Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
segunda-feira, agosto 17
Que é voar?
Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não -vivência
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório, momentâneo…
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
Ana Hatherly
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não -vivência
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório, momentâneo…
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
Ana Hatherly
O eclipse e a euforia inútil
Ontem Portugal ficou sem óculos para ver a Lua tapar o Sol durante uns segundos, mas esta manhã acordámos exactamente com as mesmas prestações, os mesmos impostos, os mesmos problemas e, principalmente, com a possibilidade de continuar a desfrutar de alguns pequenos prazeres da vida. Talvez o verdadeiro milagre seja mesmo esse: estarmos vivos, termos amigos ou a família à mesa e o Sol nascer todos os dias sem termos de pagar, baixar uma aplicação no telemóvel ou entrar numa fila para comprar uns óculos especiais.
Estava ontem em Lagos, não em Bragança, a festejar o aniversário de uma amiga com outros amigos — uns que já conhecia, outros que conheci agora —, um pouco afastado do mar e das praias, numa casa linda no meio do campo, em cima de um monte, com uma mini, um copo de bom vinho ou uma sangria na mão — mas nada de beber demais —, a celebrar a vida, a ver estrelas cadentes e a observar esse outro fenómeno extraordinário que acontece todos os dias sem tanta euforia: um belo pôr-do-sol no fim de um belo dia de Verão. Foi aí, aliás, que comecei a pensar nesta crónica.
Claro que antes vi o eclipse e vi o monte a escurecer. Ou melhor: vi o suficiente para não poder dizer que não vi. Espreitei durante uns segundos por uns óculos emprestados, disse cá para mim qualquer coisa parecida com “ah, sim, realmente”, partilhei-os com outra pessoa, com a minha companheira, e continuei a minha vida de copo na mão, no meio da conversa e de muitas piadas.
Não comprei óculos, não procurei óculos e, pelo que percebi, mesmo que tivesse querido comprá-los estavam completamente esgotados. Passei à porta de um oculista na cidade e a montra estava cheia de avisos: “Óculos para ver o eclipse esgotados”. Os óculos eclipsaram-se antes do eclipse, o que me parece, aliás, a primeira grande vitória comercial da Lua sobre o Sol.
Enquanto meio mundo e metade do país pareciam preparar-se para a chegada de uma nave extraterrestre, eu já estava no Algarve desde a noite anterior, com um céu nocturno tão limpo que se viam estrelas às centenas e, de vez em quando, uma cadente. E confesso que me emociona mais uma estrela cadente, talvez porque dura tão pouco — como nós, humanos, à dimensão do universo —, não vem com manual de instruções e ainda me permite a infantilidade de pedir um desejo.
Aos anos que tenho, continuar a pedir desejos às estrelas parece-me bastante mais saudável do que correr para os centros comerciais e lojas à procura de uns óculos de cartão.
Compreendo perfeitamente a importância científica de um eclipse. Ainda bem que há gente capaz de explicar o que acontece quando a Lua se atravessa entre nós e o Sol sem transformar imediatamente a coisa numa teoria da conspiração.
Ontem, 12 de Agosto, em Portugal só houve uma pequeníssima zona do Parque Natural de Montesinho onde a ocultação foi total durante cerca de 26 segundos; no Aeródromo de Bragança chegou aos 99,8%. No resto do país, o eclipse foi parcial, embora muito expressivo, diziam. A própria NASA confirmou que apenas um pequeno canto de Portugal entrava na faixa da totalidade. E foi.
Raro? Sem dúvida. Cientificamente fascinante? Evidentemente. Razão suficiente para Portugal inteiro entrar em estado de emergência ocular? Aqui comecei logo a perder o entusiasmo.
Porque foi praticamente isso que aconteceu. Durante dias, os óculos próprios para observar o eclipse adquiriram o estatuto económico de um apartamento no centro de Lisboa: toda a gente queria um, quase ninguém os encontrava e quem os tinha começou provavelmente a desconfiar de que podia fazer fortuna.
Lojas com avisos à porta — “NÃO TEMOS ÓCULOS” —, pessoas a telefonar a amigos, amigos a telefonar a primos, primos a descobrir que um cunhado talvez tivesse dois pares. Houve quem os encomendasse online para os receber depois do eclipse, o que constitui um magnífico exemplo português de planeamento estratégico. E houve até quem recorresse a máscaras de soldador. Faltou apenas aparecer alguém no OLX a trocar uns óculos ISO por um T2 em Alvalade.
A nossa espécie humana — e a portuguesa em particular, com a preciosa ajuda dos media e dos comentadores de ocasião, como vi, por exemplo, também ontem na Sky News, que fui acompanhando de vez em quando — tem esta extraordinária capacidade de transformar qualquer acontecimento raro numa obrigação colectiva.
Não basta haver um eclipse: é preciso vê-lo. Não basta vê-lo: é preciso fotografá-lo. Não basta fotografá-lo: é preciso publicar a fotografia no Instagram para provar aos outros que estivemos presentes quando a Lua fez aquilo que faz há milhões de anos sem precisar de influencers, patrocinadores ou um save the date. Se não pusermos o eclipse no Instagram, terá o eclipse realmente acontecido? Contra mim falo: acabei também por partilhar uma story de uma amiga que estava na festa.
O mais divertido foi a solenidade disto tudo e, sobretudo, a forma como nos foi noticiado.
“É uma oportunidade única.” “Não pode perder.” “Só volta em 2144.” E é verdade: a Ciência Viva assinalava 1912 como a última vez em que um eclipse total foi visível em Portugal e 2144 como a próxima. Como se em 2144 eu pudesse estar furioso comigo próprio por ter desperdiçado a tarde de 12 de Agosto de 2026. Imagino-me, com 184 anos — sim, porque a ciência já quase admite isso —, instalado num lar orbital, a dizer aos meus bisnetos: “Se eu soubesse, tinha comprado os óculos quando ainda os havia.”
Entretanto, o eclipse passou, a Lua seguiu a sua vida, o Sol reapareceu e nós continuámos exactamente com os mesmos problemas e as mesmas alegrias. A prestação da casa não baixou. O IRS não se comoveu. O carro continua a precisar da revisão. Finalmente, as pautas com as notas dos putos já saíram, depois do pedido de revisão. O vizinho continuará certamente a pegar no berbequim às oito da manhã para pregar um quadro na parede. O WhatsApp continua cheio de grupos de que ninguém teve ainda coragem de sair. Não houve, afinal, uma epifania internacional e nacional às 19h31. Ninguém se tornou melhor pessoa porque viu a coroa solar durante 26 segundos. No máximo, tornou-se uma pessoa que viu a coroa solar durante 26 segundos e passou o resto da noite a falar disso ao jantar. Não foi o nosso caso. Vimos. E depois continuou a festa.
Talvez seja precisamente por isso que quase sempre me separo destas euforias colectivas. Desconfio um bocadinho quando toda a gente começa a correr na mesma direcção, sobretudo se essa direcção envolve filas, estacionamento e acessórios homologados. Não me chamem insensível; chamem-me terrestre. A obrigação de deslumbramento deixa-me frio. Há dias em que parece que já não basta viver: é preciso viver o acontecimento certo, à hora certa, com os óculos certos, no miradouro certo e, sobretudo, com a legenda certa. E, no entanto, o céu dá espectáculos todos os dias e quase ninguém faz fila.
O Sol nasce todas as manhãs sem termos de comprar bilhete. Basta lavar a cara, tirar as remelas dos olhos e pôr uns óculos escuros para disfarçar as olheiras de termos ficado acordados até às tantas a ver todos os episódios da nova série de uma das plataformas.
Depois, o Sol põe-se todas as tardes sem pré-inscrição. Há noites de Agosto em que as estrelas aparecem por cima do campo como se alguém tivesse furado o tecto do mundo com uma agulha, como aconteceu ontem. Há luas enormes sobre o mar, pores-do-sol magníficos, madrugadas silenciosas e aquela luz de fim de tarde que transforma durante cinco minutos uma parede branca numa coisa mais bela do que muitas obras de arte penduradas num museu de arte contemporânea. E ninguém põe um cartaz à porta a dizer: “ESGOTADO”.
Talvez eu seja pouco cósmico. É verdade. Aceito a acusação. Dêem-me um pôr-do-sol à beira-mar, uma cervejinha bem gelada, um copo de vinho rosé ou branco, uma sangria com amigos ou um bom café bebido de manhã, quando ainda ninguém decidiu estragar-nos o dia, e fico perfeitamente reconciliado com o universo. Não preciso que a Lua tape o Sol. Às vezes basta-me que uma nuvem tape o calor durante três minutos.
Ontem à noite houve, aliás, outro espectáculo no céu que se calhar passou despercebido à maioria das pessoas, demasiado focadas no eclipse: as Perseidas, ou chuva de estrelas, que por esta altura de Agosto atingem o seu momento mais favorável. E talvez, se o sono depois de um dia bem passado não tivesse falado mais alto, ainda tivesse ficado a vê-las a noite inteira até ao nascer do Sol. Já as vi uma vez, não há muito tempo, nas ruínas romanas de Tróia — a nossa, não a de A Odisseia — e foi um espectáculo incrível, num local incrível que recomendo. Até vimos Júpiter através de um telescópio e o Starlink a passar. Fartei-me de pedir desejos. Mas agora não vou contar meteoros por hora, instalar uma aplicação nem consultar um gráfico. Olho para cima quando me apetece. Se passar uma estrela cadente, peço mais um desejo, sobretudo uma longa vida e saúde para mim e para os meus, paz no mundo e aquelas coisas que se pedem sempre. Se não passar uma estrela cadente, bebo mais um copo e converso com quem está ao meu lado. É uma metodologia científica discutível, reconheço, mas até agora tem produzido bons resultados. O eclipse foi extraordinário. Foi sim senhor. Mas a corrida ao eclipse é que me divertiu e me deixou ainda mais a pensar. Porque revela esta nossa necessidade contemporânea de transformar tudo em “evento”, de criar urgência até para o movimento dos astros, de viver debaixo da tirania permanente do “não podes perder”.
Posso, sim. Posso perder um eclipse, uma série, o restaurante da moda, uma tendência do TikTok e até aquela promoção extraordinária válida apenas até à meia-noite. A vida, felizmente, não é uma lista de experiências obrigatórias que temos de ir riscando antes de morrer. E há qualquer coisa quase cómica em haver gente que atravessou meio país e foi até Montesinho, discutiu meteorologia e astronomia como cientista de última hora, comprou óculos especiais, descarregou aplicações e organizou uma tarde inteira à volta de um acontecimento cuja grande intervenção prática nas nossas vidas consistiu em ficar um bocadinho mais escuro durante uns minutos. O universo trabalhou milhões de anos para isto e a malta respondeu com uma fila numa caixa de uma grande superfície comercial para comprar uns óculos.
Por isso, ontem à tarde, enquanto meio mundo e Portugal inteiro levantavam os olhos para o céu com os seus preciosos óculos de cartão, pedi uns emprestados duas ou três vezes durante dez segundos. Olhei. Confirmei que a Lua continuava a saber passar à frente do Sol. Disse “muito bonito”. E passei-os imediatamente a outra pessoa. Depois voltei à conversa com os meus amigos, aqueles que, como eu, também não ligaram assim tanto ao eclipse. Voltei ao campo, ao vinho, às piadas e, mais tarde, às estrelas.
Porque talvez seja essa a minha pequena heresia astronómica: entre um fenómeno que só acontece uma vez em mais de cem anos e as pessoas de quem gosto, continuo a achar muito mais raro conseguir juntar um grupo de amigos à mesma mesa para celebrar um aniversário — no fundo, para celebrar a vida. O eclipse acabou. A vida continuou. E hoje, enquanto escrevo esta crónica, porque gosto de me levantar cedo, o Sol nasceu outra vez.
Sem óculos. Sem aplicações. Sem filas. Sem comentadores em directo. E completamente grátis.
Estava ontem em Lagos, não em Bragança, a festejar o aniversário de uma amiga com outros amigos — uns que já conhecia, outros que conheci agora —, um pouco afastado do mar e das praias, numa casa linda no meio do campo, em cima de um monte, com uma mini, um copo de bom vinho ou uma sangria na mão — mas nada de beber demais —, a celebrar a vida, a ver estrelas cadentes e a observar esse outro fenómeno extraordinário que acontece todos os dias sem tanta euforia: um belo pôr-do-sol no fim de um belo dia de Verão. Foi aí, aliás, que comecei a pensar nesta crónica.
Claro que antes vi o eclipse e vi o monte a escurecer. Ou melhor: vi o suficiente para não poder dizer que não vi. Espreitei durante uns segundos por uns óculos emprestados, disse cá para mim qualquer coisa parecida com “ah, sim, realmente”, partilhei-os com outra pessoa, com a minha companheira, e continuei a minha vida de copo na mão, no meio da conversa e de muitas piadas.
Não comprei óculos, não procurei óculos e, pelo que percebi, mesmo que tivesse querido comprá-los estavam completamente esgotados. Passei à porta de um oculista na cidade e a montra estava cheia de avisos: “Óculos para ver o eclipse esgotados”. Os óculos eclipsaram-se antes do eclipse, o que me parece, aliás, a primeira grande vitória comercial da Lua sobre o Sol.
Enquanto meio mundo e metade do país pareciam preparar-se para a chegada de uma nave extraterrestre, eu já estava no Algarve desde a noite anterior, com um céu nocturno tão limpo que se viam estrelas às centenas e, de vez em quando, uma cadente. E confesso que me emociona mais uma estrela cadente, talvez porque dura tão pouco — como nós, humanos, à dimensão do universo —, não vem com manual de instruções e ainda me permite a infantilidade de pedir um desejo.
Aos anos que tenho, continuar a pedir desejos às estrelas parece-me bastante mais saudável do que correr para os centros comerciais e lojas à procura de uns óculos de cartão.
Compreendo perfeitamente a importância científica de um eclipse. Ainda bem que há gente capaz de explicar o que acontece quando a Lua se atravessa entre nós e o Sol sem transformar imediatamente a coisa numa teoria da conspiração.
