Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sexta-feira, setembro 18
Meu coração
Passei o dia pensando – coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com – cor, ação – repetido, invertido – ação, cor – sem sentido – couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “I´m too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A plateia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam por destruir tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Vega. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração é teu.
Caio Fernando Abreu, "Pequenas epifanias"
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “I´m too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A plateia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam por destruir tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Vega. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração é teu.
Caio Fernando Abreu, "Pequenas epifanias"
Homem, intentada viagem
Por exemplo: José Osvaldo.
O qual foi um brasileiro, a-histórico e desvalido, nas épocas de 39 ou 38, a perambular pela Europa para-a-guerra, híspida de espaventos. Veio a Hamburgo. Trazia-o uma comunicação do nosso Cônsul em Viena: “Não tem passaporte nem título de identidade e diz já ter sido repatriado duas vezes por esse Consulado-Geral. Deve haver aí algum papel, que o refira.”
E como de feito: achado que, pela terceira vez, no pouco de três anos, revia-se aqui, na estrangeiria e na máxima lástima, contando com que de novo o mandássemos para casa. Veterano, de disparatada veterância, coisa tão dessemelhada. Ele era corado, baixo, iria nos trinta anos. O bem-encarado, bem-avindo, sem semblante de bobático, sem sentir-se de sua situação, antes todo feito para imperturbar-se. Cumpria-se em serenidade fresca, expedindo uma paz, muito coada, propríssima. A uns, pareceu-nos algo nortista, a outros um tanto mineiro; bem alguma espécie. Nisso, e mais, por enquanto, não falava. Fora-se-lhe o último pfennig, do que Moreira da Silva em Viena lhe ministrara, no bolso nem tusta. Levava porém roupa asseada e não amarrotada inexplicadamente, e até com no peito uma flor, dessas de si semi-secas, sempre-viva. Assim bem-trapilho, um rico diabo. Mas, lil, lilil, pelo Evangelho, quase lilial que nem os lírios do campo, jovializava.
Tinha-se, em autoridade consular, de chefiar-lhe a ida, na sexta-feira, pelo navio da linha regular da Hamburg-Süd, que partia para o Brasil, gozando da “regalia de paquete” e, então, com a regra de conduzir repatriados. Era só requisitar-se a passagem. Estávamos, porém, em começo de semana, tendo o José Osvaldo de esperar os quatro dias. Com quantia mínima que recebeu, para comida e cama em albergue, deu-se por socorrido magnificamente. Ele em enleio de problemas não se retardava.
Nesse tempo, não deixou de vir passá-lo, o inteiro possível, no Consulado — de abertura a fechamento — bem se dava a ver um viajante desprovido de curiosidade. Comparecia, sentado no banco, no compartimento do público, junto ao balcão que separava a sala-grande, onde os Auxiliares trabalhavam. Olhava-os, quieto, brejeiro às vezes, com sorrisos seriosos. Falava língua nenhuma, jejuava em tudo. Seu fluido, neutro, não incomodava. Frequentava ali, como se, em lugar do interior, em porta de farmácia: o aspecto e atitude desmentindo as linhas tortas de seu procedimento. Não seria louco, a não ser da básica e normal doideira humana, a metafisicamente dita. Valeria, sim, saber-se o grau virtual de sua aloprabilidade. A gente nem tem ideia de como, por debaixo dos enredos da vida, talvez se esteja é somente e sempre buscando conseguir-se no sulco pessoal do próprio destino, que é naturalmente encoberto; e, se acaso, por breve trecho e a-de-leve, se entremostra, então aturde, por parecer gratuito absurdo e sem-razão. Convém ver. Só raros casos puros, aliás, abrem-nos aqui um pouco os olhos.
Notavelmente, o de Zé Osvaldo. Não é dizer fosse um raso vezeiro vagamundo, por ânimo de vadiação e hábito de irrealidade, atreito às formas da aventura. Outra a sua famigeração e círculo de motivos: sujeito a um rumo incondicional, à aproximação de outro tempo, projeto de vastidão, e mais que se pense; propósito de natureza — a crer-se em sua palavra. E o saberia? Sem efeito, que é que a gente conhece, de si mesmo, em verdade? Nem pretendia explicar-se, certo a certo, em quando respondia a umas perguntas, ali, observado entre lente e lâmina, sentado no banco, no faz-nada. Comum como uma terça-feira, otimista como um pau de cerca, risonho como um boi no Egito, indefeso como um pingo d’água sozinho, desmemoriado como um espelho. Dava trabalho, retrilhar-lhe as pegadas.
Sua cidade, o Rio. Não tinha ninguém. Tinha aquilo, que lhe vinha repetidamente sempre, tântalas vezes: a necessidade de partir e longinquir, se exportar, exairar-se, sem escopo, à lontania, às penúltimas plagas. Apenas não a simples veleidade de fugir ao normal, à lengalenga lógica, para espraiar cuidados, uma maneira prática de quimerizar. Mas, o que se mostrava a princípio exigência pacífica, ia-se tornando energia enorme de direção, futurativa, distanciânsia — a fome espacial dos sufocados. Então, se metia num navio, fizera já assim em quantas ocasiões. Voltara toda-a-vida à Europa: fora repatriado em Hamburgo, Trieste, Helsinque, Bordéus e Antuérpia. Ia-se, ao grande léu, como os tantos outros de sua abstrata raça, em íntimo intimados a seguir derrota, ignorantes de seu clandestino.
Por começo, engajara-se sem formalidades em vapores gregos ou panamenhos, como trabalhador de bordo, viajava de forasta. Mas era um ser pegado com a terra, no enxuto, não-marinheiro, nem tinha tatuagem. Pojavam em longe porto, ele se escapava. Agora, por último, nem mais se alistava: subintrava-se a bordo, sorrelfo às ocultas, com justeza matemática, sem isso nem isso, quer-se o que se quer, penetrava. O mar era-lhe apenas o meio de trajeção, seu instrumento incerto, distância que palpita. O mar, que faz lonjura. Ele era sempre da outra margem.
De suas artes em terra, não se tirariam marábulas, matéria de contos arábicos. Só — a licença aberta, a abstância e percorrência, o girogirar, o vagar a ver. Sempre a outros ultras, perléguas: itivo e latitudinário, paraginoso, na mal-entendida viagem, todo através-de. Até o desvaler-se de vez e miserar-se, e pôr ponto. Aí, caía num Consulado, socorria-se de seguridade, davam-lhe a repatriação.
Vago, vivo Zé Osvaldo, entre que confusas, em-sombras forças mediava, severas causas? Contou-nos os sucessivos episódios do que se lhe dera, de ingentes turlupinadas e estradas, desta vinda e feita.
Descido em Gênova, fora-se adentro, como sempre, trotamundo e alheio. Apanhou-o a polícia italiana. Mas não sabiam com ele o que resolver, a falta de documentos empalhando qualquer processo de expulsão. Deram-no à guarda da fronteira, que o levou, de noite, à beirada da Iugoslávia, e traspassaram-no para lá, de sorrate — subterfugido. Parece que o costume era obrarem às vezes desse jeito, naquelas partes. Porque, depois, os da polícia iugoslava fizeram-no para o lado-de-lá húngaro, também de noite e escondidamente, sob carabinas. Pego pelos húngaros, contrabandearam-no de novo para a Iugoslávia. Idem, os iugoslavos abalançando-o outra vez para a Hungria. E os húngaros, afinal, para a Áustria. Mas, por aí, já ele se aborrecera de tanto ser revirado transfronteiras. Antes que outros saíssem-lhe por diante para apajeá-lo, tratou de enviar-se a Viena, como pôde.
Simples gracejo, perguntamo-lhe: por que não tentava pôr por obra, aqui, sua arte de astuto, introduzindo-se à socapa num dos navios surtos no porto, a zarpar para o Rio? Seja por brio de esportividade, ou fosse por concordância ingênua, isso o botou influído. Por todo o dia, desapareceu. Mas, quando voltou, no seguinte, foi para confessar seu malogro, com igual sossego. Estivera no porto, no ver a ver. Achara navio a valer, mais de um. Mas o esforço não provou bem, a vigilância ali era um a-fio.
Segue-se que enfim partiu, na sexta. Sumária foi sua expedição. Não tinha bagagem, nem mesmo pacotilha. Sumiu-se, liso e recontente, o sorriso sem defeito, na lapela a sempre-viva. Ninguém se lembrou de dar-lhe algum dinheiro, só se pensou nisso tarde, já despachado o navio; com o atropelo de divertimentos e trabalhos, a gente não só negligencia, mas mesmo negligeia e neglige. Agora, já se estaria longe, navegantibundo, a descer o Elba, a entrar do Mar do Norte.
Mas, na outra manhã, cobrava-nos a Hamburg-Süd a importância de dez marcos, a ele favorecidos contra recibo tosco a lápis, e em termos de “esta requisição”. O desenvolvido Zeosvaldo, capaz e calmo, sabendo fazer de si, servidamente! E não ia voltar — como o entanto, o vento, a ave?
Sim que, anos depois, realmente retornou à Europa, não lhe puderam tolher a empresa. De novo, também, foi repatriado, para a epilogação. O nada acontece muitas vezes. Assim — na entrada da Guanabara — sabe-se que ele se atirou de bordo; perturbado? Acabou por começar. Isto é, rematou em nem-que-quando, zeosvaldo, mar abaixo, na caudalosa morte. Só morreu, com as coisas todas que não soubesse.
Inconseguiu-se?
Guimarães Rosa, "Ave, palavra/'
O qual foi um brasileiro, a-histórico e desvalido, nas épocas de 39 ou 38, a perambular pela Europa para-a-guerra, híspida de espaventos. Veio a Hamburgo. Trazia-o uma comunicação do nosso Cônsul em Viena: “Não tem passaporte nem título de identidade e diz já ter sido repatriado duas vezes por esse Consulado-Geral. Deve haver aí algum papel, que o refira.”
E como de feito: achado que, pela terceira vez, no pouco de três anos, revia-se aqui, na estrangeiria e na máxima lástima, contando com que de novo o mandássemos para casa. Veterano, de disparatada veterância, coisa tão dessemelhada. Ele era corado, baixo, iria nos trinta anos. O bem-encarado, bem-avindo, sem semblante de bobático, sem sentir-se de sua situação, antes todo feito para imperturbar-se. Cumpria-se em serenidade fresca, expedindo uma paz, muito coada, propríssima. A uns, pareceu-nos algo nortista, a outros um tanto mineiro; bem alguma espécie. Nisso, e mais, por enquanto, não falava. Fora-se-lhe o último pfennig, do que Moreira da Silva em Viena lhe ministrara, no bolso nem tusta. Levava porém roupa asseada e não amarrotada inexplicadamente, e até com no peito uma flor, dessas de si semi-secas, sempre-viva. Assim bem-trapilho, um rico diabo. Mas, lil, lilil, pelo Evangelho, quase lilial que nem os lírios do campo, jovializava.
Tinha-se, em autoridade consular, de chefiar-lhe a ida, na sexta-feira, pelo navio da linha regular da Hamburg-Süd, que partia para o Brasil, gozando da “regalia de paquete” e, então, com a regra de conduzir repatriados. Era só requisitar-se a passagem. Estávamos, porém, em começo de semana, tendo o José Osvaldo de esperar os quatro dias. Com quantia mínima que recebeu, para comida e cama em albergue, deu-se por socorrido magnificamente. Ele em enleio de problemas não se retardava.
Nesse tempo, não deixou de vir passá-lo, o inteiro possível, no Consulado — de abertura a fechamento — bem se dava a ver um viajante desprovido de curiosidade. Comparecia, sentado no banco, no compartimento do público, junto ao balcão que separava a sala-grande, onde os Auxiliares trabalhavam. Olhava-os, quieto, brejeiro às vezes, com sorrisos seriosos. Falava língua nenhuma, jejuava em tudo. Seu fluido, neutro, não incomodava. Frequentava ali, como se, em lugar do interior, em porta de farmácia: o aspecto e atitude desmentindo as linhas tortas de seu procedimento. Não seria louco, a não ser da básica e normal doideira humana, a metafisicamente dita. Valeria, sim, saber-se o grau virtual de sua aloprabilidade. A gente nem tem ideia de como, por debaixo dos enredos da vida, talvez se esteja é somente e sempre buscando conseguir-se no sulco pessoal do próprio destino, que é naturalmente encoberto; e, se acaso, por breve trecho e a-de-leve, se entremostra, então aturde, por parecer gratuito absurdo e sem-razão. Convém ver. Só raros casos puros, aliás, abrem-nos aqui um pouco os olhos.
Notavelmente, o de Zé Osvaldo. Não é dizer fosse um raso vezeiro vagamundo, por ânimo de vadiação e hábito de irrealidade, atreito às formas da aventura. Outra a sua famigeração e círculo de motivos: sujeito a um rumo incondicional, à aproximação de outro tempo, projeto de vastidão, e mais que se pense; propósito de natureza — a crer-se em sua palavra. E o saberia? Sem efeito, que é que a gente conhece, de si mesmo, em verdade? Nem pretendia explicar-se, certo a certo, em quando respondia a umas perguntas, ali, observado entre lente e lâmina, sentado no banco, no faz-nada. Comum como uma terça-feira, otimista como um pau de cerca, risonho como um boi no Egito, indefeso como um pingo d’água sozinho, desmemoriado como um espelho. Dava trabalho, retrilhar-lhe as pegadas.
Sua cidade, o Rio. Não tinha ninguém. Tinha aquilo, que lhe vinha repetidamente sempre, tântalas vezes: a necessidade de partir e longinquir, se exportar, exairar-se, sem escopo, à lontania, às penúltimas plagas. Apenas não a simples veleidade de fugir ao normal, à lengalenga lógica, para espraiar cuidados, uma maneira prática de quimerizar. Mas, o que se mostrava a princípio exigência pacífica, ia-se tornando energia enorme de direção, futurativa, distanciânsia — a fome espacial dos sufocados. Então, se metia num navio, fizera já assim em quantas ocasiões. Voltara toda-a-vida à Europa: fora repatriado em Hamburgo, Trieste, Helsinque, Bordéus e Antuérpia. Ia-se, ao grande léu, como os tantos outros de sua abstrata raça, em íntimo intimados a seguir derrota, ignorantes de seu clandestino.
