Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sábado, junho 13
O búfalo
Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranquilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. “Mas isso é amor, é amor de novo”, revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.
Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir – diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas – sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.
Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho – a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. “Oh não, não isso”, pensou. E enquanto fugia, disse: “Deus, me ensine somente a odiar.”
“Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. “Eu te odeio”, disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar.
Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. “Oh, Deus, quem será meu par neste mundo?”
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa.
E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha- russa ainda parada. Separada de todos no seu banco parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor – amor, amor, não o amor! – onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele voo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre – o grito das namoradas! – seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, “faziam dela o que queriam”, a grande ofensa – o grito das namoradas! – a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando, faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a como um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta a terra, a maquinaria de novo inteiramente parada. Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue.
Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo do meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido.
Só isso? Só isto. Da violência, só isto.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.
A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar – seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, à promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói… oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida – deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se – enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde.
Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.
Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que a distância a cara não tinha traços.
Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido.
A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore.
Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.
O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranquila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera.
E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro.
O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo.
Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e a distância encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente a frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.
Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir – diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas – sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.
Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho – a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. “Oh não, não isso”, pensou. E enquanto fugia, disse: “Deus, me ensine somente a odiar.”
“Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. “Eu te odeio”, disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar.
Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. “Oh, Deus, quem será meu par neste mundo?”
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa.
E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha- russa ainda parada. Separada de todos no seu banco parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor – amor, amor, não o amor! – onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele voo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre – o grito das namoradas! – seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, “faziam dela o que queriam”, a grande ofensa – o grito das namoradas! – a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando, faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a como um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta a terra, a maquinaria de novo inteiramente parada. Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue.
Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo do meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido.
Só isso? Só isto. Da violência, só isto.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.
A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar – seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, à promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói… oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida – deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se – enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde.
Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.
Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que a distância a cara não tinha traços.
Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido.
A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore.
Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.
O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranquila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera.
E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro.
O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo.
Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e a distância encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente a frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.
Clarice Lispector
Falar
A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.
Ferreira Gullar
O menino na festa do Natal de Cristo
Como sou romancista, parece que inventei uma “história”. Porque escrevo “parece”? Sei bem que a inventei, mas afigura-se sempre que ela aconteceu num certo lugar, em certo dia, ou antes, precisamente na véspera do Natal, em certa cidade enorme e durante um frio terrível.
Imagino que havia um rapaz muito pequeno numa cave, de seis anos ou ainda mais pequeno. O rapaz, numa manhã húmida e fria, acordou na sua cave. Vestia apenas uma batinha e tremia. Saía-lhe da boca um bafo de vapor branco, e ele, sentado no canto, em cima de uma arca, aborrecia-se e soprava o vapor de propósito, divertindo-se a vê-lo sair. Mas estava com muita fome. Logo de manhã, por várias vezes, já se aproximara do catre em que a mãe doente estava deitada numa esteira e com uma trouxa debaixo da cabeça. Como veio ela parar aqui? Chegara pelos vistos de outra cidade, com o filho, e de repente adoecera. A senhoria tinha sido levada pela polícia dois dias antes; os inquilinos dispersaram-se, era a quadra das festas; só um dos do “pessoal da ganga” estava lá, prostrado de bêbado como um morto havia já vinte e quatro horas, sem dar atenção às festas. Noutro canto do quarto gemia de dores reumáticas uma velha octogenária, antiga ama-seca numa casa qualquer, deitada no leito da morte solitária, queixosa, gemebunda e a resmungar com o miúdo que já tinha medo de se aproximar muito do canto dela. Encontrou, algures no átrio, água para beber, mas não encontrou uma côdea para comer, e já era a décima vez que se aproximava para acordar a mãe. Por fim, começou a sentir pavor da escuridão: havia muito que escurecera mas ninguém acendia as velas. Ao mexer na cara da mãe, espantou-se por ela não se mexer e por estar fria como a parede. “Está muito frio aqui”, pensou ele, e ficou um pouco parado, deixando, inconscientemente, a mão esquecida no ombro da morta; depois soprou para os dedinhos, tentando aquecê-los e, de repente, tendo encontrado às apalpadelas o seu boné em cima do catre, foi devagarinho, na escuridão, para a saída da cave. Teria saído ainda antes, mas tinha medo de um cão grande que, durante todo o dia, uivava em cima, nas escadas, à porta dos vizinhos. O cão já não estava lá, e o miúdo saiu para a rua.
Outra rua — ah, que larga! Aqui de certeza que atropelam a gente; como eles gritam, correm, tantos coches, tanta luz, tanta luz! E isto o que é? Oh, que vidro tão grande, e atrás do vidro uma sala, e na sala uma árvore até ao teto! É a árvore de Natal, e tantas luzes na árvore, e tantos papelinhos dourados e tantas maçãs, e por todo o lado bonequinhos, cavalinhos; e crianças a correr na sala, todas apinocadas, todas limpinhas, riem-se e brincam e comem e bebem. Eis uma menina que começou a dançar com um rapaz, que linda! E ouve-se a música através do vidro. O rapaz olha, espanta-se e ri-se, mas doem-lhe os dedos, dos pés e das mãos, ficaram roxos, já não se dobram e doem-lhe quando os mexe. O miúdo pensou então, de repente, que lhe doíam muito os dedos, e chorou, e correu mais adiante pela rua, e viu de novo, por outro vidro grande, uma sala, árvores, mas nas mesas há bolos, variados: de amêndoa, vermelhos, amarelos, e estão lá quatro ricas senhoras, e dão bolos a quem entra, e a porta abre-se a cada instante e entram muitos senhores. O rapaz aproximou-se, abriu a porta e entrou. Ui, como gritaram com ele, como abanaram as mãos! Uma senhora aproximou-se dele e meteu-lhe na mão um copeque, abriu-lhe a porta para a rua. Como se assustou! O copeque caiu e tilintou nos degraus: não podia dobrar os dedos inteiriçados e vermelhos para o segurar. Saiu e pôs-se a andar depressa, depressa, mas não sabia para onde. Apetecia-lhe outra vez chorar, mas tinha medo e corria, corria e soprava nos dedos. E ficou muito aflito, porque se sentiu de repente sozinho e assustado, e de chofre, meu Deus, o que era aquilo outra vez? Está lá uma multidão de pessoas. A admirar isto: atrás da vidraça há três bonecos pequenos, todos apinocados com roupas vermelhas e verdes, tal e qual como se estivessem vivos! Está lá um velho que toca um violino grande, há mais dois de pé que tocam violinos pequenos, e abanam todos as cabecinhas ao ritmo da música, e olham uns para os outros, e os lábios deles mexem, e falam, falam mesmo, só que não se ouve através do vidro. E o miúdo, a princípio, pensou que estavam vivos, mas, quando adivinhou que eram bonecos, riu-se de repente. Nunca na vida tinha visto bonecos assim nem sabia que existiam! Apetecia-lhe chorar, mas também era tão engraçado ver os bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém lhe puxava pela bata, atrás dele: estava ao pé dele um rapaz grande e mau que lhe deu, sem mais nem menos, um murro na cabeça, arrancou-lhe o boné e assestou-lhe um pontapé. O miúdo rolou pelo chão, toda a gente gritava, e ele, muito aturdido, levantou-se e deitou a correr muito, e então, sem saber onde nem porquê, entrou para um pátio por baixo do arco e sentou-se atrás de uma rima de lenha: “Aqui não me encontram, é escuro.”
Sentou-se, encolheu-se, não conseguia recuperar o fôlego por causa do medo, e de repente, mesmo de repente, sentiu-se muito bem: as mãos e os pés deixaram de lhe doer, e estava ali tanto calor, tão quentinho como no catre do fogão; e estremeceu: ah, estava quase a dormir! Que bom adormecer ali: “Fico aqui um bocado e depois vou outra vez ver os bonecos — pensou e sorriu, lembrando-se —; são tal e qual como se estivessem vivos!...” Então, de súbito, ouviu a mãe a cantar-lhe uma cantiga. “Mamã, estou a dormir, é tão bom dormir aqui!”
— Pequenito, vem comigo ver a minha festa da árvore de Natal — sussurrou-lhe uma voz baixinha.
Primeiro pensou que era a mãe, mas não, não era ela; quem o chamava, então? Ele não via, mas alguém se inclinou sobre ele e o abraçou na escuridão, e o miúdo estendeu-lhe a mão e... de repente — oh, que luz! Oh, que árvore! Aquilo nem é uma árvore, nunca ele tinha visto árvores assim! Onde estará? Tudo brilha, tudo é luz, por todo o lado há bonequinhos... mas não: são rapazes e raparigas, só que são tão claros, e todos giram à volta dele, e voam, e todos lhe dão beijos, e pegam nele, e levam-no, e ele também voa, e vê: a mamã a olhar para ele e a rir de felicidade.
— Mamã, mamã! Ah, que bom estares aqui, mamã! — grita-lhe o miúdo, e beija de novo os outros meninos, e conta-lhes logo sobre os bonecos atrás do vidro. — Quem sois vós, rapazinhos? Quem sois vós, raparigas? — pergunta, rindo-se de amor por eles.
— É a “festa do Natal de Cristo” — responderam-lhe. — Neste dia, Cristo faz sempre a festa da árvore de Natal para os pequeninos que não têm a sua própria árvore... — E soube o menino que estas crianças eram todas como ele, mas umas gelaram ainda nos cestos em que foram abandonadas nas escadas, à porta dos funcionários petersburguenses, outras asfixiaram-se quando estavam com as amas finlandesas a quem os orfanatos entregaram para serem amamentadas, outras morreram ao peito seco das mães durante a grande fome de Samara, outras sufocaram no fedor das carruagens de terceira classe, e agora estão todas aqui, como anjos, todas estão com Cristo, e o próprio Cristo está no meio delas, e estende as mãos para elas, e abençoa-as e abençoa as suas mães pecadoras... E as mães destas crianças também estão aqui, ao lado, e choram; cada mãe reconhece o seu filho, ou a sua filha, que se aproxima dela a voar e a beija, lhe limpa as lágrimas do rosto com as mãozinhas e lhe pede que não chore, porque está muito bem...
No pátio, os guarda-portões encontraram de manhã o corpo pequenino do miúdo que se escondera atrás da lenha e aí gelara; encontraram também a mãe dele... Essa morrera ainda antes do filho; encontraram-se no céu, junto a Deus.
Para que inventei esta história tão inadequada a um diário normal e razoável, ainda por cima do escritor? Eu, que prometi escrever principalmente sobre acontecimentos reais! Mas é mesmo assim, sempre me pareceu que isto poderia acontecer na realidade — ou seja, o que aconteceu na cave e por trás do monte de lenha — já que, aquilo da festa do Cristo... nem sei que vos diga. Poderia acontecer ou não? Para isto sou romancista — para inventar.
Fiodor Dostoievski, "A Submissa e Outras Histórias"
Imagino que havia um rapaz muito pequeno numa cave, de seis anos ou ainda mais pequeno. O rapaz, numa manhã húmida e fria, acordou na sua cave. Vestia apenas uma batinha e tremia. Saía-lhe da boca um bafo de vapor branco, e ele, sentado no canto, em cima de uma arca, aborrecia-se e soprava o vapor de propósito, divertindo-se a vê-lo sair. Mas estava com muita fome. Logo de manhã, por várias vezes, já se aproximara do catre em que a mãe doente estava deitada numa esteira e com uma trouxa debaixo da cabeça. Como veio ela parar aqui? Chegara pelos vistos de outra cidade, com o filho, e de repente adoecera. A senhoria tinha sido levada pela polícia dois dias antes; os inquilinos dispersaram-se, era a quadra das festas; só um dos do “pessoal da ganga” estava lá, prostrado de bêbado como um morto havia já vinte e quatro horas, sem dar atenção às festas. Noutro canto do quarto gemia de dores reumáticas uma velha octogenária, antiga ama-seca numa casa qualquer, deitada no leito da morte solitária, queixosa, gemebunda e a resmungar com o miúdo que já tinha medo de se aproximar muito do canto dela. Encontrou, algures no átrio, água para beber, mas não encontrou uma côdea para comer, e já era a décima vez que se aproximava para acordar a mãe. Por fim, começou a sentir pavor da escuridão: havia muito que escurecera mas ninguém acendia as velas. Ao mexer na cara da mãe, espantou-se por ela não se mexer e por estar fria como a parede. “Está muito frio aqui”, pensou ele, e ficou um pouco parado, deixando, inconscientemente, a mão esquecida no ombro da morta; depois soprou para os dedinhos, tentando aquecê-los e, de repente, tendo encontrado às apalpadelas o seu boné em cima do catre, foi devagarinho, na escuridão, para a saída da cave. Teria saído ainda antes, mas tinha medo de um cão grande que, durante todo o dia, uivava em cima, nas escadas, à porta dos vizinhos. O cão já não estava lá, e o miúdo saiu para a rua.
Meu Deus, que cidade! Nunca antes ele vira nada de parecido. Lá, donde ele viera, fazia muito escuro de noite, havia só um lampião em toda a rua. As casas de madeira baixinhas tinham as portadas fechadas; mal caía a noite, não se via ninguém, as pessoas metiam-se dentro das casas, apenas os cães uivavam, matilhas de cães, centenas, milhares deles, a uivarem e a ladrarem toda a noite. Mas, lá, havia calor e davam de comer, e aqui... meu Deus, que me apetece tanto comer alguma coisa! E há tanto barulho aqui, estrondos, tanta luz, cavalos e coches, e frio, frio! Levanta-se um vapor gélido sobre os cavalos esfalfados, dos focinhos sai-lhes bafo quente, tinem as ferraduras nas pedras cobertas de neve, anda toda a gente aos empurrões, e, meu Deus, que fome, nem que fosse um bocadinho qualquer, e de repente começaram-me a doer muito os dedos. Passou ao lado um polícia e virou a cabeça para não olhar para o miúdo.
Outra rua — ah, que larga! Aqui de certeza que atropelam a gente; como eles gritam, correm, tantos coches, tanta luz, tanta luz! E isto o que é? Oh, que vidro tão grande, e atrás do vidro uma sala, e na sala uma árvore até ao teto! É a árvore de Natal, e tantas luzes na árvore, e tantos papelinhos dourados e tantas maçãs, e por todo o lado bonequinhos, cavalinhos; e crianças a correr na sala, todas apinocadas, todas limpinhas, riem-se e brincam e comem e bebem. Eis uma menina que começou a dançar com um rapaz, que linda! E ouve-se a música através do vidro. O rapaz olha, espanta-se e ri-se, mas doem-lhe os dedos, dos pés e das mãos, ficaram roxos, já não se dobram e doem-lhe quando os mexe. O miúdo pensou então, de repente, que lhe doíam muito os dedos, e chorou, e correu mais adiante pela rua, e viu de novo, por outro vidro grande, uma sala, árvores, mas nas mesas há bolos, variados: de amêndoa, vermelhos, amarelos, e estão lá quatro ricas senhoras, e dão bolos a quem entra, e a porta abre-se a cada instante e entram muitos senhores. O rapaz aproximou-se, abriu a porta e entrou. Ui, como gritaram com ele, como abanaram as mãos! Uma senhora aproximou-se dele e meteu-lhe na mão um copeque, abriu-lhe a porta para a rua. Como se assustou! O copeque caiu e tilintou nos degraus: não podia dobrar os dedos inteiriçados e vermelhos para o segurar. Saiu e pôs-se a andar depressa, depressa, mas não sabia para onde. Apetecia-lhe outra vez chorar, mas tinha medo e corria, corria e soprava nos dedos. E ficou muito aflito, porque se sentiu de repente sozinho e assustado, e de chofre, meu Deus, o que era aquilo outra vez? Está lá uma multidão de pessoas. A admirar isto: atrás da vidraça há três bonecos pequenos, todos apinocados com roupas vermelhas e verdes, tal e qual como se estivessem vivos! Está lá um velho que toca um violino grande, há mais dois de pé que tocam violinos pequenos, e abanam todos as cabecinhas ao ritmo da música, e olham uns para os outros, e os lábios deles mexem, e falam, falam mesmo, só que não se ouve através do vidro. E o miúdo, a princípio, pensou que estavam vivos, mas, quando adivinhou que eram bonecos, riu-se de repente. Nunca na vida tinha visto bonecos assim nem sabia que existiam! Apetecia-lhe chorar, mas também era tão engraçado ver os bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém lhe puxava pela bata, atrás dele: estava ao pé dele um rapaz grande e mau que lhe deu, sem mais nem menos, um murro na cabeça, arrancou-lhe o boné e assestou-lhe um pontapé. O miúdo rolou pelo chão, toda a gente gritava, e ele, muito aturdido, levantou-se e deitou a correr muito, e então, sem saber onde nem porquê, entrou para um pátio por baixo do arco e sentou-se atrás de uma rima de lenha: “Aqui não me encontram, é escuro.”
Sentou-se, encolheu-se, não conseguia recuperar o fôlego por causa do medo, e de repente, mesmo de repente, sentiu-se muito bem: as mãos e os pés deixaram de lhe doer, e estava ali tanto calor, tão quentinho como no catre do fogão; e estremeceu: ah, estava quase a dormir! Que bom adormecer ali: “Fico aqui um bocado e depois vou outra vez ver os bonecos — pensou e sorriu, lembrando-se —; são tal e qual como se estivessem vivos!...” Então, de súbito, ouviu a mãe a cantar-lhe uma cantiga. “Mamã, estou a dormir, é tão bom dormir aqui!”
