terça-feira, fevereiro 10

Leitura da manhã

 


O mundo

Um homem da povoação de Neguá, na costa da Colômbia, conseguiu subir às alturas do céu.

À volta, contou. Disse que, lá de cima, contemplara a vida humana. E disse que éramos um mar de foguinhos.

- O mundo é isso - revelou. - Um montão de gente, um mar de foguinhos.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não há dois fogos iguais. Há fogos grandes, fogos pequenos e fogos de todas as cores. Há gente de fogo sereno, que nem se apercebe do vento; e gente de fogo enlouquecido, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos tolos, não iluminam nem queimam; mas outros ardem a vida com tal vontade , que não se podem olhar sem pestanejar, e quem se aproxima arde.

Eduardo Galeano, "O Livro dos Abraços"

De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles

Nenhum, nenhuma

Dentro da casa-de-fazenda, achada, ao acaso de outras várias e recomeçadas distâncias, passaram-se e passam-se, na retentiva da gente, írreversos grandes fatos — reflexos, relâmpagos, lampejos — pesados em obscuridade. A mansão, estranha fugindo, atrás de serras e serras, sempre, e à beira da mata de algum rio, que proíbe o imaginar. Ou talvez não tenha sido numa fazenda, nem no lndescoberto rumo, nem tão longe? Não é possível saber-se, nunca mais.

Mas um menino penetrara no quarto, no extremo da varanda, onde se achava um homem sem aparência, se bem que, por certo, como curiosamente se diz, já “entrado em anos”; ele devia de ser o dono de lá. E naquele quarto — que, de acordo com o que se verifica, em geral, na região, nos casarões-de-fazenda com alta e comprida varanda, seria o “escritório” — há era uma data. O menino não sabia ler, mas é como se a estivesse relendo, numa revista, no colorido de suas figuras; no cheiro delas, igualr mente. Porque, o mais vivaz, persistente, e que fixa na evocação da gente o restante, é o da mesa, da escrivaninha, vermelha, da gaveta, sua madeira, matéria rica de qualidade: o cheiro, do qual nunca mais houve. O homem sem aspecto tenta agora parecer-se com outro — um desses velhos tios ou conhecidos nossos, deles o mais silencioso. Mas, segundo se apurou, não era. Alguém, apenas, chamara-o, na ocasião, de nome com aproximada assonância; e os dois, o ignorado e o sabido, se perturbam.

Alguém mais, pois, ali entrara? A moça, imagem. A moça é então que reaparece, linda e recôndita. A lembrança em torno dessa moça raia uma tão extraordinária, maravilhosa luz, que, se algum dia eu encontrar, aqui, o que está por trás da palavra “paz”, ter-me-á sido dado também através dela. Na verdade, a data não poderia ser aquela.

Se diversa, entretanto, impôs-se, por trocamento, no jogo da memória, por maior causa. Foi a moça quem enunciou, com a voz que assim nascia sem pretexto, que a data era a de 1914? E para sempre a voz da moça retificava-a.

Tudo não demorou calado, tão fundamente, não existindo, enquanto viviam as pessoas capazes, quem sabe, de esclarecer onde estava e por onde andou o menino, naqueles remotos, já peremptos anos? Só agora é que assoma, muito lento, o difícil clarão reminiscente, ao termo talvez de longuíssima viagem, vindo ferir-lhe a consciência.

Só não chegam até nós, de outro modo, as estrelas.

Ultramuito, porém, houve o que há, por aquela parte, até onde o luar do meu mais-longe, o que certifico e sei. A casa — rústica ou solarenga — sem história visível, só por sombras, tintas surdas: a janela parapeitada, o patamar da escadaria, as vazias tarimbas dos escravos, o tumulto do gado?

Se eu conseguir recordar, ganharei calma, se conseguisse religar-me: adivinhar o verdadeiro e real, já havido. Infância é coisa, coisa?

A moça e o moço, quando entre si, passavam-se um embebido olhar, diferente do dos outros; e radiava ém ambos um modo igual, parecido. Eles olhavam um para o outro como os passarinhos ouvidos de repente a cantar, as árvores pé-ante-pé, as nuvens desconcertadas: como do assoprado das cinzas a esplendição das brasas.

Eles se olhavam para nao-distância, estiadamente, sem saberes, sem caso. Mas a moça estava devagar. Mas o moço estava ansioso. O menino, sempre lá perto, tinha de procurar-lhes os olhos. Na própria precisão com que outras passagens lembradas se oferecem, de entre impressões confusas, talvez se agite a maligna astúcia da porção escura de nós mesmos, que tenta incompreensivelmeflte enganei-nos, ou, pelo menos, retardar que perscrutemos qualquer verdade. Mas o menino queria que os dois nunca deixassem de assim se olhar. Nenhuns olhos têm fundo; a vida, também, não.


Aquela casa, como e por que viera ter o menino? Talvez, em desviada viagem, sem pessoas da família. Sua estada esperara-se para mais curta, do que foi?
Porque, primeiro, todos pensavam esconder-lhe o que havia num determinado quarto, e mesmo o passo do corredor para onde dava aquele quarto. A dúvida que isso marcou, no menino, ajuda-o agora a muito se lembrar. A moça, porém, era a mais formosa criatura que jamais foi vista, e não há fim de sua beleza. Ela poderia ser a princesa no castelo, na torre. Em redor da altura da torre do castelo, não deviam de revoar as negras águias? O homem, velho, quieto e sem falar, seria, na realidade, o pai da moça. O homem concordava com todos, sem tristezas se calava? As nuvens são para não serem vistas. Mesmo um menino sabe, às vezes, desconfiar do estreito caminhozinho por onde a gente tem de ir — beirando entre a paz e a angústia.

Depois, porém, porque mudassem de ideia, ou porque o menino tivesse de sojornar lá por mais tempo, deixaram-no saber o que dentro daquele dito quarto se guardava.

Deixaram-no ver. E, o que havia ali, era uma mu[her. Era uma velha, uma velhinha — de história, de estória — velhíssíma, a inacreditável. Tanto, tanto, que ela se encolhera, encurtara-se, pequenina como uma criança, toda enrugadinha, desbotada: não caminharia, nem ficava em pé, e quase não dava acordo de coisa nenhuma, perdida a claridade do juízo. Não sabiam mais quem ela era, tresbísavó de quem, nem de que idade, incomputada, Incalculável, vinda através de gerações, sem ninguém, só ainda da mesma nossa espécie e figura. Caso imemorial, apenas com a incerta noção de que fosse parenta deles. Ela não poderia mais ser comparada. A moça, com amor, tratava dela.

Tênue, tênue, tem de insistir-se o esforço para algo remembrar, da chuva que caía, da planta que crescia, retrocedidamente, por espaço, os castiçais, os baús, arcas, canastras, na tenebrosidade, a gris pantalha, o oratório, registros de santos, como se um pedaço de renda antiga, que se desfaz ao se desdobrar, os cheiros nunca mais respirados, suspensas florestas, o porta-retratos de cristal, floresta e olhos, ilhas que se brancas, as vozes das pessoas, extrair e reter, revolver em mim, trazer a foco as altas camas de torneado, um catre com cabeceira dourada; talvez as coisas mais ajudando, as coisas, que mais perduram: o comprido espeto de ferro, na mão da preta, o batedor de chocolate, de jacarandá, na prateleira com alguidares, pichorras, canecos de estanho. O menino, assustando-se, correra a refugiar-se na cozinha, escura e imensa, onde mulheres de grossos pés e pernas riam e falavam.

A moça e o moço vieram buscá-lo? O moço causava-lhe antipatia e rancor, dele já tinha ciúmes. A moça, de formosura tão extremada, vestida de preto, e ela era alta, alva, alva; parecia estar de madrinha num casamento, ou num teatro? Ela carregou o menino, cheirava a vem de verde e a rosa, mais meigo que as rosas cheiram, mais grave. O moço ria, exato. Tranquilizavam-no, diziam: que a velhinha não era a morte, não. Nem estava morta. Antes, era a vida. Ali, num só ser, a vida vibrava em silêncio, dentro de si, intrínseca, só o coração, o espírito da vida, que esperava.

Aquela mulher ainda existir parecia um desatino de que ela mesma nem tivesse culpa. Mas o moço não ria mais. Lá estava também o homem calado, de costas, mesmo de pé ele rezava o terço, num rosário de pretas camáldulas.

Diziam ao menino, demonstravam-lhe: que a velhinha não era sombração, mas sim pessoa. Sem que lhe soubessem o verdadeiro nome, chamavam-na a Nenha. lia ficava tão quieta, no meio da alta cama de torneados, o catre com cabeceira dourada, que ali quase se sumia, nos panos, algo inviolável em sua exiguídade, e respirava. Era cor de cidra, em todas as rugazinhas — e os olhos abertos, garços. O que ela não tinha era pálpebras?

Todavia, um trêmíto, uma babinha, no murcho, a Ixca, e era o docemente incompreensível. O menino sorriu. Perguntou: — “Ela beladormeceu?” A moça beijou-o. A vida era o vento querendo apagar uma lamparina. O caminhar das sombras de uma pessoa imóvel.

A moça não queria que coisa alguma acontecesse. A moça tinha um leque? O moço conjurava-a, suspensos olhos. A moça disse ao moço: — “Você ainda não sabe sofrer…” — e ela tremia como os ares azuis. Tenho de me lembrar. O passado é que veio a mim, como uma nuvem, vem para ser reconhecido: apenas, não estou sabendo decifrá-lo.

