Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sábado, agosto 29
A morte de um presidente
Há cerca de dez dias deitei-me muito tarde. Havia estado aguardando uns despachos muito importantes... Logo em seguida comecei a sonhar. Parecia envolver-me a rigidez da morte. Escutei soluços sufocados, como se várias pessoas estivessem chorando. No sonho, saí da cama e lancei-me escadas abaixo.
Ali o silêncio era rompido por idênticos soluços, porém os que sofriam eram invisíveis. Caminhei de quarto em quarto. Não havia ninguém a vista e os lamentos me seguiam enquanto caminhava.
As salas estavam iluminadas, os objetos me eram familiares; mas onde estava esta gente cujos corações pareciam estar a ponto de rebentar de aflição?
Invadiram-me a confusão e o medo. Que significava tudo isto?
Decidido a descobrir as causas desta situação tão chocante e misteriosa, segui até a Sala Oriental. Encontrei-me aí com uma surpresa perturbadora. Em um cadafalso se achava um cadáver envergando vestimentas funerárias. Ao seu redor, soldados de guarda, e um indígena que olhava com tristeza o corpo que ali jazia, cujo rosto estava oculto por um lenço. Outros choravam com profundo pesar.
— Quem foi que morreu na Casa Branca?, perguntei a um dos soldados.
— O presidente — respondeu-me ele. Foi morto por um assassino.
Ali o silêncio era rompido por idênticos soluços, porém os que sofriam eram invisíveis. Caminhei de quarto em quarto. Não havia ninguém a vista e os lamentos me seguiam enquanto caminhava.
As salas estavam iluminadas, os objetos me eram familiares; mas onde estava esta gente cujos corações pareciam estar a ponto de rebentar de aflição?
Invadiram-me a confusão e o medo. Que significava tudo isto?
Decidido a descobrir as causas desta situação tão chocante e misteriosa, segui até a Sala Oriental. Encontrei-me aí com uma surpresa perturbadora. Em um cadafalso se achava um cadáver envergando vestimentas funerárias. Ao seu redor, soldados de guarda, e um indígena que olhava com tristeza o corpo que ali jazia, cujo rosto estava oculto por um lenço. Outros choravam com profundo pesar.
— Quem foi que morreu na Casa Branca?, perguntei a um dos soldados.
— O presidente — respondeu-me ele. Foi morto por um assassino.
Anotado por Ward Hill Lamon, chefe de polícia do distrito de Columbia, que se encontrava presente quando Abraham Lincoln narrou a um grupo de amigos, na Casa Branca, um sonho que tivera em uma das noites anteriores e pouco antes de ser mortalmente baleado na cabeça, dentro do Teatro Ford, de Washington (14 de abril de 1865) por John Wilkes Booth.
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"
Esquece o futuro
Esquece o futuro... Ele não te pertence!
O presente te basta!
Mas é preciso ser rápido, quando ele é mau presente
E andar devagar quando se trata de saboreá-lo
Expressões como: ‘passar o tempo’ espelham bem a maneira
de viver dessa gente prudente.... que imagina não haver coisa melhor
para fazer da vida.
Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente
Como se estar vivo fosse uma coisa desprezível
Porque a natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis
que só mesmo por nossa culpa ela poderia se tornar pesada e inútil!
Michel de Montaigne
O presente te basta!
Mas é preciso ser rápido, quando ele é mau presente
E andar devagar quando se trata de saboreá-lo
Expressões como: ‘passar o tempo’ espelham bem a maneira
de viver dessa gente prudente.... que imagina não haver coisa melhor
para fazer da vida.
Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente
Como se estar vivo fosse uma coisa desprezível
Porque a natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis
que só mesmo por nossa culpa ela poderia se tornar pesada e inútil!
Michel de Montaigne
Remédios
A farmácia na roça era simples. Para dor de barriga, chá-de-bico. Para tosse, especialmente tosse de cachorro, chá de poejo e angu quente enrolado em pano aplicado no peito. Para estômago embrulhado, chá de losna. Vômito instantâneo. Para bronquite, inalação: água fervendo com folhas de eucalipto numa caneca sobre a qual se aplicava um funil invertido feito com papel. Para dor de dentes, bochechos com água morna. Os grandes bochechavam com pinga. Se houvesse maiores recursos da ciência, cera Doutor Lustosa, com que se enchia o buraco do dente. Para dor de garganta, gargarejo de água morna e sal. Para espantar os pernilongos, folhas de eucalipto queimadas numa lata, dentro do quarto. Pra picadura de cobra ouvi dizer que duas colheres de querosene é remédio bom. Mas não posso confirmar.
Rubem Alves, "O Velho que Acordou Menino"
Rubem Alves, "O Velho que Acordou Menino"
A história do medo
Em fila indiana no corredor do colégio, os alunos esperam pelo professor de latim. Enquanto todos, abnegados, resistem, eu sinto muito medo. Medo não do corredor ou do professor, nem mesmo do latim. Medo de algo que vem desde muito antes. Desde onde? Vasculho a memória, esse grande depósito de impressões, em cujas prateleiras mofadas e tortas minhas crônicas se abastecem. Tudo o que consigo ver é que tenho medo do Sentinela.
As imagens retornam, estendidas umas sobre as outras, presas ao grande varal do tempo. Quando escrevo, a esses fios me agarro. O que vejo? Nos fundos do colégio, há um descampado. Entre cavalos e moscas, o jovem Sentinela está em seu posto à entrada da várzea. Quando penso nele, a voz irritante do professor de Latim me corrige: “Não é o sentinela; é a sentinela. Mesmo sendo um rapaz, você deve usar o feminino”. Recuso-me a empregar o feminino para falar de um garoto que tem o rosto quadrado, a barba áspera e o pescoço cheio de veias. Não me importa a gramática, mas a realidade.
O Sentinela é mais velho do que eu. Nunca nos falamos, de modo que jamais me disse algo que pudesse me aborrecer ou humilhar. Só me repugna o fedor de seu corpo, mas muitos rapazes do campo fedem. Eu mesmo, que não sou do campo, quase sempre cheiro mal. Insisto: nada tenho contra o rapaz, compenetrado em seu posto de trabalho. Usa a mesma farda surrada e as botas com os cadarços soltos. Isso eu sempre observo porque, caso ele decida me perseguir, terá grandes chances de tropeçar.
Da entrada do descampado, a única coisa que avisto é o hangar desativado do Zeppelin. Mas havia um hangar para o Zeppelin em Botafogo? A memória é perigosa, mas isso não me interessa. Só consigo pensar que o Sentinela me atacará. Nem chega a ser um pensamento ou um pressentimento: é uma certeza. Não sei como o ataque acontecerá, apenas sinto medo. Tento vencer o medo e me aproximar do rapaz. Sai-me então a pergunta idiota: “Será que hoje chove?”. O Sentinela dá um passo à frente e diz: “Sai para lá. Aqui ninguém entra. Só entram os homens do Zeppelin”.
Depois da pergunta idiota, dei as costas e fugi. Corri em disparada de volta ao colégio. Devia ter 8 ou 9 anos. Escapei de um perigo que desconhecia, mas estava salvo. Mesmo assim, voltei outras vezes ao descampado e a cena, com variações sutis, se repetiu. Eu queria atravessar a cancela, o rapaz não deixava. Estufava o peito, fechava a cara e se mantinha inerte. Parece que eu desejava justamente essa proibição. Ansiava por ela, como um drogado. Eu queria a alegria do “não”. Como em Kafka, eu jogava com a Lei.
Nunca mais voltei ao descampado. Dessas lembranças, sobrou o medo. Medo sem objeto que, nos corredores dos jesuítas, eu continuava a sentir. Eu era um menino tolo, balofo, feio, quase sem sangue. O Sentinela também não era grande coisa, mas tinha uma farda e isso lhe dava alguma grandeza. Em farrapos, mas uma farda. Ele fazia parte de uma série, a dos garotos fardados. Ele era alguém. Contudo, quem ele era? Nunca soube seu nome, mas isso não importa. Não importa quem ele era; importa quem eu era. E eu estava reduzido ao medo que sentia. Até hoje, tudo o que restou é o medo.
Lembro bem: não havia nenhuma divisória ou demarcação visível. Havia o portão, e além dele mais nada. Nem mesmo uma estrada ou uma trilha. Estranho portão, que não dava acesso a coisa alguma, só a si mesmo. Estranha cancela, que nada barrava, só atravancava o caminho. E agora aqui estou, à espera do professor de Latim que não chega. Tudo desapareceu: o Sentinela, o descampado, o portão. As moscas e os cavalos também. Só ficou um medo puro, que gira em torno de mim. Que me assombra. Da vida, ficam os sentimentos. Com eles construímos a memória. Ou será da memória que construímos os sentimentos?
Enfim, chega o professor. Abre a porta da sala e diz: “Vamos entrando”. Meu medo aumenta. Tomo meu lugar, abro o caderno. O professor começa suas anotações no quadro-negro. Sou incapaz de segui-las, pois o medo toma conta de tudo. Antes o Sentinela aparecesse para incorporar meus temores. Eu fugiria dele e o medo desapareceria. Mas já não há Sentinela algum. Não há sequer um portão a me barrar. Mesmo com todas as cadeiras ocupadas pelos alunos, a sala de aula dos jesuítas se parece com um deserto. Sou um beduíno que vaga pelo vazio.
O bondoso professor de Latim percebe meu desencanto e, depois da aula, me chama para conversar. “Estou preso a um sentimento”, eu lhe digo. “Um sentimento que me inferniza e que não serve para nada.” Cheio de dedos, envergonhado, resumo a história do Sentinela. Depois de me ouvir, o professor me diz: “Todos precisamos de um inimigo. Sem alguém para enfrentar, sem um rival, os homens morrem”. Me disse ainda que, para um rapaz, é essencial eleger um oponente. Sem esse antagonista, ficamos com sentimentos frouxos, como as moças. Ele disse.
Não se trata de odiar, mas de lutar, ainda me alertou. “Sem luta não há vida.” Ocorre que sempre me esquivei do enfrentamento. Disfarçava, fugia, negava, tudo para não desafiar os outros. Foi o que fiz com o Sentinela: meu medo foi uma maneira de apagá-lo. Ocorreu que, ao fazer isso, apaguei a mim também. E agora aqui estou, com um sentimento puro e bruto, um diamante inútil, desprovido de brilho. Como uma faca sem sua carne ou um copo sem sua água.
Observo meus colegas de sala. Banho tomado, uniformes passados, cheirando a lavanda. Belos penteados, sapatos brilhantes e cuecas limpas. Eles estão em paz porque acreditam que têm algo a defender e algo a enfrentar. Enquanto isso, o professor desiste de mim e se vai. No mesmo momento, um vento gelado entra pela janela da sala de aula. Quisera ser o Sentinela. Estar em meu posto diante do portão. Sujo, repulsivo, pobre rapaz, mas cheio de certezas. Estar lá, atento ao sopro do vento e ao mugir das vacas. Não ter dúvidas. Não sofrer. Saber quem sou. Mas isso existe?
As imagens retornam, estendidas umas sobre as outras, presas ao grande varal do tempo. Quando escrevo, a esses fios me agarro. O que vejo? Nos fundos do colégio, há um descampado. Entre cavalos e moscas, o jovem Sentinela está em seu posto à entrada da várzea. Quando penso nele, a voz irritante do professor de Latim me corrige: “Não é o sentinela; é a sentinela. Mesmo sendo um rapaz, você deve usar o feminino”. Recuso-me a empregar o feminino para falar de um garoto que tem o rosto quadrado, a barba áspera e o pescoço cheio de veias. Não me importa a gramática, mas a realidade.
O Sentinela é mais velho do que eu. Nunca nos falamos, de modo que jamais me disse algo que pudesse me aborrecer ou humilhar. Só me repugna o fedor de seu corpo, mas muitos rapazes do campo fedem. Eu mesmo, que não sou do campo, quase sempre cheiro mal. Insisto: nada tenho contra o rapaz, compenetrado em seu posto de trabalho. Usa a mesma farda surrada e as botas com os cadarços soltos. Isso eu sempre observo porque, caso ele decida me perseguir, terá grandes chances de tropeçar.
Da entrada do descampado, a única coisa que avisto é o hangar desativado do Zeppelin. Mas havia um hangar para o Zeppelin em Botafogo? A memória é perigosa, mas isso não me interessa. Só consigo pensar que o Sentinela me atacará. Nem chega a ser um pensamento ou um pressentimento: é uma certeza. Não sei como o ataque acontecerá, apenas sinto medo. Tento vencer o medo e me aproximar do rapaz. Sai-me então a pergunta idiota: “Será que hoje chove?”. O Sentinela dá um passo à frente e diz: “Sai para lá. Aqui ninguém entra. Só entram os homens do Zeppelin”.
Depois da pergunta idiota, dei as costas e fugi. Corri em disparada de volta ao colégio. Devia ter 8 ou 9 anos. Escapei de um perigo que desconhecia, mas estava salvo. Mesmo assim, voltei outras vezes ao descampado e a cena, com variações sutis, se repetiu. Eu queria atravessar a cancela, o rapaz não deixava. Estufava o peito, fechava a cara e se mantinha inerte. Parece que eu desejava justamente essa proibição. Ansiava por ela, como um drogado. Eu queria a alegria do “não”. Como em Kafka, eu jogava com a Lei.
Nunca mais voltei ao descampado. Dessas lembranças, sobrou o medo. Medo sem objeto que, nos corredores dos jesuítas, eu continuava a sentir. Eu era um menino tolo, balofo, feio, quase sem sangue. O Sentinela também não era grande coisa, mas tinha uma farda e isso lhe dava alguma grandeza. Em farrapos, mas uma farda. Ele fazia parte de uma série, a dos garotos fardados. Ele era alguém. Contudo, quem ele era? Nunca soube seu nome, mas isso não importa. Não importa quem ele era; importa quem eu era. E eu estava reduzido ao medo que sentia. Até hoje, tudo o que restou é o medo.
Lembro bem: não havia nenhuma divisória ou demarcação visível. Havia o portão, e além dele mais nada. Nem mesmo uma estrada ou uma trilha. Estranho portão, que não dava acesso a coisa alguma, só a si mesmo. Estranha cancela, que nada barrava, só atravancava o caminho. E agora aqui estou, à espera do professor de Latim que não chega. Tudo desapareceu: o Sentinela, o descampado, o portão. As moscas e os cavalos também. Só ficou um medo puro, que gira em torno de mim. Que me assombra. Da vida, ficam os sentimentos. Com eles construímos a memória. Ou será da memória que construímos os sentimentos?
