Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sábado, abril 25
O homem que lê
Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
Rainer Maria Rilke, "O Livro das Imagens"
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
Rainer Maria Rilke, "O Livro das Imagens"
Semelhanças
Espero chegar o livro “Menos que um”, de Patrícia Melo. Segundo as recomendações, é um relato sensível sobre a vida interior dos que moram nas ruas. Um de meus interesses também, mas a timidez (ainda resiste) me impede que os aborde e os ouça. Coleciono histórias de alguns que falam várias línguas, são formados em diversas profissões, mas, por alguma cruel razão, perderam seu lugar na sociedade. Sei que o assunto é prato cheio para a pieguice, mas me recuso a ignorar a condição desses anônimos, lamentando que o país não consiga beneficiá-los de forma eficiente.
Poucos dias atrás, estava numa via movimentada e notei a presença invisível de um homem ainda moço, sentado junto às paredes, muito atento ao livro em suas mãos. Ao me aproximar, vi que se tratava de uma dessas publicações para colorir, que ele preenchia lenta e caprichosamente com um toco de lápis de cor. Teria sido um artista plástico em outros tempos? Teria filhos que já não via e com quem talvez pudesse dividir o passatempo? Seria sua maneira de anestesiar a solidão?
Num primeiro impulso, pensei em ir até uma papelaria e lhe dar lápis de presente. Porém suas roupas sujas, o cabelo e a barba grandes, a coberta rasgada onde se acomodara provavam que suas necessidades eram muito maiores. Segui meu caminho, sentindo culpa pela atitude burguesa, arremedo de indiferença. Desde que mudei para cá, ando avessa a envolvimentos pessoais, como bicho em posição de defesa. Espero que, quando conhecer melhor lugares e habitantes, volte à atitude risonha e franca.
O afeto pelas pessoas não mudou, assim como aos animais e vegetais, a arquitetura, o metrô, as paisagens, o céu com todas as cores, meu apartamento ninho. Mas a metrópole impõe um comportamento de alerta permanente, a mídia me enche de preocupação, a ponto de ouvir os helicópteros que a toda hora passam por aqui e logo pensar na guerra atual e seus mísseis.
Quatro meses e ainda me sinto um pouco peixe fora d’água nesta cidade que sempre amei, mas até o momento não desvendo. Aos poucos, estendo minhas andanças e descubro novas facetas, mas o ritmo urbano é alucinante para quem desconhece certezas. Se duvidar, guardadas as proporções, a sensação de desamparo muito se assemelha à dos sem-teto que me ferem os olhos e a alma por essas calçadas onde não chega o futuro.
Poucos dias atrás, estava numa via movimentada e notei a presença invisível de um homem ainda moço, sentado junto às paredes, muito atento ao livro em suas mãos. Ao me aproximar, vi que se tratava de uma dessas publicações para colorir, que ele preenchia lenta e caprichosamente com um toco de lápis de cor. Teria sido um artista plástico em outros tempos? Teria filhos que já não via e com quem talvez pudesse dividir o passatempo? Seria sua maneira de anestesiar a solidão?
Num primeiro impulso, pensei em ir até uma papelaria e lhe dar lápis de presente. Porém suas roupas sujas, o cabelo e a barba grandes, a coberta rasgada onde se acomodara provavam que suas necessidades eram muito maiores. Segui meu caminho, sentindo culpa pela atitude burguesa, arremedo de indiferença. Desde que mudei para cá, ando avessa a envolvimentos pessoais, como bicho em posição de defesa. Espero que, quando conhecer melhor lugares e habitantes, volte à atitude risonha e franca.
O afeto pelas pessoas não mudou, assim como aos animais e vegetais, a arquitetura, o metrô, as paisagens, o céu com todas as cores, meu apartamento ninho. Mas a metrópole impõe um comportamento de alerta permanente, a mídia me enche de preocupação, a ponto de ouvir os helicópteros que a toda hora passam por aqui e logo pensar na guerra atual e seus mísseis.
Quatro meses e ainda me sinto um pouco peixe fora d’água nesta cidade que sempre amei, mas até o momento não desvendo. Aos poucos, estendo minhas andanças e descubro novas facetas, mas o ritmo urbano é alucinante para quem desconhece certezas. Se duvidar, guardadas as proporções, a sensação de desamparo muito se assemelha à dos sem-teto que me ferem os olhos e a alma por essas calçadas onde não chega o futuro.
O horror da solidão
Parece tão horrível ser solteiro, envelhecer lutando por manter a dignidade enquanto se pede um convite sempre que se deseja passar o serão em companhia, tendo de levar a refeição para casa, incapaz de esperar alguém com um sentimento de lassidão e de calma confiança, apenas capaz de, com dificuldade e vexame, dar um presente a alguém, tendo de dizer boa noite à porta de casa, nunca podendo subir as escadas a correr ao lado da mulher, não tendo outra consolação quando estiver doente que a vista da janela, se se puder sentar na cama, tendo somente portas ao lado que dão para salas de estar de outras pessoas, sentindo-se afastado da própria família, com quem só pelo casamento se pode manter laços de intimidade, primeiro pelo casamento dos pais, depois, passado o efeito deste casamento, pelo próprio, tendo de admirar os filhos dos outros e não lhe sendo sequer permitido continuar a dizer: «Eu não tenho nenhum», nunca se sentindo envelhecer uma vez que não há gente da família a crescer à volta, formando-se na aparência e no comportamento segundo os modelos de uma ou duas pessoas solteiras que conheceu na juventude. Tudo isto é verdade, mas é fácil cometer o erro de desdobrar de tal maneira os sofrimentos futuros à nossa frente que os nossos olhos têm de passar por eles e nunca mais voltar, quando, na realidade, tanto hoje como amanhã, a pessoa permanece com um corpo verdadeiro e uma cabeça verdadeira, e uma testa verdadeira, para bater com a mão.
Franz Kafka
Os que morrem por amor
Os que morrem por amor continuam a pertencer à lenda. Os seus funerais arrastam uma multidão piedosa, tal como decerto aconteceu na cidade de Verona, há seiscentos anos. Ainda que nesse tempo os costumes fossem bastante fáceis, a prática erótica da juventude era muito mais modesta. Reflectindo melhor, é de crer que a própria licença produzisse um tipo de pessoas orgulhosas da sua intimidade afectiva; o que, se não é virtude, algo se parece. Este orgulho da própria intimidade conduz a uma atitude hostil em relação a tudo o que pode burocratizar os sentimentos. Há um sociólogo inclinado a crer que existe muito de romantismo burocrático no amor moderno. É possível. E quando aparecem os contestatários dessa espécie de burocracia, como são os Romeus e Julietas do Candal, a cidade fica-lhes agradecida. No campo dos afectos trata-se da luta obstinada que resulta do choque entre a vida privada e o regime governativo; entre um corpo animado de impulsos e uma autoridade explicada por leis. Através de inquéritos feitos nos meios juvenis para inquirir das transformações que se efectuam no âmbito das relações afectivas, deparam-se declarações bastante confusas. Elas pairam entre uma sinceridade elementar que descura a experiência e teorias perfeitamente viciadas nos lugares-comuns do século. Entre outras coisas, afirmam que o amor é o último terreno não colonizado e, por isso, o único que oferece alguma possibilidade de salvação. Tudo isto não passa de rumor e timidez moral. Tem pouco conteúdo e pouca verdade.
O amor está relacionado com a memória. Ama-se só o que nos recorda alguma coisa ou alguém. A memória é um estado de afeição. Em amor, a improvisação não existe. Ele é a pintura emocional duma pintura mental. Portanto, é o terreno mais colonizado que existe. Mas também é certo que o amor se encontra cada vez mais ligado ao processo de humanização. A sensibilidade é uma criação do homem; e o amor é uma ocupação da sensibilidade. Nas sociedades primitivas havia instinto maternal e instinto de conservação. O amor resulta do equilíbrio dos dois. Em dados momentos históricos dá-se uma espécie de regresso e a violenta reacção contra a sensibilidade como invenção produtora de civilização. Procura-se o tom do entusiasmo na libertação do instinto. Mas o verdadeiro entusiasmo é sóbrio. As épocas aparentemente muito inovadoras são épocas que escondem a perturbação e o medo, atrás dum falso entusiasmo. As grandes ideias partem da energia eficaz, e não da agitação mais ou menos vegetal.
De repente, um jovem mata-se por amor. E aquela turba, que estava entregue aos seus empregos e aos seus negócios, fica suspensa duma interrogação: "É possível que alguém se mate por amor numa sociedade já afastada dos traumatismos da repressão?" É possível. Até porque a extrema libertação dos costumes conduz à instabilidade quanto ao comportamento do outro. É um facto. Desejamos a nossa liberação, mas não a de quem nós amamos.
Mas, sobretudo, morrer por amor é exemplo duma realidade sensível. Uma realidade sensível recebe a sua existência pelo que participa na natureza das coisas e das pessoas. Isto é o amor. E por isto mesmo havia um pouco de alegria discreta na multidão que enchia o jardim junto da morgue. O entusiasmo quebrava o luto e ardia até ao alto das frondosas árvores.Agustina Bessa-Luís
O amor está relacionado com a memória. Ama-se só o que nos recorda alguma coisa ou alguém. A memória é um estado de afeição. Em amor, a improvisação não existe. Ele é a pintura emocional duma pintura mental. Portanto, é o terreno mais colonizado que existe. Mas também é certo que o amor se encontra cada vez mais ligado ao processo de humanização. A sensibilidade é uma criação do homem; e o amor é uma ocupação da sensibilidade. Nas sociedades primitivas havia instinto maternal e instinto de conservação. O amor resulta do equilíbrio dos dois. Em dados momentos históricos dá-se uma espécie de regresso e a violenta reacção contra a sensibilidade como invenção produtora de civilização. Procura-se o tom do entusiasmo na libertação do instinto. Mas o verdadeiro entusiasmo é sóbrio. As épocas aparentemente muito inovadoras são épocas que escondem a perturbação e o medo, atrás dum falso entusiasmo. As grandes ideias partem da energia eficaz, e não da agitação mais ou menos vegetal.
De repente, um jovem mata-se por amor. E aquela turba, que estava entregue aos seus empregos e aos seus negócios, fica suspensa duma interrogação: "É possível que alguém se mate por amor numa sociedade já afastada dos traumatismos da repressão?" É possível. Até porque a extrema libertação dos costumes conduz à instabilidade quanto ao comportamento do outro. É um facto. Desejamos a nossa liberação, mas não a de quem nós amamos.
