Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
segunda-feira, abril 20
Nos salões do sonho
Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!
Mario Quintana
Conversa com o Diabo
Ele cumpriu a promessa. Veio visitar-me de novo. Veio elegantemente trajado, dessa vez usando um blazer vermelho, por conselho de um famoso figurinista. Depois dos abraços iniciais, ele relembrou o fim da nossa conversa anterior, quando disse que as pessoas que se dizem endemoninhadas não estão possuídas pelo Diabo coisa nenhuma. Estão é possuídas pelo seu próprio traseiro...
“Ah! O reverso da palavra! Os que não entendem poesia leem poesia do mesmo jeito que leem bula de remédio, em que cada palavra tem de significar precisamente o que o dicionário diz. Já os poetas sabem que cada palavra significa uma outra coisa. Se um poema dissesse que um peixe engoliu um homem que ficou três dias dentro dele e até escreveu poesia durante esse tempo, você pensaria que isso aconteceu de verdade ou que é literatura, realismo fantástico?
“Pois Deus resolveu oferecer um banquete de palavras para os homens e desandou a escrever poemas lindos. E pediu minha opinião.
“‘O que é que você acha disso? Será que os homens vão gostar?’
“Eu provei e gostei, mas ponderei: ‘Senhor, banquete maravilhoso. Mas é preciso não se enganar. Os homens vão comer? Claro que vão comer. Vão comer por quê? Porque têm um agudo senso de discriminação, porque são sábios, porque sabem diferenciar literatura boa de literatura ruim? Não é nada disso. Vão comer porque — lamento dizer isso — frequentemente o seu gosto não se diferencia do gosto dos porcos. Eles não sabem distinguir qualidade de quantidade. Falta-lhes o dom da discriminação. Comem tudo, engolem tudo, engordam, quanto mais melhor... Acham que, se está escrito no livro, é palavra de Deus... E aí o senhor vai sorrir enganado pensando que eles realmente perceberam a finura da sua culinária literária. Já viu as revistas que eles devoram? E as revistas pornô? E os livrinhos piedosos, melado de rapadura de tão doces e bobos. Senhor, o povo come qualquer coisa e gosta...’.
“‘É preciso reconhecer que Dostoiévski estava certo: os homens não estão atrás de Deus por amor; o que eles querem mesmo são os milagres...’
“Deus então me perguntou: ‘Que devo fazer? Quero convidar para o meu banquete só aqueles que têm o gosto refinado para que possam se deleitar com a beleza dos meus poemas’.
“Aí eu respondi: ‘É simples. Vamos misturar os seus poemas com literatura vagabunda, sem sentido, boba, essas revistas que ficam em pilhas nos consultórios médicos e dentários, mais coisas de horror, de absurdo, de autoajuda... Vamos pôr todos os pratos num bufê imenso, os poemas divinos com os pratos que eu, o Testador, vou inventar. Misturamos tudo e observamos.
“Deus ponderou a minha sugestão e pediu-me então que escrevesse umas estórias para misturar com os seus poemas. Foi o que fiz. Que isso que estou dizendo é verdade está confirmado pelo próprio Jesus, na parábola do trigo e do joio. Um homem plantou um campo de trigo. Veio um inimigo de noite e semeou joio no meio do trigo. Quando os empregados viram o joio nascendo ficaram horrorizados e puseram-se a arrancá-lo. O dono do campo ordenou que parassem. Que o trigo e o joio crescessem misturados. Assim, usando as palavras do próprio Jesus, os textos ditos sagrados são uma mistura de trigo e joio. Quem pegar o joio pensando que é trigo é um tolo. Vai ficar de fora do banquete...
“Na próxima vez vou contar a estória que inventei sobre o primeiro assassinato da história da humanidade. E vou adiantar: o seu tema é uma querela sobre a dieta divina...”
Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"
“Ah! O reverso da palavra! Os que não entendem poesia leem poesia do mesmo jeito que leem bula de remédio, em que cada palavra tem de significar precisamente o que o dicionário diz. Já os poetas sabem que cada palavra significa uma outra coisa. Se um poema dissesse que um peixe engoliu um homem que ficou três dias dentro dele e até escreveu poesia durante esse tempo, você pensaria que isso aconteceu de verdade ou que é literatura, realismo fantástico?
“Coisa que Deus gosta de fazer é cozinhar. Mas a culinária divina tem uma peculiaridade: Deus mistura poemas com a comida. Comida que não tem poema misturado não é coisa de Deus. Pois não é isso que é a eucaristia, comida misturada com palavras?
“Pois Deus resolveu oferecer um banquete de palavras para os homens e desandou a escrever poemas lindos. E pediu minha opinião.
“‘O que é que você acha disso? Será que os homens vão gostar?’
“Eu provei e gostei, mas ponderei: ‘Senhor, banquete maravilhoso. Mas é preciso não se enganar. Os homens vão comer? Claro que vão comer. Vão comer por quê? Porque têm um agudo senso de discriminação, porque são sábios, porque sabem diferenciar literatura boa de literatura ruim? Não é nada disso. Vão comer porque — lamento dizer isso — frequentemente o seu gosto não se diferencia do gosto dos porcos. Eles não sabem distinguir qualidade de quantidade. Falta-lhes o dom da discriminação. Comem tudo, engolem tudo, engordam, quanto mais melhor... Acham que, se está escrito no livro, é palavra de Deus... E aí o senhor vai sorrir enganado pensando que eles realmente perceberam a finura da sua culinária literária. Já viu as revistas que eles devoram? E as revistas pornô? E os livrinhos piedosos, melado de rapadura de tão doces e bobos. Senhor, o povo come qualquer coisa e gosta...’.
“‘É preciso reconhecer que Dostoiévski estava certo: os homens não estão atrás de Deus por amor; o que eles querem mesmo são os milagres...’
“Deus então me perguntou: ‘Que devo fazer? Quero convidar para o meu banquete só aqueles que têm o gosto refinado para que possam se deleitar com a beleza dos meus poemas’.
“Aí eu respondi: ‘É simples. Vamos misturar os seus poemas com literatura vagabunda, sem sentido, boba, essas revistas que ficam em pilhas nos consultórios médicos e dentários, mais coisas de horror, de absurdo, de autoajuda... Vamos pôr todos os pratos num bufê imenso, os poemas divinos com os pratos que eu, o Testador, vou inventar. Misturamos tudo e observamos.
Aqueles que comerem tudo e gostarem de tudo — acham que assim estão agradando a Deus —, esses são os tolos. Incapazes de distinguir o belo das tolices. Mas aqueles que forem seletivos, que não aceitarem tudo, que cheirarem e separarem, aqueles que tiverem a sensibilidade para dizer: ‘Isso é poesia divina e isso é literatura de terceira categoria’, esses merecem ser convidados para o banquete final’.
“Deus ponderou a minha sugestão e pediu-me então que escrevesse umas estórias para misturar com os seus poemas. Foi o que fiz. Que isso que estou dizendo é verdade está confirmado pelo próprio Jesus, na parábola do trigo e do joio. Um homem plantou um campo de trigo. Veio um inimigo de noite e semeou joio no meio do trigo. Quando os empregados viram o joio nascendo ficaram horrorizados e puseram-se a arrancá-lo. O dono do campo ordenou que parassem. Que o trigo e o joio crescessem misturados. Assim, usando as palavras do próprio Jesus, os textos ditos sagrados são uma mistura de trigo e joio. Quem pegar o joio pensando que é trigo é um tolo. Vai ficar de fora do banquete...
“Na próxima vez vou contar a estória que inventei sobre o primeiro assassinato da história da humanidade. E vou adiantar: o seu tema é uma querela sobre a dieta divina...”
Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"
Tardes imprevistas
Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara —, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história contínua, mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Com outros olhos
Da ampla janela, aberta sobre o jardinzinho pênsil da casa, via-se, como que pousado no azul vivo da fresca manhã, um ramo de amendoeira florida, e ouvia-se, misturado ao quieto e rouco gotejar do chafariz no meio do jardim, o bimbalhar festivo das igrejas distantes e a garrulice das andorinhas ébrias de ar e de sol.
Ao retirar-se da janela, suspirando, Ana percebeu que o marido, naquela manhã, esquecera-se de decompor a cama, como fazia sempre, para que os criados não notassem que ele não dormira em seu quarto. Pousou então os cotovelos na cama intacta, depois ali se apoiou com o busto todo, dobrando a bela cabeça loura sobre os travesseiros e semicerrando os olhos, como que para saborear, no frescor do linho, os sonos que ali costumava dormir. Um bando de andorinhas tresmalhadas veio rumorejar diante da janela.
— Teria sido melhor que houvesse deitado aqui — murmurou entre si; e levantou-se cansada.
O marido ia partir naquela mesma noite, e ela entrara no quarto dele a fim de preparar-lhe o necessário para a viagem.
Ao abrir o guarda-roupa, ouviu como que um chiado na gaveta interna e logo se afastou, assustada. Apanhou de um canto do quarto uma bengala de cabo recurvo e, mantendo junto às pernas o vestido, pegou a bengala pela ponta e experimentou abrir com ela, assim afastada, a gaveta. Mas, ao puxar, ao invés da gaveta veio para fora, agilmente, da bengala, uma luzidia e perigosa lâmina. Isso ela não esperava; ficou assustada e deixou cair das mãos a bainha do estoque.
Naquele momento, um outro chiado fê-la voltar-se de repente, na dúvida de que também o primeiro tivesse partido de alguma andorinha batendo nas vidraças.
Afastou com o pé a arma desembainhada e puxou para fora, entre as duas portinholas abertas, a gaveta repleta de roupas velhas, ali guardadas pelo marido. Por improvisa curiosidade, passou então a revistá-la e, ao mexer num paletó velho e desbotado, ocorreu-lhe esbarrar nas orlas, sob o forro, como num pedaço de papelão, deslizado para ali do bolso furado; quis ver o que seria aquela carta caída ali, quem sabe há quantos anos, e esquecida; e assim, por acaso, Ana descobriu o retrato da primeira mulher de seu marido.
Empalidecendo, com a vista turva e o coração em suspenso, correu à janela, e ali permaneceu longo tempo, atônita, a contemplar a imagem desconhecida, como que presa de uma sensação de espanto.
O volumoso arranjo do penteado e o vestido de estilo antigo não lhe fizeram notar a princípio a beleza daquele rosto; mas, apenas pôde apanhar-lhe os traços, abstraindo-os dos enfeites, que agora, tantos anos depois, pareciam grotescos, e fixar-lhe especialmente os olhos, sentiu-se quase ofendida, e um ímpeto de ódio lhe saltou do coração ao cérebro: ódio de ciúme póstumo; ódio misto a desprezo, que experimentara por aquela que se enamorara do homem que agora era seu marido, depois de onze anos da tragédia conjugal que destruíra de chofre o primeiro lar dele.
Ana odiara aquela mulher, não sabendo compreender como pudera trair o homem que ela agora adorava e, em segundo lugar, porque seus parentes se haviam oposto ao seu casamento com Brívio, como se este houvesse sido responsável pela infâmia e pela morte violenta da mulher infiel.
Era ela, sim, era, sem dúvida! a primeira mulher de Vittore: aquela que se suicidara!
Teve disso a confirmação pela dedicatória escrita no verso do retrato: Ao meu Vittore, a sua Almira — 11 de novembro de 1873.
Ana tivera notícias muitos vagas a respeito da morta: sabia apenas que o marido, descoberta a traição, obrigara-a, com a impassibilidade de um juiz, a suicidar-se.
Agora, ela evocou com prazer esta condenação do marido, irritada por aquele “meu” e por aquele “sua” da dedicatória, como se a outra houvesse desejado ostentar, assim, estreitamente, o liame que reciprocamente unira ela e Vittore, unicamente para fazer-lhe desaforo.
Ante aquele primeiro relâmpago de ódio, faiscado pela rivalidade para ela agora existente, seguiu-se na alma de Ana a curiosidade feminina de examinar os traços daquele rosto, mas quase contida pela estranha consternação que se experimenta perante um objeto que pertenceu a alguém tragicamente desaparecido; consternação agora mais viva, mas a ela não desconhecida, porque nisso se concentrara todo o seu amor pelo marido, que já pertencera àquela outra mulher.
Ao examinar-lhe o rosto, Ana percebeu logo quanto se diferenciava do seu; e surgiu-lhe ao mesmo tempo do coração a pergunta: como pudera o marido amar aquela mulher, aquela mocinha, certamente mais bonita para ele, e pudesse depois enamorar-se dela, tão diferente?
Parecia-lhe belo, muito mais belo que o seu também, aquele rosto que, pelo retrato, devia ser moreno. Ei-lo: e aqueles lábios se haviam unido, no beijo, aos dele; mas, por que então, nos cantos da boca, aquela prega dolorosa? E porque tão triste o olhar daqueles olhos profundos? O rosto inteiro transpirava uma intensa mágoa; e Ana sentiu quase raiva da bondade humilde e real que aqueles traços exprimiam, e daí um gesto de repulsa e aversão, parecendo-lhe de súbito descobrir no olhar daqueles olhos a mesma expressão dos seus, quando, ao pensar no marido, se olhava ao espelho, pela manhã, depois de se haver arrumado.
Teve o tempo ainda de pôr no bolso o retrato: o marido apareceu, bufando, à entrada do quarto.
— Que fez você? Como sempre? Arrumou? Oh, pobre de mim! Agora não encontro mais nada!
Ao ver o estoque desembainhado no chão:
— Ah! Você brincou também de esgrima, com as roupas do armário?
E riu com aquele seu riso, que partia somente da garganta, como se alguém lha houvesse beliscado; e, ao rir assim, olhou para a mulher, talvez para perguntar-lhe o porquê de seu próprio riso. E, olhando, batia as pálpebras sem cessar, celeríssimamente, sobre os olhinhos agudos, negros, irrequietos.
Vittore Brívio tratava a mulher como a uma menina incapaz de outra coisa a não ser daquele amor ingênuo e quase pueril de que se sentia circundado, às vezes com tédio, e ao qual se propusera prestar atenção somente de vez em quando, mostrando, também então, uma condescendência quase embebida de leve ironia, parecendo dizer-lhe: “Pois bem, que seja! durante algum tempo, serei criança também com você: é preciso mesmo fazer isto, mas não percamos demasiado tempo!”
Ana deixara cair a seus pés o velho paletó, onde encontrara o retrato. Ele ergueu-o, metendo-lhe a ponta do estoque, depois chamou da janela o criado, que se achava no jardim e que servia também de cocheiro e que, no momento, estava atrelando o cavalo ao trole. Assim que o rapaz se apresentou, em mangas de camisa, diante da janela, Brívio atirou-lhe à cara, grosseiramente, o paletó espetado, acompanhando a esmola com um: “Tome, isto é para você!”
— Assim você terá menos para escovar — acrescentou, dirigindo-se à mulher — e também para arrumar, esperemos!
E novamente emitiu aquele seu riso forçado, batendo mais e mais as pálpebras.
Outras vezes, o marido afastara-se da cidade e não por poucos dias apenas, partindo mesmo à noite, como desta vez; mas Ana, ainda sob a impressão da descoberta daquele retrato, experimentou um medo estranho, e disse-o, chorando, ao marido.
Vittore Brívio, apressado, receando sair tarde, e todo absorto no pensamento de seus negócios, recebeu com mau humor aquele pranto insólito da mulher.
— Como! Por quê? Vamos, vamos, criancices!
E saiu a toda pressa, sem sequer despedir-se.
Ana estremeceu ao ruído da porta que se lhe fechou empós, com ímpeto; ficou ali com o lampião na mão, na saleta, e sentiu as lágrimas se lhe regelarem nos olhos. Depois reagiu e voltou rápida para seu quarto, a fim de deitar-se logo.
No aposento já arrumado, ardia a lamparina da noite.
— Vá, pode ir dormir — disse Ana à camareira, que a esperava. — Eu mesma me arranjo. Boa noite.
Apagou a luz, mas, ao invés de pousá-la na mísula, como sempre fazia, sobre o criado-mudo, pressentindo — mesmo contra sua própria vontade — que talvez dela necessitaria mais tarde. Começou a despir-se à pressa, conservando os olhos fixos no chão, diante de si. Quando o vestido lhe caiu aos pés, pensou que o retrato estava lá e, com viva raiva, se sentiu olhada e compadecida por aqueles olhos dolentes, que tanta impressão lhe haviam causado. Curvou-se resolutamente, para apanhar do tapete o vestido, e pousou-o, sem dobrar, sobre a poltrona aos pés da cama, como se o bolso que guardava o retrato e o envoltório do pano devessem e pudessem impedir-lhe de reconstruir a imagem daquela morta.
Mal se deitara, fechou os olhos e se propôs a seguir, com o pensamento, o marido pela estrada que levava à estação ferroviária. Impôs-se isso por uma irada revolta ao sentimento que, durante aquele dia todo, a conservara vigilante, a observar, a estudar o marido. Sabia de onde proviera tal sentimento e queria expulsá-lo de si.
No esforço da vontade, que lhe provocava viva super-excitação nervosa, imaginou ter diante dos olhos, com extraordinária evidência, a comprida rua, deserta na noite, iluminada pelos lampiões que reverberam sua luz trémula na calçada, que parecia palpitar; e aos pés de cada lampião, um círculo de sombra; as lojas, todas fechadas; e eis a carruagem que conduzia Vittore. Como se a houvesse esperado à passagem, passou a segui-la até à estação; viu o trem lúgubre, sob o telhado de vidro; uma grande confusão de pessoas naquele interior vasto, enfumaçado, mal iluminado, sombriamente sonoro: eis que o trem partia; e, como se realmente o visse afastar-se e desaparecer nas trevas, voltou logo a si, abriu os olhos no quarto silencioso e experimentou uma angustiosa sensação de vácuo, como se algo lhe faltasse dentro.
Sentiu, então, confusamente, desnorteando-se, que, desde três anos, talvez desde o momento em que partira da casa paterna, ela estava mergulhada naquele vácuo, de que só agora começava a ter conhecimento. Não notara antes, porque o havia preenchido somente consigo, com seu amor, aquele vazio; percebia-o agora, porque, durante aquele dia todo, conservara quase suspenso seu amor, para ver, para observar, para julgar.
“Nem sequer se despediu de mim!” pensou; e pôs-se a chorar de novo, como se este pensamento fosse determinadamente a causa do pranto.
Sentou-se na cama: mas logo deteve a mão estendida, ao levantar-se, para apanhar o lenço do vestido. Ora, seria mesmo inútil proibir-se de rever aquele retrato, de observá-lo! Apanhou-o. Reacendeu a luz.
Como imaginara diversamente, aquela mulher! Contemplando-lhe agora a verdadeira efígie, sentia remorsos pelos sentimentos que a imaginação lhe sugerira. Pensara sempre nela como uma mulher gorda e corada, com os olhos relampejantes e risonhos, inclinada ao riso, a distrações vulgares. E, ao contrário, ei-la: uma jovem, e dos seus puros traços emanava uma alma profunda e atormentada; diferente dela, sim, mas não no sentido inconveniente de antes: ao contrário, até parecia que aquela boca não houvesse nunca sorrido, ao passo que a sua tantas vezes rira alegremente; e, certamente, se moreno aquele rosto (como pelo retrato parecia) era de um ar menos risonho que o seu, louro e róseo.
Por que, por que tão triste?
Um pensamento odioso atravessou-lhe a mente, e logo desprendeu os olhos da imagem daquela mulher, descobrindo-lhe de improviso um perigo não só à sua paz, ao seu amor, que também naquele dia recebera mais de uma ferida, mas também à sua orgulhosa dignidade de mulher honesta, que jamais se permitira nem mesmo o mínimo pensamento contra o marido. Aquela tivera um amante! E por causa deste, ela talvez estivesse tão triste, por causa daquele amor adúltero, e não pelo marido!
Atirou o retrato sobre o criado-mudo e apagou de novo a luz, esperando adormecer, desta vez, sem mais pensar naquela mulher, com a qual nada podia ter em comum. Mas, fechando as pálpebras, reviu logo, malgrado seu, os olhos da morta, e em vão procurou expulsar aquela visão.
— Não por ele, não por ele! — murmurou, com aflitiva obstinação, como se, injuriando-a, contasse libertar-se dela.
E esforçou-se por trazer de novo à memória quanto sabia sobre o outro, o amante, quase que obrigando o olhar e a tristeza daqueles olhos a se dirigirem não mais a ela mas sim ao antigo amante, do qual conhecia apenas o nome: Artur Valli. Sabia que ele se casara, alguns anos depois, quase para provar que era inocente do crime que lhe queria atribuir Brívio, do qual sempre repelira energicamente o desafio, protestando que jamais se bateria em duelo com um louco assassino. Depois desta recusa, Vittore tinha ameaçado matá-lo onde o encontrasse, até mesmo na igreja; e então ele saíra dali, com a mulher, voltando mais tarde àquela cidade, assim que soubera que Vittore, de novo casado, partira.
