Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quinta-feira, agosto 27
Teoria da leitura
Tenho um vizinho de meia-idade, um senhor baixote e careca, que gosta de puxar conversa quando nos encontramos no elevador. Hoje cedo, descemos juntos. “Tem lido muito?” — ele me perguntou, só por perguntar. Sim, estou sempre lendo, respondo, sem interesse algum em alongar a conversa. Alguns segundos de silêncio desagradável nos afastam. E é aí, quebrando esse vácuo, que ele me diz: “Leio sempre também. Só que não leio livros, leio rostos”.
Explica-me o senhor Ramos que, quando tenta ler livros, pega logo no sono. Revistas, jornais, almanaques também o levam a adormecer. Só os rostos o acordam e estimulam. “O senhor já notou a quantidade de detalhes, de linhas e sinais secretos que os rostos guardam?” Contou que, sempre que esbarra com um rosto especial, logo depois toma seu bloco de notas e registra o que viu. “Mas a memória é desgraçada”, lamenta-se. “Logo esqueço do que vi. O mais importante sempre escapa.”
“Minha mulher diz que sou uma espécie primitiva de fotógrafo. Em vez da máquina, ou do celular, os olhos me bastam.” Tem vários cadernos preenchidos com suas anotações. E me choca: “Há algum tempo, cheguei a esboçar seu retrato. Ficou malfeito, porque nos encontramos sempre às pressas. É só um rascunho. Está anotado em algum lugar”. Tento inverter as posições e me coloco em seu lugar. Observo em detalhes seu rosto. O problema é que, por mais que eu me esforce, nada de notável consigo ver. Nada se destaca ou se realça. É um rosto branco, sem nuances, enrugado, sim, mas por igual, e sem exageros ou particularidades. Tudo nele parece estar em seu lugar, algum lugar traçado há milênios. Olho, olho, mas nada há a registrar. Nada se destaca. Logo desisto.
Recordo-me de que meu acupunturista, doutor Emanuel Jobi, me dizia que a cada área do rosto corresponde um dos órgãos internos do corpo humano. Lendo um rosto, se pode saber do fígado, dos rins, do pâncreas, do baço. Esses paralelos, ele me explicou, são um dos fundamentos da medicina chinesa. Que, na China milenar, se dedicassem a ler os rostos, não me espanta, acho assombroso e belo. Mas hoje, quando corremos tanto, quando o tempo nos escapa e as imagens nos sufocam, isso não faz mais sentido. Será possível ler um rosto a partir de uma selfie? Ia perguntar isso ao senhor Ramos, mas, temendo que a conversa se alongasse, me segurei.
Lembro que, quando menino, interessei-me pelas formigas. No quintal de nosso sítio, em Teresópolis, eu ficava um longo tempo entretido com seu séquito de gravetos e de folhas. Impressionava-me como eram rigorosas e metódicas. Como eram impecáveis. Agora, tanto tempo depois, e um tanto assustado, me pergunto: será que na infância, e sem saber disso, eu lia as formigas e seus desenhos no chão? Nunca fiz anotações a respeito. Se lia seus movimentos, nunca me preocupei em traduzi-los. Essa lembrança remota me vem já na portaria, mas ela logo é cortada pela presença perturbadora da senhora Parulla, uma costureira de bairro que se denomina estilista.
Quando me dirige a palavra, a senhora Parulla não me encara. Na verdade, ela ignora meu rosto. Em vez disso, inspeciona minha camisa, vigia minha gola, analisa meus sapatos. Age como uma fiscal de postura, que controla minha aparência e mal dá ouvidos ao que eu digo. Parece que, enquanto conversamos, ela lê minhas roupas. Só as roupas? Já notei seu desgosto ao observar minha barriga, e também seu nojo ao esquadrinhar os pelos de meus braços. Hoje ela repete seu ritual. “O senhor sempre apressado”, reclama, ao me ver em posição de fuga. Se corro, não lhe dou tempo de me analisar. De analisar meu corpo. Se corro, desmonto seu esboço de retrato, a impeço de me reproduzir.
“A costura me ensinou que as vestimentas são a alma das pessoas”, diz. Não sei o que comentar; nada lhe perguntei a respeito. Continua: “Não adianta vestir um terno emprestado, ou um sapato que não lhe pertence. Logo percebo que a pessoa está mentindo”. As roupas dizem verdades escandalosas, continua. As roupas berram — diz ainda, esgoelando-se em meus ouvidos. É infernal essa sequência de paralelos que agora me cerca. O senhor Ramos com seus semblantes, as formigas de minha infância, a senhora Parulla com seus moldes. É insuportável um mundo em que, por mais que se queira ficar quieto, a realidade grita e pede, todo o tempo, que a leiam.
Saio, enfim, para a calçada. Respiro aliviado: as pessoas com quem cruzo não estão interessadas em ler nada; querem apenas existir. “Talvez leiam e não saibam que leem”, resmunga a voz do senhor Ramos. Peço que se cale. Nada mais desejo além do silêncio da manhã. Quisera ser analfabeto, quisera não ver relação alguma entre as coisas, quisera apenas ver sem entender. Mas isso já não é possível. Quisera ser como Jasper, o cãozinho do 201, que é velho e cego e, como todos os cães, desconhece o alfabeto. Deve ser tão bom apenas sentir o mundo, sem a obrigação de interpretá-lo. Apenas observar e sentir, como fazem os pássaros e faz também o pobre Jasper, que se limita a cheirar o chão. Será que, quando ele cheira o chão, ele lê o chão?
Mas nem assim me livro. Mesmo com os olhos fechados, mesmo me limitando a farejar a manhã sem buscar sentido algum, mesmo desinteressado e cansado, elos se estabelecem, secretamente, entre as coisas. Diria o senhor Ramos: “Ninguém escapa da leitura”. Diante da realidade, o pensamento continua a organizar paralelos e a semear significados. A mente não para. Mesmo sem ler, mesmo sem desejar ler, continuo lendo. Vem-me à lembrança a “leitura silenciosa” que aprendi a praticar ainda no jardim de infância. A professora distribuía livros, nossos pequenos livros, e, estirados no chão, devíamos lê-los em silêncio, ler fingindo que não líamos. “Aprendam que o livro está dentro de vocês”, ela repetia. “Fora de vocês, nada há. Fora de vocês, só o silêncio.” Ocorre que, mesmo por dentro, elos se estabeleciam, significados se multiplicavam, orações se formavam. Ali, deitado no chão da escola, tudo começou. E não parou mais.
Explica-me o senhor Ramos que, quando tenta ler livros, pega logo no sono. Revistas, jornais, almanaques também o levam a adormecer. Só os rostos o acordam e estimulam. “O senhor já notou a quantidade de detalhes, de linhas e sinais secretos que os rostos guardam?” Contou que, sempre que esbarra com um rosto especial, logo depois toma seu bloco de notas e registra o que viu. “Mas a memória é desgraçada”, lamenta-se. “Logo esqueço do que vi. O mais importante sempre escapa.”
“Minha mulher diz que sou uma espécie primitiva de fotógrafo. Em vez da máquina, ou do celular, os olhos me bastam.” Tem vários cadernos preenchidos com suas anotações. E me choca: “Há algum tempo, cheguei a esboçar seu retrato. Ficou malfeito, porque nos encontramos sempre às pressas. É só um rascunho. Está anotado em algum lugar”. Tento inverter as posições e me coloco em seu lugar. Observo em detalhes seu rosto. O problema é que, por mais que eu me esforce, nada de notável consigo ver. Nada se destaca ou se realça. É um rosto branco, sem nuances, enrugado, sim, mas por igual, e sem exageros ou particularidades. Tudo nele parece estar em seu lugar, algum lugar traçado há milênios. Olho, olho, mas nada há a registrar. Nada se destaca. Logo desisto.
Recordo-me de que meu acupunturista, doutor Emanuel Jobi, me dizia que a cada área do rosto corresponde um dos órgãos internos do corpo humano. Lendo um rosto, se pode saber do fígado, dos rins, do pâncreas, do baço. Esses paralelos, ele me explicou, são um dos fundamentos da medicina chinesa. Que, na China milenar, se dedicassem a ler os rostos, não me espanta, acho assombroso e belo. Mas hoje, quando corremos tanto, quando o tempo nos escapa e as imagens nos sufocam, isso não faz mais sentido. Será possível ler um rosto a partir de uma selfie? Ia perguntar isso ao senhor Ramos, mas, temendo que a conversa se alongasse, me segurei.
Lembro que, quando menino, interessei-me pelas formigas. No quintal de nosso sítio, em Teresópolis, eu ficava um longo tempo entretido com seu séquito de gravetos e de folhas. Impressionava-me como eram rigorosas e metódicas. Como eram impecáveis. Agora, tanto tempo depois, e um tanto assustado, me pergunto: será que na infância, e sem saber disso, eu lia as formigas e seus desenhos no chão? Nunca fiz anotações a respeito. Se lia seus movimentos, nunca me preocupei em traduzi-los. Essa lembrança remota me vem já na portaria, mas ela logo é cortada pela presença perturbadora da senhora Parulla, uma costureira de bairro que se denomina estilista.
Quando me dirige a palavra, a senhora Parulla não me encara. Na verdade, ela ignora meu rosto. Em vez disso, inspeciona minha camisa, vigia minha gola, analisa meus sapatos. Age como uma fiscal de postura, que controla minha aparência e mal dá ouvidos ao que eu digo. Parece que, enquanto conversamos, ela lê minhas roupas. Só as roupas? Já notei seu desgosto ao observar minha barriga, e também seu nojo ao esquadrinhar os pelos de meus braços. Hoje ela repete seu ritual. “O senhor sempre apressado”, reclama, ao me ver em posição de fuga. Se corro, não lhe dou tempo de me analisar. De analisar meu corpo. Se corro, desmonto seu esboço de retrato, a impeço de me reproduzir.
“A costura me ensinou que as vestimentas são a alma das pessoas”, diz. Não sei o que comentar; nada lhe perguntei a respeito. Continua: “Não adianta vestir um terno emprestado, ou um sapato que não lhe pertence. Logo percebo que a pessoa está mentindo”. As roupas dizem verdades escandalosas, continua. As roupas berram — diz ainda, esgoelando-se em meus ouvidos. É infernal essa sequência de paralelos que agora me cerca. O senhor Ramos com seus semblantes, as formigas de minha infância, a senhora Parulla com seus moldes. É insuportável um mundo em que, por mais que se queira ficar quieto, a realidade grita e pede, todo o tempo, que a leiam.
Saio, enfim, para a calçada. Respiro aliviado: as pessoas com quem cruzo não estão interessadas em ler nada; querem apenas existir. “Talvez leiam e não saibam que leem”, resmunga a voz do senhor Ramos. Peço que se cale. Nada mais desejo além do silêncio da manhã. Quisera ser analfabeto, quisera não ver relação alguma entre as coisas, quisera apenas ver sem entender. Mas isso já não é possível. Quisera ser como Jasper, o cãozinho do 201, que é velho e cego e, como todos os cães, desconhece o alfabeto. Deve ser tão bom apenas sentir o mundo, sem a obrigação de interpretá-lo. Apenas observar e sentir, como fazem os pássaros e faz também o pobre Jasper, que se limita a cheirar o chão. Será que, quando ele cheira o chão, ele lê o chão?
Mas nem assim me livro. Mesmo com os olhos fechados, mesmo me limitando a farejar a manhã sem buscar sentido algum, mesmo desinteressado e cansado, elos se estabelecem, secretamente, entre as coisas. Diria o senhor Ramos: “Ninguém escapa da leitura”. Diante da realidade, o pensamento continua a organizar paralelos e a semear significados. A mente não para. Mesmo sem ler, mesmo sem desejar ler, continuo lendo. Vem-me à lembrança a “leitura silenciosa” que aprendi a praticar ainda no jardim de infância. A professora distribuía livros, nossos pequenos livros, e, estirados no chão, devíamos lê-los em silêncio, ler fingindo que não líamos. “Aprendam que o livro está dentro de vocês”, ela repetia. “Fora de vocês, nada há. Fora de vocês, só o silêncio.” Ocorre que, mesmo por dentro, elos se estabeleciam, significados se multiplicavam, orações se formavam. Ali, deitado no chão da escola, tudo começou. E não parou mais.
Parolagem da vida
Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
Carlos Drummond de Andrade, "Poesia e prosa"
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
Carlos Drummond de Andrade, "Poesia e prosa"
O espectro
— Venha aqui, ouça!
Quando falou assim a voz que o chamava, estava de pé, à porta de sua casinha, empunhando a bandeirola, que conservava enrolada no pauzinho que desempenhava as funções de haste.
Era tal a configuração do terreno que não parecia possível que pudesse ter dúvida sobre a procedência da minha voz. Contudo o homem, longe de erguer os olhos para o lugar em que me achava, à borda da trincheira, precisamente sobre a sua cabeça, deu meia volta e olhou em direção à vila.
— Venha aqui, ouça!
Só então deixou de esquadrinhar a linha. Girou de novo sobre os calcanhares e deitando a cabeça para trás distinguiu-me por cima do seu observatório.
— Há algum caminho que me permita descer até aí para travarmos conversação um pouco mais de perto?
Houve uma pausa, então. O homem examinava-me com profunda atenção. Por fim, apontou-me com a bandeirola um ponto situado a duzentas ou trezentas toesas à esquerda.
— Está tudo bem! Muito bem! — exclamei.
E dirigi-me ao lugar indicado. Lá, depois de muito olhar em torno de mim, descobri um estreito caminho, toscamente talhado em ziguezague e comecei a segui-lo.
A trincheira era funda em extremo. Estava talhada a pique sobre um bloco de pedra e, à medida que se descia, diminuía a consistência da pedra, ao passo que a umidade aumentava proporcionalmente. Vi-me obrigado a serpentear. Durante minhas voltas e reviravoltas não me saíam da memória o jeito indeciso e a rara timidez que havia notado no pobre homem quando se decidiu a indicar-me o caminho.
Concluídos os rodeios, tornei a contemplá-lo da vertente e pude observar que permanecia na via que dera passagem ao último trem. Sua atitude permitia afirmar que estava à minha espera.
Encostava o queixo na palma da mão esquerda, enquanto o braço correspondente procurava apoio no direito que tinha cruzado ao peito; e era tão singular a sua expectativa, refletia tanta ansiedade que parei por um pouco, cheio de surpresa.
Continuei descendo até chegar ao terreiro e então pude contemplar, à vontade, a pele morena, a barba negra e as sobrancelhas espessas da minha estranha personagem.
Sua casinha ocupava o lugar mais solitário e triste da via férrea. De cada um dos lados erguia-se um muro pedregoso que vertia água e impedia o olhar de espraiar-se pela imensidade do céu, de que só se distinguia uma faixa estreita.
E não eram mais alegres as perspectivas da estrada. De um lado via-se o prolongamento tortuoso desse grande cárcere; de outro, ainda mais limitado, o que atraía os olhares era uma luz de um vermelho sinistro, situada sobre a abertura de um túnel sombrio, cuja estrutura maciça oferecia um aspecto grosseiro e repulsivo. Os raios solares ali chegavam minguados e amortecidos; respirava-se um cheiro de subterrâneo. Um vento fúnebre que me gelou o sangue nas veias soprava daquela boca escura… Estremeci. Apossou-se de mim a idéia de que já não estava no mundo dos vivos.
O interpelado permanecia fixo no mesmo lugar. Cheguei-lhe ao lado; consegui tocar-lhe; mas perseverou indefinidamente na sua primitiva imobilidade. Enquanto não parei, permaneceu quieto em seu lugar. Depois, retrocedeu um passo e levantou a mão; mas não tinha deixado um só instante de assestar nos meus olhos o olhar desvairado dos seus.
— É bem solitário este posto — disse eu. — Já lá de cima, quando o descobri, foi o que me pareceu. Poucas visitas terá por aqui, não é verdade? mas nem por isso elas lhe serão desagradáveis… Pelo menos, é o que me parece! Sou um sujeito cuja vida decorre entre horizontes bem limitados. Por fim consegui alcançar a liberdade e minha curiosidade arrasta-me, apaixonadamente, ao exame cuidadoso das grandes construções ferroviárias. Tais investigações, inteiramente novas para mim, satisfarão minha ignorância com a maior precisão.
Disse-lhe aproximadamente essas palavras. Estou longe de reproduzi-las com absoluta fidelidade. Nunca fui muito forte na arte de entabular conversações e nessa ocasião, menos do que nunca, pois o interpelado tinha certa expressão pouco tranquilizadora, que me infundia medo.
Voltou-se, para registrar, com exagerada solicitude o lugar em que permanecia fixa a luz vermelha que só alumiava as proximidades do túnel, como se fizesse pouco caso dos outros objetos naquelas ermas paragens.
Por fim, dirigiu-me novamente o olhar.
— Está também a seu cargo a vigilância e cuidado desse sinal? — perguntei-lhe.
Respondeu, em voz calma:
— O quê?! Pois não sabia?
