terça-feira, maio 12

Lembre-se!

 


Areias de Portugal

No meio do quintal, ao lado da casa, havia a mangueira, enorme, de um de seus ramos o pai pendurara um balanço que teve seus dias de glória até que meu irmão dele se despencou. Minha mãe iniciou campanha feroz e bem-sucedida, o balanço serviu de lenha numa fogueira de Santo Antônio.

Naqueles dias, Humberto de Campos publicara uma página de suas memórias, evocando o cajueiro de sua infância. Meu pai lera a crônica para mim. Recortei-a do jornal e quase a decorei. Pior: procurei imitar o menino que subia nos galhos mais altos e gritava: "Assobe, assobe, gajeiro, naquele topo real, para ver se tu avistas terras de Espanha, Otolina, areias de Portuga!!".


Passei a subir nos galhos mais altos, onde descobri um nicho no meio das folhas verdes e perfumadas – como só as mangueiras sabem ter. E lá de cima eu também gritava aos ventos da Boca do Mato, garantindo que via terras de Espanha, quando, na verdade, via apenas os tetos cor de moringa da vizinhança, ao longe a torre mais-que-branca da Matriz de Nossa Senhora da Guia e, depois, a formidável massa azulada do pico da Tijuca.

Pois ontem, tantos anos depois, sonhei com a mangueira dos dias antigos do passado. No sonho, ela surgia destacada, talvez mais alta e mais espetacular. E como na paisagem do sonho era quase noite, ela parecia iluminada por dentro, um pouco fosforescente, mas sem dúvida era a minha mangueira, intacta, esperando por mim.

Olhei-a bem e não foi difícil encontrar, em seus ramos mais altos, o nicho de folhas verdes e perfumadas – como só as mangueiras sabem ter. Lá estava ele, também, intacto, reconheci até mesmo o galho mais forte em que me segurava com maior confiança, deixando a outra mão livre para proteger os olhos do sol e dos ventos do mar largo. E de onde o menino, que nada vira do mundo até então, assombrado, avistava terras de Espanha, areias de Portugal.
Carlos Heitor Cony

Chuva

Chuva morna, chuva de verão
Borbulha de arvores e arbustos.
Oh! Como é bom e cheio de bênção
Uma vez mais sonhar de verdade!

Quanto tempo fiquei aqui fora,
Quão estranha essa sensação:
Habitar a própria alma,
O estranho, sem atração.

Nada quero, nada peço.
Baixinho cantarolo sons de criança,
E, surpreso, chego ao berço
Dos sonhos quentes de folgança.

Coração, como estás machucado
Porem feliz, remexendo cegamente,
Nada pensar, nada saber,
Respirar e sentir, somente.
Hermann Hesse

A máscara da Morte Rubra

Por muito tempo a “Morte Rubra” devastara o país. Jamais pestilência alguma fora tão mortífera ou tão terrível. O sangue era seu avatar e seu sinal — a vermelhidão e o horror do sangue. Surgia com dores agudas, súbitas vertigens; depois, vinha profusa sangueira pelos poros e a decomposição. As manchas vermelhas no corpo, em particular no rosto da vítima, estigmatizavam-na, isolando-a da compaixão e da solidariedade de seus semelhantes. A irrupção, o progresso e o desenlace da moléstia eram coisa de apenas meia hora.


Mas o príncipe Próspero sabia-se feliz, intrépido e sagaz. Quando seus domínios começaram a despovoar-se, chamou à sua presença um milheiro de amigos sadios e frívolos, escolhidos entre os fidalgos e damas da corte, e com eles se encerrou numa de suas abadias fortificadas. Era um edifício vasto e magnífico, criação do gosto excêntrico, posto que majestoso, do próprio príncipe. Forte e alta muralha, com portões de ferro, cercava-o por todos os lados. Uma vez lá dentro, os cortesãos, com auxílio de forjas e pesados martelos, rebitaram os ferrolhos, a fim de cortar todos os meios de ingresso ao desespero dos de fora, e de escape, ao frenesi dos de dentro. A abadia estava amplamente abastecida. Com tais precauções, podiam os cortesãos desafiar o contágio. O mundo externo que se arranjasse. Por enquanto, era loucura pensar nele ou afligir-se por sua causa. O príncipe tomara todas as providências para garantir o divertimento dos hóspedes. Contratara bufões, improvisadores, bailarinos, músicos. Beleza, vinho e segurança estavam dentro da abadia. Além de seus muros, campeava a “Morte Rubra”.
Ao fim do quinto ou sexto mês de reclusão, quando mais furiosamente lavrava a pestilência lá fora, o príncipe Próspero decidiu entreter seus amigos com um baile de máscaras de inédita magnificência.

Que cena voluptuosa, essa mascarada! Mas me permitam, primeiramente, falar das salas em que se realizou. Era uma série imperial de sete salões. Na maioria dos palácios, tais séries formam longas perspectivas em linha reta, as portas abrindo-se de par em par, possibilitando a visão de todo o conjunto. Aqui, o caso era diverso, como se devia esperar do gosto bizarro do duque. Os apartamentos estavam dispostos de forma tão irregular que a vista abarcava pouco mais de um por vez. A cada vinte ou trinta metros, havia um cotovelo brusco, proporcionando novas perspectivas. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica abria-se para o corredor fechado que acompanhava as sinuosidades do conjunto. Essas janelas estavam providas de vitrais cuja cor variava de acordo com o tom predominante da decoração da sala para a qual davam. A sala da extremidade oriental, por exemplo, fora decorada em azul, e intensamente azuis eram suas janelas. A segunda sala tinha ornamento e tapeçarias purpúreas; purpúreas eram as vidraças. A terceira fora pintada de verde, sendo também verdes as armações das janelas. A quarta havia sido decorada e iluminada de alaranjado; a quinta, de branco; a sexta, de violeta. O sétimo aposento estava completamente revestido de veludo preto, que, pendendo do teto e ao longo das paredes, caía em dobras pesadas sobre um tapete de mesmo estofo e cor. Nesse aposento, entretanto, a cor das janelas não correspondia à das decorações. Suas vidraças eram vermelhas, de uma escura tonalidade sanguínea. Cumpre notar que em nenhum dos aposentos havia lâmpada ou candelabro pendendo do teto ricamente ornamentado a ouro. Luz alguma emanava de lâmpada ou candelabro em qualquer das salas. Contudo, nos corredores que as acompanhavam, em frente de cada janela, havia um pesado trípode a sustentar um braseiro cuja luz, filtrando-se através dos vitrais, iluminava o aposento, ocasionando uma infinidade de vistosas e fantásticas aparências. Na sala negra, porém, o clarão, infletindo sobre as negras cortinas através dos vitrais sanguíneos, produzia um efeito extremamente lívido e dava aparência tão estranha à fisionomia dos que ali entrassem que poucos tinham coragem de atravessar-lhe o umbral.

Era nesse mesmo aposento que havia, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo ia e vinha num tique-taque lento, pesado, monótono. Quando o ponteiro dos minutos completava a volta do mostrador e a hora estava para soar, saía dos brônzeos pulmões do relógio um som limpo, alto, agudo, extremamente musical, mas de ênfase e timbre tão peculiares que, a cada intervalo de hora, os músicos da orquestra viam-se constrangidos a interromper momentaneamente a execução para ouvi-lo. Nesses momentos, era forçoso que os dançarinos parassem de dançar, e um breve desconcerto se apoderava da alegre companhia. Enquanto vibrava o carrilhão do relógio, os mais afoitos empalideciam, e os mais idosos e sensatos passavam a mão pela fronte, como em sonho ou meditação confusa. Tão logo se esvaíam os ecos, um riso ligeiro percorria a assembleia. Os músicos se entreolhavam, sorrindo da própria nervosidade e loucura, fazendo juras sussurradas, uns aos outros, de que o próximo carrilhonar do relógio não mais produziria neles tal comoção. Todavia, sessenta minutos mais tarde (que abrangem três mil e seiscentos segundos do tempo que voa), quando vinha outro carrilhonar do relógio, de novo se dava o mesmo desconcerto, o mesmo tremor, a mesma meditação de antes.

A despeito de tudo isso, a folia ia alegre e magnífica. Os gostos do duque eram originais. Tinha ele olho esperto para cores e efeitos. Desprezava as maneiras da moda em vigor. Seus projetos eram audazes e vivos; suas concepções esplendiam de um lustro bárbaro. Muitos acreditariam tratar-se de um louco. Seus adeptos, porém, sabiam que não. Era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para assegurar-se de seu juízo perfeito.

