Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
domingo, junho 14
Com outros olhos
Da ampla janela, aberta sobre o jardinzinho pênsil da casa, via-se, como que pousado no azul vivo da fresca manhã, um ramo de amendoeira florida, e ouvia-se, misturado ao quieto e rouco gotejar do chafariz no meio do jardim, o bimbalhar festivo das igrejas distantes e a garrulice das andorinhas ébrias de ar e de sol.
Ao retirar-se da janela, suspirando, Ana percebeu que o marido, naquela manhã, esquecera-se de decompor a cama, como fazia sempre, para que os criados não notassem que ele não dormira em seu quarto. Pousou então os cotovelos na cama intacta, depois ali se apoiou com o busto todo, dobrando a bela cabeça loura sobre os travesseiros e semicerrando os olhos, como que para saborear, no frescor do linho, os sonos que ali costumava dormir. Um bando de andorinhas tresmalhadas veio rumorejar diante da janela.
— Teria sido melhor que houvesse deitado aqui — murmurou entre si; e levantou-se cansada.
O marido ia partir naquela mesma noite, e ela entrara no quarto dele a fim de preparar-lhe o necessário para a viagem.
Ao abrir o guarda-roupa, ouviu como que um chiado na gaveta interna e logo se afastou, assustada. Apanhou de um canto do quarto uma bengala de cabo recurvo e, mantendo junto às pernas o vestido, pegou a bengala pela ponta e experimentou abrir com ela, assim afastada, a gaveta. Mas, ao puxar, ao invés da gaveta veio para fora, agilmente, da bengala, uma luzidia e perigosa lâmina. Isso ela não esperava; ficou assustada e deixou cair das mãos a bainha do estoque.
Naquele momento, um outro chiado fê-la voltar-se de repente, na dúvida de que também o primeiro tivesse partido de alguma andorinha batendo nas vidraças.
Afastou com o pé a arma desembainhada e puxou para fora, entre as duas portinholas abertas, a gaveta repleta de roupas velhas, ali guardadas pelo marido. Por improvisa curiosidade, passou então a revistá-la e, ao mexer num paletó velho e desbotado, ocorreu-lhe esbarrar nas orlas, sob o forro, como num pedaço de papelão, deslizado para ali do bolso furado; quis ver o que seria aquela carta caída ali, quem sabe há quantos anos, e esquecida; e assim, por acaso, Ana descobriu o retrato da primeira mulher de seu marido.
Empalidecendo, com a vista turva e o coração em suspenso, correu à janela, e ali permaneceu longo tempo, atônita, a contemplar a imagem desconhecida, como que presa de uma sensação de espanto.
O volumoso arranjo do penteado e o vestido de estilo antigo não lhe fizeram notar a princípio a beleza daquele rosto; mas, apenas pôde apanhar-lhe os traços, abstraindo-os dos enfeites, que agora, tantos anos depois, pareciam grotescos, e fixar-lhe especialmente os olhos, sentiu-se quase ofendida, e um ímpeto de ódio lhe saltou do coração ao cérebro: ódio de ciúme póstumo; ódio misto a desprezo, que experimentara por aquela que se enamorara do homem que agora era seu marido, depois de onze anos da tragédia conjugal que destruíra de chofre o primeiro lar dele.
Ana odiara aquela mulher, não sabendo compreender como pudera trair o homem que ela agora adorava e, em segundo lugar, porque seus parentes se haviam oposto ao seu casamento com Brívio, como se este houvesse sido responsável pela infâmia e pela morte violenta da mulher infiel.
Era ela, sim, era, sem dúvida! a primeira mulher de Vittore: aquela que se suicidara!
Teve disso a confirmação pela dedicatória escrita no verso do retrato: Ao meu Vittore, a sua Almira — 11 de novembro de 1873.
Ana tivera notícias muitos vagas a respeito da morta: sabia apenas que o marido, descoberta a traição, obrigara-a, com a impassibilidade de um juiz, a suicidar-se.
Agora, ela evocou com prazer esta condenação do marido, irritada por aquele “meu” e por aquele “sua” da dedicatória, como se a outra houvesse desejado ostentar, assim, estreitamente, o liame que reciprocamente unira ela e Vittore, unicamente para fazer-lhe desaforo.
Ante aquele primeiro relâmpago de ódio, faiscado pela rivalidade para ela agora existente, seguiu-se na alma de Ana a curiosidade feminina de examinar os traços daquele rosto, mas quase contida pela estranha consternação que se experimenta perante um objeto que pertenceu a alguém tragicamente desaparecido; consternação agora mais viva, mas a ela não desconhecida, porque nisso se concentrara todo o seu amor pelo marido, que já pertencera àquela outra mulher.
Ao examinar-lhe o rosto, Ana percebeu logo quanto se diferenciava do seu; e surgiu-lhe ao mesmo tempo do coração a pergunta: como pudera o marido amar aquela mulher, aquela mocinha, certamente mais bonita para ele, e pudesse depois enamorar-se dela, tão diferente?
Parecia-lhe belo, muito mais belo que o seu também, aquele rosto que, pelo retrato, devia ser moreno. Ei-lo: e aqueles lábios se haviam unido, no beijo, aos dele; mas, por que então, nos cantos da boca, aquela prega dolorosa? E porque tão triste o olhar daqueles olhos profundos? O rosto inteiro transpirava uma intensa mágoa; e Ana sentiu quase raiva da bondade humilde e real que aqueles traços exprimiam, e daí um gesto de repulsa e aversão, parecendo-lhe de súbito descobrir no olhar daqueles olhos a mesma expressão dos seus, quando, ao pensar no marido, se olhava ao espelho, pela manhã, depois de se haver arrumado.
Teve o tempo ainda de pôr no bolso o retrato: o marido apareceu, bufando, à entrada do quarto.
— Que fez você? Como sempre? Arrumou? Oh, pobre de mim! Agora não encontro mais nada!
Ao ver o estoque desembainhado no chão:
— Ah! Você brincou também de esgrima, com as roupas do armário?
E riu com aquele seu riso, que partia somente da garganta, como se alguém lha houvesse beliscado; e, ao rir assim, olhou para a mulher, talvez para perguntar-lhe o porquê de seu próprio riso. E, olhando, batia as pálpebras sem cessar, celerissimamente, sobre os olhinhos agudos, negros, irrequietos.
Vittore Brívio tratava a mulher como a uma menina incapaz de outra coisa a não ser daquele amor ingênuo e quase pueril de que se sentia circundado, às vezes com tédio, e ao qual se propusera prestar atenção somente de vez em quando, mostrando, também então, uma condescendência quase embebida de leve ironia, parecendo dizer-lhe: “Pois bem, que seja! durante algum tempo, serei criança também com você: é preciso mesmo fazer isto, mas não percamos demasiado tempo!”
Ana deixara cair a seus pés o velho paletó, onde encontrara o retrato. Ele ergueu-o, metendo-lhe a ponta do estoque, depois chamou da janela o criado, que se achava no jardim e que servia também de cocheiro e que, no momento, estava atrelando o cavalo ao trole. Assim que o rapaz se apresentou, em mangas de camisa, diante da janela, Brívio atirou-lhe à cara, grosseiramente, o paletó espetado, acompanhando a esmola com um: “Tome, isto é para você!”
— Assim você terá menos para escovar — acrescentou, dirigindo-se à mulher — e também para arrumar, esperemos!
E novamente emitiu aquele seu riso forçado, batendo mais e mais as pálpebras.
Outras vezes, o marido afastara-se da cidade e não por poucos dias apenas, partindo mesmo à noite, como desta vez; mas Ana, ainda sob a impressão da descoberta daquele retrato, experimentou um medo estranho, e disse-o, chorando, ao marido.
Vittore Brívio, apressado, receando sair tarde, e todo absorto no pensamento de seus negócios, recebeu com mau humor aquele pranto insólito da mulher.
— Como! Por quê? Vamos, vamos, criancices!
E saiu a toda pressa, sem sequer despedir-se.
Ana estremeceu ao ruído da porta que se lhe fechou empós, com ímpeto; ficou ali com o lampião na mão, na saleta, e sentiu as lágrimas se lhe regelarem nos olhos. Depois reagiu e voltou rápida para seu quarto, a fim de deitar-se logo.
No aposento já arrumado, ardia a lamparina da noite.
— Vá, pode ir dormir — disse Ana à camareira, que a esperava. — Eu mesma me arranjo. Boa noite.
Apagou a luz, mas, ao invés de pousá-la na mísula, como sempre fazia, sobre o criado-mudo, pressentindo — mesmo contra sua própria vontade — que talvez dela necessitaria mais tarde. Começou a despir-se à pressa, conservando os olhos fixos no chão, diante de si. Quando o vestido lhe caiu aos pés, pensou que o retrato estava lá e, com viva raiva, se sentiu olhada e compadecida por aqueles olhos dolentes, que tanta impressão lhe haviam causado. Curvou-se resolutamente, para apanhar do tapete o vestido, e pousou-o, sem dobrar, sobre a poltrona aos pés da cama, como se o bolso que guardava o retrato e o envoltório do pano devessem e pudessem impedir-lhe de reconstruir a imagem daquela morta.
Mal se deitara, fechou os olhos e se propôs a seguir, com o pensamento, o marido pela estrada que levava à estação ferroviária. Impôs-se isso por uma irada revolta ao sentimento que, durante aquele dia todo, a conservara vigilante, a observar, a estudar o marido. Sabia de onde proviera tal sentimento e queria expulsá-lo de si.
No esforço da vontade, que lhe provocava viva super-excitação nervosa, imaginou ter diante dos olhos, com extraordinária evidência, a comprida rua, deserta na noite, iluminada pêlos lampiões que reverberam sua luz trémula na calçada, que parecia palpitar; e aos pés de cada lampião, um círculo de sombra; as lojas, todas fechadas; e eis a carruagem que conduzia Vittore. Como se a houvesse esperado à passagem, passou a segui-la até à estação; viu o trem lúgubre, sob o telhado de vidro; uma grande confusão de pessoas naquele interior vasto, enfumaçado, mal iluminado, sombriamente sonoro: eis que o trem partia; e, como se realmente o visse afastar-se e desaparecer nas trevas, voltou logo a si, abriu os olhos no quarto silencioso e experimentou uma angustiosa sensação de vácuo, como se algo lhe faltasse dentro.
Sentiu, então, confusamente, desnorteando-se, que, desde três anos, talvez desde o momento em que partira da casa paterna, ela estava mergulhada naquele vácuo, de que só agora começava a ter conhecimento. Não notara antes, porque o havia preenchido somente consigo, com seu amor, aquele vazio; percebia-o agora, porque, durante aquele dia todo, conservara quase suspenso seu amor, para ver, para observar, para julgar.
“Nem sequer se despediu de mim!” pensou; e pôs-se a chorar de novo, como se este pensamento fosse determinadamente a causa do pranto.
Sentou-se na cama: mas logo deteve a mão estendida, ao levantar-se, para apanhar o lenço do vestido. Ora, seria mesmo inútil proibir-se de rever aquele retrato, de observá-lo! Apanhou-o. Reacendeu a luz.
Como imaginara diversamente, aquela mulher! Contemplando-lhe agora a verdadeira efígie, sentia remorsos pelos sentimentos que a imaginação lhe sugerira. Pensara sempre nela como uma mulher gorda e corada, com os olhos relampejantes e risonhos, inclinada ao riso, a distrações vulgares. E, ao contrário, ei-la: uma jovem, e dos seus puros traços emanava uma alma profunda e atormentada; diferente dela, sim, mas não no sentido inconveniente de antes: ao contrário, até parecia que aquela boca não houvesse nunca sorrido, ao passo que a sua tantas vezes rira alegremente; e, certamente, se moreno aquele rosto (como pelo retrato parecia) era de um ar menos risonho que o seu, louro e róseo.
Por que, por que tão triste?
Um pensamento odioso atravessou-lhe a mente, e logo desprendeu os olhos da imagem daquela mulher, descobrindo-lhe de improviso um perigo não só à sua paz, ao seu amor, que também naquele dia recebera mais de uma ferida, mas também à sua orgulhosa dignidade de mulher honesta, que jamais se permitira nem mesmo o mínimo pensamento contra o marido. Aquela tivera um amante! E por causa deste, ela talvez estivesse tão triste, por causa daquele amor adúltero, e não pelo marido!
Atirou o retrato sobre o criado-mudo e apagou de novo a luz, esperando adormecer, desta vez, sem mais pensar naquela mulher, com a qual nada podia ter em comum. Mas, fechando as pálpebras, reviu logo, malgrado seu, os olhos da morta, e em vão procurou expulsar aquela visão.
— Não por ele, não por ele! — murmurou, com aflitiva obstinação, como se, injuriando-a, contasse libertar-se dela.
E esforçou-se por trazer de novo à memória quanto sabia sobre o outro, o amante, quase que obrigando o olhar e a tristeza daqueles olhos a se dirigirem não mais a ela mas sim ao antigo amante, do qual conhecia apenas o nome: Artur Valli. Sabia que ele se casara, alguns anos depois, quase para provar que era inocente do crime que lhe queria atribuir Brívio, do qual sempre repelira energicamente o desafio, protestando que jamais se bateria em duelo com um louco assassino. Depois desta recusa, Vittore tinha ameaçado matá-lo onde o encontrasse, até mesmo na igreja; e então ele saíra dali, com a mulher, voltando mais tarde àquela cidade, assim que soubera que Vittore, de novo casado, partira.
Mas da tristeza desses acontecimentos por ela relembrados, pela covardia de Valli e, depois de tantos anos, pelo esquecimento do marido o qual, como se nada fosse, conseguira reabilitar-se na vida e tornar a casar, pela alegria que ela própria sentira ao se tornar sua mulher, por aqueles três anos transcorridos sem jamais se lembrar da outra, inesperadamente, um motivo de compaixão por ela se impôs a Ana espontâneo: reviu-lhe viva a imagem, mas como se estivesse longe, longe, e pareceu-lhe que, com aqueles olhos, de tanta mágoa inundados, ela lhe dissesse, abanando levemente a cabeça:
— Somente eu, porém, morri! Vocês todos vivem!
Viu-se, sentiu-se sozinha em casa; teve medo. Vivia, sim, ela; mas fazia três anos, desde o dia de seu casamento, não mais vira, nem uma só vez, seus pais, sua irmã. Ela, que os adorava, e que sempre tinha sido para com eles dócil e confiante, pudera rebelar-se à sua vontade, aos seus conselhos, por amor àquele homem; por amor àquele homem adoecera mortalmente e teria morrido, se os médicos não houvessem induzido seus pais a condescender no casamento. O pai cedera, não consentindo, porém, e até jurando que ela para ele, para sua casa, depois daquele casamento, deixaria de existir. Além da diferença de idade, dos dezoito anos que o marido tinha mais que ela, obstáculo mais grave para o pai tinha sido a posição financeira do marido, sujeita a rápidas mudanças devido a negócios arriscados a que costumava atirar-se, com temerária confiança em si mesmo e na sorte.
Em três anos de casamento, Ana, rodeada de conforto, pudera considerar injustas ou ditadas por contrárias prevenções as considerações da prudência paterna, quanto à fortuna do marido, na qual, de resto, ela, ignara, depositava a mesma confiança que ele em si próprio; quanto então à diferença de idade, até agora nenhum manifesto argumento de desilusão para ela ou de admiração para os outros, porque, dos anos, Brívio não sentia o mínimo prejuízo nem no corpo vivacíssimo e nervoso, nem muito menos no ânimo, dotado de infatigável energia, de irrequieta alacridade.
De bem outra coisa, agora, pela primeira vez, olhando (sem sequer desconfiar) para sua vida com os olhos da morta, encontrava motivo para queixar-se do marido. Sim, era verdade: da indiferença quase altiva dele ela se sentira ferir já outras vezes: porém, nunca como naquele dia; e agora, pela primeira vez, se sentia tão angustiosamente só, separada dos parentes, os quais, lhe parecia naquele momento, a houvessem abandonado ali, quase que, ao casar com Brívio, tivesse já algo em comum com aquela morta e não fosse mais digna de outra companhia. E o marido, que deveria consolá-la, o próprio marido parecia não dar-lhe mérito algum quanto ao sacrifício que ela fizera de seu amor filial e fraternal, como se a ela nada tivesse custado, como se àquele sacrifício ele tivesse direito, e por isso agora nenhum dever tinha para consolá-la ou compensá-la. Direito, sim, mas porque ela se enamorara tão perdidamente por ele, àquele tempo; então ele tinha agora o dever de compensá-la. E ao invés…
— Sempre assim! — pareceu a Ana que os lábios da morta suspirassem.
Reacendeu a luz e de novo, contemplando a imagem, foi atraída pela expressão daqueles olhos. Também ela, então, deveras, sofrera por ele? Também ela, também ela, ao perceber que não era amada, experimentara aquele angustioso vazio?
— Sim? sim? — perguntou Ana, sufocada pelo pranto, à imagem.
E pareceu-lhe, então, que aqueles olhos bondosos, repletos de paixão, se compadecessem dela por sua vez, tivessem pena dela por aquele abandono, pelo sacrifício não recompensado, pelo amor que lhe ficava preso no seio, qual tesouro no escrínio, do qual ele possuísse as chaves, mas nunca dele se servira, tal como o avarento.
Ao retirar-se da janela, suspirando, Ana percebeu que o marido, naquela manhã, esquecera-se de decompor a cama, como fazia sempre, para que os criados não notassem que ele não dormira em seu quarto. Pousou então os cotovelos na cama intacta, depois ali se apoiou com o busto todo, dobrando a bela cabeça loura sobre os travesseiros e semicerrando os olhos, como que para saborear, no frescor do linho, os sonos que ali costumava dormir. Um bando de andorinhas tresmalhadas veio rumorejar diante da janela.
— Teria sido melhor que houvesse deitado aqui — murmurou entre si; e levantou-se cansada.
O marido ia partir naquela mesma noite, e ela entrara no quarto dele a fim de preparar-lhe o necessário para a viagem.
Ao abrir o guarda-roupa, ouviu como que um chiado na gaveta interna e logo se afastou, assustada. Apanhou de um canto do quarto uma bengala de cabo recurvo e, mantendo junto às pernas o vestido, pegou a bengala pela ponta e experimentou abrir com ela, assim afastada, a gaveta. Mas, ao puxar, ao invés da gaveta veio para fora, agilmente, da bengala, uma luzidia e perigosa lâmina. Isso ela não esperava; ficou assustada e deixou cair das mãos a bainha do estoque.
Naquele momento, um outro chiado fê-la voltar-se de repente, na dúvida de que também o primeiro tivesse partido de alguma andorinha batendo nas vidraças.