Era tão insistente a fixidez do seu olhar e tão intensa a sombra que lhe escurecia o rosto, que me cruzou pela mente uma suspeita singular.
Devia considerar como a um homem aquele ser que estava diante de mim? Não seria um fantasma? Mais tarde pensei que devia sentir-me contagiado pelo seu aspecto. Coube-me então a vez de retroceder um passo. Isso provocou no desgraçado os sinais mais inequívocos de terror. Eu lhe metia medo. Esta descoberta pôs fim às minhas suspeitas extravagantes.
— O senhor me olha — disse-lhe com um sorriso forçado — como se eu lhe fizesse medo.
— Parece-me que já o vi antes.
— Onde?
Indicou com a vista a luz vermelha.
— Ali? — perguntei-lhe.
— Sim — respondeu num gesto mudo de assentimento e sem tirar de mim os olhos ansiosos.
— Mas, bom homem, que é que eu poderia ir fazer ali? Ainda que isso fosse possível, creia que isso nunca me ocorreu e que nunca, em toda minha vida, pus os pés naquele lugar. Posso jurá-lo — disse; — estou bem certo disso e posso jurá-lo.
Por fim, pareceu que estas palavras tinham desfeito o gelo entre nós.
Daí em diante, respondeu com desembaraço às minhas perguntas.
Fez-me entrar na sua casinha, onde tinha um fogão, uma estante para o registro do serviço, um livro em que se estampava determinadas observações e um aparelho telegráfico composto de um mostrador com setas indicadoras e uma campainha de chamada.
O digno e excelente homem ter-me-ia merecido o conceito de empregado competentíssimo nas suas funções se não tivesse suspendido por duas vezes suas respostas, empalidecendo, para olhar para a campainha (que, no entanto, permanecia muda, nesses momentos), e não tivesse aberto a porta de sua vivenda (fechada unicamente para evitar a insalubre umidade) desejoso de olhar de fora a chama vermelha da entrada do túnel.
De ambas as vezes acompanhou o seu regresso para junto do fogão com aquele gesto inexplicável que lhe havia observado, sem poder defini-lo, quando nos olhamos a distância, eu, das minhas alturas, ele, das suas profundidades.
— Alegro-me de acreditar — disse-lhe, ao levantar-me para partir — que encontrei aqui um homem satisfeito com a sua sorte.
Era intenção minha induzi-lo a fazer-me qualquer comunicação.
— Sim, realmente, foi assim em outros tempos — respondeu — mas agora — acrescentou com essa voz apagada que havia empregado antes — estou inquieto, senhor: a inquietação me devora.
Teria querido, talvez retirar as suas palavras, mas já era impossível. Estavam irremediavelmente pronunciadas.
Aproveitei-me delas imediatamente.
— Por quê? Qual a causa da sua inquietação?
— É muito difícil explicá-la, cavalheiro; custa-me indizivelmente falar deste assunto. Se o senhor tornar a visitar-me, tentarei expandir-me.
— Acredito! Desejo vivamente voltar. Quando quer que eu apareça?
— Abandono este posto muito cedo, mas às dez horas da noite estarei de volta.
— Virei amanhã às onze.
Agradeceu-me e acompanhou-me até à porta.
— Porei à vista a minha luz branca — disse-me surdamente, conforme o seu costume — até que o senhor acerte com o caminho. Quando o encontrar, não grite, e ao regressar, quando se encontre no ressalto da trincheira, não o faça também.
As maneiras e o som da sua voz pareciam-me aumentar o aspecto glacial daquele lugar. Limitei-me a responder-lhe:
— Muito bem.
— Não se esqueça — continuou. — Quando vier amanhã à noite, não há necessidade de fazer barulho. Permita-me uma pergunta, para terminar. Por que gritou esta noite: “Venha aqui, ouça!”.
— Garanto-lhe que não sei. Mas, realmente, disse algo parecido com isso.
— Algo parecido, não, foi isso que disse. Conheço perfeitamente esse modo de chamar.
— Oh! não digo que não. Fiz assim simplesmente porque o avistava aqui no fundo.
— Só por esse motivo?
— Que outro poderia ser?
— Não lhe pareceu que alguém lhe ditava essas palavras: que obedecia, de certo modo, a uma influência sobrenatural?
— Não.
Deu-me boa noite e foi-me alumiando o caminho com a lanterna. Continuei andando ao longo da via férrea, fora dos trilhos, sob o peso de uma impressão desagradável. Parecia que tinha um comboio ao meu encalço… Achei finalmente o caminho. Foi-me fácil a subida e acabei por chegar à minha hospedaria, sem nenhum embaraço.
Veio a noite seguinte. Fiel à minha entrevista, punha o pé no primeiro degrau da encosta em ziguezague, ao bater das onze, que se ouvia ao longe.
O homem se achava ao pé da trincheira, espreitando a minha chegada com o seu farol branco ao alto.
— Não murmurei meia palavra — disse, ao chegar junto dele. — Posso falar agora?
— Sem dúvida, cavalheiro!
— Pois então boa noite. Venha de lá um aperto de mão.
— Boa noite, senhor. Aí vai.
Depois do cumprimento, dirigimo-nos, caminhando um ao lado do outro, para a casinhola. Entramos e sentamo-nos junto ao fogo.
— Não vou permitir que se incomode, cavalheiro (começou a dizer, inclinando-se e com voz imperceptível como um suspiro) perguntando-me novamente o motivo do meu desassossego. Ontem à tarde confundi-o com outra pessoa. Era esse o motivo da minha inquietação.
— Aborrece-o esse engano?
— Não é que o senhor me perturbe. O outro é que…
— Quem é esse outro?
— Não sei.
— Parece-se comigo?
— Também não sei. Nunca lhe vi o rosto. Esconde-o com o braço esquerdo, enquanto move rapidamente o direito, assim; veja.
Reparei na sua pantomima muda. Era uma série de gestos descompostos, que queria exprimir, de um modo veemente, convulsivo e apenas com um braço, esta frase: “Pelo amor de Deus! Saia do caminho!”
— Numa noite de luar — acrescentou o homem eu estava aqui, no lugar em que o senhor está agora, quando ouvi uma voz gritando: — Olhe cá, ouça! — Corri para fora. O outro estava de pé, junto ao sinal vermelho, gesticulando como lhe mostrei ainda agora. Estava rouco à força de gritar: Olhe, cuidado, cuidado! Não se calava nem por um segundo. Repetia sem descanso: Olhe, cuidado, cuidado! — agarrei o farol e corri para o homem, perguntando-lhe: — Que aconteceu? É um aviso ou um acidente? Em que lugar? — Parei a dez passos da entrada do túnel; fiquei tão perto dele que percebi, assombrado, que o desconhecido escondia o rosto com o braço esquerdo. Segui direito para ele, estendi a mão para descobrir-lhe o rosto; mas de repente, antes que o conseguisse, desapareceu.
— Pelo túnel? — perguntei.
— Não senhor. Percorri-o em toda a sua extensão de quinhentos metros; parei; levantei o farol em todas as direções; vi perfeitamente os números das cotas do nível e as indicações quilométricas escritas na parede. A umidade deslizava como azeite ao longo das pedras e gotejava pela abóbada; mas, nem sombra de ser humano! Voltei, então, sobre meus passos, mais rapidamente que na ida, porque me inspiravam horror mortal esses lugares. Depois de ter revistado minuciosamente os arredores da luz vermelha, sem abandonar um minuto o meu farol regulamentar, subi até o sinal. Nada! Desci de novo e fui telegrafar. Fi-lo por duas vezes. — Alarme. Que está acontecendo? — E de ambas as vezes me transmitiram a resposta costumeira: — Sem novidade.
Enquanto o guarda-chaves falava, parecia-me que um dedo gelado me percorria lentamente a espinha. Resisti quanto pude a essa sensação, esforçando-me por dar a entender ao infeliz que semelhante aparição fora o resultado de uma ilusão de ótica e que aquele grito imaginário podia bem ter sido causado pelo ruído do ar ao chicotear os fios do telégrafo ou ao chocar-se com as altas paredes, arrancando ao silêncio da noite as suas notas lúgubres de harpa eólia.
Deixou-me acabar, movendo a cabeça, mas sem dar sinais de impaciência.
Depois, ao cabo de alguns instantes, observou-me que conhecia perfeitamente o ruído dos fios vibrados pelo impulso do vento. Ninguém era como ele tão capaz de distingui-lo, pois tinha passado ali, sozinho, em vigília, muitas, muitíssimas intermináveis noites de inverno.
Disse-me, além disso, que não tinha acabado ainda sua narração.
Pedi-lhe que me perdoasse a interrupção; e ele, então apoiando suavemente a mão no meu braço esquerdo, prosseguiu lentamente:
— Seis horas depois da aparição ocorreu um desastre memorável na via; e, ao cabo de outras duas, retiraram os mortos e feridos do túnel, depositando-os no mesmo lugar em que tinha visto o fantasma.
Estremeci, da cabeça aos pés. Contudo, consegui dominar-me.
— Certamente — disse-lhe — não há dúvida de que houve uma coincidência notável, capaz de impressionar profundamente a sua imaginação. Mas é igualmente exato, que muito frequentemente ocorrem casos parecidos.
Observou-me novamente que ainda não terminara.
— O que lhe contei — prosseguiu pondo-me outra vez a mão no braço e dirigindo-me por cima do ombro um olhar insistente — ocorreu há um ano já. Seis ou sete meses depois, quando não havia voltado a mim ainda da minha surpresa, nem me achava reposto da passada emoção, uma madrugada, ao amanhecer, achando-me no interior da minha barraca, olhando para a luz vermelha, tornei a ver o espectro.
Guardou silêncio por um pouco e cravou em mim o seu olhar.
— Vamos a ver, ocorreu algum outro acidente depois dessa ressurreição?
Tocou-me várias vezes com a ponta dos dedos, movendo sempre a cabeça com uma lentidão de espectro que me gelava o sangue nas veias.
— Naquele mesmo dia, cavalheiro – continuou — à passagem de um trem que saía do túnel, observei num compartimento movimentos descompostos de mãos, de cabeças… numa palavra, uma agitação extraordinária. Dei sinal de parada; o maquinista deu imediatamente contravapor e apertou os freios; o trem, contudo, andou ainda cem ou cento e cinquenta metros. Deitei a correr e ouvi, efetivamente, gemidos e lamentos desesperados. Uma linda mulher tinha sido assassinada num vagão. Trouxeram-na ao meu posto e deixaram-na aqui onde conversamos agora.
Involuntariamente, puxei minha cadeira para trás e não tirei dele os olhos.
— Cavalheiro, esta é a pura verdade. Conto-lhe o acontecimento com toda a precisão.
Já não conseguia falar nem pensar. Fora, o vento e os fios do telégrafo ajuntavam ao horror da narração o acompanhamento de sua voz lastimosa e prolongada. E o homem concluiu:
— Julgue o senhor se posso ter ânimo sereno; há uma semana reapareceu a visão e, de então para cá, não deixou de apresentar-se diante dos meus olhos, de quando em quando.
— Na luz vermelha?
— Sim, no sinal de perigo.
— E o que faz ali?
— Mais veementemente ainda, se é possível, repete os gestos de angústia, como que dizendo: Pelo amor de Deus, saia do caminho.
— Já conhece agora — acrescentou — a causa do meu desassossego. Não tenho trégua nem descanso. O desconhecido me chama por vários minutos consecutivos, empregando sempre o seu grito desesperado: Ouça cá, cuidado! — Agita o braço e dá alarma com a campainha…
Ao ouvir estas palavras, interrompi-o:
— Diga-me o senhor se a campainha tocou ontem à tarde, quando me aproximava daqui, à hora em que o senhor saiu.
— Duas vezes.
— Duas vezes? — repliquei. — Isso prova o quanto a sua imaginação está desorientada. Eu era todo olhos e ouvidos; pois bem, tão certo como eu estar vivo, a campainha não tocou essas duas vezes. Não, nem tocou dessa vez nem das anteriores, está claro que toca, mas quando se comunicam com o senhor dos postos vizinhos.
Meneou a cabeça.
— Não me engano nisso, cavalheiro — replicou. — Nunca confundi a chamada do fantasma com a de meus companheiros. A vibração daquela é especial, não se transmite pelos fios. Não digo que ele toque a campainha; mas que soa, não há dúvida. Não há nada de singular em que o senhor não a tenha ouvido. Eu, por minha parte, ouvia-a exatamente como a ouço sempre: muito bem.
— E quando saiu para fora, viu a aparição?
— Vi.
— As duas vezes?
— As duas — afirmou, com plena convicção.
— Quer sair comigo e olhar agora?
Mordeu os lábios, mas levantou-se.
Abri a porta, detendo-me um momento no limiar. Meu interlocutor ficou a alguma distância. Tudo permanecia no seu respectivo lugar: a luz do sinal, a abóbada do túnel, a parte enorme impregnada de umidade… tudo permanecia o mesmo, à luz das estrelas. — Vê qualquer coisa de anormal? — perguntei, fixando-lhe atentamente o rosto. — Tinha os olhos muito abertos, talvez não tanto como os meus, que ergui, ao mesmo tempo que ele, na direção temida.
— Não — respondeu — não vejo nada.
— Bem — disse eu. — Estamos de acordo!
Entramos novamente e tomamos lugar junto ao fogo. Pensava eu em como tirar melhor partido do bom êxito obtido, se assim podia chamar-se o resultado negativo de nossa inspeção ocular, quando o nosso homem reatou a sua narrativa no mesmo ponto em que a havia interrompido, convindo na afirmação de que os fatos repetidos, objeto de nossa narrativa, não podiam seriamente constituir base para um alarme. Foi um novo embaraço para mim.
— Isso aumenta, cavalheiro, a espantosa confusão em que me acho. Não cesso de perguntar-me: o que quererá anunciar o fantasma?
— Não sei — disse — se compreende claramente…
— Contra que risco vou prevenir-me? — continuou dizendo com ar pensativo, cravando o olhar ora no fogão, ora em mim. — Que perigo está ameaçando? Onde acontecerá? Porque, sem dúvida nenhuma, está-se aproximando da linha um perigo qualquer. Uma terceira desgraça nos ameaça… quem poderá negá-lo, dados os precedentes dos fatos anteriores! Assim, ao que parece, o senhor me julga meio doido! Posso, acaso, evitá-lo? Que devo resolver? Que fazer?
Tirou o lenço e enxugou o suor da fronte.
— Se telegrafo para baixo ou para cima, ou em ambos os sentidos, que fundamento posso alegar? acrescentou, enxugando as palmas das mãos como tinha enxugado a fronte momentos antes. — Só criarei confusão, a mesma que experimento eu, sem vantagem nenhuma em favor do próximo. E hão de julgar-me louco… Veja o senhor! dar-se-ia o seguinte. Telegrama: “Perigo, atenção.” Resposta: “Que perigo? Onde?” Telegrama: “Não sei; mas pelo amor de Deus, estejam de sobreaviso.” Despedir-me-iam do emprego. Poderia suceder outra coisa?
Causava dó a agitação do infeliz. Ao vê-lo assim entendi que, por uma questão de caridade e por assim o exigir a segurança do público, o que havia a fazer, em primeiro lugar, era acalmar o pobre homem. Deixando, pois, para outra ocasião discutirmos se era real ou ilusória essa necessidade, procurei persuadi-lo de que todo empregado fiel e perito no cumprimento de seus deveres procede sempre corretamente e que, tendo ele perfeita consciência de sua obrigação, devia ficar tranqüilo e sem inquietar-se pelo inexplicável das aparições. Minha tática deu melhor resultado que a oposição às suas supersticiosas convicções. Acalmei-o. As exigências do serviço e os incidentes próprios de tais ocasiões reclamavam-lhe todo cuidado. Eram duas horas da madrugada. Deixei-o então, não sem haver-me oferecido antes para ficar em sua companhia até o amanhecer, mas ele não consentiu nisso.
No dia seguinte, estava tão linda a tarde que me apressei a sair, depois do jantar, para aproveitar-lhe a beleza. Ia caindo o sol quando tomei o caminho que, através dos campos, levava até à encosta que dava acesso à via férrea. “É questão de mais uma hora”, pensei. “Em trinta minutos chegarei até ali e em outros trinta terei regressado do meu passeio, que não terá durando grande coisa. Conto falar com o meu guarda-chaves no momento mais propício.”
Antes de terminar o meu caminho, assomei ao parapeito da trincheira e olhei maquinalmente para o fundo, exatamente no mesmo lugar em que interpelei, pela primeira vez, tão estranha personagem. Como descrever o sentimento de horror que me petrificou ao observar que um ser homem ou fantasma, colocado rente à entrada do túnel, agitava vivamente o braço direito, enquanto com o esquerdo escondia o rosto! O indizível espanto que esta visão me produziu durou um momento só; pois não demorei em ver que não era ilusão nenhuma, como o dava a entender um grupo de indivíduos, aos quais se dirigia a personagem que primeiro avistei; esta, naturalmente, com os seus gestos, pretendia explicar-lhes o acontecido. Ainda não se percebia o luzir vermelho do sinal. Divisava vagamente do lado do poste uma espécie de barriquinha construída com espeques de madeira e uma tela de lona embreada. O seu vulto não era maior que uma cama pequena.
