quarta-feira, outubro 21

Leitura a dois

 


Meu reino por um pente

Filhos - diz o poeta - melhor não tê-los. Já o Professor Aníbal Machado me confiou gravemente que a vida pode ter muito sofrimento, o mundo pode não ter explicação alguma, mas, filhos, era melhor tê-los.

A conclusão parece simples, mas não era; Aníbal tinha ido às raízes da vida, e de lá arrancara a certeza imperativa de que a procriação é uma verdade animal, uma coisa que não se discute, fora de alcance do radar filosófico. “Eu não sei por que, Paulo, mas fazer filhos é o que há de mais importante”.

Engraçado é que depois dessa conversa fui descobrindo devagar a melancólica impostura daquelas palavras corrosivas do final de Memórias Póstumas: “não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Filhos, melhor tê-los, aliás, o mesmo poeta corrige antiteticamente o pessimismo daquele verso, quando pergunta: mas, se não os temos, como sabê-lo? Resumindo: filhos, melhor não tê-los, mas é de todo indispensável tê-los para sabê-lo; logo, melhor tê-los.

Você vai se rir de mim ao saber que comecei a crônica desse jeito depois de procurar em vão meu bloco de papel. Pois se ria a valer: o desaparecimento de certos objetos tem o dom de conclamar, por um rápido edital, todas as brigadas neuróticas alojadas nas províncias de meu corpo.

Sobretudo instrumentos de trabalho. Vai-se-me por água a baixo o comedimento quando não acho minha caneta, meu lápis-tinta, meu papel, minha cola... Quando isso acontece (sempre) até taquicardia costumo ter; vem-me a tentação de demitir-me do emprego, de ir para uma praia deserta, de voltar para Minas Gerais, renunciar...

Ridículo? Sim, ridículo, mas nada posso fazer. Creio que seria capaz (talvez seja presunção) de aguentar com relativa indiferença uma hecatombe que destruísse de vez todos os meus pertences. O que não suporto é a repetição indefinida do desaparecimento desses objetos sem nenhum valor, mas, sem os quais, a gente não pode seguir adiante, tem de parar, tem de resolver primeiro.

Stanislaw Ponte Preta andou espalhando que eu usava ventilador para pentear os cabelos. Calúnia. Sou o maior comprador de pentes do Estado da Guanabara.

Compro-os em quantidades industriais pelo menos duas vezes por mês, de todos os tamanhos, de todas as cores. Sou quase amigo de infância do vendedor de pentes que estaciona ali na esquina de Pedro Lessa e Rua México. A princípio, pensou que eu estava substabelecendo o comércio dele, comprando para vender mais caro, mas um dia eu lhe contei minha tragédia familiar, e ele sorriu e confessou: “Lá em casa é a mesma coisa”.

Chego em casa com os meus pentes e os distribuo a mancheias. Dois para você, quatro para você - segundo o temperamento e a distração de cada um. Aviso a todos que vou colocar um no armário do quarto, um no banheiro, um em cada mesa de cabeceira, dois na minha gaveta. Terminada essa operação ostensiva, fico malicioso e furtivo; secretamente, vou escondendo outros pentes por todos os cantos e recantos, debaixo do colchão, no alto de um móvel, atrás do exemplar dos Suspiros Poéticos e Saudades. Em seguida, reúno solenemente toda a família, inclusive o Poppy, tiro do bolso um pente singular, o mais ordinário encontrável na praça, e digo: “Este é o meu pente; este ninguém usa; neste, sob pretexto algum, ninguém toca! Estão todos de acordo? Ou algum dos presentes deseja fazer alguma objeção?”

Estão todos de acordo. A sinceridade do meu clã nesses momentos é de tal qualidade que, por um dia ou dois, tenho a ilusão de que, afinal, venci, de que descobri o approach certo para a família incerta. Mas, meu São Luís de Camões, ó caminhos da vida, sempre errados! Os dias passam, o vento passa a descabelar-nos, e os meus pentes, os meus pentes também passam. Misteriosamente, inexplicavelmente, eles desaparecem, pouco a pouco, com certa malícia, um a um, dois a dois, até chegar o momento dramático no qual, depois de vasculhar todos os meus esconderijos, fico em cabelos no meio da sala e, como Ricardo III em plena batalha, exclamo patético: “Um pente, um pente, meu reino por um pente!”.

Eu não fui - diz o primeiro; - eu não fui - diz o segundo; - eu não fui - diz o terceiro. Poppy, cuja especialidade é comer meias e sapatos, não diz nada, mas abana o rabo negativamente.

Não foi ninguém, foi Mr. Nobody, foi o diabo, foi a minha sina. Minha mansão tem apenas três quartos e uma sala. Pois é inacreditável a quantidade de objetos que estão desaparecidos aqui dentro. Um dia, quando me mudar, a gente vai achar tudo.

E sorrir um para o outro com uma nostalgia imprecisa, e dizer em silêncio que, filhos, e pais, melhor tê-los.
Paulo Mendes Campos, "Elenco de cronistas modernos"

A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtam

Quando o coágulo de sangue explodiu na cabeça de Jeffrey Curtam, algo nele foi cortado, como uma mangueira ou um caule. E o seu pensamento viu-se subitamente decepado do corpo.

Sem espanto, porque a dor lancinante não teve sequer o tempo de traduzir-se em grito antes que aquela estranha guilhotina o truncasse na boca. Passado isso, nada mais havia a não ser a nova dimensão.

— O Dr. Jewett acha que não há esperança — repetia a enfermeira em voz baixa, aos eventuais visitantes. — O Sr. Curtam poderá viver indefinidamente, mas não tornará a ver. Nem se mexerá, nem pensará. Apenas respirará.

De fato, Jeffrey respirava. Os pulmões, egoisticamente alheios à situação do restante do corpo, continuavam exercendo sua tarefa com a mesma fiel regularidade com que durante tantos anos lhe haviam fornecido aquele ar indispensável para que se levantasse a cada manhã, e a cada manhã se barbeasse dando a partida para mais um dia, que haveria de catapultá-lo da mesa de refeições para a mesa de trabalho, diante da máquina de escrever e dos contos que produzia para alimentar o próprio corpo, e com ele os próprios pulmões encarregados de fornecer aquele ar indispensável para. Jeffrey teria ficado orgulhoso dos seus pulmões, se apenas se desse conta de que funcionavam, ou sequer de que os tinha. Mas, apesar do corpo de Jeffrey continuar possuindo pulmões e outros órgãos em perfeito estado de funcionamento, seu cérebro os desconhecia e comportava-se como se deles não necessitasse. Assim como não necessitava da visão ou da audição. Cortadas as ligações que o haviam ancorado ao resto do corpo, o cérebro de Jeffrey Curtam não dava mais ordens. E os médicos, enganados pelo silêncio dessa voz de comando, haviam decretado sua morte, entretanto, emparedado na caixa craniana cujos orifícios a ruptura havia vedado com sangue espesso como chumbo, o cérebro pensava.

Talvez fosse mais correto dizer que luzia. Pois nada do que havia vivido até então se assemelhava à luz límpida e pura por ele agora gerada na óssea escuridão da sua caverna. Jeffrey Curtam havia-se livrado para sempre da escravidão da coerência. Sua mente, solta, tudo se permitia, tudo realizava.

Aos poucos, a camada de pintura branca que cobria a casa de Jeffrey entrou em entendimento definitivo com o sol e com a chuva, fundindo sua obediência a ambos numa única tonalidade cinzenta, que somente sob as calhas permitia-se escurecer. Começou a descascar. Enormes escamas quebradiças abriam-se feito conchas na velha superfície, entregando a madeira ao tempo, sem que pérola rolasse.

Crescia a grama ao redor, manchada aqui e acolá pelas lascas mais frágeis que em constante outono desprendiam-se das paredes e caíam volteando, enquanto na imobilidade do corpo de Jeffrey, outro movimento se processava. Vinda dos pés — ou seria da nuca? — a paralisia que já lhe havia tomado os membros rastejava por dentro, buscando alcançar-lhe o coração. Na cidadezinha, todos se referiam a ele como se já estivesse morto. E todas as manhãs, sua mulher o barbeava e lavava, mudando-o, ela mesma, da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, falando-lhe como se fala a um cão amigo, embora sem ter sequer a esperança da resposta ou reconhecimento de que um cão é capaz. Nada lhe vinha daquele corpo, além do hábito.

Mas Roxanne falava sem esforço, com a mesma doçura dos primeiros dias, evitando perguntar-se se o fazia para evitar seu próprio silêncio ou se para preencher com suas palavras o silêncio que dele parecia emanar.

Sem que ela pudesse ouvir, por trás dos cabelos ralos e quase brancos, por trás da pele apergaminhada, por trás da espessa barreira dos ossos, um silêncio cheio de sons e palavras tecia sua sinfonia no cérebro de Jeffrey. Nunca mais ele havia precisado se expressar de forma audível ou legível. Nunca mais ele havia pensado para outros. Pensando só para si, seguia o fio sinuoso e inquebrável dos seus desejos, deixando-se escorrer por ele como em água, sem saltos ou fraturas. A fabulação, que havia sido sua forma de viver, tornava-se sua vida. E ali deitado, imóvel, Jeffrey criava e costurava, uma após a outra, as imagens da longa narrativa.

Um neurologista — fama convocada para validar o que vários outros já haviam afirmado — tentou convencer Roxanne de que era inútil dispensar tamanho cuidado ao enfermo. “Se Jeffrey tivesse consciência do seu estado”, disse em voz autoritariamente piedosa, “desejaria morrer. Desejaria libertar-se da prisão do próprio corpo.

Mas Jeffrey não desejava morrer. Assim como não desejava livrar-se do próprio corpo. Esse corpo que, sem movimentos, atrofiava-se aos poucos sobre a cama, não lhe era prisão. Nem lhe fazia falta. Antes, havia sido necessário ocupar-se dele, vigiar seus alarmas, suas dores, seus sintomas, lutar diariamente para atender sua fome inesgotável, protegê-lo. Antes havia sido imperioso servi-lo, e às suas exigências. Talvez então lhe fosse mais prisão do que agora, quando, impedido o contato entre o pensamento e suas carnes, eram elas que o serviam.

De alguma forma, poderia-se dizer que Jeffrey não tinha consciência do seu estado. Mas isso, não porque estivesse impedido de percebê-lo. E sim porque, na longa travessia na qual seu pensamento estava empenhado, o fato de não falar ou mover-se parecia tão menor que se via excluído. Jamais, olhando o vivo cadáver do marido, suspeitaria Roxanne da intensa movimentação que o habitava. Sem gesto que o cansasse, Jeffrey não dormia, seu estado era um só. E nesse estado, de absoluta entrega e absoluta atenção, ele mudava de tempo e de país, dialogava com os vivos e agia com os mortos, dançava como nunca havia dançado, cavalgava, respirava no fundo da água, e voava, voava.

Longas vezes, enfastiado talvez da tanta agitação, o cérebro de Jeffrey deixava-se ficar, girando apenas ao redor de um pensamento, envolvendo-o nos fios prateados das suas ideias, aprumando-lhe as formas e o sentido, até vê-lo crescer, tão intenso como se a vida não lhe tivesse sido dada ali, mas apenas explodisse naquele momento, carga milenar que desde sempre trazia consigo. Erguiam-se então na pálida atmosfera do quarto as invisíveis torres, e os sinos badalavam ensurdecedores no cérebro de Jeffrey. Sem que seu som cortasse o ar pesado do cheiro de remédios.

Os anos haviam devorado o seguro de Jeffrey. Roxanne fora obrigada a vender uma parte da terra atrás da casa, depois a abrir mão de uma faixa de jardim à direita. Uma hipoteca tornara-se inevitável.

E no entanto, como nos primeiros dias, quando a doença se manifestara e ainda parecia possível reverter o destino, ela continuava a amar o marido. Amava, em verdade, aquele homem que havia antes, e que ela teimava em sobrepor a esta pálida coisa cada dia menor e mais leve, coisa quase humana que ainda transportava da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, como se carregasse um fardo ou um feto.

— Que mais posso eu fazer? — perguntava-se puxando de leve as cortinas, não fosse o sol bater sobre o pobre rosto que, único movimento perceptível, parecia voltar-se sempre em direção à luz.

Uma luz quente derramava-se sobre as imagens dos pensamentos de Jeffrey, naquela tarde em que, pela primeira vez depois de tanto tempo, sentiu que seu corpo o chamava. Desobstruíam-se os ouvidos, sons alheios aos seus lhe chegavam como ruído de cachoeira, ou vento, ou cantoria. As placas ósseas da sua fronte, as maçãs do seu rosto abriam-se como batentes empurrados por dentro e o sol, com intensidade nunca antes alcançada, vinha expulsá-lo da caverna.

