Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sábado, agosto 22
A mãe do menino
A casa era pequena, mas os dias tinham sempre as mãos zelosas da mãe. Colocavam nos vasos as rosas colhidas na roseira que ela mesma plantara, as quais agora como sonho enfeitado de pétalas davam a sensação de que a manhã era rosada e perfumada. Esbanjavam pelos ares só ternura.
Davam vida à máquina de costura as suas pernas ativas. Os bordados, como beleza tecida por mãos até certo ponto divinas, ganhavam admiração de quem fizesse a encomenda e fosse recebê-la quando estava pronta. Como o mundo de Deus era grandão. Os doces que a mãe fazia cativavam com açúcar.
Uma mãe é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe, certo dia ela disse, mas só depois como homem crescido o filho saberia o sentido justo do que a mãe quis dizer com isso. Conheceria então nos dias ásperos quanta falta as suas mãos faziam, pois já não mais cuidavam, não limpavam os caminhos na lei da vida para que ele estivesse seguro para fazer a travessia. Teriam de ser um dia com o filho sozinho os caminhos a percorrer na jornada da vida.
Da balaustrada no jardim gostava de olhar as nuvens acima do rio levando castelos, gente e carga. Antes que a noite chegasse, desenhavam gigantes, às vezes velhos barbudos, um deles apareceu em pé no tapete. De calção, peito nu, lá no pátio da casa, ficava vendo a passagem das nuvens no azul do céu. Como elas que retornavam naquele pedaço de céu, ele voltaria um dia para brincar com os amigos de infância quando já fosse um homem? Só havia um jeito de regressar ao passado, rindo, a mãe disse, sonhando acordado. Um homem com o menino conversando.
— Você quer ser peixe ou ser gente? — preocupada, a mãe perguntou. — Primeiro a obrigação, depois a diversão, só anda agora com o bando de amigos nadando e pescando no rio. Finalizou séria e se dirigiu calada para a cozinha.
A mãe alimentava com o marido a ideia de que o filho deveria estudar para se tornar um dia um homem formado, um cidadão de bem, exercendo na sociedade uma profissão importante como a de advogado, médico ou engenheiro civil.
A mãe e o pai ficaram contentes de alegria quando o filho regressou à cidade natal formado em advocacia. Era tudo que queriam para o filho caçula, o mais velho tornou-se em pouco tempo um médico cirurgião dos mais conceituados na cidade.
Cyro de Mattos
Dentro dos livros
marcas de quando os lemos.
Bilhetes de cinema,
autocarro, apontamentos
com demasiadas
abreviaturas, folhas
que dizem «não esquecer»
e foram esquecidas.
Nesta tarde li este verso.
O romance na página 89.
Agrupar os eventos
por contiguidade, remissão,
a data muito precisa
destes acasos
mais importantes
que a biografia.
Pedro Mexia
Pequena digressão
Logo no começo da fundação dos Quinze-Vingts, sabe-se que os asilados eram todos iguais e seus assuntos se decidiam por votação. Distinguiam perfeitamente, pelo tato, a moeda de cobre da de prata; nenhum deles tomou jamais vinho de Brie por vinho de Borgonha. Seu olfato era mais fino que o de seus patrícios que tinham dois olhos. Aprofundaram-se perfeitamente nos quatro sentidos. Isto é, ficaram sabendo acerca deles tudo quanto é possível; e viveram tranqüilos e felizes na medida em que os cegos o podem ser. Infelizmente, um de seus professores julgou possuir noções claras sobre o sentido da vista; fez-se ouvir, intrigou, granjeou partidários; reconheceram-no afinal como chefe da comunidade. Pôs-se a julgar soberanamente em matéria de cores, e aí é que foi a perdição.
Esse primeiro ditador dos Quinze-Vingts formou primeiro um pequeno conselho, com o qual se tornou depositário de todas as esmolas. Por esse motivo, ninguém se atreveu a resistir-lhe. Decidiu ele que todas as roupas do Quinze-Vingts eram brancas; os cegos acreditaram; não falavam senão de seus belos trajes brancos, embora não houvesse entre eles um único dessa cor. Como todo o mundo começasse então a zombar deles, foram queixar-se ao ditador, que os recebeu muito mal; tratou-os de inovadores, de espíritos fortes, de rebeldes, que se deixavam seduzir pelas opiniões errôneas daqueles que tinham olhos e ousavam duvidar da infalibilidade de seu senhor. Dessa querela, formaram-se dois partidos.
O ditador, para os apaziguar, baixou um decreto segundo o qual todas as suas vestes eram vermelhas. Não havia uma única veste vermelha entre os Quinze-Vingts. Riram-se deles mais do que nunca. Novas queixas da comunidade. O ditador enfureceu-se, os outros cegos também. Disputaram longamente, e só se restabeleceu a concórdia quando foi permitido, a todos os Quinze-Vingts, suspenderem o juízo sobre a cor de sua roupa.
Um surdo, ao ler esta pequena história, confessou que os cegos tinham feito muito mal em querer julgar a respeito de cores, mas permaneceu firme na opinião de que só aos surdos compete falar de música.
Voltaire
Os bonecos de barro
Como, como explicar o milagre… Ela se amedrontava pensativa. Nada dizia, não se movia, mas interiormente sem nenhuma palavra repetia: Eu não sou nada, não tenho orgulho, tudo me pode acontecer; se quiser, me impedirá de fazer a massa de barro; se quiser, pode me pisar, me estragar tudo; eu sei que não sou nada. Era menos que uma visão, era uma sensação no corpo, um pensamento assustado sobre o que lhe permita conseguir tanto barro e água e diante de quem ela devia humilhar-se com seriedade . Ela lhe agradecia com uma alegria difícil, frágil e tensa; sentia em alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados. Mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como a ausência — compreendia-se ela, assentindo feroz e muda com a cabeça. Mas nada sabia de si, passaria inocente e distraída pela sua realidade sem reconhecê-la; como uma criança, como uma pessoa.
Depois de obtida a matéria, numa queda de cansaço ela poderia perder a vontade de fazer bonecos. Então ia vivendo para a frente como uma menina.
Um dia, porém, sentia seu corpo aberto e fino, e no fundo uma serenidade que não se podia conter, ora se desconhecendo, ora respirando trêmula de alegria, as coisas incompletas. Ela mesma insone como luz — esgazeada, fugaz, vazia, mas no íntimo um ardor que era vontade de guiar-se a uma só coisa, um interesse que fazia o coração acelerar-se sem ritmo… de súbito, como era vago viver. Tudo isso também poderia passar, a noite caindo repentinamente, a escuridão fresca sobre o dia morno.
