres do Norte e muito menos daquela dignidade externa, a qual me surpreendeu em mulheres de pé descalço. Eram umas dezenas de mulheres todas semelhantes. Por contraste com a sua actividade havia no cais uns homens sentados e outros deitados ao sol em sacas de sarapilheira cheias de mercadoria. Para um destes homens aquelas dezenas de mulheres não eram todas a mesma; esperava sempre que essa passasse mais perto donde ele estava para lhe dizer o que tinha a dizer-lhe. A rapariga não fazia caso e seguia como as outras. Era um dito qualquer e talvez sempre o mesmo de todas as vezes que acontecia chegar a altura de ela passar por onde ele estava. Centenas de vezes e não falhou uma! Mas de uma vez a rapariga vinha a meio da prancha com a canastra carregadinha, e ele começou logo como de costume a gracejar com ela; sem ninguém esperar, ali mesmo de cima da prancha, parou de repente, despejou a canastra no rio, apontou o braço livre em direcção ao tal homem e com o sangue todo nas faces disse-lhe esta única palavra:

— Desgraçador!

Nunca mais esqueci esta palavra.

Almada Negreiros, "Nome de Guerra"

A cidade pequena

A cidade pequena vive sua infância tropeçando nas ruas enlameadas quando é chegado o tempo de chuva pesada. Lateja nas veias a vontade visível de como ela quer crescer através do trabalho de seu povo. Move-se pela riqueza de poucos abastados e o esforço da maioria pobre, mas sem miséria. É evidente que se mostra como uma cidade ainda acanhada nos gestos e nas coisas. Há pouco movimento de carro na rua, os primeiros sobrados começam a ser erguidos no local onde moram as famílias ricas. Essa cidade caminha nos dias atribulados, sem hesitar nos passos incansáveis, tornozelos e pulsos no esforço dos que levantam coisas pesadas.

Mãos rústicas arrumam maxixes, quiabos e pimentões sobre a tábua rústica da mesa armada perto do ponto de ônibus. O verdureiro carrega o tabuleiro na cabeça mercando pelas ruas couve, alface e coentro, alardeando o verde na semana, feito de verduras e legumes. Por onde passa, segue com a voz que não para, entoa uma música com notas vagarosas, quentes, que agrada a quem escuta. Merca seu produto batido pelos raios de sol, enquanto o verão aquece todas as coisas através do seu brilho trazido do infinito e que se reflete pelas pedras irregulares das ruas estreitas.

Entra e sai verão, o sol atira seus raios como flechas luminosas sobre todos os cantos da cidade. No inverno, o aguaceiro bate no dorso do rio, escorrendo pelas valetas, deixando com lama as ruas sem calçamento. No tempo de estio, a cidade esbanja ardor debaixo dos azuis do céu e por entre os verdes que gramam os barrancos do rio. Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos nas águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos rasgando fendas no silêncio da natureza. Era quando mais sorria. Isso acontecia quando o rio, pleno de inocências e purezas, tinha peixe em abundância.

Havia a cidade vizinha de praias belíssimas. Lá acontecia o veraneio em cada verão com o sol iluminando os seres e as coisas postas no mundo por Deus para que sejam alcançadas, contempladas, apanhadas e utilizadas. Aquela cidade marinha havia sido abençoada pela natureza, o mar batia, voltava, batia. O sol se admirava nos mil espelhos que espalhavam nas ondas que jogavam pra lá, pra cá.

No entanto, a cidade pequena, com um rio que a dividia em duas partes, ofertava ao menino de calção, peito nu, pé no chão as aventuras mais incríveis. Sustos esplêndidos, surpresas inesquecíveis. Ah, a vida era compreendida com suas marcas ardorosas no verão, aconchegantes no sono quando o inverno chegava com suas toalhas esvoaçantes e envolvia na manhã fria a paisagem escondida no fumo das horas.

Aquela cidade pequena enchia de sentimentos a alma do menino. Era mais envolvente por isso. Muito linda.

quarta-feira, julho 1

Miniatura dos sonhos

 


Buquinagem

Percorrer as estantes de um sebo, no exercício da saudável buquinagem, é às vezes um prazer leve como uma pescaria e às vezes tão excitante quanto uma busca sexual. Surpreendi um dia um setentão no canto menos iluminado da sala apalpando um livro de Erica Jong e falando baixo com ele, como se lhe propusesse algo.

