segunda-feira, junho 1

Abra a porta

 


Entre patas e palavras

Fui criado por uma gata. Não é metáfora, é memória. A minha mãe contava que, no berço, uma felina vadia vinha todas as noites, pousava uma patinha sobre o meu peito e adormecia comigo. Guardava-me como quem guarda um segredo. Talvez tenham sido elas as primeiras professoras de ternura e bondade, talvez tenham sido elas a ensinar-me que o silêncio também é linguagem.


Depois, vieram muitos outros encontros felinos que marcaram a minha vida: a Vadia, o Pipoca. Lembro-me também de um gato nas ruínas de Cartago — um magnífico felino de pêlo dourado e olhos verdes como o mar mediterrânico que beija aquelas pedras antigas. Aproximou-se com a graça de um verso esquecido, esfregou o queixo nas minhas pernas como quem assina um pacto silencioso e, por instantes, o tempo parou entre colunas romanas e o eco de civilizações desfeitas. Naquele encontro breve, senti que Cartago me acolhia não através dos homens, mas através de um gato que parecia guardião dos segredos do lugar. Chamei-lhe Aníbal.

E recordo, com ternura que ainda me aquece o peito, a gata persa de Sidi Bou Said. Todas as tardes, ao regressar a casa, depois das aulas aos meus alunos do Instituto de Línguas de Tunes, ela lá esperava empoleirada no muro azul-celeste que ladeava o caminho — imóvel, elegante, como uma estátua viva bordada a seda branca e cinza. O seu olhar, âmbar e sereno, parecia saber mais de mim do que eu próprio sabia. Nunca me seguiu, nunca pediu nada; apenas me recebia com a quietude de quem compreende que existem chegadas que são rituais. Nos dias em que o cansaço solitário me pesava nos ombros, bastava vê-la ali — recortada contra o céu do Mediterrâneo, entre jasmim e azulejos — para que o mundo voltasse a fazer sentido.

Lembro-me também de todos e tantos gatos da Tunísia, que exalavam perfume de jasmim, como se a brisa do Mediterrâneo lhes tivesse emprestado a fragrância. E lembro-me, com emoção contida, de que fui acariciado por Gli, em 2019, antes que morresse — sim, por ela, a célebre gata da Hagia Sophia, em Istambul.

Gli não era apenas um felino: era uma instituição viva. Nascida por volta de 2004, fez da basílica-mesquita a sua casa e do mundo inteiro o seu público. Dormia sobre tapetes otomanos, repousava junto aos vitrais bizantinos e recebia turistas com a dignidade de quem habita a história. Quando, em 2020, a Hagia Sophia deixou de ser museu para voltar a ser mesquita, houve temores de que os gatos fossem expulsos. Mas Recep Tayyip Erdoğan, então presidente da Turquia, tranquilizou o mundo: “Os gatos da Hagia Sophia ficam. Sem eles, o lugar não seria o mesmo.” Gli, a gata-imperatriz acariciada por Barack Obama, morreu poucos meses depois, com cerca de dezasseis anos, e foi enterrada nos jardins do monumento, com honras de guardiã eterna. Hoje, os seus descendentes — e os outros felinos da Hagia — continuam a circular entre os fiéis e os visitantes, como se o espírito de Gli ainda ali ronronasse, entre o sagrado e o profano.

Istambul, afinal, é conhecida como a “cidade dos gatos”: ali, os felinos reinam livres, alimentados e acarinhados pelos habitantes, numa cultura muçulmana que os venera pela sua limpeza e lhes abre as portas das mesquitas.

Desde então, os gatos são para mim mais do que animais: são companheiros de sombra, cúmplices de solidão, mestres da pausa. E não estou sozinho nesta devoção. A literatura está cheia de gatos que se aninham nas páginas, que ronronam nos versos, que saltam para os ombros dos poetas como quem reivindica um lugar na eternidade.

O meu querido amigo Eugénio de Andrade sabia disso. No seu texto “Acerca dos gatos”, recorda o “pequeno tigre” da infância, a gata livre de Coimbra, o persa azul que reinava na casa e a rafeira negra que lhe fazia companhia aos domingos. Muitas vezes fui acariciado pela belíssima gata negra. No poema “Gatos”, evoca-os vindos “da Índia, da Pérsia, de Nínive, Alexandria”, como se fossem ecos de civilizações antigas, elegantes e eternos.

