quinta-feira, fevereiro 12

Cadeira de praia



Vou lá ser feliz…


Apronto agora os meus pés na estrada.
Ponho-me a caminhar sob sol e vento.
Eles secam as lágrimas,
Vou ali ser feliz e já volto.

Caio Fernando Abreu

Os gatos

Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.

Mas espera, já estou me precipitando, eu pensava naquela fábula da infância: é que Deus Nosso Senhor pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos e mesuras foi levá-lo ao Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que fez o gato? O fingido escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo nojento na mão divina.


Acreditei na fábula, na infância a gente só acredita. Mais tarde, conhecendo melhor o gato, descobri que ele jamais teria esse comportamento, questão de feitio. De caráter. Ele ouviria a ordem e continuaria deitado na almofada, olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. E mergulharia no sono sem sonhos, gato sonha menos do que cachorro que até dormindo se parece com o homem. Outro ponto discutível: dando gargalhadas? Mas gato não dá gargalhada, só cachorro. Meus cachorros riam demais abanando o rabo, que é o jeito natural que eles têm de manifestar alegria, chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse é o sorriso do gato – ô bicho sutil! indecifrável. Inatingível.

Nem pior nem melhor do que o cachorro, mas diferente. Fingido? Não, ele nem se dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave – aquele recôncavo onde o vinho envelhece.

Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas o cachorro se expõe, inocente.

Foi na minha juventude que conheci o gato bem de perto. Me preparava para os vestibulares da Academia do Largo de São Francisco, era noite. E eu lia Iracema sem vontade, lia em voz alta, aos brados, para espantar o sono. Então ouvi um ruído brusco de coisa algodoada entrando pela janela e parando atrás da minha cadeira. Senti o olhar da coisa se fixando em mim. Fui me voltando devagar, afetando aquela calma que estava longe de sentir: um gato malhado, espetado nas quatro patas, me encarava, perplexo. Eu também perplexa. Fomos nos recuperando do susto, eu menos tensa do que ele. Meu apartamento era no primeiro andar de um prédio cercado de casario e essa janela da sala dava para o telhado de uma casa velhíssima, por onde transitavam os gatos do bairro.

Por onde andam hoje os gatos que não encontro mais nenhum. Naquele tempo havia gato à beça nos muros, nos telhados. “É que a vida apertou e gato dá um bom cozido”, explicou o jornaleiro. A fome aumentou e o telhado diminuiu, onde agora os telhados nos quais eles ficavam tomando sol? Caçando passarinho. Amando. Os ratos todos em plena circulação, fortalecidos. E os gatos, onde estão os gatos? Pois aquele era um gato de telhado, as manchas amarelas e pretas num fundo branco. E os olhos. Por alguma razão obscura, escolheu minha casa: estendi a mão afeita a acariciar cabeça de cachorro. Mas cabeça de gato não é cabeça de cachorro – primeira lição que ele deu ao recuar com uma soberba que me confundiu. A conquista do gato é difícil, embrulhada, não tem isso de amor repentino: mais um movimento de aproximação e ele fugiria ventando.

Fui buscar o pires de leite, deixei-o ao alcance do visitante da noite e continuei a ler o romance da virgem dos lábios de mel, mas em voz baixa, intuí que ele preferia o silêncio. Ele ou ela? Sexo de gato não é nítido como sexo de cachorro, outra diferença importante. Leva algum tempo para a descoberta do sexo, da unha e da idade.

Gato ou gata, vai se chamar Iracema, resolvi. E deixei meu hóspede, a casa é sua.
Então ouvi o ruído delicado, ele bebia leite, mas não como os cachorros bebem, sofregamente, espirrando em redor. O gato é discreto. Há que amá-lo discretamente, pensei e fiquei sorrindo. Tenho um gato.

“Tudo passa sobre a terra!” – estava escrito no final do romance que achei triste. Olhei para a outra Iracema que dormia no meio do tapete. Também você vai passar? Tu quoque, Iracema?! Não sabia ainda que permaneceria infinita na minha finitude.
 Lygia Fagundes Telles, "A disciplina do amor"

O messias

“Todos temos aquele sonho especial quando somos jovens”, disse o bispo Kelly.

Os outros, à mesa, murmuraram, assentiram.

“Não existe nenhum menino cristão”, o bispo continuou, “que não tenha se perguntado em uma noite dessas: eu sou Ele? E esta é a Segunda Vinda, afinal de contas, e eu sou Ela? E se, e se, ah, Deus meu, e se eu fosse Jesus? Que grandioso!”

Os sacerdotes, os ministros e o único rabino solitário riram delicadamente, lembrando-se de coisas de suas próprias infâncias, seus próprios sonhos desvairados e de como eram grandes tolos.

“Será”, disse o jovem sacerdote, padre Niven, “que os meninos judeus não se imaginam como Moisés?”

“Não, não, meu caro amigo”, disse o rabino Nittler. “O Messias! O Messias!”
Mais risadas brandas de todos.

“É claro”, disse o padre Niven, o rosto jovial, rosa e creme, “que tolice a minha. Cristo não era o Messias, era? E seu povo continua esperando que Ele chegue. Estranho. Ah, as ambigüidades.”

“E nada mais ambíguo do que isso.” O bispo Kelly se levantou para acompanhar todos até um terraço com vista para as colinas marcianas, as cidades marcianas antigas, as velhas rodovias, os rios de poeira e a Terra, sessenta milhões de milhas distante, brilhando com uma luz clara neste céu alienígena.

“Alguma vez, em nossos sonhos mais loucos”, disse o reverendo Smith, “imaginamos que um dia cada um de nós teria uma Igreja Batista, uma Capela Santa Maria, uma Sinagoga Monte Sinai, aqui, aqui em Marte?”

A resposta foi não, não, suavemente, da parte de todos eles.

A tranquilidade foi interrompida por uma outra voz que se movia entre eles. O padre Niven, enquanto eles estavam na balaustrada, havia sintonizado seu rádio transistor para saber a hora. Notícias eram transmitidas da nova e pequena colônia americano-marciana no deserto lá embaixo. Eles escutaram: “...boatos perto da cidade. Este é o primeiro marciano de que se tem notícia em nossa comunidade este ano. Pede-se aos cidadãos que respeitem qualquer um desses visitantes. Se...”.

O padre Niven desligou o rádio.

“Essa nossa esquiva congregação”, suspirou o reverendo Smith. “Devo confessar: eu vim para Marte não apenas para trabalhar com cristãos, mas esperando convidar um marciano para a ceia de domingo, para conhecer suas teologias, suas necessidades.”

“Ainda somos algo novo demais para eles”, disse o padre Lipscomb. “Em mais um ano, aproximadamente, acho que eles irão entender que não somos caçadores de búfalos em busca de peles. Mesmo assim, é difícil controlar a curiosidade. Afinal, as fotografias de nosso Mariner não indicaram nenhuma vida aqui. Entretanto, há vida, muito misteriosa e meio parecida com vida humana.”

“Meio, Sua Eminência?” O rabino meditava diante de sua xícara de café. “Sinto que são até mais humanos do que nós mesmos. Eles nos deixaram vir.

Esconderam-se nas colinas, só aparecendo entre nós ocasionalmente, disfarçados de terráqueos, é o que achamos...”

“O senhor realmente acredita que eles possuam poderes telepáticos e habilidades hipnóticas que lhes possibilitam andar por nossas cidades, enganando-nos com máscaras e visões, sem que ninguém de nós se aperceba?”

“Acredito sim.”

“Então”, disse o bispo, passando aos outros os conhaques e crémes de menthes, “esta é uma verdadeira noite de frustrações. Marcianos que não querem se revelar para que sejam salvos por Nós, os Iluminados...”

Muitos sorriram a essa afirmação.

“... e por Segundas Vindas de Cristo adiadas por vários milhares de anos. Quanto tempo devemos esperar, ó, Senhor?”

“Quanto a mim”, disse o jovem padre Niven, “eu nunca desejei ser Cristo, a Segunda Vinda. Eu sempre quis apenas, com todo o meu coração, encontrá-Lo. Desde que eu tinha oito anos penso nisso. Pode muito bem ser o principal motivo de me tornar sacerdote.”

“Para ter informações privilegiadas, por via das dúvidas. Será que Ele já voltou alguma vez?”, sugeriu o rabino, delicadamente.

O jovem sacerdote sorriu e assentiu. Os outros sentiram um impulso de estender a mão e tocá-lo, pois ele havia tocado alguma pequena ferida vaga e doce em cada um. Eles se sentiram imensamente abrandados.

“Com sua permissão, rabino, cavalheiros”, disse o bispo Kelly, levantando o copo. “À Primeira Vinda do Messias, ou à Segunda Vinda do Cristo. Tomara que sejam mais do que alguns antigos sonhos tolos.”

Eles beberam e ficaram em silêncio.

O bispo assoou o nariz e enxugou os olhos.

***

O resto da noite foi como muitas outras para os sacerdotes, os reverendos e o rabino. Puseram-se a jogar cartas e a discutir santo Tomás de Aquino, mas sucumbiam ao massacre da lógica educada do rabino Nittler. Chamavam-no de jesuíta, bebiam as últimas bebidas da noite e escutavam as últimas notícias no rádio:

“… teme-se que este marciano possa se sentir encurralado em nossa comunidade. Qualquer um que o encontre deve-se afastar para deixar o marciano passar. Ele parece ser movido pela curiosidade. Não há motivo para alarme. Isso conclui nosso...”

Enquanto se encaminhavam para a porta, os sacerdotes, os ministros e o rabino discutiam traduções que haviam feito para várias línguas do Antigo e do Novo Testamento. Foi então que o padre Niven os surpreendeu:

“Os senhores sabiam que uma vez me pediram que escrevesse um roteiro dos Evangelhos para o cinema? Precisavam de um final para o filme deles!”

“Será que existe, com certeza”, protestou o bispo, “somente um final para a vida de Cristo?”

“Mas, Sua Santidade, os Quatro Evangelhos contam-na com quatro variações. Eu comparei. Fiquei entusiasmado. Por quê? Porque redescobri algo que quase havia esquecido. A Última Ceia não foi realmente a Última Ceia!”

“Minha nossa, o que é então?”

“Ora, Sua Santidade, a primeira de várias, senhor. A primeira de várias! Depois da Crucificação e do Sepultamento de Cristo, Simão-chamado-Pedro, junto com os discípulos, não pescaram no mar da Galiléia?”

“Pescaram.”

“E suas redes não se encheram com o milagre dos peixes?”

“Encheram-se.”

“E, ao verem na costa da Galiléia, uma luz pálida, eles não atracaram e aproximaram-se do que parecia ser um leito de brasas incandescentes em que se assavam peixes recém-pescados?”

“Sim, ah, sim”, disse o reverendo Smith.

“E lá, para além do brilho do fogo brando do carvão, eles não sentiram uma presença espiritual e a chamaram?”

“Sentiram.”

