quinta-feira, julho 16

Cama à porta

 


A morte de Monte

Magno Moreira Monte foi morto por uma antena parabólica. Caiu do telhado enquanto tentava fixar a antena. Depois o objeto tombou sobre a sua cabeça.

Houve quem visse no acontecimento uma alegoria irônica dos novos tempos. O antigo agente da Segurança de Estado, derradeiro representante de um passado que, em Angola, poucos gostam de recordar, teria sido derrubado pelo futuro; a livre comunicação triunfara sobre o obscurantismo, o silêncio e a censura; o cosmopolitismo esmagara o provincianismo.

Maria Clara gostava de ver as novelas brasileiras. O marido, pelo contrário, pouca atenção prestava à televisão. A futilidade dos programas enraivecia-o. Os noticiários enraiveciam-no ainda mais. Assistia aos jogos de futebol, torcendo pelo Primeiro de Agosto e pelo Benfica. Vez por outra, sentava-se, de pijama e chinelos, a rever algum velho filme a preto e branco. Preferia os livros. Acumulara muitas centenas de títulos. Planeava passar os últimos anos de vida a reler Jorge Amado, Machado de Assis, Clarice Lispector, Luandino Vieira, Ruy Duarte de Carvalho, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez.

Quando se mudaram, deixando para trás o ar sujo e ruidoso da capital, Monte esforçou-se por convencer a esposa a prescindir da televisão. Maria Clara concordou. Habituara-se a concordar com ele. Nas primeiras semanas leram juntos. Tudo parecia correr bem. Maria Clara, contudo, entristecia. Demorava-se horas, ao telefone, com as amigas. Monte decidiu então comprar e instalar uma antena parabólica.

A bem dizer, morreu por amor.

José Eduardo Agualusa, ''Teoria Geral do Esquecimento"

O viandante

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

Carlos de Oliveira

Vontade de içar a bandeira branca

4 de Setembro

Às vezes, entra-me a vontade de içar a bandeira branca, subir às ameias e dizer: “Rendo-me.” Não que eu me veja como uma fortaleza, bem pelo contrário, mas sei, como se ela fosse ou nela estivesse, que me andam cercando dois cercos: um, já se sabe, é o dos ódios, invejas e mesquinhices que vou aguentando; o outro, que se vai sabendo, é o dos afectos de muitos que me leem, e esse é o que me derrota. Se este tempo da minha vida tivesse de levar um título, bem poderia ser o do filme de Pedro Almodovar: “Que fiz eu para merecer isto?” Dir-me-ão os mais simpáticos: “Bom, alguma coisa fizeste...” Mas isso, uns quantos livros, valerá tanto que mereça a quadra que me foi dedicada por um pastor de ovelhas (seiscentas parece que tem o rebanho) do Alentejo? Esta, lida ontem na Festa do Avante! e que reza assim:

Tem em conta a luz da mente.
Cada um é como é.
E não pode ser toda a gente
Aquilo que cada um é.


E, como se não fosse bastante, como se não transbordasse já, estava eu depois a assinar livros (três horas ininterruptas de dedicatórias...), aproximam-se duas pessoas, marido e mulher, que colocam diante de mim, com o livro que tinham comprado, um caderninho, um corta-papel e uma nota onde um e outro estavam explicados... O livrinho, feito de papel de sacas de cimento, havia sido escrito por Silvino Leitão Fernandes Costa no campo de concentração do Tarrafal e estava dedicado nestes termos: “Ofereço, ao camarada e amigo T., como prova de consideração.” “T.” era a abreviatura de Teixeira, apelido do homem que estava na minha frente, de seu nome completo José de Sousa Teixeira, preso também, como ele, no Tarrafal. Quanto ao corta-papel, fizera-o Hermínio Martins, ex-marinheiro de um dos barcos que se revoltaram em 8 de Setembro de 1936. Foi ajudante de serralharia do Bento António Gonçalves e morreu antes do 25 de Abril, num sanatório da metrópole. Pensei que tudo isto estava simplesmente a ser-me mostrado, e, ao devolver o livro assinado, restituí também os objectos. Que não, disseram-me, que eram para mim, como lembrança e prova de amizade... Imagine-se como fiquei eu. Agradeci como pude, rodeado pelas dezenas de pessoas que esperavam a sua vez para me pedirem uma assinatura e, com palavras ou sem elas, dizerem que me querem bem.

O livrinho tem dois títulos e compõe-se de quatro partes. O primeiro título, na capa, é “O que será? ...”, o segundo título, na folha seguinte, anuncia “Coisas da vida e próprias dos homens”. A primeira parte transcrevo-a hoje, as outras nos próximos dias (é o mínimo que posso fazer em sinal de gratidão e para que não se perca — se algum dia estes cadernos vierem a ser publicados — a lembrança de um conflito entre amigos e a sua algo extraordinária resolução). Actualizo a ortografia e a pontuação:

“Os livros são coisas preciosas tanto por aquilo que dizem como pelo esforço de raciocínio necessário para os fazer.

“Depois de feitos, servem de auxílio ao desenvolvimento cerebral do homem.