Ary dos Santos, irreverente e apaixonado, também lhes dedicou versos: chamou-lhes “animais irracionais de fino gosto”, celebrando a independência felina como quem celebra a liberdade humana. Porque um gato é isso: um manifesto silencioso contra todas as prisões.

Maria Teresa Horta, musa da poesia erótica, escreveu um poema chamado “Os Gatos”, musicado nos anos 60, onde o felino surge como metáfora de sedução e segredo. Também o amigo Joaquim Pessoa, por sua vez, confessou: “Não sei falar com os gatos, mas adoraria trocar por miados o carinho que em mim despertam.” Palavras que soam como um ronronar poético.

Manuel António Pina não se limitou a escrever sobre gatos: acolhia-os. Chamava-lhes Hugo, Chico, Adelaide, Ronaldo, transformando cada gato num poema vivo, uma história que se aninhava no seu colo. Eugénio Lisboa foi mais longe: dedicou um livro inteiro aos gatos, com 31 poemas, — “Manual Prático de Gatos para Uso Diário e Intenso” com fotografias recolhidas, explicadas e legendadas pela minha ex-Professora da Universidade de Lisboa, a Otília Pires Martins—, onde cada verso é uma carícia, cada palavra um miado cúmplice. “Começar a gostar de gatos é como entrar para a máfia: uma vez dentro, não há como sair?” E dela não quero sair…

Mas esta paixão não é só nossa, lusitana. Do outro lado do Atlântico, Mark Twain vivia rodeado de gatos com nomes extravagantes. Hemingway colecionava gatos polidáctilos, que viviam na sua antiga casa em Key West, Flórida, descendentes do mítico Snowball. Borges escreveu sobre Beppo, o gato branco que lhe ensinou a filosofia do silêncio. Bukowski, sempre cru, confessou que os gatos lhe davam coragem para enfrentar a vida.

No Egito Antigo, os gatos eram divinos. Bastet, a deusa com cabeça de felino, simbolizava proteção, fertilidade e a graça da casa. Matar um gato era crime punido com a morte. Os faraós dormiam sob o olhar vigilante destes guardiões, e quando um gato morria, a família raspava as sobrancelhas em sinal de luto. Talvez seja por isso que ainda hoje os gatos carregam uma aura sagrada, como se cada passo fosse um rito.

Em Roma, os gatos eram símbolo de liberdade. A palavra “libertas” era associada ao felino, vigilante da Roma Antiga, que caminhava entre templos e praças como quem reivindica o direito de existir sem correntes. Essa herança atravessou séculos e chegou à literatura: um gato é sempre metáfora de independência, um poema que se escreve com patas leves.

Na Idade Média, porém, a sombra caiu sobre os gatos. Acusados de bruxaria, agentes de Satanás, perseguidos e queimados, tornaram-se símbolos de medo. Mas sobreviveram, como sobrevivem os poetas, escondendo-se nos cantos, aguardando o regresso da luz. E regressaram com força, para se tornarem companheiros de reis, artistas e sonhadores, ao longo dos tempos.

Com a modernidade, os gatos conquistaram as cidades. Paris, Madrid, Londres, Lisboa: nos cafés parisienses, inspiravam Baudelaire, que lhes chamou “tigres domésticos”. Em Lisboa, vagueiam pelos miradouros, como sentinelas da saudade, guardando segredos entre azulejos e colinas.

Hoje, os gatos são símbolos literários universais. De Edgar Allan Poe a T. S. Eliot, de Sophia de Mello Breyner Andresen a Pablo Neruda, atravessam páginas e séculos com a mesma elegância. Cada olhar felino é uma metáfora, cada salto é um verso. Talvez porque, como escreveu Robertson Davies, “os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões.”

E quando a noite desce sobre as páginas, vejo-os: gatos que caminham entre livros como sombras líquidas, olhos acesos como faróis de um porto secreto. São eles que guardam as palavras quando nós dormimos, são eles que sopram metáforas para dentro dos sonhos. Talvez a literatura seja, afinal, um imenso jardim onde os gatos passeiam livres, deixando pegadas invisíveis na neve das ideias. E nós, pobres aprendizes, seguimos-lhes o rasto, tentando escrever com a mesma leveza com que eles caminham sobre o silêncio.

E esta crónica é, acima de tudo, um tributo — não só aos gatos que cruzaram a minha vida, mas àquilo que eles representam: a graça do acaso, o luxo da presença, a sabedoria da espera. Em cada patinha silenciosa, um verso que a humanidade ainda não soube escrever — mas que, todos os dias, os gatos nos ensinam a sentir.

Silêncio

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.

A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.

Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.

Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.

O coração bate ao reconhecê-lo.

Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.

Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.

Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.

Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.

Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se veem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.

Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo – de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

Clarice Lispector, “Onde estivestes de noite“

Soneto 18

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

William Shakespeare, "Sonetos"

Como devem morrer as flores

Vejo, com tristeza, o amor sendo destituído de suas magias e poderes. Não há mais garotas suspirando nem garotos rabiscando poemas em bloquinhos. O amor é hoje um personagem estranho e é preciso preparar o ambiente para que, ao mencioná-lo, não estourem gargalhadas de zombaria. Pobre amor, merece ele isso, são justos todos esses sarcasmos? Dizem que ele não faz mais nascer flores. Mesmo que seja verdade, penso que estamos sendo impiedosos com ele. Poupemos nosso herói. Que ele, se já não faz nascer flores, possa ao menos fazê-las murchar romanticamente, melancolicamente, maravilhosamente, como devem morrer sempre as flores.

***

Ah, se fôssemos loucos o bastante para ver nossa rua de repente coberta de flores tão soberbas que os carros se recusassem a passar por ela, para poupá-las. E se, saindo de casa pisando com cuidado, descalços, víssemos as outras ruas do bairro atapetadas de flores e soubéssemos, pela televisão, que todas as ruas de nossa cidade, e todas as ruas de todas as cidades do mundo estavam ocupadas por elas. E se pudéssemos, todos os homens, mulheres e crianças do planeta, esquecer de tudo mais e dedicar-nos à nossa saudável loucura de contemplar as flores e de ocupar-nos em mantê-las vivas.

***

Os dias passam em vão. Para o amor morto, já não importam a chuva, o orvalho, o sol. Talvez venham a nascer flores da terra sob a qual o sepultaram. Mas de que lhe servem flores, agora? Se fossem para assinalar onde ele está, haveriam de ser flores tristes e doentias, como ele sempre foi, e ninguém irá parar para vê-las.

***

O menino de cinco anos perguntou por que haviam posto flores no peito do padrinho. Disseram-lhe que talvez não houvesse flores no lugar para onde ele estava indo. O menino tirou então dois biscoitos do pacote e os juntou às flores.

***

Tão feiosas são estas flores. Envergonha-me pensar que as rego para ti. Talvez por serem regadas por mão de homem, são mofinas, raquíticas, e é um milagre a brisa não as ter levado. O sol pouco as visita, não para poupá-las, mas porque lhe repugna seu aspecto, e os beija-flores não as incluem em seu plano de voo. Rego-as e quando olho para elas me vem – embora isso me doa tanto – a ideia de que melhor será tu tardares a vir, ou não vires nunca, para não saberes que meu amor continua sáfaro, incapaz e triste.

sexta-feira, maio 29

Farol

 


Crepúsculo

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
David Mourão-Ferreira

Cor-de-rosa

O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa sua casa, e de azul-claro o beiral e os marcos e folhas das janelas. Esta providência dá margem a algumas divagações que aqui se transmitem ao leitor, nosso companheiro.

O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.

Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua existência.

De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar aquilo no chão.

A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição de algo fundamental, como é a casa em que vivemos.

Tendo destruído essa parte do ser, as pessoas transportam os remanescentes para os ossuários erguidos apressadamente no mesmo local, e que se arrumam pelo princípio da superposição de urnas. Aí aguardarão, talvez até a consumação dos séculos, o dia da ressurreição das casas.

Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa. Vale dizer que ele não atendeu o telefone, quando o chamaram para consultá-lo vagamente sobre a hipótese da derrubada, que não compareceu ao escritório onde peritos blandiciosos o convenceriam da inconveniência de morar à maneira antiga, metendo em brios o seu amor-próprio, pois se todo mundo desistiu de tal maneira, por que só ele continua teimando? Ou compareceu, foi amaciado, reagiu, tornaram a amaciá-lo, esteve a ponto de ceder, a vista se lhe turvou qual plúmbeo véu, eram tantos milhões de cruzeiros, mas cobrou ânimo e reagiu outra vez, o senhor é louco, não vê que a valorização naquela zona o proíbe de continuar a deter o surto imobiliário, isso é um crime, o senhor está perdendo dez mil cruzeiros por semana, onde é que anda o amor que devota a seus filhos, e o gabarito, e a vaga na garagem, e o fabuloso jardim de inverno, e o vizinho vai capitular, não, ainda, não; passa-lhe pela mente o frontispício cor-de-rosa, com elementos azuis, de uma antiga mansão onde a vida era feliz, ou pelo menos ficou sendo naquele tempo; depois que considerou bem, o vizinho enxuga o suor da testa, grita nããão, e sai e chama o pintor e lhe ordena: pinte tudo cor-de-rosa, com os beirais e as janelas de azul de mês de Maria, quero minha casa bem bonita, como bonito era o sobradão de 1800 e tantos onde meu bisavô nasceu, e quero ver, mas quero ver quem derruba minha casinha!
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De cor-de-rosa e de azul-claro ele pintou sua casa, de azul-claro e de rosa devíamos todos revestir uma fração de nossa vida, já que não é possível pintá-la completamente de cores tão puras.

