Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quarta-feira, julho 29
Irmã Água
Laudato sii mio signore per suora acqua, la quale è molto utile et humilde et pretiosa, et casta.São Francisco, Il Cantico del Sole
O tanque está vazando pelo lado esquerdo. O reboco de cimento descascou-se e caiu em farelos, e a argamassa entre os tijolos cedeu lentamente ao teimoso empuxo da água. Quando o nível da pequenina enchente coincide com as frinchas da parede, os filetes escorrem, brilhantes, para o chão, alastrando uma nódoa escura e úmida que cresce duas vezes por dia. Primeiro a mancha era menor e a areia sorvia o líquido não permitindo ampliação. Agora, com a sequência do aguamento regular, há um trecho vagamente arredondado, vezes um polígono estrelado, ressaltando no solo cinzento do quintal, com uma orla mais densa e o centro escavando-se devagar e mesmo conservando um brilho de água parada.
Água escorrendo criou um novo centro de interesse e de vida. Não é água do tanque com as folhas, o lodo verde-negro e na superfície o vagaroso perpassar de Dica, com as seis patas altas como andaimes, passeando sem molhar-se. Água correndo no chão, dando outra cor, modificando a paisagem rasteira, alargando-se constantemente com a contribuição serena das seis a quinze horas. Os fios, com a força de impulsão, escorregam descendo as ladeiras minúsculas, espalhando as tonalidades diversas, vencendo e dissolvendo os torrões de barro, rasgando canais de brinquedo, fazendo curvas como um rio, detendo-se ante pedrinhas inarredáveis mas ladeando, cercando-as de dois braços trêmulos e continuando a jornada enquanto recebem o reforço vindo das brechas imperceptíveis. Na outra hora já o terreno consente mais fácil passagem, disciplinado pela água anterior e os canais se afundam, em milímetros orgulhosos, sacudindo a cabeça de água para frente, conquistando polegadas no rumo da telha enterrada onde residem as baratas da rainha Blata. Já existe mesmo uma formação de lama que é a franja daquela força em proporção mínima. A absorção da terra limita a expansão do território úmido. Todo o processo erosivo deu um aspecto imprevisto de cordilheiras, planícies, banhados, caminhos íngremes mesmo um complicado sistema intercomunicativo de fiozinhos de água, que parece ter sido copiado dos postais do Tirol ou da Suíça. Mas todo este mundo medirá metro e meio e as altitudes assombrosas irão aos cinco centímetros. Mas é um mundo já respeitado pelas formigas pretas e as aves preferem esta região ao tanque oceânico para a alegria de molhar as patas.
Para fechar o círculo irregular as cores se tornam mais claras relativamente aos graus de secura, indo numa gradação de tonalidades até confundir-se como o solo comum do quintal.
Das seis às sete e das quinze às desesseis lá vem água visitando seus novos domínios, ensopando-os, afundando as estradas, dizendo-se senhora daquele trecho que era jurisdição mansa e pacífica da rainha Blata, usado para banhos de sol ou vadiagem ginástica.
Deve ter sido um cataclismo para os moradores do subsolo. Transformação absurda, verdadeira revolução catastrófica, aquela inundação que ninguém havia previsto, obrigando mudança imediata. Às pressas, numa improvisação de todos os serviços de transporte e busca para afixação noutro pouso, com os incômodos de arranjo e colocação totais. Uma multidão de besourinhos, de cinco milímetros para baixo, emigrou desordenadamente, aos bandos dispersos, numa marcha divergente e tonta, salvando-se do dilúvio sem profecia. Mesmo a boca de um formigueiro de Ata desapareceu na avalancha e a continuidade da regação aterrou-o em definitivo. Creio que a rainha Ata deve ter castigado seu serviço de meteorologia que, desta vez, “dera água”, não anunciando em tempo útil o fenômeno alagador.
Quando água deixa de correr, minutos depois, a terra se ergue num e noutro ponto, elevada e fofa, demonstrando mais uma evasão pelo caminho que o relevo de areia frouxa denuncia. Ninguém podia calcular o número de formigueiros existentes nesta área inundada. Nem quantos besouros estavam domiciliados regularmente nos limites que a água dominou. Não havia sinal pelo exterior que as moradas estivessem instaladas ali e tantas vidas ligassem a rede dos hábitos àquele local de poucos palmos de extensão. Só depois da água banhar o terreno e torná-lo úmido e diverso do estado anterior é que o recenseamento evidenciou o número incontável dos habitantes tranquilos do recanto.
A água possibilitou uma situação favorável ao aparecimento de plantinhas humildes, vergônteas que surgiam tímidas como pedindo desculpas pelo seu atrevimento de nascer. Espécies de capim, com folhas duras e finas como pontas de lança. Depois um arremedo de bredo de palmas pequeninas e ásperas, bronzeadas. Espantosa força germinativa. A semente esperara anos e anos a sua ocasião favorável para romper a camada e pedir um pouco de sol.
Em 1946 os americanos fizeram saltar as usinas Krupp em Essen. Os edifícios imensos, salas infinitas, oficinas tentaculares onde escorria o aço fundido como prata líquida, os altos-fornos imponentes, os martelo-pilões poderosos, um conjunto de milhares de toneladas de cimento armado, ferro e aço mudou-se numa série de montões de ruínas precoces, símbolos duma atividade condenada pelo vencedor. Durante cem anos a maquinaria possante fizera estremecer o solo em quilômetros derredor, no estridor da tempestade em que se fundiam e calibravam os canhões temerosos. Derrubada a cidade Krupp, na primeira primavera subsequente os destroços cobriram-se de malvas azuis, brancas, lilases. No fundo da terra sacudida pelas máquinas de guerra e aquecida pela irradiação dos fornos sempre acesos estavam as malvas intactas em sua força, aguardando o minuto da ressurreição. Quando as usinas Krupp caíram, as malvas ressurgiram como eram antes, com as mesmas cores, formatos e dimensões, inalteradas.
Fiquei pensando que debaixo dos edifícios que governam o mundo há sempre uma semente adormecida, sonhando com sua libertação para reaparecer e espalhar as pétalas esquecidas dos olhos humanos. Os palácios jamais admitirão a possibilidade de existir uma planta, quarenta ou vinte metros depois do seu peso dominador, espreitando que a tonelada opressora desapareça para renascer e florir.
Naturalmente todos sabem que os insetos não bebem água. Não é bem assim. Não bebem água no tanque, porque alguns, pela sua pequenez, não conseguem romper a resistência da superfície que lhes deve parecer uma lâmina de marfim. Na terra molhada, no barro porejante e úmido, é possível sorver com a tromba solícita as gotículas. Somente agora vejo os bandos de borboletas, miúdas, amarelas com laivos azuis, paradas no pequenino charco, asas imóveis, desalterando-se.
A terra molhada tem revelado um mundo estranho. Besouros desenhados com um rigor geométrico e outros com intenções abstracionistas e perturbadoras, pequeninos, luzentes, apressados, de todas as cores, todos lindos, adejando as duas antenas inquietas sobre a cabecinha redonda e negra de obstinados. Uns de pernas invisíveis, altos outros, aranhas esquisitas, com andar aos saltos sobre presas que ninguém vê, insetos com as patas posteriores em eterno balanceio, como estabelecendo equilíbrio, coleópteros esguios, magros, rápidos, passando com um ar de quem deixou uma conferência internacional e vai escrever o relatório para o governo que o enviou, pulgões branquicentos, lesmas de dorso escuro como lama e o anverso parecendo âmbar, paquinhas, grilos-d’água, abrindo túneis com as patas fortes como braços de Sansão e, às vezes, num listrão alvadio, preguicento, escorregando de um orifício para reenterrar-se noutro, grandes minhocas de vida misteriosa e subterrânea. Há quase sempre um grupo de minhoquinhas ou vermes curvos como parênteses, agitando-se como se fizessem ginástica para rins, juntos, atrapalhados com os corpos como traje inusitado e novo, atraindo o voo imediato e fulgurante do bem-te-vi ou da lavadeira. Devem ser pitéus excepcionais porque, via de regra, as aves levam no bico, para os ninhos, comida inesperada para os filhos de bico aberto.
É muita imaginação pensar num rio subitamente atravessando um deserto.
Provocaria uma revolução em círculos concêntricos, cada vez maiores na proporção do afastamento do centro. Flora, fauna modificar-se-iam determinando a vinda e nascimento de novas espécies vegetais e animais. E a zona de conforto faria a movimentação de vidas e interesses sem conta, encadeadas no brusco aparecimento de alimento certo em ponto fixo. Se este filete de água de um tanque, vazando, trouxe tantos motivos para o ciclo destas existências, que será no macrocosmo o que neste microcosmo vive?
Curiosa foi a reação do mandarim Fu. Sapo terrestre, anfíbio mais honorário que efetivo, não resistiu à tentação da terra molhada que ele goza nas raras fugidas, capengando, para a lagoa distante. Ali perto a umidade seduziu-o e, ao anoitecer, Fu deixa a residência e vai, não aos saltos mas no seu andar arrastado, de trejeito custoso, atravessar o trecho que água corrente refrescou.
Põe as patas espalmadas e largas na areia molhada num sabor de divertimento difícil. Como a fugida infantil para um banho no rio ou na maré. A leve camada de lama gruda-se-lhe entre os dedos, valendo uma carícia. Atravessa os curtos dois palmos deliciosos. Para na outra margem. Volta-se com lentidão majestosa. Fica imóvel, olhos radiosos, batendo o papo, engolindo vento, vivendo sua vida. É um volúpia consciente a que dedica horas. Vezes abocanha no ar algum mosquito atrevido ou asas que trouxeram o dono para perto, interrompendo-lhe a cisma deleitosa. Não deixa facilmente o far-niente de meditação e alegria silenciosa. É talvez a concentração mais digna entre as homenagens à água eterna onde fora gerado e amou, roçando, comprimindo o peito e o ventre no frescor do solo ressumante.
Não discuto que a posição é cômoda para a caça e esta procura justamente o ponto novo. Os insetos miúdos que residem nos arredores são salteados ao sair da porta. Deduzo que existe uma atração em calcar terra úmida mesmo para os pesados e lentos coleópteros que, sem necessidade aparente, vão atravessando a faixa, deixando as linhas ponteadas de seus rastros. As baratas redondas, ásperas e escuronas, sem a quitina protetora e outras, grandes, levemente amareladas, de asas friccionantes e rumorosas, cabeça negra, rondam a mancha do futuro lameiro liliputiano. Devem encontrar a massa de mosquitos quase impalpáveis e esvoaçantes as lagartixas noturnas. Mas as baratas e baratonas que vão fazer no pequeníssimo banhado de bonecas? Só o mandarim Fu, em pose de cálculo especulativo, informará.
Curioso é constatar que unicamente as formigas evitam transpor o caminho molhado. Continuam teimando em reabrir a boca do formigueiro que, duas vezes por dia, era obstruído pela areia molhada. Depois desistiram e o caminho volteou pelo tanque, do lado direito onde o mandarim Fu possui sua mansão. Nunca as vi varando a estrada borrifada, isolada ou nas filas intermináveis em horas de serviço. Nas curtas horas em que água escorre há como uma fronteira intransponível, respeitada, indevassável.
As plantinhas nascidas não ficaram despovoadas. As de sua espécie possuem familiares que as procuram para sugar a seiva ou roer as folhinhas tenras. A seiva é diminuta e tênue mas as folhinhas tentaram umas lagartas esverdeadas, de cabeça roxa e pataria colorida de negro. Não demoraram muito tempo na vilegiatura porque o bem-te-vi e a lavadeira acabaram com o mostruário vivo.
Estas lagartas costumam acampar nas folhas mais baixas dos crótons mas sendo verdes confundem-se perfeitamente aos olhos técnicos dos pássaros. Nas plantinhas o verde era muito claro e vibrante, destacando o verde-escuro das lagartas, dando-lhe fundo que chamou as aves como uma isca irresistível.
Em certas horas há um inteiro corpo de baile e mosquitinhos, executando uma dança ascensional e descendente no mesmo eixo, quase batendo no chão, dão a impressão sugestiva de cada unidade ocupar uma dada posição no ar sem que deixe a simetria rígida da formatura vibrante e movimentada, arabesco de tapete persa. Este ballet justifica a assistência carinhosa de Vênia e toda uma corte de lagartixas, o mandarim Fu e intrusões súbitas do bem-te-vi, da lavadeira, dos canários e dos xexéus. Deve ser um bailado nupcial, um alarde festivo ao sexo, com a participação de damas e galantes que se candidatam não apenas à junção feliz mas às gargantas do público aplaudidor.
Debaixo da sombra fresca dos tinhorões, das taiobas com as folhas lembrando orelhas de elefante, há uma população que reside pendurada no caule, entre as folhas largas e no tronco. Estes pacatos moradores estavam mais ou menos livres das aranhas rendeiras. Com aquele espalhafatoso rodeio de mosquitos bailarinos, as aranhas aproveitaram imediatamente o mercado e uma série de teias espalhou-se nos arbustos e crótons próximos. Os mosquitos não são permanentes e a percentagem de vítimas é grande mas não diária. Quem ficou fornecendo contribuição forçosa às teias cavilosamente estendidas em situações estratégicas foi justamente o povo inocente e confiado dos tinhorões e das taiobas que, sem cuidar da maldade do mundo, cai nas malhas finas e resistentes das rendeiras esfaimadas. O mandarim Fu que jamais arriscara verificação por aquele quadrante começou uma viagem de inspeção com desastrosos efeitos locais. Até mesmo, sinistro, armado em guerra, audaz e bruto como um barão feudal, Titius fez-se notar, espalhando terror.
Água, depois de meses de insistente deslizar, atingiu o palácio funcional da rainha Blata, escavando um abismo de centímetros ao pé da telha e enchendo de água, subsequentemente, a buraqueira. Esta água parada forneceu moradia aos mosquitos indesejáveis do gênero tenoresco, cantores e divulgadores de moléstias que não interessavam ao canto de muro.
As frinchas do tanque alargaram-se e a irrigação ampliou sua área. O manto escuro e peguento alcançou o muro. Nasceram os “pega-pinto” (nictagináceas) fazendo, com o tempo, pequenos bosquezinhos frondosos. Hospedou um piolho que fez a delícia das aves e estas dedicaram horas na busca minuciosa e farta. Por causa desta busca outros vegetais apareceram, trazidos nos excrementos, utilizando a terra que se tornara fecunda. Pimenteira, goiabeira e mamão deram réplica ao renque que vivia no outro extremo. A pimenteira cobriu-se de frutinhas vermelhas como coral e, pela primeira vez, o canto de muro ouviu o sabiá cantar, beliscando as pimentas.
Também a constante aguação enrijou os tinhorões e a taioba orelha-de-elefante, tornando-os fortes e frondosos. A fauna cresceu sob sua proteção. Os filhos e vassalos de Quiró fizeram visitas noturnas a uma zona outrora deserta mas agora povoada e sonora. O velho tronco, estirado e morto, lavado pela água insistente apodreceu, arrastando os insetos diferentes, roedores de madeira, coleópteros imponentes que tentaram até Sofia que os enxergou numa noite de luar, embaçado e sentimental.
O fio de água esbarrou no muro e as raízes confusas das trepadeiras agradeceram o benefício. Um ramo baixou, nascido paralelo ao chão, coleando pelas pequenas elevações, e ligou-se ao tinhorão, abrindo a graça das flores em cacho, vermelhas e brancas. O beija-flor inaugurou-as com seu longo bico matutino. As folhas caindo cobriam o filete de água e eram cobertas por ele no dia imediato. Sensivelmente a terra adubava-se, sacudindo outras plantas, outras frutas reduzidas e que tinham expressão gustativa para os pássaros que as espalhavam. E porque ficavam comendo ao redor delas, outras espécies surgiam, sacudidas nas fezes, empurradas para o solo pela água singela e pelas folhas humildes que se tornavam negras e pesadas de umidade.
Quando os mosquitos repetiam seu bailado de morte feliz, já o número de assistentes era vultoso e eficiente. Fu já podia ocultar-se na sombra de folhas espalmadas e aproximar-se sem ser visto de besouros ornamentais. Licosa e Titius deram mesmo a honra de estender por ali seus territórios de caça noturna. Do tanque ao muro era a pista de corrida da lavadeira. O depósito de água ficou reservado para beber e banhar-se. Não tinha a dimensão em superfície daquela praia sem água mas convidativa e fácil.
Dica, aranha-d’água orgulhosa, foi a única a não deixar o velho domínio. Nunca pôs uma de suas seis patas compridas fora do tanque para visitar os melhoramentos do canto de muro.