— Pequenito, vem comigo ver a minha festa da árvore de Natal — sussurrou-lhe uma voz baixinha.
Primeiro pensou que era a mãe, mas não, não era ela; quem o chamava, então? Ele não via, mas alguém se inclinou sobre ele e o abraçou na escuridão, e o miúdo estendeu-lhe a mão e... de repente — oh, que luz! Oh, que árvore! Aquilo nem é uma árvore, nunca ele tinha visto árvores assim! Onde estará? Tudo brilha, tudo é luz, por todo o lado há bonequinhos... mas não: são rapazes e raparigas, só que são tão claros, e todos giram à volta dele, e voam, e todos lhe dão beijos, e pegam nele, e levam-no, e ele também voa, e vê: a mamã a olhar para ele e a rir de felicidade.
— Mamã, mamã! Ah, que bom estares aqui, mamã! — grita-lhe o miúdo, e beija de novo os outros meninos, e conta-lhes logo sobre os bonecos atrás do vidro. — Quem sois vós, rapazinhos? Quem sois vós, raparigas? — pergunta, rindo-se de amor por eles.
— É a “festa do Natal de Cristo” — responderam-lhe. — Neste dia, Cristo faz sempre a festa da árvore de Natal para os pequeninos que não têm a sua própria árvore... — E soube o menino que estas crianças eram todas como ele, mas umas gelaram ainda nos cestos em que foram abandonadas nas escadas, à porta dos funcionários petersburguenses, outras asfixiaram-se quando estavam com as amas finlandesas a quem os orfanatos entregaram para serem amamentadas, outras morreram ao peito seco das mães durante a grande fome de Samara, outras sufocaram no fedor das carruagens de terceira classe, e agora estão todas aqui, como anjos, todas estão com Cristo, e o próprio Cristo está no meio delas, e estende as mãos para elas, e abençoa-as e abençoa as suas mães pecadoras... E as mães destas crianças também estão aqui, ao lado, e choram; cada mãe reconhece o seu filho, ou a sua filha, que se aproxima dela a voar e a beija, lhe limpa as lágrimas do rosto com as mãozinhas e lhe pede que não chore, porque está muito bem...
No pátio, os guarda-portões encontraram de manhã o corpo pequenino do miúdo que se escondera atrás da lenha e aí gelara; encontraram também a mãe dele... Essa morrera ainda antes do filho; encontraram-se no céu, junto a Deus.
Para que inventei esta história tão inadequada a um diário normal e razoável, ainda por cima do escritor? Eu, que prometi escrever principalmente sobre acontecimentos reais! Mas é mesmo assim, sempre me pareceu que isto poderia acontecer na realidade — ou seja, o que aconteceu na cave e por trás do monte de lenha — já que, aquilo da festa do Cristo... nem sei que vos diga. Poderia acontecer ou não? Para isto sou romancista — para inventar.
Fiodor Dostoievski, "A Submissa e Outras Histórias"
Banco de jardim
Atravessamos as vilas e cidades como quem atravessa um corredor entre compromissos, sem viver. Daqui para ali, muitas vezes a correr. Corremos para o trabalho, para a reunião, para o consumo, para o próximo ecrã. E nesse movimento contínuo, quase industrial, deixamos para trás aquilo que verdadeiramente sustenta a vida: o respirar, o sentir, o reparar.
Perdemos a lenta aprendizagem do tempo. Perdemos a disponibilidade para escutar e viver o lugar. Talvez por isso um banco de jardim seja hoje um objeto quase subversivo.
À primeira vista, parece pouco. Madeira, ferro, parafusos, alguma tinta já gasta pelo sol e pela chuva. Um artefacto banal da paisagem urbana, que nalgumas cidades, como Paris, é retirado intencionalmente para que os pobres não possam permanecer e chocar os turistas. Contudo, como escreveu José Tolentino Mendonça, um banco de jardim ajuda-nos a reorganizar não apenas o visível, mas também o nosso modo de ver. Sentar-se num banco é interromper a lógica produtiva. É declarar, ainda que silenciosamente, que nem tudo na vida pode ser medido pela utilidade, pela velocidade ou pelo rendimento.
Um banco de jardim devolve-nos ao território da contemplação, esse espaço raro onde o pensamento abranda o suficiente para que a realidade volte a ter profundidade. Num banco, reaprendemos a escala humana. Ali passam crianças, idosos, cães, folhas secas, bicicletas, nuvens. Ali percebe-se que o espaço urbano não é apenas infraestrutura, trânsito ou imobiliário: é também relação, encontro e existência coletiva. Um banco cria comunidade sem precisar de discurso político. Aproxima desconhecidos. Oferece sombra, pausa e horizonte. Em muitos casos, oferece até dignidade.
Quantas pessoas solitárias encontram num banco o único lugar onde podem permanecer sem consumir nada? A história das cidades pode contar-se pelos seus bancos. Um lugar urbano sem bancos é um lugar hostil. Uma cidade que não permite parar é uma cidade com menos alma. O urbanismo contemporâneo sabe-o bem. Não é por acaso que muitos espaços públicos eliminam bancos, sombras e zonas de permanência: uma sociedade acelerada desconfia da pausa. Mas o banco resiste. Resiste como pequena arquitetura do tempo certo. Como discreta tecnologia da atenção. Como convite a voltar ao corpo e aos sentidos. Num banco sente-se o frio da manhã, o cheiro da terra molhada, o rumor das árvores, a mudança da luz ao fim da tarde. Sentimos novamente o vento. E isso não é menor.
A ecologia começa precisamente aí: na capacidade de sentir pertença ao mundo vivo. Há também uma dimensão subtil e quase espiritual no banco de jardim. Ele é um lugar de suspensão. Quantas decisões importantes foram amadurecidas num banco? Quantos lutos, paixões, medos ou reencontros passaram por ali? O banco acolhe silêncios sem exigir explicações. Talvez por isso os parques tenham qualquer coisa de sagrado: oferecem uma liturgia discreta da presença.
Os bancos de jardim lembram-nos ainda uma verdade essencial: a felicidade raramente é espetacular. Surge muitas vezes em gestos mínimos, aparentemente insignificantes. Um banco ao sol numa manhã fria. Uma conversa demorada. O canto de um melro. O simples facto de existir tempo.
Num mundo globalizado que transformou tudo em fluxo, velocidade e excesso, o banco permanece como metáfora de uma outra civilização possível. Uma civilização mais lenta, local, regenerativa. Uma civilização capaz de compreender que viver não é apenas deslocar-se entre pontos, mas criar ligação profunda aos lugares; bancos de jardim espalhados pelo espaço urbano. Quando voltamos a parar e a sentar-nos?
Carlos Cupeto
Perdemos a lenta aprendizagem do tempo. Perdemos a disponibilidade para escutar e viver o lugar. Talvez por isso um banco de jardim seja hoje um objeto quase subversivo.
À primeira vista, parece pouco. Madeira, ferro, parafusos, alguma tinta já gasta pelo sol e pela chuva. Um artefacto banal da paisagem urbana, que nalgumas cidades, como Paris, é retirado intencionalmente para que os pobres não possam permanecer e chocar os turistas. Contudo, como escreveu José Tolentino Mendonça, um banco de jardim ajuda-nos a reorganizar não apenas o visível, mas também o nosso modo de ver. Sentar-se num banco é interromper a lógica produtiva. É declarar, ainda que silenciosamente, que nem tudo na vida pode ser medido pela utilidade, pela velocidade ou pelo rendimento.
Um banco de jardim devolve-nos ao território da contemplação, esse espaço raro onde o pensamento abranda o suficiente para que a realidade volte a ter profundidade. Num banco, reaprendemos a escala humana. Ali passam crianças, idosos, cães, folhas secas, bicicletas, nuvens. Ali percebe-se que o espaço urbano não é apenas infraestrutura, trânsito ou imobiliário: é também relação, encontro e existência coletiva. Um banco cria comunidade sem precisar de discurso político. Aproxima desconhecidos. Oferece sombra, pausa e horizonte. Em muitos casos, oferece até dignidade.
Quantas pessoas solitárias encontram num banco o único lugar onde podem permanecer sem consumir nada? A história das cidades pode contar-se pelos seus bancos. Um lugar urbano sem bancos é um lugar hostil. Uma cidade que não permite parar é uma cidade com menos alma. O urbanismo contemporâneo sabe-o bem. Não é por acaso que muitos espaços públicos eliminam bancos, sombras e zonas de permanência: uma sociedade acelerada desconfia da pausa. Mas o banco resiste. Resiste como pequena arquitetura do tempo certo. Como discreta tecnologia da atenção. Como convite a voltar ao corpo e aos sentidos. Num banco sente-se o frio da manhã, o cheiro da terra molhada, o rumor das árvores, a mudança da luz ao fim da tarde. Sentimos novamente o vento. E isso não é menor.
A ecologia começa precisamente aí: na capacidade de sentir pertença ao mundo vivo. Há também uma dimensão subtil e quase espiritual no banco de jardim. Ele é um lugar de suspensão. Quantas decisões importantes foram amadurecidas num banco? Quantos lutos, paixões, medos ou reencontros passaram por ali? O banco acolhe silêncios sem exigir explicações. Talvez por isso os parques tenham qualquer coisa de sagrado: oferecem uma liturgia discreta da presença.
Os bancos de jardim lembram-nos ainda uma verdade essencial: a felicidade raramente é espetacular. Surge muitas vezes em gestos mínimos, aparentemente insignificantes. Um banco ao sol numa manhã fria. Uma conversa demorada. O canto de um melro. O simples facto de existir tempo.
Num mundo globalizado que transformou tudo em fluxo, velocidade e excesso, o banco permanece como metáfora de uma outra civilização possível. Uma civilização mais lenta, local, regenerativa. Uma civilização capaz de compreender que viver não é apenas deslocar-se entre pontos, mas criar ligação profunda aos lugares; bancos de jardim espalhados pelo espaço urbano. Quando voltamos a parar e a sentar-nos?
Carlos Cupeto
quarta-feira, junho 10
Onfália Benoiton
Quem se lembra hoje da história de Onfália Benoiton, uma mulher nervosa, e de Estevão Basco, um homem vencido e esquecido, e que todavia foi um homem?
As canas que contam essa história de martírios reais e de falsas glorificações, tenho eu a alegria mefistofélica e bárbara de as copiar aqui.
A primeira carta assinada unicamente por uma letra — Z. — é o documento incisivo e lúcido da Sra. Onfália Benoiton. É assim:
“A Sra. Onfália Benoiton, meu caro, é descendente das belezas gregas. Mesma materialidade de forma correta e fria. Somente as mulheres gregas eram musas, cantavam nos festins ao modo jônio, coroadas de mirtos; discutiam com os sábios e com os filósofos, celebravam com as túnicas soltas as Elêusis de Baco, edificavam cidades, eram os modelos da arte e a inspiração dos tiranos. E a Sra. Onfália Benoiton, com os seus vestuários onde há uma provocação especuladora, as suas atitudes masculinas, os penteados disformes que lhe dão uma aparência de animalidade audaz, com a sua pele colorida, acumulações da sua vida de fadiga trivial e de aparato sonolento, lembra uma daquelas Vênus de corpos harmônicos, que depois de ter atravessado este exílio moderno, a velhice, a miséria, e o vício imbecil — se vestisse de roupas bárbaras e grotescas, para parecer ainda, de longe, à luz soluçante do gás, um ídolo material — aos idiotas!
A Sra. Onfália Benoiton é um pouco magra e nervosa. E um corpo alto, coberto de estofos, pedestal de um crânio vazio. As suas formas, dignas talvez do biscuit, sem contorno inteligente e espiritual, não conseguem encobrir o lodo primitivo. Nenhuma ideia nas atitudes e nos gestos: só a retórica da futilidade. Tem uma graça oficial; compõe um olhar com o mesmo trabalho compassado e métrico com que um poeta arcádico cinzela um verso. Tem sempre a pele admiravelmente colorida: tem o segredo do rosado da face casta e transparente.
Desenha as sobrancelhas com a delicadeza de um artista chinês. Põe em redor do olhar uma cor de sépia ligeira semelhando a fadiga, invejável para uma imagem de Impéria ou de Vinon.
A sua fisionomia bela e trivial tem a vaga intenção das aves de rapina. Toma umas atitudes de tédio e de indolência, semelhantes às que têm os viciosos de absinto.
Caminha com o seio erguido, com a pompa de quem arrasta atrás de si toda a atmosfera e o ar de todos os peitos. Dança com os movimentos melodiosos que teria Juno se tivesse passado dois séculos a frequentar os casinos. Tem uma bela fragilidade muscular, um apetite vasto e um amor cálido das bebidas. As indústrias têm maculado aquele corpo: o gás amoleceu-lhe o olhar, os espartilhos de Birmingham desvaneceram-lhe o modo feminino. Pelo materialismo idiota é muito inferior aos ídolos egípcios, pela originalidade risível do vestuário superior às caricaturas chinesas.
É toda a síntese do nosso tempo: é a entrevista grotesca dos erros modernos. O olhar metálico é o símbolo do dinheiro. A boca é nervosa e móbil, os dentes acerados e de um branco morto: é a difamação, a intriga, a palavra fútil que corrói as construções da alma.
A mão delgada, flexível, magra, adunca, significa a agiotagem, o materialismo avaro e covarde.
Onfália Benoiton é a tragicomédia da afetação e da vaidade. Para modelar a sua alma seria necessário inventar uma lama. Colocada inferiormente, prende-se a todas as ideias oficiais, aristocracia, realeza, elegância, moda, com a mesma insistência violenta e vaidosa com o que o pó se prende ao veludo.
Tem uma maneira insultante e vã de fazer os seus vestuários — de tal sorte que o seu chignon parece uma carranca feita ao céu, e as suas caudas beijos dados à lama. A sua existência é pintar-se, fazer- se, trocar friamente recepções e diálogos, transfigurar o vestuário numa celebração misteriosa, decorar a comédia das modas, passear ostentosamente, errar pelas óperas, pelos casinos, pelos saltimbancos, dançar, envolver-se no combate da beleza e da seda, dar-se à fadiga dissolvente do lucro. Eu pôr-lhe-ia por epitáfio: Aqui jaz o ruído de um bocejo.
Tem todos os prejuízos do seu tempo. Tem o espírito das pequenas maquinações femininas, das ironias dolorosas, dos escárnios inteligentes. Adora os romances dramáticos de sangue, pelo mesmo motivo por que as damas romanas aplaudiam a morte dos gladiadores. Todos os dias as suas belezas lhe dizem: “Oh Cesaréia, os que vão morrer saúdam-te!” Prefere Leotard a Shakespeare — isto contém um caráter.
Copia o modo de falar das atrizes. Há só uma coisa que a distrai de admirar os saltimbancos, é ter de pensar na libré dos lacaios.
Para ela a Natureza é uma decoração; a alma uma impertinência dos pobres; o cemitério uma infâmia de Deus.
Assim vive na comédia do luxo, radiosa, contente, idiota, desfolhando o corpo, pensando nos vestuários, criando enfeites, até que Deus, por entre as névoas do cemitério, lhe mostre o último figurino, o supremo adorno sinistro — a mortalha à Benoiton!
A segunda carta, escrita por A., o melhor de nós todos, espírito criador e lógico, fala largamente do escritor Estevão Basco:
“Estive ontem”, dizia a carta de A., “com Estevão Basco. É uma alma justa e sã, mas tímida e apaixonada, forte para o sacrifício, cheia de nobres morais latinas, mas idealista e nervosa, tendo assim toda a antiga virtude estoica com muitos dos dolorosos erros modernos.
Este homem, antes que os seus livros fossem comentados e estudados, antes de ser a voz alta e sensata para que correm todos os espíritos novos, como para a lição visível das almas, antes de ter o seu jornal incisivo, livre, cheio de pensamentos e de revelações — teve uma existência de miséria, numa trapeira, sem sol, sem repouso, sem amizades purificadoras. Sentiu, uma a uma, as sete dores que a vida costuma cravar nas almas possuídas do ideal.
Criança, tinha sofrido todas as tristezas incisivas da escola, espécie de prólogo chorado sobre a tragicomédia humana: mais tarde, nos positivismos da família, tinha sentido aquela luta íntima do ideal e do real, que deixa no espírito eternas feridas, que sangram e que alumiam. Depois, tinha vivido, escuramente, no pequeno jornalismo, caricatura fluida da vida cerebral, e ali tinha sofrido a intriga, a difamação, o escárnio e a fome. Muito tempo o seu corpo chorou pelo calor e pelo repouso, como a sua alma chorava pelo ideal e pela fé.
Hoje entre esta geração sonolenta, noturna, inútil e fraca, homens entorpecidos pela retórica, pelos textos, pelas regras, que petrificam as livres palpitações do ser, que passam um traço negro sobre o ideal, que são os fechos da Bíblia humana…
Existe sobretudo em Nova Iorque, Paris, Londres e Sampetersburgo. É o último resultado das civilizações violentas. Aqui está traçado arrebatadamente, à maneira das pinturas de Goya. No entanto existe, idiota e inofensivo, e sobretudo inofensivo, sacristães da arte e os glorificadores de toda a víscera morta — ele, Estevão Basco, é o único que, voltado contemplativamente para as augustas claridades da ciência da arte, concentrado como um solitário antigo, vivendo pelo verdadeiro e pelo belo, vai lentamente, com dores resistentes, levando os entendimentos para o útil, para o justo, para o verdadeiro e para o racional.
