Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
segunda-feira, agosto 10
Quem era o homem feio dos sonhos
Ela já estava chegando aos 31 anos e, desde o início da adolescência, quase todas as noites sonhava com um homem feio. Nunca era o mesmo homem, mas era sempre um homem feio, muito feio, alguém que ela havia visto naquele dia em algum lugar. Nos sonhos, o homem nunca falava. Olhava para ela, aproximava-se, cada passo durando uma eternidade, e quando chegava perto, muito perto, parava e ficava mais uma eternidade olhando para ela, só olhando. Quando esses sonhos se desfaziam, ela permanecia de olhos abertos, fitando o escuro, mas sem medo. Era sempre uma decepção o desfecho. Preferiria que o homem a atacasse, a xingasse, a aterrorizasse. O que não aguentava era aquele silêncio, aquela omissão, aquela indiferença pior do que um insulto. O que ele queria, afinal, com ela? Por que aparecia assim nas suas noites, nas suas madrugadas e até, às vezes, quando o sol e os primeiros ruídos da manhã já se elevavam?
O sonho era sempre aquele: um homem muito feio, que andava na sua direção e parava de repente, como se descobrisse que tinha se enganado. Os amigos, ao interpretar o sonho, resvalavam para a comédia e até para a galhofa. Um viu no homem o Diabo, outro adivinhou nele um príncipe que se revelaria em toda sua formosura se fosse beijado ou tocado com carinho. Mas, quando ela estava com 15 anos, uma amiga sugeriu que o visitante noturno poderia ser a Morte. Por muito tempo, talvez pelo nome de vidente da amiga (Zora), ela achou lógica essa hipótese, mas agora, com quase 31 anos, não acreditava numa Morte que tivesse a pachorra de se anunciar com tanta antecedência e empenho.
Aos 21 anos, tinha ido morar com um homem tão belo que, quando saía com ele, ela sentia dores no pescoço, enjoo, comichões: era a inveja feroz das outras mulheres. Viveu com esse homem um ano e meio e não sonhou com ele uma noite sequer. Continuava a sonhar com desconhecidos: alguém que tivesse visto no escritório dele, no elevador, no restaurante onde jantavam. Sempre alguém feio – não horrendo, não assustador, mas muito feio. Não podia dizer que eram pesadelos, porque o homem dos sonhos se mantinha calado e a uma distância mais que respeitosa. Mas isso ainda a perturbava: o que, afinal, ele queria com ela?
Com 28 anos, havia morado com um homem de 21, inacreditavelmente mais belo que o anterior, e nem nos seis meses em que viveu com ele, nem depois, quando se separaram, sonhou com ele. Assim que completou 30 anos, começou a sonhar com um homem que era tão feio quanto os outros, mas tinha algo que ela, se fosse definir, diria que era charme. Isso a inquietou profundamente, e também o fato de que nunca, antes, havia sonhado mais de uma vez com o mesmo rosto. E, agora, sonhava com esse até três vezes por noite. E ele, ao contrário dos outros, falava, embora só uma palavra: o nome dela.
Num fim de tarde, voltando para casa, ao descer do metrô, ela viu o homem. Ele se aproximou, chamou-a pelo nome e a conduziu suavemente por uma dezena de ruas que ela conhecia mas que pareciam diferentes, como se ela estivesse num sonho. “Fazia muito tempo que eu queria falar com você. Vamos, minha casa é logo ali”, disse o homem. Ela foi. A casa parecia simples, mas ao entrar ela se viu numa sala descomunal. Na parede, havia uma tela muito grande, na qual o homem aparecia sorrindo ao lado de gente que ela não conhecia, e também de pessoas célebres, algumas de fama recente, outras de meio século antes, de um século, de um milênio atrás. Ela quis perguntar como aquilo era possível, mas ele já a tinha levado para a cozinha. Quando viu a faca na mão dele, soube que a amiga Zora tinha razão.
Raul Drewnick
O sonho era sempre aquele: um homem muito feio, que andava na sua direção e parava de repente, como se descobrisse que tinha se enganado. Os amigos, ao interpretar o sonho, resvalavam para a comédia e até para a galhofa. Um viu no homem o Diabo, outro adivinhou nele um príncipe que se revelaria em toda sua formosura se fosse beijado ou tocado com carinho. Mas, quando ela estava com 15 anos, uma amiga sugeriu que o visitante noturno poderia ser a Morte. Por muito tempo, talvez pelo nome de vidente da amiga (Zora), ela achou lógica essa hipótese, mas agora, com quase 31 anos, não acreditava numa Morte que tivesse a pachorra de se anunciar com tanta antecedência e empenho.
Aos 21 anos, tinha ido morar com um homem tão belo que, quando saía com ele, ela sentia dores no pescoço, enjoo, comichões: era a inveja feroz das outras mulheres. Viveu com esse homem um ano e meio e não sonhou com ele uma noite sequer. Continuava a sonhar com desconhecidos: alguém que tivesse visto no escritório dele, no elevador, no restaurante onde jantavam. Sempre alguém feio – não horrendo, não assustador, mas muito feio. Não podia dizer que eram pesadelos, porque o homem dos sonhos se mantinha calado e a uma distância mais que respeitosa. Mas isso ainda a perturbava: o que, afinal, ele queria com ela?
Com 28 anos, havia morado com um homem de 21, inacreditavelmente mais belo que o anterior, e nem nos seis meses em que viveu com ele, nem depois, quando se separaram, sonhou com ele. Assim que completou 30 anos, começou a sonhar com um homem que era tão feio quanto os outros, mas tinha algo que ela, se fosse definir, diria que era charme. Isso a inquietou profundamente, e também o fato de que nunca, antes, havia sonhado mais de uma vez com o mesmo rosto. E, agora, sonhava com esse até três vezes por noite. E ele, ao contrário dos outros, falava, embora só uma palavra: o nome dela.
Num fim de tarde, voltando para casa, ao descer do metrô, ela viu o homem. Ele se aproximou, chamou-a pelo nome e a conduziu suavemente por uma dezena de ruas que ela conhecia mas que pareciam diferentes, como se ela estivesse num sonho. “Fazia muito tempo que eu queria falar com você. Vamos, minha casa é logo ali”, disse o homem. Ela foi. A casa parecia simples, mas ao entrar ela se viu numa sala descomunal. Na parede, havia uma tela muito grande, na qual o homem aparecia sorrindo ao lado de gente que ela não conhecia, e também de pessoas célebres, algumas de fama recente, outras de meio século antes, de um século, de um milênio atrás. Ela quis perguntar como aquilo era possível, mas ele já a tinha levado para a cozinha. Quando viu a faca na mão dele, soube que a amiga Zora tinha razão.
Raul Drewnick
O livro
Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para
ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para
metade da livraria.
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa,
senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas
muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.
Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.
Disseram-me que era necessario estar já iniciado, ora eu só
tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo á imagem
e semelhança de Deus. Não basta?
Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como
ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim
parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos,
não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!
Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha
hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma
hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia.
Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com
a morada e o dia.
Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome,
cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar
sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si–não saber
cuidar de si é ser cão.
Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me
ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono
de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele
soube cuidar de si!
Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se
diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma
arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos,
só de uma peça: Um homem!
Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar
e nenhuma era para copiar.
Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio
o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei
com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.
Talvez que nos outros livros… mas os titulos dos livros são
como os nomes das pessoas–não quere dizer nada, é só para não
se confundir…
Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito
antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só
maneira para todas as especies de seus vassalos!
Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu
seja Mestre!
Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial
conselheiro»! Não achas, Mãe?
O Mestre escreveu o que sabia–por isso ele foi Mestre. As palavras
tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras
ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam
a ler para chegarem a Mestres–era com esta intenção que se
aprendia a ler antigamente.
Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava
cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á
escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o
papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente
do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da
tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha
as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava
com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era
assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que
os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já
estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.
–O pequeno é como o grande.
–O que está em cima é analogo ao que está em baixo.
–O interior é como o exterior das coisas.
–Tudo está em tudo.
Almada Negreiros, "A invenção do dia claro"
ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para
metade da livraria.
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa,
senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas
muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.
* * * * *
Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.
Disseram-me que era necessario estar já iniciado, ora eu só
tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo á imagem
e semelhança de Deus. Não basta?
* * * * *
Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como
ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim
parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos,
não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!
Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha
hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma
hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia.
Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com
a morada e o dia.
* * * * *
cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar
sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si–não saber
cuidar de si é ser cão.
Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me
ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono
de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele
soube cuidar de si!
* * * * *
Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se
diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma
arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos,
só de uma peça: Um homem!
* * * * *
e nenhuma era para copiar.
Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio
o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei
com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.
Talvez que nos outros livros… mas os titulos dos livros são
como os nomes das pessoas–não quere dizer nada, é só para não
se confundir…
* * * * *
antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só
maneira para todas as especies de seus vassalos!
Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu
seja Mestre!
Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial
conselheiro»! Não achas, Mãe?
O Mestre escreveu o que sabia–por isso ele foi Mestre. As palavras
tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras
ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam
a ler para chegarem a Mestres–era com esta intenção que se
aprendia a ler antigamente.
* * * * *
cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á
escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o
papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente
do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da
tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha
as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava
com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era
assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que
os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
* * * * *
estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.
–O pequeno é como o grande.
–O que está em cima é analogo ao que está em baixo.
–O interior é como o exterior das coisas.
–Tudo está em tudo.
Almada Negreiros, "A invenção do dia claro"
O inventário
Peço a um amigo que me ajude neste transe melancólico; aluguei uma casa mobiliada, e o velho casal de proprietários fez uma lista de seus trecos para eu conferir. A lista é minuciosa e, por isso, imensa; são mil grandes e pequenas coisas, duas marquesas, um quadro a carvão representando São Francisco de Assis (mas o desenho é ruim e o santo está gordo), uma horrível, incomodíssima cômoda de metal, dois “choapinos”, um espelho quadrado que agora será visitado pela minha cara e talvez por hábito me faça meio parecido com esse velho chileno que sofre do coração.
A lista é terrivelmente minuciosa; eu terei de apresentar, ao sair desta casa, tantos ganchos de pendurar roupa e tantos cinzeirinhos de cobre; e já que insisti pelo piano, tenho de me conformar com a presença de um enorme e sinistro mueble musiquero, onde se guardam velhos tangos e valsas.
Meu amigo confere as coisas, de lista na mão, e a velha vai repetindo os nomes e apontando os objetos, numa ladainha interminável; bocejo no meio de meu reino desordenado e precário; uma a uma terei de entregar um dia todas essas coisas de volta a esses velhos; e para eles são coisas de certo modo sagradas, com o longo contato de seus olhos e de suas mãos, coisas de suas vidas que incorporaram minutos e anos, lembranças, palavras, emoções. Bocejo, depois fumo; nego-me a examinar, como eles gostariam, o detalhe de cada coisa, e minha indiferença parece que vagamente os ofende. Creio que sentem no fundo da alma um ódio deste estranho que vai morar em sua casa, com suas coisas; sou um intruso, o mais antipático dos intrusos, o intruso que paga o direito de ser intruso. E então eles ficam mais minuciosos, gastam meia hora para acrescentar na lista algumas coisinhas sem importância que tinham omitido, são avaros do que me alugam...