***

Desconhecer o que viemos fazer aqui nos livra de fadigas e decepções. Esqueçamos nossas presunções e gozemos a suprema delícia de não termos missão nenhuma.

***

Quando chovia forte, Mário de Andrade, que dizia ser trezentos e cinquenta, não saía de casa. Mandava em seu lugar um dos trezentos e quarenta e nove outros.

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Bom tempo foi aquele em que o amor nos alimentava com fartura, para que cumpríssemos suas demandas noturnas e, se delas nos descurássemos, pudéssemos resistir ao rancor do seu chicote.

***

O que está sempre em jogo no amor é a fixação de um domínio, de uma primazia. Mesmo que esse domínio e essa primazia consistam, para quem os fixa, em submeter-se, de plena vontade, ao domínio e à primazia do parceiro amoroso.

***

Se eu fosse um apóstolo do amor, se eu fosse digno dessa missão, o livro-base do meu culto – a bíblia, por assim dizer – seria O museu da inocência, de Orhan Pamuk. Não conheço nenhum que se equipare a ele em força lírica, em delicadeza, em suavidade. Eu daria a alma para tê-lo escrito – o que, na verdade, significa que gostaria de ter vivido a história do personagem Kemal, subjugado por uma lembrança amorosa tão pungentemente agradável de ser sofrida que ele bem mereceria mais de uma vida para vivê-la. O museu da inocência é um livro para aqueles que não se envergonhariam de lamber uma estátua do amor, ainda que fosse obra do pior dos escultores e feita com a mais reles das argilas.

***

Quem se julga heroico quando se declara disposto a dar a vida pelo amor não faz nada além de reproduzir hoje um hábito muito comum outrora.

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Porque nossos braços já não são os mesmos, as árvores derrubam gentilmente seus frutos para nós. Não são os melhores, sabemos, mas já aprendemos a não nos lamentar.

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O que o amor de mais cruel tem é quando nós lhe dizemos que sem ele morreremos, e ele, distraído, diz: hem?

***

Quem mais fala de amor e quem menos o define são os poetas.

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Que alma seria suficientemente tola para querer ser a minha?

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Todos os poetas deveriam morrer por amor. É a única coisa que, em sua biografia, pode legitimá-los.

***

Sou um entusiasmado adepto da apatia.

***

Ter existido um homem chamado Shakespeare, que fez o que fez, é quase tão inacreditável quanto existir Deus.

***

Poemas de amor deveriam ser vendidos em floriculturas.

***

Para os suicidas mais convictos, morrer acaba se tornando um projeto de vida.

