segunda-feira, julho 6

Guardião

 


Canção Dolente

Salgueiros trêmulos, belos!
meus camaradas tão bons!
vós sois como violoncelos
onde o vento acorda sons…

Melodia dos destinos!
voz do tempo! voz plangente!
Ah! na saudade dos sinos,
canta a saudade da gente…

Corujas de vida obscura!
a vossa sorte me diz
que a verdadeira ventura
é não tentar ser feliz…

Álvaro Moreyra

Luz e emoção

De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro da roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.

- Deus te abençoe, pequenino. Como é o teu nome?

- Miguilim. Eu sou irmão do Dito.

- E o seu irmão Dito é dono daqui?

- Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.

O homem esbarrava o avanço do cavalo, que ere zelado, manteúdo, formoso como nenhuma outro. Redizia:

- Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda... Mas, que é que há, Miguilim?

Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.

- Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em sua casa?

- É Mãe, e os meninos...

Estava Mãe, estava Tio Terêz, estavam todos. O Senhor alto e claro se apeou. O outro que vinha com ele era uma camarada. O senhor perguntava a Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: __ “Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?”

Miguilim espremia os olhos. Drelina e a Chica riam. Tomezinho tinha ido se esconder.

- Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...

E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.

- Olha, agora!

Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo... O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava o que tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompassado, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, a Mãitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: -- “Miguilim, você é piticego...” E ele respondeu: -- “Donazinha”...

Quando voltou, o doutor José Lourenço já tinha ido embora.

“Você está triste, Miguilim?” __ Mãe perguntou.

Miguilim não sabia. Todos eram maiores do que ele, as coisas reviravam sempre dum modo tão diferente, eram grandes demais.

- Pra onde ele foi?

- A foi pra a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas amanhã ele volta, de manhã, antes de ir s’embora para a cidade. Disse que, você, querendo, Miguilim, ele junto te leva... -- O doutor era homem muito bom, levava o Miguilim, lá ele comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola, depois aprendia ofício. -- “Você mesmo quer ir?”

Miguilim não sabia. Fazia peso para não soluçar. Sua alma, até ao fundo, se esfriava. Mas Mãe disse:

Vai meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai. Fim do ano, a gente puder faz a viagem também. Um dia todos se encontram...
João Guimarães Rosa, "Corpo e alma. Manuelzão e Miguilim"

O lampião da Rua do Fogo

Ali, naquele velho canto onde a Rua de Joaquim Rodrigues faz um recanteio, morava Seu Maia, casado com Dona Placidina, numa casa de beirais, janelas virgens da profanação das tintas, porta da rua e porta do meio. Portão do quintal, abrindo no velho cais do Rio Vermelho. Isso, há muito tempo, antes da rua passar a 13 de Maio e da casa ser fantasiada de platibanda.

Seu Maia era muito conhecido em Goiás e era porteiro da Intendência. Boa pessoa. Serviçal, amigo de todo mundo e companheirão de boas farras. Gostava de uma pinguinha em doses dobradas, dessas antigas que pegavam fogo. Então, se misturava vinho, conhaque e aniseta; só voltava para casa carregado pelos companheiros, que o entregavam aos cuidados da mulher.

Esta, acostumada, embora com a sina ruim, como dizia, não poupava a descalçadeira quando recebia o marido naquele fogo, arrastando a língua, de pernas moles, isto quando não virava valente, quebrando pratos e panelas e disposto a lhe chegar a peia.

Dona Placidina era muito prática, nessas e noutras coisas… Ajeitava logo um café amargo, misturado com frutinhas de jurubeba torrada, que o marido engolia careteando e o empurrava para a rede, onde roncava até pela manhã ou se agitava e falava a noite inteira.

— Coitada de Dona Placidina, comentavam as amigas. Seu Maia é um santo homem sem esse diabo da pinga.

E ensinavam remédios, simpatias, responsos, rezas fortes. Simpatia que dera certo em outros casos, era nada para ele. Remédios? Inofensivos como a água do pote. Os próprios santos se faziam desentendidos dos responsos, velas acesas e jaculatórias recitadas.

Dona Placidina, cansada daquele marido incorrigível, acabou botando o coração ao largo, embora achasse, no íntimo, que melhor seria uma boa hora de morte para ela… ou antes, para o marido, esta parte no subconsciente.

Naquele dia, como a dose da boa fosse mais pesada, Seu Maia, que já vinha se ressentindo do fígado com passamentos e vista escura, se achou pior.

Os amigos o trouxeram para casa mais cedo. Tiveram mesmo de o levar para a cama e o meter entre as cobertas. De nada valeu a chazada caseira.

No dia seguinte, chamaram Seu Foggia que diagnosticou empanchamento e doença do coração. Receitou um purgativo e uma poção. Seu Maia piorou. Dona Placidina se desdobrou em cuidados especiais. Esqueceu o defeito do marido, as desavenças, os pratos quebrados e passou a sentir, antecipadamente, os percalços da viuvez.

Os amigos não arredaram. Faz-se a conferência médica das vizinhas prestativas. Escalda-pés, benzimentos, sinapismo, nada deu jeito. Nem valeu promessa de muito boa cera ao senhor São Sebastião. Seu Maia morreu.

Os companheiros tomaram conta do morto. Levaram o corpo. Vestiram-lhe o fato preto de sarjão, que tinha sido do casamento. Calçaram meias, ajuntaram-lhe as mãos no peito. Pearam as pernas e passaram um lenção branco, bem apertado, no queixo. Chamaram um canapé, largo de palhinha, para o meio da sala, deitaram o cadáver, cobriram com um lençol. Cuidou-se do pucarinho de água benta, com seu ramo de alecrim. Acenderam-se as quatro velas e, nos pés do morto, botou-se um caco de telha com brasa e grãos de incenso. Era assim que se arrumava defunto em Goiás, antigamente.

Os amigos foram chegando, tomando posição e começou o velório. Dona Placidina, entregue aos cuidados das amigas, mal escapava de uma vertigem, caía noutra. Afinal, à força de chás de arruda, de casca de tomba e de Água Florida de Murray, voltou a si e, como era decidida e de espírito prático, botou de parte o abatimento e passou a cuidar do pessoal que fazia sentinela.

Café com biscoito pelas 10 horas. Mais tarde, mexido de lombo de porco e ovos fritos com farofa, comido na cozinha, e requentão quando a noite esfriou mais e os galos passaram amiudar.

