segunda-feira, maio 25

Ajuda para ir às estrelas

 


Meu infinito

Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles. E pasmo do automatismo meu com que os outros me desconhecem. Porque atravesso a vida quotidiana sem largar a mão da ama astral, e os meus passos na rua vão concordes e consoantes com obscuros desígnios da imaginação de dormir. E na rua vou certo; não cambaleio; respondo bem; existo.

Mas, quando há um intervalo, e não tenho que vigiar o curso da minha marcha, para evitar veículos ou não estorvar peões, quando não tenho que falar a alguém, nem me pesa a entrada para uma porta próxima, largo-me de novo nas águas do sonho, como um barco de papel dobrado em bicos, e de novo regresso à ilusão mortiça que me acalentara a vaga consciência da manhã nascendo entre o som dos carros que hortaliçam.

E então, em plena vida, é que o sonho tem grandes cinemas. Desço uma rua irreal da Baixa e a realidade das vidas que não são ata-me, com carinho, a cabeça num trapo branco de reminiscências falsas. Sou navegador num desconhecimento de mim. Venci tudo onde nunca estive. E é uma brisa nova esta sonolência com que posso andar, curvado para a frente numa marcha sobre o impossível.

Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

Canção da tarde no campo

Caminho do campo verde
estrada depois de estrada.
Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vai fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

Eu ando sozinha
ao longo da noite,
Mas a estrela é minha.
Cecília Meireles

Iaiá no seu jardim

A janela de Iaiá dava para um pequeno jardim. Um pé de laranjeira, um pé de malva-rosa. Cobrindo a cerca alta, um jasmineiro todo estrelado de flores. Uma roseira de cacho. Touceiras de manjericão ao pé da parede; e, bem defronte à janela, na sua forquilha de três braços, a panela de barro com o craveiro — desses cravos brancos pequenos, apertados, de coração rosado e tão cheiroso que de noite, com a janela trancada, o perfume passava pela telha-vã e chegava até a rede onde Iaiá dormia.

Aquele jardim fechado, minúsculo, cheiroso e fresco, era talvez a coisa única que Iaiá podia chamar de seu, no mundo inteiro. Na casa-grande, invadida pela criançada rumorosa, pela mãe dominadora, pelas cunhãs da cozinha, se o quarto do oratório era o refúgio da avó — o pequeno jardim era o oratório de Iaiá. A família pensava que Iaiá adorava plantas —, aquela menina é louca por um pé de flor! Mas o que a moça adorava mesmo era a intimidade, o silêncio, o ar fechado e secreto daquele quadrado sombrio, entre a cerca e a parede — onde podia proibir a entrada até das crianças, sob o pretexto fácil de que iriam fazer malinação. E lá dentro, isolada com as suas flores, cavando, podando, adubando, arrancando mato, Iaiá podia pensar que não estava naquela terra nem no meio daquela família. Que era filha única de um casal rico, e morava numa casa de rua com piano na sala, e ia ao cinema e à avenida, e tinha um namorado de terno de casimira. O jardim, tão pequeno e cultivado, não tinha nada com a bruteza do sertão, não sofria alternativas de seca nem de inverno; nele as estações não variavam, a rega substituía a chuva, a boa terra vegetal que Iaiá fabricava enterrando folhas, a sombra da casa que poupava do mormaço as plantas mais mimosas — tudo criava um clima artificial, um clima estrangeiro, gostava Iaiá de pensar. Ah, de todas as palavras da língua, era essa que Iaiá considerava mais sedutora: estrangeiro. Significava falar outra língua, trocada, incompreensível e tão belíssima! Ver neve, comer maçãs no pé — imagine! E uvas e cerejas e peras e pêssegos — todas essas coisas que ela só conhecia de livros — os poucos, pouquíssimos livros que Iaiá possuía, lidos, treslidos, decorados: Toutinegra do moinho, Amor de perdição, O grande industrial, O mártir do Gólgota, O moço loiro e, escondido, disfarçado dentro de uma velha camisola aberta de renda, no fundo do baú — a Dama das camélias…

