Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sábado, junho 6
A verdade
Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!
E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não. Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!
Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade:
Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...
Almada Negreiros, "A Invenção do Dia Claro"
E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não. Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!
Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade:
Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...
Almada Negreiros, "A Invenção do Dia Claro"
Trova do vento que passa
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre
O homem e a cidade
Agora, que não preciso mais ir à cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas ruas do centro onde tanto vaguei outrora.
E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores, o mar e as montanhas azuis.
Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)
A calçada está cheia de gente, e é doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos, gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas não preciso de nada.
Mas de repente houve alguma coisa — a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda, aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema. Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de 1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que, entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! para sempre perdida Lenora.
Lenora... E me dá uma humildade entre o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.
Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"
E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores, o mar e as montanhas azuis.
Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)
A calçada está cheia de gente, e é doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos, gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas não preciso de nada.
Entretanto, gosto de ver essa fartura de coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie que vieram de terras longes se oferecerem a mim.
Mas de repente houve alguma coisa — a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda, aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema. Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de 1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que, entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! para sempre perdida Lenora.
Lenora... E me dá uma humildade entre o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.
Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"
Os leitores
Em maio, durante 20 dias, atravessei um pedacinho do Brasil, participando em eventos literários em São Paulo, Araxá, Paracatu, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Encontrei auditórios quase sempre cheios, longas filas para autógrafos, jovens discutindo livros com uma seriedade comovente.
Tudo isso me pareceu uma espécie de miraculoso anacronismo, num mundo cada vez mais rápido, dividido, insano e brutal — num mundo cada vez mais necessitado de leitores.
Em São Paulo, uma senhora confessou ter-se reconhecido no personagem do meu último romance, “Tudo sobre Deus”:
— Aquele poeta sou eu — disse-me. — Sou eu morrendo, e descobrindo que a morte não existe.
Em Belo Horizonte, uma professora aposentada aproximou-se muito séria:
— O senhor destruiu meu casamento…
Assustei-me. Ela contou que, após ler um dos meus livros, decidira viajar sozinha pelo sul de África. Nunca mais voltou para o marido. Descobriu que prefere a vertigem à segurança:
— Foi assim que o senhor destruiu meu casamento — concluiu, com um largo sorriso. — Muito obrigada…
Na Livraria da Travessa, em Ipanema, uma moça segurou minhas mãos enquanto me contava como, durante a pandemia, lendo meus romances, e de outros autores, conseguira romper o isolamento e viajar para paisagens remotas.
Leitores. O que são, afinal, leitores?
Aquelas pessoas que praticam a grande arte de ser outros.
Aqueles que caminham devagar. Os desaceleradores do mundo.
Seres capazes de chorar a morte de pessoas inventadas.
Os que duvidam. Os que se inquietam.
Os que se espantam com um verso, uma metáfora, o adjetivo justo.
Enquanto existirem leitores, a empatia resistirá. São os leitores, afinal, quem segura os frágeis fios que sustentam todo o edifício civilizacional.
Talvez por isso os regimes autoritários desconfiem tanto dos livros. Um leitor nunca pertence completamente a uma tribo, a uma pátria, a uma ideologia. Quem aprendeu a habitar outras vidas torna-se mais difícil de capturar, catalogar e guardar numa caixa.
Um romance é uma tecnologia extraordinária, única, capaz de transportar uma pessoa para o coração de outra. Durante algumas horas, o leitor abandona o próprio corpo, a própria biografia, as próprias certezas, para entrar na pele de desconhecidos. Aprende a observar o mundo através dos olhos de um jagunço erudito que talvez tenha, ou não, feito um pacto com o diabo; de um professor de literatura francesa pedófilo, ou de um aristocrata português que se apaixona pela própria irmã.
É a isto que eu chamo exercícios de alteridade. Uma prática cada vez mais urgente.
Vivemos cercados de gente que opina sobre tudo e imagina pouco. Gente incapaz de reconhecer humanidade em quem pensa diferente, vota diferente, reza diferente ou sofre diferente. A brutalidade começa quase sempre na falência da imaginação.
Os leitores resistem a este colapso.
São uma espécie de conspiração silenciosa contra a velocidade, contra a estupidez e contra o medo. Enquanto houver leitores, haverá pessoas dispostas a escutar. E enquanto existirem pessoas capazes de escutar, o mundo talvez ainda tenha salvação.
José Eduardo Agualusa
Tudo isso me pareceu uma espécie de miraculoso anacronismo, num mundo cada vez mais rápido, dividido, insano e brutal — num mundo cada vez mais necessitado de leitores.
Em São Paulo, uma senhora confessou ter-se reconhecido no personagem do meu último romance, “Tudo sobre Deus”:
— Aquele poeta sou eu — disse-me. — Sou eu morrendo, e descobrindo que a morte não existe.
Em Belo Horizonte, uma professora aposentada aproximou-se muito séria:
— O senhor destruiu meu casamento…
Assustei-me. Ela contou que, após ler um dos meus livros, decidira viajar sozinha pelo sul de África. Nunca mais voltou para o marido. Descobriu que prefere a vertigem à segurança:
— Foi assim que o senhor destruiu meu casamento — concluiu, com um largo sorriso. — Muito obrigada…
Na Livraria da Travessa, em Ipanema, uma moça segurou minhas mãos enquanto me contava como, durante a pandemia, lendo meus romances, e de outros autores, conseguira romper o isolamento e viajar para paisagens remotas.
Leitores. O que são, afinal, leitores?
Aquelas pessoas que praticam a grande arte de ser outros.
Aqueles que caminham devagar. Os desaceleradores do mundo.
Seres capazes de chorar a morte de pessoas inventadas.
Os que duvidam. Os que se inquietam.
Os que se espantam com um verso, uma metáfora, o adjetivo justo.
Enquanto existirem leitores, a empatia resistirá. São os leitores, afinal, quem segura os frágeis fios que sustentam todo o edifício civilizacional.
Talvez por isso os regimes autoritários desconfiem tanto dos livros. Um leitor nunca pertence completamente a uma tribo, a uma pátria, a uma ideologia. Quem aprendeu a habitar outras vidas torna-se mais difícil de capturar, catalogar e guardar numa caixa.
Um romance é uma tecnologia extraordinária, única, capaz de transportar uma pessoa para o coração de outra. Durante algumas horas, o leitor abandona o próprio corpo, a própria biografia, as próprias certezas, para entrar na pele de desconhecidos. Aprende a observar o mundo através dos olhos de um jagunço erudito que talvez tenha, ou não, feito um pacto com o diabo; de um professor de literatura francesa pedófilo, ou de um aristocrata português que se apaixona pela própria irmã.
É a isto que eu chamo exercícios de alteridade. Uma prática cada vez mais urgente.
Vivemos cercados de gente que opina sobre tudo e imagina pouco. Gente incapaz de reconhecer humanidade em quem pensa diferente, vota diferente, reza diferente ou sofre diferente. A brutalidade começa quase sempre na falência da imaginação.
Os leitores resistem a este colapso.
São uma espécie de conspiração silenciosa contra a velocidade, contra a estupidez e contra o medo. Enquanto houver leitores, haverá pessoas dispostas a escutar. E enquanto existirem pessoas capazes de escutar, o mundo talvez ainda tenha salvação.
José Eduardo Agualusa
sexta-feira, junho 5
Mar de Verão
O doce de ginja brilhava vermelhíssimo entre as vespas amarelas e pretas e o vento remexia os ramos dos carvalhos e as manchas do sol corriam sobre o musgo, sobre a erva suave e húmida e sobre a cara dos convidados e das Mulheres e dos Homens que estavam a fumar e a rir todos ao mesmo tempo. E brilhavam também os cálices azuis do Marie Brizard e os talheres de sobremesa. E os pontinhos de luz – os grandes perseguindo os pequenos – corriam sobre a toalha cheia de nódoas roxas de vinho e de migalhas. E à tarde havia tourada, e os homens tinham o rosto e as faces e o nariz brilhantes. E também brilhava o café, tão preto, com cinza de charuto à volta da chávena. E os homens riam-se meio de lado porque tinham um charuto na boca e falavam e riam-se como os velhos sem dentes, a deitar a ponta da língua de fora cheia de saliva, e tudo entre uma nuvem azulada de fumo. E era tão lindo ver como o fumo ia mudando de cor conforme lhe batia o sol. E, como era dia da Assunção de Nossa Senhora, nós, as crianças, tínhamos ido lançar pétalas de rosa à Virgem Maria e ouvir as gaitas, e os foguetes, e os violinos e a voz dos cantores já dentro da Igreja. E tudo cheirava a incenso, e a flores, e a roscas e a churros e à sidra que os homens estavam a servir no Campo da Igreja, e ao fato novo.
Julian Ayesta, "Helena ou o Mar do Verão"
Julian Ayesta, "Helena ou o Mar do Verão"
Se os poetas dessem as mãos
Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.
Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.
Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.
Fernanda de Castro
Chuchu
Joanita, em sua última carta escrita de Haia: "Mas que saudades de chuchu com molho branco".
Eu sei que toda gente despreza o chuchu, a coisa mais bestinha que Deus pôs no mundo, “Cucurbitácea” reles que medra em qualquer beirada de quintal. Não tenho também nenhuma ternura especial pelo chuchu, mas já reparei que há uma certa injustiça em considerar insípido um prato que é insípido só porque raras são as cozinheiras que sabem prepará-lo.
Sei ainda que os médicos nutricionistas banem o chuchu de todas as suas dietas, dizem que o chuchu não vale nada, é uma mistura de água e celulose, desprovida de qualquer vitamina ou sal. O chuchu é meu eterno ponto da discórdia com meu querido amigo Dr. Rui Coutinho. Quando ele desfaz do chuchu em minha presença, salto logo em defesa do humilde caxixe. Argumento assim: "Antigamente, antes da descoberta das vitaminas, se dizia o mesmo da alface. Mas o sabor da planta, a boniteza de sua folha verdinha, ou talvez o instinto secreto da espécie sempre levará o homem a comer a aristocrática Lactucasativa. Um dia se descobriu que a alface é rica em vitamina A, cálcio e ferro. Então a alface deixou de ser água e celulose, e entrou nos menus autorizados e recomendados pelos nutricionistas.
Quem me dirá que um dia, próximo ou distante, não se descobrirá no chuchu um elemento novo, indispensável à economia orgânica? O que me parece inexplicável é que nós brasileiros persistamos em comer sem quase nenhum deleite essa coisinha verde e mole que se derrete na boca sem deixar vontade de repetir a dose.”
-- Rui Coutinho sorri cético.
Enquanto isso, na Holanda, Joanita, podendo comer os pratos mais saborosos do mundo, tem saudade é de chuchu com molho branco. Que desforra para o chuchu!
Eu sei que toda gente despreza o chuchu, a coisa mais bestinha que Deus pôs no mundo, “Cucurbitácea” reles que medra em qualquer beirada de quintal. Não tenho também nenhuma ternura especial pelo chuchu, mas já reparei que há uma certa injustiça em considerar insípido um prato que é insípido só porque raras são as cozinheiras que sabem prepará-lo.
Sei ainda que os médicos nutricionistas banem o chuchu de todas as suas dietas, dizem que o chuchu não vale nada, é uma mistura de água e celulose, desprovida de qualquer vitamina ou sal. O chuchu é meu eterno ponto da discórdia com meu querido amigo Dr. Rui Coutinho. Quando ele desfaz do chuchu em minha presença, salto logo em defesa do humilde caxixe. Argumento assim: "Antigamente, antes da descoberta das vitaminas, se dizia o mesmo da alface. Mas o sabor da planta, a boniteza de sua folha verdinha, ou talvez o instinto secreto da espécie sempre levará o homem a comer a aristocrática Lactucasativa. Um dia se descobriu que a alface é rica em vitamina A, cálcio e ferro. Então a alface deixou de ser água e celulose, e entrou nos menus autorizados e recomendados pelos nutricionistas.