Carlos Drummond de Andrade, “Fala, amendoeira”

Passeio à infância

Primeiro vamos lá embaixo no córrego; pegaremos dois pequenos cacas dourados. E como faz calor, veja, os lagostins saem da toca. Quer ir de batelão, na ilha, comer ingás? Ou vamos ficar bestando nessa areia onde o sol dourado atravessa a água rasa? Não catemos pedrinhas redondas para a atiradeira, porque é urgente subir no morro; os sanhaços estão bicando os cajus maduros. É janeiro, grande mês de janeiro!
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Podemos cortar folhas de pita, ir para o outro lado do morro e descer escorregando no capim até a beira do açude. Com dois paus de pita, faremos uma balsa, e, como o carnaval é no mês que vem, vamos apanhar tabatinga para fazer fôrmas de máscaras. Ou então vamos jogar bola-preta: do outro lado do jardim tem um pé de saboneteira.
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Se quiser, vamos. Converta-se, bela mulher estranha, numa simples menina de pernas magras e vamos passear nessa infância de uma terra longe. É verdade que jamais comeu angu de fundo de panela?


Bem pouca coisa eu sei: mas tudo que sei lhe ensino. Estaremos debaixo da goiabeira; eu cortarei uma forquilha com o canivete. Mas não consigo imaginá-la assim; talvez se na praia ainda houver pitangueiras… Havia pitangueiras na praia? Tenho uma ideia vaga de pitangueiras junto a praia. Iremos catar conchas cor-de-rosa e búzios crespos, ou armar o alçapão junto do brejo para pegar papa-capim. Quer? Agora devem ser três horas da tarde, as galinhas lá fora estão cacarejanda de sono, você gosta de fruta-pão assada com manteiga? Eu lhe dou aipim ainda quente com melado. Talvez você fosse como aquela menina rica;, de fora, que achou horrível nosso pobre doce de abóbora e coco.
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Mas eu a levarei para a beira do ribeirão, na sombra fria do bambual; ali pescarei piaus. Há rolinhas. Ou então ir descendo o rio numa canoa bem devagar e de repente dar um galope na correnteza, passando rente às pedras, como se a canoa fosse um cavalo solto. Ou nadar mar afora até não poder mais e depois virar e ficar olhando as nuvens brancas. Bem pouca coisa eu sei; os outros meninos riram de mim porque cortei uma iba de assa-peixe. Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado com os soldados de canoa dando tiros, e havia uma mulher do outro lado do rio gritando.

Mas como eu poderia, mulher estranha, convertê-la em menina para subir comigo pela capoeira? Uma vez vi uma urutu junto de um tronco queimado; e me lembro de muitas meninas. Tinha uma que era para mim uma adoração. Ah, paixão da infância, paixão que não amarga. Assim eu queria gostar de você, mulher estranha que ora venho conhecer, homem madura. Homem maduro, ido e vivido; mas quando a olhei, você estava distraída, meus olhos eram outra vez os encantados olhos daquele menino feio do segundo ano primário que quase não tinha coragem de olhar a menina um pouco mais alta da ponta direita do banco.
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Adoração de infância. Ao menos você conhece um passarinho chamado saíra? É um passarinho miúdo imagine uma saíra grande que de súbito aparecesse a um menino que só tivesse visto coleiros e curiós, ou pobres cambaxirras. Imagine um arco-íris visto na mais remota infância, sobre os morros e o rio. O menino da roça que pela primeira vez vê as algas do mar se balançando sob a onda clara, junto da pedra.