Mas às vezes ela se lembrava do barro molhado, corria alegre e assustada para o pátio: mergulhava os dedos naquela mistura fria, muda e constante como uma espera; amassava, amassava, aos poucas ia extraindo formas. Fazia crianças, cavalos, uma mãe com um filho, uma mãe sozinha, uma menina fazendo coisas de barro, um menino descansando, uma menina contente, uma menina vendo se ia chover, uma flor, um cometa de cauda salpicada de areia lavada e faiscante, uma flor murcha com sol por cima, o cemitério do Brejo Alto, uma moça olhando… Muito mais, muito mais. Pequenas formas que nada significavam, mas que eram na realidade misteriosas e calmas. Às vezes alta como uma árvore alta, mas não eram árvores, nem eram nada…Ás vezes um pequeno objeto de forma quase estrelada, mas sério e cansado como uma pessoa. Um trabalho que jamais acabaria, isso era o que de mais bonito e atento ela já soubera. Pois se ela podia fazer o que existia e o que não existia!…
Depois de prontos, os bonecos eram colocados ao sol. Ninguém lhe ensinara, mas ela os depositava nas manchas de sol no chão, manchas sem vento nem ardor. O barro secava mansamente, conservava o tom claro, não enrugava, não rachava. mesmo quando seco parecia delicado, evanescente e úmido. E ela própria podia confundi-lo com o barro pastoso. As figurinhas assim, pareciam rápidas, quase como se fossem se desmanchar — e isso era como se elas fossem se movimentar. Olhava para o boneco imóvel e mudo. Por amor ou apenas prosseguindo o trabalho ela fechava os olhos e se concentrava numa força viva e luminosa, da qualidade do perigo e da esperança, numa força de sede que lhe percorria o corpo celeremente com um impulso que se destinava à figura. Quando, enfim, se abandonava, seu fresco e cansado bem-estar vinha de que ela podia enviar, embora não soubesse o que, talvez. Sim ela às vezes possuía um gosto dentro do corpo, um gosto alto e angustiante que tremia entre a força e o cansaço — era um pensamento como sons ouvidos, uma flor no coração: Antes que ele se dissolvesse, maciamente rápido, no seu ar interior, para sempre fugitivo, ela tocava com os dedos num objeto, entregando-o. E, quando queria dizer algo que vinha fino, obscuro e liso — e isso poderia ser perigoso — ela encostava um dedo apenas, um dedo pálido, polido e transparente, um dedo trêmulo de direção. No mais agudo e doído do seu sentimento ela pensava: Sou feliz. Na verdade, ela o era nesse instante, e se em vez de pensar: Sou feliz, procurava o futuro, era porque, obscuramente, escolhia um movimento para a frente que servisse de forma à sua sensação.
Assim juntara uma procissão de coisas miúdas. Quedavam-se quase despercebidas no seu quarto. Eram bonecos magrinhos e altos como ela mesma. Minuciosos, ligeiramente desproporcionados, alegres, um pouco perplexos — às vezes, subitamente, pareciam um homem coxo rindo. Mesmo suas figurinhas mais suaves tinham uma imobilidade atenta como a de um santo. E pareciam inclinar-se, para quem as olhava, também como os santos. Virgínia podia fitá-las uma manhã inteira, que seu amor e sua surpresa não diminuiriam.
— Bonito… bonito como uma coisinha molhada, dizia ela excedendo-se num ímpeto imperceptível e doce.
Ela observava: mesmo bem acabados, eles eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente, ela pensava que nem ela nem ninguém poderia tentar aperfeiçoá-los sem destruir sua linha de nascimento . Era como se eles só pudessem se aperfeiçoar por si mesmos, se isso fosse possível.
As dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo. Seus bonecos, pelo efeito do barro claro, eram pálidos. Se ela queria sombreá-los não o conseguia com o auxílio da cor, e por força dessa deficiência aprendeu a lhes dar sombra ainda por meio de forma. Depois inventou uma liberdade: com uma folhinha seca sob um fino traço de barro conseguia um vago colorido, triste assustada quase inteiramente morto. Misturando barro à terra, obtinha ainda outro material menos plástico, porém mais severo e solene. MAS COMO FAZER O CÉU? Nem começar podia! Não queria nuvens — o que poderia obter, pelo menos grosseiramente — mas o céu, o céu mesmo, com sua existência, cor solta, ausência de cor. Ela descobriu que precisava usar uma matéria mais leve que não pudesse sequer ser apalpada, sentida, talvez apenas vista, quem sabe! Compreendeu que isso ela conseguiria com tintas.
E às vezes numa queda, como se tudo se purificasse, ela se contentava em fazer uma superfície lisa, serena, unida, numa simplicidade fina e tranquila.
Clarice Lispector, "O Lustre"
sexta-feira, agosto 21
Nova York ou interior?
Não era nenhuma confissão sobre crise conjugal. Era, isto sim, uma manifestação da crise nacional (aliás, devo confessar que estou já meio exausto desse papo de crise, pois se num país normal já existe tanta gente em crise, num país em crise tudo é pretexto para os que vivem em crise se debitarem seu baixo astral no baixo astral nacional).
Mas a frase lançada assim entre copos e sorrisos numa esplêndida masão da Barra da Tijuca tinha implicações curiosas. Funcionava como termômetro do momento em que vivemos. E, evidentemente, surgiu depois de uma série de considerações e brincadeiras sobre as milhares de pessoas que estão saindo de Governador Valadares para ir trabalhar nos Estados Unidos.
Não é de hoje que se registra o conflito entre o campo e a cidade. No século passado, Eça de Queirós escreveu As cidades e as Serras. Até Guerra e Paz, de Tolstoi, fala disso. No Brasil, então, é um chavão e realidade. Tenho certeza que os cronistas que antes de mim revezaram neste espaço falaram disso. Alguns talvez tenham até lembrado aquela expressão de Roger Bastide de que o Brasil "é um país de contraste".
Portanto, não é por aí que vou. Vou noutra direção. Para o século 21. Quem for brasileiro, siga-me. E é la que essas diferenças devem diminuir, e, em alguns países, acabar.
Certa vez vivi em Iowa (Estados Unidos) - uma região agrícola famosa que foi indicada para receber a visita de Nikita Kruschev, lembram-se? Ele era aquele precursor da Perestroica, que num debate na ONU tirou o sapato e começou a bater com ele sobre a mesa para chamar a atenção sobre seu discurso.
Não, eu não estava em Iowa estudando agricultura. Estava num programa internacional de escritores. Mas visitei uma fazenda típica, tipicamente do oeste, com americanos típicos, vestindo camisas quadriculadas típicas, jeans típicos, trabalhando em tratores típicos. Só não era muito típica para mim a não diferença que havia entre o campo e a cidade. Porque pouca ou nenhuma diferença havia. A cidade tinha 60.000 habitantes, mas 40.000 estavam ligados à universidade. Uma universidade num ambiente rural, que produzia alguns dos instrumentos mais sofisticados dos foguetes interplanetários e tinha um departamento de música experimental e eletrônica.
A vanguarda, portanto, em muitos aspectos não estava em Nova York. Estava no campo. Tanto na indústria quanto nas artes.
Lembram-se daquele verso de Drummond: "No elevador penso na roça, no roça penso no elevador"? Pois a tendência é ir acabando com essa esquizofrenia. O século 21 nos chama e desafia. Chega de falas antinomias. Campo e cidade não devem mais ser espaços conflitantes.
Me lembro dos anos 60 e 70. Era moda entre os mais jovens tentar a vida no campo. Havia mesmo aquela música de Rodrix que a Elis e outros gravaram: "Eu quero uma casa no campo". E era comum o publicitário, o jornalista ou mesmo o funcionário público fantasiar que o certo era viver no campo. Muita ecologia, paz & amor, bicho! Havia além da ideologia hippie o desencanto político e a fuga do que Marcuse chamava de "sociedade afluente".
Mas não deu certo. Não deu certo o exílio no paraíso.
Era comum a gente reencontrar os mesmo casais reinstalados na cidade daí a algum tampo. "Uai? Não deu certo?". Não. Não tinha dado certo. The dream is over. Eles não estavam preparados para o interior, embora achassem que o interior é que não estava preparado para eles.
É possível que todas as duas coisas fossem verdadeiras.