Afastou com o pé a arma desembainhada e puxou para fora, entre as duas portinholas abertas, a gaveta repleta de roupas velhas, ali guardadas pelo marido. Por improvisa curiosidade, passou então a revistá-la e, ao mexer num paletó velho e desbotado, ocorreu-lhe esbarrar nas orlas, sob o forro, como num pedaço de papelão, deslizado para ali do bolso furado; quis ver o que seria aquela carta caída ali, quem sabe há quantos anos, e esquecida; e assim, por acaso, Ana descobriu o retrato da primeira mulher de seu marido.
Empalidecendo, com a vista turva e o coração em suspenso, correu à janela, e ali permaneceu longo tempo, atônita, a contemplar a imagem desconhecida, como que presa de uma sensação de espanto.
O volumoso arranjo do penteado e o vestido de estilo antigo não lhe fizeram notar a princípio a beleza daquele rosto; mas, apenas pôde apanhar-lhe os traços, abstraindo-os dos enfeites, que agora, tantos anos depois, pareciam grotescos, e fixar-lhe especialmente os olhos, sentiu-se quase ofendida, e um ímpeto de ódio lhe saltou do coração ao cérebro: ódio de ciúme póstumo; ódio misto a desprezo, que experimentara por aquela que se enamorara do homem que agora era seu marido, depois de onze anos da tragédia conjugal que destruíra de chofre o primeiro lar dele.
Ana odiara aquela mulher, não sabendo compreender como pudera trair o homem que ela agora adorava e, em segundo lugar, porque seus parentes se haviam oposto ao seu casamento com Brívio, como se este houvesse sido responsável pela infâmia e pela morte violenta da mulher infiel.
Era ela, sim, era, sem dúvida! a primeira mulher de Vittore: aquela que se suicidara!
Teve disso a confirmação pela dedicatória escrita no verso do retrato: Ao meu Vittore, a sua Almira — 11 de novembro de 1873.
Ana tivera notícias muitos vagas a respeito da morta: sabia apenas que o marido, descoberta a traição, obrigara-a, com a impassibilidade de um juiz, a suicidar-se.
Agora, ela evocou com prazer esta condenação do marido, irritada por aquele “meu” e por aquele “sua” da dedicatória, como se a outra houvesse desejado ostentar, assim, estreitamente, o liame que reciprocamente unira ela e Vittore, unicamente para fazer-lhe desaforo.
Ante aquele primeiro relâmpago de ódio, faiscado pela rivalidade para ela agora existente, seguiu-se na alma de Ana a curiosidade feminina de examinar os traços daquele rosto, mas quase contida pela estranha consternação que se experimenta perante um objeto que pertenceu a alguém tragicamente desaparecido; consternação agora mais viva, mas a ela não desconhecida, porque nisso se concentrara todo o seu amor pelo marido, que já pertencera àquela outra mulher.
Ao examinar-lhe o rosto, Ana percebeu logo quanto se diferenciava do seu; e surgiu-lhe ao mesmo tempo do coração a pergunta: como pudera o marido amar aquela mulher, aquela mocinha, certamente mais bonita para ele, e pudesse depois enamorar-se dela, tão diferente?
Parecia-lhe belo, muito mais belo que o seu também, aquele rosto que, pelo retrato, devia ser moreno. Ei-lo: e aqueles lábios se haviam unido, no beijo, aos dele; mas, por que então, nos cantos da boca, aquela prega dolorosa? E porque tão triste o olhar daqueles olhos profundos? O rosto inteiro transpirava uma intensa mágoa; e Ana sentiu quase raiva da bondade humilde e real que aqueles traços exprimiam, e daí um gesto de repulsa e aversão, parecendo-lhe de súbito descobrir no olhar daqueles olhos a mesma expressão dos seus, quando, ao pensar no marido, se olhava ao espelho, pela manhã, depois de se haver arrumado.
Teve o tempo ainda de pôr no bolso o retrato: o marido apareceu, bufando, à entrada do quarto.
— Que fez você? Como sempre? Arrumou? Oh, pobre de mim! Agora não encontro mais nada!
Ao ver o estoque desembainhado no chão:
— Ah! Você brincou também de esgrima, com as roupas do armário?
E riu com aquele seu riso, que partia somente da garganta, como se alguém lha houvesse beliscado; e, ao rir assim, olhou para a mulher, talvez para perguntar-lhe o porquê de seu próprio riso. E, olhando, batia as pálpebras sem cessar, celerissimamente, sobre os olhinhos agudos, negros, irrequietos.
Vittore Brívio tratava a mulher como a uma menina incapaz de outra coisa a não ser daquele amor ingênuo e quase pueril de que se sentia circundado, às vezes com tédio, e ao qual se propusera prestar atenção somente de vez em quando, mostrando, também então, uma condescendência quase embebida de leve ironia, parecendo dizer-lhe: “Pois bem, que seja! durante algum tempo, serei criança também com você: é preciso mesmo fazer isto, mas não percamos demasiado tempo!”
Ana deixara cair a seus pés o velho paletó, onde encontrara o retrato. Ele ergueu-o, metendo-lhe a ponta do estoque, depois chamou da janela o criado, que se achava no jardim e que servia também de cocheiro e que, no momento, estava atrelando o cavalo ao trole. Assim que o rapaz se apresentou, em mangas de camisa, diante da janela, Brívio atirou-lhe à cara, grosseiramente, o paletó espetado, acompanhando a esmola com um: “Tome, isto é para você!”
— Assim você terá menos para escovar — acrescentou, dirigindo-se à mulher — e também para arrumar, esperemos!
E novamente emitiu aquele seu riso forçado, batendo mais e mais as pálpebras.
Outras vezes, o marido afastara-se da cidade e não por poucos dias apenas, partindo mesmo à noite, como desta vez; mas Ana, ainda sob a impressão da descoberta daquele retrato, experimentou um medo estranho, e disse-o, chorando, ao marido.
Vittore Brívio, apressado, receando sair tarde, e todo absorto no pensamento de seus negócios, recebeu com mau humor aquele pranto insólito da mulher.
— Como! Por quê? Vamos, vamos, criancices!
E saiu a toda pressa, sem sequer despedir-se.
Ana estremeceu ao ruído da porta que se lhe fechou empós, com ímpeto; ficou ali com o lampião na mão, na saleta, e sentiu as lágrimas se lhe regelarem nos olhos. Depois reagiu e voltou rápida para seu quarto, a fim de deitar-se logo.
No aposento já arrumado, ardia a lamparina da noite.
— Vá, pode ir dormir — disse Ana à camareira, que a esperava. — Eu mesma me arranjo. Boa noite.
Apagou a luz, mas, ao invés de pousá-la na mísula, como sempre fazia, sobre o criado-mudo, pressentindo — mesmo contra sua própria vontade — que talvez dela necessitaria mais tarde. Começou a despir-se à pressa, conservando os olhos fixos no chão, diante de si. Quando o vestido lhe caiu aos pés, pensou que o retrato estava lá e, com viva raiva, se sentiu olhada e compadecida por aqueles olhos dolentes, que tanta impressão lhe haviam causado. Curvou-se resolutamente, para apanhar do tapete o vestido, e pousou-o, sem dobrar, sobre a poltrona aos pés da cama, como se o bolso que guardava o retrato e o envoltório do pano devessem e pudessem impedir-lhe de reconstruir a imagem daquela morta.
Mal se deitara, fechou os olhos e se propôs a seguir, com o pensamento, o marido pela estrada que levava à estação ferroviária. Impôs-se isso por uma irada revolta ao sentimento que, durante aquele dia todo, a conservara vigilante, a observar, a estudar o marido. Sabia de onde proviera tal sentimento e queria expulsá-lo de si.
No esforço da vontade, que lhe provocava viva super-excitação nervosa, imaginou ter diante dos olhos, com extraordinária evidência, a comprida rua, deserta na noite, iluminada pêlos lampiões que reverberam sua luz trémula na calçada, que parecia palpitar; e aos pés de cada lampião, um círculo de sombra; as lojas, todas fechadas; e eis a carruagem que conduzia Vittore. Como se a houvesse esperado à passagem, passou a segui-la até à estação; viu o trem lúgubre, sob o telhado de vidro; uma grande confusão de pessoas naquele interior vasto, enfumaçado, mal iluminado, sombriamente sonoro: eis que o trem partia; e, como se realmente o visse afastar-se e desaparecer nas trevas, voltou logo a si, abriu os olhos no quarto silencioso e experimentou uma angustiosa sensação de vácuo, como se algo lhe faltasse dentro.
Sentiu, então, confusamente, desnorteando-se, que, desde três anos, talvez desde o momento em que partira da casa paterna, ela estava mergulhada naquele vácuo, de que só agora começava a ter conhecimento. Não notara antes, porque o havia preenchido somente consigo, com seu amor, aquele vazio; percebia-o agora, porque, durante aquele dia todo, conservara quase suspenso seu amor, para ver, para observar, para julgar.
“Nem sequer se despediu de mim!” pensou; e pôs-se a chorar de novo, como se este pensamento fosse determinadamente a causa do pranto.
Sentou-se na cama: mas logo deteve a mão estendida, ao levantar-se, para apanhar o lenço do vestido. Ora, seria mesmo inútil proibir-se de rever aquele retrato, de observá-lo! Apanhou-o. Reacendeu a luz.
Como imaginara diversamente, aquela mulher! Contemplando-lhe agora a verdadeira efígie, sentia remorsos pelos sentimentos que a imaginação lhe sugerira. Pensara sempre nela como uma mulher gorda e corada, com os olhos relampejantes e risonhos, inclinada ao riso, a distrações vulgares. E, ao contrário, ei-la: uma jovem, e dos seus puros traços emanava uma alma profunda e atormentada; diferente dela, sim, mas não no sentido inconveniente de antes: ao contrário, até parecia que aquela boca não houvesse nunca sorrido, ao passo que a sua tantas vezes rira alegremente; e, certamente, se moreno aquele rosto (como pelo retrato parecia) era de um ar menos risonho que o seu, louro e róseo.
Por que, por que tão triste?
Um pensamento odioso atravessou-lhe a mente, e logo desprendeu os olhos da imagem daquela mulher, descobrindo-lhe de improviso um perigo não só à sua paz, ao seu amor, que também naquele dia recebera mais de uma ferida, mas também à sua orgulhosa dignidade de mulher honesta, que jamais se permitira nem mesmo o mínimo pensamento contra o marido. Aquela tivera um amante! E por causa deste, ela talvez estivesse tão triste, por causa daquele amor adúltero, e não pelo marido!
Atirou o retrato sobre o criado-mudo e apagou de novo a luz, esperando adormecer, desta vez, sem mais pensar naquela mulher, com a qual nada podia ter em comum. Mas, fechando as pálpebras, reviu logo, malgrado seu, os olhos da morta, e em vão procurou expulsar aquela visão.
— Não por ele, não por ele! — murmurou, com aflitiva obstinação, como se, injuriando-a, contasse libertar-se dela.
E esforçou-se por trazer de novo à memória quanto sabia sobre o outro, o amante, quase que obrigando o olhar e a tristeza daqueles olhos a se dirigirem não mais a ela mas sim ao antigo amante, do qual conhecia apenas o nome: Artur Valli. Sabia que ele se casara, alguns anos depois, quase para provar que era inocente do crime que lhe queria atribuir Brívio, do qual sempre repelira energicamente o desafio, protestando que jamais se bateria em duelo com um louco assassino. Depois desta recusa, Vittore tinha ameaçado matá-lo onde o encontrasse, até mesmo na igreja; e então ele saíra dali, com a mulher, voltando mais tarde àquela cidade, assim que soubera que Vittore, de novo casado, partira.
Mas da tristeza desses acontecimentos por ela relembrados, pela covardia de Valli e, depois de tantos anos, pelo esquecimento do marido o qual, como se nada fosse, conseguira reabilitar-se na vida e tornar a casar, pela alegria que ela própria sentira ao se tornar sua mulher, por aqueles três anos transcorridos sem jamais se lembrar da outra, inesperadamente, um motivo de compaixão por ela se impôs a Ana espontâneo: reviu-lhe viva a imagem, mas como se estivesse longe, longe, e pareceu-lhe que, com aqueles olhos, de tanta mágoa inundados, ela lhe dissesse, abanando levemente a cabeça:
— Somente eu, porém, morri! Vocês todos vivem!
Viu-se, sentiu-se sozinha em casa; teve medo. Vivia, sim, ela; mas fazia três anos, desde o dia de seu casamento, não mais vira, nem uma só vez, seus pais, sua irmã. Ela, que os adorava, e que sempre tinha sido para com eles dócil e confiante, pudera rebelar-se à sua vontade, aos seus conselhos, por amor àquele homem; por amor àquele homem adoecera mortalmente e teria morrido, se os médicos não houvessem induzido seus pais a condescender no casamento. O pai cedera, não consentindo, porém, e até jurando que ela para ele, para sua casa, depois daquele casamento, deixaria de existir. Além da diferença de idade, dos dezoito anos que o marido tinha mais que ela, obstáculo mais grave para o pai tinha sido a posição financeira do marido, sujeita a rápidas mudanças devido a negócios arriscados a que costumava atirar-se, com temerária confiança em si mesmo e na sorte.
Em três anos de casamento, Ana, rodeada de conforto, pudera considerar injustas ou ditadas por contrárias prevenções as considerações da prudência paterna, quanto à fortuna do marido, na qual, de resto, ela, ignara, depositava a mesma confiança que ele em si próprio; quanto então à diferença de idade, até agora nenhum manifesto argumento de desilusão para ela ou de admiração para os outros, porque, dos anos, Brívio não sentia o mínimo prejuízo nem no corpo vivacíssimo e nervoso, nem muito menos no ânimo, dotado de infatigável energia, de irrequieta alacridade.
De bem outra coisa, agora, pela primeira vez, olhando (sem sequer desconfiar) para sua vida com os olhos da morta, encontrava motivo para queixar-se do marido. Sim, era verdade: da indiferença quase altiva dele ela se sentira ferir já outras vezes: porém, nunca como naquele dia; e agora, pela primeira vez, se sentia tão angustiosamente só, separada dos parentes, os quais, lhe parecia naquele momento, a houvessem abandonado ali, quase que, ao casar com Brívio, tivesse já algo em comum com aquela morta e não fosse mais digna de outra companhia. E o marido, que deveria consolá-la, o próprio marido parecia não dar-lhe mérito algum quanto ao sacrifício que ela fizera de seu amor filial e fraternal, como se a ela nada tivesse custado, como se àquele sacrifício ele tivesse direito, e por isso agora nenhum dever tinha para consolá-la ou compensá-la. Direito, sim, mas porque ela se enamorara tão perdidamente por ele, àquele tempo; então ele tinha agora o dever de compensá-la. E ao invés…
— Sempre assim! — pareceu a Ana que os lábios da morta suspirassem.
Reacendeu a luz e de novo, contemplando a imagem, foi atraída pela expressão daqueles olhos. Também ela, então, deveras, sofrera por ele? Também ela, também ela, ao perceber que não era amada, experimentara aquele angustioso vazio?
— Sim? sim? — perguntou Ana, sufocada pelo pranto, à imagem.
E pareceu-lhe, então, que aqueles olhos bondosos, repletos de paixão, se compadecessem dela por sua vez, tivessem pena dela por aquele abandono, pelo sacrifício não recompensado, pelo amor que lhe ficava preso no seio, qual tesouro no escrínio, do qual ele possuísse as chaves, mas nunca dele se servira, tal como o avarento.
Luigi Pirandello
A menina ensolarada
Era ainda uma menina quando descobriu que por ela é que brilhava o sol todos os dias. Desde aí, para não privá-lo de sua razão de ser e premiá-lo por sua assiduidade, jamais saiu à rua uma manhã sequer sem piscar para ele o olhar esplendidamente verde e cúmplice.
Não tenho brilho nem pompa, tudo que é meu é banal. Nada há meu que não se rompa, nada perene, imortal.
O homem não tinha dado dez passos na primeira calçada da manhã, e o sol frio, e os olhares gelados, e os passarinhos emudecidos já lhe tinham comunicado que qualquer projeto de alegria estava excluído da minuciosa pauta do domingo.
Digam o que disserem, é a tristeza que mantém viva a poesia.
Render-se alguém ao amor não é batalha perdida. Não há prisão mais querida nem tão amável senhor.
Não cumpri jornadas, não segui trajetórias. Fui sempre antônimo de tudo, jamais fui mais do que nada. Aspirei a glórias, não atingi a glória. Minhas histórias todas não formam uma história.
Brasão de um produtor de leite: alea lacta est.
Descobrimos que no final os caminhos tortos e os caminhos retos nos levam todos ao rumo certo, e estamos perto, cada vez mais perto.
Dizem que fui escritor. Acredito. Devo ter feito ontem algo muito ruim para estar sendo castigado hoje assim.
O amor é capaz de tudo. Tudo pode, tudo faz. Transforma o loquaz em mudo, transforma o mudo em loquaz.
***
Não tenho brilho nem pompa, tudo que é meu é banal. Nada há meu que não se rompa, nada perene, imortal.
***
O homem não tinha dado dez passos na primeira calçada da manhã, e o sol frio, e os olhares gelados, e os passarinhos emudecidos já lhe tinham comunicado que qualquer projeto de alegria estava excluído da minuciosa pauta do domingo.
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Digam o que disserem, é a tristeza que mantém viva a poesia.
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Render-se alguém ao amor não é batalha perdida. Não há prisão mais querida nem tão amável senhor.
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Não cumpri jornadas, não segui trajetórias. Fui sempre antônimo de tudo, jamais fui mais do que nada. Aspirei a glórias, não atingi a glória. Minhas histórias todas não formam uma história.
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Brasão de um produtor de leite: alea lacta est.
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Descobrimos que no final os caminhos tortos e os caminhos retos nos levam todos ao rumo certo, e estamos perto, cada vez mais perto.
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Dizem que fui escritor. Acredito. Devo ter feito ontem algo muito ruim para estar sendo castigado hoje assim.
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O amor é capaz de tudo. Tudo pode, tudo faz. Transforma o loquaz em mudo, transforma o mudo em loquaz.
Viagem
Era um pássaro triste.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.
A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.
Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.
A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.
Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.
Helena Kolody
Mais meu Sirimim
Habito a paisagem sólida, querida. Venham ver vocês. Ainda é inverno: alegrias direitinhas.
Amanhece de neblina, todos os dias, frio com frio. Ainda escuro, de sazão, agora, a madrugada vem muito curta, chega logo a manhã. O clarear é que é curto, para se assistir ao madrugar. Depois da coruja piando: o hu-lhu-h’hú. Da coruja, o pio é sempre. Mas, às vezes, vira o gargalhar, seco, um estalado, coisa seca, parece gargalhadinha de velho. Outra, a outra, seus estalidos, meio estridentes: cla-kle-cle-klá. Seriam duas corujas, no cajueiro, atrás do meu quarto; ninho delas. Dado o dia, bem guardam-se.
