Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sexta-feira, outubro 9
A lógica do maluco
Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o chapéu. Contou-me o caso, o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em traze-lo a público, sem o nome do doente – o que farei sem nenhuma discrepância.
Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte até da Academia de Letras da Vitória, Estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, as pressas...
A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que nela têm assento.
O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à Constituição, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.
Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência de lhe dar de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.
O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:
– Então, o que há, doutor?
O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – coisa que não era nem da defunta guarda nacional, sepultada, como tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:
– Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.
– Para que? Para que você quer falar ao doutor Juliano?
– É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vitória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.
– Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.
– Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.
– Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.
– Como?
– Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é que você pode exercer um cargo público?
– Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...
– Mas, você...
– Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.
Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:
– Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor jurídico.
Lima Barreto
Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte até da Academia de Letras da Vitória, Estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, as pressas...
A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que nela têm assento.
O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à Constituição, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.
Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência de lhe dar de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.
O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:
– Então, o que há, doutor?
O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – coisa que não era nem da defunta guarda nacional, sepultada, como tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:
– Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.
– Para que? Para que você quer falar ao doutor Juliano?
– É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vitória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.
– Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.
– Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.
– Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.
– Como?
– Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é que você pode exercer um cargo público?
– Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...
– Mas, você...
– Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.
Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:
– Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor jurídico.
Lima Barreto
O rio no coração
O menino carregava no coração o rio de sua cidade, chamado de Cachoeira. Para ele não existia no mundo um rio melhor do que aquele, que dividia a sua cidade em duas partes. Um dia, a Ponte Velha foi erguida para unir as duas margens, facilitando a comunicação das pessoas. No dia da inauguração foi declarado feriado municipal, os sinos da igrejinha tocaram em homenagem à festa que a cidade fazia com o ganho daquele portentoso cartão postal. Gente importante vestida de roupa de linho branca, usando sapato da última moda, homens sisudos com chapéu da palhinha, bigode retorcido nas pontas, ficaram no dia da inauguração fazendo a travessia da Ponte velha, pra lá, pra cá.
Passou a saber agora que uma visita à Ponte Velha de vez em quando era necessária para que os olhos não esquecessem o visual bonito de ver, através da paisagem que o rio oferecia numa canção constante das águas descendo serenas rumo ao mar. No final esqueceria tudo que era doce, a pancada formosa, as águas conversando amiúde entre as pedras, o vento, o sol, a chuva, a lua, a estrela, os seus eternos companheiros de viagem.
Da balaustrada, ficava olhando as águas passando debaixo da Ponte Velha. O visual impressionava vivamente. Casas ribeirinhas no aclive do terreno, as lavadeiras estendendo roupas que coloriam as inúmeras pedras pretas, os areeiros tirando areia dos trechos rasos. Jumentos transportavam em latas as cargas de areia. Tempo bom para o areeiro retirar a areia do fundo do rio era nos meses de verão. A cidade toda sabia, pelas mãos do areeiro, que o rio era uma dádiva e a argamassa da casa feita de fibra específica: calo, suor e areia. O pescador na canoa jogava a tarrafa no poço e a recolhia das águas cheia de peixes. De lá, no meio da ponte, avistava a Ilha do Jegue, recordava que as águas desciam furiosas na cheia, lambiam seus barrancos, diminuindo cada vez mais o seu tamanho.
Como esquecer cada enchente do rio? Descia feito um réptil sem tamanho, espumando e invadindo as ruas ribeirinhas, até mesmo a avenida do comércio, a principal da cidade. Levava no lombo toro de pau, bicho morto, porta, janela e cama. Algumas dessas enchentes ficaram na memória do povo, um poeta popular chegou a fotografar em versos a zanga do pequeno rio.
Dizia em certo trecho:
As casas comerciais,
Assim que o dono chegava,
A que tinha ainda porta,
Quando ele a destrancava,
A sua mercadoria
Coberta de lama achava.
Tinha gente que acordava
Naquele grande alvoroço,
A água levando tudo,
Fazendo o maior destroço,
O pobre salvava a vida
Com água pelo pescoço.
Passou a saber agora que uma visita à Ponte Velha de vez em quando era necessária para que os olhos não esquecessem o visual bonito de ver, através da paisagem que o rio oferecia numa canção constante das águas descendo serenas rumo ao mar. No final esqueceria tudo que era doce, a pancada formosa, as águas conversando amiúde entre as pedras, o vento, o sol, a chuva, a lua, a estrela, os seus eternos companheiros de viagem.
Da balaustrada, ficava olhando as águas passando debaixo da Ponte Velha. O visual impressionava vivamente. Casas ribeirinhas no aclive do terreno, as lavadeiras estendendo roupas que coloriam as inúmeras pedras pretas, os areeiros tirando areia dos trechos rasos. Jumentos transportavam em latas as cargas de areia. Tempo bom para o areeiro retirar a areia do fundo do rio era nos meses de verão. A cidade toda sabia, pelas mãos do areeiro, que o rio era uma dádiva e a argamassa da casa feita de fibra específica: calo, suor e areia. O pescador na canoa jogava a tarrafa no poço e a recolhia das águas cheia de peixes. De lá, no meio da ponte, avistava a Ilha do Jegue, recordava que as águas desciam furiosas na cheia, lambiam seus barrancos, diminuindo cada vez mais o seu tamanho.
Como esquecer cada enchente do rio? Descia feito um réptil sem tamanho, espumando e invadindo as ruas ribeirinhas, até mesmo a avenida do comércio, a principal da cidade. Levava no lombo toro de pau, bicho morto, porta, janela e cama. Algumas dessas enchentes ficaram na memória do povo, um poeta popular chegou a fotografar em versos a zanga do pequeno rio.
Dizia em certo trecho:
As casas comerciais,
Assim que o dono chegava,
A que tinha ainda porta,
Quando ele a destrancava,
A sua mercadoria
Coberta de lama achava.
Tinha gente que acordava
Naquele grande alvoroço,
A água levando tudo,
Fazendo o maior destroço,
O pobre salvava a vida
Com água pelo pescoço.
Crônica decorativa
A circunstancia humana de eu ter amigos fez com que ontem me acontecesse vir a conhecer o Dr. Boro, professor da Universidade de Tóquio. Surpreendeu-me a realidade quase evidente da sua presença. Nunca supus que um professor da Universidade de Tóquio fosse uma criatura, ou sequer coisa, real.
O Dr. Boro — sinto que me custa doutora-lo — pareceu-me escandalosamente humano e parecido com gente. Vibrou um golpe, que me esforço por desviar de decisivo, nas minhas ideias sobre o que é o Japão. Trajava à europeia, e, como qualquer mero professor existente na Universidade de Lisboa, tinha o casaco por escovar. Ainda assim, por delicadeza, dei-me por ciente, durante duas horas, da sua presença próxima.
Preciso explicar que as minhas ideias do Japão, da sua flora e da fauna, dos seus habitantes humanos e das varias modalidades de vida que lhes são próprias, derivam de um estudo demorado de vários bules e chávenas. Eu por isso sempre julguei que um japonês ou uma japonesa tivesse apenas duas dimensões; e essa delicadeza para com o espaço deu-me uma afeição doentia por aquele país econômico de realidade. O professor Boro é sólido, tem sombra — varias vezes fiz com que o meu olhar o verificasse — e além de falar e falar inglês, coloca ideias e noções compreensíveis dentro das suas palavras. A circunstância de que as suas ideias não comportam nem novidade nem relevo apenas o aproxima dos professores europeus, pavorosamente europeus, que conheço.
Falamos de politica internacional, da guerra europeia, e fizemos várias incursões pelos vários fenômenos literários característicos da nossa época. A ignorância que o professor Boro tinha de futurismo foi a única benzina para a nódoa da sua realidade moderna. Mas há algum professor de alguma Universidade da Europa que siga de perto os movi- mentos da arte contemporânea?
Dado os fatos que venho explicando, compreende-se que eu fosse avaro de o interrogar sobre o Japão. Para que? Ele era capaz de atirar para dentro da minha ignorância uma quantidade de coisas falsas. Quem sabe se ele se atreveria a insinuar pela conversa fora, como coisa normalmente acreditável, que no Japão há problemas econômicos, dificuldades de vida para várias pessoas, cidades com lojas reais, campos com colheitas como as nossas, exércitos realmente parecidos com os da Europa e com execráveis aperfeiçoamentos científicos para guerras em verdade contemporâneas? Daqui ele não hesitaria talvez em me afirmar — com que cinismo nem eu meço — que no Japão os homens tem relações sexuais com as mulheres, que nascem crianças, que a gente de lá, em vez de estar sempre vestida como as figuras da louça japonesa, despe-se e veste-se como se fosse europeia. Por isso não tratamos do Japão. Perguntei ao professor se ele tinha tido uma boa viagem, e ele caiu em dizer-me que não — como se um estudioso como eu da porcelana nipônica pudesse admitir que há más viagens para os japoneses, que — delicioso povo! — nem sequer se dá ao trabalho de existir. As chávenas partem-se, não comportam tormentas. A frase «uma tempestade num copo de água» ou «numa chávena», como dizem outros, e puramente europeia.
Uma frase houve (casual, quero crer, no professor Boro) que me magoou mais do que outra.
Falávamos — eu, é claro, com o desprendimento com que se tratam estes assuntos feéricos — da influencia dos mecanismos sobre a psicologia do operário, quando se sabe — claro está — que o operário não tem psicologia. E o professor referiu-se aos progressos industriais do Japão e acrescentou umas palavras, que me esforcei com metade de êxito para não ouvir, sobre (creio) movimentos operários no Japão e um fuzilamento (suponho) de não sei que chefe socialista. Eu há tempos — numa coluna sem duvida humorística de um diário — vira em um telegrama de Tóquio constando qualquer coisa nesse tom; mas, além de não crer que de Tóquio se mandassem telegramas — visto Tóquio não dever ter mais do que duas dimensões —, ninguém que como eu tenha estudado a psicologia japonesa através das chávenas e dos pires, admite progressos de qualquer espécie no Japão, industrias japonesas, movimentos socialistas e chefes socialistas, ainda por cima fuzilados, como quaisquer europeus que vivem. Quem como eu conhece bem o Japão — o verdadeiro Japão, de porcelana e erros de desenho —, compreende bem a incompatibilidade entre o progresso, indústria e socialismo, e a absoluta não-existência daquele pais. Socialistas japoneses! Uma contradição flagrante! Uma frase sem sentido, como «circulo quadrado»! Se nem o inexistente estivesse livre do socialismo! Aquelas figuras deliciosas, eternamente sentadas ao pé de casas do tamanho delas, a beira de lagos absurdos, de um azul impossível, aquém de montanhas totalmente irreais — essas maravilhosas figuras, com uma perfeita e patriótica individualidade japonesa, não pertencem decerto ao horroroso mundo onde se progride, e onde sobre o artista desabam a morbidez do produtivo e a barbárie do humanitário.
E vem querer tirar-me estas convicções o professor Boro, da Universidade de Tóquio! Não mas tira. Não é para ser enganado pela primeira realidade que se me atira aos olhos que eu tenho gasto minutos distensos na contemplação cientifica e estéril de bules e chávenas japonesas. O mais provável, a respeito deste Boro, e que nascesse em Lisboa e se chame José. Do Japão, ele? Nunca.
Se ao menos achei japonesa a sua cara? Absolutamente nada. Basta dizer que era real e existiu ali diante de mim, duas dolorosas horas, em plena ocupação inestética de todas as dimensões aproveitáveis (felizmente só três) do espaço autentico. A sua cara parecia-se, e certo, com certas fotografias de "japoneses" que as ilustrações trouxeram há anos, e de vez em quando reincidindo trazem; mas toda a gente que sabe o que é o Japão por nunca lá ter ido sabe de cor que aquilo não são japoneses. E, de mais a mais, essas ilustrações eram principalmente de generais, almirantes, e operações guerreiras. Ora é absolutamente impossível que no Japão haja generais, almirantes e guerra. Como, de resto, fotografar o Japão e os japoneses? A primeira coisa real que há no Japão e o fato de ele estar sempre longe de nós, estejamos nós onde estivermos. Não se pode lá ir, nem eles podem vir até nós. Concedo, se me forçarem a isso, que existam um Tóquio e um Iocoama. Mas isso não e no Japão, e apenas no Extremo Oriente.
O resto da minha vida, doravante, será escrupulosamente dedicado a esquecer o professor Boro e que ele — impronunciável absurdo! — se sentou na cadeira que está agora, na realidade de madeira, defronte de mim. Considero doentio esse fato, alucinatório talvez, e entrego-me com assiduidade a não me lembrar dele mais. Um japonês verdadeiro aqui, a falar comigo, a dizer-me coisas que nem mesmo eram falsas ou contraditórias! Não. Ele chama-se José e é de Lisboa. Falo simbolicamente, é claro. Porque ele pode chamar-se Macwhisky e ser de Inverness. O que ele não era decerto era japonês, real, e possível visitante de Lisboa. Isso nunca. Desse modo não havia ciência, se o primeiro ocasional nos viesse negar o que os nossos estudos assíduos nos fizeram ver.
Professor Boro, da Universidade de Tóquio? De Tóquio? Universidade de Tóquio? Nada disso existe. Isso é uma ilusão. Os inferiores e cábulas de nós construíram, para se não desorientarem, um Japão a imagem e semelhança da Europa, desta triste Europa tão excessivamente real. Sonhadores! Alucinados!
Basta-me olhar para aquela bandeja, pegar cariciosamente com o olhar naquele serviço de chá. Depois venham falar-me em Japão existente, em Japão comercial, em Japão guerreiro! Não é para nada que, através de esforços consecutivos, a nossa época ganhou o duro nome de científica. Japoneses com vida real, com três dimensões, com uma pátria com paisagens de cores autenticas! Lérias para entretenimento do povo, mas que a quem estudou não enganam...
O Dr. Boro — sinto que me custa doutora-lo — pareceu-me escandalosamente humano e parecido com gente. Vibrou um golpe, que me esforço por desviar de decisivo, nas minhas ideias sobre o que é o Japão. Trajava à europeia, e, como qualquer mero professor existente na Universidade de Lisboa, tinha o casaco por escovar. Ainda assim, por delicadeza, dei-me por ciente, durante duas horas, da sua presença próxima.
Preciso explicar que as minhas ideias do Japão, da sua flora e da fauna, dos seus habitantes humanos e das varias modalidades de vida que lhes são próprias, derivam de um estudo demorado de vários bules e chávenas. Eu por isso sempre julguei que um japonês ou uma japonesa tivesse apenas duas dimensões; e essa delicadeza para com o espaço deu-me uma afeição doentia por aquele país econômico de realidade. O professor Boro é sólido, tem sombra — varias vezes fiz com que o meu olhar o verificasse — e além de falar e falar inglês, coloca ideias e noções compreensíveis dentro das suas palavras. A circunstância de que as suas ideias não comportam nem novidade nem relevo apenas o aproxima dos professores europeus, pavorosamente europeus, que conheço.
Além disto, o professor Boro tem movimento, desloca-se, não sei como, de um lado para o outro, o que, feito perante quem sempre teve o Japão por uma nação de quadro, parada e apenas real sobre transparência de louça, é requintadamente ordinário e desiludidor.
Falamos de politica internacional, da guerra europeia, e fizemos várias incursões pelos vários fenômenos literários característicos da nossa época. A ignorância que o professor Boro tinha de futurismo foi a única benzina para a nódoa da sua realidade moderna. Mas há algum professor de alguma Universidade da Europa que siga de perto os movi- mentos da arte contemporânea?
Dado os fatos que venho explicando, compreende-se que eu fosse avaro de o interrogar sobre o Japão. Para que? Ele era capaz de atirar para dentro da minha ignorância uma quantidade de coisas falsas. Quem sabe se ele se atreveria a insinuar pela conversa fora, como coisa normalmente acreditável, que no Japão há problemas econômicos, dificuldades de vida para várias pessoas, cidades com lojas reais, campos com colheitas como as nossas, exércitos realmente parecidos com os da Europa e com execráveis aperfeiçoamentos científicos para guerras em verdade contemporâneas? Daqui ele não hesitaria talvez em me afirmar — com que cinismo nem eu meço — que no Japão os homens tem relações sexuais com as mulheres, que nascem crianças, que a gente de lá, em vez de estar sempre vestida como as figuras da louça japonesa, despe-se e veste-se como se fosse europeia. Por isso não tratamos do Japão. Perguntei ao professor se ele tinha tido uma boa viagem, e ele caiu em dizer-me que não — como se um estudioso como eu da porcelana nipônica pudesse admitir que há más viagens para os japoneses, que — delicioso povo! — nem sequer se dá ao trabalho de existir. As chávenas partem-se, não comportam tormentas. A frase «uma tempestade num copo de água» ou «numa chávena», como dizem outros, e puramente europeia.
Uma frase houve (casual, quero crer, no professor Boro) que me magoou mais do que outra.
Falávamos — eu, é claro, com o desprendimento com que se tratam estes assuntos feéricos — da influencia dos mecanismos sobre a psicologia do operário, quando se sabe — claro está — que o operário não tem psicologia. E o professor referiu-se aos progressos industriais do Japão e acrescentou umas palavras, que me esforcei com metade de êxito para não ouvir, sobre (creio) movimentos operários no Japão e um fuzilamento (suponho) de não sei que chefe socialista. Eu há tempos — numa coluna sem duvida humorística de um diário — vira em um telegrama de Tóquio constando qualquer coisa nesse tom; mas, além de não crer que de Tóquio se mandassem telegramas — visto Tóquio não dever ter mais do que duas dimensões —, ninguém que como eu tenha estudado a psicologia japonesa através das chávenas e dos pires, admite progressos de qualquer espécie no Japão, industrias japonesas, movimentos socialistas e chefes socialistas, ainda por cima fuzilados, como quaisquer europeus que vivem. Quem como eu conhece bem o Japão — o verdadeiro Japão, de porcelana e erros de desenho —, compreende bem a incompatibilidade entre o progresso, indústria e socialismo, e a absoluta não-existência daquele pais. Socialistas japoneses! Uma contradição flagrante! Uma frase sem sentido, como «circulo quadrado»! Se nem o inexistente estivesse livre do socialismo! Aquelas figuras deliciosas, eternamente sentadas ao pé de casas do tamanho delas, a beira de lagos absurdos, de um azul impossível, aquém de montanhas totalmente irreais — essas maravilhosas figuras, com uma perfeita e patriótica individualidade japonesa, não pertencem decerto ao horroroso mundo onde se progride, e onde sobre o artista desabam a morbidez do produtivo e a barbárie do humanitário.
