Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
domingo, julho 19
Chove!
Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
José Gomes Ferreira
Sequência
Na estrada das Tabocas, uma vaca viajava. Vinha pelo meio do caminho, como uma criatura cristã. A vaquinha vermelha, a cor grossa e afundada — o tom intenso de azamar. Ela solevava as ancas, no trote balançado e manso, seus cascos no chão batiam poeira. Nem hesitava nas encruzilhadas. Sacudia os chifres, recurvos em coroa, e baixava testa, ao rumo, que reto a trazia, para o rio, e — para lá do rio — a terras de um Major Quitério, nos confins do dia, à fazenda do Pãodolhão.
No Arcanjo, onde a estrada borda o povoado, foi notada, e, vendo que era uma rês fujã, tentaram rebatê-la; se esvencilhou, feroz, e foi-se, porém. De beira dos pastos, os anus, que voavam cruzando-a, desvinham de pousar-lhe às costas. No riachinho do Gonçalves, quase findo à míngua d’água, se deteve para beber. Deram tiros, no campo, caçando às codornas. Latidos, noutra parte, faziam-na entrar oculta no cerrado. Ora corriam dela umas mulheres, que andavam buscando lenha. Se encontrava cavaleiros, sabia deles se alonjar, colada ao tapume, com disfarces: sonsa curvada a pastar, no sofrido simulamento. Légua adiante, entanto, nos Antônios, desabalava em galope, espandongada, ao passar por currais, donde ouvia gente e não era ainda o seu termo. Tio Terêncio, o velho, à porta de casa, conversou com o outro: — “Meo fi’o, q’vaca qu’é essa?” — “Nho pai, e’a n’é nossa, não.” Seguia, certa; por amor, não por acaso.
Só, assim, a vaquinha se fugira, da Pedra, madrugadamente — entre o primeiro canto dos melros e o terceiro dos galos — o sol saindo à sua frente, num céu quase da sua cor. Fazia parte de um gado, transportado, de boiadeiros, gado de coração ativo. Viera do Pãodolhão — sua querência. Apressava-se nela o empolgo de saudade que adoece o boi sertanejo em terra estranha, cada outubro, no prever os trovões. Apanhara a boca-da-estrada — para os onde caminhos — fronteando o nascente.
Soada a notícia, seo Rigério, o dono da Pedra, disse: — “Diaba”. Ele era alto, o homem, para tão pequenina coisa. Seus sabedores informavam: que a marca sendo a de grande fazendeiro, da outra banda, distante. Seus vaqueiros, postos, prontos. Esse seo Rigério tinha os filhos diversos, que por em volta se achavam. Nem deles, para o quê, havia a necessidade. E vede de que maneira tudo então se passou.
Só um dos filhos, rapaz, senhor-moço, quis-se, de repente, para aquilo: levar em brio e tomar em conta. Atou o laço na garupa. Disse: — “É uma vaquinha pitanga?” Pôs-se a cavalo. Soubesse o que por lá o botava, se capaz. Saiu à estrada-geral. Ia indo, à espora leve. Ia desconhecidamente. Indo de oeste para leste.
Já a vaca. O avanço, que levava, não se lhe dava de o bastante. Ante o morro, a passo, breve, nem parava para os capins dos barrancos: arrancava-os, mesmo em marcha, no mesmo surdo insossego. Se subia — cabeceava, num desconjuntado trabalho de si. Se descia — era beira-abismos, patas abertas, se borneando. Após, no plano, trotava. Agora, lá num campal, outras vacas se avistavam. Olhava-as: alteou-se e berrou — o berro encheu a região tristonha. O dia era grande, azul e branco, por cima de matos e poeiras. O sol inteiro.
Já o rapaz se anorteava. Só via o horizonte e sim. Sabia o de uma vaquinha fugida: que, de alma, marca o rumo e faz atalhos — querençosa. Entrequanto, ele perguntava. Davam-lhe novas da arribada. Seu cavalo murça se aplicava, indo noutra forma, ligeiro. Sabia que coisa era o tempo, a involuntária aventura. E esquipava. Ia o longo, longo, longo. Deu patas à fantasia. Ali, escampava. Tempo sem chuvas, terrentas campinas, os tabuleiros tão sujos, campos sem fisionomia. O rapaz ora se cansava. Desde aí, o muito descansou. Do que, após, se atormentava. Apertou.
Com horas de diferença, a vaquinha providenciava. Aqui alta cerca a parou, foi seguindo-a, beira, beira. Dava num córrego. No córrego a vaquinha entrou, veio vindo, dentro d’água. Três vezes esperta. Até que outra cerca travou-a, ia deixando-a desairada. Volveu — irrompida ida: de um ímpeto então a saltou: num salto que queria ser vôo. Vencia. E além se sumia a vaca vermelha, suspensa em bailado, a cauda oscilando. O inimigo já vinha perto.
O rapaz, no vão do mundo, assim vocado e ordenado. Ele agora se irritava. Pensou de arrepender caminho, suspender aquilo para mais tarde. Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O incomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? Triste em torno. Só as encostas guardando o florir de árvores esfolhadas: seu roxo-escuro de julho as carobinhas, ipês seu amarelo de agosto. Só via os longes de um quadro. O absurdo ar. Chatos mapas. O céu de se abismar. E indagava o chão, rastreava. Agora, manchava o campo a sombra grande de uma nuvem. O rapaz lançou longe um olhar. De repente, ajustou a mão à testa, e exclamou. Do ponto, descortinou que: aquela. A vaquinha, respoeirando. Aí e lá, tomou-a em vista. O vulto, pé de pessoa, que a cumeada do morro escalava. Ver o que diabo. Reduzida, ocupou, um instante, a lomba linha do espigão. Aí, se afundou para o de lá, e se escondeu de seus olhos. Transcendia ao que se destinava.
O rapaz, durante e tanto, montado no bom cavalo, à espora avante, galgando. Sempre e agudamente olhava. Podia seguir com os olhos como o rastro se formava. Só perseguia a paisagem. Preparava-se uma vastidão: de manchas cinzas e amarelas. O céu também em amarelo. Pitavam extensões de campo, no virar do sol, das queimadas; altas, mais altas, azuis, as fumaças desmanchavam- se. O rapaz — desdobrada vida — se pensou: — “Seja o que seja.”
Aí, subia também ao morro, de onde muito se enxergava: antes das portas do longe, as colinas convalares — e um rio, em suas baixadas, em sua várzea empalmeirada. O rio, liso e brilhante, de movimentos invisíveis. Como cortando o mundo em dois, no caminho se atravessava — sem som. Seriam buracos negros, as sombras perto das margens.
Depois dos destornamentos, a vaquinha chegava à beira, às derradeiras canas-bravas. Com roubada rapidez, ia a levantar o desterro. Foi uma mexidinha figura — quase que mal os dois chifres nadando — a vaca vermelha o transpondo, a esse rio, de tardinha; que em setembro. Sob o céu que recebia a noite, e que as fumaças chamava.
Outrarte o ouro esboço do crepúsculo. O rapaz, o cavalo bom, como vinham, contornando. Antes do rio não viam: as aves, que já ninhavam. À beira, na tardação, não queria desastrar-se, de nada; pensava. Às pausas, parte por parte. Não ouviu sino de vésperas. Tinha de perder de ganhar? Já que sim e já que não, pensou assim: jamais, jamenos… — o filho de seo Rigério. A fatal perseguição, podia quebrar e quitar-se. Hesitou, se. Por certo não passaria, sem o que ele mesmo não sabia — a oculta, súbita saudade. Passo extremo! Pegou a descalçar as botas. E entrou — de peito feito. Àquelas tranquilas águas — às braças. Era um rio e seu além. Estava, já, do outro lado.
– “A vaca?” — e apertava o encalço — à boa espora, à rédea larga. Mas a vaca era uma malícia, precipitava-se o logro. Nisso, anoiteceu. E não é que, seu cavalo, o murça, se sentia — da viagem de pêlo a pêlo: os joelhos bambeava, descaía, quase caía para a frente o cavaleiro.
Iam-se, na ceguez da noite — à casa da mãe do breu: a vaca, o homem, a vaca — transeuntes, galopando. — “Onde então o Pãodolhão? Cujo dono? Vinha- se a qual destinatário?” Pelas vertentes, distante, e até ao cimo do monte, um campo se incendiava: faíscas — as primeiras estrelas. O andamento. O rapaz: obcego. Sofria como podia, nem podia mais desespero. O arrepio negro das árvores. O mundo entre as estrelas e os grilos. Semiluz: sós estrelas. Onde e aonde? A vaca, essa, sabia: por amor desses lugares.
Chegava, chegavam. Os pastos da vasta fazenda. A vaca surgia-se na treva. Mugiu, arrancadamente. Remugiu em fim. A um bago de luz, lá, lá. Às luzes que pontilhavam, acolá, as janelas da casa, grande. Só era uma luz de entrequanto? A casa de um Major Quitério.
O rapaz e a vaca se entravam pela porteira-mestra dos currais. O rapaz desapeava. Sob o estúrdio atontamento, começou a subir a escada. Tanto tinha de explicar.
Tanto ele era o bem-chegado!
A uma roda de pessoas. Às quatro moças da casa. A uma delas, a segunda. Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se? O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: — “É sua.” Suas duas almas se transformavam? E tudo à sazão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.
E a vaca — vitória, em seus ondes, por seus passos.
No Arcanjo, onde a estrada borda o povoado, foi notada, e, vendo que era uma rês fujã, tentaram rebatê-la; se esvencilhou, feroz, e foi-se, porém. De beira dos pastos, os anus, que voavam cruzando-a, desvinham de pousar-lhe às costas. No riachinho do Gonçalves, quase findo à míngua d’água, se deteve para beber. Deram tiros, no campo, caçando às codornas. Latidos, noutra parte, faziam-na entrar oculta no cerrado. Ora corriam dela umas mulheres, que andavam buscando lenha. Se encontrava cavaleiros, sabia deles se alonjar, colada ao tapume, com disfarces: sonsa curvada a pastar, no sofrido simulamento. Légua adiante, entanto, nos Antônios, desabalava em galope, espandongada, ao passar por currais, donde ouvia gente e não era ainda o seu termo. Tio Terêncio, o velho, à porta de casa, conversou com o outro: — “Meo fi’o, q’vaca qu’é essa?” — “Nho pai, e’a n’é nossa, não.” Seguia, certa; por amor, não por acaso.
Só, assim, a vaquinha se fugira, da Pedra, madrugadamente — entre o primeiro canto dos melros e o terceiro dos galos — o sol saindo à sua frente, num céu quase da sua cor. Fazia parte de um gado, transportado, de boiadeiros, gado de coração ativo. Viera do Pãodolhão — sua querência. Apressava-se nela o empolgo de saudade que adoece o boi sertanejo em terra estranha, cada outubro, no prever os trovões. Apanhara a boca-da-estrada — para os onde caminhos — fronteando o nascente.
Soada a notícia, seo Rigério, o dono da Pedra, disse: — “Diaba”. Ele era alto, o homem, para tão pequenina coisa. Seus sabedores informavam: que a marca sendo a de grande fazendeiro, da outra banda, distante. Seus vaqueiros, postos, prontos. Esse seo Rigério tinha os filhos diversos, que por em volta se achavam. Nem deles, para o quê, havia a necessidade. E vede de que maneira tudo então se passou.
Só um dos filhos, rapaz, senhor-moço, quis-se, de repente, para aquilo: levar em brio e tomar em conta. Atou o laço na garupa. Disse: — “É uma vaquinha pitanga?” Pôs-se a cavalo. Soubesse o que por lá o botava, se capaz. Saiu à estrada-geral. Ia indo, à espora leve. Ia desconhecidamente. Indo de oeste para leste.
Já a vaca. O avanço, que levava, não se lhe dava de o bastante. Ante o morro, a passo, breve, nem parava para os capins dos barrancos: arrancava-os, mesmo em marcha, no mesmo surdo insossego. Se subia — cabeceava, num desconjuntado trabalho de si. Se descia — era beira-abismos, patas abertas, se borneando. Após, no plano, trotava. Agora, lá num campal, outras vacas se avistavam. Olhava-as: alteou-se e berrou — o berro encheu a região tristonha. O dia era grande, azul e branco, por cima de matos e poeiras. O sol inteiro.
Já o rapaz se anorteava. Só via o horizonte e sim. Sabia o de uma vaquinha fugida: que, de alma, marca o rumo e faz atalhos — querençosa. Entrequanto, ele perguntava. Davam-lhe novas da arribada. Seu cavalo murça se aplicava, indo noutra forma, ligeiro. Sabia que coisa era o tempo, a involuntária aventura. E esquipava. Ia o longo, longo, longo. Deu patas à fantasia. Ali, escampava. Tempo sem chuvas, terrentas campinas, os tabuleiros tão sujos, campos sem fisionomia. O rapaz ora se cansava. Desde aí, o muito descansou. Do que, após, se atormentava. Apertou.
Com horas de diferença, a vaquinha providenciava. Aqui alta cerca a parou, foi seguindo-a, beira, beira. Dava num córrego. No córrego a vaquinha entrou, veio vindo, dentro d’água. Três vezes esperta. Até que outra cerca travou-a, ia deixando-a desairada. Volveu — irrompida ida: de um ímpeto então a saltou: num salto que queria ser vôo. Vencia. E além se sumia a vaca vermelha, suspensa em bailado, a cauda oscilando. O inimigo já vinha perto.
O rapaz, no vão do mundo, assim vocado e ordenado. Ele agora se irritava. Pensou de arrepender caminho, suspender aquilo para mais tarde. Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O incomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? Triste em torno. Só as encostas guardando o florir de árvores esfolhadas: seu roxo-escuro de julho as carobinhas, ipês seu amarelo de agosto. Só via os longes de um quadro. O absurdo ar. Chatos mapas. O céu de se abismar. E indagava o chão, rastreava. Agora, manchava o campo a sombra grande de uma nuvem. O rapaz lançou longe um olhar. De repente, ajustou a mão à testa, e exclamou. Do ponto, descortinou que: aquela. A vaquinha, respoeirando. Aí e lá, tomou-a em vista. O vulto, pé de pessoa, que a cumeada do morro escalava. Ver o que diabo. Reduzida, ocupou, um instante, a lomba linha do espigão. Aí, se afundou para o de lá, e se escondeu de seus olhos. Transcendia ao que se destinava.
O rapaz, durante e tanto, montado no bom cavalo, à espora avante, galgando. Sempre e agudamente olhava. Podia seguir com os olhos como o rastro se formava. Só perseguia a paisagem. Preparava-se uma vastidão: de manchas cinzas e amarelas. O céu também em amarelo. Pitavam extensões de campo, no virar do sol, das queimadas; altas, mais altas, azuis, as fumaças desmanchavam- se. O rapaz — desdobrada vida — se pensou: — “Seja o que seja.”
Aí, subia também ao morro, de onde muito se enxergava: antes das portas do longe, as colinas convalares — e um rio, em suas baixadas, em sua várzea empalmeirada. O rio, liso e brilhante, de movimentos invisíveis. Como cortando o mundo em dois, no caminho se atravessava — sem som. Seriam buracos negros, as sombras perto das margens.
Depois dos destornamentos, a vaquinha chegava à beira, às derradeiras canas-bravas. Com roubada rapidez, ia a levantar o desterro. Foi uma mexidinha figura — quase que mal os dois chifres nadando — a vaca vermelha o transpondo, a esse rio, de tardinha; que em setembro. Sob o céu que recebia a noite, e que as fumaças chamava.
Outrarte o ouro esboço do crepúsculo. O rapaz, o cavalo bom, como vinham, contornando. Antes do rio não viam: as aves, que já ninhavam. À beira, na tardação, não queria desastrar-se, de nada; pensava. Às pausas, parte por parte. Não ouviu sino de vésperas. Tinha de perder de ganhar? Já que sim e já que não, pensou assim: jamais, jamenos… — o filho de seo Rigério. A fatal perseguição, podia quebrar e quitar-se. Hesitou, se. Por certo não passaria, sem o que ele mesmo não sabia — a oculta, súbita saudade. Passo extremo! Pegou a descalçar as botas. E entrou — de peito feito. Àquelas tranquilas águas — às braças. Era um rio e seu além. Estava, já, do outro lado.
– “A vaca?” — e apertava o encalço — à boa espora, à rédea larga. Mas a vaca era uma malícia, precipitava-se o logro. Nisso, anoiteceu. E não é que, seu cavalo, o murça, se sentia — da viagem de pêlo a pêlo: os joelhos bambeava, descaía, quase caía para a frente o cavaleiro.
Iam-se, na ceguez da noite — à casa da mãe do breu: a vaca, o homem, a vaca — transeuntes, galopando. — “Onde então o Pãodolhão? Cujo dono? Vinha- se a qual destinatário?” Pelas vertentes, distante, e até ao cimo do monte, um campo se incendiava: faíscas — as primeiras estrelas. O andamento. O rapaz: obcego. Sofria como podia, nem podia mais desespero. O arrepio negro das árvores. O mundo entre as estrelas e os grilos. Semiluz: sós estrelas. Onde e aonde? A vaca, essa, sabia: por amor desses lugares.
Chegava, chegavam. Os pastos da vasta fazenda. A vaca surgia-se na treva. Mugiu, arrancadamente. Remugiu em fim. A um bago de luz, lá, lá. Às luzes que pontilhavam, acolá, as janelas da casa, grande. Só era uma luz de entrequanto? A casa de um Major Quitério.
O rapaz e a vaca se entravam pela porteira-mestra dos currais. O rapaz desapeava. Sob o estúrdio atontamento, começou a subir a escada. Tanto tinha de explicar.
Tanto ele era o bem-chegado!
A uma roda de pessoas. Às quatro moças da casa. A uma delas, a segunda. Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se? O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: — “É sua.” Suas duas almas se transformavam? E tudo à sazão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.
E a vaca — vitória, em seus ondes, por seus passos.
Guimarães Rosa
Seduzindo para o prazer de ler
Nietzsche estava certo: “De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo – ler um livro é simplesmente algo depravado…” É o que sinto ao andar pelos maravilhosos caminhos da Fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas. Procuro esquecer-me de tudo o que li nos livros. É preciso que a cabeça esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam ver. Aprendi isso lendo Alberto Caeiro, especialista inigualável na difícil arte de ver. Dizia ele que “pensar é estar doente dos olhos…”. Mas meus esforços são frustrados. As coisas que vejo são como o beijo do príncipe: elas vão acordando os poemas que aprendi de cor e que agora estão adormecidos na minha memória. Assim, ao não pensar da visão une-se o não pensar da poesia. E penso que o meu mundo seria muito pobre se em mim não estivessem os livros que li e amei. Pois, se não sabe, somente as coisas amadas são guardadas na memória poética, lugar da beleza. “Aquilo que a memória amou fica eterno”, tal como o disse Adélia Prado, amiga querida.
