domingo, junho 7

Pra descansar no domingo


‘Tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais’

Lygia Bojunga não gosta de entrevista. Nem mesmo quando é para falar dos 50 anos de “A bolsa amarela”, seu livro mais querido e aclamado, que transformou a vida de gerações de leitores e, desde 1976, já vendeu aproximadamente um milhão de exemplares em 36 edições. Lygia não gosta de entrevista, gosta de conversar. O papo que começa com a pergunta objetiva sobre o encantamento ainda despertado pela história de Raquel, a menina que escondia na tal bolsa três grandes e libertadoras vontades (de crescer logo, de ser escritora e de ter nascido menino) vai e volta em diversas direções, indicando muitos caminhos. Passa pela infância da escritora gaúcha em Pelotas, traz memórias da carreira de atriz (dos trabalhos com Henriette Morineau e Fernanda Montenegro às “mambembadas” com as quais rodou o país, falando sobre sua vida e obra), relembra a paixão por casas (construiu a primeira, em torno dos 6 anos, em um galinheiro abandonado na chácara do avô) e livros (“para mim, livro e casa sempre se misturaram”, diz), e retorna sempre ao amor eterno pelo companheiro Peter, inglês que esteve ao seu lado por mais de cinco décadas e morreu em 2018.


A poucos meses de completar 94 anos, em agosto, Lygia se dá cada vez mais o direito de falar muito, ou nada. Ou pouco, como por exemplo ao comentar o episódio recente ocorrido em Brasília, quando pais de alunos do Colégio Militar Dom Pedro II pediram a retirada de “A bolsa amarela” das atividades de leitura, alegando que o livro abordava questões de gênero e ideologia inadequadas para crianças. O episódio gerou grande repercussão e apoio à escritora nas redes sociais (que ela nunca acompanhou, nem quer acompanhar), mesmo depois de a direção do colégio alegar não ter havido censura, mas um “mal-entendido” em relação ao conteúdo da obra.

— Não leram o livro até o fim. Tem que entender o que a Raquel está falando, mas para isso precisava ler o livro inteiro. Se lessem, veriam que desde o início tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais — resume Lygia, sem se estender muito para não deixar a polêmica ofuscar a celebração.

“A bolsa amarela” não é a obra de estreia da autora, que ganhou o Jabuti logo com seu primeiro livro, “ Os colegas” (1972), seguido por “Angélica” (1973). Assim como os dois primeiros títulos, “A bolsa amarela” carrega muito da fabulação de Lygia, marcada pela abordagem filosófica e lírica, sem linhas delimitadas entre imaginação e realidade, de sentimentos e vivências comuns a todo ser humano. Estão lá dúvidas, perdas, alegrias, a coragem de superar desafios e a crítica social, algo que é caro à escritora. Talvez por isso Lygia afirme que, apesar de ter “muita dificuldade para escrever, nunca um livro saiu tão natural e espontâneo” como “A bolsa amarela”:

— Não foi um discurso feminista, planejado. A primeira ideia que se impôs foi exatamente a que tive desde menina, de querer ser grande e independente. E de gostar e querer escrever, sem dúvida. Mas eu também ficava revoltada de ouvir, quando criança, ao experimentar chutar uma bola, que “isso não é coisa pra menina”. Então vinha a questão da vontade de ser garoto, de ter liberdade. Mesmo escrever, antigamente, era coisa para homem. O livro reflete isso. O anseio e a revolta que as pessoas sentem de verem os homens com tantos privilégios e as mulheres terem que lutar tanto para até hoje, na hora em que conseguem independência, sofrerem feminicídio. Temos muito chão para andar, o mundo ainda é muito patriarcal.

Primeira brasileira a conquistar o Hans Christian Andersen, principal prêmio para a literatura infantojuvenil do mundo, em 1982, e única brasileira a vencer o prestigioso Alma (Astrid Lindgren Memorial Award, do governo sueco), em 2004, Lygia, que em 2002 fundou a própria editora para abrigar sua literatura, tem negado novos pedidos de traduções ou adaptações de livros. Prefere deixar a Fundação Lygia Bojunga, que criou para gerir sua obra, com liberdade para fazer o que quiser depois que ela se for.