“Sem obter resposta, Simão-chamado-Pedro não sussurrou novamente: ‘Quem está aí?’. E o Fantasma, não reconhecido, nas praias da Galiléia, estendeu a mão à luz do fogo e, em sua palma, não viram eles a marca do cravo, a chaga que nunca se fecharia?

“Eles quiseram fugir, mas o Fantasma falou e disse: ‘Tomai destes peixes e dai de comer a vossos irmãos’. E Simão-chamado-Pedro tomou dos peixes que assavam por sobre as brasas incandescentes e alimentou os discípulos. E o frágil Fantasma de Cristo então disse: ‘ Tomai de minha palavra e espalhai-a entre as nações de todo o mundo e assim pregai o perdão do pecado’.

“E então Cristo os deixou. E, em meu roteiro, eu O fiz andar ao longo da costa da Galiléia em direção ao horizonte. E quando alguém caminha rumo ao horizonte, parece ascender, não é? Pois toda a terra se eleva à distância. E Ele caminhou ao longo da praia até se tornar apenas um pequeno ponto bem ao longe. E eles não puderam mais vê-Lo.

“E, enquanto o sol nascia sobre o mundo antigo, todas as Suas mil pegadas ao longo da praia se desmancharam ao sopro dos ventos da alvorada sem deixar nenhum sinal.

“E os Discípulos deixaram as cinzas daquele leito de brasas se espalharem em fagulhas, e com o gosto da Real e Final e Verdadeira Última Ceia na boca, eles se foram. E em meu roteiro, faço a câmera subir para observar os Discípulos andando, alguns para o norte, alguns para o sul, alguns para o leste, para dizerem ao mundo o que Precisava Ser Dito sobre Um Homem. E suas pegadas, indo em todas as direções, como os raios de uma imensa roda, apagavam-se na areia, ao vento da manhã. E surgiu um novo dia. Fim.”

O jovem sacerdote estava no centro da roda de amigos, as faces coradas, olhos fechados. De repente, abriu os olhos, como se estivesse se lembrando de onde estava:

“Desculpem”.

“Pelo quê?”, falou o bispo, esfregando as pálpebras com as costas da mão, piscando rapidamente. “Por me fazer chorar duas vezes em uma noite? Como pode estar constrangido na presença de seu próprio amor por Cristo? Ora esta, o senhor me devolveu a Palavra, a mim, que sou conhecedor da Palavra parece que há séculos! O senhor renovou minha alma, ah, meu bom jovem com coração de um menino. Comer os peixes nas praias da Galiléia foi a verdadeira Última Ceia. Bravo. O senhor merece se encontrar com Ele. A Segunda Vinda, por uma questão de justiça, deve ser para o senhor!”

“Eu não sou digno!”, disse o padre Niven.

“Nenhum de nós é! Mas, se fosse possível trocar de almas, eu cederia a minha neste instante e tomaria emprestada a sua, recém-saída da lavanderia. Mais um brinde, cavalheiros? Ao padre Niven! Então, boa noite, é tarde, boa noite.”
O brinde foi bebido e todos partiram; o rabino e os ministros desceram a colina rumo a seus lugares sagrados, deixando os sacerdotes desfrutarem um último momento à porta, olhando Marte, esse estranho mundo. Soprava um vento frio.

***

Chegou a meia-noite e depois uma e depois duas e, às três, na madrugada fria e profunda de Marte, o padre Niven se agitava. Velas bruxuleavam em brandos sussurros.

Folhas tremulavam contra sua janela.

De repente, ele se sentou na cama, meio sobressaltado por um sonho com gritos e perseguição de uma multidão enfurecida. Ficou escutando.

Longe dali, lá embaixo, ele ouviu o cerrar de uma porta externa.

Colocando um robe, o padre Niven desceu as escadas mal iluminadas da casa paroquial e atravessou a igreja, onde dezenas de velas aqui e ali formavam sua própria poça de luz.

Verificou todas as portas, pensando: Tolice, para que trancar igrejas? O que há para ser roubado? Mas, ainda assim, ele rondou a noite adormecida...

.... e encontrou a porta da frente da igreja destrancada, sendo empurrada suavemente pelo vento.

Tremendo, ele fechou a porta.

Corrida de passos leves.

Ele procurou ao redor.

A igreja estava vazia. As chamas das velas se inclinavam para cá e para lá, em seus santuários. Havia apenas o cheiro antigo de cera e incenso queimando, coisas que sobraram de todos os mercados do tempo e da história; outros sóis e outras luas.

Enquanto olhava para o crucifixo acima do altar principal, estacou.

Ouviu o som de uma única gota d’água caindo na noite.

Lentamente, ele se virou para olhar para o batistério no fundo da igreja.
Não havia nenhuma vela ali, no entanto...

Uma luz pálida saía daquele pequeno recanto onde ficava a pia batismal.

“Bispo Kelly?”, ele chamou baixinho.

Subindo lentamente entre as fileiras de bancos, ele começou a sentir muito frio e parou, porque...

Uma outra gota d’água havia pingado, caído, dissolvido.

Era como se houvesse uma torneira gotejando em algum lugar. Mas não havia torneiras. Apenas a pia batismal, dentro da qual, gota a gota, caía um líquido lento, com intervalo de três batidas de coração entre cada som.

Secretamente, o coração do padre Niven dizia algo a si mesmo e disparava, depois diminuía o ritmo e quase parava. Ele começou a suar profusamente.

Viu-se incapaz de se mover, mas mover-se era preciso, um pé depois do outro, até chegar ao arco de entrada do batistério.

Havia de fato uma luz pálida na escuridão do pequeno lugar.

Não, uma luz não. Uma forma, um vulto.

O vulto estava em pé atrás e além da pia batismal. O som dos pingos havia parado.

Língua travada na boca, olhos arregalados em uma espécie de loucura, o padre Niven sentiu-se cego. Então, a visão retornou, e ele ousou gritar:

“Quem!”

Uma única palavra, que ecoou em todos os lados da igreja, que fez as chamas das velas se agitarem em reverberação, que sacudiu o pó de incenso, que apavorou seu coração ao responder rapidamente “Quem!”.

A única luz dentro do batistério vinha das vestes pálidas do vulto ali postado diante dele. E essa luz foi suficiente para que ele visse uma coisa incrível.

Enquanto o padre Niven observava, o vulto se moveu, estendeu a mão pálida sobre o batistério.

A mão pendeu ali como se não quisesse, uma coisa separada do Fantasma ali atrás, como se tivesse sido agarrada e puxada para a frente, resistindo a revelar, diante do olhar apavorado e fascinado do padre Niven, o que estava no centro da palma branca e aberta.

Ali havia um buraco de bordas irregulares, um orifício de onde, lentamente, gota a gota, pingava, caía e escorria sangue para dentro da pia batismal.

As gotas de sangue atingiam a água benta, coloriam-na e se dissolviam em lentas ondas.

A mão permaneceu ali por um momento diante dos olhos ora cegos, ora sãos.

Como se atingido por um golpe terrível, o sacerdote caiu de joelhos desatando em um choro engasgado, meio desespero, meio revelação, uma das mãos sobre os olhos e a outra afastando a visão.

“Não, não, não, não, não, não, não, não pode ser!”

Era como se um dentista medonho tivesse chegado sem anestesia e, com um único puxão, tivesse arrancado do seu corpo a alma dessangrada. Ele se sentiu aprisionado, sua vida arrancada e as raízes, ó, Deus, eram... profundas!

“Não, não, não, não!”

Mas, sim.

Olhou novamente por entre os dedos entrelaçados.

E o Homem estava ali.

E a horrível palma trêmula, ensangüentada, gotejava sobre o batistério.

“Chega!”

A palma recuou, desapareceu. O Fantasma ficou esperando.

E a face do Espírito era boa e familiar. Aqueles olhos estranhos, bonitos, profundos e incisivos eram como ele sabia que sempre deveriam ser. Havia a delicadeza da boca e a palidez emoldurada pelas madeixas esvoaçantes dos cabelos e da barba.

O Homem estava envolto na simplicidade das vestes usadas nas praias e no deserto próximos à Galiléia.

O sacerdote, com um grande esforço de vontade, impediu as próprias lágrimas de caírem, interrompeu a agonia de sua surpresa, dúvida, choque, essas coisas incômodas que se rebelavam dentro dele e ameaçavam irromper. Ele tremia.

E então viu que o Vulto, o Espírito, o Homem, o Fantasma, seja lá o que for, estava tremendo também.

Não, pensou o sacerdote. Não pode ser Ele! Com medo? Com medo... de mim?

E então o Espírito se contorceu em imensa agonia, não diferente da sua, como uma imagem espelhada de seu próprio choque, escancarou a boca, fechou os olhos e rogou:

“Por favor, deixe-me ir”.

Ao ouvir isso, o jovem sacerdote arregalou ainda mais os olhos e ofegou. Ele pensou: Mas você é livre. Ninguém o mantém preso aqui!

E naquele instante:

“Sim!”, gritou a Visão. “Você me mantém! Por favor! Desvie o olhar! Quanto mais você olha, mais eu me torno assim! Não sou o que pareço!”

Mas, pensou o sacerdote, eu não falei nada! Meus lábios não se moveram! Como esse Fantasma sabe o que está em minha mente?

“Eu sei tudo o que você pensa”, disse a Visão, trêmula, pálida, escondendo-se na escuridão do batistério. “Toda frase, toda palavra. Eu não pretendia vir. Eu me aventurei na cidade. De repente, eu era muitas coisas para muitas pessoas. Corri. Elas me seguiram. Fugi para cá. A porta estava aberta. Entrei. E então, e então... Ah, e então fui aprisionado.”

Não, pensou o sacerdote.

“Sim”, choramingou o Fantasma. “Por você.”

Lentamente, então, vergando sob o peso de uma revelação ainda mais terrível, o sacerdote agarrou-se à borda da pia e se colocou de pé, oscilante. Finalmente, ousou perguntar:

“Você não é... o que parece?”

“Não sou”, disse o outro. “Perdoe-me.”

Eu, o sacerdote pensou, vou enlouquecer.

“Não faça isso”, disse o Fantasma, “ou eu serei arrastado à loucura junto com você.”

“Não posso desistir de Vós, ó, meu bom Deus, agora que estais aqui, depois de todos estes anos, todos os meus sonhos, não vedes, estais pedindo demais. Dois mil anos, uma raça inteira de pessoas espera por Vossa volta! E eu sou aquele que Vos encontrei, que Vos vê...”

“Você encontrou apenas o seu próprio sonho. Você vê apenas a sua própria necessidade. Por trás de tudo isso...”, a figura tocou as próprias vestes e o peito, “sou uma outra coisa.”

“O que tenho de fazer?”, o sacerdote explodiu, olhando ora para os céus, ora para o Fantasma, que tremeu com seu grito. “O quê?”

“Desvie o olhar. Nesse momento, eu sairei pela porta e irei embora.”

“Assim... simplesmente assim?”

“Por favor”, disse o Homem.

O sacerdote, tremendo, deu uma série de suspiros.

“Ah, se este momento pudesse durar pelo menos uma hora.”