Leu-me os seus estudos sobre a história e sobre a arte. E um livro poderoso e cheio de vida. Combate os petrificadores conservadores da história, cujo intento é imobilizar nos arquivos as atitudes superficiais dos reis e das cortes. Ele quer que a história seja a reconstrução da alma do passado, uma ressurreição humana. Não podem bastar à consciência crescente do homem as crônicas escassas e concisas de batalhas de diplomacias, de aparatos e de vingança. Estevão Basco pensa que, há muito, na história se tem afastado sempre para os últimos planos a grande figura do povo: e é ele, a sua alma ambiciosa e progressiva, as suas livres palpitações, as suas transfigurações e as suas misérias, que a história deve surpreender, através das literaturas e da arte. Sob este ponto de vista ele aceita na arte todas as escolas, ou manifestações de uma tendência espiritual, ou expressão de um estado de animalidade e de materialismo, ou resultado de uma doença idealista e nervosa (1830) — logo que eles representem fielmente a sua época e sejam os documentos das almas extintas. Lerás em breve este livro eloquente: provam-se as últimas folhas.
Mas o que fará a sua voz, cheia de equidade que lhe enche o peito neste tempo de instintos animais e de consciências fluidas?
Felizmente, a sua alma tem ficado pura e isolada na torre de marfim do ideal, no meio desta vida moderna, e as sacerdotisas do luxo e todos os errantes da ambição. E ele afasta-se sempre de todo este movimento sonoro e coberto de luz, onde há o vago rir descorado, a retórica da graça e a largura das saias e das consciências, para ir pensar, só, no silêncio da alma, na família, na maternidade, no sossego, e naquela união do homem e da mulher, limitada e divina — em que ambos estendem a alma sobre o mundo, para Deus passar por cima! Não te lembras daquelas estampas alemãs em que os pares silenciosos, que parecem ter a loucura elegíaca do amor, enquanto a quermesse ruge nos primeiros planos, se afastam e se perdem no fundo indefinido da folhagem — para se irem sentar à sombra do cruzeiro? Assim é ele. Estevão Basco todavia, na sua serenidade superior não faz a sátira do luxo e da meiga farsa dos estofos e das pedrarias. Ele, o grande obreiro desperto das ideias, apenas se ri alegremente dos dormentes do luxo. Síbaris nunca conseguiu mais do que provocar o riso protetor de Esparta.
Para ele, não vale nada, como sintoma, este triunfo estéril e momentâneo do luxo.
Segundo ele, o luxo audacioso, violento, bárbaro, idiota, é apenas um pequeno desmentido grosseiro, dado à alma, tão risível como a vaidade de um sportman que quisesse raspar Deus da Bíblia.
Dizia-me ele que as saias das mulheres não podem, como receiam os juvenais da caricatura, ser o prólogo de uma decadência. Os sintomas das transformações espirituais não podem partir dos jornais de modas. Graças a Deus, um figurino ainda não é o cartaz de uma revolução. Existe sim um luxo animal, um apodrecimento calculado de tudo o que é Justiça e Beleza — mas isto é apenas uma doença da forma. A serenidade justa da alma nada tem com as pequenas borbulhas que vêm à pele. São furúnculos que se curam pela supuração. A bela saúde vital permanece na sua pureza e na sua força. E segundo Estevão Basco nada pode haver mais risível e mais inofensivo do que as tiranias que se vestem à militar, ou as decadências que se vestem à Benoiton.
E todavia Estevão Basco odeia aquelas mulheres, sem eletricidade e sem magnetismo, inertes e materiais, pendidas na fadiga trivial do aparato, que foram anuladas pelo luxo, cobertas da cabeça aos pés por um vestuário — epitáfio da graça.
Receio mais as tabuinhas do seu leque, disse-me ele, do que as grandes tábuas do esquife. Porque enfim, morrer é dissolver, é transformar-se: e transformar-se é ainda viver, ter seiva, força, sol e consciência. Mas prender-se a uma daquelas mulheres é assistir em roda de si à queda dolorosa e ao desvanecimento dos nossos sentimentos, das nossas ambições espirituais, das nossas ideias, das nossas criações. O seu amor é como uma mortalha: colada ao corpo, deixa ainda pressentir que a forma existe, e manifesta que a alma se dissipou. Diante destas mulheres, disse ele, sinto que em lugar do coração se me vem colocar um pedaço de cérebro. Evito-as. Não quero dar aos meus olhos o hábito da nódoa. Não quero que elas me esfarrapem a alma para fazer mortalhas às suas consciências. Assim diz. Realmente naquele olhar cheio de Natureza não fazem falta os rostos pintados. Naquela alma povoada de Deus, não fazem falta os figurinos.”
A terceira cana que eu abro para copiar, já triste, é de Jacques, um pobre artista, escultor medíocre, imitador dos gregos, que diz descaradamente os fatos desta história miserável:
“Estamos ainda surpreendidos, meu amigo, pelo desenlace desta farsa humana.
Estevão Basco tinha conhecido numa igreja Onfália Benoiton. Cantava-se o Requiem de Mozart. Era um ofício clerical em dia de mortos. Tinha sido dominado por aquela beleza escultural e nervosa, toda coberta de preto. Depois encontraram-se numa daquelas festas em que sempre me pareceu que as camélias, flores do tédio, olham idiotamente, sem alma, para as inquietações soluçantes do gás. Estevão Basco numa sala distante da multidão magnética das mulheres, fazia a sátira dos penteados disformes, das caudas e das cintas modernas onde pendem argolas. Estava com o escritor Sérgio, com o antiquário Salinas, com Sarça o cinzelador. Onfália Benoiton, que tinha escutado, pediu-lhe que lhe escrevesse uma palavra na vara branca do leque.
Estevão escreveu:
Oh, Satã tenebroso, trágico fulminado, Tu vencerás em mim o íntimo Deus bom, Não com as armas bíblicas com que bateste outros: Mas vindo unicamente vestido à Benoiton!
Onfália levou-o pelo braço para as iluminações feéricas, para a ação elétrica dos espelhos, para a claridade magnética dos ombros nus, transformou-o com as suas exalações lânguidas, com as irradiações doentias do olhar, com aquela essência nervosa dos seus cabelos falsos, que deviam ser mais macios ao contato que a pura plumagem da cabeça das rolas. Onfália Benoiton, com aquela voz abafada e velada que ela tem às vezes, que parece que lhe estão dando beijos no coração, disse a Estevão Basco que lhe limpasse o vestido, enlameado nas ruas do jardim. Estevão limpou o pó, a umidade e a lama!
Desde então, Estevão Basco tirou lentamente da alma, uma a uma, as santas ideias castas, a Justiça, a Beleza, a Razão, a Honra, para dar lugar à imagem coberta de sedas e de cabelos mortos de Onfália Benoiton.
Estevão, com o seu trabalho severo e robusto, dava o pão a três irmãs puríssimas e a sua mãe, velha, doente, triste, meia desvanecida em Deus.
As doces raparigas, meigas e delicadas, como as mais lindas virgens de ouro fino. Este tipo infelizmente não existe em Portugal. Devemos lamentar esta inferioridade absoluta.
Existe em Paris, em Berlim, na Itália, na Irlanda. É a última salvação das decadências. Aqui está traçado transparentemente à maneira de Ary Scheffer. No entanto existe, sublime e criador — sobretudo criador, que se pintavam nos livros de legendas, tinham vestidos de cassa, e todo o dia trabalhavam nos seus castos paraísos, cheias das vozes dos canários. Ele passeava sempre com elas, nas alamedas silenciosas, como os antigos sábios das gravuras flamengas. Desde então Estevão Basco nunca mais passeou nas alamedas. Desamparou a casa, a família e a alcova cheia da celebração do estudo. Perdido entre as despesas do luxo deixou ao abandono a mãe e as três irmãs. Não havia dinheiro em casa.
Elas, as tristes silenciosas, bordavam, costuravam, vendiam ramos aos floristas.
No Inverno não havia lume. Nem sempre havia pão. Roxas de frio, esfomeadas, cosiam e choravam. Foram viver para uma trapeira, batida do vento e da chuva. Ali morreu a mãe, aquela doce alma dolorosa, numa tarde, ao escurecer. O Sol talvez, ao ir-se, levou aquela alma por engano, como uma pureza e uma virtude da sua luz. Ninguém tão amante, tão triste e tão casta. Foi enterrada no cemitério, entre a erva comum, com uma cruz. Talvez agora sobre aquela cruz cantem rouxinóis.
As raparigas tinham cabelos magníficos, indomáveis e compridos: venderam os seus cabelos. Estevão, com Onfália Benoiton, errava pelas óperas, pelos casinos, pelas salas, entre as sedas, os tules e as festas. Renegou as fortes e sãs amizades do estudo e da ciência. O seu jornal acabou desamparado e espoliado. Fez contratos terríveis com os editores para livros futuros de crítica e de moral. Mas não escrevia, não pensava, não vivia pelo espírito.
Enfim casou com Onfália Benoiton. Tiveram dois anos carnais e contentes. Por fim, ele tinha assinado letras, foi penhorado nas mobílias. Voltou ao pequeno jornalismo. Criou uma folha de difamação. Insultava a tanto por linha. Veio-lhe à alma a esterilidade. Embranqueceram-lhe os cabelos. Onfália Benoiton andava de noite com um vestido de chita. Estevão, esmagado, desesperado, vendeu-se de corpo e de alma a um jogador terrível — Mincoso. Roubou. Voltaram os magnetismos do luxo. Onfália namorou-se do cinzelador Sarça, espírito frio e retórico. Depois deu- se ao tenor Vidalleti.
Estevão soube. Tinha um materialismo sem dignidade. Comprou- lhe a fidelidade com vestidos. Estevão dava o vestido: ela cedia o homem. Voltou a miséria. A casa de jogo foi dispersa pela polícia. Veio a fome. Estevão escrevia cantigas obscenas para um editor de almanaques imbecis e infames. Um dia encontrou Onfália com um saltimbanco. O saltimbanco atirou-lhe dinheiro. Estevão contou-o e saiu assobiando.
Um dia encontrou a irmã que era florista e tinha casado com um homem trigueiro do trabalho, alma sã e vivificadora como o Sol. Estevão pediu-lhe para pão. “Tu não me desprezas ao menos, não é verdade?”, disse ele. A irmã olhou-o tristemente. “Não é verdade que me não desprezas?” — “Muitíssimo”, disse ela. Onfália Benoiton fugiu com o jogador Mincoso. Estevão foi viver para uma trapeira, com um coveiro e com um palhaço. Adoeceu. Durante a febre o coveiro cosia os seus botões, cantando o ofício dos mortos: o palhaço para estudar os saltos pulava por cima da enxerga de Estevão. Ele tinha então uma amante, corista de um casino. Ela ia todos os dias dar-lhe um caldo. O coveiro e o saltimbanco às vezes não vinham à trapeira durante dias. Uma dessas vezes a corista não veio. Estevão tinha sede. Chamou. A água estava em cima de um vão do telhado, numa bilha. Ele chorava de febre, de sede e de tristeza. Anoiteceu.
No pátio da casa havia uma laranjeira. De noite, no silêncio, ele ouviu cantar um rouxinol. Teve a visão da sua vida de estudo e de serenidade. Chorava de sede. Ergueu-se tremendo e arrastou-se: no primeiro degrau da escada do vão, caiu. O sangue caía-lhe da testa e entrava-lhe na boca, com as lágrimas. Ao outro dia estava quase a expirar.
Melhorou todavia. Andou pedindo de porta em porta, com os antigos orgulhos, que lhe dessem o pão do trabalho. Ninguém lhe deu nada.
Um dia encontrou um dos antigos camaradas das festas, a cavalo com outros. O camarada do luxo veio para ele e atirando-lhe o chapéu ao chão, com a ponta do chicote: “Estás calvo, pobre homem”, disse, rindo. “Tens tu fome?” — “És bem curioso”, disse Estevão voltando as costas, sereno. E foi-se, assobiando.
A corista levou-o para o teatro. Ganhava ali o pão, fazendo de urso numa mágica.
Caíram-lhe os dentes. Andava roto, com a barba crescida, lívido, e um casaco preto, diáfano, lustroso, colado à magreza do corpo.
Conheceu então uma linda rapariga de treze anos, clara e loura, que pedia na rua.
Estevão deu-lhe um lugar na trapeira. Tomou-lhe um lugar puro e todo paterno. Para se embrutecer começou a beber aguardente. Tinha a vista debilitada, trazia uns óculos escuros; tinha feridas nos ouvidos e trazia-os cheios de algodão. Vivia fazendo cantigas grosseiras, para o velho editor dos almanaques. A rapariguinha adoeceu. Era a fome, a miséria e a febre. Ele velava junto dela, triste, chorando, e compondo os versos imundos.
À rapariga piorava. Tremia de frio na enxerga. Ele procurava aquecê-la com o hálito: a pobre miserável, que tinha ainda a sensibilidade e o olfato, fugia com o rosto, porque o hálito era mau. A rapariga morreu.
Nesse dia ele tinha bebido longamente na taverna. Quando subiu à trapeira e viu a triste, inerte, fria e hirta, deu com a ponta do pé no corpo inanimado, gritando: “Pouch! coisa morta!” Passado pouco tempo voltou-lhe a consciência da vida. Caiu numa tristeza dolorosa. Veio-lhe uma saudade profunda da rapariga, morta na trapeira. Ia vê-la ao cemitério, à vala dos pobres onde ela estava. Como ela não gostava que ele bebesse, e ele se lembrava das lágrimas dela, não voltou às tavernas de noite.
Ia levar rosas e rainúnculos ao cemitério, ao lugar onde ela apodrecia debaixo da erva. Era necessário tirá-lo com violência. Chorava pela fome que ela tinha tido, pelo frio com que ele tinha estremecido.
Ficava junto do muro do cemitério, de noite, ajoelhado, perdido numa saudade imensa como a noite e mais doce que a Lua.
Dormia pelos adros e pelos portais. Tinha um companheiro, um cão, com quem se embrulhava na mesma manta. O cão morreu. Ele adoeceu e foi recolhido ao hospital.
Ali não era o escritor Estevão Basco, era o nº 27 da sala de Santo Amaro. Uma madrugada, teve um estremecimento e morreu. Ao outro dia de tarde foi levado para a vala dos pobres numa tumba da Misericórdia.”
As canas que contam essa história de martírios reais e de falsas glorificações, tenho eu a alegria mefistofélica e bárbara de as copiar aqui.
A primeira carta assinada unicamente por uma letra — Z. — é o documento incisivo e lúcido da Sra. Onfália Benoiton. É assim:
“A Sra. Onfália Benoiton, meu caro, é descendente das belezas gregas. Mesma materialidade de forma correta e fria. Somente as mulheres gregas eram musas, cantavam nos festins ao modo jônio, coroadas de mirtos; discutiam com os sábios e com os filósofos, celebravam com as túnicas soltas as Elêusis de Baco, edificavam cidades, eram os modelos da arte e a inspiração dos tiranos. E a Sra. Onfália Benoiton, com os seus vestuários onde há uma provocação especuladora, as suas atitudes masculinas, os penteados disformes que lhe dão uma aparência de animalidade audaz, com a sua pele colorida, acumulações da sua vida de fadiga trivial e de aparato sonolento, lembra uma daquelas Vênus de corpos harmônicos, que depois de ter atravessado este exílio moderno, a velhice, a miséria, e o vício imbecil — se vestisse de roupas bárbaras e grotescas, para parecer ainda, de longe, à luz soluçante do gás, um ídolo material — aos idiotas!
A Sra. Onfália Benoiton é um pouco magra e nervosa. E um corpo alto, coberto de estofos, pedestal de um crânio vazio. As suas formas, dignas talvez do biscuit, sem contorno inteligente e espiritual, não conseguem encobrir o lodo primitivo. Nenhuma ideia nas atitudes e nos gestos: só a retórica da futilidade. Tem uma graça oficial; compõe um olhar com o mesmo trabalho compassado e métrico com que um poeta arcádico cinzela um verso. Tem sempre a pele admiravelmente colorida: tem o segredo do rosado da face casta e transparente.
Desenha as sobrancelhas com a delicadeza de um artista chinês. Põe em redor do olhar uma cor de sépia ligeira semelhando a fadiga, invejável para uma imagem de Impéria ou de Vinon.
A sua fisionomia bela e trivial tem a vaga intenção das aves de rapina. Toma umas atitudes de tédio e de indolência, semelhantes às que têm os viciosos de absinto.
Caminha com o seio erguido, com a pompa de quem arrasta atrás de si toda a atmosfera e o ar de todos os peitos. Dança com os movimentos melodiosos que teria Juno se tivesse passado dois séculos a frequentar os casinos. Tem uma bela fragilidade muscular, um apetite vasto e um amor cálido das bebidas. As indústrias têm maculado aquele corpo: o gás amoleceu-lhe o olhar, os espartilhos de Birmingham desvaneceram-lhe o modo feminino. Pelo materialismo idiota é muito inferior aos ídolos egípcios, pela originalidade risível do vestuário superior às caricaturas chinesas.
É toda a síntese do nosso tempo: é a entrevista grotesca dos erros modernos. O olhar metálico é o símbolo do dinheiro. A boca é nervosa e móbil, os dentes acerados e de um branco morto: é a difamação, a intriga, a palavra fútil que corrói as construções da alma.
A mão delgada, flexível, magra, adunca, significa a agiotagem, o materialismo avaro e covarde.
Onfália Benoiton é a tragicomédia da afetação e da vaidade. Para modelar a sua alma seria necessário inventar uma lama. Colocada inferiormente, prende-se a todas as ideias oficiais, aristocracia, realeza, elegância, moda, com a mesma insistência violenta e vaidosa com o que o pó se prende ao veludo.
