quinta-feira, junho 18

Leitura com amigo

 


A casa onde podemos ser nós

O segredo da vida é transformar vontades em farturas. Há uma maneira natural de conseguir e uma maneira mais inteligente.

A natural é ir tantas vezes a Nova Iorque que já não apetece nada ir a Nova Iorque. A inteligente é observar que as vontades são mais férteis do que as farturas e que não é preciso ir 20 vezes a Nova Iorque para perceber que tudo cansa e que a culpa não é de tudo, mas do pendor humano para o cansaço.


A pessoa sábia é aquela que prefere ficar em casa. Há umas que preferem ficar em casa porque desperdiçaram a vida a conhecer tudo o que o mundo tem, até descobrir que é em casa que se está bem. Depois há outras, mais rápidas, que descobrem cedo que o melhor que se pode fazer nesta vida faz-se melhor em casa do que no resto do mundo.

Digo casa, como quem diz a minha casa, ou Colares, ou Lisboa, ou Portugal: a nossa casa é concêntrica. Sim, mas é no centro que se está melhor.

O melhor da nossa casa não é a casa em si – é ser nossa. É isso que nenhum paraíso exterior pode oferecer. Nós somos a nossa casa. Quando mudamos de casa, nunca mudamos o que mais interessa, que somos nós.

Se estamos tristes e viajamos para fugir à tristeza, cedo descobrimos que a tristeza veio conosco. Mas com a alegria é a mesma coisa. A lição é que tanto faz ficar em casa ou viajar.

A casa verdadeira somos nós. O nosso ego, a nossa alma, a nossa maneira de ser é a inquilina do nosso corpo. Já tem casa. E é por isso que se sente em casa onde se pode sentir mais à vontade, onde pode ser mais desinibidamente ela própria: em casa.

Quando somos jovens só queremos exterioridades. Só queremos o que não temos. Penduramos todos os nossos sonhos em coisas que ainda não temos.

Infelizmente é inevitável que assim seja. Só assim – depois de obter algumas dessas coisas importantíssimas e ficar a perceber que não tinham importância nenhuma – é que aprendemos que já tínhamos tudo – ou quase tudo – de que precisávamos para nos divertirmos.

O rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

Manuel Bandeira

O vadio

Ele conhecera dias mais felizes, apesar do estado de miséria e de doença em que ora se encontrava.

Na idade de quinze anos, ficara com as pernas esmagadas por uma carruagem, na estrada real de Varville. Desde então mendigou, arrastando-se ao longo dos caminhos, através dos pátios das quintas, balouçado nas muletas, que lhe tinham feito levantar os ombros à altura das orelhas. A sua cabeça dir-se-ia enterrada entre duas montanhas.

Enjeitado encontrado num fosso, pelo cura de Billette, na véspera do dia de Finados, e batizado em razão disso, Nicolau Toussaint, educado por caridade, ficara estranho a todo e qualquer grau de instrução, estropiado depois de ter bebido alguns copos de aguardente oferecidos pelo padeiro da aldeia, para que ele fizesse rir, não tardou em dar em vagabundo, e mais nada sabia fazer do que estender a mão à caridade.


Outrora, a baronesa d'Avray concedia-lhe, para dormir, uma espécie de nicho cheio de palha, ao lado do galinheiro, na herdade que se ligava ao castelo: e ele ali estava ao abrigo, certo de, nos dias de grande fome, encontrar sempre um pedaço de pão e um copo de cidra na cozinha. Muitas vezes, recebia também alguns "sous" atirados pela velha senhora do alto da sua escadaria ou das janelas do seu quarto. Porém, ela morrera.

Nas aldeias, não lhe davam nada: conheciam-no por demais; estavam fartos de o ver; havia quarenta anos que o viam passear o deformado de seu corpo andrajoso sobre as suas duas patas de madeira.

Todavia, ele não queria deixar aqueles sítios, porque não conhecia outra coisa sobre a terra a não ser aquele canto de país, aquelas três ou quatro aldeias onde arrastara a sua vida miserável.

Marcara fronteiras à sua mendicidade e não teria nunca passado os limites que se acostumara a não ultrapassar.

Ignorava se o mundo se estenderia ainda muito para além das árvores que sempre tinham servido de limite à sua vida. Nem sequer o perguntava a si próprio. E quando os camponeses, cantados de o encontrarem todos os dias à beira dos seus campos ou ao longo dos seus fossos, lhe gritavam:

— Por que não vais tu para as outras aldeias, em lugar de andares sempre a mendigar por aqui? Ele não respondia, e afastava-se, tomado de um medo vago pelo desconhecido, de um medo de pobre que receia confusamente mil coisas, as novas caras, as injúrias, os olhares de desconfiança e suspeita das pessoas que o não conheciam, e os guardas que vão dois a dois pelas estradas e que o faziam esconder, por instinto, nas moitas ou por detrás das pedras.

Quando os via de longe, reluzentes ao sol — encontrava de repente uma agilidade singular, uma agilidade de monstro, para alcançar qualquer esconderijo. Saltava nas muletas, e deixava-se cair à maneira de um trapo, rolando como uma bola, tornando-se pequenino, invisível, acaçapado como uma lebre na sua toca, confundindo os seus trapos russos com a terra.

Ele não tivera, no entanto, nada com eles. Mas aquilo estava-lhe na massa do sangue, como se houvesse recebido aquele temor e aquela manha dos seus ascendentes, que não conhecera.

Não tinha refúgio, nem teto, nem cabana, nem abrigo. Dormia por toda a parte, quer de verão quer de inverno, e introduzia-se nas granjas ou nos estábulos com uma ligeireza notável. E raspava-se sempre antes que houvessem dado pela sua presença. Conhecia os buracos para penetrar nas construções, e o manejar das muletas havia-lhe dado aos braços um vigor tão surpreendente, que trepava só à força de pulso até aos celeiros de forragens, onde se conservava quatro ou cinco dias sem bulir, quando havia recolhido no seu giro as provisões suficientes.

Vivia como os animais dos bosques no meio dos homens, sem conhecer ninguém, sem amar ninguém, não excitando aos camponeses mais que uma espécie de desprezo indiferente e de hostilidade resignada. Tinham-lhe posto a alcunha do "Sino" porque se balouçava, entre as duas muletas de pau como um sino se balouça entre os seus suportes.

Havia dois dias que não comia. Ninguém já lhe dava nada. Por fim, nem já o queriam ver. Os camponeses, dos seus portais, gritavam-lhe quando o viam chegar:

— Vê lá se te queres pôr a andar, tonante! Ainda não há três dias que te dei um bocado de pão!

E ele girava sobre as suas estacas e dirigia-se à casa vizinha, onde o recebiam da mesma maneira.

As mulheres declaravam de porta para porta:

— Mas é que a gente não pode dar de comer a este preguiçoso todo o ano.

Todavia, o preguiçoso tinha necessidade de comer todos os dias.

Tinha percorrido Saint-Hilaire, Varville e les Bocettes, sem recolher um cêntimo nem uma simples côdea. Só lhe restava uma esperança, era, Tournolles; mas era-lhe preciso caminhar ainda duas léguas pela estrada real, e sentia-se cansado a ponto de não poder arrastar-se mais, tendo o ventre tão vazio como a algibeira.

Apesar de tudo, pôs-se em marcha.

Era em dezembro. Um vento frio percorria os campos, sibilava nos ramos nus; e as nuvens galopavam através do céu baixo e sombrio, apressando-se não se sabe para onde. O estropiado caminhava lentamente, deslocando os seus suportes um após outro com penoso esforço, escorando-se na perna torcida que lhe restava, terminada por um pé aleijado e calçado por um trapo.

De tempos a tempos, assentava-se no fosso e descansava alguns minutos. A fome punha uma grande mágoa na alma confusa e pesada. Ele sô tinha uma ideia: "comer", mas não sabia por que meio.

Durante três horas, penou na comprida estrada; depois, quando avistou as árvores da aldeia, apressou os seus movimentos.

O primeiro lavrador que encontrou e ao qual pediu esmola, respondeu-lhe:

— Tu ainda por aqui? velho desprezível! Então eu nunca me verei livre de ti?

E o "Sino" afastou-se. De porta em porta, correram-no, recambiaram-no, sem lhe darem nada. E ele continuava, apesar disso, o seu giro, paciente e obstinado. Não recolheu um sou.

Então visitou as herdades, caminhando através das terras amolecidas pelas chuvas, por tal forma extenuado que nem sequer podia levantar as muletas. Escorraçavam-no de toda a parte. Era um desses dias frios e tristes em que os corações se fecham, em que os espíritos se irritam, em que a alma está sombria, em que a mão não se abre nem para dar nem para socorrer.

Quando acabou de visitar todas as casas que conhecia, foi cair ao canto de uma vala, ao longo do pátio do tio Chiquet. Despegou-se, como se dizia para exprimir a maneira porque se deixava cair de entre as muletas que fazia escorregar por debaixo dos braços. Ficou por largo tempo imóvel, torturado pela fome, mas era muito bruto para que pudesse penetrar a sua insondável miséria.

Esperava não se sabe o que, naquela vaga esperança que existe constante em nós.

Esperava ao canto daquele pátio, sob o vento gelado, o auxílio misterioso que se espera sempre do céu ou dos homens, sem que saiba como, nem por que, nem por quem ele nos poderá chegar. Passava um bando de galinhas pretas, buscando a sua vida na terra que alimenta todos os seres. A cada instante, picavam com uma bicada um grão ou um inseto invisível, depois continuavam a sua busca lenta e segura.

O "Sino" olhava para elas sem pensar em nada; depois veio-lhe, mais ao ventre que propriamente à cabeça, mais à sensação que à ideia, que um daqueles animais seria bom para comer assado no borralho de uns troncos secos. A suposição de que ia cometer um roubo nem de leve roçou pelo seu espírito. Pegou numa pedra que se achava ao alcance da mão, e, como a tinha certeira, matou redondamente, atirando logo por terra a ave que estava mais próxima. O animal caíra de flanco, remexendo as asas. As outras fugiram, balouçando-se nas suas patas delgadas, e o "Sino", escalando novamente as suas muletas, pôs-se em marcha para ir apanhar a sua caça, com movimentos iguais aos das galinhas.