Com certo sentimento de culpa, porque ainda não cumprira as suas tarefas do dia, Iaiá especava com varinhas de taquara os ramos do craveiro que o vento da noite tombara. Mas logo se pôs a sonhar. Podia, quando morrer, se enterrar no seu jardim. Ao pé da rosa de cacho, com uns ramos do jasmineiro se derramando por cima da cova…E Iaiá se imaginava morta, de vestido branco e capela, no caixão branco e azul… Mas pensando em véu e capela, mudou de ideia — e agora se via vestida de noiva, saindo para casar na cidade, com um buquê feito de todas as flores do seu jardim… Marcava o dia do casamento para quando a laranjeira florasse — fora mesmo pensando secretamente no seu casamento que plantara a laranjeira… E o buquê teria jasmins, rosas e bogaris — sim, ainda não se mencionou o pé de bogari, redondo e coberto de botões, bem no ângulo da cerca! E no centro do buquê um molho cheiroso de cravos… E agora Iaiá pensava no cortejo, irresoluta… Como o faria? De trem? Tão vulgar! De automóvel — mas havia tão poucos automóveis na pequena cidade próxima, impossível de caber toda a família. O que mais lhe agradava era um belo cortejo a cavalo, dezenas, talvez uma centena de cavalos, levando os pais, irmãos, tias, primos, conhecidos; e à frente os dois — ela à garupa do noivo, o véu flutuando ao vento, as saias espalhadas sobre a anca do cavalo, a cauda apanhada no seu braço esquerdo, o braço direito rodeando o peito do noivo, com a mão sobre o coração dele… Ah, o noivo. Iaiá não sabia como seria o seu rosto, mas sentia com uma força de verdade aquele coração quente batendo debaixo da sua palma aberta. Era o abraço mais bonito que podia conceber — os dois correndo em cima do cavalo, o ar veloz lhes batendo no rosto, aquele torso forte de homem encostado ao seu peito… meu Deus, tão comovente, que Iaiá tinha vontade de chorar.

Mas, lá de dentro da cozinha, a voz da mãe gritou:

— Iaiá, você já deu comida aos pintos?

E Iaiá acabou de atar o galho do craveiro com uma palhinha de milho, soltou um suspiro fundo e foi pilar o xerém para dar comida aos pintos.
Rachel de Queiroz

O dia em que Lygia Bojunga virou ameaça

Uma escola militar do Distrito Federal decidiu retirar de circulação A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, após reclamações de pais que enxergaram na obra referências inadequadas a questões de gênero. A notícia chama atenção por transformar um dos maiores clássicos da literatura infantil brasileira em objeto de suspeita ideológica.

“Eu achei aquilo tão impressionante! É claro que eu já tinha visto gente com mania de dizer que a gente tem que ganhar dos outros, tem que ser a primeira disso, a primeira daquilo, mas nunca pensei que alguém tinha que ganhar tanto assim.”

Publicado em 1976, em pleno regime militar, A Bolsa Amarela ajudou a transformar a literatura infantil no Brasil. Lygia Bojunga pertence a uma geração de autores, como Ana Maria Machado ou Ruth Rocha, que rompeu com a ideia de que livros destinados a crianças deveriam ser apenas moralizantes ou pedagógicos. Sua literatura introduziu densidade emocional, imaginação, medo, inadequação, desejo de liberdade e conflitos interiores como elementos legítimos da experiência infantil. Não por acaso, tornou-se a primeira autora brasileira a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante reconhecimento internacional da literatura infantil e juvenil.

É justamente aí que reside a principal contradição do episódio. O problema não parece estar no livro, mas na forma como ele passou a ser lido. Literatura não é cartilha ideológica. Personagens não são panfletos. Conflitos narrativos não equivalem automaticamente à defesa de comportamentos ou agendas políticas. Quando uma obra literária passa a ser examinada apenas como instrumento de vigilância moral, perde-se a capacidade de compreender o que distingue literatura de propaganda.

A questão ultrapassa, portanto, o debate específico sobre gênero. O que está em jogo é algo mais amplo: a dificuldade crescente de lidar com ambiguidades, metáforas, e conflitos próprios da literatura. Em vez de formar leitores capazes de interpretar criticamente textos complexos, cria-se uma cultura de leitura policialesca, na qual livros passam a ser investigados em busca de desvios ideológicos.

O paradoxo histórico é inevitável. A Bolsa Amarela surgiu em pleno regime militar, nunca foi censurada e logo consolidou-se como um clássico da literatura infantil brasileira. Décadas depois, passa a ser alvo de suspeita não por crítica política explícita, mas porque parte da sociedade passou a enxergar ameaças ideológicas até mesmo em narrativas voltadas à imaginação infantil.

Naturalmente, escolas e famílias têm o direito, e até o dever, de discutir adequação etária, mediação pedagógica e critérios de escolha de obras literárias. Esse debate é legítimo. O problema começa quando a reação abandona o terreno pedagógico e passa a tratar a literatura como objeto de interdição moral ou suspeita política.

Não é a primeira vez que obras literárias se transformam em objetos de suspeita. Isso quase nunca fortaleceu a educação ou a cultura. A literatura infantil séria nunca tratou apenas de histórias leves ou edificantes. Ela também aborda medos, frustrações, inadequações e descobertas.

Proteção excessiva pode produzir exatamente o oposto do que pretende: jovens menos preparados para lidar com complexidade, diferença e pensamento crítico.

Talvez o aspecto mais preocupante do episódio seja outro. Uma sociedade começa a empobrecer culturalmente quando perde a capacidade de distinguir livros de panfletos. Quando clássicos da imaginação infantil passam a ser tratados como ameaça ideológica, talvez o problema já não esteja nos livros.