E vem querer tirar-me estas convicções o professor Boro, da Universidade de Tóquio! Não mas tira. Não é para ser enganado pela primeira realidade que se me atira aos olhos que eu tenho gasto minutos distensos na contemplação cientifica e estéril de bules e chávenas japonesas. O mais provável, a respeito deste Boro, e que nascesse em Lisboa e se chame José. Do Japão, ele? Nunca.
Se ao menos achei japonesa a sua cara? Absolutamente nada. Basta dizer que era real e existiu ali diante de mim, duas dolorosas horas, em plena ocupação inestética de todas as dimensões aproveitáveis (felizmente só três) do espaço autentico. A sua cara parecia-se, e certo, com certas fotografias de "japoneses" que as ilustrações trouxeram há anos, e de vez em quando reincidindo trazem; mas toda a gente que sabe o que é o Japão por nunca lá ter ido sabe de cor que aquilo não são japoneses. E, de mais a mais, essas ilustrações eram principalmente de generais, almirantes, e operações guerreiras. Ora é absolutamente impossível que no Japão haja generais, almirantes e guerra. Como, de resto, fotografar o Japão e os japoneses? A primeira coisa real que há no Japão e o fato de ele estar sempre longe de nós, estejamos nós onde estivermos. Não se pode lá ir, nem eles podem vir até nós. Concedo, se me forçarem a isso, que existam um Tóquio e um Iocoama. Mas isso não e no Japão, e apenas no Extremo Oriente.
O resto da minha vida, doravante, será escrupulosamente dedicado a esquecer o professor Boro e que ele — impronunciável absurdo! — se sentou na cadeira que está agora, na realidade de madeira, defronte de mim. Considero doentio esse fato, alucinatório talvez, e entrego-me com assiduidade a não me lembrar dele mais. Um japonês verdadeiro aqui, a falar comigo, a dizer-me coisas que nem mesmo eram falsas ou contraditórias! Não. Ele chama-se José e é de Lisboa. Falo simbolicamente, é claro. Porque ele pode chamar-se Macwhisky e ser de Inverness. O que ele não era decerto era japonês, real, e possível visitante de Lisboa. Isso nunca. Desse modo não havia ciência, se o primeiro ocasional nos viesse negar o que os nossos estudos assíduos nos fizeram ver.
Professor Boro, da Universidade de Tóquio? De Tóquio? Universidade de Tóquio? Nada disso existe. Isso é uma ilusão. Os inferiores e cábulas de nós construíram, para se não desorientarem, um Japão a imagem e semelhança da Europa, desta triste Europa tão excessivamente real. Sonhadores! Alucinados!
Basta-me olhar para aquela bandeja, pegar cariciosamente com o olhar naquele serviço de chá. Depois venham falar-me em Japão existente, em Japão comercial, em Japão guerreiro! Não é para nada que, através de esforços consecutivos, a nossa época ganhou o duro nome de científica. Japoneses com vida real, com três dimensões, com uma pátria com paisagens de cores autenticas! Lérias para entretenimento do povo, mas que a quem estudou não enganam...
Fernando Pessoa
Passeio à noite
Bem tarde passeio pela empoeirada rua,
A sombra dos muros já se alongam,
Por entre videiras vejo a lua
caindo sobre o riacho e o caminho.
Canções, outrora entoadas,
Baixinho tento afinar,
Inúmeras caminhadas,
Sombras a me encruzilhar.
Vento e neve, calor do sol
Tantos anos me recordam,
Noite de verão, raio azul
Na viagem desventura e tormenta.
Bronzeado e possuído
Pela imensidão desse mundo
Sinto-me ainda atraído
Até meu caminho cair no escuro.
Hermann Hesse, “Caminhada”
A sombra dos muros já se alongam,
Por entre videiras vejo a lua
caindo sobre o riacho e o caminho.
Canções, outrora entoadas,
Baixinho tento afinar,
Inúmeras caminhadas,
Sombras a me encruzilhar.
Vento e neve, calor do sol
Tantos anos me recordam,
Noite de verão, raio azul
Na viagem desventura e tormenta.
Bronzeado e possuído
Pela imensidão desse mundo
Sinto-me ainda atraído
Até meu caminho cair no escuro.
Hermann Hesse, “Caminhada”
O presente dos Reis Magos
Um dólar e oitenta e sete centavos. Era tudo. E sessenta centavos eram em moedas. Moedas economizadas uma a uma, pechinchando com o dono do armazém, o dono da quitanda, o açougueiro, até o rosto arder à muda acusação de parcimônia que tais pechinchas implicavam. Três vezes Della contou o dinheiro. Um dólar e oitenta e sete centavos. E no dia seguinte seria Natal.
Não havia evidentemente mais nada a fazer senão atirar-se ao pequeno sofá puído e chorar. Foi o que Della fez. O que leva à reflexão moral de que a vida é feita de soluços, fungadelas e sorrisos, com predomínio das fungadelas.
Della terminou de chorar e cuidou do rosto com a esponja de pó. Postou-se junto à janela e ficou a contemplar melancolicamente um gato cinzento caminhando sobre uma cerca cinzenta num quintal cinzento. Amanhã seria Dia de Natal e ela tinha apenas um dólar e oitenta e sete centavos para comprar o presente de Jim.
Subitamente, afastou-se da janela e postou-se diante de um espelho. Seus olhos estavam brilhantes mas sua face perdeu a cor ao cabo de vinte segundos. Num gesto rápido, soltou o cabelo e deixou desdobrar-se em toda a sua extensão.
Ora, os James Dillingham Youngs tinham dois haveres de que muito se orgulhavam. Um era o relógio de ouro de Jim, que pertencera a seu pai e a seu avó. O outro era o cabelo de Della.
O cabelo de Della, pois, caiu-lhe pelas costas, ondulando e brilhando como uma cascata de águas castanhas. Chegava-lhe abaixo do joelho e quase lhe servia de manto. Ela então o prendeu de novo, célere e nervosamente. A certo momento, deteve-se e permaneceu imóvel, enquanto uma ou duas lágrimas caíam sobre o puído tapete vermelho.
Vestiu o velho casaco marrom; pôs o velho chapéu marrom. Desceu rapidamente a escada que levava à rua. Parou onde havia um letreiro anunciando: “Mme. Sofronie, Artigos de Toda Espécie para Cabelos”. Della subiu a correr um lance de escada e se deteve no alto, arquejante para recompor-se. Madame, corpulenta, alva demais, fria.
– Quer comprar meu cabelo? – perguntou Della.
– Eu compro cabelo – disse Madame. – Tire o chapéu e vamos dar uma olhada no seu.
Despenhou-se, ondulante, a cascata de águas castanhas.
– Vinte dólares – ofereceu Madame, erguendo a massa com mão prática.
– Dê-me o dinheiro depressa – pediu Della.
Oh, as duas horas seguintes voaram com asas róseas. Della se pôs a vasculhar as lojas à procura de um presente para Jim.
Encontrou-o por fim. Fora feito para ele e para ninguém mais. Nada havia que se lhe parecesse nas outras lojas, e ela as revirara de alto a baixo. Era uma corrente de platina, curta, simples e de modelo discreto, proclamando adequadamente seu valor por sua mesma substância e não por qualquer ornamentação espúria. Era digna até do relógio. Tão logo a viu, soube que tinha de ser de Jim. Era como ele. Serenidade e valor, a descrição se aplicava a ambos. Vinte e um dólares cobraram-lhe por ela, e Della correu para casa com os oitenta e sete centavos. Com aquela corrente no relógio, Jim poderia preocupar-se decentemente com o tempo na frente de qualquer pessoa. Grande como era o relógio, ele as vezes o consultava meio envergonhado devido à velha tira de couro que usava em lugar de corrente.
Quando Della chegou em casa, seu embevecimento cedeu lugar a um pouco de prudência e razão. Pegou os ferros de frisar, acendeu o gás e pôs-se a reparar os estragos causados pela generosidade acrescida ao amor. O que sempre é uma tarefa muito árdua, queridos amigos. Uma tarefa gigantesca.
Ao cabo de quarenta minutos, sua cabeça estava coberta de pequenos caracóis cerrados, que a faziam parecer, admiravelmente, um menino vadio.
Às sete horas, o café estava preparado e uma frigideira quente no fogão esperava o momento de fritar as costeletas. Jim nunca se atrasava. Della dobrou a corrente no côncavo da mão e sentou-se a um canto da mesa, perto da porta pela qual ele sempre entrava. Ouviu então seus passos no primeiro lance da escada e empalideceu por um instante.
– Oh, Deus, fazei-o por favor achar-me ainda bonita!
A porta se abriu, Jim entrou e a fechou. Parecia magro e muito sério. Pobre sujeito, apenas vinte e dois anos e já responsável por uma família! Precisava de um sobretudo novo e não tinha luvas.
Jim Avançou alguns passos. Seus olhos estavam fitos em Della e havia neles uma expressão que ela não conseguia ler e que a aterrorizava. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem horror; não era nenhum dos sentimentos para os quais ela estava preparada.
Della esgueirou-se para fora da mesa e se encaminhou para ele.
– Jim, querido – gritou – não me olhe desse jeito! Mandei cortar o cabelo e o vendi porque não poderia passar o natal sem dar um presente a você. Ele crescerá de novo… não se aborreça, por favor. Meu cabelo cresce terrivelmente depressa. Diga “Feliz Natal!”, Jim, e fiquemos felizes. Você não sabe que coisa bonita, que belo presente tenho para você.
– Mandou cortar o cabelo? – perguntou Jim a custo, como se não tivesse ainda compenetrado desse fato patente após o mais árduo esforço mental.
– Cortei-o e vendi-o – disse Della. – Você não continua a gostar de mim do mesmo jeito, então? Não precisa procurar por meu cabelo, foi vendido, como lhe disse… vendido, não está mais aqui. À véspera de Natal, querido. Seja bonzinho comigo, fiz isso por sua causa. Ninguém poderá jamais avaliar o meu amor por você. Posso fritar as costeletas, Jim?
Emergindo do seu transe, Jim pareceu despertar rapidamente. Abraçou a sua Della. Os magos trouxeram presentes valiosos, mas isso não estava entre eles. Esta asserção obscura será esclarecida mais tarde.
Jim tirou um pacote do bolso e atirou-o sobre a mesa.
– Não me interprete mal, Della – disse. – Não acho que haja alguma coisa, corte de cabelo, raspagem ou xampu, capaz de fazer-me gostar menos da minha mulherzinha. Mas se você abrir este pacote, poderá ver por que fiquei abalado no princípio.
Alvos dedos ligeiros desfizeram o atilho e o embrulho. Ouviu-se então um grito extático de alegria, e depois, ai!, uma súbita mudança feminina para as lágrimas e os gemidos, que exigiram o imediato emprego de todos os poderes de consolação do senhor do apartamento.
Pois sobre a mesa jaziam Os Pentes, o jogo de pentes para cabelos que Della adorara havia muito numa vitrine. Belos pentes, de tartaruga legítima, orlados de pedraria, da cor exata para combinar com seu lindo cabelo. Eram pentes caros, ela o sabia, e seu coração se limitara a desejá-los e a suspirar por eles sem a menor esperança de vir um dia a possuí-los. E agora pertenciam-lhe, mas as tranças que os anelados enfeites deveriam adornar não mais existiam.
Ela, porém, os apertou contra o peito e, por fim, pode erguer os olhos nublados, sorrir e dizer:
– Meu cabelo cresce tão depressa, Jim!
Jim ainda não vira o seu belo presente. Ela o estendeu ansiosamente na palma da mão aberta. O fosco metal precioso parecia brilhar com o reflexo do seu jubilante e ardente espírito.
– Não é uma beleza, Jim? Vasculhei a cidade toda para achá-lo. Doravante, você terá de ver as horas uma centena de vezes por dia. Dê-me o seu relógio. Quero ver como fica nele.
Em lugar de obedecer, Jim deixou-se cair no sofá, pôs as mãos atrás da cabeça e sorriu:
Della – disse – vamos por os nossos presentes de Natal de lado e deixá-los por algum tempo. São lindos demais para poderem ser usados agora. Vendi o relógio para comprar os seus pentes. Que tal se você fritasse as costeletas agora?
Não havia evidentemente mais nada a fazer senão atirar-se ao pequeno sofá puído e chorar. Foi o que Della fez. O que leva à reflexão moral de que a vida é feita de soluços, fungadelas e sorrisos, com predomínio das fungadelas.
Della terminou de chorar e cuidou do rosto com a esponja de pó. Postou-se junto à janela e ficou a contemplar melancolicamente um gato cinzento caminhando sobre uma cerca cinzenta num quintal cinzento. Amanhã seria Dia de Natal e ela tinha apenas um dólar e oitenta e sete centavos para comprar o presente de Jim.
Estivera a economizar tostão por tostão havia meses, e esse era o resultado. As despesas tinham sido maiores do que calculara. Sempre são. Apenas um dólar e oitenta e sete centavos para comprar o presente de Jim. O seu Jim. Muitas horas felizes passara ela planejando comprar-lhe alguma coisa bonita. Alguma coisa fina, rara, legítima. Algo que estivesse bem perto de merecer a honra de ser possuída por Jim.
Subitamente, afastou-se da janela e postou-se diante de um espelho. Seus olhos estavam brilhantes mas sua face perdeu a cor ao cabo de vinte segundos. Num gesto rápido, soltou o cabelo e deixou desdobrar-se em toda a sua extensão.
Ora, os James Dillingham Youngs tinham dois haveres de que muito se orgulhavam. Um era o relógio de ouro de Jim, que pertencera a seu pai e a seu avó. O outro era o cabelo de Della.
O cabelo de Della, pois, caiu-lhe pelas costas, ondulando e brilhando como uma cascata de águas castanhas. Chegava-lhe abaixo do joelho e quase lhe servia de manto. Ela então o prendeu de novo, célere e nervosamente. A certo momento, deteve-se e permaneceu imóvel, enquanto uma ou duas lágrimas caíam sobre o puído tapete vermelho.
Vestiu o velho casaco marrom; pôs o velho chapéu marrom. Desceu rapidamente a escada que levava à rua. Parou onde havia um letreiro anunciando: “Mme. Sofronie, Artigos de Toda Espécie para Cabelos”. Della subiu a correr um lance de escada e se deteve no alto, arquejante para recompor-se. Madame, corpulenta, alva demais, fria.
– Quer comprar meu cabelo? – perguntou Della.
– Eu compro cabelo – disse Madame. – Tire o chapéu e vamos dar uma olhada no seu.
Despenhou-se, ondulante, a cascata de águas castanhas.
– Vinte dólares – ofereceu Madame, erguendo a massa com mão prática.
– Dê-me o dinheiro depressa – pediu Della.
Oh, as duas horas seguintes voaram com asas róseas. Della se pôs a vasculhar as lojas à procura de um presente para Jim.
Encontrou-o por fim. Fora feito para ele e para ninguém mais. Nada havia que se lhe parecesse nas outras lojas, e ela as revirara de alto a baixo. Era uma corrente de platina, curta, simples e de modelo discreto, proclamando adequadamente seu valor por sua mesma substância e não por qualquer ornamentação espúria. Era digna até do relógio. Tão logo a viu, soube que tinha de ser de Jim. Era como ele. Serenidade e valor, a descrição se aplicava a ambos. Vinte e um dólares cobraram-lhe por ela, e Della correu para casa com os oitenta e sete centavos. Com aquela corrente no relógio, Jim poderia preocupar-se decentemente com o tempo na frente de qualquer pessoa. Grande como era o relógio, ele as vezes o consultava meio envergonhado devido à velha tira de couro que usava em lugar de corrente.
Quando Della chegou em casa, seu embevecimento cedeu lugar a um pouco de prudência e razão. Pegou os ferros de frisar, acendeu o gás e pôs-se a reparar os estragos causados pela generosidade acrescida ao amor. O que sempre é uma tarefa muito árdua, queridos amigos. Uma tarefa gigantesca.
Ao cabo de quarenta minutos, sua cabeça estava coberta de pequenos caracóis cerrados, que a faziam parecer, admiravelmente, um menino vadio.
Às sete horas, o café estava preparado e uma frigideira quente no fogão esperava o momento de fritar as costeletas. Jim nunca se atrasava. Della dobrou a corrente no côncavo da mão e sentou-se a um canto da mesa, perto da porta pela qual ele sempre entrava. Ouviu então seus passos no primeiro lance da escada e empalideceu por um instante.
– Oh, Deus, fazei-o por favor achar-me ainda bonita!
A porta se abriu, Jim entrou e a fechou. Parecia magro e muito sério. Pobre sujeito, apenas vinte e dois anos e já responsável por uma família! Precisava de um sobretudo novo e não tinha luvas.
Jim Avançou alguns passos. Seus olhos estavam fitos em Della e havia neles uma expressão que ela não conseguia ler e que a aterrorizava. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem horror; não era nenhum dos sentimentos para os quais ela estava preparada.
Della esgueirou-se para fora da mesa e se encaminhou para ele.
– Jim, querido – gritou – não me olhe desse jeito! Mandei cortar o cabelo e o vendi porque não poderia passar o natal sem dar um presente a você. Ele crescerá de novo… não se aborreça, por favor. Meu cabelo cresce terrivelmente depressa. Diga “Feliz Natal!”, Jim, e fiquemos felizes. Você não sabe que coisa bonita, que belo presente tenho para você.
– Mandou cortar o cabelo? – perguntou Jim a custo, como se não tivesse ainda compenetrado desse fato patente após o mais árduo esforço mental.
– Cortei-o e vendi-o – disse Della. – Você não continua a gostar de mim do mesmo jeito, então? Não precisa procurar por meu cabelo, foi vendido, como lhe disse… vendido, não está mais aqui. À véspera de Natal, querido. Seja bonzinho comigo, fiz isso por sua causa. Ninguém poderá jamais avaliar o meu amor por você. Posso fritar as costeletas, Jim?