Os livros que amo não me deixam. Caminham comigo. Há os livros que moram na cabeça e vão se desgastando com o tempo. Esses, eu deixo em casa. Mas há os livros que moram no corpo. Esses são eternamente jovens. Como no amor, uma vez não chega. De novo, de novo, de novo…
Um amigo me telefonou. Tinha uma casa em Cabo Frio. Convidou-me. Gostei. Mas meu sorriso entortou quando ele disse: “Vão também cinco adolescentes…”
Adolescentes podem ser uma alegria. Mas podem ser também uma perturbação para o espírito. Assim, resolvi tomar minhas providências. Comprei uma arma de amansar adolescentes. Um livro. Uma versão condensada da Odisseia, as fantásticas viagens de Ulisses de volta a casa, por mares traiçoeiros…Primeiro dia: praia; almoço; sono. Lá pelas cinco, os dorminhocos acordaram, sem ter o que fazer. E, antes que tivessem ideias próprias, eu tomei a iniciativa. Com voz autoritária dirigi-me a eles, ainda sob o efeito do torpor: “Ei, vocês… Venham cá na sala. Quero lhes mostrar uma coisa…” Não consultei as bases. Teria sido terrível. Uma decisão democrática das bases optaria por ligar a televisão. Claro. Como poderiam decidir por uma coisa que ignoravam? Peguei o livro e comecei a leitura. Ao espanto inicial seguiu-se silêncio e atenção. Vi, pelos seus olhos, que já estavam sob o domínio do encantamento. Daí para a frente foi uma coisa só. Não me deixavam. Por onde quer que eu fosse, lá vinham eles com a Odisseia na mão, pedindo que eu lesse mais. Nem na praia me deram descanso..
Essa experiência me fez pensar que deve haver algo errado na afirmação que sempre se repete de que os adolescentes não gostam da leitura. Sei que, como regra, não gostam de ler. O que não é a mesma coisa que não gostar da leitura. Lembro-me da escola primária que frequentei. Havia uma aula de leitura. Era a aula que mais amávamos. A professora lia para que nós ouvíssemos. Leu todo o Monteiro Lobato. E leu aqueles livros que se liam naqueles tempos: Heidi, Pollyanna, A ilha do tesouro. Quando a aula terminava, era a tristeza. Mas o bom mesmo é que não havia provas ou avaliações. Era prazer puro. E estava certo. Porque esse é o objetivo da literatura: prazer. O que os exames vestibulares tentam fazer é transformar a literatura em informações que podem ser armazenadas na cabeça. Mas o lugar da literatura não é a cabeça: é o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformações alquímicas que deseja realizar. Se não concorda, que leia Guimarães Rosa que dizia que literatura é feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano.
Quando minha filha estava sendo introduzida na literatura, o professor lhe deu como dever de casa ler e fichar um livro chatíssimo. Sofrimento dos adolescentes, sofrimento para os pais. A pura visão do livro provocava uma preguiça imensa, aquela preguiça que Barthes declarou ser essencial à experiência escolar. Escrevi carta delicada ao professor lembrando-lhe que Borges havia declarado que não havia razão para se ler um livro que não dá prazer quando há milhares de livros que dão prazer. Sugeri-lhe começar por algo mais próximo da condição emotiva dos jovens. Ele me respondeu com o discurso de esquerda, que sempre teve medo do prazer: “O meu objetivo é produzir a consciência crítica…” Quando eu li isso, percebi que não havia esperança. O professor não sabia o essencial. Não sabia que literatura não é para produzir consciência crítica.
O escritor não escreve com intenções didático-pedagógicas. Ele escreve para produzir prazer. Para fazer amor. Escrever e ler são formas de fazer amor. É por isso que os amores pobres em literatura ou são de vida curta, ou são de vida longa e tediosa… Parodiando as palavras de Jesus, “nem só de beijos e transas viverá o amor, mas de toda palavra que sai das mãos dos escritores…”.
Rubem Alves, "A educação dos sentidos"
Os livros que amo não me deixam. Caminham comigo. Há os livros que moram na cabeça e vão se desgastando com o tempo. Esses, eu deixo em casa. Mas há os livros que moram no corpo. Esses são eternamente jovens. Como no amor, uma vez não chega. De novo, de novo, de novo…
Um amigo me telefonou. Tinha uma casa em Cabo Frio. Convidou-me. Gostei. Mas meu sorriso entortou quando ele disse: “Vão também cinco adolescentes…”
Adolescentes podem ser uma alegria. Mas podem ser também uma perturbação para o espírito. Assim, resolvi tomar minhas providências. Comprei uma arma de amansar adolescentes. Um livro. Uma versão condensada da Odisseia, as fantásticas viagens de Ulisses de volta a casa, por mares traiçoeiros…Primeiro dia: praia; almoço; sono. Lá pelas cinco, os dorminhocos acordaram, sem ter o que fazer. E, antes que tivessem ideias próprias, eu tomei a iniciativa. Com voz autoritária dirigi-me a eles, ainda sob o efeito do torpor: “Ei, vocês… Venham cá na sala. Quero lhes mostrar uma coisa…” Não consultei as bases. Teria sido terrível. Uma decisão democrática das bases optaria por ligar a televisão. Claro. Como poderiam decidir por uma coisa que ignoravam? Peguei o livro e comecei a leitura. Ao espanto inicial seguiu-se silêncio e atenção. Vi, pelos seus olhos, que já estavam sob o domínio do encantamento. Daí para a frente foi uma coisa só. Não me deixavam. Por onde quer que eu fosse, lá vinham eles com a Odisseia na mão, pedindo que eu lesse mais. Nem na praia me deram descanso..
Essa experiência me fez pensar que deve haver algo errado na afirmação que sempre se repete de que os adolescentes não gostam da leitura. Sei que, como regra, não gostam de ler. O que não é a mesma coisa que não gostar da leitura. Lembro-me da escola primária que frequentei. Havia uma aula de leitura. Era a aula que mais amávamos. A professora lia para que nós ouvíssemos. Leu todo o Monteiro Lobato. E leu aqueles livros que se liam naqueles tempos: Heidi, Pollyanna, A ilha do tesouro. Quando a aula terminava, era a tristeza. Mas o bom mesmo é que não havia provas ou avaliações. Era prazer puro. E estava certo. Porque esse é o objetivo da literatura: prazer. O que os exames vestibulares tentam fazer é transformar a literatura em informações que podem ser armazenadas na cabeça. Mas o lugar da literatura não é a cabeça: é o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformações alquímicas que deseja realizar. Se não concorda, que leia Guimarães Rosa que dizia que literatura é feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano.
Quando minha filha estava sendo introduzida na literatura, o professor lhe deu como dever de casa ler e fichar um livro chatíssimo. Sofrimento dos adolescentes, sofrimento para os pais. A pura visão do livro provocava uma preguiça imensa, aquela preguiça que Barthes declarou ser essencial à experiência escolar. Escrevi carta delicada ao professor lembrando-lhe que Borges havia declarado que não havia razão para se ler um livro que não dá prazer quando há milhares de livros que dão prazer. Sugeri-lhe começar por algo mais próximo da condição emotiva dos jovens. Ele me respondeu com o discurso de esquerda, que sempre teve medo do prazer: “O meu objetivo é produzir a consciência crítica…” Quando eu li isso, percebi que não havia esperança. O professor não sabia o essencial. Não sabia que literatura não é para produzir consciência crítica.
O escritor não escreve com intenções didático-pedagógicas. Ele escreve para produzir prazer. Para fazer amor. Escrever e ler são formas de fazer amor. É por isso que os amores pobres em literatura ou são de vida curta, ou são de vida longa e tediosa… Parodiando as palavras de Jesus, “nem só de beijos e transas viverá o amor, mas de toda palavra que sai das mãos dos escritores…”.
Rubem Alves, "A educação dos sentidos"
O santuário das almas
Um silêncio estranho reinava sobre a aldeia. Naquela época do ano havia muito a ser recolhido na praia, mas não havia ninguém à vista na areia. Mesmo as crianças sentiam o humor dos adultos e não estavam brincando e correndo pela trilha. Depois de esconder todo o arroz e as outras coisas nas montanhas, os habitantes da aldeia passaram os dias enfurnados em casa, contendo a respiração. A mãe de Isaku cuidou dos ferimentos enquanto secava grãos vindos da outra aldeia ou tecia panos no tear.
Isaku passou o tempo reparando seu material de pesca, e ocasionalmente olhava pela porta dos fundos para a trilha que seguia até a aldeia vizinha, ou para o mar. Se os homens da agência de transporte viessem, seria ou pelo passo nas montanhas ou de barco pela costa. Tinham falado em colocar vigias perto do passo e nos promontórios, mas desistiram da ideia porque, como alguém observara, se eles percebessem os vigias, isso iria levantar suspeitas.
Isaku ouviu os homens da aldeia discutindo como seria a punição. Ficou aterrorizado. Falaram sobre pessoas sendo chicoteadas, depois arrastadas e puxadas por uma corda e então crucificadas de cabeça para baixo e espetadas com lanças até as entranhas caírem. Falaram sobre pessoas sendo cortadas com uma serra antes de ser crucificadas. Se descobrissem que tinham roubado a carga de um navio e espancado o capitão até matá-lo, sem dúvida o destino de todos seria similar a isso.
Apenas uma trilha levava para fora da aldeia, e para chegar à aldeia vizinha era preciso seguir as trilhas mais estreitas cortadas no coração das montanhas, passando por um vale e picos pelo caminho. Isaku havia ido até a aldeia vizinha pela primeira vez quando seu pai partira para a servidão, e a sensação de poder que lhe causara fora suficiente para deixá-lo zonzo. Fileiras de casas e lojas vendendo todo tipo de coisa, assim como construções de dois andares para acomodar viajantes. As ruas eram cheias de gente, e ele vira coisas das quais tinha apenas ouvido falar mas nunca vira antes, tais como um boi, que passara diante dele com carga amarrada nas costas. No porto ele vira navios de carga e de barcos de pesca. Não parara de se mover por um segundo, olhando tudo de forma incansável, até ficar exausto.
Tinham passado apenas uma noite no chão de terra da casa do intermediário, mas Isaku nunca iria se esquecer da sublime tranquilidade que experimentara quando atravessara novamente o passo nas montanhas e avistara as casas de sua aldeia lá embaixo. Estava certo de que nunca poderia viver em outro lugar que não fosse aquele.
No momento em que ouviu dizer que os agentes da transportadora estavam procurando um navio desaparecido, a aldeia vizinha passou a representar para Isaku tudo que era misterioso e assustador. A vila vizinha ficava localizada na mesma ilha e pertencia à vasta extensão de terra do outro lado do mar. Cada aldeia tinha seu próprio código de leis, passado adiante através das eras.
Raro como era, via-se o aparecimento de O-fune-sama sob a mesma luz dos inesperados cardumes de peixes que às vezes apareciam perto da costa, ou quantidades especialmente grandes de cogumelos ou legumes da montanha encontrados na floresta. O-fune-sama era parte dos presentes oferecidos pelo mar, e seu aparecimento acabara de salvar as pessoas da aldeia da fome. Para a aldeia de Isaku, o naufrágio de O-fune-sama era a coisa mais alegre possível, mas para outras pessoas, em outros lugares, tais como a aldeia vizinha, era algo ruim e que merecia a punição máxima. Mas se O-fune-sama não abençoasse sua praia, a aldeia havia muito teria deixado de existir, e a baía não seria mais que uma área de mar rodeada por pedras. Seus ancestrais haviam vivido ali, e eles, por sua vez, só podiam sobreviver graças a O-fune-sama.
Diziam que as almas dos mortos da aldeia iam para longe pelo mar e que, com o tempo, voltariam para encontrar abrigo no útero de uma mulher grávida. Não havia nenhum lugar para onde elas poderiam retornar além da aldeia. Se retornassem para um lugar onde as regras fossem diferentes, onde eventos festivos fossem considerados crimes, o resultado não seria bom. Se Isaku viesse a constituir sua própria família, sabia que teria de ir até a aldeia vizinha vender sal e outras coisas, mas estava determinado a evitar tais viagens. Queria permanecer na segurança da aldeia onde seguiam princípios fixos de como viver.
Às vezes ele pensava sobre sua própria morte. Seu corpo sendo queimado e os ossos enterrados no chão, sua alma deixando a aldeia e seguindo por cima da água, realizando uma longa jornada antes de alcançar o lugar longínquo no mar onde as almas dos outros mortos da aldeia estariam esperando. Os espíritos tinham uma moradia no fundo do mar onde tudo era claro e brilhante. Densos campos de algas marinhas balançavam como bosques de árvores, e todo tipo de mariscos e outras conchas coloridas se agarravam às pedras, brilhando como madrepérola.
Cardumes de peixes pequenos, as escamas prateadas brilhando enquanto nadavam., viravam ao mesmo tempo quando o líder mudava de direção, da mesma forma que um grupo de flocos de neve dançando no ar.
O fundo do mar era sempre calmo e a temperatura da água não mudava. As almas mortas pareciam águas-vivas em suas vestes transparentes, e tinham um brilho saudável nos cabelos. Sempre sorriam e nunca eram admoestados. Estavam no estado de profunda serenidade induzido pela morte. Ali ele viu a avó, de quem tinha apenas uma vaga lembrança, e Teru, sua irmãzinha que morrera dois anos antes. As pessoas mais atrás deviam ser seus ancestrais.
Ele se moveu até eles e parou junto de Teru. Antes que se desse conta, ele também foi envolto em vestes transparentes, e sua face tinha sempre um sorriso gentil. Ele se sentiu agradavelmente aquecido dentro daquela roupa.
Às vezes, alguns espíritos se afastavam, levados por aqueles que tinham ficado para trás. Eram as almas voltando para a aldeia para reencarnar no útero através da união sexual de um homem e uma mulher. E quando a reencarnação ocorreria? Muito provavelmente, um longo tempo depois da morte.
Ele não tinha dúvidas de que ele, também, era um espírito reencarnado no útero de sua mãe. Acreditava que a moradia das almas mortas lá longe no mar não era apenas imaginação, mas algo que podia visualizar tão claramente porque se tratava de um lugar do qual ele uma vez fizera parte.
Não tinha medo de morrer, especialmente porque acreditava que havia um lugar onde se vivia em paz depois da morte. Mas, se fosse levado para longe e morresse em um lugar distante, achava que seria difícil para seu espírito conseguir alcançar o santuário das almas mortas de sua aldeia. Sem dúvida, seu espírito seria condenado a um inferno cheio de almas de estranhos com expressões tristes.
Se os homens da agência de transporte viessem até a aldeia e descobrissem que os habitantes tinham roubado a carga de um navio naufragado, eles seriam presos e mortos, não poderiam saborear a tranquilidade depois da morte. Isaku orou para que os homens da agência de transporte nunca aparecessem.
Akira Yoshimura, "Naufrágios"
Isaku passou o tempo reparando seu material de pesca, e ocasionalmente olhava pela porta dos fundos para a trilha que seguia até a aldeia vizinha, ou para o mar. Se os homens da agência de transporte viessem, seria ou pelo passo nas montanhas ou de barco pela costa. Tinham falado em colocar vigias perto do passo e nos promontórios, mas desistiram da ideia porque, como alguém observara, se eles percebessem os vigias, isso iria levantar suspeitas.
Isaku ouviu os homens da aldeia discutindo como seria a punição. Ficou aterrorizado. Falaram sobre pessoas sendo chicoteadas, depois arrastadas e puxadas por uma corda e então crucificadas de cabeça para baixo e espetadas com lanças até as entranhas caírem. Falaram sobre pessoas sendo cortadas com uma serra antes de ser crucificadas. Se descobrissem que tinham roubado a carga de um navio e espancado o capitão até matá-lo, sem dúvida o destino de todos seria similar a isso.
Apenas uma trilha levava para fora da aldeia, e para chegar à aldeia vizinha era preciso seguir as trilhas mais estreitas cortadas no coração das montanhas, passando por um vale e picos pelo caminho. Isaku havia ido até a aldeia vizinha pela primeira vez quando seu pai partira para a servidão, e a sensação de poder que lhe causara fora suficiente para deixá-lo zonzo. Fileiras de casas e lojas vendendo todo tipo de coisa, assim como construções de dois andares para acomodar viajantes. As ruas eram cheias de gente, e ele vira coisas das quais tinha apenas ouvido falar mas nunca vira antes, tais como um boi, que passara diante dele com carga amarrada nas costas. No porto ele vira navios de carga e de barcos de pesca. Não parara de se mover por um segundo, olhando tudo de forma incansável, até ficar exausto.
Tinham passado apenas uma noite no chão de terra da casa do intermediário, mas Isaku nunca iria se esquecer da sublime tranquilidade que experimentara quando atravessara novamente o passo nas montanhas e avistara as casas de sua aldeia lá embaixo. Estava certo de que nunca poderia viver em outro lugar que não fosse aquele.
No momento em que ouviu dizer que os agentes da transportadora estavam procurando um navio desaparecido, a aldeia vizinha passou a representar para Isaku tudo que era misterioso e assustador. A vila vizinha ficava localizada na mesma ilha e pertencia à vasta extensão de terra do outro lado do mar. Cada aldeia tinha seu próprio código de leis, passado adiante através das eras.
Raro como era, via-se o aparecimento de O-fune-sama sob a mesma luz dos inesperados cardumes de peixes que às vezes apareciam perto da costa, ou quantidades especialmente grandes de cogumelos ou legumes da montanha encontrados na floresta. O-fune-sama era parte dos presentes oferecidos pelo mar, e seu aparecimento acabara de salvar as pessoas da aldeia da fome. Para a aldeia de Isaku, o naufrágio de O-fune-sama era a coisa mais alegre possível, mas para outras pessoas, em outros lugares, tais como a aldeia vizinha, era algo ruim e que merecia a punição máxima. Mas se O-fune-sama não abençoasse sua praia, a aldeia havia muito teria deixado de existir, e a baía não seria mais que uma área de mar rodeada por pedras. Seus ancestrais haviam vivido ali, e eles, por sua vez, só podiam sobreviver graças a O-fune-sama.
Diziam que as almas dos mortos da aldeia iam para longe pelo mar e que, com o tempo, voltariam para encontrar abrigo no útero de uma mulher grávida. Não havia nenhum lugar para onde elas poderiam retornar além da aldeia. Se retornassem para um lugar onde as regras fossem diferentes, onde eventos festivos fossem considerados crimes, o resultado não seria bom. Se Isaku viesse a constituir sua própria família, sabia que teria de ir até a aldeia vizinha vender sal e outras coisas, mas estava determinado a evitar tais viagens. Queria permanecer na segurança da aldeia onde seguiam princípios fixos de como viver.
Às vezes ele pensava sobre sua própria morte. Seu corpo sendo queimado e os ossos enterrados no chão, sua alma deixando a aldeia e seguindo por cima da água, realizando uma longa jornada antes de alcançar o lugar longínquo no mar onde as almas dos outros mortos da aldeia estariam esperando. Os espíritos tinham uma moradia no fundo do mar onde tudo era claro e brilhante. Densos campos de algas marinhas balançavam como bosques de árvores, e todo tipo de mariscos e outras conchas coloridas se agarravam às pedras, brilhando como madrepérola.