Estava-se no grande jardim. Para lá, tinham trazido também a Nenha, velhinha.

Traziam-na, para tomar sol, acomodadinha num cesto, que parecia um berço. Tão galante, tudo, que o menino de repente se esqueceu e precipitouse: queria brincar com ela! A moça impediu-o apenas com brandura, sem o repreender, ela lá se sentava, entre madressilvas e rosmaninhos, insubstituível. Olhava-para a Nenha, extremosamente, de delonga, pelo curso dos anos, pelos diferentes tempos, ela também menina ancianíssima.

Recobrira-a com um xale antigo, da velhinha não se viam as mãos.

Só o engraçadinho, pueril acondicionamento, o somo lmpalpar-se, amável ridicularia. Davam-lhe à boca comldlnha mole. Tornavam-lhe às vezes uns sorrisinhos, um tanger de tosse, chegava a falar — e escassamente podia ser entendida — no semi-sussuro mais discreto que o bater da borboletínha branca. A moça adivinhava-a? Pedia água. A moça trazia a água, vinha com nas duas mios o copo cheio às beiras, sorrindo igual, sem deixar cair fora uma única gota — a gente pensava que ela devia de ter nascido assim, com aquele copo de água pela borda, e conservá-lo até a hora de desnascer: dele nada se derramasse.

Não, a Nenha não reconhecia ninguém, alheada de fim, só um pensar sem inteligência, imensa omissão, e já condenados segredos — coração imperceptível.

No que vagueia os olhos, contudo, surpreende-se-lhe o imanecer da bem-aventura, transordinária benignídade, o bom fantástico. O menino perguntou: — “Ela agora está cheia de juízo?”

A moça firmou o olhar, como o luar desassombra. O rumor da tesoura grande podava as roseiras. Era o homem velho, de pé, de contraluz, homem muito alto. O moço pegou na mão da moça, ele estava apaixonado. O menino se recolheu, olhando para o chão, numa tristeza de amuo.

O homem velho só queria ver as flores, ficar entre elas, cuidá-las. O homem velho brincava com as flores. Cerra-se a névoa, o escurecido, há uma muralha de fadiga. Orientar-me! — como um riachinho, às voltas, que tentasse subir a montanha. Havia um fio de barbante, que a gente enrolava num pauzinho. A moça repetia coisas tantas, muito mansas, ao moço. Tenho de me recuperar, desdeslembrar-me, excogitar — que sei? — das camadas angustiosas do olvido. Como vivi e mudei, o passado mudou também. Se eu conseguir retomá-lo. Do que falavam o moço e a moça. Do velho homem, pai dela, desenganadamente doente, para qualquer momento, mortal.

— “E ele já sabe?” — o moço perguntou. A moça, com um lenço branco, muito fino, limpava a sumida boca da Nenha, velhinha. — “Ele sabe. Mas não sabe por quê!” — ela falou, tinha fechado os olhos, tesa, parada. O moço se mordeu, um curto. — “E quem é que sabe? E para que saber por que temos de morrer?” — disse, disse. A moça, agora, era que pegava na mão dele.

Venho a me lembrar. Quando amadorno. De como fora possível que tão de todo se perdesse a tradição do nome e pessoa daquela Nenha, velhíssima, antepassada, conservada contudo ali, por seu povo de parentes. Alguém, antes de morrer, ainda se lembrava de que não se lembrava: ela seria apenas a mãe de uma outra, de uma outra, de uma outra, para trás. Antes de vir para a fazenda, ela ter-se-ia residido em cidade ou vila, numa certa casa, num largo, cuidada por umas irmãs solteironas. Mesmo essas, mal contavam. Dera-se que, em tempos, quase todas as antecedentes mulheres da família, de roca e fuso, sucessivamente teriam morrido, quase de uma vez, do mal-de-semana, febre de parto; daí, rompido o conhecimento, os homens se mudando, andara confiada a estranhos a Nenha, velhinha, que durava, visual, além de todas as raias do viver comum e da velhez, mas na perpetuidade. Então, o fato se dissolve. As lembranças são outras distâncias. Eram coisas que paravam já à beira de um grande sono. A gente cresce sempre, sem saber para onde.

Trasvisto, sem se sofrear, fechando os dentes, o moço arguia com a moça, ela firme e doçura. Ela tinha dito: — “… esperar, até a hora da morte…” Soturno, nervoso, o moço não podia entender, considerar no impeditivo. Porque a moça explicava: que não a morte do pai, nem da velhinha Nenha, de quem era a tratadeira. Falou: — “Mas a nossa morte…” Sobre este ponto, ela sorria — muito — flor, limite de transformação. Obrigara-se por um voto? Não. Mais disse: — “Se eu, se você gostar de mim… E como saber se é o amor certo, o único? Tanto é o poder errar, nos enganos da vida… Será que você seria capaz de se esquecer de mim, e, assim mesmo, depois e depois, sem saber, sem querer, continuar gostando? Como é que a gente sabe?” Ouvida a resposta da moça, o menino estremeceu, queria que ela não tivesse falado. Reperdlda a remembrança, a representação de tudo se desordena: é uma ponte, ponte — mas que, a certa hora, se acabou, parece’que. Luta-se com a memória. Atordoado, o menino, tornado quase incônscio, como se não fosse ninguém, ou se todos uma pessoa só, uma só vida fossem: ele, a moça, o moço, o homem velho e a Nenha, velhinha — em quem trouxe os olhos.

Vê-se — fechando um pouco os olhos, como a memória pede: o reconhecimento, a lembrança do quadro, se esclarece, se desembaça. Desesperado, o moço, lívido, ríspido, falava com a moça, agarrava-se aos varões da grade do jardim. Dissesse: que era um simples homem, são em juízo, para não tentar a Deus, mas para seguir o viver comum, por seus meios, pelos planos caminhos! Que será, agora, se a moça não o quiser reter, se ela não concordar? A moça, lágrimas em olhos, mas mediante o sorriso, linda já de outra espécie. Ela não concordou. Ela só olhava com enorme amor para o moço. Então, ele deu-lhe as costas. E a moça se ajoelhou, curvada para o berço da Nenha, velhinha, e chorava, abraçando-a — ela se abraçava com o incomutável, o imutável.

Tanto, de uma vez, ela se separava da gente, que mesmo o menino não podia querer ficar com ela, consolá-la. O menino, contra tudo o que sentisse, acompanhou o moço. O moço o aceitou, pegou-lhe da mão, juntos caminharam.

O moço viera com tropeço, apalpando as paredes, como os cegos. E entraram no quarto, ao extremo da varanda, no escritório. Aquela mesa-escrivaninha cheirava tão bom, a madeira vermelha, a gaveta, o menino gostaria de guardar para si a revista, com as figuras coloridas; mas não teve ânimo de pedir. O moço escreveu o bilhete, era para a moça, ali o depositou. O que estava nele, não se sabe, nunca mais. Não se viu mais a moça. O moço partia, para sempre, torna-viajor, com ele ia também o menino, de volta a casa. O moço, com a capa de baeta azul, trazia-o, à frente da sela. Voltaram os olhos, já a distância: do limiar, à porta, só o homem alto, sem se poder ver-lhe o rosto, desconhecidamente, fazia-lhes ainda sinais de adeus.

A viagem devia de ser longa, com aquele moço, que falava com o menino, com ele tratava mão por mão, carecia de selar palavras. Ele, o moço, disse: — “Será que posso viver sem dela me esquecer, até a grande hora? Será que em meu coração ela tenha razão?…” O menino não respondeu, só pensou, forte: — “Eu, também!” Ah, ele tinha ira desse moço, ira de rivalidades. Do moço, que outras coisas repetia, que ele não queria perceber. Pediu: se podia vir à garupa, em vez de no arção? Ele queria não ficar perto da voz e do coração desse moço, que ele detestava. Tem horas em que, de repente, o mundo vira pequenininho, mas noutro de-repente ele já torna a ser demais de grande, outra vez. A gente deve de esperar o terceiro pensamento. O moço não falava, agora. Falido, Ido, noutro confusamento, ele rompeu a chorar.

Pouco a pouco, o menino, devagarinho, chorava, também, o cavalo soprava. O menino sentia: que, se, de um jeito, fosse ele poder gostar, por querer, desse moço, então, de algum modo, era como se ele ficasse mais perto da moça, tão linda, tão longe, para sempre, na soledade. Daí, viu-se em casa. Chegara.
Nunca mais soube nada do moço, nem quem era, vindo junto comigo. Reparei em meu pai, que tinha bigodes. Meu pai, estava dando ordens a dois homens, que era para levantarem o muro novo, no quintal. Minha mãe me beijou, queria saber notícias de muita gente, olhava se eu não rasgara minha roupa, se tinha ainda no pescoço, sem perder nenhum, os santos de todas as medalhinhas.

E eu precisei de fazer alguma coisa, de mim, chorei e gritei, a eles dois: — “Vocês não sabem de nada, de nada, ouviram?! Vocês já se esqueceram de tudo o que algum dia sabiam!…”

E eles abaixaram as cabeças, figuro que estremeceram.

Porque eu desconheci meus pais — eram-me tão estranhos; jamais poderia verdadeiramente conhecê-los, eu; eu?

João Guimarães Rosa, no livro “Primeiras estórias“

O vadio

Ele conhecera dias mais felizes, apesar do estado de miséria e de doença em que ora se encontrava.