A infiltração deve ter procedido a modificações curiosas no subsolo. Deverá existir outros moradores atraídos pela nova temperatura e a região será o caminho real de espécies que amem a umidade relativa. Mas tudo dentro de uma escala de valores de milímetros e centímetros, um pequenino mundo humilde que passaria despercebido para os olhos comuns, seduzidos por outras tentações sensíveis.
O rumor dos zumbidos, chilreios, sussurros abafados, estalidos de gravetos tombados, folhas secas, levava a doce sonoridade silenciosa do fio de água escorrendo na areia cinzenta. A solidão se enchera de asas, teias, ciladas, tocaias, armadilhas, ânsias, júbilos, decepções.
O suave milagre fixador da vida e da batalha sem pausa fizera a Irmã Água humilde e útil, preciosa e casta, molhando a terra sem nome de um canto de muro tranquilo.
Luís da Câmara Cascudo, "Canto de Muro"
Momento de poesia
Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.
Almada Negreiros
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.
Almada Negreiros
O sonho e o fado
Creso expulsou Solon de Sardes porque o famoso sábio desprezava os bens terrenos e somente se preocupava com o fim derradeiro das coisas. Creso se acreditava o mais feliz dos homens. Os deuses decidiram o seu castigo.
Sonhou o rei que seu bravo filho Atis morria de um ferimento produzido por ponta de ferro. Mandou guardar as lanças, dardos e espadas nos quartos destinados às mulheres e decidiu o casamento de seu filho. Nisto estavam quando chegou um homem com as mãos tintas de sangue: Adastro, frígio de sangue real, filho de Midas. Pediu asilo e purificação, pois assassinara involuntariamente um irmão e havia sido expulso do convívio dos seus. Creso concedeu-lhe ambas as graças.
Apareceu, então, em Mísia, um terrível javali que destroçava tudo. Aterrorizados, os mísios pediram a Creso que enviasse o valente Atis e outros jovens, porém o rei explicou que seu filho era recém-casado e devia atender seus assuntos privados. Atis soube disto e pediu ao rei que não o humilhasse. Creso contou-lhe o sonho. “Então, disse Atis, nada devemos temer, pois os dentes do javali não são de ferro”. O pai concordou e pediu a Adastro que acompanhasse seu filho, ao que o frígio assentiu, não obstante seu luto, pois se sentia em dívida com Creso.
Sonhou o rei que seu bravo filho Atis morria de um ferimento produzido por ponta de ferro. Mandou guardar as lanças, dardos e espadas nos quartos destinados às mulheres e decidiu o casamento de seu filho. Nisto estavam quando chegou um homem com as mãos tintas de sangue: Adastro, frígio de sangue real, filho de Midas. Pediu asilo e purificação, pois assassinara involuntariamente um irmão e havia sido expulso do convívio dos seus. Creso concedeu-lhe ambas as graças.
Apareceu, então, em Mísia, um terrível javali que destroçava tudo. Aterrorizados, os mísios pediram a Creso que enviasse o valente Atis e outros jovens, porém o rei explicou que seu filho era recém-casado e devia atender seus assuntos privados. Atis soube disto e pediu ao rei que não o humilhasse. Creso contou-lhe o sonho. “Então, disse Atis, nada devemos temer, pois os dentes do javali não são de ferro”. O pai concordou e pediu a Adastro que acompanhasse seu filho, ao que o frígio assentiu, não obstante seu luto, pois se sentia em dívida com Creso.
Durante a caçada Adastro, buscando atingir o animal com sua lança, matou Atis. Creso aceitou o destino que o fado lhe tinha adiantado em sonhos e perdoou a Adastro. Este, porém, degolou-se sobre a sepultura do infortunado príncipe. Assim o conta Heródoto, no primeiro dos Nove livros da história.
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"
Visitante noturno
O inseto apareceu sobre a mesa como todos os insetos: sem se fazer anunciar. E sem que se atinasse por que motivo escolhera aquele pouso. Não parecia bicho da noite, desses que não podem ver lâmpada acesa, e logo se aproximam, fascinados. Era uma coisinha insignificante, encolhida sobre o papel e ali disposta, aparentemente, a passar o resto de sua vida mínima, sem explicação, sem sentido para ninguém.
Ninguém? O homem, que tem o hábito de ficar altas horas entre papéis e livros, sentiu-lhe a presença e pensou imediatamente em esmagar o intruso. Chegou a mover a mão. Não o mataria com os dedos, mas com outra folha de papel.
Deteve-se. Não seria humano liquidar aquele bichinho só porque estava em lugar indevido, sem fazer mal nenhum. Inseto nocivo? Talvez. Mas sua ignorância em entomologia não lhe dava chance de decidir entre a segurança e a injustiça. E na dúvida, era melhor deixar viver aquilo, que nem nome tinha para ele. Com que direito aplicaria pena de morte a um desconhecido infinitamente desprovido de meios sequer para reagir, quanto mais para explicar-se?
O inseto parecia pouco ligar para ele, juiz autonomeado e algoz em perspectiva. Dormia ou modorrava sobre a mesa literária, indiferente, simplesmente. Chegara por acaso, sumiria daí a pouco; deixá-lo viver a seu modo, que era um viver anônimo, desligado de inquietações humanas, invariável dentro da natureza: curto e pobre.
Uma ternura imprevista brotou no homem pelo animálculo que momentos antes pensara em destruir. Como se alguém viesse de longe para vê-lo, fazer-lhe companhia, em sua noite de trabalho. Não conversava, não incomodava, era uma questão apenas de estar à sua frente, imóvel, em secreta comunhão. Ele fora o escolhido de um inseto, que poderia ter voado para outro apartamento, onde houvesse outra vigília de escrevedor de coisas, mas aquela fora a casa de sua preferência.
A menos que o acaso determinasse aquele encontro. Era possível. O inseto voara a esmo. O homem quis aferrar-se a esta hipótese, bem plausível. Já se envergonhava de ter envolvido o estranho numa aura de sensibilidade, e talvez voltasse ao impulso inicial de eliminação. A essa altura, espantou-se com a mobilidade de suas reações. Passava de verdugo a sentimentalão, depois a observador cético e crítico, finalmente perdia-se na confusão das várias atitudes que podemos assumir diante de um inseto instalado na mesa de um escritório, a uma hora que ainda não é madrugada mas já é noite alta e de sono profundo.
Aquietou-se, afinal, na contemplação do “bicho da terra tão pequeno”. Era alguma coisa parecida com um botão marrom rombudo, que tivesse olhos e um projeto de asas — o suficiente para deslocar-se no espaço em aventuras breves. E não era uma aventura simples: a altura do edifício exigia esforço grande para chegar da árvore até o décimo primeiro andar. Entretanto, o botão vivo o fizera, e ali estava, tranquilo ou cansado, à mercê do gigante indeciso, que procurava entender, não propriamente sua presença, mas a turbação íntima que essa presença despertava no gigante.
O homem não pensou em recorrer às enciclopédias para identificar o visitante. Ainda que chegasse a identificá-lo como espécie, não avançaria muito no conhecimento do indivíduo, que era único por ser entre todos o que o visitava. E na multidão de insetos, imagináveis e inimagináveis, só lhe interessava aquele, companheiro noturno vindo de não se sabe onde, a caminho de ignorado rumo.
Já não escrevia. Olhava. Mirava. Sentia-se também olhado e mirado, quando o inseto fez ligeiro movimento que o colocou diretamente sob o foco de luz. Seria exagero encontrar expressão naqueles dois pontinhos negros e reluzentes, mas o fato é que deles parecia vir para os olhos do homem um sinal de atenção ou curiosidade. E os dois, homem e inseto, assim ficaram longo tempo, na muda inspeção, ou conversa, que não conduzia a nada.
A nada? Muitas conversas entre homens também não levam a resultado algum, mas há sempre a esperança de um entendimento que pode vir das palavras ou de uma troca desprevenida de olhares. E o olhar pode penetrar mais fundo que as palavras. O homem sabia disto. Mas aí notou que, sabendo falar alguma coisa, não era perito em ver diretamente o real. A figura do inseto dizia-lhe pouco. Dos dois, talvez fosse ele, homem, o que menos habilitado se achava para uma forma de comunicação, aquém — ou além — dos códigos tradicionais.
Distraiu-se avaliando essas limitações e, ao voltar à observação do visitante, este havia desaparecido, decepcionado talvez com a incomunicabilidade dos gigantes.
Ninguém? O homem, que tem o hábito de ficar altas horas entre papéis e livros, sentiu-lhe a presença e pensou imediatamente em esmagar o intruso. Chegou a mover a mão. Não o mataria com os dedos, mas com outra folha de papel.
Deteve-se. Não seria humano liquidar aquele bichinho só porque estava em lugar indevido, sem fazer mal nenhum. Inseto nocivo? Talvez. Mas sua ignorância em entomologia não lhe dava chance de decidir entre a segurança e a injustiça. E na dúvida, era melhor deixar viver aquilo, que nem nome tinha para ele. Com que direito aplicaria pena de morte a um desconhecido infinitamente desprovido de meios sequer para reagir, quanto mais para explicar-se?
O inseto parecia pouco ligar para ele, juiz autonomeado e algoz em perspectiva. Dormia ou modorrava sobre a mesa literária, indiferente, simplesmente. Chegara por acaso, sumiria daí a pouco; deixá-lo viver a seu modo, que era um viver anônimo, desligado de inquietações humanas, invariável dentro da natureza: curto e pobre.
Uma ternura imprevista brotou no homem pelo animálculo que momentos antes pensara em destruir. Como se alguém viesse de longe para vê-lo, fazer-lhe companhia, em sua noite de trabalho. Não conversava, não incomodava, era uma questão apenas de estar à sua frente, imóvel, em secreta comunhão. Ele fora o escolhido de um inseto, que poderia ter voado para outro apartamento, onde houvesse outra vigília de escrevedor de coisas, mas aquela fora a casa de sua preferência.
A menos que o acaso determinasse aquele encontro. Era possível. O inseto voara a esmo. O homem quis aferrar-se a esta hipótese, bem plausível. Já se envergonhava de ter envolvido o estranho numa aura de sensibilidade, e talvez voltasse ao impulso inicial de eliminação. A essa altura, espantou-se com a mobilidade de suas reações. Passava de verdugo a sentimentalão, depois a observador cético e crítico, finalmente perdia-se na confusão das várias atitudes que podemos assumir diante de um inseto instalado na mesa de um escritório, a uma hora que ainda não é madrugada mas já é noite alta e de sono profundo.
Aquietou-se, afinal, na contemplação do “bicho da terra tão pequeno”. Era alguma coisa parecida com um botão marrom rombudo, que tivesse olhos e um projeto de asas — o suficiente para deslocar-se no espaço em aventuras breves. E não era uma aventura simples: a altura do edifício exigia esforço grande para chegar da árvore até o décimo primeiro andar. Entretanto, o botão vivo o fizera, e ali estava, tranquilo ou cansado, à mercê do gigante indeciso, que procurava entender, não propriamente sua presença, mas a turbação íntima que essa presença despertava no gigante.
O homem não pensou em recorrer às enciclopédias para identificar o visitante. Ainda que chegasse a identificá-lo como espécie, não avançaria muito no conhecimento do indivíduo, que era único por ser entre todos o que o visitava. E na multidão de insetos, imagináveis e inimagináveis, só lhe interessava aquele, companheiro noturno vindo de não se sabe onde, a caminho de ignorado rumo.
Já não escrevia. Olhava. Mirava. Sentia-se também olhado e mirado, quando o inseto fez ligeiro movimento que o colocou diretamente sob o foco de luz. Seria exagero encontrar expressão naqueles dois pontinhos negros e reluzentes, mas o fato é que deles parecia vir para os olhos do homem um sinal de atenção ou curiosidade. E os dois, homem e inseto, assim ficaram longo tempo, na muda inspeção, ou conversa, que não conduzia a nada.
A nada? Muitas conversas entre homens também não levam a resultado algum, mas há sempre a esperança de um entendimento que pode vir das palavras ou de uma troca desprevenida de olhares. E o olhar pode penetrar mais fundo que as palavras. O homem sabia disto. Mas aí notou que, sabendo falar alguma coisa, não era perito em ver diretamente o real. A figura do inseto dizia-lhe pouco. Dos dois, talvez fosse ele, homem, o que menos habilitado se achava para uma forma de comunicação, aquém — ou além — dos códigos tradicionais.
Distraiu-se avaliando essas limitações e, ao voltar à observação do visitante, este havia desaparecido, decepcionado talvez com a incomunicabilidade dos gigantes.
Não é todas as noites que um inseto nos visita. E, se consegue insinuar-nos alguma coisa, esta nunca jamais foi captada para os homens que merecem crédito; só os ficcionistas é que costumam registrá-la, mas quem leva a sério ficcionistas?
Carlos Drummond de Andrade, "Boca de luar"
Carlos Drummond de Andrade, "Boca de luar"
terça-feira, julho 28
Gato gato gato
Familiar aos cacos de vidro inofensivos, o gato caminhava molengamente por cima do muro. O menino ia erguer-se, apanhar um graveto, respirar o hálito fresco do porão. Sua úmida penumbra. Mas a presença do gato. o gato, que parou indeciso, o rabo na pachorra de uma quase interrogação. Luminoso sol a pino e o imenso céu azul, calado, sobre o quintal. o menino pactuando com a mudez de tudo em torno — árvores, bichos, coisas. Captando o inarticulado segredo das coisas. Inventando um ser sozinho, na tontura de imaginações espontâneas como um gás que se desprende. Gato — leu no silêncio da própria boca. Na palavra não cabe o gato, toda a verdade de um gato. Aquele ali, ocioso, lento, emoliente — em cima do muro. As coisas aceitam a incompreensão de um nome que não está cheio delas. Mas bicho, carece nomear direito: como rinoceronte, ou girafa se tivesse mais uma sílaba para caber o pescoço comprido. Girafa, girafa. Gatimonha, gatimanho. Falta um nome completo, felinoso e peludo, ronronante de astúcias adormecidas. O pisa-macio, as duas bandas de um gato. Pezinhos de um lado, pezinhos de outro, leve, bem de leve para não machucar o silêncio de feltro nas mãos enluvadas.
O pelo do gato para alisar. Limpinho, o quente contato da mão no dorso, corcoveante e nodoso à carícia. O lânguido sono de morfinômano. O marzinho de leite no pires e a língua secreta, ágil. A ninhada de gatos, os vacilantes filhotes de olhos cerrados. O novelo, a bola de papel — o menino e o gato brincando. Gato lúdico. O gatorro, mais felino do que o cachorro é canino. Gato persa, gatochim — o espirro do gato de olhos orientais. Gato de botas, as aristocráticas pantufas do gato. A manha do gato, gatimanha: teve uma gata miolenta em segredo chamada Alemanha.
Em cima do muro, o gato recebeu o aviso da presença do menino. Ondulou de mansinho alguns passos denunciados apenas na branda alavanca das ancas. Passos irreais, em cima do muro eriçado de cacos de vidro. E o menino songamonga, quietinho, conspirando no quintal, acomodado com o silêncio de todas as coisas. No se olharem, o menino suspendeu a respiração, ameaçando de asfixia tudo que em torno dele com ele respirava, num só sistema pulmonar. O translúcido manto de calma sobre o claustro dos quintais. O coração do menino batendo baixinho. O gato olhando o menino vegetalmente nascendo do chão, como árvore desarmada e inofensiva. A insciência, a inocência dos vegetais.
O ar de enfado, de sabe-tudo do gato: a linha da boca imperceptível, os bigodes pontudos, tensos por hábito. As orelhas acústicas. O rabo desmanchado, mas alerta como um leme. O pequeno focinho úmido embutido na cara séria e grave. A tona dos olhos reverberando como laguinhos ao sol. Nenhum movimento na estátua viva de um gato. Garras e presas remotas, antigas.
Menino e gato ronronando em harmonia com a pudica intimidade do quintal. Muro, menino, cacos de vidro, gato, árvores, sol e céu azul: o milagre da comunicação perfeita. A comunhão dentro de um mesmo barco. O que existe aqui, agora, lado a lado, navegando. A confidência essencial prestes a exalar, e sempre adiada. E nunca. O gato, o menino, as coisas: a vida túmida e solidária. O teimoso segredo sem fala possível. Do muro ao menino, da pedra ao gato: como a árvore e a sombra da árvore.