Ao chegar perto do pequeno corpo preto manchado de vermelho na cabeça, recebeu um empurrão terrível pelas costas, que o fez cair das muletas e o fez rolar a dez passos para a frente.

E o tio Chiquet, exasperado, precipitando-se sobre o pilha, encheu-o de pancadas, batendo como um furioso, como bate um camponês roubado, com o punho e com o joelho por todo o corpo do enfermo, que não podia defender-se.

As pessoas da herdade chegaram por sua vez e puseram-se com o patrão a sovar o mendigo. Depois, quando se cansaram de lhe bater, agarraram nele, levaram-no e fecharam-no na casa da lenha, enquanto iam busca das autoridades.

"Sino", meio morto, sangrando e estourando de fome, ficou deitado no chão. Chegou a tarde, veio a noite, depois a aurora, e ele sem comer.

Pelo meio dia, os guardas apareceram e abriram a porta com precaução, esperando uma resistência, porque o tio Chiquet dizia ter sido atacado pelo vadio e ter-se defendido a grande custo.

O cabo bradou:

— Vamos! saia daí!

Mas "Sino" não se podia mexer; ainda tentou erguer-se nos seus suportes, mas não o conseguiu. Julgaram que era fingimento, que era manha, que era má vontade do malfeitor, e os dois homens armados trataram-no asperamente, empunharam-no e puseram-no à força sobre as muletas.

O medo apossara-se dele, aquele medo inato que os desgraçados têm das correias militares, o medo a caça em presença do caçador, do rato diante do gato. E, com esforços sobre-humanos, lá conseguiu pôr-se em pé.

— Marche! disse o cabo. Ele marchou. Todo o pessoal da herdade o via partir. As mulheres mostravam-lhe o punho; os homens chacoteavam-no; injuriavam-no: tinham-lhe dado fim! Estavam livres.

Ele afastou-se entre os dois guardas. Achou a energia desesperada que lhe era precisa para se arrastar ainda até à noite, embrutecido, não sabendo nem sequer o que lhe sucedia, assustado por demais para que pudesse compreender.

As pessoas que o encontravam detinham-se para o ver assar, e os camponeses murmuravam:

— É algum ladrão!

Pela noitinha, chegaram à comarca. Ele nunca tinha ido até ali. Não dava verdadeiramente conta do que se passava nem do que lhe podia acontecer. Todas aquelas casas novas o consternavam.

Não pronunciou mais uma palavra, nada tendo a dizer, porque nada compreendia. Desde muitos anos que não falava a ninguém, por isso quase perdera o uso da linguagem; e o seu pensamento estava também muito confuso para poder formular palavras. Encerraram-no na prisão da Villa. Os guardas não pensaram em que ele poderia ter vontade de comer, e deixaram-no até ao outro dia.

Mas, quando vieram para o interrogar, logo de manhãzinha, acharam-no morto, no chão.

Que surpresa!
Guy de Maupassant

Da utilidade dos animais

Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram animais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós, e, além disso, são muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca… Todos ajudam.— Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?— Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de carga. Do pelo se fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.— Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?— Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.— Ele faz pincel, professora?— Quem, o texugo? Não, só fornece o pelo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer. Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a utilidade do canguru.— Bolsas, malas, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando na carne. Canguru é utilíssimo.— Vivo, fessora?— A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pelo dela preparamos ponchos, mantos, cobertores etc.— Depois a gente come a vicunha, né fessora?— Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a crescer…— E a gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.— Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?— A carne também é listrada? — pergunta que desencadeia riso geral.— Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível por causa disso. Ah, o pinguim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento — não sabem o que é? O cocô do pinguim é um adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito com a gordura do pinguim…— A senhora disse que a gente deve respeitar.— Claro. Mas o óleo é bom.— Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.— Pois lucra. O pelo dá escovas de ótima qualidade.— E o castor?— Pois quando voltar a moda do chapéu para homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar um bom exemplo.— Eu, hem?— Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living de sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pelos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não calculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa… O biguá é engraçado.— Engraçado, como?— Apanha peixe pra gente.— Apanha e entrega professora?— Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe, mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.— Bobo que ele é.— Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu Ricardo?— Entendi. A gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o pelo, o couro e os ossos.

Carlos Drummond de Andrade

Ceição

A escada tem vinte e oito degraus. E liga as tirânicas necessidades da mesa de D. Marfisa ao comércio ambulante e rumoroso que lhe passa pela frente do sobrado. Ao longo dessa escada, circulam pra baixo e pra cima, incansavelmente, duas pernas finas e esfoladas. São as pernas de Maria da Conceição – a Ceição. Agora, a carrocinha do verdureiro para defronte à casa de D. Marfisa. E, Dona Marfisa comanda:

- Ceição, dá um pulinho lá e pergunta o que é que ele tem de bom, hoje.
Conceição vai e volta:

- Tem abobra, chuchu, couve, repolho, agrião…

- Pergunta pra ele se tem alface. Ceição vai e volta:

- Mandou dizer que tem.

- Pergunta pra ele se a alface é nova. Ceição vai e volta:

- Mandou dizer que é.

- Pergunta pra ele quanto é o pé. Ceição vai e volta:

- Mandou dizer que é cinquenta…

- Pergunta pra ele se não acha caro. Ceição vai e volta:

- Mandou dizer que não, que é até barato.

- Então, pede dois pés. Ceição vai e volta:

- Tai, madrinha. D. Marfisa apanha os pés de alface, olha-os, examina-os.

- Bem. Agora, dá um pulinho lá e pergunta pra ele se tem troco pra uma nota de duzentos. Ceição vai e volta:

- Mandou dizer que tem.

- Pergunta pra ele se não é melhor assentar no caderno. Ceição vai e volta:

- Mandou dizer que, se a senhora quiser, ele assenta.

- Diz pra ele que não. Leva o dinheiro e paga já. Não quero mais saber de caderno. Ceição vai e volta:

- Mandou dizer que é pra senhora conferir o troco.

D. Marfisa confere:

- Tá certo. Mas esta nota parece que é falsa. Dá um pulinho lá e diz pra ele que me mande outra. Ceição vai e volta. Volta e geme:

- Tai, madrinha.

Então as duas pernas dobram, vergam – os ossos de Ceição quase se desmancham no assoalho asseadíssimo do sobrado da madrinha.

Ontem, D. Marfisa estava dizendo para a cozinheira:

- Como tu vês, Josefa, eu poupo o mais possível essa negrinha…
Athos Damasceno, "Persianas Verdes"

quarta-feira, junho 17

Gerações trocadas

 


O meu peixe graúdo

A porta da casa onde o rapaz vivia não estava trancada, e abriu-a e avançou silenciosamente com os pés descalços. O rapaz dormia numa maca na sala de entrada, e o velho via-o claramente à luz, que entrava, da lua a pôr-se. Agarrou-lhe delicadamente num pé e segurou-o até o rapaz acordar e se voltar e olhar para ele. O velho fez um aceno de cabeça, e o rapaz tirou as calças da cadeira ao pé da cama e, sentado na cama, enfiou-as.

O velho saiu a porta e o rapaz veio atrás dele. Estava ensonado, e o velho passou-lhe o braço pelo ombro e disse: – Desculpa.

– Qué va – respondeu o rapaz. – É o que cabe a um homem.

Desceram o caminho até à choupana do velho, e pela estrada fora, no escuro, homens descalços se moviam, acarretando os mastros dos seus barcos.

Quando chegaram à choupana do velho, o rapaz pegou no cesto das linhas e no arpão e no croque, e o velho levava ao ombro o mastro com a vela enrolada.
– Queres café? – perguntou o rapaz.

– Vamos pôr a palamenta no barco e depois tomamos café.

Tomaram café em latas de leite condensado, numa tasca que abria para os pescadores.

– Que tal dormiste, meu velho? – perguntou o rapaz. Agora é que ia acordando, embora lhe custasse a largar o sono.

– Muito bem, Manolin – respondeu o velho. Sinto-me hoje com confiança.

– Também eu. E agora vou arranjar-te as sardinhas, mais as minhas e a tua isca fresca. É que é ele quem traz a palamenta. Nunca quer que lhe tragam nada.

– Somos diferentes – disse o velho. – Deixo-te trazer coisas, desde os teus cinco anos.

Bem sei – disse o rapaz. – Volto já. Toma outro café. Aqui fiam à gente.

Saiu, descalço pelos rochedos coralíferos, a caminho do frigorífico onde eram guardadas as iscas.

O velho bebeu devagar o seu café. Era quanto comeria o dia inteiro, e sabia que precisava de o tomar. Havia muito tempo que o maçava comer, e nunca levava merenda. Na proa do barco tinha uma garrafa de água, e de mais não precisava.

O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia com seixos, e pegaram no esquife e meteram-no ao mar.

– Boa sorte, meu velho.

– Boa sorte – respondeu o velho. Enfiou as amarrações de corda dos remos nos toletes e, debruçando-se contra a resistência das pás na água, começou a remar nas trevas para fora do porto. Havia barcos de outras praias saindo para o mar, e o velho ouvia-lhes o mergulhar e o impulso dos remos embora não pudesse vê-los, com a lua já posta atrás dos montes.

Às vezes, num barco alguém falava. Mas a maior parte dos barcos ia silenciosa, à exceção do mergulhar dos remos.