Mas, sobretudo, morrer por amor é exemplo duma realidade sensível. Uma realidade sensível recebe a sua existência pelo que participa na natureza das coisas e das pessoas. Isto é o amor. E por isto mesmo havia um pouco de alegria discreta na multidão que enchia o jardim junto da morgue. O entusiasmo quebrava o luto e ardia até ao alto das frondosas árvores.
sexta-feira, abril 24
Resenha de livros que não existem
A moça conheceu o rapaz em um cemitério. Tinha quinze anos, estava entediada e resolveu passear entre as tumbas. Não sei que tipo de sapatos calçava, mas imagino que um par de galochas vermelhas causaria bom impacto na cena que estava para acontecer: a mocinha encontrou um crânio no chão e resolveu chutar para longe. Deu um pontapé no encaixe perfeito de ossos que, um dia, abrigou os pensamentos de alguém. E isso não a abalou em nada, não parecia um gesto reprovável, até chegar aquele homem indignado, em passos rápidos até ela. Observou a cena de longe e chegou para dizer a verdade necessária: que aquilo não se faz, não é certo chutar a cabeça de um morto. Talvez alguém ainda chore por ele, você pensou nisso?
Claro que ela não pensou. No momento ela só pensava no quanto era bonito o moço, naquele sotaque e na força dos traços. Era um sírio, imigrante vindo de longe, trazendo mistérios de outras terras. Casaram, seguiram religiões diferentes em solo brasileiro, tiveram filhos, netos, netas, e uma delas me contou essa história. Encontraram um ao outro por causa de um esqueleto no meio do cemitério.
Na primeira versão do relato a moça chutava umas flores que alguém deixou em homenagem a um falecido recente, mas dar um piparote na caveira causa um efeito muito melhor para um encontro amoroso. Não ouvi isso sozinha, éramos mais de trinta pessoas em uma sala de aula, impressionadas com a ação do acaso nessa história que merece ser escrita em detalhes.
Faz parte do meu ofício o encontro constante com livros inexistentes: as pessoas me contam. São projetos que vagam em pedaços separados, correndo entre os pensamentos de quem quer escrever, algo como as cenas de transeuntes atravessando largas avenidas de seis faixas, as trombadas em sentido contrário, a velocidade, a profusão de gestos, o barulho confuso. Organizar a criação é um trabalho que exige muito. Às vezes o verbo certo não é organizar, mas permitir.
Alguns projetos de livros nunca serão escritos e nem sempre isso é ruim. Ideias podem ser tão insignificantes quanto mosquitos, merecem uma palma da morte e nada mais. É preciso entender isso para aprender a encontrar o que merece dedicação. Escrever um livro é entregar um bom pedaço da própria vida a um devaneio. Diante do fato de que não sabemos quanto tempo temos na vida, é prudente escolher bem o que fazer com ele.
Pois de todos os casos, os meus preferidos sempre são as histórias reais que provam o poder do acaso, como o chute na caveira. Na mesma aula outra aluna contou que seus pais se conheceram por causa de um trote, ao telefone. A moça achou a voz do outro lado bem bonita e resolveu esticar a conversa. Outro aluno relatou o curioso caso que presenciou em uma escola de Educação de Jovens e Adultos, na zona rural do Ceará.
Um aluno e uma aluna, ambos idosos e até pouco tempo analfabetos, exercitaram a capacidade recém adquirida de ler e escrever na gostosa tarefa de trocar bilhetes de amor proibido. Poucas palavras, pontos de interrogação. “Amanhã?” era o conteúdo de um dos bilhetes encontrados. Um belo dia, ao amanhecer, os dois não estavam mais em suas respectivas casas. Fugiram, deixando para trás um marido, uma esposa, filhos e um rastro de espanto. A escrita deu força e impulso para que fizessem o que talvez tivessem vontade de fazer há tempos. Devem estar felizes, em algum lugar.
A sorte que tenho por escutar essa coleção de histórias faz de mim uma leitora de dois tipos de livros: os escritos e os imaginados. Muitos nunca irão nascer, vão ficar pelo caminho, apenas como ideia insana que apareceu na cabeça, um delírio momentâneo. Aprendi a apreciar e falar sobre livros que não existem. São palavras, frases, parágrafos inteiros sobre nossas cabeças. Uma infinidade de livros invisíveis voando pelo céu.
Claro que ela não pensou. No momento ela só pensava no quanto era bonito o moço, naquele sotaque e na força dos traços. Era um sírio, imigrante vindo de longe, trazendo mistérios de outras terras. Casaram, seguiram religiões diferentes em solo brasileiro, tiveram filhos, netos, netas, e uma delas me contou essa história. Encontraram um ao outro por causa de um esqueleto no meio do cemitério.
Na primeira versão do relato a moça chutava umas flores que alguém deixou em homenagem a um falecido recente, mas dar um piparote na caveira causa um efeito muito melhor para um encontro amoroso. Não ouvi isso sozinha, éramos mais de trinta pessoas em uma sala de aula, impressionadas com a ação do acaso nessa história que merece ser escrita em detalhes.
Faz parte do meu ofício o encontro constante com livros inexistentes: as pessoas me contam. São projetos que vagam em pedaços separados, correndo entre os pensamentos de quem quer escrever, algo como as cenas de transeuntes atravessando largas avenidas de seis faixas, as trombadas em sentido contrário, a velocidade, a profusão de gestos, o barulho confuso. Organizar a criação é um trabalho que exige muito. Às vezes o verbo certo não é organizar, mas permitir.
Alguns projetos de livros nunca serão escritos e nem sempre isso é ruim. Ideias podem ser tão insignificantes quanto mosquitos, merecem uma palma da morte e nada mais. É preciso entender isso para aprender a encontrar o que merece dedicação. Escrever um livro é entregar um bom pedaço da própria vida a um devaneio. Diante do fato de que não sabemos quanto tempo temos na vida, é prudente escolher bem o que fazer com ele.
Pois de todos os casos, os meus preferidos sempre são as histórias reais que provam o poder do acaso, como o chute na caveira. Na mesma aula outra aluna contou que seus pais se conheceram por causa de um trote, ao telefone. A moça achou a voz do outro lado bem bonita e resolveu esticar a conversa. Outro aluno relatou o curioso caso que presenciou em uma escola de Educação de Jovens e Adultos, na zona rural do Ceará.
Um aluno e uma aluna, ambos idosos e até pouco tempo analfabetos, exercitaram a capacidade recém adquirida de ler e escrever na gostosa tarefa de trocar bilhetes de amor proibido. Poucas palavras, pontos de interrogação. “Amanhã?” era o conteúdo de um dos bilhetes encontrados. Um belo dia, ao amanhecer, os dois não estavam mais em suas respectivas casas. Fugiram, deixando para trás um marido, uma esposa, filhos e um rastro de espanto. A escrita deu força e impulso para que fizessem o que talvez tivessem vontade de fazer há tempos. Devem estar felizes, em algum lugar.
A sorte que tenho por escutar essa coleção de histórias faz de mim uma leitora de dois tipos de livros: os escritos e os imaginados. Muitos nunca irão nascer, vão ficar pelo caminho, apenas como ideia insana que apareceu na cabeça, um delírio momentâneo. Aprendi a apreciar e falar sobre livros que não existem. São palavras, frases, parágrafos inteiros sobre nossas cabeças. Uma infinidade de livros invisíveis voando pelo céu.
O guarda-chuva preto
Esquecido na mesa,
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.
Adélia Prado, "O Coração Disparado"
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.
Adélia Prado, "O Coração Disparado"
Encarnação involuntária
Às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho algum tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria autoacusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdoo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesma.
Um dia, no avião... ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida de missionária já me haviam tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar no chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para eu conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. E ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzentas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depurado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, senão no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava sendo hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance de minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Um dia, no avião... ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida de missionária já me haviam tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar no chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para eu conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. E ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzentas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depurado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, senão no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava sendo hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance de minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Os namorados
O Pião e a Bola achavam-se numa gaveta, junto com outros brinquedos, e o Pião disse a Bola:
- Vamos ser namorados, já que estamos juntos na mesma gaveta?
A Bola, porém, feita de marroquim, e tão vaidosa como uma senhorita elegante, nem resposta quis dar a semelhante pergunta.
No dia seguinte, veio o menino, dono dos brinquedos. Pintou o Pião de vermelho e amarelo, e pregou-lhe bem no centro um prego de latão. Era muito bonito quando o Pião girava.
- Olhe para mim - disse o Pião à Bola - que diz você agora? Não vamos então ser namorados? Servimos muito bem um para o outro: você pula e eu danço. Ninguém poderá ser mais feliz que nós dois.
- É o que o senhor pensa - disse a Bola - certamente não sabe que meu pai e minha mãe foram chinelos de marroquim, e que tenho dentro de mim uma cortiça.
E eu sou feito de mogno - disse o Pião - o próprio prefeito me torneou em seu torno, o que lhe deu um grande prazer.
- Se eu pudesse acreditar nisso! - disse a Bola.
- Quero nunca mais ver uma fieira em toda a minha vida se for mentira o que eu disse - respondeu o Pião.
O senhor advoga bem a própria causa - disse a Bola - mas não posso namorar.
"Quer? Quer?"
Ora, eu intimamente já disse que sim, o que equivale a um meio compromisso. Mas lhe prometo que nunca o esquecerei!
- E isso vai adiantar muito! - disse o Pião.
E nada mais disseram.
No dia seguinte vieram buscar a Bola. O Pião viu como ela subia a grande altura, como um pássaro, desaparecendo de vista. Voltava todas as vezes, mas dava um grande salto cada vez que tocava o chão. Devia ser por causa das saudades, ou por causa da cortiça que ela tinha dentro dela. A nona vez a Bola subiu ao alto, e não mais voltou. O menino procurou muito, e nada: a Bola sumira.
- Bem sei onde ela está - suspirou o Pião - está no ninho do sr. Andorinha e com ele se casou.
Quanto mais o Pião pensava naquilo, tanto mais se apaixonava pela Bola. Por não poder tê-la, seu amor por ela aumentava. O fato de ter ela ficado com outro, tornava o caso mais apaixonante. O Pião dançava ao redor e zunia, mas sempre pensava na Bola, que em seus pensamentos se foi tornando cada vez mais bonita. Passaram-se assim muitos anos e o amor do Pião transformou-se num velho sonho.
O Pião não era mais moço. Um dia, porém, foi inteiramente pintado de dourado. Nunca fora antes tão bonito. Era agora um Pião de Ouro, e pulava, deixando um zunido pairando no ar. Aquilo sim, era formidável! Mas de repente ele saltou alto demais - e sumiu.
