Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
terça-feira, fevereiro 17
Passagem da noite
É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
Carlos Drummond de Andrade
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
Carlos Drummond de Andrade
Uma história de fadas
Era comum, que nem a gente
A única diferença é que ele
era um Homem Que Acreditava.
Era uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muita gente (a maioria) até duvidava que ficasse em algum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor ideia de como fazer para chegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito e acabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar.
Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido, ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nem a gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair em busca do País das Fadas. E saiu.
Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras. O homem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.
Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, em direção àquilo em que acreditava.
Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.
De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.
De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o sorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?
Caio Fernando Abreu, "Pequenas Epifanias"
A única diferença é que ele
era um Homem Que Acreditava.
Era uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muita gente (a maioria) até duvidava que ficasse em algum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor ideia de como fazer para chegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito e acabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar.
Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido, ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nem a gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair em busca do País das Fadas. E saiu.
Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras. O homem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.
Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, em direção àquilo em que acreditava.
Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.
De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.
De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o sorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?
Caio Fernando Abreu, "Pequenas Epifanias"
É preciso selecionar
Diferentes das papelarias da minha infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas escritoras do período Heian (794 a 1185, no Japão): escalar as paredes, pegar qualquer livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência puseram na sua mesinha-de-cabeceira.
Alberto Manguel, "Uma História da Leitura"
Alberto Manguel, "Uma História da Leitura"
Celebração da amizade
Juan Gelman me contou que uma senhora brigou a guarda-chuvadas, numa avenida de Paris, contra uma brigada inteira de funcionários municipais. Os funcionários estavam caçando pombos quando ela emergiu de um incrível Ford bigode, um carro de museu, daqueles que funcionavam à manivela; e brandindo seu guarda-chuva, lançou-se ao ataque. Agitando os braços abriu caminho, e seu guarda-chuva justiceiro arrebentou as redes onde os pombos tinham sido aprisionados. Então, enquanto os pombos fugiam em alvoroço branco, a senhora avançou a guarda-chuvadas contra os funcionários.
Os funcionários só atinaram em se proteger, como puderam, com os braços, e balbuciavam protestos que ela não ouvia: mais respeito, minha senhora, faça-me o favor, estamos trabalhando, são ordens superiores, senhora, por que não vai bater no prefeito?, Senhora, que bicho picou a senhora?, esta mulher endoidou…
Quando a indignada senhora cansou o braço, e apoiou-se numa parede para tomar fôlego, os funcionários exigiram uma explicação. Depois de um longo silêncio, ela disse:
— Meu filho morreu.
Os funcionários disseram que lamentavam muito, mas que eles não tinham culpa. Também disseram que naquela manhã tinham muito o que fazer, a senhora compreende…
— Meu filho morreu — repetiu ela.
E os funcionários: sim, claro, mas que eles estavam ganhando a vida, que existem milhões de pombos soltos por Paris, que os pombos são a ruína desta cidade…
— Cretinos — fulminou a senhora.
E longe dos funcionários, longe de tudo, disse:
— Meu filho morreu e se transformou em pombo.
Os funcionários calaram e ficaram pensando um tempão. Finalmente, apontando os pombos que andavam pelos céus e telhados e calçadas, propuseram:
— Senhora: por que não leva seu filho embora e deixa a gente trabalhar?
Ela ajeitou o chapéu preto:
— Ah!, não! De jeito nenhum!
Olhou através dos funcionários, como se fossem de vidro, e disse muito serena:
— Eu não sei qual dos pombos é meu filho. E se soubesse, também não ia levá-lo embora. Que direito tenho eu de separá-lo de seus amigos?
Eduardo Galeano, “O Livro dos Abraços”
Os funcionários só atinaram em se proteger, como puderam, com os braços, e balbuciavam protestos que ela não ouvia: mais respeito, minha senhora, faça-me o favor, estamos trabalhando, são ordens superiores, senhora, por que não vai bater no prefeito?, Senhora, que bicho picou a senhora?, esta mulher endoidou…
Quando a indignada senhora cansou o braço, e apoiou-se numa parede para tomar fôlego, os funcionários exigiram uma explicação. Depois de um longo silêncio, ela disse:
— Meu filho morreu.
Os funcionários disseram que lamentavam muito, mas que eles não tinham culpa. Também disseram que naquela manhã tinham muito o que fazer, a senhora compreende…
— Meu filho morreu — repetiu ela.
E os funcionários: sim, claro, mas que eles estavam ganhando a vida, que existem milhões de pombos soltos por Paris, que os pombos são a ruína desta cidade…
— Cretinos — fulminou a senhora.
E longe dos funcionários, longe de tudo, disse:
— Meu filho morreu e se transformou em pombo.
Os funcionários calaram e ficaram pensando um tempão. Finalmente, apontando os pombos que andavam pelos céus e telhados e calçadas, propuseram:
— Senhora: por que não leva seu filho embora e deixa a gente trabalhar?
Ela ajeitou o chapéu preto:
— Ah!, não! De jeito nenhum!
Olhou através dos funcionários, como se fossem de vidro, e disse muito serena:
— Eu não sei qual dos pombos é meu filho. E se soubesse, também não ia levá-lo embora. Que direito tenho eu de separá-lo de seus amigos?
Eduardo Galeano, “O Livro dos Abraços”
O homem da Cabeça de Papelão
No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!
Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.
Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrário do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.
Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.
Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os trâmites legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.
– Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.
– Mas não quero ser nada disso.
– Então quer ser vagabundo?
– Quero trabalhar.
– Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando – é vagabundo.
– Eu não acho.
– É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.
Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de ideias. Até alegre – qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!
Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:
– É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares…
O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:
– A perigosa mania de seu filho é por em prática ideias que julga próprias.
– Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?
Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.
No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.
Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.
– É doido, mas bom.
Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.
– Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal…
– É da tua má cabeça, meu filho.
– Qual?
– A tua cabeça não regula.
– Quem sabe?
Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.
– Só caso se o senhor tomar juízo.
– Mas que chama você juízo?
– Ser como os mais.
– Então você gosta de mim?
– E por isso é que só caso depois.
Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.
Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma “relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão”. Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.
– Traz algum relógio?
– Trago a minha cabeça.
– Ah! Desarranjada?
– Dizem-no, pelo menos.
– Em todo o caso, há tempo?
– Desde que nasci.
– Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem…
Antenor atalhou:
– E o senhor fica com a minha cabeça?
– Se a deixar.
– Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça…
– Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.
– Regula?
– É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.
Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porém, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.
Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República – a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.
Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.
– Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo… Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!
Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.
– Há tempos deixei aqui uma cabeça.
– Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.
– Ah! fez Antenor.
– Tem-se dado bem com a de papelão? – Assim…
– As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.
– Mas a minha cabeça?
– Vou buscá-la.
Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.
– Consertou-a?
– Não.
– Então, desarranjo grande?
O homem recuou.
– Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das ideias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.
Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.
– Faça o obséquio de embrulhá-la.
– Não a coloca?
– Não.
– V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.
Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.
– Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.
– Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.
Antenor ficou seco.
– Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.
E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável – um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.
Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.
Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrário do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.
Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.
Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os trâmites legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.
– Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.
– Mas não quero ser nada disso.
– Então quer ser vagabundo?
– Quero trabalhar.
– Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando – é vagabundo.
– Eu não acho.
– É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.
Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de ideias. Até alegre – qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!
Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:
– É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares…
O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:
– A perigosa mania de seu filho é por em prática ideias que julga próprias.
– Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?
Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.
No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.
Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.
– É doido, mas bom.
Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.
– Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal…
– É da tua má cabeça, meu filho.
– Qual?
– A tua cabeça não regula.
– Quem sabe?
Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.
– Só caso se o senhor tomar juízo.
– Mas que chama você juízo?
– Ser como os mais.
– Então você gosta de mim?
– E por isso é que só caso depois.
Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.
Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma “relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão”. Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.
– Traz algum relógio?
– Trago a minha cabeça.
– Ah! Desarranjada?
– Dizem-no, pelo menos.
– Em todo o caso, há tempo?
– Desde que nasci.
– Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem…
Antenor atalhou:
– E o senhor fica com a minha cabeça?
– Se a deixar.
– Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça…
– Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.
– Regula?
– É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.
Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porém, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.
Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República – a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.
Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.
– Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo… Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!
Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.
– Há tempos deixei aqui uma cabeça.
– Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.
– Ah! fez Antenor.
– Tem-se dado bem com a de papelão? – Assim…
– As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.
– Mas a minha cabeça?
– Vou buscá-la.
Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.
– Consertou-a?
– Não.
– Então, desarranjo grande?
O homem recuou.
– Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das ideias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.
Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.
– Faça o obséquio de embrulhá-la.
– Não a coloca?
– Não.
– V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.
Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.
– Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.
– Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.
Antenor ficou seco.
– Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.
E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável – um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.
João do Rio
domingo, fevereiro 15
Primavera
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
Cecília Meireles
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
Cecília Meireles
O bibliômano
Todos vocês conheceram esse bom. Teodoro sobre cuja sepultura acabo de espalhar flores, rogando ao dai que a terra lhe seja leve.
Esses dois farrapos de frase, que também conhecem, indicam-lhes suficientemente que me proponho consagrar-lhe algumas páginas de necrológio ou de oração fúnebre.