Dispersaram-se, uma vez chegados à embocadura do porto, e cada qual aproou à parte do oceano em que esperava encontrar peixe. O velho sabia que ia muito para o largo, e deixou para trás o cheiro de terra e remou para o lavado e matinal cheiro do oceano. Via a fosforescência dos sargaços do Golfo na água, ao remar por sobre aquela parte que os pescadores chamam “o grande poço” e era uma súbita fossa de setenta braças onde se congregava toda a espécie de peixes arrastados pelo redemoinho da corrente contra a abrupta parede do fundo do oceano. Havia aí concentrações de camarões e de peixes de isca e, às vezes, bandos de calamares nas cavidades mais fundas, e estes subiam à noite até à superfície onde todos os peixes comiam neles.

No escuro o velho sentia a manhã que vinha, e remando ouvia o som trêmulo dos peixes-voadores a sair da água e o silvo que as asas tesas faziam quando eles cortavam as trevas.

Gostava muito dos peixes-voadores, seus diletos amigos no oceano. Dos pássaros tinha pena, em especial das andorinhas-do-mar, escuras, delicadas, pequenas, que andavam sempre a voar e a olhar e a quase nunca encontrar nada, e pensava: “As aves têm uma vida mais dura do que a nossa, à exceção das de rapina e das muito fortes. Porque há pássaros tão delicados e finos como essas andorinhas, quando o oceano pode ser tão cruel? É gentil e muito belo. Mas sabe ser tão cruel, e sê-lo tão de súbito, que tais pássaros que voam e mergulham à caça, com as suas vozinhas tristes, são demasiado delicados para o mar”.

Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam boias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.

Remava vigorosamente, o que não constituía um esforço para ele, visto que mantinha o andamento, e a superfície do oceano estava chã, com apenas ocasionais redemoinhos da corrente.

Deixava que a corrente fizesse um terço do trabalho, e ao começar a ser dia viu que já ia mais longe do que esperava ir àquela hora.

“Andei nos fundões uma semana, e nada, pensou. Pois vou hoje para onde vogam os cardumes de bonitos e albacoras, e talvez por lá apareça um dos grandes”.

Antes de ser dia claro, já ele tinha deitado as linhas e ia à deriva na corrente. Uma isca estava a quarenta braças. A segunda a setenta e cinco, e a terceira e a quarta estavam na água azul profunda a cem e a cento e vinte e cinco braças. As iscas pendiam de cabeça para baixo, com o corpo do anzol bem amarrado dentro do peixe; e a parte saliente do anzol, a curva e a ponta, estava coberta de sardinhas frescas. As sardinhas estavam enfiadas pelos olhos e eram assim como que uma grinalda no ferro saliente. Não havia uma porção de anzol que a um peixe graúdo não cheirasse bem e não soubesse melhor.

O rapaz havia-lhe dado duas pequenas “tunas” ou albacoras frescas, que como pesos pendiam das duas linhas mais profundas, e, nas outras, tinha ele um grande enxarréu e um chicharro que já haviam servido, mas estavam ainda em bom estado e as excelentes sardinhas lá lhes davam perfume e atrativo. Cada linha, da grossura de um lápis grande, estava montada numa cana, de modo que qualquer puxão ou toque no anzol logo faria a cana vergar, e cada linha tinha dois tambores de quarenta braças que podiam ser atados às reservas, a ponto de, se necessário, um peixe poder levar consigo mais de trezentas braças de linha.

E o homem observava as três canas à borda do esquife, e remava devagar para manter as linhas direitas e nas profundidades convenientes. Já era dia e de um momento para o outro nasceria o sol.

O sol ergueu-se levemente do mar, e o velho distinguia os outros barcos ao rés do horizonte e muito para terra, dispersos na corrente. Depois, o sol tornou-se mais resplandecente e o brilho veio sobre as águas, e depois, ao erguer-se de todo, o mar chão atirou-lhe o reflexo aos olhos e cegou-lhos, e remou pois sem olhar mais. Debruçou a vista para a água e observou as linhas que desciam direitas para a sombra profunda. Como ninguém ele as mantinha direitas, de modo a haver em cada nível das trevas da corrente uma isca exatamente aonde ele desejava que ela estivesse à espera de um peixe que por aí nadasse. Outros as deixavam ir à deriva na corrente, e às vezes estavam a sessenta braças quando os pescadores as julgavam a cem.

“Mas, pensou, eu aguento-as com precisão. O que já não tenho é sorte. Quem sabe? Talvez a tenha hoje. Cada dia é um novo dia. É preferível ter sorte. Mas eu prefiro ser exato. Assim, quando a sorte vem, está-se pronto para ela”.

O sol subira mais duas horas, e os olhos já se não doíam tanto de olhar para o oriente. Havia só três barcos à vista, muito na linha do horizonte e na direção de terra.

“Durante a vida inteira o sol nascente me fez mal aos olhos, pensou. Contudo, ainda são dos bons. Mais tarde, sou capaz de o olhar a direito sem ficar a ver negro. Mais tarde é mais forte. Mas pela manhã magoa”.

Nesse momento, viu um petrel com as longas asas negras, a voltear no céu à frente dele. A ave caiu subitamente, picando com as asas recuadas, e voltou depois a voar em círculo.

– Arranjou alguma coisa – disse o velho em voz alta. – Não está só à procura.
Remou devagar, com firmeza, para onde o pássaro pairava.

Não se apressava e mantinha as linhas em posição. Mas forçava um pouco a corrente, e pescava ainda corretamente, embora mais depressa do que pescaria, se não estivesse a tentar servir-se da ave.

Esta elevou-se no ar e pairou de novo, de asas imóveis.

Depois mergulhou repentinamente, e o velho viu peixes-voadores saltarem da água e voarem desesperadamente sobre a superfície.

– Delfins – disse alto o velho. – Delfins dos grandes.

Embarcou os remos e tirou da proa uma pequena linha. Tinha uma guia de arame e um anzol de tamanho médio, e o velho iscou-o com uma das sardinhas. Deitou-o pela borda fora e amarrou-o a um anel à ré. Iscou a seguir outra linha, que deixou ficar na sombra da proa. Voltou aos remos e a observar o pássaro negro, de longas asas, que pairava agora ao lume de água.

Enquanto o observava, a ave mergulhou com as asas recuadas, e depois bateu-as furiosamente e sem resultado na perseguição aos peixes-voadores. O velho bem via a ligeira saliência que na água os delfins erguiam atrás dos peixes fugitivos. Os delfins cortavam as águas sob o voo dos peixes e estariam em grande velocidade onde eles caíssem. É um grande bando de delfins, pensou. Vão dispersos e os peixes-voadores têm poucas probabilidades. O pássaro não tem nenhumas. Os peixes-voadores são grandes demais para ele e demasiado velozes.

Viu os peixes-voadores saltarem e tornarem a saltar e os movimentos ineficazes da ave. “Esse bando afasta-se de mim – pensou. Vão muito depressa e para muito longe. Mas talvez eu apanhe uns desgarrados e talvez que o meu peixe graúdo ande à volta deles. O meu peixe graúdo há-de estar nalguma parte”.
Ernest Hemingway, "O Velho e o Mar"

O homem

Não sei quem é, o que faz, desconheço-lhe o nome. Vejo-o sempre. Vizinho talvez. Deve morar perto, circula apressado pelas ladeiras do bairro, o rosto contraído, carregando invariável preocupação nos olhos. Inspira-me inquietação. Atravesso a via ao cruzar com aquela figura nervosa. Reconheço ter medo. Transpira loucura. Passa, pela outra calçada, atarantado, como se fugisse de um perseguidor invisível, espreitando o mundo de esguelha, movendo a cabeça desordenadamente, instável, conversando com alguém ao lado. Invisível! Deve ouvir vozes imperativas. Precisa obedecer, inconformado, às ordens transmitidas. Vez ou outra, me faz lembrar o coelho branco de Alice, segue ligeiro como se dissesse o tempo todo:

— Estou atrasado! Estou atrasado!

Parece indiferente à estação. Verão, inverno, calça e camisa de manga curta combinando, tons sóbrios, nunca um agasalho. Não faz má figura. Frio, calor, sobe e desce os caminhos no ritmo costumeiro. Discutindo apreensivo com o nada. Alucinado, esquizofrênico.

Outro dia, quando desenvolvia no parque minha rotina de exercícios, transitando distraído, o fone de ouvido trazendo as calamidades cotidianas das notícias, percebi o infeliz junto de mim. Apenas um átimo, e não estava mais lá. Arrepiei-me com o susto até a raiz dos cabelos. Devo até ter inchado, pois o auricular foi expelido para fora da orelha; tive que buscar o objeto no chão.

Qual a razão do pavor se nada me fez o indigitado? Nunca! Simplesmente conversa sozinho, em tão ele apa voz sussurrada. Mandos, ordens incômodas, obediente criatura. O pescoço feito periscópio girando Leste-Oeste, todo arregalado, esbugalhado, passos afobados, afogados, paralelo ao meu destino.

Não sei quem é o homem desesperado da minha rua. Quando dou por mim, engasgo com sua presença indesejada. Nos vãos da minha percepção alheada. No abismo do meu desconforto com doidos. Por quê? Se dou por mim absorto, volto e deixo a percepção tomar ciência, noto aquele sujeito vagando na vizinhança do meu antes disperso discernimento. Então, ele aparece inquieto, perturbado, invariavelmente repetindo:

— Estou atrasado! Estou atrasado!

Coelho homem branco. Ali, parado, quando abro a porta do elevador. Eu terrificado! Apenas um átimo e não mais o falso ascensorista presente. Espaço vazio, luz branca, apenas a placa limitando o lugar a oito pessoas.

Hoje, acordei mais tarde do que costumo. Abri os olhos e ele estava no quarto, em pé, feito sombra na penumbra da manhã enclausurada. O coelho nos braços. Branco.

— Estou atrasado! Estou atrasado!

Não sei do homem da minha rua.

Maquinomem


O homem esposou a máquina
e gerou um híbrido estranho:
um cronômetro no peito
e um dínamo no crânio.
As hemácias de seu sangue
são redondos algarismos.

Crescem cactos estatísticos
em seus abstratos jardins.

Exato planejamento,
a vida do maquinomem.
Trepidam as engrenagens
no esforço das realizações.