O fio do pensamento de Jeffrey lançou-se para aquela luz.

Roxanne, que cochilava na cadeira ao pé da cama, acordou sobressaltada. Estendeu a mão para tocar o marido. Não foi preciso. Antes mesmo de olhá-lo, soube que estava sozinha na casa. Recolheu a mão ao colo, segurou-a com a outra, e deixou-se ficar. O sol se pôs. O perfume dos lilases pareceu enlouquecer as cigarras, o coaxar das rãs pairou sobre o peitoril da janela. Só então Roxanne levantou-se.
Marina Colasanti, "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século"

O túmulo da Múmia

Tinha vindo ao museu pesquisar sobre o Egito para o meu caderno de História. Passei pela enorme arcada e entrei na primeira das cinco salas que constituíam a coleção egípcia. As paredes altas pareciam húmidas e sombrias. A única coisa que iluminava a sala era a serena luz cinzenta de um dia de chuva. Sombras escuras espreitavam por trás das vitrinas e das estátuas, escondendo‑se nos cantos. Um cheiro bolorento dominava o ar gelado que me atravessava os ossos.


Encontrava‑me sozinha neste memorial de tempos antigos. Os únicos pontos luminosos eram algumas tapeçarias desinteressantes. Nas vitrinas havia algumas joias danificadas do período egípcio. Junto a uma parede havia imponentes blocos de pedra, gravados com figuras grotescas. Fiz algumas anotações acerca do tipo de material usado na época egípcia, e passei depressa para a sala seguinte. Era inteiramente dedicada à cerâmica. Passei os olhos pela acumulação de obras tradicionais: as cores dominantes nos vasos eram o almagre, o verde‑água e o preto. As figuras representadas eram pintadas em cores contrastantes. Eram‑me familiares dos tempos da escola básica: rostos e pernas de perfil, busto e olhos de frente. A terceira sala continha apenas uma entediante quantidade de ferramentas e utensílios usados pelos egípcios. Listei alguns deles e passei para a quarta sala.

Nesta sala havia sobretudo cópias de mobiliário. Poucas peças verdadeiras enfeitavam as paredes.

A quinta sala, porém, fascinou‑me. As paredes estavam cobertas de velhos sarcófagos, e no centro deste misterioso lugar estendia‑se uma fileira de vitrinas baixas. Controlei o meu entusiasmo pelas múmias e aproximei‑me primeiro da fileira de mesas. O meu olhar distraído foi subitamente arrebatado por algo que brilhava no meio dos pendentes. Passou‑me pela cabeça que fosse um olho. Um olho humano! Costumo gabar‑me de possuir um temperamento calmo, resistente e curioso, mas naquele momento comecei a tremer por dentro e por fora. A roupa colava‑se‑me ao corpo, úmida de suor, ao mesmo tempo que um calafrio gélido me subia pelas costas. Enquanto tentava refazer os resquícios confusos daquilo a que gosto de chamar a minha compostura, li a legenda por baixo do olho. Era apenas feito de ágata! No entanto, sob o meu olhar frenético, tinha um aspecto gelatinoso, e a pupila parecia dilatar‑se ao fitar‑me.

Afastei‑me com alívio da vitrina e apressei‑me a ver os seis sarcófagos. Os primeiros cinco eram interessantes: tinham‑se soltado algumas lascas de tinta, o que lhes dava um agradável ar de antiguidade. Os rostos lisos e sérios desenhados no exterior dos sarcófagos olhavam diretamente para cima, como se tentassem ver além do pesado teto e obter um vislumbre dos céus soalheiros que não avistavam há tantos anos. Parei, espantada, em frente do sexto sarcófago. Dele saía um forte odor a carne putrefata!

— É claro que não pode haver nenhuma múmia antiga aqui — disse para comigo.

De repente, ocorreu‑me uma ideia horripilante… mas era demasiado improvável, demasiado horrível, para ser concebida pela mente humana. Enquanto pensava nisso, ouvi passos furtivos atrás de mim. Virei‑me depressa.

Na minha cabeça, imaginei toda a espécie de espetros sangrentos. No entanto, senti‑me tranquilizada por uma risada rouca provinda do velhote enrugado ao meu lado ao perceber a minha surpresa. Disse‑me então:

— Estava a observá‑la de trás daquela coluna ali; vi‑a a admirar o globo ocular na vitrina. Parece real, não é?

O velhote soltou outra risada das suas e levou‑me de volta à vitrina. Senti que estava a ser impelida por algum feitiço invisível, inédito, tal como acontece em sonhos, quando estamos a ser perseguidos e não conseguimos mexer nenhum músculo. Impotente, vi o homem de cabelo branco tirar do bolso uma minúscula lupa, que colocou sobre o olho. Para meu terror, o olho mexia‑se e fitava‑me lastimosamente à medida que o homem deslocava a lupa sobre o horrível órgão. Fui‑me embora em bicos de pés, depois de lançar um olhar furtivo à figura curvada, ainda alegremente absorta no seu bizarro jogo.

Durante toda a noite, fui assombrada por ideias terríveis. Não conseguia adormecer, porque visões assustadoras de olhos líquidos e múmias vivas desfilavam diante de mim. Tentei convencer‑me de que o facto de o olho ser real não passava de uma invenção do velhote, mas foi em vão.

Ainda estava a chover, quando os primeiros sinais da madrugada surgiram no horizonte. Acordei e vesti‑me. Depois comecei a refletir sobre a melhor estratégia a seguir. Não era altura para gestos imprudentes. Às cinco e meia da tarde o museu fechava, e eu não poderia escapar ao sensor fotoelétrico. Tive, então, uma ideia: se ao menos resultasse! Entretanto já eram oito e meia, por isso tomei o pequeno‑almoço com a dona da pensão e fui de seguida ao First National do bairro, onde comprei um pão e um frasco de manteiga de amendoim. Quando regressei ao quarto, preparei quatro sandes de manteiga de amendoim e embrulhei‑as em papel de cera antes de as colocar num saco de papel. Pus também de lado um chapéu de abas largas e um guarda‑chuva. Às quatro horas, peguei nas sandes e no guarda‑chuva, pus o chapéu na cabeça, puxei a gola do casaco para cima e apanhei o autocarro das 4h10 para o museu.

Quinze minutos depois, ao subir a escadaria de mármore, constatei que o museu estava vazio, com exceção de dois ou três guardas. Não havia ninguém por perto, quando passei pelo sensor fotoelétrico. Peguei, então, no guarda‑chuva e passei‑o pelo sensor como se alguém estivesse a sair. Levantei o útil guarda‑chuva e percorri os longos e escuros corredores do museu. Ninguém me conseguia ver na escuridão cerrada, mas (engoli em seco) eu também não conseguia ver ninguém. Não tinha lanterna! Esquecera‑me talvez da coisa mais importante. Com cuidado, atravessei depois o átrio que ia dar à sala egípcia. Encontrei um banco num canto escuro da entrada. Ali me deitei, tremendo de excitação. Devorei com fome as sandes e adormeci logo.

Não sei durante quanto tempo me agitei no meu sono perturbado ou o que me terá acordado, mas sentei‑me e fui, então, surpreendida por um débil raio de luz que atravessava a noite escura como uma faca. Vinha da sala egípcia, da zona do túmulo da múmia! O pungente cheiro a carne podre chegou‑me de novo às narinas. Entrei às escondidas na sala. O que ali vi deixou‑me paralisada de horror. Sentia o corpo dormente, e só conseguia observar de forma impotente as ações quase inconcebíveis praticadas por um monstro desumano, desprovido de sanidade.

A luz da vela acesa no túmulo tremeluzia ao sabor das correntes de ar, projetando sombras assustadoras na parede. Essa luz permitiu‑me entrever as feições loucas do empregado de cabelo branco que já tinha conhecido — na véspera. Carregava um corpo vivo, enfaixado em ligaduras brancas, com aberturas apenas nos olhos e no nariz. A figura soltava gemidos abafados e contorcia‑se. O empregado abriu depois o quinto sarcófago, ao lado daquele de onde vinha o peculiar cheiro. Para meu horror, vi que a metade de cima se abria como a tampa de um caixão e estava revestida de espigões compridos e afiados: decerto para torturar a vítima aprisionada! O empregado deitou, então, a criatura humana na caixa, mas não a fechou. Aproximei‑me aos poucos, colada às sombras na parede. O empregado pegara, entretanto, numa colher afiada e inclinava‑se para arrancar os olhos da vítima aterrorizada, quando me viu aparecer. Reconheceu‑me!!

— Ah! — comentou, lançando‑me um olhar de soslaio. — Conseguiste fugir ontem, mas hoje vai ser diferente. Vou abafar os teus gritos de angústia e deixar‑te esvair em sangue numa agonia terrível. Tens de ir ao encontro dos deuses egípcios. Vou cortar‑te devagar os olhos e endurecê‑los antes de os expor na vitrina.

Quando avançou na minha direção, bati‑lhe com o guarda‑chuva e ele caiu inanimado no chão com um baque surdo. Demasiados anos naquela silenciosa câmara de tortura tinham‑lhe enfraquecido o coração e enlouquecido os sentidos. Soltei a rapariga, que desmaiara com o susto, e amarrei o empregado com o generoso rolo de gaze e fita adesiva. Depois percorri os corredores já familiares que iam dar ao escritório do museu, onde telefonei à polícia para contar que tinha descoberto a rapariga desaparecida, cuja fotografia fora publicada em todos os jornais, bem como o louco raptor e futuro assassino. Quando regressei à fatídica sala para tranquilizar a rapariga restabelecida, o estrépito das sirenes policiais já fustigava o ar.

Na manhã seguinte, acordei por volta das dez horas com o telefone a tocar e atendi sonolentamente, pois ainda sentia o corpo dorido e uma dor de cabeça fortíssima. Era o chefe da polícia, que me contou que o empregado tinha confessado um assassinato e uma tentativa de assassinato antes de cair morto com um segundo ataque cardíaco. O chefe da polícia também me disse que o pai da rapariga me ia dar uma grande recompensa. Sorri ao lembrar‑me dela e disse ao chefe da polícia para agradecer ao pai em meu nome, mas para lhe dizer que guardasse a recompensa. Depois de desligar, voltei para a cama, mergulhando de imediato num sono tranquilo, liberto de sonhos.
Sylvia Plath, "Prosa Reunida"

Ítaca

Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
Repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
Nem o colérico Poseidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Poseidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
E belas mercancias adquirir. Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Konstantinos Kavafis, "Pequeno Compêndio de Poemas Luminosos"

O nadador

Era um daqueles domingos de verão em que todo mundo diz: "Ontem à noite bebi demais." Podiam-se ouvir os fiéis a sussurra-lo ao sair da igreja, ou da boca do próprio padre, a tentar livrar-se da sotaina na sacristia, podia-se ouvir no golfe e na quadra de tênis, ou na reserva natural onde o chefe do grupo Audubon de observadores de pássaros curtia uma tremenda ressaca. "Bebi demais", disse Donald Westerhazy. "Todos bebemos demais", disse Lucinda Merrill. "Deve ter sido o vinho", disse Helen Westerhazy. "Bebi demais daquele clarete."

Passava-se isto na borda da piscina dos Westerhazy. A piscina, alimentada por um poço artesiano com alto teor de ferro, era de um verde pálido. Estava um dia magnífico. A Oeste havia uma densa formação de cúmulos tão parecida com uma cidade vista de longe - da proa de um barco que se aproximasse - que podia ter um nome. Lisboa. Hackensack. O sol estava quente. Neddy Merrill estava sentado junto da piscina, uma mão dentro d’água verde, outra segurando um copo de gin. Era um homem esguio – parecia ter a elegância particular da juventude - e embora estivesse longe de ser novo, nessa manhã descera pelo corrimão e dera um piparote nas costas de bronze da Afrodite de cima da mesa da entrada, enquanto trotava em direção ao cheiro do café na sala de jantar. Poderia ser comparado a um dia de Verão, mais precisamente às últimas horas da tarde, e apesar de não trazer uma raquete de tênis, a impressão que dava era decididamente de juventude, de esportista e de tempo ameno. Tinha estado a nadar e agora respirava profundamente, arquejante como se pudesse engolir pelos pulmões os elementos desse momento, o calor do sol, a intensidade do prazer que sentia. Parecia fluir-lhe tudo para o peito. A casa dele ficava em Bullet Park, cerca de treze quilômetros para Sul, onde as suas quatro lindas filhas já teriam almoçado e deviam estar a jogar tênis. Ocorreu-lhe então que se fizesse um desvio para Sudoeste podia ir a nado para casa.