O rápido pressentimento de uma desgraça cruzou-me pela mente. Corri para a vereda em ziguezague e desci por ela, com toda a precipitação que pude.
— Que aconteceu? — perguntei.
— Um guarda-chaves, cavalheiro, que foi morto esta manhã.
— Não será o desta casinha?
— Sim, senhor.
— Aquele que eu conhecia?
— Fácil lhe será reconhecê-lo — disse o homem que respondia às minhas perguntas.
Tirou gravemente o chapéu e levantando uma ponta da tela:
— Não está desfigurado — acrescentou.
— Deus meu! Mas como aconteceu a desgraça? Que se passou aqui? — Repeti, indo de um lado para outro, apenas caiu o negro sudário.
— Cavalheiro, a máquina o feriu. Ninguém conhecia nem desempenhava melhor suas obrigações; mas hoje, sabe-se lá por quê? não soube acautelar-se. Era já dia claro; trazia ainda o farol aceso. Um trem saía do túnel; o guarda estava ali, de costas. Foi derrubado. É este o maquinista. Ele lhe dirá o que aconteceu, com todos os pormenores… — Tom, dê a este cavalheiro todos os detalhes…
O maquinista, foi até a boca do túnel.
— Vou explicar-lhe como se passou, cavalheiro. Da curva que faz a via, ali dentro, vi o guarda-chaves junto à saída como se vê um homem por um binóculo. Não havia tempo para apertar os freios; mas não me inquietei por isso. Tive-o sempre por homem cauteloso. Contudo, como me pareceu que não o preocupava o silvo da locomotiva, soltei vapor… Estávamos já em cima dele… Chamei-o com toda a força dos pulmões.
— Que foi que o senhor disse?
— Gritei: “Olha lá! Oh! Oh! Fuja, fuja! Saia da linha!”
Estremeci.
— Ah, senhor! Foi um rude transe! Não parei de chamá-lo. Ocultei o rosto com este braço e nem um momento deixei de agitar nervosamente o outro. Nada consegui!
Assim terminou, com essa morte trágica, tão extraordinária aventura, cujo mistério jamais consegui decifrar.
Quando falou assim a voz que o chamava, estava de pé, à porta de sua casinha, empunhando a bandeirola, que conservava enrolada no pauzinho que desempenhava as funções de haste.
Era tal a configuração do terreno que não parecia possível que pudesse ter dúvida sobre a procedência da minha voz. Contudo o homem, longe de erguer os olhos para o lugar em que me achava, à borda da trincheira, precisamente sobre a sua cabeça, deu meia volta e olhou em direção à vila.
— Venha aqui, ouça!
Só então deixou de esquadrinhar a linha. Girou de novo sobre os calcanhares e deitando a cabeça para trás distinguiu-me por cima do seu observatório.
— Há algum caminho que me permita descer até aí para travarmos conversação um pouco mais de perto?
Houve uma pausa, então. O homem examinava-me com profunda atenção. Por fim, apontou-me com a bandeirola um ponto situado a duzentas ou trezentas toesas à esquerda.
— Está tudo bem! Muito bem! — exclamei.
E dirigi-me ao lugar indicado. Lá, depois de muito olhar em torno de mim, descobri um estreito caminho, toscamente talhado em ziguezague e comecei a segui-lo.
A trincheira era funda em extremo. Estava talhada a pique sobre um bloco de pedra e, à medida que se descia, diminuía a consistência da pedra, ao passo que a umidade aumentava proporcionalmente. Vi-me obrigado a serpentear. Durante minhas voltas e reviravoltas não me saíam da memória o jeito indeciso e a rara timidez que havia notado no pobre homem quando se decidiu a indicar-me o caminho.
Concluídos os rodeios, tornei a contemplá-lo da vertente e pude observar que permanecia na via que dera passagem ao último trem. Sua atitude permitia afirmar que estava à minha espera.
Encostava o queixo na palma da mão esquerda, enquanto o braço correspondente procurava apoio no direito que tinha cruzado ao peito; e era tão singular a sua expectativa, refletia tanta ansiedade que parei por um pouco, cheio de surpresa.
Continuei descendo até chegar ao terreiro e então pude contemplar, à vontade, a pele morena, a barba negra e as sobrancelhas espessas da minha estranha personagem.
Sua casinha ocupava o lugar mais solitário e triste da via férrea. De cada um dos lados erguia-se um muro pedregoso que vertia água e impedia o olhar de espraiar-se pela imensidade do céu, de que só se distinguia uma faixa estreita.
E não eram mais alegres as perspectivas da estrada. De um lado via-se o prolongamento tortuoso desse grande cárcere; de outro, ainda mais limitado, o que atraía os olhares era uma luz de um vermelho sinistro, situada sobre a abertura de um túnel sombrio, cuja estrutura maciça oferecia um aspecto grosseiro e repulsivo. Os raios solares ali chegavam minguados e amortecidos; respirava-se um cheiro de subterrâneo. Um vento fúnebre que me gelou o sangue nas veias soprava daquela boca escura… Estremeci. Apossou-se de mim a idéia de que já não estava no mundo dos vivos.
O interpelado permanecia fixo no mesmo lugar. Cheguei-lhe ao lado; consegui tocar-lhe; mas perseverou indefinidamente na sua primitiva imobilidade. Enquanto não parei, permaneceu quieto em seu lugar. Depois, retrocedeu um passo e levantou a mão; mas não tinha deixado um só instante de assestar nos meus olhos o olhar desvairado dos seus.
— É bem solitário este posto — disse eu. — Já lá de cima, quando o descobri, foi o que me pareceu. Poucas visitas terá por aqui, não é verdade? mas nem por isso elas lhe serão desagradáveis… Pelo menos, é o que me parece! Sou um sujeito cuja vida decorre entre horizontes bem limitados. Por fim consegui alcançar a liberdade e minha curiosidade arrasta-me, apaixonadamente, ao exame cuidadoso das grandes construções ferroviárias. Tais investigações, inteiramente novas para mim, satisfarão minha ignorância com a maior precisão.
Disse-lhe aproximadamente essas palavras. Estou longe de reproduzi-las com absoluta fidelidade. Nunca fui muito forte na arte de entabular conversações e nessa ocasião, menos do que nunca, pois o interpelado tinha certa expressão pouco tranquilizadora, que me infundia medo.
Voltou-se, para registrar, com exagerada solicitude o lugar em que permanecia fixa a luz vermelha que só alumiava as proximidades do túnel, como se fizesse pouco caso dos outros objetos naquelas ermas paragens.
Por fim, dirigiu-me novamente o olhar.
— Está também a seu cargo a vigilância e cuidado desse sinal? — perguntei-lhe.
Respondeu, em voz calma:
— O quê?! Pois não sabia?
Era tão insistente a fixidez do seu olhar e tão intensa a sombra que lhe escurecia o rosto, que me cruzou pela mente uma suspeita singular.
Devia considerar como a um homem aquele ser que estava diante de mim? Não seria um fantasma? Mais tarde pensei que devia sentir-me contagiado pelo seu aspecto. Coube-me então a vez de retroceder um passo. Isso provocou no desgraçado os sinais mais inequívocos de terror. Eu lhe metia medo. Esta descoberta pôs fim às minhas suspeitas extravagantes.
— O senhor me olha — disse-lhe com um sorriso forçado — como se eu lhe fizesse medo.
— Parece-me que já o vi antes.
— Onde?
Indicou com a vista a luz vermelha.
— Ali? — perguntei-lhe.
— Sim — respondeu num gesto mudo de assentimento e sem tirar de mim os olhos ansiosos.
— Mas, bom homem, que é que eu poderia ir fazer ali? Ainda que isso fosse possível, creia que isso nunca me ocorreu e que nunca, em toda minha vida, pus os pés naquele lugar. Posso jurá-lo — disse; — estou bem certo disso e posso jurá-lo.
Por fim, pareceu que estas palavras tinham desfeito o gelo entre nós.
Daí em diante, respondeu com desembaraço às minhas perguntas.
Fez-me entrar na sua casinha, onde tinha um fogão, uma estante para o registro do serviço, um livro em que se estampava determinadas observações e um aparelho telegráfico composto de um mostrador com setas indicadoras e uma campainha de chamada.
O digno e excelente homem ter-me-ia merecido o conceito de empregado competentíssimo nas suas funções se não tivesse suspendido por duas vezes suas respostas, empalidecendo, para olhar para a campainha (que, no entanto, permanecia muda, nesses momentos), e não tivesse aberto a porta de sua vivenda (fechada unicamente para evitar a insalubre umidade) desejoso de olhar de fora a chama vermelha da entrada do túnel.
De ambas as vezes acompanhou o seu regresso para junto do fogão com aquele gesto inexplicável que lhe havia observado, sem poder defini-lo, quando nos olhamos a distância, eu, das minhas alturas, ele, das suas profundidades.
— Alegro-me de acreditar — disse-lhe, ao levantar-me para partir — que encontrei aqui um homem satisfeito com a sua sorte.
Era intenção minha induzi-lo a fazer-me qualquer comunicação.
— Sim, realmente, foi assim em outros tempos — respondeu — mas agora — acrescentou com essa voz apagada que havia empregado antes — estou inquieto, senhor: a inquietação me devora.
Teria querido, talvez retirar as suas palavras, mas já era impossível. Estavam irremediavelmente pronunciadas.
Aproveitei-me delas imediatamente.
— Por quê? Qual a causa da sua inquietação?
— É muito difícil explicá-la, cavalheiro; custa-me indizivelmente falar deste assunto. Se o senhor tornar a visitar-me, tentarei expandir-me.
— Acredito! Desejo vivamente voltar. Quando quer que eu apareça?
— Abandono este posto muito cedo, mas às dez horas da noite estarei de volta.
— Virei amanhã às onze.
Agradeceu-me e acompanhou-me até à porta.
— Porei à vista a minha luz branca — disse-me surdamente, conforme o seu costume — até que o senhor acerte com o caminho. Quando o encontrar, não grite, e ao regressar, quando se encontre no ressalto da trincheira, não o faça também.
As maneiras e o som da sua voz pareciam-me aumentar o aspecto glacial daquele lugar. Limitei-me a responder-lhe:
— Muito bem.
— Não se esqueça — continuou. — Quando vier amanhã à noite, não há necessidade de fazer barulho. Permita-me uma pergunta, para terminar. Por que gritou esta noite: “Venha aqui, ouça!”.
— Garanto-lhe que não sei. Mas, realmente, disse algo parecido com isso.
— Algo parecido, não, foi isso que disse. Conheço perfeitamente esse modo de chamar.
— Oh! não digo que não. Fiz assim simplesmente porque o avistava aqui no fundo.
— Só por esse motivo?
— Que outro poderia ser?
— Não lhe pareceu que alguém lhe ditava essas palavras: que obedecia, de certo modo, a uma influência sobrenatural?
— Não.
Deu-me boa noite e foi-me alumiando o caminho com a lanterna. Continuei andando ao longo da via férrea, fora dos trilhos, sob o peso de uma impressão desagradável. Parecia que tinha um comboio ao meu encalço… Achei finalmente o caminho. Foi-me fácil a subida e acabei por chegar à minha hospedaria, sem nenhum embaraço.
Veio a noite seguinte. Fiel à minha entrevista, punha o pé no primeiro degrau da encosta em ziguezague, ao bater das onze, que se ouvia ao longe.
O homem se achava ao pé da trincheira, espreitando a minha chegada com o seu farol branco ao alto.
— Não murmurei meia palavra — disse, ao chegar junto dele. — Posso falar agora?
— Sem dúvida, cavalheiro!
— Pois então boa noite. Venha de lá um aperto de mão.
— Boa noite, senhor. Aí vai.
Depois do cumprimento, dirigimo-nos, caminhando um ao lado do outro, para a casinhola. Entramos e sentamo-nos junto ao fogo.
— Não vou permitir que se incomode, cavalheiro (começou a dizer, inclinando-se e com voz imperceptível como um suspiro) perguntando-me novamente o motivo do meu desassossego. Ontem à tarde confundi-o com outra pessoa. Era esse o motivo da minha inquietação.
— Aborrece-o esse engano?
— Não é que o senhor me perturbe. O outro é que…
— Quem é esse outro?
— Não sei.
— Parece-se comigo?
— Também não sei. Nunca lhe vi o rosto. Esconde-o com o braço esquerdo, enquanto move rapidamente o direito, assim; veja.
Reparei na sua pantomima muda. Era uma série de gestos descompostos, que queria exprimir, de um modo veemente, convulsivo e apenas com um braço, esta frase: “Pelo amor de Deus! Saia do caminho!”
— Numa noite de luar — acrescentou o homem eu estava aqui, no lugar em que o senhor está agora, quando ouvi uma voz gritando: — Olhe cá, ouça! — Corri para fora. O outro estava de pé, junto ao sinal vermelho, gesticulando como lhe mostrei ainda agora. Estava rouco à força de gritar: Olhe, cuidado, cuidado! Não se calava nem por um segundo. Repetia sem descanso: Olhe, cuidado, cuidado! — agarrei o farol e corri para o homem, perguntando-lhe: — Que aconteceu? É um aviso ou um acidente? Em que lugar? — Parei a dez passos da entrada do túnel; fiquei tão perto dele que percebi, assombrado, que o desconhecido escondia o rosto com o braço esquerdo. Segui direito para ele, estendi a mão para descobrir-lhe o rosto; mas de repente, antes que o conseguisse, desapareceu.
— Pelo túnel? — perguntei.
— Não senhor. Percorri-o em toda a sua extensão de quinhentos metros; parei; levantei o farol em todas as direções; vi perfeitamente os números das cotas do nível e as indicações quilométricas escritas na parede. A umidade deslizava como azeite ao longo das pedras e gotejava pela abóbada; mas, nem sombra de ser humano! Voltei, então, sobre meus passos, mais rapidamente que na ida, porque me inspiravam horror mortal esses lugares. Depois de ter revistado minuciosamente os arredores da luz vermelha, sem abandonar um minuto o meu farol regulamentar, subi até o sinal. Nada! Desci de novo e fui telegrafar. Fi-lo por duas vezes. — Alarme. Que está acontecendo? — E de ambas as vezes me transmitiram a resposta costumeira: — Sem novidade.
Enquanto o guarda-chaves falava, parecia-me que um dedo gelado me percorria lentamente a espinha. Resisti quanto pude a essa sensação, esforçando-me por dar a entender ao infeliz que semelhante aparição fora o resultado de uma ilusão de ótica e que aquele grito imaginário podia bem ter sido causado pelo ruído do ar ao chicotear os fios do telégrafo ou ao chocar-se com as altas paredes, arrancando ao silêncio da noite as suas notas lúgubres de harpa eólia.
Deixou-me acabar, movendo a cabeça, mas sem dar sinais de impaciência.
Depois, ao cabo de alguns instantes, observou-me que conhecia perfeitamente o ruído dos fios vibrados pelo impulso do vento. Ninguém era como ele tão capaz de distingui-lo, pois tinha passado ali, sozinho, em vigília, muitas, muitíssimas intermináveis noites de inverno.
Disse-me, além disso, que não tinha acabado ainda sua narração.
Pedi-lhe que me perdoasse a interrupção; e ele, então apoiando suavemente a mão no meu braço esquerdo, prosseguiu lentamente:
— Seis horas depois da aparição ocorreu um desastre memorável na via; e, ao cabo de outras duas, retiraram os mortos e feridos do túnel, depositando-os no mesmo lugar em que tinha visto o fantasma.
Estremeci, da cabeça aos pés. Contudo, consegui dominar-me.
— Certamente — disse-lhe — não há dúvida de que houve uma coincidência notável, capaz de impressionar profundamente a sua imaginação. Mas é igualmente exato, que muito frequentemente ocorrem casos parecidos.
Observou-me novamente que ainda não terminara.
— O que lhe contei — prosseguiu pondo-me outra vez a mão no braço e dirigindo-me por cima do ombro um olhar insistente — ocorreu há um ano já. Seis ou sete meses depois, quando não havia voltado a mim ainda da minha surpresa, nem me achava reposto da passada emoção, uma madrugada, ao amanhecer, achando-me no interior da minha barraca, olhando para a luz vermelha, tornei a ver o espectro.
Guardou silêncio por um pouco e cravou em mim o seu olhar.
— Vamos a ver, ocorreu algum outro acidente depois dessa ressurreição?
Tocou-me várias vezes com a ponta dos dedos, movendo sempre a cabeça com uma lentidão de espectro que me gelava o sangue nas veias.
— Naquele mesmo dia, cavalheiro – continuou — à passagem de um trem que saía do túnel, observei num compartimento movimentos descompostos de mãos, de cabeças… numa palavra, uma agitação extraordinária. Dei sinal de parada; o maquinista deu imediatamente contravapor e apertou os freios; o trem, contudo, andou ainda cem ou cento e cinquenta metros. Deitei a correr e ouvi, efetivamente, gemidos e lamentos desesperados. Uma linda mulher tinha sido assassinada num vagão. Trouxeram-na ao meu posto e deixaram-na aqui onde conversamos agora.