Em seu íntimo ignorado,
há uma estranha prisioneira,
cujos gritos estremecem
a metálica estrutura;
há reflexos flamejantes
de uma luz imponderável
que perturbam a frieza
do blindado maquinomem.
Helena Kolody

Pequenos contos da cidade pequena

I

O Poeta está deitado de sapatos sobre a colcha de renda de bilros — relíquia de Vovozinha.

— ... e de melhores dias — suspira o Anjo, completando-lhe o pensamento.

— Anjo, você está cada vez mais aburguesado.

— Essa não, menino! Eu não sou comunista...

II

Do ferro de engomar, que se assoprava por trás, saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia no centro de mesa da sala de jantar. Não sei por que estou evocando todos esses pormenores — eles não levam a nenhum enredo notório, desculpem... Eu me aproximo como um gato, por trás.

III

O auto que passa e a vitrina da esquina trocam um duelo de reflexos.

IV

Escarrapachadas nas cadeiras da calçada, as comadres fazem trancinha. Nada lhes escapa. Nem um ponto. Mas para o menino quieto que ali se acha a tiracolo das tias o grande escândalo é a Lua, que acaba de surgir, à traição, enorme, sangrenta, assassina — ao contrário de tudo que se esperava dela —, logo ali entre as torres da igreja.

V

Noite alta um bêbado passa cantando a marchinha de um antigo carnaval. Tem uma voz de vidro moído. Uma voz aguda e esfarelada de velho.

VI

Um rodar, um estrépito de patas. Abafadamente. Mas já não se haviam sumido, há tempo, esses carros puxados a cavalo? Sia Carolina acorda e benze-se. É a Morte! É a Morte que passa, no seu carro fantasma, a visitar seus doentes.
Mario Quintana, "Caderno H"

A multidão

Spallner levou as mãos ao rosto.

Houve uma sensação de movimento no espaço, um grito de tortura, maravilhoso, o impacto do carro, a capotagem contra o muro, através do muro, a subida, a queda, como um brinquedo; e ele, arremessado fora do carro. Depois… silêncio.

A multidão veio correndo. Dali, de onde estava deitado, ouviu-a correr, vagamente. Pôde identificar idades, tamanhos, nos sons daqueles pés, tão numerosos, correndo pelo gramado de verão, pelas faixas do calçamento, pela rua de asfalto, caminhando, cuidadosos, pelos tijolos atropelados, até o lugar onde o carro se encontrava, pendurado pelo meio, com o bico voltado para o céu da noite, com as rodas ainda a girar, numa centrífuga inteiramente sem sentido.

De onde vinha a multidão, não sabia. Esforçou-se para manter a consciência, e viu os rostos da multidão rodearem-no, debruçarem qual folhas largas, lustrosas, de árvores inclinadas. Formavam um anel de rostos que se moviam, comprimiam e mudavam sobre ele, olhando para baixo, para baixo, procurando, em seu rosto, identificar-lhe o tempo de vida, ou de morte, transformando-lhe o rosto num relógio lunar, em que, atrás do nariz, projetada nas maçãs do rosto, a sombra do luar informava o momentum da respiração, ou da não respiração, para nunca mais.

Puxa, pensou, a multidão anda depressa, é como a íris de um olho que se comprime a partir do nada.

Uma sirene. Uma voz policial. Movimento. O sangue escorria-lhe dos lábios, e ele era colocado numa ambulância. Alguém disse:

– Ele morreu? Alguém respondeu:

– Não, não morreu não. Alguém mais afirmou:

– Ele não vai morrer, não vai não.

Na noite, Spallner viu, por cima dele, os rostos da multidão, e pôde perceber, por aquelas expressões, que não iria morrer. De uma maneira estranha. Viu o rosto de um homem, magro, efusivo, pálido, que engolia em seco e mordia os lábios, muito doente. E também uma mulher baixa, de cabelos ruivos, e muito vermelho nas maçãs do rosto e nos lábios. E um menininho sardento. E outros rostos. Um velho, com o lábio superior enrugado, uma velha com um sinal de nascença no queixo. Vieram todos… de onde? Das casas, carros, ruas laterais, do mundo imediato, chocado, do acidente. Das ruas laterais, dos hotéis, dos bondes e, aparentemente, do nada.

A multidão o olhava. Spallner olhava a multidão e não gostava. Em todos, pairava um grande equívoco, e ele não conseguia atinar qual. Eram bem piores que essa coisa metálica por que havia passado há pouco.

Bateram as portas da ambulância. Pelas janelas, viu a multidão olhando lá para dentro, olhando. Aquela mesma multidão que sempre chegava tão rápida, estranhamente rápida, e formava um círculo para bisbilhotar, sondar, embasbacar, perguntar, apontar, perturbar e destruir, por meio da curiosidade franca, a intimidade da agonia de outrem.

A ambulância partiu. Spallner prostou-se de costas e os rostos ainda continuaram a olhá-lo; ele, já com os olhos fechados.

Em sua cabeça, as rodas do automóvel giraram por dias a fio. Uma roda, quatro rodas, girando, girando, zumbindo, girando mais e mais. Mas aquilo estava errado. Havia algo de errado com aquelas rodas, com todo o acidente, com a pressa daqueles pés, com a curiosidade. Os rostos da multidão misturavam-se, giravam com a rotação desenfreada das rodas.

Acordou.

O sol, num quarto de hospital, u’a mão tomava-lhe o pulso. O médico perguntou:

– Como está se sentindo?

As rodas desapareceram. Sr. Spallner olhou em volta.

– Bem… creio.

Procurou palavras. A respeito do acidente.

– Doutor?

– Pode falar.

– A multidão… foi ontem à noite?

– Já foi há dois dias. Você está aqui desde quinta-feira. Mas você está bem.

Está reagindo bem. Não se levante para testar.

– A multidão. E rodas também. É comum as pessoas ficarem meio… fora de si, depois de um acidente desses?

– Às vezes, temporariamente. Deitado, Spallner olha o médico.

– E afeta a noção de tempo?

– O pânico às vezes afeta.

– Faz um minuto parecer uma hora, ou, quem sabe, uma hora parecer um minuto?

– Faz.

– Então, vou contar-lhe algo.

Debaixo do corpo, Spallner sentiu a cama; no rosto, a luz do sol.

– O senhor vai pensar que eu sou maluco. Sei que estava dirigindo depressa. Agora me arrependo. Subi no meio-fio e acertei o muro. Eu me machuquei, fiquei paralisado, mas ainda me lembro. Principalmente… da multidão.

Fez uma pausa. Depois, decidiu continuar, pois, de repente, percebeu o que o incomodava.

– A multidão chegou muito depressa. Trinta segundos depois da batida, as pessoas já estavam lá, debruçadas por cima de mim, olhando… Não me parece verossímil que tenham chegado tão rápido assim, àquela hora da noite…

– É que o senhor pensa que haviam passado apenas uns trinta segundos, quando, na verdade, foram três ou quatro minutos. Os seus sentidos…

– Sei, claro… os meus sentidos… o acidente. Mas eu estava consciente! E me lembro de uma coisa, que resume as coisas, e dá a tudo um tom de estranheza, de muita estranheza. As rodas do carro, de cabeça para baixo. As rodas ainda estavam girando quando a multidão chegou ao local.

O médico sorria.

O homem deitado prosseguiu.

– Eu tenho certeza! As rodas ainda giravam, e rápidas… as rodas da frente! As rodas não giram por tanto tempo assim, a fricção as desacelera. E elas estavam girando de verdade!

– O senhor deve estar um pouco confuso.

– Não estou confuso não. A rua estava vazia. Nenhuma alma à vista. Em seguida, o acidente, as rodas ainda girando e aqueles rostos todos em cima de mim, rapidamente, sem defasagem de tempo. E, pela maneira com que me olharam, percebi que não ia morrer…

– Simples estado de choque! O médico se afastou.

Duas semanas depois, Spallner recebeu alta do hospital. Foi de táxi para casa. Pessoas vieram visitá-lo durante as duas semanas que passou deitado, e, a todas, contou sua história, o acidente, as rodas girando, a multidão. Todo riram de sua preocupação e se foram.

Inclinou-se à frente, bateu na vidraça de proteção do motorista.

– O que é que está havendo? O motorista olhou para trás.

– Sinto muito, patrão. É uma parada dirigir nessa cidade! Foi um acidente ali adiante. O senhor quer que eu saia fora?

– Quero. Não! Não! Siga em frente. Quero dar uma olhada. O motorista seguiu em frente, buzinando, e resmungou:

– Que coisa estranha! Ei, seu…! Tira essa geringonça da frente. Mais tranqüilo:

– Que coisa estranha! Mais gente ainda! Quanta gente curiosa! O Sr. Spallner percebeu os dedos tremerem em cima dos joelhos.

– O senhor também notou?

– Claro. É toda hora! Sempre ajunta gente. Parece até que foi a mãe deles quem morreu!

O homem sentado no banco de trás observou:

– E eles chegam tão rápido!

– É incêndio, explosão, é sempre a mesma coisa. Ninguém à vista. Pam!

Junta uma porção de gente. Sei lá…

– O senhor já presenciou algum acidente à noite? O motorista confirmou com a cabeça.

– Claro. Tanto faz. A multidão está sempre lá.

Agora já podiam ver a batida. Um corpo caído no asfalto. Mesmo que não conseguisse vê-lo, qualquer um saberia que havia um corpo ali. Por causa do ajuntamento. Do ajuntamento que ele, ali sentado no banco de trás, podia ver pelas costas. Spallner abriu a janela, e por pouco não começou a gritar. Não o fez por falta de coragem, pois, se gritasse, talvez a multidão se virasse.

E ele sentiu medo de ver-lhes os rostos.

No escritório, conversou.

– Parece que eu tenho um pendor para acidentes.

Quase fim de tarde. O amigo, sentado do outro lado da escrivaninha, ouvia.