Emergindo do seu transe, Jim pareceu despertar rapidamente. Abraçou a sua Della. Os magos trouxeram presentes valiosos, mas isso não estava entre eles. Esta asserção obscura será esclarecida mais tarde.
Jim tirou um pacote do bolso e atirou-o sobre a mesa.
– Não me interprete mal, Della – disse. – Não acho que haja alguma coisa, corte de cabelo, raspagem ou xampu, capaz de fazer-me gostar menos da minha mulherzinha. Mas se você abrir este pacote, poderá ver por que fiquei abalado no princípio.
Alvos dedos ligeiros desfizeram o atilho e o embrulho. Ouviu-se então um grito extático de alegria, e depois, ai!, uma súbita mudança feminina para as lágrimas e os gemidos, que exigiram o imediato emprego de todos os poderes de consolação do senhor do apartamento.
Pois sobre a mesa jaziam Os Pentes, o jogo de pentes para cabelos que Della adorara havia muito numa vitrine. Belos pentes, de tartaruga legítima, orlados de pedraria, da cor exata para combinar com seu lindo cabelo. Eram pentes caros, ela o sabia, e seu coração se limitara a desejá-los e a suspirar por eles sem a menor esperança de vir um dia a possuí-los. E agora pertenciam-lhe, mas as tranças que os anelados enfeites deveriam adornar não mais existiam.
Ela, porém, os apertou contra o peito e, por fim, pode erguer os olhos nublados, sorrir e dizer:
– Meu cabelo cresce tão depressa, Jim!
Jim ainda não vira o seu belo presente. Ela o estendeu ansiosamente na palma da mão aberta. O fosco metal precioso parecia brilhar com o reflexo do seu jubilante e ardente espírito.
– Não é uma beleza, Jim? Vasculhei a cidade toda para achá-lo. Doravante, você terá de ver as horas uma centena de vezes por dia. Dê-me o seu relógio. Quero ver como fica nele.
Em lugar de obedecer, Jim deixou-se cair no sofá, pôs as mãos atrás da cabeça e sorriu:
Della – disse – vamos por os nossos presentes de Natal de lado e deixá-los por algum tempo. São lindos demais para poderem ser usados agora. Vendi o relógio para comprar os seus pentes. Que tal se você fritasse as costeletas agora?
O. Henry
quinta-feira, outubro 8
Vadico
Uns poucos passos, apenas. Vejam só. Quando corria para a bola, a torcida fazia um coro de ôôôôôô que terminava numa explosão de gol. Este jogo foi em Paris. Cartazes nas ruas anunciavam:
VÁ AO PARC DES PRINCES VER PELÉ ET COMPAGNIE
Pelé e Companhia. Os companheiros. Bastavam Pelé e Vadico para pagar o espetáculo. Depois dos aplausos habituais ao rei Pelé, a multidão se divertia com os chutes de Vadico. Os franceses adoraram e consagraram Vadico. Est-ce que cet homme a centpieds? O Cem Pés. Aí nasceu o apelido.
O Cem Pés, no filme, após esse jogo na França, exibe as canelas cheias de cicatrizes. Denunciadoras, diz o locutor, da violência característica dos zagueiros que o enfrentavam. O Cem Pés, um ídolo. Um gênio do futebol. Vadico, sendo entrevistado, diz que não senhor, não trocaria essa vida com a bola por nenhuma outra. As cicatrizes? Ele as olhava, diz o locutor, como um prêmio amargo pelas tantas vezes em que foi atingido. Não havia de culpar a vida? Mas eu nem tenho jeito pra contar uma história de forma organizada. Bola pra frente.
Na televisão, aquele moço: Onde estão os ídolos do passado? Muitos, esquecidos, sós, abandonados. Como vivem? O que fazem? Fomos encontrar Vadico, o grande artilheiro que brilhou ao lado de Pelé, sentado num banco de parque, triste e só, aparentando pelo menos mais 20 anos além de sua idade real.
Enquanto a nova média esfria, estou vendo tudo de novo pelo televisor do bar. Repetem o filme sobre a carreira de Vadico. Sentei aqui e pedi a primeira média com pão e manteiga. Molhei o pão no café com leite e consumi logo tudo. Então, pedi uma segunda xícara. Sorvendo devagarinho. Agora já está meio fria. Mas não importa. Pedi mesmo para ter o direito, sem o portuga do garçom me aporrinhar, de permanecer no balcão mais tempo. Todo o tempo do programa. É preto e branco o Fantástico Show da Vida (nome do programa a cores, com a moça lindinha na abertura, levantando o braço e mostrando o sovaquinho raspado).
Sou um velho perdido na bosta da vida, com catarata numa das vistas. Parece que o mundo todo virou um quarto escuro. Todas as tardes estou num desses bancos do parque que o filme mostra. A vida de Vadico, bem? Tanta glória e agora essa penúria dele, igualzinho a mim, vivendo feito um molambo. Tem uma estátua, nesse parque, que só consigo enxergar bem na claridade do dia. É o corpo de uma jovem (parece a moça ousada do programa de televisão) e, quando a tardinha vem caindo, o corpo dela vai ficando monstruoso, e vou embora para o meu quarto. Um aposentado me aconselhou a não andar por aí à noite, e estou ainda esperando tratamento do Instituto para o meu olho direito.
Velho é um peso morto, eu disse para o homem ao meu lado, aquele dia no parque. Observei quando ele se aproximou e sentou junto de mim. A boina escura, a camiseta amarelecida sob a camisa estampada (e rota?), a calça de casimira surrada e a botina de solado de pneu formando a figura dele. Assim fiquei conhecendo Vadico. Ele chegou a me contar algumas daquelas histórias, em que eu nem podia acreditar. Contar histórias é ocupação de velho. Depois vi na televisão que era tudo verdade. Numa tarde chuvosa de São Paulo (é a voz do moço arrumado da televisão), terminou seu futebol. Não era jogador de se poupar. Teve mais de 12 anos de carreira, artilheiro de ataques famosos. Jogou com Garrincha, Pelé, Gérson. Vadico não fugia da luta.
Nesta sequência, observem, senhores telespectadores, atenção, viu a bola, vindo pelo alto, pulou antes do zagueiro. Ganhou a bola (o filme mostra), mas caiu sobre o joelho. Vejam, Vadico permanece imóvel, gemendo de dor. Num rápido exame, o médico do clube garantiu que aquilo não era coisa grave. O craque precisava apenas de alguns dias de recuperação. Mas esses dias se transformaram nos piores de sua vida. Um mês depois, estava decidida a operação. O tratamento à base de infiltrações e exercícios havia fracassado.
Um moleque parou na porta do bar, me olhou e berrou que velho tem cheiro de égua. Levantei o braço, num gesto ameaçador, mas muito fraco e lento, o diabinho ainda repetiu de égua, de égua, e saiu correndo. O portuga sorriu, me parece que sorriu, o puto, mas que importa esse safado? Forço bem a vista para ver o que aconteceu a Vadico. Mas agora, na televisão, passam uma propaganda. Ao Sucesso, com Hollywood. E chegou para perto essa mulherzinha morena, animada, as pestanas muito lambuzadas de uma tintura azul - acendo o meu Continental, Preferência Nacional- mas sem nenhuma outra pintura no rosto tenso. O que a menina vai querer?, pergunta o portuga. Esse homem era o máximo, ela diz, olhando para o televisor. Pede um conhaque Dreher.
Dois meses depois da operação, continua o narrador do filme, pouca coisa havia mudado. O joelho do craque continuava dolorido e a perna sem movimentos, apesar dos exercícios todos. O tempo passava para ele, que tinha a sua única alegria na lembrança dos tempos gloriosos. Aí aparece Vadico, este de agora que conheci, um velhinho desprezado como eu (embora tenha muito menos idade):
– Eu vivia fazendo gols. Eram tantos que perdi a conta. Sei apenas que foram muitos. Pena que acabaram.
Em seguida não se vê mais a figura de Vadico, mas se ouve a sua voz, enquanto mostram ele em ação: chutando, driblando, fazendo embaixadas. Depois, uma série de gols. Verdadeira pintura, coisa linda de se ver. Um quadro.
As vezes, diz o locutor, a valentia lhe custava meses de atividade. A torcida quer uma presença constante. Ficaram me dando esperanças, diz Vadico, até que um dia veio o médico e, finalmente, revelou: Você não pode mais jogar. Para o seu próprio bem, o médico me disse, é melhor encerrar a carreira. Sim, o médico confirmou, a contusão pode se agravar a ponto de aleijar o seu joelho. Aí eu já estava mesmo com o joelho mutilado por todas aquelas injeções e as operações. Doía quando andava, a qualquer flexão da perna. Compreendi que era impossível resistir. Tinha que parar.
Tenho que ter coragem, pensei. Outro conhaque, a mulherzinha pediu, com a voz tremida, e vi que devia ter chorado, o rosto dela num estado deplorável. Era mesmo uma coragem enorme, diz o narrador da vida de Vadico, que lhe permitia entrar na área sob os pontapés dos zagueiros. Depois - com a mutilação - a coragem, ainda, de abandonar tudo aquilo que foi sua vida, e que lhe deu muitas glórias, até deixá-lo inutilizado, com a perna sem mexer.
Primeiro, foi o pontapé violento por trás, na panturrilha. Aquele beque era um cara muito parrudo (é a voz de Vadico, no filme), um cavalo forte. Um grosso com a bola, é claro. Vi que era fácil passar por ele, e não pude resistir aos dribles. O público aplaudiu, gritou meu nome. Cheguei a fazer aquelas embaixadas - o filme mostra ele controlando a bola, sem deixar cair, várias vezes seguidas, com o peito do pé esquerdo, uma série brilhante de embaixadas - e a galera vibrou. Gritaram mais alto meu nome. O filme mostra, o Maracanã inteiro uma só voz: va-di-co, va-di-cooo. Faltou humildade naquele cara, Vadico prosseguiu. Eu sei, todo jogador tem mesmo horror de ser feito de bobo. Porque, além dos dribles, das embaixadas, vai receber também o riso de gozação dos colegas, do público.
Era um boa-pinta, hein?, diz a mulher tomando um longo gole do seu conhaque, tremendo boa-pinta, um macho muito do bem-apanhado.
É claro, continua Vadico, que o jogador que parte para o bloqueio direto a um adversário - seja atacante, homem de meio-campo ou zagueiro-de-área - corre sempre o risco de ser driblado, e até de ser humilhado, feito de bobo. Mas é um risco que significa uma prova de dedicação ao time e não humilhação pessoal. Mas foi humilhação pessoal o que sentiu aquele zagueiro. Adiei, o nome dele.
A mulherzinha deposita com ruído o copo no balcão: Merda de vida. Há três dias encontrei Vadico pela última vez. Vi você na televisão, eu disse, alegremente, quando ele se aproximou de mim no banco do parque. Estava tomando café e vi tudo pelo televisor do bar. Muita gente viu. Contar histórias é ocupação de velho, Vadico disse. Eu não sei contar direito, mas é isto que conto: estão repetindo agora o filme e estou tomando café de novo e assistindo de novo, e tem essa mulher que já mandou uns quatro conhaques, está de porre e não para de chorar.
E repetem o filme por causa do que Vadico fez ontem. (Se essa puta porrista parasse com o faniquito dela, eu ia me sentir melhor, mas ela tem razão: merda de vida.)
O único patrimônio que ele guarda com carinho, diz o mocinho bonito da televisão (esse aí, é claro, não cheira a égua velha), é esta bola (a bola enche toda a tela do televisor), e Vadico, entrevistado no seu quartinho pequenino e limpo, diz, foi um chute, que dei nela, que deu o tricampeonato ao nosso time. Me lembro muito bem. Mal o juiz apitou o final da partida, me abracei a essa boneca aí e disse, é minha, e está comigo até hoje. Acordo todos os dias muito cedo. Vadico diz logo depois, e saio pra rua, que está sempre meio deserta, tem só uns poucos trastes, que vão madrugar no trabalho, ou essa gente que vem da noite.
Não há muito o que fazer, moço, a mesma coisa todos os dias, a mesma coisa sempre. A gente procura nas pessoas que passam ou nas notícias dos jornais assunto para conversa durante o dia no parque (aí o filme mostra ele sentado no banco do parque; Vadico sozinho visto ao longe, e umas crianças que passam e olham com desagrado para a figura dele, meio recostado no banco). Mulher, moço? Quando acabou o futebol, elas acabaram também. Sim, houve algumas delas, mas parece que eu não levava muito jeito com elas não (um riso meio forçado, que vira uma careta), é, pois é, com as zinhas deu zebra.
E a mulher do bar, quase aos gritos: Mais um, porra. O portuga veio com a garrafa e ela: Manda. O garçom entortou a garrafa, o líquido escorrendo em conta-gotas, e a puta, impaciente: Capricha. Pode caprichar. Pegou na mão do homem, entortando mais: Assim. Aí tá bom. E emborcou a nova dose até a metade.
Hoje Vadico é notícia em todos os jornais e tem essa bruaca que não para de beber e de chorar. Tinha que dar zebra, né, Vadico?, com umas tipas como essa aí ao lado, o que você queria, meu amigo?
E agora é o final do filme, que repetiram inteirinho porque ontem, como está dizendo agora esse moço aí na televisão, o famoso Cem Pés se libertou com as próprias mãos. E foi a primeira coisa que vi, hoje, nas manchetes dos jornais espetados nas bancas: a notícia de que Vadico, o famoso ídolo do passado, o célebre Cem Pés - um Deus dos estádios - tinha se matado, cortado o pescoço com uma navalha.
Assim que o filme terminou, eu paguei e me levantei para sair. Foi aí que a mulher arriou a cabeça sobre o balcão do bar, empurrando num gesto involuntário o copo de conhaque, ao mesmo tempo em que, abrindo a mão, libertou um frasco pequenino, sem tampa, de onde rolou uma pilulazinha verde. Só uma. As outras, o diabo da criatura tinha engolido com o conhaque.
VÁ AO PARC DES PRINCES VER PELÉ ET COMPAGNIE
Pelé e Companhia. Os companheiros. Bastavam Pelé e Vadico para pagar o espetáculo. Depois dos aplausos habituais ao rei Pelé, a multidão se divertia com os chutes de Vadico. Os franceses adoraram e consagraram Vadico. Est-ce que cet homme a centpieds? O Cem Pés. Aí nasceu o apelido.
O Cem Pés, no filme, após esse jogo na França, exibe as canelas cheias de cicatrizes. Denunciadoras, diz o locutor, da violência característica dos zagueiros que o enfrentavam. O Cem Pés, um ídolo. Um gênio do futebol. Vadico, sendo entrevistado, diz que não senhor, não trocaria essa vida com a bola por nenhuma outra. As cicatrizes? Ele as olhava, diz o locutor, como um prêmio amargo pelas tantas vezes em que foi atingido. Não havia de culpar a vida? Mas eu nem tenho jeito pra contar uma história de forma organizada. Bola pra frente.
Na televisão, aquele moço: Onde estão os ídolos do passado? Muitos, esquecidos, sós, abandonados. Como vivem? O que fazem? Fomos encontrar Vadico, o grande artilheiro que brilhou ao lado de Pelé, sentado num banco de parque, triste e só, aparentando pelo menos mais 20 anos além de sua idade real.
Enquanto a nova média esfria, estou vendo tudo de novo pelo televisor do bar. Repetem o filme sobre a carreira de Vadico. Sentei aqui e pedi a primeira média com pão e manteiga. Molhei o pão no café com leite e consumi logo tudo. Então, pedi uma segunda xícara. Sorvendo devagarinho. Agora já está meio fria. Mas não importa. Pedi mesmo para ter o direito, sem o portuga do garçom me aporrinhar, de permanecer no balcão mais tempo. Todo o tempo do programa. É preto e branco o Fantástico Show da Vida (nome do programa a cores, com a moça lindinha na abertura, levantando o braço e mostrando o sovaquinho raspado).
Sou um velho perdido na bosta da vida, com catarata numa das vistas. Parece que o mundo todo virou um quarto escuro. Todas as tardes estou num desses bancos do parque que o filme mostra. A vida de Vadico, bem? Tanta glória e agora essa penúria dele, igualzinho a mim, vivendo feito um molambo. Tem uma estátua, nesse parque, que só consigo enxergar bem na claridade do dia. É o corpo de uma jovem (parece a moça ousada do programa de televisão) e, quando a tardinha vem caindo, o corpo dela vai ficando monstruoso, e vou embora para o meu quarto. Um aposentado me aconselhou a não andar por aí à noite, e estou ainda esperando tratamento do Instituto para o meu olho direito.
Velho é um peso morto, eu disse para o homem ao meu lado, aquele dia no parque. Observei quando ele se aproximou e sentou junto de mim. A boina escura, a camiseta amarelecida sob a camisa estampada (e rota?), a calça de casimira surrada e a botina de solado de pneu formando a figura dele. Assim fiquei conhecendo Vadico. Ele chegou a me contar algumas daquelas histórias, em que eu nem podia acreditar. Contar histórias é ocupação de velho. Depois vi na televisão que era tudo verdade. Numa tarde chuvosa de São Paulo (é a voz do moço arrumado da televisão), terminou seu futebol. Não era jogador de se poupar. Teve mais de 12 anos de carreira, artilheiro de ataques famosos. Jogou com Garrincha, Pelé, Gérson. Vadico não fugia da luta.
Nesta sequência, observem, senhores telespectadores, atenção, viu a bola, vindo pelo alto, pulou antes do zagueiro. Ganhou a bola (o filme mostra), mas caiu sobre o joelho. Vejam, Vadico permanece imóvel, gemendo de dor. Num rápido exame, o médico do clube garantiu que aquilo não era coisa grave. O craque precisava apenas de alguns dias de recuperação. Mas esses dias se transformaram nos piores de sua vida. Um mês depois, estava decidida a operação. O tratamento à base de infiltrações e exercícios havia fracassado.
Um moleque parou na porta do bar, me olhou e berrou que velho tem cheiro de égua. Levantei o braço, num gesto ameaçador, mas muito fraco e lento, o diabinho ainda repetiu de égua, de égua, e saiu correndo. O portuga sorriu, me parece que sorriu, o puto, mas que importa esse safado? Forço bem a vista para ver o que aconteceu a Vadico. Mas agora, na televisão, passam uma propaganda. Ao Sucesso, com Hollywood. E chegou para perto essa mulherzinha morena, animada, as pestanas muito lambuzadas de uma tintura azul - acendo o meu Continental, Preferência Nacional- mas sem nenhuma outra pintura no rosto tenso. O que a menina vai querer?, pergunta o portuga. Esse homem era o máximo, ela diz, olhando para o televisor. Pede um conhaque Dreher.