Involuntariamente, puxei minha cadeira para trás e não tirei dele os olhos.
— Cavalheiro, esta é a pura verdade. Conto-lhe o acontecimento com toda a precisão.
Já não conseguia falar nem pensar. Fora, o vento e os fios do telégrafo ajuntavam ao horror da narração o acompanhamento de sua voz lastimosa e prolongada. E o homem concluiu:
— Julgue o senhor se posso ter ânimo sereno; há uma semana reapareceu a visão e, de então para cá, não deixou de apresentar-se diante dos meus olhos, de quando em quando.
— Na luz vermelha?
— Sim, no sinal de perigo.
— E o que faz ali?
— Mais veementemente ainda, se é possível, repete os gestos de angústia, como que dizendo: Pelo amor de Deus, saia do caminho.
— Já conhece agora — acrescentou — a causa do meu desassossego. Não tenho trégua nem descanso. O desconhecido me chama por vários minutos consecutivos, empregando sempre o seu grito desesperado: Ouça cá, cuidado! — Agita o braço e dá alarma com a campainha…
Ao ouvir estas palavras, interrompi-o:
— Diga-me o senhor se a campainha tocou ontem à tarde, quando me aproximava daqui, à hora em que o senhor saiu.
— Duas vezes.
— Duas vezes? — repliquei. — Isso prova o quanto a sua imaginação está desorientada. Eu era todo olhos e ouvidos; pois bem, tão certo como eu estar vivo, a campainha não tocou essas duas vezes. Não, nem tocou dessa vez nem das anteriores, está claro que toca, mas quando se comunicam com o senhor dos postos vizinhos.
Meneou a cabeça.
— Não me engano nisso, cavalheiro — replicou. — Nunca confundi a chamada do fantasma com a de meus companheiros. A vibração daquela é especial, não se transmite pelos fios. Não digo que ele toque a campainha; mas que soa, não há dúvida. Não há nada de singular em que o senhor não a tenha ouvido. Eu, por minha parte, ouvia-a exatamente como a ouço sempre: muito bem.
— E quando saiu para fora, viu a aparição?
— Vi.
— As duas vezes?
— As duas — afirmou, com plena convicção.
— Quer sair comigo e olhar agora?
Mordeu os lábios, mas levantou-se.
Abri a porta, detendo-me um momento no limiar. Meu interlocutor ficou a alguma distância. Tudo permanecia no seu respectivo lugar: a luz do sinal, a abóbada do túnel, a parte enorme impregnada de umidade… tudo permanecia o mesmo, à luz das estrelas. — Vê qualquer coisa de anormal? — perguntei, fixando-lhe atentamente o rosto. — Tinha os olhos muito abertos, talvez não tanto como os meus, que ergui, ao mesmo tempo que ele, na direção temida.
— Não — respondeu — não vejo nada.
— Bem — disse eu. — Estamos de acordo!
Entramos novamente e tomamos lugar junto ao fogo. Pensava eu em como tirar melhor partido do bom êxito obtido, se assim podia chamar-se o resultado negativo de nossa inspeção ocular, quando o nosso homem reatou a sua narrativa no mesmo ponto em que a havia interrompido, convindo na afirmação de que os fatos repetidos, objeto de nossa narrativa, não podiam seriamente constituir base para um alarme. Foi um novo embaraço para mim.
— Isso aumenta, cavalheiro, a espantosa confusão em que me acho. Não cesso de perguntar-me: o que quererá anunciar o fantasma?
— Não sei — disse — se compreende claramente…
— Contra que risco vou prevenir-me? — continuou dizendo com ar pensativo, cravando o olhar ora no fogão, ora em mim. — Que perigo está ameaçando? Onde acontecerá? Porque, sem dúvida nenhuma, está-se aproximando da linha um perigo qualquer. Uma terceira desgraça nos ameaça… quem poderá negá-lo, dados os precedentes dos fatos anteriores! Assim, ao que parece, o senhor me julga meio doido! Posso, acaso, evitá-lo? Que devo resolver? Que fazer?
Tirou o lenço e enxugou o suor da fronte.
— Se telegrafo para baixo ou para cima, ou em ambos os sentidos, que fundamento posso alegar? acrescentou, enxugando as palmas das mãos como tinha enxugado a fronte momentos antes. — Só criarei confusão, a mesma que experimento eu, sem vantagem nenhuma em favor do próximo. E hão de julgar-me louco… Veja o senhor! dar-se-ia o seguinte. Telegrama: “Perigo, atenção.” Resposta: “Que perigo? Onde?” Telegrama: “Não sei; mas pelo amor de Deus, estejam de sobreaviso.” Despedir-me-iam do emprego. Poderia suceder outra coisa?
Causava dó a agitação do infeliz. Ao vê-lo assim entendi que, por uma questão de caridade e por assim o exigir a segurança do público, o que havia a fazer, em primeiro lugar, era acalmar o pobre homem. Deixando, pois, para outra ocasião discutirmos se era real ou ilusória essa necessidade, procurei persuadi-lo de que todo empregado fiel e perito no cumprimento de seus deveres procede sempre corretamente e que, tendo ele perfeita consciência de sua obrigação, devia ficar tranqüilo e sem inquietar-se pelo inexplicável das aparições. Minha tática deu melhor resultado que a oposição às suas supersticiosas convicções. Acalmei-o. As exigências do serviço e os incidentes próprios de tais ocasiões reclamavam-lhe todo cuidado. Eram duas horas da madrugada. Deixei-o então, não sem haver-me oferecido antes para ficar em sua companhia até o amanhecer, mas ele não consentiu nisso.
No dia seguinte, estava tão linda a tarde que me apressei a sair, depois do jantar, para aproveitar-lhe a beleza. Ia caindo o sol quando tomei o caminho que, através dos campos, levava até à encosta que dava acesso à via férrea. “É questão de mais uma hora”, pensei. “Em trinta minutos chegarei até ali e em outros trinta terei regressado do meu passeio, que não terá durando grande coisa. Conto falar com o meu guarda-chaves no momento mais propício.”
Antes de terminar o meu caminho, assomei ao parapeito da trincheira e olhei maquinalmente para o fundo, exatamente no mesmo lugar em que interpelei, pela primeira vez, tão estranha personagem. Como descrever o sentimento de horror que me petrificou ao observar que um ser homem ou fantasma, colocado rente à entrada do túnel, agitava vivamente o braço direito, enquanto com o esquerdo escondia o rosto! O indizível espanto que esta visão me produziu durou um momento só; pois não demorei em ver que não era ilusão nenhuma, como o dava a entender um grupo de indivíduos, aos quais se dirigia a personagem que primeiro avistei; esta, naturalmente, com os seus gestos, pretendia explicar-lhes o acontecido. Ainda não se percebia o luzir vermelho do sinal. Divisava vagamente do lado do poste uma espécie de barriquinha construída com espeques de madeira e uma tela de lona embreada. O seu vulto não era maior que uma cama pequena.
O rápido pressentimento de uma desgraça cruzou-me pela mente. Corri para a vereda em ziguezague e desci por ela, com toda a precipitação que pude.
— Que aconteceu? — perguntei.
— Um guarda-chaves, cavalheiro, que foi morto esta manhã.
— Não será o desta casinha?
— Sim, senhor.
— Aquele que eu conhecia?
— Fácil lhe será reconhecê-lo — disse o homem que respondia às minhas perguntas.
Tirou gravemente o chapéu e levantando uma ponta da tela:
— Não está desfigurado — acrescentou.
— Deus meu! Mas como aconteceu a desgraça? Que se passou aqui? — Repeti, indo de um lado para outro, apenas caiu o negro sudário.
— Cavalheiro, a máquina o feriu. Ninguém conhecia nem desempenhava melhor suas obrigações; mas hoje, sabe-se lá por quê? não soube acautelar-se. Era já dia claro; trazia ainda o farol aceso. Um trem saía do túnel; o guarda estava ali, de costas. Foi derrubado. É este o maquinista. Ele lhe dirá o que aconteceu, com todos os pormenores… — Tom, dê a este cavalheiro todos os detalhes…
O maquinista, foi até a boca do túnel.
— Vou explicar-lhe como se passou, cavalheiro. Da curva que faz a via, ali dentro, vi o guarda-chaves junto à saída como se vê um homem por um binóculo. Não havia tempo para apertar os freios; mas não me inquietei por isso. Tive-o sempre por homem cauteloso. Contudo, como me pareceu que não o preocupava o silvo da locomotiva, soltei vapor… Estávamos já em cima dele… Chamei-o com toda a força dos pulmões.
— Que foi que o senhor disse?
— Gritei: “Olha lá! Oh! Oh! Fuja, fuja! Saia da linha!”
Estremeci.
— Ah, senhor! Foi um rude transe! Não parei de chamá-lo. Ocultei o rosto com este braço e nem um momento deixei de agitar nervosamente o outro. Nada consegui!
Assim terminou, com essa morte trágica, tão extraordinária aventura, cujo mistério jamais consegui decifrar.
Charles Dickens
'Frango tite'
Não tão rara quanto o peru nem tão frugal quanto ovo, a galinha, comida de domingo, era naquela época o símbolo da fome nacional. Já muito antes de nós, o Barão de Itararé diagnosticara: "quando pobre come frango, um dos dois está doente".
Tenho proposto com certa insistência que alguém escreva, no Brasil, a sociologia da galinha, ou pelo menos defina o papel da galinha na psicologia nacional. Na biografia dos brasileiros, na alma de cada um de nós, embrulhados aos nossos sonhos e desejos, estão alguns cacarejos, uns batidos de asa, um ovo roubado, uma clarinada matinal...
Mas foi o Sá quem descobriu a saída. Se durante a semana estávamos condenados ao restaurante do Calabouço , domingo tínhamos obrigação de melhorar o cardápio. E o problema não era simples, pelo menos para mim. No Calabouço, com uma carteira falsa de estudante, eu pagava dois cruzeiros por refeição. Pagamento simbólico, evidentemente. Bendito simbolismo que eu, na literatura, tratava com desprezo. Mas, aos domingos, não havia Calabouço: tinha-se que enfrentar o realismo socialista dos restaurantes da Lapa.
Mas o Sá descobriu que, no China da Riachuelo, perto dos Arcos, servia-se aos domingos por preço de banana um prato que se chamava, sem rodeios, frango com arroz. E era verdade. Esse prato restaurou em nós a perdida dignidade dos domingos de outrora, iluminados sempre por uma galinha-ao-molho-pardo ou um frango com farofa-com-farofa-de-miúdos... Era com outra alma que a gente agora lia os suplementos dominicais, almoçava média com pão e manteiga, e esperava a noite.
Sim, porque o frango era servido precisamente às sete horas da noite. E a freguesia, naturalmente, era grande. A partir das 6 e meia começava a chegar o pessoal que, como quem não quer nada, espiava para as mesas e ficava por ali, esperando lugar -- pois o frango era pouco e ninguém queria correr o risco de degradar seu domingo. Às 7 em ponto, o garçom anunciava:
- Atenção, pessoal, vai sair o tite!
Seguia-se o reboliço das últimas disputas e arranjos: "Dá licença de botar uma cadeira a mais na sua mesa?" "Mas já tem cinco". "Se não, vou perder o frango..." Deixa o rapaz sentar". E lá vinha, em pratos feitos que fumegavam por cima de nossa cabeça, na bandeja do Jacinto, o frango com arroz, vendido inexplicavelmente por cinco pratas. Também, quinze minutos depois, quando mal acabávamos de devorar o último farelo de frango, já se ouvia, irônica, a voz do garçom:
- Acabou o tite! Agora só sopa de entulho!
O "tite"...Por que "tite"? Aquele domingo saí com essa pergunta na cabeça. O Jacinto não dizia "vai sair o frango", dizia "vai sair o tite"...
Manifestei minha estranheza aos companheiros de quarto e o Sá, que lia "Novos Rumos", retrucou com desprezo:
- Curiosidade pequeno-burguesa. Vê se algum operário, podendo comer frango por cinco pratas, vai se preocupar com a gíria do garçom!
Sá tinha razão. Tratei de esquecer o problema e fomos, mais uma vez, ao frango do China, ao tite com arroz. Mas eu vivia os meus últimos domingos de glória, pois, pouco mais tarde, deparei com o Jacinto tomando Hidrolitol, no Largo da Lapa, e não resisti.
- Tite é o seguinte - explicou-me ele. - O senhor Shio, dono do restaurante, faz as compras da semana todo domingo na feira do Largo da Glória. Os frangos e galinhas são trazidos em engradados, se machucam na viagem e algumas chegam na feira morre-não-morre. O senhor Shio, sabendo disso, vai logo perguntando pra feirantes: "Tem galinha tite? Tem galinha tite?" E assim - continuou Jacinto - compra tudo o que é galinha triste que há na feira. Umas estão apenas tristes, outras já morreram de tristeza, mas o chinês compra assim mesmo. E justifica: "Vai morrer mesmo!", disse Jacinto soltando uma gargalhada. Eu ri também, mas sem achar a mesma graça. Dentro de meu estômago, acabara em se converter em tristeza a euforia de tantos jantares dominicais, a cinco cruzeiros velhos, velhíssimos. Quando contei a história ao pessoal, o Sá me fuzilou com os olhos: "Você é um estraga jantares!"
Fez-se um longo silêncio naquele anoitecer de domingo. O Sá falou finalmente:
-- Bem, vamos à sopa de entulho!
Tenho proposto com certa insistência que alguém escreva, no Brasil, a sociologia da galinha, ou pelo menos defina o papel da galinha na psicologia nacional. Na biografia dos brasileiros, na alma de cada um de nós, embrulhados aos nossos sonhos e desejos, estão alguns cacarejos, uns batidos de asa, um ovo roubado, uma clarinada matinal...
Mas foi o Sá quem descobriu a saída. Se durante a semana estávamos condenados ao restaurante do Calabouço , domingo tínhamos obrigação de melhorar o cardápio. E o problema não era simples, pelo menos para mim. No Calabouço, com uma carteira falsa de estudante, eu pagava dois cruzeiros por refeição. Pagamento simbólico, evidentemente. Bendito simbolismo que eu, na literatura, tratava com desprezo. Mas, aos domingos, não havia Calabouço: tinha-se que enfrentar o realismo socialista dos restaurantes da Lapa.
Mas o Sá descobriu que, no China da Riachuelo, perto dos Arcos, servia-se aos domingos por preço de banana um prato que se chamava, sem rodeios, frango com arroz. E era verdade. Esse prato restaurou em nós a perdida dignidade dos domingos de outrora, iluminados sempre por uma galinha-ao-molho-pardo ou um frango com farofa-com-farofa-de-miúdos... Era com outra alma que a gente agora lia os suplementos dominicais, almoçava média com pão e manteiga, e esperava a noite.
Sim, porque o frango era servido precisamente às sete horas da noite. E a freguesia, naturalmente, era grande. A partir das 6 e meia começava a chegar o pessoal que, como quem não quer nada, espiava para as mesas e ficava por ali, esperando lugar -- pois o frango era pouco e ninguém queria correr o risco de degradar seu domingo. Às 7 em ponto, o garçom anunciava:
- Atenção, pessoal, vai sair o tite!
Seguia-se o reboliço das últimas disputas e arranjos: "Dá licença de botar uma cadeira a mais na sua mesa?" "Mas já tem cinco". "Se não, vou perder o frango..." Deixa o rapaz sentar". E lá vinha, em pratos feitos que fumegavam por cima de nossa cabeça, na bandeja do Jacinto, o frango com arroz, vendido inexplicavelmente por cinco pratas. Também, quinze minutos depois, quando mal acabávamos de devorar o último farelo de frango, já se ouvia, irônica, a voz do garçom:
- Acabou o tite! Agora só sopa de entulho!
O "tite"...Por que "tite"? Aquele domingo saí com essa pergunta na cabeça. O Jacinto não dizia "vai sair o frango", dizia "vai sair o tite"...
Manifestei minha estranheza aos companheiros de quarto e o Sá, que lia "Novos Rumos", retrucou com desprezo:
- Curiosidade pequeno-burguesa. Vê se algum operário, podendo comer frango por cinco pratas, vai se preocupar com a gíria do garçom!
Sá tinha razão. Tratei de esquecer o problema e fomos, mais uma vez, ao frango do China, ao tite com arroz. Mas eu vivia os meus últimos domingos de glória, pois, pouco mais tarde, deparei com o Jacinto tomando Hidrolitol, no Largo da Lapa, e não resisti.