Cardumes de peixes pequenos, as escamas prateadas brilhando enquanto nadavam., viravam ao mesmo tempo quando o líder mudava de direção, da mesma forma que um grupo de flocos de neve dançando no ar.
O fundo do mar era sempre calmo e a temperatura da água não mudava. As almas mortas pareciam águas-vivas em suas vestes transparentes, e tinham um brilho saudável nos cabelos. Sempre sorriam e nunca eram admoestados. Estavam no estado de profunda serenidade induzido pela morte. Ali ele viu a avó, de quem tinha apenas uma vaga lembrança, e Teru, sua irmãzinha que morrera dois anos antes. As pessoas mais atrás deviam ser seus ancestrais.
Ele se moveu até eles e parou junto de Teru. Antes que se desse conta, ele também foi envolto em vestes transparentes, e sua face tinha sempre um sorriso gentil. Ele se sentiu agradavelmente aquecido dentro daquela roupa.
Às vezes, alguns espíritos se afastavam, levados por aqueles que tinham ficado para trás. Eram as almas voltando para a aldeia para reencarnar no útero através da união sexual de um homem e uma mulher. E quando a reencarnação ocorreria? Muito provavelmente, um longo tempo depois da morte.
Ele não tinha dúvidas de que ele, também, era um espírito reencarnado no útero de sua mãe. Acreditava que a moradia das almas mortas lá longe no mar não era apenas imaginação, mas algo que podia visualizar tão claramente porque se tratava de um lugar do qual ele uma vez fizera parte.
Não tinha medo de morrer, especialmente porque acreditava que havia um lugar onde se vivia em paz depois da morte. Mas, se fosse levado para longe e morresse em um lugar distante, achava que seria difícil para seu espírito conseguir alcançar o santuário das almas mortas de sua aldeia. Sem dúvida, seu espírito seria condenado a um inferno cheio de almas de estranhos com expressões tristes.
Se os homens da agência de transporte viessem até a aldeia e descobrissem que os habitantes tinham roubado a carga de um navio naufragado, eles seriam presos e mortos, não poderiam saborear a tranquilidade depois da morte. Isaku orou para que os homens da agência de transporte nunca aparecessem.
sábado, julho 18
Quando não havia senão noite
Antigamente, e Deus pastoreava as estrelas no céu. Quando lhes dava mais alimento elas engordavam e a sua pança abarrotava de luz. Nesse tempo, todas as estrelas comiam, todas luziam de igual alegria. Os dias ainda não haviam nascido e, por isso, o Tempo caminhava com uma perna só. E tudo era tão lento no infinito firmamento!
Até que, no rebanho do pastor, nasceu uma estrela com ganância de ser maior que todas as outras. Essa estrela chamava-se Sol e cedo se apropriou dos pastos celestiais, expulsando para longe as outras estrelas que começaram a definhar.
Pela primeira vez houve estrelas que penaram e, magrinhas, foram engolidas pelo escuro. Mais e mais o Sol ostentava grandeza, vaidoso dos seus domínios e do seu nome tão masculino. Ele, então, se intitulou patrão de todos os astros, assumindo arrogâncias de centro do Universo. Não tardou a proclamar que ele é que tinha criado Deus.
O que sucedeu, na verdade, é que, com o Sol, assim soberano e imenso, tinha nascido o Dia. A Noite só se atrevia a aproximar-se quando o Sol, cansado, se ia deitar. Com o Dia, os homens esqueceram-se dos tempos infinitos em que todas as estrelas brilhavam de igual felicidade. E esqueceram a lição da Noite que sempre tinha sido rainha sem nunca ter que reinar.
Mia Couto, “A confissão da leoa”
Até que, no rebanho do pastor, nasceu uma estrela com ganância de ser maior que todas as outras. Essa estrela chamava-se Sol e cedo se apropriou dos pastos celestiais, expulsando para longe as outras estrelas que começaram a definhar.
Pela primeira vez houve estrelas que penaram e, magrinhas, foram engolidas pelo escuro. Mais e mais o Sol ostentava grandeza, vaidoso dos seus domínios e do seu nome tão masculino. Ele, então, se intitulou patrão de todos os astros, assumindo arrogâncias de centro do Universo. Não tardou a proclamar que ele é que tinha criado Deus.
O que sucedeu, na verdade, é que, com o Sol, assim soberano e imenso, tinha nascido o Dia. A Noite só se atrevia a aproximar-se quando o Sol, cansado, se ia deitar. Com o Dia, os homens esqueceram-se dos tempos infinitos em que todas as estrelas brilhavam de igual felicidade. E esqueceram a lição da Noite que sempre tinha sido rainha sem nunca ter que reinar.
Mia Couto, “A confissão da leoa”
Encontro
Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.
Almada Negreiros
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.
Almada Negreiros
A paixão da leitura
Nesta época tardia da história do mundo, encontram-se livros por toda parte da casa – no quarto das crianças, na sala de estar, na sala de jantar, na cozinha. E, em algumas casas, eles aumentaram tanto que têm que ser acomodados num aposento exclusivo. Romances, poemas, histórias, memórias, livros caros em couro, livros baratos em brochura – detemo-nos diante deles e, num assombro passageiro, perguntamos: que prazer extraímos ou que proveito tiramos ao percorrer com os olhos essas inumeráveis linhas em letra de imprensa?
Os grandes escritores exigem, assim, que façamos frequentes e heroicos esforços para lê-los corretamente. Eles nos vergam, eles nos quebram. Ir de Defoe a Jane Austen, de Hardy a Peacock, de Trollope a Meredith, de Richardson a Rudyard Kipling é ser torcido e distorcido, é ser jogado violentamente para um lado e para o outro. E isso vale também para os escritores menores. Cada um deles é singular; cada um tem uma visão, uma experiência, uma característica própria que pode entrar em conflito com a nossa, mas que devemos permitir que se expresse plenamente se quisermos fazer-lhe justiça. E os escritores que mais têm para nos oferecer são, muitas vezes, os que mais violentam os nossos preconceitos, particularmente se são nossos contemporâneos, de maneira que precisamos de toda a imaginação e compreensão se quisermos tirar o máximo proveito daquilo que eles podem nos oferecer.
Mas ler, como sugerimos, é um ato complexo. Não consiste simplesmente em estar em sintonia e compreender. Consiste, também, em criticar e em julgar. O leitor deve deixar o banco dos réus e se acomodar na poltrona do juiz. Deve deixar de ser amigo; deve se tornar juiz. E este segundo processo, que podemos chamar de processo pós-leitura, pois é, frequentemente, realizado sem termos o livro à nossa frente, proporciona um prazer ainda mais sólido do que o obtido quando estamos virando as páginas. Durante a leitura, novas impressões estão sempre anulando ou completando as velhas. Deleite, raiva, enfado, riso se alternam, enquanto lemos sem parar. O julgamento fica em suspenso, pois não podemos saber o que está por vir. Mas agora o livro acabou. Tomou uma forma definitiva. E o livro como um todo é diferente do livro há pouco absorvido em variadas e diferentes partes. Ele tem uma forma, ele tem um ser. E essa forma, esse ser, pode ser retido na mente e comparado com a forma de outros livros e se lhe pode atribuir o seu próprio tamanho e insignificância em comparação com os deles.
Mas se esse processo de julgar e decidir está cheio de prazer, está também cheio de dificuldades. Não se pode esperar muita ajuda do exterior. Críticos e resenhas críticas abundam, mas ler as opiniões de outra mente não ajuda muito quando a nossa ainda está fervendo de um livro que acabamos de ler. É só depois que formamos nossa opinião que as opiniões dos outros se mostram mais esclarecedoras. É quando podemos defender nosso próprio julgamento que obtemos o máximo do julgamento dos grandes críticos – os Johnson, os Dryden e os Arnold. Para que possamos tomar nossa decisão, a melhor forma de ajudarmos a nós mesmos é, primeiro, compreender tão completa e exatamente quanto possível a impressão que o livro deixou e, depois, comparar essa impressão com as impressões que formulamos no passado. Elas estão ali, penduradas no armário da mente – as formas dos livros que já lemos, como roupas que tiramos e penduramos à espera da estação adequada. Assim, se acabamos de ler pela primeira vez, digamos, Clarissa Harlowe, nós o pegamos e deixamos que se mostre contra a forma que continua em nossa mente desde que lemos Ana Karenina. Colocamos os dois lado a lado e, imediatamente, as silhuetas dos dois livros aparecem recortadas uma contra a outra tal como o canto de uma casa (para mudar de figura) aparece recortado contra a plenitude da lua cheia. Contrastamos as características salientes de Richardson com as de Tolstói. Contrastamos a sua obliquidade e verbosidade com a brevidade e a falta de rodeios de Tolstói. Perguntamo-nos por que cada escritor escolheu um ângulo tão diferente de abordagem. Comparamos a emoção que sentimos em diferentes crises de seus livros. Especulamos sobre as diferenças entre o século dezoito na Inglaterra e o século dezenove na Rússia – mas as questões que se insinuam assim que juntamos os livros não têm fim. Assim, por etapas, fazendo perguntas e respondendo-as, descobrimos que decidimos que o livro que acabamos de ler é deste tipo ou do outro, que tem este ou aquele nível de mérito, toma o seu lugar neste ou naquele ponto na literatura como um todo. E se somos bons leitores julgamos, assim, não apenas os clássicos e as obras-primas dos mortos, mas prestamos aos escritores vivos o cumprimento de compará-los como devem ser comparados: com o padrão dos grandes livros do passado.
Assim, pois, quando os moralistas nos perguntam o que ganhamos quando nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer livros bons ao mundo e a tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente. Na verdade, o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo. Quando o dia do juízo final chegar e todos os segredos forem revelados, não devemos ficar surpresos ao saber que a razão pela qual evoluímos do macaco ao homem, e deixamos nossas cavernas e depusemos nossos arcos e flechas e sentamos ao redor do fogo e conversamos e demos aos pobres e ajudamos os doentes, a razão pela qual construímos, partindo da aridez do deserto e dos emaranhados da floresta, abrigos e sociedades, é simplesmente esta: nós desenvolvemos a paixão da leitura.
Virginia Woolf, "O sol e o peixe"
Ler é uma arte muito complexa – é o que nos revelará até mesmo o exame mais apressado de nossas sensações como leitores. E nossas obrigações como leitores são muitas e variadas. Mas talvez se possa dizer que nossa primeira obrigação para com um livro é que devemos lê-lo pela primeira vez como se o tivéssemos escrevendo. Para começar, devemos nos sentar no banco dos réus e não na poltrona do juiz. Devemos, nesse ato de criação, não importa se bom ou ruim, ser cúmplices do escritor. Pois cada um desses livros, não importando o gênero ou a qualidade, representa um esforço para criar algo. E nossa primeira obrigação como leitores é tentar entender o que o escritor está fazendo, desde a primeira palavra com que compõe a primeira frase até a última com que termina o livro. Não devemos impor-lhe nosso plano, não devemos tentar fazer com que sua vontade se conforme à nossa. Devemos deixar que Defoe seja Defoe e que Jane Austen seja Jane Austen tão livremente quanto deixamos que o tigre tenha seu pelo e a tartaruga sua carapaça. E isso é muito difícil. Pois uma das qualidades da grandeza consiste em deixar que o céu e a terra e a natureza se conformem à visão que lhes é própria.
Os grandes escritores exigem, assim, que façamos frequentes e heroicos esforços para lê-los corretamente. Eles nos vergam, eles nos quebram. Ir de Defoe a Jane Austen, de Hardy a Peacock, de Trollope a Meredith, de Richardson a Rudyard Kipling é ser torcido e distorcido, é ser jogado violentamente para um lado e para o outro. E isso vale também para os escritores menores. Cada um deles é singular; cada um tem uma visão, uma experiência, uma característica própria que pode entrar em conflito com a nossa, mas que devemos permitir que se expresse plenamente se quisermos fazer-lhe justiça. E os escritores que mais têm para nos oferecer são, muitas vezes, os que mais violentam os nossos preconceitos, particularmente se são nossos contemporâneos, de maneira que precisamos de toda a imaginação e compreensão se quisermos tirar o máximo proveito daquilo que eles podem nos oferecer.
Mas ler, como sugerimos, é um ato complexo. Não consiste simplesmente em estar em sintonia e compreender. Consiste, também, em criticar e em julgar. O leitor deve deixar o banco dos réus e se acomodar na poltrona do juiz. Deve deixar de ser amigo; deve se tornar juiz. E este segundo processo, que podemos chamar de processo pós-leitura, pois é, frequentemente, realizado sem termos o livro à nossa frente, proporciona um prazer ainda mais sólido do que o obtido quando estamos virando as páginas. Durante a leitura, novas impressões estão sempre anulando ou completando as velhas. Deleite, raiva, enfado, riso se alternam, enquanto lemos sem parar. O julgamento fica em suspenso, pois não podemos saber o que está por vir. Mas agora o livro acabou. Tomou uma forma definitiva. E o livro como um todo é diferente do livro há pouco absorvido em variadas e diferentes partes. Ele tem uma forma, ele tem um ser. E essa forma, esse ser, pode ser retido na mente e comparado com a forma de outros livros e se lhe pode atribuir o seu próprio tamanho e insignificância em comparação com os deles.
Mas se esse processo de julgar e decidir está cheio de prazer, está também cheio de dificuldades. Não se pode esperar muita ajuda do exterior. Críticos e resenhas críticas abundam, mas ler as opiniões de outra mente não ajuda muito quando a nossa ainda está fervendo de um livro que acabamos de ler. É só depois que formamos nossa opinião que as opiniões dos outros se mostram mais esclarecedoras. É quando podemos defender nosso próprio julgamento que obtemos o máximo do julgamento dos grandes críticos – os Johnson, os Dryden e os Arnold. Para que possamos tomar nossa decisão, a melhor forma de ajudarmos a nós mesmos é, primeiro, compreender tão completa e exatamente quanto possível a impressão que o livro deixou e, depois, comparar essa impressão com as impressões que formulamos no passado. Elas estão ali, penduradas no armário da mente – as formas dos livros que já lemos, como roupas que tiramos e penduramos à espera da estação adequada. Assim, se acabamos de ler pela primeira vez, digamos, Clarissa Harlowe, nós o pegamos e deixamos que se mostre contra a forma que continua em nossa mente desde que lemos Ana Karenina. Colocamos os dois lado a lado e, imediatamente, as silhuetas dos dois livros aparecem recortadas uma contra a outra tal como o canto de uma casa (para mudar de figura) aparece recortado contra a plenitude da lua cheia. Contrastamos as características salientes de Richardson com as de Tolstói. Contrastamos a sua obliquidade e verbosidade com a brevidade e a falta de rodeios de Tolstói. Perguntamo-nos por que cada escritor escolheu um ângulo tão diferente de abordagem. Comparamos a emoção que sentimos em diferentes crises de seus livros. Especulamos sobre as diferenças entre o século dezoito na Inglaterra e o século dezenove na Rússia – mas as questões que se insinuam assim que juntamos os livros não têm fim. Assim, por etapas, fazendo perguntas e respondendo-as, descobrimos que decidimos que o livro que acabamos de ler é deste tipo ou do outro, que tem este ou aquele nível de mérito, toma o seu lugar neste ou naquele ponto na literatura como um todo. E se somos bons leitores julgamos, assim, não apenas os clássicos e as obras-primas dos mortos, mas prestamos aos escritores vivos o cumprimento de compará-los como devem ser comparados: com o padrão dos grandes livros do passado.
Assim, pois, quando os moralistas nos perguntam o que ganhamos quando nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer livros bons ao mundo e a tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente. Na verdade, o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo. Quando o dia do juízo final chegar e todos os segredos forem revelados, não devemos ficar surpresos ao saber que a razão pela qual evoluímos do macaco ao homem, e deixamos nossas cavernas e depusemos nossos arcos e flechas e sentamos ao redor do fogo e conversamos e demos aos pobres e ajudamos os doentes, a razão pela qual construímos, partindo da aridez do deserto e dos emaranhados da floresta, abrigos e sociedades, é simplesmente esta: nós desenvolvemos a paixão da leitura.
Virginia Woolf, "O sol e o peixe"
O jejuador
O interesse pelos jejuadores profissionais decresceu sensivelmente nos últimos decênios. Antes, convinha aos empresários organizar tais espetáculos, mas atualmente isto se tornou quase impossível. Vivemos num mundo diferente. Houve época em que a cidade inteira sentia viva curiosidade pelo artista da fome, aumentando a excitação à medida que o jejum se prolongava, querendo todos vê-lo ao menos uma vez por dia. Havia mesmo pessoas que compravam bilhetes para os últimos espetáculos, sentando-se desde manhã até a noite diante das grades da jaula. As exibições noturnas eram realçadas por archotes e, quando a temperatura era amena, levavam a jaula para o ar livre, sendo o jejuador mostrado às crianças como divertimento especial. Os adultos, muitas vezes consideravam aquilo pilhéria, aceita por estar em moda, mas as crianças ficavam boquiabertas, de mãos dadas para se sentirem mais seguras, maravilhando-se ante o homem pálido, de costelas salientes, que vestia justas calças negras e não tinha sequer uma cadeira, sentando-se na palha espalhada no chão. Às vezes ele inclinava a cabeça cortesmente, ou respondia com um sorriso constrangido às perguntas que lhe eram feitas, estendendo de vez o braço através das grades, para que verificassem como estava magro. Recolhia-se depois ao seu mutismo, não prestando atenção a nada nem a ninguém, nem mesmo ao relógio para ele tão importante e que era a única peça de mobília na jaula. Ficava a olhar o vazio, de pálpebras semicerradas, de vez em quando alcançando um pequeno copo de água e tomando um golezinho para umedecer os lábios.
Além dos espectadores comuns, havia permanentemente vigias escolhidos pelo público, que se revezavam. Por estranho que pareça, em geral eram açougueiros, em grupos de três, que tinham por obrigação observar o jejuador dia e noite, para evitar que ingerisse disfarçadamente algum alimento. Mera formalidade, instituída para tranquilizar o povo, pois os iniciados sabiam perfeitamente bem que, fossem quais fossem as circunstâncias, nem mesmo a força o artista se resolveria a quebrar o jejum, durante a prova. A honra da profissão o impedia. Nem todos os espectadores, naturalmente, eram capazes desta compreensão. Frequentemente havia grupos de vigilantes noturnos que relaxavam o cumprimento do dever, retirando-se para um canto, onde se deixavam empolgar por um jogo de cartas, com a evidente intenção de dar ao jejuador ensejo de tomar alimento, que eles supunham existir em algum esconderijo. Nada aborrecia mais o artista que semelhantes vigias. Faziam-no sentir-se infeliz e tornavam a abstinência insuportável. Às vezes conseguia dominar suficientemente a fraqueza para cantar, o mais que lhe era possível, tentando provar a injustiça de tais suposições. Isto de nada adiantava, pois os homens apenas admiravam a habilidade que lhe permitia comer enquanto cantava. Apreciava mais os guardas que se sentavam perto das grades e que, não se contentando com a parca iluminação do local, lançavam sobre ele o clarão direto das lanternas elétricas que o empresário pusera à sua disposição. A luz dura não o incomodava.