“Você quer me matar?”

“Não!”

“Se me mantiver, me forçar a ficar nesta forma por mais algum tempo, minha morte será culpa sua.”

O sacerdote mordeu o nó dos dedos e sentiu um acesso de tristeza fustigar seus ossos.

“Você... você é um marciano então?”

“Nem mais. Nem menos.”

“E eu fiz isso a você com meus pensamentos?”

“Você não teve a intenção. Quando desceu as escadas, seu antigo sonho se apossou de mim e me transformou. As palmas de minhas mãos ainda sangram com as feridas que você tirou do íntimo de sua mente.”

O sacerdote balançou a cabeça, estupefato.

“Só mais um pouco... espere...”

Ele olhava fixamente, ávido, para a escuridão onde o Fantasma se escondia da luz. Aquela face era linda. E, ah, aquelas mãos eram adoráveis e além de qualquer descrição.

O sacerdote fez um gesto de assentimento, uma tristeza em si como se tivesse naquela hora voltado do verdadeiro Calvário. E o tempo passou. E as brasas espalhadas se extinguiam na areia próximo à Galiléia.

“Se... Se eu deixá-lo ir...”

“Você precisa, ah, você precisa!”

“Se eu deixá-lo ir, promete...”

“O quê?”

“Promete que irá voltar?”

“Voltar?”, gritou o vulto na escuridão.

“Uma vez por ano, é tudo o que peço, volte uma vez por ano, aqui, a este lugar, a esta pia, à mesma hora da noite...”

“Voltar...?”

“Prometa! Ah, eu preciso viver este momento de novo. Você não sabe como é importante! Prometa ou não o deixarei ir!”

“Eu...”

“Diga. Jure!”

“Eu prometo”, disse o Fantasma, pálido, no escuro. “Eu juro.”

“Obrigado, ah, obrigado.”

“Em que dia do ano a partir de agora eu devo retornar?”

As lágrimas começaram então a escorrer pelo rosto do jovem sacerdote. Ele mal conseguia se lembrar do que queria dizer e, quando disse, mal conseguiu ouvir:
“Na Páscoa, ah, Deus, sim, na Páscoa, daqui a um ano!”

“Por favor, não chore”, disse o vulto. “Eu virei. Na Páscoa, você disse? Conheço o seu calendário. Sim. Agora...” A mão pálida e ferida se mexeu no ar, implorando baixinho. “Posso ir?”

O sacerdote cerrou os dentes para impedir que o choro de angústia irrompesse.
“Abençoe-me e vá.”

“Deste jeito?”, disse a voz.

E a mão estendeu-se para tocá-lo muito delicadamente.

“Rápido!”, gritou o sacerdote, olhos fechados, apertando os punhos com força contra as costelas para evitar que suas mãos o agarrassem. “Vá antes que eu o prenda aqui para sempre. Corra. Corra!”

A mão pálida tocou sua fronte uma última vez. Ouviu-se um leve correr de pés descalços.

Uma porta se abriu em direção às estrelas; a porta bateu.

Houve um momento longo em que o eco da batida da porta atravessou a igreja, chegando a cada altar, entrando em cada alcova e subindo como o vôo cego de algum pássaro solitário, procurando e encontrando a liberdade na abside. A igreja finalmente parou de tremer e o sacerdote colocou as mãos sobre si mesmo, parecendo dizer-se como se comportar, respirar novamente; aquietar-se, acalmar-se, compor-se...

Por fim, correu até a porta e se agarrou a ela, desejando escancará-la, olhar para a estrada que devia estar vazia então, talvez com um vulto de branco, fugindo ao longe. Ele não abriu a porta.

Andou pela igreja, feliz pelas coisas a fazer, terminando o ritual de trancar tudo. Era um longo caminho até todas as portas. Era um longo caminho até a próxima Páscoa.

Parou junto à pia e viu a água limpa sem nenhum traço de vermelho. Mergulhou a mão e refrescou a testa e as têmporas e as bochechas e as pálpebras.

Então, subiu lentamente pela passagem entre os bancos e se deitou diante do altar e deixou-se irromper em lágrimas e chorar de verdade. Ouviu o som de sua tristeza subir, e descer, em agonia, da torre onde o sino pendia silencioso.
E chorou por muitas razões.

Por si mesmo.

Pelo Homem que havia estado aqui um momento antes.

Pelo longo tempo até que a pedra fosse removida e o sepulcro novamente encontrado vazio.

Até que Simão-chamado-Pedro visse mais uma vez o Fantasma na praia marciana, e a si mesmo, Simão Pedro.

E, acima de tudo, chorou porque, ah, porque... nunca em sua vida poderia falar dessa noite a ninguém…
Ray Brabury, "A cidade inteira dorme e outros contos breves"

O jardim onde Jorge Amado permanece

Acabo de voltar de uma viagem rápida à Bahia, lugar que gosto de revisitar pela energia, pelo ritmo e, sobretudo, pelas pessoas. Desta vez, a missão era apresentar a terra de Caetano, Gil, Caymmi e João Ubaldo à minha afilhada, Maria Ady. A Bahia também é terra de Jorge Amado, claro – e o deixei por último porque ele é, no fundo, o verdadeiro motivo desta crônica.

Jorge e Zélia moraram por muitos anos na Casa do Rio Vermelho, hoje transformada em museu. Fomos até lá acompanhadas pela filha do casal, a querida Paloma, que nos presenteou com histórias vividas e guardadas naquele espaço – histórias que parecem brotar das paredes, do chão e do jardim. Um verdadeiro privilégio.

E já que esta coluna se dedica à natureza, é nela que me detenho.


Vencidos os dois lances de escada logo na entrada, somos recebidas por uma jaqueira plantada há quase 60 anos por Jorge Amado. Em uma crônica recente, Paloma conta que foi a primeira árvore do jardim. Era, como ela diz, “indispensável garantir a presença da fruta preferida”. Até hoje, a jaqueira segue generosa. Estava carregada quando estivemos ali, firme, viva, produtiva.

À esquerda, alguns passos adiante, aparece uma pequena mangueira, plantada junto aos bancos de azulejos preferidos de Zélia e Jorge. Foi ali que, a pedido dele – que tinha horror à ideia de ser enterrado –, suas cinzas foram espalhadas. Um gesto final de pertencimento: voltar à terra como presença. Ficamos emocionadas.

O jardim da Casa do Rio Vermelho é uma das grandes estrelas do lugar. Árvores frutíferas, sombras, caminhos, espaços de descanso e interação com os visitantes. Um jardim que acolhe brasileiros e estrangeiros, fãs de dois grandes nomes da literatura mundial.

Vale lembrar: nos livros de Jorge Amado, a natureza nunca é cenário. Ela é personagem: as plantas, o mar, o cacau, o dendê, os orixás, as ervas, os chás. Tudo pulsa, tudo age, tudo participa da vida humana.

Para Jorge Amado, para Zélia e para Paloma, a natureza é cotidiano, é afeto, é ancestralidade – não algo a ser contemplado a distância, mas vivido, cuidado, compartilhado.

Talvez por isso, começar o ano relendo Jorge Amado faça ainda mais sentido. Seus livros nasceram em um tempo anterior à urgência climática, é verdade. Mas falam de uma relação com a terra que hoje nos falta: íntima, respeitosa, quase amorosa. Um tempo em que o mundo ainda parecia um jardim possível, e não um território em ruínas à espera de reparo.

Viva Jorge Amado! Viva Zélia Gattai! Viva Paloma Jorge Amado!

quarta-feira, fevereiro 11

Leitora


 

A biblioteca

À proporção que avançava em anos, mais nítidas lhe vinham as reminiscências das coisas da casa patema. Ficava ela lá pelas bandas da rua do Conde, por onde passavam então as estrondosas e fagulhentas "maxambombas" da Tijuca. Era um casarão grande, de dois andares, rés do chão, chácara cheia de fruteiras, rico de salas, quartos, alcovas, povoado de parentes, contraparentes, fâmulos, escravos; e a escada que servia os dois pavimentos, situada um pouco além da fachada, a desdobrar-se em toda a largura do prédio, era iluminada por uma grande e larga claraboia de vidros multicores. Todo ele era assoalhado de peroba de Campos, com vastas tábuas largas, quase da largura da tora de que nasceram; e as esquadrias, portas, janelas, eram de madeira de lei. Mesmo a cachoeira e o albergue da sege eram de boa madeira e tudo coberto de excelentes e pesadas telhas. Que coisas curiosas havia entre os seus móveis e alfaias? Aquela mobília de jacarandá-cabiúna com o seu vasto canapé, de três espaldares, ovalados e vastos, que mais parecia uma cama que mesmo um móvel de sala; aqueles imensos consolos, pesados, e ainda mais com aqueles enormes jarrões de porcelana da índia que não vemos mais; aqueles desmedidos retratos dos seus antepassados, a ocupar as paredes de alto a baixo — onde andava tudo aquilo? Não sabia... Vendera ele, aqueles objetos? Alguns; e dera muitos.

Umas coisas, porém, ficaram com o irmão que morrera cônsul na Inglaterra e lá deixara a prole; outras, com a irmã que se casara para o Pará... Tudo, enfim, desaparecera. O que ele estranhava ter desaparecido eram as alfaias de prata, as colheres, as facas, o coador de chá... E o espevitador de velas? Como ele se lembrava desse utensílio obsoleto, de prata! Era com ternura que se recordava dele, nas mãos de sua mãe, quando, nos longos serões, na sala de jantar, à espera do chá — que chá — ele o via aparar os morrões das velas do candelabro, enquanto ela, sua mãe, não interrompia a história do Príncipe Tatu, que estava contando...

A tia Maria Benedita, muito velha, ao lado, sentada na estreita cadeira de jacarandá, tendo o busto ereto, encostado ao alto espaldar, ficava do lado, com os braços estendidos sobre os da cadeira, o tamborete aos pés, olhando atenta aquela sessão familiar, com o seu agudo olhar de velha e a sua hierática pose de estátua tebana tumular. Eram os nhonhôs e nhanhãs, nas cadeiras; e as crias e molecotes acocorados no assoalho, a ouvir... Era menino...

O aparelho de chá, o usual, o de todo o dia, como era lindo! Feito de uma louça negra, com ornatos em relevo, e um discreto esmalte muito igual de brilho — donde viera aquilo? Da China, da Índia?

E a gamela de bacurubu em que a Inácia, a sua ama, lhe dava banho — onde estava? Ah! As mudanças! Antes nunca tivesse vendido a casa paterna...


A casa é que conserva todas as recordações de família. Perdida que seja, como que ela se vinga fazendo dispersar as relíquias familiares que, de algum modo, conservavam a alma e a essência das pessoas queridas e mortas... Ele não podia, entretanto, manter o casarão... Foi o tempo, as leis, o progresso...