Havia vinte anos que Teodoro se retirara da sociedade, para trabalhar ou para não fazer coisa alguma; qual das duas, isso era um grande segredo. Ele meditava, e não se sabia em que meditava. Passava sua vida entre os livros e cuidava apenas de livros, o que fizera algumas pessoas pensarem que ele estivesse fazendo um livro que tornaria todos os outros inúteis; mas evidentemente se enganava. Teodoro aproveitara seus estudes bem demais para ignorar que esse livro fora escrito há trezentos anos. É o décimo terceiro capítulo do livro primeiro de Rabelais. Teodoro não falava mais, não ria mais, não jogava mais, não comia mais, não ia mais nem a bailes, nem aos teatros. As mulheres que ele amara na mocidade não mais atraíam seus olhares, ou quando muito ele olhava apenas para seus pés, quando um calçado elegante, de cor vistosa lhe chamavam a atenção. "Ai de mim! dizia ele extraindo do peito um gemido profundo, quanto marroquim perdido!"
Ele sacrificara outrora à moda: as crônicas da época informam-nos que foi o primeiro a dar o laço da gravata à esquerda, apesar da autoridade de Garrat, que dava o laço à direita, e a despeito da maioria que ainda hoje insiste em dar o laço no meio. Teodoro não se preocupava mais com a moda. Durante vinte anos só discutiu uma vez com seu alfaiate: "Senhor, disse-lhe um dia, este terno é o último que recebo de suas mãos se tornarem a esquecer de colocar bolsos cortados in-quarto."
A política, cujas oportunidades ridículas têm feito a carreira de tantos tolos, jamais conseguiu distraí-lo de suas meditações. Punha-o de mau humor, depois que as loucas tentativas de Napoleão, no norte, tinham feito subir o preço do couro da Rússia. Ele aprovou, todavia, a intervenção francesa nas revoluções da Espanha." É, disse, uma boa oportunidade para tarzer da península, romances de cavalaria e Cancioneros". Mas o exército expedicionário não cuidou absolutamente disso e êle ficou despeitado. Quando lhe diziam Trocadero, respondia ironicamente Ronmancero, o que o fez passar por liberal.
A memorável campanha do Sr. de Bournont nas costas da África transportou-o de alegria. "Graças ao céu, disse, esfregando as mãos, teremos os marroquins do levante a baixo prego." que o fez passar por carlista.
No último verão ele estava pateando por uma rua movimentada, examinando um livro. Alguns honestos cidadãos, que saíam da taverna com passos vacilantes, foram rogar-lhe, encostando-lhe o punhal ao pescoço, para gritar, em nome da liberdade de opinião. "Viva os poloneses!" "Não desejo outra coisa, respondeu Teodoro, cujo pensamento era um clamor eterno a favor do gênero humano, mas poderei perguntar-lhes qual o motivo? — É porque declaramos guerra à Holanda que oprime os poloneses, sob o pretexto deles não gostarem dos jesuítas, retrucou o amigo das luzes que era um rude geógrafo, e um lógico intrépido.
"Deus os perdoe, murmurou nosso amigo cruzando lastimosamente as mãos, ficaremos então reduzidos à imitação de papel da Holanda do Sr. Montgolfier!" O homem eminentemente civilizado partiu-lhe as pernas com uma bastonada.
Teodoro passou três meses de cama, a compulsar catálogos de livros. Predisposto, como sempre foi, a levar suas emoções As últimas, essa leitura exacerbou-lhe os nervos.
Em sua convalescença mesma, seu sono era horrivelmente agitado. Sua mulher despertou-o, uma noite, em meio à agonia do pesadelo. "Você chegou a tempo, disse-lhe ele abraçando-a, de impedir que eu morresse de susto e de dor. Eu estava cercado de monstros que não me teriam dado tréguas. — E que monstros pode recear, meu bom amigo, você quê nunca fez mal a ninguém? — Era, se estou lembrado, a sombra de Purgold, cujas funestas tesouras trincavam polegada e meia das margens de meus brochados, enquanto a sombra de Heudier mergulhava implacavelmente num ácido devorador meu mais velho volume de edição princeps, e retirava-o inteiramente branco; mas tenho boas razões para pensar que eles estejam pelo menos no purgatório."
Sua mulher pensou que ele estivesse falando grego, porque ele sabia um pouco de grego, a prova disso é que sua biblioteca estava cheia de livros gregos cujas folhas permaneciam fechadas. Por isso ele nunca os abria, contentando-se em mostrá-los aos amigos mais íntimos pela capa e pela lombada, mas mencionando o lugar da edição, o nome de editor e a data, com fleuma imperturbável. Os simples concluíam daí que era feiticeiro: Não o creio.
Como estivesse definhando a olhos vistos, chamaram seu médico que era, por acaso, filósofo e homem de espírito. Os senhores o encontrarão, se puderem. O médico reconheceu que a congestão cerebral estava iminente e fez uma bela comunicação sobre essa doença à Revista de Ciências Médicas, onde ela é denominada Monomania do marroquim ou, Tifus dos bibliômanos; mas não se tratou disso na Academia de Ciências porque coincidiu com a cólera morbo.
Aconselharam-no a fazer exercício, e como esta ideia lhe agradasse, pôs-se a caminho um belo dia, bem cedo. Eu estava bem pouco tranquilo para poder deixá-lo um instante. Dirigimo-nos para o cais, e alegrei-me com isso, porque pensei que o espetáculo do rio o divertiria. Mas, ele não afastou os olhos da altura do parapeito. O parapeito estava tão nu de mostruários como se tivessem sido visitadas desde cedo pelos defensores da imprensa que atiraram n’água em fevereiro a biblioteca do arcebispado.
Fomos mais felizes no cais das Flores. Havia livros em profusão; mas que livres! Todas as obras de que os jornais falam bem durante um mês e que acabam ali, infalivelmente, no compartimento de cinco soldos da redação ou do fundo de livraria. Filósofos, historiadores, poetas, romancistas, autores de todos os gêneros e de todos os formatos, para quem os anúncios mais pomposos são apenas os limites intransponíveis da imortalidade e que passam desprezados das estantes da livraria para as amuradas rio Sena. Létis profundo de onde eles contemplam, cobrindo-se de mofo, o fim inevitável de seu voo presunçoso. Folheei aí as páginas acetinadas de meus in-oitavos e de cinco ou seis de meus amigos.
Teodoro suspirou, mas não era por ver as obras de meu espírito expostas às chuvas, das quais o obsequioso toldo impermeável as protege deficientemente.
Por onde andará a idade de ouro dos vendedores de alfarrábios ao ar livre? Foi aqui, todavia, que meu ilustre amigo Barbier reuniu tantos tesouros que conseguiu compor uma bibliografia especial de alguns milhares de artigos. Era aqui que se prolongavam, durante horas e horas, os eruditos e frutuosos passeios do sábio Monmerqué quando se dirigia para o Foro e do sábio Labouderie ao sair da metrópole. Era aqui que o verdadeiro Boulard retirava todos os dias um metro de raridades, medido pelo seu metro de madeira, para o qual as suas seis essa pletóricas de volumes não tinham lugar disponível. Oh! quantas vezes ele desejou possuir, em semelhante transe, o modesto angulus de Horácio, ou a cápsula elástica daquele pavilhão de fadas que seria capaz de cobrir o" exército de Xerxes e que se podia levar no cinto tão comodamente quanto a bainha de punhais do avó de Jeannot! Agora, que miséria! Vêem-se apenas os sobejos insípidos desta literatura moderna que nunca será uma literatura antiga e cuja vida se evapora em vinte e quatro horas, como acontecia com as das moscas do rio Hiparus; literatura realmente bem digna da tinta de carvão e do papel de papas que alguns tipógrafos envergonhados, quase tão tolos quanto seus livros, lhes concedem pesarosamente! E dar o nome de livros a esses trapos garatujados de preto que quase não mudaram de destino ao deixar o saco do apanhador de papéis, é profaná-lo! Os cais não passam agora do necrotério das celebridades contemporâneas!
Tornou a suspirar e suspirei também, mas não pelo mesmo motivo.
Tinha pressa em fazê-lo andar, porque sua exacerbação, que aumentava a cada instante, parecia ameaçá-lo de um acesso fatal. Aquele devia ser um dia nefasto, uma vez que tudo contribuía para agravar sua melancolia.
"Eis, disse ele caminhando, a famosa fachada de Ladvoet, o Galiot do campo das letras abastardadas do século XIX, livreiro industrioso e liberal que merecia nascer numa idade melhor, mas cuja. atividade lamentável multiplicou cruelmente os livros novos para eterno prejuízo dos velhos livros; responsável jamais digno de perdão pela fabricação de papel de algodão, pela grafia ignorante é pelas vinhetas rebuscadas, autor fatal da prosa acadêmica e da poesia em voga; como se a França tivesse poesia depois de Ronsard e prosa depois de. Montaigne! Esse palácio de bibliópolo é o cavalo de Tróia que trouxe todos os raptores do palácio, a caixa de Pandora que deu passagem a todos os males da terra! Prefiro os canibais. Escreveria um capítulo para o seu livro, mas não o tornaria a ver!"
