Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quarta-feira, março 11
Quantos seremos?
Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Miguel Torga
O velho
A claridade na cozinha vai morrendo com a tarde. A velha fecha a torneira da pia, enxuga as mãos no avental e volta ao fogão. Espeta uma fatia alongada de berinjela, deitando ágil uma das faces cruas no óleo quente. O frigir recrudesce, espirra, e a velha, empunhando ainda o garfo, afasta o corpo, notando num relance o marido parado ali na entrada da sala para a cozinha.
“Que que você está fazendo aí de chapéu na cabeça?”
O velho sobe a mão ao bico do chapéu e descobre a cabeça.
“Não vai tomar banho?”
“Andam dizendo coisas por aí, Nita.”
“Que novidade…”
“Andam dizendo coisas” repete o velho.
A velha se afasta do fogão e acende a luz. Fixa o marido.
“Desembucha logo.”
“É do nosso hóspede, não faz nem meio ano que ele chegou aqui e já andam falando dele.”
“Pois deixe que falem, não foi pra festejar esse moço que ele foi hospedado nesta casa. É um pensionista como qualquer outro que passou por aqui.”
“Isso não é nada.”
“O que que não é nada?”
“Estou dizendo que tudo que você pode estar pensando não é nada em comparação…”
“Vai tomar banho, vai, em comparação com quê?”
“Nada.”
“Em comparação com quê?” insiste a velha.
O velho olha pro chapéu preso entre as mãos.
“Foi lá no bar do Nonato, era só comentário, todo mundo estava falando dele, até caçoaram de mim…”
“Não é de hoje…”
O velho volta a abaixar os olhos.
“Eu pensei comigo, eles podem achar o que quiserem, só que estavam indo longe demais em tramar coisas, eu disse.”
“Que coisas?”
“Disse que se ele não é dessas farras, é que…”
“Que farras?”
O velho se cala e continua olhando pro chão.
“Fala claro, homem.”
O velho gira lentamente o chapéu entre as mãos.
“Eu disse que todo mundo estava enganado pelo menos numa coisa, é que ele não queria prejudicar ninguém, eu disse que esse bacharel era só um coletor zeloso e correto.”
O velho se cala e a velha põe as mãos na cintura.
“Vai, continua.”
A velha olha de soslaio pra frigideira, mas logo encara de novo o velho:
“Fala!”
“Já tentaram subornar esse moço, Nita, e isso não é segredo pra ninguém, só que ele não é sujeito de suborno, eu disse, não é como outros que passaram por aqui e que se vendiam até por um trago de fernete. Mas isso eles não querem entender, nunca que vão aceitar isso, um funcionário público que cumpre seus deveres com o estado e com o povo.”
“Quem sabe se você não engoliu uma pérola…”
“Que pérola, Nita?”
“Estou falando da pérola que você acaba de vomitar. Te aturar a inteligência…” diz a velha decepcionada, na certa não esperava que o suspense descambasse em preocupação cívica. “Vai tomar banho, vai. Hoje não é dia de trocar toalha, fica avisado.”
O velho aperta as mãos na aba do chapéu, enquanto a velha se achega do fogão, destampa uma das panelas, e logo se entretém com a frigideira, onde deita mais uma fatia de berinjela. Vira-se pro marido.
“Que que você está esperando? Vai.”
O velho não se mexe.
“Não vê que preciso terminar a janta?”
“Todos os dias a mesma coisa, Nita, você não me respeita, nunca me respeitou, eu não vou pedir respeito pras crianças da rua.”
“Era o que faltava…”
“Você nunca me respeitou.” A velha não responde, vira, na frigideira, a fatia de berinjela, enquanto o velho continua olhando pro chapéu.
“Não fica aí parado, eu já disse.”
O velho se afasta calado, atravessa a sala, entra no quarto e fecha a porta. A casa está quieta, só no fundo é que se agita, mas no quarto, onde a penumbra vai cedendo à noite que avança, as ressonâncias da cozinha chegam apagadas. O velho se desloca sem acender a luz e logo senta na borda da cama. O chapéu ainda entre as mãos, ele tomba a cabeça e se perde em pensamentos.
Quando desperta do seu recolhimento, o quarto está em sombras. Ele vai até a janela e mal divisa, através da cortina, uns restos de palidez na linha do horizonte. No céu mais alto, o azul é quase escuro, mas a noite, indecisa e fosca, ainda impede que a luz dos postes se expanda. O velho vagueia os olhos quando nota o vulto parado na guia do outro lado. Puxa um canto da cortina: de frente pra casa, a camisa meio aberta, uma das mãos no bolso da calça, na outra um cigarro entre os dedos, o sujeito vasculha o alpendre feito olheiro. Mas logo atira o cigarro longe e se afasta num passo pausado. O velho o acompanha, ultrapassa-o com os olhos e alcança, a meio quarteirão, o V8 preto parado rente à calçada. O olheiro se aproxima do carro sem acelerar o passo, até que se inclina junto à porta dianteira e troca palavras com alguém no volante. Neste mesmo instante, uma loira de vermelho, a blusa do vestido com decote avantajado, colo e braços muito brancos, salta do banco traseiro como se procurasse ventilação, despregando seguidamente com a ponta dos dedos o tecido colado em parte à proeminência dos fartos seios. Parece repreendida por ter saído, se enfiando logo no carro sem discutir. O olheiro se inclina mais uma vez pro motorista, mas não demora em retornar, no mesmo passo pausado, ao lugar em que se encontrava antes. Acende outro cigarro, voltando a incidir os olhos no alpendre da casa.
O velho solta o pano da cortina e as coisas lá fora ficam de novo imprecisas. “Eles tramaram o quê?” murmura. “Mas tramaram o quê?” repete e aperta as mãos.
A velha abre a porta do quarto.
“Vem jantar.”
O velho não se mexe. “Você não tomou banho?” pergunta notando que ele veste a mesma roupa.
“Vão acontecer coisas.”
A velha acende a luz do quarto.
“Que que andam dizendo por aí?”
“Já disse que vão acontecer coisas.”
“O quê?”
O velho não responde.
“Vai falar ou não vai?” grita a velha.
O velho abaixa os olhos e se tranca, enquanto a velha aperta a boca, vira as costas, apaga a luz e deixa o quarto, o andar agitado.
O velho se detém assim que sai do quarto, pois no mesmo instante, vindo do seu quarto de entrada independente, o jovem pensionista entra quase sem ruído do alpendre pra sala. Sem ser notado, observa o moço que se vira pra fechar a porta que acaba de transpor. Num passo comedido, logo se descobre por inteiro pela claridade crescente que invade a sala, parando timidamente a um passo da porta da cozinha.
“Pode entrar” diz a velha às voltas com travessas.
As mãos enfiadas a prumo nos bolsos do paletó, o que lhe dobra os braços, o pensionista avança mais um passo.
“A comida está esfriando, pode entrar.”
O pensionista ainda vacila, mas se aproxima da mesa.
O velho sai do seu canto, atravessa a sala e entra na cozinha, ficando a um passo do pensionista, que se acomoda na cadeira de costas pra ele. Compenetrado, as mãos caídas, o chapéu preso pelas mãos, como quem se coloca em sinal de respeito, parece até que ele assiste a uma missa fúnebre enquanto observa o ritual do moço desdobrar o guardanapo e estendê-lo sobre as pernas, uma desenvoltura que não combina com sua timidez, uma timidez sem os traços de doçura do simples acanhamento, antes caprichosa, de feição intratável, como o burro de uma criança. Daí talvez, desde que chegou, seu silêncio impermeável, e a reclusão que se impôs a cada noite, fechando-se na cela do seu quarto.
O velho atira então um anzol em busca do que poderia estar por trás daquela solidão precoce, mas a palavra que procura se insinua, vem quase à tona, o peixe se entremostra e, sinuoso, num isto afunda, escapando-lhe. Demora depois o olhar sobre a nuca do bacharel, onde o remoinho dos cabelos, rebelde, guarda um visível frescor infantil, compatível por sinal com suas faces de menino, um tanto imberbes.
Do outro lado da mesa, sentada de frente pro moço, o olhar há muito erguido pro velho, uma mulher grande, matrona de cabelos anelados, afeta indignação:
“O senhor não nos diz boa-noite, s’Eugênio?”
O velho não responde.
“O senhor está tão esquisito!”
Recolhendo os ares de pensionista mais antiga, a mulher de cabelos anelados abaixa os olhos, descansando-os sonhadores sobre as mãos do moço à sua frente, cruzadas contra a quina da mesa.
A velha serve o terceiro prato de sopa e, curvando o corpo, coloca-o à frente da cadeira vazia. Olha o marido:
“Você não vai sentar?”
Fixa contrariada o chapéu em suas mãos, mas se limita a um resmungo:
O velho avança dois passos, se ajeita na cadeira de frente pra sua mulher, e só então repousa no chão o surrado chapéu de feltro. A velha se serve também de sopa, senta, e mergulha primeiro a colher no prato. A matrona esquece seu êxtase momentâneo, colhido na trama de olhares furtivos, e acompanha a velha. As mãos do moço se descruzam sob o olhar perscrutador do velho, que aperta as próprias mãos entre os joelhos, enquanto de olhos baixos não perde de vista os movimentos do pensionista à sua direita.
“Você não vai tomar a sopa?” recrimina a velha.
O velho não responde, não ergue sequer a cabeça.
“Está ótima!” comenta a pensionista antiga no intervalo curto entre duas colheradas.
Não se trocam mais palavras, o ruído é seco, incisivo. O carro deve ter sido freado em frente ao portãozinho do jardim da casa. A colher do moço, subindo, se interrompe, com ligeiro tremor, na meia altura. Ele devolve, ainda cheia, a colher ao prato. A velha faz o mesmo, antes porém sorve ruidosa o caldo. A pensionista, professora sem constrangimento, não se perturba, sua colher sobe e desce ininterrupta. Concentrada na sopa, tem atrás dos óculos as pálpebras quase descidas, e é pros pelos negros, que brotam da verruga ao lado do seu queixo, que parecem convergir os olhares.
O ranger das tábuas no assoalho do alpendre chega à cozinha.
O velho se põe de pé.
“O que foi?” pergunta a velha.
“Você não ouviu?” pergunta aflito o velho.
Sua mulher faz um trejeito de descrença com uma ponta de escárnio, enquanto o velho indaga ainda com os olhos a professora, que termina imperturbável a sua sopa.
“Tanto rato no porão, s’Eugênio…” diz ela afastando o prato.
O ruído de um carro que zarpa fortemente acelerado encerra as apreensões da velha:
“Foi um automóvel” diz ela terminando sua sopa.
Antes que a tensão se desfaça, e com voz sedutora, a professora engata um comentário, sonhando talvez com doces recompensas:
“Já disseram que o automóvel só serviu para acelerar o fim da nossa espiritualidade.”
A citação elevada se perde, o moço nem se mexe, só a velha é que arregala os olhos, mas logo volta pro seu prato.
A professora não desiste e continua exibindo sua elegância um tanto ambígua ao subir com as duas mãos o guardanapo, aplicando-o em pequenos toques contra a boca, como se fosse uma compressa. Ao mesmo tempo seus olhos cheios de apetite se deslocam a contragosto, trocando as mãos esculturais do moço pela fatia de berinjela no seu prato. E não demora em ir ao cesto de pão, de onde colhe as três únicas torradas ali existentes, encomendadas de costume pra sua dieta.
De pé até então, a cabeça talvez longe do que se passa na mesa, o velho volta a sentar.
“Reconheço só pelo arranque o carro dos que estão à minha caça, não aceitam que eu contrarie seus interesses” diz de modo intempestivo o jovem coletor, a voz firme, fazendo-se ouvir excepcionalmente naquela mesa. “Não cedi a eles, quando se apresentavam como amigos, não me vendi depois, quando se diziam realistas, tentam agora me difamar como inimigo. Se não me dobrar a essa chantagem, matam” diz o moço e se tranca.
A velha arregala de novo os olhos, enquanto o mal-estar se instala pesado na mesa. Se nem todos entenderam o que acabavam de ouvir, sentiram pelo menos o que havia de grave, não se atrevendo depois qualquer palavra ou gesto. Só a professora arrisca um olhar rápido e, diante da assustadora palidez do moço, para de mastigar, engolindo apressada todo o bolo alimentar. Berinjela frita e torrada mal triturada lhe entalam na garganta, engasga e tosse sem parar. A mão direita em concha cobre a boca, mesmo assim marca a toalha branca com borrifos e salpicos, enquanto o guardanapo, preso pelas pontas dos dedos da outra mão, acena confusamente. A velha se levanta e socorre a professora, bate forte nas suas costas e lhe aproxima um copo d’água. O velho e o moço ficam alheios à súbita agitação, nem se mexem. A professora parece recompor-se ao arrancar estertores do fundo da garganta. Leva finalmente o guardanapo aos olhos lacrimejantes.