O gato olhou amarelo o menino. O susto de dois seres que se agridem só por se defenderem. Por existirem e, não sendo um, se esquivarem. Quatro olhos luminosos — e todas as coisas opacas por testemunha. O estúpido muro coroado de cacos de vidro. O menino sentado, tramando uma posição mais prática. O gato de pé, vigilantemente quadrúpede e, no equilíbrio atento, a centelha felina. Seu íntimo compromisso de astúcia. O menino desmanchou o desejo de qualquer gesto. Gaturufo, inventou o menino, numa traiçoeira tentativa de aliança e amizade. O gato, organizado para a fuga, indagava. Repelia. Interrogava o momento da ruptura — como um toque que desperta da hipnose. Deu três passos de veludo e parou, retesando as patas traseiras, as patas dianteiras na iminência de um bote — para onde? Um salto acrobático sobre um rato atávico, inexistente.
O menino forcejando por nomear o gato, por decifrá-lo. O gato mais igual a todos os gatos do que a si mesmo. Impossível qualquer intercâmbio: gato e menino não cabem num só quintal. Um muro permanente entre o menino e o gato. Entre todos os seres emparedados, o muro. A divisa, o limite. O odioso mundo de fora do menino, indecifrável. Tudo que não é o menino, tudo que é inimigo. Nenhum rumor de asas, todas fechadas. Nenhum rumor.
Ah, o estilingue distante — suspira o menino no seu mais oculto silêncio. E o gato consulta com a língua as presas esquecidas, mas afiadas. Todos os músculos a postos, eletrizados. As garras despertas unhando o muro entre dois abismos.
O gato, o alvo: a pedrada passou assobiando pela crista do muro. O gato correu elástico e cauteloso, estacou um segundo e despencou-se do outro lado, sobre o quintal vizinho. Inatingível às pedras e ao perigoso desafio de dois seres a se medirem, sumiu por baixo da parreira espapaçada ao sol.
O tiro ao alvo sem alvo. A pedrada sem o gato. Como um soco no ar: a violência que não conclui, que se perde no vácuo. De cima do muro, o menino devassa o quintal vizinho. A obsedante presença de um gato ausente. Na imensa prisão do céu azul, flutuam distantes as manchas pretas dos urubus. O bailado das asas soltas ao sabor dos ventos das alturas. O menino pisou com o calcanhar a procissão de formigas atarantadas. Só então percebeu que lhe escorria do joelho esfolado um filete de sangue. Saiu manquitolando pelo portão, ganhou o patiozinho do fundo da casa. A sola dos pés nas pedras lisas e quentes. À passagem do menino, uma galinha sacudiu no ar parado a sua algazarra histérica. A casa sem aparente presença humana.
Agarrou-se à janela, escalou o primeiro muro, o segundo, e alcançou o telhado. Andava descalço sobre o limo escorregadio das telhas escuras, retendo o enfadonho peso do corpo como quem segura a respiração. O refúgio debaixo da caixa-d’água, a fresca acolhida da sombra. Na caixa, a água gorgolejante numa golfada de ar. Afastou o tijolo da coluna e enfiou a mão: bolas de gude, o canivete roubado, dois caramujos com as lesmas salgadas na véspera. O mistério. Pessoal, vedado aos outros. Uma pratinha azinhavrada, o ainda perfume da caixa de sabonete. A estampa de São José, lembrança da Primeira Comunhão.
Apoiado nos cotovelos, o menino apanhou uma joaninha que se encolheu, hermética. A joaninha indevassável, na palma da mão. E o súbito silêncio da caixa-d’água, farta, sua sede saciada.
Do outro lado da cidade, partiram solenes quatro badaladas no relógio da Matriz. O menino olhou a esfera indiferente do céu azul, sem nuvens. O mundo é redondo, Deus é redondo, todo segredo é redondo.
As casas escarrapachadas, dando-se as costas, os quintais se repetindo na modorra da mesma tarde sem data.
Até que localizou embaixo, enrodilhado à sombra, junto do tanque: um gato. Dormindo, a cara escondida entre as patas, a cauda invisível. Amarelo, manchado de branco de um lado da cabeça: era um gato. Na sua mira. Em cima do muro ou dormindo, rajado ou amarelo, todos os gatos, hoje ou amanhã, são o mesmo gato. O gato-eterno.
O menino apanhou o tijolo com que vedava a entrada do mistério. Lá embaixo — alvo fácil — o gato dormia inocente a sua sesta ociosa. Acertar pendularmente na cabeça mal adivinhada na pequena trouxa felina, arfante. Gato, gato, gato: lento bicho sonolento, a decifrar ou a acordar? A matar. O tijolo partiu certeiro e desmanchou com estrondo a tranquila rodilha do gato. As silenciosas patinhas enluvadas se descompassaram no susto, na surpresa do ataque gratuito, no estertor da morte. A morte inesperada. A elegância desfeita, o gato convulso contorcendo as patas, demolida a sua arquitetura. Os sete fôlegos vencidos pela brutal desarmonia da morte. A cabeça de súbito esmigalhada, suja de sangue e tijolo. As presas inúteis, à mostra na boca entreaberta. O gato fora do gato, somente o corpo do gato. A imobilidade sem a viva presença imóvel do sono. O gato sem o que nele é gato. A morte, que é ausência de gato no gato. Gato — coisa entre as coisas. Gato a esquecer, talvez a enterrar. A apodrecer. O silêncio da tarde invariável. O intransponível muro entre o menino e tudo que não é o menino. A cidade, as casas, os quintais, a densa copa da mangueira de folhas avermelhadas. O inatingível céu azul.
Em cima do muro, indiferente aos cacos de vidro, um gato — outro gato, o sempre gato — transportava para a casa vizinha o tédio de um mundo impenetrável. O vento quente que desgrenhou o mormaço trouxe de longe, de outros quintais, o vitorioso canto de um galo.
Otto Lara Resende, "O elo partido e outras histórias"
O pelo do gato para alisar. Limpinho, o quente contato da mão no dorso, corcoveante e nodoso à carícia. O lânguido sono de morfinômano. O marzinho de leite no pires e a língua secreta, ágil. A ninhada de gatos, os vacilantes filhotes de olhos cerrados. O novelo, a bola de papel — o menino e o gato brincando. Gato lúdico. O gatorro, mais felino do que o cachorro é canino. Gato persa, gatochim — o espirro do gato de olhos orientais. Gato de botas, as aristocráticas pantufas do gato. A manha do gato, gatimanha: teve uma gata miolenta em segredo chamada Alemanha.
Em cima do muro, o gato recebeu o aviso da presença do menino. Ondulou de mansinho alguns passos denunciados apenas na branda alavanca das ancas. Passos irreais, em cima do muro eriçado de cacos de vidro. E o menino songamonga, quietinho, conspirando no quintal, acomodado com o silêncio de todas as coisas. No se olharem, o menino suspendeu a respiração, ameaçando de asfixia tudo que em torno dele com ele respirava, num só sistema pulmonar. O translúcido manto de calma sobre o claustro dos quintais. O coração do menino batendo baixinho. O gato olhando o menino vegetalmente nascendo do chão, como árvore desarmada e inofensiva. A insciência, a inocência dos vegetais.
O ar de enfado, de sabe-tudo do gato: a linha da boca imperceptível, os bigodes pontudos, tensos por hábito. As orelhas acústicas. O rabo desmanchado, mas alerta como um leme. O pequeno focinho úmido embutido na cara séria e grave. A tona dos olhos reverberando como laguinhos ao sol. Nenhum movimento na estátua viva de um gato. Garras e presas remotas, antigas.
Menino e gato ronronando em harmonia com a pudica intimidade do quintal. Muro, menino, cacos de vidro, gato, árvores, sol e céu azul: o milagre da comunicação perfeita. A comunhão dentro de um mesmo barco. O que existe aqui, agora, lado a lado, navegando. A confidência essencial prestes a exalar, e sempre adiada. E nunca. O gato, o menino, as coisas: a vida túmida e solidária. O teimoso segredo sem fala possível. Do muro ao menino, da pedra ao gato: como a árvore e a sombra da árvore.
O gato olhou amarelo o menino. O susto de dois seres que se agridem só por se defenderem. Por existirem e, não sendo um, se esquivarem. Quatro olhos luminosos — e todas as coisas opacas por testemunha. O estúpido muro coroado de cacos de vidro. O menino sentado, tramando uma posição mais prática. O gato de pé, vigilantemente quadrúpede e, no equilíbrio atento, a centelha felina. Seu íntimo compromisso de astúcia. O menino desmanchou o desejo de qualquer gesto. Gaturufo, inventou o menino, numa traiçoeira tentativa de aliança e amizade. O gato, organizado para a fuga, indagava. Repelia. Interrogava o momento da ruptura — como um toque que desperta da hipnose. Deu três passos de veludo e parou, retesando as patas traseiras, as patas dianteiras na iminência de um bote — para onde? Um salto acrobático sobre um rato atávico, inexistente.
Por um momento, foi como se o céu desabasse de seu azul: duas rolinhas desceram vertiginosas até o chão. Beliscaram levianas um grãozinho de nada e de novo cortaram o ar excitadas, para longe.
O menino forcejando por nomear o gato, por decifrá-lo. O gato mais igual a todos os gatos do que a si mesmo. Impossível qualquer intercâmbio: gato e menino não cabem num só quintal. Um muro permanente entre o menino e o gato. Entre todos os seres emparedados, o muro. A divisa, o limite. O odioso mundo de fora do menino, indecifrável. Tudo que não é o menino, tudo que é inimigo. Nenhum rumor de asas, todas fechadas. Nenhum rumor.
Ah, o estilingue distante — suspira o menino no seu mais oculto silêncio. E o gato consulta com a língua as presas esquecidas, mas afiadas. Todos os músculos a postos, eletrizados. As garras despertas unhando o muro entre dois abismos.
O gato, o alvo: a pedrada passou assobiando pela crista do muro. O gato correu elástico e cauteloso, estacou um segundo e despencou-se do outro lado, sobre o quintal vizinho. Inatingível às pedras e ao perigoso desafio de dois seres a se medirem, sumiu por baixo da parreira espapaçada ao sol.
O tiro ao alvo sem alvo. A pedrada sem o gato. Como um soco no ar: a violência que não conclui, que se perde no vácuo. De cima do muro, o menino devassa o quintal vizinho. A obsedante presença de um gato ausente. Na imensa prisão do céu azul, flutuam distantes as manchas pretas dos urubus. O bailado das asas soltas ao sabor dos ventos das alturas. O menino pisou com o calcanhar a procissão de formigas atarantadas. Só então percebeu que lhe escorria do joelho esfolado um filete de sangue. Saiu manquitolando pelo portão, ganhou o patiozinho do fundo da casa. A sola dos pés nas pedras lisas e quentes. À passagem do menino, uma galinha sacudiu no ar parado a sua algazarra histérica. A casa sem aparente presença humana.
Agarrou-se à janela, escalou o primeiro muro, o segundo, e alcançou o telhado. Andava descalço sobre o limo escorregadio das telhas escuras, retendo o enfadonho peso do corpo como quem segura a respiração. O refúgio debaixo da caixa-d’água, a fresca acolhida da sombra. Na caixa, a água gorgolejante numa golfada de ar. Afastou o tijolo da coluna e enfiou a mão: bolas de gude, o canivete roubado, dois caramujos com as lesmas salgadas na véspera. O mistério. Pessoal, vedado aos outros. Uma pratinha azinhavrada, o ainda perfume da caixa de sabonete. A estampa de São José, lembrança da Primeira Comunhão.
Apoiado nos cotovelos, o menino apanhou uma joaninha que se encolheu, hermética. A joaninha indevassável, na palma da mão. E o súbito silêncio da caixa-d’água, farta, sua sede saciada.
Do outro lado da cidade, partiram solenes quatro badaladas no relógio da Matriz. O menino olhou a esfera indiferente do céu azul, sem nuvens. O mundo é redondo, Deus é redondo, todo segredo é redondo.
As casas escarrapachadas, dando-se as costas, os quintais se repetindo na modorra da mesma tarde sem data.
Até que localizou embaixo, enrodilhado à sombra, junto do tanque: um gato. Dormindo, a cara escondida entre as patas, a cauda invisível. Amarelo, manchado de branco de um lado da cabeça: era um gato. Na sua mira. Em cima do muro ou dormindo, rajado ou amarelo, todos os gatos, hoje ou amanhã, são o mesmo gato. O gato-eterno.
O menino apanhou o tijolo com que vedava a entrada do mistério. Lá embaixo — alvo fácil — o gato dormia inocente a sua sesta ociosa. Acertar pendularmente na cabeça mal adivinhada na pequena trouxa felina, arfante. Gato, gato, gato: lento bicho sonolento, a decifrar ou a acordar? A matar. O tijolo partiu certeiro e desmanchou com estrondo a tranquila rodilha do gato. As silenciosas patinhas enluvadas se descompassaram no susto, na surpresa do ataque gratuito, no estertor da morte. A morte inesperada. A elegância desfeita, o gato convulso contorcendo as patas, demolida a sua arquitetura. Os sete fôlegos vencidos pela brutal desarmonia da morte. A cabeça de súbito esmigalhada, suja de sangue e tijolo. As presas inúteis, à mostra na boca entreaberta. O gato fora do gato, somente o corpo do gato. A imobilidade sem a viva presença imóvel do sono. O gato sem o que nele é gato. A morte, que é ausência de gato no gato. Gato — coisa entre as coisas. Gato a esquecer, talvez a enterrar. A apodrecer. O silêncio da tarde invariável. O intransponível muro entre o menino e tudo que não é o menino. A cidade, as casas, os quintais, a densa copa da mangueira de folhas avermelhadas. O inatingível céu azul.
Em cima do muro, indiferente aos cacos de vidro, um gato — outro gato, o sempre gato — transportava para a casa vizinha o tédio de um mundo impenetrável. O vento quente que desgrenhou o mormaço trouxe de longe, de outros quintais, o vitorioso canto de um galo.
Otto Lara Resende, "O elo partido e outras histórias"
Canção de barco e olvido
Não quero a negra desnuda.
Não quero o baú do morto.
Eu quero o mapa das nuvens
E um barco bem vagaroso.
Ai esquinas esquecidas…
Ai lampiões de fins de linha…
Quem me abana das antigas
Janelas de guilhotina?
Que eu vou passando e passando,
Como em busca de outros ares…
Sempre de barco passando,
Cantando os meus quintanares…
No mesmo instante olvidando
Tudo o de que te lembrares.
Mario Quintana
Não quero o baú do morto.
Eu quero o mapa das nuvens
E um barco bem vagaroso.
Ai esquinas esquecidas…
Ai lampiões de fins de linha…
Quem me abana das antigas
Janelas de guilhotina?
Que eu vou passando e passando,
Como em busca de outros ares…
Sempre de barco passando,
Cantando os meus quintanares…
No mesmo instante olvidando
Tudo o de que te lembrares.
Mario Quintana
Retrato de uma Londrina
Ninguém pode se considerar expert sobre Londres se não conhecer um verdadeiro cockney; se não dobrar numa rua lateral, longe das lojas e dos teatros, e bater em uma porta particular numa rua de casas particulares.
Casas particulares em Londres têm tendência a serem muito parecidas. A porta se abre para um vestíbulo escuro, ergue-se uma escada estreita; do patamar superior abre-se uma dupla sala de estar e nessa dupla sala de estar vê-se dois sofás, um de cada lado de um fogo crepitante, seis poltronas e três compridas janelas dando para a rua. Sempre é matéria de considerável conjectura o que acontece na segunda metade da sala dos fundos debruçando-se para os jardins de outras casas. Mas é com a sala de estar da frente que estamos preocupados; pois era ali que mrs. Crowe sentava-se sempre numa poltrona junto ao fogo; era ali que sua existência transcorria; era ali que ela servia o chá.
Que tenha nascido no campo, embora estranho, parece ser um fato; que ela às vezes deixasse a cidade, naquelas semanas de verão em que Londres não é Londres, também é verdade. Mas para onde ia ou o que fazia quando saía de Londres, quando sua poltrona estava vazia, sua lareira apagada e a mesa desfeita, ninguém sabia ou podia imaginar. Pois conceber mrs. Crowe com seu vestido preto, seu véu e seu chapéu caminhando num campo de nabos ou subindo um monte de pasto está além da mais desvairada imaginação.
Ali, junto à lareira no inverno ou à janela no verão, sentara-se ela por 60 anos — mas não sozinha. Havia sempre alguém na poltrona oposta, fazendo uma visita. E antes que o primeiro visitante estivesse sentado por dez minutos, a porta sempre se abria e a criada Maria, de olhos e dentes proeminentes, que por 60 anos abrira a porta, abria-a mais uma vez e anunciava um segundo visitante; e a seguir um terceiro, e logo depois um quarto.