A vida dele não era uma prisão, e o prazer que esta observação lhe deu não se podia explicar pela evasão que sugeria. Parecia vendo, com olho de cartógrafo, a linha de piscinas, aquele riacho quase subterrâneo que traçava uma curva através da região. Tinha feito uma descoberta, uma contribuição para a geografia moderna; iria dar ao rio o nome de Lucinda, como a mulher. Não era pessoa dada a brincadeiras e não era bobo, mas era decididamente original e tinha uma vaga e modesta ideia de si mesmo como uma figura lendária. O dia estava bonito e pareceu-lhe que nadar uma grande distância podia aumentar e comemorar essa beleza.

Tirou o pulôver que tinha sobre os ombros e mergulhou. Sentia um desprezo inexplicável pelos homens que não se atiravam às piscinas. Nadou num crawl sacudido, respirando ora a cada braçada, ora à quarta braçada e contando, algures no fundo da consciência, o um-dois, um-dois, da batida dos pés. Não era a braçada indicada para longas distâncias, mas o treino da natação tinha imposto ao esporte a sela de alguns costumes e nesta parte do mundo o crawl era um costume. Ser abraçado e sustentado pela água verde-clara era menos um prazer, dava a impressão, do que o reassumir de uma condição natural, e teria gostado de nadar sem calções, mas isso não era possível, considerando o seu projeto. Içou-se para a borda no canto oposto – nunca usava a escada - e afastou-se pelo gramado. Quando Lucinda perguntou onde ia, disse que ia para casa a nado.

Os únicos mapas e roteiros que tinha de seguir eram de memória ou imaginários, mas suficientemente claros. Primeiro havia os Grahams, os Hammers, os Lears, os Howlands, e os Crosscups. Atravessava Ditmar Street para os Bunkers e seguia, depois de uma curta corrida, para os Levys, os Welchers, e a piscina pública de Lancaster. Depois havia os Hallorans, os Sachses, os Biswangers, Shirley Adams, os Gilmartins, e os Clydes. O dia estava magnífico, e viver num mundo tão generosamente fornecido de água parecia-lhe um verdadeiro dom, uma dádiva. Sentia o coração ligeiro e atravessou a grama correndo. Voltar a casa por uma rota desacostumada fazia-o sentir-se um peregrino, um explorador, um homem com um destino, e sabia que iria encontrar amigos ao longo de todo o caminho; as margens do Rio Lucinda estariam cobertas de amigos.

Atravessou uma sebe que separava o terreno dos Westerhazy do dos Grahams, passou debaixo de umas macieiras em flor, seguiu até onde estavam a bomba e o filtro e foi dar à piscina dos Grahams. "Olha o Neddy", disse a Sra. Graham, "que bela surpresa. Passei a manhã ao telefone a ver se te encontrava. Vai, deixa-me arranjar-te uma bebida." Percebeu e não, como qualquer explorador, que os costumes e tradições de hospitalidade dos nativos tinham de ser tratados com diplomacia se realmente quisesse chegar ao seu destino. Não queria deixar confusos os Grahams nem parecer indelicado, mas não tinha tempo para se demorar ali. Nadou a piscina de uma ponta à outra e foi se encontrar com eles ao sol, sendo salvo, minutos depois, pela chegada de dois carros cheios de amigos de Connecticut. No meio do alarido do encontro conseguiu escapar-se. Desceu pela frente da casa dos Grahams, passou por cima de uma sebe com espinhos e atravessou um terreno vago para os Hammers. A Sra. Hammer, levantando os olhos das roseiras, viu-o passar a nado embora não percebesse muito bem quem era. Os Lears ouviram-no passar a espadanar pelas janelas abertas da sala de estar. Os Howlands e os Crosscups estavam fora. Depois de sair dos Howlands atravessou Ditmar Street e dirigiu-se aos Bunkers, onde podia ouvir, mesmo àquela distância, o ruído de uma festa.

A água refratava o som das vozes e dos risos e parecia deixá-lo suspenso no ar. A piscina dos Bunkers ficava numa elevação e teve de subir umas escadas até um terraço onde uns vinte e cinco ou trinta homens e mulheres estavam bebendo. A única pessoa na água era Rusty Towers, que estava num colchão de inflável. Oh, como eram boas e verdejantes as margens do Rio Lucinda! Homens e mulheres prósperos reunidos junto às águas cor de safira, enquanto empregados de casaco branco lhes serviam gin gelado. Nos ares, um pequeno avião De Haviland dava voltas e voltas no céu com o que parecia a alegria de uma criança num balanço. Ned sentiu uma afeição passageira pela cena, um enternecimento por aquele convívio, como se fosse uma coisa que pudesse tocar. Ao longe ouviu um trovão. Assim que Enid Bunker o viu, começou a berrar: "Oh, olha quem está aqui! Mas que bela surpresa! Quando a Lucinda me disse que não podias vir, quase morri." Abriu caminho até ele pelo meio do grupo, e depois de trocarem um beijo levou-o até ao bar, um percurso interrompido por ter de beijar outras oito ou dez mulheres e apertar a mão a outros tantos homens. Um barman sorridente que tinha visto numas cem festas serviu-lhe um gin com água tônica e Ned deixou-se ficar um pouco junto ao bar, ansioso por não se deixar segurar em alguma conversa que lhe pudesse atrasar a travessia. Quando parecia estar prestes a ficar cercado, deu um mergulho e nadou junto à borda para evitar colidir com o colchão de Rusty. Na ponta oposta da piscina passou pelos Tomlisons com um grande sorriso e seguiu em passo de corrida pela trilha do jardim. Os gravetos cortavam-lhe os pés, mas era a única coisa desagradável. A festa estava confinada à piscina, e à medida que avançava em direção à casa, ouvia o som vivo e aquático das vozes mais apagado, ouvia o ruído de um rádio na cozinha dos Bunkers, onde alguém escutava um jogo de beisebol. Domingo à tarde. Esgueirou-se pelo meio dos carros estacionados e desceu pelo caminho gramado até Alewives Lane. Não queria que o vissem na estrada de shorts, mas não havia trânsito e percorreu a curta distância que o separava do caminho de entrada dos Levys, assinalado com uma tabuleta de PROPRIEDADE PRIVADA e um tubo verde para o New York Times. Todas as portas e janelas da casa enorme estavam abertas mas não havia sinais de vida; nem sequer um cão latindo. Deu a volta à casa até à piscina e viu que os Levys não tinham saído há muito tempo. Havia copos, garrafas e pratos de nozes em cima de uma mesa junto ao lado fundo da piscina, onde havia um vestiário ou um pavilhão, decorado com lanternas japonesas. Depois de ter nadado uma piscina, pegou num copo e serviu-se de uma bebida. Era a sua quarta ou quinta bebida e nadara cerca de metade do comprimento do Rio Lucinda. Sentia-se cansado, limpo, contente nesse momento por estar só; contente com tudo.
Ia cair uma tempestade. A formação de cúmulos - a tal cidade - subira e estava mais escura, e enquanto estava ali sentado voltou a ouvir o ribombar do trovão. O De Haviland girava ainda nos ares e Ned teve a impressão de que quase podia ouvir o piloto a rir de prazer na tarde; mas quando se ouviu um novo trovão largou para casa. Soou o apito de um trem e perguntou-se que horas seriam. Quatro? Cinco? Imaginou o salão da estação àquela hora, onde um empregado de mesa, o smoking sob um avental de plástico, um anão com um ramo de flores embrulhado em jornal, uma mulher que tinha estado a chorar, estariam á espera do trem suburbano. De repente começou a escurecer; foi nesse momento que os pássaros minúsculos deram a impressão de mudar o seu canto para um qualquer agudo e reconhecível anúncio da aproximação da tempestade. Ouviu então o tênue ruído de água a cair da copa de um carvalho atrás dele, como se alguém tivesse aberto uma torneira. E então um ruído de fontes chegou-lhe das copas de todas as árvores altas. Porque gostaria de tempestades, que significado teria a sua excitação quando as portas se escancaravam e os ventos da chuva irrompiam violentamente pelas escadas acima, porque lhe teria a simples tarefa de fechar as janelas de uma casa antiga parecido necessária e urgente, porque tinham para ele as primeiras notas líquidas de uma tempestade o som inconfundível das boas notícias, das novas festivas e alegres ? Depois houve uma explosão, um cheiro a pólvora, e a chuva fustigou as lanternas japonesas que a Sra. Levy tinha comprado em Quioto há dois anos, ou fora ainda no ano antes desse?

Deixou-se ficar no pavilhão dos Levys até passar a tempestade. A chuva arrefecera o ar e Ned estremeceu. A força do vento tinha despido um plátano das folhas vermelhas e amarelas, espalhando-as pela grama e a água. Era em fins de Junho, pelo que a ·árvore devia estar com míldio, no entanto sentiu uma tristeza estranha com este sinal do Outono. Retesou os ombros, esvaziou o copo, e encaminhou-se para a piscina dos Welchers. Isto significava atravessar o picadeiro dos Lindleys e ficou admirado ao vê-lo cheio de mato e todos os obstáculos desmontados. Perguntou-se se os Lindleys teriam vendido os cavalos ou se teriam ido passar fora o Verão e deixado os animais em pensão. Pareceu-lhe lembrar-se de ter ouvido qualquer coisa sobre os Lindleys e os cavalos, mas a lembrança era confusa. Prosseguiu então, descalço pela grama molhada, para os Welchers, onde descobriu que a piscina estava seca.

Esta quebra na sua corrente de água desapontou-o de um modo absurdo, e sentiu-se como um explorador que procura uma nascente torrencial e encontra um regato morto. Sentia-se desapontado e ludibriado. Era bastante comum ir para fora no Verão, mas nunca ninguém esvaziava a piscina. Os Welchers tinham claramente ido embora. Os apetrechos da piscina estavam dobrados, empilhados e cobertos com uma lona. O vestiário estava fechado á chave. Todas as janelas da casa estavam fechadas, e quando deu a volta até á entrada viu uma tabuleta de VENDE-SE pregada numa árvore. Quando fora a última vez que ouvira falar nos Welchers - ou melhor, quando fora a última vez que ele e Lucinda tinham recusado um convite deles para jantar? Parecia ter sido apenas há uma semana ou à volta disso. Será que a memória lhe começava a falhar ou ser· que a tinha disciplinado de tal modo na repressão dos fatos desagradáveis que acabara por lhe atingir o sentido da verdade? E então ouviu ao longe o som de um jogo de tênis. Isto animou-o, apagou todas as suas apreensões, permitindo-lhe olhar o céu carregado e o frio do ar com indiferença. Este era o dia em que Neddy Merrill tinha atravessado a nado o distrito. Grande dia! Encaminhou-se então para a sua passagem mais difícil.

Quem tivesse ido dar uma volta de carro nessa tarde de domingo, tê-lo-ia visto, praticamente nu, parado na beira da Estrada 424, à espera de uma oportunidade para atravessar. Poderiam ficar a pensar se teria sido vítima de alguma brincadeira de mau gosto, se o carro teria quebrado, ou se era simplesmente algum maluco. Ali postado, descalço no meio dos detritos da autoestrada - latas de cerveja, papéis e remendos de borracha – exposto ao ridículo, tinha um ar patético. Sabia desde o começo que isto fazia parte da travessia - figurava nos seus mapas - mas confrontado com as filas de trânsito, contorcendo-se na luz estival, percebeu não estar preparado. Riam-se dele, faziam chacota, atiraram-lhe uma lata de cerveja, e sentia-se sem dignidade nem disposição para enfrentar a situação. Podia ter voltado para trás, para os Westerhazys, onde Lucinda ainda devia estar sentada ao sol. Não tinha assinado nada, prometido nada, nem feito qualquer juramento, nem sequer a si próprio. Acreditando como acreditava que toda a teimosia humana era sensível ao bom-senso, por que era incapaz de voltar para trás? Por que estava ele determinado a completar a travessia mesmo que isso significasse pôr a vida em perigo? A partir de que altura esta brincadeira, esta piada, esta criancice, se tinha tornado numa coisa séria? Não podia voltar para trás, não conseguia sequer lembrar-se com clareza da água verde dos Westerhazys, do sentimento de inalar os elementos do dia, as vozes amigas e calmas dizendo que tinham bebido demais. No espaço de uma hora, mais ou menos, tinha coberto uma distância que tornara o regresso impossível.

Um homem de idade, rodando pela auto-estrada a vinte quilômetros por hora, permitiu-lhe atingir o meio da estrada, onde havia um ilha de grama. Ficava agora exposto à zombaria do trânsito que seguia para Norte, mas ao fim de dez ou quinze minutos conseguiu atravessar. Daqui não tinha de caminhar muito para chegar ao Centro Recreativo no limite da aldeia de Lancaster, onde havia alguns campos de handebol e uma piscina pública.