“Com licença” mal consegue dizer, e retira-se pigarreando da mesa.
A velha volta à cadeira, olha duramente o marido e se serve de berinjela. Passa a travessa ao moço que se limita a esboçar um sinal de recusa. Levanta-se mais uma vez, recolhe da pedra da pia um dos quatro pratos feitos de sobremesa, colocando-o diante do pensionista: “O senhor não pode ficar sem comer, coma pelo menos o pedaço de mamão”.
O moço não toca no prato, continua pálido, a cabeça erguida, um adolescente enfezado em franco desafio. Ao notar a faísca que lhe incendeia os olhos, o velho fica a um nada de balbuciar qualquer coisa.
“Raiva” diz o velho num puxão, entre dentes, como se acabasse de fisgar a palavra teimosa que tanto lhe escapava, mas que se debate agora inteira na sua boca. É como se chegasse com essa palavra ao nervo daquele jovem. “Raiva!” repete em voz bem audível e sem propósito aparente. E parece que sorri.
A velha arregala pela terceira vez os olhos como se o mundo estivesse definitivamente de pernas pro ar.
O velho se levanta e a velha o interpela de boca cheia:
“Aonde você vai?”
O velho não responde. A velha engole a comida, afasta rudemente o prato, e grita:
“Aonde você vai?”
O velho deixa a cozinha enxovalhado pelo escarcéu que sua mulher apronta: derruba a cadeira quando se levanta, praguejando alto ao recolher louças e talheres, como se atirasse tudo contra a bancada da pia.
O velho atravessa a sala e alcança o alpendre já anoitecido. Encosta a porta, dando conta do silêncio que existe ali, e aspira fundo, soltando todo o ar com a boca em bico, de alívio. Mas forte o perfume, estranho e suspeito, espalhando-se pela atmosfera escura. Desloca-se vagaroso pelo chão de tábuas, enquanto o perfume se insinua em tudo: nas paredes, nas colunas de madeira enroladas por retorcidas trepadeiras, na fantasia falha da balaustrada.
“Tem um cheiro forte de perfume em nossa casa, Nita” murmura intrigado.
Do alto da escada que leva ao jardim embaixo, enquadrado pelas duas alas do alpendre, corre atentamente os olhos pelas folhagens que acobertam a estridência de grilos. No pequeno canteiro circular, o cipreste romano se ergue ereto e soturno no centro, com o ponteiro acima da cumeeira da casa, quase indevassável à escassa luz que já se expande do poste mais próximo. Nada balançaria suas ramas tesas nessa noite de mormaço, mas um jogo apagado de sombra e luz tremula suavemente na parede do fundo, onde duas portas dão acesso aos quartos independentes dos pensionistas.
O velho suspende a investigação, vai até o canto da ala que divisa em nível bem mais alto com a rua, e se larga numa das cadeiras de vime. Cruza as mãos, e de novo aspira fundo perfume.
Os passos na calçada repercutem pausados no alpendre, se aproximam da casa. O velho não se mexe. Os passos perdem o compasso junto ao portãozinho de entrada pro jardim, mas logo são retomados no mesmo ritmo. O velho se inclina pra direita e, através do espaço entre dois balaústres, seus olhos quase se chocam com o mesmo olheiro, que segue em frente sem apressar o andar. Sempre pausados, os passos se afastam e desaparecem.
O velho se encolhe quando o pensionista deixa a sala e, no alpendre, se dirige para a ala dos fundos, paralela à rua. O moço passa pela porta da professora, onde um risco de luz marca a soleira, e logo alcança a porta de entrada do seu quarto.
Afundado na cadeira, no outro extremo, o velho ouve primeiro o ruído discreto da maçaneta se abaixando, vê a meia folha da porta se abrindo, e se retesa quando a luz do quarto se acende sem ser acionada pelo moço, paralisando-o no instante em que ele ia transpor a soleira. Antes que recue, certa mão desenvolta surge pelo vão da porta e, alongando-se num braço obscenamente branco de mulher, enlaça por trás a cintura do moço, puxando-o pra dentro. E a mesma mão, sinuosa, fecha a porta, trancando-a à chave. As mãos do velho estão agarradas aos braços da cadeira. Do quarto da professora, chegam apagados os pigarros de mais um acesso de tosse.
Novos passos na calçada. O velho se põe de pé. Uma senhora, missal e mantilha preta dobrada numa das mãos, se aproxima seguida de um vira-lata.
“Tire os pés da cadeira” ordena a velha.
O velho abre assustado os olhos.
“Recolha os pés.”
O velho retira os pés da cadeira, enquanto a velha senta.
Ele conduz o olhar temeroso pros fundos: o alpendre ali está quieto e escuro. Desapareceu o risco de luz na porta da professora, já entregue na certa a seu sono solitário. Os dois voltam a se encarar, quase se chocam com os olhos. O silêncio atento da velha cobra duramente do marido uma palavra.
“Estão acontecendo coisas em nossa casa” diz enfim o velho. A velha se empertiga e seus olhos brilham no escuro.
“Que que andam dizendo por aí?”
O velho não responde.
“Me diz.”
O velho não responde.
“Conta, homem.”
“Já disse que estão acontecendo coisas em nossa casa.”
“O quê?”
O velho abaixa os olhos.
“Vai falar ou não vai?”
O velho se tranca e desvia os olhos pra rua, enquanto a velha se ergue furiosa e arremeda o marido torcendo a voz:
“Andam dizendo coisas por aí… Vão acontecer coisas… estão acontecendo coisas em nossa casa… Peste de velho!”
Vira as costas, abandona o alpendre e bate a porta da sala.
O velho não se perturba, não perde a serenidade de agora. Nada no seu semblante revela aflição, em nenhum dos seus traços transparece qualquer comoção. Olha pro alto. O céu, como um fruto, está maduro. E há em tudo um clima silencioso de espera.
Raduan Nassar, Obra Completa
“Que que você está fazendo aí de chapéu na cabeça?”
O velho sobe a mão ao bico do chapéu e descobre a cabeça.
“Não vai tomar banho?”
“Andam dizendo coisas por aí, Nita.”
“Que novidade…”
“Andam dizendo coisas” repete o velho.
A velha se afasta do fogão e acende a luz. Fixa o marido.
“Desembucha logo.”
“É do nosso hóspede, não faz nem meio ano que ele chegou aqui e já andam falando dele.”
“Pois deixe que falem, não foi pra festejar esse moço que ele foi hospedado nesta casa. É um pensionista como qualquer outro que passou por aqui.”
“Isso não é nada.”
“O que que não é nada?”
“Estou dizendo que tudo que você pode estar pensando não é nada em comparação…”
“Vai tomar banho, vai, em comparação com quê?”
“Nada.”
“Em comparação com quê?” insiste a velha.
O velho olha pro chapéu preso entre as mãos.
“Foi lá no bar do Nonato, era só comentário, todo mundo estava falando dele, até caçoaram de mim…”
“Não é de hoje…”
O velho volta a abaixar os olhos.
“Eu pensei comigo, eles podem achar o que quiserem, só que estavam indo longe demais em tramar coisas, eu disse.”
“Que coisas?”
“Disse que se ele não é dessas farras, é que…”
“Que farras?”
O velho se cala e continua olhando pro chão.
“Fala claro, homem.”
O velho gira lentamente o chapéu entre as mãos.
“Eu disse que todo mundo estava enganado pelo menos numa coisa, é que ele não queria prejudicar ninguém, eu disse que esse bacharel era só um coletor zeloso e correto.”
O velho se cala e a velha põe as mãos na cintura.
“Vai, continua.”
A velha olha de soslaio pra frigideira, mas logo encara de novo o velho:
“Fala!”
“Já tentaram subornar esse moço, Nita, e isso não é segredo pra ninguém, só que ele não é sujeito de suborno, eu disse, não é como outros que passaram por aqui e que se vendiam até por um trago de fernete. Mas isso eles não querem entender, nunca que vão aceitar isso, um funcionário público que cumpre seus deveres com o estado e com o povo.”
“Quem sabe se você não engoliu uma pérola…”
“Que pérola, Nita?”
“Estou falando da pérola que você acaba de vomitar. Te aturar a inteligência…” diz a velha decepcionada, na certa não esperava que o suspense descambasse em preocupação cívica. “Vai tomar banho, vai. Hoje não é dia de trocar toalha, fica avisado.”
O velho aperta as mãos na aba do chapéu, enquanto a velha se achega do fogão, destampa uma das panelas, e logo se entretém com a frigideira, onde deita mais uma fatia de berinjela. Vira-se pro marido.
“Que que você está esperando? Vai.”
O velho não se mexe.
“Não vê que preciso terminar a janta?”
“Todos os dias a mesma coisa, Nita, você não me respeita, nunca me respeitou, eu não vou pedir respeito pras crianças da rua.”
“Era o que faltava…”
“Você nunca me respeitou.” A velha não responde, vira, na frigideira, a fatia de berinjela, enquanto o velho continua olhando pro chapéu.
“Não fica aí parado, eu já disse.”
O velho se afasta calado, atravessa a sala, entra no quarto e fecha a porta. A casa está quieta, só no fundo é que se agita, mas no quarto, onde a penumbra vai cedendo à noite que avança, as ressonâncias da cozinha chegam apagadas. O velho se desloca sem acender a luz e logo senta na borda da cama. O chapéu ainda entre as mãos, ele tomba a cabeça e se perde em pensamentos.
Quando desperta do seu recolhimento, o quarto está em sombras. Ele vai até a janela e mal divisa, através da cortina, uns restos de palidez na linha do horizonte. No céu mais alto, o azul é quase escuro, mas a noite, indecisa e fosca, ainda impede que a luz dos postes se expanda. O velho vagueia os olhos quando nota o vulto parado na guia do outro lado. Puxa um canto da cortina: de frente pra casa, a camisa meio aberta, uma das mãos no bolso da calça, na outra um cigarro entre os dedos, o sujeito vasculha o alpendre feito olheiro. Mas logo atira o cigarro longe e se afasta num passo pausado. O velho o acompanha, ultrapassa-o com os olhos e alcança, a meio quarteirão, o V8 preto parado rente à calçada. O olheiro se aproxima do carro sem acelerar o passo, até que se inclina junto à porta dianteira e troca palavras com alguém no volante. Neste mesmo instante, uma loira de vermelho, a blusa do vestido com decote avantajado, colo e braços muito brancos, salta do banco traseiro como se procurasse ventilação, despregando seguidamente com a ponta dos dedos o tecido colado em parte à proeminência dos fartos seios. Parece repreendida por ter saído, se enfiando logo no carro sem discutir. O olheiro se inclina mais uma vez pro motorista, mas não demora em retornar, no mesmo passo pausado, ao lugar em que se encontrava antes. Acende outro cigarro, voltando a incidir os olhos no alpendre da casa.
O velho solta o pano da cortina e as coisas lá fora ficam de novo imprecisas. “Eles tramaram o quê?” murmura. “Mas tramaram o quê?” repete e aperta as mãos.
A velha abre a porta do quarto.
“Vem jantar.”
O velho não se mexe. “Você não tomou banho?” pergunta notando que ele veste a mesma roupa.
“Vão acontecer coisas.”
A velha acende a luz do quarto.
“Que que andam dizendo por aí?”
“Já disse que vão acontecer coisas.”
“O quê?”
O velho não responde.
“Vai falar ou não vai?” grita a velha.
O velho abaixa os olhos e se tranca, enquanto a velha aperta a boca, vira as costas, apaga a luz e deixa o quarto, o andar agitado.
O velho se detém assim que sai do quarto, pois no mesmo instante, vindo do seu quarto de entrada independente, o jovem pensionista entra quase sem ruído do alpendre pra sala. Sem ser notado, observa o moço que se vira pra fechar a porta que acaba de transpor. Num passo comedido, logo se descobre por inteiro pela claridade crescente que invade a sala, parando timidamente a um passo da porta da cozinha.
“Pode entrar” diz a velha às voltas com travessas.
As mãos enfiadas a prumo nos bolsos do paletó, o que lhe dobra os braços, o pensionista avança mais um passo.
