sábado, junho 27

Dia de compras

 


Deus lhe acrescente

Quem me conhece sabe: defino-me como ateu. Talvez o mais correto seria afirmar minha condição de agnóstico, pois acho mais ou menos possível a presença de Deus, embora não costume aceitar existências não comprovadas. Sou batizado, fiz primeira comunhão, frequentei aulas de catecismo na escola. Embora meus pais não fossem religiosos, até por razões políticas, havia uma questão de tradição familiar presente. Para minha avó materna, meu bisavô, minhas tias-avós, por exemplo, era importante que fôssemos consagrados ao catolicismo. Como, para os velhos, era indiferente, não viram empecilhos em satisfazer os desejos de seus parentes carolas. Assim, cresci sabendo rezar algumas orações, apesar de poucas — duas ou três —, mas nunca me preocupei demasiadamente em comportar-me de forma a garantir um quinhão de terras no céu. Quando criança, eventualmente, ao cometer algum pecado — e cheguei a ler sobre o que era desobedecer às leis do Divino —, chegava a ficar levemente preocupado. Nunca, contudo, cheguei a perder o sono com isso. Basicamente não fui educado para acreditar. Desenvolvi-me como autêntico pagão.

Mas a gente cresce, envelhece, ganha algumas cismas. Em situações desesperadas, quando a coisa aperta e fico absolutamente sem saída, sou capaz de apelar. Torno-me então um ser completamente desprovido de caráter. Quando vejo, estou metido em alguma igreja, ajoelhado, pedindo coisas ao Senhor. Ainda bem, tenho sorte, que a bondade de Deus, aprendi e não me esqueci, é frequentemente descrita como infinita, imutável e incondicional. Representa a inclinação constante que Ele tem para fazer o bem, cuidar de Sua criação, agir com benevolência. Caso contrário, tenho certeza, seria punido pela canalhice. Já O vejo pensando:

— Como um sujeito que nega invariavelmente a Minha existência, estufa o peito para se declarar descrente, tem a coragem de entrar em um templo dedicado a Mim para vir solicitar alguma graça?

No fundo considero que, caso exista, e a dúvida jamais me abandonou, o Criador é do bem. Está acostumado a lidar com as torpezas próprias do ser humano. Invenção, convenhamos, bastante mal-acabada. Tenho certeza, e não sou lá de ter grandes convicções, da consciência que o Homem — seria mesmo uma Entidade masculina? — tem de nos ter arranjado de forma porca sobre o planeta. Com a competência sempre atribuída a Ele, poderia ter realizado um trabalho mais caprichado. Teria havido, provavelmente, grande preguiça no dia da criação. Escapamos mal-acabados, violentos; parecemos ter sido feitos com as coxas:

— Deus me perdoe!

E assim vou vivendo. Ora declarando minha incredulidade, marcando território como indivíduo totalmente desprovido de fé, ora disfarçando certa devoção, principalmente quando as coisas desandam e preciso de uma ajudinha celeste. Corro então e busco na memória a Ave-Maria ou o Pai-Nosso e os recito ajoelhado, sentindo-me culpado, velhaco, tropeçando nas palavras muitas vezes fugidias.

Acho bacana a plenitude dos evangélicos. Existem envolvidos pelos seus: “Deus é fiel!”; “Deus é bom!”; “Deus provê”.

Quando se despedem, invocam, humildes:

— Fica com Deus!

Ou:

— Deus abençoe!

Só desconfio quando pedem:

— Deus lhe acrescente!

Não desejo que me adicionem nada. Prefiro seguir vazio.

Noite de Abril

Hoje, noite de Abril sem lua,
A minha rua
É outra rua.

Talvez por ser mais que nenhuma escura
E bailar o vento leste,
A noite de hoje veste
As coisas conhecidas de aventura.

Uma rua nova destruiu a rua do costume.
Como se sempre nela houvesse este perfume
De Vento leste e Primavera,
A sombra dos muros espera
Alguém que ela conhece.
E às vezes o silêncio estremece
Como se fosse a hora de passar alguém
Que só hoje não vem.
Sophia de Mello B. Andresen

A morte é um mundéu

Se pudesse, abandonaria tudo e recomeçaria as minhas viagens. Esta vida monótona, agarrada à banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estúpida. Vida de sururu. Estúpida. Quando a repartição se fecha, arrasto-me até o relógio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da-Terra.

Que estará fazendo Marina? Procuro afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embriaguez, suicídio...

Penso no meu cadáver, magríssimo, com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem casca, os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo.

Os conhecidos dirão que eu era um bom tipo e conduzirão para o cemitério, num caixão barato, a minha carcaça meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem as alças, revezando-se no mister piedoso e cacete de carregar defunto pobre, procurarão saber quem será o meu substituto na diretoria da fazenda.

Enxoto as imagens lúgubres. Vão e voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares. Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento dessas coisas. Não sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando a rua.

À medida que o carro se afasta do centro sinto que me vou desanuviando. Tenho a sensação de que viajo para muito longe e não voltarei nunca. Do lado esquerdo são as casas da gente rica, dos homens que me amedrontam, das mulheres que usam peles de contos de réis. Diante delas, Marina é uma ratuína. Do lado direito, navios. Às vezes há diversos ancorados. Rolam bondes para a cidade, que está invisível, lá em cima, distante. Vida de sururu.

Há quinze anos era diferente. O barulho dos bondes não deixava a gente ouvir o sino da igreja. O meu quarto, no primeiro andar, era um inferno de calor. Por isso, à hora em que os outros hóspedes iam para a escola, estudar medicina, eu dava um salto ao Passeio Público e lia, debaixo das árvores, o noticiário da polícia.

Naturalmente a pensão se fechou e d. Aurora, que naquele tempo era velha, morreu.

O calor aqui também é grande demais. E faltam plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros macambúzios, perfilados, como se esperassem ordens.

Cidade grande, falta de trabalho. O meu quarto ficava junto à escada, e à noite o cheiro do gás era insuportável. Quando escurecia, Dagoberto, estudante e repórter, vinha despejar sobre a minha cama um compêndio de anatomia e uma cesta de ossos.

O bonde chega ao fim da linha, volta. Bairro miserável, casas de palha, crianças doentes. Barcos de pescadores, as chaminés dos navios, longe.

D. Aurora, que tinha sobrenome inglês, às seis horas encostava-se ao guarda-louça e rosnava, agitava os caracóis brancos, pregava os óculos nos hóspedes que comiam demais e nos que estavam em atraso. Havia um rapaz de Minas, dispéptico, que ela adorava e queria casar com a neta. Enquanto os outros mastigavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre os discursos da câmara.

Retorno à cidade. Os globos opalinos do Aterro iluminam o gramado murcho e a praia branca. Os coqueiros empertigados ficam para trás. Penso numa ditadura militar, em paradas, em disciplina. Os navios também ficam para trás. A pensão, o meu quarto abafado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos de Dagoberto somem-se.

O carro passa pelos fundos do tesouro. É ali que ­trabalho. Ocupação estúpida e quinhentos mil-réis de ordenado.

Rua do Comércio. Lá estão os grupos que me desgostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre até os Martírios encontro umas vinte. Distraio-me, esqueço Marina, que algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez da realidade, mas agora não vejo os navios, a recordação da cidade grande desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dirige-se ao interior.

Tenho a impressão de que ele me vai levar ao meu município sertanejo. E nem percebo os casebres miseráveis que trepam o morro, à direita, os palacetes que têm os pés na lama, junto ao mangue, à esquerda. Quanto mais me aproximo de Bebedouro mais remoço. Marina, Julião Tavares, as apoquentações que tenho experimentado estes últimos tempos, nunca existiram.

Volto a ser criança, revejo a figura de meu avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que alcancei velhíssimo. Os negócios na fazenda andavam mal. E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando com a vitória do partido que padre Inácio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira, envergavam o espinhaço e comiam o mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os mourões do curral e as linhas da casa. No chiqueiro alguns bichos bodejavam. Um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem folhas. Tinham amarrado no pescoço da cachorra Moqueca um rosário de sabugos de milho queimados. Quitéria, na cozinha, mexia em cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no caritó.

Eu andava no pátio, arrastando um chocalho, brincando de boi. Minha avó, sinha Germana, passava os dias falando só, xingando as escravas, que não existiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. Às vezes subia à vila, descomposto, um camisão vermelho por cima da ceroula de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri, alpercatas e varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestre Domingos, que havia sido escravo dele e agora possuía venda sortida, encontrava o antigo senhor escorado no balcão de Teotoninho Sabiá, bebendo cachaça e jogando três-setes com os soldados. O preto era um sujeito perfeitamente respeitável. Em horas de solenidade usava sobrecasaca de chita, correntão de ouro atravessado de um bolso a outro do colete, chinelos de trança, por causa dos calos, que não aguentavam sapatos. Por baixo do chapéu duro, a testa retinta, úmida de suor, brilhava como um espelho. Pois, apesar de tantas vantagens, mestre Domingos, quando via meu avô naquela desordem, dava-lhe o braço, levava-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amoníaco. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomitava na sobrecasaca de mestre Domingos e gritava:

— Negro, tu não respeitas teu senhor não, negro!

Quando o carro para, essas sombras antigas desaparecem de supetão — e vejo coisas que não me excitam nenhum interesse: os focos da iluminação pública, espaçados, cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério; um palácio transformado em albergue de vagabundos; escuridões, capoeiras, barreiras cortadas a pique no monte; a frontaria de uma fábrica de tecidos; e, de longe em longe, através de ramagens, pedaços de mangue, cinzentos. À medida que nos aproximamos do fim da linha as paradas são menos frequentes. Os postes cintados de branco passam correndo, o carro está quase vazio, as recordações da minha infância precipitam-se. E a decadência de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva precipita-se também.

Estava pegando um século quando entrou a caducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-se todo, contava os dedos dos pés e caía na madorna. De repente acordava sobressaltado:

— Sinha Germana!

Meu pai largava o Carlos Magno, abria o tabaqueiro, ­deixava a rede, impaciente:

— Que é que há?

— Homem, você não me dirá onde está sua mãe? Aqui mais de uma hora chamando essa mulher!

— Morreu.

— Que está me dizendo? estranhava o velho arregalando os olhos quase cegos. Quando foi isso?

Camilo Pereira da Silva amolava-se:

— Deixe de arrelia. Morreu o ano passado.

— Tanto tempo! dizia Trajano. E vocês calados...

Punha-se a folgar com os dedos e pegava no sono. Quinze minutos depois estava berrando:

— Sinha Germana!

Acabou-se numa agonia leve que não queria ter fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa família tinha no cemitério da vila. Mestre Domingos pegou na alça do caixão e declarou a meu pai que a morte é um mundéu. Fomos morar na vila. Meteram-me na escola de seu Antônio Justino, para desasnar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu era um cavalo de dez anos e não conhecia a mão direita. Aprendi leitura, o catecismo, a conjugação dos verbos. O professor dormia durante as lições. E a gente bocejava olhando as paredes, esperando que uma réstia chegasse ao risco de lápis que marcava duas horas. Saíamos em algazarra. Eu ia jogar pião, sozinho, ou empinar papagaio. Sempre brinquei só.
Graciliano Ramos, "Angústia"

Agora tenho de saber mais

Gostei muito — quem não gosta? — de ver uma crónica minha no exame de português do 9.º Ano. Se soubesse para o que era, teria feito um esforço adicional.

Também quero agradecer a quem escolheu a crónica, por ter escolhido um tema — os livros que temos em casa — que eu adoro.