Procuraram por toda a parte, até na adega, mas nada de aparecer o Pião.
- Onde estaria ele?
Pulara para dentro da barrica de lixo, onde jaziam amontoados talos de couve, cisco e entulho caído da calha.
"Estou bem arrumado" - pensou o Pião - "aqui a douração não tardará a sair de mim. E que gentalha é essa em cujo meio vim parar!" Olhou de esguelha para um longo talo de couve e para um estranho objeto redondo, que parecia uma maçã velha. Mas não era uma maçã. Era uma velha Bola que durante muitos anos estivera caída na calha, embebida de água.
- Graças a Deus, aí vem alguém com quem se pode falar - disse a Bola ao ver o Pião Dourado - eu, para falar a verdade, sou de marroquim, costurada pelas mãos de uma gentil senhorita, e tenho uma cortiça dentro de mim. Mas duvido que se veja isso agora. Eu estava prestes a casar-me com uma andorinha quando caí na calha, e ali estive por cinco anos, encharcada de água. É um longo tempo, pode crer, para uma jovem.
O Pião não respondeu. Pensava em sua antiga namorada, e quanto mais a ouvia, tanto mais certo estava de que era ela.
Nisto chegou a criada e quis virar a lata de lixo.
- Oh! Aqui está o Pião Dourado! - disse ela.
E o Pião retornou à sala, à antiga posição de respeito, mas da Bola nada mais se ouviu. O Pião nunca mais falou em seu antigo amor. O amor se extingue quando a amada passa cinco anos numa calha, embebendo-se de água. Nem a conhecem mais quando a encontram na lata de lixo.
- Vamos ser namorados, já que estamos juntos na mesma gaveta?
A Bola, porém, feita de marroquim, e tão vaidosa como uma senhorita elegante, nem resposta quis dar a semelhante pergunta.
No dia seguinte, veio o menino, dono dos brinquedos. Pintou o Pião de vermelho e amarelo, e pregou-lhe bem no centro um prego de latão. Era muito bonito quando o Pião girava.
- Olhe para mim - disse o Pião à Bola - que diz você agora? Não vamos então ser namorados? Servimos muito bem um para o outro: você pula e eu danço. Ninguém poderá ser mais feliz que nós dois.
- É o que o senhor pensa - disse a Bola - certamente não sabe que meu pai e minha mãe foram chinelos de marroquim, e que tenho dentro de mim uma cortiça.
E eu sou feito de mogno - disse o Pião - o próprio prefeito me torneou em seu torno, o que lhe deu um grande prazer.
- Se eu pudesse acreditar nisso! - disse a Bola.
- Quero nunca mais ver uma fieira em toda a minha vida se for mentira o que eu disse - respondeu o Pião.
O senhor advoga bem a própria causa - disse a Bola - mas não posso namorar.
Estou quase comprometida com um sr. Andorinha. Cada vez que subo ao espaço, ele põe a cabeça fora do ninho e pergunta:
"Quer? Quer?"
Ora, eu intimamente já disse que sim, o que equivale a um meio compromisso. Mas lhe prometo que nunca o esquecerei!
- E isso vai adiantar muito! - disse o Pião.
E nada mais disseram.
No dia seguinte vieram buscar a Bola. O Pião viu como ela subia a grande altura, como um pássaro, desaparecendo de vista. Voltava todas as vezes, mas dava um grande salto cada vez que tocava o chão. Devia ser por causa das saudades, ou por causa da cortiça que ela tinha dentro dela. A nona vez a Bola subiu ao alto, e não mais voltou. O menino procurou muito, e nada: a Bola sumira.
- Bem sei onde ela está - suspirou o Pião - está no ninho do sr. Andorinha e com ele se casou.
Quanto mais o Pião pensava naquilo, tanto mais se apaixonava pela Bola. Por não poder tê-la, seu amor por ela aumentava. O fato de ter ela ficado com outro, tornava o caso mais apaixonante. O Pião dançava ao redor e zunia, mas sempre pensava na Bola, que em seus pensamentos se foi tornando cada vez mais bonita. Passaram-se assim muitos anos e o amor do Pião transformou-se num velho sonho.
O Pião não era mais moço. Um dia, porém, foi inteiramente pintado de dourado. Nunca fora antes tão bonito. Era agora um Pião de Ouro, e pulava, deixando um zunido pairando no ar. Aquilo sim, era formidável! Mas de repente ele saltou alto demais - e sumiu.
Procuraram por toda a parte, até na adega, mas nada de aparecer o Pião.
- Onde estaria ele?
Pulara para dentro da barrica de lixo, onde jaziam amontoados talos de couve, cisco e entulho caído da calha.
"Estou bem arrumado" - pensou o Pião - "aqui a douração não tardará a sair de mim. E que gentalha é essa em cujo meio vim parar!" Olhou de esguelha para um longo talo de couve e para um estranho objeto redondo, que parecia uma maçã velha. Mas não era uma maçã. Era uma velha Bola que durante muitos anos estivera caída na calha, embebida de água.
- Graças a Deus, aí vem alguém com quem se pode falar - disse a Bola ao ver o Pião Dourado - eu, para falar a verdade, sou de marroquim, costurada pelas mãos de uma gentil senhorita, e tenho uma cortiça dentro de mim. Mas duvido que se veja isso agora. Eu estava prestes a casar-me com uma andorinha quando caí na calha, e ali estive por cinco anos, encharcada de água. É um longo tempo, pode crer, para uma jovem.
O Pião não respondeu. Pensava em sua antiga namorada, e quanto mais a ouvia, tanto mais certo estava de que era ela.
Nisto chegou a criada e quis virar a lata de lixo.
- Oh! Aqui está o Pião Dourado! - disse ela.
E o Pião retornou à sala, à antiga posição de respeito, mas da Bola nada mais se ouviu. O Pião nunca mais falou em seu antigo amor. O amor se extingue quando a amada passa cinco anos numa calha, embebendo-se de água. Nem a conhecem mais quando a encontram na lata de lixo.
Hans Christian Andersen
quinta-feira, abril 23
Nós e o mundo
Se a nossa vida fosse um eterno estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos montes. Se assim ficássemos para além de sempre!
Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras!
Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras!
Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
O pedestre
Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de novembro, pousar os pés naquela sólida calçada de concreto, pisar nas fendas de mato, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as calçadas enluaradas nas quatro direções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só, e com uma decisão final tomada, um caminho escolhido, sairia andando, soltando rastros de ar congelado à sua frente, como a fumaça de um cigarro.
Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com suas janelas escuras, e não era diferente de caminhar por um cemitério onde só o mais fraco luzir de um vagalume como que tremeluzia por detrás das janelas. Súbitos espectros acinzentados pareciam manifestar-se sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-tumba ainda estava aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, pés sem fazer ruído na calçada irregular. Há muito, prudentemente, passara a usar sapatos de tênis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam sua caminhada com seus latidos, se usasse calçado com sola de couro, e luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, e toda uma rua sobressaltar-se com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de novembro.
Nesta noite, em particular, começou sua jornada para o oeste rumo ao mar, invisível. Havia um bom frio cristalino, no ar; cortava o nariz e fazia os pulmões arderem por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava seu calçado macio empurrar delicadamente as folhas de outono, satisfeito, e assobiava frio e baixinho, entredentes, ocasionalmente arrancando uma folha, de passagem, examinando o desenho esqueletal, às poucas lâmpadas, enquanto ia adiante, cheirando seu odor enferrujado.
— Ó de casa — ele murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava.
Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com suas janelas escuras, e não era diferente de caminhar por um cemitério onde só o mais fraco luzir de um vagalume como que tremeluzia por detrás das janelas. Súbitos espectros acinzentados pareciam manifestar-se sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-tumba ainda estava aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, pés sem fazer ruído na calçada irregular. Há muito, prudentemente, passara a usar sapatos de tênis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam sua caminhada com seus latidos, se usasse calçado com sola de couro, e luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, e toda uma rua sobressaltar-se com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de novembro.
Nesta noite, em particular, começou sua jornada para o oeste rumo ao mar, invisível. Havia um bom frio cristalino, no ar; cortava o nariz e fazia os pulmões arderem por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava seu calçado macio empurrar delicadamente as folhas de outono, satisfeito, e assobiava frio e baixinho, entredentes, ocasionalmente arrancando uma folha, de passagem, examinando o desenho esqueletal, às poucas lâmpadas, enquanto ia adiante, cheirando seu odor enferrujado.
— Ó de casa — ele murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava.
— O que está passando hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Por onde estão correndo os “cow-boys”, e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?
A rua estava silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, em meio a um campo. Fechou os olhos, e ficou bem quieto, congelado, e podia imaginar-se no meio de uma planície, um deserto Americano, sem ventos, inverno, sem casa nenhuma num raio de mil milhas, e só leitos de rios, as ruas, para companhia.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando para seu relógio de pulso. — Oito e meia? Hora de uma dúzia de assassinatos diversos? Uma charada? Um musical? Um comediante levando um tombo?
Aquilo foi um ruído de dentro de uma casa à luz da lua? Hesitou, mas continuou, quando nada mais se notou. Tropeçou numa irregularidade maior da calçada. O cimento estava desaparecento, sob as flores e o mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa andando, nunca, nem uma só vez.
Chegou a um trevo, deserto, onde duas estradas principais cruzavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insetos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo de seus escapamentos, deslizavam para casa, nas mais diversas direções. Mas agora, estas estradas, eram como rios temporários no verão, só pedra, leito, e luar.
Virou por uma rua secundária, fazendo a volta para casa. Estava a um quarteirão de seu destino, quando aquele carro solitário virou uma esquina, repentinamente, e acendeu um forte cone de luz branca sobre ele. Ficou em transe, não muito diferente de uma mariposa, atordoada pela iluminação, e então, atraído para ela.
Uma voz metálica dirigiu-se a ele:
— Fique parado. Fique onde está! Não se mova!
Ele parou.
— Erga as mãos!
— Mas… — ele falou.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava desaparecendo; não havia necessidade de polícia, exceto este carro solitário vagando e vagando pelas ruas desertas.
— Seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte em seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode chamar de escritor.
— Sem profissão — disse o carro de polícia, como se falando sozinho. A luz mantinha-o transfixado como um espécime de museu, agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer que sim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Não se vendiam mais livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-tumbas, à noite, ele pensou. Os túmulos, mal-iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas sentavam-se como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca de fato tocando a eles.
— Sem profissão — disse a voz de vitrola, chiando. — Que está fazendo aqui fora?