O efeito da água nas vozes, a ilusão de brilho e de suspense, era o mesmo que nos Bunkers, mas os sons aqui eram mais altos, ásperos, e havia mais guinchos, e assim que entrou no recinto apinhado deparou com o regulamento. "TODOS OS BANHISTAS DEVEM TOMAR UMA DUCHA ANTES DE ENTRAR NA PISCINA. TODOS OS BANHISTAS DEVEM PASSAR PELO LAVA-PÉS. TODOS OS BANHISTAS DEVEM USAR O CRACHÁ DE IDENTIFICAÇAO." Tomou uma ducha, andou por uma solução turva e acre, e abriu caminho até à borda da piscina. Tresandava a cloro e dava-lhe a impressão de um tanque. Dois salva-vidas em duas torres, a intervalos que pareciam regulares, sopravam apitos de polÌcia e descompunham os banhistas através de alto-falantes. Neddy lembrou-se com saudade da água cor de safira dos Bunkers e pensou que se calhar ia ficar contaminado - arriscando a prosperidade e o encanto - ao nadar naquele caldo, mas lembrou-se que era um explorador, um peregrino, e que isto não passava de uma curva estagnada no Rio Lucinda. Mergulhou, com um franzir desgostado, no cloro e viu-se obrigado a nadar com a cabeça fora da água para evitar colisões, mas mesmo assim não deixaram de esbarrar nele, de o salpicar, de o empurrar. Quando atingiu a parte baixa, ambos os guardas estavam aos berros: "Eh! Você, você sem crachá de identificação, saia já da piscina." Obedeceu, mas não tinham maneira de o perseguir e ele continuou, por entre cheiro de bronzeador e cloro, pela vedação de rede e passou os campos de handebol. Atravessando a estrada entrou na parte arborizada da propriedade dos Hallorans. A mata não tinha sido limpa, o caminho era traiçoeiro e difícil até chegar ao gramado e à sebe aparada de faia que rodeava a piscina.

Os Hallorans eram amigos, um casal idoso com uma fortuna enorme que parecia deliciar-se com a suspeita de que pudessem ser comunistas. Eram devotados reformistas, mas não eram comunistas, e no entanto, sempre que os acusavam, como por vezes acontecia, de subversão, dava a impressão de que isso lhes agradava e os entusiasmava. A sebe de faia estava amarela e Ned pensou que deveria estar com mÌldio, tal como o plátano dos Levys. Gritou olé, olé, para avisar os Hollorans da sua chegada, para atenuar a invasão da sua privacidade. Os Hallorans, por razıes que nunca lhe tinham sido explicadas, não usavam maiôs. Nem havia, de fato, explicações a dar. O nudismo era um aspecto do seu inflexível zelo reformista e Ned tirou educadamente os shorts antes de passar pela abertura na sebe.

A Sra. Halloran, uma mulher corpulenta de cabelos brancos e rosto sereno, estava lendo o Times. O Sr. Holloran estava a retirar folhas da piscina com um apanhador. Não pareciam surpreendidos ou desagradados por o verem. A piscina deles era talvez a mais antiga da região, um retângulo em alvenaria, alimentada por um riacho. Não tinha filtro nem bomba e a água era do dourado opaco da torrente.

– Estou atravessando o Condado a nado - disse Ned.

– Sim? Não sabia que era possível - exclamou A Sra. Halloran.

– Bem, já consegui vir desde os Westerhazys - disse Ned. - Devem ser uns seis quilômetros e tal.

Deixou os shorts junto ao lado fundo da piscina, dirigiu-se à parte baixa e fez a distância a nado. Quando estava saindo da água ouviu a Sra. Halloran dizer: "Ficamos imensamente tristes com todas as suas desgraças, Neddy."

– As minhas desgraças? – perguntou Ned. – Não sei do que está falando.

– Então, mas ouvimos dizer que vendeu a casa e que as suas pobres filhas...

– Não me lembro de ter vendido a casa – disse Ned – e as meninas estão em casa.

– Pois - suspirou a Sra. Halloran – Pois é.... – A voz dela enchia o ar de uma melancolia inesperada e Ned respondeu com vivacidade:

– Obrigado pelo mergulho.

– Então, bom passeio – disse a Sra. Halloran.

Passando a sebe, vestiu os shorts. Estavam largos e Ned perguntou-se se, no espaço de uma tarde, poderia ter perdido algum peso. Estava com frio e cansado e os Hallorans nus e a água escura deles tinham-no deprimido.

Tanto tempo a nadar era demasiado para as suas forças, mas como poderia tê-lo adivinhado, ao escorregar pelo corrimão nessa manhã ou sentado ao sol em casa dos Westerhazys? Sentia os braços sem forças. As pernas pareciam de borracha e doíam-lhe nas articulações. O pior era o frio nos ossos e o pressentimento de que não voltariam a aquecer. As folhas caíam á sua volta e sentiu o cheiro de fumaça de lenha no vento. Quem estaria fazendo fogueiras nesta época do ano?

Precisava de uma bebida. Um uísque havia de o aquecer, de lhe levantar o moral, aguentá-lo durante a última parte da jornada, renovando-lhe o sentimento de que era original e valoroso atravessar o distrito a nado. Os nadadores do Canal bebiam brandy. Precisava de um estimulante. Atravessou o gramado em frente da casa dos Hallorans e foi por uma vereda que descia até onde eles tinham construído uma casa para a filha única, Helen, e o marido, Eric Sachs. A piscina dos Sachs era pequena e Ned encontrou lá Helen e o marido.

– Oh, Neddy – disse Helen – Almoçou em casa da mãe?

– Não foi bem isso – disse Ned. – Passei para ver os teus pais. – Pareceu-lhe ser uma explicação suficiente – Lamento imenso uma intrusão destas, mas apanhei um resfriado e pensei se me dariam uma bebida.

– Pois, teria muito prazer – disse Helen – mas nesta casa nunca mais houve nada que se bebesse desde a operação do Eric. Já lá vão três anos.

Será que estava perdendo a memória, será que a sua capacidade para ignorar fatos penosos fizera com que se esquecesse de que tinha vendido a casa, que as filhas estavam com problemas, e que o amigo tinha estado doente? Os olhos desviaram-se do rosto de Eric para o seu abdomem, onde viu três cicatrizes apagadas, suturadas, duas delas com pelo menos trinta centímetros de comprimento. O umbigo tinha desaparecido, e como seria, pensou Neddy, quando a mão tateante que às três da manhã avalia o que recebemos da natureza encontrasse uma barriga sem umbigo, sem nenhuma ligação ao nascimento, uma tal quebra na sucessão?

– Tenho a certeza de que encontra uma bebida nos Biswangers – disse Helen.

– Há uma festa enorme. Ouve-se daqui. Escute!

Helen levantou a cabeça e do outro lado da estrada, dos gramados, dos jardins, do arvoredo, dos campos, Ned ouviu de novo o animado som das vozes por cima da água. "Bem, vou-me molhar", disse ele, continuando a sentir que não tinha liberdade de escolha quanto aos seus meios de viajar. Mergulhou na água fria dos Sachs e, arquejante, quase se afogando, atravessou a piscina de uma ponta à outra. "Lucinda e eu queremos imenso vê-los – disse ele por cima do ombro, o rosto voltado para casa dos Biswangers. – Lamentamos ter deixado passar tanto tempo e vamos telefonar muito em breve."

Atravessou alguns campos até chegar a casa dos Biswangers e aos ruídos de farra que de lá vinham. Haviam de sentir que era uma honra dar-lhe uma bebida, seria um prazer darem-lhe uma bebida. Os Biswangers convidavam-no para jantar, a ele e Lucinda, quatro vezes por ano, com seis semanas de antecedência. Eram sempre rejeitados e mesmo assim continuavam a mandar-lhes convites, sem querer compreender as rígidas e pouco democráticas realidades da sua sociedade.

Eram o tipo de pessoas que discutem o preço das coisas nas recepções, que trocam dicas sobre a Bolsa durante o jantar, e que depois do jantar contam anedotas porcas sem olhar quem está por perto. Não pertenciam ao círculo de Ned - nem sequer estavam na lista de cartões de Natal de Lucinda. Dirigiu-se à piscina deles com um sentimento de indiferença, de benevolência, e alguma inquietação, uma vez que parecia estar escurecendo, quando estes eram os dias mais compridos do ano. A festa, quando entrou, estava animada e com muita gente. Grace Biswanger era o tipo de anfitriã que convidava o oculista, o veterinário, o agente imobiliário, e o dentista. Não havia ninguém a nadar e o crepúsculo, refletindo-se na água da piscina, tinha uma claridade de inverno. Havia um bar e Ned dirigiu-se para lá. Quando Grace Biswanger o avistou veio ter com ele, não amistosamente como tinha todo o direito de esperar, mas sim com ar belicoso.

– Olha, nesta festa há de tudo – disse ela em voz alta – até mesmo penetras.

Não que lhe pudesse incomodar - tal hipótese estava fora de questão e por isso não se encolheu.

– E como penetra – perguntou delicadamente – tenho direito a bebida?"

– Faça como entender – disse ela. – Não me parece que ligue muito a convites.

Virou-lhe as costas e Ned dirigiu-se ao bar e pediu um uísque. O barman serviu-o, mas serviu-o com maus modos. Ned pertencia a um universo onde os empregados respeitavam os escalões sociais e ser enxovalhado por um tipo que era barman de meio espediente significava que tinha sofrido alguma perda de estima social. Ou talvez o homem fosse novo e mal informado. E então ouviu Grace dizer às suas costas: "Perderam tudo de um ia para o outro – ficaram só com o ordenado – e ele apareceu aqui bêbado um domingo e pediu cinco mil dólares emprestados..." Aquela estava sempre a falar em dinheiro. Pior do que comer ervilhas com faca. Mergulhou na piscina, nadou de uma ponta à outra e foi-se embora.

A piscina seguinte na lista, a antepenúltima, era a da sua antiga amante, Shirley Adams. Se em casa dos Biswangers sofrera algumas feridas, seriam saradas aqui. O amor - a intimidade sexual, na verdade - era o supremo elixir, o analgésico, a pílula de cores alegres capaz de trazer de novo a Primavera à sua vida, a alegria de viver ao seu coração. Tinham tido um caso na semana passada, no mês passado, no ano passado. Não conseguia lembrar-se. Tinha sido ele a romper, ele é que saíra por cima, e transpôs a cancela do muro que rodeava a piscina sem sequer lhe aflorar alguma sombra à sua autoconfiança. Parecia-lhe de certo modo ser a sua própria piscina, pois que o amante, especialmente o amante ilícito, dispõe dos bens da amante com uma autoridade que o sagrado matrimônio desconhece. Shirley estava lá, o cabelo cor de cobre, mas a sua figura, na borda da água luminosa, cerúlea, não despertou nele nenhuma lembrança profunda. Tinha sido, pensou, um caso ligeiro, embora ela tivesse chorado quando ele rompeu. Pareceu-lhe ficar confusa ao vê-lo e Ned perguntou-se se ainda estaria magoada. Será que ela, Deus queira que não, iria chorar outra vez?

– Que é que que você quer? – perguntou ela.

– Estou a atravessar o Condado a nado.

– Meu Deus. Será que nunca mais cresces?

– O que está acontecendo?

– Se veio pedir dinheiro - disse ela - não te dou nem mais um centavo.

– Podia me oferecer uma bebida.

– Podia, mas não ofereço. Não estou só.

– Bem, então vou andando.

Mergulhou e atravessou a piscina, mas quando tentou içar-se para a borda apercebeu-se de ficara sem força nos braços e nos ombros e esbracejou até às escadas, subindo-as para sair. Olhando por cima do ombro viu, no vestiário iluminado, um homem novo. Ao sair para a grama escura sentiu o cheiro dos crisântemos ou malmequeres - um desses teimosos aromas outonais - no ar da noite, forte como um gás. Levantando os olhos, viu que as estrelas já tinham surgido, mas por que tinha a impressão de estar vendo Andrômeda, Cefeu e a Cassiopéia? Onde estavam as constelações de Junho? Começou a chorar.