“A comida está esfriando, pode entrar.”
O pensionista ainda vacila, mas se aproxima da mesa.
O velho sai do seu canto, atravessa a sala e entra na cozinha, ficando a um passo do pensionista, que se acomoda na cadeira de costas pra ele. Compenetrado, as mãos caídas, o chapéu preso pelas mãos, como quem se coloca em sinal de respeito, parece até que ele assiste a uma missa fúnebre enquanto observa o ritual do moço desdobrar o guardanapo e estendê-lo sobre as pernas, uma desenvoltura que não combina com sua timidez, uma timidez sem os traços de doçura do simples acanhamento, antes caprichosa, de feição intratável, como o burro de uma criança. Daí talvez, desde que chegou, seu silêncio impermeável, e a reclusão que se impôs a cada noite, fechando-se na cela do seu quarto.
O velho atira então um anzol em busca do que poderia estar por trás daquela solidão precoce, mas a palavra que procura se insinua, vem quase à tona, o peixe se entremostra e, sinuoso, num isto afunda, escapando-lhe. Demora depois o olhar sobre a nuca do bacharel, onde o remoinho dos cabelos, rebelde, guarda um visível frescor infantil, compatível por sinal com suas faces de menino, um tanto imberbes.
Do outro lado da mesa, sentada de frente pro moço, o olhar há muito erguido pro velho, uma mulher grande, matrona de cabelos anelados, afeta indignação:
“O senhor não nos diz boa-noite, s’Eugênio?”
O velho não responde.
“O senhor está tão esquisito!”
Recolhendo os ares de pensionista mais antiga, a mulher de cabelos anelados abaixa os olhos, descansando-os sonhadores sobre as mãos do moço à sua frente, cruzadas contra a quina da mesa.
A velha serve o terceiro prato de sopa e, curvando o corpo, coloca-o à frente da cadeira vazia. Olha o marido:
“Você não vai sentar?”
Fixa contrariada o chapéu em suas mãos, mas se limita a um resmungo:
“Caduco”.
O velho avança dois passos, se ajeita na cadeira de frente pra sua mulher, e só então repousa no chão o surrado chapéu de feltro. A velha se serve também de sopa, senta, e mergulha primeiro a colher no prato. A matrona esquece seu êxtase momentâneo, colhido na trama de olhares furtivos, e acompanha a velha. As mãos do moço se descruzam sob o olhar perscrutador do velho, que aperta as próprias mãos entre os joelhos, enquanto de olhos baixos não perde de vista os movimentos do pensionista à sua direita.
“Você não vai tomar a sopa?” recrimina a velha.
O velho não responde, não ergue sequer a cabeça.
“Está ótima!” comenta a pensionista antiga no intervalo curto entre duas colheradas.
Não se trocam mais palavras, o ruído é seco, incisivo. O carro deve ter sido freado em frente ao portãozinho do jardim da casa. A colher do moço, subindo, se interrompe, com ligeiro tremor, na meia altura. Ele devolve, ainda cheia, a colher ao prato. A velha faz o mesmo, antes porém sorve ruidosa o caldo. A pensionista, professora sem constrangimento, não se perturba, sua colher sobe e desce ininterrupta. Concentrada na sopa, tem atrás dos óculos as pálpebras quase descidas, e é pros pelos negros, que brotam da verruga ao lado do seu queixo, que parecem convergir os olhares.
O ranger das tábuas no assoalho do alpendre chega à cozinha.
O velho se põe de pé.
“O que foi?” pergunta a velha.
“Você não ouviu?” pergunta aflito o velho.
Sua mulher faz um trejeito de descrença com uma ponta de escárnio, enquanto o velho indaga ainda com os olhos a professora, que termina imperturbável a sua sopa.
“Tanto rato no porão, s’Eugênio…” diz ela afastando o prato.
O ruído de um carro que zarpa fortemente acelerado encerra as apreensões da velha:
“Foi um automóvel” diz ela terminando sua sopa.
Antes que a tensão se desfaça, e com voz sedutora, a professora engata um comentário, sonhando talvez com doces recompensas:
“Já disseram que o automóvel só serviu para acelerar o fim da nossa espiritualidade.”
A citação elevada se perde, o moço nem se mexe, só a velha é que arregala os olhos, mas logo volta pro seu prato.
A professora não desiste e continua exibindo sua elegância um tanto ambígua ao subir com as duas mãos o guardanapo, aplicando-o em pequenos toques contra a boca, como se fosse uma compressa. Ao mesmo tempo seus olhos cheios de apetite se deslocam a contragosto, trocando as mãos esculturais do moço pela fatia de berinjela no seu prato. E não demora em ir ao cesto de pão, de onde colhe as três únicas torradas ali existentes, encomendadas de costume pra sua dieta.
De pé até então, a cabeça talvez longe do que se passa na mesa, o velho volta a sentar.
“Reconheço só pelo arranque o carro dos que estão à minha caça, não aceitam que eu contrarie seus interesses” diz de modo intempestivo o jovem coletor, a voz firme, fazendo-se ouvir excepcionalmente naquela mesa. “Não cedi a eles, quando se apresentavam como amigos, não me vendi depois, quando se diziam realistas, tentam agora me difamar como inimigo. Se não me dobrar a essa chantagem, matam” diz o moço e se tranca.
A velha arregala de novo os olhos, enquanto o mal-estar se instala pesado na mesa. Se nem todos entenderam o que acabavam de ouvir, sentiram pelo menos o que havia de grave, não se atrevendo depois qualquer palavra ou gesto. Só a professora arrisca um olhar rápido e, diante da assustadora palidez do moço, para de mastigar, engolindo apressada todo o bolo alimentar. Berinjela frita e torrada mal triturada lhe entalam na garganta, engasga e tosse sem parar. A mão direita em concha cobre a boca, mesmo assim marca a toalha branca com borrifos e salpicos, enquanto o guardanapo, preso pelas pontas dos dedos da outra mão, acena confusamente. A velha se levanta e socorre a professora, bate forte nas suas costas e lhe aproxima um copo d’água. O velho e o moço ficam alheios à súbita agitação, nem se mexem. A professora parece recompor-se ao arrancar estertores do fundo da garganta. Leva finalmente o guardanapo aos olhos lacrimejantes.
“Com licença” mal consegue dizer, e retira-se pigarreando da mesa.
A velha volta à cadeira, olha duramente o marido e se serve de berinjela. Passa a travessa ao moço que se limita a esboçar um sinal de recusa. Levanta-se mais uma vez, recolhe da pedra da pia um dos quatro pratos feitos de sobremesa, colocando-o diante do pensionista: “O senhor não pode ficar sem comer, coma pelo menos o pedaço de mamão”.
O moço não toca no prato, continua pálido, a cabeça erguida, um adolescente enfezado em franco desafio. Ao notar a faísca que lhe incendeia os olhos, o velho fica a um nada de balbuciar qualquer coisa.
“Raiva” diz o velho num puxão, entre dentes, como se acabasse de fisgar a palavra teimosa que tanto lhe escapava, mas que se debate agora inteira na sua boca. É como se chegasse com essa palavra ao nervo daquele jovem. “Raiva!” repete em voz bem audível e sem propósito aparente. E parece que sorri.
A velha arregala pela terceira vez os olhos como se o mundo estivesse definitivamente de pernas pro ar.
O velho se levanta e a velha o interpela de boca cheia:
“Aonde você vai?”
O velho não responde. A velha engole a comida, afasta rudemente o prato, e grita:
“Aonde você vai?”
O velho deixa a cozinha enxovalhado pelo escarcéu que sua mulher apronta: derruba a cadeira quando se levanta, praguejando alto ao recolher louças e talheres, como se atirasse tudo contra a bancada da pia.
O velho atravessa a sala e alcança o alpendre já anoitecido. Encosta a porta, dando conta do silêncio que existe ali, e aspira fundo, soltando todo o ar com a boca em bico, de alívio. Mas forte o perfume, estranho e suspeito, espalhando-se pela atmosfera escura. Desloca-se vagaroso pelo chão de tábuas, enquanto o perfume se insinua em tudo: nas paredes, nas colunas de madeira enroladas por retorcidas trepadeiras, na fantasia falha da balaustrada.
“Tem um cheiro forte de perfume em nossa casa, Nita” murmura intrigado.
Do alto da escada que leva ao jardim embaixo, enquadrado pelas duas alas do alpendre, corre atentamente os olhos pelas folhagens que acobertam a estridência de grilos. No pequeno canteiro circular, o cipreste romano se ergue ereto e soturno no centro, com o ponteiro acima da cumeeira da casa, quase indevassável à escassa luz que já se expande do poste mais próximo. Nada balançaria suas ramas tesas nessa noite de mormaço, mas um jogo apagado de sombra e luz tremula suavemente na parede do fundo, onde duas portas dão acesso aos quartos independentes dos pensionistas.
O velho suspende a investigação, vai até o canto da ala que divisa em nível bem mais alto com a rua, e se larga numa das cadeiras de vime. Cruza as mãos, e de novo aspira fundo perfume.
Os passos na calçada repercutem pausados no alpendre, se aproximam da casa. O velho não se mexe. Os passos perdem o compasso junto ao portãozinho de entrada pro jardim, mas logo são retomados no mesmo ritmo. O velho se inclina pra direita e, através do espaço entre dois balaústres, seus olhos quase se chocam com o mesmo olheiro, que segue em frente sem apressar o andar. Sempre pausados, os passos se afastam e desaparecem.
O velho se encolhe quando o pensionista deixa a sala e, no alpendre, se dirige para a ala dos fundos, paralela à rua. O moço passa pela porta da professora, onde um risco de luz marca a soleira, e logo alcança a porta de entrada do seu quarto.
Afundado na cadeira, no outro extremo, o velho ouve primeiro o ruído discreto da maçaneta se abaixando, vê a meia folha da porta se abrindo, e se retesa quando a luz do quarto se acende sem ser acionada pelo moço, paralisando-o no instante em que ele ia transpor a soleira. Antes que recue, certa mão desenvolta surge pelo vão da porta e, alongando-se num braço obscenamente branco de mulher, enlaça por trás a cintura do moço, puxando-o pra dentro. E a mesma mão, sinuosa, fecha a porta, trancando-a à chave. As mãos do velho estão agarradas aos braços da cadeira. Do quarto da professora, chegam apagados os pigarros de mais um acesso de tosse.
Novos passos na calçada. O velho se põe de pé. Uma senhora, missal e mantilha preta dobrada numa das mãos, se aproxima seguida de um vira-lata.
Cumprimentam-se. Pouco depois, o andar seguro, ela dobra a esquina. Ninguém mais na rua, só o silêncio do alpendre. O velho volta a sentar, descendo a mão espalmada pelo rosto, como se enxugasse o suor desde o alto da testa. E estica então as pernas, apoiando os pés no assento da cadeira em frente. Mole, distenso, fecha os olhos. “Farras” murmura, e adormece.
“Tire os pés da cadeira” ordena a velha.
O velho abre assustado os olhos.
“Recolha os pés.”
O velho retira os pés da cadeira, enquanto a velha senta.
Ele conduz o olhar temeroso pros fundos: o alpendre ali está quieto e escuro. Desapareceu o risco de luz na porta da professora, já entregue na certa a seu sono solitário. Os dois voltam a se encarar, quase se chocam com os olhos. O silêncio atento da velha cobra duramente do marido uma palavra.
“Estão acontecendo coisas em nossa casa” diz enfim o velho. A velha se empertiga e seus olhos brilham no escuro.
“Que que andam dizendo por aí?”
O velho não responde.
“Me diz.”
O velho não responde.
“Conta, homem.”
“Já disse que estão acontecendo coisas em nossa casa.”
“O quê?”
O velho abaixa os olhos.
“Vai falar ou não vai?”
O velho se tranca e desvia os olhos pra rua, enquanto a velha se ergue furiosa e arremeda o marido torcendo a voz:
“Andam dizendo coisas por aí… Vão acontecer coisas… estão acontecendo coisas em nossa casa… Peste de velho!”
Vira as costas, abandona o alpendre e bate a porta da sala.
O velho não se perturba, não perde a serenidade de agora. Nada no seu semblante revela aflição, em nenhum dos seus traços transparece qualquer comoção. Olha pro alto. O céu, como um fruto, está maduro. E há em tudo um clima silencioso de espera.