Teodoro suspirava cada vez mais, ia de mal a pior.
Chegamos assim à rua das Crianças Boas, ao rico bazar literário das vendas públicas de Silvestre, local honrado pelos sábios onde se sucederam, num quarto de século, mais inapreciáveis raridades do que a biblioteca dos Ptolomeus, que talvez não tenha sido queimada por Omar, malgrado o que dizem os nossos caducos historiadores, jamais encerrou. Nunca eu vira expostos tantos volumes magníficos.
— Infelizes aqueles que os vendem! — disse eu a Teodoro.
— Morreram — respondeu ele, ou morrerão por causa disso.
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— Deus que me perdoe! bom Teodoro, — disse o honesto Sr. Silvestre. — O senhor se atrasou um dia. A última venda foi ontem. Os livros que vê estão vendidos e esperam pelos carregadores.
Teodoro cambaleou e empalideceu. Sua fronte ficou da cor de um marroquim de limão um tanto gasto. O golpe que o atingia repercutiu no amargo de meu coração.
— Está perfeitamente certo? — disse ele com ar sucumbido. — Reconheço, nessa notícia horrorosa, minha infelicidade costumeira! Apesar disso, a quem pertencem essas pérolas, esses diamantes, essas riquezas fantásticas de que se vangloriaria a biblioteca dos de Thou e dos Grolier?
— Como de costume, cavalheiro, — replicou o Sr. Silvestre — estes excelentes clássicos de edição original, estes velhos e prefeitos exemplares autografados por eruditos famosos, estas atraentes raridades filológicas desconhecidas pela Academia e pela Universidade, cabiam de direito a Sir Richard Heber. É o quinhão do leão inglês ao qual cedemos de boa vontade o grego e o latim que deixamos de saber, estas belas coleções de história natural, estas obras primas de método e de iconografia pertencem ao príncipe***, cujos pendores para o estudo contribuem para enobrecer ainda mais, com o emprego que lhe dá, uma nobre e imensa fortuna. Estes mistérios medievais, estas moralidades fênix cujo menecma não existe em parte alguma, estes interessantes ensaios dramáticos de nossos antepassados vão aumentar a biblioteca-modelo do Sr. de Solème. Essas facécias, tão esbeltas e elegantes, tão miúdas, tão bem conservadas, constituem o lote de seu amável e engenhoso amigo, Sr. Aimé-Martin. Não preciso dizer-lhe a quem pertencem essas encadernações frescas e brilhantes, com três ordens de frisos, orlas amplas, pomposas dimensões. É o Shakespeare da pequena propriedade, o Corneille do melodrama, o intérprete hábil e muitas vezes eloquente das paixões e das virtudes do povo que, após tê-las chasqueado um pouco pela manhã, venderas à noite a peso de ouro, não sem rosnar entre os dentes, como um javali mortalmente ferido, e sem volver para os competidores seus olhos trágicos sombreados por negras sobrancelhas.
Teodoro deixara de ouvir. Acabava de apanhar um volume de aparência bastante boa, ao qual se aprestara em aplicar seu elzevirômetro, isto é, o meio pé subdividido quase ao infinito pelo qual ele avaliava o preço e o mérito intrínseco de seus livros. Dez vezes aproximou-o do livro maldito. Dez vezes conferiu o cálculo acabrunhador, murmurou algumas palavras que não compreendi, tornou a mudar de cor, e desfaleceu em meus braços. Tive muita dificuldade em levá-lo até o primeiro fiacre que apareceu.
Minha insistência para lhe arrancar o segredo de sua dor súbita, durante muito tempo não obteve resultado. Ele não falava. Minhas palavras não conseguiam alcançá-lo. É o tifo, pensei, é o paroxismo do tifo.
Apertei-o em meus braços. Continuei a interrogá-lo. Pare-ceu ceder a um impulso de expansão.
— Está vendo em mim — disse-me — o mais infeliz dos homens. Aquele volume é o Virgílio de 1676, de grande tamanho, cujo exemplar gigante eu pensava possuir. E ele é maior que o meu um terço de linha. Espíritos inimigos ou prevenidos poderiam mesmo encontrar uma diferença de meia linha. Um terço de linha, Deus todo-poderoso!
Fiquei fulminado. Compreendi que ele estava delirando.
— Um terço de linha! — repetiu ameaçando o céu com um punho furioso, como Ajax ou Lapanéu.
Todo o corpo lhe tremia.
Caiu a pouco e pouco em profunda prostração. O pobre homem vivia somente para sofrer. Repetia, apenas, de vez em quando: "Um terço de linha"! roendo as unhas. E eu repetia baixinho: "Maldito sejam os livros e o tifo!"
— Tranquilize-se, meu amigo — sussurrava eu carinhosamente a seus ouvidos, todas as vezes que a crise se renovava. Um terço de linha não é grande coisa nos negócios mais delicados deste mundo.
— Não é grande coisa! — exclamava ele. — Um terço de linha no Virgílio de 1670. Foi um terço de linha que aumentou em seis luíses o preço do Homero de Nerli, no estabelecimento do Sr. de Cotte; um terço de linha! Ah! não daria o senhor importância ao terço de linha do furador que lhe estivesse atravessando o coração?
Sua fisionomia transtornou-se inteiramente, seus braços se inteiriçaram, suas pernas foram tornadas de uma câimbra de garras de ferro. O tifo visivelmente invadia-lhe as extremidades. Eu não quereria ser obrigado a aumentar um terço de linha o curto caminho que nos separava de sua casa.
Finalmente, chegamos.
— Um terço de linha! — disse ele ao porteiro.
— Um terço de linha! — disse à cozinheira que abriu a porta.
— Um terço de linha! — disse à sua mulher inundando-a com suas lágrimas.
— Meu periquito fugiu — disse sua filhinha que chorava tanto quanto ele.
— Por que deixaram a gaiola aberta? — perguntou Teodoro. — Um terço de linha!
— O povo está se revoltando no Sul e na rua do Mostrador — disse a velha tia que estava lendo o jornal da tarde.
— Em que anda o povo se metendo? — retrucou Teodoro Um terço de linha!
— Sua herdade da Beatice pegou fogo, — disse-lhe o criado ajudando-o a deitar-se.
— Vai ser preciso reconstruí-la, — retrucou Teodoro — se a propriedade merecer isso. Um terço de linha!
— O senhor acha que isso tem gravidade? — perguntou-me a ama.
— Então não leu, boa mulher, a Revista de Ciências Médicas? Que está esperando para ir buscar um padre?
Felizmente o pároco entrara no mesmo instante para conversar conforme o costume, sobre mil lindas frioleiras literárias e bibliográficas das quais seu breviário nunca o conseguira afastar inteiramente, mas não pensou mais nisso, depois que apalpou o pulso de Teodoro.
— Ai de nós! meu filho, — disse-lhe — a vida do homem é somente uma passagem e o próprio mundo não repousa em alicerces eternos. Ele deve acabar como tudo que começou.
— Terá o senhor lido a esse respeito — respondeu Teodoro — o tratado de sua origem e antiguidade?
— Aprendi o que sei no Gêneses — respondeu o respeitável sacerdote —; mas ouvi dizer que um sofista do século passado, chamado Sr. de Mirabeau, escreveu um livro a esse respeito.
— Sub judice lis est, — interrompeu subitamente Teodoro — provei em meus Stromatos que as duas primeiras partes do mundo eram desse lamentável pedante de Mirabeau e a terceira do abade Le Máscrier.
— Ah! meu Deus, — interrompeu a tia idosa levantando os óculos — quem foi então que fez a América?
— Não é disso que se está tratando — continuou o sacerdote. — Crê na Trindade?
— Como não acreditaria eu no famoso volume De Trinitate de Servet, — disse Teodoro soerguendo-se sobre um travesseiro — uma vez que vi cederem ipsisimis oculais, pela módica importância de duzentos e quinze francos, no estabelecimento do Sr. Mac Carthy, um exemplar que custara a este último setecentas libras no leilão de La Vallière?!
— Não estamos cogitando disso —, exclamou o apóstolo um pouco desconcertado.
Esses dois farrapos de frase, que também conhecem, indicam-lhes suficientemente que me proponho consagrar-lhe algumas páginas de necrológio ou de oração fúnebre.
Havia vinte anos que Teodoro se retirara da sociedade, para trabalhar ou para não fazer coisa alguma; qual das duas, isso era um grande segredo. Ele meditava, e não se sabia em que meditava. Passava sua vida entre os livros e cuidava apenas de livros, o que fizera algumas pessoas pensarem que ele estivesse fazendo um livro que tornaria todos os outros inúteis; mas evidentemente se enganava. Teodoro aproveitara seus estudes bem demais para ignorar que esse livro fora escrito há trezentos anos. É o décimo terceiro capítulo do livro primeiro de Rabelais. Teodoro não falava mais, não ria mais, não jogava mais, não comia mais, não ia mais nem a bailes, nem aos teatros. As mulheres que ele amara na mocidade não mais atraíam seus olhares, ou quando muito ele olhava apenas para seus pés, quando um calçado elegante, de cor vistosa lhe chamavam a atenção. "Ai de mim! dizia ele extraindo do peito um gemido profundo, quanto marroquim perdido!"
