domingo, julho 12

No balanço da leitura


Em legítima defesa

Certo fidalgo, senhor de uma avultada fortuna, casou com uma dama, também de bons cabedais, de quem teve um filho e uma filha apenas, após o que anos passados, ela se finou. Em breve contraiu segundas núpcias; e a segunda esposa, posto que de mais baixa condição e menores haveres que a primeira, tomou a peito aborrecer e maltratar os filhos que ele tivera da outra mulher, o que fez a desarmonia da família, tanto no que respeita às crianças como no que toca ao próprio pai.

O primeiro resultado de tal comportamento da madrasta no seio da família foi o filho, mal começou a sentir-se homem, ter pedido ao pai que o deixasse viajar por terras estranhas. A madrasta, conquanto desejasse ver-se livre dele, como ele precisava de uma soma considerável para se manter no estrangeiro, opôs-se violentamente, fazendo com que o pai o não deixasse partir, depois de lhe ter dado autorização para isso.


Tão arreliado ficou o rapaz que, depois de haver renovado o seu pedido ao pai, com todo o respeito, quer diretamente quer por intermédio de alguns parentes, sem ter conseguido o seu intento, encorajado algum tanto por um tio, irmão da sua mãe, primeira mulher do pai, resolveu partir de casa sem licença; e se assim o pensou melhor o fez.

Por que parte do mundo viajou não me lembro; parece que o pai se manteve em contacto com ele por algum tempo e em condições de lhe fazer chegar às mãos uma razoável pensão, para sua mantença, a qual o rapaz mandava receber por meio de cartas de crédito, regularmente pagas; mas, algum tempo depois, governando a casa a madrasta, uma dessas cartas foi recusada e, depois de protestada, devolvida sem aceite; após o que, não mandou mais nenhuma nem nunca mais escreveu, e o pai nunca mais ouviu falar dele durante quatro anos, pouco mais ou menos.

Desse longo silêncio tirou a madrasta vários benefícios; primeiro começou por querer convencer o marido de que, tendo o rapaz necessariamente morrido, os bens dele deviam ser dispostos a favor do mais velho dos filhos dela (pois ela tinha vários filhos). O pai opôs-se firmemente a essa proposta, mas a mulher continuou a acossá-lo com importunações; e eram dois os argumentos contra ele, isto é, como quem diz, contra o filho.

Primeiro, se ele tivesse morrido, não havia lugar para objeções, pois o filho dela era o herdeiro legítimo.

Segundo, se ele não tivesse morrido, o seu comportamento para com o pai, a quem não escrevia há muito, era indesculpável, e este devia estar ressentido com isso, e proceder como se o filho tivesse morrido: que nada tão legitimamente o podia desobrigar e que, portanto, ele, seu pai, devia proceder como se ele, seu filho, fosse morto, e tratá-lo em conformidade, porque quem procedia assim para com o próprio pai como morto devia ser considerado quanto às suas relações filiais e ser tratado como merecia.

O pai, no entanto, opôs-se por muito tempo, alegando não poder decidir em consciência; que muita coisa podia ter acontecido no mundo que impedisse o filho de escrever; que podia ter sido feito prisioneiro dos turcos e levado como cativo; que podia achar-se entre os persas ou os árabes (o que parecia ser o caso) e assim não poder enviar novas suas, e que não se conformaria em deserdá-lo antes de verificar se tinha ou não razão para o fazer ou se o filho o tinha ou não ofendido.

Esta resposta, conquanto justa, estava longe de calar as queixas da mulher, queixas tamanhas que não dava descanso ao marido, fazendo a inquietação de toda a família; causava um grande mal estar e, numa palavra, compelia os filhos a fazerem o mesmo; e o fidalgo via-se tão consumido que uma ou duas vezes esteve a ponto de anuir, mas o coração repontou e ele voltou atrás com a sua palavra, recusando.

Como quer que fosse, o fato de o ter levado tão longe, constituiu um encorajamento para ela prosseguir com as suas impaciências e solicitações. Por fim, ele acabou por aceitar um ajuste provisório, pelo qual, se não ouvisse falar do filho durante um certo lapso de tempo, consentiria numa nova distribuição dos bens.

A mulher não ficou satisfeita com este ajuste condicional, mas, vendo-se incapaz de obter qualquer outro, sentiu-se forçada a aceitá-lo tal como ele se lhe apresentava; como muitas vezes lhe disse, estava, no entanto, pouco satisfeita com o prazo por ele fixado em quatro anos, como atrás ficou dito.

De tanto ouvir falar na mesma coisa, ele acabou por se enfurecer, respondendo que ela se devia dar por muito satisfeita, pois o tempo era escasso em relação às circunstâncias em que o filho se podia encontrar.

O certo é que ela tanto o atormentou que acabou por persuadi-lo a reduzir o prazo para um ano; mas, antes de tal consentir, disse-lhe, um dia, num ataque de cólera, que esperava, mais tarde ou mais cedo, que o espectro do filho lhe aparecesse a ele e lhe dissesse que estava morto e que convinha que ele fizesse justiça aos seus demais filhos, pois ele nunca mais voltaria para reclamar os seus bens.

Quando, por fim, ele acabou, contra vontade, por consentir na redução do prazo para um ano, disse-lhe esperar que o espectro do filho, posto que o não tivesse por morto, lhe aparecesse a ela, e lhe dissesse estar vivo, antes de o prazo findar.

“Por que não hão-de as almas injuriadas dos vivos,” disse ele, “andar por esse mundo como as dos mortos?”.

Aconteceu que uma tarde, depois disto, estando numa áspera quezília por causa do mesmo assunto, certa mão surgiu, subitamente, num postigo, como se tentasse abri-lo. Como todos os postigos de ferro usados nesse tempo abrissem para fora, embora se fechassem e prendessem por dentro, a mão parecia procurar, debalde, abrir o postigo. O fidalgo não deu por isso, mas a mulher, que viu, ergueu-se repentinamente, como que assustada e, esquecendo a briga, levantou as mãos para o céu.

“Valha-me Deus!” disse ela. “Há ladrões no jardim.”

O marido correu imediatamente para a porta da sala onde se encontravam e, abrindo-a, espreitou para fora.

“Não está ninguém no jardim,” disse ele; dizendo o que, fechou de novo a porta e voltou para o seu lugar.

“Tenho a certeza,” replicou ela, “que vi um homem ali.

— Então, era o diabo,” disse ele, “pois estou certo de que não há ninguém no jardim.

— Eu ia jurar,” tornou ela, “que vi um homem meter a mão para abrir o postigo, mas, achando-o preso, e, suponho eu,” acrescentou, “vendo-nos aqui, fugiu.

— É impossível ter fugido,” replicou ele, “não corri eu para a porta imediatamente? Além disso, sabes bem que os muros que cercam o jardim não o deixavam fugir.

— Suplico-te,” exclamou ela colericamente, “não estou embriagada nem muito menos a sonhar, sei muito bem reconhecer um homem, e não estava escuro, o sol ainda não se pôs de todo.

— Estás apenas assustada com alguma sombra,” disse ele (e cheio de maldade) “coisas destas só costumam acontecer às pessoas que não têm a consciência tranquila; quem sabe se era o diabo.

— Não, não!… Eu não me assusto facilmente,” disse ela, “se era o diabo, era o diabo no espectro do teu filho, que deve ter vindo dizer-te que está no inferno e por isso deves dar os teus bens ao mais velho dos teus filhos bastardos, já que desprezas o legítimo herdeiro.

— Se fosse o meu filho,” disse ele, “é que vinha dizer-nos estar vivo, isso te garanto eu, e perguntar como podes ser tão diabólica que o queiras deserdar;” e dizendo isto: “Alexandre!” exclamou em voz alta, por duas vezes, erguendo-se impetuosamente da cadeira, “se estás vivo, aparece, e faz com que eu deixe de ser insultado todos os dias por causa da tua morte.”

Estas palavras não eram ditas quando o postigo onde a dama tinha visto a mão se abriu por si mesmo e Alexandre em pessoa, fitando a mãe com um irado semblante, gritou:

“Estou aqui!… ” desaparecendo no mesmo momento.

A dama, até aí tão senhora de si, soltou um espantoso grito que alarmou toda a casa; a criada dela correu à sala para ver o que tinha acontecido, mas a ama tombara desmaiada num cadeirão.

Não caíra por terra, porque, estando ali uma grande cadeira, se apoiara a um dos braços dela, onde imediatamente a ampararam; só muito depois, no entanto, recuperou os sentidos.

O marido tinha corrido imediatamente para a porta do salão, e, abrindo-a, saiu para o jardim, onde não viu ninguém; depois dirigiu-se a outra porta praticada diretamente sobre o jardim e em seguida a outras duas que conduziam para fora dele, uma ao pátio da cavalariça e outra ao campo que se estendia para além da cerca; todas estavam bem fechadas e trancadas; vendo a um canto o jardineiro em companhia de um rapaz que arrastava um cilindro de pedra, perguntou-lhes se ninguém ali tinha estado, ao que eles responderam muitas vezes que não, que só eles ali se encontravam, cilindrando o passeio junto da casa.

Depois disso, voltou para dentro, sentou-se outra vez, e não disse palavra por muito tempo; as mulheres e os criados andavam numa azafama, fazendo quanto podiam para reanimar a senhora

Algum tempo depois, ela veio a si o bastante para poder falar; e as primeiras palavras que proferiu foram:

“Va… lha-me Deus! Que foi isto?