De qualquer maneira, não podia mesmo dormir, mas conseguia cochilar, sob qualquer luz, fosse qual fosse a hora, mesmo quando a sala se achava repleta de espectadores ruidosos. Ficava satisfeito por poder passar uma noite insone em companhia de tais vigias, estando sempre disposto a pilheriar com eles, contendo-lhe histórias de sua vida nômade, qualquer coisa que os conservasse acordados para demonstrar que não tinha comida na jaula e era capaz de uma abstinência que nenhum deles suportaria. Mas o momento mais feliz era quando chegava a manhã e vinham servir aos guardas, a suas expensas, um farto desjejum, ao qual eles se atiravam com feroz apetite de homens robustos, após cansativa noite de vigília. Naturalmente havia quem alegasse ser tal refeição uma desleal tentativa de suborno, mas isso era ir longe demais. Quando essas pessoas eram convidadas a participar de uma noite de guarda, apenas por amor a arte, sem a expectativa do café da manhã esquivavam-se, embora continuassem teimosamente a manter suas dúvidas.
Tais suspeitas, no entanto, eram inevitáveis na profissão. Impossível, naturalmente, ficar uma pessoa e observá-lo continuamente, dia e noite, e ninguém poderia garantir, por experiência própria, que o jejum fora rigoroso e ininterrupto. Somente o artista sabia disso, sendo, portanto, o único realmente convicto. Mas, por outros motivos, nunca estava verdadeiramente satisfeito. Talvez não fosse apenas o jejum que o tivesse reduzido àquele estado de magreza que fazia com que muitas pessoas se afastassem, embora a contragosto, por não poderem suportar o espetáculo. A insatisfação para consigo mesmo talvez fosse a verdadeira causa de seu depauperamento. Só ele sabia o que não era dado a saber nem mesmo a outros iniciados: como era fácil jejuar. A coisa mais fácil do mundo. Não fazia segredo disto, mas o povo não lhe dava crédito. Quando muito, consideravam-no modesto, mas a maioria achava que ele estava querendo fazer publicidade, ou, então, que se tratava de um trapaceiro que descobrira meio de tornar fácil o jejum e cinicamente o confessava.
Ele vira-se obrigado a aceitar tal reação e, com o tempo, a ela se habituara, mas a íntima satisfação persistia e nunca, justiça seja feita, deixara a jaula por espontânea vontade, quando chegava o término da prova. O prazo máximo fora fixado em quarenta dias pelo empresário, que não lhe permitia ir além, nem mesmo nas grandes cidades. Havia boas razões para isso. A experiência demonstrara que, durante 40 dias, a curiosidade do público podia ser mantida pela pressão de anúncios, mas depois disso o povo começa a se desinteressar, diminuindo o numero de simpatizantes. Isto variava, naturalmente, de uma cidade a outra, entre este ou aquele país, mas em geral 40 dias era o limite.
Assim, no quadragésimo dia abria-se a porta da jaula engrinaldada de flores. Entusiásticos espectadores enchiam o local, entravam na jaula, para verificar o resultado da prova, que era anunciado por meio de alto-falante. Finalmente apareciam duas moças, felizes por terem sido escolhidas para tal honraria. Iam ajudar o artista a descer os poucos degraus que levavam à mesa onde se achava a refeição cuidadosamente preparada para um homem em suas condições físicas. Neste momento, o jejuador sempre se mostrava obstinado. Verdade que entregava os braços descarnados às duas moças que sobre ele se inclinavam para auxiliá-lo, mas não queria saber de levantar. Por que interromper o jejum especialmente neste instante, após 40 dias? Aguentara por muito tempo.: por que desistir agora, quando se achava em plena forma, ou, para ser exato, ainda não estava em sua melhor forma? Por que negar-lhe a fama que teria, se continuasse, a glória de ser, não apenas o recordista da fama de todos os tempos (o que talvez já fosse) mas a de sobrepujar seu próprio feito, com uma demonstração que ninguém julgaria possível? Ele sabia não haver limite para sua resistência. Já que o público parecia admirá-lo tanto, por que não se mostrava mais paciente? Se ele podia suportar uma abstinência prolongada, por que não aguentavam eles o espetáculo? Além do mais, estava cansado, achava-se sentado confortavelmente sobre a palha, e agora lhe viam exigir que se levantasse para comer! Só de pensar nisto sentia náusea e somente a presença das moças o impedia de manifestá-la e, assim mesmo, com esforço. Fitou-as, aparentemente tão amigas, mas na realidade cruéis; e sacudiu a cabeça que lhe pesava no pescoço enfraquecido. Aconteceu então, o que sempre acontecia. O empresário adiantou-se sem dizer palavra ? a banda impossibilitava qualquer espécie de discurso ? ergueu os braços acima do artista, como que a convidar o céu a olhar para aquela pobre criatura ali na palha, mártir que em verdade era, embora noutro sentido. Com exageradas precauções, agarrou-lhe a cintura emaciada, para que pudessem apreciar devidamente a sua frágil condição, e entregou-o as moças, muito pálidas, dando-lhes disfarçadamente uma sacudidela que fez vacilarem suas pernas trôpegas. O artista submeteu-se agora totalmente, a cabeça tombada sobre o peito, como se ali tivesse ido parar por acaso. O corpo foi puxado para fora, os joelhos tentavam firmar-se um no outro, no instinto de conservação, as pernas se arrastavam como se ele não pisasse terreno firme e, apesar disso, o procurasse. Leve como pluma, tentou apoiar-se a uma das moças. Ofegante, ela olhou à volta em busca de socorro, parecendo achar que o posto de honra não correspondia à expectativa, e espichou o pescoço o mais que pôde para livrá-lo do contato desagradável. Vendo que era impossível e que sua mais feliz companheira não lhe vinha em auxílio, limitando-se a segurar na mão trêmula o feixe de ossos que era a mão do artista, rompeu em pranto, com grande gozo dos espectadores. Teve que ser substituída por um funcionário, que ali se achava de prontidão. Chegou a hora da comida e o empresário conseguiu enfiar alguma coisa por entre os lábios de seu protegido, que parecia a ponto de desmaiar. Falava ao mesmo tempo, alegremente, para que ninguém notasse o estado do jejuador. Depois, foi feito ao público um brinde, aparentemente instigado por um murmúrio do artista ao ouvido do empresário. A banda confirmou-o com um vigoroso rufar de tambores e o povo foi-se dissolvendo, parecendo todos satisfeitos com o que tinham visto, com exceção do homem que se exibira, que nunca se sentia satisfeito.
Assim viveu muitos anos, com pequenos intervalos de recuperação, em plena glória, admirado pelo mundo, mas apesar disto infeliz, tanto mais que ninguém parecia levar a sério seu desgosto. Que palavras de conforto precisaria ele ouvir? Que mais poderia desejar? Quando uma pessoa de boa vontade, dele se apiedando, tentava consolá-lo, dizendo que o jejum devia ser a causa de sua tristeza, acontecia ver-se ele tomado de cólera, principalmente quando a prova já ia adiantada. Com alarme geral, punha-se a sacudir as grades da jaula, tal animal selvagem. Mas o empresário tinha meios de pôr cobro a essas explosões, com as quais o artista gostava de se exibir. Desculpava-se publicamente por tal procedimento. Devia ser relevado, dizia ele, por causa da irritabilidade provocada pela abstinência, que pessoas bem alimentadas não estavam em condições de compreender. Depois, numa transição natural, mencionava a também incompreensível jactância do homem que se dizia capaz de jejuar por prazo maior ainda, elogiava-lhe a ambição, a boa vontade, o espírito de sacrifício implícitos em semelhante declaração. Dava em seguida o contragolpe, trazendo os fotógrafos que iriam vender ao público retratos onde se veria o jejuador, no quadragésimo dia, caído na palha, quase morto de exaustão. Essa distorção da verdade, embora conhecida do artista, tirava-lhe a coragem, deixando-o mais abatido ainda. Aquilo que era apenas consequência do precoce término do jejum era apresentado como causa! Impossível lutar contra a geral incompreensão. Inúmeras vezes, com o máximo da boa vontade, ficava perto das grades, ouvindo palavras do empresário, mas, assim que chegavam os fotógrafos, caía de novo na palha, com um gemido, e o público, tranquilizado, podia de novo aproximar-se para contemplá-lo.
Anos mais tarde, quando testemunhas de tais cenas as relembravam, não podiam às vezes compreendê-las. É que, neste meio tempo, o interesse por essas exibições esmorecera, tendo acontecido quase que da noite para o dia. Talvez houvesse razões profundas para o fato, mas quem iria se preocupar em analisá-las? De qualquer maneira, o mimado artista da fome viu-se um belo dia abandonado pelas pessoas ávidas de divertimento, que iam agora em busca de espetáculos mais atraentes. Num derradeiro esforço, o empresário correu com ele metade da Europa, a ver se a antiga simpatia poderia ser reavivada. Em vão. Em toda a parte, como que por secreto acordo, havia positiva repulsa pelos jejuadores profissionais. Naturalmente isto não poderia ter surgido assim tão de repente. Muitos dos sintomas ominosos, aos quais eles não tinham dado suficiente atenção, ou que haviam mesmo sido ignorados na embriaguez do triunfo, voltavam agora à memória, embora fosse tarde demais. O interesse pelos jejuadores certamente teria o seu recrudescimento, um dia, mas isto não era consolo para os que atualmente viviam. Que poderia então fazer o artista da fome? Fora aplaudido por milhares de pessoas e não queria agora conformar-se com exibições em barracas de feira, nas aldeias. Quanto a adotar outra profissão, não somente estava muito velho, como era fanático pela sua. Assim, despediu-se do empresário, companheiro de uma carreira inigualável, e firmou contrato com um grande circo. Para não ferir a própria susceptibilidade, evitou ler-lhe as cláusulas.
Um circo importante, que está continuamente contratando e substituindo homens, animais e aparelhamento, sempre pode utilizar um artista, até mesmo um jejuador, contanto que não exija muito. No caso presente, não estavam os diretores interessados somente no artista, como em sua fama, durante longos anos adquirida. Considerando-se a peculiaridade de seu ofício, que não se prejudicara com a idade, não se podia dizer que ali estivesse um artista que, tendo ultrapassado a maturidade e não se achando mais em plena forma, viera buscar refúgio num circo. Pelo contrário, o jejuador afirmava ser capaz de suportar a abstinência tanto quanto antes e disso não se poderia duvidar. Chegou mesmo a declarar que se lhe dessem carta branca, o que lhe foi imediatamente prometido, poderia assombrar o mundo, estabelecendo um recorde jamais alcançado. Tal declaração provocou risos nos outros profissionais, pois não estava sendo levada em conta a frieza do público, fato que o jejuador, em seu zelo, parecera ter convenientemente esquecido.
No íntimo, ele não deixava de perceber a verdadeira situação. Conformou-se em ver sua gaiola colocada, não no meio da arena, como principal atração, e sim fora, perto das jaulas dos animais -?local, afinal de contas ? bastante acessível. Cartazes grandes e vistosos emolduravam a jaula, anunciando o tipo de espetáculo. Quando o público vinha, nos intervalos, ver as feras, tinha de passar pelo jejuador e algumas pessoas paravam, por momentos. Talvez se demorassem por mais tempo, não fossem os empurrões dos que vinham atrás, pela estreita passagem, e que não compreendiam o motivo pelo qual eram detidos. Isto impedia que os primeiros o examinassem com calma. Foi esta a razão que fez com que o artista que aguardara tais visitas como o maior acontecimento de sua vida, começasse a temê-las. A princípio, mal podia esperar pelos intervalos. Era excitante ver a multidão escoar para o seu lado, até que (tarde demais!) apesar do obstinado e quase consciente desejo de iludir-se, teve que se render à evidência. Convenceu-se de que aquelas pessoas, a julgar pela sua atitude, procuravam apenas visitar os animais. A sensação mais agradável sempre fora vê-los de longe. Quando se aproximavam, ficava aturdido com os gritos e insultos dos dois grupos dissidentes, sempre renovados, constituídos, um, pelos que desejavam parar para observá-lo (não por real interesse e sim por teimosia) e o segundo, por aqueles que ansiavam por ver as feras. Logo começou a detestar mais os primeiros. Depois que passava o maior número, vinham os retardatários. Embora pudessem contemplá-lo à vontade, apressavam-se, sem nem mesmo olhá-lo, tal o medo de chegarem atrasados às jaulas dos animais. Raramente acontecia ter ele um golpe de sorte, quando um pai de família parava com os filhos, apontando-o e explicando o fenômeno, contando histórias de anos passados, quando ele próprio assistira a espetáculos mais emocionantes. As crianças, sem nada entender, pois nem na escola e nem em casa haviam sido preparadas para isto (que lhes importava o jejum?) indicavam, pelo brilho dos olhos, que dias mais auspiciosos estavam para vir. Talvez as coisas corressem melhor, pensava o artista, se não o tivessem colocado tão perto dos animais. Isto tornava ao povo fácil a escolha, mesmo não se levando em consideração que ele sofria com o cheiro desagradável, a inquietação das feras à noite, a passagem dos pedaços de carne crua, o ruído na hora de serem alimentados, coisas que o deprimiam profundamente. Mas não ousava queixar-se. Afinal de contas, devia aos animais a afluência de tantas pessoas e sempre podia haver alguém que o notasse e lembrasse de sugerir lugar mais isolado para a gaiola, caso ele chamasse atenção para sua existência e para o fato de, na realidade, nada mais ser do que um obstáculo à passagem do público.
Pequeno obstáculo, não havia dúvida, e que cada vez menor se tornava. As pessoas familiarizavam-se com a estranha idéias de que delas se esperava, nestes tempos, que se interessassem pelo artista da fome, e esta familiaridade era justamente o veredito contra ele. Poderia jejuar à vontade e era o que fazia, mas nada agora o salvaria. O povo passava, indiferente. Fosse alguém explicar a arte do jejum! Quem não a apreciasse espontaneamente, jamais chegaria a compreendê-la. Os belos cartazes foram tornando-se sujos e ilegíveis e acabaram sendo em parte arrancados. A pequena tabuleta indicando o número de dias, havia muito marcava a mesma data, pois nem mesmo este pequeno esforço parecia útil aos funcionários. Assim sendo, o artista continuava jejuando e jejuando, como antes fora seu sonho. Isto não o incomodava, como ele soubera, que não o incomodaria. Mas ninguém mais contava os dias, ninguém.; nem mesmo o artista sabia que recorde estaria ele batendo e seu coração se confrangia. Quando, de vez em quando, um passante se detinha e zombava do velho deitado ali no chão, falando em fraude, tratava-se da mais estúpida mentira jamais inventada pela indiferença e malícia humanas. Não era o artista que estava trapaceando. Ele trabalhava honestamente; o mundo, sim, o lograva, privando-o da merecida recompensa.
Muitos dias se passaram e também aquilo chegou ao fim. Um fiscal apareceu ali e perguntou aos funcionários por que se desperdiçava uma jaula que continha apenas um monte de palha suja. Ninguém soube responder até que um deles, notando o cartaz com o número de dias, lembrou do artista da fome. Enfiaram um pau na palha e o descobriram.
– Ainda está jejuando? ? perguntou o inspetor. ? Quando, em nome dos céus, pretende parar?
– Perdoem-me todos? murmurou o artista. Somente o fiscal, que tinha o ouvido perto das grades, conseguiu entendê-lo.
– Claro que o perdoamos? respondeu, batendo na testa, como a indicar aos empregados o estado mental do jejuador.
– Sempre desejei que admirassem minha resistência.
– Claro que a admiramos ? disse o fiscal, amavelmente.
– Mas não deviam admirar.
– Está certo, não admiramos, então, mas por que diz isto?
– Porque tenho que jejuar, não posso evitá-lo.
– Que tipo você é! ? exclamou o inspetor ? Por que não pode evitá-lo?
– Porque não consegui encontrar comida a meu gosto ? respondeu o artista, erguendo um pouco a cabeça e falando junto ao ouvido do outro, para que não se perdesse uma sílaba. ? Se a tivesse encontrado, creia que não teria feito nada disto e me empanturraria como o senhor ou qualquer outro.
Foram estas suas ultimas palavras, mas não olhos apagados restava a firme, embora não mais orgulhosa, certeza de que continuaria a jejuar.
– Pois bem, limpem isto aqui!, ordenou o fiscal.
Enterraram o artista da fome, com palha e tudo. Em seu lugar, puseram uma jovem pantera. Até mesmo as pessoas mais insensíveis acharam agradável ver o animal selvagem pulando na jaula que durante muito tempo tão lúgubre parecera. A pantera ia muito bem. A comida que lhe convinha era trazida pontualmente pelos empregados e ela nem mesmo dava impressão de sentir a ausência de liberdade. Aquele nobre corpo, provido ao máximo de todo o necessário, parecia trazer em si a própria liberdade. A alegria de viver fluía de suas faces com tal ardor, que aos espectadores não era difícil suportar o choque. Mas enchiam-se de coragem, comprimindo-se à volta da jaula, e acabavam não querendo mais se afastar.
Franz Kafka
Além dos espectadores comuns, havia permanentemente vigias escolhidos pelo público, que se revezavam. Por estranho que pareça, em geral eram açougueiros, em grupos de três, que tinham por obrigação observar o jejuador dia e noite, para evitar que ingerisse disfarçadamente algum alimento. Mera formalidade, instituída para tranquilizar o povo, pois os iniciados sabiam perfeitamente bem que, fossem quais fossem as circunstâncias, nem mesmo a força o artista se resolveria a quebrar o jejum, durante a prova. A honra da profissão o impedia. Nem todos os espectadores, naturalmente, eram capazes desta compreensão. Frequentemente havia grupos de vigilantes noturnos que relaxavam o cumprimento do dever, retirando-se para um canto, onde se deixavam empolgar por um jogo de cartas, com a evidente intenção de dar ao jejuador ensejo de tomar alimento, que eles supunham existir em algum esconderijo. Nada aborrecia mais o artista que semelhantes vigias. Faziam-no sentir-se infeliz e tornavam a abstinência insuportável. Às vezes conseguia dominar suficientemente a fraqueza para cantar, o mais que lhe era possível, tentando provar a injustiça de tais suposições. Isto de nada adiantava, pois os homens apenas admiravam a habilidade que lhe permitia comer enquanto cantava. Apreciava mais os guardas que se sentavam perto das grades e que, não se contentando com a parca iluminação do local, lançavam sobre ele o clarão direto das lanternas elétricas que o empresário pusera à sua disposição. A luz dura não o incomodava.