Mas, vejam lá. Estou falando disseminadamente de século 21, metade porque acredito, metade porque quero acreditar. Imaginem: o mundo está entrando numa totalmente diferente. Está sendo redesenhado. A Europa em 1992 será um só país. As distâncias estão se encurtando. A informática está aproximando os homens no tempo e no espaço. As estrelas estão cada vez mais íntimas. Como ocorre na Europa, castelos e computadores coexistem pacificamente. Nova York e o interior vão se fundir. A sociedade pós-industrial tenderá a diminuir as diferenças culturais e tecnológicas. E a diferença entre Nova York e o interior deixará de ser dramática. Não teremos mais que fazer opções entre uma coisa e outra. Poderemos ter as duas.
A origem do mundo
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direcção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.
Nuno Júdice, “Meditação sobre Ruínas”
Phyllis e Rosamond
Que cada homem, ouvi dizer outro dia, ponha-se a anotar os detalhes de uma jornada de trabalho; a posteridade há de ficar tão contente com o catálogo quanto ficaríamos nós, se tivéssemos um tal registro de como o porteiro do Globe e o homem responsável pelos portões do Park passaram o sábado, 18 de março, do ano da graça de 1568.
Como os retratos desse tipo que temos são quase invariavelmente do sexo masculino, que se empertigava pelo palco com proeminência maior, parece valer a pena tomar como modelo uma dessas muitas mulheres que se agrupam na sombra. Pois que um estudo de história e biografia convence qualquer pessoa bem-intencionada de que essas figuras obscuras ocupam um lugar não diferente daquele que a mão do exibidor assume na dança das marionetes, com o dedo posto no coração. É verdade que nossos olhos ingênuos acreditaram por muitas eras que as figuras dançavam por sua livre vontade, dando os passos que bem queriam; e a luz parcial que romancistas e historiadores já começaram a lançar sobre o espaço apertado e escuro dos bastidores pouco fez por enquanto, a não ser nos mostrar quantos cordões existem, mantidos em mãos ocultas, para uma torção ou puxão dos quais dependem todos os meneios da dança. Este preâmbulo nos conduz pois ao ponto do qual partimos; tão firmes quanto pudermos, tencionamos olhar para um grupinho que vive neste momento (20 de junho de 1906); e que parece, por algumas razões que iremos dar, sintetizar os atributos de muitos. É um caso comum, porque afinal são numerosas as jovens nascidas de pais bem-colocados, respeitáveis e prósperos; e todas elas devem ter muitos dos mesmos problemas, não podendo senão haver, infelizmente, pouca diversidade nas respostas que dão.
São cinco filhas, todas mulheres, como lhe explicarão com pesar: lamentando esse erro inicial, ao que parece pela vida afora, que seus pais cometeram. Além disso, acham-se em campos separados: duas irmãs se opõem a duas; e a quinta vacila uniformemente entre as outras. Decretou a natureza que duas delas herdarão um espírito resoluto e combativo, que se aplica com êxito, e nunca de modo inoportuno, a problemas sociais e à economia política; enquanto as outras duas a natureza fez frívolas, domésticas, de temperamentos mais sensíveis e simples. Essas últimas estão condenadas a ser o que, no jargão do século, chama-se de ”filhas caseiras”. Suas irmãs, decididas a cultivar o espírito, entram na faculdade, lá se dão bem e casam-se com professores. Fazem carreiras tão idênticas às dos próprios homens que nem chega a valer a pena convertê-las em objetos de investigação especial. A quinta irmã distingue-se menos pelo caráter que qualquer uma das outras; casando-se aos 22 anos, mal tem tempo de desenvolver os traços individuais da condição de senhorinha que nos pusemos a descrever. Nas duas ”filhas caseiras”, Phyllis e Rosamond, como as chamaremos, encontramos um material excelente para nossa pesquisa.
Alguns fatos nos ajudarão a colocá-las em seus devidos lugares, antes de iniciarmos o exame. Phyllis tem 28 anos, Rosamond, 24. São pessoas graciosas, de faces rosadas, vivazes; um olhar minucioso não encontrará em seus traços uma beleza perfeita; mas seus trajes e maneiras dão-lhes o efeito da beleza, sem lhes dar a substância. Parecem nativas da sala de visitas, como se, nascidas em vestidos de seda para a noite, jamais tivessem posto o pé num solo mais irregular do que o tapete turco, ou reclinado em superfície mais áspera do que a poltrona ou o sofá. Vê-las na sala cheia de mulheres e homens bem trajados é como ver um negociante na Bolsa, ou um advogado no Fórum. Esta, proclamam cada gesto e palavra, é sua inata aparência; este é o seu local de trabalho, sua arena profissional. Claramente é aqui que elas praticam as artes nas quais foram desde a infância instruídas. Aqui talvez ganhem seu pão e obtenham suas vitórias. Mas seria tão fácil quanto injusto insistir na metáfora até levá-la a sugerir que a comparação fosse adequada e completa em todas as suas partes. Ela falha; mas onde falha e por que falha só pode ser descoberto com atenção e algum tempo.
Deve-se estar em condições de acompanhar estas senhorinhas em casa e de ouvir seus comentários, no quarto de dormir, à luz da vela; deve-se estar a seu lado quando acordam, na manhã seguinte; deve-se assistir às progressões que ambas fazem no decurso do dia. Quem tiver feito isso, e não só por um dia, mas por vários, será então capaz de aquilatar os valores das impressões que estarão por ser recebidas à noite, na sala de visitas.
Eis o tanto que se pode reter da metáfora já utilizada; que o cenário da sala representa para elas trabalho, não diversão. Tudo isso é tornado muito claro pela cena na carruagem que demanda à casa. Lady Hibbert é uma crítica severa de tais performances; ela notou se suas filhas estavam bem, se falaram bem, se se comportaram bem; se atraíram as pessoas certas, repelindo as que não convinham; e se a impressão que deixaram foi favorável no todo. A partir da multiplicidade e da minuciosidade dos seus comentários é fácil perceber que duas horas de entretenimento, para artistas dessa estirpe, são uma produção assaz delicada e complicada. Ao que parece, muito depende da maneira como elas se desempenham. As filhas respondem submissamente e se mantêm caladas, quer a mãe as reprove, quer elogie; e sua censura é acerba. Quando se acham finalmente sozinhas, elas que dividem um quarto modesto pelas dimensões no topo de uma casa grande e feiosa, ei-las que espicham os braços e passam a suspirar de alívio. Não é das mais edi?cantes a conversa que travam; é o ”ramerrame” dos homens de negócios; elas calculam suas perdas e ganhos e é claro que no fundo não têm nenhum interesse, a não ser o próprio. Podem porém ter sido ouvidas a papaguear sobre livros e pinturas e peças, como se fosse a essas coisas que dessem mais importância; discuti-las era a única razão de uma ”festa”.
Observar-se-á também, nessa hora de franqueza pouco atraente, algo que é bem sincero também, embora de modo algum desairoso. As irmãs gostavam muito e abertamente uma da outra. Na maioria dos casos, sua afeição tomou a forma de uma simpatia instintiva que é tudo o que se quiser, menos sentimental; suas esperanças e medos são, sem exceção, partilhados; trata-se porém de um sentimento legítimo, profundo, malgrado seu exterior tão prosaico. Elas são rigorosamente honestas em todas as transações que efetuam juntas; e há até mesmo algo de cavalheiresco na atitude da irmã mais nova para com a mais velha. Sendo essa a mais fraca, por ser a que já tem mais idade, deve sempre ficar com a melhor parte. Há algo de tocante também na gratidão com que Phyllis aceita tal vantagem. Todavia já está ficando tarde e, em atenção às próprias peles, essas moças tão metódicas lembram agora uma à outra que já é hora de apagar a luz.
