Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quinta-feira, setembro 10
Urupês
Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem índios num gabinete, com reminiscências de Chateaubriand na cabeça e a Iracema aberta sobre os joelhos, metem-se a palmilhar sertões de Winchester em punho.
Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobrelevava em beleza d’alma e corpo.
Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.
Por felicidade nossa – a de D. Antonio de Mariz – não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau. Do contrário lá teríamos o filho de Arará a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer.
A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Todo o clã plumitivo deu de forjar seu indiozinho refegado de Peri e Atala. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora.
Vindo o público a bocejar de farto, já céptico ante o crescente desmantelo do ideal, cessou no mercado literário a procura de bugres homéricos, inúbias, tacapes, borés, piágas e virgens bronzeadas. Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos. E lá acamam poeira cochichando reminiscências com a barba de D. João de Castro, com os frankisks de Herculano, com os frades de Garrett e que tais…
Não morreu, todavia.
Evoluiu.
O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de “caboclismo”. O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; o ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxadal o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito.
Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Perís e Ubirajaras.
Este setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu “I Juca Pirama”, o seu “Canto do Piaga” e talvez dê ópera lírica.
Mas, completado o ciclo, virão destroçar o inverno em flor da ilusão indianista os prosaicos demolidores de ídolos – gente má e sem poesia. Irão os malvados esgaravatar o ícone com as curetas da ciência. E que feias se hão de entrever as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varela! E que chambões e sornas os Peris de calça, camisa e faca à cinta!
Isso, para o futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: o caboclo é o “Ai Jesus!” nacional.
É de ver o orgulhoso entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com altivez: sou raça de caboclo!
Anos atrás o orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare.
Dia virá em que os veremos, murchos de prosápia, confessar o verdadeiro avô: – um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Souza¹ num barco daqueles tempos, nosso mui nobre e fecundo “Mayflower”.
Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.
Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrouvinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo.
Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uf! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, ‘magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo.
A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifíca-se ante o inopinado da mudança.² O caboclo não dá pela coisa.
Vem Florianol estouram as granadas de Custódiol Gumercidndo bate às portas de Roimal Incitatus derranca o país.³ O caboclo continua de cócoras, a modorrar…
Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.
Jéca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.
Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.
– “Não vê que…
De pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.
De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para “aquentá-lo”, imitado da mulher e da prole.
Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.
Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.
Pobre Jéca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca fisólofo…
Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquara-poca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõesinhos, colheres de pau.
Nada Mais.
Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço – e nisto vai longo.
Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido.
Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas – para hospedes. Três pernas permitem equilíbrio inútil, portanto, meter a Quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?
Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo – colher, garfo e faca a um tempo?
No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.
Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhosl um que traz no uso e outro na lavagem.
Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.
Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto, alí pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.
Da parede pende a espingarda picapau, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.
Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão Quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.
Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu.
Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante…
Remendo… Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam “apenas ” nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos.
Na mansão de Jéca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. Afim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas conseqüências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela – santo de mascate.
– “Por que não remenda essa parede, homem de Deus?
– “Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?
Não obstante, “por via das dúvidas” , quando ronca a trovoada Jéca abandona a toca e vai agachar-se no ôco dum velho embirussu do quintal – para se saborear de longe com a eficácia da escora santa.
Um pedaço de pau dispensaria o milagre! mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente.
Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores – nada revelador de permanência.
Há mil razões para isso; porque não é sua a terral porque se o “tocarem” não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a “criação” come; porque…
– “Mas, criatura, com um vedozinho por ali… A madeira está à mão, o cipó é tanto…”
Jéca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.
– “Não paga a pena”.
Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.
Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha.
Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jéca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio.
Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jéca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem massetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura.
Todavia, est modus in rebus. E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jéca a opulência de um seu vizinho e compadre que “está muito bem.” A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca.
Vive num corrupio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo. A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas ainda assim valia dez mil réis mais do que o rossinante zanaga.
Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, grangeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jéca, para quem, fino como o compadre, “home” … nem mesmo o vigário de Itaóca!.
Aos domingos vai à vila bifurcado na magreza ventruda da Serena; leva apenso à garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no chale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora.
O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras, entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária.
Vota. Não sabe em quam, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama “sua graça”.
Se há tumulto, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, afim de novamente lhe depor nas mão o “diploma”.
Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de munheca e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão.
Representa este freguês o tipo clássico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, díscolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jéca Tatu.
O mobiliário cerebral de Jéca, à parte o suculento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de idéias: são as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos.
O sentimento de pátria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do país em que vive. Sabe que o mundo é grande, que há sempre terras para diante, que muito longe está a Corte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde vêm baianos pernósticos e cocos.
Perguntem ao Jéca quem é o presidente da República.
– “O homem que manda em nós tudo?
– “Sim.
– “Pois de certo que há de ser o imperador.
Em matéria de civismo não sobe de ponto.
– “Guerra? T’esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato p’ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. (4) Eu, para escapar do “reculutamento”, sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço…
Guerra, defesa nacional, ação administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante – “reculutamento”.
Quando em princípios da Presidência Hermes andou na balha um recenseamento esquecido a Offenbach, o caboclo tremeu e entrou a casar em massa. Aquilo “havera de ser reculutamento”, e os casados, na voz corrente, escapavam à redada.
A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília – em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há rir, lúgubre como é o epílogo. A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça.
Quem aplica as mezinhas é o “curador”, um Eusébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como muita de taquaruçu. O veículo usual das drogas é sempre a pinga – meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos.
Doenças hajam que remédios não faltam.
Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo…
Para “quebranto de ossos”, já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã! mete-se tudo numa gamela d’água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível.
O específico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto.
Para dor de peito que “responde na cacunda”, cataplasma de “jasmim de cachorro” é um porrete.
Além desta alopatia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano.
O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jéca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-fólio d’alto fôlego ao Sílvio Romero bastante operoso que se propusesse a compendiá-lo.
Num parto difícil nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de S. Benedito.
Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe. A criança morreria pagã. A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém-nascido.
A posse de certos objetos confere dotes sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia.
Esta planta, conta Jéca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhe-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre – mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida.
Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhes as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não havendo distinguir onde pára uma e começa outra.
A ideia de Deus e dos santos torna-se jéco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou – tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos.
Daí o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamação, muito parenta do “Allah Kébir” do beduíno.
E na arte?
Nada.
A arte rústica do campônio europeu é opulenta a ponto de constituir preciosa fonte de sugestões para os artistas de escol. Em nenhum país o povo vive sem a ela recorrer para um ingênuo embelezamento da vida. Já não se fala no camponês italiano ou teutônico, filho de alfobres mimosos, propícios a todas as florações estéticas. Mas o russo, o hirsuto mujique a meio atolado em barbarie crassa. Os vestuários nacionais da Ucrânia nos quais a cor viva e o sarapantado da ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, os isbas da Lituânia, sua cerâmica, os bordados, os móveis, os utensílios de cozinha, tudo revela no mais rude dos campônios o sentimento da arte.
No samoieda, no pele-vermelha, no abexim, no Papua, un arabesco ingênuo costuma ornar-lhes as armas – como lhes ornam a vida canções repassadas de ritmos sugestivos.
Que nada é isso, sabido como já o homem pré-histórico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de mamutes em chifres de rena.
Egresso à regra, não denuncia o nosso caboclo o mais remoto traço de um sentimento nascido com o troglodita.
Esmerilhemos o seu casebre: que é que ali denota a existência do mais vago senso estético? Uma chumbada no cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do porretinho de guatambu. É tudo.
Às vezes surge numa família um gênio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Ei-lo na viola concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro, fere as cordase “tempera” , E fica nisso, no tempero.
Dirão: e a modinha?
A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d’envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro.
O caboclo é soturno.
Não canta senão rezas lúgubres.
Não dança senão o cateretê aladainhado.
Não esculpe o cabo da faca, como o cabila.
Não compõe sua canção, como o felá do Egito.
No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas.
Só ele não fala, não canta, não ri, não ama.
Só ele, no meio da tanta vida, não vive…
Monteiro Lobato
Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobrelevava em beleza d’alma e corpo.
Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.
Por felicidade nossa – a de D. Antonio de Mariz – não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau. Do contrário lá teríamos o filho de Arará a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer.
A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Todo o clã plumitivo deu de forjar seu indiozinho refegado de Peri e Atala. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora.
Vindo o público a bocejar de farto, já céptico ante o crescente desmantelo do ideal, cessou no mercado literário a procura de bugres homéricos, inúbias, tacapes, borés, piágas e virgens bronzeadas. Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos. E lá acamam poeira cochichando reminiscências com a barba de D. João de Castro, com os frankisks de Herculano, com os frades de Garrett e que tais…
Não morreu, todavia.
Evoluiu.
O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de “caboclismo”. O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; o ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxadal o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito.
Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Perís e Ubirajaras.
Este setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu “I Juca Pirama”, o seu “Canto do Piaga” e talvez dê ópera lírica.
Mas, completado o ciclo, virão destroçar o inverno em flor da ilusão indianista os prosaicos demolidores de ídolos – gente má e sem poesia. Irão os malvados esgaravatar o ícone com as curetas da ciência. E que feias se hão de entrever as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varela! E que chambões e sornas os Peris de calça, camisa e faca à cinta!
Isso, para o futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: o caboclo é o “Ai Jesus!” nacional.
É de ver o orgulhoso entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com altivez: sou raça de caboclo!
Anos atrás o orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare.
Dia virá em que os veremos, murchos de prosápia, confessar o verdadeiro avô: – um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Souza¹ num barco daqueles tempos, nosso mui nobre e fecundo “Mayflower”.
Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.
Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrouvinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo.
Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uf! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, ‘magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo.
A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifíca-se ante o inopinado da mudança.² O caboclo não dá pela coisa.
Vem Florianol estouram as granadas de Custódiol Gumercidndo bate às portas de Roimal Incitatus derranca o país.³ O caboclo continua de cócoras, a modorrar…
Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.
Jéca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.
Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.
– “Não vê que…
De pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.
De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para “aquentá-lo”, imitado da mulher e da prole.
Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.
Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.
Pobre Jéca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca fisólofo…
Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquara-poca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõesinhos, colheres de pau.
Nada Mais.
Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço – e nisto vai longo.
Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido.
Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas – para hospedes. Três pernas permitem equilíbrio inútil, portanto, meter a Quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?
Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo – colher, garfo e faca a um tempo?
No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.
Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhosl um que traz no uso e outro na lavagem.
Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.
Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto, alí pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.
Da parede pende a espingarda picapau, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.
Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão Quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.
Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu.
Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante…
Remendo… Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam “apenas ” nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos.
Na mansão de Jéca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. Afim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas conseqüências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela – santo de mascate.
– “Por que não remenda essa parede, homem de Deus?
– “Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?
Não obstante, “por via das dúvidas” , quando ronca a trovoada Jéca abandona a toca e vai agachar-se no ôco dum velho embirussu do quintal – para se saborear de longe com a eficácia da escora santa.
Um pedaço de pau dispensaria o milagre! mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente.
Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores – nada revelador de permanência.
Há mil razões para isso; porque não é sua a terral porque se o “tocarem” não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a “criação” come; porque…
– “Mas, criatura, com um vedozinho por ali… A madeira está à mão, o cipó é tanto…”
Jéca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.
– “Não paga a pena”.
Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.
Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha.
Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jéca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio.
Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jéca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem massetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura.
Todavia, est modus in rebus. E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jéca a opulência de um seu vizinho e compadre que “está muito bem.” A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca.
Vive num corrupio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo. A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas ainda assim valia dez mil réis mais do que o rossinante zanaga.
Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, grangeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jéca, para quem, fino como o compadre, “home” … nem mesmo o vigário de Itaóca!.
Aos domingos vai à vila bifurcado na magreza ventruda da Serena; leva apenso à garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no chale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora.
O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras, entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária.
Vota. Não sabe em quam, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama “sua graça”.
Se há tumulto, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, afim de novamente lhe depor nas mão o “diploma”.
Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de munheca e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão.
Representa este freguês o tipo clássico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, díscolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jéca Tatu.
O mobiliário cerebral de Jéca, à parte o suculento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de idéias: são as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos.
O sentimento de pátria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do país em que vive. Sabe que o mundo é grande, que há sempre terras para diante, que muito longe está a Corte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde vêm baianos pernósticos e cocos.
Perguntem ao Jéca quem é o presidente da República.
– “O homem que manda em nós tudo?
– “Sim.
– “Pois de certo que há de ser o imperador.
Em matéria de civismo não sobe de ponto.
– “Guerra? T’esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato p’ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. (4) Eu, para escapar do “reculutamento”, sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço…
Guerra, defesa nacional, ação administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante – “reculutamento”.
Quando em princípios da Presidência Hermes andou na balha um recenseamento esquecido a Offenbach, o caboclo tremeu e entrou a casar em massa. Aquilo “havera de ser reculutamento”, e os casados, na voz corrente, escapavam à redada.
A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília – em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há rir, lúgubre como é o epílogo. A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça.
Quem aplica as mezinhas é o “curador”, um Eusébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como muita de taquaruçu. O veículo usual das drogas é sempre a pinga – meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos.
Doenças hajam que remédios não faltam.
Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo…
Para “quebranto de ossos”, já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã! mete-se tudo numa gamela d’água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível.
O específico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto.
Para dor de peito que “responde na cacunda”, cataplasma de “jasmim de cachorro” é um porrete.
Além desta alopatia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano.
O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jéca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-fólio d’alto fôlego ao Sílvio Romero bastante operoso que se propusesse a compendiá-lo.
Num parto difícil nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de S. Benedito.
Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe. A criança morreria pagã. A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém-nascido.
A posse de certos objetos confere dotes sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia.
Esta planta, conta Jéca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhe-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre – mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida.
Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhes as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não havendo distinguir onde pára uma e começa outra.
A ideia de Deus e dos santos torna-se jéco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou – tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos.
Daí o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamação, muito parenta do “Allah Kébir” do beduíno.
E na arte?
Nada.
A arte rústica do campônio europeu é opulenta a ponto de constituir preciosa fonte de sugestões para os artistas de escol. Em nenhum país o povo vive sem a ela recorrer para um ingênuo embelezamento da vida. Já não se fala no camponês italiano ou teutônico, filho de alfobres mimosos, propícios a todas as florações estéticas. Mas o russo, o hirsuto mujique a meio atolado em barbarie crassa. Os vestuários nacionais da Ucrânia nos quais a cor viva e o sarapantado da ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, os isbas da Lituânia, sua cerâmica, os bordados, os móveis, os utensílios de cozinha, tudo revela no mais rude dos campônios o sentimento da arte.
No samoieda, no pele-vermelha, no abexim, no Papua, un arabesco ingênuo costuma ornar-lhes as armas – como lhes ornam a vida canções repassadas de ritmos sugestivos.
Que nada é isso, sabido como já o homem pré-histórico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de mamutes em chifres de rena.
Egresso à regra, não denuncia o nosso caboclo o mais remoto traço de um sentimento nascido com o troglodita.
Esmerilhemos o seu casebre: que é que ali denota a existência do mais vago senso estético? Uma chumbada no cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do porretinho de guatambu. É tudo.
Às vezes surge numa família um gênio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Ei-lo na viola concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro, fere as cordase “tempera” , E fica nisso, no tempero.
Dirão: e a modinha?
A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d’envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro.
O caboclo é soturno.
Não canta senão rezas lúgubres.
Não dança senão o cateretê aladainhado.