Mas da tristeza desses acontecimentos por ela relembrados, pela covardia de Valli e, depois de tantos anos, pelo esquecimento do marido o qual, como se nada fosse, conseguira reabilitar-se na vida e tornar a casar, pela alegria que ela própria sentira ao se tornar sua mulher, por aqueles três anos transcorridos sem jamais se lembrar da outra, inesperadamente, um motivo de compaixão por ela se impôs a Ana espontâneo: reviu-lhe viva a imagem, mas como se estivesse longe, longe, e pareceu-lhe que, com aqueles olhos, de tanta mágoa inundados, ela lhe dissesse, abanando levemente a cabeça:
— Somente eu, porém, morri! Vocês todos vivem!
Viu-se, sentiu-se sozinha em casa; teve medo. Vivia, sim, ela; mas fazia três anos, desde o dia de seu casamento, não mais vira, nem uma só vez, seus pais, sua irmã. Ela, que os adorava, e que sempre tinha sido para com eles dócil e confiante, pudera rebelar-se à sua vontade, aos seus conselhos, por amor àquele homem; por amor àquele homem adoecera mortalmente e teria morrido, se os médicos não houvessem induzido seus pais a condescender no casamento. O pai cedera, não consentindo, porém, e até jurando que ela para ele, para sua casa, depois daquele casamento, deixaria de existir. Além da diferença de idade, dos dezoito anos que o marido tinha mais que ela, obstáculo mais grave para o pai tinha sido a posição financeira do marido, sujeita a rápidas mudanças devido a negócios arriscados a que costumava atirar-se, com temerária confiança em si mesmo e na sorte.
Em três anos de casamento, Ana, rodeada de conforto, pudera considerar injustas ou ditadas por contrárias prevenções as considerações da prudência paterna, quanto à fortuna do marido, na qual, de resto, ela, ignara, depositava a mesma confiança que ele em si próprio; quanto então à diferença de idade, até agora nenhum manifesto argumento de desilusão para ela ou de admiração para os outros, porque, dos anos, Brívio não sentia o mínimo prejuízo nem no corpo vivacíssimo e nervoso, nem muito menos no ânimo, dotado de infatigável energia, de irrequieta alacridade.
De bem outra coisa, agora, pela primeira vez, olhando (sem sequer desconfiar) para sua vida com os olhos da morta, encontrava motivo para queixar-se do marido. Sim, era verdade: da indiferença quase altiva dele ela se sentira ferir já outras vezes: porém, nunca como naquele dia; e agora, pela primeira vez, se sentia tão angustiosamente só, separada dos parentes, os quais, lhe parecia naquele momento, a houvessem abandonado ali, quase que, ao casar com Brívio, tivesse já algo em comum com aquela morta e não fosse mais digna de outra companhia. E o marido, que deveria consolá-la, o próprio marido parecia não dar-lhe mérito algum quanto ao sacrifício que ela fizera de seu amor filial e fraternal, como se a ela nada tivesse custado, como se àquele sacrifício ele tivesse direito, e por isso agora nenhum dever tinha para consolá-la ou compensá-la. Direito, sim, mas porque ela se enamorara tão perdidamente por ele, àquele tempo; então ele tinha agora o dever de compensá-la. E ao invés…
— Sempre assim! — pareceu a Ana que os lábios da morta suspirassem.
Reacendeu a luz e de novo, contemplando a imagem, foi atraída pela expressão daqueles olhos. Também ela, então, deveras, sofrera por ele? Também ela, também ela, ao perceber que não era amada, experimentara aquele angustioso vazio?
— Sim? sim? — perguntou Ana, sufocada pelo pranto, à imagem.
E pareceu-lhe, então, que aqueles olhos bondosos, repletos de paixão, se compadecessem dela por sua vez, tivessem pena dela por aquele abandono, pelo sacrifício não recompensado, pelo amor que lhe ficava preso no seio, qual tesouro no escrínio, do qual ele possuísse as chaves, mas nunca dele se servira, tal como o avarento.
Ao retirar-se da janela, suspirando, Ana percebeu que o marido, naquela manhã, esquecera-se de decompor a cama, como fazia sempre, para que os criados não notassem que ele não dormira em seu quarto. Pousou então os cotovelos na cama intacta, depois ali se apoiou com o busto todo, dobrando a bela cabeça loura sobre os travesseiros e semicerrando os olhos, como que para saborear, no frescor do linho, os sonos que ali costumava dormir. Um bando de andorinhas tresmalhadas veio rumorejar diante da janela.
— Teria sido melhor que houvesse deitado aqui — murmurou entre si; e levantou-se cansada.
O marido ia partir naquela mesma noite, e ela entrara no quarto dele a fim de preparar-lhe o necessário para a viagem.
Ao abrir o guarda-roupa, ouviu como que um chiado na gaveta interna e logo se afastou, assustada. Apanhou de um canto do quarto uma bengala de cabo recurvo e, mantendo junto às pernas o vestido, pegou a bengala pela ponta e experimentou abrir com ela, assim afastada, a gaveta. Mas, ao puxar, ao invés da gaveta veio para fora, agilmente, da bengala, uma luzidia e perigosa lâmina. Isso ela não esperava; ficou assustada e deixou cair das mãos a bainha do estoque.
Naquele momento, um outro chiado fê-la voltar-se de repente, na dúvida de que também o primeiro tivesse partido de alguma andorinha batendo nas vidraças.
Afastou com o pé a arma desembainhada e puxou para fora, entre as duas portinholas abertas, a gaveta repleta de roupas velhas, ali guardadas pelo marido. Por improvisa curiosidade, passou então a revistá-la e, ao mexer num paletó velho e desbotado, ocorreu-lhe esbarrar nas orlas, sob o forro, como num pedaço de papelão, deslizado para ali do bolso furado; quis ver o que seria aquela carta caída ali, quem sabe há quantos anos, e esquecida; e assim, por acaso, Ana descobriu o retrato da primeira mulher de seu marido.
Empalidecendo, com a vista turva e o coração em suspenso, correu à janela, e ali permaneceu longo tempo, atônita, a contemplar a imagem desconhecida, como que presa de uma sensação de espanto.
O volumoso arranjo do penteado e o vestido de estilo antigo não lhe fizeram notar a princípio a beleza daquele rosto; mas, apenas pôde apanhar-lhe os traços, abstraindo-os dos enfeites, que agora, tantos anos depois, pareciam grotescos, e fixar-lhe especialmente os olhos, sentiu-se quase ofendida, e um ímpeto de ódio lhe saltou do coração ao cérebro: ódio de ciúme póstumo; ódio misto a desprezo, que experimentara por aquela que se enamorara do homem que agora era seu marido, depois de onze anos da tragédia conjugal que destruíra de chofre o primeiro lar dele.
Ana odiara aquela mulher, não sabendo compreender como pudera trair o homem que ela agora adorava e, em segundo lugar, porque seus parentes se haviam oposto ao seu casamento com Brívio, como se este houvesse sido responsável pela infâmia e pela morte violenta da mulher infiel.
Era ela, sim, era, sem dúvida! a primeira mulher de Vittore: aquela que se suicidara!
Teve disso a confirmação pela dedicatória escrita no verso do retrato: Ao meu Vittore, a sua Almira — 11 de novembro de 1873.
Ana tivera notícias muitos vagas a respeito da morta: sabia apenas que o marido, descoberta a traição, obrigara-a, com a impassibilidade de um juiz, a suicidar-se.
Agora, ela evocou com prazer esta condenação do marido, irritada por aquele “meu” e por aquele “sua” da dedicatória, como se a outra houvesse desejado ostentar, assim, estreitamente, o liame que reciprocamente unira ela e Vittore, unicamente para fazer-lhe desaforo.
Ante aquele primeiro relâmpago de ódio, faiscado pela rivalidade para ela agora existente, seguiu-se na alma de Ana a curiosidade feminina de examinar os traços daquele rosto, mas quase contida pela estranha consternação que se experimenta perante um objeto que pertenceu a alguém tragicamente desaparecido; consternação agora mais viva, mas a ela não desconhecida, porque nisso se concentrara todo o seu amor pelo marido, que já pertencera àquela outra mulher.
Ao examinar-lhe o rosto, Ana percebeu logo quanto se diferenciava do seu; e surgiu-lhe ao mesmo tempo do coração a pergunta: como pudera o marido amar aquela mulher, aquela mocinha, certamente mais bonita para ele, e pudesse depois enamorar-se dela, tão diferente?
Parecia-lhe belo, muito mais belo que o seu também, aquele rosto que, pelo retrato, devia ser moreno. Ei-lo: e aqueles lábios se haviam unido, no beijo, aos dele; mas, por que então, nos cantos da boca, aquela prega dolorosa? E porque tão triste o olhar daqueles olhos profundos? O rosto inteiro transpirava uma intensa mágoa; e Ana sentiu quase raiva da bondade humilde e real que aqueles traços exprimiam, e daí um gesto de repulsa e aversão, parecendo-lhe de súbito descobrir no olhar daqueles olhos a mesma expressão dos seus, quando, ao pensar no marido, se olhava ao espelho, pela manhã, depois de se haver arrumado.
Teve o tempo ainda de pôr no bolso o retrato: o marido apareceu, bufando, à entrada do quarto.
— Que fez você? Como sempre? Arrumou? Oh, pobre de mim! Agora não encontro mais nada!
Ao ver o estoque desembainhado no chão:
— Ah! Você brincou também de esgrima, com as roupas do armário?
E riu com aquele seu riso, que partia somente da garganta, como se alguém lha houvesse beliscado; e, ao rir assim, olhou para a mulher, talvez para perguntar-lhe o porquê de seu próprio riso. E, olhando, batia as pálpebras sem cessar, celeríssimamente, sobre os olhinhos agudos, negros, irrequietos.
Vittore Brívio tratava a mulher como a uma menina incapaz de outra coisa a não ser daquele amor ingênuo e quase pueril de que se sentia circundado, às vezes com tédio, e ao qual se propusera prestar atenção somente de vez em quando, mostrando, também então, uma condescendência quase embebida de leve ironia, parecendo dizer-lhe: “Pois bem, que seja! durante algum tempo, serei criança também com você: é preciso mesmo fazer isto, mas não percamos demasiado tempo!”
Ana deixara cair a seus pés o velho paletó, onde encontrara o retrato. Ele ergueu-o, metendo-lhe a ponta do estoque, depois chamou da janela o criado, que se achava no jardim e que servia também de cocheiro e que, no momento, estava atrelando o cavalo ao trole. Assim que o rapaz se apresentou, em mangas de camisa, diante da janela, Brívio atirou-lhe à cara, grosseiramente, o paletó espetado, acompanhando a esmola com um: “Tome, isto é para você!”
— Assim você terá menos para escovar — acrescentou, dirigindo-se à mulher — e também para arrumar, esperemos!
E novamente emitiu aquele seu riso forçado, batendo mais e mais as pálpebras.
Outras vezes, o marido afastara-se da cidade e não por poucos dias apenas, partindo mesmo à noite, como desta vez; mas Ana, ainda sob a impressão da descoberta daquele retrato, experimentou um medo estranho, e disse-o, chorando, ao marido.
Vittore Brívio, apressado, receando sair tarde, e todo absorto no pensamento de seus negócios, recebeu com mau humor aquele pranto insólito da mulher.
— Como! Por quê? Vamos, vamos, criancices!
E saiu a toda pressa, sem sequer despedir-se.
Ana estremeceu ao ruído da porta que se lhe fechou empós, com ímpeto; ficou ali com o lampião na mão, na saleta, e sentiu as lágrimas se lhe regelarem nos olhos. Depois reagiu e voltou rápida para seu quarto, a fim de deitar-se logo.
No aposento já arrumado, ardia a lamparina da noite.
— Vá, pode ir dormir — disse Ana à camareira, que a esperava. — Eu mesma me arranjo. Boa noite.
Apagou a luz, mas, ao invés de pousá-la na mísula, como sempre fazia, sobre o criado-mudo, pressentindo — mesmo contra sua própria vontade — que talvez dela necessitaria mais tarde. Começou a despir-se à pressa, conservando os olhos fixos no chão, diante de si. Quando o vestido lhe caiu aos pés, pensou que o retrato estava lá e, com viva raiva, se sentiu olhada e compadecida por aqueles olhos dolentes, que tanta impressão lhe haviam causado. Curvou-se resolutamente, para apanhar do tapete o vestido, e pousou-o, sem dobrar, sobre a poltrona aos pés da cama, como se o bolso que guardava o retrato e o envoltório do pano devessem e pudessem impedir-lhe de reconstruir a imagem daquela morta.
Mal se deitara, fechou os olhos e se propôs a seguir, com o pensamento, o marido pela estrada que levava à estação ferroviária. Impôs-se isso por uma irada revolta ao sentimento que, durante aquele dia todo, a conservara vigilante, a observar, a estudar o marido. Sabia de onde proviera tal sentimento e queria expulsá-lo de si.
No esforço da vontade, que lhe provocava viva super-excitação nervosa, imaginou ter diante dos olhos, com extraordinária evidência, a comprida rua, deserta na noite, iluminada pelos lampiões que reverberam sua luz trémula na calçada, que parecia palpitar; e aos pés de cada lampião, um círculo de sombra; as lojas, todas fechadas; e eis a carruagem que conduzia Vittore. Como se a houvesse esperado à passagem, passou a segui-la até à estação; viu o trem lúgubre, sob o telhado de vidro; uma grande confusão de pessoas naquele interior vasto, enfumaçado, mal iluminado, sombriamente sonoro: eis que o trem partia; e, como se realmente o visse afastar-se e desaparecer nas trevas, voltou logo a si, abriu os olhos no quarto silencioso e experimentou uma angustiosa sensação de vácuo, como se algo lhe faltasse dentro.
Sentiu, então, confusamente, desnorteando-se, que, desde três anos, talvez desde o momento em que partira da casa paterna, ela estava mergulhada naquele vácuo, de que só agora começava a ter conhecimento. Não notara antes, porque o havia preenchido somente consigo, com seu amor, aquele vazio; percebia-o agora, porque, durante aquele dia todo, conservara quase suspenso seu amor, para ver, para observar, para julgar.
“Nem sequer se despediu de mim!” pensou; e pôs-se a chorar de novo, como se este pensamento fosse determinadamente a causa do pranto.
Sentou-se na cama: mas logo deteve a mão estendida, ao levantar-se, para apanhar o lenço do vestido. Ora, seria mesmo inútil proibir-se de rever aquele retrato, de observá-lo! Apanhou-o. Reacendeu a luz.
Como imaginara diversamente, aquela mulher! Contemplando-lhe agora a verdadeira efígie, sentia remorsos pelos sentimentos que a imaginação lhe sugerira. Pensara sempre nela como uma mulher gorda e corada, com os olhos relampejantes e risonhos, inclinada ao riso, a distrações vulgares. E, ao contrário, ei-la: uma jovem, e dos seus puros traços emanava uma alma profunda e atormentada; diferente dela, sim, mas não no sentido inconveniente de antes: ao contrário, até parecia que aquela boca não houvesse nunca sorrido, ao passo que a sua tantas vezes rira alegremente; e, certamente, se moreno aquele rosto (como pelo retrato parecia) era de um ar menos risonho que o seu, louro e róseo.
Por que, por que tão triste?
Um pensamento odioso atravessou-lhe a mente, e logo desprendeu os olhos da imagem daquela mulher, descobrindo-lhe de improviso um perigo não só à sua paz, ao seu amor, que também naquele dia recebera mais de uma ferida, mas também à sua orgulhosa dignidade de mulher honesta, que jamais se permitira nem mesmo o mínimo pensamento contra o marido. Aquela tivera um amante! E por causa deste, ela talvez estivesse tão triste, por causa daquele amor adúltero, e não pelo marido!
Atirou o retrato sobre o criado-mudo e apagou de novo a luz, esperando adormecer, desta vez, sem mais pensar naquela mulher, com a qual nada podia ter em comum. Mas, fechando as pálpebras, reviu logo, malgrado seu, os olhos da morta, e em vão procurou expulsar aquela visão.
— Não por ele, não por ele! — murmurou, com aflitiva obstinação, como se, injuriando-a, contasse libertar-se dela.
E esforçou-se por trazer de novo à memória quanto sabia sobre o outro, o amante, quase que obrigando o olhar e a tristeza daqueles olhos a se dirigirem não mais a ela mas sim ao antigo amante, do qual conhecia apenas o nome: Artur Valli. Sabia que ele se casara, alguns anos depois, quase para provar que era inocente do crime que lhe queria atribuir Brívio, do qual sempre repelira energicamente o desafio, protestando que jamais se bateria em duelo com um louco assassino. Depois desta recusa, Vittore tinha ameaçado matá-lo onde o encontrasse, até mesmo na igreja; e então ele saíra dali, com a mulher, voltando mais tarde àquela cidade, assim que soubera que Vittore, de novo casado, partira.
Mas da tristeza desses acontecimentos por ela relembrados, pela covardia de Valli e, depois de tantos anos, pelo esquecimento do marido o qual, como se nada fosse, conseguira reabilitar-se na vida e tornar a casar, pela alegria que ela própria sentira ao se tornar sua mulher, por aqueles três anos transcorridos sem jamais se lembrar da outra, inesperadamente, um motivo de compaixão por ela se impôs a Ana espontâneo: reviu-lhe viva a imagem, mas como se estivesse longe, longe, e pareceu-lhe que, com aqueles olhos, de tanta mágoa inundados, ela lhe dissesse, abanando levemente a cabeça:
— Somente eu, porém, morri! Vocês todos vivem!
Viu-se, sentiu-se sozinha em casa; teve medo. Vivia, sim, ela; mas fazia três anos, desde o dia de seu casamento, não mais vira, nem uma só vez, seus pais, sua irmã. Ela, que os adorava, e que sempre tinha sido para com eles dócil e confiante, pudera rebelar-se à sua vontade, aos seus conselhos, por amor àquele homem; por amor àquele homem adoecera mortalmente e teria morrido, se os médicos não houvessem induzido seus pais a condescender no casamento. O pai cedera, não consentindo, porém, e até jurando que ela para ele, para sua casa, depois daquele casamento, deixaria de existir. Além da diferença de idade, dos dezoito anos que o marido tinha mais que ela, obstáculo mais grave para o pai tinha sido a posição financeira do marido, sujeita a rápidas mudanças devido a negócios arriscados a que costumava atirar-se, com temerária confiança em si mesmo e na sorte.
Em três anos de casamento, Ana, rodeada de conforto, pudera considerar injustas ou ditadas por contrárias prevenções as considerações da prudência paterna, quanto à fortuna do marido, na qual, de resto, ela, ignara, depositava a mesma confiança que ele em si próprio; quanto então à diferença de idade, até agora nenhum manifesto argumento de desilusão para ela ou de admiração para os outros, porque, dos anos, Brívio não sentia o mínimo prejuízo nem no corpo vivacíssimo e nervoso, nem muito menos no ânimo, dotado de infatigável energia, de irrequieta alacridade.
De bem outra coisa, agora, pela primeira vez, olhando (sem sequer desconfiar) para sua vida com os olhos da morta, encontrava motivo para queixar-se do marido. Sim, era verdade: da indiferença quase altiva dele ela se sentira ferir já outras vezes: porém, nunca como naquele dia; e agora, pela primeira vez, se sentia tão angustiosamente só, separada dos parentes, os quais, lhe parecia naquele momento, a houvessem abandonado ali, quase que, ao casar com Brívio, tivesse já algo em comum com aquela morta e não fosse mais digna de outra companhia. E o marido, que deveria consolá-la, o próprio marido parecia não dar-lhe mérito algum quanto ao sacrifício que ela fizera de seu amor filial e fraternal, como se a ela nada tivesse custado, como se àquele sacrifício ele tivesse direito, e por isso agora nenhum dever tinha para consolá-la ou compensá-la. Direito, sim, mas porque ela se enamorara tão perdidamente por ele, àquele tempo; então ele tinha agora o dever de compensá-la. E ao invés…
— Sempre assim! — pareceu a Ana que os lábios da morta suspirassem.
Reacendeu a luz e de novo, contemplando a imagem, foi atraída pela expressão daqueles olhos. Também ela, então, deveras, sofrera por ele? Também ela, também ela, ao perceber que não era amada, experimentara aquele angustioso vazio?