Ato de contrição

Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

— por tudo, vida, perdão!
Adolfo Casais Monteiro

Inverno nos Abruzos

Deus nobis haec otia fecit


Nos Abruzos há só duas estações: o Inverno e o Verão. A Primavera é nevada e ventosa como o Inverno, e o Outono é quente e límpido como o Verão. O Verão começa em Junho e termina em Novembro. Os longos dias ensolarados sobre as colinas baixas e abrasadas, a poeira amarela da rua e a disenteria das crianças acabam e o Inverno começa. As pessoas deixam então de viver nas ruas: os rapazes descalços desaparecem das escadas da igreja. Na aldeia de que falo, os homens desapareciam quase completamente após as últimas colheitas: iam trabalhar para Terni, para Sulmona, para Roma. Era uma aldeia de pedreiros: e algumas das casas eram construídas com graça, tinham terraços e colunazinhas como pequenas villas, e era surpreendente encontrar nelas, ao entrar, grandes cozinhas sombrias onde havia presuntos pendurados e grandes quartos desolados e vazios. O lume estava aceso nas cozinhas e havia lumes de várias espécies, havia grandes lumes de azinho, lumes de ramadas e folhas, lumes de galhos apanhados do chão um a um. Era fácil distinguir os pobres dos ricos vendo que lume acendiam; mais fácil do que vendo as casas e as pessoas, as roupas e o calçado, que eram sempre mais ou menos iguais. Quando cheguei à aldeia de que falo, nos primeiros tempos todos os rostos me pareciam iguais, todas as mulheres se assemelhavam umas às outras, ricas e pobres, novas e velhas. Tinham quase todas a boca desdentada: as mulheres ali perdiam os dentes aos trinta anos, devido às fadigas e à má alimentação, aos esforços dos partos e dos aleitamentos, que se seguiam sem trégua. Mas depois comecei pouco a pouco a distinguir a Vincenzina da Secondina, a Annunziata da Addolorata, e também a entrar em todas as casas e a aquecer ‑me aos seus diferentes lumes. Quando a primeira neve começava a cair, apoderava ‑se de nós uma lenta tristeza. Era um exílio, o nosso: a nossa cidade estava longe e estavam longe os livros, os amigos, as coisas várias e volúveis de uma verdadeira existência. Acendíamos a nossa estufa verde, com o seu tubo comprido que atravessava o tecto: reuníamo‑nos todos na divisão onde estava a estufa, e aí cozinhávamos e comíamos, o meu marido escrevia sentado à grande mesa oval, as crianças espalhavam os seus brinquedos pelo chão. No tecto da sala havia uma águia pintada: e eu olhava a água e pensava que era aquilo o exílio. O exílio era a águia, era a estufa verde que zumbia, era o campo silencioso e vasto e a neve imóvel. Às cinco soavam os sinos da Igreja de Santa Maria, e as mulheres iam à bênção, com os seus xailes pretos e o rosto vermelho. Todas as tardes o meu marido e eu dávamos um passeio: todas as tardes caminhávamos de braço dado, enterrando os pés na neve. As casas que ladeavam a rua eram habitadas por gente conhecida e amiga: e todos apareciam à porta e nos diziam: “Que tenham boa saúde.” Por vezes alguém perguntava: “Mas quando é que voltam para a vossa casa?” O meu marido dizia: “Quando a guerra acabar.” “E quando é que guerra acaba? Sabes tudo e és professor, quando é que ela acaba?” Chamavam ao meu marido “o professor”, não sabendo pronunciar o nome dele, e vinham de longe consultá‑lo sobre as coisas mais variadas, sobre a melhor época do ano para se tirarem os dentes, sobre os subsídios concedidos pelo município e sobre as contribuições e os impostos. De Inverno uma pneumonia levava algum velho, os sinos de Santa Maria dobravam a finados, e Domenico Orecchia, o carpinteiro, fabricava o caixão. Uma mulher enlouqueceu e levaram ‑na para o manicómio de Collemaggio, e a aldeia falou do caso durante algum tempo. Era uma mulher nova e asseada, a mais asseada de toda a aldeia: e disseram que aquilo lhe acontecera por causa do seu grande asseio. A Gigetto di Calcedonio nasceram duas gémeas, além dos dois gémeos que já tinha em casa, e ele armou um escândalo no município porque não queriam dar ‑lhe o subsídio, por ter já muitas terras e um pomar do tamanho de sete cidades. Uma vizinha cuspiu no olho de Rosa, a porteira da escola, e esta começou a andar com uma venda no olho para que lhe pagassem uma indemnização. “O olho é delicado, o cuspo é salgado”, explicava ela. E também do seu caso se falou durante algum tempo, até mais nada haver a dizer sobre ele. A nostalgia crescia em nós de dia para dia. Por vezes era até agradável, como uma companhia terna e ligeiramente inebriante. Chegavam cartas da nossa cidade, com notícias de casamentos e de mortes que nos excluíam. Por vezes a nostalgia fazia ‑se aguda e amarga, e tornava‑se ódio: então odiávamos Domenico Orecchia, Gigetto di Calcedonio, Annunziatina, os sinos de Santa Maria. Mas era um ódio que mantínhamos escondido, porque o reconhecíamos injusto: e a nossa casa estava sempre cheia de gente, que vinha pedir favores e que vinha oferecê‑los. Por vezes a costureira vinha fazer‑nos sagnoccole. Atava um pano à cintura e batia os ovos, e mandava Crocetta procurar na aldeia alguém que pudesse em prestar‑nos um caldeirão bem grande. O seu rosto vermelho tinha uma expressão absorta e os olhos resplandeciam ‑lhe de uma vontade imperiosa. Teria sido capaz de deitar fogo à casa para que as sagnoccole lhe saíssem bem.

Ficava com a roupa e os cabelos brancos de farinha, e, em cima da mesa oval onde o meu marido escrevia, iam sendo depositadas as sagnocolle. Crocetta era a nossa mulher a dias. A verdade é que não era uma mulher porque tinha catorze anos. Fora a costureira quem no ‑la descobrira. A costureira dividia o mundo em dois campos: os que se penteiam e os que não se penteiam. Devem evitar ‑se os que não se penteiam, porque natural mente têm piolhos. Crocetta penteava ‑se: e por isso ficou a servir‑nos, e contava às crianças longas histórias de mortos e de cemitérios. Era uma vez um menino a quem a mãe morreu. O pai arranjou outra mulher e a madrasta não gostava do menino. Por isso matou ‑o enquanto o pai estava nos campos e fez com ele um cozido. O pai volta para casa e come, mas, depois de ter acabado de comer, os ossos que tinham ficado no prato põem ‑se a cantar:

Minha madrasta a maldita
cozeu‑me numa marmita
e depois de me cozer
deu‑me ao meu pai a comer.