Não esculpe o cabo da faca, como o cabila.
Não compõe sua canção, como o felá do Egito.
No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas.
Só ele não fala, não canta, não ri, não ama.
Só ele, no meio da tanta vida, não vive…
Monteiro Lobato
O relógio
Os chineses veem a hora no olho dos gatos.
Um dia um missionário, passeando nos subúrbios de Nanquim, percebeu que havia esquecido seu relógio e perguntou a hora a um garoto.
O menino do Império celeste primeiro hesitou; depois, mudando de ideia, respondeu: “Vou dizer-lhe”. Poucos instantes depois reapareceu, tendo nos braços um gato muito gordo, e, olhando-o, como se diz, no branco dos olhos, afirmou sem hesitar: “Ainda não é exatamente meio-dia”. O que era verdade.
E se alguém importuno viesse incomodar-me enquanto meu olhar repousa nesse delicioso quadrante, se algum Gênio desonesto e intolerante, algum Demônio do contratempo viesse dizer-me: “O que você está olhando aí com tanta atenção? O que você procura nos olhos dessa criatura? Mortal pródigo e preguiçoso, você está vendo a hora?”, eu responderia sem hesitar: “Sim, estou vendo a hora; é a Eternidade!”.Não lhe parece, senhora, que este é um madrigal verdadeiramente meritório, e tão enfático quanto a senhora mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esse pretensioso galanteio, que não lhe pedirei nada em troca.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Um dia um missionário, passeando nos subúrbios de Nanquim, percebeu que havia esquecido seu relógio e perguntou a hora a um garoto.
O menino do Império celeste primeiro hesitou; depois, mudando de ideia, respondeu: “Vou dizer-lhe”. Poucos instantes depois reapareceu, tendo nos braços um gato muito gordo, e, olhando-o, como se diz, no branco dos olhos, afirmou sem hesitar: “Ainda não é exatamente meio-dia”. O que era verdade.
Quanto a mim, se me inclino para a bela Féline, cujo nome lhe cabe tão bem, e que é ao mesmo tempo honra de seu sexo, orgulho de meu coração e perfume de meu espírito, seja de noite, seja de dia, na luz plena ou na escuridão opaca, no fundo de seus olhos adoráveis sempre vejo a hora com clareza, sempre a mesma, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisões de minutos nem de segundos — uma hora imóvel que não é marcada nos relógios, e todavia leve como um suspiro, rápida como uma espiadela.
E se alguém importuno viesse incomodar-me enquanto meu olhar repousa nesse delicioso quadrante, se algum Gênio desonesto e intolerante, algum Demônio do contratempo viesse dizer-me: “O que você está olhando aí com tanta atenção? O que você procura nos olhos dessa criatura? Mortal pródigo e preguiçoso, você está vendo a hora?”, eu responderia sem hesitar: “Sim, estou vendo a hora; é a Eternidade!”.Não lhe parece, senhora, que este é um madrigal verdadeiramente meritório, e tão enfático quanto a senhora mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esse pretensioso galanteio, que não lhe pedirei nada em troca.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Cada pedaço de mim
Cada pedaço de mim
sabe o inferno que é ser
sol em noites de chuva,
ser cor nos cinzas dos edifícios,
ser luz na escuridão das manhãs.
Cada todo de ti sabe a delícia
que é ser flor nas asas do vento,
ser cristal nos olhos das fadas,
ser azul no fundo do mar.
Cada suspiro de nós sabe
a angústia que é ser só um
na multidão dos dias,
ser muito na pobreza da esquina,
ser ninguém na roda da vida.
Enquanto isso os relógios se vão,
e veem aqueles que sabem
o que é apenas ser na
ausência do nada.
sabe o inferno que é ser
sol em noites de chuva,
ser cor nos cinzas dos edifícios,
ser luz na escuridão das manhãs.
Cada todo de ti sabe a delícia
que é ser flor nas asas do vento,
ser cristal nos olhos das fadas,
ser azul no fundo do mar.
Cada suspiro de nós sabe
a angústia que é ser só um
na multidão dos dias,
ser muito na pobreza da esquina,
ser ninguém na roda da vida.
Enquanto isso os relógios se vão,
e veem aqueles que sabem
o que é apenas ser na
ausência do nada.
Clarice Lispector
História de Gilgamesh
Gilgamesh, dois terços deus, um terço homem, vivia em Erech.
Invencível entre os guerreiros, governava com mão de ferro; os jovens o serviam e ele não deixava incólume uma só donzela. O povo rogou a proteção divina, e o senhor do firmamento ordenou a Aruru (a deusa que havia modelado o primeiro homem com argila) que modelasse um ser capaz de enfrentar Gilgamesh e tranquilizar seu povo.
Aruru formou uma criatura a quem deu o nome de Enkidu. Era peludo, tinha longas trancas, cobria-se com peles, vivia com as feras e comia erva. Dedicou-se, também, a destroçar armadilhas e a salvar animais. Quando Gilgamesh se inteirou disso, ordenou que se enviasse a ele uma donzela nua. Enkidu possuiu-a durante sete dias e sete noites, no final das quais as gazelas e as feras o desconheceram e ele notou que suas pernas já não eram tão ligeiras. Havia-se transformado em homem.
A menina achou que Enkidu se tinha tornado formoso.
Convidou-o a conhecer o templo resplandecente onde o deus e a deusa se sentavam juntos, assim como toda a Erech, onde Gilgamesh imperava.
Na véspera do ano novo Gilgamesh preparava-se para a cerimônia da hierogamia quando apareceu Enkidu e o desafiou. A multidão, embora surpreendida, sentiu-se aliviada.
Gilgamesh havia sonhado que estava de pé sob as estrelas, quando do firmamento caía sobre ele um dardo que não se podia arrancar. Depois, uma tocha enorme se incrustava no centro da cidade.
Sua mãe lhe disse que o sonho previa a chegada de um homem mais forte do que ele e que se tornaria seu amigo. Lutaram os dois e Gilgamesh foi atirado ao pó por Enkidu, que compreendeu, todavia, que seu contendor não era um tirano jatancioso e sim um valente que não se desviava. Levantou-o, abraçou-o e ambos firmaram amizade.
Espírito aventureiro, Gilgamesh propôs a Enkidu cortar um dos cedros do bosque sagrado. “Não é fácil — respondeu-lhe este — pois está guardado pelo monstro Humbaba, de voz de trovão, e com um olho único cuja mirada petrifica a quem observa; vomita fogo e seu hálito é uma praga”.
“Que dirás aos teus filhos quando eles te perguntarem o que fazias no dia em que tombou Gilgamesh?”
Isto convenceu Enkidu.
Gilgamesh contou seu plano aos anciãos, ao deus do sol, à sua própria mãe, à rainha celestial Ninsun, e todos o desaprovaram.
Ninsun, que conhecia a teimosia de seu filho, pediu para ele a proteção do deus do sol e a obteve. Então, nomeou Enkidu seu guarda de honra.
Gilgamesh e Enkidu chegaram a floresta dos cedros. O sono venceu-os; O primeiro sonhou que uma montanha desabava sobre ele, quando um homem bem apessoado liberou-o da pesada carga e ajudou-o a pôr-se de pé.
Disse Enkidu: — Está claro que derrotaremos Humbaba.
Enkidu por sua vez sonhou que o céu retumbava e a terra estremecia, que imperavam as trevas, que caía um raio e ocorria um incêndio e que a morte chovia do céu, até que a resplandecência diminuiu, apagou-se o fogo e as centelhas caídas se transformaram em cinza.
Gilgamesh interpretou isto como uma mensagem adversa, porém convidou Enkidu a continuar. Derrubou um dos cedros, e Humbaba se preciptiou sobre eles. Pela primeira vez Gilgamesh sentiu medo. Os dois amigos, porém, dominaram o monstro e lhe cortaram a cabeça.
Gilgamesh limpou-se da poeira e vestiu suas roupas reais. A deusa Istar apresentou-se a ele e pediu que fosse seu amante, prometendo cobri-lo de riquezas e rodeá-lo de deleites. Mas Gilgamesh conhecia a traidora e inflexível Istar, assassina de Tammuz e de inumeráveis amantes. Despeitada, Istar pediu a seu pai que lançasse à terra o touro celestial, e ameaçou romper as portas do inferno e deixar que os mortos sobrepujassem os vivos.
— Quando o touro desça dos céus, sete anos de miséria e de fome cobrirão a terra. Previste isto?
Istar respondeu que sim.
O touro então foi lançado à terra. Enkidu torceu-o pelos chifres e lhe cravou a espada no pescoço. Junto com Gilgamesh, arrancou o coração do animal e ofertou-o ao deus do sol.
Das muralhas de Erech, Istar presenciava a luta. Saltou por cima dos baluartes e amaldiçoou Gilgamesh. Enkidu arrancou as nádegas do touro, atirando-as no rosto da deusa.
— Gostaria de fazer-te o mesmo!
Istar foi derrotada e o povo aclamou os matadores do touro celestial. Mas não é possível zombar dos deuses.
Enkidu sonhou que os deuses estavam reunidos em assembleia, deliberando sobre quem seria o maior culpado, se ele ou Gilgamesh, da morte de Humbaba e do touro celestial. O principal culpado morreria.
Como não chegavam a um acordo, Anu, o pai dos deuses, disse que Gilgamesh, não apenas tinha matado o touro, como também tinha cortado o cedro. A discussão tornou-se violenta e os deuses se insultaram uns aos outros. Enkidu despertou sem conhecer o veredicto.
Narrou seu sonho a Gilgamesh e durante a longa insônia que se seguiu recordou sua despreocupada vida animal. Mas lhe pareceu ouvir vozes que o consolavam.
Várias noites depois tornou a sonhar. Um forte grito chegava do céu até a terra e uma espantosa criatura com cara de leão e asas e garras de águia o apresava e o levava ao vazio. Saíram-lhe plumas dos braços e começou a parecer-se com o ser que o levava. Compreendeu que havia morrido e que uma harpia o arrastava por um caminho sem volta. Chegaram à mansão das trevas, onde as almas dos grandes da terra o rodearam. Eram desajeitados demônios com asas emplumadas, que se alimentavam de restos. A rainha do inferno lia em suas tábuas e pesava os antecedentes dos mortos.
Quando despertou, os dois amigos se inteiraram, do veredicto dos deuses. E Gilgamesh cobriu o rosto de seu amigo com um véu e, com grande dor pensou: Agora já vi o rosto da morte.
Em uma ilha nos confins da terra vivia Utnapishtin, um homem muito, muito velho, o único mortal que havia conseguido escapar da morte. Gilgamesh decidiu buscá-lo e aprender com ele o segredo da vida eterna.
Chegou ao fim do mundo, onde uma altíssima montanha elevava seus picos gêmeos ao firmamento e enfiava suas raízes nos infernos.
Um portão era guardado por criaturas terríveis e perigosas, metade homem, metade escorpião. Avançou decidido e disse aos monstros que ia em busca de Utnapishtin.
— Ninguém jamais chegou até ele nem logrou conhecer o segredo da vida eterna.
— Eu o farei — disse Gilgamesh. E os monstros, compreendendo que se tratava de um mortal não comum, deixaram-no passar.
Penetrou Gilgamesh; o túnel se fazia cada vez mais escuro, até que um ar lhe chegou ao rosto e entreviu uma luz. Quando saiu a elá, encontrou-se em um jardim encantado, onde resplandeciam pedras preciosas.
A voz do deus do sol chegou até ele. Encontrava-se nos jardins das delícias e desfrutava de uma graça que os deuses não haviam outorgado a nenhum mortal. “Não esperes alcançar mais”.
Gilgamesh, porém avançou além do paraíso, até que, cansado, chegou a uma pousada. A estalajadeira Siduri confundiu-o com um vagabundo, mas o viajante se deu a conhecer e contou seu propósito.
— Gilgamesh, nunca encontrarás o que buscas. Os deuses criaram os homens e lhe deram a morte por destino; para eles mesmos reservaram a vida. Saberás que Utnapishtin vive em uma ilha longínqua, além do oceano da morte. Mas eis aqui Urshanabi, seu barqueiro, que se encontra na pousada.
Tanto insistiu Gilgamesh, que Urshanabi concordou em transportá-lo, não sem antes preveni-lo de que por nenhum motivo tocasse as águas do oceano.
Muniram-se de cento e vinte varas, mas foi necessário que Gilgamesh utilizasse sua camisa como vela.
Quando chegaram, Utnapishtin lhe disse: — Ah, jovem, nada há de eterno na terra. A mariposa vive somente um dia. Tudo tem seu tempo e época. Mas eis aqui meu segredo, somente conhecido dos deuses.
E lhe contou a história do dilúvio. O bondoso Ea o havia prevenido, e Utnapishtin construiu uma arca na qual embarcou com sua família e seus animais. Em meio à tempestade navegaram sete dias, e a barca encalhou no topo de uma montanha.
Gilgamesh compreendeu que o ancião não tinha nenhuma fórmula para lhe dar. Era imortal, mas somente por um favor único dos deuses. O que Gilgamesh buscava não poderia ser achado deste lado da sepultura.
Antes de despedir-se, o velho disse ao herói onde poderia achar uma estrela do mar com espinhos de rosa. A planta concedia a quem a saboreasse uma nova juventude! Gilgamesh obteve-a do fundo do oceano, porém quando descansava de seu esforço, uma serpente a roubou, comeu-a, desprendeu-se de sua velha pele e recobrou a juventude.
Gilgamesh compreendeu que seu destino não diferia do destino do resto da humanidade e regressou a Erech.
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"
Invencível entre os guerreiros, governava com mão de ferro; os jovens o serviam e ele não deixava incólume uma só donzela. O povo rogou a proteção divina, e o senhor do firmamento ordenou a Aruru (a deusa que havia modelado o primeiro homem com argila) que modelasse um ser capaz de enfrentar Gilgamesh e tranquilizar seu povo.
Aruru formou uma criatura a quem deu o nome de Enkidu. Era peludo, tinha longas trancas, cobria-se com peles, vivia com as feras e comia erva. Dedicou-se, também, a destroçar armadilhas e a salvar animais. Quando Gilgamesh se inteirou disso, ordenou que se enviasse a ele uma donzela nua. Enkidu possuiu-a durante sete dias e sete noites, no final das quais as gazelas e as feras o desconheceram e ele notou que suas pernas já não eram tão ligeiras. Havia-se transformado em homem.
A menina achou que Enkidu se tinha tornado formoso.
Convidou-o a conhecer o templo resplandecente onde o deus e a deusa se sentavam juntos, assim como toda a Erech, onde Gilgamesh imperava.
Na véspera do ano novo Gilgamesh preparava-se para a cerimônia da hierogamia quando apareceu Enkidu e o desafiou. A multidão, embora surpreendida, sentiu-se aliviada.
Gilgamesh havia sonhado que estava de pé sob as estrelas, quando do firmamento caía sobre ele um dardo que não se podia arrancar. Depois, uma tocha enorme se incrustava no centro da cidade.
Sua mãe lhe disse que o sonho previa a chegada de um homem mais forte do que ele e que se tornaria seu amigo. Lutaram os dois e Gilgamesh foi atirado ao pó por Enkidu, que compreendeu, todavia, que seu contendor não era um tirano jatancioso e sim um valente que não se desviava. Levantou-o, abraçou-o e ambos firmaram amizade.