Se sair um bocadinho da minha pele e pensar na primeira pergunta a fazer sobre as bibliotecas das pessoas, ela seria “Porque se acumulam tantos livros em casa?”

Descontando as respostas óbvias — comodismo, prazer, companhia — fica a mais importante: a curiosidade.

A curiosidade é um vício: quanto mais se sabe, mais se tem de saber.

Não há nada que não bifurque. Cada resposta traz duas perguntas escondidas, que logo se exibem, a dançar e a arder para encontrarem as respostas, pedinchando que nos despachemos.

A curiosidade é um desassossego. É uma insatisfação permanente: é como passar a vida à procura de buracos numa superfície que, para todos os efeitos, parece lisa.

Se já tivéssemos à mão o cimento para tapar esses buracos, faria sentido. Mas não temos. Cada buraco precisa de um cimento diferente. Diferente, mas — aqui é que está o gancho — delicioso.

Antes de embarcar na curiosidade, é preciso saber duas coisas. A primeira é que a curiosidade não é como ter jeito para línguas. É muito pior, porque todos os seres humanos (para não dizer todos os gatos) têm jeito para a curiosidade.

A segunda coisa é que a curiosidade come muitos recursos: sai cara e é difícil de amortizar, até porque é raro que outra pessoa vá na conversa de achar graça às coisas que nos põem curiosos.

Em contrapartida, a curiosidade é incansável. Não envelhece. Não depende dos outros. É feita, com a maior precisão que neste mundo pode haver, à medida de cada um. Exatamente à medida de cada um: é um milagre individual.

E leva a caminhos transcendentes.

Para mais, é excitante quando se chega, excitante quando se vai para lá, e excitante quando se regressa.

Quantas coisas são assim?

sexta-feira, junho 26

Os livros também são sobreviventes de Caracas




Eu tinha encontro marcado

Eu tinha encontro marcado
nas esquinas da minha vida.
Mas cheguei e não vi ninguém...
Agora eu vou pela calçada
sozinho, sozinho, sozinho...
Não tem mais esquina na vida
não tem mais encontro nem nada...
Será que meu amor se enganou
E só me espera no fim?
Sérgio Milliet

Clara dos Anjos

O carteiro Joaquim dos Anjos não era homem de serestas e serenatas, mas gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que já foi muito estimado, não o sendo tanto atualmente como outrora. Acreditava-se até músico, pois compunha valsas, tangos e acompanhamentos para modinhas.

Aprendera a “artinha” musical na terra de seu nascimento, nos arredores de Diamantina, e a sabia de cor e salteado; mas não safra daí.

Pouco ambicioso em música, ele o era também nas demais manifestações de sua vida. Empregado de um advogado famoso, sempre quisera obter um modesto emprego público que lhe desse direito à aposentadoria e ao montepio, para a mulher e a filha. Conseguira aquele de carteiro, havia quinze para vinte anos, com o qual estava muito contente, apesar de ser trabalhoso e o ordenado ser exíguo.

Logo que foi nomeado, tratou de vender as terras que tinha no local de seu nascimento e adquirir aquela casita de subúrbio, por preço módico, mas, mesmo assim, o dinheiro não chegara e o resto pagou ele em prestações. Agora, e mesmo há vários anos, estava de plena posse dela. Era simples a casa. Tinha dois quartos, um que dava para a sala de visitas e outro, para a de jantar. Correspondendo a um terço da largura total da casa, havia nos fundos um puxadito que era a cozinha. Fora do corpo da casa, um barracão para banheiro, tanque, etc.; e o quintal era de superfície razoável, onde cresciam goiabeiras maltratadas e um grande tamarineiro copado.


A rua desenvolvia-se no plano e, quando chovia, encharcava que nem um pântano; entretanto, era povoada e dela se descortinava um lindo panorama de montanhas que pareciam cercá-la de todos os lados, embora a grande distância. Tinha boas casas a rua. Havia até uma grande chácara de outros tempos com aquela casa característica de velhas chácaras de longa fachada, de teto acaçapado, forrada de azulejos até â metade do pé-direito, um tanto feia, é fato, sem garridice, mas casando-se perfeitamente com as anosas mangueiras, com as robustas jaqueiras e com todas aquelas grandes e velhas árvores que, talvez, os que as plantaram, não tivessem visto frutificar.

Por aqueles tempos, nessa chácara, se haviam estabelecido as “bíblias”. Os seus cânticos, aos sábados, quase de hora em hora, enchiam a redondeza. O povo não os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas simpatizavam com eles, porque, justificavam, não eram como os padres que, para tudo, querem dinheiro.

Chefiava os protestantes um americano, Mr. Sharp, homem tenaz e cheio de uma eloqüência bíblica que devia ser magnífica em inglês; mas que, no seu duvidoso português, se fazia simplesmente pitoresca. Era Sharp daquela raça curiosa de yankees que, de quando em quando, à luz da interpretação de um ou mais versículos da Bíblia, fundam seitas cristãs, propagam-nas, encontram adeptos logo, os quais não sabem bem por que foram para a nova e qual a diferença que há entre esta e a de que vieram.

Fazia prosélitos e, quando se tratava de iniciar uma turma, os noviços dormiam em barracas de campanha, erguidas no eirado da chácara ou entre as suas velhas árvores maltratadas e desprezadas. As cerimônias preparatórias duravam uma semana, cheia de cânticos divinos; e a velha propriedade, com as suas barracas e salmodias, adquiria um aspecto esquisito de convento ao ar livre de mistura com um certo ar de acampamento militar.

Da redondeza, poucos eram os adeptos ortodoxos; entretanto, muitos lá iam por mera curiosidade ou para deliciar-se com a oratória de Mr. Sharp.

Iam sem nenhuma repugnância, pois é próprio do nosso pequeno povo fazer um extravagante amálgama de religiões e crenças de toda sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os transes de sua existência. Se se trata de afastar atrasos de vida, apela para a feitiçaria; se se trata de curar uma moléstia tenaz e resistente, procura o espírita; mas não falem à nossa gente humilde em deixar de batizar o filho pelo sacerdote católico, porque não há quem não se zangue: Meu filho ficar pagão! Deus me defenda!

Joaquim não fazia exceção desta regra e sua mulher, a Engrácia, ainda menos.

Eram casados há quase vinte anos, mas só tinham uma filha, a Clara. O carteiro era pardo claro, mas com cabelo ruim, como se diz; a mulher, porém, apesar de mais escura, tinha o cabelo liso.

Na tez, a filha puxava o pai; e no cabelo, à mãe. Na estatura, ficara entre os dois. Joaquim era alto, bem alto, acima da média ombros quadrados; a mãe, não sendo muito baixa, não alcançava a média, possuindo uma fisionomia miúda, mas regular, o que não acontecia com o marido que tinha o nariz grosso, quase chato. A filha, a Clara, tinha ficado em tudo entre os dois; média deles, era bem a filha de ambos. Habituada às musicatas do pai, crescera cheia de vapores das modinhas e enfumaçara a sua pequena alma de rapariga pobre com os dengues e a melancolia dos descantes e cantarolas.

Com dezessete anos, tanto o pai como a mãe tinham por ela grandes desvelos e cuidados. Mais depressa ia Engrácia à venda de “seu” Nascimento, buscar isto, ou aquilo, do que ela. Não que a venda de “seu” Nascimento fosse lugar de badernas; ao contrário: as pessoas que lá faziam “ponto” eram de todo o respeito.

O Alípio, uma delas, era um tipo curioso de rapaz, que, conquanto pobre, não deixava de ser respeitador e bem comportado. Tinha um aspecto de galo de briga; entretanto, estava longe de possuir a ferocidade repugnante desses galos malaios de apostas, não possuindo — é preciso saber — nenhuma.

Um outro que aparecia sempre lá era um inglês, Mr. Persons, desenhista de uma grande oficina mecânica das imediações. Quando saía do trabalho, passava na venda, lá se sentava naqueles característicos tamboretes de abrir e fechar, e deixava-se ficar até ao anoitecer bebericando ou lendo os jornais do senhor Nascimento. Silencioso quase taciturno, pouco conversava e implicava muito com quem o tratava por mister.

Havia lá também o filósofo Meneses, um velho hidrópico, que se tinha na conta de sábio, mas que não passava de um simples dentista clandestino, e dizia tolices sobre todas as cousas. Era um velho branco, simpático, com um todo de imperador romano, barbas alvas e abundantes.

Aparecia, às vezes, o J. Amarante, um poeta, verdadeiramente poeta, que tivera o seu momento de celebridade em todo o Brasil, se ainda não a tem; mas que, naquela época, devido ao álcool e a desgostos íntimos, era uma triste ruína de homem, apesar dos seus dez volumes de versos, dez sucessos, com os quais todos ganharam dinheiro menos ele. Amnésico, semi-imbecilizado, não seguia uma conversa com tino e falava desconexamente. O subúrbio não sabia bem quem ele era; chamava-o muito simplesmente — o poeta.

Um outro freqüentador da venda era o velho Valentim, um português dos seus sessenta anos e pouco, que tinha o corpo curvado para diante, devido ao hábito contraído no seu oficio de chacareiro que já devia exercer há mais de quarenta. Contava ‘casos” e anedotas de sua terra, pontilhando tudo de rifões portugueses do mais saboroso pitoresco.

Apesar de ser assim decente, Clara não ia à venda; mas o pai, em alguns domingos, permitia que fosse com as amigas ao cinema do Méier ou Engenho de Dentro, enquanto ele e alguns amigos ficavam em casa tocando violão, cantando modinhas e bebericando parati.

Pela manhã, logo nas primeiras horas, os companheiros apareciam, tomavam café, iam em seguida para o quintal, para debaixo do tamarineiro, jogar a bisca, com o litro de cachaça ao lado; e ai, sem dar uma vista d’olhos sobre as montanhas circundantes, nuas e empedrouçadas, deixavam-se ficar até à hora do “ajantarado” que a mulher e a filha preparavam.

Só depois deste é que as cantorias começavam. Certo dia, um dos companheiros dominicais do Joaquim pediu-lhe licença para trazer, no dia do aniversário dele, que estava próximo, um rapaz de sua amizade, o Júlio Costa, que era um exímio cantor de modinhas. Acedeu. Veio o dia da festa e o famoso trovador apareceu. Branco, sardento, insignificante, de rosto e de corpo, não tinha as tais melenas denunciadoras, nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se seriamente com um apuro muito suburbano; sob a tesoura de alfaiate de quarta ordem. A única pelintragem adequada ao seu mister que apresentava consistia em trazer o cabelo repartido no alto da cabeça, dividido muito exatamente pelo meio. Acompanhava-o o violão. A sua entrada foi um sucesso.

Todas as moças das mais diferentes cores que, ai, a pobreza harmonizava e esbatia, logo o admiraram. Nem César Bórgia, entrando mascarado, num baile à fantasia dado por seu pai, no Vaticano, causaria tanta emoção.

Afirmavam umas para as outras:

— É ele! É ele, sim!

Os rapazes, porém, não ficaram muito contentes com isto; e, entre eles, puseram-se a contar histórias escabrosas da vida galante do cantor de modinhas.

Apresentado aos donos da casa e à filha, ninguém notou o olhar guloso que deitou para os seios empinados de Clara.

O baile começou com a música de um “terno” de flauta, cavaquinho e violão. A polca era a dança preferida e quase todos a dançavam com requebros próprios de samba.

Num intervalo Joaquim convidou:

— Por que não canta, “seu” Júlio?

— Estou sem voz, respondeu ele.