Enfim, chega o professor. Abre a porta da sala e diz: “Vamos entrando”. Meu medo aumenta. Tomo meu lugar, abro o caderno. O professor começa suas anotações no quadro-negro. Sou incapaz de segui-las, pois o medo toma conta de tudo. Antes o Sentinela aparecesse para incorporar meus temores. Eu fugiria dele e o medo desapareceria. Mas já não há Sentinela algum. Não há sequer um portão a me barrar. Mesmo com todas as cadeiras ocupadas pelos alunos, a sala de aula dos jesuítas se parece com um deserto. Sou um beduíno que vaga pelo vazio.
O bondoso professor de Latim percebe meu desencanto e, depois da aula, me chama para conversar. “Estou preso a um sentimento”, eu lhe digo. “Um sentimento que me inferniza e que não serve para nada.” Cheio de dedos, envergonhado, resumo a história do Sentinela. Depois de me ouvir, o professor me diz: “Todos precisamos de um inimigo. Sem alguém para enfrentar, sem um rival, os homens morrem”. Me disse ainda que, para um rapaz, é essencial eleger um oponente. Sem esse antagonista, ficamos com sentimentos frouxos, como as moças. Ele disse.
Não se trata de odiar, mas de lutar, ainda me alertou. “Sem luta não há vida.” Ocorre que sempre me esquivei do enfrentamento. Disfarçava, fugia, negava, tudo para não desafiar os outros. Foi o que fiz com o Sentinela: meu medo foi uma maneira de apagá-lo. Ocorreu que, ao fazer isso, apaguei a mim também. E agora aqui estou, com um sentimento puro e bruto, um diamante inútil, desprovido de brilho. Como uma faca sem sua carne ou um copo sem sua água.
Observo meus colegas de sala. Banho tomado, uniformes passados, cheirando a lavanda. Belos penteados, sapatos brilhantes e cuecas limpas. Eles estão em paz porque acreditam que têm algo a defender e algo a enfrentar. Enquanto isso, o professor desiste de mim e se vai. No mesmo momento, um vento gelado entra pela janela da sala de aula. Quisera ser o Sentinela. Estar em meu posto diante do portão. Sujo, repulsivo, pobre rapaz, mas cheio de certezas. Estar lá, atento ao sopro do vento e ao mugir das vacas. Não ter dúvidas. Não sofrer. Saber quem sou. Mas isso existe?
sexta-feira, agosto 28
Sobre o desastre
Viveu uma semana a cidade sob a impressão do desastre da Rua da Carioca. A impressão foi tão grande, alagou-se por todas as camadas, que temo não ter sido de tal modo profunda, pois imagino que, quando saírem à luz estas linhas, ela já se tenha apagado de todos os espíritos.
Todos procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.
Uma coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação moral, ou antes, social.
Nesse atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equilibrado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.
O nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro qualquer de sua raça.
A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.
O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é, que se ir do Méier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, não se saia da zona urbana.
De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.
Porque os fazem então?
E por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acoraçoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele poderoso país.
Longe de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da civilização e do aperfeiçoamento individual, mas aprová-la quand même, é que não posso fazer.
O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “cabeças-de-porco”, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional.
Nós não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebeia brutalidade de monstruosas construções?
Abandonemos essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus humildes construtores.
Os inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os elevadores dar vazão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.
Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não ofendem muito à beleza e à natureza.
Sei bem que essas considerações são inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta. Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer: “Venceste Galileu.”
Lima Barreto, Revista da Época (20-7-1917)
Todos procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.
Uma coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação moral, ou antes, social.
Nesse atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equilibrado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.
O nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro qualquer de sua raça.
A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.
O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é, que se ir do Méier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, não se saia da zona urbana.
De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.
Porque os fazem então?
E por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acoraçoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele poderoso país.
Longe de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da civilização e do aperfeiçoamento individual, mas aprová-la quand même, é que não posso fazer.
O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “cabeças-de-porco”, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional.
Nós não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebeia brutalidade de monstruosas construções?
Abandonemos essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus humildes construtores.
Os inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os elevadores dar vazão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.
Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não ofendem muito à beleza e à natureza.
Sei bem que essas considerações são inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta. Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer: “Venceste Galileu.”
Lima Barreto, Revista da Época (20-7-1917)
Deram-me o silêncio
Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
a vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
as vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
a impossível palavra da verdade.
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
para eu guardar dentro de mim,
para eu ignorar dentro de mim
a única palavra sem disfarce –
a palavra que nunca se profere.
Adolfo Casais Monteiro
a vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
as vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
a impossível palavra da verdade.
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
para eu guardar dentro de mim,
para eu ignorar dentro de mim
a única palavra sem disfarce –
a palavra que nunca se profere.
Adolfo Casais Monteiro
O pecado de ter folhas
No restaurante, o rapaz da mesa segurava um tablet e falava, com a segurança dos recém-convertidos, sobre sustentabilidade.
O livro de papel, explicou à moça, era um hábito ultrapassado. Árvores, transporte, tinta, resíduos. Tudo muito grave. Dizia isso enquanto manejava dois celulares, um fone sem fio e um relógio que precisava ser alimentado pela tomada uma vez por dia.
Eu não disse nada. A idade ensina a escolher melhor as batalhas.
É evidente que fabricar um livro consome recursos. Nenhum romance sai da gráfica movido a bons sentimentos. Há papel, energia, tinta, transporte. O problema começa quando se compara esse objeto a um mundo que finge não ter peso, fabricação nem consumo elétrico.
O universo digital tem essa vantagem extraordinária: a sua sujeira quase nunca aparece na fotografia. O leitor vê a tela lisa. Não enxerga a extração dos minerais, a produção do aparelho, a bateria que envelhece, a energia consumida para manter a máquina global respirando dia e noite.
A tecnologia não aboliu a matéria. Só aprendeu a camuflá-la melhor. Já o livro tem um defeito terrível para a economia contemporânea: dura muito.
Pode passar de pai para filho, de desconhecido para desconhecido. Sobrevive a mudanças de sistema, falências de conglomerados e atualizações obrigatórias. Um volume antigo não acorda certa manhã informando que deixou de ser compatível com a estante.
O papel envelhece. A obsolescência é que tem pressa. Há exemplares que atravessam décadas com uma dignidade que poucos aparelhos eletrônicos alcançam em cinco. E quando trocam de dono, tornam-se ainda mais inconvenientes para a lógica do descarte: continuam úteis sem exigir nova fabricação.
O nome disso hoje é economia circular. No passado chamava-se não jogar fora o que ainda presta.
Mas o debate ecológico tem seus réus de estimação. O papel é condenado porque se vê; o impacto digital, por ficar escondido, passa por inocente.
O livro impresso, porém, tem vantagens sobre o e-book: continua circulando sem depender de aparelho, bateria ou plataforma. Não é mais sábio por ser de fibra vegetal. Apenas costuma sobreviver melhor às modas que o cercam.
Não se trata de declarar o livro físico inocente. Pureza ecológica é uma fantasia produzida por departamentos de marketing. Mais sensato seria perguntar algo menos infantil: quanto um objeto custa ao planeta, qual o seu tempo de duração e até quando pode continuar sendo útil.
Nesse momento da minha reflexão, o rapaz terminou o café, guardou o tablet, os dois celulares e os fones numa mochila.
Na mesa ficou apenas o guardanapo. No fim, o papel sempre paga a conta.
O livro de papel, explicou à moça, era um hábito ultrapassado. Árvores, transporte, tinta, resíduos. Tudo muito grave. Dizia isso enquanto manejava dois celulares, um fone sem fio e um relógio que precisava ser alimentado pela tomada uma vez por dia.
Eu não disse nada. A idade ensina a escolher melhor as batalhas.
É evidente que fabricar um livro consome recursos. Nenhum romance sai da gráfica movido a bons sentimentos. Há papel, energia, tinta, transporte. O problema começa quando se compara esse objeto a um mundo que finge não ter peso, fabricação nem consumo elétrico.
O universo digital tem essa vantagem extraordinária: a sua sujeira quase nunca aparece na fotografia. O leitor vê a tela lisa. Não enxerga a extração dos minerais, a produção do aparelho, a bateria que envelhece, a energia consumida para manter a máquina global respirando dia e noite.
A tecnologia não aboliu a matéria. Só aprendeu a camuflá-la melhor. Já o livro tem um defeito terrível para a economia contemporânea: dura muito.
Pode passar de pai para filho, de desconhecido para desconhecido. Sobrevive a mudanças de sistema, falências de conglomerados e atualizações obrigatórias. Um volume antigo não acorda certa manhã informando que deixou de ser compatível com a estante.
O papel envelhece. A obsolescência é que tem pressa. Há exemplares que atravessam décadas com uma dignidade que poucos aparelhos eletrônicos alcançam em cinco. E quando trocam de dono, tornam-se ainda mais inconvenientes para a lógica do descarte: continuam úteis sem exigir nova fabricação.
O nome disso hoje é economia circular. No passado chamava-se não jogar fora o que ainda presta.
Mas o debate ecológico tem seus réus de estimação. O papel é condenado porque se vê; o impacto digital, por ficar escondido, passa por inocente.
O livro impresso, porém, tem vantagens sobre o e-book: continua circulando sem depender de aparelho, bateria ou plataforma. Não é mais sábio por ser de fibra vegetal. Apenas costuma sobreviver melhor às modas que o cercam.
Não se trata de declarar o livro físico inocente. Pureza ecológica é uma fantasia produzida por departamentos de marketing. Mais sensato seria perguntar algo menos infantil: quanto um objeto custa ao planeta, qual o seu tempo de duração e até quando pode continuar sendo útil.
Nesse momento da minha reflexão, o rapaz terminou o café, guardou o tablet, os dois celulares e os fones numa mochila.
Na mesa ficou apenas o guardanapo. No fim, o papel sempre paga a conta.
A casa
Passei uma última vez pela livraria José Olympio, na rua do Ouvidor, para conferir minhas recordações com os objetos que a elas estão ligados. Daqui a um mês, esses objetos quedarão guardados em nós, numa caixa invisível, que abrange prateleiras, balcão, vozes, pensamentos, pessoas. Bem sei que a vida é “duração” e mobilidade, como ensina o filósofo, e não há razão de melancolia: a loja será desmanchada para se recompor em edifício novo, nós mesmos, com o tempo, seremos recompostos sob novas espécies, e o fato de não termos consciência física da permanência na transformação não impede o seu alegre desenvolvimento. Olhei para o velho Castilho e o Altamir, procurei o rapazinho Athos, que hoje é homem-feito, perguntei pelo Daniel, que defende outro setor, por todos da velha guarda, e verifiquei de súbito que a própria saudade é dinâmica; eu estava ali há vinte anos passados, desembarcado de Minas, como o próprio José Olympio, de São Paulo. Se alguns “viciados” da casa, como Graciliano Ramos, aparentemente tinham morrido, a glória do nome provava a mentira do desaparecimento. J. O. criara uma coisa que não acaba mais.
A livraria, a princípio, não tinha aquele lugarzinho nos fundos, com o banco para os escritores se sentarem e baterem papo (uma ou duas vezes, trocaram sopapo), esse banco preto que viera da biblioteca de Alfredo Pujol e está agora recolhido à sala de trabalho do editor, como “o banco do Graciliano”. Lá era o escritório de José Olympio, que depois passou ao andar superior. Os literatos foram chegando, José Lins do Rego, Hermes Lima, Jorge Amado, Murilo Mendes, que acabara de converter-se ao catolicismo ortodoxo, Marques Rebelo, a formosura de Adalgisa Nery, o pessimismo de Graciliano, Eneida cordial e sua gargalhada, a ironia de Tarquínio, os derrames de um, as mentiras de outro, e o local foi-se convertendo no que se chama um foco. Rapazes que desembarcassem de um “ita” do Norte ou do trenzinho fumacento de Minas tinham de ir, correndo, respirar aqueles ares ilustres.
Com esse colorido de vanguarda, não havia outra casa no Rio. Mesmo tendo o hábito de percorrer livrarias, era naquela que o escritor pousava para confrontar suas ideias com as dos confrades, para se sentir, não um consumidor de livros, mas um ser caracterizado e participante, às voltas com as dúvidas e complicações inerentes à sua natureza imaginativa e hipersensível, e desejoso de apoio e comunicação.
Por outro lado, não se tratava apenas de uma loja simpática. Era também uma editora revolucionária, que lançava com ímpeto nomes conhecidos de pouca gente ou de ninguém.
Apresentava um livro diferente e elegante, formato padronizado, capa desenhada por Santa Rosa (o que nem sempre era fácil de conseguir, pois o Santa, como a felicidade, não estava onde o procurassem, ou nunca o procuravam onde poderia estar), e o aspecto gráfico e o prestígio da casa acendiam nos escritores o desejo de figurar em seu catálogo. José Olympio editou com o mesmo espírito autores da direita, do centro, da esquerda e do planeta Sírio, e se aos de determinado matiz tocou um papel mais saliente durante certo tempo, isto se deve à tendência da época, aos rumos da sensibilidade, tangida pelos acontecimentos mundiais. J. O. logo se revelou excelente praça, pois não editava apenas, ficava querendo bem aos editados, interessava-se por eles junto a quem de direito, ajudava-os em silêncio, criava em torno da materialidade das relações profissionais uma coisa abstrata mas imperante, a que ele chamou a Casa. J. O. em geral não emprega a primeira pessoa; diz: a Casa. A Casa não pode editar um livro nessas condições, a Casa ficou magoada, a Casa está feliz… O fato é que não se pode compreender a efervescência de ideias, de planos, o sentido socializante da literatura por volta de 35 a 37, sem a presença da Casa. O romance sofrido do Nordeste, situado em 30, ganhou ali direitos de cidade. O modernismo, então ainda ridicularizado por jornais e salões, começou a funcionar como produto editorial, que o público julgaria diretamente. Os “Documentos Brasileiros” se converteram num laboratório de crítica, pesquisa social e interpretação histórica do Brasil. De modo que aquilo era uma loja de livros, à primeira vista; mas tinha alma.
A livraria, a princípio, não tinha aquele lugarzinho nos fundos, com o banco para os escritores se sentarem e baterem papo (uma ou duas vezes, trocaram sopapo), esse banco preto que viera da biblioteca de Alfredo Pujol e está agora recolhido à sala de trabalho do editor, como “o banco do Graciliano”. Lá era o escritório de José Olympio, que depois passou ao andar superior. Os literatos foram chegando, José Lins do Rego, Hermes Lima, Jorge Amado, Murilo Mendes, que acabara de converter-se ao catolicismo ortodoxo, Marques Rebelo, a formosura de Adalgisa Nery, o pessimismo de Graciliano, Eneida cordial e sua gargalhada, a ironia de Tarquínio, os derrames de um, as mentiras de outro, e o local foi-se convertendo no que se chama um foco. Rapazes que desembarcassem de um “ita” do Norte ou do trenzinho fumacento de Minas tinham de ir, correndo, respirar aqueles ares ilustres.