– Saí hoje de manhã do hospital e, no caminho de casa, passei por um atropelamento.

– As coisas têm seus ciclos — observou Morgan.

– Vou te contar meu acidente.

– Já me contaram. Já me contaram tudo.

– Você tem que admitir que foi estranho.

– É, foi sim. Mas… vamos tomar um aperitivo?

Conversaram por meia hora ou mais. Durante toda a conversa, no fundo do cérebro de Spallner, um reloginho tiquetaqueava; o reloginho dispensava corda. Eram reminiscências de umas certas coisinhas. Rodas, rostos.

Por volta das cinco e meia, na rua, um ruído de metal duro. Morgan acenou com a cabeça, olhou pela janela, lá para baixo.

– Não falei? Ciclos. Um caminhão e um Cadillac creme. Claro, claro. Spallner foi até a janela. Demonstrava muita frieza, consultava o relógio no pulso, o ponteiro dos segundos. Um, dois, três, quatro, cinco segundos — as pessoas corriam — oito, nove, dez, onze, doze — pessoas chegavam, correndo, de todas as direções — quinze, dezesseis, dezessete, dezoito segundos — mais gente, mais automóveis, mais buzinas. Curiosamente alheio, Spallner contemplou aquela cena como uma explosão invertida, os fragmentos da detonação de volta ao ponto de impulsão. Dezenove, vinte, vinte e um segundos, e lá estava a multidão. Spallner lançou-lhes um gesto, sem palavras.

A multidão ajuntara-se depressa demais.

Spallner vira um corpo de mulher, instantes antes de ser engolido pela multidão.

– Você está abatido. Olhe, por que não termina o aperitivo?

– Eu estou bem. Estou bem. Quero ficar sozinho. Eu estou bem. Você está vendo aquela gente lá? Você consegue identificar alguém? Gostaria de vê-los mais de perto.

– Ei, onde é que você vai? — gritou Morgan.

Spallner saíra porta afora, desabalado, e Morgan fora atrás, escada abaixo.

– Venha e ande depressa.

– Calma, homem, você não está em boas condições!

Foram até a rua. Spallner forçou passagem. Pensou ter visto uma mulher ruiva com muito vermelho nas maçãs do rosto e nos lábios. Rápido, voltou-se para Morgan.

– Ali! Você a viu?

– Quem?

– Merda! Ela sumiu. A multidão a escondeu!

A multidão se espalhava por todos os lugares, respirando, embaralhando, misturando, balbuciando e atravacando-lhe o caminho quando tentou passar. Era evidente, a mulher ruiva o vira e desaparecera.

Spallner viu outro rosto conhecido! Um garotinho sardento. Mas, existem tantos garotos sardentos no mundo! De qualquer modo, foi inútil, pois, antes que Spallner o alcançasse, o garotinho fugira, desaparecera na multidão.

Uma voz perguntou:

– Ela morreu? Ela morreu? Alguém ponderou:

– Está morrendo. Vai morrer antes que chegue a ambulância. Não deveriam tê-la tirado do lugar. Não deveriam…

Todos os rostos da multidão — conhecidos e tão desconhecidos debruçavam- se, olhando, olhando.

– Ei, prezado, vê se não empurra!

– Pare de empurrar, companheiro!

Spallner retirou-se; Morgan o segurou antes que caísse, e chamou-o às falas:

– Você é mesmo teimoso. Você ainda está doente. O que é que tinha que vir fazer aqui na rua?

– Não sei… não sei mesmo. Eles tiraram o corpo dela do lugar, Morgan, e isso não se faz com um acidentado. É morte certa. É morte certa.

– Pois é, mas as pessoas são assim mesmo. Um bando de imbecis.

Com cuidado, Spallner organizava os recortes de jornais. Morgan passava os olhos.

– Para que isso? Agora, depois do seu acidente, você pensa que qualquer tumulto no trânsito faz parte de você! Que recortes são esses?

– Recortes de desastres de automóveis e fotos. Dê uma olhada. Nos carros não. Na multidão em volta.

Spallner apontava.

– Olhe. Compare essa foto de um desastre no Distrito de Wilshire com essa outra de Westwood. Não existe semelhança alguma. Mas, agora, pegue essa foto de Westwood e coloque ao lado dessa outra, também do Distrito de Westwood, dez anos atrás.

Spallner apontou novamente.

– Esta mulher está nas duas fotografias.

Coincidência, a mulher estava lá em 1936, e novamente em 1946.

– Vá lá. Uma vez, pode ser coincidência. Mas doze vezes num período de dez anos, em acidentes que ocorreram a uns cinco quilômetros de distância uns dos outros, não é não. Olhe aqui.

Spallner estendeu doze fotografias.

– Ela está em todas.

– Ora, talvez seja uma pervertida!

– É mais do que isso! Como é que ela consegue chegar tão rápido ao local do acidente? E como é possível estar com a mesma roupa nessas fotografias tiradas num período de uma década?

– Não é que você tem razão!

– E, para encerrar, por que ela estava lá, em pé, debruçada em cima de mim, na noite do meu acidente, há duas semanas?

Foram tomar um aperitivo. Morgan passou os olhos na coleção.

– O que é que você fez? Contratou uma firma de pesquisa de jornais, enquanto esteve no hospital, para que colecionassem os recortes para você?

Spallner confirmou com a cabeça. Morgan tomou um gole do aperitivo.

Ficava tarde. As luzes já se acendiam na rua lá embaixo.

– E isso tudo leva a quê?

– Não sei. Só sei que existe uma lei universal a respeito dos acidentes: as multidões. Sempre ajunta gente. E assim como você, como eu, as pessoas ficam a imaginar, por anos a fio, na tentativa de descobrir como a multidão consegue reunir-se tão rapidamente. E por quê? Eu sei a resposta. Ei-la.

Spallner jogou os recortes sobre a mesa.

– Isso até me assusta.

– Essas pessoas, Spallner… não seriam caçadores de emoções, sensacionalistas pervertidos cujo desejo carnal se volta para o sangue, para a morbidez?

Spallner encolheu os ombros.

– E isso explicaria o fato de estarem em todos os acidentes? Repare. Elas se atem a certos territórios. Um acidente em Brentwood desentoca um determinado grupo. Em Huntington Park, outro grupo. Mas há um padrão, no que diz respeito aos rostos; uma certa percentagem aparece em todos os acidentes.

– Os rostos não são sempre os mesmos, não é verdade?

– Claro que não. Acidentes costumam atrair pessoas normais também, no curso do tempo. Mas esses aqui, eu estou vendo, são sempre os primeiros a chegar.

– Quem são? O que querem? Você faz as insinuações, mas não diz nada. Meu Deus, eu sei que você está com alguma idéia na cabeça. Você já se assustou, e agora quem está aflito sou eu.

– Eu já tentei abordá-los, mas alguém sempre atravessa no meu caminho, e eu sempre chego tarde. Eles se esgueiram pela multidão e desaparecem. Parece que a multidão oferece proteção a alguns de seus membros. Sempre me vêem chegar.

– Isso está me cheirando a uma espécie de bando.

– Uma coisa eles têm em comum. Sempre aparecem juntos. Em incêndios, explosões, na periferia das guerras, em qualquer demonstração pública dessa coisa chamada morte. Abutres, hienas, santos? Simplesmente não sei. Mas eu vou levar isso à polícia hoje à noite. Isso já foi longe demais. Hoje, um deles mexeu no corpo daquela mulher. Não deveriam ter tocado nela. Foi por isso que ela morreu.

Spallner guardou os recortes na pasta. Morgan levantou-se e deslizou paletó adentro. Spallner fechou a pasta.

– Ou então… estou pensando…

– O que é?

—… que talvez eles quisessem que ela morresse.

– Por quê?

– Sei lá. Quer ir comigo?

– Não vai dar. Já está tarde. Nos vemos amanhã. Boa sorte. Os dois saíram juntos.

– Dê lembranças aos tiras. Você acha mesmo que eles vão acreditar em você?

– Claro, ora se vão! Até amanhã!

Rumo ao centro da cidade, Spallner dirigiu devagar. Disse para si mesmo:

– Quero chegar vivo!

Spallner chocou-se, mas, nem por isso, surpreendeu-se, quando, saindo de uma rua lateral, um caminhão veio diretamente de encontro a ele. Foi no exato momento em que ele se parabenizava por possuir um senso de observação tão aguçado, e em que ensaiava, na cabeça, o que iria dizer ao policial, que o caminhão espatifou-se contra seu carro. Bem, o carro não era exatamente seu, e esse foi o aspecto desanimador da coisa. Com a preocupação a rondar-lhe o espírito, foi atirado primeiro para um lado, depois para o outro, e, enquanto isso, pensava: que pena, Morgan foi para casa, e deixou comigo seu segundo carro, por alguns dias, até que o meu fosse consertado, e aqui estou eu de novo. O pára- brisa bateu-lhe no rosto. Spallner foi jogado para trás, para a frente, em diversas sacudidelas-relâmpagos. Depois, todo o movimento aquietou, todo ruído, e apenas a dor o preencheu.

Ouviu passos correrem, correrem. De mal jeito, tateou a porta. A porta estalou. Spallner caiu ao solo, meio desacordado, e ali ficou com o ouvido colado ao asfalto, a ouvi-los se aproximar. Como se fossem uma tempestade, com muitos pingos, pesados, leves, médios, a tocarem o chão. Esperou alguns segundos, ouviu-lhes a aproximação, a chegada. Depois, fraco, na expectativa, virou a cabeça e olhou.

A multidão lá estava.

Spallner sentiu-lhes a respiração, os odores mistos de muitas pessoas sugando, sugando o ar de que todo homem necessita para viver. Ajuntavam-se, acotovelavam-se, sugavam, sugavam o ar que lhe envolvia o rosto arquejante, e ele ainda tentou dizer que recuassem, que o estavam fazendo viver num vácuo. A cabeça sangrava muito. Tentou mover-se, e percebeu que havia algo de errado com a coluna. Na hora do impacto, não sentira muito, mas a coluna estava mesmo avariada. Não ousou mover-se.

Não conseguia falar. Abriu a boca, apenas engasgos saíram. Alguém disse:

– Me ajudem aqui. Vamos virá-lo, levantá-lo e colocá-lo numa posição mais confortável.

A cabeça de Spallner pareceu estilhaçar.

Não, não toquem em mim! Casual, a voz insistiu:

– Vamos tirá-lo daqui!

Seus imbecis, vocês vão me matar. Não façam isso!

Nada do que disse fora audível. Dissera-o apenas no pensamento.

Mãos o seguraram. Começaram a levantá-lo. Ele soltou um grito e a ânsia de vômito o asfixiou. Aprumaram-no, deitado, num monturo de agonia. Dois homens o fizeram. Um era magro, efusivo, pálido, atento, um jovem. O outro, muito velho, tinha o lábio superior enrugado.

Spallner já vira aqueles rostos antes. Uma voz, conhecida, perguntou:

– Ele morreu?

Outra voz, uma voz memorável, respondeu:

– Não, ainda não. Mas vai morrer antes que chegue a ambulância.

Um ardil tolo, louco. Como qualquer acidente. Spallner soltou um grito histérico, para aquela parede de rostos sólida. Estavam todos ao redor, esses juizes, jurados, com rostos que já vira antes. Contou-os, na dor.

O garoto sardento, o velho com o lábio superior enrugado.

A mulher ruiva, de maçãs do rosto vermelhas. Uma velha com um sinal de nascença no queixo.

Sei por que vocês estão aqui, pensou. Estão aqui porque vocês estão em todos os acidentes. Para se certificarem de que as pessoas certas irão viver, e de que as pessoas certas irão morrer. Foi por isso que me levantaram. Sabiam que isso iria me matar. Sabiam que, se não me tocassem, eu iria viver.

E tem sido assim desde os primórdios do tempo, quando as multidões se encontram. É um meio mais fácil de assassinar. O álibi é muito simples: vocês simplesmente não sabiam que não se deve mover o corpo de um acidentado. Não foi de propósito que o prejudicaram.

Spallner olhou para eles, ali em cima, e sentiu a curiosidade de quem está debaixo d’água, bem no fundo, e olha as pessoas numa ponte. Quem são vocês? De onde vêm, e como conseguem chegar tão depressa? Vocês são a multidão, que sempre atravanca a passagem, que consome o ar sadio de que carecem os pulmões de um moribundo, que tomam o espaço em que ele deveria permanecer só, deitado, que espezinham as pessoas para terem certeza de que elas irão morrer. Vocês são isso mesmo. Conheço-os bem.

Foi um monólogo cortês. Eles nada disseram. Rostos. O velho. A mulher ruiva.

Alguém pegou a pasta de Spallner.

– De quem é?

É minha! E está cheia de provas contra vocês todos!

Olhos entrecuzaram-se por cima dele. Olhos brilhantes, debaixo de cabelos desalinhados, ou de chapéus.

Rostos.

Em algum canto… uma sirene. A ambulância chegava.

Ao olhar aqueles rostos, porém, a construção, o olhar, o formato, Spallner percebeu que era tarde demais. Pôde lê-lo naqueles rostos. Eles sabiam.

Spallner tentou falar. Pronunciou algo, muito pouco.

– Parece… que… em breve… estarei com vocês. Acho que… daqui por diante… farei parte… deste grupo.

Cerrou os olhos e esperou pelo investigador.
Ray Bradbury

terça-feira, junho 16

Luz própria

 


A solidão

Disse-me um jornalista filantropo que a solidão é prejudicial ao homem. E, em apoio de sua tese, citou-me, como todos os incrédulos, palavras dos Pais da Igreja.

Eu sei que o Demônio gosta de frequentar os lugares áridos e que o Espírito do crime e da lubricidade inflama-se maravilhosamente na solidão. Mas, é possível que essa solidão só seja perigosa para as almas indolentes e extravagantes que a povoam com suas paixões e quimeras.

É certo que um tagarela, cujo supremo prazer consiste em falar do alto de uma cátedra ou de uma tribuna, estaria bastante arriscado a ficar louco furioso na ilha de Robinson. Não exijo do meu jornalista as corajosas virtudes de Crusoé, mas peço-lhe que não condene os amantes da solidão e do mistério.

Há, em nossas raças palradoras, indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo, se lhes fosse permitido fazer do alto do cadafalso uma arenga interminável, sem recear que os tambores de Santerre lhes cortasse intempestivamente a palavra.

Não os lastimo, porque percebo que suas efusões oratórias lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que outros tiram do silêncio e do recolhimento. Mas os desprezo.

Desejo, sobretudo, que o meu maldito jornalista me deixe divertir-me à vontade.

— Então, — perguntou-me num tom fanhoso e muito apostólico, — jamais experimenta você a necessidade de partilhar suas alegrias? Sutil invejoso! Como sabe que desprezo as dele, vem insinuar-se nas minhas! Hediondo desmancha-prazeres! “A grande felicidade de não poder estar só!” — diz algures La Bruyère, como para envergonhar todos aqueles que procuram esquecer-se na multidão, decerto com receio de não poderem suportar a si mesmos.

"Quase todas as nossas desgraças provêm de não termos sabido ficar em nosso quarto”, — diz outro sábio, Pascal, parece, evocando assim, na cela do recolhimento, todos os alucinados que buscam a felicidade no movimento e numa prostituição a que eu poderia chamar de fraternária, se quisesse falar a bela língua do meu século.

Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"

Retrato do artista quando coisa

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.

Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"

O burguês e o crime

O burguês

Foi durante a noite que, de repente, ele se fez a pergunta:

— Por que não?

A pergunta finalizava a série de pensamentos que haviam começado horas antes, quando estava no teatro. Fora com a mulher assistir a uma peça de sucesso, com artistas de sucesso, estreia recente e também de sucesso. As duas primeiras noites haviam sido dedicadas à alta sociedade, às classes produtoras, ao Corpo Diplomático, às autoridades constituídas e a penetras de diferentes origens e feitios. Na altura da terceira apresentação, ele chegara em casa e a mulher o intimara:

— É o fim, Figueiredo! Todo mundo já viu a peça, menos nós. Tem de ser hoje.


Uma semana depois, a peça seria suspensa por falta de público, mas naquela terceira noite ele teve de se acotovelar na entrada, discutir com os bilheteiros e terminar sendo explorado por um cambista que lhe vendeu duas péssimas poltronas com ágio pesado e imerecido.

Suportou, lá dentro — e estoicamente — os primeiros momentos da peça, mas ainda em meio ao primeiro ato desanimou de procurar entender o que se passava no palco. Era um drama complicado e palavroso, uma jovem que tinha neurose e amantes, um analista, uma enfermeira lésbica e, presidindo a tudo, um pai severo e asmático. Em suma: um conflito acima de suas possibilidades e de seu interesse.

Quando ia ao cinema, sempre podia dormir quando o filme seguia um rumo surpreendente assim. No escuro o cochilo ficava impune, a mulher nem suspeitava. À saída, ele concordava com a opinião da mulher e conseguiam chegar em casa sãos e salvos. Mas no teatro era difícil o cochilo. Havia luz, e pior que a luz, havia sempre a iminência de algo espantoso, o cenário despencar, a roupa da atriz cair, um ator ter enfarte ou esquecer o texto, um fósforo botar fogo no pano de boca. Tais e tantos atrativos impediam-no de dormir, mas propiciavam discreta dormência, o pensamento solicitado ora pelo calor, ora pela peça, ora ainda pelo pigarro de um velho na plateia, ou pelo sapato um pouco apertado que Ema — a mulher — o obrigara a usar.

Tivera um dia calmo, calmos eram todos os seus dias. A firma, apesar do sócio que era uma toupeira, prosperava. Saúde boa, perspectivas boas. Não tinha motivos para pensar no futuro ou no passado. Sobravam-lhe motivos para dormir no presente, a peça já era um motivo.

A frase, dita por alguém no palco, chamou-o de volta. Ele já contara as pregas do lado direito da cortina que compunha o fundo do cenário, e preparava-se, resignado, pra contar as pregas do lado esquerdo, quando ouviu alguém falar em morte.

Não, não ameaçavam ninguém de morte. O drama do palco era existencial, não continha mortes nem ameaças de. Fora uma frase convencional, assim como “não devemos matar a velha de susto”, ou “se a velha souber disso pode morrer”.

Matar ou morrer? Não chegava a ser uma opção, nem no palco, nem em sua vida, mas uma série de pensamentos que tinham, ora a sua lógica, ora o seu absurdo, e em ambos os casos, a sua conveniência. Evidente, não pensava nunca em sua própria morte, mas sabia que havia gente que morria e gente que matava. Os que morriam eram os doentes, os suicidas, os atropelados, os assassinos, os passageiros de avião ou da Central do Brasil. Os que matavam eram os criminosos, os ladrões noturnos, os tiranos, os motoristas de ônibus.

Não era agradável pensar em morrer. Logo retirou este elemento de sua opção e ficou apenas com o matar.

Matar o quê? Matar para quê? Na peça, falavam em matar uma velha de susto. Ele não tinha velha nenhuma à vista. A mãe já morrera, as parentas de velhice mais agressiva também já haviam morrido. Havia a sogra, ainda, mas não chegava a ser uma velha, e, além do mais, era uma excelente pessoa.

Se não adiantava matar uma velha, matar o quê?

Matar por matar, amor à arte, eis a questão. Matar para experimentar os nervos, ou para provar a si mesmo do que era capaz. Sim, isso justificava um crime. Mas para provar do que era capaz, não bastaria matar — isso qualquer idiota poderia fazer. Tinha de matar e permanecer impune — para poder se olhar no espelho e se sentir redimido, confiante: sou um caráter!

Foi então que surgiu o problema — que seria, nos próximos dias, o seu problema, o único problema realmente sério de sua vida — como obter o crime perfeito? Matar o porteiro de seu edifício, por exemplo, nunca seria um crime perfeito. Mais cedo ou mais tarde a polícia apertaria os moradores do prédio e ele acabaria confessando. Para matar impunemente teria de escolher um comerciário de Brás de Pina, uma funcionária subalterna que voltasse, tarde da noite, para o Leblon.

Mas seria estúpido matar sem motivo, embora matasse perfeitamente. O crime perfeito, sem lucro pessoal, não lhe interessava, aliás, pensando bem, agora que o primeiro ato terminava, nenhum crime lhe interessava.

Teve coragem para o comentário.

— Uma peça muito profunda!

A mulher não concordou nem discordou. Apenas disse:

— Vamos esperar pelo resto. Acho que vai sair um escândalo!

Foi a vez de ele concordar, embora não suspeitasse que tipo de escândalo estava prestes a estourar. Saiu para o hall circulou entre estranhos, bebeu um gole d’água gelada, sem sede mesmo, só para passar o tempo.

Durante o segundo ato os pensamentos seguiram outro rumo. Surgiu no palco um pastor protestante. Surgiu também um militar reformado que era mudo — e ele começou a pensar em como seria sua vida — e como seria ele mesmo — se não tivesse voz.

Chegou à conclusão e ao fim da peça: poderia manter o mesmo padrão de vida se, por acaso, ficasse sem voz. Era-lhe coisa inútil, espécie de adorno. Para ganhar dinheiro e dormir com a mulher — a voz era dispensável, uma responsabilidade incômoda.

Ao saírem, cumprimentou com a cabeça alguns conhecidos e fez a viagem de volta imaginando-se mudo. Conseguiu chegar em casa sem ter pronunciado uma só palavra — o que não era uma vantagem especial, sempre que iam ou que voltavam de algum lugar, a mulher é quem falava, ele apenas ouvia.

A grande oportunidade para testar a sua disciplina interior foi ao guardar o carro na garagem. Todas as vezes tinha de pedir à mulher que suspendesse o vidro da porta:

— Suspenda o seu vidro, Ema.

Àquela noite, engoliu em seco e esperou que a mulher saísse para, então inclinar-se no banco, com algum esforço para sua espinha já bombardeado por sedimentações calcareas que prenunciavam um respeitável bico-de-papagaio, e rodar a manivelinha até fechar o vidro.

Na cama, preparado para dormir, a palavra primeiramente, e o conceito depois, retornaram à sua cabeça e às suas preocupações: matar. Há muito não tinha insônia. A firma prosperava, vendia material de escritório aos ministérios militares, era pago em dia, e não faltavam encomendas, tanto Marinha como o Exército e a Aeronáutica — felizmente para ele e para Pátria — gastavam mais em papel timbrado do que em pólvora.

Geralmente, caía duro em cima da cama. De quinze em quinze dias ou de vinte em vinte dias, procurava a mulher para um amor apressado e quase sempre incompleto da parte dela.

Quando percebeu as horas, viu que gastara a noite toda pensando. Tinha disciplina interior feroz e eficiente. Se dormisse até as 9, estaria salvo. Virou para o lado e antes de escorregar definitivamente no sono, teve um pensamento também definitivo:

— “Se não fosse a polícia, eu matava!”

O crime

A firma era próspera e prosperava, apesar do sócio: um belo homem excelente caráter, pai amantíssimo, esposo exemplar, amigo irreprochável foi o mínimo que um orador, à beira do túmulo, disse dele, no dia do enterro: “Colhidos pela brutalidade de tua morte, aqui estamos, Anselmo, para prantearmos o excelente caráter, o pai amantíssimo, o esposo exemplar, o amigo irreprochável que acabamos de perder!”.

No mesmo cemitério, à beira de outro túmulo, e mais ou menos mesma hora, Ema foi sepultada e chorada quase que solitariamente: quatro coveiros a sepultaram, com suas correntes e más vontades, e o marido chorou, apesar de tudo, segundo afirmaram alguns poucos presentes que ouviram os soluços de um enterro e o discurso do outro.

À noite, apareceram-lhe em casa alguns amigos compenetrados. Conforme afirmaram mais tarde, foram à casa dele unicamente para que Figueiredo “não fizesse uma besteira”.

Apesar da presença dos amigos, Figueiredo conteve-se e não cometeu besteira nenhuma. Tomou apenas um porre, como lhe convinha, e disse obscenidades a respeito da vida e de si mesmo, chamando a vida de merda e chamando-se a si mesmo de corno. O que ia de encontro aos pensamentos gerais, embora os amigos protestassem, deixa disso, Figueiredo, deixa disso!

No dia seguinte ao do enterro, apareceu mal vestido e barbado para iniciar as providências legais das sucessões, pois sucedia ao sócio no controle da firma e sucedia à mulher nos bens do casal que eram muitos, o sogro lhe havia deixado apólices e casas em Vila Isabel.

Estava rico e livre agora da chatice do sócio e da chatice da mulher. E para ficar livre dos amigos, começou a cultivar mau hálito, o que impedia que os mais importunos se acercassem dele para dar conselhos, principalmente quando, após o escândalo da dupla morte, revelou-se o outro escândalo, o da fortuna que lhe chegava às mãos através de tão rudes eventos.

Rosnavam que, se não fossem as trágicas e patentes circunstâncias, a polícia deveria investigar melhor aquilo tudo. Mas a suspeita não tinha consistência — apesar do ódio que Figueiredo passou a provocar pela fortuna, pelo mau hálito, e pela liberdade que lhe chegara à vida. Ele mesmo, com o tempo, começou a esquecer, a duvidar do passado, e um dia, vendo no fundo do armário uma peça íntima de Ema, suspirou e sentiu saudades. Logo se aprumou, afugentou o pensamento macabro que lhe surgiu, e embora não houvesse ninguém à volta, disse em voz alta, como convinha a um homem que sofrera tanto:

— “Aquela cachorra!”

Porém já cinco anos eram passados da morte da cachorra e do cachorro. Cinco anos daquela tragédia que enlutou a família cristã, rudemente golpeada pelo escândalo daquele pacto de morte. Cronistas sem assunto escreveram sobre o pacto de morte tão romanticamente previsto e executado, foram ouvidas opiniões de sociólogos, de pedagogos e de sacerdotes sobre o caso. Cinco dias depois já ninguém falava no assunto e cinco anos depois, só mesmo ele, e às vezes, pensava em tudo, detalhadamente, como num passo heroico de sua vida.

Chegara àquela noite em casa, de uma viagem rápida a São Paulo, e baqueara ao entrar em seu quarto: caídos e nus, em cima da cama, a sua mulher e o sócio. Próximo do sócio, o copo partido, cujos resíduos foram examinados pelo Instituto de Criminalística e cuja malignidade foi devidamente provada.

A perícia, com a ajuda dele, reconstituiu os acontecimentos. Ele viajara a São Paulo, voltaria na noite seguinte. Tão logo se mandou pela estrada, Ema chamara o amante. A perícia examinou a vagina de Ema e encontrou sinais evidentes do coito recente. O imperscrutável aconteceu — e aqui o relatório policial foi respeitoso, ao afirmar que, “após manterem relações de fundo sexual, os dois amantes decidiram pôr fim à vida através de um pacto de morte que foi imediatamente cumprido”.

Anselmo preparou o veneno, Ema bebeu estoicamente, sem repugnância pela morte ou pelo gosto de amêndoas que saía do copo. E Anselmo, logo em seguida, ingeriu o restante. Contorceram-se pouco, e logo se imobilizaram — e foi assim que, à noite, Figueiredo e mais tarde a polícia os encontraram.

No 18° Distrito Policial o pacto de morte foi classificado como “Ocorrência nº. 53.697” e arquivado após despacho do delegado-auxiliar, cumpridas as formalidades legais e pagas as taxas do costume.

O crime e o burguês

— “Se não fosse a polícia eu matava!”.

Com essa frase ele adormecera, uma semana antes da tragédia que abalou a sociedade cristã e a sua vida. Viera do teatro e ficara pensando em matar, mas não sabia nem como, nem a quem matar. Não tinha nenhum problema importante na vida, tudo lhe ia bem, e essa inexistência de um problema dava-lhe a sensação de burrice, de imprestabilidade.

Desde que pensara em matar, sentiu que iniciava uma nova vida, fugia à rotina, à qual sempre se submetera. Era o seu problema, embora não fosse, ainda, a sua vontade. No trabalho, em casa, andando pelas ruas, tinha agora uma ordem fixa de pensamentos e de energias.

Certa tarde, regressando da cidade, parou no Flamengo. Entrou num prédio, tomou o elevador, fechou os olhos e apertou um botão: qualquer andar em que o elevador parasse, serviria. Parou no sétimo andar. Havia duas portas à frente, apertou a campainha do 701. A velhinha veio abrir e ele quase chegou ao crime: levou as duas mãos para a frente em direção ao gasganete da velha. Mas deu-lhe uma tremedeira nas pernas e ele recuou. O elevador ficara parado no andar e ele pôde fugir. Poderia ter deixado a velha morta, ninguém teria visto nada. Mas deixou a velha apenas surpreendida e irritada.

Passou uma noite de cão, reprovando-se a covardia. Tivera tudo à mão, a velha, o elevador, não esbarrara com ninguém, nunca entrara naquele prédio. A polícia procuraria pelos parentes da velha, os desafetos, os fornecedores, as ex-empregadas, os vizinhos. Não tivera ao alcance das mãos apenas o gasganete da velha: tivera nas mãos o crime perfeito — e o desperdiçara, sem lucro algum.

E então tremeu, emocionado e surpreso: acabara de descobrir o crime verdadeiramente perfeito: O LUCRO. Matar sem lucro, como no caso da velha, seria uma brincadeira idiota. Tinha de matar com muito lucro, com tanto lucro que ficasse óbvia a lucrabilidade do crime. E para tornar patente essa lucrabilidade, tinha de escolher uma vítima que fosse patentemente próxima de seus interesses. Viu a mulher dormindo a seu lado.

— “Se mato esta mulher — a minha mulher — o primeiro e necessário suspeito serei eu mesmo”.

Riu, com a facilidade do problema. Tão fácil era o problema que resolveu exagerar. Não mataria apenas uma pessoa, mas duas. E, na escala de importância e de lucro, a segunda pessoa que lhe apareceu foi o sócio, o qual hipotecara, há tempos, a parte dele, para levar a mulher aos Estados Unidos, curar um tumor no colo do útero. Ele emprestara o dinheiro e ficara com as hipotecas do sócio. Se matasse o sócio, a firma ficaria inteiramente em suas mãos, era um lucro evidente, agressivo.

Dois dias depois, avisou à mulher que ia a São Paulo, viagem rápida. Saiu à noite, subiu em direção a Teresópolis. Deixou o carro numa rua que lhe pareceu deserta, tomou um ônibus e antes da meia-noite estava novamente em casa. Entrou pela garagem, como o fazia todas as noites, mas sem o carro, e por causa disso, não teve necessidade de acordar o garagista.

Surpreendeu a esposa:

— Uê? Você já voltou?

— Você está vendo.

Explicou que o carro enguiçara no quilômetro 97 da Rio — São Paulo, tomara um ônibus, amanhã voltaria ao local, com um mecânico. Foram dormir e ele procurou a mulher. Dessa vez, pela primeira vez em muitos anos, concentrou-se no esforço de fazê-la gozar — era parte do plano. Depois que ela estremeceu e gritou coisas indecentes — sinal que finalmente gozara — ele conseguiu, também, um escasso prazer. Mas logo levou a mão ao peito:

— Ema, o enfarte!

Caiu para o lado, olhos arregalados, bufando grosso. Ema deu um pulo da cama, nua.

— Vou buscar a coramina!

— Não! Chame o Anselmo, preciso falar com ele, é urgente, mas diga a ele para não contar a ninguém, para vir já! As hipotecas dele! Ele pode perder tudo!

Ema foi ao telefone, acordou Anselmo:

— O Figueiredo teve um enfarte. Venha correndo, mas não diga nada a ninguém. As hipotecas!

A mulher de Anselmo perguntou quem chamava o marido dela àquela hora da noite, mas Anselmo, apesar de esposo exemplar e pai amantíssimo, deu um grito:

— Vá à merda, mulher. Depois eu explico!

Ema foi à cozinha, apanhou um copo d’água. Quando voltou ao quarto, pingando gotas de coramina no copo, encontrou o marido em pé, com um copo na mão.

— Uê? Já ficou bom?

Figueiredo avançou para ela.

— Beba isso!

— Mas…

— Beba, sua idiota!

Era a primeira vez, em dezenove anos de casados, que se dava o nome ao boi naquela casa. Ema apanhou o copo, sentiu um cheiro estranho. Bebeu um gole e ainda teve tempo de perguntar:

— Para que é isso?

— É um afrodisíaco. Faz a gente gozar mais ainda.

Mas Ema não ouviu que ia gozar mais ainda. Caiu próximo à cama e Figueiredo arrumou-a o melhor que pôde. Mais alguns minutos, foi à porta da frente, esperar pelo sócio. Viu o elevador subir, a luzinha crescendo, crescendo. Anselmo saiu do elevador e deu com ele na porta.

— E o enfarte?

— Entre depressa!

Anselmo não gostou. A mulher dele ia falar o resto da vida contra aquela saída abrupta, misteriosa, ia ser o diabo explicar.

— Brincadeira tem hora! Cadê o enfarte?

Figueiredo estendeu-lhe o copo.

— Prove essa droga! Veja que gosto tem e se concorda comigo.

Anselmo provou, sentiu um gosto adocicado de amêndoas, mas não teve tempo de concordar. Figueiredo arrastou-o ao quarto, tirou-lhe a roupa, deitou-o ao lado de Ema, a mão estendida para fora do leito. Pegou no copo, colocou-o na mão de Anselmo, deixou que o copo se partisse no chão.

Apagou as luzes, deixando apenas um pequeno abajur aceso. Ganhou a rua, atravessando a garagem do prédio, o garagista tinha sono de pedra, quando chegava tarde, com o carro, tinha de esmurrar a campainha para que o homem lhe abrisse a porta dos carros.

Andou pela cidade, esperando o primeiro ônibus para Teresópolis. Deixara impressões no copo, nas roupas, em todos os lugares. Mas o lucro era tão dele que invalidava a suspeita. Deixara atrás de si um crime que se explicava por si mesmo.

Tomou o ônibus para Teresópolis. Com o sereno da noite, o carro ficara melado como um bicho. Antes de ligar o motor, abriu o painel de instrumentos e desligou o cabo do velocímetro. Desceu a serra, almoçou um frango assado à beira da estrada, atingiu a Avenida Brasil e cortou em direção oposta à cidade. Andou mais alguns quilômetros e pegou a Rio — São Paulo. Enfrentou as retas iniciais, atingiu a serra mas logo fez um contorno e embicou de volta ao Rio. Parou no posto de gasolina para abastecer o carro.

— Tem mecânico aí?

O mulato de maus dentes surgiu das entranhas de uma camioneta.

— É o cabo do velocímetro. Acho que houve alguma coisa com ele.

Deu boa gorjeta ao mecânico e ao homem do posto que lhe enchera o tanque,

tinha agora duas pessoas que atestariam que ele regressava de São Paulo.

Quando arrancou, os dois homens o chamaram de doutor:

— Boa viagem, doutor!

Chegou em casa, após uma boa viagem, e viu o quadro que logo os policiais examinaram, os jornais noticiaram e com o qual ele lucrou.

Moral

O crime, para o burguês, só não compensa quando a polícia está contra.
Carlos Heitor Cony, “Babilônia, Babilônia”

Calça literária

É assíduo leitor de blusas, camisas, saias, calças estampadas. Não lhe escapa um exemplar novo. Parece desligado, e observa tudo. Segundo ele, as peças de indumentária, masculina e feminina, ostentando símbolos e nomes de universidades americanas, manchetes, páginas de jornal, retratos de Pelé e Jimi Hendrix, apelos ao amor que não à guerra etc., há muito deixaram de ser originais. Constituem invólucros rotineiros de pessoas de qualquer idade. A gente estranha é uma camisa inteiramente nua de dizeres ou figuras, a roupa que não diz nada, só roupa. Hoje, lê-se mais nos tecidos do que nos livros, e não é ler apenas, é ver cinema e televisão, pois os corpos, ao se moverem, dinamizam as figuras estampadas. O que, de um modo ou de outro, contribui para a cultura de massas. Informa:

— Estou pensando em aproveitar esse material para fins especificamente didáticos. Através dele, ensinar geografia, história, matemática, medicina de urgência, imposto de renda, ortografia desmistificada, essas coisas. O indivíduo cobre-se e vai distribuindo ciência. Ou aprendendo. Vinte minutos no ônibus — que aula! Classes ao ar livre, na feira, na fila. Escola dinâmica.

— Você sozinho é um Mobral 1971.

— Ontem eu li uma calça comprida, de mulher que à primeira vista não tinha nada de especial. Estava escrita como tantas outras. Mas o texto (não confundir com textura) me chamou a atenção. Geralmente, calças e blusas não são literárias. Trazem notícias, anúncios, slogans, mas versos, ainda não tinha visto. Pois essa tinha poemas em português, de Camões ao Vinicius.

— Tomou nota?

— Claro. Aliás, a usuária foi muito gentil. Percebendo que eu mirava a parte inferior do seu revestimento, gratificou-me com um sorriso que eu traduzi assim: “Pode mirar mais”. E eu mirei. Aí, puxei da caneta, e ela sorriu outra vez, como quem diz: “Pode copiar também”. Copiei.

— Tudo?

— Tudo não. A dona da calça estava sentada na sala de espera do cinema. Só o que era visível. Depois se levantou, foi ao bebedouro, deu tempo para eu colher mais alguma coisa, no ir e vir. Não tive coragem de pedir-lhe que desse umas voltas. Você compreende: sou tímido.

— Estou vendo.

— Foi a primeira calça literária, totalmente poética, do meu conhecimento. Feita em São Paulo? Talvez. Caracteres pretos sobre fundo branco. Versos em todas as direções. De Bilac, de Cecília, de Bandeira, de Castro Alves, de Fernando Pessoa. Uma antologia, bicho. Sem ordem, naturalmente. Escuta aí: Onde vais à tardezinha, morena flor do sertão? O que eu adoro em ti é a vida. Aqui outrora retumbaram hinos. Oh abelha imaginativa! o que o desejo inventa… Vou-me embora pra Pasárgada. Amor é fogo que arde sem se ver. Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho. No monte de amor andei, por ter de monteiro fama, sem tomar gamo nem gama. Clorindas e Belindas brincam no tempo das berlindas. Eu tenho amado tanto e não conheço o amor. Estrela Vésper do pastor errante. ‘Tamos em pleno mar: dois infinitos ali se alteiam…

— Beleza.

— Não é? Tem mais. Transforma-se o amador na coisa amada. Antônia, você parece uma lagarta listrada. D. Janaína, rainha do mar, dai-me licença para eu também brincar no vosso reinado. Por que não nasci eu um simples vaga-lume? Não queiras indagar do meu segredo. Mas que seja infinito enquanto dure. Cantando espalharei por toda parte. Tudo não escondido perde a graça. O cinamomo floresce em frente do teu postigo. Crisântemo divino aberto em meio da solidão… Tinha uma pedra no meio do caminho.

— Isso já é prosa, amizade.

— É mesmo. Em todo caso, trata-se da primeira calça poética luso-brasileira. Os poetas que tratem de defender seus direitos autorais. A menos que considerem uma honra vestir de versos as mulheres.

Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"