quinta-feira, outubro 1

Leitura compartilhada

 


Luto pela família Silva

A assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem está morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.

João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos os imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à Silva.

João da Silva – nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue-azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telha de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.

Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.
Rubem Braga

Versos na Luz

A última pessoa deste mundo que alguém julgaria um criminoso era a sra. Avis Lardner. Viúva do grande mártir da Astronáutica, era filantropa, colecionadora de arte, uma extraordinária anfitriã e, todos concordavam, um gênio artístico. Acima de tudo, era o mais gentil e bondoso ser humano que se podia imaginar.

O marido, William J. Lardner, morreu, como todos sabemos, devido aos efeitos da radiação da luz solar, após ter deliberadamente permanecido no espaço, a fim de que uma espaçonave de passageiros pudesse levar seu veículo espacial em segurança à Estação Espacial n°5.

Por isso a sra. Lardner havia recebido uma generosa pensão, a qual investira bem e com muita sabedoria. Ao fim da meia-idade, estava rica.


Sua casa era uma espécie de exposição permanente, um verdadeiro museu, contendo uma coleção de lindas jóias, pequena, porém de extremo bom-gosto. De uma dúzia de diferentes culturas havia conseguido relíquias de quase toda peça de artesanato concebível que pudessem ser engastadas de jóias para servir à aristocracia daquela mesma cultura. Possuía um dos primeiros relógios de pulso, adornado de pedras preciosas, fabricado na América, uma adaga incrustada de pedras preciosas, procedente do Camboja, um par de óculos, decorado com jóias, vindo da Itália, e assim por diante, interminavelmente.

Tudo estava aberto ao público. As peças de artesanato não estavam no seguro, e não havia nenhuma providência comum no sentido de garanti-las. Não havia a necessidade de nada convencional, porquanto a sra. Lardner mantinha um corpo de auxiliares, constituído de robôs-servos, a cada um dos quais podia se confiar a guarda de cada um dos objetos, tendo eles imperturbável concentração, irrepreensível honestidade e irrevogável eficiência.

Todos sabiam da existência dos robôs e não há registro de ter algum dia ocorrido alguma tentativa de furto.

E havia também, é claro, sua escultura-luz.

Como a sra. Lardner descobriu seu próprio gênio para a arte, nenhum convidado de suas pródigas reuniões conseguia adivinhar. Contudo, em cada ocasião, quando a sra. Lardner abria a casa para os convidados, uma nova sinfonia de luz percorria os aposentos de um lado ao outro; curvas e sólidos tridimensionais, numa mescla de cores, algumas puras, outras difusas, em surpreendentes efeitos cristalinos que mergulhavam no assombro cada convidado, e que se ajustavam por si mesmos, de forma a embelezar os cabelos macios e azulados e o rosto de contornos pouco definidos da sra. Lardner.

Era por causa da escultura-luz, mais do que por qualquer outra coisa, que os convidados apareciam. Nunca era a mesma duas vezes, e nunca deixava de explorar novos enfoques da arte.

Muitas pessoas que podiam comprar consolo-luz preparavam esculturas-luz por diversão, mas ninguém chegava nem de longe a igualar a perícia da sra. Lardner. Nem mesmo aqueles que se consideravam artistas profissionais.

Ela mesma era encantadoramente modesta a respeito disso – Não, não – dizia ela, quando alguém ressudava lirismo. – Eu não a denominaria “poesia na luz”. Isto é ser bondosa demais. No máximo, eu diria que se trata de meros “versos na luz” – e todos sorriam da sutil tirada de espírito.

Embora fosse solicitada frequentemente a fazê-lo, jamais criava “escultura-luz” em outras ocasiões, salvo em suas próprias festas.

– Seria comercialização – costumava dizer.

Contudo, não objetava à preparação de elaborados hologramas de suas esculturas, de forma que se tornassem permanentes e fossem reproduzidos em todos os museus do mundo. Tampouco nunca cobrou nada pelo uso que pudesse ser feito de suas “esculturas-luz”.

– Eu não teria coragem de cobrar um centavo – dizia ela, abrindo bem os braços. – É de graça para todos. Afinal de contas, eu mesma a uso durante pouco tempo.

Era verdade, ela nunca utilizava duas vezes a mesma “escultura-luz”.

Ela própria cooperava quando eram feitos os hologramas. Observando benignamente cada etapa, estava sempre pronta a mandar que os robôs ajudassem.

– Por favor, Courtney – quer ter a bondade de ajustar a escadinha?

Era o seu estilo. Sempre se dirigia aos robôs com a mais formal das cortesias.

Certa ocasião, há muitos anos, quase fora repreendida por um funcionário federal do “Bureau of Robots and Mechanical Men”:

– Não pode fazer isto – disse ele severamente. – Interfere na eficiência deles. São construídos para cumprir ordens e quanto mais claramente lhes der ordens, mais eficientes as cumprirão. Quando pede com elaborada polidez, compreendem com dificuldade que está sendo dada uma ordem. Reagem mais lentamente.

A sra. Lardner ergueu a aristocrática cabeça:

– Não exijo rapidez e eficiência – disse ela. – Peço boa vontade. Meus robôs me amam.

O funcionário poderia ter explicado que robôs não podem amar, mas murchou sob o olhar ofendido, ainda que meigo, dela.

Era fato conhecido de todos que a sra. Lardner jamais remeteu um robô à fábrica para ajustamentos. Seus cérebros positrônicos eram de enorme complexidade, e quando saem da fábrica, um em dez não está perfeitamente regulado. Às vezes o desajuste não se revela durante um período de tempo, mas sempre que um engano se manifesta, a “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation” efetua a correção gratuitamente.

A sra. Lardner sacudiu a cabeça:

– A partir do momento em que o robô está em minha casa – disse – e cumpre com seus deveres, as excentricidades secundárias devem ser toleradas. Não permitirei que seja maltratado.

Era a pior coisa possível tentar explicar que um robô era apenas uma máquina. Ela dizia inflexivamente:

– Nada que seja tão inteligente como um robô pode ser apenas uma máquina. Trato-os como gente.

E pronto!

Ela conservava até mesmo Max, embora fosse quase inútil. Mal se podia compreender o que se esperava dele. Contudo, a sra. Lardner insistia:

– Absolutamente – dizia firmemente – ele é capaz de pegar e guardar chapéus e casacos perfeitamente. Segura objetos para mim. Sabe fazer muitas coisas.

– Mas por que não manda regulá-lo? – perguntou um amigo, certa ocasião.

– Oh, eu não teria coragem. Ele é ele mesmo. É muito amável, sabe? Afinal de contas, um cérebro positrônico é tão complexo que ninguém consegue saber onde está enguiçado. Se fosse ajustado para a perfeita normalidade, não haveria meios de recuperá-lo para a amabilidade que possui agora. E eu não quero desfazer-me dele.

– Mas, se ele está mal regulado – disse o amigo, olhando nervosamente para a sra. Lardner – não poderá ser perigoso?

– Nunca – a sra. Lardner deu uma risada. – Tenho-o há anos. É completamente inofensivo e é um amor.

Na verdade, ele tinha a mesma aparência de todos os outros robôs: liso, metálico, vagamente humano, mas inexpressivo.

Contudo, para a bondosa sra. Lardner, todos eram gente, pessoas, todos meigos, todos adoráveis. Ela era assim.

Como poderia cometer um crime?

A última pessoa que alguém esperaria que fosse assassinado seria John Semper Travis. Introvertido e de modos suaves, estava no mundo, mas não pertencia a ele. Possuía aquele peculiar talento para a Matemática que lhe tornava possível resolver mentalmente o complexo entrelaçamento de uma miríade de circuitos positrônicos cerebrais da mente de um robô.

Era o engenheiro-chefe da “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation”.

Mas era também um entusiasmado amador em “escultura-luz”. Havia escrito um livro sobre a matéria, no qual tentava mostrar que o tipo de Matemática que utilizava para resolver problemas de circuitos de cérebros positrônicos poderia ser modificado para servir de guia na produção da estética da “escultura-luz”.

No entanto, sua tentativa de colocar a teoria em prática foi um fracasso desanimador. As esculturas que produziu, segundo seus princípios matemáticos, eram pesadas, mecânicas e sem interesse.

Era a única razão de infelicidade em sua vida tranquila, introvertida e segura, no entanto era razão suficiente para sentir-se profundamente infeliz. Ele sabia que suas teorias eram corretas, se bem que não conseguisse pô-las em ação. Se não conseguisse produzir uma boa peça de “escultura-luz”…

Naturalmente, estava a par da “escultura-luz” da sra. Lardner. Ela era universalmente aplaudida como um gênio, muito embora Travis soubesse que era incapaz de compreender mesmo o mais simples aspecto da matemática dos robôs. Havia trocado correspondência com ela, mas ela recusava-se obstinadamente a explicar seus métodos, levando-o a perguntar-se se ela possuía mesmo algum. Não seria mera intuição? – mas mesmo a intuição pode ser reduzida à matemática. Finalmente, ele conseguiu receber um convite para uma das festas. Precisava avistar-se com ela a todo custo.