Entre a diligência caseira e suspiros puxados, a viúva, de vez em quando, levantava a ponta do lençol que cobria o marido e enxugava umas lágrimas hipotéticas. “Bom marido”, lastimava e, lá consigo, “não fosse a pinga, era a falta que tinha…”

No dia seguinte, veio o caixão com tampa solta, como de costume. Agasalharam ali o defunto. Chegaram mais amigos e mais comadres. Dona Placidina louvava as virtudes conjugais do finado, em crises nervosas de choro seco — sem lágrimas, o choro mais difícil que existe.

A cada visita que chegava, com seu carinhoso abraço e formalíssimos “meus pêsames”; havia uma exaltação no choro ressecado da viúva.

Pelas duas horas, começou a fazer vento de chuva e um trovão surdo se ouviu ao lado da Santa Bárbara. Como o caixão teria mesmo de ser carregado na força dos braços, os amigos resolveram apressar o saimento, antes que o tempo enfarruscado se decidisse em água. Vento da Santa Bárbara é chuva certa no São Miguel. E enterro debaixo de chuva era a coisa mais estragada que podia acontecer em Goiás.

Dona Placidina se debruçou em cima do morto. Não queria deixar sair Seu Maia, coitado… As amigas com chazadas de alecrim. Os amigos tomaram conta das alçadas e ganharam a rua. Entraram na outra, que era Direita, naquele tempo. Passaram a ponte da Lapa, subiram e entraram no Rosário para encomendação do corpo.

Os sinos das igrejas, todas, dobrando a lamentação de finados. Pela intenção do morto, cada amigo mandava dar um sinal nas igrejas, quanto quisesse. Ainda que os sinos tocam como a gente quer, alegres ou soturnos.

Os sineiros sempre tiveram esmero especial para anjinho ou defunto. Essas duas palavras, em Goiás, delimitavam as circunstâncias da idade, sem mais explicações. Anjinho era criança mesma ou moça virgem e, defunto, gente pecadora.

Ia o cortejo subindo e os homens se revezando nas alças, que o morto estava pesado. Com a doença curta, nem tivera tempo de emagrecer. Iam depressa, que a chuva já tinha posto uma carapuça branca no cocuruto do Canta Galo.

Na frente, um popular, afeito àquele préstimo, carregava a tampa que só ia ser colocada na beira da cova. Outros levavam os dois tamboretes, tradicionais, para o descanso do ataúde, quando se trocavam os que iam carregando. Os músicos, de fardão escuro, tocavam um funeral muito triste. Sendo de notar que não havia enterro em Goiás sem acompanhamento de música, somente os muito pobrezinhos. Na rabeira, a molecada da rua. Queriam ver o caixão descer no buraco, se divertiam com aquilo.

Na esquina da Rua do Fogo com a Rua da Abadia, existiu, durante muito tempo, um poste de lampião antigo, saliente, fora de linha, puxando mesmo para o meio da rua. Era um tropeço. Coisa embaraçosa. Não foram poucos os esbarros, cabeçadas, encontrões verificados ali.

Enterros que subiam, já de longe, começavam a torcer à direita para se desviar do lampião, que não tinha outra consequência senão atrapalhar. Naquele dia, com a aflição da chuva que vinha perto e com o peso do caixão que era demais, ninguém se lembrou do poste. Foi quando o compadre Mendanha, que ia na alça dianteira pela esquerda, pisou de mau jeito num calhau roliço, falseou o pé, fraquejou a perna e… bumba! Lá se foi o caixão bater com toda força no lampião.

Com a violência do baque, o defunto abriu os olhos, desarrumou as mãos e fez força de levantar o corpo.

A essa hora, o pessoal do enterro tinha se desabalado, em doida carreira pela rua abaixo e largado o morto se soltando da laçada das pernas. O dia inda estava claro, não era hora de assombração. Alguns, mais esclarecidos, resolveram voltar e ver de perto o acontecido.

Encontraram Seu Maia de pé, muito amarelo, escorado no poste, com tremuras pelo corpo e olhando, com desânimo o caixão vazio. Reconheceram, então, que o mesmo estava vivo e que era preciso voltar com ele para casa. Guardaram o caixão inútil na igreja da Abadia e desceram a rua, amparando o ex-morto.

Todas as janelas, agora, com gente assombrada ante aquele caso novo na cidade. A meninada na frente, gritava:

— Evém o defunto…

De dentro das casas, os moradores corriam para as portas e só se ouvia:

— Vem ver, Maricota… vem ver, Joaninha. Óia o defunto que evém voltando…

Amparado pelos amigos, metido naquele sarjão preto, desusado, calçado só de meias, lenço na cara e muito devagarinho vinha Seu Maia de volta.

Um portador foi na frente avisar Dona Placidina, daquela ressurreição e conseqüente retorno, ao que ela só teve expressão sintomática:

— Seja pelo amor de Deus.

Seu Maia chegou afinal, entrou, recebendo um abraço de boas-vindas mais ou menos calorosas da mulher. Bebeu um cordial. Meteu-se na cama e de novo foram chamar Seu Foggia. Este veio. Examinou, apalpou, auscultou, pediu para ver a língua. Concluiu, com sabedoria, que tinha sido um ataque de catalepsia, muito parecido com a morte, mas que não era morte, não.

A providência tinha sido o lampião do meio da rua, senão teria sido mesmo enterrado vivo.

A cidade comentou o caso por muito tempo. Seu Maia foi entrevistado por todos os sensacionalistas da terra — gente insuportável daquele tempo. Muita língua desocupada levantou a suspeita de que vários fulanos e sicranos daquele tempo tivessem sido enterrados vivos e toda a gente ficou se pelando de catalepsia. Os letrados foram até o Chernoviz e Langard. Conferiram-se diploma no assunto e discorriam de doutor e com muita prosódia, sobre catalepsia ou morte aparente.

Enquanto os comentaristas faziam roda, o doente recuperava a saúde. Dona Placidina, muito prática como sempre, aproveitou o acontecimento para uma pequena homilia doméstica, complicada e cheia de boa dialética feminina, de que “aquilo fora aviso do céu e castigo de Deus…”

E já pelo choque emocional — vá lá que naquele tempo não havia destas coisas não — já pelo medo de novo ataque e de ser mesmo enterrado vivo, o certo é que o homem moderou a bebida.

Dona Placidina, no entanto, já havia, no seu foro íntimo, aceitado a idéia da viuvez e aquela volta inesperada do marido vivo não melhorou de muito os pontos de vista da ex-viúva.