Com esse colorido de vanguarda, não havia outra casa no Rio. Mesmo tendo o hábito de percorrer livrarias, era naquela que o escritor pousava para confrontar suas ideias com as dos confrades, para se sentir, não um consumidor de livros, mas um ser caracterizado e participante, às voltas com as dúvidas e complicações inerentes à sua natureza imaginativa e hipersensível, e desejoso de apoio e comunicação.
Por outro lado, não se tratava apenas de uma loja simpática. Era também uma editora revolucionária, que lançava com ímpeto nomes conhecidos de pouca gente ou de ninguém.
Apresentava um livro diferente e elegante, formato padronizado, capa desenhada por Santa Rosa (o que nem sempre era fácil de conseguir, pois o Santa, como a felicidade, não estava onde o procurassem, ou nunca o procuravam onde poderia estar), e o aspecto gráfico e o prestígio da casa acendiam nos escritores o desejo de figurar em seu catálogo. José Olympio editou com o mesmo espírito autores da direita, do centro, da esquerda e do planeta Sírio, e se aos de determinado matiz tocou um papel mais saliente durante certo tempo, isto se deve à tendência da época, aos rumos da sensibilidade, tangida pelos acontecimentos mundiais. J. O. logo se revelou excelente praça, pois não editava apenas, ficava querendo bem aos editados, interessava-se por eles junto a quem de direito, ajudava-os em silêncio, criava em torno da materialidade das relações profissionais uma coisa abstrata mas imperante, a que ele chamou a Casa. J. O. em geral não emprega a primeira pessoa; diz: a Casa. A Casa não pode editar um livro nessas condições, a Casa ficou magoada, a Casa está feliz… O fato é que não se pode compreender a efervescência de ideias, de planos, o sentido socializante da literatura por volta de 35 a 37, sem a presença da Casa. O romance sofrido do Nordeste, situado em 30, ganhou ali direitos de cidade. O modernismo, então ainda ridicularizado por jornais e salões, começou a funcionar como produto editorial, que o público julgaria diretamente. Os “Documentos Brasileiros” se converteram num laboratório de crítica, pesquisa social e interpretação histórica do Brasil. De modo que aquilo era uma loja de livros, à primeira vista; mas tinha alma.
A Casa continua.
Carlos Drummond de Andrade, "Fala, Amendoeira"
Carlos Drummond de Andrade, "Fala, Amendoeira"
quinta-feira, agosto 27
Teoria da leitura
Tenho um vizinho de meia-idade, um senhor baixote e careca, que gosta de puxar conversa quando nos encontramos no elevador. Hoje cedo, descemos juntos. “Tem lido muito?” — ele me perguntou, só por perguntar. Sim, estou sempre lendo, respondo, sem interesse algum em alongar a conversa. Alguns segundos de silêncio desagradável nos afastam. E é aí, quebrando esse vácuo, que ele me diz: “Leio sempre também. Só que não leio livros, leio rostos”.
Explica-me o senhor Ramos que, quando tenta ler livros, pega logo no sono. Revistas, jornais, almanaques também o levam a adormecer. Só os rostos o acordam e estimulam. “O senhor já notou a quantidade de detalhes, de linhas e sinais secretos que os rostos guardam?” Contou que, sempre que esbarra com um rosto especial, logo depois toma seu bloco de notas e registra o que viu. “Mas a memória é desgraçada”, lamenta-se. “Logo esqueço do que vi. O mais importante sempre escapa.”
“Minha mulher diz que sou uma espécie primitiva de fotógrafo. Em vez da máquina, ou do celular, os olhos me bastam.” Tem vários cadernos preenchidos com suas anotações. E me choca: “Há algum tempo, cheguei a esboçar seu retrato. Ficou malfeito, porque nos encontramos sempre às pressas. É só um rascunho. Está anotado em algum lugar”. Tento inverter as posições e me coloco em seu lugar. Observo em detalhes seu rosto. O problema é que, por mais que eu me esforce, nada de notável consigo ver. Nada se destaca ou se realça. É um rosto branco, sem nuances, enrugado, sim, mas por igual, e sem exageros ou particularidades. Tudo nele parece estar em seu lugar, algum lugar traçado há milênios. Olho, olho, mas nada há a registrar. Nada se destaca. Logo desisto.
Recordo-me de que meu acupunturista, doutor Emanuel Jobi, me dizia que a cada área do rosto corresponde um dos órgãos internos do corpo humano. Lendo um rosto, se pode saber do fígado, dos rins, do pâncreas, do baço. Esses paralelos, ele me explicou, são um dos fundamentos da medicina chinesa. Que, na China milenar, se dedicassem a ler os rostos, não me espanta, acho assombroso e belo. Mas hoje, quando corremos tanto, quando o tempo nos escapa e as imagens nos sufocam, isso não faz mais sentido. Será possível ler um rosto a partir de uma selfie? Ia perguntar isso ao senhor Ramos, mas, temendo que a conversa se alongasse, me segurei.
Lembro que, quando menino, interessei-me pelas formigas. No quintal de nosso sítio, em Teresópolis, eu ficava um longo tempo entretido com seu séquito de gravetos e de folhas. Impressionava-me como eram rigorosas e metódicas. Como eram impecáveis. Agora, tanto tempo depois, e um tanto assustado, me pergunto: será que na infância, e sem saber disso, eu lia as formigas e seus desenhos no chão? Nunca fiz anotações a respeito. Se lia seus movimentos, nunca me preocupei em traduzi-los. Essa lembrança remota me vem já na portaria, mas ela logo é cortada pela presença perturbadora da senhora Parulla, uma costureira de bairro que se denomina estilista.
Quando me dirige a palavra, a senhora Parulla não me encara. Na verdade, ela ignora meu rosto. Em vez disso, inspeciona minha camisa, vigia minha gola, analisa meus sapatos. Age como uma fiscal de postura, que controla minha aparência e mal dá ouvidos ao que eu digo. Parece que, enquanto conversamos, ela lê minhas roupas. Só as roupas? Já notei seu desgosto ao observar minha barriga, e também seu nojo ao esquadrinhar os pelos de meus braços. Hoje ela repete seu ritual. “O senhor sempre apressado”, reclama, ao me ver em posição de fuga. Se corro, não lhe dou tempo de me analisar. De analisar meu corpo. Se corro, desmonto seu esboço de retrato, a impeço de me reproduzir.
“A costura me ensinou que as vestimentas são a alma das pessoas”, diz. Não sei o que comentar; nada lhe perguntei a respeito. Continua: “Não adianta vestir um terno emprestado, ou um sapato que não lhe pertence. Logo percebo que a pessoa está mentindo”. As roupas dizem verdades escandalosas, continua. As roupas berram — diz ainda, esgoelando-se em meus ouvidos. É infernal essa sequência de paralelos que agora me cerca. O senhor Ramos com seus semblantes, as formigas de minha infância, a senhora Parulla com seus moldes. É insuportável um mundo em que, por mais que se queira ficar quieto, a realidade grita e pede, todo o tempo, que a leiam.
Saio, enfim, para a calçada. Respiro aliviado: as pessoas com quem cruzo não estão interessadas em ler nada; querem apenas existir. “Talvez leiam e não saibam que leem”, resmunga a voz do senhor Ramos. Peço que se cale. Nada mais desejo além do silêncio da manhã. Quisera ser analfabeto, quisera não ver relação alguma entre as coisas, quisera apenas ver sem entender. Mas isso já não é possível. Quisera ser como Jasper, o cãozinho do 201, que é velho e cego e, como todos os cães, desconhece o alfabeto. Deve ser tão bom apenas sentir o mundo, sem a obrigação de interpretá-lo. Apenas observar e sentir, como fazem os pássaros e faz também o pobre Jasper, que se limita a cheirar o chão. Será que, quando ele cheira o chão, ele lê o chão?
Mas nem assim me livro. Mesmo com os olhos fechados, mesmo me limitando a farejar a manhã sem buscar sentido algum, mesmo desinteressado e cansado, elos se estabelecem, secretamente, entre as coisas. Diria o senhor Ramos: “Ninguém escapa da leitura”. Diante da realidade, o pensamento continua a organizar paralelos e a semear significados. A mente não para. Mesmo sem ler, mesmo sem desejar ler, continuo lendo. Vem-me à lembrança a “leitura silenciosa” que aprendi a praticar ainda no jardim de infância. A professora distribuía livros, nossos pequenos livros, e, estirados no chão, devíamos lê-los em silêncio, ler fingindo que não líamos. “Aprendam que o livro está dentro de vocês”, ela repetia. “Fora de vocês, nada há. Fora de vocês, só o silêncio.” Ocorre que, mesmo por dentro, elos se estabeleciam, significados se multiplicavam, orações se formavam. Ali, deitado no chão da escola, tudo começou. E não parou mais.
Explica-me o senhor Ramos que, quando tenta ler livros, pega logo no sono. Revistas, jornais, almanaques também o levam a adormecer. Só os rostos o acordam e estimulam. “O senhor já notou a quantidade de detalhes, de linhas e sinais secretos que os rostos guardam?” Contou que, sempre que esbarra com um rosto especial, logo depois toma seu bloco de notas e registra o que viu. “Mas a memória é desgraçada”, lamenta-se. “Logo esqueço do que vi. O mais importante sempre escapa.”
“Minha mulher diz que sou uma espécie primitiva de fotógrafo. Em vez da máquina, ou do celular, os olhos me bastam.” Tem vários cadernos preenchidos com suas anotações. E me choca: “Há algum tempo, cheguei a esboçar seu retrato. Ficou malfeito, porque nos encontramos sempre às pressas. É só um rascunho. Está anotado em algum lugar”. Tento inverter as posições e me coloco em seu lugar. Observo em detalhes seu rosto. O problema é que, por mais que eu me esforce, nada de notável consigo ver. Nada se destaca ou se realça. É um rosto branco, sem nuances, enrugado, sim, mas por igual, e sem exageros ou particularidades. Tudo nele parece estar em seu lugar, algum lugar traçado há milênios. Olho, olho, mas nada há a registrar. Nada se destaca. Logo desisto.
Recordo-me de que meu acupunturista, doutor Emanuel Jobi, me dizia que a cada área do rosto corresponde um dos órgãos internos do corpo humano. Lendo um rosto, se pode saber do fígado, dos rins, do pâncreas, do baço. Esses paralelos, ele me explicou, são um dos fundamentos da medicina chinesa. Que, na China milenar, se dedicassem a ler os rostos, não me espanta, acho assombroso e belo. Mas hoje, quando corremos tanto, quando o tempo nos escapa e as imagens nos sufocam, isso não faz mais sentido. Será possível ler um rosto a partir de uma selfie? Ia perguntar isso ao senhor Ramos, mas, temendo que a conversa se alongasse, me segurei.
Lembro que, quando menino, interessei-me pelas formigas. No quintal de nosso sítio, em Teresópolis, eu ficava um longo tempo entretido com seu séquito de gravetos e de folhas. Impressionava-me como eram rigorosas e metódicas. Como eram impecáveis. Agora, tanto tempo depois, e um tanto assustado, me pergunto: será que na infância, e sem saber disso, eu lia as formigas e seus desenhos no chão? Nunca fiz anotações a respeito. Se lia seus movimentos, nunca me preocupei em traduzi-los. Essa lembrança remota me vem já na portaria, mas ela logo é cortada pela presença perturbadora da senhora Parulla, uma costureira de bairro que se denomina estilista.
Quando me dirige a palavra, a senhora Parulla não me encara. Na verdade, ela ignora meu rosto. Em vez disso, inspeciona minha camisa, vigia minha gola, analisa meus sapatos. Age como uma fiscal de postura, que controla minha aparência e mal dá ouvidos ao que eu digo. Parece que, enquanto conversamos, ela lê minhas roupas. Só as roupas? Já notei seu desgosto ao observar minha barriga, e também seu nojo ao esquadrinhar os pelos de meus braços. Hoje ela repete seu ritual. “O senhor sempre apressado”, reclama, ao me ver em posição de fuga. Se corro, não lhe dou tempo de me analisar. De analisar meu corpo. Se corro, desmonto seu esboço de retrato, a impeço de me reproduzir.
“A costura me ensinou que as vestimentas são a alma das pessoas”, diz. Não sei o que comentar; nada lhe perguntei a respeito. Continua: “Não adianta vestir um terno emprestado, ou um sapato que não lhe pertence. Logo percebo que a pessoa está mentindo”. As roupas dizem verdades escandalosas, continua. As roupas berram — diz ainda, esgoelando-se em meus ouvidos. É infernal essa sequência de paralelos que agora me cerca. O senhor Ramos com seus semblantes, as formigas de minha infância, a senhora Parulla com seus moldes. É insuportável um mundo em que, por mais que se queira ficar quieto, a realidade grita e pede, todo o tempo, que a leiam.
Saio, enfim, para a calçada. Respiro aliviado: as pessoas com quem cruzo não estão interessadas em ler nada; querem apenas existir. “Talvez leiam e não saibam que leem”, resmunga a voz do senhor Ramos. Peço que se cale. Nada mais desejo além do silêncio da manhã. Quisera ser analfabeto, quisera não ver relação alguma entre as coisas, quisera apenas ver sem entender. Mas isso já não é possível. Quisera ser como Jasper, o cãozinho do 201, que é velho e cego e, como todos os cães, desconhece o alfabeto. Deve ser tão bom apenas sentir o mundo, sem a obrigação de interpretá-lo. Apenas observar e sentir, como fazem os pássaros e faz também o pobre Jasper, que se limita a cheirar o chão. Será que, quando ele cheira o chão, ele lê o chão?
Mas nem assim me livro. Mesmo com os olhos fechados, mesmo me limitando a farejar a manhã sem buscar sentido algum, mesmo desinteressado e cansado, elos se estabelecem, secretamente, entre as coisas. Diria o senhor Ramos: “Ninguém escapa da leitura”. Diante da realidade, o pensamento continua a organizar paralelos e a semear significados. A mente não para. Mesmo sem ler, mesmo sem desejar ler, continuo lendo. Vem-me à lembrança a “leitura silenciosa” que aprendi a praticar ainda no jardim de infância. A professora distribuía livros, nossos pequenos livros, e, estirados no chão, devíamos lê-los em silêncio, ler fingindo que não líamos. “Aprendam que o livro está dentro de vocês”, ela repetia. “Fora de vocês, nada há. Fora de vocês, só o silêncio.” Ocorre que, mesmo por dentro, elos se estabeleciam, significados se multiplicavam, orações se formavam. Ali, deitado no chão da escola, tudo começou. E não parou mais.