Partem. Chego à janela, vejo-os que fecham com todo o cuidado o portão. E sorrio. Esses velhos são uns insensatos. Arrolaram centenas de cacarecos inúteis e se esqueceram do mais importante, do que me atraiu a esta casa, dos bens sem preço que um vândalo poderia destruir e, entretanto, não estão no inventário; daqueles bens que, se sumissem, fariam esses dois velhos desfalecer de espanto e dor; o que eles não compraram com dinheiro, mas com o longo amor, o longo, cotidiano carinho: as árvores altas, belas, ainda úmidas da chuva da noite, brilhando, muito verdes, ao sol.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"
Ah, sim, o piano. O velho quer levar o antigo piano alemão; resisto; quero o piano; não sei tocar, mas me agrada ter em casa um piano; não seria possível deixar o piano? Os velhos se consultam; sim, ficará o piano. Em compensação há essa absurda mesa de pôquer que eles insistem em deixar, enorme, horrível, esses quadros a óleo detestáveis que eles elogiam tanto e que eu meterei todos dentro de um armário, um tinteiro de cobre, uma estatueta japonesa, coisas antigas como um violetero onde jamais colocarei violetas, um licoreiro que nunca verá licor, um paraguero que sonha com os guarda-chuvas dantanho, e essa feia mesita ratona, e essas coisas inúteis de metal e cristal, o relógio de cuco com o passarinho sempre cantando errado, pobre passarinho extraviado no tempo...
A lista é terrivelmente minuciosa; eu terei de apresentar, ao sair desta casa, tantos ganchos de pendurar roupa e tantos cinzeirinhos de cobre; e já que insisti pelo piano, tenho de me conformar com a presença de um enorme e sinistro mueble musiquero, onde se guardam velhos tangos e valsas.
Meu amigo confere as coisas, de lista na mão, e a velha vai repetindo os nomes e apontando os objetos, numa ladainha interminável; bocejo no meio de meu reino desordenado e precário; uma a uma terei de entregar um dia todas essas coisas de volta a esses velhos; e para eles são coisas de certo modo sagradas, com o longo contato de seus olhos e de suas mãos, coisas de suas vidas que incorporaram minutos e anos, lembranças, palavras, emoções. Bocejo, depois fumo; nego-me a examinar, como eles gostariam, o detalhe de cada coisa, e minha indiferença parece que vagamente os ofende. Creio que sentem no fundo da alma um ódio deste estranho que vai morar em sua casa, com suas coisas; sou um intruso, o mais antipático dos intrusos, o intruso que paga o direito de ser intruso. E então eles ficam mais minuciosos, gastam meia hora para acrescentar na lista algumas coisinhas sem importância que tinham omitido, são avaros do que me alugam...
Partem. Chego à janela, vejo-os que fecham com todo o cuidado o portão. E sorrio. Esses velhos são uns insensatos. Arrolaram centenas de cacarecos inúteis e se esqueceram do mais importante, do que me atraiu a esta casa, dos bens sem preço que um vândalo poderia destruir e, entretanto, não estão no inventário; daqueles bens que, se sumissem, fariam esses dois velhos desfalecer de espanto e dor; o que eles não compraram com dinheiro, mas com o longo amor, o longo, cotidiano carinho: as árvores altas, belas, ainda úmidas da chuva da noite, brilhando, muito verdes, ao sol.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"
A castanhola encaliçada
A vida força a passagem pelo interstício da parede arruinada. É uma castanhola, três folhas largas, espalmadas, rebentando verdes da caliça de 1890 ou 1900.
De nenhuma raiz brotaram essas folhas. Não há lugar para raiz em parede a meio metro do solo, ainda mais quando a construção não tem menos de cem anos.
De alguma semente? Que passarinho teria se interessado em inocular, numa fresta infecunda de parede, o germe da castanhola, árvore mais de pouso que de alimento?
Só ao equilíbrio do beija-flor, parado no ar, seria permitida essa operação. Mas a fuliginosa Maciel Pinheiro, rua de autopeças e oficinas, não é lugar para beija-flores.
No mínimo, a castanhola entrou na argamassa de cal e barro, batidos pela colher de alguém que, em 1890, já era pedreiro. Entrou semente, embrião dos muitos e muitos que proliferam ao redor da fonte de Gravatá (sítio da antiga Maciel), e ficou esperando a hora de brotar, acondicionada na vermelhidão dos tijolos bem cozidos, privada de ar e de sol pelo reboco forte e ultrarresistente.
Está aqui. O caule não tem nada de superficial; vem de dentro, germinado na própria caliça. Foi na massa e aí ficou. Passou o Império, entrou a República, que ficou Velha; foram-se para sempre os apitos do vapor chamando para os desembarques no porto paraibano do Sanhauá; encobriram-se no infinito a sirene da Alfândega, os suspiros de ansiedade ante os balcões de seda importada, o vozerio dos cafés políticos, a euforia dos epitacistas, os tropéis e os gritos da ordem revolucionária de 1930... Tudo isso e mais o ruge-ruge promíscuo do cabaré em que se transformou a primitiva Rua das Convertidas.
Rua do Conde D'Eu, por onde passaram os pregões do açúcar demerara, os pileques dos capitães, agentes e consignatários dos navios surtos no rio ou em Cabedelo, as manchetes pioneiras do jornal de Arthur Achilles.
Depois, tudo se mudou. O porto se mudou para a barra; os balcões de seda, a Alfândega, os tugúrios conspiratórios, as Ritas Maias, as Osanas e Antoninhas; muitas paredes desboroando, o tempo descascando suas chagas, abrindo feridas em frontais que não passam de ruínas.
Convenço-me agora (e de forma irrecusável) de que a castanhola que vem rebentando, emergindo da ruína, veio da colher de argamassa do começo do século XX. Rebentou verde de tijolo largo, chato, que, nos anos 1920, apogeu das Trincheiras, não se batia nem se cozinhava mais. Da ferida de cal escapole a folha. Quem sabe se descendente do jardim fundado por Beaurepaire Rohan, que começava nas traseiras do Palácio e vinha terminar nas encostas do mangue, aproveitadora deste sol atemporal de fim de século.
De nenhuma raiz brotaram essas folhas. Não há lugar para raiz em parede a meio metro do solo, ainda mais quando a construção não tem menos de cem anos.
De alguma semente? Que passarinho teria se interessado em inocular, numa fresta infecunda de parede, o germe da castanhola, árvore mais de pouso que de alimento?
Só ao equilíbrio do beija-flor, parado no ar, seria permitida essa operação. Mas a fuliginosa Maciel Pinheiro, rua de autopeças e oficinas, não é lugar para beija-flores.
No mínimo, a castanhola entrou na argamassa de cal e barro, batidos pela colher de alguém que, em 1890, já era pedreiro. Entrou semente, embrião dos muitos e muitos que proliferam ao redor da fonte de Gravatá (sítio da antiga Maciel), e ficou esperando a hora de brotar, acondicionada na vermelhidão dos tijolos bem cozidos, privada de ar e de sol pelo reboco forte e ultrarresistente.
Está aqui. O caule não tem nada de superficial; vem de dentro, germinado na própria caliça. Foi na massa e aí ficou. Passou o Império, entrou a República, que ficou Velha; foram-se para sempre os apitos do vapor chamando para os desembarques no porto paraibano do Sanhauá; encobriram-se no infinito a sirene da Alfândega, os suspiros de ansiedade ante os balcões de seda importada, o vozerio dos cafés políticos, a euforia dos epitacistas, os tropéis e os gritos da ordem revolucionária de 1930... Tudo isso e mais o ruge-ruge promíscuo do cabaré em que se transformou a primitiva Rua das Convertidas.
Rua do Conde D'Eu, por onde passaram os pregões do açúcar demerara, os pileques dos capitães, agentes e consignatários dos navios surtos no rio ou em Cabedelo, as manchetes pioneiras do jornal de Arthur Achilles.
Depois, tudo se mudou. O porto se mudou para a barra; os balcões de seda, a Alfândega, os tugúrios conspiratórios, as Ritas Maias, as Osanas e Antoninhas; muitas paredes desboroando, o tempo descascando suas chagas, abrindo feridas em frontais que não passam de ruínas.
Convenço-me agora (e de forma irrecusável) de que a castanhola que vem rebentando, emergindo da ruína, veio da colher de argamassa do começo do século XX. Rebentou verde de tijolo largo, chato, que, nos anos 1920, apogeu das Trincheiras, não se batia nem se cozinhava mais. Da ferida de cal escapole a folha. Quem sabe se descendente do jardim fundado por Beaurepaire Rohan, que começava nas traseiras do Palácio e vinha terminar nas encostas do mangue, aproveitadora deste sol atemporal de fim de século.
sábado, agosto 8
Cipreste amigo
Sempre desejei possuir um cipreste; posso, enfim, satisfazer esse meu desejo.
O cipreste que comprei fica no campo, mas daqui até a cidade a distância não é grande e posso vir vê-lo todas as tardes, ao pôr do sol, e sentar-me sob os seus ramos para meditar sabiamente. Houve até uma noite, plena madrugada, em que vim vê-lo sob um luar esplêndido, e em razão justamente desse luar: é que sob o meu quarto mora agora uma pobre louca, que não suporta a lua cheia e se põe a uivar desesperadamente — e eu não suporto o uivo dos loucos, sobretudo dos que não conheço. (Sempre ouvi falar dessa história de loucos ladrarem à lua cheia como se fossem cães desesperados, mas nunca lhe dei maior atenção; agora sei que é verdade.)
Aliás, foi para filosofar, mais do que tudo, que eu adquiri este cipreste solitário e perdido no campo, aos pés dessa cidade que não é a minha e que um dia terei que abandonar repentinamente, como tenho abandonado a tudo e a todos, antes que me abandonem. À falta de um pórtico grego ou romano, no puro estilo da Acrópole, a sombra de um cipreste sempre me pareceu o lugar ideal para divagações profundas sobre o eterno e o efêmero no destino humano, sobretudo quando se é solitário por natureza como eu sou e não se tem necessidade de espaço maior para cantar em surdina sua milenar angústia. Cipreste lembra morte — isto é, o inelutável, a única certeza que salta aos olhos até dos mais tolos e inocentes — e que melhor conselheiro e guia para os nossos pensamentos de grandeza mas sem grandeza, e nossos temores e angústias construídos de fumaça e que por isso mesmo nos intoxicam e nos turvam a visão?