Dois meses depois da operação, continua o narrador do filme, pouca coisa havia mudado. O joelho do craque continuava dolorido e a perna sem movimentos, apesar dos exercícios todos. O tempo passava para ele, que tinha a sua única alegria na lembrança dos tempos gloriosos. Aí aparece Vadico, este de agora que conheci, um velhinho desprezado como eu (embora tenha muito menos idade):
– Eu vivia fazendo gols. Eram tantos que perdi a conta. Sei apenas que foram muitos. Pena que acabaram.
Em seguida não se vê mais a figura de Vadico, mas se ouve a sua voz, enquanto mostram ele em ação: chutando, driblando, fazendo embaixadas. Depois, uma série de gols. Verdadeira pintura, coisa linda de se ver. Um quadro.
As vezes, diz o locutor, a valentia lhe custava meses de atividade. A torcida quer uma presença constante. Ficaram me dando esperanças, diz Vadico, até que um dia veio o médico e, finalmente, revelou: Você não pode mais jogar. Para o seu próprio bem, o médico me disse, é melhor encerrar a carreira. Sim, o médico confirmou, a contusão pode se agravar a ponto de aleijar o seu joelho. Aí eu já estava mesmo com o joelho mutilado por todas aquelas injeções e as operações. Doía quando andava, a qualquer flexão da perna. Compreendi que era impossível resistir. Tinha que parar.
Tenho que ter coragem, pensei. Outro conhaque, a mulherzinha pediu, com a voz tremida, e vi que devia ter chorado, o rosto dela num estado deplorável. Era mesmo uma coragem enorme, diz o narrador da vida de Vadico, que lhe permitia entrar na área sob os pontapés dos zagueiros. Depois - com a mutilação - a coragem, ainda, de abandonar tudo aquilo que foi sua vida, e que lhe deu muitas glórias, até deixá-lo inutilizado, com a perna sem mexer.
Primeiro, foi o pontapé violento por trás, na panturrilha. Aquele beque era um cara muito parrudo (é a voz de Vadico, no filme), um cavalo forte. Um grosso com a bola, é claro. Vi que era fácil passar por ele, e não pude resistir aos dribles. O público aplaudiu, gritou meu nome. Cheguei a fazer aquelas embaixadas - o filme mostra ele controlando a bola, sem deixar cair, várias vezes seguidas, com o peito do pé esquerdo, uma série brilhante de embaixadas - e a galera vibrou. Gritaram mais alto meu nome. O filme mostra, o Maracanã inteiro uma só voz: va-di-co, va-di-cooo. Faltou humildade naquele cara, Vadico prosseguiu. Eu sei, todo jogador tem mesmo horror de ser feito de bobo. Porque, além dos dribles, das embaixadas, vai receber também o riso de gozação dos colegas, do público.
Era um boa-pinta, hein?, diz a mulher tomando um longo gole do seu conhaque, tremendo boa-pinta, um macho muito do bem-apanhado.
É claro, continua Vadico, que o jogador que parte para o bloqueio direto a um adversário - seja atacante, homem de meio-campo ou zagueiro-de-área - corre sempre o risco de ser driblado, e até de ser humilhado, feito de bobo. Mas é um risco que significa uma prova de dedicação ao time e não humilhação pessoal. Mas foi humilhação pessoal o que sentiu aquele zagueiro. Adiei, o nome dele.
Desapareceu. Não sei por onde andará, hoje
um velho igual a mim, outro que deve estar perdido por aí (a voz vai se
tornando muito baixa, quase que não se ouve ele falar), mais um expulso da vida. Mas é isso (ouve-se melhor agora): na manobra do bloqueio, o primeiro
jogador tem que se expor no drible. Se ele conseguir tomar a bola, tudo bem.
Se for driblado, pode se irritar e até perder a cabeça. Como aquele becão,
o
tal Adiei. Foi aí que veio a bola dividida, e minha perna ficou.
A mulherzinha deposita com ruído o copo no balcão: Merda de vida. Há três dias encontrei Vadico pela última vez. Vi você na televisão, eu disse, alegremente, quando ele se aproximou de mim no banco do parque. Estava tomando café e vi tudo pelo televisor do bar. Muita gente viu. Contar histórias é ocupação de velho, Vadico disse. Eu não sei contar direito, mas é isto que conto: estão repetindo agora o filme e estou tomando café de novo e assistindo de novo, e tem essa mulher que já mandou uns quatro conhaques, está de porre e não para de chorar.
E repetem o filme por causa do que Vadico fez ontem. (Se essa puta porrista parasse com o faniquito dela, eu ia me sentir melhor, mas ela tem razão: merda de vida.)
O único patrimônio que ele guarda com carinho, diz o mocinho bonito da televisão (esse aí, é claro, não cheira a égua velha), é esta bola (a bola enche toda a tela do televisor), e Vadico, entrevistado no seu quartinho pequenino e limpo, diz, foi um chute, que dei nela, que deu o tricampeonato ao nosso time. Me lembro muito bem. Mal o juiz apitou o final da partida, me abracei a essa boneca aí e disse, é minha, e está comigo até hoje. Acordo todos os dias muito cedo. Vadico diz logo depois, e saio pra rua, que está sempre meio deserta, tem só uns poucos trastes, que vão madrugar no trabalho, ou essa gente que vem da noite.
Não há muito o que fazer, moço, a mesma coisa todos os dias, a mesma coisa sempre. A gente procura nas pessoas que passam ou nas notícias dos jornais assunto para conversa durante o dia no parque (aí o filme mostra ele sentado no banco do parque; Vadico sozinho visto ao longe, e umas crianças que passam e olham com desagrado para a figura dele, meio recostado no banco). Mulher, moço? Quando acabou o futebol, elas acabaram também. Sim, houve algumas delas, mas parece que eu não levava muito jeito com elas não (um riso meio forçado, que vira uma careta), é, pois é, com as zinhas deu zebra.
E a mulher do bar, quase aos gritos: Mais um, porra. O portuga veio com a garrafa e ela: Manda. O garçom entortou a garrafa, o líquido escorrendo em conta-gotas, e a puta, impaciente: Capricha. Pode caprichar. Pegou na mão do homem, entortando mais: Assim. Aí tá bom. E emborcou a nova dose até a metade.
Hoje Vadico é notícia em todos os jornais e tem essa bruaca que não para de beber e de chorar. Tinha que dar zebra, né, Vadico?, com umas tipas como essa aí ao lado, o que você queria, meu amigo?
E agora é o final do filme, que repetiram inteirinho porque ontem, como está dizendo agora esse moço aí na televisão, o famoso Cem Pés se libertou com as próprias mãos. E foi a primeira coisa que vi, hoje, nas manchetes dos jornais espetados nas bancas: a notícia de que Vadico, o famoso ídolo do passado, o célebre Cem Pés - um Deus dos estádios - tinha se matado, cortado o pescoço com uma navalha.
Assim que o filme terminou, eu paguei e me levantei para sair. Foi aí que a mulher arriou a cabeça sobre o balcão do bar, empurrando num gesto involuntário o copo de conhaque, ao mesmo tempo em que, abrindo a mão, libertou um frasco pequenino, sem tampa, de onde rolou uma pilulazinha verde. Só uma. As outras, o diabo da criatura tinha engolido com o conhaque.
Edilberto Coutinho, "Maracanã Adeus"
Feliz por nada
Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas.
Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo?
Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza.
“Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?
Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma.
Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre.
Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?
A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.
Martha Medeiros
Muito melhor é ser feliz por nada.
Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.
Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.
Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo?
Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza.
“Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?
Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma.
Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre.
Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?
A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.
Martha Medeiros
Poema
A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada.
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Memória de Natal
Imagine certa manhã em fins de novembro. Certa manhã num começo de inverno há mais de vinte anos. Tenha em mente a cozinha de uma velha casa espaçosa numa cidade de interior. A peça principal é um belo fogão preto; mas também há uma grande mesa redonda e uma lareira com duas cadeiras de balanço em frente. Hoje mesmo a lareira deu início ao seu rugido sazonal.
Uma mulher de cabelos brancos e tosados está postada diante da janela da cozinha. Usa um par de tênis e um suéter cinza disforme sobre um vestido leve de chita. É baixinha e vivaz como uma galinha garnisé; mas, por conta de uma longa doença na juventude, tem os ombros lamentavelmente arqueados. O rosto é notável — lembra o de Lincoln, marcado como o dele e tingido pelo sol e pelo vento; mas também é delicado, bem desenhado, e os olhos são tímidos e cor de xerez. “Ah”, exclama, o hálito embaçando a vidraça, “é tempo de bolo de frutas!”
“Eu sabia antes de levantar”, ela diz, dando as costas à janela com um alvoroço decidido nos olhos. “O sino da prefeitura soou tão frio e claro. E não havia nenhum passarinho cantando; já foram para algum lugar mais quente, foram, sim. Ah, Buddy, pare de se empanturrar de biscoito e vá buscar a carreta. Veja se encontra o meu chapéu. Temos de assar trinta bolos.”
É sempre a mesma história: chega uma certa manhã de novembro, e minha amiga, como se inaugurasse oficialmente a temporada de Natal que lhe anima a fantasia e aquece o coração, anuncia: “É tempo de bolo de frutas! Vá buscar a carreta! Veja se encontra o meu chapéu”.
Três horas depois, estamos de volta à cozinha, descascando um vultoso carregamento de pecãs derrubadas pelo vento. Nossas costas doem de tanto nos agacharmos para catá-las: foi difícil encontrá-las (o grosso da safra tinha sido chacoalhado das árvores e vendido pelos donos do pomar, que não somos nós), escondidas no meio das folhas, da grama enregelada e traiçoeira. Craaaque! Um rangido jovial, estalos de trovão em miniatura ressoam quando as cascas se rompem, e vai crescendo o montículo de polpa doce, oleosa e esbranquiçada na tigela opalina. Queenie quer provar, e de tanto em tanto minha amiga surrupia um pedacinho, sempre comentando a falta que esse pouco vai fazer. “Não pode, Buddy. Se a gente começar, não para mais. E o que tem mal dá para o começo. São trinta bolos.”
A cozinha começa a escurecer. A penumbra transforma a janela em espelho: nossos reflexos se misturam à lua nascente, enquanto trabalhamos à luz da lareira. Por fim, quando a lua já vai alta, jogamos no fogo a última casca e suspiramos ao vê-la queimar. A carreta está vazia, a tigela está cheia até a borda. Jantamos (biscoitos, bacon, geleia de amora-preta) e falamos do dia seguinte.
Começa nesse dia o trabalho de que mais gosto: as compras. Cerejas e cidras, gengibre, baunilha e abacaxi em lata, frutas caramelizadas, uvas-passas e nozes e uísque e, ah, tanta farinha e manteiga, tantos ovos, especiarias, essências; desse jeito, vamos precisar de um pônei para puxar a carreta. Mas, antes que as compras possam ser feitas, há a questão do dinheiro. Nós dois não temos nenhum. Exceto pelas ninharias sovinas que as pessoas da casa nos dão (dez centavos são considerados uma dinheirama); ou pelo que nós mesmos arrecadamos em várias atividades: montando um bazar de velharias, vendendo baldes de amoras-pretas catadas uma a uma, potes de geleia caseira, gelatina de maçã e compota de pêssego, colhendo flores para funerais e casamentos.
Uma vez, ficamos com o septuagésimo nono prêmio, cinco dólares, de um concurso nacional de futebol. Não entendemos nada de futebol. É que simplesmente entramos em todo concurso de que ouvimos falar: no momento, nossas esperanças recaem no grande prêmio de cinquenta mil dólares oferecido a quem der o melhor nome a uma nova marca de café (sugerimos “am”, e, depois de alguma hesitação, pois minha amiga pensou que talvez isso fosse sacrílego, acrescentamos o slogan “am! Amém!”).
Para dizer a verdade, nosso único empreendimento realmente lucrativo foi o Museu de Monstros e Milagres, que montamos num telheiro do quintal, dois verões atrás. Os Milagres eram um estereoscópio com cromos de panoramas de Washington e de Nova York, cedidos por uma parenta que estivera nesses lugares (ela ficou furiosa ao descobrir por que tínhamos pedido os cromos emprestados); os Monstros se resumiam a um pintinho de três patas, chocado por uma de nossas galinhas. Todo mundo nas redondezas queria ver o pintinho: cobrávamos cinco centavos dos adultos e dois das crianças. E embolsamos uns bons vinte dólares antes que o museu fechasse em virtude do falecimento de sua atração principal.
Mas, de um modo ou de outro, todo ano fazemos nossas economias de Natal, nosso Fundo Bolo de Frutas. Mantemos esse dinheiro escondido numa velha bolsa de contas guardada embaixo de uma tábua solta do piso embaixo do penico embaixo da cama da minha amiga. A bolsa raramente é removida desse lugar seguro, exceto quando fazemos um depósito ou, como acontece todo sábado, um saque; pois aos sábados tenho direito a dez centavos para ir ao cinema. Minha amiga nunca foi ao cinema, nem pretende: “Prefiro ouvir você contar a história, Buddy. Assim posso imaginar mais. Além disso, uma pessoa da minha idade precisa economizar a vista. Quando o Senhor chegar, quero ver tudo direitinho”. Além de jamais ter visto um filme, ela jamais: comeu num restaurante, viajou além de oito quilômetros da casa, recebeu ou enviou um telegrama, leu nada diferente dos quadrinhos ou da Bíblia, usou maquiagem, praguejou, desejou mal a ninguém, mentiu de caso pensado, deixou um cão faminto continuar com fome.
E aqui vão algumas coisas que ela fez e faz: matou com uma enxada a maior cascavel (com dezesseis guizos) que já se viu no condado, cheira rapé (em segredo), domestica beija-flores (tente fazer isso) até que venham pousar num dedo, conta histórias de fantasmas (nós dois acreditamos em fantasmas) de dar calafrios no meio do verão, fala sozinha, passeia na chuva, cultiva as camélias mais bonitas das redondezas, sabe a receita de todo tipo de antigas poções indígenas, até mesmo a de um mágico removedor de verrugas.
Agora, terminado o jantar, vamos nos retirar para o quarto, que fica bem nos fundos da casa; é lá que minha amiga dorme, numa cama de metal pintada de rosa, que é sua cor preferida, e coberta por uma colcha de retalhos. Silenciosamente, chafurdando nos prazeres da conspiração, tiramos a bolsa de contas do esconderijo e espalhamos o conteúdo dela sobre a colcha de retalhos. Notas de um dólar, bem enroladas e verdes como brotos de primavera. Moedas sombrias de cinquenta centavos, pesadas o bastante para fechar os olhos de um morto. Lindas moedas de dez, as mais alegres, as únicas que tilintam de verdade. Moedas de cinco e de vinte e cinco, lisas como pedras de córrego. Mas, na maior parte, um monte odioso de centavos azedos. No verão passado, as demais pessoas da casa nos ofereceram um centavo a cada vinte e cinco moscas mortas. Ah, a matança de agosto: as moscas que subiram aos céus! Mas não foi um trabalho que nos desse orgulho. E agora, contando os centavos, é como se novamente contabilizássemos moscas mortas. Nenhum de nós é bom de números; contamos devagar, nos perdemos, recomeçamos. Segundo os cálculos dela, temos doze dólares e setenta e três centavos; segundo os meus, exatamente treze dólares. “Espero que você esteja errado, Buddy. Não se brinca com o número 13. Os bolos vão murchar. Ou alguém vai parar no cemitério. Meu Deus, por nada deste mundo eu sairia da cama num dia 13.” É verdade: ela sempre passa o dia 13 na cama. Assim, por via das dúvidas, subtraímos um centavo e o jogamos pela janela.
À medida que nos aproximamos do café (uma grande cabana de troncos, enfeitada por dentro e por fora com grinaldas feitas de lâmpadas berrantes, junto à margem enlameada do rio, à sombra de árvores carregadas de um musgo que toma conta dos galhos como uma neblina escura), nossos passos se tornam mais lentos. Até mesmo Queenie para de saracotear e segue ao nosso lado. Houve gente que morreu no café de Haha. Cortada em pedaços. Um golpe na cabeça. Há um caso que vai para o tribunal na semana que vem. É claro que esses acontecimentos se dão à noite, quando as luzes coloridas projetam sombras fantasiosas e a vitrola geme. Durante o dia, o café de Haha parece derreado e deserto.
Bato na porta, Queenie late, minha amiga chama: “Dona Haha? Senhora? Alguém em casa?”. Passos. A porta se abre. Nossos corações se viram pelo avesso. É o sr. Haha Jones em pessoa! E ele é um gigante; tem cicatrizes, e não ri. Não, ele nos encara com olhos satanicamente revirados e exige saber: “O que vocês querem com Haha?”. Por um instante, ficamos paralisados demais para responder. Mas logo minha amiga meio que recobra a voz, ao menos uma voz sussurrante: “Por favor, sr. Haha, gostaríamos de comprar um litro do seu melhor uísque”. Os olhos do índio reviram ainda mais. Quem diria? Haha está sorrindo! Rindo mesmo. “E qual de vocês é o bebum?”
“É para fazer bolo de frutas, sr. Haha. É para cozinhar.” Ele volta a ficar sério. Franze a testa. “Isso não é jeito de gastar uísque bom.” Mesmo assim, recua para o café sombrio e, segundos mais tarde, reaparece com uma garrafa de bebida sem rótulo, amarelo-margarida. Exibe o brilho à luz do sol e diz: “Dois dólares”. Pagamos com moedas de cinco, de dez e de um. De repente, quando o índio chacoalha as moedas na mão como um par de dados, seu rosto se descontrai. “Vamos fazer o seguinte”, propõe, vertendo o dinheiro de volta na bolsa de contas, “em vez de pagar com dinheiro, mandem um desses bolos para mim.” “Bem”, minha amiga comenta no caminho de volta, “eis um sujeito amável.