De qualquer maneira, não podia mesmo dormir, mas conseguia cochilar, sob qualquer luz, fosse qual fosse a hora, mesmo quando a sala se achava repleta de espectadores ruidosos. Ficava satisfeito por poder passar uma noite insone em companhia de tais vigias, estando sempre disposto a pilheriar com eles, contendo-lhe histórias de sua vida nômade, qualquer coisa que os conservasse acordados para demonstrar que não tinha comida na jaula e era capaz de uma abstinência que nenhum deles suportaria. Mas o momento mais feliz era quando chegava a manhã e vinham servir aos guardas, a suas expensas, um farto desjejum, ao qual eles se atiravam com feroz apetite de homens robustos, após cansativa noite de vigília. Naturalmente havia quem alegasse ser tal refeição uma desleal tentativa de suborno, mas isso era ir longe demais. Quando essas pessoas eram convidadas a participar de uma noite de guarda, apenas por amor a arte, sem a expectativa do café da manhã esquivavam-se, embora continuassem teimosamente a manter suas dúvidas.
Tais suspeitas, no entanto, eram inevitáveis na profissão. Impossível, naturalmente, ficar uma pessoa e observá-lo continuamente, dia e noite, e ninguém poderia garantir, por experiência própria, que o jejum fora rigoroso e ininterrupto. Somente o artista sabia disso, sendo, portanto, o único realmente convicto. Mas, por outros motivos, nunca estava verdadeiramente satisfeito. Talvez não fosse apenas o jejum que o tivesse reduzido àquele estado de magreza que fazia com que muitas pessoas se afastassem, embora a contragosto, por não poderem suportar o espetáculo. A insatisfação para consigo mesmo talvez fosse a verdadeira causa de seu depauperamento. Só ele sabia o que não era dado a saber nem mesmo a outros iniciados: como era fácil jejuar. A coisa mais fácil do mundo. Não fazia segredo disto, mas o povo não lhe dava crédito. Quando muito, consideravam-no modesto, mas a maioria achava que ele estava querendo fazer publicidade, ou, então, que se tratava de um trapaceiro que descobrira meio de tornar fácil o jejum e cinicamente o confessava.
Ele vira-se obrigado a aceitar tal reação e, com o tempo, a ela se habituara, mas a íntima satisfação persistia e nunca, justiça seja feita, deixara a jaula por espontânea vontade, quando chegava o término da prova. O prazo máximo fora fixado em quarenta dias pelo empresário, que não lhe permitia ir além, nem mesmo nas grandes cidades. Havia boas razões para isso. A experiência demonstrara que, durante 40 dias, a curiosidade do público podia ser mantida pela pressão de anúncios, mas depois disso o povo começa a se desinteressar, diminuindo o numero de simpatizantes. Isto variava, naturalmente, de uma cidade a outra, entre este ou aquele país, mas em geral 40 dias era o limite.
Assim, no quadragésimo dia abria-se a porta da jaula engrinaldada de flores. Entusiásticos espectadores enchiam o local, entravam na jaula, para verificar o resultado da prova, que era anunciado por meio de alto-falante. Finalmente apareciam duas moças, felizes por terem sido escolhidas para tal honraria. Iam ajudar o artista a descer os poucos degraus que levavam à mesa onde se achava a refeição cuidadosamente preparada para um homem em suas condições físicas. Neste momento, o jejuador sempre se mostrava obstinado. Verdade que entregava os braços descarnados às duas moças que sobre ele se inclinavam para auxiliá-lo, mas não queria saber de levantar. Por que interromper o jejum especialmente neste instante, após 40 dias? Aguentara por muito tempo.: por que desistir agora, quando se achava em plena forma, ou, para ser exato, ainda não estava em sua melhor forma? Por que negar-lhe a fama que teria, se continuasse, a glória de ser, não apenas o recordista da fama de todos os tempos (o que talvez já fosse) mas a de sobrepujar seu próprio feito, com uma demonstração que ninguém julgaria possível? Ele sabia não haver limite para sua resistência. Já que o público parecia admirá-lo tanto, por que não se mostrava mais paciente? Se ele podia suportar uma abstinência prolongada, por que não aguentavam eles o espetáculo? Além do mais, estava cansado, achava-se sentado confortavelmente sobre a palha, e agora lhe viam exigir que se levantasse para comer! Só de pensar nisto sentia náusea e somente a presença das moças o impedia de manifestá-la e, assim mesmo, com esforço. Fitou-as, aparentemente tão amigas, mas na realidade cruéis; e sacudiu a cabeça que lhe pesava no pescoço enfraquecido. Aconteceu então, o que sempre acontecia. O empresário adiantou-se sem dizer palavra ? a banda impossibilitava qualquer espécie de discurso ? ergueu os braços acima do artista, como que a convidar o céu a olhar para aquela pobre criatura ali na palha, mártir que em verdade era, embora noutro sentido. Com exageradas precauções, agarrou-lhe a cintura emaciada, para que pudessem apreciar devidamente a sua frágil condição, e entregou-o as moças, muito pálidas, dando-lhes disfarçadamente uma sacudidela que fez vacilarem suas pernas trôpegas. O artista submeteu-se agora totalmente, a cabeça tombada sobre o peito, como se ali tivesse ido parar por acaso. O corpo foi puxado para fora, os joelhos tentavam firmar-se um no outro, no instinto de conservação, as pernas se arrastavam como se ele não pisasse terreno firme e, apesar disso, o procurasse. Leve como pluma, tentou apoiar-se a uma das moças. Ofegante, ela olhou à volta em busca de socorro, parecendo achar que o posto de honra não correspondia à expectativa, e espichou o pescoço o mais que pôde para livrá-lo do contato desagradável. Vendo que era impossível e que sua mais feliz companheira não lhe vinha em auxílio, limitando-se a segurar na mão trêmula o feixe de ossos que era a mão do artista, rompeu em pranto, com grande gozo dos espectadores. Teve que ser substituída por um funcionário, que ali se achava de prontidão. Chegou a hora da comida e o empresário conseguiu enfiar alguma coisa por entre os lábios de seu protegido, que parecia a ponto de desmaiar. Falava ao mesmo tempo, alegremente, para que ninguém notasse o estado do jejuador. Depois, foi feito ao público um brinde, aparentemente instigado por um murmúrio do artista ao ouvido do empresário. A banda confirmou-o com um vigoroso rufar de tambores e o povo foi-se dissolvendo, parecendo todos satisfeitos com o que tinham visto, com exceção do homem que se exibira, que nunca se sentia satisfeito.
Assim viveu muitos anos, com pequenos intervalos de recuperação, em plena glória, admirado pelo mundo, mas apesar disto infeliz, tanto mais que ninguém parecia levar a sério seu desgosto. Que palavras de conforto precisaria ele ouvir? Que mais poderia desejar? Quando uma pessoa de boa vontade, dele se apiedando, tentava consolá-lo, dizendo que o jejum devia ser a causa de sua tristeza, acontecia ver-se ele tomado de cólera, principalmente quando a prova já ia adiantada. Com alarme geral, punha-se a sacudir as grades da jaula, tal animal selvagem. Mas o empresário tinha meios de pôr cobro a essas explosões, com as quais o artista gostava de se exibir. Desculpava-se publicamente por tal procedimento. Devia ser relevado, dizia ele, por causa da irritabilidade provocada pela abstinência, que pessoas bem alimentadas não estavam em condições de compreender. Depois, numa transição natural, mencionava a também incompreensível jactância do homem que se dizia capaz de jejuar por prazo maior ainda, elogiava-lhe a ambição, a boa vontade, o espírito de sacrifício implícitos em semelhante declaração. Dava em seguida o contragolpe, trazendo os fotógrafos que iriam vender ao público retratos onde se veria o jejuador, no quadragésimo dia, caído na palha, quase morto de exaustão. Essa distorção da verdade, embora conhecida do artista, tirava-lhe a coragem, deixando-o mais abatido ainda. Aquilo que era apenas consequência do precoce término do jejum era apresentado como causa! Impossível lutar contra a geral incompreensão. Inúmeras vezes, com o máximo da boa vontade, ficava perto das grades, ouvindo palavras do empresário, mas, assim que chegavam os fotógrafos, caía de novo na palha, com um gemido, e o público, tranquilizado, podia de novo aproximar-se para contemplá-lo.
Anos mais tarde, quando testemunhas de tais cenas as relembravam, não podiam às vezes compreendê-las. É que, neste meio tempo, o interesse por essas exibições esmorecera, tendo acontecido quase que da noite para o dia. Talvez houvesse razões profundas para o fato, mas quem iria se preocupar em analisá-las? De qualquer maneira, o mimado artista da fome viu-se um belo dia abandonado pelas pessoas ávidas de divertimento, que iam agora em busca de espetáculos mais atraentes. Num derradeiro esforço, o empresário correu com ele metade da Europa, a ver se a antiga simpatia poderia ser reavivada. Em vão. Em toda a parte, como que por secreto acordo, havia positiva repulsa pelos jejuadores profissionais. Naturalmente isto não poderia ter surgido assim tão de repente. Muitos dos sintomas ominosos, aos quais eles não tinham dado suficiente atenção, ou que haviam mesmo sido ignorados na embriaguez do triunfo, voltavam agora à memória, embora fosse tarde demais. O interesse pelos jejuadores certamente teria o seu recrudescimento, um dia, mas isto não era consolo para os que atualmente viviam. Que poderia então fazer o artista da fome? Fora aplaudido por milhares de pessoas e não queria agora conformar-se com exibições em barracas de feira, nas aldeias. Quanto a adotar outra profissão, não somente estava muito velho, como era fanático pela sua. Assim, despediu-se do empresário, companheiro de uma carreira inigualável, e firmou contrato com um grande circo. Para não ferir a própria susceptibilidade, evitou ler-lhe as cláusulas.
Um circo importante, que está continuamente contratando e substituindo homens, animais e aparelhamento, sempre pode utilizar um artista, até mesmo um jejuador, contanto que não exija muito. No caso presente, não estavam os diretores interessados somente no artista, como em sua fama, durante longos anos adquirida. Considerando-se a peculiaridade de seu ofício, que não se prejudicara com a idade, não se podia dizer que ali estivesse um artista que, tendo ultrapassado a maturidade e não se achando mais em plena forma, viera buscar refúgio num circo. Pelo contrário, o jejuador afirmava ser capaz de suportar a abstinência tanto quanto antes e disso não se poderia duvidar. Chegou mesmo a declarar que se lhe dessem carta branca, o que lhe foi imediatamente prometido, poderia assombrar o mundo, estabelecendo um recorde jamais alcançado. Tal declaração provocou risos nos outros profissionais, pois não estava sendo levada em conta a frieza do público, fato que o jejuador, em seu zelo, parecera ter convenientemente esquecido.
No íntimo, ele não deixava de perceber a verdadeira situação. Conformou-se em ver sua gaiola colocada, não no meio da arena, como principal atração, e sim fora, perto das jaulas dos animais -?local, afinal de contas ? bastante acessível. Cartazes grandes e vistosos emolduravam a jaula, anunciando o tipo de espetáculo. Quando o público vinha, nos intervalos, ver as feras, tinha de passar pelo jejuador e algumas pessoas paravam, por momentos. Talvez se demorassem por mais tempo, não fossem os empurrões dos que vinham atrás, pela estreita passagem, e que não compreendiam o motivo pelo qual eram detidos. Isto impedia que os primeiros o examinassem com calma. Foi esta a razão que fez com que o artista que aguardara tais visitas como o maior acontecimento de sua vida, começasse a temê-las. A princípio, mal podia esperar pelos intervalos. Era excitante ver a multidão escoar para o seu lado, até que (tarde demais!) apesar do obstinado e quase consciente desejo de iludir-se, teve que se render à evidência. Convenceu-se de que aquelas pessoas, a julgar pela sua atitude, procuravam apenas visitar os animais. A sensação mais agradável sempre fora vê-los de longe. Quando se aproximavam, ficava aturdido com os gritos e insultos dos dois grupos dissidentes, sempre renovados, constituídos, um, pelos que desejavam parar para observá-lo (não por real interesse e sim por teimosia) e o segundo, por aqueles que ansiavam por ver as feras. Logo começou a detestar mais os primeiros. Depois que passava o maior número, vinham os retardatários. Embora pudessem contemplá-lo à vontade, apressavam-se, sem nem mesmo olhá-lo, tal o medo de chegarem atrasados às jaulas dos animais. Raramente acontecia ter ele um golpe de sorte, quando um pai de família parava com os filhos, apontando-o e explicando o fenômeno, contando histórias de anos passados, quando ele próprio assistira a espetáculos mais emocionantes. As crianças, sem nada entender, pois nem na escola e nem em casa haviam sido preparadas para isto (que lhes importava o jejum?) indicavam, pelo brilho dos olhos, que dias mais auspiciosos estavam para vir. Talvez as coisas corressem melhor, pensava o artista, se não o tivessem colocado tão perto dos animais. Isto tornava ao povo fácil a escolha, mesmo não se levando em consideração que ele sofria com o cheiro desagradável, a inquietação das feras à noite, a passagem dos pedaços de carne crua, o ruído na hora de serem alimentados, coisas que o deprimiam profundamente. Mas não ousava queixar-se. Afinal de contas, devia aos animais a afluência de tantas pessoas e sempre podia haver alguém que o notasse e lembrasse de sugerir lugar mais isolado para a gaiola, caso ele chamasse atenção para sua existência e para o fato de, na realidade, nada mais ser do que um obstáculo à passagem do público.
Pequeno obstáculo, não havia dúvida, e que cada vez menor se tornava. As pessoas familiarizavam-se com a estranha idéias de que delas se esperava, nestes tempos, que se interessassem pelo artista da fome, e esta familiaridade era justamente o veredito contra ele. Poderia jejuar à vontade e era o que fazia, mas nada agora o salvaria. O povo passava, indiferente. Fosse alguém explicar a arte do jejum! Quem não a apreciasse espontaneamente, jamais chegaria a compreendê-la. Os belos cartazes foram tornando-se sujos e ilegíveis e acabaram sendo em parte arrancados. A pequena tabuleta indicando o número de dias, havia muito marcava a mesma data, pois nem mesmo este pequeno esforço parecia útil aos funcionários. Assim sendo, o artista continuava jejuando e jejuando, como antes fora seu sonho. Isto não o incomodava, como ele soubera, que não o incomodaria. Mas ninguém mais contava os dias, ninguém.; nem mesmo o artista sabia que recorde estaria ele batendo e seu coração se confrangia. Quando, de vez em quando, um passante se detinha e zombava do velho deitado ali no chão, falando em fraude, tratava-se da mais estúpida mentira jamais inventada pela indiferença e malícia humanas. Não era o artista que estava trapaceando. Ele trabalhava honestamente; o mundo, sim, o lograva, privando-o da merecida recompensa.
Muitos dias se passaram e também aquilo chegou ao fim. Um fiscal apareceu ali e perguntou aos funcionários por que se desperdiçava uma jaula que continha apenas um monte de palha suja. Ninguém soube responder até que um deles, notando o cartaz com o número de dias, lembrou do artista da fome. Enfiaram um pau na palha e o descobriram.
– Ainda está jejuando? ? perguntou o inspetor. ? Quando, em nome dos céus, pretende parar?
– Perdoem-me todos? murmurou o artista. Somente o fiscal, que tinha o ouvido perto das grades, conseguiu entendê-lo.
– Claro que o perdoamos? respondeu, batendo na testa, como a indicar aos empregados o estado mental do jejuador.
– Sempre desejei que admirassem minha resistência.
– Claro que a admiramos ? disse o fiscal, amavelmente.
– Mas não deviam admirar.
– Está certo, não admiramos, então, mas por que diz isto?
– Porque tenho que jejuar, não posso evitá-lo.
– Que tipo você é! ? exclamou o inspetor ? Por que não pode evitá-lo?
– Porque não consegui encontrar comida a meu gosto ? respondeu o artista, erguendo um pouco a cabeça e falando junto ao ouvido do outro, para que não se perdesse uma sílaba. ? Se a tivesse encontrado, creia que não teria feito nada disto e me empanturraria como o senhor ou qualquer outro.
Foram estas suas ultimas palavras, mas não olhos apagados restava a firme, embora não mais orgulhosa, certeza de que continuaria a jejuar.
– Pois bem, limpem isto aqui!, ordenou o fiscal.
Enterraram o artista da fome, com palha e tudo. Em seu lugar, puseram uma jovem pantera. Até mesmo as pessoas mais insensíveis acharam agradável ver o animal selvagem pulando na jaula que durante muito tempo tão lúgubre parecera. A pantera ia muito bem. A comida que lhe convinha era trazida pontualmente pelos empregados e ela nem mesmo dava impressão de sentir a ausência de liberdade. Aquele nobre corpo, provido ao máximo de todo o necessário, parecia trazer em si a própria liberdade. A alegria de viver fluía de suas faces com tal ardor, que aos espectadores não era difícil suportar o choque. Mas enchiam-se de coragem, comprimindo-se à volta da jaula, e acabavam não querendo mais se afastar.
Franz Kafka
sexta-feira, julho 17
A forma justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fantasmas dos vivos
O que trato, fora o título, não tem relação com o estudo de Gurney, Myers & Podmore. Ocorreu apenas que, ontem, eu não obtendo dormir e estando em passo de menos saúde, e uivando-me às paredes um vento abissal, que restituía meu espírito ancestralmente ao oceano, entrei a pensar, do modo mais ininquieto que podia, na vulta pessoa do meu amigo Marduque, com quem estes dias tenho conversado, sempre que evitá-lo não consigo.
Sei ao que me exponho, se assim começo, dando-me por desleal ou deslavado. O caso é que sou amigo de Marduque. Julgar, seja a quem for, é sempre péssimo; pepérrimo, então, julgar um amigo. Mas mesmo por isso é que preciso de de sua figura esquivar-me. Pronto me explico; isto é, sigam-me. O assunto não é de prólogo, mas de epílogo.
Antes de antes, direi que já me tinham vindo análogas experiências.
Valha que para com o meu amigo Marduque o travo é outro, jamais se viu atra tarja em seu espectro anímico. Bem moço e aposto, ninguém o desfaz de pessoa cabibilíssima. Nem ser seu amigo pesa em demasia.
Mas, já uma vez, de início, faz épocas, quando ele me falava excelente de coisas excelentes, conforme praticam as criaturas, eis comecei a só perceber, sob forma de impacto, um seu intimíssimo tumulto, muito incômodo. Assim não ignoro que, modo mais leve, o fenômeno seja quase geral. “Ninguém engana ninguém” — admito. E penso que Emerson foi quem observou: “O que Você é grita tanto, que não me deixa escutar o que Você diz...” Mas certo vem que dali saí com Marduque um tanto transversalmente.
Ponderei-me tudo não passasse de impressão equivocada, maus olhos meus ou desfígado, volúveis vagas circunstâncias. Surge, porém, que, sem ceitil de desestimá-lo, comecei a sentir a urgente e defensiva precisão de não pensar nele. Quando digo pensar, digo o pensamento por imagem, visualização, essa espécie nossa de cinematográfica lembrança, já perceberam. Pois — ora círculos! — tratando-se de um amigo, seria operação decente desligar assim o seu retrato, bani-lo em efígie tão sumariamente? Não, decerto não — disse-me, disse. E, solução intermédia, acudiu-me então: poder pensar Marduque, mas... Marduque com um turbante na cabeça...
