Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sábado, março 7
A verdade dividida
A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"
A criada
Seu nome era Eremita. Tinha dezenove anos. Rosto confiante, algumas espinhas. Onde estava a sua beleza? Havia beleza nesse corpo que não era feio nem bonito, nesse rosto onde uma doçura ansiosa de doçuras maiores era o sinal da vida.
Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas – senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E – de repente – a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira – em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera – tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis – ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera nas suas florestas.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Beleza, não sei. Possivelmente não havia, se bem que os traços indecisos atraíssem como água atrai. Havia, sim, substância viva, unhas, carnes, dentes, mistura de resistências e fraquezas, constituindo vaga presença que se concretizava porém imediatamente numa cabeça interrogativa e já prestimosa, mal se pronunciava um nome: Eremita. Os olhos castanhos eram intraduzíveis, sem correspondência com o conjunto do rosto. Tão independentes como se fossem plantados na carne de um braço, e de lá nos olhassem – abertos, úmidos. Ela toda era de uma doçura próxima a lágrimas.
Às vezes respondia com má-criação de criada mesmo. Desde pequena fora assim, explicou. Sem que isso viesse de seu caráter. Pois não havia no seu espírito nenhum endurecimento, nenhuma lei perceptível. “Eu tive medo”, dizia com naturalidade. “Me deu uma fome”, dizia, e era sempre incontestável o que dizia, não se sabe por quê. “Ele me respeita muito”, dizia do noivo e, apesar da expressão emprestada e convencional, a pessoa que ouvia entrava num mundo delicado de bichos e aves, onde todos se respeitam. “Eu tenho vergonha”, dizia, e sorria enredada nas próprias sombras. Se a fome era de pão – que ela comia depressa como se pudessem tirá-lo – o medo era de trovoadas, a vergonha era de falar. Ela era gentil, honesta. “Deus me livre, não é?”, dizia ausente.
Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas – senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E – de repente – a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira – em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera – tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis – ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera nas suas florestas.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Passeio noturno à beira-mar
Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram pela minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram-no, o que as almas foram e ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta — tudo isso, no meu passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste, O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção!
Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio noturno à beira-mar!
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram-no, o que as almas foram e ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta — tudo isso, no meu passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste, O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção!
Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amámos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso noturno do meu passeio à beira-mar...
Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio noturno à beira-mar!
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
quinta-feira, março 5
O último da fila
Daí que, sem perceber, a gente entra na fila. Fila para quê? Para onde? Não há placa que indique, seta que oriente. Não importa, algo ancestral nos manda ficar na fila. E, quando você entra numa delas, inevitavelmente é o último da fila.
Você espicha a cabeça, procura enxergar até onde ela vai, constata que dobra o quarteirão, moleza. Só quando chega ali, vê que tem outro quarteirão mais à frente, e outro, e outro. Mas sempre aparece algum desastre, música ou show de calouros para a gente se distrair.
A princípio, a fila anda devagar. Os pés se arrastam, lentos, indecisos. Enfrentam as garoas, cozinham ao sol, buscam as sombras das árvores. Sem ter a menor ideia de que, com o tempo, um mecanismo misterioso os acelera e, mero número na fila, a gente obedece, vai sendo levado (iludido que não), até que, no final, vira atropelo de cena de filme mudo em preto e branco.
Numa fila, a gente olha mais para a frente. Só muito de vez em quando para trás e constata que, estranhamente, aquele cara de boné não está mais lá, mas sim uma senhorinha de bolsa estampada e, mesmo essa, será substituída por um vereador em campanha e, esse, por uma dançarina dos sete véus.
Mesmo dentro da fila, a gente entra em outras filas: fila do pão, do embarque, para entrar no estádio (essa, mais para tumulto), da imigração. É, essa coisa de uma fila dentro da outra ficou confusa, mas é assim mesmo. Passam amores, uns menores, outros vou contar; passam empregos, que pareciam a coisa mais preciosa do universo (não são), passam até alguns cachorros, que a gente nem sabia que podiam entrar na fila — mas que depois a gente vê que, sem eles, fica meio sem graça. O dinheiro vem e passa, a saúde vem e passa, a gente assobia Vai passar, do Chico, e arrisca algum livro de autoajuda para ver se.
Saudades de dar a mão para os pais ou para os filhos na fila.
A fila sobe e desce escada. Entra no mar e fura as ondas. Dorme em camas de hotel e se senta nos bancos escolares. Cai num buraco fundo, sai no Japão e volta. A fila na cabeça da gente. Os mais preparados e espertos chegam lá primeiro, e a gente vai ficando. O grandão tosco dá um chega pra lá e o lugar vira dele. Alguém cutuca nossos ombros e pergunta: “É essa a fila?” Respondemos que sim e, na maior sem-cerimônia, a pessoa entra na frente. Cadê o guarda? Cadê o segurança? Cadê Deus?
Por gentileza, a gente cede o lugar aos mais velhos, aos mais frágeis, aos perdidos. Por distração, a gente esquece de avançar. Por burrice, empaca. Como em toda fila que merece o nome, chega o vendedor de algodão-doce. Já estou escolhendo o rosinha, quando meu gastro, duas pessoas adiante, se vira e me olha com cara feia. Ainda bem que se pode beber na fila. E a gente sempre acaba exagerando, tomando três saideiras sem sair, mistura bebida, perde o rumo, faz besteira — você não?