A despeito da prévia reflexão, não são elas avessas a dormir mais um pouco, depois que as chamam de manhã. Rosamond no entanto se levanta e sacode Phyllis. ”Phyllis, vamo-nos atrasar para o café.”
Deve ter sido de certo peso o argumento, porque Phyllis pulou fora da cama e começou a se arrumar em silêncio. A pressa porém não impediu que elas vestissem suas roupas com grande esmero e destreza, sendo o resultado minuciosamente inspecionado por ambas, cada qual a seu turno, antes de descerem. O relógio batia nove horas quando entraram na copa: o pai, que já estava lá, perfunctoriamente beijou suas duas filhas, passou sua xícara para o café, leu seu jornal e sumiu. Foi uma refeição silenciosa. O desjejum de lady Hibbert era feito no quarto; mas elas, depois do seu, tinham de visitá-la para receber as ordens do dia; enquanto uma tomava notas para a mãe, ia a outra falar com a cozinheira para combinar o almoço e o jantar. Às onze horas ficaram livres, por enquanto, e reencontraram-se no quarto de estudo, onde a irmã mais nova, Doris, de 16 anos, escrevia uma dissertação em francês sobre a Magna Carta. Suas queixas pela interrupção – posto que ela já sonhasse com uma aprovação escolar – não ?zeram jus a honrarias. ”Temos de ficar por aqui, porque não há outro lugar para nós”, observou Rosamond. ”Não precisa pensar que queremos sua companhia”, acrescentou Phyllis. Mas tais reparos foram ditos sem nenhum azedume, como simples e repisados chavões da vida cotidiana.
Contudo, em deferência à irmã, Phyllis pegou um volume de Anatole France, e Rosamond abriu os Estudos gregos de Walter Pater. Por alguns minutos elas leram em silêncio; uma criada depois bateu na porta, esbaforida, com o recado de que ”madame estava chamando as senhoritas na sala”. Todas duas resmungaram; Rosamond se ofereceu para ir sozinha; Phyllis disse que não, que ambas eram vítimas; e, perguntando-se qual seria a incumbência, lá se foram, de mau humor, escada abaixo. Lady Hibbert, impaciente, aguardava-as.
”Oh, enfim vocês chegaram!”, exclamou ela. ”Seu pai mandou dizer que convidou mr. Middleton e sir Thomas Carew para almoçar. Que amolação ele nos arrumou, não é? Não consigo imaginar por que os terá convidado, e almoço não há – e já vi que você não providenciou as flores, Phyllis; e quero que você, Rosamond, ponha uma gola nova no meu vestido marrom. Ah, meu Deus, como os homens são imprevidentes!”
As filhas estavam acostumadas a essas insinuações contra o pai: ficavam em geral do seu lado, mas não o diziam nunca.
Afastavam-se agora, em silêncio, nas suas missões à parte: Phyllis teve de sair para comprar flores e um prato extra para o almoço; Rosamond sentou-se para costurar.
Mal terminaram suas tarefas a tempo de se vestir para o almoço; mas à 1h30 adentravam, sorridentes e rosadas, pela grande e pomposa sala de visitas. Mr. Middleton era secretário de sir William Hibbert; um jovem em boa situação e com perspectivas, tal como o definia lady Hibbert, que poderia ser incentivado. Sir Thomas, funcionário da mesma repartição, era uma parte elegante do conjunto, com sua solidez, sua gota, mas sem nenhuma importância individual.
Durante o almoço animou-se um pouco a conversa entre mr. Middleton e Phyllis, enquanto os mais velhos, em sonoras vozes profundas, diziam banalidades. Rosamond se manteve meio calada, como de seu hábito; a especular sutilmente sobre o caráter do secretário que poderia vir a ser seu cunhado; e a conferir certas teorias que ela então já fizera a cada nova palavra proferida por ele. Mr. Middleton, por franco consentimento, não passava de uma brincadeira da irmã, que se atinha aos limites. Se alguém conseguisse ler os pensamentos de Rosamond, enquanto ela escutava as histórias de sir Thomas sobre a década de 1860 na Índia, constataria que ela andava ocupada com cálculos de certo modo abstrusos; o Middletonzinho, como o chamava, não era lá de todo mau; tinha a cabeça boa; era bom filho, ela o sabia, e daria um bom marido. Além do mais, era abastado e faria sucesso na carreira. Mas dizia-lhe sua agudeza psicológica, por outro lado, que ele era curto de espírito, sem um pingo de imaginação ou de intelecto, no sentido em que isso era entendido por ela; conhecia muito bem sua irmã para saber que ela nunca amaria este homenzinho ativo e eficiente, embora fosse capaz de respeitá-lo. Era esta a questão: deveria casar-se então com ele? E esse era o ponto a que chegara quando lord Mayo foi assassinado; enquanto seus lábios murmuravam ohs e ahs de horror, seus olhos telegrafavam pela mesa: ”Fico na dúvida”. Se ela houvesse feito que sim com a cabeça, sua irmã já teria passado à prática daquelas artes pelas quais tantas propostas se têm consolidado. Entretanto Rosamond, sem saber ainda o necessário para tomar decisão, mandou um telegrama bem simples: ”Continue a jogar com ele”.
Virginia Woolf
Clima, crime e castigo
Curiosamente, uma matéria publicada hoje pelo Estadão revela que dois dos cinco títulos mais lidos no MEC Livros são dele: Noites Brancas, que, acredite, já viralizou no TikTok, e Crime e Castigo.
Reli recentemente as primeiras páginas de Crime e Castigo e fui fisgada por um detalhe do qual não me lembrava.
É assim que começa um dos maiores romances já escritos.
Estamos em São Petersburgo, no início de julho, e Raskólnikov deixa o pequeno quarto onde vive para caminhar pela cidade.
Dostoiévski faz questão de nos dizer, logo na primeira frase, que fazia um calor excepcional naquele fim de tarde. Não é apenas uma informação meteorológica.
A cidade que encontramos nas páginas seguintes parece sufocar junto com o personagem. Há poeira, mau cheiro, gente demais, tavernas, apartamentos apertados, pobreza.
Raskólnikov está irritado, perturbado, com os nervos à flor da pele. Tudo incomoda: as pessoas, a cidade, o próprio ar.
Sabemos o que aquela caminhada anuncia.
Publicado em 1866, Crime e Castigo obviamente não é um livro sobre mudança climática. Seria absurdo tentar transformar Dostoiévski em ambientalista um século e meio depois.
Mas, ao ler aquelas páginas hoje, é difícil não enxergar algo que talvez passasse despercebido aos leitores de outras gerações: o ambiente também age sobre nós.
Cento e sessenta anos depois de Raskólnikov atravessar uma São Petersburgo sufocante, a ciência consegue medir parte daquilo que Dostoiévski observava nos seres humanos.
Pesquisadores vêm encontrando associações entre temperaturas elevadas e diferentes formas de violência.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 reuniu estudos de diferentes partes do mundo sobre a relação entre aumento da temperatura, crime e violência. Outro estudo, publicado no mesmo ano, encontrou associação entre temperaturas mais altas e crimes violentos na Coreia do Sul.
O calor não inventa assassinos, evidentemente. Nem explica Raskólnikov. Mas nossos corpos não são indiferentes ao ambiente em que vivem.