Por começo, engajara-se sem formalidades em vapores gregos ou panamenhos, como trabalhador de bordo, viajava de forasta. Mas era um ser pegado com a terra, no enxuto, não-marinheiro, nem tinha tatuagem. Pojavam em longe porto, ele se escapava. Agora, por último, nem mais se alistava: subintrava-se a bordo, sorrelfo às ocultas, com justeza matemática, sem isso nem isso, quer-se o que se quer, penetrava. O mar era-lhe apenas o meio de trajeção, seu instrumento incerto, distância que palpita. O mar, que faz lonjura. Ele era sempre da outra margem.
De suas artes em terra, não se tirariam marábulas, matéria de contos arábicos. Só — a licença aberta, a abstância e percorrência, o girogirar, o vagar a ver. Sempre a outros ultras, perléguas: itivo e latitudinário, paraginoso, na mal-entendida viagem, todo através-de. Até o desvaler-se de vez e miserar-se, e pôr ponto. Aí, caía num Consulado, socorria-se de seguridade, davam-lhe a repatriação.
Vago, vivo Zé Osvaldo, entre que confusas, em-sombras forças mediava, severas causas? Contou-nos os sucessivos episódios do que se lhe dera, de ingentes turlupinadas e estradas, desta vinda e feita.
Descido em Gênova, fora-se adentro, como sempre, trotamundo e alheio. Apanhou-o a polícia italiana. Mas não sabiam com ele o que resolver, a falta de documentos empalhando qualquer processo de expulsão. Deram-no à guarda da fronteira, que o levou, de noite, à beirada da Iugoslávia, e traspassaram-no para lá, de sorrate — subterfugido. Parece que o costume era obrarem às vezes desse jeito, naquelas partes. Porque, depois, os da polícia iugoslava fizeram-no para o lado-de-lá húngaro, também de noite e escondidamente, sob carabinas. Pego pelos húngaros, contrabandearam-no de novo para a Iugoslávia. Idem, os iugoslavos abalançando-o outra vez para a Hungria. E os húngaros, afinal, para a Áustria. Mas, por aí, já ele se aborrecera de tanto ser revirado transfronteiras. Antes que outros saíssem-lhe por diante para apajeá-lo, tratou de enviar-se a Viena, como pôde.
Simples gracejo, perguntamo-lhe: por que não tentava pôr por obra, aqui, sua arte de astuto, introduzindo-se à socapa num dos navios surtos no porto, a zarpar para o Rio? Seja por brio de esportividade, ou fosse por concordância ingênua, isso o botou influído. Por todo o dia, desapareceu. Mas, quando voltou, no seguinte, foi para confessar seu malogro, com igual sossego. Estivera no porto, no ver a ver. Achara navio a valer, mais de um. Mas o esforço não provou bem, a vigilância ali era um a-fio.
Segue-se que enfim partiu, na sexta. Sumária foi sua expedição. Não tinha bagagem, nem mesmo pacotilha. Sumiu-se, liso e recontente, o sorriso sem defeito, na lapela a sempre-viva. Ninguém se lembrou de dar-lhe algum dinheiro, só se pensou nisso tarde, já despachado o navio; com o atropelo de divertimentos e trabalhos, a gente não só negligencia, mas mesmo negligeia e neglige. Agora, já se estaria longe, navegantibundo, a descer o Elba, a entrar do Mar do Norte.
Mas, na outra manhã, cobrava-nos a Hamburg-Süd a importância de dez marcos, a ele favorecidos contra recibo tosco a lápis, e em termos de “esta requisição”. O desenvolvido Zeosvaldo, capaz e calmo, sabendo fazer de si, servidamente! E não ia voltar — como o entanto, o vento, a ave?
Sim que, anos depois, realmente retornou à Europa, não lhe puderam tolher a empresa. De novo, também, foi repatriado, para a epilogação. O nada acontece muitas vezes. Assim — na entrada da Guanabara — sabe-se que ele se atirou de bordo; perturbado? Acabou por começar. Isto é, rematou em nem-que-quando, zeosvaldo, mar abaixo, na caudalosa morte. Só morreu, com as coisas todas que não soubesse.
Inconseguiu-se?
Guimarães Rosa, "Ave, palavra/'
Intermezzo
Hoje não posso ver ninguém:
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.
António Gedeão
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.
António Gedeão
Folha de álbum
Era, verdadeiramente, um personagem impossível. Tímido demais, sem nada para dizer, absolutamente. E que peso! Uma vez instalado em vosso atelier, não sabia mais como sair, até que vos fizesse quase gritar; tínheis vontade, assim que ele se retirava afinal, encabulado, de atirar em cima dele qualquer coisa enorme — o fogão, por exemplo. Mas, o curioso é que, à primeira vista, ele parecia muito interessante. Todo mundo estava de acordo. Indo ao café, à tarde, podereis descobrir um jovem magro e moreno, vestido de uma camisa azul debaixo de um paletó cinzento abotoado, sentado num canto, em frente a uma xícara de café. De qualquer maneira, essa camisa azul e esse paletó cinzento de mangas curtas lhe dava ar de rapaz resolvido a suicidar-se mar e que, na realidade, se suicidaria. Daqui a pouco ele se vai levantar, dependurar na ponta da bengala o lenço amarrado contendo a camisola de dormir e o retrato de sua mãe, sair a afogar-se. Ele cairá mesmo da beira do cais dirigindo-se para o seu navio... Tinha os cabelos pretos cortados rente, olhos cinzentos de pestanas longas, faces pálidas e uma boca que fazia beicinho, decidida a não chorar... Haveria a possibilidade de resistir, pergunto eu? A sua presença apertava o coração e, como se isso não bastasse, havia ainda aquela mania de enrubescer... Todas as vezes que o rapaz se acercava de alguém, tornava-se escarlate.
— Que é isso, querida? Sabeis qualquer coisa?
— Sim, ele se chama Ian French. Dizem que é um pintor de muito talento.
E logo uma daquelas senhoras começou por lhe dispensar os enternecidos cuidados de uma mãe. Perguntou-lhe quantas vezes recebia notícias de sua casa, se tinha bastantes cobertas para a cama e quanto de leite tomava por dia. Mas, quando ela foi ao seu atelier examinar as meias, cansou-se de tocar a campainha: ninguém abriu a porta, apesar de que ela juraria ouvir alguém respirar no interior... Desesperador!
Uma outra decidiu que seria bom que ele se apaixonasse. Puxou-o para junto de si, chamou-o "meu pequeno", apoiou-se sobre ele, para fazê-lo respirar o perfume embriagador dos seus cabelos, pegou-lhe o braço e disse-lhe quanto a vida seria maravilhosa se tivessem coragem; afinal, resolveu passar no seu atelier uma noite. Cansou-se de tocar a campainha... Desesperador!
— Esse pobre rapaz tem sobretudo necessidade de ser estimulado — declarou uma terceira. — Foram juntos aos cafés e aos cabarés, nos lugares onde se bebe qualquer coisa com o gosto de sumo de abricó de conserva, mas que custa vinte e sete xelins a garrafa e que se chama champanhe. Depois, em outros lugares tão excitantes que nem se pode dizer. A gente se senta numa escuridão horrível: justamente no lugar onde alguém foi assassinado na noite da véspera. Nem um cabelo de Ian se mexeu. Somente uma vez ele se embebedou bastante, mas em vez de se animar, conservou-se sentado, imóvel como um poste, duas manchas vermelhas nas faces, uma verdadeira imagem do "ragtime" que se tocava, a "Boneca Quebrada". Mas quando a sua companheira o acompanhou ao atelier, de volta, ele já recobrara os sentidos e despediu-se em baixo, na rua, com um "boa-noite" indiferente como se voltassem juntos da igreja... Desesperador!
Só depois de uma infinidade de tentativas — porque o espírito de bondade morre dificilmente nas mulheres — renunciaram a ele. Naturalmente elas eram ainda perfeitamente encantadoras, convidavam-no para as suas exposições, brincavam nos cafés, mas não passava disso. Quando se é artista não se tem tempo a perder com as pessoas que não correspondem às tentativas da gente, não é mesmo?
— E depois, creio sinceramente que existe nisso tudo qualquer coisa de suspeito... Você não acha? Isso não pode ser tão inocente quanto parece. Para que vir a Paris se ele quer conservar-se como um lírio nos campos? Não, eu não sou desconfiada, mas...
Ele morava num desses grandes edifícios que parecem tão românticos nas noites de chuva ou de luar, quando estão fechadas as janelas e a pesada porta e que a tabuleta “pequeno apartamento para alugar" se lê com uma inexprimível melancolia. Um desses edifícios cujo cheiro se conserva tão prosaico de um começo de ano a outro! A encarregada habita uma caixa de vidro no rés-do-chão; envolvida em um xale sórdido, remexe com a colher qualquer coisa em uma caçarola, uma espécie de erva, que ela dá ao velho cão inchado, estendido numa almofada de pérolas... Do atelier, dependurado no ar, tem-se uma vista maravilhosa. As duas grandes janelas se abrem para o rio. Ian pode ver os navios balançando-se e olhar a extremidade de uma ilhota plantada de árvores, como um buquê redondo. A janela do lado dá para outra casa ainda menor e embaixo se acha um mercado de flores. Podereis examinar as barracas em que se vendem plantas em caixas e palmas úmidas, luzentas, em potes de terra cota. Mulheres velhas andam de um lado para o outro, como tartarugas, entre flores. Certamente não havia necessidade de sair; ele poderia ficar lá, em sua janela, anos e anos, o tempo necessário para que sua barba branca caísse sobre o peitoril, e achando ainda qualquer coisa para desenhar...
Que espanto para essas ternas mulheres se elas chegassem a forçar a porta! Porque Ian French tinha o seu atelier limpo como um níquel novo. Todo ele era arranjado como para formar um desenho, uma pequena natureza morta, se preferem; as caçarolas arrumadas atrás do forno de gás, com suas tampas; a terrina de ovos, o pote de leite e o bule de chá sobre a prateleira; os livros e a lâmpada, com seu abajur de papel ondulado, em cima da mesa. Uma cortina de tecido da Índia, sobre a qual corriam leopardos vermelhos, cobria o leito de dia, e, na parede, ao lado, ao nível dos olhos quando se estava deitado, pendia um letreiro cuidadosamente impresso: “Levanta-te logo".
Quase todos os dias se pareciam uns com os outros. Enquanto a luz estava boa, ele pintava. Depois, cozinhava sua comida e punha tudo em ordem. À noite ia ao café ou então ficava em casa lendo ou fazendo orçamentos de despesas complicadas com o seguinte título: "Dinheiro com que eu devia contentar-me" e esta promessa: "Juro não gastar este total no próximo mês". Assinado: Ian French.
Nada de comprometedor nisto tudo, mas aquelas mulheres astuciosas tinham razão: havia outra coisa.
Uma tarde, sentado perto da janela lateral, ele comia ameixas, jogando os caroços sobre os enormes guarda-chuvas do mercado das flores deserto. Tinha chovido. A primeira chuva verdadeira da primavera acabava de desabar. Tudo estava salpicado de lantejoulas: o ar cheirava a brotos verdes de terra úmida. Vozes calmas, satisfeitas, ressoavam no crepúsculo. As pessoas que vinham fechar as venezianas trocavam ideias e se debruçavam para fora. Embaixo, no mercado, tudo se coloria de verde-novo. O acendedor de lampiões se aproximava. Ian reparou na casa em frente, pequena, em ruínas. De repente, como resposta ao seu olhar, duas folhas da janela se abriram e uma moça, carregando um vaso de narcisos, apareceu na minúscula sacada. Extremamente magra, vestia um avental escuro; um lenço cor de rosa envolvia-lhe a cabeça e as mangas, arregaçadas até perto dos ombros, deixavam-lhe à mostra os braços franzinos, contrastando com o pano escuro.
— Sim, está fazendo muito calor, isso vai fazer-lhes bem! E, depositando o vaso de flores, voltou-se para alguém que estava no interior, levantando as mãos para prender os cabelos no lenço. O seu olhar correu pelo mercado embaixo, depois pelo céu, sem reparar na casa da frente. Poderia não existir o lugar onde Ian French estava sentado. Depois, ela desapareceu.
O coração de Ian despencou da janela do atelier para a sacada e mergulhou no vaso de narcisos no meio de botões entreabertos e as hastes verdes. O quarto com a sacada era a sala de estar e o outro ao lado era a cozinha. Ele ouvia o barulho da louça que se lavava depois do jantar. Depois a moça se aproximava da janela, sacudiu o esfregão da louça e o dependurava num prego para secar. Nunca foi vista soltando os cabelos, cantando ou estendendo os braços para a lua, como fazem sempre as donzelas. Vestia sempre o mesmo avental escuro, o mesmo lenço cor de rosa na cabeça. Com quem vivia? Ninguém, senão ela, aparecia naquelas duas janelas. E, no entanto, ouvia-se que falava continuamente com alguém. Ele imaginou que a mãe dela estava doente, que as mulheres faziam costura, que o pai tinha morrido... Tinha sido jornalista, muito pálido, com longos bigodes; uma placa de cabelos pretos caía-lhe sobre a testa.
Trabalhando todos os dias, elas tinham continuamente com que viver, mas nunca saíam e não tinham amigos. Ultimamente, quando Ian se sentava à mesa, tomava nota de uma longa série de promessas; "Não ir à janela do lado antes de uma certa hora”. Assinado: Ian French. "Não pensar nela antes de guardar os seus pincéis no fim do dia". Assinado: Ian French.
Era bem simples: essa pessoa era a única que ele desejava conhecer, o único ser vivo do mundo, decerto que tivesse exatamente a sua idade. Não suportava as moças caçoístas e não sabia o que fazer com as mulheres feitas... ela tinha a sua idade... ela era... exatamente como ele. Sentado no seu atelier escuro, cansado, um braço caído sobre o espaldar da cadeira, olhava fixamente para a janela debaixo e se sentia junto dela. Às vezes brigavam seriamente, pois ela tinha caráter violento, uma maneira de bater os pés e de torcer as mãos no avental... furiosa! O seu riso, muito raro, só se ouvia quando contava histórias do seu absurdo gatinho que se zangava pretendendo ser um leão, quando se lhe dava carne para comer — ou outras histórias desse gênero... Mas habitualmente estavam juntos, bem sossegados, ele, sentado como está agora, e a moça, as mãos cruzadas no colo e os pés para trás. Conversavam baixinho, silenciosos e cansados, depois trabalho diário. Certamente nunca se cogitava dos seus quadros e ela detestava os seus maravilhosos retratos feitos por ele, achando que estava muito magra e muito escura... Mas como chegaria a conhecê-la? Isso poderia durar anos do mesmo jeito...