— Sim? sim? — perguntou Ana, sufocada pelo pranto, à imagem.
E pareceu-lhe, então, que aqueles olhos bondosos, repletos de paixão, se compadecessem dela por sua vez, tivessem pena dela por aquele abandono, pelo sacrifício não recompensado, pelo amor que lhe ficava preso no seio, qual tesouro no escrínio, do qual ele possuísse as chaves, mas nunca dele se servira, tal como o avarento.
Luigi Pirandello
sábado, abril 18
Matéria de poesia
1.
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
Terreno de 10 x 20, sujo de mato — os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia
Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia
As coisas que não levam a nada
têm grande importância
Cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral
O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia
As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia
As coisas que os líquenes comem— sapatos, adjetivos —
têm muita importância para os pulmões
da poesia
Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso
Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada
Tudo que explique
a lagartixa da esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia
O que é bom para o lixo é bom para a poesia
Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços
As coisas jogadas fora
têm grande importância
— como um homem jogado fora
Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória
As coisas sem importância são bens de poesia
Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.
Manoel de Barros, "Matéria de poesia"
Namoro de pombos
Com o olhar aumentado pelo meu Bausch & Lomb, acompanho, desde a janela de 18º andar, um interminável namoro de pombos.
A fêmea é branca, graciosa, leve, em inquietação permanente e movimento contínuo. O macho é manchado de cinza sobre um fundo claro, retrizes escuras e as rêmiges cendradas com matiz mais intenso e decorativo.
Creio que esta conquista paciente e de repetição sem fim é mais uma excitação que forma de fixação da fêmea no campo da simpatia. Não há competidor nas cercanias, nem a requestada distância do contato seu corpinho airoso e fugitivo, intermitentemente arredio aos afagos do amorudo pombo. Deduzo que todo esse cortejo de evitações e oferecimentos, em que se afaste demasiado do raio da insistência do companheiro, manterá em estado de ebulição crescente seu desejo sexual que necessitará deste longo estado de provocação e incitamento para que os hormônios preparem a fase decisiva do ato fecundante. E para a companheira esses preparativos darão receptibilidade de alto rendimento.
É preciso tenacidade para este namoro infindável.
A fêmea fica no bordo do muro, paradinha, fazendo que nada vê. O pombo voa do caixote-pombal e pousa junto à sua amada. Fica quieto um momento. A fêmea inicia um passeio de passos miudinhos e é seguida de perto. Um minuto depois a fêmea voa para o caixote-pombal ou rebordo da janela próxima. O macho pensa uns instantes se deve ou não insistir, mas sempre a continuidade é a regra. Voa também para junto da amada, que repete a manobra anterior, terminada em voo e acompanhamento fatal do apaixonado. E assim horas e horas... Aquele plano de perseguição circular, no mesmo âmbito e com atitudes repetidas, daria título lógico de convite à fuga num compasso ad libitum.
A fêmea tem ocasião de “dar o fora” mais de mil vezes no seu enamorado, e este, de insistir na fidelidade seguidora, tudo no espaço de algumas horas. Durante o dia seguinte a cena se repete, monotoníssima para nós e encantadora para os participantes.
O casal é de vida doméstica e recatada. Não voa buscando alimentos fora do recinto familiar. Em cima do caixote-pombal enxergo a mancha dos alimentos acumulados, esperando a fome da parelha. Não há grandes voos e descidas rumorosas, catando invisíveis e presentes cibos na areia ou calçadas urbanas. Enquadrado pelos arranha-céus o casal comparta-se num ritmo de adaptação resignada ao ambiente do seu destino ecológico. Ao crepúsculo, quando a tarde esfria, vejo-os ensaiar um voo mais ousado e amplo, roçando os telhados vizinhos e findando no muro, aeródromo das suas façanhas aladas.
Não sei por que se afirma o dogma do amor ardente dos pombos e sua impaciência sexual. Como todos seus arrulhos e voejos aperitivais demonstram positivamente a necessidade de uma excitação prolongada e prévia, tanto mais extensa quanto significativa da lentidão com que o sexo desperta. Nem a proximidade da companheira consegue diminuir o inevitável ciclo das andanças e voos, horas e horas, indispensável à junção conubial. A companheira precisará fugir e fugir, sem distanciar-se para uma área desanimadora e decepcionante, como elemento não apenas de captação fixadora como de preparação fisiológica do tipo masculino. O pombo, como certos playboys que precisam de uma longa antecipação preparatória de canto, dança, olhar e contato, música, álcool e movimento da gaiola dourada de um Night Club, tem como fatalmente obrigatória a fase do cortejo sedutor, da provocação contínua, da perseguição próxima, horas e horas, avivando as brasas da ardência fecundadora.
Parece que as afirmativas clássicas dos amores fulminantes, independentes de preâmbulos de conquista, merecem revisão tranquila. Os modelos deste ímpeto sexual, imediato e bruto, nunca dispensaram a corte teimosa ao elemento feminino. Bodes, macacos, cães seguem cativamente as namoradas com notórias mostras de predileção e esperança de aceitação. Só o homem conhece o pecado da violação bárbara, da posse cruel e sem o consentimento da fêmea subjugada. Mesmo os gigantescos gorilas são tão amorosos que esperam o gesto de consentimento da possante companheira inda que seja de companhia habitual e certa.
“Lúbrico como o macaco” diz o ditado feito parcialmente. São dignas de vista as gatimonhas, trejeitos e reviravoltas do macaco ao derredor da predileta cobiçada. Só se vendo... O cortejo obstinado de cães atrás da cadela, as batalhas pela posse, a defesa do “objeto amado”, o estágio até que “ela” faça “o gesto que consente”, rua acima e rua abaixo, sob pedradas dos moleques de todas as cores, chuva, sol, desdéns e dentadas, é merecedor de registro encomiástico. A série apaixonada dos bufos do bode percorre escala dodecaédrica, variando de acentos e timbres, na persistência do apelo sexual. Não apenas os bufos terão intencionalidade melódica, mas os saltos mimosos e repetidos, as atitudes erguidas com as patas dianteiras juntas, em súplica ou ostentação estética, merecem destaque e relevo como significações requerentes de feliz amor. Tantas amostras de protocolo amoroso têm sido negadas e o bufador bailarino reduzido a ser expressão típica de estuprador bestial.
Luís da Câmara Cascudo, "Canto de muro"
A fêmea é branca, graciosa, leve, em inquietação permanente e movimento contínuo. O macho é manchado de cinza sobre um fundo claro, retrizes escuras e as rêmiges cendradas com matiz mais intenso e decorativo.
Depois do almoço fico assistindo àquele processo inacabável de assistência amorosa. Todos os dias, horas e horas, vejo as várias técnicas sedutoras que não me parecem alcançar solução prática ou visível, digna de menção. Canso-me e vou tratar de outras coisas. Acidentalmente, voltando ao apartamento e olhando a janela, revejo o casal na perseguição obstinada e afetuosa que desanimaria qualquer enamorado da espécie humana.
Creio que esta conquista paciente e de repetição sem fim é mais uma excitação que forma de fixação da fêmea no campo da simpatia. Não há competidor nas cercanias, nem a requestada distância do contato seu corpinho airoso e fugitivo, intermitentemente arredio aos afagos do amorudo pombo. Deduzo que todo esse cortejo de evitações e oferecimentos, em que se afaste demasiado do raio da insistência do companheiro, manterá em estado de ebulição crescente seu desejo sexual que necessitará deste longo estado de provocação e incitamento para que os hormônios preparem a fase decisiva do ato fecundante. E para a companheira esses preparativos darão receptibilidade de alto rendimento.
É preciso tenacidade para este namoro infindável.
A fêmea fica no bordo do muro, paradinha, fazendo que nada vê. O pombo voa do caixote-pombal e pousa junto à sua amada. Fica quieto um momento. A fêmea inicia um passeio de passos miudinhos e é seguida de perto. Um minuto depois a fêmea voa para o caixote-pombal ou rebordo da janela próxima. O macho pensa uns instantes se deve ou não insistir, mas sempre a continuidade é a regra. Voa também para junto da amada, que repete a manobra anterior, terminada em voo e acompanhamento fatal do apaixonado. E assim horas e horas... Aquele plano de perseguição circular, no mesmo âmbito e com atitudes repetidas, daria título lógico de convite à fuga num compasso ad libitum.
A fêmea tem ocasião de “dar o fora” mais de mil vezes no seu enamorado, e este, de insistir na fidelidade seguidora, tudo no espaço de algumas horas. Durante o dia seguinte a cena se repete, monotoníssima para nós e encantadora para os participantes.
O casal é de vida doméstica e recatada. Não voa buscando alimentos fora do recinto familiar. Em cima do caixote-pombal enxergo a mancha dos alimentos acumulados, esperando a fome da parelha. Não há grandes voos e descidas rumorosas, catando invisíveis e presentes cibos na areia ou calçadas urbanas. Enquadrado pelos arranha-céus o casal comparta-se num ritmo de adaptação resignada ao ambiente do seu destino ecológico. Ao crepúsculo, quando a tarde esfria, vejo-os ensaiar um voo mais ousado e amplo, roçando os telhados vizinhos e findando no muro, aeródromo das suas façanhas aladas.
Não sei por que se afirma o dogma do amor ardente dos pombos e sua impaciência sexual. Como todos seus arrulhos e voejos aperitivais demonstram positivamente a necessidade de uma excitação prolongada e prévia, tanto mais extensa quanto significativa da lentidão com que o sexo desperta. Nem a proximidade da companheira consegue diminuir o inevitável ciclo das andanças e voos, horas e horas, indispensável à junção conubial. A companheira precisará fugir e fugir, sem distanciar-se para uma área desanimadora e decepcionante, como elemento não apenas de captação fixadora como de preparação fisiológica do tipo masculino. O pombo, como certos playboys que precisam de uma longa antecipação preparatória de canto, dança, olhar e contato, música, álcool e movimento da gaiola dourada de um Night Club, tem como fatalmente obrigatória a fase do cortejo sedutor, da provocação contínua, da perseguição próxima, horas e horas, avivando as brasas da ardência fecundadora.
Parece que as afirmativas clássicas dos amores fulminantes, independentes de preâmbulos de conquista, merecem revisão tranquila. Os modelos deste ímpeto sexual, imediato e bruto, nunca dispensaram a corte teimosa ao elemento feminino. Bodes, macacos, cães seguem cativamente as namoradas com notórias mostras de predileção e esperança de aceitação. Só o homem conhece o pecado da violação bárbara, da posse cruel e sem o consentimento da fêmea subjugada. Mesmo os gigantescos gorilas são tão amorosos que esperam o gesto de consentimento da possante companheira inda que seja de companhia habitual e certa.
“Lúbrico como o macaco” diz o ditado feito parcialmente. São dignas de vista as gatimonhas, trejeitos e reviravoltas do macaco ao derredor da predileta cobiçada. Só se vendo... O cortejo obstinado de cães atrás da cadela, as batalhas pela posse, a defesa do “objeto amado”, o estágio até que “ela” faça “o gesto que consente”, rua acima e rua abaixo, sob pedradas dos moleques de todas as cores, chuva, sol, desdéns e dentadas, é merecedor de registro encomiástico. A série apaixonada dos bufos do bode percorre escala dodecaédrica, variando de acentos e timbres, na persistência do apelo sexual. Não apenas os bufos terão intencionalidade melódica, mas os saltos mimosos e repetidos, as atitudes erguidas com as patas dianteiras juntas, em súplica ou ostentação estética, merecem destaque e relevo como significações requerentes de feliz amor. Tantas amostras de protocolo amoroso têm sido negadas e o bufador bailarino reduzido a ser expressão típica de estuprador bestial.
Luís da Câmara Cascudo, "Canto de muro"
Telas
Quando eu era menino, nas décadas de cinquenta/sessenta, só havia uma tela em casa: a da televisão Philco, dezesseis polegadas. Nela assistíamos, em preto e branco, aos programas que faziam sucesso na época. Geralmente à noitinha, depois de deixarmos a rua e tomarmos banho, já de pijama, antes do jantar e um pouquinho depois dele. O horário de dormir era rígido. Cedo para os padrões de hoje, estávamos deitados, em nossas camas, nos braços de Morfeu.
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
A faca no coração
– Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço.
– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.
– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.
– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.
– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?
– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.
– No começo eles tomam o partido da mãe.
– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.
– A outra filhinha?
– Também do lado da mãe.
– E o filho?
– Esse é o maior inimigo.
– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.
– Se ela está vendo… Tudo!
– Vendo o quê?
– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?
– …
– Meu filho, sinto uma pena de você!
– Ó Maria, mal de cada dia.
– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.
– É a famosa insônia de viúvo.
– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.
– E quando você acorda, a flor está ali?
– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.
– Deve arrumar uma companheira.
– Quem é que vai me querer?
– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.
– Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.
– Mulher é que não falta.
– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.
– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.
– Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.
– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.
– Nunca tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?
– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!
– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?
– …
– Só de traidora degolou o casal de garnisés…
– Nem tremeu a mão de unha dourada.
– … estrangulou o canário no arame da gaiola…
– Não me diga, João!
– … e furou o olho do peixinho vermelho.
– Esqueça a ingrata nos braços de outra.
– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?
– Assim é que se fala, João.
– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.
– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.
– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.
– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.
– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?
– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.
– No começo eles tomam o partido da mãe.
– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.
– A outra filhinha?
– Também do lado da mãe.
– E o filho?
– Esse é o maior inimigo.
– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.
– Se ela está vendo… Tudo!
– Vendo o quê?
– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?
– …
– Meu filho, sinto uma pena de você!
– Ó Maria, mal de cada dia.
– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.
– É a famosa insônia de viúvo.
– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.
– E quando você acorda, a flor está ali?
– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.
– Deve arrumar uma companheira.
– Quem é que vai me querer?
– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.
– Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.
– Mulher é que não falta.
– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.
– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.
– Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.
– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.
– Nunca tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?
– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!
– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?
– …
– Só de traidora degolou o casal de garnisés…
– Nem tremeu a mão de unha dourada.
– … estrangulou o canário no arame da gaiola…
– Não me diga, João!
– … e furou o olho do peixinho vermelho.
– Esqueça a ingrata nos braços de outra.
– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?
– Assim é que se fala, João.
– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.
Dalton Trevisan
Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos
Nossa cantora se chama Josefina. Quem não a ouviu não conhece o poder do canto. Não existe ninguém a quem seu canto não arrebate, o que deve ser mais valorizado ainda, uma vez que nossa raça em geral não é amante da música, para nós a música mais amada é a paz do silêncio; nossa vida é dura e, mesmo quando procuramos nos livrar de todas as preocupações diárias, já não sabemos nos elevar a coisas tão distantes do nosso cotidiano como a música. Mas não o lamentamos muito; nem mesmo chegamos a esse ponto; consideramos como nossa maior vantagem uma certa esperteza prática, da qual evidentemente necessitamos com a máxima premência; e é com o sorriso dessa astúcia que costumamos nos consolar de tudo, ainda que aspirássemos — o que não acontece — à felicidade que talvez emane da música. Só Josefina é uma exceção; ela ama a música e sabe também transmiti-la; é a única; com o seu passamento a música desaparecerá — quem sabe por quanto tempo — da nossa vida.
Muitas vezes me perguntei o que acontece efetivamente com essa música. De fato somos inteiramente não-musicais; como é que entendemos a música de Josefina, ou pelo menos acreditamos entender, já que ela nega nosso entendimento? A resposta mais simples seria que a beleza do seu canto é tão grande que até o sentido mais embotado é incapaz de resistir, mas esta resposta não é satisfatória. Se fosse realmente assim, diante desse canto precisaríamos, de uma vez por todas, ter o sentimento de algo extraordinário, a sensação de que nessa garganta ressoa alguma coisa que nunca ouvimos antes e que não temos absolutamente capacidade de escutar — algo para o qual Josefina e ninguém mais nos torna aptos.
Mas na minha opinião é justamente isso o que não ocorre; eu não o sinto e nunca o notei também nos outros. Em círculos de confiança admitimos abertamente uns aos outros que o canto de Josefina, enquanto canto, não tem nada de excepcional.
— É realmente um canto? Embora não sejamos musicais temos tradições de canto; em épocas antigas do nosso povo o canto existiu; as lendas falam a esse respeito e foram conservadas inclusive canções, que naturalmente ninguém mais sabe cantar. Temos portanto uma noção do que é canto e a arte de Josefina não corresponde, na verdade, a essa noção. Pois é realmente um canto? Não é talvez apenas um assobio? E assobiar todos nós sabemos, é a aptidão propriamente dita do nosso povo, ou melhor: não se trata de uma aptidão, mas de uma manifestação vital bem característica. Todos nós assobiamos, mas certamente ninguém cogita em fazê-lo passar por arte; assobiamos sem prestar atenção nisso, até mesmo sem o perceber, e muitos entre nós ignoram totalmente que o assobio faz parte das nossas peculiaridades. Portanto se fosse verdade que Josefina não canta, mas só assobia e que talvez, como pelo menos me parece, mal ultrapasse os limites do assobio usual; que talvez a sua força não baste nem para esse assobio costumeiro, ao passo que um trabalhador comum da terra o emite sem esforço o dia inteiro enquanto realiza o seu trabalho — se tudo isso fosse verdade, então o suposto talento artístico de Josefina estaria refutado; mas a partir daí teria que ser solucionado o enigma da sua grande influência.
Mas de fato não é apenas assobio o que ela produz. Se alguém se coloca à distância e fica escutando, melhor ainda — submete-se a uma prova nesse sentido; se portanto Josefina eventualmente canta entre outras vozes e alguém se propõe a tarefa de reconhecer sua voz, então é irrecusável que não irá escutar outra coisa senão um assobio comum, que no máximo se destaca um pouco pela delicadeza ou pela debilidade. Mas se o observador fica diante dela, aí então não é apenas um assobio: para compreender a sua arte é necessário não só ouvi-la como também vê-la. Mesmo que fosse somente o nosso assobio cotidiano, aqui já existe a singularidade de alguém que se põe, solenemente, a não fazer outra coisa senão o usual. Quebrar uma noz não é verdadeiramente uma arte, por isso ninguém ousará convocar um público e, para então começar a quebrar nozes diante dele. Mas se apesar disso ele o faz e sua intenção é bem-sucedida, então não se trata única e exclusivamente de quebrar nozes. Ou então se trata de quebrar nozes, mas se verifica que não demos atenção a esta arte porque a dominávamos completamente e que este novo quebrador de nozes mostra a verdadeira essência dela — momento em que poderia até ser útil ao efeito se ele fosse menos hábil em quebrar nozes do que a maioria de nós.
Talvez aconteça algo semelhante com o canto de Josefina; admiramos nela aquilo que de modo algum admiramos em nós; a esse respeito aliás ela está de pleno acordo conosco. Eu estava presente quando certa vez — naturalmente isso ocorre com freqüência — alguém chamou a atenção dela para o assobio geral do povo, e o fez na verdade de maneira bastante discreta, mas para Josefina isso foi demais. Ainda não vi um sorriso tão insolente e arrogante como o que ela então ostentou; ela, que por fora é a própria delicadeza, e nesse aspecto sobressai até mesmo num povo tão rico em figuras femininas como o nosso, pareceu naquele momento francamente mesquinha; com a sua grande sensibilidade, porém, pôde tomar consciência de si mesma e se dominou. Seja como for nega qualquer relação entre sua arte e o ato de assobiar. Ela tem só desprezo por aqueles que têm opinião contrária à sua — e provavelmente um ódio não confessado. Não é uma vaidade comum, pois essa oposição, à qual eu também meio que pertenço, certamente não a admira menos que a multidão; mas Josefina não quer ser apenas admirada, e sim admirada exatamente da maneira definida por ela: só admiração não lhe interessa. E quando estamos sentados diante dela nós a compreendemos — só se faz oposição à distância; quando se está sentado diante dela sabe-se: o que ela aqui assobia não é assobio.
Uma vez que assobiar faz parte dos nossos hábitos espontâneos, seria possível pensar que se assobia também no auditório de Josefina; a arte dela nos faz bem e quando nos sentimos bem, assobiamos; mas sua audiência não assobia, nela nem um rato bole, como se participássemos todos da paz almejada, da qual nosso próprio assobio no mínimo nos aparta e por isso silenciamos. E seu canto o que nos enleva ou a quietude solene que envolve a fraca vozinha?