Era provavelmente a primeira vez em sua vida de adulto que chorava, e seguramente a primeira vez na vida que se tinha sentido tão perdido, enregelado, cansado e confuso. Não conseguia entender a grosseria do barman ou a brusquidão de uma amante que tivera ajoelhada aos seus pés e lhe molhara de lágrimas as calças. Tinha nadado demais, tinha estado imerso demasiado tempo, e o nariz e a garganta doíam-lhe por causa da água. Precisava de uma bebida, de um pouco de companhia, e algumas roupas lavadas e secas, e embora pudesse ir diretamente pela estrada para casa, prosseguiu em direção à piscina dos Gilmartins. Aqui, pela primeira vez na sua vida, não mergulhou, descendo antes a escada para as águas gélidas e nadou de lado, sem jeito, uma coisa que devia ter aprendido em rapaz. Cambaleava de fadiga ao caminhar para casa dos Clydes e esbracejou a todo o comprimento da piscina deles, detendo-se várias vezes com a mão na borda para descansar. Subiu pela escada e perguntou a si próprio se teria forças para chegar a casa. Tinha feito o que queria, tinha atravessado o Condado a nadar, mas estava tão aturdido de cansaço que o triunfo lhe surgia vago. 
Curvado, segurando-se às estacas da cerca como apoio, subiu o caminho da sua própria casa.

Estava tudo às escuras. Seria assim tão tarde que já estavam todos deitados? Será que Lucinda tinha ficado em casa dos Westerhazys para jantar? E que as meninas tinham ido se encontrar com ela ou tinham ido a qualquer outro lugar? Então não tinham combinado, como faziam todos os domingos, não aceitar nenhum convite e ficar em casa? Experimentou as portas da garagem para ver que carros estavam, mas as portas estavam fechadas à chave e as mãos ficaram-lhe cheias da ferrugem dos puxadores. Dirigindo-se a casa, viu que a violência da tempestade tinha desprendido uma calha. Pendia agora por cima da porta de entrada como uma vareta de guarda-chuva, mas podia repará-la na manhã seguinte. A casa estava fechada, e Ned pensou que o estúpido do cozinheiro ou a estúpida da empregada deviam ter fechado tudo à chave até que se lembrou que há muito tempo não tinham cozinheiro nem empregada. Gritou, bateu à porta, tentou força-la com o ombro, e então, espreitando pela janela, viu que a casa estava vazia.
John Cheever

terça-feira, outubro 20

Parada de leitura

 


Amor

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô,
Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou
a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de
meia satisfação.


Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta.
Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez
mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava
estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando.
Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que
se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como
um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas
essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador
de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa
com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto
importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente,
sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.



Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores
que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se.
No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara
um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente
artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e
belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara
a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de
aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida
podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a
cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse
inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos
que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe
estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para
descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma
legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha - com
persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar
estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas
vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim
compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.


Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde,
quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro
da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu
coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar
para que sentisse ternura pelo seu espanto - ela o abafava com a mesma
habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido.

Saía então para fazer
compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia
deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio
exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranquila vibração. De manhã
acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo
empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma,
fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.


O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento
mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora
instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto
um ar de mulher.


O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo
de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De
pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.


O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma
coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles...
Um homem cego mascava chicles.


Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam
jantar - o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego
profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na
escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação
fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de
sorrir - como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria
a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez
mais inclinada - o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida
para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão - Ana
deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se
tratava - o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava
pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com
dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria
entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego
interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente
pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede
e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova
arrancada de partida.

Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos
trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava
feito.


A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a
tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido;
não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música,
o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido
de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente.
Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de
sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de
novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa
de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes,
que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão - e por
um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para
onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao
banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem
ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.


O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso
com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais
abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários
da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos
estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o
mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de
piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam.
Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar,
depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade
extremamente dolorosa.


Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse.
Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras,
as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo
jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao
outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da
piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.


Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na
fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com
pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um
momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.


Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia
de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida
que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso
rodeava lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se.
Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do
Jardim Botânico.


Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não
havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no
banco de um atalho e ali ficou muito tempo.


A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela
adormecia dentro de si.
De longe via a aleia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra
dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados
da
tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais. Um movimento leve e íntimo a sobressaltou - voltou-se rápida. Nada
parecia se ter movido. Mas na aleia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pelo eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar,
pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho
secreto do qual ela começava a se aperceber.

Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão
caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos.
O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa
rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas
de uma aranha. A crueza do mundo era tranquila. O assassinato era profundo.
E a morte não era o que pensávamos.


Ao mesmo tempo que imaginário - era um mundo de se comer com
os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram
percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a
repulsa que precedesse uma entrega - era fascinante, a mulher tinha nojo,
e era fascinante.


As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia.
Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a
náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada.
A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia
nos
primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam
amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era
profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça
rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo.
A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu
cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou
na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era
fascinante, e ela sentia nojo.


Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara
culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho,
avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria - e via o
Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões
fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado
de não a ter visto.


Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre.
Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito - o que
sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo
lhe parecia seu, sujo, perecível, seu.

Abriu a porta de casa. A sala era grande,
quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a
lâmpada brilhava - que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia
que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver.
O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e
rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto.
Protegia-se trêmula. Porque a vida era periclitante.

Ela amava o mundo,
amava o que fora criado - amava com nojo. Do mesmo modo como sempre
fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a
aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase
a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal - o cego ou o belo Jardim Botânico? - agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta.
O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. O sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.


Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De
que tinha vergonha?
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na
crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade:
seu coração se enchera com a pior vontade de viver.


Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lado dos que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranquilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo - e
que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar
o leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de
mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.
Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E,
estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria
a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para
a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.


Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e
constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do
fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a
água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas
mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros
de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro
na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em
que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.


Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os
filhos dos irmãos.


Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião
estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava
um pouco pálida e ria suavemente com os outros.

Depois do jantar, enfim,
a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças
cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas,
ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida
e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa!
pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.


– O que foi?! gritou vibrando toda.


Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:


– Não foi nada, disse, sou um desajeitado.

Ele parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção.
Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

– Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.


– Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro,
respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços.

Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste.
É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

Clarice Lispector

Baleia é a mãe

Ele gosta muito do pai. Mas gosta muito mais da mãe. Está com 12 anos e, desde quando se lembra, sempre foi assim. Nas suas memórias mais antigas, é com a mãe que ele se vê. E sorri quando mergulha nessas recordações.

Ah, que saudade daquelas primeiras tardes passadas no jardim de infância, daqueles sanduíches saborosos que a mãe punha na lancheira dele e os coleguinhas invejavam. Daqueles divinos churros vendidos na frente da escola, que espalhavam seu aroma por todo o quarteirão e que a mãe nunca se recusava a comprar para ele. Das outras delícias oferecidas num carrinho que ficava na esquina do jardim de infância. Dos amendoins, das pipocas quentinhas — salgadas e doces — que a mãe também nunca negava a ele, porque ela mesma gostava tanto daquilo tudo que ele precisava comer depressa, senão ficava sem nenhum.

Também nas fotos, é mais com a mãe que ele aparece. De vez em quando, os dois dão uma repassada nos álbuns e, enquanto ela vai repetindo que ele sempre foi uma coisinha fofa, ele olha menos para o garoto gorducho que foi, desde os tempos de bebê, e fixa os olhos na mãe, sempre sorrindo para ele como se estivesse diante do mais precioso dos bens.

São, na maioria, fotos que parecem ter sido tiradas na hora do almoço ou do jantar. Numa delas, ele está com cara de fome e com a mão estendida para uma bolacha que a mãe lhe oferece. Em outra, ele olha preocupado para a mãe, que finge querer dar uma dentada num enorme pirulito que ele segura e tenta tirar do alcance dela.

Mas a fotografia mais apreciada pelos dois é aquela em que, sentado no seu cadeirão de bebê, ele espera ansiosamente a mãe aproximar da boca dele uma colher de sopa. Sempre que chegam a essa foto, a mãe pergunta:

— Lembra como você gostava dessa brincadeira? Eu dizia que a colher era um avião e que a sua boca era um aeroporto. Você ficava tão feliz! Tomava até sopa de ervilha — você, que nunca foi muito fã de sopa de ervilha! Lembra?

Ele lembra, sim, e olha para a mãe com muita ternura. Sempre se deu melhor com ela do que com o pai. É um ranzinza o pai, sempre foi. Sempre resmungando pela casa, sempre procurando alguma coisa para pôr defeito:

— Você vai estragar esse menino, Mafalda. Olhe só como ele é desmazelado. Todas as coisas dele estão sempre fora do lugar: as roupas, os brinquedos, o material escolar. E você não vê que, comendo desse jeito, daqui a pouco ele não vai mais conseguir passar pelas portas? Será que você e ele não pensam em nada além de comer?

Depois de cada uma dessas descomposturas, ele fica muito triste com o pai e se tranca no quarto. Ali, ressentido com sua fama de guloso, promete a si mesmo que vai ficar um dia, talvez dois, sem comer.

Dali a meia hora, já faminto, abre a porta sorrindo para a mãe, que chega furtivamente com um sanduíche e um suco para ele.

Sempre foi assim sua mãe: amorosa e compreensiva. Por isso, ele está um pouco aborrecido hoje e tem vontade de se estapear quando lembra o que aconteceu. Na saída da escola, a mãe estava comprando dois saquinhos de pipoca — um para ele, outro para ela –, quando um menino da classe dele gritou para ele:

— Tchau, baleia!

Ele, no reflexo, respondeu:

— Baleia é a mãe!

No mesmo instante, arrependido como nunca tinha se sentido antes, ele ficou imaginando o que poderia dizer para se desculpar com a mãe. Mas, quando voltou os olhos para ela e a viu empenhada em jogar para dentro da boca um punhadão de pipocas, com grande alívio ele soube que a mãe não tinha percebido nada. Passou então o braço livre em torno do ombro dela e a beijou no rosto. Andando lado a lado, os dois ocupavam toda a calçada.

Árvore

Onde os frutos maduram:
sal e sol em minhas veias
luz e mel em boca alheia.

Onde plantei
a alta acácia das febres
eu mesmo me deitei,
para ser a raiz da semente,
e da madeira e seiva
se fez o meu corpo.

Agora,
Chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.

Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras.

Mia Couto, “Vagas e Lumes”

Aos 88 anos, ela se aproximou e me abraçou: era a namorada de infância

Dois momentos me tocaram fundo na primeira semana de outubro, ambos ligados a esta vida que chegou aos 90. O que chamo de vida é a de todos nós, brasileiros. O primeiro momento, tenebroso, foi a frase de um candidato à presidência do Brasil. Ela me desestruturou. A que ponto de sordidez chega a ambição de poder? A repelente, repulsiva, horrenda referência à prostituição em um cargo atribuída a Simone Tebet me deixou irado, desesperado. É vulgar, de espantosa baixeza, cafajestice. Inadmissível. Em que país vivemos? Ou viveremos?


O outro momento foi da emoção rara, que a vida às vezes nos confere. Um retorno à infância. Aos oito para nove anos fui coroinha na matriz de Araraquara. Já falei disso. E namorei Rosinha Gonçalves, linda. Linda foi até o final da vida. Namorar era olhar e sorrir. Se desse, pegar na mão, escondido do irmão, além de trocar sorrisos cúmplices e maliciosos. Depois, Rosinha passou a namorar Ronaldo Bertoldi, meu melhor amigo, vivo até hoje. Ainda amigo. Depois, comecei um flerte com Margarida Troncon, também Filha de Maria. Esta era uma associação em que todas se vestiam de branco e levavam uma fita azul. Ao se casarem e perderem a virgindade, mudavam de associação e a maioria ia para a de São José. Estas vestiam-se de preto, recebiam uma fita amarela, como minha mãe. Aliás, mamãe e a avó de Marcia eram amigas e desta associação.

Não me lembro de quanto durou o “namoro” com Margarida.

Também não me lembro de outros “namoros” de infância. Vivi, estudei, escrevi livros, casei-me com Bia, tive dois filhos, casei-me outra vez, fui traído, finalmente veio Marcia, estamos juntos há 42 anos, e ela me trouxe Rita, que me deu uma neta, Antonia, que deve ter lido Platão, O’Neill, Beckett, Beauvoir e Kafka no ventre da mãe.

Pois há um mês, terminado um encontro na Feira de Livro de Ribeirão Preto, das mais bem organizadas e consistentes há 25 anos, eu saía do palco e Marcia subiu para me ajudar a descer. Neste momento, uma mulher de 88 anos se aproximou, toda vestida de branco, me abraçou e abraçou Marcia, de 76 anos. Era Margarida Troncon, a namorada da infância.

Temos nos visto na feira da cidade, ela não perde minhas falas. Viúva, com filhas. E o mesmo rosto de quando flertávamos. Só aí fiquei sabendo que Marcia e Margarida, em momentos diferentes, nasceram e moraram na mesma rua de Araraquara, a Cinco, com uma quadra de diferença. Ali cresceram, sem saberem uma da outra. A vida ajeita as coisas ao modo dela. Com poesia, às vezes.