O suspiro dos comboios

— Lhe vou confessar miúdo. Eu sei que é verdade: não somos nós que estamos a andar. É a estrada.

— Isso eu disse desde há muito tempo.

— Você disse, não. Eu é que digo.

E Tuahir revela: de todas as vezes que ele lhe guiara pelos caminhos era só fingimento. Porque nenhuma das vezes que saíram pelos matos eles se tinham afastado por reais distâncias.

— Sempre estávamos aqui pertinho, a reduzidos metros.

Tudo acontecera na vizinhança do autocarro. Era o país que desfilava por ali, sonhambulante. Siqueleto esvaindo, Nhamataca fazendo rios, as velhas caçando gafanhotos, tudo o que se passara tinha sucedido em plena estrada.

— É miúdo, estamos a viajar. Nesse machimbombo parado nós não paramos de viajar. Me faz lembrar quando andava no comboio.

O velho se lembrava, olhos quiméricos. Recordava o trem resfolegando pela savana, trazendo as boas simpatias de muito longe, os mineiros que chegavam carregados de mil ofertas. Sua memória se inundava de vapores e fumos, esses que cacimbam as sonolentas estações. Há quanto tempo os comboios tinham parado de espalhar seus fumos mágicos?

— Você alguma vez escutou a fala do comboio?

— Nunca, tio.

— É bonito de se ouvir. Túúúúúú-úú.

Tuahir se recorda. Seu serviço tinha sido numa estaçãozinha. Quando a guerra chegou, os comboios deixaram de passar. Mas ele ficou em seu posto,  sua lanterna, sua atenta bandeira. Aquela lanterna tinha restado como única luz entre tanto mato como se fosse uma lâmpada não dos homens mas da terra. 
Pontualmente Tuahir madrugava na gare, varria o patamar, reparava as tábuas da casinha. Aplicava seu princípio: há-de vir, um dia o comboio virá. Quando chegasse a data ele estaria à frente da ocasião, todo fardado, todo organizado. Como sempre fizera, saudaria a locomotiva em solene continência. As carruagens arrastariam seu suspiro de ferros, as meninas correriam com seus cestos vendendo frutas e a vida se banharia de luzes e vozes.

— Às vezes me apetece arrumar este machimbombo como eu fazia com a estação. Mas agora não vale a pena.

— Não vale a pena porquê?

— Também não vale a pena responder. Vê esse apito?

E retira do bolso um velho apito. Era um amuleto que o tinha acompanhado todos aqueles anos.

— Leve. Para lhe dar sorte.

Muidinga, de princípio, não aceita. O apito tem valores sentimentais que só o velho conhece. Mas Tuahir insiste e ele acaba por recolher o pequeno objecto. Em sua alma, porém, há uma pedrinha. Por que motivo não mereceria a pena cuidarem do autocarro? Porquê aquela desistência do tio? E lhe fala, com devoção. Lhe fala de risos futuros, o mundo brincando em suas mãos. Voltariam os dois a cuidar da estação, lanternas e bandeiras a ordenar o trânsito das carruagens.

— Não é o tio que sempre repete: qualquer coisa vai acontecer?

— Digo isso porque já perdi a esperança.

— Mentira. Se tivesse perdido por que razão me havia de oferecer esse apito?

O velho pede então que o miúdo dê voz aos cadernos. Dividissem aquele encanto como sempre repartiram a comida. Ainda bem você sabe ler, comenta o velho. Não fossem as leituras eles estariam condenados à solidão. Seus devaneios caminhavam agora pelas letrinhas daqueles escritos.

— Me lê, miúdo. Vai lendo enquanto eu faço um serviço.

Então, o velho improvisa um xipefo, solta um pano vermelho. Apanha um ramo de palmeira e inventa uma vassoura. Varre o interior do machimbombo enquanto canta. O miúdo desfolha os cadernos sorridente. O velho se recriava, igual ao seu antigo emprego. E é como se o próprio Muidinga estivesse sentado na estação, aguardando o próximo comboio. Tuahir vai juntando os resíduos do queimado numa velha tampa. Depois, sai do autocarro e espalha as cinzas pelas terras em volta.

— O que está a fazer, tio?

— Estou semear este adubo. É para amanhã quando chover. Continue, filho. Não pare de ler.
Mia Couto, "Terra Sonâmbula"

sábado, maio 23

Semeador

 


O espelho de vento-e-lua

Em um ano, o sofrimento de Kia Yui se agravou. A imagem da inacessível senhora Fênix consumia seus dias; os pesadelos e a insônia, as suas noites.
Uma tarde, um mendigo taoista pedia esmolas na rua e proclamava que podia curar as doenças da alma. Kia Yui mandou chamá-lo. Disse-lhe o mendigo: “Seu mal não sara com remédios. Tenho aqui algo que o curará se seguir minhas indicações”. Tirou da manga um espelho polido nas duas faces, com a seguinte inscrição: Precioso Espelho de Vento-e-Lua.