Raduan Nassar, Obra Completa
Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar
A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Napoleão, fazendo seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como se significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que [se] me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade dum domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, mal-disposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Napoleão, fazendo seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como se significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que [se] me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade dum domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, mal-disposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
Mar
A primeira vez que vi o mar eu não estava sozinho. Estava no meio de um bando enorme de meninos. Nós tínhamos viajado para ver o mar. No meio de nós havia apenas um menino que já o tinha visto. Ele nos contava que havia três espécies de mar: o mar mesmo, a maré, que e menor que o mar, e a marola, que é menor que a maré. Logo a gente fazia ideia de um lago enorme e duas lagoas. Mas o menino explicava que não. O mar entrava pela maré e a maré entrava pela marola. A marola vinha e voltava. A maré enchia e vazava. O mar às vezes tinha espuma e às vezes não tinha. Isso perturbava ainda mais a imagem.
Três lagoas mexendo, esvaziando e enchendo, com uns rios no meio, às vezes uma porção de espumas, tudo isso muito salgado, azul, com ventos.
Fomos ver o mar. Era de manhã, fazia sol. De repente houve um grito o mar! Era qualquer coisa de larga, de inesperado. Estava bem verde perto da terra, e mais longe estava azul. Nós todos gritamos, numa gritaria infernal, e saímos correndo para o lado do mar. As ondas batiam nas pedras e jogavam espuma que brilhava ao sol. Ondas grandes, cheias, que explodiam com barulho. Ficamos ali parados, com a respiração apressada, vendo o mar…
Depois o mar entrou na minha infância e tomou conta de uma adolescência toda, com seu cheiro bom, os seus ventos, suas chuvas, seus peixes, seu barulho, sua grande e espantosa beleza. Um menino de calças curtas, pernas queimadas pelo sol, cabelos cheios de sal, chapéu de palha. Um menino que pescava e que passava horas e horas dentro da canoa, longe da terra, atrás de uma bobagem qualquer – como aquela caravela de franjas azuis que boiava e afundava e que, afinal, queimou a sua mão… Um rapaz de quatorze ou quinze anos que nas noites de lua cheia, quando ~a maré baixa e descobre tudo e a praia é imensa, ia na praia sentar numa canoa, entrar numa roda, amar perdidamente, eternamente, alguém que passava pelo areal branco e dava boa-noite… Que andava longas horas pela praia infinita para catar conchas e búzios crespos e conversava com os pescadores que consertavam as redes. Um menino que levava na canoa um pedaço de pão e um livro, e voltava sem estudar nada, com vontade de dizer uma porção de coisas que não sabia dizer – que ainda não sabe dizer.
Mar maior que a terra, mar do primeiro amor, mar dos pobres pescadores maratimbas, mar das cantigas do catambá, mar das festas, mar terrível daquela marte que nos assustou, mar das tempestades de repente, mar do alto e mar da praia, mar de pedra e mar do mangue… A primeira vez que sai sozinho numa canoa parecia ter montado num cavalo bravo e bom, senti força e perigo, senti orgulha de embicar numa onda um segundo antes da arrebentação. A primeira vez que estive quase morrendo afogado, quando a água batia na minha cana e a corrente do “arrieiro” me puxava para fora, não gritei nem fiz gestas de socorro; lutei sozinho, cresci dentro de mim mesmo. Mar suave e = oleoso, lambendo o batelão. Mar dos peixes estranhos, mar virando a canoa, mar das pescarias noturnas de camarão para isca. Mar diário e enorme, ocupando toda a. vida, uma vida de bamboleio de canoa, de paciência, de força, de sacrifício sem finalidade, de perigo sem sentido, de lirismo, de energia; grande e perigoso mar fabricando um homem…
Este homem esqueceu, grande mar, muita coisa que aprendeu contigo. Este homem tem andado por aí, ara aflita, ora chateado, dispersivo, fraco, sem paciência, mais corajoso que audacioso, incapaz de ficar parado e incapaz de fazer qualquer coisa, gastando-se como se gasta um cigarro. Este homem esqueceu muita coisa mas há muita coisa que ele aprendeu contigo e que não esqueceu, que ficou, obscura e forte, dentro dele, no seu peito. Mar, este homem pode ser um mau filho, mas ele é teu filho, é um dos teus, e ainda pode comparecer diante de ti gritando, sem glória, mas sem remorso, como naquela manhã em que ficamos parados, respirando depressa, perante as grandes ondas que arrebentavam – um punhado de meninos vendo pela primeira vez o mar…
Rubem Braga, “200 crônicas escolhidas”
Três lagoas mexendo, esvaziando e enchendo, com uns rios no meio, às vezes uma porção de espumas, tudo isso muito salgado, azul, com ventos.
Fomos ver o mar. Era de manhã, fazia sol. De repente houve um grito o mar! Era qualquer coisa de larga, de inesperado. Estava bem verde perto da terra, e mais longe estava azul. Nós todos gritamos, numa gritaria infernal, e saímos correndo para o lado do mar. As ondas batiam nas pedras e jogavam espuma que brilhava ao sol. Ondas grandes, cheias, que explodiam com barulho. Ficamos ali parados, com a respiração apressada, vendo o mar…
Depois o mar entrou na minha infância e tomou conta de uma adolescência toda, com seu cheiro bom, os seus ventos, suas chuvas, seus peixes, seu barulho, sua grande e espantosa beleza. Um menino de calças curtas, pernas queimadas pelo sol, cabelos cheios de sal, chapéu de palha. Um menino que pescava e que passava horas e horas dentro da canoa, longe da terra, atrás de uma bobagem qualquer – como aquela caravela de franjas azuis que boiava e afundava e que, afinal, queimou a sua mão… Um rapaz de quatorze ou quinze anos que nas noites de lua cheia, quando ~a maré baixa e descobre tudo e a praia é imensa, ia na praia sentar numa canoa, entrar numa roda, amar perdidamente, eternamente, alguém que passava pelo areal branco e dava boa-noite… Que andava longas horas pela praia infinita para catar conchas e búzios crespos e conversava com os pescadores que consertavam as redes. Um menino que levava na canoa um pedaço de pão e um livro, e voltava sem estudar nada, com vontade de dizer uma porção de coisas que não sabia dizer – que ainda não sabe dizer.
Mar maior que a terra, mar do primeiro amor, mar dos pobres pescadores maratimbas, mar das cantigas do catambá, mar das festas, mar terrível daquela marte que nos assustou, mar das tempestades de repente, mar do alto e mar da praia, mar de pedra e mar do mangue… A primeira vez que sai sozinho numa canoa parecia ter montado num cavalo bravo e bom, senti força e perigo, senti orgulha de embicar numa onda um segundo antes da arrebentação. A primeira vez que estive quase morrendo afogado, quando a água batia na minha cana e a corrente do “arrieiro” me puxava para fora, não gritei nem fiz gestas de socorro; lutei sozinho, cresci dentro de mim mesmo. Mar suave e = oleoso, lambendo o batelão. Mar dos peixes estranhos, mar virando a canoa, mar das pescarias noturnas de camarão para isca. Mar diário e enorme, ocupando toda a. vida, uma vida de bamboleio de canoa, de paciência, de força, de sacrifício sem finalidade, de perigo sem sentido, de lirismo, de energia; grande e perigoso mar fabricando um homem…
Este homem esqueceu, grande mar, muita coisa que aprendeu contigo. Este homem tem andado por aí, ara aflita, ora chateado, dispersivo, fraco, sem paciência, mais corajoso que audacioso, incapaz de ficar parado e incapaz de fazer qualquer coisa, gastando-se como se gasta um cigarro. Este homem esqueceu muita coisa mas há muita coisa que ele aprendeu contigo e que não esqueceu, que ficou, obscura e forte, dentro dele, no seu peito. Mar, este homem pode ser um mau filho, mas ele é teu filho, é um dos teus, e ainda pode comparecer diante de ti gritando, sem glória, mas sem remorso, como naquela manhã em que ficamos parados, respirando depressa, perante as grandes ondas que arrebentavam – um punhado de meninos vendo pela primeira vez o mar…
Rubem Braga, “200 crônicas escolhidas”
terça-feira, março 10
O mito da caverna
Imagine um grupo de pessoas que habitam o interior de uma caverna subterrânea. Elas estão de costas para a entrada da caverna e acorrentadas no pescoço e nos pés, de sorte que tudo o que veem é a parede da caverna. Atrás delas ergue-se um muro alto e por trás desse muro passam figuras de formas humanas sustentando outras figuras que se elevam para além da borda do muro. Como há uma fogueira queimando atrás dessas figuras, elas projetam sombras bruxeleantes na parede da caverna. Assim, a única coisa que as pessoas da caverna podem ver é este “teatro de sombras”. E como essas pessoas estão ali desde que nasceram, elas acham que as sombras que veem são a única coisa que existe.
Agora, o feliz habitante das cavernas pode andar livremente pela natureza, desfrutando da liberdade que acabara de conquistar. Mas as outras pessoas que ainda continuam lá dentro da caverna não lhe saem da cabeça. E por isso ele decide voltar. Assim que chega lá, ele tenta explicar aos outros que as sombras na parede não passam de trêmulas imitações da realidade. Mas ninguém acredita nele. As pessoas apontam para a parede da caverna e dizem que aquilo que veem é tudo o que existe. Por fim, acabam matando-o.
Jostein Gaarder, "O Mundo de Sofia"
Imagine agora que um desses habitantes da caverna consiga se libertar daquela prisão. Primeiramente ele se pergunta de onde vêm aquelas sombras projetadas na parede da caverna. Depois consegue se libertar dos grilhões que o prendem. O que você acha que acontece quando ele se vira para as figuras que se elevam para além da borda do muro? Primeiro, a luz é tão intensa que ele não consegue enxergar nada. Depois, a precisão dos contornos das figuras, de que ele até então só vira as sombras, ofusca sua visão. Se ele conseguir escalar o muro e passar pelo fogo para poder sair da caverna, terá mais dificuldade ainda para enxergar devido à abundância de luz. Mas depois de esfregar os olhos, ele verá como tudo é bonito. Pela primeira vez verá cores e contornos precisos; verá animais e flores de verdade, de que as figuras na parede da caverna não passavam de imitações baratas. Suponhamos, então, que ele comece a se perguntar de onde vêm os animais e as flores. Ele vê o Sol brilhando no céu e entende que o Sol dá vida às flores e aos animais da natureza, assim como também era graças ao fogo da caverna que ele podia ver as sombras refletidas na parede.
Agora, o feliz habitante das cavernas pode andar livremente pela natureza, desfrutando da liberdade que acabara de conquistar. Mas as outras pessoas que ainda continuam lá dentro da caverna não lhe saem da cabeça. E por isso ele decide voltar. Assim que chega lá, ele tenta explicar aos outros que as sombras na parede não passam de trêmulas imitações da realidade. Mas ninguém acredita nele. As pessoas apontam para a parede da caverna e dizem que aquilo que veem é tudo o que existe. Por fim, acabam matando-o.
Jostein Gaarder, "O Mundo de Sofia"
Ah! Os relógios
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.
E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.
E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…
Mario Quintana, "A Cor do Invisível"
Uma cidade comum
Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crônica ocorreram em 194..., em Oran. Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que saíam um pouco do comum. À primeira vista, Oran é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina.
A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. Com seu aspecto tranquilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno.
Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dos escritórios, reúnem-se a uma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas. Os desejos dos mais velhos não vão além das associações de boulomanes, os banquetes das amicales e os ambientes em que se aposta alto no jogo de cartas.
Dirão sem dúvida que nada disso é característico de nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viver. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhes modifica a vida. Simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Isso tampouco é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.
O que é mais original na nossa cidade é a dificuldade que se pode ter para morrer. Dificuldade, aliás, não é o termo exato: seria mais certo falar em desconforto. Nunca é agradável ficar doente, mas há cidades e países que nos amparam na doença e onde podemos, de certo modo, nos entregar. O doente precisa de carinho, gosta de se apoiar em alguma coisa. É bastante natural. Em Oran, porém, os excessos do clima, a importância dos negócios que se tratam, a insignificância do cenário, a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres, tudo exige boa saúde. Lá o doente fica muito só. O que dizer então daquele que vai morrer, apanhado na armadilha por detrás das paredes crepitantes de calor, enquanto, no mesmo minuto, toda uma população, ao telefone ou nos cafés, fala de letras de câmbio, de conhecimentos ou de descontos? Compreenderão o que há de desconfortável na morte, mesmo moderna, quando ela chega assim, num lugar seco.