Espírito aventureiro, Gilgamesh propôs a Enkidu cortar um dos cedros do bosque sagrado. “Não é fácil — respondeu-lhe este — pois está guardado pelo monstro Humbaba, de voz de trovão, e com um olho único cuja mirada petrifica a quem observa; vomita fogo e seu hálito é uma praga”.
“Que dirás aos teus filhos quando eles te perguntarem o que fazias no dia em que tombou Gilgamesh?”
Isto convenceu Enkidu.
Gilgamesh contou seu plano aos anciãos, ao deus do sol, à sua própria mãe, à rainha celestial Ninsun, e todos o desaprovaram.
Ninsun, que conhecia a teimosia de seu filho, pediu para ele a proteção do deus do sol e a obteve. Então, nomeou Enkidu seu guarda de honra.
Gilgamesh e Enkidu chegaram a floresta dos cedros. O sono venceu-os; O primeiro sonhou que uma montanha desabava sobre ele, quando um homem bem apessoado liberou-o da pesada carga e ajudou-o a pôr-se de pé.
Disse Enkidu: — Está claro que derrotaremos Humbaba.
Enkidu por sua vez sonhou que o céu retumbava e a terra estremecia, que imperavam as trevas, que caía um raio e ocorria um incêndio e que a morte chovia do céu, até que a resplandecência diminuiu, apagou-se o fogo e as centelhas caídas se transformaram em cinza.
Gilgamesh interpretou isto como uma mensagem adversa, porém convidou Enkidu a continuar. Derrubou um dos cedros, e Humbaba se preciptiou sobre eles. Pela primeira vez Gilgamesh sentiu medo. Os dois amigos, porém, dominaram o monstro e lhe cortaram a cabeça.
Gilgamesh limpou-se da poeira e vestiu suas roupas reais. A deusa Istar apresentou-se a ele e pediu que fosse seu amante, prometendo cobri-lo de riquezas e rodeá-lo de deleites. Mas Gilgamesh conhecia a traidora e inflexível Istar, assassina de Tammuz e de inumeráveis amantes. Despeitada, Istar pediu a seu pai que lançasse à terra o touro celestial, e ameaçou romper as portas do inferno e deixar que os mortos sobrepujassem os vivos.
— Quando o touro desça dos céus, sete anos de miséria e de fome cobrirão a terra. Previste isto?
Istar respondeu que sim.
O touro então foi lançado à terra. Enkidu torceu-o pelos chifres e lhe cravou a espada no pescoço. Junto com Gilgamesh, arrancou o coração do animal e ofertou-o ao deus do sol.
Das muralhas de Erech, Istar presenciava a luta. Saltou por cima dos baluartes e amaldiçoou Gilgamesh. Enkidu arrancou as nádegas do touro, atirando-as no rosto da deusa.
— Gostaria de fazer-te o mesmo!
Istar foi derrotada e o povo aclamou os matadores do touro celestial. Mas não é possível zombar dos deuses.
Enkidu sonhou que os deuses estavam reunidos em assembleia, deliberando sobre quem seria o maior culpado, se ele ou Gilgamesh, da morte de Humbaba e do touro celestial. O principal culpado morreria.
Como não chegavam a um acordo, Anu, o pai dos deuses, disse que Gilgamesh, não apenas tinha matado o touro, como também tinha cortado o cedro. A discussão tornou-se violenta e os deuses se insultaram uns aos outros. Enkidu despertou sem conhecer o veredicto.
Narrou seu sonho a Gilgamesh e durante a longa insônia que se seguiu recordou sua despreocupada vida animal. Mas lhe pareceu ouvir vozes que o consolavam.
Várias noites depois tornou a sonhar. Um forte grito chegava do céu até a terra e uma espantosa criatura com cara de leão e asas e garras de águia o apresava e o levava ao vazio. Saíram-lhe plumas dos braços e começou a parecer-se com o ser que o levava. Compreendeu que havia morrido e que uma harpia o arrastava por um caminho sem volta. Chegaram à mansão das trevas, onde as almas dos grandes da terra o rodearam. Eram desajeitados demônios com asas emplumadas, que se alimentavam de restos. A rainha do inferno lia em suas tábuas e pesava os antecedentes dos mortos.
Quando despertou, os dois amigos se inteiraram, do veredicto dos deuses. E Gilgamesh cobriu o rosto de seu amigo com um véu e, com grande dor pensou: Agora já vi o rosto da morte.
Em uma ilha nos confins da terra vivia Utnapishtin, um homem muito, muito velho, o único mortal que havia conseguido escapar da morte. Gilgamesh decidiu buscá-lo e aprender com ele o segredo da vida eterna.
Chegou ao fim do mundo, onde uma altíssima montanha elevava seus picos gêmeos ao firmamento e enfiava suas raízes nos infernos.
Um portão era guardado por criaturas terríveis e perigosas, metade homem, metade escorpião. Avançou decidido e disse aos monstros que ia em busca de Utnapishtin.
— Ninguém jamais chegou até ele nem logrou conhecer o segredo da vida eterna.
Guardamos o caminho do sol, que nenhum mortal pode transitar.
— Eu o farei — disse Gilgamesh. E os monstros, compreendendo que se tratava de um mortal não comum, deixaram-no passar.
Penetrou Gilgamesh; o túnel se fazia cada vez mais escuro, até que um ar lhe chegou ao rosto e entreviu uma luz. Quando saiu a elá, encontrou-se em um jardim encantado, onde resplandeciam pedras preciosas.
A voz do deus do sol chegou até ele. Encontrava-se nos jardins das delícias e desfrutava de uma graça que os deuses não haviam outorgado a nenhum mortal. “Não esperes alcançar mais”.
Gilgamesh, porém avançou além do paraíso, até que, cansado, chegou a uma pousada. A estalajadeira Siduri confundiu-o com um vagabundo, mas o viajante se deu a conhecer e contou seu propósito.
— Gilgamesh, nunca encontrarás o que buscas. Os deuses criaram os homens e lhe deram a morte por destino; para eles mesmos reservaram a vida. Saberás que Utnapishtin vive em uma ilha longínqua, além do oceano da morte. Mas eis aqui Urshanabi, seu barqueiro, que se encontra na pousada.
Tanto insistiu Gilgamesh, que Urshanabi concordou em transportá-lo, não sem antes preveni-lo de que por nenhum motivo tocasse as águas do oceano.
Muniram-se de cento e vinte varas, mas foi necessário que Gilgamesh utilizasse sua camisa como vela.
Quando chegaram, Utnapishtin lhe disse: — Ah, jovem, nada há de eterno na terra. A mariposa vive somente um dia. Tudo tem seu tempo e época. Mas eis aqui meu segredo, somente conhecido dos deuses.
E lhe contou a história do dilúvio. O bondoso Ea o havia prevenido, e Utnapishtin construiu uma arca na qual embarcou com sua família e seus animais. Em meio à tempestade navegaram sete dias, e a barca encalhou no topo de uma montanha.
Soltou uma pomba para ver se as águas haviam baixado, porém a ave voltou por não encontrar onde pousar. O mesmo ocorreu com uma andorinha. O corvo, porém, não regressou. Desembarcaram e fizeram oferendas aos deuses, porém o deus dos ventos os fez reembarcar e os conduzir até onde estavam agora, para que aí morassem eternamente.
Gilgamesh compreendeu que o ancião não tinha nenhuma fórmula para lhe dar. Era imortal, mas somente por um favor único dos deuses. O que Gilgamesh buscava não poderia ser achado deste lado da sepultura.
Antes de despedir-se, o velho disse ao herói onde poderia achar uma estrela do mar com espinhos de rosa. A planta concedia a quem a saboreasse uma nova juventude! Gilgamesh obteve-a do fundo do oceano, porém quando descansava de seu esforço, uma serpente a roubou, comeu-a, desprendeu-se de sua velha pele e recobrou a juventude.
Gilgamesh compreendeu que seu destino não diferia do destino do resto da humanidade e regressou a Erech.
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"
A pequena vendedora de fósforos
Era véspera de Natal. Fazia um frio intenso; já estava escurecendo e caía neve. Mas a despeito de todo o frio, e da neve, e da noite, que caía rapidamente, uma criança, uma menina descalça e de cabeça descoberta, vagava pelas ruas. Ela estava calçada quando saiu de casa, mas os chinelos eram muito grandes, pois eram os que a mãe usara, e escaparam-lhe dos pezinhos gelados quando atravessava correndo uma rua para fugir de dois carros que vinham em disparada. Não pôde achar um dos chinelos e o outro apanhou-o um rapazinho, que saiu correndo, gritando que aquilo ia servir de berço aos seus filhos quando os tivesse. A menina continuou a andar, agora com os pés nus e gelados. Levava no avental velhinho uma porção de pacotes de fósforos. Tinha na mão uma caixinha: não conseguira vender uma só em todo o dia, e ninguém lhe dera uma esmola — nem um só cruzeiro.
Assim, morta de fome e de frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e desânimo — a imagem viva da miséria.
Os flocos de neve caíam, pesados, sobre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro. Sentia-se na rua um cheiro bom de pato assado — era a véspera de Natal —; isso sim, ela não esquecia.
Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos, para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém. Era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, em sua casa fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por ele entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas com que lhe tinham tapado as enormes frestas.
Tinha as mãozinhas tão geladas… estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parede para acendê-lo… Ritch!. Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!
Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanetas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os pés enregelados, para aquecê-los, e… tss! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via a parede escura e fria.
Riscou outro. Onde batia a luz, a parede tornava-se transparente como um véu, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa. Sobre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre toda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato, e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo assoalho direto à menina, que estava com tanta fome, e…
Mas — o que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal! Oh! Era muito maior e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele mesmo Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos, milhares de velinhas. Estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços diante de tantos esplendores, e então, então… apagou-se o fósforo. Todas as luzinhas da árvore de Natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrelas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu, lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.
— Morreu alguém — disse a criança.
Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que já estava morta, lhe dizia sempre que, quando uma estrela desce, é que uma alma subiu para o céu.
Agora ela acendeu outro fósforo; e desta vez foi a avó quem lhe apareceu, a sua boa avó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.
— Vovó! — gritou a pobre menina. Leva-me contigo… Já sei que, quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como sumiram a estufa quente, o pato assado e a linda árvore de Natal!
E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E eles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão grandiosa, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe… longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo, porque elas estavam, agora, no céu com Deus.
A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de felicidade. Morta. Morta de frio, na noite de Natal.
A luz do Natal iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mãozinha cheia de fósforos queimados.
— Sem dúvida, ela quis aquecer-se — diziam.
Mas… ninguém soube que lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem com que júbilo tinha entrado com a avó nas glórias do Natal no Paraíso.
Hans Christian Andersen
Assim, morta de fome e de frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e desânimo — a imagem viva da miséria.
Os flocos de neve caíam, pesados, sobre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro. Sentia-se na rua um cheiro bom de pato assado — era a véspera de Natal —; isso sim, ela não esquecia.
Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos, para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém. Era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, em sua casa fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por ele entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas com que lhe tinham tapado as enormes frestas.
Tinha as mãozinhas tão geladas… estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parede para acendê-lo… Ritch!. Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!
Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanetas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os pés enregelados, para aquecê-los, e… tss! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via a parede escura e fria.
Riscou outro. Onde batia a luz, a parede tornava-se transparente como um véu, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa. Sobre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre toda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato, e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo assoalho direto à menina, que estava com tanta fome, e…
Mas — o que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal! Oh! Era muito maior e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele mesmo Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos, milhares de velinhas. Estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços diante de tantos esplendores, e então, então… apagou-se o fósforo. Todas as luzinhas da árvore de Natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrelas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu, lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.
— Morreu alguém — disse a criança.
Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que já estava morta, lhe dizia sempre que, quando uma estrela desce, é que uma alma subiu para o céu.
Agora ela acendeu outro fósforo; e desta vez foi a avó quem lhe apareceu, a sua boa avó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.
— Vovó! — gritou a pobre menina. Leva-me contigo… Já sei que, quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como sumiram a estufa quente, o pato assado e a linda árvore de Natal!
E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E eles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão grandiosa, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe… longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo, porque elas estavam, agora, no céu com Deus.
A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de felicidade. Morta. Morta de frio, na noite de Natal.
A luz do Natal iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mãozinha cheia de fósforos queimados.
— Sem dúvida, ela quis aquecer-se — diziam.
Mas… ninguém soube que lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem com que júbilo tinha entrado com a avó nas glórias do Natal no Paraíso.
Hans Christian Andersen
quarta-feira, setembro 9
Smith-Corona versus Vat-69
Hoje eu colocarei pequenas lâmpadas em todos os lírios, e acenderei os campos da Terra para que a Lua, quando nasça, pense que está bêbada, e que o Infinito virou ao contrário, e vomite sobre o Mundo uma galáxia multicor.
Depois me mandarei a Marte (mandar-me-ei a Marte)? num foguete interplanetário onde haja um único LP (e a quem decifrá-lo, em cartas à redação, eu, esfingético, o devorarei).
E partirei para a ignorância, com Jayme Ovalle, Arletty e Katchaturian, pregando rabos de papel em futuros camelôs da República e desenhando a carvão sobre os muros brancos a fórmula da desagregação da rosa.
Mas que não me exorcizem os clérigos, nem que prendam os "tiras", pois eu os perfurarei de semifusas com a minha guitarra automática, e se forem muitos, os debandarei com violentas granadas mias.
Porque ou muito me engano ou tomarei um pileque de Arpège e beijarei novamente o rosto do poeta Carlos, e mergulharei no largo do Passeio Público para procurar meus óculos, enquanto o arquiteto Carlos arranca os cabelos, e depois reinventarei a TV com o desenhista Carlos, e terminarei dando um balão no compadre Carlos, de cujo mármore será feita a minha lápide.
E que não me venham dizer que é tarde, que não há divisas e Feu Mathias Pascal quer dizer que ele morreu. Tampouco vociferem contra o cravo, contra Tchaikovski e contra as panelas a jacto. Cabe de tudo neste mundo, filhos meus. Não é à toa que os homens do Nepal não querem nada com as mulheres de Cochabamba.
E depois há o problema da transcendência do mito, da ubiqüidade do pito e do werbundenshaft. Mas eu partirei, altivo e desdenhoso, e deixar-me-ei, esquivo, lá onde Zaratustra vivia rododendro as unhas de inveja de Prometeu.
E cantarei a caraboo comendo carambolas no quintal de meu ex-avô. E porei borboletas em moringas, sapatos em geladeiras e faturas em cavernas. Abúlico, seguirei a rota de Livingstone para ir desaguar no Elephant Blanc. Beberei champanha em fêmures e erguerei um brinde à ordem nova. Nova, uma ova!
É Flórida. Em verdade vos digo que é Flórida, é mais que Flórida é Florença, e mais que Florença é Florianópolis. E antes que venha Floriano, reelejamos Deodoro. Ou dê, ou doro! E necalina de virivizera, senão eu chamo o Moringueira pra lhe passar uma rasteira, e eu sei que ele não se restringe de lhe riscar uma solinge desde o maneco até a esfinge. Tá bom? Porque a verdade é que é tudo mu-munha, MU-MUNHA! E não me venha com essa história de Crato que eu sou é de Fortaleza, j'oviu? e conheço Gilberto, Antiógenes, e João Condé, j'oviu? E sou dono de boate em Maceió e de serviço de marinete em Feira de Sant'Ana e tenho mucho dinheiro para comprar até bomba de gasolina feito o Frederico C. esse homem bom cabra da peste com nome de navio, que quase que trouche Marlene mas trouche Sara Vagão, o danado do homem trouche, homem danado!