Nunca se soube de um tête-à-tête com mrs. Crowe. Ela não gostava de tête-à-têtes. Era uma peculiaridade que compartilhava com muitas anfitriãs, a de nunca ser especialmente íntima de alguém. Por exemplo, havia sempre um homem idoso no canto junto ao armário; e que parecia tanto fazer parte daquela admirável mobília do século XVIII quanto seus pegadores de bronze. Mas mrs. Crowe sempre se dirigia a ele como mr. Graham; nunca John, nunca William; embora, às vezes, o chamasse de “caro mr. Graham” como para sublinhar que já o conhecia havia 60 anos.
A verdade é que não desejava intimidade, desejava conversa. A intimidade é um dos caminhos para o silêncio, e mrs. Crowe abominava o silêncio. Era preciso haver conversa, e que esta fosse geral e que abarcasse tudo. Não devia ser profunda demais nem inteligente demais, pois se progredisse muito nessas direções alguém certamente se sentiria de fora, e ficaria sentado ali, balançando a xícara de chá, sem dizer nada.
Portanto, a sala de estar de mrs. Crowe tinha pouco em comum com os celebrados salões dos memorialistas. Gente inteligente ia lá com frequência — juízes, médicos, membros do parlamento, escritores, músicos, viajantes, jogadores de polo, atores e completos anônimos —, mas se alguém dissesse uma coisa brilhante isto era sentido quase como uma gafe, um acidente que se ignorava, como um acesso de espirros ou alguma catástrofe com um bolinho. A conversa de que mrs. Crowe gostava e que a inspirava era uma versão glorificada do mexerico da cidade. A cidade era Londres, e o mexerico era sobre a vida de Londres. Mas o grande dom de mrs. Crowe consistia em tornar a grande metrópole tão pequena quanto uma aldeia, com uma igreja, um solar e 25 chalés. Mrs. Crowe tinha informação de primeira mão sobre cada peça, cada exposição de pintura, cada julgamento, cada caso de divórcio. Ela sabia quem estava casando, quem estava morrendo, quem estava na cidade e quem estava fora. Ela mencionava o fato de que acabara de ver o carro de lady Umphleby passar, e arriscava o palpite de que ia visitar a filha cujo bebê nascera na noite anterior, exatamente como uma mulher da aldeia fala sobre a esposa do juiz de paz dirigindo até a estação para receber mr. John, que estaria voltando da cidade.
E enquanto mrs. Crowe fazia essas observações pelos últimos 50 anos ou algo assim, adquiria um surpreendente arquivo sobre a vida de outras pessoas. Quando mr. Smedley, por exemplo, disse que sua filha estava noiva de Arthur Beecham, mrs. Crowe observou imediatamente que nesse caso ela seria uma prima em terceiro grau de mrs. Pirebrace, e num certo sentido sobrinha de mrs. Burns, pelo primeiro casamento com mr. Minchin de Blackwater Grange. Mas mrs. Crowe não era nem um pouco esnobe. Era apenas uma cultivadora de relações; e sua surpreendente habilidade nesse campo servia para dar um caráter familiar e uma personalidade doméstica às suas colheitas, pois muitas pessoas se espantariam de serem primos em vigésimo grau, se soubessem disso.
Portanto, ser admitido na casa de mrs. Crowe significava tornar-se membro de um clube, e o pagamento exigido era a contribuição com um número de tópicos de mexerico por ano. O primeiro pensamento de muita gente quando a casa incendiava ou os canos rebentavam ou a criada fugia com o mordomo deve ter sido: “Vou correr até mrs. Crowe e lhe contar isso.” Mas nisso também as distinções precisavam ser observadas. Certas pessoas tinham o direito de aparecer na hora do almoço; outras, em maior número, podiam ir entre cinco e sete horas. A classe que tinha o privilégio de jantar com mrs. Crowe era pequena. Talvez somente mr. Graham e mrs. Burke realmente jantassem com ela, pois mrs. Crowe não era rica. Seu vestido preto estava um tantinho gasto; seu broche de diamante era sempre o mesmo broche de diamante. Sua refeição favorita era chá, porque a mesa do chá pode ser suprida economicamente, e há uma elasticidade no chá que combinava com o temperamento gregário de mrs. Crowe. Mas fosse almoço ou chá, a refeição mostrava um caráter distinto, exatamente como um vestido ou a jóia que usava combinavam com ela à perfeição, traziam em si uma moda própria. Haveria um bolo especial, um pudim especial, algo peculiar à casa e tanto parte dela quanto Maria, a velha criada, ou mr. Graham, o velho amigo, ou o velho chintz da poltrona, ou o velho carpete no assoalho.
É verdade que mrs. Crowe deve ter saído algumas vezes, convidada para almoços e chás de outras pessoas. Mas em sociedade ela parecia furtiva, fragmentária e incompleta, como se tivesse meramente passado para uma espiada no casamento ou na reunião noturna ou no funeral, a fim de recolher as migalhas de notícias de que precisava para completar seu próprio estoque. Por isso, era raramente induzida a sentar-se; estava sempre voando. Parecia deslocada entre as mesas e cadeiras dos outros; precisava ter seus próprios chintzes, seu próprio armário e seu próprio mr. Graham junto a ele a fim de ser completamente ela própria. À medida que os anos foram passando, as pequenas incursões no mundo exterior praticamente cessaram. Mrs. Crowe construiu seu ninho de modo tão compacto e completo que o mundo exterior não tinha uma pena ou um graveto a lhe acrescentar. Além disso, seus próprios camaradas lhe eram tão fiéis que podia confiar neles para transmitir qualquer noticiazinha que ela devesse acrescentar à sua coleção. Era desnecessário que abandonasse a própria poltrona junto ao fogo no inverno, ou junto à janela no verão. E com a passagem dos anos seu conhecimento não se tornou mais profundo — a profundidade não era a linha de nossa anfitriã — e sim mais redondo e completo. Deste modo, se uma nova peça fazia um grande sucesso, mrs. Crowe conseguia no dia seguinte não só registrar o fato com uma pitada de mexerico divertido dos bastidores, como também podia remeter-se a outras estreias, nos anos 1880, 1890, e descrever o que Ellen Terry usara, o que Duse tinha feito, o que o querido mr. Henry James comentara — nada muito notável talvez; mas enquanto falava, era como se todas as páginas da vida de Londres nos últimos 50 anos fossem levemente folheadas para sua diversão. Havia muitas, e suas ilustrações eram vivas e brilhantes, e de pessoas famosas; mas mrs. Crowe de modo nenhum vivia no passado, de modo nenhum o exaltava acima do presente.
Na verdade, era sempre a última página, o momento presente que mais importava. O delicioso de Londres era que sempre dava ao indivíduo algo novo para observar, algo fresco sobre o que falar. Era preciso apenas manter os olhos abertos e sentar em sua própria poltrona das cinco às sete horas todos os dias da semana. Enquanto mrs. Crowe sentava-se com os convidados em torno de si, dava de tempos em tempos uma rápida olhadela de pássaro por sobre o ombro para a janela, como se tivesse meio olho na rua, meio ouvido para os carros e ônibus e os gritos dos jornaleiros lá fora. Ora, algo novo podia estar acontecendo naquele mesmo instante. Não se podia passar tempo demais no passado: não se devia dar uma atenção total ao presente.
Nada era mais característico e talvez um pouco desconcertante do que a ansiedade com a qual mrs. Crowe erguia os olhos e interrompia a frase no meio quando a porta sempre se abria e Maria, que se tornara muito corpulenta e um pouco surda, anunciava uma nova visita. Quem estaria prestes a entrar? O que teria a acrescenta à conversa? Mas sua habilidade em extrair fosse o que fosse que poderiam oferecer e sua destreza em atirar a notícia no cotidiano, eram tais que nenhum dano ocorria; e fazia parte de seu peculiar triunfo que a porta jamais se abrisse com demasiada frequência; o círculo nunca ultrapassava sua possibilidade de controle.
Assim, para conhecer Londres não apenas como um espetáculo deslumbrante, um mercado, uma corte, uma colmeia de indústria, mas como um lugar onde pessoas se encontram, conversam, riem, casam-se e morrem, pintam, escrevem e atuam, mandam e legislam, era essencial conhecer mrs. Crowe. Era em sua sala de estar que os inúmeros fragmentos da vasta metrópole pareciam juntar-se num todo animado, compreensível, divertido e agradável. Viajantes ausentes por anos, homens esgotados e ressecados pelo sol, recém-chegados da Índia ou da África, de remotas viagens e aventuras entre selvagens e tigres, iam direto para a casinha na rua quieta para serem conduzidos novamente ao coração da civilização numa única pernada. Mas nem a própria Londres podia manter mrs. Crowe viva para sempre. E é fato que um dia ela já não estava sentada na poltrona junto ao fogo quando o relógio bateu cinco horas; Maria não abriu a porta; mr. Graham separara-se do armário. Mrs. Crowe está morta; e Londres, embora Londres ainda exista, jamais será de novo a mesma cidade.
Virginia Woolf
Casas particulares em Londres têm tendência a serem muito parecidas. A porta se abre para um vestíbulo escuro, ergue-se uma escada estreita; do patamar superior abre-se uma dupla sala de estar e nessa dupla sala de estar vê-se dois sofás, um de cada lado de um fogo crepitante, seis poltronas e três compridas janelas dando para a rua. Sempre é matéria de considerável conjectura o que acontece na segunda metade da sala dos fundos debruçando-se para os jardins de outras casas. Mas é com a sala de estar da frente que estamos preocupados; pois era ali que mrs. Crowe sentava-se sempre numa poltrona junto ao fogo; era ali que sua existência transcorria; era ali que ela servia o chá.
Que tenha nascido no campo, embora estranho, parece ser um fato; que ela às vezes deixasse a cidade, naquelas semanas de verão em que Londres não é Londres, também é verdade. Mas para onde ia ou o que fazia quando saía de Londres, quando sua poltrona estava vazia, sua lareira apagada e a mesa desfeita, ninguém sabia ou podia imaginar. Pois conceber mrs. Crowe com seu vestido preto, seu véu e seu chapéu caminhando num campo de nabos ou subindo um monte de pasto está além da mais desvairada imaginação.
Ali, junto à lareira no inverno ou à janela no verão, sentara-se ela por 60 anos — mas não sozinha. Havia sempre alguém na poltrona oposta, fazendo uma visita. E antes que o primeiro visitante estivesse sentado por dez minutos, a porta sempre se abria e a criada Maria, de olhos e dentes proeminentes, que por 60 anos abrira a porta, abria-a mais uma vez e anunciava um segundo visitante; e a seguir um terceiro, e logo depois um quarto.
Nunca se soube de um tête-à-tête com mrs. Crowe. Ela não gostava de tête-à-têtes. Era uma peculiaridade que compartilhava com muitas anfitriãs, a de nunca ser especialmente íntima de alguém. Por exemplo, havia sempre um homem idoso no canto junto ao armário; e que parecia tanto fazer parte daquela admirável mobília do século XVIII quanto seus pegadores de bronze. Mas mrs. Crowe sempre se dirigia a ele como mr. Graham; nunca John, nunca William; embora, às vezes, o chamasse de “caro mr. Graham” como para sublinhar que já o conhecia havia 60 anos.
A verdade é que não desejava intimidade, desejava conversa. A intimidade é um dos caminhos para o silêncio, e mrs. Crowe abominava o silêncio. Era preciso haver conversa, e que esta fosse geral e que abarcasse tudo. Não devia ser profunda demais nem inteligente demais, pois se progredisse muito nessas direções alguém certamente se sentiria de fora, e ficaria sentado ali, balançando a xícara de chá, sem dizer nada.
Portanto, a sala de estar de mrs. Crowe tinha pouco em comum com os celebrados salões dos memorialistas. Gente inteligente ia lá com frequência — juízes, médicos, membros do parlamento, escritores, músicos, viajantes, jogadores de polo, atores e completos anônimos —, mas se alguém dissesse uma coisa brilhante isto era sentido quase como uma gafe, um acidente que se ignorava, como um acesso de espirros ou alguma catástrofe com um bolinho. A conversa de que mrs. Crowe gostava e que a inspirava era uma versão glorificada do mexerico da cidade. A cidade era Londres, e o mexerico era sobre a vida de Londres. Mas o grande dom de mrs. Crowe consistia em tornar a grande metrópole tão pequena quanto uma aldeia, com uma igreja, um solar e 25 chalés. Mrs. Crowe tinha informação de primeira mão sobre cada peça, cada exposição de pintura, cada julgamento, cada caso de divórcio. Ela sabia quem estava casando, quem estava morrendo, quem estava na cidade e quem estava fora. Ela mencionava o fato de que acabara de ver o carro de lady Umphleby passar, e arriscava o palpite de que ia visitar a filha cujo bebê nascera na noite anterior, exatamente como uma mulher da aldeia fala sobre a esposa do juiz de paz dirigindo até a estação para receber mr. John, que estaria voltando da cidade.
E enquanto mrs. Crowe fazia essas observações pelos últimos 50 anos ou algo assim, adquiria um surpreendente arquivo sobre a vida de outras pessoas. Quando mr. Smedley, por exemplo, disse que sua filha estava noiva de Arthur Beecham, mrs. Crowe observou imediatamente que nesse caso ela seria uma prima em terceiro grau de mrs. Pirebrace, e num certo sentido sobrinha de mrs. Burns, pelo primeiro casamento com mr. Minchin de Blackwater Grange. Mas mrs. Crowe não era nem um pouco esnobe. Era apenas uma cultivadora de relações; e sua surpreendente habilidade nesse campo servia para dar um caráter familiar e uma personalidade doméstica às suas colheitas, pois muitas pessoas se espantariam de serem primos em vigésimo grau, se soubessem disso.
Portanto, ser admitido na casa de mrs. Crowe significava tornar-se membro de um clube, e o pagamento exigido era a contribuição com um número de tópicos de mexerico por ano. O primeiro pensamento de muita gente quando a casa incendiava ou os canos rebentavam ou a criada fugia com o mordomo deve ter sido: “Vou correr até mrs. Crowe e lhe contar isso.” Mas nisso também as distinções precisavam ser observadas. Certas pessoas tinham o direito de aparecer na hora do almoço; outras, em maior número, podiam ir entre cinco e sete horas. A classe que tinha o privilégio de jantar com mrs. Crowe era pequena. Talvez somente mr. Graham e mrs. Burke realmente jantassem com ela, pois mrs. Crowe não era rica. Seu vestido preto estava um tantinho gasto; seu broche de diamante era sempre o mesmo broche de diamante. Sua refeição favorita era chá, porque a mesa do chá pode ser suprida economicamente, e há uma elasticidade no chá que combinava com o temperamento gregário de mrs. Crowe. Mas fosse almoço ou chá, a refeição mostrava um caráter distinto, exatamente como um vestido ou a jóia que usava combinavam com ela à perfeição, traziam em si uma moda própria. Haveria um bolo especial, um pudim especial, algo peculiar à casa e tanto parte dela quanto Maria, a velha criada, ou mr. Graham, o velho amigo, ou o velho chintz da poltrona, ou o velho carpete no assoalho.
É verdade que mrs. Crowe deve ter saído algumas vezes, convidada para almoços e chás de outras pessoas. Mas em sociedade ela parecia furtiva, fragmentária e incompleta, como se tivesse meramente passado para uma espiada no casamento ou na reunião noturna ou no funeral, a fim de recolher as migalhas de notícias de que precisava para completar seu próprio estoque. Por isso, era raramente induzida a sentar-se; estava sempre voando. Parecia deslocada entre as mesas e cadeiras dos outros; precisava ter seus próprios chintzes, seu próprio armário e seu próprio mr. Graham junto a ele a fim de ser completamente ela própria. À medida que os anos foram passando, as pequenas incursões no mundo exterior praticamente cessaram. Mrs. Crowe construiu seu ninho de modo tão compacto e completo que o mundo exterior não tinha uma pena ou um graveto a lhe acrescentar. Além disso, seus próprios camaradas lhe eram tão fiéis que podia confiar neles para transmitir qualquer noticiazinha que ela devesse acrescentar à sua coleção. Era desnecessário que abandonasse a própria poltrona junto ao fogo no inverno, ou junto à janela no verão. E com a passagem dos anos seu conhecimento não se tornou mais profundo — a profundidade não era a linha de nossa anfitriã — e sim mais redondo e completo. Deste modo, se uma nova peça fazia um grande sucesso, mrs. Crowe conseguia no dia seguinte não só registrar o fato com uma pitada de mexerico divertido dos bastidores, como também podia remeter-se a outras estreias, nos anos 1880, 1890, e descrever o que Ellen Terry usara, o que Duse tinha feito, o que o querido mr. Henry James comentara — nada muito notável talvez; mas enquanto falava, era como se todas as páginas da vida de Londres nos últimos 50 anos fossem levemente folheadas para sua diversão. Havia muitas, e suas ilustrações eram vivas e brilhantes, e de pessoas famosas; mas mrs. Crowe de modo nenhum vivia no passado, de modo nenhum o exaltava acima do presente.