— Andando — disse Leonard Mead.
— Andando!
— Só andando — ele disse, simplesmente, mas seu rosto gelou.
— Andando, só andando, andando?
— Sim, senhor.
— Andando para onde? Para que?
— Para tomar ar. Andando para ver.
— Seu endereço.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E há ar na sua casa; o senhor não tem um condicionador de ar, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela para ver, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção cheia de estalidos, que em si era uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas eram cinzentas e caladas.
— Ninguém me queria — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas andando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para tomar ar, e ver, e simplesmente, só para andar um pouco.
— Já fez isso muitas vezes?
— Toda noite, há anos.
O carro de polícia estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — ele perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Espere, não fiz nada!
— Entre.
— Eu protesto.
— Sr. Mead.
Ele caminhou como um homem subitamente bêbado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para dentro. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma jaulinha escura, com barras. Cheirava a aço rebitado. Cheirava a anti-séptico forte; cheirava a coisa muito limpa, e dura, e metálica. Não havia nada macio, ali.
— Se você tivesse uma esposa, para dar-lhe um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde está me levando?
O carro hesitou, ou melhor, deu um estalido e um zunido, como se a informação, em algum lugar, estivesse sendo dada por cartões perfurados, e olhos elétricos. — Ao Centro Psiquiátrico para Pesquisa de Tendências Regressivas.
Ele entrou. A porta fechou com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, em meio à noite, com as lanternas acesas.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as suas luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias de leitos de rios, afastando-se, deixando as ruas vazias, com suas calçadas vazias, sem som nem movimento, por todo o resto da fria noite de novembro.
A rua estava silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, em meio a um campo. Fechou os olhos, e ficou bem quieto, congelado, e podia imaginar-se no meio de uma planície, um deserto Americano, sem ventos, inverno, sem casa nenhuma num raio de mil milhas, e só leitos de rios, as ruas, para companhia.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando para seu relógio de pulso. — Oito e meia? Hora de uma dúzia de assassinatos diversos? Uma charada? Um musical? Um comediante levando um tombo?
Aquilo foi um ruído de dentro de uma casa à luz da lua? Hesitou, mas continuou, quando nada mais se notou. Tropeçou numa irregularidade maior da calçada. O cimento estava desaparecento, sob as flores e o mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa andando, nunca, nem uma só vez.
Chegou a um trevo, deserto, onde duas estradas principais cruzavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insetos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo de seus escapamentos, deslizavam para casa, nas mais diversas direções. Mas agora, estas estradas, eram como rios temporários no verão, só pedra, leito, e luar.
Virou por uma rua secundária, fazendo a volta para casa. Estava a um quarteirão de seu destino, quando aquele carro solitário virou uma esquina, repentinamente, e acendeu um forte cone de luz branca sobre ele. Ficou em transe, não muito diferente de uma mariposa, atordoada pela iluminação, e então, atraído para ela.
Uma voz metálica dirigiu-se a ele:
— Fique parado. Fique onde está! Não se mova!
Ele parou.
— Erga as mãos!
— Mas… — ele falou.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava desaparecendo; não havia necessidade de polícia, exceto este carro solitário vagando e vagando pelas ruas desertas.
— Seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte em seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode chamar de escritor.
— Sem profissão — disse o carro de polícia, como se falando sozinho. A luz mantinha-o transfixado como um espécime de museu, agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer que sim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Não se vendiam mais livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-tumbas, à noite, ele pensou. Os túmulos, mal-iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas sentavam-se como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca de fato tocando a eles.
— Sem profissão — disse a voz de vitrola, chiando. — Que está fazendo aqui fora?
— Andando — disse Leonard Mead.
— Andando!
— Só andando — ele disse, simplesmente, mas seu rosto gelou.
— Andando, só andando, andando?
— Sim, senhor.
— Andando para onde? Para que?
— Para tomar ar. Andando para ver.
— Seu endereço.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E há ar na sua casa; o senhor não tem um condicionador de ar, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela para ver, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção cheia de estalidos, que em si era uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas eram cinzentas e caladas.
— Ninguém me queria — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas andando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para tomar ar, e ver, e simplesmente, só para andar um pouco.
— Já fez isso muitas vezes?
— Toda noite, há anos.
O carro de polícia estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — ele perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Espere, não fiz nada!
— Entre.
— Eu protesto.
— Sr. Mead.
Ele caminhou como um homem subitamente bêbado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para dentro. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma jaulinha escura, com barras. Cheirava a aço rebitado. Cheirava a anti-séptico forte; cheirava a coisa muito limpa, e dura, e metálica. Não havia nada macio, ali.
— Se você tivesse uma esposa, para dar-lhe um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde está me levando?
O carro hesitou, ou melhor, deu um estalido e um zunido, como se a informação, em algum lugar, estivesse sendo dada por cartões perfurados, e olhos elétricos. — Ao Centro Psiquiátrico para Pesquisa de Tendências Regressivas.
Ele entrou. A porta fechou com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, em meio à noite, com as lanternas acesas.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as suas luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias de leitos de rios, afastando-se, deixando as ruas vazias, com suas calçadas vazias, sem som nem movimento, por todo o resto da fria noite de novembro.
Ray Bradbury, "A cidade inteira dorme e outros contos breves"
Quantos Seremos?
Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Miguel Torga
Objetos sólidos
A única coisa que se movia no vasto semicírculo da praia era um pequeno ponto negro. Quando se aproximou do esqueleto de um barco sardinheiro encalhado, tornou-se mais aparente que o ponto possuía quatro pernas, por um certo esbatimento em seu negror; e cada vez mais podia perceber-se que se compunha das pessoas de dois jovens. Mesmo assim, em delineamento na areia, havia neles uma indubitável vitalidade, um indiscutível vigor na aproximação e recuo dos corpos que, por pouco que fosse, deixava perceber alguma discussão violenta, provinda das bocas minúsculas das pequeninas cabeças redondas. A isso corroborava, num exame mais próximo, o repetido bater de uma bengala, à direita.
Quer você dizer-me… Acredita então… — parecia a bengala à direita sublinhar as frases, ao traçar longos riscos na areia, junto às ondas.
— A política que se dane! — emitiu claramente o corpo à esquerda e, ao serem pronunciadas essas palavras, as bocas, narizes, queixos, bigodinhos, bonés de tweed, grossas botinas, paletós de caça e meias xadrez dos dois iam-se tornando cada vez mais nítidos; a fumaça de seus cachimbos evolava-se no ar, por milhas e milhas de mar e dunas nada era tão sólido, tão vivo, tão colorido, hirsuto e viril como aqueles dois corpos.
Deixaram-se cair ao lado das seis costelas e espinha dorsal do negro barco sardinheiro. Sabemos como o corpo parece sacudir-se quando quer libertar-se de uma discussão, e desculpar-se por um momento de exaltação, como deixar-se cair, exprimindo pela moleza da sua atitude uma disposição para se interessar por outra coisa — o que quer que esteja mais à mão. Assim Charles, com a bengala estivera golpeando a praia por uma meia milha, pôs-se a atirar pedrinhas chatas por sobre a água; e John, que havia exclamado “a política que se dane!”, começou a escavar com os dedos a areia. À medida que a sua mão ia se enterrando até acima do pulso, de modo a obrigá-lo a arregaçar um pouco a manga, os seus olhos perderam a intensidade, ou antes: o fundo de pensamento e experiência que dá uma inescrutável profundeza aos olhos das pessoas adultas, desapareceu deixando apenas a clara e transparente superfície que se nota nos olhos das crianças onde nada transparece senão o pasmo. Sem dúvida o ato de escavar a areia tinha alguma coisa a ver com aquilo. Ele lembrou-se que, depois de se cavar um pouco, a água flui em redor das pontas dos dedos; o buraco transforma-se num poço, numa fonte, num canal secreto para o mar. Enquanto hesitava sobre qual dessas coisas iria fazer, os dedos, ainda imersos na água, curvaram-se em torno de uma coisa dura — um bocado de matéria sólida — e gradualmente deslocaram uma massa irregular e trouxeram-na à superfície. Removida a areia que a recobria, apareceu uma cor verde. Era um pedaço de vidro, tão espesso que quase chegava a ser opaco; o roçar das ondas desgastara tão com-pletamente qualquer aresta ou formato, que era impossível dizer se fora garrafa, copo ou vidraça; era apenas vidro; era quase uma pedra preciosa. Bastaria engastá-lo num aro de ouro, ou perfurá-lo com um fio, e transformar-se-ia numa jóia; parte de um colar; uma verde luz opaca sobre um dedo. Talvez fosse mesmo uma gema — quem sabe? — usada por uma trigueira princesa a deslizar os dedos na água enquanto ouvia o canto dos escravos que remavam levando-a para o outro lado da baía. Ou talvez a estrutura de carvalho de um cofre de tesouros afundado na época isabelina se tivesse partido, soltando do seu bojo esmeraldas que rolaram e rolaram até chegar à praia. John girou o bloco nos dedos; colocou-o contra a luz, contra o corpo e o braço estendido do seu amigo. O verde tornava-se ligeiramente mais claro ou mais proíundo ao ser posto contra o céu ou contra o corpo. Agradava-lhe, intrigava-o, era um objeto tão duro, tão concentrado, tão definido, em comparação com o mar difuso e a praia enevoada!
Um suspiro interrompeu-o — profundo, afinal, informando-o de que Charles havia atirado todas as pedras chatas ao seu alcance, ou chegara à conclusão de que não valia a pena atirá-las. Lado a lado, comeram os seus sanduíches. Quando terminaram, e estavam a sacudir as migalhas para se pôr de pé, John pegou no bloco de vidro e olhou-o em silêncio. Charles também o olhou. Mas logo viu que não era uma pedra chata, e enchendo o seu cachimbo disse com a energia de quem afasta um rumo menos sério de pensamento:
— Voltando ao que eu estava dizendo…
Não viu, ou se visse provavelmente não o teria notado, que John, depois de fitar um momento o bloco, e como que hesitante, enfiou-o no bolso. Esse impulso, também, podia ter sido o impulso que leva uma criança a apanhar um seixo num caminho cheio deles, e a prometer-lhe uma vida de calor e segurança sobre a lareira do seu quarto, deliciando-se com a sensação de poder e benignidade que pressupõe um tal gesto, e acreditando que o coração da pedra pulsa de alegria ao sentir-se ela escolhida entre milhões de outras semelhantes, ao gozar dessa felicidade em lugar de uma existência fria e húmida sobre a estrada.