Vamos pôr uma xícara de passas a mais no bolo dele.” O fogão preto, repleto de carvão e lenha, brilha como uma abóbora iluminada. Os batedores de ovos rodopiam, as colheres giram em vasilhas com manteiga e açúcar, a baunilha adoça, o gengibre tempera o ar; cheiros que se desmancham e pinicam o nariz, saturando a cozinha, inundando a casa, saindo para o mundo com as baforadas da chaminé. Em quatro dias o trabalho está feito. Trinta e um bolos, umedecidos com uísque, descansam nas janelas e nas prateleiras. Mas para quem? Para amigos. Não necessariamente para amigos próximos; na verdade, a maior parte foi feita para pessoas que talvez tenhamos visto uma vez, quando muito. Pessoas que caem nas nossas graças. Como o presidente Roosevelt. Como o reverendo e a Sra. J. C. Lucey, missionários batistas em Bornéu que vieram dar palestras aqui no inverno passado. Ou o amolador de facas, que visita a cidade duas vezes por ano. Ou Abner Packer, o motorista do ônibus que chega às seis de Mobile, o qual troca acenos conosco todo dia ao passar num turbilhão de poeira. Ou como os Wiston, um casal de jovens da Califórnia cujo carro, uma tarde, quebrou em frente à nossa casa e que passaram uma hora agradável conversando conosco na varanda (o jovem Sr. Wiston bateu uma foto nossa, a única que temos). Será que é porque minha amiga é tímida com todo mundo, exceto com estranhos, que todos esses estranhos e conhecidos casuais parecem ser nossos melhores amigos? Acho que sim. Além disso, nossos álbuns com papel timbrado da Casa Branca, mensagens esparsas da Califórnia e de Bornéu, e cartões-postais baratos do amolador de facas fazem que nos sintamos conectados a mundos momentosos que ficam além da cozinha com sua vista para um céu que nos detém.
Mas agora, em dezembro, um galho pelado de figueira arranha a vidraça. A cozinha está vazia, os bolos se foram; ontem carreamos os últimos até a agência do correio, onde o preço dos selos esvazia nossos bolsos. Estamos falidos. Eu me entristeço, mas minha amiga insiste em festejar — com dois dedos de uísque no fundo da garrafa de Haha. Queenie ganha uma colherada numa vasilha de café (ela gosta de café forte e com sabor de chicória). O resto dividimos em dois potes de geleia. Ficamos temerosos diante da perspectiva de beber uísque puro, cujo gosto provoca expressões contorcidas e arrepios de amargor. Mas aos poucos começamos a cantar, ao mesmo tempo, cada qual uma canção. Não sei a letra da minha, só sei: “Come on along, come on along, to the dark-town strutters’ ball”. Mas sei dançar, e é isto que finjo ser: um sapateador de cinema. Minha sombra dançante evolui nas paredes; nossas vozes fazem tremer a porcelana; rimos como se mãos invisíveis nos fizessem cócegas. Queenie rola pelo chão, suas patas escavam o ar, algo parecido com um sorriso estica seus lábios negros. Quanto a mim, sinto-me tão quente e faiscante quanto a lenha que desmorona na lareira, tão livre quanto o vento na chaminé. Minha amiga valsa ao redor do fogão, com a barra da pobre saia de chita presa entre os dedos como se fosse um vestido de festa: “Show me the way to go home”, ela canta, os tênis guinchando no assoalho. “Show me the way to go home.”
Entram dois parentes. Muito bravos. Poderosos, com olhos que recriminam e línguas que ralham. Ouvimos o que têm a dizer, as palavras martelam uma canção colérica: “Uma criança de sete anos fedendo a uísque! onde você está com a cabeça? uma criança de sete anos! ficou maluca? começa assim a desgraça! lembra da prima Kate? do tio Charlie? do cunhado do tio Charlie? uma vergonha, um escândalo, uma humilhação! de joelhos, reze, vamos, reze ao Senhor!”. Queenie se esgueira para debaixo do fogão. Minha amiga fixa os olhos nos sapatos, o queixo estremece, ela levanta a saia e assoa o nariz, depois corre para o quarto.
A cidade já foi dormir há muito tempo, e a casa está em silêncio, exceto pelo badalar dos relógios e pelos estalos do fogo moribundo, mas ela continua chorando num travesseiro úmido feito um lenço de viúva. “Não chore”, digo, sentado ao pé da cama e tiritando apesar do pijama de flanela, que guarda o cheiro do xarope para tosse do inverno passado, “não chore”, peço, brincando com os pés dela, fazendo cócegas nos dedos, “você é velha demais para isso.” “É que eu sou”, ela soluça, “eu sou velha demais. Velha e esquisita.” “Esquisita, não. Engraçada. Mais que todo mundo. Escute. Se não parar de chorar, estará tão cansada amanhã que não vai dar para a gente cortar a árvore.” Ela se apruma. Queenie pula para cima da cama (onde não é admitida) para lamber as bochechas da minha amiga. “Sei onde encontrar umas bem bonitas, Buddy. E são azevinhos. Com bagas do tamanho dos seus olhos. Ficam bem no meio do bosque. Mais longe do que você já foi. Papai nos trazia árvores de lá, ele as carregava no ombro. Isso já faz cinquenta anos. Bem, eu mal posso esperar por amanhã.”
De manhã. O orvalho congelado faz a relva brilhar; o sol, redondo feito uma laranja e laranja feito uma lua de verão, pende no horizonte, lustra os bosques prateados pelo inverno. Um peru selvagem gruguleja. Um porco desgarrado grunhe no meio do matagal. Logo chegamos à margem de cursos de água mais fundos e velozes, onde precisamos abandonar a carreta. Queenie é a primeira a vadear os riachos, nadando e latindo contra a rapidez da correnteza, num frio de pegar pneumonia.
Nós a seguimos, erguendo os sapatos e o equipamento (uma machadinha, um saco de aniagem) acima da cabeça. Mais um quilômetro e meio de espinhos que nos castigam, ouriços e sarças que se agarram em nossas roupas, folhas de pinheiro pontudas e cor de ferrugem, fungos coloridos e penas soltas. Aqui e ali, um relance, um alvoroço, nos lembram que nem todos os pássaros voaram para o sul. O caminho se desenrola entre poças amarelo-limão de sol e túneis escuros de trepadeiras. Outro córrego a cruzar: uma armada irrequieta de trutas pintadas remexe a água ao redor, e sapos do tamanho de um prato treinam mergulhos de barriga; castores trabalhadores constroem um dique.
Na outra margem, Queenie se sacode e estremece. Minha amiga está tremendo também, não de frio, mas de entusiasmo. De uma das rosas esfarrapadas do chapéu cai uma pétala quando ela levanta a cabeça e aspira o ar tomado pelo cheiro dos pinheiros. “Estamos quase lá, dá para sentir o cheiro, não dá, Buddy?”, ela diz, como se nos aproximássemos do oceano. E, de fato, é uma espécie de oceano. Acres aromáticos de árvores de Natal, azevinhos de folhas espinhentas. Framboesas rebrilham como sinetas de porcelana, corvos negros se precipitam aos berros sobre elas.
Tendo enchido nossos sacos de aniagem com galhos e bagas para enfeitar uma dúzia de janelas, passamos a escolher uma árvore. “Ela deve ter”, minha amiga pondera, “o dobro da altura de um menino. Para menino nenhum roubar a estrela.” Escolhemos uma com o dobro da minha altura. Um belo e bravo brutamontes que resiste a trinta golpes de machadinha antes de vergar e quebrar com um estalo. Arrastando-o como a uma presa, começamos a longa jornada de volta. A cada tantos metros abandonamos a luta, sentamos e ofegamos. Mas temos a força de caçadores triunfantes; isso e o perfume gélido e viril da árvore nos reavivam e nos tocam para a frente.
Muitos cumprimentos acompanham nosso retorno crepuscular pela estrada de terra roxa, rumo à cidade; mas minha amiga é escorregadia e evasiva quando os transeuntes elogiam o tesouro empoleirado na nossa carreta: que bela árvore, de onde veio? “Daqueles lados”, ela murmura vagamente. A certa altura, um carro para, e a mulher rica e preguiçosa do dono da usina se inclina para fora e gane: “Dou vinte e cinco por essa árvore aí”. Em geral, minha amiga tem medo de dizer não; mas dessa vez sacode de pronto a cabeça: “Nem por um dólar”. A mulher do dono da usina insiste. “Um dólar, nem pensar! Cinquenta centavos. Última oferta. Que é isso, mulher, você consegue outra.” Em resposta, minha amiga alega gentilmente: “Duvido. Não há duas coisas iguais neste mundo”. Em casa: Queenie desaba junto ao fogo e dorme até o dia seguinte, roncando alto feito um homem.
“Pois é, não consigo pregar o olho”, declara. “Minha cabeça fica pulando feito uma lebre. Buddy, você acha que a Sra. Roosevelt vai servir nosso bolo no jantar?” Nós nos aconchegamos na cama, e ela aperta minha mão com carinho. “Sua mão já foi tão pequenina. Não acho graça em ver você crescer. Quando você for grande, ainda vamos ser amigos?” Eu digo que sempre seremos. “Mas estou me sentindo tão mal, Buddy. Queria tanto dar uma bicicleta para você. Tentei vender o camafeu que papai me deu. Buddy”, ela hesita, “fiz outra pipa para você.” Então confesso que também fiz uma para ela; e rimos. A vela já está pequena demais para aguentar. Logo se apaga, dando vez à luz das estrelas, às estrelas que rodopiam na janela como uma cantoria visível que a madrugada silencia devagar, devagar.
Provavelmente cochilamos; mas o raiar do dia nos desperta como um banho de água fria: pulamos da cama, de olhos acesos, andando para cima e para baixo, esperando que os outros acordem. De caso pensado, minha amiga derruba uma chaleira no chão da cozinha. Eu sapateio diante das portas fechadas. Um a um, todos da casa emergem, com ar de que gostariam de nos matar; mas é Natal, não há jeito. Primeiro, um belo café-da-manhã: com tudo o que se possa imaginar, de panquecas a esquilo frito, de canjica a mel no favo. O que deixa todos de bom humor, com exceção da minha amiga e de mim. Francamente, estamos tão ansiosos pelos presentes que não comemos nem um bocado.
Bem, acabo me desapontando. Quem não se desapontaria? Um par de meias, uma camisa para a escola dominical, alguns lenços, um suéter de segunda mão e uma assinatura anual de uma revista religiosa para crianças, O Pastorzinho. É de ferver o sangue. É mesmo. Minha amiga tem mais sorte. Um saquinho de tangerinas japonesas é seu melhor presente. Mas ela fica orgulhosa mesmo é de um xale branco de lã, tricotado pela irmã casada. Porém, diz que prefere a pipa que eu fiz. E a pipa é bonita mesmo, mas não tão bonita quanto a que ela fez para mim, azul e pontilhada de estrelas de honra ao mérito verdes e douradas; além do mais, traz meu nome pintado em cima: “Buddy”.
“Buddy, está ventando.” Está ventando, e não há quem nos impeça de correr até um pasto atrás da casa, para onde Queenie disparou a fim de enterrar o osso (e onde, no próximo inverno, Queenie será enterrada também). Ali, mergulhando na relva viçosa que chega à cintura, empinamos as pipas, sentimos como se contorcem no fio tal qual peixes-voadores nadando no vento. Satisfeitos, aquecidos pelo sol, nos esparramamos na relva e descascamos tangerinas, observando as piruetas das pipas. Logo esqueço as meias e o suéter de segunda mão. Sinto-me feliz como se já tivéssemos ganhado o grande prêmio daquele concurso da marca de café. “Meu Deus, como sou boba”, minha amiga exclama, subitamente alerta, como uma mulher que lembra tarde demais dos biscoitos no forno. “Sabe o que eu sempre pensei?”, pergunta em tom de descoberta, rindo não para mim, mas para alguma coisa mais longe. “Sempre pensei que era preciso estar doente e quase à beira da morte para ver o Senhor. E eu achava que, quando Ele viesse, seria como olhar para uma janela de batista: bonito feito um vidro colorido contra a luz, tão brilhante que nem se nota que está escurecendo. E era um consolo pensar nesse brilho tirando toda sensação medonha. Mas agora aposto que não é desse jeito. Aposto que, bem no fim, a gente descobre que o Senhor já se mostrou. Que as coisas, do jeito que são”, a mão faz um círculo, num gesto que reúne as nuvens e as pipas e a relva e Queenie jogando terra em cima do osso, “do jeito que a gente sempre viu, já eram uma visão Dele. Por mim, eu poderia partir deste mundo com o dia de hoje nos olhos.”
É nosso último Natal juntos. A vida nos separa. Aqueles-que-sabem-o-que-é-melhor decidem que o lugar certo para mim é uma escola militar. E assim começa uma sucessão miserável de prisões a toque de clarim, penosos acampamentos de verão sob o jugo da alvorada. Tenho um novo lar também. Mas esse não conta. Meu lar é onde minha amiga está, e para lá eu jamais vou. E lá ela fica, circulando pela cozinha. Só ela e Queenie. Depois, só ela. (“Querido Buddy”, ela escreve, com a letra rebelde e difícil de ler, “ontem o cavalo do Jim Macy deu um coice feio na Queenie. Graças a Deus, ela não sofreu muito. Então a enrolei num lençol bonito e a levei na carreta até o pasto do Simpson, onde ela pode ficar com todos os ossinhos dela...”)
Por mais alguns novembros minha amiga continua a assar os bolos de frutas, sozinha; já não são tantos bolos, só alguns; e é claro que ela sempre me manda “o melhor da fornada”. Além disso, em toda carta enfia uma moeda de dez centavos embrulhada em papel higiênico: “Vá ao cinema e me conte a história”. Mas aos poucos ela começa a me confundir nas cartas com seu outro amigo, o Buddy morto na década de 1880; cada vez mais, o dia 13 não é o único que ela passa na cama; chega certa manhã em novembro, certa manhã de um começo de inverno sem folhas nem pássaros, em que ela não consegue mais levantar para dizer: “Ah, é tempo de bolo de frutas!”. E eu sei muito bem quando é que isso acontece. Uma mensagem a respeito só confirma a notícia que alguma veia secreta já recebera, cortando uma parte insubstituível de mim mesmo, soltando-a feito uma pipa de fio partido. É por isso que, caminhando pelo terreno da escola nesta manhã de dezembro, vasculho o céu. Como se esperasse ver, tal qual corações, um par de pipas voando direto para o paraíso.
Uma mulher de cabelos brancos e tosados está postada diante da janela da cozinha. Usa um par de tênis e um suéter cinza disforme sobre um vestido leve de chita. É baixinha e vivaz como uma galinha garnisé; mas, por conta de uma longa doença na juventude, tem os ombros lamentavelmente arqueados. O rosto é notável — lembra o de Lincoln, marcado como o dele e tingido pelo sol e pelo vento; mas também é delicado, bem desenhado, e os olhos são tímidos e cor de xerez. “Ah”, exclama, o hálito embaçando a vidraça, “é tempo de bolo de frutas!”
Ela está falando comigo. Tenho sete anos; ela tem sessenta e tantos. Somos primos bem distantes e vivemos juntos — pelo menos, desde quando me lembro. Outras pessoas, nossos parentes, moram na casa; e, muito embora tenham poder sobre nós e volta e meia nos façam chorar, em geral não damos muita atenção a elas. Somos o melhor amigo um do outro. Ela me chama de Buddy, em consideração a um menino que foi seu melhor amigo em outros tempos. O outro Buddy morreu lá pela década de 1880, quando ela ainda era uma criança. Ela ainda é uma criança.
“Eu sabia antes de levantar”, ela diz, dando as costas à janela com um alvoroço decidido nos olhos. “O sino da prefeitura soou tão frio e claro. E não havia nenhum passarinho cantando; já foram para algum lugar mais quente, foram, sim. Ah, Buddy, pare de se empanturrar de biscoito e vá buscar a carreta. Veja se encontra o meu chapéu. Temos de assar trinta bolos.”
É sempre a mesma história: chega uma certa manhã de novembro, e minha amiga, como se inaugurasse oficialmente a temporada de Natal que lhe anima a fantasia e aquece o coração, anuncia: “É tempo de bolo de frutas! Vá buscar a carreta! Veja se encontra o meu chapéu”.
O chapéu é encontrado, um chapéu redondo de palha, enfeitado com rosas de veludo desbotadas; já pertenceu a uma parenta mais elegante. Juntos, conduzimos nossa carreta, um carrinho de bebê caindo aos pedaços, para o jardim e para um arvoredo de nogueiras-pecãs. A carreta é minha, quer dizer, foi comprada para mim quando nasci. É feita de vime, está um tanto surrada, e as rodas cambaleiam como as pernas de um bêbado. Mas é um objeto leal; na primavera, nós a levamos aos bosques e a enchemos de flores, arbustos e samambaias selvagens para os vasos da varanda; no verão, a entulhamos com a parafernália de piquenique e as varas de cana e descemos até a beira de um riacho; ela também tem serventia no inverno: como caçamba para carrear lenha do quintal para a cozinha, como cama quente para Queenie, a corajosa terrier branca e laranja que caça ratos e sobreviveu ao mau humor alheio e a duas mordidas de cascavel. Neste momento, Queenie vem trotando ao lado dela.
Três horas depois, estamos de volta à cozinha, descascando um vultoso carregamento de pecãs derrubadas pelo vento. Nossas costas doem de tanto nos agacharmos para catá-las: foi difícil encontrá-las (o grosso da safra tinha sido chacoalhado das árvores e vendido pelos donos do pomar, que não somos nós), escondidas no meio das folhas, da grama enregelada e traiçoeira. Craaaque! Um rangido jovial, estalos de trovão em miniatura ressoam quando as cascas se rompem, e vai crescendo o montículo de polpa doce, oleosa e esbranquiçada na tigela opalina. Queenie quer provar, e de tanto em tanto minha amiga surrupia um pedacinho, sempre comentando a falta que esse pouco vai fazer. “Não pode, Buddy. Se a gente começar, não para mais. E o que tem mal dá para o começo. São trinta bolos.”
A cozinha começa a escurecer. A penumbra transforma a janela em espelho: nossos reflexos se misturam à lua nascente, enquanto trabalhamos à luz da lareira. Por fim, quando a lua já vai alta, jogamos no fogo a última casca e suspiramos ao vê-la queimar. A carreta está vazia, a tigela está cheia até a borda. Jantamos (biscoitos, bacon, geleia de amora-preta) e falamos do dia seguinte.