Parolagem da vida
Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
Carlos Drummond de Andrade, "Poesia e prosa"
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
Carlos Drummond de Andrade, "Poesia e prosa"
O espectro
— Venha aqui, ouça!
Quando falou assim a voz que o chamava, estava de pé, à porta de sua casinha, empunhando a bandeirola, que conservava enrolada no pauzinho que desempenhava as funções de haste.
Era tal a configuração do terreno que não parecia possível que pudesse ter dúvida sobre a procedência da minha voz. Contudo o homem, longe de erguer os olhos para o lugar em que me achava, à borda da trincheira, precisamente sobre a sua cabeça, deu meia volta e olhou em direção à vila.
— Venha aqui, ouça!
Só então deixou de esquadrinhar a linha. Girou de novo sobre os calcanhares e deitando a cabeça para trás distinguiu-me por cima do seu observatório.
— Há algum caminho que me permita descer até aí para travarmos conversação um pouco mais de perto?
Houve uma pausa, então. O homem examinava-me com profunda atenção. Por fim, apontou-me com a bandeirola um ponto situado a duzentas ou trezentas toesas à esquerda.
— Está tudo bem! Muito bem! — exclamei.
E dirigi-me ao lugar indicado. Lá, depois de muito olhar em torno de mim, descobri um estreito caminho, toscamente talhado em ziguezague e comecei a segui-lo.
A trincheira era funda em extremo. Estava talhada a pique sobre um bloco de pedra e, à medida que se descia, diminuía a consistência da pedra, ao passo que a umidade aumentava proporcionalmente. Vi-me obrigado a serpentear. Durante minhas voltas e reviravoltas não me saíam da memória o jeito indeciso e a rara timidez que havia notado no pobre homem quando se decidiu a indicar-me o caminho.
Concluídos os rodeios, tornei a contemplá-lo da vertente e pude observar que permanecia na via que dera passagem ao último trem. Sua atitude permitia afirmar que estava à minha espera.
Encostava o queixo na palma da mão esquerda, enquanto o braço correspondente procurava apoio no direito que tinha cruzado ao peito; e era tão singular a sua expectativa, refletia tanta ansiedade que parei por um pouco, cheio de surpresa.
Continuei descendo até chegar ao terreiro e então pude contemplar, à vontade, a pele morena, a barba negra e as sobrancelhas espessas da minha estranha personagem.
Sua casinha ocupava o lugar mais solitário e triste da via férrea. De cada um dos lados erguia-se um muro pedregoso que vertia água e impedia o olhar de espraiar-se pela imensidade do céu, de que só se distinguia uma faixa estreita.
E não eram mais alegres as perspectivas da estrada. De um lado via-se o prolongamento tortuoso desse grande cárcere; de outro, ainda mais limitado, o que atraía os olhares era uma luz de um vermelho sinistro, situada sobre a abertura de um túnel sombrio, cuja estrutura maciça oferecia um aspecto grosseiro e repulsivo. Os raios solares ali chegavam minguados e amortecidos; respirava-se um cheiro de subterrâneo. Um vento fúnebre que me gelou o sangue nas veias soprava daquela boca escura… Estremeci. Apossou-se de mim a idéia de que já não estava no mundo dos vivos.
O interpelado permanecia fixo no mesmo lugar. Cheguei-lhe ao lado; consegui tocar-lhe; mas perseverou indefinidamente na sua primitiva imobilidade. Enquanto não parei, permaneceu quieto em seu lugar. Depois, retrocedeu um passo e levantou a mão; mas não tinha deixado um só instante de assestar nos meus olhos o olhar desvairado dos seus.
— É bem solitário este posto — disse eu. — Já lá de cima, quando o descobri, foi o que me pareceu. Poucas visitas terá por aqui, não é verdade? mas nem por isso elas lhe serão desagradáveis… Pelo menos, é o que me parece! Sou um sujeito cuja vida decorre entre horizontes bem limitados. Por fim consegui alcançar a liberdade e minha curiosidade arrasta-me, apaixonadamente, ao exame cuidadoso das grandes construções ferroviárias. Tais investigações, inteiramente novas para mim, satisfarão minha ignorância com a maior precisão.
Disse-lhe aproximadamente essas palavras. Estou longe de reproduzi-las com absoluta fidelidade. Nunca fui muito forte na arte de entabular conversações e nessa ocasião, menos do que nunca, pois o interpelado tinha certa expressão pouco tranquilizadora, que me infundia medo.
Voltou-se, para registrar, com exagerada solicitude o lugar em que permanecia fixa a luz vermelha que só alumiava as proximidades do túnel, como se fizesse pouco caso dos outros objetos naquelas ermas paragens.
Por fim, dirigiu-me novamente o olhar.
— Está também a seu cargo a vigilância e cuidado desse sinal? — perguntei-lhe.
Respondeu, em voz calma:
— O quê?! Pois não sabia?
Era tão insistente a fixidez do seu olhar e tão intensa a sombra que lhe escurecia o rosto, que me cruzou pela mente uma suspeita singular.
Devia considerar como a um homem aquele ser que estava diante de mim? Não seria um fantasma? Mais tarde pensei que devia sentir-me contagiado pelo seu aspecto. Coube-me então a vez de retroceder um passo. Isso provocou no desgraçado os sinais mais inequívocos de terror. Eu lhe metia medo. Esta descoberta pôs fim às minhas suspeitas extravagantes.
— O senhor me olha — disse-lhe com um sorriso forçado — como se eu lhe fizesse medo.
— Parece-me que já o vi antes.
— Onde?
Indicou com a vista a luz vermelha.
— Ali? — perguntei-lhe.
— Sim — respondeu num gesto mudo de assentimento e sem tirar de mim os olhos ansiosos.
— Mas, bom homem, que é que eu poderia ir fazer ali? Ainda que isso fosse possível, creia que isso nunca me ocorreu e que nunca, em toda minha vida, pus os pés naquele lugar. Posso jurá-lo — disse; — estou bem certo disso e posso jurá-lo.
Por fim, pareceu que estas palavras tinham desfeito o gelo entre nós.
Daí em diante, respondeu com desembaraço às minhas perguntas.
Fez-me entrar na sua casinha, onde tinha um fogão, uma estante para o registro do serviço, um livro em que se estampava determinadas observações e um aparelho telegráfico composto de um mostrador com setas indicadoras e uma campainha de chamada.
O digno e excelente homem ter-me-ia merecido o conceito de empregado competentíssimo nas suas funções se não tivesse suspendido por duas vezes suas respostas, empalidecendo, para olhar para a campainha (que, no entanto, permanecia muda, nesses momentos), e não tivesse aberto a porta de sua vivenda (fechada unicamente para evitar a insalubre umidade) desejoso de olhar de fora a chama vermelha da entrada do túnel.
De ambas as vezes acompanhou o seu regresso para junto do fogão com aquele gesto inexplicável que lhe havia observado, sem poder defini-lo, quando nos olhamos a distância, eu, das minhas alturas, ele, das suas profundidades.
— Alegro-me de acreditar — disse-lhe, ao levantar-me para partir — que encontrei aqui um homem satisfeito com a sua sorte.
Era intenção minha induzi-lo a fazer-me qualquer comunicação.
— Sim, realmente, foi assim em outros tempos — respondeu — mas agora — acrescentou com essa voz apagada que havia empregado antes — estou inquieto, senhor: a inquietação me devora.
Teria querido, talvez retirar as suas palavras, mas já era impossível. Estavam irremediavelmente pronunciadas.
Aproveitei-me delas imediatamente.
— Por quê? Qual a causa da sua inquietação?
— É muito difícil explicá-la, cavalheiro; custa-me indizivelmente falar deste assunto. Se o senhor tornar a visitar-me, tentarei expandir-me.
— Acredito! Desejo vivamente voltar. Quando quer que eu apareça?
— Abandono este posto muito cedo, mas às dez horas da noite estarei de volta.
— Virei amanhã às onze.
Agradeceu-me e acompanhou-me até à porta.
— Porei à vista a minha luz branca — disse-me surdamente, conforme o seu costume — até que o senhor acerte com o caminho. Quando o encontrar, não grite, e ao regressar, quando se encontre no ressalto da trincheira, não o faça também.
As maneiras e o som da sua voz pareciam-me aumentar o aspecto glacial daquele lugar. Limitei-me a responder-lhe:
— Muito bem.
— Não se esqueça — continuou. — Quando vier amanhã à noite, não há necessidade de fazer barulho. Permita-me uma pergunta, para terminar. Por que gritou esta noite: “Venha aqui, ouça!”.
— Garanto-lhe que não sei. Mas, realmente, disse algo parecido com isso.
— Algo parecido, não, foi isso que disse. Conheço perfeitamente esse modo de chamar.
— Oh! não digo que não. Fiz assim simplesmente porque o avistava aqui no fundo.
— Só por esse motivo?
— Que outro poderia ser?
— Não lhe pareceu que alguém lhe ditava essas palavras: que obedecia, de certo modo, a uma influência sobrenatural?
— Não.
Deu-me boa noite e foi-me alumiando o caminho com a lanterna. Continuei andando ao longo da via férrea, fora dos trilhos, sob o peso de uma impressão desagradável. Parecia que tinha um comboio ao meu encalço… Achei finalmente o caminho. Foi-me fácil a subida e acabei por chegar à minha hospedaria, sem nenhum embaraço.
Veio a noite seguinte. Fiel à minha entrevista, punha o pé no primeiro degrau da encosta em ziguezague, ao bater das onze, que se ouvia ao longe.
O homem se achava ao pé da trincheira, espreitando a minha chegada com o seu farol branco ao alto.
— Não murmurei meia palavra — disse, ao chegar junto dele. — Posso falar agora?
— Sem dúvida, cavalheiro!
— Pois então boa noite. Venha de lá um aperto de mão.
— Boa noite, senhor. Aí vai.
Depois do cumprimento, dirigimo-nos, caminhando um ao lado do outro, para a casinhola. Entramos e sentamo-nos junto ao fogo.
— Não vou permitir que se incomode, cavalheiro (começou a dizer, inclinando-se e com voz imperceptível como um suspiro) perguntando-me novamente o motivo do meu desassossego. Ontem à tarde confundi-o com outra pessoa. Era esse o motivo da minha inquietação.
— Aborrece-o esse engano?
— Não é que o senhor me perturbe. O outro é que…
— Quem é esse outro?
— Não sei.
— Parece-se comigo?
— Também não sei. Nunca lhe vi o rosto. Esconde-o com o braço esquerdo, enquanto move rapidamente o direito, assim; veja.
Reparei na sua pantomima muda. Era uma série de gestos descompostos, que queria exprimir, de um modo veemente, convulsivo e apenas com um braço, esta frase: “Pelo amor de Deus! Saia do caminho!”
— Numa noite de luar — acrescentou o homem eu estava aqui, no lugar em que o senhor está agora, quando ouvi uma voz gritando: — Olhe cá, ouça! — Corri para fora. O outro estava de pé, junto ao sinal vermelho, gesticulando como lhe mostrei ainda agora. Estava rouco à força de gritar: Olhe, cuidado, cuidado! Não se calava nem por um segundo. Repetia sem descanso: Olhe, cuidado, cuidado! — agarrei o farol e corri para o homem, perguntando-lhe: — Que aconteceu? É um aviso ou um acidente? Em que lugar? — Parei a dez passos da entrada do túnel; fiquei tão perto dele que percebi, assombrado, que o desconhecido escondia o rosto com o braço esquerdo. Segui direito para ele, estendi a mão para descobrir-lhe o rosto; mas de repente, antes que o conseguisse, desapareceu.
— Pelo túnel? — perguntei.
— Não senhor. Percorri-o em toda a sua extensão de quinhentos metros; parei; levantei o farol em todas as direções; vi perfeitamente os números das cotas do nível e as indicações quilométricas escritas na parede. A umidade deslizava como azeite ao longo das pedras e gotejava pela abóbada; mas, nem sombra de ser humano! Voltei, então, sobre meus passos, mais rapidamente que na ida, porque me inspiravam horror mortal esses lugares. Depois de ter revistado minuciosamente os arredores da luz vermelha, sem abandonar um minuto o meu farol regulamentar, subi até o sinal. Nada! Desci de novo e fui telegrafar. Fi-lo por duas vezes. — Alarme. Que está acontecendo? — E de ambas as vezes me transmitiram a resposta costumeira: — Sem novidade.
Enquanto o guarda-chaves falava, parecia-me que um dedo gelado me percorria lentamente a espinha. Resisti quanto pude a essa sensação, esforçando-me por dar a entender ao infeliz que semelhante aparição fora o resultado de uma ilusão de ótica e que aquele grito imaginário podia bem ter sido causado pelo ruído do ar ao chicotear os fios do telégrafo ou ao chocar-se com as altas paredes, arrancando ao silêncio da noite as suas notas lúgubres de harpa eólia.
Deixou-me acabar, movendo a cabeça, mas sem dar sinais de impaciência.
Depois, ao cabo de alguns instantes, observou-me que conhecia perfeitamente o ruído dos fios vibrados pelo impulso do vento. Ninguém era como ele tão capaz de distingui-lo, pois tinha passado ali, sozinho, em vigília, muitas, muitíssimas intermináveis noites de inverno.
Disse-me, além disso, que não tinha acabado ainda sua narração.
Pedi-lhe que me perdoasse a interrupção; e ele, então apoiando suavemente a mão no meu braço esquerdo, prosseguiu lentamente:
— Seis horas depois da aparição ocorreu um desastre memorável na via; e, ao cabo de outras duas, retiraram os mortos e feridos do túnel, depositando-os no mesmo lugar em que tinha visto o fantasma.
Estremeci, da cabeça aos pés. Contudo, consegui dominar-me.
— Certamente — disse-lhe — não há dúvida de que houve uma coincidência notável, capaz de impressionar profundamente a sua imaginação. Mas é igualmente exato, que muito frequentemente ocorrem casos parecidos.
Observou-me novamente que ainda não terminara.
— O que lhe contei — prosseguiu pondo-me outra vez a mão no braço e dirigindo-me por cima do ombro um olhar insistente — ocorreu há um ano já. Seis ou sete meses depois, quando não havia voltado a mim ainda da minha surpresa, nem me achava reposto da passada emoção, uma madrugada, ao amanhecer, achando-me no interior da minha barraca, olhando para a luz vermelha, tornei a ver o espectro.
Guardou silêncio por um pouco e cravou em mim o seu olhar.
— Vamos a ver, ocorreu algum outro acidente depois dessa ressurreição?
Tocou-me várias vezes com a ponta dos dedos, movendo sempre a cabeça com uma lentidão de espectro que me gelava o sangue nas veias.