Os galos — e pintinhos e galinhas se agitando. A galinha com treze pintinhos, ela dorme debaixo do balaio. Entremente, melros, dos melhores. Ou os outros. A cambaxilra, aqui tem muita, dá um trinadozinho tristris. Aparecem os sanhaços. Vige aqui uma ordem: deixar-se, em cada mamoeiro, um mamão maduro, para eles, os pássaros de uso, que rebuscam o fácil das frutas. Àquela árvore de flor amarela, enchida de lagartas, vão os anus-pretos, mais tarde, quando se bem diz que o sol já está quente. Vi, porém, o martim-pescador, pousado no fim da luz, lindo. Escuro-e-verde e bronze, que, quando bate o sol, vira verde-azulado. Esperando a companheira?
Sigo, ao arreia-pêlo da correnteza, pela margem do mimo riachinho, soliloquaz: todo o tempo nos cruzamos. Sirimim estava de água clarinha, desta vez, ainda meio cheio, pelo que se sabe do que foi o verão: de chuvas e enxurros a granel. Mesmo agora, se costuma de vir alguma.
Tão cheiroso, na horta, aquele lugar da roseira! A gente se lembra de que foi a Irene que a plantou. A Irene se foi, faz seis meses, mas dá notícias. Diz que não conseguiu até hoje ajuntar dinheiro, só deu para comprar um vestido. Mas a Irene vai vir, estes dias, para o casamento da Maria do Dudu. Agora escuto o ruído de um muçum, pelo sol: a bulha da água remexida. E já se plantaram novas pimenteiras.
Ali, cheirando a roseira, e um perfume que vem, sai do chão. Cheira a mel. Vem de baixo. Você não vê nada. Deve de ser uma ervinha, um capinzinho. É o melhor cheiro e sobe da terra. Está por volta da horta, onde tem mato, nos lugares não capinados.
Vou visitar o Pedro, bebemos da biquinha, que recita. Mais que todas, a água do Sirimim, quando se apanha e põe na folha de taioba, ela fica de prata — a película prateada, a tremer. É a água mais pura que há.
O Pedro, mesmo tendo agora outra cachorrinha, não se esquece da que foi tão boa, a Bolinha, extinta. Conta de quando ela desapareceu, fugida, com a doença. — “...Zé Rufino tinha visto: ela passar, zangada, lá. Longe... Arruinada, uai. De zanga. Porque, naquela certa época do ano, zangam.” O Pedro é grato à Bolinha, porque ela não incomodou ninguém aqui, e porque poupou-lhe o assistir ao seu fim.
Sentamo-nos no antigo banco, pegado ao corte do barranco, ali tem uma laranjeira bem em cima do barranco, metade das raízes ficaram para fora. Mas, a casinha, a casa, atrás da qual estamos, já é a nova! O Pedro exulta — de não cessar de a contemplar.
E considera, com domingueiros olhos de repouso, o “seu” arrozal, lá embaixo, lugar fresco — à passarada. Está contente com o movimento, com o que se faz: na pinguela, para transpor o carro-de-bois, taparam os vãos com tabatinga e palha de arroz; taparam também todo o caminho que vem da pinguela até aqui, à casa; assim, há sempre palha de arroz espalhada — para refrescar a terra, agasalhá-la da umidade, e produzir adubo, depois.
Derrubou-se a casa velha, que era só um ranchinho de capim. O Pedro botou fogo em tudo, sapé e madeira podre, com ideia de que ali desse escorpiões. Mas, antes, a mudança levou dias, porque havia muito mantimento. O Pedro e a Eva são muito acomodados. A casa nova é grandinhazinha, com os dois quartos, e a cozinha e o quarto-dos-guardados — despensa para o milho e o arroz. Sem se esquecer a sala — só com um banco e o oratório: parece que os santos é que estão de visita ao Pedro.
No dia em que na casa nova definitivamente se alojaram, à noitinha, o Pedro, entrando no quarto-dos-guardados, escutou um barulho se mexendo. Com susto, invocou São Bento, pensou que fosse cobra atrás de camundongos, que estão dando no milho. Mas era uma gambá, com sete filhotes, já instalada perto do cacho de bananas — também de mudada! Foi só o Pedro fechar a porta, e mandar à Eva: — “Minha filha, premeia eles, com o cacete!” Medita: — “O vivente tem pouca pena do vivente...” E come a gambá, refogada simples, com farinha pura; mas não chupa os ossos, porque “dá caxumba”.
Na maior alegria, o Pedro inaugurou a casa nova, com uma ladainha. Armou a ladainha de ação-de-graças. Fez roupas novas, de papel crepom, para os santos todos do oratório. Varreu o terreno. Adornou o terreiro e casa com bandeirolas de papel. Arquinhos de bambus, com flores de papel, toscas, espetadas. Não tinha padre. Então, chamou um vizinho. Antoniartur de Almeida — ladrão, mau caráter, dizem, mas com grande prática de ladainhas. Quando estavam todos juntos, o homem dirigiu umas palavras ao povo. Depois, tirou umas rezas e preces. Ao meio-dia, em ponto. Rezaram um terço e a Ladainha de Todos-os-Santos. E o Padre reflete: — “Não é segredo o que estou lhe contando: mas, neste mundo, há gente de todo jeito. E é o de que se carece...”
Depois, dias, é que foi a festa — a dos quinze anos da Eva.
Da venda de ovos e galinhas, o Pedro conseguira um dinheirinho, bem escondido, que seria para se a Eva viesse a precisar, por doenças, em o caso. Graças a Deus, porém, a Eva sempre teve saúde, assim se criou. Vai daí, o Pedro, com a influência da casa nova, resolveu gastar esse cobre na alegria. Ficou muito boa, a festa dele. Teve danças. Serviram café, rosquinha redondinha, broa e pé-de-moleque. Bancou-se o manuel-manta: que é jogo de dados, num caixote com um papel com seis quadradinhos, em que as apostas se casam. — “O Pedro não tem muita valença...” — diz o Joaquim. Mesmo tão casmurro, achou que devia dar-lhe proteção, ao irmão mais novo e afilhado; por isso, ficou lá até a festa dar em fim.
Contudo, às vezes, o Joaquim parece ter inveja do Pedro, dos agrados que lhe fazem. Não pode compreender que se preze um pobre aleijadinho, assim. Tudo ele pega, pesa, mede e apreça — o Joaquim.
O Joaquim vai se mudar daqui. Ele tem setenta-e-dois-anos, e é duro, carrancudo, prepotente. O Joaquim bebe.
A Irene foi-se empregar no Rio, e ele ficou sentido com todos, e não dizia por que, agastado. Não podia brigar com o Maninho, sem razão, nem obrigar o Maninho, a se casar com a Irene. A Maria, mulher dele, então, ainda ficou mais desgostosa. Ambos, remoeram, muito, aquilo, mais e mais a se ressentir. Daí, chegaram à decisão. Ir-se embora, mesmo largando suas benfeitorias de colono — a farturinha formada naqueles anos: bananeiras, canavial, mandioca.
Donde que, vão para perto da outra filha, a Maria Doca, mulher do Manuel Doca, deles muito querida, lá têm netinhas, no Cici.
O Joaquim é homem sério, estricto e correcto demais, não gosta de natureza para os olhos. A coisa melhor, para ele, é a fartura. A coisa pior — a que ameaça a fartura — é a vadiação. Só pensa em termos de proveito. Andar bem com os outros — isto é: os outros andando bem com ele. Acha que a gente está aqui para cumprir obrigação, fazer fartura; e, depois, no Céu, apresentar contas a Deus. Contas certas, certa a vida.
Rejeita toda mercê de beleza, desocupada e que não produz. Mesmo a roseirinha que a Irene plantou, ele diz que a tolera somente porque ela serve às plantinhas, de sombra. Mas nunca reparou em que, nas rosinhas-de-cachos, as pétalas de de-dentro é que são cor-de-rosa claro, e as de fora, mais brancas, ou parecem brancas, pelo menos, se não são. Nem jamais sentiu, rosas asas, seu perfume.
O riachinho sair por aí, correndo e cantando, aborrece a ele.
Aceita-o, servo, na horta: aprisionadas, obrigadas, as aguinhas diligentes. Mas não as que se seguem, para lá, lá, em todo o depois — as das sombras matosas, e as que, soltas, na cheia, vão de afogadilho. Da ponta para baixo, o Sirimim “está com vadiação”, vale de nada, de nenhum préstimo. Presume-se que, no fundo, detestava-o o Joaquim: como à flor que flor, a borboleta andante, o passarinho e ninho, o grilo na alface, e, à noite, no negro ermo, no ar, o pirilampadário. O meu Sirimim no descuidoso imprestar-se: a lânguida água à lengalenga e a ternura em aventura.
A ida embora do Joaquim é uma luta, que o Sirimim venceu.
A casa, que foi dele, está vaga. Quem a virá ocupar? Talvez, o velho avô da Idalina.
Guimarães Rosa, "Ave, Palavra"
Amanhece de neblina, todos os dias, frio com frio. Ainda escuro, de sazão, agora, a madrugada vem muito curta, chega logo a manhã. O clarear é que é curto, para se assistir ao madrugar. Depois da coruja piando: o hu-lhu-h’hú. Da coruja, o pio é sempre. Mas, às vezes, vira o gargalhar, seco, um estalado, coisa seca, parece gargalhadinha de velho. Outra, a outra, seus estalidos, meio estridentes: cla-kle-cle-klá. Seriam duas corujas, no cajueiro, atrás do meu quarto; ninho delas. Dado o dia, bem guardam-se.
Os galos — e pintinhos e galinhas se agitando. A galinha com treze pintinhos, ela dorme debaixo do balaio. Entremente, melros, dos melhores. Ou os outros. A cambaxilra, aqui tem muita, dá um trinadozinho tristris. Aparecem os sanhaços. Vige aqui uma ordem: deixar-se, em cada mamoeiro, um mamão maduro, para eles, os pássaros de uso, que rebuscam o fácil das frutas. Àquela árvore de flor amarela, enchida de lagartas, vão os anus-pretos, mais tarde, quando se bem diz que o sol já está quente. Vi, porém, o martim-pescador, pousado no fim da luz, lindo. Escuro-e-verde e bronze, que, quando bate o sol, vira verde-azulado. Esperando a companheira?
Sigo, ao arreia-pêlo da correnteza, pela margem do mimo riachinho, soliloquaz: todo o tempo nos cruzamos. Sirimim estava de água clarinha, desta vez, ainda meio cheio, pelo que se sabe do que foi o verão: de chuvas e enxurros a granel. Mesmo agora, se costuma de vir alguma.
Tão cheiroso, na horta, aquele lugar da roseira! A gente se lembra de que foi a Irene que a plantou. A Irene se foi, faz seis meses, mas dá notícias. Diz que não conseguiu até hoje ajuntar dinheiro, só deu para comprar um vestido. Mas a Irene vai vir, estes dias, para o casamento da Maria do Dudu. Agora escuto o ruído de um muçum, pelo sol: a bulha da água remexida. E já se plantaram novas pimenteiras.
Ali, cheirando a roseira, e um perfume que vem, sai do chão. Cheira a mel. Vem de baixo. Você não vê nada. Deve de ser uma ervinha, um capinzinho. É o melhor cheiro e sobe da terra. Está por volta da horta, onde tem mato, nos lugares não capinados.
Vou visitar o Pedro, bebemos da biquinha, que recita. Mais que todas, a água do Sirimim, quando se apanha e põe na folha de taioba, ela fica de prata — a película prateada, a tremer. É a água mais pura que há.
O Pedro, mesmo tendo agora outra cachorrinha, não se esquece da que foi tão boa, a Bolinha, extinta. Conta de quando ela desapareceu, fugida, com a doença. — “...Zé Rufino tinha visto: ela passar, zangada, lá. Longe... Arruinada, uai. De zanga. Porque, naquela certa época do ano, zangam.” O Pedro é grato à Bolinha, porque ela não incomodou ninguém aqui, e porque poupou-lhe o assistir ao seu fim.
Sentamo-nos no antigo banco, pegado ao corte do barranco, ali tem uma laranjeira bem em cima do barranco, metade das raízes ficaram para fora. Mas, a casinha, a casa, atrás da qual estamos, já é a nova! O Pedro exulta — de não cessar de a contemplar.
E considera, com domingueiros olhos de repouso, o “seu” arrozal, lá embaixo, lugar fresco — à passarada. Está contente com o movimento, com o que se faz: na pinguela, para transpor o carro-de-bois, taparam os vãos com tabatinga e palha de arroz; taparam também todo o caminho que vem da pinguela até aqui, à casa; assim, há sempre palha de arroz espalhada — para refrescar a terra, agasalhá-la da umidade, e produzir adubo, depois.
Derrubou-se a casa velha, que era só um ranchinho de capim. O Pedro botou fogo em tudo, sapé e madeira podre, com ideia de que ali desse escorpiões. Mas, antes, a mudança levou dias, porque havia muito mantimento. O Pedro e a Eva são muito acomodados. A casa nova é grandinhazinha, com os dois quartos, e a cozinha e o quarto-dos-guardados — despensa para o milho e o arroz. Sem se esquecer a sala — só com um banco e o oratório: parece que os santos é que estão de visita ao Pedro.
No dia em que na casa nova definitivamente se alojaram, à noitinha, o Pedro, entrando no quarto-dos-guardados, escutou um barulho se mexendo. Com susto, invocou São Bento, pensou que fosse cobra atrás de camundongos, que estão dando no milho. Mas era uma gambá, com sete filhotes, já instalada perto do cacho de bananas — também de mudada! Foi só o Pedro fechar a porta, e mandar à Eva: — “Minha filha, premeia eles, com o cacete!” Medita: — “O vivente tem pouca pena do vivente...” E come a gambá, refogada simples, com farinha pura; mas não chupa os ossos, porque “dá caxumba”.
Na maior alegria, o Pedro inaugurou a casa nova, com uma ladainha. Armou a ladainha de ação-de-graças. Fez roupas novas, de papel crepom, para os santos todos do oratório. Varreu o terreno. Adornou o terreiro e casa com bandeirolas de papel. Arquinhos de bambus, com flores de papel, toscas, espetadas. Não tinha padre. Então, chamou um vizinho. Antoniartur de Almeida — ladrão, mau caráter, dizem, mas com grande prática de ladainhas. Quando estavam todos juntos, o homem dirigiu umas palavras ao povo. Depois, tirou umas rezas e preces. Ao meio-dia, em ponto. Rezaram um terço e a Ladainha de Todos-os-Santos. E o Padre reflete: — “Não é segredo o que estou lhe contando: mas, neste mundo, há gente de todo jeito. E é o de que se carece...”
Depois, dias, é que foi a festa — a dos quinze anos da Eva.
Da venda de ovos e galinhas, o Pedro conseguira um dinheirinho, bem escondido, que seria para se a Eva viesse a precisar, por doenças, em o caso. Graças a Deus, porém, a Eva sempre teve saúde, assim se criou. Vai daí, o Pedro, com a influência da casa nova, resolveu gastar esse cobre na alegria. Ficou muito boa, a festa dele. Teve danças. Serviram café, rosquinha redondinha, broa e pé-de-moleque. Bancou-se o manuel-manta: que é jogo de dados, num caixote com um papel com seis quadradinhos, em que as apostas se casam. — “O Pedro não tem muita valença...” — diz o Joaquim. Mesmo tão casmurro, achou que devia dar-lhe proteção, ao irmão mais novo e afilhado; por isso, ficou lá até a festa dar em fim.
Contudo, às vezes, o Joaquim parece ter inveja do Pedro, dos agrados que lhe fazem. Não pode compreender que se preze um pobre aleijadinho, assim. Tudo ele pega, pesa, mede e apreça — o Joaquim.
O Joaquim vai se mudar daqui. Ele tem setenta-e-dois-anos, e é duro, carrancudo, prepotente. O Joaquim bebe.
A Irene foi-se empregar no Rio, e ele ficou sentido com todos, e não dizia por que, agastado. Não podia brigar com o Maninho, sem razão, nem obrigar o Maninho, a se casar com a Irene. A Maria, mulher dele, então, ainda ficou mais desgostosa. Ambos, remoeram, muito, aquilo, mais e mais a se ressentir. Daí, chegaram à decisão. Ir-se embora, mesmo largando suas benfeitorias de colono — a farturinha formada naqueles anos: bananeiras, canavial, mandioca.
Donde que, vão para perto da outra filha, a Maria Doca, mulher do Manuel Doca, deles muito querida, lá têm netinhas, no Cici.
O Joaquim é homem sério, estricto e correcto demais, não gosta de natureza para os olhos. A coisa melhor, para ele, é a fartura. A coisa pior — a que ameaça a fartura — é a vadiação. Só pensa em termos de proveito. Andar bem com os outros — isto é: os outros andando bem com ele. Acha que a gente está aqui para cumprir obrigação, fazer fartura; e, depois, no Céu, apresentar contas a Deus. Contas certas, certa a vida.
Rejeita toda mercê de beleza, desocupada e que não produz. Mesmo a roseirinha que a Irene plantou, ele diz que a tolera somente porque ela serve às plantinhas, de sombra. Mas nunca reparou em que, nas rosinhas-de-cachos, as pétalas de de-dentro é que são cor-de-rosa claro, e as de fora, mais brancas, ou parecem brancas, pelo menos, se não são. Nem jamais sentiu, rosas asas, seu perfume.
O riachinho sair por aí, correndo e cantando, aborrece a ele.
Aceita-o, servo, na horta: aprisionadas, obrigadas, as aguinhas diligentes. Mas não as que se seguem, para lá, lá, em todo o depois — as das sombras matosas, e as que, soltas, na cheia, vão de afogadilho. Da ponta para baixo, o Sirimim “está com vadiação”, vale de nada, de nenhum préstimo. Presume-se que, no fundo, detestava-o o Joaquim: como à flor que flor, a borboleta andante, o passarinho e ninho, o grilo na alface, e, à noite, no negro ermo, no ar, o pirilampadário. O meu Sirimim no descuidoso imprestar-se: a lânguida água à lengalenga e a ternura em aventura.
A ida embora do Joaquim é uma luta, que o Sirimim venceu.
A casa, que foi dele, está vaga. Quem a virá ocupar? Talvez, o velho avô da Idalina.
Guimarães Rosa, "Ave, Palavra"
Suicídio na granja
Alguns se justificam e se despedem através de cartas, telefonemas ou pequenos gestos — avisos que podem ser mascarados pedidos de socorro. Mas há outros que se vão no mais absoluto silêncio. Ele não deixou nem ao menos um bilhete?, fica perguntando a família, a amante, o amigo, o vizinho e principalmente o cachorro que interroga com um olhar ainda mais interrogativo do que o olhar humano, E ele?!