“Poderia ter sido qualquer outra entre os milhões de pedras, mas fui eu, eu, eu!”
Quer fosse este ou não o pensamento de John, o pedaço de vidro teve o seu lugar sobre a lareira, onde, com o seu peso, prendia uma pequena pilha de contas e cartas, e servia não somente como um excelente peso-para-papéis, mas também como o natural lugar de pcuso para os olhos do rapaz, quando ele os erguia do seu livro. Qualquer objeto olhado repetidas vezes e meio inconscientemente por uma mente entretida com outro pensamento, identifica-se tão prontamente com a matéria do pensamento que perde a sua verdadeira forma e recompõe-se de maneira diferente, na forma ideal que persegue o espírito nos momentos menos esperados. Assim John começou a sentir-se atraído pelas montras, quando saía à rua, simplesmente porque via algo que lhe fazia lembrar o bloco de vidro. Qualquer coisa, contanto que fosse um objeto de uma determinada forma, mais ou menos arredondada, talvez com uma chama amortecida nas profundezas da sua massa, qualquer coisa — louça, vidro, âmbar, mármore, pedra — até o liso ovo de um pássaro pré-histórico servia. Deu também em andar de olhos postos no chão, sobretudo na vizinhança dos terrenos baldios onde é lançado o lixo das casas. Tais objetos eram ali freqüentemente encontráveis — atirados fora, sem utilidade para ninguém, informes, imprestáveis. Em poucos meses havia ele coleccionado quatro ou cinco espécimes, que foram enfileirar-se sobre a lareira. Eram úteis, também, pois um homem que se candidata ao Parlamento e em vésperas de uma carreira brilhante, tem muitos papéis para manter em crdem — endereços de eleitores, manifestos políticos, pedidos de subscrições, convites de jantares e outras coisas.
Certo dia, ao sair do seu apartamento em Temple para apanhar um trem a fim de falar aos seus eleitores, pousou os olhos sobre um objeto notável meio escondido num desses pequenos canteiros de relva que costumam cercar a base de grandes edifícios públicos. Através das grades só conseguia tocar-lhe com a ponta da bengala; mas podia ver que era um pedaço de louça de uma forma excepcional, muito semelhante a uma estrela do mar — moldado, ou acidentalmente quebrado, em cinco irregulares mas bem acentuadas pontas. O colorido predominante era o azul, embora estrias ou manchas verdes recobrissem a cor, e laivos carmezim lhe dessem uma riqueza e um brilho dos mais atraentes. John estava resolvido a possuí-lo; mas quanto mais lhe tocava, mais o objeto recuava. Por fim viu-se forçado a voltar ao seu apartamento e a improvisar um laço de arame preso na bengala, com o qual, com muito cuidado e habilidade, conseguiu finalmente puxar o caco de louça até ao alcance da sua mão. Ao segurá-lo, teve uma exclamação triunfante. Nesse momento soou o relógio. Já não poderia mais chegar a tempo ao encontro marcado. A reunião foi realizada sem ele. Mas como teria sido quebrado aquele pedaço de louça num formato tão singular? Um exame minucioso não deixou dúvidas de que a forma estelar era acidental, o que a tornava ainda mais estranha, e era pouco provável que existisse uma outra nas mesmas condições. Colocado sobre a lareira, no lado oposto ao do bloco de vidro que havia sido desenterrado da areia, parecia uma criatura de outro mundo — frágil e fantástica como um arlequim. Dava a impressão de estar a fazer piruetas pelo espaço, cintilando luz como uma estrela vacilante. O contraste entre a louça tão vívida e alerta, e o vidro tão mudo e contemplativo, fascinava-o e, entre intrigado e pasmo, ele perguntava a si mesmo como teriam chegado a existir aqueles dois objetos num mesmo mundo, e ainda mais em cima de uma mesma estreita prateleira de mármore no mesmo quarto. A pergunta ficava sem resposta.
Começou então a freqüentar locais mais prolíficos em louça quebrada, tais como terrenos de despejo entre leitos de estradas de ferro, lugares de prédios demolidos e terrenos baldios dos arredores de Londres. Mas raramente a louça é atirada de grandes alturas; é uma das mais raras ações humanas. Precisa haver ao mesmo tempo uma casa muito alta e uma mulher tão impulsiva e violenta que atire o seu jarro ou pote pela janela sem pensar em quem passa lá em baixo. Louça quebrada era fácil de encontrar, mas quebrada em algum prosaico acidente doméstico, sem intenção ou finalidade. Não obstante, ele freqüentemente se espantava, à medida que penetrava mais fundo na questão, cem a imensa variedade de formas que podem ser encontradas em Londres apenas, e havia ainda mais motivo para espanto e especulação quanto às diferenças de qualidades e desenhos. Os espécimes mais raros, levava-os para casa e colocava-os sobre. a lareira, onde, no entanto, os deveres dos objetos se tornavam cada vez mais de natureza ornamental, pois que os papéis que precisavam de um peso para prendê-los iam-se fazendo cada vez mais escassos.
Ou porque negligenciasse as suas obrigações, ou as executasse distraidamente, ou os seus eleitores, quando o visitavam, ficassem mal impressionados com o aspecto da sua lareira, seja como for, não foi eleito para os representar no Parlamento, e o seu amigo Charles, que levou o caso muito a peito, e se apressou a ir consolá-lo, encontrou-o tão pouco abatido com o desastre que só pôde supor que o caso era sério demais para penetrar imediatamente na sua compreensão.
Na verdade, John tinha estado naquele dia em Barnes Commons, e ali, sob uma moita de tojo, encontrara um pedaço de ferro notável. Na forma era quase idêntico ao bloco de vidro, massiço e globular, mas tão frio e pesado, tão negro e metálico, que, evidentemente era alienígena desta terra, tendo tido sua origem em alguma estrela morta ou era, então, ele próprio, a cinza da lua. Pesava no bolso, pesava sobre a lareira, irradiava fealdade. E no entanto o meteorito estava na mesma borda em que se achavam o bloco de vidro e a estrela de louça.
Ao vagarem seus olhos por aqueles objetos, a determinação de possuir outros que os sobrepujassem atormentava o rapaz. Dediccu-se mais e mais resolutamente à tarefa de procurá-los. Se não estivesse consumido pela ambição e convicto de que um dia descobriria algum novo monte de lixo que o iria recompensar, as decepções de sofrera, sem contar a fadiga e o ridículo, tê-lo-iam feito abandonar a sua busca. Provido de um saco e de uma comprida bengala à qual adaptara um gancho, revolvia todos os depósitos de terra, pesquisava sob moitas de arbustos, sondava áleas e desvãos entre muros onde tinha aprendido a esperar encontrar, deitados fora, objetos dessa espécie. À medida que se tornava mais exigente, o seu gosto mais severo, as decepções eram inumeráveis, mas sempre um vislumbre de esperança, um caco de louça ou vidro curiosamente marcado ou quebrado, o induzia a continuar. Os dias passaram-se. Ele já não era um jovem. A sua carreira — isto é, a sua carreira política — era uma coisa do passado. As pessoas deixaram de visitá-lo. Era muito taciturno para ser convidado a jantares. Nunca falava com ninguém sobre as suas ambições sérias; a falta de compreensão era evidente na atitude dos outros.
Recostou-se agora na cadeira e observou Charles erguer uma dezena de vezes os objetos e tornar a colocá-los enfaticamente sobre a lareira, como para frizar o que estava a dizer com referência à conduta do Governo, e sem que lhe notasse uma só vez a presença.
— Qual foi o verdadeiro motivo de tudo isso, John? — perguntou Charles de súbito, encarando-o. — O que o fez desistir de tudo assim de repente?
— Eu não desisti — replicou John.
— Mas já não existe uma sombra de probabilidade agora — disse Charles com rudeza.
— Não concordo consigo nisso — disse John, com convicção.
Charles olhou-o e sentiu-se profundamente constrangido; invadiram-no as dúvidas mais extraordinárias. Olhou em redor procurando um alívio para a sua horrível depressão, mas o aspeto desarrumado da sala deprimiu-o ainda mais. Que eram aquela bengala e o velho saco de tapeçaria pendurados na parede? E também aquelas pedras? Fitando John, algo de fixo e distante na sua expressão o alarmou. Sabia bem que, numa tribuna, a aparência de seu amigo seria o bastante para pô-lo fora de questão.
— Bonitas pedras — disse ele, tão jovialmente quanto pôde.
E pretextando um encontro marcado, deixou John — para sempre.
Virginia Woolf
Quer você dizer-me… Acredita então… — parecia a bengala à direita sublinhar as frases, ao traçar longos riscos na areia, junto às ondas.
— A política que se dane! — emitiu claramente o corpo à esquerda e, ao serem pronunciadas essas palavras, as bocas, narizes, queixos, bigodinhos, bonés de tweed, grossas botinas, paletós de caça e meias xadrez dos dois iam-se tornando cada vez mais nítidos; a fumaça de seus cachimbos evolava-se no ar, por milhas e milhas de mar e dunas nada era tão sólido, tão vivo, tão colorido, hirsuto e viril como aqueles dois corpos.
Deixaram-se cair ao lado das seis costelas e espinha dorsal do negro barco sardinheiro. Sabemos como o corpo parece sacudir-se quando quer libertar-se de uma discussão, e desculpar-se por um momento de exaltação, como deixar-se cair, exprimindo pela moleza da sua atitude uma disposição para se interessar por outra coisa — o que quer que esteja mais à mão. Assim Charles, com a bengala estivera golpeando a praia por uma meia milha, pôs-se a atirar pedrinhas chatas por sobre a água; e John, que havia exclamado “a política que se dane!”, começou a escavar com os dedos a areia. À medida que a sua mão ia se enterrando até acima do pulso, de modo a obrigá-lo a arregaçar um pouco a manga, os seus olhos perderam a intensidade, ou antes: o fundo de pensamento e experiência que dá uma inescrutável profundeza aos olhos das pessoas adultas, desapareceu deixando apenas a clara e transparente superfície que se nota nos olhos das crianças onde nada transparece senão o pasmo. Sem dúvida o ato de escavar a areia tinha alguma coisa a ver com aquilo. Ele lembrou-se que, depois de se cavar um pouco, a água flui em redor das pontas dos dedos; o buraco transforma-se num poço, numa fonte, num canal secreto para o mar. Enquanto hesitava sobre qual dessas coisas iria fazer, os dedos, ainda imersos na água, curvaram-se em torno de uma coisa dura — um bocado de matéria sólida — e gradualmente deslocaram uma massa irregular e trouxeram-na à superfície. Removida a areia que a recobria, apareceu uma cor verde. Era um pedaço de vidro, tão espesso que quase chegava a ser opaco; o roçar das ondas desgastara tão com-pletamente qualquer aresta ou formato, que era impossível dizer se fora garrafa, copo ou vidraça; era apenas vidro; era quase uma pedra preciosa. Bastaria engastá-lo num aro de ouro, ou perfurá-lo com um fio, e transformar-se-ia numa jóia; parte de um colar; uma verde luz opaca sobre um dedo. Talvez fosse mesmo uma gema — quem sabe? — usada por uma trigueira princesa a deslizar os dedos na água enquanto ouvia o canto dos escravos que remavam levando-a para o outro lado da baía. Ou talvez a estrutura de carvalho de um cofre de tesouros afundado na época isabelina se tivesse partido, soltando do seu bojo esmeraldas que rolaram e rolaram até chegar à praia. John girou o bloco nos dedos; colocou-o contra a luz, contra o corpo e o braço estendido do seu amigo. O verde tornava-se ligeiramente mais claro ou mais proíundo ao ser posto contra o céu ou contra o corpo. Agradava-lhe, intrigava-o, era um objeto tão duro, tão concentrado, tão definido, em comparação com o mar difuso e a praia enevoada!