— Nada,” disse o marido. “Naturalmente foi o Alexandre.

Ao ouvir isto, acometeu-a um ataque e pôs-se a soltar gritos e ais cada vez mais medonhos.

O marido, sem saber que é que a tinha levado àquilo, procurou aplaca-la, dizendo-lhe que não era nada; mas nada conseguiu, tendo-se visto obrigado a conduzi-la à cama e a mandar chamar o físico; durante alguns dias esteve muito mal.

Fosse como fosse, graças a isto, durante um certo tempo, não voltou a referir-se a conveniência de deserdar o enteado.

Mas o tempo, que endurece o espírito em coisas ainda piores, foi lentamente consumindo a lembrança do ocorrido, e ela acabou por fazer reviver a mesma questão outra vez, posto que, de princípio, com menos ardor do que antes.

No entanto, o marido usou para com ela de uma certa má vontade também, e sempre que a questão vinha à baila, tapava-lhe a boca ou dizia-lhe que, se ela pronunciasse mais alguma palavra sobre o caso, ele pediria outra vez ao Alexandre que abrisse o postigo.

Isto agravou muito as coisas; e, se é certo tê-la atemorizado durante algum tempo, a verdade é que, por fim, o exaspero dela era tamanho que lhe disse estar certa de que ele tinha pacto com o diabo, a quem se vendera apenas com o intuito de lhe meter medo.

O marido pôs-se a brincar com ela, dizendo que qualquer esposo se sentiria grato para com o diabo que lhe calasse a mulher turbulenta e que se considerava muito feliz por ter encontrado maneira de o conseguir, embora isso lhe custasse.

Tão exasperada ela ficou que o ameaçou, caso voltasse a fazer uso das suas artes diabólicas, de o denunciar como feiticeiro e homem de tratos com o demônio; coisa bem fácil de provar, disse, pois a verdade é que ele tinha conjurado o diabo de propósito para a intimidar.

A disputa acabou nessa noite com palavras ruins e explosões de mau gênio, mas ele nunca pensou que a mulher pusesse em prática a sua ameaça: de modo que, no dia seguinte, tudo esquecera e estava de tão bom humor como se nada tivesse ocorrido.

A mulher, porém, apareceu-lhe pesarosa e mui atormentada, toda ressentida, ameaçando-o com o que resolvera fazer.

Como quer que fosse, ele pouco pensou que ela tentasse pôr em prática a maldade que tinha em mente, e propôs-lhe conversarem amistosamente; ela, todavia, repeliu-o com desdém, dizendo estar disposta a levar por diante o que dissera, pois não queria viver com um homem que mandava o diabo entrar em sua própria casa, sempre que lhe apetecia, com intenção de a matar.

O marido procurou apaziguá-la com boas palavras, replicando-lhe a ela falar sério; numa palavra, o caso tornou-se grave, pois a verdade é que a dama se dirigiu à justiça, onde declarou, sob juramento, que o marido tinha pacto com o demônio e que a vida dela corria perigo, obtendo assim um mandato de captura contra ele.

Resumindo: trouxe para casa a dita ordem de captura, mostrou-a ao marido, e disse-lhe que a não tinha confiado à autoridade por lhe querer conceder a liberdade de se apresentar voluntariamente ao juiz de paz, esperando que lhe participasse quando estava pronto para isso, pois ela o estava também, tendo tenção de pedir a alguns amigos seus que a acompanhassem.

Grande foi a surpresa dele, pois nunca pensara que ela tivesse falado a sério, e pôs-se a apaziguá-la o melhor que sabia; mas ela viu que o tinha assustado deveras, o que era verdade, pois, posto que aquilo nada tivesse em si de condenável, era óbvio que seria um escândalo, e contrariava-o a ideia de se dar em espectáculo; eis por que usou para com ela de todos os rogos de que era capaz, pedindo-lhe que não fizesse tal coisa.

Quanto mais ele se humilhava, porém, maior era o triunfo dela. A insolência foi tanta que, por ela lhe disse que justiça seria feita, como o advertira, que era certa de o fazer castigar se continuasse obstinado e que não estava disposta sujeitar-se a encantamentos e feitiçarias, pois a verdade era ignorar até onde ele seria capaz ir.

Para abreviar a história: tão grande ascendente ganhou sobre ele, que o marido acabou por propor que o caso fosse presente a pessoas imparciais, amigos das duas partes, os quais, convocados umas poucas de vezes, nunca chegaram a qualquer conclusão. Os amigos dele diziam que aquilo não tinha importância e que ele não devia intimidar-se; o acto de ele chamar pelo filho e alguém abrir o postigo e gritar: “Estou aqui”, não era prova de feitiçaria e insistiam em que ela nada podia fazer contra ele.

Os amigos dela comportavam-se altivamente, por ela instigados; alegando que ela estava pronta a jurar que ele a tinha ameaçado com o fantasma do filho; porque ele fizera aparecer um espectro, chamando pelo rapaz, evidentemente já falecido, e o fantasma aparecera imediatamente; que ele não poderia ter pedido ao diabo que lhe apresentasse o filho se ele próprio não tivesse pacto com o demônio e se não falasse com os espíritos, e que isto era de graves consequências para ela.

Perante tudo isto, o fidalgo carecia de coragem para resistir, sendo grande o seu receio de um escândalo: eis por que parecia dolorosamente perplexo, sem saber que fazer.

Quando ela percebeu que ele já estava suficientemente humilde, disse-lhe que, se lhe queria fazer justiça (como quem diz, dispor da herança a favor do filho dela), ela estava pronta a renunciar a tudo o mais, com a condição de ele lhe prometer não a tornar a assustar com o diabo.

Esta parte da proposta exasperou-o de novo, e lançou-lhe em rosto que aquilo não passava de uma calúnia, que estava pronto a afrontá-la e que ela podia provocar a sua própria desgraça.

Assim quebrou o acordo e ela outra vez o começou a ameaçar. Como quer que fosse, persuadiu-o, finalmente, a condescender, entregando-lhe ele um documento escrito pelo seu próprio punho, feito na presença de alguns amigos dela, no qual prometia cumprir o desejo da mulher, se o filho não chegasse nem desse novas dentro de quatro meses.

A dama ficou satisfeita com isto e voltaram a ser amigos como dantes, tendo-lhe ele confiado o dito documento; mas, quando lho entregou, na presença de duas testemunhas, tomou a liberdade de lhe dizer, numa espécie de discurso, grave e solene:

“Escuta,” disse ele, “tanto me atormentaste com o teu impaciente gênio que fizeste com que eu assinasse este contrato contrário à justiça, à moral, e à razão; no entanto, embora dependente dele, estou certo de que nunca o executarei.”

Uma das testemunhas disse:

“Porquê, senhor? Então isto não serve para nada. Se estais resolvido a não cumprir o contrato, para que o assinais? Para que prometeis o que não tendes a intenção de fazer? Isto apenas servirá para acender nova disputa quando o prazo expirar.

— Porque, no meu foro íntimo,” disse ele, “estou convencido de que o meu filho está vivo.

— Vamos, vamos,” disse a mulher para o fidalgo que discutia com o marido, “deixai-o assinar o contrato e eu me encarregarei de o obrigar a cumpri-lo.

— Está bem,” disse o marido, “terás o contrato, mas depois hás-de me deixar em paz: estou convencido de que nunca me pedirás para o cumprir; e, no entanto, não sou um feiticeiro,” acrescentou ele, “como tu maldosamente insinuaste.”

A dama replicou que podia provar que ele tinha pacto com o diabo, pois bastava que chamasse pelo nome do filho para surgir uma alma penada: e pôs-se a contar a história da mão e do postigo.

“Vamos,” disse o fidalgo para o amigo, “dai-me a pena: em toda a minha vida nunca tive pactos senão com um diabo, e esse diabo está aqui sentado,” virando-se para a mulher; “e acabo de fechar com ela um contrato que mulher alguma, a não ser o diabo, seria capaz de obrigar o próprio marido a assinar, e eu assino-o. Mas também vos garanto, dai-me a pena, que nem ela nem todos os diabos do inferno serão capazes de mo fazer cumprir; lembrai-vos do que vos acabo de dizer.”

Ela começou a protestar, preparando-se uma nova disputa, mas os fidalgos entrepuseram-se e o marido, assinando o escrito, pôs fim à quezília por aquela vez.

Ao fim dos quatro meses, ela exigiu o cumprimento do contrato, tendo sido designado um dia para isso, e os dois amigos que tinham servido de testemunhas foram convidados para jantar nessa ocasião, crendo que o marido cumpriria as cláusulas do contrato; e, de acordo com isso, os escritos foram todos apresentados e lidos por inteiro, bem como alguns velhos contratos, assinados no acto do casamento pelos curadores, que foram exibidos para serem cancelados de maneira a ela ficar quite na mesma parte da herança, no que dizia respeito ao filho. O marido foi convidado ou por modos pacíficos ou à força, talvez por estar de humor, antes por modos pacíficos, a executar as cláusulas do contrato, deserdando o filho, sendo-lhe dito que, se na verdade ele tivesse morrido, isso não o prejudicaria, e, se estivesse vivo, o fato de lhe não dar novas suas por um tão longo espaço de tempo era prova de desobediência e grossaria.

Além disso, alegaram que, se ele viesse a aparecer depois disto, o pai (cuja riqueza muito tinha prosperado) podia dar-lhe outros bens como justa satisfação pela perda que ele teria de sofrer na parte dos bens paternos.