Suicídio por justa causa e sem causa alguma e aí estaria o que podemos chamar de vocação, a simples vontade de atender ao chamado que vem lá das profundezas e se instala e prevalece. Pois não existe a vocação para o piano, para o futebol, para o teatro. Ai!… para a política. Com a mesma força (evitei a palavra paixão) a vocação para a morte. Quando justificada pode virar uma conformação, Tinha os seus motivos! diz o próximo bem informado. Mas e aquele suicídio que (aparentemente) não tem nenhuma explicação? A morte obscura, que segue veredas indevassáveis na sua breve ou longa trajetória.
Pela primeira vez ouvi a palavra suicídio quando ainda morava naquela antiga chácara que tinha um pequeno pomar e um jardim só de roseiras. Ficava perto de um vilarejo cortado por um rio de águas pardacentas, o nome do vilarejo vai ficar no fundo desse rio. Onde também ficou o Coronel Mota, um fazendeiro velho (todos me pareciam velhos) que andava sempre de terno branco, engomado. Botinas pretas, chapéu de abas largas e aquela bengala grossa com a qual matava cobras. Fui correndo dar a notícia ao meu pai, O Coronel encheu o bolso com pedras e se pinchou com roupa e tudo no rio! Meu pai fez parar a cadeira de balanço, acendeu um charuto e ficou me olhando. Quem disse isso? Tomei o fôlego: Me contaram no recreio. Diz que ele desceu do cavalo, amarrou o cavalo na porteira e foi entrando no rio e enchendo o bolso com pedra, tinha lá um pescador que sabia nadar, nadou e não viu mais nem sinal dele.
Meu pai baixou a cabeça e soltou a baforada de fumaça no ladrilho: Que loucura. No ano passado ele já tinha tentado com uma espingarda que falhou, que loucura! Era um cristão e um cristão não se suicida, ele não podia fazer isso, acrescentou com impaciência. Entregou-me o anel vermelho-dourado do charuto. Não podia fazer isso!
Enfiei o anel no dedo, mas era tão largo que precisei fechar a mão para retê-lo. Mimoso veio correndo assustado. Tinha uma coisa escura na boca e espirrava, o focinho sujo de terra. Vai saindo, vai saindo!, ordenei fazendo com que voltasse pelo mesmo caminho, a conversa agora era séria. Mas pai, por que ele se matou, por quê?! fiquei perguntando. Meu pai olhou o charuto que tirou da boca. Soprou de leve a brasa: Muitos se matam por amor mesmo. Mas tem outros motivos, tantos motivos, uma doença sem remédio. Ou uma dívida. Ou uma tristeza sem fim, às vezes começa a tristeza lá dentro e a dor na gaiola do peito é maior ainda do que a dor na carne. Se a pessoa é delicada, não agüenta e acaba indo embora! Vai embora, ele repetiu e levantou-se de repente, a cara fechada, era o sinal: quando mudava de posição a gente já sabia que ele queria mudar de assunto. Deu uma larga passada na varanda e apoiou-se na grade de ferro como se quisesse examinar melhor a borboleta voejando em redor de uma rosa. Voltou-se rápido, olhando para os lados. E abriu os braços, o charuto preso entre os dedos: Se matam até sem motivo nenhum, um mistério, nenhum motivo! repetiu e foi saindo da varanda. Entrou na sala. Corri atrás. Quem se mata vai pro inferno, pai? Ele apagou o charuto no cinzeiro e voltou-se para me dar o pirulito que eu tinha esquecido em cima da mesa. O gesto me animou, avancei mais confiante: E bicho, bicho também se mata? Tirando o lenço do bolso ele limpou devagar as pontas dos dedos: Bicho, não, só gente.
Só gente? — eu perguntei a mim mesma muitos e muitos anos depois, quando passava as férias de dezembro numa fazenda. Atrás da casa-grande tinha uma granja e nessa granja encontrei dois amigos inseparáveis, um galo branco e um ganso também branco mas com suaves pinceladas cinzentas nas asas. Uma estranha amizade, pensei ao vê-los por ali, sempre juntos. Uma estranhíssima amizade. Mas não é a minha intenção abordar agora problemas de psicologia animal, queria contar apenas o que vi. E o que vi foi isso, dois amigos tão próximos, tão apaixonados, ah! como conversavam em seus longos passeios, como se entendiam na secreta linguagem de perguntas e respostas, o diálogo. Com os intervalos de reflexão. E alguma polêmica mas com humor, não surpreendi naquela tarde o galo rindo? Pois é, o galo. Esse perguntava com maior freqüência, a interrogação acesa nos rápidos movimentos que fazia com a cabeça para baixo, e para os lados, E então? O ganso respondia com certa cautela, parecia mais calmo, mais contido quando abaixava o bico meditativo, quase repetindo os movimentos da cabeça do outro mas numa aura de maior serenidade. Juntos, defendiam-se contra os ataques, não é preciso lembrar que na granja travavam-se as mesmas pequenas guerrilhas da cidade logo adiante, a competição. A intriga. A vaidade e a luta pelo poder, que luta! Essa ânsia voraz que atiçava os grupos, acesa a vontade de ocupar um espaço maior, de excluir o concorrente, época de eleições? E os dois amigos sempre juntos. Atentos. Eu os observava enquanto trocavam pequenos gestos (gestos?) de generosidade nos seus infindáveis passeios pelo terreiro, Hum! olha aqui esta minhoca, sirva-se à vontade, vamos, é sua! — dizia o galo a recuar assim de banda, a crista encrespada quase sangrando no auge da emoção. E o ganso mais tranqüilo (um fidalgo) afastando-se todo cerimonioso, pisando nas titicas como se pisasse em flores, Sirva-se você primeiro, agora é a sua vez! E se punham tão hesitantes que algum frango insolente, arvorado a juiz, acabava se metendo no meio e numa corrida desenfreada levava no bico o manjar. Mas nem o ganso com seus olhinhos redondamente superiores nem o galo flamante — nenhum dos dois parecia dar maior atenção ao furto. Alheios aos bens terreirais, desligados das mesquinharias de uma concorrência desleal, prosseguiam o passeio no mesmo ritmo, nem vagaroso nem apressado, mas digno, ora, minhocas!
Grandes amigos, hem?, comentei certa manhã com o granjeiro que concordou tirando o chapéu e rindo, Eles comem aqui na minha mão!
Foi quando achei que ambos mereciam um nome assim de acordo com suas nobres figuras, e ao ganso, com aquele andar de pensador, as brancas mãos de penas cruzadas nas costas, dei o nome de Platão. Ao galo, mais questionador e mais exaltado como todo discípulo, eu dei o nome de Aristóteles.
Até que um dia (também entre os bichos, um dia) houve o grande jantar na fazenda e do qual não participei. Ainda bem. Quando voltei vi apenas o galo Aristóteles a vagar sozinho e completamente desarvorado, os olhinhos suplicantes na interrogação, o bico entreaberto na ansiedade da busca, Onde, onde?!… Aproximei-me e ele me reconheceu. Cravou em mim um olhar desesperado, Mas onde ele está?! Fiz apenas um aceno ou cheguei a dizer-lhe que esperasse um pouco enquanto ia perguntar ao granjeiro: Mas e aquele ganso, o amigo do galo?!
Para que prosseguir, de que valem os detalhes? Chegou um cozinheiro lá de fora, veio ajudar na festa, começou a contar o granjeiro gaguejando de emoção. Eu tinha saído, fui aqui na casa da minha irmã, não demorei muito mas esse tal de cozinheiro ficou apavorado com medo de atrasar o jantar e nem me esperou, escolheu o que quis e na escolha, acabou levando o coitado, cruzes!… Agora esse daí ficou sozinho e procurando o outro feito tonto, só falta falar esse galo, não come nem bebe, só fica andando nessa agonia! Mesmo quando canta de manhãzinha me representa que está rouco de tanto chorar.
Foi o banquete de Platão, pensei meio nauseada com o miserável trocadilho. Deixei de ir à granja, era insuportável ver aquele galo definhando na busca obstinada, a crista murcha, o olhar esvaziado. E o bico, aquele bico tão tagarela agora pálido, cerrado. Mais alguns dias e foi encontrado morto ao lado do tanque onde o companheiro costumava se banhar. No livro do poeta Maiakóvski (matou-se com um tiro) há um verso que serve de epitáfio para o galo branco: "Comigo viu-se doida a anatomia / sou todo um coração!".
Suicídio por justa causa e sem causa alguma e aí estaria o que podemos chamar de vocação, a simples vontade de atender ao chamado que vem lá das profundezas e se instala e prevalece. Pois não existe a vocação para o piano, para o futebol, para o teatro. Ai!… para a política. Com a mesma força (evitei a palavra paixão) a vocação para a morte. Quando justificada pode virar uma conformação, Tinha os seus motivos! diz o próximo bem informado. Mas e aquele suicídio que (aparentemente) não tem nenhuma explicação? A morte obscura, que segue veredas indevassáveis na sua breve ou longa trajetória.
Pela primeira vez ouvi a palavra suicídio quando ainda morava naquela antiga chácara que tinha um pequeno pomar e um jardim só de roseiras. Ficava perto de um vilarejo cortado por um rio de águas pardacentas, o nome do vilarejo vai ficar no fundo desse rio. Onde também ficou o Coronel Mota, um fazendeiro velho (todos me pareciam velhos) que andava sempre de terno branco, engomado. Botinas pretas, chapéu de abas largas e aquela bengala grossa com a qual matava cobras. Fui correndo dar a notícia ao meu pai, O Coronel encheu o bolso com pedras e se pinchou com roupa e tudo no rio! Meu pai fez parar a cadeira de balanço, acendeu um charuto e ficou me olhando. Quem disse isso? Tomei o fôlego: Me contaram no recreio. Diz que ele desceu do cavalo, amarrou o cavalo na porteira e foi entrando no rio e enchendo o bolso com pedra, tinha lá um pescador que sabia nadar, nadou e não viu mais nem sinal dele.
Meu pai baixou a cabeça e soltou a baforada de fumaça no ladrilho: Que loucura. No ano passado ele já tinha tentado com uma espingarda que falhou, que loucura! Era um cristão e um cristão não se suicida, ele não podia fazer isso, acrescentou com impaciência. Entregou-me o anel vermelho-dourado do charuto. Não podia fazer isso!
Enfiei o anel no dedo, mas era tão largo que precisei fechar a mão para retê-lo. Mimoso veio correndo assustado. Tinha uma coisa escura na boca e espirrava, o focinho sujo de terra. Vai saindo, vai saindo!, ordenei fazendo com que voltasse pelo mesmo caminho, a conversa agora era séria. Mas pai, por que ele se matou, por quê?! fiquei perguntando. Meu pai olhou o charuto que tirou da boca. Soprou de leve a brasa: Muitos se matam por amor mesmo. Mas tem outros motivos, tantos motivos, uma doença sem remédio. Ou uma dívida. Ou uma tristeza sem fim, às vezes começa a tristeza lá dentro e a dor na gaiola do peito é maior ainda do que a dor na carne. Se a pessoa é delicada, não agüenta e acaba indo embora! Vai embora, ele repetiu e levantou-se de repente, a cara fechada, era o sinal: quando mudava de posição a gente já sabia que ele queria mudar de assunto. Deu uma larga passada na varanda e apoiou-se na grade de ferro como se quisesse examinar melhor a borboleta voejando em redor de uma rosa. Voltou-se rápido, olhando para os lados. E abriu os braços, o charuto preso entre os dedos: Se matam até sem motivo nenhum, um mistério, nenhum motivo! repetiu e foi saindo da varanda. Entrou na sala. Corri atrás. Quem se mata vai pro inferno, pai? Ele apagou o charuto no cinzeiro e voltou-se para me dar o pirulito que eu tinha esquecido em cima da mesa. O gesto me animou, avancei mais confiante: E bicho, bicho também se mata? Tirando o lenço do bolso ele limpou devagar as pontas dos dedos: Bicho, não, só gente.
Só gente? — eu perguntei a mim mesma muitos e muitos anos depois, quando passava as férias de dezembro numa fazenda. Atrás da casa-grande tinha uma granja e nessa granja encontrei dois amigos inseparáveis, um galo branco e um ganso também branco mas com suaves pinceladas cinzentas nas asas. Uma estranha amizade, pensei ao vê-los por ali, sempre juntos. Uma estranhíssima amizade. Mas não é a minha intenção abordar agora problemas de psicologia animal, queria contar apenas o que vi. E o que vi foi isso, dois amigos tão próximos, tão apaixonados, ah! como conversavam em seus longos passeios, como se entendiam na secreta linguagem de perguntas e respostas, o diálogo. Com os intervalos de reflexão. E alguma polêmica mas com humor, não surpreendi naquela tarde o galo rindo? Pois é, o galo. Esse perguntava com maior freqüência, a interrogação acesa nos rápidos movimentos que fazia com a cabeça para baixo, e para os lados, E então? O ganso respondia com certa cautela, parecia mais calmo, mais contido quando abaixava o bico meditativo, quase repetindo os movimentos da cabeça do outro mas numa aura de maior serenidade. Juntos, defendiam-se contra os ataques, não é preciso lembrar que na granja travavam-se as mesmas pequenas guerrilhas da cidade logo adiante, a competição. A intriga. A vaidade e a luta pelo poder, que luta! Essa ânsia voraz que atiçava os grupos, acesa a vontade de ocupar um espaço maior, de excluir o concorrente, época de eleições? E os dois amigos sempre juntos. Atentos. Eu os observava enquanto trocavam pequenos gestos (gestos?) de generosidade nos seus infindáveis passeios pelo terreiro, Hum! olha aqui esta minhoca, sirva-se à vontade, vamos, é sua! — dizia o galo a recuar assim de banda, a crista encrespada quase sangrando no auge da emoção. E o ganso mais tranqüilo (um fidalgo) afastando-se todo cerimonioso, pisando nas titicas como se pisasse em flores, Sirva-se você primeiro, agora é a sua vez! E se punham tão hesitantes que algum frango insolente, arvorado a juiz, acabava se metendo no meio e numa corrida desenfreada levava no bico o manjar. Mas nem o ganso com seus olhinhos redondamente superiores nem o galo flamante — nenhum dos dois parecia dar maior atenção ao furto. Alheios aos bens terreirais, desligados das mesquinharias de uma concorrência desleal, prosseguiam o passeio no mesmo ritmo, nem vagaroso nem apressado, mas digno, ora, minhocas!
Grandes amigos, hem?, comentei certa manhã com o granjeiro que concordou tirando o chapéu e rindo, Eles comem aqui na minha mão!
Foi quando achei que ambos mereciam um nome assim de acordo com suas nobres figuras, e ao ganso, com aquele andar de pensador, as brancas mãos de penas cruzadas nas costas, dei o nome de Platão. Ao galo, mais questionador e mais exaltado como todo discípulo, eu dei o nome de Aristóteles.
Até que um dia (também entre os bichos, um dia) houve o grande jantar na fazenda e do qual não participei. Ainda bem. Quando voltei vi apenas o galo Aristóteles a vagar sozinho e completamente desarvorado, os olhinhos suplicantes na interrogação, o bico entreaberto na ansiedade da busca, Onde, onde?!… Aproximei-me e ele me reconheceu. Cravou em mim um olhar desesperado, Mas onde ele está?! Fiz apenas um aceno ou cheguei a dizer-lhe que esperasse um pouco enquanto ia perguntar ao granjeiro: Mas e aquele ganso, o amigo do galo?!
Para que prosseguir, de que valem os detalhes? Chegou um cozinheiro lá de fora, veio ajudar na festa, começou a contar o granjeiro gaguejando de emoção. Eu tinha saído, fui aqui na casa da minha irmã, não demorei muito mas esse tal de cozinheiro ficou apavorado com medo de atrasar o jantar e nem me esperou, escolheu o que quis e na escolha, acabou levando o coitado, cruzes!… Agora esse daí ficou sozinho e procurando o outro feito tonto, só falta falar esse galo, não come nem bebe, só fica andando nessa agonia! Mesmo quando canta de manhãzinha me representa que está rouco de tanto chorar.
Foi o banquete de Platão, pensei meio nauseada com o miserável trocadilho. Deixei de ir à granja, era insuportável ver aquele galo definhando na busca obstinada, a crista murcha, o olhar esvaziado. E o bico, aquele bico tão tagarela agora pálido, cerrado. Mais alguns dias e foi encontrado morto ao lado do tanque onde o companheiro costumava se banhar. No livro do poeta Maiakóvski (matou-se com um tiro) há um verso que serve de epitáfio para o galo branco: "Comigo viu-se doida a anatomia / sou todo um coração!".
Lygia Fagundes Telles
sábado, junho 13
O búfalo
Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranquilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. “Mas isso é amor, é amor de novo”, revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.
Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir – diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas – sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.
Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho – a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. “Oh não, não isso”, pensou. E enquanto fugia, disse: “Deus, me ensine somente a odiar.”
“Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. “Eu te odeio”, disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar.
Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. “Oh, Deus, quem será meu par neste mundo?”
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa.
E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha- russa ainda parada. Separada de todos no seu banco parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor – amor, amor, não o amor! – onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele voo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre – o grito das namoradas! – seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, “faziam dela o que queriam”, a grande ofensa – o grito das namoradas! – a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando, faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a como um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta a terra, a maquinaria de novo inteiramente parada. Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue.
Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo do meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido.
Só isso? Só isto. Da violência, só isto.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.
A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar – seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, à promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói… oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida – deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se – enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde.
Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.
Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que a distância a cara não tinha traços.
Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido.
A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore.
Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.
O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranquila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera.
E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro.
O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo.
Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e a distância encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente a frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.
Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir – diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas – sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.
Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho – a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. “Oh não, não isso”, pensou. E enquanto fugia, disse: “Deus, me ensine somente a odiar.”
“Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. “Eu te odeio”, disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar.
Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. “Oh, Deus, quem será meu par neste mundo?”
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa.
E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha- russa ainda parada. Separada de todos no seu banco parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor – amor, amor, não o amor! – onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele voo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre – o grito das namoradas! – seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, “faziam dela o que queriam”, a grande ofensa – o grito das namoradas! – a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando, faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a como um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta a terra, a maquinaria de novo inteiramente parada. Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue.
Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo do meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido.
Só isso? Só isto. Da violência, só isto.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.
A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar – seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, à promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói… oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida – deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se – enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde.
Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.
Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que a distância a cara não tinha traços.
Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido.
A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore.
Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.
O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranquila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera.
E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro.
O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo.
Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e a distância encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente a frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.
Clarice Lispector
Falar
A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.
Ferreira Gullar
O menino na festa do Natal de Cristo
Como sou romancista, parece que inventei uma “história”. Porque escrevo “parece”? Sei bem que a inventei, mas afigura-se sempre que ela aconteceu num certo lugar, em certo dia, ou antes, precisamente na véspera do Natal, em certa cidade enorme e durante um frio terrível.