Sucedeu certa vez que uma coisinha tola começou a assobiar com a maior inocência durante o canto de Josefina. Era exatamente a mesma coisa que ouvíamos de Josefina: lá na frente o assobio que continuava tímido apesar de toda a prática e aqui no público a assobiação infantil e esquecida de si mesma; teria sido impossível marcar a diferença; mas calamos imediatamente a perturbadora com guinchos e sibilos, embora não tivesse sido necessário, pois de qualquer maneira ela certamente teria se escondido de medo e vergonha; enquanto isso Josefina entoava seu assobio triunfal e, completamente fora de si, estendia os braços e esticava o pescoço até o limite máximo.
Aliás ela é sempre assim: qualquer ninharia, qualquer acaso, qualquer renitência, um estalo na platéia, um ranger de dentes, uma falha de iluminação, ela considera adequados para aumentar o efeito do seu canto; de fato na sua opinião ela canta para ouvidos surdos; entusiasmo e aplauso não lhe faltam, mas há muito tempo ela aprendeu a renunciar à compreensão real, tal como a concebe. Por isso todas as perturbações lhe vêm a propósito: tudo o que se opõe de fora à pureza do seu canto é derrotado pelo mero confronto numa luta ligeira — na verdade sem luta alguma — e pode contribuir para despertar a multidão, para ensinar-lhe, senão a compreensão, pelo menos um respeito instintivo.
Se as pequenas coisas já lhe servem, quanto mais as grandes. Nossa vida é muito intranqüila, cada dia traz surpresas, temores, esperanças e sustos, de tal forma que o indivíduo não poderia absolutamente suportar tudo se não tivesse dia e noite o apoio dos companheiros; mas mesmo assim ela com freqüência fica bem difícil; às vezes tremem mil ombros sob o peso que na verdade estava destinado a apenas um.
Josefina considera ter chegado sua hora. Ei-la em pé, o ser delicado vibrando inquietadoramente sobretudo abaixo do peito; é como se estivesse reunindo no canto todas as forças, como se tudo nela que não sirva imediatamente ao canto ficasse privado de qualquer energia, de qualquer possibilidade de vida. Como se ela, despojada, entregue, estivesse só sob a proteção de bons espíritos; como se um alento frio, ao passar ventando, pudesse matá-la, enquanto ela, completamente retirada, habita o próprio canto. Mas é justamente diante dessa visão que nós, seus supostos opositores, costumamos dizer: “Ela não pode nem assobiar; tem que fazer um esforço medonho para arrancar de si não um canto — de canto nem se fala — mas o assobio habitual da terra”. Assim nos parece, mas isso é — como já foi referido — uma impressão na realidade inevitável, porém transitória e que desaparece rápido. Logo mergulhamos, nós também, no sentimento da multidão que, cálida, um corpo encostado ao outro, escuta com a respiração contida.
E para reunir em torno de si esta multidão do nosso povo quase sempre em movimento, correndo de lá para cá em função de objetivos nem sempre muito claros, Josefina não precisa, na maior parte das vezes, fazer outra coisa senão, com a cabecinha atirada para trás, a boca semi- aberta, os olhos voltados para o alto, assumir a posição que indica a intenção de cantar. Pode fazer isto onde quiser, não precisa ser um lugar visível de longe; qualquer canto escondido, escolhido segundo o capricho casual do instante, é igualmente aproveitável. A notícia de que vai cantar se espalha depressa e logo desfilam as procissões. Ora, algumas vezes se interpõem obstáculos, Josefina canta de preferência em tempos agitados.
Múltiplos cuidados e aflições nos forçam a trilhar toda sorte de caminhos, não é possível reunir-se nem mesmo com a melhor boa vontade — tão rápido quanto Josefina deseja e ela fica parada talvez por algum tempo na sua postura solene sem audiência satisfatória — aí naturalmente ela se enfurece, bate com os pés no chão, xinga de um modo totalmente impróprio para uma moça e chega até a morder. Mas mesmo um comportamento como esse não prejudica sua fama; ao invés de se pôr um pouco de limite às suas exageradas exigências, esforça-se para corresponder a elas; são enviados mensageiros para convocar ouvintes; mantêm-se em segredo que isso está acontecendo; nos caminhos de todas as redondezas vêem-se sentinelas que gesticulam, aos que se aproximam, para que se apressem; isso dura até que finalmente esteja reunido um número razoável de espectadores.
O que impele o povo a se esforçar tanto por Josefina? A resposta a esta pergunta não é mais fácil do que a relativa ao seu canto — com a qual certamente está relacionada. Seria possível riscá-la e fundi-la com a segunda, se coubesse afirmar, por exemplo, que o povo está entregue incondicionalmente a Josefina em virtude do canto. Mas de modo algum este é o caso; devoção incondicional é coisa que o nosso povo mal conhece; pois, amando acima de tudo a astúcia — evidentemente sem maldade —, o mexerico infantil e o matraquear sem dúvida inocente que só movimenta os lábios, um povo desses não pode se entregar incondicionalmente à devoção; até Josefina sente isso, e é o que ela combate com todo o vigor da sua fraca garganta.
Certamente nesses julgamentos genéricos não ser devotado a Josefina, pode ir longe demais. O povo é, só que não incondicionalmente. Ele não seria, por exemplo, capaz de rir dela. Pode-se admitir que em Josefina há muita coisa que convida ao riso; e o riso em si mesmo, está sempre ao nosso alcance; apesar de toda a miséria da nossa vida, um riso discreto é natural entre nós; mas de Josefina nós não rimos. Às vezes tenho a impressão de que o povo concebe sua relação com ela de tal modo que este ser frágil, necessitado de proteção e de certa forma notável fica só — segundo a opinião dela, notável pelo canto os seus cuidados e ele precisa olhar por ela; o motivo ninguém sabe direito, só o fato parece estabelecido. Mas daquilo que está sob o nosso cuidado nós não rimos; rir seria faltar ao dever; o máximo de maldade que os mais maldosos dentre nós praticam é dizer de vez em quando: “Quando vemos Josefina, nossa vontade de rir desaparece”. Assim, o povo cuida de Josefina à maneira de um pai que se incumbe do filho que lhe estende a mãozinha — não se sabe ao certo se pedindo ou exigindo. Seria possível pensar que nosso povo não serve para cumprir esses deveres paternos, mas na realidade ele os desempenha, pelo, menos neste caso, de modo exemplar; nenhum indivíduo isolado poderia fazer o que, neste sentido, o povo como um todo consegue. Evidentemente a diferença de forças entre o povo e o indivíduo é tão gigantesca, que basta atrair o protegido ao calor da sua proximidade que ele fica suficientemente protegido. Contudo ninguém ousa falar destas coisas com Josefina. “para mim a proteção de vocês não vale um assobio”, diz ela. “Certo, certo, nem um assobio”, pensamos nós. Afora isso não há contestação real quando ela se rebela — e antes o modo de ser e agradecer característico de uma criança — e aqui o papel do pai é não fazer caso. Mas existe ainda alguma outra coisa que é mais difícil de explicar nesta relação entre o povo e Josefina. Na verdade Josefina pensa o contrário. Pois acredita ser ela quem protege o povo. Seu canto supostamente nos salva de uma situação política ou econômica difícil — nada menos que isso — e se não expulsa a desgraça, pelo menos nos dá energias para suportá-la. Ela não o afirma deste modo nem de outro qualquer; em geral fala pouco e se mantém em silêncio no meio dos tagarelas; mas esta convicção brilha nos seus olhos e pode ser lida na sua boca fechada; só poucos entre nós conservam a boca fechada, mas ela consegue fazê-lo. A cada má noticia — e em certos dias elas se atropelam, inclusive as falsas e as semiverdadeiras — ela se levanta imediatamente, quando o seu costume é ficar deitada no chão, cansada; levanta-se, estica o pescoço e procura abranger com o olhar o seu rebanho, como o pastor ante a tempestade. Certamente também as crianças, no seu modo de ser selvagem e sem domínio, tem pretensões semelhantes, mas no caso de Josefina, elas não são tão infundadas. Sem dúvida ela não nos salva nem nos dá forças, é fácil fazer-se passar por salvador deste povo acostumado ao sofrimento, que não se poupa, que é rápido nas decisões, que conhece a morte, que só na aparência é medroso na atmosfera de temeridade onde constantemente vive, e além disso tão fecundo quanto audacioso — é fácil, digo eu, fazer-se passar por salvador a posteriori deste povo, que de algum modo sempre salvou a si próprio, mesmo as custas de vítimas, diante das quais o pesquisador de história — em geral negligenciamos totalmente a pesquisa histórica — fica gelado de pavor. E no entanto é verdade que justamente em situações de emergência escutamos melhor que de costume a voz de Josefina. As ameaças que pesam sobre nós nos tornam mais quietos, mais modestos, mais dóceis ao arbítrio de Josefina; é de bom grado que nos reunimos e nos apinhamos, especialmente porque isso acontece por um motivo totalmente distanciado da torturante questão central; é como se ainda bebêssemos juntos, rapidamente — sim, a pressa é necessária e disso Josefina se esquece com muita freqüência —, uma taça de paz antes da luta. Não é tanto um recital de canto quanto uma assembléia do povo, na verdade uma assembléia inteiramente silenciosa, exceção feita ao pequeno assobio lá na frente; a hora e grave demais para que se quisesse desperdiçá-la papeando.
Naturalmente uma relação deste tipo não poderia de forma alguma satisfazer Josefina. A despeito do mal-estar nervoso que a acomete por causa da sua situação jamais esclarecida por completo, muita coisa ela, ofuscada pela presunção, não vê e pode, sem grande esforço, ser levada a perder ainda mais de vista; nesse sentido, ou seja, num sentido em geral útil, um enxame de aduladores está sempre a postos; mas cantar apenas de passagem, inadvertida, num cantinho da assembléia do povo — não, em nome disso não sacrificaria seu canto, embora em si mesmo não fosse absolutamente pouco.
Mas ela não precisa fazê-lo, pois sua arte não passa inadvertida. Embora no fundo estejamos ocupados com coisas muito distintas e o silêncio não reine exclusivamente em função do canto e alguns não ergam o olhar, mas comprimam o rosto na pele do vizinho e Josefina pareça portanto estar se esforçando inutilmente lá em cima, algo do seu assobio abre caminho até nós — isso não se pode negar. Esse assobio, que se eleva onde o silêncio se impõe a todos os outros, chega ao indivíduo quase como uma mensagem do povo; seu assobio fino, em meio às decisões difíceis, é quase como a existência miserável do nosso povo em meio ao tumulto do mundo hostil. Josefina se afirma — esse nada de voz, esse nada de rendimento se afirma e irrompe em direção a nós: faz bem pensar nisso. Nessas ocasiões certamente não suportaríamos um verdadeiro artista do canto (se se encontrasse algum entre nós) — e recusaríamos a uma só voz a insensatez de uma apresentação desse tipo. Que Josefina seja poupada de saber que o fato de a escutarmos é uma prova contra o seu canto. Sem dúvida ela pressente isso, do contrário por que negaria com tanta veemência que a escutamos? Mas ela continua a cantar e passa assobiando por cima desse pressentimento.
Fosse como fosse, porém, sempre haveria um consolo para ela: de certo modo nós a escutamos realmente — e é provável que de maneira semelhante à que se ouve um artista do canto; ela consegue efeitos que ele se esforçaria em vão para obter de nós e que se devem justamente aos recursos insuficientes de Josefina. Sem dúvida isso está relacionado principalmente com o nosso estilo de vida. Nosso povo não conhece a juventude e tem uma infância insignificante. É certo que aparecem regularmente exigências no sentido de que se garanta às crianças uma liberdade especial, uma proteção especial, seu direito a um pouco de despreocupação, a um pouco de travessura insensata, a um pouco de brincadeira — esse direito deve ser reconhecido e o seu exercício encorajado; essas pretensões surgem e quase todo mundo as aprova, não há nada que precisasse mais de aprovação, mas também não existe nada que na realidade da nossa vida se pudesse conceder menos: aprovam-se as exigências, fazem-se tentativas nesse sentido, mas logo tudo volta a ser como antes. Nossa vida é de tal ordem que uma criança, assim que consegue andar um pouco e discernir alguma coisa no meio que a circunda, precisa também cuidar de si mesma como um adulto; as regiões pelas quais precisamos viver espalhados por motivos econômicos são tão grandes, tantos os nossos inimigos e tão imprevisíveis os perigos que nos esperam em toda a parte, que não podemos manter as crianças afastadas da luta pela existência, pois se o fizéssemos, isso representaria seu fim prematuro. A estas tristes razões acrescenta-se sem dúvida também outra, considerável: a fertilidade da nossa linhagem. Uma geração — todas são numerosas — empurra a outra, as crianças não têm tempo de ser crianças. Podem outros povos tratar seus filhos com esmero, construir escolas para os pequenos, podem sair delas todos os dias, em massa, as crianças — futuro do povo — durante muito tempo, dia após dia, são sempre as mesmas crianças que de lá saem. Não temos escolas, mas do nosso povo jorram, em intervalos brevíssimos, os bandos infinitos dos nossos filhos, chiando ou pipilando alegremente enquanto ainda não sabem assobiar, rodando ou, graças à pressão, rolando continuamente enquanto ainda não sabem andar, arrastando atabalhoadamente tudo por força da sua massa enquanto ainda não podem enxergar — nossos filhos! Não, como naquelas escolas, as mesmas crianças — não: sempre, sempre mais, elas são novas, sem fim, sem interrupção; mal aparece uma, já não é mais criança, já a pressionam por trás as novas caras infantis, indistinguíveis na sua multidão e na sua pressa, róseas de felicidade. Evidentemente, por mais belo que isso seja, e por mais que outros possam com razão nos invejar por isso, não podemos dar aos nossos filhos uma infância real. E este fato tem conseqüências. Uma certa infantilidade inextinguível, inerradicável, impregna nosso povo; em contraste direto com o que temos de melhor — o senso prático infalível — agimos muitas vezes de maneira completamente tola, como aliás é tolo o modo de agir das crianças: absurdo, pródigo, generoso, leviano, e tudo, tantas vezes, em nome de uma pequena brincadeira.
E mesmo que a nossa alegria não possa, com isso, ter mais toda a força da alegria infantil — o que é natural — certamente alguma coisa dela continua ainda vivendo. É desta infantilidade do nosso povo que desde o início Josefina também tira proveito. Mas nosso povo não é só pueril, de certo modo ele também é prematuramente velho; em nós infância e velhice manifestam-se de forma diferente que nos outros. Não temos juventude, ficamos logo adultos, e continuamos então adultos por um tempo demasiadamente longo, vêm daí um certo cansaço e uma certa desesperança que atravessa com um vinco largo a essência no conjunto tão tenaz e cheia de esperança do nosso povo. Relaciona-se com isso, decerto, também a nossa amusicalidade; somos velhos demais para a música; sua excitação, seu enlevo, não se ajustam à nossa gravidade e é com cansaço que nós a rejeitamos; recolhemo-nos ao assobio; para nós a medida certa é um pouco de assobio aqui e ali. Quem sabe há talentos musicais entre nós; mas se houver, o caráter dos compatriotas os terá reprimido antes mesmo do seu desenvolvimento. Josefina, pelo contrário, pode cantar ou assobiar à vontade — qualquer que seja o nome que ela dê a esta ação — pois isso não nos perturba, corresponde à nossa maneira de ser, podemos suportá-lo bem; se contiver algo de música, então está reduzido à mais completa insignificância; conserva-se uma certa tradição musical, mas sem que isso nos cause o mínimo incômodo ao povo animado por esses sentimentos, porém, Josefina traz mais coisas. Nos seus concertos, principalmente nas épocas difíceis, só os muito jovens têm interesse pela cantora como tal, só eles a observam com assombro quando encrespa os lábios, expele o ar por entre os graciosos dentes da frente, enlanguesce de admiração pelos sons que ela mesma produz e aproveita essa languidez para ficar estimulada a novas realizações, que se tornam cada vez mais incompreensíveis para ela; a multidão propriamente dita, no entanto — isso é fácil de reconhecer —, recolheu-se em si mesma. Aqui, nas escassas pausas entre as lutas, o povo sonha, é como se os membros do indivíduo se relaxassem, como se desta vez fosse permitido ao desassossegado se estender e se espreguiçar na cama grande e quente do povo. E nesses sonhos soa aqui e ali o assobio de Josefina; ela o chama de cintilante, nós o chamamos de destacado; mas de qualquer forma aqui ele está no lugar certo como em nenhuma outra parte, como raramente a música encontra o momento que a espera. Está contido nele algo da nossa infância pobre e breve, algo da felicidade perdida e nunca mais encontrada; mas nele se acha também alguma coisa da vida ativa dos dias de hoje — da sua vivacidade modesta, inconcebível, que no entanto existe e não pode ser extinta. E na verdade tudo isso é dito não em tom grandiloqüente, mas com voz leve, sussurrada, confidencial, às vezes um pouco rouca. Naturalmente é um assobio. Como não? O assobio é a língua do nosso povo, só que alguns assobiam a vida inteira e não o sabem; aqui porém o assobio está liberado das cadeias da vida cotidiana e nos liberta também por um curto espaço de tempo. É evidente que não iríamos perder essas apresentações.
Mas dai até a afirmação de Josefina, de que nessas épocas ela nos dá novas forças, etc. etc., o caminho é muito longo. Isso no entanto vale para as pessoas comuns, não para os aduladores de Josefina.
“Como poderia ser diferente?” — dizem eles com desenvolta ousadia — “como se explicaria de outra forma a grande afluência, especialmente sob perigo iminente, e que algumas vezes já impediu até a defesa suficiente, a ser empreendida em tempo contra esse mesmo perigo?” Bem, infelizmente, esta última observação é correta, mas não pertence aos títulos de glória de Josefina, principalmente quando se acrescenta que, nas ocasiões em que essas assembléias foram dissolvidas inesperadamente pelo inimigo e vários dos nossos tiveram que perder a vida, Josefina, que era a culpada de tudo, que talvez tenha atraído o inimigo com o seu assobio, estava sempre na posse do mais seguro dos lugarzinhos e sob a proteção dos seus adeptos, foi a primeira a desaparecer em silêncio e a toda pressa. Mas até isso, no fundo todos sabem e entretanto acorrem de novo quando Josefina, a seu critério, na vez seguinte, em alguma parte, não importa quando, se levanta para cantar. Daí se poderia concluir que Josefina está praticamente acima da lei, que lhe é permitido fazer o que quer, mesmo quando põe em perigo a comunidade, e que tudo lhe é perdoado. Se fosse assim, então as pretensões de Josefina seriam perfeitamente compreensíveis, de certa forma seria possível ver, nessa liberdade, que o povo lhe estaria concedendo, nessa oferenda extraordinária, a ninguém mais assegurada, e que na verdade contraria as leis, uma confissão de que o povo — como ela afirma — não a entende, admira impotente a sua arte, não se sente digno dela, procura compensar a dor que lhe causa através de uma prestação francamente desesperada e, assim como a sua arte está além da sua capacidade de entendimento, coloca também a pessoa e os respectivos desejos fora do seu poder de mando. Ora, isso não é de modo nenhum verdadeiro, talvez haja indivíduos que capitulem rápido demais diante de Josefina, mas como o povo não capitula incondicionalmente diante de ninguém, também não o faz diante dela.
Desde há muito tempo, talvez desde o início da sua carreira artística, Josefina luta para ser liberada de qualquer trabalho, em consideração ao seu canto; devia ser aliviada da preocupação com o pão de cada dia e de tudo o mais que está ligado à nossa luta pela existência, o que provavelmente seria repassado ao conjunto do povo. Um entusiasta apressado — encontravam-se também alguns destes — poderia deduzir, já a partir da singularidade dessa exigência da mentalidade capaz de imaginá-la — a sua legitimação interna. Mas o nosso povo tira outras conclusões e rejeita calmamente a exigência. Também não se empenha demais na refutação dos fundamentos do pedido. Josefina aponta, por exemplo, que o esforço do trabalho prejudica sua voz, que na verdade ele é pequeno em comparação com o esforço do canto, mas tira-lhe a possibilidade de descansar o suficiente depois e de renovar as energias para um novo recital; com isso ela tem que se esgotar por completo e nessas circunstâncias não pode nunca atingir o seu rendimento máximo. O povo a ouve e segue em frente. Embora fácil de comover, este povo às vezes não se deixa absolutamente tocar. A recusa em certas ocasiões é tão dura que até Josefina fica perplexa, parece se submeter, trabalha como se deve, canta o melhor que pode, mas tudo isso por um certo tempo, depois retoma a luta com forças renovadas — e neste caso elas parecem ilimitadas.