Um suspiro interrompeu-o — profundo, afinal, informando-o de que Charles havia atirado todas as pedras chatas ao seu alcance, ou chegara à conclusão de que não valia a pena atirá-las. Lado a lado, comeram os seus sanduíches. Quando terminaram, e estavam a sacudir as migalhas para se pôr de pé, John pegou no bloco de vidro e olhou-o em silêncio. Charles também o olhou. Mas logo viu que não era uma pedra chata, e enchendo o seu cachimbo disse com a energia de quem afasta um rumo menos sério de pensamento:
— Voltando ao que eu estava dizendo…
Não viu, ou se visse provavelmente não o teria notado, que John, depois de fitar um momento o bloco, e como que hesitante, enfiou-o no bolso. Esse impulso, também, podia ter sido o impulso que leva uma criança a apanhar um seixo num caminho cheio deles, e a prometer-lhe uma vida de calor e segurança sobre a lareira do seu quarto, deliciando-se com a sensação de poder e benignidade que pressupõe um tal gesto, e acreditando que o coração da pedra pulsa de alegria ao sentir-se ela escolhida entre milhões de outras semelhantes, ao gozar dessa felicidade em lugar de uma existência fria e húmida sobre a estrada.
“Poderia ter sido qualquer outra entre os milhões de pedras, mas fui eu, eu, eu!”
Quer fosse este ou não o pensamento de John, o pedaço de vidro teve o seu lugar sobre a lareira, onde, com o seu peso, prendia uma pequena pilha de contas e cartas, e servia não somente como um excelente peso-para-papéis, mas também como o natural lugar de pcuso para os olhos do rapaz, quando ele os erguia do seu livro. Qualquer objeto olhado repetidas vezes e meio inconscientemente por uma mente entretida com outro pensamento, identifica-se tão prontamente com a matéria do pensamento que perde a sua verdadeira forma e recompõe-se de maneira diferente, na forma ideal que persegue o espírito nos momentos menos esperados. Assim John começou a sentir-se atraído pelas montras, quando saía à rua, simplesmente porque via algo que lhe fazia lembrar o bloco de vidro. Qualquer coisa, contanto que fosse um objeto de uma determinada forma, mais ou menos arredondada, talvez com uma chama amortecida nas profundezas da sua massa, qualquer coisa — louça, vidro, âmbar, mármore, pedra — até o liso ovo de um pássaro pré-histórico servia. Deu também em andar de olhos postos no chão, sobretudo na vizinhança dos terrenos baldios onde é lançado o lixo das casas. Tais objetos eram ali freqüentemente encontráveis — atirados fora, sem utilidade para ninguém, informes, imprestáveis. Em poucos meses havia ele coleccionado quatro ou cinco espécimes, que foram enfileirar-se sobre a lareira. Eram úteis, também, pois um homem que se candidata ao Parlamento e em vésperas de uma carreira brilhante, tem muitos papéis para manter em crdem — endereços de eleitores, manifestos políticos, pedidos de subscrições, convites de jantares e outras coisas.
Certo dia, ao sair do seu apartamento em Temple para apanhar um trem a fim de falar aos seus eleitores, pousou os olhos sobre um objeto notável meio escondido num desses pequenos canteiros de relva que costumam cercar a base de grandes edifícios públicos. Através das grades só conseguia tocar-lhe com a ponta da bengala; mas podia ver que era um pedaço de louça de uma forma excepcional, muito semelhante a uma estrela do mar — moldado, ou acidentalmente quebrado, em cinco irregulares mas bem acentuadas pontas. O colorido predominante era o azul, embora estrias ou manchas verdes recobrissem a cor, e laivos carmezim lhe dessem uma riqueza e um brilho dos mais atraentes. John estava resolvido a possuí-lo; mas quanto mais lhe tocava, mais o objeto recuava. Por fim viu-se forçado a voltar ao seu apartamento e a improvisar um laço de arame preso na bengala, com o qual, com muito cuidado e habilidade, conseguiu finalmente puxar o caco de louça até ao alcance da sua mão. Ao segurá-lo, teve uma exclamação triunfante. Nesse momento soou o relógio. Já não poderia mais chegar a tempo ao encontro marcado. A reunião foi realizada sem ele. Mas como teria sido quebrado aquele pedaço de louça num formato tão singular? Um exame minucioso não deixou dúvidas de que a forma estelar era acidental, o que a tornava ainda mais estranha, e era pouco provável que existisse uma outra nas mesmas condições. Colocado sobre a lareira, no lado oposto ao do bloco de vidro que havia sido desenterrado da areia, parecia uma criatura de outro mundo — frágil e fantástica como um arlequim. Dava a impressão de estar a fazer piruetas pelo espaço, cintilando luz como uma estrela vacilante. O contraste entre a louça tão vívida e alerta, e o vidro tão mudo e contemplativo, fascinava-o e, entre intrigado e pasmo, ele perguntava a si mesmo como teriam chegado a existir aqueles dois objetos num mesmo mundo, e ainda mais em cima de uma mesma estreita prateleira de mármore no mesmo quarto. A pergunta ficava sem resposta.
Começou então a freqüentar locais mais prolíficos em louça quebrada, tais como terrenos de despejo entre leitos de estradas de ferro, lugares de prédios demolidos e terrenos baldios dos arredores de Londres. Mas raramente a louça é atirada de grandes alturas; é uma das mais raras ações humanas. Precisa haver ao mesmo tempo uma casa muito alta e uma mulher tão impulsiva e violenta que atire o seu jarro ou pote pela janela sem pensar em quem passa lá em baixo. Louça quebrada era fácil de encontrar, mas quebrada em algum prosaico acidente doméstico, sem intenção ou finalidade. Não obstante, ele freqüentemente se espantava, à medida que penetrava mais fundo na questão, cem a imensa variedade de formas que podem ser encontradas em Londres apenas, e havia ainda mais motivo para espanto e especulação quanto às diferenças de qualidades e desenhos. Os espécimes mais raros, levava-os para casa e colocava-os sobre. a lareira, onde, no entanto, os deveres dos objetos se tornavam cada vez mais de natureza ornamental, pois que os papéis que precisavam de um peso para prendê-los iam-se fazendo cada vez mais escassos.
Ou porque negligenciasse as suas obrigações, ou as executasse distraidamente, ou os seus eleitores, quando o visitavam, ficassem mal impressionados com o aspecto da sua lareira, seja como for, não foi eleito para os representar no Parlamento, e o seu amigo Charles, que levou o caso muito a peito, e se apressou a ir consolá-lo, encontrou-o tão pouco abatido com o desastre que só pôde supor que o caso era sério demais para penetrar imediatamente na sua compreensão.
Na verdade, John tinha estado naquele dia em Barnes Commons, e ali, sob uma moita de tojo, encontrara um pedaço de ferro notável. Na forma era quase idêntico ao bloco de vidro, massiço e globular, mas tão frio e pesado, tão negro e metálico, que, evidentemente era alienígena desta terra, tendo tido sua origem em alguma estrela morta ou era, então, ele próprio, a cinza da lua. Pesava no bolso, pesava sobre a lareira, irradiava fealdade. E no entanto o meteorito estava na mesma borda em que se achavam o bloco de vidro e a estrela de louça.
Ao vagarem seus olhos por aqueles objetos, a determinação de possuir outros que os sobrepujassem atormentava o rapaz. Dediccu-se mais e mais resolutamente à tarefa de procurá-los. Se não estivesse consumido pela ambição e convicto de que um dia descobriria algum novo monte de lixo que o iria recompensar, as decepções de sofrera, sem contar a fadiga e o ridículo, tê-lo-iam feito abandonar a sua busca. Provido de um saco e de uma comprida bengala à qual adaptara um gancho, revolvia todos os depósitos de terra, pesquisava sob moitas de arbustos, sondava áleas e desvãos entre muros onde tinha aprendido a esperar encontrar, deitados fora, objetos dessa espécie. À medida que se tornava mais exigente, o seu gosto mais severo, as decepções eram inumeráveis, mas sempre um vislumbre de esperança, um caco de louça ou vidro curiosamente marcado ou quebrado, o induzia a continuar. Os dias passaram-se. Ele já não era um jovem. A sua carreira — isto é, a sua carreira política — era uma coisa do passado. As pessoas deixaram de visitá-lo. Era muito taciturno para ser convidado a jantares. Nunca falava com ninguém sobre as suas ambições sérias; a falta de compreensão era evidente na atitude dos outros.
Recostou-se agora na cadeira e observou Charles erguer uma dezena de vezes os objetos e tornar a colocá-los enfaticamente sobre a lareira, como para frizar o que estava a dizer com referência à conduta do Governo, e sem que lhe notasse uma só vez a presença.
— Qual foi o verdadeiro motivo de tudo isso, John? — perguntou Charles de súbito, encarando-o. — O que o fez desistir de tudo assim de repente?
— Eu não desisti — replicou John.
— Mas já não existe uma sombra de probabilidade agora — disse Charles com rudeza.
— Não concordo consigo nisso — disse John, com convicção.
Charles olhou-o e sentiu-se profundamente constrangido; invadiram-no as dúvidas mais extraordinárias. Olhou em redor procurando um alívio para a sua horrível depressão, mas o aspeto desarrumado da sala deprimiu-o ainda mais. Que eram aquela bengala e o velho saco de tapeçaria pendurados na parede? E também aquelas pedras? Fitando John, algo de fixo e distante na sua expressão o alarmou. Sabia bem que, numa tribuna, a aparência de seu amigo seria o bastante para pô-lo fora de questão.