E embora esteja cada vez mais arredia (“a vida cansa, mesmo tendo sido uma vida que considero muito privilegiada”), a criadora de tantas obras geniais para jovens leitores, além de romances e ensaios sobre o próprio ato da criação, continua inquieta. Decidiu renovar a carteira de motorista ano passado (“me senti como se tivesse 50 anos!”), acompanha diariamente o noticiário (“por mais que eu venha me retirando do mundo lá fora, quero saber o que acontece”), tem relido clássicos como Juan Rulfo (“não quero ler nada novo, não tenho mais paciência”) e, mais importante, continua a escrever. Tanto que pretende publicar, ainda este ano, o primeiro tomo de suas memórias, que por enquanto levam o título bastante sugestivo de... “A casa eterna”.

Lygia confessa que, como “mãe” de tantas outras obras, se sente um pouco traiçoeira com o que considera muito alarde em torno do cinquentenário de “A bolsa amarela”. A autora de “O sofá estampado” (“é um livro de que gosto muito, me afeiçoei demais ao Vítor”, diz sobre o tatu protagonista), “Tchau”, “A casa da madrinha” e “Corda bamba”, entre outros, sabe perfeitamente, porém, o lugar especial que o livro cinquentão ocupa no imaginário de seus leitores a partir de depoimentos que eles continuam a enviar até hoje, e de todos os cantos do mundo. Quase todos dizendo como Raquel e suas atitudes diante das vontades que ela escondia na bolsa ajudaram a mudar suas vidas.

Do Brasil e do exterior, aliás, chegaram mais de 600 inscrições para o concurso de textos inspirados no livro, a parte mais visível da comemoração do aniversário. A coordenação é da professora e escritora Ninfa Parreiras, que integra o conselho da Fundação Lygia Bojunga e está à frente das atividades promovidas pela instituição. Além de participantes de todas as regiões brasileiras, o concurso, que é voltado para falantes da língua portuguesa acima de 14 anos, recebeu inscrições de Alemanha, Angola, Espanha, Estados Unidos, Japão, Moçambique, Portugal e Suíça. Lygia será uma das leitoras dos textos, que ainda estão em fase de seleção.

Apesar de tamanho reconhecimento dos leitores, da crítica e de outros escritores (leia no box abaixo), Lygia diz que ainda fica “pasma” com o alcance de sua obra, pela qual nunca nutriu “grandes expectativas”.

— Desde muito cedo gostei do ato da escrita, de fazer letras, mas nunca tive facilidade com a narrativa. Escrevo, acho uma porcaria, desisto, rasgo.

E rasga mesmo. Durante a pandemia da Covid-19, retirada no sítio Boa Liga, refúgio que construiu na Região Serrana do Rio há décadas, ela escreveu cadernos e cadernos — muitos deles artesanais, feitos à mão, como ela própria já fez, presenteados por leitores e amigos. Alguns descansam sobre a escrivaninha do escritório na casa em Santa Teresa, mas outros, ela confessa, não sobreviveram à sua releitura.

Já o livro de memórias está devidamente abrigado no computador com o qual Lygia briga de vez em quando, assim como com o celular, que também teima em corrigir o que ela não quer. A irritação se estende às redes e a toda aceleração, para ela nociva, que chega junto com a tecnologia.

— Resolvi não me adaptar, porque não me faz bem. Depois de tantos anos de vida, por que eu vou me sujeitar a uma coisa que não me dá o menor prazer, que não está sendo construtivo?

Construtivo, para Lygia, é termo que se aplica fundamentalmente a casas, sua grande aventura ao lado dos livros. Além de planejar o sítio Boa Liga, do qual se orgulha não apenas por abrigar projetos sociais em torno da literatura, como principalmente pela recuperação de um grande volume de árvores, ela mesma fez o projeto de interligação de três casas em Santa Teresa — bairro adorado desde que o conheceu, aos 19 anos, ao fazer um teste para ser atriz (que deu certo), sabendo que um dia ficaria por lá. O espaço, que ocupa há décadas, e de onde desfruta a vista privilegiada da cidade onde chegou com os pais aos 8 anos, reúne sua casa e as sedes da editora e da Fundação.

— Para mim, casa e livro vieram juntos, se confundem. Muito cedo aprendi a ler e muito cedo gostei de desenhar e de querer casas — conta. — Consegui fazer o que eu queria, muito mais até do que imaginava. É bom poder dizer, a essa altura, que vou deixar um legado, não só dos livros, até porque esse não acho muito merecedor, mas sou orgulhosa de ter conseguido recuperar uma montanha de árvores na Boa Liga.
Mànya Millen 

Rumor do mundo

As palavras, vício
torpe, antigo.
As últimas? As primeiras?
Como os ouriços
abrem-se ao rumor do mundo:
o sol ainda verde dos limões,
os esquilos
doutras tardes, o latido
da chuva nas janelas,
os velhos em redor do lume
— nunca foram tão belas.