É claro que no fundo Josefina não aspira àquilo que exige literalmente. Ela é razoável, não tem medo do trabalho — entre nós não se conhece quem fuja ao trabalho; mesmo depois de aprovada a sua exigência, ela certamente não viveria de outra forma que não fosse a de antes, o trabalho não iria absolutamente impedir o seu canto e este de qualquer maneira também não se tornaria mais belo; o que ela almeja, portanto, é apenas o reconhecimento da sua arte: público, inequívoco, que sobreviva às épocas, que se eleve bem acima de tudo o que é conhecido até agora.
Mas ao passo que quase todo o resto lhe parece alcançável, isto lhe é negado de modo obstinado. Talvez devesse ter dirigido o ataque logo de início numa outra direção; talvez agora reconheça o seu próprio erro, mas não pode mais recuar, o recuo significaria tornar-se infiel a si mesma; agora ela tem que permanecer em pé ou então cair com esta exigência.
Se ela realmente tivesse inimigos, como afirma, eles poderiam assistir a esta luta e se divertir sem mover um dedo. Mas Josefina não tem inimigos e mesmo que, aqui e ali, alguns levantem objeções contra ela, essa luta não diverte ninguém. Não fosse por outra coisa, porque o povo se mostra, aqui, na sua fria postura judicial — como aliás raramente se vê entre nós. E mesmo que, neste caso, alguém aprove essa atitude, a simples idéia de que o povo possa comportar-se contra ela de maneira semelhante exclui qualquer alegria. Pois tanto na exigência quanto na recusa não se trata da coisa em si mesma, mas do fato de que o povo pode se fechar impenetravelmente contra um compatriota — tão mais impenetravelmente quanto, no resto, ele cuida desse mesmo companheiro de um modo paternal e, mais que paternal, humilde.
Se no lugar do povo estivesse um indivíduo, seria possível achar que esse homem cedeu o tempo todo a Josefina com o desejo contínuo e ardente de afinal acabar com a própria condescendência; que cedeu de modo sobre-humano na firme crença de que a concessão encontrara o limite certo, apesar de tudo; que cedeu mais do que era preciso, só para acelerar o processo, só para mimar Josefina e levá-la a desejos sempre novos, até que ela, finalmente, fez esta última exigência; aí decerto ele formulou a rejeição definitiva, de uma forma breve, porque há muito tempo preparada. Bem, é evidente que as coisas não são assim, o povo não precisa dessas artimanhas, além disso a veneração que ele tem por Josefina é honesta e provada e a exigência dela tão desmedida que qualquer criança inocente poderia prever-lhe o desfecho; apesar disso pode ser que na concepção de Josefina essas suposições desempenhem um papel e acrescentem amargura à dor da rejeitada.
Mas quaisquer que tenham sido suas suposições, ela não se deixa intimidar pela luta. Nos últimos tempos esta ficou inclusive mais ríspida; se até então ela a conduzia através de palavras, agora começa a empregar outros meios, que na sua opinião são mais eficazes e na nossa mais perigosos para ela mesma. Muitos acreditam que Josefina se torna tão incisiva porque sente estar envelhecendo, a voz nimtra fraquezas, e por isso lhe parece chegada a hora de travar a última batalha pelo seu reconhecimento.
Não acredito nisso. Josefina não seria Josefina se isso fosse verdade, para ela não existe nem envelhecimento nem debilitação da voz. Quando exige alguma coisa, não é levada a isso por coisas exteriores, mas por uma lógica interna. Ela almeja a coroa máxima não porque no momento esta se encontre um pouco mais baixo, mas porque é a mais alta de todas; se estivesse no seu poder decidir, ela a penduraria mais alto ainda.
Esse desprezo pelas dificuldades exteriores não a impede, entretanto, de usar os meios mais indignos, para ela seu direito está fora de dúvida; que lhe importa, — portanto, como o alcança; principalmente se neste mundo, tal como ela o concebe, justamente os meios dignos têm que malograr. Talvez por isso ela tenha deslocado a luta pelo seu direito da área do canto para outra que lhe é menos cara. Seus partidários puseram em circulação declarações dela, segundo as quais se sente perfeitamente capaz de cantar de uma tal forma que seria um prazer real para todas as camadas do povo, até para a mais recôndita oposição — prazer real não no sentido do povo, que afirma tê-lo desde sempre ao ouvir Josefina, mas no sentido das exigências dela. Acrescenta porém que, já que não pode falsear o elevado, nem bajular o comum, é preciso ficar como está. A coisa é diferente, no entanto, quando se trata da sua luta pela libertação do trabalho; na verdade é também uma luta pelo seu canto, mas aqui ela não combate de modo imediato com a arma preciosa do seu canto; portanto qualquer meio que ela empregue é suficientemente bom.
Assim, por exemplo, espalhou-se o rumor de que Josefina pretende — caso não cedam às suas reivindicações — encurtar os floreios. Eu não entendo nada de floreios, nunca notei no seu canto algo do gênero. Mas Josefina quer encurtá-los; por enquanto não quer suprimi- los, só encurtá-los. Presumivelmente concretizou a ameaça, para mim entretanto não saltou à vista nenhuma diferença em relação às suas apresentações anteriores. O povo, no conjunto, escutou como sempre, sem se pronunciar sobre os floreios, e o tratamento dado à exigência de Josefina também não mudou. De resto é inegável que existe em Josefina, tanto na sua figura como no seu pensamento, algo muito gracioso. Assim, por exemplo, ela explicou, depois daquela apresentação — como se a sua decisão sobre os floreios tivesse sido muito dura ou abrupta para o povo — que da próxima vez iria cantar novamente todos eles. Mas depois do concerto seguinte mudou de idéia outra vez: agora haviam terminado definitivamente os grandes floreios e antes de uma decisão favorável a Josefina, eles não voltariam. Ora, o povo faz ouvidos moucos a todas essas explicações, decisões e contradecisões — como um adulto voltado para os próprios pensamentos ouve sem escutar a tagarelice de uma criança: no fundo benévolo, mas inacessível.
Mas Josefina não cede. Assim, por exemplo, afirmou recentemente que, durante o trabalho, sofreu um ferimento no pé, que lhe torna penoso ficar de pé durante o canto; mas como só pode cantar nessa posição, ela precisa agora encurtar até as canções. Embora manque e se faça apoiar pelos seus adeptos, ninguém acredita num ferimento real. Mesmo admitindo a sensibilidade especial do seu corpinho, somos um povo de trabalhadores e Josefina também faz parte dele; mas se quiséssemos mancar por causa de qualquer arranhão na pele, o povo todo não poderia parar de mancar. Por mais que ela se deixe conduzir como uma aleijada, por mais que se mostre nesse estado deplorável com maior freqüência que antes, o povo escuta o seu canto agradecido e encantado como outrora; mas não faz muito barulho por causa do encurtamento das canções.
Como não pode andar sempre mancando, inventa alguma outra coisa: alega cansaço, mau humor, fraqueza. Temos pois, além do concerto, um espetáculo teatral. Atrás de Josefina vemos os partidários que pedem e imploram que ela cante. Ela gostaria de cantar, mas não pode. Consolam-na, cobrem-na de bajulação, quase a transportam para o local previamente escolhido onde deve cantar. Finalmente ela cede, com lágrimas indecifráveis, mas quando — evidentemente nas últimas — quer começar a cantar, exausta, os braços estendidos, não como de costume, mas pendendo sem vida ao longo do corpo, lance em que se tem a impressão de que talvez eles sejam um pouco curtos demais — quando ela vai dar o tom, eis que não é possível de novo, um meneio relutante da cabeça o anuncia e ela desmaia diante dos nossos olhos. Logo entretanto se recompõe e canta, creio eu, de maneira não muito diferente da habitual – se alguém tem o ouvido apurado para as nuanças mais finas talvez distinga uma excitação um pouco excepcional, mas que só beneficia o canto. E no final ela está até menos cansada do que antes, com o andar firme — se é que se pode chamar assim os seus passinhos apressados — afasta-se, recusando qualquer ajuda dos acólitos e examinando com olhares frios a multidão que lhe abre caminho respeitosamente.
Assim foi nos últimos dias; mas a novidade mais recente é que na hora em que estava sendo esperada para cantar, Josefina sumiu. Não só seus partidários a procuram; muitos outros também se apresentam para o trabalho de busca; tudo em vão; Josefina desapareceu, não quer cantar, não deixa nem mesmo ser requisitada; desta vez ela nos abandonou completamente.
É curioso como são equivocados os cálculos desta esperta criatura – tão equivocados que se poderia pensar que ela nem calcula, apenas continua a ser arrastada pelo seu destino, que no nosso mundo só pode se tornar muito triste. Esquiva-se por conta própria ao canto e por conta própria destrói o poder que conquistou sobre os corações. Como pôde conquistar esse poder, se conhece tão pouco esses corações? Ela se esconde e não canta, mas o povo, calmo, sem decepção visível, imperioso, uma massa que encontra em si mesma o equilíbrio e que, ao contrário das aparências, só pode dar presentes, jamais recebê-los, nem mesmo de Josefina, esse povo vai seguindo o seu caminho.
Pode Josefina, porém, ter que ir ladeira abaixo. Chegará logo o tempo em que seu último assobio vai soar e emudecer. Ela é um pequeno episódio na história eterna do nosso povo e o povo vai superar a perda. Sem dúvida não será fácil para nós; como sendo possíveis as assembléias em total mudez? Mas com Josefina elas também não eram mudas? Seu assobio real era significativamente mais alto e mais vivo do que a memória dele o será? Durante a existência dela foi ele mais que uma simples lembrança? Não será, antes, que o povo, na sua sabedoria, elevou tão alto o canto de Josefina porque desse modo ele não podia se perder?
Possivelmente, portanto, não sentiremos muita falta, mas Josefina, redimida da canseira terrena, a seu ver preparada para os eleitos — se perderia alegremente na incontável multidão dos heróis do nosso povo e em breve — uma vez que não cultivamos a história — estará esquecida, como todos os seus irmãos, na escalada da redenção.
Muitas vezes me perguntei o que acontece efetivamente com essa música. De fato somos inteiramente não-musicais; como é que entendemos a música de Josefina, ou pelo menos acreditamos entender, já que ela nega nosso entendimento? A resposta mais simples seria que a beleza do seu canto é tão grande que até o sentido mais embotado é incapaz de resistir, mas esta resposta não é satisfatória. Se fosse realmente assim, diante desse canto precisaríamos, de uma vez por todas, ter o sentimento de algo extraordinário, a sensação de que nessa garganta ressoa alguma coisa que nunca ouvimos antes e que não temos absolutamente capacidade de escutar — algo para o qual Josefina e ninguém mais nos torna aptos.
Mas na minha opinião é justamente isso o que não ocorre; eu não o sinto e nunca o notei também nos outros. Em círculos de confiança admitimos abertamente uns aos outros que o canto de Josefina, enquanto canto, não tem nada de excepcional.
— É realmente um canto? Embora não sejamos musicais temos tradições de canto; em épocas antigas do nosso povo o canto existiu; as lendas falam a esse respeito e foram conservadas inclusive canções, que naturalmente ninguém mais sabe cantar. Temos portanto uma noção do que é canto e a arte de Josefina não corresponde, na verdade, a essa noção. Pois é realmente um canto? Não é talvez apenas um assobio? E assobiar todos nós sabemos, é a aptidão propriamente dita do nosso povo, ou melhor: não se trata de uma aptidão, mas de uma manifestação vital bem característica. Todos nós assobiamos, mas certamente ninguém cogita em fazê-lo passar por arte; assobiamos sem prestar atenção nisso, até mesmo sem o perceber, e muitos entre nós ignoram totalmente que o assobio faz parte das nossas peculiaridades. Portanto se fosse verdade que Josefina não canta, mas só assobia e que talvez, como pelo menos me parece, mal ultrapasse os limites do assobio usual; que talvez a sua força não baste nem para esse assobio costumeiro, ao passo que um trabalhador comum da terra o emite sem esforço o dia inteiro enquanto realiza o seu trabalho — se tudo isso fosse verdade, então o suposto talento artístico de Josefina estaria refutado; mas a partir daí teria que ser solucionado o enigma da sua grande influência.
Mas de fato não é apenas assobio o que ela produz. Se alguém se coloca à distância e fica escutando, melhor ainda — submete-se a uma prova nesse sentido; se portanto Josefina eventualmente canta entre outras vozes e alguém se propõe a tarefa de reconhecer sua voz, então é irrecusável que não irá escutar outra coisa senão um assobio comum, que no máximo se destaca um pouco pela delicadeza ou pela debilidade. Mas se o observador fica diante dela, aí então não é apenas um assobio: para compreender a sua arte é necessário não só ouvi-la como também vê-la. Mesmo que fosse somente o nosso assobio cotidiano, aqui já existe a singularidade de alguém que se põe, solenemente, a não fazer outra coisa senão o usual. Quebrar uma noz não é verdadeiramente uma arte, por isso ninguém ousará convocar um público e, para então começar a quebrar nozes diante dele. Mas se apesar disso ele o faz e sua intenção é bem-sucedida, então não se trata única e exclusivamente de quebrar nozes. Ou então se trata de quebrar nozes, mas se verifica que não demos atenção a esta arte porque a dominávamos completamente e que este novo quebrador de nozes mostra a verdadeira essência dela — momento em que poderia até ser útil ao efeito se ele fosse menos hábil em quebrar nozes do que a maioria de nós.
Talvez aconteça algo semelhante com o canto de Josefina; admiramos nela aquilo que de modo algum admiramos em nós; a esse respeito aliás ela está de pleno acordo conosco. Eu estava presente quando certa vez — naturalmente isso ocorre com freqüência — alguém chamou a atenção dela para o assobio geral do povo, e o fez na verdade de maneira bastante discreta, mas para Josefina isso foi demais. Ainda não vi um sorriso tão insolente e arrogante como o que ela então ostentou; ela, que por fora é a própria delicadeza, e nesse aspecto sobressai até mesmo num povo tão rico em figuras femininas como o nosso, pareceu naquele momento francamente mesquinha; com a sua grande sensibilidade, porém, pôde tomar consciência de si mesma e se dominou. Seja como for nega qualquer relação entre sua arte e o ato de assobiar. Ela tem só desprezo por aqueles que têm opinião contrária à sua — e provavelmente um ódio não confessado. Não é uma vaidade comum, pois essa oposição, à qual eu também meio que pertenço, certamente não a admira menos que a multidão; mas Josefina não quer ser apenas admirada, e sim admirada exatamente da maneira definida por ela: só admiração não lhe interessa. E quando estamos sentados diante dela nós a compreendemos — só se faz oposição à distância; quando se está sentado diante dela sabe-se: o que ela aqui assobia não é assobio.
Uma vez que assobiar faz parte dos nossos hábitos espontâneos, seria possível pensar que se assobia também no auditório de Josefina; a arte dela nos faz bem e quando nos sentimos bem, assobiamos; mas sua audiência não assobia, nela nem um rato bole, como se participássemos todos da paz almejada, da qual nosso próprio assobio no mínimo nos aparta e por isso silenciamos. E seu canto o que nos enleva ou a quietude solene que envolve a fraca vozinha?
Sucedeu certa vez que uma coisinha tola começou a assobiar com a maior inocência durante o canto de Josefina. Era exatamente a mesma coisa que ouvíamos de Josefina: lá na frente o assobio que continuava tímido apesar de toda a prática e aqui no público a assobiação infantil e esquecida de si mesma; teria sido impossível marcar a diferença; mas calamos imediatamente a perturbadora com guinchos e sibilos, embora não tivesse sido necessário, pois de qualquer maneira ela certamente teria se escondido de medo e vergonha; enquanto isso Josefina entoava seu assobio triunfal e, completamente fora de si, estendia os braços e esticava o pescoço até o limite máximo.
Aliás ela é sempre assim: qualquer ninharia, qualquer acaso, qualquer renitência, um estalo na platéia, um ranger de dentes, uma falha de iluminação, ela considera adequados para aumentar o efeito do seu canto; de fato na sua opinião ela canta para ouvidos surdos; entusiasmo e aplauso não lhe faltam, mas há muito tempo ela aprendeu a renunciar à compreensão real, tal como a concebe. Por isso todas as perturbações lhe vêm a propósito: tudo o que se opõe de fora à pureza do seu canto é derrotado pelo mero confronto numa luta ligeira — na verdade sem luta alguma — e pode contribuir para despertar a multidão, para ensinar-lhe, senão a compreensão, pelo menos um respeito instintivo.
Se as pequenas coisas já lhe servem, quanto mais as grandes. Nossa vida é muito intranqüila, cada dia traz surpresas, temores, esperanças e sustos, de tal forma que o indivíduo não poderia absolutamente suportar tudo se não tivesse dia e noite o apoio dos companheiros; mas mesmo assim ela com freqüência fica bem difícil; às vezes tremem mil ombros sob o peso que na verdade estava destinado a apenas um.
Josefina considera ter chegado sua hora. Ei-la em pé, o ser delicado vibrando inquietadoramente sobretudo abaixo do peito; é como se estivesse reunindo no canto todas as forças, como se tudo nela que não sirva imediatamente ao canto ficasse privado de qualquer energia, de qualquer possibilidade de vida. Como se ela, despojada, entregue, estivesse só sob a proteção de bons espíritos; como se um alento frio, ao passar ventando, pudesse matá-la, enquanto ela, completamente retirada, habita o próprio canto. Mas é justamente diante dessa visão que nós, seus supostos opositores, costumamos dizer: “Ela não pode nem assobiar; tem que fazer um esforço medonho para arrancar de si não um canto — de canto nem se fala — mas o assobio habitual da terra”. Assim nos parece, mas isso é — como já foi referido — uma impressão na realidade inevitável, porém transitória e que desaparece rápido. Logo mergulhamos, nós também, no sentimento da multidão que, cálida, um corpo encostado ao outro, escuta com a respiração contida.
E para reunir em torno de si esta multidão do nosso povo quase sempre em movimento, correndo de lá para cá em função de objetivos nem sempre muito claros, Josefina não precisa, na maior parte das vezes, fazer outra coisa senão, com a cabecinha atirada para trás, a boca semi- aberta, os olhos voltados para o alto, assumir a posição que indica a intenção de cantar. Pode fazer isto onde quiser, não precisa ser um lugar visível de longe; qualquer canto escondido, escolhido segundo o capricho casual do instante, é igualmente aproveitável. A notícia de que vai cantar se espalha depressa e logo desfilam as procissões. Ora, algumas vezes se interpõem obstáculos, Josefina canta de preferência em tempos agitados.
Múltiplos cuidados e aflições nos forçam a trilhar toda sorte de caminhos, não é possível reunir-se nem mesmo com a melhor boa vontade — tão rápido quanto Josefina deseja e ela fica parada talvez por algum tempo na sua postura solene sem audiência satisfatória — aí naturalmente ela se enfurece, bate com os pés no chão, xinga de um modo totalmente impróprio para uma moça e chega até a morder. Mas mesmo um comportamento como esse não prejudica sua fama; ao invés de se pôr um pouco de limite às suas exageradas exigências, esforça-se para corresponder a elas; são enviados mensageiros para convocar ouvintes; mantêm-se em segredo que isso está acontecendo; nos caminhos de todas as redondezas vêem-se sentinelas que gesticulam, aos que se aproximam, para que se apressem; isso dura até que finalmente esteja reunido um número razoável de espectadores.
O que impele o povo a se esforçar tanto por Josefina? A resposta a esta pergunta não é mais fácil do que a relativa ao seu canto — com a qual certamente está relacionada. Seria possível riscá-la e fundi-la com a segunda, se coubesse afirmar, por exemplo, que o povo está entregue incondicionalmente a Josefina em virtude do canto. Mas de modo algum este é o caso; devoção incondicional é coisa que o nosso povo mal conhece; pois, amando acima de tudo a astúcia — evidentemente sem maldade —, o mexerico infantil e o matraquear sem dúvida inocente que só movimenta os lábios, um povo desses não pode se entregar incondicionalmente à devoção; até Josefina sente isso, e é o que ela combate com todo o vigor da sua fraca garganta.