Quem me dirá que um dia, próximo ou distante, não se descobrirá no chuchu um elemento novo, indispensável à economia orgânica? O que me parece inexplicável é que nós brasileiros persistamos em comer sem quase nenhum deleite essa coisinha verde e mole que se derrete na boca sem deixar vontade de repetir a dose.”
-- Rui Coutinho sorri cético.
Enquanto isso, na Holanda, Joanita, podendo comer os pratos mais saborosos do mundo, tem saudade é de chuchu com molho branco. Que desforra para o chuchu!
Manuel Bandeira
O Cristo do Mar
Naquele ano, vários pescadores de Saint-Valéry afogaram-se no mar. Os corpos, atirados à praia pela maré, foram encontrados de mistura com os restos dos seus barcos, e durante nove dias foram vistos, na trilha montanhosa que conduz à igreja, esquifes carregados nos ombros e acompanhados por viúvas em pranto, sob grandes mantos negros, como as mulheres da Bíblia.
Assim, foram o patrão Jean Lenoèl e seu filho Désiré depostos na grande nave, sob a mesma arcada a que haviam pouco antes pendurado, em oferenda à Santa Virgem, um navio com todo o seu massamé.. Tinham sido homens justos e tementes a Deus, e o abade Guillaume Truphème, vigário de Saint-Valéry, tendo-lhes dado a absolvição, disse em voz lacrimosa:
— Jamais foram depostas em solo sagrado, para aí aguardarem o juízo do Senhor, criaturas mais virtuosas e cristãos mais devotos que Jean Lenoèl e seu filho Désiré.
E enquanto os barcos com seus donos pereciam ao longo da costa, grandes navios soçobravam ao largo, e não se passava dia sem que o oceano produzisse algum destroço. Então, certa manhã, meninos que remavam num batel viram uma figura em decúbito à tona do mar. Era um Cristo, em tamanho de homem, esculpido em madeira dura, pintado em cores naturais, e parecia uma obra antiga. O Cristo flutuava nas águas de braços estendidos. Os meninos o guindaram para bordo e o conduziram a Saint-Valéry. A coroa de espinhos cingia-lhe a fronte. Os pés e as mãos estavam traspassados. Mas faltavam os cravos, assim como a cruz. Com os braços ainda abertos para oferecer-se e bendizer, tinha a mesma postura em que o haviam visto José de Arimatéia e as santas mulheres no momento de o amortalhar.
Os meninos o levaram ao vigário Truphème, que lhes disse:
— Esta imagem do Messias é de valor antigo, e quem o executou certamente de há muito não pertence aos vivos. Ainda que os negociantes de Amiens e de Paris vendam hoje por cem francos, e até mais, estátuas primorosas, é necessário reconhecer que os artesãos de outrora tinham também o seu merecimento. Mas o que me alegra é sobretudo o pensamento de que, se o Salvador vem assim, de braços abertos, a Saint-Valéry, é para abençoar a paróquia tão cruelmente provada, e mostrar a sua piedade por essa pobre gente que na pesca arrisca a sua vida. Ele é o Deus que caminhou sobre as águas, e abençoou as redes de Cefas.
E o cura Truphème, tendo mandado depositar o Cristo na igreja, sobre a toalha do altar-mor, tratou de encomendar ao carpinteiro Lemerre uma bela cruz em lenho de carvalho.
Pronta esta, nela pregaram o Cristo com pregos novos, e o colocaram na nave, por sobre o banco dos mordomos.
Foi então que se viu que os seus olhos estavam repletos de misericórdia e pareciam umedecidos por uma celeste compaixão. Um dos tesoureiros, que assistia à instalação do crucifixo, acreditou ver lágrimas correrem pela divina face.
Na manhã seguinte, entrando com o acólito na igreja para dizer a missa, o vigário surpreendeu-se ao ver na parede a cruz vazia, e o Cristo deitado sobre o altar.
Tão logo acabou de celebrar o santo ofício, mandou chamar o carpinteiro e perguntou-lhe por que ele havia tirado o Cristo da cruz. Mas o carpinteiro respondeu que não lhe havia tocado. E, depois de interrogar o sacristão e os fabriqueiros, o abade Truphème assegurou-se de que ninguém entrara na igreja desde o momento em que o Cristo fora dependurado.
Ocorreu-lhe então que aquelas coisas fossem milagrosas, e meditou sobre elas com prudincia. No domingo seguinte referiu-as na prédica aos seus paroquianos, e convidou-os a contribuir com donativos para a elevação de uma nova cruz mais bela que a primeira e mais digna de suster o Redentor do mundo.
Os pobres pescadores de Saint-Valéry deram todo o dinheiro que puderam, e as viúvas entregaram as suas alianças. Com o que o abade Truphème pôde ir imediatamente a Abbeville encomendar uma cruz de madeira negra, muito reluzente, encimada por uma tabuleta com a inscrição INRI em letras douradas.
Dois meses mais tarde plantaram-na no lugar da primeira, e a ela pregaram o Cristo entre a lança e a esponja. Mas Jesus deixou-a como à outra, e foi, depois do anoitecer, estender-se sobre o altar.
Ao encontrá-lo de manhã, o vigário caiu de joelhos e orou por muito, tempo. A notícia do milagre espalhou-se por toda a redondeza, e as damas de Amiens promoveram peditórios para o Cristo de Saint-Valéry. O abade Truphème recebeu de Paris dinheiro e jóias, e a mulher do ministro da Marinha, Srª. Hyde de Neuville, enviou-lhe um coração de diamantes. Com todas essas riquezas, um ourives da Rue de Saint-Sulpice compôs, em dois anos, uma cruz de ouro e pedrarias, que foi inaugurada em meio a grande pompa na igreja de Saint-Valéry, no segundo domingo após a Páscoa do ano de 18… Mas Aquele que não recusara o madeiro doloroso escapou-se daquela cruz tão rica e foi de novo estender-se sobre o linho branco do altar.
Com medo de ofendê-lo, deixaram-no ficar desta vez, e ele ali repousava por mais de dois anos quando Pierre, filho de Pierre Caillou, veio dizer ao senhor cura Truphème que tinha encontrado na areia da praia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.
Pierre era um inocente, e como não tivesse entendimento bastante para ganhar a vida, davam-lhe pão, por caridade; e gostavam dele, porque era incapaz de fazer mal. Mas costumava engrolar coisas sem nexo, a que ninguém dava ouvidos.
Contudo, o abade Truphème, que incessantemente matutava no mistério do Cristo do Mar, deixou-se impressionar pelo que contara o pobre idiota. Com o sacristão e dois fabriqueiros, dirigiu-se ao lugar onde o rapaz afirmava ter visto uma cruz, e ali encontrou duas pranchas guarnecidas de pregos, que as vagas haviam rolado durante muito tempo, e que efetivamente formavam uma cruz.
Eram detritos de um antigo naufrágio. Em uma das pranchas distinguiam-se ainda duas letras pintadas em preto, um J e um L, e não cabia duvidar que fosse um fragmento do barco de Jean Lenoèl que, cinco anos antes, perecera no mar com seu filho Désiré.
Vendo aquilo, o sacristão e os fabriqueiros começaram a rir de um inocente que tomava as tábuas esfaceladas de um barco pela cruz de Jesus Cristo. Mas o vigário Truphème lhes atalhou as zombarias. Ele meditara muito e muito orara desde que o Cristo do Mar fizera a sua aparição em meio aos pescadores, e o mistério da infinita caridade começava a se lhe revelar. Ele ajoelhou-se na areia, recitou a oração pelos fiéis defuntos, depois ordenou ao sacristão e aos fabriqueiros que carregassem aos ombros o destroço e o depositassem na igreja. Feito isto, ergueu o Cristo de sobre o altar, colocou-o sobre as pranchas do barco e pregou-o, com suas próprias mãos, com os pregos corroídos pelo mar.
Por ordem sua, a nova cruz ocupou, a partir do dia seguinte, sobre o banco dos mordomos, o lugar da cruz de ouro e pedrarias. E nunca mais o Cristo do Mar dali se despregou. Aprouve-Lhe permanecer naquele lenho sobre o qual homens morreram a invocar-Lhe o nome e o de sua Mãe. E ali, entreabrindo a boca augusta e dolorosa, Ele parece dizer: “A minha cruz é feita dos sofrimentos dos homens, pois em verdade vos digo que eu sou o Deus dos pobres e dos desvalidos.”
Assim, foram o patrão Jean Lenoèl e seu filho Désiré depostos na grande nave, sob a mesma arcada a que haviam pouco antes pendurado, em oferenda à Santa Virgem, um navio com todo o seu massamé.. Tinham sido homens justos e tementes a Deus, e o abade Guillaume Truphème, vigário de Saint-Valéry, tendo-lhes dado a absolvição, disse em voz lacrimosa:
— Jamais foram depostas em solo sagrado, para aí aguardarem o juízo do Senhor, criaturas mais virtuosas e cristãos mais devotos que Jean Lenoèl e seu filho Désiré.
E enquanto os barcos com seus donos pereciam ao longo da costa, grandes navios soçobravam ao largo, e não se passava dia sem que o oceano produzisse algum destroço. Então, certa manhã, meninos que remavam num batel viram uma figura em decúbito à tona do mar. Era um Cristo, em tamanho de homem, esculpido em madeira dura, pintado em cores naturais, e parecia uma obra antiga. O Cristo flutuava nas águas de braços estendidos. Os meninos o guindaram para bordo e o conduziram a Saint-Valéry. A coroa de espinhos cingia-lhe a fronte. Os pés e as mãos estavam traspassados. Mas faltavam os cravos, assim como a cruz. Com os braços ainda abertos para oferecer-se e bendizer, tinha a mesma postura em que o haviam visto José de Arimatéia e as santas mulheres no momento de o amortalhar.
Os meninos o levaram ao vigário Truphème, que lhes disse:
— Esta imagem do Messias é de valor antigo, e quem o executou certamente de há muito não pertence aos vivos. Ainda que os negociantes de Amiens e de Paris vendam hoje por cem francos, e até mais, estátuas primorosas, é necessário reconhecer que os artesãos de outrora tinham também o seu merecimento. Mas o que me alegra é sobretudo o pensamento de que, se o Salvador vem assim, de braços abertos, a Saint-Valéry, é para abençoar a paróquia tão cruelmente provada, e mostrar a sua piedade por essa pobre gente que na pesca arrisca a sua vida. Ele é o Deus que caminhou sobre as águas, e abençoou as redes de Cefas.
E o cura Truphème, tendo mandado depositar o Cristo na igreja, sobre a toalha do altar-mor, tratou de encomendar ao carpinteiro Lemerre uma bela cruz em lenho de carvalho.
Pronta esta, nela pregaram o Cristo com pregos novos, e o colocaram na nave, por sobre o banco dos mordomos.
Foi então que se viu que os seus olhos estavam repletos de misericórdia e pareciam umedecidos por uma celeste compaixão. Um dos tesoureiros, que assistia à instalação do crucifixo, acreditou ver lágrimas correrem pela divina face.
Na manhã seguinte, entrando com o acólito na igreja para dizer a missa, o vigário surpreendeu-se ao ver na parede a cruz vazia, e o Cristo deitado sobre o altar.
Tão logo acabou de celebrar o santo ofício, mandou chamar o carpinteiro e perguntou-lhe por que ele havia tirado o Cristo da cruz. Mas o carpinteiro respondeu que não lhe havia tocado. E, depois de interrogar o sacristão e os fabriqueiros, o abade Truphème assegurou-se de que ninguém entrara na igreja desde o momento em que o Cristo fora dependurado.
Ocorreu-lhe então que aquelas coisas fossem milagrosas, e meditou sobre elas com prudincia. No domingo seguinte referiu-as na prédica aos seus paroquianos, e convidou-os a contribuir com donativos para a elevação de uma nova cruz mais bela que a primeira e mais digna de suster o Redentor do mundo.
