Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sexta-feira, outubro 16
As três perguntas
Certa vez, ocorreu a um imperador que, se soubesse responder apenas às seguintes perguntas, nada jamais o afastaria do caminho justo:
- Qual é o melhor momento para qualquer coisa?
- Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?
- Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?
O imperador promulgou um decreto para todo o seu império, anunciando que quem soubesse responder às três perguntas receberia uma grande recompensa. Depois de ler este decreto, muitos se dirigiram ao palácio com as suas diferentes respostas.
Respondendo à primeira pergunta, alguém sugeriu ao imperador que estabelecesse uma ocupação total do tempo, com as horas, dias, meses, anos e as tarefas a realizar. Se seguisse isso à letra, o imperador poderia então vir a fazer cada coisa em seu devido tempo. Uma outra pessoa retorquiu que era impossível prever tudo, que o imperador devia pôr todas as distrações inúteis à parte e manter-se atento a todas as coisas, para saber quando e como agir. Uma outra insistiu que o imperador sozinho não podia possuir a clarividência e a competência necessárias para decidir quando fazer algo. Parecia-lhe que o mais importante era nomear um Conselho de Sábios e agir de acordo com as suas recomendações.
As respostas à segunda pergunta também divergiram muito entre si. Alguém disse que o imperador devia colocar toda a sua confiança nos seus ministros; um outro recomendou que fosse aos padres e aos monges; outros, ainda, aos médicos e mesmo aos militares.
À terceira pergunta foram dadas respostas igualmente variadas. Alguns afirmaram que a procura mais importante era a ciência, outros insistiram que era a religião e outros, ainda, a arte da guerra. O imperador não ficou satisfeito com nenhuma das repostas e não atribuiu a ninguém a recompensa.
Depois de várias noites de reflexão, o soberano decidiu visitar um eremita que vivia na montanha e que era tido por ser iluminado. O imperador desejava encontrar o santo homem para lhe fazer as três perguntas, mas sabia muito bem que o eremita nunca deixava as montanhas e que era conhecido por não receber senão pessoas pobres e por recusar qualquer contato com ricos e poderosos. Por esta razão, o soberano disfarçou-se como um pobre camponês e ordenou à sua escolta que esperasse por ele aos pés da montanha, enquanto sozinho procurava o eremita.
Ao chegar à morada do homem santo, o imperador avistou-o a cavar o jardim diante da sua cabana. Ao ver o estrangeiro, o eremita saudou-o com a cabeça e continuou a cavar. Era um trabalho aparentemente muito penoso para um velho: ele ofegava ruidosamente a cada vez que enterrava a enxada no solo para revolver a terra. O imperador aproximou-se dele e disse: “Vim pedir a vossa ajuda. São estas as minhas perguntas”:
“Qual é o melhor momento para qualquer coisa?” “Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?” “Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?”
O eremita escutou-o atentamente e retomou o trabalho depois de dar uma pequena palmada no ombro do imperador. O monarca disse então: “Deveis estar cansado. Deixai-me ajudar-vos”.
O velho homem agradeceu-lhe, entregou-lhe a enxada e sentou-se no chão para descansar. Depois de ter cavado duas fileiras, o imperador parou, voltou-se para o eremita e repetiu-lhe as suas três perguntas. De novo, o velho homem não respondeu, mas levantou- se e disse-lhe, mostrando a enxada: “Porque não descansais um pouco? Eu continuo”. Mas o imperador continuou a cavar a terra.
O eremita levantou a cabeça e perguntou ao imperador: “Ouvis alguém a correr na nossa direção?”. O imperador virou a cabeça e ambos viram surgir do bosque um homem com uma longa barba branca. Corria tropegamente, com as mãos a pressionar uma ferida no ventre, que sangrava. O homem correu em direção ao soberano até cair sem sentidos no chão. Gemia. Ao abrir a sua camisa, o imperador e o eremita viram que ele tinha uma ferida profunda. O monarca limpou-a totalmente e, a seguir, fez-lhe um curativo com a sua própria camisa.
Finalmente, o homem ferido retomou a consciência e pediu água. O imperador correu até ao rio e trouxe consigo uma bilha de água fresca. Ao longo de todo este tempo, o sol pusera-se e o frio da noite viera. O eremita ajudou o imperador a levar o homem para a cabana, onde o deitaram sobre a cama. Aí, ele fechou os olhos e adormeceu sossegadamente. O soberano estava esgotado pela longa jornada que fizera, por caminhar na montanha e cavar o jardim. Apoiando-se à porta, adormeceu. Por um momento, esqueceu-se de onde estava e o que ali tinha ido fazer. Quando acordou, olhou para a cama e viu o homem ferido, que também se perguntava o que fazia ali naquela cabana. Quando este viu o imperador, olhou-o atentamente nos olhos e disse num murmúrio dificilmente perceptível:
“Mas o que fizestes para merecerdes ser perdoado?”, perguntou o soberano.
“Vossa Majestade não me conhece, mas eu vos conheço. Eu fui vosso inimigo e fiz o voto de me vingar por terdes morto o meu irmão na última guerra e por terdes se apoderado de todos os meus bens. Quando soube que vínheis sozinho a esta montanha para vos encontrardes com o eremita, decidi montar-vos uma cilada e matar-vos. Esperei durante muito tempo, mas vendo que não vínheis, deixei o meu esconderijo para vos procurar. Foi assim que acabei por dar com os soldados da vossa guarda que, ao reconhecerem- me, infligiram- me esta ferida.
O imperador encheu-se de alegria ao ver com que facilidade se havia reconciliado com um antigo inimigo. Não apenas o perdoou, mas prometeu também restituir-lhe todos os seus bens e enviar o seu próprio médico e os seus servidores para se ocuparem dele até se curar completamente. Após ter dado ordem à sua escolta de reconduzir o homem a sua casa, o imperador regressou para se encontrar com o eremita. Antes de regressar ao seu palácio, o soberano desejava, por uma última vez, fazer as três perguntas ao velho homem. Encontrou o eremita a semear os grãos nas fileiras cavadas na véspera. O velho homem levantou-se e olhou-o: “Mas já tendes a resposta a essas perguntas”.
“Como assim?”, disse o imperador intrigado. “Ontem, se não tivésseis tido piedade da minha velhice e não me tivésseis ajudado a cavar a terra, teríeis sido atacado por este homem quando regressásses. Teríeis então lamentado profundamente não terdes ficado comigo. Por consequência, o momento mais importante foi o tempo passado a cavar o jardim, a pessoa mais importante fui eu e a coisa mais importante foi ajudares-me. Mais tarde, depois da chegada do homem ferido, o momento mais importante foi aquele que passastes a tratar da ferida, porque se o não tivésseis feito, ele teria morrido e vós teríeis desperdiçado a ocasião de vos reconciliar com um inimigo. Do mesmo modo, ele foi a pessoa mais importante, e cuidar da ferida foi a tarefa mais importante. Lembrai-vos que não existe senão um único momento importante, que é agora. Este instante presente é o único momento sobre o qual podemos exercer o nosso magistério. A pessoa mais importante é sempre a pessoa com a qual se está, aquela que está diante de vós, porque quem sabe se vireis a estar ocupado com uma outra no futuro? A tarefa mais importante é fazer feliz a pessoa que está ao vosso lado, porque a procura da vida é apenas isso”.
- Qual é o melhor momento para qualquer coisa?
- Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?
- Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?
O imperador promulgou um decreto para todo o seu império, anunciando que quem soubesse responder às três perguntas receberia uma grande recompensa. Depois de ler este decreto, muitos se dirigiram ao palácio com as suas diferentes respostas.
Respondendo à primeira pergunta, alguém sugeriu ao imperador que estabelecesse uma ocupação total do tempo, com as horas, dias, meses, anos e as tarefas a realizar. Se seguisse isso à letra, o imperador poderia então vir a fazer cada coisa em seu devido tempo. Uma outra pessoa retorquiu que era impossível prever tudo, que o imperador devia pôr todas as distrações inúteis à parte e manter-se atento a todas as coisas, para saber quando e como agir. Uma outra insistiu que o imperador sozinho não podia possuir a clarividência e a competência necessárias para decidir quando fazer algo. Parecia-lhe que o mais importante era nomear um Conselho de Sábios e agir de acordo com as suas recomendações.
Uma outra pessoa disse que certas questões necessitavam de uma decisão imediata e não podiam esperar por uma consulta. Contudo, se o soberano desejasse conhecer com antecedência o que ia acontecer, ser-lhe-ia possível interrogar os adivinhos e os magos.
As respostas à segunda pergunta também divergiram muito entre si. Alguém disse que o imperador devia colocar toda a sua confiança nos seus ministros; um outro recomendou que fosse aos padres e aos monges; outros, ainda, aos médicos e mesmo aos militares.
À terceira pergunta foram dadas respostas igualmente variadas. Alguns afirmaram que a procura mais importante era a ciência, outros insistiram que era a religião e outros, ainda, a arte da guerra. O imperador não ficou satisfeito com nenhuma das repostas e não atribuiu a ninguém a recompensa.
Depois de várias noites de reflexão, o soberano decidiu visitar um eremita que vivia na montanha e que era tido por ser iluminado. O imperador desejava encontrar o santo homem para lhe fazer as três perguntas, mas sabia muito bem que o eremita nunca deixava as montanhas e que era conhecido por não receber senão pessoas pobres e por recusar qualquer contato com ricos e poderosos. Por esta razão, o soberano disfarçou-se como um pobre camponês e ordenou à sua escolta que esperasse por ele aos pés da montanha, enquanto sozinho procurava o eremita.
Ao chegar à morada do homem santo, o imperador avistou-o a cavar o jardim diante da sua cabana. Ao ver o estrangeiro, o eremita saudou-o com a cabeça e continuou a cavar. Era um trabalho aparentemente muito penoso para um velho: ele ofegava ruidosamente a cada vez que enterrava a enxada no solo para revolver a terra. O imperador aproximou-se dele e disse: “Vim pedir a vossa ajuda. São estas as minhas perguntas”:
“Qual é o melhor momento para qualquer coisa?” “Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?” “Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?”
O eremita escutou-o atentamente e retomou o trabalho depois de dar uma pequena palmada no ombro do imperador. O monarca disse então: “Deveis estar cansado. Deixai-me ajudar-vos”.
O velho homem agradeceu-lhe, entregou-lhe a enxada e sentou-se no chão para descansar. Depois de ter cavado duas fileiras, o imperador parou, voltou-se para o eremita e repetiu-lhe as suas três perguntas. De novo, o velho homem não respondeu, mas levantou- se e disse-lhe, mostrando a enxada: “Porque não descansais um pouco? Eu continuo”. Mas o imperador continuou a cavar a terra.
Passaram uma e outra hora. Por fim, o sol pôs-se atrás da montanha. O soberano pousou a enxada e disse ao eremita: “Escutai-me, eu vim até aqui para vos perguntar se sabeis responder às minhas três perguntas. Mas se não souberdes, dizei-mo para eu regressar à minha casa”.
O eremita levantou a cabeça e perguntou ao imperador: “Ouvis alguém a correr na nossa direção?”. O imperador virou a cabeça e ambos viram surgir do bosque um homem com uma longa barba branca. Corria tropegamente, com as mãos a pressionar uma ferida no ventre, que sangrava. O homem correu em direção ao soberano até cair sem sentidos no chão. Gemia. Ao abrir a sua camisa, o imperador e o eremita viram que ele tinha uma ferida profunda. O monarca limpou-a totalmente e, a seguir, fez-lhe um curativo com a sua própria camisa.
Visto que o sangue corria abundantemente, teve de enxaguar e enfaixar várias vezes a sua camisa até conseguir estancar o sangue da ferida.
Finalmente, o homem ferido retomou a consciência e pediu água. O imperador correu até ao rio e trouxe consigo uma bilha de água fresca. Ao longo de todo este tempo, o sol pusera-se e o frio da noite viera. O eremita ajudou o imperador a levar o homem para a cabana, onde o deitaram sobre a cama. Aí, ele fechou os olhos e adormeceu sossegadamente. O soberano estava esgotado pela longa jornada que fizera, por caminhar na montanha e cavar o jardim. Apoiando-se à porta, adormeceu. Por um momento, esqueceu-se de onde estava e o que ali tinha ido fazer. Quando acordou, olhou para a cama e viu o homem ferido, que também se perguntava o que fazia ali naquela cabana. Quando este viu o imperador, olhou-o atentamente nos olhos e disse num murmúrio dificilmente perceptível:
“Por favor, perdoai-me”.
“Mas o que fizestes para merecerdes ser perdoado?”, perguntou o soberano.
“Vossa Majestade não me conhece, mas eu vos conheço. Eu fui vosso inimigo e fiz o voto de me vingar por terdes morto o meu irmão na última guerra e por terdes se apoderado de todos os meus bens. Quando soube que vínheis sozinho a esta montanha para vos encontrardes com o eremita, decidi montar-vos uma cilada e matar-vos. Esperei durante muito tempo, mas vendo que não vínheis, deixei o meu esconderijo para vos procurar. Foi assim que acabei por dar com os soldados da vossa guarda que, ao reconhecerem- me, infligiram- me esta ferida.