O calor extremo interfere no sono, provoca estresse fisiológico, agrava condições de saúde e transforma tarefas banais em esforços maiores. E, à medida que o planeta esquenta, aquilo que durante séculos tratamos como pano de fundo – a temperatura, o ar, a água, o espaço onde vivemos – começa a ocupar o centro da história.
Há ainda outra relação com a natureza na obra de Dostoiévski.
Em Os Irmãos Karamázov, publicado poucos anos antes de sua morte, a natureza deixa de ser apenas o ambiente que oprime e aparece como algo ao qual o ser humano pertence.
O starets Zóssima ensina Aliócha a amar a criação inteira: os animais, as plantas, cada folha, cada raio de luz. Não há nada de ecologismo moderno nisso. A visão de Dostoiévski é profundamente religiosa. Mas há ali uma noção que hoje podemos reconhecer também em outra linguagem: a da interdependência.
E então vem uma das cenas mais bonitas do livro.
Depois da morte de Zóssima, abalado pela perda de seu mestre, Aliócha deixa a cela e sai para a noite. Sobre ele, há um céu cheio de estrelas. Dostoiévski descreve o horizonte de tal forma que céu e terra parecem se tocar.
Tomado por uma emoção que ele próprio não consegue explicar, Aliócha se joga no chão. Abraça a terra.
E a beija.
Chora enquanto a beija e promete amá-la para sempre.
Entre o calor sufocante de Raskólnikov e a terra abraçada por Aliócha existe algo que, aos olhos de hoje, permite uma leitura inesperadamente ambiental de Dostoiévski.
De um lado, um homem caminha por uma cidade hostil, sufocado pelo calor, pelos odores, pela pobreza e pelo próprio isolamento. Do outro, um homem atravessa uma transformação ao perceber que faz parte de algo infinitamente maior.
Dostoiévski morreu em 1881. Não conheceu o efeito estufa como o entendemos hoje, nunca ouviu falar em aquecimento global e certamente não imaginou um planeta que, quase um século e meio depois, ultrapassaria temporariamente a marca de 1,5 grau de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais.
Mas compreendeu como poucos a relação entre aquilo que acontece fora de nós e aquilo que carregamos por dentro.
Raskólnikov caminha por uma cidade sufocante.
Aliócha, sob um céu cheio de estrelas, cai de joelhos, abraça a terra e a beija.
Um século e meio depois, descobrimos, de uma maneira muito menos poética, aquilo que une as duas cenas: nunca existiu um mundo humano separado do mundo natural.
A terra que Aliócha abraça é também aquela sobre a qual Raskólnikov caminha.
E não existe crime contra a Terra cujo castigo não chegue, de alguma forma, até nós.
quinta-feira, agosto 20
Aqui. Hoje.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.
Jorge Luís Borges
À beira do abismo
Eu o revejo com precisão, deitado no leito do hospital. Seu joelho ficou preso e foi quebrado pela empenagem do avião durante o salto de paraquedas, mas Sagon não sentiu o choque. Seu rosto e suas mãos estão gravemente queimados, mas, ao final das contas, ele não sofreu nada de preocupante. Ele nos conta lentamente sua história, com uma voz qualquer, como o relatório de uma tarefa…
Sagon faz bico. Pesa a questão. Julga importante dizer-nos se chamejava muito ou não muito. Hesita:
— Mesmo assim era fogo… Então, eu mandei que saltassem.
Pois o fogo, em dez segundos, transforma o avião em tocha!
— Abri, então, o canopi. Fiz mal. Entrou ar… O fogo… Fiquei incomodado.
Um forno de locomotiva cospe-lhe no ventre uma torrente de chamas, a sete mil metros de altitude e você ficou incomodado! Não trairei Sagon exaltando seu heroísmo ou seu pudor. Ele não reconheceria nem esse heroísmo nem esse pudor. Ele diria: “Sim, sim, fiquei incomodado…”. Ele faz, aliás, visíveis esforços para ser exato.
E bem sei que o campo da consciência é minúsculo. Ela só aceita um problema de cada vez. Se você brigar de soco e a estratégia da luta o preocupar, não sofrerá pelos socos. Quando quase me afoguei, num acidente de hidroavião, a água, que estava gelada, pareceu-me morna. Ou, mais precisamente: minha consciência não considerou a temperatura da água. Ela estava absorvida por outras preocupações.
— Pensei que estava sozinho. Achei que podia partir… (Ele já estava com o rosto e as mãos tostados). Levantei, pulei a carlinga e me mantive primeiro sobre a asa. Ali, debrucei à frente: não tinha visto o observador…
O observador, morto com um tiro só dos caças, jazia no fundo da carlinga.
— Recuei então e, atrás, não vi o artilheiro…
O artilheiro, também, havia desmoronado.
— Pensei que estava sozinho…
Ele refletiu:
— Se eu soubesse… Podia ter voltado a bordo… Não estava queimando tanto… Eu fiquei assim, muito tempo, na asa… Antes de sair da carlinga, eu tinha compensado o avião para cabrar. O voo estava estabilizado, a respiração suportável e eu me sentia bem. Ah! Fiquei tempo demais na asa… Não sabia o que fazer…
Não que se apresentassem a Sagon problemas inextricáveis: ele pensava estar sozinho a bordo, o avião em chamas e os caças repetiam suas passagens cuspindo projéteis. O que queria nos dizer Sagon é que ele não tinha nenhum desejo. Ele não sentia nada. Dispunha de todo o seu tempo. Imergia numa espécie de ócio infinito. E, ponto por ponto, eu reconhecia essa extraordinária sensação que acompanha às vezes a iminência da morte: um ócio inesperado… Como ela é desmentida pelo real! A imaginária da ofegante precipitação! Sagon permanecia ali, sobre a asa, como ejetado para fora do tempo!
— E depois eu saltei — disse ele —, saltei mal. Eu me vi turbilhonar. Tive medo de abrir cedo demais e me enrolar no paraquedas. Esperei ficar estabilizado. Ah, esperei muito tempo.
Sagon, assim, conserva a lembrança de ter, do início ao fim de sua aventura, esperado. Esperou chamejar mais forte. Depois, esperou na asa, não se sabe o quê. E, em queda livre, na vertical para o solo, ainda esperou.
E se tratava de Sagon mesmo, e ainda que se tratasse de um Sagon rudimentar, mais do que de costume, de um Sagon um pouco perplexo que, à beira de um abismo, esperneava entediado.
Antoine de Saint-Exupéry, "Piloto de Guerra"
A planta e a professora
Pois foi assim: os garotos queriam dar uma planta de presente à mestra. Não que gostassem dela: pelo contrário, a detestavam. Não tolerava o menor ruído em classe, dava temas enormes para serem feitos em casa e por qualquer coisa botava a turma de castigo. Mas esta irascível senhora tinha um ponto fraco: adorava plantas. Qualquer tipo de plantas. Segundo pessoas que a conheciam, até seu quarto de dormir estava cheio de vasos com as mais variadas folhagens. E assim, quando os alunos resolveram tirar sua desforra, pensaram justamente numa planta como instrumento de vingança. é que um dos garotos teve uma ideia: planta carnívora. Isto mesmo: pensou em dar de presente uma planta carnívora à professora. Naturalmente não seria dessas plantas de filme de terror, que engolem uma pessoa inteira. Uma planta menor, que apenas agarrasse a mão ou o dedo da mestra, dando-lhe um bom susto, já serviria.