Começa nesse dia o trabalho de que mais gosto: as compras. Cerejas e cidras, gengibre, baunilha e abacaxi em lata, frutas caramelizadas, uvas-passas e nozes e uísque e, ah, tanta farinha e manteiga, tantos ovos, especiarias, essências; desse jeito, vamos precisar de um pônei para puxar a carreta. Mas, antes que as compras possam ser feitas, há a questão do dinheiro. Nós dois não temos nenhum. Exceto pelas ninharias sovinas que as pessoas da casa nos dão (dez centavos são considerados uma dinheirama); ou pelo que nós mesmos arrecadamos em várias atividades: montando um bazar de velharias, vendendo baldes de amoras-pretas catadas uma a uma, potes de geleia caseira, gelatina de maçã e compota de pêssego, colhendo flores para funerais e casamentos.
Uma vez, ficamos com o septuagésimo nono prêmio, cinco dólares, de um concurso nacional de futebol. Não entendemos nada de futebol. É que simplesmente entramos em todo concurso de que ouvimos falar: no momento, nossas esperanças recaem no grande prêmio de cinquenta mil dólares oferecido a quem der o melhor nome a uma nova marca de café (sugerimos “am”, e, depois de alguma hesitação, pois minha amiga pensou que talvez isso fosse sacrílego, acrescentamos o slogan “am! Amém!”).
Para dizer a verdade, nosso único empreendimento realmente lucrativo foi o Museu de Monstros e Milagres, que montamos num telheiro do quintal, dois verões atrás. Os Milagres eram um estereoscópio com cromos de panoramas de Washington e de Nova York, cedidos por uma parenta que estivera nesses lugares (ela ficou furiosa ao descobrir por que tínhamos pedido os cromos emprestados); os Monstros se resumiam a um pintinho de três patas, chocado por uma de nossas galinhas. Todo mundo nas redondezas queria ver o pintinho: cobrávamos cinco centavos dos adultos e dois das crianças. E embolsamos uns bons vinte dólares antes que o museu fechasse em virtude do falecimento de sua atração principal.
Mas, de um modo ou de outro, todo ano fazemos nossas economias de Natal, nosso Fundo Bolo de Frutas. Mantemos esse dinheiro escondido numa velha bolsa de contas guardada embaixo de uma tábua solta do piso embaixo do penico embaixo da cama da minha amiga. A bolsa raramente é removida desse lugar seguro, exceto quando fazemos um depósito ou, como acontece todo sábado, um saque; pois aos sábados tenho direito a dez centavos para ir ao cinema. Minha amiga nunca foi ao cinema, nem pretende: “Prefiro ouvir você contar a história, Buddy. Assim posso imaginar mais. Além disso, uma pessoa da minha idade precisa economizar a vista. Quando o Senhor chegar, quero ver tudo direitinho”. Além de jamais ter visto um filme, ela jamais: comeu num restaurante, viajou além de oito quilômetros da casa, recebeu ou enviou um telegrama, leu nada diferente dos quadrinhos ou da Bíblia, usou maquiagem, praguejou, desejou mal a ninguém, mentiu de caso pensado, deixou um cão faminto continuar com fome.
E aqui vão algumas coisas que ela fez e faz: matou com uma enxada a maior cascavel (com dezesseis guizos) que já se viu no condado, cheira rapé (em segredo), domestica beija-flores (tente fazer isso) até que venham pousar num dedo, conta histórias de fantasmas (nós dois acreditamos em fantasmas) de dar calafrios no meio do verão, fala sozinha, passeia na chuva, cultiva as camélias mais bonitas das redondezas, sabe a receita de todo tipo de antigas poções indígenas, até mesmo a de um mágico removedor de verrugas.
Agora, terminado o jantar, vamos nos retirar para o quarto, que fica bem nos fundos da casa; é lá que minha amiga dorme, numa cama de metal pintada de rosa, que é sua cor preferida, e coberta por uma colcha de retalhos. Silenciosamente, chafurdando nos prazeres da conspiração, tiramos a bolsa de contas do esconderijo e espalhamos o conteúdo dela sobre a colcha de retalhos. Notas de um dólar, bem enroladas e verdes como brotos de primavera. Moedas sombrias de cinquenta centavos, pesadas o bastante para fechar os olhos de um morto. Lindas moedas de dez, as mais alegres, as únicas que tilintam de verdade. Moedas de cinco e de vinte e cinco, lisas como pedras de córrego. Mas, na maior parte, um monte odioso de centavos azedos. No verão passado, as demais pessoas da casa nos ofereceram um centavo a cada vinte e cinco moscas mortas. Ah, a matança de agosto: as moscas que subiram aos céus! Mas não foi um trabalho que nos desse orgulho. E agora, contando os centavos, é como se novamente contabilizássemos moscas mortas. Nenhum de nós é bom de números; contamos devagar, nos perdemos, recomeçamos. Segundo os cálculos dela, temos doze dólares e setenta e três centavos; segundo os meus, exatamente treze dólares. “Espero que você esteja errado, Buddy. Não se brinca com o número 13. Os bolos vão murchar. Ou alguém vai parar no cemitério. Meu Deus, por nada deste mundo eu sairia da cama num dia 13.” É verdade: ela sempre passa o dia 13 na cama. Assim, por via das dúvidas, subtraímos um centavo e o jogamos pela janela.
Dos ingredientes para o bolo de frutas, o uísque é o mais caro e também o mais difícil de conseguir: as leis estaduais proíbem sua venda. Mas todo mundo sabe que se pode comprar uma garrafa do sr. Haha Jones. E, no dia seguinte, tendo concluído nossas compras mais prosaicas, seguimos para o endereço comercial do sr. Haha, um café “pecaminoso” (para citar a opinião pública), onde se dança e se come peixe frito, perto do rio. Já estivemos lá, e na mesma missão; mas, nos anos anteriores, fizemos negócio com a mulher de Haha, uma índia de pele escura feito iodo, cabelos descaradamente oxigenados e aparência exausta. Na verdade, jamais vimos o marido, mas ouvimos dizer que é índio também. Um gigante com cicatrizes de navalha no rosto. É chamado de Haha por ser um homem soturno, que nunca ri.
À medida que nos aproximamos do café (uma grande cabana de troncos, enfeitada por dentro e por fora com grinaldas feitas de lâmpadas berrantes, junto à margem enlameada do rio, à sombra de árvores carregadas de um musgo que toma conta dos galhos como uma neblina escura), nossos passos se tornam mais lentos. Até mesmo Queenie para de saracotear e segue ao nosso lado. Houve gente que morreu no café de Haha. Cortada em pedaços. Um golpe na cabeça. Há um caso que vai para o tribunal na semana que vem. É claro que esses acontecimentos se dão à noite, quando as luzes coloridas projetam sombras fantasiosas e a vitrola geme. Durante o dia, o café de Haha parece derreado e deserto.
Bato na porta, Queenie late, minha amiga chama: “Dona Haha? Senhora? Alguém em casa?”. Passos. A porta se abre. Nossos corações se viram pelo avesso. É o sr. Haha Jones em pessoa! E ele é um gigante; tem cicatrizes, e não ri. Não, ele nos encara com olhos satanicamente revirados e exige saber: “O que vocês querem com Haha?”. Por um instante, ficamos paralisados demais para responder. Mas logo minha amiga meio que recobra a voz, ao menos uma voz sussurrante: “Por favor, sr. Haha, gostaríamos de comprar um litro do seu melhor uísque”. Os olhos do índio reviram ainda mais. Quem diria? Haha está sorrindo! Rindo mesmo. “E qual de vocês é o bebum?”
“É para fazer bolo de frutas, sr. Haha. É para cozinhar.” Ele volta a ficar sério. Franze a testa. “Isso não é jeito de gastar uísque bom.” Mesmo assim, recua para o café sombrio e, segundos mais tarde, reaparece com uma garrafa de bebida sem rótulo, amarelo-margarida. Exibe o brilho à luz do sol e diz: “Dois dólares”. Pagamos com moedas de cinco, de dez e de um. De repente, quando o índio chacoalha as moedas na mão como um par de dados, seu rosto se descontrai. “Vamos fazer o seguinte”, propõe, vertendo o dinheiro de volta na bolsa de contas, “em vez de pagar com dinheiro, mandem um desses bolos para mim.” “Bem”, minha amiga comenta no caminho de volta, “eis um sujeito amável.
Vamos pôr uma xícara de passas a mais no bolo dele.” O fogão preto, repleto de carvão e lenha, brilha como uma abóbora iluminada. Os batedores de ovos rodopiam, as colheres giram em vasilhas com manteiga e açúcar, a baunilha adoça, o gengibre tempera o ar; cheiros que se desmancham e pinicam o nariz, saturando a cozinha, inundando a casa, saindo para o mundo com as baforadas da chaminé. Em quatro dias o trabalho está feito. Trinta e um bolos, umedecidos com uísque, descansam nas janelas e nas prateleiras. Mas para quem? Para amigos. Não necessariamente para amigos próximos; na verdade, a maior parte foi feita para pessoas que talvez tenhamos visto uma vez, quando muito. Pessoas que caem nas nossas graças. Como o presidente Roosevelt. Como o reverendo e a Sra. J. C. Lucey, missionários batistas em Bornéu que vieram dar palestras aqui no inverno passado. Ou o amolador de facas, que visita a cidade duas vezes por ano. Ou Abner Packer, o motorista do ônibus que chega às seis de Mobile, o qual troca acenos conosco todo dia ao passar num turbilhão de poeira. Ou como os Wiston, um casal de jovens da Califórnia cujo carro, uma tarde, quebrou em frente à nossa casa e que passaram uma hora agradável conversando conosco na varanda (o jovem Sr. Wiston bateu uma foto nossa, a única que temos). Será que é porque minha amiga é tímida com todo mundo, exceto com estranhos, que todos esses estranhos e conhecidos casuais parecem ser nossos melhores amigos? Acho que sim. Além disso, nossos álbuns com papel timbrado da Casa Branca, mensagens esparsas da Califórnia e de Bornéu, e cartões-postais baratos do amolador de facas fazem que nos sintamos conectados a mundos momentosos que ficam além da cozinha com sua vista para um céu que nos detém.
Mas agora, em dezembro, um galho pelado de figueira arranha a vidraça. A cozinha está vazia, os bolos se foram; ontem carreamos os últimos até a agência do correio, onde o preço dos selos esvazia nossos bolsos. Estamos falidos. Eu me entristeço, mas minha amiga insiste em festejar — com dois dedos de uísque no fundo da garrafa de Haha. Queenie ganha uma colherada numa vasilha de café (ela gosta de café forte e com sabor de chicória). O resto dividimos em dois potes de geleia. Ficamos temerosos diante da perspectiva de beber uísque puro, cujo gosto provoca expressões contorcidas e arrepios de amargor. Mas aos poucos começamos a cantar, ao mesmo tempo, cada qual uma canção. Não sei a letra da minha, só sei: “Come on along, come on along, to the dark-town strutters’ ball”. Mas sei dançar, e é isto que finjo ser: um sapateador de cinema. Minha sombra dançante evolui nas paredes; nossas vozes fazem tremer a porcelana; rimos como se mãos invisíveis nos fizessem cócegas. Queenie rola pelo chão, suas patas escavam o ar, algo parecido com um sorriso estica seus lábios negros. Quanto a mim, sinto-me tão quente e faiscante quanto a lenha que desmorona na lareira, tão livre quanto o vento na chaminé. Minha amiga valsa ao redor do fogão, com a barra da pobre saia de chita presa entre os dedos como se fosse um vestido de festa: “Show me the way to go home”, ela canta, os tênis guinchando no assoalho. “Show me the way to go home.”
Entram dois parentes. Muito bravos. Poderosos, com olhos que recriminam e línguas que ralham. Ouvimos o que têm a dizer, as palavras martelam uma canção colérica: “Uma criança de sete anos fedendo a uísque! onde você está com a cabeça? uma criança de sete anos! ficou maluca? começa assim a desgraça! lembra da prima Kate? do tio Charlie? do cunhado do tio Charlie? uma vergonha, um escândalo, uma humilhação! de joelhos, reze, vamos, reze ao Senhor!”. Queenie se esgueira para debaixo do fogão. Minha amiga fixa os olhos nos sapatos, o queixo estremece, ela levanta a saia e assoa o nariz, depois corre para o quarto.
A cidade já foi dormir há muito tempo, e a casa está em silêncio, exceto pelo badalar dos relógios e pelos estalos do fogo moribundo, mas ela continua chorando num travesseiro úmido feito um lenço de viúva. “Não chore”, digo, sentado ao pé da cama e tiritando apesar do pijama de flanela, que guarda o cheiro do xarope para tosse do inverno passado, “não chore”, peço, brincando com os pés dela, fazendo cócegas nos dedos, “você é velha demais para isso.” “É que eu sou”, ela soluça, “eu sou velha demais. Velha e esquisita.” “Esquisita, não. Engraçada. Mais que todo mundo. Escute. Se não parar de chorar, estará tão cansada amanhã que não vai dar para a gente cortar a árvore.” Ela se apruma. Queenie pula para cima da cama (onde não é admitida) para lamber as bochechas da minha amiga. “Sei onde encontrar umas bem bonitas, Buddy. E são azevinhos. Com bagas do tamanho dos seus olhos. Ficam bem no meio do bosque. Mais longe do que você já foi. Papai nos trazia árvores de lá, ele as carregava no ombro. Isso já faz cinquenta anos. Bem, eu mal posso esperar por amanhã.”
De manhã. O orvalho congelado faz a relva brilhar; o sol, redondo feito uma laranja e laranja feito uma lua de verão, pende no horizonte, lustra os bosques prateados pelo inverno. Um peru selvagem gruguleja. Um porco desgarrado grunhe no meio do matagal. Logo chegamos à margem de cursos de água mais fundos e velozes, onde precisamos abandonar a carreta. Queenie é a primeira a vadear os riachos, nadando e latindo contra a rapidez da correnteza, num frio de pegar pneumonia.
Nós a seguimos, erguendo os sapatos e o equipamento (uma machadinha, um saco de aniagem) acima da cabeça. Mais um quilômetro e meio de espinhos que nos castigam, ouriços e sarças que se agarram em nossas roupas, folhas de pinheiro pontudas e cor de ferrugem, fungos coloridos e penas soltas. Aqui e ali, um relance, um alvoroço, nos lembram que nem todos os pássaros voaram para o sul. O caminho se desenrola entre poças amarelo-limão de sol e túneis escuros de trepadeiras. Outro córrego a cruzar: uma armada irrequieta de trutas pintadas remexe a água ao redor, e sapos do tamanho de um prato treinam mergulhos de barriga; castores trabalhadores constroem um dique.
Na outra margem, Queenie se sacode e estremece. Minha amiga está tremendo também, não de frio, mas de entusiasmo. De uma das rosas esfarrapadas do chapéu cai uma pétala quando ela levanta a cabeça e aspira o ar tomado pelo cheiro dos pinheiros. “Estamos quase lá, dá para sentir o cheiro, não dá, Buddy?”, ela diz, como se nos aproximássemos do oceano. E, de fato, é uma espécie de oceano. Acres aromáticos de árvores de Natal, azevinhos de folhas espinhentas. Framboesas rebrilham como sinetas de porcelana, corvos negros se precipitam aos berros sobre elas.
Tendo enchido nossos sacos de aniagem com galhos e bagas para enfeitar uma dúzia de janelas, passamos a escolher uma árvore. “Ela deve ter”, minha amiga pondera, “o dobro da altura de um menino. Para menino nenhum roubar a estrela.” Escolhemos uma com o dobro da minha altura. Um belo e bravo brutamontes que resiste a trinta golpes de machadinha antes de vergar e quebrar com um estalo. Arrastando-o como a uma presa, começamos a longa jornada de volta. A cada tantos metros abandonamos a luta, sentamos e ofegamos. Mas temos a força de caçadores triunfantes; isso e o perfume gélido e viril da árvore nos reavivam e nos tocam para a frente.
Muitos cumprimentos acompanham nosso retorno crepuscular pela estrada de terra roxa, rumo à cidade; mas minha amiga é escorregadia e evasiva quando os transeuntes elogiam o tesouro empoleirado na nossa carreta: que bela árvore, de onde veio? “Daqueles lados”, ela murmura vagamente. A certa altura, um carro para, e a mulher rica e preguiçosa do dono da usina se inclina para fora e gane: “Dou vinte e cinco por essa árvore aí”. Em geral, minha amiga tem medo de dizer não; mas dessa vez sacode de pronto a cabeça: “Nem por um dólar”. A mulher do dono da usina insiste. “Um dólar, nem pensar! Cinquenta centavos. Última oferta. Que é isso, mulher, você consegue outra.” Em resposta, minha amiga alega gentilmente: “Duvido. Não há duas coisas iguais neste mundo”. Em casa: Queenie desaba junto ao fogo e dorme até o dia seguinte, roncando alto feito um homem.
Um baú no sótão contém: uma caixa de sapatos com estolas de arminho (da pelerine usada em noites de ópera por uma senhora esquisita que uma vez alugou um quarto na casa), emaranhados de lantejoulas corroídas e amarelecidas pelo tempo, uma estrela prateada, uma fieira curta de lâmpadas com aspecto de doces, desencapada e certamente perigosa. Decorações excelentes, na medida do possível, o que não é muita coisa: minha amiga quer que a árvore resplandeça “que nem uma janela de família batista”, arriando sob a neve ornamental. Mas não temos dinheiro para os esplendores made in Japan da loja de artigos populares. De modo que fazemos o que sempre fizemos: sentamos por dias e dias à mesa da cozinha com tesouras e lápis e resmas de papel colorido. Desenho os moldes, e minha amiga corta: montes de gatos e também de peixes (são fáceis de desenhar), algumas maçãs, algumas melancias, uns poucos anjos alados, feitos do papel-alumínio que protege as barras de chocolate Hershey. Usamos alfinetes de segurança para prender essas criações à árvore; como toque final, salpicamos os galhos de algodão desfiado (colhido em agosto com esse propósito). Minha amiga, examinando o efeito, aperta as mãos, com os dedos entrelaçados. “Diga a verdade, Buddy. Não dá até vontade de comer?” Queenie tenta comer um anjo.