Imagino que havia um rapaz muito pequeno numa cave, de seis anos ou ainda mais pequeno. O rapaz, numa manhã húmida e fria, acordou na sua cave. Vestia apenas uma batinha e tremia. Saía-lhe da boca um bafo de vapor branco, e ele, sentado no canto, em cima de uma arca, aborrecia-se e soprava o vapor de propósito, divertindo-se a vê-lo sair. Mas estava com muita fome. Logo de manhã, por várias vezes, já se aproximara do catre em que a mãe doente estava deitada numa esteira e com uma trouxa debaixo da cabeça. Como veio ela parar aqui? Chegara pelos vistos de outra cidade, com o filho, e de repente adoecera. A senhoria tinha sido levada pela polícia dois dias antes; os inquilinos dispersaram-se, era a quadra das festas; só um dos do “pessoal da ganga” estava lá, prostrado de bêbado como um morto havia já vinte e quatro horas, sem dar atenção às festas. Noutro canto do quarto gemia de dores reumáticas uma velha octogenária, antiga ama-seca numa casa qualquer, deitada no leito da morte solitária, queixosa, gemebunda e a resmungar com o miúdo que já tinha medo de se aproximar muito do canto dela. Encontrou, algures no átrio, água para beber, mas não encontrou uma côdea para comer, e já era a décima vez que se aproximava para acordar a mãe. Por fim, começou a sentir pavor da escuridão: havia muito que escurecera mas ninguém acendia as velas. Ao mexer na cara da mãe, espantou-se por ela não se mexer e por estar fria como a parede. “Está muito frio aqui”, pensou ele, e ficou um pouco parado, deixando, inconscientemente, a mão esquecida no ombro da morta; depois soprou para os dedinhos, tentando aquecê-los e, de repente, tendo encontrado às apalpadelas o seu boné em cima do catre, foi devagarinho, na escuridão, para a saída da cave. Teria saído ainda antes, mas tinha medo de um cão grande que, durante todo o dia, uivava em cima, nas escadas, à porta dos vizinhos. O cão já não estava lá, e o miúdo saiu para a rua.
Outra rua — ah, que larga! Aqui de certeza que atropelam a gente; como eles gritam, correm, tantos coches, tanta luz, tanta luz! E isto o que é? Oh, que vidro tão grande, e atrás do vidro uma sala, e na sala uma árvore até ao teto! É a árvore de Natal, e tantas luzes na árvore, e tantos papelinhos dourados e tantas maçãs, e por todo o lado bonequinhos, cavalinhos; e crianças a correr na sala, todas apinocadas, todas limpinhas, riem-se e brincam e comem e bebem. Eis uma menina que começou a dançar com um rapaz, que linda! E ouve-se a música através do vidro. O rapaz olha, espanta-se e ri-se, mas doem-lhe os dedos, dos pés e das mãos, ficaram roxos, já não se dobram e doem-lhe quando os mexe. O miúdo pensou então, de repente, que lhe doíam muito os dedos, e chorou, e correu mais adiante pela rua, e viu de novo, por outro vidro grande, uma sala, árvores, mas nas mesas há bolos, variados: de amêndoa, vermelhos, amarelos, e estão lá quatro ricas senhoras, e dão bolos a quem entra, e a porta abre-se a cada instante e entram muitos senhores. O rapaz aproximou-se, abriu a porta e entrou. Ui, como gritaram com ele, como abanaram as mãos! Uma senhora aproximou-se dele e meteu-lhe na mão um copeque, abriu-lhe a porta para a rua. Como se assustou! O copeque caiu e tilintou nos degraus: não podia dobrar os dedos inteiriçados e vermelhos para o segurar. Saiu e pôs-se a andar depressa, depressa, mas não sabia para onde. Apetecia-lhe outra vez chorar, mas tinha medo e corria, corria e soprava nos dedos. E ficou muito aflito, porque se sentiu de repente sozinho e assustado, e de chofre, meu Deus, o que era aquilo outra vez? Está lá uma multidão de pessoas. A admirar isto: atrás da vidraça há três bonecos pequenos, todos apinocados com roupas vermelhas e verdes, tal e qual como se estivessem vivos! Está lá um velho que toca um violino grande, há mais dois de pé que tocam violinos pequenos, e abanam todos as cabecinhas ao ritmo da música, e olham uns para os outros, e os lábios deles mexem, e falam, falam mesmo, só que não se ouve através do vidro. E o miúdo, a princípio, pensou que estavam vivos, mas, quando adivinhou que eram bonecos, riu-se de repente. Nunca na vida tinha visto bonecos assim nem sabia que existiam! Apetecia-lhe chorar, mas também era tão engraçado ver os bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém lhe puxava pela bata, atrás dele: estava ao pé dele um rapaz grande e mau que lhe deu, sem mais nem menos, um murro na cabeça, arrancou-lhe o boné e assestou-lhe um pontapé. O miúdo rolou pelo chão, toda a gente gritava, e ele, muito aturdido, levantou-se e deitou a correr muito, e então, sem saber onde nem porquê, entrou para um pátio por baixo do arco e sentou-se atrás de uma rima de lenha: “Aqui não me encontram, é escuro.”
Sentou-se, encolheu-se, não conseguia recuperar o fôlego por causa do medo, e de repente, mesmo de repente, sentiu-se muito bem: as mãos e os pés deixaram de lhe doer, e estava ali tanto calor, tão quentinho como no catre do fogão; e estremeceu: ah, estava quase a dormir! Que bom adormecer ali: “Fico aqui um bocado e depois vou outra vez ver os bonecos — pensou e sorriu, lembrando-se —; são tal e qual como se estivessem vivos!...” Então, de súbito, ouviu a mãe a cantar-lhe uma cantiga. “Mamã, estou a dormir, é tão bom dormir aqui!”
— Pequenito, vem comigo ver a minha festa da árvore de Natal — sussurrou-lhe uma voz baixinha.
Primeiro pensou que era a mãe, mas não, não era ela; quem o chamava, então? Ele não via, mas alguém se inclinou sobre ele e o abraçou na escuridão, e o miúdo estendeu-lhe a mão e... de repente — oh, que luz! Oh, que árvore! Aquilo nem é uma árvore, nunca ele tinha visto árvores assim! Onde estará? Tudo brilha, tudo é luz, por todo o lado há bonequinhos... mas não: são rapazes e raparigas, só que são tão claros, e todos giram à volta dele, e voam, e todos lhe dão beijos, e pegam nele, e levam-no, e ele também voa, e vê: a mamã a olhar para ele e a rir de felicidade.
— Mamã, mamã! Ah, que bom estares aqui, mamã! — grita-lhe o miúdo, e beija de novo os outros meninos, e conta-lhes logo sobre os bonecos atrás do vidro. — Quem sois vós, rapazinhos? Quem sois vós, raparigas? — pergunta, rindo-se de amor por eles.
— É a “festa do Natal de Cristo” — responderam-lhe. — Neste dia, Cristo faz sempre a festa da árvore de Natal para os pequeninos que não têm a sua própria árvore... — E soube o menino que estas crianças eram todas como ele, mas umas gelaram ainda nos cestos em que foram abandonadas nas escadas, à porta dos funcionários petersburguenses, outras asfixiaram-se quando estavam com as amas finlandesas a quem os orfanatos entregaram para serem amamentadas, outras morreram ao peito seco das mães durante a grande fome de Samara, outras sufocaram no fedor das carruagens de terceira classe, e agora estão todas aqui, como anjos, todas estão com Cristo, e o próprio Cristo está no meio delas, e estende as mãos para elas, e abençoa-as e abençoa as suas mães pecadoras... E as mães destas crianças também estão aqui, ao lado, e choram; cada mãe reconhece o seu filho, ou a sua filha, que se aproxima dela a voar e a beija, lhe limpa as lágrimas do rosto com as mãozinhas e lhe pede que não chore, porque está muito bem...
No pátio, os guarda-portões encontraram de manhã o corpo pequenino do miúdo que se escondera atrás da lenha e aí gelara; encontraram também a mãe dele... Essa morrera ainda antes do filho; encontraram-se no céu, junto a Deus.
Para que inventei esta história tão inadequada a um diário normal e razoável, ainda por cima do escritor? Eu, que prometi escrever principalmente sobre acontecimentos reais! Mas é mesmo assim, sempre me pareceu que isto poderia acontecer na realidade — ou seja, o que aconteceu na cave e por trás do monte de lenha — já que, aquilo da festa do Cristo... nem sei que vos diga. Poderia acontecer ou não? Para isto sou romancista — para inventar.
Fiodor Dostoievski, "A Submissa e Outras Histórias"
Imagino que havia um rapaz muito pequeno numa cave, de seis anos ou ainda mais pequeno. O rapaz, numa manhã húmida e fria, acordou na sua cave. Vestia apenas uma batinha e tremia. Saía-lhe da boca um bafo de vapor branco, e ele, sentado no canto, em cima de uma arca, aborrecia-se e soprava o vapor de propósito, divertindo-se a vê-lo sair. Mas estava com muita fome. Logo de manhã, por várias vezes, já se aproximara do catre em que a mãe doente estava deitada numa esteira e com uma trouxa debaixo da cabeça. Como veio ela parar aqui? Chegara pelos vistos de outra cidade, com o filho, e de repente adoecera. A senhoria tinha sido levada pela polícia dois dias antes; os inquilinos dispersaram-se, era a quadra das festas; só um dos do “pessoal da ganga” estava lá, prostrado de bêbado como um morto havia já vinte e quatro horas, sem dar atenção às festas. Noutro canto do quarto gemia de dores reumáticas uma velha octogenária, antiga ama-seca numa casa qualquer, deitada no leito da morte solitária, queixosa, gemebunda e a resmungar com o miúdo que já tinha medo de se aproximar muito do canto dela. Encontrou, algures no átrio, água para beber, mas não encontrou uma côdea para comer, e já era a décima vez que se aproximava para acordar a mãe. Por fim, começou a sentir pavor da escuridão: havia muito que escurecera mas ninguém acendia as velas. Ao mexer na cara da mãe, espantou-se por ela não se mexer e por estar fria como a parede. “Está muito frio aqui”, pensou ele, e ficou um pouco parado, deixando, inconscientemente, a mão esquecida no ombro da morta; depois soprou para os dedinhos, tentando aquecê-los e, de repente, tendo encontrado às apalpadelas o seu boné em cima do catre, foi devagarinho, na escuridão, para a saída da cave. Teria saído ainda antes, mas tinha medo de um cão grande que, durante todo o dia, uivava em cima, nas escadas, à porta dos vizinhos. O cão já não estava lá, e o miúdo saiu para a rua.
Meu Deus, que cidade! Nunca antes ele vira nada de parecido. Lá, donde ele viera, fazia muito escuro de noite, havia só um lampião em toda a rua. As casas de madeira baixinhas tinham as portadas fechadas; mal caía a noite, não se via ninguém, as pessoas metiam-se dentro das casas, apenas os cães uivavam, matilhas de cães, centenas, milhares deles, a uivarem e a ladrarem toda a noite. Mas, lá, havia calor e davam de comer, e aqui... meu Deus, que me apetece tanto comer alguma coisa! E há tanto barulho aqui, estrondos, tanta luz, cavalos e coches, e frio, frio! Levanta-se um vapor gélido sobre os cavalos esfalfados, dos focinhos sai-lhes bafo quente, tinem as ferraduras nas pedras cobertas de neve, anda toda a gente aos empurrões, e, meu Deus, que fome, nem que fosse um bocadinho qualquer, e de repente começaram-me a doer muito os dedos. Passou ao lado um polícia e virou a cabeça para não olhar para o miúdo.
Outra rua — ah, que larga! Aqui de certeza que atropelam a gente; como eles gritam, correm, tantos coches, tanta luz, tanta luz! E isto o que é? Oh, que vidro tão grande, e atrás do vidro uma sala, e na sala uma árvore até ao teto! É a árvore de Natal, e tantas luzes na árvore, e tantos papelinhos dourados e tantas maçãs, e por todo o lado bonequinhos, cavalinhos; e crianças a correr na sala, todas apinocadas, todas limpinhas, riem-se e brincam e comem e bebem. Eis uma menina que começou a dançar com um rapaz, que linda! E ouve-se a música através do vidro. O rapaz olha, espanta-se e ri-se, mas doem-lhe os dedos, dos pés e das mãos, ficaram roxos, já não se dobram e doem-lhe quando os mexe. O miúdo pensou então, de repente, que lhe doíam muito os dedos, e chorou, e correu mais adiante pela rua, e viu de novo, por outro vidro grande, uma sala, árvores, mas nas mesas há bolos, variados: de amêndoa, vermelhos, amarelos, e estão lá quatro ricas senhoras, e dão bolos a quem entra, e a porta abre-se a cada instante e entram muitos senhores. O rapaz aproximou-se, abriu a porta e entrou. Ui, como gritaram com ele, como abanaram as mãos! Uma senhora aproximou-se dele e meteu-lhe na mão um copeque, abriu-lhe a porta para a rua. Como se assustou! O copeque caiu e tilintou nos degraus: não podia dobrar os dedos inteiriçados e vermelhos para o segurar. Saiu e pôs-se a andar depressa, depressa, mas não sabia para onde. Apetecia-lhe outra vez chorar, mas tinha medo e corria, corria e soprava nos dedos. E ficou muito aflito, porque se sentiu de repente sozinho e assustado, e de chofre, meu Deus, o que era aquilo outra vez? Está lá uma multidão de pessoas. A admirar isto: atrás da vidraça há três bonecos pequenos, todos apinocados com roupas vermelhas e verdes, tal e qual como se estivessem vivos! Está lá um velho que toca um violino grande, há mais dois de pé que tocam violinos pequenos, e abanam todos as cabecinhas ao ritmo da música, e olham uns para os outros, e os lábios deles mexem, e falam, falam mesmo, só que não se ouve através do vidro. E o miúdo, a princípio, pensou que estavam vivos, mas, quando adivinhou que eram bonecos, riu-se de repente. Nunca na vida tinha visto bonecos assim nem sabia que existiam! Apetecia-lhe chorar, mas também era tão engraçado ver os bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém lhe puxava pela bata, atrás dele: estava ao pé dele um rapaz grande e mau que lhe deu, sem mais nem menos, um murro na cabeça, arrancou-lhe o boné e assestou-lhe um pontapé. O miúdo rolou pelo chão, toda a gente gritava, e ele, muito aturdido, levantou-se e deitou a correr muito, e então, sem saber onde nem porquê, entrou para um pátio por baixo do arco e sentou-se atrás de uma rima de lenha: “Aqui não me encontram, é escuro.”
Sentou-se, encolheu-se, não conseguia recuperar o fôlego por causa do medo, e de repente, mesmo de repente, sentiu-se muito bem: as mãos e os pés deixaram de lhe doer, e estava ali tanto calor, tão quentinho como no catre do fogão; e estremeceu: ah, estava quase a dormir! Que bom adormecer ali: “Fico aqui um bocado e depois vou outra vez ver os bonecos — pensou e sorriu, lembrando-se —; são tal e qual como se estivessem vivos!...” Então, de súbito, ouviu a mãe a cantar-lhe uma cantiga. “Mamã, estou a dormir, é tão bom dormir aqui!”
— Pequenito, vem comigo ver a minha festa da árvore de Natal — sussurrou-lhe uma voz baixinha.
Primeiro pensou que era a mãe, mas não, não era ela; quem o chamava, então? Ele não via, mas alguém se inclinou sobre ele e o abraçou na escuridão, e o miúdo estendeu-lhe a mão e... de repente — oh, que luz! Oh, que árvore! Aquilo nem é uma árvore, nunca ele tinha visto árvores assim! Onde estará? Tudo brilha, tudo é luz, por todo o lado há bonequinhos... mas não: são rapazes e raparigas, só que são tão claros, e todos giram à volta dele, e voam, e todos lhe dão beijos, e pegam nele, e levam-no, e ele também voa, e vê: a mamã a olhar para ele e a rir de felicidade.
— Mamã, mamã! Ah, que bom estares aqui, mamã! — grita-lhe o miúdo, e beija de novo os outros meninos, e conta-lhes logo sobre os bonecos atrás do vidro. — Quem sois vós, rapazinhos? Quem sois vós, raparigas? — pergunta, rindo-se de amor por eles.
— É a “festa do Natal de Cristo” — responderam-lhe. — Neste dia, Cristo faz sempre a festa da árvore de Natal para os pequeninos que não têm a sua própria árvore... — E soube o menino que estas crianças eram todas como ele, mas umas gelaram ainda nos cestos em que foram abandonadas nas escadas, à porta dos funcionários petersburguenses, outras asfixiaram-se quando estavam com as amas finlandesas a quem os orfanatos entregaram para serem amamentadas, outras morreram ao peito seco das mães durante a grande fome de Samara, outras sufocaram no fedor das carruagens de terceira classe, e agora estão todas aqui, como anjos, todas estão com Cristo, e o próprio Cristo está no meio delas, e estende as mãos para elas, e abençoa-as e abençoa as suas mães pecadoras... E as mães destas crianças também estão aqui, ao lado, e choram; cada mãe reconhece o seu filho, ou a sua filha, que se aproxima dela a voar e a beija, lhe limpa as lágrimas do rosto com as mãozinhas e lhe pede que não chore, porque está muito bem...
No pátio, os guarda-portões encontraram de manhã o corpo pequenino do miúdo que se escondera atrás da lenha e aí gelara; encontraram também a mãe dele... Essa morrera ainda antes do filho; encontraram-se no céu, junto a Deus.
Para que inventei esta história tão inadequada a um diário normal e razoável, ainda por cima do escritor? Eu, que prometi escrever principalmente sobre acontecimentos reais! Mas é mesmo assim, sempre me pareceu que isto poderia acontecer na realidade — ou seja, o que aconteceu na cave e por trás do monte de lenha — já que, aquilo da festa do Cristo... nem sei que vos diga. Poderia acontecer ou não? Para isto sou romancista — para inventar.
Fiodor Dostoievski, "A Submissa e Outras Histórias"
Banco de jardim
Atravessamos as vilas e cidades como quem atravessa um corredor entre compromissos, sem viver. Daqui para ali, muitas vezes a correr. Corremos para o trabalho, para a reunião, para o consumo, para o próximo ecrã. E nesse movimento contínuo, quase industrial, deixamos para trás aquilo que verdadeiramente sustenta a vida: o respirar, o sentir, o reparar.
Perdemos a lenta aprendizagem do tempo. Perdemos a disponibilidade para escutar e viver o lugar. Talvez por isso um banco de jardim seja hoje um objeto quase subversivo.