Essas poucas indicações dão talvez uma ideia suficiente da nossa cidade. Aliás, é necessário não exagerar. O importante era ressaltar o aspecto banal da cidade e da vida. Mas os dias transcorrem sem dificuldades, desde que se tenham criado hábitos. A partir do momento em que nossa cidade favorece justamente os hábitos, pode-se dizer que tudo vai bem. Sob este aspecto, sem dúvida, a vida não é muito emocionante. Pelo menos, desconhece-se a desordem. E a nossa população franca, simpática e ativa sempre despertou no viajante uma estima considerável. Esta cidade sem pitoresco, sem vegetação e sem alma acaba parecendo repousante, e afinal adormece-se nela. Mas é justo acrescentar que está enxertada numa paisagem sem igual, no meio de um planalto nu, rodeada de colinas luminosas, diante de uma baía de desenho perfeito. Pode-se apenas lamentar que tenha sido construída de costas para essa baía e que, portanto, seja impossível ver o mar. É sempre preciso ir procurá-lo.
Albert Camus, "A peste"
A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. Com seu aspecto tranquilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno.
Uma forma cômoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua própria expressão, em fazer negócios.
Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dos escritórios, reúnem-se a uma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas. Os desejos dos mais velhos não vão além das associações de boulomanes, os banquetes das amicales e os ambientes em que se aposta alto no jogo de cartas.
Dirão sem dúvida que nada disso é característico de nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viver. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhes modifica a vida. Simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Isso tampouco é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.
O que é mais original na nossa cidade é a dificuldade que se pode ter para morrer. Dificuldade, aliás, não é o termo exato: seria mais certo falar em desconforto. Nunca é agradável ficar doente, mas há cidades e países que nos amparam na doença e onde podemos, de certo modo, nos entregar. O doente precisa de carinho, gosta de se apoiar em alguma coisa. É bastante natural. Em Oran, porém, os excessos do clima, a importância dos negócios que se tratam, a insignificância do cenário, a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres, tudo exige boa saúde. Lá o doente fica muito só. O que dizer então daquele que vai morrer, apanhado na armadilha por detrás das paredes crepitantes de calor, enquanto, no mesmo minuto, toda uma população, ao telefone ou nos cafés, fala de letras de câmbio, de conhecimentos ou de descontos? Compreenderão o que há de desconfortável na morte, mesmo moderna, quando ela chega assim, num lugar seco.
Essas poucas indicações dão talvez uma ideia suficiente da nossa cidade. Aliás, é necessário não exagerar. O importante era ressaltar o aspecto banal da cidade e da vida. Mas os dias transcorrem sem dificuldades, desde que se tenham criado hábitos. A partir do momento em que nossa cidade favorece justamente os hábitos, pode-se dizer que tudo vai bem. Sob este aspecto, sem dúvida, a vida não é muito emocionante. Pelo menos, desconhece-se a desordem. E a nossa população franca, simpática e ativa sempre despertou no viajante uma estima considerável. Esta cidade sem pitoresco, sem vegetação e sem alma acaba parecendo repousante, e afinal adormece-se nela. Mas é justo acrescentar que está enxertada numa paisagem sem igual, no meio de um planalto nu, rodeada de colinas luminosas, diante de uma baía de desenho perfeito. Pode-se apenas lamentar que tenha sido construída de costas para essa baía e que, portanto, seja impossível ver o mar. É sempre preciso ir procurá-lo.
Albert Camus, "A peste"
Menino a bico de pena
Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio. Quanto a mim, olho, e é inútil: não consigo entender coisa apenas atual, totalmente atual. O que conheço dele é a sua situação: o menino é aquele em quem acabaram de nascer os primeiros dentes e é o mesmo que será médico ou carpinteiro. Enquanto isso – lá está ele sentado no chão, de um real que tenho de chamar de vegetativo para poder entender. Trinta mil desses meninos sentados no chão, teriam eles a chance de construir um mundo outro, um que levasse em conta a memória da atualidade absoluta a que um dia já pertencemos? A união faria a força. Lá está ele sentado, iniciando tudo de novo mas para a própria proteção futura dele, sem nenhuma chance verdadeira de realmente iniciar.
Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu autossacrifício. Ultimamente ele até tem treinado muito. E assim continuará progredindo até que, pouco a pouco – pela bondade necessária com que nos salvamos – ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por solidariedade com os milhares de nós que, para construir o possível, também sacrificaram a verdade que seria uma loucura.
Mas por enquanto ei-lo sentado no chão, imerso num vazio profundo.
Da cozinha a mãe se certifica: você está quietinho aí? Chamado ao trabalho, o menino ergue-se com dificuldade. Cambaleia sobre as pernas, com a atenção inteira para dentro: todo o seu equilíbrio é interno. Conseguido isso, agora a inteira atenção para fora: ele observa o que o ato de se erguer provocou. Pois levantar-se teve consequências e consequências: o chão move-se incerto, uma cadeira o supera, a parede o delimita. E na parede tem o retrato de O menino. É difícil olhar para o retrato alto sem apoiar-se num móvel, isso ele ainda não treinou. Mas eis que sua própria dificuldade lhe serve de apoio: o que o mantém de pé é exatamente prender a atenção ao retrato alto, olhar para cima lhe serve de guindaste. Mas ele comete um erro: pestaneja. Ter pestanejado desliga-o por uma fração de segundo do retrato que o sustentava. O equilíbrio se desfaz – num único gesto total, ele cai sentado. Da boca entreaberta pelo esforço de vida a baba clara escorre e pinga no chão. Olha o pingo bem de perto, como a uma formiga. O braço ergue-se, avança em árduo mecanismo de etapas. E de súbito, como para prender um inefável, com inesperada violência ele achata a baba com a palma da mão. Pestaneja, espera. Finalmente, passado o tempo necessário que se tem de esperar pelas coisas, ele destampa cuidadosamente a mão e olha no assoalho o fruto da experiência. O chão está vazio. Em nova brusca etapa, olha a mão: o pingo de baba está, pois, colado na palma. Agora ele sabe disso também. Então, de olhos bem abertos, lambe a baba que pertence ao menino. Ele pensa bem alto: menino.
– Quem é que você está chamando? pergunta a mãe lá da cozinha.
Com esforço e gentileza ele olha pela sala, procura quem a mãe diz que ele está chamando, vira-se e cai para trás. Enquanto chora, vê a sala entortada e refratada pelas lágrimas, o volume branco cresce até ele – mãe! absorve-o com braços fortes, e eis que o menino está bem no alto do ar, bem no quente e no bom. O teto está mais perto, agora; a mesa, embaixo. E, como ele não pode mais de cansaço, começa a revirar as pupilas até que estas vão mergulhando na linha de horizonte dos olhos. Fecha-os sobre a última imagem, as grades da cama. Adormece esgotado e sereno.
A água secou na boca. A mosca bate no vidro. O sono do menino é raiado de claridade e calor, o sono vibra no ar. Até que, em pesadelo súbito, uma das palavras que ele aprendeu lhe ocorre: ele estremece violentamente, abre os olhos. E para o seu terror vê apenas isto: o vazio quente e claro do ar, sem mãe. O que ele pensa estoura em choro pela casa toda. Enquanto chora, vai se reconhecendo, transformando-se naquele que a mãe reconhecerá. Quase desfalece em soluços, com urgência ele tem que se transformar numa coisa que pode ser vista e ouvida senão ele ficará só, tem que se transformar em compreensível senão ninguém o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio ninguém o conhece se ele não disser e contar, farei tudo o que for necessário para que eu seja dos outros e os outros sejam meus, pularei por cima de minha felicidade real que só me traria abandono, e serei popular, faço a barganha de ser amado, é inteiramente mágico chorar para ter em troca: mãe.
Até que o ruído familiar entra pela porta e o menino, mudo de interesse pelo que o poder de um menino provoca, para de chorar: mãe. Mãe é: não morrer. E sua segurança é saber que tem um mundo para trair e vender, e que o venderá.
É mãe, sim é mãe com fralda na mão. A partir de ver a fralda, ele recomeça a chorar.
– Pois se você está todo molhado!
A notícia o espanta, sua curiosidade recomeça, mas agora uma curiosidade confortável e garantida. Olha com cegueira o próprio molhado, em nova etapa olha a mãe. Mas de repente se retesa e escuta com o corpo todo, o coração batendo pesado na barriga: fonfom!, reconhece ele de repente num grito de vitória e terror – o menino acaba de reconhecer!
– Isso mesmo! diz a mãe com orgulho, isso mesmo, meu amor, é fonfom que passou agora pela rua, vou contar para o papai que você já aprendeu, é assim mesmo que se diz: fonfom, meu amor! diz a mãe puxando-o de baixo para cima e depois de cima para baixo, levantando-o pelas pernas, inclinando-o para trás, puxando-o de novo de baixo para cima. Em todas as posições o menino conserva os olhos bem abertos. Secos como a fralda nova.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu autossacrifício. Ultimamente ele até tem treinado muito. E assim continuará progredindo até que, pouco a pouco – pela bondade necessária com que nos salvamos – ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por solidariedade com os milhares de nós que, para construir o possível, também sacrificaram a verdade que seria uma loucura.
Mas por enquanto ei-lo sentado no chão, imerso num vazio profundo.
Da cozinha a mãe se certifica: você está quietinho aí? Chamado ao trabalho, o menino ergue-se com dificuldade. Cambaleia sobre as pernas, com a atenção inteira para dentro: todo o seu equilíbrio é interno. Conseguido isso, agora a inteira atenção para fora: ele observa o que o ato de se erguer provocou. Pois levantar-se teve consequências e consequências: o chão move-se incerto, uma cadeira o supera, a parede o delimita. E na parede tem o retrato de O menino. É difícil olhar para o retrato alto sem apoiar-se num móvel, isso ele ainda não treinou. Mas eis que sua própria dificuldade lhe serve de apoio: o que o mantém de pé é exatamente prender a atenção ao retrato alto, olhar para cima lhe serve de guindaste. Mas ele comete um erro: pestaneja. Ter pestanejado desliga-o por uma fração de segundo do retrato que o sustentava. O equilíbrio se desfaz – num único gesto total, ele cai sentado. Da boca entreaberta pelo esforço de vida a baba clara escorre e pinga no chão. Olha o pingo bem de perto, como a uma formiga. O braço ergue-se, avança em árduo mecanismo de etapas. E de súbito, como para prender um inefável, com inesperada violência ele achata a baba com a palma da mão. Pestaneja, espera. Finalmente, passado o tempo necessário que se tem de esperar pelas coisas, ele destampa cuidadosamente a mão e olha no assoalho o fruto da experiência. O chão está vazio. Em nova brusca etapa, olha a mão: o pingo de baba está, pois, colado na palma. Agora ele sabe disso também. Então, de olhos bem abertos, lambe a baba que pertence ao menino. Ele pensa bem alto: menino.
– Quem é que você está chamando? pergunta a mãe lá da cozinha.
Com esforço e gentileza ele olha pela sala, procura quem a mãe diz que ele está chamando, vira-se e cai para trás. Enquanto chora, vê a sala entortada e refratada pelas lágrimas, o volume branco cresce até ele – mãe! absorve-o com braços fortes, e eis que o menino está bem no alto do ar, bem no quente e no bom. O teto está mais perto, agora; a mesa, embaixo. E, como ele não pode mais de cansaço, começa a revirar as pupilas até que estas vão mergulhando na linha de horizonte dos olhos. Fecha-os sobre a última imagem, as grades da cama. Adormece esgotado e sereno.
A água secou na boca. A mosca bate no vidro. O sono do menino é raiado de claridade e calor, o sono vibra no ar. Até que, em pesadelo súbito, uma das palavras que ele aprendeu lhe ocorre: ele estremece violentamente, abre os olhos. E para o seu terror vê apenas isto: o vazio quente e claro do ar, sem mãe. O que ele pensa estoura em choro pela casa toda. Enquanto chora, vai se reconhecendo, transformando-se naquele que a mãe reconhecerá. Quase desfalece em soluços, com urgência ele tem que se transformar numa coisa que pode ser vista e ouvida senão ele ficará só, tem que se transformar em compreensível senão ninguém o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio ninguém o conhece se ele não disser e contar, farei tudo o que for necessário para que eu seja dos outros e os outros sejam meus, pularei por cima de minha felicidade real que só me traria abandono, e serei popular, faço a barganha de ser amado, é inteiramente mágico chorar para ter em troca: mãe.
Até que o ruído familiar entra pela porta e o menino, mudo de interesse pelo que o poder de um menino provoca, para de chorar: mãe. Mãe é: não morrer. E sua segurança é saber que tem um mundo para trair e vender, e que o venderá.