Acrescentou o mendigo: “Este espelho vem do Palácio da Fada do Terrível Despertar e tem a virtude de curar os males causados pelos ventos impuros. Evite, porém, olhar o verso. Amanhã voltarei para buscar o espelho e para felicitá-lo por suas melhoras”. Não quis aceitar as moedas que lhe foram oferecidas.
Kia Yui olhou a frente do espelho, e aterrorizado atirou-o longe.

O espelho refletia sua caveira. Amaldiçoou o mendigo e quis olhar o verso do espelho. Lá do fundo, a senhora Fênix, esplendidamente vestida, lhe fazia sinais. Kia Yui sentiu-se arrebatado, atravessou o metal e realizou o ato de amor. Fênix acompanhou-o até a saída.

Quando Kia Yui acordou, o espelho estava ao contrário e novamente lhe mostrava a caveira. Esgotado pelas delícias do lado feliz, Kia Yui não resistiu a tentação de olhá-lo uma vez mais. A senhora Fênix lhe fazia sinais, e ele cruzou o metal novamente e novamente fizeram amor. Isto ocorreu umas quantas vezes. Na última, dois homens o prenderam quando saía e o acorrentaram. “Eu os seguirei”, murmurou, “mas deixem-me levar o espelho”.
Foram suas últimas palavras.

Encontraram-no morto, sobre o lençol manchado.(
Tsao Hsue-qin, Sonho do aposento vermelho)
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"

Leitura natural

Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias
da sala
e recrudesce nas montanhas.

Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.

Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.

Affonso Romano de Sant'Anna

Conta aquela da poesia

Os três homens falavam de poesia. Pessoa, Drummond, Borges, Lorca, Bishop, Plath, Szymborska. Poesia, poesia, poesia, ouvia o garçom toda vez que passava pela mesa. No momento em que dois avisaram que precisavam ir embora, o terceiro protestou: “Justo agora que a prosa está ficando boa?” “A prosa? Que horror!”, exclamaram ao mesmo tempo os outros dois. A gargalhada dos três, alta, escandalosa, fez com que todos olhassem para eles. Ora, quem diria, aqueles senhores empertigados… Quando o garçom foi buscar para eles a maquininha de cartões, o dono do restaurante perguntou: “Que piada foi aquela? Me conta.” “Não sei, um negócio qualquer de poesia.” “Ah, poesia”, murmurou decepcionado o dono.

***
Os antigos enfeitavam a poesia com flores e passarinhos. Gerações posteriores desenvolveram o conceito de que as flores e os passarinhos não eram adornos, mas a essência da poesia. Tudo isso até que as flores, os passarinhos e a poesia entraram no ciclo de decadência que os atiraria ao tristíssimo marasmo atual.

***

Na poesia, os milagres são mais possíveis que na prosa. A prosa tem a mania da construção e da lógica. A poesia é imprevisível como um vento desembestado. A prosa abomina o acaso. Ela é um trabalho do homem. A poesia é uma distração dos deuses.

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Penso que a melhor poesia não é aquela que define, mas aquela que sugere. Ela deve ser não a ilha, talvez nem mesmo a sua ideia, mas uma percepção, um pressentimento de ilha. Sob esse aspecto, a poesia japonesa é inigualável.

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Não acredito em poetas que atribuem à poesia a função e a capacidade de salvar o mundo. Isso soa como manifesto, e manifestos não calham bem à poesia. Ela existe para alimentar e aliviar a sede de algumas poucas almas, assim como a música de Beethoven, Mozart e Bach.

***

Diga a teoria o que disser sobre a exata proporção entre a inspiração e a transpiração, um poema pode muito bem se fazer sozinho – se quiser. A poesia é um vício tão antigo que qualquer aldeão ou aldeã semialfabetizada podem num instante colher uma batelada. Poesia pode fazê-la o vento, pode fazê-la o rio, pode fazê-la o mar, pode também fazê-la o poeta, desde que aquilo que o poeta faça seja poesia.

***

Fazer poemas nós conseguimos. Já a poesia é diferente. Ninguém faz a poesia. Ela se faz e, por condescendência, permite às vezes que o poeta revele algo dela, aquilo que as insuficientes palavras conseguem alcançar. Deixar-se traduzir inteira é raro. Sabe-se de um caso ou dois. Rilke é um deles.

O gavião

Gente olhando para o céu: não é mais disco voador. Disco voador perdeu o cartaz com tanto satélite beirando o sol e a lua. Olhamos todos para o céu em busca de algo mais sensacional e comovente — o gavião malvado, que mata pombas.