Então o pai mata a mulher com a foice e pendura ‑a num prego na porta. Por vezes surpreendo ‑me a murmurar as palavras desta canção, e então toda a aldeia torna a aparecer diante de mim, juntamente com o sabor particular das suas estações, juntamente com o sopro gelado do vento e o som dos sinos Todas as manhãs eu saía com os meus filhos e as pessoas espantavam ‑se e desaprovavam ver ‑me expô‑los assim ao frio e à neve. “Que pecado fizeram estas criaturas?”, diziam. “Não está tempo para passeios, signò. Volta para casa.”

Nós andávamos muito tempo pelo campo branco e deserto, e as raras pessoas que encontrava olhavam para os meus filhos com piedade. “Que pecado fizeram?”, diziam ‑me. Quando ali nasce uma criança no Inverno, não a tiram de dentro do quarto antes de ter chegado o Verão. Ao meio ‑dia o meu marido vinha ter comigo trazendo o correio, e voltávamos todos para casa. Eu falava aos meus filhos da nossa cidade. Eram muito pequenos quando a deixáramos, e não tinham recordação nenhuma dela. Eu dizia ‑lhes que lá as casas tinham muitos andares, e que havia muitas casas e muitas ruas, e muitas lojas bonitas. “Mas aqui também há o Girò”, diziam os meus filhos. A loja do Girò ficava mesmo em frente da nossa casa. O Girò ficava à porta da loja como um velho mocho, e os seus olhos redondos e indiferentes fixavam a rua. Vendia um pouco de tudo: produtos alimentares e velas, postais, sapatos e laranjas. Quando chegava a mercadoria e Girò descarregava os caixotes, os rapazes corriam a comer as laranjas podres que ele deitava fora. No Natal chegavam também o torrão, os licores, os rebuçados. Mas Girò não cedia um soldo nos preços. “És muito ruim, Girò”, diziam ‑lhe as mulheres. Ele respondia: “Quem é bom os cães o comem.” No Natal os homens voltavam de Terni, de Sulmona, de Roma, ficavam por uns dias e tornavam a partir, depois de matarem o porco. Nos dias seguintes não se comia senão torresmos e salsichas, e não se fazia senão beber: depois os grunhidos dos pequenos porcos novos enchiam a rua. Em Fevereiro o ar tornava ‑se húmido e mole. Vagueavam no céu nuvens cinzentas e pesadas. Houve um ano em que durante o degelo se romperam as caleiras. Então começou a chover dentro de casa e os quartos transformaram ‑se em verdadeiros charcos. Mas foi a mesma coisa em toda a al deia: não ficou enxuta uma só casa. As mulheres despejavam baldes de água pelas janelas e varriam a água para fora de casa pelas portas.

Havia quem se deitasse na cama com um guarda ‑chuva aberto. Domenico Orecchia dizia que aquilo era castigo de algum pecado. Foi assim durante mais de uma semana: os últimos rastos de neve desapareceram por fim dos telhados, e Aristide reparou as caleiras. O fim do Inverno despertava em nós uma espécie de desassossego. Talvez viesse alguém visitar ‑nos: talvez acontecesse finalmente alguma coisa. Alguma vez o nosso exílio teria de acabar. Os caminhos que nos separavam do mundo pareciam mais curtos; o correio chegava com mais frequência. Todas as nossas frieiras se iam curando lentamente. Há uma certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. As nossas existências desenvolvem ‑se segundo leis antigas e imutáveis, segundo um seu ritmo uniforme e antigo. Os sonhos nunca se tornam verdade, e no momento em que os vemos despedaçados compreendemos de súbito que as maiores alegrias da nossa vida estão fora da realidade. A nossa sorte corre nesta alternância de esperanças e de nostalgias. O meu marido morreu em Roma na Prisão de Regina Coeli, poucos meses depois de termos deixado a aldeia. Perante o horror da morte solitária, perante as alternativas cheias de angústia que precederam a sua morte, pergunto ‑me se isto nos aconteceu a nós, a nós que comprávamos laranjas na loja de Girò e passeávamos na neve. Então eu tinha fé num futuro fácil e alegre, cheio de desejos satisfeitos, de experiências e de iniciativas comuns. Mas esse tempo era o melhor da minha vida, e só agora que me fugiu para sempre, só agora o sei.
Natalia Ginzburg, "As Pequenas Virtudes"

O jovem casal

Estavam esperando o bonde e fazia muito calor. Veio um bonde, mas estava tão cheio, com tanta gente pendurada nos estribos que ela apenas deu um passo à frente, ele apenas esboçou com o braço o gesto de quem vai pegar um balaústre — mas desistiram.