Sabem que foi Saleuco? Scotus? Schutzenberger? Conhece Seleções? Qual é o seu I.Q.? Acaso dir-me-ia o que é, dir-me-ia, acaso, o que é diácope?
É inútil, ó Revisor. Não é mesmo para entender. Remember Stanislaw. Não toqueis! Noli me tangere! Não é tangerina não que eu queria dizer, ouviu, Revisor?
Montevideanamente vosso…
Vinicius de Moraes, "Para viver um grande amor"
Depois me mandarei a Marte (mandar-me-ei a Marte)? num foguete interplanetário onde haja um único LP (e a quem decifrá-lo, em cartas à redação, eu, esfingético, o devorarei).
E partirei para a ignorância, com Jayme Ovalle, Arletty e Katchaturian, pregando rabos de papel em futuros camelôs da República e desenhando a carvão sobre os muros brancos a fórmula da desagregação da rosa.
Mas que não me exorcizem os clérigos, nem que prendam os "tiras", pois eu os perfurarei de semifusas com a minha guitarra automática, e se forem muitos, os debandarei com violentas granadas mias.
Porque ou muito me engano ou tomarei um pileque de Arpège e beijarei novamente o rosto do poeta Carlos, e mergulharei no largo do Passeio Público para procurar meus óculos, enquanto o arquiteto Carlos arranca os cabelos, e depois reinventarei a TV com o desenhista Carlos, e terminarei dando um balão no compadre Carlos, de cujo mármore será feita a minha lápide.
E que não me venham dizer que é tarde, que não há divisas e Feu Mathias Pascal quer dizer que ele morreu. Tampouco vociferem contra o cravo, contra Tchaikovski e contra as panelas a jacto. Cabe de tudo neste mundo, filhos meus. Não é à toa que os homens do Nepal não querem nada com as mulheres de Cochabamba.
Mais vale um mamão na mão que uma mão no pé. É ou não é? Purque si num fô eu vô contá pa Exu ti castigá fazê mandinga cantá maringá acarajé camocim sobral.
E depois há o problema da transcendência do mito, da ubiqüidade do pito e do werbundenshaft. Mas eu partirei, altivo e desdenhoso, e deixar-me-ei, esquivo, lá onde Zaratustra vivia rododendro as unhas de inveja de Prometeu.
E cantarei a caraboo comendo carambolas no quintal de meu ex-avô. E porei borboletas em moringas, sapatos em geladeiras e faturas em cavernas. Abúlico, seguirei a rota de Livingstone para ir desaguar no Elephant Blanc. Beberei champanha em fêmures e erguerei um brinde à ordem nova. Nova, uma ova!
Ordem era a ordem-unida com a moçada marchando firme ali pelo Ibirapuera um-dois-feijão-com-arroz o sargento Carlão gritando alto! pra comê umas melancias a gente se rindo cutuba!
É Flórida. Em verdade vos digo que é Flórida, é mais que Flórida é Florença, e mais que Florença é Florianópolis. E antes que venha Floriano, reelejamos Deodoro. Ou dê, ou doro! E necalina de virivizera, senão eu chamo o Moringueira pra lhe passar uma rasteira, e eu sei que ele não se restringe de lhe riscar uma solinge desde o maneco até a esfinge. Tá bom? Porque a verdade é que é tudo mu-munha, MU-MUNHA! E não me venha com essa história de Crato que eu sou é de Fortaleza, j'oviu? e conheço Gilberto, Antiógenes, e João Condé, j'oviu? E sou dono de boate em Maceió e de serviço de marinete em Feira de Sant'Ana e tenho mucho dinheiro para comprar até bomba de gasolina feito o Frederico C. esse homem bom cabra da peste com nome de navio, que quase que trouche Marlene mas trouche Sara Vagão, o danado do homem trouche, homem danado!
Sabem que foi Saleuco? Scotus? Schutzenberger? Conhece Seleções? Qual é o seu I.Q.? Acaso dir-me-ia o que é, dir-me-ia, acaso, o que é diácope?
É inútil, ó Revisor. Não é mesmo para entender. Remember Stanislaw. Não toqueis! Noli me tangere! Não é tangerina não que eu queria dizer, ouviu, Revisor?
Montevideanamente vosso…
Vinicius de Moraes, "Para viver um grande amor"
As pessoas sensíveis
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão.”
Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Livro sexto"
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão.”
Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Livro sexto"
Amigo tempo
O rapazola tocava os pés com as mãos; agora elas só chegam até o meio das canelas.
Obrigado, amigo, por me lembrar que quanto mais a gente se alonga, mais você encurta.
Obrigado por me deixar rever, no álbum de fotos, a carinha bonita que eu tinha aos nove anos…
Obrigado por trazer e levar tantos amigos, me dando a saudade que tanto e nada dá.
Obrigado por me dar netos, eu menino repetido e variado.
Afinal, amigo é para essas ironias: me mostras enfim o menino que deixei de ser e, através dos netos e dos bisnetos e seus filhos e netos, sempre serei.
Obrigado por me deixar chegar a um tempo em que pobre descobre que só trabalhando vai viver bem: é a Bolsa-Tempo…
Obrigado por dar tempo aos erros para se corrigirem, como também tempo aos acertos para não se exibirem, ou já começarão a errar.
Obrigado por domar o garanhão que queria todas as mulheres do mundo, mostrando que só fiel pode merecer a melhor mulher.
Obrigado por curar as feridas e fazer ver com carinho as cicatrizes.
Obrigado por deixar ver que há dias malditos e dias felizes, mas todos são dias a ser vividos.
Obrigado por ensinar que a melhor forma de merecer é, antes de tudo, agradecer.
Obrigado por mostrar que só o trabalha constrói e o Estado constrói muito menos do que suga, obrigado por ensinar que é vital eliminar parasitas e sanguessugas.
Obrigado, amigo, pelo longo curso que tive com tua filha Paciência, mãe de todas as ciências.
Obrigado pelas orquídeas, que tanto florem com tão pouca terra; e pela hera, que tanto agarra a vida; e pelos urubus que, apesar de comerem carniça, voam soberbos e altivos.
Obrigado, amigo, pela sede, que nos renova o prazer da água, e pela fome, comunhão diária com que nos alentas e nos consome.
Obrigado pelas estrelas, a apontar nossa infinita pequenez, e pela lesma, a nos mostrar sua lerda rapidez.
Obrigado pelo cão que me olha com amor, o passarinho que saltita na grama, as nuvens que, sem parecer que mudam, mudam sem parar.
Obrigado pelo olhar de ternura da minha mulher, o choro obstinado do bebê, o aperto de mão caloroso, o afeto sincero, o tropeço oportuno.
Obrigado pelo poente rubro, onde descubro paz de repente.
Obrigado pela linguagem que nos deste, lá no tempo das fogueiras e das cavernas, e que hoje lançamos ao mundo pela internet.
Obrigado por mais este dia, pela graça da poesia, e pela fumaça com cheiro de café torrado da chácara vizinha.
Obrigado por tudo e por cada coisinha, pela xícara trincada e pela jóia perfeita, tudo que foi e tudo que será feito.
Obrigado por existires, amigo, ou nada existiria. Fica com Deus, ou melhor, sejamos Deus, nas suas tantas formas de ser.
Obrigado, Tempo, pelas trevas e pela luz, inseparável amigo que para além do tempo nos conduz, obrigado.
Obrigado, amigo, por me lembrar que quanto mais a gente se alonga, mais você encurta.
Obrigado por me deixar rever, no álbum de fotos, a carinha bonita que eu tinha aos nove anos…
Obrigado por trazer e levar tantos amigos, me dando a saudade que tanto e nada dá.
Obrigado por me dar netos, eu menino repetido e variado.
Afinal, amigo é para essas ironias: me mostras enfim o menino que deixei de ser e, através dos netos e dos bisnetos e seus filhos e netos, sempre serei.
Obrigado por me deixar chegar a um tempo em que pobre descobre que só trabalhando vai viver bem: é a Bolsa-Tempo…
Obrigado por dar tempo aos erros para se corrigirem, como também tempo aos acertos para não se exibirem, ou já começarão a errar.
Obrigado por domar o garanhão que queria todas as mulheres do mundo, mostrando que só fiel pode merecer a melhor mulher.
Obrigado por curar as feridas e fazer ver com carinho as cicatrizes.
Obrigado por deixar ver que há dias malditos e dias felizes, mas todos são dias a ser vividos.
Obrigado por ensinar que a melhor forma de merecer é, antes de tudo, agradecer.
Obrigado por mostrar que só o trabalha constrói e o Estado constrói muito menos do que suga, obrigado por ensinar que é vital eliminar parasitas e sanguessugas.
Obrigado, amigo, pelo longo curso que tive com tua filha Paciência, mãe de todas as ciências.
Obrigado pelas orquídeas, que tanto florem com tão pouca terra; e pela hera, que tanto agarra a vida; e pelos urubus que, apesar de comerem carniça, voam soberbos e altivos.
Obrigado, amigo, pela sede, que nos renova o prazer da água, e pela fome, comunhão diária com que nos alentas e nos consome.
Obrigado pelas estrelas, a apontar nossa infinita pequenez, e pela lesma, a nos mostrar sua lerda rapidez.
Obrigado pelo cão que me olha com amor, o passarinho que saltita na grama, as nuvens que, sem parecer que mudam, mudam sem parar.
Obrigado pelo olhar de ternura da minha mulher, o choro obstinado do bebê, o aperto de mão caloroso, o afeto sincero, o tropeço oportuno.
Obrigado pelo poente rubro, onde descubro paz de repente.
Obrigado pela linguagem que nos deste, lá no tempo das fogueiras e das cavernas, e que hoje lançamos ao mundo pela internet.
Obrigado por mais este dia, pela graça da poesia, e pela fumaça com cheiro de café torrado da chácara vizinha.
Obrigado por tudo e por cada coisinha, pela xícara trincada e pela jóia perfeita, tudo que foi e tudo que será feito.
Obrigado por existires, amigo, ou nada existiria. Fica com Deus, ou melhor, sejamos Deus, nas suas tantas formas de ser.
Obrigado, Tempo, pelas trevas e pela luz, inseparável amigo que para além do tempo nos conduz, obrigado.
Uma tarde plena
O sagui é tão pequeno como um rato, e da mesma cor.
A mulher, depois de se sentar no ônibus e de lançar uma tranquila vista de proprietária pelos bancos, engoliu um grito: ao seu lado, na mão de um homem gordo, estava aquilo que parecia um rato inquieto e que na verdade era um vivíssimo sagui. Os primeiros momentos da mulher versus sagui foram gastos em procurar sentir que não se tratava de um rato disfarçado.
Quando isso foi conseguido, começaram momentos deliciosos e intensos: a observação do bicho. O ônibus inteiro, aliás, não fazia outra coisa.
Mas era privilégio da mulher estar ao lado do personagem principal. De onde estava podia, por exemplo, reparar na minimeza que é uma língua de sagui: um risco de lápis vermelho.
E havia os dentes também: quase que se poderiam contar cerca de milhares de dentes dentro do risco da boca, e cada lasca menor que a outra, e mais branca. O sagui não fechou a boca um instante.
Os olhos eram redondos, hipertireóidicos, combinando com um ligeiro prognatismo – e essa mistura, se lhe dava um ar estranhamente impudico, formava uma cara meio oferecida de menino de rua, desses que estão permanentemente resfriados e que ao mesmo tempo chupam bala e fungam o nariz.
Quando o sagui deu um pulo no colo da senhora, esta conteve um frisson, e o prazer encabulado de quem foi eleita.
Mas os passageiros olharam-na com simpatia, aprovando o acontecimento, e, um pouco ruborizada, ela aceitou ser a tímida favorita. Não o acariciou porque não sabia se esse era o gesto a ser feito.
E nem o bicho sofria à míngua de carinho. Na verdade o seu dono, o homem gordo, tinha por ele um amor sólido e severo, de pai para filho, de dono para mulher. Era um homem que, sem um sorriso, tinha o chamado coração de ouro. A expressão de seu rosto era até trágica, como se ele tivesse missão. Missão de amar? O sagui era o seu cachorro na vida.
O ônibus, na brisa, como embandeirado, avançava. O sagui comeu um biscoito. O sagui coçou rapidamente a redonda orelha com a perna fina de trás. O sagui guinchou. Pendurou-se na janela, e espiou o mais depressa que podia – despertando nos ônibus opostos caras que se espantavam e que não tinham tempo de averiguar se tinham mesmo visto o que tinham visto.
Enquanto isso, perto da senhora, uma outra senhora contou a outra senhora que tinha um gato. Quem tinha posses de amor, contou.
Foi nesse ambiente de família feliz que um caminhão quis passar à frente do ônibus, houve quase encontro fatal, os gritos. Todos saltaram depressa. A senhora, atrasada, com hora marcada, tomou um táxi.
Só no táxi lembrou-se de novo do sagui.
E lamentou com um sorriso sem graça que – sendo os dias que correm tão cheios de notícias nos jornais e com tão poucas para ela – tivessem os acontecimentos se distribuído tão mal a ponto de um sagui e um quase desastre sucederem na mesma hora.
“Aposto” – pensou – “que nada mais me acontecerá durante muito tempo, aposto que agora vou entrar no tempo das vacas magras.” Que era em geral seu tempo.
Mas nesse mesmo dia aconteceram outras coisas. Todas até que dentro da categoria de bens declaráveis. Só que não eram comunicáveis. Essa mulher era, aliás, um pouco silenciosa para si mesma e não se entendia muito bem consigo própria.
Mas assim é. E jamais se soube de um sagui que tenha deixado de nascer, viver e morrer – só por não se entender ou não ser entendido.
De qualquer modo fora uma tarde embandeirada.
BILHETE A ÉRICO VERÍSSIMO
Não concordo com você que disse: “Desculpem, mas não sou profundo”.
Você é profundamente humano – e que mais se pode querer de uma pessoa? Você tem grandeza de espírito. Um beijo para você, Érico.
Clarice Lispector, "Onde Estivestes de Noite"
A mulher, depois de se sentar no ônibus e de lançar uma tranquila vista de proprietária pelos bancos, engoliu um grito: ao seu lado, na mão de um homem gordo, estava aquilo que parecia um rato inquieto e que na verdade era um vivíssimo sagui. Os primeiros momentos da mulher versus sagui foram gastos em procurar sentir que não se tratava de um rato disfarçado.
Quando isso foi conseguido, começaram momentos deliciosos e intensos: a observação do bicho. O ônibus inteiro, aliás, não fazia outra coisa.
Mas era privilégio da mulher estar ao lado do personagem principal. De onde estava podia, por exemplo, reparar na minimeza que é uma língua de sagui: um risco de lápis vermelho.
E havia os dentes também: quase que se poderiam contar cerca de milhares de dentes dentro do risco da boca, e cada lasca menor que a outra, e mais branca. O sagui não fechou a boca um instante.
Os olhos eram redondos, hipertireóidicos, combinando com um ligeiro prognatismo – e essa mistura, se lhe dava um ar estranhamente impudico, formava uma cara meio oferecida de menino de rua, desses que estão permanentemente resfriados e que ao mesmo tempo chupam bala e fungam o nariz.
Quando o sagui deu um pulo no colo da senhora, esta conteve um frisson, e o prazer encabulado de quem foi eleita.