Na verdade, era sempre a última página, o momento presente que mais importava. O delicioso de Londres era que sempre dava ao indivíduo algo novo para observar, algo fresco sobre o que falar. Era preciso apenas manter os olhos abertos e sentar em sua própria poltrona das cinco às sete horas todos os dias da semana. Enquanto mrs. Crowe sentava-se com os convidados em torno de si, dava de tempos em tempos uma rápida olhadela de pássaro por sobre o ombro para a janela, como se tivesse meio olho na rua, meio ouvido para os carros e ônibus e os gritos dos jornaleiros lá fora. Ora, algo novo podia estar acontecendo naquele mesmo instante. Não se podia passar tempo demais no passado: não se devia dar uma atenção total ao presente.
Nada era mais característico e talvez um pouco desconcertante do que a ansiedade com a qual mrs. Crowe erguia os olhos e interrompia a frase no meio quando a porta sempre se abria e Maria, que se tornara muito corpulenta e um pouco surda, anunciava uma nova visita. Quem estaria prestes a entrar? O que teria a acrescenta à conversa? Mas sua habilidade em extrair fosse o que fosse que poderiam oferecer e sua destreza em atirar a notícia no cotidiano, eram tais que nenhum dano ocorria; e fazia parte de seu peculiar triunfo que a porta jamais se abrisse com demasiada frequência; o círculo nunca ultrapassava sua possibilidade de controle.
Assim, para conhecer Londres não apenas como um espetáculo deslumbrante, um mercado, uma corte, uma colmeia de indústria, mas como um lugar onde pessoas se encontram, conversam, riem, casam-se e morrem, pintam, escrevem e atuam, mandam e legislam, era essencial conhecer mrs. Crowe. Era em sua sala de estar que os inúmeros fragmentos da vasta metrópole pareciam juntar-se num todo animado, compreensível, divertido e agradável. Viajantes ausentes por anos, homens esgotados e ressecados pelo sol, recém-chegados da Índia ou da África, de remotas viagens e aventuras entre selvagens e tigres, iam direto para a casinha na rua quieta para serem conduzidos novamente ao coração da civilização numa única pernada. Mas nem a própria Londres podia manter mrs. Crowe viva para sempre. E é fato que um dia ela já não estava sentada na poltrona junto ao fogo quando o relógio bateu cinco horas; Maria não abriu a porta; mr. Graham separara-se do armário. Mrs. Crowe está morta; e Londres, embora Londres ainda exista, jamais será de novo a mesma cidade.
Virginia Woolf
Mar e sol
Ilhéus, Praia do Norte. Sitio Beira-Mar, pé na areia. Marzão azul de frente, piscina quase sem fim, até lá onde o céu se acurva. O sol brilha com seu disco enorme quando o dia começa a clarear. A entrada para se chegar até o nosso sítio é pelo Condomínio Mar e Sol, um lugar tranquilo, casas construídas com bom gosto, bem iluminadas e ventiladas. Os quintais com coqueiros e árvores frutíferas. Quando a safra de cajus é boa, dos galhos pendem os frutos com sua pele sedosa ao sol do verão.
Pássaros de diversas espécies exibem sua orquestra organizada pela natureza, desde o amanhecer até o entardecer, quando então a tarde é levada pelos braços do crepúsculo. Um conjunto de vozes repercute na audiência colorida feita de canto e plumagem. É como gostam de conversar entre elas nas manhãs e tardes essas vozes cheias de encanto, em entendimento perfeito com a natureza enquanto desfiam suas melodias em ciclagem pautada com bemóis e solfejos. Os sons harmoniosos repercutem de acordo com a clave criada pela natureza. Entre solfejos e gorjeios, torneios para saber quem canta mais bonito.
Nosso Sítio Beira-Mar é cercado com estacas juntas, o caseiro é conhecido pelo apelido de Dai, moço de índole mansa, temente a Deus. Leitor voraz da Bíblia, a sua esposa Neusa tem os dons da arte culinária, excelente no preparo de iguarias e quitutes. Bastante procurada por seus dotes no preparo de iguarias em época de veraneio. Nesse período não adianta procurá-la para contratar suas artes de cozinheira fina, na festa da passagem do ano tem compromisso com a nossa família para cuidar das iguarias e da casa.
Os cães latem e correm ligeiros. Quem passar na rua, até pode pensar que são ferozes pelos latidos altos e constantes. Nada disso, qualquer um que apareça por lá vai ser recebido por músculos que festejam. Nas suas peripécias diárias são capazes de saltar a cerca ou o muro na parte da frente. Então para que servem no caso de visita indesejável de algum elemento perigoso? Aqui para nós, servem para brincar com os netos que os três filhos nos deram nas estações da vida. Não param de oferecer alegria, os cães são como meninos, inerentes ao alvoroço da brincadeira causado com a turma de netos.
Claro que estão proibidos de tomar banho na piscina com os netos, aí então seria um vexame se isso acontecesse, iam bagunçar a água, sujar e causar aborrecimento ao dono do sítio. A piscina é um dos recantos aprazíveis da esposa Mariza, dos filhos, genro, noras e uns poucos amigos. A churrasqueira é o acampamento costumeiro da rapaziada, a vida ali passa com o jogo de cartas, música que anima o ambiente, o churrasco preparado pelo genro, o tira-gosto acompanhado de bons goles de cerveja.
A cantoria dos pássaros, as frutas doces e madurinhas, mangas, cajus, pitangas, a água de coco dão-me a certeza de que viver assim é um presente do céu. Os dias passam, passam os dias, enquanto o sol brilha pelos fundos do sítio, de frente para o mar. Lá é onde me sento na cadeira, fico olhando a paisagem marinha em movimento ao sabor do vento. Os veranistas chegam cedo à praia, uns circulam a pé na areia, outros de bicicleta, ainda outros se banham nas ondas que batem, voltam batem. Murmuram quando se espalham e formam colares de espuma na areia úmida.
À noite recolho-me no quarto para ler um bom livro, escrever alguma história ou poema que vem mexendo comigo. De manhã cedo acontece o melhor espetáculo da natureza com seu visual que impressiona vivamente. É a hora esplêndida do nascimento do sol, que vem puxado pelos fios de ouro do amanhecer lindo. O astro-rei esplende seus raios de ouro ao redor de seu disco luminoso, espalha inúmeros espelhos pelas ondas, em balanço macio da natureza líquida. É quando ele mais gosta de se admirar nos inúmeros espelhos ao molejo das ondas. Pergunto-me se esse momento, de ouro que brilha no céu e nas águas, não é o sol querendo me mostrar como foi o primeiro dia no paraíso.
No andar superior da casa do sítio escuto o passarinho com seu canto estridente, no alto do coqueiro. Bate as asas seguidas vezes, ao mesmo tempo em que diz: “Bem-te-vi! Bem-te-vi!” Uma vez escutei essa saudação ao astro-rei na Praia da Tiririca, em Itacaré. Agora se repete quando estou na sacada do andar superior admirando o nascimento do sol. De novo acontece o milagre formado pela saudação desse passarinho de asas amarronzadas, peito amarelo, bico comprido, de canto aguerrido quando está saudando o sol.
Como é bonito de escutar esse passarinho no seu clarim festivo. Vê-lo fazer sua saudação ao sol radiante desenhando no céu uma flor gigantesca. Não posso deixar de considerar que sou um espectador privilegiado diante da cena que a natureza generosa oferta-me e não cobra nada. Dá para pensar por que será que ainda tem gente no mundo que não acredita em milagre. Em Deus nem quer ouvir falar.
Pássaros de diversas espécies exibem sua orquestra organizada pela natureza, desde o amanhecer até o entardecer, quando então a tarde é levada pelos braços do crepúsculo. Um conjunto de vozes repercute na audiência colorida feita de canto e plumagem. É como gostam de conversar entre elas nas manhãs e tardes essas vozes cheias de encanto, em entendimento perfeito com a natureza enquanto desfiam suas melodias em ciclagem pautada com bemóis e solfejos. Os sons harmoniosos repercutem de acordo com a clave criada pela natureza. Entre solfejos e gorjeios, torneios para saber quem canta mais bonito.Nosso Sítio Beira-Mar é cercado com estacas juntas, o caseiro é conhecido pelo apelido de Dai, moço de índole mansa, temente a Deus. Leitor voraz da Bíblia, a sua esposa Neusa tem os dons da arte culinária, excelente no preparo de iguarias e quitutes. Bastante procurada por seus dotes no preparo de iguarias em época de veraneio. Nesse período não adianta procurá-la para contratar suas artes de cozinheira fina, na festa da passagem do ano tem compromisso com a nossa família para cuidar das iguarias e da casa.
Os cães latem e correm ligeiros. Quem passar na rua, até pode pensar que são ferozes pelos latidos altos e constantes. Nada disso, qualquer um que apareça por lá vai ser recebido por músculos que festejam. Nas suas peripécias diárias são capazes de saltar a cerca ou o muro na parte da frente. Então para que servem no caso de visita indesejável de algum elemento perigoso? Aqui para nós, servem para brincar com os netos que os três filhos nos deram nas estações da vida. Não param de oferecer alegria, os cães são como meninos, inerentes ao alvoroço da brincadeira causado com a turma de netos.
Claro que estão proibidos de tomar banho na piscina com os netos, aí então seria um vexame se isso acontecesse, iam bagunçar a água, sujar e causar aborrecimento ao dono do sítio. A piscina é um dos recantos aprazíveis da esposa Mariza, dos filhos, genro, noras e uns poucos amigos. A churrasqueira é o acampamento costumeiro da rapaziada, a vida ali passa com o jogo de cartas, música que anima o ambiente, o churrasco preparado pelo genro, o tira-gosto acompanhado de bons goles de cerveja.
A cantoria dos pássaros, as frutas doces e madurinhas, mangas, cajus, pitangas, a água de coco dão-me a certeza de que viver assim é um presente do céu. Os dias passam, passam os dias, enquanto o sol brilha pelos fundos do sítio, de frente para o mar. Lá é onde me sento na cadeira, fico olhando a paisagem marinha em movimento ao sabor do vento. Os veranistas chegam cedo à praia, uns circulam a pé na areia, outros de bicicleta, ainda outros se banham nas ondas que batem, voltam batem. Murmuram quando se espalham e formam colares de espuma na areia úmida.
À noite recolho-me no quarto para ler um bom livro, escrever alguma história ou poema que vem mexendo comigo. De manhã cedo acontece o melhor espetáculo da natureza com seu visual que impressiona vivamente. É a hora esplêndida do nascimento do sol, que vem puxado pelos fios de ouro do amanhecer lindo. O astro-rei esplende seus raios de ouro ao redor de seu disco luminoso, espalha inúmeros espelhos pelas ondas, em balanço macio da natureza líquida. É quando ele mais gosta de se admirar nos inúmeros espelhos ao molejo das ondas. Pergunto-me se esse momento, de ouro que brilha no céu e nas águas, não é o sol querendo me mostrar como foi o primeiro dia no paraíso.
No andar superior da casa do sítio escuto o passarinho com seu canto estridente, no alto do coqueiro. Bate as asas seguidas vezes, ao mesmo tempo em que diz: “Bem-te-vi! Bem-te-vi!” Uma vez escutei essa saudação ao astro-rei na Praia da Tiririca, em Itacaré. Agora se repete quando estou na sacada do andar superior admirando o nascimento do sol. De novo acontece o milagre formado pela saudação desse passarinho de asas amarronzadas, peito amarelo, bico comprido, de canto aguerrido quando está saudando o sol.
Como é bonito de escutar esse passarinho no seu clarim festivo. Vê-lo fazer sua saudação ao sol radiante desenhando no céu uma flor gigantesca. Não posso deixar de considerar que sou um espectador privilegiado diante da cena que a natureza generosa oferta-me e não cobra nada. Dá para pensar por que será que ainda tem gente no mundo que não acredita em milagre. Em Deus nem quer ouvir falar.
segunda-feira, julho 27
Dies Irae
Amanheci em cólera. Não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? E por que, só porque eu escrevei, pensam que tenho que continuar a escrever? Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração.
E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou para viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. E criaram o Dia dos Analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre. E quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera.
Não, não tenho pena dos que morrem de fome. A ira é o que me toma. E acho certo roubar para comer. – Acabo de ser interrompida pelo telefonema de uma moça chamada Teresa que ficou muito contente de eu me lembrar dela. lembro-me: era uma desconhecida, que um dia apareceu no hospital, durante os quase três meses onde passei para me salvar do incêndio. Ela se sentara, ficara um pouco calada, falara um pouco. Depois fora embora. E agora me telefonou para ser franca: que eu não escreva no jornal nada de crônicas ou coisa parecida. Que ela e muitos querem que eu seja eu própria, mesmo que remunerada para isso. que muitos têm acesso a meus livros e que me querem como sou no jornal mesmo. Eu disse que sim, em parte porque também gostaria que fosse sim, em parte para mostrar a Teresa, que não me parece semiparalítica, que ainda se pode dizer sim.
Sim, meu Deus. Que se possa dizer sim. No entanto neste mesmo momento alguma coisa estranha aconteceu. Estou escrevendo de manhã e o tempo de repente escureceu de tal forma que foi preciso acender as luzes. e outro telefonema veio: de uma amiga perguntando-me espantada se aqui também tinha escurecido. Sim, aqui é noite escura às dez horas da manhã. É a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que não soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver. Porque se não voltar o dilúvio, voltarão Sodoma e Gomorra, que era a solução. Por que deixar entrar na arca um par de cada espécie? Pelo menos o par humano não tem dado senão filhos, mas não a outra vida, aquela que, não existindo, me fez amanhecer em cólera.
Teresa, quando você me visitou no hospital, viu-me toda enfaixada e imobilizada. Hoje você me veria mais imobilizada ainda. Hoje sou a paralítica e a muda. E se tento falar, sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza também.
E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou para viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. E criaram o Dia dos Analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre. E quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera.
Não, não tenho pena dos que morrem de fome. A ira é o que me toma. E acho certo roubar para comer. – Acabo de ser interrompida pelo telefonema de uma moça chamada Teresa que ficou muito contente de eu me lembrar dela. lembro-me: era uma desconhecida, que um dia apareceu no hospital, durante os quase três meses onde passei para me salvar do incêndio. Ela se sentara, ficara um pouco calada, falara um pouco. Depois fora embora. E agora me telefonou para ser franca: que eu não escreva no jornal nada de crônicas ou coisa parecida. Que ela e muitos querem que eu seja eu própria, mesmo que remunerada para isso. que muitos têm acesso a meus livros e que me querem como sou no jornal mesmo. Eu disse que sim, em parte porque também gostaria que fosse sim, em parte para mostrar a Teresa, que não me parece semiparalítica, que ainda se pode dizer sim.
Sim, meu Deus. Que se possa dizer sim. No entanto neste mesmo momento alguma coisa estranha aconteceu. Estou escrevendo de manhã e o tempo de repente escureceu de tal forma que foi preciso acender as luzes. e outro telefonema veio: de uma amiga perguntando-me espantada se aqui também tinha escurecido. Sim, aqui é noite escura às dez horas da manhã. É a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que não soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver. Porque se não voltar o dilúvio, voltarão Sodoma e Gomorra, que era a solução. Por que deixar entrar na arca um par de cada espécie? Pelo menos o par humano não tem dado senão filhos, mas não a outra vida, aquela que, não existindo, me fez amanhecer em cólera.
Teresa, quando você me visitou no hospital, viu-me toda enfaixada e imobilizada. Hoje você me veria mais imobilizada ainda. Hoje sou a paralítica e a muda. E se tento falar, sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza também.
Clarice Lispector, “A Descoberta do Mundo”
Não desafies
Não desafies
a alegria.
Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?
Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria.
João José Cochofel, "Breve"
a alegria.
Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?
Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria.
João José Cochofel, "Breve"
O murinho
A princípio, o território neutro do edifício Jandaia era ocupado por mamães e babás, capitaneando inocentes que iam tomar a fresca da tarde; à noite, vinham empregadas em geral, providas de namorados civis e militares.
Mas impõe-se a descrição sumária do território: simples área pavimentada em frente ao edifício, separando-se da calçada por uma pequena amurada de menos de dois palmos de altura, tão lisa que convidava a pousar e repousar. Os adultos cediam ao convite, e ali ficavam praticando sobre o tempo, a diarreia infantil, a exploração nas feiras, os casamentos e descasamentos da semana. (Na parte da tarde.) Ou não conversavam, pois outros meios de comunicação se estabeleciam naturalmente na sombra, mormente se o poste da Light, que ali se alteia, falhava a seu destino iluminatório, o que era frequente. (Na parte da noite.)