Alguns meses depois, Seu Maia adoecia gravemente. Vieram os amigos da primeira viagem. Apareceram as clássicas e inefáveis comadres. Deram-se os remédios. Da botica e extrabotica. Foi bem purgado e lhe aplicaram ventosas e sinapismos. Nada serviu. Seu Maia morreu.

Seu Foggia então declarou que, por via das dúvidas, só levassem o morto quando começasse a feder. Fez-se de novo o velório com todas as regrinhas de costume. Café com biscoito pelas dez horas. Viradinho de feijão e lingüiça comidos, com voracidade e discrição na cozinha, e quentão forte de canela e gengibre, quando a noite esfriou e os galos amiudaram.

Contaram-se casos. Louvaram as virtudes do finado, num breve necrológio. Passaram a anedotas discretas. Falou-se da carestia da vida, dos erros do governo e se fez a filosofia da morte.

A viúva chorou, mais ou menos conformada com aquela segunda via. O compadre Mendanha tomou conta de trocar as velas que iam se consumindo, de regrar o pucarinho de água benta com seu raminho de alecrim.

No dia seguinte, quando perceberam que não mais haveria engano, os amigos ajuntaram as alças e levantaram o caixão.

Dona Placidina, muito experiente, despediu-se do morto em soluços alternados. Teimou com as amigas: dessa vez havia de acompanhar, ao menos até a porta.

O compadre Mendanha, muito metódico e apegado aos velhos hábitos de sempre pegar caixão pela alça da frente e da esquerda, tomou posição. Outros pegaram pelos lados, adiante saiu a tampa, carregada por um popular e os tamboretes indispensáveis, renteando o caixão aberto.

Espalhado pelas ruas, o acompanhamento, só de homens. Agrupada com seus instrumentos enlaçados de crepes, a banda do funeral. Arrumado o cortejo, Dona Placidina botou o corpo fora da porta e chamou alto:

— Compadre Mendanha… Escuta, compadre, cuidado com o lampião da Rua do Fogo, viu… Não vá acontecer como da outra vez.
Cora Coralina

domingo, julho 5

Atlético



Primavera ao correr da máquina

Os primeiros calores da nova estação, tão antigos como um primeiro sopro. E que me faz não poder deixar de sorrir. Sem me olhar ao espelho, é um sorriso que tem a idiotice dos anjos.

Muito antes de vir a nova estação já havia o prenúncio: inesperadamente uma tepidez de vento, as primeiras doçuras do ar. Impossível! impossível que essa doçura de ar não traga outras! diz o coração se quebrando.

Impossível, diz em eco a mornidão ainda tão mordente e fresca da primavera. Impossível que esse ar não traga o amor do mundo! repete o coração que parte sua secura crestada num sorriso. E nem sequer reconhece que já o trouxe, que aquilo é amor. Esse primeiro calor ainda fresco traz: tudo. Apenas isso, e indiviso: tudo.
E tudo é muito para um coração de repente enfraquecido que só suporta o menos, só pode querer o pouco e aos poucos. Sinto hoje, e também mordente, uma espécie de lembrança ainda vindoura do dia de hoje. E dizer que nunca, nunca dei isto que estou sentindo a ninguém e a nada. Dei a mim mesma? Só dei na medida em que a pungência do que é bom cabe dentro de nervos tão frágeis, de mortes tão suaves. Ah, como quero morrer. Nunca ainda experimentei morrer – que abertura de caminho tenho ainda à frente. Morrer terá a mesma pungência indivisível do bom. A quem darei a minha morte? que será como os primeiros calores frescos de uma nova estação. Ah, como a dor é mais suportável e compreensível que essa promessa de frígida e líquida alegria da primavera. É com tal pudor que espero morrer: a pungência do bom. Mas nunca morrer antes de realmente morrer: pois é tão bom prolongar essa promessa. Quero prolongá-la com tal finura. Eu me banho, nutro-me da vida melhor e mais fina, pois nada é bom demais para me preparar para o instante dessa nova estação. Quero os melhores óleos e perfumes, quero a vida da melhor espécie, quero as esperas as mais delicadas, quero as melhores carnes finas e também as pesadas para comer, quero a quebra de minha carne em espírito e do espírito se quebrando em carne, quero essas finas misturas – tudo o que secretamente me adestrará para aqueles primeiros momentos que virão. Iniciada, pressinto a mudança de estação. E desejo a vida mais cheia de um fruto enorme. Dentro desse fruto quem em mim se prepara, dentro desse fruto que é suculento, há lugar para a mais leve das insônias que é a minha sabedoria de bicho acordado: um véu de alerteza, esperta apenas o bastante para apenas pressentir. ah, pressentir é mais ameno do que o intolerável agudo do bom. E que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. E que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. Pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir. E não consigo, nesse adestramento contínuo, me apoderar do primeiro regozijo da vida.

Conseguirei captar o regozijo infinitamente doce de morrer? Ah, como me inquieta não conseguir viver o melhor, e assim poder enfim morrer o melhor. Como me inquieta que alguém possa não compreender que morrerei numa ida para uma tonta felicidade de primavera. Mas não apressarei de um instante a vinda dessa felicidade – pois esperá-la vivendo é a minha vigília de vestal. Dia e noite não deixo apagar-se a vela – para prolongá-la na melhor das esperas. Os primeiros calores da primavera. . mas isso é amor! A felicidade me deixa com um sorriso de filha. Estou toda bem penteada. Só que a espera quase já não cabe mais em mim. É tão bom que corro o risco de me ultrapassar, de vir a perder a minha primeira morte primaveril, e, no suor de tanta espera tépida, morrer antes. Por curiosidade, morrer antes: pois já quero saber como é a nova estação.

Mas vou esperar. Vou esperar comendo com delicadeza e recato e avidez controlada cada mínima migalha de tudo, quero tudo pois nada é bom demais para a minha morte que é a minha vida tão eterna que hoje mesmo ela já existe e já é.
Clarice Lispector, "A descoberta do mundo"

Soneto da chuva

Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.
Carlos de Oliveira

O tesouro

O barco aproximava-se da terra. A baía ia-se alargando e um recorte de espuma branca, que banhava os rochedos da margem, marcava o ponto em que o pequeno rio se lançava no mar. Uma linha de verde mais escuro indicava seu curso sinuoso, desde a encosta assaz distante.

A floresta chegava até a beira da praia. No horizonte, em vago contorno semelhante ao das nuvens, erguiam-se montanhas que, assim de longe, tinham o aspecto de ondas congeladas.