Ontem, 12 de Agosto, em Portugal só houve uma pequeníssima zona do Parque Natural de Montesinho onde a ocultação foi total durante cerca de 26 segundos; no Aeródromo de Bragança chegou aos 99,8%. No resto do país, o eclipse foi parcial, embora muito expressivo, diziam. A própria NASA confirmou que apenas um pequeno canto de Portugal entrava na faixa da totalidade. E foi.
Raro? Sem dúvida. Cientificamente fascinante? Evidentemente. Razão suficiente para Portugal inteiro entrar em estado de emergência ocular? Aqui comecei logo a perder o entusiasmo.
Porque foi praticamente isso que aconteceu. Durante dias, os óculos próprios para observar o eclipse adquiriram o estatuto económico de um apartamento no centro de Lisboa: toda a gente queria um, quase ninguém os encontrava e quem os tinha começou provavelmente a desconfiar de que podia fazer fortuna.
Lojas com avisos à porta — “NÃO TEMOS ÓCULOS” —, pessoas a telefonar a amigos, amigos a telefonar a primos, primos a descobrir que um cunhado talvez tivesse dois pares. Houve quem os encomendasse online para os receber depois do eclipse, o que constitui um magnífico exemplo português de planeamento estratégico. E houve até quem recorresse a máscaras de soldador. Faltou apenas aparecer alguém no OLX a trocar uns óculos ISO por um T2 em Alvalade.
A nossa espécie humana — e a portuguesa em particular, com a preciosa ajuda dos media e dos comentadores de ocasião, como vi, por exemplo, também ontem na Sky News, que fui acompanhando de vez em quando — tem esta extraordinária capacidade de transformar qualquer acontecimento raro numa obrigação colectiva.
Não basta haver um eclipse: é preciso vê-lo. Não basta vê-lo: é preciso fotografá-lo. Não basta fotografá-lo: é preciso publicar a fotografia no Instagram para provar aos outros que estivemos presentes quando a Lua fez aquilo que faz há milhões de anos sem precisar de influencers, patrocinadores ou um save the date. Se não pusermos o eclipse no Instagram, terá o eclipse realmente acontecido? Contra mim falo: acabei também por partilhar uma story de uma amiga que estava na festa.
O mais divertido foi a solenidade disto tudo e, sobretudo, a forma como nos foi noticiado.
“É uma oportunidade única.” “Não pode perder.” “Só volta em 2144.” E é verdade: a Ciência Viva assinalava 1912 como a última vez em que um eclipse total foi visível em Portugal e 2144 como a próxima. Como se em 2144 eu pudesse estar furioso comigo próprio por ter desperdiçado a tarde de 12 de Agosto de 2026. Imagino-me, com 184 anos — sim, porque a ciência já quase admite isso —, instalado num lar orbital, a dizer aos meus bisnetos: “Se eu soubesse, tinha comprado os óculos quando ainda os havia.”
Entretanto, o eclipse passou, a Lua seguiu a sua vida, o Sol reapareceu e nós continuámos exactamente com os mesmos problemas e as mesmas alegrias. A prestação da casa não baixou. O IRS não se comoveu. O carro continua a precisar da revisão. Finalmente, as pautas com as notas dos putos já saíram, depois do pedido de revisão. O vizinho continuará certamente a pegar no berbequim às oito da manhã para pregar um quadro na parede. O WhatsApp continua cheio de grupos de que ninguém teve ainda coragem de sair. Não houve, afinal, uma epifania internacional e nacional às 19h31. Ninguém se tornou melhor pessoa porque viu a coroa solar durante 26 segundos. No máximo, tornou-se uma pessoa que viu a coroa solar durante 26 segundos e passou o resto da noite a falar disso ao jantar. Não foi o nosso caso. Vimos. E depois continuou a festa.
Talvez seja precisamente por isso que quase sempre me separo destas euforias colectivas. Desconfio um bocadinho quando toda a gente começa a correr na mesma direcção, sobretudo se essa direcção envolve filas, estacionamento e acessórios homologados. Não me chamem insensível; chamem-me terrestre. A obrigação de deslumbramento deixa-me frio. Há dias em que parece que já não basta viver: é preciso viver o acontecimento certo, à hora certa, com os óculos certos, no miradouro certo e, sobretudo, com a legenda certa. E, no entanto, o céu dá espectáculos todos os dias e quase ninguém faz fila.
O Sol nasce todas as manhãs sem termos de comprar bilhete. Basta lavar a cara, tirar as remelas dos olhos e pôr uns óculos escuros para disfarçar as olheiras de termos ficado acordados até às tantas a ver todos os episódios da nova série de uma das plataformas.
Depois, o Sol põe-se todas as tardes sem pré-inscrição. Há noites de Agosto em que as estrelas aparecem por cima do campo como se alguém tivesse furado o tecto do mundo com uma agulha, como aconteceu ontem. Há luas enormes sobre o mar, pores-do-sol magníficos, madrugadas silenciosas e aquela luz de fim de tarde que transforma durante cinco minutos uma parede branca numa coisa mais bela do que muitas obras de arte penduradas num museu de arte contemporânea. E ninguém põe um cartaz à porta a dizer: “ESGOTADO”.
Talvez eu seja pouco cósmico. É verdade. Aceito a acusação. Dêem-me um pôr-do-sol à beira-mar, uma cervejinha bem gelada, um copo de vinho rosé ou branco, uma sangria com amigos ou um bom café bebido de manhã, quando ainda ninguém decidiu estragar-nos o dia, e fico perfeitamente reconciliado com o universo. Não preciso que a Lua tape o Sol. Às vezes basta-me que uma nuvem tape o calor durante três minutos.
Ontem à noite houve, aliás, outro espectáculo no céu que se calhar passou despercebido à maioria das pessoas, demasiado focadas no eclipse: as Perseidas, ou chuva de estrelas, que por esta altura de Agosto atingem o seu momento mais favorável. E talvez, se o sono depois de um dia bem passado não tivesse falado mais alto, ainda tivesse ficado a vê-las a noite inteira até ao nascer do Sol. Já as vi uma vez, não há muito tempo, nas ruínas romanas de Tróia — a nossa, não a de A Odisseia — e foi um espectáculo incrível, num local incrível que recomendo. Até vimos Júpiter através de um telescópio e o Starlink a passar. Fartei-me de pedir desejos. Mas agora não vou contar meteoros por hora, instalar uma aplicação nem consultar um gráfico. Olho para cima quando me apetece. Se passar uma estrela cadente, peço mais um desejo, sobretudo uma longa vida e saúde para mim e para os meus, paz no mundo e aquelas coisas que se pedem sempre. Se não passar uma estrela cadente, bebo mais um copo e converso com quem está ao meu lado. É uma metodologia científica discutível, reconheço, mas até agora tem produzido bons resultados. O eclipse foi extraordinário. Foi sim senhor. Mas a corrida ao eclipse é que me divertiu e me deixou ainda mais a pensar. Porque revela esta nossa necessidade contemporânea de transformar tudo em “evento”, de criar urgência até para o movimento dos astros, de viver debaixo da tirania permanente do “não podes perder”.
Posso, sim. Posso perder um eclipse, uma série, o restaurante da moda, uma tendência do TikTok e até aquela promoção extraordinária válida apenas até à meia-noite. A vida, felizmente, não é uma lista de experiências obrigatórias que temos de ir riscando antes de morrer. E há qualquer coisa quase cómica em haver gente que atravessou meio país e foi até Montesinho, discutiu meteorologia e astronomia como cientista de última hora, comprou óculos especiais, descarregou aplicações e organizou uma tarde inteira à volta de um acontecimento cuja grande intervenção prática nas nossas vidas consistiu em ficar um bocadinho mais escuro durante uns minutos. O universo trabalhou milhões de anos para isto e a malta respondeu com uma fila numa caixa de uma grande superfície comercial para comprar uns óculos.
Por isso, ontem à tarde, enquanto meio mundo e Portugal inteiro levantavam os olhos para o céu com os seus preciosos óculos de cartão, pedi uns emprestados duas ou três vezes durante dez segundos. Olhei. Confirmei que a Lua continuava a saber passar à frente do Sol. Disse “muito bonito”. E passei-os imediatamente a outra pessoa. Depois voltei à conversa com os meus amigos, aqueles que, como eu, também não ligaram assim tanto ao eclipse. Voltei ao campo, ao vinho, às piadas e, mais tarde, às estrelas.
Porque talvez seja essa a minha pequena heresia astronómica: entre um fenómeno que só acontece uma vez em mais de cem anos e as pessoas de quem gosto, continuo a achar muito mais raro conseguir juntar um grupo de amigos à mesma mesa para celebrar um aniversário — no fundo, para celebrar a vida. O eclipse acabou. A vida continuou. E hoje, enquanto escrevo esta crónica, porque gosto de me levantar cedo, o Sol nasceu outra vez.
Sem óculos. Sem aplicações. Sem filas. Sem comentadores em directo. E completamente grátis.
A 'explosão'
Até que esta semana não posso queixar-me da sorte. Veio um diretor de cinema francês filmar nos arredores de San Juan e, sem que eu nada pedisse, vi-me contratado como extra para uma das cenas mais importantes do filme, aquela que justamente dá o título à película e lhe serve de clímax: L’Explosion. Faço parte da explosão, a princípio de corpo inteiro, depois sem uma perna.
Eu me achava chorando à mesa de um bar, tendo às mãos uma revista licenciosa, repleta de fotos lúbricas, quando de mim se aproximou sorrateiramente, sob pretexto de pedir-me fósforos, o próprio diretor do filme, um tal Christian Jaque, que, ao ver-me debulhado em lágrimas, me perguntou se eu havia perdido algum membro importante da minha família e se necessitava de algum adiantamento para o enterro. Fiz-lhe ver que o meu mal era apenas dor de dentes (deslavada mentira) e aproveitei a oportunidade para mostrar-lhe uma fotografia de um sensualismo feroz que justamente estava vendo naquele instante e que pareceu tê-lo impressionado vivamente. Dois minutos depois, e sem que se tivesse tocado em questão de dinheiro, eu já estava contratado para participar da tal cena superexplosiva, a vinte quilômetros mais ou menos do ponto em que nos encontrávamos. A única exigência que lhe fiz foi a de que o meu cipreste também participasse do filme, nem que fosse de relance apenas, o que ele, após fitar-me meio de lado, aceitou prontamente. E eu lhe mostrei então outra foto escabrosa da revista, para selar o nosso acordo.
A cena em que eu aparecia durava uma fração de minuto apenas, mas era importantíssima. No meio da estrada, com o meu cipreste ao fundo, durante a passagem de uma procissão de que eu participava com o ar mais contrito deste mundo — com uma vela acesa numa das mãos e um rosário imenso na outra — ocorria a explosão de uma mina deixada pelo inimigo na última guerra, e tudo ia lindamente pelos ares, num espetáculo pirotécnico digno dos maiores encômios. (Pena que o filme não fosse em cores, para se ter uma ideia exata do sangue derramado e das postas de carne espalhadas num raio de duzentos metros). Eu, após o estrondo formidável, captado em som perspecta-estereofônico, via-me obrigado a recolher uma das pernas às costas e a simular a mais horripilante das dores, dando vazão, para gáudio do diretor e de seus assistentes, a um dos berros mais bem dados em toda a história do cinema universal, com a câmara funcionando a dois palmos de meu ensanguentado nariz. Foi tão real e convincente o meu grito de pavor, e tão autênticas as lágrimas que me desciam dos olhos e me inundavam a camisa e as calças, indo desaguar sobre um pseudodefunto ao meu lado, que, finda a filmagem, todos vieram correndo saudar-me pelo meu êxito espetacular, inclusive o citado pseudodefunto, que era um dos astros principais do filme. Ali mesmo recebi a proposta de fazer catorze filmes na França e dois na Inglaterra — com ou sem ciprestes, à minha escolha — o que todavia recusei sem entrar em maiores detalhes, mesmo porque eu continuava chorando e os soluços não me permitiam uma conversa muito longa.
A cena calamitosa valeu-me a bagatela de trinta mil francos (sem contar a vela e o terço, que me foram dados como lembrança) e um retraio de corpo inteiro, já com as duas pernas, tirado ao lado do diretor e de seus trezentos assistentes, e que foi publicado no dia seguinte em todos os jornais da cidade, com louvores unânimes à minha imprevista atuação. O rosário e a vela doei-os à Santa Casa para serem distribuídos a algum defunto pobre, e os trinta mil francos estou acabando de gastá-los ao meu modo, isto é, como se fossem trezentos mil ou três milhões, dado que sempre vivi aujourlejour e não me interessa levar nem um cêntimo para o inferno.
De tudo isso o que me desagrada é a popularidade que de súbito se fez em torno do meu nome — eu, até ontem um desconhecido nesta desconhecida cidade — e que me obriga a conceder entrevista cada vez que me surpreendem chorando pelos cantos, com se estivesse posando não apenas para um filme mas para a própria posteridade. A glória, que já tantas vezes me bafejou com seu bafo nauseabundo, e que já parecia haver-me esquecido nestes últimos tempos, atirou-me de novo e sem piedade à fúria dos caçadores de escândalo (mesmo que esse escândalo seja apenas uma manifestação inusitada de arte, como no caso) expondo-me ao ridículo de ter que responder a perguntas ridículas e a aceitar sem um revide os maiores elogios à queima-roupa, como se eu fosse um quadro de Picasso. Houve um imbecil, de uma coluna especializada em cinema, que me comparou a um cometa fulgurante que só passa pela terra de mil em mil anos — o que, apesar de conter certo exagero, deixa-me pelo menos a esperança de só vir a relê-lo daqui a mil anos, quando certamente ele já não estará escrevendo para o mesmo jornal. Outro, citando Platão e os druidas, e com a mesma ponta de exagero do seu colega, achou de considerar-me um caso de verdadeiro Milagre (a maiúscula é dele) dentro da 7ª Arte, propondo ao Senado da República que faça lavrar em ata um voto de Louvor (ainda é dele a maiúscula) à minha importantíssima contribuição à arte dramática universal, num papel que outro qualquer teria deixado passar despercebido, apesar de todo o barulho causado pela explosão. E, no instante mesmo em que escrevo isto, uma senhora aparentemente decente e que usa uma verruga na ponta do nariz pede-me humildemente um autógrafo para o seu álbum de autógrafos célebres, tendo sem dúvida me reconhecido pelas centenas de fotografias minhas que os jornais estamparam esta semana, sobretudo chorando.