Eugénio de Andrade, "Rente ao Dizer"

Quase inverno

Quando esfria assim como agora, durmo cheia de culpa, pensando na população de rua, cada vez mais abundante por aqui. Para piorar, estou lendo “Menos que um”, de Patrícia Melo, uma abordagem honesta e sensível sobre o assunto, que me fez olhar para essas pessoas com mais atenção e menos julgamento, tentando enxergar por trás da aparência de cada um. O que será que a vida fez com elas, para torná-las esse amontoado de carne e trapos que impede a passagem nas calçadas, toma conta de alguns trechos de rua, circula pelas praças e entradas do metrô, de supermercados, de bancos? Como sobrevivem a tanto desamparo?


Ia a caminho da feira quando um deles me abordou, pedindo que lhe comprasse uma bolacha. Expliquei que não portava dinheiro, só cartão, mas ele insistiu: aqui eles aceitam, mostrando um pequeno mercado. Entramos e o deixei à vontade para escolher. Voltou rápido, com um pote de macarrão instantâneo, um refrigerante e a tal bolacha.

Tudo isso? – perguntou a moça do caixa, com irritação. Vai comer ou vai vender?

Falei que estava tudo bem, podia cobrar. Cheia de razão, ela avisou: vou abrir tudo, assim ele não vende. Fiquei tão chocada que não respondi, enquanto ela violava as embalagens e destampava a bebida. Ele pediu uma sacola de plástico para embalar tudo e partiu, agradecendo muito: era o almoço dele e da esposa que o aguardava mais adiante.

A atendente, ainda arrogante, dizia que fazia sempre assim, “cada vez que um desses aparece por aqui”. Respondi que não interessava o que ele ia fazer com as compras, pois minha parte estava feita. Ela pareceu não concordar, mas se calou.

Num degrau mais acima, estão os pobres. Moram mal, mas têm teto. Vivem mal, mas alimentam os filhos, batalham subempregos, recorrem a todo tipo de ajuda institucional. Vejo muitos deles no metrô, a maioria com os pés expostos em chinelos de borracha. Vejo pedreiros, com as roupas manchadas de tinta ou cimento, sem casacos e muito menos, meias. Vejo pais de família com sua prole, todos de chinelos. Vejo cegos pedindo esmola, enquanto os fiscais não chegam. Vejo músicos também desafiando a vigilância, entre uma estação e outra.

Há tantos brasis neste Brasil, mesmo na cidade mais rica do país. E o inverno ainda nem chegou…

Três homens na estrada

O encarregado do posto de lubrificação, sozinho àquela hora, estranhou os vultos que vinham a pé, na estrada. O sol nascia; apenas alguns caminhões passavam, transbordando de legumes. Os três homens caminhavam sem pressa, no leito da rodovia, indiferentes ao risco. Motoristas jogavam-lhes palavrões, sem que eles se importassem. Estavam vestidos de maneira inabitual, um de vermelho, outro de verde, outro de roxo; as roupas se assemelhavam a túnicas, dessas que o rapaz da lubrificação estava acostumado a apreciar em filmes de Victor Mature e vira uma só vez na vida real, quando passou por ali, rumo a São Paulo, o carro do embaixador da Índia, e uma jovem morena descera para contemplar a paisagem.

Como os estranhos parassem diante do posto, teve vontade de aproximar-se e perguntar o que desejavam. Mas deteve-se. Eram três, ele estava desarmado, não sabia que espécie de gente era aquela.

O mais alto deles ficava ainda mais esguio olhando para o céu, como quem indaga o tempo. Os outros miravam um ponto vago, esperando decerto que ele comunicasse o resultado da inspeção. Não houve palavras, entretanto. O homem comprido, de vermelho, baixou a cabeça e fitou por sua vez os companheiros. Entendiam-se pelo olhar, era evidente. Não careciam de palavras, ou temiam empregá-las. Tratava-se, realmente, de indivíduos suspeitos.

Mas a suspeição que irradiavam era de natureza especial. O rapaz do posto — já é tempo de chamá-lo Marcos, pois assim fora batizado e registrado — imaginara no primeiro instante que fossem ladrões. Depois, pela excentricidade dos trajes, supusera-os simplesmente loucos. Agora percebia neles a majestade, ao mesmo tempo gloriosa e simples, de personagens de histórias da infância, no Nordeste, quando Carlos Magno ia com ele morro abaixo morro acima, e Rolando e d. Pedro i enchiam o ar com o retintim de espadas românticas.