Na idade de quinze anos, ficara com as pernas esmagadas por uma carruagem, na estrada real de Varville. Desde então mendigou, arrastando-se ao longo dos caminhos, através dos pátios das quintas, balouçado nas muletas, que lhe tinham feito levantar os ombros à altura das orelhas. A sua cabeça dir-se-ia enterrada entre duas montanhas.

Enjeitado encontrado num fosso, pelo cura de Billette, na véspera do dia de Finados, e batizado em razão disso, Nicolau Toussaint, educado por caridade, ficara estranho a todo e qualquer grau de instrução, estropiado depois de ter bebido alguns copos de aguardente oferecidos pelo padeiro da aldeia, para que ele fizesse rir, não tardou em dar em vagabundo, e mais nada sabia fazer do que estender a mão à caridade.

Outrora, a baronesa d'Avray concedia-lhe, para dormir, uma espécie de nicho cheio de palha, ao lado do galinheiro, na herdade que se ligava ao castelo: e ele ali estava ao abrigo, certo de, nos dias de grande fome, encontrar sempre um pedaço de pão e um copo de cidra na cozinha. Muitas vezes, recebia também alguns "sous" atirados pela velha senhora do alto da sua escadaria ou das janelas do seu quarto. Porém, ela morrera.

Nas aldeias, não lhe davam nada: conheciam-no por demais; estavam fartos de o ver; havia quarenta anos que o viam passear o deformado de seu corpo andrajoso sobre as suas duas patas de madeira.

Todavia, ele não queria deixar aqueles sítios, porque não conhecia outra coisa sobre a terra a não ser aquele canto de país, aquelas três ou quatro aldeias onde arrastara a sua vida miserável.

Marcara fronteiras à sua mendicidade e não teria nunca passado os limites que se acostumara a não ultrapassar.

Ignorava se o mundo se estenderia ainda muito para além das árvores que sempre tinham servido de limite à sua vida. Nem sequer o perguntava a si próprio. E quando os camponeses, cantados de o encontrarem todos os dias à beira dos seus campos ou ao longo dos seus fossos, lhe gritavam:

— Por que não vais tu para as outras aldeias, em lugar de andares sempre a mendigar por aqui? Ele não respondia, e afastava-se, tomado de um medo vago pelo desconhecido, de um medo de pobre que receia confusamente mil coisas, as novas caras, as injúrias, os olhares de desconfiança e suspeita das pessoas que o não conheciam, e os guardas que vão dois a dois pelas estradas e que o faziam esconder, por instinto, nas moitas ou por detrás das pedras.

Quando os via de longe, reluzentes ao sol — encontrava de repente uma agilidade singular, uma agilidade de monstro, para alcançar qualquer esconderijo. Saltava nas muletas, e deixava-se cair à maneira de um trapo, rolando como uma bola, tornando-se pequenino, invisível, acaçapado como uma lebre na sua toca, confundindo os seus trapos russos com a terra.

Ele não tivera, no entanto, nada com eles. Mas aquilo estava-lhe na massa do sangue, como se houvesse recebido aquele temor e aquela manha dos seus ascendentes, que não conhecera.

Não tinha refúgio, nem teto, nem cabana, nem abrigo. Dormia por toda a parte, quer de verão quer de inverno, e introduzia-se nas granjas ou nos estábulos com uma ligeireza notável. E raspava-se sempre antes que houvessem dado pela sua presença. Conhecia os buracos para penetrar nas construções, e o manejar das muletas havia-lhe dado aos braços um vigor tão surpreendente, que trepava só à força de pulso até aos celeiros de forragens, onde se conservava quatro ou cinco dias sem bulir, quando havia recolhido no seu giro as provisões suficientes.

Vivia como os animais dos bosques no meio dos homens, sem conhecer ninguém, sem amar ninguém, não excitando aos camponeses mais que uma espécie de desprezo indiferente e de hostilidade resignada. Tinham-lhe posto a alcunha do "Sino" porque se balouçava, entre as duas muletas de pau como um sino se balouça entre os seus suportes.

Havia dois dias que não comia. Ninguém já lhe dava nada. Por fim, nem já o queriam ver. Os camponeses, dos seus portais, gritavam-lhe quando o viam chegar:

— Vê lá se te queres pôr a andar, tonante! Ainda não há três dias que te dei um bocado de pão!

E ele girava sobre as suas estacas e dirigia-se à casa vizinha, onde o recebiam da mesma maneira.

As mulheres declaravam de porta para porta:

— Mas é que a gente não pode dar de comer a este preguiçoso todo o ano.

Todavia, o preguiçoso tinha necessidade de comer todos os dias.

Tinha percorrido Saint-Hilaire, Varville e les Bocettes, sem recolher um cêntimo nem uma simples côdea. Só lhe restava uma esperança, era, Tournolles; mas era-lhe preciso caminhar ainda duas léguas pela estrada real, e sentia-se cansado a ponto de não poder arrastar-se mais, tendo o ventre tão vazio como a algibeira.

Apesar de tudo, pôs-se em marcha.

Era em dezembro. Um vento frio percorria os campos, sibilava nos ramos nus; e as nuvens galopavam através do céu baixo e sombrio, apressando-se não se sabe para onde. O estropiado caminhava lentamente, deslocando os seus suportes um após outro com penoso esforço, escorando-se na perna torcida que lhe restava, terminada por um pé aleijado e calçado por um trapo.

De tempos a tempos, assentava-se no fosso e descansava alguns minutos. A fome punha uma grande mágoa na alma confusa e pesada. Ele sô tinha uma ideia: "comer", mas não sabia por que meio.

Durante três horas, penou na comprida estrada; depois, quando avistou as árvores da aldeia, apressou os seus movimentos.

O primeiro lavrador que encontrou e ao qual pediu esmola, respondeu-lhe:

— Tu ainda por aqui? velho desprezível! Então eu nunca me verei livre de ti?

E o "Sino" afastou-se. De porta em porta, correram-no, recambiaram-no, sem lhe darem nada. E ele continuava, apesar disso, o seu giro, paciente e obstinado. Não recolheu um sou.

Então visitou as herdades, caminhando através das terras amolecidas pelas chuvas, por tal forma extenuado que nem sequer podia levantar as muletas. Escorraçavam-no de toda a parte. Era um desses dias frios e tristes em que os corações se fecham, em que os espíritos se irritam, em que a alma está sombria, em que a mão não se abre nem para dar nem para socorrer.

Quando acabou de visitar todas as casas que conhecia, foi cair ao canto de uma vala, ao longo do pátio do tio Chiquet. Despegou-se, como se dizia para exprimir a maneira porque se deixava cair de entre as muletas que fazia escorregar por debaixo dos braços. Ficou por largo tempo imóvel, torturado pela fome, mas era muito bruto para que pudesse penetrar a sua insondável miséria.

Esperava não se sabe o que, naquela vaga esperança que existe constante em nós.

Esperava ao canto daquele pátio, sob o vento gelado, o auxílio misterioso que se espera sempre do céu ou dos homens, sem que saiba como, nem por que, nem por quem ele nos poderá chegar. Passava um bando de galinhas pretas, buscando a sua vida na terra que alimenta todos os seres. A cada instante, picavam com uma bicada um grão ou um inseto invisível, depois continuavam a sua busca lenta e segura.

O "Sino" olhava para elas sem pensar em nada; depois veio-lhe, mais ao ventre que propriamente à cabeça, mais à sensação que à ideia, que um daqueles animais seria bom para comer assado no borralho de uns troncos secos. A suposição de que ia cometer um roubo nem de leve roçou pelo seu espírito. Pegou numa pedra que se achava ao alcance da mão, e, como a tinha certeira, matou redondamente, atirando logo por terra a ave que estava mais próxima. O animal caíra de flanco, remexendo as asas. As outras fugiram, balouçando-se nas suas patas delgadas, e o "Sino", escalando novamente as suas muletas, pôs-se em marcha para ir apanhar a sua caça, com movimentos iguais aos das galinhas.

Ao chegar perto do pequeno corpo preto manchado de vermelho na cabeça, recebeu um empurrão terrível pelas costas, que o fez cair das muletas e o fez rolar a dez passos para a frente.

E o tio Chiquet, exasperado, precipitando-se sobre o pilha, encheu-o de pancadas, batendo como um furioso, como bate um camponês roubado, com o punho e com o joelho por todo o corpo do enfermo, que não podia defender-se.

As pessoas da herdade chegaram por sua vez e puseram-se com o patrão a sovar o mendigo. Depois, quando se cansaram de lhe bater, agarraram nele, levaram-no e fecharam-no na casa da lenha, enquanto iam busca das autoridades.

"Sino", meio morto, sangrando e estourando de fome, ficou deitado no chão. Chegou a tarde, veio a noite, depois a aurora, e ele sem comer.

Pelo meio dia, os guardas apareceram e abriram a porta com precaução, esperando uma resistência, porque o tio Chiquet dizia ter sido atacado pelo vadio e ter-se defendido a grande custo.

O cabo bradou:

— Vamos! saia daí!

Mas "Sino" não se podia mexer; ainda tentou erguer-se nos seus suportes, mas não o conseguiu. Julgaram que era fingimento, que era manha, que era má vontade do malfeitor, e os dois homens armados trataram-no asperamente, empunharam-no e puseram-no à força sobre as muletas.