Ian descobriu então que uma, vez por semana, à tarde, ela saía para fazer suas compras. Duas quintas-feiras viu-a à janela, com uma capa fora da moda, carregando um cesto. Do lugar onde estava, era impossível ver a porta, mas, quinta-feira seguinte, à mesma hora, tomou o boné e desceu as escadas correndo. Uma luz rósea envolveu tudo, o rio estava cor de brasa e a gente, que caminhava em sentido contrário, tinha caras e mãos róseas.
Esperou-a encostado à parede da casa onde morava sem a menor ideia do que faria ou diria. "Ela vem vindo!” murmurou-lhe uma voz interior. Ela andava depressa, com passos curtos, leves; com uma das mãos carregava os cestos, com a outra segurava a capa... Não havia outra coisa senão segui-la. Ela começou por entrar no armazém e ali ficou muito tempo, depois no açougue, onde fez cauda esperando a sua vez. Ficou uma eternidade numa loja, depois comprou um limão num fruteiro. Quanto mais Ian examinava a moça, mais necessidade tinha de conhecê-la imediatamente. O seu sangue frio, o seu ar sério, a sua solidão, e até o seu de jeito de andar, como se tivesse pressa ir para longe daquela gente, tudo parecia a Ian muito natural, inevitável.
— Sim, ela é assim, pensou com orgulho. Nós nada temos de comum com essa gente.
A moça voltava agora para casa e Ian continuava sempre tão longe... Ela voltou-se bruscamente e entrou na leiteria. Através da vitrina, Ian viu-a comprar um ovo, escolhê-lo na cesta com tanto cuidado! — um ovo avermelhado, admiravelmente formado, exatamente o mesmo que ele teria escolhido. Assim que ela saiu, ele entrou. Um instante depois, continuava a segui-la. Passaram a casa de Ian, atravessaram o mercado de flores, evitando os enormes guarda-chuvas, pisando as flores caídas e as marcas redondas deixadas pelos vasos... Ele foi seguindo de perto, passou o umbral da porta, subiu pela escada, dando os passos ao mesmo tempo que a rapariga para não chamar a da atenção. Enfim, ela parou no patamar da escada e tirou a chave da bolsa. No momento em que a colocava na fechadura, ele saltou e postou-se diante dela. Corando, mais escarlate do que nunca, disse-lhe com um olhar duro, quase num tom de raiva:
"Desculpe-me, mas a senhorita deixou cair isto".
E apresentou-lhe um ovo.
— Que é isso, querida? Sabeis qualquer coisa?
— Sim, ele se chama Ian French. Dizem que é um pintor de muito talento.
E logo uma daquelas senhoras começou por lhe dispensar os enternecidos cuidados de uma mãe. Perguntou-lhe quantas vezes recebia notícias de sua casa, se tinha bastantes cobertas para a cama e quanto de leite tomava por dia. Mas, quando ela foi ao seu atelier examinar as meias, cansou-se de tocar a campainha: ninguém abriu a porta, apesar de que ela juraria ouvir alguém respirar no interior... Desesperador!
Uma outra decidiu que seria bom que ele se apaixonasse. Puxou-o para junto de si, chamou-o "meu pequeno", apoiou-se sobre ele, para fazê-lo respirar o perfume embriagador dos seus cabelos, pegou-lhe o braço e disse-lhe quanto a vida seria maravilhosa se tivessem coragem; afinal, resolveu passar no seu atelier uma noite. Cansou-se de tocar a campainha... Desesperador!
— Esse pobre rapaz tem sobretudo necessidade de ser estimulado — declarou uma terceira. — Foram juntos aos cafés e aos cabarés, nos lugares onde se bebe qualquer coisa com o gosto de sumo de abricó de conserva, mas que custa vinte e sete xelins a garrafa e que se chama champanhe. Depois, em outros lugares tão excitantes que nem se pode dizer. A gente se senta numa escuridão horrível: justamente no lugar onde alguém foi assassinado na noite da véspera. Nem um cabelo de Ian se mexeu. Somente uma vez ele se embebedou bastante, mas em vez de se animar, conservou-se sentado, imóvel como um poste, duas manchas vermelhas nas faces, uma verdadeira imagem do "ragtime" que se tocava, a "Boneca Quebrada". Mas quando a sua companheira o acompanhou ao atelier, de volta, ele já recobrara os sentidos e despediu-se em baixo, na rua, com um "boa-noite" indiferente como se voltassem juntos da igreja... Desesperador!
Só depois de uma infinidade de tentativas — porque o espírito de bondade morre dificilmente nas mulheres — renunciaram a ele. Naturalmente elas eram ainda perfeitamente encantadoras, convidavam-no para as suas exposições, brincavam nos cafés, mas não passava disso. Quando se é artista não se tem tempo a perder com as pessoas que não correspondem às tentativas da gente, não é mesmo?
— E depois, creio sinceramente que existe nisso tudo qualquer coisa de suspeito... Você não acha? Isso não pode ser tão inocente quanto parece. Para que vir a Paris se ele quer conservar-se como um lírio nos campos? Não, eu não sou desconfiada, mas...
Ele morava num desses grandes edifícios que parecem tão românticos nas noites de chuva ou de luar, quando estão fechadas as janelas e a pesada porta e que a tabuleta “pequeno apartamento para alugar" se lê com uma inexprimível melancolia. Um desses edifícios cujo cheiro se conserva tão prosaico de um começo de ano a outro! A encarregada habita uma caixa de vidro no rés-do-chão; envolvida em um xale sórdido, remexe com a colher qualquer coisa em uma caçarola, uma espécie de erva, que ela dá ao velho cão inchado, estendido numa almofada de pérolas... Do atelier, dependurado no ar, tem-se uma vista maravilhosa. As duas grandes janelas se abrem para o rio. Ian pode ver os navios balançando-se e olhar a extremidade de uma ilhota plantada de árvores, como um buquê redondo. A janela do lado dá para outra casa ainda menor e embaixo se acha um mercado de flores. Podereis examinar as barracas em que se vendem plantas em caixas e palmas úmidas, luzentas, em potes de terra cota. Mulheres velhas andam de um lado para o outro, como tartarugas, entre flores. Certamente não havia necessidade de sair; ele poderia ficar lá, em sua janela, anos e anos, o tempo necessário para que sua barba branca caísse sobre o peitoril, e achando ainda qualquer coisa para desenhar...
Que espanto para essas ternas mulheres se elas chegassem a forçar a porta! Porque Ian French tinha o seu atelier limpo como um níquel novo. Todo ele era arranjado como para formar um desenho, uma pequena natureza morta, se preferem; as caçarolas arrumadas atrás do forno de gás, com suas tampas; a terrina de ovos, o pote de leite e o bule de chá sobre a prateleira; os livros e a lâmpada, com seu abajur de papel ondulado, em cima da mesa. Uma cortina de tecido da Índia, sobre a qual corriam leopardos vermelhos, cobria o leito de dia, e, na parede, ao lado, ao nível dos olhos quando se estava deitado, pendia um letreiro cuidadosamente impresso: “Levanta-te logo".
Quase todos os dias se pareciam uns com os outros. Enquanto a luz estava boa, ele pintava. Depois, cozinhava sua comida e punha tudo em ordem. À noite ia ao café ou então ficava em casa lendo ou fazendo orçamentos de despesas complicadas com o seguinte título: "Dinheiro com que eu devia contentar-me" e esta promessa: "Juro não gastar este total no próximo mês". Assinado: Ian French.
Nada de comprometedor nisto tudo, mas aquelas mulheres astuciosas tinham razão: havia outra coisa.
Uma tarde, sentado perto da janela lateral, ele comia ameixas, jogando os caroços sobre os enormes guarda-chuvas do mercado das flores deserto. Tinha chovido. A primeira chuva verdadeira da primavera acabava de desabar. Tudo estava salpicado de lantejoulas: o ar cheirava a brotos verdes de terra úmida. Vozes calmas, satisfeitas, ressoavam no crepúsculo. As pessoas que vinham fechar as venezianas trocavam ideias e se debruçavam para fora. Embaixo, no mercado, tudo se coloria de verde-novo. O acendedor de lampiões se aproximava. Ian reparou na casa em frente, pequena, em ruínas. De repente, como resposta ao seu olhar, duas folhas da janela se abriram e uma moça, carregando um vaso de narcisos, apareceu na minúscula sacada. Extremamente magra, vestia um avental escuro; um lenço cor de rosa envolvia-lhe a cabeça e as mangas, arregaçadas até perto dos ombros, deixavam-lhe à mostra os braços franzinos, contrastando com o pano escuro.
— Sim, está fazendo muito calor, isso vai fazer-lhes bem! E, depositando o vaso de flores, voltou-se para alguém que estava no interior, levantando as mãos para prender os cabelos no lenço. O seu olhar correu pelo mercado embaixo, depois pelo céu, sem reparar na casa da frente. Poderia não existir o lugar onde Ian French estava sentado. Depois, ela desapareceu.
O coração de Ian despencou da janela do atelier para a sacada e mergulhou no vaso de narcisos no meio de botões entreabertos e as hastes verdes. O quarto com a sacada era a sala de estar e o outro ao lado era a cozinha. Ele ouvia o barulho da louça que se lavava depois do jantar. Depois a moça se aproximava da janela, sacudiu o esfregão da louça e o dependurava num prego para secar. Nunca foi vista soltando os cabelos, cantando ou estendendo os braços para a lua, como fazem sempre as donzelas. Vestia sempre o mesmo avental escuro, o mesmo lenço cor de rosa na cabeça. Com quem vivia? Ninguém, senão ela, aparecia naquelas duas janelas. E, no entanto, ouvia-se que falava continuamente com alguém. Ele imaginou que a mãe dela estava doente, que as mulheres faziam costura, que o pai tinha morrido... Tinha sido jornalista, muito pálido, com longos bigodes; uma placa de cabelos pretos caía-lhe sobre a testa.
Trabalhando todos os dias, elas tinham continuamente com que viver, mas nunca saíam e não tinham amigos. Ultimamente, quando Ian se sentava à mesa, tomava nota de uma longa série de promessas; "Não ir à janela do lado antes de uma certa hora”. Assinado: Ian French. "Não pensar nela antes de guardar os seus pincéis no fim do dia". Assinado: Ian French.
Era bem simples: essa pessoa era a única que ele desejava conhecer, o único ser vivo do mundo, decerto que tivesse exatamente a sua idade. Não suportava as moças caçoístas e não sabia o que fazer com as mulheres feitas... ela tinha a sua idade... ela era... exatamente como ele. Sentado no seu atelier escuro, cansado, um braço caído sobre o espaldar da cadeira, olhava fixamente para a janela debaixo e se sentia junto dela. Às vezes brigavam seriamente, pois ela tinha caráter violento, uma maneira de bater os pés e de torcer as mãos no avental... furiosa! O seu riso, muito raro, só se ouvia quando contava histórias do seu absurdo gatinho que se zangava pretendendo ser um leão, quando se lhe dava carne para comer — ou outras histórias desse gênero... Mas habitualmente estavam juntos, bem sossegados, ele, sentado como está agora, e a moça, as mãos cruzadas no colo e os pés para trás. Conversavam baixinho, silenciosos e cansados, depois trabalho diário. Certamente nunca se cogitava dos seus quadros e ela detestava os seus maravilhosos retratos feitos por ele, achando que estava muito magra e muito escura... Mas como chegaria a conhecê-la? Isso poderia durar anos do mesmo jeito...
Ian descobriu então que uma, vez por semana, à tarde, ela saía para fazer suas compras. Duas quintas-feiras viu-a à janela, com uma capa fora da moda, carregando um cesto. Do lugar onde estava, era impossível ver a porta, mas, quinta-feira seguinte, à mesma hora, tomou o boné e desceu as escadas correndo. Uma luz rósea envolveu tudo, o rio estava cor de brasa e a gente, que caminhava em sentido contrário, tinha caras e mãos róseas.
Esperou-a encostado à parede da casa onde morava sem a menor ideia do que faria ou diria. "Ela vem vindo!” murmurou-lhe uma voz interior. Ela andava depressa, com passos curtos, leves; com uma das mãos carregava os cestos, com a outra segurava a capa... Não havia outra coisa senão segui-la. Ela começou por entrar no armazém e ali ficou muito tempo, depois no açougue, onde fez cauda esperando a sua vez. Ficou uma eternidade numa loja, depois comprou um limão num fruteiro. Quanto mais Ian examinava a moça, mais necessidade tinha de conhecê-la imediatamente. O seu sangue frio, o seu ar sério, a sua solidão, e até o seu de jeito de andar, como se tivesse pressa ir para longe daquela gente, tudo parecia a Ian muito natural, inevitável.
— Sim, ela é assim, pensou com orgulho. Nós nada temos de comum com essa gente.
A moça voltava agora para casa e Ian continuava sempre tão longe... Ela voltou-se bruscamente e entrou na leiteria. Através da vitrina, Ian viu-a comprar um ovo, escolhê-lo na cesta com tanto cuidado! — um ovo avermelhado, admiravelmente formado, exatamente o mesmo que ele teria escolhido. Assim que ela saiu, ele entrou. Um instante depois, continuava a segui-la. Passaram a casa de Ian, atravessaram o mercado de flores, evitando os enormes guarda-chuvas, pisando as flores caídas e as marcas redondas deixadas pelos vasos... Ele foi seguindo de perto, passou o umbral da porta, subiu pela escada, dando os passos ao mesmo tempo que a rapariga para não chamar a da atenção. Enfim, ela parou no patamar da escada e tirou a chave da bolsa. No momento em que a colocava na fechadura, ele saltou e postou-se diante dela. Corando, mais escarlate do que nunca, disse-lhe com um olhar duro, quase num tom de raiva:
"Desculpe-me, mas a senhorita deixou cair isto".
E apresentou-lhe um ovo.
Katherine Mansfield
O caderninho azul de um aprendiz de feiticeiro
O garoto devia ter uns 10 anos e nessa idade hoje eles já estão cansados de saber de onde vêm os bebês. Queria mais. Queria o etéreo, o mistério para além da biologia profana. ‘Tio”, ele perguntou lá do fundo da sala, num encontro que tive com estudantes, “tio, de onde nascem as crônicas?”