Não sabendo como falar-lhes, nem recebendo deles qualquer pedido, Marcos estendeu-lhes um copo d’água, que um bebeu devagar, embora o rosto fosse sede pura. Os outros dois fizeram o mesmo, sucessivamente. Agradeceram com os olhos, e foram-se.

Ao chegarem os colegas de trabalho, Marcos, pressentindo a importância do encontro, não quis contar-lhes nada. E eles vinham justamente fazendo troça dos tipos encontrados em caminho, que davam dor de cabeça aos motoristas. Nunca se xingara tanto numa estrada do Rio. Pois os três caminhavam para o Rio de Janeiro, sempre consultando o espaço.

O ônibus freou brusco, para não amassá-los. O motorista quis descer justamente para amassá-los, na raça. Entre os passageiros, as definições variavam: eram contratados de casa comercial, em promoção de festas; tinham bebido demais e erravam a esmo; não, são figuras de rancho ensaiando para Carnaval; ou palhaços de circo, descansando. Fugiram do hospício; são doidos mansos; pois sim, experimenta bulir com eles. Desceram do foguete interplanetário, numa praia fluminense. Marcianos? Isso não: uniformes russos, meu velho.

Marcos trabalhou o dia todo com o pensamento naqueles três homens diferentes que, sem nada falar, lhe insinuaram muitas coisas. Não eram propriamente nobres, se bem que na poeira das vestes se entremostrasse nobreza. Em seu entendimento singelo, Marcos apreendia o recolhimento deles, sentia-os empenhados numa busca infatigável e serena, que não se faz por meio de perguntas. Eram ridículos talvez, exatamente porque não tinham qualquer relação com o lugar por onde passavam, não se serviam de nada que hoje em dia se usa para viajar. De onde vinham, por que vinham, o empregado de um posto de gasolina seria incapaz de saber. Mas sabia intuitivamente que levavam consigo uma alta obrigação.

No dia seguinte, Marcos leu no jornal que foram presos na Penha três indivíduos trajados de modo grotesco, ao atravessarem a linha férrea. Pareciam estrangeiros, nada carregavam, nada souberam responder. O delegado solicitara um intérprete da Polícia Técnica, mas não fora atendido porque era meio- feriado, com expediente suspenso para que toda gente fosse assistir, no Maracanã, com a presença das autoridades, à festa da recepção simbólica aos Três Reis Magos.
Carlos Drummond de Andrade

sábado, junho 6

Leia melhor

 


A verdade

Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a ver­dade!!


E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não. Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me pas­sou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta con­fessei a verdade:

Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de­-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...
Almada Negreiros, "A Invenção do Dia Claro"

Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre

O homem e a cidade

Agora, que não preciso mais ir à cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas ruas do centro onde tanto vaguei outrora.

E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores, o mar e as montanhas azuis.


Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)

A calçada está cheia de gente, e é doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos, gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas não preciso de nada.

Entretanto, gosto de ver essa fartura de coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie que vieram de terras longes se oferecerem a mim.

Mas de repente houve alguma coisa — a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda, aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema. Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de 1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que, entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! para sempre perdida Lenora.

Lenora... E me dá uma humildade entre o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.

Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"

Os leitores


Em maio, durante 20 dias, atravessei um pedacinho do Brasil, participando em eventos literários em São Paulo, Araxá, Paracatu, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Encontrei auditórios quase sempre cheios, longas filas para autógrafos, jovens discutindo livros com uma seriedade comovente.

Tudo isso me pareceu uma espécie de miraculoso anacronismo, num mundo cada vez mais rápido, dividido, insano e brutal — num mundo cada vez mais necessitado de leitores.

Em São Paulo, uma senhora confessou ter-se reconhecido no personagem do meu último romance, “Tudo sobre Deus”:

— Aquele poeta sou eu — disse-me. — Sou eu morrendo, e descobrindo que a morte não existe.

Em Belo Horizonte, uma professora aposentada aproximou-se muito séria:

— O senhor destruiu meu casamento…

Assustei-me. Ela contou que, após ler um dos meus livros, decidira viajar sozinha pelo sul de África. Nunca mais voltou para o marido. Descobriu que prefere a vertigem à segurança:

— Foi assim que o senhor destruiu meu casamento — concluiu, com um largo sorriso. — Muito obrigada…

Na Livraria da Travessa, em Ipanema, uma moça segurou minhas mãos enquanto me contava como, durante a pandemia, lendo meus romances, e de outros autores, conseguira romper o isolamento e viajar para paisagens remotas.

Leitores. O que são, afinal, leitores?

Aquelas pessoas que praticam a grande arte de ser outros.