Até ali, ele tinha tomado parte no “remo”; e, repinicando as cordas, não deixava de devorar com os olhos os bamboleios de quadris de Clarinha, quando dançava. Vendo que seu pai convidara o rapaz, animou-se a fazê-lo também:

— Por que não canta, “seu” Júlio? Dizem que o senhor canta tão bem…

Esse — “tão bem” — foi alongado maciamente. O cantador acudiu logo:

— Qual, minha senhora! São bondades dos camaradas…

Concertou a “pastinha” com as duas mãos, enquanto Clara dizia:

— Cante! Vá!

— Já que a senhora manda, disse ele, vou cantar.

Com todo o dengue, agarrou o violão, fez estalar as cordas e anunciou:

— Amor e sonho.

E começou com uma voz muito alta, quase berrando, a modinha, para depois arrastá-la num tom mais baixo, cheio de mágoa e langor, sibilando os “ss”, carregando os “rr” das metáforas horrendas de que estava cheia a cantoria. A cousa era, porém, sincera; e mesmo as comparações estrambóticas levantavam nos singelos cérebros das ouvintes largas perspectivas de sonhos, erguiam desejos, despertavam anseios e visões douradas. Acabou. Os aplausos foram entusiásticos e só Clarínha não aplaudiu, porque, tendo sonhado durante toda a modinha, ficara ainda embevecida quando ela acabou…

Dias depois, vindo à janela por acaso — era de tarde — sem grande surpresa, como se já o esperasse, Clara recebeu o cumprimento do cantor magoado. Não pôs malícia na cousa, tanto assim que disse candidamente à mãe:

— Mamãe, sabe quem passou aí?

— Quem?

— “Seu” Júlio.

— Que Júlio?

— Aquele que cantou nos “anos” de papai.

A vida da casa, após a festança de aniversário do Joaquim, continuou a ser a mesma. Nos domingos, aquelas partidas de bisca com o Eleutério, servente da biblioteca, e com o Augusto, guarda municipal, acompanhadas de copitos de cachaça, e o violão, à tarde. Não tardou que se viesse agregar um novo comensal: era o Júlio Costa, o famoso modinheiro suburbano, amigo íntimo do Augusto e seu professor de trovas.

Júlio quase nunca jantava, pois tinha sempre convites em todos os quatro pontos cardeais daquelas paragens. Tomava parte nas partidas de bisca, de parceirada, e pouco bebia. Apesar de não demorar-se pela tarde adentro, pôde ir cercando a rapariga, a Clara, cujos seios empinados, volumosos e redondos fascinavam-lhe extraordinariamente e excitavam a sua gula carnal insaciável. Em começo foram só olhares que a moça, com os seus úmidos olhos negros, grandes, quase cobrindo toda a esclerótica, correspondia a furto e com medo; depois, foram pequenas frases, galanteios, trocados às escondidas, para, afinal, vir a fatídica carta.

Ela a recebeu, meteu-a no seio e, ao deitar-se, leu-a, sob a luz da vela, medrosa e palpitante. A carta era a cousa mais fantástica, no que diz respeito à ortografia e à sintaxe, que se pode imaginar; tinha, porém, uma virtude: não era copiada do Secretário dos amantes, era original. Contudo a missiva fez estremecer toda a natureza virgem de Clara que, com a sua leitura, sentiu haver nela surgido alguma cousa de novo, de estranho, até ali nunca sentida. Dormiu mal. Não sabia bem o que fazer: se responder, se devolver. Viu o olhar severo do pai; as recriminações da mãe. Ela, porém, precisava casar-se. Não havia de ser toda a vida assim como um cão sem dono… Os pais viriam a morrer e ela não podia ficar pelo mundo desamparada… Uma dúvida lhe veio: ele era branco; ela, mulata… Mas que tinha isso? Tinham-se visto tantos casos… Lembrou-se de alguns… Por que não havia de ser? Ele falava com tanta paixão… Ofegava, suspirava, chorava; e os seus seios duros estouravam de virgindade e de ansiedade de amar… Responderia; e assim fez, no dia seguinte. As visitas de Costa tomaram-se mais demoradas e as cartas mais constantes. A mãe desconfiou e perguntou à filha:

— Você está namorando “seu” Júlio, Clarinha?

— Eu, mamãe! Nem penso nisso…

— Está, sim! Então não vejo?

A menina pôs-se a chorar; a mãe não falou mais nisso; e Clara, logo que pôde, mandou pelo Aristides, um molecote da vizinhança, uma carta ao modinheiro, relatando o fato.

Júlio morava na estação próxima e a situação de sua família era bem superior à sua namorada. O seu pai tinha um emprego regular na prefeitura e era, em tudo, diferente do filho. Sisudo, grave, sério, ia até a imponência grotesca do bom funcionário; e não seria capaz de admitir que a namorada do filho dançasse na sua sala. Sua mulher não tinha o ar solene do marido, era, porém, relaxada de modos e hábitos. Comia com a mão, andava descalça, catava intrigas e “novidades” da vizinhança; mas tinha, apesar disso, uma pretensão intima de ser grande cousa, de uma grande família. Além do Júlio, tinha três filhas, uma das quais já era adjunta municipal; e, das outras duas, uma estava na Escola Normal e a mais moça cursava o Instituto de Música.

Tiravam muito ao pai, no gênio sobranceiro, no orgulho fofo da família; e tinham ambição de casamentos doutorais. Mercedes, Adelaide e Maria Eugênia, eram esses os nomes, não suportariam de nenhuma forma Clara como cunhada, embora desprezassem soberbamente o irmão pelos seus maus costumes, pelo seu violão, pelos seus plebeus galos de briga e pela sua ignorância crassa.

Pequeno-burguesas, sem nenhuma fortuna, mas, devido à situação do pai e a terem freqüentado escolas de certa importância, elas não admitiriam, para Clara, senão um destino: o de criada de servir.

Entretanto, Clara era doce e meiga; inocente e boa, podia-se dizer que era muito superior ao irmão delas pelo sentimento, ficando talvez acima dele pela instrução, conquanto fosse rudimentar, como não podia deixar de ser, dada a sua condição de rapariga pobríssima. Júlio era quase analfabeto e não tinha poder de atenção suficiente para ler o entrecho de uma fita de cinematógrafo. Muito estúpido, a sua vida mental se cifrava na composição de modinhas delambidas, recheadas das mais estranhas imagens que a sua imaginação erótica, sufocada pelas conveniências, criava, tendo sempre perante seus olhos o ato sexual.

Mais de uma vez, ele se vira a braços com a polícia por causa de defloramento e seduções de menores.

O pai, desde a segunda, recusara intervir; mas a mãe, dona Inês, a custo de rogos, de choro, de apelo — para a pureza de sangue da família, conseguira que o marido, o capitão Bandeira, procurasse influenciar, a fim de evitar que o filho casasse com uma negrinha de dezesseis anos, a quem o Júlio “tinha feito mal”.

Apesar de não ser totalmente má, os seus preconceitos junto à estreiteza da sua inteligência não permitiram ao seu coração que agasalhasse ou protegesse o seu infeliz neto. Sem nenhum remorso, deixou-o por aí, à toa, pelo mundo…

O pai, desgostoso com o filho, largara-o de mão; e quase não se viam. Júlio vivia no porão da casa ou nos fundos da chácara onde tinha gaiolas de galos de briga, o bicho mais hediondo, mais repugnantemente feroz que é dado a olhos humanos ver. Era a sua indústria e o seu comércio, esse negócio de galos e as suas brigas em rinhadeiros. Barganhava-os, vendia-os, chocava as galinhas, apostava nas rinhas; e com o resultado disso e com alguns cobres que a mãe lhe dava, vivia e obtinha dinheiro para vestir-se. Era o tipo completo do vagabundo doméstico, como há milhares nos subúrbios e em outros bairros do Rio de Janeiro.

A mãe, sempre temendo que se repetissem os seus ajustes de contas com a polícia, esforçava-se sempre por estar ao corrente dos seus amores. Veio a saber do seu último com a Clara e repreendeu-o nos termos mais desabridos. Ouviu-a o filho respeitosamente, sem dizer uma palavra; mas, julgou da boa política relatar, a seu modo, por carta, tudo à namorada. Assim escreveu:

“Queridinha confeço-te que ontem quando recebi a tua carta minha mãe viu e fiquei tão louco que confecei tudo a mamãe que lhe amava muito e fazia por você as maiores violências, ficaram todos contra mim é a razão porque previno-te que não ligues ao que lhe disserem, por isso pesso-te que preze bem o meu sofrimento. Pense bem e veja se estás resolvida a fazer o que lhe pedi na última cartinha. Saudades e mais saudades deste infeliz que tanto lhe adora e não é correspondido. O teu Júlio”.

Clara já estava habituada com a redação e ortografia do seu namorado, mas, apesar de escrever muito melhor, a sua instrução era insuficiente para desprezar um galanteador tão analfabeto. Ainda por cima, a sua fascinação pelo modinheiro e a sua obsessão pelo casamento lhe tiravam toda a capacidade critica que pudesse ter. A carta produziu o efeito esperado por Júlio. Choro, palpitações, anseios vagos, esperanças nevoentas, vislumbres de céus desconhecidos e encantados — tudo isso aquela carta lhe trouxe, além do halo de dedicação e amor por ela com que Clara fez resplandecer, na imaginação, as pastinhas do violeiro. Daí a dias, fez o prometido, isto é, deixou a janela do quarto aberta para que ele entrasse no aposento. Repetiu a façanha quase todas as noites seguidas, sem que ele se demorasse muito no quarto.

Nos domingos, aparecia, cantava e semelhava que entre ambos não havia nada. Um belo dia, Clara sentiu alguma cousa de estranho no ventre. Comunicou ao namorado. Qual! Não era nada, disse ele. Era, sim; era o filho. Ela chorou, ele acalmou-a, prometendo casamento. O ventre crescia, crescia…

O cantador de modinhas foi fugindo, deixou de aparecer a miúdo; e Clara chorava. Ainda não lhe tinham percebido a gravidez. A mãe, porém, com auxilio de certas intimidades próprias de mãe para filha, desconfiou e pó-la em confissão. Clara não pôde esconder, disse tudo; e aquelas duas humildes mulheres choraram abraçadas diante do irremediável… A filha teve uma idéia:

— Mamãe, antes da senhora dizer a papai, deixa-me ir até à casa dele, para falar com a sua mãe?

A velha meditou e aceitou o alvitre:

— Vai!

Clara vestiu-se rapidamente e foi. Recebida com altaneria por uma das filhas, disse que queria falar à mãe de Júlio. Recebeu-a esta rispidamente; mas a rapariga, com toda a coragem e com sangue-frio difícil de crer, confessou-lhe tudo, o seu erro e a sua desdita.

— Mas o que é que você quer que eu faça?

— Que ele se case comigo, fez Clara num só hausto.

— Ora, esta! Você não se enxerga! Você não vê mesmo que meu filho não é para se casar com gente da laia de você! Ele não amarrou você, ele não amordaçou você… Vá-se embora, rapariga! Ora já se viu! Vá!

Clara saiu sem dizer nada, reprimindo as lágrimas, para que na rua não lhe descobrissem a vergonha. Então, ela? Então ela não se podia casar com aquele calaceiro, sem nenhum título, sem nenhuma qualidade superior? Por quê?

Viu bem a sua condição na sociedade, o seu estado de inferioridade permanente, sem poder aspirar a cousa mais simples a que todas as moças aspiram. Para que seriam aqueles cuidados todos de seus pais? Foram inúteis e contraproducentes, pois evitaram que ela conhecesse bem justamente a sua condição e os limites das suas aspirações sentimentais… Voltou para casa depressa. Chegou; o pai ainda não viera.