- Tite é o seguinte - explicou-me ele. - O senhor Shio, dono do restaurante, faz as compras da semana todo domingo na feira do Largo da Glória. Os frangos e galinhas são trazidos em engradados, se machucam na viagem e algumas chegam na feira morre-não-morre. O senhor Shio, sabendo disso, vai logo perguntando pra feirantes: "Tem galinha tite? Tem galinha tite?" E assim - continuou Jacinto - compra tudo o que é galinha triste que há na feira. Umas estão apenas tristes, outras já morreram de tristeza, mas o chinês compra assim mesmo. E justifica: "Vai morrer mesmo!", disse Jacinto soltando uma gargalhada. Eu ri também, mas sem achar a mesma graça. Dentro de meu estômago, acabara em se converter em tristeza a euforia de tantos jantares dominicais, a cinco cruzeiros velhos, velhíssimos. Quando contei a história ao pessoal, o Sá me fuzilou com os olhos: "Você é um estraga jantares!"
Fez-se um longo silêncio naquele anoitecer de domingo. O Sá falou finalmente:
-- Bem, vamos à sopa de entulho!
quarta-feira, agosto 26
Deliciosas alegrias
Folhear um livro longamente cobiçado, manusear um achado inesperado, acariciar uma encadernação, tirar o pó do corte, são deliciosas alegrias que as mão partilham com os olhos
Octave Uzanne
Octave Uzanne
A casa à noite
Agora tudo se acalma, ou, se não chega à calma, assemelha-se a ela. Um mar sem ondas se amplia ao redor da lâmpada amarela, um mar doméstico. À noite, a casa se deixa amar de outra maneira. Ela se mostra mais se entremostrando à meia luz, ela com seus seres de sombra sem peso. Já recolheu suas claras utilidades e agora se excede em finos enredamentos. Nosso tempo se expande, o jardim lá de fora se acerca, a luz da lâmpada brilha nos olhos dos gatos vigilantes. Dou com a chama da vela se debatendo dentro do copo, revoltada. Uma doida se escapando de tanto dançar, quando nem vento há… menininha de fogo, que atrevida é você, que abusada! As estantes também, à noite, se as toco, elas respondem num código próprio. Às vezes vem um perfume, de uma flor que não é a do vaso na sala. Às vezes, descubro mariposas camufladas, já adultas. A multidão de seres presentes é sutil e não constrange. Sua quase invisibilidade na noite não assombra. Vamos juntos, escrevemos juntos, dedos longos de palmeira, cabelos de samambaia, olhos selvagens fosforescentes, onda de perfumes, mar em volta, todos juntos passamos por essa página e a manchamos, sem o apelo de qualquer evento fantástico, porque fantástica já é toda a casa à noite, quando permanece brandamente acesa e nos permite participar dos seus pensares, do seu batimento, das suas gestações e eclosões silenciosamente quentes, a escrita aí bem-vinda por ser de similar natureza. Quando amanhecer seremos outras, de novo claras, objetivas, cheias de horários e serviços, toda aquela imensidão de ventre recolhida e nenhuma dança estouvada de chama dentro do copo. Já fugiu, aquela atrevida, e levou com ela um tempo outro. Voltará, que eu sei, e a casa sabe, quando for noite, e então iremos juntas, outra vez, por outras páginas.
Sonho domado
Sei que é preciso sonhar.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Thiago de Mello
Largue a tela, leia um livro!
Quem ainda senta no silêncio para encarar um Tolstói, um Proust, um Thomas Mann, um Gustave Flaubert, um Euclides da Cunha, um Guimarães Rosa? E quem ainda se atreve a abrir um Dom Quixote, Oblómov, Os Miseráveis, Buddenbrook, Vida e Destino, As Mil e Uma Noites, Os Irmãos Karamazov, O Homem Sem Qualidades, O Tempo e o Vento, Tocaia Grande, Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta? A pergunta parece simples, mas talvez esconda uma das grandes questões culturais do nosso tempo: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de ler?
E a literatura exige tempo e estamos perdendo, pouco a pouco, a disposição para permanecer diante de algo que exige tempo. Um romance de seiscentas, oitocentas ou mil páginas, ou mais, não cabe na lógica do imediatismo. Não pode ser consumido enquanto se espera o elevador, entre duas notificações ou durante alguns minutos de intervalo. Um grande romance pede silêncio, concentração, memória. Pede que o leitor aceite não saber imediatamente onde a história vai chegar. Talvez seja justamente isso que esteja em conflito com o espírito do nosso tempo.
Vivemos cercados por telas que disputam permanentemente a nossa atenção. Rolamos páginas, vídeos e imagens em uma sequência praticamente interminável. Um conteúdo substitui o outro antes mesmo que tenhamos tempo de assimilá-lo. A novidade não está mais em descobrir algo, mas em descobrir o próximo.
Com a leitura é diferente, ou seja, funciona de maneira inversa. Ela não nos oferece a próxima coisa. Ela nos convida a permanecer. Há algo de “revolucionário” em desligar o celular, afastar as notificações e permanecer durante uma hora diante de algumas páginas. É um gesto de resistência contra a velocidade. Não porque toda tecnologia seja inimiga da cultura, mas porque uma vida submetida integralmente à velocidade corre o risco de perder a capacidade de contemplação.
Quanto a isso, Zygmunt Bauman chamou atenção para a fluidez das relações e das estruturas da modernidade contemporânea. Tudo parece provisório, substituível, descartável. Até mesmo a atenção humana entrou nessa lógica. Consumimos notícias, opiniões, imagens, vídeos e até ideias como quem percorre uma prateleira de supermercado. A literatura, porém, não funciona assim. Um personagem precisa de tempo para existir. Uma paisagem precisa de tempo para ser percebida. Uma tragédia precisa de tempo para amadurecer. Uma ideia precisa de tempo para incomodar.
Emma Bovary não cabe em um vídeo de quinze segundos. Hans Castorp não pode ser compreendido em um resumo de algumas linhas. Diadorim não é apenas um personagem de uma história sobre o sertão. Fantine não é somente uma mulher pobre de Os Miseráveis. Oblómov não é simplesmente um homem preguiçoso. Quaderna não é apenas um personagem excêntrico em busca de um reino perdido. A literatura não entrega apenas histórias; ela constrói experiências. É por isso que ler um grande romance é também viajar. Viajar sem sair do lugar.
Podemos atravessar os mares com Simbad, perder-nos nas histórias de Sherazade, conversar com Tieta do Agreste, acompanhar Emma Bovary em seus sonhos e frustrações, subir A Montanha Mágica ao lado de Hans Castorp, atravessar o sertão com Diadorim e Riobaldo, caminhar pelas terras do Sul com Ana Terra e Capitão Rodrigo, sentir o sofrimento de Fantine pelas ruas de Paris, acompanhar Maheude e os mineiros de Germinal na luta pela sobrevivência ou entrar no universo delirante de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. A cada livro, uma época. A cada personagem, uma possibilidade de existência. A cada página, uma janela.
É justamente aí que reside a força da literatura. O leitor não sai exatamente igual de um grande romance. Pode até fechar o livro sem concordar com o autor, sem gostar dos personagens ou sem encontrar respostas para suas próprias perguntas. Mas alguma coisa se deslocou. A literatura nos obriga a habitar outras consciências. Coloca-nos diante de pessoas que pensam, amam, sofrem e desejam de maneiras diferentes das nossas. E talvez esse seja um dos últimos grandes espaços de encontro em uma sociedade cada vez mais fragmentada.
Quando lemos Tolstói, entramos na Rússia de outro século. Quando lemos Flaubert, encontramos uma sociedade burguesa em transformação. Quando atravessamos as páginas de Euclides da Cunha, somos confrontados com um Brasil profundo, marcado pela violência, pela desigualdade e pelo abandono. Quando lemos Jorge Amado, penetramos no coração que bombeia cultura para Brasil a fora, a Bahia. Quando lemos Guimarães Rosa, descobrimos que o sertão pode ser geografia, linguagem, filosofia e existência ao mesmo tempo. Quando lemos Graciliano Ramos, adentramos num país flagelado pela seca. A literatura amplia o mundo porque amplia aquilo que conseguimos imaginar.
Mas há um paradoxo. Nunca tivemos tanto acesso aos livros e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar tempo para lê-los. Bibliotecas inteiras cabem dentro de um aparelho. Obras que antes eram raras estão disponíveis em poucos cliques. Podemos carregar dezenas de romances no bolso. O que parece faltar não é acesso. É atenção!
Talvez por isso os grandes calhamaços estejam se transformando em objetos de decoração. Livros alinhados nas estantes, fotografados, exibidos, organizados por cor enquanto permanecem intocados. Tornaram-se, em alguns casos, sinais exteriores de cultura, quando sua verdadeira função é outra: serem abertos, riscados, dobrados, emprestados, esquecidos sobre a mesa e retomados no dia seguinte. Um livro não foi feito para combinar com o sofá. Foi feito para interromper a nossa vida. E é precisamente essa interrupção que pode nos salvar da superficialidade.
Não é necessário transformar a leitura em obrigação. Nem estabelecer uma competição sobre quem leu mais clássicos. A literatura não deveria ser um vestibular permanente de erudição. Há livros difíceis, livros divertidos, livros ruins, livros maravilhosos. Há momentos para Dostoiévski e momentos para uma crônica de poucas páginas, como Conto de Natal de Charles Dickens, ou mesmo a história do Analista de Bagé de Luiz Fernando Verissimo, ou ainda Leão de Chácara de João Antônio. O importante é recuperar o prazer de ler. Sentar. Abrir. Começar. E permanecer.
No mundo das telas, de dopamina, o desafio é encontrar leitores. Não milhões. Não multidões. Apenas aqueles que ainda acreditam que algumas histórias merecem ser escritas, contadas e romanceadas; aqueles que aceitam atravessar centenas de páginas para descobrir que, ao final, não encontraram apenas uma história, mas alguma coisa de si mesmos. Porque um livro não precisa ser lido por todos. Precisa encontrar alguém. Alguém disposto a deixar a tela de lado por algumas horas. Alguém disposto a trocar a rolagem infinita por uma página. Alguém disposto a suportar o silêncio.
Então, leitores, fica o convite, quase uma provocação: largue a tela. Pegue um livro. Desligue por um instante o ruído do mundo. Abra Tolstói. Flaubert. Proust. Thomas Mann. Euclides. Guimarães Rosa. Machado de Assis. Lima Barreto. Abra Olhai os Lírios do Campo, O Quinze, Memorias Póstumas de Braz Cuba, Fogo Morto, Boa do Inferno, As Minas de Prata ou qualquer outro livro de sua preferência. Não procure apenas uma história. Procure um mundo. Uma cultura. E, quem sabe, ao terminar a última página, você descubra que o mundo que encontrou dentro do livro também estava, silenciosamente, dentro de você.
Boa leitura!
E a literatura exige tempo e estamos perdendo, pouco a pouco, a disposição para permanecer diante de algo que exige tempo. Um romance de seiscentas, oitocentas ou mil páginas, ou mais, não cabe na lógica do imediatismo. Não pode ser consumido enquanto se espera o elevador, entre duas notificações ou durante alguns minutos de intervalo. Um grande romance pede silêncio, concentração, memória. Pede que o leitor aceite não saber imediatamente onde a história vai chegar. Talvez seja justamente isso que esteja em conflito com o espírito do nosso tempo.
Vivemos cercados por telas que disputam permanentemente a nossa atenção. Rolamos páginas, vídeos e imagens em uma sequência praticamente interminável. Um conteúdo substitui o outro antes mesmo que tenhamos tempo de assimilá-lo. A novidade não está mais em descobrir algo, mas em descobrir o próximo.
Com a leitura é diferente, ou seja, funciona de maneira inversa. Ela não nos oferece a próxima coisa. Ela nos convida a permanecer. Há algo de “revolucionário” em desligar o celular, afastar as notificações e permanecer durante uma hora diante de algumas páginas. É um gesto de resistência contra a velocidade. Não porque toda tecnologia seja inimiga da cultura, mas porque uma vida submetida integralmente à velocidade corre o risco de perder a capacidade de contemplação.
Quanto a isso, Zygmunt Bauman chamou atenção para a fluidez das relações e das estruturas da modernidade contemporânea. Tudo parece provisório, substituível, descartável. Até mesmo a atenção humana entrou nessa lógica. Consumimos notícias, opiniões, imagens, vídeos e até ideias como quem percorre uma prateleira de supermercado. A literatura, porém, não funciona assim. Um personagem precisa de tempo para existir. Uma paisagem precisa de tempo para ser percebida. Uma tragédia precisa de tempo para amadurecer. Uma ideia precisa de tempo para incomodar.
Emma Bovary não cabe em um vídeo de quinze segundos. Hans Castorp não pode ser compreendido em um resumo de algumas linhas. Diadorim não é apenas um personagem de uma história sobre o sertão. Fantine não é somente uma mulher pobre de Os Miseráveis. Oblómov não é simplesmente um homem preguiçoso. Quaderna não é apenas um personagem excêntrico em busca de um reino perdido. A literatura não entrega apenas histórias; ela constrói experiências. É por isso que ler um grande romance é também viajar. Viajar sem sair do lugar.
Podemos atravessar os mares com Simbad, perder-nos nas histórias de Sherazade, conversar com Tieta do Agreste, acompanhar Emma Bovary em seus sonhos e frustrações, subir A Montanha Mágica ao lado de Hans Castorp, atravessar o sertão com Diadorim e Riobaldo, caminhar pelas terras do Sul com Ana Terra e Capitão Rodrigo, sentir o sofrimento de Fantine pelas ruas de Paris, acompanhar Maheude e os mineiros de Germinal na luta pela sobrevivência ou entrar no universo delirante de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. A cada livro, uma época. A cada personagem, uma possibilidade de existência. A cada página, uma janela.
É justamente aí que reside a força da literatura. O leitor não sai exatamente igual de um grande romance. Pode até fechar o livro sem concordar com o autor, sem gostar dos personagens ou sem encontrar respostas para suas próprias perguntas. Mas alguma coisa se deslocou. A literatura nos obriga a habitar outras consciências. Coloca-nos diante de pessoas que pensam, amam, sofrem e desejam de maneiras diferentes das nossas. E talvez esse seja um dos últimos grandes espaços de encontro em uma sociedade cada vez mais fragmentada.
Quando lemos Tolstói, entramos na Rússia de outro século. Quando lemos Flaubert, encontramos uma sociedade burguesa em transformação. Quando atravessamos as páginas de Euclides da Cunha, somos confrontados com um Brasil profundo, marcado pela violência, pela desigualdade e pelo abandono. Quando lemos Jorge Amado, penetramos no coração que bombeia cultura para Brasil a fora, a Bahia. Quando lemos Guimarães Rosa, descobrimos que o sertão pode ser geografia, linguagem, filosofia e existência ao mesmo tempo. Quando lemos Graciliano Ramos, adentramos num país flagelado pela seca. A literatura amplia o mundo porque amplia aquilo que conseguimos imaginar.
Mas há um paradoxo. Nunca tivemos tanto acesso aos livros e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar tempo para lê-los. Bibliotecas inteiras cabem dentro de um aparelho. Obras que antes eram raras estão disponíveis em poucos cliques. Podemos carregar dezenas de romances no bolso. O que parece faltar não é acesso. É atenção!
Talvez por isso os grandes calhamaços estejam se transformando em objetos de decoração. Livros alinhados nas estantes, fotografados, exibidos, organizados por cor enquanto permanecem intocados. Tornaram-se, em alguns casos, sinais exteriores de cultura, quando sua verdadeira função é outra: serem abertos, riscados, dobrados, emprestados, esquecidos sobre a mesa e retomados no dia seguinte. Um livro não foi feito para combinar com o sofá. Foi feito para interromper a nossa vida. E é precisamente essa interrupção que pode nos salvar da superficialidade.
Não é necessário transformar a leitura em obrigação. Nem estabelecer uma competição sobre quem leu mais clássicos. A literatura não deveria ser um vestibular permanente de erudição. Há livros difíceis, livros divertidos, livros ruins, livros maravilhosos. Há momentos para Dostoiévski e momentos para uma crônica de poucas páginas, como Conto de Natal de Charles Dickens, ou mesmo a história do Analista de Bagé de Luiz Fernando Verissimo, ou ainda Leão de Chácara de João Antônio. O importante é recuperar o prazer de ler. Sentar. Abrir. Começar. E permanecer.
No mundo das telas, de dopamina, o desafio é encontrar leitores. Não milhões. Não multidões. Apenas aqueles que ainda acreditam que algumas histórias merecem ser escritas, contadas e romanceadas; aqueles que aceitam atravessar centenas de páginas para descobrir que, ao final, não encontraram apenas uma história, mas alguma coisa de si mesmos. Porque um livro não precisa ser lido por todos. Precisa encontrar alguém. Alguém disposto a deixar a tela de lado por algumas horas. Alguém disposto a trocar a rolagem infinita por uma página. Alguém disposto a suportar o silêncio.
Então, leitores, fica o convite, quase uma provocação: largue a tela. Pegue um livro. Desligue por um instante o ruído do mundo. Abra Tolstói. Flaubert. Proust. Thomas Mann. Euclides. Guimarães Rosa. Machado de Assis. Lima Barreto. Abra Olhai os Lírios do Campo, O Quinze, Memorias Póstumas de Braz Cuba, Fogo Morto, Boa do Inferno, As Minas de Prata ou qualquer outro livro de sua preferência. Não procure apenas uma história. Procure um mundo. Uma cultura. E, quem sabe, ao terminar a última página, você descubra que o mundo que encontrou dentro do livro também estava, silenciosamente, dentro de você.