O centro da cidade do Rio de Janeiro retorna assim à contemplação de um drama bem antigo, e há o partido das pombas e o partido do gavião. Os pombistas ou pombeiros (qualquer palavra é melhor que “columbófilo”) querem matar o gavião.

Os amigos deste dizem que ele não é malvado tal; na verdade come a sua pombinha com a mesma inocência com que a pomba come seu grão de milho.

Não tomarei partido; admiro a túrgida inocência das pombas e também o lance magnífico em que o gavião se despenca sobre uma delas. Comer pombas é, como diria Saint-Exupéry, “a verdade do gavião”, mas matar um gavião no ar com um belo tiro pode também ser a verdade do caçador.

A verdade é que não posso mais falar de aves: dei meus passarinhos. No fim eram apenas um casal de canários e um corrupião. Faço muitas viagens curtas e achei que a empregada não cuidava deles bastante bem na minha ausência; mesmo que os cuidasse não lhes fazia companhia, pois mora longe. E o prazer de minhas pequenas viagens era estragado com a lembrança do corrupião tristemente trancado em uma sala o dia inteiro, sem ter com quem conversar, ele que é tão animado e tagarela.

Sinto saudade deles (da canarinha, na verdade, não: era sem graça, e andava doente) e sem eles me sinto mais solteiro. Mas se, por exemplo, desaba uma chuvarada súbita, ainda me assusto pensando em tirar os bichos da varanda em que ficam nas noites quentes; quando me lembro que não estão mais comigo, que não devo mais ter esse susto e essa aflição, então me vem um certo alívio. Sou mais só, mas também mais livre.

Que o gavião mate a pomba e o homem mate alegremente o gavião; ao homem, se não houver outro bicho que o mate, pode lhe suceder que ele encontre seu gavião em outro homem. A vida é rapina. Perdi os cantos do meu canário e os assovios de meu sofrê; meu coração está mais triste, mas mais leve também.
Rubem Braga

Nuvens de palavras

Devia ter entre 8 e 9 anos quando tive uma iluminação. Diria epifania, se conhecesse a palavra naquela época. Era algo fascinante (esse adjetivo eu sabia, só faltava ocasião para usá-lo): um texto sem versos ou rimas, mas com os dons encantatórios de um poema. Não contava uma história, como num conto — era mais um comentário, quase confidência. E tinha humor. Muito. Eu, incapaz de rimar ou metrificar e sem me sentir à vontade ao inventar enredos, intuí — com um tiquinho de ingenuidade e muita pretensão — que aquilo eu conseguiria escrever. Bastava ser eu mesmo, tirando partido de tudo o que ignorava (e era coisa pra caramba). Só bem depois vim a saber que aquela camaradagem por escrito se chamava crônica.

Do texto em si, não ficou uma sílaba na memória, ainda que eu o tenha copiado no caderno e tentado datilografá-lo, catando milho na Remington do meu pai. Só me lembro do esquisitíssimo nome do autor: Millôr. Ele me pareceu um adulto que não se esquecera de um dia ter sido criança.


Anos mais tarde, topei com Carlos Eduardo Novaes, outro que ria com as palavras — mas eu não havia sido apresentado ao substantivo “lúdico” para definir o que me atraía nele. Então chegaram Stanislaw Ponte Preta, Leon Eliachar, Luís Fernando Veríssimo — todos eles adultos brincalhões, dando uma pista de que eu não precisaria abrir mão de ser quem eu era quando virasse gente grande (mal sabia que ser cronista é nunca virar gente grande).

Fui aos poucos descobrindo a prosa amena de Drummond, um avô de quem era bom ouvir os casos. De Fernando Sabino, o tio amoroso. De Rubem Braga, o padrinho cuja presença silenciava tudo à sua volta. Mais adiante, Antônio Maria se juntou à família — e a estante quase que só tinha esse povo que escreve em língua de gente, não de livro.

Um dia, depois de ter sido arquiteto por quatro décadas e ter desistido (temporariamente) do atrevimento de ser psicanalista, lá estava eu, escrevendo crônica em jornal, em revista e coordenando uma oficina em que aquele arrebatamento pelo Millôr fosse compartilhado com quem tivesse tido experiências similares com Cecília, Rachel, Machado, Clarice.

Nesta semana, na oficina, acompanhamos Ruth de Aquino fazer de Atafona personagem de uma saga familiar, e André Gabeh reinventar, pela via do riso, os perrengues do subúrbio. Experimentamos com Ivan Lessa a sensação de ser estrangeiros no tempo, na geografia, dentro de nós mesmos. Pelos olhos de Carlos Heitor Cony, nos vimos no dia seguinte ao golpe de 1964. Nélson Rodrigues nos levou por um Rio de Janeiro que renascia, pós-gripe espanhola, no carnaval de 1920. E aí percebemos serem as crônicas — raramente vistas nas chamadas de primeira página — aquilo que melhor retrata o festival de besteiras que assola o país, a alma encantadora das ruas, o caos nosso de cada dia, a comédia da vida privada. E que é preciso muito treino para ser natural, muito vocabulário para escrever como se fala.