Depois de trançarmos e decorarmos guirlandas para todas as janelas, nosso próximo projeto é preparar os presentes para a família. Lenços tingidos para as mulheres; para os homens, um xarope caseiro de limão, alcaçuz e aspirina, a ser tomado “aos primeiros sintomas de resfriado ou após uma caçada”. Mas, quando chega a hora de prepararmos nossos próprios presentes, minha amiga e eu nos separamos para trabalhar em segredo. Eu gostaria de comprar para ela uma faca de cabo perolado, um rádio, meio quilo de cerejas cobertas de chocolate (certa vez, provamos algumas, e desde então ela jura: “Eu poderia viver só disso, Buddy, meu Deus, como eu poderia — e isso não é usar o nome Dele em vão”). Em vez disso, estou fazendo uma pipa. Ela gostaria de me dar uma bicicleta (já disse em milhares de ocasiões: “Se ao menos eu pudesse, Buddy. Já é ruim ter de viver sem alguma coisa que a gente quer; mas, arre, o que me tira do sério é não poder dar a alguém uma coisa que a gente quer que o outro tenha. Mas um dia desses eu consigo, Buddy. Vou arranjar uma bicicleta para você. Não me pergunte como. Roubando, quem sabe”). Em vez disso, tenho quase certeza de que ela está fazendo uma pipa para mim — como no ano passado e no retrasado: antes disso, trocamos estilingues. O que para mim está muito bom. Somos mestres da pipa, estudamos o vento feito marinheiros; minha amiga, mais experiente que eu, consegue levantar uma pipa quando a brisa mal remexe as nuvens.
Na véspera de Natal, juntamos cinco centavos e vamos ao açougue comprar o presente tradicional de Queenie, um osso de boi. O osso, embrulhado em papel de presente, é posto no alto da árvore, perto da estrela prateada. Queenie sabe que está bem ali. Senta ao pé da árvore, olhando para cima num êxtase famélico: quando chega a hora de dormir, ela se recusa a arredar dali. Sua agitação só tem igual na minha. Chuto os cobertores e viro o travesseiro como se esta fosse uma noite escaldante de verão. Em algum lugar, um galo canta, fora de hora, pois o sol ainda está do outro lado do mundo. “Buddy, está acordado?” É minha amiga, chamando do seu quarto, contíguo ao meu; num instante, está sentada na minha cama, segurando uma vela.
“Pois é, não consigo pregar o olho”, declara. “Minha cabeça fica pulando feito uma lebre. Buddy, você acha que a Sra. Roosevelt vai servir nosso bolo no jantar?” Nós nos aconchegamos na cama, e ela aperta minha mão com carinho. “Sua mão já foi tão pequenina. Não acho graça em ver você crescer. Quando você for grande, ainda vamos ser amigos?” Eu digo que sempre seremos. “Mas estou me sentindo tão mal, Buddy. Queria tanto dar uma bicicleta para você. Tentei vender o camafeu que papai me deu. Buddy”, ela hesita, “fiz outra pipa para você.” Então confesso que também fiz uma para ela; e rimos. A vela já está pequena demais para aguentar. Logo se apaga, dando vez à luz das estrelas, às estrelas que rodopiam na janela como uma cantoria visível que a madrugada silencia devagar, devagar.
Provavelmente cochilamos; mas o raiar do dia nos desperta como um banho de água fria: pulamos da cama, de olhos acesos, andando para cima e para baixo, esperando que os outros acordem. De caso pensado, minha amiga derruba uma chaleira no chão da cozinha. Eu sapateio diante das portas fechadas. Um a um, todos da casa emergem, com ar de que gostariam de nos matar; mas é Natal, não há jeito. Primeiro, um belo café-da-manhã: com tudo o que se possa imaginar, de panquecas a esquilo frito, de canjica a mel no favo. O que deixa todos de bom humor, com exceção da minha amiga e de mim. Francamente, estamos tão ansiosos pelos presentes que não comemos nem um bocado.
Bem, acabo me desapontando. Quem não se desapontaria? Um par de meias, uma camisa para a escola dominical, alguns lenços, um suéter de segunda mão e uma assinatura anual de uma revista religiosa para crianças, O Pastorzinho. É de ferver o sangue. É mesmo. Minha amiga tem mais sorte. Um saquinho de tangerinas japonesas é seu melhor presente. Mas ela fica orgulhosa mesmo é de um xale branco de lã, tricotado pela irmã casada. Porém, diz que prefere a pipa que eu fiz. E a pipa é bonita mesmo, mas não tão bonita quanto a que ela fez para mim, azul e pontilhada de estrelas de honra ao mérito verdes e douradas; além do mais, traz meu nome pintado em cima: “Buddy”.
“Buddy, está ventando.” Está ventando, e não há quem nos impeça de correr até um pasto atrás da casa, para onde Queenie disparou a fim de enterrar o osso (e onde, no próximo inverno, Queenie será enterrada também). Ali, mergulhando na relva viçosa que chega à cintura, empinamos as pipas, sentimos como se contorcem no fio tal qual peixes-voadores nadando no vento. Satisfeitos, aquecidos pelo sol, nos esparramamos na relva e descascamos tangerinas, observando as piruetas das pipas. Logo esqueço as meias e o suéter de segunda mão. Sinto-me feliz como se já tivéssemos ganhado o grande prêmio daquele concurso da marca de café. “Meu Deus, como sou boba”, minha amiga exclama, subitamente alerta, como uma mulher que lembra tarde demais dos biscoitos no forno. “Sabe o que eu sempre pensei?”, pergunta em tom de descoberta, rindo não para mim, mas para alguma coisa mais longe. “Sempre pensei que era preciso estar doente e quase à beira da morte para ver o Senhor. E eu achava que, quando Ele viesse, seria como olhar para uma janela de batista: bonito feito um vidro colorido contra a luz, tão brilhante que nem se nota que está escurecendo. E era um consolo pensar nesse brilho tirando toda sensação medonha. Mas agora aposto que não é desse jeito. Aposto que, bem no fim, a gente descobre que o Senhor já se mostrou. Que as coisas, do jeito que são”, a mão faz um círculo, num gesto que reúne as nuvens e as pipas e a relva e Queenie jogando terra em cima do osso, “do jeito que a gente sempre viu, já eram uma visão Dele. Por mim, eu poderia partir deste mundo com o dia de hoje nos olhos.”
É nosso último Natal juntos. A vida nos separa. Aqueles-que-sabem-o-que-é-melhor decidem que o lugar certo para mim é uma escola militar. E assim começa uma sucessão miserável de prisões a toque de clarim, penosos acampamentos de verão sob o jugo da alvorada. Tenho um novo lar também. Mas esse não conta. Meu lar é onde minha amiga está, e para lá eu jamais vou. E lá ela fica, circulando pela cozinha. Só ela e Queenie. Depois, só ela. (“Querido Buddy”, ela escreve, com a letra rebelde e difícil de ler, “ontem o cavalo do Jim Macy deu um coice feio na Queenie. Graças a Deus, ela não sofreu muito. Então a enrolei num lençol bonito e a levei na carreta até o pasto do Simpson, onde ela pode ficar com todos os ossinhos dela...”)
Por mais alguns novembros minha amiga continua a assar os bolos de frutas, sozinha; já não são tantos bolos, só alguns; e é claro que ela sempre me manda “o melhor da fornada”. Além disso, em toda carta enfia uma moeda de dez centavos embrulhada em papel higiênico: “Vá ao cinema e me conte a história”. Mas aos poucos ela começa a me confundir nas cartas com seu outro amigo, o Buddy morto na década de 1880; cada vez mais, o dia 13 não é o único que ela passa na cama; chega certa manhã em novembro, certa manhã de um começo de inverno sem folhas nem pássaros, em que ela não consegue mais levantar para dizer: “Ah, é tempo de bolo de frutas!”. E eu sei muito bem quando é que isso acontece. Uma mensagem a respeito só confirma a notícia que alguma veia secreta já recebera, cortando uma parte insubstituível de mim mesmo, soltando-a feito uma pipa de fio partido. É por isso que, caminhando pelo terreno da escola nesta manhã de dezembro, vasculho o céu. Como se esperasse ver, tal qual corações, um par de pipas voando direto para o paraíso.
Truman Capote
O bruxo adiado
Em Santiago havia um deão que desejava aprender a arte da magia. Ouviu dizer que dom Illán de Toledo a conhecia mais que ninguém, e foi a Toledo procurá-lo.
Dez dias depois, vieram dois escudeiros muito bem vestidos, que se lançaram aos pés dele e beijaram suas mãos e o saudaram como bispo. Quando dom Illán viu aquelas coisas, dirigiu-se com muita alegria a nosso prelado e disse-lhe que agradecia ao Senhor que tão boas-novas tivessem chegado a sua casa. Logo lhe pediu o decanato vacante para um de seus filhos. O bispo informou-o de que reservara o decanato para seu próprio irmão, mas que decidira favorecê-lo e que partissem juntos para Santiago.
Foram os três para Santiago, onde os receberam com honrarias. Seis meses depois, o bispo recebeu mensageiros do papa, que lhe oferecia o arcebispado de Tolosa, deixando em suas mãos a nomeação de um sucessor. Quando dom Illán soube disso, lembrou-o da antiga promessa e pediu-lhe aquele título para o filho. O arcebispo informou-o de que reservara o bispado para seu próprio tio, irmão de sua mãe, mas que decidira favorecê-lo e que partissem juntos para Tolosa. Dom Illán não teve mais remédio senão assentir.
Foram os três para Tolosa, onde os receberam com honrarias e missas. Dois anos depois, o arcebispo recebeu mensageiros do papa, que lhe oferecia o capelo de cardeal, deixando em suas mãos a nomeação de um sucessor. Quando dom Illán soube disso, lembrou-o da antiga promessa e pediu-lhe aquele título para o filho.
— Pois então terei de comer as perdizes que encomendei para esta noite.
A criada apresentou-se e dom Illán disse-lhe que as assasse. Àquelas palavras, o papa se viu na cela subterrânea em Toledo, somente deão de Santiago, e tão envergonhado de sua ingratidão que não atinava em se desculpar. Dom Illán disse que bastava aquela prova, negou-lhe sua parte das perdizes e acompanhou-o até a rua, onde lhe desejou boa viagem e se despediu dele com grande cortesia.
No dia de sua chegada, dirigiu-se à casa de dom Illán e encontrou-o lendo num quarto afastado. Ele o recebeu com bondade e disse-lhe que adiasse o motivo da visita até depois do almoço. Indicou-lhe um aposento muito fresco e disse-lhe que sua vinda muito o alegrava. Depois de comer, o deão contou-lhe a razão da visita e pediu a ele que lhe ensinasse a ciência mágica. Dom Illán disse-lhe que adivinhava que era deão, homem de boa posição e futuro, e que tinha medo de logo ser esquecido por ele. O deão prometeu-lhe e assegurou que nunca esqueceria aquele favor, e que estaria sempre às suas ordens. Uma vez acertada a questão, explicou dom Illán que as artes mágicas não podiam ser aprendidas senão num lugar afastado, e, tomando de sua mão, levou-o a um quarto contíguo, em cujo piso havia uma grande argola de ferro. Disse antes à criada que preparasse perdizes para o jantar, mas que não as pusesse para assar até que mandasse. Juntos, os dois ergueram a argola e desceram por uma escada de pedra bem lavrada, até que pareceu ao deão que tinham descido tanto que o leito do Tejo estava sobre eles. Ao pé da escada havia uma cela e em seguida uma biblioteca e mais além uma espécie de gabinete com instrumentos mágicos. Examinaram os livros e estavam nisso quando entraram dois homens com uma carta para o deão, escrita pelo bispo, seu tio, na qual o informava de que estava muito doente e que, se quisesse encontrá-lo vivo, não demorasse. O deão ficou muito contrariado com aquelas novas, tanto pela doença do tio quanto por ter de interromper os estudos. Optou por escrever uma desculpa e enviou-a para o bispo. Três dias depois, chegaram alguns homens de luto com outras cartas para o deão, nas quais se lia que o bispo falecera, que estavam escolhendo seu sucessor e que esperavam pela graça de Deus poder elegê-lo. Diziam também que não se incomodasse em vir, já que parecia muito melhor que o elegessem na sua ausência.
Dez dias depois, vieram dois escudeiros muito bem vestidos, que se lançaram aos pés dele e beijaram suas mãos e o saudaram como bispo. Quando dom Illán viu aquelas coisas, dirigiu-se com muita alegria a nosso prelado e disse-lhe que agradecia ao Senhor que tão boas-novas tivessem chegado a sua casa. Logo lhe pediu o decanato vacante para um de seus filhos. O bispo informou-o de que reservara o decanato para seu próprio irmão, mas que decidira favorecê-lo e que partissem juntos para Santiago.
Foram os três para Santiago, onde os receberam com honrarias. Seis meses depois, o bispo recebeu mensageiros do papa, que lhe oferecia o arcebispado de Tolosa, deixando em suas mãos a nomeação de um sucessor. Quando dom Illán soube disso, lembrou-o da antiga promessa e pediu-lhe aquele título para o filho. O arcebispo informou-o de que reservara o bispado para seu próprio tio, irmão de sua mãe, mas que decidira favorecê-lo e que partissem juntos para Tolosa. Dom Illán não teve mais remédio senão assentir.
Foram os três para Tolosa, onde os receberam com honrarias e missas. Dois anos depois, o arcebispo recebeu mensageiros do papa, que lhe oferecia o capelo de cardeal, deixando em suas mãos a nomeação de um sucessor. Quando dom Illán soube disso, lembrou-o da antiga promessa e pediu-lhe aquele título para o filho.
O cardeal informou-o de que reservara o arcebispado para seu próprio tio, irmão de sua mãe, mas que decidira favorecê-lo e que partissem juntos para Roma. Dom Illán não teve mais remédio senão assentir. Foram os três para Roma, onde os receberam com honrarias e missas e procissões. Quatro anos depois morreu o papa e nosso cardeal foi eleito para o papado por todos os demais. Quando dom Illán soube disso, beijou os pés de Sua Santidade, lembrou-o da antiga promessa e pediu-lhe o cardinalato para o filho. O papa ameaçou-o com a prisão, dizendo-lhe que bem sabia ele que não era mais que um bruxo e que em Toledo fora professor de artes mágicas. O miserável dom Illán disse que ia voltar para a Espanha e lhe pediu alguma coisa para comer durante o caminho. O papa não acedeu. Então dom Illán (cujo rosto havia remoçado de um modo estranho) disse com uma voz sem tremor:
— Pois então terei de comer as perdizes que encomendei para esta noite.
A criada apresentou-se e dom Illán disse-lhe que as assasse. Àquelas palavras, o papa se viu na cela subterrânea em Toledo, somente deão de Santiago, e tão envergonhado de sua ingratidão que não atinava em se desculpar. Dom Illán disse que bastava aquela prova, negou-lhe sua parte das perdizes e acompanhou-o até a rua, onde lhe desejou boa viagem e se despediu dele com grande cortesia.
(Do Livro de Patrônio do infante dom Juan Manuel, que o derivou de um livro árabe: As quarenta manhãs e as quarenta noites)
Jorge Luís Borges, "História universal da infâmia"
quarta-feira, outubro 7
O palhaço
Naquele inverno, só para fazer alguma coisa, comecei a vagar pelos restaurantes tocando violão enquanto meu companheiro cantava. O companheiro chamava-se Milone apelidado "o professor" porque ensinara ginástica sueca. Tratava-se de um homenzarrão de mais ou menos cinquenta anos, não exatamente gordo, mas quadrado, com um rosto denso e ameaçador e um corpaço maciço que fazia com que as cadeiras rangessem quando se sentava.
Eu tocava o violão do meu jeito, isto é, quase sem me mexer, com os olhos baixos, porque sou um artista e não um bufão; quem bancava o palhaço, ao contrário, era Milone. Começava meio sem querer, em pé, ereto, apoiado a uma parede, o chapeuzinho em cima dos olhos, os polegares sob a axila, a barriga fora das calças, o cinto embaixo da barriga: parecia um bêbado cantando ao luar. Depois, pouco a pouco, esquentava e, mesmo sem cantar de verdade, porque não tinha voz nem ouvido, acabava dando um espetáculo de si mesmo, ou melhor, como eu já disse, bancava o palhaço.
Sua especialidade eram cançõezinhas sentimentais, as mais famosas, as quem normalmente comovem e enternecem, porém na sua boca aquelas canções não comoviam, mas faziam rir, porque ele sabia torná-las ridículas, de um jeito todo seu, desagradável e triste.
Eu não sei o que tinha aquele homem; se na juventude alguma mulher tinha aprontado com ele; ou talvez ele tivesse nascido daquele jeito, com um caráter que se comprazia em tornar ridículas as coisas boas e bonitas; o fato é que ele não era só um ator cômico, não, ele colocava não sei que raiva no que fazia e era necessária toda a obtusidade das pessoas enquanto comem para não perceberem que ele não era ridículo, mas digno de penas.
Superava a si mesmo sobretudo quando se tratava de imitar os movimentos, as caretas e as afetações femininas. O que faz uma mulher, sorri maliciosamente? E ele, por baixo da aba do chapéu, esboçava um riso de escárnio, vulgar, de prostituta. Requebrava, como se diz, um pouco os quadris? E ele começava a dança do ventre, jogando para o lado as nádegas quadradas e maciças como um pacote. Tinha uma voz suave? E ele, apertando a boca, emitia uma voz de flauta, melosa, quase estomacal.
Nunca tinha medida, ultrapassava sempre o limite, tornava-se obsceno, repugnante. De tal maneira, que eu sempre me envergonhava, porque uma coisa é acompanhar um cantor ao violão, outra coisa é servir de muleta a um palhaço. Eu me lembrava de ter tocado não muito tempo atrás as mesmas músicas cantadas seriamente por um excelente artista; e sentia pena de vê-las reduzidas àquilo, irreconhecíveis e indecentes.
Falei com ele numa ocasião em que estávamos batendo perna de rua em rua, de um restaurante a outro. "Mas o que as mulheres fizeram para você?"