Ele sacrificara outrora à moda: as crônicas da época informam-nos que foi o primeiro a dar o laço da gravata à esquerda, apesar da autoridade de Garrat, que dava o laço à direita, e a despeito da maioria que ainda hoje insiste em dar o laço no meio. Teodoro não se preocupava mais com a moda. Durante vinte anos só discutiu uma vez com seu alfaiate: "Senhor, disse-lhe um dia, este terno é o último que recebo de suas mãos se tornarem a esquecer de colocar bolsos cortados in-quarto."
A política, cujas oportunidades ridículas têm feito a carreira de tantos tolos, jamais conseguiu distraí-lo de suas meditações. Punha-o de mau humor, depois que as loucas tentativas de Napoleão, no norte, tinham feito subir o preço do couro da Rússia. Ele aprovou, todavia, a intervenção francesa nas revoluções da Espanha." É, disse, uma boa oportunidade para tarzer da península, romances de cavalaria e Cancioneros". Mas o exército expedicionário não cuidou absolutamente disso e êle ficou despeitado. Quando lhe diziam Trocadero, respondia ironicamente Ronmancero, o que o fez passar por liberal.
A memorável campanha do Sr. de Bournont nas costas da África transportou-o de alegria. "Graças ao céu, disse, esfregando as mãos, teremos os marroquins do levante a baixo prego." que o fez passar por carlista.
No último verão ele estava pateando por uma rua movimentada, examinando um livro. Alguns honestos cidadãos, que saíam da taverna com passos vacilantes, foram rogar-lhe, encostando-lhe o punhal ao pescoço, para gritar, em nome da liberdade de opinião. "Viva os poloneses!" "Não desejo outra coisa, respondeu Teodoro, cujo pensamento era um clamor eterno a favor do gênero humano, mas poderei perguntar-lhes qual o motivo? — É porque declaramos guerra à Holanda que oprime os poloneses, sob o pretexto deles não gostarem dos jesuítas, retrucou o amigo das luzes que era um rude geógrafo, e um lógico intrépido.
"Deus os perdoe, murmurou nosso amigo cruzando lastimosamente as mãos, ficaremos então reduzidos à imitação de papel da Holanda do Sr. Montgolfier!" O homem eminentemente civilizado partiu-lhe as pernas com uma bastonada.
Teodoro passou três meses de cama, a compulsar catálogos de livros. Predisposto, como sempre foi, a levar suas emoções As últimas, essa leitura exacerbou-lhe os nervos.
Em sua convalescença mesma, seu sono era horrivelmente agitado. Sua mulher despertou-o, uma noite, em meio à agonia do pesadelo. "Você chegou a tempo, disse-lhe ele abraçando-a, de impedir que eu morresse de susto e de dor. Eu estava cercado de monstros que não me teriam dado tréguas. — E que monstros pode recear, meu bom amigo, você quê nunca fez mal a ninguém? — Era, se estou lembrado, a sombra de Purgold, cujas funestas tesouras trincavam polegada e meia das margens de meus brochados, enquanto a sombra de Heudier mergulhava implacavelmente num ácido devorador meu mais velho volume de edição princeps, e retirava-o inteiramente branco; mas tenho boas razões para pensar que eles estejam pelo menos no purgatório."
Sua mulher pensou que ele estivesse falando grego, porque ele sabia um pouco de grego, a prova disso é que sua biblioteca estava cheia de livros gregos cujas folhas permaneciam fechadas. Por isso ele nunca os abria, contentando-se em mostrá-los aos amigos mais íntimos pela capa e pela lombada, mas mencionando o lugar da edição, o nome de editor e a data, com fleuma imperturbável. Os simples concluíam daí que era feiticeiro: Não o creio.
Como estivesse definhando a olhos vistos, chamaram seu médico que era, por acaso, filósofo e homem de espírito. Os senhores o encontrarão, se puderem. O médico reconheceu que a congestão cerebral estava iminente e fez uma bela comunicação sobre essa doença à Revista de Ciências Médicas, onde ela é denominada Monomania do marroquim ou, Tifus dos bibliômanos; mas não se tratou disso na Academia de Ciências porque coincidiu com a cólera morbo.
Aconselharam-no a fazer exercício, e como esta ideia lhe agradasse, pôs-se a caminho um belo dia, bem cedo. Eu estava bem pouco tranquilo para poder deixá-lo um instante. Dirigimo-nos para o cais, e alegrei-me com isso, porque pensei que o espetáculo do rio o divertiria. Mas, ele não afastou os olhos da altura do parapeito. O parapeito estava tão nu de mostruários como se tivessem sido visitadas desde cedo pelos defensores da imprensa que atiraram n’água em fevereiro a biblioteca do arcebispado.
Fomos mais felizes no cais das Flores. Havia livros em profusão; mas que livres! Todas as obras de que os jornais falam bem durante um mês e que acabam ali, infalivelmente, no compartimento de cinco soldos da redação ou do fundo de livraria. Filósofos, historiadores, poetas, romancistas, autores de todos os gêneros e de todos os formatos, para quem os anúncios mais pomposos são apenas os limites intransponíveis da imortalidade e que passam desprezados das estantes da livraria para as amuradas rio Sena. Létis profundo de onde eles contemplam, cobrindo-se de mofo, o fim inevitável de seu voo presunçoso. Folheei aí as páginas acetinadas de meus in-oitavos e de cinco ou seis de meus amigos.
Teodoro suspirou, mas não era por ver as obras de meu espírito expostas às chuvas, das quais o obsequioso toldo impermeável as protege deficientemente.
Por onde andará a idade de ouro dos vendedores de alfarrábios ao ar livre? Foi aqui, todavia, que meu ilustre amigo Barbier reuniu tantos tesouros que conseguiu compor uma bibliografia especial de alguns milhares de artigos. Era aqui que se prolongavam, durante horas e horas, os eruditos e frutuosos passeios do sábio Monmerqué quando se dirigia para o Foro e do sábio Labouderie ao sair da metrópole. Era aqui que o verdadeiro Boulard retirava todos os dias um metro de raridades, medido pelo seu metro de madeira, para o qual as suas seis essa pletóricas de volumes não tinham lugar disponível. Oh! quantas vezes ele desejou possuir, em semelhante transe, o modesto angulus de Horácio, ou a cápsula elástica daquele pavilhão de fadas que seria capaz de cobrir o" exército de Xerxes e que se podia levar no cinto tão comodamente quanto a bainha de punhais do avó de Jeannot! Agora, que miséria! Vêem-se apenas os sobejos insípidos desta literatura moderna que nunca será uma literatura antiga e cuja vida se evapora em vinte e quatro horas, como acontecia com as das moscas do rio Hiparus; literatura realmente bem digna da tinta de carvão e do papel de papas que alguns tipógrafos envergonhados, quase tão tolos quanto seus livros, lhes concedem pesarosamente! E dar o nome de livros a esses trapos garatujados de preto que quase não mudaram de destino ao deixar o saco do apanhador de papéis, é profaná-lo! Os cais não passam agora do necrotério das celebridades contemporâneas!
Tornou a suspirar e suspirei também, mas não pelo mesmo motivo.
Tinha pressa em fazê-lo andar, porque sua exacerbação, que aumentava a cada instante, parecia ameaçá-lo de um acesso fatal. Aquele devia ser um dia nefasto, uma vez que tudo contribuía para agravar sua melancolia.
"Eis, disse ele caminhando, a famosa fachada de Ladvoet, o Galiot do campo das letras abastardadas do século XIX, livreiro industrioso e liberal que merecia nascer numa idade melhor, mas cuja. atividade lamentável multiplicou cruelmente os livros novos para eterno prejuízo dos velhos livros; responsável jamais digno de perdão pela fabricação de papel de algodão, pela grafia ignorante é pelas vinhetas rebuscadas, autor fatal da prosa acadêmica e da poesia em voga; como se a França tivesse poesia depois de Ronsard e prosa depois de. Montaigne! Esse palácio de bibliópolo é o cavalo de Tróia que trouxe todos os raptores do palácio, a caixa de Pandora que deu passagem a todos os males da terra! Prefiro os canibais. Escreveria um capítulo para o seu livro, mas não o tornaria a ver!"
Teodoro suspirava cada vez mais, ia de mal a pior.
Chegamos assim à rua das Crianças Boas, ao rico bazar literário das vendas públicas de Silvestre, local honrado pelos sábios onde se sucederam, num quarto de século, mais inapreciáveis raridades do que a biblioteca dos Ptolomeus, que talvez não tenha sido queimada por Omar, malgrado o que dizem os nossos caducos historiadores, jamais encerrou. Nunca eu vira expostos tantos volumes magníficos.
— Infelizes aqueles que os vendem! — disse eu a Teodoro.
— Morreram — respondeu ele, ou morrerão por causa disso.
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— Deus que me perdoe! bom Teodoro, — disse o honesto Sr. Silvestre. — O senhor se atrasou um dia. A última venda foi ontem. Os livros que vê estão vendidos e esperam pelos carregadores.