Felizmente, consegui fugir e correr até aqui. Se não vos tivésseis encontrado, teria, com certeza, morrido na hora. Eu tinha a intenção de vos matar e vós salvastes-me a vida! Sinto uma enorme vergonha, mas também um reconhecimento infinito. Se viver, faço o voto de vos servir até ao meu derradeiro sopro e ordenarei aos meus filhos e aos meus netos que sigam o meu exemplo. Suplico-vos, Majestade, concedei-me o vosso perdão!”.
O imperador encheu-se de alegria ao ver com que facilidade se havia reconciliado com um antigo inimigo. Não apenas o perdoou, mas prometeu também restituir-lhe todos os seus bens e enviar o seu próprio médico e os seus servidores para se ocuparem dele até se curar completamente. Após ter dado ordem à sua escolta de reconduzir o homem a sua casa, o imperador regressou para se encontrar com o eremita. Antes de regressar ao seu palácio, o soberano desejava, por uma última vez, fazer as três perguntas ao velho homem. Encontrou o eremita a semear os grãos nas fileiras cavadas na véspera. O velho homem levantou-se e olhou-o: “Mas já tendes a resposta a essas perguntas”.
“Como assim?”, disse o imperador intrigado. “Ontem, se não tivésseis tido piedade da minha velhice e não me tivésseis ajudado a cavar a terra, teríeis sido atacado por este homem quando regressásses. Teríeis então lamentado profundamente não terdes ficado comigo. Por consequência, o momento mais importante foi o tempo passado a cavar o jardim, a pessoa mais importante fui eu e a coisa mais importante foi ajudares-me. Mais tarde, depois da chegada do homem ferido, o momento mais importante foi aquele que passastes a tratar da ferida, porque se o não tivésseis feito, ele teria morrido e vós teríeis desperdiçado a ocasião de vos reconciliar com um inimigo. Do mesmo modo, ele foi a pessoa mais importante, e cuidar da ferida foi a tarefa mais importante. Lembrai-vos que não existe senão um único momento importante, que é agora. Este instante presente é o único momento sobre o qual podemos exercer o nosso magistério. A pessoa mais importante é sempre a pessoa com a qual se está, aquela que está diante de vós, porque quem sabe se vireis a estar ocupado com uma outra no futuro? A tarefa mais importante é fazer feliz a pessoa que está ao vosso lado, porque a procura da vida é apenas isso”.
León Tolstói
Idades
No início,
eu queria um instante.
A flor.
Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.
Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.
Mia Couto, "Poemas Escolhidos"
eu queria um instante.
A flor.
Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.
Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.
Mia Couto, "Poemas Escolhidos"
Erudição da sensibilidade.
Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.
Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. “Qualquer estrada”, disse Carlylé, “até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.” Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre, “Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações”. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra.
Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos.
Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
Nos países que os outros visitam, visitam-nos anónimos e peregrinos. Nos países que tenho visitado, tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens, as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a substância da minha imaginação.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.
Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. “Qualquer estrada”, disse Carlylé, “até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.” Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre, “Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações”. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra.
Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos.
Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
Nos países que os outros visitam, visitam-nos anónimos e peregrinos. Nos países que tenho visitado, tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens, as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a substância da minha imaginação.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
O ex-mágico da Taberna Minhota
Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
porque eu sou desvalido e pobre.
(Salmos. LXXXV, I)
Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.
Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.
O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó.
Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.
Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.
A plateia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.
O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.
Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.
Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.
Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.
Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.
Situação cruciante.
Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.
Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.
Também, à noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.
Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.
Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.
Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.
Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.
— O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.
Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:
— Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.
Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.
Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.
O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.
Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um paraquedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.
Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.
Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.
Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.
Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.
Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.
1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.
Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.
Quando era mágico, pouco lidava com os homens -o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.
O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via -me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.
O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.
Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!
1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)
Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.
Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.
Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.
Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.
Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.
Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.
Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.
Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.
Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.
Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.
Murilo Rubião
quinta-feira, outubro 15
O homem que precisava nascer
No primeiro dia de aula, quando a professora se dirigiu a ele, perguntando o nome, sentiu a classe esperando, olho na resposta.
A língua travou.
A professora achou que era desconsideração: “O nome, menino!”.
Sob pressão, ele piorava.
Ficou mudo, aterrorizado. Ela ergueu a régua de madeira. O nome. Mas ela sabia o nome, todos sabiam, todos se conheciam. Por que teria de repetir? Se as pessoas sabem, por que é preciso ficar dizendo? Que diferença faz?
Ele não entendia o próprio medo, o que o levava a se recolher numa casca. Não gostava disso, no fundo da casca era escuro, sem saídas. Sofria.
Parecia tão fácil. Era só dizer o nome. Na classe, alguns até se orgulhavam, diziam o nome e olhavam em torno, recebendo a admiração, como se fossem aplausos.
Então, por que aquilo se passava com ele? Qual a razão? O que o amarrava?
Ah, se a gente soubesse as coisas que estão dentro! Com quem poderia conversar sobre o assunto?
Crianças não falavam de problemas com ninguém.
Crianças não tinham problemas.
Crianças cresciam, brincavam, estudavam, obedeciam, iam à igreja, temiam a Deus, aos pais, aos professores, temiam os cachorros de rua, os trilhos dos trens (em um dia remoto, um menino fora morto por uma locomotiva), a formicida Tatu.
O sapateiro vizinho tinha se suicidado com formicida, veneno para formigas, e a mãe o levara para ver, apontando para o morto de olhos esbugalhados: “Era um descontrolado, irresponsável, olha no que deu”.
A régua desceu. Se não der o nome hoje, não vai ter nome. Nunca terá. Sem-nome. Assim vão te chamar.
O sem-nome sentou-se, furioso.
Não era um sem-nome.
Todos iriam ver que tinha nome, só não conseguia dizer. E por que não dizia?
Uma noite, na aula suplementar de inglês, ele se apaixonou pela moreninha de olhos puxados. Ela o incentivou. Ele queria aprender inglês para entender melhor os diálogos dos filmes, as legendas eram ruins. Não perdia sessão, via o mesmo filme cinco vezes. No cinema, era ele e a tela. Ele e os personagens. Um dia, o filme A Rosa Púrpura do Cairo mostrou o outro lado da realidade. Os personagens podiam sair da tela e vir até ele. Aquela gente fabulosa podia ser sua amiga.
Mas aquilo não era vida real, descobriu.
Nas aulas, a moreninha incentivava.
E ele, paralisado. Morto de desejo e amor. Querendo estar ao lado dela, pegar em suas mãos, como faziam os outros que namoravam nas ruas silenciosas. Não sabendo como agir, não conhecendo o timing da sedução, ele demorou.
E ela se distanciou.
Ninguém é obrigado a esperar por indecisões.
Uma noite, no cinema, ele ouviu uma das amigas da moreninha dizer: “Acham que ela ia namorar o mudo? Nunca soube o que ele pensava! Ele nunca assumiu nada”.
Será que ela não sabia o que ele pensava? Não estava em seus olhos, no rosto febril, ansioso?
Ele pensou nisso. Era um mudo que falava. Paradoxo.
Assim, cresceu e viveu.
Não se pode dizer que viveu.
Existiu tentando fazer coisas em que não precisasse falar, contar de si, revelar o que tinha por dentro.
Sem saber que assim é impossível. É preciso se exprimir, convencer, dizer, dar nome às coisas. Aos sentimentos, às emoções. Dessa maneira, perdeu, sempre perdeu. Sabendo que não tinha direito de fazer outras pessoas viverem dentro desse seu mundo particular. Feria as pessoas, dilacerava.
Ele se julgou muitas vezes um homem imaginado.
Não existia.
Era uma fantasia. Homem virtual, incapaz de trazer felicidade, dar segurança, bem-estar, entender questões do coração, da alma, da mente.
Sofre quem ama uma pedra.
Incapaz de ser, ele não era.
O coração, apesar da ânsia de viver, da inquietação, parecia oco. Não era.
Quem era ele?
Uma pedra, um homem ou nunca tinha nascido?
Ansiava por nascer, ser vivo.
Ignácio de Loyola Brandão, "Cadeiras proibidas"
A língua travou.
A professora achou que era desconsideração: “O nome, menino!”.
Sob pressão, ele piorava.
Ficou mudo, aterrorizado. Ela ergueu a régua de madeira. O nome. Mas ela sabia o nome, todos sabiam, todos se conheciam. Por que teria de repetir? Se as pessoas sabem, por que é preciso ficar dizendo? Que diferença faz?
Ele não entendia o próprio medo, o que o levava a se recolher numa casca. Não gostava disso, no fundo da casca era escuro, sem saídas. Sofria.
Parecia tão fácil. Era só dizer o nome. Na classe, alguns até se orgulhavam, diziam o nome e olhavam em torno, recebendo a admiração, como se fossem aplausos.
Então, por que aquilo se passava com ele? Qual a razão? O que o amarrava?
Ah, se a gente soubesse as coisas que estão dentro! Com quem poderia conversar sobre o assunto?
Crianças não falavam de problemas com ninguém.
Crianças não tinham problemas.
Crianças cresciam, brincavam, estudavam, obedeciam, iam à igreja, temiam a Deus, aos pais, aos professores, temiam os cachorros de rua, os trilhos dos trens (em um dia remoto, um menino fora morto por uma locomotiva), a formicida Tatu.
O sapateiro vizinho tinha se suicidado com formicida, veneno para formigas, e a mãe o levara para ver, apontando para o morto de olhos esbugalhados: “Era um descontrolado, irresponsável, olha no que deu”.
A régua desceu. Se não der o nome hoje, não vai ter nome. Nunca terá. Sem-nome. Assim vão te chamar.
O sem-nome sentou-se, furioso.
Não era um sem-nome.
Todos iriam ver que tinha nome, só não conseguia dizer. E por que não dizia?
Uma noite, na aula suplementar de inglês, ele se apaixonou pela moreninha de olhos puxados. Ela o incentivou. Ele queria aprender inglês para entender melhor os diálogos dos filmes, as legendas eram ruins. Não perdia sessão, via o mesmo filme cinco vezes. No cinema, era ele e a tela. Ele e os personagens. Um dia, o filme A Rosa Púrpura do Cairo mostrou o outro lado da realidade. Os personagens podiam sair da tela e vir até ele. Aquela gente fabulosa podia ser sua amiga.
Mas aquilo não era vida real, descobriu.
Nas aulas, a moreninha incentivava.
E ele, paralisado. Morto de desejo e amor. Querendo estar ao lado dela, pegar em suas mãos, como faziam os outros que namoravam nas ruas silenciosas. Não sabendo como agir, não conhecendo o timing da sedução, ele demorou.
E ela se distanciou.
Ninguém é obrigado a esperar por indecisões.
Uma noite, no cinema, ele ouviu uma das amigas da moreninha dizer: “Acham que ela ia namorar o mudo? Nunca soube o que ele pensava! Ele nunca assumiu nada”.
Será que ela não sabia o que ele pensava? Não estava em seus olhos, no rosto febril, ansioso?
Ele pensou nisso. Era um mudo que falava. Paradoxo.
Assim, cresceu e viveu.
Não se pode dizer que viveu.
Existiu tentando fazer coisas em que não precisasse falar, contar de si, revelar o que tinha por dentro.
Sem saber que assim é impossível. É preciso se exprimir, convencer, dizer, dar nome às coisas. Aos sentimentos, às emoções. Dessa maneira, perdeu, sempre perdeu. Sabendo que não tinha direito de fazer outras pessoas viverem dentro desse seu mundo particular. Feria as pessoas, dilacerava.
Ele se julgou muitas vezes um homem imaginado.
Não existia.
Era uma fantasia. Homem virtual, incapaz de trazer felicidade, dar segurança, bem-estar, entender questões do coração, da alma, da mente.
Sofre quem ama uma pedra.
Incapaz de ser, ele não era.
O coração, apesar da ânsia de viver, da inquietação, parecia oco. Não era.
Quem era ele?
Uma pedra, um homem ou nunca tinha nascido?
Ansiava por nascer, ser vivo.
Ignácio de Loyola Brandão, "Cadeiras proibidas"
Pêndulo oscilante
O mundo, monturo de forças instintivas, que em todo o caso brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro.
Para mim, se considero, pestes, tormentas, guerras, são produtos da mesma força cega, operando uma vez através de micróbios inconscientes, outra vez através de raios e águas inconscientes, outra vez através de homens inconscientes. Um terramoto e um massacre não têm para mim diferença senão a que há entre assassinar com uma faca e assassinar com um punhal. O monstro imanente nas coisas tanto se serve — para o seu bem ou o seu mal, que, ao que parece, lhe são indiferentes – da deslocação de um pedregulho na altura ou da deslocação do ciúme ou da cobiça num coração. O pedregulho cai, e mata um homem; a cobiça ou o ciúme armam um braço, e o braço mata um homem. Assim é o mundo, monturo de forças instintivas, que todavia brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro.