Há o tropeço e o gozo. Há a risada e a lágrima que a gente esconde. Os advérbios e a fé na loteria. As prestações da casa e a correição das formigas. Carros com motor turbo e gasolina aditivada, mas que não são capazes de nos fazer ganhar posição alguma. A gente se gasta na fila. A gente se perde e reencontra. Consome nove sapatos, mas jamais se aborrece, pois prefere ficar descalço.
Um sujeito saiu da fila. Por que isso aconteceu?
E quando se descobre que sua fila era outra? — bem que você não estava reconhecendo ninguém ao redor. Aquele ali furou a fila. Aquela aproveitou para distribuir santinhos. Uma bola chegou quicando, bem na sua direção, você armou o chute, um mané chegou do nada e, catapimba, chutou primeiro. Onde fica a fila da reclamação? E a das sugestões?
Tanto passou, tanto aconteceu, gente do céu. Falta muito? Quem sabe? Quanto acontecimento na vida das minhas retinas tão fatigadas etc.
Olho ao redor. Continuo sendo o último da fila.
Você espicha a cabeça, procura enxergar até onde ela vai, constata que dobra o quarteirão, moleza. Só quando chega ali, vê que tem outro quarteirão mais à frente, e outro, e outro. Mas sempre aparece algum desastre, música ou show de calouros para a gente se distrair.
A princípio, a fila anda devagar. Os pés se arrastam, lentos, indecisos. Enfrentam as garoas, cozinham ao sol, buscam as sombras das árvores. Sem ter a menor ideia de que, com o tempo, um mecanismo misterioso os acelera e, mero número na fila, a gente obedece, vai sendo levado (iludido que não), até que, no final, vira atropelo de cena de filme mudo em preto e branco.
Numa fila, a gente olha mais para a frente. Só muito de vez em quando para trás e constata que, estranhamente, aquele cara de boné não está mais lá, mas sim uma senhorinha de bolsa estampada e, mesmo essa, será substituída por um vereador em campanha e, esse, por uma dançarina dos sete véus.
Mesmo dentro da fila, a gente entra em outras filas: fila do pão, do embarque, para entrar no estádio (essa, mais para tumulto), da imigração. É, essa coisa de uma fila dentro da outra ficou confusa, mas é assim mesmo. Passam amores, uns menores, outros vou contar; passam empregos, que pareciam a coisa mais preciosa do universo (não são), passam até alguns cachorros, que a gente nem sabia que podiam entrar na fila — mas que depois a gente vê que, sem eles, fica meio sem graça. O dinheiro vem e passa, a saúde vem e passa, a gente assobia Vai passar, do Chico, e arrisca algum livro de autoajuda para ver se.
Saudades de dar a mão para os pais ou para os filhos na fila.
A fila sobe e desce escada. Entra no mar e fura as ondas. Dorme em camas de hotel e se senta nos bancos escolares. Cai num buraco fundo, sai no Japão e volta. A fila na cabeça da gente. Os mais preparados e espertos chegam lá primeiro, e a gente vai ficando. O grandão tosco dá um chega pra lá e o lugar vira dele. Alguém cutuca nossos ombros e pergunta: “É essa a fila?” Respondemos que sim e, na maior sem-cerimônia, a pessoa entra na frente. Cadê o guarda? Cadê o segurança? Cadê Deus?
Por gentileza, a gente cede o lugar aos mais velhos, aos mais frágeis, aos perdidos. Por distração, a gente esquece de avançar. Por burrice, empaca. Como em toda fila que merece o nome, chega o vendedor de algodão-doce. Já estou escolhendo o rosinha, quando meu gastro, duas pessoas adiante, se vira e me olha com cara feia. Ainda bem que se pode beber na fila. E a gente sempre acaba exagerando, tomando três saideiras sem sair, mistura bebida, perde o rumo, faz besteira — você não?
Há o tropeço e o gozo. Há a risada e a lágrima que a gente esconde. Os advérbios e a fé na loteria. As prestações da casa e a correição das formigas. Carros com motor turbo e gasolina aditivada, mas que não são capazes de nos fazer ganhar posição alguma. A gente se gasta na fila. A gente se perde e reencontra. Consome nove sapatos, mas jamais se aborrece, pois prefere ficar descalço.
Um sujeito saiu da fila. Por que isso aconteceu?
E quando se descobre que sua fila era outra? — bem que você não estava reconhecendo ninguém ao redor. Aquele ali furou a fila. Aquela aproveitou para distribuir santinhos. Uma bola chegou quicando, bem na sua direção, você armou o chute, um mané chegou do nada e, catapimba, chutou primeiro. Onde fica a fila da reclamação? E a das sugestões?
Tanto passou, tanto aconteceu, gente do céu. Falta muito? Quem sabe? Quanto acontecimento na vida das minhas retinas tão fatigadas etc.
Olho ao redor. Continuo sendo o último da fila.
Esquecimento
O esquecimento é como uma canção
Que, livre de ritmo e compasso, vagueia.
O esquecimento é como um pássaro cujas asas estão em paz,
Abertas e imóveis, —
Um pássaro que plana ao sabor do vento.
O esquecimento é a chuva à noite,
Ou uma velha casa na floresta, — ou uma criança.