Na área propriamente dita, a garotada brincava, e era esse o título de glória do Jandaia. Sem playground, oferecia entretanto a todos, de casa ou de fora, aquele salão a céu aberto, onde qualquer guri pulava, caía, chorava, tornava a pular, até que a estrela Vésper tocava gentilmente a recolher, numa sineta de cristal que só as mães escutam — as mães sentadas no “murinho”, nome dado à mureta concebida em escala de anão.
E assim corria a Idade de Ouro, quando começaram a surgir, no expediente da tarde, uns rapazinhos e brotinhos de uniforme colegial, que foram tomando posse do terreno. Esse bando tinha o dinamismo próprio da idade — e, pouco a pouco, crianças, babás e mãezinhas se eclipsaram. Os invasores falavam essa língua alta e híbrida que se forja no mundo inteiro, com raízes no cinema, no esporte, na Coca-Cola e nos gritos guturais que se desprendem — quem não os distingue? — dos quadros “mudos” de Brucutu e Steve Roper. Divertido, mas um pouco assustador. E à noite, por sua vez, fuzileiros e copeiras tiveram de ir cedendo campo à horda que se renovava.
Os moradores do Jandaia começaram a queixar-se. O porteiro saiu a parlamentar, e desacataram-no. A rua era pública. Sentavam no murinho com os pés para fora. Não faziam nada de mau, só cantar e assobiar. Os chatos que pirassem.
Ouvindo-se tratar de chatos, por trás da cortina, os moradores indignaram-se. O telefone chamou a radiopatrulha, que foi rápida, mas a turminha ainda mais: ao chegar o carro, o porteiro estava falando sozinho.
No dia seguinte, não houve concentração juvenil, mas já na outra tarde, meio cautelosos, eles reapareceram. A esse tempo a rua se dividira. Havia elementos solidários com a gente do Jandaia, e outros que defendiam a nova geração; estes argumentavam que a rapaziada era pura: em vez de bebericar nos bares, batia papo inocente à luz das estrelas. Preferível à grudação dos casais suspeitos, que antes envergonhava a rua.
Mas o Jandaia tinha moradores idosos e enfermos, aos quais aquela bulha torturava; tinha também rapazes e meninas, que preferiam estudar e não podiam. Por que os engraçadinhos não iam fazer isso diante de suas casas?
Como não houvesse condomínio, e os moradores dos fundos, livres da algazarra, se mostrassem omissos, uma senhora do segundo andar assumiu a ofensiva e txááá! um balde de água suja conspurcou a camisa esporte dos rapazes e o blue jeans das garotas. Consternação, raiva, debandada — mas no dia seguinte voltaram. E voltaram e tornaram a voltar.
Ontem pela manhã, um pedreiro começou a furar o cimento do murinho, e a colocar nele uma grade de ferro, de pontas agudas. Vaquinha dos mártires do Jandaia? Não: outra iniciativa pessoal de um deles, coronel reformado e solteirão. “Logo vi que ele não tem filho!” — comentou uma das garotas, com desprezo. Mas a turma está desoladíssima, e nunca mais ninguém ousará sentar no murinho — nem mesmo as mansuetas babás e mamães, nem mesmo os casais noturnos.
Carlos Drummond de Andrade, “Fala, amendoeira”
Mas impõe-se a descrição sumária do território: simples área pavimentada em frente ao edifício, separando-se da calçada por uma pequena amurada de menos de dois palmos de altura, tão lisa que convidava a pousar e repousar. Os adultos cediam ao convite, e ali ficavam praticando sobre o tempo, a diarreia infantil, a exploração nas feiras, os casamentos e descasamentos da semana. (Na parte da tarde.) Ou não conversavam, pois outros meios de comunicação se estabeleciam naturalmente na sombra, mormente se o poste da Light, que ali se alteia, falhava a seu destino iluminatório, o que era frequente. (Na parte da noite.)
Na área propriamente dita, a garotada brincava, e era esse o título de glória do Jandaia. Sem playground, oferecia entretanto a todos, de casa ou de fora, aquele salão a céu aberto, onde qualquer guri pulava, caía, chorava, tornava a pular, até que a estrela Vésper tocava gentilmente a recolher, numa sineta de cristal que só as mães escutam — as mães sentadas no “murinho”, nome dado à mureta concebida em escala de anão.
E assim corria a Idade de Ouro, quando começaram a surgir, no expediente da tarde, uns rapazinhos e brotinhos de uniforme colegial, que foram tomando posse do terreno. Esse bando tinha o dinamismo próprio da idade — e, pouco a pouco, crianças, babás e mãezinhas se eclipsaram. Os invasores falavam essa língua alta e híbrida que se forja no mundo inteiro, com raízes no cinema, no esporte, na Coca-Cola e nos gritos guturais que se desprendem — quem não os distingue? — dos quadros “mudos” de Brucutu e Steve Roper. Divertido, mas um pouco assustador. E à noite, por sua vez, fuzileiros e copeiras tiveram de ir cedendo campo à horda que se renovava.
Os moradores do Jandaia começaram a queixar-se. O porteiro saiu a parlamentar, e desacataram-no. A rua era pública. Sentavam no murinho com os pés para fora. Não faziam nada de mau, só cantar e assobiar. Os chatos que pirassem.
Ouvindo-se tratar de chatos, por trás da cortina, os moradores indignaram-se. O telefone chamou a radiopatrulha, que foi rápida, mas a turminha ainda mais: ao chegar o carro, o porteiro estava falando sozinho.
No dia seguinte, não houve concentração juvenil, mas já na outra tarde, meio cautelosos, eles reapareceram. A esse tempo a rua se dividira. Havia elementos solidários com a gente do Jandaia, e outros que defendiam a nova geração; estes argumentavam que a rapaziada era pura: em vez de bebericar nos bares, batia papo inocente à luz das estrelas. Preferível à grudação dos casais suspeitos, que antes envergonhava a rua.
Mas o Jandaia tinha moradores idosos e enfermos, aos quais aquela bulha torturava; tinha também rapazes e meninas, que preferiam estudar e não podiam. Por que os engraçadinhos não iam fazer isso diante de suas casas?
Como não houvesse condomínio, e os moradores dos fundos, livres da algazarra, se mostrassem omissos, uma senhora do segundo andar assumiu a ofensiva e txááá! um balde de água suja conspurcou a camisa esporte dos rapazes e o blue jeans das garotas. Consternação, raiva, debandada — mas no dia seguinte voltaram. E voltaram e tornaram a voltar.
Ontem pela manhã, um pedreiro começou a furar o cimento do murinho, e a colocar nele uma grade de ferro, de pontas agudas. Vaquinha dos mártires do Jandaia? Não: outra iniciativa pessoal de um deles, coronel reformado e solteirão. “Logo vi que ele não tem filho!” — comentou uma das garotas, com desprezo. Mas a turma está desoladíssima, e nunca mais ninguém ousará sentar no murinho — nem mesmo as mansuetas babás e mamães, nem mesmo os casais noturnos.
Carlos Drummond de Andrade, “Fala, amendoeira”
As fadas da França
— Acusado, levante-se! — disse o presidente.
Ocorreu um movimento hediondo no banco dos réus incendiários, e algo informe e tiritante veio apoiar-se contra a barra. Era um feixe de trapos, de buracos, de peças, de cordas, de velhas flores, de velhos penachos; por cima de tudo, um pobre rosto fanado, brunido, enrugado, maltratado, em que a malícia de dois pequenos olhos negros cintilava no meio das rugas, como um lagarto na fenda de um velho muro.
— Como se chama? — perguntaram-lhe.
— Melusina.
— Como disse?…
Ela repetiu gravemente:
— Melusina.
Sob o forte bigode de coronel dos dragões, o presidente teve um sorriso, mas continuou impassível:
— Idade?
— Não sei mais.
— Profissão?
— Eu sou fada!…
De espanto, o auditório, o conselho, o próprio comissário do governo, toda a gente, enfim, soltou uma grande gargalhada. Mas isso não a perturbou absolutamente, e com voz frágil, clara e cheia de trêmulos, que subia alto na sala e planava como uma voz de sonho, a velha retornou:
— Ah! as fadas da França! Onde estão elas? Todas mortas, meus bons senhores. Eu sou a última. Não resta mais nenhuma senão eu… Na verdade, é grande prejuízo, pois a França era bem mais bela quando ainda tinha fadas. Éramos a poesia do país, sua fé, sua candura, sua juventude. Todos os lugares que freqüentávamos — os fundos dos parques cheios de mataréu, as pedras das fontes, as pequenas torres dos velhos castelos, as brumas dos lagos, as grandes planícies pantanosas — recebiam de nossa presença algo de mágico e de imenso. À claridade fantástica das lendas, viam-nos passar um pouco por toda parte, arrastando as saias num raio de luar, ou correndo pelos prados, na extremidade das plantas. Os camponeses nos amavam, nos veneravam.
Nas imaginações ingênuas, nossas frontes coroadas de pérolas, nossas varinhas de condão, nossos bastões encantados, misturavam um pouco de temor à adoração. Nossas fontes, igualmente, permaneciam sempre claras. As charruas se detinham nos caminhos que guardávamos; e como inspirávamos o respeito pelo que era antigo — nós, as mais velhas do mundo — de um a outro extremo da França deixavam-se as florestas crescerem, as pedras se deslocarem por si mesmas.
Mas o século progrediu. As estradas de ferro vieram. Cavaram-se túneis, entulharam-se os lagos, cortaram-se tantas árvores, que bem depressa não sabíamos mais onde nos metermos. Pouco a pouco, os camponeses deixaram de acreditar em nós. À noite, quando batíamos nos postigos, Robin dizia: “É o vento”, e tornava a dormir. As mulheres vinham lavar roupa nos lagos. Desde então tudo se acabou para nós. Como não vivíamos senão da crença popular, perdendo-a, tínhamos perdido tudo. A virtude das nossas varas de condão esvaiu-se, e, de poderosas rainhas que éramos, transformamo-nos em velhas mulheres, enrugadas, malvadas como fadas esquecidas; com o pão para ganhar e mãos que não sabiam fazer nada, além disso.
Durante algum tempo, éramos encontradas nas florestas, arrastando cargas de lenha seca ou amontoando espigas à beira das estradas. Mas os florestais eram duros para nós, os camponeses nos atiravam pedras. Então, como os pobres que não encontram mais no que ganhar a vida na região, fomos procurar trabalho nas grandes cidades.
Algumas entraram nas fiações. Outras venderam maçãs de inverno, à entrada das pontes, ou objetos religiosos nas portas das igrejas. Empurrávamos diante de nós carrocinhas de laranjas, estendíamos aos passantes ramalhetes de um níquel, que ninguém queria, e os pequenos zombavam de nossos queixos trêmulos, e os sargentos da cidade nos faziam correr, e os ônibus nos atropelavam. Depois a doença, as privações, um lençol de hospital sobre a cabeça… E eis aí como a França deixou todas as suas fadas morrerem. Ela tem sido bem punida por isso!
Sim, sim! Riam, meus caros. Não obstante, acabamos de ver no que se torna um país que não tem mais fadas. Vimos todos esses camponeses gananciosos e sorridentes abrirem suas caixas de pão aos prussianos e lhes indicarem as estradas. Aí está! Robin não acreditava mais nos sortilégios; mas também não acreditava mais na pátria… Ah! se houvéssemos estado ali, nós outras, de todos esses alemães que entraram em França não sairia um vivo. Nossos duendes, nossos feios diabinhos os teriam conduzido pelos caminhos que se afundam na terra. Em todas as fontes puras que levavam nossos nomes, teríamos misturado beberagens encantadas que os teriam enlouquecido; e, em nossas reuniões, ao luar, com uma palavra mágica, teríamos confundido de tal forma as estradas, os rios, e entrançado tão bem espinhos, sarças, carrascais — essas partes baixas do bosque, onde eles iam sempre enroscar-se — que os olhinhos de gato do Sr. de Moltke não poderiam jamais reconhecê-los.
Conosco os camponeses teriam marchado. Grandes flores dos nossos lagos nos teriam dado bálsamo para os ferimentos, os fios da Virgem nos teriam servido de pensos; e, nos campos de batalha, o soldado, ao morrer, teria visto a fada do seu cantão inclinar-se sobre seus olhos semifechados, para lhe mostrar um canto de bosque, um trecho de estrada, alguma coisa que lhe lembrasse a terra natal. É com isto que se faz a guerra nacional, a guerra santa. Mas, ai de nós! Nos países que já não creem, nos países que já não têm fadas, essa guerra não é mais possível.
Aqui a frágil voz delicada interrompeu-se por um momento, e o presidente tomou a palavra:
— Tudo isto não nos diz o que fazia a senhora com o petróleo encontrado em seu poder, quando os soldados a detiveram.
— Eu queimava Paris, meu bom senhor — respondeu a velha, muito tranquilamente. — Eu incendiava Paris, porque a odeio, porque ela se ri de tudo, porque foi ela que nos matou. Foi Paris que enviou sábios para analisarem nossas belas fontes miraculosas, e dizerem exatamente o que entrava de ferro e de enxofre na sua composição. Paris zombou de nós nos teatros. Nossos encantamentos se tornaram truques; nossos milagres, divertimentos; e viram-se tantas caras abjetas ostentarem nossos vestidos cor-de-rosa, nossos carros alados, em meio ao luar e aos fogos de Bengala, que ninguém mais pensa em nós sem rir… Havia pequerruchos que nos conheciam pelos nomes, que nos amavam e nos temiam um pouco.
Mas, em lugar dos belos livros, enfeitados de ouro e de figuras, onde aprendiam nossa história, Paris agora lhes põe nas mãos a ciência ao alcance das crianças, grossos alfarrábios, de onde o aborrecimento remonta como poeira cinzenta e apaga nos pequeninos olhos os palácios encantados e os espelhos mágicos… Oh! sim, estou contente de os ver queimar, vossa Paris… Era eu que enchia as caixas dos incendiários, e eu própria que os conduzia aos lugares adequados: “Vão, meus filhos, queimem tudo, queimem, queimem…”
— Decididamente, essa velha é louca — disse o presidente. — Podem levá-la.
Alphonse Daudet
Ocorreu um movimento hediondo no banco dos réus incendiários, e algo informe e tiritante veio apoiar-se contra a barra. Era um feixe de trapos, de buracos, de peças, de cordas, de velhas flores, de velhos penachos; por cima de tudo, um pobre rosto fanado, brunido, enrugado, maltratado, em que a malícia de dois pequenos olhos negros cintilava no meio das rugas, como um lagarto na fenda de um velho muro.
— Como se chama? — perguntaram-lhe.
— Melusina.
— Como disse?…
Ela repetiu gravemente:
— Melusina.
Sob o forte bigode de coronel dos dragões, o presidente teve um sorriso, mas continuou impassível:
— Idade?
— Não sei mais.
— Profissão?
— Eu sou fada!…
De espanto, o auditório, o conselho, o próprio comissário do governo, toda a gente, enfim, soltou uma grande gargalhada. Mas isso não a perturbou absolutamente, e com voz frágil, clara e cheia de trêmulos, que subia alto na sala e planava como uma voz de sonho, a velha retornou:
— Ah! as fadas da França! Onde estão elas? Todas mortas, meus bons senhores. Eu sou a última. Não resta mais nenhuma senão eu… Na verdade, é grande prejuízo, pois a França era bem mais bela quando ainda tinha fadas. Éramos a poesia do país, sua fé, sua candura, sua juventude. Todos os lugares que freqüentávamos — os fundos dos parques cheios de mataréu, as pedras das fontes, as pequenas torres dos velhos castelos, as brumas dos lagos, as grandes planícies pantanosas — recebiam de nossa presença algo de mágico e de imenso. À claridade fantástica das lendas, viam-nos passar um pouco por toda parte, arrastando as saias num raio de luar, ou correndo pelos prados, na extremidade das plantas. Os camponeses nos amavam, nos veneravam.
Nas imaginações ingênuas, nossas frontes coroadas de pérolas, nossas varinhas de condão, nossos bastões encantados, misturavam um pouco de temor à adoração. Nossas fontes, igualmente, permaneciam sempre claras. As charruas se detinham nos caminhos que guardávamos; e como inspirávamos o respeito pelo que era antigo — nós, as mais velhas do mundo — de um a outro extremo da França deixavam-se as florestas crescerem, as pedras se deslocarem por si mesmas.