Teodoro cambaleou e empalideceu. Sua fronte ficou da cor de um marroquim de limão um tanto gasto. O golpe que o atingia repercutiu no amargo de meu coração.
— Está perfeitamente certo? — disse ele com ar sucumbido. — Reconheço, nessa notícia horrorosa, minha infelicidade costumeira! Apesar disso, a quem pertencem essas pérolas, esses diamantes, essas riquezas fantásticas de que se vangloriaria a biblioteca dos de Thou e dos Grolier?
— Como de costume, cavalheiro, — replicou o Sr. Silvestre — estes excelentes clássicos de edição original, estes velhos e prefeitos exemplares autografados por eruditos famosos, estas atraentes raridades filológicas desconhecidas pela Academia e pela Universidade, cabiam de direito a Sir Richard Heber. É o quinhão do leão inglês ao qual cedemos de boa vontade o grego e o latim que deixamos de saber, estas belas coleções de história natural, estas obras primas de método e de iconografia pertencem ao príncipe***, cujos pendores para o estudo contribuem para enobrecer ainda mais, com o emprego que lhe dá, uma nobre e imensa fortuna. Estes mistérios medievais, estas moralidades fênix cujo menecma não existe em parte alguma, estes interessantes ensaios dramáticos de nossos antepassados vão aumentar a biblioteca-modelo do Sr. de Solème. Essas facécias, tão esbeltas e elegantes, tão miúdas, tão bem conservadas, constituem o lote de seu amável e engenhoso amigo, Sr. Aimé-Martin. Não preciso dizer-lhe a quem pertencem essas encadernações frescas e brilhantes, com três ordens de frisos, orlas amplas, pomposas dimensões. É o Shakespeare da pequena propriedade, o Corneille do melodrama, o intérprete hábil e muitas vezes eloquente das paixões e das virtudes do povo que, após tê-las chasqueado um pouco pela manhã, venderas à noite a peso de ouro, não sem rosnar entre os dentes, como um javali mortalmente ferido, e sem volver para os competidores seus olhos trágicos sombreados por negras sobrancelhas.
Teodoro deixara de ouvir. Acabava de apanhar um volume de aparência bastante boa, ao qual se aprestara em aplicar seu elzevirômetro, isto é, o meio pé subdividido quase ao infinito pelo qual ele avaliava o preço e o mérito intrínseco de seus livros. Dez vezes aproximou-o do livro maldito. Dez vezes conferiu o cálculo acabrunhador, murmurou algumas palavras que não compreendi, tornou a mudar de cor, e desfaleceu em meus braços. Tive muita dificuldade em levá-lo até o primeiro fiacre que apareceu.
Minha insistência para lhe arrancar o segredo de sua dor súbita, durante muito tempo não obteve resultado. Ele não falava. Minhas palavras não conseguiam alcançá-lo. É o tifo, pensei, é o paroxismo do tifo.
Apertei-o em meus braços. Continuei a interrogá-lo. Pare-ceu ceder a um impulso de expansão.
— Está vendo em mim — disse-me — o mais infeliz dos homens. Aquele volume é o Virgílio de 1676, de grande tamanho, cujo exemplar gigante eu pensava possuir. E ele é maior que o meu um terço de linha. Espíritos inimigos ou prevenidos poderiam mesmo encontrar uma diferença de meia linha. Um terço de linha, Deus todo-poderoso!
Fiquei fulminado. Compreendi que ele estava delirando.
— Um terço de linha! — repetiu ameaçando o céu com um punho furioso, como Ajax ou Lapanéu.
Todo o corpo lhe tremia.
Caiu a pouco e pouco em profunda prostração. O pobre homem vivia somente para sofrer. Repetia, apenas, de vez em quando: "Um terço de linha"! roendo as unhas. E eu repetia baixinho: "Maldito sejam os livros e o tifo!"
— Tranquilize-se, meu amigo — sussurrava eu carinhosamente a seus ouvidos, todas as vezes que a crise se renovava. Um terço de linha não é grande coisa nos negócios mais delicados deste mundo.
— Não é grande coisa! — exclamava ele. — Um terço de linha no Virgílio de 1670. Foi um terço de linha que aumentou em seis luíses o preço do Homero de Nerli, no estabelecimento do Sr. de Cotte; um terço de linha! Ah! não daria o senhor importância ao terço de linha do furador que lhe estivesse atravessando o coração?
Sua fisionomia transtornou-se inteiramente, seus braços se inteiriçaram, suas pernas foram tornadas de uma câimbra de garras de ferro. O tifo visivelmente invadia-lhe as extremidades. Eu não quereria ser obrigado a aumentar um terço de linha o curto caminho que nos separava de sua casa.
Finalmente, chegamos.
— Um terço de linha! — disse ele ao porteiro.
— Um terço de linha! — disse à cozinheira que abriu a porta.
— Um terço de linha! — disse à sua mulher inundando-a com suas lágrimas.
— Meu periquito fugiu — disse sua filhinha que chorava tanto quanto ele.
— Por que deixaram a gaiola aberta? — perguntou Teodoro. — Um terço de linha!
— O povo está se revoltando no Sul e na rua do Mostrador — disse a velha tia que estava lendo o jornal da tarde.
— Em que anda o povo se metendo? — retrucou Teodoro Um terço de linha!
— Sua herdade da Beatice pegou fogo, — disse-lhe o criado ajudando-o a deitar-se.
— Vai ser preciso reconstruí-la, — retrucou Teodoro — se a propriedade merecer isso. Um terço de linha!
— O senhor acha que isso tem gravidade? — perguntou-me a ama.
— Então não leu, boa mulher, a Revista de Ciências Médicas? Que está esperando para ir buscar um padre?
Felizmente o pároco entrara no mesmo instante para conversar conforme o costume, sobre mil lindas frioleiras literárias e bibliográficas das quais seu breviário nunca o conseguira afastar inteiramente, mas não pensou mais nisso, depois que apalpou o pulso de Teodoro.
— Ai de nós! meu filho, — disse-lhe — a vida do homem é somente uma passagem e o próprio mundo não repousa em alicerces eternos. Ele deve acabar como tudo que começou.
— Terá o senhor lido a esse respeito — respondeu Teodoro — o tratado de sua origem e antiguidade?
— Aprendi o que sei no Gêneses — respondeu o respeitável sacerdote —; mas ouvi dizer que um sofista do século passado, chamado Sr. de Mirabeau, escreveu um livro a esse respeito.
— Sub judice lis est, — interrompeu subitamente Teodoro — provei em meus Stromatos que as duas primeiras partes do mundo eram desse lamentável pedante de Mirabeau e a terceira do abade Le Máscrier.
— Ah! meu Deus, — interrompeu a tia idosa levantando os óculos — quem foi então que fez a América?
— Não é disso que se está tratando — continuou o sacerdote. — Crê na Trindade?
— Como não acreditaria eu no famoso volume De Trinitate de Servet, — disse Teodoro soerguendo-se sobre um travesseiro — uma vez que vi cederem ipsisimis oculais, pela módica importância de duzentos e quinze francos, no estabelecimento do Sr. Mac Carthy, um exemplar que custara a este último setecentas libras no leilão de La Vallière?!
— Não estamos cogitando disso —, exclamou o apóstolo um pouco desconcertado.
— Pergunto-lhe meu filho, o que pensa sobre a divindade de Jesus Cristo.
— Bem, bem, — disse Teodoro —, é questão apenas de nos entendermos. Afirmarei perante e contra todos que o Toldos jeschu, onde esse gracejador de mau gosto chamado Voltaire re-colheu tantas histórias tolas dignas das Mil e uma noites, não passa de uma perversa inépcia rabínica, indigna de figurar na biblioteca de um sábio.
— A menos que algum dia se encontre —, prosseguiu Teodoro —, o exemplar in carta maxima, ao qual há referência, se não me falha a memória, na mochinifada inédita de David Clemente.
Dessa vez o cura gemeu, muito audivelmente, levantou-se muito comovido de sua cadeira e inclinou-se sobre Teodoro para fazê-lo compreender claramente, sem cerimônias e sem equívoco, que ele estava acometido em último grau pelo tifo dos bibliômanos, a que se refere a Revista de Ciências Médicas, e que só lhe restava cuidar de sua salvação.
Teodoro não se desligara de sua vida com essa negativa impertinente dos incrédulos que é a ciência dos tolos, mas o querido herdem levara longe demais em seus livros o vão estudo da letra, para ter tempo para cuidar do espírito. De boa saúde, uma doutrina lhe teria causado febre e um dogma convulsões tetânicas. Em moral teológica ele desceria o pavilhão diante de um saint-simoniano. Voltou-se para a parede.
Tão prolongado foi o lapso de tempo que ele levou sem falar que nós o teríamos julgado morto se aproximando-me dele, eu não o ouvisse murmurar em voz abafada:
— Um terço de linha! Deus de justiça e de bondade! Mas onde me restituireis esse terço de linha, e até que ponto vossa onipotência poderá reparar a falta irreparável desse encadernador?