Aqueles que caminham devagar. Os desaceleradores do mundo.

Seres capazes de chorar a morte de pessoas inventadas.

Os que duvidam. Os que se inquietam.

Os que se espantam com um verso, uma metáfora, o adjetivo justo.

Enquanto existirem leitores, a empatia resistirá. São os leitores, afinal, quem segura os frágeis fios que sustentam todo o edifício civilizacional.

Talvez por isso os regimes autoritários desconfiem tanto dos livros. Um leitor nunca pertence completamente a uma tribo, a uma pátria, a uma ideologia. Quem aprendeu a habitar outras vidas torna-se mais difícil de capturar, catalogar e guardar numa caixa.

Um romance é uma tecnologia extraordinária, única, capaz de transportar uma pessoa para o coração de outra. Durante algumas horas, o leitor abandona o próprio corpo, a própria biografia, as próprias certezas, para entrar na pele de desconhecidos. Aprende a observar o mundo através dos olhos de um jagunço erudito que talvez tenha, ou não, feito um pacto com o diabo; de um professor de literatura francesa pedófilo, ou de um aristocrata português que se apaixona pela própria irmã.

É a isto que eu chamo exercícios de alteridade. Uma prática cada vez mais urgente.

Vivemos cercados de gente que opina sobre tudo e imagina pouco. Gente incapaz de reconhecer humanidade em quem pensa diferente, vota diferente, reza diferente ou sofre diferente. A brutalidade começa quase sempre na falência da imaginação.

Os leitores resistem a este colapso.

São uma espécie de conspiração silenciosa contra a velocidade, contra a estupidez e contra o medo. Enquanto houver leitores, haverá pessoas dispostas a escutar. E enquanto existirem pessoas capazes de escutar, o mundo talvez ainda tenha salvação.
José Eduardo Agualusa

sexta-feira, junho 5

Viagem de cruzeiro

 


Mar de Verão

O doce de ginja brilhava vermelhíssimo entre as vespas amarelas e pretas e o vento remexia os ramos dos carvalhos e as manchas do sol corriam sobre o musgo, sobre a erva suave e húmida e sobre a cara dos convidados e das Mulheres e dos Homens que estavam a fumar e a rir todos ao mesmo tempo. E brilhavam também os cálices azuis do Marie Brizard e os talheres de sobremesa. E os pontinhos de luz – os grandes perseguindo os pequenos – corriam sobre a toalha cheia de nódoas roxas de vinho e de migalhas. E à tarde havia tourada, e os homens tinham o rosto e as faces e o nariz brilhantes. E também brilhava o café, tão preto, com cinza de charuto à volta da chávena. E os homens riam-se meio de lado porque tinham um charuto na boca e falavam e riam-se como os velhos sem dentes, a deitar a ponta da língua de fora cheia de saliva, e tudo entre uma nuvem azulada de fumo. E era tão lindo ver como o fumo ia mudando de cor conforme lhe batia o sol. E, como era dia da Assunção de Nossa Senhora, nós, as crianças, tínhamos ido lançar pétalas de rosa à Virgem Maria e ouvir as gaitas, e os foguetes, e os violinos e a voz dos cantores já dentro da Igreja. E tudo cheirava a incenso, e a flores, e a roscas e a churros e à sidra que os homens estavam a servir no Campo da Igreja, e ao fato novo. 
Julian Ayesta, "Helena ou o Mar do Verão"

Se os poetas dessem as mãos

Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.

Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.
Fernanda de Castro

Chuchu

Joanita, em sua última carta escrita de Haia: "Mas que saudades de chuchu com molho branco".

Eu sei que toda gente despreza o chuchu, a coisa mais bestinha que Deus pôs no mundo, “Cucurbitácea” reles que medra em qualquer beirada de quintal. Não tenho também nenhuma ternura especial pelo chuchu, mas já reparei que há uma certa injustiça em considerar insípido um prato que é insípido só porque raras são as cozinheiras que sabem prepará-lo.


Sei ainda que os médicos nutricionistas banem o chuchu de todas as suas dietas, dizem que o chuchu não vale nada, é uma mistura de água e celulose, desprovida de qualquer vitamina ou sal. O chuchu é meu eterno ponto da discórdia com meu querido amigo Dr. Rui Coutinho. Quando ele desfaz do chuchu em minha presença, salto logo em defesa do humilde caxixe. Argumento assim: "Antigamente, antes da descoberta das vitaminas, se dizia o mesmo da alface. Mas o sabor da planta, a boniteza de sua folha verdinha, ou talvez o instinto secreto da espécie sempre levará o homem a comer a aristocrática Lactucasativa. Um dia se descobriu que a alface é rica em vitamina A, cálcio e ferro. Então a alface deixou de ser água e celulose, e entrou nos menus autorizados e recomendados pelos nutricionistas.