O medo apossara-se dele, aquele medo inato que os desgraçados têm das correias militares, o medo a caça em presença do caçador, do rato diante do gato. E, com esforços sobre-humanos, lá conseguiu pôr-se em pé.

— Marche! disse o cabo. Ele marchou. Todo o pessoal da herdade o via partir. As mulheres mostravam-lhe o punho; os homens chacoteavam-no; injuriavam-no: tinham-lhe dado fim! Estavam livres.

Ele afastou-se entre os dois guardas. Achou a energia desesperada que lhe era precisa para se arrastar ainda até à noite, embrutecido, não sabendo nem sequer o que lhe sucedia, assustado por demais para que pudesse compreender.

As pessoas que o encontravam detinham-se para o ver assar, e os camponeses murmuravam:

— É algum ladrão!

Pela noitinha, chegaram à comarca. Ele nunca tinha ido até ali. Não dava verdadeiramente conta do que se passava nem do que lhe podia acontecer. Todas aquelas casas novas o consternavam.

Não pronunciou mais uma palavra, nada tendo a dizer, porque nada compreendia. Desde muitos anos que não falava a ninguém, por isso quase perdera o uso da linguagem; e o seu pensamento estava também muito confuso para poder formular palavras. Encerraram-no na prisão da Villa. Os guardas não pensaram em que ele poderia ter vontade de comer, e deixaram-no até ao outro dia.

Mas, quando vieram para o interrogar, logo de manhãzinha, acharam-no morto, no chão.

Que surpresa!
Guy de Maupassant

segunda-feira, fevereiro 9

Leitura sob o pier

 


Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto

O fiscal da noite

Fui eu que vi o Cruzeiro erguer-se do mar e mais tarde chegar até o horizonte de minha varanda; vi duas estrelas muito brilhantes nascerem depois dele e subir também. Analfabeto olhando as estrelas, segui sua navegação sem saber seus nomes; vigiei de meu imóvel tombadilho.

Estava solitário, mas não triste; lembrei o velho dito dos "A noite ainda é uma criança."

Mas o tempo avança. Agora medito no seio de uma noite como à sombra de uma grande árvore; de raro em raro, madura cai uma estrela e se perde na escureza do céu ou do chão. Quase vejo o mar, apenas o pressinto e o sei arfando lânguido, sem vento.

Deus me pôs nesta rede a olhar a noite. Não tenho sono nem de sair; não telefonarei para ninguém. Sou como um débil mental a quem houvessem dado o emprego de fiscalizar as estrelas, e acompanhado com paciência sua marcha lenta. Devo dizer que estão se comportando bem, tanto as mais novas como as mais velhas; andam de leste para de maneira morosa e sensata, guardando com atenção as respectivas distâncias. Se o major-fiscal me telefonar direi que não há nenhuma ração. O nascimento da lua está marcado para as 24h45m da madrugada; espero que seja pontual e não me dê aborrecimentos. O número de estrelas cadentes é diminuto.

Informarei: "Pequenas baixas; o desperdício de estrelas durante a noite a meu cargo foi mínimo e, creio, inevitável; nosso estoque é imenso, senhor major." O major comunicará ao coronel, este ao general, este ao Presidente da República. O Presidente da República expedirá mensagens congratulatórias a Deus e a Albert Einstein, no Paraíso.

Adormeço na rede, e desperto assustado; mas o céu está em ordem, e as estrelas marcham sempre na mesma direção, como crianças bem-comportadas. Deus me pôs nesta rede, e o Diabo me fez dormir. Felizmente a lua ainda não nasceu. Risco um fósforo para olhar meu relógio ("a opinião do prefeito de Genebra. sobre a hora de Ipanema"), meu famoso relógio antimagnético, antiatômico e antilírico, e suspiro aliviado; ainda faltam 18 minutos para o nascimento da lua. Levanto-me e tomo posição em outro ângulo da varanda, murmurando: "Vamos providenciar isso."
Rubem Braga

O passado que não passa

Ela me escreve que a irmã morreu e foi enterrada na mesma cidadezinha onde, na infância, brincávamos juntas. E diz que agora se sente em primeiro lugar na lista de chamada. Como se tivesse dado um passo à frente rumo “ao grande salto”.

Quando meu irmão morreu deixei, de alguma forma, de ser a caçula da família, aquela família de que eu me tornava a única representante. A meu modo, também dei um passo à frente. Mas não foi isso que me importou. O que mais me doeu, além da dor da ausência, foi perder o interlocutor das minhas lembranças mais remotas.

Quando ele e eu conversávamos, às vezes até em italiano, não havia necessidade de descrições, de narrativas. Um nome ou uma palavra eram suficientes para evocar nos dois as mesmas imagens. Não como se diante do mesmo filme, pois cada um tinha o seu. Mas como se, uma vez mais, nos debruçássemos sobre nossa realidade comum.

Não havia palavras soltas. Cada palavra, cada frase, trazia mochila cheia. E a penumbra de uma casa, os pés gelados dentro das botinhas de neve, uma transparência de mar, um medo, uma conquista não precisavam nem ser evocados, extraídos da mochila. Bastava saber que o outro tinha o catálogo completo.


Agora, se eu disser o nome da minha mãe para minhas filhas, é só o nome da avó que não conheceram, um nome como legenda de um retrato. Meu irmão levou consigo a última pessoa que sabia, comigo, o rosto da mãe.

O amor, nisso, pouco ajuda. Percebo com meu marido. Das tantas vezes que me contou a Juiz de Fora da sua infância, das vezes em que fomos a Juiz de Fora e ele me mostrou a nova rua aberta onde havia sido seu Grupo Escolar, só vi a cidade moderna que conheço e, nela, duas crianças de pelerine varando a neblina. Quando a irmã dele vem, entretanto, a conversa se faz mais econômica e se ilumina, enquanto os dois voltam a andar de mãos dadas no frio da manhã, rumo às aulas.

Recordações partilhadas são uma necessidade.

Um dia, andando em Ipanema, Affonso encontrou um velho assessor de Roberto Marinho, seu conhecido. Pararam, conversaram. E falando de achaques e de idade, o senhor disse que o pior da velhice era não ter mais ninguém com quem manter diálogos cúmplices a respeito do passado. E contou sua alegria por ter estado, dias antes, com um advogado que passava dos 90: “Com ele, finalmente, pude conversar sobre a década de 20 !”.

Nosso passado não passa, é um pretérito que mantemos vivo a poder de lembranças.

A irmã da minha amiga morreu e foi enterrada na tumba da família, a pouca distância da casa onde brincávamos. Não tenho tumba de família, e estou muito distante das terras onde brinquei. Há tempos não vou a enterros, meus amigos estão preferindo a cremação. Parece mais ecológico, mais moderno, embora estejamos apenas deixando espaço para edifícios e viadutos. As tumbas eram outra maneira de manter diálogo com o passado.

É o que diz Thomas W. Laqueur, historiador americano e professor de Berkeley, em seu livro “O trabalho dos mortos”. E diz mais, que os mortos, ao trazerem a obrigação dos rituais funerários, são um elemento civilizatório importante há 40.000 anos. Agora posto em risco pela prática da cremação, que tira a sacralidade da morte e nos devolve à frase final de Diogénes: “Quando eu morrer, entreguem-me aos cães. Já estou acostumado”.

Obstáculos à leitura

A leitura depara-se com uma série de obstáculos, é muito mais fácil sentarmo-nos no sofá a ver televisão do que a ler um jornal até. E a questão parece ser esta sociedade da facilidade em que deixou de se perceber que as coisas que dão algum trabalho também são as que dão mais prazer, porque são conquistadas. A leitura dá algum trabalho e temos de conquistar um espaço para ela na nossa vida, temos de nos empenhar para absorvê-la completamente, para que faça sentido. Isso é que se perdeu um pouco de vista, mas penso que quem procura acabará por encontrar e tenho esperança de que as pessoas não deixem de procurar, não desistam, porque baixar os braços é ficar sempre no mesmo sítio.
José Luís Peixoto

O lobisomem

A primeira bodega que se abria, na feira do Jacaré, era a de seu Bento. Logo muito cedo, mal o dia começava a raiar, ele saía de casa, embrulhado num cobertor de lã, por causa do frio cortante, escancarava as duas portas da frente, ia à ancoreta de cachaça pousada em cima do balcão, tomava um tronco, para esquentar o corpo e ficava, por algum tempo, passeando dentro do quarto, à espera dos primeiros fregueses. Estes não demoravam a chegar. Eram, de ordinário, os mesmos: seu Valdevino, marchante, dono do açougue vizinho, conversador inesgotável e cacete, depois da terceira golada; o capitão Mosqueiro, espírito alegre e vivo, grande contador de anedotas picantes, que, apesar de muito repetidas, arrancavam formidáveis gargalhadas; seu Doca, o mais moço de todos, prosador e poeta, que assombrava a terra com os seus violentos artigos políticos nos jornais da capital e já era uma celebridade consagrada pelo Almanaque de Lembranças... Tivera estudos. Toda a gente o considerava um moço preparado. Fazia graça de um grosseiro materialismo e, de vez em quando, atracava-se em polêmica com o vigário da freguesia, um santo homem, que tomava a peito converter o herege... Só mais tarde chegavam o Baé, o Januário, o Zé Preto, o velho Macedo, o Caboquim, e outros negociantes das imediações, que formavam uma grande roda, aplicada, toda a manhã, até à hora do almoço, a beber copinhos de cachaça e a falar da vida alheia...