— Naquele mesmo dia, cavalheiro – continuou — à passagem de um trem que saía do túnel, observei num compartimento movimentos descompostos de mãos, de cabeças… numa palavra, uma agitação extraordinária. Dei sinal de parada; o maquinista deu imediatamente contravapor e apertou os freios; o trem, contudo, andou ainda cem ou cento e cinquenta metros. Deitei a correr e ouvi, efetivamente, gemidos e lamentos desesperados. Uma linda mulher tinha sido assassinada num vagão. Trouxeram-na ao meu posto e deixaram-na aqui onde conversamos agora.
Involuntariamente, puxei minha cadeira para trás e não tirei dele os olhos.
— Cavalheiro, esta é a pura verdade. Conto-lhe o acontecimento com toda a precisão.
Já não conseguia falar nem pensar. Fora, o vento e os fios do telégrafo ajuntavam ao horror da narração o acompanhamento de sua voz lastimosa e prolongada. E o homem concluiu:
— Julgue o senhor se posso ter ânimo sereno; há uma semana reapareceu a visão e, de então para cá, não deixou de apresentar-se diante dos meus olhos, de quando em quando.
— Na luz vermelha?
— Sim, no sinal de perigo.
— E o que faz ali?
— Mais veementemente ainda, se é possível, repete os gestos de angústia, como que dizendo: Pelo amor de Deus, saia do caminho.
— Já conhece agora — acrescentou — a causa do meu desassossego. Não tenho trégua nem descanso. O desconhecido me chama por vários minutos consecutivos, empregando sempre o seu grito desesperado: Ouça cá, cuidado! — Agita o braço e dá alarma com a campainha…
Ao ouvir estas palavras, interrompi-o:
— Diga-me o senhor se a campainha tocou ontem à tarde, quando me aproximava daqui, à hora em que o senhor saiu.
— Duas vezes.
— Duas vezes? — repliquei. — Isso prova o quanto a sua imaginação está desorientada. Eu era todo olhos e ouvidos; pois bem, tão certo como eu estar vivo, a campainha não tocou essas duas vezes. Não, nem tocou dessa vez nem das anteriores, está claro que toca, mas quando se comunicam com o senhor dos postos vizinhos.
Meneou a cabeça.
— Não me engano nisso, cavalheiro — replicou. — Nunca confundi a chamada do fantasma com a de meus companheiros. A vibração daquela é especial, não se transmite pelos fios. Não digo que ele toque a campainha; mas que soa, não há dúvida. Não há nada de singular em que o senhor não a tenha ouvido. Eu, por minha parte, ouvia-a exatamente como a ouço sempre: muito bem.
— E quando saiu para fora, viu a aparição?
— Vi.
— As duas vezes?
— As duas — afirmou, com plena convicção.
— Quer sair comigo e olhar agora?
Mordeu os lábios, mas levantou-se.
Abri a porta, detendo-me um momento no limiar. Meu interlocutor ficou a alguma distância. Tudo permanecia no seu respectivo lugar: a luz do sinal, a abóbada do túnel, a parte enorme impregnada de umidade… tudo permanecia o mesmo, à luz das estrelas. — Vê qualquer coisa de anormal? — perguntei, fixando-lhe atentamente o rosto. — Tinha os olhos muito abertos, talvez não tanto como os meus, que ergui, ao mesmo tempo que ele, na direção temida.
— Não — respondeu — não vejo nada.
— Bem — disse eu. — Estamos de acordo!
Entramos novamente e tomamos lugar junto ao fogo. Pensava eu em como tirar melhor partido do bom êxito obtido, se assim podia chamar-se o resultado negativo de nossa inspeção ocular, quando o nosso homem reatou a sua narrativa no mesmo ponto em que a havia interrompido, convindo na afirmação de que os fatos repetidos, objeto de nossa narrativa, não podiam seriamente constituir base para um alarme. Foi um novo embaraço para mim.
— Isso aumenta, cavalheiro, a espantosa confusão em que me acho. Não cesso de perguntar-me: o que quererá anunciar o fantasma?
— Não sei — disse — se compreende claramente…
— Contra que risco vou prevenir-me? — continuou dizendo com ar pensativo, cravando o olhar ora no fogão, ora em mim. — Que perigo está ameaçando? Onde acontecerá? Porque, sem dúvida nenhuma, está-se aproximando da linha um perigo qualquer. Uma terceira desgraça nos ameaça… quem poderá negá-lo, dados os precedentes dos fatos anteriores! Assim, ao que parece, o senhor me julga meio doido! Posso, acaso, evitá-lo? Que devo resolver? Que fazer?
Tirou o lenço e enxugou o suor da fronte.
— Se telegrafo para baixo ou para cima, ou em ambos os sentidos, que fundamento posso alegar? acrescentou, enxugando as palmas das mãos como tinha enxugado a fronte momentos antes. — Só criarei confusão, a mesma que experimento eu, sem vantagem nenhuma em favor do próximo. E hão de julgar-me louco… Veja o senhor! dar-se-ia o seguinte. Telegrama: “Perigo, atenção.” Resposta: “Que perigo? Onde?” Telegrama: “Não sei; mas pelo amor de Deus, estejam de sobreaviso.” Despedir-me-iam do emprego. Poderia suceder outra coisa?
Causava dó a agitação do infeliz. Ao vê-lo assim entendi que, por uma questão de caridade e por assim o exigir a segurança do público, o que havia a fazer, em primeiro lugar, era acalmar o pobre homem. Deixando, pois, para outra ocasião discutirmos se era real ou ilusória essa necessidade, procurei persuadi-lo de que todo empregado fiel e perito no cumprimento de seus deveres procede sempre corretamente e que, tendo ele perfeita consciência de sua obrigação, devia ficar tranqüilo e sem inquietar-se pelo inexplicável das aparições. Minha tática deu melhor resultado que a oposição às suas supersticiosas convicções. Acalmei-o. As exigências do serviço e os incidentes próprios de tais ocasiões reclamavam-lhe todo cuidado. Eram duas horas da madrugada. Deixei-o então, não sem haver-me oferecido antes para ficar em sua companhia até o amanhecer, mas ele não consentiu nisso.
No dia seguinte, estava tão linda a tarde que me apressei a sair, depois do jantar, para aproveitar-lhe a beleza. Ia caindo o sol quando tomei o caminho que, através dos campos, levava até à encosta que dava acesso à via férrea. “É questão de mais uma hora”, pensei. “Em trinta minutos chegarei até ali e em outros trinta terei regressado do meu passeio, que não terá durando grande coisa. Conto falar com o meu guarda-chaves no momento mais propício.”
Antes de terminar o meu caminho, assomei ao parapeito da trincheira e olhei maquinalmente para o fundo, exatamente no mesmo lugar em que interpelei, pela primeira vez, tão estranha personagem. Como descrever o sentimento de horror que me petrificou ao observar que um ser homem ou fantasma, colocado rente à entrada do túnel, agitava vivamente o braço direito, enquanto com o esquerdo escondia o rosto! O indizível espanto que esta visão me produziu durou um momento só; pois não demorei em ver que não era ilusão nenhuma, como o dava a entender um grupo de indivíduos, aos quais se dirigia a personagem que primeiro avistei; esta, naturalmente, com os seus gestos, pretendia explicar-lhes o acontecido. Ainda não se percebia o luzir vermelho do sinal. Divisava vagamente do lado do poste uma espécie de barriquinha construída com espeques de madeira e uma tela de lona embreada. O seu vulto não era maior que uma cama pequena.
O rápido pressentimento de uma desgraça cruzou-me pela mente. Corri para a vereda em ziguezague e desci por ela, com toda a precipitação que pude.
— Que aconteceu? — perguntei.
— Um guarda-chaves, cavalheiro, que foi morto esta manhã.
— Não será o desta casinha?
— Sim, senhor.
— Aquele que eu conhecia?
— Fácil lhe será reconhecê-lo — disse o homem que respondia às minhas perguntas.
Tirou gravemente o chapéu e levantando uma ponta da tela:
— Não está desfigurado — acrescentou.
— Deus meu! Mas como aconteceu a desgraça? Que se passou aqui? — Repeti, indo de um lado para outro, apenas caiu o negro sudário.
— Cavalheiro, a máquina o feriu. Ninguém conhecia nem desempenhava melhor suas obrigações; mas hoje, sabe-se lá por quê? não soube acautelar-se. Era já dia claro; trazia ainda o farol aceso. Um trem saía do túnel; o guarda estava ali, de costas. Foi derrubado. É este o maquinista. Ele lhe dirá o que aconteceu, com todos os pormenores… — Tom, dê a este cavalheiro todos os detalhes…
O maquinista, foi até a boca do túnel.
— Vou explicar-lhe como se passou, cavalheiro. Da curva que faz a via, ali dentro, vi o guarda-chaves junto à saída como se vê um homem por um binóculo. Não havia tempo para apertar os freios; mas não me inquietei por isso. Tive-o sempre por homem cauteloso. Contudo, como me pareceu que não o preocupava o silvo da locomotiva, soltei vapor… Estávamos já em cima dele… Chamei-o com toda a força dos pulmões.
— Que foi que o senhor disse?
— Gritei: “Olha lá! Oh! Oh! Fuja, fuja! Saia da linha!”
Estremeci.
— Ah, senhor! Foi um rude transe! Não parei de chamá-lo. Ocultei o rosto com este braço e nem um momento deixei de agitar nervosamente o outro. Nada consegui!
Assim terminou, com essa morte trágica, tão extraordinária aventura, cujo mistério jamais consegui decifrar.
Quando falou assim a voz que o chamava, estava de pé, à porta de sua casinha, empunhando a bandeirola, que conservava enrolada no pauzinho que desempenhava as funções de haste.
Era tal a configuração do terreno que não parecia possível que pudesse ter dúvida sobre a procedência da minha voz. Contudo o homem, longe de erguer os olhos para o lugar em que me achava, à borda da trincheira, precisamente sobre a sua cabeça, deu meia volta e olhou em direção à vila.
— Venha aqui, ouça!
Só então deixou de esquadrinhar a linha. Girou de novo sobre os calcanhares e deitando a cabeça para trás distinguiu-me por cima do seu observatório.
— Há algum caminho que me permita descer até aí para travarmos conversação um pouco mais de perto?
Houve uma pausa, então. O homem examinava-me com profunda atenção. Por fim, apontou-me com a bandeirola um ponto situado a duzentas ou trezentas toesas à esquerda.
— Está tudo bem! Muito bem! — exclamei.
E dirigi-me ao lugar indicado. Lá, depois de muito olhar em torno de mim, descobri um estreito caminho, toscamente talhado em ziguezague e comecei a segui-lo.
A trincheira era funda em extremo. Estava talhada a pique sobre um bloco de pedra e, à medida que se descia, diminuía a consistência da pedra, ao passo que a umidade aumentava proporcionalmente. Vi-me obrigado a serpentear. Durante minhas voltas e reviravoltas não me saíam da memória o jeito indeciso e a rara timidez que havia notado no pobre homem quando se decidiu a indicar-me o caminho.
Concluídos os rodeios, tornei a contemplá-lo da vertente e pude observar que permanecia na via que dera passagem ao último trem. Sua atitude permitia afirmar que estava à minha espera.
Encostava o queixo na palma da mão esquerda, enquanto o braço correspondente procurava apoio no direito que tinha cruzado ao peito; e era tão singular a sua expectativa, refletia tanta ansiedade que parei por um pouco, cheio de surpresa.
Continuei descendo até chegar ao terreiro e então pude contemplar, à vontade, a pele morena, a barba negra e as sobrancelhas espessas da minha estranha personagem.
Sua casinha ocupava o lugar mais solitário e triste da via férrea. De cada um dos lados erguia-se um muro pedregoso que vertia água e impedia o olhar de espraiar-se pela imensidade do céu, de que só se distinguia uma faixa estreita.
E não eram mais alegres as perspectivas da estrada. De um lado via-se o prolongamento tortuoso desse grande cárcere; de outro, ainda mais limitado, o que atraía os olhares era uma luz de um vermelho sinistro, situada sobre a abertura de um túnel sombrio, cuja estrutura maciça oferecia um aspecto grosseiro e repulsivo. Os raios solares ali chegavam minguados e amortecidos; respirava-se um cheiro de subterrâneo. Um vento fúnebre que me gelou o sangue nas veias soprava daquela boca escura… Estremeci. Apossou-se de mim a idéia de que já não estava no mundo dos vivos.
O interpelado permanecia fixo no mesmo lugar. Cheguei-lhe ao lado; consegui tocar-lhe; mas perseverou indefinidamente na sua primitiva imobilidade. Enquanto não parei, permaneceu quieto em seu lugar. Depois, retrocedeu um passo e levantou a mão; mas não tinha deixado um só instante de assestar nos meus olhos o olhar desvairado dos seus.
— É bem solitário este posto — disse eu. — Já lá de cima, quando o descobri, foi o que me pareceu. Poucas visitas terá por aqui, não é verdade? mas nem por isso elas lhe serão desagradáveis… Pelo menos, é o que me parece! Sou um sujeito cuja vida decorre entre horizontes bem limitados. Por fim consegui alcançar a liberdade e minha curiosidade arrasta-me, apaixonadamente, ao exame cuidadoso das grandes construções ferroviárias. Tais investigações, inteiramente novas para mim, satisfarão minha ignorância com a maior precisão.
Disse-lhe aproximadamente essas palavras. Estou longe de reproduzi-las com absoluta fidelidade. Nunca fui muito forte na arte de entabular conversações e nessa ocasião, menos do que nunca, pois o interpelado tinha certa expressão pouco tranquilizadora, que me infundia medo.
Voltou-se, para registrar, com exagerada solicitude o lugar em que permanecia fixa a luz vermelha que só alumiava as proximidades do túnel, como se fizesse pouco caso dos outros objetos naquelas ermas paragens.
Por fim, dirigiu-me novamente o olhar.
— Está também a seu cargo a vigilância e cuidado desse sinal? — perguntei-lhe.
Respondeu, em voz calma:
— O quê?! Pois não sabia?
Era tão insistente a fixidez do seu olhar e tão intensa a sombra que lhe escurecia o rosto, que me cruzou pela mente uma suspeita singular.
Devia considerar como a um homem aquele ser que estava diante de mim? Não seria um fantasma? Mais tarde pensei que devia sentir-me contagiado pelo seu aspecto. Coube-me então a vez de retroceder um passo. Isso provocou no desgraçado os sinais mais inequívocos de terror. Eu lhe metia medo. Esta descoberta pôs fim às minhas suspeitas extravagantes.
— O senhor me olha — disse-lhe com um sorriso forçado — como se eu lhe fizesse medo.