Foi ao encontro da mãe. Não lhe disse nada; abraçou-a chorando. A mãe também chorou e, quando Clara parou de chorar, entre soluços, disse:

— Mamãe, eu não sou nada nesta vida.
Lima Barreto

O que é literatura

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. 

Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

A história dos duendes que sequestraram um coveiro

Em uma velha cidade que teve suas origens em uma abadia, aqui nessa parte do país, há muito, muito tempo atrás – tanto tempo que a história deve ser verdadeira, porque os nossos tataravós implicitamente acreditavam nela –, ali trabalhava no ofício de coveiro, no cemitério do pátio da igreja, um tal de Gabriel Grub. Não se segue, de modo algum, que, só porque um homem é coveiro e está sempre rodeado de emblemas da mortalidade, ele deva ser necessariamente um homem soturno e melancólico; nossos agentes funerários são os sujeitos mais alegres do mundo; e eu uma vez tive a honra de ter como meu amigo próximo um agente funerário que, em sua vida pessoal e em suas horas de lazer, era o sujeito mais engraçado e mais brincalhão que se podia conhecer entoando uma canção popular e divertida, sem se atrapalhar com a letra, ou então esvaziando um copo de alguma bebida forte de um só trago, sem nem parar para respirar. Mas, apesar desses exemplos, um sujeito irritadiço, chamado Gabriel Grub, era mal-humorado, intratável, grosseiro – um homem antipático e solitário que não se dava com ninguém a não ser consigo mesmo e com uma velha garrafa forrada de palhinha que se encaixava no bolso grande de seu colete – e que encarava cada rosto alegre que passasse por ele com uma tal carranca de crueldade e mau humor que ficava difícil alguém olhar para ele e não se sentir mal.

Um pouco antes do entardecer, uma véspera de Natal, Gabriel colocou sua pá ao ombro, acendeu sua lamparina e se pôs a caminho do velho cemitério, pois tinha uma cova para terminar até a manhã seguinte e, sentindo-se muito tristonho, pensou que aquilo talvez pudesse animá-lo se pegasse logo de uma vez no trabalho. À medida que seguia em seu caminho, pegando a rua antiga, ele enxergava a luz alegre e cintilante das lareiras brilhando por trás das velhas vidraças e ouvia as gargalhadas e os gritos entusiasmados daqueles que se reuniam ao redor do fogo; notava o alvoroço dos preparativos para os festejos do dia seguinte e sentia os diferentes e deliciosos aromas, que escapavam fumegantes pelas janelas das cozinhas, em nuvens. Tudo isso chegava ao coração de Gabriel Grub como corrosivo fel; e, quando bandos de crianças, saindo de suas casas, disparavam porta afora, cruzavam a rua e, antes que pudessem bater na porta da casa em frente, já eram recebidas e rodeadas por meia dúzia de pestinhas exultantes, de cabelos cacheadinhos, enquanto subiam todos juntos até o segundo andar para passar a noite em brincadeiras de Natal, Gabriel sorria de modo sinistro e apertava com mais força ainda o cabo de sua pá, enquanto ia pensando em sarampo, escarlatina, sapinho, coqueluche e outras fontes muito boas de consolo além dessas.

Nessa alegre disposição de espírito, Gabriel seguia a passos largos, respondendo com um resmungo breve e emburrado aos cumprimentos bem- humorados daqueles vizinhos que de vez em quando passavam por ele, até que dobrou uma esquina e entrou na ruela escura que levava ao cemitério. Ora, Gabriel estivera na expectativa de chegar à ruela escura porque ela era, de um modo geral, um lugar agradável, sombrio, fúnebre, onde as gentes da cidade não faziam questão de ir, exceto em plena luz do dia, e isso num dia ensolarado; resulta daí que ele ficou tremendamente indignado ao ouvir um rapazola qualquer cantando em altos brados uma festiva canção sobre um Natal feliz, ali naquele santuário que fora batizado de rua dos Esquifes desde os tempos da velha abadia, desde os dias dos monges de cabeça raspada. À medida que Gabriel seguia em frente e a voz chegava cada vez mais perto, ele descobriu que vinha de um menininho que estava só e se apressava para juntar-se a uma das festinhas da rua antiga e que, um pouco para fazer companhia a si mesmo e um pouco para se preparar para a ocasião, berrava a canção com toda a força de seus pulmões. Então, Gabriel esperou até que o menininho aparecesse e levou-o para um canto e bateu na cabeça dele com a lamparina umas cinco ou seis vezes, para ensiná-lo a modular sua voz. Enquanto o menino fugia correndo, com a mão na cabeça, entoando música bem diferente, Gabriel Grub dava gostosas risadas para si mesmo e entrava no cemitério, fechando o portão atrás de si.

Tirou o casaco, largou a lamparina e, entrando na cova inacabada, trabalhou nela por mais ou menos uma hora, com toda a boa vontade. Mas a terra estava endurecida pela geada, e não era tarefa fácil quebrá-la em pedaços e atirá-la para fora do buraco com a pá; e, embora houvesse uma lua no céu, era o começo da lua crescente, e ela pouco iluminava a cova, que estava na sombra da igreja. Em qualquer outro momento, esses obstáculos teriam deixado Gabriel Grub muito irritado e infeliz, mas ele estava tão contente por ter interrompido a cantoria do menininho que não deu muita atenção ao escasso progresso que tinha feito e olhou para dentro da cova, quando deu por terminado o trabalho por aquela noite, com cruel satisfação, murmurando enquanto recolhia suas coisas:

Admirável acomodação para um e nada mais
Terra fria em cima de uma vida acabada
Pedra tumular – na cabeça, inscrição lapidar
Refeição rica e suculenta os vermes vão cear
Grama verde para a caveira, e o resto é lama
Em solo sagrado, acomodação para um é bacana

– Rá, rá! Rá, rá! – riu-se Gabriel Grub, quando se sentou numa pedra tumular que era um dos seus locais preferidos de descanso e pegou sua garrafa forrada de palhinha. – Um esquife no Natal! Uma caixa das grandes de presente de Natal. Rá, rá, rá!

– Rá, rá, rá! – repetiu uma voz que soou próxima, atrás dele.

Gabriel parou, com certo alarme, no ato de erguer a garrafa forrada de palhinha aos lábios, e olhou em volta. O fundo da sepultura mais antiga que havia ali não estava mais silencioso e parado que o cemitério da igreja à luz pálida do luar. A geada reluzia nas lápides e cintilava como fileiras de pedras preciosas no meio dos entalhes de pedra da velha igreja. A neve jazia dura e quebradiça no solo e esparramava-se por cima dos muitos montículos de terra a toda volta; era uma cobertura tão branca e tão lisa que parecia que cadáveres jaziam ali, escondidos apenas por lençóis retorcidos. Nem um mínimo farfalhar quebrava a profunda tranquilidade da cena solene. O próprio som parecia estar congelado, por estar tudo tão gelado e imóvel.

– Foi o eco – disse Gabriel Grub, levando a garrafa aos lábios uma vez mais.

– Não foi não – disse uma voz profunda.

Gabriel deu um pulo e ficou enraizado àquele ponto onde estava, tomado de susto e de terror, pois seu olhar pousou em uma forma que fez seu sangue gelar.

Sentada em uma lápide vertical, próxima a ele, estava uma figura estranha e espectral que, Gabriel logo sentiu, não era um ser deste mundo. Suas pernas fantasticamente compridas, que poderiam estar tocando o solo, estavam encolhidas e cruzadas de um jeito bizarro, fantástico; seus braços fortes estavam nus; e suas mãos estavam apoiadas nos joelhos. Sobre o corpo curto e redondo, ele usava uma roupa pesada e enfeitada com pespontos; uma capa curta pendia, balançando, de suas costas; a gola era cortada em curiosas pontas e, no duende, fazia as vezes de uma gola pregueada ou de um lenço de pescoço; e seus sapatos bicudos tinham as longas, enormes pontas enroladas para cima. Na cabeça, usava um chapéu de aba larga, em forma de cone, enfeitado com uma única pena. O chapéu estava branco de geada, e o duende parecia estar sentado muito confortavelmente naquela mesma lápide fazia uns duzentos ou trezentos anos. Estava sentado perfeitamente imóvel; estava pondo a língua para fora, como que por escárnio; e estava mostrando os dentes para Gabriel Grub num sorriso que só mesmo um duende poderia esboçar.

– Não foi o eco – disse o duende.

Gabriel Grub estava paralisado e não pôde responder àquilo.

– O que você está fazendo aqui na véspera de Natal? – perguntou o duende, em tom áspero.

– Vim cavar uma sepultura, senhor – gaguejou Gabriel Grub.

– Que homem perambula entre sepulturas e cemitérios numa noite como esta? – berrou o duende.

– Gabriel Grub! Gabriel Grub! – gritou um coro selvagem que parecia encher o cemitério.

Gabriel olhou em volta, amedrontado: não havia nada à vista.

– O que você tem nessa garrafa? – perguntou o duende.

– Gim holandês, senhor – respondeu o coveiro, tremendo mais do que nunca; pois ele tinha comprado o gim dos contrabandistas e achou que talvez o seu inquisidor pudesse ser um cobrador de impostos dos duendes.

– Quem bebe gim holandês sozinho, e num cemitério, numa noite como esta? – disse o duende.

– Gabriel Grub! Gabriel Grub! – exclamaram as vozes selvagens, mais uma vez.

O duende fitou com maldade o coveiro aterrorizado e, erguendo a voz, exclamou:

– E quem é, então, nosso prêmio justo e legítimo?

A essa pergunta, o coro invisível respondeu com uma melodia que soou como as vozes de muitos coralistas acompanhando o som poderoso do órgão da velha igreja – uma melodia que parecia chegar aos ouvidos do coveiro trazida por um vento selvagem e ia morrendo conforme passava; mas o peso da resposta era sempre o mesmo: “Gabriel Grub! Gabriel Grub!”.

O duende abriu um sorriso ainda maior que antes quando disse:

– Bem, Gabriel, o que você diz diante disso? O coveiro tentou recuperar o fôlego.

– O que você acha disso, Gabriel? – perguntou o duende, chutando os pés para cima, um de cada lado da lápide, e olhando para as pontas enroladas de seus sapatos com muita satisfação, como se estivesse contemplando o par de sapatos Wellington mais chique de toda a Bond Street.

– É… é… muito curioso, senhor – respondeu o coveiro, quase morto de susto. – Muito curioso e muito bonito, mas eu acho que vou voltar e terminar o meu trabalho, se o senhor me der licença.

– Trabalho! – disse o duende. – Que trabalho?

– A cova, senhor, fazer a cova – gaguejou o coveiro.

– Ah, fazer a cova, hein? – disse o duende. – Quem é que cava sepulturas numa época em que todos os outros homens estão festejando e sente prazer nisso?

Novamente, as vozes misteriosas responderam: “Gabriel Grub!
Gabriel Grub!”.

– Receio que os meus amigos queiram você, Gabriel – falou o duende, empurrando a língua contra a bochecha o mais que podia. E que língua assombrosa! – Receio que os meus amigos queiram você, Gabriel – repetiu.

– Por favor, senhor – respondeu o coveiro, dominado pelo pavor –, eu acho que eles não têm por que me querer. Eles nem me conhecem, senhor. Acho que os cavalheiros nunca me viram, senhor.