Quem quer que, ainda aos 8 anos ou já pelos 80, tenha lido Artur Xexéo, Danuza Leão ou João Ubaldo há de ter tido a ilusão de sermos todos cronistas em suspensão, capazes de tanger, com a mesma leveza, uma nuvem de palavras.
Eduardo Affonso

sexta-feira, maio 22

Pra ver melhor

 


A influência dos livros e dos jornais

Os jornais e os livros exercem no nascimento e na propagação das opiniões uma influência imensa, conquanto inferior à dos discursos. Os livros atuam muito menos que os jornais, pois a multidão não os lê. Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influência sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais são as obras de Rousseau, verdadeira bíblia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tomás, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secessão na América do Norte. Outras obras como Robinson Crusoé e os romances de Júlio Verne exerceram grande influência nas opiniões da juventude e determinaram muitas carreiras.

Essa força dos livros era, sobretudo, considerável quando se lia pouco. A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.

Hoje, a influência dos jornais é muito superior à força dos livros. São em número incalculável as pessoas que têm unicamente a opinião do jornal que elas leem.

Gustave Le Bon

Os homens sem pé no seu tempo

Das coisas tristes que o mundo tem, são os homens sem pé no seu tempo. Os desgraçados que aparecem assim, cedo de mais ou tarde de mais, lembram-me na vida terras de ninguém, onde não há paz possível. Imagine-se a dramática situação dum cavernícola transportado aos dias de hoje, ou vice-versa. A cada época corresponde um certo tipo humano. Um tipo humano intransponível, feito da unidade possível em tal ocasião, moldado psicològicamente, e fisiològicamente até, pelas forças que o rodeiam. A Idade Média tinha como valores Aristóteles e os doutores da Igreja. E qualquer espírito coevo, por mais alto que fosse, estava irremediàvelmente emparedado entre a Grécia sem Platão e as colunas do Templo. De nada lhe valia sonhar outro espaço de movimento. Cada inquietação realizava-se ali. O que seria, pois, um Vinci do Renascimento, multímodo, aberto a todos os conhecimentos, a bracejar dentro de tão acanhados muros?

Neste trágico século vinte, sem qualquer sério conteúdo ideológico, sem nenhuma espécie de grandeza fora do visceral e do somático, todo feito de records orgânicos e de conquistas dimensionais, que serenidade interior poderá ter alguém alicerçado em valores religiosos, estéticos, morais, ou outros? Nenhuma. Entre o abismo da sua impossibilidade natural de deixar de ser o que é, e a muralha que o separa inexoràvelmente do plaino onde se move e se justifica a multidão circundante, o desgraçado é como aquelas algas desenraizadas que o mar atira impiedosamente à terra, e que a terra devolve impiedosamente ao mar. É claro que na maior parte das vezes a pobre alga protesta. Todos se devem lembrar de Romain Rolland a erguer a voz impotente contra a guerra de 14. Sabemos o que valeu o seu grito. Foi só o tempo de disparar o primeiro canhão. O protesto, como um gemido inútil, ficou à retaguarda, abafado pelo estrépito dos que passavam. É a eterna e triste lei das realidades. Tão eterna e tão triste, que até passando do individual para o colectivo ela é verdadeira.

Veja-se o caso em relação a dois continentes, a Europa e a América, por exemplo.
Teima a Europa, culta, velha, experiente, mas anacrónica, em que a vida dos povos é sobretudo história. Que, por isso, o facho da autêntica civilização é seu, e só na sua posse deve caminhar. Tudo verdades como punhos. Mas o certo é que o facho lhe está dia-a-dia a morrer nas mãos e a passar para as mãos selvagens dos seus colonos. Com a mesma luminosidade? Evidentemente que não, mas que importa ? A vida não se move por acções lógicas. Move-se por imponderáveis, e sobretudo pela força dos factores. O homem que o nosso século pede não é o que lê, o que se aprofunda a cavar em si. É um ser biológico perfeito, no sentido corpóreo e psíquico duma abelha. A natureza dos favos é variável, claro está, conforme as necessidades de cada hora. Há pouco tempo ainda era um simples e inofensivo automóvel; neste momento o casulo é um tanque ou um avião. Por isso, a que propósito seria qualquer céptico em matéria de parafusos um representante actual da nossa civilização? Ver uma Grécia escrava de Roma é tão natural como ver um Unamuno perdido na Espanha de 36.
Miguel Torga

Infância

E volta sempre a infância
com suas íntimas, fundas amarguras.
Oh! por que não esquecer
as amarguras
e somente lembrar o que foi suave
ao nosso coração de seis anos?