O mar era calmo: um marulho apenas perceptível. No céu estrelas rutilavam.

O barco parou. Um dos remadores disse, estendendo um braço:

— Deve ser por aqui perto.

O outro homem, sentado à proa, examinava atentamente a margem. Tinha sobre os joelhos uma folha de papel amarelecido pelo tempo.

— Venha ver isto, Evans respondeu ele afinal.

Falavam em voz baixa. O que se chamava Evans atravessou, cambaleando, o barco e por cima do ombro do seu companheiro olhou.

Sobre o papel estava grosseiramente traçada uma espécie de mapa com dizeres, que mal se podiam ler, e um desenho em que podia-se distinguir vagamente, a traço de lápis quase apagado, o desenho da baía.

Pousando um dedo sobre esse papel, Evans disse:

— Aqui, são os recifes de coral; além, a baía.

— É isso mesmo. E esta linha caprichosa é o rio. Se eu agora pudesse beber um pouco d’água seria capaz de um arranco… O lugar deve ser este aqui, marcado por uma cruz.

— Sim. E veja esta linha ponteada: vai da embocadura do rio direito a um bosque de palmeiras. A cruz está justamente no ponto em que a linha corta a corrente. Teremos de assinalar o local quando entrarmos no estuário.

— Mas— perguntou ainda Evans após um silêncio — que significam estes riscos? Dir-se-ia a planta de uma casa, de uma edificação qualquer. Também não compreendo o que podem significar estes tracinhos aqui dirigidos num e outro sentido. E estes rabiscos…

— Isso é escrita chinesa.

— Naturalmente, visto que ele era chinês.

— Eram todos.

Os dois homens ficaram imóveis durante alguns minutos, examinando com atenção a terra. O barco derivava lentamente.

— Bem; agora cabe a você remar — disse Evans.

Hooker dobrou o mapa, sem se apressar, meteu-o na algibeira, passou com precaução para o lugar de Evans e tomou os remos. Seus movimentos eram lânguidos, como os de um homem que está a cabo de forças.

O outro, sentado, fitava com os olhos semicerrados a espuma do recife de coral, que parecia aproximar-se. Embora estivessem quase a alcançar o tesouro não se sentia exaltado. A tensão nervosa necessária à luta em que se tinham apoderado do mapa e depois aquela longa viagem à noite, sem víveres, sem água… tudo isso tinha-o fatigado a tal ponto que ele se sentia agora incapaz de uma sensação nova. Tentou recobrar a energia concentrando sua imaginação sobre as luzentes barras de ouro de que os chineses haviam falado. Mas seu espírito recusava-se a reconstruir a visão, que o havia deslumbrado no primeiro momento, e o ruído monótono do mar dava-lhe uma sonolência irresistível.

E naquela semi-inconsciência reviu mais uma vez a noite em que Hooker surpreendera o segredo dos chineses.

Fora em uma clareira do pequeno bosque, uma clareira que a lua iluminava fortemente. Os três celestes estavam agachados em torno de uma pequena fogueira de modo que suas silhuetas apareciam vermelhas de um lado pelo fulgor das brasas e prateadas do outro pelo luar.

Hooker, que estivera por muito tempo em Shangai e compreendia melhor o chinês, fora o primeiro a perceber o sentido geral da palestra e fizera-lhe sinal para prestar ouvidos.

Então haviam compreendido que se tratava de um tesouro: um galeão espanhol vindo das Filipinas naufragara ali e sua tripulação enterrara no litoral o carregamento de ouro que trazia, com a esperança de vir buscá-lo mais tarde. Mas depois, buscando terra habitada em barcos pequenos, tinham morrido todos no mar, ou perdidos nas ilhotas áridas dos arredores. O tesouro ali ficara ignorado, durante dezenas de anos, até que um dos três chineses, Chan-Li, descobrira-o por acaso.

E era Chang-Li quem agora revelava o segredo a dois compatriotas para que juntos fossem buscá-lo em benefício de uma misteriosa empresa revolucionaria, insistindo em afirmar que o ouro estava em absoluta segurança porque seria impossível encontrá-lo sem o roteiro ou mapa, que traçara e ali tinha em seu poder: sem esse roteiro e sem sua presença.

Imaginem a impressão que poderia causar semelhante conversa, caindo em ouvido de dois ingleses sem recursos, que tinham deixado todos os escrúpulos em aventuras de todo o gênero pelo vasto mundo…

O sonho de Evans precipitou-se e ele viu-se no momento em que agarrara Chang-Li pelo rabicho. O chinês tentara resistir; depois vendo-se perdido, começara a vociferar ameaças terríveis, afirmando e jurando que mesmo depois de o terem massacrado de terem deitado mão ao itinerário não haviam de alcançar o ouro, pois morreriam antes disso!

Tolices! O idiota queria impressioná-los.

Um choque brusco despertou Evans. Tinham chegado à entrada do estuário e Hooker explicava:

— Ali estão as três palmeiras. O lugar dever ser na direção daquele arvoredo. É seguir em linha reta das palmeiras ao arvoredo e encontraremos o ouro no ponto em que essa linha corta o rio.

Porém, Evans mal ouvia. O tormento da sede tornara-se alucinante. Curvou-se sobre a borda da embarcação e apanhou a água, que cuspiu com fúria. Ainda era salgada.

— Vamos seguindo — rosnou ele em tom de súplica exasperada. — Enquanto não alcançarmos o rio, não conte comigo para coisa alguma. Estou morrendo de sede.

Hooker começou a remar, mas seus movimentos pareciam-lhe de uma morosidade intolerável. Tomou-lhe os remos e bracejou com fúria. Agora era Hooker quem se curvara à proa e, de instante a instante, provava a água, sacudindo a cabeça com desespero.

Quando, afinal, a água tonou-se boa, Hooker não teve tempo para pronunciar uma palavra. Apenas avisou ao amigo com um gesto e começou a beber com ânsia.

Depois, renovados de ânimo, procuraram um lugar onde desembarcassem mais próximos do grupo de palmeiras a fim de alcançar a linha ideal, que devia conduzi-los ao tesouro.

Saltaram. Levavam, para abrir caminho no mato, apenas um remo — largo e pesado — e um machado nativo, em forma de L, com uma pedra polida na extremidade.