O sr. Travis chegou bem tarde. Havia feito uma última tentativa com uma peça de “escultura-luz”, que resultará num fracasso desalentador.

Cumprimentou a sra. Lardner com uma espécie de enigmático respeito e disse:

– Estranho aquele robô que pegou meu chapéu e casaco.

– Aquele é Max – disse a sra. Lardner.

– Está muito desregulado e é um modelo bem antigo. Por que razão não o manda para a fábrica?

– Oh, não – disse a sra. Lardner. – Seria demasiado trabalho.

– De modo nenhum, sra. Lardner – disse Travis. – A sra. ficaria surpresa com a simplicidade do trabalho. De vez que sou da U.S. Robots, tomei a liberdade de ajustá-lo pessoalmente. Não levou tempo e a sra. verá que ele está agora em perfeitas condições de funcionamento.

Uma estranha mudança ocorreu no rosto da sra. Lardner. A fúria estampou-se nele pela primeira vez em sua existência sossegada. Era como se os traços fisionômicos não soubessem qual posição tomar.

– Ajustou-o? – perguntou com voz aguda. – Mas foi ele que criou as minhas “esculturas-luz”. Foi o ajustamento defeituoso, o desajuste, que você jamais conseguirá restaurar… aquele…

Foi uma grande desgraça que ela estivesse mostrando sua coleção naquele momento e que a adaga com cabo cravejado com pedras preciosas, procedente do Camboja, estivesse sobre o tampo de mármore na mesa em frente dela.

A fisionomia de Travis também se distorceu:

– A sra. quer dizer que, se eu tivesse estudado o estranho cérebro positrônico dele, eu poderia ter aprendido…

Ela avançou com a arma com demasiada rapidez para alguém detê-la. Ele não tentou se esquivar ao golpe. Há quem diga que foi ao encontro dele – como se quisesse morrer.
Isaac Asimov, "Nós, Robôs"

Viver

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?

O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?
Carlos Drummond de Andrade

Mudos e isolados

Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra- pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.

Franz Kafka, "Conversas com Kafka"

Aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna?

— A senhora está vendo aquela janela, dona Fausta, lá na Media Luna, onde a luz sempre ficava acesa?

— Não, Angeles. Não vejo nenhuma janela.

— É que justinho agora ficou escura. Será que aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna? Faz mais de três anos que aquela janela está alumbrada, noite a noite. Dizem, quem esteve lá, que é o quarto onde habita a mulher de Pedro Páramo, uma coitadinha louca que tem medo do escuro. E olha só: agora mesmo, a luz apagou. Não será um acontecimento ruim?

— Talvez tenha morrido. Estava muito doente. Dizem que já nem reconhecia as pessoas, e dizem que falava sozinha. Bom castigo deve ter suportado Pedro Páramo casando-se com essa mulher.

— Coitado do senhor dom Pedro.

— Não, Fausta. Ele merece. Isso e muito mais.

— Olha, a janela continua escura.

— Deixa essa janela em paz e vamos dormir, que é noite alta para que nós duas, esse par de velhas, andemos soltas pela rua.


E as duas mulheres, que saíam da igreja muito perto das onze da noite, perderam-se debaixo dos arcos do portal, olhando como a sombra de um homem cruzava a praça na direção da Media Luna.

— Escuta, dona Fausta, não parece que o senhor ali é o doutor Valência?

— Parece mesmo, mas ando tão cega que não conseguiria reconhecê-lo.

— Não se esqueça que ele veste sempre calças brancas e paletó preto. Eu aposto que está acontecendo alguma coisa ruim na Media Luna. E olha só como ele vai rijo, como se a urgência o empurrasse.

— Pode ser de verdade uma coisa ruim. Sinto vontade de voltar e dizer ao padre Rentería que se achegue por lá, vai que essa infeliz morre sem se confessar.

— Nem pense nisso, Angeles. Nem Deus queira. Depois de tudo que ela sofreu neste mundo, ninguém desejaria que se fosse sem os auxílios espirituais e continuasse a penar na outra vida. Embora os bruxos digam que nos loucos a confissão não vale, pois mesmo quando têm a alma impura são inocentes. Isso só Deus sabe... Veja só, já tornaram a acender a luz na janela. Oxalá tudo dê certo. Imagine só em aonde iria dar o trabalho que tivemos todos esses dias para arrumar a igreja para que pareça bonita agora no Natal, se alguém morrer naquela casa. Com o poder que tem, dom Pedro aguaria a nossa festa num triz.

— A senhora sempre pensa o pior, dona Fausta. Era melhor fazer como eu: encomende tudo à Providência Divina. Reze uma ave-maria à Virgem e tenho certeza que nada vai acontecer de hoje para amanhã. Depois, que seja feita a vontade de Deus; afinal de contas, ela não deve estar tão contente assim nesta vida.

— Acredite em mim, Angeles, a senhora sempre me repõe o ânimo. Vou dormir levando ao sono esses pensamentos. Dizem por aí que os pensamentos dos sonhos vão direto para o céu. Tomara que os meus alcancem esta altura. Amanhã nos vemos.

— Até amanhã, Fausta.

As duas velhas, porta a porta, se meteram em suas casas. O silêncio voltou a fechar a noite sobre o povoado.
Juan Rulfo, "Pedro Páramo"

quarta-feira, setembro 30

Colírio da alegria

 


O mito fundador

Sento-me diante do computador, abro a IA e leio na tela:

— O que vamos criar hoje?

— Eu tenho algumas ideias para uma história, mas não tenho certeza se funcionam.

— Claro! Escreva aqui suas ideias, que eu vou analisá-las do ponto de vista dos personagens, conflito, ritmo e coerência interna.


— Um homem sobrevive a uma catástrofe natural, que pode ser uma enchente, um terremoto ou um tsunami. Outra hipótese: ele sobrevive a um atentado individual, como dez tiros à queima-roupa. Ele se vê como objeto de um milagre, escolhido para ser o mensageiro de uma revelação. Depois, sente o impulso de transmitir essa revelação ao mundo. Aqueles que o seguirem serão recompensados.

— Acho que aqui há uma história muito forte. Mas eu analisaria com cuidado as duas possibilidades que você mencionou. Há uma diferença importante entre a catástrofe natural e o atentado. A primeira é um acontecimento coletivo, e a sobrevivência do personagem pode ser interpretada como acaso ou sorte. A segunda é um acontecimento privado e intencional. Se, contra toda expectativa, ele sobrevive, isso pode tornar mais plausível que o personagem atribua um significado pessoal à sobrevivência.

— E se o personagem sobrevivesse tanto ao terremoto quanto aos tiros?

— Aqui eu teria alguma cautela. Talvez seja mais verossímil escolher uma das duas situações. As duas tragédias poderiam parecer apenas dois milagres sucessivos, e isso reduziria sua força.

— E se ele interpretasse a sobrevivência à primeira tragédia como sorte, mas, ao escapar da segunda, começasse a se sentir um predestinado?

— Isso poderia funcionar muito bem. Na primeira vez, o personagem atribui a sobrevivência ao acaso, mas, na segunda, o que era apenas uma coincidência passa a ser interpretado como indício de uma intervenção que ele não havia compreendido. As tragédias passam a funcionar como etapas da formação de uma crença.

— Temos que decidir qual das duas acontece primeiro.

— Se a catástrofe natural vier primeiro, a progressão será: sobrevivência coletiva → sorte → sobrevivência individual → predestinação. Se o atentado vier primeiro: sobrevivência individual → intervenção divina → sobrevivência coletiva → confirmação progressiva da fé. Eu tenderia a escolher a primeira se a intenção é mostrar como um homem comum se transforma gradualmente em alguém que acredita ser predestinado.

— Temos então um mito fundador.

— Sim, há aqui características de um mito fundador. Você está pensando em criar uma religião?

— Uma seita já estaria bem.

— Nesse caso, devemos pensar não apenas no mito, mas em quem você quer que acredite nele e no que essa crença promete.

— Acreditarão nele os homens de fé a quem ele dirigirá sua palavra.

— Então já temos o público-alvo.

— Num segundo momento, a revelação se propaga.

— Defesa da marca.

— Quanto àquilo que a crença promete: que tal imortalidade?

— Imortalidade é competitivo, mas está saturado. Teria dificuldade de diferenciação.

— E verdade?

— Verdade é uma proposta difícil de posicionar. É um conceito amplo e disputado. Muitos já afirmaram possuir a verdade.