Boa leitura!
Dicas para não envelhecer
Pra começo de conversa, tome nota desta observação: quem não se sente velho não vive com o olho na idade dos outros. A pior bisbilhotice é a etária. Veja lá se as crianças e os jovens têm tal obsessão.
Desde já, aconselho também a não exibir sua idade em qualquer circunstância. Para que e por que? Se você tem 60 anos e alguém lhe pergunta a idade, não diminua, aumente-a. Diga que tem 80. Aí a pessoa termina exclamando: “Mentira! Você tem muito menos!”.
Jamais fique remoendo coisas do passado. Nunca diga que antigamente era muito melhor do que hoje. Não pronuncie expressões tais como “no meu tempo não era assim”. O seu tempo é este que você está vivendo. Ou será que você já morreu? Antigamente, a vida era uma pasmaceira. Até para satisfazer suas necessidades fisiológicas você tinha que andar um quilômetro. O peso dos preconceitos era maior. Os meios de comunicação eram precários. Houve tempo em que uma carta chegava ao destino em um mês. E vinha em navios, apelidados de paquetes. Ninguém sonhava com a Internet...
Evite a ociosidade. Tudo que estaciona termina enferrujando.
Esteja sempre muito bem informado e muito ocupado. Jamais hostilize as mudanças. Se for homem, não use gorro, e se mulher, evite os trajes muitos fechados. Não perca o apetite pela vida. Lembre-se que é pra frente que se anda. Aceite de bom grado as novidades.
Ocupe todo o seu tempo com coisas úteis. O trabalho (sem exagero) é uma excelente terapia, chamada ergoterapia. Multiplique seus interesses. A vida é uma emocionante aventura. Fique certo de que toda idade tem sua beleza. Se você está aposentado, ótimo. É mais uma oportunidade para fazer o que gosta. Que tal se dedicar a um serviço comunitário?
Nada mais estimulante do que o exercício de uma vocação. Se você passou o tempo todo como funcionário público, procure agora uma atividade diferente. Que tal pintar ou pescar?
Vejamos agora o sorriso. Olhe-se no espelho e sorria. O sorriso espalha as rugas, já reparou? Portanto, nada de cara amarrada. Procure ver o lado bom e belo da vida, assumindo uma atitude otimista diante das pessoas e dos acontecimentos. Dedique-se a um ideal. Orgulhe-se das experiências vividas, da sabedoria adquirida ao longo dos anos.
E o traje? Não vá nessa onda de que tal roupa ou tal vestido não ficam bem na sua idade. Use indumentárias de que você gosta. Veja as antigas árvores. Elas estão sempre florindo, enfeitando a paisagem. O mar nunca envelhece. Sabe por que? Porque está sempre em movimento, sempre sorrindo o seu sorriso de espuma, sempre mudando.
Desde já, aconselho também a não exibir sua idade em qualquer circunstância. Para que e por que? Se você tem 60 anos e alguém lhe pergunta a idade, não diminua, aumente-a. Diga que tem 80. Aí a pessoa termina exclamando: “Mentira! Você tem muito menos!”.
Jamais fique remoendo coisas do passado. Nunca diga que antigamente era muito melhor do que hoje. Não pronuncie expressões tais como “no meu tempo não era assim”. O seu tempo é este que você está vivendo. Ou será que você já morreu? Antigamente, a vida era uma pasmaceira. Até para satisfazer suas necessidades fisiológicas você tinha que andar um quilômetro. O peso dos preconceitos era maior. Os meios de comunicação eram precários. Houve tempo em que uma carta chegava ao destino em um mês. E vinha em navios, apelidados de paquetes. Ninguém sonhava com a Internet...
Evite a ociosidade. Tudo que estaciona termina enferrujando.
Esteja sempre muito bem informado e muito ocupado. Jamais hostilize as mudanças. Se for homem, não use gorro, e se mulher, evite os trajes muitos fechados. Não perca o apetite pela vida. Lembre-se que é pra frente que se anda. Aceite de bom grado as novidades.
Ocupe todo o seu tempo com coisas úteis. O trabalho (sem exagero) é uma excelente terapia, chamada ergoterapia. Multiplique seus interesses. A vida é uma emocionante aventura. Fique certo de que toda idade tem sua beleza. Se você está aposentado, ótimo. É mais uma oportunidade para fazer o que gosta. Que tal se dedicar a um serviço comunitário?
Nada mais estimulante do que o exercício de uma vocação. Se você passou o tempo todo como funcionário público, procure agora uma atividade diferente. Que tal pintar ou pescar?
Vejamos agora o sorriso. Olhe-se no espelho e sorria. O sorriso espalha as rugas, já reparou? Portanto, nada de cara amarrada. Procure ver o lado bom e belo da vida, assumindo uma atitude otimista diante das pessoas e dos acontecimentos. Dedique-se a um ideal. Orgulhe-se das experiências vividas, da sabedoria adquirida ao longo dos anos.
E o traje? Não vá nessa onda de que tal roupa ou tal vestido não ficam bem na sua idade. Use indumentárias de que você gosta. Veja as antigas árvores. Elas estão sempre florindo, enfeitando a paisagem. O mar nunca envelhece. Sabe por que? Porque está sempre em movimento, sempre sorrindo o seu sorriso de espuma, sempre mudando.
terça-feira, agosto 25
Lua depois da chuva
Olha a chuva molha a luva
cada gota de água
como um bago de uva
A chuva lava a rua
a viúva leva o guarda-chuva e a luva
olha a chuva molha a luva
e o guarda-chuva da viúva
vai a chuva e chega a lua
lua de chuva.
cada gota de água
como um bago de uva
A chuva lava a rua
a viúva leva o guarda-chuva e a luva
olha a chuva molha a luva
e o guarda-chuva da viúva
vai a chuva e chega a lua
lua de chuva.
Cecília Meireles
Buquinagem
Percorrer as estantes de um sebo, no exercício da saudável buquinagem, é às vezes um prazer leve como uma pescaria e às vezes tão excitante quanto uma busca sexual. Surpreendi um dia um setentão no canto menos iluminado da sala apalpando um livro de Erica Jong e falando baixo com ele, como se lhe propusesse algo.
Desconhecer o que viemos fazer aqui nos livra de fadigas e decepções. Esqueçamos nossas presunções e gozemos a suprema delícia de não termos missão nenhuma.
Quando chovia forte, Mário de Andrade, que dizia ser trezentos e cinquenta, não saía de casa. Mandava em seu lugar um dos trezentos e quarenta e nove outros.
Bom tempo foi aquele em que o amor nos alimentava com fartura, para que cumpríssemos suas demandas noturnas e, se delas nos descurássemos, pudéssemos resistir ao rancor do seu chicote.
O que está sempre em jogo no amor é a fixação de um domínio, de uma primazia. Mesmo que esse domínio e essa primazia consistam, para quem os fixa, em submeter-se, de plena vontade, ao domínio e à primazia do parceiro amoroso.
Se eu fosse um apóstolo do amor, se eu fosse digno dessa missão, o livro-base do meu culto – a bíblia, por assim dizer – seria O museu da inocência, de Orhan Pamuk. Não conheço nenhum que se equipare a ele em força lírica, em delicadeza, em suavidade. Eu daria a alma para tê-lo escrito – o que, na verdade, significa que gostaria de ter vivido a história do personagem Kemal, subjugado por uma lembrança amorosa tão pungentemente agradável de ser sofrida que ele bem mereceria mais de uma vida para vivê-la. O museu da inocência é um livro para aqueles que não se envergonhariam de lamber uma estátua do amor, ainda que fosse obra do pior dos escultores e feita com a mais reles das argilas.
Quem se julga heroico quando se declara disposto a dar a vida pelo amor não faz nada além de reproduzir hoje um hábito muito comum outrora.
Porque nossos braços já não são os mesmos, as árvores derrubam gentilmente seus frutos para nós. Não são os melhores, sabemos, mas já aprendemos a não nos lamentar.
O que o amor de mais cruel tem é quando nós lhe dizemos que sem ele morreremos, e ele, distraído, diz: hem?
Quem mais fala de amor e quem menos o define são os poetas.
Que alma seria suficientemente tola para querer ser a minha?
Todos os poetas deveriam morrer por amor. É a única coisa que, em sua biografia, pode legitimá-los.
Sou um entusiasmado adepto da apatia.
Ter existido um homem chamado Shakespeare, que fez o que fez, é quase tão inacreditável quanto existir Deus.
Poemas de amor deveriam ser vendidos em floriculturas.
Para os suicidas mais convictos, morrer acaba se tornando um projeto de vida.
***
Desconhecer o que viemos fazer aqui nos livra de fadigas e decepções. Esqueçamos nossas presunções e gozemos a suprema delícia de não termos missão nenhuma.
***
Quando chovia forte, Mário de Andrade, que dizia ser trezentos e cinquenta, não saía de casa. Mandava em seu lugar um dos trezentos e quarenta e nove outros.
***
Bom tempo foi aquele em que o amor nos alimentava com fartura, para que cumpríssemos suas demandas noturnas e, se delas nos descurássemos, pudéssemos resistir ao rancor do seu chicote.
***
O que está sempre em jogo no amor é a fixação de um domínio, de uma primazia. Mesmo que esse domínio e essa primazia consistam, para quem os fixa, em submeter-se, de plena vontade, ao domínio e à primazia do parceiro amoroso.
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Se eu fosse um apóstolo do amor, se eu fosse digno dessa missão, o livro-base do meu culto – a bíblia, por assim dizer – seria O museu da inocência, de Orhan Pamuk. Não conheço nenhum que se equipare a ele em força lírica, em delicadeza, em suavidade. Eu daria a alma para tê-lo escrito – o que, na verdade, significa que gostaria de ter vivido a história do personagem Kemal, subjugado por uma lembrança amorosa tão pungentemente agradável de ser sofrida que ele bem mereceria mais de uma vida para vivê-la. O museu da inocência é um livro para aqueles que não se envergonhariam de lamber uma estátua do amor, ainda que fosse obra do pior dos escultores e feita com a mais reles das argilas.
***
Quem se julga heroico quando se declara disposto a dar a vida pelo amor não faz nada além de reproduzir hoje um hábito muito comum outrora.
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Porque nossos braços já não são os mesmos, as árvores derrubam gentilmente seus frutos para nós. Não são os melhores, sabemos, mas já aprendemos a não nos lamentar.
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O que o amor de mais cruel tem é quando nós lhe dizemos que sem ele morreremos, e ele, distraído, diz: hem?
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Quem mais fala de amor e quem menos o define são os poetas.
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Que alma seria suficientemente tola para querer ser a minha?
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Todos os poetas deveriam morrer por amor. É a única coisa que, em sua biografia, pode legitimá-los.
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Sou um entusiasmado adepto da apatia.
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Ter existido um homem chamado Shakespeare, que fez o que fez, é quase tão inacreditável quanto existir Deus.
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Poemas de amor deveriam ser vendidos em floriculturas.
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Para os suicidas mais convictos, morrer acaba se tornando um projeto de vida.
Os jovens e as ‘Noites brancas’ de Dostoiévski
Só quem não sofreu de amor na adolescência – quem não ouviu da menina mais linda da escola a frase “eu te quero como amigo” – pode estranhar o fascínio dos jovens pela história do rapaz dispensado por Nástiènka em “Noites Brancas”, a novela de Dostoiévski há mais de um ano na lista dos livros mais vendidos. O sofrimento amoroso dói, mas quando bem escrito esse inevitável ridículo da vida é bonito demais.
“Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida?”, escreveu Antônio Maria.
“O amor é a coisa mais triste quando se desfaz”, compôs Vinicius de Moraes.
O poeta mineiro sentado no calçadão de Copacabana me disse uma vez que o amor é isso que se está vendo: alguém que um dia beija, que amanhã já não beija e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Hoje é segunda-feira, eu acabei de ler essa história de Dostoiévski em que um jovem se apaixona ao encontrar a moça chorando numa ponte das noites claras de São Petersburgo. Posso dizer o seguinte: o amor é uma novela russa, um cenário de charme lúgubre recheado de ghosting e friendzone, nomes novos para as eternas trapaças da paixão. Acho que não dou spoiler – tudo acaba mal.
É um livro de educação sentimental, o primeiro amor, o coração aos pulos, e isso deve ter chamado a atenção dos jovens. O fracasso sentimental não costuma dar as caras no TikTok, a plataforma mundial de exibição de dancinhas e felicidades diversas. Foi de lá, no entanto, que veio essa onda capaz de transformar em best-seller um texto de 1848 – sem carícias, sem vias de fato, sem senta-e-toma, e com um final de infelicidade lindamente arrasadora. Lupicínio Rodrigues ia morrer de inveja da dor de cotovelo do chapa Dostói, tão dodói quanto ele.
É duro ter um amor, ter loucura por uma mulher – e essa é a história do livro, de todos os livros, de todos nós, o início, o fim e o meio de todas as canções. No penúltimo capítulo, quando tudo parece se aproximar do felizes para sempre e a lágrima furtiva já ameaça escorrer olho abaixo do leitor, eis que ela, a doce e confusa Nástiènka, abandona quem a acompanhou pelo livro inteiro – e se vai nos braços de outro qualquer. No TikTok, uma jovem mandou a real: “É um livro de terror!”.
Hoje, repito, é segunda-feira. Se Drummond, o poeta sentado de costas para o mar de Copacabana, disse não saber o que é o amor num dia desses, não sou eu que vou definir se é uma pegadinha que nos torna patéticos, a faca amolada no meio da aorta ou uma bet em que se apostam todos os Pix.
Estou passando aqui apenas para dizer que há adolescentes lendo novelas de amor e, num mundo dominado pela grosseria, isso é bom. Eles se reconhecem nas histórias. Quando são bem escritas, não se importam se terminam com um beijo na boca ou o torturante “eu gosto de você, mas te quero apenas como amigo”, dito naquele canto mais escuro do pátio, na hora do recreio, naquela veia mais sensível do coração.
“Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida?”, escreveu Antônio Maria.
“O amor é a coisa mais triste quando se desfaz”, compôs Vinicius de Moraes.
O poeta mineiro sentado no calçadão de Copacabana me disse uma vez que o amor é isso que se está vendo: alguém que um dia beija, que amanhã já não beija e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Hoje é segunda-feira, eu acabei de ler essa história de Dostoiévski em que um jovem se apaixona ao encontrar a moça chorando numa ponte das noites claras de São Petersburgo. Posso dizer o seguinte: o amor é uma novela russa, um cenário de charme lúgubre recheado de ghosting e friendzone, nomes novos para as eternas trapaças da paixão. Acho que não dou spoiler – tudo acaba mal.
É um livro de educação sentimental, o primeiro amor, o coração aos pulos, e isso deve ter chamado a atenção dos jovens. O fracasso sentimental não costuma dar as caras no TikTok, a plataforma mundial de exibição de dancinhas e felicidades diversas. Foi de lá, no entanto, que veio essa onda capaz de transformar em best-seller um texto de 1848 – sem carícias, sem vias de fato, sem senta-e-toma, e com um final de infelicidade lindamente arrasadora. Lupicínio Rodrigues ia morrer de inveja da dor de cotovelo do chapa Dostói, tão dodói quanto ele.
É duro ter um amor, ter loucura por uma mulher – e essa é a história do livro, de todos os livros, de todos nós, o início, o fim e o meio de todas as canções. No penúltimo capítulo, quando tudo parece se aproximar do felizes para sempre e a lágrima furtiva já ameaça escorrer olho abaixo do leitor, eis que ela, a doce e confusa Nástiènka, abandona quem a acompanhou pelo livro inteiro – e se vai nos braços de outro qualquer. No TikTok, uma jovem mandou a real: “É um livro de terror!”.
Hoje, repito, é segunda-feira. Se Drummond, o poeta sentado de costas para o mar de Copacabana, disse não saber o que é o amor num dia desses, não sou eu que vou definir se é uma pegadinha que nos torna patéticos, a faca amolada no meio da aorta ou uma bet em que se apostam todos os Pix.
Estou passando aqui apenas para dizer que há adolescentes lendo novelas de amor e, num mundo dominado pela grosseria, isso é bom. Eles se reconhecem nas histórias. Quando são bem escritas, não se importam se terminam com um beijo na boca ou o torturante “eu gosto de você, mas te quero apenas como amigo”, dito naquele canto mais escuro do pátio, na hora do recreio, naquela veia mais sensível do coração.
A mulher do famacêutico
O lugarejo de B.., formado por duas ou três ruazinhas tortas, dorme seu sono pesado. No ar espesso o silêncio é total. Ouve-se apenas, ao longe, fora dos limites da cidade, o latido ardido e líquido de um cão que aos poucos enrouquece. É quase o amanhecer.