Quando seu Bento abria a porta, vinha de dentro do quarto um bafo morno, nauseante complexo, em que se misturava o cheiro de mil coisas heterogêneas: sardinhas secas, jacas, rapaduras, fumo de corda, álcool, drogas, plantas medicinais, queijos, alhos e cebolas brancas, bananas, atas, avoantes... Além de negociante de gêneros alimentícios, seu Bento era também muito entendido em assuntos de medicina caseira. Como na terra não havia médico nem boticário, ele desempenhava o papel de curioso: com o auxílio do seu bojudo Chernoviz, aconselhava remédios a quantos recorriam à sua experiência, e dizia-se que estava só para tratar das doenças do mundo... Jalapa para estes, batata para aqueles outros, eram os seus remédios prediletos. Se não fizessem bem, não podiam fazer mal. Custavam pouco, mas esse pouco lhe bastava para ir vivendo folgadamente, em meio à sua vasta clientela.

Seu Bento era um belo tipo de homem, muito branco, de nariz aquilino, com uma barba cerrada e longa, cujas pontas tinha o hábito de retorcer, com arrogância. Andava pelos setenta anos, mas estava forte, esperando viver, pelo menos, o dobro... Extremamente desasseado, sempre de corrimboque em punho, a fungar pitadas de tabaco, com um enorme lenço de ganga sobre um dos ombros, era uma figura pitoresca pelo seu modo de vestir. Quer de verão, quer de inverno, calçava tamancos e o seu traje compunha-se de uma calça de riscado e de uma camisa de madapolão com as fraldas soltas que lhe alcançavam os joelhos. Nada neste mundo o obrigaria a passar os panos ou a enfiar um paletó. Ia assim a toda parte, à igreja como ao mercado, e, mesmo quando se faziam eleições, era em fralda de camisa que dava o seu voto ao governo.

Certa manhã, ainda com escuro, estava a rodinha formada, uns sentados no balcão, outros em caixas vazias de gás. Era em junho. Fazia um frio de bater o queixo. A cachaça corria com mais abundância e a palestra aumentava de animação, à medida que os copinhos se repetiam. A neve, como lá se chama a cerração, era tão espessa que não deixava ver nada a vinte metros de distância. Por isso, ninguém reparou na chegada do Zé Vicente, um lavrador de Pavuna, senão quando ele, depois de ter amarrado o cavalo à gameleira da porta, entrou na bodega, muito maneiroso, dando os bons dias e apertando a mão de cada um.

Seu Bento quis saber logo que novidade era aquela, porque aparecia ele assim de madrugada. Haveria doença em casa?

— Foi a mulher que quebrou o resguardo — explicou o Zé Vicente. Teve criança há três dias e estava passando muito bem, quando, ontem de noite, aconteceu uma desgraça...

— Que foi? Que foi? — perguntaram todos ao mesmo tempo.

— Acho que foi um lobisomem. Pela meia-noite, ouvimos um bicho rosnar e arranhar a porta do quintal com muita força. A cachorrinha, parida de novo, deu logo sinal do lado de dentro e o bicho largou um grunhido que nos encheu de pavor. Talvez seja um guaxinim, disse eu à mulher. Quis-me levantar, sair fora, para ver que marmota era aquela, mas a Maria não deixou. Depois, mais nada. A Baleia calou-se. Pegamos no sono e, hoje de manhã, ao despertar, verificamos que à porta dos fundos estava aberta e o bicho havia comido a ninhada de cachorrinhos que estava na cozinha. A Maria jura que foi um lobisomem. Eu também acho que sim. O certo é que a pobrezinha tomou um susto medonho, quebrou o resguardo e, agora, está para morrer.

Seu Bento consolou o pobre homem sobre cujo lar desabava uma tamanha calamidade:

— Isso não é nada, Zé Vicente. Dá-se um jeito. Tenha coragem e fé em Deus.

Consultou demoradamente o Chernoviz:

— O remédio é um purgante de Leroy ou então Água Inglesa. Leve o laruá (era assim que ele pronunciava) leve o laruá e venha me dizer, amanhã, se a mulher melhorou.

Ninguém se atrevia a interromper seu Bento, quando ele tratava de medicina. Quem o fizesse, imprudentemente, podia ter a certeza de que o velho curioso esmagá-lo-ia com um olhar colérico e com esta simples apóstrofe — Filho!... Filho, apenas. Não dizia de quem mas todos sabiam o verdadeiro sentido daquele palavrão...

Zé Vicente guardou o remédio, pagou-o, despediu-se dos circunstantes e partiu a galope. Tomou-se mais uma rodada e os comentários, então, esfuziaram.

— Santa simplicidade! — observou seu Doca. — Quanta gente estúpida existe ainda por este mundo! Crer em lobisomem e almas penadas, em pleno século XX, no Século da Eletricidade, só mesmo nesta infeliz terra! Mas, não pode ser de outro modo, porque o governo e a nossa Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, em vez de instruírem o povo, tratam de embrutecê-lo, cada vez mais, para que ele permaneça eternamente, a mesma besta, fácil de governar com um freio — quer esse freio seja o terror do inferno, quer o terror da lei!

Calou-se, desolado, com aquele desabafo, certo de que ninguém compreendia a beleza do seu pensamento. Bebeu mais um copinho. Zangou-se por se julgar um incompreendido, no meio daqueles matutos broncos e passivos. E, de zangado, engoliu, logo em seguida, outro copinho. Irra!

— Esta mocidade de hoje — disse o velho Macedo. — Esta mocidade de hoje não crê mais em nada. Por isso é que o mundo está perdido e acontece tanta desgraça feia... Se até os meninos como você, Doca, já são ateus, maçons, dizem que Deus não existe... Pois fique sabendo, moço, que Deus está lá em cima e que há muita coisa, muita coisa... Almas do outro mundo, lobisomem, tudo isso é verdade. Eu nunca vi alma, mas lobisomem já topei um...

Explodiu uma gargalhada na roda. Seu Macedo, um velhinho pequenino, melgaço, de olhos azuis, cabeça enorme, era conhecido como o maior mentiroso das redondezas. Não abria a boca que não fosse para contar histórias de onça, cada qual mais estapafúrdia, e ficava furioso, quando punham em dúvida a sua palavra. Como, de resto, as suas mentiras não faziam mal a ninguém, não passando de arrojadas fantasias, todos gostavam de ouvi-lo e muitos o estimulavam a contar casos maravilhosos.

— Pois conte, lá seu Macedo, conte lá a história do lobisomem. Vamos.

— Foi em Santa Quitéria, meninos. Vocês sabem que eu sou daquele sertão, de onde vim para aqui na seca dos três sete. Eu era rapaz moço, dos meus dezoito anos, e nesse tempo não tinha medo de nada. Corria atrás de boi no mato fechado, matava onça de faca, pegava cascavel pelo pescoço e quando ela abria a boca para morder, cuspia-lhe dentro mel de fumo. Depois soltava a cobra. Ela estrebuchava, estrebuchava, e morria. Eu era doido varrido... E se havia coisa que eu tivesse vontade de ver de perto era um lobisomem. Se fosse possível, até pagava para me encontrar, frente a frente, com um bicho desses. Queria tirar-lhe o encanto. Como vocês sabem, o lobisomem é perigoso, mas basta que a gente o fira, mesmo de leve, com uma faca, de ponta, para ele desencantar. Pois bem. Parece que foi mesmo um castigo. Uma noite, escura como breu, eu vagueava sozinho, pelas ruas da vila, levando como única arma uma faquinha de cortar fumo, um quicé à toa... Fui andando, fui andando, perfeitamente calmo, sem encontrar nada no caminho, a não ser uma ou outra rês deitada na rua e que se levantava à minha passagem. Cheguei assim até perto do patamar da matriz, quando um bicho medonho, quase do tamanho de um jumento, com os olhos de fogo e dentes enormes, se botou a mim, como se me quisesse devorar. Tomei um susto pavoroso. Pulei para trás como um gato. Só tive tempo de gritar pelo nome de Nossa Senhora e arrancar o quicé. O bicho estava em cima de mim, danado. Mandei-lhe o ferro de rijo. As primeiras facadas perderam-se e o maldito, de um tapa, arrancou-me o peito da camisa. Fugi o corpo de banda e toquei-lhe a faca mesmo com vontade. Nisto ouvi um grito horroroso, que me fez arrepiar os cabelos.

— Não me mate, seu Targino! Não me mate que eu sou a Joana do padre Francisco.

Era a Joana mesmo, minha gente. Estava diante de mim nua em pelo, suja de terra, com o sangue a escorrer de uma facada do lado esquerdo. Eu tinha desencantado a bicha...

— E depois?

— Depois a Joana confessou-me tudo. Era castigada, por ser amiga do vigário, há muitos anos. Todas as sextas-feiras, houvesse o que houvesse, tinha de cumprir aquela penitência: saía de casa, à meia-noite, e quando chegava a uma encruzilhada, tirava a roupa e espojava-se no chão como uma besta. Imediatamente, virava um bicho feroz e partia a galope para correr as cinco partes do mundo, até o dia clarear. Só de manhãzinha voltava a ser gente. Mas, agora, ficara livre de tudo, porque eu havia quebrado o encanto...

— Isso não foi sonho, seu Macedo? — perguntou um gracioso.