Quem me dirá que um dia, próximo ou distante, não se descobrirá no chuchu um elemento novo, indispensável à economia orgânica? O que me parece inexplicável é que nós brasileiros persistamos em comer sem quase nenhum deleite essa coisinha verde e mole que se derrete na boca sem deixar vontade de repetir a dose.”

-- Rui Coutinho sorri cético.

Enquanto isso, na Holanda, Joanita, podendo comer os pratos mais saborosos do mundo, tem saudade é de chuchu com molho branco. Que desforra para o chuchu!
Manuel Bandeira

O Cristo do Mar

Naquele ano, vários pescadores de Saint-Valéry afogaram-se no mar. Os corpos, atirados à praia pela maré, foram encontrados de mistura com os restos dos seus barcos, e durante nove dias foram vistos, na trilha montanhosa que conduz à igreja, esquifes carregados nos ombros e acompanhados por viúvas em pranto, sob grandes mantos negros, como as mulheres da Bíblia.

Assim, foram o patrão Jean Lenoèl e seu filho Désiré depostos na grande nave, sob a mesma arcada a que haviam pouco antes pendurado, em oferenda à Santa Virgem, um navio com todo o seu massamé.. Tinham sido homens justos e tementes a Deus, e o abade Guillaume Truphème, vigário de Saint-Valéry, tendo-lhes dado a absolvição, disse em voz lacrimosa:

— Jamais foram depostas em solo sagrado, para aí aguardarem o juízo do Senhor, criaturas mais virtuosas e cristãos mais devotos que Jean Lenoèl e seu filho Désiré.

E enquanto os barcos com seus donos pereciam ao longo da costa, grandes navios soçobravam ao largo, e não se passava dia sem que o oceano produzisse algum destroço. Então, certa manhã, meninos que remavam num batel viram uma figura em decúbito à tona do mar. Era um Cristo, em tamanho de homem, esculpido em madeira dura, pintado em cores naturais, e parecia uma obra antiga. O Cristo flutuava nas águas de braços estendidos. Os meninos o guindaram para bordo e o conduziram a Saint-Valéry. A coroa de espinhos cingia-lhe a fronte. Os pés e as mãos estavam traspassados. Mas faltavam os cravos, assim como a cruz. Com os braços ainda abertos para oferecer-se e bendizer, tinha a mesma postura em que o haviam visto José de Arimatéia e as santas mulheres no momento de o amortalhar.

Os meninos o levaram ao vigário Truphème, que lhes disse:

— Esta imagem do Messias é de valor antigo, e quem o executou certamente de há muito não pertence aos vivos. Ainda que os negociantes de Amiens e de Paris vendam hoje por cem francos, e até mais, estátuas primorosas, é necessário reconhecer que os artesãos de outrora tinham também o seu merecimento. Mas o que me alegra é sobretudo o pensamento de que, se o Salvador vem assim, de braços abertos, a Saint-Valéry, é para abençoar a paróquia tão cruelmente provada, e mostrar a sua piedade por essa pobre gente que na pesca arrisca a sua vida. Ele é o Deus que caminhou sobre as águas, e abençoou as redes de Cefas.

E o cura Truphème, tendo mandado depositar o Cristo na igreja, sobre a toalha do altar-mor, tratou de encomendar ao carpinteiro Lemerre uma bela cruz em lenho de carvalho.

Pronta esta, nela pregaram o Cristo com pregos novos, e o colocaram na nave, por sobre o banco dos mordomos.

Foi então que se viu que os seus olhos estavam repletos de misericórdia e pareciam umedecidos por uma celeste compaixão. Um dos tesoureiros, que assistia à instalação do crucifixo, acreditou ver lágrimas correrem pela divina face.

Na manhã seguinte, entrando com o acólito na igreja para dizer a missa, o vigário surpreendeu-se ao ver na parede a cruz vazia, e o Cristo deitado sobre o altar.

Tão logo acabou de celebrar o santo ofício, mandou chamar o carpinteiro e perguntou-lhe por que ele havia tirado o Cristo da cruz. Mas o carpinteiro respondeu que não lhe havia tocado. E, depois de interrogar o sacristão e os fabriqueiros, o abade Truphème assegurou-se de que ninguém entrara na igreja desde o momento em que o Cristo fora dependurado.