— Parece-me que já o vi antes.
— Onde?
Indicou com a vista a luz vermelha.
— Ali? — perguntei-lhe.
— Sim — respondeu num gesto mudo de assentimento e sem tirar de mim os olhos ansiosos.
— Mas, bom homem, que é que eu poderia ir fazer ali? Ainda que isso fosse possível, creia que isso nunca me ocorreu e que nunca, em toda minha vida, pus os pés naquele lugar. Posso jurá-lo — disse; — estou bem certo disso e posso jurá-lo.
Por fim, pareceu que estas palavras tinham desfeito o gelo entre nós.
Daí em diante, respondeu com desembaraço às minhas perguntas.
Fez-me entrar na sua casinha, onde tinha um fogão, uma estante para o registro do serviço, um livro em que se estampava determinadas observações e um aparelho telegráfico composto de um mostrador com setas indicadoras e uma campainha de chamada.
O digno e excelente homem ter-me-ia merecido o conceito de empregado competentíssimo nas suas funções se não tivesse suspendido por duas vezes suas respostas, empalidecendo, para olhar para a campainha (que, no entanto, permanecia muda, nesses momentos), e não tivesse aberto a porta de sua vivenda (fechada unicamente para evitar a insalubre umidade) desejoso de olhar de fora a chama vermelha da entrada do túnel.
De ambas as vezes acompanhou o seu regresso para junto do fogão com aquele gesto inexplicável que lhe havia observado, sem poder defini-lo, quando nos olhamos a distância, eu, das minhas alturas, ele, das suas profundidades.
— Alegro-me de acreditar — disse-lhe, ao levantar-me para partir — que encontrei aqui um homem satisfeito com a sua sorte.
Era intenção minha induzi-lo a fazer-me qualquer comunicação.
— Sim, realmente, foi assim em outros tempos — respondeu — mas agora — acrescentou com essa voz apagada que havia empregado antes — estou inquieto, senhor: a inquietação me devora.
Teria querido, talvez retirar as suas palavras, mas já era impossível. Estavam irremediavelmente pronunciadas.
Aproveitei-me delas imediatamente.
— Por quê? Qual a causa da sua inquietação?
— É muito difícil explicá-la, cavalheiro; custa-me indizivelmente falar deste assunto. Se o senhor tornar a visitar-me, tentarei expandir-me.
— Acredito! Desejo vivamente voltar. Quando quer que eu apareça?
— Abandono este posto muito cedo, mas às dez horas da noite estarei de volta.
— Virei amanhã às onze.
Agradeceu-me e acompanhou-me até à porta.
— Porei à vista a minha luz branca — disse-me surdamente, conforme o seu costume — até que o senhor acerte com o caminho. Quando o encontrar, não grite, e ao regressar, quando se encontre no ressalto da trincheira, não o faça também.
As maneiras e o som da sua voz pareciam-me aumentar o aspecto glacial daquele lugar. Limitei-me a responder-lhe:
— Muito bem.
— Não se esqueça — continuou. — Quando vier amanhã à noite, não há necessidade de fazer barulho. Permita-me uma pergunta, para terminar. Por que gritou esta noite: “Venha aqui, ouça!”.
— Garanto-lhe que não sei. Mas, realmente, disse algo parecido com isso.
— Algo parecido, não, foi isso que disse. Conheço perfeitamente esse modo de chamar.
— Oh! não digo que não. Fiz assim simplesmente porque o avistava aqui no fundo.
— Só por esse motivo?
— Que outro poderia ser?
— Não lhe pareceu que alguém lhe ditava essas palavras: que obedecia, de certo modo, a uma influência sobrenatural?
— Não.
Deu-me boa noite e foi-me alumiando o caminho com a lanterna. Continuei andando ao longo da via férrea, fora dos trilhos, sob o peso de uma impressão desagradável. Parecia que tinha um comboio ao meu encalço… Achei finalmente o caminho. Foi-me fácil a subida e acabei por chegar à minha hospedaria, sem nenhum embaraço.
Veio a noite seguinte. Fiel à minha entrevista, punha o pé no primeiro degrau da encosta em ziguezague, ao bater das onze, que se ouvia ao longe.
O homem se achava ao pé da trincheira, espreitando a minha chegada com o seu farol branco ao alto.
— Não murmurei meia palavra — disse, ao chegar junto dele. — Posso falar agora?
— Sem dúvida, cavalheiro!
— Pois então boa noite. Venha de lá um aperto de mão.
— Boa noite, senhor. Aí vai.
Depois do cumprimento, dirigimo-nos, caminhando um ao lado do outro, para a casinhola. Entramos e sentamo-nos junto ao fogo.
— Não vou permitir que se incomode, cavalheiro (começou a dizer, inclinando-se e com voz imperceptível como um suspiro) perguntando-me novamente o motivo do meu desassossego. Ontem à tarde confundi-o com outra pessoa. Era esse o motivo da minha inquietação.
— Aborrece-o esse engano?
— Não é que o senhor me perturbe. O outro é que…
— Quem é esse outro?
— Não sei.
— Parece-se comigo?
— Também não sei. Nunca lhe vi o rosto. Esconde-o com o braço esquerdo, enquanto move rapidamente o direito, assim; veja.
Reparei na sua pantomima muda. Era uma série de gestos descompostos, que queria exprimir, de um modo veemente, convulsivo e apenas com um braço, esta frase: “Pelo amor de Deus! Saia do caminho!”
— Numa noite de luar — acrescentou o homem eu estava aqui, no lugar em que o senhor está agora, quando ouvi uma voz gritando: — Olhe cá, ouça! — Corri para fora. O outro estava de pé, junto ao sinal vermelho, gesticulando como lhe mostrei ainda agora. Estava rouco à força de gritar: Olhe, cuidado, cuidado! Não se calava nem por um segundo. Repetia sem descanso: Olhe, cuidado, cuidado! — agarrei o farol e corri para o homem, perguntando-lhe: — Que aconteceu? É um aviso ou um acidente? Em que lugar? — Parei a dez passos da entrada do túnel; fiquei tão perto dele que percebi, assombrado, que o desconhecido escondia o rosto com o braço esquerdo. Segui direito para ele, estendi a mão para descobrir-lhe o rosto; mas de repente, antes que o conseguisse, desapareceu.
— Pelo túnel? — perguntei.
— Não senhor. Percorri-o em toda a sua extensão de quinhentos metros; parei; levantei o farol em todas as direções; vi perfeitamente os números das cotas do nível e as indicações quilométricas escritas na parede. A umidade deslizava como azeite ao longo das pedras e gotejava pela abóbada; mas, nem sombra de ser humano! Voltei, então, sobre meus passos, mais rapidamente que na ida, porque me inspiravam horror mortal esses lugares. Depois de ter revistado minuciosamente os arredores da luz vermelha, sem abandonar um minuto o meu farol regulamentar, subi até o sinal. Nada! Desci de novo e fui telegrafar. Fi-lo por duas vezes. — Alarme. Que está acontecendo? — E de ambas as vezes me transmitiram a resposta costumeira: — Sem novidade.
Enquanto o guarda-chaves falava, parecia-me que um dedo gelado me percorria lentamente a espinha. Resisti quanto pude a essa sensação, esforçando-me por dar a entender ao infeliz que semelhante aparição fora o resultado de uma ilusão de ótica e que aquele grito imaginário podia bem ter sido causado pelo ruído do ar ao chicotear os fios do telégrafo ou ao chocar-se com as altas paredes, arrancando ao silêncio da noite as suas notas lúgubres de harpa eólia.
Deixou-me acabar, movendo a cabeça, mas sem dar sinais de impaciência.
Depois, ao cabo de alguns instantes, observou-me que conhecia perfeitamente o ruído dos fios vibrados pelo impulso do vento. Ninguém era como ele tão capaz de distingui-lo, pois tinha passado ali, sozinho, em vigília, muitas, muitíssimas intermináveis noites de inverno.
Disse-me, além disso, que não tinha acabado ainda sua narração.
Pedi-lhe que me perdoasse a interrupção; e ele, então apoiando suavemente a mão no meu braço esquerdo, prosseguiu lentamente:
— Seis horas depois da aparição ocorreu um desastre memorável na via; e, ao cabo de outras duas, retiraram os mortos e feridos do túnel, depositando-os no mesmo lugar em que tinha visto o fantasma.
Estremeci, da cabeça aos pés. Contudo, consegui dominar-me.
— Certamente — disse-lhe — não há dúvida de que houve uma coincidência notável, capaz de impressionar profundamente a sua imaginação. Mas é igualmente exato, que muito frequentemente ocorrem casos parecidos.
Observou-me novamente que ainda não terminara.
— O que lhe contei — prosseguiu pondo-me outra vez a mão no braço e dirigindo-me por cima do ombro um olhar insistente — ocorreu há um ano já. Seis ou sete meses depois, quando não havia voltado a mim ainda da minha surpresa, nem me achava reposto da passada emoção, uma madrugada, ao amanhecer, achando-me no interior da minha barraca, olhando para a luz vermelha, tornei a ver o espectro.
Guardou silêncio por um pouco e cravou em mim o seu olhar.
— Vamos a ver, ocorreu algum outro acidente depois dessa ressurreição?
Tocou-me várias vezes com a ponta dos dedos, movendo sempre a cabeça com uma lentidão de espectro que me gelava o sangue nas veias.
— Naquele mesmo dia, cavalheiro – continuou — à passagem de um trem que saía do túnel, observei num compartimento movimentos descompostos de mãos, de cabeças… numa palavra, uma agitação extraordinária. Dei sinal de parada; o maquinista deu imediatamente contravapor e apertou os freios; o trem, contudo, andou ainda cem ou cento e cinquenta metros. Deitei a correr e ouvi, efetivamente, gemidos e lamentos desesperados. Uma linda mulher tinha sido assassinada num vagão. Trouxeram-na ao meu posto e deixaram-na aqui onde conversamos agora.
Involuntariamente, puxei minha cadeira para trás e não tirei dele os olhos.
— Cavalheiro, esta é a pura verdade. Conto-lhe o acontecimento com toda a precisão.
Já não conseguia falar nem pensar. Fora, o vento e os fios do telégrafo ajuntavam ao horror da narração o acompanhamento de sua voz lastimosa e prolongada. E o homem concluiu:
— Julgue o senhor se posso ter ânimo sereno; há uma semana reapareceu a visão e, de então para cá, não deixou de apresentar-se diante dos meus olhos, de quando em quando.
— Na luz vermelha?
— Sim, no sinal de perigo.
— E o que faz ali?
— Mais veementemente ainda, se é possível, repete os gestos de angústia, como que dizendo: Pelo amor de Deus, saia do caminho.
— Já conhece agora — acrescentou — a causa do meu desassossego. Não tenho trégua nem descanso. O desconhecido me chama por vários minutos consecutivos, empregando sempre o seu grito desesperado: Ouça cá, cuidado! — Agita o braço e dá alarma com a campainha…
Ao ouvir estas palavras, interrompi-o:
— Diga-me o senhor se a campainha tocou ontem à tarde, quando me aproximava daqui, à hora em que o senhor saiu.
— Duas vezes.
— Duas vezes? — repliquei. — Isso prova o quanto a sua imaginação está desorientada. Eu era todo olhos e ouvidos; pois bem, tão certo como eu estar vivo, a campainha não tocou essas duas vezes. Não, nem tocou dessa vez nem das anteriores, está claro que toca, mas quando se comunicam com o senhor dos postos vizinhos.
Meneou a cabeça.
— Não me engano nisso, cavalheiro — replicou. — Nunca confundi a chamada do fantasma com a de meus companheiros. A vibração daquela é especial, não se transmite pelos fios. Não digo que ele toque a campainha; mas que soa, não há dúvida. Não há nada de singular em que o senhor não a tenha ouvido. Eu, por minha parte, ouvia-a exatamente como a ouço sempre: muito bem.
— E quando saiu para fora, viu a aparição?
— Vi.
— As duas vezes?
— As duas — afirmou, com plena convicção.
— Quer sair comigo e olhar agora?
Mordeu os lábios, mas levantou-se.
Abri a porta, detendo-me um momento no limiar. Meu interlocutor ficou a alguma distância. Tudo permanecia no seu respectivo lugar: a luz do sinal, a abóbada do túnel, a parte enorme impregnada de umidade… tudo permanecia o mesmo, à luz das estrelas. — Vê qualquer coisa de anormal? — perguntei, fixando-lhe atentamente o rosto. — Tinha os olhos muito abertos, talvez não tanto como os meus, que ergui, ao mesmo tempo que ele, na direção temida.
— Não — respondeu — não vejo nada.
— Bem — disse eu. — Estamos de acordo!
Entramos novamente e tomamos lugar junto ao fogo. Pensava eu em como tirar melhor partido do bom êxito obtido, se assim podia chamar-se o resultado negativo de nossa inspeção ocular, quando o nosso homem reatou a sua narrativa no mesmo ponto em que a havia interrompido, convindo na afirmação de que os fatos repetidos, objeto de nossa narrativa, não podiam seriamente constituir base para um alarme. Foi um novo embaraço para mim.
— Isso aumenta, cavalheiro, a espantosa confusão em que me acho. Não cesso de perguntar-me: o que quererá anunciar o fantasma?
— Não sei — disse — se compreende claramente…
— Contra que risco vou prevenir-me? — continuou dizendo com ar pensativo, cravando o olhar ora no fogão, ora em mim. — Que perigo está ameaçando? Onde acontecerá? Porque, sem dúvida nenhuma, está-se aproximando da linha um perigo qualquer. Uma terceira desgraça nos ameaça… quem poderá negá-lo, dados os precedentes dos fatos anteriores! Assim, ao que parece, o senhor me julga meio doido! Posso, acaso, evitá-lo? Que devo resolver? Que fazer?
Tirou o lenço e enxugou o suor da fronte.
— Se telegrafo para baixo ou para cima, ou em ambos os sentidos, que fundamento posso alegar? acrescentou, enxugando as palmas das mãos como tinha enxugado a fronte momentos antes. — Só criarei confusão, a mesma que experimento eu, sem vantagem nenhuma em favor do próximo. E hão de julgar-me louco… Veja o senhor! dar-se-ia o seguinte. Telegrama: “Perigo, atenção.” Resposta: “Que perigo? Onde?” Telegrama: “Não sei; mas pelo amor de Deus, estejam de sobreaviso.” Despedir-me-iam do emprego. Poderia suceder outra coisa?