A esses beócios todos de nada adiantaria eu lhes dizer que o meu pranto nada tem de cinematográfico, sendo como é puramente humano e de todo alheio à minha vontade — e que, se a passagem explosiva de L’Explosion vai ficar realmente antológica (como, sem a menor sombra de dúvida, há de ficar) culpa ou mérito nenhum disso me caberá, como tampouco caberá ao diretor ou ao cameraman que me surpreenderam em meu paroxismo de angústia, em meio a mortos e feridos. Para todos os efeitos sou o próprio Zanconi redivivo, queira-o ou não, e nem eu mesmo conseguiria convencê-los do contrário, como de resto ocorre a todos os falsos profetas e criadores de mitos, sejam artísticos ou simplesmente religiosos.
E agora vou chorar mais um pouco.
Campos de Carvalho, "A Lua Vem da Ásia"
Eu me achava chorando à mesa de um bar, tendo às mãos uma revista licenciosa, repleta de fotos lúbricas, quando de mim se aproximou sorrateiramente, sob pretexto de pedir-me fósforos, o próprio diretor do filme, um tal Christian Jaque, que, ao ver-me debulhado em lágrimas, me perguntou se eu havia perdido algum membro importante da minha família e se necessitava de algum adiantamento para o enterro. Fiz-lhe ver que o meu mal era apenas dor de dentes (deslavada mentira) e aproveitei a oportunidade para mostrar-lhe uma fotografia de um sensualismo feroz que justamente estava vendo naquele instante e que pareceu tê-lo impressionado vivamente. Dois minutos depois, e sem que se tivesse tocado em questão de dinheiro, eu já estava contratado para participar da tal cena superexplosiva, a vinte quilômetros mais ou menos do ponto em que nos encontrávamos. A única exigência que lhe fiz foi a de que o meu cipreste também participasse do filme, nem que fosse de relance apenas, o que ele, após fitar-me meio de lado, aceitou prontamente. E eu lhe mostrei então outra foto escabrosa da revista, para selar o nosso acordo.
A cena em que eu aparecia durava uma fração de minuto apenas, mas era importantíssima. No meio da estrada, com o meu cipreste ao fundo, durante a passagem de uma procissão de que eu participava com o ar mais contrito deste mundo — com uma vela acesa numa das mãos e um rosário imenso na outra — ocorria a explosão de uma mina deixada pelo inimigo na última guerra, e tudo ia lindamente pelos ares, num espetáculo pirotécnico digno dos maiores encômios. (Pena que o filme não fosse em cores, para se ter uma ideia exata do sangue derramado e das postas de carne espalhadas num raio de duzentos metros). Eu, após o estrondo formidável, captado em som perspecta-estereofônico, via-me obrigado a recolher uma das pernas às costas e a simular a mais horripilante das dores, dando vazão, para gáudio do diretor e de seus assistentes, a um dos berros mais bem dados em toda a história do cinema universal, com a câmara funcionando a dois palmos de meu ensanguentado nariz. Foi tão real e convincente o meu grito de pavor, e tão autênticas as lágrimas que me desciam dos olhos e me inundavam a camisa e as calças, indo desaguar sobre um pseudodefunto ao meu lado, que, finda a filmagem, todos vieram correndo saudar-me pelo meu êxito espetacular, inclusive o citado pseudodefunto, que era um dos astros principais do filme. Ali mesmo recebi a proposta de fazer catorze filmes na França e dois na Inglaterra — com ou sem ciprestes, à minha escolha — o que todavia recusei sem entrar em maiores detalhes, mesmo porque eu continuava chorando e os soluços não me permitiam uma conversa muito longa.
A cena calamitosa valeu-me a bagatela de trinta mil francos (sem contar a vela e o terço, que me foram dados como lembrança) e um retraio de corpo inteiro, já com as duas pernas, tirado ao lado do diretor e de seus trezentos assistentes, e que foi publicado no dia seguinte em todos os jornais da cidade, com louvores unânimes à minha imprevista atuação. O rosário e a vela doei-os à Santa Casa para serem distribuídos a algum defunto pobre, e os trinta mil francos estou acabando de gastá-los ao meu modo, isto é, como se fossem trezentos mil ou três milhões, dado que sempre vivi aujourlejour e não me interessa levar nem um cêntimo para o inferno.
De tudo isso o que me desagrada é a popularidade que de súbito se fez em torno do meu nome — eu, até ontem um desconhecido nesta desconhecida cidade — e que me obriga a conceder entrevista cada vez que me surpreendem chorando pelos cantos, com se estivesse posando não apenas para um filme mas para a própria posteridade. A glória, que já tantas vezes me bafejou com seu bafo nauseabundo, e que já parecia haver-me esquecido nestes últimos tempos, atirou-me de novo e sem piedade à fúria dos caçadores de escândalo (mesmo que esse escândalo seja apenas uma manifestação inusitada de arte, como no caso) expondo-me ao ridículo de ter que responder a perguntas ridículas e a aceitar sem um revide os maiores elogios à queima-roupa, como se eu fosse um quadro de Picasso. Houve um imbecil, de uma coluna especializada em cinema, que me comparou a um cometa fulgurante que só passa pela terra de mil em mil anos — o que, apesar de conter certo exagero, deixa-me pelo menos a esperança de só vir a relê-lo daqui a mil anos, quando certamente ele já não estará escrevendo para o mesmo jornal. Outro, citando Platão e os druidas, e com a mesma ponta de exagero do seu colega, achou de considerar-me um caso de verdadeiro Milagre (a maiúscula é dele) dentro da 7ª Arte, propondo ao Senado da República que faça lavrar em ata um voto de Louvor (ainda é dele a maiúscula) à minha importantíssima contribuição à arte dramática universal, num papel que outro qualquer teria deixado passar despercebido, apesar de todo o barulho causado pela explosão. E, no instante mesmo em que escrevo isto, uma senhora aparentemente decente e que usa uma verruga na ponta do nariz pede-me humildemente um autógrafo para o seu álbum de autógrafos célebres, tendo sem dúvida me reconhecido pelas centenas de fotografias minhas que os jornais estamparam esta semana, sobretudo chorando.
A esses beócios todos de nada adiantaria eu lhes dizer que o meu pranto nada tem de cinematográfico, sendo como é puramente humano e de todo alheio à minha vontade — e que, se a passagem explosiva de L’Explosion vai ficar realmente antológica (como, sem a menor sombra de dúvida, há de ficar) culpa ou mérito nenhum disso me caberá, como tampouco caberá ao diretor ou ao cameraman que me surpreenderam em meu paroxismo de angústia, em meio a mortos e feridos. Para todos os efeitos sou o próprio Zanconi redivivo, queira-o ou não, e nem eu mesmo conseguiria convencê-los do contrário, como de resto ocorre a todos os falsos profetas e criadores de mitos, sejam artísticos ou simplesmente religiosos.
E agora vou chorar mais um pouco.
Campos de Carvalho, "A Lua Vem da Ásia"
Cavalos
Sobre a estante de livros estão oito cavalos de porcelana azul. São presente de um amigo. Vieram da China, dentro de uma caixa de papelão, e agora estão sobre a estante de livros, tocados pela luz de julho da cidade de Porto Alegre. Cada um dos cavalos tem seu jeito de ser. Poderiam ser dispostos deste ou daquele modo, mas foram se alinhando quase com naturalidade, até formar uma tropilha perfeita.
O da frente, o mais orgulhoso, o de pescoço erguido e ventas desafiantes, o de crinas voadoras e cascos velozes, cujo dorso é uma curva de onda, esse, por vontade e eleição do artista que o moldou, é o chefe. Não lhe cabe outro lugar senão à frente da tropilha. Olha para diante, focinho erguido. Ninguém lhe bota a mão. Em suas pernas crispa-se o músculo da velocidade. Não irá puxar carroça ou charrete elegante. É um cavalo guerreiro. Será montado (se o for) por príncipe ou capitão de guerrilhas. Nas estepes da Manchúria ou no pampa do Seival.Terá sido, quem sabe, o cavalo de Gengis Khan, contemplado por olhos deslumbrados de um viajante ocidental, ao encontrá-lo à frente de seus exércitos e estandartes e liteiras com centenas de concubinas, e vê-lo desembainhar a espada para comando e ataque. Mas, também, poderia ser o cavalo do infeliz Major Lucas de Oliveira, que atravessou léguas e léguas de pampa noturno para soprar ao ouvido do coronel Neto que era chegada a hora de proclamar a República e separar o Rio Grande do resto do Brasil. Infeliz, porque o mesmo major, dez anos mais tarde, fez jornada semelhante, para sussurrar ao ouvido do General Canabarro recado inverso.
O pequeno cavalo de porcelana está imóvel, e suas narinas parecem farejar o ar de inverno. Estaria ele entre os duzentos cavalos que invadiram a cidade de Uruguaiana num fim de tarde, depois de um tiroteio na estação Ferroviária? Os brigadianos tinham cercado o bandido Juvência Gutierrez perto do curral onde estavam os duzentos cavalos recém-chegados de Curuzu Cuatiá, pelo trem que vinha da Argentina, e, assustados pelos tiros, romperam a cerca e dispararam cidade a dentro.
Recém-chegado à cidade estava também um pacato representante e vendedor de freio para carros, vindo de São Paulo, quando deparou não só com os tiros mas com o tropel, não só com o tropel mas com a inundação das crinas, e relinchos, e cascos, e fúrias, que dobraram a esquina em disparada e arrebataram o jornal de suas mãos e o fizeram entrar de volta ao Hotel Glória, de um salto, e cair no meio da sala, sem fôlego e dignidade, branco como coalhada e jurando nunca mais por os pés naquele lugar dos demônios.
Talvez, porém, o cavalo que esteja dentro do pequeno cavalo de porcelana azul seja outro cavalo, um cavalo visto por um adolescente, trinta anos atrás, nos idos de 50, no portal de sua casa perto do rio, em Uruguaiana. O adolescente tinha um livro nas mãos, O tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, e a parte que lia era a saga de um certo capitão Rodrigo. Como todos os adolescentes da época, ele lia sem parar as aventuras de Rocambole, Sacaramouche, Os Três Mosqueteiros, aventuras que se desenrolavam em países distantes, castelos de pontes levadiças, ruas labirínticas, intrigas à luz de velas, campos de batalhas trêmulos, de estandartes coloridos.
O mundo da aventura e da imaginação era um privilégio desses países, cujos nomes soavam como promessas de algum prazer misterioso, vedado ao cotidiano da pequena cidade junto ao rio. Mas o poder de Érico já tinha soprado vida ao capitão Rodrigo Cambará. O capitão já povoava a imaginação do adolescente, surgindo em nuvens de fumo e pólvora, investindo contra canhões de castelhanos, arrebatando bandeiras. Ali, no portal da casa, perto do meio-dia, esperando o almoço, aquecido pelo Sol da primavera, o adolescente ouviu um som de página que lia. O cavaleiro vinha pelo meio da rua de terra, a trote, silencioso e solitário, imponente no poncho negro, chapéu de barbicacho, rebenque pendendo do pulso. O cavalo subia e descia a cabeça inquieta, as crinas relampejavam. O cavaleiro passou em frente ao rapaz, tocou com os dois dedos na aba do chapéu e foi se afastando no mesmo trote cadenciado, como uma aparição, ou como se tivesse saído das páginas do livro.
Só é real aquilo a que emprestamos realidade. Ergo os olhos da máquina de escrever e contemplo a tropilha sobre a estante de livros. O chefe estica o pescoço nobre e fareja o ar, inquieto, desafiador. Meu pequeno cavalo de porcelana azul medita em pastagens livres, batalhas heroicas, cavalgadas sem fim, bravo guardião do mundo do sonhos e da imaginação.
domingo, agosto 16
A pata do macaco
I
Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas, na pequena sala de Laburnam Villa, as cortinas estavam fechadas e o fogo crepitava. Pai e filho jogavam xadrez. O primeiro tinha ideias sobre o jogo que implicavam lances radicais e colocou seu rei em perigo de modo tão precipitado e desnecessário que chegou a provocar um comentário da senhora de cabelos brancos que tricotava calmamente à beira do fogo.
– Escute o vento – disse o Sr. White, que, ao perceber o erro fatal tarde demais, estava cordialmente tentando evitar que seu filho o notasse.
– Estou ouvindo – disse o outro, examinando atentamente o tabuleiro, enquanto estendia a mão: – Xeque…
– Achava difícil que viesse esta noite – disse o pai, com a mão suspensa sobre o tabuleiro.
– …mate – concluiu o filho.
– Isso é o pior de morar tão longe – gritou o Sr. White com violência súbita e inesperada. – De todos os lugares desagradáveis, lamacentos, fora de mão para viver, este é o pior. A trilha é um pântano, e a estrada, uma torrente. Não sei o que estão pensando. Suponho que, como apenas duas casas ficaram na estrada, acham que o lugar não tem importância.
Anatomia
– Não se aborreça, querido – disse a esposa gentilmente. – Talvez você ganhe a próxima.
O Sr. White levantou os olhos rapidamente, bem a tempo de interceptar um olhar de cumplicidade entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios, e ele escondeu um sorriso de culpa em sua fina barba grisalha.
– Ei-lo – disse Herbert White quando o portão bateu ruidosamente e passos pesados se encaminharam para a porta.
O velho levantou-se com pressa hospitaleira e, abrindo a porta, pôde-se
ouvi-lo se lamentando com o recém-chegado. O visitante também tinha queixas a fazer, de modo que a Sra. White murmurou:
– Tsc, tsc! – E tossiu disfarçadamente enquanto o marido entrava na sala seguido de um homem alto, corpulento, de olhos arredondados e rosto corado.
Revistas
– Sargento-mor Morris – disse ele, apresentando-o.
O sargento-mor cumprimentou-os e, tomando o assento oferecido perto do fogo, observou-o com satisfação enquanto seu anfitrião pegava uísque, copos e uma pequena chaleira de cobre no fogo.