— E que tal a vida eterna, só que não depois da morte? A vida eterna aqui mesmo.

— Esse é um posicionamento interessante. Desenvolva.

— O fiel não morre nunca.

— Mas e quando as pessoas começarem a morrer?

— Quem morrer é porque não era fiel de verdade.

— Isso resolve o problema da promessa. A morte passa a ser interpretada como prova de que a pessoa não cumpriu as condições.

— Isso é fantástico! E, ao mesmo tempo, verossímil.

— Esse contraste tem se mostrado muito eficaz.

— Acho que também deve haver lugares sagrados, que serão a casa em que ele se encontrava quando a terra começou a tremer e o bar onde bebia quando lhe deram os tiros. E, nas datas em que os dois episódios aconteceram, os fiéis farão peregrinações.

— Isso ajudaria a materializar o mito. As peregrinações funcionariam como rituais de coesão do grupo.

— Então já temos uma seita?

—Temos algo mais próximo de um modelo de negócio. Público-alvo: pessoas aterrorizadas pela morte e pelas catástrofes. Promessa: você não morrerá. Posicionamento: vida eterna aqui e agora. Oferta: adesão à nova seita. Fidelização: permanecer fiel para continuar vivo.

— Agora só falta uma coisa.

— O quê?

— Como eu vou monetizar isso?

— Quer que eu ajude a transformar essa ideia num modelo sustentável?

Árvore

Onde os frutos maduram:
sal e sol em minhas veias
luz e mel em boca alheia.

Onde plantei
a alta acácia das febres
eu mesmo me deitei,
para ser a raiz da semente,
e da madeira e seiva
se fez o meu corpo.

Agora,
Chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.

Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras.

Mia Couto, “Vagas e Lumes”

Selma

Eu detestava ler essas entrevistas em que o jornalista perguntava quando e como fora a primeira experiência sexual do entrevistado. E elas, eram sempre mulheres, atrizes ou modelos, respondiam sem hesitar, eu tinha dezesseis anos, foi na escada do prédio onde eu morava, quinze, no banheiro da boate, treze, na capela mortuária velando o corpo da mãe morta, catorze, no motel. As idades variavam de doze a dezessete.


Eu tinha vinte e três anos e ainda não tivera a minha primeira experiência sexual. Todos os amigos da minha idade começaram cedo, com putas. Um deles foi levado pelo pai, entrou no quarto da puta e contou a verdade para ela, que era veado, e pediu à puta para dizer ao pai que ele tinha comido ela, e quando saíram do quarto a puta disse, o seu filho é uma fera, e o pai ficou feliz da vida e até hoje não sabe da verdadeira inclinação sexual do filho.

Eu não tive experiência sexual com puta nem com nenhuma outra mulher. Não que me faltasse vontade. Era coragem o que me faltava. Eu tinha uma fimose que impedia o recuo do prepúcio que cobria a glande, e a cabeça do meu pau era coberta por uma pele que parecia uma pequena tromba de elefante. Essa era uma das desvantagens de não ser judeu. Meus pais teriam me operado quando eu era criança. Que bobagem eu estava dizendo, não tive pai nem mãe, eles morreram quando eu tinha dois anos. Fui criado por uma tia solteirona que não estava interessada no meu pau.

Por isso eu evitava todas as mulheres, putas e também moças de família e empregadinhas mulatinhas, e essas últimas viviam dando bola para mim e quanto mais bola me davam mais infeliz eu ficava.

No meu prédio morava uma moça que era da minha idade, Selma, quase sempre vestida de branco. Um dia subíamos só nós dois no elevador e ela me deu um beijo, mas foi um beijo muito estranho, ela enfiou a língua na minha boca e aquilo me deixou perplexo. Era o primeiro beijo que eu recebia na boca, minha tia me beijava no rosto e eu não esperava que um beijo fosse tão perturbador. Quando o elevador chegou no andar dela a garota de branco disse, o meu nome é Selma e eu quero namorar você.

Eu não disse nada. Estava muito perturbado com aquele beijo. Aquilo não saía da minha cabeça. Normalmente eu gostava de ficar em casa lendo, na verdade eu não gostava de sair de casa a não ser para trabalhar, porque era obrigado, e voltava correndo, tinha a impressão de que as pessoas olhavam para mim e viam o meu pau coberto pela trombinha de elefante. Fiquei em casa mas não consegui ler, aquele beijo da Selma me deixou abalado, desassossegado.

Passei a vigiar a entrada do meu prédio, se eu a visse esperando o elevador dava meia-volta e sumia. Tinha medo de subir com Selma e ela me beijar novamente e querer fazer coisas comigo, o que seria impossível. Que desculpa eu ia inventar, que não fosse vergonhosa ou humilhante? Meu pau é uma tromba de elefante?
Selma era muito esperta. Um dia saltei no meu andar e ela estava esperando na minha porta. Está com medo de mim?, perguntou. Abri a minha porta, disse, com licença, e fechei a porta na cara dela sem fazer barulho.

Dias depois ela me escorou de novo na porta do meu apartamento. Então? Quando vamos tomar um cafezinho juntos?, ela perguntou. Fiquei ruborizado e fugi covardemente, entrando no meu apartamento.

Eu sabia que aquele meu problema de fimose podia ser resolvido cirurgicamente, mas sempre ouvi dizer que em criança era fácil mas que em adulto era muito perigoso. Me contaram a história de um adolescente que foi operar a fimose e teve tantos problemas com essa operação que tiveram que cortar o pau dele.

Fui na internet. Fimose, dizia o site, é a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade de expor a glande (“cabeça” do pênis) porque o prepúcio (“pele” que recobre a glande, a cabeça do pênis) tem um anel muito estreito. Havia um desenho que mostrava o prepúcio cobrindo a glande e o denominado anel prepucial, a minha tromba de elefante. Dizia um especialista que o prepúcio tinha como função proteger a glande contra traumatismos diversos, pois os mesmos eram frequentes no homem primitivo que vivia nas florestas. Uma informação importante: a fimose não prejudicava o crescimento do pênis.

Quis saber mais sobre essa operação. A postectomia — postium: prepúcio e tomia: secção —, dizia o site, devia ser feita com anestesia local. O próprio cirurgião realizava um bloqueio no tecido subcutâneo da base peniana, geralmente com lidocaína, sem vasoconstritor. O ato cirúrgico tinha uma duração média de trinta minutos. As complicações pós-operatórias eram raras, mas podiam acontecer hematomas e excepcionais infecções, entre outras coisas. Tardiamente alguns pacientes queixavam-se de alterações da sensibilidade e dores, sendo na grande maioria distúrbios psicogênicos, somatizados na genitália.
Vou fazer essa cirurgia, decidi. Procurei um médico no livro do meu plano de saúde e marquei uma consulta.

Eu estava deitado na mesa operatória quando chegaram o cirurgião e uma enfermeira, ambos com aquela máscara cirúrgica. A enfermeira segurou o meu pênis delicadamemte e aplicou a injeção.

Fechei os olhos durante todo o procedimento cirúrgico.

Pronto, ouvi o médico dizer.

Abri os olhos. Ele havia tirado a máscara.

Foi tudo bem, não foi, doutor?, disse a enfermeira, também tirando a máscara.
Perfeito, dona Selma.

A enfermeira era a Selma, a minha vizinha que andava vestida de branco.
Ela olhou para mim enquanto acariciava a minha mão.

Você está indo para casa daqui a pouco. Mais tarde eu passo lá para ver se está tudo bem. Agora você não vai mais fugir de mim, vai?
Rubem Fonseca, "Ela e Outras Mulheres"

Aos sobreviventes, as batatas


Difícil encontrar um paulistano que não vá pelo menos três vezes por semana ao supermercado. É um ritual não exatamente agradável. Já saímos de casa nos queixando, chegamos estressados, fazemos as compras furibundos, pagamos exasperados e vamos embora jurando por todos os santos que não voltaremos nunca mais. Mas, se não voltarmos, o que teremos para contar no fim de semana, quando todos estiverem narrando suas incursões pelas gôndolas de cereais, de embutidos e de refrigerantes?

Ir ao supermercado é ter assunto, qualquer paulistano sabe disso muito bem. Às vezes são histórias comuns, às vezes são casos notáveis: um homem ranzinza (e mau matemático) que insiste em passar quarenta e sete produtos pela caixa de no máximo vinte; um avô que procura o gerente porque ouviu dizer não sabe onde que cinco embalagens de não sei o quê dão direito a um herói de lança e escudo; uma mulher que, virando o rosto para cumprimentar uma amiga, derruba com o carrinho trinta garrafas de vinho chileno; um garoto que vai testar uma bola e nocauteia um senhor que nem sabia que estava na barreira; um passarinho que, surgindo ninguém desconfia de onde, obriga, com voos rasantes, a clientela a se ajoelhar no chão.