— Sonho? Eu também pensei que fosse sonho quando acordei no dia seguinte. Mas, logo me convenci de que tudo era a pura realidade. Fui à casa da Joana e encontrei-a muito doente, estirada numa rede. Dizia ela às mulheres que lá estavam que lhe tinha dado uma dor, de repente, numa costela, do lado esquerdo. Mas, a mim, quando ficamos sós, pediu-me pelo amor de Deus, por alma de minha mãe, que não dissesse nada a ninguém. Jurei. E só agora, depois que ela e o padre já estão com os ossos brancos, é que eu me atrevo a contar a história.

Acabou, triunfante. Tomou o seu copinho de cachaça e saiu trôpego, apoiando-se à bengala.

— Cabra velho mentiroso! — disseram os outros em coro, mal o viram pelas costas.

— Mentiroso, sim, lá isso é — sentenciou seu Bento gravemente. — Mas, ninguém me tira da cabeça que, desta vez, o Macedo se esqueceu de mentir. — Se essa história não é verdadeira, já vi coisa parecida.
Raimundo Magalhães Júnior

domingo, fevereiro 8

Deus da leitura

 


Página de história

De uma História Universal editada no Século XXXIII: 

“Os homens do Século Vinte, talvez por motivos que só a miséria explicaria, costumavam aglomerar-se inconfortavelmente em enormes cortiços de cimento. Alguns atribuem o fato a não se sabe que misterioso pânico ao simples contato da natureza; mas isso é matéria de ficcionistas, místicos e poetas... O historiador sabe apenas que chegou a haver, em certas grandes áreas, conjuntos de cortiços erguidos lado a lado sem o suficiente espaço e arejamento, que poderiam alojar vários milhões de indivíduos. Era, por assim dizer, uma vida de insetos — mas sem a segurança que apresentam as habitações construídas por estes.”
Mario Quintana, "Caderno H"

O pescador cego


O barco de cada um está em seu próprio peito
Provérbio macúa

Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso. No aconchego da noite, o impossível ganha a suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas.

Tudo isto escrevo, mesmo antes de começar. Escrita de água de quem não quer lembrança, o definitivo destino da tinta. Por causa de Maneca Mazembe, o pescador cego. Deu-se o caso de ele vazar os ambos olhos, dois poços bebidos pelo sol. Maneira como perdeu as vistas é assunto de acreditar. Há essas estórias que, quanto mais se contam, menos se conhece. Muitas vozes, afinal, só produzem silêncio.

Aconteceu em certa pescaria: Mazembe se perdeu nos senfins. A tempestade assustara o pequeno concho e o pescador se infindou, invindável. Passaram as horas, chamadas pelo tempo. Sem rede nem reserva, Mazembe fez fé na espera. Mas a fome começou a fazer ninho em sua barriga. Decidiu lançar a linha, já sem esperança: o anzol carecia de isco. E ninguém conhece peixe que se suicide por gosto, mordendo anzol vazio.

Durante as noites, o frio se esmerava. Maneca Mazembe em si mesmo se cobria. Não existe melhor aconchego que o corpo, pensava ele. Ou será os bebés, dentro da grávida, sofrem de frio?

A semana decorreu-se, cheia de dias. O barco mantinha-se, sobremarinho. O pescador aguentava-se, sobrevivo. À medida da fome, ele apalpava as costelas no caixilho do corpo:

— Já eu nem me apareço.

E sempre é assim: o juízo emagrece mais rápido que o corpo. Foi nessa magreza que cresceu a decisão de Maneca. Puxou da faca e segurou o gesto com firmeza. Tirou o esquerdo. Deixou o outro para os restantes serviços. E espetou o olho no anzol. Era já órgão estranho, desencovado. Mas ele se arrepiou de o contemplar. Parecia que aquele olho deserdado o continuava a fitar, em magoada solidão de órfão. E assim, aquele anzol, entrando em sua alheia carne, lhe doeu como nenhum espinho pode tanto aleijar.

Lançou a linha e esperou. Já adivinhava o tamanho de um peixe, afogando-se no ar. Sim, porque não é todos os dias um peixe pode trincar um petisco desses. E riu-se de suas próprias palavras.

O peixe, ao cabo de muitos enfins, lá veio. Gordo de prata. Aliás: alguém já viu um peixe magrinho? Nunca. O mar é generoso, mais do que a terra.

Assim pensava Mazembe enquanto se vingava dos jejuns. Assou o peixe no pleno barco. Cuidado, um dia arde o concho, contigo dentro. Era o aviso de Salima, sua esposa. Agora, de estômago resolvido, ele sorria. Salima, que sabia ela? Magrita, sua delicadeza era a dos caniços, submissos, mesmo à suave brisa. Nem se entendia que força ela tirava de si mesma quando erguia bem alto o pau do pilão. E no embalo de Salima, Maneca amoleceu até sonecar.

Mas não se mede a árvore pelo tamanho da sombra. As fomes, teimosas, regressaram. Mazembe queria remar, desconseguia. Já nenhuma força lhe atendia. Resolveu-se, então: arrancaria o direito. Assim, de novo, se cirurgiou. O escuro encerrou o pescador. Mazembe, bicego, só nos dedos se confiava à visão. Voltou a lançar a linha no mar. Não esperou até sentir o esticão, anunciando o maior peixe que ele nunca pescara.

No provisório alívio da fome, seus braços reganharam competência. Sua alma regressara do mar. Remou, remou, remou. Até que o barco chocou, escuro de encontro ao escuro. Pelo modo das ondas, barulhando em vagas infantis, adivinhou ter chegado a uma praia. Levantou-se e gritou por ajuda. Esperou vários silêncios. Por fim, escutou vozes, gente que chegava. Ele se admirou: aquelas vozes lhe eram familiares, as mesmas do seu mesmo lugar. Seria que os seus braços reconheceram o caminho de regresso, sem ajuda das vistas? Foi arrancado por muitas mãos que lhe ajudaram a descer.

Havia choros, estremunhos. Todos lhe queriam ver, ninguém lhe queria olhar. Sua chegada espalhava alegrias, seu aspecto semeava horrores. Mazembe regressara despido daquilo que mais nos constitui: os olhos, janelas onde nossa alma se acende.

Desde então, Maneca Mazembe jamais se fez ao mar. Não que fosse de sua vontade ficar naquele exílio, desmarado. Ele insistia: seus braços tinham provado conhecer os atalhos da água. Mas ninguém não autorizava. Muito-muito sua mulher lhe negava entregar os remos.

— Tenho que ir, Salima. Vamos comer o quê?

— Mais vale pobre que viúva.

Ela lhe descansou, haveria de apanhar amêijoa, magajojo, búzios de comer e vender. E, assim, entreteriam a miséria.

— Também eu posso pescar, Maneca, no barco…

— Nunca, mulher. Nunca.

Mazembe se tempestou: que ela nunca mais repetisse a ideia. Era cego mas não perdera o seu macho estatuto.

Passaram-se os tempos. Nas longas manhãs, o cego se apetrechava de sol. No onduralar, seus sonhos imaginadavam. Até que, nos meios-dias, sua filha lhe puxava para o carinho de uma sombra. Ali lhe serviam comida. Só os filhos o podiam fazer. Porque o pescador se entregara a uma única guerra: afastar os cuidados de Salima, sua dedicada esposa. Aceitar o seu amparo era, para Mazembe, a mais dolorosa rebaixeza. Salima lhe oferecia uma ternura, ele recusava. Ela chamava-lhe, ele respondia um resmungo.

Mas, no afundar do tempo, a fome se instalou. Salima se arrastava, mais pontual que as marés, colhendo cascas de miséria, demasiada concha para pouco comer.

Salima, então, se anunciou ao marido: por muito que lhe custasse ela barquejaria no dia seguinte. Iria pescar, seu corpo escondia mandos que ele ignorava. Mazembe negou, em desespero. Nunca! Onde se viu uma mulher pescando, dando ordem a barco? Que diriam os outros pescadores?

— Nem que seja eu te marrar no meu pé, Salima: tu não vais no mar.

Com palavra já feita, ele gritou pelos filhos. Desceu de encontro à praia. Toda sua magreza se fazia tensa no arco do corpo. A maré estava baixa e a embarcação deitara-se de barriga na areia, espreguicenta.

— Vamos crianças. Vamos puxar este barco lá para cima.

Ele e os filhos empurraram o barco para o alto das dunas. Levaram-no para onde nunca chegavam as ondas. Mazembe sacudia as mãos, injuriando a mulher.

— Tu, Salima, não experimenta comigo.

E, virando-se para o barco, determinou:

— Agora vais ser casa.

Desde então, Maneca Mazembe viveu no barco, marinho-terrestre. Ele junto com a embarcação, parecia uma tartaruga virada, incapaz de regressar ao mar. E, nessa extensa solidão, Mazembe se deixou ao abandono.

Até uma manhã incerta. Salima se aproximou do barco, ficou contemplando o marido. Ele estava em apurado desleixo, com cara de muitas barbas. A mulher sentou-se, ajeitou nos braços uma panela com arroz. Falou:

— Maneca, você há muito tempo não me bate as porradas.

Quem sabe, adiantou ela, se aquele azedo dele seria devido da abstinência. Talvez ele precisasse sentir as lágrimas dela, exclusivo proprietário das suas sofrências.

— Mazembe, você pode bater. Eu ajudo: fico quietinha, sem desviar para nenhum lado.

O pescador, silencioso, percorria os atalhos da alma. Conhecia as armadilhas das mulheres. Por isso, desgovernou a conversa:

— Nem sei que horas são. Agora, eu nunca sei.