“Conclui-se, pois, que é nos livros onde nós aprendemos tudo quanto desejamos. Tudo depende daquilo que mais nos interessar.

“São ainda eles que trazem até nós, duma forma concreta e abreviada, toda a experiência vivida pelos nossos antepassados, da qual nos servimos e serviremos sempre para encarar o futuro.

“Quando possuímos um ou mais livros, significa isso que se encontram ao nosso dispor e certamente lê-los-emos tantas quantas vezes quisermos ou necessitarmos para a compreensão do sentido que encerram.

“Entretanto, mesmo àqueles que às vezes lemos, embora o seu conteúdo pouco nos interesse, — quer dizer, romances de 4.50 a dúzia, ou coisa semelhante, — alguma coisa nos fica gravada na mente, apesar disso.

“Todos nós sabemos que é verdade tal facto.

“Bem, mas já vai sendo tempo de mudar de “disco”. “O meu objectivo não é falar sobre livros. Nem sequer fazê-los ou ainda discutir.

“Até aqui, simplesmente, pretendo salientar o valor das coisas escritas.

“Porém, para melhor concretização, farei um paralelo entre a escrita e a palavra.
“Supõe que eu percebo de electricidade a “Potes” e estive durante duas horas a falar-te do assunto. De certo não poderias ter apreendido tudo quanto disse. Mas se escrevesse ficaria ao teu alcance o assunto e dar-lhe-ias as voltas que precisasses.

“Agora dirás tu:

“— Mas a que propósito vem isto, não me dizem?

“Depois acrescentarás:

“Sempre há cada maduro!...

“Que mal fiz eu?...

“Calma... o resto vai já a seguir.”

José Saramago, "Cadernos de Lanzarote"

Baldeação definitiva

Eu conheci a mulher da sombrinha vermelha, esposa do homem do guarda-chuva preto. Nunca soube quem inventou esses nomes, mas nem mesmo sabia quem inventou a mim.

Sempre via-me como uma promessa em vias de cumprir-se. A mulher não se afastava nunca da sombrinha encarnada. Se aberta, meio tomate gigante, em gomos, flutuava. Debaixo de seu tomate protetor do sol ou da chuva, ela provocava a inveja na madrasta, eu suspeitava.

A mãe indicava, no quintal, a galinha para o almoço. A mulher da sombrinha vermelha olhava e imobilizava a ave pela força única de seu olhar. Indefeso, o animal permanecia parado como se brincando de estátua. O olhar da mulher não ameaçava como o olhar do pai. Um fazia ficar e o outro mandava partir. O homem do guarda-chuva preto morreu de nó nas tripas. Ninguém usou de faca para fatiá-lo e conferir. Era apenas uma suspeita.

Durante quatro estações, em todas as manhãs, o trem deslizava em frente de nossa casa. Nascia na cidade de um avô, que escrevia nas paredes, e morria na cidade de outro avô, com seu olho de vidro. Sempre suspeitei o nascer como entrar num trem andando. Só que, o mundo, eu não sabia de onde vinha nem para onde ia. E, no meu vagão, não escolhi os companheiros para a viagem. Eram todos estranhos, severos, amargos, impostos. Também entrei sem comprar o bilhete de viagem. Minha bagagem, pequena, cabia debaixo do banco — da segunda classe — sem incomodar. Contrabandeava poucos pertences: uma grande dor que doía o corpo inteiro e a vontade de encontrar um remédio capaz de remediar o incômodo. Até hoje o mundo ainda não atracou. Vou sem escolher o destino. O trem estancava na minha cidade, trocava de carga e reabastecia-se. O mundo só nos permite uma baldeação definitiva.
Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"

quarta-feira, julho 15

Difícil escolha

 


Não desafies

Não desafies
a alegria.

Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?

Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria.

João José Cochofel, "Breve"

As manigâncias de dona Frozina

–Também com esse dinheiro mirrado...

Isso é o que a viúva dona Frozina diz do montepio. Mas dá para ela comprar Leite de Rosas e tomar verdadeiros banhos com o líquido leitoso. Dizem que sua pele é espetacular. Usa desde mocinha o mesmo produto e tem cheiro de mãe.

É muito católica e vive em igrejas. Tudo isso cheirando a Leite de Rosas. Como uma menina. Ficou viúva com vinte e nove anos. E de lá para cá – nada de homem. Viúva à moda antiga. Severa. Sem decote e sempre com mangas compridas.

– D. Frozina, como é que a senhora arrumou sua vida sem homem?, quero lhe perguntar.

A resposta seria:

– Manigâncias, minha filha, manigâncias.

Dizem dela: muita gente jovem não tem o espírito que ela tem. Está na casa dos setenta, a excelentíssima senhora dona Frozina. É sogra boa e ótima avó. Boa parideira que foi. E continuou frutificando. Eu queria ter uma conversa séria com d. Frozina.

– Dona Frozina, a senhora tem qualquer coisa a ver com d. Flor e seus três maridos?

– Que é isso, minha amiga, mas que pecado grande! Sou viúva virgem, minha filha.