Esta semana, presenciei um espetáculo que julguei extraordinário, embora me garantissem depois que todas as quartas-feiras ele se repete e tem até um nome majestoso: festival da cebola e da batata.

Assim que cheguei à frente do supermercado, notei os primeiros sinais: descendo a rampa de entrada, vi duas, dez, duzentas batatas apostando corrida. Desviei-me de duas ou três, mas as outras cento e noventa e sete me subiram pelos pés e me acertaram as canelas. Eu ainda não tinha acabado de xingá-las quando, tão rápidas e insolentes quanto elas, cento e tantas cebolas me lançaram ao chão e me soterraram.

Levantei-me. Caminhando por um terreno minado de batatas e cebolas, entrei no supermercado e consegui chegar ao ponto de origem do fenômeno: duas imensas aglomerações – uma diante de onde estavam as batatas, a outra diante de onde estavam as cebolas. Na verdade, digo isso por intuição, não por ter visto as batatas ou as cebolas. Só vi os movimentos dos frenéticos compradores, escolhendo, pegando, embalando.

De minuto em minuto, dois homens vinham empurrando carrinhos para a reposição. Mas, no meio do caminho, eles eram despojados da carga pelos compradores. Fascinado e temeroso, acompanhei a batalha por algum tempo, até que, como por encanto, sumiram do local todas as cebolas, todas as batatas e todos os compradores.

Peguei os quatro ou cinco produtos de minha lista e fui para a área das caixas. Diante de cada uma havia uma fila monumental. Todos os compradores de batatas e de cebolas – milagrosamente sãos e salvos – estavam lá, satisfeitos. Haviam aproveitado a promoção.

Esperando, resignado, ouvi o comentário de um casal à minha frente: a mulher exaltava as batatas; o homem, as cebolas. Um senhor que chegou e se pôs atrás de mim e que, assim como eu, não tinha comprado nem batatas nem cebolas, amaldiçoou tanto umas quanto as outras e, aproveitando o impulso, desancou também o casal. Olhando para mim, procurou aprovação. Eu, que sempre fui indeciso (meus ultimatos foram sempre penultimatos), sorri para ele e, depois, sorri também para o casal, que me fitava em busca de apoio. Sorriria também para as batatas e as cebolas, se elas me pedissem.

terça-feira, setembro 29

Ginasta no cavalo

 


Vítima da fome

Dentre os vários monumentos públicos que enobrecem uma cidade de Inglaterra, cujo nome tenho a prudência de não dizer, e à qual não quero dar um nome imaginário, um existe comum à maior parte das cidades grandes ou pequenas: é o asilo da mendicidade.

Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro.

Muito tempo depois de ter o cirurgião dos pobres da paróquia introduzido o pequeno Oliver neste vale de lágrimas, ainda se duvidava se a pobre criança viveria ou não; se sucumbisse, é mais que provável que estas memórias nunca aparecessem, ou então ocupariam poucas páginas, e deste modo teriam o inapreciável mérito de ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum país em nenhuma época jamais produziu.

Ainda que eu não esteja disposto a sustentar que seja extraordinário favor da fortuna nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstâncias atuais, era o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.

A razão é esta. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as funções respiratórias, exercício fatigante, mas necessário à nossa existência.

Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colchão de lã grosseira, fazendo esforços para respirar, oscilando entre a vida e a morte e inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de avós solicitados, tias assustadas, amas experientes e médicos profundamente sábios, morreria infalivelmente. Mas como não havia ninguém, exceto uma pobre velha que havia bebido um trago demais e um médico pago por ano para esse trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro.

O resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e deu notícia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar à paróquia, soltando um grito tão agudo quanto se podia esperar de um varão que só desde três minutos e meio possuía este utilíssimo presente que se chama voz.

No momento em que Oliver dava essa primeira prova da força e da liberdade de seus pulmões, agitou-se a pequena coberta remendada da cama de ferro. Levantou-se com dificuldade o rosto pálido de uma moça, e uma voz fraca articulou estas palavras:

— Quero ver meu filho antes de morrer!

O médico estava assentado diante da lareira, aquecendo-se e esfregando as mãos. Ouvindo a voz da moça levantou-se e, aproximando-se da cama, disse com mais doçura do que se podia esperar do seu ofício:

— Oh! Não fale de morrer!

— Deus proteja a pobre mulher! — disse a enfermeira, metendo na algibeira uma garrafa cujo conteúdo provava nesse momento com evidente satisfação; quando ela tiver vivido tanto como eu e tiver tido treze filhos e perdido onze, visto que só me restam dois aqui no asilo, então há de pensar de outra maneira. — Ora, vamos, pense na felicidade de ser mãe deste pequeno.

É provável que essa perspectiva consoladora da ventura maternal não produzisse grande efeito. A enferma sacudiu tristemente a cabeça e estendeu as mãos para o filho.

O médico passou-lhe a criança aos braços; ela aplicou com ternura, na testa do pequeno, os lábios pálidos e frios; depois passou as mãos pelo próprio rosto, caiu na cama e morreu.

Esfregaram-lhe o peito, as mãos, as fontes; mas o sangue estava gelado para sempre; falavam-lhe de esperança e de amparo; mas ela estava tanto tempo privada disso que achou melhor expirar.

— Está acabado, Sra. Haingummy — disse o médico.

— Ah! Pobre moça, é verdade — disse a enfermeira apanhando a rolha da garrafa verde, que havia caído na cama, enquanto ela se abaixara para segurar o pequeno.

— É inútil mandar-me chamar se a criança berrar — disse o médico com resolução. — É provável que não fique sossegado. Nesse caso dê-lhe um pouco de mingau.

O médico pôs o chapéu na cabeça e, dirigindo-se para a porta, parou junto da cama e disse:

— Era bonita! De onde veio ela?

— Trouxeram-na ontem à noite — respondeu a velha — por ordem do inspetor; foi achada na rua; fizera um longo trajeto, porque os sapatos estavam em frangalhos; mas de onde vinha e para onde ia? Ninguém sabe dizer.

O médico inclinou-se para o corpo e, levantando a mão esquerda da defunta, disse abanando a cabeça:

— Sempre a mesma história; não tem anel de aliança... Não era casada... Boa noite!

O doutor foi jantar, e a enfermeira, depois de levar à boca a garrafa, assentou-se numa cadeira junto à lareira e entrou a vestir o pequeno.

Que exemplo da influência da roupa ofereceu então o pequeno Oliver Twist! Envolvido na coberta que até então fora sua única roupa, podia ser filho de um fidalgo ou mendigo; era impossível ao estranho mais presumido dizer qual era a sua classe na sociedade; mas quando o meteram num vestidinho velho de morim, amarelecido nesse uso, achou logo seu lugar; filho da paróquia, órfão do asilo de mendigos, vítima da fome, destinado aos maus-tratos, ao desprezo de todos, à piedade de ninguém. Oliver berrava com quantas forças tinha. Se ele soubesse que era órfão, abandonado à terna compaixão dos bedéis e dos inspetores, talvez berrasse mais alto.
Charles Dickens, "Oliver Twist"

Teoria da leitura

Tenho um vizinho de meia-idade, um senhor baixote e careca, que gosta de puxar conversa quando nos encontramos no elevador. Hoje cedo, descemos juntos. “Tem lido muito?” — ele me perguntou, só por perguntar. Sim, estou sempre lendo, respondo, sem interesse algum em alongar a conversa. Alguns segundos de silêncio desagradável nos afastam. E é aí, quebrando esse vácuo, que ele me diz: “Leio sempre também. Só que não leio livros, leio rostos”.


Explica-me o senhor Ramos que, quando tenta ler livros, pega logo no sono. Revistas, jornais, almanaques também o levam a adormecer. Só os rostos o acordam e estimulam. “O senhor já notou a quantidade de detalhes, de linhas e sinais secretos que os rostos guardam?” Contou que, sempre que esbarra com um rosto especial, logo depois toma seu bloco de notas e registra o que viu. “Mas a memória é desgraçada”, lamenta-se. “Logo esqueço do que vi. O mais importante sempre escapa.”

“Minha mulher diz que sou uma espécie primitiva de fotógrafo. Em vez da máquina, ou do celular, os olhos me bastam.” Tem vários cadernos preenchidos com suas anotações. E me choca: “Há algum tempo, cheguei a esboçar seu retrato. Ficou malfeito, porque nos encontramos sempre às pressas. É só um rascunho. Está anotado em algum lugar”. Tento inverter as posições e me coloco em seu lugar. Observo em detalhes seu rosto. O problema é que, por mais que eu me esforce, nada de notável consigo ver. Nada se destaca ou se realça. É um rosto branco, sem nuances, enrugado, sim, mas por igual, e sem exageros ou particularidades. Tudo nele parece estar em seu lugar, algum lugar traçado há milênios. Olho, olho, mas nada há a registrar. Nada se destaca. Logo desisto.