À primeira vista, parece pouco. Madeira, ferro, parafusos, alguma tinta já gasta pelo sol e pela chuva. Um artefacto banal da paisagem urbana, que nalgumas cidades, como Paris, é retirado intencionalmente para que os pobres não possam permanecer e chocar os turistas. Contudo, como escreveu José Tolentino Mendonça, um banco de jardim ajuda-nos a reorganizar não apenas o visível, mas também o nosso modo de ver. Sentar-se num banco é interromper a lógica produtiva. É declarar, ainda que silenciosamente, que nem tudo na vida pode ser medido pela utilidade, pela velocidade ou pelo rendimento.
Um banco de jardim devolve-nos ao território da contemplação, esse espaço raro onde o pensamento abranda o suficiente para que a realidade volte a ter profundidade. Num banco, reaprendemos a escala humana. Ali passam crianças, idosos, cães, folhas secas, bicicletas, nuvens. Ali percebe-se que o espaço urbano não é apenas infraestrutura, trânsito ou imobiliário: é também relação, encontro e existência coletiva. Um banco cria comunidade sem precisar de discurso político. Aproxima desconhecidos. Oferece sombra, pausa e horizonte. Em muitos casos, oferece até dignidade.
Quantas pessoas solitárias encontram num banco o único lugar onde podem permanecer sem consumir nada? A história das cidades pode contar-se pelos seus bancos. Um lugar urbano sem bancos é um lugar hostil. Uma cidade que não permite parar é uma cidade com menos alma. O urbanismo contemporâneo sabe-o bem. Não é por acaso que muitos espaços públicos eliminam bancos, sombras e zonas de permanência: uma sociedade acelerada desconfia da pausa. Mas o banco resiste. Resiste como pequena arquitetura do tempo certo. Como discreta tecnologia da atenção. Como convite a voltar ao corpo e aos sentidos. Num banco sente-se o frio da manhã, o cheiro da terra molhada, o rumor das árvores, a mudança da luz ao fim da tarde. Sentimos novamente o vento. E isso não é menor.
A ecologia começa precisamente aí: na capacidade de sentir pertença ao mundo vivo. Há também uma dimensão subtil e quase espiritual no banco de jardim. Ele é um lugar de suspensão. Quantas decisões importantes foram amadurecidas num banco? Quantos lutos, paixões, medos ou reencontros passaram por ali? O banco acolhe silêncios sem exigir explicações. Talvez por isso os parques tenham qualquer coisa de sagrado: oferecem uma liturgia discreta da presença.
Os bancos de jardim lembram-nos ainda uma verdade essencial: a felicidade raramente é espetacular. Surge muitas vezes em gestos mínimos, aparentemente insignificantes. Um banco ao sol numa manhã fria. Uma conversa demorada. O canto de um melro. O simples facto de existir tempo.
Num mundo globalizado que transformou tudo em fluxo, velocidade e excesso, o banco permanece como metáfora de uma outra civilização possível. Uma civilização mais lenta, local, regenerativa. Uma civilização capaz de compreender que viver não é apenas deslocar-se entre pontos, mas criar ligação profunda aos lugares; bancos de jardim espalhados pelo espaço urbano. Quando voltamos a parar e a sentar-nos?
Carlos Cupeto
Perdemos a lenta aprendizagem do tempo. Perdemos a disponibilidade para escutar e viver o lugar. Talvez por isso um banco de jardim seja hoje um objeto quase subversivo.
À primeira vista, parece pouco. Madeira, ferro, parafusos, alguma tinta já gasta pelo sol e pela chuva. Um artefacto banal da paisagem urbana, que nalgumas cidades, como Paris, é retirado intencionalmente para que os pobres não possam permanecer e chocar os turistas. Contudo, como escreveu José Tolentino Mendonça, um banco de jardim ajuda-nos a reorganizar não apenas o visível, mas também o nosso modo de ver. Sentar-se num banco é interromper a lógica produtiva. É declarar, ainda que silenciosamente, que nem tudo na vida pode ser medido pela utilidade, pela velocidade ou pelo rendimento.
Um banco de jardim devolve-nos ao território da contemplação, esse espaço raro onde o pensamento abranda o suficiente para que a realidade volte a ter profundidade. Num banco, reaprendemos a escala humana. Ali passam crianças, idosos, cães, folhas secas, bicicletas, nuvens. Ali percebe-se que o espaço urbano não é apenas infraestrutura, trânsito ou imobiliário: é também relação, encontro e existência coletiva. Um banco cria comunidade sem precisar de discurso político. Aproxima desconhecidos. Oferece sombra, pausa e horizonte. Em muitos casos, oferece até dignidade.
Quantas pessoas solitárias encontram num banco o único lugar onde podem permanecer sem consumir nada? A história das cidades pode contar-se pelos seus bancos. Um lugar urbano sem bancos é um lugar hostil. Uma cidade que não permite parar é uma cidade com menos alma. O urbanismo contemporâneo sabe-o bem. Não é por acaso que muitos espaços públicos eliminam bancos, sombras e zonas de permanência: uma sociedade acelerada desconfia da pausa. Mas o banco resiste. Resiste como pequena arquitetura do tempo certo. Como discreta tecnologia da atenção. Como convite a voltar ao corpo e aos sentidos. Num banco sente-se o frio da manhã, o cheiro da terra molhada, o rumor das árvores, a mudança da luz ao fim da tarde. Sentimos novamente o vento. E isso não é menor.
A ecologia começa precisamente aí: na capacidade de sentir pertença ao mundo vivo. Há também uma dimensão subtil e quase espiritual no banco de jardim. Ele é um lugar de suspensão. Quantas decisões importantes foram amadurecidas num banco? Quantos lutos, paixões, medos ou reencontros passaram por ali? O banco acolhe silêncios sem exigir explicações. Talvez por isso os parques tenham qualquer coisa de sagrado: oferecem uma liturgia discreta da presença.
Os bancos de jardim lembram-nos ainda uma verdade essencial: a felicidade raramente é espetacular. Surge muitas vezes em gestos mínimos, aparentemente insignificantes. Um banco ao sol numa manhã fria. Uma conversa demorada. O canto de um melro. O simples facto de existir tempo.
Num mundo globalizado que transformou tudo em fluxo, velocidade e excesso, o banco permanece como metáfora de uma outra civilização possível. Uma civilização mais lenta, local, regenerativa. Uma civilização capaz de compreender que viver não é apenas deslocar-se entre pontos, mas criar ligação profunda aos lugares; bancos de jardim espalhados pelo espaço urbano. Quando voltamos a parar e a sentar-nos?
Carlos Cupeto
quarta-feira, junho 10
Onfália Benoiton
Quem se lembra hoje da história de Onfália Benoiton, uma mulher nervosa, e de Estevão Basco, um homem vencido e esquecido, e que todavia foi um homem?
As canas que contam essa história de martírios reais e de falsas glorificações, tenho eu a alegria mefistofélica e bárbara de as copiar aqui.
A primeira carta assinada unicamente por uma letra — Z. — é o documento incisivo e lúcido da Sra. Onfália Benoiton. É assim:
“A Sra. Onfália Benoiton, meu caro, é descendente das belezas gregas. Mesma materialidade de forma correta e fria. Somente as mulheres gregas eram musas, cantavam nos festins ao modo jônio, coroadas de mirtos; discutiam com os sábios e com os filósofos, celebravam com as túnicas soltas as Elêusis de Baco, edificavam cidades, eram os modelos da arte e a inspiração dos tiranos. E a Sra. Onfália Benoiton, com os seus vestuários onde há uma provocação especuladora, as suas atitudes masculinas, os penteados disformes que lhe dão uma aparência de animalidade audaz, com a sua pele colorida, acumulações da sua vida de fadiga trivial e de aparato sonolento, lembra uma daquelas Vênus de corpos harmônicos, que depois de ter atravessado este exílio moderno, a velhice, a miséria, e o vício imbecil — se vestisse de roupas bárbaras e grotescas, para parecer ainda, de longe, à luz soluçante do gás, um ídolo material — aos idiotas!
A Sra. Onfália Benoiton é um pouco magra e nervosa. E um corpo alto, coberto de estofos, pedestal de um crânio vazio. As suas formas, dignas talvez do biscuit, sem contorno inteligente e espiritual, não conseguem encobrir o lodo primitivo. Nenhuma ideia nas atitudes e nos gestos: só a retórica da futilidade. Tem uma graça oficial; compõe um olhar com o mesmo trabalho compassado e métrico com que um poeta arcádico cinzela um verso. Tem sempre a pele admiravelmente colorida: tem o segredo do rosado da face casta e transparente.
Desenha as sobrancelhas com a delicadeza de um artista chinês. Põe em redor do olhar uma cor de sépia ligeira semelhando a fadiga, invejável para uma imagem de Impéria ou de Vinon.
A sua fisionomia bela e trivial tem a vaga intenção das aves de rapina. Toma umas atitudes de tédio e de indolência, semelhantes às que têm os viciosos de absinto.
Caminha com o seio erguido, com a pompa de quem arrasta atrás de si toda a atmosfera e o ar de todos os peitos. Dança com os movimentos melodiosos que teria Juno se tivesse passado dois séculos a frequentar os casinos. Tem uma bela fragilidade muscular, um apetite vasto e um amor cálido das bebidas. As indústrias têm maculado aquele corpo: o gás amoleceu-lhe o olhar, os espartilhos de Birmingham desvaneceram-lhe o modo feminino. Pelo materialismo idiota é muito inferior aos ídolos egípcios, pela originalidade risível do vestuário superior às caricaturas chinesas.
É toda a síntese do nosso tempo: é a entrevista grotesca dos erros modernos. O olhar metálico é o símbolo do dinheiro. A boca é nervosa e móbil, os dentes acerados e de um branco morto: é a difamação, a intriga, a palavra fútil que corrói as construções da alma.
A mão delgada, flexível, magra, adunca, significa a agiotagem, o materialismo avaro e covarde.
Onfália Benoiton é a tragicomédia da afetação e da vaidade. Para modelar a sua alma seria necessário inventar uma lama. Colocada inferiormente, prende-se a todas as ideias oficiais, aristocracia, realeza, elegância, moda, com a mesma insistência violenta e vaidosa com o que o pó se prende ao veludo.
Tem uma maneira insultante e vã de fazer os seus vestuários — de tal sorte que o seu chignon parece uma carranca feita ao céu, e as suas caudas beijos dados à lama. A sua existência é pintar-se, fazer- se, trocar friamente recepções e diálogos, transfigurar o vestuário numa celebração misteriosa, decorar a comédia das modas, passear ostentosamente, errar pelas óperas, pelos casinos, pelos saltimbancos, dançar, envolver-se no combate da beleza e da seda, dar-se à fadiga dissolvente do lucro. Eu pôr-lhe-ia por epitáfio: Aqui jaz o ruído de um bocejo.
Tem todos os prejuízos do seu tempo. Tem o espírito das pequenas maquinações femininas, das ironias dolorosas, dos escárnios inteligentes. Adora os romances dramáticos de sangue, pelo mesmo motivo por que as damas romanas aplaudiam a morte dos gladiadores. Todos os dias as suas belezas lhe dizem: “Oh Cesaréia, os que vão morrer saúdam-te!” Prefere Leotard a Shakespeare — isto contém um caráter.
Copia o modo de falar das atrizes. Há só uma coisa que a distrai de admirar os saltimbancos, é ter de pensar na libré dos lacaios.
Para ela a Natureza é uma decoração; a alma uma impertinência dos pobres; o cemitério uma infâmia de Deus.
Assim vive na comédia do luxo, radiosa, contente, idiota, desfolhando o corpo, pensando nos vestuários, criando enfeites, até que Deus, por entre as névoas do cemitério, lhe mostre o último figurino, o supremo adorno sinistro — a mortalha à Benoiton!
A segunda carta, escrita por A., o melhor de nós todos, espírito criador e lógico, fala largamente do escritor Estevão Basco:
“Estive ontem”, dizia a carta de A., “com Estevão Basco. É uma alma justa e sã, mas tímida e apaixonada, forte para o sacrifício, cheia de nobres morais latinas, mas idealista e nervosa, tendo assim toda a antiga virtude estoica com muitos dos dolorosos erros modernos.
Este homem, antes que os seus livros fossem comentados e estudados, antes de ser a voz alta e sensata para que correm todos os espíritos novos, como para a lição visível das almas, antes de ter o seu jornal incisivo, livre, cheio de pensamentos e de revelações — teve uma existência de miséria, numa trapeira, sem sol, sem repouso, sem amizades purificadoras. Sentiu, uma a uma, as sete dores que a vida costuma cravar nas almas possuídas do ideal.
Criança, tinha sofrido todas as tristezas incisivas da escola, espécie de prólogo chorado sobre a tragicomédia humana: mais tarde, nos positivismos da família, tinha sentido aquela luta íntima do ideal e do real, que deixa no espírito eternas feridas, que sangram e que alumiam. Depois, tinha vivido, escuramente, no pequeno jornalismo, caricatura fluida da vida cerebral, e ali tinha sofrido a intriga, a difamação, o escárnio e a fome. Muito tempo o seu corpo chorou pelo calor e pelo repouso, como a sua alma chorava pelo ideal e pela fé.
Hoje entre esta geração sonolenta, noturna, inútil e fraca, homens entorpecidos pela retórica, pelos textos, pelas regras, que petrificam as livres palpitações do ser, que passam um traço negro sobre o ideal, que são os fechos da Bíblia humana…
Existe sobretudo em Nova Iorque, Paris, Londres e Sampetersburgo. É o último resultado das civilizações violentas. Aqui está traçado arrebatadamente, à maneira das pinturas de Goya. No entanto existe, idiota e inofensivo, e sobretudo inofensivo, sacristães da arte e os glorificadores de toda a víscera morta — ele, Estevão Basco, é o único que, voltado contemplativamente para as augustas claridades da ciência da arte, concentrado como um solitário antigo, vivendo pelo verdadeiro e pelo belo, vai lentamente, com dores resistentes, levando os entendimentos para o útil, para o justo, para o verdadeiro e para o racional.
Leu-me os seus estudos sobre a história e sobre a arte. E um livro poderoso e cheio de vida. Combate os petrificadores conservadores da história, cujo intento é imobilizar nos arquivos as atitudes superficiais dos reis e das cortes. Ele quer que a história seja a reconstrução da alma do passado, uma ressurreição humana. Não podem bastar à consciência crescente do homem as crônicas escassas e concisas de batalhas de diplomacias, de aparatos e de vingança. Estevão Basco pensa que, há muito, na história se tem afastado sempre para os últimos planos a grande figura do povo: e é ele, a sua alma ambiciosa e progressiva, as suas livres palpitações, as suas transfigurações e as suas misérias, que a história deve surpreender, através das literaturas e da arte. Sob este ponto de vista ele aceita na arte todas as escolas, ou manifestações de uma tendência espiritual, ou expressão de um estado de animalidade e de materialismo, ou resultado de uma doença idealista e nervosa (1830) — logo que eles representem fielmente a sua época e sejam os documentos das almas extintas. Lerás em breve este livro eloquente: provam-se as últimas folhas.
Mas o que fará a sua voz, cheia de equidade que lhe enche o peito neste tempo de instintos animais e de consciências fluidas?
Felizmente, a sua alma tem ficado pura e isolada na torre de marfim do ideal, no meio desta vida moderna, e as sacerdotisas do luxo e todos os errantes da ambição. E ele afasta-se sempre de todo este movimento sonoro e coberto de luz, onde há o vago rir descorado, a retórica da graça e a largura das saias e das consciências, para ir pensar, só, no silêncio da alma, na família, na maternidade, no sossego, e naquela união do homem e da mulher, limitada e divina — em que ambos estendem a alma sobre o mundo, para Deus passar por cima! Não te lembras daquelas estampas alemãs em que os pares silenciosos, que parecem ter a loucura elegíaca do amor, enquanto a quermesse ruge nos primeiros planos, se afastam e se perdem no fundo indefinido da folhagem — para se irem sentar à sombra do cruzeiro? Assim é ele. Estevão Basco todavia, na sua serenidade superior não faz a sátira do luxo e da meiga farsa dos estofos e das pedrarias. Ele, o grande obreiro desperto das ideias, apenas se ri alegremente dos dormentes do luxo. Síbaris nunca conseguiu mais do que provocar o riso protetor de Esparta.
Para ele, não vale nada, como sintoma, este triunfo estéril e momentâneo do luxo.
Segundo ele, o luxo audacioso, violento, bárbaro, idiota, é apenas um pequeno desmentido grosseiro, dado à alma, tão risível como a vaidade de um sportman que quisesse raspar Deus da Bíblia.
Dizia-me ele que as saias das mulheres não podem, como receiam os juvenais da caricatura, ser o prólogo de uma decadência. Os sintomas das transformações espirituais não podem partir dos jornais de modas. Graças a Deus, um figurino ainda não é o cartaz de uma revolução. Existe sim um luxo animal, um apodrecimento calculado de tudo o que é Justiça e Beleza — mas isto é apenas uma doença da forma. A serenidade justa da alma nada tem com as pequenas borbulhas que vêm à pele. São furúnculos que se curam pela supuração. A bela saúde vital permanece na sua pureza e na sua força. E segundo Estevão Basco nada pode haver mais risível e mais inofensivo do que as tiranias que se vestem à militar, ou as decadências que se vestem à Benoiton.
E todavia Estevão Basco odeia aquelas mulheres, sem eletricidade e sem magnetismo, inertes e materiais, pendidas na fadiga trivial do aparato, que foram anuladas pelo luxo, cobertas da cabeça aos pés por um vestuário — epitáfio da graça.
Receio mais as tabuinhas do seu leque, disse-me ele, do que as grandes tábuas do esquife. Porque enfim, morrer é dissolver, é transformar-se: e transformar-se é ainda viver, ter seiva, força, sol e consciência. Mas prender-se a uma daquelas mulheres é assistir em roda de si à queda dolorosa e ao desvanecimento dos nossos sentimentos, das nossas ambições espirituais, das nossas ideias, das nossas criações. O seu amor é como uma mortalha: colada ao corpo, deixa ainda pressentir que a forma existe, e manifesta que a alma se dissipou. Diante destas mulheres, disse ele, sinto que em lugar do coração se me vem colocar um pedaço de cérebro. Evito-as. Não quero dar aos meus olhos o hábito da nódoa. Não quero que elas me esfarrapem a alma para fazer mortalhas às suas consciências. Assim diz. Realmente naquele olhar cheio de Natureza não fazem falta os rostos pintados. Naquela alma povoada de Deus, não fazem falta os figurinos.”
A terceira cana que eu abro para copiar, já triste, é de Jacques, um pobre artista, escultor medíocre, imitador dos gregos, que diz descaradamente os fatos desta história miserável:
“Estamos ainda surpreendidos, meu amigo, pelo desenlace desta farsa humana.