Um bibliófilo seu amigo chegou um instante depois. Disseram-lhe que Teodoro estava agonizante, que delirava a ponto de julgar que o abade Le Maserier fizera a terceira parte do mundo e que havia um quarto de hora que perdera a palavra.
— Vou verificar isso — replicou o amador. — Por que falha de paginação se reconhece a boa edição de César, elzevir de 1635? — perguntou a Teodoro.
— 153 em vez de 149.
— Muito bem. E do Terêncio do mesmo ano?
— 108 em vez de 104.
— Diabo! — disse eu — os elzevir estavam sem sorte naquele ano quanto aos números. Fizeram muito bem em não imprimir nessa data seus logaritmos.
— Ótimo — continuou o amigo de Teodoro. — Se eu houvesse acreditado nas pessoas presentes, julgaria que estavas a um dedo da morte.
— A um terço de linha —, respondeu Teodoro cuja voz se extinguiu gradativamente.
— Conheço teia história: ela, porém, nada representa ao lado da minha. Imagina que perdi, há oito dias, num desses leilões bastardos e anônimos de que só temos notícia pelo anúncio da porta um Bocácio de 1527, tão magnífico quanto o teu, encadernado em pergaminho de Veneza com os aa pontudos, marcas por toda a parte e nenhuma folha substituída.
Todas as faculdades de Teodoro convergiam para um único pensamento.
— Estás bem certo que os aa eram pontudos?
— Como o ferro que guarnece a alabarda de um lanceiro.
— Nesse caso não há a menor dúvida de que se tratava da própria vintisettine!
— Ela própria. Naquele dia tínhamos um belo jantar, mulheres encantadoras, ostras verdes, convivas espirituosos e champanha. Cheguei três minutos depois da adjudicação.
— Cavalheiro!, — bradou Teodoro, furioso. — Quando a vintisettine está à venda, não se janta!
Este derradeiro esforço exauriu o resto de vida que ainda o animava e que o interesse dessa conversação alimentava como o fole que sopra numa chama agonizante. Todavia, seus lábios ainda balbuciaram:
— Um terço de linha!
Foram suas últimas palavras.
Depois que perdemos a esperança de conservá-lo, empurramos sua cama para junto de sua biblioteca, de onde descemos um a um todos os Volumes que seus olhos pareciam chamar, conservando diante deles mais demoradamente aquelas obras que julgávamos mais próprias para confortá-lo. Morreu à meia-noite, entre um Deseil e um Pasdel, apertando amorosamente com ambas as mãos um Thouvenin.
No dia seguinte acompanhamos seu enterramento, à frente de numeroso cortejo de marroquineiros lacrimosos, e fomos cimentar sobre seu túmulo uma lápide com a seguinte inscrição que ele próprio parodiara do epitáfio de Franklin:
— Bem, bem, — disse Teodoro —, é questão apenas de nos entendermos. Afirmarei perante e contra todos que o Toldos jeschu, onde esse gracejador de mau gosto chamado Voltaire re-colheu tantas histórias tolas dignas das Mil e uma noites, não passa de uma perversa inépcia rabínica, indigna de figurar na biblioteca de um sábio.
— A menos que algum dia se encontre —, prosseguiu Teodoro —, o exemplar in carta maxima, ao qual há referência, se não me falha a memória, na mochinifada inédita de David Clemente.
Dessa vez o cura gemeu, muito audivelmente, levantou-se muito comovido de sua cadeira e inclinou-se sobre Teodoro para fazê-lo compreender claramente, sem cerimônias e sem equívoco, que ele estava acometido em último grau pelo tifo dos bibliômanos, a que se refere a Revista de Ciências Médicas, e que só lhe restava cuidar de sua salvação.
Teodoro não se desligara de sua vida com essa negativa impertinente dos incrédulos que é a ciência dos tolos, mas o querido herdem levara longe demais em seus livros o vão estudo da letra, para ter tempo para cuidar do espírito. De boa saúde, uma doutrina lhe teria causado febre e um dogma convulsões tetânicas. Em moral teológica ele desceria o pavilhão diante de um saint-simoniano. Voltou-se para a parede.
Tão prolongado foi o lapso de tempo que ele levou sem falar que nós o teríamos julgado morto se aproximando-me dele, eu não o ouvisse murmurar em voz abafada:
— Um terço de linha! Deus de justiça e de bondade! Mas onde me restituireis esse terço de linha, e até que ponto vossa onipotência poderá reparar a falta irreparável desse encadernador?
Um bibliófilo seu amigo chegou um instante depois. Disseram-lhe que Teodoro estava agonizante, que delirava a ponto de julgar que o abade Le Maserier fizera a terceira parte do mundo e que havia um quarto de hora que perdera a palavra.
— Vou verificar isso — replicou o amador. — Por que falha de paginação se reconhece a boa edição de César, elzevir de 1635? — perguntou a Teodoro.
— 153 em vez de 149.
— Muito bem. E do Terêncio do mesmo ano?
— 108 em vez de 104.
— Diabo! — disse eu — os elzevir estavam sem sorte naquele ano quanto aos números. Fizeram muito bem em não imprimir nessa data seus logaritmos.
— Ótimo — continuou o amigo de Teodoro. — Se eu houvesse acreditado nas pessoas presentes, julgaria que estavas a um dedo da morte.
— A um terço de linha —, respondeu Teodoro cuja voz se extinguiu gradativamente.
— Conheço teia história: ela, porém, nada representa ao lado da minha. Imagina que perdi, há oito dias, num desses leilões bastardos e anônimos de que só temos notícia pelo anúncio da porta um Bocácio de 1527, tão magnífico quanto o teu, encadernado em pergaminho de Veneza com os aa pontudos, marcas por toda a parte e nenhuma folha substituída.
Todas as faculdades de Teodoro convergiam para um único pensamento.
— Estás bem certo que os aa eram pontudos?
— Como o ferro que guarnece a alabarda de um lanceiro.
— Nesse caso não há a menor dúvida de que se tratava da própria vintisettine!
— Ela própria. Naquele dia tínhamos um belo jantar, mulheres encantadoras, ostras verdes, convivas espirituosos e champanha. Cheguei três minutos depois da adjudicação.
— Cavalheiro!, — bradou Teodoro, furioso. — Quando a vintisettine está à venda, não se janta!
Este derradeiro esforço exauriu o resto de vida que ainda o animava e que o interesse dessa conversação alimentava como o fole que sopra numa chama agonizante. Todavia, seus lábios ainda balbuciaram:
— Um terço de linha!
Foram suas últimas palavras.
Depois que perdemos a esperança de conservá-lo, empurramos sua cama para junto de sua biblioteca, de onde descemos um a um todos os Volumes que seus olhos pareciam chamar, conservando diante deles mais demoradamente aquelas obras que julgávamos mais próprias para confortá-lo. Morreu à meia-noite, entre um Deseil e um Pasdel, apertando amorosamente com ambas as mãos um Thouvenin.
No dia seguinte acompanhamos seu enterramento, à frente de numeroso cortejo de marroquineiros lacrimosos, e fomos cimentar sobre seu túmulo uma lápide com a seguinte inscrição que ele próprio parodiara do epitáfio de Franklin:
AQUI JAZ
EM SUA ENCADERNAÇÃO DE MADEIRA
UM EXEMPLAR IN-FÓLIO
DA MELHOR EDIÇÃO
DO HOMEM
ESCRITA NUMA LÍNGUA DA IDADE DO OURO
QUE O MUNDO NÃO COMPREENDE MAIS.
AGORA É
UM LIVRO
ESTRAGADO
MANCHADO
TRUNCADO
COM A FRENTE INCOMPLETA
ROÍDO PELOS VERMES
E MUITO DANIFICADO PELA PODRIDÃO
NÃO SE OUSA ESPERAR PARA ELE
A HOMENAGEM TARDIA
E INÚTIL
DA REIMPRESSÃO.
Charles Nodier
Primeiros passos
Começar a ler foi para mim como entrar num bosque pela primeira vez e dar de repente com todas as árvores, todas as flores, todos os pássaros. Quando fazes isso, o que te deslumbra é o conjunto. Não dizes: gosto mais desta árvore que das outras. Não, cada livro que eu entrava, eu considerava algo único.
José Saramago, "As palavras de Saramago"
José Saramago, "As palavras de Saramago"
O mistério do telegrama
Há tanta história horrivelmente triste sobre interrogatórios e prisões, que acho que vale a pena contar uma, verdadeira e engraçada, acontecida há algum tempo. Altero apenas os nomes dos personagens, mas garanto a autenticidade do caso, que está registrado em cartório.
Uma senhora (por sinal bem bonita) passou um telegrama a um cavalheiro, com quem andava de amores. O telegrama era um tanto estranho; foi retido, e a sua remetente, detida, passou toda uma noite na polícia. Eis o relato de seu interrogatório: "Aos dez dias do mês de outubro de mil novecentos e... às vinte e três horas e trinta minutos, na Delegacia de Ordem Política e Social, compareceu Maria da Silva, brasileira, desquitada, com 33 anos, residente na rua tal, número tal, apartamento tal, em Copacabana, a fim de esclarecer um telegrama que fora passado e interceptado na Agência Telegráfica do Galeão.