O problema, porém, é que os garotos jamais tinham visto uma planta carnívora, e nem sabiam como obtê-la. Pesquisa daqui, pesquisa dali, descobriram um homem, um antigo chacareiro que podia lhes vender, mediante uma quantia que não era pequena para minguados bolsos, sementes de planta carnívora. Marcaram encontro com ele numa esquina perto da escola. Veio o homem, que era velho e de aparência sinistra; recolheu as notas e moedas e entregou aos meninos um pacotinho com sementes. E agora, como é que a gente faz? — perguntou um dos garotos. Plantem numa noite de lua cheia, disse o homem, e se foi.
Estavam em quarto minguante, de modo que tiveram de esperar bastante; mas na primeira noite de lua cheia, lá estavam eles, colocando as sementes num vaso com terra de primeira qualidade. Uns dias depois algo começou a brotar; era uma plantinha; de aparência inteiramente comum. Os garotos olhavam, intrigados; será que é mesmo uma planta carnívora, era a pergunta que tinham na cabeça (mas não se atreviam a formular em voz alta). De qualquer modo, regavam-na diariamente e colocavam adubo, na esperança que logo mostrasse sua ferocidade.
O que não aconteceu. A planta lá estava, quietinha como todas as plantas. Ocorreu-lhes que algum estímulo talvez fosse necessário; uma noite, deixaram por perto uns pedacinhos de carne. No dia seguinte a carne tinha desaparecido; poderia ter sido a planta, claro, mas a aparência demasiado satisfeita do gato fazia suspeitar o contrário.
Um dia suas esperanças ruíram definitivamente: é que a planta se abriu numa bela flor. Uma planta assim jamais fará mal a alguém, concluíram desolados.
Na falta de alternativa melhor, levaram a planta florida para a professora. Pela primeira vez ela lhes sorriu; e daí por diante não houve mais castigo nem repreensões. Como o meu garoto descobriu em sua escola: uma planta que floresce é uma lição de vida. Mesmo para professoras.
Há muitos estilos de viver
Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.
Sou e estou velho. Vivi enfrentando minhas deficiências, dores e, no meio dos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança. Apesar de tudo, permaneci companheiro de mim mesmo. Aprendi as chamadas “idades do homem” num tempo em que o gênero masculino englobava o feminino. Havia infância, juventude, maturidade e velhice. Abafava-se o nascimento para não terminar mencionando o que o nosso progressismo e desencanto reprimem: a morte ou o fim. Esse inexorável destino que o envelhecer trata muitas vezes como benefício, pois o velho corpo pode ser mais pesado do que a alma por ele inventada.
O fato é que as imposições da vida escondem e afugentam a inevitabilidade do fim. Esse fim que uma consciência onipresente e desenhada para a vida é incapaz de imaginar. Exceto por meio das imagens pastorais das crenças religiosas, muito embora essa morte seja experimentada todas as noites, quando dormimos, como conceitua um imenso Manuel Bandeira.
Tenho plena consciência de que cheguei ao término de um ciclo. Não é um fim, é uma fase. Na infância, almejamos a beleza da juventude. Na juventude, experimentamos os becos das escolhas. Maduros, inevitavelmente nos tornamos sérios, quadrados, controladores e, às vezes, sectários. Velhos, temos a suprema felicidade de testemunhar as estradas da vida que criamos. Conheci de perto a velhice casmurra do meu avô e o mais ou menos soturno envelhecimento do meu amado pai. Agiota que sou – como quer o paradoxo da vida –, mais velho que eles, entendo que há muitos estilos de viver e de morrer. O remédio é o amor que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e tudo isso que compete de igual para igual com a morte.
P.S.: Ah! Antes que eu me esqueça: na velhice não há futuro ou retornos...
quarta-feira, agosto 19
A ilha
Quando os homens de outrora puseram pé na ilha, ainda assim se perguntavam que caminho havia daqui para algum lugar, porque tudo subia sem parar, e muita terra é como apenas paredões onde se projectam sombras e aquilo que cai. Quiseram, de qualquer modo, povoar. Foram chegando do reino com avidez de mais fortuna, e o mar era abundante, e o chão voltava lentamente a florir, a reimaginar cada uma de suas flores, colorindo tudo, subindo e descendo e perfumando.
Diz-se que a ilha já inventaria suas flores só pela memória, sem semente nem água. E, àquele tempo, foi lançando pelo vento um chamado para bichos alados que foram voltando. A nossa ilha propende para a primavera. E as flores não têm vertigem. Os homens e as mulheres que foram ficando, para qualquer sustento que nossa terra pudesse dar, tiveram de mudar para pés de cabra. Pessoas de terras íngremes, terras verticais, sem medo do tamanho dos olhos, da vastidão que qualquer caminho faz diante do corpo, muito para cima, muito para baixo. Nada fica para a frente, senão a lisura infinita do mar. Como pode ser liso e imenso o mar, que se vê quieto, igual a uma pedra arrepiada em quase todos os dias do nosso ano.
A mitologia diz que podem ter sido cem anos de incêndio. Muito para lá de sete. Muito mais tempo, como nas histórias lendárias que ninguém sabe quem inventou. De qualquer jeito, o que ficou nas convicções dos ilhéus foi que mais se sobe e desce do que se avança. E mais se faz um madeirense na combustão do que na friúra. Por causa disto, quando se sofre, é sobretudo por destino que se pensa sofrer. O que implica uma bravura inesgotável, mas também, por defeito, uma resignação que obriga a aguentar. O ilhéu aguenta. Sete ou cem anos.
O Buraco da Caldeira, o esconso sombrio onde nossa casa foi feita, fica num cotovelo antes da Ribeira Brava. No Sítio do Jardim, acima da Chamorra, na freguesia de Campanário. Em mil setecentos e noventa e oito caiu do imenso rochedo do Ilhéu, no meio do nosso mar, uma pernada que o desfigurou. Antes que caísse, dizem os livros, era igual à torre dos sinos. Era um ilhéu igual ao cimo de uma igreja que estivesse afundada. O nome da nossa freguesia vem daí. Dessa igreja afundada que um abalo qualquer destruiu.
Quem passa estrada regional fora, a dado momento, uma altura de encosta sobe muito para lá dos olhos e vai para dentro, onde já não podem entrar carros. Naquele cotovelo, na verdade, para mais subir ou mais descer, já só por pé de cabra. Um pé depois do outro, fincado como der nas veredas que levam até à praia diante do Ilhéu, ou até ao cimo onde moramos nós. Não se pode subir para depois de onde é nossa casa, a casa dos Pardieiros. A rocha é bastante mais alta, mas não há vereda. Já é só lugar de pássaro. Ali para cima, é lugar de pássaro, não se caminha. Até para ser quem éramos, já nos conferiam uma metade de asa. Mas, na verdade, qualquer madeirense tem uma metade de asa.
Quando amanheci, espantado, o céu era rosado de mil vezes mil flamingos que migravam. Não existem flamingos na nossa ilha e nem devem existir mil vezes mil flamingos cor-de-rosa no mundo inteiro. Nem acredito que flamingos voassem tão alto para cima de encostas como estas. Era certamente a visão de um milagre qualquer. Um olhar extasiado que viesse de dentro. Estaria a ver o meu próprio interior, que chegava à revelia do que é possível e à revelia da tristeza que queriam atribuir ao nascimento de meu irmão. E eu levantei meus braços como se pudesse colher os flamingos, comecei a gritar de euforia. Aves belas eram aves felizes, faziam uma mancha imensa no céu que parecia florir mais do que nosso chão. Eu chamava meu pai e chamava minha mãe e ninguém vinha ou ninguém me ouvia, porque talvez eu sonhasse, talvez não estivesse a ver nem a gritar de verdade. Mas eu gritei. Queria que todos chegassem às suas portas e vissem como já a cobrir o mar ia gigante um povo voador lindo, tão lindo, um povo de pássaros que voara por nossas casas só para nos maravilhar, porque a vida fazia maravilha. Fazia sempre maravilha.