Ocorreu-lhe então que aquelas coisas fossem milagrosas, e meditou sobre elas com prudincia. No domingo seguinte referiu-as na prédica aos seus paroquianos, e convidou-os a contribuir com donativos para a elevação de uma nova cruz mais bela que a primeira e mais digna de suster o Redentor do mundo.

Os pobres pescadores de Saint-Valéry deram todo o dinheiro que puderam, e as viúvas entregaram as suas alianças. Com o que o abade Truphème pôde ir imediatamente a Abbeville encomendar uma cruz de madeira negra, muito reluzente, encimada por uma tabuleta com a inscrição INRI em letras douradas.

Dois meses mais tarde plantaram-na no lugar da primeira, e a ela pregaram o Cristo entre a lança e a esponja. Mas Jesus deixou-a como à outra, e foi, depois do anoitecer, estender-se sobre o altar.

Ao encontrá-lo de manhã, o vigário caiu de joelhos e orou por muito, tempo. A notícia do milagre espalhou-se por toda a redondeza, e as damas de Amiens promoveram peditórios para o Cristo de Saint-Valéry. O abade Truphème recebeu de Paris dinheiro e jóias, e a mulher do ministro da Marinha, Srª. Hyde de Neuville, enviou-lhe um coração de diamantes. Com todas essas riquezas, um ourives da Rue de Saint-Sulpice compôs, em dois anos, uma cruz de ouro e pedrarias, que foi inaugurada em meio a grande pompa na igreja de Saint-Valéry, no segundo domingo após a Páscoa do ano de 18… Mas Aquele que não recusara o madeiro doloroso escapou-se daquela cruz tão rica e foi de novo estender-se sobre o linho branco do altar.

Com medo de ofendê-lo, deixaram-no ficar desta vez, e ele ali repousava por mais de dois anos quando Pierre, filho de Pierre Caillou, veio dizer ao senhor cura Truphème que tinha encontrado na areia da praia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.

Pierre era um inocente, e como não tivesse entendimento bastante para ganhar a vida, davam-lhe pão, por caridade; e gostavam dele, porque era incapaz de fazer mal. Mas costumava engrolar coisas sem nexo, a que ninguém dava ouvidos.

Contudo, o abade Truphème, que incessantemente matutava no mistério do Cristo do Mar, deixou-se impressionar pelo que contara o pobre idiota. Com o sacristão e dois fabriqueiros, dirigiu-se ao lugar onde o rapaz afirmava ter visto uma cruz, e ali encontrou duas pranchas guarnecidas de pregos, que as vagas haviam rolado durante muito tempo, e que efetivamente formavam uma cruz.

Eram detritos de um antigo naufrágio. Em uma das pranchas distinguiam-se ainda duas letras pintadas em preto, um J e um L, e não cabia duvidar que fosse um fragmento do barco de Jean Lenoèl que, cinco anos antes, perecera no mar com seu filho Désiré.

Vendo aquilo, o sacristão e os fabriqueiros começaram a rir de um inocente que tomava as tábuas esfaceladas de um barco pela cruz de Jesus Cristo. Mas o vigário Truphème lhes atalhou as zombarias. Ele meditara muito e muito orara desde que o Cristo do Mar fizera a sua aparição em meio aos pescadores, e o mistério da infinita caridade começava a se lhe revelar. Ele ajoelhou-se na areia, recitou a oração pelos fiéis defuntos, depois ordenou ao sacristão e aos fabriqueiros que carregassem aos ombros o destroço e o depositassem na igreja. Feito isto, ergueu o Cristo de sobre o altar, colocou-o sobre as pranchas do barco e pregou-o, com suas próprias mãos, com os pregos corroídos pelo mar.

Por ordem sua, a nova cruz ocupou, a partir do dia seguinte, sobre o banco dos mordomos, o lugar da cruz de ouro e pedrarias. E nunca mais o Cristo do Mar dali se despregou. Aprouve-Lhe permanecer naquele lenho sobre o qual homens morreram a invocar-Lhe o nome e o de sua Mãe. E ali, entreabrindo a boca augusta e dolorosa, Ele parece dizer: “A minha cruz é feita dos sofrimentos dos homens, pois em verdade vos digo que eu sou o Deus dos pobres e dos desvalidos.”
Anatole France

Itens, nem todos básicos

Depois que se casou com uma viúva pobre e mãe de três filhos, o poeta passou a fazer recitais para um tipo só de público: o pagante.

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Cinquenta anos atrás, quando se esmerava para escrever seus sonetos, ele os classificava em duas categorias: os românticos e os realistas. Na época, eles ainda não se dividiam em dolosos e culposos.