Qualquer pessoa que abre uma tela de computador com a obrigação de em seguida enchê-la de palavrinhas sabe que essa é a pergunta basilar. De onde vem o baião, de onde nasce o mote que deflagra a criação? Eu vi, em 1996, na minha frente, Carlos Heitor Cony escrevendo uma crônica de tamanho médio, de qualidade alta, em não mais que 15 minutos. Acho que Cony sabe a resposta.
É íntimo demais e só vai declarado aqui porque li, ou um professor das antigas me disse, que o cronicar é de exposição do autor, um gênero de bermudas em que o dono delas, geralmente um tímido-assanhado, radicaliza o processo e parte para o desnudamento total diante da plateia.
Abrir o caderninho azul é um strip-tease de cabeça. Confesso que em algum momento da vida anotei nele, para reflexões que me poderiam inspirar mais adiante, tanto uma pergunta do barbudo Enéas num debate de televisão (“Lula, o que você pretende fazer com a bauxita refratária?”), como a máxima do filósofo africano Hardy Har-Har (“Não vai dar certo, Lippy!”). O juiz de futebol Mario Vianna também está perpetuado: “No meu dicionário não tem o verbo modéstia à parte.”
Jamais me acudi diretamente dessas sabedorias alheias, mas sabe-se lá como essas coisas funcionam nas engrenagens internas. São frases ora recolhidas em orações católicas (“Zombam da fé, os insensatos”, do hino “Queremos Deus”), ora em hinos de times de futebol (“Ninguém nos vence em vibração”, do Esporte Clube Bahia), ora em panfletos da Madame Cecília (“Resolve problemas de impotência e safra da lavoura”). Um caos de despropósitos. O locutor da Rádio Relógio propagandeia barato que “Depois do sol, quem ilumina seu lar é a Galeria Silvestre” e, em seguida, antes de dar a hora exata, filosofa que “Cada minuto da vida é um milagre que não se repete”. O argentino Hector Babenco explica por que ficou no Brasil: “Só aqui tem Fanta Uva.”
Comecei a registrar esse garimpo desconexo depois de ter lido, nas entrevistas da Paris Review, que dúzias de grandes autores faziam o mesmo. Anotavam o que lhes parecia curioso, engraçado, estimulante, misterioso – e entregavam à depuração de suas almas. É uma espécie de agenda de elucubrações, uma malhação intelectual, tranco que se dá quando o raciocínio não pega. Sabe-se que meia dúzia de supinos turbinam o bíceps. Mas o que fazem com a gente as palavras que jogamos para dentro?
Não sei, por exemplo, o que fiz exatamente com a informação registrada do filme “Aviso aos navegantes”. Está anotada no meu caderninho. Oscarito, falso médico, diagnostica numa paciente “um desequilíbrio no vago-simpático” e lhe receita “bigamatinil propitelamina composta de efeito fulminante”. Um disparate desses não move uma linha no texto de ninguém. Mas, delícia das delícias, sugere aos feixes nervosos do intelecto o tom de por onde você quer trafegar.
Uma crônica pode nascer de uma palavra, eu disse ao garoto enquanto desfolhava o caderninho azul, e dei como exemplo um texto surgido apenas com a intenção, o resto era detalhe, de encher seis mil toques em louvor à existência entre nós, e não deixar que morresse jamais, a palavra borogodó. Torço para que o mesmo não aconteça com bucentauro, berdamerda, nenúfar, alaúza, tremebunda, obnubilar, nefelibata, buteiro, perrengue, parlapatão, peripatético e outras palavras de muitas sílabas que fui anotando na medida em que elas desapareciam dos livros. Costumo recomendar palavras curtas a quem pede conselhos para escrever bem. Mas, de vez em quando, acho que a proparoxítona cai redonda, pedra de gelo que dá choque térmico e muda o ritmo de um texto telegráfico.
O caderninho azul que ora abro em público é uma tremenda bandeira.
Tem pílulas da ética de Don Corleone (“fique perto dos amigos e muito mais dos inimigos”), máximas cínicas do jornalismo (“a função do bom editor é separar o joio do trigo, e publicar o joio”), mandamentos da masculinidade por John Wayne (“fale com calma, fale devagar e não diga muita coisa”). Qualquer dia desses vou mandá-lo para a minha analista freudiana. Alguns escrevem diários, outros anotam frases soltas. Se existe quem leia a vida das pessoas na borra do café, imagine consultando um caderninho desses.
Anotei nele que “Escrevo para ficar louro e de olhos azuis”, declaração de um escritor perguntado sobre a razão de tanto esforço solitário com as palavras. Pode ser daí, por vaidade, que nasçam as crônicas. Anotei também a sabedoria de Tom Jobim (“O prazo é a grande musa inspiradora”). Pode ser daí, da necessidade mais prática. Donde quer que nasçam esses bucentauros de levezas que às vezes parecem querer dizer outra coisa, como o nome estranho da gôndola dos duques de Veneza, as crônicas só querem mesmo é navegar com o leitor até este porto final e desejar que ele tenha se divertido com a viagem.
Joaquim Ferreira dos Santos, "Em busca do borogodó perdido"
Qualquer pessoa que abre uma tela de computador com a obrigação de em seguida enchê-la de palavrinhas sabe que essa é a pergunta basilar. De onde vem o baião, de onde nasce o mote que deflagra a criação? Eu vi, em 1996, na minha frente, Carlos Heitor Cony escrevendo uma crônica de tamanho médio, de qualidade alta, em não mais que 15 minutos. Acho que Cony sabe a resposta.
Eu, modesto aprendiz de feiticeiro, temeroso de oferecer abstrações ao garoto pragmático, recitei como única pista um caderno azul que carrego há décadas. Existe. Nele fui jogando palavras extravagantes, pensamentos curiosos, frases de efeito, pára-choques de caminhão e tudo o mais que pulsasse letras. Eu esperava que, num dia de crise, uma palavra daquelas, friccionada com as enzimas do crânio, provocasse a faísca, fizesse jorrar aquele filetinho de sangue que escorre da testa de todo autor quando ele encontra o assunto. Sabia que um dia ele me faria sentido. Ei-lo.
É íntimo demais e só vai declarado aqui porque li, ou um professor das antigas me disse, que o cronicar é de exposição do autor, um gênero de bermudas em que o dono delas, geralmente um tímido-assanhado, radicaliza o processo e parte para o desnudamento total diante da plateia.
Abrir o caderninho azul é um strip-tease de cabeça. Confesso que em algum momento da vida anotei nele, para reflexões que me poderiam inspirar mais adiante, tanto uma pergunta do barbudo Enéas num debate de televisão (“Lula, o que você pretende fazer com a bauxita refratária?”), como a máxima do filósofo africano Hardy Har-Har (“Não vai dar certo, Lippy!”). O juiz de futebol Mario Vianna também está perpetuado: “No meu dicionário não tem o verbo modéstia à parte.”
Jamais me acudi diretamente dessas sabedorias alheias, mas sabe-se lá como essas coisas funcionam nas engrenagens internas. São frases ora recolhidas em orações católicas (“Zombam da fé, os insensatos”, do hino “Queremos Deus”), ora em hinos de times de futebol (“Ninguém nos vence em vibração”, do Esporte Clube Bahia), ora em panfletos da Madame Cecília (“Resolve problemas de impotência e safra da lavoura”). Um caos de despropósitos. O locutor da Rádio Relógio propagandeia barato que “Depois do sol, quem ilumina seu lar é a Galeria Silvestre” e, em seguida, antes de dar a hora exata, filosofa que “Cada minuto da vida é um milagre que não se repete”. O argentino Hector Babenco explica por que ficou no Brasil: “Só aqui tem Fanta Uva.”
Comecei a registrar esse garimpo desconexo depois de ter lido, nas entrevistas da Paris Review, que dúzias de grandes autores faziam o mesmo. Anotavam o que lhes parecia curioso, engraçado, estimulante, misterioso – e entregavam à depuração de suas almas. É uma espécie de agenda de elucubrações, uma malhação intelectual, tranco que se dá quando o raciocínio não pega. Sabe-se que meia dúzia de supinos turbinam o bíceps. Mas o que fazem com a gente as palavras que jogamos para dentro?
Não sei, por exemplo, o que fiz exatamente com a informação registrada do filme “Aviso aos navegantes”. Está anotada no meu caderninho. Oscarito, falso médico, diagnostica numa paciente “um desequilíbrio no vago-simpático” e lhe receita “bigamatinil propitelamina composta de efeito fulminante”. Um disparate desses não move uma linha no texto de ninguém. Mas, delícia das delícias, sugere aos feixes nervosos do intelecto o tom de por onde você quer trafegar.
Uma crônica pode nascer de uma palavra, eu disse ao garoto enquanto desfolhava o caderninho azul, e dei como exemplo um texto surgido apenas com a intenção, o resto era detalhe, de encher seis mil toques em louvor à existência entre nós, e não deixar que morresse jamais, a palavra borogodó. Torço para que o mesmo não aconteça com bucentauro, berdamerda, nenúfar, alaúza, tremebunda, obnubilar, nefelibata, buteiro, perrengue, parlapatão, peripatético e outras palavras de muitas sílabas que fui anotando na medida em que elas desapareciam dos livros. Costumo recomendar palavras curtas a quem pede conselhos para escrever bem. Mas, de vez em quando, acho que a proparoxítona cai redonda, pedra de gelo que dá choque térmico e muda o ritmo de um texto telegráfico.
O caderninho azul que ora abro em público é uma tremenda bandeira.
Tem pílulas da ética de Don Corleone (“fique perto dos amigos e muito mais dos inimigos”), máximas cínicas do jornalismo (“a função do bom editor é separar o joio do trigo, e publicar o joio”), mandamentos da masculinidade por John Wayne (“fale com calma, fale devagar e não diga muita coisa”). Qualquer dia desses vou mandá-lo para a minha analista freudiana. Alguns escrevem diários, outros anotam frases soltas. Se existe quem leia a vida das pessoas na borra do café, imagine consultando um caderninho desses.
Anotei nele que “Escrevo para ficar louro e de olhos azuis”, declaração de um escritor perguntado sobre a razão de tanto esforço solitário com as palavras. Pode ser daí, por vaidade, que nasçam as crônicas. Anotei também a sabedoria de Tom Jobim (“O prazo é a grande musa inspiradora”). Pode ser daí, da necessidade mais prática. Donde quer que nasçam esses bucentauros de levezas que às vezes parecem querer dizer outra coisa, como o nome estranho da gôndola dos duques de Veneza, as crônicas só querem mesmo é navegar com o leitor até este porto final e desejar que ele tenha se divertido com a viagem.
Joaquim Ferreira dos Santos, "Em busca do borogodó perdido"
quinta-feira, setembro 17
O comerciante
É possível que algumas pessoas tenham compaixão cie mim, mas eu não percebo nada. Minha pequena loja me enche de preocupações que me doem dentro da fronte e das têmporas, mas sem me oferecer a perspectiva da satisfação, pois a loja é pequena.
Com antecipação de horas preciso tomar providências, manter alerta a memória do empregado, advertir contra erros que eu temo e levar em conta, numa temporada, as modas da seguinte, não como elas irão dominar entre as pessoas do meu círculo, mas entre as populações inacessíveis do campo.
Meu dinheiro está nas mãos de pessoas estranhas; a situação delas não pode ser clara para mim; o infortúnio que poderia atingi-las eu não sou capaz de pressentir, como é que poderia evitá-lo? Talvez elas tenham se tornado pródigas e deem uma festa no jardim -de um restaurante e outras ainda permaneçam um pouco na festa, na sua rota de fuga para a América.
Quando pois ao anoitecer de um dia útil a loja é fechada e de repente vejo diante de mim horas nas quais não poderei trabalhar cm nome das necessidades ininterruptas da minha loja, minha excitação — despachada de manhã, previamente, para bem longe — irrompe em mim como a maré que retorna, mas não se detém e me arrasta consigo sem objetivo.
No entanto não tenho de modo algum a capacidade de usar esse humor e só posso ir para casa, pois tenho o rosto e as mãos sujos e suados, a roupa coberta de nódoas e pó, o boné de serviço na cabeça e as botas arranhadas pelos pregos dos caixotes. Caminho então como sobre ondas, estalo os dedos das duas mãos e acaricio o cabelo das crianças que vêm em minha direção.
Mas o caminho é curto demais. Logo estou cm minha casa, abro a porta do elevador e entro.
Vejo agora que de repente estou só. Outros, que têm de subir pelas escadas, cansam-se um pouco ao fazê-lo, precisam esperar com os pulmões respirando às pressas, até que venham abrir a porta do apartamento, nesse momento eles têm um motivo para irritação e impaciência, entram então na antessala, onde penduram o chapéu e só quando atravessam o corredor, ao longo de algumas portas de vidro, e penetram no próprio quarto, é que estão sozinhos.
Mas estou só logo no elevador e apoiado nos joelhos olho para o estreito espelho. Quando o elevador começa a subir eu digo:
— Fiquem quietos, recuem, querem entrar na sombra das árvores, atrás dos cortinados das janelas, dentro do caramanchão?
Falo com os dentes e os corrimões da escada escorregam pelas placas de vidro leitoso Como água que se precipita.
Partam voando daqui; que as asas que eu nunca enxerguei os transportem para o vale da aldeia ou a Paris, se o impulso é para lá. Mas desfrutem a vista da janela quando das três ruas chegam as procissões que não se desviam umas das outras, se embaralham e deixam o espaço livre outra vez entre as últimas filas. Acenem com os lenços, fiquem horrorizados, comovidos e elogiem a bela senhora que passa. Atravessem o riacho pela ponte de madeira, acenem com a cabeça aos meninos que se banham e espantem-se com o hurra! dos mil marinheiros no navio de guerra distante. Persigam o homem insignificante e quando o tiverem atirado num vão de entrada, assaltem-no e vejam, cada qual com as mãos nos bolsos, como ele segue triste pela rua da esquerda. Galopando dispersa nos seus cavalos, a polícia refreia os animais e os força a recuar. Deixem-na, as ruas vazias a farão infeliz, eu sei. O que foi que eu disse?
— Já estão cavalgando aos pares, lentos nas esquinas e a toda nas praças.
Aí tenho de descer do elevador e mandá-lo de volta para baixo, tocar a campainha e a empregada abre a porta enquanto eu cumprimento.
Franz Kafka, "Contemplação"
Com antecipação de horas preciso tomar providências, manter alerta a memória do empregado, advertir contra erros que eu temo e levar em conta, numa temporada, as modas da seguinte, não como elas irão dominar entre as pessoas do meu círculo, mas entre as populações inacessíveis do campo.