Tem uma maneira insultante e vã de fazer os seus vestuários — de tal sorte que o seu chignon parece uma carranca feita ao céu, e as suas caudas beijos dados à lama. A sua existência é pintar-se, fazer- se, trocar friamente recepções e diálogos, transfigurar o vestuário numa celebração misteriosa, decorar a comédia das modas, passear ostentosamente, errar pelas óperas, pelos casinos, pelos saltimbancos, dançar, envolver-se no combate da beleza e da seda, dar-se à fadiga dissolvente do lucro. Eu pôr-lhe-ia por epitáfio: Aqui jaz o ruído de um bocejo.
Tem todos os prejuízos do seu tempo. Tem o espírito das pequenas maquinações femininas, das ironias dolorosas, dos escárnios inteligentes. Adora os romances dramáticos de sangue, pelo mesmo motivo por que as damas romanas aplaudiam a morte dos gladiadores. Todos os dias as suas belezas lhe dizem: “Oh Cesaréia, os que vão morrer saúdam-te!” Prefere Leotard a Shakespeare — isto contém um caráter.
Copia o modo de falar das atrizes. Há só uma coisa que a distrai de admirar os saltimbancos, é ter de pensar na libré dos lacaios.
Para ela a Natureza é uma decoração; a alma uma impertinência dos pobres; o cemitério uma infâmia de Deus.
Assim vive na comédia do luxo, radiosa, contente, idiota, desfolhando o corpo, pensando nos vestuários, criando enfeites, até que Deus, por entre as névoas do cemitério, lhe mostre o último figurino, o supremo adorno sinistro — a mortalha à Benoiton!
A segunda carta, escrita por A., o melhor de nós todos, espírito criador e lógico, fala largamente do escritor Estevão Basco:
“Estive ontem”, dizia a carta de A., “com Estevão Basco. É uma alma justa e sã, mas tímida e apaixonada, forte para o sacrifício, cheia de nobres morais latinas, mas idealista e nervosa, tendo assim toda a antiga virtude estoica com muitos dos dolorosos erros modernos.
Este homem, antes que os seus livros fossem comentados e estudados, antes de ser a voz alta e sensata para que correm todos os espíritos novos, como para a lição visível das almas, antes de ter o seu jornal incisivo, livre, cheio de pensamentos e de revelações — teve uma existência de miséria, numa trapeira, sem sol, sem repouso, sem amizades purificadoras. Sentiu, uma a uma, as sete dores que a vida costuma cravar nas almas possuídas do ideal.
Criança, tinha sofrido todas as tristezas incisivas da escola, espécie de prólogo chorado sobre a tragicomédia humana: mais tarde, nos positivismos da família, tinha sentido aquela luta íntima do ideal e do real, que deixa no espírito eternas feridas, que sangram e que alumiam. Depois, tinha vivido, escuramente, no pequeno jornalismo, caricatura fluida da vida cerebral, e ali tinha sofrido a intriga, a difamação, o escárnio e a fome. Muito tempo o seu corpo chorou pelo calor e pelo repouso, como a sua alma chorava pelo ideal e pela fé.
Hoje entre esta geração sonolenta, noturna, inútil e fraca, homens entorpecidos pela retórica, pelos textos, pelas regras, que petrificam as livres palpitações do ser, que passam um traço negro sobre o ideal, que são os fechos da Bíblia humana…
Existe sobretudo em Nova Iorque, Paris, Londres e Sampetersburgo. É o último resultado das civilizações violentas. Aqui está traçado arrebatadamente, à maneira das pinturas de Goya. No entanto existe, idiota e inofensivo, e sobretudo inofensivo, sacristães da arte e os glorificadores de toda a víscera morta — ele, Estevão Basco, é o único que, voltado contemplativamente para as augustas claridades da ciência da arte, concentrado como um solitário antigo, vivendo pelo verdadeiro e pelo belo, vai lentamente, com dores resistentes, levando os entendimentos para o útil, para o justo, para o verdadeiro e para o racional.
Leu-me os seus estudos sobre a história e sobre a arte. E um livro poderoso e cheio de vida. Combate os petrificadores conservadores da história, cujo intento é imobilizar nos arquivos as atitudes superficiais dos reis e das cortes. Ele quer que a história seja a reconstrução da alma do passado, uma ressurreição humana. Não podem bastar à consciência crescente do homem as crônicas escassas e concisas de batalhas de diplomacias, de aparatos e de vingança. Estevão Basco pensa que, há muito, na história se tem afastado sempre para os últimos planos a grande figura do povo: e é ele, a sua alma ambiciosa e progressiva, as suas livres palpitações, as suas transfigurações e as suas misérias, que a história deve surpreender, através das literaturas e da arte. Sob este ponto de vista ele aceita na arte todas as escolas, ou manifestações de uma tendência espiritual, ou expressão de um estado de animalidade e de materialismo, ou resultado de uma doença idealista e nervosa (1830) — logo que eles representem fielmente a sua época e sejam os documentos das almas extintas. Lerás em breve este livro eloquente: provam-se as últimas folhas.
Mas o que fará a sua voz, cheia de equidade que lhe enche o peito neste tempo de instintos animais e de consciências fluidas?
Felizmente, a sua alma tem ficado pura e isolada na torre de marfim do ideal, no meio desta vida moderna, e as sacerdotisas do luxo e todos os errantes da ambição. E ele afasta-se sempre de todo este movimento sonoro e coberto de luz, onde há o vago rir descorado, a retórica da graça e a largura das saias e das consciências, para ir pensar, só, no silêncio da alma, na família, na maternidade, no sossego, e naquela união do homem e da mulher, limitada e divina — em que ambos estendem a alma sobre o mundo, para Deus passar por cima! Não te lembras daquelas estampas alemãs em que os pares silenciosos, que parecem ter a loucura elegíaca do amor, enquanto a quermesse ruge nos primeiros planos, se afastam e se perdem no fundo indefinido da folhagem — para se irem sentar à sombra do cruzeiro? Assim é ele. Estevão Basco todavia, na sua serenidade superior não faz a sátira do luxo e da meiga farsa dos estofos e das pedrarias. Ele, o grande obreiro desperto das ideias, apenas se ri alegremente dos dormentes do luxo. Síbaris nunca conseguiu mais do que provocar o riso protetor de Esparta.
Para ele, não vale nada, como sintoma, este triunfo estéril e momentâneo do luxo.
Segundo ele, o luxo audacioso, violento, bárbaro, idiota, é apenas um pequeno desmentido grosseiro, dado à alma, tão risível como a vaidade de um sportman que quisesse raspar Deus da Bíblia.
Dizia-me ele que as saias das mulheres não podem, como receiam os juvenais da caricatura, ser o prólogo de uma decadência. Os sintomas das transformações espirituais não podem partir dos jornais de modas. Graças a Deus, um figurino ainda não é o cartaz de uma revolução. Existe sim um luxo animal, um apodrecimento calculado de tudo o que é Justiça e Beleza — mas isto é apenas uma doença da forma. A serenidade justa da alma nada tem com as pequenas borbulhas que vêm à pele. São furúnculos que se curam pela supuração. A bela saúde vital permanece na sua pureza e na sua força. E segundo Estevão Basco nada pode haver mais risível e mais inofensivo do que as tiranias que se vestem à militar, ou as decadências que se vestem à Benoiton.
E todavia Estevão Basco odeia aquelas mulheres, sem eletricidade e sem magnetismo, inertes e materiais, pendidas na fadiga trivial do aparato, que foram anuladas pelo luxo, cobertas da cabeça aos pés por um vestuário — epitáfio da graça.
Receio mais as tabuinhas do seu leque, disse-me ele, do que as grandes tábuas do esquife. Porque enfim, morrer é dissolver, é transformar-se: e transformar-se é ainda viver, ter seiva, força, sol e consciência. Mas prender-se a uma daquelas mulheres é assistir em roda de si à queda dolorosa e ao desvanecimento dos nossos sentimentos, das nossas ambições espirituais, das nossas ideias, das nossas criações. O seu amor é como uma mortalha: colada ao corpo, deixa ainda pressentir que a forma existe, e manifesta que a alma se dissipou. Diante destas mulheres, disse ele, sinto que em lugar do coração se me vem colocar um pedaço de cérebro. Evito-as. Não quero dar aos meus olhos o hábito da nódoa. Não quero que elas me esfarrapem a alma para fazer mortalhas às suas consciências. Assim diz. Realmente naquele olhar cheio de Natureza não fazem falta os rostos pintados. Naquela alma povoada de Deus, não fazem falta os figurinos.”
A terceira cana que eu abro para copiar, já triste, é de Jacques, um pobre artista, escultor medíocre, imitador dos gregos, que diz descaradamente os fatos desta história miserável:
“Estamos ainda surpreendidos, meu amigo, pelo desenlace desta farsa humana.
Estevão Basco tinha conhecido numa igreja Onfália Benoiton. Cantava-se o Requiem de Mozart. Era um ofício clerical em dia de mortos. Tinha sido dominado por aquela beleza escultural e nervosa, toda coberta de preto. Depois encontraram-se numa daquelas festas em que sempre me pareceu que as camélias, flores do tédio, olham idiotamente, sem alma, para as inquietações soluçantes do gás. Estevão Basco numa sala distante da multidão magnética das mulheres, fazia a sátira dos penteados disformes, das caudas e das cintas modernas onde pendem argolas. Estava com o escritor Sérgio, com o antiquário Salinas, com Sarça o cinzelador. Onfália Benoiton, que tinha escutado, pediu-lhe que lhe escrevesse uma palavra na vara branca do leque.
Estevão escreveu:
Oh, Satã tenebroso, trágico fulminado, Tu vencerás em mim o íntimo Deus bom, Não com as armas bíblicas com que bateste outros: Mas vindo unicamente vestido à Benoiton!
Onfália levou-o pelo braço para as iluminações feéricas, para a ação elétrica dos espelhos, para a claridade magnética dos ombros nus, transformou-o com as suas exalações lânguidas, com as irradiações doentias do olhar, com aquela essência nervosa dos seus cabelos falsos, que deviam ser mais macios ao contato que a pura plumagem da cabeça das rolas. Onfália Benoiton, com aquela voz abafada e velada que ela tem às vezes, que parece que lhe estão dando beijos no coração, disse a Estevão Basco que lhe limpasse o vestido, enlameado nas ruas do jardim. Estevão limpou o pó, a umidade e a lama!
Desde então, Estevão Basco tirou lentamente da alma, uma a uma, as santas ideias castas, a Justiça, a Beleza, a Razão, a Honra, para dar lugar à imagem coberta de sedas e de cabelos mortos de Onfália Benoiton.
Estevão, com o seu trabalho severo e robusto, dava o pão a três irmãs puríssimas e a sua mãe, velha, doente, triste, meia desvanecida em Deus.
As doces raparigas, meigas e delicadas, como as mais lindas virgens de ouro fino. Este tipo infelizmente não existe em Portugal. Devemos lamentar esta inferioridade absoluta.
Existe em Paris, em Berlim, na Itália, na Irlanda. É a última salvação das decadências. Aqui está traçado transparentemente à maneira de Ary Scheffer. No entanto existe, sublime e criador — sobretudo criador, que se pintavam nos livros de legendas, tinham vestidos de cassa, e todo o dia trabalhavam nos seus castos paraísos, cheias das vozes dos canários. Ele passeava sempre com elas, nas alamedas silenciosas, como os antigos sábios das gravuras flamengas. Desde então Estevão Basco nunca mais passeou nas alamedas. Desamparou a casa, a família e a alcova cheia da celebração do estudo. Perdido entre as despesas do luxo deixou ao abandono a mãe e as três irmãs. Não havia dinheiro em casa.
Elas, as tristes silenciosas, bordavam, costuravam, vendiam ramos aos floristas.
No Inverno não havia lume. Nem sempre havia pão. Roxas de frio, esfomeadas, cosiam e choravam. Foram viver para uma trapeira, batida do vento e da chuva. Ali morreu a mãe, aquela doce alma dolorosa, numa tarde, ao escurecer. O Sol talvez, ao ir-se, levou aquela alma por engano, como uma pureza e uma virtude da sua luz. Ninguém tão amante, tão triste e tão casta. Foi enterrada no cemitério, entre a erva comum, com uma cruz. Talvez agora sobre aquela cruz cantem rouxinóis.
As raparigas tinham cabelos magníficos, indomáveis e compridos: venderam os seus cabelos. Estevão, com Onfália Benoiton, errava pelas óperas, pelos casinos, pelas salas, entre as sedas, os tules e as festas. Renegou as fortes e sãs amizades do estudo e da ciência. O seu jornal acabou desamparado e espoliado. Fez contratos terríveis com os editores para livros futuros de crítica e de moral. Mas não escrevia, não pensava, não vivia pelo espírito.
Enfim casou com Onfália Benoiton. Tiveram dois anos carnais e contentes. Por fim, ele tinha assinado letras, foi penhorado nas mobílias. Voltou ao pequeno jornalismo. Criou uma folha de difamação. Insultava a tanto por linha. Veio-lhe à alma a esterilidade. Embranqueceram-lhe os cabelos. Onfália Benoiton andava de noite com um vestido de chita. Estevão, esmagado, desesperado, vendeu-se de corpo e de alma a um jogador terrível — Mincoso. Roubou. Voltaram os magnetismos do luxo. Onfália namorou-se do cinzelador Sarça, espírito frio e retórico. Depois deu- se ao tenor Vidalleti.
Estevão soube. Tinha um materialismo sem dignidade. Comprou- lhe a fidelidade com vestidos. Estevão dava o vestido: ela cedia o homem. Voltou a miséria. A casa de jogo foi dispersa pela polícia. Veio a fome. Estevão escrevia cantigas obscenas para um editor de almanaques imbecis e infames. Um dia encontrou Onfália com um saltimbanco. O saltimbanco atirou-lhe dinheiro. Estevão contou-o e saiu assobiando.
Um dia encontrou a irmã que era florista e tinha casado com um homem trigueiro do trabalho, alma sã e vivificadora como o Sol. Estevão pediu-lhe para pão. “Tu não me desprezas ao menos, não é verdade?”, disse ele. A irmã olhou-o tristemente. “Não é verdade que me não desprezas?” — “Muitíssimo”, disse ela. Onfália Benoiton fugiu com o jogador Mincoso. Estevão foi viver para uma trapeira, com um coveiro e com um palhaço. Adoeceu. Durante a febre o coveiro cosia os seus botões, cantando o ofício dos mortos: o palhaço para estudar os saltos pulava por cima da enxerga de Estevão. Ele tinha então uma amante, corista de um casino. Ela ia todos os dias dar-lhe um caldo. O coveiro e o saltimbanco às vezes não vinham à trapeira durante dias. Uma dessas vezes a corista não veio. Estevão tinha sede. Chamou. A água estava em cima de um vão do telhado, numa bilha. Ele chorava de febre, de sede e de tristeza. Anoiteceu.
No pátio da casa havia uma laranjeira. De noite, no silêncio, ele ouviu cantar um rouxinol. Teve a visão da sua vida de estudo e de serenidade. Chorava de sede. Ergueu-se tremendo e arrastou-se: no primeiro degrau da escada do vão, caiu. O sangue caía-lhe da testa e entrava-lhe na boca, com as lágrimas. Ao outro dia estava quase a expirar.
Melhorou todavia. Andou pedindo de porta em porta, com os antigos orgulhos, que lhe dessem o pão do trabalho. Ninguém lhe deu nada.
Um dia encontrou um dos antigos camaradas das festas, a cavalo com outros. O camarada do luxo veio para ele e atirando-lhe o chapéu ao chão, com a ponta do chicote: “Estás calvo, pobre homem”, disse, rindo. “Tens tu fome?” — “És bem curioso”, disse Estevão voltando as costas, sereno. E foi-se, assobiando.
A corista levou-o para o teatro. Ganhava ali o pão, fazendo de urso numa mágica.
Caíram-lhe os dentes. Andava roto, com a barba crescida, lívido, e um casaco preto, diáfano, lustroso, colado à magreza do corpo.
Conheceu então uma linda rapariga de treze anos, clara e loura, que pedia na rua.
Estevão deu-lhe um lugar na trapeira. Tomou-lhe um lugar puro e todo paterno. Para se embrutecer começou a beber aguardente. Tinha a vista debilitada, trazia uns óculos escuros; tinha feridas nos ouvidos e trazia-os cheios de algodão. Vivia fazendo cantigas grosseiras, para o velho editor dos almanaques. A rapariguinha adoeceu. Era a fome, a miséria e a febre. Ele velava junto dela, triste, chorando, e compondo os versos imundos.
À rapariga piorava. Tremia de frio na enxerga. Ele procurava aquecê-la com o hálito: a pobre miserável, que tinha ainda a sensibilidade e o olfato, fugia com o rosto, porque o hálito era mau. A rapariga morreu.
Nesse dia ele tinha bebido longamente na taverna. Quando subiu à trapeira e viu a triste, inerte, fria e hirta, deu com a ponta do pé no corpo inanimado, gritando: “Pouch! coisa morta!” Passado pouco tempo voltou-lhe a consciência da vida. Caiu numa tristeza dolorosa. Veio-lhe uma saudade profunda da rapariga, morta na trapeira. Ia vê-la ao cemitério, à vala dos pobres onde ela estava. Como ela não gostava que ele bebesse, e ele se lembrava das lágrimas dela, não voltou às tavernas de noite.