Ardente da mais pura paixão de beleza é a adoração da infância. Na minha adolescência você seria uma tortura. Quero levá-la para ,a meninice. Bem pouca coisa eu sei; uma vez na fazenda riram: ele não sabe nem passar um barbicacho! Mas o que sei lhe ensino; são pequenas coisas do mato e da água, são humildes coisas, e você é tão bela e estranha! Inutilmente tento convertê-la em menina de pernas magras, o joelho ralado, um pouco de lama seca do brejo no meio dos dedos dos pés.
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Linda como a areia que a onda ondeou. Saíra grande! Na adolescência me torturaria; mas sou um homem maduro. Ainda assim às vezes é como um bando de sanhaços bicando os cajus de meu cajueiro, um cardume de peixes dourados avançando, saltando ao sol, na piracema; um bambual com sombra fria, onde ouvi silvo de cobra, e eu quisera tanto dormir. Tanto dormir! Preciso de um sossego de beira de rio, com remanso, com cigarras. Mas você é como se houvesse demasiadas cigarras cantando numa pobre tarde de homem.

Rubem Braga,  “200 crônicas escolhidas”

Progresso

O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho do seu pai no tempo em que não havia computadores. O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs-se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada — e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar, encontrou-a dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preta e metade vermelha, colocando-a então de novo no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes sem conta eles estiveram juntos. “Como é que funciona, pai?”, o menino perguntou. “É assim que funciona...”, respondeu o pai. A seguir, colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquitilografar” (era assim que o meu pai falava) umas frases soltas. Ao ver a máquina em ação, o menino fez um “oh” de espanto. “Que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar as letras que o texto sai impresso...” O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Cortázar que se chama, se não me engano, A história das invenções. Só que tudo acontece não de trás para a frente, mas da frente para trás. A história começa num voo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens, inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, em vez de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de quinze quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim, poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e ver os rios, bosques e vilas... E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor... Até que, depois de muito progresso, da invenção dos navios a vela não poluentes e das bicicletas que fazem bem ao coração, os humanos inventam a mais fantástica de todas as invenções: eles inventam o “andar a pé”…
Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"

quinta-feira, maio 28

Asas à liberdade

 


O coração risonho

Sua vida é sua vida
Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.
Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão
Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.
Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.
Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.

Charles Bukowski, "Antologia Poética"

As velhinhas da rue Hamelin

Rue Hamelin, onde morreu Proust. Ali pertinho é a rua Lauriston, onde morreram muitas outras pessoas menos conhecidas: ali era a casa das torturas da Gestapo. Mas na rue Hamelin há coisas imortais: suas velhinhas não morrem nunca. Há aquelas duas que vão todo dia ao mesmo “bistrô”: uma corpulenta, sempre de chapéu, que lê o Figaro e reclama a qualidade do vinho tinto, mas reclama com uma dignidade que se ajusta bem aos seus 70 anos; reclama e bebe. Mora um pouco para baixo de minha casa, e eu gostaria de imaginar que mora na casa em que morreu Proust; mas não, onde Proust morreu vive hoje um sindicato.

Atravessa a av. Kleber com um passo lento no seu vestido negro sempre impecável; como todas essas outras digníssimas velhas usa um vestido que se fecha no pescoço em uma espécie de gola alta, onde há rendas e talvez elástico, talvez barbatana, uma gola que mantém a cabeça ereta através dos séculos, capaz de ver de cima, sem se curvar, as pequenezas do mundo presente. Atravessa a avenida sem olhar para os lados, como se todos os chauffeurs de Paris tivessem o dever de respeitá-la; talvez ao se aproximarem de sua pessoa esses carros motorizados se transformem secretamente em coches e diligências, para fazer ambiente para a sua travessia.


A outra velhinha tem o ar triste ― e come muito. Não creio que dure muito; mas é verdade que há trinta anos atrás ela poderia dar a mesma impressão. É infinitamente velha, e apesar da gola apertada anda devagarinho a olhar disfarçadamente para o chão, como se temesse tropeçar e cair dentro de alguma sepultura. Sua própria velhice já deve ser uma coisa muito velha; ela deve ter perdido algum neto muito querido na guerra franco-prussiana e desde então tem esse ar triste.

Há ainda uma velha pobre, mas também vestida com a maior dignidade. Outro dia cheguei à janela, atraído por alguns sons feios e tristes que pareciam querer se encaminhar no sentido de uma certa melodia: era essa velha que cantava. Cantava no meio da rua, em pleno sol, parada, olhando os cinco andares da janela. Hesitei um instante antes de lhe jogar algum dinheiro. Sua presença era tão severa como a da genitora de um magistrado mineiro em dia de missa de sétimo dia pela alma de outra genitora de outro magistrado mineiro, na igreja de São José.