– Ah, mas eles viram, sim – respondeu o duende. – Nós conhecemos o homem rabugento e de rosto carrancudo que veio pela rua esta noite, olhando com crueldade as crianças e agarrando mais e mais forte a sua pá de cavar sepulturas. Nós conhecemos o homem que bateu no menino com a maldade invejosa de seu coração, só porque o menino sabia ser feliz, e ele não. Nós o conhecemos! Nós o conhecemos!

Nesse ponto, o duende, rindo muito alto, soltou uma gargalhada esganiçada, e o eco devolveu-a vinte vezes mais alta e esganiçada. Jogando as pernas para o ar, plantou bananeira, ou melhor, apoiou o peso do corpo na ponta do seu chapéu em cone, na beirada estreita da lápide; nisso, ele deu um salto mortal com extraordinária agilidade, indo parar exatamente aos pés do coveiro, onde plantou-se numa pose em que os alfaiates costumam sentar-se para costurar.

– Eu… eu acho que preciso ir agora – disse o coveiro, fazendo um enorme esforço para se mover.

– Precisa ir! – disse o duende. – Gabriel Grub precisa ir! Rá, rá, rá! Enquanto o duende ria, o coveiro notou, por um instante, uma iluminação brilhante dentro das janelas da igreja, como se todo o prédio estivesse iluminado; desapareceu; o órgão ressoou com uma melodia alegre e tropas inteiras de duendes, em exato contraponto ao primeiro duende, derramaram-se pelo cemitério e começaram a brincar de pular carneirinho com as lápides; faziam isso sem parar para tomar fôlego; pulavam sobre a lápide mais alta de todas, um após o outro, com surpreendente destreza. O primeiro duende era um pulador incrível, e nenhum dos outros conseguia chegar nem perto do que ele fazia; mesmo no máximo de seu sentimento de terror, o coveiro não pôde deixar de observar que, enquanto os amigos do primeiro duende satisfaziam-se em saltar sobre as lápides de tamanho comum, o primeiro pulava por cima dos jazigos de famílias, por cima das balaustradas de ferro e por cima de tudo o mais, com tanta facilidade como se todos aqueles obstáculos fossem placas de rua.

Por fim, o jogo atingiu o seu ápice; o órgão tocava cada vez mais rápido, e os duendes pulavam com velocidade cada vez maior; encolhendo- se, rolando em cambalhotas no chão e ricocheteando sobre as lápides como se fossem bolas de futebol. O cérebro do coveiro girava com a mesma rapidez dos movimentos que ele contemplava, e suas pernas cederam quando os espíritos voaram diante de seus olhos; quando o rei dos duendes de repente veio a toda em sua direção, pousou a mão em sua gola e afundou com ele terra adentro.

Quando Gabriel Grub teve tempo de retomar o fôlego que a velocidade da descida havia roubado dele por um momento, viu que estava dentro do que parecia ser uma enorme caverna, rodeado de todos os lados por multidões de duendes, feios e sinistros; no centro do salão, em um trono mais elevado, ali estava o seu amigo do cemitério da igreja; e bem pertinho, ao lado dele, ali estava Gabriel Grub, o próprio, incapaz de se mexer.

– Noite fria – disse o rei dos duendes –, muito fria. Um copo de bebida quente, aqui!

Ao comando dele, meia dúzia de zelosos duendes com um eterno sorriso na cara, que Gabriel Grub imaginou fossem cortesãos, justo por aquela razão, desapareceram muito apressadamente e logo retornaram com uma taça de fogo líquido, que entregaram ao rei.

– Ah! – gritou o duende, cujas faces e garganta eram transparentes, enquanto engolia de um trago a chama. – Isto esquenta qualquer um, de verdade! Tragam um cálice cheio até a borda desta mesma bebida para o sr. Grub.

Em vão o infeliz coveiro protestou, argumentando que não tinha o hábito de tomar bebidas quentes à noite; um dos duendes segurou-o, enquanto outro derramava o líquido em chamas em sua goela; toda a assembleia de duendes guinchava de tanto rir enquanto ele tossia e se afogava e enxugava as lágrimas que jorravam de seus olhos após ter engolido a bebida que lhe desceu queimando a garganta.

– E agora – disse o rei, cutucando de forma fantástica, com a ponta aguda de seu chapéu em forma de cone, o olho do coveiro, ocasionando-lhe a mais perfeita de todas as dores –, e agora mostrem ao homem do sofrimento e da tristeza alguns dos quadros do nosso enorme depósito.

Assim que o duende disse isso, uma nuvem espessa, que obscurecia até o mais remoto canto da caverna, foi gradualmente se abrindo, dissipando-se, para revelar, aparentemente a uma grande distância, um apartamento pequeno e com pouquíssimos móveis, mas limpo e arrumado. Uma porção de crianças pequenas agrupava-se perto do fogo brilhante da lareira e agarrava-se ao vestido da mãe e brincava ao redor da cadeira onde estava sentada. A mãe vez que outra levantava-se e afastava a cortina da janela, como se tentasse enxergar algum objeto esperado; uma refeição frugal estava pronta e servida à mesa; e uma cadeira de braço estava posicionada perto do fogo. Alguém bateu à porta; a mãe abriu, e as crianças agruparam-se ao redor dela e bateram palminhas de alegria quando o pai entrou. Ele estava molhado e exausto e sacudiu a neve de seus trajes enquanto as crianças agrupavam-se ao redor dele e, recebendo o seu capote, o chapéu, a bengala e as luvas, correram, com cuidado e alvoroço, para fora da sala, carregando aquilo tudo. Então, quando ele se sentou para sua refeição diante da lareira, as crianças subiram no seu colo, e a mãe sentou-se ao seu lado, e tudo parecia ser felicidade e conforto.

Mas uma transformação ocorreu naquele quadro, de modo quase imperceptível. A cena foi alterada para um pequeno quarto de dormir, onde a criança mais novinha e mais bonitinha estava na cama, morrendo; o rosado de suas bochechas havia sumido, e também havia sumido a luz de seus olhos. E, bem quando o coveiro olhou para o menininho com um interesse que jamais sentira ou conhecera antes, ele morreu. Os irmãozinhos e irmãzinhas agruparam-se ao redor da caminha e pegaram sua mão, tão pequeninha, tão gelada e tão pesada; e, àquele toque, eles recuaram e olharam com temor o rosto do bebê; mesmo que ele estivesse calmo e tranquilo, e dormindo em paz no seu repouso – como parecia estar aquela linda criança –, eles entenderam que ele estava morto e sabiam que ele agora era um anjo olhando de lá de cima para eles aqui embaixo e abençoando-os de onde ele estava: num céu brilhante e feliz.

Uma vez mais a nuvem etérea atravessou o quadro, e uma vez mais o cenário mudou. O pai e a mãe estavam envelhecidos e sem o vigor de antes, e o número dos que lhes rodeavam havia diminuído em mais da metade; mas a satisfação e a animação transpareciam em cada rosto e iluminavam cada olhar quando agrupavam-se à volta da lareira e contavam e escutavam velhas histórias de outros tempos, de tempos que já não voltam mais. Vagarosa e pacificamente, o pai afundou para dentro de sua sepultura e, logo em seguida, aquela que partilhou de todos os seus desvelos e problemas seguiu-o até seu local de descanso. Os poucos que ainda sobreviviam àqueles dois ajoelharam-se ao lado de onde estavam enterrados e com lágrimas aguaram a grama que cobria o local; depois, ergueram-se e foram embora com tristeza, enlutados, mas sem gritos amargos, sem lamentações desesperadas, pois sabiam que um dia iriam ao encontro deles; e, uma vez mais, misturaram-se ao mundo de pessoas atarefadas e sua satisfação e sua animação foram restauradas. A nuvem estabilizou-se sobre o quadro e escondeu-o da visão do coveiro.

– O que você pensa disso? – perguntou o duende, virando o seu enorme rosto para Gabriel Grub.

Gabriel murmurou algo sobre aquilo ser muito bonito e pareceu ficar um pouco envergonhado, enquanto o duende jogava seu olhar causticante sobre ele.

– Você, um homem sofrido! – disse o duende, num tom de voz que traduzia excessivo desprezo. – Você!

Ele parecia disposto a acrescentar mais alguma coisa, mas a indignação sufocava a sua fala, de modo que ele ergueu uma de suas pernas muito flexíveis e, com ela fazendo um pequeno floreio acima da cabeça, para assegurar-se de seu alvo, deu um tremendo chute em Gabriel Grub; imediatamente depois disso, todos os duendes à espera agruparam-se ao redor daquele coveiro desgraçado e chutaram-no sem misericórdia, de acordo com o costume estabelecido e invariável dos cortesãos desse mundo: chuta-se aqueles a quem a realeza chutou e abraça-se aqueles a quem a realeza abraçou.

– Deem-lhe mais do mesmo tratamento! – disse o rei dos duendes.

A essas palavras, a nuvem desencantou, e uma paisagem muito rica e muito linda descortinou-se à visão; existe uma paisagem exatamente igual ainda hoje, a meia milha da cidade da velha abadia. O sol brilhava num céu claro e muito azul, a água brilhava sob seus raios, e as árvores pareciam mais verdes e as flores mais viçosas sob sua influência vibrante. A água corria ondulante, com um som agradabilíssimo; as árvores farfalhavam ao vento suave que murmurava entre suas folhas; os passarinhos cantavam nos galhos; e a cotovia entoava canções em alto e bom som, dando as boas-vindas à manhã de um novo dia. Sim, havia amanhecido; era verão, e a manhã estava radiante e era um bálsamo; a menor folha, a folhinha da grama, por mínima que fosse, tudo estava impregnado de vida. A formiga caminhava para sua labuta diária, a borboleta adejava as asas e repousava no ar aquecido pelos raios do sol; miríades de insetos estendiam suas asas transparentes e regozijavam-se em sua existência breve, mas feliz. O homem andava sempre em frente, empolgado com a cena; e tudo era brilho e esplendor.

– Você, um homem sofrido! – disse o rei dos duendes num tom de voz que traduzia ainda mais desprezo que antes.

E, de novo, o rei dos duendes fez um floreio com a perna; de novo, ela desceu sobre os ombros do coveiro; e, de novo, os duendes serviçais imitaram o exemplo de seu chefe.

Muitas vezes a nuvem sumiu e voltou, e muitas lições ela ensinou a Gabriel Grub, que, embora tivesse os ombros ardendo de dor dos frequentes chutes dos duendes, continuava olhando com um interesse que nada conseguia diminuir. Ele viu que os homens que trabalhavam duro e ganhavam o escasso pão de cada dia com vidas inteiras de muita labuta eram pessoas animadas e felizes; e que, para os mais ignorantes, a doce face da natureza era uma fonte incessante de animação e alegria. Ele viu aqueles que haviam sido criados com delicadeza e educados com carinho: eram otimistas diante das privações e superiores ao sofrimento que teria arrasado muitos homens de formação mais dura – isso porque traziam dentro do peito a matéria bruta de que são feitas a felicidade, a satisfação e a paz de espírito. Ele viu que as mulheres, as mais suaves e mais frágeis dentre as criaturas de Deus, eram na maioria das vezes superiores ao sofrimento, à adversidade e às preocupações; e viu que isso se dava porque elas traziam em seus corações um manancial inexaurível de afeição e devoção. Acima de tudo, ele viu que homens como ele, que rosnavam para as celebrações e a animação dos outros, eram as piores ervas daninhas da bela superfície da terra; e, separando tudo o que há de bom no mundo de tudo o que há de mau no mundo, ele chegou à conclusão de que, afinal, era um tipo de mundo bem decente e respeitável. Nem bem chegara a essa conclusão e a nuvem que se fechara sobre o último quadro pareceu estacionar em seus sentidos e niná-lo para que ele repousasse. Um por um, os duendes sumiram de vista; e, quando o último deles desapareceu, Gabriel Grub afundou no sono.