Certamente nesses julgamentos genéricos não ser devotado a Josefina, pode ir longe demais. O povo é, só que não incondicionalmente. Ele não seria, por exemplo, capaz de rir dela. Pode-se admitir que em Josefina há muita coisa que convida ao riso; e o riso em si mesmo, está sempre ao nosso alcance; apesar de toda a miséria da nossa vida, um riso discreto é natural entre nós; mas de Josefina nós não rimos. Às vezes tenho a impressão de que o povo concebe sua relação com ela de tal modo que este ser frágil, necessitado de proteção e de certa forma notável fica só — segundo a opinião dela, notável pelo canto os seus cuidados e ele precisa olhar por ela; o motivo ninguém sabe direito, só o fato parece estabelecido. Mas daquilo que está sob o nosso cuidado nós não rimos; rir seria faltar ao dever; o máximo de maldade que os mais maldosos dentre nós praticam é dizer de vez em quando: “Quando vemos Josefina, nossa vontade de rir desaparece”. Assim, o povo cuida de Josefina à maneira de um pai que se incumbe do filho que lhe estende a mãozinha — não se sabe ao certo se pedindo ou exigindo. Seria possível pensar que nosso povo não serve para cumprir esses deveres paternos, mas na realidade ele os desempenha, pelo, menos neste caso, de modo exemplar; nenhum indivíduo isolado poderia fazer o que, neste sentido, o povo como um todo consegue. Evidentemente a diferença de forças entre o povo e o indivíduo é tão gigantesca, que basta atrair o protegido ao calor da sua proximidade que ele fica suficientemente protegido. Contudo ninguém ousa falar destas coisas com Josefina. “para mim a proteção de vocês não vale um assobio”, diz ela. “Certo, certo, nem um assobio”, pensamos nós. Afora isso não há contestação real quando ela se rebela — e antes o modo de ser e agradecer característico de uma criança — e aqui o papel do pai é não fazer caso. Mas existe ainda alguma outra coisa que é mais difícil de explicar nesta relação entre o povo e Josefina. Na verdade Josefina pensa o contrário. Pois acredita ser ela quem protege o povo. Seu canto supostamente nos salva de uma situação política ou econômica difícil — nada menos que isso — e se não expulsa a desgraça, pelo menos nos dá energias para suportá-la. Ela não o afirma deste modo nem de outro qualquer; em geral fala pouco e se mantém em silêncio no meio dos tagarelas; mas esta convicção brilha nos seus olhos e pode ser lida na sua boca fechada; só poucos entre nós conservam a boca fechada, mas ela consegue fazê-lo. A cada má noticia — e em certos dias elas se atropelam, inclusive as falsas e as semiverdadeiras — ela se levanta imediatamente, quando o seu costume é ficar deitada no chão, cansada; levanta-se, estica o pescoço e procura abranger com o olhar o seu rebanho, como o pastor ante a tempestade. Certamente também as crianças, no seu modo de ser selvagem e sem domínio, tem pretensões semelhantes, mas no caso de Josefina, elas não são tão infundadas. Sem dúvida ela não nos salva nem nos dá forças, é fácil fazer-se passar por salvador deste povo acostumado ao sofrimento, que não se poupa, que é rápido nas decisões, que conhece a morte, que só na aparência é medroso na atmosfera de temeridade onde constantemente vive, e além disso tão fecundo quanto audacioso — é fácil, digo eu, fazer-se passar por salvador a posteriori deste povo, que de algum modo sempre salvou a si próprio, mesmo as custas de vítimas, diante das quais o pesquisador de história — em geral negligenciamos totalmente a pesquisa histórica — fica gelado de pavor. E no entanto é verdade que justamente em situações de emergência escutamos melhor que de costume a voz de Josefina. As ameaças que pesam sobre nós nos tornam mais quietos, mais modestos, mais dóceis ao arbítrio de Josefina; é de bom grado que nos reunimos e nos apinhamos, especialmente porque isso acontece por um motivo totalmente distanciado da torturante questão central; é como se ainda bebêssemos juntos, rapidamente — sim, a pressa é necessária e disso Josefina se esquece com muita freqüência —, uma taça de paz antes da luta. Não é tanto um recital de canto quanto uma assembléia do povo, na verdade uma assembléia inteiramente silenciosa, exceção feita ao pequeno assobio lá na frente; a hora e grave demais para que se quisesse desperdiçá-la papeando.
Naturalmente uma relação deste tipo não poderia de forma alguma satisfazer Josefina. A despeito do mal-estar nervoso que a acomete por causa da sua situação jamais esclarecida por completo, muita coisa ela, ofuscada pela presunção, não vê e pode, sem grande esforço, ser levada a perder ainda mais de vista; nesse sentido, ou seja, num sentido em geral útil, um enxame de aduladores está sempre a postos; mas cantar apenas de passagem, inadvertida, num cantinho da assembléia do povo — não, em nome disso não sacrificaria seu canto, embora em si mesmo não fosse absolutamente pouco.
Mas ela não precisa fazê-lo, pois sua arte não passa inadvertida. Embora no fundo estejamos ocupados com coisas muito distintas e o silêncio não reine exclusivamente em função do canto e alguns não ergam o olhar, mas comprimam o rosto na pele do vizinho e Josefina pareça portanto estar se esforçando inutilmente lá em cima, algo do seu assobio abre caminho até nós — isso não se pode negar. Esse assobio, que se eleva onde o silêncio se impõe a todos os outros, chega ao indivíduo quase como uma mensagem do povo; seu assobio fino, em meio às decisões difíceis, é quase como a existência miserável do nosso povo em meio ao tumulto do mundo hostil. Josefina se afirma — esse nada de voz, esse nada de rendimento se afirma e irrompe em direção a nós: faz bem pensar nisso. Nessas ocasiões certamente não suportaríamos um verdadeiro artista do canto (se se encontrasse algum entre nós) — e recusaríamos a uma só voz a insensatez de uma apresentação desse tipo. Que Josefina seja poupada de saber que o fato de a escutarmos é uma prova contra o seu canto. Sem dúvida ela pressente isso, do contrário por que negaria com tanta veemência que a escutamos? Mas ela continua a cantar e passa assobiando por cima desse pressentimento.
Fosse como fosse, porém, sempre haveria um consolo para ela: de certo modo nós a escutamos realmente — e é provável que de maneira semelhante à que se ouve um artista do canto; ela consegue efeitos que ele se esforçaria em vão para obter de nós e que se devem justamente aos recursos insuficientes de Josefina. Sem dúvida isso está relacionado principalmente com o nosso estilo de vida. Nosso povo não conhece a juventude e tem uma infância insignificante. É certo que aparecem regularmente exigências no sentido de que se garanta às crianças uma liberdade especial, uma proteção especial, seu direito a um pouco de despreocupação, a um pouco de travessura insensata, a um pouco de brincadeira — esse direito deve ser reconhecido e o seu exercício encorajado; essas pretensões surgem e quase todo mundo as aprova, não há nada que precisasse mais de aprovação, mas também não existe nada que na realidade da nossa vida se pudesse conceder menos: aprovam-se as exigências, fazem-se tentativas nesse sentido, mas logo tudo volta a ser como antes. Nossa vida é de tal ordem que uma criança, assim que consegue andar um pouco e discernir alguma coisa no meio que a circunda, precisa também cuidar de si mesma como um adulto; as regiões pelas quais precisamos viver espalhados por motivos econômicos são tão grandes, tantos os nossos inimigos e tão imprevisíveis os perigos que nos esperam em toda a parte, que não podemos manter as crianças afastadas da luta pela existência, pois se o fizéssemos, isso representaria seu fim prematuro. A estas tristes razões acrescenta-se sem dúvida também outra, considerável: a fertilidade da nossa linhagem. Uma geração — todas são numerosas — empurra a outra, as crianças não têm tempo de ser crianças. Podem outros povos tratar seus filhos com esmero, construir escolas para os pequenos, podem sair delas todos os dias, em massa, as crianças — futuro do povo — durante muito tempo, dia após dia, são sempre as mesmas crianças que de lá saem. Não temos escolas, mas do nosso povo jorram, em intervalos brevíssimos, os bandos infinitos dos nossos filhos, chiando ou pipilando alegremente enquanto ainda não sabem assobiar, rodando ou, graças à pressão, rolando continuamente enquanto ainda não sabem andar, arrastando atabalhoadamente tudo por força da sua massa enquanto ainda não podem enxergar — nossos filhos! Não, como naquelas escolas, as mesmas crianças — não: sempre, sempre mais, elas são novas, sem fim, sem interrupção; mal aparece uma, já não é mais criança, já a pressionam por trás as novas caras infantis, indistinguíveis na sua multidão e na sua pressa, róseas de felicidade. Evidentemente, por mais belo que isso seja, e por mais que outros possam com razão nos invejar por isso, não podemos dar aos nossos filhos uma infância real. E este fato tem conseqüências. Uma certa infantilidade inextinguível, inerradicável, impregna nosso povo; em contraste direto com o que temos de melhor — o senso prático infalível — agimos muitas vezes de maneira completamente tola, como aliás é tolo o modo de agir das crianças: absurdo, pródigo, generoso, leviano, e tudo, tantas vezes, em nome de uma pequena brincadeira.
E mesmo que a nossa alegria não possa, com isso, ter mais toda a força da alegria infantil — o que é natural — certamente alguma coisa dela continua ainda vivendo. É desta infantilidade do nosso povo que desde o início Josefina também tira proveito. Mas nosso povo não é só pueril, de certo modo ele também é prematuramente velho; em nós infância e velhice manifestam-se de forma diferente que nos outros. Não temos juventude, ficamos logo adultos, e continuamos então adultos por um tempo demasiadamente longo, vêm daí um certo cansaço e uma certa desesperança que atravessa com um vinco largo a essência no conjunto tão tenaz e cheia de esperança do nosso povo. Relaciona-se com isso, decerto, também a nossa amusicalidade; somos velhos demais para a música; sua excitação, seu enlevo, não se ajustam à nossa gravidade e é com cansaço que nós a rejeitamos; recolhemo-nos ao assobio; para nós a medida certa é um pouco de assobio aqui e ali. Quem sabe há talentos musicais entre nós; mas se houver, o caráter dos compatriotas os terá reprimido antes mesmo do seu desenvolvimento. Josefina, pelo contrário, pode cantar ou assobiar à vontade — qualquer que seja o nome que ela dê a esta ação — pois isso não nos perturba, corresponde à nossa maneira de ser, podemos suportá-lo bem; se contiver algo de música, então está reduzido à mais completa insignificância; conserva-se uma certa tradição musical, mas sem que isso nos cause o mínimo incômodo ao povo animado por esses sentimentos, porém, Josefina traz mais coisas. Nos seus concertos, principalmente nas épocas difíceis, só os muito jovens têm interesse pela cantora como tal, só eles a observam com assombro quando encrespa os lábios, expele o ar por entre os graciosos dentes da frente, enlanguesce de admiração pelos sons que ela mesma produz e aproveita essa languidez para ficar estimulada a novas realizações, que se tornam cada vez mais incompreensíveis para ela; a multidão propriamente dita, no entanto — isso é fácil de reconhecer —, recolheu-se em si mesma. Aqui, nas escassas pausas entre as lutas, o povo sonha, é como se os membros do indivíduo se relaxassem, como se desta vez fosse permitido ao desassossegado se estender e se espreguiçar na cama grande e quente do povo. E nesses sonhos soa aqui e ali o assobio de Josefina; ela o chama de cintilante, nós o chamamos de destacado; mas de qualquer forma aqui ele está no lugar certo como em nenhuma outra parte, como raramente a música encontra o momento que a espera. Está contido nele algo da nossa infância pobre e breve, algo da felicidade perdida e nunca mais encontrada; mas nele se acha também alguma coisa da vida ativa dos dias de hoje — da sua vivacidade modesta, inconcebível, que no entanto existe e não pode ser extinta. E na verdade tudo isso é dito não em tom grandiloqüente, mas com voz leve, sussurrada, confidencial, às vezes um pouco rouca. Naturalmente é um assobio. Como não? O assobio é a língua do nosso povo, só que alguns assobiam a vida inteira e não o sabem; aqui porém o assobio está liberado das cadeias da vida cotidiana e nos liberta também por um curto espaço de tempo. É evidente que não iríamos perder essas apresentações.
Mas dai até a afirmação de Josefina, de que nessas épocas ela nos dá novas forças, etc. etc., o caminho é muito longo. Isso no entanto vale para as pessoas comuns, não para os aduladores de Josefina.
“Como poderia ser diferente?” — dizem eles com desenvolta ousadia — “como se explicaria de outra forma a grande afluência, especialmente sob perigo iminente, e que algumas vezes já impediu até a defesa suficiente, a ser empreendida em tempo contra esse mesmo perigo?” Bem, infelizmente, esta última observação é correta, mas não pertence aos títulos de glória de Josefina, principalmente quando se acrescenta que, nas ocasiões em que essas assembléias foram dissolvidas inesperadamente pelo inimigo e vários dos nossos tiveram que perder a vida, Josefina, que era a culpada de tudo, que talvez tenha atraído o inimigo com o seu assobio, estava sempre na posse do mais seguro dos lugarzinhos e sob a proteção dos seus adeptos, foi a primeira a desaparecer em silêncio e a toda pressa. Mas até isso, no fundo todos sabem e entretanto acorrem de novo quando Josefina, a seu critério, na vez seguinte, em alguma parte, não importa quando, se levanta para cantar. Daí se poderia concluir que Josefina está praticamente acima da lei, que lhe é permitido fazer o que quer, mesmo quando põe em perigo a comunidade, e que tudo lhe é perdoado. Se fosse assim, então as pretensões de Josefina seriam perfeitamente compreensíveis, de certa forma seria possível ver, nessa liberdade, que o povo lhe estaria concedendo, nessa oferenda extraordinária, a ninguém mais assegurada, e que na verdade contraria as leis, uma confissão de que o povo — como ela afirma — não a entende, admira impotente a sua arte, não se sente digno dela, procura compensar a dor que lhe causa através de uma prestação francamente desesperada e, assim como a sua arte está além da sua capacidade de entendimento, coloca também a pessoa e os respectivos desejos fora do seu poder de mando. Ora, isso não é de modo nenhum verdadeiro, talvez haja indivíduos que capitulem rápido demais diante de Josefina, mas como o povo não capitula incondicionalmente diante de ninguém, também não o faz diante dela.
Desde há muito tempo, talvez desde o início da sua carreira artística, Josefina luta para ser liberada de qualquer trabalho, em consideração ao seu canto; devia ser aliviada da preocupação com o pão de cada dia e de tudo o mais que está ligado à nossa luta pela existência, o que provavelmente seria repassado ao conjunto do povo. Um entusiasta apressado — encontravam-se também alguns destes — poderia deduzir, já a partir da singularidade dessa exigência da mentalidade capaz de imaginá-la — a sua legitimação interna. Mas o nosso povo tira outras conclusões e rejeita calmamente a exigência. Também não se empenha demais na refutação dos fundamentos do pedido. Josefina aponta, por exemplo, que o esforço do trabalho prejudica sua voz, que na verdade ele é pequeno em comparação com o esforço do canto, mas tira-lhe a possibilidade de descansar o suficiente depois e de renovar as energias para um novo recital; com isso ela tem que se esgotar por completo e nessas circunstâncias não pode nunca atingir o seu rendimento máximo. O povo a ouve e segue em frente. Embora fácil de comover, este povo às vezes não se deixa absolutamente tocar. A recusa em certas ocasiões é tão dura que até Josefina fica perplexa, parece se submeter, trabalha como se deve, canta o melhor que pode, mas tudo isso por um certo tempo, depois retoma a luta com forças renovadas — e neste caso elas parecem ilimitadas.
É claro que no fundo Josefina não aspira àquilo que exige literalmente. Ela é razoável, não tem medo do trabalho — entre nós não se conhece quem fuja ao trabalho; mesmo depois de aprovada a sua exigência, ela certamente não viveria de outra forma que não fosse a de antes, o trabalho não iria absolutamente impedir o seu canto e este de qualquer maneira também não se tornaria mais belo; o que ela almeja, portanto, é apenas o reconhecimento da sua arte: público, inequívoco, que sobreviva às épocas, que se eleve bem acima de tudo o que é conhecido até agora.
Mas ao passo que quase todo o resto lhe parece alcançável, isto lhe é negado de modo obstinado. Talvez devesse ter dirigido o ataque logo de início numa outra direção; talvez agora reconheça o seu próprio erro, mas não pode mais recuar, o recuo significaria tornar-se infiel a si mesma; agora ela tem que permanecer em pé ou então cair com esta exigência.
Se ela realmente tivesse inimigos, como afirma, eles poderiam assistir a esta luta e se divertir sem mover um dedo. Mas Josefina não tem inimigos e mesmo que, aqui e ali, alguns levantem objeções contra ela, essa luta não diverte ninguém. Não fosse por outra coisa, porque o povo se mostra, aqui, na sua fria postura judicial — como aliás raramente se vê entre nós. E mesmo que, neste caso, alguém aprove essa atitude, a simples idéia de que o povo possa comportar-se contra ela de maneira semelhante exclui qualquer alegria. Pois tanto na exigência quanto na recusa não se trata da coisa em si mesma, mas do fato de que o povo pode se fechar impenetravelmente contra um compatriota — tão mais impenetravelmente quanto, no resto, ele cuida desse mesmo companheiro de um modo paternal e, mais que paternal, humilde.
Se no lugar do povo estivesse um indivíduo, seria possível achar que esse homem cedeu o tempo todo a Josefina com o desejo contínuo e ardente de afinal acabar com a própria condescendência; que cedeu de modo sobre-humano na firme crença de que a concessão encontrara o limite certo, apesar de tudo; que cedeu mais do que era preciso, só para acelerar o processo, só para mimar Josefina e levá-la a desejos sempre novos, até que ela, finalmente, fez esta última exigência; aí decerto ele formulou a rejeição definitiva, de uma forma breve, porque há muito tempo preparada. Bem, é evidente que as coisas não são assim, o povo não precisa dessas artimanhas, além disso a veneração que ele tem por Josefina é honesta e provada e a exigência dela tão desmedida que qualquer criança inocente poderia prever-lhe o desfecho; apesar disso pode ser que na concepção de Josefina essas suposições desempenhem um papel e acrescentem amargura à dor da rejeitada.
Mas quaisquer que tenham sido suas suposições, ela não se deixa intimidar pela luta. Nos últimos tempos esta ficou inclusive mais ríspida; se até então ela a conduzia através de palavras, agora começa a empregar outros meios, que na sua opinião são mais eficazes e na nossa mais perigosos para ela mesma. Muitos acreditam que Josefina se torna tão incisiva porque sente estar envelhecendo, a voz nimtra fraquezas, e por isso lhe parece chegada a hora de travar a última batalha pelo seu reconhecimento.
Não acredito nisso. Josefina não seria Josefina se isso fosse verdade, para ela não existe nem envelhecimento nem debilitação da voz. Quando exige alguma coisa, não é levada a isso por coisas exteriores, mas por uma lógica interna. Ela almeja a coroa máxima não porque no momento esta se encontre um pouco mais baixo, mas porque é a mais alta de todas; se estivesse no seu poder decidir, ela a penduraria mais alto ainda.
Esse desprezo pelas dificuldades exteriores não a impede, entretanto, de usar os meios mais indignos, para ela seu direito está fora de dúvida; que lhe importa, — portanto, como o alcança; principalmente se neste mundo, tal como ela o concebe, justamente os meios dignos têm que malograr. Talvez por isso ela tenha deslocado a luta pelo seu direito da área do canto para outra que lhe é menos cara. Seus partidários puseram em circulação declarações dela, segundo as quais se sente perfeitamente capaz de cantar de uma tal forma que seria um prazer real para todas as camadas do povo, até para a mais recôndita oposição — prazer real não no sentido do povo, que afirma tê-lo desde sempre ao ouvir Josefina, mas no sentido das exigências dela. Acrescenta porém que, já que não pode falsear o elevado, nem bajular o comum, é preciso ficar como está. A coisa é diferente, no entanto, quando se trata da sua luta pela libertação do trabalho; na verdade é também uma luta pelo seu canto, mas aqui ela não combate de modo imediato com a arma preciosa do seu canto; portanto qualquer meio que ela empregue é suficientemente bom.
Assim, por exemplo, espalhou-se o rumor de que Josefina pretende — caso não cedam às suas reivindicações — encurtar os floreios. Eu não entendo nada de floreios, nunca notei no seu canto algo do gênero. Mas Josefina quer encurtá-los; por enquanto não quer suprimi- los, só encurtá-los. Presumivelmente concretizou a ameaça, para mim entretanto não saltou à vista nenhuma diferença em relação às suas apresentações anteriores. O povo, no conjunto, escutou como sempre, sem se pronunciar sobre os floreios, e o tratamento dado à exigência de Josefina também não mudou. De resto é inegável que existe em Josefina, tanto na sua figura como no seu pensamento, algo muito gracioso. Assim, por exemplo, ela explicou, depois daquela apresentação — como se a sua decisão sobre os floreios tivesse sido muito dura ou abrupta para o povo — que da próxima vez iria cantar novamente todos eles. Mas depois do concerto seguinte mudou de idéia outra vez: agora haviam terminado definitivamente os grandes floreios e antes de uma decisão favorável a Josefina, eles não voltariam. Ora, o povo faz ouvidos moucos a todas essas explicações, decisões e contradecisões — como um adulto voltado para os próprios pensamentos ouve sem escutar a tagarelice de uma criança: no fundo benévolo, mas inacessível.