O esquecimento é branco, — branco como uma árvore destroçada,
E pode atordoar a sibila a ponto de profetizar,
Ou sepultar os deuses.
Eu me lembro de muitos esquecimentos.
Que, livre de ritmo e compasso, vagueia.
O esquecimento é como um pássaro cujas asas estão em paz,
Abertas e imóveis, —
Um pássaro que plana ao sabor do vento.
O esquecimento é a chuva à noite,
Ou uma velha casa na floresta, — ou uma criança.
O esquecimento é branco, — branco como uma árvore destroçada,
E pode atordoar a sibila a ponto de profetizar,
Ou sepultar os deuses.
Eu me lembro de muitos esquecimentos.
Hart Crane
Por não estarem distraídos
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Clarice Lispector
Clarice Lispector
Uma visita ao campo
Não sendo um cockney nato, não tenho quaisquer ilusões sobre o campo. As estradas onduladas e tortuosas, as sebes poeirentas, as valas com os seus cadáveres de cães, urtigas e nuvens de moscas venenosas, os grupos de crianças que trituram qualquer coisa, o camponês boçal e prematuramente envelhecido pelo trabalho, o vagabundo velhaco, os montões de estrume de cheiro nauseabundo, a cadeia de marcos miliários entre duas estalagens; por tudo isto eu passo apressado e ansioso de ver o primeiro post telegráfico indicando-me estar próximo o trem salvador. Da estrada do vilarejo à estação ferroviária, vai um salto de cinco séculos, desde uma tirania brutal da natureza sobre o Homem até ao domínio organizado deste sobre aquela.
E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um fim de semana com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de inteligência excepcional em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma moradia num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford me convertesse da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser transito ao cume de uma impostura cênica, designada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o lugar onde três homens foram forçados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre em sua companhia.
Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, após ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessados um cemitério enorme e um campo imenso, chegamos finalmente a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Consultei o caminho para Tilford, e fui informado de que estavam quatro milhas na linha reta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Sal, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirou a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, diminuindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma colocação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passava por um pinheiral, com um tapete de musgo úmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de proteção para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás comparecer a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a excitação sensação, olhei para as joelheiras das calças e, imediatamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largaram ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitetura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.
Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por mim ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de fato, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Sal “Ele aí vem!”, e o meu amigo veio me receber, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido numa roupa pertencente ao cunhado de Sal, um poeta promessa cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.
As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora fossem escolhidos uns dois ou três centímetros, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, posso-me de espirrar e o Sr.ª Sal, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de essência de cânfora. Não conheço a natureza violenta deste remédio, engolir, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, depois de ter sentido a respiração, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa úmida, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movida e tojo, já seca pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme reservatório de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia ao sotavento e sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a tristeza inefável espetáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegamos a casa, começou um passeio planejado para a manhã seguinte, até Hindhead. Só uma simples sugestão de novo passeio me trouxe um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e a Sr.ª Salt ministrou-me nas suas substituições, uma postura vulgar preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.
Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos passarinhos. Percebi, contudo, que me levantei antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à cidade. O sal estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o café-da-manhã, pusemo-nos no caminho de Hindhead, através de um nevoeiro que faz as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Sal assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não poderia se aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu. Quando, após termos subido e descido por lugares que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegamos por fim a Hindhead (que era igual às outras colinas) onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude das nuvens cerrado que fazia. Vi o lugar onde os três homens foram forçados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém foi assassinado, por induzir semelhantes aos seus passeios campestres.
Quando regressamos, Salt não estava no auge da paixão. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrônomo. Quanto à Sr.ª Salt, a conclusão de que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um traje de banho habilmente confeccionado.
Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estava tão saturada em água, que fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal do Sr. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direção do rebanho eram cuidadosamente frustrados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postadas novamente a seca e quando voltei a envergá-las, sugerem ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.
Não preciso descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu me aproximo de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.
E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um fim de semana com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de inteligência excepcional em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma moradia num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford me convertesse da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser transito ao cume de uma impostura cênica, designada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o lugar onde três homens foram forçados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre em sua companhia.
Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, após ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessados um cemitério enorme e um campo imenso, chegamos finalmente a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Consultei o caminho para Tilford, e fui informado de que estavam quatro milhas na linha reta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Sal, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirou a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, diminuindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma colocação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passava por um pinheiral, com um tapete de musgo úmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de proteção para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás comparecer a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a excitação sensação, olhei para as joelheiras das calças e, imediatamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largaram ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitetura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.
Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por mim ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de fato, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Sal “Ele aí vem!”, e o meu amigo veio me receber, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido numa roupa pertencente ao cunhado de Sal, um poeta promessa cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.
As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora fossem escolhidos uns dois ou três centímetros, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, posso-me de espirrar e o Sr.ª Sal, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de essência de cânfora. Não conheço a natureza violenta deste remédio, engolir, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, depois de ter sentido a respiração, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa úmida, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movida e tojo, já seca pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme reservatório de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia ao sotavento e sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a tristeza inefável espetáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegamos a casa, começou um passeio planejado para a manhã seguinte, até Hindhead. Só uma simples sugestão de novo passeio me trouxe um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e a Sr.ª Salt ministrou-me nas suas substituições, uma postura vulgar preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.
Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos passarinhos. Percebi, contudo, que me levantei antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à cidade. O sal estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o café-da-manhã, pusemo-nos no caminho de Hindhead, através de um nevoeiro que faz as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Sal assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não poderia se aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu. Quando, após termos subido e descido por lugares que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegamos por fim a Hindhead (que era igual às outras colinas) onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude das nuvens cerrado que fazia. Vi o lugar onde os três homens foram forçados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém foi assassinado, por induzir semelhantes aos seus passeios campestres.
Quando regressamos, Salt não estava no auge da paixão. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrônomo. Quanto à Sr.ª Salt, a conclusão de que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um traje de banho habilmente confeccionado.
Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estava tão saturada em água, que fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal do Sr. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direção do rebanho eram cuidadosamente frustrados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postadas novamente a seca e quando voltei a envergá-las, sugerem ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.
Não preciso descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu me aproximo de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.
Bernard Shaw
quarta-feira, março 4
O Poema
Um poema
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata
perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia
que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata
perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia
que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
Mario Quintana
Perde o gato
Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio cor incomum em gatos comuns e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
Carlos Drummond de Andrade
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio cor incomum em gatos comuns e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço.
E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua.
Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
Carlos Drummond de Andrade
Como matar um leitor
É assustador, enquanto professora de Português, assistir diariamente à aversão da maioria dos alunos pela leitura. Por mais que tentemos, por mais que nos esforcemos, conseguir que um aluno leia um livro verdadeiro, à moda antiga, em papel, tornou-se uma verdadeira aventura. Quantos aos outros, os digitais, parece ser ainda pior (enchem-me a memória do telemóvel, stora, ou ainda, adormeço sempre que tento, afirmam). Os livros de leitura obrigatória do Ensino Secundário em nada nos facilitam a vida. Pode ser o imperador da língua portuguesa, como lhe chamava Fernando Pessoa, mas os sermões de Padre António Vieira afastam, ano após ano, os alunos da literatura portuguesa. Pode ter sido o grande impulsionador do teatro em Portugal, depois de Gil Vicente, mas o drama romântico da Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, em pouco contribui para despertar o prazer da leitura nos adolescentes. Ainda conseguimos fazer pequenos milagres com o Amor de Perdição, tendo em conta o enredo e a juventude dos protagonistas mas as mais de setecentas páginas da obra Os Maias de imediato afastam qualquer jovem leitor. E assumem, sem medos: – Stora, nem pense que eu vou ler isso. E, na verdade, nem tentam.
Como preparar para a leitura, então? Se deixarmos de lado alguns conteúdos programáticos, talvez consigamos tempo para, de forma sistemática e consistente, criar momentos específicos, variados e frequentes para os livros, permitindo aos alunos a (re)descoberta do prazer da leitura. Mas se o fizermos, lá se vai o tempo para os restantes domínios que exigem ser trabalhados. Assim, em que ficamos? Como criar nos nossos alunos o gosto pela leitura é o grande desafio de um professor de Português nos tempos que correm.
Neste mundo em que vivemos, atolado em tecnologia, onde o avanço científico galga a olhos vistos e a comunicação se torna de tal forma global que quase nos perdemos no meio dela, ler e saber ler torna-se uma ferramenta chave para o contacto com o mundo, com os outros. É do conhecimento generalizado a dificuldade ao nível da capacidade de ler em grande parte da população mundial. Esta crise da competência de leitura tem vindo num crescendo na maioria das sociedades, colocando em cima da mesa um problema estrutural de consequências graves.
Esta generalizada crise da capacidade de leitura leva-nos a tomar consciência dos verdadeiros processos de aquisição para melhor instruir e (re)educar os indivíduos no sentido de uma leitura funcional numa sociedade de exigências crescentes de formação e de informação constantes. Dados recentes da OCDE (2025) sobre as competências de leitura em Portugal mostram desafios significativos na medida em que quase metade dos adultos (46%) com idades entre os 25-64 anos conseguem compreender apenas textos curtos e simples. Há factos preocupantes nesta matéria: cerca de 30% dos jovens de 15 anos apresentam apenas níveis elementares de competências de leitura, verificando-se um declínio na leitura por prazer. Por outro lado, os alunos portugueses demonstram dificuldades específicas em extrair informação implícita, relações lógicas e avaliação da linguagem.
Vários estudos têm comprovado que o hábito de leitura dos pais se reflete na competência de leitura dos filhos e, por outro lado, que raparigas e rapazes de contextos socioeconómicos mais elevados demonstram melhores desempenho de leitura. Na verdade, no atual contexto de mudança quase permanente em que vivemos, a leitura ganha cada vez mais uma função social e económica, tornando-se indispensável no dia a dia do cidadão comum. É verdade que a leitura se faz cada vez mais no ecrã e, neste contexto de informatização generalizada, em que quilos e quilos de informação correm para vários destinos, é fundamental dotar os alunos de ferramentas que lhe permitam selecionar, armazenar e manipular a informação. Como conseguir isto sem o domínio de competências de leitura?
A ausência de competências de leitura pode constituir uma espécie de amputação mental no plano cognitivo mas, em boa verdade, estende-se muito para além do cognitivo. Como afirma Morais (1997), “a leitura constitui uma importante via de acesso às ideologias, aos sistemas éticos, a certas formas de expressão emocional”, sem referir essa capacidade imperdível de usufruir da arte em geral e da literatura em particular. A acreditar na frase de Alberto Manguel (1996), de que “nós somos aquilo que lemos”, então estes alunos virão a ser exatamente o quê?