Salima insistia, quase em súplica. Ele que lhe batesse. O homem, ao cabo de muito instante, ergueu-se. Tropeçou no vulto dela, segurou-lhe o braço, em laço acusador. Salima esperou a conjugal violência. A mão dele desceu mas foi para segurar a panela. Num gesto brusco lançou por terra o alimento.

— Nunca mais me traga comida. Não preciso de nenhuma sua coisa. Nunca mais.

A mulher sentou entre arroz e areia, o mundo desfeito em grãos. Olhou o marido regressando ao barco e viu como se parentavam, homem e coisa: este, carente da luz; aquele, saudoso das ondas. Quando se encaminhava, Salima foi detida pelo seu chamamento:

— Mulher, estou a pedir trazer-me o fogo.

Ela estremeceu. O fogo, era para quê? Um fundo pressentimento lhe fez negar. Em pranto, ela lhe obedeceu. Trouxe um pau de lenha, ardendo.

— Não faça isso, marido.

O cego segurou a acha como se fosse uma espada. Depois, lançou fogo no barco. Salima gritava, rodando as chamas, fossem elas ardendo era dentro de si. Aquela loucura dele era um convite à desgraça. Por isso, ela lhe sacudiu a velha camisa, para que ele escutasse sua decisão de partir, levar os filhos para nunca mais. E a mulher foi-se, sequer deixando que seus meninos figurassem seu velho pai, em estado de feitiço, desabençoando suas vidas.

O pescador ficou só, parecia o areal ficara ainda mais imenso. No seu ínfimo desenho ele se deixou anoitecer, apalpando nos dedos o sabor das cinzas. O tatear dos restos lhe dava um sentido de grandeza. Ao menos, lhe coubesse desfazer, destruir o quanto lhe estava interdito.

Os dias se seguiram sem Maneca reparar. Certa noite, porém, se confirmou o presságio de Salima: aquele fogo voara demasiado alto, incomodando os espíritos. Porque, no topo dos coqueiros, o vento se deu de uivar. Mazembe se afligiu, o chão mesmo se arrepiou. Súbito, o céu se rasgou e grossas pedras de gelo tombaram em toda a praia. O pescador corria no vazio, à procura de abrigo. O granizo, implacável, lhe castigava. Maneca desconhecia explicação. Nunca ele se cruzara com tais fenómenos. A terra subiu para o céu, pensou. Virado do avesso, o mundo deixava tombar seus materiais. Em angústia de órfão, o pescador caiu sobre os joelhos, braços enrolados sobre a cabeça. Ele nem a si se ouvia, senão se notava chamando por Salima, entre soluços seus e gemidos da terra.

Foi quando sentiu a suave mão tocando-lhe os ombros. Ergueu o rosto: alguém lhe limpava a febre. Ele primeiro resistiu. Depois, se abandonou, meninando-se em colo materno. Chamou:

— Salima?

Silêncio. Quem era aquela silhueta tão cheia de ternura? Com certeza, era Salima, aquele corpo de mulher, esguio e firme. Mas as mãos desta semelhavam mais idade, com rugas de numerosas tristezas.

Ela lhe trouxe para um abrigo, seria a sua velha cabana. No entanto, o lugar parecia ter outro silêncio, outra fragrância. Lá fora, os ventos se fatigavam. A tempestade se recolhia. Agora, as mãos lhe lavavam o rosto, amansando o sal.

— Você, nem sei quem és…

Um pente lhe alinhou os cabelos. No embalo, quase Maneca adormecia. Com um gesto de ombro ajudou a que se lhe vestisse uma camisa, roupa engomada.

— Você, quem é, lhe peço: nunca use sua voz. Eu não quero ouvir nunca sua palavra.

A identidade daquela mulher, no silêncio, se haveria de perder. Fossem de Salima aquelas mãos, fosse aquela a sua cabana: na ignorância ele haveria de aceitar-se. No mais, ele estava avisado da esperteza das mulheres para amansar os homens, converter-lhes em crianças, almas de insuficiente confiança.

Maneca assim foi retomando o tempo. Se deixava tratar no consolo daquela anónima mulher. Ela cumpria seu pedido, jamais pronunciando nem suspiro que fosse.

Todas as tardes ele se ausentava, para os matos. Executava um clandestino serviço, sua única devoção. Até que, uma tarde, compareceu diante da emudecida companheira e disse:

— Leva esses remos. Lá, na praia, está um barco que eu fiz para você sair na pesca.

E prosseguiu: ela que saísse, baixasse seus mandos naquele barco. Nem se preocupasse consigo. Ele ficaria na beira-água, dedicado aos despojos do mar.

— Faz conta ando a procurar esses meus olhos que perdi.

Desde então, todas as infalíveis manhãs, se viu o pescador cego vagandeando pela praia, remexendo a espuma que o mar soletra na areia. Assim, em passos líquidos, ele aparentava buscar seu completo rosto, gerações e gerações de ondas.
Mia Couto, “Cada Homem é uma raça”

No restaurante submarino

Jerônimo me liga. Tenho uma grande notícia, diz, a voz estranhamente excitada para quem é, habitualmente, um homem reservado. Uma grande notícia, repete, acrescentando que pelo telefone não dá para dizer. Propõe um almoço conjunto: nós dois, mais Hélio e Sadi. Onde, pergunto, um tanto inquieto. No restaurante submarino, ele responde. Pondero que é meio longe; além disso a época não é muito apropriada para ir ao restaurante submarino; chove e faz frio. Por isso mesmo vamos lá, diz Jerônimo, não quero que nos vejam. Aliás, já telefonei e reservei o restaurante só para nós.

Acabo concordando. Que remédio? Jerônimo é conhecido por sua tenacidade, por sua férrea determinação. Não há o que não consiga, dizem todos.

De carro, dirijo-me para o local onde fica o restaurante submarino. Na estrada, passo por Hélio, que me olha com uma expressão de interrogação. Pelo visto, também ele não sabe do que se trata.

Chego à praia, deixo meu carro no estacionamento. Ali já estão os carros dos outros. Sou o último, como sempre.

Caminho ao longo do antigo cais, na extremidade do qual foi construído o restaurante. Entro no hall, cumprimento o discreto gerente, desço uma escada em caracol. O restaurante propriamente dito fica abaixo do nível do mar. Por suas janelas, escotilhas, melhor dizendo, pode-se apreciar a fauna marítima da região.

Jerônimo e os outros lá estão, numa mesa de canto. Cumprimento-os, tomo assento. Estão falando sobre banalidades. Mas Jerônimo está radiante, vê-se.

Um alto-falante, colocado logo acima de nossas cabeças, range e emite um silvo agudo. — Alô — diz uma voz de homem. — Alô, alô. Testando, testando. Um, dois, três, um, dois, três. Testando, testando.

Uma pausa, e a voz prossegue:

– Senhores, bem-vindos ao restaurante submarino, o único de seu gênero no Brasil. A direção deseja que se sintam como em suas casas. Enquanto saboreiam nossos deliciosos pratos, daremos algumas explicações sobre os seres marinhos que nos rodeiam. Voltaremos em instantes. Por ora, obrigado.

Hélio, que não conhecia o lugar, está maravilhado: que beleza de instalações, diz. Que coisa bem bolada.

– Atenção — o alto-falante, de novo. — Senhores, sua atenção, por favor. Aproxima-se de nós, vindo do sul, um polvo. O polvo, senhores, não é peixe, mas sim molusco. Repito: molusco. E aí está o nosso herói!

Trata-se, com efeito, de um pequeno polvo. Passa lentamente diante de nossa escotilha e desaparece.

Sensacional, brada o entusiasta Hélio. Sensacional, este lugar, Jerônimo! Jerônimo não diz nada; sorri, apenas.

O alto-falante de novo:

– Atenção. Estamos vendo agora um cação. Esse peixe é parente próximo do tubarão, o assassino dos mares.

Vai-se, rápido, o cação.

Chega o garçom, com uma grande travessa. Tomei a liberdade de encomendar para nós, explica Jerônino. Vocês vão gostar. É robalinho. Muito bom. Muito bom, mesmo.

Não gosto de peixe, diz Sadi, preferia camarão. Seu tom tem algo de ressentido; mas já Jerônimo está pedindo ao garçom que providencie camarões. Como não, senhor, diz o homem, e se afasta.

Jerônimo ergue o copo: a nós, diz. Bebemos, e depois o silêncio cai sobre nós, um silêncio que a mim (mas sou meio paranoico) parece opressivo. Inclino-me para Jerônimo:

– Vamos lá, conte o que você tem a nos dizer.

Jerônimo toma mais um gole de vinho. Bom, este vinho, comenta. Limpa os lábios com o guardanapo, olha-nos — sorrindo sempre — e anuncia:

– O homem está liquidado. Cai na semana que vem. E o cargo, é quase certo, será meu. Posso contar com vocês?

Mas você é um gênio, exclama Hélio. Um gênio mesmo, concordo. Só Sadi é que não diz nada. Olha pela escotilha: há um cardume ali. O alto-falante não diz o nome deles mas sou capaz de apostar: são bordalos, também conhecidos como robalinhos. Fitam Sadi com seus olhos inexpressivos.
Moacyr Scliar, "No restaurante submarino"

Operário indiano aposentado construiu biblioteca com dois milhões de livros

Dois milhões de livros, armazenados em um prédio enorme, disponíveis gratuitamente para empréstimo e leitura para qualquer pessoa.