Isto mesmo que estou escrevendo, está sendo escrito à luz do crepúsculo, nesta réstia de terra que é minha propriedade como o é o próprio cipreste que a cobre como consta, aliás, da escritura de venda que me passou o comerciante Nicanor, estabelecido com secos e molhados no cais do porto. Esta noite a louca sob os meus pés uivou muito e impediu-me de conciliar o sono, embora não fosse lua cheia, mas eu não pude vir porque chovia muito e a chuva molha a alma mais do que o corpo. Agora, porém, na paz deste campo ainda úmido e cheirando a cemitério, eu e o meu cipreste voltamos a unir-nos numa união perfeita e total, como se eu fora a sua sombra ou simplesmente a sua alma visível e taciturna. O vento é o nosso intérprete, o vento que vem do mar distante e agita os meus cabelos de eterno viúvo e os seus ramos em eterna prece, voltados para o infinito.
Um chinês bêbado é muito difícil de distinguir-se de um chinês sóbrio. Ambos têm os olhos fechados, embora abertos, e sorriem tranquilamente para o nada, como é do seu hábito. Há instantes em que eu me sinto um chinês perfeito — Chiang O’Lyi, por sinal — e me ponho a rememorar todos os meus antepassados milenários, com rabicho e bigodes em forma de antena, captando o mistério que vem dos subterrâneos do mundo. Cada dia, aliás, eu pertenço a uma raça diferente, negra, amarela, roxa ou simplesmente furta-cor, e já me tem acontecido despertar sob a pele de uma raça ainda inexistente e de que só darão notícia os etnólogos dentro de mil anos, se até lá chegar a raça humana. Sob a máscara unicápita que reflete o meu espelho jazem os milhões de rostos que formam o meu homo multiplex, e é em vão que tento iludir-me a mim mesmo quando me faço a barba, como se fora um ser único e cotidiano. O próprio Cristo, que se dizia unigênito, era em verdade tríplice e muito mais do que tríplice, tanto que o desconheciam os seus próprios irmãos e os desconhecia ele por sua vez numa humanidade que abrangia toda a humanidade, sem distinção de tempo ou espaço. Eu e meu irmão somos apenas uma partícula ínfima do meu todo onímodo e universal, que de fato compreende toda uma multidão incalculável, e é com pasmo que nos vejo a todos sentados sobre este metro quadrado de terra e de sombra, sem que sequer nos esmaguemos com nossos mil braços e pernas, quando porventura levamos a mão aos olhos para chorar um pouco.
Se você chama um avestruz de pássaro, está implicitamente fazendo-lhe o maior dos elogios, e ele ficará eternamente grato por isso. (E, para ser sincero, não é mais justo que se chame de pássaro ao avestruz, em vez do gavião ou da águia, que envergonham a espécie e mereceriam antes ser humanos?). Mas o avestruz a que você chamasse de pássaro estaria, por sua vez, implicitamente obrigado a proceder como tal, nem que isso lhe custasse todos os riscos de vida e a própria vida — como sei de um que, para provar sua condição de pássaro, se atirou do alto de um penhasco e foi morrer lá em baixo espatifado, sem tempo sequer para um gemido. Morreu como um pássaro, esta é que é a verdade, e como pássaro foi enterrado.
Quanto a mim, apetecer-me-ia ser chamado de santo, ou, melhor ainda, de fantasma, para ser obrigado a agir como tal, com esta força de convicção que emprego em tudo quanto faço, quando faço. Santo ainda seria um pouco difícil mas como fantasma eu me sentiria inteiramente à vontade, tanto me sinto fantasma em meus momentos de devaneio e me sinto deslocado em meio aos homens movidos a intestinos e testículos. Por vezes me sinto tão fantasma — em meio à noite, sobretudo que chego a erguer-me do solo, por um espaço de tempo que varia entre cinco a dez segundos, num puro fenômeno de levitação — o que me custa, é bem verdade, uma terrível dor nos rins e uma copiosa exsudação, logo refletidas numa dor de cabeça insuportável, que por pouco não me leva ao desespero. Bastaria, porém, (disso estou convicto) que alguém me tomasse sinceramente por um fantasma e me chamasse por esse belo nome, os cabelos eriçados de pavor como acontece no cinema — para que eu, sem o menor esforço, não só me pusesse a flutuar no espaço como ainda começasse a atravessar portas e paredes, com o ar mais displicente deste mundo. A confiança que os outros têm em nós é mais importante do que a que nós mesmos temos, e disso dou testemunho exatamente pela minha vocação frustrada de fantasma, à qual faltou apenas alguém que acreditasse cegamente em mim e me transmitisse essa crença inabalável.
Mas já se faz noite, ou quase, a esta altura de minhas lucubrações metapsíquicas, e eu não trouxe vela nem lanterna para iluminar meu caderno de notas e meu lápis de ponta vermelha, como deveria ter feito e cuidarei de fazer para o futuro.
Adeus, pois, cipreste amigo, por hoje pelo menos — e ficarei na expect..........................................
O cipreste que comprei fica no campo, mas daqui até a cidade a distância não é grande e posso vir vê-lo todas as tardes, ao pôr do sol, e sentar-me sob os seus ramos para meditar sabiamente. Houve até uma noite, plena madrugada, em que vim vê-lo sob um luar esplêndido, e em razão justamente desse luar: é que sob o meu quarto mora agora uma pobre louca, que não suporta a lua cheia e se põe a uivar desesperadamente — e eu não suporto o uivo dos loucos, sobretudo dos que não conheço. (Sempre ouvi falar dessa história de loucos ladrarem à lua cheia como se fossem cães desesperados, mas nunca lhe dei maior atenção; agora sei que é verdade.)
Mas o meu cipreste, modéstia à parte, é um mimo de cipreste e bem mereceria estar num cemitério, ao lado de outros fantasmas de sua espécie, povoando a solidão dos mortos e velando o seu sono tranquilo e eterno. A princípio pareceu-me um pouco baixo, mas nessa noite em que a lua cheia refletiu seu vulto trágico por sobre o campo pude capacitar-me de que era o cipreste que me convinha, e passei a amá-lo perdidamente. Hoje somos um só corpo e uma só alma, e passo horas recostado ao seu tronco amigo como um filho nos braços de sua mãe verdadeira, o olhar perdido na imensidão do campo e o coração pulsando suave e sem remorsos.
Aliás, foi para filosofar, mais do que tudo, que eu adquiri este cipreste solitário e perdido no campo, aos pés dessa cidade que não é a minha e que um dia terei que abandonar repentinamente, como tenho abandonado a tudo e a todos, antes que me abandonem. À falta de um pórtico grego ou romano, no puro estilo da Acrópole, a sombra de um cipreste sempre me pareceu o lugar ideal para divagações profundas sobre o eterno e o efêmero no destino humano, sobretudo quando se é solitário por natureza como eu sou e não se tem necessidade de espaço maior para cantar em surdina sua milenar angústia. Cipreste lembra morte — isto é, o inelutável, a única certeza que salta aos olhos até dos mais tolos e inocentes — e que melhor conselheiro e guia para os nossos pensamentos de grandeza mas sem grandeza, e nossos temores e angústias construídos de fumaça e que por isso mesmo nos intoxicam e nos turvam a visão?
Isto mesmo que estou escrevendo, está sendo escrito à luz do crepúsculo, nesta réstia de terra que é minha propriedade como o é o próprio cipreste que a cobre como consta, aliás, da escritura de venda que me passou o comerciante Nicanor, estabelecido com secos e molhados no cais do porto. Esta noite a louca sob os meus pés uivou muito e impediu-me de conciliar o sono, embora não fosse lua cheia, mas eu não pude vir porque chovia muito e a chuva molha a alma mais do que o corpo. Agora, porém, na paz deste campo ainda úmido e cheirando a cemitério, eu e o meu cipreste voltamos a unir-nos numa união perfeita e total, como se eu fora a sua sombra ou simplesmente a sua alma visível e taciturna. O vento é o nosso intérprete, o vento que vem do mar distante e agita os meus cabelos de eterno viúvo e os seus ramos em eterna prece, voltados para o infinito.
Um chinês bêbado é muito difícil de distinguir-se de um chinês sóbrio. Ambos têm os olhos fechados, embora abertos, e sorriem tranquilamente para o nada, como é do seu hábito. Há instantes em que eu me sinto um chinês perfeito — Chiang O’Lyi, por sinal — e me ponho a rememorar todos os meus antepassados milenários, com rabicho e bigodes em forma de antena, captando o mistério que vem dos subterrâneos do mundo. Cada dia, aliás, eu pertenço a uma raça diferente, negra, amarela, roxa ou simplesmente furta-cor, e já me tem acontecido despertar sob a pele de uma raça ainda inexistente e de que só darão notícia os etnólogos dentro de mil anos, se até lá chegar a raça humana. Sob a máscara unicápita que reflete o meu espelho jazem os milhões de rostos que formam o meu homo multiplex, e é em vão que tento iludir-me a mim mesmo quando me faço a barba, como se fora um ser único e cotidiano. O próprio Cristo, que se dizia unigênito, era em verdade tríplice e muito mais do que tríplice, tanto que o desconheciam os seus próprios irmãos e os desconhecia ele por sua vez numa humanidade que abrangia toda a humanidade, sem distinção de tempo ou espaço. Eu e meu irmão somos apenas uma partícula ínfima do meu todo onímodo e universal, que de fato compreende toda uma multidão incalculável, e é com pasmo que nos vejo a todos sentados sobre este metro quadrado de terra e de sombra, sem que sequer nos esmaguemos com nossos mil braços e pernas, quando porventura levamos a mão aos olhos para chorar um pouco.
Se você chama um avestruz de pássaro, está implicitamente fazendo-lhe o maior dos elogios, e ele ficará eternamente grato por isso. (E, para ser sincero, não é mais justo que se chame de pássaro ao avestruz, em vez do gavião ou da águia, que envergonham a espécie e mereceriam antes ser humanos?). Mas o avestruz a que você chamasse de pássaro estaria, por sua vez, implicitamente obrigado a proceder como tal, nem que isso lhe custasse todos os riscos de vida e a própria vida — como sei de um que, para provar sua condição de pássaro, se atirou do alto de um penhasco e foi morrer lá em baixo espatifado, sem tempo sequer para um gemido. Morreu como um pássaro, esta é que é a verdade, e como pássaro foi enterrado.
Quanto a mim, apetecer-me-ia ser chamado de santo, ou, melhor ainda, de fantasma, para ser obrigado a agir como tal, com esta força de convicção que emprego em tudo quanto faço, quando faço. Santo ainda seria um pouco difícil mas como fantasma eu me sentiria inteiramente à vontade, tanto me sinto fantasma em meus momentos de devaneio e me sinto deslocado em meio aos homens movidos a intestinos e testículos. Por vezes me sinto tão fantasma — em meio à noite, sobretudo que chego a erguer-me do solo, por um espaço de tempo que varia entre cinco a dez segundos, num puro fenômeno de levitação — o que me custa, é bem verdade, uma terrível dor nos rins e uma copiosa exsudação, logo refletidas numa dor de cabeça insuportável, que por pouco não me leva ao desespero. Bastaria, porém, (disso estou convicto) que alguém me tomasse sinceramente por um fantasma e me chamasse por esse belo nome, os cabelos eriçados de pavor como acontece no cinema — para que eu, sem o menor esforço, não só me pusesse a flutuar no espaço como ainda começasse a atravessar portas e paredes, com o ar mais displicente deste mundo. A confiança que os outros têm em nós é mais importante do que a que nós mesmos temos, e disso dou testemunho exatamente pela minha vocação frustrada de fantasma, à qual faltou apenas alguém que acreditasse cegamente em mim e me transmitisse essa crença inabalável.