Como fazer dos nossos alunos, leitores hábeis? Como incentivá-los à leitura? Como mostrar-lhes que ler, saber ler, gostar de ler, lhes desenvolve o vocabulário, a autoconfiança, a segurança e a sua capacidade de integração no meio, escolar primeiro, social depois?
Quem souber responder, pode, por favor, ajudar-nos?
Como preparar para a leitura, então? Se deixarmos de lado alguns conteúdos programáticos, talvez consigamos tempo para, de forma sistemática e consistente, criar momentos específicos, variados e frequentes para os livros, permitindo aos alunos a (re)descoberta do prazer da leitura. Mas se o fizermos, lá se vai o tempo para os restantes domínios que exigem ser trabalhados. Assim, em que ficamos? Como criar nos nossos alunos o gosto pela leitura é o grande desafio de um professor de Português nos tempos que correm.
Neste mundo em que vivemos, atolado em tecnologia, onde o avanço científico galga a olhos vistos e a comunicação se torna de tal forma global que quase nos perdemos no meio dela, ler e saber ler torna-se uma ferramenta chave para o contacto com o mundo, com os outros. É do conhecimento generalizado a dificuldade ao nível da capacidade de ler em grande parte da população mundial. Esta crise da competência de leitura tem vindo num crescendo na maioria das sociedades, colocando em cima da mesa um problema estrutural de consequências graves.
Esta generalizada crise da capacidade de leitura leva-nos a tomar consciência dos verdadeiros processos de aquisição para melhor instruir e (re)educar os indivíduos no sentido de uma leitura funcional numa sociedade de exigências crescentes de formação e de informação constantes. Dados recentes da OCDE (2025) sobre as competências de leitura em Portugal mostram desafios significativos na medida em que quase metade dos adultos (46%) com idades entre os 25-64 anos conseguem compreender apenas textos curtos e simples. Há factos preocupantes nesta matéria: cerca de 30% dos jovens de 15 anos apresentam apenas níveis elementares de competências de leitura, verificando-se um declínio na leitura por prazer. Por outro lado, os alunos portugueses demonstram dificuldades específicas em extrair informação implícita, relações lógicas e avaliação da linguagem.
Vários estudos têm comprovado que o hábito de leitura dos pais se reflete na competência de leitura dos filhos e, por outro lado, que raparigas e rapazes de contextos socioeconómicos mais elevados demonstram melhores desempenho de leitura. Na verdade, no atual contexto de mudança quase permanente em que vivemos, a leitura ganha cada vez mais uma função social e económica, tornando-se indispensável no dia a dia do cidadão comum. É verdade que a leitura se faz cada vez mais no ecrã e, neste contexto de informatização generalizada, em que quilos e quilos de informação correm para vários destinos, é fundamental dotar os alunos de ferramentas que lhe permitam selecionar, armazenar e manipular a informação. Como conseguir isto sem o domínio de competências de leitura?
A ausência de competências de leitura pode constituir uma espécie de amputação mental no plano cognitivo mas, em boa verdade, estende-se muito para além do cognitivo. Como afirma Morais (1997), “a leitura constitui uma importante via de acesso às ideologias, aos sistemas éticos, a certas formas de expressão emocional”, sem referir essa capacidade imperdível de usufruir da arte em geral e da literatura em particular. A acreditar na frase de Alberto Manguel (1996), de que “nós somos aquilo que lemos”, então estes alunos virão a ser exatamente o quê?
Como fazer dos nossos alunos, leitores hábeis? Como incentivá-los à leitura? Como mostrar-lhes que ler, saber ler, gostar de ler, lhes desenvolve o vocabulário, a autoconfiança, a segurança e a sua capacidade de integração no meio, escolar primeiro, social depois?
Quem souber responder, pode, por favor, ajudar-nos?
A serpente de ouro
Ao ir um homem rico à cidade, perdeu o que levava consigo: um saco repleto, com mil talentos, sobre os quais havia uma serpente de ouro com olhos de ametista. Um pobre que passava pela mesma estrada achou o saco e o entregou à esposa, contando-lhe como o achara. Ouvida a história, a mulher disse:
— Guardemos o que Deus nos deu.
No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:
— Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.
Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:
— Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.
— Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu — replicou a mulher.
O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.
Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:
— Fica sabendo que falta a outra serpente.
Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.
Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado. Passou o caso a ser comentado entre os pobres e entre os ricos. Afinal, pelo relato dos ministros, chegou aos ouvidos do rei. Mal tomou conhecimento dele, o rei mandou trazer à sua presença o rico, o pobre e o tesouro.
Quando todos lá se achavam, mandou o rei vir um filósofo muito criterioso, juntamente com outros sábios, e ordenou-lhes que ouvissem a palavra do acusador e a do acusado, e esclarecessem a contenda. Ouvido o caso, o filósofo, movido de compaixão, chamou a si o pobre e disse-lhe em segredo:
— Dize-me, irmão, se ainda tens algum bem daquele homem. Pois, se não o tens, procurarei libertar-te com o auxílio de Deus.
— Sabe Deus que tudo o que encontrei eu restituí.
Então foi o filósofo ao soberano, e disse-lhe:
— Se quiseres ouvir um alvitre certo, eu o apresentarei.