Causava dó a agitação do infeliz. Ao vê-lo assim entendi que, por uma questão de caridade e por assim o exigir a segurança do público, o que havia a fazer, em primeiro lugar, era acalmar o pobre homem. Deixando, pois, para outra ocasião discutirmos se era real ou ilusória essa necessidade, procurei persuadi-lo de que todo empregado fiel e perito no cumprimento de seus deveres procede sempre corretamente e que, tendo ele perfeita consciência de sua obrigação, devia ficar tranqüilo e sem inquietar-se pelo inexplicável das aparições. Minha tática deu melhor resultado que a oposição às suas supersticiosas convicções. Acalmei-o. As exigências do serviço e os incidentes próprios de tais ocasiões reclamavam-lhe todo cuidado. Eram duas horas da madrugada. Deixei-o então, não sem haver-me oferecido antes para ficar em sua companhia até o amanhecer, mas ele não consentiu nisso.
No dia seguinte, estava tão linda a tarde que me apressei a sair, depois do jantar, para aproveitar-lhe a beleza. Ia caindo o sol quando tomei o caminho que, através dos campos, levava até à encosta que dava acesso à via férrea. “É questão de mais uma hora”, pensei. “Em trinta minutos chegarei até ali e em outros trinta terei regressado do meu passeio, que não terá durando grande coisa. Conto falar com o meu guarda-chaves no momento mais propício.”
Antes de terminar o meu caminho, assomei ao parapeito da trincheira e olhei maquinalmente para o fundo, exatamente no mesmo lugar em que interpelei, pela primeira vez, tão estranha personagem. Como descrever o sentimento de horror que me petrificou ao observar que um ser homem ou fantasma, colocado rente à entrada do túnel, agitava vivamente o braço direito, enquanto com o esquerdo escondia o rosto! O indizível espanto que esta visão me produziu durou um momento só; pois não demorei em ver que não era ilusão nenhuma, como o dava a entender um grupo de indivíduos, aos quais se dirigia a personagem que primeiro avistei; esta, naturalmente, com os seus gestos, pretendia explicar-lhes o acontecido. Ainda não se percebia o luzir vermelho do sinal. Divisava vagamente do lado do poste uma espécie de barriquinha construída com espeques de madeira e uma tela de lona embreada. O seu vulto não era maior que uma cama pequena.
O rápido pressentimento de uma desgraça cruzou-me pela mente. Corri para a vereda em ziguezague e desci por ela, com toda a precipitação que pude.
— Que aconteceu? — perguntei.
— Um guarda-chaves, cavalheiro, que foi morto esta manhã.
— Não será o desta casinha?
— Sim, senhor.
— Aquele que eu conhecia?
— Fácil lhe será reconhecê-lo — disse o homem que respondia às minhas perguntas.
Tirou gravemente o chapéu e levantando uma ponta da tela:
— Não está desfigurado — acrescentou.
— Deus meu! Mas como aconteceu a desgraça? Que se passou aqui? — Repeti, indo de um lado para outro, apenas caiu o negro sudário.
— Cavalheiro, a máquina o feriu. Ninguém conhecia nem desempenhava melhor suas obrigações; mas hoje, sabe-se lá por quê? não soube acautelar-se. Era já dia claro; trazia ainda o farol aceso. Um trem saía do túnel; o guarda estava ali, de costas. Foi derrubado. É este o maquinista. Ele lhe dirá o que aconteceu, com todos os pormenores… — Tom, dê a este cavalheiro todos os detalhes…
O maquinista, foi até a boca do túnel.
— Vou explicar-lhe como se passou, cavalheiro. Da curva que faz a via, ali dentro, vi o guarda-chaves junto à saída como se vê um homem por um binóculo. Não havia tempo para apertar os freios; mas não me inquietei por isso. Tive-o sempre por homem cauteloso. Contudo, como me pareceu que não o preocupava o silvo da locomotiva, soltei vapor… Estávamos já em cima dele… Chamei-o com toda a força dos pulmões.
— Que foi que o senhor disse?
— Gritei: “Olha lá! Oh! Oh! Fuja, fuja! Saia da linha!”
Estremeci.
— Ah, senhor! Foi um rude transe! Não parei de chamá-lo. Ocultei o rosto com este braço e nem um momento deixei de agitar nervosamente o outro. Nada consegui!
Assim terminou, com essa morte trágica, tão extraordinária aventura, cujo mistério jamais consegui decifrar.
Charles Dickens
'Frango tite'
Não tão rara quanto o peru nem tão frugal quanto ovo, a galinha, comida de domingo, era naquela época o símbolo da fome nacional. Já muito antes de nós, o Barão de Itararé diagnosticara: "quando pobre come frango, um dos dois está doente".
Tenho proposto com certa insistência que alguém escreva, no Brasil, a sociologia da galinha, ou pelo menos defina o papel da galinha na psicologia nacional. Na biografia dos brasileiros, na alma de cada um de nós, embrulhados aos nossos sonhos e desejos, estão alguns cacarejos, uns batidos de asa, um ovo roubado, uma clarinada matinal...
Mas foi o Sá quem descobriu a saída. Se durante a semana estávamos condenados ao restaurante do Calabouço , domingo tínhamos obrigação de melhorar o cardápio. E o problema não era simples, pelo menos para mim. No Calabouço, com uma carteira falsa de estudante, eu pagava dois cruzeiros por refeição. Pagamento simbólico, evidentemente. Bendito simbolismo que eu, na literatura, tratava com desprezo. Mas, aos domingos, não havia Calabouço: tinha-se que enfrentar o realismo socialista dos restaurantes da Lapa.
Mas o Sá descobriu que, no China da Riachuelo, perto dos Arcos, servia-se aos domingos por preço de banana um prato que se chamava, sem rodeios, frango com arroz. E era verdade. Esse prato restaurou em nós a perdida dignidade dos domingos de outrora, iluminados sempre por uma galinha-ao-molho-pardo ou um frango com farofa-com-farofa-de-miúdos... Era com outra alma que a gente agora lia os suplementos dominicais, almoçava média com pão e manteiga, e esperava a noite.
Sim, porque o frango era servido precisamente às sete horas da noite. E a freguesia, naturalmente, era grande. A partir das 6 e meia começava a chegar o pessoal que, como quem não quer nada, espiava para as mesas e ficava por ali, esperando lugar -- pois o frango era pouco e ninguém queria correr o risco de degradar seu domingo. Às 7 em ponto, o garçom anunciava:
- Atenção, pessoal, vai sair o tite!
Seguia-se o reboliço das últimas disputas e arranjos: "Dá licença de botar uma cadeira a mais na sua mesa?" "Mas já tem cinco". "Se não, vou perder o frango..." Deixa o rapaz sentar". E lá vinha, em pratos feitos que fumegavam por cima de nossa cabeça, na bandeja do Jacinto, o frango com arroz, vendido inexplicavelmente por cinco pratas. Também, quinze minutos depois, quando mal acabávamos de devorar o último farelo de frango, já se ouvia, irônica, a voz do garçom:
- Acabou o tite! Agora só sopa de entulho!
O "tite"...Por que "tite"? Aquele domingo saí com essa pergunta na cabeça. O Jacinto não dizia "vai sair o frango", dizia "vai sair o tite"...
Manifestei minha estranheza aos companheiros de quarto e o Sá, que lia "Novos Rumos", retrucou com desprezo:
- Curiosidade pequeno-burguesa. Vê se algum operário, podendo comer frango por cinco pratas, vai se preocupar com a gíria do garçom!
Sá tinha razão. Tratei de esquecer o problema e fomos, mais uma vez, ao frango do China, ao tite com arroz. Mas eu vivia os meus últimos domingos de glória, pois, pouco mais tarde, deparei com o Jacinto tomando Hidrolitol, no Largo da Lapa, e não resisti.
- Tite é o seguinte - explicou-me ele. - O senhor Shio, dono do restaurante, faz as compras da semana todo domingo na feira do Largo da Glória. Os frangos e galinhas são trazidos em engradados, se machucam na viagem e algumas chegam na feira morre-não-morre. O senhor Shio, sabendo disso, vai logo perguntando pra feirantes: "Tem galinha tite? Tem galinha tite?" E assim - continuou Jacinto - compra tudo o que é galinha triste que há na feira. Umas estão apenas tristes, outras já morreram de tristeza, mas o chinês compra assim mesmo. E justifica: "Vai morrer mesmo!", disse Jacinto soltando uma gargalhada. Eu ri também, mas sem achar a mesma graça. Dentro de meu estômago, acabara em se converter em tristeza a euforia de tantos jantares dominicais, a cinco cruzeiros velhos, velhíssimos. Quando contei a história ao pessoal, o Sá me fuzilou com os olhos: "Você é um estraga jantares!"
Fez-se um longo silêncio naquele anoitecer de domingo. O Sá falou finalmente:
-- Bem, vamos à sopa de entulho!
Tenho proposto com certa insistência que alguém escreva, no Brasil, a sociologia da galinha, ou pelo menos defina o papel da galinha na psicologia nacional. Na biografia dos brasileiros, na alma de cada um de nós, embrulhados aos nossos sonhos e desejos, estão alguns cacarejos, uns batidos de asa, um ovo roubado, uma clarinada matinal...
Mas foi o Sá quem descobriu a saída. Se durante a semana estávamos condenados ao restaurante do Calabouço , domingo tínhamos obrigação de melhorar o cardápio. E o problema não era simples, pelo menos para mim. No Calabouço, com uma carteira falsa de estudante, eu pagava dois cruzeiros por refeição. Pagamento simbólico, evidentemente. Bendito simbolismo que eu, na literatura, tratava com desprezo. Mas, aos domingos, não havia Calabouço: tinha-se que enfrentar o realismo socialista dos restaurantes da Lapa.
Mas o Sá descobriu que, no China da Riachuelo, perto dos Arcos, servia-se aos domingos por preço de banana um prato que se chamava, sem rodeios, frango com arroz. E era verdade. Esse prato restaurou em nós a perdida dignidade dos domingos de outrora, iluminados sempre por uma galinha-ao-molho-pardo ou um frango com farofa-com-farofa-de-miúdos... Era com outra alma que a gente agora lia os suplementos dominicais, almoçava média com pão e manteiga, e esperava a noite.
Sim, porque o frango era servido precisamente às sete horas da noite. E a freguesia, naturalmente, era grande. A partir das 6 e meia começava a chegar o pessoal que, como quem não quer nada, espiava para as mesas e ficava por ali, esperando lugar -- pois o frango era pouco e ninguém queria correr o risco de degradar seu domingo. Às 7 em ponto, o garçom anunciava:
- Atenção, pessoal, vai sair o tite!
Seguia-se o reboliço das últimas disputas e arranjos: "Dá licença de botar uma cadeira a mais na sua mesa?" "Mas já tem cinco". "Se não, vou perder o frango..." Deixa o rapaz sentar". E lá vinha, em pratos feitos que fumegavam por cima de nossa cabeça, na bandeja do Jacinto, o frango com arroz, vendido inexplicavelmente por cinco pratas. Também, quinze minutos depois, quando mal acabávamos de devorar o último farelo de frango, já se ouvia, irônica, a voz do garçom:
- Acabou o tite! Agora só sopa de entulho!
O "tite"...Por que "tite"? Aquele domingo saí com essa pergunta na cabeça. O Jacinto não dizia "vai sair o frango", dizia "vai sair o tite"...
Manifestei minha estranheza aos companheiros de quarto e o Sá, que lia "Novos Rumos", retrucou com desprezo:
- Curiosidade pequeno-burguesa. Vê se algum operário, podendo comer frango por cinco pratas, vai se preocupar com a gíria do garçom!
Sá tinha razão. Tratei de esquecer o problema e fomos, mais uma vez, ao frango do China, ao tite com arroz. Mas eu vivia os meus últimos domingos de glória, pois, pouco mais tarde, deparei com o Jacinto tomando Hidrolitol, no Largo da Lapa, e não resisti.
- Tite é o seguinte - explicou-me ele. - O senhor Shio, dono do restaurante, faz as compras da semana todo domingo na feira do Largo da Glória. Os frangos e galinhas são trazidos em engradados, se machucam na viagem e algumas chegam na feira morre-não-morre. O senhor Shio, sabendo disso, vai logo perguntando pra feirantes: "Tem galinha tite? Tem galinha tite?" E assim - continuou Jacinto - compra tudo o que é galinha triste que há na feira. Umas estão apenas tristes, outras já morreram de tristeza, mas o chinês compra assim mesmo. E justifica: "Vai morrer mesmo!", disse Jacinto soltando uma gargalhada. Eu ri também, mas sem achar a mesma graça. Dentro de meu estômago, acabara em se converter em tristeza a euforia de tantos jantares dominicais, a cinco cruzeiros velhos, velhíssimos. Quando contei a história ao pessoal, o Sá me fuzilou com os olhos: "Você é um estraga jantares!"
Fez-se um longo silêncio naquele anoitecer de domingo. O Sá falou finalmente:
-- Bem, vamos à sopa de entulho!
quarta-feira, agosto 26
Deliciosas alegrias
Folhear um livro longamente cobiçado, manusear um achado inesperado, acariciar uma encadernação, tirar o pó do corte, são deliciosas alegrias que as mão partilham com os olhos
Octave Uzanne
Octave Uzanne
A casa à noite
Agora tudo se acalma, ou, se não chega à calma, assemelha-se a ela. Um mar sem ondas se amplia ao redor da lâmpada amarela, um mar doméstico. À noite, a casa se deixa amar de outra maneira. Ela se mostra mais se entremostrando à meia luz, ela com seus seres de sombra sem peso. Já recolheu suas claras utilidades e agora se excede em finos enredamentos. Nosso tempo se expande, o jardim lá de fora se acerca, a luz da lâmpada brilha nos olhos dos gatos vigilantes. Dou com a chama da vela se debatendo dentro do copo, revoltada. Uma doida se escapando de tanto dançar, quando nem vento há… menininha de fogo, que atrevida é você, que abusada! As estantes também, à noite, se as toco, elas respondem num código próprio. Às vezes vem um perfume, de uma flor que não é a do vaso na sala. Às vezes, descubro mariposas camufladas, já adultas. A multidão de seres presentes é sutil e não constrange. Sua quase invisibilidade na noite não assombra. Vamos juntos, escrevemos juntos, dedos longos de palmeira, cabelos de samambaia, olhos selvagens fosforescentes, onda de perfumes, mar em volta, todos juntos passamos por essa página e a manchamos, sem o apelo de qualquer evento fantástico, porque fantástica já é toda a casa à noite, quando permanece brandamente acesa e nos permite participar dos seus pensares, do seu batimento, das suas gestações e eclosões silenciosamente quentes, a escrita aí bem-vinda por ser de similar natureza. Quando amanhecer seremos outras, de novo claras, objetivas, cheias de horários e serviços, toda aquela imensidão de ventre recolhida e nenhuma dança estouvada de chama dentro do copo. Já fugiu, aquela atrevida, e levou com ela um tempo outro. Voltará, que eu sei, e a casa sabe, quando for noite, e então iremos juntas, outra vez, por outras páginas.