— Bonitas pedras — disse ele, tão jovialmente quanto pôde.
E pretextando um encontro marcado, deixou John — para sempre.
Virginia Woolf
Uns inhos engenheiros
Onde eu estava ali era um quieto. O ameno âmbito, lugar entre-as-guerras e invasto territorinho, fundo de chácara. Várias árvores. A manhã se-a-si bela: alvoradas aves. O ar andava, terso, fresco. O céu — uma blusa. Uma árvore disse quantas flores, outra respondeu dois pássaros. Esses, limpos. Tão lindos, meigos, quê? Sozinhos adeuses. E eram o amor em sua forma aérea. Juntos voaram, às alamedas frutíferas, voam com uniões e discrepâncias. Indo que mais iam, voltavam. O mundo é todo encantado. Instante estive lá, por um evo, atento apenas ao auspício.
Pois, plumas.
Estes têm linguagem entre si, sua aviação singulariza-se. Segue-se-lhes no meneio um intentar, e gerir, o muito modo, a atenção concêntrica — e um jeito proposituído, negocioso, de como demoram o lugar e rabiscam os momentos, mas virando sempre a um ponto, escaninho, no engalhe da árvore, sob sombra.
O ninho — que erguem — é néxil, pléxil, difícil. Já de segredo o começaram: com um bicadinho de barro, a lama mais doce, a mais terna. De barro, dos lados, à vária vez, ajuntam outros arrebiques. À muita fábrica, que se forma de ticos, estilhas, gravetos, em curtas proporções; e argueiros, crinas, cabelos, fibrilas de musgos, e hábeis ciscos, discernidas lãs, painas — por estofo. Com o travar, urdir, feltrar, enlaçar, entear, empastar, de sua simples saliva canora, e unir, com argúcia e gume, com — um atilho de amor, suas todas artes. Após, ao fim, na afofagem, forrá-lo com a própria única e algodoída penugem — do peito, a que é mais quente do coração. O ninho — que querem — é entre asas e altura. Como o pássaro voa trans abismos. A mais, num esperanceio: o grácil, o sutil, o pênsil.
Se pois, que, na estreitez do que armam, vê-se, o trabalho se parte. Ele provê os materiais; ela afadigada avia-os, a construtora dita, aos capítulos. Ele traz, ela faz; ela o manda. Ele, cabecinha principal? A irrequietá-la, certo já não avoaça, assíduo. Às vezes, porém, para, num fino de ramo se suspende, volatim prebixim — com lequebros e cochilos eventuais: belpraz-se. A mirá-la de reolho, com um trejeitar, ou repausado — tiroliro — biquiabertinho. Ela o insta, o afervoriza, increpa-o. Aí ele vivo se eclipsa. E volta à lida, subsequente ativo, ágil djim, finge-se deparador, vira, vira, bicoca e corre de lado: — Aqui... aqui... aqui... Só que o a seguir-se é que de novo se esquece, empinado se ergue, preparadinho para cantar; que todo tentar de melodia já é um ensaio do indefinido. O que sai é um tritil, pipilo pífio: um piapo — e a alegria a mais, que ele assim se adjudica.
Está perfeito o nidifício, no feliz findar. Os dois vão avir-se. Ele se sobe a andares altos, plenivoa, desce em festa. Ela se faz a femeazinha, instantânea tanagrinha. São casal. Sem tris, se achegam. Simetrizam. Os outros, os trêfegos aos figos, se avistam acolá, na figogueio, de figuifo. Sem reticenciar, entoa ele então um tema, em sua flauta silbisbil. Deram-lhe outro canto? Sai do mais límpido laringe, eóa siringe, e é um alarir, um eloquir, um ironir, um alegrir-se — um cachinar com toda a razão
Perto, pelo pomar, tem-se o plenário deles, que pilucam as frutas: gaturamossabiassanhaços. De seus pios e cantos respinga um pouco até aqui. Vez ou vez, qual que qual, vem um, pessoativo, se avizinha. Aonde já se despojaram as laranjeiras, do redondo de laranjas só resta uma que outra, se sim podre ou muruchuca, para se picorar. Mas há uma figueira, parrada, a grande opípara. Os figos atraem. O sabiá pulador. O sabiazinho imperturbado. Sabiá dos pés de chumbo. Os sanhaços lampejam um entrepossível azul, sacam-se oblíquos do espaço, sempre novos, sempre laivos. O gaturamo é o antes, é seu reflexo sem espelhos, minúscula imensidão, é: minuciosamente indescritível. O sabiá, só. Ou algum guaxe, brusco, que de mais fora se trouxe. Diz-se tlique — e dá-se um se dissipar de voos. Tão enfins, punhado. E mesmo os que vêm a outro esmo, que não o de frugivorar. O tico-tico, no saltitanteio, a safar-se de surpresa em surpresa, tico-te-tico no levitar preciso. Ou uma garricha, a corruir, a chilra silvestriz das hortas, de traseirinho arrebitado, que se espevita sobre a cerca, e camba — apontada, iminentíssima. De âmago: as rolas. No entre mil, porém, este par valeria diferente, vê-se de outra espécie — de rara oscilabilidade e silfidez. Quê? Qual? Sei, num certo sonho, um deles já acudiu por “o apavoradinho”, ave Maria! e há quem lhes dê o apodo de Mariquinha Tece-Seda. São os que sim sós. Podem se imiscuir com o silêncio. O ao alto. A alma arbórea. A graça sem pausas. Amavio. São mais que existe o sol, mais a mim, de outrures. Aqui entramos dentro da amizade.
Pois, plumas.
Estes têm linguagem entre si, sua aviação singulariza-se. Segue-se-lhes no meneio um intentar, e gerir, o muito modo, a atenção concêntrica — e um jeito proposituído, negocioso, de como demoram o lugar e rabiscam os momentos, mas virando sempre a um ponto, escaninho, no engalhe da árvore, sob sombra.
Súbitos, sus, aos lanços, como que operam e traçam. Terão seus porfins: o porfim. Nidificam! Aqui, no avisado, preferiram, para sua ninhança, no desfrequentado. A manhã se trança de perfumes e o orvalho é um pintalgamento lúcido. O ramo a enfolhar não se conclui, nem tem a quem acariciar. O tempo não voa. Todo galhozinho é uma ponte. Ao que eles dois se aplicam, em suave açodo. Tudo é sério demais, como num brinquedo. Sem suor, às ruflas, mourejam, cumprem rotina obstinaz. Um passarinho, que faz seu ninho, tem mãos a medir?
Ambos e a alvo ao em ar, afã, e o leviano com que pousam, a amimar o chão — o chãozinho. Como corrivoam, às múltiplas mímicas cabecinhas, a acatitar-se, asas de vestir, revestir. Têm o ninho em início. Aonde vão, acham ainda o orvalho. Arre que catam a palha mínima, fio, cerda ou cílio, xepam. O mundo é cheio do que se precisa, em migalhificências: felpas, filamentos, flóculos. À vez de esmiuçar-se, nada seja nhufa ou nica: por uma ninharia, os pássaros passam, em desazo. Nem nem comem? O tempo parco, o mundo movediço e mágico. Seu dever é ver, extrair, extricar, içar, levar a lar. Sim, aqui os dois, nidulantes, não cessam, os filhos da delicadeza. Outros só estão a picoritar na figueira, meliantes, conforme ferem os figos, de vizbico. Conquanto, do ao-fundo, os mais outros, segundo as matérias: o incoativo, o repetitivo, o pio puro; tié, tietê, teiteí. O pomar é uma pequena área florestária. Bem-te-vi — monotonia aguda — seu grito de artifício. O sabiá reza: — Senhora... Senhora... — a penas um rebate de saudade. Sempre mais longe, mais fundo, mais grave. Aonde os anjos, que ainda à terra vêm, agora. Vigem disfarçados?
Ambos e a alvo ao em ar, afã, e o leviano com que pousam, a amimar o chão — o chãozinho. Como corrivoam, às múltiplas mímicas cabecinhas, a acatitar-se, asas de vestir, revestir. Têm o ninho em início. Aonde vão, acham ainda o orvalho. Arre que catam a palha mínima, fio, cerda ou cílio, xepam. O mundo é cheio do que se precisa, em migalhificências: felpas, filamentos, flóculos. À vez de esmiuçar-se, nada seja nhufa ou nica: por uma ninharia, os pássaros passam, em desazo. Nem nem comem? O tempo parco, o mundo movediço e mágico. Seu dever é ver, extrair, extricar, içar, levar a lar. Sim, aqui os dois, nidulantes, não cessam, os filhos da delicadeza. Outros só estão a picoritar na figueira, meliantes, conforme ferem os figos, de vizbico. Conquanto, do ao-fundo, os mais outros, segundo as matérias: o incoativo, o repetitivo, o pio puro; tié, tietê, teiteí. O pomar é uma pequena área florestária. Bem-te-vi — monotonia aguda — seu grito de artifício. O sabiá reza: — Senhora... Senhora... — a penas um rebate de saudade. Sempre mais longe, mais fundo, mais grave. Aonde os anjos, que ainda à terra vêm, agora. Vigem disfarçados?
O ninho — que erguem — é néxil, pléxil, difícil. Já de segredo o começaram: com um bicadinho de barro, a lama mais doce, a mais terna. De barro, dos lados, à vária vez, ajuntam outros arrebiques. À muita fábrica, que se forma de ticos, estilhas, gravetos, em curtas proporções; e argueiros, crinas, cabelos, fibrilas de musgos, e hábeis ciscos, discernidas lãs, painas — por estofo. Com o travar, urdir, feltrar, enlaçar, entear, empastar, de sua simples saliva canora, e unir, com argúcia e gume, com — um atilho de amor, suas todas artes. Após, ao fim, na afofagem, forrá-lo com a própria única e algodoída penugem — do peito, a que é mais quente do coração. O ninho — que querem — é entre asas e altura. Como o pássaro voa trans abismos. A mais, num esperanceio: o grácil, o sutil, o pênsil.