Estevão Basco tinha conhecido numa igreja Onfália Benoiton. Cantava-se o Requiem de Mozart. Era um ofício clerical em dia de mortos. Tinha sido dominado por aquela beleza escultural e nervosa, toda coberta de preto. Depois encontraram-se numa daquelas festas em que sempre me pareceu que as camélias, flores do tédio, olham idiotamente, sem alma, para as inquietações soluçantes do gás. Estevão Basco numa sala distante da multidão magnética das mulheres, fazia a sátira dos penteados disformes, das caudas e das cintas modernas onde pendem argolas. Estava com o escritor Sérgio, com o antiquário Salinas, com Sarça o cinzelador. Onfália Benoiton, que tinha escutado, pediu-lhe que lhe escrevesse uma palavra na vara branca do leque.
Estevão escreveu:
Oh, Satã tenebroso, trágico fulminado, Tu vencerás em mim o íntimo Deus bom, Não com as armas bíblicas com que bateste outros: Mas vindo unicamente vestido à Benoiton!
Onfália levou-o pelo braço para as iluminações feéricas, para a ação elétrica dos espelhos, para a claridade magnética dos ombros nus, transformou-o com as suas exalações lânguidas, com as irradiações doentias do olhar, com aquela essência nervosa dos seus cabelos falsos, que deviam ser mais macios ao contato que a pura plumagem da cabeça das rolas. Onfália Benoiton, com aquela voz abafada e velada que ela tem às vezes, que parece que lhe estão dando beijos no coração, disse a Estevão Basco que lhe limpasse o vestido, enlameado nas ruas do jardim. Estevão limpou o pó, a umidade e a lama!
Desde então, Estevão Basco tirou lentamente da alma, uma a uma, as santas ideias castas, a Justiça, a Beleza, a Razão, a Honra, para dar lugar à imagem coberta de sedas e de cabelos mortos de Onfália Benoiton.
Estevão, com o seu trabalho severo e robusto, dava o pão a três irmãs puríssimas e a sua mãe, velha, doente, triste, meia desvanecida em Deus.
As doces raparigas, meigas e delicadas, como as mais lindas virgens de ouro fino. Este tipo infelizmente não existe em Portugal. Devemos lamentar esta inferioridade absoluta.
Existe em Paris, em Berlim, na Itália, na Irlanda. É a última salvação das decadências. Aqui está traçado transparentemente à maneira de Ary Scheffer. No entanto existe, sublime e criador — sobretudo criador, que se pintavam nos livros de legendas, tinham vestidos de cassa, e todo o dia trabalhavam nos seus castos paraísos, cheias das vozes dos canários. Ele passeava sempre com elas, nas alamedas silenciosas, como os antigos sábios das gravuras flamengas. Desde então Estevão Basco nunca mais passeou nas alamedas. Desamparou a casa, a família e a alcova cheia da celebração do estudo. Perdido entre as despesas do luxo deixou ao abandono a mãe e as três irmãs. Não havia dinheiro em casa.
Elas, as tristes silenciosas, bordavam, costuravam, vendiam ramos aos floristas.
No Inverno não havia lume. Nem sempre havia pão. Roxas de frio, esfomeadas, cosiam e choravam. Foram viver para uma trapeira, batida do vento e da chuva. Ali morreu a mãe, aquela doce alma dolorosa, numa tarde, ao escurecer. O Sol talvez, ao ir-se, levou aquela alma por engano, como uma pureza e uma virtude da sua luz. Ninguém tão amante, tão triste e tão casta. Foi enterrada no cemitério, entre a erva comum, com uma cruz. Talvez agora sobre aquela cruz cantem rouxinóis.
As raparigas tinham cabelos magníficos, indomáveis e compridos: venderam os seus cabelos. Estevão, com Onfália Benoiton, errava pelas óperas, pelos casinos, pelas salas, entre as sedas, os tules e as festas. Renegou as fortes e sãs amizades do estudo e da ciência. O seu jornal acabou desamparado e espoliado. Fez contratos terríveis com os editores para livros futuros de crítica e de moral. Mas não escrevia, não pensava, não vivia pelo espírito.
Enfim casou com Onfália Benoiton. Tiveram dois anos carnais e contentes. Por fim, ele tinha assinado letras, foi penhorado nas mobílias. Voltou ao pequeno jornalismo. Criou uma folha de difamação. Insultava a tanto por linha. Veio-lhe à alma a esterilidade. Embranqueceram-lhe os cabelos. Onfália Benoiton andava de noite com um vestido de chita. Estevão, esmagado, desesperado, vendeu-se de corpo e de alma a um jogador terrível — Mincoso. Roubou. Voltaram os magnetismos do luxo. Onfália namorou-se do cinzelador Sarça, espírito frio e retórico. Depois deu- se ao tenor Vidalleti.
Estevão soube. Tinha um materialismo sem dignidade. Comprou- lhe a fidelidade com vestidos. Estevão dava o vestido: ela cedia o homem. Voltou a miséria. A casa de jogo foi dispersa pela polícia. Veio a fome. Estevão escrevia cantigas obscenas para um editor de almanaques imbecis e infames. Um dia encontrou Onfália com um saltimbanco. O saltimbanco atirou-lhe dinheiro. Estevão contou-o e saiu assobiando.
Um dia encontrou a irmã que era florista e tinha casado com um homem trigueiro do trabalho, alma sã e vivificadora como o Sol. Estevão pediu-lhe para pão. “Tu não me desprezas ao menos, não é verdade?”, disse ele. A irmã olhou-o tristemente. “Não é verdade que me não desprezas?” — “Muitíssimo”, disse ela. Onfália Benoiton fugiu com o jogador Mincoso. Estevão foi viver para uma trapeira, com um coveiro e com um palhaço. Adoeceu. Durante a febre o coveiro cosia os seus botões, cantando o ofício dos mortos: o palhaço para estudar os saltos pulava por cima da enxerga de Estevão. Ele tinha então uma amante, corista de um casino. Ela ia todos os dias dar-lhe um caldo. O coveiro e o saltimbanco às vezes não vinham à trapeira durante dias. Uma dessas vezes a corista não veio. Estevão tinha sede. Chamou. A água estava em cima de um vão do telhado, numa bilha. Ele chorava de febre, de sede e de tristeza. Anoiteceu.
No pátio da casa havia uma laranjeira. De noite, no silêncio, ele ouviu cantar um rouxinol. Teve a visão da sua vida de estudo e de serenidade. Chorava de sede. Ergueu-se tremendo e arrastou-se: no primeiro degrau da escada do vão, caiu. O sangue caía-lhe da testa e entrava-lhe na boca, com as lágrimas. Ao outro dia estava quase a expirar.
Melhorou todavia. Andou pedindo de porta em porta, com os antigos orgulhos, que lhe dessem o pão do trabalho. Ninguém lhe deu nada.
Um dia encontrou um dos antigos camaradas das festas, a cavalo com outros. O camarada do luxo veio para ele e atirando-lhe o chapéu ao chão, com a ponta do chicote: “Estás calvo, pobre homem”, disse, rindo. “Tens tu fome?” — “És bem curioso”, disse Estevão voltando as costas, sereno. E foi-se, assobiando.
A corista levou-o para o teatro. Ganhava ali o pão, fazendo de urso numa mágica.
Caíram-lhe os dentes. Andava roto, com a barba crescida, lívido, e um casaco preto, diáfano, lustroso, colado à magreza do corpo.
Conheceu então uma linda rapariga de treze anos, clara e loura, que pedia na rua.
Estevão deu-lhe um lugar na trapeira. Tomou-lhe um lugar puro e todo paterno. Para se embrutecer começou a beber aguardente. Tinha a vista debilitada, trazia uns óculos escuros; tinha feridas nos ouvidos e trazia-os cheios de algodão. Vivia fazendo cantigas grosseiras, para o velho editor dos almanaques. A rapariguinha adoeceu. Era a fome, a miséria e a febre. Ele velava junto dela, triste, chorando, e compondo os versos imundos.
À rapariga piorava. Tremia de frio na enxerga. Ele procurava aquecê-la com o hálito: a pobre miserável, que tinha ainda a sensibilidade e o olfato, fugia com o rosto, porque o hálito era mau. A rapariga morreu.
Nesse dia ele tinha bebido longamente na taverna. Quando subiu à trapeira e viu a triste, inerte, fria e hirta, deu com a ponta do pé no corpo inanimado, gritando: “Pouch! coisa morta!” Passado pouco tempo voltou-lhe a consciência da vida. Caiu numa tristeza dolorosa. Veio-lhe uma saudade profunda da rapariga, morta na trapeira. Ia vê-la ao cemitério, à vala dos pobres onde ela estava. Como ela não gostava que ele bebesse, e ele se lembrava das lágrimas dela, não voltou às tavernas de noite.
Ia levar rosas e rainúnculos ao cemitério, ao lugar onde ela apodrecia debaixo da erva. Era necessário tirá-lo com violência. Chorava pela fome que ela tinha tido, pelo frio com que ele tinha estremecido.
Ficava junto do muro do cemitério, de noite, ajoelhado, perdido numa saudade imensa como a noite e mais doce que a Lua.
Dormia pelos adros e pelos portais. Tinha um companheiro, um cão, com quem se embrulhava na mesma manta. O cão morreu. Ele adoeceu e foi recolhido ao hospital.
Ali não era o escritor Estevão Basco, era o nº 27 da sala de Santo Amaro. Uma madrugada, teve um estremecimento e morreu. Ao outro dia de tarde foi levado para a vala dos pobres numa tumba da Misericórdia.”
As canas que contam essa história de martírios reais e de falsas glorificações, tenho eu a alegria mefistofélica e bárbara de as copiar aqui.
A primeira carta assinada unicamente por uma letra — Z. — é o documento incisivo e lúcido da Sra. Onfália Benoiton. É assim:
“A Sra. Onfália Benoiton, meu caro, é descendente das belezas gregas. Mesma materialidade de forma correta e fria. Somente as mulheres gregas eram musas, cantavam nos festins ao modo jônio, coroadas de mirtos; discutiam com os sábios e com os filósofos, celebravam com as túnicas soltas as Elêusis de Baco, edificavam cidades, eram os modelos da arte e a inspiração dos tiranos. E a Sra. Onfália Benoiton, com os seus vestuários onde há uma provocação especuladora, as suas atitudes masculinas, os penteados disformes que lhe dão uma aparência de animalidade audaz, com a sua pele colorida, acumulações da sua vida de fadiga trivial e de aparato sonolento, lembra uma daquelas Vênus de corpos harmônicos, que depois de ter atravessado este exílio moderno, a velhice, a miséria, e o vício imbecil — se vestisse de roupas bárbaras e grotescas, para parecer ainda, de longe, à luz soluçante do gás, um ídolo material — aos idiotas!
A Sra. Onfália Benoiton é um pouco magra e nervosa. E um corpo alto, coberto de estofos, pedestal de um crânio vazio. As suas formas, dignas talvez do biscuit, sem contorno inteligente e espiritual, não conseguem encobrir o lodo primitivo. Nenhuma ideia nas atitudes e nos gestos: só a retórica da futilidade. Tem uma graça oficial; compõe um olhar com o mesmo trabalho compassado e métrico com que um poeta arcádico cinzela um verso. Tem sempre a pele admiravelmente colorida: tem o segredo do rosado da face casta e transparente.
Desenha as sobrancelhas com a delicadeza de um artista chinês. Põe em redor do olhar uma cor de sépia ligeira semelhando a fadiga, invejável para uma imagem de Impéria ou de Vinon.
A sua fisionomia bela e trivial tem a vaga intenção das aves de rapina. Toma umas atitudes de tédio e de indolência, semelhantes às que têm os viciosos de absinto.
Caminha com o seio erguido, com a pompa de quem arrasta atrás de si toda a atmosfera e o ar de todos os peitos. Dança com os movimentos melodiosos que teria Juno se tivesse passado dois séculos a frequentar os casinos. Tem uma bela fragilidade muscular, um apetite vasto e um amor cálido das bebidas. As indústrias têm maculado aquele corpo: o gás amoleceu-lhe o olhar, os espartilhos de Birmingham desvaneceram-lhe o modo feminino. Pelo materialismo idiota é muito inferior aos ídolos egípcios, pela originalidade risível do vestuário superior às caricaturas chinesas.
É toda a síntese do nosso tempo: é a entrevista grotesca dos erros modernos. O olhar metálico é o símbolo do dinheiro. A boca é nervosa e móbil, os dentes acerados e de um branco morto: é a difamação, a intriga, a palavra fútil que corrói as construções da alma.
A mão delgada, flexível, magra, adunca, significa a agiotagem, o materialismo avaro e covarde.
Onfália Benoiton é a tragicomédia da afetação e da vaidade. Para modelar a sua alma seria necessário inventar uma lama. Colocada inferiormente, prende-se a todas as ideias oficiais, aristocracia, realeza, elegância, moda, com a mesma insistência violenta e vaidosa com o que o pó se prende ao veludo.
Tem uma maneira insultante e vã de fazer os seus vestuários — de tal sorte que o seu chignon parece uma carranca feita ao céu, e as suas caudas beijos dados à lama. A sua existência é pintar-se, fazer- se, trocar friamente recepções e diálogos, transfigurar o vestuário numa celebração misteriosa, decorar a comédia das modas, passear ostentosamente, errar pelas óperas, pelos casinos, pelos saltimbancos, dançar, envolver-se no combate da beleza e da seda, dar-se à fadiga dissolvente do lucro. Eu pôr-lhe-ia por epitáfio: Aqui jaz o ruído de um bocejo.
Tem todos os prejuízos do seu tempo. Tem o espírito das pequenas maquinações femininas, das ironias dolorosas, dos escárnios inteligentes. Adora os romances dramáticos de sangue, pelo mesmo motivo por que as damas romanas aplaudiam a morte dos gladiadores. Todos os dias as suas belezas lhe dizem: “Oh Cesaréia, os que vão morrer saúdam-te!” Prefere Leotard a Shakespeare — isto contém um caráter.
Copia o modo de falar das atrizes. Há só uma coisa que a distrai de admirar os saltimbancos, é ter de pensar na libré dos lacaios.
Para ela a Natureza é uma decoração; a alma uma impertinência dos pobres; o cemitério uma infâmia de Deus.
Assim vive na comédia do luxo, radiosa, contente, idiota, desfolhando o corpo, pensando nos vestuários, criando enfeites, até que Deus, por entre as névoas do cemitério, lhe mostre o último figurino, o supremo adorno sinistro — a mortalha à Benoiton!
A segunda carta, escrita por A., o melhor de nós todos, espírito criador e lógico, fala largamente do escritor Estevão Basco:
“Estive ontem”, dizia a carta de A., “com Estevão Basco. É uma alma justa e sã, mas tímida e apaixonada, forte para o sacrifício, cheia de nobres morais latinas, mas idealista e nervosa, tendo assim toda a antiga virtude estoica com muitos dos dolorosos erros modernos.
Este homem, antes que os seus livros fossem comentados e estudados, antes de ser a voz alta e sensata para que correm todos os espíritos novos, como para a lição visível das almas, antes de ter o seu jornal incisivo, livre, cheio de pensamentos e de revelações — teve uma existência de miséria, numa trapeira, sem sol, sem repouso, sem amizades purificadoras. Sentiu, uma a uma, as sete dores que a vida costuma cravar nas almas possuídas do ideal.
Criança, tinha sofrido todas as tristezas incisivas da escola, espécie de prólogo chorado sobre a tragicomédia humana: mais tarde, nos positivismos da família, tinha sentido aquela luta íntima do ideal e do real, que deixa no espírito eternas feridas, que sangram e que alumiam. Depois, tinha vivido, escuramente, no pequeno jornalismo, caricatura fluida da vida cerebral, e ali tinha sofrido a intriga, a difamação, o escárnio e a fome. Muito tempo o seu corpo chorou pelo calor e pelo repouso, como a sua alma chorava pelo ideal e pela fé.
Hoje entre esta geração sonolenta, noturna, inútil e fraca, homens entorpecidos pela retórica, pelos textos, pelas regras, que petrificam as livres palpitações do ser, que passam um traço negro sobre o ideal, que são os fechos da Bíblia humana…
Existe sobretudo em Nova Iorque, Paris, Londres e Sampetersburgo. É o último resultado das civilizações violentas. Aqui está traçado arrebatadamente, à maneira das pinturas de Goya. No entanto existe, idiota e inofensivo, e sobretudo inofensivo, sacristães da arte e os glorificadores de toda a víscera morta — ele, Estevão Basco, é o único que, voltado contemplativamente para as augustas claridades da ciência da arte, concentrado como um solitário antigo, vivendo pelo verdadeiro e pelo belo, vai lentamente, com dores resistentes, levando os entendimentos para o útil, para o justo, para o verdadeiro e para o racional.
Leu-me os seus estudos sobre a história e sobre a arte. E um livro poderoso e cheio de vida. Combate os petrificadores conservadores da história, cujo intento é imobilizar nos arquivos as atitudes superficiais dos reis e das cortes. Ele quer que a história seja a reconstrução da alma do passado, uma ressurreição humana. Não podem bastar à consciência crescente do homem as crônicas escassas e concisas de batalhas de diplomacias, de aparatos e de vingança. Estevão Basco pensa que, há muito, na história se tem afastado sempre para os últimos planos a grande figura do povo: e é ele, a sua alma ambiciosa e progressiva, as suas livres palpitações, as suas transfigurações e as suas misérias, que a história deve surpreender, através das literaturas e da arte. Sob este ponto de vista ele aceita na arte todas as escolas, ou manifestações de uma tendência espiritual, ou expressão de um estado de animalidade e de materialismo, ou resultado de uma doença idealista e nervosa (1830) — logo que eles representem fielmente a sua época e sejam os documentos das almas extintas. Lerás em breve este livro eloquente: provam-se as últimas folhas.
Mas o que fará a sua voz, cheia de equidade que lhe enche o peito neste tempo de instintos animais e de consciências fluidas?
Felizmente, a sua alma tem ficado pura e isolada na torre de marfim do ideal, no meio desta vida moderna, e as sacerdotisas do luxo e todos os errantes da ambição. E ele afasta-se sempre de todo este movimento sonoro e coberto de luz, onde há o vago rir descorado, a retórica da graça e a largura das saias e das consciências, para ir pensar, só, no silêncio da alma, na família, na maternidade, no sossego, e naquela união do homem e da mulher, limitada e divina — em que ambos estendem a alma sobre o mundo, para Deus passar por cima! Não te lembras daquelas estampas alemãs em que os pares silenciosos, que parecem ter a loucura elegíaca do amor, enquanto a quermesse ruge nos primeiros planos, se afastam e se perdem no fundo indefinido da folhagem — para se irem sentar à sombra do cruzeiro? Assim é ele. Estevão Basco todavia, na sua serenidade superior não faz a sátira do luxo e da meiga farsa dos estofos e das pedrarias. Ele, o grande obreiro desperto das ideias, apenas se ri alegremente dos dormentes do luxo. Síbaris nunca conseguiu mais do que provocar o riso protetor de Esparta.