Perante tais considerações, o pobre pusilânime marido estava quási a anuir, ou, pelo menos, quer tivesse anuído ou não, as coisas iam-se fazer de acordo com o que tinha sido causa daquela reunião.

Quando acabaram de discorrer acerca de todas estas particularidades e, como acima ficou dito, lidas as novas cláusulas, ela ou o marido pegou nos velhos documentos para os cancelar; creio que a história diz que, indo a mulher, não o marido, rasgar os selos, se ouviu, subitamente, um ruído no salão onde estavam, exatamente como se alguém tivesse penetrado pela porta que comunicava com o átrio e entrasse na sala, a caminho da porta do jardim, que estava fechada.

Todos se mostraram surpreendidos, pois isto foi perfeitamente notório, mas nada viram. A dama empalideceu, cheia de pavor; no entanto, como nada descortinara, reanimou-se um pouco, mas para começar, de novo, a implicar com o marido.

— Quê?” disse ela. “Tramaste nova conspiração para que os diabos tornassem a aparecer?”

O marido permaneceu sereno, posto que, no seu foro íntimo, não pouco surpreendido também.

Um dos dois fidalgos disse-lhe:

“Que quer isto dizer?

— Garanto-vos, senhor,” disse ele, “que sei tanto do que se trata como vós.

“Então, que será?” disse o outro fidalgo.

“Não faço a mais pequena ideia,” replicou o marido. “Não percebo absolutamente nada destas coisas.

— Não ouvistes dizer nada do vosso filho?” perguntou o fidalgo.

“Nem uma só palavra,” respondeu o pai; “não, nem a mais pequena palavra durante estes últimos cinco anos.

— Haveis-lhe mandado dizer alguma coisa,” voltou o fidalgo, “acerca deste contrato?

— Nem uma palavra,” disse ele; “não sabia para onde escrever-lhe.

— Senhor,” disse o fidalgo, “tenho ouvido falar muito de aparições, mas nunca vi nenhuma na minha vida nem nunca acreditei que houvesse qualquer verdade nisso; com efeito, contínuo sem nada ver agora mesmo; mas não há dúvida de que passou algum corpo, algum espírito ou coisa que o valha por esta sala: ouvi distintamente. Estou certo de que há aqui qualquer coisa invisível, tão certo como se a visse.

— Ainda mais,” disse a outra testemunha, “eu senti o ar deslocar-se quando passou por mim. Dizei-me, peço-vos,” disse ele, voltando-se para o marido, “estais vendo alguma coisa?

— Não, pela minha honra,” replicou ele, “absolutamente nada.

— Contaram-me,” disse a primeira testemunha “e li algures que uma aparição pode ser visível para umas pessoas e invisível para outras, embora todas juntas na mesma sala”.

Como quer que fosse, o marido protestou solenemente, perante todos os presentes, que nada tinha visto.

“Peço-vos, senhor,” disse a primeira testemunha, “haveis visto alguma coisa já noutra ocasião, haveis ouvido ruídos ou vozes ou haveis tido algum sonho acerca disto?

— É certo,” disse ele, “que tenho sonhado muitas vezes que meu filho está vivo e que falo com ele, e uma vez que lhe perguntei por que era tão desobediente e me desprezava tanto que me deixasse sem notícias durante tanto tempo, sabendo, como sabia, que eu o podia deserdar.

— Muito bem, e que respondeu ele?

— Nunca os meus sonhos duraram tanto que ele me pudesse responder; acabei sempre por acordar.

— E que pensais de tudo isso?” disse a testemunha; “pensais que ele tenha morrido?

— Não, nunca,” disse o pai, “penso, no fundo da minha consciência, que ele está vivo, tão vivo como eu próprio, e eis-me prestes a praticar um acto tão iníquo como homem algum ainda praticou.

— Na verdade,” disse a segunda testemunha “isto principia a incomodar-me; não sei que hei-de pensar destas coisas; não me quero intrometer mais neste assunto, pois me desagrada compelir um homem a praticar um acto contrário à sua consciência”.

Ao ouvir isto, a mulher, que, como eu disse, se reanimara algum tanto e se sentia particularmente animada por nada ter visto, ergueu-se repentinamente.

“A que propósito vêm todos estes discursos?” disse ela. “Pois ainda não está tudo regularizado? Que é que nós aqui viemos fazer?

— Além disso,” disse a primeira testemunha, “penso que não nos encontramos aqui para discutir o que se passa, mas para dar cumprimento às cláusulas do contrato. Por que estamos nós assustados?

— Não estou assustada,” disse a mulher. “Eu não; vamos,” disse ela para o marido, altivamente “assina o documento; era capaz de cancelar as escrituras antigas, mesmo que estivessem quarenta diabos dentro da sala.” E, dizendo isto, pegou num dos documentos, pronta a rasgar o selo.

Naquele instante o tal postigo abriu-se de novo, posto que estivesse fechado por dentro, exatamente como da outra vez, e viu-se a sombra de um corpo, que parecia estar fora no jardim, com a cabeça metida no postigo, o rosto voltado para a sala, fitando diretamente a dama, com um severo e irado semblante.

“Alto!” disse o espectro, como se se dirigisse a ela, e imediatamente o postigo se fechou, desaparecendo o fantasma.

Impossível descrever o estado de desalento em que esta segunda aparição lançou toda aquela gente; a dama, que até aí se tinha mostrado tão corajosa, capaz de rasgar os selos, mesmo que quarenta demônios entrassem na sala, soltou um grito semelhante ao de uma mulher com um ataque, deixando cair os documentos das mãos; as duas testemunhas estavam extraordinariamente assustadas, embora não tanto como os demais; mas uma delas pegou na sentença que ambas tinham assinado e onde o marido era compelido a cumprir o contrato dispondo dos bens do filho.

“Atrevo-me a afirmar,” disse ele, “quer se trate de um bom quer de um mau espírito, que é seu desejo que isto não se cancele;” não dito o que, riscou o nome da sentença, no que foi seguido pela outra testemunha, e ambas se ergueram dos seus lugares dizendo que nada mais tinham a fazer ali.

O mais inesperado de tudo, porém, foi o próprio marido ter desfalecido de susto, não obstante tudo ser a seu favor, como era evidente.

Isto pôs ponto final a toda aquela questão, não só naquele momento, mas para sempre, como depois vim a saber.

A história tem muitas outras particularidades, longas de mais para que eu vos enfade com elas: mas duas há que não posso omitir, a saber:

1) Que dentro de cinco meses, pouco mais ou menos, a contar desta segunda aparição, o rapaz voltou das índias Orientais, para onde embarcara em Lisboa, num navio português, havia quatro anos.

2) Que tendo sido particularmente interrogado acerca de todas estas coisas e em especial sobre se tivera tido algum conhecimento delas, ou se alguma aparição, vozes, ou qualquer intimação lhe tinham dado a conhecer o que ocorrera em Inglaterra, ele afirmou repetidamente que de nada tivera notícia, salvo uma vez ter sonhado que o pai lhe escrevera uma carta colérica, ameaçando-o, caso não voltasse para casa, de deserda-lo, não lhe deixando um único xelim. Mas acrescentava que nunca tinha recebido em sua vida carta alguma do pai ou de qualquer outra pessoa.
Daniel Defoe

Despedidas

Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!

Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam já não mentem.
Affonso Romano de Sant’Anna

No mistério da noite

Mas à noite cavalos liberados das cargas e conduzidos à ervagem galopavam finos e soltos no escuro. Potros, rocins, alazões, longas éguas, cascos duros – de repente uma cabeça fria e escura de cavalo! – os cascos batendo, focinhos espumantes erguendo-se para o ar em ira e murmúrio. E às vezes uma longa respiração esfriava as ervas em tremor. Então o baio se adiantava. Andava de lado, a cabeça encurvada até o peito, cadenciado. Os outros assistiam sem olhar. Ouvindo o rumor dos cavalos, eu adivinhava os cascos secos avançando até estacarem no ponto mais alto da colina. E a cabeça a dominar a cidadezinha, lançando o longo relincho. O medo me tomava nas trevas do quarto, o terror de um rei, eu quereria responder com as gengivas à mostra em relincho. Na inveja do desejo meu rosto adquiria a nobreza inquieta de uma cabeça de cavalo. Cansada, jubilante, escutando o trote sonâmbulo. Mal eu saísse do quarto minha forma iria se avolumando e apurando, e, quando chegasse à rua, já estaria a galopar com patas sensíveis, os cascos escorregando nos últimos degraus da escada da casa. Da calçada deserta eu olharia: um canto e outro. E veria as coisas como um cavalo as vê. Essa era a minha vontade. Da casa eu procurava ao menos escutar o morro de pastagem onde nas trevas cavalos sem nome galopavam retornados ao estado de caça e guerra.

As bestas não abandonavam sua vida secreta que se processa durante a noite. E se no meio da ronda selvagem aparecia um potro branco – era um assombro no escuro. Todos estacavam. O cavalo prodigioso aparecia, era aparição. Mostrava-se empinado um instante. Imóveis os animais aguardavam sem se espiar. Mas um deles batia o casco – e a breve pancada quebrava a vigília: fustigados moviam-se de súbito álacres, entrecruzando-se sem jamais se esbarrarem e entre eles se perdia o cavalo branco. Até que um relincho de súbita cólera os advertia – por um segundo atentos, logo se espalhavam de novo em nova composição de trote, o dorso sem cavaleiros, os pescoços abaixados até o focinho tocar no peito. Eriçadas as crinas. Eles cadenciados, incultos.