Quando os flamingos eram mais nada no horizonte, quando não havia bulício algum, nenhum bater de asas, entrei. Fui saber de meus pais em redor de Pouquinho e pedi: posso pegar meu irmão, nosso santo. E minha mãe me disse os bons dias e cobriu os olhos para não chorar e não chorou, porque eu imediatamente afirmei: vou cuidarde ti, meu irmão. Vais aprender tudo o que faz urgência na nossa vida aqui ao dependuro desta encosta. Vais nadar comigo por toda a volta do Ilhéu, vais escurecer a pele no calhau e vais ficar forte. Muito mais forte que os homens do mar. Porque tu vais saber tudo e vais ser esperto. Quem sabe coisas fortalece para depois do ferro. Fica bom para mandar no mundo. E eu comecei a rir. Queria rir. E prometi que lhe contaria tudo sobre os pardais, os gatos-bravos e os torrões que atirávamos aos poços. Ele saberia de como se faziam as fisgas e porque haveriam os estrangeiros de falar palavras diferentes.
Naquela manhã, o meu pai quis apertar-me no seu abraço mas eu senti que era difícil. Ficou atrapalhado e precisava de sair para fabricar. Trabalharia cheio de hesitações, distrações, muitos medos e alguma vergonha. A descer para as hortas nos nicos de lavra que tínhamos, o meu enorme pai estava emudecido e de pouca fé. Eu não saberia o que fazer. Mas julguei que melhoraria. Confiei que melhoraria. E então jurei que passaram mil vezes mil flamingos cor-de-rosa por sobre nossas cabeças. Juro. Eu disse. Eram tantos que o sol atravessava por brechas como se estivesse roto o céu. A minha mãe respondia: filho, a mãe não sente valor no corpo. Traz um bocado de pão, que tu és bonito.
De todas as vezes que fazia o que era pedido ou esperado, eu era bonito. Não havia melhor coisa para ser.
Veio logo cedo o padre Estêvão para lamúrias e rezas. Fora impedido por lonjuras no dia anterior. Mas sabia de Pouquinho e estava cheio de palavrinhas cândidas para motivar a família à recuperação. Padre Estêvão era deitado a salvações e chegara cansado da subida, com seus agrados prejudicados, meio sem ar e cheio de sede. Eu fui cuidar da água e fui cuidar de mais pão, e pousei tudo na camilha para que se servisse, de onde estava sentado numa cadeira almofadada com Pouquinho ao colo dizendo ideias muito bíblicas. A minha mãe agradecia-lhe tanto. Era toda grata aos padres porque acreditava muito, como todos nós, que intercediam perante Deus. Teriam modo de andar para dentro e fora da transcendência a oficiar assuntos de almas. Eram tão importantes, os padres, eram fundamentais para o sentido extremo da vida. E ele perguntou: buzico, e teu pai. Eu respondi: fabrica, meu pai fabrica as hortas, senhor padre Estêvão. E minha mãe pediu: chama teu pai. Que venha abençoar-se da presença do senhor padre, diz-lhe que veio ver o menino nosso. Fui ao precipício e apupei: uuuuuuh, paizinho, venha ao padre. Ao fundo, depois da casa da senhora Agostinha do Brinco, mas antes da casa da senhora Luisinha do Guerra, que fica mesmo acima da estrada, o meu pai ergueu a cabeça e parou de fabricar para se levantar. Começou logo a levantar-se na vereda porque, embora a sobrevivência fosse elementar, tinha a cabeça parada na aflição que havia em casa, e mais valia que estivesse em casa para se afligir de perto.
Com dez anos de idade, eu já cozinharia quase tudo. Era habituado ao fogo e às facas. Não se dava muito tempo à infância. Ser-se pequeno precisava de prestar serviço, tinha de se atarefar as crianças para que as famílias não sucumbissem às dificuldades, que eram quase todas as mesmas por toda a parte. As pobrezas e os temores repartiam-se como por justiça democrática. Não havia muita gente excluída de um destino assim. Cozinhar era cumprir uma infância útil, para ser decente e ter amanhã.
Metidos por dentro do Buraco da Caldeira, na casa mais subida e mais pobre, éramos bastos de nossas fazendas e uma levada vinha rente ao nosso telhado com a água mais limpa. Da levada, sem qualquer desafio, descíamos a água necessária e era generosa até para chuveirar os banhos que sabiam tão bem no tempo do verão. Tratado destas competências, eu fui a mando do almoço para se convidar o padre à sopa e a uma perna de frango. Padre Estêvão nunca ali vinha.
Para as pessoas pobres dos recônditos da ilha, que o padre entrasse em casa, subido de meia hora a pé pela encosta desde a estrada, era igual a vir o corpo de Cristo do tempo da Páscoa. O próprio corpo de Cristo naquela cruz de beijar, a suar de estafa e sede. Haveria de estar Deus e os santos inclinados à sua varanda para saber com que ternura lhe receberíamos o funcionário. Sobre meus ombros recaía tal responsabilidade. Mas de meus ombros se levantava também a força. Meu pai dizia: Paulinho, à tarde, fabricamos juntos, que é preciso puxar dos dois lados para passar o ferro naquele chão. E eu respondi: sim, senhor meu pai. Senti-me bonito. Cozinhei e sorri.
Pouquinho, de quando em vez, choramingava. Muito ligeirinho sem maldade. Tinha fome. Amamentava com qualquer minutinho. Era tão pequenino que devia encher com uns pingos de leite. A seguir, dormia. Padre Estêvão dizia que o crio ainda não tinha pretensão do mundo. Estava em negação. Devia ser verdade. Pouquinho levou muitos dias a abrir os olhos. Não era normal. Ficou mais de uma semana com eles fechados. Pensámos até que ele só veria para dentro. Talvez cegasse. Mas não era verdade. Certamente ficou demorado a ver para dentro, sim, antes da contingência de ver para fora e cegar para o interior, como acontece com todas as pessoas, uma a uma.
Quando estávamos a almoçar, todos gabando o sabor e bendizendo muitas sortes, chegaram vozes de mais abaixo, até mais abaixo da casa da senhora Agostinha, que apupavam por ali qualquer súplica. Meu pai foi acudir para saber que era. Pela rocha num eco vinha o som daquelas vozes que falavam de cachorros. Uns cachorros que fugiram. Bem se escutava, mesmo da mesa na cozinha de onde não me deixaram levantar e onde padre Estêvão repetia a sensatez bíblica que me devia ajudar. E eu prometia cumprir. Cumpriria tudo, mas queria saber de que cachorros se falava ali para fora. Coitados. Ou seriam perigosos. Talvez mordam as pessoas e os bichos domésticos. Talvez tenham fome. Alguns cachorros carregavam os piores espíritos. Pensavam em matar. Matavam tudo quanto pudessem e devoravam até tocos de árvores. Roíam mais que toupeiras e ratazanas.