O dia já havia clareado quando Gabriel Grub acordou e viu que estava deitado ao comprido numa pedra tumular no cemitério da igreja, com a garrafa forrada de palhinha ao seu lado e vazia; seu casaco, a pá e a lamparina, todos bem branquinhos da geada da noite anterior, estavam atirados pelo chão. A lápide onde ele vira pela primeira vez o duende sentado estava ali, ereta, reta, aprumada e empertigada diante dele, e a cova na qual estivera trabalhando na noite anterior, esta não estava longe dali. Primeiro, ele chegou a duvidar da realidade de suas aventuras, mas a dor aguda nos ombros quando tentou levantar-se assegurou-lhe de que os chutes dos duendes com certeza não foram imaginários. Ficou perplexo uma vez mais ao observar que não havia vestígios de pegadas na neve onde os duendes haviam brincado de pular carneirinho com as lápides, mas logo encontrou a explicação dessa circunstância quando lembrou que, por serem espíritos, eles não iriam deixar impressões visíveis para trás. Assim, Gabriel Grub levantou-se da melhor maneira que pôde, dada a dor nas costas, e, sacudindo a geada de seu casaco, vestiu-o; e voltou seu olhar para a cidade.

Mas ele era um outro homem e não podia suportar a ideia de voltar para um lugar onde o seu arrependimento seria motivo de piada e onde a sua transformação seria desacreditada. Hesitou por alguns momentos e então deu as costas à cidade para pensar em que outro lugar ele poderia tentar ganhar o seu pão de cada dia.

A lanterna, a pá e a garrafa forrada de palhinha foram encontradas, naquele mesmo dia, no cemitério da igreja. A princípio, houve grandes especulações sobre o destino do coveiro, mas logo ficou definido que ele havia sido levado embora pelos duendes; e não faltaram testemunhas respeitáveis que tivessem visto com nitidez ele ser carregado rapidamente pelo ar, montado num cavalo de pelo castanho e cego de um olho, com a traseira de um leão e o rabo de um urso. No fim, tudo isso virou uma história em que todos acreditavam piamente; e o novo coveiro costumava exibir aos curiosos, por um dinheirinho de nada, um pedaço de bom tamanho do galo da rosa dos ventos da igreja que fora acidentalmente chutado pelo cavalo acima mencionado em seu voo de fuga; pedaço esse que fora recolhido por ele mesmo no cemitério da igreja coisa de um ou dois anos atrás.

Infelizmente, essas histórias ficaram um pouco atrapalhadas pelo inesperado ressurgimento do próprio Gabriel Grub uns dez anos mais tarde, desta vez um velhinho reumático, maltrapilho e contente da vida. Ele contou sua história ao pároco e também ao prefeito; e, no decorrer do tempo, essa história começou a ser aceita como fato histórico e é dessa forma que ela continua a ser contada até os dias de hoje. Quanto aos que tinham acreditado na lorota do galo da rosa dos ventos, uma vez tendo depositado sua confiança na história errada, não foram facilmente persuadidos a trocar de história e, portanto, de modo que parecessem tão sábios quanto possível, davam de ombros, levavam a mão à testa e murmuravam alguma coisa sobre Gabriel Grub ter bebido todo o gim holandês e então ter pegado no sono deitado na pedra da sepultura; e eles faziam questão de explicar aquilo que Gabriel Grub supunha ter testemunhado na caverna dos duendes, dizendo que ele simplesmente tinha visto o mundo e ficara mais sábio. Mas essa opinião, que definitivamente não se popularizou em nenhum momento, foi gradualmente esquecida. Seja lá como for, uma vez que Gabriel Grub sofreu de reumatismo até o fim de seus dias, esta história pelo menos tem uma moral, se não servir para ensinar coisa melhor; e a moral da história diz que, se um homem se torna rabugento e bebe desacompanhado na temporada de festas natalinas, ele pode ter certeza de que não será um homem melhor por causa disso; que os espíritos sejam sempre os melhores possíveis, ou então que sua presença esteja a muitos graus de distância do teor de uma prova concreta, como os espíritos que Gabriel Grub viu na caverna dos duendes.
Charles Dickens

quinta-feira, junho 25

Sugestão de quinta-feira


Parker Adderson, Filósofo

— Prisioneiro, seu nome?

— Vou perdê-lo amanhã de madrugada, não vale a pena escondê-lo. Sou Parker Adderson.

— Seu posto?

— Um tanto modesto; os oficiais superiores são demais importantes para se arriscarem missão perigosa de espião... Sou sargento.

— De que regimento?

— Queira desculpar-me. Minha resposta poderia dar uma ideia das forças que se acham na sua frente. Vim até suas fileiras para obter e não divulgar informações desta natureza.

— O sr. é muito sagaz.

— Se o general tiver paciência de esperar até amanhã, verá que não sou tal.

— Como sabe que vai morrer amanhã?

— É uma das solenidades tocantes da profissão.

O general pôs de lado essa dignidade própria de oficial superior e de renome, até o ponto de sorrir. Mas ninguém em seu poder ou fora de suas boas graças, teria aceito como feliz augúrio este sinal de aprovação. Não era benévolo nem contagioso. Não comunicava às pessoas que favorecia; nem ao espião capturado que o tinha provocado, nem ao guarda armado que acompanha o espião até a tenda, e que ficou um pouco de lado vigiando o seu prisioneiro à luz amarela da vela. Sorrir não fazia parte do dever deste guerreiro. Estava destacado por outro motivo. A conversa prosseguiu; era em rigor um julgamento fácil de adivinhar: pena capital.

— Confessa então que é espião... que entrou no meu acampamento disfarçado como está, na farda de soldado da Confederação, para obter informações, secretamente, sobre número e a disposição das minhas tropas?

— Principalmente acerca do número. A disposição delas eu já sabia e é bem triste.

O general sorriu mais uma vez. O guarda, com uma noção mais severa da sua responsabilidade, acentuou a austeridade no rosto, e ficou um pouco mais reto do que estava. O espião, girando o chapéu cinzento sobre o dedo polegar, examinava o ambiente lentamente. Era muito simples. A tenda era dessas comuns, de formato retangular, medindo oito pés por dez, iluminada pela luz de uma única vela de sebo, enfiada no cabo de uma baioneta, pregada numa mesa do pinho à qual se sentava o general, agora ocupado em escrever, aparentemente esquecido da visita involuntária. Um velho tapete esfarrapado cobria a terra. Uma velha mala de couro, uma cadeira e um rolo de cobertores era tudo quanto a tenda continha, porque, sob o comando do general Clavering, a simplicidade da Confederação tinha atingido alto desenvolvimento. Pendurado num prego enorme no mastro da tenda, havia um sabre comprido, uma pistola e cinto e — o que parecia absurdo — um facão. Era costume do general referir a esta arma pouco militar como sendo uma lembrança dos tempos pacíficos, quando paisano.
Era uma noite tempestuosa. A chuva torrencial caía em cascatas sobre a lona da tenda, fazendo efeito de um tambor surdo. Diante da forte ventania, a estrutura frágil se sacudia, abalava-se e esforçava-se para escapar das estacas que a prendiam.

O general acabou de escrever, dobrou a meia folha de papel e falou com o soldado que vigiava Adderson.

— Pronto Tassman... leva isto ao ajudante de ordens; depois volta aqui.

— E o prisioneiro, general? disse o soldado, fazendo continência com olhar interrogativo em direção do infeliz.

— Faça o que mando! — respondeu o oficial secamente.
O soldado, tomando a nota, inclinou-se e saiu da tenda.

General Clavering tornou o seu rosto para o espião, contemplou-o fixamente, talvez com piedade, e disse:

— É uma noite horrível, homem.

— Para mim é, general.

— Advinha o que escrevi?

— Uma coisa que vale a pena ler, com certeza. Talvez seja vaidade minha, mas atrevo-me a supor que meu nome está ali mencionado.

— Sim; a nota para uma ordem que vai ser lida às tropas sobra sua execução. Também uma instruções para guiar o comissário no arranjo dos pormenores desse ato.

— Espero, general, que o espetáculo será inteligentemente preparado, porque vou assisti-lo pessoalmente.

— O sr. não tem qualquer último pedido a fazer? Quer que chame um capelão, por exemplo?

— Não vejo como posso obter um descanso mais longo, privando dele os demais.

— Meu Deus, quer dizer que vai morrer só com pilherias nos lábios? Não sabe que a morte é coisa séria, homem?

— Como saber disso, se nunca morri na minha vida? Tenho ouvido falar que a morte é coisa séria mas nunca de quem já a experimentou...

O general ficou calado um momento. Este homem interessava-o, divertia-o até... um tipo jamais por ele observado.

— A morte, — disse ele — é ao menos, uma perda desta felicidade que temos, e de oportunidades para mais.

— Uma perda da qual nunca seremos conscientes pode ser suportada com calma, e portanto esperada sem pressentimento. O general deve ter observado, entre todos os mortos (que pelo seu caminho é hábito semear), que nenhum mostra sinais do arrependimento.

— Mas se a condição dos mortos não é pesarosa, em se ficando assim, o ato de morrer parece bastante desagradável para quem ainda não perdeu a faculdade de sentir.

— A dor é desagradável, não há dúvida. Nunca a sofro sem certo desconforto, mas quem vive mais tempo, mais se expõe a estas inconveniências. O que se chama morrer é simplesmente a última dor... Não existe realmente tal coisa "morrer". Suponhamos, por exemplo, que eu tentasse fugir. O general ergue o revólver tão prudentemente escondido sobre os joelhos, e...

O general corou que nem uma moça honesta, depois riu suavemente, revelando dentes muito brancos. Fez um leve aceno da cabeça e nada disse.

O espião continuou.

O general atira, e tenho dentro do estômago o que não engoli. Caio, mas não estou morto. Depois de meia hora de agonia, então sim. Mas a qualquer dado momento dessa meia hora, eu estaria ou vivo ou morto. Não há período transitório.

— Quando for fuzilado amanhã cedo, será a mesma coisa. Enquanto consciente, estarei vivo, quando morto, inconsciente. O destino parece ter arranjado o caso perfeitamente nos meus interesses — à maneira por que eu mesmo lhe teria ordenado. É tão simples, acrescentou ele sorrindo, que quase não vale a pena ser fuzilado...

Terminadas estas observações, houve um longo silêncio. O general sentado, impassível, olhava o rosto do espião, mas, na aparência, desatentamente. Era como se os seus olhos montassem guarda sobre o prisioneiro, enquanto o pensamento ocupava de outras coisas.

Em pouco, soltou um largo suspiro, e exclamou quase imperceptível:

— A morte deve ser horrível...

Assim falou este homem da morte.

— Era horrível aos nossos antepassados, disse o espião, gravemente, porque não tinham inteligência suficiente para separar a ideia do consciente da ideia das formas físicas por que é manifestado. Como uma ordem inferior de inteligência, a do macaco, por exemplo, que seria incapaz de imaginar uma casa sem moradores, e vendo uma cabana arruinada, imagina um habitante sofrendo. Para nós, é horrível porque herdamos a tendência de pensar assim, explicando a noção pelas teorias mais extravagantes e fantásticas de um outro mundo — da mesma maneira que os nomes de lugares dão origem às lendas, explicando-os. O comportamento desarrazoado se justifica por filosofias. O general pode enforcar-me, mas ali o seu poder termina... não me pode condenar ao céu.