O rei mandou-lhe que falasse, e ele argumentou:
— O homem rico é muito honesto e digno de crédito, e tem grandes testemunhos de sua veracidade. Nem é crível que reclamasse alguma coisa que não perdeu. Por outro lado, parece-me provável que o homem pobre não tenha encontrado nada além daquilo que restituiu, pois, se fosse desonesto, não devolveria o que devolveu, mas esconderia tudo.
— Que concluís daí, ó filósofo?
— Concluo que o tesouro encontrado não é o desse homem. Deveis tirar do tesouro cem talentos e dá-los ao pobre, guardando o restante até que apareça quem o reclame, pois não pertence a esse rico. Ele que se dirija ao arauto e mande procurar um saco com duas serpentes.
O alvitre agradou ao rei e a todos os circunstantes. Então o rico disse:
— Ó bom rei, digo-te a verdade: este tesouro realmente é meu. Mas, como eu não queria dar a este homem o que o arauto prometera, aleguei que me faltava uma segunda serpente. Tem piedade de mim, e darei a ele o que foi prometido.
Então o rei retirou do tesouro duzentos talentos e os deu ao pobre, devolvendo ao rico apenas o que restara, como punição por ter levantado falsa acusação sobre a honestidade do pobre.
— Guardemos o que Deus nos deu.
No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:
— Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.
Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:
— Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.
— Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu — replicou a mulher.
O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.
Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:
— Fica sabendo que falta a outra serpente.
Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.
Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado. Passou o caso a ser comentado entre os pobres e entre os ricos. Afinal, pelo relato dos ministros, chegou aos ouvidos do rei. Mal tomou conhecimento dele, o rei mandou trazer à sua presença o rico, o pobre e o tesouro.
Quando todos lá se achavam, mandou o rei vir um filósofo muito criterioso, juntamente com outros sábios, e ordenou-lhes que ouvissem a palavra do acusador e a do acusado, e esclarecessem a contenda. Ouvido o caso, o filósofo, movido de compaixão, chamou a si o pobre e disse-lhe em segredo:
— Dize-me, irmão, se ainda tens algum bem daquele homem. Pois, se não o tens, procurarei libertar-te com o auxílio de Deus.
— Sabe Deus que tudo o que encontrei eu restituí.
Então foi o filósofo ao soberano, e disse-lhe:
— Se quiseres ouvir um alvitre certo, eu o apresentarei.
O rei mandou-lhe que falasse, e ele argumentou:
— O homem rico é muito honesto e digno de crédito, e tem grandes testemunhos de sua veracidade. Nem é crível que reclamasse alguma coisa que não perdeu. Por outro lado, parece-me provável que o homem pobre não tenha encontrado nada além daquilo que restituiu, pois, se fosse desonesto, não devolveria o que devolveu, mas esconderia tudo.
— Que concluís daí, ó filósofo?
— Concluo que o tesouro encontrado não é o desse homem. Deveis tirar do tesouro cem talentos e dá-los ao pobre, guardando o restante até que apareça quem o reclame, pois não pertence a esse rico. Ele que se dirija ao arauto e mande procurar um saco com duas serpentes.
O alvitre agradou ao rei e a todos os circunstantes. Então o rico disse:
— Ó bom rei, digo-te a verdade: este tesouro realmente é meu. Mas, como eu não queria dar a este homem o que o arauto prometera, aleguei que me faltava uma segunda serpente. Tem piedade de mim, e darei a ele o que foi prometido.
Então o rei retirou do tesouro duzentos talentos e os deu ao pobre, devolvendo ao rico apenas o que restara, como punição por ter levantado falsa acusação sobre a honestidade do pobre.
Petrus Alphonsi, "Mar de Histórias"
terça-feira, março 3
Onde estão os leitores?
Estou em um café ao lado de uma pequena livraria em Ipanema. Um cantinho que tomo para mim em uma manhã roubada da rotina. Venho para a mesa de fora porque do lado de dentro dois homens falam alto. Quero silêncio. Trouxe para a leitura do momento: Quand tu écouteras cette chanson, de Lola Lafon, um livro premiado, lindo, que fala sobre a noite que a escritora em questão passou no Anexo, em Amsterdã, na casa clandestina de Anne Frank.
Ela reconta toda a caminhada da família até a clausura. Os preparativos, a corrida pelo “essencial”, os livros, a organização para que as meninas estudassem, lessem, não se afogassem nas horas vazias… Enquanto leio, observo o entorno da livraria. Ninguém lê. O gesto de pegar um livro e se manter em silêncio, imerso em um mundo distante, me parece cada vez mais raro. A moça na mesa da frente toma conta de duas crianças e está afogada na tela. As crianças relutam entre o desenho e… as telas. As senhoras dentro do café chegaram agora. Retomam a conversa do mês, e não há indícios de que sejam leitoras.
Por que digo isso? Estou em uma área de elite. Um dos bairros mais caros do Rio. E ninguém lê. Não vejo uma viva alma disposta a se acomodar em um canto, fazer silêncio e imergir em um mundo de papel. A moça da mesa da frente mostra com entusiasmo a viagem de sua médica por um país que ela logo identifica. Está radiante ao ver a viagem da outra. Isso basta.