Recordo-me de que meu acupunturista, doutor Emanuel Jobi, me dizia que a cada área do rosto corresponde um dos órgãos internos do corpo humano. Lendo um rosto, se pode saber do fígado, dos rins, do pâncreas, do baço. Esses paralelos, ele me explicou, são um dos fundamentos da medicina chinesa. Que, na China milenar, se dedicassem a ler os rostos, não me espanta, acho assombroso e belo. Mas hoje, quando corremos tanto, quando o tempo nos escapa e as imagens nos sufocam, isso não faz mais sentido. Será possível ler um rosto a partir de uma selfie? Ia perguntar isso ao senhor Ramos, mas, temendo que a conversa se alongasse, me segurei.

Lembro que, quando menino, interessei-me pelas formigas. No quintal de nosso sítio, em Teresópolis, eu ficava um longo tempo entretido com seu séquito de gravetos e de folhas. Impressionava-me como eram rigorosas e metódicas. Como eram impecáveis. Agora, tanto tempo depois, e um tanto assustado, me pergunto: será que na infância, e sem saber disso, eu lia as formigas e seus desenhos no chão? Nunca fiz anotações a respeito. Se lia seus movimentos, nunca me preocupei em traduzi-los. Essa lembrança remota me vem já na portaria, mas ela logo é cortada pela presença perturbadora da senhora Parulla, uma costureira de bairro que se denomina estilista.

Quando me dirige a palavra, a senhora Parulla não me encara. Na verdade, ela ignora meu rosto. Em vez disso, inspeciona minha camisa, vigia minha gola, analisa meus sapatos. Age como uma fiscal de postura, que controla minha aparência e mal dá ouvidos ao que eu digo. Parece que, enquanto conversamos, ela lê minhas roupas. Só as roupas? Já notei seu desgosto ao observar minha barriga, e também seu nojo ao esquadrinhar os pelos de meus braços. Hoje ela repete seu ritual. “O senhor sempre apressado”, reclama, ao me ver em posição de fuga. Se corro, não lhe dou tempo de me analisar. De analisar meu corpo. Se corro, desmonto seu esboço de retrato, a impeço de me reproduzir.

“A costura me ensinou que as vestimentas são a alma das pessoas”, diz. Não sei o que comentar; nada lhe perguntei a respeito. Continua: “Não adianta vestir um terno emprestado, ou um sapato que não lhe pertence. Logo percebo que a pessoa está mentindo”. As roupas dizem verdades escandalosas, continua. As roupas berram — diz ainda, esgoelando-se em meus ouvidos. É infernal essa sequência de paralelos que agora me cerca. O senhor Ramos com seus semblantes, as formigas de minha infância, a senhora Parulla com seus moldes. É insuportável um mundo em que, por mais que se queira ficar quieto, a realidade grita e pede, todo o tempo, que a leiam.

Saio, enfim, para a calçada. Respiro aliviado: as pessoas com quem cruzo não estão interessadas em ler nada; querem apenas existir. “Talvez leiam e não saibam que leem”, resmunga a voz do senhor Ramos. Peço que se cale. Nada mais desejo além do silêncio da manhã. Quisera ser analfabeto, quisera não ver relação alguma entre as coisas, quisera apenas ver sem entender. Mas isso já não é possível. Quisera ser como Jasper, o cãozinho do 201, que é velho e cego e, como todos os cães, desconhece o alfabeto. Deve ser tão bom apenas sentir o mundo, sem a obrigação de interpretá-lo. Apenas observar e sentir, como fazem os pássaros e faz também o pobre Jasper, que se limita a cheirar o chão. Será que, quando ele cheira o chão, ele lê o chão?

Mas nem assim me livro. Mesmo com os olhos fechados, mesmo me limitando a farejar a manhã sem buscar sentido algum, mesmo desinteressado e cansado, elos se estabelecem, secretamente, entre as coisas. Diria o senhor Ramos: “Ninguém escapa da leitura”. Diante da realidade, o pensamento continua a organizar paralelos e a semear significados. A mente não para. Mesmo sem ler, mesmo sem desejar ler, continuo lendo. Vem-me à lembrança a “leitura silenciosa” que aprendi a praticar ainda no jardim de infância. A professora distribuía livros, nossos pequenos livros, e, estirados no chão, devíamos lê-los em silêncio, ler fingindo que não líamos. “Aprendam que o livro está dentro de vocês”, ela repetia. “Fora de vocês, nada há. Fora de vocês, só o silêncio.” Ocorre que, mesmo por dentro, elos se estabeleciam, significados se multiplicavam, orações se formavam. Ali, deitado no chão da escola, tudo começou. E não parou mais.

Fé

Uma vez, da janela, vi um homem
que estava prestes a morrer,
comendo banana amassada.
A linha do seu queixo era já de fronteiras,
mas ele não sabia, ou sabia?
Como posso saber?
Comia, achando gostoso,
me oferecendo corriqueiro, todavia
inopinado perguntou
— ou perguntou comum como das outras vezes? — como será a ressurreição da carne?
É como nós já sabemos, eu lhe disse,
tudo como é aqui, mas sem as ruindades.
‘Que mistério profundo!’ ele falou
e falou mais, graças a Deus, pousando o prato.

Adélia Prado, "Bagagem"

O menino do supermercado

A cidade às vezes se mostra escura demais. O vento bate gelado, zune em nossos ouvidos, triste, parece desejar anunciar tragédias. A gente se arrepia, sobe os ombros, tenta impedir que a friagem encontre caminhos através da gola, mãos no bolso, junta as pernas tentando aquecer os ovos. O corpo um arrepio só, essência fria e desconsolada. Caminhar de uma esquina a outra é suplício. Sou desses capazes de mudar de humor conforme a temperatura, a claridade. Ver passarinhos encolhidos é para mim desconfortável. O meu e aqueles balançando em galhos, piando baixinho, tímidos, quase imóveis. Tenho interior solar, caatinga, mandacaru. Gosto de suar. Saudade de minha tia Luiza, sotaque alagoano. Ela dizia:

— O povo aqui de São Paulo soa!

Não hoje. O que há pelos cantos é silêncio. Não suam, nem soam. Apenas sofrem um resto de inverno bruto. O desejo de ver realizar-se mágica: as folhas voltarem para as árvores. Sem elas, despidas do verde, parecem pacientes de quimioterapia. Calvas, madeira vazia, lisa. E de que, despencadas, ganhassem cor, perdessem o marrom úmido, sujo, que deixa as calçadas escorregadias.

Sigo com passadas rápidas e cuidadosas, apressado, mas com medo de cair, estatelar-me no chão ameaçador, como se desejasse me livrar do espaço livre o mais rapidamente possível. Cabeça baixa, encolhido, varando o curto caminho entre o apartamento em que venho tentando viver — semelhante a um freezer ultimamente — e o empório da minha infância, perdido no passado insistente. Exigências do cotidiano, inconveniência do dia a dia, algumas coisas faltam e nos exigem movimento. Atiram-nos em direção ao comércio.

Enxugo o nariz úmido com um lenço de pano ancestral. Nele, gravada, com carinho e cuidado, minha inicial em azul. Presente de minha tia-avó Helena. Todo ano, por ocasião do Natal, oferecia-me caixa com três peças de tecido ricamente trabalhadas: brancas, azuis, rosas. Restou-me apenas uma, o erre bordado. Motivo de chacota familiar. Consideram o hábito falta de higiene. Guardar no bolso um objeto emporcalhado com ranho é nojento.

— Você tem que usar lenço de papel!

Algumas implicâncias são intoleráveis. Por que devo abandonar um afeto que me é útil?

Finalmente, chego ao meu destino. Vou direto às gôndolas necessárias. Conheço bem o local, sei onde expõem quase tudo. Coloco na cestinha as raras urgências solicitadas em casa: detergente — não pode ser da marca Ypê —, salsinha, desodorante, jaboticabas — é época, estão lindas. Pronto!

Um menino mal agasalhado se aproxima. Shortinho, camiseta puída, sandália de dedo. Embaraçado, visivelmente cumprindo ordens superiores ao seu desejo, mostra-me uma lata de leite em pó e um pacote de fraldas.

— Podia me ajudar, é para o meu irmãozinho.

A melancolia então se avoluma em nível quase insuportável. Cedo mortificado. Pago as coisinhas do garoto. Aflito, desejaria seguir com ele para uma loja e comprar-lhe agasalhos.