Seu marido se chamava Epaminondas, com o apelido de Moço.

Olhe, d. Frozina, tem nomes piores do que o seu. Tem uma que se chama Flor de Lis – e como acharam ruim o nome, deram-lhe apelido pior: Minhora. Quase minhoca. E os pais que chamaram seus filhos de Brasil, Argentina, Colômbia, Bélgica e França? A senhora escapou de ser um país. A senhora e suas manigâncias. “Ganha-se pouco”, diz ela, “mas é divertido.”

Divertido como, minha senhora? A senhora não conheceu então a dor? Foi driblando a dor pela vida afora? Sim, senhora, com minhas manigâncias fui escapando.

D. Frozina não toma Coca-Cola. Acha que é moderno demais.

– Mas todo o mundo toma!

– Eu é que não, cruz-credo! parece até remédio contra bichas, Deus me livre e guarde.

Mas se acha o gosto de remédio é porque já provou.

D. Frozina usa o nome de Deus mais do que deveria. Não se deve usar o nome de Deus em vão. Mas com ela não cola essa lei.

E ela se agarra nos santos. Os santos já estão enjoados dela, de tanto ela abusar.

De “Nossa Senhora” nem se fala; a mãe de Jesus não tem sossego. E, como vem do norte, vive dizendo: Virgem Maria! a cada espanto. E são muitos os seus espantos de viúva ingênua.

D. Frozina rezava todas as noites. Fazia uma prece para cada santo. Aí aconteceu o desastre: ela adormeceu no meio.

– D. Frozina, que coisa horrível a senhora cochilar no meio da reza deixando os santos à toa!

Ela respondeu com um gesto de mão de descaso:

– Ah, minha filha, que cada um pegue o dele.

Teve um sonho muito esquisitinho: sonhou que via o Cristo do Corcovado – e cadê os braços abertos? Estavam era bem cruzados, e o Cristo enjoado como se dissesse: vocês que se arranjem, estou farto. Era um pecado esse sonho.

D. Frozina, chega de manigâncias. Fique com o seu Leite de Rosas e “io me ne vado”. (É assim que se diz em italiano quando uma pessoa quer ir embora?)
Dona Frozina, excelentíssima senhora, quem está farta da senhora sou eu. Adeus, pois. Cochilei no meio da reza.

P.S. Procure no dicionário o que quer dizer manigâncias. Mas adianto-lhe o serviço: manigância – prestidigitação; manobra misteriosa, artes de berliques e berloques. (Do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa.)

Um detalhe antes de acabar:

D. Frozina quando era pequena, lá em Sergipe, comia acocorada atrás da porta da cozinha. Não se sabe por quê.
Clarice Lispector, em "Todos os Contos"

Platero

Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro. Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas... Chamo-o docemente: "Platero", e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal... Come o que lhe dou. Gosta das tangerinas, das uvas moscatéis, todas de âmbar, dos figos roxos, com sua cristalina gotita de mel... E terno e mimoso como um menino, como uma menina, mas forte e seco como de pedra. Quando nele passo, aos domingos, pelas últimas ruelas da aldeia, os camponeses, vestidos de lavado e vagarosos, param a olhá-lo:— Tem aço...Tem aço. Aço e prata de luar, ao mesmo tempo.

A lua vem conosco, redonda, enorme, pura. Nos prados sonolentos veem-se, vagamente, não sei que cabras negras, entre os silvados… Alguém se esconde, discreto, ao passarmos… Sobre o vale, uma imensa amendoeira, nívea de flor e de luar, confundida a copa com uma nuvem branca, cobiça o caminho asseteado de estrelas de Março… Um odor penetrante de laranjas… Humidade e silêncio… A azinhaga das Bruxas…

- Platero, que… frio!

Platero, não sei se com o seu medo ou com o meu, trota, entra no regato, pisa a lua e a faz em pedaços. É como se um enxame de rosas de cristal enlaçasse, querendo retê-lo, o seu trote…E Platero trota, encosta a cima, a garupa encolhida como se alguém o perseguisse, sentindo já a tepidez suave da aldeia que se avizinha…
Juan Ramón Jiménez, "Platero e Eu"

Na era do excesso de estímulo e de julgamentos, ninguém vê o homem no mar

Foi Manuel Bandeira quem disse que Rubem Braga era sempre bom, mas quando não tinha assunto era ótimo. O clássico exemplo de falta de assunto é a crônica “Homem no mar”, na qual ele descreve a vista da varanda entre árvores e telhados, tendo ao fundo um homem nadando no mar.

Esta semana eu me vi num dilema similar. Tendo que entregar meu texto mas sem ideia do que escrever. Os tempos são outros, mas a agonia é a mesma, e me valho deste espaço para reivindicar o mesmo: eu também tenho o direito de não ter assunto.

Ah, mas com tanto acontecendo no mundo, como é que você vai conseguir não ter assunto?