Ia levar rosas e rainúnculos ao cemitério, ao lugar onde ela apodrecia debaixo da erva. Era necessário tirá-lo com violência. Chorava pela fome que ela tinha tido, pelo frio com que ele tinha estremecido.
Ficava junto do muro do cemitério, de noite, ajoelhado, perdido numa saudade imensa como a noite e mais doce que a Lua.
Dormia pelos adros e pelos portais. Tinha um companheiro, um cão, com quem se embrulhava na mesma manta. O cão morreu. Ele adoeceu e foi recolhido ao hospital.
Ali não era o escritor Estevão Basco, era o nº 27 da sala de Santo Amaro. Uma madrugada, teve um estremecimento e morreu. Ao outro dia de tarde foi levado para a vala dos pobres numa tumba da Misericórdia.”
Eça de Queiroz
Moro aqui
Ando pela grama, meto o pé na poça e sinto meio água, meio lama entre os dedos. Reconheço onde estou: é onde moro.
Moro numa ladeira inclinada. Em dias de chuva fraca, os carros derrapam na subida; nos de toró, a água desce querendo ser cachoeira. A correnteza é tão forte que nem dá para apostar corrida de palito de sorvete, embora não pareça que a criançada hoje em dia ande interessada nisso. Aqui as moças têm pernas modeladas pelo esforço na subida e o controle na descida.
Vivo a um quarteirão da praia e às vezes ganho uma brisa de presente. No fim de tarde, é hora de visitar a areia ainda quente de sol, desviar dos sargaços e dos siris medrosos que logo se escondem, nem desconfiam que sou de paz. De madrugada, muita gente passa na esquina debaixo da minha janela: um homem canta uma música que ninguém mais canta, amigos riem alto mesmo que a história não tenha graça, e alguns casais brigam tão feio que a gente tem que gritar da janela para apartar.
Aqui existo, entre o poste que já estava quando nasci e essa árvore que cresceu comigo.
Moro na rue Delambre, 26, num apartamento emprestado por um amigo, e posso gastar quinze dólares por dia. Defendo uns trocados tocando violão no metrô. Minha sobrevivência consiste no bandejão do restaurante universitário e o bolinho tailandês na esquina, que deixa um amarelo esverdeado no guardanapo, imagina no estômago.
Balas perdidas cruzam o céu de onde moro à procura de um alvo, de preferência inocente. Às vezes estou no divã, outras na estrada; ora num retiro, ora no meio do sururu que irrompeu no boteco.
Sou morador de um prédio, tenho alguns vizinhos, não toco tuba nem treino sapateado, falo pouco nas reuniões de condomínio (quando vou) e assim espero não estar aborrecendo ninguém. Se um dia precisar de extintor de incêndio, vou ter que procurar porque – agora me dou conta – nunca reparei onde ficam.
Moro numa espuma de cerveja, num córrego de águas frias, numa conversa com quem nem conheço. Onde o vento deixou o cisco, uma lonjura onde nem drone alcança. Nos dias limpos, tenho vista comprida, consigo ver longe, até a décima montanha. Depois dela vem o mundo. Moro no porão de uma casa antiga, fumo escondido dos meus pais, o cheiro do cigarro se mistura ao dos móveis e trastes velhos, e não preciso me preocupar com as caranguejeiras, elas estão ocupadas com outras coisas.
Lá onde moro não conheço ninguém, posso ser um canalha, enfiar o dedo no nariz e pintar o cabelo de azul turquesa sem escandalizar a sociedade. Já aqui, conheço tanta gente, que não posso nem tomar um pileque e trançar as pernas que o pessoal vai comentar.
Já morei num lugar frio e escuro, mas isso faz tempo, mudei para as bandas da esperança. Não houve discurso, música ou fogos à minha chegada. Sou morador mais das melancolias, embora busque as alegrias feito um vira-latas. Por isso vivo em tantos lugares, a procura não tem sossego.
Em boa parte do tempo, moro nessa rede com vista para o Cristo, pensando mais nas idas que nas vindas. Durmo, acordo, penso, escrevo, cochilo, acordo, escrevo, não necessariamente nessa ordem. Ano passado, choveu tanajura, esse ano deu pitanga, jabuticaba, teve visitas e os insetos estão estranhamente mais sossegados que o costume.
Moro aqui. Mas, quando me dou conta, o aqui fica lá.
Moro numa ladeira inclinada. Em dias de chuva fraca, os carros derrapam na subida; nos de toró, a água desce querendo ser cachoeira. A correnteza é tão forte que nem dá para apostar corrida de palito de sorvete, embora não pareça que a criançada hoje em dia ande interessada nisso. Aqui as moças têm pernas modeladas pelo esforço na subida e o controle na descida.
Vivo a um quarteirão da praia e às vezes ganho uma brisa de presente. No fim de tarde, é hora de visitar a areia ainda quente de sol, desviar dos sargaços e dos siris medrosos que logo se escondem, nem desconfiam que sou de paz. De madrugada, muita gente passa na esquina debaixo da minha janela: um homem canta uma música que ninguém mais canta, amigos riem alto mesmo que a história não tenha graça, e alguns casais brigam tão feio que a gente tem que gritar da janela para apartar.
Aqui existo, entre o poste que já estava quando nasci e essa árvore que cresceu comigo.
Moro na rue Delambre, 26, num apartamento emprestado por um amigo, e posso gastar quinze dólares por dia. Defendo uns trocados tocando violão no metrô. Minha sobrevivência consiste no bandejão do restaurante universitário e o bolinho tailandês na esquina, que deixa um amarelo esverdeado no guardanapo, imagina no estômago.
Balas perdidas cruzam o céu de onde moro à procura de um alvo, de preferência inocente. Às vezes estou no divã, outras na estrada; ora num retiro, ora no meio do sururu que irrompeu no boteco.
Sou morador de um prédio, tenho alguns vizinhos, não toco tuba nem treino sapateado, falo pouco nas reuniões de condomínio (quando vou) e assim espero não estar aborrecendo ninguém. Se um dia precisar de extintor de incêndio, vou ter que procurar porque – agora me dou conta – nunca reparei onde ficam.
Moro numa espuma de cerveja, num córrego de águas frias, numa conversa com quem nem conheço. Onde o vento deixou o cisco, uma lonjura onde nem drone alcança. Nos dias limpos, tenho vista comprida, consigo ver longe, até a décima montanha. Depois dela vem o mundo. Moro no porão de uma casa antiga, fumo escondido dos meus pais, o cheiro do cigarro se mistura ao dos móveis e trastes velhos, e não preciso me preocupar com as caranguejeiras, elas estão ocupadas com outras coisas.
Lá onde moro não conheço ninguém, posso ser um canalha, enfiar o dedo no nariz e pintar o cabelo de azul turquesa sem escandalizar a sociedade. Já aqui, conheço tanta gente, que não posso nem tomar um pileque e trançar as pernas que o pessoal vai comentar.
Já morei num lugar frio e escuro, mas isso faz tempo, mudei para as bandas da esperança. Não houve discurso, música ou fogos à minha chegada. Sou morador mais das melancolias, embora busque as alegrias feito um vira-latas. Por isso vivo em tantos lugares, a procura não tem sossego.
Em boa parte do tempo, moro nessa rede com vista para o Cristo, pensando mais nas idas que nas vindas. Durmo, acordo, penso, escrevo, cochilo, acordo, escrevo, não necessariamente nessa ordem. Ano passado, choveu tanajura, esse ano deu pitanga, jabuticaba, teve visitas e os insetos estão estranhamente mais sossegados que o costume.
Moro aqui. Mas, quando me dou conta, o aqui fica lá.
Noturno
Volto a cabeça para a montanha
e abandono os pés para o mar.
— Coitado de quem está sozinho
e inventa sonhos com que sonhar!
Minhas tranças descem pela casa abaixo,
entram nas paredes, vão te procurar.
Envolvem teu corpo, beijam-te os ouvidos.
— Querido, querido, devias voltar.
Meus braços caminham pelas ruas quietas:
— caminho de rios, fluidez de luar… —
levam minhas mãos por todo o seu corpo:
— Querido, querido, devias voltar.
Partem os meus olhos, parte a minha boca,
Na noite deserta, ninguém vê passar,
pedaço a pedaço, minha vida inteira,
nem na tua casa me escutam chegar.
Meu quarto vazio só pensa que durmo…
Coitado de quem está sozinho
e assiste o seu próprio sonhar!
e abandono os pés para o mar.
— Coitado de quem está sozinho
e inventa sonhos com que sonhar!
Minhas tranças descem pela casa abaixo,
entram nas paredes, vão te procurar.
Envolvem teu corpo, beijam-te os ouvidos.
— Querido, querido, devias voltar.
Meus braços caminham pelas ruas quietas:
— caminho de rios, fluidez de luar… —
levam minhas mãos por todo o seu corpo:
— Querido, querido, devias voltar.
Partem os meus olhos, parte a minha boca,
Na noite deserta, ninguém vê passar,
pedaço a pedaço, minha vida inteira,
nem na tua casa me escutam chegar.
Meu quarto vazio só pensa que durmo…
Coitado de quem está sozinho
e assiste o seu próprio sonhar!
Cecília Meireles
O rio da cólera
1624 – Cidade do México
A multidão, que cobre toda a praça maior e as ruas vizinhas, lança maldições e pedras ao palácio do vice-rei. As pedradas e os gritos, traidor, ladrão, cachorro, Judas, se arrebentam contra os portais e os portões, fechados a pedra e cal. Os insultos ao vice-rei se misturam com os vivas ao bispo, que o excomungou por ter especulado com o pão desta cidade. Há tempos que o vice-rei vinha estocando todo o milho e o trigo em seus celeiros privados; e assim brinca, a seu bel-prazer, com os preços. A multidão está em brasa. Enforquem ele! Paulada! Matem ele a pauladas! Uns pedem a cabeça do oficial que profanou a igreja, arrastando para fora dela o arcebispo; outros exigem linchar Mejía, testa de ferro do vice-rei em seus negócios; e dois querem fritar em azeite o vice-rei estocador.
Aparecem picaretas, chuços, alabardas; ouvem-se tiros de pistolas e mosquetões. Mãos invisíveis hasteiam o pendão do rei, no teto do palácio, e pedem auxílio os gritos das trombetas; mas ninguém acode para defender o vice-rei encurralado. Os principais do reino fecharam-se em seus palácios e juízes e oficiais escorreram pelos buracos. Nenhum soldado obedece ordens.
As paredes da prisão da esquina não aguentam o ataque. Os presos se incorporam à maré furiosa. Caem os portões do palácio, o fogo devora as portas e a multidão invade os salões, furacão que arranca cortinas, arrebenta baús e devora o que encontra.
O vice rei, disfarçado de frade, fugiu por um túnel secreto, rumo ao convento de São Francisco.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
A multidão, que cobre toda a praça maior e as ruas vizinhas, lança maldições e pedras ao palácio do vice-rei. As pedradas e os gritos, traidor, ladrão, cachorro, Judas, se arrebentam contra os portais e os portões, fechados a pedra e cal. Os insultos ao vice-rei se misturam com os vivas ao bispo, que o excomungou por ter especulado com o pão desta cidade. Há tempos que o vice-rei vinha estocando todo o milho e o trigo em seus celeiros privados; e assim brinca, a seu bel-prazer, com os preços. A multidão está em brasa. Enforquem ele! Paulada! Matem ele a pauladas! Uns pedem a cabeça do oficial que profanou a igreja, arrastando para fora dela o arcebispo; outros exigem linchar Mejía, testa de ferro do vice-rei em seus negócios; e dois querem fritar em azeite o vice-rei estocador.
Aparecem picaretas, chuços, alabardas; ouvem-se tiros de pistolas e mosquetões. Mãos invisíveis hasteiam o pendão do rei, no teto do palácio, e pedem auxílio os gritos das trombetas; mas ninguém acode para defender o vice-rei encurralado. Os principais do reino fecharam-se em seus palácios e juízes e oficiais escorreram pelos buracos. Nenhum soldado obedece ordens.
As paredes da prisão da esquina não aguentam o ataque. Os presos se incorporam à maré furiosa. Caem os portões do palácio, o fogo devora as portas e a multidão invade os salões, furacão que arranca cortinas, arrebenta baús e devora o que encontra.
O vice rei, disfarçado de frade, fugiu por um túnel secreto, rumo ao convento de São Francisco.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
Alandelão de La Patrie
Não entendo aquele que aprecia o boi. Aqui se criava antigamente muito guzerá, que para mim tem a cara de ordinário, mentiroso, criminoso e cínico. Inclusive, a maioria possui olheiras, mostrando que são perversos devassos de pouca confiança. O sujeito que já se viu no pasto, ou mesmo no cercado, na companhia de um guzerá, esse sujeito sabe que não pode virar as costas nem se desprevenir, porque ele pega, e quem ele pega ele não trata com simpatia. De minha parte, que faço outros serviços, tudo muito geral nesta fazenda, o único boi que se dá bem comigo é o boi Bundão, assim mesmo sem essas alegrias todas, porém com bastante sossego, visto o boi holandês ser pela própria natureza uma criatura fina e de maneiras, está se vendo que é holandês mesmo. Deve ser que na terra dele tem reis e rainhas e desde que boi é boi na Holanda, ele vem sendo educado com finura. Então o boi holandês cobre as vacas dele com muito sentido de sua obrigação, e é até uma coisa bonita de se assistir, porque a vaca holandesa é também educadíssima e então quando Bundão está fazendo um serviço com uma delas até mesmo as visitas gostam de apreciar, porque, no que ele desmonta da vaca, só falta agradecer e ela dar um sorriso. É uma coisa finíssima. Este Bundão, aliás, que está ficando velho, quando eu posso boto uns amendoins no bagaço de cana que ele gosta, que é para ele conseguir desfraldar o instrumento e continuar com emprego fixo — visto que, no dia que Bundão não for mais espadachim, adeus Bundão, e possa ser até que eu fique com saudades, sendo um boi que, não tendo intimidade com ninguém, me trata parecendo que é formado pelo menos em ginásio. Se um dia eu comer uma buchada dos buchos de Bundão, vou comer com desgosto. Eu como porque nesta vida é um comendo o outro e é melhor que a gente coma o boi do que o boi comer a gente, é uma questão política, mesmo porque o boi não fala.
Antigamente não era igual a hoje, quer dizer, não era esta organização toda. O touro guzerá encarregado de enxertar as vacas era um absurdo. Atendendo pelo nome de Nonô de Bombaim, esse touro guzerá ficava ciscando no meio das vacas da raça dele e, quando uma facilitava, até parecia que ele estava pagando e tinha direito a qualquer coisa, a vaca nem achava tempo para fazer a posição, porque ele já vinha de lá soltando fumaça e completamente armado e uma coisa que eu agradeço a deus é que Deus não me fez eu nascer vaca daquele guzerá. Inclusive, não foi uma nem duas vezes que os vaqueiros tinham que acertar a entrância correta, porque ele não queria saber, ia pincelando onde achasse quarto de vaca. Tipo do boi atrasado, rei da ignorância. Quando eu me lembro de Nonô de Bombaim tratando as vacas, fico destremecendo, a vaca sofre muito. Quando o sujeito compara o tratamento que Bundão dá às vacas holandesas com o tratamento que Nonô dava às vacas guzerás, aí é que o sujeito vê a diferença entre uma pessoa loura e educada como Bundão e uma pessoa sem princípios e amulatada, como Nonô. É por essas e outras que, na próxima encarnação, se Deus quiser e eu merecer, eu volto branco e bem educado. Não quero fazer como Nonô, que chega e vai lascando a vaca toda, se bem que ele é muito bem admirado em toda a redondeza e diz o povo que até hoje tem mulheres que, no entusiasmo de brincar de bicho de duas costas, elogiam o homem dizendo “dá nela, Nonô!”, mas considero essas mulheres todas umas vacas guzerás, isto é o que considero, pois que sou a favor do carinho, porradas só quando imploradas ou merecidas verdadeiramente.
Entretanto, com nonôs e bundões e mais uns quanto outros reprodutores de alguma fama nestas terras, as coisas sempre foram dentro do normal. O galo às vezes parece que está conversando com a sombra ou está discutindo eleições ou qualquer coisa, quando que de repente sai com grande brilhantismo e vai bicando as galinhas e virando na direção do sobrecu e assim ele faz o trabalho todo em coisa de cinco minutos, igual a uma faísca. Os ovos sucedentes são pardos, não claros, galados, não pecos, e fortíssimos para a saúde, ou senão saem pintos e todas as galinhas prosseguem galinhando como quis Nosso Senhor. Assim, o calango possui dois vergalhos, um na direita outro na canhota, ficando bem municiada qualquer calanga que venha pela direita ou pela esquerda, sendo que o calango só pega uma calanga de cada vez, não se aproveitando de que pode pegar duas. Porque não é uma questão de vaidade, é um problema de não perder tempo, pois que, se a verdade é que o calango tem muitas moscas para comer, tem também muitos outros bichos desejosos de comer o calango, de forma que não se pode facilitar. O beija-flor trepa nos ares, às vezes de passagem, às vezes cumprimentando e aproveitando, visto o coração do beija-flor zumbir e ele morrer cedo, beijando flores e o coração zumbindo. As jegas e as éguas apreciam a cobertura e há casos de jegas que ficam dando uns coicezinhos no jeque a tarde toda, até conseguirem, e aí rangem os dentes dão umas babadinhas e ficam grandemente admiradoras do macho, se ele soube responder bem àqueles coicezinhos. O cágado ronca em cima da cágada, que tem toda a paciência, porque a construção deles não facilita e dever ser por isso que o cágado ronca nessas horas. O pato e o porco aplicam roscas e tem quem diga que a rosca é para estontear a fêmea, que fica olhando, olhando, até se enroscar completamente. O gato apresenta espinhos que sangram a gata na puxada, sendo porém o sangramento necessário para a gata emprenhar. O louva-deus fica parado e, antes mesmo que a louva-deusa esteja pronta, já vai mastigando o macho e ele cabe todo na barriga dela. Isto tudo se vê por aqui e muitas mais coisas, desde as lagoas com seus sapos e jias se casando pelas águas, até os barulhos dos bichos maiores. Foi assim que foi feita a natureza e, em cada uma juntada, está se sentindo a força.