Tendo a declarante sido inquirida, DISSE: A propósito de um telegrama que fora interceptado na Agência Telegráfica do Galeão, expedido pela declarante no dia 9 do corrente mês, aproximadamente às 13 horas, em que figurava como destinatário o sr. Dr. João Silveira, residente na rua tal, número tal, em Belo Horizonte, vazado nos seguintes termos: Tombai — Igreja — Arco-íris — Borboleta — Camelo — Pressão baixa — Rosas vermelhas — Pianista — Vitória — Bahia — Recife — Aeroporto — Eu te amo — Saudades — Maria', esclareceu a declarante: POMBAL — se refere a um pombal existente no Parque de Florianópolis, que, visto ao entardecer, causou a ambos grande impressão; IGREJA — templo católico no Recife onde ambos fizeram um pedido; ARCO-ÍRIS — sensação visual experimentada pela declarante, quando viajava de avião, a baixa altura, em companhia do Dr. João Silveira, ao verem eles, por cinco vezes consecutivas, a aparição de um arco-íris, no trajeto entre Rio e Ilhéus; BORBOLETA — sendo a declarante supersticiosa e acreditando que borboleta amarela traz sorte, e tendo visto uma no início e outra no fim da viagem, ficou impressionada; CAMELO — que a declarante, ao visitar o Parque de Florianópolis em companhia do Dr. João Silveira, teve a oportunidade de se dirigir a um camelo nos seguintes termos: 'Senhor camelo, o senhor não preferia estar agora no deserto, a estar aqui neste parque com todo o conforto?' Que o camelo, com um gesto afirmativo de cabeça, confirmou. Que a declarante fez questão de esclarecer que, tendo sido assistente de Zoologia no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro de mil novecentos e sessenta a mil novecentos e sessenta e dois, devotava grande afeição aos animais, especialmente ao camelo, pela sua solidão; PRESSÃO BAIXA — que o Dr. João Silveira, ao se despedir, frequentemente, da declarante, demonstrava a sua tristeza ao se separar com a sua forte queda de pressão; ROSAS VERMELHAS — que a declarante sempre se acha cercada de rosas vermelhas e, quando obsequiada pelo Dr. João com essas flores, dá a isso enorme valor; PIANISTA — esclareceu que se refere a um pianista que toca maravilhosamente, apesar de cego, num restaurante em Recife, de nome Restaurante Leite, e que nessa viagem teve a oportunidade de distinguir o casal, com a música de sua predileção: O Amor É a Coisa Mais Esplêndida do Mundo; VITÓRIA — BAHIA — RECIFE — localidades onde o casal esteve e sobretudo onde teve a ocasião de experimentar essas sensações; AEROPORTO — local das despedidas do casal, onde sempre um levava saudades do que ficava; EU TE AMO — que a declarante acha desnecessário, digo, que a frase em si dispensa maiores esclarecimentos; e finalmente: SAUDADES — que a declarante afirma que só quem a sente é quem sabe, e que só usou essa frase como despedida; que, perguntado à declarante sobre a razão da expedição do referido telegrama, esclareceu que o mesmo tinha o objetivo de reviver momentos felizes que viveram em comum, dando a ele uma surpresa agradável no meio de sua vida atribulada de homem de negócios; que a declarante faz questão de esclarecer que não havia nenhuma intenção subversiva e que essa declaração e esses incidentes referidos poderão ser confirmados pelo dr. João; que a declarante, no ato de suas declarações, se compromete a comparecer a esta delegacia a qualquer momento, a respeito do referido assunto.
E mais não disse nem lhe foi perguntado. E como nada mais houvesse a lavrar, mandou a autoridade encerrar o presente, o qual, depois de lido e achado conforme, assina com a declarante. Eu, Fulano de Tal, escrivão, o datilografei e assino.
Rubem Braga, "Recado de primavera"
Uma senhora (por sinal bem bonita) passou um telegrama a um cavalheiro, com quem andava de amores. O telegrama era um tanto estranho; foi retido, e a sua remetente, detida, passou toda uma noite na polícia. Eis o relato de seu interrogatório: "Aos dez dias do mês de outubro de mil novecentos e... às vinte e três horas e trinta minutos, na Delegacia de Ordem Política e Social, compareceu Maria da Silva, brasileira, desquitada, com 33 anos, residente na rua tal, número tal, apartamento tal, em Copacabana, a fim de esclarecer um telegrama que fora passado e interceptado na Agência Telegráfica do Galeão.
Tendo a declarante sido inquirida, DISSE: A propósito de um telegrama que fora interceptado na Agência Telegráfica do Galeão, expedido pela declarante no dia 9 do corrente mês, aproximadamente às 13 horas, em que figurava como destinatário o sr. Dr. João Silveira, residente na rua tal, número tal, em Belo Horizonte, vazado nos seguintes termos: Tombai — Igreja — Arco-íris — Borboleta — Camelo — Pressão baixa — Rosas vermelhas — Pianista — Vitória — Bahia — Recife — Aeroporto — Eu te amo — Saudades — Maria', esclareceu a declarante: POMBAL — se refere a um pombal existente no Parque de Florianópolis, que, visto ao entardecer, causou a ambos grande impressão; IGREJA — templo católico no Recife onde ambos fizeram um pedido; ARCO-ÍRIS — sensação visual experimentada pela declarante, quando viajava de avião, a baixa altura, em companhia do Dr. João Silveira, ao verem eles, por cinco vezes consecutivas, a aparição de um arco-íris, no trajeto entre Rio e Ilhéus; BORBOLETA — sendo a declarante supersticiosa e acreditando que borboleta amarela traz sorte, e tendo visto uma no início e outra no fim da viagem, ficou impressionada; CAMELO — que a declarante, ao visitar o Parque de Florianópolis em companhia do Dr. João Silveira, teve a oportunidade de se dirigir a um camelo nos seguintes termos: 'Senhor camelo, o senhor não preferia estar agora no deserto, a estar aqui neste parque com todo o conforto?' Que o camelo, com um gesto afirmativo de cabeça, confirmou. Que a declarante fez questão de esclarecer que, tendo sido assistente de Zoologia no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro de mil novecentos e sessenta a mil novecentos e sessenta e dois, devotava grande afeição aos animais, especialmente ao camelo, pela sua solidão; PRESSÃO BAIXA — que o Dr. João Silveira, ao se despedir, frequentemente, da declarante, demonstrava a sua tristeza ao se separar com a sua forte queda de pressão; ROSAS VERMELHAS — que a declarante sempre se acha cercada de rosas vermelhas e, quando obsequiada pelo Dr. João com essas flores, dá a isso enorme valor; PIANISTA — esclareceu que se refere a um pianista que toca maravilhosamente, apesar de cego, num restaurante em Recife, de nome Restaurante Leite, e que nessa viagem teve a oportunidade de distinguir o casal, com a música de sua predileção: O Amor É a Coisa Mais Esplêndida do Mundo; VITÓRIA — BAHIA — RECIFE — localidades onde o casal esteve e sobretudo onde teve a ocasião de experimentar essas sensações; AEROPORTO — local das despedidas do casal, onde sempre um levava saudades do que ficava; EU TE AMO — que a declarante acha desnecessário, digo, que a frase em si dispensa maiores esclarecimentos; e finalmente: SAUDADES — que a declarante afirma que só quem a sente é quem sabe, e que só usou essa frase como despedida; que, perguntado à declarante sobre a razão da expedição do referido telegrama, esclareceu que o mesmo tinha o objetivo de reviver momentos felizes que viveram em comum, dando a ele uma surpresa agradável no meio de sua vida atribulada de homem de negócios; que a declarante faz questão de esclarecer que não havia nenhuma intenção subversiva e que essa declaração e esses incidentes referidos poderão ser confirmados pelo dr. João; que a declarante, no ato de suas declarações, se compromete a comparecer a esta delegacia a qualquer momento, a respeito do referido assunto.
E mais não disse nem lhe foi perguntado. E como nada mais houvesse a lavrar, mandou a autoridade encerrar o presente, o qual, depois de lido e achado conforme, assina com a declarante. Eu, Fulano de Tal, escrivão, o datilografei e assino.
Rubem Braga, "Recado de primavera"
sábado, fevereiro 14
Os sonhos de Astiages
Após quarenta anos de reinado, morreu o rei medo Ciaxares, e sucedeu-o no trono seu filho Astiages. Tinha Astiages uma filha chamada Mandane; sonhou que ela vertia tanta urina que esta cobria toda a Ecbátana e toda a Ásia. Tratou de não deixá-la casar-se com nenhum medo, e deu-a em matrimônio ao persa Cambises, homem de boa família, caráter pacífico e condições medianas. Voltou Astiages a sonhar, e viu que do centro do corpo de sua filha saía uma parreira que cobria toda a Ásia com sua sombra. O significado era claro: o filho dela o substituiria. Mandou sua filha retornar, e quando esta deu a luz, entregou a criança ao seu parente Hárpago para que ele o matasse.