Mas o século progrediu. As estradas de ferro vieram. Cavaram-se túneis, entulharam-se os lagos, cortaram-se tantas árvores, que bem depressa não sabíamos mais onde nos metermos. Pouco a pouco, os camponeses deixaram de acreditar em nós. À noite, quando batíamos nos postigos, Robin dizia: “É o vento”, e tornava a dormir. As mulheres vinham lavar roupa nos lagos. Desde então tudo se acabou para nós. Como não vivíamos senão da crença popular, perdendo-a, tínhamos perdido tudo. A virtude das nossas varas de condão esvaiu-se, e, de poderosas rainhas que éramos, transformamo-nos em velhas mulheres, enrugadas, malvadas como fadas esquecidas; com o pão para ganhar e mãos que não sabiam fazer nada, além disso.
Durante algum tempo, éramos encontradas nas florestas, arrastando cargas de lenha seca ou amontoando espigas à beira das estradas. Mas os florestais eram duros para nós, os camponeses nos atiravam pedras. Então, como os pobres que não encontram mais no que ganhar a vida na região, fomos procurar trabalho nas grandes cidades.
Algumas entraram nas fiações. Outras venderam maçãs de inverno, à entrada das pontes, ou objetos religiosos nas portas das igrejas. Empurrávamos diante de nós carrocinhas de laranjas, estendíamos aos passantes ramalhetes de um níquel, que ninguém queria, e os pequenos zombavam de nossos queixos trêmulos, e os sargentos da cidade nos faziam correr, e os ônibus nos atropelavam. Depois a doença, as privações, um lençol de hospital sobre a cabeça… E eis aí como a França deixou todas as suas fadas morrerem. Ela tem sido bem punida por isso!
Sim, sim! Riam, meus caros. Não obstante, acabamos de ver no que se torna um país que não tem mais fadas. Vimos todos esses camponeses gananciosos e sorridentes abrirem suas caixas de pão aos prussianos e lhes indicarem as estradas. Aí está! Robin não acreditava mais nos sortilégios; mas também não acreditava mais na pátria… Ah! se houvéssemos estado ali, nós outras, de todos esses alemães que entraram em França não sairia um vivo. Nossos duendes, nossos feios diabinhos os teriam conduzido pelos caminhos que se afundam na terra. Em todas as fontes puras que levavam nossos nomes, teríamos misturado beberagens encantadas que os teriam enlouquecido; e, em nossas reuniões, ao luar, com uma palavra mágica, teríamos confundido de tal forma as estradas, os rios, e entrançado tão bem espinhos, sarças, carrascais — essas partes baixas do bosque, onde eles iam sempre enroscar-se — que os olhinhos de gato do Sr. de Moltke não poderiam jamais reconhecê-los.
Conosco os camponeses teriam marchado. Grandes flores dos nossos lagos nos teriam dado bálsamo para os ferimentos, os fios da Virgem nos teriam servido de pensos; e, nos campos de batalha, o soldado, ao morrer, teria visto a fada do seu cantão inclinar-se sobre seus olhos semifechados, para lhe mostrar um canto de bosque, um trecho de estrada, alguma coisa que lhe lembrasse a terra natal. É com isto que se faz a guerra nacional, a guerra santa. Mas, ai de nós! Nos países que já não creem, nos países que já não têm fadas, essa guerra não é mais possível.
Aqui a frágil voz delicada interrompeu-se por um momento, e o presidente tomou a palavra:
— Tudo isto não nos diz o que fazia a senhora com o petróleo encontrado em seu poder, quando os soldados a detiveram.
— Eu queimava Paris, meu bom senhor — respondeu a velha, muito tranquilamente. — Eu incendiava Paris, porque a odeio, porque ela se ri de tudo, porque foi ela que nos matou. Foi Paris que enviou sábios para analisarem nossas belas fontes miraculosas, e dizerem exatamente o que entrava de ferro e de enxofre na sua composição. Paris zombou de nós nos teatros. Nossos encantamentos se tornaram truques; nossos milagres, divertimentos; e viram-se tantas caras abjetas ostentarem nossos vestidos cor-de-rosa, nossos carros alados, em meio ao luar e aos fogos de Bengala, que ninguém mais pensa em nós sem rir… Havia pequerruchos que nos conheciam pelos nomes, que nos amavam e nos temiam um pouco.
Mas, em lugar dos belos livros, enfeitados de ouro e de figuras, onde aprendiam nossa história, Paris agora lhes põe nas mãos a ciência ao alcance das crianças, grossos alfarrábios, de onde o aborrecimento remonta como poeira cinzenta e apaga nos pequeninos olhos os palácios encantados e os espelhos mágicos… Oh! sim, estou contente de os ver queimar, vossa Paris… Era eu que enchia as caixas dos incendiários, e eu própria que os conduzia aos lugares adequados: “Vão, meus filhos, queimem tudo, queimem, queimem…”
— Decididamente, essa velha é louca — disse o presidente. — Podem levá-la.
Alphonse Daudet
O episódio da curicaca
Perdoe-me o leitor que não use, para poder escrever nestes duros tempos de censura branda, dos processos em moda, apólogos sutis, a história de Brucutu ou o caso do sr. Meirelles. Sou homem de pouca imaginação e já nem lembro que tive dezoito anos e fiz versos. Meu problema é o fato, quando não o fato presente, pelo menos o fato histórico. Neste plano tive uma decepção, escrevi sobre Floriano e Saldanha, não pôde sair. Paciência.
Não falarei, pois, de homens, presentes ou passados. Nem de ideias, mesmo as do futuro. Vou me limitar a um assunto particularíssimo, numa esperança talvez vã: a de encontrar, entre os que se debruçarem, descuidados, neste peitoril da página 4, algum dos meus vizinhos de Santa Teresa, a quem devo desculpas. Eu sou aquele morador de uma casa com muitos meninos e alguns bichos; e a minha explicação versa justamente sobre um dos bichos.
Havia no começo jurarás (que paraenses e amazonenses teimam em denominar “muçuans” contra toda a lógica verbal que neles indica precisamente a figura de jurarás), um quati, alguns paturis, várias marrecas, uma galinha d’água e uma curicaca. Havia, também, um papagaio, que atendia pelo nome de Picolé e assobiava. Falava também algumas graças, o que não o impediu de entristecer e morrer, fazendo-se o enterro com grande acompanhamento. E um jabuti, de que ia me esquecendo, revelava as tendências humanitárias da casa, dada à circunstância de que sendo, além de capenga, mudo e preguiçoso (passava larga parte do tempo desaparecido), foi sempre tratado com exclamações quando aparecia. Ainda agora verificamos que está largando o casco: eu quis mandar matá-lo (as soluções radicais são, às vezes, do meu agrado), mas os meninos se opuseram sob o pretexto de que não é doença o que o bicho tem: foi água quente que um deles (sem saber nem querer) jogou nele, escondido no capim, com o programa inocente de matar formigas.
O jabuti não é, porém, o problema. As desculpas aos vizinhos eu as devo pela galinha d’água.
Essa eu a trouxe de São Luís, comprei no largo do Carmo, sempre acreditei que tivesse vindo da baixada maranhense, quem sabe se dos lagos que neste tempo… Mas não me desviarei do assunto. Conhecereis decerto a ave arisca, com seus reflexos de cobre e sua ligeireza feminina no andar elegantíssimo. Aqui pelo Sul chamam-na também de saracura. E lá pelo Norte nós também temos outro nome: três-potes, tradução modesta e onomatopaica da cantiga com que amanhece e entardece: tré-pot, tré-pot, tré-pot, tré-pot, pot, pot, pot, pot (o sr. Eurico Santos, que tão saborosamente escreve sobre os bichos do Brasil, me ensina que as fêmeas é que são assim pleonásticas: os machos entoam discretos: “pôt”, mais ou menos um pôt apenas). O canto sobe alto; e Já Fernão Cardim o definia “cantar estranho, porque quem o ouve cuida ser de uma ave muito grande, sendo ela pequena, porque canta com a boca e juntamente com a traseira faz outro tom sonoro, rijo e forte, ainda que pouco cheiroso, que é para espantar”. Não era exata a teoria do jesuíta; mas buscava uma solução racional para um grito tão desproporcionado. Toquei agora no ponto, não o deixarei escapar: é sobre isto que devemos desculpas aqui por perto. A nossa galinha d’água tem um capricho: não canta à tarde. Corre de um lado para outro, bica o chão, descobre minhocas, em silêncio; mas é raiar nos horizontes a luz da antemanhã, que digo eu? — anunciar-se a despedida da primeira sombra, e já ela invade o espaço do quarteirão inteiro com seu repetido e espantado aviso. Pensamos em matá-la: seria injusto. Que culpa tem ela? Os vizinhos que nos desculpem, se me lerem. Ainda nos mudaremos.
Se a galinha d’água é, sobretudo, um problema para os vizinhos, a curicaca acaba de criá-lo para nós. É um pernalta de bico comprido, também conhecida por maçarico. Não tem grandes novidades na cor, e o cantar, desgracioso, mas com uma ponta de saudade do sertão, se caracteriza pelos extremos: ora se queda horas em silêncio, ora cai numa loquacidade espantosa, desanda a exprimir — eu ia dizer pelos cotovelos mas em tempo retifico — pelo comprido bico uma cantoria monótona, que às vezes pode irritar. Depois de algum tempo de convivência (trouxe-a do Piauí e foi presente do meu amigo Alcobaça, que anda a ensinar espanhol por aquelas bandas), verificamos que tinha um jeito especial para a guarda do poleiro. Nas horas da sesta, habituamo-nos a vê-la coçando as penas das galinhas que se submetiam dóceis a essa carícia, parecia conversa de ministro com deputado. Fiscalizava também as fugas e houve casos em que reconduziu alguns recalcitrantes do jardim para o quintal, debaixo de vara. Creio que isso é que a estragou: verificou quanto podia, pode ver que mandava mesmo, e agora estamos nós com o problema em casa. Deu para matar as galinhas, às bicadas. Será que alguma resistência a impacientou? Outro dia, assisti quando agredia as partes costais de uma pintada que atravessava a quarentena higiênica entre a compra e a morte. Surrou tanto que matou. E já ontem, uma outra — que minha mulher não quis sacrificar porque era a mais bela e estava pondo — não sei que desinteligência teve com a curicaca que a encontramos de oveiro quebrado.
Que estranho fenômeno terá acontecido com a ave, até agora tão útil? Desde quando se convenceu ela de que, em vez de encantar a imaginação dos meninos e provocar estados melancólicos nos donos da casa (a melancolia da saudade), sua função é governar o galinheiro, ditar ordens às galinhas e agredi-las no caso de dizerem “não”?
Admito que queira ficar sozinha, fechar o galinheiro, talvez por ciúmes. Não sei bem. Dr. Eurico Santos que me acuda, a curicaca quer ter o quintal só para ela, o quintal e os olhos da criançada. E não são coisas más.
Quem não dá a menor confiança são as marrecas. Continuam alegres e cantadeiras, tomam banho de gamela (à falta de lagoa ou riacho) e sua conversa cordial, que é um aviso e uma saudação, nos diz, à noite, quando voltamos do cinema, que a casa é nossa e dorme em paz.
Não falarei, pois, de homens, presentes ou passados. Nem de ideias, mesmo as do futuro. Vou me limitar a um assunto particularíssimo, numa esperança talvez vã: a de encontrar, entre os que se debruçarem, descuidados, neste peitoril da página 4, algum dos meus vizinhos de Santa Teresa, a quem devo desculpas. Eu sou aquele morador de uma casa com muitos meninos e alguns bichos; e a minha explicação versa justamente sobre um dos bichos.
Havia no começo jurarás (que paraenses e amazonenses teimam em denominar “muçuans” contra toda a lógica verbal que neles indica precisamente a figura de jurarás), um quati, alguns paturis, várias marrecas, uma galinha d’água e uma curicaca. Havia, também, um papagaio, que atendia pelo nome de Picolé e assobiava. Falava também algumas graças, o que não o impediu de entristecer e morrer, fazendo-se o enterro com grande acompanhamento. E um jabuti, de que ia me esquecendo, revelava as tendências humanitárias da casa, dada à circunstância de que sendo, além de capenga, mudo e preguiçoso (passava larga parte do tempo desaparecido), foi sempre tratado com exclamações quando aparecia. Ainda agora verificamos que está largando o casco: eu quis mandar matá-lo (as soluções radicais são, às vezes, do meu agrado), mas os meninos se opuseram sob o pretexto de que não é doença o que o bicho tem: foi água quente que um deles (sem saber nem querer) jogou nele, escondido no capim, com o programa inocente de matar formigas.
O jabuti não é, porém, o problema. As desculpas aos vizinhos eu as devo pela galinha d’água.
Essa eu a trouxe de São Luís, comprei no largo do Carmo, sempre acreditei que tivesse vindo da baixada maranhense, quem sabe se dos lagos que neste tempo… Mas não me desviarei do assunto. Conhecereis decerto a ave arisca, com seus reflexos de cobre e sua ligeireza feminina no andar elegantíssimo. Aqui pelo Sul chamam-na também de saracura. E lá pelo Norte nós também temos outro nome: três-potes, tradução modesta e onomatopaica da cantiga com que amanhece e entardece: tré-pot, tré-pot, tré-pot, tré-pot, pot, pot, pot, pot (o sr. Eurico Santos, que tão saborosamente escreve sobre os bichos do Brasil, me ensina que as fêmeas é que são assim pleonásticas: os machos entoam discretos: “pôt”, mais ou menos um pôt apenas). O canto sobe alto; e Já Fernão Cardim o definia “cantar estranho, porque quem o ouve cuida ser de uma ave muito grande, sendo ela pequena, porque canta com a boca e juntamente com a traseira faz outro tom sonoro, rijo e forte, ainda que pouco cheiroso, que é para espantar”. Não era exata a teoria do jesuíta; mas buscava uma solução racional para um grito tão desproporcionado. Toquei agora no ponto, não o deixarei escapar: é sobre isto que devemos desculpas aqui por perto. A nossa galinha d’água tem um capricho: não canta à tarde. Corre de um lado para outro, bica o chão, descobre minhocas, em silêncio; mas é raiar nos horizontes a luz da antemanhã, que digo eu? — anunciar-se a despedida da primeira sombra, e já ela invade o espaço do quarteirão inteiro com seu repetido e espantado aviso. Pensamos em matá-la: seria injusto. Que culpa tem ela? Os vizinhos que nos desculpem, se me lerem. Ainda nos mudaremos.
Se a galinha d’água é, sobretudo, um problema para os vizinhos, a curicaca acaba de criá-lo para nós. É um pernalta de bico comprido, também conhecida por maçarico. Não tem grandes novidades na cor, e o cantar, desgracioso, mas com uma ponta de saudade do sertão, se caracteriza pelos extremos: ora se queda horas em silêncio, ora cai numa loquacidade espantosa, desanda a exprimir — eu ia dizer pelos cotovelos mas em tempo retifico — pelo comprido bico uma cantoria monótona, que às vezes pode irritar. Depois de algum tempo de convivência (trouxe-a do Piauí e foi presente do meu amigo Alcobaça, que anda a ensinar espanhol por aquelas bandas), verificamos que tinha um jeito especial para a guarda do poleiro. Nas horas da sesta, habituamo-nos a vê-la coçando as penas das galinhas que se submetiam dóceis a essa carícia, parecia conversa de ministro com deputado. Fiscalizava também as fugas e houve casos em que reconduziu alguns recalcitrantes do jardim para o quintal, debaixo de vara. Creio que isso é que a estragou: verificou quanto podia, pode ver que mandava mesmo, e agora estamos nós com o problema em casa. Deu para matar as galinhas, às bicadas. Será que alguma resistência a impacientou? Outro dia, assisti quando agredia as partes costais de uma pintada que atravessava a quarentena higiênica entre a compra e a morte. Surrou tanto que matou. E já ontem, uma outra — que minha mulher não quis sacrificar porque era a mais bela e estava pondo — não sei que desinteligência teve com a curicaca que a encontramos de oveiro quebrado.
Que estranho fenômeno terá acontecido com a ave, até agora tão útil? Desde quando se convenceu ela de que, em vez de encantar a imaginação dos meninos e provocar estados melancólicos nos donos da casa (a melancolia da saudade), sua função é governar o galinheiro, ditar ordens às galinhas e agredi-las no caso de dizerem “não”?
Admito que queira ficar sozinha, fechar o galinheiro, talvez por ciúmes. Não sei bem. Dr. Eurico Santos que me acuda, a curicaca quer ter o quintal só para ela, o quintal e os olhos da criançada. E não são coisas más.
Quem não dá a menor confiança são as marrecas. Continuam alegres e cantadeiras, tomam banho de gamela (à falta de lagoa ou riacho) e sua conversa cordial, que é um aviso e uma saudação, nos diz, à noite, quando voltamos do cinema, que a casa é nossa e dorme em paz.