Pois então, nestes tempos modernos, estamos desnaturados. Embora eu, que não gosto de boi, não estivesse muito sabendo até que tudo começou a ser modificado, recebemos diversos doutores e tudo mais. E não foi assim que, depois de muitos anúncios e forte nervosismo, levamos a gaiola grande para a estação de trem, parecia até uma festa só faltando banda de música, para receber o grande touro charolês francês, que aqui tomou o nome, mesmo antes de chegar, de Alandelão. Todo nome francês termina em ão, e o nome era para ser Napoleão, que foi outro francês retado, que invadiu a Inglaterra, escarreirou D. João VI, enfim fez o maior cacete e não perdoava nada. Mas se preferiu Alandelão, que é um artista da França muitíssimo cotado e, pelo que eu ouço falar desse Alandelão, era para as vacas aqui estarem grandemente festejando.
Agora, esse Alandelão daqui, na hora que eu vi, achei logo que era um animal bastante triste, todo escuro assim, parecendo de luto. No começo, pensei que era da natureza do boi francês, porque se sabe que o francês aprecia a safadagem mas tudo na maior decência, não é como as coisas de Nonô de Bombaim. Mas, mesmo assim, como é que esse boi podia ser tão triste, sabendo-se que de agora em diante vai ficar instalado igual a um monarca, com massagem, comidinha, alisamento e vitamina? E, se as vacas para ele trabalhar não eram vacas francesas da maior fineza, também não eram de se jogar fora, inclusive sendo começo de verão e estando a maior trepação em todas as partes da fazenda, até os motucos soltando a lenha nas motucas, os lacraios nas lacraias e assim vai, para não falar em outros, como os preás, que todo mundo sabe que quando não estão comendo estão afogando o ganso, seja inverno ou seja verão. E às vezes o sujeito se veste de preto assim mas não quer dizer nada, haja visto padre Barretinho, que Deus haja, cala-te boca.
Um emprego como o desse boi muitos de nós passamos a vida rezando para encontrar e agora ele chega todo triste, quase uma antipatia. Aquele bicho do tamanho de um elefante atarracado, todo de preto e com uma cara jururu que fazia pena, quando o natural é que estivesse sacudindo o rabo, babando um pouco e preparando o ferramental. Mas é assim que se vê como o animal também tem a sua inteligência, porque esse Alandelão já estava perfeitamente conhecedor do que ia acontecer e era por isso que não se alegrava e tinha toda a razão, coitado.
Quando eu soube, tomei um choque. Já tinha uma semana ou duas que Alandelão estava no seu apartamento, todo ventilado e cheio de nove-horas, inclusive um aparelho americano para as moscas não incomodarem ele, e então eu, que passava em busca de uns baldes e umas gamelas, perguntei quando era que a folga dele ia acabar e quando é que ele ia sair para cobrir umas vacas.
— Com essa fama toda, está todo mundo querendo apreciar — disse eu. — Deve ser uma coisa de muita competência.
— Mas ele não vai cobrir vaca nenhuma — respondeu Dr. Crescêncio, que é uma espécie de engenheiro de vaca, que trabalha aqui dando orientação e é formado em vaca na faculdade.
— Ô, e o bicho está aqui para quê? Ele não é reprodutor?
— Um animal desses você acha que a gente ia deixar esperdiçar direto com as vacas? Não, senhor! Tudo o que sai dele vale ouro. A gente extrai, bota no gelo e depois enfia nas vacas com uma seringa. E aí se aproveita tudo.
Nisso, com a cara meio saindo pela abertura, eu vi que Alandelão já devia saber brasileiro, ou então ter estudado na França, porque entendeu a conversa toda e ficou ainda mais de beiço pendurado do que estava antes, uma infelicidade de cortar o coração. Indaguei como era que se extraía o material, se tinha de enfiar uma agulha de injeção nos quibas do coitado do animal, mas o Dr. Crescêncio disse que não. Que, de tantos em tantos dias, o pessoal encarregado ia lá e fazia a manipulação.
— Como é essa manipulação?
— Se você quiser, pode assistir, que daqui a pouco nos vamos coletar.
— O boi não se aporrinha, não, doutor?
— Que nada, ele está acostumado.
E, de fato, Alandelão, se não ficava entusiasmado, também não criava dificuldade, estava se vendo que era treinado na profissão. Ele via a turma de manipulação e já ia abrindo as pernas e olhando para o outro lado e ai aguardava a extração, tudo muito despachado, sem nem um suspirinho. Naquela hora, vendo um boi tão prestigiado, cheio de medalha e tudo, sujeito a ser chamado pelos outros de reprodutor donzelo, dava bastante pena. No finzinho, os manipuladores ainda davam uma espremidinha, mas ele não tugia nem mugia. Ficava ali passando humilhação com a melhor cara possível. Como é que uma criatura pode viver nessa situação — ainda mais um francês?
E, inclusive, pode ser até que na França a profissão dele seja mais respeitada, mas aqui, nesta esculhambação, não demorou e ele pegou diversos apelidos — cinco-a-um, mangueira-fria, desconhece-vaca, come-vento, cassetete-gelado, pinga-na-cumbuca, couriça-de-mão, uma porção mesmo –, que a gente ria mas sentia que não estava direito zombar de uma infelicidade do destino alheio.
Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante do Nonô de Bombaim e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha — o que é que estamos escondendo –, que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho, enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral. Está se reconhecendo, então, que Flor de Mel não era nenhuma mocinha, mas, em primeiro lugar, sabe-se que o francês gosta de velha. E, segundo, Flor de Mel estava sempre disposta, coisa que não se pode dizer de todas a vacas, mesmo elas sendo vacas ou talvez por isso mesmo.
Então eu e Emanuel e mais o menino Ruidenor combinamos deixar Flor de Mel no cercado pequeno, que fica perto do apartamento de Alandelão e, de noite, a gente ia lá e soltava o francês. E dito e feito, até com luz de lua para completar. Quando a gente abriu a porta, o bicho tomou um susto, não estava acostumado. E não queria sair de jeito nenhum, mesmo a gente explicando. Emanuel achou até que a gente devia dar uns piparotes lá na estrovenga dele para ver se ele se animava, mas todo mundo ficou com medo de que ele achasse que algum da gente era manipulador e quisesse completar o serviço todo e um boi deste tamanho a pessoa deve procurar não contrariar. Afinal, tanto a gente fez que o bicho foi saindo para o cercado, meio estranhando. Nisso Flor de Mel, que aí foi que eu vi que é mesmo uma velha assanhadíssima, abriu logo as ventas para o lado de Alandelão e foi chegando, foi chegando, mas o boi nem deu sinal.
— Será que tem pouco tempo que fizeram uma manipulação e ele esta desfraquecido? — perguntou Emanuel.
— Que nada, que nada! — disse Ruidenor, que estava doido para ver a finalização toda. — Bote o bicho para perto, bote o bicho para perto!
Não sei quantas mil arrobas pesa um desgraçado daqueles, mas a gente foi puxando e só “vai, Alandelão”, “vai, Alandelão” e Flor de Mel ali dispostíssima e só faltou a gente botar um macaco de caminhão debaixo do infeliz para ele levantar, mas não tinha jeito. Até que, na hora já de todo mundo desistir, ele deu uma olhada para um lado, uma olhada para o outro, uma olhada para mim, outra olhada para Emanuel e aí fez aquele movimentozinho fraco para subir na vaca, que mais que depressa ficou na posição certa, que a diaba não tinha desistido de papar o francês.
— Lá vai ele, lá vai ele! Tenha fé, Alandelão!
Mas parece que o boi francês é um boi de pouca fé, porque, bem no meio daquela subidinha fraquinha, que ninguém nem estava acreditando que ia dar na altura de Flor de Mel, Alandelão revirou os olhos, fez um barulhinho na garganta e se despejou todo no chão.
— Vigessantíssima, que deve ter para mais de setecentos mil contos aí desparramando no chão! — disse Emanuel. — Vamos levar esse boi lá para dentro!
E, de fato, numa situação dessas, só podia ser que a gente tinha de levar o bicho de volta, ele com a cara envergonhada e Flor de Mel aborrecidíssima e, pelo visto, com muita saudade de Nonô de Bombaim. No outro dia, bico calado, por causa do esperdício da matéria-prima de Alandelão. E parece mesmo que ninguém notou, porque nós três ficamos nervosos na hora da manipulação seguinte, mas Alandelão trabalhou do mesmo jeito e ninguém se queixou da produção dele. Só nós três é que podíamos notar que, quando ele via a gente, ficava todo sem graça, mas a gente compreendeu e respeitou, de forma que ninguém falou nada. E, de qualquer maneira, depois se descobriu que Alandelão era uma sociedade, porque ninguém tinha dinheiro para comprar ele sozinho, e aí ele passava produzindo numa fazenda e depois em outra e outra e assim por diante. E aí chegou o dia de botarmos ele na mesma gaiola e levarmos ele para o trem. Não se pode dizer que ele deixou amizades aqui, mas também não fez desafetos. E nós três estavam todos sabendo que ele nasceu para a profissão dele, só sabia trabalhar daquele jeito, tinha especialização, que é que se ia fazer. Assim mesmo, Emanuel passou a mão na cabeça dele na hora do embarque e disse: “Deus que lhe dê uma boa mão, Alandelão”. E o dono aqui da fazenda também viu, mas nem perguntou, todo satisfeito com o dinheiro que ganhou com o trabalho do francês. Quando o trem saiu, ele cantou baixinho:
— Alandelão de la Patri-i-i-i-e!
Ele pensou que eu não entendi, mas eu entendi. Ele cantou um pedaço do hino da França, somente trocando o Napoleão pelo Alandelão. Em francês, quer dizer “Alandelão de nossa terra”. Lá deles.
João Ubaldo Ribeiro, “Livro de Histórias”
Antigamente não era igual a hoje, quer dizer, não era esta organização toda. O touro guzerá encarregado de enxertar as vacas era um absurdo. Atendendo pelo nome de Nonô de Bombaim, esse touro guzerá ficava ciscando no meio das vacas da raça dele e, quando uma facilitava, até parecia que ele estava pagando e tinha direito a qualquer coisa, a vaca nem achava tempo para fazer a posição, porque ele já vinha de lá soltando fumaça e completamente armado e uma coisa que eu agradeço a deus é que Deus não me fez eu nascer vaca daquele guzerá. Inclusive, não foi uma nem duas vezes que os vaqueiros tinham que acertar a entrância correta, porque ele não queria saber, ia pincelando onde achasse quarto de vaca. Tipo do boi atrasado, rei da ignorância. Quando eu me lembro de Nonô de Bombaim tratando as vacas, fico destremecendo, a vaca sofre muito. Quando o sujeito compara o tratamento que Bundão dá às vacas holandesas com o tratamento que Nonô dava às vacas guzerás, aí é que o sujeito vê a diferença entre uma pessoa loura e educada como Bundão e uma pessoa sem princípios e amulatada, como Nonô. É por essas e outras que, na próxima encarnação, se Deus quiser e eu merecer, eu volto branco e bem educado. Não quero fazer como Nonô, que chega e vai lascando a vaca toda, se bem que ele é muito bem admirado em toda a redondeza e diz o povo que até hoje tem mulheres que, no entusiasmo de brincar de bicho de duas costas, elogiam o homem dizendo “dá nela, Nonô!”, mas considero essas mulheres todas umas vacas guzerás, isto é o que considero, pois que sou a favor do carinho, porradas só quando imploradas ou merecidas verdadeiramente.
Entretanto, com nonôs e bundões e mais uns quanto outros reprodutores de alguma fama nestas terras, as coisas sempre foram dentro do normal. O galo às vezes parece que está conversando com a sombra ou está discutindo eleições ou qualquer coisa, quando que de repente sai com grande brilhantismo e vai bicando as galinhas e virando na direção do sobrecu e assim ele faz o trabalho todo em coisa de cinco minutos, igual a uma faísca. Os ovos sucedentes são pardos, não claros, galados, não pecos, e fortíssimos para a saúde, ou senão saem pintos e todas as galinhas prosseguem galinhando como quis Nosso Senhor. Assim, o calango possui dois vergalhos, um na direita outro na canhota, ficando bem municiada qualquer calanga que venha pela direita ou pela esquerda, sendo que o calango só pega uma calanga de cada vez, não se aproveitando de que pode pegar duas. Porque não é uma questão de vaidade, é um problema de não perder tempo, pois que, se a verdade é que o calango tem muitas moscas para comer, tem também muitos outros bichos desejosos de comer o calango, de forma que não se pode facilitar. O beija-flor trepa nos ares, às vezes de passagem, às vezes cumprimentando e aproveitando, visto o coração do beija-flor zumbir e ele morrer cedo, beijando flores e o coração zumbindo. As jegas e as éguas apreciam a cobertura e há casos de jegas que ficam dando uns coicezinhos no jeque a tarde toda, até conseguirem, e aí rangem os dentes dão umas babadinhas e ficam grandemente admiradoras do macho, se ele soube responder bem àqueles coicezinhos. O cágado ronca em cima da cágada, que tem toda a paciência, porque a construção deles não facilita e dever ser por isso que o cágado ronca nessas horas. O pato e o porco aplicam roscas e tem quem diga que a rosca é para estontear a fêmea, que fica olhando, olhando, até se enroscar completamente. O gato apresenta espinhos que sangram a gata na puxada, sendo porém o sangramento necessário para a gata emprenhar. O louva-deus fica parado e, antes mesmo que a louva-deusa esteja pronta, já vai mastigando o macho e ele cabe todo na barriga dela. Isto tudo se vê por aqui e muitas mais coisas, desde as lagoas com seus sapos e jias se casando pelas águas, até os barulhos dos bichos maiores. Foi assim que foi feita a natureza e, em cada uma juntada, está se sentindo a força.
Pois então, nestes tempos modernos, estamos desnaturados. Embora eu, que não gosto de boi, não estivesse muito sabendo até que tudo começou a ser modificado, recebemos diversos doutores e tudo mais. E não foi assim que, depois de muitos anúncios e forte nervosismo, levamos a gaiola grande para a estação de trem, parecia até uma festa só faltando banda de música, para receber o grande touro charolês francês, que aqui tomou o nome, mesmo antes de chegar, de Alandelão. Todo nome francês termina em ão, e o nome era para ser Napoleão, que foi outro francês retado, que invadiu a Inglaterra, escarreirou D. João VI, enfim fez o maior cacete e não perdoava nada. Mas se preferiu Alandelão, que é um artista da França muitíssimo cotado e, pelo que eu ouço falar desse Alandelão, era para as vacas aqui estarem grandemente festejando.
Agora, esse Alandelão daqui, na hora que eu vi, achei logo que era um animal bastante triste, todo escuro assim, parecendo de luto. No começo, pensei que era da natureza do boi francês, porque se sabe que o francês aprecia a safadagem mas tudo na maior decência, não é como as coisas de Nonô de Bombaim. Mas, mesmo assim, como é que esse boi podia ser tão triste, sabendo-se que de agora em diante vai ficar instalado igual a um monarca, com massagem, comidinha, alisamento e vitamina? E, se as vacas para ele trabalhar não eram vacas francesas da maior fineza, também não eram de se jogar fora, inclusive sendo começo de verão e estando a maior trepação em todas as partes da fazenda, até os motucos soltando a lenha nas motucas, os lacraios nas lacraias e assim vai, para não falar em outros, como os preás, que todo mundo sabe que quando não estão comendo estão afogando o ganso, seja inverno ou seja verão. E às vezes o sujeito se veste de preto assim mas não quer dizer nada, haja visto padre Barretinho, que Deus haja, cala-te boca.
Um emprego como o desse boi muitos de nós passamos a vida rezando para encontrar e agora ele chega todo triste, quase uma antipatia. Aquele bicho do tamanho de um elefante atarracado, todo de preto e com uma cara jururu que fazia pena, quando o natural é que estivesse sacudindo o rabo, babando um pouco e preparando o ferramental. Mas é assim que se vê como o animal também tem a sua inteligência, porque esse Alandelão já estava perfeitamente conhecedor do que ia acontecer e era por isso que não se alegrava e tinha toda a razão, coitado.
Quando eu soube, tomei um choque. Já tinha uma semana ou duas que Alandelão estava no seu apartamento, todo ventilado e cheio de nove-horas, inclusive um aparelho americano para as moscas não incomodarem ele, e então eu, que passava em busca de uns baldes e umas gamelas, perguntei quando era que a folga dele ia acabar e quando é que ele ia sair para cobrir umas vacas.
— Com essa fama toda, está todo mundo querendo apreciar — disse eu. — Deve ser uma coisa de muita competência.
— Mas ele não vai cobrir vaca nenhuma — respondeu Dr. Crescêncio, que é uma espécie de engenheiro de vaca, que trabalha aqui dando orientação e é formado em vaca na faculdade.