Apontamos o dedo para as infâncias longe dos livros, mas o que fazer com os adultos? Uma causa perdida? Por onde tocar a sensibilidade para que tenham o gosto da leitura, que não é hábito, é prazer e ponto? Confesso que não sei. Talvez a gente tenha que agir mesmo no terreno da infância e ajudar as crianças a entender que a leitura está, sim, entre as coisas mais essenciais da vida. É um processo lento, envolve todos que, de alguma forma, trabalham e vivem entre os livros. Vamos nessa?
Retomo a minha viagem. Que livro lindo o de Lola Lafon. Que experiência sem medida é poder viajar para dentro de outras sensibilidades e situações sem sair do meu cantinho, um café simpático ao lado de uma bela livraria de bairro.
Ela reconta toda a caminhada da família até a clausura. Os preparativos, a corrida pelo “essencial”, os livros, a organização para que as meninas estudassem, lessem, não se afogassem nas horas vazias… Enquanto leio, observo o entorno da livraria. Ninguém lê. O gesto de pegar um livro e se manter em silêncio, imerso em um mundo distante, me parece cada vez mais raro. A moça na mesa da frente toma conta de duas crianças e está afogada na tela. As crianças relutam entre o desenho e… as telas. As senhoras dentro do café chegaram agora. Retomam a conversa do mês, e não há indícios de que sejam leitoras.
Por que digo isso? Estou em uma área de elite. Um dos bairros mais caros do Rio. E ninguém lê. Não vejo uma viva alma disposta a se acomodar em um canto, fazer silêncio e imergir em um mundo de papel. A moça da mesa da frente mostra com entusiasmo a viagem de sua médica por um país que ela logo identifica. Está radiante ao ver a viagem da outra. Isso basta.
Apontamos o dedo para as infâncias longe dos livros, mas o que fazer com os adultos? Uma causa perdida? Por onde tocar a sensibilidade para que tenham o gosto da leitura, que não é hábito, é prazer e ponto? Confesso que não sei. Talvez a gente tenha que agir mesmo no terreno da infância e ajudar as crianças a entender que a leitura está, sim, entre as coisas mais essenciais da vida. É um processo lento, envolve todos que, de alguma forma, trabalham e vivem entre os livros. Vamos nessa?
Retomo a minha viagem. Que livro lindo o de Lola Lafon. Que experiência sem medida é poder viajar para dentro de outras sensibilidades e situações sem sair do meu cantinho, um café simpático ao lado de uma bela livraria de bairro.
Janela sobre uma mulher 2
A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma maçã meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Uma água suja chove dentro de mim.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma maçã meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Uma água suja chove dentro de mim.
Eduardo Galeano, “Mulheres”
Aos deuses de tudo que existe
Não, os jardins não morrem no inverno, como os animais ou as pessoas, principalmente as mais velhas, apenas sofrem um pouco mais fundo do que de costume. Alguns, verdade, sucumbem. Minha vó Corruíra, por exemplo, costumava dizer: “Acho que deste agosto não passo”. E houve um do qual realmente não passou. Mas isso talvez fosse o destino, ou morre-se mais facilmente no inverno? sobretudo invernos gaúchos, quando o minuano vara frestas e fendas para cortar a pele feito navalha gelada. Enregelados, atravessamos agostos que parecem eternos e, nos setembros, suspiramos quase leves outra vez: “Meu Deus, passou”. O que vezenquando é puro engano: há pequenos agostos embutidos no entremeio dos doidos setembros.
Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente. Óbvias, quem sabe. Pra mim, não: é que nunca antes na vida tive um jardim. Que nem sequer, e ainda bem, é só meu. Tem a mão mais antiga de meu pai, e também o “dedo verde” de minha irmã Cláudia, que me ensina toques espertos contra pragas. Por que existem as pragas. Ah, se existem. E bem mais que as sete bíblicas. Fora os agostos, formigas-cortadeiras, caracóis, lesmas, pulgões, ácaros, cochonilhas e falanges do mal de nome ainda mais esquisito que esse último. Armados até os dentes, lutamos. Todo santo dia. Guerra sem tréguas, Bósnia.
Contabilizo perdas: foram-se a angélica, begônias, lágrimas-de-cristo que eu achava que eram brincos-de-princesa (meu pai jura que voltam), uma dália amarelinha adorada pelos erês de Oxum e outras muitas. A hortênsia empacou, o jasmineiro agonizou, mas resistiu bravo. Já as margaridas ficaram ainda mais folhudas, os gerânios cresceram loucamente e as roseiras se revelaram inesperadamente fortes, com menos de um ano de vida e de um metro de altura. A branca Lygia certos dias chegou a render nada menos que seis rosas. Todas abertas ao mesmo tempo, numa apoteose a Oxalá (sugestão para fantasia carnavalesca). O belo fica ainda mais belo, quando também é forte? Pois é.
E teve certa amarílis, que em julho dei por perdida. Semana passada, arrancando baldes de ervas-daninhas de nojentas raízes brancas estranguladoras, a alegria: como uma ponta de espada brotando da terra, miniexcalibur. Ao contrário, lá estava a amarílis nascendo outra vez. Limpei mais, adorei, conversei, bravo, é isso aí, minha filha, não se entrega não. Happy end? Ledo engano: manhã seguinte, a pontinha de espada não passava de um toco roído durante a noite não sei por que abantesma (só mesmo usando essa palavra) das trevas. Continuamos lutando, juntos, a amarílis e eu. Mas quando você pensa que um perigo medonho passou é porque outro ainda pior está vindo? Oh, Deus. E o perigo-passado realmente deixou você mais forte para o perigo-vindouro? E se só ficou o cansaço e se a amarílis desistir? E se eu desistir e for cuidar das verbenas, cravinas e amores-perfeitos que acabei de plantar?