Mas os passageiros olharam-na com simpatia, aprovando o acontecimento, e, um pouco ruborizada, ela aceitou ser a tímida favorita. Não o acariciou porque não sabia se esse era o gesto a ser feito.
E nem o bicho sofria à míngua de carinho. Na verdade o seu dono, o homem gordo, tinha por ele um amor sólido e severo, de pai para filho, de dono para mulher. Era um homem que, sem um sorriso, tinha o chamado coração de ouro. A expressão de seu rosto era até trágica, como se ele tivesse missão. Missão de amar? O sagui era o seu cachorro na vida.
O ônibus, na brisa, como embandeirado, avançava. O sagui comeu um biscoito. O sagui coçou rapidamente a redonda orelha com a perna fina de trás. O sagui guinchou. Pendurou-se na janela, e espiou o mais depressa que podia – despertando nos ônibus opostos caras que se espantavam e que não tinham tempo de averiguar se tinham mesmo visto o que tinham visto.
Enquanto isso, perto da senhora, uma outra senhora contou a outra senhora que tinha um gato. Quem tinha posses de amor, contou.
Foi nesse ambiente de família feliz que um caminhão quis passar à frente do ônibus, houve quase encontro fatal, os gritos. Todos saltaram depressa. A senhora, atrasada, com hora marcada, tomou um táxi.
Só no táxi lembrou-se de novo do sagui.
E lamentou com um sorriso sem graça que – sendo os dias que correm tão cheios de notícias nos jornais e com tão poucas para ela – tivessem os acontecimentos se distribuído tão mal a ponto de um sagui e um quase desastre sucederem na mesma hora.
“Aposto” – pensou – “que nada mais me acontecerá durante muito tempo, aposto que agora vou entrar no tempo das vacas magras.” Que era em geral seu tempo.
Mas nesse mesmo dia aconteceram outras coisas. Todas até que dentro da categoria de bens declaráveis. Só que não eram comunicáveis. Essa mulher era, aliás, um pouco silenciosa para si mesma e não se entendia muito bem consigo própria.
Mas assim é. E jamais se soube de um sagui que tenha deixado de nascer, viver e morrer – só por não se entender ou não ser entendido.
De qualquer modo fora uma tarde embandeirada.
BILHETE A ÉRICO VERÍSSIMO
Não concordo com você que disse: “Desculpem, mas não sou profundo”.
Você é profundamente humano – e que mais se pode querer de uma pessoa? Você tem grandeza de espírito. Um beijo para você, Érico.
Clarice Lispector, "Onde Estivestes de Noite"
O chamado da espécie
Os meses iam e vinham. Havia muita comida e nenhum trabalho na Terra do Sul, e Caninos Brancos vivia gordo, próspero e feliz. Ele não estava apenas no sul geográfico, mas no sul da vida. A bondade humana era como um sol brilhante sobre Caninos Brancos, e ele florescia como uma flor plantada em terra boa.
Mas continuava de certa maneira diferente dos outros cachorros. Conhecia a lei até melhor do que os cachorros que não tinham conhecido outra vida, e observava a lei mais escrupulosamente, mas ainda assim havia nele uma sugestão de ferocidade à espreita, como se a Floresta ainda permanecesse em Caninos Brancos e o lobo dentro dele apenas dormisse.
Ele nunca fazia amizade com os outros cachorros. Tinha vivido solitário, no que dizia respeito à sua espécie, e solitário continuaria a viver. Nos seus dias de filhote, sob a perseguição de Lip-lip e o bando de cachorrinhos, e nos seus dias de luta com Beleza Smith, ele tinha adquirido uma aversão fixa por cachorros. O curso natural da sua vida fora desviado, e, afastando-se da sua espécie, ele se ligara ao humano.
Além disso, todos os cachorros do sul o olhavam com suspeição. Ele despertava neles o medo instintivo da Floresta, e eles sempre o saudavam com rosnados, grunhidos e um ódio beligerante. Por outro lado, aprendeu que não era necessário usar os seus dentes neles. As presas à mostra e os lábios torcidos eram em geral eficazes, raramente deixando de forçar o cachorro que investia aos gritos a recuar sobre as ancas.
Mas havia um tormento na vida de Caninos Brancos – Collie. Ela nunca lhe dava um momento de paz. Não era tão receptiva à lei como ele. Desafiava todos os esforços do dono para que se tornasse amiga de Caninos Brancos. Nos ouvidos desse, nunca deixava de soar o seu rosnado agudo e nervoso. Ela nunca lhe perdoara o episódio da matança das galinhas, e persistia na crença de que as intenções de Caninos Brancos eram ruins. Ela o considerava culpado antes do ato, e tratava-o de acordo com esse julgamento. Tornou-se uma peste para ele, seguindo-o como um policial pelo estábulo e pelo terreno, e se ele se atrevia a olhar curiosamente para uma pomba ou galinha, irrompia num alarido de indignação e fúria. Quanto a Caninos Brancos, o modo favorito de ignorá-la era deitar-se, com a cabeça sobre as patas dianteiras, e fingir que dormia. Isso sempre a confundia e silenciava.
À exceção de Collie, tudo ia bem para Caninos Brancos. Ele aprendera controle e equilíbrio, e conhecia a lei. Alcançou uma serenidade, uma calma, uma tolerância filosófica. Já não vivia num ambiente hostil. O perigo, a dor e a morte não rondavam à espreita por toda parte. Com o tempo, o desconhecido, como um terror e ameaça sempre iminente, esmaecia. A vida era suave e fácil. Fluía sem obstáculos, e nem o medo nem o inimigo o espreitavam pelo caminho.
Sentia saudades da neve sem disso ter consciência. “Um verão estranhamente longo” teria sido o seu pensamento, se tivesse pensado a respeito; nas circunstâncias, apenas sentia saudades da neve de um modo vago e subconsciente. Da mesma forma, especialmente no calor do verão quando sofria com o sol forte, experimentava tênues saudades do norte. No entanto, o único efeito dessa saudade sobre Caninos Brancos era deixá-lo inquieto e desassossegado sem saber o que o incomodava.
Caninos Brancos jamais fora de demonstrar o afeto. Além de se aconchegar e introduzir uma nota sentimental no seu grunhido de amor, não tinha como expressar o seu sentimento. Mas foi-lhe dado descobrir uma terceira maneira. Ele sempre fora suscetível ao riso dos deuses. O riso sempre lhe provocara loucura, deixando-o frenético de raiva. Mas não estava na sua natureza zangar-se com o senhor do amor, e quando o deus decidiu rir de Caninos Brancos de um modo bonachão e por brincadeira, ele ficou confuso. Sentiu a ferroada e o acicate da velha raiva lutando para crescer no seu interior, mas ela lutava contra o amor. Não conseguiu se zangar, mas tinha de fazer alguma coisa. A princípio assumiu uma pose digna, e o dono riu ainda mais. Depois tentou ser mais digno, e o dono riu com mais força do que antes. Por fim, os risos do dono acabaram com a sua dignidade. As mandíbulas se abriram levemente, os lábios levantaram um pouco, uma expressão zombeteira, mais amor que humor, apareceu nos seus olhos. Ele aprendera a rir.
Da mesma forma, aprendeu a fazer brincadeiras com o dono, a ser derrubado e rolado pelo chão, a ser a vítima de inúmeros truques violentos. Em troca fingia raiva, eriçando o pelo e rosnando ferozmente, estalando os dentes em mordidas que tinham toda a aparência de intenção mortal. Mas ele nunca perdia a cabeça. As mordidas eram sempre dadas no ar vazio. Ao fim de uma dessas brincadeiras rudes, quando os golpes, bofetadas, mordidas e rosnados eram rápidos e furiosos, eles se separavam de repente e paravam a alguns metros de distância, olhando um para o outro. E depois, com a mesma subitaneidade, como o sol nascendo num mar de tempestade, começavam a rir. Isso sempre culminava com os braços do dono se fechando ao redor do pescoço e ombros de Caninos Brancos, enquanto o último emitia e rosnava o seu canto de amor.
Mas ninguém mais fazia dessas brincadeiras com Caninos Brancos. Ele não o permitia. Fazia questão da sua dignidade e, quando tentavam qualquer brincadeira, o seu rosnado de aviso e o pelo eriçado eram tudo menos travessos. O fato de dar ao dono essas liberdades não era razão para que fosse um cachorro comum, amando aqui e amando ali, o objeto de qualquer um para uma brincadeira e uma boa diversão. Ele amava com um coração exclusivista, recusando-se a baratear a si mesmo ou ao seu amor.
O dono saía bastante a cavalo, e acompanhá-lo era um dos principais deveres na vida de Caninos Brancos. Na Terra do Norte, ele demonstrara a sua lealdade labutando nos arreios; mas não havia trenós na Terra do Sul, nem os cachorros transportavam cargas nos lombos. Assim ele manifestava a sua lealdade de outro modo, correndo com o cavalo do dono. O dia mais longo jamais o deixava exausto. Ele tinha o caminhar do lobo, macio, incansável e sem esforço, e ao final de oitenta quilômetros chegava lépido à frente do cavalo.
Foi em conexão com as cavalgadas que Caninos Brancos alcançou outro modo de expressão – notável porque o utilizou apenas duas vezes em toda a sua vida. A primeira vez ocorreu quando o dono estava tentando ensinar a um puro-sangue fogoso o método de abrir e fechar portões sem que o cavaleiro precisasse apear. Muitas e repetidas vezes, ele emparelhou o cavalo com o portão tentando fechá-lo, mas toda vez o cavalo se assustava, recuava e arremetia para longe. O animal ficava mais nervoso e excitado a cada momento. Quando empinava, o dono o esporeava obrigando-o a repor as patas dianteiras no chão, com o que ele começava a dar coices com as patas traseiras. Caninos Brancos observava esses movimentos com uma ansiedade crescente até não poder mais se conter, quando pulou na frente do cavalo e latiu selvagem e ameaçadoramente.
Embora muitas vezes tentasse latir depois desse episódio, e o dono o encorajasse, só conseguiu latir apenas mais uma vez, e então não foi na presença do dono. Uma correria pelo pasto, uma lebre aparecendo de repente embaixo das patas do cavalo, uma guinada violenta, um tropeção, uma queda e uma perna quebrada para o dono foram a causa do latido. Caninos Brancos pulou com fúria na garganta do cavalo agressor, mas foi contido pela voz do dono.
– Para casa! Vá para casa! – comandou o dono, quando tinha se certificado do seu ferimento.
Caninos Brancos não tinha vontade de abandoná-lo. O dono pensou em escrever uma nota, mas procurou em vão lápis e papel nos seus bolsos. Mais uma vez ordenou que Caninos Brancos fosse para casa.
O último o olhou ansioso, partiu, depois retornou e ganiu baixinho. O dono lhe falou com uma voz gentil mas séria, e ele levantou as orelhas e escutou com uma atenção dolorida.
– Tudo bem, meu velho, apenas corra para casa – dizia a voz. – Vá para casa e conte o que aconteceu comigo. Para casa, lobo. Trate de ir para casa!
Caninos Brancos sabia o significado de “casa” e, embora não compreendesse o restante da conversa, sabia que a vontade do dono era que ele fosse para casa. Virou-se e partiu relutante. Depois parou, indeciso, e olhou para trás por cima do ombro.
– Para casa! – foi o comando áspero, e desta vez ele obedeceu.
A família estava na varanda, tomando o ar fresco da tarde, quando Caninos Brancos apareceu. Meteu-se entre as pessoas, ofegante, coberto de poeira. – Weedon está de volta – anunciou a mãe de Weedon.
As crianças acolheram Caninos Brancos com gritos de alegria e correram ao seu encontro. Ele as evitou e passou pela varanda, mas elas o encurralaram contra uma cadeira de balanço e a balaustrada. Ele rosnou e tentou abrir caminho entre elas. A mãe olhou apreensiva na sua direção.
– Confesso que ele me deixa nervosa ao redor das crianças – disse. – O meu pavor é que algum dia ele as ataque sem mais nem menos.
Rosnando selvagemente, Caninos Brancos pulou do seu canto, derrubando o menino e a menina. A mãe os chamou e consolou, dizendo-lhes para deixar Caninos Brancos em paz.
– Um lobo é um lobo – comentou o juiz Scott. – Não dá para confiar em nenhum.
– Mas ele não é todo lobo – interveio Beth, falando pelo irmão na sua ausência.
– Você só tem a opinião de Weedon a esse respeito – replicou o juiz. – Ele meramente presume que haja algum sangue de cachorro em Caninos Brancos, mas, como ele próprio lhe dirá, nada sabe a esse respeito. Quanto à aparência de Caninos Brancos...
Ele não terminou a frase. Caninos Brancos estava na sua frente, rosnando ferozmente.
– Vai embora! Deita! – comandou o juiz Scott.
Caninos Brancos virou-se para a esposa do senhor do amor. Ela gritou de susto, quando ele agarrou o vestido com os dentes e puxou-o até o tecido frágil se rasgar. A essa altura, Caninos Brancos tinha se tornado o centro das atenções. Ele deixara de rosnar e estava parado, a cabeça levantada, olhando nas suas faces. A garganta se mexia espasmodicamente, mas não produzia som, enquanto ele lutava com todo o seu corpo, convulsionado pelo esforço de livrar-se de algo incomunicável que forcejava para ser expresso.
– Espero que não esteja ficando louco – disse a mãe de Weedon. – Falei para Weedon que o clima quente talvez não fizesse bem a um animal ártico.
– Acho que ele está tentando falar – anunciou Beth.
Nesse momento a fala acudiu a Caninos Brancos, irrompendo numa grande explosão de latidos.
– Alguma coisa aconteceu a Weedon – disse a esposa resolutamente.
Agora estavam todos de pé, e Caninos Brancos desceu correndo os degraus, olhando para trás para que o seguissem. Pela segunda e última vez na sua vida, ele latira e se fizera compreender.
Depois desse acontecimento, Caninos Brancos encontrou um lugar mais caloroso nos corações do pessoal de Sierra Vista, e até o criado cujo braço ele tinha rasgado admitia que era um cachorro muito sábio, mesmo que fosse um lobo. O juiz Scott ainda mantinha a sua opinião, e para o desagrado de todos provava o seu pensamento por medições e descrições tiradas da enciclopédia e de várias obras de história natural.
Os dias iam e vinham, despejando o brilho ininterrupto do sol sobre o Vale Santa Clara. Mas, quando se tornaram mais curtos e começou o segundo inverno de Caninos Brancos na Terra do Sul, ele fez uma estranha descoberta. Os dentes de Collie já não eram afiados. Havia um quê de brincadeira nas suas mordidas e uma gentileza que os impedia de machucar de verdade. Ele esqueceu que ela tornara a sua vida um fardo e, quando ela cabriolava ao seu redor, reagia de forma solene, procurando ser brincalhão e tornando-se nada menos que ridículo.
Certo dia, ela o levou para uma longa perseguição pelo pasto dos fundos e dentro da mata. Era a tarde em que o dono devia cavalgar, e Caninos Brancos sabia disso. O cavalo estava selado e esperando à porta. Caninos Brancos hesitou. Mas havia nele algo mais profundo do que toda a lei que tinha aprendido, do que os costumes que lhe foram incutidos, do que o seu amor pelo dono, do que a própria vontade de viver isolado; e quando, no momento de sua indecisão, Collie lhe deu uma mordida e saiu correndo, ele virou-se e seguiu atrás. O dono cavalgou sozinho naquele dia; e na mata, lado a lado, Caninos Brancos correu junto a Collie, assim como a sua mãe, Kiche, e o velho Caolho tinham corrido há muitos anos na silenciosa floresta boreal.