Todos aqueles trastes, todos aqueles objetos, no seu tempo de menino, sem grande valia, hoje valeriam muito... Tinha ainda o bule do aparelho de chá, um escumador, um guéridon com trabalho de embutido... Se ele tivesse (insistia) conservado a casa, tê-los-ia todos hoje, para poder rever o perfil aquilino, duro e severo do seu pai, tal qual estava ali, no retrato de Agostinho da Mota, professor de academia; e também a figurinha de Sèvres que era a sua mãe em moça, mas que os retratistas da terra nunca souberam pôr na tela. Mas não pôde conservar a casa... A constituição da família carioca foi insensivelmente se modificando; e ela era grande demais para a sua. De resto, o inventário, as partilhas, a diminuição de rendas, tudo isso tirou-a dele. A culpa não era sua, dele, era da marcha da sociedade em que vivia...

Essas recordações lhe vinham sempre a cada vez mais fortes, desde os quarenta e cinco anos; estivesse triste ou alegre, elas lhe acudiam. Seu pai, o conselheiro Femandes Carregal, tenente-coronel do Corpo de Engenheiros e lente da Escola Central, era filho do sargento-mor de engenharia e também lente da Academia Real Militar que o conde de Linhares, ministro de Dom João VI, fundou em 1810, no Rio de Janeiro, com o fim de se desenvolverem entre nós os estudos de ciências matemáticas, físicas e naturais, como lá diz o ato oficial que a instituiu. Desta academia todos sabem como vieram a surgir a atual Escola Politécnica e a extinta Escola Militar da Praia Vermelha. O filho de Carregai, porém, não passara por nenhuma delas; e, apesar de farmacêutico, nunca se sentira atraído pela especialidade dos estudos do pai. Este dedicara-se a seu modo e ao nosso jeito, à química. Tinha por ela uma grande mania... bibliográfica. A sua biblioteca a esse respeito era completa e valiosa. Possuía verdadeiros "incunábulos" se assim se pode dizer, da química moderna. No original ou em tradução, lá havia preciosidades. De Lavoisier, encontravam-se quase todas as memórias, além do seu extraordinário e sagacíssimo Traité élémentaire de chimie, présenté dans un ordre et d'après lês découvertes modernes.

O velho lente, no dizer do filho, não podia pegar nesse respeitável livro que não fosse tomado de uma grande emoção.
Prateleiras

— Veja só, meu filho, como os homens são maus! Lavoisier publicou esta maravilhosa obra no início da Revolução, a qual ele sinceramente aplaudiu... Ela o mandou para o cadafalso — sabe você por quê?

— Não, papai.

— Porque Lavoisier tinha sido uma espécie de coletor ou coisa parecida no tempo do rei. Ele o foi, meu filho, para ter dinheiro com que custeasse as suas experiências. Veja você como são as coisas e como é preciso ser mais do que homem, para bem servir aos homens...

Além desta gema que era a sua menina dos olhos, o conselheiro Carregai tinha também o Proust, Novo sistema de filosofia química; o Priestley, Expériences sur les différentes espèces d'air; as obras de Guyton de Morveau; o Traité de Berzelius, tradução de Hoefer e Esslinger; a Statique chimique, do grande Berthollet; a Química orgânica, de Liebig tradução de Gerhardt — todos livros antigos e sólidos, sendo dentre eles o mais moderno as Lições de filosofia química, de Wurtz, que são de 1864; mas, o estado do livro dava a entender que nunca tinham sido consultadas. Havia mesmo algumas obras de alquimia, edições dos primeiros tempos da tipografia, enormes, que exigem ser lidas em altas escrivaninhas, o leitor de pé, com um burel de monge ou nigromante; e, entre os desta natureza, lá estava um exemplar do — Le livre des figures hiéroglyphiques que a tradição atribui ao alquimista francês Nicolau Flamel.

Sobravam, porém, além destes, muitos outros livros de diferente natureza, mas também preciosos e estimáveis: um exemplar da Geometria de Euclídes, em latim, impresso em Upsala, na Suécia, nos fins do século XVI; os Principia de Newton, não a primeira edição, mas uma de Cambridge muito apreciada; e as edições princeps da Mécanique analytique, de Lagrange, e da Géométrie descriptive, de Monge.

Era uma biblioteca rica assim de obras de ciências físicas e matemáticas que o filho do conselheiro Carregal, há quarenta anos para cinquenta, piedosamente carregava de casa em casa, aos azares das mudanças desde que perdera o pai e vendera o casarão em que ela quietamente tinha vivido durante dezenas de anos, a gosto e à vontade.

Poderão supor que ela só tivesse obras dessa especialidade; mas tal não acontecia, Havia-as de outros feitos de espírito. Encontravam-se lá os clássicos latinos; a Voyage autour du monde, de Bougainville; uma Nouvelle Héloïse, de Rousseau, com gravuras abertas em aço; uma linda edição dos Lusíadas, em caracteres elzevirianos; e um exemplar do Brasil e a Oceania, de Gonçalves Dias, com uma dedicatória, do próprio punho do autor, ao conselheiro Carregal.

Fausto Carregal, assim era o nome do filho, até ali nunca se separara da biblioteca que lhe coubera como herança. Do mais que herdara, tudo dissipara, bem ou mal; mas os livros do conselheiro, ele os guardava intactos e conservados religiosamente, apesar de não os entender. Estudara alguma coisa, era até farmacêutico, mas, sempre vivera alheado do que é verdadeiramente a substância dos livros — o pensamento e a absorção da pessoa humana neles.

Logo que pôde, arranjou um emprego público que nada tinha a ver com o seu diploma, afogou-se no seu ofício burocrático, esqueceu-se do pouco que estudara, chegou a chefe de seção, mas não abandonou jamais os livros do pai que sempre o acompanharam, e as suas velhas estantes de vinhático com incrustação de madrepérola.

A sua esperança era que um dos seus filhos os viesse a entender um dia; e todo o seu esforço de pai sempre se encaminhou para isso. O mais velho dos filhos, o Álvaro, conseguiu ele matriculá-lo no Pedro II; mas logo, no segundo ano, o pequeno meteu-se em calaçarias de namoros, deu em noivo e, mal fez dezoito anos, empregou-se nos correios, praticamente pro rata, casando-se daí em pouco. Arrastava agora uma vida triste de casal pobre, moço, cheio de filhos, mais triste era ele ainda porquanto, não havendo alegria naquele lar, nem por isso havia desarmonia. Marido e mulher puxavam o carro igualmente...

O segundo filho não quisera ir além do curso primário. Empregara-se logo em um escritório comercial, fizera-se remador de um clube de regatas, ganhava bem e andava pelas tolas festas domingueiras de esporte, com umas calças sungadas pelas canelas e um canotier muito limpo, tendo na fita uma bandeirinha idiota.

A filha casara-se com um empregado da Câmara Municipal de Niterói e lá vivia.

Restava-lhe o filho mais moço, o Jaime, tão bom, tão meigo e tão seu amigo, que lhe pareceu, quando veio ao mundo, ser aquele que estava destinado a ser o inteligente, o intelectual da família, o digno herdeiro do avô e do bisavô. Mas não foi; e ele se lembrava agora como recomendava sempre à mulher, nos primeiros anos de vida do caçula, ao ir para a repartição:

— Irene, cuida bem do Jaime! Ele é que vai ler os papéis do meu pai.

Porque o pequeno, em criança, era tão doentinho, tão mirrado, apesar dos seus olhos muito claros e vivos, que o pai temia fosse com ele a sua última esperança de um herdeiro capaz da biblioteca do conselheiro.

Jaime tinha nascido quando o mais velho entrava nos doze anos; e o inesperado daquela concepção alegrava-lhe muito, mas inquietara a mãe.

Pelos seus quatro anos de idade, Fausto Carregal já tinha podido ver o desenvolvimento dos dois outros seus filhos varões e havia desesperado de ver qualquer um deles entender, quer hoje ou amanhã, os livros do avô e do bisavô, que jaziam limpos, tratados, embalsamados, nos jazigos das prateleiras das estantes de vinhático, à espera de uma inteligência, na descendência dos seus primeiros proprietários, para de novo fazê-los voltar à completa e total vida do pensamento e da atividade mental fecunda.
Prateleiras

Certo dia, lembrando-se de seu pai em face das esperanças que depositava no seu filho temporão, Fausto Carregal considerou que, apesar do amor de seu genitor à química, nunca ele o vira com éprouvettes, com copos graduados, com retortas. Eram só livros, que ele procurava. Com os velhos sábios brasileiros, seu pai tinha horror ao laboratório, à experiência feita com as suas mãos, ele mesmo...

O seu filho, porém, o Jaime, não seria assim. Ele o queria com o maçarico, com o bico de Bunsen, com a baqueta de vidro, com o copo de laboratório...

— Irene, tu vais ver como o Jaime vai além do avô! Fará descobertas.

Sua mulher, entretanto, filha de um clínico que tivera fama quando moço, não tinha nenhum entusiasmo por essas coisas. A vida, para ela, se resumia em viver o mais simplesmente possível.

Nada de grandes esforços, ou mesmo de pequenos, para se ir além do comum de todos; nada de escaladas, de ascensões; tudo terra à terra, muito cá embaixo... Viver, e só! Para que sabedorias? Para que nomeadas? Quase nunca davam dinheiro e quase sempre desgostos. Por isso, jamais se esforçou para que os seus filhos fossem além do ler, escrever e contar; e isso mesmo, a fim de arranjarem um emprego que não fosse braçal, pesado ou servil.

O Jaime cresceu sempre muito meigo, muito dócil, muito bom; mas com venetas estranhas. Implicava com uma vela acesa em cima de um móvel porque lhe pareciam os círios que vira em tomo de um defunto, na vizinhança; quando trovejava ficava a um canto calado, temeroso; o relâmpago fazia-o estremecer de medo, e logo após, ria-se de um modo estranho... Não era contudo doente; com o crescimento, até adquirira certa robustez. Havia noites, porém, em que tinha uma espécie de ataque, seguido de um choro convulso, uma coisa inexplicável que passava e voltava sem causa, nem motivo. Quando chegou aos sete anos, logo o pai quis pôr-lhe na mão a cartilha, porquanto vinha notando com singular satisfação a curiosidade do filho pelos livros, pelos desenhos e figuras, que os jornais e revistas traziam. Ele os contemplava horas e horas, absorvido, fixando nas gravuras os seus olhos castanhos, bons, leais...

Pôs-lhe a cartilha na mão: — "A-e-i-o-u" — diga: "a".

O pequeno dizia: "a"; o pai seguia: "e"; Jaime repetia: "e"; mas quando chegava a "o", parecia que lhe invadia um cansaço mental, enfarava-se subitamente, não queria mais atender, não obedecia mais ao pai e, se este insistia e ralhava, o filho desatava a chorar:

— Não quero mais, papaizinho! Não quero mais!

Consultou médicos amigos. Aconselharam-no esperar que a criança tivesse mais idade. Aguardou mais um ano, durante o qual, para estimular o filho, não cessava de recomendar:

— Jaime, você precisa aprender a ler. Quem não sabe ler, não arranja nada na vida.