É mãe, sim é mãe com fralda na mão. A partir de ver a fralda, ele recomeça a chorar.
– Pois se você está todo molhado!
A notícia o espanta, sua curiosidade recomeça, mas agora uma curiosidade confortável e garantida. Olha com cegueira o próprio molhado, em nova etapa olha a mãe. Mas de repente se retesa e escuta com o corpo todo, o coração batendo pesado na barriga: fonfom!, reconhece ele de repente num grito de vitória e terror – o menino acaba de reconhecer!
– Isso mesmo! diz a mãe com orgulho, isso mesmo, meu amor, é fonfom que passou agora pela rua, vou contar para o papai que você já aprendeu, é assim mesmo que se diz: fonfom, meu amor! diz a mãe puxando-o de baixo para cima e depois de cima para baixo, levantando-o pelas pernas, inclinando-o para trás, puxando-o de novo de baixo para cima. Em todas as posições o menino conserva os olhos bem abertos. Secos como a fralda nova.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Acabaram com a nossa letra
Faço as minhas compras no supermercado, pego o meu talão de cheques, vou preencher. A mocinha:
_ Pode deixar que a máquina faz isso!
Fico uns segundos atabalhoado, olho para o cheque.
_ Faço questão de eu mesmo preencher.
E preenchi.
A cena é corriqueira, não é? Mas ali, naquele momento, aquela mocinha estava me tirando o prazer de colocar a minha letra no cheque. Afinal, pensei eu naquele momento, é a única coisa que eu escrevo à mão: o cheque.
E olha que aprender a escrever à mão, no meu tempo, era uma dificuldade. No curso primário a gente tinha aula de linguagem. Tinha o caderno de linguagem, que todos eram obrigados a comprar. A linha era subdividida em duas partes, sendo a de baixo menorzinha para caberem as letras baixas, como o "a" e o "o", por exemplo. E quando pintava um "l" ou um "t", tinha que ir até lá em cima. Assim, todo mundo ficava com a letra igual à da professora, que era perfeita, por sinal.
Com o passar dos anos e com o desuso, a minha letra foi ficando horrorosa. Nem eu mesmo entendia. Passei a só escrever em letra de forma. O tempo passou mais e mais e a letra de forma se foi deformando toda. Mas dava para o cheque. Agora, com a máquina de preencher cheque, lá se vai a minha letra. Com você anda acontecendo o mesmo?
Tenho certeza que, no futuro próximo, os alunos vão levar os notebooks para a sala de aula. A letra à mão será coisa pré-histórica. Imagino os novos alunos, quando já grandinhos, olhando as receitas dos médicos e imaginando que os pais e avós escreviam daquele jeito. Ou será que também os médicos vão ter uma maquininha para dar suas tortas receitas?
Fico triste ao constatar tudo isso. É como se uma parte de mim fosse embora. Uma parte
trabalhada duramente durante anos e anos.
O correio-elegante das quermesses, como ficará? Persistirá, mesmo com as pessoas tendo letras cada vez mais confusas? Como conquistar uma moça com aquela letra, gente? E o cartãozinho das flores remetidas? Será que só usaremos as letras manuais para os motivos apaixonantes?
Chegará o momento que usaremos a nossa mão apenas para a assinatura. Ou será que teremos um cartão a laser que, passado em cima de um papel, depois de codificado por um número, imprimirá nossa assinatura? Ou será que voltaremos ao uso infalível da impressão digital?
Será que um dia chegaremos ao absurdo de ser proibido escrever à mão? Penas pesadas para os infratores? Fulano preso escrevendo poesias em plena praça. O que o pai do fulano não vai pensar daquilo? Mesmo a multa aplicada pelo guarda não será escrita à mão. Ele digita a placa do seu carro e a informação vai diretamente para o Detran.
Nos países mais metidos a besta (também conhecidos como Primeiro Mundo), os garçons já pegam o seu pedido com um minicomputador que leva imediatamente o seu pedido para o cozinheiro. Nem garçom vai escrever mais.
Claro que o jogo do bicho será rapidamente informatizado, evitando aqueles papeizinhos que a gente sempre perde ou não confere. Sorteio de amigo-secreto com aqueles pedacinhos de papéis dobrados. Sobreviverá? Haverá, na repartição, ainda alguém com boa letra para tanto?
Como as secretárias vão avisar o chefe que fulano telefonou a tal hora? Tudo por cabos eletrônicos, é claro.
Agendas eletrônicas já se encontram em qualquer das boas casas do ramo.
E conta? Alguém ainda faz contas no papel? Será que nas escolas ainda ensinam raiz quadrada, com o aluno ali com a sua calculadora? Você deve saber que, nos vestibulares, já se admitem as tais maquininhas.
Listinha de pecados para se confessar. Grava-se num gravadorzinho e enfia no ouvido do padre. Afinal, os nossos pecados são sempre os mesmos. Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando. Em algarismos romanos, sei lá por quê.
Mario Prata, O Estado de S. Paulo (1997)
_ Pode deixar que a máquina faz isso!
Fico uns segundos atabalhoado, olho para o cheque.
_ Faço questão de eu mesmo preencher.
E preenchi.
A cena é corriqueira, não é? Mas ali, naquele momento, aquela mocinha estava me tirando o prazer de colocar a minha letra no cheque. Afinal, pensei eu naquele momento, é a única coisa que eu escrevo à mão: o cheque.
Você já notou que a gente não escreve mais nada? Nada! Acho que desde que saí da faculdade não uso a mão para tais finalidades. Estão aí todas as máquinas e cartões para tal uso.
E olha que aprender a escrever à mão, no meu tempo, era uma dificuldade. No curso primário a gente tinha aula de linguagem. Tinha o caderno de linguagem, que todos eram obrigados a comprar. A linha era subdividida em duas partes, sendo a de baixo menorzinha para caberem as letras baixas, como o "a" e o "o", por exemplo. E quando pintava um "l" ou um "t", tinha que ir até lá em cima. Assim, todo mundo ficava com a letra igual à da professora, que era perfeita, por sinal.
Com o passar dos anos e com o desuso, a minha letra foi ficando horrorosa. Nem eu mesmo entendia. Passei a só escrever em letra de forma. O tempo passou mais e mais e a letra de forma se foi deformando toda. Mas dava para o cheque. Agora, com a máquina de preencher cheque, lá se vai a minha letra. Com você anda acontecendo o mesmo?
Tenho certeza que, no futuro próximo, os alunos vão levar os notebooks para a sala de aula. A letra à mão será coisa pré-histórica. Imagino os novos alunos, quando já grandinhos, olhando as receitas dos médicos e imaginando que os pais e avós escreviam daquele jeito. Ou será que também os médicos vão ter uma maquininha para dar suas tortas receitas?
Fico triste ao constatar tudo isso. É como se uma parte de mim fosse embora. Uma parte
trabalhada duramente durante anos e anos.
O correio-elegante das quermesses, como ficará? Persistirá, mesmo com as pessoas tendo letras cada vez mais confusas? Como conquistar uma moça com aquela letra, gente? E o cartãozinho das flores remetidas? Será que só usaremos as letras manuais para os motivos apaixonantes?
Chegará o momento que usaremos a nossa mão apenas para a assinatura. Ou será que teremos um cartão a laser que, passado em cima de um papel, depois de codificado por um número, imprimirá nossa assinatura? Ou será que voltaremos ao uso infalível da impressão digital?
Será que um dia chegaremos ao absurdo de ser proibido escrever à mão? Penas pesadas para os infratores? Fulano preso escrevendo poesias em plena praça. O que o pai do fulano não vai pensar daquilo? Mesmo a multa aplicada pelo guarda não será escrita à mão. Ele digita a placa do seu carro e a informação vai diretamente para o Detran.
Nos países mais metidos a besta (também conhecidos como Primeiro Mundo), os garçons já pegam o seu pedido com um minicomputador que leva imediatamente o seu pedido para o cozinheiro. Nem garçom vai escrever mais.
Claro que o jogo do bicho será rapidamente informatizado, evitando aqueles papeizinhos que a gente sempre perde ou não confere. Sorteio de amigo-secreto com aqueles pedacinhos de papéis dobrados. Sobreviverá? Haverá, na repartição, ainda alguém com boa letra para tanto?
Como as secretárias vão avisar o chefe que fulano telefonou a tal hora? Tudo por cabos eletrônicos, é claro.
Agendas eletrônicas já se encontram em qualquer das boas casas do ramo.
E conta? Alguém ainda faz contas no papel? Será que nas escolas ainda ensinam raiz quadrada, com o aluno ali com a sua calculadora? Você deve saber que, nos vestibulares, já se admitem as tais maquininhas.
Listinha de pecados para se confessar. Grava-se num gravadorzinho e enfia no ouvido do padre. Afinal, os nossos pecados são sempre os mesmos. Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando. Em algarismos romanos, sei lá por quê.
Mario Prata, O Estado de S. Paulo (1997)
segunda-feira, março 9
Para a Terra
Seja sincera, Terra, — e gentil.
Esta flor que se abriu na tempestade
Caiu com o silêncio que se seguiu.
Seja sincera, Terra, — e gentil.
Hart Crane
Esta flor que se abriu na tempestade
Caiu com o silêncio que se seguiu.
Seja sincera, Terra, — e gentil.
Hart Crane
Cervantes
– Que novas trazes de nosso pai?
– Jaz, senhor, entre lágrimas e rezas. Inchado está, e de cor cinza. Já pôs a alma em paz com o escrivão e com o padre. As carpideiras esperam.
– Se tivesse eu o bálsamo de Ferrabrás.... Dois goles e no ponto sararia!
– Aos setenta anos que quase tem, e em agonia? Com seis dentes na boca e uma só mão que serve? Com cicatrizes tantas de batalhas, afrontas e prisões? De nada serviria esse feio Brás.
– Não digo dois goles. Duas gotas!
– Tarde chegaria.
– Morreu, dizes?
– Morrendo está.
– Descubra-se, Sancho. E tu, Rocinante, baixa a testa. Ah, príncipe das armas! Rei das letras!
– Sem ele, senhor, o que será de nós?
– Nada haveremos de fazer que não seja em sua alabança.
– Onde iremos parar, tão sozinhos?
– Iremos onde ele quis e não pôde.
– Onde, senhor?
– A endireitar o que torto está na costa de Cartagena, na ribanceira de La Paz e os bosques de Soconuco.
– Para que nos moam por lá os ossos.
– Hás de saber, Sancho, irmão meu de caminhos e correrias, que nas Índias a glória aguarda os cavaleiros andantes, sedentos de justiça e fama...
– Como foram poucas as chibatadas....
– ...e recebem os escudeiros, em recompensa, imensos reinos jamais explorados.
– Não os haverá mais perto?
– E tu, Rocinante, fique sabendo: nas Índias, os cavalos calçam prata e mordem ouro. São tidos por deuses!
– Depois de mil tundas, mil e uma.
– Cale-se, Sancho.
– Não nos disse nosso pai que a América é refúgio de malandros e santuário de putas?
– Cala, te digo!
– Quem às Índias embarca, nos disse, no cais deixa a consciência.
– Pois lá iremos, a lavar a honra de quem livres nos pariu no cárcere!
– E se aqui o choramos?
– Homenagem chamas semelhante traição? Ah, velhaco! Voltaremos ao caminho! Se para ficar no mundo nos fez, pelo mundo o levaremos. Alcançai-me o elmo! A adarga ao braço, Sancho! A lança!
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
– Jaz, senhor, entre lágrimas e rezas. Inchado está, e de cor cinza. Já pôs a alma em paz com o escrivão e com o padre. As carpideiras esperam.
– Se tivesse eu o bálsamo de Ferrabrás.... Dois goles e no ponto sararia!
– Aos setenta anos que quase tem, e em agonia? Com seis dentes na boca e uma só mão que serve? Com cicatrizes tantas de batalhas, afrontas e prisões? De nada serviria esse feio Brás.
– Não digo dois goles. Duas gotas!
– Tarde chegaria.
– Morreu, dizes?
– Morrendo está.
– Descubra-se, Sancho. E tu, Rocinante, baixa a testa. Ah, príncipe das armas! Rei das letras!
– Sem ele, senhor, o que será de nós?
– Nada haveremos de fazer que não seja em sua alabança.
– Onde iremos parar, tão sozinhos?
– Iremos onde ele quis e não pôde.
– Onde, senhor?
– A endireitar o que torto está na costa de Cartagena, na ribanceira de La Paz e os bosques de Soconuco.