Por meio deste plano para benefício próprio e coletivo, capaz de tornar o Brasil a maior potência da literatura mundial. Segue:

O segundo grupo com maior risco de extinção no país (leitores) deve se organizar para preservar o grupo de maior risco (escritores). Mediante vaquinha, devem adquirir a cobertura em Ipanema sem internet onde nós escritores seremos trancados. Não é para a gente se reproduzir, gente. Desinfetem suas mentes impuras. Se bem que a fantasia de estar trancada num espaço sem internet é inerente ao grupo e altamente sensual, nós somos assim de esquisitos. Mas o que a gente quer mesmo é menos. Menos informação, julgamento, ruídos, vídeos, imagens, notícias e memes. Menos estímulos.

Tomem Rubem Braga, por exemplo. Se fosse um jovem escritor de hoje, entraria nas redes para se inspirar e sofreria de algo que muito conheço, a paralisia pelo excesso. Tantos temas para só um texto, e quem sabe se ele clicar de novo e de novo encontrará o assunto da vez. Seis da tarde, é Rubem sem a crônica e vasto conhecimento sobre receitas com rúcula e conflitos no Oriente Médio. Rubem decide espairecer, publicando no Insta um vídeo de seu canário cantando. Mas agora, em vez de escrever, pensará em curtidas. Decide abrir a internet, rapidinho, para olhar. Tem poucas curtidas e um comentário dizendo Rubem, seu cretino dono de gaiola, torturador de animais. Várias curtidas no comentário. Ele apaga o post, se arrepende e condena, paga o preço em um estado mental oposto ao necessário para a escrita. E tem mais. Rubem Braga publica um livro, avaliado na Amazon por esta figura potencializada pelas redes, o espírito de porco profissional. Diz a avaliação que se Rubem Braga usasse os dedos para tirar meleca em vez de digitar estaria ao menos fazendo algo útil. Virão mil resenhas positivas, mas é a da meleca que Rubem lembrará.

Diante de tanto não teríamos um escritor no ápice de seus talentos, mas um jovem inseguro, ansioso e bloqueado. Sofrendo pelo excesso de estímulo e a intensidade dos julgamentos, mas principalmente por não poder se tornar Rubem Braga. Por ter os textos maravilhosos apodrecendo nele, porque passou um homem nadando lá longe e ele não viu.

Moral da crônica: o melhor conselho para uma aspirante a escritora é: nasça em 1940. Outra moral com adendo: os escritores precisam de menos e os leitores, também. Eu me viro aqui lendo livros. Esta atividade tão 1940, e que ainda funciona bem.

Martha Batalha

terça-feira, julho 14

Entre na moda

 


Posto de gasolina

A construção da vida, no momento, está muito mais no poder de fatos que de convicções. E aliás de fatos tais, como quase nunca e em parte nenhuma se tornaram fundamento de convicções. Nessas circunstâncias, a verdadeira atividade literária não pode ter a pretensão de desenrolar-se dentro de molduras literárias – isto, pelo contrário, é a expressão usual de sua infertilidade. A atuação literária significativa só pode instituir-se em rigorosa alternância de agir e escrever; tem de cultivar as formas modestas, que correspondem melhor à sua influência em comunidades ativas que o pretensioso gesto universal do livro, em folhas volantes, brochuras, artigos de jornal e cartazes. Só essa linguagem de prontidão mostra-se atuante à altura do momento. As opiniões, para o aparelho gigante da vida social, são o que é o óleo para as máquinas; ninguém se posta diante de uma turbina e a irriga com óleo de máquina. Borrifa-se um pouco em rebites e juntas ocultos, que é preciso conhecer. 
Walter Benjamin, "Rua de mão única"

Poema das árvores


As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto, dar flores.
António Gedeão, “Obra Poética”

Graco, o caçador

Dois meninos estavam sentados no muro do cais e jogavam dados. Um homem lia um jornal nos degraus de um monumento, à sombra do herói brandindo o sabre. Uma menina junto à fonte enchia sua cuba de água. Um vendedor de frutas estava deitado ao lado de sua mercadoria e olhava para o mar. Nas profundidades de um bar, era possível ver, através dos buracos livres da porta e das janelas, dois homens bebendo vinho. O dono estava sentado a uma mesa na parte da frente e dormitava. Uma barca pairava silenciosa como se fosse carregada acima da água no pequeno porto. Um homem de avental azul subiu para a terra e puxou a corda através dos anéis. Dois outros homens de casacos escuros com botões de prata carregavam uma padiola atrás do barqueiro, sobre a qual, debaixo de um grande pano de seda floreado e cheio de franjas, ao que tudo indica, estava deitado um homem.

No cais ninguém se preocupava com os que chegavam, mesmo quando depuseram a padiola no chão para esperar pelo barqueiro, que ainda trabalhava nas amarras, ninguém se aproximou, ninguém dirigiu uma pergunta a eles, ninguém olhou com mais atenção para eles.