Foi em vão. As coisas se vieram a passar como da primeira vez. Aos doze anos, contratou um professor paciente, um velho empregado público aposentado, no intuito de ver se instalava na inteligência do filho o mínimo de saber ler e escrever. O professor começou com toda a paciência e tenacidade; mas, a criança que era incapaz de ódio até ali, perdeu a doçura, a meiguice para com o professor.

Era falar-lhe no nome, a menos que o pai estivesse presente, ele desandava em descomposturas, em doestos, em sarcasmos ao físico e às maneiras do bom velho. Cansado, o antigo burocrata, ao fim de dois anos, despediu-se tendo conseguido que Jaime soletrasse e contasse alguma coisa.

Carregal meditou ainda um remédio, mas não encontrou. Consultou médicos, amigos, conhecidos. Era um caso excepcional; era um caso mórbido, esse de seu filho. Remédio, se um houvesse, não existia aqui; só na Europa... Não podia, o pequeno, aprender bem, nem mesmo ler, escrever, contar!... Oh! Meu Deus!

A conclusão lhe chegou sem choque, sem nenhuma brusca violência; chegou sorrateiramente, mansamente, pé ante pé, devagar, como uma conclusão fatal que era.

Tinha o velho Carregal, por hábito, ficar na sala em que estavam os livros e as estantes do pai, a ler, pela manhã, os jornais do dia. A proporção que os anos se passavam e os desgostos aumentavam-lhe n'alma, mais religiosamente ele cumpria essa devoção à memória do pai. Chorava, às vezes de arrependimento, vendo aquele pensamento todo, ali sepultado, mas ainda vivo, sem que, entretanto, pudesse fecundar outros pensamentos... Por que não estudara?
Prateleiras

Dava-se assim, com aquela devoção diária, a ele mesmo, a ilusão de que, se não compreendia aqueles livros profundos e antigos, os respeitava e amava como a seu pai, esquecido de que para amá-los sinceramente, era preciso compreendê-los primeiro. São deuses, os livros, que precisam ser analisados, para depois serem adorados; e eles não aceitam a adoração senão dessa forma...

Naquela manhã, como de costume, fora para a sala dos livros, ler os jornais; mas não os pôde ler logo.

Pôs-se a contemplar os volumes nas suas molduras de vinhático. Viu o pai, o casarão, os moleques, as mucamas, as crias, o fardão de seu avô, os retratos... Lembrou-se mais fortemente de seu pai e viu-o lendo, entre aquelas obras, sentado a uma grande mesa, tomando de quando em quando rapé, que ele tirava às pitadas de uma boceta de tartaruga, espirrar depois, assoar-se num grande lenço de Alcobaça, sempre lendo, com o cenho carregado, os seus grandes e estimados livros.

As lágrimas vieram aos olhos daquele velho e avô. Teve de sustê-las logo. O filho mais novo entrava na dependência da casa em que ele se havia recolhido. Não tinha Jaime, porém, por esse tempo, um olhar de mais curiosidade para aqueles veneráveis volumes avoengos. Cheio dos seus dezesseis anos, muito robusto, não havia nele nem angústias, nem dúvidas. Não era corroído pelas ideias e era bem nutrido pela limitação e estreiteza de sua inteligência. Foi logo falando, sem mais detença, ao pai:

— Papai, você me dá cinco mil-réis, para eu ir hoje ao football?

O velho olhou o filho. Olhou a sua adolescência estúpida e forte, olhou seu mau feitio de cabeça; olhou bem aquele último fruto direto de sua carne e de seu sangue; e não se lembrou do pai. Respondeu:

— Dou, meu filho. Dentro em pouco, você terá.

E em seguida como se acudisse alguma coisa deslembrada que aquelas palavras lhe fizeram surgir à tona do pensamento, acrescentou com pausa:

— Diga a sua mãe que me mande buscar, na venda, uma lata de querosene, antes que feche. Não se esqueça, está ouvindo!

Era domingo. Almoçaram. O filho foi para o football; a mulher foi visitar a filha e os netos, em Niterói; e o velho Fausto Carregal ficou só em casa, pois a cozinheira teve também folga.

Com os seus ainda robustos setenta anos, o velho Fausto Femandes Carregal, filho do tenente-coronel de engenharia, conselheiro Femandes Carregal, lente da Escola Central, tendo concertado mais uma vez o seu antigo cavanhaque inteiramente branco e pontiagudo, sem tropeço, sem desfalecimento, aos dois, aos quatro, aos seis, ele só, sacerdotalmente, ritualmente, foi carregando os livros que tinham sido do pai e do avô, para o quintal da casa. Amontoou-os em vários grupos, aqui e ali, untou de petróleo cada um, muito cuidadosamente, e ateou-lhes fogo sucessivamente.

No começo a espessa fumaça negra do querosene não deixava ver bem as chamas brilharem; mas logo que ele se evolou, o clarão delas, muito amarelo, brilhou vitoriosamente com a cor que o povo diz ser a do desespero...

Lima Barreto

O médico e o monstro

Avental branco, pincenê vermelho, bigodes azuis, ei-lo, grave, aplicando sobre o peito descoberto duma criancinha um estetoscópio, e depois a injeção que a enfermeira lhe passa.

O avental na verdade é uma camisa de homem adulto a bater-lhe pelos joelhos; os bigodes foram pintados por sua irmã, a enfermeira; a criancinha é uma boneca de olhos cerúleos, mas já meio careca, que atende pelo nome de Rosinha; os instrumentos para exame e cirurgia saem duma caixinha de brinquedos.

Ela, seis anos e meio; o doutor tem cinco. Enquanto trabalham, a enfermeira presta informações:

- Esta menina é boba mesmo, não gosta de injeção, nem de vitamina, mas a irmãzinha dela adora.

O médico segura o microscópio, focaliza-o dentro da boca de Rosinha, pede uma colher, manda a paciente dizer aaá. Rosinha diz aaá pelos lábios da enfermeira. O médico apanha o pincenê, que escorreu de seu nariz, rabisca uma receita, enquanto a enfermeira continua:

- O senhor pode dar injeção que eu faço ela tomar de qualquer jeito, porque é claro que se ela não quiser, né, vai ficar muito magrinha que até o vento carrega.

O médico, no entanto, prefere enrolar uma gaze em torno do pescoço da boneca, diagnosticando:

- Mordida de leão.

- Mordida de leão? - pergunta, desapontada, a enfermeira, para logo aceitar este faz-de-conta dentro do outro faz-de-conta. - Eu já disse tanto, meu Deus, para essa garota não ir na floresta brincar com Chapeuzinho Vermelho…

Novos clientes desfilam pela clínica: uma baiana de acarajé, um urso muito resfriado, porque só gostava de neve, um cachorro atropelado por lotação, outras bonecas de vários tamanhos, um Papai Noel, uma bola de borracha e até mesmo o pai e a mãe do médico e da enfermeira.

De repente, o médico diz que está com sede e corre para a cozinha, apertando o pincenê contra o rosto. A mãe se aproveita disso para dar um beijo violento no seu amor de filho e também para preparar-lhe um copázio de vitaminas: tomate, cenoura, maçã, banana, limão, laranja e aveia. O famoso pediatra, com um esgar colérico, recusa a formidável droga.

- Tem de tomar, senão quem acaba no médico é você mesmo, doutor.

Ele implora em vão por uma bebida mais inócua. O copo é levado com energia aos seus lábios, a beberagem é provada com uma careta. Em seguida, propõe um trato:

- Só se você depois me der um sorvete.

A terrível mistura é sorvida com dificuldade e repugnância, seus olhos se alteram nas órbitas, um engasgo devolve o restinho. A operação durou um quarto de hora.

A mãe recolhe o copo vazio com a alegria da vitória e aplica no menino uma palmadinha carinhosa, revidada com a ameaça dum chute. Já estamos a essa altura, como não podia deixar de ser, presenciando a metamorfose do médico em monstro.

Ao passar zunindo pela sala, o pincenê e o avental são atirados sobre o tapete com um gesto desabrido. Do antigo médico resta um lindo bigode azul. De máscara preta e espada, Mr. Hyde penetra no quarto, onde a doce enfermeira continua a brincar, e desfaz com uma espadeirada todo o consultório: microscópio, estetoscópio, remédios, seringa, termômetro, tesoura, gaze, esparadrapo, bonecas, tudo se derrama pelo chão. A enfermeira dá um grito de horror e começa a chorar nervosamente. O monstro, exultante, espeta-lhe a espada na barriga e brada:

- Eu sou o Demônio do Deserto!

Ainda sob o efeito das vitaminas, preso na solidão escura do mal, desatento a qualquer autoridade materna ou paterna, com o diabo no corpo, o monstro vai espalhando terror a seu redor: é a televisão ligada ao máximo, é o divã massacrado sob os seus pés, é uma corneta indo tinir no ouvido da cozinheira, um vaso quebrado, uma cortina que se despenca, um grito, um uivo, um rugido animal, é o doce derramado, a torneira inundando o banheiro, a revista nova dilacerada, é, enfim, o flagelo à solta no sexto andar dum apartamento carioca.

Subitamente, o monstro se acalma. Suado e ofegante, senta-se sobre os joelhos do pai, pedindo com doçura que conte uma história ou lhe compre um carneirinho de verdade.

E a paz e a ternura de novo abrem suas asas num lar ameaçado pelas forças do mal.

Paulo Mendes Campos, "Elenco de cronistas modernos"

Boi de guia

O menino tinha nascido e se criado em Ituverava, da banda de Minas. O pai era um carreiro de confiança, muito procurado para serviços e colheitas. Tinha seu carro antigo, de boa mesa rejuntada, fueirama firme, esteirado de couro cru, roda maciça de cabiúna ferrada, bem provido o berrante de azeite e com seu eixo de cocão cantador que a gente ouvia com distância de légua. Desses que antigamente alegravam o sertão e que os moradores, ouvindo o rechinado, davam logo a pinta do carreiro.

O pai tinha o carro e tinha as juntas redobradas em parelhas certas, caprichadas, bois arados, retacos, manteúdos, de grandes aspas e pelagem limpa. Era só que possuía. O canto empastado onde morava, família grande, meninada se formando e sua ferramenta de trabalho – os bois de carro.

Trabalhava para os fazendeiros de roda, principalmente na colheita de café e mantimentos, meses a fio, enchendo tulhas e paióis vazios. Quando acabava o café, era a cana, do canavial para os engenhos, onde as tachas ferviam noite e dia e purgavam as grandes formas de açúcar, cobertas de barro.

O candeeiro era ele, pirralho franzino, esmirrado, de cinco anos.

Os pais antigos eram duros e criavam os filhos na lei da disciplina. Na roça, criança não tinha infância. Firmava-se nas pernas, entendia algum mandado, já tinha servicinho esperando.

Aos quatro anos montava em pelo, cabresteava potranquinha, trazia bezerro do pasto, levava leite na cidade e entregava na freguesia.

Era botado em riba do selote, não alcançava estribo. Se descesse, não subia mais. Punha o litro nas janelas.

O cavalo em que montava era velho, arrasado manso e sabido. Subia nas calçadas, encostava nos alpendres, conhecia as ruas, desviava-se das buzinas e parava certo nos fregueses.