Os pobres pescadores de Saint-Valéry deram todo o dinheiro que puderam, e as viúvas entregaram as suas alianças. Com o que o abade Truphème pôde ir imediatamente a Abbeville encomendar uma cruz de madeira negra, muito reluzente, encimada por uma tabuleta com a inscrição INRI em letras douradas.
Dois meses mais tarde plantaram-na no lugar da primeira, e a ela pregaram o Cristo entre a lança e a esponja. Mas Jesus deixou-a como à outra, e foi, depois do anoitecer, estender-se sobre o altar.
Ao encontrá-lo de manhã, o vigário caiu de joelhos e orou por muito, tempo. A notícia do milagre espalhou-se por toda a redondeza, e as damas de Amiens promoveram peditórios para o Cristo de Saint-Valéry. O abade Truphème recebeu de Paris dinheiro e jóias, e a mulher do ministro da Marinha, Srª. Hyde de Neuville, enviou-lhe um coração de diamantes. Com todas essas riquezas, um ourives da Rue de Saint-Sulpice compôs, em dois anos, uma cruz de ouro e pedrarias, que foi inaugurada em meio a grande pompa na igreja de Saint-Valéry, no segundo domingo após a Páscoa do ano de 18… Mas Aquele que não recusara o madeiro doloroso escapou-se daquela cruz tão rica e foi de novo estender-se sobre o linho branco do altar.
Com medo de ofendê-lo, deixaram-no ficar desta vez, e ele ali repousava por mais de dois anos quando Pierre, filho de Pierre Caillou, veio dizer ao senhor cura Truphème que tinha encontrado na areia da praia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.
Pierre era um inocente, e como não tivesse entendimento bastante para ganhar a vida, davam-lhe pão, por caridade; e gostavam dele, porque era incapaz de fazer mal. Mas costumava engrolar coisas sem nexo, a que ninguém dava ouvidos.
Contudo, o abade Truphème, que incessantemente matutava no mistério do Cristo do Mar, deixou-se impressionar pelo que contara o pobre idiota. Com o sacristão e dois fabriqueiros, dirigiu-se ao lugar onde o rapaz afirmava ter visto uma cruz, e ali encontrou duas pranchas guarnecidas de pregos, que as vagas haviam rolado durante muito tempo, e que efetivamente formavam uma cruz.
Eram detritos de um antigo naufrágio. Em uma das pranchas distinguiam-se ainda duas letras pintadas em preto, um J e um L, e não cabia duvidar que fosse um fragmento do barco de Jean Lenoèl que, cinco anos antes, perecera no mar com seu filho Désiré.
Vendo aquilo, o sacristão e os fabriqueiros começaram a rir de um inocente que tomava as tábuas esfaceladas de um barco pela cruz de Jesus Cristo. Mas o vigário Truphème lhes atalhou as zombarias. Ele meditara muito e muito orara desde que o Cristo do Mar fizera a sua aparição em meio aos pescadores, e o mistério da infinita caridade começava a se lhe revelar. Ele ajoelhou-se na areia, recitou a oração pelos fiéis defuntos, depois ordenou ao sacristão e aos fabriqueiros que carregassem aos ombros o destroço e o depositassem na igreja. Feito isto, ergueu o Cristo de sobre o altar, colocou-o sobre as pranchas do barco e pregou-o, com suas próprias mãos, com os pregos corroídos pelo mar.
Por ordem sua, a nova cruz ocupou, a partir do dia seguinte, sobre o banco dos mordomos, o lugar da cruz de ouro e pedrarias. E nunca mais o Cristo do Mar dali se despregou. Aprouve-Lhe permanecer naquele lenho sobre o qual homens morreram a invocar-Lhe o nome e o de sua Mãe. E ali, entreabrindo a boca augusta e dolorosa, Ele parece dizer: “A minha cruz é feita dos sofrimentos dos homens, pois em verdade vos digo que eu sou o Deus dos pobres e dos desvalidos.”
Anatole France
Itens, nem todos básicos
Depois que se casou com uma viúva pobre e mãe de três filhos, o poeta passou a fazer recitais para um tipo só de público: o pagante.
Cinquenta anos atrás, quando se esmerava para escrever seus sonetos, ele os classificava em duas categorias: os românticos e os realistas. Na época, eles ainda não se dividiam em dolosos e culposos.
Que todo sacrifício imposto pela literatura seja assumido pelos escritores e que eles resistam à tentação de repassá-los aos leitores.
Enquanto o poeta social se identifica apresentando a carteirinha do sindicato, o poeta comum continua dependendo do testemunho dos passarinhos e dos seus colegas de confraria.
É um desses poetas que, numa antologia de quinze, fazem sempre pensar que com catorze ela ficaria bem melhor.
Na ideia de imortalidade do escritor municipal não há uma passagem por Estocolmo. Há uma reunião na câmara de vereadores e uma votação que lhe garantirá uma estátua na praça central. Isso lhe bastaria. Se pudesse pedir algo mais, seria que o pusessem de frente para o pequeno lago.
Ando tão diverso, já, de modos e de feições, que a Morte, se me aceitar, há de ser com restrições.
Estou num momento mau, que péssima fase a minha. Minha alma virou mingau, e meu cérebro, farinha.
Eu nasci triste. Isso fez de mim um menino orgulhoso. Repugnava-me o riso dos adultos, como quase tudo que lhes era próprio. Horrorizava-me pensar que logo eu seria um deles. Quando descobri a literatura, escravizei-me aos personagens atormentados, aos miseráveis, aos ressentidos e aos derrotados. Ela nunca me falhou. Até hoje me dá o pão amargo que me alimenta.
Tem uma convicção: a de que um poeta presunçoso jamais receberá a visita de um haicai.
Quando, cinquenta anos depois, abriu a gaveta onde estavam guardados os sonetos de sua juventude, decepcionou-se. Tinha lido já o terceiro e seus olhos permaneciam obstinadamente secos.
***
Cinquenta anos atrás, quando se esmerava para escrever seus sonetos, ele os classificava em duas categorias: os românticos e os realistas. Na época, eles ainda não se dividiam em dolosos e culposos.
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Que todo sacrifício imposto pela literatura seja assumido pelos escritores e que eles resistam à tentação de repassá-los aos leitores.
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Enquanto o poeta social se identifica apresentando a carteirinha do sindicato, o poeta comum continua dependendo do testemunho dos passarinhos e dos seus colegas de confraria.
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É um desses poetas que, numa antologia de quinze, fazem sempre pensar que com catorze ela ficaria bem melhor.
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Na ideia de imortalidade do escritor municipal não há uma passagem por Estocolmo. Há uma reunião na câmara de vereadores e uma votação que lhe garantirá uma estátua na praça central. Isso lhe bastaria. Se pudesse pedir algo mais, seria que o pusessem de frente para o pequeno lago.
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Ando tão diverso, já, de modos e de feições, que a Morte, se me aceitar, há de ser com restrições.
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Estou num momento mau, que péssima fase a minha. Minha alma virou mingau, e meu cérebro, farinha.
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Eu nasci triste. Isso fez de mim um menino orgulhoso. Repugnava-me o riso dos adultos, como quase tudo que lhes era próprio. Horrorizava-me pensar que logo eu seria um deles. Quando descobri a literatura, escravizei-me aos personagens atormentados, aos miseráveis, aos ressentidos e aos derrotados. Ela nunca me falhou. Até hoje me dá o pão amargo que me alimenta.
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Tem uma convicção: a de que um poeta presunçoso jamais receberá a visita de um haicai.
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Quando, cinquenta anos depois, abriu a gaveta onde estavam guardados os sonetos de sua juventude, decepcionou-se. Tinha lido já o terceiro e seus olhos permaneciam obstinadamente secos.
quinta-feira, junho 4
Letra: Ferida Exposta ao Tempo
É forçoso dizer que me faz falta
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais: rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.
O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.
E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais: rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.
O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.
E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.
Affonso Romano de Sant’Anna
Terra presa
Os longes esfarelavam-se num luaceiro grisalho, como de moinha ao vento; mas, a todo o largo da mirada, a terra descobria-se com os mouchões das leiras a reluzir prateados ao luar e os regos coalhados de tinta negra.
Nas leiras onduladas de morro para morro, o centeal dormia debaixo do codo, a meio as pedras intonsas e impressionantes como cabeças mortas saindo debaixo dum lençol.
As giestas projectavam uma sombra muito escura, o que o levou a notar que a sombra que o seu vulto também projectava era tão retinta e desengonçada como se levasse um fantasma à mão direita.
Não se enxergava vivalma nem de homem, nem de bicho, nem de ser nado que fosse.
Mas, pela lua que caminhava sempre, o sete-estrelo muito rútilo, a rija imobilidade da planície, sentia-se a terra presa a amarras que não quebram nem se rendem.
Aquilino Ribeiro, "Terras do Demo"
Nas leiras onduladas de morro para morro, o centeal dormia debaixo do codo, a meio as pedras intonsas e impressionantes como cabeças mortas saindo debaixo dum lençol.
As giestas projectavam uma sombra muito escura, o que o levou a notar que a sombra que o seu vulto também projectava era tão retinta e desengonçada como se levasse um fantasma à mão direita.
Não se enxergava vivalma nem de homem, nem de bicho, nem de ser nado que fosse.
Mas, pela lua que caminhava sempre, o sete-estrelo muito rútilo, a rija imobilidade da planície, sentia-se a terra presa a amarras que não quebram nem se rendem.
Aquilino Ribeiro, "Terras do Demo"
Um livro todo humano
Fim de lançamento à noite, na livraria, aparece um rapaz vagamente interessado e me pergunta: “esse livro seu é todo humano?”. Um lapso de segundos, eu olhando para ele, e ele completa: “ou você usou inteligência artificial?”. Mais alguns segundos, eu degustando o fantástico da coisa até dar com seu travo: de repente imaginar que livros de literatura amanhã venham com algum tipo de certificado de autenticidade humana, como compotas de geleia sem aditivos nem conservantes, ou que livros meio humanos meio máquinas venham com tarjas de aviso como os alertas de transgênicos em pacotes de milho para pipocas.
Então me ouvi dizendo apenas: “sim, esse é um livro todo humano…”. E como atestar a humanidade dos livros ou detectar por trás deles avatares sem alma? Pela qualidade dos erros? Quanto mais excelente o erro, quanto mais imprevisto o desvio, mais humano? Para o pensador dos nossos tempos Byung-Chul Han, a diferença está em que só o humano conhece Eros. Mais que um lance de dados, um lance de pele, de contato. A inteligência artificial, ele diz, “não é capaz de pensar porque não tem amigo, não tem amante”. A inteligência artificial não tem um coração pensante.
E que coisa mais desoladora imaginar um livro de poesia ou um livro de ficção que não seja todo humano… Que grande farsa um escritor abrir mão dos seus desacertos — seus “erros magníficos”, diria a poeta Maria Lúcia Dal Farra —, que fracasso tremendo um escritor delegar à inteligência artificial o poder e o prazer de criar pela linguagem o que quer que seja. Os livros já não seriam nossos amigos, nem seria verdadeiramente vital nossa relação com eles. E não estaria aí o atestado de falência do nosso contato uns com os outros?
Então me ouvi dizendo apenas: “sim, esse é um livro todo humano…”. E como atestar a humanidade dos livros ou detectar por trás deles avatares sem alma? Pela qualidade dos erros? Quanto mais excelente o erro, quanto mais imprevisto o desvio, mais humano? Para o pensador dos nossos tempos Byung-Chul Han, a diferença está em que só o humano conhece Eros. Mais que um lance de dados, um lance de pele, de contato. A inteligência artificial, ele diz, “não é capaz de pensar porque não tem amigo, não tem amante”. A inteligência artificial não tem um coração pensante.