Hárpago sentiu medo e piedade, e entregou o menino ao vaqueiro Mitradates, ordenando-lhe que o matasse. Mitradates tinha Perra por esposa e esta acabara de parir um filho morto. O menino que lhe haviam entregado estava luxuosamente vestido; decidiram fazer a troca, pois também sabiam que era filho de Mandane e assim preservavam seu futuro. O menino cresceu e seus companheiros pastores proclamaram-no rei de seus jogos, e o menino rei se revelou inflexível.
Astiages inteirou-se e obrigou a Mitradates confessar sua origem. Soube da desobediência de Hárpago, mas fingiu perdoá-lo e convidou-o a um banquete, e pediu que lhe entregasse o filho para ser companheiro de seu neto. Durante o banquete fez servir a Hárpago, assados, pedaços de seu filho. Quando soube disso, Hárpago dominou-se. Astiages consultou novamente seus adivinhos, e eles responderam: Se vive, há de reinar; porém como já reinou entre os pastores, não há perigo de que alcance uma nova coroa. Satisfeito, Astiages enviou-o suposto filho de Mitradates aos seus verdadeiros pais, que ficaram felizes em vê-lo com vida. O menino cresceu, fez-se rapaz e jovem guerreiro, e, com a ajuda de Hárpago, destronou Astiages, tratando-o com benevolência. Assim fundou Ciro, o antigo pastor, o império persa, e assim o conta Heródoto no quinto dos Nove Livros da História.
Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"
Hárpago sentiu medo e piedade, e entregou o menino ao vaqueiro Mitradates, ordenando-lhe que o matasse. Mitradates tinha Perra por esposa e esta acabara de parir um filho morto. O menino que lhe haviam entregado estava luxuosamente vestido; decidiram fazer a troca, pois também sabiam que era filho de Mandane e assim preservavam seu futuro. O menino cresceu e seus companheiros pastores proclamaram-no rei de seus jogos, e o menino rei se revelou inflexível.
Astiages inteirou-se e obrigou a Mitradates confessar sua origem. Soube da desobediência de Hárpago, mas fingiu perdoá-lo e convidou-o a um banquete, e pediu que lhe entregasse o filho para ser companheiro de seu neto. Durante o banquete fez servir a Hárpago, assados, pedaços de seu filho. Quando soube disso, Hárpago dominou-se. Astiages consultou novamente seus adivinhos, e eles responderam: Se vive, há de reinar; porém como já reinou entre os pastores, não há perigo de que alcance uma nova coroa. Satisfeito, Astiages enviou-o suposto filho de Mitradates aos seus verdadeiros pais, que ficaram felizes em vê-lo com vida. O menino cresceu, fez-se rapaz e jovem guerreiro, e, com a ajuda de Hárpago, destronou Astiages, tratando-o com benevolência. Assim fundou Ciro, o antigo pastor, o império persa, e assim o conta Heródoto no quinto dos Nove Livros da História.
Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"
Tudo de novo
Até que você não pode queixar-se, meu mano: o astrólogo previu sua morte em 1966, e quem morreu foi o astrólogo. E não foi você que o matou; foi uma ceia de Natal à go go. É certo que, durante o ano, a profecia esvoaçou em torno de você que nem pernilongo enxerido; enxotada, vinha de novo e zumbia. Mas também é certo que ninguém parecia rejubilar-se com ela; a afeição de uns, e, para outros, o fato de você não deixar vaga em cartório nem em diretoria de banco terão contribuído para isso. E a vidinha foi tocada pra frente, sem lances históricos nem medalhas, mas igualmente sem IPM. Em suma, individualmente, o ano lhe foi camarada. As dores maiores foram cívicas; a bem dizer, tristezas à beira-mar, que o mar se encarrega de repelir, com seu espetáculo de grandeza e força. Quem mora perto dele encontra sempre intimação para acreditar na vida. E esse País, mano, lembra o mar, coisa grande e bela em si, na variedade de formas, de ímpetos ritmados.
E não me venha, no dia 2, com a lamentação de que isso e mais aquilo e aquilo outro subiram tão de preço a partir de 1° de janeiro, que tudo agora vai ser mais impossível do que já era no dia 31 de dezembro, quando as impossibilidades reunidas e somadas desde a fundação do País pelo almirante realizaram esta maravilha: era praticamente impossível viver, e vivia-se. A vida é talvez um milagre dentro do qual subjugamos todas as negações. Não há imposto de circulação de mercadorias nem alta da gasolina nem nada que impeça o milagre cotidiano de alguém acordar e rever-se no mesmo espelho e sentir que o rosto lavado perde a fadiga sebosa do rosto noturno, e tudo é um vir-a-ser. Você, aliás, é doutor-de-Salamanca em filosofias baratas, e com elas tem divertido o seu caminho já longo. Distraia-se em cultivá-las, mano, enquanto não vem outro astrólogo de luneta mais sábia.
E para que esta conversa não resulte demasiado individual em tempos de comunicação reclamada a todos para todos, invente aí qualquer coisa que possa alcançar o seu vizinho e despertar nele o desejo de comunicá-la a outro vizinho, e este a outro, e outro a outro, até os grandes da Terra, tão coitados na solidão do poder; invente qualquer coisa, olhar compreensivo, gesto, palavra. Não achou? Então recorra ao dicionário, tire de lá paciência, tire boa vontade. Use-as. Não há melhor chiclete, meu mano, para a humanidade mascar.
Carlos Drummond de Andrade, "Caminhos de João Brandão"
Agora, você vai repetir aquela velha brincadeira de começar tudo de novo, isto é, de fingir quê, sem conscientizar (eta palavrinha antipática) que está fingindo quê. Não importa. Esse faz-de-conta de começar outra vez (desta vez, melhor) é uma das astúcias do homem para manter alerta o seu lado menino, e o lado menino hoje cresceu tanto que faz a gente ter certa esperança na humanidade. Essas roupas moderninhas de cavalheiros e damas, que pelo menos divertem, esses jogos, essas coleções de miniaturas, esses campeonatos de canto de curió, tudo que é infantil no comportamento adulto, inclusive e principalmente a ambição de chegar à lua cada qual primeiro que o outro, são minhas razões de confiar. Confiar é exagero, mas de esperar alguma coisa de bom de meu semelhante, isto é, de você, de mim mesmo.
E não me venha, no dia 2, com a lamentação de que isso e mais aquilo e aquilo outro subiram tão de preço a partir de 1° de janeiro, que tudo agora vai ser mais impossível do que já era no dia 31 de dezembro, quando as impossibilidades reunidas e somadas desde a fundação do País pelo almirante realizaram esta maravilha: era praticamente impossível viver, e vivia-se. A vida é talvez um milagre dentro do qual subjugamos todas as negações. Não há imposto de circulação de mercadorias nem alta da gasolina nem nada que impeça o milagre cotidiano de alguém acordar e rever-se no mesmo espelho e sentir que o rosto lavado perde a fadiga sebosa do rosto noturno, e tudo é um vir-a-ser. Você, aliás, é doutor-de-Salamanca em filosofias baratas, e com elas tem divertido o seu caminho já longo. Distraia-se em cultivá-las, mano, enquanto não vem outro astrólogo de luneta mais sábia.
E para que esta conversa não resulte demasiado individual em tempos de comunicação reclamada a todos para todos, invente aí qualquer coisa que possa alcançar o seu vizinho e despertar nele o desejo de comunicá-la a outro vizinho, e este a outro, e outro a outro, até os grandes da Terra, tão coitados na solidão do poder; invente qualquer coisa, olhar compreensivo, gesto, palavra. Não achou? Então recorra ao dicionário, tire de lá paciência, tire boa vontade. Use-as. Não há melhor chiclete, meu mano, para a humanidade mascar.
Carlos Drummond de Andrade, "Caminhos de João Brandão"
Herança
Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.
Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?
E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?
Cecília Meireles
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.
Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?
E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?
Cecília Meireles
Nunca fiz senão sonhar
(a child hand's playing with cotton-reels, etc.)
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumavam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.
A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo – mas tenho pena de o não fazer.., e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições – irrealizável infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as vizinhanças de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atração ... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando.., quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.
Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!
O que eu sinto quando penso no passado que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida,... Isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.
A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independentes da minha consciência deles!
Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que não existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam... Tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado na minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida-real morta que fito, solene no seu caixão.
Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura de um quarto onde dormi já não em pequeno!
Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia.
Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... E cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-Lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum exceto Deus.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumavam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.
A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo – mas tenho pena de o não fazer.., e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições – irrealizável infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as vizinhanças de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atração ... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando.., quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.
Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!
O que eu sinto quando penso no passado que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida,... Isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.
A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independentes da minha consciência deles!
Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que não existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam... Tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado na minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida-real morta que fito, solene no seu caixão.
Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura de um quarto onde dormi já não em pequeno!
Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia.
Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito dos nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus... E tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço intimo que entretém essas pobres realidades...
Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... E cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-Lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum exceto Deus.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
sexta-feira, fevereiro 13
Tratado geral das grandezas do ínfimo
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
Manoel de Barros
Acorrentados
Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.
Paulo Mendes Campos, “O Anjo Bêbado“
Paulo Mendes Campos, “O Anjo Bêbado“
A uma alma sensível
Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível, que está decerto um pouquito agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez.., sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, – que isso às vezes é dos óculos, – e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
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