Odylo Costa, filho, (Tribuna da Imprensa — 12/12/ 1955)
domingo, julho 26
Uma tarde de música no convento da Conceição
No jardim do convento, Juana canta e tange o alaúde. Luz verde, troncos verdes, verde brisa: estava morto o ar até que ela o tocou com as palavras e a música.
Juana é filha do juiz Maldonado, que distribui os índios da Guatemala em lavouras, minas e oficinas. De mil ducados foi o seu dote para o casamento com Jesus, e no convento seis escravas negras a servem. Enquanto Juana canta letras próprias ou alheias, as escravas, paradas à distância, escutam e esperam.
O bispo, sentado na frente da monja, não pode conter as caretas. Olha a cabeça de Juana inclinada sobre o mastro do alaúde, o pescoço nu, a boca que se abre, iluminada, e dá a si mesmo a ordem de ficar quieto. Tem fama de jamais mudar de expressão quando dá beijos ou os pêsames, mas agora franze essa cara imutável: sua boca se torce e batem asas, rebeldes, as suas pálpebras. Seu pulso firme parece alheio a essa mão que segura, trêmula, um cálice.
As melodias, alabanças a Deus ou melancolias profanas, se elevam na folhagem. Longe, ergue-se o verde vulcão de água e o bispo gostaria de concentrar-se naquelas plantações de milho e trigo e nos mananciais que brilham na ladeira.
O vulcão tem a água presa. Quem se aproxima escuta fervores de marmita. A última vez que vomitou, faz menos de um século, afogou a cidade que Pedro de Alvarado tinha fundado aos seus pés. Aqui, a cada verão treme a terra, prometendo fúrias; e vive a cidade em pânico, entre dois vulcões que cortam a sua respiração. Este a ameaça com o dilúvio. O outro, com o inferno.
Nas costas do bispo, frente ao vulcão de água, ergue-se o vulcão de fogo. As chamas que aparecem pela boca permitem ler cartas a uma légua, em plena noite. De tempos em tempos soa um troar de canhões e o vulcão bombardeia o mundo a pedradas: dispara pedras tão grandes que não as moveriam vinte mulas e enche o céu de cinza e o ar de um enxofre que fede.
Voa a voz da moça.
O bispo olha para o chão, querendo contar formigas, mas seus olhos deslizam até os pés de Juana, que os sapatos ocultam e delatam, e o olhar percorre este corpo bem lavrado que palpita debaixo do hábito branco, enquanto a memória desperta de repente e viaja até a infância. O bispo recorda aquelas vontades que sentia, incontíveis, de morder a hóstia em plena missa, e o pânico de que a hóstia sangrasse; e depois navega por um mar de palavras não ditas e cartas não escritas e sonhos não contados.
De tanto calar, o silêncio soa. O bispo percebe de repente que faz um bom tempo que Juana deixou de cantar e tocar. O alaúde repousa sobre seus joelhos e olha para o bispo, sorrindo muito, com esses olhos que nem ela merece ter. Uma auréola verde flutua ao redor.
O bispo sofre um ataque de tosse. O anis cai no chão e suas mãos ficam com bolhas-d’água de tanto aplaudir.
– Farei de ti superiora! – geme. – Farei de ti abadessa!
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
Juana é filha do juiz Maldonado, que distribui os índios da Guatemala em lavouras, minas e oficinas. De mil ducados foi o seu dote para o casamento com Jesus, e no convento seis escravas negras a servem. Enquanto Juana canta letras próprias ou alheias, as escravas, paradas à distância, escutam e esperam.
O bispo, sentado na frente da monja, não pode conter as caretas. Olha a cabeça de Juana inclinada sobre o mastro do alaúde, o pescoço nu, a boca que se abre, iluminada, e dá a si mesmo a ordem de ficar quieto. Tem fama de jamais mudar de expressão quando dá beijos ou os pêsames, mas agora franze essa cara imutável: sua boca se torce e batem asas, rebeldes, as suas pálpebras. Seu pulso firme parece alheio a essa mão que segura, trêmula, um cálice.
As melodias, alabanças a Deus ou melancolias profanas, se elevam na folhagem. Longe, ergue-se o verde vulcão de água e o bispo gostaria de concentrar-se naquelas plantações de milho e trigo e nos mananciais que brilham na ladeira.
O vulcão tem a água presa. Quem se aproxima escuta fervores de marmita. A última vez que vomitou, faz menos de um século, afogou a cidade que Pedro de Alvarado tinha fundado aos seus pés. Aqui, a cada verão treme a terra, prometendo fúrias; e vive a cidade em pânico, entre dois vulcões que cortam a sua respiração. Este a ameaça com o dilúvio. O outro, com o inferno.
Nas costas do bispo, frente ao vulcão de água, ergue-se o vulcão de fogo. As chamas que aparecem pela boca permitem ler cartas a uma légua, em plena noite. De tempos em tempos soa um troar de canhões e o vulcão bombardeia o mundo a pedradas: dispara pedras tão grandes que não as moveriam vinte mulas e enche o céu de cinza e o ar de um enxofre que fede.
Voa a voz da moça.
O bispo olha para o chão, querendo contar formigas, mas seus olhos deslizam até os pés de Juana, que os sapatos ocultam e delatam, e o olhar percorre este corpo bem lavrado que palpita debaixo do hábito branco, enquanto a memória desperta de repente e viaja até a infância. O bispo recorda aquelas vontades que sentia, incontíveis, de morder a hóstia em plena missa, e o pânico de que a hóstia sangrasse; e depois navega por um mar de palavras não ditas e cartas não escritas e sonhos não contados.
De tanto calar, o silêncio soa. O bispo percebe de repente que faz um bom tempo que Juana deixou de cantar e tocar. O alaúde repousa sobre seus joelhos e olha para o bispo, sorrindo muito, com esses olhos que nem ela merece ter. Uma auréola verde flutua ao redor.
O bispo sofre um ataque de tosse. O anis cai no chão e suas mãos ficam com bolhas-d’água de tanto aplaudir.
– Farei de ti superiora! – geme. – Farei de ti abadessa!
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
Creio que o guarda-chuva
Creio que o guarda-chuva é uma excelente invenção. Repare: não é um objecto que acabe com a chuva, é sim algo que evita a chuva individualmente. Não gosto dela, mas não acabo com ela, não a destruo. O guarda-chuva é uma filosofia que usamos no quotidiano. A água continua a cair nos campos, apenas evito que me estrague o penteado. É um objecto bondoso, que não magoa ninguém.
Afonso Cruz, "Flores"
O amigo do demônio
— Senhor conde Lucanor — disse Patronio —, um homem que havia sido rico ficou tão pobre que não tinha o que comer. Como não há no mundo maior desgraça que o infortúnio para o que já foi ditoso, aquele homem, que de tanta prosperidade havia sucumbido a tanta desventura, estava muito triste. Um dia, em que caminhava sozinho no bosque, muito aflito e preocupado, encontrou-se com o demônio. Como este sabe tudo o que acontece, sabia por que aquele homem estava tão triste. Apesar disto, perguntou-lhe a causa de sua tristeza.
O homem indagou por que motivo falaria, já que não havia como ser ajudado. O demônio replicou que, se ele lhe rendesse obediência, iria remediá-lo. E, para que o homem visse o que poderia fazer em seu favor, disse-lhe aquilo em que vinha pensando e a razão pela qual estava triste. Então contou ao homem a sua própria história e o motivo de sua tristeza, como quem muito bem de tudo sabia.
Disse-lhe, também, que, se quisesse fazer o que lhe dissesse, o tiraria da miséria e o faria mais rico que qualquer outro de sua linhagem, porquanto era o demônio e podia mesmo realizar tais coisas.
Quando o homem o ouviu dizer que era o demônio, ficou com muito medo, mas pela aflição e penúria em que encontrava, respondeu que, se voltasse a ficar rico, faria o que o demônio quisesse.
Saiba que demônio procura o momento mais propício para nos enganar. Quando o homem está em estado de muita necessidade ou abatimento, ou muito inquieto pelo temor ou pelo desejo de algo, consegue dele tudo o que se quer. Por isto, ao ver a aflição do homem, o demônio buscou um modo de enganá-lo.
Então fizeram um pacto e o homem declarou-se vassalo do demônio. Feito isto, disse-lhe o demônio que, doravante, passasse a roubar, pois nunca encontraria porta ou casa tão bem trancadas que não lhe fossem abertas, e que, se por acaso se visse em algum perigo, ou se fosse levado à prisão, não teria mais que o chamar, dizendo: “Socorra-me, dom Martín”, para que ele viesse, imediatamente, para livrá-lo daquele perigo. Depois, separam-se.
Quando anoiteceu, o homem rumou à casa de um mercador, pois os que querem fazer o mal têm aversão à luz. Ao chegar à porta, abriu-a o demônio, que fez o mesmo com as arcas, de modo que o homem pôde assenhorar-se de uma grande quantidade de dinheiro. No dia seguinte, fez um furto muito grande, e depois outro, até que ficou tão rico que não mais se recordava da miséria que havia passado.
O infeliz, não satisfeito por sair da pobreza, continuou roubando. Tanto roubou que acabou por ser preso. E quando o prenderam, clamou por dom Martín. Dom Martín chegou muito depressa e o livrou em seguida. Ao ver o homem que dom Martín cumpria a sua palavra, voltou a roubar e tanto roubou que chegou a ser muitíssimo rico.
Num destes roubos, foi novamente preso e chamou dom Martín, que não veio tão depressa quanto ele queria. Os juízes do lugar onde ele praticara o roubo já haviam começado a fazer as suas averiguações. Quando chegou dom Martín, o homem lhe disse:
— Ah, dom Martín, quanto medo eu passei! Por que não vieste antes?
Respondeu-lhe dom Martín que estava ocupado com um assunto urgente e que por isso se atrasara. Imediatamente, tirou-o da prisão.
O homem voltou a roubar. Ao cabo de muitos roubos, foi de novo preso e, realizado pelos juízes o interrogatório, foi condenado. Prolatada a sentença, veio dom Martín e o pôs na rua. Vendo o homem que dom Martín sempre o soltava, continuou roubando. Outra vez foi preso e chamou dom Martín, mas quando este chegou, o homem já havia sido condenado à morte. Recorreu dom Martín ao indulto real e, deste modo, voltou a libertá-lo.
Continuou roubando, foi preso outra vez e chamou dom Martín, mas quando este chegou, estava o homem ao pé da forca. Ao vê-lo, disse o homem:
— Ah, dom Martim, saiba que esta não foi de brincadeira! Não sabes o medo que tive!
Dom Martín lhe disse que lhe trazia quinhentos maravedis em uma bolsa, que os desse ao juiz e que, desta maneira, ficaria livre. O juiz havia dado a ordem de que o enforcassem e já estavam procurando a corda para isto. Enquanto a procuravam, chegou o homem ao juiz e lhe deu a bolsa. Crendo o juiz que o sentenciado lhe dera muito dinheiro, disse às pessoas que ali se encontravam:
— Amigos, alguém já viu faltar corda para enforcar um homem? Eu creio que este homem é inocente e, como Deus não quer que ele morra, falta-nos agora a corda. Esperemos até amanhã e vejamo-lo com mais atenção, porque, se ele for culpado, tempo nos resta para fazer justiça.
O juiz dizia isto para libertá-lo em troca do dinheiro que havia recebido, mas quando se afastou e olhou a bolsa de couro, em vez do dinheiro encontrou uma corda de enforcar. Imediatamente, mandou pendurar o prisioneiro. Tendo o verdugo ajustado aquela mesma corda ao seu pescoço, o homem pediu a dom Martín que o socorresse. Replicou dom Martín que sempre ajudava a todos os seus amigos, mas até que estes chegassem ao extremo do patíbulo; depois, não mais. Deste modo, perdeu aquele homem a vida e a alma por crer e fiar-se do demônio.
O homem indagou por que motivo falaria, já que não havia como ser ajudado. O demônio replicou que, se ele lhe rendesse obediência, iria remediá-lo. E, para que o homem visse o que poderia fazer em seu favor, disse-lhe aquilo em que vinha pensando e a razão pela qual estava triste. Então contou ao homem a sua própria história e o motivo de sua tristeza, como quem muito bem de tudo sabia.
Disse-lhe, também, que, se quisesse fazer o que lhe dissesse, o tiraria da miséria e o faria mais rico que qualquer outro de sua linhagem, porquanto era o demônio e podia mesmo realizar tais coisas.
Quando o homem o ouviu dizer que era o demônio, ficou com muito medo, mas pela aflição e penúria em que encontrava, respondeu que, se voltasse a ficar rico, faria o que o demônio quisesse.
Saiba que demônio procura o momento mais propício para nos enganar. Quando o homem está em estado de muita necessidade ou abatimento, ou muito inquieto pelo temor ou pelo desejo de algo, consegue dele tudo o que se quer. Por isto, ao ver a aflição do homem, o demônio buscou um modo de enganá-lo.
Então fizeram um pacto e o homem declarou-se vassalo do demônio. Feito isto, disse-lhe o demônio que, doravante, passasse a roubar, pois nunca encontraria porta ou casa tão bem trancadas que não lhe fossem abertas, e que, se por acaso se visse em algum perigo, ou se fosse levado à prisão, não teria mais que o chamar, dizendo: “Socorra-me, dom Martín”, para que ele viesse, imediatamente, para livrá-lo daquele perigo. Depois, separam-se.
Quando anoiteceu, o homem rumou à casa de um mercador, pois os que querem fazer o mal têm aversão à luz. Ao chegar à porta, abriu-a o demônio, que fez o mesmo com as arcas, de modo que o homem pôde assenhorar-se de uma grande quantidade de dinheiro. No dia seguinte, fez um furto muito grande, e depois outro, até que ficou tão rico que não mais se recordava da miséria que havia passado.
O infeliz, não satisfeito por sair da pobreza, continuou roubando. Tanto roubou que acabou por ser preso. E quando o prenderam, clamou por dom Martín. Dom Martín chegou muito depressa e o livrou em seguida. Ao ver o homem que dom Martín cumpria a sua palavra, voltou a roubar e tanto roubou que chegou a ser muitíssimo rico.
Num destes roubos, foi novamente preso e chamou dom Martín, que não veio tão depressa quanto ele queria. Os juízes do lugar onde ele praticara o roubo já haviam começado a fazer as suas averiguações. Quando chegou dom Martín, o homem lhe disse:
— Ah, dom Martín, quanto medo eu passei! Por que não vieste antes?
Respondeu-lhe dom Martín que estava ocupado com um assunto urgente e que por isso se atrasara. Imediatamente, tirou-o da prisão.
O homem voltou a roubar. Ao cabo de muitos roubos, foi de novo preso e, realizado pelos juízes o interrogatório, foi condenado. Prolatada a sentença, veio dom Martín e o pôs na rua. Vendo o homem que dom Martín sempre o soltava, continuou roubando. Outra vez foi preso e chamou dom Martín, mas quando este chegou, o homem já havia sido condenado à morte. Recorreu dom Martín ao indulto real e, deste modo, voltou a libertá-lo.
Continuou roubando, foi preso outra vez e chamou dom Martín, mas quando este chegou, estava o homem ao pé da forca. Ao vê-lo, disse o homem:
— Ah, dom Martim, saiba que esta não foi de brincadeira! Não sabes o medo que tive!
Dom Martín lhe disse que lhe trazia quinhentos maravedis em uma bolsa, que os desse ao juiz e que, desta maneira, ficaria livre. O juiz havia dado a ordem de que o enforcassem e já estavam procurando a corda para isto. Enquanto a procuravam, chegou o homem ao juiz e lhe deu a bolsa. Crendo o juiz que o sentenciado lhe dera muito dinheiro, disse às pessoas que ali se encontravam:
— Amigos, alguém já viu faltar corda para enforcar um homem? Eu creio que este homem é inocente e, como Deus não quer que ele morra, falta-nos agora a corda. Esperemos até amanhã e vejamo-lo com mais atenção, porque, se ele for culpado, tempo nos resta para fazer justiça.
O juiz dizia isto para libertá-lo em troca do dinheiro que havia recebido, mas quando se afastou e olhou a bolsa de couro, em vez do dinheiro encontrou uma corda de enforcar. Imediatamente, mandou pendurar o prisioneiro. Tendo o verdugo ajustado aquela mesma corda ao seu pescoço, o homem pediu a dom Martín que o socorresse. Replicou dom Martín que sempre ajudava a todos os seus amigos, mas até que estes chegassem ao extremo do patíbulo; depois, não mais. Deste modo, perdeu aquele homem a vida e a alma por crer e fiar-se do demônio.
Juan Manuel de Castela
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