Quando de volta, recolhendo a garrafa vazia, gritava desesperadamente:
- Garrafa do leite...garrafa vaziiia! ...

Um da casa, atordoado com a gritaria, se apressava logo a entregar o litro requerido.

Ajudava o pai. Desde que nasceu, contava ele. Nunca se lembra de ter vadiado como os meninos de agora. Quando começou a entender o pai, a mãe, os irmãos, o cachorro e o mundo do terreiro, já foi fazendo servicinho. Catava lenha fina, garrancheira para o fogão, caçava pela saroba os ninhos das botadeiras, ia atrás dos peruzinhos e já quebrava xerém às chocas de pinto. Do pasto trazia os bois de serviço. Seu gosto era vir pendurado no chifre do guia barroso – tão grande, tão forte, tão manso – sempre remoendo seus bolos de capim, nem percebia, também não se importava, não dava mostras.

Acostumou-se com os bois e os bois com ele. Sabia o nome de todos e os particulares de cada um. Chamava pra mangueira. O pai erguia os braços possantes e passava as grande cangas lustrosas; encorreiava os canzis debaixo das barbelas, enganchava o cambão, encostava o coice, prendia a cambota. Passava mão na vara, chamava. As argolinhas retiniam e o carro com sua boiada arrancavam o caminho das roças.

Com cinco anos, era mestre-de-guia, com sua varinha argolada.

Às vezes, o serviço era dentro de roças novas, de primeira derrubada, cheia e tocos, tranqueirada de paulama, mal-encoivaradas, ainda mais com seus muitos buracos de tatu.

O carreador, mal-amanhado, só dava o tantinho das rodas. Os bois que aguentassem o repuxado, e o menino, esse, ninguém reparava nele. Aí era que o carro vinha de caculo. A colheita no meio da roça. Chuvas se encordoando de norte a sul ameaçando o ar do tempo mudado e o fazendeiro arrochando pressa.
A boiada tinha de romper a pulso. O aguilheiro na frente, pequeno, descalço, seu chapeuzinho de palha, seu porte franzino, dando o que tinha.

Sentia nas costas o bafo quente do guia. Sentia no pano da camisa a baba grossa do boi. O pai atrás, gritando os nomes, sacudindo o ferrão. A boiada, briosa e traquejada, não queria ferrão no couro, a criança atrapalhava. Aí, o guia barroso dava um meneio de cabeça, baixava a aspa possante e passava a criança pra um lado.

O menino tornava à frente. Outra vez a baba do boi na camisa, o grito do carreiro afobado, o tinido das argolinhas e a grande aspa passando a criança pra um lado.
O pai gritou frenisado:

- Quem já viu aguiero chamá boi de banda...Passa pra frente porquera...

- Nhô pai, é o boi que me arreda...

- Passa pra frente, covarde. Deixa de invenção, inzoneiro...

O menino enfrentou de novo. O homem sacudiu a vara e pondo reparo. A argola retiniu, as juntas arrancaram. O barroso alcançou a criança. Ia pisar, ia esmagar com sua pata enorme e pesada.

Não pisou, não esmagou. Virou o guampaço num jeito e passou a criança pra um lado sem magoar. Aí o velho carreiro viu...viu o boi pela primeira vez...

Sentiu uma gastura e pela primeira vez uma coisa nova inchando seu coração no peito e a limpou uma turvação da vista na manga da camisa.

Cora Coralina, "Estórias da casa velha da ponte"

terça-feira, fevereiro 10

Leitura da manhã

 


O mundo

Um homem da povoação de Neguá, na costa da Colômbia, conseguiu subir às alturas do céu.

À volta, contou. Disse que, lá de cima, contemplara a vida humana. E disse que éramos um mar de foguinhos.

- O mundo é isso - revelou. - Um montão de gente, um mar de foguinhos.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não há dois fogos iguais. Há fogos grandes, fogos pequenos e fogos de todas as cores. Há gente de fogo sereno, que nem se apercebe do vento; e gente de fogo enlouquecido, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos tolos, não iluminam nem queimam; mas outros ardem a vida com tal vontade , que não se podem olhar sem pestanejar, e quem se aproxima arde.

Eduardo Galeano, "O Livro dos Abraços"

De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles

Nenhum, nenhuma

Dentro da casa-de-fazenda, achada, ao acaso de outras várias e recomeçadas distâncias, passaram-se e passam-se, na retentiva da gente, írreversos grandes fatos — reflexos, relâmpagos, lampejos — pesados em obscuridade. A mansão, estranha fugindo, atrás de serras e serras, sempre, e à beira da mata de algum rio, que proíbe o imaginar. Ou talvez não tenha sido numa fazenda, nem no lndescoberto rumo, nem tão longe? Não é possível saber-se, nunca mais.

Mas um menino penetrara no quarto, no extremo da varanda, onde se achava um homem sem aparência, se bem que, por certo, como curiosamente se diz, já “entrado em anos”; ele devia de ser o dono de lá. E naquele quarto — que, de acordo com o que se verifica, em geral, na região, nos casarões-de-fazenda com alta e comprida varanda, seria o “escritório” — há era uma data. O menino não sabia ler, mas é como se a estivesse relendo, numa revista, no colorido de suas figuras; no cheiro delas, igualr mente. Porque, o mais vivaz, persistente, e que fixa na evocação da gente o restante, é o da mesa, da escrivaninha, vermelha, da gaveta, sua madeira, matéria rica de qualidade: o cheiro, do qual nunca mais houve. O homem sem aspecto tenta agora parecer-se com outro — um desses velhos tios ou conhecidos nossos, deles o mais silencioso. Mas, segundo se apurou, não era. Alguém, apenas, chamara-o, na ocasião, de nome com aproximada assonância; e os dois, o ignorado e o sabido, se perturbam.

Alguém mais, pois, ali entrara? A moça, imagem. A moça é então que reaparece, linda e recôndita. A lembrança em torno dessa moça raia uma tão extraordinária, maravilhosa luz, que, se algum dia eu encontrar, aqui, o que está por trás da palavra “paz”, ter-me-á sido dado também através dela. Na verdade, a data não poderia ser aquela.

Se diversa, entretanto, impôs-se, por trocamento, no jogo da memória, por maior causa. Foi a moça quem enunciou, com a voz que assim nascia sem pretexto, que a data era a de 1914? E para sempre a voz da moça retificava-a.

Tudo não demorou calado, tão fundamente, não existindo, enquanto viviam as pessoas capazes, quem sabe, de esclarecer onde estava e por onde andou o menino, naqueles remotos, já peremptos anos? Só agora é que assoma, muito lento, o difícil clarão reminiscente, ao termo talvez de longuíssima viagem, vindo ferir-lhe a consciência.

Só não chegam até nós, de outro modo, as estrelas.

Ultramuito, porém, houve o que há, por aquela parte, até onde o luar do meu mais-longe, o que certifico e sei. A casa — rústica ou solarenga — sem história visível, só por sombras, tintas surdas: a janela parapeitada, o patamar da escadaria, as vazias tarimbas dos escravos, o tumulto do gado?

Se eu conseguir recordar, ganharei calma, se conseguisse religar-me: adivinhar o verdadeiro e real, já havido. Infância é coisa, coisa?

A moça e o moço, quando entre si, passavam-se um embebido olhar, diferente do dos outros; e radiava ém ambos um modo igual, parecido. Eles olhavam um para o outro como os passarinhos ouvidos de repente a cantar, as árvores pé-ante-pé, as nuvens desconcertadas: como do assoprado das cinzas a esplendição das brasas.

Eles se olhavam para nao-distância, estiadamente, sem saberes, sem caso. Mas a moça estava devagar. Mas o moço estava ansioso. O menino, sempre lá perto, tinha de procurar-lhes os olhos. Na própria precisão com que outras passagens lembradas se oferecem, de entre impressões confusas, talvez se agite a maligna astúcia da porção escura de nós mesmos, que tenta incompreensivelmeflte enganei-nos, ou, pelo menos, retardar que perscrutemos qualquer verdade. Mas o menino queria que os dois nunca deixassem de assim se olhar. Nenhuns olhos têm fundo; a vida, também, não.


Aquela casa, como e por que viera ter o menino? Talvez, em desviada viagem, sem pessoas da família. Sua estada esperara-se para mais curta, do que foi?
Porque, primeiro, todos pensavam esconder-lhe o que havia num determinado quarto, e mesmo o passo do corredor para onde dava aquele quarto. A dúvida que isso marcou, no menino, ajuda-o agora a muito se lembrar. A moça, porém, era a mais formosa criatura que jamais foi vista, e não há fim de sua beleza. Ela poderia ser a princesa no castelo, na torre. Em redor da altura da torre do castelo, não deviam de revoar as negras águias? O homem, velho, quieto e sem falar, seria, na realidade, o pai da moça. O homem concordava com todos, sem tristezas se calava? As nuvens são para não serem vistas. Mesmo um menino sabe, às vezes, desconfiar do estreito caminhozinho por onde a gente tem de ir — beirando entre a paz e a angústia.

Depois, porém, porque mudassem de ideia, ou porque o menino tivesse de sojornar lá por mais tempo, deixaram-no saber o que dentro daquele dito quarto se guardava.

Deixaram-no ver. E, o que havia ali, era uma mu[her. Era uma velha, uma velhinha — de história, de estória — velhíssíma, a inacreditável. Tanto, tanto, que ela se encolhera, encurtara-se, pequenina como uma criança, toda enrugadinha, desbotada: não caminharia, nem ficava em pé, e quase não dava acordo de coisa nenhuma, perdida a claridade do juízo. Não sabiam mais quem ela era, tresbísavó de quem, nem de que idade, incomputada, Incalculável, vinda através de gerações, sem ninguém, só ainda da mesma nossa espécie e figura. Caso imemorial, apenas com a incerta noção de que fosse parenta deles. Ela não poderia mais ser comparada. A moça, com amor, tratava dela.

Tênue, tênue, tem de insistir-se o esforço para algo remembrar, da chuva que caía, da planta que crescia, retrocedidamente, por espaço, os castiçais, os baús, arcas, canastras, na tenebrosidade, a gris pantalha, o oratório, registros de santos, como se um pedaço de renda antiga, que se desfaz ao se desdobrar, os cheiros nunca mais respirados, suspensas florestas, o porta-retratos de cristal, floresta e olhos, ilhas que se brancas, as vozes das pessoas, extrair e reter, revolver em mim, trazer a foco as altas camas de torneado, um catre com cabeceira dourada; talvez as coisas mais ajudando, as coisas, que mais perduram: o comprido espeto de ferro, na mão da preta, o batedor de chocolate, de jacarandá, na prateleira com alguidares, pichorras, canecos de estanho. O menino, assustando-se, correra a refugiar-se na cozinha, escura e imensa, onde mulheres de grossos pés e pernas riam e falavam.