Para fazer face à brutalidade de indiferença, que constitui o fundo visível das coisas, descobriram os místicos que o melhor era repudiar.
Negar o mundo, virar-se dele como de um pântano a cuja beira nos encontrássemos. Negar como o Buda, negando-lhe a realidade absoluta; negar como o Cristo, negando-lhe a realidade relativa; negar.
Não pedi à vida mais do que ela me não exigisse nada. À porta da cabana que não tive sentei-me ao sol que nunca houve, e gozei a velhice futura da minha realidade cansada (com o prazer de a não ter ainda).
Não ter morrido ainda basta para os pobres da vida, e ter ainda a esperança para contente com o sonho só quando não estou sonhando, contente com o mundo só quando sonho longe dele. Pêndulo oscilante, sempre movendo-se para não chegar, indo só para voltar, preso eternamente à dupla fatalidade de um centro e de um movimento inútil.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Para mim, se considero, pestes, tormentas, guerras, são produtos da mesma força cega, operando uma vez através de micróbios inconscientes, outra vez através de raios e águas inconscientes, outra vez através de homens inconscientes. Um terramoto e um massacre não têm para mim diferença senão a que há entre assassinar com uma faca e assassinar com um punhal. O monstro imanente nas coisas tanto se serve — para o seu bem ou o seu mal, que, ao que parece, lhe são indiferentes – da deslocação de um pedregulho na altura ou da deslocação do ciúme ou da cobiça num coração. O pedregulho cai, e mata um homem; a cobiça ou o ciúme armam um braço, e o braço mata um homem. Assim é o mundo, monturo de forças instintivas, que todavia brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro.
Para fazer face à brutalidade de indiferença, que constitui o fundo visível das coisas, descobriram os místicos que o melhor era repudiar.
Negar o mundo, virar-se dele como de um pântano a cuja beira nos encontrássemos. Negar como o Buda, negando-lhe a realidade absoluta; negar como o Cristo, negando-lhe a realidade relativa; negar.
Não pedi à vida mais do que ela me não exigisse nada. À porta da cabana que não tive sentei-me ao sol que nunca houve, e gozei a velhice futura da minha realidade cansada (com o prazer de a não ter ainda).
Não ter morrido ainda basta para os pobres da vida, e ter ainda a esperança para contente com o sonho só quando não estou sonhando, contente com o mundo só quando sonho longe dele. Pêndulo oscilante, sempre movendo-se para não chegar, indo só para voltar, preso eternamente à dupla fatalidade de um centro e de um movimento inútil.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Pássaros
Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.
Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas…
Os pássaros quando morrem
caem no céu.
José Gomes Ferreira, "Poeta Militante I"
Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas…
Os pássaros quando morrem
caem no céu.
José Gomes Ferreira, "Poeta Militante I"
O trem de Bordeaux
Eu tinha dezesseis anos. E naquela idade ainda parecia uma menina. Estava regressando de Saigon em um trem noturno, o trem de Bordeaux, foi depois do amante chinês, mais ou menos em 1930. Eu estava ali com minha família – meus irmãos e minha mãe. Creio que haviam duas ou três pessoas mais nos oito assentos do vagão de terceira classe, e também havia um homem jovem em frente a mim que me olhava. Parecia ter uns trinta anos. Devia ser verão. Eu sempre trajava estes vestidos claros das colônias e os pés nus com sandálias. Não tinha sono. Este homem me fazia perguntas sobre minha família e eu lhe contava como se vivia nas colônias, as chuvas, o calor, as varandas, a diferença com a França, as caminhadas pelos bosques e o exame de graduação que iria passar naquele ano, coisas comuns de uma conversa em um trem, quando se revela a própria historia e a da família.
De repente, nos demos conta de que todo mundo dormia. Minha mãe e meus irmãos tinham dormido bem depressa quando saímos de Bordeaux. Eu falava baixo para não desperta-los. Se me tivessem ouvido contar as historias da família, teriam me proibido com gritos e ameaças. Nossa conversa, em sussurros havia adormecido aos outros três ou quatro passageiros do vagão. Então, este homem e eu éramos os únicos despertos e foi assim que tudo começou, exatamente ao mesmo momento e intensamente com um único olhar.
Naquela época não se falava dessas coisas e especialmente naquelas circunstancias. De repente não conseguíamos mais conversar. Não podíamos nem mesmo nos olhar e permanecemos ali prostrados. Fui eu quem disse que deveríamos dormir para não estar cansados na manhã seguinte. Ele estava próximo à porta e apagou a luz. Entre ele e eu havia um assento vazio. Eu me aconcheguei, dobrei as pernas e fechei os olhos. Ouvi quando ele abriu a porta, saiu e voltou com uma manta que estendeu sobre mim. Abri os olhos para sorrir e agradece. Ele disse: “Durante a noite eles desligam a calefação e de madrugada faz frio”.
Dormi.
Despertei com sua mão quente e suave sobre minhas pernas. Deslizando lentamente pelo meu corpo. Abri os olhos levemente. Percebi que ele olhava atento para os outros no vagão, tinha medo. Com um movimento bem suave, avancei meu corpo em direção a ele e o toquei com meus pés. Eu os entreguei a ele, e ele aceitou. Com os olhos fechados segui cada um de seus movimentos. A principio eram lentos, depois, cada vez mais pausados e contidos, até o final, o deixar se levar pelo gozo tão forte, como se tivesse gritado.
Por um longo período nada aconteceu, apenas o ruído do trem. Parecia ir mais rápido e o ruído passou a ser ensurdecedor. Depois voltou a ser suportável. Colocou outra vez sua mão sobre mim. Era selvagem, ainda estava quente, tinha medo. Apertei com minha mão e a soltei. Deixei ela livre. O ruído do trem voltou a ser forte. A mão se retirou, ficou longe de mim por um bom tempo, já não me lembro, acho que dormi.
Ele retornou.
Acariciou meu corpo inteiro e acariciou meus seios, o ventre, os quadris, com uma espécie de doçura as vezes interrompida pelo desespero do desejo que retorna. As vezes sua mão parava. Uma vez sobre o sexo, tremula, disposta a morder ardente outra vez. E logo se ia. Pensava, raciocinava, se punha amável para dizer adeus à menina. Em torno a mão, o ruído do trem. Em torno ao trem, a noite. O silencio dos corredores dentro do ruído do trem. As paradas que despertavam as pessoas. Ele desceu durante a noite. Quando abri os olhos em Paris, seu assento estava vazio.
De repente, nos demos conta de que todo mundo dormia. Minha mãe e meus irmãos tinham dormido bem depressa quando saímos de Bordeaux. Eu falava baixo para não desperta-los. Se me tivessem ouvido contar as historias da família, teriam me proibido com gritos e ameaças. Nossa conversa, em sussurros havia adormecido aos outros três ou quatro passageiros do vagão. Então, este homem e eu éramos os únicos despertos e foi assim que tudo começou, exatamente ao mesmo momento e intensamente com um único olhar.
Naquela época não se falava dessas coisas e especialmente naquelas circunstancias. De repente não conseguíamos mais conversar. Não podíamos nem mesmo nos olhar e permanecemos ali prostrados. Fui eu quem disse que deveríamos dormir para não estar cansados na manhã seguinte. Ele estava próximo à porta e apagou a luz. Entre ele e eu havia um assento vazio. Eu me aconcheguei, dobrei as pernas e fechei os olhos. Ouvi quando ele abriu a porta, saiu e voltou com uma manta que estendeu sobre mim. Abri os olhos para sorrir e agradece. Ele disse: “Durante a noite eles desligam a calefação e de madrugada faz frio”.
Dormi.
Despertei com sua mão quente e suave sobre minhas pernas. Deslizando lentamente pelo meu corpo. Abri os olhos levemente. Percebi que ele olhava atento para os outros no vagão, tinha medo. Com um movimento bem suave, avancei meu corpo em direção a ele e o toquei com meus pés. Eu os entreguei a ele, e ele aceitou. Com os olhos fechados segui cada um de seus movimentos. A principio eram lentos, depois, cada vez mais pausados e contidos, até o final, o deixar se levar pelo gozo tão forte, como se tivesse gritado.
Por um longo período nada aconteceu, apenas o ruído do trem. Parecia ir mais rápido e o ruído passou a ser ensurdecedor. Depois voltou a ser suportável. Colocou outra vez sua mão sobre mim. Era selvagem, ainda estava quente, tinha medo. Apertei com minha mão e a soltei. Deixei ela livre. O ruído do trem voltou a ser forte. A mão se retirou, ficou longe de mim por um bom tempo, já não me lembro, acho que dormi.
Ele retornou.
Acariciou meu corpo inteiro e acariciou meus seios, o ventre, os quadris, com uma espécie de doçura as vezes interrompida pelo desespero do desejo que retorna. As vezes sua mão parava. Uma vez sobre o sexo, tremula, disposta a morder ardente outra vez. E logo se ia. Pensava, raciocinava, se punha amável para dizer adeus à menina. Em torno a mão, o ruído do trem. Em torno ao trem, a noite. O silencio dos corredores dentro do ruído do trem. As paradas que despertavam as pessoas. Ele desceu durante a noite. Quando abri os olhos em Paris, seu assento estava vazio.
Marguerite Duras
Homens de Vilarinho
Foi um grande acontecimento em Vilarinho, quando na Senhora da Agonia, à missa, o padre João leu os nomes dos mordomos da próxima festa. É que, a cabeça do rol, vinha o Firmo, e todos esperavam tudo menos isso.
– O Firmo?! – não se conteve, no silêncio da igreja, o António Puga.
– Psiu!... – sibilou, dos lados da pia benta, o sacristão, que andava às esmolas.
E o caso só à saída foi comentado como merecia.
– O Firmo?! Mas então o Firmo, daqui a um ano... – e o Puga nem era capaz de levar o raciocínio ao fim.
– Fica. Desta vez fica... – garantiu a Margarida, que bebia do fino. – O padre Joao tantas lhe disse...
A assistência ouvia maravilhada. O Firmo de pedra e cal em Vilarinho! O mundo sempre dá muita volta!
A notícia tinha realmente que se lhe dissesse. Há muitos anos já que o Firmo desorientava Vilarinho. Desde que viera de Amarante, da artilharia, e embarcara, nunca mais a seu respeito se soube a quantas se andava. Nem a própria mulher.
– O meu Firmo?! Eu sei la do meu Firmo!
No Brasil, na América, na Argentina, os que o conheciam estavam na mesma. Sempre a variar de terra, sempre a mudar de emprego, e às duas por três a oferecer os préstimos para Portugal.
– Oh! oh!
– São meia dúzia de dias. Daqui a nada estou cá. É só o tempo de o navio chegar, esperar que eu faça um filho à patroa, e levantar ferro...
Dito e feito. Daí a pouco regressava com a mesma cara. De tal maneira que já todos se riam. Dera em droga, não havia que ver. Só mesmo o padre João, cabeçudo, é que podia ter ainda fé naquele valdevinos, e continuar junto dele o sermão deixado a meio da última vez. O padre era o pároco de Vilarinho. E sempre que o Firmo vinha a terra e acordava da primeira noite dormida com a mulher, lá estava ele à entrada da porta com a sua batina rota e o seu cachaço de cavador.
– Dás licença, Firmo?
– Faça favor de entrar, senhor padre João.
– Então tu não terás mais juízo, homem de Deus?! Tu não veras que tens aqui um rebanho de filhos?!
Firmo baixava a cabeça diante daquela voz amiga e repreensiva. Nem se defendia. Aceitava cada censura como o golpe dum látego purificador. Mas passados dias, quando a Silvana começava a pedir azeitonas às vizinhas, ia dizendo:
Es tu com desejos de azeitonas e eu com desejos de mundo...
– Ah! Firmo, que sorte a minha!
Valia de bem o gemido da infeliz! Quanto mais chorava, mais ele se enfrenisava na partida. Empenhava uma terra, vendia-lhe o cordão se preciso fosse, recorria em ultimo caso ao próprio padre João, mas abalava.
– Grandes terras, Ti Guilhermino!
– Não há dúvida, Firmo... Não há dúvida... Os lucros que tens tirado delas é que são fracos... – respondia melancolicamente o velho, quando o Firmo, a caminho do comboio, enchia a boca com a Califórnia.
– Não tem calhado... Que ele também para que é que o dinheiro presta?!
– Homessa!
– É o que lhe digo. Desde que uma pessoa coma e beba...
– E a mulher e os filhos?
– A mulher e os filhos cá vão vivendo...
E Vilarinho desanimava.
– Coisa assim, como ele se pôs! E ainda se fosse de gente de outra condição, vá lá com mil demônios! Agora quem lhe conheceu o pai, como eu, um homem serio, zelador do que lhe pertencia, amigo da família, sempre agarrado a enxada... Que ele não é mau. Mas fazer-se um traga-mundos daquela maneira! – gemia o abade, quando a Silvana lhe ia pagar a côngrua. – Acredita que tenho uma paixão, que nem fazes ideia!
O padre era a própria seiva de Vilarinho. Tão agarrado à terra que costumava dizer aos colegas:
– Eu, fora cá da minha freguesia, nem latim sei.
Os outros riam-se e davam-lhe palmadinhas intencionais no costado largo.
– Ora, ora, padre Joao! Esquece-se do latim, mas lembra-se do português. Que o diga quem pode...
Aludiam risonhamente à conversa que tivera na Vila com o novo bispo, quando foi chamado à pedra. O prelado, muito severo, com ar de quem ia salvar o mundo, depois de lhe estender o anel e de lhe indicar uma cadeira, pôs-se para ali a alanzoar. Que o incomodara para tratar com ele dum caso grave de consciência e de disciplina. Que sabia que Sua Reverencia vivia amancebado e tinha prole. Que tomara conta da diocese há pouco tempo e que não desejava iniciar a pastoreação com atos de violência. Mas que, por outro lado, não podia consentir desmandos a nenhum membro do reverendíssimo clero. Por conseguinte, ou abandonava Sua Reverência o concubinato ou se via obrigado a aplicar-lhe os castigos disciplinares.
O réu não esteve com meias medidas.
– Olhe, senhor Bispo, cá por cima são estes usos. Padre sim, padre não, faz o mesmo. Tenha a certeza. O que são é mais finos do que eu. As fêmeas chamam-lhes criadas; e aos filhos, afilhados. Ora eu cá sou pão, pão, queijo, queijo. Não nego. Para que? A mulher é minha, nunca foi doutro, gosto dela e não a largo; os filhos tenho já cinco, quero cria-los e ver se lhes deixo alguma coisa. De maneira que faça o senhor Bispo o que entender.
A resposta ficou célebre. E os colegas, sempre que vinha a propósito, davam-lhe o beliscão.
Ria-se com o seu riso aberto. E, acabada a missa cantada, o oficio ou lá o que era, trepava para o lombo da mula, cheio de saudades das suas leiras e das almas irmãs que governava.
Destas, só uma lhe fazia cabelos brancos: o Firmo. O diabo sairá ave de arribação. E para quem como ele mergulhava as raízes no chão de Vilarinho, uma realidade assim era um sofrimento.
– Homem, mas tu, afinal, quando te resolves a ser um pai de família e a ter vergonha na cara? – acabou por perguntar ao Firmo, já sem mais paciência.
-Há-de ser um dia. Prometo-lhe que há-de ser um dia!
E quando pela sexta vez o padre o acordou do sono com a mulher, na véspera da Senhora da Agonia, o Firmo sossegou-lhe o coração.
– É desta feita. Na Quaresma conte com mais um pecador para a desobriga. Agora tem-me o resto da vida, caseiro como uma galinha...
Padre João sentiu que um grande peso lhe saía dos ombros. Até que enfim!
– Dás-me a tua palavra?
– Estou-lhe a falar a sério, pode crer! Hei-de fazer tudo para isso. Já iam sendo horas...
A promessa tinha uma solidez de testamento. Contudo, pelo sim, pelo não, no dia seguinte, à missa, o padre resolveu amarrar o valdevinos a argola, pondo-o, com grande espanto de Vilarinho, no princípio da lista dos mordomos da festa do ano que vinha.
– Será que ele desta vez fica mesmo? – insistia o Puga na venda do Trauliteiro.
– Parece que sim. O padre João lá o convenceu...
– Custa-me a acreditar.
– Não tem que ver: está ou não está mudado? Cava ou não cava o dia inteiro, como nós?
– Realmente...
E até os mais renitentes foram cedendo terreno. A própria mulher, que nos primeiros dias andava abismada com aquela resolução, enchia agora os olhos de paz ao vê-lo a tratar do estrume para as próximas sementeiras, e de tempos a tempos a lembrar que era preciso não esquecer de tirar a esmola para a festa, e que a respeito do arraial a coisa havia de ser falada.
O padre, esse, andava de coração em aleluia. A terra de lameiro de que era feito, grossa, funda, quente, só compreendia as pessoas plantadas ali. Por isso, desde que Firmo parecia aclimatado a Vilarinho, até a vida lhe sabia melhor.
– Com que então desta vez sempre ficas por cá?! – foi perguntando o Puga, pela mansa, quando encontrou o Firmo a jeito.
– É como dizes. O bom filho a casa torna...
E Vilarinho assentou de vez que o réprobo, afinal, ganhara juízo, tomara nas mãos macias as rédeas duras da casa e dera ao demo o que e do demo - o mundo.
Nos Reis, para aumentar a receita destinada a romaria, fez-se um peditório. E o Firmo, que tocava violão, puxou ali pelas seis cordas como um valente.
– Ora vê lá tu se não é melhor a vida que agora levas do que andar como um maltês por lá! – dizia-lhe o padre João, como a varrer-lhe do pensamento qualquer resto de maluquice.
– Na verdade...
– Não há que ver: onde encontras tu terras como esta? Bom pão, bom vinho, bons ares, e em nossa casa, ao pé da mulher e dos filhos!
O mundo dera a Firmo luzes para além das fragas nativas. Por isso tinha olhos para ver o padre em plena grandeza. Um castanheiro. Tal é qual um castanheiro, redondo, maciço, frondoso. De tal modo fincado onde nascera, que não havia formas que o fizessem mudar. Só a morte. Ele, Firmo, filho de cavadores, cavador até aos vinte, que se casara, que não tinha estudos - sem nenhum apego à terra, incapaz de se deixar penetrar da verdade dos tojos e das leiras; e aquele homem letrado, que recebera ordens, que prometera dar-se todo a quem proclamara que o seu reino não era deste mundo - ali com mulher e filhos, cheio do amor deles, agarrado as verças como os juncos as nascentes! As razões que apresentava eram sempre as mesmas. Tantas vezes as ouvira que já nem lhes ligava sentido. Mas agora as palavras de ontem, de antes de ontem, de há vinte anos, embora igualmente incapazes de o vencer - pois sabia que não o movera nenhum dos argumentos invocados entravam-lhe pelos ouvidos dentro com outra significação.
– É assim. Eu vou à Vila, ando por lá a dar as voltas precisas, e as duas por três tenho fome. Entro na Gaitas e como uma malga de tripas. Pois acredita que nem as tripas me sabem. Há lá nada como a nossa casa!
– São feitios, senhor padre João... – tentou, em todo o caso, o Firmo. – A vida...
– Quais feitios, qual vida!
Firmo calou-se. O amor daquele homem à terra era tão absoluto como o seu próprio amor a vastidão do mundo. Para que discutir?
– E de festa, que tal vamos? Vê lá isso! Não me deixes ficar mal...
– Está justa a música velha de Constantim, encomendamos o fogo em Cabeda e os saiais são de Sabrosa. Pregador, o senhor padre João diáa...
Nem parecia o mesmo. Como um homem se modificava! Lá diz o ditado: infeliz pássaro que nasce em ruim ninho. Tanto monta correr, como saltar: as asas puxam-no sempre para onde aprendeu a voar. Pusessem os olhos naquele exemplo.
Mas na véspera da Senhora da Agonia, roído não se sabe por que melancólica inquietação, Firmo, que lutara como um herói durante um ano para se aguentar ali, bateu a porta da residência.
– Da licença, senhor padre João?
– Entra, Firmo. Alguma novidade?
– Nada de importância...
No rosto largo do abade o sangue correu mais tinto e mais alegre.
– Bem. Isso é que eu gosto de ouvir.
Sem palavras para desiludir aquela confiança, peado, o desertor começou a gaguejar:
– Pois é verdade... Afinal...
O padre, então, olhou-o com a sua penetração profissional de confessor:
– Desembucha!
E Firmo escancarou-lhe a alma:
– Não posso mais, senhor padre João. Embarco amanhã e venho dizer-lhe adeus.
– O Firmo?! – não se conteve, no silêncio da igreja, o António Puga.
– Psiu!... – sibilou, dos lados da pia benta, o sacristão, que andava às esmolas.
E o caso só à saída foi comentado como merecia.
– O Firmo?! Mas então o Firmo, daqui a um ano... – e o Puga nem era capaz de levar o raciocínio ao fim.
– Fica. Desta vez fica... – garantiu a Margarida, que bebia do fino. – O padre Joao tantas lhe disse...
A assistência ouvia maravilhada. O Firmo de pedra e cal em Vilarinho! O mundo sempre dá muita volta!
A notícia tinha realmente que se lhe dissesse. Há muitos anos já que o Firmo desorientava Vilarinho. Desde que viera de Amarante, da artilharia, e embarcara, nunca mais a seu respeito se soube a quantas se andava. Nem a própria mulher.
Quando lhe perguntavam pelo homem, o que fazia, se voltava, se gozava saúde, respondia, já resignada:
– O meu Firmo?! Eu sei la do meu Firmo!
No Brasil, na América, na Argentina, os que o conheciam estavam na mesma. Sempre a variar de terra, sempre a mudar de emprego, e às duas por três a oferecer os préstimos para Portugal.
– Oh! oh!
– São meia dúzia de dias. Daqui a nada estou cá. É só o tempo de o navio chegar, esperar que eu faça um filho à patroa, e levantar ferro...
Dito e feito. Daí a pouco regressava com a mesma cara. De tal maneira que já todos se riam. Dera em droga, não havia que ver. Só mesmo o padre João, cabeçudo, é que podia ter ainda fé naquele valdevinos, e continuar junto dele o sermão deixado a meio da última vez. O padre era o pároco de Vilarinho. E sempre que o Firmo vinha a terra e acordava da primeira noite dormida com a mulher, lá estava ele à entrada da porta com a sua batina rota e o seu cachaço de cavador.
– Dás licença, Firmo?
– Faça favor de entrar, senhor padre João.
– Então tu não terás mais juízo, homem de Deus?! Tu não veras que tens aqui um rebanho de filhos?!
Firmo baixava a cabeça diante daquela voz amiga e repreensiva. Nem se defendia. Aceitava cada censura como o golpe dum látego purificador. Mas passados dias, quando a Silvana começava a pedir azeitonas às vizinhas, ia dizendo:
Es tu com desejos de azeitonas e eu com desejos de mundo...
– Ah! Firmo, que sorte a minha!
Valia de bem o gemido da infeliz! Quanto mais chorava, mais ele se enfrenisava na partida. Empenhava uma terra, vendia-lhe o cordão se preciso fosse, recorria em ultimo caso ao próprio padre João, mas abalava.
– Grandes terras, Ti Guilhermino!
– Não há dúvida, Firmo... Não há dúvida... Os lucros que tens tirado delas é que são fracos... – respondia melancolicamente o velho, quando o Firmo, a caminho do comboio, enchia a boca com a Califórnia.
– Não tem calhado... Que ele também para que é que o dinheiro presta?!
– Homessa!
– É o que lhe digo. Desde que uma pessoa coma e beba...
– E a mulher e os filhos?
– A mulher e os filhos cá vão vivendo...
E Vilarinho desanimava.
– Coisa assim, como ele se pôs! E ainda se fosse de gente de outra condição, vá lá com mil demônios! Agora quem lhe conheceu o pai, como eu, um homem serio, zelador do que lhe pertencia, amigo da família, sempre agarrado a enxada... Que ele não é mau. Mas fazer-se um traga-mundos daquela maneira! – gemia o abade, quando a Silvana lhe ia pagar a côngrua. – Acredita que tenho uma paixão, que nem fazes ideia!
O padre era a própria seiva de Vilarinho. Tão agarrado à terra que costumava dizer aos colegas:
– Eu, fora cá da minha freguesia, nem latim sei.
Os outros riam-se e davam-lhe palmadinhas intencionais no costado largo.
– Ora, ora, padre Joao! Esquece-se do latim, mas lembra-se do português. Que o diga quem pode...
Aludiam risonhamente à conversa que tivera na Vila com o novo bispo, quando foi chamado à pedra. O prelado, muito severo, com ar de quem ia salvar o mundo, depois de lhe estender o anel e de lhe indicar uma cadeira, pôs-se para ali a alanzoar. Que o incomodara para tratar com ele dum caso grave de consciência e de disciplina. Que sabia que Sua Reverencia vivia amancebado e tinha prole. Que tomara conta da diocese há pouco tempo e que não desejava iniciar a pastoreação com atos de violência. Mas que, por outro lado, não podia consentir desmandos a nenhum membro do reverendíssimo clero. Por conseguinte, ou abandonava Sua Reverência o concubinato ou se via obrigado a aplicar-lhe os castigos disciplinares.
O réu não esteve com meias medidas.
– Olhe, senhor Bispo, cá por cima são estes usos. Padre sim, padre não, faz o mesmo. Tenha a certeza. O que são é mais finos do que eu. As fêmeas chamam-lhes criadas; e aos filhos, afilhados. Ora eu cá sou pão, pão, queijo, queijo. Não nego. Para que? A mulher é minha, nunca foi doutro, gosto dela e não a largo; os filhos tenho já cinco, quero cria-los e ver se lhes deixo alguma coisa. De maneira que faça o senhor Bispo o que entender.
A resposta ficou célebre. E os colegas, sempre que vinha a propósito, davam-lhe o beliscão.
Ria-se com o seu riso aberto. E, acabada a missa cantada, o oficio ou lá o que era, trepava para o lombo da mula, cheio de saudades das suas leiras e das almas irmãs que governava.
Destas, só uma lhe fazia cabelos brancos: o Firmo. O diabo sairá ave de arribação. E para quem como ele mergulhava as raízes no chão de Vilarinho, uma realidade assim era um sofrimento.
– Homem, mas tu, afinal, quando te resolves a ser um pai de família e a ter vergonha na cara? – acabou por perguntar ao Firmo, já sem mais paciência.
-Há-de ser um dia. Prometo-lhe que há-de ser um dia!
E quando pela sexta vez o padre o acordou do sono com a mulher, na véspera da Senhora da Agonia, o Firmo sossegou-lhe o coração.
– É desta feita. Na Quaresma conte com mais um pecador para a desobriga. Agora tem-me o resto da vida, caseiro como uma galinha...
Padre João sentiu que um grande peso lhe saía dos ombros. Até que enfim!
– Dás-me a tua palavra?
– Estou-lhe a falar a sério, pode crer! Hei-de fazer tudo para isso. Já iam sendo horas...
A promessa tinha uma solidez de testamento. Contudo, pelo sim, pelo não, no dia seguinte, à missa, o padre resolveu amarrar o valdevinos a argola, pondo-o, com grande espanto de Vilarinho, no princípio da lista dos mordomos da festa do ano que vinha.
– Será que ele desta vez fica mesmo? – insistia o Puga na venda do Trauliteiro.
– Parece que sim. O padre João lá o convenceu...
– Custa-me a acreditar.
– Não tem que ver: está ou não está mudado? Cava ou não cava o dia inteiro, como nós?
– Realmente...
E até os mais renitentes foram cedendo terreno. A própria mulher, que nos primeiros dias andava abismada com aquela resolução, enchia agora os olhos de paz ao vê-lo a tratar do estrume para as próximas sementeiras, e de tempos a tempos a lembrar que era preciso não esquecer de tirar a esmola para a festa, e que a respeito do arraial a coisa havia de ser falada.
O padre, esse, andava de coração em aleluia. A terra de lameiro de que era feito, grossa, funda, quente, só compreendia as pessoas plantadas ali. Por isso, desde que Firmo parecia aclimatado a Vilarinho, até a vida lhe sabia melhor.
– Com que então desta vez sempre ficas por cá?! – foi perguntando o Puga, pela mansa, quando encontrou o Firmo a jeito.
– É como dizes. O bom filho a casa torna...
E Vilarinho assentou de vez que o réprobo, afinal, ganhara juízo, tomara nas mãos macias as rédeas duras da casa e dera ao demo o que e do demo - o mundo.
Nos Reis, para aumentar a receita destinada a romaria, fez-se um peditório. E o Firmo, que tocava violão, puxou ali pelas seis cordas como um valente.
– Ora vê lá tu se não é melhor a vida que agora levas do que andar como um maltês por lá! – dizia-lhe o padre João, como a varrer-lhe do pensamento qualquer resto de maluquice.
– Na verdade...
– Não há que ver: onde encontras tu terras como esta? Bom pão, bom vinho, bons ares, e em nossa casa, ao pé da mulher e dos filhos!
O mundo dera a Firmo luzes para além das fragas nativas. Por isso tinha olhos para ver o padre em plena grandeza. Um castanheiro. Tal é qual um castanheiro, redondo, maciço, frondoso. De tal modo fincado onde nascera, que não havia formas que o fizessem mudar. Só a morte. Ele, Firmo, filho de cavadores, cavador até aos vinte, que se casara, que não tinha estudos - sem nenhum apego à terra, incapaz de se deixar penetrar da verdade dos tojos e das leiras; e aquele homem letrado, que recebera ordens, que prometera dar-se todo a quem proclamara que o seu reino não era deste mundo - ali com mulher e filhos, cheio do amor deles, agarrado as verças como os juncos as nascentes! As razões que apresentava eram sempre as mesmas. Tantas vezes as ouvira que já nem lhes ligava sentido. Mas agora as palavras de ontem, de antes de ontem, de há vinte anos, embora igualmente incapazes de o vencer - pois sabia que não o movera nenhum dos argumentos invocados entravam-lhe pelos ouvidos dentro com outra significação.
Mandavam-no curvar-se de pura admiração diante de uma vida sem fendas, inteira como um rochedo. Que bicho! Nem o próprio bispo pudera com ele. Metera a viola no saco e deixara correr. O bloco de pedra talvez estivesse errado em sítios onde já não tivesse valor o tamanho do natural. Em Vilarinho, metia respeito.
– É assim. Eu vou à Vila, ando por lá a dar as voltas precisas, e as duas por três tenho fome. Entro na Gaitas e como uma malga de tripas. Pois acredita que nem as tripas me sabem. Há lá nada como a nossa casa!
– São feitios, senhor padre João... – tentou, em todo o caso, o Firmo. – A vida...
– Quais feitios, qual vida!
Firmo calou-se. O amor daquele homem à terra era tão absoluto como o seu próprio amor a vastidão do mundo. Para que discutir?
– E de festa, que tal vamos? Vê lá isso! Não me deixes ficar mal...
– Está justa a música velha de Constantim, encomendamos o fogo em Cabeda e os saiais são de Sabrosa. Pregador, o senhor padre João diáa...
Nem parecia o mesmo. Como um homem se modificava! Lá diz o ditado: infeliz pássaro que nasce em ruim ninho. Tanto monta correr, como saltar: as asas puxam-no sempre para onde aprendeu a voar. Pusessem os olhos naquele exemplo.
Mas na véspera da Senhora da Agonia, roído não se sabe por que melancólica inquietação, Firmo, que lutara como um herói durante um ano para se aguentar ali, bateu a porta da residência.
– Da licença, senhor padre João?
– Entra, Firmo. Alguma novidade?
– Nada de importância...
No rosto largo do abade o sangue correu mais tinto e mais alegre.
– Bem. Isso é que eu gosto de ouvir.
Sem palavras para desiludir aquela confiança, peado, o desertor começou a gaguejar:
– Pois é verdade... Afinal...
O padre, então, olhou-o com a sua penetração profissional de confessor:
– Desembucha!
E Firmo escancarou-lhe a alma:
– Não posso mais, senhor padre João. Embarco amanhã e venho dizer-lhe adeus.
Miguel Torga
quarta-feira, outubro 14
Declaração de Males
Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.
Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios… the pule cast of throught… sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.
Paulo Mendes Campos, "O amor acaba: crônicas líricas e existenciais"
Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios… the pule cast of throught… sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.
Paulo Mendes Campos, "O amor acaba: crônicas líricas e existenciais"
No silêncio dos olhos
Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?
José Saramago, "Os Poemas Possíveis"
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?
José Saramago, "Os Poemas Possíveis"
A máquina extraviada
Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou — não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas — quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos.
A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam jantando ou acabando de jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com os gritos dos choferes e seus ajudantes (a máquina veio em dois ou três caminhões) muita gente cancelou a sobremesa ou o café e foi ver que algazarra era aquela. Como geralmente acontece nessas ocasiões, os homens estavam mal-humorados e não quiseram dar explicações, esbarravam propositalmente nos curiosos, pisavam-lhes os pés e não pediam desculpa, jogavam pontas de cordas sujas de graxa por cima deles, quem não quisesse se sujar ou se machucar que saísse do caminho.
Descarregadas as várias partes da máquina, foram elas cobertas com encerados e os homens entraram num botequim do largo para comer e beber. Muita gente se amontoou na porta mas ninguém teve coragem de se aproximar dos estranhos porque um deles, percebendo essa intenção nos curiosos, de vez em quando enchia a boca de cerveja e esguichava na direção da porta. Atribuímos essa esquiva ao cansaço e à fome deles e deixamos as tentativas de aproximação para o dia seguinte; mas quando os procuramos de manhã cedo na pensão, soubemos que eles tinham montado mais ou menos a máquina durante a noite e viajado de madrugada.
A máquina ficou ao relento, sem que ninguém soubesse quem a encomendou nem para que servia. É claro que cada qual dava o seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto outro.
As crianças, que não são de respeitar mistério, como você sabe, trataram de aproveitar a novidade. Sem pedir licença a ninguém (e a quem iam pedir?), retiraram a lona e foram subindo em bando pela máquina acima — até hoje ainda sobem, brincam de esconder entre os cilindros e colunas, embaraçam-se nos dentes das engrenagens e fazem um berreiro dos diabos até que apareça alguém para soltá-las; não adiantam ralhos, castigos, pancadas; as crianças simplesmente se apaixonaram pela tal máquina.
Contrariando a opinião de certas pessoas que não quiseram se entusiasmar, e garantiram que em poucos dias a novidade passaria e a ferrugem tomaria conta do metal, o interesse do povo ainda não diminuiu. Ninguém passa pelo largo sem ainda parar diante da máquina, e de cada vez há um detalhe novo a notar. Até as velhinhas de igreja, que passam de madrugada e de noitinha, tossindo e rezando, viram o rosto para o lado da máquina e fazem uma curvatura discreta, só faltam se benzer. Homens abrutalhados, como aquele Clodoaldo seu conhecido, que se exibe derrubando boi pelos chifres no pátio do mercado, tratam a máquina com respeito; se um ou outro agarra uma alavanca e sacode com força, ou larga um pontapé numa das colunas, vê-se logo que são bravatas feitas por honra da firma, para manter fama de corajoso.
Ninguém sabe mesmo quem encomendou a máquina. O prefeito jura que não foi ele, e diz que consultou o arquivo e nele não encontrou nenhum documento autorizando a transação. Mesmo assim não quis lavar as mãos, e de certa forma encampou a compra quando designou um funcionário para zelar pela máquina.
Devemos reconhecer — aliás todos reconhecem — que esse funcionário tem dado boa conta do recado. A qualquer hora do dia, e às vezes também de noite, podemos vê-lo trepado lá por cima espanando cada vão, cada engrenagem, desaparecendo aqui para reaparecer ali, assoviando ou cantando, ativo e incansável. Duas vezes por semana ele aplica caol nas partes de metal dourado, esfrega, sua, descansa, esfrega de novo — e a máquina fica faiscando como joia.
Estamos tão habituados com a presença da máquina ali no largo, que se um dia ela desabasse, ou se alguém de outra cidade viesse buscá-la, provando com documentos que tinha direito, eu nem sei o que aconteceria, nem quero pensar. Ela é o nosso orgulho, e não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior importância. Fique sabendo que temos recebido delegações de outras cidades, do estado e de fora, que vêm aqui para ver se conseguem comprá-la. Chegam como quem não quer nada, visitam o prefeito, elogiam a cidade, rodeiam, negaceiam, abrem o jogo: por quanto cederíamos a máquina. Felizmente o prefeito é de confiança e é esperto, não cai na conversa macia.
Em todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades. Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível, alguém tem de sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Felizmente a máquina ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja.
A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um direito que ele tem. Sei que ele andou falando em castigo, mas ninguém se impressionou.
Até agora o único acidente de certa gravidade que tivemos foi quando um caixeiro da loja do velho Adudes (aquele velhinho espigado que passa brilhantina no bigode, se lembra?) prendeu a perna numa engrenagem da máquina, isso por culpa dele mesmo. O rapaz andou bebendo em uma serenata, e em vez de ir para casa achou de dormir em cima da máquina. Não se sabe como, ele subiu à plataforma mais alta, de madrugada rolou de lá, caiu em cima de uma engrenagem e com o peso acionou as rodas. Os gritos acordaram a cidade, correu gente para verificar a causa, foi preciso arranjar uns barrotes e labancas para desandar as rodas que estavam mordendo a perna do rapaz. Também dessa vez a máquina nada sofreu, felizmente. Sem a perna e sem o emprego, o imprudente rapaz ajuda na conservação da máquina, cuidando das partes mais baixas.
Já existe aqui um movimento para declarar a máquina monumento municipal — por enquanto. O vigário, como sempre, está contra; quer saber a que seria dedicado o monumento. Você já viu que homem mais azedo? Dizem que a máquina já tem feito até milagre, mas isso — aqui para nós — eu acho que é exagero de gente supersticiosa, e prefiro não ficar falando no assunto. Eu — e creio que também a grande maioria dos munícipes — não espero dela nada em particular; para mim basta que ela fique onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos consolando. O meu receio é que, quando menos esperarmos, desembarque aqui um moço de fora, desses despachados, que entendem de tudo, olhe a máquina por fora, por dentro, pense um pouco e comece a explicar a finalidade dela, e para mostrar que é habilidoso (eles são sempre muito habilidosos) peça na garagem um jogo de ferramentas, e sem ligar a nossos protestos se meta por baixo da máquina e desande a apertar, martelar, engatar, e a máquina comece a trabalhar. Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e não existirá mais máquina.
José J. Veiga, "Os cem melhores contos brasileiros do século"
A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam jantando ou acabando de jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com os gritos dos choferes e seus ajudantes (a máquina veio em dois ou três caminhões) muita gente cancelou a sobremesa ou o café e foi ver que algazarra era aquela. Como geralmente acontece nessas ocasiões, os homens estavam mal-humorados e não quiseram dar explicações, esbarravam propositalmente nos curiosos, pisavam-lhes os pés e não pediam desculpa, jogavam pontas de cordas sujas de graxa por cima deles, quem não quisesse se sujar ou se machucar que saísse do caminho.
Descarregadas as várias partes da máquina, foram elas cobertas com encerados e os homens entraram num botequim do largo para comer e beber. Muita gente se amontoou na porta mas ninguém teve coragem de se aproximar dos estranhos porque um deles, percebendo essa intenção nos curiosos, de vez em quando enchia a boca de cerveja e esguichava na direção da porta. Atribuímos essa esquiva ao cansaço e à fome deles e deixamos as tentativas de aproximação para o dia seguinte; mas quando os procuramos de manhã cedo na pensão, soubemos que eles tinham montado mais ou menos a máquina durante a noite e viajado de madrugada.
A máquina ficou ao relento, sem que ninguém soubesse quem a encomendou nem para que servia. É claro que cada qual dava o seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto outro.
As crianças, que não são de respeitar mistério, como você sabe, trataram de aproveitar a novidade. Sem pedir licença a ninguém (e a quem iam pedir?), retiraram a lona e foram subindo em bando pela máquina acima — até hoje ainda sobem, brincam de esconder entre os cilindros e colunas, embaraçam-se nos dentes das engrenagens e fazem um berreiro dos diabos até que apareça alguém para soltá-las; não adiantam ralhos, castigos, pancadas; as crianças simplesmente se apaixonaram pela tal máquina.
Contrariando a opinião de certas pessoas que não quiseram se entusiasmar, e garantiram que em poucos dias a novidade passaria e a ferrugem tomaria conta do metal, o interesse do povo ainda não diminuiu. Ninguém passa pelo largo sem ainda parar diante da máquina, e de cada vez há um detalhe novo a notar. Até as velhinhas de igreja, que passam de madrugada e de noitinha, tossindo e rezando, viram o rosto para o lado da máquina e fazem uma curvatura discreta, só faltam se benzer. Homens abrutalhados, como aquele Clodoaldo seu conhecido, que se exibe derrubando boi pelos chifres no pátio do mercado, tratam a máquina com respeito; se um ou outro agarra uma alavanca e sacode com força, ou larga um pontapé numa das colunas, vê-se logo que são bravatas feitas por honra da firma, para manter fama de corajoso.
Ninguém sabe mesmo quem encomendou a máquina. O prefeito jura que não foi ele, e diz que consultou o arquivo e nele não encontrou nenhum documento autorizando a transação. Mesmo assim não quis lavar as mãos, e de certa forma encampou a compra quando designou um funcionário para zelar pela máquina.
Devemos reconhecer — aliás todos reconhecem — que esse funcionário tem dado boa conta do recado. A qualquer hora do dia, e às vezes também de noite, podemos vê-lo trepado lá por cima espanando cada vão, cada engrenagem, desaparecendo aqui para reaparecer ali, assoviando ou cantando, ativo e incansável. Duas vezes por semana ele aplica caol nas partes de metal dourado, esfrega, sua, descansa, esfrega de novo — e a máquina fica faiscando como joia.
Estamos tão habituados com a presença da máquina ali no largo, que se um dia ela desabasse, ou se alguém de outra cidade viesse buscá-la, provando com documentos que tinha direito, eu nem sei o que aconteceria, nem quero pensar. Ela é o nosso orgulho, e não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior importância. Fique sabendo que temos recebido delegações de outras cidades, do estado e de fora, que vêm aqui para ver se conseguem comprá-la. Chegam como quem não quer nada, visitam o prefeito, elogiam a cidade, rodeiam, negaceiam, abrem o jogo: por quanto cederíamos a máquina. Felizmente o prefeito é de confiança e é esperto, não cai na conversa macia.
Em todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades. Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível, alguém tem de sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Felizmente a máquina ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja.
A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um direito que ele tem. Sei que ele andou falando em castigo, mas ninguém se impressionou.
Até agora o único acidente de certa gravidade que tivemos foi quando um caixeiro da loja do velho Adudes (aquele velhinho espigado que passa brilhantina no bigode, se lembra?) prendeu a perna numa engrenagem da máquina, isso por culpa dele mesmo. O rapaz andou bebendo em uma serenata, e em vez de ir para casa achou de dormir em cima da máquina. Não se sabe como, ele subiu à plataforma mais alta, de madrugada rolou de lá, caiu em cima de uma engrenagem e com o peso acionou as rodas. Os gritos acordaram a cidade, correu gente para verificar a causa, foi preciso arranjar uns barrotes e labancas para desandar as rodas que estavam mordendo a perna do rapaz. Também dessa vez a máquina nada sofreu, felizmente. Sem a perna e sem o emprego, o imprudente rapaz ajuda na conservação da máquina, cuidando das partes mais baixas.
Já existe aqui um movimento para declarar a máquina monumento municipal — por enquanto. O vigário, como sempre, está contra; quer saber a que seria dedicado o monumento. Você já viu que homem mais azedo? Dizem que a máquina já tem feito até milagre, mas isso — aqui para nós — eu acho que é exagero de gente supersticiosa, e prefiro não ficar falando no assunto. Eu — e creio que também a grande maioria dos munícipes — não espero dela nada em particular; para mim basta que ela fique onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos consolando. O meu receio é que, quando menos esperarmos, desembarque aqui um moço de fora, desses despachados, que entendem de tudo, olhe a máquina por fora, por dentro, pense um pouco e comece a explicar a finalidade dela, e para mostrar que é habilidoso (eles são sempre muito habilidosos) peça na garagem um jogo de ferramentas, e sem ligar a nossos protestos se meta por baixo da máquina e desande a apertar, martelar, engatar, e a máquina comece a trabalhar. Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e não existirá mais máquina.
José J. Veiga, "Os cem melhores contos brasileiros do século"
Bem-vindo Bob
É certo que a cada dia estará mais velho, mais distante do tempo em que se chamava Bob, dos cabelos loiros caindo na têmpora, do sorriso e dos olhos luzidios de quando entrava silencioso na sala, murmurando um cumprimento ou movendo um pouco a mão perto da orelha, e ia sentar-se sob a lâmpada, perto do piano, com um livro ou simplesmente quieto e a parte, abstraído, olhando-nos durante uma hora sem nenhuma expressão no rosto, movendo os dedos de vez em quando para segurar o cigarro e sacudir as cinzas da lapela de seus ternos claros.
Igualmente distante — agora que se chama Roberto e se embriaga com qualquer coisa, protegendo a boca com a mão suja quando tosse — do Bob que tomava cerveja, apenas dois copos na mais longa das noites, com uma pilha de moedas de dez sobre sua mesa da cantina do clube, para gastar na jukebox. Quase sempre sozinho, ouvindo jazz, o rosto sonolento, contente e pálido, movendo apenas a cabeça para cumprimentar-me quando eu passava, seguindo-me com os olhos pelo tempo que eu ali permanecesse, pelo tempo que me fosse possível suportar seu olhar azul incansavelmente fixo em mim, mantendo sem esforço o desprezo intenso e a ironia mais suave. Mas também com algum outro rapaz, aos sábados, alguém tão raivosamente jovem quanto ele, com quem conversava sobre solos, trompetes e coros e sobre a cidade infinita que Bob construiria na costa quando fosse arquiteto. Ao me ver passar ele parava para fazer-me o breve cumprimento sem tirar os olhos de meu rosto, derramando palavras apagadas e sorrisos por um canto da boca para o companheiro que, por fim, também me olhava, duplicando em silencio o desprezo e a ironia.
Às vezes eu me sentia forte e tentava mira-lo: apoiava o rosto na mão e fumava sobre meu copo olhando-o sem pestanejar, sem descuidar de meu rosto, que devia manter-se frio, um pouco melancólico. Naquela época, Bob era muito parecido com Inês; podia ver algo dela em seu rosto através do salão do clube, e talvez numa dessas noites eu o tenha olhado como olhava para ela. Mas quase sempre preferia esquecer os olhos de Bob e me sentava de costas para ele e ficava observando as bocas dos que falavam em minha mesa, as vezes calado e triste para que ele soubesse que havia em mim algo mais do que aquilo que imaginara, algo próximo dele; as vezes me ajudava com uns copos e pensava "meu caro Bob, vá contar a sua irmãzinha”, enquanto acariciava as mãos das garotas que estavam sentadas a mesa comigo ou puxava um assunto qualquer, para que elas rissem e Bob ouvisse.
Mas, não importa o que eu fizesse, nem a atitude nem o olhar de Bob mostravam, naquela época, qualquer alteração. Só recordo isso como prova de que ele registrava minhas comédias na cantina. Uma noite, em sua casa, eu estava esperando Inês na sala, junto do piano, quando ele entrou. Usava um impermeável fechado até o pescoço, as mãos nos bolsos. Cumprimentou-me com um meneio de cabeça, olhou em torno e depois avançou pelo aposento como se, com o breve gesto, tivesse me eliminado: vi-o mover-se, girando em redor da mesa, sobre o tapete, andando sobre ele com seus sapatos amarelos de borracha. Tocou uma flor com o dedo, sentou-se na beira da mesa e pôs-se a fumar olhando para a floreira, o perfil sereno voltado para mim, um pouco inclinado, frouxo e pensativo. Imprudentemente — eu estava de pé, recostado no piano —, bati com a mão esquerda numa tecla grave e então fui obrigado a repetir o som a cada três segundos, olhando para ele.
Por ele eu só sentia ódio e um vergonhoso respeito, e continuei afundando a tecla, cravando-a com covarde ferocidade no silencio da casa, ate que repentinamente vi-me de fora, observando a cena como se estivesse no alto da escada ou na porta, vendo e sentindo Bob, silencioso e ausente junto ao fio de fumaça de seu cigarro que subia tremendo; sentindo-me, alto e rígido, meio patético, meio ridículo ali na penumbra, batendo a cada exatos três segundos na tecla grave com o dedo indicador. Pensei, então, que não estava fazendo o piano soar por uma bravata incompreensível, mas que o estava chamando; que a nota profunda que meu dedo fazia renascer obstinadamente a beira de cada ultima vibração era, por fim encontrada, a única palavra mendicante com que poderia pedir tolerância e compreensão a sua juventude implacável. Ele continuou imóvel ate que Inês bateu a porta do quarto antes de descer para reunir-se comigo. Então Bob empertigou-se e veio caminhando com preguiça até o outro extremo do piano, apoiou um cotovelo, olhou-me por um momento e depois disse com um belo sorriso: "Esta noite é uma noite de cama ou de uísque? Ímpeto de salvação ou salto no abismo?”.
Eu não podia responder nada, não podia arrebentar sua cara com um soco; parei de tocar e fui retirando a mão do piano lentamente. Inês estava no meio da escada quando ele me disse, enquanto se afastava: “Bem, pode ser que você improvise”.
O duelo durou três ou quatro meses, e eu não podia deixar de ir ao clube durante as noites — lembro-me, a propósito, que havia campeonato de tênis naquela época —, pois quando eu ficava algum tempo sem aparecer por ali Bob cumprimentava meu regresso aumentando o desdém e a ironia em seus olhos e se acomodava no assento com um esgar feliz.
Quando chegou o momento em que eu não poderia desejar outra solução senão casar-me com Inês quanto antes, Bob e sua tática mudaram. Não sei como soube de minha necessidade de casar-me com sua irmã e de como eu abraçara aquela necessidade com todas as forças que me restavam. Meu amor por aquela necessidade abolira o passado e toda ligação com o presente. Não reparava, então, em Bob; mas pouco tempo depois lembrei-me de como ele havia mudado naquela época, e um dia permaneci imóvel, de pé numa esquina, insultando-o entre os dentes, compreendendo que seu rosto deixara de ser irônico e agora me enfrentava com seriedade e intenso calculo, como quem encara um perigo ou uma tarefa complexa, como quem tenta pesar o obstáculo e medi-lo com as próprias forças. Mas eu já não lhe dava importância e cheguei mesmo a pensar que em seu rosto imóvel e fixo nascia a compreensão do que era fundamental em mim, de um velho passado de limpeza que a adorada necessidade de casar-me com Inês sacava do fundo de anos e de episódios para aproximar-me dele.
Depois vi que estava esperando a noite; mas só vi isso quando, naquela noite, Bob chegou e veio sentar-se a mesa onde eu estava sozinho e dispensou o garçom com um sinal. Esperei um momento, observando-o, era tão parecido com ela quando movia as sobrancelhas; e a ponta do nariz, como em Inês, achatava-se um pouco quando falava. “Você não vai se casar com Inês”, disse depois. Olhei-o, sorri, afastei o olhar. "Não, não vai se casar com ela porque uma coisa dessas pode ser evitada se há alguém realmente disposto a fazer isso.” Voltei a sorrir. “Há alguns anos”, disse-lhe, “isso me deixaria com muita vontade de me casar com Inês. Agora tanto faz. Mas posso ouvi-lo; se quiser me explicar...” Endireitou a cabeça e continuou a me olhar em silencio; talvez tivesse as frases prontas e esperasse que eu completasse a minha para dize-las. “Se quiser me explicar por que não quer que eu me case com ela”, perguntei lentamente e recostei-me na parede. Vi em seguida que eu nunca suspeitara quanto e com quanta resolução ele me odiava; seu rosto estava pálido, com um sorriso preso e apertado com lábios e dentes. “Seria preciso dividir em capítulos”, disse, "e uma noite não seria suficiente.”
“Mas pode-se dizer em duas ou três palavras. Você não vai se casar com ela porque você e velho e ela e jovem. Não sei se tem trinta ou quarenta anos, não importa. Mas você é um homem feito, quer dizer, desfeito, como todos os homens de sua idade, quando não são extraordinários.” Chupou o cigarro apaga- do, olhou para a rua e voltou a olhar-me; minha cabeça estava apoiada na parede e continuava esperando. "Claro que você tem motivos para pensar que e extraordinário. Pensar que salvou muitas coisas do naufrágio. Mas não e verdade.” Comecei a fumar, de perfil para ele; aborrecia-me, mas não acreditava nele; provocava-me um ódio morno, mas eu tinha certeza de que nada me faria duvidar de mim mesmo depois de ter conhecido a necessidade de casar-me com Inês. Não; estávamos na mesma mesa e eu era tão limpo e tão jovem quanto ele. “Você pode estar enganado”, disse-lhe. “Se quiser citar algo do que esta desfeito em mim...” "Não, não”, falou rapidamente, “não sou tão criança. Não entro nesse jogo. Você é egoísta; e sensual de um modo sujo. Esta amarrado a coisas miseráveis, e são as coisas que o arrastam. Não vai a lugar nenhum, não quer isso realmente. E isso, mais nada; você é velho e ela é jovem. Não devo nem pensar nela diante de você. E você pretende...” Também agora eu não podia partir- lhe a cara, então resolvi prescindir dele, fui ate a jukebox, marquei qualquer coisa e pus uma moeda. Voltei devagar ao assento e fiquei ouvindo. A musica não era muito forte; alguém cantava docemente no interior de grandes pausas. A meu lado, Bob estava dizendo que nem mesmo ele, alguém como ele, era digno de olhar Inês nos olhos. Pobre menino, pensei, admirado. Ficou dizendo que naquilo que ele chamava de velhice a coisa mais repugnante, o que determinava a decomposição ou o que talvez fosse símbolo de decomposição era pensar por conceitos, englobar as mulheres na palavra mulher, pressiona-las sem cuidado para que pudessem moldar-se ao conceito formado por uma pobre experiência. Mas — dizia ainda — a palavra experiência tampouco era exata. Já não havia experiências, apenas costumes e repetições, nomes murchos para ir pondo nas coisas e, um pouco, para cria-las. Ficou dizendo mais ou menos isso. Eu pensava mansamente se ele cairia morto ou se daria um jeito de matar-me, ali mesmo e no ato, se eu lhe contasse as imagens que ele me suscitava ao dizer que nem mesmo ele merecia tocar Inês com a ponta de um dedo, o pobre menino, ou beijar a barra de seus vestidos, o rastro de seus passos ou coisas do gênero. Apôs uma pausa — a musica terminara e o aparelho apagou as luzes aumentando o silencio —, Bob disse "só isso”, e saiu com o andar de sempre, seguro, nem rápido nem lento.
Se naquela noite o rosto de Inês se revelou nas feições de Bob, se em algum momento a fraternal semelhança aproveitou a armadilha de um gesto para dar-me Inês em vez de Bob, foi aquela, então, a última vez que vi a garota. E verdade que duas noites depois do encontro habitual estive com ela novamente, e ao meio-dia, em novo encontro imposto por meu desespero, inútil, sabendo de antemão que todo recurso de palavra e presença seria inútil, que todas as minhas torturantes suplicas morreriam de maneira espantosa, como se nunca tivessem existido, dissolvidas no enorme ar azul da praga, sob a folhagem de um verde aprazível nos meados da boa estação.
As pequenas e rápidas partes do rosto de Inês que Bob me mostrara naquela noite, ainda que dirigidas contra mim, ligadas a agressão, participavam do entusiasmo e da inocência da garota. Mas como falar com Inês, como toca-la, como convence-la através da repentina mulher apática dos dois últimos encontros? Como reconhece-la ou, ao menos, evoca-la olhando a mulher de longo corpo rígido na poltrona de sua casa e no banco da praça, com a mesma rigidez resoluta mantida em dois horários diferentes e nas duas paragens? A mulher de pescoço tenso, os olhos perdidos na distancia, a boca morta, as mãos plantadas no regaço. Eu a olhava e era “não”, sabia que era “não” todo o ar que a esteve rodeando.
Quando voltei a vê-lo, quando iniciamos esta segunda amizade que agora espero que nunca termine, deixei de pensar em toda forma de ataque. Ficou decidido que nunca lhe falaria de Inês nem do passado e que, em silencio, eu manteria tudo aquilo vivo dentro de mim. E só o que faço, quase todas as tardes, diante de Roberto e dos rostos familiares do café. Meu ódio se conservara aceso e novo enquanto eu puder continuar vendo e ouvindo Roberto; ninguém sabe de minha vingança, mas eu a vivo, gozosa e enfurecida, dia apos dia. Falo com ele, sorrio, fumo, tomo café. Todo o tempo pensando em Bob, em sua pureza, sua fé, na audácia de seus sonhos passados. Pensando no Bob que amava a musica, no Bob que planejava enobrecer a vida dos homens construindo uma cidade de ofuscante beleza para cinco milhões de habitantes, ao longo da costa do rio; o Bob que não conseguia mentir nunca; o Bob que proclamava a luta de jovens contra velhos; o Bob dono do futuro e do mundo. Pensava, minucioso e plácido, em tudo isso diante do homem de dedos sujos de tabaco chamado Roberto, que leva uma vida grotesca, trabalhando em algum escritório hediondo, casado com uma mulher a quem chama de “minha senhora”; o homem que passa estes longos domingos afundado na poltrona do café, espiando jornais e apostando em corridas por telefone.
Ninguém jamais amou uma mulher com a força com que amo sua ruindade, sua maneira definitiva de estar afundado na vida suja dos homens. Ninguém ficou arrebatado de amor como eu diante de seus fugazes sobressaltos, dos projetos sem convicção que um destruído e distante Bob lhe dita algumas vezes e que só servem para que meça com precisão até onde esta emporcalhado para sempre.
Não sei se algum dia, no passado, dei as boas-vindas a Inês com tanta alegria e amor como hoje dou diariamente as boas-vindas a Bob no tenebroso e fedorento mundo dos adultos. É ainda um recém-chegado e de vez em quando sofre suas crises de nostalgia. Eu o vi choroso e bêbado, insultando-se e jurando o iminente regresso aos dias de Bob. Posso garantir que então meu coração transborda de amor e se torna sensível e carinhoso como o de uma mãe. No fundo sei que ele nunca ira embora porque não tem para onde ir; mas me torno delicado e paciente e tento consola-lo. Como esse punhado de terra natal, ou essas fotografias de ruas e monumentos, ou as canções que gostam de trazer consigo os imigrantes, vou construindo para ele pianos, crenças e manhãs diferentes que tem luz e o sabor do pais de juventude de onde ele chegou há algum tempo. E ele aceita; protesta, sempre, para que eu redobre minhas promessas, depois acaba dizendo que sim, com um sorriso crispado e acreditando que algum dia ira regressar ao mundo das horas de Bob e fica em paz no meio de seus trinta anos, movendo-se sem desgosto nem tropeço entre os cadáveres pavorosos das antigas ambições, das formas repulsivas de sonhos que se foram gastando sob a pressão distraída e constante de tantos milhares de pés inevitáveis.
Juan Carlos Onetti
Igualmente distante — agora que se chama Roberto e se embriaga com qualquer coisa, protegendo a boca com a mão suja quando tosse — do Bob que tomava cerveja, apenas dois copos na mais longa das noites, com uma pilha de moedas de dez sobre sua mesa da cantina do clube, para gastar na jukebox. Quase sempre sozinho, ouvindo jazz, o rosto sonolento, contente e pálido, movendo apenas a cabeça para cumprimentar-me quando eu passava, seguindo-me com os olhos pelo tempo que eu ali permanecesse, pelo tempo que me fosse possível suportar seu olhar azul incansavelmente fixo em mim, mantendo sem esforço o desprezo intenso e a ironia mais suave. Mas também com algum outro rapaz, aos sábados, alguém tão raivosamente jovem quanto ele, com quem conversava sobre solos, trompetes e coros e sobre a cidade infinita que Bob construiria na costa quando fosse arquiteto. Ao me ver passar ele parava para fazer-me o breve cumprimento sem tirar os olhos de meu rosto, derramando palavras apagadas e sorrisos por um canto da boca para o companheiro que, por fim, também me olhava, duplicando em silencio o desprezo e a ironia.
Às vezes eu me sentia forte e tentava mira-lo: apoiava o rosto na mão e fumava sobre meu copo olhando-o sem pestanejar, sem descuidar de meu rosto, que devia manter-se frio, um pouco melancólico. Naquela época, Bob era muito parecido com Inês; podia ver algo dela em seu rosto através do salão do clube, e talvez numa dessas noites eu o tenha olhado como olhava para ela. Mas quase sempre preferia esquecer os olhos de Bob e me sentava de costas para ele e ficava observando as bocas dos que falavam em minha mesa, as vezes calado e triste para que ele soubesse que havia em mim algo mais do que aquilo que imaginara, algo próximo dele; as vezes me ajudava com uns copos e pensava "meu caro Bob, vá contar a sua irmãzinha”, enquanto acariciava as mãos das garotas que estavam sentadas a mesa comigo ou puxava um assunto qualquer, para que elas rissem e Bob ouvisse.
Mas, não importa o que eu fizesse, nem a atitude nem o olhar de Bob mostravam, naquela época, qualquer alteração. Só recordo isso como prova de que ele registrava minhas comédias na cantina. Uma noite, em sua casa, eu estava esperando Inês na sala, junto do piano, quando ele entrou. Usava um impermeável fechado até o pescoço, as mãos nos bolsos. Cumprimentou-me com um meneio de cabeça, olhou em torno e depois avançou pelo aposento como se, com o breve gesto, tivesse me eliminado: vi-o mover-se, girando em redor da mesa, sobre o tapete, andando sobre ele com seus sapatos amarelos de borracha. Tocou uma flor com o dedo, sentou-se na beira da mesa e pôs-se a fumar olhando para a floreira, o perfil sereno voltado para mim, um pouco inclinado, frouxo e pensativo. Imprudentemente — eu estava de pé, recostado no piano —, bati com a mão esquerda numa tecla grave e então fui obrigado a repetir o som a cada três segundos, olhando para ele.
Por ele eu só sentia ódio e um vergonhoso respeito, e continuei afundando a tecla, cravando-a com covarde ferocidade no silencio da casa, ate que repentinamente vi-me de fora, observando a cena como se estivesse no alto da escada ou na porta, vendo e sentindo Bob, silencioso e ausente junto ao fio de fumaça de seu cigarro que subia tremendo; sentindo-me, alto e rígido, meio patético, meio ridículo ali na penumbra, batendo a cada exatos três segundos na tecla grave com o dedo indicador. Pensei, então, que não estava fazendo o piano soar por uma bravata incompreensível, mas que o estava chamando; que a nota profunda que meu dedo fazia renascer obstinadamente a beira de cada ultima vibração era, por fim encontrada, a única palavra mendicante com que poderia pedir tolerância e compreensão a sua juventude implacável. Ele continuou imóvel ate que Inês bateu a porta do quarto antes de descer para reunir-se comigo. Então Bob empertigou-se e veio caminhando com preguiça até o outro extremo do piano, apoiou um cotovelo, olhou-me por um momento e depois disse com um belo sorriso: "Esta noite é uma noite de cama ou de uísque? Ímpeto de salvação ou salto no abismo?”.
Eu não podia responder nada, não podia arrebentar sua cara com um soco; parei de tocar e fui retirando a mão do piano lentamente. Inês estava no meio da escada quando ele me disse, enquanto se afastava: “Bem, pode ser que você improvise”.
O duelo durou três ou quatro meses, e eu não podia deixar de ir ao clube durante as noites — lembro-me, a propósito, que havia campeonato de tênis naquela época —, pois quando eu ficava algum tempo sem aparecer por ali Bob cumprimentava meu regresso aumentando o desdém e a ironia em seus olhos e se acomodava no assento com um esgar feliz.