O timoneiro ainda foi retido algum tempo por uma mulher que, de cabelos soltos, com uma criança no seio, agora se mostrava no deque. Em seguida ele veio, apontou para uma casa amarelada de dois andares, que se erguia retilínea, à esquerda, nas proximidades da água, os carregadores voltaram a erguer seu fardo e o carregaram através do portão baixo, mas formado por colunas esguias. Um garoto abriu a janela, ainda percebeu como a trupe desapareceu dentro da casa, e voltou a trancar a janela às pressas. Também o portão foi trancado, ele era esculpido com todo o cuidado em madeira de carvalho negra. Um bando de pombos, que até então voava em torno da torre da igreja, agora pousava diante da casa. Como se na casa estivesse guardado seu alimento, os pombos se reuniram diante do portão. Um deles levantou voo até o primeiro andar e bicou a vidraça da janela. Eram aves de cor clara, bem-cuidadas, vivazes. A mulher da barca jogou grãos a eles em um grande arremesso, os pombos os juntaram e em seguida voaram até onde estava a mulher.

Um senhor de cartola com uma fita de luto descia por uma das ruelas estreitas e fortemente inclinadas que levavam até o porto. Ele olhava com atenção à sua volta, tudo o preocupava, a visão de lixo a um canto fez com que contorcesse o rosto. Nos degraus do monumento, havia cascas de fruta; ao passar, ele as empurrou para baixo com sua bengala. Junto à porta da sala ele bateu, ao mesmo tempo tirou a cartola com sua mão direita vestida em uma luva negra. Logo abriram, por certo uns cinquenta garotos formaram uma fileira no longo corredor e fizeram uma reverência.

O barqueiro desceu pela escada, saudou o homem, conduziu-o para cima, no primeiro andar contornou com ele o pátio envolvido por varandas graciosas e construídas com leveza, e ambos entraram, enquanto os garotos os seguiam a uma distância respeitosa para um lugar fresco e grande na parte de trás da casa, de onde não se podia mais ver casa nenhuma, mas sim apenas uma parede rochosa nua e de um cinza quase negro. Os carregadores estavam ocupados em botar e acender algumas longas velas à cabeceira da padiola, mas nem por isso surgiu luz delas, literalmente foram apenas enxotadas as sombras que antes descansavam e agora dançavam sobre as paredes. O pano foi afastado da padiola. Nela estava deitado um homem de barba e cabelos longos e desgrenhados, pele bronzeada, parecendo, talvez, um caçador. Ele estava deitado ali, imóvel, de olhos cerrados, aparentemente não respirava, e mesmo assim apenas o entorno insinuava que eventualmente se tratava de um morto.

O homem foi até a padiola, deitou uma mão sobre a testa daquele que jazia ali, ajoelhou-se em seguida e rezou. O barqueiro acenou aos carregadores que deixassem o quarto, eles saíram, expulsaram os meninos que haviam se juntado lá fora e trancaram a porta. Contudo, também esse silêncio pareceu ainda não agradar ao homem, ele olhou para o barqueiro, este compreendeu e saiu por uma porta lateral até o quarto contíguo. No mesmo instante o homem sobre a padiola abriu os olhos, voltou o rosto para o homem sorrindo dolorosamente e disse:

– Quem és tu?

O homem se ergueu, sem mostrar maior surpresa, da posição ajoelhada em que estava, e respondeu:

– O prefeito de Riva.

O homem sobre a padiola assentiu com um gesto de cabeça, apontou o braço esticado fracamente para um assento e disse, depois que o prefeito havia atendido a seu convite:

– Eu sabia disso, senhor prefeito, mas no primeiro momento sempre me esqueço de tudo, tudo gira em minha cabeça e é melhor que eu pergunte, ainda que saiba de tudo. Também o senhor sabe, provavelmente, que eu sou Graco, o caçador.

– Com certeza – disse o prefeito. – O senhor me foi anunciado hoje à noite. Nós já dormíamos havia tempo. Então minha mulher chamou, por volta da meia-noite: “Salvatore” – é assim que me chamo –, “olha só o pombo na janela!” Era realmente um pombo, mas grande como um galo. Ele voou até meu ouvido e disse: “Amanhã chega o caçador morto, Graco, recebe-o em nome da cidade.”

O caçador assentiu e enfiou a ponta da língua entre os lábios:

– Sim, os pombos voam à minha frente. Mas o senhor acredita, senhor prefeito, que devo ficar em Riva?

– Isso eu ainda não posso dizer – respondeu o prefeito. – O senhor está morto?

– Sim – disse o caçador –, conforme o senhor pode ver… Há muitos anos – mas devem ter sido realmente muitos e muitos anos – eu caí de uma rocha na Floresta Negra – isso fica na Alemanha – quando perseguia uma camurça. Desde então estou morto.

– Mas o senhor também está vivo – disse o prefeito.

– De certo modo – disse o caçador –, de certo modo eu também vivo. Meu bote da morte errou o caminho, um giro em falso no timão, um momento de desatenção da parte do barqueiro, uma distração devida à minha pátria maravilhosa, não sei o que foi, só sei que fiquei na terra, e que meu bote desde então viaja por águas terrenas. Assim viajo eu, que apenas conseguia viver em minhas montanhas, em busca da minha morte por todos os países da terra.