Falta-me saber donde me veio tal ideia, já que é de fora que as ideias nos vêm. Mas o turbante, ora amarelo, ora branco, e de muito pano, logo se completou: com uma roupagem bíblica, a revestir Marduque. Juro que nunca o vira em traje mais assentado; era a sua adequada indumentária. Perdera a absconsa temibilidade, e estava em meu poder mantê-lo prisioneiro, o tempo que necessário fosse, assim mascarado, ou melhor, desmascarado, como personagem de sinédrio ou coruscante fariseu. Ri-me, mil. E disso, por diante, tirei remédio. A cada vez que pressentia, em presença ou à distância, aquele seu oculto sacolejar sulfúrico, bastava-me impor-lhe o turbante. Ele de nada desconfiava, e desse modo pude sustentar ilesa a nossa amizade, por tantos anos. Mas ajeitei-lhe coifa, muitíssimas, muitas vezes, toucando-o, e chegando a desenvolver razoável a técnica de turbantizar.
Mas irrompeu que, há cerca de semana, meu amigo Magnomuscário foi apresentado a meu amigo Marduque. Meu amigo Magnomuscário para bem compreendido, saiba-se que ele é uma espécie de iogue swedenborguiano, gente que tudo muito vê, transvê, não se deixando ilusionar pela grossa aparência do nosso mundo objetivado.
Cruz, bem, Magnomuscário, que, até ao momento, de Marduque tudo ignorava, revelou-me, logo seja, que vezes raras, haveria encontrado caso tão instrutivo. Mais não querendo explicar-me, porquanto os de sua filosofia ou seita costumam viver “sub rosa” — como diziam os romanos, a rosa símbolo da secretividade absoluta. Apenas, e como eu muito insistisse, acrescentou, com gesto de apalpar melão ou abóbora:
— “...como Caifaz... Podia usar um turbante...”
Vai, calculem meu choque, o soturno estarrecimento em que me debato té hoje. Três vezes, depois, estive com Marduque, e agora, o que é descrível, noto que desconfia de mim, de maneira recrescente. Qualquer olho, dele, do fundo, me espreita. E alcança ler um tanto dos meus defesos pensamentos. Tive luz disso, por último, ao tentar repor-lhe a cobertura: subitamente inquieto, ficou a passar mão pela cabeça. É uma agonia. Preciso de me distanciar de Marduque, fugir dele. Ou escrever, pedindo urgente conselho, a Magnomuscário, que mora longe, no interior do exterior, com seu expeditório de profundaltíssimas ciências.
Guimarães Rosa, "Ave, palavra"
Sei ao que me exponho, se assim começo, dando-me por desleal ou deslavado. O caso é que sou amigo de Marduque. Julgar, seja a quem for, é sempre péssimo; pepérrimo, então, julgar um amigo. Mas mesmo por isso é que preciso de de sua figura esquivar-me. Pronto me explico; isto é, sigam-me. O assunto não é de prólogo, mas de epílogo.
Antes de antes, direi que já me tinham vindo análogas experiências.
Respeito a Nulano, por exemplo, perto de quem tive de viver, há algum tempo. Pois Nulano, que merecia assaz, homem exemplarmente às perfeitas, nele havia, por detrás de tudo, sei lá onde, alguma coisa que irradiava, hostil e repulsiva. Não atino como a captei, mas senti-a logo. Uma coisa negra. Não o negror celerado, mas o negrume sinistro. Sua honesta presença me assustava. Sobretudo era preciso não pensar nele. Outromodo, porém, me acusava eu de injusto e fantasioso. E só pude tornar a bom sossego com os meus anjos no dia em que se deu a triangulação comprovadora. Isto quando Quetrano, conhecendo Nulano apenas de meia-hora, sem mais, disse-me: — “Nesse homem há qualquer coisa que cheira a casa com cadáver... Ele espalha um frio...”
Valha que para com o meu amigo Marduque o travo é outro, jamais se viu atra tarja em seu espectro anímico. Bem moço e aposto, ninguém o desfaz de pessoa cabibilíssima. Nem ser seu amigo pesa em demasia.
Mas, já uma vez, de início, faz épocas, quando ele me falava excelente de coisas excelentes, conforme praticam as criaturas, eis comecei a só perceber, sob forma de impacto, um seu intimíssimo tumulto, muito incômodo. Assim não ignoro que, modo mais leve, o fenômeno seja quase geral. “Ninguém engana ninguém” — admito. E penso que Emerson foi quem observou: “O que Você é grita tanto, que não me deixa escutar o que Você diz...” Mas certo vem que dali saí com Marduque um tanto transversalmente.
Ponderei-me tudo não passasse de impressão equivocada, maus olhos meus ou desfígado, volúveis vagas circunstâncias. Surge, porém, que, sem ceitil de desestimá-lo, comecei a sentir a urgente e defensiva precisão de não pensar nele. Quando digo pensar, digo o pensamento por imagem, visualização, essa espécie nossa de cinematográfica lembrança, já perceberam. Pois — ora círculos! — tratando-se de um amigo, seria operação decente desligar assim o seu retrato, bani-lo em efígie tão sumariamente? Não, decerto não — disse-me, disse. E, solução intermédia, acudiu-me então: poder pensar Marduque, mas... Marduque com um turbante na cabeça...
Falta-me saber donde me veio tal ideia, já que é de fora que as ideias nos vêm. Mas o turbante, ora amarelo, ora branco, e de muito pano, logo se completou: com uma roupagem bíblica, a revestir Marduque. Juro que nunca o vira em traje mais assentado; era a sua adequada indumentária. Perdera a absconsa temibilidade, e estava em meu poder mantê-lo prisioneiro, o tempo que necessário fosse, assim mascarado, ou melhor, desmascarado, como personagem de sinédrio ou coruscante fariseu. Ri-me, mil. E disso, por diante, tirei remédio. A cada vez que pressentia, em presença ou à distância, aquele seu oculto sacolejar sulfúrico, bastava-me impor-lhe o turbante. Ele de nada desconfiava, e desse modo pude sustentar ilesa a nossa amizade, por tantos anos. Mas ajeitei-lhe coifa, muitíssimas, muitas vezes, toucando-o, e chegando a desenvolver razoável a técnica de turbantizar.
Mas irrompeu que, há cerca de semana, meu amigo Magnomuscário foi apresentado a meu amigo Marduque. Meu amigo Magnomuscário para bem compreendido, saiba-se que ele é uma espécie de iogue swedenborguiano, gente que tudo muito vê, transvê, não se deixando ilusionar pela grossa aparência do nosso mundo objetivado.
Cruz, bem, Magnomuscário, que, até ao momento, de Marduque tudo ignorava, revelou-me, logo seja, que vezes raras, haveria encontrado caso tão instrutivo. Mais não querendo explicar-me, porquanto os de sua filosofia ou seita costumam viver “sub rosa” — como diziam os romanos, a rosa símbolo da secretividade absoluta. Apenas, e como eu muito insistisse, acrescentou, com gesto de apalpar melão ou abóbora:
— “...como Caifaz... Podia usar um turbante...”
Vai, calculem meu choque, o soturno estarrecimento em que me debato té hoje. Três vezes, depois, estive com Marduque, e agora, o que é descrível, noto que desconfia de mim, de maneira recrescente. Qualquer olho, dele, do fundo, me espreita. E alcança ler um tanto dos meus defesos pensamentos. Tive luz disso, por último, ao tentar repor-lhe a cobertura: subitamente inquieto, ficou a passar mão pela cabeça. É uma agonia. Preciso de me distanciar de Marduque, fugir dele. Ou escrever, pedindo urgente conselho, a Magnomuscário, que mora longe, no interior do exterior, com seu expeditório de profundaltíssimas ciências.
Guimarães Rosa, "Ave, palavra"
Se amanhã ...
Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo ia toda a minha vida. Não é outra, pois, que a mãe, morto o filho, meses depois estar aí? E é a mesma. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenha ido deitar.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
A morte de Lully
O mar estava calmo e a galé, aninhada em sua água transparente, movia- se compassadamente ao pulsar lento de sua vida adormecida. Lá embaixo, a várias braças de profundidade de um Mediterrâneo translúcido como cristal, a sombra do navio balançava-se preguiçosa, uma longa mancha escura movimentando-se para a frente e para trás sobre a areia branca do fundo do mar – bem devagar, a escuridão verde avançando e recuando de forma quase imperceptível. Às vezes passavam peixes, ora imóveis, com suas barbatanas trêmulas e remansosas, ora arremessando-se para a frente, sem esforço e com incrível rapidez; e sempre, pelo que parecia, inteiramente sem destino, estivessem parados ou em movimento; como a vida dos anjos, a vida deles parecia misteriosa e incognoscível.
Tudo era silêncio a bordo do barco. Em sua gaiola fétida abaixo do convés os remadores dormiam sentados, acorrentados em seus bancos estreitos. No convés, marinheiros dormiam ou sentavam-se em pequenos grupos jogando dados. A proa era reservada, ao que parecia, para os passageiros distintos. Duas figuras, um homem e uma mulher, lá estavam reclinados em espreguiçadeiras, os rostos e os membros semidespidos ruborizados pela sombra colorida do grande toldo vermelho esticado acima deles.
Eram um nobre, os marinheiros tinham ouvido dizer, e sua amante que estavam a bordo. Os dois tinham comprado passagem em Scanderoon e voltavam para casa, na Espanha. Orgulhosos como o pecado eram esses espanhóis; o homem os tratava como escravos ou cachorros. Quanto à mulher, ela era razoável, mas em sua nativa Gênova eles podiam encontrar rostos e bustos que se comparassem aos dela. Se alguém apenas olhasse para ela, mesmo a uma distância de meio navio entre eles, seu proprietário ficava uma fúria. Ele batera num homem por ter sorrido para ela. Maldito catalão, ciumento como um cervo; deste a marujada lhe desejava os chifres e a disposição.
Fazia um calor intenso, mesmo sob o toldo. O homem acordou de seu sono difícil e esticou a mão para uma mesinha a seu lado, onde havia uma funda taça de prata de vinho misturado com água. Bebeu um gole; estava quente como sangue e não refrescou sua garganta. Voltou-se e, apoiando-se no cotovelo, olhou para sua companheira — esta deitada de costas, respirando silenciosamente através dos lábios entreabertos, ainda adormecida. Inclinou-se e beliscou-a no seio, de modo que ela acordou de um salto e com um grito de dor.
– Por que me acordou? — perguntou.
Ele riu e deu de ombros. Na verdade, não tivera razão para fazer isso, mas o caso é que não gostava que ela dormisse confortavelmente enquanto ele estava acordado e tão consciente do desagradável calor.
– Está mais quente que nunca — comentou, com uma espécie de sombria satisfação ao pensar que ela agora teria de sofrer o mesmo desconforto que ele.
– O vinho queima em vez de refrescar; o sol não parece ter se movido no céu.
A mulher mostrou-se aborrecida:
– Você me beliscou com maldade — disse. — E ainda não sei por que quis me acordar.
Ele tornou a sorrir, dessa vez com lascívia bem-humorada.
– Queria beijar você — disse. Possessivo, passou a mão pelo corpo dela, como um homem que acariciasse um cachorro.
De repente a calma da tarde foi rompida. Ergueu-se um grande clamor, áspero e irregular. Gritos agudos trespassavam o estrondo surdo de vozes graves, atravessavam o som de tambores percutidos e metais martelados.
– Que é que estão fazendo na cidade? — a mulher perguntou ansiosamente ao amante.
– Só Deus sabe — ele respondeu. — Talvez os cães pagãos estejam criando problemas com nossos homens.
Levantou-se e caminhou até a murada do navio. A trezentos metros de distância, além das águas calmas da baía, ficava a pequena cidade africana que eles tinham parado para visitar. A luz do sol exibia todas as coisas com uma nitidez áspera e impiedosa. Céu, palmeiras, casas brancas, domos e torres pareciam feitos de algum metal rijo e esmaltado. Uma fila de montes baixos e vermelhos estendia-se para a direita e para a esquerda. O brilho do sol dava a todas as coisas do cenário a mesma clareza de detalhes, de modo que para os olhos do espectador não havia impressão de distância. Tudo parecia pintado num mesmo plano.
O rapaz voltou para sua espreguiçadeira sob o toldo e deitou-se. Estava mais quente que nunca, ou assim parecia, pelo menos, já que ele fizera o esforço de levantar-se. Pensou nas frescas pastagens nos montes, com o som agradável dos regatos bem fundos e escondidos em seus canais profundos. Pensou nos ventos que eram frescos e perfumados — ventos que não eram apenas alentos de poeira e fogo. Pensou na sombra dos ciprestes, uma faixa de escuridão estreita e opaca; e pensou também no frescor verde, mais difuso, fluído e transparente, dos castanhais. E pensou nas pessoas de quem se lembrava sentadas sob as árvores – pessoas jovens, alegres e vestidas em cores brilhantes, cuja vida era só diversão e delícia. Havia canções que elas cantavam; ele recordou as vozes e a dança das cordas. E havia perfumes e, quando se chegava mais perto, a fragrância inebriante de um corpo de mulher. Pensou nas histórias que contavam; uma em particular veio-lhe à mente, uma ótima história de um feiticeiro que se ofereceu para transformar a mulher de um camponês em uma égua, e como ele enganou o camponês e divertiu-se com a mulher na frente dele, e as desculpas deliciosas que ele inventou por não ter transformado a mulher. Sorriu para si mesmo ao pensar nisso, e estendendo o braço tocou em sua amante. O seio dela era tão macio sob seus dedos e úmido de suor; ele teve a ideia desagradável de que ela estava derretendo no calor.
– Por que você me toca? — ela perguntou.
Ele não respondeu e deu-lhe as costas. Perguntou-se como seria o corpo das pessoas ao ressuscitarem. Parecia curioso, considerando-se a manifesta atividade dos vermes. E se a pessoa ressuscitasse com o corpo que tinha na velhice? Ele estremeceu, imaginando como seria essa mulher aos sessenta, setenta anos. Ela seria repulsiva para além das palavras. Os velhos também eram horríveis. Eles fediam, e seus olhos eram remelentos e viscosos como os olhos de uma corça. Resolveu que iria matar-se antes de ficar velho. Tinha vinte e oito anos. Daria a si mesmo mais doze anos. Depois acabaria com tudo. Seus pensamentos tornaram- se mais vagos e desapareceram no sono.
A mulher contemplou-o enquanto dormia. Era um bom homem, pensou, embora cruel às vezes. Ele era diferente de todos os outros homens que ela conhecera. Antes, quando tinha dezesseis anos e pouco sabia o que era o amor, pensara que todos os homens estavam sempre bêbados quando faziam amor. Eram todos sujos e como animais; ela se sentia superior a eles. Mas esse homem era um nobre. Ela não conseguia compreendê-lo; seus pensamentos eram sempre obscuros. Ela se sentia infinitamente inferior a ele. Tinha medo dele e de sua crueldade ocasional; mas ainda assim ele era um bom homem, e podia fazer o que quisesse dela.
De longe veio o som de remos, seu mergulho e guincho ritmados. Alguém gritou, e surpreendentemente próximo um dos marinheiros respondeu ao chamado.
O rapaz acordou com um susto.
– Que foi isso? — perguntou, voltando-se para a moça com um olhar furioso, como se a considerasse responsável por essa interrupção em seu cochilo.
– O bote, eu acho — disse ela. — Deve estar voltando da praia.
A tripulação do bote subiu pela lateral, e toda a vida estagnada da galé fluiu excitadamente em torno dos recém-chegados. Eles eram o centro de um vórtice para onde todos eram atraídos. Até mesmo o jovem catalão, apesar de todo o seu ódio desses malcheirosos marinheiros genoveses, foi sugado pelo redemoinho. Todos falavam ao mesmo tempo, e na confusão geral de perguntas e respostas nada se conseguia entender de coerente. Agudamente nítida acima de todo o barulho chegou a voz do pequeno camareiro, que tinha ido à praia com a tripulação do bote. Ele corria para cada um, repetindo:
– Acertei um deles. Sabe, eu acertei um. Com uma pedrada na testa. Como ele sangrou, ah, como sangrou! — E dançava em incontrolável agitação.
O capitão ergueu o braço e gritou por silêncio.
– Um de cada vez — ordenou, e, quando a ordem tinha sido ligeiramente restaurada, acrescentou um resmungo: — Como um bando de cães com um osso. Fale você, contramestre.
– Eu acertei um deles — começou o rapaz. Alguém lhe deu um soco na cabeça, e ele silenciou.
Quando a história do contramestre conseguiu vencer os labirintos de digressões, os inúmeros obstáculos de interrupções e emendas, até chegar ao fim, o espanhol voltou para junto de sua companheira sob o toldo. Assumira mais uma vez sua habitual indiferença.
– Quase chacinados — disse languidamente, em resposta às ansiosas perguntas dela. — Eles — fez um gesto com a mão apontando a cidade — estavam apedrejando um velho que viera pregar a fé. Deixaram-no morto na praia. Nossos homens precisaram correr.
Ela não conseguiu arrancar mais nada; ele voltou-se e fingiu adormecer.
À tardinha receberam a visita do capitão. Era um homem alto e belo, com argolas de ouro brilhando nas orelhas em meio aos cabelos negros.
– A divina providência — sentenciou gravemente, depois das cortesias costumeiras — nos chamou para executarmos um trabalho notável.
– É mesmo? — perguntou o rapaz.
– Nada menos — continuou o capitão — do que salvar das garras dos pagãos e infiéis os preciosos despojos de um santo mártir.
O capitão abandonou seu jeito pretensioso. Era evidente que tinha preparado essas sentenças beatas, elas saíam facilmente de sua boca. Mas agora estava ansioso por continuar sua história, e em tom mais simples continuou:
– Se vocês conhecessem esses mares tão bem quanto eu, e já faz quase vinte anos que navego neles, teriam conhecimento desse mesmo santo homem que esses malditos árabes, que Deus apodreça suas almas, mataram aqui. Ouvi falar dele mais de uma vez, e nem sempre bem; para falar a verdade, ele fez mais mal aos bons mercadores cristãos com suas prédicas do que fez bem aos cães infiéis de coração negro. Deixe as abelhas em paz, é o que sempre digo, e se você conseguir tirar um pouco de mel delas tranquilamente, tanto melhor; mas ele ia até as colmeias com uma vara de pau, criando confusão para si mesmo e para os outros também. Deixe-os em paz com sua danação, é o que digo, e consiga o que puder deles do lado de cá do inferno. Mas, mesmo assim, ele teve a morte de um santo mártir. Que Deus acolha sua alma! Um mártir é uma coisa maravilhosa, sabe, e não nos compete entender o que eles fazem.
“Dizem também que ele sabia fazer ouro. E, para mim, seria uma coisa mais agradável a Deus e ao homem se ele ficasse em casa fazendo dinheiro para os pobres e doando-o, de modo que não haveria mais necessidade de trabalhar e de se matar por um pedaço de pão. É, ele era muito bom em fazer ouro, e com os livros também. Dizem que ele era chamado de Doutor Iluminado. Mas eu ainda o conheço só como Lully. Costumava ouvir meu pai falar dele, apenas Lully, e ele nunca foi mais que isso.”