Quando chegou o momento em que eu não poderia desejar outra solução senão casar-me com Inês quanto antes, Bob e sua tática mudaram. Não sei como soube de minha necessidade de casar-me com sua irmã e de como eu abraçara aquela necessidade com todas as forças que me restavam. Meu amor por aquela necessidade abolira o passado e toda ligação com o presente. Não reparava, então, em Bob; mas pouco tempo depois lembrei-me de como ele havia mudado naquela época, e um dia permaneci imóvel, de pé numa esquina, insultando-o entre os dentes, compreendendo que seu rosto deixara de ser irônico e agora me enfrentava com seriedade e intenso calculo, como quem encara um perigo ou uma tarefa complexa, como quem tenta pesar o obstáculo e medi-lo com as próprias forças. Mas eu já não lhe dava importância e cheguei mesmo a pensar que em seu rosto imóvel e fixo nascia a compreensão do que era fundamental em mim, de um velho passado de limpeza que a adorada necessidade de casar-me com Inês sacava do fundo de anos e de episódios para aproximar-me dele.
Depois vi que estava esperando a noite; mas só vi isso quando, naquela noite, Bob chegou e veio sentar-se a mesa onde eu estava sozinho e dispensou o garçom com um sinal. Esperei um momento, observando-o, era tão parecido com ela quando movia as sobrancelhas; e a ponta do nariz, como em Inês, achatava-se um pouco quando falava. “Você não vai se casar com Inês”, disse depois. Olhei-o, sorri, afastei o olhar. "Não, não vai se casar com ela porque uma coisa dessas pode ser evitada se há alguém realmente disposto a fazer isso.” Voltei a sorrir. “Há alguns anos”, disse-lhe, “isso me deixaria com muita vontade de me casar com Inês. Agora tanto faz. Mas posso ouvi-lo; se quiser me explicar...” Endireitou a cabeça e continuou a me olhar em silencio; talvez tivesse as frases prontas e esperasse que eu completasse a minha para dize-las. “Se quiser me explicar por que não quer que eu me case com ela”, perguntei lentamente e recostei-me na parede. Vi em seguida que eu nunca suspeitara quanto e com quanta resolução ele me odiava; seu rosto estava pálido, com um sorriso preso e apertado com lábios e dentes. “Seria preciso dividir em capítulos”, disse, "e uma noite não seria suficiente.”
“Mas pode-se dizer em duas ou três palavras. Você não vai se casar com ela porque você e velho e ela e jovem. Não sei se tem trinta ou quarenta anos, não importa. Mas você é um homem feito, quer dizer, desfeito, como todos os homens de sua idade, quando não são extraordinários.” Chupou o cigarro apaga- do, olhou para a rua e voltou a olhar-me; minha cabeça estava apoiada na parede e continuava esperando. "Claro que você tem motivos para pensar que e extraordinário. Pensar que salvou muitas coisas do naufrágio. Mas não e verdade.” Comecei a fumar, de perfil para ele; aborrecia-me, mas não acreditava nele; provocava-me um ódio morno, mas eu tinha certeza de que nada me faria duvidar de mim mesmo depois de ter conhecido a necessidade de casar-me com Inês. Não; estávamos na mesma mesa e eu era tão limpo e tão jovem quanto ele. “Você pode estar enganado”, disse-lhe. “Se quiser citar algo do que esta desfeito em mim...” "Não, não”, falou rapidamente, “não sou tão criança. Não entro nesse jogo. Você é egoísta; e sensual de um modo sujo. Esta amarrado a coisas miseráveis, e são as coisas que o arrastam. Não vai a lugar nenhum, não quer isso realmente. E isso, mais nada; você é velho e ela é jovem. Não devo nem pensar nela diante de você. E você pretende...” Também agora eu não podia partir- lhe a cara, então resolvi prescindir dele, fui ate a jukebox, marquei qualquer coisa e pus uma moeda. Voltei devagar ao assento e fiquei ouvindo. A musica não era muito forte; alguém cantava docemente no interior de grandes pausas. A meu lado, Bob estava dizendo que nem mesmo ele, alguém como ele, era digno de olhar Inês nos olhos. Pobre menino, pensei, admirado. Ficou dizendo que naquilo que ele chamava de velhice a coisa mais repugnante, o que determinava a decomposição ou o que talvez fosse símbolo de decomposição era pensar por conceitos, englobar as mulheres na palavra mulher, pressiona-las sem cuidado para que pudessem moldar-se ao conceito formado por uma pobre experiência. Mas — dizia ainda — a palavra experiência tampouco era exata. Já não havia experiências, apenas costumes e repetições, nomes murchos para ir pondo nas coisas e, um pouco, para cria-las. Ficou dizendo mais ou menos isso. Eu pensava mansamente se ele cairia morto ou se daria um jeito de matar-me, ali mesmo e no ato, se eu lhe contasse as imagens que ele me suscitava ao dizer que nem mesmo ele merecia tocar Inês com a ponta de um dedo, o pobre menino, ou beijar a barra de seus vestidos, o rastro de seus passos ou coisas do gênero. Apôs uma pausa — a musica terminara e o aparelho apagou as luzes aumentando o silencio —, Bob disse "só isso”, e saiu com o andar de sempre, seguro, nem rápido nem lento.
Se naquela noite o rosto de Inês se revelou nas feições de Bob, se em algum momento a fraternal semelhança aproveitou a armadilha de um gesto para dar-me Inês em vez de Bob, foi aquela, então, a última vez que vi a garota. E verdade que duas noites depois do encontro habitual estive com ela novamente, e ao meio-dia, em novo encontro imposto por meu desespero, inútil, sabendo de antemão que todo recurso de palavra e presença seria inútil, que todas as minhas torturantes suplicas morreriam de maneira espantosa, como se nunca tivessem existido, dissolvidas no enorme ar azul da praga, sob a folhagem de um verde aprazível nos meados da boa estação.
As pequenas e rápidas partes do rosto de Inês que Bob me mostrara naquela noite, ainda que dirigidas contra mim, ligadas a agressão, participavam do entusiasmo e da inocência da garota. Mas como falar com Inês, como toca-la, como convence-la através da repentina mulher apática dos dois últimos encontros? Como reconhece-la ou, ao menos, evoca-la olhando a mulher de longo corpo rígido na poltrona de sua casa e no banco da praça, com a mesma rigidez resoluta mantida em dois horários diferentes e nas duas paragens? A mulher de pescoço tenso, os olhos perdidos na distancia, a boca morta, as mãos plantadas no regaço. Eu a olhava e era “não”, sabia que era “não” todo o ar que a esteve rodeando.
Nunca soube qual foi a historia que Bob escolheu para fazer aquilo; em todo caso, tenho certeza de que não mentiu, de que então nada — nem Inês — podia faze-lo mentir. Não vi mais Inês, nem sua forma vazia e enrijecida; soube que se casou e que não mora mais em Buenos Aires. Na época, em meio ao ódio e ao sofrimento eu gostava de imaginar Bob imaginando meus feitos e escolhendo a coisa exata ou o conjunto de coisas que foi capaz de matar-me em Inês e mata-la para mim.
Agora faz mais ou menos um ano que vejo Bob quase todos os dias, no mesmo café, cercado pelas mesmas pessoas. Quando nos apresentaram — hoje se chama Roberto —, compreendi que o passado não tem tempo e que o ontem se junta ali com a data de dez anos atrás. Perduravam em seu rosto gastos vestígios de Inês, e um movimento da boca de Bob bastou para que eu visse outra vez o alongado corpo da garota, seus passos calmos e desenvoltos, e para que os próprios inalterados olhos azuis voltassem a fitar-me sob um frouxo penteado cruzado e preso por uma fita vermelha. Ausente e perdida para sempre, podia conservar-se viva e intacta, definitivamente inconfundível, idêntica ao que lhe era essencial. Mas era trabalhoso esmiuçar o rosto, as palavras e os gestos de Roberto para encontrar Bob e poder odiá-lo. Na tarde do primeiro encontro esperei durante horas que ficasse sozinho ou saísse para falar com ele e esmurra-lo. Quieto e silencioso, espiando, as vezes, seu rosto ou evocando Inês nas janelas brilhantes do café, compus ardilosamente as frases de insulto e encontrei o tom paciente em que iria dize-las, escolhi o local de seu corpo onde dar o primeiro golpe. Mas ele foi embora ao anoitecer na companhia dos três amigos, e resolvi esperar, como ele esperara anos atrás, a noite propicia em que estivesse sozinho.
Agora faz mais ou menos um ano que vejo Bob quase todos os dias, no mesmo café, cercado pelas mesmas pessoas. Quando nos apresentaram — hoje se chama Roberto —, compreendi que o passado não tem tempo e que o ontem se junta ali com a data de dez anos atrás. Perduravam em seu rosto gastos vestígios de Inês, e um movimento da boca de Bob bastou para que eu visse outra vez o alongado corpo da garota, seus passos calmos e desenvoltos, e para que os próprios inalterados olhos azuis voltassem a fitar-me sob um frouxo penteado cruzado e preso por uma fita vermelha. Ausente e perdida para sempre, podia conservar-se viva e intacta, definitivamente inconfundível, idêntica ao que lhe era essencial. Mas era trabalhoso esmiuçar o rosto, as palavras e os gestos de Roberto para encontrar Bob e poder odiá-lo. Na tarde do primeiro encontro esperei durante horas que ficasse sozinho ou saísse para falar com ele e esmurra-lo. Quieto e silencioso, espiando, as vezes, seu rosto ou evocando Inês nas janelas brilhantes do café, compus ardilosamente as frases de insulto e encontrei o tom paciente em que iria dize-las, escolhi o local de seu corpo onde dar o primeiro golpe. Mas ele foi embora ao anoitecer na companhia dos três amigos, e resolvi esperar, como ele esperara anos atrás, a noite propicia em que estivesse sozinho.
Quando voltei a vê-lo, quando iniciamos esta segunda amizade que agora espero que nunca termine, deixei de pensar em toda forma de ataque. Ficou decidido que nunca lhe falaria de Inês nem do passado e que, em silencio, eu manteria tudo aquilo vivo dentro de mim. E só o que faço, quase todas as tardes, diante de Roberto e dos rostos familiares do café. Meu ódio se conservara aceso e novo enquanto eu puder continuar vendo e ouvindo Roberto; ninguém sabe de minha vingança, mas eu a vivo, gozosa e enfurecida, dia apos dia. Falo com ele, sorrio, fumo, tomo café. Todo o tempo pensando em Bob, em sua pureza, sua fé, na audácia de seus sonhos passados. Pensando no Bob que amava a musica, no Bob que planejava enobrecer a vida dos homens construindo uma cidade de ofuscante beleza para cinco milhões de habitantes, ao longo da costa do rio; o Bob que não conseguia mentir nunca; o Bob que proclamava a luta de jovens contra velhos; o Bob dono do futuro e do mundo. Pensava, minucioso e plácido, em tudo isso diante do homem de dedos sujos de tabaco chamado Roberto, que leva uma vida grotesca, trabalhando em algum escritório hediondo, casado com uma mulher a quem chama de “minha senhora”; o homem que passa estes longos domingos afundado na poltrona do café, espiando jornais e apostando em corridas por telefone.
Ninguém jamais amou uma mulher com a força com que amo sua ruindade, sua maneira definitiva de estar afundado na vida suja dos homens. Ninguém ficou arrebatado de amor como eu diante de seus fugazes sobressaltos, dos projetos sem convicção que um destruído e distante Bob lhe dita algumas vezes e que só servem para que meça com precisão até onde esta emporcalhado para sempre.
Não sei se algum dia, no passado, dei as boas-vindas a Inês com tanta alegria e amor como hoje dou diariamente as boas-vindas a Bob no tenebroso e fedorento mundo dos adultos. É ainda um recém-chegado e de vez em quando sofre suas crises de nostalgia. Eu o vi choroso e bêbado, insultando-se e jurando o iminente regresso aos dias de Bob. Posso garantir que então meu coração transborda de amor e se torna sensível e carinhoso como o de uma mãe. No fundo sei que ele nunca ira embora porque não tem para onde ir; mas me torno delicado e paciente e tento consola-lo. Como esse punhado de terra natal, ou essas fotografias de ruas e monumentos, ou as canções que gostam de trazer consigo os imigrantes, vou construindo para ele pianos, crenças e manhãs diferentes que tem luz e o sabor do pais de juventude de onde ele chegou há algum tempo. E ele aceita; protesta, sempre, para que eu redobre minhas promessas, depois acaba dizendo que sim, com um sorriso crispado e acreditando que algum dia ira regressar ao mundo das horas de Bob e fica em paz no meio de seus trinta anos, movendo-se sem desgosto nem tropeço entre os cadáveres pavorosos das antigas ambições, das formas repulsivas de sonhos que se foram gastando sob a pressão distraída e constante de tantos milhares de pés inevitáveis.
Juan Carlos Onetti
terça-feira, outubro 13
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