– E o senhor não tem parte nenhuma no além? – perguntou o prefeito, de testa franzida.

– Estou sempre na grande escada que leva para cima – respondeu o caçador. – Nessa escada livre e infinitamente longa eu ando sem rumo, ora em cima, ora embaixo, ora à direita, ora à esquerda, sempre em movimento. O caçador se transformou em borboleta. O senhor não ria.

– Não estou rindo – protestou o prefeito.

– Muito sensato – disse o caçador. – Estou sempre em movimento. Mas quando tomo o grande impulso e já consigo ver o portão lá em cima, desperto em meu velho bote, enfiado em alguma erma água terrena. O erro fundamental da minha morte passada não cessa de sorrir debochado para mim em minha cabine. Julia, a mulher do barqueiro, bate e traz até a minha padiola a bebida matinal do país cuja costa estamos navegando no momento, eu estou deitado sobre um catre de madeira, visto – não é nenhum prazer me contemplar – uma mortalha suja, cabelos e barba, grisalhos e negra, se entrelaçam de modo indestrinçável, minhas pernas estão cobertas por um grande pano de seda feminino, floreado e de longas franjas. Próxima a minha cabeça, há uma vela de igreja que me ilumina. Na parede diante de mim, um pequeno quadro, ao que tudo indica um bosquímano, que mira sua lança em mim e busca cobertura da melhor maneira possível por trás de um escudo pintado de maneira grandiosa. Em navios muitas vezes se encontra um punhado de representações estúpidas, mas esta é uma das mais estúpidas. De resto, minha jaula de madeira está completamente vazia. Por uma escotilha na parede lateral, entra o ar quente da noite sulina, e eu ouço a água batendo na velha barca.

“Estou deitado aqui desde aquela época em que, ainda sendo o vivo caçador Graco, perseguia uma camurça na Floresta Negra, e caí do penhasco. Tudo seguiu sua ordem. Eu persegui, caí, sangrei em um desfiladeiro, morri, e essa barca deveria me levar para o além. Ainda me lembro de como me estiquei alegre aqui sobre o catre pela primeira vez. Jamais as montanhas ouviram de mim uma canção como ouviram essas quatro paredes, na época, ainda crepusculares.

“Eu gostava de viver e gostei de morrer, joguei feliz, antes de subir a bordo, a trouxa do rifle, da bolsa, da espingarda de caça, arrancando-a do meu corpo, ela que sempre carreguei orgulhoso, e entrei na mortalha como uma moça em seu vestido de casamento. Fiquei deitado aqui e esperei. Então aconteceu o infortúnio.”

– Um destino terrível – disse o prefeito, de mão erguida, em sinal de defesa. – E o senhor não tem nenhuma culpa disso?

– Nenhuma – disse o caçador –, eu era caçador, por acaso isso é alguma culpa? Fui contratado como caçador na Floresta Negra, onde na época ainda havia lobos. Eu ficava à espreita, atirava, acertava, arrancava a pele, isso é alguma culpa? Meu trabalho era abençoado. “O grande caçador da Floresta Negra”, era assim que me chamavam. Isso é alguma culpa?

– Não cabe a mim decidir – disse o prefeito –, mas também para mim parece não haver culpa nisso. Quem é o culpado, então?

– O barqueiro – disse o caçador. – Ninguém lerá o que escrevo aqui, ninguém virá para me ajudar; se fosse dada a tarefa de me ajudar, todas as portas de todas as casas permaneceriam trancadas, todas as janelas, trancadas, todos ficariam deitados em suas camas, os cobertores puxados sobre a cabeça, a terra inteira uma estalagem noturna. E isso faria sentido, pois ninguém sabe de mim e, se soubesse de mim, não saberia onde me encontro, e, se soubesse onde me encontro, não saberia me reter lá, portanto não saberia como me ajudar. A ideia de querer me ajudar é uma doença e precisa ser curada na cama. Disso eu sei e, portanto, não grito invocando ajuda, mesmo que em alguns momentos – incontido como sou, por exemplo, justo agora – pense bem doentiamente nisso. Mas, para afastar tais ideias, parece bastar que eu olhe em torno e me dê conta de onde estou e – isso eu por certo posso afirmar – onde moro há séculos.

– Extraordinário – disse o prefeito –, extraordinário… E então, o senhor pretende ficar conosco em Riva agora?

– Não, eu não penso nisso – disse o caçador sorrindo, e depôs, para reparar a zombaria, a mão sobre o joelho do prefeito. – Estou aqui, mais do que isso não sei, mais não posso fazer. Meu bote está sem timão, ele anda ao sabor do vento, que sopra nas regiões mais baixas da morte.
Franz Kafka

Pequenos contos da cidade pequena

I
O Poeta está deitado de sapatos sobre a colcha de renda de bilros — relíquia de Vovozinha.

— ... e de melhores dias — suspira o Anjo, completando-lhe o pensamento.

— Anjo, você está cada vez mais aburguesado.

— Essa não, menino! Eu não sou comunista...