Mas já se faz noite, ou quase, a esta altura de minhas lucubrações metapsíquicas, e eu não trouxe vela nem lanterna para iluminar meu caderno de notas e meu lápis de ponta vermelha, como deveria ter feito e cuidarei de fazer para o futuro.
Adeus, pois, cipreste amigo, por hoje pelo menos — e ficarei na expect..........................................
Campos de Carvalho, "A Lua Vem da Ásia"
O armário
Quando abrires o armário tem cuidado
mais que versos falhados cartões melancolia
pode sair de repente o que não esperas
aquela cujo sol de um outro tempo
quando olha para ti ainda te mata.
Por isso tem cuidado: não abras as gavetas
talvez Deus esteja escondido
ao lado do retrato da primeira comunhão.
Não abras: pode soltar-se
o espírito
podem sair os mortos todos
as bruxas o diabo as cartas o destino
e aquela parte da tua vida que não cabe
não cabe em nenhum verso.
E se o bafo soprar?
Não abras
não abras as gavetas.
Pode sair a tua guerra
os aerogramas
as cartas escritas da cadeia
o amor o tempo as emboscadas
as longas noites de interrogatório
e também os duzentos metros livres
uma tarde de glória na Praia das Maçãs.
Este no pódio és tu.
Não queiras ver.
O que passou passou e não passou.
Deixa ficar o sol fechado no armário
o sol e a vida
não só poemas cadernos e retratos
mas também lâminas um pincel de barba
um pente
os pequenos nadas do teu quotidiano
antes do salto.
Tão inúteis agora.
Ninguém regressa à vida interrompida
mesmo que por dentro do armário
bata por vezes um coração.
Tem cuidado ao abri-lo.
Pode sair o que nunca imaginaste
um pedaço de Deus em papéis velhos
uma foto esmaecida
um amor rasgado
sabe-se lá o quê.
Alguém que não conheces
alguém que não sabes quem
alguém que aponta o teu retrato
e de repente diz: Ninguém.
Manuel Alegre, "Livro do Português Errante"
mais que versos falhados cartões melancolia
pode sair de repente o que não esperas
aquela cujo sol de um outro tempo
quando olha para ti ainda te mata.
Por isso tem cuidado: não abras as gavetas
talvez Deus esteja escondido
ao lado do retrato da primeira comunhão.
Não abras: pode soltar-se
o espírito
podem sair os mortos todos
as bruxas o diabo as cartas o destino
e aquela parte da tua vida que não cabe
não cabe em nenhum verso.
E se o bafo soprar?
Não abras
não abras as gavetas.
Pode sair a tua guerra
os aerogramas
as cartas escritas da cadeia
o amor o tempo as emboscadas
as longas noites de interrogatório
e também os duzentos metros livres
uma tarde de glória na Praia das Maçãs.
Este no pódio és tu.
Não queiras ver.
O que passou passou e não passou.
Deixa ficar o sol fechado no armário
o sol e a vida
não só poemas cadernos e retratos
mas também lâminas um pincel de barba
um pente
os pequenos nadas do teu quotidiano
antes do salto.
Tão inúteis agora.
Ninguém regressa à vida interrompida
mesmo que por dentro do armário
bata por vezes um coração.
Tem cuidado ao abri-lo.
Pode sair o que nunca imaginaste
um pedaço de Deus em papéis velhos
uma foto esmaecida
um amor rasgado
sabe-se lá o quê.
Alguém que não conheces
alguém que não sabes quem
alguém que aponta o teu retrato
e de repente diz: Ninguém.
Manuel Alegre, "Livro do Português Errante"
A linguaruda
Natália Mikailovna, senhora garbosa e ainda jovem, chegou pelo trem de Jalta, onde passara o verão. Depois, durante o jantar falou sem parar, descrevendo as belezas daquela região. O marido, feliz com o retorno da esposa, a observava com os olhos cheios de ternura, ante a excitação dela, limitando-se apenas a fazer algumas perguntas esporádicas.
– Ouvi dizer que a vida lá está muito cara… – observou ele.
– Cara? Como vou dizer? Não é tão cara quanto dizem. Eu tinha com a Júlia Petrovna, um bom apartamento, bem confortável, por vinte rublos por dia. Precisa saber se controlar. Se vai se fazer um passeio aos montes, por exemplo ao Al-Ptri, se gasta mais… O cavalo, o guia… Tudo isso encarece, e muito… Mas, querido, que belos montes! Tu não imaginas como são altos! Mil vezes mais altos que a igreja… E em cima, neve! Nada mais do que neve… Embaixo, pedras, apenas… Ah, que beleza…
– A respeito disso, durante a sua ausência, fiquei preocupado quando li a respeito das crueldades praticadas pelos guias… Não é verdade que são perversos?
Natália fez uma careta e balançou a cabeça, negativamente.
– São como todos os tártaros – respondeu ela. – Além disso, só os vi de longe, uma ou duas vezes… Falaram a esse respeito, mas não dei muita importância… Sempre senti aversão aos circassianos, aos gregos, aos mouros…
– Me parece que são uns espertalhões…
– Pode ser… Mas tem algumas sem vergonhas que…
Seu semblante se transtornou e ela chegou a se levantar, como se visse o diabo. Encarou o marido com os olhos dilatados:
– Vasitchka! Tu não imaginas quantas mulheres levianas há no mundo! Que imoralidade! E não de classe baixa ou mesmo média, não! Aristocratas da alta!… Eu não acreditava no que via! Nunca mais vou esquecer! Só quem não tem princípios pode chegar a esse ponto… E nem me atrevo a contar! Veja só a Júlia Petrovna, minha companheira de viagem… Tem um marido tão bom, dois filhos, considerada da melhor sociedade… Quer passar por uma santa, mas sabes o que fazia? Tu não vais acreditar! Mas que fique entre nós… Me dás a palavra de honra que não dirás a ninguém!?
– Ora, que ideia! Vou contar para quem?
– Bom, vou confiar em ti!
Recostou-se na cadeira, aguçou o olhar e começou:
– Imagine! Um dia, Júlia Petrovna saiu a cavalo para um passeio pelos montes. Era um dia lindo e ela saiu na frente com o seu guia. Eu ia atrás. Cerca de dois ou três quilômetros do vilarejo, ela soltou um grito, levando as mãos ao peito. Se o tártaro não a agarrasse ela teria caído e poderia ter se machucado com gravidade… Corri para junto dela com o meu guia, para ver o que tinha acontecido e ela me respondeu que se sentia mal, que parecia que ia morrer. Imagine só! Assustada eu tentei convencê-la a voltar. Ela choramingava que não podia, que estava para morrer. Me disse até que se desse um passo a mais iria morrer! Choramingava dizendo que sentia vertigens. Então pediu a mim e a Suleiman que fôssemos apanhar um remédio que ela tinha no nosso apartamento…
– Espera aí, querida – interrompeu o marido. – Há pouco me dizias que não tinha visto os tártaros senão ao longe e me vens com esse Saleiman que a acompanhava?
– Não me venha com asneiras! – rompeu a esposa em reclamar. – Abomino essas suspeitas! Não suporto isso! É um absurdo!
– Não estou suspeitando de nada, mas porque mentir? Tu passeavas com os guias tártaros… porque esconder?
– Quando queres, és impossível! – protestou ela indignada. – Estás com ciúmes de Sulieman! É isso! Mas queria ver como irias ao monte sem guia! Ah! Queria ver mesmo! Se não conheces aquela região e seus costumes e dificuldades, faria melhor se calasse! Escute e aprenda! Lá não se pode dar um passo sem guia.
– É natural!
– Me faze o favor de deixar esses sorrisinhos bobos! Não sou uma Júlia qualquer para agüentá-los. Não quero passar por santa, mas não me permitiria certas coisas… Será que não vês que Mametkul passava o tempo todo com a Júlia? Comigo não! Quando dava onze horas eu já dizia: “Suleiman, estás liberado!” e o meu tartarosinho ia-se embora… Eu o tratava com muita serenidade e assim mesmo, às vezes vinha falar de dinheiro e gastos extras, mas logo eu me eximia do que não estava combinado. Han! Han! Sabes, Vasitchka? Ele tinha uns olhos negros como o carvão, uma carinha morena, uma graciosa cara de tártaro… Han! Han! Mas eu o tratava com muita firmeza!
– Imagino que sim… – murmurou o esposo, entretido com as bolinhas de pão.
– Estás maluco, Vasitchka? Completamente louco? Já sei o que estás pensando! Conheço a tua cabeça! Mas te asseguro que quando estávamos passeando não se conversava nunca! Íamos, por exemplo, nos montes ou na cascata de Ucha-Su e eu ordenava ao Suleiman que ficasse atrás. Entende? E o pobrezinho tinha que ir atrás mesmo! Não o deixava esquecer-se que ele era um tártaro e eu a esposa de um conselheiro de Estado! Han! Han!
Ela deu uma gargalhada meio forçada e fez uma cara de assustada logo em seguida:
– Mas a Júlia! Hum! Esta Júlia! A gente pode fazer uma travessura, distrair-se! Porque não? Precisamos aliviar um pouco a tensão e a frivolidade da vida mundana, penso eu! Temos que nos divertir, mas nos conter dos excessos, para poder exigir que nos respeitem. Fazer escândalos? Ah! Isso não! Mas imagina que ela estava com ciúmes de mim! Que tolice! Uma vez Mametkul chegou e ela não estava. Então o fiz entrar e conversamos um tempo. São muito interessantes esses tártaros… A tarde passou sem percebermos. De repente chega Júlia, como uma tempestade! Brigou comigo e com Mametkul, armando uma cena horrível! Isto, Vasitchka, eu não aceito…
Com um “hum” muito eloquente, ela franze as sobrancelhas e girou pela sala com passos firmes.
– Então, pelo que vejo, te distraíste bem! – disse o marido sorrindo.
– Que estúpido! Já sei tudo o que estás pensando! Tens sempre idéias maliciosas! Mas daqui para frente, já sei que não te contarei nada! Nada mesmo!
E calou-se, com uma cara de arrependida.
Anton Tchekhov
– Ouvi dizer que a vida lá está muito cara… – observou ele.