Começaram a rasgar uma vereda através de um emaranhado de cipós e bambus. Os primeiros passos foram penosos, mas em pouco entraram numa região de árvores mais espaçadas e maiores. Tiveram sombra, encontraram frutas…

Mas, de súbito, tiveram uma surpresa alarmante, encontrando-se diante de outro caminho aberto no mato, certamente um atalho, que evidentemente era obra humana e não tinha muito tempo.

Seguiram por ela com precauções, de olhos abertos e mãos crispadas sobre as improvisadas armas.

Mais alguns passos e viram entre os troncos um largo filete d’água brilhante ao Sol nascente. Era o rio.

— Devemos estar perto — disse Hooker com voz fraca.

E o coração batia-lhe no peito com força. De um lado, havia um charco imenso e traiçoeiro, em que Evans chegou a enterrar-se até os joelhos, contendo as pragas pela preocupação de que podia ser ouvido; do outro, a vegetação muito espessa desafiava os esforços de dois homens. Diante deles, abria-se misterioso e sombrio o atalho, que não podia ser o caminho de Chang-Li, porque ele estivara ali cinco anos antes. A uberdade prodigiosa daquele solo não deixaria aberto um caminho há tanto tempo no meio da floresta. Alguém passara por ali meses antes. Dias antes, talvez.

Observando atentamente o rio, os dois aventureiros notaram que, à esquerda, uma pequena cachoeira assinalava a curva, a curva junto à qual deveria estar o tesouro.

— Quer-me parecer que nos desviamos um pouco da linha reta.

— Não — afirmou Evans.

Mas não teve coragem de acrescentar que se julgava no bom caminho, porque aquele era o caminho que o outro seguira, o outro antes deles.

Caminharam mais um pouco. O atalho terminava em uma clareira. O rio estava a dois passos.

Devia ser ali. Olharam em torno. O terreno estendia-se pantanoso e acidentado.

— Onde estará? — perguntou Hooker, volteando devagar.

Chang-Li falara em pequenos montes de pedras.

Fitaram-se profundamente, com olhar cheio de recordações sangrentas, e voltaram a observar o solo.

— O que será aquilo? — Evans exclamou, de súbito, estendendo o braço.

Hooker olhou naquela direção e viu alguma coisa azul.

Subiram a um montículo a fim de observar melhor e distinguiram um braço, que saía do solo, com a mão crispada… Adiantaram-se rapidamente. A manga que cobria esse braço era de lã azul. O morto era um chinês: estava hirto, horrivelmente contorcido, meio enterrado em uma escavação apenas começada.

Os dois aventureiros curvaram-se em silêncio, observando aquele cadáver de mau agouro, que tinha ao lado uma enxada de formato chinês e várias pedras espalhadas.

— Maldição! — resmungou Hooker. — Então não era apenas Chang-Li quem conhecia o segredo.

Evans empalideceu e começou a desfiar todo o medonho repertório de pragas que aprendera na África e na Austrália.

Seu companheiro, mais calmo, ajoelhou-se atento e notou que o morto tinha o pescoço, os pulsos e os tornozelos muito inflamados. Depois, examinando a escavação, deu um grito de alegria.

— Eh, Evans! Não foi nada. Tudo vai bem. O ouro ainda está aqui. Esse idiota não chegou a levar coisa alguma.

Evans curvou-se também e, na meia-luz da clareira, distinguiu umas barras amarelas, que apareciam ainda envoltas em terra.

Então, atirou-se numa ânsia febril, afastando a terra com as mãos. Um espinho feriu-o no dedo. Ele o arrancou com as unhas e continuou extraindo barras de metal do chão.

À primeira que que conseguiu levantar, exclamou com expressão triunfante:

— Apenas o ouro e o chumbo podem pesar assim!

Entretanto, Hooker parecia intrigado com o aspecto do chinês morto e murmurava:

— Este canalha veio apenas com um dia de avanço sobre nós. Não há decerto nem vinte e quatro horas que está morto. Mas de que teria ele morrido? Quer me parecer que foi picado por alguma serpente excepcionalmente venenosa. Em todo caso, resta saber como diabos ele conhecia o lugar do tesouro.

Porém, Evans nem o ouvia. Que importa um chinês morto, quando se tem à mão uma barra de ouro?

— Mas que trabalheira! — exclamou ele, com um riso nervoso e irresistível. — Se cada uma das barras pesa tanto como esta, vamos ter que carregá-las uma a uma. E mesmo não poderemos conduzir todas numa só viagem com uma canoa tão pequena.

Tirou casaco, abriu-o no chão e depôs dentro dele a primeira barra de ouro. Quando ia apanhar a segunda, um novo espinho feriu-o na mão. Não se importou com isso e atirou uma terceira barra de ouro dentro da roupa.

— Pronto! — exclamou. Isto é o máximo que podemos carregar numa viagem. Toca a andar.

E, vendo que Hooker continuava imóvel diante do chinês morto, teve um movimento de mau-humor.

— Ó, homem! Você está magnetizando esse defunto? Vamos com isso!

Hooker voltou-se tão pálido que também parecia morto.

—É muito esquisito — disse ele. — Muito esquisito. De que teria morrido esse homem, santo Deus?

— Ora, adeus! Morreu e acabou-se — disse Evans brutalmente. — Também nós haveremos de morrer um dia.

— Mas eu acho esses sintomas esquisitos…

— Ora, não me aborreça! Deu agora para estudar medicina?

— Cale-se! — murmurou o outro. — Em tudo isto, há indícios que me assustam.

— Pois sim; porém nós viemos aqui para carregar ouro e estamos perdendo um tempo precioso. Vamos levar estas barras até o barco. Se andarmos ligeiro, podemos fazer quatro viagens antes da noite.

Hooker não se moveu. Parecia refletir e o seu olhar inquieto observava as árvores dos arredores. Voltou a olhar o rosto disforme do chinês morto e estremeceu violentamente.

Evans impacientava-se.

— Vens ou não vens?

Hooker agarrou duas pontas do casaco, Evans levantou as outras duas e puseram-se a caminho.

Mas, ao fim de alguns passos, Evans cambaleou e detendo-se, disse:

— Não sei o que é isto. Estou sentindo uma aflição!… Uma dor leve nos braços… uma espécie de cansaço torturante…

Hooker fitava-o com os olhos dilatados por um pavor intenso.

— O que é que você está sentindo? — perguntou ele com a voz estrangulada.

— Não sei — murmurou Evans.

Deixou cair o casaco e, encostando-se a um tronco de árvore, passou a mão pela testa, gemendo:

— Que aflição!