Meu dinheiro está nas mãos de pessoas estranhas; a situação delas não pode ser clara para mim; o infortúnio que poderia atingi-las eu não sou capaz de pressentir, como é que poderia evitá-lo? Talvez elas tenham se tornado pródigas e deem uma festa no jardim -de um restaurante e outras ainda permaneçam um pouco na festa, na sua rota de fuga para a América.
Quando pois ao anoitecer de um dia útil a loja é fechada e de repente vejo diante de mim horas nas quais não poderei trabalhar cm nome das necessidades ininterruptas da minha loja, minha excitação — despachada de manhã, previamente, para bem longe — irrompe em mim como a maré que retorna, mas não se detém e me arrasta consigo sem objetivo.
No entanto não tenho de modo algum a capacidade de usar esse humor e só posso ir para casa, pois tenho o rosto e as mãos sujos e suados, a roupa coberta de nódoas e pó, o boné de serviço na cabeça e as botas arranhadas pelos pregos dos caixotes. Caminho então como sobre ondas, estalo os dedos das duas mãos e acaricio o cabelo das crianças que vêm em minha direção.
Mas o caminho é curto demais. Logo estou cm minha casa, abro a porta do elevador e entro.
Vejo agora que de repente estou só. Outros, que têm de subir pelas escadas, cansam-se um pouco ao fazê-lo, precisam esperar com os pulmões respirando às pressas, até que venham abrir a porta do apartamento, nesse momento eles têm um motivo para irritação e impaciência, entram então na antessala, onde penduram o chapéu e só quando atravessam o corredor, ao longo de algumas portas de vidro, e penetram no próprio quarto, é que estão sozinhos.
Mas estou só logo no elevador e apoiado nos joelhos olho para o estreito espelho. Quando o elevador começa a subir eu digo:
— Fiquem quietos, recuem, querem entrar na sombra das árvores, atrás dos cortinados das janelas, dentro do caramanchão?
Falo com os dentes e os corrimões da escada escorregam pelas placas de vidro leitoso Como água que se precipita.
Partam voando daqui; que as asas que eu nunca enxerguei os transportem para o vale da aldeia ou a Paris, se o impulso é para lá. Mas desfrutem a vista da janela quando das três ruas chegam as procissões que não se desviam umas das outras, se embaralham e deixam o espaço livre outra vez entre as últimas filas. Acenem com os lenços, fiquem horrorizados, comovidos e elogiem a bela senhora que passa. Atravessem o riacho pela ponte de madeira, acenem com a cabeça aos meninos que se banham e espantem-se com o hurra! dos mil marinheiros no navio de guerra distante. Persigam o homem insignificante e quando o tiverem atirado num vão de entrada, assaltem-no e vejam, cada qual com as mãos nos bolsos, como ele segue triste pela rua da esquerda. Galopando dispersa nos seus cavalos, a polícia refreia os animais e os força a recuar. Deixem-na, as ruas vazias a farão infeliz, eu sei. O que foi que eu disse?
— Já estão cavalgando aos pares, lentos nas esquinas e a toda nas praças.
Aí tenho de descer do elevador e mandá-lo de volta para baixo, tocar a campainha e a empregada abre a porta enquanto eu cumprimento.
Franz Kafka, "Contemplação"
A obra de arte
Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.
— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?
Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:
— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer… Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida… curando-me de grave enfermidade e… não sabemos como lhe agradecer.
— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito…
Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.
— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico… como diria?… um tanto ou quanto ousado… Não é apenas decotada; é… sei lá, que diabos!
— Mas… por que diz isso?
— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.
— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!… Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra… Veja bem… Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!…
— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras…
— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente… Sou o filho único de mamãe… somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu… seu filho único… lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão… esta ninharia que… É um bronze antigo… uma obra rara… de arte.
— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?
— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim… Trata-se um objeto belíssimo… em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores… Já mamãe e eu não nos ocupamos disso…
Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.
As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.
— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida… Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e… só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!
— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato… Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui… Aparecem muitas senhoras… Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!
— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!… Bem, vou indo, adeus, doutor.
Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:
“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui… Hum… Está criado o problema… Poderia dá-lo de presente a quem?” ·
Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.
“Às mil maravilhas!”, decidiu. “Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança… E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto…” ·
Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.
— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada… — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação… Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente… Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!
Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.
— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido… É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?
Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:
— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo…
— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.
— Porque… Mamãe vem aqui, meus clientes… e além do mais é constrangedor em relação aos criados…
— Ora, essa é boa!… Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!… Trata-se de um objeto de arte… Que movimentos! Que expressão!… Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!
— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta…
O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.
Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.
“É um objeto belíssimo”, pensou. “Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa… Melhor seria oferecê-lo a alguém… Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia…”
Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.
A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos… Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: “Pode-se entrar?”, logo a voz rouca do cômico retumbava:
— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!
Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:
— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..
— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff… Todo mundo a conhece.
O cômico resolveu seguir o conselho…
Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade… Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.
— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!… Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!… Mamãe está se sentindo tão feliz!… E o senhor me salvou a vida…
E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.
Anton Tchekhov
— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?
Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:
— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer… Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida… curando-me de grave enfermidade e… não sabemos como lhe agradecer.
— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito…
Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.
— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico… como diria?… um tanto ou quanto ousado… Não é apenas decotada; é… sei lá, que diabos!
— Mas… por que diz isso?
— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.
— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!… Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra… Veja bem… Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!…
— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras…
— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente… Sou o filho único de mamãe… somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu… seu filho único… lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão… esta ninharia que… É um bronze antigo… uma obra rara… de arte.
— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?
— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim… Trata-se um objeto belíssimo… em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores… Já mamãe e eu não nos ocupamos disso…
Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.
As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.
— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida… Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e… só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!
— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato… Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui… Aparecem muitas senhoras… Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!
— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!… Bem, vou indo, adeus, doutor.
Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:
“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui… Hum… Está criado o problema… Poderia dá-lo de presente a quem?” ·
Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.
“Às mil maravilhas!”, decidiu. “Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança… E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto…” ·
Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.
— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada… — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação… Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente… Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!
Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.
— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido… É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?
Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:
— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo…
— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.
— Porque… Mamãe vem aqui, meus clientes… e além do mais é constrangedor em relação aos criados…
— Ora, essa é boa!… Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!… Trata-se de um objeto de arte… Que movimentos! Que expressão!… Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!
— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta…
O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.
Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.
“É um objeto belíssimo”, pensou. “Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa… Melhor seria oferecê-lo a alguém… Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia…”
Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.
A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos… Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: “Pode-se entrar?”, logo a voz rouca do cômico retumbava:
— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!
Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:
— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..
— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff… Todo mundo a conhece.
O cômico resolveu seguir o conselho…
Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade… Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.
— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!… Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!… Mamãe está se sentindo tão feliz!… E o senhor me salvou a vida…
E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.
Anton Tchekhov
Cantiga de Claridão
no escuro - e nasce um clarão.
Quero chamar-te de irmão.
De noite, comendo o pão,
sinto o gosto dessa aurora
que te desponta da mão.
Fazes de sombras um facho
de luz para a multidão.
És um claro companheiro
mas vives na escuridão.
Quero chamar-te de irmão.
E enquanto não chega o dia
em que o chão se abra em reinado
de trabalho e de alegria,
cantando juntos, ergamos
a arma do amor em ação.
Quero chamar-te de irmão.
De noite, comendo o pão,
sinto o gosto dessa aurora
que te desponta da mão.
Fazes de sombras um facho
de luz para a multidão.
És um claro companheiro
mas vives na escuridão.
Quero chamar-te de irmão.
E enquanto não chega o dia
em que o chão se abra em reinado
de trabalho e de alegria,
cantando juntos, ergamos
a arma do amor em ação.
Thiago de Mello
Senhor Muquifo
Ao descer para comprar pão, esbarro com o senhor Antunes, meu vizinho do 20º andar. Ele não me cumprimenta e eu não me importo. Admito que nunca dou atenção ao senhor Antunes. Nos elevadores, na garagem, no salão de festas, na piscina muitas vezes nos encontramos sem perceber que nos vemos. A verdade é que eu o trato como se ele fosse uma porta ou um hidrante. Com meu desleixo, eu o desumanizo. Nas grandes torres residenciais, cruzamos diariamente com pessoas que mal vemos, que ignoramos e que até desconsideramos. Não por maldade ou grosseria, mas por tédio.
Não devo me culpar por isso. O que eu poderia ter contra o apático senhor Antunes, um professor de metafísica que, desde a morte da mulher, leva uma rotina deprimente em um apartamento vazio? É verdade que ele tem um gato, Jeremias, e que, na companhia de um casal de japoneses, frequenta um clube de Mahjong. Mas nem esses hábitos fazem dele um bom personagem. Por que então me dedico a escrever sobre ele? Por que cismei logo com ele?
Nem o gato, nem o jogo milenar preenchem seu vazio. Nem sei se ele é mesmo professor de metafísica; dizem isso porque o senhor Antunes vive com a mente além das coisas, além da física. Vai ver é só um homem distraído e com deficiência de memória; pode até sofrer de alguma demência senil, mas por isso lhe atribuem um saber elevado. Quando não tem nada para fazer, o que acontece com frequência, o senhor Antunes se senta na borda da piscina do condomínio — em geral suja e desolada. Faz da piscina seu Egeu. E, como um pré-socrático, imagina que é daquela água porca que tudo se origina. O que, convenhamos, é desanimador.
É assim, meditando no parque aquático, entre folhas secas, guimbas de cigarro e restos de embalagens, que eu agora o encontro. Eis minha chance de fisgá-lo, eu decido como um bom cronista. Está, como quase sempre, agarrado a um livro de capa dura e lombada roída. Um livro que, na verdade, nunca ninguém o viu lendo. Foi assim: eu fazia uma faxina na sacada, cheguei até a borda para bater meu tapete, e então ele despencou. Caiu, por sorte, bem aos pés do senhor Antunes, que, no entanto, continuou imóvel.
Desci às pressas e encontrei meu tapete turco tão próximo do senhor Antunes que só me restou dizer: “Ainda bem que o senhor tomou conta dele”. Olhou-me e perguntou: “De quem?”. Eis aí a metafísica do senhor Antunes, que parece mais um déficit de atenção e um problema cognitivo do que uma filosofia. Abaixei-me, enrolei o tapete e já ia em direção ao elevador quando ele me perguntou: “O senhor acredita no Absoluto?”. Vacilei, não sabia se devia lhe dar ouvidos ou seguir meu caminho. Um sentimento difuso, que se aproximava da bondade, mas também do cinismo, me fez voltar.
“O senhor deve ser um dos que não gostam de mim”, ele disse, com uma voz lamentosa. Um vento frio espantava os frequentadores da piscina. Ao fundo, um faxineiro limpava a quadra de vôlei. O ambiente vazio se emparelhava com a figura oca do senhor Antunes. “E por que não gostam do senhor?” — me senti obrigado a perguntar. Larguei meu tapete encostado a uma mesa e esperei, de pé, que me respondesse. Pensei em me sentar um pouco, mas, caso fizesse isso, ele não me largaria mais. É um prisioneiro da solidão e isso o esvazia. Esse vazio é o que, de fora, tem uma aparência elevada. É o que chamam de metafísica. Talvez seja só uma cólica.
“Não gostam de mim porque, desde que minha mulher morreu, só me interesso pelo Absoluto”, explica. Ainda em dúvida se devia me despedir ou ficar, lhe perguntei: “O que o senhor entende por Absoluto?”. A resposta estava em seus olhos, que atravessavam a realidade como agulhas de crochê, e se lançavam em direção ao nada. Não se mexia — limitava-se a, com a ponta dos dedos, brincar com a água da piscina. Não era uma brincadeira, era um tique nervoso, era desespero. Talvez fosse ódio. Não tive mais dúvidas: o senhor Antunes sofria. Buscar o Absoluto era sua forma de sofrer.
Explicou-me que, embora tivesse a fama de filósofo, desprezava a filosofia. “Não sei de onde tiraram isso”, confessou, “nem sei o que é metafísica”. A verdade é que ninguém no condomínio se importava com o senhor Antunes. Não parecia humano, embora não fosse desumano. Não parecia existir. Seria só o fantasma de algum morador falecido? Voltei a abraçar meu tapete, sinalizando que desistira da conversa. “Posso subir com o senhor?” Não soube dizer que não. Esperei que se levantasse. Enquanto se erguia, lento, pesado (embora fosse magro), oscilante, temi que desabasse dentro d’água. Não soltava o livro, e isso o atrapalhava ainda mais.
A caminho do elevador, para mudar de assunto, perguntei: “O que o senhor está lendo?”. Respondeu que era o “Quixote”. Confessou: “Na verdade, nunca o li. Mas sei que, um dia, serei obrigado a ler e por isso não o deixo”. Tudo, no senhor Antunes, bordejava o imaterial. Tudo era longínquo e adiado. Ele mesmo, silencioso, curvo, arredio, pedia licença para existir. Fez questão de descer em meu andar. Temi que se convidasse para entrar, mas não fez isso. “Quero apenas vê-lo chegar em casa”, me disse. “É tão bom ter uma casa.” Lembrei-lhe que ele mesmo tinha um apartamento no condomínio. “Aquilo não é nada. É só um resto de minha mulher.” Ali compreendi a extensão do luto.
Eu já ia abrindo a porta, quando ele me disse: “O senhor sabia que me chamam de Muquifo?”. Era uma agressão que ele não merecia. Em sua invisibilidade, não incomodava ninguém. Podia não haver riqueza na figura do senhor Antunes, mas aquele apelido falava de uma miséria que também não existia. Pensei no modo como condenamos as pessoas simplesmente porque elas não se deixam ver. Desde aquele dia decidi que, sempre que me encontrasse com o senhor Antunes no elevador, eu o ouviria. Ainda que não me servisse de nada, ele era alguém que, mesmo que aos tropeções, tentava se aproximar de mim. Decidi que me tornaria amigo do senhor Muquifo e aqui estamos, em uma morna manhã de domingo, jogando dominó.
José Castello
Não devo me culpar por isso. O que eu poderia ter contra o apático senhor Antunes, um professor de metafísica que, desde a morte da mulher, leva uma rotina deprimente em um apartamento vazio? É verdade que ele tem um gato, Jeremias, e que, na companhia de um casal de japoneses, frequenta um clube de Mahjong. Mas nem esses hábitos fazem dele um bom personagem. Por que então me dedico a escrever sobre ele? Por que cismei logo com ele?