E que coisa mais desoladora imaginar um livro de poesia ou um livro de ficção que não seja todo humano… Que grande farsa um escritor abrir mão dos seus desacertos — seus “erros magníficos”, diria a poeta Maria Lúcia Dal Farra —, que fracasso tremendo um escritor delegar à inteligência artificial o poder e o prazer de criar pela linguagem o que quer que seja. Os livros já não seriam nossos amigos, nem seria verdadeiramente vital nossa relação com eles. E não estaria aí o atestado de falência do nosso contato uns com os outros?
O Edifício
Chegará o dia em que os teus pardieiros se transformarão em edifícios; naquele dia ficarás fora da lei.
(Miquéias, VII, 11)
Batida a última estaca e concluídos os alicerces, o Conselho Superior da Fundação, a que incumbia a direção geral do empreendimento, dispensou os técnicos e operários, para, em seguida, recrutar nova equipe de profissionais e artífices.
1. A LENDA
Ao engenheiro responsável, recém-contratado, nada falaram das finalidades do prédio. Finalidades, aliás, que pouco interessavam a João Gaspar, orgulhoso como se encontrava de, no início da carreira, dirigir a construção do maior arranha-céu de que se tinha notícia.
Ouviu atentamente as instruções dos conselheiros, cujas barbas brancas, terminadas em ponta, lhes emprestavam aspecto de severa pertinácia.
Davam-lhe ampla liberdade, condicionando-a apenas a duas ou três normas, que deveriam ser corretamente observadas. A sua missão não seria somente exercer funções de natureza técnica. Envolvia toda a complexidade de um organismo singular. Os menores detalhes do funcionamento da empresa construtora estariam a seu cargo, cabendo-lhe proporcionar salários compensadores e constante assistência ao operariado. Competia-lhe, ainda, evitar quaisquer motivos de desarmonia entre os empregados. Essa diretriz, conforme lhe acentuaram, destinava-se a cumprir importante determinação dos falecidos idealizadores do projeto e anular a lenda corrente de que sobreviveria irremovível confusão no meio dos obreiros ao se atingir o octingentésimo andar do edifício e, consequentemente, o malogro definitivo do empreendimento.
No decorrer das minuciosas explicações dos dirigentes da Fundação, o jovem engenheiro conservou-se tranquilo, demonstrando absoluta confiança em si, e nenhum receio quanto ao êxito das obras. Houve, todavia, uma hora em que se perturbou ligeiramente, gaguejando uma frase ambígua. Já terminara a entrevista e ele recolhia os papéis espalhados pela mesa, quando um dos velhos o advertiu:
— Nesta construção não há lugar para os pretensiosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. Você morrerá bem antes disso. Nós que aqui estamos constituímos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.
2. A ADVERTÊNCIA
A mesma orientação que recebera dos seus superiores, o engenheiro a transmitiu aos subordinados imediatos. Nem sequer omitiu a advertência que o encabulara. E vendo que suas palavras tinham impressionado bem mais a seus ouvintes do que a ele as do ancião, sentiu-se plenamente satisfeito.
3. A COMISSÃO
Essa medida valeu maior rendimento de trabalho e evitou, por diversas vezes, dissensões entre os assalariados.
A fim de estimular a camaradagem entre os que lidavam na construção, desenvolviam-se aos domingos alegres programas sociais. Devido a esse e outros fatores, tudo corria tranquilamente, encaminhando-se a obra para as etapas previstas.
De cinquenta em cinquenta andares, João Gaspar, oferecia uma festa aos empregados. Fazia um discurso. Envelhecia.
4. O BAILE
Inquietante expectativa marcou a aproximação do 8002 pavimento. Redobraram-se os cuidados, triplicou-se o número de membros da Comissão de Controle, cuja atividade se tornara incessante, superando dificuldades, aplainando divergências, Deliberadamente, adiou-se o baile que se realizava ao termo de cada cinquenta pisos concluídos.
Afinal, dissiparam-se as preocupações. Haviam chegado sem embaraços ao octingentésimo andar. O acontecimento foi comemorado com uma festa maior que as precedentes.
Pela madrugada, porém, o álcool ingerido em demasia e um incidente de pequena importância provocaram um conflito de incrível violência. Homens e mulheres, indiscriminadamente, se atracaram com ferocidade, transformando o salão num amontoado de destroços. Enquanto cadeiras e garrafas cortavam o ar, o engenheiro, aflito, lutava para acalmar os ânimos. Não conseguiu. Um objeto pesado atingiu-o na cabeça, pondo fim a seus esforços conciliatórios. Quando voltou a si, o corpo ensanguentado e dolorido pelas pancadas e pontapés que recebera após a queda, sentiu-se vítima de terrível cilada. De modo inesperado, cumprira-se a antiga predição.
5. O EQUÍVOCO
Depois do incidente, João Gaspar trancou-se em casa, recusando-se a receber os seus mais íntimos colaboradores, para não ouvir deles palavras de consolo.
Já que se fazia impossível continuar as obras, desejava, ao menos, descobrir o erro em que incorrera. Acreditava ter obedecido fielmente às instruções do Conselho. Se fracassara, a culpa deveria ser atribuída à omissão de algum detalhe desconhecido da profecia.
A insistência dos auxiliares venceu sua teimosia e concordou em atendê-los. Queriam saber por que desanimara, não mais comparecera ao edifício. Ficara ressentido pela briga?
— Que adiantaria a minha presença? Não lhes satisfez a minha humilhação?
— Como? — indagaram. — Aquilo fora uma simples bebedeira. — Estavam todos envergonhados com o que acontecera e lhe pediam desculpas.
— E ninguém abandonou o trabalho?
Ante a resposta negativa, ele se abraçou aos companheiros:
— Daqui para frente nenhum obstáculo interromperá nossos planos! (Os olhos permaneciam umedecidos, mas os lábios ostentavam um sorriso de altivez.)
6. O RELATÓRIO
Em ambiente calmo, todos se empenhando nas suas tarefas, mais noventa e seis andares foram acrescidos ao prédio. As coisas seguiam perfeitas, a média de trabalho dos assalariados era excelente.
Empolgado por um delirante contentamento, o engenheiro distribuía gratificações, desfazia-se em gentilezas com o pessoal, vagava pelas escadas, debruçava-se nas janelas, dava pulos, enrolava nas mãos as barbas embranquecidas.
Para prolongar o sabor do triunfo, que o cansaço começava solapar, ocorreu-lhe redigir um circunstanciado relatório aos diretores da Fundação, contando os pormenores da vitória. Demonstraria também a impossibilidade de surgir, no futuro, outras profecias que pudessem embaraçar o prosseguimento das obras. Ultimado o memorial, ele se dirigiu à sede do Conselho, lugar em que estivera poucas vezes e em época bem remota. Em vez dos cumprimentos que julgava merecer, uma surpresa o aguardava: haviam morrido os últimos conselheiros e, de acordo com as normas estabelecidas após a desmoralização da lenda, não se preencheram as vagas abertas.
Ainda duvidando do que ouvira, o engenheiro indagou ao arquivista — único auxiliar remanescente do enorme corpo de funcionários da entidade — se lhe tinham deixado recomendações especiais para a continuação do prédio.
De nada sabia, nem mesmo por que estava ali, sem patrões e serviços a executar.
Ansiosos por descobrir documentos que os orientassem, atiraram-se à faina de revolver armários e arquivos. Nada conseguiram. Só encontraram especificações técnicas e uma frase que, amiúde, aparecia à margem de livros, relatórios e plantas: "É preciso evitar-se a confusão. Ela virá ao cabo do octingentésimo pavimento".
7. A DÚVIDA
Esvaíra-se a euforia de João Gaspar. Vago e melancólico, retornou ao edifício. Da última laje, as mãos apoiadas na cintura, teve um momento de mesquinha grandeza, julgando-se senhor absoluto do monumento que estava a seus pés. Quem mais poderia ser, desde que o Conselho se extinguira?!
Fugaz foi o seu desmedido orgulho. Ao regressar a casa, onde sempre faltara a diligência de uns dedos femininos, as dúvidas o perseguiam. Por que legavam a um mero profissional tamanho encargo? Quais os objetivos dos que tinham idealizado tão absurdo arranha-céu?
As perguntas iam e vinham, enquanto o edifício se elevava e menores se faziam as probabilidades de se tornar claro o que nascera misterioso.
Sorrateiro, o desânimo substituiu nele o primitivo entusiasmo pela obra. Queixava-se aos amigos do tédio que lhe provocava o infindável movimento de argamassa, pedra britada, fôrmas de madeira, além da angústia que sentia, vendo o monótono subir e descer de elevadores.
Quando a ansiedade ameaçou levá-lo ao colapso, convocou os trabalhadores para uma reunião. Explicou-lhes, com enfática riqueza de detalhes, que a dissolução do Conselho obrigava-o a paralisar a construção do edifício.
— Falta-nos, agora, um plano diretor. Sem este não vejo razões para se construir um prédio interminável — concluiu.
Os operários ouviram tudo com respeitoso silêncio e, em nome deles, respondeu firme e duro um especialista em concretagem:
— Acatamos o senhor como chefe, mas as ordens que recebemos partiram de autoridades superiores e não foram revogadas.
8. O DESESPERO
João Gaspar, inutilmente, apelaria para a compreensão dos servidores. Usava recursos convincentes, numa linguagem branda, porque seus propósitos eram pacíficos. Igualmente corteses, os empregados repeliam a ideia de abandonar o trabalho.
— Ouçam-me — pedia ele, impaciente com a obstinação dos subordinados. — É inexequível um monstro de ilimitados pavimentos! Seria necessário que as fundações fossem reforçadas à medida que se aumentasse o número de andares. Também isto é impraticável.
Apesar de ouvido sempre com atenção, não convencia a ninguém. E teve que assumir uma atitude de intransigência, demitindo todo o pessoal.
Os operários se negaram a aceitar o ato de dispensa. Alegavam a irrevogabilidade das determinações dos falecidos conselheiros. Por fim, disseram que iriam trabalhar à noite e aos domingos, independente de qualquer pagamento adicional.
9. O ENGANO
A decisão dos assalariados de aumentar o número de horas de serviço deu novo alento ao engenheiro, que esperava vê-los vencidos pela estafa, pois lhes seria impossível manter por muito tempo semelhante esforço coletivo.
Logo verificaria seu engano. Além de não apresentarem sinais de cansaço, para ajudá-los vieram das cidades vizinhas centenas de trabalhadores que se dispunham a auxiliar gratuitamente os colegas. Vinham cantando, sobraçando as ferramentas, como se preparados para longa e alegre campanha.
Pouco adiantava recusar-lhes a colaboração, eles mesmos escolhiam as tarefas e as iniciavam com entusiasmo, indiferentes à agressiva repulsa de João Gaspar.
10. OS DISCURSOS
Vendo multiplicar as levas de voluntários, o engenheiro, não teve mais ânimo de enxotá-los. Passou a percorrer, um por um, os andaimes, exortando-os a abandonar o trabalho. Fazia longos discursos e, muitas vezes, caía desfalecido de tanto falar.
A princípio, os empregados se desculpavam, constrangidos por não ouvirem atentamente as suas palavras. Com o passar dos anos, habituaram-se a elas e as consideravam peça importante nas recomendações recebidas pelo engenheiro-chefe antes da dissolução do Conselho.
Não raro, entusiasmados com a beleza das imagens do orador, pediam-lhe que as repetisse. João Gaspar se enfurecia, desmandava-se em violentos insultos. Mas estes vinham vazados em tão bom estilo, que ninguém se irritava. E, risonhos, os obreiros retornavam ao serviço, enquanto o edifício continuava a ganhar altura.
Murilo Rubião, Obra completa
quarta-feira, junho 3
Sou ...
Sou como aqueles poemas.
Li os poemas e senti o espanto de me descobrir.
O poema me diz. Diz o que eu já sabia sem saber.
Bem disse Bernardo Soares que
"Arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles."
Meu rosto aparece refletido no espelho de vidro.
Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu rosto conhecido.
Meu reflexo não me surpreende.
Mas o poema é um espelho onde a minha alma, desconhecida,
aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto assim.
O poema me mostra a beleza da minha alma – que eu não via.
Por isso a poesia é salvação.
Na minha solidão dou-me conta de que existe uma outra pessoa
cuja alma se parece com a minha.
Fico grato porque tal pessoa existe.
Minha solidão se transforma em comunhão.
Li os poemas e senti o espanto de me descobrir.
O poema me diz. Diz o que eu já sabia sem saber.
Bem disse Bernardo Soares que
"Arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles."
Meu rosto aparece refletido no espelho de vidro.
Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu rosto conhecido.
Meu reflexo não me surpreende.
Mas o poema é um espelho onde a minha alma, desconhecida,
aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto assim.
O poema me mostra a beleza da minha alma – que eu não via.
Por isso a poesia é salvação.
Na minha solidão dou-me conta de que existe uma outra pessoa
cuja alma se parece com a minha.
Fico grato porque tal pessoa existe.
Minha solidão se transforma em comunhão.
Rubem Alves
Conversa com o devoto
Houve um tempo em que eu ia à igreja todos os dias, pois uma moça pela qual eu havia me apaixonado rezava por lá de joelhos durante meia hora ao anoitecer, e eu podia aproveitar para contemplá-la em silêncio.
Certa vez, quando a moça não veio e eu olhava, incomodado, para os que rezavam, chamou minha atenção um rapaz magro que havia se jogado ao chão. De tempos em tempos, ele movia o crânio com toda a força de seu corpo e o lançava, suspirando, às palmas de suas mãos, que jaziam sobre as pedras.
Na igreja, havia apenas algumas mulheres idosas, que viravam com frequência suas cabecinhas enroladas em panos e inclinadas para o lado para olhar para aquele que rezava. Essa atenção parecia deixá-lo feliz, pois, antes de cada uma de suas explosões devotas, ele olhava em volta para ver se o número de espectadores era grande. Eu achei isso inconveniente, e decidi lhe dirigir a palavra assim que ele saísse da igreja e lhe perguntar por que ele rezava desse modo. Sim, eu estava incomodado porque minha moça não viera.
Mas ele se levantou apenas depois de uma hora, fez um sinal da cruz deveras cuidadoso e andou aos trancos até a pia da água benta. Eu me coloquei no caminho entre a pia e a porta, e sabia que não o deixaria passar se ele não me desse uma explicação. Contorci minha boca, conforme sempre faço quando me preparo para falar com determinação. Avancei a perna direita e me apoiei sobre ela, enquanto mantinha a esquerda descontraidamente apoiada sobre a ponta do pé; também isso me concede segurança.
É até possível que aquele homem já olhasse de esguelha para mim ao borrifar a água benta em seu rosto; talvez também já tivesse me percebido anteriormente com alguma preocupação, pois então, de modo inesperado, ele saiu correndo pela porta afora. A porta de vidro bateu, se fechando. E, quando saí, logo em seguida, não o vi mais, pois lá fora havia algumas ruelas estreitas e o trânsito estava bem movimentado.
Nos dias seguintes, o rapaz não apareceu, mas minha moça veio. Ela usava o vestido negro que tinha tiras transparentes sobre os ombros – a meia-lua da borda do corpete ficava debaixo delas –, das quais a extremidade inferior acabava em uma gola bem- cortada e bem-delineada. E, uma vez que a moça veio, esqueci o rapaz, e não me preocupei com ele nem mesmo quando voltou a aparecer com regularidade mais tarde e, conforme seu costume, rezava. Mas ele sempre passava por mim a toda pressa, de rosto voltado para o outro lado. Talvez isso se devesse ao fato de eu sempre imaginá-lo apenas em movimento, de modo que ele, mesmo quando estava parado sem se mexer, parecia a mim que se esgueirava.
Certa vez, acabei me atrasando em meu quarto. Mesmo assim, ainda fui à igreja. Não encontrei mais a moça por lá e quis voltar para casa. E então eis que vi de novo o rapaz deitado no lugar de sempre. O que acontecera outrora voltou a me ocorrer, e me deixou curioso.
Deslizei até o corredor de entrada sobre a ponta dos pés, dei uma moeda ao mendigo cego que por lá se sentava e me recostei ao lado dele, atrás da asa da porta aberta; e lá fiquei sentado por uma hora, talvez até mesmo fazendo cara de esperto. Me sentia bem naquele lugar, e decidi ir até ele com mais frequência. Na segunda hora, achei absurdo continuar sentado ali por causa do devoto. E ainda assim permiti, já furioso, que uma terceira hora se passasse, com as aranhas já andando sobre as minhas roupas, enquanto as últimas pessoas, respirando alto, saíam do escuro da igreja.
E foi então que também ele veio. Andava com cautela, e seus pés tateavam o chão de leve antes de pisar com firmeza.
Eu me levantei, dei um passo largo e direto e agarrei o rapaz.
– Boa noite – disse eu e o empurrei, minha mão segurando seu colarinho, pelas escadarias abaixo até a praça iluminada.
Quando chegamos ali embaixo ele disse, com uma voz completamente insegura:
– Boa noite, meu senhor, meu caro senhor, não fique irritado comigo, seu mais dedicado servidor.
– Sim – disse eu –, quero lhe perguntar algumas coisas, meu senhor; na última vez conseguiu fugir de mim, mas isso hoje será bem difícil.
– O senhor é compassivo, e me deixará ir para casa, meu senhor. Sou digno de pena, esta é que é a verdade.
– Não – gritei em meio ao barulho do bonde que passava. – Não vou deixar o senhor ir. São justamente histórias assim que me agradam. O senhor é um peixão e tanto. Dou os parabéns a mim mesmo.
Então ele disse:
– Oh, Deus, o senhor tem um coração vivaz e uma cabeça feita de pedra. Chama a mim de peixão, e como deve ser feliz por causa disso! Pois minha infelicidade é uma infelicidade oscilante, uma infelicidade que oscila sobre uma ponta das mais estreitas e, quando é tocada, cai sobre aquele que pergunta. Boa noite, meu senhor.
– Pois bem – disse eu, e segurei sua mão direita com firmeza –, se o senhor não me responder, começarei a chamar todo mundo aqui na rua. E todas as moças das lojas, que agora estão saindo, após o final do expediente, e inclusive seus amantes, que se alegram com elas, vão se juntar aqui, pois irão acreditar que um cavalo de tílburi caiu ou algo do tipo aconteceu. E então eu vou mostrar o senhor para todas as pessoas.
Nesse instante, ele beijou ambas as minhas mãos, uma após a outra.
– Eu vou dizer ao senhor o que o senhor quer saber, mas, por favor, é melhor irmos para a ruela ali do lado. – Eu assenti, e nós fomos até lá.
Mas ele não se contentou com a escuridão da ruela, na qual havia postes de luz amarelada apenas a grande distância uns dos outros, mas me conduziu até a entrada baixa de uma casa antiga, sob um lampiãozinho pendurado, a pingar, diante de uma escada de madeira.
Lá, ele tirou, com ares de importância, seu lenço do bolso, e disse, estendendo-o sobre um dos degraus:
– É melhor que o senhor se sente, aí poderá perguntar melhor, meu caro senhor. Eu ficarei em pé, assim conseguirei responder melhor. Mas, por favor, não me torture.
Então eu me sentei e disse, levantando os olhos aguçados para ele:
– O senhor é um louco que deu certo, isso é o que o senhor é! Como o senhor se comporta na igreja! Como isso é incômodo e desagradável para os que lá estão! Como alguém pode se mostrar devoto, se precisa ficar olhando para o senhor?
Ele havia pressionado seu corpo contra a parede, apenas a cabeça se movia com liberdade no ar:
– Não se incomode… Por que o senhor deveria se incomodar com coisas que não lhe dizem respeito? Eu me incomodo quando me comporto de modo desastroso; mas se é um outro que se comporta mal, eu apenas me alegro. Não se incomode, portanto, se eu digo que o objetivo da minha vida é ser olhado pelas pessoas.
– O que o senhor está dizendo aí – eu exclamei em voz demasiado alta para o corredor estreito, mas em seguida temi baixar a voz e continuei no mesmo tom. – De fato, o que o senhor está dizendo aí? Sim, já imagino muito bem, exatamente, já o imaginava muito bem desde que o vi pela primeira vez, em que estado o senhor está. Tenho experiência e não quero parecer doloroso quando digo que é como se fosse um enjoo marítimo em terra firme. A essência de sua doença está no fato de o senhor ter esquecido o nome verdadeiro das coisas e agora, em sua imensa pressa, apenas derrama sobre elas nomes casuais. Importa apenas ser rápido, ser rápido! Mas, mal o senhor fugiu dessas coisas, já esqueceu seus nomes de novo. O choupo nos campos, que o senhor chamou de “Torre de Babel”, pois o senhor não sabia ou não queria saber que era um choupo, se embala outra vez, sem nome, e o senhor precisa chamá-lo então de “Noé, quando estava bêbado”.
Fiquei um pouco consternado quando ele disse:
– Fico feliz com o fato de não ter entendido aquilo que o senhor diz. Irritado e sem perder tempo, eu disse:
– Ao se mostrar feliz com isso, o senhor apenas deixa claro que entendeu tudo.
– Na verdade, eu posso tê-lo mostrado, honorável senhor, mas também o senhor falou de modo estranho.
Deitei minhas mãos sobre um degrau mais acima, recostei-me um pouco e, nessa postura quase intocável, que é a última salvação dos lutadores no ringue, perguntei:
– O senhor tem um jeito divertido de se salvar, ao pressupor seu próprio estado no outro.
A isso ele se mostrou encorajado. Juntou as mãos para dar unidade a seu corpo e disse, demostrando uma leve resistência:
– Não, não faço isso contra todos, nem mesmo contra o senhor, por exemplo, porque não o consigo. Mas eu ficaria feliz se o conseguisse, pois nesse caso a atenção das pessoas na igreja não seria mais necessária para mim. O senhor sabe por que tenho necessidade dela?
Essa pergunta me deixou desamparado. É claro que eu não sabia, e acreditava, inclusive, que não queria saber. Eu também não quisera ir até ali, conforme dissera comigo mesmo já antes, mas o homem me obrigara a ouvi-lo. De modo que eu agora precisava apenas sacudir minha cabeça para lhe mostrar que não sabia, mas eu não conseguia botar minha cabeça em movimento.
O homem que se encontrava parado diante de mim sorria. Em seguida, ele se encolheu, caindo de joelhos, e contou, mostrando uma careta sonolenta:
– Jamais houve um tempo no qual eu estivesse convencido de minha vida apenas comigo mesmo. É que eu me ocupo das coisas somente em noções tão precárias que sempre acredito que as coisas em algum momento estiveram vivas, e agora apenas naufragaram. Sempre, meu caro senhor, sinto uma vontade de ver as coisas conforme gostaria de mostrá-las antes de elas se mostrarem para mim. Elas por certo se mostram belas e tranquilas assim. Tem de ser assim, pois com frequência ouço pessoas falarem delas desse modo.
– Uma vez que eu permanecia em silêncio, e apenas nas contrações involuntárias do meu rosto mostrava como me sentia desconfortável, ele disse:
– O senhor não acredita que as pessoas falam assim? Eu achava que deveria assentir, mas não consegui.
– Realmente, o senhor não acredita nisso. Mas ouça só. Quando, ainda criança, abri os olhos certo dia, depois de uma breve sesta, ouvi, ainda completamente tomado pelo sono, minha mãe perguntar da sacada em tom bem natural: “O que está fazendo, minha querida? Está tão quente.” Uma mulher respondeu do jardim: “Estou merendando em meio ao verde.” Elas o diziam sem pensar e de modo não muito nítido, como se todos tivessem de esperar por isso.
Achei que ele aguardava minha resposta, por isso botei a mão no bolso traseiro da minha calça e fiz de conta que procurava alguma coisa por lá. Mas eu não procurava nada, queria apenas mudar meu aspecto para demonstrar que participava da conversa. E nisso eu disse que aquele incidente era tão estranho e que eu de modo algum o compreendia. Ainda acrescentei que não acreditava na verdade dele, e que o incidente devia ter sido inventado com algum objetivo que eu agora não conseguia perceber qual era. Em seguida fechei os olhos, pois eles me doíam.
– Oh, mas é muito bom que o senhor seja da minha opinião, e foi desinteressadamente que o senhor me reteve para dizer isso a mim. Não é verdade, porque eu deveria me envergonhar – ou então, porque nós deveríamos nos envergonhar – com o fato de eu não andar empertigado e pesadamente, não bater a bengala sobre o piso e não tocar as roupas das pessoas que passam fazendo barulho. Por acaso eu não deveria, com muito mais razão, me queixar teimosamente que eu, na condição de sombra de ombros angulosos, salto ao longo das casas, por vezes desaparecendo atrás do vidro das vitrines? Que dias são esses que eu passo! Por que tudo é construído tão mal a ponto de prédios altos desabarem de quando em quando sem que para tanto se pudesse encontrar um motivo externo? Eu subo então pelos montes de entulho e pergunto a todos que encontro: “Como foi que isso pôde acontecer? Em nossa cidade – um prédio novo – hoje já é o quinto, imagine só.” E ninguém sabe o que me responder. Muitas vezes pessoas caem no meio da rua e ficam deitadas, mortas. Então todos os homens de negócios abrem suas portas cobertas de mercadorias, se aproximam, ágeis, arrastam o morto para dentro de casa, em seguida, voltam a sair, um sorriso nos lábios e nos olhos, e falam: “Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra.” Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. “Caro senhor”, digo amistosamente, “um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostrá-lo a mim?
Eu lhe imploro.” E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: “Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez.” “Um morto?”, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. “Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente.” Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: “Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vento volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo.”
Maltratado como eu estava, disse:
– Essa história que o senhor contou anteriormente, da senhora sua mãe e da senhora no jardim, eu nem sequer acho estranha. Não apenas porque já ouvi e vivenciei muitas histórias semelhantes, mas inclusive por ter participado de algumas delas. Isso, aliás, é uma coisa completamente natural. O senhor acha que, se eu estivesse na sacada, não poderia dizer a mesma coisa e poderia responder também a mesma coisa se estivesse no jardim? Uma coisa das mais simples.
Quando terminei de dizer isso, ele pareceu muito feliz. Disse que eu estava bem- vestido, e que minha gravata lhe agradava muito. Que pele delicada que eu teria, aliás… E confissões se tornavam tanto mais claras, segundo ele, quando eram negadas em seguida.
Certa vez, quando a moça não veio e eu olhava, incomodado, para os que rezavam, chamou minha atenção um rapaz magro que havia se jogado ao chão. De tempos em tempos, ele movia o crânio com toda a força de seu corpo e o lançava, suspirando, às palmas de suas mãos, que jaziam sobre as pedras.
Na igreja, havia apenas algumas mulheres idosas, que viravam com frequência suas cabecinhas enroladas em panos e inclinadas para o lado para olhar para aquele que rezava. Essa atenção parecia deixá-lo feliz, pois, antes de cada uma de suas explosões devotas, ele olhava em volta para ver se o número de espectadores era grande. Eu achei isso inconveniente, e decidi lhe dirigir a palavra assim que ele saísse da igreja e lhe perguntar por que ele rezava desse modo. Sim, eu estava incomodado porque minha moça não viera.
Mas ele se levantou apenas depois de uma hora, fez um sinal da cruz deveras cuidadoso e andou aos trancos até a pia da água benta. Eu me coloquei no caminho entre a pia e a porta, e sabia que não o deixaria passar se ele não me desse uma explicação. Contorci minha boca, conforme sempre faço quando me preparo para falar com determinação. Avancei a perna direita e me apoiei sobre ela, enquanto mantinha a esquerda descontraidamente apoiada sobre a ponta do pé; também isso me concede segurança.
É até possível que aquele homem já olhasse de esguelha para mim ao borrifar a água benta em seu rosto; talvez também já tivesse me percebido anteriormente com alguma preocupação, pois então, de modo inesperado, ele saiu correndo pela porta afora. A porta de vidro bateu, se fechando. E, quando saí, logo em seguida, não o vi mais, pois lá fora havia algumas ruelas estreitas e o trânsito estava bem movimentado.
Nos dias seguintes, o rapaz não apareceu, mas minha moça veio. Ela usava o vestido negro que tinha tiras transparentes sobre os ombros – a meia-lua da borda do corpete ficava debaixo delas –, das quais a extremidade inferior acabava em uma gola bem- cortada e bem-delineada. E, uma vez que a moça veio, esqueci o rapaz, e não me preocupei com ele nem mesmo quando voltou a aparecer com regularidade mais tarde e, conforme seu costume, rezava. Mas ele sempre passava por mim a toda pressa, de rosto voltado para o outro lado. Talvez isso se devesse ao fato de eu sempre imaginá-lo apenas em movimento, de modo que ele, mesmo quando estava parado sem se mexer, parecia a mim que se esgueirava.
Certa vez, acabei me atrasando em meu quarto. Mesmo assim, ainda fui à igreja. Não encontrei mais a moça por lá e quis voltar para casa. E então eis que vi de novo o rapaz deitado no lugar de sempre. O que acontecera outrora voltou a me ocorrer, e me deixou curioso.
Deslizei até o corredor de entrada sobre a ponta dos pés, dei uma moeda ao mendigo cego que por lá se sentava e me recostei ao lado dele, atrás da asa da porta aberta; e lá fiquei sentado por uma hora, talvez até mesmo fazendo cara de esperto. Me sentia bem naquele lugar, e decidi ir até ele com mais frequência. Na segunda hora, achei absurdo continuar sentado ali por causa do devoto. E ainda assim permiti, já furioso, que uma terceira hora se passasse, com as aranhas já andando sobre as minhas roupas, enquanto as últimas pessoas, respirando alto, saíam do escuro da igreja.
E foi então que também ele veio. Andava com cautela, e seus pés tateavam o chão de leve antes de pisar com firmeza.
Eu me levantei, dei um passo largo e direto e agarrei o rapaz.
– Boa noite – disse eu e o empurrei, minha mão segurando seu colarinho, pelas escadarias abaixo até a praça iluminada.
Quando chegamos ali embaixo ele disse, com uma voz completamente insegura:
– Boa noite, meu senhor, meu caro senhor, não fique irritado comigo, seu mais dedicado servidor.
– Sim – disse eu –, quero lhe perguntar algumas coisas, meu senhor; na última vez conseguiu fugir de mim, mas isso hoje será bem difícil.
– O senhor é compassivo, e me deixará ir para casa, meu senhor. Sou digno de pena, esta é que é a verdade.
– Não – gritei em meio ao barulho do bonde que passava. – Não vou deixar o senhor ir. São justamente histórias assim que me agradam. O senhor é um peixão e tanto. Dou os parabéns a mim mesmo.
Então ele disse:
– Oh, Deus, o senhor tem um coração vivaz e uma cabeça feita de pedra. Chama a mim de peixão, e como deve ser feliz por causa disso! Pois minha infelicidade é uma infelicidade oscilante, uma infelicidade que oscila sobre uma ponta das mais estreitas e, quando é tocada, cai sobre aquele que pergunta. Boa noite, meu senhor.
– Pois bem – disse eu, e segurei sua mão direita com firmeza –, se o senhor não me responder, começarei a chamar todo mundo aqui na rua. E todas as moças das lojas, que agora estão saindo, após o final do expediente, e inclusive seus amantes, que se alegram com elas, vão se juntar aqui, pois irão acreditar que um cavalo de tílburi caiu ou algo do tipo aconteceu. E então eu vou mostrar o senhor para todas as pessoas.
Nesse instante, ele beijou ambas as minhas mãos, uma após a outra.
– Eu vou dizer ao senhor o que o senhor quer saber, mas, por favor, é melhor irmos para a ruela ali do lado. – Eu assenti, e nós fomos até lá.
Mas ele não se contentou com a escuridão da ruela, na qual havia postes de luz amarelada apenas a grande distância uns dos outros, mas me conduziu até a entrada baixa de uma casa antiga, sob um lampiãozinho pendurado, a pingar, diante de uma escada de madeira.
Lá, ele tirou, com ares de importância, seu lenço do bolso, e disse, estendendo-o sobre um dos degraus:
– É melhor que o senhor se sente, aí poderá perguntar melhor, meu caro senhor. Eu ficarei em pé, assim conseguirei responder melhor. Mas, por favor, não me torture.
Então eu me sentei e disse, levantando os olhos aguçados para ele:
– O senhor é um louco que deu certo, isso é o que o senhor é! Como o senhor se comporta na igreja! Como isso é incômodo e desagradável para os que lá estão! Como alguém pode se mostrar devoto, se precisa ficar olhando para o senhor?
Ele havia pressionado seu corpo contra a parede, apenas a cabeça se movia com liberdade no ar:
– Não se incomode… Por que o senhor deveria se incomodar com coisas que não lhe dizem respeito? Eu me incomodo quando me comporto de modo desastroso; mas se é um outro que se comporta mal, eu apenas me alegro. Não se incomode, portanto, se eu digo que o objetivo da minha vida é ser olhado pelas pessoas.
– O que o senhor está dizendo aí – eu exclamei em voz demasiado alta para o corredor estreito, mas em seguida temi baixar a voz e continuei no mesmo tom. – De fato, o que o senhor está dizendo aí? Sim, já imagino muito bem, exatamente, já o imaginava muito bem desde que o vi pela primeira vez, em que estado o senhor está. Tenho experiência e não quero parecer doloroso quando digo que é como se fosse um enjoo marítimo em terra firme. A essência de sua doença está no fato de o senhor ter esquecido o nome verdadeiro das coisas e agora, em sua imensa pressa, apenas derrama sobre elas nomes casuais. Importa apenas ser rápido, ser rápido! Mas, mal o senhor fugiu dessas coisas, já esqueceu seus nomes de novo. O choupo nos campos, que o senhor chamou de “Torre de Babel”, pois o senhor não sabia ou não queria saber que era um choupo, se embala outra vez, sem nome, e o senhor precisa chamá-lo então de “Noé, quando estava bêbado”.
Fiquei um pouco consternado quando ele disse:
– Fico feliz com o fato de não ter entendido aquilo que o senhor diz. Irritado e sem perder tempo, eu disse:
– Ao se mostrar feliz com isso, o senhor apenas deixa claro que entendeu tudo.
– Na verdade, eu posso tê-lo mostrado, honorável senhor, mas também o senhor falou de modo estranho.
Deitei minhas mãos sobre um degrau mais acima, recostei-me um pouco e, nessa postura quase intocável, que é a última salvação dos lutadores no ringue, perguntei:
– O senhor tem um jeito divertido de se salvar, ao pressupor seu próprio estado no outro.
A isso ele se mostrou encorajado. Juntou as mãos para dar unidade a seu corpo e disse, demostrando uma leve resistência:
– Não, não faço isso contra todos, nem mesmo contra o senhor, por exemplo, porque não o consigo. Mas eu ficaria feliz se o conseguisse, pois nesse caso a atenção das pessoas na igreja não seria mais necessária para mim. O senhor sabe por que tenho necessidade dela?
Essa pergunta me deixou desamparado. É claro que eu não sabia, e acreditava, inclusive, que não queria saber. Eu também não quisera ir até ali, conforme dissera comigo mesmo já antes, mas o homem me obrigara a ouvi-lo. De modo que eu agora precisava apenas sacudir minha cabeça para lhe mostrar que não sabia, mas eu não conseguia botar minha cabeça em movimento.
O homem que se encontrava parado diante de mim sorria. Em seguida, ele se encolheu, caindo de joelhos, e contou, mostrando uma careta sonolenta:
– Jamais houve um tempo no qual eu estivesse convencido de minha vida apenas comigo mesmo. É que eu me ocupo das coisas somente em noções tão precárias que sempre acredito que as coisas em algum momento estiveram vivas, e agora apenas naufragaram. Sempre, meu caro senhor, sinto uma vontade de ver as coisas conforme gostaria de mostrá-las antes de elas se mostrarem para mim. Elas por certo se mostram belas e tranquilas assim. Tem de ser assim, pois com frequência ouço pessoas falarem delas desse modo.
– Uma vez que eu permanecia em silêncio, e apenas nas contrações involuntárias do meu rosto mostrava como me sentia desconfortável, ele disse:
– O senhor não acredita que as pessoas falam assim? Eu achava que deveria assentir, mas não consegui.
– Realmente, o senhor não acredita nisso. Mas ouça só. Quando, ainda criança, abri os olhos certo dia, depois de uma breve sesta, ouvi, ainda completamente tomado pelo sono, minha mãe perguntar da sacada em tom bem natural: “O que está fazendo, minha querida? Está tão quente.” Uma mulher respondeu do jardim: “Estou merendando em meio ao verde.” Elas o diziam sem pensar e de modo não muito nítido, como se todos tivessem de esperar por isso.
Achei que ele aguardava minha resposta, por isso botei a mão no bolso traseiro da minha calça e fiz de conta que procurava alguma coisa por lá. Mas eu não procurava nada, queria apenas mudar meu aspecto para demonstrar que participava da conversa. E nisso eu disse que aquele incidente era tão estranho e que eu de modo algum o compreendia. Ainda acrescentei que não acreditava na verdade dele, e que o incidente devia ter sido inventado com algum objetivo que eu agora não conseguia perceber qual era. Em seguida fechei os olhos, pois eles me doíam.
– Oh, mas é muito bom que o senhor seja da minha opinião, e foi desinteressadamente que o senhor me reteve para dizer isso a mim. Não é verdade, porque eu deveria me envergonhar – ou então, porque nós deveríamos nos envergonhar – com o fato de eu não andar empertigado e pesadamente, não bater a bengala sobre o piso e não tocar as roupas das pessoas que passam fazendo barulho. Por acaso eu não deveria, com muito mais razão, me queixar teimosamente que eu, na condição de sombra de ombros angulosos, salto ao longo das casas, por vezes desaparecendo atrás do vidro das vitrines? Que dias são esses que eu passo! Por que tudo é construído tão mal a ponto de prédios altos desabarem de quando em quando sem que para tanto se pudesse encontrar um motivo externo? Eu subo então pelos montes de entulho e pergunto a todos que encontro: “Como foi que isso pôde acontecer? Em nossa cidade – um prédio novo – hoje já é o quinto, imagine só.” E ninguém sabe o que me responder. Muitas vezes pessoas caem no meio da rua e ficam deitadas, mortas. Então todos os homens de negócios abrem suas portas cobertas de mercadorias, se aproximam, ágeis, arrastam o morto para dentro de casa, em seguida, voltam a sair, um sorriso nos lábios e nos olhos, e falam: “Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra.” Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. “Caro senhor”, digo amistosamente, “um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostrá-lo a mim?
Eu lhe imploro.” E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: “Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez.” “Um morto?”, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. “Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente.” Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: “Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vento volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo.”
Maltratado como eu estava, disse:
– Essa história que o senhor contou anteriormente, da senhora sua mãe e da senhora no jardim, eu nem sequer acho estranha. Não apenas porque já ouvi e vivenciei muitas histórias semelhantes, mas inclusive por ter participado de algumas delas. Isso, aliás, é uma coisa completamente natural. O senhor acha que, se eu estivesse na sacada, não poderia dizer a mesma coisa e poderia responder também a mesma coisa se estivesse no jardim? Uma coisa das mais simples.
Quando terminei de dizer isso, ele pareceu muito feliz. Disse que eu estava bem- vestido, e que minha gravata lhe agradava muito. Que pele delicada que eu teria, aliás… E confissões se tornavam tanto mais claras, segundo ele, quando eram negadas em seguida.
Franz Kafka
Prisão azul
Patas macias sobre folhas mortas. Ao atravessar num salto a janela aberta o tigre sabia muito bem que o lenhador tinha saído. O bebê de dois anos estava sentado no chão, brincando. Sozinho, sozinho. O tigre se aproximou cauteloso e quando a criança viu aquele cachorrão rajado abriu com espanto dois olhos azuis, dois lábios sorridentes, dois bracinhos. O tigre começou pelos braços. Depois devorou o resto da criança e tratou de voltar à floresta.
Suponha, agora, que esse tigre cresceu, deixou de comer criança e relembra um dia como havia devorado o filho do lenhador. Um sorriso estranho paira sobre sua cara, sorriso no qual seu orgulho tigrino só permite que se manifeste um tiquinho de remorso. O resto do sorriso é a pura lembrança da carne tenra da criança, é desprezo pelo lenhador estúpido que deixou a janela aberta — uma completa orgia de satisfação consigo mesmo.
Foi com um sorriso assim (e há sorrisos dificílimos de descrever) que o amigo do homem desaparecido se aproximou da janela do seu apartamento tendo na mão o livro que o desaparecido dedicara a ele: “Para você, meu grande amigo”. O amigo olhou lá fora o mar que ia além da praia de Copacabana e que flambava ao sol do meio-dia como uma poncheira acesa. Era quase um milagre a capacidade que tinha o Rio de dar às pessoas uma sensação de bem-estar, de saúde. O desaparecido também amava o Rio. Curioso como ele tinha desaparecido de forma tão absoluta. Evaporou-se. Soube-se depois da sua morte que ele passara os últimos dez anos de vida nas brenhas de Goiás. Ninguém sabia ao certo de que modo morrera. O manuscrito do livro tinha sido encontrado no meio das coisas dele, o manuscrito em cuja primeira página aparecia a dedicatória a ele, o amigo. O sorriso de tigre regenerado voltou à cara do homem que lembrava o amigo: “Para você, meu grande amigo”.
Antes de sumir, o desaparecido frequentemente ria de si mesmo. Diferenças de grau, só de grau. Diferenças de espécie são um absurdo. Mesmo quando muda, a espécie muda gradualmente, portanto é válido o princípio. Veja-se, como exemplo, a sensação que às vezes tomava conta dele em plena rua e que ele chamava de pedra de contato com a realidade: isso acontecia com todo o mundo. Só que com ele a frequência e a intensidade com que acontecia eram muito maiores. Parecia uma bolha a inchar, inchar e doer. Perguntara a uma porção de pessoas se acontecia com elas de repente, no meio da rua e em hora de movimento, começar subitamente a sentir a estupidez incompreensível de todo aquele ir e vir. Sim, acontecia. Mas ficavam todos surpreendidos e faziam cara de dúvida quando ele lhes perguntava se sentiam aquilo a ponto de parar no meio da multidão; de olhar um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo; de seguir alguém, para descobrir onde estava indo e para resolver o mistério de tanta pressa; de logo depois fazer o mesmo em relação a outra pessoa; de olhar angustiado aqueles arroios humanos que não corriam para nenhum mar comum e sim para lagoas isoladas, piscinas, poças d’água; de segurar com ambas as mãos a cabeça que doía e correr para o meio da rua sem pensar nos carros que passavam rápidos. Não, isso era um exagero e aliás dava para sentir, em todos aqueles que interrogava, que nem acreditavam que ele vivesse momentos assim. Eram pessoas que não acreditavam sequer em diferenças de grau.
— Deve ser sua imaginação, diziam com um sorriso, mas que é interessante não tem dúvida. Aliás, hoje em dia está até na moda uma certa morbidez, acrescentavam, sem saber que estavam usando uma arma muito antiga e possivelmente necessária.
A verdade pura e simples é que ele só fazia essas perguntas com a honesta intenção de obter uma resposta, de descobrir alguma coisa a respeito da pessoa com quem falava, ou, talvez mais ainda, sobre ele mesmo. Já lhe bastava, e muito, o quebra-cabeça representado por todos aqueles desconhecidos que ele tinha ímpetos de parar e interrogar sem mais nem menos no meio da rua.
Uma coisa, porém, o preocupava mais que qualquer outra na véspera do dia em que desapareceu. Aquela sensação que nas ruas apinhadas de gente acabava quase em angústia, pois envolvia estranhos, na sua própria vida íntima, privada, acabava em puro contentamento. Quando lhe aparecia um problema especial a resolver, ele o encarava corajosamente, sem evasões ou truques, pois sabia de antemão qual seria o resultado. Com método, pesando prós e contras, considerando todas as consequências, chegava à própria e nua raiz do problema… e então tudo se evolava, se desfazia no ar, e ele entrava num estado de puro e neutro prazer, um prazer branco, luminoso, para lá do pensamento. Como se fosse entrando com cautela mas com passo firme numa floresta densa na qual, chegado ele ao ponto mais escuro, todas as árvores ainda em volta tombassem ao mesmo tempo, no maior silêncio; e só permanecesse no mundo a luz ofuscante do sol. O que o preocupava na véspera do dia em que desapareceu é que ele tentava, mas ainda não haviam conseguido, concentrar todas as suas faculdades num problema sério.
Por que tão sério? Porque envolvia o amigo. Não por causa de minha mulher, continuou o homem que desapareceu, determinado agora a pensar seu problema até o fim. Para mim minha mulher é feito um sapato velho, cambaio. E meu amigo sabe muito bem disso, o que apenas torna a coisa toda mais incompreensível. Um tolo desejo de aventura? Nunca, jamais. Meu amigo sabe que eu não abandono minha mulher porque ninguém propriamente abandona um par de sapatos velhos. A gente simplesmente os esquece em algum canto. Ele me diria, se fosse o caso, que havia, que há alguma coisa entre os dois — e pronto.
— Usei aquele seu sapato velho outro dia, ele diria. Tudo bem. São inúmeros os caminhos abertos neste mundo mesmo para quem caminhe descalço. Que sentido haveria em criar um caso sobretudo quando eram tão velhos os sapatos? Não, ele está cansado de conhecer meus sentimentos e já teria me falado a respeito. Ou… Caso fosse verdade (o chato é que tanta gente dizia que era que ele se obrigava a pensar tanto sobre tal bagatela), só uma explicação era possível: meu amigo de fato se apaixonou por minha mulher e simplesmente não tem coragem de me dizer. E quem sabe por minha exclusiva culpa? Ela para mim tem tão escasso valor, e isso eu disse ao amigo tantas vezes, que lhe falta coragem para dizer que passou a amar uma pessoa tão depreciada. Sim, talvez fosse isso. E o homem prestes a desaparecer sorriu, meio envergonhado de pensar que estava, ainda que sem intenção, fazendo uso do amigo: seria de todo o cúmulo da amizade se o amigo pensasse em ficar definitiva e legalmente com minha mulher. Aqui se apagou no seu rosto o vago sorriso de até agora. Quem sabe, Deus meu? O amigo sabe como é grande meu amor por Maria Auxiliadora. Será que lhe ocorreu a idéia de se sacrificar por mim? Não, nem eu permitiria nem ele… Eu só quero Maria Auxiliadora como a tenho agora, mesmo porque a gente não se casa com uma mulher assim, a gente simplesmente aceita a luz e o calor, banho de sol no coração do inverno… Ela é quase a Luz! Aquela claridade. A floresta que se deita no chão. Era precisamente quando chegava ao ponto em que a floresta se tragava a si mesma que Johann Sebastian começava a passar a música para o papel, aquela música que se encerrava de repente de forma inesperada, mas que podia ter continuado para sempre, eterna, já que não tinha fim e ele apenas aparentava ou fingia ter chegado ao fim porque chegara isto sim ao fim do papel pautado e porque sabia que ninguém podia suportar sem enlouquecer o luzir permanente daquela Luz em música.