Há muito tempo que tudo está dormindo. A única que não dorme é a jovem mulher do boticário Tchornomordik, proprietário da farmácia de B… Já tentou deitar-se três vezes, mas, não sabe por quê, o sono teima em não querer chegar. Sentada, a janela aberta, veste apenas uma camisola e olha para a rua. Sente calor, tédio, desgosto. Tanto desgosto que lhe dá até vontade de chorar; de novo, não sabe por quê. Sente um nó no peito que de repente lhe chega a garganta… Poucos passos atrás dela, colado à parede, dorme Tchornomordik e ronca baixinho. Uma pulga esfomeada suga-o a raiz do nariz, mas ele não percebe e até sorri, pois está sonhando que todos na cidade estão com tosse e compram dele, interminavelmente, as gotas do rei da Dinamarca. Nenhuma picada poderia acordá-lo agora, nem um canhão, nem uma carícia.
Como a farmácia encontra-se quase no limite da cidade, a mulher do boticário consegue ver o campo, ao longe… Vê como o céu aos poucos faz-se branco, do lado do leste, e depois se torna púrpura, como que devido a um grande incêndio. Inesperadamente, de trás de um longínquo arbusto desponta o grande rosto da lua. Ela é vermelha (não sabe por que a lua saindo detrás dos arbustos sempre tem um quê de terrivelmente confuso).
De repente, no meio da calma noturna, ressoam passos e o retinir de esporas. Ouvem-se vozes.
Pouco depois surgem dois vultos e dois uniformes brancos de oficiais: um é grande e gordo, o outro menor e mais fino… Arrastam, preguiçosos, uma perna atrás da outra, ao longo da sebe, e conversam ruidosamente. Diante da farmácia diminuem ainda mais o passo e olham para as janelas.
– Sente-se cheiro de farmácia… – diz o magro. – E é uma farmácia! Ah, estou lembrando… Na semana passada vim aqui comprar óleo de rícino. O farmacêutico tem um rosto azedo e uma queixada de burro. Pois é, meu amigo, a queixada! Aquela mesma com que Sansão deu cabo dos filisteus.
– S-sim… – diz o gordo, com sua voz de baixo. – O farmacêutico dorme e dorme a mulher do farmacêutico. Por sinal, Obtiossov, ela não é de se atirar aos cães.
– Eu a vi. E gostei… Diga-me doutor, será que ela pode gostar de uma queixada dessas? O senhor acha isso possível?
– Não, provavelmente, não gosta – suspira o médico com uma expressão como que de pena pelo farmacêutico. – A mamãezinha está dormindo atrás das janelas. Que acha, Obtiossov? Deitou-se, de tanto calor… a boca entreaberta… a perna caída, fora da cama. E a besta do farmacêutico não está com nada… Para ele, provavelmente, uma mulher ou um vidro de fenol são a mesma coisa.
– Sabe de uma coisa, doutor? – diz o oficial, parando.
– Que tal entrar na farmácia e comprar alguma coisa? Quem sabe a gente vê a farmacêutica?
– Imagine – de madrugada!
– E daí? De madrugada também tem de atender. Entremos, por favor…
A farmacêutica escondida atrás da cortina ouve o som rouco da campainha. Olha para o marido que, como dantes, ronca baixinho e sorri. Veste rapidamente a roupa, calça o sapato sem meia e corre para a loja.
Atrás da porta de vidro veem-se duas sombras… A farmacêutica aumenta a luz da lamparina e abre a porta depressa. Já não sente tédio, nem desgosto, nem vontade de chorar; apenas o coração bate, forte. Entram o doutor gorducho e o esbelto Obtiossov. Agora pode olhá-los à vontade. O doutor barrigudo é moreno, barbado e lerdo. Ao menor movimento seu uniforme estala e seu rosto cobre-se de gotas de suor. Ao contrário, o oficial é rosado, sem barba, feminino e flexível como um chicote inglês.
– O que desejam? – pergunta a farmacêutica, segurando com uma das mãos o decote do vestido.
– Bem… dê-nos quinze copeques de pastilhas de hortelã. Sem se apressar, a mulher retira da prateleira a lata e começa a pesar. Os clientes olham para ela, de costas, sem pestanejar: o médico de olhos semicerrados, como um gato satisfeito, e o tenente, sério.
– É a primeira vez que vejo uma senhora trabalhar numa farmácia – diz o médico.
– Não há nada de estranho – responde a farmacêutica olhando de viés para o rosto rosado de Obtiossov. – Como meu marido não tem ajudantes, quem o ajuda sou eu.
– É assim? Pois a senhora tem uma linda farmácia! Um montão dessas… latas! E a senhora não tem medo de estar sempre às voltas com venenos? Brrr!
A farmacêutica embrulha as pastilhas e as entrega ao médico. Obtiossov dá-lhe uma moeda de quinze copeques. Meio minuto de silêncio.. Os homens entreolham-se, dão um passo em direção à porta, olham-se de novo.
– Dê-me dez copeques de bicarbonato de sódio! – diz o médico.
De novo a farmacêutica move-se devagar e estende lentamente o braço para a prateleira.
– Será que aqui na farmácia não tem alguma coisa… – resmunga Obtiossov mexendo os dedos -, alguma coisa, assim, a senhora sabe, de alegórico, algum licor revigorante… gasosa, isso! A senhora tem gasosa?
– Tenho – responde a farmacêutica.
– Excelente! A senhora não é uma mulher, é uma feiticeira. Arranje-nos então umas três garrafas.
Ela embrulha o bicarbonato de sódio e desaparece na sombra atrás da porta.
– Uma fruta! – diz o medico, piscando; – Um ananás como esse, Obtiossov, você não encontra nem sequer na ilha da Madeira. Hem? O que você acha? Porém.. está ouvindo o ronco? É o senhor farmacêutico que resolveu dormir em santa paz.
Um minuto mais tarde a farmacêutica está de volta com cinco garrafas que coloca no balcão. Acaba de subir do porão, por isso ela está corada e um pouco agitada.
– Sss… mais baixinho – diz Obtiossov quando ela deixa cair o abridor, após ter destampado as garrafas. – Não faça tanto barulho, senão acorda seu marido.
– E daí, o que é que tem se ele acordar?
– Ele dorme tão bem… está sonhando com a senhora… À sua saúde!
– Além do que – acrescenta o médico com sua voz de baixo, após um gole de gasosa -, quanto ao marido, é uma coisa tão cacete que seria bom ele dormir sempre. Eh, com essa água, até que um vinhozinho ia bem.
– O que mais o senhor quer inventar! – ri a farmacêutica.
– Seria magnífico. É uma pena que não se vendam bebidas alcoólicas em farmácia. Mas… a senhora deve vender vinho, como remédio. A senhora por acaso tem vinum gallicum rubrum ?
– Tenho.
– Viva! Traga-o, traga-o, com os diabos!
– Quanto o senhor quer?
– Quantum satis. Para começo de conversa, traga uma onça num copo de água, depois veremos… Não é assim, Obtiossov? Primeiro com a água, depois já per se…
O médico e Obtiossov sentam-se perto do balcão, tiram seus quepes e começam a beber o vinho tinto.
– É preciso convir, é horrível. Vinum malissimum. Embora em companhia de… he, he, he… ele pareça um néctar. Madame, a senhora é encantadora! Beijo-lhe a mão em pensamento.
– E o que eu daria para não fazê-lo em pensamento! – falou Obtiossov. – Palavra de honra! Daria a vida.
– Deixe disso… – falou a senhora Tchernomódrik, corando e assumindo um ar de seriedade.
– E, no entanto, como a senhora é coquete – ri o doutor baixinho, olhando-a de baixo, maliciosamente. – Seus olhos disparam: pam! pam! Parabéns, a senhora ganhou! Fomos atingidos!
A farmacêutica olha para seus rostos corados, ouve suas palavras e logo ela também se anima. É tão divertido! Entra na conversa, ri, flerta e até, após tantos pedidos, consente em beber duas onças de vinho tinto.
– Ah, se vocês oficiais viessem mais vezes do acampamento para a cidade – diz ela. – Aqui é tão aborrecido. Morro de tanto tédio.
– Não faça isso! – exclama o doutor horrorizado. – Uma fruta dessas… um milagre da natureza nesse lugar perdido. Bem que Griboiédov disse: “Para o deserto, para Sarátov!” Infelizmente, já está na hora. Tive imenso prazer em conhecê-la. .. Imenso. Quanto lhe devemos?
A farmacêutica levanta os olhos para o teto e move demoradamente os lábios.
– Doze rublos e quarenta e oito copeques – diz, afinal. Obtiossov tira do bolso uma carteira recheada, fica um tempão remexendo entre as notas e acerta a conta.
– Seu marido dorme em paz… sonha… – resmunga ele, apertando o braço da farmacêutica, ao despedir-se.
– Não gosto de ficar ouvindo besteiras…
– Mas que besteiras… Já Shakespeare dizia: “Feliz daquele que foi jovem quando jovem”.
– Solte meu braço!
Finalmente, depois de longas conversas, os clientes beijam a mão da farmacêutica e, incertos, como se temessem ter esquecido alguma coisa, saem da farmácia.
Ela corre logo para o quarto e senta-se à mesma janela. Vê que o doutor e o tenente, após terem saído da loja, andam uns vinte passos sem vontade, depois param e começam a bisbilhotar entre si. O coração dela bate. Sobre o que será? As têmporas também latejam, por quê, ela mesma não sabe… O coração bate forte, como se aqueles dois, bisbilhotando lá fora, fossem decidir seu destino.
Uns cinco minutos depois o médico se afasta de Obtiossov e prossegue, enquanto o outro retorna. Passa pela farmácia uma, duas vezes… Para perto da porta, começa a andar de novo. Afinal, toca com cuidado a campainha.
– O que há? Quem está aí? – a farmacêutica ouve de repente a voz do marido. – Estão tocando e você não escuta? Que droga!
Ele levanta, veste o robe e balançando, meio sonado, arrasta os chinelos e vai até a loja.
– O que… o senhor quer? – pergunta a Obtiossov.
– Dê-me… dê-me quinze copeques de pastilhas de hortelã.
Tchornomordik sopra, boceja, ainda dormindo, bate com os joelhos no banco, sobe na prateleira e apanha a lata.
Dois minutos mais tarde a farmacêutica vê Obtiossov sair da loja e, depois de alguns passos, jogar na estrada poeirenta as pastilhas de hortelã. Da esquina o médico vem a seu encontro.. Ambos se juntam e, gesticulando com as mãos, desaparecem na bruma da manhã.
– Como eu sou infeliz! – diz a farmacêutica, olhando com ódio o marido que se despe depressa para deitar de novo.
– Oh, como eu sou infeliz! – repete ela, e de repente seus olhos se enchem de lágrimas. – E ninguém, ninguém desconfia…
– Esqueci quinze copeques no balcão – resmunga o marido desaparecendo sob o cobertor. Esconda-os na caixa, por favor…
Anton Tchekhov
Há muito tempo que tudo está dormindo. A única que não dorme é a jovem mulher do boticário Tchornomordik, proprietário da farmácia de B… Já tentou deitar-se três vezes, mas, não sabe por quê, o sono teima em não querer chegar. Sentada, a janela aberta, veste apenas uma camisola e olha para a rua. Sente calor, tédio, desgosto. Tanto desgosto que lhe dá até vontade de chorar; de novo, não sabe por quê. Sente um nó no peito que de repente lhe chega a garganta… Poucos passos atrás dela, colado à parede, dorme Tchornomordik e ronca baixinho. Uma pulga esfomeada suga-o a raiz do nariz, mas ele não percebe e até sorri, pois está sonhando que todos na cidade estão com tosse e compram dele, interminavelmente, as gotas do rei da Dinamarca. Nenhuma picada poderia acordá-lo agora, nem um canhão, nem uma carícia.
Como a farmácia encontra-se quase no limite da cidade, a mulher do boticário consegue ver o campo, ao longe… Vê como o céu aos poucos faz-se branco, do lado do leste, e depois se torna púrpura, como que devido a um grande incêndio. Inesperadamente, de trás de um longínquo arbusto desponta o grande rosto da lua. Ela é vermelha (não sabe por que a lua saindo detrás dos arbustos sempre tem um quê de terrivelmente confuso).
De repente, no meio da calma noturna, ressoam passos e o retinir de esporas. Ouvem-se vozes.
Pouco depois surgem dois vultos e dois uniformes brancos de oficiais: um é grande e gordo, o outro menor e mais fino… Arrastam, preguiçosos, uma perna atrás da outra, ao longo da sebe, e conversam ruidosamente. Diante da farmácia diminuem ainda mais o passo e olham para as janelas.
– Sente-se cheiro de farmácia… – diz o magro. – E é uma farmácia! Ah, estou lembrando… Na semana passada vim aqui comprar óleo de rícino. O farmacêutico tem um rosto azedo e uma queixada de burro. Pois é, meu amigo, a queixada! Aquela mesma com que Sansão deu cabo dos filisteus.
– S-sim… – diz o gordo, com sua voz de baixo. – O farmacêutico dorme e dorme a mulher do farmacêutico. Por sinal, Obtiossov, ela não é de se atirar aos cães.
– Eu a vi. E gostei… Diga-me doutor, será que ela pode gostar de uma queixada dessas? O senhor acha isso possível?
– Não, provavelmente, não gosta – suspira o médico com uma expressão como que de pena pelo farmacêutico. – A mamãezinha está dormindo atrás das janelas. Que acha, Obtiossov? Deitou-se, de tanto calor… a boca entreaberta… a perna caída, fora da cama. E a besta do farmacêutico não está com nada… Para ele, provavelmente, uma mulher ou um vidro de fenol são a mesma coisa.
– Sabe de uma coisa, doutor? – diz o oficial, parando.
– Que tal entrar na farmácia e comprar alguma coisa? Quem sabe a gente vê a farmacêutica?
– Imagine – de madrugada!
– E daí? De madrugada também tem de atender. Entremos, por favor…
A farmacêutica escondida atrás da cortina ouve o som rouco da campainha. Olha para o marido que, como dantes, ronca baixinho e sorri. Veste rapidamente a roupa, calça o sapato sem meia e corre para a loja.
Atrás da porta de vidro veem-se duas sombras… A farmacêutica aumenta a luz da lamparina e abre a porta depressa. Já não sente tédio, nem desgosto, nem vontade de chorar; apenas o coração bate, forte. Entram o doutor gorducho e o esbelto Obtiossov. Agora pode olhá-los à vontade. O doutor barrigudo é moreno, barbado e lerdo. Ao menor movimento seu uniforme estala e seu rosto cobre-se de gotas de suor. Ao contrário, o oficial é rosado, sem barba, feminino e flexível como um chicote inglês.
– O que desejam? – pergunta a farmacêutica, segurando com uma das mãos o decote do vestido.
– Bem… dê-nos quinze copeques de pastilhas de hortelã. Sem se apressar, a mulher retira da prateleira a lata e começa a pesar. Os clientes olham para ela, de costas, sem pestanejar: o médico de olhos semicerrados, como um gato satisfeito, e o tenente, sério.
– É a primeira vez que vejo uma senhora trabalhar numa farmácia – diz o médico.
– Não há nada de estranho – responde a farmacêutica olhando de viés para o rosto rosado de Obtiossov. – Como meu marido não tem ajudantes, quem o ajuda sou eu.
– É assim? Pois a senhora tem uma linda farmácia! Um montão dessas… latas! E a senhora não tem medo de estar sempre às voltas com venenos? Brrr!
A farmacêutica embrulha as pastilhas e as entrega ao médico. Obtiossov dá-lhe uma moeda de quinze copeques. Meio minuto de silêncio.. Os homens entreolham-se, dão um passo em direção à porta, olham-se de novo.
– Dê-me dez copeques de bicarbonato de sódio! – diz o médico.
De novo a farmacêutica move-se devagar e estende lentamente o braço para a prateleira.
– Será que aqui na farmácia não tem alguma coisa… – resmunga Obtiossov mexendo os dedos -, alguma coisa, assim, a senhora sabe, de alegórico, algum licor revigorante… gasosa, isso! A senhora tem gasosa?
– Tenho – responde a farmacêutica.
– Excelente! A senhora não é uma mulher, é uma feiticeira. Arranje-nos então umas três garrafas.
Ela embrulha o bicarbonato de sódio e desaparece na sombra atrás da porta.
– Uma fruta! – diz o medico, piscando; – Um ananás como esse, Obtiossov, você não encontra nem sequer na ilha da Madeira. Hem? O que você acha? Porém.. está ouvindo o ronco? É o senhor farmacêutico que resolveu dormir em santa paz.
Um minuto mais tarde a farmacêutica está de volta com cinco garrafas que coloca no balcão. Acaba de subir do porão, por isso ela está corada e um pouco agitada.
– Sss… mais baixinho – diz Obtiossov quando ela deixa cair o abridor, após ter destampado as garrafas. – Não faça tanto barulho, senão acorda seu marido.
– E daí, o que é que tem se ele acordar?
– Ele dorme tão bem… está sonhando com a senhora… À sua saúde!
– Além do que – acrescenta o médico com sua voz de baixo, após um gole de gasosa -, quanto ao marido, é uma coisa tão cacete que seria bom ele dormir sempre. Eh, com essa água, até que um vinhozinho ia bem.