Aprendem-se coisas, eu dizia. Vezenquando, assustadoras.
Mas lutamos, eu também dizia. E olho agora para trás e vejo na estante às minhas costas, bem à frente de um livro com reproduções de Egon Schiele, aquela árvore japonesa da fortuna e da felicidade, quando percebi que não superaria o inverno, transplantei-a do jardim para o meu quarto. Era um resto negro calcinado pela geada. E quase invisível, um pontinho verde de vida na base. Fui até lá agora e medi: está Com mais de meio palmo de altura empinadíssima, viva.
Então eu agradeço, eu tenho medo e espanto e terror e ao mesmo tempo maravilhamento e outras coisas com e sem nome, mas agradeço. Aos deuses dos jardins, aos deuses dos homens, aos deuses do tempo e até aos das ervas daninhas que nos fazem lutar feito tigres feridos fundo no peito, sim, eu agradeço.
Caio Fernando Abreu
Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente. Óbvias, quem sabe. Pra mim, não: é que nunca antes na vida tive um jardim. Que nem sequer, e ainda bem, é só meu. Tem a mão mais antiga de meu pai, e também o “dedo verde” de minha irmã Cláudia, que me ensina toques espertos contra pragas. Por que existem as pragas. Ah, se existem. E bem mais que as sete bíblicas. Fora os agostos, formigas-cortadeiras, caracóis, lesmas, pulgões, ácaros, cochonilhas e falanges do mal de nome ainda mais esquisito que esse último. Armados até os dentes, lutamos. Todo santo dia. Guerra sem tréguas, Bósnia.
Contabilizo perdas: foram-se a angélica, begônias, lágrimas-de-cristo que eu achava que eram brincos-de-princesa (meu pai jura que voltam), uma dália amarelinha adorada pelos erês de Oxum e outras muitas. A hortênsia empacou, o jasmineiro agonizou, mas resistiu bravo. Já as margaridas ficaram ainda mais folhudas, os gerânios cresceram loucamente e as roseiras se revelaram inesperadamente fortes, com menos de um ano de vida e de um metro de altura. A branca Lygia certos dias chegou a render nada menos que seis rosas. Todas abertas ao mesmo tempo, numa apoteose a Oxalá (sugestão para fantasia carnavalesca). O belo fica ainda mais belo, quando também é forte? Pois é.
E teve certa amarílis, que em julho dei por perdida. Semana passada, arrancando baldes de ervas-daninhas de nojentas raízes brancas estranguladoras, a alegria: como uma ponta de espada brotando da terra, miniexcalibur. Ao contrário, lá estava a amarílis nascendo outra vez. Limpei mais, adorei, conversei, bravo, é isso aí, minha filha, não se entrega não. Happy end? Ledo engano: manhã seguinte, a pontinha de espada não passava de um toco roído durante a noite não sei por que abantesma (só mesmo usando essa palavra) das trevas. Continuamos lutando, juntos, a amarílis e eu. Mas quando você pensa que um perigo medonho passou é porque outro ainda pior está vindo? Oh, Deus. E o perigo-passado realmente deixou você mais forte para o perigo-vindouro? E se só ficou o cansaço e se a amarílis desistir? E se eu desistir e for cuidar das verbenas, cravinas e amores-perfeitos que acabei de plantar?
Aprendem-se coisas, eu dizia. Vezenquando, assustadoras.
Mas lutamos, eu também dizia. E olho agora para trás e vejo na estante às minhas costas, bem à frente de um livro com reproduções de Egon Schiele, aquela árvore japonesa da fortuna e da felicidade, quando percebi que não superaria o inverno, transplantei-a do jardim para o meu quarto. Era um resto negro calcinado pela geada. E quase invisível, um pontinho verde de vida na base. Fui até lá agora e medi: está Com mais de meio palmo de altura empinadíssima, viva.
Então eu agradeço, eu tenho medo e espanto e terror e ao mesmo tempo maravilhamento e outras coisas com e sem nome, mas agradeço. Aos deuses dos jardins, aos deuses dos homens, aos deuses do tempo e até aos das ervas daninhas que nos fazem lutar feito tigres feridos fundo no peito, sim, eu agradeço.
Caio Fernando Abreu
Brincar de pensar
A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos da emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.
Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem houve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.
Bom, mas quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo. Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.
Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… e foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar no caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?
Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem houve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.
Bom, mas quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo. Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.
Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… e foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar no caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?
Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
Telas
Quando eu era menino, nas décadas de cinquenta/sessenta, só havia uma tela em casa: a da televisão Philco, dezesseis polegadas. Nela assistíamos, em preto e branco, aos programas que faziam sucesso na época. Geralmente à noitinha, depois de deixarmos a rua e tomarmos banho, já de pijama, antes do jantar e um pouquinho depois dele. O horário de dormir era rígido. Cedo para os padrões de hoje, estávamos deitados, em nossas camas, nos braços de Morfeu.
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
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