Como o padre não se calava de tanta dedicação bíblica, fizemos uma oração à espera que meu pai voltasse a entrar. Suspendemos a refeição. Não pude escutar mais nada. Dizer palavras sagradas impunha que as pensasse por inteiro. Uma a uma, cada uma dita para ser sentida. Quem reza sem pensar está a oferecer-se ao diabo, deixa que a boca o traia, usa-a sem paixão. Fora como me ensinaram. Quem reza sem pensar faz o mesmo que trincar o dedo ao invés do pão. Padre Estêvão sabia de coração orações grandes. Nunca mais acabavam. Meu pai, que descera a ver que fazer às súplicas que por ali se gritavam, demorava. A comida esfriava e eu já sabia que meu cozinhado ficaria mal visto. Gostaria de deixar de ser impaciente, mas rabiava. Tinha uma infância aguda. Sofria de infantilidade drástica, máxima. Não era por ser à deriva das ideias, era por ter tantas ideias e tão poucos recursos e autoridade sobre mim mesmo. Tudo em mim se ajeitava a dominar o mundo. Mas minha condição era a de uma subalternidade absoluta. Minha idade subalterna passava lenta diante da urgência. Estava demasiado a acontecer para que soubesse ficar parado à espera. Minha mãe dizia: Paulinho, tira o cotovelo da mesa. Paulinho, não se balançam as pernas assim. Eu procurava aquietar-me, igual a parar o próprio coração de bater. Minha natureza era a do movimento. Quase sempre me movia antes de saber para onde ou por que razão. A cabeça nunca era mais rápida do que os nervos no corpo. A cabeça esperava razões e explicações, o corpo seguia a vertigem. Era um animal ativado pela simples evidência de pulsar.
Valter Hugo Mãe, "Deus na escuridão"
Os justos
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, “A Cifra”
Um porco passeia em Ipanema
“De onde surgem os assuntos?”
Eu costumo responder com a óbvia obrigação de ler bons autores, depois lembro que é preciso exercícios físicos porque ficar sentado, espremendo o cerebelo, também cansa. Por fim e enfático, recomendo que tenham um bichinho.
Otto Lara Rezende tinha Zano, um gato danadinho que um dia fugiu de casa e inspirou uma série de crônicas lindas sobre o medo de perder alguém tão querido. Carlos Heitor Cony debulhou o país em lágrimas quando morreu sua setter irlandesa ruiva, Mila, num dos textos mais bonitos do jornalismo brasileiro.
Cora Rónai vive numa família de gatos, Marta Batalha é cachorreira, Ruth de Aquino observa pássaros, Agualusa tem no quintal de sua casa em Moçambique uma galinha chamada Sanji – definitivamente, eu digo aos que me perguntam sobre como ter sucesso nessa caçada insana e semanal de assuntos para escrever: tenham um bichinho.
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| Joaquim Ferreira dos Santos |
Domingo passado, comemorando o Dia dos Pais, almocei na calçada de um restaurante de Ipanema e observei numa mesa ao lado um cidadão que mantinha na coleira o seu animal de estimação. Era Pablo, chamado às vezes de Pablito, um mini-porco, daqueles que descendem do cruzamento de linhagens vietnamitas e americanas. De pelagem malhada e duas presas ameaçadoras fora da boca, quase um javali, Pablito não lembrava qualquer personagem do desenho Peppa Pig, mas ganhou da minha neta um “fofo” discreto.
A imagem pública do porco é a pior possível. É sempre associada à falta de higiene, aos maus modos, à gula (“come feito um porco”) e a políticos corruptos. George Orwell deu destaque negativo a eles em “A Revolução dos Bichos” e até os Beatles acharam boa metáfora descrever a classe média britânica a partir do cotidiano dos piggies. Estive apenas uma hora e meia ao lado do novo garoto de Ipanema, e não dá para esbanjar intimidade – mas me pareceu porco de outra estirpe.
O mini-porco passou o tempo todo na dele, procurando algum resto de comida pelo chão e sequer grunhiu oinc-oinc quando quase foi atropelado por uma bicicleta elétrica. Discreto, sempre de focinho baixo, cuidava da própria vida sem se importar com o tumulto da calçada invadida pelas mesas do restaurante. Posou com crianças para fotos. Sem ameaçar de volta com as presas, não deu a mínima aos cachorros que latiam provocações à sua inesperada presença.
A mascote memorável de Ipanema é o rato Sig, uma abreviação de Sigmund Freud. No jornal Pasquim, porta-voz da intelectualidade do bairro numa época em que humor sofisticado era arma contra a ditadura militar, ele ilustrava as páginas recitando sabedorias diversas. Pablo é o meu personagem da semana, e não só por ter me dado assunto para honrar a tradição da crônica de bichinho. Assim como as galinhas, gatos e cachorros dos meus colegas (Marta Batalha tem ainda um minhocário), um porco que passeia ordeiro pelo bairro caótico quer dizer alguma coisa – nem que sirva apenas para responder à moça da plateia de onde nascem as crônicas.
Chuva com lembranças
Nas terras secas, tanta gente, a esta hora, estará procurando também no céu um sinal de chuva! E, nas terras inundadas, quanta gente a suspirar por um raio de sol!
Penso em chuvas de outrora: chuvas matinais, que molham cabelos soltos, que despencam as flores das cercas, entram pelos cadernos escolares e vão apagar a caprichosa caligrafia dos exercícios.
Chuvas de viagens: tempestades na Mantiqueira, quando nem os ponteiros dos para-brisas dão vencimento à água; quando apenas se avista, recortada na noite, a paisagem súbita e fosfórea mostrada pelos relâmpagos. Catadupas despenhando sobre Veneza, misturando o céu e os canais numa água única, e transformando o Palácio dos Doges num imenso barco mágico, onde se movem, pelos tetos e paredes, os deuses do paganismo e os santos cristãos. Chuva da Galiléia, salpicando as ruas pobres de Nazaré, regando os campos virentes, toldando o lago de Tiberíades coberto ainda pelo eterno olhar dos Apóstolos. Chuva pontual sobre os belos campos semeados da França, e na fluida paisagem belga, por onde imensos cavalos sacodem, com displicente orgulho, a dourada crina…
Chuvas antigas, nesta cidade nossa, de perpétuas enchentes: a de 1811, que, com o desabamento de uma parte do morro do Castelo, soterrou várias pessoas, arrastou pontes, destruiu caminhos e causou tal pânico que durante sete dias as igrejas e capelas estiveram abertas, acesas, com os sacerdotes e o povo a implorarem a misericórdia divina. Uma, de 1864, que Vieira Fazenda descreve minuciosamente, com árvores arrancadas, janelas partidas, telhados pelos ares, desastres no mar e “vinte mil Lampiões da iluminação pública completamente inutilizados”.
Chuvas modernas, sem trovoada, sem igrejas em prece, mas com as ruas igualmente transformadas em rios, os barracos a escorregarem pelos morros, barreiras, pedras, telheiros a soterrarem pobre gente. Chuvas que interrompem estradas, estragam lavouras, deixam na miséria aqueles justamente que desejariam a boa rega do céu para a fecundidade de seus campos.
Por enquanto, caem apenas algumas gotas daqui e dali. Nem as borboletas ainda percebem. Os meninos esperam em vão pelas poças dágua onde pulariam contentes. Tudo é apenas calor e céu cinzento, um céu de pedra onde os sábios e avisados tantas coisas liam outrora:
“São Jerônimo, Santa Bárbara Virgem,
lá no céu está escrito, entre a cruz e a água benta:
Livrai-nos, Senhor, desta tormenta!”
Cecília Meireles, “Quadrante 2 ”

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