O general parecia não ter ouvido. A conversa do espião tinha simplesmente levado seus pensamentos a uma direção diferente daquela em que chegavam as conclusões, independentes de sua vontade.

A tempestade tinha passado, e alguma coisa do espírito solene da noite infiltrou-se em suas reflexões, dando-lhe uma cor sombria de temor sobrenatural com talvez um elemento de presciência.

— Eu é que não queria morrer, disse ele, ao menos numa noite destas.

Foi interrompido pela entrada dum oficial do seu estado maior, capitão Hasterlinck, preboste-marechal. Voltou a si; o olhar distraído desapareceu de sua fisionomia.

— Capitão, disse ele, respondendo à continência do oficial, — este homem é o espião que foi capturado dentro das nossas fileiras com documentos comprometedores. Ele já confessou. Como está o tempo?

— A tempestade já passou e a lua está resplandecente.

— Bem. Leva uma fila de homens e conduze o prisioneiro ao campo para ser fuzilado...

Um grito de angústia escapou dos lábios do espião...

Atirou-se para a frente, esticou o pescoço, abriu bem os olhos, e crispou as mãos.

— Meu Deus! gritou roucamente, quase inarticuladamente. — O general enganou-se por certo: esquece de que não devo morrer até amanhã.

— Não falei nada de amanhã, respondeu o general friamente. Isso era presunção sua. Vai morrer agora.

— Mas general... peço... imploro que se lembre de uma coisa; — devo ser enforcado. Levará algum tempo para erigir o cadafalso... duas... uma hora. Todo espião é enforcado. Tenho direito sob a lei militar. Pelo amor dos seus, general, considere como é pouco...

— Capitão, cumpra com as minhas ordens.

O oficial puxou da espada e com os olhos cravados no prisioneiro, apontou silenciosamente para a abertura da tenda. O prisioneiro hesitava. O oficial, então, agarrou-o pelo colarinho e empurrou-o delicadamente para diante. Ao aproximar-se do mastro da tenda, o homem, frenético, deu um pulo e com agilidade felina, pegou no cabo do facão, arrancou-o da bainha, jogou o capitão de lado, e com a fúria de louco, pulou sobre o general, atirando-o ao chão, e caindo-lhe em cima. A mesa tinha virado, a vela apagou-se e os dois lutavam cegamente na escuridão. O preboste-marechal precipitou-se em auxílio do seu superior e lançou-se sobre as formas que se debatiam.

Blasfêmias e gritos inarticulados de dor saíram daquela charfurdia de membros e corpos; a tenda caiu sobre eles e, debaixo das dobras embaraçosas, a luta continuava. Cabo Tassman, voltando do seu recado e vagamente conjecturando a situação, jogou no chão a carabina e pegou na lona movediça, ao acaso, numa tentativa baldada de descobrir os homens embaixo, e o sentinela descarregou a carabina.

O tiro alarmou o acampamento. Os tambores rufavam e as cornetas tocaram, trazendo enxames de homens semivestidos ao luar, outros, vestindo-se e correndo, entravam em linha ao comando dos oficias.

Estava bem isso; assim os homens estavam organizados. Ficaram em posição de sentido, enquanto o estado maior do general e os homens da sua escolta, estabeleceram ordem na confusão. Ergueram a tenda caída e separaram os protagonistas esfalfados e sangrentos daquela estranha contenda.

Esfalfado, deveras, foi um — o capitão, que estava morto. O cabo do facão projetara-se-lhe na goela, e tinha sido tio fortemente empurrado que a sua extremidade ficou encravada debaixo do queixo, e a mão que desferira esse golpe, não conseguira remover a arma. Na mão do morto estava sua espada, agarrada com firmeza tal que desafiava a força dos vivos para soltá-las. A lâmina estava raiada de sangue até o cabo.

Posto em pé, o general caiu para traz sobre o chão, gemendo e ali desmaiou. Além de pisaduras, tinha dois golpes de espada — um na coxa, outro no ombro.
Quem sofreu menor dano foi o espião. Embora tivesse o braço quebrado, as feridas eram o que poderia ter resultado de um combate com armas naturais.
Estava tonto e mal compreendia o que tinha acontecido.

Encolheu-se aos que o atendiam; agachou-se no chão e articulava protestos incoerentes.

Apesar do rosto estar inchado pelos golpes e manchado pelas gotas de sangue, mostrava-se, sob os cabelos em desalinho, tão branco, como cadáver.

— Este homem não é louco, disse o cirurgião que preparava faixas, em resposta a uma pergunta, está sofrendo do susto. Quem é e donde vem?

O cabo Tassman começou explicar. Era a maior oportunidade de sua vida. Nada foi omitido que pudesse realçar o seu papel nos acontecimentos da noite. Quando acabou de contar, estava pronto a começar outra vez, ninguém lhe prestava mais atenção.

O general tinha já recuperado os sentidos. Ergueu-se sobre um ombro, olhou em redor e vendo o espião agachado ao lado do fogo do acampamento, escoltado, disse simplesmente:

— Levem este homem para o campo para ser fuzilado.

— O general delira, disse um oficial perto.

— Ele não delira, disse o ajudante de ordens. Tenho uma nota que me deu sobre o caso. Tinha dado a mesma ordem ao Hasterlinck — apontando para o preboste morto, e por Deus, essa ordem será cumprida.

Dez minutos mais tarde, sargento Parker Adderson do exército federal, filósofo e espirituoso, ajoelhando-se ao luar e implorando incoerentemente pela vida, foi fuzilado por vinte homens.

Enquanto a selva ecoava no ambiente frio de meia noite, o general Clavering, prostrado, branco e quieto, no ardor do fogo vermelho do acampamento, abria os grandes olhos azuis e, contemplando com agrado os que estavam em redor, dizia:
— Como tudo é silencioso!

O cirurgião olhou para o ajudante de ordens. Era um olhar grave e significante. Os olhos do paciente fechavam-se vagarosamente, e assim ficava durante uns minutos. Então, com um sorriso de infinita doçura nos lábios, disse fracamente:
— Suponho que isto deve ser a Morte.

E passou ao Além...
Ambrose Bierce

Antes de virar gigante

No tempo d'eu menina
os corredores eram longos
as mesas altas
as camas enormes.
A colher não cabia
na minha boca
e a tigela de sopa
era sempre mais funda
do que a fome.
No tempo d'eu menina
só gigantes moravam
lá em casa.
Menos meu irmão e eu
que éramos gente grande
vinda de Lilliput.
Marina Colasanti

O holandês que cortava pepinos

A última coisa que se soube sobre o Holandês é que ele era nascido na Albânia e tinha passaporte britânico. Era um homem muito alto, gordo, com uma grande cara vermelha e gaiata; gostava de tomar cerveja consumindo toda sorte de peixes em conserva, frios, do Báltico. E frequentava um bar que havia em Tânger chamado Consulado — um bar cujo nome permitia a cônsules e auxiliares de qualquer país telefonar para casa a qualquer hora dizendo honradamente que estavam no Consulado.


O Holandês não era cônsul, era homem de negócios — não de um grande negócio, mas de muitos pequenos negócios, por exemplo: sócio de um varejo de cigarros e de dois táxis de turismo, intermediário correto na venda de alguns artigos de contrabando, representante de uma companhia de navegação cujos navios nunca vinham a Tânger, mas aceitavam transbordo de mercadorias para alguns portos do Mar do Norte; organizador de banquetes e coquetéis; entendia um pouco de tudo, inclusive de moedas e selos raros; tinha uma pequena mulher de cabelos brancos azulados, sempre de calças compridas, sorridente, de olhos azuis, com uns restos de beleza; fumava cachimbo; às vezes lhe vinham ideias. Aquela ideia lhe veio na madrugada de quinta para sexta-feira, duas semanas depois da Semana Santa, quando alguém da roda se queixou de que não conseguira transporte nem alojamento para assistir à Feira de Sevilha... Mais duas ou três pessoas concordaram em que realmente o papel seria ir a Sevilha, e o Holandês perguntou: — Vocês querem ir a Sevilha?

Fez um gesto com a imensa mão mandando que esperassem, foi ao telefone, demorou dez minutos, puxou um lápis do bolso, fez uns cálculos em um guardanapo de papel e anunciou que a 45 dólares por cabeça levaria oito pessoas a Sevilha para os dois últimos dias da Feira — sábado e domingo — incluindo transporte, alojamento, breakfast. Depois, com a maior naturalidade, tirou do bolso uma tábua de marés, estudou-a e disse: “Saímos sexta às 10:45 da noite, podemos estar de volta segunda-feira antes das duas da tarde.”

Quase ninguém ali trabalhava aos sábados; era matar apenas o primeiro expediente da segunda-feira. Na hora marcada todos embarcavam alegremente em um pequeno iate, menos a mulher do Holandês. Menos, quer dizer: ela embarcava, mas não alegremente; pelo contrário, chorava sem cessar, fazia "não" com a cabeça e puxava pelo paletó o seu grande marido que se curvava para ouvir recriminações ditas em segredo e depois piscava um olho para os outros, como quem diz: coisa de mulher. E bebia mais uma cerveja.

Atravessaram o estreito de Gibraltar em direção a Tarifa, foram bordejando a costa espanhola. Ao amanhecer, o Holandês apontou, à direita, Trafalgar e falou das relações do Almirante Nelson com os judeus de Tanger; na barra do rio que leva a Sevilha explicou que Guadalquivir vem do árabe “Ued-El-Kabir”, Rio Grande; sabia tudo, o Holandês, inclusive, como se viu depois, a origem das "casetas" da feira e a história dos negros touros miúras; só não sabia que, apesar de haver bem calculado a maré, seria impossível na volta, segunda-feira pela manhã, transpor a barra do rio de retorno ao Atlântico, isto porque duas lanchas da polícia rodearam o iate e uma delas acabou se atravessando em seu caminho, e obrigou-o a parar. Os homens que subiram a bordo declararam que o Holandês estava preso e o iate provisoriamente apreendido. O embaixador brasileiro no reino de Marrocos e o seu cônsul em Tânger discutiram a situação; conseguiram liberar o iate depois de provar que ele não pertencia ao Holandês, nem este era seu verdadeiro capitão, mas sim um amarfanhado marinheiro velho e louro que mostrou seus documentos. O cônsul ainda foi a terra ver se soltava o Holandês, mas desanimou diante de um telegrama da Interpol. A mulherzinha desmaiou; fez-se vir um médico de terra que a reanimou e levou de volta fumo de cachimbo para o prisioneiro. “Eu bem sabia, eu bem dizia”, dizia ela, “ele é louco”; e chorava mais.

Todos ficaram consternados: a) porque com a baixa maré só iriam chegar a Tânger à noite; b) porque o Holandês era boa-praça, tanto que fizera questão de oferecer uma ceia aquela madrugada, que ele mesmo preparava — “eu o vi cortar pepinos (disse a mulher de um vice-cônsul), com que cuidado ele cortava os pepinos, o pobre homem!”

Bem, naturalmente não fora por ele cortar mal pepinos que a Interpol o prendera, e sim por algum outro motivo, que não se soube. Tudo o que se soube, como eu já disse, foi que ele era nascido na Albânia e tinha passaporte britânico, o bom Holandês.
Rubem Braga, "Recado de Primavera"

Aquele quadro

Afastou o livro, pensou que os versos de Pound podiam ficar para depois, e resolveu gozar uma noite em que nada se devia esperar de sua parte. Uma noite de abril, o céu ainda claro. Aquela sala era calma, geralmente calmante e, assim como os três outros cômodos do apartamento, guardava trinta anos de memórias. Salas onde se viveu muito tempo acabam parecendo praias sujas: difícil saber de onde veio este ou aquele caco.