– Cara? Como vou dizer? Não é tão cara quanto dizem. Eu tinha com a Júlia Petrovna, um bom apartamento, bem confortável, por vinte rublos por dia. Precisa saber se controlar. Se vai se fazer um passeio aos montes, por exemplo ao Al-Ptri, se gasta mais… O cavalo, o guia… Tudo isso encarece, e muito… Mas, querido, que belos montes! Tu não imaginas como são altos! Mil vezes mais altos que a igreja… E em cima, neve! Nada mais do que neve… Embaixo, pedras, apenas… Ah, que beleza…
– A respeito disso, durante a sua ausência, fiquei preocupado quando li a respeito das crueldades praticadas pelos guias… Não é verdade que são perversos?
Natália fez uma careta e balançou a cabeça, negativamente.
– São como todos os tártaros – respondeu ela. – Além disso, só os vi de longe, uma ou duas vezes… Falaram a esse respeito, mas não dei muita importância… Sempre senti aversão aos circassianos, aos gregos, aos mouros…
– Me parece que são uns espertalhões…
– Pode ser… Mas tem algumas sem vergonhas que…
Seu semblante se transtornou e ela chegou a se levantar, como se visse o diabo. Encarou o marido com os olhos dilatados:
– Vasitchka! Tu não imaginas quantas mulheres levianas há no mundo! Que imoralidade! E não de classe baixa ou mesmo média, não! Aristocratas da alta!… Eu não acreditava no que via! Nunca mais vou esquecer! Só quem não tem princípios pode chegar a esse ponto… E nem me atrevo a contar! Veja só a Júlia Petrovna, minha companheira de viagem… Tem um marido tão bom, dois filhos, considerada da melhor sociedade… Quer passar por uma santa, mas sabes o que fazia? Tu não vais acreditar! Mas que fique entre nós… Me dás a palavra de honra que não dirás a ninguém!?
– Ora, que ideia! Vou contar para quem?
– Bom, vou confiar em ti!
Recostou-se na cadeira, aguçou o olhar e começou:
– Imagine! Um dia, Júlia Petrovna saiu a cavalo para um passeio pelos montes. Era um dia lindo e ela saiu na frente com o seu guia. Eu ia atrás. Cerca de dois ou três quilômetros do vilarejo, ela soltou um grito, levando as mãos ao peito. Se o tártaro não a agarrasse ela teria caído e poderia ter se machucado com gravidade… Corri para junto dela com o meu guia, para ver o que tinha acontecido e ela me respondeu que se sentia mal, que parecia que ia morrer. Imagine só! Assustada eu tentei convencê-la a voltar. Ela choramingava que não podia, que estava para morrer. Me disse até que se desse um passo a mais iria morrer! Choramingava dizendo que sentia vertigens. Então pediu a mim e a Suleiman que fôssemos apanhar um remédio que ela tinha no nosso apartamento…
– Espera aí, querida – interrompeu o marido. – Há pouco me dizias que não tinha visto os tártaros senão ao longe e me vens com esse Saleiman que a acompanhava?
– Não me venha com asneiras! – rompeu a esposa em reclamar. – Abomino essas suspeitas! Não suporto isso! É um absurdo!
– Não estou suspeitando de nada, mas porque mentir? Tu passeavas com os guias tártaros… porque esconder?
– Quando queres, és impossível! – protestou ela indignada. – Estás com ciúmes de Sulieman! É isso! Mas queria ver como irias ao monte sem guia! Ah! Queria ver mesmo! Se não conheces aquela região e seus costumes e dificuldades, faria melhor se calasse! Escute e aprenda! Lá não se pode dar um passo sem guia.
– É natural!
– Me faze o favor de deixar esses sorrisinhos bobos! Não sou uma Júlia qualquer para agüentá-los. Não quero passar por santa, mas não me permitiria certas coisas… Será que não vês que Mametkul passava o tempo todo com a Júlia? Comigo não! Quando dava onze horas eu já dizia: “Suleiman, estás liberado!” e o meu tartarosinho ia-se embora… Eu o tratava com muita serenidade e assim mesmo, às vezes vinha falar de dinheiro e gastos extras, mas logo eu me eximia do que não estava combinado. Han! Han! Sabes, Vasitchka? Ele tinha uns olhos negros como o carvão, uma carinha morena, uma graciosa cara de tártaro… Han! Han! Mas eu o tratava com muita firmeza!
– Imagino que sim… – murmurou o esposo, entretido com as bolinhas de pão.
– Estás maluco, Vasitchka? Completamente louco? Já sei o que estás pensando! Conheço a tua cabeça! Mas te asseguro que quando estávamos passeando não se conversava nunca! Íamos, por exemplo, nos montes ou na cascata de Ucha-Su e eu ordenava ao Suleiman que ficasse atrás. Entende? E o pobrezinho tinha que ir atrás mesmo! Não o deixava esquecer-se que ele era um tártaro e eu a esposa de um conselheiro de Estado! Han! Han!
Ela deu uma gargalhada meio forçada e fez uma cara de assustada logo em seguida:
– Mas a Júlia! Hum! Esta Júlia! A gente pode fazer uma travessura, distrair-se! Porque não? Precisamos aliviar um pouco a tensão e a frivolidade da vida mundana, penso eu! Temos que nos divertir, mas nos conter dos excessos, para poder exigir que nos respeitem. Fazer escândalos? Ah! Isso não! Mas imagina que ela estava com ciúmes de mim! Que tolice! Uma vez Mametkul chegou e ela não estava. Então o fiz entrar e conversamos um tempo. São muito interessantes esses tártaros… A tarde passou sem percebermos. De repente chega Júlia, como uma tempestade! Brigou comigo e com Mametkul, armando uma cena horrível! Isto, Vasitchka, eu não aceito…
Com um “hum” muito eloquente, ela franze as sobrancelhas e girou pela sala com passos firmes.
– Então, pelo que vejo, te distraíste bem! – disse o marido sorrindo.
– Que estúpido! Já sei tudo o que estás pensando! Tens sempre idéias maliciosas! Mas daqui para frente, já sei que não te contarei nada! Nada mesmo!
E calou-se, com uma cara de arrependida.
Anton Tchekhov
No mistério da noite
Mas à noite cavalos liberados das cargas e conduzidos à ervagem galopavam finos e soltos no escuro. Potros, rocins, alazões, longas éguas, cascos duros – de repente uma cabeça fria e escura de cavalo! – os cascos batendo, focinhos espumantes erguendo-se para o ar em ira e murmúrio. E às vezes uma longa respiração esfriava as ervas em tremor. Então o baio se adiantava. Andava de lado, a cabeça encurvada até o peito, cadenciado. Os outros assistiam sem olhar. Ouvindo o rumor dos cavalos, eu adivinhava os cascos secos avançando até estacarem no ponto mais alto da colina. E a cabeça a dominar a cidadezinha, lançando o longo relincho. O medo me tomava nas trevas do quarto, o terror de um rei, eu quereria responder com as gengivas à mostra em relincho. Na inveja do desejo meu rosto adquiria a nobreza inquieta de uma cabeça de cavalo. Cansada, jubilante, escutando o trote sonâmbulo. Mal eu saísse do quarto minha forma iria se avolumando e apurando, e, quando chegasse à rua, já estaria a galopar com patas sensíveis, os cascos escorregando nos últimos degraus da escada da casa. Da calçada deserta eu olharia: um canto e outro. E veria as coisas como um cavalo as vê. Essa era a minha vontade. Da casa eu procurava ao menos escutar o morro de pastagem onde nas trevas cavalos sem nome galopavam retornados ao estado de caça e guerra.
As bestas não abandonavam sua vida secreta que se processa durante a noite. E se no meio da ronda selvagem aparecia um potro branco – era um assombro no escuro. Todos estacavam. O cavalo prodigioso aparecia, era aparição. Mostrava-se empinado um instante. Imóveis os animais aguardavam sem se espiar. Mas um deles batia o casco – e a breve pancada quebrava a vigília: fustigados moviam-se de súbito álacres, entrecruzando-se sem jamais se esbarrarem e entre eles se perdia o cavalo branco. Até que um relincho de súbita cólera os advertia – por um segundo atentos, logo se espalhavam de novo em nova composição de trote, o dorso sem cavaleiros, os pescoços abaixados até o focinho tocar no peito. Eriçadas as crinas. Eles cadenciados, incultos.
Noite alta – enquanto os homens dormiam – vinha encontrá-los imóveis nas trevas. Estáveis e sem peso. Lá estavam eles invisíveis, respirando. Aguardando com a inteligência curta. Embaixo, na cidadezinha adormecida, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Além da ferrovia um rato pronto a fugir. Então o tordilho batia a pata. Não tinha boca para falar mas dava o pequeno sinal que se manifestava de espaço a espaço na escuridão. Eles espiavam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado – nada precisava ser visto de frente por eles, e essa era a grande noite. Os flancos de uma égua percorridos por rápida contração. Nos silêncios da noite a égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade. O potro mais inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silêncio total.
Até que a frágil luminosidade da madrugada os revelava. Estavam separados, de pé sobre a colina. Exaustos, frescos. Tinham passado no escuro pelo mistério da natureza dos entes.
Clarice Lispector, "Todos os Contos"
As bestas não abandonavam sua vida secreta que se processa durante a noite. E se no meio da ronda selvagem aparecia um potro branco – era um assombro no escuro. Todos estacavam. O cavalo prodigioso aparecia, era aparição. Mostrava-se empinado um instante. Imóveis os animais aguardavam sem se espiar. Mas um deles batia o casco – e a breve pancada quebrava a vigília: fustigados moviam-se de súbito álacres, entrecruzando-se sem jamais se esbarrarem e entre eles se perdia o cavalo branco. Até que um relincho de súbita cólera os advertia – por um segundo atentos, logo se espalhavam de novo em nova composição de trote, o dorso sem cavaleiros, os pescoços abaixados até o focinho tocar no peito. Eriçadas as crinas. Eles cadenciados, incultos.
Noite alta – enquanto os homens dormiam – vinha encontrá-los imóveis nas trevas. Estáveis e sem peso. Lá estavam eles invisíveis, respirando. Aguardando com a inteligência curta. Embaixo, na cidadezinha adormecida, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Além da ferrovia um rato pronto a fugir. Então o tordilho batia a pata. Não tinha boca para falar mas dava o pequeno sinal que se manifestava de espaço a espaço na escuridão. Eles espiavam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado – nada precisava ser visto de frente por eles, e essa era a grande noite. Os flancos de uma égua percorridos por rápida contração. Nos silêncios da noite a égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade. O potro mais inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silêncio total.
Até que a frágil luminosidade da madrugada os revelava. Estavam separados, de pé sobre a colina. Exaustos, frescos. Tinham passado no escuro pelo mistério da natureza dos entes.