Nem o gato, nem o jogo milenar preenchem seu vazio. Nem sei se ele é mesmo professor de metafísica; dizem isso porque o senhor Antunes vive com a mente além das coisas, além da física. Vai ver é só um homem distraído e com deficiência de memória; pode até sofrer de alguma demência senil, mas por isso lhe atribuem um saber elevado. Quando não tem nada para fazer, o que acontece com frequência, o senhor Antunes se senta na borda da piscina do condomínio — em geral suja e desolada. Faz da piscina seu Egeu. E, como um pré-socrático, imagina que é daquela água porca que tudo se origina. O que, convenhamos, é desanimador.
É assim, meditando no parque aquático, entre folhas secas, guimbas de cigarro e restos de embalagens, que eu agora o encontro. Eis minha chance de fisgá-lo, eu decido como um bom cronista. Está, como quase sempre, agarrado a um livro de capa dura e lombada roída. Um livro que, na verdade, nunca ninguém o viu lendo. Foi assim: eu fazia uma faxina na sacada, cheguei até a borda para bater meu tapete, e então ele despencou. Caiu, por sorte, bem aos pés do senhor Antunes, que, no entanto, continuou imóvel.
Desci às pressas e encontrei meu tapete turco tão próximo do senhor Antunes que só me restou dizer: “Ainda bem que o senhor tomou conta dele”. Olhou-me e perguntou: “De quem?”. Eis aí a metafísica do senhor Antunes, que parece mais um déficit de atenção e um problema cognitivo do que uma filosofia. Abaixei-me, enrolei o tapete e já ia em direção ao elevador quando ele me perguntou: “O senhor acredita no Absoluto?”. Vacilei, não sabia se devia lhe dar ouvidos ou seguir meu caminho. Um sentimento difuso, que se aproximava da bondade, mas também do cinismo, me fez voltar.
“O senhor deve ser um dos que não gostam de mim”, ele disse, com uma voz lamentosa. Um vento frio espantava os frequentadores da piscina. Ao fundo, um faxineiro limpava a quadra de vôlei. O ambiente vazio se emparelhava com a figura oca do senhor Antunes. “E por que não gostam do senhor?” — me senti obrigado a perguntar. Larguei meu tapete encostado a uma mesa e esperei, de pé, que me respondesse. Pensei em me sentar um pouco, mas, caso fizesse isso, ele não me largaria mais. É um prisioneiro da solidão e isso o esvazia. Esse vazio é o que, de fora, tem uma aparência elevada. É o que chamam de metafísica. Talvez seja só uma cólica.
“Não gostam de mim porque, desde que minha mulher morreu, só me interesso pelo Absoluto”, explica. Ainda em dúvida se devia me despedir ou ficar, lhe perguntei: “O que o senhor entende por Absoluto?”. A resposta estava em seus olhos, que atravessavam a realidade como agulhas de crochê, e se lançavam em direção ao nada. Não se mexia — limitava-se a, com a ponta dos dedos, brincar com a água da piscina. Não era uma brincadeira, era um tique nervoso, era desespero. Talvez fosse ódio. Não tive mais dúvidas: o senhor Antunes sofria. Buscar o Absoluto era sua forma de sofrer.
Explicou-me que, embora tivesse a fama de filósofo, desprezava a filosofia. “Não sei de onde tiraram isso”, confessou, “nem sei o que é metafísica”. A verdade é que ninguém no condomínio se importava com o senhor Antunes. Não parecia humano, embora não fosse desumano. Não parecia existir. Seria só o fantasma de algum morador falecido? Voltei a abraçar meu tapete, sinalizando que desistira da conversa. “Posso subir com o senhor?” Não soube dizer que não. Esperei que se levantasse. Enquanto se erguia, lento, pesado (embora fosse magro), oscilante, temi que desabasse dentro d’água. Não soltava o livro, e isso o atrapalhava ainda mais.
A caminho do elevador, para mudar de assunto, perguntei: “O que o senhor está lendo?”. Respondeu que era o “Quixote”. Confessou: “Na verdade, nunca o li. Mas sei que, um dia, serei obrigado a ler e por isso não o deixo”. Tudo, no senhor Antunes, bordejava o imaterial. Tudo era longínquo e adiado. Ele mesmo, silencioso, curvo, arredio, pedia licença para existir. Fez questão de descer em meu andar. Temi que se convidasse para entrar, mas não fez isso. “Quero apenas vê-lo chegar em casa”, me disse. “É tão bom ter uma casa.” Lembrei-lhe que ele mesmo tinha um apartamento no condomínio. “Aquilo não é nada. É só um resto de minha mulher.” Ali compreendi a extensão do luto.
Eu já ia abrindo a porta, quando ele me disse: “O senhor sabia que me chamam de Muquifo?”. Era uma agressão que ele não merecia. Em sua invisibilidade, não incomodava ninguém. Podia não haver riqueza na figura do senhor Antunes, mas aquele apelido falava de uma miséria que também não existia. Pensei no modo como condenamos as pessoas simplesmente porque elas não se deixam ver. Desde aquele dia decidi que, sempre que me encontrasse com o senhor Antunes no elevador, eu o ouviria. Ainda que não me servisse de nada, ele era alguém que, mesmo que aos tropeções, tentava se aproximar de mim. Decidi que me tornaria amigo do senhor Muquifo e aqui estamos, em uma morna manhã de domingo, jogando dominó.
José Castello
Reportagem literária de Gaza
Por que você deixou o cavalo sozinho?
“Para fazer companhia à casa, meu filho. As casas morrem quando seus habitantes se vão.” Mahmoud DarwishEm tempos de guerra, as pessoas não saem de casa como saem para um piquenique ou uma viagem de negócios. Partem carregando a ilusão compartilhada de que sua ausência será breve. Algumas trancam a porta da frente e guardam a chave no bolso como um talismã que promete o retorno. Outras deixam xícaras de chá ainda quentes sobre a mesa, com o vapor subindo como uma esperança suspensa. Os brinquedos das crianças permanecem adormecidos em suas camas, certos de que o riso de seus donos retornará antes do pôr do sol.
Mas a guerra é uma criatura voraz. Ela não respeita horários e não dá às muralhas a chance de se despedirem daqueles que construíram suas vidas dentro delas.
Após anos de deslocamento e peregrinação, a velha pergunta — “Onde você mora?” — já não importa. Ela foi substituída por uma mais incisiva e inquietante:
O que você deixou para trás?
“Eu não deixei meu brinquedo para trás. Deixei a criança que eu costumava ser.”Layan al-Masri (11), Campo de refugiados de Deir Al-Balah
Não deixei para trás um brinquedo de plástico. Deixei toda a minha infância pregada naquele pequeno quarto com vista para o nosso limoeiro — a árvore cuja sombra matinal alcançava suavemente a minha cama ao nascer do sol.
Meu carrinho vermelho sempre ficava orgulhosamente embaixo da cama. Todas as noites, antes de dormir, eu sussurrava para suas rodinhas de borracha: "Amanhã vamos correr de novo, até o fim do corredor."
Então chegou o dia em que fugimos.
O pânico tomou conta de cada canto da casa. Rastejei para debaixo da cama procurando meu carro enquanto a escuridão e as explosões enchiam o quarto. Minha mãe chorava enquanto vestia apressadamente minha irmãzinha, colocando os sapatos nos pés errados. Meu pai gritou com uma voz que eu nunca tinha ouvido antes que os projéteis estavam se aproximando e que tínhamos que sair imediatamente.
Corri em direção à porta. Meu corpo se movia para a frente, mas meu coração continuava voltando. Olhei para trás repetidas vezes, esperando por um milagre — como se meu carrinho pudesse entender o que estava acontecendo, me seguir sozinho e pular para dentro do bolso da capa de chuva que eu vestia.
No campo de deslocados, tentei superar a perda. Construí outro carro com uma lata vazia e um pedaço de arame. Ele podia rolar, mas era silencioso. Não conhecia o som do nosso piso de azulejos. Não carregava nenhum vestígio do cheiro da minha mãe me chamando para almoçar enquanto eu ainda brincava lá fora.
Hoje, quando olho para as minhas mãos, ásperas pelo frio e pelas dificuldades, percebo que não deixei para trás um brinquedo. Deixei para trás a criança que um dia fui. Desde aquele dia, vivo no corpo de um menino de nove anos, carregando o cansaço de um velho.
“Ward”: Uma boneca congelada no tempo
“A guerra não rouba apenas objetos. Ela rouba nossa capacidade de acreditar que coisas belas podem durar.” Um Mohamed Abu Zeid (74), Campo de refugiados de JabaliyaMinha cama ficava no canto mais iluminado do quarto, ao lado da janela onde os primeiros raios de sol da manhã tocavam delicadamente o rosto da minha boneca de pano. Todos os dias, ela se sentava pacientemente no meu travesseiro, como se esperasse que eu penteasse seus macios cabelos de lã amarela antes de eu vestir meu uniforme escolar e sair correndo para a aula.
Eu a chamei de Ward—Rose.
Ela nunca foi apenas uma boneca. Ela era a guardiã dos meus segredos. Eu lhe contava sobre meus amigos, sobre a professora que elogiou minha caligrafia e sobre o vestido florido que meu pai havia prometido comprar para mim no Eid.
Quando os bombardeios começaram a sacudir nossa vizinhança, minha mãe rapidamente arrumou uma pequena mala de roupas e sussurrou, tentando parecer calma: "Voltaremos em alguns dias. Este pesadelo logo acabará."
Então deixei Ward dormindo tranquilamente debaixo de seu cobertor. Eu não queria que ela se sujasse na estrada.
Os dias se transformaram em meses. As estações passaram. Cresci em campos de deslocados onde a infância desapareceu rápido demais. Mas minha boneca permaneceu lá, aprisionada para sempre na época que deixei para trás.
Nas noites frias, imagino-a coberta de pó e cinzas, ou talvez ainda sentada no meu travesseiro com os olhos abertos, observando fielmente a porta, acreditando que um dia eu a destrancarei e voltarei para casa.
A guerra me ensinou uma lição cedo demais. Ela não me levou uma boneca de pano recheada de algodão. Ela roubou algo muito maior — a certeza inocente de que coisas belas podem permanecer onde as deixamos, intocadas pela ausência e intocadas pelo fogo.
Uma vida inteira confinada dentro da madeira
“Não deixei nenhum ouro reluzente para trás.” Hani Al-Salmi (48) Campo de refugiados de Khan YunisNão deixei para trás nenhum ouro reluzente, pois o vendemos peça por peça anos atrás para educar nossos filhos, casar nossas filhas e construir paredes para abrigá-los. Nem deixei móveis luxuosos para lamentar, pois tudo o que é feito de madeira, o tempo pode remodelar.
Mas o que me dói o coração sempre que fecho os olhos é que deixei para trás uma pequena caixa de madeira — de aparência antiga, herdada de minha mãe como um tesouro sagrado transmitido através das gerações.
Aquela caixa continha toda a geografia de nossas almas: antigas fotografias em preto e branco de rostos que há muito nos deixaram; cartas tecidas com a linguagem da saudade, escritas para mim pelo meu marido durante os anos de nossa juventude, antes do nosso casamento; a certidão de nascimento do meu primogênito, meu documento de passagem para a maternidade; e uma mecha macia de cabelo que guardei desde o dia em que minha primeira neta chegou a este mundo com seu primeiro choro.
Eu costumava abrir essa caixa durante feriados e reuniões familiares, como quem abre um gabinete de maravilhas, contando às crianças reunidas ao meu redor a história por trás de cada papel e o segredo guardado em cada pequena lembrança.
Quando as bombas de deslocamento começaram a cair sobre nós, nunca me ocorreu carregá-la. Estávamos iludidos com a ideia de que voltaríamos em poucos dias.
Agora, em meio à poeira do exílio, sinto que toda a minha vida — com todas as suas alegrias e tristezas — permanece confinada dentro daquela pequena caixa de madeira. É como se a própria memória tivesse sido arrancada do meu corpo e escolhido habitar ali.
Eu moro muito longe dali.
E vive como se fosse algo estranho para mim.
A tinta de uma vida deixada entre prateleiras
“Deixei minha biblioteca para trás.” Noor Khalil (23) Campo de refugiados de RafahAquelas prateleiras que se estendiam pelas paredes nunca foram apenas madeira sustentando papel e tinta. Elas eram minha autobiografia, escrita sem que eu jamais tivesse a intenção de escrevê-la.
Na margem de cada livro, há uma anotação que rabisquei a lápis num momento de revelação. Entre as páginas repousa uma rosa seca que colhi de um antigo jardim, ou um recorte de jornal que preserva uma história que me inspirou, ou a primeira semente de uma ideia para um romance que me surgiu inesperadamente numa noite e que ainda não foi concluída.
Ali, entre aquelas capas, deixei manuscritos secretos que nunca viram a luz do dia, cartas cheias de carinho de leitores que cruzaram meu caminho, dedicatórias escritas por escritores e amigos que eu prezava, e fotografias minhas sorrindo após sessões de autógrafos que agora parecem pertencer a outra vida.
Quando chegou a hora da partida forçada, eu não carregava nada além de uma pequena e modesta mala. Salvar a própria alma em uma pátria consumida pelo fogo era muito mais importante do que carregar papel.
Mas desde aquele dia terrível, sinto que uma parte da minha linguagem, e da maneira como eu entendia o mundo, permaneceu crucificada ali entre aquelas prateleiras — prateleiras que me entendiam e reconheciam os contornos das minhas ansiedades melhor do que eu mesma.
A guerra, em toda a sua brutalidade, não se limita a queimar papel e livros. Ela busca destruir a memória coletiva e individual neles inscrita.
Mas meu único consolo é este: as palavras que nascem do sangue não morrem. Elas sabem sobreviver. Sabem renascer no coração de seu autor.
O Vestido de Noiva e o Aroma dos Começos
“Apenas quatro meses após o meu casamento, deixei para trás uma vida que mal havia começado.” Youssef Abu Shanab (26). Campo de refugiados de Al-ShatiMal haviam se passado quatro meses desde o meu casamento. Eu ainda estava organizando os detalhes da nossa pequena casa com a inocente empolgação de uma criança pintando sua primeira obra-prima, como se uma vida inteira nos esperasse logo além da porta da frente.
Escolhi as cortinas com muito cuidado para que suavizassem a luz da manhã. Plantei uma muda de jasmim na varanda para que nossa casa respirasse seu perfume. Pendurei meu vestido de noiva branco dentro de um guarda-roupa de madeira que ainda carregava o aroma de novos começos.