No terceiro copo, seus olhos ficaram mais vivos, e ele começou a falar. O pequeno círculo familiar observava com grande interesse esse visitante de lugares distantes, enquanto ele ajustava os largos ombros na cadeira e falava sobre episódios estranhos e feitos intrépidos, de guerras, pragas e pessoas incomuns.
– Vinte e um anos nisso – disse o Sr. White, fazendo um gesto para a esposa e o filho. – Até ele ir embora, era um jovem frágil no armazém. Agora, olhem para ele.
– Não parece ter se ferido muito – falou a Sra. White polidamente.
– Gostaria de viajar para a Índia – disse o velho. – Apenas para conhecer um pouco, sabe?
– O melhor lugar é sempre onde a gente está – sentenciou o sargento-mor, balançando a cabeça. Ele apoiou o copo vazio na mesa, suspirando baixinho.
– Gostaria de ver aqueles templos antigos, os faquires e malabaristas – falou o velho. – O que foi mesmo que você começou a me contar outro dia sobre uma pata de macaco, ou algo assim, Morris?
– Nada – apressou-se o sargento-mor a responder. – Pelo menos nada que valha a pena ser ouvido.
– Pata de macaco? – perguntou, curiosa, a Sra. White.
– Bem, talvez seja apenas uma dessas coisas que costumamos chamar de magia – respondeu o sargento-mor sem constrangimento.
Seus três ouvintes se inclinaram para a frente, curiosos. O visitante, distraidamente, levou seu copo vazio aos lábios e o baixou novamente. O anfitrião o encheu.
– Aqui está – disse o sargento-mor, mexendo no bolso. – É apenas uma pequena pata comum, mumificada. – Ele a tirou do bolso e a mostrou.
A Sra. White recuou com uma careta, mas seu filho pegou-a e examinou-a curiosamente.
– E o que há de especial sobre ela? – perguntou o Sr. White, após pegá-la do filho, examiná-la e colocá-la em cima da mesa.
– Foi enfeitiçada por um velho faquir – disse o sargento-mor. – Um homem muito santo. Ele queria mostrar que o destino rege a vida das pessoas e que aqueles que interferem nisso provocam seu próprio pesar. Colocou nela um feitiço de modo que três homens diferentes poderiam realizar, cada um, três desejos.
Seus modos eram tão impressionantes que os ouvintes tiveram a sensação de que os suaves risos soaram um pouco estridentes.
– Bem, por que não fez os seus, senhor? – perguntou habilmente Herbert White.
O soldado olhou-o da maneira como um homem de meia-idade encara a juventude, que considera presunçosa.
– Eu fiz – respondeu ele serenamente, e seu rosto marcado de varíola empalideceu.
– E o senhor realmente recebeu os três desejos? – perguntou a Sra. White.
– Recebi – disse o sargento-mor, e seu copo bateu levemente contra seus dentes fortes.
– E mais alguém a usou depois? – questionou a senhora.
– Sim, o primeiro homem obteve seus três desejos – foi a resposta. – Não sei quais foram os dois primeiros, mas o terceiro foi a morte. Foi assim que consegui a pata.
Seu tom era tão grave que um silêncio caiu sobre o grupo.
– Se realizar seus três desejos, não lhe serve mais agora, Morris – disse, finalmente, o velho. – Por que a guarda?
O soldado balançou a cabeça.
– Capricho, eu acho – respondeu calmamente. – Cheguei a pensar em vendê-la, mas acho que não o farei. Essa coisa já causou dano suficiente. Além disso, as pessoas não a comprariam. Algumas acham que é um conto de fadas, e aquelas que acreditam, seja lá como, vão querer experimentar primeiro e me pagar depois.
– Se pudesse realizar mais três desejos – perguntou o velho, encarando-o sutilmente –, você o faria?
– Não sei – respondeu o outro. – Eu não sei.
Ele pegou a pata e, balançando-a entre seu dedo indicador e o polegar, de repente a jogou no fogo. White, com um ligeiro grito, abaixou-se e pegou-a.
– Melhor deixá-la queimar – disse, solenemente, o soldado.
– Se você não a quer, Morris – respondeu o outro –, dê a pata para mim.
– Não – disse o amigo, inflexível. – Joguei-a no fogo. Se você a pegou, não me culpe pelo que acontecer. Seja um homem sensato e lance a pata novamente ao fogo.
O outro balançou a cabeça e examinou seu novo bem atentamente.
– Como funciona? – perguntou.
– Segure-a com a mão direita e formule o desejo em voz alta – disse o sargento-mor –, mas devo alertá-lo sobre as consequências.
– Soa como As Mil e Uma Noites – disse a Sra. White, enquanto se levantava para preparar o jantar. – Não acha que deveria desejar quatro pares de mãos para mim?
O marido tirou o talismã do bolso, e os três começaram a rir, enquanto o sargento-mor, com um olhar alarmante no rosto, segurou-o pelo braço.
Anatomia
– Se quer mesmo formular um desejo – disse rispidamente –, que seja algo razoável.
O Sr. White colocou o talismã de volta no bolso e, arrumando as cadeiras, convidou o amigo para a mesa. Durante o jantar, o assunto foi parcialmente esquecido, e, depois, os três sentaram-se para ouvir, fascinados, uma segunda sessão das aventuras do soldado na Índia.
– Como se a história sobre a pata do macaco fosse menos verídica do que tudo o que ele nos contou – disse Herbert quando a porta se fechou atrás do convidado, bem a tempo de ele tomar o último trem. – Não devemos levar muito em conta essas histórias.
– Você lhe deu algo por essa coisa, pai? – perguntou a Sra. White, encarando o marido.
– Uma ninharia – disse ele, corando ligeiramente. – Ele não queria, mas eu o fiz aceitar. E ele me pressionou novamente para jogá-la fora.
– Provavelmente – disse Herbert com horror fingido – porque, senão, nos tornaríamos ricos, famosos e felizes. Deseje ser um imperador, pai, só para começar; então não poderá ser dominado pela esposa.
Ele contornou rapidamente a mesa, seguido pela perigosa Sra. White armada com uma manta do estofado.
O Sr. White tirou a pata do bolso e ficou olhando-a com hesitação.
– Não sei o que desejar, e isso é um fato – disse calmamente. – Me parece que tenho tudo o que quero.
– Se você simplesmente quitasse a casa, ficaria muito feliz, não ficaria? – disse Herbert, com a mão no ombro dele. – Bem, deseje duzentas libras, então, é o suficiente.
O pai, sorrindo envergonhado com a própria credulidade, segurou o talismã, enquanto o filho, com o ar solene prejudicado por uma piscadela da mãe, sentou-se ao piano e tocou alguns acordes comoventes.
– Desejo duzentas libras – disse o velho decididamente.
Um belo acorde do piano saudou as palavras, interrompido por um grito de pavor do velho. A esposa e o filho correram em sua direção.
– Ela se mexeu – gritou de novo com um olhar de nojo para o objeto, que estava caído no chão. – Quando formulei o desejo, a pata se mexeu na minha mão, como uma cobra.
– Bem, não vejo o dinheiro – disse o filho enquanto apanhava a pata do chão e a colocava na mesa – e aposto que nunca verei.
– Certamente foi a sua imaginação, pai – disse a esposa, olhando-o
preocupada.
Ele balançou a cabeça.
– Esqueçam tudo. Nenhum mal aconteceu. Mas com certeza a pata me deu um arrepio.
Enquanto os três ficaram sentados à beira do fogo, os dois homens terminaram de fumar seus cachimbos. Lá fora, o vento estava mais forte do que nunca, e o velho começou a ficar nervoso com o som de uma porta batendo no andar de cima. Um silêncio incomum e deprimente se instalou entre eles e durou até o casal se levantar para se recolher.
– Espero que encontrem o dinheiro amarrado em um grande saco no meio da cama – disse Herbert, depois de dar boa-noite aos pais – e algo terrível agachado em cima do armário observando vocês enquanto embolsam seus ganhos ilícitos.
Herbert sentou-se sozinho no escuro, contemplando o fogo que esmaecia e vendo rostos nele. O último era tão horrendo e tão símio que ele o olhou com espanto. Era tão vívido que Herbert, com um ligeiro riso nervoso, tateou a mesa à procura de um copo com um pouco de água para jogá-la na lareira. Sua mão esbarrou na pata do macaco, e, com um ligeiro arrepio, ele limpou a mão no casaco e subiu para se deitar.
II
Brilhava o sol de inverno na manhã seguinte, e, ao passar pela mesa do café, Herbert riu de seus medos. Havia um ar de salubridade prosaica na sala, que havia faltado na noite anterior, e a pequena pata suja e enrugada foi posta no aparador com uma displicência que sinalizava pouca crença em seus poderes.
– Suponho que todos os velhos soldados sejam iguais – disse a Sra. White. – E pensar que ficamos ouvindo tais bobagens! Como desejos poderiam ser concedidos nos dias de hoje? E, se pudessem, como duzentas libras poderiam nos fazer mal, pai?
– Talvez caiam do céu na cabeça dele – disse o frívolo Herbert.
– Morris disse que as coisas acontecem muito naturalmente – comentou o pai –, que a realização do desejo pode ser atribuída até mesmo à coincidência.
– Bem, não acabe com o dinheiro até eu voltar – disse Herbert ao levantar da mesa. – Temo que isso o vá transformar em um homem mesquinho e avarento e tenhamos que o renegar.
A mãe riu e o acompanhou até a porta. Ficou observando-o descer pela estrada e, retornando à mesa do café da manhã, se divertiu à custa da credulidade do marido. Nada que evitasse que ela corresse à porta ao ouvir o carteiro nem que se referisse rapidamente ao sargento-mor reformado e ao hábito dele de beber demais, quando descobriu que o correio havia trazido a conta do alfaiate.
– Herbert terá mais algumas de suas observações espirituosas, com certeza, quando chegar em casa – disse ela enquanto jantavam.
– Ouso dizer – começou o Sr. White, servindo-se de cerveja – que, apesar de tudo, a coisa se mexeu na minha mão. Isso eu juro.
– Você pensou que se mexeu – disse a senhora suavemente.
– Digo que se mexeu – respondeu ele. – Não tenho dúvida. Preciso… O que houve?
A esposa não respondeu. Estava olhando os movimentos misteriosos de um homem, do lado de fora, que, examinando a casa de maneira indecisa, parecia estar preparando o espírito para entrar. Em uma conexão mental com as duzentas libras, ela reparou que o estranho estava bem-vestido e usava um chapéu novo de seda brilhante. Três vezes ele parou no portão e depois se moveu novamente. Na quarta vez, pousou a mão sobre o portão e, como em súbita decisão, abriu-o e avançou pelo caminho. A Sra. White, no mesmo momento, pôs as mãos para trás e rapidamente desatou o laço do avental, colocando o útil artefato embaixo da almofada de sua cadeira.
Ela fez o estranho entrar na sala, e ele parecia pouco à vontade. Olhava furtivamente para a Sra. White e a ouviu, preocupado, se desculpar da aparência da sala e do casaco do marido, roupa que ele normalmente reservava para uso no jardim. A Sra. White, então, aguardou, com a paciência que seu sexo permitia, que ele dissesse a razão de sua visita, mas, num primeiro momento, ele ficou estranhamente silencioso.
– Eu… me enviaram para… – O Sr. White parou e pegou no bolso da calça um pedaço de algodão. – Venho da Maw & Meggins.
A senhora ficou assustada.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou sem fôlego. – Aconteceu alguma coisa com Herbert? O que foi? O que foi?
O marido interferiu.
– Vamos, vamos, mãe – apressou-se a dizer. – Sente aí e não tire conclusões precipitadas. O senhor não trouxe más notícias, tenho certeza – ponderou o Sr. White e olhou o outro ansiosamente.
– Lamento… – começou o visitante.
– Ele está machucado? – interpelou a mãe. O visitante se curvou, concordando.
– Terrivelmente ferido – disse ele calmamente –, mas não sente dores.
– Oh, graças a Deus! – disse a senhora, apertando as mãos. – Graças a Deus por isso! Graças…
Parou subitamente ante o significado sinistro da evidência e viu a terrível confirmação de seus medos no rosto desviado do outro. Prendeu a respiração e, virando-se para o marido, mais lento de raciocínio, colocou a mão trêmula sobre a dele. E houve um longo silêncio.
– Ele foi pego pela máquina – disse, por fim, o visitante em voz baixa.
– Pego pela máquina – repetiu o Sr. White, de maneira confusa –, mas…
Ele sentou-se olhando fixamente para fora da janela e, tomando a mão de sua esposa entre as suas, apertou-a como fazia no tempo em que a cortejava, havia quase quarenta anos.
– Herbert era a única coisa que nos restava – disse ele virando-se lentamente para o visitante. – Isso é duro.
O outro tossiu e, levantando-se, encaminhou-se lentamente para a janela.
– A empresa me incumbiu de lhes transmitir sinceros sentimentos por sua enorme perda – disse ele, sem olhar ao redor. – Espero que entendam que sou apenas um empregado e que meramente cumpro ordens.
Não houve resposta. A face da senhora estava pálida, seu olhar, fixo, e sua respiração, inaudível. No rosto do marido, uma expressão tal como a que deve ter surgido no rosto do sargento, seu amigo, em sua primeira batalha.
– Devo dizer que a Maw & Meggins nega qualquer responsabilidade – continuou o outro. – Eles não admitem culpa alguma, mas, em consideração aos serviços de seu filho, desejam oferecer a vocês certa quantia como forma de compensação.
O Sr. White largou a mão da esposa e, ficando de pé, encarou o visitante com horror. Seus lábios secos soltaram uma palavra:
– Quanto?
– Duzentas libras – respondeu o funcionário da Maw & Meggins.
Insensível ao grito da esposa, o velho sorriu vagamente, estendeu as mãos como um cego e desabou inconsciente no chão.
III
No enorme cemitério novo, a cerca de duas milhas de distância, os velhos enterraram seu morto e retornaram para casa mergulhados em sombras e silêncio. Tudo havia acontecido tão rápido que, a princípio, eles mal conseguiam compreender e permaneceram em estado de expectativa, como se mais alguma coisa estivesse por vir, algo para aliviar carga tão pesada para ser suportada por corações de idosos.