Essa é a riqueza que Anke Gowda, um trabalhador aposentado de uma fábrica de açúcar do estado de Karnataka, no sul da Índia, acumulou ao longo das últimas cinco décadas.

O homem de 79 anos foi notícia no mês passado ao receber o Padma Shri - uma honraria civil concedida pelo governo federal - por sua extraordinária contribuição à promoção da alfabetização e do aprendizado.

Gowda, cuja coleção impressionante inclui edições raras da Bíblia, além de livros sobre todos os assuntos imagináveis, vem de uma família de agricultores onde os livros eram um luxo.

"Cresci em uma aldeia. Nunca tínhamos livros para ler, mas eu sempre tive curiosidade por eles. Ficava pensando que deveria ler, colecionar livros e adquirir conhecimento", disse ele à BBC.

A biblioteca de Gowda está localizada em Pandavapura, um pequeno município no distrito de Mandya, em Karnataka. Ela carece da organização rígida geralmente associada às bibliotecas. Na verdade, o acervo de Gowda não tem um bibliotecário e os livros estão empilhados nas prateleiras e no chão de forma desordenada.

Do lado de fora, sob os toldos da biblioteca, estão sacos cheios de cerca de 800.000 livros, ainda à espera de serem desembalados. A coleção continua a crescer, graças às compras de Gowda e às doações de terceiros.

O local é frequentado por estudantes, seus pais, professores e amantes de livros. Os frequentadores assíduos parecem conhecer bem a biblioteca e encontram os livros de que precisam com facilidade. E mesmo que não encontrem, dizem que Gowda consegue achar qualquer coisa.

Gowda, sua esposa e filho moram em um canto da biblioteca, que fica aberta todos os dias da semana - e por longas horas.

Gowda passou a infância conciliando os estudos com a ajuda ao pai nos trabalhos da fazenda. Frequentemente, pedia dinheiro aos pais e à irmã mais velha para comprar livros.

Quando começou a ler livros sobre lutadores pela liberdade e líderes espirituais da Índia, ficou fascinado.

"Eram como doces", diz ele.

Inspirado por um professor, ele começou a construir uma pequena coleção de livros para que outros alunos de áreas rurais também pudessem ler.

Ele frequentemente usava o dinheiro que seus pais lhe davam para comida para comprar livros.

Logo após terminar os estudos, ele começou a trabalhar como cobrador de ônibus.

Certo dia, cerca de 10 meses após começar no emprego, ele encontrou um antigo professor que ficou chocado ao saber que ele havia abandonado os estudos. O professor insistiu para que Gowda se demitisse e voltasse para a faculdade.

Gowda seguiu seu conselho e cursou uma pós-graduação em Kannada (o idioma oficial de Karnataka), antes de ingressar na usina de açúcar de Pandavapura como cronometrista.

Ele gastava dois terços do seu salário mensal em livros e usava o restante para compras de supermercado e outras necessidades.

"Os salários eram baixos naquela época, mas os preços também eram baixos", diz ele.

Ao longo dos 33 anos em que trabalhou na fábrica, Gowda participou de dezenas de conferências da Kannada Sahitya Parishat - uma organização sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento da língua e literatura locais - e costumava comprar livros com desconto dessas instituições.

Ele também complementava sua renda criando vacas e vendendo leite, além de trabalhar como agente de seguros.

Seu próximo obstáculo seria familiar para os amantes de livros em todo o mundo: encontrar espaço para abrigar sua coleção transbordante.

"Comecei guardando os livros em baús [grandes caixas de metal]. Depois instalei estantes em casa. Mas chegou um momento em que não havia mais espaço", diz ele.

Naquela época, ele já havia adquirido cerca de 50.000 livros.

A coleção de Gowda inclui edições raras da Bíblia.

A ajuda chegou quando alguns de seus amigos conheceram Hari Khoday, o falecido magnata das bebidas alcoólicas que estava construindo um templo em Pandavapura.

Khoday, lembra Gowda, não conseguia acreditar que um homem pudesse possuir tantos livros.

"Ele veio e viu os livros pessoalmente. Depois me perguntou o que eu precisava. Eu disse que não queria dinheiro para mim. Meu único pedido era que ele construísse uma biblioteca", conta Gowda.

Khoday concordou e pagou pela construção de um enorme edifício, que agora faz parte da extensa biblioteca de Gowda, que se estende por 15.800 pés quadrados (1.467 metros quadrados).

Alguns anos mais tarde, um legislador local levou o então Ministro-Chefe HD Kumaraswamy para ver a biblioteca, e ele autorizou a verba para a construção de mais duas estruturas anexas à primeira.

Hoje, alunos e professores de todo o estado visitam a biblioteca. Entre eles está Ravi Bettaswami, professor assistente em uma faculdade particular, que afirma ter se inspirado a construir uma coleção de milhares de livros.

"Já utilizei a biblioteca de Gowda para estudar e levei meus alunos lá para que pudessem ler e também ajudar a organizar os livros", diz ele.

Shilpashree Haranu, professora em uma faculdade pública, afirma que o acervo pode parecer desorganizado, pois não foi organizado por um bibliotecário profissional.

"Mas ele [Gowda] sabe exatamente onde cada livro está e pode te dizer num instante", diz ela.

Quando questionado sobre por que nunca contratou um bibliotecário, Gowda responde que ninguém jamais lhe sugeriu isso.

Quanto ao futuro da biblioteca, Gowda adota um tom filosófico, sugerindo que agora cabe a outros levar seu legado adiante.

"Cumpri minha responsabilidade. Mas não tenho mais energia. Talvez o governo e o público possam assumir agora?"

"Fiz o meu melhor, agora depende dos outros."
Imran Qureshi 

sábado, fevereiro 7

De volta pra casa

 


Ruína

Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos que a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.

Manoel de Barros

O vento e suas maneiras

A mãe dizia:

– Pra dentro menino! É vem o vento levado levando cisco!

Quando feria o olho com um cisco, causava aborrecimento.

No verão abafado refrescava. Se fosse no tempo de veraneio, na cidade vizinha, de praias lindíssimas, tinha o gosto de sal. Rolava com as ondas, que rugiam como se fossem leões de jubas brancas e luminosas. Zangado batia, voltava, batia. Reinventava-se na areia como colares de espuma. Rendilhado murmurejava, cochichava com peixinhos minúsculos no raso. Ao largo fazia das vagas tirânicos vagões, incríveis vagalhões, tufão. Emborcava a embarcação. Mostrava-se indiferente aos gritos lancinantes dos náufragos pedindo por socorro. Era impiedoso, esbagaçava as ondas no rochedo.

Mágico, mais ligeiro do que tudo em movimento veloz, o único que sem pernas ia até o fim do mundo, chegando primeiro. Esmurrava o rio na enchente, causando estragos nas casas ribeirinhas e na avenida principal onde estava instalado um comercinho ativo. No mar tomava altura inimaginável.

Travesso tirava assovio na greta da porta e da janela. Interrompia o sono das pessoas quando dormiam na cidade pequena, após mais um dia de trabalho estafante, fazendo barulho nas telhas de alumínio no telhado.

Salpicado de verdes e azuis rolava no mar, pra lá, pra cá. Dava uma sensação agradável quando soprava no campo com o gosto de terra molhada. Morno, gostava de fazer carícia no rosto da árvore frutífera, folhas como cílios pestanejavam.

Tocava uma música suave nas folhas da palmeira, farfalhava no quintal durante a primavera cheia de passarinhos saltitantes, voos e gorjeios.

No inverno esvoaçava toalhas de névoa pelas ruas vazias da cidade, penetrada de frieza, os ares gelatinosos, tendo aspecto fantasmal. Em trêmulos movimentos, seus espectros de névoa vagavam por todos os cantos.

Vento, ventania, vendaval. Levava tudo que encontrava pela frente. Derrubava árvore, poste, ponte. Mudava a casa de um lugar para outro. Emborcava o caminhão, rompia a ponte, fazia rachaduras nas paredes do prédio. A lona do circo fora jogada longe, o sobrado desmoronou-se, ficou reduzido a escombros, não perdoou nem o nome do dono, Comendador Ataulfo Seabra, em grandes letras de bronze gravadas na fachada. Botou abaixo o muro que cercava o estádio de futebol, as torres de iluminação do campo ficaram aos pedaços.

Quando era leve, chegava de mansinho para soprar na florzinha da plantinha sozinha no brejo.

No velório amolava sua lâmina com os mudos gemidos da mulher, inconformada com a perda irreparável do marido. Dava frio na barriga dos que estavam presentes na vigília. A expressão do rosto assombrado, os olhos sem compreender o que estava acontecendo, atemorizados com a presença daquele vento, frio, sem cor, pousado no morto.

Era este o vento que metia mais medo, imóvel, surdo, cego, mudo, habitava no funeral das horas.

Uma esperança

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.

Houve um grito abafado de um de meus filhos:

– Uma esperança! e na parede bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não podia ser.

– Ela quase não tem corpo, queixei-me.

– Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.

Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.

– Ela é burrinha, comentou o menino.

– Sei disso, respondi um pouco trágica.

– Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.

– Sei, é assim mesmo.

– Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.

– Sei, continuei mais infeliz ainda.

Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não apagasse.

– Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.

Andava mesmo devagar – estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.

Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia “a” aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:

– É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...

– Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.

– Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros – falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.

O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.

Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E acho que não aconteceu nada.

Clarice Lispector, "Todos os contos"