Mas Josefina não cede. Assim, por exemplo, afirmou recentemente que, durante o trabalho, sofreu um ferimento no pé, que lhe torna penoso ficar de pé durante o canto; mas como só pode cantar nessa posição, ela precisa agora encurtar até as canções. Embora manque e se faça apoiar pelos seus adeptos, ninguém acredita num ferimento real. Mesmo admitindo a sensibilidade especial do seu corpinho, somos um povo de trabalhadores e Josefina também faz parte dele; mas se quiséssemos mancar por causa de qualquer arranhão na pele, o povo todo não poderia parar de mancar. Por mais que ela se deixe conduzir como uma aleijada, por mais que se mostre nesse estado deplorável com maior freqüência que antes, o povo escuta o seu canto agradecido e encantado como outrora; mas não faz muito barulho por causa do encurtamento das canções.
Como não pode andar sempre mancando, inventa alguma outra coisa: alega cansaço, mau humor, fraqueza. Temos pois, além do concerto, um espetáculo teatral. Atrás de Josefina vemos os partidários que pedem e imploram que ela cante. Ela gostaria de cantar, mas não pode. Consolam-na, cobrem-na de bajulação, quase a transportam para o local previamente escolhido onde deve cantar. Finalmente ela cede, com lágrimas indecifráveis, mas quando — evidentemente nas últimas — quer começar a cantar, exausta, os braços estendidos, não como de costume, mas pendendo sem vida ao longo do corpo, lance em que se tem a impressão de que talvez eles sejam um pouco curtos demais — quando ela vai dar o tom, eis que não é possível de novo, um meneio relutante da cabeça o anuncia e ela desmaia diante dos nossos olhos. Logo entretanto se recompõe e canta, creio eu, de maneira não muito diferente da habitual – se alguém tem o ouvido apurado para as nuanças mais finas talvez distinga uma excitação um pouco excepcional, mas que só beneficia o canto. E no final ela está até menos cansada do que antes, com o andar firme — se é que se pode chamar assim os seus passinhos apressados — afasta-se, recusando qualquer ajuda dos acólitos e examinando com olhares frios a multidão que lhe abre caminho respeitosamente.
Assim foi nos últimos dias; mas a novidade mais recente é que na hora em que estava sendo esperada para cantar, Josefina sumiu. Não só seus partidários a procuram; muitos outros também se apresentam para o trabalho de busca; tudo em vão; Josefina desapareceu, não quer cantar, não deixa nem mesmo ser requisitada; desta vez ela nos abandonou completamente.
É curioso como são equivocados os cálculos desta esperta criatura – tão equivocados que se poderia pensar que ela nem calcula, apenas continua a ser arrastada pelo seu destino, que no nosso mundo só pode se tornar muito triste. Esquiva-se por conta própria ao canto e por conta própria destrói o poder que conquistou sobre os corações. Como pôde conquistar esse poder, se conhece tão pouco esses corações? Ela se esconde e não canta, mas o povo, calmo, sem decepção visível, imperioso, uma massa que encontra em si mesma o equilíbrio e que, ao contrário das aparências, só pode dar presentes, jamais recebê-los, nem mesmo de Josefina, esse povo vai seguindo o seu caminho.
Pode Josefina, porém, ter que ir ladeira abaixo. Chegará logo o tempo em que seu último assobio vai soar e emudecer. Ela é um pequeno episódio na história eterna do nosso povo e o povo vai superar a perda. Sem dúvida não será fácil para nós; como sendo possíveis as assembléias em total mudez? Mas com Josefina elas também não eram mudas? Seu assobio real era significativamente mais alto e mais vivo do que a memória dele o será? Durante a existência dela foi ele mais que uma simples lembrança? Não será, antes, que o povo, na sua sabedoria, elevou tão alto o canto de Josefina porque desse modo ele não podia se perder?
Possivelmente, portanto, não sentiremos muita falta, mas Josefina, redimida da canseira terrena, a seu ver preparada para os eleitos — se perderia alegremente na incontável multidão dos heróis do nosso povo e em breve — uma vez que não cultivamos a história — estará esquecida, como todos os seus irmãos, na escalada da redenção.
Franz Kafka
sexta-feira, abril 17
Identidade
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
Mia Couto, "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
Mia Couto, "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
Partida do audaz navegante
Na manhã de um dia em que brumava e chuviscava, parecia não acontecer coisa nenhuma. Estava-se perto do fogo familiar, na cozinha, aberta, de alpendre, atrás da pequena casa. No campo, é bom; é assim. Mamãe, ainda de roupão, mandava Maria Eva estrelar ovos com torresmos e descascar os mamões maduros. Mamãe, a mais bela, a melhor. Seus pés podiam calçar as chinelas de Pele. Seus cabelos davam o louro silencioso. Suas meninas dos olhos brincavam com bonecas. Ciganinha, Pele e Brejeirinha elas brotavam num galho. Só o Zíto, este, era de fora; só primo. Meia manhã chuvosa entre verdes: o fúfio fino borrifo, e a gente fica quase presos, alojados, na cozinha ou na casa, no centro de muitas lamas. Sempre se enxergam o barranco, o galinheiro, o cajueiro grande de variados entortamentos, um pedaço de um morro e o longe. Nurka, negra, dormia. Mamãe cuida com orgulhos e olhares as três meninas e o menino. Da Brejeírinha, menor, muito mais. Porque Brejeírinha, às vezes, formava muitas artes.
Nesta hora, não, Brejeirínha se instituíra, um azougue de quieta, sentada no caixote de batatas. Toda cruzadlnha, traçadas as pernocas, ocupava-se com caixa de fósforos. A gente via Brejeirinha: primeiro, os cabelos, compridos, lisos, lourocobre; e, no meio deles, coisicas diminutas: a carinha nãocomprida, o perfilzinho agudo, um narizlnho quecarícia. Aos tantos, não parava, andorinhava, espiava agora o xíxixl e o empapar-se da paisagem as pestanas tiltil. Porém, dissese dizia ela, pouco se vê, pelos entrefios: ” Tanto chove, que me gela!” Aí, esticou-se para cima, dando com os pés em diversos objetos. “Ui, uite!” rolara nos cachos de bananas, seu umbigo sempre aparecendo. Pele ajudava-a a se endireitar…… E o cajueiro ainda faz flores… acrescentou, observava da árvore não se interromper mesmo assim, com essas aguaceirices, de durante dias, a chuvínha no bruaar e a pálida manhã do céu. Mamãe dosava açúcares e farinhas, para um bolo. Pele tentava ajudar, diligentil. Ciganinha lia um livro; para ler ela não precisava virar página. Cíganinha e Zito nem muito um do outro se aproximavam, antes paravam meio brigados, de da véspera, de uma briguinha grande e feia. Pele é que era a morena, com notáveis olhos. Ciganinha, a menina linda no mundo: retrato miúdo da mamãe. Zito perpensava assuntos de não ousar dizer, coisas de ciumoso, ele abrirase à espécie de ciúmes sem motivo de quê ou quem. Brejeirinha pulou, por pirueta. ” Eu sei por que é que o ovo se parece com um espeto!” ; ela vivia em álgebra. Mas não ia contar a ninguém. Brejeirinha é assim, não de siso débil; seus segredos são sem acabar. Tem porém infimículas inquietações: “Eu hoje estou com a cabeça muito quente… ” isto, por não querer estudar. Então, ajunta: ” Eu vou saber geografia.” Ou: “Eu queria saber o amor… ” Pele foi quem deu risada. Ciganínha e Zíto erguem olhos, só quase assustados. Quase, quase, se entrefitaram, num não encontrar-se.Mas, Ciganinha, que se crê com a razão, muxoxa. Zito, também, não quer durar mais brigado, viera ao ponto de não aguentar. Se, à socapa, mirava Ciganinha, ela de repente mais linda se envoava.
“Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?” Brejeirinha especulava. “É, hem? Você não sabe ler nem o catecismo… “Pele lambava-lhe um tico de desdém; mas Pele não perdia de boazinha e beliscava em doce, sorria sempre na voz. Brejeimnha rebica, plcuíca: “Engraçada! … Pois eu li as 35 palavras no rótulo da caixa de fósforos… ” Por isso, que avançar afirmações, com superior modo e calor de expressão, deduzidos de babinhas. “Zito, tubarão é desvairado, ou é explícito ou demagogo?” Porque gostava, poetista, de importar desses sérios nomes, que lampejam longo clarão no escuro de nossa ignorância. Zito não respondia, desesperado de repente, controversiosoculposo,sonhava ir-se embora, teatral, debaixo de chuva que chuva, ele estaiava numa raiva. Mas Brejeimnha tinha o dom de aprender as tenuidades: delas apropriava-se e refletia-as em si a coisa das coisas e a pessoa das pessoas. “Zito, você podia ser o pirata inglório marujo, num navio muito intato, para longe, loõonge no mar, navegante que o nunca mais,de todos?” Zito sorri, feito um ar forte. Ciganlnha estremecera, e segurou com mais dedos o livro, hesltada. Mamãe dera a Pele a terrina, para ela bater os ovos. Mas Brejeminha punha mão em rosto, agora ela mesma empolgada, não detendo em si o jato de contar:
.
“O aldaz navegante, que foi descobrir os outros lugares valetudinário. Ele foi num navio, também, falcatruas. Foi de sozinho. Os lugares eram longe, e o mar. O aldaz navegante estava com saudade, antes, da mãe dele, dos irmãos, do pai. Ele não chorava. Ele precisava respectivo de ir. Disse: “Vocês vão se esquecer muito de mim?’ O navio dele, chegou o dia de ir. O aldaz navegante ficou batendo o lenço branco, extrínseco, dentro do indose embora do navio. O navio foi saindo do perto para o longe, mas o aldaz navegante não dava as costas para a gente, para trás. A gente também inclusive batia as lenços brancos. Por fim, não tinha mais navio para se ver, só tinha o resto de mar. Então, um pensou e disse: ‘Ele vai descobrir os lugares, que nós não vamos nunca descobrir…’ Então e então, outro disse: ‘Ele vai descobrir os lugares, depois ele nunca vai voltar…’ Então, mais, outro pensou, pensou, esférico, e disse: ‘Ele deve de ter, então, a alguma raiva de nós, dentro dele, sem saber…’ Então, todos choraram, muitíssimos, e voltaram tristes para casa, para jantar… Pelé levantou a colher: “Você é uma analfabetinha ‘aldaz’ “. “Falsa a beatinha é tu!” Brejeirínha se malcriou. “Por que você inventa essa história de de tolice, boba, boba?” e Ciganinha se feria em zanga. “Porque depois pode ficar bonito, uê!” Nurka latira. Mamãe também estava brava? Porque Brejeirinha topara o pé em cafeteiras, e outras. Disse ainda, reflexiva: “Antes falar bobagens, que calar besteiras…” Agora, fechou os olhos que verdes, solene arrependida de seu desalinho de conduta. Só ouvirá o rumorejo da chuvinha, que estarão fritando.
A manhã é uma esponja. Decerto, porém, Pele rezara os dez responsos a Santo Antônio, tãoquanto batia os ovos. Porque estourou manso o milagre. O tempo temperou. Só era março compondo suas chuvas ordinárias. Ciganinha e Zito se suspiravam. Soltavamse as galinhas do galinheiro, e o peru. Saíase, ao largo, Nurka. O céu tornava a azul?
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Mamãe ia visitar a doente, a mulher do colono Zé Pavio. “Ah, e você vai conosco ou semnosco? “Brejeirinha perguntava. Mamãe, por não rir nem se dar de alheada, desferia chuf as meigas: “Que nossa vergonha!…” e a dela era uma voz de vogais doçuras. A manhã sefaz de flores. Então, pediu-se licença de ir espiar o riachinho cheio. Mamãe deixava, elas não eram mais meninas de agarra a saia.De impulso, se alegraram. Só que alguém teria de junto ir, para não se esquecerem de não chegar perto das águas perigosas. O rio, ali, é assaz. Se o Zito não seria, próprio, essa pessoa de acompanhar, um meiozinhohomem, leal de responsabilidades?
Cessou-se a cerração do ar. Mas tinham de vestir outras roupas quentes. “Oh, as grogrolas!” Brejeírinha de alegria ante todas, feliz como se, se, se: menina só ave. “Vão com Deus!” Mamãe disse, profetisa, com aquela voz voável. Ela falava, e choviam era bátegas de bênçãos. A gentezinha separou-se.
A ir lá, o caminho primeiro subia, subvexo, a ladeirinha do combro, colinola.
Tão mesmo assim, os dois guardachuvas. Num avante Brejeimnha e Pele. Debaixo do outro, Zito e Cigamnha. Só os restos da chuva, chuvinha se segredando. Nurka corria, negramente, e enfim voltava, cachorra destapada ditosa. Se a gente se virava, viase a casa, branquiria com a lista verdeazul, a mais pequenina e linda, de todas, todas, Zito dando o braço a Ciganinha, por vezes, muito, as mãos se encontravam.
Pele se crescia, elegante. E ágil ia Brejeirinha, com seu casaquinho coleóptero. Ela andava pés para dentro, feito um periquitinho, impávido.
No transcenso da colíneta, Zito e Ciganinha calavamse, muito às tortas, nos comovidos nãofalares. Sim, já se estavam em pé de paz, fazendo sua experiência de felicidade; para eles, o passeio era um fato sentimental. Descia-se agora a outra ladeira, pegando cuidado, pelo enlameável e escorregoso, poças, mas também para não pisar no que Brejeirinha chamava de “o bovino” altas rodelas de esterco cogumeleiro. Ali, com efeito, andavam bois: “o boi, beiçudo”; aí, Brejeirinha levou tombo. Ela disse que mamãe tinha dito que eles precisavam de ter: coragem com juízo. Mas, isso, era mentirinhas. E, o que pois: “Agora, já me sujei, então agora posso não ter cuidado…” Correu, com Nurka, pela encosta inferior, no verdinho pasto. Pele ainda ralhou: ” Você vai buscar um audaz navegante?” Mas, mais. Entanto, à úmida, à luz, o plano capim e floriu-se: estendem-se, entremunhadas, as margaridinhas, todas se rodeiam de pálpebras.
O que se queria, aqui, era a pequena angra, onde o riachinho faz foz. Abaixo, aos bons bambus, e às pedreiras de beirario,ouvindo o ronco, o bufo d’água. Porque, o rio, grossoso, se descomporta, e o ríachinho porém também, seu estuirlo já feio cheio, refuso, represado, encapelado pororoqueja.
“Bochechudo!” grita-lhe Brejeirinha. Sumiuse a última arelinha dele, sob baile de um atoalhado de espumas, no belo despropositarse, o bulír de bolhas. Brejeimnha já olhou tudo de cor.
Cravou varetas de bambu, marcando pontos, para medir a água em se crescer, mudando de lugar. Porém, o fervor daquilo impunha-lhe recordações, Brejeirinha não gostanclo de mar: ” O mar não tem desenho. O vento não deixa. O tamanho… ” Lamentava-sede não ter trazido pão para os peixes. “Peixe, assim, a esta hora?” Pele duvidava.
Divagava Brejeirlnha: “A cachoeírinha é uma parede de água… ” Falou que aquela, ali, no rio, em frente, era a Ilhazinha dos Jacarés. “Você já viu jacaré lá?” caçoava Pele. “Não. Mas você também nunca viu o jacaré não estar lá.Você vê é a ilha, só. Então, o jacaré pode estar ou não estar… ” Mas, Brejeirinha, Nurka ao lado, já vira tudo, em pé em volta, seu par de olhos passarinhos. Demorava-se, aliás, o subir e alargar-se da água, com os mileum movimentos supérfluos.
A gente se sentava, perto, não no chão nem em tronco caldo, por causa do chovido do molhado. Ciganinha e Zito, numa pedra, que dava só para dois, podiam horas infinitas; apenas, conversando ainda feito gente trivial. Pele safra a colher um feixe de flores. Mais não chuviscava. Brejeirmnha já pulando de novo. Disse: que o dia estava muito recitado. Voltava-separa a contramargem, das mais verdes, e jogava pedras, o longe possível, para Nurka correndo ir buscar. Depois, se acocora, de entreter, parece que já está até calçada com um sapatinho só. Mas, sem se desagachar, logo gira nos pezinhos, quer Ciganínha e Zito para ouvirem. Olha-os. “O aldaz navegante não gostava de mar! Ele tinha assim mesmo de partir? Ele amava uma moça, magra. Mas o mar veio, ém vento, e levou o. navio dele, com ele dentro, escrutínio. O aldaz navegante não podia nada, só o mar, danado de ao redor, preliminar. O aldaz navegante se lembrava muito da moça. O amor é original… Ciganinha e Zito sorriram. Riram juntos. “Nossa! O assunto ainda não parou?” era Pele voltada, numa porção de flores se escudando. Brejeirinha careteou um “ah!” e quis que continuou: “… Envém a tripulação… Então, não. Depois, choveu, choveu. O mar se encheu, o esquema, amestrador… O aldaz navegante não tinha caminho para correr e fugir, perante, e o navio espedaçado. O navio parambolava… Ele, com o medo, intato, quase nem tinha tempo de tornar a pensar demais na moça que amava, circunspectos. Ele só a prevaricar… O amor é singular…
“E daí?”
“A moça estava paralela, lá, longe, sozinha, ficada, inclusive, eles dois estavam nas duas pontinhas da saudade… O amor, isto é… O aldaz navegante, o perigo era total, titular… nao tinha salvação… O aldaz… O aldaz…
“Sim. E agora? E daí?” Pele intimavaa.
“Aí? Então.., então… Vou fazer explicação! Pronto. Então, ele acendeu a luz do mar. E pronto. Ele estava combinado com o homem do farol… Pronto. E…
“Naão. Não vale! Não pode inventar personagem novo, no fim da estória, fu! E olha o seu ‘aldaz navegante’, ali. É aquele…”
Olhou-se. Era: aquele a coisa vacum, atamanhada, embatumada, semi-ressequida, obra pastoril no chão de límugem, e às pontas dos capins chato, deixado. Sobre sua eminência, crescera um cogumelo de haste fina e fiexuosa, muito longa: o chapeuzinho branco, lá em cima, petulante se bamboleava. O embate e orla da água, enchente, já o atingiam, quase.
Brejeírlnha fez careta. Mas, nisso, o ramilhete de Pele se desmanchou, caindo no chão umas flores. “Ah! Pois é, é mesmo!’ e Brejeirinha saltava e agia, rápida no valerse das ocasiões. Apanhara aquelas florinhas amarelas josésmoleques, douradinhas e margaridinhas e veio espetálas no concrôo do objeto. “Hoje não tem nenhuma flor azul?” ainda indagou. A risada foi de todos, Ciganinha e Zito bateram pal.mas. “Pronto. É o aldaz navegante… ” e Brejeirinha criavao de mais coisas folhas de bambu, raminhos, gravetos. Já aquela matéria, o “bovino”, se transformava.
Deu-se, aí, porém, longe rumor: um trovão arrasta seus trastes. Brejeirinha teme demais os trovões. Vem para perto de Zito e Ciganinha. E de Pele. Pele, a meiga. Que: “Então? A estória não vai mais?Mixou?”
“Então, pronto. Vou tornar a começar. O aldaz navegante, ele amava a moça, recomeçado. Pronto. Ele, de repente, se envergonhou de ter medo, deu um valor, desassustado. Deu um pulo onipotente… Agarrou, de longe, a moça, em seus abraços… Então, pronto. O mar foi que se aparvolhou-se. Arres! O aldaz navegante, pronto. Agora, acabou-se mesmo: eu escrevi ‘Fim’.
“De fato, a água já se acerca do “aldaz navegante”, seu primeiro chofre golpeavao. “Ele vai para o mar?” perguntava, ansiosa, Brejeirmnha. Ficara muito de pé. Um ventínho faz nela bilobilo acarinha-lhe o rosto, os lábios, sim, e os ouvidos, os cabelos. A chuva, longe, adiada.
Segredando-se, Ciganinha e Zito se consideram, nas pontinhas da realidade. “Hoje está tão bonito, não é? Tudo, todos, tão bem, a gente alegre… Eu gosto deste tempo…” E: “Eu também, Zito. Você vai voltar sempre aqui, muitas vezes?” E: “Se Deus quiser, eu venho… ” E: “Zito, você era capaz de fazer como o audaz navegante? Ir descobrir os outros lugares?” E: “Ele foi, porque os outros lugares ainda são mais bonitos, quem sabe?… ” Eles se disseram, assim eles dois, coisas grandes em palavras pequenas, ti a mim, me a ti, e tanto. Contudo, e felizes, alguma outra coisa se agitava neles, confusa assim rosaamorespínhos saudade.