Certa noite, sussurrei para meu marido que guardaria o vestido intacto até o dia em que nossa futura filha o visse.
Quando o bombardeio destruiu nossa vida tranquila, não havia tempo para pensar no vestido ou nos móveis que havíamos escolhido peça por peça.
Na escuridão e no pânico, eu buscava apenas uma coisa:
A mão do meu marido.
O medo nos impulsionou em direção ao desconhecido, e nossa casa permaneceu para trás, trancada como uma história interrompida antes de chegar ao fim — um poema cujo verso final jamais foi escrito.
O que me retorna em sonhos não é o vestido em si, nem os móveis que agora podem estar sob os escombros.
É o aroma daqueles primeiros começos.
A fragrância que preenchia todos os cômodos e me fazia acreditar que finalmente estava em segurança.
Agora entendo que esta guerra maldita não apenas adiou nossas vidas.
Nossa lua de mel, nossas esperanças e nossos sonhos mais ternos ficaram suspensos entre duas paredes desconhecidas em um campo de deslocados — paredes que não conhecem nossos nomes e que não podem nos dizer se nossa casa ainda está de pé, guardando nossas memórias, ou se já virou pó.
A possibilidade escondida atrás de uma janela
“A guerra não enterra apenas pessoas, mas também as vidas que elas poderiam ter vivido.” Samer Al-Attar (45) Deir Al-BalahEla não era minha amada no sentido usual da palavra. Nem eu era seu admirador secreto escrevendo poemas de amor à luz de uma lamparina.
Trocamos apenas cumprimentos matinais silenciosos — breves momentos repletos de constrangimento — como se o beco estreito entre nossas casas entendesse, sem que nenhum de nós dissesse uma palavra, que uma história ali aguardava, adiando-se pacientemente até que um de nós encontrasse a coragem para iniciá-la.
Todas as manhãs ela ia até a varanda para regar as flores de jasmim. Todas as manhãs eu encontrava uma nova desculpa para abrir a minha janela alguns minutos mais cedo do que o necessário, fingindo admirar o céu enquanto lançava um olhar furtivo para o rosto que, de alguma forma, se tornara a minha definição de segurança.
Eu nunca lhe escrevi uma carta. Nunca toquei em sua mão. Mas memorizei a hora exata em que ela aparecia todas as manhãs com mais precisão do que jamais memorizei os dias da semana.
Naquela terrível manhã do deslocamento, sua varanda estava vazia. O jasmim balançava sob o peso da fumaça.
Saí de lá com minha família, movidos pelo medo e pelo som dos gritos.
Até hoje, não sei se ela fugiu antes de mim ou se permaneceu sob o teto da casa onde aprendi pela primeira vez o que era o amor silencioso. O que deixei para trás nunca foram apenas as paredes da minha casa.
Deixei para trás a única possibilidade que poderia ter mudado o rumo da minha vida: a possibilidade de um dia me tornar seu marido e pai de filhos que carregassem algo do seu rosto.
A guerra não mata os amantes apenas com bombas.
Seu crime mais cruel é matar as histórias ternas que a vida nunca teve a chance de começar.
A sala de aula que ainda espera
“Não deixei para trás uma escola. Deixei para trás quarenta lugares de espera.” Fouad al-Masri (53) Campo de refugiados de Khan YounisAntes de dar o último passo para cruzar a soleira, fechei silenciosamente a porta da sala de aula, tal como fazia no final de cada dia letivo normal.
Os cadernos dos alunos ainda estavam espalhados pelas mesas. Pó branco de giz permanecia nas bordas do quadro-negro, preservando os vestígios de uma aula inacabada sobre as ferramentas necessárias para construir o futuro.
As sirenes chegaram antes mesmo do sinal da escola tocar. Eu sabia de cor o nome de todos os meus quarenta alunos. Sabia quem tinha a voz trêmula ao ler em voz alta, quem amava livros, quem era tímido demais para levantar a mão. E quem precisava de uma palavra de gentileza muito mais do que de mais uma nota perfeita no boletim.
Quando o deslocamento nos arrastou para longe, senti algo dentro de mim se despedaçar.
Era como se eu tivesse abandonado quarenta assentos órfãos, ainda esperando fielmente pelas crianças que nunca mais voltariam para reivindicá-los.
Hoje, não sinto falta dos prédios de pedra e concreto. O que me falta, em vez disso, é o eco das risadas das crianças preenchendo aqueles corredores estreitos e dando vida às paredes.
A guerra não destrói escolas apenas com projéteis. Ela destrói, dentro de cada criança, os longos e frágeis anos necessários para acreditar que vale a pena se preparar para o amanhã — e que o futuro ainda é algo que vale a pena aprender.
Os pássaros que libertei
“Às vezes, o maior ato de amor é abrir a gaiola.”Por mais de vinte anos, criei pássaros raros e coloridos. Alguns foram presentes de amigos queridos, embrulhados com carinho. Outros comprei somente depois de meses economizando com meu salário diário.
Eu conhecia cada uma daquelas vozes. Mesmo de olhos vendados, eu teria reconhecido cada pássaro pelo seu canto.
Todas as manhãs, eles saudavam o nascer do sol antes de mim.
O coro deles preencheu a casa de tal forma que parecia que o próprio amanhecer se inspirava em seu canto. No dia em que o deslocamento atingiu nosso bairro, não hesitei.
Abri todas as gaiolas.
Não havia como carregá-los comigo em meio ao caos, e eu não suportava a ideia de vê-los morrer lentamente de fome ou queimados vivos atrás de grades de ferro.
Fiquei ali parada, dividida entre lágrimas e espanto, observando-os desaparecer no céu cinzento. Eu não sabia se sobreviveriam em liberdade ou pereceriam sob os estilhaços que caíam.
Durante anos, consolei-me com o velho ditado de que os pássaros foram criados para voar livres. No entanto, meu coração permanece ligado àquelas asas que desaparecem desde então.
Hoje, sempre que ouço o canto de um pássaro que passa perto do campo de refugiados, meu coração começa a palpitar.
E eu ainda me pergunto, com a inocência de uma criança:
Será que esta é uma das minhas?
Hani al-Salmy
quarta-feira, setembro 16
Desaprender
Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: - Cá está ele!.
Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.
Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado. Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios.
É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.
Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor. Pedra campal sobre o assunto.
Alexandre O'Neill, "Uma Coisa em Forma de Assim"
Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.
Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado. Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios.
É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.
Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor. Pedra campal sobre o assunto.
Alexandre O'Neill, "Uma Coisa em Forma de Assim"
Apreensão ao começar um romance
Nunca senti maior apreensão ao começar um romance. E se digo romance é por não saber de que outra maneira chamá-lo. Não tem grande enredo, não acaba com morte nem com casamento. A morte põe termo a todas as coisas e é, portanto, fim lógico para uma história; mas também o casamento é solução muito correta e os blasés fariam mal em escarnecer daquilo que comumente se diz que “acabou bem”. O instinto popular anda acertado ao afirmar que, com isto, tudo o que devia ser dito foi dito. Quando, depois de inúmeras vicissitudes, macho e fêmea finalmente se reúnem, sua função biológica foi cumprida e o interesse passa à geração vindoura. Mas estou deixando o meu leitor no escuro. Este livro consiste das recordações que tenho de um homem com quem, em épocas muito espaçadas, tive íntimo contato; mas pouco sei do que lhe aconteceu nos intervalos. Creio que, recorrendo à imaginação, eu poderia preencher plausivelmente as lacunas e tornar mais coerente a minha narrativa; mas a tal não me sinto atraído. Quero unicamente relatar fatos de que tenho conhecimento.
Há anos escrevi um romance intitulado Um gosto e seis vinténs. Nele destaquei um famoso pintor, Paul Gauguin, e, valendo-me do privilégio do romancista, imaginei vários incidentes, no intuito de ilustrar o tipo que eu criara inspirado nos escassos fatos que conhecia da vida do artista francês. Na obra atual nada tentei de semelhante. Não inventei coisa alguma. Para poupar constrangimento a pessoas que ainda vivem, dei aos personagens desta história nomes fictícios e procurei, por outros meios, evitar que sejam reconhecidos. O homem sobre quem escrevo não é célebre; talvez nunca chegue a sê-lo. É possível que, ao atingir o fim da vida, não deixe, de sua passagem pela terra, vestígio maior que aquele que a pedra, atirada ao rio, deixa na superfície das águas. Neste caso, se o meu livro for lido, sê-lo-á exclusivamente pelo interesse intrínseco que possa ter. Mas é possível que o gênero de vida que esse homem escolheu para si próprio e a singular força e doçura do seu caráter tenham uma influência sempre crescente sobre seus semelhantes, de modo que, mesmo muito tempo depois de sua morte, talvez se compreenda que nesta época viveu uma criatura extraordinária. Ficará, então, claro sobre quem escrevi neste livro, e aqueles que desejarem conhecer alguma coisa dos primeiros anos da existência desse homem talvez aqui encontrem algo que lhes satisfaça. Creio que o meu livro, dentro de suas possibilidades, que reconheço limitadas, será uma útil fonte de informações para os biógrafos do meu amigo.
Não é minha intenção fazer crer que as conversas foram registradas literalmente. Não tomei nota sobre o que foi dito nesta ou naquela ocasião, mas tenho boa memória quanto ao que me diz respeito e creio que, embora expressas em minhas próprias palavras, essas conversas representam fielmente o que foi dito. Há pouco declarei nada ter inventado; quero agora modificar essa asserção. Tomei a liberdade, que desde o tempo de Heródoto os historiadores têm tomado, de pôr nos lábios dos meus personagens palavras que eu, pessoalmente, não poderia ter ouvido. Agi pela mesma razão que os fez agir; para dar vida e verossimilhança a cenas que teriam sido incolores se apenas relatadas. Quero ser lido, e creio estar no meu direito quando faço o possível para tornar agradável a leitura do meu livro. O leitor inteligente facilmente perceberá em que ocasiões me vali deste artifício e tem toda a liberdade de rejeitá-lo.
William Somerset Maugham, "O fio da navalha"
Há anos escrevi um romance intitulado Um gosto e seis vinténs. Nele destaquei um famoso pintor, Paul Gauguin, e, valendo-me do privilégio do romancista, imaginei vários incidentes, no intuito de ilustrar o tipo que eu criara inspirado nos escassos fatos que conhecia da vida do artista francês. Na obra atual nada tentei de semelhante. Não inventei coisa alguma. Para poupar constrangimento a pessoas que ainda vivem, dei aos personagens desta história nomes fictícios e procurei, por outros meios, evitar que sejam reconhecidos. O homem sobre quem escrevo não é célebre; talvez nunca chegue a sê-lo. É possível que, ao atingir o fim da vida, não deixe, de sua passagem pela terra, vestígio maior que aquele que a pedra, atirada ao rio, deixa na superfície das águas. Neste caso, se o meu livro for lido, sê-lo-á exclusivamente pelo interesse intrínseco que possa ter. Mas é possível que o gênero de vida que esse homem escolheu para si próprio e a singular força e doçura do seu caráter tenham uma influência sempre crescente sobre seus semelhantes, de modo que, mesmo muito tempo depois de sua morte, talvez se compreenda que nesta época viveu uma criatura extraordinária. Ficará, então, claro sobre quem escrevi neste livro, e aqueles que desejarem conhecer alguma coisa dos primeiros anos da existência desse homem talvez aqui encontrem algo que lhes satisfaça. Creio que o meu livro, dentro de suas possibilidades, que reconheço limitadas, será uma útil fonte de informações para os biógrafos do meu amigo.
Não é minha intenção fazer crer que as conversas foram registradas literalmente. Não tomei nota sobre o que foi dito nesta ou naquela ocasião, mas tenho boa memória quanto ao que me diz respeito e creio que, embora expressas em minhas próprias palavras, essas conversas representam fielmente o que foi dito. Há pouco declarei nada ter inventado; quero agora modificar essa asserção. Tomei a liberdade, que desde o tempo de Heródoto os historiadores têm tomado, de pôr nos lábios dos meus personagens palavras que eu, pessoalmente, não poderia ter ouvido. Agi pela mesma razão que os fez agir; para dar vida e verossimilhança a cenas que teriam sido incolores se apenas relatadas. Quero ser lido, e creio estar no meu direito quando faço o possível para tornar agradável a leitura do meu livro. O leitor inteligente facilmente perceberá em que ocasiões me vali deste artifício e tem toda a liberdade de rejeitá-lo.
William Somerset Maugham, "O fio da navalha"
Vós que lá, do vosso império
Vós que lá, do vosso império
Prometeis um mundo novo
Calai-vos que pode o povo
Querer um mundo novo, a sério!
Aquele que trabalha e come,
Não come o pão de ninguém.
Mas quem não trabalha e come,
Come sempre o pão de alguém!
António Aleixo
Prometeis um mundo novo
Calai-vos que pode o povo
Querer um mundo novo, a sério!
Aquele que trabalha e come,
Não come o pão de ninguém.
Mas quem não trabalha e come,
Come sempre o pão de alguém!