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Que todo sacrifício imposto pela literatura seja assumido pelos escritores e que eles resistam à tentação de repassá-los aos leitores.

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Enquanto o poeta social se identifica apresentando a carteirinha do sindicato, o poeta comum continua dependendo do testemunho dos passarinhos e dos seus colegas de confraria.

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É um desses poetas que, numa antologia de quinze, fazem sempre pensar que com catorze ela ficaria bem melhor.

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Na ideia de imortalidade do escritor municipal não há uma passagem por Estocolmo. Há uma reunião na câmara de vereadores e uma votação que lhe garantirá uma estátua na praça central. Isso lhe bastaria. Se pudesse pedir algo mais, seria que o pusessem de frente para o pequeno lago.

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Ando tão diverso, já, de modos e de feições, que a Morte, se me aceitar, há de ser com restrições.

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Estou num momento mau, que péssima fase a minha. Minha alma virou mingau, e meu cérebro, farinha.

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Eu nasci triste. Isso fez de mim um menino orgulhoso. Repugnava-me o riso dos adultos, como quase tudo que lhes era próprio. Horrorizava-me pensar que logo eu seria um deles. Quando descobri a literatura, escravizei-me aos personagens atormentados, aos miseráveis, aos ressentidos e aos derrotados. Ela nunca me falhou. Até hoje me dá o pão amargo que me alimenta.

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Tem uma convicção: a de que um poeta presunçoso jamais receberá a visita de um haicai.
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Quando, cinquenta anos depois, abriu a gaveta onde estavam guardados os sonetos de sua juventude, decepcionou-se. Tinha lido já o terceiro e seus olhos permaneciam obstinadamente secos.

quinta-feira, junho 4

Feriado para passear

 


Letra: Ferida Exposta ao Tempo

É forçoso dizer que me faz falta
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais: rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.

O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.

E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.
Affonso Romano de Sant’Anna

Terra presa

Os longes esfarelavam-se num luaceiro grisalho, como de moinha ao vento; mas, a todo o largo da mirada, a terra descobria-se com os mouchões das leiras a reluzir prateados ao luar e os regos coalhados de tinta negra.

Nas leiras onduladas de morro para morro, o centeal dormia debaixo do codo, a meio as pedras intonsas e impressionantes como cabeças mortas saindo debaixo dum lençol.

As giestas projectavam uma sombra muito escura, o que o levou a notar que a sombra que o seu vulto também projectava era tão retinta e desengonçada como se levasse um fantasma à mão direita.

Não se enxergava vivalma nem de homem, nem de bicho, nem de ser nado que fosse.

Mas, pela lua que caminhava sempre, o sete-estrelo muito rútilo, a rija imobilidade da planície, sentia-se a terra presa a amarras que não quebram nem se rendem.

Aquilino Ribeiro, "Terras do Demo"

Um livro todo humano

Fim de lançamento à noite, na livraria, aparece um rapaz vagamente interessado e me pergunta: “esse livro seu é todo humano?”. Um lapso de segundos, eu olhando para ele, e ele completa: “ou você usou inteligência artificial?”. Mais alguns segundos, eu degustando o fantástico da coisa até dar com seu travo: de repente imaginar que livros de literatura amanhã venham com algum tipo de certificado de autenticidade humana, como compotas de geleia sem aditivos nem conservantes, ou que livros meio humanos meio máquinas venham com tarjas de aviso como os alertas de transgênicos em pacotes de milho para pipocas.


Então me ouvi dizendo apenas: “sim, esse é um livro todo humano…”. E como atestar a humanidade dos livros ou detectar por trás deles avatares sem alma? Pela qualidade dos erros? Quanto mais excelente o erro, quanto mais imprevisto o desvio, mais humano? Para o pensador dos nossos tempos Byung-Chul Han, a diferença está em que só o humano conhece Eros. Mais que um lance de dados, um lance de pele, de contato. A inteligência artificial, ele diz, “não é capaz de pensar porque não tem amigo, não tem amante”. A inteligência artificial não tem um coração pensante.

E que coisa mais desoladora imaginar um livro de poesia ou um livro de ficção que não seja todo humano… Que grande farsa um escritor abrir mão dos seus desacertos — seus “erros magníficos”, diria a poeta Maria Lúcia Dal Farra —, que fracasso tremendo um escritor delegar à inteligência artificial o poder e o prazer de criar pela linguagem o que quer que seja. Os livros já não seriam nossos amigos, nem seria verdadeiramente vital nossa relação com eles. E não estaria aí o atestado de falência do nosso contato uns com os outros?