Clarice Lispector, "Todos os Contos"
sexta-feira, agosto 7
História de Cunegunda
“Eu estava na cama e dormia profundamente, quando aprouve aos céus enviar os búlgaros a nosso belo castelo de Thunder-ten-tronckh; degolaram o meu pai e o meu irmão e cortaram a minha mãe em pedaços. Um búlgaro grande, com seis pés de altura, vendo que diante desse espetáculo eu havia perdido os sentidos, pôs-se a violar-me; isso fez-me voltar a mim, recobrar os sentidos, gritei, debati-me, mordi, arranhei, queria arrancar os olhos desse búlgaro grande, não sabendo que tudo que estava acontecendo no castelo de meu pai era algo de costumeiro: o bruto me deu uma facada no flanco esquerdo de que ainda carrego a marca.” “Ah! Tenho a esperança de vê-la”, disse o ingênuo Cândido. “Vós a vereis”, disse Cunegunda, “mas continuemos.” “Continuai”, disse Cândido.
Ela retomou, assim, o fio de sua história: “Um capitão búlgaro entrou, viu-me toda ensanguentada, e o soldado não se perturbava. O capitão encolerizou-se pelo pouco respeito que lhe testemunhava aquele bruto e o matou sobre o meu corpo. Em seguida, mandou fazer-me curativos e levou-me como prisioneira de guerra para o seu quartel. Eu lavava as poucas camisas que ele tinha, cozinhava para ele; ele achava-me muito bonita, há que confessar; e eu não vou negar que ele tinha um belo porte e a pele branca e suave; aliás, pouco espírito, pouca filosofia: bem se via que não fora educado pelo doutor Pangloss. Ao cabo de três meses, tendo perdido todo o dinheiro e estando enjoado de mim, vendeu-me a um judeu chamado Issacar, que traficava na Holanda e em Portugal, e que gostava apaixonadamente de mulheres. Esse judeu apegou-se muito à minha pessoa, mas não podia triunfar sobre ela; resisti melhor a ele do que ao soldado búlgaro. Uma pessoa de honra pode ser violada uma vez, mas a sua virtude fortifica-se com isso. O judeu, para me amansar, trouxe-me para esta casa de campo que estais vendo. Eu tinha acreditado até então que não havia na terra nada tão belo quanto o castelo de Thunder-ten-tronckh; fui desiludida.
“O grande inquisidor viu-me um dia na missa, olhou-me demoradamente de soslaio e mandou dizer-me que precisava falar comigo sobre assuntos secretos. Fui conduzida ao seu palácio; informei-o sobre o meu nascimento; ele observou quanto estava abaixo da minha estirpe pertencer a um israelita. Foi proposto de sua parte a dom Issacar ceder-me a monsenhor. Dom Issacar, que é o banqueiro da corte e homem de crédito, nada quis fazer a respeito. O inquisidor ameaçou-o com um auto de fé. Finalmente o meu judeu, intimidado, fechou um negócio pelo qual a casa e eu pertenceríamos a ambos em comum; que o judeu teria para ele as segundas-feiras, as quartas e o dia do sabá. E que o inquisidor teria os outros dias da semana. Há seis meses que essa convenção se mantém. Não foi sem querelas; pois muitas vezes ficou indeciso se a noite do sábado para o domingo pertencia à antiga ou à nova lei.1 Quanto a mim, resisti até agora a ambas, e creio que é por essa razão que sempre fui amada.
“Enfim, para afastar o flagelo dos terremotos, e para intimidar dom Issacar, aprouve ao senhor inquisidor celebrar um auto de fé. Ele fez-me a honra de convidar-me para assistir. Fiquei muito bem colocada; foram servidos refrescos às senhoras entre a missa e a execução. Fui, na verdade, tomada de horror ao ver queimar aqueles dois judeus e aquele honesto biscainho que havia desposado a sua comadre; mas qual não foi a minha surpresa, o meu espanto, minha perturbação, quando vi, dentro de um sambenito e debaixo de uma mitra, uma figura que parecia ser a de Pangloss! Esfreguei os olhos, olhei atentamente, vi enforcarem-no; caí desfalecida. Mal recuperei os sentidos, vi o senhor despojado, todo nu: foi o cúmulo do horror, da consternação, da dor, do desespero. Dir-lhe-ei com verdade que sua pele é ainda mais branca e de um encarnado mais perfeito que a do meu capitão dos búlgaros. Essa visão redobrou todos os sentimentos que me acabrunhavam, que me devoravam. Bradei, quis dizer: ‘Parem, bárbaros!’, mas faltou-me a voz, e os meus brados teriam sido inúteis. Quando o senhor foi bem surrado: ‘Como pode acontecer’, dizia eu, ‘que o amável Cândido e o sábio Pangloss se encontrem em Lisboa, um para receber cem chibatadas e o outro para ser enforcado por ordem do senhor inquisidor de quem sou a bem-amada? Pangloss então me enganou muito cruelmente quando me disse que tudo vai pelo melhor do mundo’.
“Agitada, desorientada, ora fora de mim, ora prestes a morrer de fraqueza, eu estava com a cabeça plena do massacre de meu pai, de minha mãe, de meu irmão, da insolência do meu feio soldado búlgaro, da facada que ele me deu, da minha servidão, do meu serviço de cozinheira, do meu capitão búlgaro, do meu feio dom Issacar, do meu abominável inquisidor, do enforcamento do doutor Pangloss, daquele grande miserere2 em falso bordão durante o qual vos espancavam e principalmente do beijo que eu vos dera atrás de um biombo, no dia em que tinha visto o senhor pela última vez. Louvei a Deus, que o trazia de volta para mim por tantas provações. Recomendei à minha velha que cuidasse de vós e que trouxesse o senhor aqui logo que pudesse. Ela executou bem o meu pedido; experimentei o prazer inestimável de revê-lo, de ouvi-lo, de falar-lhe. Deveis estar com uma fome devoradora; eu estou com muito apetite; comecemos a jantar.”
Eis que se põem ambos à mesa; e depois do jantar, voltam para o belo sofá de que já se falou; estavam ali quando o senhor dom Issacar, um dos donos da casa, chegou. Era dia de sábado. Ele vinha desfrutar de seus direitos e explicar o seu terno amor.
Voltaire, "Cândido ou o Otimismo"
Ela retomou, assim, o fio de sua história: “Um capitão búlgaro entrou, viu-me toda ensanguentada, e o soldado não se perturbava. O capitão encolerizou-se pelo pouco respeito que lhe testemunhava aquele bruto e o matou sobre o meu corpo. Em seguida, mandou fazer-me curativos e levou-me como prisioneira de guerra para o seu quartel. Eu lavava as poucas camisas que ele tinha, cozinhava para ele; ele achava-me muito bonita, há que confessar; e eu não vou negar que ele tinha um belo porte e a pele branca e suave; aliás, pouco espírito, pouca filosofia: bem se via que não fora educado pelo doutor Pangloss. Ao cabo de três meses, tendo perdido todo o dinheiro e estando enjoado de mim, vendeu-me a um judeu chamado Issacar, que traficava na Holanda e em Portugal, e que gostava apaixonadamente de mulheres. Esse judeu apegou-se muito à minha pessoa, mas não podia triunfar sobre ela; resisti melhor a ele do que ao soldado búlgaro. Uma pessoa de honra pode ser violada uma vez, mas a sua virtude fortifica-se com isso. O judeu, para me amansar, trouxe-me para esta casa de campo que estais vendo. Eu tinha acreditado até então que não havia na terra nada tão belo quanto o castelo de Thunder-ten-tronckh; fui desiludida.
“O grande inquisidor viu-me um dia na missa, olhou-me demoradamente de soslaio e mandou dizer-me que precisava falar comigo sobre assuntos secretos. Fui conduzida ao seu palácio; informei-o sobre o meu nascimento; ele observou quanto estava abaixo da minha estirpe pertencer a um israelita. Foi proposto de sua parte a dom Issacar ceder-me a monsenhor. Dom Issacar, que é o banqueiro da corte e homem de crédito, nada quis fazer a respeito. O inquisidor ameaçou-o com um auto de fé. Finalmente o meu judeu, intimidado, fechou um negócio pelo qual a casa e eu pertenceríamos a ambos em comum; que o judeu teria para ele as segundas-feiras, as quartas e o dia do sabá. E que o inquisidor teria os outros dias da semana. Há seis meses que essa convenção se mantém. Não foi sem querelas; pois muitas vezes ficou indeciso se a noite do sábado para o domingo pertencia à antiga ou à nova lei.1 Quanto a mim, resisti até agora a ambas, e creio que é por essa razão que sempre fui amada.
“Enfim, para afastar o flagelo dos terremotos, e para intimidar dom Issacar, aprouve ao senhor inquisidor celebrar um auto de fé. Ele fez-me a honra de convidar-me para assistir. Fiquei muito bem colocada; foram servidos refrescos às senhoras entre a missa e a execução. Fui, na verdade, tomada de horror ao ver queimar aqueles dois judeus e aquele honesto biscainho que havia desposado a sua comadre; mas qual não foi a minha surpresa, o meu espanto, minha perturbação, quando vi, dentro de um sambenito e debaixo de uma mitra, uma figura que parecia ser a de Pangloss! Esfreguei os olhos, olhei atentamente, vi enforcarem-no; caí desfalecida. Mal recuperei os sentidos, vi o senhor despojado, todo nu: foi o cúmulo do horror, da consternação, da dor, do desespero. Dir-lhe-ei com verdade que sua pele é ainda mais branca e de um encarnado mais perfeito que a do meu capitão dos búlgaros. Essa visão redobrou todos os sentimentos que me acabrunhavam, que me devoravam. Bradei, quis dizer: ‘Parem, bárbaros!’, mas faltou-me a voz, e os meus brados teriam sido inúteis. Quando o senhor foi bem surrado: ‘Como pode acontecer’, dizia eu, ‘que o amável Cândido e o sábio Pangloss se encontrem em Lisboa, um para receber cem chibatadas e o outro para ser enforcado por ordem do senhor inquisidor de quem sou a bem-amada? Pangloss então me enganou muito cruelmente quando me disse que tudo vai pelo melhor do mundo’.
“Agitada, desorientada, ora fora de mim, ora prestes a morrer de fraqueza, eu estava com a cabeça plena do massacre de meu pai, de minha mãe, de meu irmão, da insolência do meu feio soldado búlgaro, da facada que ele me deu, da minha servidão, do meu serviço de cozinheira, do meu capitão búlgaro, do meu feio dom Issacar, do meu abominável inquisidor, do enforcamento do doutor Pangloss, daquele grande miserere2 em falso bordão durante o qual vos espancavam e principalmente do beijo que eu vos dera atrás de um biombo, no dia em que tinha visto o senhor pela última vez. Louvei a Deus, que o trazia de volta para mim por tantas provações. Recomendei à minha velha que cuidasse de vós e que trouxesse o senhor aqui logo que pudesse. Ela executou bem o meu pedido; experimentei o prazer inestimável de revê-lo, de ouvi-lo, de falar-lhe. Deveis estar com uma fome devoradora; eu estou com muito apetite; comecemos a jantar.”