II

Do ferro de engomar, que se assoprava por trás, saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia no centro de mesa da sala de jantar. Não sei por que estou evocando todos esses pormenores — eles não levam a nenhum enredo notório, desculpem... Eu me aproximo como um gato, por trás.

III

O auto que passa e a vitrina da esquina trocam um duelo de reflexos.

IV

Escarrapachadas nas cadeiras da calçada, as comadres fazem trancinha. Nada lhes escapa. Nem um ponto. Mas para o menino quieto que ali se acha a tiracolo das tias o grande escândalo é a Lua, que acaba de surgir, à traição, enorme, sangrenta, assassina — ao contrário de tudo que se esperava dela —, logo ali entre as torres da igreja.

V

Noite alta um bêbado passa cantando a marchinha de um antigo carnaval. Tem uma voz de vidro moído. Uma voz aguda e esfarelada de velho.

VI

Um rodar, um estrépito de patas. Abafadamente. Mas já não se haviam sumido, há tempo, esses carros puxados a cavalo? Sia Carolina acorda e benze-se. É a Morte! É a Morte que passa, no seu carro fantasma, a visitar seus doentes.
Mário Quintana, "Caderno H"

Escritor é despejado em Nova York por guardar dez mil livros em casa

Para um jovem estudioso e escritor judeu chamado Mendel Uminer, os livros são a fonte do esclarecimento. Por isso, quando conseguiu um apartamento tipo estúdio a apenas um quarteirão do Central Park, no Upper East Side de Manhattan, há um ano, ele levou seus livros consigo — todos os dez mil exemplares. O que se seguiu, pelo menos por um breve período, foi uma vida encantadora em seu templo do conhecimento de 55 metros quadrados.

Ao seu redor, pilhas de obras sobre o judaísmo, cinema, ópera, peças de teatro e poesia — e Uminer dormia em um colchão no chão. Acordando por volta do meio-dia, passava as tardes em sua chaise longue, devorando obras e nutrindo a mente enquanto a cidade fervilhava lá fora.


Estou sempre lendo. Leio para extrair conhecimento. Preciso de cada livro que possuo. Minha biblioteca é meu manual de vida

Ele trabalhava como tradutor de hebraico freelance e usava o apartamento como sede de sua recém-criada revista literária, a Notarikon Review, organizando festas que ganharam fama entre certos círculos da cena literária de Nova York. E as pilhas continuavam a crescer.

— Não me considero um acumulador compulsivo, mas acho que o pessoal do meu prédio pensava diferente — disse.

No início do ano, ele recebeu uma notificação da administração do edifício: “Você está violando uma obrigação fundamental do seu contrato de locação. Você está mantendo o imóvel em um estado de excessiva desordem; permitindo o acúmulo excessivo de livros no local; e criando risco de incêndio devido ao acúmulo excessivo de livros inflamáveis no imóvel”, dizia.

— Eles alegavam que meus livros representavam risco de incêndio e eu teria de sair se não me livrasse deles — recordou Uminer.

Como não atendeu ao aviso, o processo de despejo foi iniciado.

— É, talvez eu seja um pouco diferente. E sei que minha biblioteca pode parecer exagerada para alguns. Mas não é tão exagerada quanto as pessoas imaginam. Em um lar rabínico, ninguém estranharia uma biblioteca como a minha. A leitura faz parte da minha cultura.

Criado em um enclave hassídico no Brooklyn, Uminer cresceu falando iídiche com os avós. Seu pai, Isaac, adorava estudar a Torá com ele. Mas o menino ansiava por literatura. Aos 12 anos, já lia Dostoiévski.

Na adolescência, Uminer frequentou um seminário rabínico, onde se dedicou aos estudos talmúdicos. As aulas começavam às 7h e terminavam com noites de debates acalorados com os rabinos, regados a vodca.

No início da casa dos 20 anos, passou a frequentar mais a livraria Strand do que os empórios de artigos judaicos do Brooklyn. Um ano antes de sua ordenação, abandonou o caminho que haviam traçado para ele.

— Decidi que deveria simplesmente fazer o que queria: ingressar na sociedade cultural liberal e moderna de Nova York.

Depois de guardar seu quipá, Uminer matriculou-se na Universidade de Columbia para estudar cinema e filosofia. Após se formar, aos 27 anos, conheceu uma jovem de Paris. Aventurou-se a ir para a cidade dela, onde o romance chegou ao fim.

— Lá havia as melhores revistas de política e publicações literárias. Paris me transformou — disse ele, que passava horas nas bancas de livros ao longo do rio Sena.

Lendo publicações como a Nouvelle Revue Française e a Connaissance des Arts, descobriu sua vocação:

— A escrita deles demonstra uma familiaridade com a controvérsia, uma precisão argumentativa e um senso de consciência histórica de que precisamos mais — disse ele.

De volta a Nova York, Uminer decidiu lançar sua própria publicação, a Notarikon Review, revista eclética que vai “publicar pessoas que não concordam em tudo”, como afirmou. Alguns dos escritores que ele recrutou são antigos adversários das redes sociais. A edição impressa está prevista para sair este ano.