Jack London, "Caninos Brancos"
Mas continuava de certa maneira diferente dos outros cachorros. Conhecia a lei até melhor do que os cachorros que não tinham conhecido outra vida, e observava a lei mais escrupulosamente, mas ainda assim havia nele uma sugestão de ferocidade à espreita, como se a Floresta ainda permanecesse em Caninos Brancos e o lobo dentro dele apenas dormisse.
Ele nunca fazia amizade com os outros cachorros. Tinha vivido solitário, no que dizia respeito à sua espécie, e solitário continuaria a viver. Nos seus dias de filhote, sob a perseguição de Lip-lip e o bando de cachorrinhos, e nos seus dias de luta com Beleza Smith, ele tinha adquirido uma aversão fixa por cachorros. O curso natural da sua vida fora desviado, e, afastando-se da sua espécie, ele se ligara ao humano.
Além disso, todos os cachorros do sul o olhavam com suspeição. Ele despertava neles o medo instintivo da Floresta, e eles sempre o saudavam com rosnados, grunhidos e um ódio beligerante. Por outro lado, aprendeu que não era necessário usar os seus dentes neles. As presas à mostra e os lábios torcidos eram em geral eficazes, raramente deixando de forçar o cachorro que investia aos gritos a recuar sobre as ancas.
Mas havia um tormento na vida de Caninos Brancos – Collie. Ela nunca lhe dava um momento de paz. Não era tão receptiva à lei como ele. Desafiava todos os esforços do dono para que se tornasse amiga de Caninos Brancos. Nos ouvidos desse, nunca deixava de soar o seu rosnado agudo e nervoso. Ela nunca lhe perdoara o episódio da matança das galinhas, e persistia na crença de que as intenções de Caninos Brancos eram ruins. Ela o considerava culpado antes do ato, e tratava-o de acordo com esse julgamento. Tornou-se uma peste para ele, seguindo-o como um policial pelo estábulo e pelo terreno, e se ele se atrevia a olhar curiosamente para uma pomba ou galinha, irrompia num alarido de indignação e fúria. Quanto a Caninos Brancos, o modo favorito de ignorá-la era deitar-se, com a cabeça sobre as patas dianteiras, e fingir que dormia. Isso sempre a confundia e silenciava.
À exceção de Collie, tudo ia bem para Caninos Brancos. Ele aprendera controle e equilíbrio, e conhecia a lei. Alcançou uma serenidade, uma calma, uma tolerância filosófica. Já não vivia num ambiente hostil. O perigo, a dor e a morte não rondavam à espreita por toda parte. Com o tempo, o desconhecido, como um terror e ameaça sempre iminente, esmaecia. A vida era suave e fácil. Fluía sem obstáculos, e nem o medo nem o inimigo o espreitavam pelo caminho.
Sentia saudades da neve sem disso ter consciência. “Um verão estranhamente longo” teria sido o seu pensamento, se tivesse pensado a respeito; nas circunstâncias, apenas sentia saudades da neve de um modo vago e subconsciente. Da mesma forma, especialmente no calor do verão quando sofria com o sol forte, experimentava tênues saudades do norte. No entanto, o único efeito dessa saudade sobre Caninos Brancos era deixá-lo inquieto e desassossegado sem saber o que o incomodava.
Caninos Brancos jamais fora de demonstrar o afeto. Além de se aconchegar e introduzir uma nota sentimental no seu grunhido de amor, não tinha como expressar o seu sentimento. Mas foi-lhe dado descobrir uma terceira maneira. Ele sempre fora suscetível ao riso dos deuses. O riso sempre lhe provocara loucura, deixando-o frenético de raiva. Mas não estava na sua natureza zangar-se com o senhor do amor, e quando o deus decidiu rir de Caninos Brancos de um modo bonachão e por brincadeira, ele ficou confuso. Sentiu a ferroada e o acicate da velha raiva lutando para crescer no seu interior, mas ela lutava contra o amor. Não conseguiu se zangar, mas tinha de fazer alguma coisa. A princípio assumiu uma pose digna, e o dono riu ainda mais. Depois tentou ser mais digno, e o dono riu com mais força do que antes. Por fim, os risos do dono acabaram com a sua dignidade. As mandíbulas se abriram levemente, os lábios levantaram um pouco, uma expressão zombeteira, mais amor que humor, apareceu nos seus olhos. Ele aprendera a rir.
Da mesma forma, aprendeu a fazer brincadeiras com o dono, a ser derrubado e rolado pelo chão, a ser a vítima de inúmeros truques violentos. Em troca fingia raiva, eriçando o pelo e rosnando ferozmente, estalando os dentes em mordidas que tinham toda a aparência de intenção mortal. Mas ele nunca perdia a cabeça. As mordidas eram sempre dadas no ar vazio. Ao fim de uma dessas brincadeiras rudes, quando os golpes, bofetadas, mordidas e rosnados eram rápidos e furiosos, eles se separavam de repente e paravam a alguns metros de distância, olhando um para o outro. E depois, com a mesma subitaneidade, como o sol nascendo num mar de tempestade, começavam a rir. Isso sempre culminava com os braços do dono se fechando ao redor do pescoço e ombros de Caninos Brancos, enquanto o último emitia e rosnava o seu canto de amor.
Mas ninguém mais fazia dessas brincadeiras com Caninos Brancos. Ele não o permitia. Fazia questão da sua dignidade e, quando tentavam qualquer brincadeira, o seu rosnado de aviso e o pelo eriçado eram tudo menos travessos. O fato de dar ao dono essas liberdades não era razão para que fosse um cachorro comum, amando aqui e amando ali, o objeto de qualquer um para uma brincadeira e uma boa diversão. Ele amava com um coração exclusivista, recusando-se a baratear a si mesmo ou ao seu amor.
O dono saía bastante a cavalo, e acompanhá-lo era um dos principais deveres na vida de Caninos Brancos. Na Terra do Norte, ele demonstrara a sua lealdade labutando nos arreios; mas não havia trenós na Terra do Sul, nem os cachorros transportavam cargas nos lombos. Assim ele manifestava a sua lealdade de outro modo, correndo com o cavalo do dono. O dia mais longo jamais o deixava exausto. Ele tinha o caminhar do lobo, macio, incansável e sem esforço, e ao final de oitenta quilômetros chegava lépido à frente do cavalo.
Foi em conexão com as cavalgadas que Caninos Brancos alcançou outro modo de expressão – notável porque o utilizou apenas duas vezes em toda a sua vida. A primeira vez ocorreu quando o dono estava tentando ensinar a um puro-sangue fogoso o método de abrir e fechar portões sem que o cavaleiro precisasse apear. Muitas e repetidas vezes, ele emparelhou o cavalo com o portão tentando fechá-lo, mas toda vez o cavalo se assustava, recuava e arremetia para longe. O animal ficava mais nervoso e excitado a cada momento. Quando empinava, o dono o esporeava obrigando-o a repor as patas dianteiras no chão, com o que ele começava a dar coices com as patas traseiras. Caninos Brancos observava esses movimentos com uma ansiedade crescente até não poder mais se conter, quando pulou na frente do cavalo e latiu selvagem e ameaçadoramente.
Embora muitas vezes tentasse latir depois desse episódio, e o dono o encorajasse, só conseguiu latir apenas mais uma vez, e então não foi na presença do dono. Uma correria pelo pasto, uma lebre aparecendo de repente embaixo das patas do cavalo, uma guinada violenta, um tropeção, uma queda e uma perna quebrada para o dono foram a causa do latido. Caninos Brancos pulou com fúria na garganta do cavalo agressor, mas foi contido pela voz do dono.
– Para casa! Vá para casa! – comandou o dono, quando tinha se certificado do seu ferimento.
Caninos Brancos não tinha vontade de abandoná-lo. O dono pensou em escrever uma nota, mas procurou em vão lápis e papel nos seus bolsos. Mais uma vez ordenou que Caninos Brancos fosse para casa.
O último o olhou ansioso, partiu, depois retornou e ganiu baixinho. O dono lhe falou com uma voz gentil mas séria, e ele levantou as orelhas e escutou com uma atenção dolorida.
– Tudo bem, meu velho, apenas corra para casa – dizia a voz. – Vá para casa e conte o que aconteceu comigo. Para casa, lobo. Trate de ir para casa!
Caninos Brancos sabia o significado de “casa” e, embora não compreendesse o restante da conversa, sabia que a vontade do dono era que ele fosse para casa. Virou-se e partiu relutante. Depois parou, indeciso, e olhou para trás por cima do ombro.
– Para casa! – foi o comando áspero, e desta vez ele obedeceu.
A família estava na varanda, tomando o ar fresco da tarde, quando Caninos Brancos apareceu. Meteu-se entre as pessoas, ofegante, coberto de poeira. – Weedon está de volta – anunciou a mãe de Weedon.
As crianças acolheram Caninos Brancos com gritos de alegria e correram ao seu encontro. Ele as evitou e passou pela varanda, mas elas o encurralaram contra uma cadeira de balanço e a balaustrada. Ele rosnou e tentou abrir caminho entre elas. A mãe olhou apreensiva na sua direção.
– Confesso que ele me deixa nervosa ao redor das crianças – disse. – O meu pavor é que algum dia ele as ataque sem mais nem menos.
Rosnando selvagemente, Caninos Brancos pulou do seu canto, derrubando o menino e a menina. A mãe os chamou e consolou, dizendo-lhes para deixar Caninos Brancos em paz.
– Um lobo é um lobo – comentou o juiz Scott. – Não dá para confiar em nenhum.
– Mas ele não é todo lobo – interveio Beth, falando pelo irmão na sua ausência.
– Você só tem a opinião de Weedon a esse respeito – replicou o juiz. – Ele meramente presume que haja algum sangue de cachorro em Caninos Brancos, mas, como ele próprio lhe dirá, nada sabe a esse respeito. Quanto à aparência de Caninos Brancos...
Ele não terminou a frase. Caninos Brancos estava na sua frente, rosnando ferozmente.
– Vai embora! Deita! – comandou o juiz Scott.
Caninos Brancos virou-se para a esposa do senhor do amor. Ela gritou de susto, quando ele agarrou o vestido com os dentes e puxou-o até o tecido frágil se rasgar. A essa altura, Caninos Brancos tinha se tornado o centro das atenções. Ele deixara de rosnar e estava parado, a cabeça levantada, olhando nas suas faces. A garganta se mexia espasmodicamente, mas não produzia som, enquanto ele lutava com todo o seu corpo, convulsionado pelo esforço de livrar-se de algo incomunicável que forcejava para ser expresso.
– Espero que não esteja ficando louco – disse a mãe de Weedon. – Falei para Weedon que o clima quente talvez não fizesse bem a um animal ártico.
– Acho que ele está tentando falar – anunciou Beth.
Nesse momento a fala acudiu a Caninos Brancos, irrompendo numa grande explosão de latidos.
– Alguma coisa aconteceu a Weedon – disse a esposa resolutamente.
Agora estavam todos de pé, e Caninos Brancos desceu correndo os degraus, olhando para trás para que o seguissem. Pela segunda e última vez na sua vida, ele latira e se fizera compreender.
Depois desse acontecimento, Caninos Brancos encontrou um lugar mais caloroso nos corações do pessoal de Sierra Vista, e até o criado cujo braço ele tinha rasgado admitia que era um cachorro muito sábio, mesmo que fosse um lobo. O juiz Scott ainda mantinha a sua opinião, e para o desagrado de todos provava o seu pensamento por medições e descrições tiradas da enciclopédia e de várias obras de história natural.
Os dias iam e vinham, despejando o brilho ininterrupto do sol sobre o Vale Santa Clara. Mas, quando se tornaram mais curtos e começou o segundo inverno de Caninos Brancos na Terra do Sul, ele fez uma estranha descoberta. Os dentes de Collie já não eram afiados. Havia um quê de brincadeira nas suas mordidas e uma gentileza que os impedia de machucar de verdade. Ele esqueceu que ela tornara a sua vida um fardo e, quando ela cabriolava ao seu redor, reagia de forma solene, procurando ser brincalhão e tornando-se nada menos que ridículo.
Certo dia, ela o levou para uma longa perseguição pelo pasto dos fundos e dentro da mata. Era a tarde em que o dono devia cavalgar, e Caninos Brancos sabia disso. O cavalo estava selado e esperando à porta. Caninos Brancos hesitou. Mas havia nele algo mais profundo do que toda a lei que tinha aprendido, do que os costumes que lhe foram incutidos, do que o seu amor pelo dono, do que a própria vontade de viver isolado; e quando, no momento de sua indecisão, Collie lhe deu uma mordida e saiu correndo, ele virou-se e seguiu atrás. O dono cavalgou sozinho naquele dia; e na mata, lado a lado, Caninos Brancos correu junto a Collie, assim como a sua mãe, Kiche, e o velho Caolho tinham corrido há muitos anos na silenciosa floresta boreal.
Jack London, "Caninos Brancos"
terça-feira, setembro 8
O triste caso do peru americano
Se o peru era propriamente americano legítimo não se sabe com certeza plena, porque quem apareceu com o peru foi Rosalvo do posto de gasolina e Rosalvo tem coração meio de artista, gosta de enfeitar a realidade de vez em quando. Mas ninguém até hoje tem prova em contrário, inclusive porque, se o bicho não era americano, pelo menos dava toda a parecença. Tamanho, assim mais ou menos metade de um avestruz – um avestruz dos graúdos, desses que aparecem na televisão. Peso, aí pelos seus 25 quilos, lembrando mesmo aqueles americanos que a gente também vê na televisão levantando o bandido acima da cabeça para jogar no precipício. Compleição de americano mesmo, todo vermelhão, as penas amareladas e esbranquiçadas, escrito John Wayne sem camisa. E Rosalvo assoviava para ele fazer glu-glu e mostrar o sotaque americano, porém, verdade seja dita, ninguém jamais notou sotaque nenhum, só Rosalvo mesmo e Tonho da Loja, que é metido a saber inglês e quis me provar que o peru fazia gloo-gloo, mas eu só ouvia mesmo glu-glu, nunca soube de nenhum peru que falasse a letra o.
Muito bem, esse grande peru americano foi largamente homenageado e conduzido com altas solenidades para o galinheiro do Amerindo, que é forte criador de frangos e galinhas, homem para mais de trezentas cabeças, fortuna mesmo. Tanta fortuna que pode se dar ao luxo de ter no galinheiro um departamento de perus, oito peruas e um peru, que ele cria para se distrair. Mas, quando o peru americano chegou, ele se animou todo, achou que ia tirar raça, chegou até a dar um certo desprezo às galinhas. E a ingratidão que ele cometeu até hoje é comentada. Trabalhador sério que atendia as peruas dele parecendo um funcionário do Banco do Brasil, tudo bem-feitinho, dava gosto de apreciar, ele pegou Sarrafo e trancou numa gaiola bem à vista das peruas, sem nem se preocupar em evitar que o pobre coitado ficasse assistindo o americano se ousando com suas peruas.