Noite alta – enquanto os homens dormiam – vinha encontrá-los imóveis nas trevas. Estáveis e sem peso. Lá estavam eles invisíveis, respirando. Aguardando com a inteligência curta. Embaixo, na cidadezinha adormecida, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Além da ferrovia um rato pronto a fugir. Então o tordilho batia a pata. Não tinha boca para falar mas dava o pequeno sinal que se manifestava de espaço a espaço na escuridão. Eles espiavam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado – nada precisava ser visto de frente por eles, e essa era a grande noite. Os flancos de uma égua percorridos por rápida contração. Nos silêncios da noite a égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade. O potro mais inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silêncio total.

Até que a frágil luminosidade da madrugada os revelava. Estavam separados, de pé sobre a colina. Exaustos, frescos. Tinham passado no escuro pelo mistério da natureza dos entes.
Clarice Lispector, "Todos os Contos"

O relógio

Os chineses veem a hora no olho dos gatos.

Um dia um missionário, passeando nos subúrbios de Nanquim, percebeu que havia esquecido seu relógio e perguntou a hora a um garoto.

O menino do Império celeste primeiro hesitou; depois, mudando de ideia, respondeu: “Vou dizer-lhe”. Poucos instantes depois reapareceu, tendo nos braços um gato muito gordo, e, olhando-o, como se diz, no branco dos olhos, afirmou sem hesitar: “Ainda não é exatamente meio-dia”. O que era verdade.

Quanto a mim, se me inclino para a bela Féline, cujo nome lhe cabe tão bem, e que é ao mesmo tempo honra de seu sexo, orgulho de meu coração e perfume de meu espírito, seja de noite, seja de dia, na luz plena ou na escuridão opaca, no fundo de seus olhos adoráveis sempre vejo a hora com clareza, sempre a mesma, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisões de minutos nem de segundos — uma hora imóvel que não é marcada nos relógios, e todavia leve como um suspiro, rápida como uma espiadela.

E se alguém importuno viesse incomodar-me enquanto meu olhar repousa nesse delicioso quadrante, se algum Gênio desonesto e intolerante, algum Demônio do contratempo viesse dizer-me: “O que você está olhando aí com tanta atenção? O que você procura nos olhos dessa criatura? Mortal pródigo e preguiçoso, você está vendo a hora?”, eu responderia sem hesitar: “Sim, estou vendo a hora; é a Eternidade!”. Não lhe parece, senhora, que este é um madrigal verdadeiramente meritório, e tão enfático quanto a senhora mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esse pretensioso galanteio, que não lhe pedirei nada em troca.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"

Um amigo em talas

O meu antigo companheiro de pensão Amadeu Amaral Júnior, um homem louro e fornido, tinha costumes singulares que espantavam os outros hóspedes.

Para falar com propriedade, aquilo não era exatamente pensão, mas isto não tem importância: com um pouco de esforço podíamos admitir que estávamos numa pensão de gente bem comportada. Bocejávamos em demasia, contávamos as pessoas que subiam ou desciam um morro próximo, dormíamos cedo e recebíamos com regularidade a visita do gerente do estabelecimento, o major Nunes, ótima criatura que deixou o cargo por lhe faltar o espírito do negócio.

Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinqüenta, que projetou meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente daquela e pagar ao barbeiro.

Mudamo-nos, separamo-nos, perdemo-nos de vista. Creio que os artigos de psicologia não foram publicados, pois há tempo li este anúncio num semanário: “Intelectual desempregado. Amadeu Amaral Júnior, em estado de desemprego, aceita esmolas, donativos, roupa velha, pão dormido. Também aceita trabalho”.

O anúncio não produziu nenhum efeito, é o que meses depois, nos declara Amadeu Amaral Júnior: “Minha situação continua preta. Reitero o apelo às almas bem formadas: deem de comer a quem tem fome, uma fome atávica, milenária. Deem-me trabalho.” E, catalogando as suas habilidades: “Escrevo poesias, crônicas, contos (policiais, psicológicos, de aventura, de terror, de mistério), novelas, discursos, conferências. Sei inglês, francês, italiano, espanhol e um bocado de alemão. Deem-me trabalho pelo amor de Deus ou do diabo.”

De literato brasileiro não conheço página mais sincera e razoável que essa. Ao ler o pedido de roupa velha e pão duro, fiquei meio escandalizado, mas refletindo, confessei publicamente que o meu velho companheiro procedia com acerto. E agora, completamente solidário com ele, admiro a exposição que nos faz das suas aptidões e lamento que não as utilizem.

É evidente que Amadeu Amaral Júnior conhece bem o nosso mercado literário e apregoa as mercadorias mais próprias para o consumo: discursos, contos policiais, de aventura, de terror e de mistério. Julgo que vive sem ocupação por não haver falado antes nisso.

O meio cento de artigos redigidos naquelas noites de insônia encalhou certamente na redação, preterido pelas novelas de arrepiar cabelos. Indignado, Amadeu Amaral Júnior oferece de novo os seus préstimos ao editor, afirmando que também sabe compor histórias policiais, de aventura, de terror e de mistério, que arrancam lágrimas e se vendem regularmente.

A maneira como pede trabalho, pelo amor de Deus ou do diabo, revela que o escritor está impaciente e talvez não escrupulize em pôr a sua pena a serviço de qualquer dessas duas entidades, o que não admira, pois Amadeu é jornalista.

Muita gente se espanta com o procedimento desse amigo. Não sei por quê. Os fabricantes anunciam os seus produtos e os sujeitos desempregados costumam, desde que há jornais, dizer neles para que servem. Por que apenas o articulista, precisamente o indivíduo capaz de arrumar umas linhas com decência, deve calar-se e roer chifres?

Eu por mim acho que Amadeu Amaral Júnior andou muito bem. Todos os jornalistas necessitados deviam seguir o exemplo dele. O anúncio, pois não. E, em duros casos, a propaganda oral, numa esquina, aos gritos. Exatamente como quem vende pomada para calos.
Graciliano Ramos

sábado, julho 11

Cheirinho bom!

 


Entardeceres

A clara profusão de um poente
enalteceu a rua,
a rua aberta como um vasto sonho
para qualquer acaso.
O límpido arvoredo
perde o último pássaro, o ouro último.
A mão andrajosa de um mendigo
agrava a tristeza dessa tarde.

O silêncio que mora nos espelhos
forçou seu cárcere.
A escuridão é o sangue
das coisas feridas.
No ocaso incerto
a tarde mutilada
foi umas pobres cores.
Jorge Luís Borges

O expresso das cinco horas

No verão de 1903, Iúri viajava pelos campos, com o tio, em uma carroça. Iam para Duplianka, propriedade do fabricante de tecidos de seda e grande patrono das artes, Kologrivov. O objetivo da viagem era encontrar-se com o pedagogo e divulgador de conhecimentos úteis, Ivan Ivanovitch Voskoboinikov.

Era época da Kazanskaia e a colheita estava no auge. Em razão da hora do almoço ou da festa nos campos não se encontrava vivalma. O sol queimava faixas de terra não ceifadas, que pareciam nucas raspadas de presos. Sobre os campos os pássaros voavam em círculo. Com as espigas inclinadas, o trigo esticava-se como uma corda pela total ausência de vento ou erguia-se em cruzetas longe da estrada, de onde, ante o olhar atento, assumia uma aparência de figuras móveis, como se fossem agrimensores que andavam ao longo do horizonte anotando algo.

— E esses? — perguntava Nikolai Nikolaievitch a Pavel, um trabalhador braçal e vigia da editora de livros, que estava sentado de lado no banco, encurvado e com as pernas cruzadas, atitude que demonstrava bem que não era um cocheiro autêntico e que estava guiando apenas para fazer um favor.

 — Esses são do dono ou dos camponeses?

— Esses são do dono — respondia Pavel, tentando acender um cigarro —, agora aqueles — conseguindo se livrar do fogo e dar uma tragada, apontava ele, após uma longa pausa, com a ponta do chicote virada para o outro lado —, aqueles são nossos. Ah, dormiram? — gritava ele vez por outra para os cavalos, olhando a toda hora para os rabos e ancas dos bichos, feito um maquinista para o manômetro.

Porém os cavalos andavam como qualquer cavalo do mundo, ou seja, o do meio corria sempre em linha reta como é característico de sua natureza simples; o cavalo do lado se parecia, para um ignorante, a um vagabundo rematado que só sabia dançar prisiadka, curvando-se feito um cisne, ao som dos guizos que ele mesmo tocava com seus saltos.

Nikolai Nikolaievitch levava para Voskoboinikov a tarefa de corrigir seu livro sobre a questão agrária. Pois, devido à crescente pressão da censura, a editora pedira uma revisão.

— O povo anda fazendo confusão na província — dizia Nikolai Nikolaievitch. — Na região Pankovskaia mataram um comerciante, puseram fogo no haras do administrador do conselho. O que você acha disso? O que comentam na aldeia?

Mas Pavel olhava para estas coisas de maneira mais sombria do que o censor que queria conter as paixões agrárias de Voskoboinikov.

— O que comentam? O povo está muito solto. Brincadeira, dizem. Nossa gente não pode ser tratada assim. Dê liberdade ao mujique, e um esmaga o outro, meu Deus do céu! Ah, dormiu?