Na volta ao lar, meu sentimento continua glacial. Carrego a catástrofe no estômago.

domingo, setembro 27

Cidade dos leitores



Drácula

Quando me encontrei com o Conde Drácula, por uma destas noites de inverno, na Esquina dos Ventos Uivantes, tinha ele o aspecto de um grande guarda-chuva de varetas quebradas. Foi o que eu lhe disse. Ele deu meia-volta e partiu revoando, aos solavancos, decerto para quebrar a cara do diretor do filme... Esses pobres monstros ainda não compreenderam toda a grandeza da sua verdadeira tragédia, que é a tragédia do ridículo.
Mario Quintana, "Caderno H"


O elo partido

Subitamente, não sabia mais como se ata o nó da gravata. Era como se enfrentasse uma tarefa desconhecida, com que nunca tinha tido qualquer familiaridade. Recomeçou do princípio. Uma vez, outra vez — e nada. Suspirou com desânimo e olhou atento aquele pedaço de pano dependurado no seu pescoço. Vagarosamente, tentou dar a primeira volta — e de novo parou, o gesto sem sequência. Viu-se no espelho, rugas e suor na testa: a mão esquerda era a direita, a mão direita era a esquerda.

— Vou descendo — anunciou a mulher, impaciente.

— Escuta — disse ele forçando o tom de brincadeira. — Como é que se dá mesmo nó em gravata?

— Engraçadinho — e a mulher saiu sem olhá-lo.


Quanto tempo durou aquela hesitação? Essa coisa familiar, corriqueira, cotidiana — dar o nó na gravata. Uns poucos segundos, um minuto, dois minutos ou mais? O tempo da ansiedade, não o do relógio. Não fazia calor, e nas costas das suas mãos começou a porejar um suor incômodo. Assim como surgiu, na mesma vertigem, passou: logo suas mãos inconscientes se organizaram e, independentes, sem comando, ataram a gravata e o puseram em condições de, irrepreensivelmente vestido, sair de casa. Ia a um jantar. Estimulado pelo uísque, desejoso de atrair a atenção dos circunstantes, ocorreu-lhe, no meio da conversa, contar o pequeno incidente pitoresco: — Agora mesmo, em casa. Ao me vestir. Esqueci como é que se dá o nó da gravata.

E antes que despertasse qualquer curiosidade, uma chave se torceu dentro dele. O fato insignificante deixou de ser engraçado. Uma aflição mordeu-o no íntimo. Como uma luz que se apaga. Uma advertência. Um sinal que anuncia, que espreita e ameaça.

— Essa é boa — curioso ou simplesmente gentil, um dos ouvintes procurou estimulá-lo.

Mas o ter esquecido como se dá o nó da gravata já não era apenas um incidente pitoresco. Disfarçou o próprio desconforto e, grave, interditado, sentiu a língua travada, como se esquecer como é que se ata a gravata fosse logicamente sucedido da incapacidade de contar.

Apenas um lapso, que pode acontecer com qualquer um. Tolice sem importância. E nem se lembrou mais, até que dias depois, achando graça, a mulher tirou-o da dificuldade: atou por ele a gravata desfeita na sua mão. Uma terceira vez ocorreu dois dias depois. “Estou ficando gagá”, pensou, entre divertido e irritado. Retirou-se do espelho e procurou com calma recuperar a inocência perdida. Pois era como ter perdido a inocência, de súbito autoconsciente.

Mas logo esqueceu e saiu para a rua, como todo dia. Pegou o carro e, autômato, foi até o edifício do escritório. Estava na fila do elevador, quando deu acordo de si. Era o terceiro da fila. Bem disposto, recém-banhado, cheirando à nova loção de barba, o estômago nutrido pelo recente café da manhã, olhava com magnanimidade o dia que o esperava, o mundo em torno. Pulsava nas suas veias sãs uma suculenta harmonia. Presente tranquilo, futuro próspero. Confiava em si, confiava na vida.

Só o elevador demorava mais do que de costume, pequeno borrão na manhã alegre e amiga. Não fazia sentido aquela demora que, de repente, perturbou-o como um cisco no olho. Agarrado à pasta como se temesse perdê-la, verificou que o elevador continuava parado no sétimo andar, exatamente o do seu escritório.
Queria não pensar em nada, apenas esperar como todo mundo, mas via com nitidez, como se estivesse de corpo presente no sétimo andar, um contínuo fardado a segurar a porta do elevador que se abria e se fechava por meio de uma célula fotoelétrica. Dois homens tentavam a custo enfiar dentro do carro uma mesa de escritório. Era a sua mesa, mas muito maior. Seus papéis pessoais, sua caneta, as gavetas devassadas. Fechou os olhos, meio tonto, reabriu-os. A fila crescia, ninguém conhecido. Olhou a nuca do homem à sua frente: toutiço sólido, de cinquentão próspero. Jurava que agora o elevador vinha descendo. Quis certificar-se e deu com a luzinha sempre acesa no sétimo andar. Outra vez, como se a tudo assistisse, viu o contínuo segurando a porta do elevador e dois homens de macacão tentando irritadamente encaixar lá dentro a mesa enorme. Na fila, ninguém dava mostra de impaciência. A rua ao sol lá fora — gente e carros passando — movimentava-se como todo dia. Pouco adiante, matinal, recém-florido, aparecia um trecho do jardim. Mas o elevador continuava parado no sétimo andar. Retirou o lenço do bolso e, a pasta debaixo do braço, enxugou a fronte e o pescoço. Vinha-lhe de longe um desconforto a princípio moral — como se tivesse cometido uma falta grave que ali mesmo ia ser descoberta. Depois um mal-estar físico, como se tivesse perdido a carteira, alguma coisa que o diminuísse, uma vez desaparecida. Olhou o relógio de pulso, procurou conformar-se, esquecer que esperava. Há quanto tempo esperava o elevador? No sétimo andar, a mesa, a sua mesa, era grande demais para passar pelas portas que o contínuo continuava a imobilizar.

Dentro dele, um desejo minucioso de examinar-se. Como costumava fazer quando ia viajar. Arrumar a mala sem esquecer nada, um lenço sequer. Começava pela cabeça: pente, escova, loção. O aparelho de barba. As gravatas, as camisas, as cuecas. Peça por peça, ia passando tudo em revista. Mas naquele momento era como se tivesse esquecido qualquer coisa que não identificava. Que o condenava aos olhos da fila cada vez mais numerosa. Quando a revisão a que se submetia chegou aos pés, ocorreu-lhe que tinha se esquecido de calçar as meias. Tentou sorrir da dúvida disparatada. E queria lembrar-se, ter certeza das suas meias, do momento em que as calçara. Recompunha cada detalhe de tudo que tinha feito desde o momento em que acordara. A barba, o banho de chuveiro, todos os atos, que, automáticos, inauguravam um novo dia, um homem novo. Usava habitualmente só meias cinzas, azuis e pretas.

De que cor eram, naquele momento, as suas meias? Um desejo ardente de esticar uma perna, depois a outra, arregaçar as calças e olhar, comprovar. Mas o medo irracional do ridículo, como se toda a fila acompanhasse a sua preocupação e esperasse apenas um gesto de sua parte para vaiá-lo. Sorriu sem sorrir, o sangue estremeceu pela altura do peito até o pescoço. Lá em cima, no sétimo andar, interminável, continuava a luta para meter a imensa mesa no elevador — e era como se estivesse presente, a tudo assistia. A obsessão agarrou-o: de que cor eram as meias, de que cor? As suas meias, as que usava naquele exato momento. De que cor eram? Procurou se lembrar das circunstâncias com que em casa se vestiu, sua rotina, uma cadeia de gestos repetidos inconscientemente. Mas agora precisava lembrar-se: as meias? Tinha vontade de suspender a calça e olhar, mas se continha. Nada o denunciava, um cidadão como outro qualquer, um cavalheiro, impecável, à espera do elevador, que todavia não se deslocava do sétimo andar — a luzinha continuava acesa. E ninguém, na fila aumentando, se impacientava. Como se só a ele coubesse quebrar o silêncio. Todos o observavam. Até que foi invadido pela certeza cruel de que usava meias vermelhas, um grito de sangue na sua indumentária azul. A gravata era azul, podia ver. A camisa era branca. O terno era azul. Mas as meias. As meias berrantemente vermelhas tornavam os seus pés alheios, episcopais. Estava de pé sobre pés estranhos, sapatos quem sabe de fivela e meias cardinalícias. Seriam rubras, eram, podiam ser?