António Aleixo
A propósito da neve úmida
Mas a fase de minhas devassidõezinhas estava terminando, e eu começava a ficar terrivelmente nauseado. Se era assomado pelo arrependimento, eu o enxotava: a náusea que ele causava era demasiada. Aos poucos, porém, fui me acostumando com isso também. Eu me acostumava a tudo, ou melhor, não me acostumava, propriamente, e sim, de certa forma, concordava voluntariamente em suportar. Mas eu tinha uma saída conciliadora, que era refugiar-me em tudo que fosse “belo e sublime”, em sonhos, naturalmente. Eu era um terrível sonhador, sonhava até por três meses seguidos, enfiado no meu canto, e creiam-me: nesses momentos eu não me parecia com aquele senhor que, na perturbação de seu coração de galinha, costurava uma pele de castor alemã à gola do seu capote. De repente me transformava em herói. Não admitiria meu tenente grandalhão na minha casa nem como visita. Já nem conseguia mais imaginá-lo. Agora é difícil dizer quais eram os meus sonhos e como eles podiam me satisfazer, mas o fato é que naquela época eles me satisfaziam. Aliás, mesmo agora eu me satisfaço parcialmente dessa maneira. Sonhos particularmente mais fortes e doces me vinham depois da devassidãozinha, vinham com arrependimento e lágrimas, com maldições e arrebatamentos. Aconteciam momentos tão bons de inebriamento, de tal felicidade, que, juro por Deus, não sentia dentro de mim nem sombra de deboche. O que havia era fé, esperança e amor. Acontece que, naquela época, o que eu acreditava cegamente era que por um milagre, por uma circunstância exterior qualquer, tudo de repente iria mover-se, alargar-se; que de repente surgiria o horizonte da atividade conveniente, nobre e maravilhosa e, principalmente, completamente pronta (exatamente qual seria eu nunca soube, mas o mais importante é que estaria completamente pronta), e eu surgiria de repente neste mundo de Deus nada menos que montado num cavalo branco e com uma coroa de louros. Um papel secundário eu nunca pude aceitar, e era por isso que na vida real ocupava muito tranquilamente o último lugar. Ou herói ou a lama, não havia meio-termo. Isso foi a minha perdição, porque, na lama, eu me consolava dizendo que em outras ocasiões eu era herói, e o herói encobria a sujeira: para uma pessoa comum, é vergonhoso sujar-se na lama, mas um herói está muito acima de tudo e não vai se sujar inteiramente, por isso ele pode sujar-se um pouco. É admirável que esses acessos de “tudo o que é belo e sublime” me vinham também durante minha devassidãozinha, e precisamente no momento em que eu me encontrava já no fundo; vinham como pequenos lampejos isolados, como que para se fazerem lembrar, mas, pelo fato de aparecerem, não a impediam; ao contrário, parece que a avivavam pelo contraste e vinham na medida exata para um bom molho. O molho, aqui, era constituído de contradições e sofrimentos, de uma análise interior martirizante, e todos esses suplícios e supliciozinhos conferiam um sabor picante e até um sentido à minha devassidãozinha – em suma, executavam perfeitamente a função de um bom molho. Tudo isso se dava não sem uma certa profundidade. E acaso eu poderia concordar com uma devassidãozinha de segunda, simples, vulgar, direta, de amanuense, e suportar toda essa sujeira? Que poderia haver nela para me seduzir e atrair para a rua à noite? Não, senhores, eu tinha uma escapatória nobre para tudo...
Porém, quanto amor, senhores, quanto amor eu experimentava nesses meus devaneios, nessas “salvações em tudo o que é belo e sublime”: embora fosse um amor fantástico que jamais se aplicaria a alguma coisa humana e real, ele era tão grande que nem se sentia necessidade de aplicá-lo à realidade, pois seria um luxo excessivo. Tudo, aliás, terminava sempre da maneira mais satisfatória, com a passagem preguiçosa e inebriante para a arte, ou seja, para as belas formas da existência, inteiramente acabadas, fortemente roubadas dos poetas e romancistas e que se adaptam facilmente a toda sorte de serviços e exigências. Eu, por exemplo, triunfo sobre todo mundo. Todos, evidentemente, viraram pó e são obrigados a reconhecer espontaneamente as minhas perfeições, mas eu os perdoo. Ora me apaixono, quando sou um poeta célebre e camerista da corte, ora recebo incontáveis milhões e logo em seguida sacrifico-os em prol do gênero humano e, na mesma ocasião, confesso diante do povo as minhas infâmias que, evidentemente, não são simplesmente infâmias, mas que encerram em si uma quantidade extraordinária de “belo e sublime”, algo “manfrediano”. Todos choram e me beijam (de outra forma, que idiotas eles seriam!), e eu parto, descalço e faminto, para pregar novas ideias e derroto os retrógrados em Austerlitz! Em seguida começa a soar uma marcha, é decretada a anistia, o papa concorda em deixar Roma e ir para o Brasil; depois há um baile para toda a Itália na Villa Borghese, que está situada na margem do lago de Como, que fora transportado para Roma especialmente para essa ocasião; depois há uma cena entre os arbustos, etc., etc. Será que senhores não sabem disso? Os senhores dirão que é vulgar e indigno expor tudo isso em praça pública, depois de tantos arrebatamentos e lágrimas que eu mesmo confessei. Por que seria indigno? Será possível que os senhores pensem que eu me envergonho de tudo isso e que tudo isso era mais idiota do que qualquer episódio de suas próprias vidas? Ademais, acreditem os senhores: algumas coisas estavam até bem resolvidas para mim... Nem tudo se passava no lago de Como. Aliás, os senhores estão certos: de fato era vulgar e indigno. Mas o mais indigno de tudo é que agora comecei a me justificar para os senhores. E mais indigno ainda é eu estar fazendo esta observação. Mas basta, senão isso nunca terá fim: sempre haverá uma coisa mais indigna que a anterior…
Eu não era capaz de ficar mais de três meses seguidos devaneando e começava então a sentir uma necessidade incontrolável de mergulhar na sociedade, o que, para mim, significava visitar o meu chefe de seção, Anton Anônytch Sétotchkin. Foi a única pessoa conhecida com quem mantive uma relação constante durante toda a vida, fato que, agora, até eu mesmo considero surpreendente. Mas, mesmo à sua casa, eu só ia quando entrava na fase oportuna, e meus sonhos atingiam tal felicidade que eu sentia uma necessidade imperiosa de imediatamente abraçar as pessoas e toda a humanidade; e, para isso, era necessário ter a presença de pelo menos uma pessoa concreta. Anton Antônytch recebia às terças-feiras e, consequentemente, a vontade de abraçar toda a humanidade tinha que cair sempre na terça-feira. Esse Anton Antônytch morava perto das Cinco Esquinas, no quarto andar, num apartamento de quatro peças, cada uma menor que a outra, com o teto baixinho, tudo meio amarelado e dando a impressão de economia. Viviam com ele as duas filhas e a tia delas, que servia o chá. As filhas tinham treze e catorze anos e ambas tinham narizinho arrebitado. Eu ficava terrivelmente constrangido na presença das meninas, porque elas cochichavam o tempo todo, dando risadinhas. O dono da casa geralmente permanecia no seu escritório, sentado num divã de couro em frente à mesa, em companhia de algum convidado de cabelos grisalhos, funcionário do nosso departamento ou mesmo de algum outro. Nunca vi lá mais de dois ou três visitantes, e eram sempre os mesmos. Conversavam sobre o imposto indireto, as licitações no senado, os salários, a produção, Sua Excelência, os meios de agradar, etc. etc. Pacientemente, eu ficava ali sentado umas quatro horas junto a essas pessoas como um idiota, ouvindo-as, sem coragem ou sem assunto para falar com elas. Sentia-me burro, vinham-me ondas de suor e parecia que estava tendo um ataque de paralisia, mas isso tinha seu lado bom e útil. Chegando em casa, por algum tempo desistia do meu desejo de abraçar a humanidade.
Pensando bem, eu ainda tinha um tipo de conhecido, o meu colega de escola Símonov. Eu tinha muitos ex-colegas de escola em Petersburgo, mas não me dava com eles e já nem os cumprimentava na rua. Talvez eu tenha pedido transferência para outro departamento justamente para não ficar junto deles e romper de uma vez por todas com a minha infância detestável. Que a maldição caia sobre aquela escola e aqueles terríveis anos de trabalhos forçados! Resumindo, eu me separei dos meus colegas assim que ganhei a liberdade. Restaram uns dois ou três que eu ainda cumprimentava quando encontrava. Um deles era Símonov, que na escola não se distinguia em nada, era quieto e constante, mas em quem eu percebi alguma independência de caráter e mesmo honestidade. Até nem acho que ele fosse muito limitado. Numa certa época, nós dois tivemos alguns momentos bastante agradáveis, mas que não duraram muito e, de repente, parece que foram encobertos por uma espécie de bruma. Aparentemente, essas recordações eram difíceis para ele, que parecia temer que eu voltasse ao antigo tom. Eu desconfiava de que lhe causava muita repugnância, mas apesar de tudo eu o visitava, pois não tinha certeza absoluta disso.
Certa quinta-feira, não suportando minha solidão e sabendo que naquele dia a porta de Anton Antônytch estava fechada, lembrei-me de Símonov. Quando subia para o quarto andar, estava exatamente pensando que esse senhor não se sentia à vontade comigo e que em vão eu o procurava. Mas, como sempre, tais reflexões, como que de propósito, incitavam-me ainda mais a me meter em situações dúbias, e eu entrei. Fazia quase um ano que eu não via Símonov.
Fiódor Dostoiévski, "Notas do Subsolo"
Porém, quanto amor, senhores, quanto amor eu experimentava nesses meus devaneios, nessas “salvações em tudo o que é belo e sublime”: embora fosse um amor fantástico que jamais se aplicaria a alguma coisa humana e real, ele era tão grande que nem se sentia necessidade de aplicá-lo à realidade, pois seria um luxo excessivo. Tudo, aliás, terminava sempre da maneira mais satisfatória, com a passagem preguiçosa e inebriante para a arte, ou seja, para as belas formas da existência, inteiramente acabadas, fortemente roubadas dos poetas e romancistas e que se adaptam facilmente a toda sorte de serviços e exigências. Eu, por exemplo, triunfo sobre todo mundo. Todos, evidentemente, viraram pó e são obrigados a reconhecer espontaneamente as minhas perfeições, mas eu os perdoo. Ora me apaixono, quando sou um poeta célebre e camerista da corte, ora recebo incontáveis milhões e logo em seguida sacrifico-os em prol do gênero humano e, na mesma ocasião, confesso diante do povo as minhas infâmias que, evidentemente, não são simplesmente infâmias, mas que encerram em si uma quantidade extraordinária de “belo e sublime”, algo “manfrediano”. Todos choram e me beijam (de outra forma, que idiotas eles seriam!), e eu parto, descalço e faminto, para pregar novas ideias e derroto os retrógrados em Austerlitz! Em seguida começa a soar uma marcha, é decretada a anistia, o papa concorda em deixar Roma e ir para o Brasil; depois há um baile para toda a Itália na Villa Borghese, que está situada na margem do lago de Como, que fora transportado para Roma especialmente para essa ocasião; depois há uma cena entre os arbustos, etc., etc. Será que senhores não sabem disso? Os senhores dirão que é vulgar e indigno expor tudo isso em praça pública, depois de tantos arrebatamentos e lágrimas que eu mesmo confessei. Por que seria indigno? Será possível que os senhores pensem que eu me envergonho de tudo isso e que tudo isso era mais idiota do que qualquer episódio de suas próprias vidas? Ademais, acreditem os senhores: algumas coisas estavam até bem resolvidas para mim... Nem tudo se passava no lago de Como. Aliás, os senhores estão certos: de fato era vulgar e indigno. Mas o mais indigno de tudo é que agora comecei a me justificar para os senhores. E mais indigno ainda é eu estar fazendo esta observação. Mas basta, senão isso nunca terá fim: sempre haverá uma coisa mais indigna que a anterior…
Eu não era capaz de ficar mais de três meses seguidos devaneando e começava então a sentir uma necessidade incontrolável de mergulhar na sociedade, o que, para mim, significava visitar o meu chefe de seção, Anton Anônytch Sétotchkin. Foi a única pessoa conhecida com quem mantive uma relação constante durante toda a vida, fato que, agora, até eu mesmo considero surpreendente. Mas, mesmo à sua casa, eu só ia quando entrava na fase oportuna, e meus sonhos atingiam tal felicidade que eu sentia uma necessidade imperiosa de imediatamente abraçar as pessoas e toda a humanidade; e, para isso, era necessário ter a presença de pelo menos uma pessoa concreta. Anton Antônytch recebia às terças-feiras e, consequentemente, a vontade de abraçar toda a humanidade tinha que cair sempre na terça-feira. Esse Anton Antônytch morava perto das Cinco Esquinas, no quarto andar, num apartamento de quatro peças, cada uma menor que a outra, com o teto baixinho, tudo meio amarelado e dando a impressão de economia. Viviam com ele as duas filhas e a tia delas, que servia o chá. As filhas tinham treze e catorze anos e ambas tinham narizinho arrebitado. Eu ficava terrivelmente constrangido na presença das meninas, porque elas cochichavam o tempo todo, dando risadinhas. O dono da casa geralmente permanecia no seu escritório, sentado num divã de couro em frente à mesa, em companhia de algum convidado de cabelos grisalhos, funcionário do nosso departamento ou mesmo de algum outro. Nunca vi lá mais de dois ou três visitantes, e eram sempre os mesmos. Conversavam sobre o imposto indireto, as licitações no senado, os salários, a produção, Sua Excelência, os meios de agradar, etc. etc. Pacientemente, eu ficava ali sentado umas quatro horas junto a essas pessoas como um idiota, ouvindo-as, sem coragem ou sem assunto para falar com elas. Sentia-me burro, vinham-me ondas de suor e parecia que estava tendo um ataque de paralisia, mas isso tinha seu lado bom e útil. Chegando em casa, por algum tempo desistia do meu desejo de abraçar a humanidade.
Pensando bem, eu ainda tinha um tipo de conhecido, o meu colega de escola Símonov. Eu tinha muitos ex-colegas de escola em Petersburgo, mas não me dava com eles e já nem os cumprimentava na rua. Talvez eu tenha pedido transferência para outro departamento justamente para não ficar junto deles e romper de uma vez por todas com a minha infância detestável. Que a maldição caia sobre aquela escola e aqueles terríveis anos de trabalhos forçados! Resumindo, eu me separei dos meus colegas assim que ganhei a liberdade. Restaram uns dois ou três que eu ainda cumprimentava quando encontrava. Um deles era Símonov, que na escola não se distinguia em nada, era quieto e constante, mas em quem eu percebi alguma independência de caráter e mesmo honestidade. Até nem acho que ele fosse muito limitado. Numa certa época, nós dois tivemos alguns momentos bastante agradáveis, mas que não duraram muito e, de repente, parece que foram encobertos por uma espécie de bruma. Aparentemente, essas recordações eram difíceis para ele, que parecia temer que eu voltasse ao antigo tom. Eu desconfiava de que lhe causava muita repugnância, mas apesar de tudo eu o visitava, pois não tinha certeza absoluta disso.
Certa quinta-feira, não suportando minha solidão e sabendo que naquele dia a porta de Anton Antônytch estava fechada, lembrei-me de Símonov. Quando subia para o quarto andar, estava exatamente pensando que esse senhor não se sentia à vontade comigo e que em vão eu o procurava. Mas, como sempre, tais reflexões, como que de propósito, incitavam-me ainda mais a me meter em situações dúbias, e eu entrei. Fazia quase um ano que eu não via Símonov.
Fiódor Dostoiévski, "Notas do Subsolo"
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