Esta era a segunda viagem do tio e do sobrinho a Duplianka. Iúri achava que lembrava do caminho. Toda vez que os campos se ampliavam e eram abarcados por uma barra fininha de florestas, pela frente e por trás, lhe parecia que ele estava reconhecendo aquele lugar onde a estrada fazia uma curva para a direita. Depois da curva deveria surgir, e em um minuto sumir, o panorama da aldeia Kologrivovskaia, localizada a dez verstas, com o rio brilhando ao longe e a estrada de ferro do outro lado do rio. Mas, a toda hora, ele se enganava. Outros campos sucediam os campos. Eram novamente abarcados por florestas. Esta sucessão de vastidões dava boa disposição. Dava vontade de sonhar e pensar no futuro.

Nenhum dos livros de Nikolai Nikolaievitch que ficariam famosos no futuro ainda fora escrito. Mas suas ideias já estavam definidas. Ele só não sabia que já estava perto a sua hora.

Em breve, entre os representantes da literatura daquela época, entre os professores da universidade e os filósofos da revolução, deveria surgir essa pessoa que pensava em todos os temas deles, mas que, além da terminologia, não possuía nada em comum com eles. Todos eles defendiam certos dogmas e se satisfaziam com palavras e aparências. Porém, Nikolai era padre, passou pelo tolstovstvo e a revolução e ia cada vez mais longe. Ele ansiava por uma ideia, inspirada e concreta, que rabiscasse sem hipocrisia os diferentes caminhos em seu movimento, que mudasse o mundo para melhor e que fosse perceptível, como o brilho do relâmpago ou o rastro do trovão passageiro, até mesmo para a criança ou o ignorante. Ele ansiava pelo novo.

Iúri sentia-se bem com o tio. Este parecia-se com sua mãe. Como ela, ele era um homem livre, livre de preconceitos para com qualquer coisa que fosse insólita. Como ela, ele possuía o sentimento nobre de igualdade para com todos os seres. Ele, como ela, entendia tudo apenas ao primeiro olhar e sabia expressar imediatamente as ideias da maneira como estas lhe vinham à cabeça, enquanto ainda estivessem vivas e não tivessem perdido o sentido.

Iúri estava feliz por ter viajado com o tio para Duplianka. Lá era muito bonito e o local pitoresco lembrava sua mãe, que amava a natureza e frequentemente levava Iúri em seus passeios. Além do mais, pensava com satisfação, encontraria Nika Dudorov, um ginasiano que morava com Voskoboinikov, que provavelmente o odiava porque era dois anos mais velho que ele e, que ao cumprimentá-lo, puxava com força a mão para baixo e inclinava tanto a cabeça que os cabelos lhe caíam na testa, cobrindo o rosto pela metade.

Boris Pasternak, "Doutor Jivago"

Há um cansaço da inteligência abstracta

Há um cansaço da inteligência abstracta e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo nem inquieta como o cansaço pela emoção. É um peso da consciência o mundo, um não poder respirar com a alma.
.
Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e estrelado.

O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos — a da incarnação disforme do Não-ser. Outras vezes está atrás de nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu horror profundíssimo de a desconhecermos.

Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?

E então vem-me o desejo transbordante, absurdo, de uma espécie de satanismo que precedeu Satan, de que um dia — um dia sem tempo nem substância — se encontre uma fuga para fora de Deus e o mais profundo de nós deixe, não sei como, de fazer parte do ser ou do não-ser.

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

As pernas

Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do hotel Pharoux. De costume jantava ai; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram.
 Abençoadas pernas! E há quem vos trate com desdém ou indiferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigáveis, quando não podíeis ir além de certo ponto, e me deixáveis com o desejo a avoaçar, à semelhança de galinha atada pelos pés.

Aquele caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília, e dissestes uma à outra: – Ele precisa comer, são horas de jantar, vamos levá-lo ao Pharoux; dividamos a consciência dele, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que ele vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapéu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes à risca o vosso propósito, amáveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta página.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

sexta-feira, julho 10

Para pensar

 


O verbo matar

Quem se espanta com o espetáculo de horror diversificado que o mundo de hoje oferece faria bem se tivesse o dicionário como livro de leitura diurna e noturna. Pois ali está, na letra M, a chave do temperamento homicida, que convive no homem com suas tendências angélicas, e convive em perfeita harmonia de namorados.

O consulente verá que matar é verbo copiosamente conjugado por ele próprio. Não importa que cultive a mansuetude, a filantropia, o sentimentalismo; que redija projetos de paz universal, à maneira de Kant, e considere abominações o assassínio e o genocídio. Vive matando.

A ideia de matar é de tal modo inerente ao homem, que, à falta de atentados sanguinolentos a cometer, ele mata calmamente o tempo. Sua linguagem o trai. Por que não diz, nas horas de ócio e recreação ingênua, que está vivendo o tempo? Prefere matá-lo.

Todos os dias, mais de uma vez, matamos a fome, em vez de satisfazê-la. Não é preciso lembrar como um número infinito de pessoas perpetra essa morte: através da morte efetiva de rebanhos inteiros, praticada tecnicamente em lugar de horror industrial, denominado matadouro. Aí, matar já não é expressão metafórica: é matar mesmo.

O estudante que falta à classe confessa que matou a aula, o que implica matança do professor, da matéria e, consequentemente, de parte do seu acervo individual de conhecimento, morta antes de chegar a destino. No jogo mais intelectual que se conhece, pretende-se não apenas vencer o competidor, mas liquidá-lo pela aplicação de xeque-mate. Não admira que, nas discussões, o argumento mais poderoso se torne arma de fogo de grande eficácia letal: mata na cabeça.

Beber um gole no botequim, ato de aparência gratuita, confortador e pacificante, envolve sinistra conotação. É o mata-bicho, indiscriminado. E quantos bichos se matam, em pensamento, a cada instante! Até para definir as coisas naturais adotamos ponto de vista de morte violenta. Essa planta convolvulácea é apresentada por sua propriedade maléfica: mata-cabras. Nasceu para isso, para dizimar determinada espécie de mamíferos? Não. Assim a batizamos. Outra é mata-cachorro. Uma terceira, mata-cavalo, e o dicionarista acrescenta o requinte: “goza da fama de produzir frutos venenosos”. Certo peixe fluvial atende (ou devia atender) por mata-gato, como se pulasse d’água para caçar felinos por aí, ou se estes mergulhassem com intenção de ajustar contas com ele. Em Santa Catarina, o vento de inverno que sopra lá dos Andes é recebido com a exclamação: “Chegou o mata-baiano”.

Já não se usa, mas usou-se muito um processo de secar a tinta em cartas e documentos quaisquer: botar por cima um papel grosso, chupão, que se chamava mata-borrão e matava mesmo, sugando o sangue azul da vítima, qual vampiro de escritório.

A carreta necessita de correia de couro que una seu eixo ao leito. O nome que se arranjou para identificá-la, com sadismo, é mata-boi. Mata-cachorro não é só planta flacurtiácea, que acumula o título de mata-calado. É também alcunha de soldado de polícia estadual, e do pobre-diabo que, no circo, estende o tapete e prepara o picadeiro para a função.

Matar charadas constitui motivo de orgulho intelectual para o matador. Há um matador profissional, remunerado pelos cofres públicos: o mata-mosquito, que pouca gente conhece como guarda sanitário. Mata-junta? É a fasquia usada para vedar juntas entre tábuas. O sujeito vulgarmente conhecido como chato, ao repetir a mesma cantilena, “mata o bicho do ouvido”. Certa espécie de algodoeiro é mata-mineiro, certa árvore é matamatá, ninguém no interior ignora o que seja mata-burro, mata-cobra tanto é marimbondo como porrete e formiga. Ferida em lombo de animal chama-se matadura. Nosso admirável dedo polegar, só lhe reconhecem uma prestança: a de mata-piolhos.

Mandioca mata-negro. Peixe matante. Vegetal mata-olho. Mata-pulga, planta de que se fazem vassouras. Mata-rato, cigarro ordinário. Enfeites e atavios, meios especiais para atingir certos fins, são matadores. “Ela veio com todos os matadores” provoca admiração e êxtase. “Eunice com seus olhos matadores”, decassílabo de vítima jubilosa.

Se a linguagem espelha o homem, e se o homem adorna a linguagem com tais subpensamentos de matar, não admira que os atos de banditismo, a explosão intencional de aviões, o fuzilamento de reféns, o bombardeio aéreo de alvos residenciais, os pogroms, o napalm, as bombas A e H, a variada tragédia dos dias modernos se revele como afirmação cotidiana do lado perverso do ser humano. Admira é que existam a pesquisa de antibióticos, Cruz Vermelha Internacional, Mozart, o amor.
Carlos Drummond de Andrade, "De notícias e não notícias faz-se a crônica"

Para um amigo tenho sempre um relógio

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, "Viagem através de uma nebulosa"

E é capaz de ter razão

Mas na metrópole há cerejas. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer de brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser. As raparigas daqui não sabem como são as cerejas, dizem que são como as pitangas. Ainda que sejam, nunca as vi com brincos de pitangas a rirem-se umas com as outras como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias.