Para ele, não vale nada, como sintoma, este triunfo estéril e momentâneo do luxo.
Segundo ele, o luxo audacioso, violento, bárbaro, idiota, é apenas um pequeno desmentido grosseiro, dado à alma, tão risível como a vaidade de um sportman que quisesse raspar Deus da Bíblia.
Dizia-me ele que as saias das mulheres não podem, como receiam os juvenais da caricatura, ser o prólogo de uma decadência. Os sintomas das transformações espirituais não podem partir dos jornais de modas. Graças a Deus, um figurino ainda não é o cartaz de uma revolução. Existe sim um luxo animal, um apodrecimento calculado de tudo o que é Justiça e Beleza — mas isto é apenas uma doença da forma. A serenidade justa da alma nada tem com as pequenas borbulhas que vêm à pele. São furúnculos que se curam pela supuração. A bela saúde vital permanece na sua pureza e na sua força. E segundo Estevão Basco nada pode haver mais risível e mais inofensivo do que as tiranias que se vestem à militar, ou as decadências que se vestem à Benoiton.
E todavia Estevão Basco odeia aquelas mulheres, sem eletricidade e sem magnetismo, inertes e materiais, pendidas na fadiga trivial do aparato, que foram anuladas pelo luxo, cobertas da cabeça aos pés por um vestuário — epitáfio da graça.
Receio mais as tabuinhas do seu leque, disse-me ele, do que as grandes tábuas do esquife. Porque enfim, morrer é dissolver, é transformar-se: e transformar-se é ainda viver, ter seiva, força, sol e consciência. Mas prender-se a uma daquelas mulheres é assistir em roda de si à queda dolorosa e ao desvanecimento dos nossos sentimentos, das nossas ambições espirituais, das nossas ideias, das nossas criações. O seu amor é como uma mortalha: colada ao corpo, deixa ainda pressentir que a forma existe, e manifesta que a alma se dissipou. Diante destas mulheres, disse ele, sinto que em lugar do coração se me vem colocar um pedaço de cérebro. Evito-as. Não quero dar aos meus olhos o hábito da nódoa. Não quero que elas me esfarrapem a alma para fazer mortalhas às suas consciências. Assim diz. Realmente naquele olhar cheio de Natureza não fazem falta os rostos pintados. Naquela alma povoada de Deus, não fazem falta os figurinos.”
A terceira cana que eu abro para copiar, já triste, é de Jacques, um pobre artista, escultor medíocre, imitador dos gregos, que diz descaradamente os fatos desta história miserável:
“Estamos ainda surpreendidos, meu amigo, pelo desenlace desta farsa humana.
Estevão Basco tinha conhecido numa igreja Onfália Benoiton. Cantava-se o Requiem de Mozart. Era um ofício clerical em dia de mortos. Tinha sido dominado por aquela beleza escultural e nervosa, toda coberta de preto. Depois encontraram-se numa daquelas festas em que sempre me pareceu que as camélias, flores do tédio, olham idiotamente, sem alma, para as inquietações soluçantes do gás. Estevão Basco numa sala distante da multidão magnética das mulheres, fazia a sátira dos penteados disformes, das caudas e das cintas modernas onde pendem argolas. Estava com o escritor Sérgio, com o antiquário Salinas, com Sarça o cinzelador. Onfália Benoiton, que tinha escutado, pediu-lhe que lhe escrevesse uma palavra na vara branca do leque.
Estevão escreveu:
Oh, Satã tenebroso, trágico fulminado, Tu vencerás em mim o íntimo Deus bom, Não com as armas bíblicas com que bateste outros: Mas vindo unicamente vestido à Benoiton!
Onfália levou-o pelo braço para as iluminações feéricas, para a ação elétrica dos espelhos, para a claridade magnética dos ombros nus, transformou-o com as suas exalações lânguidas, com as irradiações doentias do olhar, com aquela essência nervosa dos seus cabelos falsos, que deviam ser mais macios ao contato que a pura plumagem da cabeça das rolas. Onfália Benoiton, com aquela voz abafada e velada que ela tem às vezes, que parece que lhe estão dando beijos no coração, disse a Estevão Basco que lhe limpasse o vestido, enlameado nas ruas do jardim. Estevão limpou o pó, a umidade e a lama!
Desde então, Estevão Basco tirou lentamente da alma, uma a uma, as santas ideias castas, a Justiça, a Beleza, a Razão, a Honra, para dar lugar à imagem coberta de sedas e de cabelos mortos de Onfália Benoiton.
Estevão, com o seu trabalho severo e robusto, dava o pão a três irmãs puríssimas e a sua mãe, velha, doente, triste, meia desvanecida em Deus.
As doces raparigas, meigas e delicadas, como as mais lindas virgens de ouro fino. Este tipo infelizmente não existe em Portugal. Devemos lamentar esta inferioridade absoluta.
Existe em Paris, em Berlim, na Itália, na Irlanda. É a última salvação das decadências. Aqui está traçado transparentemente à maneira de Ary Scheffer. No entanto existe, sublime e criador — sobretudo criador, que se pintavam nos livros de legendas, tinham vestidos de cassa, e todo o dia trabalhavam nos seus castos paraísos, cheias das vozes dos canários. Ele passeava sempre com elas, nas alamedas silenciosas, como os antigos sábios das gravuras flamengas. Desde então Estevão Basco nunca mais passeou nas alamedas. Desamparou a casa, a família e a alcova cheia da celebração do estudo. Perdido entre as despesas do luxo deixou ao abandono a mãe e as três irmãs. Não havia dinheiro em casa.
Elas, as tristes silenciosas, bordavam, costuravam, vendiam ramos aos floristas.
No Inverno não havia lume. Nem sempre havia pão. Roxas de frio, esfomeadas, cosiam e choravam. Foram viver para uma trapeira, batida do vento e da chuva. Ali morreu a mãe, aquela doce alma dolorosa, numa tarde, ao escurecer. O Sol talvez, ao ir-se, levou aquela alma por engano, como uma pureza e uma virtude da sua luz. Ninguém tão amante, tão triste e tão casta. Foi enterrada no cemitério, entre a erva comum, com uma cruz. Talvez agora sobre aquela cruz cantem rouxinóis.
As raparigas tinham cabelos magníficos, indomáveis e compridos: venderam os seus cabelos. Estevão, com Onfália Benoiton, errava pelas óperas, pelos casinos, pelas salas, entre as sedas, os tules e as festas. Renegou as fortes e sãs amizades do estudo e da ciência. O seu jornal acabou desamparado e espoliado. Fez contratos terríveis com os editores para livros futuros de crítica e de moral. Mas não escrevia, não pensava, não vivia pelo espírito.
Enfim casou com Onfália Benoiton. Tiveram dois anos carnais e contentes. Por fim, ele tinha assinado letras, foi penhorado nas mobílias. Voltou ao pequeno jornalismo. Criou uma folha de difamação. Insultava a tanto por linha. Veio-lhe à alma a esterilidade. Embranqueceram-lhe os cabelos. Onfália Benoiton andava de noite com um vestido de chita. Estevão, esmagado, desesperado, vendeu-se de corpo e de alma a um jogador terrível — Mincoso. Roubou. Voltaram os magnetismos do luxo. Onfália namorou-se do cinzelador Sarça, espírito frio e retórico. Depois deu- se ao tenor Vidalleti.
Estevão soube. Tinha um materialismo sem dignidade. Comprou- lhe a fidelidade com vestidos. Estevão dava o vestido: ela cedia o homem. Voltou a miséria. A casa de jogo foi dispersa pela polícia. Veio a fome. Estevão escrevia cantigas obscenas para um editor de almanaques imbecis e infames. Um dia encontrou Onfália com um saltimbanco. O saltimbanco atirou-lhe dinheiro. Estevão contou-o e saiu assobiando.
Um dia encontrou a irmã que era florista e tinha casado com um homem trigueiro do trabalho, alma sã e vivificadora como o Sol. Estevão pediu-lhe para pão. “Tu não me desprezas ao menos, não é verdade?”, disse ele. A irmã olhou-o tristemente. “Não é verdade que me não desprezas?” — “Muitíssimo”, disse ela. Onfália Benoiton fugiu com o jogador Mincoso. Estevão foi viver para uma trapeira, com um coveiro e com um palhaço. Adoeceu. Durante a febre o coveiro cosia os seus botões, cantando o ofício dos mortos: o palhaço para estudar os saltos pulava por cima da enxerga de Estevão. Ele tinha então uma amante, corista de um casino. Ela ia todos os dias dar-lhe um caldo. O coveiro e o saltimbanco às vezes não vinham à trapeira durante dias. Uma dessas vezes a corista não veio. Estevão tinha sede. Chamou. A água estava em cima de um vão do telhado, numa bilha. Ele chorava de febre, de sede e de tristeza. Anoiteceu.
No pátio da casa havia uma laranjeira. De noite, no silêncio, ele ouviu cantar um rouxinol. Teve a visão da sua vida de estudo e de serenidade. Chorava de sede. Ergueu-se tremendo e arrastou-se: no primeiro degrau da escada do vão, caiu. O sangue caía-lhe da testa e entrava-lhe na boca, com as lágrimas. Ao outro dia estava quase a expirar.
Melhorou todavia. Andou pedindo de porta em porta, com os antigos orgulhos, que lhe dessem o pão do trabalho. Ninguém lhe deu nada.
Um dia encontrou um dos antigos camaradas das festas, a cavalo com outros. O camarada do luxo veio para ele e atirando-lhe o chapéu ao chão, com a ponta do chicote: “Estás calvo, pobre homem”, disse, rindo. “Tens tu fome?” — “És bem curioso”, disse Estevão voltando as costas, sereno. E foi-se, assobiando.
A corista levou-o para o teatro. Ganhava ali o pão, fazendo de urso numa mágica.
Caíram-lhe os dentes. Andava roto, com a barba crescida, lívido, e um casaco preto, diáfano, lustroso, colado à magreza do corpo.
Conheceu então uma linda rapariga de treze anos, clara e loura, que pedia na rua.
Estevão deu-lhe um lugar na trapeira. Tomou-lhe um lugar puro e todo paterno. Para se embrutecer começou a beber aguardente. Tinha a vista debilitada, trazia uns óculos escuros; tinha feridas nos ouvidos e trazia-os cheios de algodão. Vivia fazendo cantigas grosseiras, para o velho editor dos almanaques. A rapariguinha adoeceu. Era a fome, a miséria e a febre. Ele velava junto dela, triste, chorando, e compondo os versos imundos.
À rapariga piorava. Tremia de frio na enxerga. Ele procurava aquecê-la com o hálito: a pobre miserável, que tinha ainda a sensibilidade e o olfato, fugia com o rosto, porque o hálito era mau. A rapariga morreu.
Nesse dia ele tinha bebido longamente na taverna. Quando subiu à trapeira e viu a triste, inerte, fria e hirta, deu com a ponta do pé no corpo inanimado, gritando: “Pouch! coisa morta!” Passado pouco tempo voltou-lhe a consciência da vida. Caiu numa tristeza dolorosa. Veio-lhe uma saudade profunda da rapariga, morta na trapeira. Ia vê-la ao cemitério, à vala dos pobres onde ela estava. Como ela não gostava que ele bebesse, e ele se lembrava das lágrimas dela, não voltou às tavernas de noite.
Ia levar rosas e rainúnculos ao cemitério, ao lugar onde ela apodrecia debaixo da erva. Era necessário tirá-lo com violência. Chorava pela fome que ela tinha tido, pelo frio com que ele tinha estremecido.
Ficava junto do muro do cemitério, de noite, ajoelhado, perdido numa saudade imensa como a noite e mais doce que a Lua.
Dormia pelos adros e pelos portais. Tinha um companheiro, um cão, com quem se embrulhava na mesma manta. O cão morreu. Ele adoeceu e foi recolhido ao hospital.
Ali não era o escritor Estevão Basco, era o nº 27 da sala de Santo Amaro. Uma madrugada, teve um estremecimento e morreu. Ao outro dia de tarde foi levado para a vala dos pobres numa tumba da Misericórdia.”
Eça de Queiroz
Moro aqui
Ando pela grama, meto o pé na poça e sinto meio água, meio lama entre os dedos. Reconheço onde estou: é onde moro.
Moro numa ladeira inclinada. Em dias de chuva fraca, os carros derrapam na subida; nos de toró, a água desce querendo ser cachoeira. A correnteza é tão forte que nem dá para apostar corrida de palito de sorvete, embora não pareça que a criançada hoje em dia ande interessada nisso. Aqui as moças têm pernas modeladas pelo esforço na subida e o controle na descida.
Vivo a um quarteirão da praia e às vezes ganho uma brisa de presente. No fim de tarde, é hora de visitar a areia ainda quente de sol, desviar dos sargaços e dos siris medrosos que logo se escondem, nem desconfiam que sou de paz. De madrugada, muita gente passa na esquina debaixo da minha janela: um homem canta uma música que ninguém mais canta, amigos riem alto mesmo que a história não tenha graça, e alguns casais brigam tão feio que a gente tem que gritar da janela para apartar.
Aqui existo, entre o poste que já estava quando nasci e essa árvore que cresceu comigo.
Moro na rue Delambre, 26, num apartamento emprestado por um amigo, e posso gastar quinze dólares por dia. Defendo uns trocados tocando violão no metrô. Minha sobrevivência consiste no bandejão do restaurante universitário e o bolinho tailandês na esquina, que deixa um amarelo esverdeado no guardanapo, imagina no estômago.
Balas perdidas cruzam o céu de onde moro à procura de um alvo, de preferência inocente. Às vezes estou no divã, outras na estrada; ora num retiro, ora no meio do sururu que irrompeu no boteco.
Sou morador de um prédio, tenho alguns vizinhos, não toco tuba nem treino sapateado, falo pouco nas reuniões de condomínio (quando vou) e assim espero não estar aborrecendo ninguém. Se um dia precisar de extintor de incêndio, vou ter que procurar porque – agora me dou conta – nunca reparei onde ficam.
Moro numa espuma de cerveja, num córrego de águas frias, numa conversa com quem nem conheço. Onde o vento deixou o cisco, uma lonjura onde nem drone alcança. Nos dias limpos, tenho vista comprida, consigo ver longe, até a décima montanha. Depois dela vem o mundo. Moro no porão de uma casa antiga, fumo escondido dos meus pais, o cheiro do cigarro se mistura ao dos móveis e trastes velhos, e não preciso me preocupar com as caranguejeiras, elas estão ocupadas com outras coisas.
Lá onde moro não conheço ninguém, posso ser um canalha, enfiar o dedo no nariz e pintar o cabelo de azul turquesa sem escandalizar a sociedade. Já aqui, conheço tanta gente, que não posso nem tomar um pileque e trançar as pernas que o pessoal vai comentar.
Já morei num lugar frio e escuro, mas isso faz tempo, mudei para as bandas da esperança. Não houve discurso, música ou fogos à minha chegada. Sou morador mais das melancolias, embora busque as alegrias feito um vira-latas. Por isso vivo em tantos lugares, a procura não tem sossego.
Em boa parte do tempo, moro nessa rede com vista para o Cristo, pensando mais nas idas que nas vindas. Durmo, acordo, penso, escrevo, cochilo, acordo, escrevo, não necessariamente nessa ordem. Ano passado, choveu tanajura, esse ano deu pitanga, jabuticaba, teve visitas e os insetos estão estranhamente mais sossegados que o costume.
Moro aqui. Mas, quando me dou conta, o aqui fica lá.
Moro numa ladeira inclinada. Em dias de chuva fraca, os carros derrapam na subida; nos de toró, a água desce querendo ser cachoeira. A correnteza é tão forte que nem dá para apostar corrida de palito de sorvete, embora não pareça que a criançada hoje em dia ande interessada nisso. Aqui as moças têm pernas modeladas pelo esforço na subida e o controle na descida.
Vivo a um quarteirão da praia e às vezes ganho uma brisa de presente. No fim de tarde, é hora de visitar a areia ainda quente de sol, desviar dos sargaços e dos siris medrosos que logo se escondem, nem desconfiam que sou de paz. De madrugada, muita gente passa na esquina debaixo da minha janela: um homem canta uma música que ninguém mais canta, amigos riem alto mesmo que a história não tenha graça, e alguns casais brigam tão feio que a gente tem que gritar da janela para apartar.
Aqui existo, entre o poste que já estava quando nasci e essa árvore que cresceu comigo.
Moro na rue Delambre, 26, num apartamento emprestado por um amigo, e posso gastar quinze dólares por dia. Defendo uns trocados tocando violão no metrô. Minha sobrevivência consiste no bandejão do restaurante universitário e o bolinho tailandês na esquina, que deixa um amarelo esverdeado no guardanapo, imagina no estômago.
Balas perdidas cruzam o céu de onde moro à procura de um alvo, de preferência inocente. Às vezes estou no divã, outras na estrada; ora num retiro, ora no meio do sururu que irrompeu no boteco.
Sou morador de um prédio, tenho alguns vizinhos, não toco tuba nem treino sapateado, falo pouco nas reuniões de condomínio (quando vou) e assim espero não estar aborrecendo ninguém. Se um dia precisar de extintor de incêndio, vou ter que procurar porque – agora me dou conta – nunca reparei onde ficam.
Moro numa espuma de cerveja, num córrego de águas frias, numa conversa com quem nem conheço. Onde o vento deixou o cisco, uma lonjura onde nem drone alcança. Nos dias limpos, tenho vista comprida, consigo ver longe, até a décima montanha. Depois dela vem o mundo. Moro no porão de uma casa antiga, fumo escondido dos meus pais, o cheiro do cigarro se mistura ao dos móveis e trastes velhos, e não preciso me preocupar com as caranguejeiras, elas estão ocupadas com outras coisas.
Lá onde moro não conheço ninguém, posso ser um canalha, enfiar o dedo no nariz e pintar o cabelo de azul turquesa sem escandalizar a sociedade. Já aqui, conheço tanta gente, que não posso nem tomar um pileque e trançar as pernas que o pessoal vai comentar.
Já morei num lugar frio e escuro, mas isso faz tempo, mudei para as bandas da esperança. Não houve discurso, música ou fogos à minha chegada. Sou morador mais das melancolias, embora busque as alegrias feito um vira-latas. Por isso vivo em tantos lugares, a procura não tem sossego.
Em boa parte do tempo, moro nessa rede com vista para o Cristo, pensando mais nas idas que nas vindas. Durmo, acordo, penso, escrevo, cochilo, acordo, escrevo, não necessariamente nessa ordem. Ano passado, choveu tanajura, esse ano deu pitanga, jabuticaba, teve visitas e os insetos estão estranhamente mais sossegados que o costume.
Moro aqui. Mas, quando me dou conta, o aqui fica lá.
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