“Meu pai era construtor de navios em Minorca nessa época”, continuou. “Há quanto tempo? Cinquenta, sessenta anos talvez. Ele o conheceu então; muitas vezes me contou a história. E ele era um sujeitinho bem à toa. Bebendo, andando com prostitutas ou jogando dados, ele era o melhor de todos, e no intervalo das farras escrevia poemas, dizem, o que era mais do que os outros podiam fazer. Mas desistiu de tudo de repente. Doou suas terras, largou os antigos companheiros e virou eremita nas montanhas, vivendo sozinho como uma raposa em sua toca, bem acima das parreiras. E tudo por causa de uma mulher e de seu próprio estômago sensível.”
O capitão fez uma pausa e serviu-se de um pouco de vinho.
– E que foi que essa mulher fez? — perguntou a jovem, curiosa.
– Ah, não foi o que ela fez e sim o que ela não fez — respondeu o capitão com uma careta e uma piscadela. — Ela o mantinha à distância, com a exceção de uma vez; só uma vez. E foi isso que o colocou no caminho do martírio. Bem, mas estou me apressando demais. Tenho que ir mais devagar. Havia na ilha uma mulher de alguma importância. Uma Castello, acho que era; o primeiro nome me fugiu à memória. Anastasia ou qualquer coisa assim. Lully toma-se de paixão por ela, e suspira e a busca com insistência durante não sei quantos meses e anos. A história correu depois de tudo terminado, quando ele já tinha virado eremita nas montanhas. O que aconteceu, como eu disse, foi isso. Ela finalmente lhe diz que ele pode ir vê-la, marcando um lugar e uma hora sombrios, o próprio quarto dela ao cair da noite. Vocês podem imaginar como ele se lava, se penteia e se perfuma, faz a barba, mastiga hortelã; disfarça tudo que nele pudesse recender a bode. Lá vai ele, sonhando com êxtases, antecipando doçuras inconcebíveis. Ao chegar, ele encontra a moça um pouco melancólica; ela era assim mesmo, mas um homem espera um sorriso em uma ocasião como essa. Mesmo assim, nem um pouco desanimado, ele se joga aos pés dela e derrama seu caso desesperado, contando a ela como tem suspirado durante sete anos, e não fecha os olhos por mais de cem noites, e está magro como uma sombra, e, em uma palavra, vai morrer se ela não mostrar alguma piedade. Ela, ainda melancólica (seu humor de sempre, lembrem-se), responde que está pronta para ceder, e que seu corpo é inteiramente dele. Com isso, ela se deixa possuir como ele quis, mas sempre com tristeza. “Você é toda minha”, ele diz, “toda minha”, e desata o corpete dela para provar o fato. Mas ele estava errado, outro amante frequentava seu peito, e seus beijos tinham sido apaixonados — ah, abrasadoramente apaixonados, pois ele devorara metade do seu seio esquerdo. Do mamilo para baixo ele tinha sido carcomido por um câncer.
“Ora, um homem pode ver coisa pior na rua ou na porta das igrejas, onde os mendigos se juntam ’, continuou o capitão. “Garanto que é uma visão desagradável; a carne comida pelos vermes, mas, mesmo assim, não é o suficiente, vocês vão concordar, para transformar alguém em eremita. Mas eu já disse que ele tinha o estômago fraco. Sem dúvida isso tudo fazia parte dos planos de Deus de fazer dele um santo mártir. Não fosse por essa fraqueza, ele ainda estaria vivendo lá, um velho libertino; ou então teria tido uma morte malcheirosa, em vez de entrar pelas portas do paraíso em odor de santidade. Não sei o que lhe aconteceu entre o tempo de ermitão e o martírio. A primeira vez que o vi foi há doze anos, em Túnis. Ele estava sempre sendo jogado na prisão, ou então lhe arrancavam a barba, por causa de seus sermões. Desta vez parece que fizeram dele um santo mártir, fizeram o serviço direito, sem erros. Bem, que ele possa rezar por nossas almas junto ao trono de Deus. Esta noite vou secretamente à praia para roubar seu corpo. Está lá na praia, depois do cais. Vai ser uma obra notável, eu lhe digo, trazer de volta para a Cristandade um corpo tão precioso. Uma obra bem notável…”
O capitão esfregava as mãos.
Passava de meia-noite, mas ainda se ouvia agitação a bordo da galé. Esperavam para qualquer momento a chegada do bote com o corpo do mártir. Uma cama cuidadosamente forrada de preto, com pares de velas ardendo nas extremidades, tinha sido colocada no tombadilho para receber o corpo. O capitão chamou o jovem espanhol e sua amante para ver o esquife.
– Eis aí um bom trabalho — disse ele, com orgulho justificado. — Desafio qualquer um a fazer um lugar melhor que este para um mártir descansar. Não sairia melhor em terra, com todos os recursos à mão. Mas nós, marinheiros, fazemos milagres. Uma cama de rodas, um pedaço de lona alcatroada e quatro velas de sebo das lanternas das cabinas e pronto, um ataúde para um rei.
Afastou-se, apressado, e pouco depois o rapaz e a moça ouviram-no gritar ordens e maldições em algum lugar lá embaixo. As chamas das velas ardiam quase imóveis no ar sem vento, e os reflexos das estrelas eram trilhas de fogo longas e finas sobre a água inteiramente parada.
– Se houvesse flores perfumadas e o som de um alaúde, a noite estremeceria de paixão — disse o jovem espanhol. — O amor devia surgir sem ser procurado numa noite como esta, entre essas águas escuras e as estrelas que dormem tão calmamente em seu seio.
Abraçou a jovem e inclinou a cabeça para beijá-la. Mas ela desviou o rosto.
Ele sentiu que um arrepio percorria o corpo dela.
– Hoje não — sussurrou ela. — Estou pensando no coitado do morto.
Prefiro rezar.
– Não, não — exclamou ele. — Esqueça-o. Lembre-se apenas de que
estamos vivos e de que temos pouco tempo, nenhum a perder.
Puxou-a para a sombra sob o parapeito e, sentando-se sobre um rolo de corda, apertou-lhe o corpo contra o seu e começou a beijá-la com fúria.
A princípio ela estava inerte e dura em seus braços, mas gradualmente a paixão dele atiçou-a.
Um ruído de remos anunciou a aproximação do bote. O capitão gritou para a escuridão:
– Vocês o encontraram?
– Sim, ele está aqui — veio a resposta.
– Ótimo. Encostem, e vamos içá-lo. Temos o féretro pronto. Ele permanecerá exposto às homenagens de todos esta noite.
– Mas ele não está morto — gritou de volta a voz na noite.
– Não está morto? — repetiu o capitão, perturbado. — Mas então, e o ataúde?
Uma voz fina e fraca respondeu.
– Seu trabalho não será perdido, meu amigo. Dentro de pouco tempo vou precisar dele.
O capitão, confuso, respondeu em tom mais suave:
– Nós pensávamos, santo padre, que os infiéis tinham feito o pior e que o Todo-Poderoso já lhe havia concedido a coroa dos mártires.
A essa altura o bote emergia da escuridão. Nos lençóis da proa jazia um velho, os cabelos e a barba brancos manchados de sangue, o hábito de dominicano rasgado e sujo de poeira. Ao vê–lo, o capitão arrancou o chapéu e caiu de joelhos.
– Dê-nos sua bênção, santo padre — pediu. O velho ergueu a mão e desejou-lhe paz.
Ergueram-no para bordo e, a seu próprio pedido, deitaram-no no esquife que fora preparado para seu cadáver.
– Seria um desperdício me colocar em outro lugar, já que logo estarei aí mesmo — disse ele.
E assim ele ficou deitado ali, imóvel sob as quatro velas. Podia-se imaginar que ele já estava morto, porém seus olhos, quando os abria, brilhavam fortemente.
Pediu que saíssem todos da proa, menos o jovem espanhol.
– Somos conterrâneos, e ambos de sangue nobre. Preferia ter você a meu lado a qualquer outra pessoa.
Os marinheiros ajoelharam-se para uma bênção e desapareceram; logo podiam ser ouvidos levantando a âncora; era mais seguro partir antes do amanhecer. Curados, o espanhol e sua amante postaram-se de cada lado do esquife iluminado como duas carpideiras. O corpo do velho, ainda vivo, jazia quieto sob as velas. O mártir ficou em silêncio por algum tempo, mas finalmente abriu os olhos e olhou para o rapaz e para a mulher.
– Eu também me apaixonei uma vez — disse. — Este ano é o jubileu de minha última paixão terrena; cinquenta anos se passaram desde que pela última vez desejei a carne; cinquenta anos desde que Deus abriu meus olhos para o horror da corrupção que o homem fez cair sobre si. Vocês são jovens e seus corpos são limpos e eretos, sem manchas, úlceras ou lepra para macular sua desejável beleza; mas, por causa de seu orgulho externo, pode ser que suas almas estejam tomadas de pústulas e escarras por dentro. No entanto, Deus nos fez todos perfeitos; são apenas os acidentes e o mal da vontade os responsáveis pela corrupção. Todos os metais deveriam ser ouro, não fosse por seus elementos terem o arroubo infesto em seu desejo de se combinar. É o mesmo com os homens: o enxofre ardente da paixão, o sal da sabedoria, a ágil alma mercurial deveriam juntar-se para formar um ser dourado, incorruptível e inoxidável. Mas os elementos colidem e, trêmulos, se combinam, não na harmonia pura do amor, e o ouro é raro, enquanto o chumbo, o ferro e o bronze venenoso, com o gosto que deixa, semelhante ao do remorso, são comuns em toda parte.
“Deus abriu meus olhos para isso antes que minha juventude tivesse sido inteiramente desperdiçada em podridão” — continuou o velho. “Foi há meio século, mas ainda a vejo, minha Ambrósia, com seu rosto pálido e triste e seu corpo nu e aquela doença monstruosa devorando-lhe o seio. Desde então vivi tentando consertar o mal, tentando restaurar, tanto quanto minhas pobres forças me permitiram, parte da perfeição original a esse mundo corrompido. Lutei para dar a todos os metais sua verdadeira natureza, fazer ouro verdadeiro dos metais falsos, irreais, acidentais, chumbo e cobre e estanho e ferro. E tentei aquela alquimia mais difícil, a transformação dos homens. Agora morro em meu esforço de purgar o lixo imundo da heresia das almas desses infiéis. Consegui alguma coisa? Não sei.”
A galé movia-se agora voltada para o mar. As velas estremeceram ao vento de sua velocidade, jogando sombras incertas e cambiantes no rosto dele. Houve um longo silêncio no tombadilho. Os remos estalavam e batiam na água. De vez em quando surgia um grito de baixo, ordens dadas pelo feitor dos escravos, uma praga, o som de um golpe. O velho tornou a falar, agora mais fraco, como se consigo mesmo.
– Já tenho oitenta anos disso — falou. — Oitenta anos no meio desse mar corrosivo de ódio e luta. Um homem precisa manter a pureza de seu coração de ouro, esse pequeno centro de perfeição com o qual todos nós, mesmo em nosso declínio de tempo, nascemos. Todos os outros metais, mesmo que duros como o aço, brilhantes como o bronze, derreterão diante da insaciável amargura da vida. Ódio, luxúria, raiva — as paixões vis vão corroer sua vontade de ferro, a majestade guerreira de seu escudo de bronze. É preciso a perfeição dourada do amor puro e do conhecimento puro para suportá-los. Deus desejou que eu fosse a pedra — fraca, é verdade, em virtude — que tocasse e transformasse pelo menos um pouco do mais vil metal no ouro que está acima da decadência. Mas é trabalho árduo e ingrato. O homem fez de seu mundo um inferno e ergueu deuses de sofrimento para governá-lo. Deuses caprinos, que se deleitam e festejam a agonia de tudo, observando o mundo torturado, como esses horríveis amantes cuja luxúria transforma-se em negra crueldade.
“A febre nos leva através da vida num delírio de loucura”, continuou. “Sedento dos pântanos do mal de onde veio a febre, sedento das miragens de seu próprio delírio, o homem ruma de cabeça sem saber para onde. E todo o tempo um câncer devorador lhe morde as entranhas. Vai matá-lo no final, quando até mesmo a horrível inspiração da febre não será suficiente para fustigá-lo para a frente. Ele vai cair, um estorvo sobre a terra, monturo de podridão e dor, até que venha finalmente o fogo purificador para varrer o horror. Febre e câncer; ácidos que queimam e corroem… Tive oitenta anos disso. Graças a Deus chegou o fim.”
Já era madrugada; as velas mal eram visíveis à luz, desaparecendo até sumir, como almas em ascensão. Pouco depois o velho dormia.
O capitão aproximou-se na ponta dos pés e chamou o jovem espanhol para uma conversa confidencial.
– Acha que ele vai morrer hoje? — perguntou. O rapaz assentiu.
– Que Deus o tenha — disse o capitão fervorosamente. — Mas acha melhor levarmos o corpo dele para Minorca ou para Gênova? Em Minorca dariam muito para ter seu próprio mártir padroeiro. Ao mesmo tempo aumentaria a glória de Gênova se ela possuísse uma relíquia tão santa, embora ele não tenha ligação alguma com a cidade. Nisso reside minha dificuldade. Vamos imaginar que meu pessoal em Gênova não queira o corpo, sendo ele de Minorca e não um deles. Eu então iria parecer um tolo, levando-o com todas as honras. Ah, é difícil, é difícil. Há tanto em que pensar… Não tenho certeza se não seria melhor parar em Minorca primeiro. Que acha?
O espanhol deu de ombros.
– Não tenho conselho algum a oferecer.
– Meu Deus — dizia o capitão, afastando-se apressado —, a vida é um nó difícil de desatar.
Tudo era silêncio a bordo do barco. Em sua gaiola fétida abaixo do convés os remadores dormiam sentados, acorrentados em seus bancos estreitos. No convés, marinheiros dormiam ou sentavam-se em pequenos grupos jogando dados. A proa era reservada, ao que parecia, para os passageiros distintos. Duas figuras, um homem e uma mulher, lá estavam reclinados em espreguiçadeiras, os rostos e os membros semidespidos ruborizados pela sombra colorida do grande toldo vermelho esticado acima deles.
Eram um nobre, os marinheiros tinham ouvido dizer, e sua amante que estavam a bordo. Os dois tinham comprado passagem em Scanderoon e voltavam para casa, na Espanha. Orgulhosos como o pecado eram esses espanhóis; o homem os tratava como escravos ou cachorros. Quanto à mulher, ela era razoável, mas em sua nativa Gênova eles podiam encontrar rostos e bustos que se comparassem aos dela. Se alguém apenas olhasse para ela, mesmo a uma distância de meio navio entre eles, seu proprietário ficava uma fúria. Ele batera num homem por ter sorrido para ela. Maldito catalão, ciumento como um cervo; deste a marujada lhe desejava os chifres e a disposição.
Fazia um calor intenso, mesmo sob o toldo. O homem acordou de seu sono difícil e esticou a mão para uma mesinha a seu lado, onde havia uma funda taça de prata de vinho misturado com água. Bebeu um gole; estava quente como sangue e não refrescou sua garganta. Voltou-se e, apoiando-se no cotovelo, olhou para sua companheira — esta deitada de costas, respirando silenciosamente através dos lábios entreabertos, ainda adormecida. Inclinou-se e beliscou-a no seio, de modo que ela acordou de um salto e com um grito de dor.
– Por que me acordou? — perguntou.
Ele riu e deu de ombros. Na verdade, não tivera razão para fazer isso, mas o caso é que não gostava que ela dormisse confortavelmente enquanto ele estava acordado e tão consciente do desagradável calor.
– Está mais quente que nunca — comentou, com uma espécie de sombria satisfação ao pensar que ela agora teria de sofrer o mesmo desconforto que ele.
– O vinho queima em vez de refrescar; o sol não parece ter se movido no céu.
A mulher mostrou-se aborrecida:
– Você me beliscou com maldade — disse. — E ainda não sei por que quis me acordar.
Ele tornou a sorrir, dessa vez com lascívia bem-humorada.
– Queria beijar você — disse. Possessivo, passou a mão pelo corpo dela, como um homem que acariciasse um cachorro.
De repente a calma da tarde foi rompida. Ergueu-se um grande clamor, áspero e irregular. Gritos agudos trespassavam o estrondo surdo de vozes graves, atravessavam o som de tambores percutidos e metais martelados.
– Que é que estão fazendo na cidade? — a mulher perguntou ansiosamente ao amante.
– Só Deus sabe — ele respondeu. — Talvez os cães pagãos estejam criando problemas com nossos homens.
Levantou-se e caminhou até a murada do navio. A trezentos metros de distância, além das águas calmas da baía, ficava a pequena cidade africana que eles tinham parado para visitar. A luz do sol exibia todas as coisas com uma nitidez áspera e impiedosa. Céu, palmeiras, casas brancas, domos e torres pareciam feitos de algum metal rijo e esmaltado. Uma fila de montes baixos e vermelhos estendia-se para a direita e para a esquerda. O brilho do sol dava a todas as coisas do cenário a mesma clareza de detalhes, de modo que para os olhos do espectador não havia impressão de distância. Tudo parecia pintado num mesmo plano.
O rapaz voltou para sua espreguiçadeira sob o toldo e deitou-se. Estava mais quente que nunca, ou assim parecia, pelo menos, já que ele fizera o esforço de levantar-se. Pensou nas frescas pastagens nos montes, com o som agradável dos regatos bem fundos e escondidos em seus canais profundos. Pensou nos ventos que eram frescos e perfumados — ventos que não eram apenas alentos de poeira e fogo. Pensou na sombra dos ciprestes, uma faixa de escuridão estreita e opaca; e pensou também no frescor verde, mais difuso, fluído e transparente, dos castanhais. E pensou nas pessoas de quem se lembrava sentadas sob as árvores – pessoas jovens, alegres e vestidas em cores brilhantes, cuja vida era só diversão e delícia. Havia canções que elas cantavam; ele recordou as vozes e a dança das cordas. E havia perfumes e, quando se chegava mais perto, a fragrância inebriante de um corpo de mulher. Pensou nas histórias que contavam; uma em particular veio-lhe à mente, uma ótima história de um feiticeiro que se ofereceu para transformar a mulher de um camponês em uma égua, e como ele enganou o camponês e divertiu-se com a mulher na frente dele, e as desculpas deliciosas que ele inventou por não ter transformado a mulher. Sorriu para si mesmo ao pensar nisso, e estendendo o braço tocou em sua amante. O seio dela era tão macio sob seus dedos e úmido de suor; ele teve a ideia desagradável de que ela estava derretendo no calor.
– Por que você me toca? — ela perguntou.