Ela sabia exatamente de onde provinha cada tralha teatral: de que peça ou de que ator. Mas no parapeito da janela havia uma tigela cheia de pedrinhas coloridas que havia apanhado às portas de uma cidade na Provença, onde fora passear com os dois filhos, então com doze e treze anos. Como era o nome daquela cidade? Visitara a mesma região diversas vezes, e sempre colhera pedras para trazer para casa. Cordões de contas em todos os tons de vermelho presos em forma de leque numa prancha que ocupava boa parte de uma parede. Por que guardava aquilo? Pilhas de livros sobre teatro subiam junto às paredes: fazia anos que não abria alguns deles. E também o poster do Mardi Gras. Estava ali, olhando para ela, havia décadas, aquele jovem arrogante, sexy, com a roupa de losangos vermelhos e pretos e aquele ar de não me toques. Parecia-se com seu filho — bem, quer dizer, há muito tempo. George era agora um cientista quase de meia-idade.

Atualmente, quando de fato olhava a reprodução (afinal, não olhamos muito para as coisas que temos nas paredes), seus olhos examinavam o outro jovem do quadro, inseguro, com seus pensativos olhos escuros, na roupa folgada de Pierrô. Sua filha, aos quinze anos, havia pedido uma fantasia de Pierrô, e ela, mãe de Cathie, entendera que era uma espécie de afirmação. Sou como ele. Preciso de um disfarce. Queria não ser insegura, mas sim como o Arlequim, que sabe que é lindo. Cathie agora não tinha nada de insegura, uma bem-sucedida matrona, com filhos, emprego e um marido satisfatório.

Sarah sabia que via aquele quadro como retrato de seus próprios filhos. Por que o mantinha ali? Muitas vezes, os pais sentem um carinho secreto por fotos de suas crias que já não têm nada a ver com a idade delas, e elas nem sempre são crianças atraentemente desamparadas.

Tinha de se livrar de toda aquela tralha… então, de repente, sentou-se ereta na cadeira, depois se levantou e começou a caminhar pela sala. Não era a primeira vez que lhe vinha a ideia. Anos antes, olhara em torno daquela sala, cheia de coisas que acabaram indo parar ali por uma razão ou outra, e pensara: Tenho de me livrar disso tudo.

O poster estava ali porque sua filha, Cathie, o trouxera para casa. Não tinha nada a ver com ela, Sarah. O que podia chamar de seu? Os livros, os livros de referência: instrumentos de trabalho. E o resto da casa? Uma prolongada ronda, na época, repetida agora, a fizera repassar pratos com conchas apanhadas pelas crianças décadas antes, um armário que ainda guardava as roupas velhas delas, cartões-postais presos com percevejos num quadro de cortiça, enviados por pessoas em férias. Suas roupas? Podia afirmar que eram suas porque as tinha escolhido? Até que sim, mas haviam sido ditadas pela moda.

Naquela noite, anos antes, tinha chegado à inquietante conclusão de que muito pouco daqueles quatro grandes cômodos se achava ali por uma ponderada escolha sua. Escolha daquela parte de si própria que considerava como sendo ela mesma. Não, e decidira vasculhar as salas e jogar tudo fora… bom, quase tudo: ali estava uma coisa que ficaria, mesmo que todo o resto fosse para a lata de lixo. Era uma fotografia de verdade, que se levava a sério. Um homem agradável, um tanto preocupado talvez, ou cansado? — uma rede de finas rugas em torno de olhos azuis francos e camaradas, fios brancos entre os cabelos louros (cuja maciez de seda ainda podia sentir nos dedos), provavelmente um primeiro sinal do ataque do coração que o mataria tão jovem, aos quarenta anos. Sentado com os braços em torno de duas crianças, um menino e uma menina, de oito e nove anos. Os três sorrindo para Sarah. A foto estava numa moldura de prata, art déco, não do gosto de Sarah, mas que lhe tinha sido dada pelo marido, que a ganhara da mãe. Será que devia jogar fora a moldura, já que nunca gostara dela?

Por que não tinha feito uma faxina completa? Porque havia estado ocupada demais. Alguma peça nova no teatro, provavelmente. Trabalhava tanto, sempre.

Sarah parou diante de um espelho. Viu uma mulher bonita, aparentando meia-idade, com um bom corpo. Os cabelos, sempre presos por questão de conveniência — não podia se dar ao trabalho de ir a cabeleireiros —, eram descritos no passaporte como louros, mas eram, antes, de um amarelo sem graça, como latão sem polir. Com toda a certeza ela já devia ter pelo menos um ou outro fio branco. Mas essa tonalidade quase nunca fica grisalha, nem branca, pelo menos até a velhice propriamente dita. Enquanto jovens, aqueles que têm os cabelos dessa cor almejam tonalidades mais vivas e podem tingi-los. Quando mais velhos, agradecidos, deixam-nos em paz e são acusados de tingi-los. Ela quase nunca se olhava no espelho: não se preocupava com a aparência. Por que deveria? Consideravam-na sempre vinte anos mais nova que sua idade real. Num outro espelho, além da porta aberta de seu quarto, parecia ainda mais nova.

Torcendo o corpo conseguia ver-se refletida nele. Tinha as costas eretas e era cheia de vitalidade. O osteopata com quem se tratara por causa de dores nas costas (que agora pareciam voltar a se manifestar) perguntara se havia sido bailarina. Os dois espelhos estavam ali porque décadas antes seu marido dissera: “Sarah, essas salas são muito escuras. Não dá para deixá-las mais claras?”. As paredes foram então pintadas de um branco brilhante, mas tinham esmaecido, e as cortinas que haviam sido brancas eram agora cor-de-creme escuro. Quando o sol entrava, o quarto se enchia de luz, sombra, reflexos em movimento, um espaço de sugestões e possibilidades. Sem sol, os espelhos mostravam a mobília pairando numa luz imóvel como água. Uma luz perolada. Repousante. Gostava desses cômodos, não podia imaginar nada pior do que ter de deixá-los. Podiam ser criticados por estarem em mau estado. Era o que seu irmão dizia, mas ela achava a casa dele chique e horrenda. Fazia anos que nada mudava ali. As salas se fundiam suavemente em aceitação: do fato de ela estar sempre tão ocupada e, no fundo, não muito interessada, e do modo como os anos se acumulavam, deixando depositados sedimentos, livros e fotografias, cartões-postais e coisas do teatro.

Aquele lixo todo tinha de ser jogado fora… Ali na parede de seu quarto havia um grupo de fotos. Algumas eram de sua avó e seu avô na Índia, posadas e formais, cumprindo seu dever, às quais havia acrescentado um recorte de revista, com uma moça vestida de acordo com a moda do ano em que Sarah Anstruther partira para se casar com o noivo, que ia muito bem no Serviço Civil Indiano. Essa moça não era a avó de Sarah Durham, mas todas as fotos que Sarah guardava dessa mulher que jamais conhecera mostravam uma jovem matrona encarando o mundo com competência, e a desconhecida tímida e medrosa era — Sarah Durham tinha quase certeza — muito mais relevante. Uma moça de dezoito anos, viajando para um país de que nada sabia, onde iria se casar com um jovem que mal conhecia, para tornar-se uma memsahib… bastante comum, naquela época, mas que coragem.

A vida de Sarah Durham não havia tido nenhuma escolha tão dramática. Uma biografia reduzida, do tipo que se lê nas orelhas dos livros ou em notas de programas teatrais, diria assim:

Sarah Durham nasceu em 1924 em Colchester. Dois filhos. O irmão estudou medicina. Frequentou algumas escolas bastante conceituadas para moças. Na universidade estudou francês e italiano, depois passou um ano na Universidade de Montpellier estudando música, morando com uma tia casada com um francês.

Durante a guerra, foi motorista para o movimento França Livre, em Londres. Em 1946, casou-se com Alan Durham e tiveram dois filhos. Ele faleceu, deixando-a viúva aos trinta e poucos anos. Ela continuou vivendo em Londres, com os filhos.

Uma mulher calma e razoável… verdade que a morte de Alan a havia lançado na infelicidade por algum tempo, mas isso acabara passando. Era assim que via as coisas agora, sabendo que estava escolhendo não lembrar a miséria daquela época. Hipócrita memória… gentil memória que lhe permitia evocar uma vida tranquila.

Voltou à sala de trabalho e leu outra vez aquela passagem exemplar do livro, aquela que começava com “Envelhecer com graça…”. O trecho concluía um capítulo e o seguinte começava assim: “Aquilo de que mais gostei em minha viagem à Índia foram as manhãs, antes de o calor piorar e termos de ficar dentro de casa. Quando afinal resolvi não me casar com Rupert, tenho hoje certeza de que era o calor e não a ele que recusava. Não o amava, mas não sabia disso então. Ainda não havia aprendido o que era amar”.

Pela terceira vez, leu “Envelhecer com graça…” até o fim do capítulo. É, aquilo servia bem. Aos sessenta e cinco anos, via-se dizendo a amigos mais jovens que envelhecer não era nada, bastante agradável até, pois, ainda que se perca uma coisa ou outra, outros prazeres dos quais os jovens nem suspeitam acabam surgindo, e nos surpreendemos muitas vezes nos perguntando qual será a próxima surpresa. Dizia essas coisas de boa-fé, e, quando observava os torvelinhos emocionais de quem era até uma só década mais jovem do que ela, permitia-se ficar arrepiada diante da ideia de passar por tudo aquilo de novo — fórmula que incluía o amor. Quanto a amar, ocorreu-lhe que fazia vinte anos que se apaixonara pela última vez, ela que se apaixonava com tanta facilidade e — tinha de admitir — até com certa avidez. Não conseguia acreditar que pudesse amar de novo. Também isso ela dizia com complacência, esquecendo a dura lei segundo a qual acabamos passando por aquilo que desprezamos.

Não ia sentar-se e trabalhar… ocorreu-lhe que uma das razões para aquele exagerado não a mais uma noite trabalhando naquilo que fazia o dia inteiro era seu — sim, não havia outra palavra — medo daquela música. Aqueles lamentos de outros tempos eram como uma droga. Será que o jazz realmente a dominara como a Condessa Dié e Bernard, Pierre e Giraut? E aquela mulher que agora a ocupava — Julie Vairon, cuja música jazia ali naquelas pilhas amarelecidas sobre a mesa? Não, ela desconfiava da música. Estava em boa companhia, afinal; muitos dos grandes e sábios consideravam a música um amigo dúbio. Sempre escutara música com um certo espírito de: você não vai me dominar, nem pense nisso!

Não: nada de trabalho e nada de música. Estava tão inquieta que podia… subir uma montanha, andar vinte quilômetros. Sarah descobriu que estava arrumando a sala, que sem dúvida precisava de arrumação. Podia aproveitar e passar o aspirador… por que não nos quatro cômodos? Na cozinha. No banheiro. Por volta da meia-noite, o apartamento era um modelo de perfeição. Qualquer um pensaria que aquela mulher se orgulhava de suas virtudes de dona de casa. Em vez disso, tinha uma faxineira que vinha uma vez por semana, e só.

Com toda a certeza não estava nervosa por ter de se encontrar — como teria de fazer amanhã — com Stephen Ellington-Smith, chamado de brincadeira na companhia de Nosso Anjo. Não se lembrava de ter jamais ficado nervosa com esse tipo de encontro. Afinal, era sua função encontrar-se com patrocinadores, benfeitores e anjos e abrandá-los, era o que fazia o tempo todo.
Doris Lessing, "Amor, de novo"