Um homem bom é difícil de encontrar

A avó não queria ir para a Florida. Queria visitar uns parentes no leste do Tennessee e aproveitava todas as oportunidades para induzir Bailey a mudar de ideia. Bailey, o filho com o qual ela morava, seu único filho homem, sentado a mesa na beira da cadeira, dobrava-se sobre o alaranjado da pagina de esportes do Journal. "Olhe só isso aqui, Bailey, olhe só, leia isso aqui", disse ela em pé a seu lado, com uma das mãos no quadril magro e a outra esfregando outra folha de jornal na careca do filho. "Esse tal cara que fugiu da penitenciaria federal, o Desajustado, como ele mesmo se chama, e que foi justamente em direção a Florida... leia só o que diz aqui, veja o que ele fez com as pessoas. Vale a pena você ler. Eu é que não levaria os meus filhos, fosse lá para onde fosse, com um bandido desses assim a solta na área. Não ficaria em paz com a minha consciência."

Bailey não olhou para cima, não parou de ler o que lia, e ela então deu uma volta. Foi ficar cara a cara com a mãe das crianças, mulher nova, numa calça folgada, cujo rosto era tão largo e inocente quanto um repolho, estando envolto num lenço verde de cabeça amarrado com duas pontas no alto, como as orelhas de um coelho. Ela, sentada no sofá para alimentar o bebê, dava-lhe geleia de damasco que tirava do vidro. "À Flórida as crianças já foram", disse a velha senhora. "Deveriam leva-las a algum outro lugar, para variar, para que vejam diferentes partes do mundo e possam ter perspectivas mais amplas. Ao leste do Tennessee elas nunca foram."

A mãe das crianças nem pareceu escutar, mas o garoto de oito anos, John Wesley, parrudinho e de óculos, disse: "Se a senhora não quer ir para a Flórida, por que e que não fica em casa?". Ele e a menina, June Star, estavam lendo historias em quadrinhos no chão.

"Em casa? Duvido. Por nada desse mundo ela fica", disse June Star sem levantar a cabeça.

"Ah, é? E o que fariam vocês, se esse camarada, o Desajustado, pegasse vocês?"
"Eu quebrava a cara dele", John Wesley disse.

"Nem por um milhão de dólares ela ficava em casa" June Star disse. "Tem medo de estar perdendo coisas. Tem de ir pra toda parte com a gente."

"Esta bem, mocinha", disse a avó. "Da próxima vez que me pedir para cachear seu cabelo, você vai ver uma coisa."

June Star disse que seu cabelo já era naturalmente cacheado.

Na manhã seguinte a avo foi a primeira a entrar no carro, pronta para partir. Tinha posto num canto sua enorme malinha preta, que parecia uma cabeça de hipopótamo, por baixo da qual ela escondia numa cesta o gato, Pitty Sing. Não quis deixar o gato em casa sozinho, por três dias, porque ele sentiria muito a sua falta e ela tinha medo de que acidentalmente se asfixiasse ao se esfregar num bico de gás. Mas o filho dela, Bailey, não gostava de chegar a um motel com um gato.

A avó ia no banco de trás, no meio, com um neto de cada lado, John Wesley e June Star. Bailey e a mãe das crianças com o bebê iam na frente e eles saíram as oito e quarenta e cinco de Atlanta com o painel indicando 89.944 quilômetros rodados. A avó anotou o numero por achar que seria interessante saber quantos quilômetros eles teriam feito, quando voltassem para casa. Levaram vinte minutos para atingir a periferia da cidade.

A velha senhora se instalou a vontade, tirando as luvas brancas de algodão e pondo-as junto com a bolsa no espaço por trás do banco. A mãe das crianças continuava com a mesma calça folgada, e com o mesmo lenço verde amarrado na cabeça, mas a avó estava usando um chapéu de palha azul-marinho, com um buque de violetas brancas na aba, e um vestido também azul-marinho de bolinhas brancas. A gola e os punhos eram de organdi branco, com debruns de renda, e um ramalhete roxo de violetas de pano, que era um sachê, estava pendurado em seu peito. Qualquer um que a visse morta na estrada, em caso de acidente, logo saberia tratar-se de uma senhora distinta.

Disse que o dia, a seu ver, era bom para viajar, nem muito quente nem muito frio demais, e lembrou a Bailey que o limite de velocidade era de noventa quilômetros por hora, e que os guardas rodoviários, escondidos atrás de anúncios e de amontoados de árvores, logo saiam em disparada atrás, sem nem dar chance de reduzir. E apontou interessantes detalhes dos panoramas: Stone Mountain; o granito azulado que nalguns trechos aflorava de ambos os lados da rodovia; os barrancos brilhantes, de barro vermelho rajado ligeiramente de roxo; e as diversas plantações enfileiradas como rendilhados verdes na terra. As árvores estavam cheias de uma luz solar prateada, e até mesmo as mais insignificantes brilhavam. As crianças iam lendo suas historias em quadrinhos e a mãe tinha voltado a dormir.

"Vamos passar pela Geórgia bem rápido para não ter de olhar muita coisa" John Wesley disse.

"Eu, se eu fosse um menino", disse a avó, "eu não falaria assim desse jeito do meu estado natal. O Tennessee tem montanhas, a Geórgia tem suas colinas..."
"O Tennessee não passa de um lixão, é uma terra de arigós" John Wesley disse, "e a Geórgia também é uma porcaria de estado."

"E isso mesmo", disse June Star.

"No meu tempo", a avó disse, cruzando os dedos de veias finas, "as crianças tinham mais respeito pela terra natal, pelos pais e por tudo o mais. Procedia-se bem, naquela época. Oh, mas vejam só o pretinho, que graça!" disse e apontou para um menino negro, em pé na porta de um barraco. "Não daria um quadro?" perguntou, e todos se viraram, olhando o menino negro pelo vidro de trás. Ele deu adeus.

"Ele estava sem calça", disse June Star.

“Talvez nem tenha" a avó explicou. "Os negrinhos da roça não são assim como nós, não tem coisas." E acrescentou: "Ah, se eu soubesse pintar, bem que faria esse quadro!".

As crianças trocaram de revista.

A avó se ofereceu para segurar o bebê, que a mãe das crianças lhe passou por cima do banco. Tendo-o posto nos joelhos, ela agora o puxava para cima e lhe falava das coisas pelas quais estavam passando. Revirava os olhos, fazia bico com a boca, colava a cara magra e dura no rosto, lisinho e fofo, da criança, que de vez em quando lhe dava algum sorriso distante. Passaram por uma grande plantação de algodão com um cercado com cinco ou seis túmulos no meio, como uma ilhota.

"Olhem lá o cemitério!" disse a avó, apontando. "O antigo campo- santo da família. Pertencia á fazenda."

"E onde esta a fazenda?" John Wesley perguntou.

"E o vento levou..." disse a avó. "Ha, ha."

As crianças, quando acabaram todas as revistas levadas, abriram e comeram seus lanches. A avó comeu um sanduiche de pasta de amendoim e uma azeitona e não deixou as crianças jogarem pela janela os guardanapos e sacos de papel. Quando não tinham mais o que fazer, brincaram de escolher uma nuvem para os outros adivinharem a forma que ela sugeria. John Wesley escolheu uma nuvem que tinha forma de vaca, June Star falou vaca e ele disse que não, que era carro, e June Star disse que John Wesley estava jogando sujo e logo estavam os dois, por cima da avó, aos tapas. A avó disse que contaria uma historia se eles ficassem quietos. E ela, quando contava uma historia, revirava os olhos e agitava a cabeça e era toda dramática. Contou então que nos seus tempos de moça tinha sido cortejada por um rapaz de Jasper, na Geórgia, chamado Charles Otoline Miles Erlanger Robertson. Um rapaz muito atraente, um cavalheiro, segundo a avó, que todo sábado á tarde, quando a visitava, levava-lhe uma melancia com suas iniciais gravadas: C.O.M.E R. Num desses sábados, como ela disse, Robertson chegou com a melancia e não havia ninguém em casa e ele a deixou na varanda e voltou para Jasper na charrete, mas essa melancia ela nunca viu, porque um negrinho a devorou, como ela disse, quando leu as iniciais C.O.M.E.R. A historinha agradou em cheio a John Wesley, que estourou numa gargalhada e se retorcia de rir, mas June Star não achou graça nenhuma. Disse que jamais se casaria com um homem que se limitasse a levar-lhe uma melancia no sábado. Já a avó disse que para ela teria sido uma beleza se casar com Robertson, porque ele era um homem muito distinto e comprou ações da Coca-Cola logo que foram lançadas e só tinha morrido ha poucos anos, riquíssimo.

Pararam para comer uns sanduiches grelhados num lugar chama- The Tower. Era um misto de salão de festas e posto de gasolina, parte em madeira, parte em estuque, instalado numa clareira nos arredores de Timothy. O dono era um gordo, Red Sammy Butts, e havia placas penduradas ali por toda parte, e por quilômetros na rodovia, dizendo: EXPERIMENTE O AFAMADO GRELHADO DE RED SAMMY. NENHUM SE COMPARA AO DELE! RED SAM, O GORDINHO DA RISADA FELIZ! UM VETERANO! RED SAMMY, O HOMEM CERTO!

Deitado no chão, do lado de fora do The Tower, estava o próprio Red Sammy. Tinha a cabeça enfiada embaixo de um caminhão, enquanto um mico cinzento de seus trinta centímetros, amarrado pela corrente a um pé de saboeiro, fazia papaguaiatas por perto. Bastou ver as crianças saltarem do carro e correrem na sua direção para o mico pular de volta na arvore e subir ao galho mais alto.
Por dentro, The Tower era um salão comprido e escuro, com um balcão de um lado, mesas do outro, e um espaço para dançar no meio. Sentaram-se a uma mesa de tábuas, ao lado da vitrola automática, e a mulher de Red Sam, alta, queimada, de cabelo e olhos mais claros do que sua pele morena, veio atende-los. A mãe das crianças pôs uma moeda na maquina e escolheu "A valsa do Tennessee". A avo disse que sempre sentia vontade de dançar com essa musica e perguntou a Bailey se ele dançaria com ela, mas ele apenas a olhou de banda.

Não tinha a disposição dela, assim toda animada, e as viagens o deixavam nervoso. Os olhos da avó, olhos castanhos, brilhavam muito. Sentada, ela fazia de conta que dançava, jogando a cabeça, na cadeira, para os dois lados. June Star pediu para tocar uma musica que desse para sapatear e assim a mãe das crianças pôs uma outra moedinha e escolheu algo mais rápido. June Star pulou na pista e, como era de seu habito, sapateou.

"Que gracinha!" disse a mulher de Red Sam, debruçada no balcão. "Você quer vir morar comigo? Quer ser a minha filhinha?"

"Nem por sombra", June Star disse, "nem por um milhão de dólares eu moraria num lugar tão caído assim!" e voltou correndo para a mesa.

"Mas não e mesmo uma gracinha?", repetia a mulher, esticando polidamente os beiços.

A avo ralhou: "Não tem vergonha não?".

Red Sam entrou e disse a esposa para correr com o pedido dos fregueses, em vez de ficar ali no balcão fazendo hora. Sua calça caqui vinha arriada até quase as coxas, sob o peso da barriga que despencava como um saco de farinha trepidando por baixo da camisa. Aproximou-se, sentou-se perto e deixou escapar algo impreciso, combinação de suspiro e cantoria. "Não dá pra levar" dizia. “Assim não dá pra levar!" e com um lenço acinzentado enxugava o suor do rosto vermelho. "Hoje em dia não se pode confiar em ninguém", disse depois. "Não é verdade?"
"As pessoas certamente não são mais tão gentis como já foram", disse a avó.

"Semana passada" disse Red Sammy, "vieram aqui dois camaradas, num Chrysler. Um carro velho, muito rodado, mas bom, e os rapazes me pareciam gente direita. Disseram que trabalhavam no moinho, e não é que eu vendi gasolina fiado para eles? Por que fui fazer isso?"

"Porque o senhor é um homem bom", a avó disse.

"É, dona, acho que sim", disse Red Sam, como se ficasse, ele mesmo, espantado com a resposta.

Sua mulher chegou com os pedidos, carregando os cinco pratos, sem bandeja, de uma só vez: dois em cada mão e mais um equilibrado no braço. "Não há alma que seja neste mundo de Deus", disse ela, "em quem se possa confiar. E eu não excluo ninguém, ninguém mesmo", repetiu, olhando para Red Sammy.

“Vocês leram alguma coisa sobre aquele bandido, o Desajustado, que fugiu da cadeia?" a avó perguntou.