O homem que ia desaparecer perdeu-se nas profundezas do seu problema… Ao voltar a si passou o lenço na testa úmida. A inexistência de todos os problemas. O compromisso que tinha assumido que cuidasse de si mesmo. Ele ia, isto sim, ver Maria Auxiliadora. Tomou o ônibus e no caminho deixou-se invadir pelo salgado travo de onda e de alga que subia das praias de alva areia, a infinita, angustiada fieira de areia que é a única coisa a impedir que as montanhas azuis e o mar azul se dissolvam num único e irreparável azul. O ônibus beirou primeiro a praia de Santa Luzia, depois Flamengo, Botafogo, as vastas areias brancas de Copacabana, Ipanema, Leblon. Quando parou no fim da linha o homem que ia desaparecer saltou e foi andando para a pequena casa em que morava Maria Auxiliadora. Aproximou-se das tábuas brancas do portão, espantadas de vê-lo àquela hora do dia. E lá estava a fascinante casa branca, feito um brinquedo esquecido na grama. Entrou, atravessou o jardim e espiou pela janela da sala de estar. Não viu Maria Auxiliadora, que ainda estaria dormindo. Abriu a porta da frente e ia atravessar a sala, em direção ao quarto de dormir, quando ouviu vozes e riso que vinham de lá. Ia chamar Maria Auxiliadora em voz alta, alegre, mas se conteve e andou até a porta. Ouviu as únicas duas vozes que realmente conhecia bem. Pela única e última vez em sua vida curvou-se até o buraco da fechadura. As venezianas estavam cerradas. Só havia no quarto aquela luz baça e enjoativa na qual se escondem aqueles que preferem não encarar nem o amor. O homem que naquele momento já quase havia desaparecido ouviu a voz do amigo, seguida do riso de Maria Auxiliadora.
— Pois é. Quanto mais ele acha que há alguma coisa entre a mulher dele e eu, menos consegue adivinhar que…
O homem que desapareceu saiu da sala de estar pé ante pé, fechou sem ruído a porta, passou em silêncio pelo portão de tábuas brancas e se foi. Como um ladrão. E qualquer policial que o pegasse naquele momento teria a certeza, sem lhe fazer qualquer pergunta, que o ladrão tinha encontrado jóias, jóias do mais alto preço, que ninguém imaginaria pudessem estar guardadas numa casa tão pequena e simples.
Suponha, agora, que esse tigre cresceu, deixou de comer criança e relembra um dia como havia devorado o filho do lenhador. Um sorriso estranho paira sobre sua cara, sorriso no qual seu orgulho tigrino só permite que se manifeste um tiquinho de remorso. O resto do sorriso é a pura lembrança da carne tenra da criança, é desprezo pelo lenhador estúpido que deixou a janela aberta — uma completa orgia de satisfação consigo mesmo.
Foi com um sorriso assim (e há sorrisos dificílimos de descrever) que o amigo do homem desaparecido se aproximou da janela do seu apartamento tendo na mão o livro que o desaparecido dedicara a ele: “Para você, meu grande amigo”. O amigo olhou lá fora o mar que ia além da praia de Copacabana e que flambava ao sol do meio-dia como uma poncheira acesa. Era quase um milagre a capacidade que tinha o Rio de dar às pessoas uma sensação de bem-estar, de saúde. O desaparecido também amava o Rio. Curioso como ele tinha desaparecido de forma tão absoluta. Evaporou-se. Soube-se depois da sua morte que ele passara os últimos dez anos de vida nas brenhas de Goiás. Ninguém sabia ao certo de que modo morrera. O manuscrito do livro tinha sido encontrado no meio das coisas dele, o manuscrito em cuja primeira página aparecia a dedicatória a ele, o amigo. O sorriso de tigre regenerado voltou à cara do homem que lembrava o amigo: “Para você, meu grande amigo”.
Antes de sumir, o desaparecido frequentemente ria de si mesmo. Diferenças de grau, só de grau. Diferenças de espécie são um absurdo. Mesmo quando muda, a espécie muda gradualmente, portanto é válido o princípio. Veja-se, como exemplo, a sensação que às vezes tomava conta dele em plena rua e que ele chamava de pedra de contato com a realidade: isso acontecia com todo o mundo. Só que com ele a frequência e a intensidade com que acontecia eram muito maiores. Parecia uma bolha a inchar, inchar e doer. Perguntara a uma porção de pessoas se acontecia com elas de repente, no meio da rua e em hora de movimento, começar subitamente a sentir a estupidez incompreensível de todo aquele ir e vir. Sim, acontecia. Mas ficavam todos surpreendidos e faziam cara de dúvida quando ele lhes perguntava se sentiam aquilo a ponto de parar no meio da multidão; de olhar um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo; de seguir alguém, para descobrir onde estava indo e para resolver o mistério de tanta pressa; de logo depois fazer o mesmo em relação a outra pessoa; de olhar angustiado aqueles arroios humanos que não corriam para nenhum mar comum e sim para lagoas isoladas, piscinas, poças d’água; de segurar com ambas as mãos a cabeça que doía e correr para o meio da rua sem pensar nos carros que passavam rápidos. Não, isso era um exagero e aliás dava para sentir, em todos aqueles que interrogava, que nem acreditavam que ele vivesse momentos assim. Eram pessoas que não acreditavam sequer em diferenças de grau.
— Deve ser sua imaginação, diziam com um sorriso, mas que é interessante não tem dúvida. Aliás, hoje em dia está até na moda uma certa morbidez, acrescentavam, sem saber que estavam usando uma arma muito antiga e possivelmente necessária.
A verdade pura e simples é que ele só fazia essas perguntas com a honesta intenção de obter uma resposta, de descobrir alguma coisa a respeito da pessoa com quem falava, ou, talvez mais ainda, sobre ele mesmo. Já lhe bastava, e muito, o quebra-cabeça representado por todos aqueles desconhecidos que ele tinha ímpetos de parar e interrogar sem mais nem menos no meio da rua.
Uma coisa, porém, o preocupava mais que qualquer outra na véspera do dia em que desapareceu. Aquela sensação que nas ruas apinhadas de gente acabava quase em angústia, pois envolvia estranhos, na sua própria vida íntima, privada, acabava em puro contentamento. Quando lhe aparecia um problema especial a resolver, ele o encarava corajosamente, sem evasões ou truques, pois sabia de antemão qual seria o resultado. Com método, pesando prós e contras, considerando todas as consequências, chegava à própria e nua raiz do problema… e então tudo se evolava, se desfazia no ar, e ele entrava num estado de puro e neutro prazer, um prazer branco, luminoso, para lá do pensamento. Como se fosse entrando com cautela mas com passo firme numa floresta densa na qual, chegado ele ao ponto mais escuro, todas as árvores ainda em volta tombassem ao mesmo tempo, no maior silêncio; e só permanecesse no mundo a luz ofuscante do sol. O que o preocupava na véspera do dia em que desapareceu é que ele tentava, mas ainda não haviam conseguido, concentrar todas as suas faculdades num problema sério.
Por que tão sério? Porque envolvia o amigo. Não por causa de minha mulher, continuou o homem que desapareceu, determinado agora a pensar seu problema até o fim. Para mim minha mulher é feito um sapato velho, cambaio. E meu amigo sabe muito bem disso, o que apenas torna a coisa toda mais incompreensível. Um tolo desejo de aventura? Nunca, jamais. Meu amigo sabe que eu não abandono minha mulher porque ninguém propriamente abandona um par de sapatos velhos. A gente simplesmente os esquece em algum canto. Ele me diria, se fosse o caso, que havia, que há alguma coisa entre os dois — e pronto.
— Usei aquele seu sapato velho outro dia, ele diria. Tudo bem. São inúmeros os caminhos abertos neste mundo mesmo para quem caminhe descalço. Que sentido haveria em criar um caso sobretudo quando eram tão velhos os sapatos? Não, ele está cansado de conhecer meus sentimentos e já teria me falado a respeito. Ou… Caso fosse verdade (o chato é que tanta gente dizia que era que ele se obrigava a pensar tanto sobre tal bagatela), só uma explicação era possível: meu amigo de fato se apaixonou por minha mulher e simplesmente não tem coragem de me dizer. E quem sabe por minha exclusiva culpa? Ela para mim tem tão escasso valor, e isso eu disse ao amigo tantas vezes, que lhe falta coragem para dizer que passou a amar uma pessoa tão depreciada. Sim, talvez fosse isso. E o homem prestes a desaparecer sorriu, meio envergonhado de pensar que estava, ainda que sem intenção, fazendo uso do amigo: seria de todo o cúmulo da amizade se o amigo pensasse em ficar definitiva e legalmente com minha mulher. Aqui se apagou no seu rosto o vago sorriso de até agora. Quem sabe, Deus meu? O amigo sabe como é grande meu amor por Maria Auxiliadora. Será que lhe ocorreu a idéia de se sacrificar por mim? Não, nem eu permitiria nem ele… Eu só quero Maria Auxiliadora como a tenho agora, mesmo porque a gente não se casa com uma mulher assim, a gente simplesmente aceita a luz e o calor, banho de sol no coração do inverno… Ela é quase a Luz! Aquela claridade. A floresta que se deita no chão. Era precisamente quando chegava ao ponto em que a floresta se tragava a si mesma que Johann Sebastian começava a passar a música para o papel, aquela música que se encerrava de repente de forma inesperada, mas que podia ter continuado para sempre, eterna, já que não tinha fim e ele apenas aparentava ou fingia ter chegado ao fim porque chegara isto sim ao fim do papel pautado e porque sabia que ninguém podia suportar sem enlouquecer o luzir permanente daquela Luz em música.
O homem que ia desaparecer perdeu-se nas profundezas do seu problema… Ao voltar a si passou o lenço na testa úmida. A inexistência de todos os problemas. O compromisso que tinha assumido que cuidasse de si mesmo. Ele ia, isto sim, ver Maria Auxiliadora. Tomou o ônibus e no caminho deixou-se invadir pelo salgado travo de onda e de alga que subia das praias de alva areia, a infinita, angustiada fieira de areia que é a única coisa a impedir que as montanhas azuis e o mar azul se dissolvam num único e irreparável azul. O ônibus beirou primeiro a praia de Santa Luzia, depois Flamengo, Botafogo, as vastas areias brancas de Copacabana, Ipanema, Leblon. Quando parou no fim da linha o homem que ia desaparecer saltou e foi andando para a pequena casa em que morava Maria Auxiliadora. Aproximou-se das tábuas brancas do portão, espantadas de vê-lo àquela hora do dia. E lá estava a fascinante casa branca, feito um brinquedo esquecido na grama. Entrou, atravessou o jardim e espiou pela janela da sala de estar. Não viu Maria Auxiliadora, que ainda estaria dormindo. Abriu a porta da frente e ia atravessar a sala, em direção ao quarto de dormir, quando ouviu vozes e riso que vinham de lá. Ia chamar Maria Auxiliadora em voz alta, alegre, mas se conteve e andou até a porta. Ouviu as únicas duas vozes que realmente conhecia bem. Pela única e última vez em sua vida curvou-se até o buraco da fechadura. As venezianas estavam cerradas. Só havia no quarto aquela luz baça e enjoativa na qual se escondem aqueles que preferem não encarar nem o amor. O homem que naquele momento já quase havia desaparecido ouviu a voz do amigo, seguida do riso de Maria Auxiliadora.
— Pois é. Quanto mais ele acha que há alguma coisa entre a mulher dele e eu, menos consegue adivinhar que…
O homem que desapareceu saiu da sala de estar pé ante pé, fechou sem ruído a porta, passou em silêncio pelo portão de tábuas brancas e se foi. Como um ladrão. E qualquer policial que o pegasse naquele momento teria a certeza, sem lhe fazer qualquer pergunta, que o ladrão tinha encontrado jóias, jóias do mais alto preço, que ninguém imaginaria pudessem estar guardadas numa casa tão pequena e simples.
Antonio Callado
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