Eis que se põem ambos à mesa; e depois do jantar, voltam para o belo sofá de que já se falou; estavam ali quando o senhor dom Issacar, um dos donos da casa, chegou. Era dia de sábado. Ele vinha desfrutar de seus direitos e explicar o seu terno amor.
Voltaire, "Cândido ou o Otimismo"
Gorjeios
Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"
Luto pela família Silva
A assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem está morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.
João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos os imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à Silva.
João da Silva – nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue-azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telha de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.
Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.
Rubem Braga
João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos os imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à Silva.
João da Silva – nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue-azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telha de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.
Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.
Rubem Braga
Passos apressados
Durante dois anos, passei pelo mesmo homem todas as manhãs sem nunca lhe ter visto a cara. Dormia deitado de lado, debaixo da pala do prédio em frente à estação de Entrecampos, embrulhado num saco-cama azul que, com a chuva e o pó dos passeios, se tornou primeiro cinzento e depois de uma cor sem nome. Eu é que tinha deixado de olhar.
No início, reparava em tudo: nos sapatos alinhados junto à cabeça, como se mesmo na rua fosse importante manter alguma ordem; no saco de supermercado que mantinha sempre junto do corpo, perguntando-me muitas vezes o que guardaria ali com tanto cuidado; no hábito de acordar antes das oito, enrolando a cama e desaparecendo antes de a cidade acordar por completo.
Dias houve em que cheguei a pensar em lhe levar café. Não o fiz. Outros em que pensei em lhe perguntar o nome. Também não perguntei. A vida encarregou-se do resto. Ao fim de algumas semanas, o homem passou a fazer parte daquele percurso como a banca dos jornais, o semáforo que demorava demasiado a abrir ou a árvore que todos os outonos entupia o passeio de folhas. O cérebro tem esta habilidade extraordinária de apagar aquilo que não queremos ver sem precisar de o fazer desaparecer.
Na terça-feira em que não o encontrei, dei conta imediatamente. A pala do prédio estava vazia, o chão, mais gasto no lugar onde o saco-cama costumava ficar. Desejei que tivesse encontrado abrigo seguro ou que alguém da Santa Casa o tivesse finalmente convencido a sair dali. Talvez simplesmente se tivesse mudado para outra rua. Agarrei-me ao que desejara, e esse possível final feliz descansou-me durante alguns segundos. O sinal ficou verde, e eu atravessei a passadeira e fui trabalhar.
No dia seguinte, continuava sem aparecer. No seguinte, também. Na sexta-feira, dei por mim a abrandar o passo e a procurar sinais: o saco, os sapatos, o saco-cama. Nada. Senti uma inquietação absurda. Não sabia o nome daquele homem, nunca lhe ouvira a voz, mas a sua ausência criara um buraco na paisagem semelhante ao quadro que se retira de uma parede e só então percebemos que passávamos a vida a olhar para ele.
Foi o senhor da banca de jornais quem me esclareceu.
– Levaram-no para o hospital na segunda à noite. Estava com uma pneumonia valente.
Disse “levaram-no”, como se existisse uma entidade invisível encarregada de recolher pessoas quando deixamos de conseguir ignorá-las.
– Sabe para que hospital?
O homem olhou para mim com surpresa. Quem sabe se por eu usar saltos altos e um casaco caro. Ou porque, durante todo aquele tempo, nunca me tivesse visto parar.
– Santa Maria, acho eu. Chama-se Manuel.
Manuel. Repeti o nome em silêncio, como se tivesse acabado de descobrir uma informação íntima. Durante dois anos, passara por uma pessoa e apenas vira uma condição. Um sem-abrigo. A palavra servira-me de cortina: explicava tudo sem me obrigar a conhecer nada.
Nessa tarde, saí mais cedo do escritório e fui a Santa Maria. No caminho, comprei uma revista, uma garrafa de água e um pacote de bolachas. Só depois percebi a estupidez do gesto. Não sabia de que revistas Manuel gostava, se podia beber água, se tinha dentes para comer bolachas. Levei-lhe aquilo que a minha consciência conseguira comprar em dez minutos.
Encontrei-o numa enfermaria com seis camas. Parecia mais pequeno sem o saco-cama, mais velho sob a luz branca do hospital. Tinha o cabelo grisalho, a barba aparada por alguém e uma cânula de oxigénio presa ao nariz. Aproximei-me.
– Manuel?
Ele abriu os olhos.
– Desculpe incomodá-lo. Eu passo por si todos os dias.
Assim que disse a frase, tive vergonha: passar por alguém todos os dias não é uma relação, é apenas geografia. Ele observou-me com atenção e depois sorriu.
– Eu sei.
– Sabe?
– A senhora é a dos passos apressados. Às vezes, vem a falar ao telefone. À quinta-feira, costuma trazer flores.
Fiquei sem resposta. As flores eram para a receção do escritório. Nunca me ocorrera que ele reparasse.
– Posso fazer-lhe uma pergunta? – indagou.
Assenti.
– Porque veio hoje?
Olhei para o saco que tinha nas mãos.
– Porque desapareceu.
Manuel abanou a cabeça com um sorriso quase impercetível.
– Não. Eu já tinha desaparecido para si muito antes.
Não soube o que dizer. Ficámos algum tempo em silêncio.
– Sabe uma coisa curiosa? – perguntou ele.
Encolhi os ombros.
– As pessoas acham que quem vive na rua passa o dia a pedir.
No início, reparava em tudo: nos sapatos alinhados junto à cabeça, como se mesmo na rua fosse importante manter alguma ordem; no saco de supermercado que mantinha sempre junto do corpo, perguntando-me muitas vezes o que guardaria ali com tanto cuidado; no hábito de acordar antes das oito, enrolando a cama e desaparecendo antes de a cidade acordar por completo.
Dias houve em que cheguei a pensar em lhe levar café. Não o fiz. Outros em que pensei em lhe perguntar o nome. Também não perguntei. A vida encarregou-se do resto. Ao fim de algumas semanas, o homem passou a fazer parte daquele percurso como a banca dos jornais, o semáforo que demorava demasiado a abrir ou a árvore que todos os outonos entupia o passeio de folhas. O cérebro tem esta habilidade extraordinária de apagar aquilo que não queremos ver sem precisar de o fazer desaparecer.
Na terça-feira em que não o encontrei, dei conta imediatamente. A pala do prédio estava vazia, o chão, mais gasto no lugar onde o saco-cama costumava ficar. Desejei que tivesse encontrado abrigo seguro ou que alguém da Santa Casa o tivesse finalmente convencido a sair dali. Talvez simplesmente se tivesse mudado para outra rua. Agarrei-me ao que desejara, e esse possível final feliz descansou-me durante alguns segundos. O sinal ficou verde, e eu atravessei a passadeira e fui trabalhar.
No dia seguinte, continuava sem aparecer. No seguinte, também. Na sexta-feira, dei por mim a abrandar o passo e a procurar sinais: o saco, os sapatos, o saco-cama. Nada. Senti uma inquietação absurda. Não sabia o nome daquele homem, nunca lhe ouvira a voz, mas a sua ausência criara um buraco na paisagem semelhante ao quadro que se retira de uma parede e só então percebemos que passávamos a vida a olhar para ele.
Foi o senhor da banca de jornais quem me esclareceu.
– Levaram-no para o hospital na segunda à noite. Estava com uma pneumonia valente.
Disse “levaram-no”, como se existisse uma entidade invisível encarregada de recolher pessoas quando deixamos de conseguir ignorá-las.
– Sabe para que hospital?
O homem olhou para mim com surpresa. Quem sabe se por eu usar saltos altos e um casaco caro. Ou porque, durante todo aquele tempo, nunca me tivesse visto parar.
– Santa Maria, acho eu. Chama-se Manuel.
Manuel. Repeti o nome em silêncio, como se tivesse acabado de descobrir uma informação íntima. Durante dois anos, passara por uma pessoa e apenas vira uma condição. Um sem-abrigo. A palavra servira-me de cortina: explicava tudo sem me obrigar a conhecer nada.
Nessa tarde, saí mais cedo do escritório e fui a Santa Maria. No caminho, comprei uma revista, uma garrafa de água e um pacote de bolachas. Só depois percebi a estupidez do gesto. Não sabia de que revistas Manuel gostava, se podia beber água, se tinha dentes para comer bolachas. Levei-lhe aquilo que a minha consciência conseguira comprar em dez minutos.
Encontrei-o numa enfermaria com seis camas. Parecia mais pequeno sem o saco-cama, mais velho sob a luz branca do hospital. Tinha o cabelo grisalho, a barba aparada por alguém e uma cânula de oxigénio presa ao nariz. Aproximei-me.
– Manuel?
Ele abriu os olhos.
– Desculpe incomodá-lo. Eu passo por si todos os dias.
Assim que disse a frase, tive vergonha: passar por alguém todos os dias não é uma relação, é apenas geografia. Ele observou-me com atenção e depois sorriu.
– Eu sei.
– Sabe?
– A senhora é a dos passos apressados. Às vezes, vem a falar ao telefone. À quinta-feira, costuma trazer flores.
Fiquei sem resposta. As flores eram para a receção do escritório. Nunca me ocorrera que ele reparasse.
– Posso fazer-lhe uma pergunta? – indagou.
Assenti.
– Porque veio hoje?
Olhei para o saco que tinha nas mãos.
– Porque desapareceu.
Manuel abanou a cabeça com um sorriso quase impercetível.
– Não. Eu já tinha desaparecido para si muito antes.
Não soube o que dizer. Ficámos algum tempo em silêncio.
– Sabe uma coisa curiosa? – perguntou ele.
Encolhi os ombros.
– As pessoas acham que quem vive na rua passa o dia a pedir.
Fez uma pausa.
– Não é verdade. Passamos o dia a olhar. Sabemos quem vai sempre atrasado, quem canta baixinho quando pensa que ninguém o ouve, quem leva flores à quinta-feira… A senhora reparou em mim, mas eu também reparei em si.
Nunca me ocorrera que, durante dois anos, também eu pudesse ter sido observada. Baixei os olhos para o saco de plástico: a revista, as bolachas, a garrafa de água. Tudo me pareceu ridiculamente insuficiente. Há gestos que fazemos mais para sossegar a consciência do que para aliviar o sofrimento dos outros. Ficámos os dois em silêncio durante alguns segundos. Pela primeira vez desde que entrara naquela enfermaria, deixei de procurar uma coisa inteligente para dizer. Olhei de novo para o que trazia nas mãos.
– Achei que talvez precisasse de alguma coisa.
Manuel olhou para o saco e sorriu.
– Preciso. – Hesitou. – Preciso que me diga se hoje está sol.
Aproximei-me da janela. O céu de Lisboa estava limpo, quase indecente de tão azul.
– Está.
– Ainda bem. Daqui não consigo ver.
Puxei uma cadeira e sentei-me. Manuel contou-me que fora tipógrafo, tinha uma filha em França com quem já não falava e que guardava um livro dentro do saco de plástico, Explicação das Árvores e de Outros Animais, tantas vezes lido que já sabia poemas inteiros de cor. Perguntou-me o nome. Eu disse-lho.