Em grande parte, ele comandara pessoalmente a caprichosa decoração das salas para a grande fête; sob sua orientação, haviam sido escolhidas as fantasias. Sem dúvida, elas eram grotescas. Havia muito brilho, muita pompa, muita coisa fantástica, muito daquilo que, desde então, pode-se ver em Hernani. Havia figuras arabescas, com membros e adornos desproporcionados. Havia fantasias delirantes, invenções de louco. Havia muito de belo, de atrevido, de bizarro, algo de terrível, capaz em não pouca medida de provocar aversão. Para lá e para cá, nas sete salas, movimentava-se uma multidão de sonhos. E esses sonhos andavam de um canto a outro, impregnando-se do colorido das salas, fazendo a música extravagante da orquestra soar como o eco de seus passos. Mas logo cantava o relógio de ébano na sala aveludada; por um momento, tudo se fazia imobilidade e silêncio, perturbado apenas por aquela voz. Os sonhos paravam, retesados. Porém, quando os ecos do carrilhão se esvaíam — tinham durado apenas um instante —, um frouxo de riso os acompanhava. E, mais uma vez, a música era reiniciada, os sonhos tornavam a viver e a circular mais alegremente que nunca, banhados pelas cores que a luz dos trípodes, atravessando os vitrais, projetava sobre eles. Entretanto, à última das sete salas, ninguém se aventurava, porque, avançando a noite, a luz filtrada pelas rubras vidraças fazia-se mais sanguínea; e a negrura dos panejamentos causava medo. Aqueles cujos pés pisassem o tapete veludoso ouviriam o som abafado do relógio, e o ouviriam mais solenemente enfático que os convivas dos demais salões.

Esses outros salões estavam cheios de gente; neles, pulsava febril o coração da vida. E a folia continuou, rodopiante, até que o relógio começou a bater meia-noite. A música parou, como já descrevi; acalmou-se o rodopio dos dançarinos; e, como antes, uma constrangida imobilidade tomou conta de todas as coisas. Doze foram as badaladas; por isso, os que meditavam entre os foliões tiveram tempo de meditar mais longa e profundamente. E antes que se esvanecesse o eco da última badalada, muitos dos convivas puderam perceber a presença de um novo mascarado, que, até então, não atraíra as atenções. Entre murmúrios, propagou-se a notícia da nova presença; elevou-se da companhia um zum-zum, um rumor de desaprovação e surpresa, a princípio; de terror, de horror e de náusea, depois.

Numa assembleia de fantasmas, como a que descrevi, era de supor que tal agitação não seria causada por aparição vulgar. Na realidade, a licença carnavalesca da noite fora praticamente ilimitada, mas o novo mascarado excedia em extravagância ao próprio Herodes; ultrapassava, inclusive, os indecisos limites de decoro impostos pelo príncipe. Há fibras no coração dos mais levianos que não podem ser tocadas impunemente. Mesmo para os pervertidos, para quem vida e morte são brinquedos igualmente frívolos, há assuntos sobre os quais não se admitem brincadeiras. Todos os presentes pareciam se dar conta de que, nos trajes e nas atitudes do estranho, nada havia de espirituoso ou de conveniente. Alto e lívido, vestia uma mortalha que o cobria da cabeça aos pés. A máscara que lhe escondia as feições imitava com tanta perfeição a rigidez facial de um cadáver que nem mesmo a um exame atento se perceberia o engano. E, no entanto, tudo isso seria, se não aprovado, ao menos tolerado pelos presentes, não fora a audácia do mascarado em disfarçar-se de Morte Rubra. Suas vestes estavam salpicadas de sangue; sua ampla fronte, assim como toda a face, fora borrifada com horrendas manchas escarlates.

Quando os olhos do príncipe Próspero caíram sobre aquela figura espectral (que, para melhor representar seu papel, caminhava entre os dançarinos com passos lentos e solenes), viram-no ser tomado de convulsões e arrepios de terror ou asco, no primeiro instante; logo depois, porém, seu rosto congestionou-se de raiva.

— Quem se atreve — perguntou roucamente aos cortesãos que o cercavam —, quem se atreve a insultar-nos com essa brincadeira blasfema? Agarrem-no, desmascarem-no! Assim saberemos quem deverá ser enforcado ao amanhecer!

Essas palavras vieram da sala azul, onde se achava o príncipe quando as pronunciou. Ecoavam pelas sete salas, alta e claramente, porque o príncipe era homem destemido e forte, e a música havia cessado, a um gesto seu.
Vieram da sala azul, onde estava o príncipe, rodeado de cortesãos empalidecidos.

No primeiro momento que se seguiu à fala do príncipe, houve um ligeiro movimento de avanço do grupo em direção ao intruso. Este se achava perto e, com passos deliberados e firmes, aproximou-se do anfitrião. Mas, devido ao indefinível terror produzido pelo mascarado no ânimo de todos, ninguém se atreveu a agarrá-lo. Sem empecilho, ele se afastou, passando a um metro do lugar onde estava o príncipe. À sua passagem, toda a vasta assembleia, como que movida pelo mesmo impulso, afastou-se do centro das salas para as paredes, e o mascarado pôde seguir seu caminho com desembaraço, e com os mesmos passos solenes e medidos com que passara da sala azul à vermelha, da vermelha à verde, da verde à alaranjada, desta para a branca, e para a violeta, sem que nenhum dos circunstantes tivesse esboçado um gesto para detê-lo. Foi quando, louco de raiva e vergonha da própria e momentânea covardia, o príncipe Próspero cruzou apressadamente as seis salas, sem ninguém a segui-lo: o terror se apoderara de todos. Brandindo o punhal, avançava impetuosa e rapidamente; já estava a três ou quatro passos do vulto que se retirava, quando este, atingindo a extremidade da sala aveludada, virou-se bruscamente e enfrentou seu perseguidor. Nesse instante ouviu-se um grito agudo, e o punhal caiu cintilante no tapete negro, sobre o qual tombou também, instantaneamente e ferido de morte, o príncipe Próspero. Recorrendo à selvática coragem do desespero, um grupo de foliões correu para a sala negra e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, detiveram-se eles, horrorizados, ao descobrir que a mortalha e a máscara mortuária que tão rudemente haviam agarrado não continham nenhuma forma tangível.

Só então se reconheceu a presença da Morte Rubra. Viera como um ladrão na noite. E, um a um, caíram os foliões nos ensanguentados salões da orgia, e morreram, conservando a mesma desesperada postura da queda. E a vida do relógio de ébano extinguiu-se simultaneamente com a do último dos foliões. E as chamas dos trípodes apagaram-se. E a Escuridão, a Ruína e a Morte Rubra estenderam seu domínio ilimitado sobre tudo.
Edgar Allan Poe, “A causa secreta: e outros contos de horror"

Epidemia polissilábica

Já se disse que a crise é de dicionário. Paulo Rónai denunciou a existência de uma geração sem palavras. Uma só, não, digo eu. Várias. A crise é semântica, disse um professor na Sorbonne, que convocou um seminário. Pode ser, diz o Pedro Gomes. Mas é também polissilábica. E me expõe a sua tese: nenhum país aguenta tantos palavrões como os que circulam agora por aí. Palavrão no sentido estrito de palavra grande.

A maior delas, como aprendemos na remota infância, tem até governado o Brasil. É essa mesmo: inconstitucionalissimamente. Depois deste advérbio, no seu hoje modesto pioneirismo, apareceram verdadeiros bondes vocabulares. Autênticos minhocões. São cada vez mais numerosos e compridos, como a composição ferroviária que transporta minérios. A perder de vista, todos têm de cinco sílabas para cima. São centopeias de tirar o fôlego e de destroncar a língua.

Na porta do Jockey, depois do almoço, um sujeito conversava outro dia, sereno, sobre a atratividade do investimento superavitário. Temi pela sua digestão, se é que não foi vítima de uma congestão. Ou de um insulto cerebral. Mas há pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral. É o caso do cidadão que discorreu sobre o obstaculizado caminho que o Brasil tem de percorrer, se quiser alcançar um nível de competitividade num cenário de internacionalização do livre-cambismo.

Até a carta-testamento do Getúlio, obstaculizar não tinha feito a sua aparição triunfal. Dizem que foi ideia do Maciel Filho, que tinha este vezo nacionalista da palavra complicada. Na verdade, é difícil inovar o jargão político. Para atacar José Américo de Almeida, história antiga, Benedito Valladares lançou no mercado a palavra boquirroto. Logo os adversários disseram que era soprado pelo Orozimbo Nonato, um íntimo do Vieira e do Bernardes. Arrazoava com um cunho seiscentista.

Enfim, tudo hoje em dia gera distorções. Gerar é um verbo-ônibus. Serve para tudo. Confiemos, porém, que a seu tempo, a nível de país, na expressão abominável que hoje é corrente, a solução seja equacionada. A desestabilização extrapola de qualquer colocação. Longe de mim o catastrofismo, mas no caminho polissilábico em que vamos, a ingovernabilidade é fatal. E talvez passemos antes pela platino-dolarização contingencial.
Otto Lara Resende

Muita tela, pouco livro

Um dos dados mais relevantes do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância, divulgado na semana passada pela OCDE, diz respeito não ao que acontece nas escolas, mas, sim, ao que ocorre dentro das casas. E os resultados são preocupantes no contexto brasileiro, representado a partir de uma amostra em três estados (São Paulo, Ceará e Pará).

Por aqui, apenas 14% das famílias com crianças de 5 anos de idade reportaram que liam livros para elas numa frequência superior a três dias por semana. A média dos demais países investigados (Inglaterra, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda, Azerbaijão e Malta) é de 54%.


Uma primeira hipótese para explicar essa diferença estaria na maior situação de vulnerabilidade das famílias brasileiras. Pais com instrução precária, sem recursos para comprar livros, ou que precisam se desdobrar em escalas de trabalho excessivas (ou em duplas jornadas, em especial no caso das mães), teriam menos condições de ter esse tempo de qualidade com seus filhos.

É certamente uma variável a ser considerada, mas não explica tudo, afinal, mesmo nas famílias de maior renda e escolaridade, o percentual de leitura frequente com os filhos é de apenas 24% por aqui, ainda muito abaixo da média dos demais países. Há, portanto, uma questão cultural também a ser enfrentada.

Se as famílias brasileiras têm pouco hábito de leitura com os filhos na comparação internacional, a lógica se inverte quando a variável investigada é o tempo excessivo que as crianças passam em tela. Por aqui, metade (50,4%) dos responsáveis admitem que seus filhos usam dispositivos digitais todos os dias. Na média dos países participantes do estudo, esse percentual é de 46%, o que evidencia que estamos diante de uma epidemia global.

Mas a combinação perversa de alto tempo em telas e baixíssimo tempo em leitura torna o caso brasileiro mais grave. Afinal, essas são variáveis que o estudo confirma o que a literatura acadêmica já evidencia: o estímulo ao hábito de leitura desde cedo melhora o desempenho escolar e o bem-estar, ao passo que o tempo excessivo em telas tem efeito negativo.

O estudo da OCDE analisou diferentes dimensões do desenvolvimento infantil: aprendizagens fundamentais, como a literacia e numeracia emergente (etapas anteriores ao processo formal de alfabetização); funções executivas como a memória de trabalho, flexibilidade mental e controle inibitório; e habilidade socioemocionais. Os achados confirmam que desigualdades já aparecem desde antes do ensino fundamental, e o Brasil, em quase todos os quesitos, aparece em situação pior.

Mas, ao olhar também para o que ocorre no ambiente doméstico, o estudo contribui para o diagnóstico do problema, pois políticas de primeira infância não podem se restringir ao acesso à escola, o que não é pouco, mas é insuficiente.

Desde a década de 90, a pesquisa sobre o desenvolvimento infantil evoluiu muito, evidenciando que a primeira infância é uma etapa muito mais importante para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional do que se acreditava até então. Hoje já há evidências de que essa etapa é a de maior impacto no longo prazo. Mas os estudos com resultados mais promissores sempre se basearam em intervenções que melhoravam não apenas as condições de oferta de creches e pré-escolas, incluindo também ações em saúde, assistência social e orientação aos pais.

Estimular e garantir tempo de qualidade para que os pais possam participar de atividades ao ar livre, brincadeiras lúdicas, músicas e conversas sobre sentimentos com seus filhos são ações de baixo custo e alto impacto no desenvolvimento infantil. Precisam, portanto, entrar também no radar de nossas políticas públicas.

segunda-feira, maio 11

Abastecendo

 


Paisagem de após-chuva

A relva, os cavalos, as reses, as folhas,
tudo envernizadinho como no dia inolvidável
da inauguração do paraíso...
Mario Quintana

Revolta na Vila

Aquele oiti cresceu junto comigo. Enchi, muitas vezes, meu pequeno regador verde na bica do jardim pra dar de beber ao meu amigo. Fiz, é verdade, um ou outro xixizinho nele. Mas tudo na maior camaradagem. Sempre repartiu comigo a terra que o alimentava, pra que eu enchesse o balde e as forminhas de praia nas tardes em que batia a saudade da ilha de Paquetá. Nunca me deu esporro nos momentos que gravei meu nome, a canivete, em sua pele. Sabíamos que era uma coisa dolorosa e difícil de explicar, mas, quase sempre, são assim as grandes amizades. Salvou muitos gols dos inimigos nos jogos-contra, trave heroica. Jamais enredou em seus ramos honestos a linha da minha pipa. Nunca mais vou esquecer sua alegria no supercampeonato de 58, Vasco doente, balançava os galhos com a conquista do título, e eu repetia, todo emocionado:

— Casaca, oiti. Mais uma estrela na nossa bandeira.

Tinha o dia em que as árvores da Rua dos Artistas cortavam seus cabelos verdes. Vinham os cadetes da L.U. e deixavam as calçadas cobertas de galhos, que nem ficava, assim de cabelo, o chão da barbearia do Seu Teófilo. Meu amigo oiti usava um corte parecido com o meu, “Príncipe Danilo”, e eu mandava selo, carimbo, estampilha nele. Coração que não cabia no tronco, se preocupava muito com os ninhos que sustentava e, nos dias de vento, eu ficava tranquilizando da janela:

— Calma que tá tudo bem.

Esse negoço de elogiar muito um amigo costuma acontecer quando o cara empacota e é sempre a maior xaropada. Meus prezados leitores vão me desculpar, mas é que no caso do oiti não foi morte natural. Ele foi assassinado covardemente por uma imobiliária sem escrúpulos, sem mãe, em nome do pogresso. Pogresso é que nem, nos apartamentos que eles mesmos constroem, o que acontece nos tais respiradouros do banheiro: Você ouve o barulho, mas não sente o cheiro. Fica aí a sugestão para slogan do Sérgio Dourado.

Pois é, meu amigo dançou. Mas vai ter forra. Em cada morador da Vila cresce, prodigiosa, a revolta. Protestaremos sempre contra mais esse crime, nós, os sanhaços, os bem-te-vis, os coleiros, as tímidas juritis a quem ele abrigou; nós, os vira-latas, que urinamos em seu tronco amistoso; nós, os bêbados, que vomitamos amparados em seu ombro compreensivo; nós, os varredores das ruas, que limpamos a testa à sua sombra; nós, as crianças que nos escondemos atrás de seu corpo, trinta e um de janeiro, lá vou eu; nós, goiabeiras, avencas, samambaias, pequenas ervas sem nome, protestaremos contra essa covardia, irmãozinho.

E traremos, aliadas, as cigarras, com seu otimismo, e elas convidarão os decididos grilos de Vila Isabel, os mais boêmios da cidade.

Virão sabiás e pintassilgos, cágados e cabritos, gatos vadios e papagaios que falam palavrão. A denúncia desse crime estará nas pipas pastorinhas dos carneiros do céu; estará nos balões — do mais humilde balão japonês passando pelos grandes balões-tangerina cheios de lanterninhas até o balão visto pelo Zeca em Cachambi retratando, com cento e trinta e um figurantes, a Queda da Bastilha.

A denúncia desse crime estará nas estrelas e na lua — na lua, que vezes incontáveis mascarou-se, linda, com teus galhos. Criaremos códigos e senhas. O apito do guarda-noturno contará que te mataram. Contará que te mataram o assovio das facas do amolador. O grito do garrafeiro falará dessa covardia, assim como os livros de histórias, os gibis e as figurinhas. Leremos mensagens no desenho das nuvens, conspiraremos com os botões e as pétalas da primavera, ouviremos os conselhos das sábias folhas de outono. Seguirão notícias em gaivotas nas salas de aula e em barcos de jornal nas enchentes provocadas pelas chuvas de verão. O Penteado, tremendo gozador, inventará lorotas sobre o passado dos donos de imobiliárias atrás da bananeira. E o Esmeraldo passará, uma por uma, as mulheres deles na cara.

Porque sabemos que deve haver um pedaço teu, meu amigo, vivo. Embaixo da terra, em algum lugar, há um pedaço teu. E vivo.

E nós, que com nossos olhos secos e amargurados, com nossos galhos cobertos de fuligem, com nossas plumagens descoloridas, nós que, testemunhando mais esse crime, não deixamos que morresses de todo, nós vamo partir pra briga.
Volta logo. Combateremos à tua sombra, e que não falte cachaça e cervejinha pros nossos rapazes.

Volta logo, que nós vamos botar de novo as cadeiras na calçada e distribuir maços de Lincoln e chupar rebuçado e vestir pijamas de listras e usar chapéu panamá.
E cada vez que ouvirmos burrices do tipo “é preciso assumir” ou “o senso deve prevalecer”, responderemos, orgulhosos do que somos: dá o pé, louro! E mais: uma aqui pro nossa-amizade!

E, como golpe de misericórdia, a terrível sentença: conheceu, papudo?

Volta logo, e traz com você muitos bondes, bondes cheios de passarinhos e cachorros, mariolas, petecas e sonhadores. Faremos subir novas pipas com a forma dos nossos sonhos, novos balões que derramam lágrimas de ouro barato, e depois virá a lua, e desfilarão os ranchos e seremos todos palhaços, índios, piratas, e todos usaremos sutiã de casquinha de sorvete e nos apaixonaremos pela mesma deslumbrante odalisca, arrumadeira do 257.

As crianças baterão nos postes, como nas antigas noites de Ano-Novo. Acenderemos fogueiras e brincaremos de roda, nós, pássaros, nós, árvores, nós, homens, ao som da flauta inesquecível do Benedito Lacerda, do violão de Noel.

Vovó Noemia fará uma feijoada, coisa simples, e convidaremos Cosme e Damião pra ouvir as piadas do Waldyr Iapetec, a Maria da Ave pra ajudar minha vó, Papai Noel pra levar um esporro e parar de ficar feito prostituta em porta de loja; convidaremos o coelho da Páscoa (ô cara chato!), o santo casamenteiro pra tomar umas batidas feitas pelo Lindauro, o Pena Branca, todos os avôs do mundo, que é tão difícil a alegria sem avô, o lago da Quinta da Boa Vista, os brinquedos do Parque Shangai, os personagens do presépio, o time supercampeão do glorioso Vasco da Gama, os ciganos do carro-preto, o Armindo, que também foi assassinado, a turma toda, até o Ceceu Rico, que não gosta de festa. Que participem da nossa conjura abilolada, da nossa inconfidência delirante.
Pode ser que os sicários do verde, os carrascos da esperança, os verdugos da alegria — em nome do pogresso — tentem nos dispersar a cacetada, imponham o toque de silêncio a nossas flautas e violões e declarem estado de sítio nos fios,telhados e copas verdes onde zoneiam nossos passarinhos.

Será inútil, imobiliárias sem escrúpulos, sem mãe: a Vila avisa que resistirá até o último pardal, até o último oiti, até o último sonhador embriagado.
Aldir Blanc, Pasquim, nº 362

Os anjos contam histórias

O chefe da família na máquina de trabalhar. A mulher na enceradeira. A cozinheira no fogão. O passarinho na gaiola. Os peixes no mar. A gaivota pescando. A menina rolando no chão. O menino, doente, na cama. Todos nós somos deste mundo, menos as crianças. E o menino, perseguido de visões febris, vai falando sem parar:

“O filho da vaca é o bezerrinho, o pai da vaca é o boi. Não é? Eu vou morar num sítio. Morar muito. Um dia, quando eu fui fazer pipi, vi duas professoras de inglês. Igual. Eu vou trazer um pato do sítio e botar em cima da cabeça do Didi. Quando eu ficar bom, quero ir no circo. Eu já cortei a mão. Papai, papai-i: conta uma história de camelinho. História triste, não. Nova e alegre. Mãe, tá doendo, tou com dor de cabeça. Eu só gosto daquele remédio cor de laranja. Cafiaspirina eu não gosto. O gatinho caiu no poço, vestido de amarelo, todo mundo veio em volta pensando que era marmelo. Quando eu fui no colégio vi nuvens. A nuvem estava passando nas nuvens. Não estava chovendo. Ai, eu quero sair da cama! Laurita, eu não vou comer aquela coisa que arde. Papai é um burro, mamãe é a mulher do burro, e eu sou um burrinho. Mãe-i, você vai um dia naquela esquina longe? Lá tem anzol. Você compra uma vara nova, que o peixinho não gosta de vara velha, não. Eu te dou um bombom. Galibi é menina, mas ela gosta de pescar. Se não fizer um poleiro, o galo sobe na árvore e estraga as pitangas. Pai-i, quando eu crescer, vou ganhar um trem de ferro elétrico. Você vai dar. Meu dodói dói. Eu não comi muita azeitona. Maionese eu não gosto. Maionese é aquele remédio que eu tomei agora. Eu só gosto de remédio vermelho. Elefante gosta de amendoim. Tia Edir sabe fazer espantalho: snowman ela não sabe, não: aqui não tem inverno. Se você fala inglês, papagaio também fala. Mas fala também paracopaco, não fala? Leão de circo não come você, não; de jardim zoológico come. Galibi, conta uma história...”

A irmã sobe na cama e começa a contar uma história:

“Era uma vez um nenê. Era só cantar ‘Dorme, nenê’, que ele dormia. Mas logo depois precisava de chegar uma porção de anjos. Já conheciam a dona daquela casa, e por isso tinham dado o nenê para ela. A mãe fazia roupa para o seu nenê querido. Um dia, a família foi viajar; o nenê foi de roupa muito bonita. Quando voltaram da linda viagem, quem adorou mais foi o nenê. Era só o que faltava! Os anjos! Sim, sua mãe sempre precisava dos anjos para ajudar. O nenê adorava sua mãe, mas não podia faltar nada para ele, e, assim, não deixava ela fazer nada, gritava, chorava, fazia tantas molecagens que a mamãe não podia trabalhar. A mãe um dia chamou os anjos e pediu que eles dessem um jeito. Os anjos, muito espertos, levaram o nenê para a mata, para o galho duma árvore. O nenê ficou contente da vida! Os passarinhos traziam flores para ele, as abelhas traziam mel, o nenê ria. Enquanto isso, seu pai tinha viajado e sua mãe também. Antes de voltar da viagem, a mãe, de tanta saudade daquele nenê querido, mandou o irmão buscar ele na mata. Quando o irmão chegou, o nenê estava brincando com as estrelas do céu, e os anjos estavam procurando diamantes. Já era bem de noite e o sol estava se escondendo. Até o seu corrupião estava com fome. Mas, aí, sua mãe já era tão pobre que não tinha mais empregada. Todos eram pobres, o cachorro, a árvore, o cavalo. Mas enfim tudo estava em silêncio e quieto. Era uma hora da madrugada, e já estava quase ficando de dia. A noite era tão triste e a mãe não tinha comida. Na hora de jantar, só tinha dado leite, bife, batata, sopa, salada e aveia. Então chegou um anjinho e contou uma história para o nenê: ‘Era uma vez uma cidade que tinha muitas casas de frutas, mas o sol estava tão quente que mandava seus raios para todos os lados’. O nenê sentiu muito o sol da história, e o anjo então mandou que os raios de luz começassem a ir embora. Quando ficou de noite outra vez, o sol foi para a China. A China não é perto, é muito longe. O nenê também foi para a China, porque não gostava de escuro. E todo dia, quando ficava escuro, ia para a China. E os anjinhos nunca mais encontraram o nenê naquela caminha tão boa.”

O menino diz: “Pai, a Inês me ensinou a fazer navio”.

Paulo Mendes Campos, "Elenco de cronistas modernos - 7"

Do prazer de cheirar livros e da tirania simpática do 'muito sucesso'

Há um momento íntimo — e deliberadamente silencioso, quase erótico — que nenhum escritor deveria partilhar em excesso: aquele em que recebe o livro acabado. Não o PDF obediente, nem a maquete digital com comentários técnicos, mas o objeto real. O livro enquanto corpo. O peso preciso, a textura discreta, o cheiro quase indecente e inebriante a tinta e papel. Nesse instante, não há público, nem mercado, nem promessas: há apenas uma suspensão do mundo. O livro repousa nas mãos como algo que já não nos pertence totalmente e que, sem o sabermos ainda, nos deslocou ligeiramente o coração do sítio. Tudo o resto virá depois. Se vier.

Eu sei: isto soa a sentimentalismo de autor, essa doença crónica que se agrava com dedicatórias e piora com fotografias ao lado de pilhas de exemplares. Mas é um sentimentalismo com prova material — e com cheiro. Quem nunca encostou o nariz a um livro novo e sentiu uma espécie de euforia primitiva, como se o cérebro dissesse “finalmente, uma coisa verdadeira”, que atire a primeira caixa de cartão da transportadora.

Depois há o gesto de mirá‑lo: capa, contracapa, lombada. A lombada é o sítio onde a vaidade se torna minimalista e, por isso mesmo, mais perigosa. Na lombada, o nome parece sempre mais sério do que nós. E o título — ali, fininho, vertical, a lembrar que a literatura é uma forma elegante de teimosia.

E há o toque. A capa tem uma temperatura. Um livro recém‑nascido ainda está morno, como se tivesse saído de uma incubadora tipográfica. Apetece dizer coisas ridículas: “Olá.” “Chegaste.” “Foste tu que me escolheste?” Apetece, sobretudo, fazer aquilo que as pessoas sensatas fazem com os filhos dos outros: sorrir, elogiar e devolvê‑los rapidamente, antes que comecem a chorar.

Só que este filho não chora. Este filho exige. Exige tempo. Exige atenção. Exige leitores — essa espécie rara que, em Portugal, é frequentemente confundida com “pessoas que têm estantes bonitas na sala”.

Portugal é um país de poetas, já se sabe. Um país onde quase toda a gente conhece um verso, uma citação, um refrão, uma frase “muito profunda” que viu num story. A poesia aqui é como o bacalhau: há sempre uma receita na ponta da língua. O problema é quando se pergunta: “E ler, lê?” A pergunta cai no chão e parte‑se. Porque ler é uma intimidade que dá trabalho. Obriga a parar. Obriga a estar só. E a solidão, hoje, é um luxo ofensivo: parece preguiça, parece deserção, parece falta de produtividade.

É aqui que entram os amigos. Os verdadeiros e os outros — e, num lançamento de livro, há sempre de ambos, como num casamento: os que aparecem por amor e os que aparecem por buffet.

Há os amigos‑leitores. Não os que “adoram livros”, mas os que os abrem. São pessoas perigosas: fazem perguntas sobre páginas concretas, citam passagens, notam repetições, lembram‑se do que disseram duas crónicas antes. Esses são os que nos salvam da fantasia narcísica de escrever para o vácuo. E também nos aterrorizam, porque, em literatura, o elogio mais sério vem sempre com uma sombra de exigência: “Li. E voltei a ler.”

Depois há os outros, os que eu trato com carinho irónico, porque são muitos e, se os ofendo demasiado, fico a falar sozinho para as plantas: os pseudo‑leitores. São pessoas de uma delicadeza impecável. Dizem “que bonito”, “que importante”, “que orgulho”, e têm uma relação com o livro semelhante à relação que muitos têm com o ginásio: defendem a ideia, mas não frequentam o local. Um pseudo‑leitor compra um livro como quem compra um amuleto: não é para usar, é para dar sorte. E isto não é apenas maldade minha — é uma constatação civilizacional: a leitura dá trabalho e, por isso, é constantemente ameaçada pela vida em modo “scroll”.

Foi por isso que, quando Daniel Pennac escreveu que o verbo ler não tolera a ordem, estava a apontar o essencial: a leitura é uma liberdade, não uma marcha militar. E há outra ideia, igualmente luminosa e cruel: quando a leitura se torna obrigação, deixa de ser leitura e passa a ser castigo com capa.

O que nos leva ao ritual mais simpático e mais devastador do mundo literário: “Parabéns! Muito sucesso!”

Dizem‑no com a melhor das intenções, eu sei. Dizem‑no como se oferecessem flores. Mas há ali um equívoco cultural inteiro. Porque, no mundo dos livros, o “sucesso” foi sequestrado pelas vendas, como se a literatura fosse uma espécie de supermercado com ambição metafísica. Confunde‑se sucesso com faturação, leitores com clientes, livros com detergentes. E, a partir desse instante, o escritor transforma‑se num comerciante envergonhado: se não vende, “falhou”; se vende, “finalmente conseguiu”. É um raciocínio tão português quanto injusto: mede‑se a qualidade pelo ruído, mede‑se a importância pela lotação, mede‑se a literatura pela caixa registadora.

Mas o verdadeiro sucesso de um autor não acontece nas contas — acontece no leitor. E é, quase sempre, silencioso. O sucesso real é um acontecimento íntimo: alguém lê devagar, sublinha uma frase (e bem conheço quem o faça!), pousa o livro para pensar, regressa a uma página dias depois, sente que uma ideia lhe mexeu no sítio. Isto não cabe em rankings. Não dá para fotografar. Não dá para “partilhar” sem estragar. E, no entanto, é a única coisa que importa.

Italo Calvino (que sabia brincar com o leitor como poucos) insistiu, ao seu modo, que ler é um encontro com algo que ainda está a tornar‑se — e que ninguém sabe, à partida, no que dará. É por isso que o livro, quando sai das mãos do autor, começa verdadeiramente a existir: cada leitor reescreve‑o dentro de si, com a sua memória, os seus medos, a sua biografia e até os seus silêncios. O autor publica; o leitor inaugura.

E foi exatamente isso — essa inauguração — que se sentiu no lançamento de Serendipidade – 50 Crónicas do acaso e do ocaso, no passado dia 6 de maio de 2026, às 21h00, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa.

Não foi apenas uma sessão. Foi um encontro com gosto. A Fábrica Braço de Prata tem esse poder: a literatura ali não parece um adereço — parece uma forma de estar. Houve a apresentação por Raquel Varela. Houve intervenções de Onésimo Teotónio de Almeida, Alberto Jorge Santos, Ângelo Ribeiro e Ana Sofia Melo. Houve ainda a leitura de uma mensagem editorial de Avelina Ferraz, lida por Catarina Pombo Nabais, representando a livraria.

E houve — isto é importante — uma ideia clara, dita sem barroquismos: aquele livro convidava o leitor a reencontrar-se com o essencial num tempo de ruído e fragmentação, propondo cinquenta textos onde o pensamento, a emoção e a consciência se cruzam. Num país onde se fala muito de cultura como quem fala de meteorologia (“sim, é importante, sim, devia haver mais”), ouvir isto em voz alta, num espaço intimista, teve o sabor raro do concreto.

Mais: havia ali um elogio à criação que não era banal. A mensagem destacava o trabalho artístico de Ângelo Ribeiro e a forma como a dimensão visual elevava o livro. E isso lembrou-nos outra coisa que se esquece frequentemente: um livro também é matéria plástica. É desenho. É forma. É objeto que se deseja. Não é só “conteúdo”. Um livro que entra bem no olhar prepara o coração para entrar bem no texto.

O prefácio — ou, pelo menos, o modo como dele se falou e como o material de divulgação o ecoa — sublinha essa dimensão de esperança e de resistência: as crónicas chegam “de outro mundo”, apontam para a vida e para o futuro, como uma luz que reaparece ao fundo do túnel. Em tempos de cinismo fácil, dizer isto sem soar a propaganda é um ato de coragem literária. Porque esperança, quando não é tonta, dá trabalho. Exige lucidez. E exige leitores.

No fim, a mesa com exemplares empilhados tinha uma beleza quase doméstica: livros como pão acabado de cozer. Alguns saíram logo, debaixo do braço, como quem leva um segredo. Outros ficaram à espera — e os livros sabem esperar melhor do que nós. O autor assina, sorri, agradece, faz de conta que está tranquilo. Mas por dentro acontece aquilo que só a literatura provoca: um nervo exposto que, paradoxalmente, dá prazer.

E é aqui que eu volto ao início: ao silêncio. Porque, depois do barulho bom de um lançamento — os abraços, as palavras, os brindes, a alegria breve de sentir que não se está sozinho — vem o regresso a casa. Vem o corredor. Vem a luz da sala. Vem o livro pousado na mesa, novamente só, como se nada tivesse acontecido. E acontece uma coisa estranha: naquele silêncio doméstico, o livro parece ainda mais livro. Mais verdadeiro. Mais inevitável. O objeto respira. E nós percebemos — com uma humildade tardia — que ele não foi feito para a nossa vaidade, nem para as contas da editora, nem para as fotografias. Foi feito para o leitor. Para esse desconhecido que, algures, há de abrir a primeira página e entrar numa vida que não é a sua — e, ao mesmo tempo, é.

E, se isso acontecer, tudo se justifica.

O sucesso de um escritor não se mede em vendas, mas no silêncio atento de quem, algures, fecha um livro com o coração ligeiramente deslocado.

sábado, maio 9

Durma bem

 


Referências

Meu pai tinha um pato de estimação. Esperava por ele no portão, quando voltava da escola, e lhe fazia companhia no quintal, durante as brincadeiras. Ambos cresciam juntos, até que a cozinheira da avó o serviu no almoço de domingo. O garoto não comeu e foi chorar escondido no quarto, ferido com a traição dos adultos.

Soube do episódio por minha mãe, anos mais tarde, e magoei o pai novamente, ao convidá-lo para almoçar num restaurante oriental e escolher pato no cardápio. Notei que ele demonstrava desconforto, mas então não sabia de sua dor através do tempo.

Lembro sempre disso a caminho de casa, quando costumo passar por um estabelecimento chinês que exibe na vitrine patos prontos para consumo, pendurados em ganchos, como nos açougues. Noto que agradam a freguesia, porque esgotam rapidamente. E sinto alívio que o pai já não esteja por aqui para reabrir suas feridas.

Quantas coisas desconhecemos de nossos familiares… Quantas referências levarei para o túmulo sem que, por sua vez, meu filho tenha conhecimento. A vida é assim, vasta, mutante e muito particular, já que só nós vivemos a própria história, muitas vezes sem testemunhas.

Por isso, deixo aqui registradas impressões recentes, a quem possa interessar. Sem fotos ou postagens, apenas gravadas na memória que um dia poderá se apagar. Além dos patos, meu bairro atual é cheio de curiosidades: um beco que me lembra Montmartre, em que uma escadaria íngreme leva a uma rua secundária, formada apenas por sobradinhos.

Um elevado cujo trânsito jamais dorme. O ferro-velho que mantém as portas sempre abertas, à espera dos carrinheiros. Uma padaria que só atende os fregueses pela janela. Uma escola, com aulas diurnas e noturnas. Uma viatura policial que permanece dia e noite estacionada em determinado trecho da avenida próxima. Um vendedor de frutas que ocupa a esquina de um movimentado cruzamento com seu carrinho e já se tornou atração turística, exibido em programas de tevê.

Mercado, bistrô, loja de ferragens, boteco e ateliê de costura dividem a mesma quadra. Meu prédio, um dos mais altos e recentes, que pode ser visto de vários pontos, como a Torre Eiffel em Paris. Os sinos da igreja que tocam em vários horários, com sabor de bênção divina. Sim, os sentidos tropeçam em belezas e feiuras, igualmente surpreendentes para sonhadoras como eu. E vou vivendo, com saudade dos que já se foram e seu baú de histórias.

Metzengerstein

O horror e a fatalidade uniram-se sempre em todos os séculos. Para que serviria uma data na história que tenho para contar? Basta dizer que na época de que falo existia no centro da Hungria uma crença secreta, mas muito arreigada na metempsicose. Nada direi das doutrinas em si e da sua falsidade ou veracidade. Afirmo, no entanto, que uma boa parte da nossa credulidade vem, como disse La Bruy ère — que atribui toda a nossa desgraça a esta causa única — de não se poder estar só.

Mas havia alguns pontos na superstição húngara que tendiam fortemente para o absurdo. Os Húngaros diferiam muito essencialmente das autoridades do Oriente. Por exemplo, a alma, segundo creem — cito os termos de um subtil e inteligente parisiense — permanece apenas uma vez num corpo sensível. Assim, um cavalo, um cão, mesmo um homem, não passam, na aparência ilusória destes seres.

As famílias Berlifitzing e Metzengerstein tinham vivido em discórdia durante séculos. Jamais se viram duas casas tão ilustres reciprocamente votadas a uma inimizade mortal. Este ódio podia ter a sua origem nas palavras de uma antiga profecia: — Um nome ilustre terá uma queda terrível quando, como o cavaleiro sobre o seu cavalo, a mortalidade de Metzengerstein triunfar da imortalidade de Berlifitzing.

Na verdade, os termos tinham apenas pouco ou nenhum sentido. Mas as causas mais vulgares deram origem — e isso, sem ir muito longe — a consequências igualmente cheias de grandes acontecimentos. Além disso, as duas casas, que eram vizinhas, tinham por muito tempo exercido influência rival nos negócios de um governo tumultuoso. Mais ainda, os vizinhos próximos também eram raramente amigos, e do alto das suas muralhas maciças, os habitantes do castelo Berlifitzing podiam ver mesmo distintamente para dentro das janelas do palácio de Metzengerstein. Enfim, o alarde de uma magnificência mais que feudal não servia para acalmar os sentimentos irritáveis dos Berlifitzing, menos antigos e menos ricos.

Haverá pois razão para nos admirarmos que os termos desta predição, se bem que perfeitamente ridículos, tenham criado e mantido a discórdia entre duas famílias já predispostas às zangas por todas as instigações de um ciúme hereditário? A profecia parecia implicar — se implicava qualquer coisa — um triunfo final do lado da casa mais poderosa, e naturalmente vivia na memória da mais fraca e da menos influente, e enchia-a de uma amarga animosidade.

Wilhelm, conde Berlifitzing, se bem que fosse de uma nobre linhagem, era, na época desta história, apenas um velho enfermo disparatado, que não tinha nada de notável, senão uma antipatia inveterada e louca contra a família do seu rival e uma paixão tão viva pelos cavalos e pela caça, que nada — nem as suas enfermidades físicas, nem a sua idade avençada, nem o enfraquecimento do seu espírito — o podia impedir de tomar diariamente parte nos perigos deste exercício. Do outro lado, Frederico, barão Metzengerstein, não era ainda maior. Seu pai, o ministro G…, morrera ainda novo. E sua mãe, Maria, seguiu-o pouco depois. Frederico tinha nessa época dezoito anos. Numa cidade, dezoito anos não é um longo período de tempo; mas em solidão, mesmo numa magnífica solidão como esta velha propriedade, o pêndulo vibra com uma mais profunda e mais significativa solenidade.

Devido a certas circunstâncias resultantes da administração de seu pai, o jovem barão, logo após a morte deste, entrou na posse dos seus vastos domínios. Raramente se via um nobre húngaro possuir um tal património. Os seus castelos eram inumeráveis. O mais esplêndido e o mais vasto era o palácio de Metzengerstein. A linha que delimitava os seus domínios não fora nitidamente definida; mas o seu parque principal abarcava uma circunferência de cinquenta milhas. O aparecimento de um proprietário tão jovem, e de um caráter tão bem conhecido, com uma fortuna tão incomparável deixava pouco lugar às conjeturas, relativamente à sua linha provável de conduta. E, em verdade, no espaço de três dias, a conduta do herdeiro fez empalidecer o renome de Herodes e ultrapassou em magnificência as esperanças dos seus mais entusiásticos admiradores. Medonhos deboches, flagrantes perfídias, atrocidades espantosas fizeram em breve compreender aos seus vassalos temerosos que nada — nem submissão servil da sua parte, nem escrúpulos de consciência — lhes garantiria para o futuro segurança contra as garras impiedosas deste pequeno Calígula. Na noite do quarto dia, registou-se um grande fogo nas cavalariças do castelo Berlifitzing, e a opinião unânime da vizinhança juntou o crime de incêndio à lista já horrível dos delitos e atrocidades do barão.

Quanto ao jovem cavalheiro, durante o tumulto ocasionado por este acidente, mantinha-se aparentemente mergulhado numa meditação no alto do palácio da família dos Metzengerstein, num vasto apartamento solitário. A tapeçaria, rica, ainda que fanada, que pendia melancolicamente das paredes, representava as figuras fantásticas e majestosas de mil antepassados ilustres. Aqui, padres ricamente vestidos de arminho, dignitários pontifícios, sentavam-se familiarmente com o autocrata e o soberano, opunham o seu veto aos caprichos de um rei mundano ou continham com o fiat do todo-poderoso papa o cetro rebelde do grande inimigo, príncipe das trevas. Ali, as sombrias e grandes figuras dos príncipes Metzengerstein — os seus musculosos cavalos de guerra calcando os cadáveres dos inimigos caídos — abalavam os nervos dos mais firmes pela sua forte expressão. E além, por sua vez, voluptuosas e brancas como os cisnes, as imagens das damas de outros tempos flutuavam ao longe nos meandros de uma dança fantástica, ao som de uma melodia imaginária.

Mas enquanto que o barão escutava ou fingia ouvir o estrondo sempre crescente das cavalariças de Berlifitzing — e talvez meditasse nalgum delito novo, algum rasgo decidido de audácia — os seus olhos viraram-se maquinalmente para a imagem do cavalo enorme, de uma cor extranatural e representada na tapeçaria como pertencendo a um antepassado da família do seu rival. O cavalo aparecia no primeiro plano do quadro, imóvel como uma estátua — ao passo que um pouco longe, atrás dele, o seu cavaleiro derrubado morria sob o punhal de um Metzengerstein.

Nos lábios de Frederico surgia uma expressão diabólica quando se apercebeu da direção que o seu olhar tomara involuntariamente. No entanto, não desviou os olhos. Bem longe dali, não podia de nenhuma forma dar razão da ansiedade opressiva que parecia cair sobre os seus sentidos como uma mortalha. Conciliava dificilmente as suas sensações incoerentes como as dos sonhos com a certeza de ser despertado. Quanto mais contemplava, mais absorvido se tornava o seu olhar pela fascinação desta tapeçaria. Mas o tumulto do exterior, ao tornar- se repentinamente mais violento, fê-lo fazer enfim um esforço a contragosto e desviou a sua atenção para uma explosão de luz vermelha, projetada em cheio das cavalariças inflamadas sobre as janelas do aposento.

A ação, no entanto, foi apenas momentânea; o seu olhar virou-se maquinalmente para a parede. Com grande espanto seu, a cabeça do gigantesco corcel — coisa horrível! — tinha entretanto mudado de posição. O pescoço do animal, primeiramente inclinado como por compaixão para o corpo tombado do seu senhor, estava agora estendido, rígido e a todo o comprimento, na direção do barão. Os olhos há pouco invisíveis, continham agora uma expressão enérgica e humana, e brilhavam com uma tonalidade vermelha, ardente e extraordinária; e os beiços distendidos desse cavalo de aspeto enraivecido deixavam aperceber plenamente os seus dentes sepulcrais e repugnantes.

Estupefacto pelo terror, o jovem senhor saiu cambaleando. Ao abrir a porta, um clarão de luz vermelha brilhou ao longo da sala, desenhando nitidamente o seu reflexo na tapeçaria trémula; e quando o barão hesitou um instante no patamar, estremeceu vendo que esse reflexo tomava a mesma posição e preenchia exatamente o contorno do implacável e triunfante assassino do Berlifitzing vencido.

Para aliviar o seu espírito deprimido, o barão Frederico procurou precipitadamente o ar livre. A porta principal do palácio encontrou três escudeiros. Estes, com muita dificuldade e com perigo da sua vida, comprimiam os saltos convulsivos de um cavalo gigantesco, cor de fogo.

– De quem é este cavalo? Onde o encontraram? — perguntou o jovem com voz imperiosa e rouca, reconhecendo imediatamente que o misterioso cavalo da tapeçaria era o próprio animal furioso que tinha diante dele.

– É sua propriedade, senhor — respondeu um dos escudeiros — pelo menos nenhum proprietário o reclamou. Apanhámo-lo quando fugia, ardente e espumante de raiva, das cavalariças escaldantes do castelo Berlifitzing. Supondo que pertencesse à coudelaria estrangeira do velho conde, trouxemo-lo com os restantes. Mas os criados abdicaram dos direitos sobre o animal, o que é estranho, pois ele tem marcas evidentes do fogo, o que prova que escapou de boa.

– As letras W. V. B. estão igualmente marcadas a ferro muito distintamente na testa — interrompeu um segundo escudeiro. — Suponho pois que se trata das iniciais de Wilhelm von Berlifitzing, mas toda a gente no castelo afirma positivamente não ter conhecimento do cavalo.

– Extremamente singular! — disse o jovem barão, com ar sonhador, como se não tivesse nenhuma consciência do sentido das suas palavras. — É, como diz, um cavalo notável, um cavalo prodigioso! Se bem que ele seja, como reparou com justeza, de um caráter assustadiço e intratável, vamos lá! Pois será meu, não o duvido — disse ele depois de uma pausa. — Talvez só um cavaleiro como Frederico de Metzengerstein poderá domar o próprio diabo das cavalariças de Berlifitzing.

– Engana-se, senhor. O cavalo, como lhe dissemos, creia, não pertence às cavalariças do conde. Se tal tivesse sido o caso, nós conhecíamos muito bem o nosso dever para o levar à presença de uma pessoa nobre da sua família.

– É verdade! — observou o barão secamente.

E nesse momento um jovem criado de quarto chegou do palácio, afogueado e com passos precipitados. Falou ao ouvido do patrão, da história do desaparecimento repentino de um pedaço de tapeçaria, num quarto que designou, entrando então em pormenores de um caráter minucioso e circunstanciado. Mas, como tudo isso foi comunicado em voz muito baixa, nem uma palavra transpirou que pudesse satisfazer a curiosidade excitada dos escudeiros.

O jovem Frederico, durante a conversa, parecia agitado por emoções várias. Contudo, recobrou pouco depois a sua calma, e uma expressão de maldade desenhava-se já na sua fisionomia quando deu ordens perentórias para que o aposento em questão fosse imediatamente fechado e a chave posta nas suas próprias mãos.

– Teve conhecimento da morte deplorável de Berlifitzing, o velho caçador? — disse ao barão um dos seus vassalos, ao afastar-se o pajem, enquanto o enorme corcel, que o fidalgo tinha adotado como seu, pulava e saltava com uma fúria dobrada pela longa avenida que se estendia do palácio às cavalariças de Metzengerstein.

– Não — disse o barão voltando-se bruscamente para o que falava. — Morto, dizes tu?

– É a pura verdade, senhor, e presumo que para um senhor do seu nome não é uma informação demasiado desagradável.

Um rápido sorriso surgiu na fisionomia do barão.

– Como morreu?

– Devido aos seus esforços imprudentes para salvar a parte preferida da
sua coudelaria de caça, pereceu miseravelmente nas chamas.

– Na… ver… da… de…! — exclamou o barão, como que impressionado, lenta e gradualmente, por qualquer evidência misteriosa.

– Na verdade — repetiu o vassalo.

– Horrível! — disse o jovem com muita calma. E entrou tranquilamente no palácio.

A partir desta época uma alteração marcante registou-se na conduta exterior do jovem desenfreado. Verdadeiramente a sua conduta desapontava todas as esperanças e derrotava as intrigas de mais de uma mãe. Os seus hábitos e maneiras vincaram-se cada vez mais, não havendo relações de simpatia, e menos do que nunca, com qualquer pessoa da aristocracia da vizinhança. Nunca o viam para além dos limites do seu próprio domínio, e no vasto mundo social estava absolutamente só — a menos que aquele grande cavalo impetuoso e invulgar, cor de fogo, que montava continuamente a partir dessa época, não tivesse na verdade qualquer direito misterioso ao título de amigo.

Contudo, chegavam periodicamente convites da parte dos vizinhos: — « O barão honrará a nossa festa com a sua presença?» — « O barão juntar-se-á connosco para uma caçada ao javali?»

– « Metzengerstein não caça.» — « Metzengerstein não irá.» — Tais eram as suas altivas e lacónicas respostas.

Estes insultos repetidos não podiam ser suportados por uma nobreza orgulhosa. Os convites tornaram-se menos cordiais — menos frequentes — e com o tempo até cessaram por completo. Ouviu-se a viúva do infortunado conde Berlifitzing exprimir o voto de « que o barão ficasse em casa quando desejasse não estar lá, visto que desdenhava da companhia dos seus iguais; e que saísse a cavalo quando também não quisesse, pois que preferia a companhia de um cavalo» . Isto certamente não passava de explosão irada do ódio hereditário e provava que as palavras se tornam singularmente absurdas quando queremos dar-lhes uma forma extraordinariamente enérgica.

As pessoas caridosas, todavia, atribuíam a mudança dos modos do jovem fidalgo ao desgosto natural de um filho privado prematuramente dos seus pais, esquecendo, contudo, a sua atroz e descuidada conduta durante os dias que se seguiram a esta perda. Houve alguns que viam simplesmente no caso uma ideia exagerada da sua importância e da sua dignidade. Outras, por sua vez (e entre aquelas pode ser citado o médico da família), falavam sem hesitar de uma melancolia mórbida e de um mal hereditário. No entanto, insinuações mais tenebrosas, de uma natureza equívoca, corriam por entre o povo.

Na realidade, a dedicação perversa do barão pela sua montada de recente aquisição — dedicação que parecia tomar uma nova força em cada novo exemplo que o animal dava das suas ferozes e demoníacas inclinações — tornava-se com o decorrer do tempo, aos olhos de todas as pessoas, uma tendência horrível e contra a natureza. No deslumbramento do meio-dia, às horas profundas da noite — doente ou de boa saúde — o jovem Metzengerstein parecia pregado à sela do cavalo colossal cujas insuportáveis audácias se harmonizavam bem com o seu próprio caráter.

Havia, para mais, circunstâncias que ligadas aos acontecimentos recentes, davam um caráter sobrenatural e monstruoso à mania do cavaleiro e à capacidade do animal. O espaço que ele transpunha de um só salto tinha sido cuidadosamente medido e ultrapassava com uma diferença espantosa as conjeturas mais largas e mais exageradas. O barão, além disso, não dera ainda ao animal qualquer nome particular, ainda que todos os cavalos da coudelaria fossem distinguidos pelos nomes característicos. Este cavalo tinha a sua cavalariça a uma certa distância das outras e, quanto ao tratamento e a todo o serviço necessário, ninguém, exceto o proprietário em pessoa, se teria arriscado a preencher estas funções, nem mesmo a entrar no recinto onde estava construída a sua cavalariça particular. Observou-se também que os três palafreneiros, que se tinham apoderado do corcel quando fugia ao incêndio de Berlifitzing, embora tivessem conseguido parar a sua corrida com a ajuda de uma cadeia de nó corredio, no entanto, nenhum dos três podia afirmar com a certeza de que, durante essa perigosa luta, tivessem pousado a mão no corpo do animal. Provas de inteligência particular na conduta de um nobre animal cheio de ardor não bastariam certamente para excitar uma atenção sem motivos. Mas havia certas circunstâncias que tinham alertado os espíritos mais céticos e mais fleumáticos, e dizia-se que por vezes o animal fizera recuar de horror a multidão curiosa frente ao profundo e chocante significado da sua marca — que por vezes o jovem Metzengerstein se tornara pálido e se furtara diante da expressão rápida do seu olhar sério e quase humano.

Entre todos os criados do barão não se encontrava, contudo, ninguém que duvidasse do fervor extraordinário e afeição que excitavam no jovem fidalgo as qualidades brilhantes do seu cavalo. Ninguém, exceto pelo menos um insignificante pajenzinho, um pateta que exibia por toda a parte ofuscante fealdade e cujas opiniões não tinham a mínima importância possível. Tinha o desaforo de afirmar — se as suas ideias valessem a pena ser mencionadas — que o seu dono jamais subira para a sela sem um inexplicável e quase impercetível arrepio, e que no regresso de cada um dos seus longos e habituais passeios, uma expressão de maldade desfigurava a sua face.

Durante uma noite tempestuosa, Metzengerstein, ao acordar de um pesado sono, desceu como um maníaco do seu quarto e, montando o cavalo a toda a pressa, lançou-se a galope através do labirinto da floresta.

Um acontecimento tão vulgar não podia chamar em particular a atenção. Porém, o seu regresso foi esperado com uma intensa ansiedade por todos os seus criados, quando, depois de algumas horas de ausência, as prodigiosas e magníficas construções do palácio de Metzengerstein se puseram a estalar e a tremer até às fundações, sob o efeito de um fogo imenso, uma massa espessa e lívida.

Como as chamas, quando as avistaram pela primeira vez, já tinham lavrado terrivelmente e todos os esforços para salvar qualquer porção dos edifícios tivessem sido inúteis, toda a população da vizinhança se conservava silenciosamente em volta, numa estupefação silenciosa, até mesmo apática.

Mas um objeto terrível e novo atraiu em breve a atenção de todos, e demonstrou quanto é mais intenso o interesse excitado pelos sentimentos de uma multidão pela contemplação de uma agonia humana do que a criada pelos mais espantosos espetáculos da matéria inanimada.

Na longa avenida dos velhos castanheiros, que começava na floresta e terminava à entrada principal do palácio de Metzengerstein, um corcel, trazendo um cavaleiro de cabelo em desordem, vinha a saltar com uma impetuosidade que desafiava a fúria da própria tempestade. O cavaleiro não estava evidentemente senhor desta corrida desenfreada. A angústia da sua fisionomia os esforços convulsivos de todo o seu ser, testemunhavam bem uma luta sobre- humana, mas nenhum som, exceto um único grito, se escapou pelos lábios lacerados, que mordia, ora um ora outro, na intensidade do seu terror. Num instante, o choque dos cascos ecoou com um barulho agudo, atroador, mais alto que o rugir das chamas e o ulular do vento. Num instante apenas, transpondo de um salto a porta grande e o fosso, o corcel lançou-se pelas escadas oscilantes do palácio e desapareceu com o seu cavaleiro no turbilhão daquele fogo caótico.

A fúria da tempestade apaziguou-se de repente e sobreveio a calma mais absoluta. Uma chama branca envolvia ainda o edifício como um sudário e brilhava ao longo da atmosfera tranquila, dardejando uma luz de um fulgor sobrenatural, enquanto uma nuvem de fumo descia pesadamente por cima das construções, sob a forma distinta de um gigantesco cavalo.
Edgar Allan Poe

Depois de tudo

Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.

Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.

Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?

Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.
Cassiano Ricardo

Bíblico

Quem não lê é mais analfabeto do que quem não sabe ler.

Millôr Fernandes, "A bíblia do caos"

Minha terra tem palmeiras

Vejo de minha janela uma nesga do mar verde-azul de Copacabana e me penetra uma infinita doçura. Estou de volta à minha terra... A máquina de escrever conta-me uma antiga história, canta-me uma antiga música no bater de seu teclado. Estou de volta à minha terra, respiro a brisa marinha que me afaga a pele, seu aroma vem da infância. Retomo o diálogo com a minha gente. Uma empregada mulata assoma ao parapeito defronte, o busto vazando do decote, há toalhas coloridas secando sobre o abismo vertical dos apartamentos, dá-me uma vertigem. Que doçura!

Sinto borboletas no estômago, deve ter sido o tutu com torresmo ontem misturado ao camarão à baiana de anteontem misturado à galinha ao molho-pardo de trasanteontem misturada aos quindins, papos-de-anjo, doces de coco do primeiro dia. Digiro o Brasil. Qual canard au sang, qual loup flambé au fenouil, qual paté Strasbourgeois, qual nada! A calda dourada da baba-de-moça infiltra-se entre as papilas, elas desmaiam de prazer, tudo deságua em lentas lavas untuosas num amoroso mar de suco gástrico...

– É a brazuca! – disse-me Antônio Carlos Jobim balançando a cabeça com ar convicto, enquanto empinava o seu VW em direção ao Arpoador.

Há uma semana e meia atrás, pelas cinco da manhã, eu tocava violão para uns brasileiros e espanhóis da terceira classe, no Charles Tellier, que me trazia da Europa. De repente, um clarão lambeu o navio e todo mundo correu para a amurada. Era um farol de terra, possivelmente o de Cabo Frio. Havia entre nós um padre que regressava depois de quatro anos de estudos em Roma e Paris, um bom padre mineiro cheio de zelo pela nova missão de que vinha investido. Juro que vi o velho palavrão admirativo, o clássico palavrão labial de assombro formar-se em sua boca sem que ele sequer desse por isso. Domingo passado fui almoçar na casa materna. Muito mais que as coisas vistas, os sons é que me emocionaram. Lá estava na parede o velho quadro de Di Cavalcanti, representando um ângulo da rua Direita pouco depois do antigo Hotel Toffolo, em Ouro Preto, mas o que me chegou foi o tinir das ferraduras dos burrinhos nas velhas pedras do calçamento, de mistura ao soar dos sinos e à voz presente de minha filha Luciana chamando-me: “Pai... iê!” para que eu fosse ver qualquer coisa. Depois, o sussurrar de vozes se amando baixinho no escuro de um beco, sob a luz congelada de estrelas enormes...

– Você gosta de mim?

– Gosto.

– Muito?

– Muito!

Minhas artérias entraram em constrição violenta, o peito doeu-me todo e eu me levantei e fui até a rua para respirar. Sei que morrerei um dia de uma emoção assim. Mas não adiantou. Lá estava o capim brotando de entre os paralelepípedos, lá estava a ladeira subindo para o verde úmido do morro, ali à esquerda ficava um antigo apartamento onde eu morei. Naquele tempo eu ganhava novecentos mil-réis por mês e estudava para o concurso do Itamarati. Dava apertado, mas dava.
Porque será que só no Brasil brota capim de entre os paralelepípedos, e particularmente na Gávea? Existe por acaso um sorvete como o do seu Morais às margens do Ródano? Veem-se jamais as silhuetas de Lúcio Rangel e Paulo Mendes Campos numa cervejaria em Munique? Quem já viu passar a garota de Ipanema em Saint-Tropez?

Adeus mãe Europa. Tão cedo não te quero ver. Teus olhos se endureceram na visão de muitas guerras. Tua alma se perdeu. Teu corpo se gastou. Adeus, velha argentária. Guarda os teus tesouros, os teus símbolos, as tuas catedrais. Quero agora dormir em berço esplêndido, entre meus vivos e meus mortos, ao som do mar e à luz de um céu profundo. Malgrado o meu muito lutar contra, eis que me vou lentamente tornando – logo eu! – num isolacionista brasileiro.

Vinicius de Moraes, "Prosa"

quinta-feira, maio 7

Sem fim

 


Leituras na árvore

Levava consigo para as árvores todos os livros que fugiam à conduta daquilo que então se podia esperar de uma futura mulher. Ainda era só menina, pensava. Nos verões era mais fácil esconder estes livros da família. Como não chovia, deixava-os pendurados como frutos sob os ramos e sonhava com uma árvore real que amadurecesse as histórias. Semeava palavras e delas crescia a natureza das cabeças. Que bom seria ter a liberdade de plantar pensamentos. Maria Teresa sonhava com essa possibilidade tão remota de liberdade. Liberdade das meias esticadas até ao joelho e das cuecas que lhe faziam comichão. Liberdade suja e sem horas. Mas rapidamente ouvia as vozes que a traziam de volta à prisão dos dias.

- Maria Teresa, vai tomar banho, que hoje vem cá jantar o senhor padre!

E, assim, deixava as histórias a pernoitar nas árvores para enfrentar aquela realidade menos aventureira e esperançosa.
Sara Duarte Brandão, "Quem Tem Medo dos Santos da Casa"

O filho do século

Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos voos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
Murilo Mendes