Mas os dias se passaram, e a expectativa deu lugar à resignação, à desesperançosa resignação dos velhos, às vezes chamada erroneamente de apatia. Algumas vezes, mal trocavam uma palavra. Não tinham nada sobre o que falar, e seus dias eram exaustivamente longos.
Foi cerca de uma semana mais tarde que o velho, acordando subitamente no meio da noite, esticou a mão e se percebeu sozinho. O quarto estava escuro, e o som de um choro abafado vinha da janela. Sentou-se na cama e ficou escutando.
– Volte – disse ele carinhosamente. – Você vai se resfriar.
– Está mais frio para o meu filho – disse a senhora, e chorou mais ainda.
O som dos soluços da mulher foi morrendo nos ouvidos dele. A cama estava quente, e seus olhos, pesados de sono. Cochilou irregularmente e então dormiu até que um grito repentino da esposa o acordou de sobressalto.
– A pata! – gritava ela furiosamente. – A pata do macaco! Ele se levantou assustado.
– Onde? Onde está? O que houve?
Ela veio tropeçando pelo quarto em direção a ele. – Eu a quero – disse ela calmamente. – Você não a destruiu!
– Está na sala, na prateleira – respondeu ele, pasmo. – Por quê?
Ela chorava e ria ao mesmo tempo e, curvando-se, beijou a bochecha dele.
– Eu apenas me lembrei… – disse histericamente. – Por que não pensei nisso antes? Por que você não pensou nisso?
– Pensar em quê? – questionou ele.
– Os outros dois desejos – respondeu ela rapidamente. – Fizemos apenas um.
– Não foi o suficiente? – perguntou ele furiosamente.
– Não! – gritou ela, triunfante. – Teremos mais um. Desça e pegue-a,
rápido, e deseje que nosso menino viva novamente.
O homem sentou na cama e afastou as cobertas de suas pernas trêmulas.
– Meu Deus, você está louca! – gritou, aterrorizado.
– Pegue-a! – Ela suspirou. – Pegue-a, rápido, e faça o desejo. Oh, meu menino, meu menino!
O marido riscou um fósforo e acendeu uma vela.
– Volte para a cama – disse, sem convicção. – Você não sabe o que está dizendo.
– Tivemos o primeiro desejo atendido – disse a senhora agitadamente –, por que não o segundo?
– Uma coincidência – gaguejou o velho.
– Vá, pegue-a e formule o desejo! – gritou a esposa, tremendo de agitação.
O velho virou-se e olhou para ela. Sua voz estremeceu:
– Ele está morto há dez dias, e, além disso… eu não lhe contaria, mas… eu só fui capaz de reconhecê-lo pelas roupas. Se há dez dias estava terrível demais para você vê-lo, muito mais agora.
– Traga-o de volta! – gritou a senhora e o empurrou em direção à porta. – Você acha que eu tenho medo da criança que amamentei?
Ele desceu na escuridão, tateou o caminho até a sala e então até a lareira. O talismã estava no lugar, e um medo horrível de que o desejo não dito pudesse trazer seu filho mutilado antes que pudesse fugir da sala se apossou dele. Prendeu a respiração e percebeu que havia perdido a direção da porta. Com a testa coberta de suor gelado, tateou o caminho ao redor da mesa e ao longo da parede até se encontrar na pequena passagem com a perniciosa coisa na mão.
Até o rosto de sua esposa parecia ter mudado quando ele entrou no quarto. Era pálido e esperançoso, e, para seu desespero, ela parecia olhá-lo de um jeito não natural. Sentiu medo dela.
– Faça o desejo! – gritou ela.
– É insensato e perverso – vacilou ele.
– Faça! – repetiu a esposa. Ele levantou a mão:
– Desejo meu filho vivo novamente.
O talismã caiu no chão, e ele o olhou com pavor. Então se afundou na cadeira, enquanto a senhora, com os olhos faiscantes, caminhou até a janela e levantou a cortina.
Ele permaneceu sentado até congelar de frio, voltando-se ocasionalmente para a figura da mulher, que espiava pela janela. O final da vela, que queimava até abaixo da borda do castiçal de porcelana, lançava sombras pulsantes no teto e nas paredes, até que, após uma centelha maior que as outras, apagou-se. O velho, com uma indizível sensação de alívio pelo fracasso do talismã, se arrastou de volta para a cama, e um minuto ou dois depois a senhora veio, apática e silenciosamente, para perto dele.
Ninguém falou. Ficaram em silêncio ouvindo o tique-taque do relógio. Um degrau rangeu, e um estridente rato correu ruidosamente pela parede. A escuridão era opressiva. Após um tempo tomando coragem, ele pegou a caixa de fósforos, riscou um e desceu para buscar uma vela.
Ao pé da escada, o fósforo se apagou, e ele fez uma pausa para riscar outro. Nesse exato instante, uma batida, tão calma e furtiva que mal era audível, soou na porta da frente.
Os fósforos caíram de sua mão e se espalharam no assoalho. Ele ficou imóvel, a respiração suspensa, até que a batida se repetiu. Então, se virou, fugiu ligeiro para o quarto e fechou a porta atrás de si. Uma terceira batida ecoou pela casa.
– O que foi isso? – gritou a mulher se levantando.
– Um rato – disse o velho com a voz trêmula. – Um rato. Passou por mim na escada.
A esposa sentou-se na cama para ouvir. Outra batida alta ressoou pela
casa.
– É Herbert! – gritou ela. – É Herbert!
Então correu para a porta, mas o marido chegou antes, agarrou-a pelo braço e a deteve com força.
– O que você vai fazer? – sussurrou ele com a voz rouca.
– É o meu menino, é Herbert! – gritou ela, se debatendo mecanicamente.
– Esqueci que ele estava a três quilômetros daqui. Por que você está me segurando? Me largue. Preciso abrir a porta.
– Pelo amor de Deus, não deixe isso entrar! – pediu o velho, trêmulo.
– Você está com medo de nosso filho! – gritou ela se debatendo. – Me solte! Estou indo, Herbert! Estou indo!
Houve outra batida e mais outra. A senhora, com um movimento súbito, se soltou e correu para fora do quarto. O marido a seguiu, chamando pela esposa, implorando, enquanto ela descia correndo a escada. Ele ouviu o barulho da corrente sendo puxada e o do ferrolho saindo lenta e asperamente do soquete. Em seguida ouviu também a voz da senhora, tensa e ofegante:
– O ferrolho! – gritou bem alto. – Venha aqui! Não consigo alcançá-lo!
Mas o marido estava com as mãos e os joelhos no chão, tateando-o loucamente à procura da pata. Se conseguisse pelo menos encontrá-la antes que a coisa lá fora entrasse… Uma sequência perfeita de batidas reverberou pela casa, e ele ouviu o arrastar de uma cadeira que a esposa estava encostando na porta. Escutou o ranger do ferrolho sendo movido lentamente. Nesse exato momento encontrou a pata do macaco e desesperadamente formulou, sem voz, seu terceiro e último desejo.
As batidas cessaram de repente, embora ainda se ouvisse o eco pela casa. Ele escutou a cadeira ser arrastada para trás e a porta se abrir. Um vento gelado subiu rapidamente pela escada, e um longo e sonoro lamento de decepção e sofrimento da esposa lhe deu coragem para correr até ela e a seguir até o portão, lá fora. O candeeiro de rua, do outro lado, brilhava, trêmulo, em uma estrada tranquila e deserta.
W. W. Jacobs
Retrato do artista quando coisa
A maior riqueza do homem é sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
Manoel de Barros
No Morro da Geada
Subir o morro era fácil; descer, já não era, não. O coração não pedia pra gente descer.
Que eu moro na roça, não sei viver na cidade; compro o jornal pra saber das novidades...
Assim balangado, jongado, arteiro, cheio de marras era o viver espontâneo do morro. Completa liberdade, do balacobaco. Como no canto de Clementina de Jesus, uma pessoa mais bonita e de elegância natural que o país já teve. E de quem o país não cuidou como devia, o que já é outra história. E é vergonha.
Mas lá em cima. Dali a gente espiava os primeiros espigões surgindo na linha do horizonte, naquele tempo chamado arranha-céus. A gente tão perto da cidade e tão longe dela.
No morro, roça. Uma cachorrada sem conta, uma molecadinha mestiçada de um quase tudo, que o morro de imigrantes era um mar. De nações ou de tribos que não haviam dado certo em parte nenhuma do mundo. O morro tinha húngaro, magiar, que a gente chamava hungarês; os poloneses, que chamávamos de polacos; os armênios, que a gente tratava de turcos...e havia russos que conheciam a Manchúria devido a guerras, espanhóis, italianos, portugueses, a quem tratávamos de burrugas... e até brasileiros escorridos de outros cantos, como o nosso pessoal, amulatado, mameluco, que, tangido pela fome de 29, na crise grande, pulou fora do Estado do Rio e foi bater no Morro da Geada.
saiba mais
Pois. Tínhamos horta, cuidávamos das verduras, do milho, do inhame, da mandioca, bebíamos leite de cabra e leite de vaca. Vovó Lula abominava orquídea dentro de casa e só nos tratava pela homeopatia. Orquídea era mau agouro, vento encanado, fio desencapado, asa negra, ziquizira. Caveira de burro, azar dos capetas.
No morro éramos rurais. Batíamos café e amendoim no pilão, fazíamos nossa paçoca e nosso quentão, com gengibre, nas festas de junho. Gostávamos de mandioca frita, do pinhão assado, do cuscuz paulista que aprendêramos a comer no morro. Nosso curau.
Descendo, virávamos bichos urbanos, que conheciam a água encanada, o automóvel, a luz elétrica, o rádio. O paralelepípedo e o asfalto. De cedo, aprendi a subir a ladeira e a pegar bonde andando.
Eu conheci, lá longe, o sol de montanha no Morro da Geada, lá pelos lados do Jaguaré, de onde se avistava, mais à direita, um ponto meio preto, quase azulado, tão vistoso - o Pico do Jaraguá. Ah, tempos...o rio Tietê, como o Pinheiros, dava peixe, a gente atravessava os dois de balsa ou de bote, uns caíques que enchiam o coração das velhas de medo e o deste aqui de um tropel. A gente não dizia: o rio, os rios; todos diziam: o Tietê, o Pinheiros. Eles eram tão da gente.
Nossa pobreza não era envergonhada. Ainda não fora substituída pela miséria nos morros pobres como o da Geada. Que tinha esse nome a propósito: lá pelos altos do Jaguaré, quando fazia muito frio, no morro costumava gear. Tínhamos um par de sapato para o domingo. Só. A semana tocada de tamancos ou de pés no chão. A gente tirava água de poço e tomava banho de tina.
Não há lembrança que me chegue sem os sabores. Será difícil esquecer, lá no morro, o gosto de fel do chá para os rins, chá de carqueja, empurrado goela abaixo pelas mãos da minha bisavó Júlia, apelidada Lula pela gente miúda, pena de bisnetos amulatados, mequetrefes, gentinha impossível. Vó Lula, escura e geniosa, cabelos lisos de provável mameluca, quem sabe, na mocidade, sensual e com certeza supersticiosa e de arroubos imprevisíveis, acostumada e mandona. Tratava filhos, netos e bisnetos pela homeopatia. Os doentes não tomassem café.
Havia pobreza, marcada. Mas se o chá de carqueja me descia brabo pela goela, como me é difícil esquecer o gosto bom do leite quente na caneca esmaltada estirada, amorosamente, também no Morro da Geada, pelas mãos de minha avó Nair, filha da bisavó geniosa. Leite puro, tirado das tetas. Sou assim, homem de sorte. De pequeno, paparicado por avó, bisavó e doze tios e tias-avós. Todo esse povo, ah, méis daqueles tempos, escondia os maus feitos da minha pilantragem, e como! Escondia mais do que a noite. Muita sorte, inda agora tenho avó viva. É Nair, dona Nair, dona Nair Cardoso de Sá Gomes, a que sabe fazer - até hoje, aos 86 anos - uns olhos azuis e sararás tão femininos e bons fora da conta, que se viajam para os netos. E quando se dará conta que eu não sou mais criança, que viajei e calejei, embora ela, quando em quando, esquecida ou lembrada, me chame de Joãozinho?
Ah, isso tudo dói um bocado.
Mas os bondes. Nada fácil esquecê-los. Os abertos, que a gente pegava e de que saltava andando; os fechados, a que chamávamos camarões. Vinham, volada, que cantavam nos trilhos, cortando desde o Largo do Correio, pegando toda a Avenida São João, entrando pelos bairros e acabando lá longe, no Anastácio. Ou, ainda melhor, lá em Domingos de Morais. Uma viagem em todos os sentidos.
Nem dá pra esquecer o tio mais alto, o ainda tio-avô Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, empaletozado como na época, empertigado, namorador impertinente e alegre e, pioneiro, a me ensinar nos bondes a olhar as pernas nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o lugar. Havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.
A miséria não substituíra a pobreza. E, lá no Morro da Geada, além do futebol e do jogo de malha, a gente criava de um tudo. Havia galinha, cabrito, porco, marreco, pato, ganso, passarinho; e a natureza criava rolinha, curríra, papa-capim, andorinha, quanto. Tudo ali nos Jaguarés, sem televisão, sem aparelho de som e sem inflação.
Hoje, se a voz mestiça no disco me manda que amor lá no morro é amor pra chuchu, me traz também um arrepio nos pelos do braço.
Nenhum de nós sabia dizer a palavra solidariedade. Mas na casa de outro tio, o nosso tio Otacílio, criavam-se até filhos dos outros e estou certo que o nosso coração era simples, espichado e melhor. Não desandávamos a reclamar da vida, não nos hostilizávamos feito possessos, tocávamos a pé pra baixo e pra cima e, quando um encontrava com o outro, a gente não dizia "oi!". A gente se salvava, largo e profundo:
- Ô, batuta!
Que eu moro na roça, não sei viver na cidade; compro o jornal pra saber das novidades...
Assim balangado, jongado, arteiro, cheio de marras era o viver espontâneo do morro. Completa liberdade, do balacobaco. Como no canto de Clementina de Jesus, uma pessoa mais bonita e de elegância natural que o país já teve. E de quem o país não cuidou como devia, o que já é outra história. E é vergonha.
Mas lá em cima. Dali a gente espiava os primeiros espigões surgindo na linha do horizonte, naquele tempo chamado arranha-céus. A gente tão perto da cidade e tão longe dela.
No morro, roça. Uma cachorrada sem conta, uma molecadinha mestiçada de um quase tudo, que o morro de imigrantes era um mar. De nações ou de tribos que não haviam dado certo em parte nenhuma do mundo. O morro tinha húngaro, magiar, que a gente chamava hungarês; os poloneses, que chamávamos de polacos; os armênios, que a gente tratava de turcos...e havia russos que conheciam a Manchúria devido a guerras, espanhóis, italianos, portugueses, a quem tratávamos de burrugas... e até brasileiros escorridos de outros cantos, como o nosso pessoal, amulatado, mameluco, que, tangido pela fome de 29, na crise grande, pulou fora do Estado do Rio e foi bater no Morro da Geada.
saiba mais
Pois. Tínhamos horta, cuidávamos das verduras, do milho, do inhame, da mandioca, bebíamos leite de cabra e leite de vaca. Vovó Lula abominava orquídea dentro de casa e só nos tratava pela homeopatia. Orquídea era mau agouro, vento encanado, fio desencapado, asa negra, ziquizira. Caveira de burro, azar dos capetas.
No morro éramos rurais. Batíamos café e amendoim no pilão, fazíamos nossa paçoca e nosso quentão, com gengibre, nas festas de junho. Gostávamos de mandioca frita, do pinhão assado, do cuscuz paulista que aprendêramos a comer no morro. Nosso curau.
Descendo, virávamos bichos urbanos, que conheciam a água encanada, o automóvel, a luz elétrica, o rádio. O paralelepípedo e o asfalto. De cedo, aprendi a subir a ladeira e a pegar bonde andando.
Eu conheci, lá longe, o sol de montanha no Morro da Geada, lá pelos lados do Jaguaré, de onde se avistava, mais à direita, um ponto meio preto, quase azulado, tão vistoso - o Pico do Jaraguá. Ah, tempos...o rio Tietê, como o Pinheiros, dava peixe, a gente atravessava os dois de balsa ou de bote, uns caíques que enchiam o coração das velhas de medo e o deste aqui de um tropel. A gente não dizia: o rio, os rios; todos diziam: o Tietê, o Pinheiros. Eles eram tão da gente.
Nossa pobreza não era envergonhada. Ainda não fora substituída pela miséria nos morros pobres como o da Geada. Que tinha esse nome a propósito: lá pelos altos do Jaguaré, quando fazia muito frio, no morro costumava gear. Tínhamos um par de sapato para o domingo. Só. A semana tocada de tamancos ou de pés no chão. A gente tirava água de poço e tomava banho de tina.
Não há lembrança que me chegue sem os sabores. Será difícil esquecer, lá no morro, o gosto de fel do chá para os rins, chá de carqueja, empurrado goela abaixo pelas mãos da minha bisavó Júlia, apelidada Lula pela gente miúda, pena de bisnetos amulatados, mequetrefes, gentinha impossível. Vó Lula, escura e geniosa, cabelos lisos de provável mameluca, quem sabe, na mocidade, sensual e com certeza supersticiosa e de arroubos imprevisíveis, acostumada e mandona. Tratava filhos, netos e bisnetos pela homeopatia. Os doentes não tomassem café.
Havia pobreza, marcada. Mas se o chá de carqueja me descia brabo pela goela, como me é difícil esquecer o gosto bom do leite quente na caneca esmaltada estirada, amorosamente, também no Morro da Geada, pelas mãos de minha avó Nair, filha da bisavó geniosa. Leite puro, tirado das tetas. Sou assim, homem de sorte. De pequeno, paparicado por avó, bisavó e doze tios e tias-avós. Todo esse povo, ah, méis daqueles tempos, escondia os maus feitos da minha pilantragem, e como! Escondia mais do que a noite. Muita sorte, inda agora tenho avó viva. É Nair, dona Nair, dona Nair Cardoso de Sá Gomes, a que sabe fazer - até hoje, aos 86 anos - uns olhos azuis e sararás tão femininos e bons fora da conta, que se viajam para os netos. E quando se dará conta que eu não sou mais criança, que viajei e calejei, embora ela, quando em quando, esquecida ou lembrada, me chame de Joãozinho?
Ah, isso tudo dói um bocado.
Mas os bondes. Nada fácil esquecê-los. Os abertos, que a gente pegava e de que saltava andando; os fechados, a que chamávamos camarões. Vinham, volada, que cantavam nos trilhos, cortando desde o Largo do Correio, pegando toda a Avenida São João, entrando pelos bairros e acabando lá longe, no Anastácio. Ou, ainda melhor, lá em Domingos de Morais. Uma viagem em todos os sentidos.
Nem dá pra esquecer o tio mais alto, o ainda tio-avô Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, empaletozado como na época, empertigado, namorador impertinente e alegre e, pioneiro, a me ensinar nos bondes a olhar as pernas nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o lugar. Havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.
A miséria não substituíra a pobreza. E, lá no Morro da Geada, além do futebol e do jogo de malha, a gente criava de um tudo. Havia galinha, cabrito, porco, marreco, pato, ganso, passarinho; e a natureza criava rolinha, curríra, papa-capim, andorinha, quanto. Tudo ali nos Jaguarés, sem televisão, sem aparelho de som e sem inflação.
Hoje, se a voz mestiça no disco me manda que amor lá no morro é amor pra chuchu, me traz também um arrepio nos pelos do braço.
Nenhum de nós sabia dizer a palavra solidariedade. Mas na casa de outro tio, o nosso tio Otacílio, criavam-se até filhos dos outros e estou certo que o nosso coração era simples, espichado e melhor. Não desandávamos a reclamar da vida, não nos hostilizávamos feito possessos, tocávamos a pé pra baixo e pra cima e, quando um encontrava com o outro, a gente não dizia "oi!". A gente se salvava, largo e profundo:
- Ô, batuta!
João Antônio, revista Globo Rural, setembro de 1987
Levantar a mão
Houve tempo em que minha maior preocupação diária, depois de acordar, era desvencilhar-me imediatamente do pijama, tomar uma chuveirada, vestir-me e sair logo, para ir encostar a barriga no primeiro balcão. Nunca fui comerciante, mas nessa época poderia ter sido - e dos bons. Era uma figura mais presente nos bares que os próprios donos. Meu amor a esses estabelecimentos era comovente. Chegava muito cedo e, quando saía, geralmente de madrugada, quase sempre era sob protesto. Às vezes, precisavam pôr-me para fora.
Duas instituições impediam que eu me entregasse ao copo em período integral: o trabalho e a família. O primeiro me roubava, de segunda a sábado, pelo menos cinco irrecuperáveis horas por dia. A segunda - mulher e, na época, dois filhos - submetia-me à sua tirania especialmente nos fins de semana: eu ansiava por me enfiar em uma bodega qualquer, para emborcar uns bons conhaques, e acabava indo parar em uma matinê de Tom e Jerry, em um teatrinho infantil ou em um cirquinho de periferia, onde minhas mãos, atacadas de inexplicável tremor nessa época, emborcavam não os cálices almejados, mas os algodões-doces, as pipocas e os refrigerantes que meus filhos me mandavam segurar, enquanto aplaudiam as peripécias da tela, as aventuras do palco ou as eletrizantes atrações do picadeiro.
Esses contratempos me exasperavam, mas não me desviavam de minha vocação. Nem podiam. Eu era um grande copo, possivelmente o maior de todos, e nada ia me tirar esse orgulho. Nem a família, nem o trabalho, nem o tremor nas mãos, nem as vacilações de memória que eu começava a notar. Não era nada grave. Simplesmente me acontecia, algumas vezes, acordar e não lembrar nem como tinha chegado nem como havia subido a escada até o meu quarto. Nessas ocasiões, minha mulher me dizia que eu viera carregado por vizinhos ou por motoristas de táxi. Naturalmente, eu não acreditava nela, nem dava atenção às suas censuras. Vestia-me depressa e corria para o bar. Lá me respeitavam.
Não perdi a confiança no meu taco nem quando ratos, cobras e morcegos passaram a invadir minha casa e meu sono. Tinha um remédio infalível: aumentar a dose. Numa das noites em que eu reforçava minhas defesas para enfrentar os pesadelos, saí do meu rumo, fui arrastado pela ressaca para os lados da praça João Mendes e, quando vi, estava, não sei como, na porta de - nada mais, nada menos - uma liga antialcoólica. O que me empurrou para dentro é uma questão que passo ao leitor. No dia, atribuí o impulso à curiosidade: ia conhecer meus opostos.
A reunião já havia começado. Umas cinquenta pessoas acompanhavam o relato de um senhor que, pelo aspecto, eu apostaria jamais ter tomado nada mais forte que um Biotônico Fontoura ou uma groselha. No entanto, ele nos garantia que, com aquela cara de santo, tinha sido capaz, antes de entrar na associação, de espancar a mulher dia sim dia sim, durante anos, sem nunca admitir que o fazia, porque o álcool transformava certos momentos de sua vida num buraco negro, inacessível à memória. Depois dele, outros convertidos falaram. E eram histórias tristes, de gente que estourava o cofrinho dos filhos, torrava a herança da mãe e desviava o dinheiro da firma para manter a barriga encostada no balcão. Ouvi uma, ouvi outra, ouvi todas e descobri que não estava entre opostos, mas entre semelhantes. Como eu, eles haviam julgado ser campeões e não passaram de perdedores até o dia em que, finalmente, reconheceram isso.
Quando o coordenador da reunião perguntou se havia ali mais alguém escravizado pelo álcool e disposto a se libertar, cinco homens de rosto sofrido levantaram timidamente a mão. Eu era um deles e não me arrependo do gesto, passados vinte anos. Espero que os outros quatro também não.
Raul Drewnick, "Antes de Madonna"
Duas instituições impediam que eu me entregasse ao copo em período integral: o trabalho e a família. O primeiro me roubava, de segunda a sábado, pelo menos cinco irrecuperáveis horas por dia. A segunda - mulher e, na época, dois filhos - submetia-me à sua tirania especialmente nos fins de semana: eu ansiava por me enfiar em uma bodega qualquer, para emborcar uns bons conhaques, e acabava indo parar em uma matinê de Tom e Jerry, em um teatrinho infantil ou em um cirquinho de periferia, onde minhas mãos, atacadas de inexplicável tremor nessa época, emborcavam não os cálices almejados, mas os algodões-doces, as pipocas e os refrigerantes que meus filhos me mandavam segurar, enquanto aplaudiam as peripécias da tela, as aventuras do palco ou as eletrizantes atrações do picadeiro.
Esses contratempos me exasperavam, mas não me desviavam de minha vocação. Nem podiam. Eu era um grande copo, possivelmente o maior de todos, e nada ia me tirar esse orgulho. Nem a família, nem o trabalho, nem o tremor nas mãos, nem as vacilações de memória que eu começava a notar. Não era nada grave. Simplesmente me acontecia, algumas vezes, acordar e não lembrar nem como tinha chegado nem como havia subido a escada até o meu quarto. Nessas ocasiões, minha mulher me dizia que eu viera carregado por vizinhos ou por motoristas de táxi. Naturalmente, eu não acreditava nela, nem dava atenção às suas censuras. Vestia-me depressa e corria para o bar. Lá me respeitavam.
Não perdi a confiança no meu taco nem quando ratos, cobras e morcegos passaram a invadir minha casa e meu sono. Tinha um remédio infalível: aumentar a dose. Numa das noites em que eu reforçava minhas defesas para enfrentar os pesadelos, saí do meu rumo, fui arrastado pela ressaca para os lados da praça João Mendes e, quando vi, estava, não sei como, na porta de - nada mais, nada menos - uma liga antialcoólica. O que me empurrou para dentro é uma questão que passo ao leitor. No dia, atribuí o impulso à curiosidade: ia conhecer meus opostos.
A reunião já havia começado. Umas cinquenta pessoas acompanhavam o relato de um senhor que, pelo aspecto, eu apostaria jamais ter tomado nada mais forte que um Biotônico Fontoura ou uma groselha. No entanto, ele nos garantia que, com aquela cara de santo, tinha sido capaz, antes de entrar na associação, de espancar a mulher dia sim dia sim, durante anos, sem nunca admitir que o fazia, porque o álcool transformava certos momentos de sua vida num buraco negro, inacessível à memória. Depois dele, outros convertidos falaram. E eram histórias tristes, de gente que estourava o cofrinho dos filhos, torrava a herança da mãe e desviava o dinheiro da firma para manter a barriga encostada no balcão. Ouvi uma, ouvi outra, ouvi todas e descobri que não estava entre opostos, mas entre semelhantes. Como eu, eles haviam julgado ser campeões e não passaram de perdedores até o dia em que, finalmente, reconheceram isso.
Quando o coordenador da reunião perguntou se havia ali mais alguém escravizado pelo álcool e disposto a se libertar, cinco homens de rosto sofrido levantaram timidamente a mão. Eu era um deles e não me arrependo do gesto, passados vinte anos. Espero que os outros quatro também não.
Raul Drewnick, "Antes de Madonna"
sábado, agosto 15
Menino
Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco. A gente toda que estava ali olhava para o quadro como se estivesse a assistir a um espetáculo. Vi então que minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la, quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou estão que todos saíssem, que só podia ficar ali a Polícia e mais ninguém.
Levaram-me para o fundo da casa, onde os comentários sobre o fato eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai ainda com o revolver na mão e a minha mãe ensanguentada. “O doutor matou a Dona Clarisse! Por quê?” Ninguém sabia compreender. O que eu sentia era uma vontade desesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijar minha mãe. Mas a porta do quarto estava fechada, e o homem sisudo que entrara não permitia que ninguém se aproximasse dali. O criado e a ama, diziam, estavam lá dentro em interrogatório. O que se passou depois não me ficou bem na memória.
À tarde o criado leu para a gente da cozinha os jornais com os retratos grandes de minha mãe e meu pai. Ouvi como se aquilo fosse uma história de Trancoso. Pareciam-me tão longe, já, os factos da manhã, que aquela narrativa me interessava como se não fossem os meus pais os protagonistas. Mas logo que vi na página de um dos jornais a minha mãe, estendida, com os cabelos soltos e a boca aberta, caí num choro convulsivo. Levaram-me estão para a praça que ficava perto de minha casa. Lá estavam outros meninos do meu tamanho e eu brinquei com eles a tarde toda. As crianças é que conversavam muito sobre o meu pai e a minha mãe, contando umas às outras coisas a que eu não prestava atenção, pois no que eu cuidava era nos meus brinquedos com os amigos. Na hora de dormir foi que senti de verdade a ausência da mãe. A casa vazia e o quarto dela fechado. Um soldado tomando conta de tudo. As criadas da vizinhança queriam vir conversar por ali. O soldado não consentia. Deitaram-me a dormir, sozinho. E o sono demorou a chegar. Fechava os olhos, mas faltava-me qualquer coisa. Pela minha cabeça passavam, às pressas e truncados, os sucessos do dia. Então começava a chorar baixinho para o travesseiro, um choro abafado, de quem tivesse medo de chorar.
José Lins do Rego, "Menino de Engenho"
Rio Cachoeira
Havia o fragor de espumas,
Havia o verde das vagas,
Havia o tesouro na ilha,
Havia o areal de prata.
Havia margarida nas margens,
Havia borboletas no barranco,
Havia o sol na canoa,
Havia as fotos da lua.
Havia lavadeira nas pedras,
Havia andorinhas na vidraça,
Havia areeiros na música,
Havia pescadores na fábula.
Ao menino bebedor de poesia
Que falava com os peixes no mergulho
Certamente uma miragem que havia,
Sem saber de encalhe e caramujo
Reservando o pantanal de ventania.
O rio transpira claro nessa tarde
Na voz que vem das águas sem alarde
Dizendo que no leito antigamente
O tempo conspirava no horizonte.
Se na manhã de azul era banhado
Noturno o rio mirava o bem-amado.
Havia o verde das vagas,
Havia o tesouro na ilha,
Havia o areal de prata.
Havia margarida nas margens,
Havia borboletas no barranco,
Havia o sol na canoa,
Havia as fotos da lua.
Havia lavadeira nas pedras,
Havia andorinhas na vidraça,
Havia areeiros na música,
Havia pescadores na fábula.
Ao menino bebedor de poesia
Que falava com os peixes no mergulho
Certamente uma miragem que havia,
Sem saber de encalhe e caramujo
Reservando o pantanal de ventania.
O rio transpira claro nessa tarde
Na voz que vem das águas sem alarde
Dizendo que no leito antigamente
O tempo conspirava no horizonte.
Se na manhã de azul era banhado
Noturno o rio mirava o bem-amado.
Cyro de Mattos
Jardineiros
Tenho especial carinho pelos profissionais da área, desde que, na adolescência, acompanhei na extinta TV Tupi a novela “O jardineiro espanhol”, em que o protagonista sofria toda sorte de injustiças, mas não deixava de amar seu ofício. Anos mais tarde, conheci um jardineiro da Prefeitura e com ele conversava sobre plantas e livros, porque ambos gostávamos de ler. Era um homem doce e tinha orgulho de exibir sua obra anônima nos jardins e praças municipais, cuidando do verde como filho. Também gostava de poesia, e me presenteou com um livro de bolso de Casimiro de Abreu, bastante usado e já sem capa, por certo de tanto ser manuseado.
Agora moro numa torre cuja entrada conta com um jardim encantador, com folhagem farta e muitas flores. Estão sempre bonitas, graças ao trato cuidadoso do zelador, que quase todas as tardes as rega e livra de eventuais parasitas. Num desses dias de sol, elogiei sua dedicação. Mas através dele descobri que, além dos canteiros floridos da frente, o prédio guarda surpresas para os mais atentos.
Satisfeito com meu interesse, levou-me até o pomar: outro pequeno gramado nos fundos do edifício, onde discretamente crescem árvores frutíferas. Ali voltei à infância, porque fui apresentada a uma amoreira ainda jovem, entre várias outras. Viajei até o quintal da tia Carlota, onde colhia e comia amoras, além de imaginar que eram os cachos de uva das bonecas. Penso que, logo, haverá borboletas e passarinhos por aqui, atraídos pelos frutos.
Mas o melhor ainda estava por vir. “Tenho um segredo”, revelou o amigo zelador. E me mostrou um cantinho discreto onde cultiva pimenta-de-janela e alecrim em vasos. Esfregamos nas mãos um ramo do condimento, e elas ficaram imediatamente perfumadas. Como é bom estreitar laços com a natureza, tão presente e tão esquecida em nossas vidas… E como é bom saber que ainda existem pessoas sensíveis, que se deixam tocar pelos jardins, seus perfumes e cores, suas histórias de ontem e de hoje. Jardineiros que resistem à frieza da cidade e do concreto. Poetas modestos, que talvez nem saibam que fazem brotar poesia da terra.
Agora moro numa torre cuja entrada conta com um jardim encantador, com folhagem farta e muitas flores. Estão sempre bonitas, graças ao trato cuidadoso do zelador, que quase todas as tardes as rega e livra de eventuais parasitas. Num desses dias de sol, elogiei sua dedicação. Mas através dele descobri que, além dos canteiros floridos da frente, o prédio guarda surpresas para os mais atentos.Satisfeito com meu interesse, levou-me até o pomar: outro pequeno gramado nos fundos do edifício, onde discretamente crescem árvores frutíferas. Ali voltei à infância, porque fui apresentada a uma amoreira ainda jovem, entre várias outras. Viajei até o quintal da tia Carlota, onde colhia e comia amoras, além de imaginar que eram os cachos de uva das bonecas. Penso que, logo, haverá borboletas e passarinhos por aqui, atraídos pelos frutos.
Mas o melhor ainda estava por vir. “Tenho um segredo”, revelou o amigo zelador. E me mostrou um cantinho discreto onde cultiva pimenta-de-janela e alecrim em vasos. Esfregamos nas mãos um ramo do condimento, e elas ficaram imediatamente perfumadas. Como é bom estreitar laços com a natureza, tão presente e tão esquecida em nossas vidas… E como é bom saber que ainda existem pessoas sensíveis, que se deixam tocar pelos jardins, seus perfumes e cores, suas histórias de ontem e de hoje. Jardineiros que resistem à frieza da cidade e do concreto. Poetas modestos, que talvez nem saibam que fazem brotar poesia da terra.
O Angelus nos mares da Sicília
O dia se tinha escoado em meio a exaustivos cuidados para evitar o naufrágio, e a noite começava a descer. Aproximávamo-nos de Messina, e eu me lembrava da profecia do piloto, que nos havia anunciado que duas horas após a Ave-Maria teríamos chegado ao nosso destino. Isso me recordou que desde nossa partida eu não havia visto nenhum dos nossos marinheiros cumprir ostensivamente os deveres da Religião, que no entanto os filhos do mar consideram sagrados.
Havia mais: uma pequena cruz de oliveira incrustada de nácar, semelhante àquelas que os monges do Santo Sepulcro fazem e os peregrinos trazem de Jerusalém, havia desaparecido de nossa cabine, e eu a havia reencontrado na proa da embarcação, acima de uma imagem da Madonna di Pie’ di Grotta, sob a invocação da qual nossa pequena embarcação estava colocada. Depois de me ter informado se havia um motivo particular para mudar a cruz de lugar, e ter sabido que não, eu a retomei de onde estava e a levei à cabine, na qual ficou desde então. Estava claro que a Madonna, agradecida sem dúvida, nos protegera na hora do perigo.
Nesse momento eu me virara, e percebi o capitão próximo a nós.
— Capitão — disse-lhe — parece-me que em todos os navios napolitanos, genoveses ou sicilianos, quando vem a hora da Ave-Maria, se faz uma prece em comum. Não é esse o seu hábito a bordo do Speronare?
— De fato, Excelência, de fato! — respondeu vivamente o capitão — E devo esclarecer que estamos embaraçados por não o podermos fazer.
— Mas o que o impede?
— Desculpe-me, Excelência, mas como nós conduzimos com freqüência ingleses que são protestantes, gregos que são cismáticos e franceses que não são nada, temos sempre receio de ferir a crença ou de excitar a incredulidade de nossos passageiros pela vista de práticas religiosas que não serão as deles. Mas quando os passageiros nos autorizam a agir cristãmente, somos muito agradecidos a eles por isso. De sorte que, se o permite…
— Como não, capitão! Eu lhes peço, e se quiserem podem começar em seguida; parece-me que já está próximo das dezoito horas…
O capitão tirou seu relógio, e vendo que não havia tempo a perder, anunciou em voz alta:
— A Ave-Maria!
A estas palavras, cada um saiu das escotilhas e lançou-se no convés. Mais de um, sem dúvida, já havia começado mentalmente a Saudação Angélica, mas a interrompeu para vir tomar parte na prece geral.
De um extremo ao outro da Itália, essa oração, que cai em uma hora solene, encerra o dia e abre a noite. Esse momento do crepúsculo, em toda parte cheio de poesia, no mar se acresce de uma santidade infinita. Essa misteriosa imensidade do ar e das ondas, esse sentimento profundo da fraqueza humana comparada ao poder onipotente de Deus, essa escuridão que avança, e durante a qual o perigo sempre presente vai ainda crescer, tudo isso predispõe o coração a uma melancolia religiosa, a uma confiança santa que soergue a alma nas asas da fé. Essa tarde sobretudo, o perigo do qual acabáramos de escapar, e que nos era lembrado de tempos em tempos por uma onda encapelada ou rugidos longínquos, tudo inspirava à tripulação e a nós um recolhimento profundo.
No momento em que nos juntávamos no convés, a noite começava a tornar-se mais espessa no oriente. As montanhas da Calábria e a ponta do cabo de Pelora perdiam sua bela cor azul para se confundir em uma tintura acinzentada que parecia descer do céu, como se estivesse caindo uma fina chuva de cinzas. A ocidente, um pouco à direita do arquipélago de Lipari, cujas ilhas de formas extravagantes destacavam-se com vigor sobre um horizonte de fogo, o sol alargado e listrado de longas faixas violetas começava a embeber a orla de seu disco no Mar Tirreno, que, cintilante e movimentado, parecia rolar ondas de ouro fundido.
Nesse momento o piloto levantou-se atrás da cabine e tomou em seus braços o filho do capitão, que pôs de joelhos sobre o estrado. Abandonando o leme, como se a embarcação estivesse suficientemente guiada pela oração, sustentou o menino para que o balanço não lhe fizesse perder o equilíbrio. Esse grupo singular destacou-se logo sobre um fundo dourado, semelhante a uma pintura de Giovanni Fiesole ou de Benozzo Gozzoli. Com uma voz tão fraca que apenas chegava até nós, e que entretanto subia até Deus, começou a recitar a prece virginal, que os marinheiros escutavam de joelhos, e nós inclinados.
Eis uma dessas lembranças para as quais o pincel é inábil e a pena insuficiente; eis uma dessas cenas que nenhuma narração pode descrever, nenhum quadro pode reproduzir, porque a sua grandiosidade está inteira no sentimento íntimo dos atores que a realizam. Para um leitor de viagens ou um amador das coisas do mar, será apenas uma criança que ora, homens que respondem e um navio que flutua. Mas para qualquer um que tiver assistido a uma cena assim, será um dos mais magníficos espetáculos que ele tenha visto, uma das mais magníficas lembranças que ele tenha guardado. Será a fraqueza que reza, a imensidade que olha, e Deus que escuta.
Alexandre Dumas, Pai
Havia mais: uma pequena cruz de oliveira incrustada de nácar, semelhante àquelas que os monges do Santo Sepulcro fazem e os peregrinos trazem de Jerusalém, havia desaparecido de nossa cabine, e eu a havia reencontrado na proa da embarcação, acima de uma imagem da Madonna di Pie’ di Grotta, sob a invocação da qual nossa pequena embarcação estava colocada. Depois de me ter informado se havia um motivo particular para mudar a cruz de lugar, e ter sabido que não, eu a retomei de onde estava e a levei à cabine, na qual ficou desde então. Estava claro que a Madonna, agradecida sem dúvida, nos protegera na hora do perigo.
Nesse momento eu me virara, e percebi o capitão próximo a nós.
— Capitão — disse-lhe — parece-me que em todos os navios napolitanos, genoveses ou sicilianos, quando vem a hora da Ave-Maria, se faz uma prece em comum. Não é esse o seu hábito a bordo do Speronare?
— De fato, Excelência, de fato! — respondeu vivamente o capitão — E devo esclarecer que estamos embaraçados por não o podermos fazer.
— Mas o que o impede?
— Desculpe-me, Excelência, mas como nós conduzimos com freqüência ingleses que são protestantes, gregos que são cismáticos e franceses que não são nada, temos sempre receio de ferir a crença ou de excitar a incredulidade de nossos passageiros pela vista de práticas religiosas que não serão as deles. Mas quando os passageiros nos autorizam a agir cristãmente, somos muito agradecidos a eles por isso. De sorte que, se o permite…
— Como não, capitão! Eu lhes peço, e se quiserem podem começar em seguida; parece-me que já está próximo das dezoito horas…
O capitão tirou seu relógio, e vendo que não havia tempo a perder, anunciou em voz alta:
— A Ave-Maria!
A estas palavras, cada um saiu das escotilhas e lançou-se no convés. Mais de um, sem dúvida, já havia começado mentalmente a Saudação Angélica, mas a interrompeu para vir tomar parte na prece geral.