Se pois, que, na estreitez do que armam, vê-se, o trabalho se parte. Ele provê os materiais; ela afadigada avia-os, a construtora dita, aos capítulos. Ele traz, ela faz; ela o manda. Ele, cabecinha principal? A irrequietá-la, certo já não avoaça, assíduo. Às vezes, porém, para, num fino de ramo se suspende, volatim prebixim — com lequebros e cochilos eventuais: belpraz-se. A mirá-la de reolho, com um trejeitar, ou repausado — tiroliro — biquiabertinho. Ela o insta, o afervoriza, increpa-o. Aí ele vivo se eclipsa. E volta à lida, subsequente ativo, ágil djim, finge-se deparador, vira, vira, bicoca e corre de lado: — Aqui... aqui... aqui... Só que o a seguir-se é que de novo se esquece, empinado se ergue, preparadinho para cantar; que todo tentar de melodia já é um ensaio do indefinido. O que sai é um tritil, pipilo pífio: um piapo — e a alegria a mais, que ele assim se adjudica.
Ela é intrínseca. Ela é muito amanhã, seu em breve ser, mãe até na raiz das penas. Toda mãe se desorbita. O que urge, urge-a, cativa de fadária servidão — um dom. O que teme é ovo anteposto. E ainda não está pronto o ninho, amorável. Donde o diligir, de afinco, de rápido coração, no mais dar. Sumiu-se a gentil trapeirinha em gandaia. Repousa-e-voa, sofridulante, o físico aflito, vã, vã. Já ali a erguitar um til de capim, que é um quindim, que é um avo. Recuida-o agora, em enlevo de cobiça, com sem biquinho tecelão. E engendra. Com pouco, estará na poesia: um pós um — o-o-o — no fofo côncavo, para o choco — com o carinho de um colecionador; prolonga um problema.
Está perfeito o nidifício, no feliz findar. Os dois vão avir-se. Ele se sobe a andares altos, plenivoa, desce em festa. Ela se faz a femeazinha, instantânea tanagrinha. São casal. Sem tris, se achegam. Simetrizam. Os outros, os trêfegos aos figos, se avistam acolá, na figogueio, de figuifo. Sem reticenciar, entoa ele então um tema, em sua flauta silbisbil. Deram-lhe outro canto? Sai do mais límpido laringe, eóa siringe, e é um alarir, um eloquir, um ironir, um alegrir-se — um cachinar com toda a razão
.
Se sim, quando. Se às vezes, simplesmente. Onde um lugar — os quietos curtos horizontes, o tempo um augúrio ininterrupto — que merece demorada. A inteira alma. As várias árvores. O céu — ficção concreta. Um par de pequeninos, edificantes. O tremer de galho que um mínimo corpo deixa. E o nomezinho de Deus, no bico dos pássaros.
João Guimarães Rosa, "Ave, Palavra"
Se sim, quando. Se às vezes, simplesmente. Onde um lugar — os quietos curtos horizontes, o tempo um augúrio ininterrupto — que merece demorada. A inteira alma. As várias árvores. O céu — ficção concreta. Um par de pequeninos, edificantes. O tremer de galho que um mínimo corpo deixa. E o nomezinho de Deus, no bico dos pássaros.
João Guimarães Rosa, "Ave, Palavra"
segunda-feira, abril 20
Nos salões do sonho
Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!
Mario Quintana
Conversa com o Diabo
Ele cumpriu a promessa. Veio visitar-me de novo. Veio elegantemente trajado, dessa vez usando um blazer vermelho, por conselho de um famoso figurinista. Depois dos abraços iniciais, ele relembrou o fim da nossa conversa anterior, quando disse que as pessoas que se dizem endemoninhadas não estão possuídas pelo Diabo coisa nenhuma. Estão é possuídas pelo seu próprio traseiro...
“Ah! O reverso da palavra! Os que não entendem poesia leem poesia do mesmo jeito que leem bula de remédio, em que cada palavra tem de significar precisamente o que o dicionário diz. Já os poetas sabem que cada palavra significa uma outra coisa. Se um poema dissesse que um peixe engoliu um homem que ficou três dias dentro dele e até escreveu poesia durante esse tempo, você pensaria que isso aconteceu de verdade ou que é literatura, realismo fantástico?
“Pois Deus resolveu oferecer um banquete de palavras para os homens e desandou a escrever poemas lindos. E pediu minha opinião.
“‘O que é que você acha disso? Será que os homens vão gostar?’
“Eu provei e gostei, mas ponderei: ‘Senhor, banquete maravilhoso. Mas é preciso não se enganar. Os homens vão comer? Claro que vão comer. Vão comer por quê? Porque têm um agudo senso de discriminação, porque são sábios, porque sabem diferenciar literatura boa de literatura ruim? Não é nada disso. Vão comer porque — lamento dizer isso — frequentemente o seu gosto não se diferencia do gosto dos porcos. Eles não sabem distinguir qualidade de quantidade. Falta-lhes o dom da discriminação. Comem tudo, engolem tudo, engordam, quanto mais melhor... Acham que, se está escrito no livro, é palavra de Deus... E aí o senhor vai sorrir enganado pensando que eles realmente perceberam a finura da sua culinária literária. Já viu as revistas que eles devoram? E as revistas pornô? E os livrinhos piedosos, melado de rapadura de tão doces e bobos. Senhor, o povo come qualquer coisa e gosta...’.
“‘É preciso reconhecer que Dostoiévski estava certo: os homens não estão atrás de Deus por amor; o que eles querem mesmo são os milagres...’
“Deus então me perguntou: ‘Que devo fazer? Quero convidar para o meu banquete só aqueles que têm o gosto refinado para que possam se deleitar com a beleza dos meus poemas’.
“Aí eu respondi: ‘É simples. Vamos misturar os seus poemas com literatura vagabunda, sem sentido, boba, essas revistas que ficam em pilhas nos consultórios médicos e dentários, mais coisas de horror, de absurdo, de autoajuda... Vamos pôr todos os pratos num bufê imenso, os poemas divinos com os pratos que eu, o Testador, vou inventar. Misturamos tudo e observamos.
“Deus ponderou a minha sugestão e pediu-me então que escrevesse umas estórias para misturar com os seus poemas. Foi o que fiz. Que isso que estou dizendo é verdade está confirmado pelo próprio Jesus, na parábola do trigo e do joio. Um homem plantou um campo de trigo. Veio um inimigo de noite e semeou joio no meio do trigo. Quando os empregados viram o joio nascendo ficaram horrorizados e puseram-se a arrancá-lo. O dono do campo ordenou que parassem. Que o trigo e o joio crescessem misturados. Assim, usando as palavras do próprio Jesus, os textos ditos sagrados são uma mistura de trigo e joio. Quem pegar o joio pensando que é trigo é um tolo. Vai ficar de fora do banquete...
“Na próxima vez vou contar a estória que inventei sobre o primeiro assassinato da história da humanidade. E vou adiantar: o seu tema é uma querela sobre a dieta divina...”
Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"
“Ah! O reverso da palavra! Os que não entendem poesia leem poesia do mesmo jeito que leem bula de remédio, em que cada palavra tem de significar precisamente o que o dicionário diz. Já os poetas sabem que cada palavra significa uma outra coisa. Se um poema dissesse que um peixe engoliu um homem que ficou três dias dentro dele e até escreveu poesia durante esse tempo, você pensaria que isso aconteceu de verdade ou que é literatura, realismo fantástico?
“Coisa que Deus gosta de fazer é cozinhar. Mas a culinária divina tem uma peculiaridade: Deus mistura poemas com a comida. Comida que não tem poema misturado não é coisa de Deus. Pois não é isso que é a eucaristia, comida misturada com palavras?
“Pois Deus resolveu oferecer um banquete de palavras para os homens e desandou a escrever poemas lindos. E pediu minha opinião.
“‘O que é que você acha disso? Será que os homens vão gostar?’
“Eu provei e gostei, mas ponderei: ‘Senhor, banquete maravilhoso. Mas é preciso não se enganar. Os homens vão comer? Claro que vão comer. Vão comer por quê? Porque têm um agudo senso de discriminação, porque são sábios, porque sabem diferenciar literatura boa de literatura ruim? Não é nada disso. Vão comer porque — lamento dizer isso — frequentemente o seu gosto não se diferencia do gosto dos porcos. Eles não sabem distinguir qualidade de quantidade. Falta-lhes o dom da discriminação. Comem tudo, engolem tudo, engordam, quanto mais melhor... Acham que, se está escrito no livro, é palavra de Deus... E aí o senhor vai sorrir enganado pensando que eles realmente perceberam a finura da sua culinária literária. Já viu as revistas que eles devoram? E as revistas pornô? E os livrinhos piedosos, melado de rapadura de tão doces e bobos. Senhor, o povo come qualquer coisa e gosta...’.
“‘É preciso reconhecer que Dostoiévski estava certo: os homens não estão atrás de Deus por amor; o que eles querem mesmo são os milagres...’
“Deus então me perguntou: ‘Que devo fazer? Quero convidar para o meu banquete só aqueles que têm o gosto refinado para que possam se deleitar com a beleza dos meus poemas’.
“Aí eu respondi: ‘É simples. Vamos misturar os seus poemas com literatura vagabunda, sem sentido, boba, essas revistas que ficam em pilhas nos consultórios médicos e dentários, mais coisas de horror, de absurdo, de autoajuda... Vamos pôr todos os pratos num bufê imenso, os poemas divinos com os pratos que eu, o Testador, vou inventar. Misturamos tudo e observamos.
Aqueles que comerem tudo e gostarem de tudo — acham que assim estão agradando a Deus —, esses são os tolos. Incapazes de distinguir o belo das tolices. Mas aqueles que forem seletivos, que não aceitarem tudo, que cheirarem e separarem, aqueles que tiverem a sensibilidade para dizer: ‘Isso é poesia divina e isso é literatura de terceira categoria’, esses merecem ser convidados para o banquete final’.
“Deus ponderou a minha sugestão e pediu-me então que escrevesse umas estórias para misturar com os seus poemas. Foi o que fiz. Que isso que estou dizendo é verdade está confirmado pelo próprio Jesus, na parábola do trigo e do joio. Um homem plantou um campo de trigo. Veio um inimigo de noite e semeou joio no meio do trigo. Quando os empregados viram o joio nascendo ficaram horrorizados e puseram-se a arrancá-lo. O dono do campo ordenou que parassem. Que o trigo e o joio crescessem misturados. Assim, usando as palavras do próprio Jesus, os textos ditos sagrados são uma mistura de trigo e joio. Quem pegar o joio pensando que é trigo é um tolo. Vai ficar de fora do banquete...
“Na próxima vez vou contar a estória que inventei sobre o primeiro assassinato da história da humanidade. E vou adiantar: o seu tema é uma querela sobre a dieta divina...”
Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"
Tardes imprevistas
Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara —, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história contínua, mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
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