Quando saí do hospital, o dia começava a escurecer. Por instinto, levantei os olhos para o céu e procurei o Sol, embora soubesse que ainda estava lá. Foi então que percebi: os eclipses mais perigosos não acontecem quando a Lua encobre o Sol. Acontecem quando alguma coisa se atravessa entre nós e os outros – o medo, a pressa, o incómodo – e nos convence de que deixaram de existir.
Na segunda-feira seguinte, a pala do prédio continuava vazia. Pela primeira vez em dois anos, olhei para todas as pessoas que dormiam ao longo da avenida. Perguntei-me quantas alinhariam os sapatos antes de adormecer, quantas guardariam um livro dentro de um saco de supermercado, quantas teriam uma filha à espera noutro país. Manuel devolvera-me o olhar.
Nunca me ocorrera que, durante dois anos, também eu pudesse ter sido observada. Baixei os olhos para o saco de plástico: a revista, as bolachas, a garrafa de água. Tudo me pareceu ridiculamente insuficiente. Há gestos que fazemos mais para sossegar a consciência do que para aliviar o sofrimento dos outros. Ficámos os dois em silêncio durante alguns segundos. Pela primeira vez desde que entrara naquela enfermaria, deixei de procurar uma coisa inteligente para dizer. Olhei de novo para o que trazia nas mãos.
– Achei que talvez precisasse de alguma coisa.
Manuel olhou para o saco e sorriu.
– Preciso. – Hesitou. – Preciso que me diga se hoje está sol.
Aproximei-me da janela. O céu de Lisboa estava limpo, quase indecente de tão azul.
– Está.
– Ainda bem. Daqui não consigo ver.
Puxei uma cadeira e sentei-me. Manuel contou-me que fora tipógrafo, tinha uma filha em França com quem já não falava e que guardava um livro dentro do saco de plástico, Explicação das Árvores e de Outros Animais, tantas vezes lido que já sabia poemas inteiros de cor. Perguntou-me o nome. Eu disse-lho.
Quando saí do hospital, o dia começava a escurecer. Por instinto, levantei os olhos para o céu e procurei o Sol, embora soubesse que ainda estava lá. Foi então que percebi: os eclipses mais perigosos não acontecem quando a Lua encobre o Sol. Acontecem quando alguma coisa se atravessa entre nós e os outros – o medo, a pressa, o incómodo – e nos convence de que deixaram de existir.
Na segunda-feira seguinte, a pala do prédio continuava vazia. Pela primeira vez em dois anos, olhei para todas as pessoas que dormiam ao longo da avenida. Perguntei-me quantas alinhariam os sapatos antes de adormecer, quantas guardariam um livro dentro de um saco de supermercado, quantas teriam uma filha à espera noutro país. Manuel devolvera-me o olhar.
quinta-feira, agosto 6
O vento e suas maneiras
A mãe dizia:
– Pra dentro menino! É vem o vento levado levando cisco!
Quando feria o olho com um cisco, causava aborrecimento.
No verão abafado refrescava. Se fosse no tempo de veraneio, na cidade vizinha, de praias lindíssimas, tinha o gosto de sal. Rolava com as ondas, que rugiam como se fossem leões de jubas brancas e luminosas. Zangado batia, voltava, batia. Reinventava-se na areia como colares de espuma. Rendilhado murmurejava, cochichava com peixinhos minúsculos no raso. Ao largo fazia das vagas tirânicos vagões, incríveis vagalhões, tufão. Emborcava a embarcação. Mostrava-se indiferente aos gritos lancinantes dos náufragos pedindo por socorro. Era impiedoso, esbagaçava as ondas no rochedo.
Mágico, mais ligeiro do que tudo em movimento veloz, o único que sem pernas ia até o fim do mundo, chegando primeiro. Esmurrava o rio na enchente, causando estragos nas casas ribeirinhas e na avenida principal onde estava instalado um comercinho ativo. No mar tomava altura inimaginável.
Travesso tirava assovio na greta da porta e da janela. Interrompia o sono das pessoas quando dormiam na cidade pequena, após mais um dia de trabalho estafante, fazendo barulho nas telhas de alumínio no telhado.
Salpicado de verdes e azuis rolava no mar, pra lá, pra cá. Dava uma sensação agradável quando soprava no campo com o gosto de terra molhada. Morno, gostava de fazer carícia no rosto da árvore frutífera, folhas como cílios pestanejavam.
Tocava uma música suave nas folhas da palmeira, farfalhava no quintal durante a primavera cheia de passarinhos saltitantes, voos e gorjeios.
No inverno esvoaçava toalhas de névoa pelas ruas vazias da cidade, penetrada de frieza, os ares gelatinosos, tendo aspecto fantasmal. Em trêmulos movimentos, seus espectros de névoa vagavam por todos os cantos.
Vento, ventania, vendaval. Levava tudo que encontrava pela frente. Derrubava árvore, poste, ponte. Mudava a casa de um lugar para outro. Emborcava o caminhão, rompia a ponte, fazia rachaduras nas paredes do prédio. A lona do circo fora jogada longe, o sobrado desmoronou-se, ficou reduzido a escombros, não perdoou nem o nome do dono, Comendador Ataulfo Seabra, em grandes letras de bronze gravadas na fachada. Botou abaixo o muro que cercava o estádio de futebol, as torres de iluminação do campo ficaram aos pedaços.
Quando era leve, chegava de mansinho para soprar na florzinha da plantinha sozinha no brejo.
No velório amolava sua lâmina com os mudos gemidos da mulher, inconformada com a perda irreparável do marido. Dava frio na barriga dos que estavam presentes na vigília. A expressão do rosto assombrado, os olhos sem compreender o que estava acontecendo, atemorizados com a presença daquele vento, frio, sem cor, pousado no morto.
Era este o vento que metia mais medo, imóvel, surdo, cego, mudo, habitava no funeral das horas.
– Pra dentro menino! É vem o vento levado levando cisco!
Quando feria o olho com um cisco, causava aborrecimento.
No verão abafado refrescava. Se fosse no tempo de veraneio, na cidade vizinha, de praias lindíssimas, tinha o gosto de sal. Rolava com as ondas, que rugiam como se fossem leões de jubas brancas e luminosas. Zangado batia, voltava, batia. Reinventava-se na areia como colares de espuma. Rendilhado murmurejava, cochichava com peixinhos minúsculos no raso. Ao largo fazia das vagas tirânicos vagões, incríveis vagalhões, tufão. Emborcava a embarcação. Mostrava-se indiferente aos gritos lancinantes dos náufragos pedindo por socorro. Era impiedoso, esbagaçava as ondas no rochedo.
Mágico, mais ligeiro do que tudo em movimento veloz, o único que sem pernas ia até o fim do mundo, chegando primeiro. Esmurrava o rio na enchente, causando estragos nas casas ribeirinhas e na avenida principal onde estava instalado um comercinho ativo. No mar tomava altura inimaginável.
Travesso tirava assovio na greta da porta e da janela. Interrompia o sono das pessoas quando dormiam na cidade pequena, após mais um dia de trabalho estafante, fazendo barulho nas telhas de alumínio no telhado.
Salpicado de verdes e azuis rolava no mar, pra lá, pra cá. Dava uma sensação agradável quando soprava no campo com o gosto de terra molhada. Morno, gostava de fazer carícia no rosto da árvore frutífera, folhas como cílios pestanejavam.
Tocava uma música suave nas folhas da palmeira, farfalhava no quintal durante a primavera cheia de passarinhos saltitantes, voos e gorjeios.
No inverno esvoaçava toalhas de névoa pelas ruas vazias da cidade, penetrada de frieza, os ares gelatinosos, tendo aspecto fantasmal. Em trêmulos movimentos, seus espectros de névoa vagavam por todos os cantos.
Vento, ventania, vendaval. Levava tudo que encontrava pela frente. Derrubava árvore, poste, ponte. Mudava a casa de um lugar para outro. Emborcava o caminhão, rompia a ponte, fazia rachaduras nas paredes do prédio. A lona do circo fora jogada longe, o sobrado desmoronou-se, ficou reduzido a escombros, não perdoou nem o nome do dono, Comendador Ataulfo Seabra, em grandes letras de bronze gravadas na fachada. Botou abaixo o muro que cercava o estádio de futebol, as torres de iluminação do campo ficaram aos pedaços.
Quando era leve, chegava de mansinho para soprar na florzinha da plantinha sozinha no brejo.
No velório amolava sua lâmina com os mudos gemidos da mulher, inconformada com a perda irreparável do marido. Dava frio na barriga dos que estavam presentes na vigília. A expressão do rosto assombrado, os olhos sem compreender o que estava acontecendo, atemorizados com a presença daquele vento, frio, sem cor, pousado no morto.
Era este o vento que metia mais medo, imóvel, surdo, cego, mudo, habitava no funeral das horas.
Duas almas
Uma mulher com duas almas assombrava nossa rua. Uma alma de Deus a serviço de uma alma do demônio. Uma fada a serviço de uma bruxa. A fada possuía seu corpo, a bruxa, seu coração. Ela vestia seu estreito corpo com tecidos mansos, estampados de miosótis ou bolinhas de um azul calmo sobre seda clara. Seu cabelo, na altura da nuca, era branco misturado ao cinza que cobre as brasas. Andava com um passinho leve — pardal ciscando a terra. Seu sorriso, bastava reparar, era suspenso como o das hienas. O coração, contudo, um imenso caldeirão onde borbulhavam a inveja, a mágoa, o desamor. Diziam que seu marido partiu atrás de menos martírios. E a todos que a fada seduzia a bruxa servia sua poção amarga. Seu cachorro branco, tímido, portava uma doença de pele. Não sei se ele almejava o céu ou o inferno. O cão, ao olhar, suplicava carinho, mas não se deixava acariciar. Teria o cachorro também duas almas? A madrasta, arreada sobre o muro, nego ciava tomate com a mulher de duas almas. Eu suspeitava.
A cidade acordava lerda, como se fosse possível escolher os sonhos. O sino da igreja serrava as ruas, becos, praças. Os habitantes sentiam-se prenhes de Deus e perdoados dos pecados ainda por cometerem. O cheiro do café conciliava as almas e a vida, provisoriamente. Ao tomarem das palavras, os lamentos rabiscavam o povoado como se impedidos de escolher outro destino.
Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"
A cidade acordava lerda, como se fosse possível escolher os sonhos. O sino da igreja serrava as ruas, becos, praças. Os habitantes sentiam-se prenhes de Deus e perdoados dos pecados ainda por cometerem. O cheiro do café conciliava as almas e a vida, provisoriamente. Ao tomarem das palavras, os lamentos rabiscavam o povoado como se impedidos de escolher outro destino.
Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"
Esta é a madrugada que eu esperava ...
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Náusea de viajar
A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. Avida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. Avida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
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