Mas deu-se que Sarrafo não assistiu foi nada, porque o americano decepcionou. As peruas até que deram uns olhares para ele, estava se vendo que, se ele fosse peru mesmo, ia lá. Mas não foi. No começo, Almerindo pensou que era falta de adaptação, mas o tempo foi passando, o peru comendo como um necessitado (e tudo papas finas, tudo comidinhas de peru americano que lá eles são muito biqueiros) e sem mostrar para que veio. Rosalvo, a essa altura já meio desmoralizado, arranjou umas famosas vitaminas de peru e mais uma espécie de biotônico, mas o efeito foi só de aumentar o apetite do bicho, que chegou a engordar e ameaçar ficar maior do que o fila de Dr. Godói da Fazenda Beija-Flor. E as peruas só suspirando de saudade de Sarrafo, que pode ser indústria nacional e não compreender a língua inglesa, mas satisfaz as exigências.
Não teve jeito. Tonho da Loja chegou a dizer que talvez fosse um peru do Alabama, onde ninguém tolera crioulo e quando pode enforca. Como as peruas de Almerindo só podiam ser crioulas ou senão mulatas, vai ver que o desgraçado do americano achou de não se misturar. Rosalvo e Almerindo, contudo, se viram forçados a render-se à evidência dos fatos: o americano era falso ao corpo mesmo, isso é o que ele era, bem olhado até que arrastava a asa estilo perua – desmunhecava, o miserável. Grande consternação e solidariedade a Rosalvo e Almerindo, grande festejo entre as peruas com a volta de Sarrafo ao serviço. Quanto ao americano, o destino teve de ser a assadeira, que ninguém está aqui para sustentar gringo a pão-de-ló. Mas, em homenagem à grande amizade entre os dois países, Almerindo deu uísque a ele em vez de cachaça.
Muito bem, esse grande peru americano foi largamente homenageado e conduzido com altas solenidades para o galinheiro do Amerindo, que é forte criador de frangos e galinhas, homem para mais de trezentas cabeças, fortuna mesmo. Tanta fortuna que pode se dar ao luxo de ter no galinheiro um departamento de perus, oito peruas e um peru, que ele cria para se distrair. Mas, quando o peru americano chegou, ele se animou todo, achou que ia tirar raça, chegou até a dar um certo desprezo às galinhas. E a ingratidão que ele cometeu até hoje é comentada. Trabalhador sério que atendia as peruas dele parecendo um funcionário do Banco do Brasil, tudo bem-feitinho, dava gosto de apreciar, ele pegou Sarrafo e trancou numa gaiola bem à vista das peruas, sem nem se preocupar em evitar que o pobre coitado ficasse assistindo o americano se ousando com suas peruas.
Mas deu-se que Sarrafo não assistiu foi nada, porque o americano decepcionou. As peruas até que deram uns olhares para ele, estava se vendo que, se ele fosse peru mesmo, ia lá. Mas não foi. No começo, Almerindo pensou que era falta de adaptação, mas o tempo foi passando, o peru comendo como um necessitado (e tudo papas finas, tudo comidinhas de peru americano que lá eles são muito biqueiros) e sem mostrar para que veio. Rosalvo, a essa altura já meio desmoralizado, arranjou umas famosas vitaminas de peru e mais uma espécie de biotônico, mas o efeito foi só de aumentar o apetite do bicho, que chegou a engordar e ameaçar ficar maior do que o fila de Dr. Godói da Fazenda Beija-Flor. E as peruas só suspirando de saudade de Sarrafo, que pode ser indústria nacional e não compreender a língua inglesa, mas satisfaz as exigências.
Não teve jeito. Tonho da Loja chegou a dizer que talvez fosse um peru do Alabama, onde ninguém tolera crioulo e quando pode enforca. Como as peruas de Almerindo só podiam ser crioulas ou senão mulatas, vai ver que o desgraçado do americano achou de não se misturar. Rosalvo e Almerindo, contudo, se viram forçados a render-se à evidência dos fatos: o americano era falso ao corpo mesmo, isso é o que ele era, bem olhado até que arrastava a asa estilo perua – desmunhecava, o miserável. Grande consternação e solidariedade a Rosalvo e Almerindo, grande festejo entre as peruas com a volta de Sarrafo ao serviço. Quanto ao americano, o destino teve de ser a assadeira, que ninguém está aqui para sustentar gringo a pão-de-ló. Mas, em homenagem à grande amizade entre os dois países, Almerindo deu uísque a ele em vez de cachaça.
Coçando a palma da mão (alergia?), Souza observa, com fastio, a operação dos Civiltares
O ônibus chegou, a coceira voltou. Cruzei a borboleta, não havia lugares vagos. Normal, a essa hora. Cumprimentei pessoas que vejo aqui todos os dias, à mesma hora. Os novos são raros. Somos parte do S-7.58, nos permitem este, nenhum outro. É o que dizem as fichas de tráfego.
A ficha indica onde posso andar, os caminhos a percorrer, bairros autorizados, por que lado de calçada circular, condução a tomar. Assim, somos sempre os mesmos dentro do S-7.58. Nos conhecemos todos, mas não nos falamos, raramente nos cumprimentamos. Viajamos em silêncio.
Sou exceção, grito meu bom-dia, os rostos se viram aflitos, perplexos. Depois se voltam para a paisagem, as calçadas congestionadas. Mais um louco, pensam. Todos têm certeza, serei apanhado ao descer. No dia seguinte se surpreendem, sem demonstrar, quando apareço, cumprimentando.
Três pontos antes do final (deve ser dez e vinte) senti uma comichão insuportável. Estava comprimido. Não podia olhar, nem levantar a mão. Segurava a maleta com a esquerda, com a direita me apoiava ao varão. Empurrado para a saída, me despedi. Claro que não responderam.
Acabei de descer, ouvi os estampidos. Secos, ocos. Tão conhecidos. Joguei-me rápido ao chão, conforme severas instruções. Num décimo de segundo, todos em volta estendidos. Vivemos condicionados, nossos reflexos aguçados. Como aqueles ratos que vão comer ao ouvir a campainha.
Quantas vezes por dia me atiro ao chão nesta cidade. Se alguém filmasse durante algumas horas, sem registrar o som, veria uma daquelas velhas comédias de Harold Loyd, o Gordo e o Magro, Mack Sennet. Deita, levanta, deita, levanta. E os rostos? Todo mundo apavorado, tenso.
As pessoas disputam centímetros de calçada. Batem cabeças, se beijam, ficam rosto a rosto, cheiram o pó, se levantam imundas, xingam, protestam. Teve um dia que levei duas horas para vencer duzentos metros até o escritório. Deita, levanta. Foi tiro para tudo quanto é lado.
Hoje, um tiro só. Os Civiltares são conhecidos e temidos pela excelente pontaria e rapidez. O ladrãozinho, ou o que quer que fosse, garoto ainda (nunca fui bom para determinar idades), estava estendido, de costas. A cápsula enterrada no meio da testa. Nenhuma gota de sangue.
O vermelho da cápsula me permitiu identificá-la como Cataléptica. Provoca um estado semelhante à morte durante duas horas. Quando o atingido acorda, já está encerrado no Isolamento. E aí, bau-bau, Nicolau! Nunca mais. Tem quem afirme que a Cataléptica torna a pessoa idiota.
O Civiltar abaixou-se, apanhou a carteira, devolveu a um senhor, ao lado. O homem recolheu-a tranquilamente, retirou uma nota, entregou ao policial. Os Acertos de Taxas de Segurança são feitos no ato. Acabou-se a burocracia, papéis, recibos, guichês, filas, esperas.
O Civiltar acionou o walkie-talkie, pedindo carro transportador. Puxou o atingido para um canto da calçada e gritou: “Podem se levantar”. Mas a gente sempre dá um tempo. Quando ocorre um incidente assim, seguem-se uns quatro ou cinco, os marginais aproveitam a confusão.
Se bem que não é fácil. Para cada homem em circulação, existe praticamente um Civiltar ao seu lado. Eles andam girando a cabeça para todos os lados e se assemelham a robôs. O treinamento intensivo desperta neles, compulsivo, o faro, o instinto. Não sei como, enxergam tudo. Verdade.
Parece que são treinados pelos mesmos métodos com que se ensinavam os antigos cães pastores na polícia militar. Ficam condicionados e são uma beleza na eficiência. Por menos que se goste deles, é preciso reconhecer: evitam catástrofes nesta cidade. Pior sem eles.
Chegamos a esse ponto. Aceitar os Civiltares como necessários, suportá-los e chamá-los de vez em quando. Para mim, ter de fazer isso um dia vai ser pior que tomar óleo de rícino. O quê? Óleo de rícino? Ainda existe? Cada coisa de que me lembro de repente. É engraçado.
A refrescante Casa dos Vidros de Água. Chego à sua porta, todos os dias, às dez e quarenta. Tenho meia hora para passear por dentro dela, sentindo a tranquilidade que existe ali. Há dois anos não consigo começar o meu dia sem entrar e visitar a Casa. Cada dia uma seção, vagarosamente.
Olhei a mão. A mancha estava de um vermelho vivo e juro que me pareceu perceber um aumento na depressão. Bem funda. Aperto, não dói. Coça ainda, mas é uma coceira agradável, dessas que dão prazer, me arrepia todo. Loucura, na minha idade, ficar me arrepiando assim com coceiras.
Saio da Casa dos Vidros de Água sempre abalado com o irreparável. Não em relação à minha vida. Ao mundo que me cerca, ao ponto a que as coisas chegaram. Puxa! Não é resignação que me toma quando deixo a última sala e atravesso o corredor, artificialmente esverdeado.
Como se luz opaca atravessasse floresta espessa, rompendo com dificuldade a galharia, arbustos, ramos, folhas, cipós. Este corredor final me acalma, me reconcilia. Talvez o mal esteja aí. Nessa reconciliação. Há uma interrupção brusca quando passo do corredor para a saída.
Todo dia passeio pelo deserto, broto no vazio de salas e corredores. A sensação de que tudo é meu é reconfortante. Egoísmo. Mas para mim é como se as pessoas conspurcassem este recinto, quase igreja, catedral de nossos tempos, com seus santos, divindades, imagens.
Certamente, do ponto de vista prático, a Casa é inútil e o que ela exibe também. Coisas perdidas no tempo, irrecuperáveis. Tudo funciona em torno da utilidade, conveniência ou não. Esta Casa talvez tenha sido a última obra considerada sem valor prático para a civilização.
Não devia estar na Casa. Entro aqui me perguntando o porquê de tudo. Sem ter o que responder. Mesmo assim, entro. Me forço a isso, acho necessário. Se perder essa lucidez que começo a adquirir, estarei morto. Como os calendários inalterados que dormem no quartinho de minha casa.
Encontrar uma saída. Se as pessoas quisessem, haveria possibilidades. Não há querer, ninguém vê nada. Todos tranquilos, aceitam o inevitável. Os jornais não dizem palavra. Calaram-se aos poucos. Mesmo que falassem, não têm força nenhuma. A televisão está vigiada.
Ainda que não estivesse, a ela nada interessa. Os noticiários são inócuos. Novelas, inaugurações, planos do governo, promessas de ministros. Como acreditar nesses ministros, a maioria centenários? Quase perpétuos, remanescentes da fabulosa Época da Grande Locupletação.
O povo ainda fala desses tempos insondáveis. Eles sobrevivem na tradição oral. Os livros de história omitem. Quem se der a um grande trabalho, encontrará nos arquivos de jornais alguns elementos. Distorcidos, é claro. Foi um período de intolerância, amordaçamento, silêncio.
Quando eu dava aulas, os estudantes perguntavam sobre tais tempos. Eram alunos que as escolas reputavam incômodos e terminavam afastados dos cursos. A direção ouvia as gravações das aulas e me chamava. Para que eu informasse quem tinha me interrogado. Denunciasse.
No início, recusava. Havia justificativas. Naquelas classes de quinhentos alunos e grandes telões, eu alegava, era impossível saber quem tinha feito a Pergunta Intragável, como dizia a direção. Que tamanho terão as classes hoje? Mil alunos? Bem que gostaria de saber.
Depois, a situação foi ficando mais difícil, era sempre em minhas aulas que as perguntas intragáveis surgiam. A direção queria saber por quê. Que tipo de coisas eu andava dizendo fora das classes. Mandaram me seguir, plantonaram minha casa, grampearam meu telefone.
Solucionaram obrigando a pessoa interessada em fazer perguntas a se identificar antes. Muitos se calaram, outros preferiram enfrentar punições. “Essa época de locupletação não existiu. Foi calúnia”, garantia a direção. “Fala-se muito, mas onde estão os documentos? Invenções, mitos.
Isso, mitos populares. O senhor conhece os mitos populares? O saci existe? O caipora, a mula sem cabeça, o lobisomem? Que esperança. São fantasias criadas que se perpetuam para colocar medo nas pessoas. Está vendo como a tradição oral é coisa perigosa, traiçoeira?”
Por que os estudantes não recorriam aos jornais, às bibliotecas públicas, aos arquivos microfilmados? Tudo em mãos do governo. Era (ainda é) necessário percorrer um longo caminho burocrático, buscando papéis, carimbos, selos. A tarefa se tornava completamente impossível.
Impossível é o termo. Tive alunos que gastaram anos e, quando obtiveram o último nihil obstat, os arquivos se mudaram. Antigos funcionários foram removidos e os novos, avisados, não reconheceram as autorizações. Os alunos tentavam outra vez, a tática do governo era clara.
Quando passo pelos bairros da Circunstancial Número 14, vejo os prédios imensos onde está guardada a memória nacional. Ninguém sabe que fatos estão depositados ali. Para não dizer das pastas carimbadas: A SEREM ABERTAS DENTRO DE DOIS SÉCULOS. São documentos da Locupletação.
– Tio.
– Dois séculos, imagine...
– O quê?
Meu sobrinho, instintivamente, antes de me estender a mão, ia erguendo a palma em continência. Não aceitei, interrompi, puxei-o para mim e dei um grande abraço. Ele se conservou rígido, ainda que o rosto fosse sorridente e cordial. Também sempre foi como um filho para nós.
– O que faz por aqui, tio?
– Visitava a Casa dos Vidros.
– Saudosismo?
_ Ééé, quem sabe?
– Fui promovido, tio. Sou o primeiro do Novo Exército a atingir o posto de capitão aos vinte e três anos.
Fiz uma continência irônica. Ele respondeu, a sério. Sempre foi circunspecto, compenetrado, com noções de dever e obrigações. Desde criança. Estava sempre em casa, Adelaide dizia: “Você deve entrar para o Exército”. Foi quando entendi como ela estava dentro da realidade.
Muito mais do que eu podia pensar. Adelaide sempre foi surpresa constante. Observando nosso relacionamento, vejo que entendi bem pouco a mulher que tive. Quando menos se esperava, ela fazia uma observação justa, adequada. Será tarde demais? Diz o povo que nunca é.
Sim, porque em outros tempos, no século XVII, ou XVIII, teria dito ao sobrinho: “Vá ser padre”. Naquele dia, quinze anos atrás, Adelaide começou uma surda e persistente campanha para que o menino vestisse farda. Mas não almejava um simples praça, queria que ele fosse Militecno.
Os melhores postos do país se encontravam em mãos de Militecnos. Bancos, ministérios, empresas Multis. E como era difícil romper as barreiras para se formar um Militecno. Além de superar toda a carreira militar, quem suportava as fantásticas anuidades cobradas pelas universidades?
– Passo lá para comemorar. Com o senhor e a tia. Posso?
– Eu é que insisto. Nem vou dizer à sua tia. Vamos fazer surpresa.
– Tem comida?
– O normal.
– Vou tentar algo na Subsistência. Ah, quer fichas para água?
– Sempre é bom, jamais consegui me controlar, gasto mesmo.
– E não é para gastar?
– Mas tem o racionamento, para dividir melhor.