"Eu não ficaria nem um pouco surpresa se agora mesmo ele atacasse esse lugar aqui", disse a mulher. "Se ele souber que nós estamos aqui, e se me aparecer pela frente, não ficarei nada surpresa. Se souber que na caixa registradora tem algum dinheiro, não ficarei nada surpresa se ele..."

"Chega!" Red Sam disse. "Traz logo as Cocas dos fregueses", e a mulher lá se foi a completar o pedido.

"Um homem bom e difícil de encontrar", disse Red Sammy. "Tudo está ficando um horror. Lembro do tempo em que se podia sair tranquilamente de casa e deixar a porta aberta. Agora não mais."

Ele e a avó se distraíram conversando sobre tempos melhores. A culpada era a Europa, na opinião da velha senhora, se as coisas andavam assim agora. Pela atitude da Europa, segundo ela, até se poderia pensar que os americanos eram feitos de dinheiro, e Red Sam disse que nem adiantava falar daquilo, que ela estava coberta de razão. As crianças correram para fora, para a claridade do sol, e foram ver o macaquinho no saboeiro rendado. O mico estava entretido, catando pulgas que comia, como guloseimas, com um demorado estalar de dentes.

Depois, pela tarde quente, a família prosseguiu em viagem. A avó dava umas cochiladas e de quando em quando era despertada pelos seus próprios roncos. Nos arredores de Toombsboro, ao acordar de vez, lembrou-se de uma velha fazenda que ela havia visitado por ali, na região, quando moça. Disse que a casa tinha seis colunas brancas na frente, uma fileira de carvalhos conduzindo à entrada e dois pequenos caramanchões de madeira, bem na frente, um de cada lado, onde as moças sentavam-se com os pretendentes, depois de algumas voltas no jardim.

A estrada que era preciso pegar para chegar até lá veio-lhe com precisão à memoria. Ela sabia que Bailey não concordaria em perder tempo só para ir ver uma casa velha, mas quanto mais falava nisso, mais ela queria revê-la, querendo saber se os caramanchões geminados ainda estavam de pé "Havia nessa casa uma passagem secreta", disse pois com astucia, sem contar uma verdade, mas desejando que assim fosse, "e diziam que a prataria da família foi toda escondida lá, quando Sherman passou por aqui, e nunca pode ser encontrada..."
"Oba, então vamos lá!", John Wesley disse. "Vamos descobrir essa prata! E só abrir o madeirame, e só ir tirando as tabuas, que a gente acha. Quem mora lá? Onde e que se pega o caminho? Ei, pai, não dá para dobrar por ali?"

“Nunca vimos uma casa com passagem secreta", berrou June Star. "Vamos ver a casa com passagem secreta! Oba! Papai, temos de ir ver a casa com passagem secreta!"

"Eu sei que não fica longe daqui", disse a avó. "Nem bem uns vinte minutos."
Bailey olhava reto em frente, com o queixo tão rígido quanto uma ferradura. "Não", ele disse.

A gritaria das crianças, querendo ver a casa com passagem secreta, não fez senão aumentar. John Wesley chutava as costas do banco dianteiro, e June Star se pendurou no ombro da mãe, em cujo ouvido choramingou desesperada que era sempre assim mesmo, que nem nas ferias eles se divertiam, que eles nunca podiam fazer o que eles mesmos queriam. O bebê já estava berrando. E os chutes de John Wesley no assento se tornavam tão fortes que o pai já sentia os golpes nos rins.

"Tá legal!" o pai gritou, e parou o carro no acostamento. "Mas vocês querem calar a boca? Querem calar a boca um minuto? Se não se calarem, não vamos a lugar nenhum."

"Mas seria muito instrutivo para eles" murmurou a avó.

"Está bem", Bailey disse, "mas anotem: e a única vez em que nos vamos parar por uma coisa dessas. É a primeira e ultima vez."

"A estrada de terra que você tem de pegar já ficou lá para trás, a uns dois quilômetros", a avó orientou. "Eu a notei quando passamos."

"Estrada de terra...", resmungou Bailey.

Quando já iam, depois de terem feito um retorno, em direção a al estrada, a avó rememorou outros detalhes da casa, como o belo vitral sobre a entrada e o candelabro do salão. John Wesley disse que a passagem secreta provavelmente ficava na lareira.

"Não se pode entrar na casa", Bailey disse. "Nem sabemos quem mora lá."
"Posso ir por trás, enquanto vocês conversam com as pessoas na frente, e entrar por uma janela", John Wesley sugeriu.

"Não", disse a mãe, "vamos ficar todos no carro."

O carro, sacolejando muito, entrou pela estradinha de barro num turbilhão de poeira cor-de-rosa. A avó se lembrou dos tempos em que não havia estradas asfaltadas e se levava um dia inteiro para andar cinquenta quilômetros. A estradinha era acidentada e íngreme, com inesperadas crateras de atoleiros e curvas muito fechadas em perigosos barrancos. Ora eles estavam bem no alto de um morro, vendo as copas azuladas das arvores que se estendiam lá embaixo, por quilômetros em torno, ora, logo a seguir, já estavam numa depressão de terra vermelha, com arvores empoeiradas por cima.

"É melhor esse lugar aparecer logo", Bailey disse, "porque senão eu vou voltar."
Dava a impressão de que ninguém, há meses, passava naquela estrada.

"Não esta muito longe", disse a avó, e justamente quando o disse ela teve um pensamento horroroso. Um pensamento tão embaraçoso que seu rosto corou, seus olhos se dilataram e os pés se mexeram muito no chão, atingindo e deslocando a maletinha no canto. No mesmo instante em que a valise se moveu, a folha de jornal que ela usava como tampa da cesta que estava embaixo se levantou com um miado e voou no ombro de Bailey.

As crianças foram jogadas no chão. A mãe, agarrada ao bebê, foi jogada porta afora, na estrada. A velha senhora jogada para o banco da frente. O carro deu uma capotada e voltou à posição normal, mas fora da estrada, e numa vala. Bailey permanecia no lugar do motorista com o gato - listrado de cinza, cara branca achatada e focinho cor de laranja - agarrado como lagarta em seu pescoço.

As crianças, assim que conseguiram mexer braços e pernas, saíram se espremendo do carro, e gritavam: "Tivemos um acidente!". Ja a avó se encolheu sob o painel, com a esperança de estar ferida para que a ira de Bailey não se abatesse implacável sobre ela. O pensamento horroroso que havia tido, pouco antes do acidente, foi que a casa da qual ela se lembrava tão bem não ficava na Geórgia, mas sim no Tennessee.

Bailey tirou o gato do pescoço, com ambas as mãos, e o arremessou contra o caule de um pinheiro, pela janela. Depois, saindo do carro, foi procurar a mãe das crianças. Essa, que estava ao lado da valeta estripada, e ali sentada segurava o bebé aos berros, tinha ela mesma apenas uma fratura no ombro e um corte feio no rosto. "Tivemos um acidente!" gritavam as crianças numa alegria frenética.
"Mas não morreu ninguém'', disse, desapontada, June Star, quando a avó desceu mancando do carro com o chapéu ainda preso na cabeça, malgrado a aba desabada na frente, que ela tentava recolocar numa posição elegante, e o buque de violetas caído ao lado. Sentaram-se todos na valeta, menos as crianças, todos tremendo muito, para se refazerem do susto.

"Talvez venha um carro por aí, disse a mãe das crianças com a voz embargada.
"Acho que algum órgão meu foi afetado", disse a avó, apalpando- se de um lado do corpo, mas ninguém ligou para ela. Os dentes de Bailey batiam sem parar. Vestido numa camisa esporte amarela, na qual brilhavam, estampadas, umas araras-azuis, ele estava com o rosto da mesma cor da camisa. A avó achou melhor não dizer que a tal da casa era no Tennessee.

A estrada se encontrava cerca de três metros acima, e eles podiam ver apenas, do outro lado, o topo das arvores. Por trás da vala na qual estavam sentados se estendia a mata cerrada, escura e alta. Em poucos minutos avistaram um carro, não muito longe, no cocuruto de um morro, que vinha bem devagar, como se seus ocupantes os observas- sem. A avó, para lhes chamar a atenção, levantou-se em espalhafatosos acenos, agitando os dois braços. O carro, que continuava a se aproximar lentamente, desapareceu numa curva e ressurgiu adiante ainda mais devagar, já no cume do morro por que eles tinham passado. Era um grande automóvel preto e velho, em péssimo estado, que mais parecia um carro fúnebre. Levava três homens dentro.

Parou bem por cima deles e, por alguns minutos, o motorista ficou olhando para baixo, lá para onde eles estavam, de um modo fixo, porém sem expressão, e não disse nada. Depois, virando-se de cabeça, sussurrou algo aos outros dois, que desceram. Um, o gordo, de calça preta, que usava uma camiseta vermelha adornada no peito por um garanhão prateado, passou por eles e foi plantar-se à direita, do outro lado, de onde concentradamente os olhava, com uma espécie de riso frouxo na boca aberta pelo meio. O outro, de calça caqui e paletó listrado de azul, com um chapéu cinza tão enterrado na testa que lhe ocultava a maior parte do rosto, lentamente se aproximou pela esquerda. Nenhum dos dois falava nada.

O motorista saltou, mas continuou ao lado do carro, de pé, olhando para eles lá embaixo. Era mais velho do que os outros dois homens. Seu cabelo já estava meio grisalho, e os óculos de aros prateados davam-lhe um ar estudioso. Tinha o rosto enrugado e o peito nu, sem camisa nem camiseta. Sua calça blue jeans estava muito apertada e ele empunhava um revolver, tendo na outra mão seu chapeu preto. Os dois rapazes também estavam armados.

"Sofremos um acidente", as crianças gritavam.

A avó teve a nítida impressão de que já conhecia aquele homem de óculos. Seu rosto lhe era bem familiar, como se o tivesse conhecido a vida toda, e ela no entanto não conseguia se lembrar quem era. Ele se afastou do carro e começou a descer pelo barranco, firmando os pés com atenção, para não escorregar. Usava sapatos de duas cores, marrom e branco, sem meias, e tinha os tornozelos muito vermelhos e finos. "Boa tarde", ele disse. "Tiveram um probleminha, né?"

"Capotamos duas vezes!", disse a avó.

“Uma” ele corrigiu. "Nos vimos quando aconteceu. Ligue lá o carro deles, Hiram, pra ver se pega", disse calmamente para o rapaz de chapéu cinza.

"Pra que essa arma?", perguntou John Wesley. "Vai fazer o que com essa arma, hein?"

"Minha senhora", disse o homem para a mãe das crianças, "mande essas crianças sentarem-se ai ao seu lado, sim? Crianças me põem nervoso. Quero todos vocês sentados juntos aí, aí mesmo onde estão."

"Por que é que você está dando ordens pra gente?" June Star per­guntou.

A mata se abria, por trás deles, como uma boca escura. "Venham pra cá", disse a mãe.

"Olha aqui", disse Bailey bruscamente, "nós estamos numa enrasca- da! Estamos nu..."

A avó deu um grito. Ficou em pé, encarou o homem e disse: "O senhor e o Desajustado! Eu logo vi!".

"É, dona, sou sim", disse o homem, com um ligeiro sorriso, como que satisfeito de sua fama, apesar dos pesares, "mas seria muito melhor para todos se a senhora não tivesse me reconhecido."

Bailey se virou abruptamente e disse para a sua mãe qualquer coisa que deixou até mesmo as crianças chocadas. A velha senhora começou a chorar, e o Desajustado corou.

"Minha senhora", ele disse, "não fique triste. As vezes um homem diz coisas sem querer. A intenção dele, penso eu, não era falar assim com a senhora."

"O senhor não atiraria em mulher, não é?" disse a avó, tirando do punho do vestido um lencinho limpo para enxugar os olhos

O Desajustado enfiou o bico de seu sapato na terra e fez um buraquinho que depois tampou. "Eu detestaria ter de fazer isso" disse.

"Escute aqui", disse a avó quase gritando, "eu sei que o senhor é um homem bom. Não aparenta nem um pouco ser pessoa comum. Sei que deve ser de boa familial"

"Ah, isso sim", disse ele, "da melhor do mundo." Deixava a mostra, quando ria, seus dentes brancos e fortes. "Deus nunca fez mulher mais perfeita do que a minha mãe, e o coração do meu pai era ouro puro", ele disse. O rapaz de camiseta vermelha deu a volta e, com sua arma apoiada na cintura, ficou em pé por trás deles. O Desajustado se agachou. "Olho nessas crianças, Bobby Lee", disse ele. "Você sabe que elas me deixam nervoso." Olhava para o grupo dos seis amontoados ali na sua frente e parecia confuso, como se não achasse o que dizer. "Nem uma nuvem no céu, não é?" observou, olhando para as alturas. "Não se vê o sol, mas também não se vê nuvem."