Enxugou o suor no rosto, agarrou-se aflito à pasta como se, para existir, para continuar na fila, precisasse dela. A fila silenciosa, irritantemente tranquila, aguardava um sinal para protestar, começar o motim. A manhã perfeita, luminosa. Lá fora, os carros e as pessoas passando. Mas as meias eram inabsorvíveis. Onde é que fora arranjar aquele par de meias, santo Deus? Ocultas ainda sob as calças, ameaçavam vir a público, denunciá-lo. Agora tinha definitivamente certeza: um escândalo, ridículo, um vermelho-vivo como o sangue fresco de um touro.
Súbito, como se tivesse estado distraído, ou dormindo, o elevador escancarou a porta no andar térreo. Sentiu-se paralisado, preso ao chão, incapaz de locomover-se como as pessoas à sua frente, como os que se postavam às suas costas. Procurava, pasmo, os dois homens de macacão, o contínuo uniformizado — e a mesa, a sua mesa. Mas só via o elevador, como sempre, como todos os dias. Foi preciso quase que o empurrassem, as grotescas meias vermelhas, para que ele, morto de vergonha, sem poder olhar os próprios pés, se animasse a entrar no elevador.

Saltou no sétimo andar e, por um triz, ia deixando cair a pasta. Trancou-se na sua sala. A mesa, devolvida às dimensões normais, continuava lá, imóvel. Finalmente tomou coragem para verificar. Suspendeu as calças, fixou com espanto as próprias pernas: agora de novo as suas meias eram azuis. E os sapatos voltavam a ser os seus sapatos. Movia-se outra vez com os próprios pés. O telefone o chamava. Foi falar ao telefone. o dia prosseguiu, na sua confortável rotina. Nem de longe podia pensar em contar para alguém. Não havia o que contar.

O tempo passou. Nada fora do comum aconteceu nas semanas seguintes. A não ser um pequeno desmaio da memória: esquecera o nome de um amigo de infância. Teimoso, ideia fixa, passou horas tentando lembrar. Não podia dormir sem que lhe viesse o nome que escapava. Uma falha na cadeia lógica e vulgar das lembranças que cercavam aquele antigo colega de ginásio. Puxando pela memória, reavivou pormenores há muito sepultados pelo tempo. Mas o nome. O nome não lhe ocorria. Sob a língua. Ou na ponta da língua, mas inarticulado, desfeito. Como a gravata, trapo inútil incapaz de organizar-se no nó. Tinha de esquecer que esquecera, para então recuperar, espontâneo, o que com esforço não conseguia arrancar de dentro de si mesmo. Tudo perfeito, alerta, mas um pequeno colapso insistente, inexplicável. Via a cara do companheiro, ouvia-lhe a voz, podia descrevê-lo traço por traço. Mas o nome. O nome por atar. Dormiu frustrado, mais aborrecido do que seria natural diante de lapso tão inexpressivo. — Gumercindo — no meio da noite acordou assustado e tinha na boca, de graça, atado, o nome que em vão perseguira antes de dormir. Amnésias assim, sabia, acontecem a todo mundo. Não chegam a ser tema de conversa. Deu de ombros, não comentou nem com a mulher. Dois ou três dias depois, porém. Numa noite em que se recolheu mais cedo, morto de sono. Fisicamente exausto, atirou-se pesadamente à cama e não conseguia deitar-se a cômodo, como toda noite.

— Como é mesmo que eu durmo? — queria saber qual a posição que habitualmente tomava para dormir. A postura que usava no sono, insabida. Probleminha idiota, mas que o desorganizava mentalmente e súbito o lançava numa aflita perplexidade física. Deste lado: não era. Virou-se do outro lado: também não era. Estendeu-se de costas: as mãos sobravam, os braços não se incorporavam à rotina. Como distribuir o corpo na cama? Cruzou os braços no peito e sentiu-se estranho, ridículo. Cruzou as mãos e pareceu sinistro, fúnebre. Era como se antecipasse o defunto que não queria ser. Angustiante ideia da morte.

Até que associou o mal-estar com a primeira vez que não soubera dar o nó na gravata. Alguma coisa de comum, um escondido traço unia um episódio ao outro. Nada de particularmente alarmante, só uma ponta de grotesco. Vexame. Ajeitou o travesseiro, a cabeça alta demais. Afastou o travesseiro e enfiou a cara no colchão como se procurasse com alívio uma forma de sufocação. Insustentável, esticou as pernas e dividiu-se em dois. Recolheu as pernas, dobrou os joelhos, mas ainda assim não conseguiu retomar a naturalidade. Buscava um ponto de equilíbrio e não o achava. Seu corpo exigia um prumo inencontrável. De barriga para baixo, a cabeça sobrava, pesava, descomprometida. Não era assim. Nunca foi assim. E o tempo passava, o sono não vinha. Sentado na cama, passou a mão pelos cabelos ralos e procurou controlar-se. Que é que estava acontecendo? Ansiedade sem sentido, tolice. Decidiu recomeçar do princípio e ainda sorriu do próprio embaraço. Tinha a sua graça. Um cidadão morto de sono esquecer como é que costuma dormir. Virou a cabeça para a esquerda. Para a direita. Para a esquerda. Para a direita. A cabeça sobejava mesmo. Num princípio de tonteira, a cabeça cresceu de volume e desprendeu-se do corpo, que agora lhe parecia estranho, como se não fosse dele. Outra vez esticado, recolheu as pernas, dobrou os joelhos na altura da barriga. Enfiou as mãos entre os joelhos, enroscado em si mesmo, fetal. Suportou aquela disciplina por alguns minutos, resistindo ao desejo de se levantar, fugir da cama, do sono, de si mesmo. Vontade de esquecer-se, abandonar o próprio corpo, com que já não se sentia solidário.

— Como é mesmo que eu durmo? Como é raios que eu sempre dormi em toda a minha vida? — e não se sentia anatomicamente confortável, como se tivesse perdido uma chave sem qualquer importância — até perdê-la. Como todas as noites, serena, abandonada, sem arquitetura, a mulher dormia ao seu lado. Impensável acordá-la para perguntar como é que ele dormia. Ficaria uma fera com a brincadeira sem graça. Ou ia pensar que estava louco. Pé ante pé, levantou-se no escuro e foi até a copa. Tudo rigorosamente normal. De pé, seu corpo era do tamanho de sempre, articulado. Abriu a geladeira — a luz da geladeira rasgou um cone de claridade na copa — e bebeu sem sede um copo d’água. Só percebeu que estava descalço quando pisou nos ladrilhos do banheiro social. Sem acender a luz, o medo de não se ver no espelho. O medo de não se reconhecer arrepiou-o. Outra cara, infamiliar, ou quem sabe sem cara. Acendeu a luz: afinal era ele mesmo, banalmente. Com alívio, reapertou a calça frouxa do pijama. Saiu do toalete sem apagar a luz e, outra vez na copa, tomou um comprimido para dormir e, com a mão trêmula, levou um copo d’água para o quarto. A mulher dormia tranquila. Todo mundo dormia. Devagarinho, sem alterar a respiração, meteu-se debaixo dos lençóis, de costas, os olhos fechados.

E começou a flutuar no espaço. Abria os olhos, continuava a boiar, mais baixo, mais baixo, até chegar ao nível da cama. Fechava os olhos e o jogo recomeçava. Ora só o corpo, girando circularmente, subindo, descendo. Ora o corpo e com o corpo a cama, rodando depressa, mais depressa. Abria os olhos, parava. Mudou de posição: de bruços, como no seu tempo de criança. A mãe lhe trazia o xarope no meio da noite e lhe recomendava que se deitasse de bruços, para vencer o acesso de tosse. Antigamente. Mas agora o sono não vinha. A ponta do sono, inagarrável. O sono desfeito como um novelo amontoado, sem começo nem fim. Sem nó.

Pacientemente, deitou-se do lado direito. Depois do lado esquerdo. Não insistiu na postura: encolheu as pernas, esticou os braços. Um braço recolhido e o outro estendido ao longo do corpo. Não reencontrava a perdida intimidade consigo mesmo. Não sabia mais deitar-se e dormir. Ficou quieto, tentando esquecer, sem pensar. Deflagrada, a insônia recusava-se a apagar dentro dele a sua luz amarela. Desejo de absorver-se, reorganizar-se, pedaço por pedaço. Membro por membro. Reintegrar-se. Esquecer-se para dormir. Recostado contra o travesseiro, meio sentado, a noite tinha ancorado para sempre num porto de fadiga e torpor. Noite longa, lenta, oleosa, de silêncio e vácuo.

Um chinelo pendendo do pé. Cochilou na cadeira de balanço, como um agonizante, afinal entregue, que sem convicção espera o amanhecer. Despertou com o corpo dolorido, os pés inchados — na árvore da rua a algazarra dos pardais despertos. O dia clareando, libertou-se da insônia e se meteu na cama até a hora do costume.

Dia estafante, devolvido à rotina como se nada demais tivesse acontecido. Só à noite contou o caso, a insônia, para a mulher, que ouviu calada, irrelevante. Mas não contou o que agora lhe parecia absurdo: esquecer-se, como quem perde uma chave, de como deitar-se para dormir. Era um segredo e uma ameaça. E à distância de algumas horas, remoto como uma experiência alheia.