Tentou segurar-se ao tronco, mas suas mãos pareciam entorpecidas e ele resvalou, caiu e ficou estendido no solo com o corpo horrendamente estorcido, arquejando…

Então Hooker viu que o pescoço e os pulsos do companheiro começavam a ficar avermelhados.

Essa constatação causou-lhe tamanho choque que ele sentiu as pernas sumirem sob o corpo e caiu de joelhos, apoiando as mãos sobre as barras de ouro.

Mas logo ergueu-se num salto. Sentira um espinho, oculto na terra agarrada às barras de ouro, picar-lhe a ponta de um dedo. Com um rugido abafado e trêmulo, olhou para o ferimento e ficou gelado de horror.

— Deus!

Foi essa a única palavra. O espinho longo e muito fino ele bem conhecia. Era um daqueles que os nativos dakays usavam em suas sarabatanas e cujo veneno não perdoa.

O olhar de Hooker vagueou em torno. Evans continuava imóvel, contorcido, e sua boca muito aberta parecia sorver inutilmente o ar. A pequena distância a mancha azul assinalava a mão do chinês, que parecia chamá-lo.

Hooker compreendia agora por que razão Chang-Li insistia em afirmar que o tesouro estava em segurança, que só ele poderia buscá-lo sem perigo. Compreendia agora o ricto zombeteiro de sua boca quando Evans lhe esmagava a cabeça a pauladas.

— Evans!

Seu grito foi inútil. Agora, o companheiro manifestava vida apenas pelo pequenino tremor que lhe movia os pés.

Em torno, era silêncio completo.

Hooker levou o dedo à boca e começou a chupar o ferimento com a ânsia que lhe cavava o peito. Mas já sentia uma dormência em todo o braço e tinha dificuldade de dobrar os dedos.

Então compreendeu que a sucção era inútil e, num desânimo completo, deixou-se cair, sentado ali mesmo, entre Evans já semimorto e o ouro, que já não lhe merecia a atenção. Encostou os ombros ao tronco da mesma árvore a que o seu companheiro se agarrara e ajeitou-se bem para morrer assim.

A careta macabra e triunfante de Chang-Li não lhe saía da memória. A dor surda ia-se estendendo dos braços aos ombros e ao pescoço, tomava-lhe a garganta com a intensidade que aumentava a cada instante.

Felizmente, uma sonolência invencível também vinha pouco a pouco, e o desgraçado teve a esperança de ficar insensível antes de morrer.

Em cima, o vento começou a zunir com força, desfolhando grandes flores azuis, que ele não conhecia, e que caíam esvoaçando como flocos de neve.
H. G. Wells

Ando a ler um dicionário

Há poucos dias, na Feira do Livro de Lisboa, um homem parou diante de mim, e depois de me cumprimentar apresentou-me o filho, um menino dos seus onze anos: “Este é o António. Diga-lhe alguma coisa que o faça ler. Lá em casa todos nós temos a paixão pelos livros, há livros em toda parte, mas ele não se interessa por nenhum. O que fazer?”

Tentei, um tanto assustado, fugir ao desafio. Dei uma resposta qualquer, evasiva, mas depois que eles se foram embora pus-me a pensar naquilo. Como foi que eu próprio descobri a literatura? Devia ter a idade do António quando encontrei na biblioteca dos meus pais uma belíssima enciclopédia ilustrada, do início do século vinte, em dois volumes. Procurava-se a palavra “aves”, por exemplo, e havia uma ou duas páginas com preciosas estampas coloridas de aves de todo o mundo. Tinha, além disso, imensas mulheres nuas — um deslumbramento! Lembro-me em particular da famosa tela de Rubens, “O Julgamento de Paris”, talvez o primeiro concurso de misses de que há notícia. Paris, Príncipe de Tróia, tem de decidir quem é a mais bela: Hera, Atena ou Afrodite. São três mocetonas bem nutridas, três deusas clássicas, de rijas e luminosas carnes brancas. A bem dizer foi por causa das mulheres que eu me apaixonei pelos livros. Descobri que por detrás daquelas imagens, por detrás de cada mulher, mais ou menos despida, havia um enredo, e passei a interessar-me por essas histórias.


Nunca mais deixei de ler. Leio de tudo um pouco, romances, ensaios, poesia, e, é claro, continuo a interessar-me por enciclopédias e dicionários. Gosto particularmente de ler dicionários. A minha última paixão, em matéria de dicionários, chama-se Houaiss. Esperei por ele uns bons seis anos. Sempre que ia a uma bienal do livro, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, perguntava pelo Houaiss. “Sai para o ano”, respondiam-me imperturbáveis os responsáveis pelo projecto, e, para manterem aceso o meu interesse, agitavam factos e números: mais de 228 mil verbetes, extensos grupos de sinónimos e antónimos, levantamentos de homónimos, parónimos, colectivos, informações de gramática e uso, bem como da origem de cada palavra; é o primeiro dicionário a registar a data em que a palavra entrou na língua, etc. e tal. Finalmente, há alguns meses, o embaixador do Brasil em Berlim, Roberto Abdenur, ofereceu-me um exemplar (três quilos e seiscentos gramas em papel bíblia!), e pude assim confirmar a justeza da publicidade. Mais recentemente pedi a uma amiga que me enviasse, de São Paulo, a versão electrónica do Houaiss. Não me desiludiu.

Conheci o António Houaiss há muitos anos, numa ocasião em que veio a Lisboa defender o Acordo Ortográfico. Fiquei imediatamente seduzido pelo esplendor do seu português, o rigor, a riqueza, o entusiasmo com que aquele frágil velhinho carioca, filho de imigrantes libaneses, falava a nossa língua. Ouvir o António Houaiss discursar era uma alegria para a alma. Lembro-me de Natália Correia (a falta que ela faz a Portugal!), aos gritos, numa das salas da Assembleia da República: “Ajoelhem-se! Ajoelhem-se diante da erudição deste homem! Aprendam como se fala a nossa língua!”

O dicionário em que António Houaiss trabalhou durante tantos anos, e que acabou por ser concluído, com o apoio de uma vasta equipa de especialistas, brasileiros, portugueses e africanos, já após a morte do seu mentor, é o melhor monumento à memória do grande lexicógrafo. Por incrível que pareça, porém, não vi na Feira do Livro nenhum exemplar à venda — e refiro-me à edição brasileira, da Editora Objetiva, porque (ó escândalo!) não existe ainda uma versão portuguesa.