A mãe insiste para que o pai se sirva da carne assada. A comida vai estragar-se, diz, este calor dá cabo de tudo, umas horas e a carne começa a esverdear, se a ponho na geleira fica seca como uma sola. A mãe fala como se hoje à noite não fôssemos apanhar o avião para a metrópole, como se amanhã pudéssemos comer as sobras da carne assada dentro do pão, no intervalo grande do liceu. Deixa-me, mulher. Ao afastar a travessa o pai derruba a cesta do pão. A mãe endireita-se e ajeita as côdeas com o mesmo cuidado com que todas as manhãs ordena os comprimidos antes de os tomar. O pai não era assim antes de isto ter começado. Isto são os tiros que se ouvem no bairro acima do nosso. E as nossas quatro malas por fechar na sala.

Ficamos num silêncio tão cerimonioso que o barulho da ventoinha surge anormalmente alto. A mãe pega na travessa da carne e serve-se com gestos contidos que costumava usar com as visitas. Quando pousa a travessa na mesa demora a mão sobre a toalha das dálias. Agora já não há ninguém para visitar-nos mas mesmo antes de isto ter começado era raro termos visitas. A minha irmã diz, ainda me lembro do dia em que aquele galo, o galo de louça que está na bancada de pedra mármore, caiu no chão e lascou a crista. Insistimos em pormenores insignificantes porque já começamos a esquecer-nos. E ainda nem saímos de casa. O abião é um bocadinho antes da meia-noite mas temos de ir mais cedo. O tio Zé vai levar-nos ao aeroporto. O pai vai lá ter depois. Depois de matar a Pirata e de deitar fogo à casa e aos camiões. Não acredito que o pai mate a Pirata. Também não acredito que o pai deite fogo à casa e aos camiões. Acho que diz isso para não pensarmos que eles se ficam a rir. Eles são os pretos. No entanto o pai comprou bidões de gasolina que estão guardados no anexo. Talvez seja mesmo verdade, talvez o pai consiga matar a Pirata e queimar tudo. A Pirata podia ficar com o tio Zé que não se vai embora porque quer ajudar os pretos a formar uma nação. O pai ri-se sempre sempre que o tio Zé fala na grandiosa nação que se erguerá pela vontade de um povo oprimido durante cinco séculos. Mesmo que o tio Zé prometesse que tomava conta da pirata não servia de nada, o pai acha que a única coisa que o tio Zé sabe fazer é desonrar a família. E é capaz de ter razão.

Dulce Maria Cardoso, "O Retorno"

Metáforas da leitura

Em 26 de março de 1892, Walt Whitman morreu na casa que comprara menos de dez anos antes em Camden, Nova Jersey, parecendo um rei do Velho Testamento ou, como descreveu Edmund Gosse, um grande e velho macho angorá. Uma fotografia tirada alguns anos antes de sua morte por Thomas Eakins, artista da Filadélfia, mostra-o com a juba branca desgrenhada, sentado à janela, observando pensativamente o mundo lá fora, que era, como havia dito aos seus leitores, uma glosa do que escrevera:

Se você me entendesse indo para as alturas ou à praia,
A ninharia mais próxima é uma explicação,
e uma gota ou movimento de ondas uma chave,
A marreta, o remo, o serrote secundam minhas palavras.


Whitman está ali para o olhar do leitor. Dois Whitmans, na verdade: o Whitiman de Folhas da relva, “Walt Whitman, um cosmo, de Manhattan o filho”, mas nascido também em todos os outros lugares (“Sou de Adelaide... Sou de Madri... Pertenço a Moscou”) e o Whitman nascido em Long Island, que gostava de ler romances de aventura e cujos amantes eram jovens da cidade, soldados, motoristas de ônibus. Ambos tornaram-se o Whitman que na velhice deixava a porta aberta para os visitantes que buscavam “o sábio de Camden”, e ambos tinham sido oferecidos ao leitor, cerca de trinta anos antes, na edição de 1860 de Folhas da relva:

Camarada, isto não é um livro,
Quem toca nisto, toca em um homem,
(É noite? Estamos sozinhos?)
Sou eu que seguras, e que te segura,
Eu salto das páginas para teus braços – a morte me chama.



Anos depois, na edição do “leito de morte” de Folhas da relva, tantas vezes revisadas e aumentadas, o mundo não “secunda” suas palavras, mas torna-se a voz primordial. Nem Whitman nem seu verso importavam: o mundo era suficiente, uma vez que não passava de um livro aberto para ser lido por todos nós. Em 1774, Goethe (que Whitman lia e admirava) escrevera: “Vê como a Natureza é um livro vivo,/ Incompreendida, mas não incompreensível?”

Em 1892, alguns dias antes de morrer, Whitman concordava:

Em cada objeto, montanha, árvore e estrela — em cada nascimento e vida,
Como parte de cada — desdobrada de cada — significado, atrás da manifestação,
Uma cifra mística espera involucrada.


Li esses versos pela primeira vez em 1963, numa vacilante tradução espanhola. Certo dia, no colégio, um amigo que queria ser poeta (acabávamos de completar quinze anos na época) veio correndo até mim com um livro que descobrira, uma edição Austral de capa azul dos poemas de Whitman, impressos num papel áspero e amarelado e traduzidos por alguém cujo nome esqueci. Meu amigo era um admirador de Ezra Pound, a quem prestava a homenagem da imitação e, uma vez que os leitores não respeitam as cronologias arduamente estabelecidas por professores universitários bem pagos, ele achou que Whitman era uma imitação pobre de Pound. O próprio Pound tentara esclarecer as coisas, propondo “um pacto” com Whitman:

Foste tu que cortaste a madeira nova,
Agora é tempo de esculpir
Temos uma seiva e uma raiz —
Que haja comércio entre nós.


Mas meu amigo não se convenceu. Aceitei seu veredicto em nome da amizade e foi somente dois anos depois que cruzei com um exemplar de Folhas da relva em inglês, descobrindo então que Whitman dedicara seu livro a mim: “Tu, leitor, que pulsas de vida e orgulho e amor como eu / Por isso, para ti os cantos que seguem”.

Li a biografia de Whitman, primeiro numa série destinada aos jovens que expurgava qualquer referência à sua sexualidade e o tornava ameno a ponto de levá-lo à não-existência, depois li o Walt Whitman de Geoffrey Dutton, instrutivo mas um tanto sóbrio demais. Anos mais tarde, a biografia de Philip Callow deu-me um retrato mais claro do homem e me fez reconsiderar um par de questões que me colocara anteriormente: se Whitman vira o leitor como ele mesmo, quem era esse leitor que Whitman tinha em mente? E como tinha Whitman, por sua vez, se tornado leitor?

Ele aprendeu a ler numa escola quaker do Brooklyn, segundo o que se conhecia como “método lancasteriano” (nome derivado do quaker inglês Joseph Lancaster). Um único professor, ajudado por crianças monitoras, cuidava de uma classe de cerca de cem alunos, dez em cada carteira. Os mais jovens estudavam no porão, as meninas mais velhas no térreo e os meninos mais velhos no andar de cima. Um de seus professores comentou que o achava “um menino de boa índole, de aparência desajeitada e relaxada, mas sem nada que chamasse a atenção”. Os poucos livros de texto eram suplementados pelos livros do pai, um democrata fervoroso que deu aos três filhos os nomes dos fundadores dos Estados Unidos. Muitos desses livros eram tratados políticos de Tom Paíne, do socialista Frances Wright e do filósofo francês do século XVIII Constantin-François, conde de Volney, mas havia também coleções de poesia e uns poucos romances. A mãe era analfabeta, mas, segundo Whitman, “uma excelente contadora de histórias”, “dotada de grandes poderes miméticos”. Whitman aprendeu as primeiras letras na biblioteca do pai, seus sons, aprendeu com as histórias que ouvira a mãe contar.

Whitman deixou a escola aos onze anos e foi trabalhar no escritório do advogado James B. Clark. O filho de Clark, Edward, gostou do menino brilhante e deu-lhe de presente uma assinatura de uma biblioteca circulante. “Foi o evento memorável da minha vida até ali”, disse Whitman mais tarde. Na biblioteca, tomou emprestado e leu As mil e uma noites — “cada volume” — e os romances de sir Walter Scott e James Fenimore Cooper Poucos anos depois, aos dezesseis anos, adquiriu “um robusto e bem fornido volume in-octavo de mil páginas [...] contendo toda a poesia de Walter Scott”. que consumiu avidamente. “Mais tarde, a intervalos, no verão e no outono, costumava ir para o campo ou para as praias de Long Island, às vezes por toda uma semana — ali, em presença das influências do ar livre, li de ponta a ponta o Velho e o Novo Testamento e absorvi (provavelmente com mais proveito do que em qualquer biblioteca ou ambiente fechado — faz muita diferença onde você lê) Shakespeare, Ossian, as melhores traduções que pude obter de Homero, Ésquilo, Sófocles, os velhos nibelungos germânicos, os poemas hindus antigos e outras obras-primas, Dante entre elas. Aconteceu de eu ter a maior parte deste último num velho bosque.” E Whitman interroga: “Desde então, pergunto-me por que não fiquei soterrado por aqueles poderosos mestres. Provavelmente porque os li na presença plena da Natureza, sob o sol, com paisagens e panoramas a perder de vista ou o mar quebrando na praia”. O lugar da leitura, como sugere Whitman, é importante não só porque proporciona um cenário físico para o texto que está sendo lido, mas também porque sugere, ao se justapor ao lugar na página, que ambos partilham da mesma qualidade hermenêutica e tentam o leitor com o desafio da elucidação.