– O que mais o senhor quer inventar! – ri a farmacêutica.
– Seria magnífico. É uma pena que não se vendam bebidas alcoólicas em farmácia. Mas… a senhora deve vender vinho, como remédio. A senhora por acaso tem vinum gallicum rubrum ?
– Tenho.
– Viva! Traga-o, traga-o, com os diabos!
– Quanto o senhor quer?
– Quantum satis. Para começo de conversa, traga uma onça num copo de água, depois veremos… Não é assim, Obtiossov? Primeiro com a água, depois já per se…
O médico e Obtiossov sentam-se perto do balcão, tiram seus quepes e começam a beber o vinho tinto.
– É preciso convir, é horrível. Vinum malissimum. Embora em companhia de… he, he, he… ele pareça um néctar. Madame, a senhora é encantadora! Beijo-lhe a mão em pensamento.
– E o que eu daria para não fazê-lo em pensamento! – falou Obtiossov. – Palavra de honra! Daria a vida.
– Deixe disso… – falou a senhora Tchernomódrik, corando e assumindo um ar de seriedade.
– E, no entanto, como a senhora é coquete – ri o doutor baixinho, olhando-a de baixo, maliciosamente. – Seus olhos disparam: pam! pam! Parabéns, a senhora ganhou! Fomos atingidos!
A farmacêutica olha para seus rostos corados, ouve suas palavras e logo ela também se anima. É tão divertido! Entra na conversa, ri, flerta e até, após tantos pedidos, consente em beber duas onças de vinho tinto.
– Ah, se vocês oficiais viessem mais vezes do acampamento para a cidade – diz ela. – Aqui é tão aborrecido. Morro de tanto tédio.
– Não faça isso! – exclama o doutor horrorizado. – Uma fruta dessas… um milagre da natureza nesse lugar perdido. Bem que Griboiédov disse: “Para o deserto, para Sarátov!” Infelizmente, já está na hora. Tive imenso prazer em conhecê-la. .. Imenso. Quanto lhe devemos?
A farmacêutica levanta os olhos para o teto e move demoradamente os lábios.
– Doze rublos e quarenta e oito copeques – diz, afinal. Obtiossov tira do bolso uma carteira recheada, fica um tempão remexendo entre as notas e acerta a conta.
– Seu marido dorme em paz… sonha… – resmunga ele, apertando o braço da farmacêutica, ao despedir-se.
– Não gosto de ficar ouvindo besteiras…
– Mas que besteiras… Já Shakespeare dizia: “Feliz daquele que foi jovem quando jovem”.
– Solte meu braço!
Finalmente, depois de longas conversas, os clientes beijam a mão da farmacêutica e, incertos, como se temessem ter esquecido alguma coisa, saem da farmácia.
Ela corre logo para o quarto e senta-se à mesma janela. Vê que o doutor e o tenente, após terem saído da loja, andam uns vinte passos sem vontade, depois param e começam a bisbilhotar entre si. O coração dela bate. Sobre o que será? As têmporas também latejam, por quê, ela mesma não sabe… O coração bate forte, como se aqueles dois, bisbilhotando lá fora, fossem decidir seu destino.
Uns cinco minutos depois o médico se afasta de Obtiossov e prossegue, enquanto o outro retorna. Passa pela farmácia uma, duas vezes… Para perto da porta, começa a andar de novo. Afinal, toca com cuidado a campainha.
– O que há? Quem está aí? – a farmacêutica ouve de repente a voz do marido. – Estão tocando e você não escuta? Que droga!
Ele levanta, veste o robe e balançando, meio sonado, arrasta os chinelos e vai até a loja.
– O que… o senhor quer? – pergunta a Obtiossov.
– Dê-me… dê-me quinze copeques de pastilhas de hortelã.
Tchornomordik sopra, boceja, ainda dormindo, bate com os joelhos no banco, sobe na prateleira e apanha a lata.
Dois minutos mais tarde a farmacêutica vê Obtiossov sair da loja e, depois de alguns passos, jogar na estrada poeirenta as pastilhas de hortelã. Da esquina o médico vem a seu encontro.. Ambos se juntam e, gesticulando com as mãos, desaparecem na bruma da manhã.
– Como eu sou infeliz! – diz a farmacêutica, olhando com ódio o marido que se despe depressa para deitar de novo.
– Oh, como eu sou infeliz! – repete ela, e de repente seus olhos se enchem de lágrimas. – E ninguém, ninguém desconfia…
– Esqueci quinze copeques no balcão – resmunga o marido desaparecendo sob o cobertor. Esconda-os na caixa, por favor…
Anton Tchekhov
segunda-feira, agosto 24
Ver claro
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade
A peste limpou as terras
“Deus é inglês”, disse o piedoso John Aylmer, pastor de almas, há uns quantos anos. E John Winthrop, fundador da colônia da baía de Massachusetts, afirma que os ingleses podem apropriar-se das terras dos índios tão legitimamente como Abraão entre os sodomitas: O que é comum a todos não pertence a ninguém. Este povo selvagem mandava sobre vastas terras sem título nem propriedade. Winthrop é o chefe dos puritanos que chegaram no Arbella, há quatro anos. Veio com seus sete filhos.
O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.
A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.
A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
A Fazenda Califórnia
A Fazenda Califórnia era “um condado”, conforme se dizia pelo sertão em redor. Foi nos começos da era de 1850 que o velho Miguel Francisco de Queiroz, meu tio-bisavô, senhor de muitas terras entre o Sitiá e o Choró, no Quixadá, resolveu diversificar da sua criação de gado crioulo, o chamado pé-duro. Afinal, era dono de uma boa data das famosas croas de aluvião, na ribeira do Choró: assim, a umas 500 braças da barranca do rio, situou fazenda nova, disposto a tentar a sorte na folha da cana.
Quem decidiu o local da sede foi o açude, alimentado por dois grandes riachos. A barragem se levantou pela mão dos negros – terra puxada em couro de boi, aguada, batida a malho. O grande prato d´água ainda lá está hoje, serenando.
Em terreno plano, o cavaleiro do vale do sangradouro, alisou-se uma esplanada, levantou-se a capela. E, fechando os três lados ao redor da igrejinha, “a rua”, composta numa das faces pela morada do sinhô e, por trás e defronte à igreja, as casas de agregados, o vaqueiro, a professora. Adiante, no caminho da Croa Grande, o cemitério.
Houve inveja e falatório diante do arrojo inovador de Miguel Francisco. Era o tempo da descoberta das célebres minas de ouro da Califórnia, nos Estados Unidos, e até no sertão se falava e se sonhava com aquelas riquezas. Um primo e rival mandou recado irônico: como ia seu Miguel com a sua Califórnia? O velho riu, gostou do nome, e assim a fazenda se batizou por “São Francisco da Califórnia”. Na capela inaugurou-se a imagem do orago, um São Francisco de talha primitiva e forte; que hoje, aliás, está na capela do cemitério, onde o refugiamos para salvar da fúria airada de um vigário alemão que pretendia incinerar “aquela feiura barroca” e o substituiu por um santo de gesso, loiro, rosado, coberto de dourados.
Meu tio Miguel não tinha fihos: deixou tudo que era seu para meu avô, o dr. Arcelino; e nas mãos do novo dono a Califórnia virou realmente um condado. Mudou-se a casa-grande (que, no sertão, nós chamamos simplesmente “a fazenda”) para o outro cabeço, do lado de lá do sangradouro. Imensa, rodeada por fundos alpendres de 3 metros, 57 portas e janelas, salas e salões, quartos e alcovas onde se podem armar 120 redes. Nas festas do centenário, lá se hospedaram 125 pessoas. Por trás da “fazenda”, o vale profundo do sítio, o cano de irrigação partindo do açude, as valetas regando em sucessão primeiro a famosa horta de minha avó, depois o pomar onde se cultivavam até fruta-pão e jambo, até uvas. Além do pomar, o vale se alargava mais, e era o canavial.
Entre a “fazenda” e o açude, a “fábrica”: o engenho a vapor, os tachos de apurar a garapa, o locomóvel que apitava como um trem, o alambique, os paióis de rapadura e, por fim, em plano mais baixo, no escuro, deitando um cheiro forte que tonteava, a adega onde dormiam os toneis de cachaça.Saiba mais
Pena grande foi meu avô morrer cedo, deixando a viúva com dez filhos. Mas, mesmo em mão de viúva, a fazenda não decaiu. Ao contrário, parecia mais viva, com a presença frequente dos filhos, genros, noras e nós, as dezenas de netos. Dos sete filhos, cinco tiraram grau de doutor, o sexto fez seminário até o último ano, só o caçula não se formou. Concluídos os preparatórios, foi ele o escolhido para morar com a mãe e tomar conta da Califórnia. Só depois que ela morreu é que ele, solteirão, casou com uma prima. (A gente, na minha família, casava preferencialmente co primos. Dos dez da Califórnia, metade casou com primo ou prima.)
Até à morte de Dona Rachel, a Califórnia era mesmo o centro do nosso mundo. Era lá que nós os netos passávamos as férias, nas danças ao som de piano ou gramofone, cavalgatas, novenas, namoros.
Morta a avó, ficou de dono o caçula; nos anos em que lá esteve, se não fez melhoramentos, pelo menos não deixou que Nara arruinasse. Mas aí ele morreu (já viúvo) e a consanguinidade tinha atacado os herdeiros, jovens e irresponsáveis. Fazendeiro nordestino tem terras e senhoria, mas dinheiro vê muito pouco. E os órfãos queriam ver dinheiro na mão. Começaram vendendo cabras e ovelhas, depois passaram ao gado. Venderam o engenho, o locomóvel, o alambique.
E, parte a parte, foram vendendo afinal a terra da Califórnia – e por tutameia. A família não se envolveu – os moços faziam tudo às ocultas, “tinham cisma de parentes”. Quando se viu, acabavam de vender até a casa-grande, que aliás está caindo em ruínas.
Agora surgiu um problema que já deu até crime de morte. Acontece que os velhos moradores, descendentes da indiada e da escravaria do tempo de meu tio Miguel, sempre moraram na rua e plantaram nas croas do rio. Roçados que passam de pais a filhos há mais de século. A rua fica no Patrimônio, isto é, à terra do santo. Como é sabido, quem constrói igreja rural, tem que doar ao orago um patrimônio em terras que lhe sustente os serviços do culto. O velho Miguel demarcou para esse fim um retângulo generoso, que vai da “rua” ao cemitério e desce em procura do rio por mais de 1 quilômetro. Na degringolada os herdeiros deixaram que caducasse o aforamento perpétuo com que o velho garantira a posse efetiva do terreno: o Patrimônio reverteu à Cúria de Quixadá, que o administra. E os padres, por sua vez, passaram a lotear o Patrimônio. A velha rua se “urbaniza”, desfigurada em arruado, pululante de bodegas e biroscas. Mas o pessoal antigo que ainda mora lá quer continuar plantando nos seus velhos roçados que hoje pertencem a novos donos, diversos. Os donos novos querem reaver a terra; a disputa se envenena e, como já se disse, deu até crime de morte.
Na Califórnia, que já foi um condado, só existe hoje miséria e rixa.
A casa-grande assiste a tudo e protesta se desmoronando. No inverno passado caiu a queijaria de minha avó. Antes, ruíra o terraço empedrado. De longe a “fazenda” ainda faz figura, mas de perto está morrendo.
Quem decidiu o local da sede foi o açude, alimentado por dois grandes riachos. A barragem se levantou pela mão dos negros – terra puxada em couro de boi, aguada, batida a malho. O grande prato d´água ainda lá está hoje, serenando.
Em terreno plano, o cavaleiro do vale do sangradouro, alisou-se uma esplanada, levantou-se a capela. E, fechando os três lados ao redor da igrejinha, “a rua”, composta numa das faces pela morada do sinhô e, por trás e defronte à igreja, as casas de agregados, o vaqueiro, a professora. Adiante, no caminho da Croa Grande, o cemitério.
Houve inveja e falatório diante do arrojo inovador de Miguel Francisco. Era o tempo da descoberta das célebres minas de ouro da Califórnia, nos Estados Unidos, e até no sertão se falava e se sonhava com aquelas riquezas. Um primo e rival mandou recado irônico: como ia seu Miguel com a sua Califórnia? O velho riu, gostou do nome, e assim a fazenda se batizou por “São Francisco da Califórnia”. Na capela inaugurou-se a imagem do orago, um São Francisco de talha primitiva e forte; que hoje, aliás, está na capela do cemitério, onde o refugiamos para salvar da fúria airada de um vigário alemão que pretendia incinerar “aquela feiura barroca” e o substituiu por um santo de gesso, loiro, rosado, coberto de dourados.
Meu tio Miguel não tinha fihos: deixou tudo que era seu para meu avô, o dr. Arcelino; e nas mãos do novo dono a Califórnia virou realmente um condado. Mudou-se a casa-grande (que, no sertão, nós chamamos simplesmente “a fazenda”) para o outro cabeço, do lado de lá do sangradouro. Imensa, rodeada por fundos alpendres de 3 metros, 57 portas e janelas, salas e salões, quartos e alcovas onde se podem armar 120 redes. Nas festas do centenário, lá se hospedaram 125 pessoas. Por trás da “fazenda”, o vale profundo do sítio, o cano de irrigação partindo do açude, as valetas regando em sucessão primeiro a famosa horta de minha avó, depois o pomar onde se cultivavam até fruta-pão e jambo, até uvas. Além do pomar, o vale se alargava mais, e era o canavial.
Entre a “fazenda” e o açude, a “fábrica”: o engenho a vapor, os tachos de apurar a garapa, o locomóvel que apitava como um trem, o alambique, os paióis de rapadura e, por fim, em plano mais baixo, no escuro, deitando um cheiro forte que tonteava, a adega onde dormiam os toneis de cachaça.Saiba mais
Pena grande foi meu avô morrer cedo, deixando a viúva com dez filhos. Mas, mesmo em mão de viúva, a fazenda não decaiu. Ao contrário, parecia mais viva, com a presença frequente dos filhos, genros, noras e nós, as dezenas de netos. Dos sete filhos, cinco tiraram grau de doutor, o sexto fez seminário até o último ano, só o caçula não se formou. Concluídos os preparatórios, foi ele o escolhido para morar com a mãe e tomar conta da Califórnia. Só depois que ela morreu é que ele, solteirão, casou com uma prima. (A gente, na minha família, casava preferencialmente co primos. Dos dez da Califórnia, metade casou com primo ou prima.)
Até à morte de Dona Rachel, a Califórnia era mesmo o centro do nosso mundo. Era lá que nós os netos passávamos as férias, nas danças ao som de piano ou gramofone, cavalgatas, novenas, namoros.
Morta a avó, ficou de dono o caçula; nos anos em que lá esteve, se não fez melhoramentos, pelo menos não deixou que Nara arruinasse. Mas aí ele morreu (já viúvo) e a consanguinidade tinha atacado os herdeiros, jovens e irresponsáveis. Fazendeiro nordestino tem terras e senhoria, mas dinheiro vê muito pouco. E os órfãos queriam ver dinheiro na mão. Começaram vendendo cabras e ovelhas, depois passaram ao gado. Venderam o engenho, o locomóvel, o alambique.
E, parte a parte, foram vendendo afinal a terra da Califórnia – e por tutameia. A família não se envolveu – os moços faziam tudo às ocultas, “tinham cisma de parentes”. Quando se viu, acabavam de vender até a casa-grande, que aliás está caindo em ruínas.
Agora surgiu um problema que já deu até crime de morte. Acontece que os velhos moradores, descendentes da indiada e da escravaria do tempo de meu tio Miguel, sempre moraram na rua e plantaram nas croas do rio. Roçados que passam de pais a filhos há mais de século. A rua fica no Patrimônio, isto é, à terra do santo. Como é sabido, quem constrói igreja rural, tem que doar ao orago um patrimônio em terras que lhe sustente os serviços do culto. O velho Miguel demarcou para esse fim um retângulo generoso, que vai da “rua” ao cemitério e desce em procura do rio por mais de 1 quilômetro. Na degringolada os herdeiros deixaram que caducasse o aforamento perpétuo com que o velho garantira a posse efetiva do terreno: o Patrimônio reverteu à Cúria de Quixadá, que o administra. E os padres, por sua vez, passaram a lotear o Patrimônio. A velha rua se “urbaniza”, desfigurada em arruado, pululante de bodegas e biroscas. Mas o pessoal antigo que ainda mora lá quer continuar plantando nos seus velhos roçados que hoje pertencem a novos donos, diversos. Os donos novos querem reaver a terra; a disputa se envenena e, como já se disse, deu até crime de morte.
Na Califórnia, que já foi um condado, só existe hoje miséria e rixa.
A casa-grande assiste a tudo e protesta se desmoronando. No inverno passado caiu a queijaria de minha avó. Antes, ruíra o terraço empedrado. De longe a “fazenda” ainda faz figura, mas de perto está morrendo.
Rachel de Queiroz
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