Um homem com uma carrocinha de pão obrigou-os a recuar mais para perto do meio-fio; depois o negrinho de uma lavanderia passou com a bicicleta tão junto que um vestido esvoaçante bateu na cara do rapaz.

Ela se queixou de dor de cabeça; ele sentia uma dor de dente não muito forte, mas enjoada e insistente, mas preferiu não dizer nada. Ano e meio casados, tanta aventura sonhada, e estavam tão mal naquele quarto de pensão do Catete, muito barulhento: "Lutaremos contra tudo" — havia dito — e ele pensou com amargor que estavam lutando apenas contra as baratas, as horríveis baratas do velho sobradão. Ela apenas com um gesto de susto e nojo se encolhia a um canto ou saía para o corredor — ele, com repugnância, ia matar o bicho; depois, com mais desgosto ainda, jogá-lo fora.

E havia as pulgas; havia a falta de água, e quando havia água, a fila dos hóspedes no corredor, diante da porta do chuveiro. Havia as instalações que sempre cheiravam mal, o papel da parede amarelado e feio, as duas velhas gordas, pintadas, da mesinha ao lado, que lhe tiravam o apetite para a mesquinha comida da pensão. Toda a tristeza, toda a mediocridade, toda a feiúra duma vida estreita onde o mau-gosto atroz e pretensioso da classe média se juntava à minuciosa ganância comercial — um ovo era "extraordinário", quando eles pediam dois ovos a dona da pensão olhava com raiva, estavam atrasados dias no pagamento.

Passou um ônibus enorme, parou logo adiante abrindo com ruído a porta, num grande suspiro de ar comprimido, e ela nem sequer olhou o ônibus, era tão mais caro. Ele teve um ímpeto, segurou-a pelo braço disposto a fazer uma pequena loucura financeira — "vamos pegar o ônibus!". Mas o monstro se fechara e partira jogando-lhes na cara um jato de fumaça ruim.

Ele então chegou mais para perto dela — lá vinha outro bonde, não, mas aquele não servia — enlaçou-a pela cintura, depois ficou segurando seu ombro com um gesto de ternura protetora, disse-lhe vagas meiguices, ela apenas ficou quieta. "Está doendo muito a cabeça?" Ela disse que não. "Seu cabelo agora está mais bonito, meio queimado de sol." Ela sorriu levemente, mas de repente: "ih, me esqueci da receita do médico", pediu-lhe a chave do quarto, ele disse que iria apanhar para ela, ela disse que não, ela iria; quando voltou, foi exatamente a tempo de perder um bonde quase vazio; os dois ficaram ali desanimados.

Então um grande carro conversível se deteve um instante perto dos dois, diante do sinal fechado. Lá dentro havia um casal, um sujeito meio calvo de ar importante na direção, uma mulherzinha muito pintada ao lado, sentiram o cheiro de seu perfume caro. A mulherzinha deu-lhes um vago olhar, examinou um pouco mais detidamente a moça, correndo os olhos da cabeça até os sapatos pobres — enquanto o senhor meio calvo dizia alguma coisa sobre anéis, e no momento do carro partir com um arranco macio e poderoso ouviram que a mulherzinha dizia: "se ele deixar aquele por quinze contos, eu fico."

Quinze contos — isso entrou dolorosamente pelos ouvidos do rapaz, parece que foi bater, como um soco, em seu estômago mal alimentado — quinze contos, meses e meses de pensão! Então olhou a mulher e achou-a tão linda e triste com sua blusinha branca, tão frágil, tão jovem e tão querida, que sentiu os olhos arderem de vontade de chorar de humilhação por ser tão pobre; disse: "Viu aquela vaca dizendo que vai comprar um anel de quinze contos?"