– Para que nos moam por lá os ossos.
– Hás de saber, Sancho, irmão meu de caminhos e correrias, que nas Índias a glória aguarda os cavaleiros andantes, sedentos de justiça e fama...
– Como foram poucas as chibatadas....
– ...e recebem os escudeiros, em recompensa, imensos reinos jamais explorados.
– Não os haverá mais perto?
– E tu, Rocinante, fique sabendo: nas Índias, os cavalos calçam prata e mordem ouro. São tidos por deuses!
– Depois de mil tundas, mil e uma.
– Cale-se, Sancho.
– Não nos disse nosso pai que a América é refúgio de malandros e santuário de putas?
– Cala, te digo!
– Quem às Índias embarca, nos disse, no cais deixa a consciência.
– Pois lá iremos, a lavar a honra de quem livres nos pariu no cárcere!
– E se aqui o choramos?
– Homenagem chamas semelhante traição? Ah, velhaco! Voltaremos ao caminho! Se para ficar no mundo nos fez, pelo mundo o levaremos. Alcançai-me o elmo! A adarga ao braço, Sancho! A lança!
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
O Risadinha
Seria melhor dizer que ele não teve infância. Mas não é verdade. Eu o conheci menino, trepando às árvores, armando alçapão para canários-da-terra, bodoqueando as rolinhas, rolando pneu velho pelas ruas, pegando traseira de bonde, chamando o professor Asdrúbal de Jaburu. Foi este último um dos mais divertidos e perigosos brinquedos da nossa infância: o velho corria atrás da gente brandindo a bengala, seus bastos bigodes amarelos fremindo sob as ventas vulcânicas.
Nestor, em suma, teve a meninice normal de um filho de funcionário público em nosso tempo, tempo incerto, pois os recursos da Fazenda na província eram magros, e os pagamentos se atrasavam, enervando a população.
Seus companheiros talvez nem soubessem que se chamasse Nestor; era para todos o Risadinha. Falava pouco e ria muito, um riso de fato diminutivo, nascido de reservados solilóquios, quase sempre extemporâneo. Certa feita, na aula de francês, quando entoávamos em coro o presente do subjuntivo do verbo s`en aller, Risadinha pespegou uma bólide de papel bem na ponta do nariz do professor, que era muito branco, pedante a capricho e tinha o nome de Demóstenes. O rosto do mestre passou do pálido ao rubro das suas tremendas cóleras. Um dos seus prazeres, sendo-lhe vetado por lei castigar-nos com o bastão, era desfiar em cima do culpado uma série de insultos preciosos, que ele ia escandindo um por um, sem pressa e com ódio.
− Levante-se, seu Nestor! Sa-cri-pan-ta! Ne-gli-gen-te! Si-co-fan-ta! Tu-nan-te! Man-dri-ão! Ca-la-cei-ro! Pan-di-lha! Bil-tre! Tram-po-lei-ro! Bar-gan-te! Es-troi-na! Val-de-vi-nos! Va-ga-bun-do!...
Pegando a deixa da única palavra inteligível, Risadinha erguia o dedo no ar e protestava, com ar ofendido:
− Vagabundo, não, professor.
Era um artista do cinismo, e sua momice de inocência era de tal arte que até mesmo seu Demóstenes não conseguia conter o riso. Como também somente ele já arrancara uma gargalhada do padre-prefeito, um alemão da altura da catedral de Colônia, num dia em que vinha caminhando lento e distraído, fora de forma.
− Por que o senhorrr não está na forma? − perguntou-lhe rosnando o padre, como se estivesse de promotor da Inquisição, diante de um herege horripilante.
− É porque estou com meu pezinho machucado, respondeu com doçura o Risadinha.
− E por que o senhorrr não está mancando?
Risadinha olhou com espanto para os seus próprios pés, começando a mancar vistosamente:
− Desculpe, seu padre, é porque eu tinha esquecido.
Foi um precursor de Cantinflas e, a despeito da opinião do leitor, nós lhe achávamos uma graça de doer a barriga.
Paulo Mendes Campos, "Para gostar de ler"
Nestor, em suma, teve a meninice normal de um filho de funcionário público em nosso tempo, tempo incerto, pois os recursos da Fazenda na província eram magros, e os pagamentos se atrasavam, enervando a população.
Seus companheiros talvez nem soubessem que se chamasse Nestor; era para todos o Risadinha. Falava pouco e ria muito, um riso de fato diminutivo, nascido de reservados solilóquios, quase sempre extemporâneo. Certa feita, na aula de francês, quando entoávamos em coro o presente do subjuntivo do verbo s`en aller, Risadinha pespegou uma bólide de papel bem na ponta do nariz do professor, que era muito branco, pedante a capricho e tinha o nome de Demóstenes. O rosto do mestre passou do pálido ao rubro das suas tremendas cóleras. Um dos seus prazeres, sendo-lhe vetado por lei castigar-nos com o bastão, era desfiar em cima do culpado uma série de insultos preciosos, que ele ia escandindo um por um, sem pressa e com ódio.
− Levante-se, seu Nestor! Sa-cri-pan-ta! Ne-gli-gen-te! Si-co-fan-ta! Tu-nan-te! Man-dri-ão! Ca-la-cei-ro! Pan-di-lha! Bil-tre! Tram-po-lei-ro! Bar-gan-te! Es-troi-na! Val-de-vi-nos! Va-ga-bun-do!...
Pegando a deixa da única palavra inteligível, Risadinha erguia o dedo no ar e protestava, com ar ofendido:
− Vagabundo, não, professor.
Era um artista do cinismo, e sua momice de inocência era de tal arte que até mesmo seu Demóstenes não conseguia conter o riso. Como também somente ele já arrancara uma gargalhada do padre-prefeito, um alemão da altura da catedral de Colônia, num dia em que vinha caminhando lento e distraído, fora de forma.
− Por que o senhorrr não está na forma? − perguntou-lhe rosnando o padre, como se estivesse de promotor da Inquisição, diante de um herege horripilante.
− É porque estou com meu pezinho machucado, respondeu com doçura o Risadinha.
− E por que o senhorrr não está mancando?
Risadinha olhou com espanto para os seus próprios pés, começando a mancar vistosamente:
− Desculpe, seu padre, é porque eu tinha esquecido.
Foi um precursor de Cantinflas e, a despeito da opinião do leitor, nós lhe achávamos uma graça de doer a barriga.
Paulo Mendes Campos, "Para gostar de ler"
A sereiazinha
Em Copenhague, no lugar preferido pelo povo para os seus passeios, existia uma figura de bronze, obra do escultor Eriksen, representando uma pequena sereia pousada num rochedo. Com uma das mãos apoiada na pedra e a outra abandonada no regaço, ela contemplava, na sua casta nudez, este mundo incrível dos homens. Por trás dela perfilavam-se belos navios brancos e armações de altos guindastes. Ela estava ali, entre o céu, a terra e o mar e era uma das mais delicadas expressões de amor que se podia ter oferecido àquele gênio da bondade que se chamou Hans Christian Andersen, cujas histórias causaram a felicidade de milhões de crianças que as ouviram, no mundo inteiro, e certamente a dos adultos que as contaram.
A sereiazinha vivia no fundo do mar, no palácio do rei seu pai, em companhia de suas irmãs e de sua avó. Quando as pequenas sereias chegavam aos quinze anos, tinham permissão para subir à tona da água e contemplar o mundo dos homens. As irmãs não se encontraram muito com esse mundo; mas a sereiazinha caçula aprendeu com a sua avó que as sereias duram apenas três séculos e, ao morrer, tornam-se em espuma, enquanto que os seres humanos possuem uma alma imortal. A sereiazinha desejou possuir também uma alma assim. Mas era difícil; segundo o que lhe contara a avó, para possuir uma alma imortal, que um homem a amasse mais que aos seus próprios pais e, naturalmente, a desposasse. (Eu estou contando isto pelo prazer que me dá relembrar a linda história, mas na certeza que todos os leitores a conhecem.)
Então a sereiazinha salva um príncipe de um naufrágio, e, para vir a encontrá-lo, mais tarde, no seu palácio, pede à feiticeira do mar que lhe transforme a cauda em pés humanos, pagando pelo serviço com a sua voz, e resignando-se à mudez.
No palácio, todos a acham linda. Mas que pode ela fazer, se não fala? O príncipe trata-a com uma delicada ternura de amigo; mas está noivo e em breve se casará… Oh! A sereiazinha não conseguirá possuir uma alma imortal! E também já não poderá voltar ao palácio submarino, não tornará à sua vida antiga: morrerá de um raio de sol e se transformará em simples espuma. A não ser que, segundo lhe vêm explicar as irmãs, que circundam o navio do príncipe, tenha a coragem de matá-lo, antes do amanhecer. Com o seu sangue tornará a adquirir sua cauda de sereia, não morrerá com o primeiro raio de sol, voltará para a sua família (Sem a alma imortal, é certo, mas com cerca de trezentos anos de vida …)
Como todos sabem, a sereiazinha não foi capaz de matar seu belo príncipe: aproximou-se do leito onde ele dormia, murmurando em sonho o nome da noiva, deu-lhe um beijo na testa, atirou a faca ao mar, lançou-se também às ondas e notou como a sua forma se dissolvia em espuma. Não sentiu, porém, que morria. Percebeu uma infinidade de formas aéreas, esvoaçantes, e essas formas falaram com ela, disseram-lhe que se as sereias, para possuírem uma alma imortal, precisavam de um amor humano, elas, filhas do ar, conquistavam uma alma imortal com seu próprio esforço, praticando o bem, protegendo a terra e os homens, sem dependerem desse amor que a sereiazinha em vão tentara merecer. E a sereiazinha pela primeira vez sentiu lágrimas nos olhos, e partiu pelo céu, com as filhas do ar, procurando alcançar a imortalidade pelas boas obras, talvez em menos de trezentos anos.
Sensíveis à maravilhosa invenção de Andersen, os dinamarqueses levantaram numa pedra esse monumento à sereiazinha: a menina vinda dos profundos abismos do mar desejosa de deixar a sua condição de sereia para possuir a alma eterna, e conseguindo, pela sua perfeita bondade, elevar-se a espírito dos ares, conquistando essa alma pelas boas ações.
Pois neste triste mundo dos homens, onde sofre a alma imortal, veio alguém e degolou agora a sereiazinha de bronze ! Por quê ? Por amor? Para ter em sua casa o suave rosto, de sereno perfil, de delicadas madeixas? Por ódio àquela que sofreu tanto para possuir a alma imortal? Ou por simples vadiação, pelo gosto de destruir, pelo mórbido prazer de desfazer o que os outros fizeram com ternura? Hans Christian Andersen, o gênio da bondade, teria enxugado uma lágrima nos seus olhos repletos de carinho mesmo pelos que outrora não o entendiam. Mas, não, embora degolada, a sereiazinha não morreu; há um século que sua figura invisível paira pelo céu, distribuindo benefícios pela humanidade. Tanta alegria tem dado a tanta gente que já conseguiu alcançar aquela alma imortal que pretendia.
Cecília Meireles, "Crônicas de viagem"
A sereiazinha vivia no fundo do mar, no palácio do rei seu pai, em companhia de suas irmãs e de sua avó. Quando as pequenas sereias chegavam aos quinze anos, tinham permissão para subir à tona da água e contemplar o mundo dos homens. As irmãs não se encontraram muito com esse mundo; mas a sereiazinha caçula aprendeu com a sua avó que as sereias duram apenas três séculos e, ao morrer, tornam-se em espuma, enquanto que os seres humanos possuem uma alma imortal. A sereiazinha desejou possuir também uma alma assim. Mas era difícil; segundo o que lhe contara a avó, para possuir uma alma imortal, que um homem a amasse mais que aos seus próprios pais e, naturalmente, a desposasse. (Eu estou contando isto pelo prazer que me dá relembrar a linda história, mas na certeza que todos os leitores a conhecem.)
Então a sereiazinha salva um príncipe de um naufrágio, e, para vir a encontrá-lo, mais tarde, no seu palácio, pede à feiticeira do mar que lhe transforme a cauda em pés humanos, pagando pelo serviço com a sua voz, e resignando-se à mudez.