A misteriosa infância
ficou naquele quarto em desordem,
nos soluços de nossa mãe
junto ao leito onde arqueja uma criança;

nos sobrecenhos de nosso pai
examinando o termomêtro: a febre subiu;
e no beijo de despedida à irmãzinha
à hora mais fria da madrugada.

A infância melancólica
ficou naqueles longos dias iguais,
a olhar o rio no quintal horas inteiras,
a ouvir o gemido dos bambus verde-negros
em luta sempre contra as ventanias!

A infância inquieta
ficou no medo da noite
quando a lamparina vacilava mortiça
e ao derredor tudo crescia escuro, escuro...

A menininha ríspida
nunca disse a ninguém que tinha medo,
porém Deus sabe como seu coração batia no escuro,
Deus sabe como seu coração ficou para sempre diante da vida
— batendo, batendo assombrado!
Henriqueta Lisboa

Mãos sonhando mulheres

A chuva timbilava no tecto do machimbombo. Os dedos molhados do céu se entretinham naquele tin-tin-tilar. Tuahir está embrulhado numa capulana. Olha o miúdo que está deitado, de olhos abertos, em sincero sonho.

— Charra, faz frio. Agora, nem se pode fazer uma fogueira, a lenha toda está molhada. Você me anda a ouvir, miúdo?

Muidinga continuava absorto. Segundo a tradição, ele se devia alegrar: a chuva era um bom prenúncio, sinal de bons tempos batendo à porta do destino.

— Te falta é uma mulher, disse o velho. Estiveste a ler sobre essa mulher, a tal Farida. Devia ser bonita, a gaja.

As mulheres, em instante, ficaram tema. Mulheres é bom quando não há amor, disse. Porque o amor é esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce no quintal. Vale a pena uma puta, miúdo. Gastamos o bolso, não o peito. Numa puta não pomos nunca o coração. E prossegue:

— Você, miúdo, não conhece meu caso com Jorogina?

Então, o velho relata seu encontro com Jorgina, mulher que merecera suas eternas promessas. Ela parecia burrinha, metida em ideia só por biscate. Assim se querem as tipas, adianta Tuahir, que é para não avançarem fora dos serviços que Deus lhes confiou.

— Me enganei dessa mulher, Muidinga.

Afinal, ela era uma dessas de joelhos arregaçados, capaz de cair em esteira alheia mais fácil que o milho se ajoelhar no pilão. Tuahir sofrera, a voz ainda lhe nuventa com a lembrança.

— Agora vivo de cor e salteado.

Tuahir salivava as sílabas, sofrendo dessa indigestão de nada não comer desde há dias. Contempla o miúdo, lhe adivinha a idade de começar namoros. E sorri recordando a cena das velhas violentando o rapaz. O rapaz merecia outras iniciações.

— Espera, miúdo. Deixa eu sentar perto.

Se arruma na beira no assento de Muidinga. Mete a mão entre as virilhas do rapaz. Aos poucos lhe vai desapertando a breguilha.

— Agora pensa nas meninas.

— Tio! Não faça isso...

— Não experimenta me negar, ainda lhe despacho umas porradas. Vá, faça como te digo.

— Mas, tio: assim eu não consigo...

— É por causa você está pensar só com a cabeça. Pensa com todo corpo!

— Não vai dar, tio.

— Com certeza você está pensar Maria Bofe, aquela lá do campo. Essa nem tem tatuagem, pele dela é lisa como um homem. Pensa Joaquinha, pensa Tinita. Essas tem as próprias tatuagens, você toca a barriga delas e sente parece é uma casca.

— Não é questão de pele, nem tatuagem. É que não dá, assim de pensamento.

— É motivo da pele, eu sei. Você já viu peixe sem escama? Peixe sempre leva escama. Sem tatuagem a mulher que está na pessoa não acorda. Está ver, você agora? Só de falar o assunto você já está a acordar. Vá, continua, rapaz, eu lhe ajudo. Faz conta minha mão é Joaquinha.

Os dois adormecem, encostados. Despertam sentados, na mesma posição com que tinham adormecido. Com a chegada da noite a chuva tinha parado. A terra soltava ainda o seu perfume doce. Por baixo do canhoeiro, eles se levantam em alegre disposição. Sem compreenderem o motivo eles cantam em desafio. Depois, dançam, batucando nas latas. Parecem tontos.

— Mas nós bebemos, tio?

— Isso é bebida que estava dentro do sangue há muito tempo. Nos tempos, eu bebi tantíssimo.

E explica as urgências de beber: a urina, lá onde ela morava, dentro do corpo, lhe aquecia muito. Chegava de lhe queimar, quase a ferver. O remédio era beber, meter líquido para arrefecer aquelas águas interiores. Os dois se riem da explicação, gargalham a peitos abertos. De repente, Muidinga se inquieta:

— Não é perigoso barulharmos assim?