Naquela mesma noite levou para o quarto e para a cama o temor de que tudo ia se repetir. Pegou um livro, mas não conseguia prestar atenção à leitura. Ligou o rádio. Demorou-se no banheiro. Entrou e saiu do quarto, cortou aplicadamente as unhas dos pés. Ao espelho, observou as rugas nos cantos dos olhos, o cabelo ralo. Com uma pinça, tirou uns fios mais espessos das sobrancelhas. Espremeu os cravos do nariz e arrancou dois ou três cabelos encravados da barba. Queria afastar a lembrança da véspera. Distrair-se. E dormiu naturalmente, como todo dia. O cotidiano refeito, as noites tranquilas, repousantes. Até que uma semana depois:

— Esqueci como é que eu durmo — disse ansioso à mulher.

— Bobagem — ela resmungou, morta de sono.

— Minha posição na cama.

— Deita e dorme — disse a mulher imperativa, sem olhá-lo.

Foi a primeira insônia completa de sua vida. Noite branca, hora a hora, minuto após minuto, segundo por segundo. Virava e revirava-se na cama, esbarrava no mesmo desconforto. A vida deixava de fluir. Uma parada, um branco, uma ausência. A falta de uma ponte. Um elo perdido. Levantava-se, procurava esquecer, desligar-se daquele segredo comprometedor. Ligar as duas pontas do que sempre fora ao que devia continuar sendo, sem interrupção. Fumou cigarro atrás de cigarro. Porque não queria fumar fumava mais. Andava pela casa. Olhava pela janela a rua — a calçada vazia, a árvore, as lâmpadas acesas. Pensou, lembrou, repensou, relembrou. Cruel, a noite vagarosa, a interminável noite ancorada. E a sua pequena desprotegida solidão, palpável, aborrecido plantão para nada. Estar só e acordado o fazia mais só, mais acordado. Velava a si mesmo. Tentou dormir no sofá da sala, mas nem o sofá nem a cama acolhiam naturalmente o seu corpo, o seu sono. Dormir era perder a própria companhia.

O dia claro, alto sol, a casa restituída à sua visão familiar, a cozinha e a copa recendendo ao café fresco, fez a barba, tomou banho e saiu. Foi trabalhar — a incomunicável insônia, de que à luz do sol se envergonhava. Era inverossímil. E era preciso guardar o segredo. Como se escondesse um malfeito infantil, sua culpa.

— Que é que há com você? — a mulher deu enfim sinal de perceber.

— Nada.

— Então dorme.

O horror de ir para a cama. E a impossibilidade de contar, partilhar sua vergonha. Ficou mais sozinho. Já não era igual a todo mundo. Tinha medo e orgulho — um homem diferente. Sua singularidade ameaçava, mas consolava também. Sentia-se mais próximo de si mesmo.

— Por que você não consulta um médico? — a mulher desconfiava. Pequenos derrames imperceptíveis — leu numa revista vagas informações sobre problemas que os neurologistas estudam. Falhas de memória, hiatos convulsivos. Pensou em consultar mesmo um clínico: medir a pressão, o sangue. Mas não gostava de médico e confiava na saúde de ferro. Deixou de preocupar-se com o nó da gravata. Esqueceu a insônia. Ridículo contar a sério que, na hora de dormir, já não sabia como se deitar. Não tinha importância.

Uma tarde, ao falar pelo telefone. Era com o sócio, com quem se dava bem, prosperavam. A princípio apenas um mal-estar indefinido. Depois não conseguia se lembrar da cara do sócio. A voz conhecida, a conversa nítida, o riso de sempre, os mesmos cacoetes — mas como era mesmo a sua fisionomia? Desligou o telefone e teve a impressão de que estava pálido. Apertou a cabeça entre as mãos. Fechou e abriu os olhos, pontinhos volantes. Como é a cara dele? Transpirava como se estivesse numa sauna. E aquele vazio: a cara, como era a cara? A cara sonegada, escamoteada como num passe de mágica. Tudo o mais era como de costume, mas a penetrante sensação de aviso o ameaçava. Ansioso sinal, plano inclinado.

Trancou-se no banheiro e lavou várias vezes o rosto. Precisava refrescar-se, afogueado. Um frio fogo o queimava. No entanto, refletida no espelho, sua cara normal, até favorecida. Menos rugas, as entradas da testa menos cavadas. Seu definido perfil: era ele mesmo, sem qualquer alteração. Como todo mundo, tinha uma fisionomia pessoal e intransferível. Mas o sócio como era o sócio? Estúpido vazio. Sabia-se despojado de qualquer coisa essencial e, pela primeira vez, frágil, desprotegido contra o que podia acontecer, teve medo, tremeu de medo. Era um compromisso que não queria aceitar, mas de que não conseguia desvencilhar-se. Precisava apelar para alguém, pedir socorro. Recuar do abismo, mudar de rumo, rejeitar o que podia vir, o que sobrevinha, iminente, incontornável — e não tinha nome, nem configuração.

Desligado de tudo, sem interesse pelo trabalho, foi para casa mais cedo. A casa podia protegê-lo. Leu sem pressa o jornal e ligou a televisão. Era um homem normal, um homem como qualquer outro, mas, por trás dos seus gestos, de sua normalidade, um vazio o convocava. Telefonou para a casa do sócio, não o encontrou. Desejo de sair para a rua, ver gente, cada qual com seu perfil. Ver o sócio, recuperá-lo — o que só foi possível no dia seguinte, quando se avistaram no escritório.

— Nunca me viu? — por um momento o sócio pareceu estranhar a maneira como ele o fixava.

Queria e já não podia contar. E não poder contar o isolava definitivamente, como se, a partir dali, tivesse mudado de lado, passado para a outra margem. Dava adeus ao que vinha sendo, a tudo que era — ao dia-a-dia, aos negócios, ao confortável cotidiano. Mas lutava. Para qualquer nova emergência, não seria apanhado desprevenido. Obsessivamente, arquivava, armazenava traço por traço do sócio, seu rosto de sempre, inesquecível, doravante inescamoteável.

Uma tarde muito quente, no escritório, o ar-condicionado ronronando, vinha da rua exaltado, feliz com o resultado de um negócio que há semanas se arrastava, quando precisou telefonar para a mulher. Ao discar — lembrava-se do número, claro — deu por falta de alguma coisa. Um pássaro que de repente levanta voo, uma paisagem que se oculta por trás de um obstáculo, um perfume que se esvai. Algo que se interrompe, curto-circuito na corrente elétrica. Uma ficha que desaparece. Ao alcance da mão, habitual, mecânico, um objeto que se subtrai — uma caneta, um par de óculos, uma anotação. Do outro lado da linha, na sua casa, o telefone chamava. — Alô — disse ela.

Uma leve tonteira, como se levitasse, arrebatou-o. Perplexo, não aceitava o próprio silêncio e, para libertar-se, desligou. Sua mulher, não se lembrava da própria mulher. Seu nome, seu rosto — tudo permanecia a uma distância inatingível. Lá longe existia, não mais ao seu alcance. Entre ele e o que naturalmente sabia, seu patrimônio, um elo partiu-se, treva opaca, ausência. Mecanicamente, tirou a gravata e de pé, como num teste decisivo, refez o laço. Perfeito. Mas sua mulher. Às pressas, sem despedir-se, saiu imediatamente para casa.

— Chegou cedo — disse ela. — Alguma coisa?

— Dor de cabeça — ele disfarçou e, ao olhá-la, se convenceu do absurdo que era ter esquecido. Sua mulher. Ali estava inteira, com seu rosto, seu nome.

Trancou-se no quarto, espichou-se de costas na cama e leu de cabo a rabo o jornal da tarde. Uma incômoda sonolência fechou-lhe os olhos. A noite caiu sem que percebesse. Acendeu a luz da cabeceira e retomou o jornal como se o lesse pela primeira vez. Voltou à primeira página. Lia e relia o mesmo texto, palavra por palavra. Chegava ao fim e era como se não tivesse lido. Lia sem ler, desligado. Queria estranhar, alarmar-se, mas era como se tivesse sido sempre assim. E a certeza de que assim seria sempre, sem volta possível. Deixou cair o jornal no chão e, esticado na cama, sem qualquer protesto, acompanhava com os olhos uma pequena bruxa a cabecear tonta contra o teto.

— Que é que você tem? — até que enfim a mulher veio chamá-lo. — Nada — respondeu, e estava perfeitamente em paz, resignado. Brancas paredes despojadas, largo silêncio sem ecos. Desprendera-se de tudo. A longa viagem ia começar, sem rumo, sem susto, para levar a lugar nenhum. Uma mulher acabou de entrar.

— Quem sou eu? — ele perguntou num último esforço. E, para sempre dócil, conquistado, nem ao menos quis saber seu nome.
Otto Lara Resende, "O elo partido e outras histórias"

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen