segunda-feira, abril 13

Apoio de livro

 


Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade, "Sentimento do Mundo"

A descoberta do 'bosque'

Começar a ler foi para mim como entrar num bosque pela primeira vez e dar de repente com todas as árvores, todas as flores, todos os pássaros. Quando fazes isso, o que te deslumbra é o conjunto. Não dizes: gosto mais desta árvore que das outras. Não, cada livro que eu entrava, eu considerava algo único.

José Saramago

Lá no bote

Passava um pouco das quatro horas de uma tarde de calor inesperado. Umas quinze ou vinte vezes desde a hora do almoço, Sandra, a empregada, voltou com a boca tensa da janela da cozinha que dava para o lago. Dessa vez, ao voltar, ela desatou e reatou distraída a fita do seu avental, ocupando a pequena folga que sua cintura imensa concedia. Então retornou para a mesa esmaltada e depositou seu corpo recém-uniformizado na cadeira que estava diante da sra. Snell. A sra. Snell, que havia terminado de limpar a casa e passar a roupa, estava tomando sua tradicional xícara de chá antes de descer a rua até o ponto de ônibus. A sra. Snell estava de chapéu. Era o mesmo chapelinho interessante, de feltro preto, que ela vinha usando não apenas durante todo o verão, mas nos três últimos verões — atravessando ondas de calor inéditas, uma mudança de vida, dúzias de diferentes tábuas de passar, pilotando dezenas de aspiradores. A etiqueta da Hattie Carnegie ainda estava ali dentro, desbotada mas (podia-se dizer) orgulhosa.

“Eu não vou ficar preocupada”, Sandra anunciou, pela quinta ou sexta vez, dirigindo-se à sra. Snell mas também a si própria. “Eu decidi que não vou ficar preocupada. Pra quê?”

“Isso mesmo”, disse a sra. Snell. “Eu é que não ia me preocupar. Não mesmo. Você me passa a minha bolsa, meu anjo?”

Uma bolsinha de couro, extremamente gasta, mas que carregava uma etiqueta tão importante quanto a que ficava por dentro do chapéu da sra. Snell, estava na despensa. Sandra conseguiu pegar a bolsa sem levantar da cadeira. Ela a passou pela mesa para a sra. Snell, que a abriu e tirou dali um maço de cigarros mentolados e uma caixinha de fósforos do Stork Club.


A sra. Snell acendeu um cigarro e depois levou a xícara de chá até a boca, mas imediatamente a recolocou no pires. “Se isso aqui não der jeito de esfriar de uma vez, eu vou é perder o ônibus.” Deu uma espiada em Sandra, que estava olhando fixo, de maneira torturada, na direção geral das caçarolas de cobre enfileiradas contra a parede. “Pare de se preoFupar com isso”, a sra. Snell ordenou. “De que é que adianta você ficar toda preocupada. Ou ele conta ou não conta pra ela. E pronto. De que é que adianta ficar preocupada?”

“Eu não estou preocupada”, Sandra reagiu. “A última coisa que eu vou fazer é ficar preocupada. Mas é de te deixar maluca, o jeito desse menino ficar andando na pontinha dos pés pela casa. Não dá pra ouvir o moleque, sabe. Assim, ninguém ouve o menino, sabe. Dia desses ainda eu estava debulhando feijão — bem nessa mesa aqui — e quase que eu piso na mão dele. Ele estava sentado bem debaixo da mesa.”

“Bom. Mas eu é que não ia ficar me preocupando.”

“Assim, tem que pensar em tudo antes de falar, com ele por perto”, Sandra disse. “É de te deixar doida.”

“E ainda não dá pra eu tomar esse negócio”, a sra. Snell disse. “… Isso é um horror. Quando você tem que pensar em tudo antes de falar e tal.”

“É de te deixar doida! Sério. Eu vivo quase maluca.” Sandra espanou migalhas imaginárias do colo, e riu pelo nariz. “Um menino de quatro aninhos!”

“É um moleque bonito”, disse a sra. Snell. “Com aquele olhão preto e tudo.”

Sandra riu de novo pelo nariz. “Ele vai ter o nariz do pai, escritinho.” Ela ergueu a xícara e tomou um gole sem dificuldade alguma. “Eu é que não sei por que eles querem ficar por aqui o mês de outubro inteiro”, ela disse insatisfeita, baixando a xícara. “Assim, nenhum deles nem chega perto da água agora. Ela não entra, ele não entra, o menino não entra. Ninguém entra, agora. Eles nem pegam mais aquele barco doido deles. Não sei por que eles foram pagar aquela grana no barquinho.”

“Não sei como é que você consegue tomar o seu. Eu nem consigo tomar o meu.”

Sandra encarou rancorosamente a parede do outro lado. “Eu vou ficar tão feliz de voltar pra cidade. Sem brincadeira. Eu odeio esse lugar maluco.” Ela lançou um olhar hostil para a sra. Snell. “Tudo bem pra senhora, que a senhora mora aqui o ano todo. A senhora tem uma vida social aqui e tal. Aí tanto faz.”

“Eu vou tomar isso aqui nem que eu morra”, a sra. Snell disse, olhando para o relógio acima do fogão elétrico.

“O que é que a senhora fazia se fosse eu?”, Sandra perguntou abruptamente. “Assim, o que é que a senhora fazia? Fala a verdade.”

Era o tipo de pergunta que caía na sra. Snell como se fosse um casaco de vison. Ela imediatamente largou a xícara. “Bom, em primeiro lugar”, ela disse, “eu não ia ficar preocupada. O que eu ia sim fazer era que eu ia procurar outra —”

“Eu não estou preocupada”, Sandra interrompeu.

“Eu sei, mas o que eu ia fazer era simplesmente conseguir —”

A porta de vaivém da sala de estar se abriu e Boo Boo Tannenbaum, a dona da casa, entrou na cozinha. Era uma moça de vinte e cinco anos de idade, pequena, quase sem quadril, com um cabelo quebradiço, sem corte e sem cor, preso atrás das orelhas, que eram muito grandes. Estava usando uma bermuda jeans, um pulôver preto de gola rulê e mocassins com meias. Descontado aquele nome ridículo, descontada sua ausência de atrativos, ela era — em termos de rostos comuns, permanentemente memoráveis e exageradamente perceptivos — uma moça deslumbrante e definitiva. Foi direto até a geladeira e a abriu. Enquanto olhava ali dentro, de pernas abertas e mãos nos joelhos, ela assoviava, de modo nada melódico, entre dentes, marcando o compasso com um leve movimento pendular e desinibido do traseiro. Sandra e a sra. Snell ficaram caladas. A sra. Snell apagou seu cigarro, sem pressa.

“Sandra…”

“Sim, senhora?” Sandra olhou atenta por sobre o chapéu da sra. Snell. “Não tem mais picles? Eu queria levar um pra ele.”

“Ele comeu”, Sandra relatou de modo inteligente. “Comeu antes de ir dormir ontem de noite. Só tinha mais dois.”

“Ah. Bom, vou comprar mais quando eu for até a estação. Eu pensei que talvez desse pra arrancar ele daquele barco.” Boo Boo fechou a porta da geladeira e foi até a janela do lado para dar uma olhada. “A gente precisa de mais alguma coisa?”, ela perguntou, na janela.

“Só pão.”

“Eu deixei o seu cheque na mesa da entrada, sra. Snell. Obrigada.”

“Tá”, disse a sra. Snell. “Acho que o Lionel já vai fugir.” Ela deu uma risadinha.

“Olha que parece mesmo”, Boo Boo disse, e meteu as mãos nos bolsos de trás da bermuda.

“Pelo menos ele não vai muito longe quando foge”, a sra. Snell disse, dando outra risadinha.

À janela, Boo Boo mudou levemente de posição, para não ficar totalmente de costas para as duas mulheres à mesa. “Não”, ela disse, e prendeu alguns fios atrás da orelha. Acrescentou, de maneira puramente informativa: “Ele mete o pé na estrada direto desde os dois anos de idade. Mas nunca muito longe. Acho que o mais longe que ele chegou — na cidade, pelo menos — foi o mall que atravessa o Central Park. Só a umas quadras de casa. O menos longe — ou mais perto — que ele chegou foi a porta da frente do nosso prédio. Ele ficou por ali pra dar tchau pro pai”.

As duas mulheres à mesa riram.

“O mall é onde eles vão patinar lá em Nova York”, Sandra disse muito sociável para a sra. Snell. “As crianças e tal.”

“Ah!”, disse a sra. Snell.

“Ele tinha só três aninhos. Foi agora, ano passado”, Boo Boo disse, tirando um maço de cigarros e uma caixinha de fósforos de um bolso lateral da bermuda. Ela acendeu um cigarro, enquanto as duas mulheres a observavam intrepidamente. “O maior fuzuê. A gente botou a polícia toda atrás dele.”

“E acharam ele?”, disse a sra. Snell.

“Claro que acharam ele!”, disse Sandra com desprezo. “A senhora pensa o quê?”

“Acharam ele às onze e quinze da noite, no meio de — Jesus amado, fevereiro, acho que era. Nenhuma criança no parque. Só ladrõezinhos, acho, e um punhado de degenerados sem-teto. Ele estava sentado no coreto, jogando uma bolinha de gude pra frente e pra trás numa fresta do piso. Quase morrendo de frio e com cara de —”

“Credo em cruz!”, disse a sra. Snell. “Como que ele me fez uma coisa dessas? Assim, ele estava fugindo era de quê?”

Boo Boo soprou um único e defeituoso anel de fumaça contra um vidro da janela. “Uma criança qualquer no parque, de tarde, veio falar com ele com a delirante informação equivocada de que ‘Você é um bostinha’. Pelo menos é por isso que a gente acha que ele fugiu. Eu não sei, sra. Snell. A coisa é meio complicada demais pra mim.”

“Tem quanto tempo que ele apronta dessas?”, perguntou a sra. Snell. “Assim, tem quanto tempo que ele apronta dessas?”

“Bom, com dois anos e meio de idade”, Boo Boo disse biograficamente, “ele se escondeu embaixo de uma pia no porão do nosso prédio. Lá na lavanderia. A Naomi não sei das quantas — uma amiguinha dele — disse que ele estava com uma minhoca na garrafinha térmica. Pelo menos foi o que a gente conseguiu arrancar dele.” Boo Boo suspirou e se afastou da janela equilibrando uma longa cinza no cigarro. Seguiu na direção da porta de tela. “Vou dar mais uma tentada”, ela disse, como um adeus para as duas mulheres.

Elas riram.

“Mildred”, Sandra, ainda rindo, dirigiu-se à sra. Snell, “você vai perder o ônibus se não se sacudir.”

Boo Boo fechou a porta de tela ao sair.

Ela parou no leve declive do gramado da casa, com o sol baixo do fim da tarde pelas costas. Cerca de duzentos metros à frente, seu filho Lionel estava sentado no banco de popa do bote do pai. Amarrado e privado da vela grande e da bujarrona, o bote flutuava num perfeito ângulo reto em relação à ponta do píer. Cerca de quinze metros mais longe, um esqui aquático perdido ou abandonado boiava de cabeça para baixo, mas não havia barcos de recreação no lago; só se via a popa da lancha do condado que seguia para Leech’s Landing. Boo Boo achou estranhamente difícil manter Lionel em foco. O sol, ainda que não estivesse especialmente quente, estava mesmo assim brilhante a ponto de fazer qualquer imagem um pouco mais afastada — menino ou bote — parecer quase tão trêmula e refratada quanto um bastão mergulhado na água. Depois de alguns minutos, Boo Boo desistiu de tentar. Ela desmanchou seu cigarro à maneira militar e foi na direção do píer.

Era outubro, e as tábuas do píer não tinham mais a capacidade de agredir seu rosto com o calor que refletiam. Ela caminhava assoviando “Kentucky Babe” entre dentes. Quando chegou à ponta do píer, ela se agachou, com os joelhos estralando, na borda direita, e olhou de cima para Lionel. Ele estava a menos de um remo de distância dela. Ele não ergueu os olhos.

“Ó de bordo”, Boo Boo disse. “Amigo. Pirata. Bandido. Voltei.”

Ainda sem erguer os olhos, Lionel abruptamente pareceu sentir que precisava demonstrar sua competência de navegador. Ele virou a inútil cana do leme toda para a direita, e então a trouxe imediatamente de volta com um puxão. Manteve os olhos exclusivamente no convés do barco.

“Eis-me aqui”, Boo Boo disse. “Vice-almirante Tannenbaum. Em solteira, Glass. Para a inspeção dos estermáforos.”

Não houve resposta.

“Você não é almirante. Você é mulher ”, Lionel disse. As frases dele normalmente tinham ao menos um lapso de controle de respiração, de modo que muitas vezes as palavras que ele enfatizava, em vez de subir, afundavam. Boo Boo não somente ouvia sua voz, parecia observá-la.

“Quem foi que te disse isso? Quem foi que te disse que eu não era almirante?”

Lionel respondeu, mas inaudível. “Quem? ”, disse Boo Boo.

“O papai.”

Ainda agachada, Boo Boo pôs a mão esquerda por entre o V das pernas, tocando as tábuas do píer para manter o equilíbrio. “O seu pai é um sujeito bacana”, ela disse, “mas ele é provavelmente o maior pé-seco que eu conheço. É absolutamente verdade que quando em terra eu sou uma mulher — isso é verdade. Mas a minha verdadeira vocação sempre foi, é e será o ilimitado —”

“Você não é almirante”, Lionel disse. “Você pode repetir?”

“Você não é almirante. Você é mulher o tempo todo.”

Houve um breve silêncio. Lionel preencheu esse tempo alterando de novo a rota de sua embarcação — ele usava duas mãos para operar a cana do leme. Estava vestindo um calção cáqui e uma camiseta branca limpa com uma estampa, no peito, que exibia Jerônimo Avestruz tocando violino. Ele estava bem bronzeado, e seu cabelo, que era quase exatamente como o da mãe em termos de cor e textura, estava um pouco descolorido no topo da cabeça pela ação do sol.

“Muita gente acha que eu não sou almirante”, Boo Boo disse, olhando para ele. “Só porque eu não fico contando vantagem.” Mantendo o equilíbrio, ela tirou um cigarro e os fósforos do bolso lateral da bermuda. “Eu quase nunca me vejo tentada a discutir a minha patente naval com as pessoas. Especialmente menininhos que nem me olham quando eu falo com eles. Iam me expulsar da porcaria da marinha.” Sem acender o cigarro, ela de repente se pôs de pé, ficou exageradamente ereta, fez um oval com polegar e indicador da mão direita, levou o oval até a boca e — como num kazoo — soltou algo que parecia um toque de clarim. Lionel imediatamente ergueu os olhos. É quase certo que ele soubesse que o toque era inventado, mas mesmo assim pareceu muito excitado; ficou boquiaberto. Boo Boo tocou o clarim — uma singular fusão dos toques de Silêncio e Alvorada três vezes, sem pausas. Então, cerimoniosamente, ela prestou continência para a outra margem do lago. Quando finalmente voltou à sua posição agachada na borda do píer, pareceu fazê-lo com o máximo de arrependimento, como se tivesse ficado profundamente tocada por uma das virtudes da tradição naval que são vedadas ao público e a meninos pequenos. Ela ficou um momento encarando o mesquinho horizonte do lago, então pareceu lembrar que não estava totalmente só. Olhou — veneravelmente — para Lionel lá embaixo, que ainda estava de boca aberta. “Foi um toque secreto de clarim, que só os almirantes podem ouvir.” Ela acendeu o cigarro e soprou o fósforo com um jato de fumaça teatralmente fino e longo. “Se alguém ficasse sabendo que eu deixei você ouvir esse toque —” Ela sacudiu a cabeça. Novamente cravou no horizonte o sextante de seus olhos.

“Toca de novo.” “Impossível.” “Por quê?”

Boo Boo deu de ombros. “Pra começo de conversa, tem muito oficial de patente baixa por aqui.” Ela mudou de posição, sentando-se de pernas cruzadas, como uma índia. Ergueu as meias. “Mas eu vou fazer o seguinte”, ela disse, objetivamente. “Se você me contar por que você está fugindo, eu te mostro todos os toques secretos de clarim que eu conheço. Tudo bem?”

Lionel imediatamente baixou de novo os olhos para o convés. “Não”, ele disse.

“Por que não?” “Porque sim.” “Mas por quê?”

“Porque eu não quero”, disse Lionel, e deu um tranco na cana do leme para acrescentar ênfase.

Boo Boo protegeu do sol o lado direito do rosto. “Você me falou que tinha parado com isso de fugir”, ela disse. “A gente conversou e você me falou que tinha parado. Você jurou pra mim.”

Lionel deu uma resposta, mas ela não se fez ouvir. “O quê?”, disse Boo Boo.

“Eu não jurei.”

“Ah, jurou sim. Jurou mesmo.”

Lionel voltou a cuidar do leme de seu barco. “Se você é almirante”, ele disse, “cadê a sua esquadra?”

“A minha esquadra. Fico feliz que você tenha perguntado”, Boo Boo disse, e começou a descer para o bote.

“Sai!”, Lionel ordenou, mas sem cair num gritinho, e mantendo os olhos baixos. “Ninguém pode entrar.”

“Ah, não?” O pé de Boo Boo já estava tocando a proa do barco. Ela obedientemente o trouxe de volta ao nível do píer. “Ninguém mesmo?” Ela voltou à sua posição de índia. “Por que não?”

A resposta de Lionel foi completa, mas, de novo, não teve volume suficiente.

“O quê?”, disse Boo Boo. “Porque ninguém tem direito.”

Boo Boo, de olhos firmemente fixos no menino, ficou um minuto inteiro sem falar.

“Mas que pena”, ela disse, finalmente. “Eu ia adorar entrar no seu barco. Eu fico tão sozinha sem você. Com tanta saudade. Eu fiquei o dia todo sozinha em casa sem ninguém pra conversar comigo.”

Lionel não moveu a cana do leme. Examinava a textura da madeira da manopla. “Você pode conversar com a Sandra”, ele disse.

“A Sandra está ocupada”, Boo Boo disse. “E além do mais eu não quero conversar com a Sandra, eu quero conversar com você. Eu quero descer pro seu barco e conversar com você.”

“Você pode conversar daí mesmo.” “O quê?”

“Você pode conversar daí mesmo.”

“Não posso não. É muito longe. Eu tenho que ficar pertinho.” Lionel moveu o leme. “Ninguém pode entrar”, ele disse.

“O quê?”

“Ninguém pode entrar.”

“Bom, você pode me dizer daí mesmo por que você está fugindo?”, Boo Boo perguntou. “Depois de me jurar que tinha parado com isso?”

Uma máscara de mergulho estava no convés do bote, perto do banco da popa. Como resposta, Lionel prendeu a tira da máscara entre o dedão e o segundo dedo do pé direito e, com um hábil e breve movimento da perna, jogou a máscara por sobre a amurada. Ela imediatamente afundou.

“Que bacana. Que construtivo”, disse Boo Boo. “É do seu tio Webb. Ah, ele vai ficar tão contente.” Ela tragou o cigarro. “Era do seu tio Seymour.”

“Não estou nem aí.”

“Eu sei. Estou vendo que você não está nem aí mesmo”, Boo Boo disse. Seu cigarro estava curiosamente angulado entre os dedos; queimava perigosamente perto da dobra de uma das juntas. Subitamente sentindo o calor, ela deixou o cigarro cair na superfície do lago. Então tirou alguma coisa de um dos bolsos laterais. Era um pacote, mais ou menos do tamanho de um baralho, embrulhado em papel branco e amarrado com uma fita verde. “Isso é um chaveiro”, ela disse, sentindo que os olhos do menino se erguiam para ela. “Igualzinho o do papai. Mas com bem mais chaves que o dele. Este aqui tem dez chaves.”

Lionel se inclinou para a frente no seu banco, largando a cana do leme. Ele estendeu as mãos esperando um arremesso. “Joga?”, ele disse. “Por favor?”

“Vamos ficar onde estamos um minutinho, querido. Eu tenho que pensar um pouco. Eu devia era jogar esse chaveiro no lago.”

Lionel olhou para ela boquiaberto. Ele fechou a boca. “É meu”, ele disse com uma decrescente nota de justiça.

Boo Boo, olhando para ele, deu de ombros. “Eu não estou nem aí.”

Lionel lentamente sentou de novo, olhando para a mãe, e estendeu a mão para a cana do leme atrás de si. Seus olhos refletiam pura percepção, como sua mãe sabia que o fariam.

“Toma.” Boo Boo jogou o pacote para ele. Caiu-lhe bem no colo.

Ele olhou para o colo, pegou o pacote, olhou para o que tinha na mão e jogou — sem nem descolar o braço do corpo — no lago. Ele então ergueu imediatamente os olhos para Boo Boo, cheios não de desafio, mas de lágrimas. Em mais um instante, sua boca estava distorcida num 8 horizontal, e ele chorava vigorosamente.

Boo Boo se pôs de pé, cuidadosamente, como alguém cujo pé adormeceu no teatro, e desceu para o bote. Em segundos já estava no banco da popa, com o piloto no colo, e o embalava, beijando-lhe a nuca e lhe dando certas informações: “Marujo não Fhora, meu bem. Marujo nunFa chora. Só quando o navio afunda. Ou quando ele vira náufrago, de jangada e tudo, sem nada pra beber a não ser —”.

“A Sandra — disse pra sra. Smell — que o papai é um judeu — sovina.”

Boo Boo não conseguiu deixar de acusar o golpe, mas ergueu o menino e o colocou de pé à sua frente, tirando-lhe o cabelo da testa. “Ela falou isso, então?”, ela disse.

Lionel moveu enfaticamente a cabeça para cima e para baixo. Ele chegou mais perto, ainda chorando, para ficar entre as pernas da mãe.

“Bom, isso não é tão terrível assim”, Boo Boo disse, segurando o menino entre os tornos de seus braços e pernas. “Não é a pior coisa que podia acontecer.” Ela delicadamente mordeu a borda da orelha do menino. “Você sabe o que é um judeu sovina, meu bem?”

Lionel estava ou sem vontade ou sem capacidade de falar na hora. De qualquer maneira, ele esperou até que os soluços que vieram depois das lágrimas diminuíssem um pouco. Então sua resposta foi dada, abafada mas inteligível, no pescoço morno de Boo Boo. “É um daqueles Faras”, ele disse. “Aqueles caras que sovam o pão.”

Para poder olhar direito para ele, Boo Boo afastou um pouco o filho de si. Então pôs uma mão intrometida dentro dos fundilhos das calças dele, assustando consideravelmente o menino, mas quase imediatamente trouxe a mão de volta e decorosamente enfiou a camisa dele para dentro. “Olha o que a gente vai fazer”, ela disse. “A gente vai de carro até a cidade pra comprar picles e pão, e a gente vai comer os picles no carro, e aí a gente vai até a estação pra pegar o papai, e aí a gente traz o papai pra casa e faz ele levar a gente pra passear de barco. Você vai ter que ajudar a trazer as velas pra cá. Tudo bem?”

“Tudo bem”, disse Lionel.

Eles não voltaram andando para casa; apostaram corrida. Lionel ganhou.
J.D. Salinger

Um homem de consciência

Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.

Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor.

Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração o deperecimento visível de sua Itaoca.

– Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons – agora só um e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está acabando…

João Teodoro entrou a incubar a idéia de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.

– É isso, deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.

Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz de nada…

Ser delegado numa cidadezinha daquelas é coisa seríssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado – e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca!…

João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada, botou-as num burro, montou no seu cavalo magro e partiu.

– Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?

– Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.

– Mas, como? Agora que você está delegado?

– Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado, eu não moro. Adeus.

E sumiu.
Monteiro Lobato

O menino

Sentou-se num tamborete, fincou os cotovelos nos joelhos, apoiou o queixo nas mãos e ficou olhando para a mãe. Agora ela escovava os cabelos muito louros e curtos, puxando-os para trás. E os anéis se estendiam molemente para em seguida voltarem à posição anterior, formando uma coroa de caracóis sobre a testa. Deixou a escova, apanhou um frasco de perfume, molhou as pontas dos dedos, passou-os nos lóbulos das orelhas, no vértice do decote e em seguida umedeceu um lencinho de rendas. Através do espelho, olhou para o menino. Ele sorriu também, era linda, linda, linda! Em todo o bairro não havia uma moça linda assim.

– Quantos anos você tem, mamãe?

– Ah, que pergunta! Acho que trinta ou trinta e um, por aí, meu amor, por aí. Quer se perfumar também?

– Homem não bota perfume.

– Homem, homem! – Ela inclinou-se para beijá-lo.

– Você é um nenenzinho, ouviu bem? É o meu nenenzinho.

O menino afundou a cabeça no colo perfumado. Quando não havia ninguém olhando, achava maravilhoso ser afagado como uma criancinha. Mas era preciso mesmo que não houvesse ninguém por perto.

Agora vamos que a sessão começa às oito – avisou ela, retocando apressadamente os lábios.

O menino deu um grito, montou no corrimão da escada e foi esperá-la embaixo. Da porta, ouviu-a dizer à empregada que avisasse ao doutor que tinham ido ao cinema.

Na rua, ele andava pisando forte, o queixo erguido, os olhos acesos. Tão bom sair de mãos dadas com a mãe. Melhor ainda quando o pai não ia junto porque assim ficava sendo o cavalheiro dela. Quando crescesse haveria de se casar com uma moça igual. Anita não servia que Anita era sardenta. Nem Maria Inês com aqueles dentes saltados. Tinha que ser igualzinha à mãe.

– Você acha a Maria Inês bonita, mamãe?

– É bonitinha, sim.

– Ah! tem dentão de elefante.

E o menino chutou um pedregulho. Não, tinha que ser assim como a mãe, igualzinha à mãe. E com aquele perfume.

– Como é o nome do seu perfume?

– Vent Vert. Por que, filho? Você acha bom?

– Que é que quer dizer isso?

– Vento Verde.

Vento verde, vento verde. Era bonito, mas existia vento verde?

Vento não tinha cor, só cheiro. Riu.

– Posso te contar uma anedota, mãe? Posso?

– Se for anedota limpa, pode.

– Não é limpa não.

– Então não quero saber.

– Mas por quê, pô!?

– Eu já disse que não quero que você diga pô.

Ele chutou uma caixa de fósforos. Pisou-a em seguida.

– Olha, mãe, a casa do Júlio…

Júlio conversava com alguns colegas no portão. O menino fez questão de cumprimentá-los em voz alta para que todos se voltassem eficassem assim mudos, olhando. Vejam, esta é minha mãe! – teve vontade de gritar-lhes. Nenhum de vocês tem uma mãe linda assim! E lembrou deliciado que a mãe de Júlio era grandalhona e sem graça, sempre de chinelo e consertando meia. Júlio devia estar agora roxo de inveja.

– Ele é bom aluno? Esse Júlio.

– Que nem eu.

– Então não é.

O menino deu uma risadinha.

– Que fita a gente vai ver?

– Não sei, meu bem.

– Você não viu no jornal? Se for fita de amor, não quero! Você não viu no jornal, hein, mamãe?

Ela não respondeu. Andava agora tão rapidamente que às vezes o menino precisava andar aos pulos para acompanhá-la. Quando chegaram à porta do cinema, ele arfava. Mas tinha no rosto uma vermelhidão feliz.

A sala de espera estava vazia. Ela comprou os ingressos e em seguida, como se tivesse perdido toda a pressa, ficou tranqüilamente encostada auma coluna, lendo o programa. O menino deu-lhe um puxão na saia.

– Mãe, mas o que é que você está fazendo?! A sessão já começou, já entrou todo mundo, pô!

Ela inclinou-se para ele. Falou num tom muito suave, mas os lábios se apertavam comprimindo as palavras e os olhos tinham aquela expressão que o menino conhecia muito bem, nunca se exaltava, nunca elevava a voz. Mas ele sabia que quando ela falava assim, nem súplicas nem lágrimas conseguiam fazê-la voltar atrás.

– Sei que já começou mas não vamos entrar agora, ouviu? Não vamos entrar agora, espera.

O menino enfiou as mãos nos bolsos e enterrou o queixo no peito. Lançou à mãe um olhar sombrio. Por que é que não entravam logo? Tinham corrido feito dois loucos e agora aquela calma, espera. Esperar o que, pô?!…

– É que a gente já está atrasado, mãe.

– Vá ali no balcão comprar chocolate – ordenou ela entregando-lhe uma nota nervosamente amarfanhada.

Ele atravessou a sala num andar arrastado, chutando as pontas de cigarro pela frente. Ora, chocolate. Quem é que quer chocolate? E se o enredo fosse de crime, quem é que ia entender chegando assim começado? Sem nenhum entusiasmo, pediu um tablete de chocolate. Vacilou um instante e pediu em seguida um tubo de drágeas de limão e um pacote de caramelos de leite, pronto, também gastava à beça. Recebeu o troco de cara fechada. Ouviu então os passos apressados da mãe que lhe estendeu a mão com impaciência:

– Vamos, meu bem, vamos entrar.

Num salto, o menino pôs-se ao lado dela. Apertou-lhe a mão freneticamente.

– Depressa que a fita já começou, não está ouvindo a música? Na escuridão, ficaram um instante parados, envolvidos por um grupo de pessoas, algumas entrando, outras saindo. Foi quando ela resolveu.

– Venha vindo atrás de mim.

Os olhos do menino devassavam a penumbra. Apontou para duas poltronas vazias.

– Lá, mãezinha, lá tem duas, vamos lá!

Ela olhava para um lado, para outro e não se decidia.

– Mãe, aqui tem mais duas, está vendo? Aqui não está bom? insistiu ele, puxando-a pelo braço. E olhava aflito para a tela e olhava de novo para as poltronas vazias que apareciam aqui e ali como coágulos de sombra. – Lá tem mais duas, está vendo?Ela adiantou-se até as primeiras filas e voltou em seguida até o meio do corredor. Vacilou ainda um momento. E decidiu-se. Impeliu-o suave, mas resolutamente.

– Entre aí.

– Licença? Licença?… – ele foi pedindo. Sentou-se na primeira poltrona desocupada que encontrou, ao lado de uma outra

desocupada também.

– Aqui, não é, mãe?

– Não, meu bem, ali adiante – murmurou ela, fazendo-o levantar-se. Indicou os três lugares vagos quase no fim da fileira. Lá é melhor.

Ele resmungou, pediu licença, licença, e deixou-se cair pesadamente no primeiro dos três lugares. Ela sentou-se em seguida.

– Ih, é fita de amor, pô!

– Quieto, sim?

O menino pôs-se na beirada da poltrona. Esticou o pescoço, olhou para a direita, para a esquerda, remexeu-se.

– Essa bruta cabeçona aí na frente!

– Quieto, já disse.

– Mas é que não estou enxergando direito, mãe! Troca comigo que não estou enxergando!

Ela apertou-lhe o braço. Esse gesto ele conhecia bem e significava apenas: não insista!

– Mas, mãe…

Inclinando-se até ele, ela falou-lhe baixinho, naquele tom perigoso, meio entre os dentes e que era usado quando estava no auge, um tom tão macio que quem a ouvisse julgaria que ela lhe fazia um elogio. Mas só ele sabia o que havia debaixo daquela maciez.

– Não quero que mude de lugar, está me escutando? Não quero. E não insista mais.

Contendo-se para não dar um forte pontapé na poltrona da frente, ele enrolou o pulôver como uma bola e sentou-se em cima. Gemeu. Mas por que aquilo tudo? Por que a mãe lhe falava daquele jeito, por quê? Não fizera nada de mal, só queria mudar de lugar, só isso… Não, desta vez ela não estava sendo nem um pouquinho camarada. Voltou-se então para lembrar- lhe que estava chegando muita gente, se não mudasse de lugar imediatamente, depois não poderia mais porque aquele era o último lugar vago que restava; Olha aí, mamãe, acho que aquele homemvem pra cá! Veio. Veio e sentou-se na poltrona vazia ao lado dela.

O menino gemeu, Ai! meu Deus… Pronto. Agora é que não restava mesmo nenhuma esperança. E aqueles dois enjoados lá na fita numa conversa comprida que não acabava mais, ela vestida de enfermeira, ele de soldado, mas por que o tipo não ia pra guerra, pô!… E a cabeçona da mulher na sua frente indo e vindo para a esquerda, para a direita, os cabelos armados a flutuarem na tela como teias monstruosas de uma aranha. Um punhado de fios formava um frouxo topete que chegava até o queixo da artista. O menino deu uma gargalhada.

– Mãe, daqui eu vejo a mocinha de cavanhaque.

– Não faça assim, filho, a fita é triste… Olha, presta atenção, agora ele vai ter que fugir com outro nome… O padre vai arrumar o passaporte.

– Mas por que ele não vai pra guerra duma vez?

– Porque ele é contra a guerra, filho, ele não quer matar ninguém – sussurrou-lhe a mãe num tom meigo. Devia estar sorrindo e ele sorriu também,

ah! que bom, a mãe não estava mais nervosa, não estava mais nervosa. As coisas começavam a melhorar e para maior alegria, a mulher da poltrona da frente levantou-se e saiu. Diante dos seus olhos apareceu o retângulo inteiro da tela.

– Agora sim! – disse baixinho, desembrulhando o tablete de chocolate. Meteu-o inteiro na boca e tirou os caramelos do bolso para oferecê-los à mãe. Então viu: a mão pequena e branca, muito branca, deslizou pelo braço da poltrona e pousou devagarinho nos joelhos do homem que acabara de chegar.

O menino continuou olhando, imóvel. Pasmado. Por que a mãe fazia aquilo?! Por que a mãe fazia aquilo?!… Ficou olhando sem nenhum pensamento, sem nenhum gesto.

Foi então que as mãos grandes e morenas do homem tomaram avidamente a mão pequena e branca. Apertaram-na com tanta força que pareciam querer esmagá-la.

O menino estremeceu. Sentiu o coração bater descompassado, bater como só batera naquele dia na fazenda quando teve de correr como louco, perseguido de perto por um touro. O susto ressecou-lhe a boca. O chocolate foi-se transformando numa massa viscosa e amarga. Engoliu-o com esforço, como se fosse uma bola de papel. Redondos e estáticos, os olhos cravaram-se na tela. Moviam-se as imagens sem sentido num sonho fragmentado. Os letreiros dançavam e se fundiam pesadamente, como chumbo derretido. Mas o menino continuava imóvel, olhando obstinadamente.

Um bar esfumaçado, brigas, a fuga do moço de capa perseguido pela sereia da polícia, mais brigas numa esquina, tiros. A mão pequena e branca a deslizar no escuro como um bicho. Torturas e gritos nos corredores paralelos da prisão, os homens agarrando as portas de grade, mais conspirações. Mais homens. A mão pequena e branca. A fuga, os faróis na noite, os gritos, mais tiros, tiros. O carro derrapando sem freios. Tiros.

Espantosamente nítido em meio do fervilhar de sons e falas – e ele não queria, não queria ouvir! – o ciciar delicado dos dois num diálogo entre os dentes.

Antes de terminar a sessão – mas isso não acaba mais, não acaba? -, ele sentiu, mais do que sentiu, adivinhou a mão pequena e branca desprender-se das mãos morenas. E do mesmo modo manso como avançara, recuar deslizando pela poltrona e voltar a se unir à mão que ficara descansando no regaço. Ali ficaram entrelaçadas e quietas como estiveram antes..

– Está gostando, meu bem? – perguntou ela inclinando-se para o menino.

Ele fez que sim com a cabeça, os olhos duramente fixos na cena final. Abriu a boca quando o moço também abriu a sua para beijar a enfermeira.

Apertou os olhos enquanto durou o beijo. Então o homem levantou-se embuçado na mesma escuridão em que chegara o menino retesou-se, os maxilares contraídos, trêmulo. Fechou os punhos. Eu pulo no pescoço dele, eu esgano ele!

O olhar desvairado estava agora nas espáduas largas interceptando a tela como um muro negro. Por um brevíssimo instante ficaram paradas em sua frente. Próximas, tão próximas. Sentiu a perna musculosa do homem roçar no seu joelho, esgueirando-se rápida. Aquele contato foi como ponta de um alfinete num balão de ar. O menino foi-se descontraindo. Encolheu-se murcho no fundo da poltrona e pendeu a cabeça para o peito.

Quando as luzes se acenderam, teve um olhar para a poltrona vazia. Olhou para a mãe. Ela sorria com aquela mesma expressão que tivera diante do espelho, enquanto se perfumava. Estava corada, brilhante.

– Vamos, filhote?

Estremeceu quando a mão dela pousou no seu ombro. Sentiu­ lhe o perfume. E voltou depressa a cabeça para o outro lado, a cara pálida, a boca apertada como se fosse cuspir. Engoliu penosamente. De assalto, a mão dela agarrou a sua. Sentiu-a quente, macia. Endureceu as pontas dos dedos, retesado, queria cravar as unhas naquela carne.

– Ah, não quer mais andar de mãos dadas comigo?

Ele inclinara-se, demorando mais do que o necessário para dobrar a barra da calça rancheira.

– É que não sou mais criança.

– Ah, o nenenzinho cresceu? Cresceu? – Ela riu baixinho. Beijou-lhe o rosto. – Não anda mais de mão dada?

O menino esfregou as pontas dos dedos na umidade dos beijos no queixo, na orelha. Limpou as marcas com a mesma expressão com que limpava as mãos nos fundilhos da calça quando cortava as minhocas para o anzol.

Na caminhada de volta, ela falou sem parar, comentando excitada o enredo do filme. Explicando. Ele respondia por monossílabos.

– Mas que é que você tem, filho? Ficou mudo…

– Está me doendo o dente.

– Outra vez? Quer dizer que fugiu do dentista? Você tinha hora ontem, não tinha?

– Ele botou uma massa. Está doendo – murmurou inclinando-se para apanhar uma folha seca. Triturou-a no fundo do bolso. E respirou abrindoa boca.

– Como dói, pô.

– Assim que chegarmos você toma uma aspirina. Mas não diga, por favor, essa palavrinha que detesto.

– Não digo mais.

Diante da casa de Júlio, instintivamente ele retardou o passo. Teve um olhar para a janela acesa. Vislumbrou uma sombra disforme passar através da cortina.

– Dona Margarida.

– Hum?

– A mãe do Júlio.

Quando entraram na sala, o pai estava sentado na cadeira de balanço, lendo o jornal. Como todas as noites, como todas as noites. O menino estacou na porta. A certeza de que alguma coisa terrível ia acontecer paralisou-o atônito, obumbrado. O olhar em pânico procurou as mãos do pai.

– Então, meu amor, lendo o seu jornalzinho? – perguntou ela, beijando o homem na face. – Mas a luz não está muito fraca?

– A lâmpada maior queimou, liguei essa por enquanto – disse ele, tomando a mão da mulher. Beijou-a demoradamente. Tudo bem?

– Tudo bem.

O menino mordeu o lábio até sentir gosto de sangue na boca.

Como nas outras noites, igual. Igual.

– Então, filho? Gostou da fita? – perguntou o pai dobrando o jornal. Estendeu a mão ao menino e com a outra começou a acariciar o braço nu da mulher. – Pela sua cara, desconfio que não.

– Gostei, sim.

– Ah, confessa, filhote, você detestou, não foi? – contestou ela. – Nem eu entendi direito, uma complicação dos diabos, espionagem, guerra, máfia… Você não podia ter entendido.

– Entendi. Entendi tudo – ele quis gritar e a voz saiu num sopro tão débil que só ele ouviu.

– E ainda com dor de dente! – acrescentou ela desprendendo-se do homem e subindo a escada. Ah, já ia esquecendo a aspirina.

O menino voltou para a escada os olhos cheios de lágrimas.

– Que é isso? – estranhou o pai. – Parece até que você viu assombração. Que foi?

O menino encarou-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados. O rosto feio e bom.

– Pai… – murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: – Pai…

– Mas meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!

– Nada. Nada.

Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço.
Lygia Fagundes Telles

domingo, abril 12

Dia de jogo

 


O comerciante

É possível que algumas pessoas tenham compaixão cie mim, mas eu não percebo nada. Minha pequena loja me enche de preocupações que me doem dentro da fronte e das têmporas, mas sem me oferecer a perspectiva da satisfação, pois a loja é pequena.

Com antecipação de horas preciso tomar providências, manter alerta a memória do empregado, advertir contra erros que eu temo e levar em conta, numa temporada, as modas da seguinte, não como elas irão dominar entre as pessoas do meu círculo, mas entre as populações inacessíveis do campo.

Meu dinheiro está nas mãos de pessoas estranhas; a situação delas não pode ser clara para mim; o infortúnio que poderia atingi-las eu não sou capaz de pressentir, como é que poderia evitá-lo? Talvez elas tenham se tornado pródigas e deem uma festa no jardim -de um restaurante e outras ainda permaneçam um pouco na festa, na sua rota de fuga para a América.


Quando pois ao anoitecer de um dia útil a loja é fechada e de repente vejo diante de mim horas nas quais não poderei trabalhar cm nome das necessidades ininterruptas da minha loja, minha excitação — despachada de manhã, previamente, para bem longe — irrompe em mim como a maré que retorna, mas não se detém e me arrasta consigo sem objetivo.

No entanto não tenho de modo algum a capacidade de usar esse humor e só posso ir para casa, pois tenho o rosto e as mãos sujos e suados, a roupa coberta de nódoas e pó, o boné de serviço na cabeça e as botas arranhadas pelos pregos dos caixotes. Caminho então como sobre ondas, estalo os dedos das duas mãos e acaricio o cabelo das crianças que vêm em minha direção.

Mas o caminho é curto demais. Logo estou cm minha casa, abro a porta do elevador e entro.

Vejo agora que de repente estou só. Outros, que têm de subir pelas escadas, cansam-se um pouco ao fazê-lo, precisam esperar com os pulmões respirando às pressas, até que venham abrir a porta do apartamento, nesse momento eles têm um motivo para irritação e impaciência, entram então na antessala, onde penduram o chapéu e só quando atravessam o corredor, ao longo de algumas portas de vidro, e penetram no próprio quarto, é que estão sozinhos.

Mas estou só logo no elevador e apoiado nos joelhos olho para o estreito espelho. Quando o elevador começa a subir eu digo:

— Fiquem quietos, recuem, querem entrar na sombra das árvores, atrás dos cortinados das janelas, dentro do caramanchão?

Falo com os dentes e os corrimões da escada escorregam pelas placas de vidro leitoso Como água que se precipita.

Partam voando daqui; que as asas que eu nunca enxerguei os transportem para o vale da aldeia ou a Paris, se o impulso é para lá. Mas desfrutem a vista da janela quando das três ruas chegam as procissões que não se desviam umas das outras, se embaralham e deixam o espaço livre outra vez entre as últimas filas. Acenem com os lenços, fiquem horrorizados, comovidos e elogiem a bela senhora que passa. Atravessem o riacho pela ponte de madeira, acenem com a cabeça aos meninos que se banham e espantem-se com o hurra! dos mil marinheiros no navio de guerra distante. Persigam o homem insignificante e quando o tiverem atirado num vão de entrada, assaltem-no e vejam, cada qual com as mãos nos bolsos, como ele segue triste pela rua da esquerda. Galopando dispersa nos seus cavalos, a polícia refreia os animais e os força a recuar. Deixem-na, as ruas vazias a farão infeliz, eu sei. O que foi que eu disse?

— Já estão cavalgando aos pares, lentos nas esquinas e a toda nas praças.

Aí tenho de descer do elevador e mandá-lo de volta para baixo, tocar a campainha e a empregada abre a porta enquanto eu cumprimento.

Franz Kafka, "Contemplação"

O livro

Que coisa é o livro? Que contém na sua
frágil arquitetura aparente?
São palavras, apenas, ou é a nua
exposição de uma alma confidente?
De que lenho brotou? Que nobre instinto
da prensa fez surgir esta obra de arte
que vive junto a nós, sente o que sinto
e vai clareando o mundo em toda parte?

Carlos Drummond de Andrade

Os gatos


Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.

Mas espera, já estou me precipitando, eu pensava naquela fábula da infância: é que Deus Nosso Senhor pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos e mesuras foi levá-lo ao Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que fez o gato? O fingido escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo nojento na mão divina.

Acreditei na fábula, na infância a gente só acredita. Mais tarde, conhecendo melhor o gato, descobri que ele jamais teria esse comportamento, questão de feitio. De caráter. Ele ouviria a ordem e continuaria deitado na almofada, olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. E mergulharia no sono sem sonhos, gato sonha menos do que cachorro que até dormindo se parece com o homem. Outro ponto discutível: dando gargalhadas? Mas gato não dá gargalhada, só cachorro. Meus cachorros riam demais abanando o rabo, que é o jeito natural que eles têm de manifestar alegria, chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse é o sorriso do gato – ô bicho sutil! indecifrável. Inatingível.

Nem pior nem melhor do que o cachorro, mas diferente. Fingido? Não, ele nem se dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave – aquele recôncavo onde o vinho envelhece.


Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas o cachorro se expõe, inocente.

Foi na minha juventude que conheci o gato bem de perto. Me preparava para os vestibulares da Academia do Largo de São Francisco, era noite. E eu lia Iracema sem vontade, lia em voz alta, aos brados, para espantar o sono. Então ouvi um ruído brusco de coisa algodoada entrando pela janela e parando atrás da minha cadeira. Senti o olhar da coisa se fixando em mim. Fui me voltando devagar, afetando aquela calma que estava longe de sentir: um gato malhado, espetado nas quatro patas, me encarava, perplexo. Eu também perplexa. Fomos nos recuperando do susto, eu menos tensa do que ele. Meu apartamento era no primeiro andar de um prédio cercado de casario e essa janela da sala dava para o telhado de uma casa velhíssima, por onde transitavam os gatos do bairro.

Por onde andam hoje os gatos que não encontro mais nenhum. Naquele tempo havia gato à beça nos muros, nos telhados. “É que a vida apertou e gato dá um bom cozido”, explicou o jornaleiro. A fome aumentou e o telhado diminuiu, onde agora os telhados nos quais eles ficavam tomando sol? Caçando passarinho.
Amando. Os ratos todos em plena circulação, fortalecidos. E os gatos, onde estão os gatos? Pois aquele era um gato de telhado, as manchas amarelas e pretas num fundo branco. E os olhos. Por alguma razão obscura, escolheu minha casa: estendi a mão afeita a acariciar cabeça de cachorro. Mas cabeça de gato não é cabeça de cachorro – primeira lição que ele deu ao recuar com uma soberba que me confundiu. A conquista do gato é difícil, embrulhada, não tem isso de amor repentino: mais um movimento de aproximação e ele fugiria ventando.

Fui buscar o pires de leite, deixei-o ao alcance do visitante da noite e continuei a ler o romance da virgem dos lábios de mel, mas em voz baixa, intuí que ele preferia o silêncio. Ele ou ela? Sexo de gato não é nítido como sexo de cachorro, outra diferença importante. Leva algum tempo para a descoberta do sexo, da unha e da idade.

Gato ou gata, vai se chamar Iracema, resolvi. E deixei meu hóspede, a casa é sua.
Então ouvi o ruído delicado, ele bebia leite, mas não como os cachorros bebem, sofregamente, espirrando em redor. O gato é discreto. Há que amá-lo discretamente, pensei e fiquei sorrindo. Tenho um gato.

“Tudo passa sobre a terra!” – estava escrito no final do romance que achei triste. Olhei para a outra Iracema que dormia no meio do tapete. Também você vai passar? Tu quoque, Iracema?! Não sabia ainda que permaneceria infinita na minha finitude.”

Lygia Fagundes Telles, "A Disciplina do Amor"

Lenda de Sana Benene

Deus não criou as pessoas. Apenas as descobriu. Encontrou-as na água. Todos os seres viviam submersos como peixes. Deus fechou os olhos para ver dentro da água. Nesse momento vislumbrou criaturas que eram tão antigas como Ele. E decidiu tomar posse de todos os cursos de água. Foi assim que embrulhou os rios nas suas veias e guardou as lagoas no seu peito. Quando chegou à savana, o Criador libertou-se do que carregava. Tombaram no chão os homens e as mulheres. Revolteando-se na areia, abriram e fecharam a boca, como se procurassem falar e não tivessem ainda sido inventadas as suas primeiras palavras. Fora da água não sabiam respirar. Sufocados, perderam a consciência. E sonharam. Foi no sonho que aprenderam a respirar. Quando pela primeira vez encheram os pulmões, desataram a chorar. Como se parte deles estivesse morta. E estava: era a sua parte peixe. Choravam com pena das criaturas de rio que tinham deixado de ser. E agora, quando cantam e quando dançam, não fazem senão celebrar essa saudade. O canto e a dança devolvem-nos ao rio.
Mia Couto, "Sombras da Água"

sábado, abril 11

Tanque da Paz

 


A rua dos cataventos

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
Mario Quintana

Pelada de subúrbio

Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos.

A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória.


Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro.

Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara.

A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola.

No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.

Armando Nogueira, "O melhor da crônica brasileira"

O homem que queria eliminar a memória

Entrou no hospital, mandou chamar o melhor neurocirurgião. Disse que era caso de vida e morte. Não se sabe como, o melhor neurocirurgião foi atendê-lo. Médicos são imprevisíveis. Precisa-se muito e eles falham; subitamente, estão ali, salvando nossas vidas, ele pensou, sem se incomodar com o lugar-comum.

Estava na sala diante do doutor. Uma sala branca, anônima. Por que são sempre assim, derrotando a gente logo de entrada?

O médico:

– Sim?

– Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro.

– Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar um pedaço do seu cérebro?

– Porque eu quero.

– Sim, mas precisa me explicar. Justificar.

– Não basta eu querer?

– Claro que não.

– Não sou dono do meu corpo?

– Em termos.

– Como em termos?

– Bem, o senhor é e não é. Há certas coisas que o senhor está impedido de fazer. Ou melhor; eu é que estou impedido de fazer no senhor.

– Quem impede?

– A ética, a lei.

– A sua ética manda também no meu corpo? Se pago, se quero, é porque quero fazer do meu corpo aquilo que desejo. E se acabou.

– Olha, a gente vai ficar o dia inteiro nesta discussão boba. E não tenho tempo a perder. Por que o senhor quer cortar um pedaço do cérebro?

– Quero eliminar a minha memória.

– Para quê?

– Gozado, as pessoas só sabem perguntar: o quê? por quê? para quê? Falei com dezenas de pessoas e todos me perguntaram: por quê? Não podem aceitar pura e simplesmente alguém que deseja eliminar a memória.

– Já que o senhor veio a mim para fazer esta operação, tenho ao menos o direito dessa informação.

– Não quero mais lembrar de nada. Só isso. As coisas passaram, passaram. Fim!

– Não é tão simples assim. Na vida diária, o senhor precisa da memória. Para lembrar pequenas coisas. Ou grandes. Compromissos, encontros, coisas a pagar.

– É tudo isso que vou eliminar. Marco numa agenda, olho ali e pronto.

– Não dá para fazer isso, de qualquer modo. A medicina não está tão adiantada assim.

– Em lugar nenhum posso eliminar a minha memória?

– Que eu saiba não.

– Seria muito melhor para os homens. O dia a dia. O dia de hoje para a frente. Entende o que eu quero dizer? Nenhuma lembrança ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado fechado, encerrado. Definitivamente bloqueado. Não seria engraçado? Não se lembrar sequer do que se tomou no café da manhã? E para que quero me lembrar do que tomei no café da manhã?

– Se todo mundo fizesse isso, acabaria a história.

– E quem quer saber de história?

– Imaginou o mundo?

– Feliz, tranquilo. Só de futuro. O dia em vez de se transformar em passado de hoje, mudando-se em futuro. Cada instante projetado para a frente.

– Não seria bem assim. Teríamos apenas uma soma de instantes perdidos. Nada mais. Cada segundo eliminado. A sua existência comprovada através de quê?

– Quem quer comprovar a existência?

– A gente precisa.

– Para quê?

O médico pensou. Não conseguiu responder. O homem tinha-o deixado totalmente confuso. Pediu ao homem que voltasse outro dia. Despediram-se. O médico subiu para os brancos corredores do hospital, passou pela sala de operações. Chamou um amigo.

– Estou pensando em tirar um pedaço do meu cérebro. Eliminar a memória. O que você acha?

– Muito boa ideia. Por que não pensamos nisto antes? Opero você e depois você me opera. Também quero.
Ignácio de Loyola Brandão

Manual de sobrevivência

Vejo o primeiro cadáver de um assassinado aos oito anos, ao voltar para casa, vindo da escola pelo exato percurso que estava combinado com os meus pais: Rua Montuoro, Rua Scobar, Rua Leonardo da Vinci, Rua Galileu Galilei, Rua Mozart, Rua Liszt, três andares de escadas, casa.

Ao longo da Rua Montuoro vou pensando no que se passou na escola, finalmente estudámos um povo fantástico, os Fenícios, grandes navegadores. Sigo pela Rua Scobar e vejo três pessoas, imóveis como árvores, a olhar para o mesmo sítio. Há um corpo caído no chão, no passeio, mesmo debaixo da varanda da casa do meu colega Giuseppe Malato, que precisamente hoje faltou à escola. Uma poça de sangue nasce da cabeça do homem que está estendido.

E este é o primeiro assassinado que vejo, por isso encaminho-me na sua direção, mas apercebo-me de que o morto ainda deve estar fresco, na verdade a polícia ainda nem chegou, e, como se por telepatia, um pensamento idêntico brota em uníssono nas cabeças de todos os presentes, de repente todos nos afastamos dali, cada um retomando o seu próprio trajeto, indo à sua vida, sem correr, nunca se deve sair a correr do lugar onde onde alguém foi morto, se a polícia nos parar vão perguntar-nos porque íamos a correr, para onde íamos, o que estávamos a fazer ali. É melhor nunca ter nada a ver com a polícia.
Davide Enia, "Autorretrato: Instruções para Sobreviver à Máfia"

Como nasce uma história

Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.

— Sétimo — pedi.

Eu estava sendo aguardado no auditório, onde faria uma palestra. Eram as secretárias daquela companhia que celebravam o Dia da Secretária e que, desvanecedoramente para mim, haviam-me incluído entre as celebrações.

A porta se fechou e começamos a subir. Minha atenção se fixou num aviso que dizia:

É expressamente proibido os funcionários, no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.

Desde o meu tempo de ginásio sei que se trata de problema complicado, este do infinito pessoal. Prevaleciam então duas regras mestras que deveriam ser rigorosamente obedecidas, quando se tratava do uso deste traiçoeiro tempo de verbo. O diabo é que as duas não se complementavam: ao contrário, em certos casos francamente se contradiziam. Uma afirmava que o sujeito, sendo o mesmo, impedia que o verbo se flexionasse. Da outra infelizmente já não me lembrava. Bastava a primeira para me assegurar de que, no caso, havia um clamoroso erro de concordância.

Mas não foi o emprego pouco castiço do infinito pessoal que me intrigou no tal aviso: foi estar ele concebido de maneira chocante aos delicados ouvidos de um escritor que se preza.

Ah, aquela cozinheira a que se refere García Márquez, que tinha redação própria! Quantas vezes clamei, como ele, por alguém que me pudesse valer nos momentos de aperto, qual seja o de redigir um telegrama de felicitações. Ou um simples aviso como este:

É expressamente proibido os funcionários…

Eu já começaria por tropeçar na regência, teria de consultar o dicionário de verbos e regimes: não seria aos funcionários? E nem chegaria a contestar a validade de uma proibição cujo aviso se localizava dentro do elevador e não do lado de fora: só seria lido pelos funcionários que já houvessem entrado e portanto incorrido na proibição de pretender descer quando o elevador estivesse subindo. Contestaria antes a maneira ambígua pela qual isto era expresso:

. . . no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.

Qualquer um, não sendo irremediavelmente burro, entenderia o que se pretende dizer neste aviso. Pois um tijolo de burrice me baixou na compreensão, fazendo com que eu ficasse revirando a frase na cabeça: descerem, no ato da subida? Que quer dizer isto? E buscava uma forma simples e correta de formular a proibição:

É proibido subir para depois descer.

É proibido subir no elevador com intenção de descer.

É proibido ficar no elevador com intenção de descer, quando ele estiver subindo.

Descer quando estiver subindo! Que coisa difícil, meu Deus. Quem quiser que experimente, para ver só. Tem de ser bem simples:

Se quiser descer, não torne o elevador que esteja subindo.

Mais simples ainda:

Se quiser descer, só tome o elevador que estiver descendo.

De tanta simplicidade, atingi a síntese perfeita do que Nelson Rodrigues chamava de óbvio ululante, ou seja, a enunciação de algo que não quer dizer absolutamente nada:

Se quiser descer, não suba.

Tinha de me reconhecer derrotado, o que era vergonhoso para um escritor.

Foi quando me dei conta de que o elevador havia passado do sétimo andar, a que me destinava, já estávamos pelas alturas do décimo terceiro.

— Pedi o sétimo, o senhor não parou! — reclamei.

O ascensorista protestou:

— Fiquei parado um tempão, o senhor não desceu.

Os outros passageiros riram:

— Ele parou sim. Você estava aí distraído.

— Falei três vezes, sétimo! sétimo! sétimo!, e o senhor nem se mexeu — reafirmou o ascensorista.

— Estava lendo isto aqui — respondi idiotamente, apontando o aviso.

Ele abriu a porta do décimo quarto, os demais passageiros saíram.

— Convém o senhor sair também e descer noutro elevador. A não ser que queira ir até o último andar e na volta descer parando até o sétimo.

— Não é proibido descer no que está subindo?

Ele riu:

— Então desce num que está descendo.

— Este vai subir mais? — protestei: — Lá embaixo está escrito que este elevador vem só até o décimo quarto.

— Para subir. Para descer, sobe até o último.

— Para descer sobe?

Eu me sentia um completo mentecapto. Saltei ali mesmo, como ele sugeria. Seguindo seu conselho, pressionei o botão, passando a aguardar um elevador que estivesse descendo.

Que tardou, e muito. Quando finalmente chegou, só reparei que era o mesmo pela cara do ascensorista, recebendo-me a rir:

— O senhor ainda está por aqui?

E fomos descendo, com parada em andar por andar. Cheguei ao auditório com 15 minutos de atraso. Ao fim da palestra, as moças me fizeram perguntas, e uma delas quis saber como nascem as minhas histórias. Comecei a contar:

— Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.
Fernando Sabino, “A Volta por cima”

sexta-feira, abril 10

Sempre pronto para o abismo

 


Livro Sobre Nada

À mesa o doutor perorou: Vocês é que são felizes
porque moram neste Empíreo.
Meu pai cuspiu o empíreo de lado.
O doutor falava bobagens conspícuas.
Mano Preto aproveitou: Grilo é um ser imprestável
para o silêncio.
Mano Preto não tinha entidade pessoal, só coisal.
(Seria um defeito de Deus?)
A gente falava bobagens de à brinca, mas o doutor
falava de à vera.
O pai desbrincou de nós:
Só o obscuro nos cintila.
Bugrinha boquiabriu-se.

Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"

O melhor amigo de um garoto

– Onde está Jimmy, querida? – perguntou o Sr. Anderson.

– Lá fora, na cratera – disse a Sra. Anderson. – Ele está bem. Está junto com Robobo… Sabe se já chegou?

– Chegou. Está na estação de foguetes, fazendo os testes. Na realidade, eu mesmo mal posso esperar para vê-lo. Não vi nenhum de verdade desde que deixei a Terra, quinze anos atrás. Os que passaram nos filmes não contam.

– Jimmy nunca viu nenhum – disse a Sra. Anderson.

– Porque ele nasceu na Lua e não pode ir à Terra. E é por isso que estou trazendo um para cá. Acho que é o primeiro a aparecer na Lua.

– Custou bastante caro – disse a Sra. Anderson com um ligeiro suspiro.

– Manter Robobo também não é barato – disse o Sr. Anderson.

Jimmy estava lá fora, na cratera, como sua mãe tinha dito. Pelos padrões da Terra, ele era espigado, um tanto alto para os seus dez anos de idade. Seus braços e pernas eram compridos e ágeis. Parecia mais gordo e troncudo, vestido com o traje espacial, mas podia lidar com a gravidade lunar como nenhum ser humano, nascido na Terra, seria capaz. O pai não podia acompanhar-lhe os passos quando ele esticava as pernas e entrava no salto de Canguru.

A face exterior da cratera inclinava-se para o sul, e a Terra, que surgia baixa no céu meridional (onde sempre surgia, quando vista da Cidade Lunar) estava quase cheia, de modo que todo o declive da cratera ficava brilhantemente iluminado.

O declive era suave e mesmo o peso do traje espacial não impedia que Jimmy disparasse em cima dele num salto flutuante que fazia a gravidade parecer não existente.

– Venha, Robobo – ele gritou.

Robobo, que podia ouvi-lo pelo rádio, guinchou e pulou atrás.

Jimmy, embora fosse ágil, não podia correr mais depressa que Robobo, que não precisava de um traje espacial e tinha quatro pernas e tendões de aço. Robobo navegava sobre a cabeça de Jimmy, dando saltos imensos e aterrando quase sob os pés do garoto.

– Não precisa se exibir, Robobo – disse Jimmy – e não saia de vista.

Robobo guinchou outra vez o guincho especial que significava “Sim”.

– Eu não confio em você, seu enrolador – gritou Jimmy, subindo num último salto, que o conduziu sobre a curva da beira superior da parede da cratera, e o largou do outro lado, num declive interno.

A Terra mergulhou abaixo do topo da parede da cratera e, de imediato, ficou escuro como breu em volta de Jimmy. Uma escuridão amistosa e quente, que dissipava a diferença entre solo e céu, exceto pelo brilho das estrelas.

Na verdade, Jimmy não devia brincar no lado escuro da parede da cratera. Os adultos diziam que era perigoso, mas isso acontecia porque nunca estiveram ali. O chão era macio e ondulado, e Jimmy conhecia a localização exata de cada uma das poucas rochas.

Além disso, como podia ser perigoso correr no escuro se Robobo estava bem ali a seu lado, pulando em volta, guinchando e cintilando? Mesmo sem cintilar, Robobo podia dizer onde estava, e onde Jimmy estava, pelo radar. Jimmy não podia se machucar enquanto Robobo estivesse por perto, detendo-o quando ele se aproximava demais de uma rocha, ou pulando sobre ele para mostrar o quanto o amava, ou circulando em volta e guinchando baixo e assustado quando Jimmy se escondia atrás de uma rocha, embora nessas ocasiões Robobo soubesse todo o tempo, e suficientemente bem, onde ele estava. Certa vez, Jimmy se esticou imóvel no chão e fingiu estar ferido. Robobo acionou o rádio alarme e o pessoal da Cidade Lunar chegou ali às pressas. O pai de Jimmy disse-lhe poucas e boas sobre aquele pequeno embuste, e Jimmy nunca mais o repetiu.

Quando estava se lembrando disso, Jimmy ouviu a voz do pai no seu rádio individual de ondas longas.

– Jimmy, volte. Tenho uma coisa para lhe contar.

Jimmy tirou o traje espacial e se lavou. Você sempre precisa se lavar quando vem de fora. Mesmo Robobo tinha de ser borrifado, mas ele gostava disso. Ficava de gatinhas, o pequeno corpo, com menos de meio metro de comprimento, tremia e exibia uma minúscula cintilação. A cabecinha, sem boca, possuía dois grandes olhos vidrados e uma protuberância onde ficava o cérebro. Ele guinchou até ouvir a voz do Sr. Anderson:

– Quieto, Robobo!

O Sr. Anderson sorria.

– Temos uma coisa para você, Jimmy. Ainda está na estação de foguetes, mas estará conosco amanhã, depois de todos os testes terminarem. Achei que tinha de lhe contar isso agora.

– É da Terra, papai?

– Um cachorro da Terra, filho. Um cachorro de verdade. Um cãozinho “terrier” escocês. O primeiro cachorro na Lua. Não precisará mais de Robobo. Não podemos ficar com os dois, você sabe. Ele ficará com algum outro menino ou menina.

O Sr. Anderson pareceu esperar que Jimmy dissesse alguma coisa.

– Você sabe o que é um cachorro, Jimmy. É a coisa real. Robobo não passa de uma imitação mecânica, um robô boboca. Ê isso que seu nome significa.

Jimmy fez cara feia.

– Robobo não é uma imitação, papai. É o meu cachorro.

– Não um cachorro verdadeiro, Jimmy. Robobo é apenas aço, fiação e um simples cérebro positrônico. Não é um ser vivo.

– Ele faz tudo que eu quero que ele faça, papai. Ele me compreende. Sem dúvida, é um ser vivo.

– Não, filho. Robobo é só uma máquina. É apenas programado para se comportar do modo como se comporta. Um cachorro está vivo. Você não vai mais querer Robobo depois de ter o cachorro.

– O cachorro precisará de um traje espacial, não é?

– Sim, naturalmente. Mas será um dinheiro bem empregado e o cão se acostumará. E não precisará usá-lo na Cidade. Você vai ver a diferença quando ele estiver aqui.

Jimmy olhou para Robobo, que estava guinchando outra vez, um guincho lento, muito baixo, parecendo amedrontado. Jimmy estendeu os braços e Robobo deu um salto para eles.

– Qual será a diferença entre Robobo e o cachorro? – Jimmy perguntou.

– É difícil explicar – disse o Sr. Anderson – mas será fácil de perceber. O cachorro realmente gostará de você. Robobo está apenas ajustado para agir como se gostasse de você.

– Mas, papai, não sabemos o que há dentro de um cachorro ou quais são as suas sensações. Talvez seja também apenas um modo de agir.

O Sr. Anderson franziu a testa.

– Jimmy, você saberá a diferença quando experimentar o amor de uma coisa viva.

Jimmy segurou Robobo com força. Também estava franzindo a testa e o olhar desesperado em seu rosto significava que não estava disposto a mudar de ideia.

– Mas qual é a diferença no modo como eles agem? E quanto ao modo como eu sinto? Eu gosto de Robobo e isso é o que importa.

E o pequeno robô-boboca, que nunca fora abraçado com tanta força em toda a sua vida, guinchou rápidos e altos guinchos… guinchos felizes.

Isaac Asimov, "Os melhores contos de Isaac Asimov"