— Ô, e o bicho está aqui para quê? Ele não é reprodutor?
— Um animal desses você acha que a gente ia deixar esperdiçar direto com as vacas? Não, senhor! Tudo o que sai dele vale ouro. A gente extrai, bota no gelo e depois enfia nas vacas com uma seringa. E aí se aproveita tudo.
Nisso, com a cara meio saindo pela abertura, eu vi que Alandelão já devia saber brasileiro, ou então ter estudado na França, porque entendeu a conversa toda e ficou ainda mais de beiço pendurado do que estava antes, uma infelicidade de cortar o coração. Indaguei como era que se extraía o material, se tinha de enfiar uma agulha de injeção nos quibas do coitado do animal, mas o Dr. Crescêncio disse que não. Que, de tantos em tantos dias, o pessoal encarregado ia lá e fazia a manipulação.
— Como é essa manipulação?
— Se você quiser, pode assistir, que daqui a pouco nos vamos coletar.
— O boi não se aporrinha, não, doutor?
— Que nada, ele está acostumado.
E, de fato, Alandelão, se não ficava entusiasmado, também não criava dificuldade, estava se vendo que era treinado na profissão. Ele via a turma de manipulação e já ia abrindo as pernas e olhando para o outro lado e ai aguardava a extração, tudo muito despachado, sem nem um suspirinho. Naquela hora, vendo um boi tão prestigiado, cheio de medalha e tudo, sujeito a ser chamado pelos outros de reprodutor donzelo, dava bastante pena. No finzinho, os manipuladores ainda davam uma espremidinha, mas ele não tugia nem mugia. Ficava ali passando humilhação com a melhor cara possível. Como é que uma criatura pode viver nessa situação — ainda mais um francês?
E, inclusive, pode ser até que na França a profissão dele seja mais respeitada, mas aqui, nesta esculhambação, não demorou e ele pegou diversos apelidos — cinco-a-um, mangueira-fria, desconhece-vaca, come-vento, cassetete-gelado, pinga-na-cumbuca, couriça-de-mão, uma porção mesmo –, que a gente ria mas sentia que não estava direito zombar de uma infelicidade do destino alheio.
Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante do Nonô de Bombaim e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha — o que é que estamos escondendo –, que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho, enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral. Está se reconhecendo, então, que Flor de Mel não era nenhuma mocinha, mas, em primeiro lugar, sabe-se que o francês gosta de velha. E, segundo, Flor de Mel estava sempre disposta, coisa que não se pode dizer de todas a vacas, mesmo elas sendo vacas ou talvez por isso mesmo.
Então eu e Emanuel e mais o menino Ruidenor combinamos deixar Flor de Mel no cercado pequeno, que fica perto do apartamento de Alandelão e, de noite, a gente ia lá e soltava o francês. E dito e feito, até com luz de lua para completar. Quando a gente abriu a porta, o bicho tomou um susto, não estava acostumado. E não queria sair de jeito nenhum, mesmo a gente explicando. Emanuel achou até que a gente devia dar uns piparotes lá na estrovenga dele para ver se ele se animava, mas todo mundo ficou com medo de que ele achasse que algum da gente era manipulador e quisesse completar o serviço todo e um boi deste tamanho a pessoa deve procurar não contrariar. Afinal, tanto a gente fez que o bicho foi saindo para o cercado, meio estranhando. Nisso Flor de Mel, que aí foi que eu vi que é mesmo uma velha assanhadíssima, abriu logo as ventas para o lado de Alandelão e foi chegando, foi chegando, mas o boi nem deu sinal.
— Será que tem pouco tempo que fizeram uma manipulação e ele esta desfraquecido? — perguntou Emanuel.
— Que nada, que nada! — disse Ruidenor, que estava doido para ver a finalização toda. — Bote o bicho para perto, bote o bicho para perto!
Não sei quantas mil arrobas pesa um desgraçado daqueles, mas a gente foi puxando e só “vai, Alandelão”, “vai, Alandelão” e Flor de Mel ali dispostíssima e só faltou a gente botar um macaco de caminhão debaixo do infeliz para ele levantar, mas não tinha jeito. Até que, na hora já de todo mundo desistir, ele deu uma olhada para um lado, uma olhada para o outro, uma olhada para mim, outra olhada para Emanuel e aí fez aquele movimentozinho fraco para subir na vaca, que mais que depressa ficou na posição certa, que a diaba não tinha desistido de papar o francês.
— Lá vai ele, lá vai ele! Tenha fé, Alandelão!
Mas parece que o boi francês é um boi de pouca fé, porque, bem no meio daquela subidinha fraquinha, que ninguém nem estava acreditando que ia dar na altura de Flor de Mel, Alandelão revirou os olhos, fez um barulhinho na garganta e se despejou todo no chão.
— Vigessantíssima, que deve ter para mais de setecentos mil contos aí desparramando no chão! — disse Emanuel. — Vamos levar esse boi lá para dentro!
E, de fato, numa situação dessas, só podia ser que a gente tinha de levar o bicho de volta, ele com a cara envergonhada e Flor de Mel aborrecidíssima e, pelo visto, com muita saudade de Nonô de Bombaim. No outro dia, bico calado, por causa do esperdício da matéria-prima de Alandelão. E parece mesmo que ninguém notou, porque nós três ficamos nervosos na hora da manipulação seguinte, mas Alandelão trabalhou do mesmo jeito e ninguém se queixou da produção dele. Só nós três é que podíamos notar que, quando ele via a gente, ficava todo sem graça, mas a gente compreendeu e respeitou, de forma que ninguém falou nada. E, de qualquer maneira, depois se descobriu que Alandelão era uma sociedade, porque ninguém tinha dinheiro para comprar ele sozinho, e aí ele passava produzindo numa fazenda e depois em outra e outra e assim por diante. E aí chegou o dia de botarmos ele na mesma gaiola e levarmos ele para o trem. Não se pode dizer que ele deixou amizades aqui, mas também não fez desafetos. E nós três estavam todos sabendo que ele nasceu para a profissão dele, só sabia trabalhar daquele jeito, tinha especialização, que é que se ia fazer. Assim mesmo, Emanuel passou a mão na cabeça dele na hora do embarque e disse: “Deus que lhe dê uma boa mão, Alandelão”. E o dono aqui da fazenda também viu, mas nem perguntou, todo satisfeito com o dinheiro que ganhou com o trabalho do francês. Quando o trem saiu, ele cantou baixinho:
— Alandelão de la Patri-i-i-i-e!
Ele pensou que eu não entendi, mas eu entendi. Ele cantou um pedaço do hino da França, somente trocando o Napoleão pelo Alandelão. Em francês, quer dizer “Alandelão de nossa terra”. Lá deles.
João Ubaldo Ribeiro, “Livro de Histórias”
domingo, junho 7
‘Tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais’
Lygia Bojunga não gosta de entrevista. Nem mesmo quando é para falar dos 50 anos de “A bolsa amarela”, seu livro mais querido e aclamado, que transformou a vida de gerações de leitores e, desde 1976, já vendeu aproximadamente um milhão de exemplares em 36 edições. Lygia não gosta de entrevista, gosta de conversar. O papo que começa com a pergunta objetiva sobre o encantamento ainda despertado pela história de Raquel, a menina que escondia na tal bolsa três grandes e libertadoras vontades (de crescer logo, de ser escritora e de ter nascido menino) vai e volta em diversas direções, indicando muitos caminhos. Passa pela infância da escritora gaúcha em Pelotas, traz memórias da carreira de atriz (dos trabalhos com Henriette Morineau e Fernanda Montenegro às “mambembadas” com as quais rodou o país, falando sobre sua vida e obra), relembra a paixão por casas (construiu a primeira, em torno dos 6 anos, em um galinheiro abandonado na chácara do avô) e livros (“para mim, livro e casa sempre se misturaram”, diz), e retorna sempre ao amor eterno pelo companheiro Peter, inglês que esteve ao seu lado por mais de cinco décadas e morreu em 2018.
A poucos meses de completar 94 anos, em agosto, Lygia se dá cada vez mais o direito de falar muito, ou nada. Ou pouco, como por exemplo ao comentar o episódio recente ocorrido em Brasília, quando pais de alunos do Colégio Militar Dom Pedro II pediram a retirada de “A bolsa amarela” das atividades de leitura, alegando que o livro abordava questões de gênero e ideologia inadequadas para crianças. O episódio gerou grande repercussão e apoio à escritora nas redes sociais (que ela nunca acompanhou, nem quer acompanhar), mesmo depois de a direção do colégio alegar não ter havido censura, mas um “mal-entendido” em relação ao conteúdo da obra.
— Não leram o livro até o fim. Tem que entender o que a Raquel está falando, mas para isso precisava ler o livro inteiro. Se lessem, veriam que desde o início tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais — resume Lygia, sem se estender muito para não deixar a polêmica ofuscar a celebração.
“A bolsa amarela” não é a obra de estreia da autora, que ganhou o Jabuti logo com seu primeiro livro, “ Os colegas” (1972), seguido por “Angélica” (1973). Assim como os dois primeiros títulos, “A bolsa amarela” carrega muito da fabulação de Lygia, marcada pela abordagem filosófica e lírica, sem linhas delimitadas entre imaginação e realidade, de sentimentos e vivências comuns a todo ser humano. Estão lá dúvidas, perdas, alegrias, a coragem de superar desafios e a crítica social, algo que é caro à escritora. Talvez por isso Lygia afirme que, apesar de ter “muita dificuldade para escrever, nunca um livro saiu tão natural e espontâneo” como “A bolsa amarela”:
— Não foi um discurso feminista, planejado. A primeira ideia que se impôs foi exatamente a que tive desde menina, de querer ser grande e independente. E de gostar e querer escrever, sem dúvida. Mas eu também ficava revoltada de ouvir, quando criança, ao experimentar chutar uma bola, que “isso não é coisa pra menina”. Então vinha a questão da vontade de ser garoto, de ter liberdade. Mesmo escrever, antigamente, era coisa para homem. O livro reflete isso. O anseio e a revolta que as pessoas sentem de verem os homens com tantos privilégios e as mulheres terem que lutar tanto para até hoje, na hora em que conseguem independência, sofrerem feminicídio. Temos muito chão para andar, o mundo ainda é muito patriarcal.
Primeira brasileira a conquistar o Hans Christian Andersen, principal prêmio para a literatura infantojuvenil do mundo, em 1982, e única brasileira a vencer o prestigioso Alma (Astrid Lindgren Memorial Award, do governo sueco), em 2004, Lygia, que em 2002 fundou a própria editora para abrigar sua literatura, tem negado novos pedidos de traduções ou adaptações de livros. Prefere deixar a Fundação Lygia Bojunga, que criou para gerir sua obra, com liberdade para fazer o que quiser depois que ela se for.
E embora esteja cada vez mais arredia (“a vida cansa, mesmo tendo sido uma vida que considero muito privilegiada”), a criadora de tantas obras geniais para jovens leitores, além de romances e ensaios sobre o próprio ato da criação, continua inquieta. Decidiu renovar a carteira de motorista ano passado (“me senti como se tivesse 50 anos!”), acompanha diariamente o noticiário (“por mais que eu venha me retirando do mundo lá fora, quero saber o que acontece”), tem relido clássicos como Juan Rulfo (“não quero ler nada novo, não tenho mais paciência”) e, mais importante, continua a escrever. Tanto que pretende publicar, ainda este ano, o primeiro tomo de suas memórias, que por enquanto levam o título bastante sugestivo de... “A casa eterna”.
Lygia confessa que, como “mãe” de tantas outras obras, se sente um pouco traiçoeira com o que considera muito alarde em torno do cinquentenário de “A bolsa amarela”. A autora de “O sofá estampado” (“é um livro de que gosto muito, me afeiçoei demais ao Vítor”, diz sobre o tatu protagonista), “Tchau”, “A casa da madrinha” e “Corda bamba”, entre outros, sabe perfeitamente, porém, o lugar especial que o livro cinquentão ocupa no imaginário de seus leitores a partir de depoimentos que eles continuam a enviar até hoje, e de todos os cantos do mundo. Quase todos dizendo como Raquel e suas atitudes diante das vontades que ela escondia na bolsa ajudaram a mudar suas vidas.
Do Brasil e do exterior, aliás, chegaram mais de 600 inscrições para o concurso de textos inspirados no livro, a parte mais visível da comemoração do aniversário. A coordenação é da professora e escritora Ninfa Parreiras, que integra o conselho da Fundação Lygia Bojunga e está à frente das atividades promovidas pela instituição. Além de participantes de todas as regiões brasileiras, o concurso, que é voltado para falantes da língua portuguesa acima de 14 anos, recebeu inscrições de Alemanha, Angola, Espanha, Estados Unidos, Japão, Moçambique, Portugal e Suíça. Lygia será uma das leitoras dos textos, que ainda estão em fase de seleção.
Apesar de tamanho reconhecimento dos leitores, da crítica e de outros escritores (leia no box abaixo), Lygia diz que ainda fica “pasma” com o alcance de sua obra, pela qual nunca nutriu “grandes expectativas”.
— Desde muito cedo gostei do ato da escrita, de fazer letras, mas nunca tive facilidade com a narrativa. Escrevo, acho uma porcaria, desisto, rasgo.
E rasga mesmo. Durante a pandemia da Covid-19, retirada no sítio Boa Liga, refúgio que construiu na Região Serrana do Rio há décadas, ela escreveu cadernos e cadernos — muitos deles artesanais, feitos à mão, como ela própria já fez, presenteados por leitores e amigos. Alguns descansam sobre a escrivaninha do escritório na casa em Santa Teresa, mas outros, ela confessa, não sobreviveram à sua releitura.
Já o livro de memórias está devidamente abrigado no computador com o qual Lygia briga de vez em quando, assim como com o celular, que também teima em corrigir o que ela não quer. A irritação se estende às redes e a toda aceleração, para ela nociva, que chega junto com a tecnologia.
— Resolvi não me adaptar, porque não me faz bem. Depois de tantos anos de vida, por que eu vou me sujeitar a uma coisa que não me dá o menor prazer, que não está sendo construtivo?
Construtivo, para Lygia, é termo que se aplica fundamentalmente a casas, sua grande aventura ao lado dos livros. Além de planejar o sítio Boa Liga, do qual se orgulha não apenas por abrigar projetos sociais em torno da literatura, como principalmente pela recuperação de um grande volume de árvores, ela mesma fez o projeto de interligação de três casas em Santa Teresa — bairro adorado desde que o conheceu, aos 19 anos, ao fazer um teste para ser atriz (que deu certo), sabendo que um dia ficaria por lá. O espaço, que ocupa há décadas, e de onde desfruta a vista privilegiada da cidade onde chegou com os pais aos 8 anos, reúne sua casa e as sedes da editora e da Fundação.
— Para mim, casa e livro vieram juntos, se confundem. Muito cedo aprendi a ler e muito cedo gostei de desenhar e de querer casas — conta. — Consegui fazer o que eu queria, muito mais até do que imaginava. É bom poder dizer, a essa altura, que vou deixar um legado, não só dos livros, até porque esse não acho muito merecedor, mas sou orgulhosa de ter conseguido recuperar uma montanha de árvores na Boa Liga.
Mànya Millen
A poucos meses de completar 94 anos, em agosto, Lygia se dá cada vez mais o direito de falar muito, ou nada. Ou pouco, como por exemplo ao comentar o episódio recente ocorrido em Brasília, quando pais de alunos do Colégio Militar Dom Pedro II pediram a retirada de “A bolsa amarela” das atividades de leitura, alegando que o livro abordava questões de gênero e ideologia inadequadas para crianças. O episódio gerou grande repercussão e apoio à escritora nas redes sociais (que ela nunca acompanhou, nem quer acompanhar), mesmo depois de a direção do colégio alegar não ter havido censura, mas um “mal-entendido” em relação ao conteúdo da obra.
— Não leram o livro até o fim. Tem que entender o que a Raquel está falando, mas para isso precisava ler o livro inteiro. Se lessem, veriam que desde o início tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais — resume Lygia, sem se estender muito para não deixar a polêmica ofuscar a celebração.
“A bolsa amarela” não é a obra de estreia da autora, que ganhou o Jabuti logo com seu primeiro livro, “ Os colegas” (1972), seguido por “Angélica” (1973). Assim como os dois primeiros títulos, “A bolsa amarela” carrega muito da fabulação de Lygia, marcada pela abordagem filosófica e lírica, sem linhas delimitadas entre imaginação e realidade, de sentimentos e vivências comuns a todo ser humano. Estão lá dúvidas, perdas, alegrias, a coragem de superar desafios e a crítica social, algo que é caro à escritora. Talvez por isso Lygia afirme que, apesar de ter “muita dificuldade para escrever, nunca um livro saiu tão natural e espontâneo” como “A bolsa amarela”:
— Não foi um discurso feminista, planejado. A primeira ideia que se impôs foi exatamente a que tive desde menina, de querer ser grande e independente. E de gostar e querer escrever, sem dúvida. Mas eu também ficava revoltada de ouvir, quando criança, ao experimentar chutar uma bola, que “isso não é coisa pra menina”. Então vinha a questão da vontade de ser garoto, de ter liberdade. Mesmo escrever, antigamente, era coisa para homem. O livro reflete isso. O anseio e a revolta que as pessoas sentem de verem os homens com tantos privilégios e as mulheres terem que lutar tanto para até hoje, na hora em que conseguem independência, sofrerem feminicídio. Temos muito chão para andar, o mundo ainda é muito patriarcal.