– Racionamento, tio? Pensa que é para todo mundo?
No fundo, não gosto dele. Uso suas facilidades. Penso que tenho direito a elas, contribuo para que o Novo Exército exista com todos os seus privilégios. Devo explorá-lo. Afinal, ele deve a mim e a Adelaide o posto, e a carreira. Quanta roupa ela não lavou? E as comidas?
Eu acordava todos os dias quinze para as seis, fazia café, arrancava o preguiçoso da cama. Foram dois anos na Escola Superior de Integração. Os piores, até ele passar por todas as provas, principalmente as de fidelidade, neutralidade ideológica e percepção sensorial.
– Sabe o que vou fazer, tio?
– Não tenho ideia.
– Vou visitar essa tal Casa dos Vidros.
– Boa coisa.
– Quero ver como estão aproveitando esse prédio enorme.
Desta vez correspondeu ao abraço, soltando o corpo. Como posso gostar desse sobrinho quando sei ao que ele pertence? Se tenho plena consciência do que será o país na mão dele dentro de alguns anos? Se houver alguns anos. Tenho as cartas dele, conheço suas ideias.
Nenhuma vontade de trabalhar. A coceira volta, fico impressionado. O centro de minha mão está afundando. Só pode ser delírio provocado pelo calor. Agarro o braço de um homem, ele se assusta. Sei o risco que corro, toda reação é admitida quando se trata da própria segurança.
– Calma, meu senhor, calma. Olhe, me desculpe, mas preciso saber. Olhe a minha mão. Tem um afundamento aí?
Ele procurou se livrar. Viu a mão e talvez tenha se apavorado mais. Ninguém garante que isso não seja contagioso. Só não saiu correndo porque é impossível correr nestas calçadas atravancadas. Para mim, a realidade é este afundamento, sem dor, coceira. Inexplicável como tudo hoje em dia.
Ir ao médico é bobagem, melhor esperar. Estou desmentindo Adelaide, ela me julgava hipocondríaco. Não acreditava em minhas dores de cabeça, nos mal-estares do estômago. Ergui os olhos. Uma sensação inquietante de alto a baixo. O homem careca me olhava penetrante, ameaçador.
Ignácio de Loyola Brandão, "Não verás país nenhum"
A ficha indica onde posso andar, os caminhos a percorrer, bairros autorizados, por que lado de calçada circular, condução a tomar. Assim, somos sempre os mesmos dentro do S-7.58. Nos conhecemos todos, mas não nos falamos, raramente nos cumprimentamos. Viajamos em silêncio.
Sou exceção, grito meu bom-dia, os rostos se viram aflitos, perplexos. Depois se voltam para a paisagem, as calçadas congestionadas. Mais um louco, pensam. Todos têm certeza, serei apanhado ao descer. No dia seguinte se surpreendem, sem demonstrar, quando apareço, cumprimentando.
Três pontos antes do final (deve ser dez e vinte) senti uma comichão insuportável. Estava comprimido. Não podia olhar, nem levantar a mão. Segurava a maleta com a esquerda, com a direita me apoiava ao varão. Empurrado para a saída, me despedi. Claro que não responderam.
Acabei de descer, ouvi os estampidos. Secos, ocos. Tão conhecidos. Joguei-me rápido ao chão, conforme severas instruções. Num décimo de segundo, todos em volta estendidos. Vivemos condicionados, nossos reflexos aguçados. Como aqueles ratos que vão comer ao ouvir a campainha.
Quantas vezes por dia me atiro ao chão nesta cidade. Se alguém filmasse durante algumas horas, sem registrar o som, veria uma daquelas velhas comédias de Harold Loyd, o Gordo e o Magro, Mack Sennet. Deita, levanta, deita, levanta. E os rostos? Todo mundo apavorado, tenso.
As pessoas disputam centímetros de calçada. Batem cabeças, se beijam, ficam rosto a rosto, cheiram o pó, se levantam imundas, xingam, protestam. Teve um dia que levei duas horas para vencer duzentos metros até o escritório. Deita, levanta. Foi tiro para tudo quanto é lado.
Hoje, um tiro só. Os Civiltares são conhecidos e temidos pela excelente pontaria e rapidez. O ladrãozinho, ou o que quer que fosse, garoto ainda (nunca fui bom para determinar idades), estava estendido, de costas. A cápsula enterrada no meio da testa. Nenhuma gota de sangue.
O vermelho da cápsula me permitiu identificá-la como Cataléptica. Provoca um estado semelhante à morte durante duas horas. Quando o atingido acorda, já está encerrado no Isolamento. E aí, bau-bau, Nicolau! Nunca mais. Tem quem afirme que a Cataléptica torna a pessoa idiota.
O Civiltar abaixou-se, apanhou a carteira, devolveu a um senhor, ao lado. O homem recolheu-a tranquilamente, retirou uma nota, entregou ao policial. Os Acertos de Taxas de Segurança são feitos no ato. Acabou-se a burocracia, papéis, recibos, guichês, filas, esperas.
O Civiltar acionou o walkie-talkie, pedindo carro transportador. Puxou o atingido para um canto da calçada e gritou: “Podem se levantar”. Mas a gente sempre dá um tempo. Quando ocorre um incidente assim, seguem-se uns quatro ou cinco, os marginais aproveitam a confusão.
Se bem que não é fácil. Para cada homem em circulação, existe praticamente um Civiltar ao seu lado. Eles andam girando a cabeça para todos os lados e se assemelham a robôs. O treinamento intensivo desperta neles, compulsivo, o faro, o instinto. Não sei como, enxergam tudo. Verdade.
Parece que são treinados pelos mesmos métodos com que se ensinavam os antigos cães pastores na polícia militar. Ficam condicionados e são uma beleza na eficiência. Por menos que se goste deles, é preciso reconhecer: evitam catástrofes nesta cidade. Pior sem eles.
Chegamos a esse ponto. Aceitar os Civiltares como necessários, suportá-los e chamá-los de vez em quando. Para mim, ter de fazer isso um dia vai ser pior que tomar óleo de rícino. O quê? Óleo de rícino? Ainda existe? Cada coisa de que me lembro de repente. É engraçado.
A refrescante Casa dos Vidros de Água. Chego à sua porta, todos os dias, às dez e quarenta. Tenho meia hora para passear por dentro dela, sentindo a tranquilidade que existe ali. Há dois anos não consigo começar o meu dia sem entrar e visitar a Casa. Cada dia uma seção, vagarosamente.
Olhei a mão. A mancha estava de um vermelho vivo e juro que me pareceu perceber um aumento na depressão. Bem funda. Aperto, não dói. Coça ainda, mas é uma coceira agradável, dessas que dão prazer, me arrepia todo. Loucura, na minha idade, ficar me arrepiando assim com coceiras.
Saio da Casa dos Vidros de Água sempre abalado com o irreparável. Não em relação à minha vida. Ao mundo que me cerca, ao ponto a que as coisas chegaram. Puxa! Não é resignação que me toma quando deixo a última sala e atravesso o corredor, artificialmente esverdeado.
Como se luz opaca atravessasse floresta espessa, rompendo com dificuldade a galharia, arbustos, ramos, folhas, cipós. Este corredor final me acalma, me reconcilia. Talvez o mal esteja aí. Nessa reconciliação. Há uma interrupção brusca quando passo do corredor para a saída.
Todo dia passeio pelo deserto, broto no vazio de salas e corredores. A sensação de que tudo é meu é reconfortante. Egoísmo. Mas para mim é como se as pessoas conspurcassem este recinto, quase igreja, catedral de nossos tempos, com seus santos, divindades, imagens.
Certamente, do ponto de vista prático, a Casa é inútil e o que ela exibe também. Coisas perdidas no tempo, irrecuperáveis. Tudo funciona em torno da utilidade, conveniência ou não. Esta Casa talvez tenha sido a última obra considerada sem valor prático para a civilização.
Não devia estar na Casa. Entro aqui me perguntando o porquê de tudo. Sem ter o que responder. Mesmo assim, entro. Me forço a isso, acho necessário. Se perder essa lucidez que começo a adquirir, estarei morto. Como os calendários inalterados que dormem no quartinho de minha casa.
Encontrar uma saída. Se as pessoas quisessem, haveria possibilidades. Não há querer, ninguém vê nada. Todos tranquilos, aceitam o inevitável. Os jornais não dizem palavra. Calaram-se aos poucos. Mesmo que falassem, não têm força nenhuma. A televisão está vigiada.
Ainda que não estivesse, a ela nada interessa. Os noticiários são inócuos. Novelas, inaugurações, planos do governo, promessas de ministros. Como acreditar nesses ministros, a maioria centenários? Quase perpétuos, remanescentes da fabulosa Época da Grande Locupletação.
O povo ainda fala desses tempos insondáveis. Eles sobrevivem na tradição oral. Os livros de história omitem. Quem se der a um grande trabalho, encontrará nos arquivos de jornais alguns elementos. Distorcidos, é claro. Foi um período de intolerância, amordaçamento, silêncio.
Quando eu dava aulas, os estudantes perguntavam sobre tais tempos. Eram alunos que as escolas reputavam incômodos e terminavam afastados dos cursos. A direção ouvia as gravações das aulas e me chamava. Para que eu informasse quem tinha me interrogado. Denunciasse.
No início, recusava. Havia justificativas. Naquelas classes de quinhentos alunos e grandes telões, eu alegava, era impossível saber quem tinha feito a Pergunta Intragável, como dizia a direção. Que tamanho terão as classes hoje? Mil alunos? Bem que gostaria de saber.
Depois, a situação foi ficando mais difícil, era sempre em minhas aulas que as perguntas intragáveis surgiam. A direção queria saber por quê. Que tipo de coisas eu andava dizendo fora das classes. Mandaram me seguir, plantonaram minha casa, grampearam meu telefone.
Solucionaram obrigando a pessoa interessada em fazer perguntas a se identificar antes. Muitos se calaram, outros preferiram enfrentar punições. “Essa época de locupletação não existiu. Foi calúnia”, garantia a direção. “Fala-se muito, mas onde estão os documentos? Invenções, mitos.
Isso, mitos populares. O senhor conhece os mitos populares? O saci existe? O caipora, a mula sem cabeça, o lobisomem? Que esperança. São fantasias criadas que se perpetuam para colocar medo nas pessoas. Está vendo como a tradição oral é coisa perigosa, traiçoeira?”
Por que os estudantes não recorriam aos jornais, às bibliotecas públicas, aos arquivos microfilmados? Tudo em mãos do governo. Era (ainda é) necessário percorrer um longo caminho burocrático, buscando papéis, carimbos, selos. A tarefa se tornava completamente impossível.
Impossível é o termo. Tive alunos que gastaram anos e, quando obtiveram o último nihil obstat, os arquivos se mudaram. Antigos funcionários foram removidos e os novos, avisados, não reconheceram as autorizações. Os alunos tentavam outra vez, a tática do governo era clara.
Quando passo pelos bairros da Circunstancial Número 14, vejo os prédios imensos onde está guardada a memória nacional. Ninguém sabe que fatos estão depositados ali. Para não dizer das pastas carimbadas: A SEREM ABERTAS DENTRO DE DOIS SÉCULOS. São documentos da Locupletação.
– Tio.
– Dois séculos, imagine...
– O quê?
Meu sobrinho, instintivamente, antes de me estender a mão, ia erguendo a palma em continência. Não aceitei, interrompi, puxei-o para mim e dei um grande abraço. Ele se conservou rígido, ainda que o rosto fosse sorridente e cordial. Também sempre foi como um filho para nós.
– O que faz por aqui, tio?
– Visitava a Casa dos Vidros.
– Saudosismo?
_ Ééé, quem sabe?
– Fui promovido, tio. Sou o primeiro do Novo Exército a atingir o posto de capitão aos vinte e três anos.
Fiz uma continência irônica. Ele respondeu, a sério. Sempre foi circunspecto, compenetrado, com noções de dever e obrigações. Desde criança. Estava sempre em casa, Adelaide dizia: “Você deve entrar para o Exército”. Foi quando entendi como ela estava dentro da realidade.
Muito mais do que eu podia pensar. Adelaide sempre foi surpresa constante. Observando nosso relacionamento, vejo que entendi bem pouco a mulher que tive. Quando menos se esperava, ela fazia uma observação justa, adequada. Será tarde demais? Diz o povo que nunca é.
Sim, porque em outros tempos, no século XVII, ou XVIII, teria dito ao sobrinho: “Vá ser padre”. Naquele dia, quinze anos atrás, Adelaide começou uma surda e persistente campanha para que o menino vestisse farda. Mas não almejava um simples praça, queria que ele fosse Militecno.
Os melhores postos do país se encontravam em mãos de Militecnos. Bancos, ministérios, empresas Multis. E como era difícil romper as barreiras para se formar um Militecno. Além de superar toda a carreira militar, quem suportava as fantásticas anuidades cobradas pelas universidades?
– Passo lá para comemorar. Com o senhor e a tia. Posso?
– Eu é que insisto. Nem vou dizer à sua tia. Vamos fazer surpresa.
– Tem comida?
– O normal.
– Vou tentar algo na Subsistência. Ah, quer fichas para água?
– Sempre é bom, jamais consegui me controlar, gasto mesmo.
– E não é para gastar?
– Mas tem o racionamento, para dividir melhor.
– Racionamento, tio? Pensa que é para todo mundo?
No fundo, não gosto dele. Uso suas facilidades. Penso que tenho direito a elas, contribuo para que o Novo Exército exista com todos os seus privilégios. Devo explorá-lo. Afinal, ele deve a mim e a Adelaide o posto, e a carreira. Quanta roupa ela não lavou? E as comidas?
Eu acordava todos os dias quinze para as seis, fazia café, arrancava o preguiçoso da cama. Foram dois anos na Escola Superior de Integração. Os piores, até ele passar por todas as provas, principalmente as de fidelidade, neutralidade ideológica e percepção sensorial.
– Sabe o que vou fazer, tio?
– Não tenho ideia.
– Vou visitar essa tal Casa dos Vidros.
– Boa coisa.
– Quero ver como estão aproveitando esse prédio enorme.
Desta vez correspondeu ao abraço, soltando o corpo. Como posso gostar desse sobrinho quando sei ao que ele pertence? Se tenho plena consciência do que será o país na mão dele dentro de alguns anos? Se houver alguns anos. Tenho as cartas dele, conheço suas ideias.
Nenhuma vontade de trabalhar. A coceira volta, fico impressionado. O centro de minha mão está afundando. Só pode ser delírio provocado pelo calor. Agarro o braço de um homem, ele se assusta. Sei o risco que corro, toda reação é admitida quando se trata da própria segurança.
– Calma, meu senhor, calma. Olhe, me desculpe, mas preciso saber. Olhe a minha mão. Tem um afundamento aí?
Ele procurou se livrar. Viu a mão e talvez tenha se apavorado mais. Ninguém garante que isso não seja contagioso. Só não saiu correndo porque é impossível correr nestas calçadas atravancadas. Para mim, a realidade é este afundamento, sem dor, coceira. Inexplicável como tudo hoje em dia.
Ir ao médico é bobagem, melhor esperar. Estou desmentindo Adelaide, ela me julgava hipocondríaco. Não acreditava em minhas dores de cabeça, nos mal-estares do estômago. Ergui os olhos. Uma sensação inquietante de alto a baixo. O homem careca me olhava penetrante, ameaçador.
Ignácio de Loyola Brandão, "Não verás país nenhum"
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