Sonho domado
Sei que é preciso sonhar.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Thiago de Mello
Largue a tela, leia um livro!
Quem ainda senta no silêncio para encarar um Tolstói, um Proust, um Thomas Mann, um Gustave Flaubert, um Euclides da Cunha, um Guimarães Rosa? E quem ainda se atreve a abrir um Dom Quixote, Oblómov, Os Miseráveis, Buddenbrook, Vida e Destino, As Mil e Uma Noites, Os Irmãos Karamazov, O Homem Sem Qualidades, O Tempo e o Vento, Tocaia Grande, Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta? A pergunta parece simples, mas talvez esconda uma das grandes questões culturais do nosso tempo: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de ler?
E a literatura exige tempo e estamos perdendo, pouco a pouco, a disposição para permanecer diante de algo que exige tempo. Um romance de seiscentas, oitocentas ou mil páginas, ou mais, não cabe na lógica do imediatismo. Não pode ser consumido enquanto se espera o elevador, entre duas notificações ou durante alguns minutos de intervalo. Um grande romance pede silêncio, concentração, memória. Pede que o leitor aceite não saber imediatamente onde a história vai chegar. Talvez seja justamente isso que esteja em conflito com o espírito do nosso tempo.
Vivemos cercados por telas que disputam permanentemente a nossa atenção. Rolamos páginas, vídeos e imagens em uma sequência praticamente interminável. Um conteúdo substitui o outro antes mesmo que tenhamos tempo de assimilá-lo. A novidade não está mais em descobrir algo, mas em descobrir o próximo.
Com a leitura é diferente, ou seja, funciona de maneira inversa. Ela não nos oferece a próxima coisa. Ela nos convida a permanecer. Há algo de “revolucionário” em desligar o celular, afastar as notificações e permanecer durante uma hora diante de algumas páginas. É um gesto de resistência contra a velocidade. Não porque toda tecnologia seja inimiga da cultura, mas porque uma vida submetida integralmente à velocidade corre o risco de perder a capacidade de contemplação.
Quanto a isso, Zygmunt Bauman chamou atenção para a fluidez das relações e das estruturas da modernidade contemporânea. Tudo parece provisório, substituível, descartável. Até mesmo a atenção humana entrou nessa lógica. Consumimos notícias, opiniões, imagens, vídeos e até ideias como quem percorre uma prateleira de supermercado. A literatura, porém, não funciona assim. Um personagem precisa de tempo para existir. Uma paisagem precisa de tempo para ser percebida. Uma tragédia precisa de tempo para amadurecer. Uma ideia precisa de tempo para incomodar.
Emma Bovary não cabe em um vídeo de quinze segundos. Hans Castorp não pode ser compreendido em um resumo de algumas linhas. Diadorim não é apenas um personagem de uma história sobre o sertão. Fantine não é somente uma mulher pobre de Os Miseráveis. Oblómov não é simplesmente um homem preguiçoso. Quaderna não é apenas um personagem excêntrico em busca de um reino perdido. A literatura não entrega apenas histórias; ela constrói experiências. É por isso que ler um grande romance é também viajar. Viajar sem sair do lugar.
Podemos atravessar os mares com Simbad, perder-nos nas histórias de Sherazade, conversar com Tieta do Agreste, acompanhar Emma Bovary em seus sonhos e frustrações, subir A Montanha Mágica ao lado de Hans Castorp, atravessar o sertão com Diadorim e Riobaldo, caminhar pelas terras do Sul com Ana Terra e Capitão Rodrigo, sentir o sofrimento de Fantine pelas ruas de Paris, acompanhar Maheude e os mineiros de Germinal na luta pela sobrevivência ou entrar no universo delirante de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. A cada livro, uma época. A cada personagem, uma possibilidade de existência. A cada página, uma janela.
É justamente aí que reside a força da literatura. O leitor não sai exatamente igual de um grande romance. Pode até fechar o livro sem concordar com o autor, sem gostar dos personagens ou sem encontrar respostas para suas próprias perguntas. Mas alguma coisa se deslocou. A literatura nos obriga a habitar outras consciências. Coloca-nos diante de pessoas que pensam, amam, sofrem e desejam de maneiras diferentes das nossas. E talvez esse seja um dos últimos grandes espaços de encontro em uma sociedade cada vez mais fragmentada.
Quando lemos Tolstói, entramos na Rússia de outro século. Quando lemos Flaubert, encontramos uma sociedade burguesa em transformação. Quando atravessamos as páginas de Euclides da Cunha, somos confrontados com um Brasil profundo, marcado pela violência, pela desigualdade e pelo abandono. Quando lemos Jorge Amado, penetramos no coração que bombeia cultura para Brasil a fora, a Bahia. Quando lemos Guimarães Rosa, descobrimos que o sertão pode ser geografia, linguagem, filosofia e existência ao mesmo tempo. Quando lemos Graciliano Ramos, adentramos num país flagelado pela seca. A literatura amplia o mundo porque amplia aquilo que conseguimos imaginar.
Mas há um paradoxo. Nunca tivemos tanto acesso aos livros e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar tempo para lê-los. Bibliotecas inteiras cabem dentro de um aparelho. Obras que antes eram raras estão disponíveis em poucos cliques. Podemos carregar dezenas de romances no bolso. O que parece faltar não é acesso. É atenção!
Talvez por isso os grandes calhamaços estejam se transformando em objetos de decoração. Livros alinhados nas estantes, fotografados, exibidos, organizados por cor enquanto permanecem intocados. Tornaram-se, em alguns casos, sinais exteriores de cultura, quando sua verdadeira função é outra: serem abertos, riscados, dobrados, emprestados, esquecidos sobre a mesa e retomados no dia seguinte. Um livro não foi feito para combinar com o sofá. Foi feito para interromper a nossa vida. E é precisamente essa interrupção que pode nos salvar da superficialidade.
Não é necessário transformar a leitura em obrigação. Nem estabelecer uma competição sobre quem leu mais clássicos. A literatura não deveria ser um vestibular permanente de erudição. Há livros difíceis, livros divertidos, livros ruins, livros maravilhosos. Há momentos para Dostoiévski e momentos para uma crônica de poucas páginas, como Conto de Natal de Charles Dickens, ou mesmo a história do Analista de Bagé de Luiz Fernando Verissimo, ou ainda Leão de Chácara de João Antônio. O importante é recuperar o prazer de ler. Sentar. Abrir. Começar. E permanecer.
No mundo das telas, de dopamina, o desafio é encontrar leitores. Não milhões. Não multidões. Apenas aqueles que ainda acreditam que algumas histórias merecem ser escritas, contadas e romanceadas; aqueles que aceitam atravessar centenas de páginas para descobrir que, ao final, não encontraram apenas uma história, mas alguma coisa de si mesmos. Porque um livro não precisa ser lido por todos. Precisa encontrar alguém. Alguém disposto a deixar a tela de lado por algumas horas. Alguém disposto a trocar a rolagem infinita por uma página. Alguém disposto a suportar o silêncio.
Então, leitores, fica o convite, quase uma provocação: largue a tela. Pegue um livro. Desligue por um instante o ruído do mundo. Abra Tolstói. Flaubert. Proust. Thomas Mann. Euclides. Guimarães Rosa. Machado de Assis. Lima Barreto. Abra Olhai os Lírios do Campo, O Quinze, Memorias Póstumas de Braz Cuba, Fogo Morto, Boa do Inferno, As Minas de Prata ou qualquer outro livro de sua preferência. Não procure apenas uma história. Procure um mundo. Uma cultura. E, quem sabe, ao terminar a última página, você descubra que o mundo que encontrou dentro do livro também estava, silenciosamente, dentro de você.
Boa leitura!
E a literatura exige tempo e estamos perdendo, pouco a pouco, a disposição para permanecer diante de algo que exige tempo. Um romance de seiscentas, oitocentas ou mil páginas, ou mais, não cabe na lógica do imediatismo. Não pode ser consumido enquanto se espera o elevador, entre duas notificações ou durante alguns minutos de intervalo. Um grande romance pede silêncio, concentração, memória. Pede que o leitor aceite não saber imediatamente onde a história vai chegar. Talvez seja justamente isso que esteja em conflito com o espírito do nosso tempo.
Vivemos cercados por telas que disputam permanentemente a nossa atenção. Rolamos páginas, vídeos e imagens em uma sequência praticamente interminável. Um conteúdo substitui o outro antes mesmo que tenhamos tempo de assimilá-lo. A novidade não está mais em descobrir algo, mas em descobrir o próximo.
Com a leitura é diferente, ou seja, funciona de maneira inversa. Ela não nos oferece a próxima coisa. Ela nos convida a permanecer. Há algo de “revolucionário” em desligar o celular, afastar as notificações e permanecer durante uma hora diante de algumas páginas. É um gesto de resistência contra a velocidade. Não porque toda tecnologia seja inimiga da cultura, mas porque uma vida submetida integralmente à velocidade corre o risco de perder a capacidade de contemplação.
Quanto a isso, Zygmunt Bauman chamou atenção para a fluidez das relações e das estruturas da modernidade contemporânea. Tudo parece provisório, substituível, descartável. Até mesmo a atenção humana entrou nessa lógica. Consumimos notícias, opiniões, imagens, vídeos e até ideias como quem percorre uma prateleira de supermercado. A literatura, porém, não funciona assim. Um personagem precisa de tempo para existir. Uma paisagem precisa de tempo para ser percebida. Uma tragédia precisa de tempo para amadurecer. Uma ideia precisa de tempo para incomodar.
Emma Bovary não cabe em um vídeo de quinze segundos. Hans Castorp não pode ser compreendido em um resumo de algumas linhas. Diadorim não é apenas um personagem de uma história sobre o sertão. Fantine não é somente uma mulher pobre de Os Miseráveis. Oblómov não é simplesmente um homem preguiçoso. Quaderna não é apenas um personagem excêntrico em busca de um reino perdido. A literatura não entrega apenas histórias; ela constrói experiências. É por isso que ler um grande romance é também viajar. Viajar sem sair do lugar.
Podemos atravessar os mares com Simbad, perder-nos nas histórias de Sherazade, conversar com Tieta do Agreste, acompanhar Emma Bovary em seus sonhos e frustrações, subir A Montanha Mágica ao lado de Hans Castorp, atravessar o sertão com Diadorim e Riobaldo, caminhar pelas terras do Sul com Ana Terra e Capitão Rodrigo, sentir o sofrimento de Fantine pelas ruas de Paris, acompanhar Maheude e os mineiros de Germinal na luta pela sobrevivência ou entrar no universo delirante de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. A cada livro, uma época. A cada personagem, uma possibilidade de existência. A cada página, uma janela.
É justamente aí que reside a força da literatura. O leitor não sai exatamente igual de um grande romance. Pode até fechar o livro sem concordar com o autor, sem gostar dos personagens ou sem encontrar respostas para suas próprias perguntas. Mas alguma coisa se deslocou. A literatura nos obriga a habitar outras consciências. Coloca-nos diante de pessoas que pensam, amam, sofrem e desejam de maneiras diferentes das nossas. E talvez esse seja um dos últimos grandes espaços de encontro em uma sociedade cada vez mais fragmentada.
Quando lemos Tolstói, entramos na Rússia de outro século. Quando lemos Flaubert, encontramos uma sociedade burguesa em transformação. Quando atravessamos as páginas de Euclides da Cunha, somos confrontados com um Brasil profundo, marcado pela violência, pela desigualdade e pelo abandono. Quando lemos Jorge Amado, penetramos no coração que bombeia cultura para Brasil a fora, a Bahia. Quando lemos Guimarães Rosa, descobrimos que o sertão pode ser geografia, linguagem, filosofia e existência ao mesmo tempo. Quando lemos Graciliano Ramos, adentramos num país flagelado pela seca. A literatura amplia o mundo porque amplia aquilo que conseguimos imaginar.
Mas há um paradoxo. Nunca tivemos tanto acesso aos livros e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar tempo para lê-los. Bibliotecas inteiras cabem dentro de um aparelho. Obras que antes eram raras estão disponíveis em poucos cliques. Podemos carregar dezenas de romances no bolso. O que parece faltar não é acesso. É atenção!
Talvez por isso os grandes calhamaços estejam se transformando em objetos de decoração. Livros alinhados nas estantes, fotografados, exibidos, organizados por cor enquanto permanecem intocados. Tornaram-se, em alguns casos, sinais exteriores de cultura, quando sua verdadeira função é outra: serem abertos, riscados, dobrados, emprestados, esquecidos sobre a mesa e retomados no dia seguinte. Um livro não foi feito para combinar com o sofá. Foi feito para interromper a nossa vida. E é precisamente essa interrupção que pode nos salvar da superficialidade.
Não é necessário transformar a leitura em obrigação. Nem estabelecer uma competição sobre quem leu mais clássicos. A literatura não deveria ser um vestibular permanente de erudição. Há livros difíceis, livros divertidos, livros ruins, livros maravilhosos. Há momentos para Dostoiévski e momentos para uma crônica de poucas páginas, como Conto de Natal de Charles Dickens, ou mesmo a história do Analista de Bagé de Luiz Fernando Verissimo, ou ainda Leão de Chácara de João Antônio. O importante é recuperar o prazer de ler. Sentar. Abrir. Começar. E permanecer.
No mundo das telas, de dopamina, o desafio é encontrar leitores. Não milhões. Não multidões. Apenas aqueles que ainda acreditam que algumas histórias merecem ser escritas, contadas e romanceadas; aqueles que aceitam atravessar centenas de páginas para descobrir que, ao final, não encontraram apenas uma história, mas alguma coisa de si mesmos. Porque um livro não precisa ser lido por todos. Precisa encontrar alguém. Alguém disposto a deixar a tela de lado por algumas horas. Alguém disposto a trocar a rolagem infinita por uma página. Alguém disposto a suportar o silêncio.
Então, leitores, fica o convite, quase uma provocação: largue a tela. Pegue um livro. Desligue por um instante o ruído do mundo. Abra Tolstói. Flaubert. Proust. Thomas Mann. Euclides. Guimarães Rosa. Machado de Assis. Lima Barreto. Abra Olhai os Lírios do Campo, O Quinze, Memorias Póstumas de Braz Cuba, Fogo Morto, Boa do Inferno, As Minas de Prata ou qualquer outro livro de sua preferência. Não procure apenas uma história. Procure um mundo. Uma cultura. E, quem sabe, ao terminar a última página, você descubra que o mundo que encontrou dentro do livro também estava, silenciosamente, dentro de você.
Boa leitura!
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