Recentemente, Uminer esteve na livraria Mizrahi, no Brooklyn. Foi calorosamente saudado pelo proprietário, Israel Mizrahi.

— Acho que os judeus têm uma relação quase mística com os livros e o conhecimento. Estamos sempre revivendo nosso passado, cultivando uma sede de conhecimento; é por isso que um lar judaico precisa de uma biblioteca. Mas a curiosidade insaciável de Mendel se destaca entre todos os meus clientes.

O amigo estava a par do problema de Uminer com o apartamento:

— De todos os vícios, acho que os livros são os menos perigosos — disse Mizrahi.

Após meses de disputa jurídica, Uminer se resignou a deixar o imóvel:

— Não quero ficar aqui se não sou bem-vindo.

Amigos foram ajudar Uminer na mudança.

— Existe uma Nova York atual, voltada para o profissionalismo e a uniformidade, que olha para um sujeito como ele e acha que há algo de errado. Há um aspecto na cidade de hoje que é hostil à vida intelectual e à excentricidade que pode gerá-la — disse Julian Cosma, cineasta.

O apartamento pertence à Hakim Organization, empresa do magnata do setor imobiliário Kamran Hakim. A empresa e a administradora do prédio não responderam aos pedidos de entrevista.

segunda-feira, julho 13

Aconchego na biblioteca


 

Mário Quintana e sua admiradora

Recebi uma carta do padre-poeta Armindo Trevisan. Ele me conta uma coisa que Mário Quintana lhe contou. Era uma vez uma menininha de oito anos, “linda e inteligente” que queria conhecer a todo o custo o poeta Quintana. E tanto insistiu com sua professora, que esta resolveu pedir uma audiência a Mário. Este acedeu.

No dia marcado, lá se foram a professora e a menininha à redação do Correio do Povo onde Quintana trabalha. A menina viu o poeta, conheceu-o, falou com ele, ouviu-o falar.

Logo depois que partiram, a professora telefonou ao Quintana e perguntou-lhe se ela poderia dizer-lhe as impressões da sua jovem admiradora. Quintana respondeu que a opinião de uma criança, favorável ou desfavorável, sempre merecia acatamento. Então a professora disse:

– Meu caro poeta, a menininha disse: “Ele é tão bonito mas parece meio pateta.”

Bendita patetice de um dos poetas que mais admiro.

Padre Armindo, você permite que eu cite um trecho de sua carta em que sua humildade cristã de novo se revela? Permita, por favor. Eu gosto muito de você, por isso transcrevo o pequeno trecho. Você escreve: “Se me permite, rezarei por você; não deixe, oh não, de rezar por mim que sou bem pecador, e preciso das suas orações, sejam quais forem, porque tenho a secreta certeza de que você está mais próxima de Deus do que eu, apesar de ser travessa para com Ele, e parecer mandar brasa sobre muitas coisas sobre as quais eu não mando...”

Padre Armindo, são quatro horas da madrugada e é uma hora tão bela que todo o mundo que estiver acordado está de algum modo rezando. Rezo para que o mundo lhe seja sempre bonito de se olhar e de se sentir, rezo para que você goste da comida que come, rezo para você sempre fazer poesia, fazer poesia é em si mesmo uma salvação.

É preciso que você reze por mim. Ando desnorteada, sem compreender o que me acontece e sobretudo o que não me acontece.

Clarice Lispector, "Todas as crônicas"

Casa em ruínas

O xisto das paredes acolheu
os poucos desejos. O telhado
cortou os grandes frios da geada,
desviou a chuva das enxergas.
Pelos postigos entrou alguma luz.
Rezou-se e morreu-se nessa casa.

Hoje as paredes vão-se aos poucos derruindo:
aproximam-se do chão de que nasceram.
Como se se executasse nela
um antigo memento: quia petra es
et in petram reverteris
.

Há muito que o vento derrubou
a derradeira telha. Caíram de podres
as vigas do telhado, e há já alguns invernos
que deram achas para arder no lume.
Quase não há vestígios de postigos –
salvo uma floreira que parece ali
um capricho escarninho.

Cumpriu-se na casa um ciclo.
Hoje não tem serventia,
salvo para alguns animais furtivos
que a ocupam e lhe pedem afinal
as mesmas funções simples
que aquele que a edificou pediu outrora.

Na sua decadência persistente,
a casa mete pena, como todos
os sonhos que algum dia floresceram
e depois se foram esfarelando.

Está visto: as casas não têm
a mesma estouvada vocação
de eternidade
que atormenta os seus donos.

A. M. Pires Cabral

A palavra

… Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam … Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as … Amo tanto as palavras … As inesperadas … As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem … Vocábulos amados … Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho … Persigo algumas palavras … São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema … Agarro-as no voo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas … E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as … Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda … Tudo está na palavra … Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu … Têm sombra, transparência, peso, plumas, pelos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes … São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada … Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos … Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais, se viu no mundo … Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas… Por onde passavam a terra ficava arrasada… Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes… o idioma. Saímos perdendo… Saímos ganhando… Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras.
Pablo Neruda, “Confesso que vivi“