Vinha o bonde.
Rubem Braga, "A cidade e a roça"

terça-feira, junho 30

Conforto de leitura

 


Irmandade

Sou homem: duro pouco...
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.
Octavio Paz

Os comboios que vão para Antuérpia

Em janeiro eu estava em Bruxelas, nos subúrbios, numa casa sobre a linha férrea. Os comboios faziam estremecer o meu quarto. Fora-se o natal. Algo desa­parecera, uma coisa ingénua em que se poderia ter confiado. Talvez a esperança. Eu não tinha dinheiro nem livros nem cigarros. Não tinha trabalho nem ócio, por­que estava desesperado. Por isso passava o dia e a noite no quarto. Na linha em baixo rangiam e apitavam comboios que talvez fossem para Antuérpia. Eu pen­sava em Deus quando os comboios trepidavam nos carris e apitavam tão perto de mim. Quando iam pos­sivelmente a caminho de Antuérpia. Pensava nos com­boios como quem pensa em Deus: com uma falta de fé desesperada. Pensava também em Deus — um com­boio: algo que sem dúvida existe, mas é absurdo, que parte com um destino indefinido: Antuérpia — que pos­sivelmente (evidentemente) não era.

Às vezes vinha à janela e, por detrás dos vidros, olhava para o caminho de ferro. Mas antes de lá chegar os meus olhos encontravam uma árvore esquisita — tímida mas tenazmente viva — num quintal próximo. Esta árvore metia medo: era como a esperança em mim mesmo, ou uma ainda mais ambiciosa aposta: a fé do­lorosamente contraditória nos homens. Nos homens? Há em mim todas as virtudes da confiança, mas sou um desesperado. Apesar de tudo também sou um ho­mem. Tenho capacidades de amor. Amo a minha seme­lhança com todos os homens, mas desespero nesse mesmo amor. Estou fechado num quarto. Nem posso fumar. Não posso descansar. Imagino que se consiga partir de Antuérpia depois de lá chegar num desses comboios rangentes. Antuérpia não é um sítio final. É uma cidade como as outras: com bares e nevoeiros, o silêncio, as pessoas, as vozes, a matemática impe­netrável das suas multiplicações e desmultiplicações, e o fluxo e refluxo das imagens. Em Antuérpia há pros­titutas, há um calor humano degradado, a embriaguez. Lá também se morre. Talvez alguém tenha um dia res­suscitado em Antuérpia. Não sei.

O lugar em que penso é difícil, sempre difícil.

Ao norte existe o rio Escalda. De lá se parte, che­ga-se ao mar. Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura. Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confi­ança. É uma propriedade misteriosa do espírito, e por ela se aprende a nada esperar, a não desesperar de nada. Talvez seja isso a inocência. Talvez só no mar nos seja concedido morrer verdadeiramente, morrer como nenhum homem pode.

Esta minha vida de agora é circular e eu sufoco, sem dela poder sair, com o deus que lá existe, com Deus, com Deus... Comboios que não param de ranger e apitar. Comboios que partem. Durante a noite acordo muitas vezes com Deus a apitar. Mas de manhã a mi­nha falta de fé parece ainda maior e compreendo que nunca hei-de sair deste quarto e que os comboios são simples pensamentos, como Antuérpia, uma inspiração difusa, confusa.

Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quar­to, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vaga­mente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento do homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defron­te da porta, a poucos metros, à distância de um sim­ples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária des­sa pessoa atrás da porta. Ela não deveria bater, solici­tar, inquirir.

— Posso falar? Podemos falar?

O meu único alimento é o desespero. E é do cora­ção estéril que extraio toda a força: tenho confiança em que Deus está neste quarto, está na tão experiente ex­pectativa das tumultuosas passagens dos comboios.

O pensamento alude ao norte, a essa ideia que re­laciona o norte com o frio puro e a dramática alegria da neve, das temperaturas muito baixas. Alude também à viagem sem fé, inconsequente, feita com o inexpli­cável ardor de quem se inicia na eternidade.

Mas nem cigarros tenho. Estou possuído pelos dons infernais com que se cria um estilo sem tempo nem lugar, a fraternidade solitária, o amor sempre em viagem.

O meu gosto pela exactidão já sabe o horário dos comboios que possivelmente (evidentemente) nem vão para lá.

Deus principia a inspirar-me terror. A minha unida­de, sobretudo. A unidade fechada e imóvel. O universo passa bem sem mim, e o terror é uma inspiração sem mácula, dentro do que pode alcançar.

Não, não está ninguém junto à porta.
Herberto Helder, "Os Passos em Volta"