"Pois é, está um dia lindo!" disse a avó. "Mas ouça" acrescentou, "o senhor não deveria se chamar de Desajustado, porque eu sei que é um homem de bom coração. Basta olhar a sua pessoa, que eu logo vejo."

"Silêncio", gritou Bailey. "Boca calada todo mundo! Deixem comigo que eu resolvo a parada." Ele estava a postos, na posição de um corredor na largada, mas não se moveu.

"Obrigado por suas boas palavras, minha senhora" disse o Desajustado, traçando com o cabo da arma uma rodinha no chão.

"Levaria uma meia hora para ajeitar esse carro", gritou Hiram, olhando por cima do capô aberto.

'Tudo bem, mas primeiro você e o Bobby Lee levem o cara e o garotinho para dar uma andada", disse o Desajustado, apontando Bailey e John Wesley. "Os rapazes querem te perguntar uma coisa", disse ele para Bailey. "Pode dar uma chegadinha ali na mata com eles?"

"Escute aqui", começou Bailey, "nos estamos numa enrascada terrível! Será que ninguém percebe?" mas sua voz sumiu, e ele permaneceu completamente parado, com os olhos de um azul tão intenso quanto as araras da camisa que usava.

A avó se esticou para ajeitar a beirada do chapéu, como se tivesse de ir para a mata também, mas o chapéu acabou caindo na sua mão. Ela o olhou por algum tempo e depois o deixou cair no chão. Hiram puxou Bailey pelo braço, como se estivesse ajudando a um velho. John Wesley se agarrou na mão do pai, e Bobby Lee os seguiu. Foram lá para a mata, e quando estavam chegando a orla escura Bailey se virou e, apoiado no caule nu e acinzentado de um tronco de pinheiro, gritou: "Eu volto logo, mamãe, me espere aí!".

"Volte já! Agora mesmo!", gritou a mãe, mas todos tinham desaparecido na mata.
"Bailey, meu filho!" chamou a avó numa voz trágica, mas deu-se conta de que tinha pela frente, agachado no chão, o Desajustado, para o qual alias estava olhando. "Sei que o senhor e um homem bom", disse, desesperada. "Não é uma pessoa qualquer!"

"Não, dona, não sou bom não", o Desajustado disse um segundo depois, como se houvesse refletido sobre o que ela tinha dito, "mas também não sou o pior do mundo. Meu pai dizia que eu era de outra raça, diferente dos meus irmãos e irmãs. Dizia que há pessoas capazes de passar a vida toda sem perguntar por quê, mas que outras tem de saber o porquê das coisas, e que eu era desse tipo e ia me meter em tudo." Pôs o chapéu preto, olhou bruscamente para cima e logo desviou o olhar lá para a mata, como se estivesse novamente sem jeito.

"Desculpem eu estar sem camisa assim diante das senhoras", disse, dobrando ligeiramente os ombros. "Nos enterramos nossas roupas depois da fuga, e temos nos safado com essas até achar coisa melhor. Essas nós pegamos com um pessoal que encontramos", explicou.

"Mas então está tudo bem" disse a avó. "Bailey deve ter uma camisa extra na mala."

"Ah, eu vou dar uma olhada", disse o Desajustado.

"Para onde estão levando eles?", berrou a mãe das crianças.

"O meu velho era um colosso. Ninguém passava a perna nele. Nunca se meteu numa encrenca, sabia como lidar com autoridades."

"O senhor também, se quisesse tentar, poderia ser honesto", disse a avó. "Já pensou que maravilha seria fixar-se numa vida tranquila, sem ter de pensar se há alguém a persegui-lo o tempo todo?"

O Desajustado pareceu refletir. Continuava rabiscando no chão, com o cabo da arma, e disse: "Tem sempre alguém atrás da gente".

A avó pode notar que os ombros dele eram estreitos demais, logo abaixo do chapéu, porque, estando em pé, ela o via de cima. "Costuma rezar?", perguntou.
Ele meneou a cabeça. Ela só viu o chapéu preto balançando em seus ombros. E ele disse: "Não".

A um tiro de pistola na mata seguiu-se logo mais um. Depois, silencio. A cabeça da avo rodopiou. Ela ouviu o vento passando pelo alto das arvores como uma tomada de ar longa e satisfatória. "Bailey, meu filho!" gritou.

"Por uns tempos, fui cantor gospel", disse o Desajustado. "Já fiz um pouco de tudo. Fiz meu serviço militar, em terra e no mar, no país e lá fora, já me casei duas vezes, já fui agente funerário, já fui ferroviário e já lavrei a mãe terra, estive em um tornado, certa vez vi um homem queimado vivo..." e olhou para a mãe das crianças e a garota, que estavam sentadas bem juntinhas, com o rosto pálido e os olhares vidrados. "Vi até uma mulher ser chicoteada", acrescentou.

"Reze", interveio a avó. "Reze..."

"Não me lembro de ter sido um mau menino", o Desajustado disse, numa voz como que em devaneio, "mas o fato e que lá pelas tantas fiz alguma coisa de errado e fui para a cadeia. Enterrado vivo, na penitenciária" e olhou para cima, prendendo-lhe a atenção com um olhar persistente.

"Era então que devia ter começado a rezar", ela disse. "O que foi que fez para ser mandado para a penitenciária dessa primeira vez?"

"Do lado direito uma parede" disse o Desajustado, "do lado esquerdo outra. Se eu me virasse para cima, via o teto; para baixo, o chão. Esqueci o que eu fiz, minha senhora. Sentava lá e ficava tentando lembrar o que eu tinha feito e até hoje não lembro. De vez em quando parecia que ia vir, que eu ia me lembrar, mas não vinha."

"Talvez o tenham prendido por engano", disse vagamente a velha senhora.
"Não", ele disse. "Não houve erro. Sabiam tudo a meu respeito."

"Teria roubado alguma coisa, por acaso?" ela disse.

O Desajustado, zombando um pouco, riu. "Ninguém tinha nada que eu quisesse" disse. "Um medico lá da penitenciaria, um medico de cabeça, sabe, cismou que eu mesmo tinha matado meu pai. Invenção dele, é claro. Meu pai morreu na epidemia de gripe de 1919, e eu nunca tive nada com isso. Foi enterrado no cemitério da igreja batista de Mount Hopewell. Se quiser, pode ir lá ver."

"Jesus lhe ajudaria" disse a velha senhora, "se o senhor rezasse."

"Isso é verdade", disse o Desajustado.

"Mas então por que não reza?" perguntou ela, trêmula, num repentino deleite.
"Não quero ajuda", disse ele. "Tenho me dado bem sozinho."

Bobby Lee e Hiram voltaram da mata a passos lentos. O primeiro arrastando uma camisa amarela com araras-azuis muito brilhantes.

"Jogue essa camisa pra mim", disse o Desajustado. E a camisa veio voando, pousou em seu ombro e ele a vestiu. A avó não conseguia saber o que é que a camisa lhe trazia a lembrança. "Não, dona" disse o Desajustado, enquanto a abotoava, "eu descobri que o crime não importa. Você pode fazer isso ou aquilo, matar um homem ou roubar um pneu do carro dele, porque mais cedo ou mais tarde você se esquecerá do que fez e será punido justamente por isso."

A mãe das crianças começou a dar uns gemidos, como se não pudesse respirar muito bem. "Dona", ele pediu, "pode dar uma chegada com Bobby Lee e Hiram ate ali, com a garotinha, para juntar-se ao seu marido?"

"Sim, obrigada" disse, enfraquecida, a mulher. Seu braço esquerdo pendia bambo, e com o outro ela amparava o bebe, que agora estava dormindo. "Ajude a moça, Hiram", disse o Desajustado, quando ela já se esforçava para sair da valeta, "enquanto o Bobby Lee pega a garota pela mão."

"Não quero que ele me pegue pela mão", disse June Star. "Parece um porco."

O gordo corou e riu e a pegou pelo braço e foi levando para a mata atrás de Hiram e da mãe.

Sozinha com o Desajustado, a avó constatou ter perdido a voz. Não havia uma só nuvem, nem sol, no céu. Nada, em torno dela, a não ser a mata. Ela queria dizer que ele devia rezar. Abriu e fechou diversas vezes a boca, mas a frase não saía. Finalmente deu consigo dizendo: "Jesus, Jesus", querendo dizer Jesus vai lhe ajudar, embora mais parecesse estar xingando, pelo modo como falou.

"É, dona", disse o Desajustado, como se concordasse. "Jesus desequilibrou as coisas. O mesmo caso, o dele e o meu, só que ele não praticou nenhum crime, e o meu eles puderam provar, porque tinham tudo anotado na minha ficha. É claro", disse ele, "que nunca me mostraram a ficha. Por isso agora assino tudo. Ha muito que eu digo, o negócio é caprichar na assinatura, assinar tudo que fizer e guardar cópia. Você assim poderá saber o que fez, podendo comparar o crime ao castigo, para ver se correspondem, e por fim terá alguma coisa para provar, se não for tratado direito. Se eu me chamo Desajustado", disse ele, "e porque não faço esse ajuste, não consigo encaixar as coisas para que tudo que eu fiz de errado corresponda a tudo que sofri de castigo."

Veio da mata um grito lancinante, logo seguido por um tiro de pistola. "A senhora acha justo que um receba punição rigorosa e outro nem sequer seja punido?"
"Jesus!", gritou a velha. "O senhor tem sangue bom. Tenho certeza de que não atiraria numa mulher. Sei que vem de boa família... Jesus, reze! Numa senhora o senhor não deve atirar. Eu lhe dou todo o dinheiro que eu tenho!"

"Minha senhora", disse o Desajustado, olhando bem além dela, para a mata, "cadáver não dá gorjeta para quem faz o serviço."

Houve mais dois tiros de pistola e a avó ergueu a cabeça, como uma perua sedenta pedindo agua para se refrescar, e gritou: "Bailey, meu filho! Bailey, meu filho!" como se o seu coração fosse explodir.

"Jesus foi o único a ressuscitar os mortos" prosseguiu o Desajustado, "e ele não devia ter feito isso. Desequilibrou tudo. Se ele fazia o que dizia, não temos outra coisa a fazer a não ser renunciar a tudo e segui-lo. Mas, se não fazia, então o que nos cabe e desfrutar dos poucos minutos que nos restam da melhor maneira possível - matando alguém ou queimando a casa de alguém ou lhe fazendo alguma outra maldade. Sem maldade não ha prazer", disse ele, e sua voz era quase um rosnado.

"Vai ver que ele não ressuscitou os mortos", murmurou a velha senhora, já sem saber o que dizia e se sentindo tão tonta que arriou na vala, a medida que suas pernas foram se retorcendo.

"Se fez ou não fez, não sei, porque eu não estava lá", disse o Desa­justado. "E bem que eu gostaria de ter estado", acrescentou, dando um soco no chão. "Não é justo ser assim, porque, se eu tivesse estado lá, eu saberia. Sabe de uma coisa, madame", disse em voz alta: "Se eu tivesse estado lá, eu saberia, e não seria como sou agora". Sua voz parecia a ponto de rachar, e a cabeça da avó clareou por um instante. Ela viu o rosto do homem contorcendo-se próximo ao dela, como se ele fosse chorar, e balbuciou: "Mas você é uma das minhas crianças, um dos meus filhinhos!" esticando o braço para toca-lo no ombro. O Desajustado deu um pulo para trás, como se uma cobra o picasse, e atirou três vezes nela, todas no peito. Depois botou a arma no chão, tirou os óculos e começou a limpá-los.
Hiram e Bobby Lee voltaram da mata e pararam na beirada da vala, de onde olhavam para a avó lá embaixo, meio sentada, meio deitada numa poça de sangue, com as pernas cruzadas sob o corpo, como pernas de criança, e o rosto rindo para o alto, para o céu sem nuvens.

Os olhos do Desajustado, sem os óculos, eram lívidos, orlados de vermelho e indefesos. "Levem ela daqui e joguem lá onde jogaram os outros" disse ele, apanhando o gato, que se esfregava em sua perna.

"Ela falava demais, né?" disse em voz cantante Bobby Lee, ao escorregar vala adentro.

"Seria até boa mulher", o Desajustado disse, "se a cada instante de sua vida houvesse alguém nas cercanias para lhe dar um tiro."

"Teria sido gozado!" disse Bobby Lee.

"Cala essa boca, Bobby Lee!", disse o Desajustado. "É, na vida não há prazer verdadeiro."

Flannery O’Connor