Mas, o “aldaz navegante” agora à água se apressa, no vir e ir, seu espumitar chegalhe já reemredor, começando a ensopação. Ei-lo circunavegável, conquanto em firme terrestreidade: o chão ainda o amarrava de romper e partir. Brejeirinha aumenta-lhe os adornos. Até Ciganinha e Zito pegam a ajudar. E Pele. Ele é outro, colorido, estrambótico, folhas, flores. “Ele vai descobrir os outros lugares…” “Não, Brejeirinha. Não brinca com coisas sérias!” “Uê? O quê? “Então, Ciganinha, cismosa, propõe: “Vamos mandar, por ele, um recado?” Enviar, por ora, uma coisa, para o mar. Isso, todos querem. Zito põe uma moeda. Ciganinha, um grampo. Pele, um chicle. Brejerinha um cuspinho; é o “seu estilo”. E a estória? Haverá, ainda, tempo para recontar a verdadeira estória? Pois: “Agora, eu sei. O aldaz navegante não foi sozinho; pronto! Mas ele embarcou com a moça que ele amavam-se, entraram no navio, estrito. E pronto. O mar foi indo com eles, estético. Eles iam sem sozinhos, no navio, que ficando cada vez mais bonito, mais bonito, o navio… pronto: e virou vagalumes…”
Pronto. O trovão, terrível, este em céus e terra, invencível. Carregou.
Brejeírinha e o trovão se engasgam. Ela iria cair num abismo “intato” o vão do trovão? Nurka latiu, em seu socorro. Ciganinha, e Pele e Zito, também, vêm para a amparar. Antes, porém, outra, fada, inesperada, surgia, ali, de contraflor.
“Mamãe!”
Deitouselhe ao pescoço. Mamãe aparava-lhe a cabecinha, como um esquilo pega uma noz. Brejeírinha ri sem til. E, Pele: “Olha! Agora! La se vai o ‘aidaz navegante’!”
“Ei!”
“Ali!”
O Aldaz! Ele partia. Oscilado, só se dançando ando, espumas e águas o levavam, o audaz navegante, para sempre, víabundo, abaixo, abaixo. Suas folhagens, suas flores e o airoso cogumelo, comprido, que uma gota orvalha, uma gotinha, que perluz no pináculo de uma trampa seca de vaca.
Brejeirinha se comove também. No descomover-se, porém, é que diz: “Mamãe, agora eu sei, mais: que o ovo só se parece, mesmo, é com um espeto!”
De novo, a chuva dá.
De modo que se abriram, asados, os guarda-chuvas.
João Guimarães Rosa, “Primeiras estórias“
Nesta hora, não, Brejeirínha se instituíra, um azougue de quieta, sentada no caixote de batatas. Toda cruzadlnha, traçadas as pernocas, ocupava-se com caixa de fósforos. A gente via Brejeirinha: primeiro, os cabelos, compridos, lisos, lourocobre; e, no meio deles, coisicas diminutas: a carinha nãocomprida, o perfilzinho agudo, um narizlnho quecarícia. Aos tantos, não parava, andorinhava, espiava agora o xíxixl e o empapar-se da paisagem as pestanas tiltil. Porém, dissese dizia ela, pouco se vê, pelos entrefios: ” Tanto chove, que me gela!” Aí, esticou-se para cima, dando com os pés em diversos objetos. “Ui, uite!” rolara nos cachos de bananas, seu umbigo sempre aparecendo. Pele ajudava-a a se endireitar…… E o cajueiro ainda faz flores… acrescentou, observava da árvore não se interromper mesmo assim, com essas aguaceirices, de durante dias, a chuvínha no bruaar e a pálida manhã do céu. Mamãe dosava açúcares e farinhas, para um bolo. Pele tentava ajudar, diligentil. Ciganinha lia um livro; para ler ela não precisava virar página. Cíganinha e Zito nem muito um do outro se aproximavam, antes paravam meio brigados, de da véspera, de uma briguinha grande e feia. Pele é que era a morena, com notáveis olhos. Ciganinha, a menina linda no mundo: retrato miúdo da mamãe. Zito perpensava assuntos de não ousar dizer, coisas de ciumoso, ele abrirase à espécie de ciúmes sem motivo de quê ou quem. Brejeirinha pulou, por pirueta. ” Eu sei por que é que o ovo se parece com um espeto!” ; ela vivia em álgebra. Mas não ia contar a ninguém. Brejeirinha é assim, não de siso débil; seus segredos são sem acabar. Tem porém infimículas inquietações: “Eu hoje estou com a cabeça muito quente… ” isto, por não querer estudar. Então, ajunta: ” Eu vou saber geografia.” Ou: “Eu queria saber o amor… ” Pele foi quem deu risada. Ciganínha e Zíto erguem olhos, só quase assustados. Quase, quase, se entrefitaram, num não encontrar-se.Mas, Ciganinha, que se crê com a razão, muxoxa. Zito, também, não quer durar mais brigado, viera ao ponto de não aguentar. Se, à socapa, mirava Ciganinha, ela de repente mais linda se envoava.
“Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?” Brejeirinha especulava. “É, hem? Você não sabe ler nem o catecismo… “Pele lambava-lhe um tico de desdém; mas Pele não perdia de boazinha e beliscava em doce, sorria sempre na voz. Brejeimnha rebica, plcuíca: “Engraçada! … Pois eu li as 35 palavras no rótulo da caixa de fósforos… ” Por isso, que avançar afirmações, com superior modo e calor de expressão, deduzidos de babinhas. “Zito, tubarão é desvairado, ou é explícito ou demagogo?” Porque gostava, poetista, de importar desses sérios nomes, que lampejam longo clarão no escuro de nossa ignorância. Zito não respondia, desesperado de repente, controversiosoculposo,sonhava ir-se embora, teatral, debaixo de chuva que chuva, ele estaiava numa raiva. Mas Brejeimnha tinha o dom de aprender as tenuidades: delas apropriava-se e refletia-as em si a coisa das coisas e a pessoa das pessoas. “Zito, você podia ser o pirata inglório marujo, num navio muito intato, para longe, loõonge no mar, navegante que o nunca mais,de todos?” Zito sorri, feito um ar forte. Ciganlnha estremecera, e segurou com mais dedos o livro, hesltada. Mamãe dera a Pele a terrina, para ela bater os ovos. Mas Brejeminha punha mão em rosto, agora ela mesma empolgada, não detendo em si o jato de contar:
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“O aldaz navegante, que foi descobrir os outros lugares valetudinário. Ele foi num navio, também, falcatruas. Foi de sozinho. Os lugares eram longe, e o mar. O aldaz navegante estava com saudade, antes, da mãe dele, dos irmãos, do pai. Ele não chorava. Ele precisava respectivo de ir. Disse: “Vocês vão se esquecer muito de mim?’ O navio dele, chegou o dia de ir. O aldaz navegante ficou batendo o lenço branco, extrínseco, dentro do indose embora do navio. O navio foi saindo do perto para o longe, mas o aldaz navegante não dava as costas para a gente, para trás. A gente também inclusive batia as lenços brancos. Por fim, não tinha mais navio para se ver, só tinha o resto de mar. Então, um pensou e disse: ‘Ele vai descobrir os lugares, que nós não vamos nunca descobrir…’ Então e então, outro disse: ‘Ele vai descobrir os lugares, depois ele nunca vai voltar…’ Então, mais, outro pensou, pensou, esférico, e disse: ‘Ele deve de ter, então, a alguma raiva de nós, dentro dele, sem saber…’ Então, todos choraram, muitíssimos, e voltaram tristes para casa, para jantar… Pelé levantou a colher: “Você é uma analfabetinha ‘aldaz’ “. “Falsa a beatinha é tu!” Brejeirínha se malcriou. “Por que você inventa essa história de de tolice, boba, boba?” e Ciganinha se feria em zanga. “Porque depois pode ficar bonito, uê!” Nurka latira. Mamãe também estava brava? Porque Brejeirinha topara o pé em cafeteiras, e outras. Disse ainda, reflexiva: “Antes falar bobagens, que calar besteiras…” Agora, fechou os olhos que verdes, solene arrependida de seu desalinho de conduta. Só ouvirá o rumorejo da chuvinha, que estarão fritando.
A manhã é uma esponja. Decerto, porém, Pele rezara os dez responsos a Santo Antônio, tãoquanto batia os ovos. Porque estourou manso o milagre. O tempo temperou. Só era março compondo suas chuvas ordinárias. Ciganinha e Zito se suspiravam. Soltavamse as galinhas do galinheiro, e o peru. Saíase, ao largo, Nurka. O céu tornava a azul?
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Mamãe ia visitar a doente, a mulher do colono Zé Pavio. “Ah, e você vai conosco ou semnosco? “Brejeirinha perguntava. Mamãe, por não rir nem se dar de alheada, desferia chuf as meigas: “Que nossa vergonha!…” e a dela era uma voz de vogais doçuras. A manhã sefaz de flores. Então, pediu-se licença de ir espiar o riachinho cheio. Mamãe deixava, elas não eram mais meninas de agarra a saia.De impulso, se alegraram. Só que alguém teria de junto ir, para não se esquecerem de não chegar perto das águas perigosas. O rio, ali, é assaz. Se o Zito não seria, próprio, essa pessoa de acompanhar, um meiozinhohomem, leal de responsabilidades?
Cessou-se a cerração do ar. Mas tinham de vestir outras roupas quentes. “Oh, as grogrolas!” Brejeírinha de alegria ante todas, feliz como se, se, se: menina só ave. “Vão com Deus!” Mamãe disse, profetisa, com aquela voz voável. Ela falava, e choviam era bátegas de bênçãos. A gentezinha separou-se.
A ir lá, o caminho primeiro subia, subvexo, a ladeirinha do combro, colinola.
Tão mesmo assim, os dois guardachuvas. Num avante Brejeimnha e Pele. Debaixo do outro, Zito e Cigamnha. Só os restos da chuva, chuvinha se segredando. Nurka corria, negramente, e enfim voltava, cachorra destapada ditosa. Se a gente se virava, viase a casa, branquiria com a lista verdeazul, a mais pequenina e linda, de todas, todas, Zito dando o braço a Ciganinha, por vezes, muito, as mãos se encontravam.
Pele se crescia, elegante. E ágil ia Brejeirinha, com seu casaquinho coleóptero. Ela andava pés para dentro, feito um periquitinho, impávido.
No transcenso da colíneta, Zito e Ciganinha calavamse, muito às tortas, nos comovidos nãofalares. Sim, já se estavam em pé de paz, fazendo sua experiência de felicidade; para eles, o passeio era um fato sentimental. Descia-se agora a outra ladeira, pegando cuidado, pelo enlameável e escorregoso, poças, mas também para não pisar no que Brejeirinha chamava de “o bovino” altas rodelas de esterco cogumeleiro. Ali, com efeito, andavam bois: “o boi, beiçudo”; aí, Brejeirinha levou tombo. Ela disse que mamãe tinha dito que eles precisavam de ter: coragem com juízo. Mas, isso, era mentirinhas. E, o que pois: “Agora, já me sujei, então agora posso não ter cuidado…” Correu, com Nurka, pela encosta inferior, no verdinho pasto. Pele ainda ralhou: ” Você vai buscar um audaz navegante?” Mas, mais. Entanto, à úmida, à luz, o plano capim e floriu-se: estendem-se, entremunhadas, as margaridinhas, todas se rodeiam de pálpebras.
O que se queria, aqui, era a pequena angra, onde o riachinho faz foz. Abaixo, aos bons bambus, e às pedreiras de beirario,ouvindo o ronco, o bufo d’água. Porque, o rio, grossoso, se descomporta, e o ríachinho porém também, seu estuirlo já feio cheio, refuso, represado, encapelado pororoqueja.
“Bochechudo!” grita-lhe Brejeirinha. Sumiuse a última arelinha dele, sob baile de um atoalhado de espumas, no belo despropositarse, o bulír de bolhas. Brejeimnha já olhou tudo de cor.
Cravou varetas de bambu, marcando pontos, para medir a água em se crescer, mudando de lugar. Porém, o fervor daquilo impunha-lhe recordações, Brejeirinha não gostanclo de mar: ” O mar não tem desenho. O vento não deixa. O tamanho… ” Lamentava-sede não ter trazido pão para os peixes. “Peixe, assim, a esta hora?” Pele duvidava.
Divagava Brejeirlnha: “A cachoeírinha é uma parede de água… ” Falou que aquela, ali, no rio, em frente, era a Ilhazinha dos Jacarés. “Você já viu jacaré lá?” caçoava Pele. “Não. Mas você também nunca viu o jacaré não estar lá.Você vê é a ilha, só. Então, o jacaré pode estar ou não estar… ” Mas, Brejeirinha, Nurka ao lado, já vira tudo, em pé em volta, seu par de olhos passarinhos. Demorava-se, aliás, o subir e alargar-se da água, com os mileum movimentos supérfluos.
A gente se sentava, perto, não no chão nem em tronco caldo, por causa do chovido do molhado. Ciganinha e Zito, numa pedra, que dava só para dois, podiam horas infinitas; apenas, conversando ainda feito gente trivial. Pele safra a colher um feixe de flores. Mais não chuviscava. Brejeirmnha já pulando de novo. Disse: que o dia estava muito recitado. Voltava-separa a contramargem, das mais verdes, e jogava pedras, o longe possível, para Nurka correndo ir buscar. Depois, se acocora, de entreter, parece que já está até calçada com um sapatinho só. Mas, sem se desagachar, logo gira nos pezinhos, quer Ciganínha e Zito para ouvirem. Olha-os. “O aldaz navegante não gostava de mar! Ele tinha assim mesmo de partir? Ele amava uma moça, magra. Mas o mar veio, ém vento, e levou o. navio dele, com ele dentro, escrutínio. O aldaz navegante não podia nada, só o mar, danado de ao redor, preliminar. O aldaz navegante se lembrava muito da moça. O amor é original… Ciganinha e Zito sorriram. Riram juntos. “Nossa! O assunto ainda não parou?” era Pele voltada, numa porção de flores se escudando. Brejeirinha careteou um “ah!” e quis que continuou: “… Envém a tripulação… Então, não. Depois, choveu, choveu. O mar se encheu, o esquema, amestrador… O aldaz navegante não tinha caminho para correr e fugir, perante, e o navio espedaçado. O navio parambolava… Ele, com o medo, intato, quase nem tinha tempo de tornar a pensar demais na moça que amava, circunspectos. Ele só a prevaricar… O amor é singular…
“E daí?”
“A moça estava paralela, lá, longe, sozinha, ficada, inclusive, eles dois estavam nas duas pontinhas da saudade… O amor, isto é… O aldaz navegante, o perigo era total, titular… nao tinha salvação… O aldaz… O aldaz…
“Sim. E agora? E daí?” Pele intimavaa.
“Aí? Então.., então… Vou fazer explicação! Pronto. Então, ele acendeu a luz do mar. E pronto. Ele estava combinado com o homem do farol… Pronto. E…
“Naão. Não vale! Não pode inventar personagem novo, no fim da estória, fu! E olha o seu ‘aldaz navegante’, ali. É aquele…”
Olhou-se. Era: aquele a coisa vacum, atamanhada, embatumada, semi-ressequida, obra pastoril no chão de límugem, e às pontas dos capins chato, deixado. Sobre sua eminência, crescera um cogumelo de haste fina e fiexuosa, muito longa: o chapeuzinho branco, lá em cima, petulante se bamboleava. O embate e orla da água, enchente, já o atingiam, quase.
Brejeírlnha fez careta. Mas, nisso, o ramilhete de Pele se desmanchou, caindo no chão umas flores. “Ah! Pois é, é mesmo!’ e Brejeirinha saltava e agia, rápida no valerse das ocasiões. Apanhara aquelas florinhas amarelas josésmoleques, douradinhas e margaridinhas e veio espetálas no concrôo do objeto. “Hoje não tem nenhuma flor azul?” ainda indagou. A risada foi de todos, Ciganinha e Zito bateram pal.mas. “Pronto. É o aldaz navegante… ” e Brejeirinha criavao de mais coisas folhas de bambu, raminhos, gravetos. Já aquela matéria, o “bovino”, se transformava.
Deu-se, aí, porém, longe rumor: um trovão arrasta seus trastes. Brejeirinha teme demais os trovões. Vem para perto de Zito e Ciganinha. E de Pele. Pele, a meiga. Que: “Então? A estória não vai mais?Mixou?”
“Então, pronto. Vou tornar a começar. O aldaz navegante, ele amava a moça, recomeçado. Pronto. Ele, de repente, se envergonhou de ter medo, deu um valor, desassustado. Deu um pulo onipotente… Agarrou, de longe, a moça, em seus abraços… Então, pronto. O mar foi que se aparvolhou-se. Arres! O aldaz navegante, pronto. Agora, acabou-se mesmo: eu escrevi ‘Fim’.
“De fato, a água já se acerca do “aldaz navegante”, seu primeiro chofre golpeavao. “Ele vai para o mar?” perguntava, ansiosa, Brejeirmnha. Ficara muito de pé. Um ventínho faz nela bilobilo acarinha-lhe o rosto, os lábios, sim, e os ouvidos, os cabelos. A chuva, longe, adiada.
Segredando-se, Ciganinha e Zito se consideram, nas pontinhas da realidade. “Hoje está tão bonito, não é? Tudo, todos, tão bem, a gente alegre… Eu gosto deste tempo…” E: “Eu também, Zito. Você vai voltar sempre aqui, muitas vezes?” E: “Se Deus quiser, eu venho… ” E: “Zito, você era capaz de fazer como o audaz navegante? Ir descobrir os outros lugares?” E: “Ele foi, porque os outros lugares ainda são mais bonitos, quem sabe?… ” Eles se disseram, assim eles dois, coisas grandes em palavras pequenas, ti a mim, me a ti, e tanto. Contudo, e felizes, alguma outra coisa se agitava neles, confusa assim rosaamorespínhos saudade.
Mas, o “aldaz navegante” agora à água se apressa, no vir e ir, seu espumitar chegalhe já reemredor, começando a ensopação. Ei-lo circunavegável, conquanto em firme terrestreidade: o chão ainda o amarrava de romper e partir. Brejeirinha aumenta-lhe os adornos. Até Ciganinha e Zito pegam a ajudar. E Pele. Ele é outro, colorido, estrambótico, folhas, flores. “Ele vai descobrir os outros lugares…” “Não, Brejeirinha. Não brinca com coisas sérias!” “Uê? O quê? “Então, Ciganinha, cismosa, propõe: “Vamos mandar, por ele, um recado?” Enviar, por ora, uma coisa, para o mar. Isso, todos querem. Zito põe uma moeda. Ciganinha, um grampo. Pele, um chicle. Brejerinha um cuspinho; é o “seu estilo”. E a estória? Haverá, ainda, tempo para recontar a verdadeira estória? Pois: “Agora, eu sei. O aldaz navegante não foi sozinho; pronto! Mas ele embarcou com a moça que ele amavam-se, entraram no navio, estrito. E pronto. O mar foi indo com eles, estético. Eles iam sem sozinhos, no navio, que ficando cada vez mais bonito, mais bonito, o navio… pronto: e virou vagalumes…”
Pronto. O trovão, terrível, este em céus e terra, invencível. Carregou.
Brejeírinha e o trovão se engasgam. Ela iria cair num abismo “intato” o vão do trovão? Nurka latiu, em seu socorro. Ciganinha, e Pele e Zito, também, vêm para a amparar. Antes, porém, outra, fada, inesperada, surgia, ali, de contraflor.
“Mamãe!”
Deitouselhe ao pescoço. Mamãe aparava-lhe a cabecinha, como um esquilo pega uma noz. Brejeírinha ri sem til. E, Pele: “Olha! Agora! La se vai o ‘aidaz navegante’!”
“Ei!”
“Ali!”
O Aldaz! Ele partia. Oscilado, só se dançando ando, espumas e águas o levavam, o audaz navegante, para sempre, víabundo, abaixo, abaixo. Suas folhagens, suas flores e o airoso cogumelo, comprido, que uma gota orvalha, uma gotinha, que perluz no pináculo de uma trampa seca de vaca.
Brejeirinha se comove também. No descomover-se, porém, é que diz: “Mamãe, agora eu sei, mais: que o ovo só se parece, mesmo, é com um espeto!”
De novo, a chuva dá.
De modo que se abriram, asados, os guarda-chuvas.
João Guimarães Rosa, “Primeiras estórias“
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