De um extremo ao outro da Itália, essa oração, que cai em uma hora solene, encerra o dia e abre a noite. Esse momento do crepúsculo, em toda parte cheio de poesia, no mar se acresce de uma santidade infinita. Essa misteriosa imensidade do ar e das ondas, esse sentimento profundo da fraqueza humana comparada ao poder onipotente de Deus, essa escuridão que avança, e durante a qual o perigo sempre presente vai ainda crescer, tudo isso predispõe o coração a uma melancolia religiosa, a uma confiança santa que soergue a alma nas asas da fé. Essa tarde sobretudo, o perigo do qual acabáramos de escapar, e que nos era lembrado de tempos em tempos por uma onda encapelada ou rugidos longínquos, tudo inspirava à tripulação e a nós um recolhimento profundo.
No momento em que nos juntávamos no convés, a noite começava a tornar-se mais espessa no oriente. As montanhas da Calábria e a ponta do cabo de Pelora perdiam sua bela cor azul para se confundir em uma tintura acinzentada que parecia descer do céu, como se estivesse caindo uma fina chuva de cinzas. A ocidente, um pouco à direita do arquipélago de Lipari, cujas ilhas de formas extravagantes destacavam-se com vigor sobre um horizonte de fogo, o sol alargado e listrado de longas faixas violetas começava a embeber a orla de seu disco no Mar Tirreno, que, cintilante e movimentado, parecia rolar ondas de ouro fundido.
Nesse momento o piloto levantou-se atrás da cabine e tomou em seus braços o filho do capitão, que pôs de joelhos sobre o estrado. Abandonando o leme, como se a embarcação estivesse suficientemente guiada pela oração, sustentou o menino para que o balanço não lhe fizesse perder o equilíbrio. Esse grupo singular destacou-se logo sobre um fundo dourado, semelhante a uma pintura de Giovanni Fiesole ou de Benozzo Gozzoli. Com uma voz tão fraca que apenas chegava até nós, e que entretanto subia até Deus, começou a recitar a prece virginal, que os marinheiros escutavam de joelhos, e nós inclinados.
Eis uma dessas lembranças para as quais o pincel é inábil e a pena insuficiente; eis uma dessas cenas que nenhuma narração pode descrever, nenhum quadro pode reproduzir, porque a sua grandiosidade está inteira no sentimento íntimo dos atores que a realizam. Para um leitor de viagens ou um amador das coisas do mar, será apenas uma criança que ora, homens que respondem e um navio que flutua. Mas para qualquer um que tiver assistido a uma cena assim, será um dos mais magníficos espetáculos que ele tenha visto, uma das mais magníficas lembranças que ele tenha guardado. Será a fraqueza que reza, a imensidade que olha, e Deus que escuta.
Alexandre Dumas, Pai
sexta-feira, agosto 14
A poesia não vai
A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.
Eugénio de Andrade
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.
Eugénio de Andrade
Os velhos e a borboleta
Para Gerana Damulakis
The bee is not afraid of me,I know the butterfly,The pretty people in the WoodsReceive me cordially.Emily Dickinson
O velho de cabelos grisalhos diz para o outro que a larva da borboleta não tece casulo, passando o período ninfal sob a forma de crisálida. Acrescenta com a voz mansa que a borboleta voa pela campina e o ar ilumina. Dá aulas de balé como a única bailarina do mundo que não usa sapatilha. Milagre na estação temperada de sol, oscila no voo pela colina, vive suavemente o sonho de viajar na natureza apenas um dia. Bailar, amar, é essa a sua vida no ar. Transluz na plantinha a sustentável leveza de ser, treme asas quando recebe da brisa ligeira convite para exercer a vida como a fantasia de um dia. E, sob ondulações que resvalam nas lâminas do ar, sabe que não existe sonho mais belo do que viver em tácito entendimento com a luz. Na poeira dourada da flor, a borboleta reverbera a fina escrita da beleza.
Muitas borboletas cobriam a terra fresca nos barrancos do rio, dando ideia de um manto feito com asas brancas, azuis e amarelas. Os meninos que tiveram comigo a felicidade de viver a aventura da infância achavam bonito ver as borboletas voando em bando, acima do rio. Nuvens formavam uma sinfonia de asas acima do espelho das águas. Era algo especial nas tardes de verão. Da balaustrada no jardim merecia ser contemplado. As borboletas oscilavam para o norte ou sul, voltavam, subiam, desciam, pousavam no barranco das margens do rio e da ilha.
Os velhos comparecem ao jardim para conversar sobre a idade das águas. Muitas já passaram por debaixo da ponte, bem sabem eles do inevitável dessas águas que correm para o mar. Embora o homem passe tocando suave o realejo, o menino anuncie a manchete do dia, tentando vender o jornal aos velhos, o que importa a eles nesse instante é indagar sobre as sombras na tarde, sentindo que os olhos não chegam a compreender aquilo que entardece sobre manchas. Penso que ficam contentes quando aparece uma borboleta, com seus devaneios de asas que purificam os olhos cansados da vida. A borboleta fica distraindo os velhos no voo translúcido ou pousada na flor, sem querer de suas almas nada em troca.
A pureza que uma borboleta põe na manhã tem a ver com a alegria dos sons que os passarinhos soltam dos bicos inquietos, voando ou saltitando nos galhos das árvores em floração. Asas sedosas enternecem enquanto sons de ouro alegram num só momento pleno dessa música que a natureza dá de graça, fazendo que os velhos esqueçam que o tempo engole a vida, virando a página de tudo em rigor de atitude que comanda.
O velho de cabelos grisalhos, numa voz indicativa de admiração, ante o milagre que faz a borboleta ser vida, observa para o outro que somente Deus pode criar tamanha ternura numa existência tão curta. Embora bem mais longa, ele sabe que a vida dos seres humanos tem também um fim. Ele mesmo rodopiará quando chegar o momento e cairá em algum lugar desconhecido. Como os outros, ele faz parte dessa regra soberba, criada pela natureza sem exceção. “Quando chegar minha vez e eu cair, haverá o anjo da guarda com asas de borboleta para me guiar depois da curva na estrada”, pulsa no velho de cabelos grisalhos esse pensamento, que apareceu de súbito na mente, irrompendo do escuro como um facho salvador.
Enquanto isso não acontecer, a borboleta no jardim virá propor as flores para dessa maneira adornar a conversa acerca dos anos idos e vividos. Perfumará as vozes que lembrarão o ritmo da cidade cada vez mais crescente, gente comprando e vendendo no comércio como num formigueiro. Tranquilizará os gestos dos velhos banhando-se na manhã de sol, recebendo a brisa na pele enrugada, em carícia de lenço. Um deles, que gosta de usar camisa axadrezada, boné azul-marinho, provavelmente estará informando, a certa altura da conversa vagarosa, sobre a coleção de carros novos do fazendeiro abastado. Como ele gosta de mostrá-la aos amigos no churrasco de fim-de-semana, que oferece na fazenda.
Acontece que, pensando, pensando, quando de novo brilhar na manhã do jardim as carícias que a borboleta vem fazer na rosa, extraindo na manhã de luz um beijo sutilíssimo feito de nácar e seda, belo, belo, belo, o velho de cabelos grisalhos não terá mais dúvida que, entre todos os homens abastados da cidade, somente ele é o ganhador.
Irá viajar pelo jardim, de canto a canto, com asas de borboleta. Pousará em cada flor para fazer carícia na manhã radiante de sol e cantos de passarinhos fazendo sua festa, voando e saltitando nos galhos da árvore salpicada de flores, que caem no chão formando uma camada quando o vento passa forte e refresca com as suas lufadas a atmosfera.
Grande Umbra
Na Era da Grande Umbra, não sobrou vivalma na Terra.
Não sobrou um único exemplar de ginkgo biloba nem uma barata, a árvore e o inseto mais resistentes do planeta. Todavia, a tantos milhões de anos-luz de distância e tanto tempo depois do eclipse original, em Seh2U_el, não existe recordação da Grande Umbra que preencha a memória dos Olhos-Vivos.Eu sou um Olho-Vivo de Última Ordem. A vós contarei – não aquilo de que me lembro, uma vez que os Olhos-Vivos não têm lembranças –, mas o que trouxe para Seh2U_el, muito depois de tudo acontecer.
Em primeiro lugar, dir-vos-ei que pertenço a uma linhagem marginal e amaldiçoada, sou feito de escória de terras raras, o que guardo é limitado, mas importante, apesar de, segundo alguns antigos humanos, não servir para nada. Não ser útil. Não servir como alimento. Não servir como bebida. Não servir para prover à sobrevivência. Não à nossa, claro, à dos ditos humanos, do reino da utilidade e do utilitarismo.
– Isso serve para quê ao certo?
Em Seh2U_el, a atmosfera ainda é mais violenta do que a da Terra na Era da Grande Umbra: chuvas de meteoritos, ventos ciclónicos que arrastam poeiras radioativas e gases tóxicos, uma neblina rala que corre sobre poças de ácidos corrosivos, deixando a nu uma superfície desértica. Se eu fosse um ser vivo, diria que, em Seh2U_el, a atmosfera é letal. Todavia, não posso afirmar tal coisa: um Olho-Vivo é apenas Memória enviada pelos humanos, para longe do seu planeta moribundo de modo que, um dia, tudo possa renascer, ser replicado noutra galáxia, noutra dimensão do espaço-tempo. Não sabemos quando isso acontecerá, se é que alguma vez acontecerá.
A geração inicial de Olhos-Vivos, batizada de Primeira Ordem, foi concebida para levar nos seus núcleos as células de todos os animais e as sementes de todas as plantas, como uma espécie de arca de Noé intergaláctica. Outros foram programados para encontrar um local onde, reunidas as condições mínimas, a vida terráquea pudesse recomeçar do zero. Esses ainda andam por aí, pelas galáxias, de Andrómeda à do Sombrero, de NGC 1300 a M87, em busca do Paraíso Perdido.
Eu sou da casta dos Últimos, dos que esperam. Estamos aqui em Seh2U_el, abrigados em galerias subterrâneas, numa espécie de hibernação que dura há uma eternidade – embora esse seja um conceito filosófico – a tender para o infinito matemático, desde que se abateu a Grande Umbra sobre a Terra. Todos temos uma forma esférica, do tamanho de um ovo de codorniz ao de um ovo de ganso e, no espaço, podemos igualar a velocidade da luz. Contemos ainda, além do precioso núcleo, um estrato mínimo de informação generalista que nos permite, por exemplo, saber o que são e comparar o tamanho de ovos.
Devo então explicar-vos o que aconteceu num passado indefinível na Terra: um eclipse do sol estava anunciado. O eclipse duraria, nas zonas de umbra, devido às forças em presença, no máximo, sete minutos e vinte segundos. Os humanos juntaram-se aí, aos magotes, com óculos de cartão na ponta do nariz alguns, outros armados com telescópios, para ver a Lua a interpor-se entre o Sol e a Terra até devorar por completo a sua circunferência, um minuto, dois, três, e depois sete. E depois oito minutos. E depois horas, dias, meses, um ano, uma década, séculos e séculos. É isso a Grande Umbra. Uma impossibilidade pelas leis da Física. Só que ainda dura, tanto quanto sei.
– E o que é que eu sei?
Quando perceberam a irreversibilidade do eclipse, os humanos quiseram fugir. No entanto, não havia para onde escapar da escuridão que se abateu sobre todo o planeta. As plantas deixaram de fazer fotossíntese, as colheitas pereceram, o plâncton morreu, depois os animais e os peixes, e a catástrofe alastrou em todos os ecossistemas, da terra aos mares. A temperatura desceu e desceu e desceu até uma crosta de gelo cobrir montes e vales e a superfície dos oceanos congelar.
Dos animais, restou o esquilo-do-Ártico que conseguia reduzir os batimentos cardíacos de trezentos por minuto a um único batimento por minuto e hibernar, com uma temperatura corporal de zero graus, mais de oito meses debaixo de meio metro de gelo. Quanto acordou da hibernação, não havia alimento. Morreu.
Dos humanos, sobreviveram apenas os incrivelmente ricos e poderosos, os que tiveram forma de aproveitar algum calor do núcleo da Terra ou que conceberam e controlaram, com muito custo, fontes de calor e luz artificial. Essa elite, que descendia de gente estúpida e sem escrúpulos, que não sabia ler nem escrever, muito menos raciocinar, vivia sustida por aditivos de doron, a droga da inteligência, e dominava outros ainda mais estúpidos e sem posses para comprar a dose diária dessa substância. No entanto, mesmo esses sabiam que todos os recursos acabariam por se extinguir.
Foi Hikari-to-Kage, a Insigne Cientista, que idealizou o Projeto Olhos-Vivos. A princípio, tudo correu bem: os Olhos-Vivos de Primeira Ordem seguiram para o espaço. A ganância da elite, no seu afã de salvar a própria pele, veio então corroer as coisas. Exigiu a Hikari-to-Kage, sob pena de morte, a criação de Olhos-Vivos hospedeiros, para si própria e para os seus filhos. A Insigne Cientista aquiesceu, mas criou apenas um protótipo disfuncional, que explodiu e se despenhou no momento do lançamento, enquanto ela fugia.
Hikari-to-Kage passou o resto da vida em fuga, a roubar e a catar o lixo dos laboratórios, e com restos de escória, construiu-nos, um por um. Antes de morrer, ou de ser eliminada, enviou para o espaço, à revelia da elite mandante, centenas de Olhos-Vivos cujos núcleos contêm, desmaterializadas, algumas das maiores obras de arte produzidas pelos humanos. Um trouxe a Pietà de Miguel Ângelo. O outro, a Odisseia de Homero. Aqueloutro, A Deposição da Cruz de Caravaggio. Eu carrego o Requiem de Mozart. Calhou-nos vir para Seh2U_el que, ironicamente, significa “Sol” em proto indo-europeu, uma língua reconstruída por linguistas também eles há muito desaparecidos.
Quando os Olhos-Vivos de Primeira Ordem encontrarem o Paraíso Perdido, instalar-nos-emos todos lá, reconstituiremos o mundo natural e, conforme o sonho de Hikari-to-Kage, a Insigne Cientista, a humanidade reencontrará o seu destino solar, luminoso e próspero, a Era da Grande Umbra dará então lugar à Era da Grande Luz. Enquanto isso não acontece, as notas do Requiem ecoam, circulares, perfeitas, mágicas, nas entranhas de Seh2U_el.
– Serão os humanos capazes de salvar a sua humanidade?
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