Primeira brasileira a conquistar o Hans Christian Andersen, principal prêmio para a literatura infantojuvenil do mundo, em 1982, e única brasileira a vencer o prestigioso Alma (Astrid Lindgren Memorial Award, do governo sueco), em 2004, Lygia, que em 2002 fundou a própria editora para abrigar sua literatura, tem negado novos pedidos de traduções ou adaptações de livros. Prefere deixar a Fundação Lygia Bojunga, que criou para gerir sua obra, com liberdade para fazer o que quiser depois que ela se for.
E embora esteja cada vez mais arredia (“a vida cansa, mesmo tendo sido uma vida que considero muito privilegiada”), a criadora de tantas obras geniais para jovens leitores, além de romances e ensaios sobre o próprio ato da criação, continua inquieta. Decidiu renovar a carteira de motorista ano passado (“me senti como se tivesse 50 anos!”), acompanha diariamente o noticiário (“por mais que eu venha me retirando do mundo lá fora, quero saber o que acontece”), tem relido clássicos como Juan Rulfo (“não quero ler nada novo, não tenho mais paciência”) e, mais importante, continua a escrever. Tanto que pretende publicar, ainda este ano, o primeiro tomo de suas memórias, que por enquanto levam o título bastante sugestivo de... “A casa eterna”.
Lygia confessa que, como “mãe” de tantas outras obras, se sente um pouco traiçoeira com o que considera muito alarde em torno do cinquentenário de “A bolsa amarela”. A autora de “O sofá estampado” (“é um livro de que gosto muito, me afeiçoei demais ao Vítor”, diz sobre o tatu protagonista), “Tchau”, “A casa da madrinha” e “Corda bamba”, entre outros, sabe perfeitamente, porém, o lugar especial que o livro cinquentão ocupa no imaginário de seus leitores a partir de depoimentos que eles continuam a enviar até hoje, e de todos os cantos do mundo. Quase todos dizendo como Raquel e suas atitudes diante das vontades que ela escondia na bolsa ajudaram a mudar suas vidas.
Do Brasil e do exterior, aliás, chegaram mais de 600 inscrições para o concurso de textos inspirados no livro, a parte mais visível da comemoração do aniversário. A coordenação é da professora e escritora Ninfa Parreiras, que integra o conselho da Fundação Lygia Bojunga e está à frente das atividades promovidas pela instituição. Além de participantes de todas as regiões brasileiras, o concurso, que é voltado para falantes da língua portuguesa acima de 14 anos, recebeu inscrições de Alemanha, Angola, Espanha, Estados Unidos, Japão, Moçambique, Portugal e Suíça. Lygia será uma das leitoras dos textos, que ainda estão em fase de seleção.
Apesar de tamanho reconhecimento dos leitores, da crítica e de outros escritores (leia no box abaixo), Lygia diz que ainda fica “pasma” com o alcance de sua obra, pela qual nunca nutriu “grandes expectativas”.
— Desde muito cedo gostei do ato da escrita, de fazer letras, mas nunca tive facilidade com a narrativa. Escrevo, acho uma porcaria, desisto, rasgo.
E rasga mesmo. Durante a pandemia da Covid-19, retirada no sítio Boa Liga, refúgio que construiu na Região Serrana do Rio há décadas, ela escreveu cadernos e cadernos — muitos deles artesanais, feitos à mão, como ela própria já fez, presenteados por leitores e amigos. Alguns descansam sobre a escrivaninha do escritório na casa em Santa Teresa, mas outros, ela confessa, não sobreviveram à sua releitura.
Já o livro de memórias está devidamente abrigado no computador com o qual Lygia briga de vez em quando, assim como com o celular, que também teima em corrigir o que ela não quer. A irritação se estende às redes e a toda aceleração, para ela nociva, que chega junto com a tecnologia.
— Resolvi não me adaptar, porque não me faz bem. Depois de tantos anos de vida, por que eu vou me sujeitar a uma coisa que não me dá o menor prazer, que não está sendo construtivo?
Construtivo, para Lygia, é termo que se aplica fundamentalmente a casas, sua grande aventura ao lado dos livros. Além de planejar o sítio Boa Liga, do qual se orgulha não apenas por abrigar projetos sociais em torno da literatura, como principalmente pela recuperação de um grande volume de árvores, ela mesma fez o projeto de interligação de três casas em Santa Teresa — bairro adorado desde que o conheceu, aos 19 anos, ao fazer um teste para ser atriz (que deu certo), sabendo que um dia ficaria por lá. O espaço, que ocupa há décadas, e de onde desfruta a vista privilegiada da cidade onde chegou com os pais aos 8 anos, reúne sua casa e as sedes da editora e da Fundação.
— Para mim, casa e livro vieram juntos, se confundem. Muito cedo aprendi a ler e muito cedo gostei de desenhar e de querer casas — conta. — Consegui fazer o que eu queria, muito mais até do que imaginava. É bom poder dizer, a essa altura, que vou deixar um legado, não só dos livros, até porque esse não acho muito merecedor, mas sou orgulhosa de ter conseguido recuperar uma montanha de árvores na Boa Liga.
Mànya Millen
Rumor do mundo
As palavras, vício
torpe, antigo.
As últimas? As primeiras?
Como os ouriços
abrem-se ao rumor do mundo:
o sol ainda verde dos limões,
os esquilos
doutras tardes, o latido
da chuva nas janelas,
os velhos em redor do lume
— nunca foram tão belas.
Eugénio de Andrade, "Rente ao Dizer"
torpe, antigo.
As últimas? As primeiras?
Como os ouriços
abrem-se ao rumor do mundo:
o sol ainda verde dos limões,
os esquilos
doutras tardes, o latido
da chuva nas janelas,
os velhos em redor do lume
— nunca foram tão belas.
Eugénio de Andrade, "Rente ao Dizer"
Quase inverno
Quando esfria assim como agora, durmo cheia de culpa, pensando na população de rua, cada vez mais abundante por aqui. Para piorar, estou lendo “Menos que um”, de Patrícia Melo, uma abordagem honesta e sensível sobre o assunto, que me fez olhar para essas pessoas com mais atenção e menos julgamento, tentando enxergar por trás da aparência de cada um. O que será que a vida fez com elas, para torná-las esse amontoado de carne e trapos que impede a passagem nas calçadas, toma conta de alguns trechos de rua, circula pelas praças e entradas do metrô, de supermercados, de bancos? Como sobrevivem a tanto desamparo?
Ia a caminho da feira quando um deles me abordou, pedindo que lhe comprasse uma bolacha. Expliquei que não portava dinheiro, só cartão, mas ele insistiu: aqui eles aceitam, mostrando um pequeno mercado. Entramos e o deixei à vontade para escolher. Voltou rápido, com um pote de macarrão instantâneo, um refrigerante e a tal bolacha.
Tudo isso? – perguntou a moça do caixa, com irritação. Vai comer ou vai vender?
Falei que estava tudo bem, podia cobrar. Cheia de razão, ela avisou: vou abrir tudo, assim ele não vende. Fiquei tão chocada que não respondi, enquanto ela violava as embalagens e destampava a bebida. Ele pediu uma sacola de plástico para embalar tudo e partiu, agradecendo muito: era o almoço dele e da esposa que o aguardava mais adiante.
A atendente, ainda arrogante, dizia que fazia sempre assim, “cada vez que um desses aparece por aqui”. Respondi que não interessava o que ele ia fazer com as compras, pois minha parte estava feita. Ela pareceu não concordar, mas se calou.
Num degrau mais acima, estão os pobres. Moram mal, mas têm teto. Vivem mal, mas alimentam os filhos, batalham subempregos, recorrem a todo tipo de ajuda institucional. Vejo muitos deles no metrô, a maioria com os pés expostos em chinelos de borracha. Vejo pedreiros, com as roupas manchadas de tinta ou cimento, sem casacos e muito menos, meias. Vejo pais de família com sua prole, todos de chinelos. Vejo cegos pedindo esmola, enquanto os fiscais não chegam. Vejo músicos também desafiando a vigilância, entre uma estação e outra.
Há tantos brasis neste Brasil, mesmo na cidade mais rica do país. E o inverno ainda nem chegou…
Ia a caminho da feira quando um deles me abordou, pedindo que lhe comprasse uma bolacha. Expliquei que não portava dinheiro, só cartão, mas ele insistiu: aqui eles aceitam, mostrando um pequeno mercado. Entramos e o deixei à vontade para escolher. Voltou rápido, com um pote de macarrão instantâneo, um refrigerante e a tal bolacha.
Tudo isso? – perguntou a moça do caixa, com irritação. Vai comer ou vai vender?
Falei que estava tudo bem, podia cobrar. Cheia de razão, ela avisou: vou abrir tudo, assim ele não vende. Fiquei tão chocada que não respondi, enquanto ela violava as embalagens e destampava a bebida. Ele pediu uma sacola de plástico para embalar tudo e partiu, agradecendo muito: era o almoço dele e da esposa que o aguardava mais adiante.
A atendente, ainda arrogante, dizia que fazia sempre assim, “cada vez que um desses aparece por aqui”. Respondi que não interessava o que ele ia fazer com as compras, pois minha parte estava feita. Ela pareceu não concordar, mas se calou.
Num degrau mais acima, estão os pobres. Moram mal, mas têm teto. Vivem mal, mas alimentam os filhos, batalham subempregos, recorrem a todo tipo de ajuda institucional. Vejo muitos deles no metrô, a maioria com os pés expostos em chinelos de borracha. Vejo pedreiros, com as roupas manchadas de tinta ou cimento, sem casacos e muito menos, meias. Vejo pais de família com sua prole, todos de chinelos. Vejo cegos pedindo esmola, enquanto os fiscais não chegam. Vejo músicos também desafiando a vigilância, entre uma estação e outra.
Há tantos brasis neste Brasil, mesmo na cidade mais rica do país. E o inverno ainda nem chegou…
Três homens na estrada
O encarregado do posto de lubrificação, sozinho àquela hora, estranhou os vultos que vinham a pé, na estrada. O sol nascia; apenas alguns caminhões passavam, transbordando de legumes. Os três homens caminhavam sem pressa, no leito da rodovia, indiferentes ao risco. Motoristas jogavam-lhes palavrões, sem que eles se importassem. Estavam vestidos de maneira inabitual, um de vermelho, outro de verde, outro de roxo; as roupas se assemelhavam a túnicas, dessas que o rapaz da lubrificação estava acostumado a apreciar em filmes de Victor Mature e vira uma só vez na vida real, quando passou por ali, rumo a São Paulo, o carro do embaixador da Índia, e uma jovem morena descera para contemplar a paisagem.
Como os estranhos parassem diante do posto, teve vontade de aproximar-se e perguntar o que desejavam. Mas deteve-se. Eram três, ele estava desarmado, não sabia que espécie de gente era aquela.
O mais alto deles ficava ainda mais esguio olhando para o céu, como quem indaga o tempo. Os outros miravam um ponto vago, esperando decerto que ele comunicasse o resultado da inspeção. Não houve palavras, entretanto. O homem comprido, de vermelho, baixou a cabeça e fitou por sua vez os companheiros. Entendiam-se pelo olhar, era evidente. Não careciam de palavras, ou temiam empregá-las. Tratava-se, realmente, de indivíduos suspeitos.
Mas a suspeição que irradiavam era de natureza especial. O rapaz do posto — já é tempo de chamá-lo Marcos, pois assim fora batizado e registrado — imaginara no primeiro instante que fossem ladrões. Depois, pela excentricidade dos trajes, supusera-os simplesmente loucos. Agora percebia neles a majestade, ao mesmo tempo gloriosa e simples, de personagens de histórias da infância, no Nordeste, quando Carlos Magno ia com ele morro abaixo morro acima, e Rolando e d. Pedro i enchiam o ar com o retintim de espadas românticas.
Não sabendo como falar-lhes, nem recebendo deles qualquer pedido, Marcos estendeu-lhes um copo d’água, que um bebeu devagar, embora o rosto fosse sede pura. Os outros dois fizeram o mesmo, sucessivamente. Agradeceram com os olhos, e foram-se.
Ao chegarem os colegas de trabalho, Marcos, pressentindo a importância do encontro, não quis contar-lhes nada. E eles vinham justamente fazendo troça dos tipos encontrados em caminho, que davam dor de cabeça aos motoristas. Nunca se xingara tanto numa estrada do Rio. Pois os três caminhavam para o Rio de Janeiro, sempre consultando o espaço.
O ônibus freou brusco, para não amassá-los. O motorista quis descer justamente para amassá-los, na raça. Entre os passageiros, as definições variavam: eram contratados de casa comercial, em promoção de festas; tinham bebido demais e erravam a esmo; não, são figuras de rancho ensaiando para Carnaval; ou palhaços de circo, descansando. Fugiram do hospício; são doidos mansos; pois sim, experimenta bulir com eles. Desceram do foguete interplanetário, numa praia fluminense. Marcianos? Isso não: uniformes russos, meu velho.
Marcos trabalhou o dia todo com o pensamento naqueles três homens diferentes que, sem nada falar, lhe insinuaram muitas coisas. Não eram propriamente nobres, se bem que na poeira das vestes se entremostrasse nobreza. Em seu entendimento singelo, Marcos apreendia o recolhimento deles, sentia-os empenhados numa busca infatigável e serena, que não se faz por meio de perguntas. Eram ridículos talvez, exatamente porque não tinham qualquer relação com o lugar por onde passavam, não se serviam de nada que hoje em dia se usa para viajar. De onde vinham, por que vinham, o empregado de um posto de gasolina seria incapaz de saber. Mas sabia intuitivamente que levavam consigo uma alta obrigação.
No dia seguinte, Marcos leu no jornal que foram presos na Penha três indivíduos trajados de modo grotesco, ao atravessarem a linha férrea. Pareciam estrangeiros, nada carregavam, nada souberam responder. O delegado solicitara um intérprete da Polícia Técnica, mas não fora atendido porque era meio- feriado, com expediente suspenso para que toda gente fosse assistir, no Maracanã, com a presença das autoridades, à festa da recepção simbólica aos Três Reis Magos.
Como os estranhos parassem diante do posto, teve vontade de aproximar-se e perguntar o que desejavam. Mas deteve-se. Eram três, ele estava desarmado, não sabia que espécie de gente era aquela.
O mais alto deles ficava ainda mais esguio olhando para o céu, como quem indaga o tempo. Os outros miravam um ponto vago, esperando decerto que ele comunicasse o resultado da inspeção. Não houve palavras, entretanto. O homem comprido, de vermelho, baixou a cabeça e fitou por sua vez os companheiros. Entendiam-se pelo olhar, era evidente. Não careciam de palavras, ou temiam empregá-las. Tratava-se, realmente, de indivíduos suspeitos.
Mas a suspeição que irradiavam era de natureza especial. O rapaz do posto — já é tempo de chamá-lo Marcos, pois assim fora batizado e registrado — imaginara no primeiro instante que fossem ladrões. Depois, pela excentricidade dos trajes, supusera-os simplesmente loucos. Agora percebia neles a majestade, ao mesmo tempo gloriosa e simples, de personagens de histórias da infância, no Nordeste, quando Carlos Magno ia com ele morro abaixo morro acima, e Rolando e d. Pedro i enchiam o ar com o retintim de espadas românticas.
Não sabendo como falar-lhes, nem recebendo deles qualquer pedido, Marcos estendeu-lhes um copo d’água, que um bebeu devagar, embora o rosto fosse sede pura. Os outros dois fizeram o mesmo, sucessivamente. Agradeceram com os olhos, e foram-se.
Ao chegarem os colegas de trabalho, Marcos, pressentindo a importância do encontro, não quis contar-lhes nada. E eles vinham justamente fazendo troça dos tipos encontrados em caminho, que davam dor de cabeça aos motoristas. Nunca se xingara tanto numa estrada do Rio. Pois os três caminhavam para o Rio de Janeiro, sempre consultando o espaço.
O ônibus freou brusco, para não amassá-los. O motorista quis descer justamente para amassá-los, na raça. Entre os passageiros, as definições variavam: eram contratados de casa comercial, em promoção de festas; tinham bebido demais e erravam a esmo; não, são figuras de rancho ensaiando para Carnaval; ou palhaços de circo, descansando. Fugiram do hospício; são doidos mansos; pois sim, experimenta bulir com eles. Desceram do foguete interplanetário, numa praia fluminense. Marcianos? Isso não: uniformes russos, meu velho.
Marcos trabalhou o dia todo com o pensamento naqueles três homens diferentes que, sem nada falar, lhe insinuaram muitas coisas. Não eram propriamente nobres, se bem que na poeira das vestes se entremostrasse nobreza. Em seu entendimento singelo, Marcos apreendia o recolhimento deles, sentia-os empenhados numa busca infatigável e serena, que não se faz por meio de perguntas. Eram ridículos talvez, exatamente porque não tinham qualquer relação com o lugar por onde passavam, não se serviam de nada que hoje em dia se usa para viajar. De onde vinham, por que vinham, o empregado de um posto de gasolina seria incapaz de saber. Mas sabia intuitivamente que levavam consigo uma alta obrigação.
No dia seguinte, Marcos leu no jornal que foram presos na Penha três indivíduos trajados de modo grotesco, ao atravessarem a linha férrea. Pareciam estrangeiros, nada carregavam, nada souberam responder. O delegado solicitara um intérprete da Polícia Técnica, mas não fora atendido porque era meio- feriado, com expediente suspenso para que toda gente fosse assistir, no Maracanã, com a presença das autoridades, à festa da recepção simbólica aos Três Reis Magos.
Carlos Drummond de Andrade
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