— Se rir muito alto você afasta os maus espíritos.

O velho retoma dançando. Muidinga já não o acompanha. Encosta-se numa árvore. O velho olha-o admirado.

— Ria, miúdo. Rindo as alegrias acontecem.

Depois, também Tuahir abandona as danças. Desaba-se, desistido. Senta-se, abanando a cabeça.

— Você tem razão, miúdo: cada vez vamos chamar atenções.

Ficam por um enquanto a respirar tristezas, o cacimbo se adensava. O miúdo, então, lhe pergunta: por que razão ele nunca consegue lembrar antigas recordações? Porquê o antigamente, todo o tempo anterior à doença lhe estava impedido, mais coberto de cacimbo que os terrenos em volta?

— Aprendi tudo de novidade: andar, falar. Meus olhos se lembram das leituras, meus dedos não esqueceram as letras. Mas eu não sei lembrar nada do meu passado. Porquê, tio?

Tuahir lhe diz a verdade. O miúdo tinha sido levado ao feiticeiro. O velho lhe pedira para que tudo fosse retirado da cabeça dele.

— Pedi isso por causa é melhor não ter lembrança deste tempo que passou. Ainda tiveste sorte com a doença. Pudeste esquecer tudo. Enquanto eu não, carrego esse peso...

Tuahir havia entendido: os escritos de Kindzu traziam ao jovem uma memória emprestada sobre esses impossíveis dias. Ao menos ele acreditasse tudo aquilo ser fantasia, estoriazinha que se conta para fazer de conta.

— Sabe, miúdo, o que vamos fazer? Você me vai ler mais desses escritos.

— Mas ler agora, com esse escuro?

— Acendes o fogo lá fora.

— Mas, com a chuva, a lenha toda se molhou.

— Então vamos acender o fogo dentro do machimbombo. Juntamos coisa de arder lá mesmo.

— Podemos, tio? Não há problema?

— Problema é deixar este escuro entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir.
Mia Couto, "Terra Sonâmbula"

Transporta o céu para o chão

Era um mendigo seresteiro, um misto de coitado e boêmio, que bebeu um pouco mais e ficou alegre. Ora, a alegria de um mendigo resume-se num canto romântico misturado aos palavrões da revolta, único lenitivo para suas amarguras. Os mendigos, em geral, não dizem palavrão, porque vivem da caridade pública. Mas este, de Salvador, Cidade do São Salvador, Bahia, tinha bebido umas e outras, talvez com outros humildes como ele, no cais dos saveiros, talvez numa tendinha da beira da praia. Isto não ficou esclarecido.

Sabia-se apenas que era um mendigo que — de repente — virou seresteiro e saiu cantando pelas ruas do Salvador, subindo e descendo suas ladeiras, momentaneamente alegre:

— “A Deusa/ da minha rua/ tem os olhos onde a lua costuma se embriagar” — cantava ele.

Depois parava, meditava sobre o que cantara, sorria e dizia seu sonoro e honesto palavrão:

— Quem costuma se embriagar sou eu, ora… – e arrematava com o palavrão. E lá ia cantando: — “Nos seus olhos eu suponho que o sol/ num doirado sonho/ vai claridade buscar.”

Cantando. O mendigo chegou a uma praça e parou encantado em frente a uma casa. Era uma casa muito grande, parecia um palácio e todo bêbado é um rei. Ele deve ter imaginado uma seresta para sua rainha e cantou:

— “Na rua/ uma poça d’água/ espelho da minha mágoa/ transporta o céu para o chão.”

Outra vez sorriu e outra vez praguejou seus palavrões. Foi então que um homem, vivendo ali seus dias e suas noites, isolado das misérias do mundo, sem mais um resto de temperança, de compreensão, achou que o mendigo estava lhe faltando com o respeito e chamou a polícia.

Pombas! A polícia. Esta mesmo é que não ia compreender nunca o sonho do mendigo-rei. Chegou e tentou agarrá-lo à força.

– Assim não — gritou o intrépido monarca. — Assim não.

Mas o policial insistiu e deu-lhe um tranco. O rei foi magnífico na sua dignidade, esfregando um bofetão certeiro e merecido nas fuças do policial. Um companheiro do esbofeteado sacou da arma e fez fogo. Morreu o rei, morreu o seresteiro, morreu o mendigo.

Caiu desfalecido na calçada, veio-lhe uma estranha impressão e ele morreu: “Na rua/ uma poça d’água/ […]/ transporta o céu para o chão” – cantara ele ainda há pouco. Mas desta vez não. A poça era de sangue.
Stanislaw Ponte Preta

quarta-feira, maio 20

Leitura com encosto

 


'Precisa-se'

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito:

Precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. 

P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
Clarice Lispector