A moça e o moço vieram buscá-lo? O moço causava-lhe antipatia e rancor, dele já tinha ciúmes. A moça, de formosura tão extremada, vestida de preto, e ela era alta, alva, alva; parecia estar de madrinha num casamento, ou num teatro? Ela carregou o menino, cheirava a vem de verde e a rosa, mais meigo que as rosas cheiram, mais grave. O moço ria, exato. Tranquilizavam-no, diziam: que a velhinha não era a morte, não. Nem estava morta. Antes, era a vida. Ali, num só ser, a vida vibrava em silêncio, dentro de si, intrínseca, só o coração, o espírito da vida, que esperava.

Aquela mulher ainda existir parecia um desatino de que ela mesma nem tivesse culpa. Mas o moço não ria mais. Lá estava também o homem calado, de costas, mesmo de pé ele rezava o terço, num rosário de pretas camáldulas.

Diziam ao menino, demonstravam-lhe: que a velhinha não era sombração, mas sim pessoa. Sem que lhe soubessem o verdadeiro nome, chamavam-na a Nenha. lia ficava tão quieta, no meio da alta cama de torneados, o catre com cabeceira dourada, que ali quase se sumia, nos panos, algo inviolável em sua exiguídade, e respirava. Era cor de cidra, em todas as rugazinhas — e os olhos abertos, garços. O que ela não tinha era pálpebras?

Todavia, um trêmíto, uma babinha, no murcho, a Ixca, e era o docemente incompreensível. O menino sorriu. Perguntou: — “Ela beladormeceu?” A moça beijou-o. A vida era o vento querendo apagar uma lamparina. O caminhar das sombras de uma pessoa imóvel.

A moça não queria que coisa alguma acontecesse. A moça tinha um leque? O moço conjurava-a, suspensos olhos. A moça disse ao moço: — “Você ainda não sabe sofrer…” — e ela tremia como os ares azuis. Tenho de me lembrar. O passado é que veio a mim, como uma nuvem, vem para ser reconhecido: apenas, não estou sabendo decifrá-lo.

Estava-se no grande jardim. Para lá, tinham trazido também a Nenha, velhinha.

Traziam-na, para tomar sol, acomodadinha num cesto, que parecia um berço. Tão galante, tudo, que o menino de repente se esqueceu e precipitouse: queria brincar com ela! A moça impediu-o apenas com brandura, sem o repreender, ela lá se sentava, entre madressilvas e rosmaninhos, insubstituível. Olhava-para a Nenha, extremosamente, de delonga, pelo curso dos anos, pelos diferentes tempos, ela também menina ancianíssima.

Recobrira-a com um xale antigo, da velhinha não se viam as mãos.

Só o engraçadinho, pueril acondicionamento, o somo lmpalpar-se, amável ridicularia. Davam-lhe à boca comldlnha mole. Tornavam-lhe às vezes uns sorrisinhos, um tanger de tosse, chegava a falar — e escassamente podia ser entendida — no semi-sussuro mais discreto que o bater da borboletínha branca. A moça adivinhava-a? Pedia água. A moça trazia a água, vinha com nas duas mios o copo cheio às beiras, sorrindo igual, sem deixar cair fora uma única gota — a gente pensava que ela devia de ter nascido assim, com aquele copo de água pela borda, e conservá-lo até a hora de desnascer: dele nada se derramasse.

Não, a Nenha não reconhecia ninguém, alheada de fim, só um pensar sem inteligência, imensa omissão, e já condenados segredos — coração imperceptível.

No que vagueia os olhos, contudo, surpreende-se-lhe o imanecer da bem-aventura, transordinária benignídade, o bom fantástico. O menino perguntou: — “Ela agora está cheia de juízo?”

A moça firmou o olhar, como o luar desassombra. O rumor da tesoura grande podava as roseiras. Era o homem velho, de pé, de contraluz, homem muito alto. O moço pegou na mão da moça, ele estava apaixonado. O menino se recolheu, olhando para o chão, numa tristeza de amuo.

O homem velho só queria ver as flores, ficar entre elas, cuidá-las. O homem velho brincava com as flores. Cerra-se a névoa, o escurecido, há uma muralha de fadiga. Orientar-me! — como um riachinho, às voltas, que tentasse subir a montanha. Havia um fio de barbante, que a gente enrolava num pauzinho. A moça repetia coisas tantas, muito mansas, ao moço. Tenho de me recuperar, desdeslembrar-me, excogitar — que sei? — das camadas angustiosas do olvido. Como vivi e mudei, o passado mudou também. Se eu conseguir retomá-lo. Do que falavam o moço e a moça. Do velho homem, pai dela, desenganadamente doente, para qualquer momento, mortal.

— “E ele já sabe?” — o moço perguntou. A moça, com um lenço branco, muito fino, limpava a sumida boca da Nenha, velhinha. — “Ele sabe. Mas não sabe por quê!” — ela falou, tinha fechado os olhos, tesa, parada. O moço se mordeu, um curto. — “E quem é que sabe? E para que saber por que temos de morrer?” — disse, disse. A moça, agora, era que pegava na mão dele.

Venho a me lembrar. Quando amadorno. De como fora possível que tão de todo se perdesse a tradição do nome e pessoa daquela Nenha, velhíssima, antepassada, conservada contudo ali, por seu povo de parentes. Alguém, antes de morrer, ainda se lembrava de que não se lembrava: ela seria apenas a mãe de uma outra, de uma outra, de uma outra, para trás. Antes de vir para a fazenda, ela ter-se-ia residido em cidade ou vila, numa certa casa, num largo, cuidada por umas irmãs solteironas. Mesmo essas, mal contavam. Dera-se que, em tempos, quase todas as antecedentes mulheres da família, de roca e fuso, sucessivamente teriam morrido, quase de uma vez, do mal-de-semana, febre de parto; daí, rompido o conhecimento, os homens se mudando, andara confiada a estranhos a Nenha, velhinha, que durava, visual, além de todas as raias do viver comum e da velhez, mas na perpetuidade. Então, o fato se dissolve. As lembranças são outras distâncias. Eram coisas que paravam já à beira de um grande sono. A gente cresce sempre, sem saber para onde.

Trasvisto, sem se sofrear, fechando os dentes, o moço arguia com a moça, ela firme e doçura. Ela tinha dito: — “… esperar, até a hora da morte…” Soturno, nervoso, o moço não podia entender, considerar no impeditivo. Porque a moça explicava: que não a morte do pai, nem da velhinha Nenha, de quem era a tratadeira. Falou: — “Mas a nossa morte…” Sobre este ponto, ela sorria — muito — flor, limite de transformação. Obrigara-se por um voto? Não. Mais disse: — “Se eu, se você gostar de mim… E como saber se é o amor certo, o único? Tanto é o poder errar, nos enganos da vida… Será que você seria capaz de se esquecer de mim, e, assim mesmo, depois e depois, sem saber, sem querer, continuar gostando? Como é que a gente sabe?” Ouvida a resposta da moça, o menino estremeceu, queria que ela não tivesse falado. Reperdlda a remembrança, a representação de tudo se desordena: é uma ponte, ponte — mas que, a certa hora, se acabou, parece’que. Luta-se com a memória. Atordoado, o menino, tornado quase incônscio, como se não fosse ninguém, ou se todos uma pessoa só, uma só vida fossem: ele, a moça, o moço, o homem velho e a Nenha, velhinha — em quem trouxe os olhos.

Vê-se — fechando um pouco os olhos, como a memória pede: o reconhecimento, a lembrança do quadro, se esclarece, se desembaça. Desesperado, o moço, lívido, ríspido, falava com a moça, agarrava-se aos varões da grade do jardim. Dissesse: que era um simples homem, são em juízo, para não tentar a Deus, mas para seguir o viver comum, por seus meios, pelos planos caminhos! Que será, agora, se a moça não o quiser reter, se ela não concordar? A moça, lágrimas em olhos, mas mediante o sorriso, linda já de outra espécie. Ela não concordou. Ela só olhava com enorme amor para o moço. Então, ele deu-lhe as costas. E a moça se ajoelhou, curvada para o berço da Nenha, velhinha, e chorava, abraçando-a — ela se abraçava com o incomutável, o imutável.

Tanto, de uma vez, ela se separava da gente, que mesmo o menino não podia querer ficar com ela, consolá-la. O menino, contra tudo o que sentisse, acompanhou o moço. O moço o aceitou, pegou-lhe da mão, juntos caminharam.

O moço viera com tropeço, apalpando as paredes, como os cegos. E entraram no quarto, ao extremo da varanda, no escritório. Aquela mesa-escrivaninha cheirava tão bom, a madeira vermelha, a gaveta, o menino gostaria de guardar para si a revista, com as figuras coloridas; mas não teve ânimo de pedir. O moço escreveu o bilhete, era para a moça, ali o depositou. O que estava nele, não se sabe, nunca mais. Não se viu mais a moça. O moço partia, para sempre, torna-viajor, com ele ia também o menino, de volta a casa. O moço, com a capa de baeta azul, trazia-o, à frente da sela. Voltaram os olhos, já a distância: do limiar, à porta, só o homem alto, sem se poder ver-lhe o rosto, desconhecidamente, fazia-lhes ainda sinais de adeus.

A viagem devia de ser longa, com aquele moço, que falava com o menino, com ele tratava mão por mão, carecia de selar palavras. Ele, o moço, disse: — “Será que posso viver sem dela me esquecer, até a grande hora? Será que em meu coração ela tenha razão?…” O menino não respondeu, só pensou, forte: — “Eu, também!” Ah, ele tinha ira desse moço, ira de rivalidades. Do moço, que outras coisas repetia, que ele não queria perceber. Pediu: se podia vir à garupa, em vez de no arção? Ele queria não ficar perto da voz e do coração desse moço, que ele detestava. Tem horas em que, de repente, o mundo vira pequenininho, mas noutro de-repente ele já torna a ser demais de grande, outra vez. A gente deve de esperar o terceiro pensamento. O moço não falava, agora. Falido, Ido, noutro confusamento, ele rompeu a chorar.

Pouco a pouco, o menino, devagarinho, chorava, também, o cavalo soprava. O menino sentia: que, se, de um jeito, fosse ele poder gostar, por querer, desse moço, então, de algum modo, era como se ele ficasse mais perto da moça, tão linda, tão longe, para sempre, na soledade. Daí, viu-se em casa. Chegara.
Nunca mais soube nada do moço, nem quem era, vindo junto comigo. Reparei em meu pai, que tinha bigodes. Meu pai, estava dando ordens a dois homens, que era para levantarem o muro novo, no quintal. Minha mãe me beijou, queria saber notícias de muita gente, olhava se eu não rasgara minha roupa, se tinha ainda no pescoço, sem perder nenhum, os santos de todas as medalhinhas.

E eu precisei de fazer alguma coisa, de mim, chorei e gritei, a eles dois: — “Vocês não sabem de nada, de nada, ouviram?! Vocês já se esqueceram de tudo o que algum dia sabiam!…”

E eles abaixaram as cabeças, figuro que estremeceram.

Porque eu desconheci meus pais — eram-me tão estranhos; jamais poderia verdadeiramente conhecê-los, eu; eu?

João Guimarães Rosa, no livro “Primeiras estórias“

O vadio

Ele conhecera dias mais felizes, apesar do estado de miséria e de doença em que ora se encontrava.

Na idade de quinze anos, ficara com as pernas esmagadas por uma carruagem, na estrada real de Varville. Desde então mendigou, arrastando-se ao longo dos caminhos, através dos pátios das quintas, balouçado nas muletas, que lhe tinham feito levantar os ombros à altura das orelhas. A sua cabeça dir-se-ia enterrada entre duas montanhas.

Enjeitado encontrado num fosso, pelo cura de Billette, na véspera do dia de Finados, e batizado em razão disso, Nicolau Toussaint, educado por caridade, ficara estranho a todo e qualquer grau de instrução, estropiado depois de ter bebido alguns copos de aguardente oferecidos pelo padeiro da aldeia, para que ele fizesse rir, não tardou em dar em vagabundo, e mais nada sabia fazer do que estender a mão à caridade.

Outrora, a baronesa d'Avray concedia-lhe, para dormir, uma espécie de nicho cheio de palha, ao lado do galinheiro, na herdade que se ligava ao castelo: e ele ali estava ao abrigo, certo de, nos dias de grande fome, encontrar sempre um pedaço de pão e um copo de cidra na cozinha. Muitas vezes, recebia também alguns "sous" atirados pela velha senhora do alto da sua escadaria ou das janelas do seu quarto. Porém, ela morrera.

Nas aldeias, não lhe davam nada: conheciam-no por demais; estavam fartos de o ver; havia quarenta anos que o viam passear o deformado de seu corpo andrajoso sobre as suas duas patas de madeira.

Todavia, ele não queria deixar aqueles sítios, porque não conhecia outra coisa sobre a terra a não ser aquele canto de país, aquelas três ou quatro aldeias onde arrastara a sua vida miserável.

Marcara fronteiras à sua mendicidade e não teria nunca passado os limites que se acostumara a não ultrapassar.

Ignorava se o mundo se estenderia ainda muito para além das árvores que sempre tinham servido de limite à sua vida. Nem sequer o perguntava a si próprio. E quando os camponeses, cantados de o encontrarem todos os dias à beira dos seus campos ou ao longo dos seus fossos, lhe gritavam:

— Por que não vais tu para as outras aldeias, em lugar de andares sempre a mendigar por aqui? Ele não respondia, e afastava-se, tomado de um medo vago pelo desconhecido, de um medo de pobre que receia confusamente mil coisas, as novas caras, as injúrias, os olhares de desconfiança e suspeita das pessoas que o não conheciam, e os guardas que vão dois a dois pelas estradas e que o faziam esconder, por instinto, nas moitas ou por detrás das pedras.

Quando os via de longe, reluzentes ao sol — encontrava de repente uma agilidade singular, uma agilidade de monstro, para alcançar qualquer esconderijo. Saltava nas muletas, e deixava-se cair à maneira de um trapo, rolando como uma bola, tornando-se pequenino, invisível, acaçapado como uma lebre na sua toca, confundindo os seus trapos russos com a terra.

Ele não tivera, no entanto, nada com eles. Mas aquilo estava-lhe na massa do sangue, como se houvesse recebido aquele temor e aquela manha dos seus ascendentes, que não conhecera.

Não tinha refúgio, nem teto, nem cabana, nem abrigo. Dormia por toda a parte, quer de verão quer de inverno, e introduzia-se nas granjas ou nos estábulos com uma ligeireza notável. E raspava-se sempre antes que houvessem dado pela sua presença. Conhecia os buracos para penetrar nas construções, e o manejar das muletas havia-lhe dado aos braços um vigor tão surpreendente, que trepava só à força de pulso até aos celeiros de forragens, onde se conservava quatro ou cinco dias sem bulir, quando havia recolhido no seu giro as provisões suficientes.

Vivia como os animais dos bosques no meio dos homens, sem conhecer ninguém, sem amar ninguém, não excitando aos camponeses mais que uma espécie de desprezo indiferente e de hostilidade resignada. Tinham-lhe posto a alcunha do "Sino" porque se balouçava, entre as duas muletas de pau como um sino se balouça entre os seus suportes.

Havia dois dias que não comia. Ninguém já lhe dava nada. Por fim, nem já o queriam ver. Os camponeses, dos seus portais, gritavam-lhe quando o viam chegar:

— Vê lá se te queres pôr a andar, tonante! Ainda não há três dias que te dei um bocado de pão!

E ele girava sobre as suas estacas e dirigia-se à casa vizinha, onde o recebiam da mesma maneira.

As mulheres declaravam de porta para porta:

— Mas é que a gente não pode dar de comer a este preguiçoso todo o ano.

Todavia, o preguiçoso tinha necessidade de comer todos os dias.

Tinha percorrido Saint-Hilaire, Varville e les Bocettes, sem recolher um cêntimo nem uma simples côdea. Só lhe restava uma esperança, era, Tournolles; mas era-lhe preciso caminhar ainda duas léguas pela estrada real, e sentia-se cansado a ponto de não poder arrastar-se mais, tendo o ventre tão vazio como a algibeira.

Apesar de tudo, pôs-se em marcha.

Era em dezembro. Um vento frio percorria os campos, sibilava nos ramos nus; e as nuvens galopavam através do céu baixo e sombrio, apressando-se não se sabe para onde. O estropiado caminhava lentamente, deslocando os seus suportes um após outro com penoso esforço, escorando-se na perna torcida que lhe restava, terminada por um pé aleijado e calçado por um trapo.

De tempos a tempos, assentava-se no fosso e descansava alguns minutos. A fome punha uma grande mágoa na alma confusa e pesada. Ele sô tinha uma ideia: "comer", mas não sabia por que meio.

Durante três horas, penou na comprida estrada; depois, quando avistou as árvores da aldeia, apressou os seus movimentos.

O primeiro lavrador que encontrou e ao qual pediu esmola, respondeu-lhe:

— Tu ainda por aqui? velho desprezível! Então eu nunca me verei livre de ti?

E o "Sino" afastou-se. De porta em porta, correram-no, recambiaram-no, sem lhe darem nada. E ele continuava, apesar disso, o seu giro, paciente e obstinado. Não recolheu um sou.

Então visitou as herdades, caminhando através das terras amolecidas pelas chuvas, por tal forma extenuado que nem sequer podia levantar as muletas. Escorraçavam-no de toda a parte. Era um desses dias frios e tristes em que os corações se fecham, em que os espíritos se irritam, em que a alma está sombria, em que a mão não se abre nem para dar nem para socorrer.

Quando acabou de visitar todas as casas que conhecia, foi cair ao canto de uma vala, ao longo do pátio do tio Chiquet. Despegou-se, como se dizia para exprimir a maneira porque se deixava cair de entre as muletas que fazia escorregar por debaixo dos braços. Ficou por largo tempo imóvel, torturado pela fome, mas era muito bruto para que pudesse penetrar a sua insondável miséria.

Esperava não se sabe o que, naquela vaga esperança que existe constante em nós.

Esperava ao canto daquele pátio, sob o vento gelado, o auxílio misterioso que se espera sempre do céu ou dos homens, sem que saiba como, nem por que, nem por quem ele nos poderá chegar. Passava um bando de galinhas pretas, buscando a sua vida na terra que alimenta todos os seres. A cada instante, picavam com uma bicada um grão ou um inseto invisível, depois continuavam a sua busca lenta e segura.

O "Sino" olhava para elas sem pensar em nada; depois veio-lhe, mais ao ventre que propriamente à cabeça, mais à sensação que à ideia, que um daqueles animais seria bom para comer assado no borralho de uns troncos secos. A suposição de que ia cometer um roubo nem de leve roçou pelo seu espírito. Pegou numa pedra que se achava ao alcance da mão, e, como a tinha certeira, matou redondamente, atirando logo por terra a ave que estava mais próxima. O animal caíra de flanco, remexendo as asas. As outras fugiram, balouçando-se nas suas patas delgadas, e o "Sino", escalando novamente as suas muletas, pôs-se em marcha para ir apanhar a sua caça, com movimentos iguais aos das galinhas.

Ao chegar perto do pequeno corpo preto manchado de vermelho na cabeça, recebeu um empurrão terrível pelas costas, que o fez cair das muletas e o fez rolar a dez passos para a frente.

E o tio Chiquet, exasperado, precipitando-se sobre o pilha, encheu-o de pancadas, batendo como um furioso, como bate um camponês roubado, com o punho e com o joelho por todo o corpo do enfermo, que não podia defender-se.

As pessoas da herdade chegaram por sua vez e puseram-se com o patrão a sovar o mendigo. Depois, quando se cansaram de lhe bater, agarraram nele, levaram-no e fecharam-no na casa da lenha, enquanto iam busca das autoridades.

"Sino", meio morto, sangrando e estourando de fome, ficou deitado no chão. Chegou a tarde, veio a noite, depois a aurora, e ele sem comer.

Pelo meio dia, os guardas apareceram e abriram a porta com precaução, esperando uma resistência, porque o tio Chiquet dizia ter sido atacado pelo vadio e ter-se defendido a grande custo.

O cabo bradou:

— Vamos! saia daí!

Mas "Sino" não se podia mexer; ainda tentou erguer-se nos seus suportes, mas não o conseguiu. Julgaram que era fingimento, que era manha, que era má vontade do malfeitor, e os dois homens armados trataram-no asperamente, empunharam-no e puseram-no à força sobre as muletas.

O medo apossara-se dele, aquele medo inato que os desgraçados têm das correias militares, o medo a caça em presença do caçador, do rato diante do gato. E, com esforços sobre-humanos, lá conseguiu pôr-se em pé.

— Marche! disse o cabo. Ele marchou. Todo o pessoal da herdade o via partir. As mulheres mostravam-lhe o punho; os homens chacoteavam-no; injuriavam-no: tinham-lhe dado fim! Estavam livres.

Ele afastou-se entre os dois guardas. Achou a energia desesperada que lhe era precisa para se arrastar ainda até à noite, embrutecido, não sabendo nem sequer o que lhe sucedia, assustado por demais para que pudesse compreender.

As pessoas que o encontravam detinham-se para o ver assar, e os camponeses murmuravam:

— É algum ladrão!

Pela noitinha, chegaram à comarca. Ele nunca tinha ido até ali. Não dava verdadeiramente conta do que se passava nem do que lhe podia acontecer. Todas aquelas casas novas o consternavam.

Não pronunciou mais uma palavra, nada tendo a dizer, porque nada compreendia. Desde muitos anos que não falava a ninguém, por isso quase perdera o uso da linguagem; e o seu pensamento estava também muito confuso para poder formular palavras. Encerraram-no na prisão da Villa. Os guardas não pensaram em que ele poderia ter vontade de comer, e deixaram-no até ao outro dia.

Mas, quando vieram para o interrogar, logo de manhãzinha, acharam-no morto, no chão.

Que surpresa!
Guy de Maupassant