Whitman não ficou muito tempo no escritório de advocacia. Antes do fim do ano já era aprendiz de tipógrafo no Long Island Patriot, aprendendo a trabalhar com um prelo manual que ficava num porão apertado, sob a supervisão do editor do jornal e autor de todos os artigos. Ali Whitman aprendeu “o misterioso prazer das diferentes letras e suas divisões a grande caixa de es - a caixa para espaços [...] a caixa de as, de is e todo o resto”, as ferramentas de seu ofício.

De 1836 a 1838 trabalhou como professor rural em Norwich, Nova York. O salário era baixo e errático, e, provavelmente porque os inspetores escolares desaprovavam suas classes turbulentas, foi forçado a mudar de escola oito vezes naqueles dois anos. Os superiores não podiam ficar muito contentes se ele ensinasse aos alunos: "Não deves mais tomar coisas de segunda ou terceira mão, / nem olhar através dos olhos dos mortos, nem se alimentar dos espectros nos livros". Ou então: "Honra mais o meu estilo quem aprende com ele a destruir o professor.”

Depois de aprender a imprimir e de ensinar a ler, Whitman descobriu que podia combinar as duas habilidades tornando-se editor de um jornal: primeiro o Long Islander, em Huntington, Nova York, mais tarde o Daily Eagle, no Broolklyn. Ali começou a desenvolver sua noção de democracia como uma sociedade de "leitores livres", não contaminada por fanatismos e escolas políticas, a quem o fazedor de textos - poeta, tipógrafo, professor, editor de jornal — deve servir ardorosamente. Em editorial de 1 de junho de 1846 explicou ele: "Sentimos de fato um desejo de falar sobre muitos assuntos a todas as pessoas do Brooklyn, e nem são os seus 9 pence o que mais queremos. Há um tipo curioso de simpatia (já pensaram nisso alguma vez?) que surge na mente de um diretor de jornal em relação ao público a que ele serve [...] A comunhão diária cria uma espécie de irmandade entre as duas partes".

Por essa época, Whitman entrou em contato com os escritos de Margaret Fuler, uma personalidade extraordinária: a primeira resenhadora de livros em tempo integral dos Estados Unidos, a primeira correspondente estrangeira, feminista lúcida, autora do apaixonado panfleto Woman in the nineteenth century [A mulher no século XIX]. Emerson achava que “toda a arte, o pensamento e a nobreza na Nova Inglaterra pareciam relacionados com ela, e ela com eles”. Hawthorne, porém, chamou-a de “um grande embuste”, e Oscar Wilde disse que Vênus dera “tudo” a ela, “exceto beleza”, enquanto Palas lhe dera “tudo, exceto sabedoria”. Embora acreditasse que os livros não podem substituir a experiência real, Fuller via neles “um meio para ver toda a humanidade, um centro em torno do qual todo conhecimento, toda experiência, toda ciência, todo o ideal, bem como tudo o que é prático em nossa natureza, pode reunir-se”. Whitman reagiu com entusiasmo às ideias dela. Escreveu ele:

Não considerávamos magnífico, oh alma, penetrar [nos temas de livros poderosos,
Absorvendo profundos e plenos os pensamentos, peças, especulações?
Mas agora, cá entre nós, pássaro engaiolado, sentir teu gorjeio jubiloso.
Enchendo o ar, a sala solitária, a longa manhã.
Não é igualmente magnífico, oh alma?


Para Whitman, texto, autor, leitor e mundo espelhavam-se uns aos outros no ato da leitura, um ato cujo significado ele expandiu até que servisse para definir cada atividade humana vital, bem como o universo no qual tudo acontecia. Nessa conjunção, o leitor reflete o escritor (ele e eu somos um), o mundo faz eco a um livro (livro de Deus, livro da Natureza), o livro é de carne e sangue (carne e sangue do escritor, que mediante uma transubstanciação literária se tornam meus), o mundo é um livro a ser decifrado (os poemas do escritor tornam-se minha leitura do mundo). Durante toda a sua vida, Whitman parece ter buscado uma compreensão e uma definição do ato de ler, que é a um só tempo ele mesmo e a metáfora de todas as suas partes.

“As metáforas”, escreveu o crítico alemão Hans Blumenberg, em nossos dias; “não são mais consideradas primeiro e antes de mais nada como representação da esfera que guia nossas hesitantes concepções teóricas, como um hall de entrada para a formação de conceitos, como um dispositivo temporário dentro de linguagens especializadas que ainda não foram consolidadas, mas sim um meio autêntico de compreender contextos.” Dizer que um autor é um leitor, ou um leitor, um autor, considerar um livro como um ser humano ou um ser humano como um livro, descrever o mundo como texto ou um texto como o mundo são formas de nomear a arte do leitor.

Tais metáforas são muito antigas, com raízes nas primeiras sociedades judaico-cristãs. O crítico alemão E. R. Curtius, num capítulo sobre o simbolismo do livro em seu monumental Literatura europeia e Idade Média latina, sugeriu que as metáforas do livro começaram na Grécia clássica, mas há poucos exemplos delas, uma vez que a sociedade grega, e posteriormente a romana, não consideravam o livro como um objeto do dia-a-dia. As sociedades judaica, cristã e islâmica desenvolveram uma profunda relação simbólica com seus livros sagrados, que não eram símbolos da palavra de Deus, mas a própria Palavra Divina. Segundo Curtius, “a ideia de que o mundo e a natureza são livros deriva da retórica da Igreja católica, assumida pelos filósofos místicos dos primórdios da Idade Média e finalmente transformada em lugar-comum”.

Para o místico espanhol do século XVI, frei Luís de Granada, se o mundo é um livro, então as coisas deste mundo são as letras do alfabeto com as quais esse livro está escrito. Na Introducción al símbolo de la fé, ele pergunta: “O que são todas as criaturas deste mundo, tão lindas e tão bem-feitas, senão letras separadas e iluminadas que declaram tão justamente a delicadeza e a sabedoria de seu autor? [...] E nós também [...] tendo sido colocados por vós diante deste maravilhoso livro de todo o universo, de tal forma que por meio de suas criaturas, como se fossem letras vivas, podemos ler a excelência do nosso Criador”.
“O Dedo de Deus”, escreveu sir Thomas Browue em Religio Medici, remodelando a metáfora de frei Luís, “deixou uma Inscrição em todas as suas obras, não gráfica ou composta de Letras, mas feita de suas várias formas, constituições, partes e operações que, reunidas apropriadamente, culminam uma palavra que expressa suas naturezas”.

Séculos depois, o filósofo americano de origem espanhola George Santayana acrescentou: “Há livros em que as notas de rodapé, ou os comentários rabiscados por algum leitor nas margens, são mais interessantes do que o texto. O mundo é um desses livros”.

Nossa tarefa, como apontou Whitman, é ler o mundo, pois esse livro colossal é a única fonte de conhecimento para os mortais. (Os anjos, segundo santo Agostinho, não precisam ler o livro do mundo porque podem ver o próprio Autor e receber dele o mundo em toda a sua glória. Dirigindo-se a Deus, santo Agostinho pondera que os anjos "não têm necessidade de olhar para os céus ou de lê-los para ler Vossa palavra. Pois eles sempre veem Vossa face e ali, sem as sílabas do tempo, leem Vossa vontade eterna.

Eles a leem, escolhem-na, amam-na. Estão sempre lendo, e o que leem nunca chega ao fim. [...] O livro que leem não deverá ser fechado, o rolo não deverá ser enrolado novamente. Pois Vós sois o livro deles, e Vós sois eterno.) Os seres humanos, feitos à imagem de Deus, também são livros a serem lidos. Aqui, o ato de ler serve como metáfora para nos ajudar a entender nossa relação hesitante com nosso próprio corpo, o encontro, o toque e a decifração de signos em outra pessoa.

Lemos expressões no rosto, seguimos os gestos de um ser amado como num livro aberto. “Tua face, meu cavaleiro”, diz lady Macbeth ao esposo, “é como um livro onde os homens podem ler estranhas coisas”, e o poeta do século XVII Henry King escreveu sobre sua jovem esposa morta:

Querida Perda! Desde tua morte prematura
Minha sina tem sido meditar
Sobre ti, sobre ti: tu és o livro,
A biblioteca para onde olho
Embora quase cego.


E Benjamin Franklin, um grande amante dos livros, compôs para si mesmo um epitáfio (infelizmente não utilizado em seu túmulo) no qual a imagem do leitor como livro encontra sua representação plena:

O Corpo de
B. Franklin, Impressor,
Tal como a capa de um velho Livro,
Seu conteúdo arrancado,
E despido de suas Letras e Douradas,
Jaz aqui, Alimento para Vermes.
Mas a Obra não se perderá;
Pois irá como ele acreditava.
Aparecer outra vez
Em nova e mais elegante Edição
Corrigida e melhorada
Pelo Autor.

Dizer que lemos — o mundo, um livro, o corpo — não basta. A metáfora da leitura solicita por sua vez outra metáfora, exige ser explicada em imagens que estão fora da biblioteca do leitor e, contudo, dentro do corpo dele, de tal forma que a função de ler é associada a outras funções corporais essenciais. Ler — como vimos — serve como um veículo metafórico, mas para ser compreendido precisa ele mesmo ser reconhecido por meio de metáforas. Tal como escritores falam em cozinhar uma história, misturar os ingredientes do enredo, ter ideias cruas para uma trama, apimentar uma cena, acrescentar pitadas de ironia, pôr molho, retratar uma fatia de vida, nós, os leitores, falamos em saborear um livro, encontrar alimento nele, devorá-lo de uma sentada, ruminar um texto, banquetearmo-nos com poesia, mastigar as palavras do poeta, viver numa dieta de romances policiais. Em um ensaio sobre a arte de estudar, o erudito inglês do século XVI Francis Bacon catalogou o processo: “Alguns livros são para se experimentar, outros para serem engolidos, e uns poucos para se mastigar e digerir”.