No palácio, todos a acham linda. Mas que pode ela fazer, se não fala? O príncipe trata-a com uma delicada ternura de amigo; mas está noivo e em breve se casará… Oh! A sereiazinha não conseguirá possuir uma alma imortal! E também já não poderá voltar ao palácio submarino, não tornará à sua vida antiga: morrerá de um raio de sol e se transformará em simples espuma. A não ser que, segundo lhe vêm explicar as irmãs, que circundam o navio do príncipe, tenha a coragem de matá-lo, antes do amanhecer. Com o seu sangue tornará a adquirir sua cauda de sereia, não morrerá com o primeiro raio de sol, voltará para a sua família (Sem a alma imortal, é certo, mas com cerca de trezentos anos de vida …)
Como todos sabem, a sereiazinha não foi capaz de matar seu belo príncipe: aproximou-se do leito onde ele dormia, murmurando em sonho o nome da noiva, deu-lhe um beijo na testa, atirou a faca ao mar, lançou-se também às ondas e notou como a sua forma se dissolvia em espuma. Não sentiu, porém, que morria. Percebeu uma infinidade de formas aéreas, esvoaçantes, e essas formas falaram com ela, disseram-lhe que se as sereias, para possuírem uma alma imortal, precisavam de um amor humano, elas, filhas do ar, conquistavam uma alma imortal com seu próprio esforço, praticando o bem, protegendo a terra e os homens, sem dependerem desse amor que a sereiazinha em vão tentara merecer. E a sereiazinha pela primeira vez sentiu lágrimas nos olhos, e partiu pelo céu, com as filhas do ar, procurando alcançar a imortalidade pelas boas obras, talvez em menos de trezentos anos.
Sensíveis à maravilhosa invenção de Andersen, os dinamarqueses levantaram numa pedra esse monumento à sereiazinha: a menina vinda dos profundos abismos do mar desejosa de deixar a sua condição de sereia para possuir a alma eterna, e conseguindo, pela sua perfeita bondade, elevar-se a espírito dos ares, conquistando essa alma pelas boas ações.
Pois neste triste mundo dos homens, onde sofre a alma imortal, veio alguém e degolou agora a sereiazinha de bronze ! Por quê ? Por amor? Para ter em sua casa o suave rosto, de sereno perfil, de delicadas madeixas? Por ódio àquela que sofreu tanto para possuir a alma imortal? Ou por simples vadiação, pelo gosto de destruir, pelo mórbido prazer de desfazer o que os outros fizeram com ternura? Hans Christian Andersen, o gênio da bondade, teria enxugado uma lágrima nos seus olhos repletos de carinho mesmo pelos que outrora não o entendiam. Mas, não, embora degolada, a sereiazinha não morreu; há um século que sua figura invisível paira pelo céu, distribuindo benefícios pela humanidade. Tanta alegria tem dado a tanta gente que já conseguiu alcançar aquela alma imortal que pretendia.
Cecília Meireles, "Crônicas de viagem"
Sobre ser claro
Quando vejo um açougue, vejo os nacos de carne pendurados, banhados pela luz branca, quase não penso, nem leio o letreiro. Só reparo no letreiro quando vou ao Rio ou a Portugal, por achar interessante se chamar por lá “Talho”. Divirto-me com os nomes em outras regiões e sempre os comparo. Mas a curiosidade das mudanças dos nomes nunca se abate sobre a natureza do lugar, os talhos vendem carne de vaca e de outros bichos, não me parece isso ser uma questão.
Com livros é diferente. Apresentarei aqui uma breve passagem para pensarmos juntos. Tem acontecido muitas vezes de o visitante entrar na nossa livraria e perguntar se somos um “sebo”. Vocês sabem: os sebos são os espaços de venda de livros usados, de segunda mão, que adoro conhecer, visitar, mas não é o meu ofício. É um mundo distinto, diferente das livrarias de novos, é um mundo muito diferente e também tem o seu encanto e tem o meu respeito. É bonito pensar num lugar em que os livros, além de conter suas histórias, contêm histórias dos seus primeiros donos — os livros guardam aventuras em suas vidas nas mãos de outros leitores.
Pensando sobre essa dúvida dos visitantes, talvez o nosso ambiente clássico, que remete à art nouveau, aos anos 1920, que lembra livrarias portenhas, cariocas ou francesas, talvez esse ambiente meio vintage faça os visitantes pensarem que não somos uma livraria de novos. Também me ocorre que simplesmente o desejo de encontrar um sebo faça o visitante perguntar mesmo achando em seu íntimo que ali não é o que ele vê, ele quer que se materialize na sua frente o seu desejo. E também pode ser alguém distraído mesmo, que não percebe detalhes ou que não reparou na lousa cavalete que coloquei na entrada da Realejo com as dúvidas frequentes. Sim, criamos um cavalete um tanto divertido que traz informações aos leitores. São elas: Não somos sebo; sim, somos uma livraria: não somos copiadora: sim, somos uma editora; não somos a CET (Companhia de engenharia de tráfego) e por aí vai… Quando os visitantes reparam na lousa, alguns se divertem, outros postam em suas redes e assim tocamos a nossa vida entre livros.
Foi por meio de uma mensagem via whatsapp da livraria, uma moça jovem pergunta de forma leve se podíamos tirar uma dúvida. Ela nunca havia nos visitado e por isso a questão: se ali se podia ler sentado às cadeiras ou se podia pegar livros emprestados ou até mesmo alugar os livros. Achei bonitinho por um átimo de segundo para depois me bater um certo cansaço por ter que explicar quem somos de maneira frequente. Expliquei que somos uma livraria clássica, que, portanto, vendemos livros e que se pode visitar e examinar as obras, mas com intenção de adquirir as mesmas e terminei dizendo que somos livreiros, que atendemos sempre os leitores com cuidado, mas não somos uma biblioteca. Digitei e esperei a resposta que veio rápida e aguda. A figura utilizou siglas — a primeira era “vtmnc” seu grosso, só perguntei porque não ficou claro para mim e depois soltou mais palavrões que prefiro poupar o paciente leitor ou a paciente leitora. Arregalei os olhos, contei até dez e respondi com calma e alguma ironia, afinal se puder me divertir por que não? Escrevi para ela respirar e tomar um chá e que se no futuro ela estiver ainda com curiosidade, poderia nos conhecer e… bem, ela me bloqueou, a mensagem não chegou até ela, foi como se batesse a porta na minha cara.
Pensando ainda sobre o diálogo, é interessante tentar entender o porquê das confusões, das dúvidas sobre algo secular como são as livrarias. Será que essa pessoa tem hábito de ler livros? Será que as invenções e junções de negócios como barbearia com mesa de sinuca e cerveja e guitarras pros clientes se divertirem, essas ideias tiraram o recado dos lugares? Sem dúvida o trabalho nunca termina e seguiremos mostrando o que fazemos, tentando sermos claros na proposta, lembrando que também agregamos na nossa livraria um bar/café, que temos shows musicais e que recebemos com criatividade os leitores, mas sempre sem esquecer a missão que nos trouxe até aqui, a missão de vender livros.
Vou tomar um chá, obrigado pela preferência, voltem sempre.
Com livros é diferente. Apresentarei aqui uma breve passagem para pensarmos juntos. Tem acontecido muitas vezes de o visitante entrar na nossa livraria e perguntar se somos um “sebo”. Vocês sabem: os sebos são os espaços de venda de livros usados, de segunda mão, que adoro conhecer, visitar, mas não é o meu ofício. É um mundo distinto, diferente das livrarias de novos, é um mundo muito diferente e também tem o seu encanto e tem o meu respeito. É bonito pensar num lugar em que os livros, além de conter suas histórias, contêm histórias dos seus primeiros donos — os livros guardam aventuras em suas vidas nas mãos de outros leitores.
Pensando sobre essa dúvida dos visitantes, talvez o nosso ambiente clássico, que remete à art nouveau, aos anos 1920, que lembra livrarias portenhas, cariocas ou francesas, talvez esse ambiente meio vintage faça os visitantes pensarem que não somos uma livraria de novos. Também me ocorre que simplesmente o desejo de encontrar um sebo faça o visitante perguntar mesmo achando em seu íntimo que ali não é o que ele vê, ele quer que se materialize na sua frente o seu desejo. E também pode ser alguém distraído mesmo, que não percebe detalhes ou que não reparou na lousa cavalete que coloquei na entrada da Realejo com as dúvidas frequentes. Sim, criamos um cavalete um tanto divertido que traz informações aos leitores. São elas: Não somos sebo; sim, somos uma livraria: não somos copiadora: sim, somos uma editora; não somos a CET (Companhia de engenharia de tráfego) e por aí vai… Quando os visitantes reparam na lousa, alguns se divertem, outros postam em suas redes e assim tocamos a nossa vida entre livros.
Foi por meio de uma mensagem via whatsapp da livraria, uma moça jovem pergunta de forma leve se podíamos tirar uma dúvida. Ela nunca havia nos visitado e por isso a questão: se ali se podia ler sentado às cadeiras ou se podia pegar livros emprestados ou até mesmo alugar os livros. Achei bonitinho por um átimo de segundo para depois me bater um certo cansaço por ter que explicar quem somos de maneira frequente. Expliquei que somos uma livraria clássica, que, portanto, vendemos livros e que se pode visitar e examinar as obras, mas com intenção de adquirir as mesmas e terminei dizendo que somos livreiros, que atendemos sempre os leitores com cuidado, mas não somos uma biblioteca. Digitei e esperei a resposta que veio rápida e aguda. A figura utilizou siglas — a primeira era “vtmnc” seu grosso, só perguntei porque não ficou claro para mim e depois soltou mais palavrões que prefiro poupar o paciente leitor ou a paciente leitora. Arregalei os olhos, contei até dez e respondi com calma e alguma ironia, afinal se puder me divertir por que não? Escrevi para ela respirar e tomar um chá e que se no futuro ela estiver ainda com curiosidade, poderia nos conhecer e… bem, ela me bloqueou, a mensagem não chegou até ela, foi como se batesse a porta na minha cara.
Pensando ainda sobre o diálogo, é interessante tentar entender o porquê das confusões, das dúvidas sobre algo secular como são as livrarias. Será que essa pessoa tem hábito de ler livros? Será que as invenções e junções de negócios como barbearia com mesa de sinuca e cerveja e guitarras pros clientes se divertirem, essas ideias tiraram o recado dos lugares? Sem dúvida o trabalho nunca termina e seguiremos mostrando o que fazemos, tentando sermos claros na proposta, lembrando que também agregamos na nossa livraria um bar/café, que temos shows musicais e que recebemos com criatividade os leitores, mas sempre sem esquecer a missão que nos trouxe até aqui, a missão de vender livros.
Vou tomar um chá, obrigado pela preferência, voltem sempre.
sábado, março 7
A verdade dividida
A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"
A criada
Seu nome era Eremita. Tinha dezenove anos. Rosto confiante, algumas espinhas. Onde estava a sua beleza? Havia beleza nesse corpo que não era feio nem bonito, nesse rosto onde uma doçura ansiosa de doçuras maiores era o sinal da vida.
Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas – senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E – de repente – a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira – em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera – tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis – ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera nas suas florestas.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Beleza, não sei. Possivelmente não havia, se bem que os traços indecisos atraíssem como água atrai. Havia, sim, substância viva, unhas, carnes, dentes, mistura de resistências e fraquezas, constituindo vaga presença que se concretizava porém imediatamente numa cabeça interrogativa e já prestimosa, mal se pronunciava um nome: Eremita. Os olhos castanhos eram intraduzíveis, sem correspondência com o conjunto do rosto. Tão independentes como se fossem plantados na carne de um braço, e de lá nos olhassem – abertos, úmidos. Ela toda era de uma doçura próxima a lágrimas.
Às vezes respondia com má-criação de criada mesmo. Desde pequena fora assim, explicou. Sem que isso viesse de seu caráter. Pois não havia no seu espírito nenhum endurecimento, nenhuma lei perceptível. “Eu tive medo”, dizia com naturalidade. “Me deu uma fome”, dizia, e era sempre incontestável o que dizia, não se sabe por quê. “Ele me respeita muito”, dizia do noivo e, apesar da expressão emprestada e convencional, a pessoa que ouvia entrava num mundo delicado de bichos e aves, onde todos se respeitam. “Eu tenho vergonha”, dizia, e sorria enredada nas próprias sombras. Se a fome era de pão – que ela comia depressa como se pudessem tirá-lo – o medo era de trovoadas, a vergonha era de falar. Ela era gentil, honesta. “Deus me livre, não é?”, dizia ausente.
Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas – senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E – de repente – a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira – em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera – tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis – ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera nas suas florestas.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Assinar:
Comentários (Atom)



