Carrancudo, debochado, desvairado, puxa-saco, Milone se apresentava, dizendo: "Podem pedir", e aquele "podem pedir" já era tão ridículo ao seu modo, que todos morriam de rir. Nisso chegava o macarrão e, enquanto o dono do restaurante esfalfava-se para servir, Milone, com uma voz idiota, anunciava: "Uma canção muito bonita: Quando Rosina desce do vilarejo... eu vou fazer a Rosina" Imaginem os clientes: quando o viam representando Rosina, com as gagues e as obscenidades de sempre, ficavam com os espaguetes pendurados no garfo, entre a boca e o prato. E não se tratava de grupos de açougueiros ou coisa parecida, eram todos grã-finos: os homens de terno azul escuro, engomados, uma pérola espetada na gravata; as mulheres de casaco de pele, cobertas de joias, delicadas, preciosas. Falavam entre si, enquanto Milone bancava o palhaço: "É bom... é realmente bom", ou até mesmo alguém, alarmado, gritava: "Atenção, não contem por aí que nos o descobrimos... se não a coisa desanda".
Entre as suas vulgaridades, Milone tinha uma canção em que, em uma determinada hora, para tornar o personagem mais ridículo, fazia com a boca um certo barulho que eu nem lhes conto. E você acreditam? Eram exatamente as madames mais afetadas que pediam bis para esta música.
É preciso dizer que, por ser ver tão aplaudido, o sucesso tinha subido à cabeça de Milone. Morava na casa de uma costureira, em um quarto mobiliado, escuro e úmido, na via Cimarra. Agora, todas as vezes que eu ia pegá-lo alguma nova grosseria, uma nova vulgaridade. Acrescentava um certo escrúpulo mórbido, como se tratasse de um grande ator preparando-se para a apresentação; e eu, sentado na cama, olhando-o simular a dança do ventre na frente do espelho da cômoda, perguntava-me se, pro acaso, ele não fosse meio louco.
"Mas não seria hora", perguntei-lhe num certo dia, "de inventar alguma coisa graciosa, comovente?" E ele: "pra ver que você não entende nada... as pessoas quando comem querem rir e não se comover... e eu", acrescentou rancoroso, "faço elas rirem". Algum tempo depois, sempre por causa dessa mania de se aperfeiçoar, inventou de levar em uma maleta algumas roupas femininas por exemplo, um chapeuzinho, uma echarpe, uma sainha para vestir na hora, para tornar a paródia mais cômica ainda. Esta ideia de travestir-se de mulher, nele, era quase uma mania; não podem imaginar que dureza era vê-lo chacoalhar-se com o chapeuzinho sobre os olhos e a saia amarrada na cintura, por cima das calças.
Percorríamos o maior número de restaurantes que conseguíamos, do meio-dia às três e das oito à meia-noite. Visitávamos vários, dependendo do dia: um dia os restaurantes dos lados da Piazza di Spagna; um dia aqueles ao redor da Piazza Venezia; outro dia os restaurantes de Trastevere, outro dia ainda aqueles próximos da estação de trem. Entre um restaurante e outro, sempre correndo pelas ruas, não conversávamos: não havia intimidade entre nós. No fim da noite, íamos a uma cantina e dividíamos o dinheiro. Depois, em silêncio, eu fumava um cigarro e Milone bebia um quarto de vinho. à tarde, Milone ensaiava os seus números à frente do espelho; eu, por minha vez, dormia ou ia ao cinema.
Em uma noite de muito frio, depois de ter rodado as trattorias de Trastevere, entramos, mais para nos aquecermos do que para tocar, numa cantina atrás da Piazza Mastai. Tratava-se de um espaço comprido, quase um corredor, com as mesas alinhadas ao longo da parede e, nas mesas, quase só gente pobre, bebendo vinho da casa e comendo comida embrulhada em jornal. Não sei por que, a vaidade, já que não podia ser interesse, levou Milone a se exibir também naquela cantina. Escolheu então uma das suas músicas mais bonitas e, com os modos de sempre, reduziu-a, à força dos escárnios e das contorções, a uma porcaria. Logo que acabou, recebeu um aplauso bastante frio e depois, de uma daquelas mesas, escutou-se uma voz: "Agora, quem vai cantar esta música sou eu".
Virei e vi que se aproximava um rapaz loiro, com um macacão de mecânico, bonito como um anjo, olhando para Milone com olhar furioso, como se quisesse comê-lo. "Você, comece a tocar", disse-me com autoridade, "do início." Milone, fingindo que estava cansado, deixou-se cair em uma cadeira perto da porta. O rapaz me fez sinal com a mão para começar e então se pôs a contar. Não digo que ele cantasse como um verdadeiro cantor, mas cantava com sentimento, com uma voz bonita, quente e tranquila, enfim, cantava como se deve cantar e como a música pedia para ser cantada. Além disso, como eu já disse, era bonito, com aqueles seus cachos, especialmente se comparado a Milone, tão maciço e sórdido. Cantava virado para a cantina, olhando para uma mesa onde estava sentada uma moça sozinha, como se estivesse cantando para ela. Quando terminou, fez um gesto para Milone, com a mão estendida, como se dissesse: "é assim que se canta", e voltou para a mesinha onde o esperava a moça, que em seguida colocou os braços em volta do seu pescoço. Na cantina para dizer a verdade, aplaudiram por que ele tinha se incomodado em cantar. Mas eu o entendera; e, desta vez, Milone também tinha entendido.
Enquanto eu tocava, olhara frequentemente para Milone; tinha visto ele passar muitas vezes a mão no rosto e sob os cabelos que lhe caíam na testa, como quem não está suportando ficar acordado e está caindo de sono. Mas não conseguia esconder uma expressão amarga que eu nunca tinha visto; a cada nova estrofe que o moço acertava, parecia que sua amargura crescia. Finalmente se levantou, espreguiçando-se e fingindo que bocejava e disse: "Bem, está na hora de ir dormir... estou com um sono...".
Despedimo-nos na esquina, com o habitual encontro marcado para ao dia seguinte. O que aconteceu durante a noite, reconstruí depois, mas são suposições.
Mas, como eu disse, são suposições. O certo é que a costureira que lhe alugava o quarto no dia seguinte o encontrou enforcado entre a janela e a cortina, no lugar em que geralmente ficavam penduradas as gaiolas dos passarinhos. Foram algumas transeuntes a notá-lo, da via Cimarra, vendo, através dos vidro, as pernas e os pés balançando no vazio. Despeitado como todo suicida, tinha fechado a porta à chave e apoiado na porta a cômoda com o espelho: talvez quisesse se ver, como quando ensaiava, enfiando o pescoço no laço. Em suma, tiveram que arrombar a porta, o espelho caiu e se quebrou. Levaram-no ao cemitério Verano e eu fui o único que o acompanhou, desta vez sem violão. A costureira recolocou o espelho, mas se consolou vendendo, a uma certa quantia o metro, a corda.
Eu tocava o violão do meu jeito, isto é, quase sem me mexer, com os olhos baixos, porque sou um artista e não um bufão; quem bancava o palhaço, ao contrário, era Milone. Começava meio sem querer, em pé, ereto, apoiado a uma parede, o chapeuzinho em cima dos olhos, os polegares sob a axila, a barriga fora das calças, o cinto embaixo da barriga: parecia um bêbado cantando ao luar. Depois, pouco a pouco, esquentava e, mesmo sem cantar de verdade, porque não tinha voz nem ouvido, acabava dando um espetáculo de si mesmo, ou melhor, como eu já disse, bancava o palhaço.
Sua especialidade eram cançõezinhas sentimentais, as mais famosas, as quem normalmente comovem e enternecem, porém na sua boca aquelas canções não comoviam, mas faziam rir, porque ele sabia torná-las ridículas, de um jeito todo seu, desagradável e triste.
Eu não sei o que tinha aquele homem; se na juventude alguma mulher tinha aprontado com ele; ou talvez ele tivesse nascido daquele jeito, com um caráter que se comprazia em tornar ridículas as coisas boas e bonitas; o fato é que ele não era só um ator cômico, não, ele colocava não sei que raiva no que fazia e era necessária toda a obtusidade das pessoas enquanto comem para não perceberem que ele não era ridículo, mas digno de penas.
Superava a si mesmo sobretudo quando se tratava de imitar os movimentos, as caretas e as afetações femininas. O que faz uma mulher, sorri maliciosamente? E ele, por baixo da aba do chapéu, esboçava um riso de escárnio, vulgar, de prostituta. Requebrava, como se diz, um pouco os quadris? E ele começava a dança do ventre, jogando para o lado as nádegas quadradas e maciças como um pacote. Tinha uma voz suave? E ele, apertando a boca, emitia uma voz de flauta, melosa, quase estomacal.
Nunca tinha medida, ultrapassava sempre o limite, tornava-se obsceno, repugnante. De tal maneira, que eu sempre me envergonhava, porque uma coisa é acompanhar um cantor ao violão, outra coisa é servir de muleta a um palhaço. Eu me lembrava de ter tocado não muito tempo atrás as mesmas músicas cantadas seriamente por um excelente artista; e sentia pena de vê-las reduzidas àquilo, irreconhecíveis e indecentes.
Falei com ele numa ocasião em que estávamos batendo perna de rua em rua, de um restaurante a outro. "Mas o que as mulheres fizeram para você?"
Normalmente, depois que bancava o palhaço, ficava distraído e sombrio, sabe-se lá com que pensamentos rodando pela sua cabeça. "As mulheres não me fizeram nada." "Eu estou dizendo isso", expliquei, "porque você tira sarro delas com gosto." Desta vez ele não disse nada e a conversa acabou por aí.
Teria abandonado Milone se não tivesse mais interesse por ele; porque, ainda que possa parecer incrível, ele conseguia mais dinheiro com as suas vulgaridades do que muitos excelentes músicos ambulantes com as suas belas canções.
Vagávamos principalmente por aqueles restaurantes não propriamente de luxo, quase cantinas, caseiros, mas caros, onde as pessoas vão para encher a pança e se divertir. logo que entrávamos, eu, muito de leve, dedilhava o violão, das mesas abarrotadas ouvia-se um só grito: "olha o professor... o professor está aí... venha até aqui, professor".
Teria abandonado Milone se não tivesse mais interesse por ele; porque, ainda que possa parecer incrível, ele conseguia mais dinheiro com as suas vulgaridades do que muitos excelentes músicos ambulantes com as suas belas canções.
Vagávamos principalmente por aqueles restaurantes não propriamente de luxo, quase cantinas, caseiros, mas caros, onde as pessoas vão para encher a pança e se divertir. logo que entrávamos, eu, muito de leve, dedilhava o violão, das mesas abarrotadas ouvia-se um só grito: "olha o professor... o professor está aí... venha até aqui, professor".
Carrancudo, debochado, desvairado, puxa-saco, Milone se apresentava, dizendo: "Podem pedir", e aquele "podem pedir" já era tão ridículo ao seu modo, que todos morriam de rir. Nisso chegava o macarrão e, enquanto o dono do restaurante esfalfava-se para servir, Milone, com uma voz idiota, anunciava: "Uma canção muito bonita: Quando Rosina desce do vilarejo... eu vou fazer a Rosina" Imaginem os clientes: quando o viam representando Rosina, com as gagues e as obscenidades de sempre, ficavam com os espaguetes pendurados no garfo, entre a boca e o prato. E não se tratava de grupos de açougueiros ou coisa parecida, eram todos grã-finos: os homens de terno azul escuro, engomados, uma pérola espetada na gravata; as mulheres de casaco de pele, cobertas de joias, delicadas, preciosas. Falavam entre si, enquanto Milone bancava o palhaço: "É bom... é realmente bom", ou até mesmo alguém, alarmado, gritava: "Atenção, não contem por aí que nos o descobrimos... se não a coisa desanda".
Entre as suas vulgaridades, Milone tinha uma canção em que, em uma determinada hora, para tornar o personagem mais ridículo, fazia com a boca um certo barulho que eu nem lhes conto. E você acreditam? Eram exatamente as madames mais afetadas que pediam bis para esta música.
É preciso dizer que, por ser ver tão aplaudido, o sucesso tinha subido à cabeça de Milone. Morava na casa de uma costureira, em um quarto mobiliado, escuro e úmido, na via Cimarra. Agora, todas as vezes que eu ia pegá-lo alguma nova grosseria, uma nova vulgaridade. Acrescentava um certo escrúpulo mórbido, como se tratasse de um grande ator preparando-se para a apresentação; e eu, sentado na cama, olhando-o simular a dança do ventre na frente do espelho da cômoda, perguntava-me se, pro acaso, ele não fosse meio louco.
"Mas não seria hora", perguntei-lhe num certo dia, "de inventar alguma coisa graciosa, comovente?" E ele: "pra ver que você não entende nada... as pessoas quando comem querem rir e não se comover... e eu", acrescentou rancoroso, "faço elas rirem". Algum tempo depois, sempre por causa dessa mania de se aperfeiçoar, inventou de levar em uma maleta algumas roupas femininas por exemplo, um chapeuzinho, uma echarpe, uma sainha para vestir na hora, para tornar a paródia mais cômica ainda. Esta ideia de travestir-se de mulher, nele, era quase uma mania; não podem imaginar que dureza era vê-lo chacoalhar-se com o chapeuzinho sobre os olhos e a saia amarrada na cintura, por cima das calças.
Finalmente, não sabendo mais o que inventar, sugeriu que eu também bancasse o palhaço, mesmo continuando a dedilhar o violão. E aí eu me recusei.
Percorríamos o maior número de restaurantes que conseguíamos, do meio-dia às três e das oito à meia-noite. Visitávamos vários, dependendo do dia: um dia os restaurantes dos lados da Piazza di Spagna; um dia aqueles ao redor da Piazza Venezia; outro dia os restaurantes de Trastevere, outro dia ainda aqueles próximos da estação de trem. Entre um restaurante e outro, sempre correndo pelas ruas, não conversávamos: não havia intimidade entre nós. No fim da noite, íamos a uma cantina e dividíamos o dinheiro. Depois, em silêncio, eu fumava um cigarro e Milone bebia um quarto de vinho. à tarde, Milone ensaiava os seus números à frente do espelho; eu, por minha vez, dormia ou ia ao cinema.
Em uma noite de muito frio, depois de ter rodado as trattorias de Trastevere, entramos, mais para nos aquecermos do que para tocar, numa cantina atrás da Piazza Mastai. Tratava-se de um espaço comprido, quase um corredor, com as mesas alinhadas ao longo da parede e, nas mesas, quase só gente pobre, bebendo vinho da casa e comendo comida embrulhada em jornal. Não sei por que, a vaidade, já que não podia ser interesse, levou Milone a se exibir também naquela cantina. Escolheu então uma das suas músicas mais bonitas e, com os modos de sempre, reduziu-a, à força dos escárnios e das contorções, a uma porcaria. Logo que acabou, recebeu um aplauso bastante frio e depois, de uma daquelas mesas, escutou-se uma voz: "Agora, quem vai cantar esta música sou eu".
Virei e vi que se aproximava um rapaz loiro, com um macacão de mecânico, bonito como um anjo, olhando para Milone com olhar furioso, como se quisesse comê-lo. "Você, comece a tocar", disse-me com autoridade, "do início." Milone, fingindo que estava cansado, deixou-se cair em uma cadeira perto da porta. O rapaz me fez sinal com a mão para começar e então se pôs a contar. Não digo que ele cantasse como um verdadeiro cantor, mas cantava com sentimento, com uma voz bonita, quente e tranquila, enfim, cantava como se deve cantar e como a música pedia para ser cantada. Além disso, como eu já disse, era bonito, com aqueles seus cachos, especialmente se comparado a Milone, tão maciço e sórdido. Cantava virado para a cantina, olhando para uma mesa onde estava sentada uma moça sozinha, como se estivesse cantando para ela. Quando terminou, fez um gesto para Milone, com a mão estendida, como se dissesse: "é assim que se canta", e voltou para a mesinha onde o esperava a moça, que em seguida colocou os braços em volta do seu pescoço. Na cantina para dizer a verdade, aplaudiram por que ele tinha se incomodado em cantar. Mas eu o entendera; e, desta vez, Milone também tinha entendido.
Enquanto eu tocava, olhara frequentemente para Milone; tinha visto ele passar muitas vezes a mão no rosto e sob os cabelos que lhe caíam na testa, como quem não está suportando ficar acordado e está caindo de sono. Mas não conseguia esconder uma expressão amarga que eu nunca tinha visto; a cada nova estrofe que o moço acertava, parecia que sua amargura crescia. Finalmente se levantou, espreguiçando-se e fingindo que bocejava e disse: "Bem, está na hora de ir dormir... estou com um sono...".
Despedimo-nos na esquina, com o habitual encontro marcado para ao dia seguinte. O que aconteceu durante a noite, reconstruí depois, mas são suposições.
Eu disse que o sucesso tinha subido à cabeça de Milone, imaginando ser sabe-se lá que grande artista quando na verdade era um pobre coitado que bancava o palhaço para divertir as pessoas enquanto comiam; de modo que foi grande o tombo que aquele rapaz loiro de macacão lhe deu com o seu gesto. Acredito que, enquanto o rapaz cantava, de repente, deve ter visto a si próprio como era e não como tinha até então acreditado ser: um homenzarrão de cinquenta anos que colocava um babador e recitava a Vispa Teresa. Mas acho também que ele se julgava incapaz de cantar, mesmo tendo feito um pacto com o diabo. Ele, em suma, só conseguia fazer rir ridicularizando certas coisas. E estas certas coisas, por coincidência, eram exatamente aquelas que ele, na sua vida, nunca tinha conseguido ter.
Mas, como eu disse, são suposições. O certo é que a costureira que lhe alugava o quarto no dia seguinte o encontrou enforcado entre a janela e a cortina, no lugar em que geralmente ficavam penduradas as gaiolas dos passarinhos. Foram algumas transeuntes a notá-lo, da via Cimarra, vendo, através dos vidro, as pernas e os pés balançando no vazio. Despeitado como todo suicida, tinha fechado a porta à chave e apoiado na porta a cômoda com o espelho: talvez quisesse se ver, como quando ensaiava, enfiando o pescoço no laço. Em suma, tiveram que arrombar a porta, o espelho caiu e se quebrou. Levaram-no ao cemitério Verano e eu fui o único que o acompanhou, desta vez sem violão. A costureira recolocou o espelho, mas se consolou vendendo, a uma certa quantia o metro, a corda.
Alberto Moravia
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