O velho Houaiss teria sabido, certamente, o que dizer ao outro António, de onze anos, de forma a cativá-lo para a literatura. O que quer que ele dissesse parecia ser sempre novo. As palavras saíam-lhe dos lábios vigorosas e polidas, a brilhar, como se tivessem sido estreadas naquele mesmo instante. Suspeito que o pequeno António iria à procura dos livros, depois de ouvir António Houaiss, apenas no afã de descobrir neles, uma outra vez, a luz da nossa língua.
José Eduardo Agualusa

sábado, julho 4

Um pouco de humor

 


Pedra filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

O homem que amava as Ilhas

Havia um homem que amava as ilhas. Nascera numa, mas não lhe agradava por ter gente demais. Queria uma ilha só para ele: não necessariamente para lá viver sozinho, mas para fazer dela um mundo seu.

Uma ilha grande demais não é melhor do que um continente. Para ser sentida como tal, uma ilha tem de ser, de facto, bastante pequena - e este conto mostra como tem de ser minúscula, para podermos ter a sensação de que está cheia da nossa personalidade.

Ora as coisas proporcionaram-se de modo a este apaixonado por ilhas vir, realmente, a comprar uma ilha quando chegou aos trinta e cinco anos. Não a possuía em termos absolutos, mas comprara-a a noventa e nove anos, o que, pela parte que toca a um homem e a uma ilha, vale uma eternidade.

D. H. Lawrence, "Amor no Feno e Outros Contos"

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Amor antigo

O frio me aumenta a vontade de ter um gato. Mas vontade é coisa que dá e passa, por isso não levo o desejo muito a sério e me contento em ver vídeos de gracinhas felinas. Cresci tendo gatos à volta, de todas as raças, cores e personalidades. Ouço na memória o miado e ronronar de cada um. As mãos procuram em vão o macio dos pelos e o calor de seu corpo, as orelhas que eu gostava de dobrar – e eles permitiam -, simulando um turbante. Houve um dia em que coloquei laços em seus pescoços e alguns, como o veterano Chanão, ostentaram com garbo o adereço.

Com o tempo, a casa pequena e a ausência constante, em consequência do trabalho, acabaram por eliminá-los do convívio. Amenizava a saudade durante as visitas a meu filho e família, quando Rubenisa ainda vivia. Ela se juntava ao grupo para me receber á porta e desfrutava de meu colo sem pedir licença. Nesta época, estaria com as orelhas geladinhas. Morreu há poucos anos, já com certa idade e acima do peso. Guardo suas fotos e o coração fica encolhido, quando as revejo.

Quando idealizo o gato que não terei, gostaria que fosse laranja, arteiro e bem-humorado, como todo representante da raça. Difícil é escolher o nome. Os donos atuais costumam batizá-los com nomes de pessoas, o que tem sua lógica, já que eles se tornam membros da família. Personagens de obras literárias ou peças teatrais e filmes também me agradam. Meu pai acreditava que eles se sentissem mais atraídos por nomes que chiavam, como Xerxes e o próprio Chanão. Mas em casa tínhamos o branco Ingrid, só tardiamente reconhecido como macho, Lanjal, nosso laranjinha endiabrado, Mitz, frajola esperta e cheia de manha, entre outros.

Muitas vezes, a mana e eu dividimos as camas com eles, nossos irmãos discretos e elegantes. Saíam pouco pela vizinhança e, na volta, era comum trazerem presentes para minha mãe: uma lagartixa pela metade, uma barata morta, um passarinho moribundo na boca, para nosso desespero. As fêmeas davam cria protegidas em caixas de papelão forradas com panos. Depois acomodavam a prole nas gavetas do guarda-roupa dos pais e armários, subindo as escadas do sobrado. Era comum encontrar um filhote nos degraus, enquanto a mãe transportava quantos podia para o esconderijo, de uma só vez.

Todos vingavam, aumentando a turma de bigodudos, que chegou a ter nada menos que 14 indivíduos. Dormiam na área de serviço envidraçada e, quando a mãe os soltava, parecia estouro de boiada. Nem sempre, porém, dependiam da intervenção humana. Os mais espertos logo aprenderam a abrir a porta por conta própria, reforçando a independência.

O laranjinha imaginário haveria de gostar da cama de viúva e das muitas cobertas. A casa é silenciosa e cheia de estofados. Bate sol em todas as janelas. Mas vontade é coisa que dá e passa, então namoro os felinos virtuais e, quando dou sorte, acaricio algum na rua, torcendo para que ele não me siga, senão…

O noivado infeliz de Aurélia

Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jovem da bela cidade de San José.

Devo esclarecer que não conheço, em absoluto, a signatária do referido documento, que se assina simplesmente Aurélia Maria – provavelmente um pseudônimo.

A pobre garota tem o coração transtornado pelos infortúnios que vem sofrendo. E sente-se tão perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.

Nervosa, recorre a mim, suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos, falando-me com uma eloqüência extraordinária, que tocaria o coração de uma estátua.

Ouçamos a sua triste história.

Aurélia tinha dezesseis anos – diz ela – quando encontrou e amou, com todo o ardor de uma alma apaixonada, um rapaz de New Jersey, chamado Wilhamson Brockinridge Caruthers, quase seis anos mais velho que ela.

Com o consentimento de seus pais, ficaram noivos, e durante um largo período tudo correu muito bem, como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgraça que sempre tocam à humanidade.

Um dia, entretanto, a face da realidade transformou-se. O jovem Caruthers caiu de cama com varíola, e da espécie mais virulenta e terrível. Quando ficou bom, tinha o rosto desfigurado, a pele marcada pelas bexigas. Já não era o mesmo, porque a sua beleza desaparecera para sempre.

Aurélia pensou logo em romper o seu compromisso, mas, por uma questão de piedade para com o infeliz, limitou-se a transferir o casamento para depois, como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz.

Acontece que na véspera do casamento, Caruthers, quando acompanhava com os olhos um balão que subia aos céus, caiu, distraído, num poço, e quebrou uma perna. Tiveram de amputá-la acima do joelho.

Novamente Aurélia teve a intenção de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. O casamento foi transferido e ela deixou que o tempo corresse.

Outra infelicidade aguardava o noivo caipora. Caruthers perdeu um braço quando de uma descarga imprevista de um canhão, numa festa cívica. Ainda na convalescença. três meses depois, teve o outro esmagado numa prensa agrícola.