Ele não respondeu e deu-lhe as costas. Perguntou-se como seria o corpo das pessoas ao ressuscitarem. Parecia curioso, considerando-se a manifesta atividade dos vermes. E se a pessoa ressuscitasse com o corpo que tinha na velhice? Ele estremeceu, imaginando como seria essa mulher aos sessenta, setenta anos. Ela seria repulsiva para além das palavras. Os velhos também eram horríveis. Eles fediam, e seus olhos eram remelentos e viscosos como os olhos de uma corça. Resolveu que iria matar-se antes de ficar velho. Tinha vinte e oito anos. Daria a si mesmo mais doze anos. Depois acabaria com tudo. Seus pensamentos tornaram- se mais vagos e desapareceram no sono.
A mulher contemplou-o enquanto dormia. Era um bom homem, pensou, embora cruel às vezes. Ele era diferente de todos os outros homens que ela conhecera. Antes, quando tinha dezesseis anos e pouco sabia o que era o amor, pensara que todos os homens estavam sempre bêbados quando faziam amor. Eram todos sujos e como animais; ela se sentia superior a eles. Mas esse homem era um nobre. Ela não conseguia compreendê-lo; seus pensamentos eram sempre obscuros. Ela se sentia infinitamente inferior a ele. Tinha medo dele e de sua crueldade ocasional; mas ainda assim ele era um bom homem, e podia fazer o que quisesse dela.
De longe veio o som de remos, seu mergulho e guincho ritmados. Alguém gritou, e surpreendentemente próximo um dos marinheiros respondeu ao chamado.
O rapaz acordou com um susto.
– Que foi isso? — perguntou, voltando-se para a moça com um olhar furioso, como se a considerasse responsável por essa interrupção em seu cochilo.
– O bote, eu acho — disse ela. — Deve estar voltando da praia.
A tripulação do bote subiu pela lateral, e toda a vida estagnada da galé fluiu excitadamente em torno dos recém-chegados. Eles eram o centro de um vórtice para onde todos eram atraídos. Até mesmo o jovem catalão, apesar de todo o seu ódio desses malcheirosos marinheiros genoveses, foi sugado pelo redemoinho. Todos falavam ao mesmo tempo, e na confusão geral de perguntas e respostas nada se conseguia entender de coerente. Agudamente nítida acima de todo o barulho chegou a voz do pequeno camareiro, que tinha ido à praia com a tripulação do bote. Ele corria para cada um, repetindo:
– Acertei um deles. Sabe, eu acertei um. Com uma pedrada na testa. Como ele sangrou, ah, como sangrou! — E dançava em incontrolável agitação.
O capitão ergueu o braço e gritou por silêncio.
– Um de cada vez — ordenou, e, quando a ordem tinha sido ligeiramente restaurada, acrescentou um resmungo: — Como um bando de cães com um osso. Fale você, contramestre.
– Eu acertei um deles — começou o rapaz. Alguém lhe deu um soco na cabeça, e ele silenciou.
Quando a história do contramestre conseguiu vencer os labirintos de digressões, os inúmeros obstáculos de interrupções e emendas, até chegar ao fim, o espanhol voltou para junto de sua companheira sob o toldo. Assumira mais uma vez sua habitual indiferença.
– Quase chacinados — disse languidamente, em resposta às ansiosas perguntas dela. — Eles — fez um gesto com a mão apontando a cidade — estavam apedrejando um velho que viera pregar a fé. Deixaram-no morto na praia. Nossos homens precisaram correr.
Ela não conseguiu arrancar mais nada; ele voltou-se e fingiu adormecer.
À tardinha receberam a visita do capitão. Era um homem alto e belo, com argolas de ouro brilhando nas orelhas em meio aos cabelos negros.
– A divina providência — sentenciou gravemente, depois das cortesias costumeiras — nos chamou para executarmos um trabalho notável.
– É mesmo? — perguntou o rapaz.
– Nada menos — continuou o capitão — do que salvar das garras dos pagãos e infiéis os preciosos despojos de um santo mártir.
O capitão abandonou seu jeito pretensioso. Era evidente que tinha preparado essas sentenças beatas, elas saíam facilmente de sua boca. Mas agora estava ansioso por continuar sua história, e em tom mais simples continuou:
– Se vocês conhecessem esses mares tão bem quanto eu, e já faz quase vinte anos que navego neles, teriam conhecimento desse mesmo santo homem que esses malditos árabes, que Deus apodreça suas almas, mataram aqui. Ouvi falar dele mais de uma vez, e nem sempre bem; para falar a verdade, ele fez mais mal aos bons mercadores cristãos com suas prédicas do que fez bem aos cães infiéis de coração negro. Deixe as abelhas em paz, é o que sempre digo, e se você conseguir tirar um pouco de mel delas tranquilamente, tanto melhor; mas ele ia até as colmeias com uma vara de pau, criando confusão para si mesmo e para os outros também. Deixe-os em paz com sua danação, é o que digo, e consiga o que puder deles do lado de cá do inferno. Mas, mesmo assim, ele teve a morte de um santo mártir. Que Deus acolha sua alma! Um mártir é uma coisa maravilhosa, sabe, e não nos compete entender o que eles fazem.
“Dizem também que ele sabia fazer ouro. E, para mim, seria uma coisa mais agradável a Deus e ao homem se ele ficasse em casa fazendo dinheiro para os pobres e doando-o, de modo que não haveria mais necessidade de trabalhar e de se matar por um pedaço de pão. É, ele era muito bom em fazer ouro, e com os livros também. Dizem que ele era chamado de Doutor Iluminado. Mas eu ainda o conheço só como Lully. Costumava ouvir meu pai falar dele, apenas Lully, e ele nunca foi mais que isso.”
“Meu pai era construtor de navios em Minorca nessa época”, continuou. “Há quanto tempo? Cinquenta, sessenta anos talvez. Ele o conheceu então; muitas vezes me contou a história. E ele era um sujeitinho bem à toa. Bebendo, andando com prostitutas ou jogando dados, ele era o melhor de todos, e no intervalo das farras escrevia poemas, dizem, o que era mais do que os outros podiam fazer. Mas desistiu de tudo de repente. Doou suas terras, largou os antigos companheiros e virou eremita nas montanhas, vivendo sozinho como uma raposa em sua toca, bem acima das parreiras. E tudo por causa de uma mulher e de seu próprio estômago sensível.”
O capitão fez uma pausa e serviu-se de um pouco de vinho.
– E que foi que essa mulher fez? — perguntou a jovem, curiosa.
– Ah, não foi o que ela fez e sim o que ela não fez — respondeu o capitão com uma careta e uma piscadela. — Ela o mantinha à distância, com a exceção de uma vez; só uma vez. E foi isso que o colocou no caminho do martírio. Bem, mas estou me apressando demais. Tenho que ir mais devagar. Havia na ilha uma mulher de alguma importância. Uma Castello, acho que era; o primeiro nome me fugiu à memória. Anastasia ou qualquer coisa assim. Lully toma-se de paixão por ela, e suspira e a busca com insistência durante não sei quantos meses e anos. A história correu depois de tudo terminado, quando ele já tinha virado eremita nas montanhas. O que aconteceu, como eu disse, foi isso. Ela finalmente lhe diz que ele pode ir vê-la, marcando um lugar e uma hora sombrios, o próprio quarto dela ao cair da noite. Vocês podem imaginar como ele se lava, se penteia e se perfuma, faz a barba, mastiga hortelã; disfarça tudo que nele pudesse recender a bode. Lá vai ele, sonhando com êxtases, antecipando doçuras inconcebíveis. Ao chegar, ele encontra a moça um pouco melancólica; ela era assim mesmo, mas um homem espera um sorriso em uma ocasião como essa. Mesmo assim, nem um pouco desanimado, ele se joga aos pés dela e derrama seu caso desesperado, contando a ela como tem suspirado durante sete anos, e não fecha os olhos por mais de cem noites, e está magro como uma sombra, e, em uma palavra, vai morrer se ela não mostrar alguma piedade. Ela, ainda melancólica (seu humor de sempre, lembrem-se), responde que está pronta para ceder, e que seu corpo é inteiramente dele. Com isso, ela se deixa possuir como ele quis, mas sempre com tristeza. “Você é toda minha”, ele diz, “toda minha”, e desata o corpete dela para provar o fato. Mas ele estava errado, outro amante frequentava seu peito, e seus beijos tinham sido apaixonados — ah, abrasadoramente apaixonados, pois ele devorara metade do seu seio esquerdo. Do mamilo para baixo ele tinha sido carcomido por um câncer.
“Ora, um homem pode ver coisa pior na rua ou na porta das igrejas, onde os mendigos se juntam ’, continuou o capitão. “Garanto que é uma visão desagradável; a carne comida pelos vermes, mas, mesmo assim, não é o suficiente, vocês vão concordar, para transformar alguém em eremita. Mas eu já disse que ele tinha o estômago fraco. Sem dúvida isso tudo fazia parte dos planos de Deus de fazer dele um santo mártir. Não fosse por essa fraqueza, ele ainda estaria vivendo lá, um velho libertino; ou então teria tido uma morte malcheirosa, em vez de entrar pelas portas do paraíso em odor de santidade. Não sei o que lhe aconteceu entre o tempo de ermitão e o martírio. A primeira vez que o vi foi há doze anos, em Túnis. Ele estava sempre sendo jogado na prisão, ou então lhe arrancavam a barba, por causa de seus sermões. Desta vez parece que fizeram dele um santo mártir, fizeram o serviço direito, sem erros. Bem, que ele possa rezar por nossas almas junto ao trono de Deus. Esta noite vou secretamente à praia para roubar seu corpo. Está lá na praia, depois do cais. Vai ser uma obra notável, eu lhe digo, trazer de volta para a Cristandade um corpo tão precioso. Uma obra bem notável…”
O capitão esfregava as mãos.
Passava de meia-noite, mas ainda se ouvia agitação a bordo da galé. Esperavam para qualquer momento a chegada do bote com o corpo do mártir. Uma cama cuidadosamente forrada de preto, com pares de velas ardendo nas extremidades, tinha sido colocada no tombadilho para receber o corpo. O capitão chamou o jovem espanhol e sua amante para ver o esquife.
– Eis aí um bom trabalho — disse ele, com orgulho justificado. — Desafio qualquer um a fazer um lugar melhor que este para um mártir descansar. Não sairia melhor em terra, com todos os recursos à mão. Mas nós, marinheiros, fazemos milagres. Uma cama de rodas, um pedaço de lona alcatroada e quatro velas de sebo das lanternas das cabinas e pronto, um ataúde para um rei.
Afastou-se, apressado, e pouco depois o rapaz e a moça ouviram-no gritar ordens e maldições em algum lugar lá embaixo. As chamas das velas ardiam quase imóveis no ar sem vento, e os reflexos das estrelas eram trilhas de fogo longas e finas sobre a água inteiramente parada.
– Se houvesse flores perfumadas e o som de um alaúde, a noite estremeceria de paixão — disse o jovem espanhol. — O amor devia surgir sem ser procurado numa noite como esta, entre essas águas escuras e as estrelas que dormem tão calmamente em seu seio.
Abraçou a jovem e inclinou a cabeça para beijá-la. Mas ela desviou o rosto.
Ele sentiu que um arrepio percorria o corpo dela.
– Hoje não — sussurrou ela. — Estou pensando no coitado do morto.
Prefiro rezar.
– Não, não — exclamou ele. — Esqueça-o. Lembre-se apenas de que
estamos vivos e de que temos pouco tempo, nenhum a perder.
Puxou-a para a sombra sob o parapeito e, sentando-se sobre um rolo de corda, apertou-lhe o corpo contra o seu e começou a beijá-la com fúria.
A princípio ela estava inerte e dura em seus braços, mas gradualmente a paixão dele atiçou-a.
Um ruído de remos anunciou a aproximação do bote. O capitão gritou para a escuridão:
– Vocês o encontraram?
– Sim, ele está aqui — veio a resposta.
– Ótimo. Encostem, e vamos içá-lo. Temos o féretro pronto. Ele permanecerá exposto às homenagens de todos esta noite.
– Mas ele não está morto — gritou de volta a voz na noite.
– Não está morto? — repetiu o capitão, perturbado. — Mas então, e o ataúde?
Uma voz fina e fraca respondeu.
– Seu trabalho não será perdido, meu amigo. Dentro de pouco tempo vou precisar dele.
O capitão, confuso, respondeu em tom mais suave:
– Nós pensávamos, santo padre, que os infiéis tinham feito o pior e que o Todo-Poderoso já lhe havia concedido a coroa dos mártires.
A essa altura o bote emergia da escuridão. Nos lençóis da proa jazia um velho, os cabelos e a barba brancos manchados de sangue, o hábito de dominicano rasgado e sujo de poeira. Ao vê–lo, o capitão arrancou o chapéu e caiu de joelhos.
– Dê-nos sua bênção, santo padre — pediu. O velho ergueu a mão e desejou-lhe paz.
Ergueram-no para bordo e, a seu próprio pedido, deitaram-no no esquife que fora preparado para seu cadáver.
– Seria um desperdício me colocar em outro lugar, já que logo estarei aí mesmo — disse ele.
E assim ele ficou deitado ali, imóvel sob as quatro velas. Podia-se imaginar que ele já estava morto, porém seus olhos, quando os abria, brilhavam fortemente.
Pediu que saíssem todos da proa, menos o jovem espanhol.
– Somos conterrâneos, e ambos de sangue nobre. Preferia ter você a meu lado a qualquer outra pessoa.
Os marinheiros ajoelharam-se para uma bênção e desapareceram; logo podiam ser ouvidos levantando a âncora; era mais seguro partir antes do amanhecer. Curados, o espanhol e sua amante postaram-se de cada lado do esquife iluminado como duas carpideiras. O corpo do velho, ainda vivo, jazia quieto sob as velas. O mártir ficou em silêncio por algum tempo, mas finalmente abriu os olhos e olhou para o rapaz e para a mulher.
– Eu também me apaixonei uma vez — disse. — Este ano é o jubileu de minha última paixão terrena; cinquenta anos se passaram desde que pela última vez desejei a carne; cinquenta anos desde que Deus abriu meus olhos para o horror da corrupção que o homem fez cair sobre si. Vocês são jovens e seus corpos são limpos e eretos, sem manchas, úlceras ou lepra para macular sua desejável beleza; mas, por causa de seu orgulho externo, pode ser que suas almas estejam tomadas de pústulas e escarras por dentro. No entanto, Deus nos fez todos perfeitos; são apenas os acidentes e o mal da vontade os responsáveis pela corrupção. Todos os metais deveriam ser ouro, não fosse por seus elementos terem o arroubo infesto em seu desejo de se combinar. É o mesmo com os homens: o enxofre ardente da paixão, o sal da sabedoria, a ágil alma mercurial deveriam juntar-se para formar um ser dourado, incorruptível e inoxidável. Mas os elementos colidem e, trêmulos, se combinam, não na harmonia pura do amor, e o ouro é raro, enquanto o chumbo, o ferro e o bronze venenoso, com o gosto que deixa, semelhante ao do remorso, são comuns em toda parte.
“Deus abriu meus olhos para isso antes que minha juventude tivesse sido inteiramente desperdiçada em podridão” — continuou o velho. “Foi há meio século, mas ainda a vejo, minha Ambrósia, com seu rosto pálido e triste e seu corpo nu e aquela doença monstruosa devorando-lhe o seio. Desde então vivi tentando consertar o mal, tentando restaurar, tanto quanto minhas pobres forças me permitiram, parte da perfeição original a esse mundo corrompido. Lutei para dar a todos os metais sua verdadeira natureza, fazer ouro verdadeiro dos metais falsos, irreais, acidentais, chumbo e cobre e estanho e ferro. E tentei aquela alquimia mais difícil, a transformação dos homens. Agora morro em meu esforço de purgar o lixo imundo da heresia das almas desses infiéis. Consegui alguma coisa? Não sei.”
A galé movia-se agora voltada para o mar. As velas estremeceram ao vento de sua velocidade, jogando sombras incertas e cambiantes no rosto dele. Houve um longo silêncio no tombadilho. Os remos estalavam e batiam na água. De vez em quando surgia um grito de baixo, ordens dadas pelo feitor dos escravos, uma praga, o som de um golpe. O velho tornou a falar, agora mais fraco, como se consigo mesmo.
– Já tenho oitenta anos disso — falou. — Oitenta anos no meio desse mar corrosivo de ódio e luta. Um homem precisa manter a pureza de seu coração de ouro, esse pequeno centro de perfeição com o qual todos nós, mesmo em nosso declínio de tempo, nascemos. Todos os outros metais, mesmo que duros como o aço, brilhantes como o bronze, derreterão diante da insaciável amargura da vida. Ódio, luxúria, raiva — as paixões vis vão corroer sua vontade de ferro, a majestade guerreira de seu escudo de bronze. É preciso a perfeição dourada do amor puro e do conhecimento puro para suportá-los. Deus desejou que eu fosse a pedra — fraca, é verdade, em virtude — que tocasse e transformasse pelo menos um pouco do mais vil metal no ouro que está acima da decadência. Mas é trabalho árduo e ingrato. O homem fez de seu mundo um inferno e ergueu deuses de sofrimento para governá-lo. Deuses caprinos, que se deleitam e festejam a agonia de tudo, observando o mundo torturado, como esses horríveis amantes cuja luxúria transforma-se em negra crueldade.
“A febre nos leva através da vida num delírio de loucura”, continuou. “Sedento dos pântanos do mal de onde veio a febre, sedento das miragens de seu próprio delírio, o homem ruma de cabeça sem saber para onde. E todo o tempo um câncer devorador lhe morde as entranhas. Vai matá-lo no final, quando até mesmo a horrível inspiração da febre não será suficiente para fustigá-lo para a frente. Ele vai cair, um estorvo sobre a terra, monturo de podridão e dor, até que venha finalmente o fogo purificador para varrer o horror. Febre e câncer; ácidos que queimam e corroem… Tive oitenta anos disso. Graças a Deus chegou o fim.”
Já era madrugada; as velas mal eram visíveis à luz, desaparecendo até sumir, como almas em ascensão. Pouco depois o velho dormia.
O capitão aproximou-se na ponta dos pés e chamou o jovem espanhol para uma conversa confidencial.
– Acha que ele vai morrer hoje? — perguntou. O rapaz assentiu.
– Que Deus o tenha — disse o capitão fervorosamente. — Mas acha melhor levarmos o corpo dele para Minorca ou para Gênova? Em Minorca dariam muito para ter seu próprio mártir padroeiro. Ao mesmo tempo aumentaria a glória de Gênova se ela possuísse uma relíquia tão santa, embora ele não tenha ligação alguma com a cidade. Nisso reside minha dificuldade. Vamos imaginar que meu pessoal em Gênova não queira o corpo, sendo ele de Minorca e não um deles. Eu então iria parecer um tolo, levando-o com todas as honras. Ah, é difícil, é difícil. Há tanto em que pensar… Não tenho certeza se não seria melhor parar em Minorca primeiro. Que acha?
O espanhol deu de ombros.
– Não tenho conselho algum a oferecer.
– Meu Deus — dizia o capitão, afastando-se apressado —, a vida é um nó difícil de desatar.
Aldous Huxley
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