Por uma sorte extraordinária sabemos em que dia essa curiosa metáfora foi registrada pela primeira vez. Em 31 de julho de 593 a.C., às margens do Chebar, na terra dos caldeus, Ezequiel, o sacerdote, teve uma visão de fogo na qual viu “a imagem da glória do Senhor" ordenando-lhe que falasse com os filhos rebeldes de Israel. “Abre a boca e come o que te vou dar”, diz a visão.

Olhei e vi avançando para mim uma mão que segurava um manuscrito enrolado. E foi desdobrado diante de mim: estava coberto com escrita de um e outro lado: eram cânticos de tristeza, de queixumes e de gemidos.

São João, registrando sua visão apocalíptica em Patmos, recebeu a mesma revelação de Ezequiel. Enquanto olhava aterrorizado, um anjo desceu dos céus com um livro aberto e uma voz de trovão disse-lhe que não escrevesse o que aprendera, mas pegasse o livro da mão do anjo.

Fui eu, pois, ter com o anjo, dizendo-lhe que me desse o pequeno livro. E ele me disse: “Toma-o e devora-o! Ele te será amargo nas entranhas, mas, na boca, doce como o mel”. Tomei então o pequeno livro da mão do anjo e comecei a comê-lo.

De fato, em minha boca tinha a doçura do mel, mas depois de o ter comido, amargou-me nas entranhas. Então me foi dito: “Urge que ainda profetizes de novo a numerosas nações, povos, línguas e reis”.

Com o tempo, à medida que a leitura se desenvolveu e se expandiu, a metáfora gastronômica tornou-se retórica comum. Na época de Shakespeare, contava-se com ela na conversação literária, e a própria rainha Isabel usou-a para descrever suas leituras devotas: “Eu caminho muitas vezes pelos campos agradáveis das Escrituras Sagradas, onde colho as verdes e formosas ervas das sentenças, como-as lendo, mastigo-as meditando e deito-as no assento da memória, li para que possa perceber menos a amargura desta vida miserável”. Em 1695, a metáfora já se arraigara tanto na língua que William Congreve pôde parodiá-la na cena de abertura de Love for love [Amor por amor], fazendo o pedante Valentine dizer a seu criado: “Lê, lê, imbecil, e refina teu apetite; aprende a viver com instrução; banqueteia tua mente e mortifica tua carne; lê, e ingere teu alimento pelos olhos; fecha tua boca e mastiga o bolo alimentar do entendimento”.

“Ficareis extremamente gordo com esta dieta de papel”, é o comentário do criado.

Menos de um século depois, o dr. Johnson lia um livro com as mesmas maneiras que exibia à mesa. Lia, disse Boswell, “sofregamente, como se o devorasse, o que era aparentemente seu método de estudo”. Segundo Boswell, durante o jantar o dr. Johnson mantinha no colo um livro embrulhado na toalha de mesa, “ávido como era por ter um entretenimento à mão quando terminasse o outro, parecendo (se me permitem usar tão grosseiro símile) um cão que segura um osso de reserva entre as patas, enquanto come outra coisa que lhe foi jogada”.

Por mais que os leitores se apropriem de um livro, no final, livro e leitor tornam-se uma só coisa. O mundo que é um livro, é devorado por um leitor, que é uma letra no texto do mundo; assim, cria-se uma metáfora circular para a infinitude da leitura. Somos o que lemos. O processo pelo qual o círculo se completa não é, argumentava Whitman, apenas intelectual; lemos intelectualmente num nível superficial, apreendendo certos significados e conscientes de certos fatos, mas, ao mesmo tempo, invisivelmente, inconscientemente, texto e leitor se entrelaçam, criando novos níveis de significado e, assim, toda vez que, ingerindo-o, fazemos o texto entregar algo, simultaneamente nasce sob ele outra coisa que ainda não apreendemos. Esse é o motivo por que — como acreditava Whitman, reescrevendo e reeditando seus poemas sem parar – nenhuma leitura pode ser definitiva.
Em 1867 ele escreveu, numa espécie de explicação:

Não fechem suas portas para mim, orgulhosas bibliotecas,
Pois aquilo que faltava em todas as suas estantes abarrotadas, mas carentes,
Eu trago da guerra emergindo, um livro que fiz,
As palavras do meu livro sem motivo, impulsionando todas as coisas,
Um livro separado, não ligado ao resto, nem sentida pelo intelecto,
Mas suas latências não ditas pulsarão em cada página.

Alberto Manguel, "Uma História da Leitura"

quinta-feira, julho 9

Café da manhã

 


Graça

O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã.
A dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com berloques, um príncipe. Eu passeio nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.
Adélia Prado

No princípio dos tempos

1

Difícil dizer quando tudo começou. Mas tudo começou, é claro, muito antes desse dia dezasseis de Junho de mil novecentos e onze. Vavó Uála das Ingombotas diria que tudo começou no princípio dos tempos e que desde o princípio estava previsto que seria assim. Os acontecimentos se amarrariam uns aos outros – uns puxando os outros – através do confuso turbilhão das noites e dos dias. Infalivelmente, irremediavelmente, tudo haveria de desaguar naquela tarde vertiginosa e absurda.

É preciso, contudo, marcar data menos remota. Para o humilde autor deste relato, os casos tiveram o seu berço foi mesmo nesse ano esquecido de mil oitocentos e oitenta, aquando da chegada a Luanda de um moço benguelense, de sua graça Jerónimo Caninguili.

Vamos pois começar desde o princípio.

2

Muitos houve que estranharam aquele nome de Fraternidade posto por Caninguili à sua loja de barbeiro. Alguns reprovaram-no abertamente, e entre estes estão não só os realistas mas mesmo certos republicanos a quem assustava o atrevimento desse moço, negro e pequenino, ainda agora chegada à capital e já afrontando as regras, atraindo os desamores da autoridade.

Outros teve que acharam graça, aproveitaram com ruído a ousadia; logo se fizeram clientes e amigos certos. A simplicidade do barbeiro, a sua candura e alegria, depressa cativaram, contudo, mesmo os mais recalcitrantes, e assim é que, quatro meses após a sua chegada, já a Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade se tinha transformado num pequeno clube de ideias.

Fisicamente, Caninguili devia poucas graças ao Criador. Ezequiel gostava de se referir a ele chamando-o de «o nosso sapinho capenga»; e assim resumia a feiura do designado, o seu escasso metro e sessenta e o facto de mancar da perna esquerda. Quando falava, porém, com aquele seu jeito manso de acariciar as palavras, operava-se em Caninguili uma transformação sensível e tudo seria nessa altura, menos certamente um sapo. Capenga! Razão por que, fatigado já da velha pilhéria, Alfredo Trony repreendera certa vez Ezequiel observando-lhe que sempre houvera no mundo príncipes disfarçados de sapos e sapos disfarçados de príncipes.

- É no falar que se revelam os príncipes e no coaxar que os sapos se denunciam – dissera Trony, para logo acrescentar -, pelo que ao meu amigo lhe aconselho a mais severa abstinência verbal. Não abra a boca que não seja para engolir as moscas.

José Eduardo Agualusa, "A conjura"

Superioridade animal

As andorinhas, que ao voltar a primavera vemos esquadrinharem todos os cantos de nossas casas, procuram sem discernimento e escolhem sem ponderação, entre mil lugares, o que lhes é mais cômodo para se alojarem? E na bela e admirável textura de suas construções poderiam os pássaros utilizar uma forma quadrada em vez de uma redonda, um ângulo obtuso em vez de um ângulo reto, sem conhecer-lhes as características e os efeitos? Usam ora da água ora da argila, sem pensar que a rigidez amolece ao ser umedecida? Atapetam de musgo seu palácio, ou de penugem, sem prever que os tenros membros de seus filhotes ficarão assim em maior maciez e conforto? Protegem-se do vento chuvoso e erguem o seu abrigo no lado leste sem conhecer as diferentes características desses ventos e considerar que um lhes é mais salutar que o outro? 


Reconhecemos suficientemente, na maioria de suas obras, quanta superioridade os animais têm sobre nós e o quanto nossa arte é fraca em imitá-los. Entretanto vemos nas nossas, mais grosseiras, as faculdades que nelas empregamos, e que nelas nossa alma se serve de todas suas forças; por que não julgamos da mesma forma as deles? por que atribuímos a não sei que inclinação natural e inferior as obras que superam tudo o que conseguimos por natureza e por arte? Nisso, sem pensarmos, lhes damos sobre nós a grande vantagem de fazer que a natureza, por uma doçura maternal, os acompanhe e guie, como pela mão, para todas as ações e facilidades de sua vida; e quanto a nós ela nos abandona ao acaso e à fortuna, e para procurarmos, por arte, as coisas necessárias à nossa preservação; e ao mesmo tempo nos recusa os meios para podermos chegar, por uma educação e tensão de espírito, à habilidade natural dos animais; de tal maneira que em todas as aptidões sua estupidez animal supera tudo o que pode nossa divina inteligência.
Michel de Montaigne