O coração da pobre Aurélia foi horrivelmente machucado por essas verdadeiras calamidades. Era enorme a sua aflição, por ver seu jovem noivo abandoná-la pedaço por pedaço e imaginar que, com esse sistema de progressiva redação, com pouco nada mais restaria do rapaz. E doía-lhe verificar que nada podia fazer por ele.

Em seu desespero, coitada, como um negociante que teima num negócio e tem prejuízo regularmente, todos os dias, Aurélia sentia um grande e profundo arrependimento por não haver casado logo de início com Caruthers. antes que ele sofresse tão alarmante depreciação. Mas, encarando a situação com ânimo firme, resolveu pôr à prova, ainda uma vez, as lamentáveis disposições do seu noivo.

Foi marcado o dia do casório e de novo turvou-se o céu com as nuvens da desilusão. É que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi então que perdeu um dos olhos.

Os pais e os amigos da moça, tendo em vista que a sua generosa obstinação já excedia os limites normais, novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado.

Aurélia chegou a hesitar, apesar da sua imensa bondade de sentimentos, porém respondeu a todos que, refletindo direito sobre o assunto, verificara que não tinha nenhuma razão de queixa contra o noivo.

Foi transferida a data do casamento, e eis que Caruthers quebra a outra perna.

Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que, no hospital. viu os cirurgiões mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado.

Aurélia sentiu uma emoção cruel, percebendo que mais um pedaço do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. Sentiu, sobretudo, que o campo de suas afeições mais puras diminuía a olhos vistos. Contudo, não atendeu aos rogos dos seus, quanto à anulação do seu compromisso, e só fez mesmo transferir o casamento.

Enfim, poucos dias antes da data fixada, aconteceu outra desgraça. Foi o seguinte: durante o ano, os índios de Owen River arrancaram o couro cabeludo de um só homem, e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Ca-ruthers, de New Jersey.

Ainda assim, o pobre-diabo fez-se transportar imediatamente para a casa de sua noiva, o coração transbordante de alegria, embora tivesse perdido os cabelos para sempre. Apesar de todo o seu desgosto, ainda deu graças a Deus por haver-se salvo, mesmo por esse preço exorbitante.

A esta altura, Aurélia está indecisa quanto à atitude que deve tomar. Ainda ama o noivo – é o que ela me escreve em sua carta. O noivo ou o pedaço de noivo que lhe resta. Ama-o de todo o coração, porém sua família se opõe terminantemente ao casamento.

Caruthers é pobre e não pode mais trabalhar. Por sua vez, Aurélia não temo necessário para que possam viver os dois juntos, com relativo conforto.

– Que devo fazer? – eis o que ela me pergunta, numa indecisão cruel.

Esta é, com efeito, uma questão delicada. Questão cuja resposta deve decidir sobre o destino de uma mulher e de um pedaço de homem.

Estou certo de que seria assumir uma grande responsabilidade responder indo além de uma simples sugestão.

Quanto custaria a reconstituição de um Caruthers completo? Se Aurélia tem algum recurso, deve comprar para o seu noivo mutilado umas pernas artificiais, um olho de vidro e uma cabeleira postiça, para torná-lo apresentável. Feito isto, seria conveniente que lhe desse um prazo improrrogável de noventa dias, ao fim do qual, se o rapaz não torcer o pescoço, poderá arriscar-se a casar com ele.

Não creio que assim procedendo Aurélia se aventure a grande risco, de qualquer maneira. Se Caruthers ainda uma vez cede à tentação estranha de quebrar alguma coisa sempre que se lhe apresenta a ocasião propícia, sua próxima experiência na certa será fatal, e então a pobre noiva poderá ficar tranqüila, casada ou não. Casada, as pernas de pau e outros objetos, propriedade do defunto, ficarão como herança para a viúva, e assim Aurélia não perderá nada, a não ser, na realidade, o último pedaço vivo dum esposo honesto e infeliz, que durante a vida toda não fez outra coisa senão contentar os seus extraordinários instintos de autodestruição.

É tentar a sorte, portanto. Refleti bastante sobre o assunto, e este me parece o melhor partido a tomar no caso.

Decerto, Caruthers teria agido com acerto se houvesse tentado quebrar o o pescoço logo da primeira vez, tratando de fazer coisa definitiva. Já que escolheu outro método, dispondo-se a prolongar o sacrifício o mais possível, não se pode criticá-lo, por haver feito o que lhe pareceu melhor. Deve-se é procurar tirar o melhor proveito das circunstâncias, sem o menor ressentimento.
Mark Twain

sexta-feira, julho 3

Socorrista em tempo de guerra

 


Quantos Césares fui

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.

Isto não vem a propósito de nada.

Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender.

Napoleão, seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.

Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina.

Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.

Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto.
Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade de um domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.

Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.

Mas quantos Césares fui!

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

É sempre Outono no sebo


Os livros espalham o ouro esmaecido de seu outono pelas estantes escuras do sebo. 
Raul Drewnick

Maturidade

Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.

A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.

Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.

Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.
Lya Luft

O sonho de Pedro Henriquez Urena

O sonho que Pedro Henriquez Urena teve ao amanhecer de um dos dias de 1946 não constava de imagens, mas tão somente de pausadas palavras. A voz que as pronunciava não era a sua, porém parecia-se com ela. O tom, em que pese as possibilidades patéticas que o tema permitia, era impessoal e comum. Durante o sonho, que foi breve, Pedro sabia que estava dormindo em seu quarto e que sua mulher estava a seu lado. Na obscuridade do sonho, a voz lhe disse: Há quantas noites passadas, em uma esquina da Rua Córdoba, discutiste com Borges a invocação do anônimo Sevilhano Ó Morte, vem calada / como costumas vir na flecha. Suspeitaram que era o eco deliberado de algum texto latino, já que estas versões correspondiam aos costumes da época, completamente alheias ao nosso conceito de plágio, sem dúvida menos literário do que comercial. O que não suspeitaram, o que não podiam suspeitar, é que o diálogo era profético.

Dentro de poucas horas correrás para a última estação da Constituición, para tua aula na Universidade de La Plata. Alcançarás o trem, colocares a pasta no porta-volumes e te acomodarás na tua poltrona, junto à janela. Alguém, cujo nome ignoro mas cujo rosto estou vendo, te dirigirá algumas palavras. Não lhe responderás porque ambos estarão mortos. Já te terás despedido para sempre de tua mulher e de tuas filhas. Não te lembrarás deste sonho porque teu esquecimento é necessário para que se cumpram os fatos.
Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"