Temi ofendê-la jogando-lhe dinheiro, como já fizera em benefício do cego e da mocinha ou do homem da rebeca ou do algeriano do macaco que dança ao som do tambor. (Sim, porque a rue Hamelin tem seus artistas errantes). A velha senhora tentava cantar uma velha canção; joguei-lhe algumas moedas dentro de um maço de cigarros. Parou de cantar e recolheu o dinheiro com um gesto difícil e lento, sem se dignar de me agradecer.

Há dois velhos extraordinariamente magros, extraordinariamente brancos, vestidos de negro, com chapéus negros, que andam juntos, mas não se falam nunca, como se há quarenta anos atrás tivessem esgotado de maneira irremediável o último assunto; mas há um velho que, segundo descobriu dom Carlos de Reverbel, adora o trato com os outros seres humanos. Veste-se com menos esmero, talvez com uma limpeza duvidosa; até seus cabelos brancos e sua pele parecem mais encardidos pelos anos e pelas intempéries. Usa uma espécie de sobrecasaca imutável e gosta de ficar parado perto do métro Boissiéres. De vez em quando detém um transeunte. Já assistimos a essa cena, que o próprio Reverbel, com sua paciência, já viveu duas vezes. O ancião pede desculpas e faz alguma pergunta sobre a direção em que deve viajar para uma certa gare. A pessoa explica com gentileza: descer em Trocadéro, pegar então direção de Sévres, etc. O velho ouve com a máxima atenção, movendo a cabeça; e acaba perguntando se não seria muito incômodo mostrar-lhe o itinerário no mapa. Vêm então os dois até o mapa e a explicação é repetida. O velho agradece muito, e o outro segue seu caminho, convencido de que praticou uma boa ação. O que não é inexato. Seria inexato, porém, pensar que o digno senhor pretendia ir à Rua Molitor ou a qualquer outra parte. Nunca. Jamais desce as escadas do métro; continua ali na calçada, com um ar meio desorientado, à espera de outra estação. Nunca vai, nunca foi a parte alguma; nasceu, já de sobrecasaca, num desses escuros casarões da rue Hamelin, e no lugar de morrer talvez vire estátua na pracinha ali atrás; há muitas estátuas em Paris e se esse velho se disfarçar em bronze e ficar quietinho no meio do jardim, ninguém duvidará que ele seja, por exemplo, o próprio Hamelin. (Desconfio vagamente que é).

Mas foi na esquina de Galilée que assisti a um dos encontros mais tocantes que me foi dado presenciar na vida. Vinha de um lado uma velhinha e de outro lado outra. À primeira vista eram iguais; vestidas de negro, luzidias, com passos miúdos, magrinhas como duas formigas. Duas formigas quando se encontram param para conversar ― e as velhinhas pararam na esquina. Durante um instante uma pareceu observar com atenção a outra; e cada uma deve ter chegado à conclusão de que a outra estava irrepreensível, desde os sapatos pretos até o chapéu preto, desde a bolsa até a pintura das faces. (Porque essas velhinhas de Paris, muitas vezes se pintam: além de se pintarem creio que se armam com espartilhos e outros mecanismos capazes de suster na vertical seus minguadíssimos restinhos de carne que talvez de outro modo, libertados de tudo isso, virassem cinza e se espalhassem ao vento dos boulevards). As duas formiguinhas se fiscalizaram um instante: eram ambas tão incrivelmente velhinhas que talvez cada uma apenas quisesse se certificar de que a outra realmente ainda estava viva, ainda existia ao cabo de tantos e tantos séculos. Ambas resistiram à crítica ― e então como ficaram alegrinhas em se ver! Como ficaram alegrinhas! Parei para vê-las: trocavam palavras gentis com suas vozes de meninas roucas, agitando um pouco ao falar, as duas mãos, movendo um pouco para a frente os corpos mirradinhos, concordando, agradecendo, sorrindo infinitamente felizes. Então se separaram ― e apenas achei um pouco exagerado que, ao se separarem, uma dissesse au revoir à outra. Não, elas não se reverão: não, tudo tem um limite, mesmo essas velhinhas da rue Hamelin. Certamente cada uma chegou em casa, deitou-se assim mesmo, toda bem vestidinha, em sua caminha, trançou as mãos sobre o peito murcho ― e morreu, afinal.
Rubem Braga

Dia do Cronista. Por que não?

Outro dia percebi um fato curioso: não existe o Dia do Cronista. Existe o do cronista esportivo, figura respeitável que sofre em público por causa do impedimento e da lateral mal cobrada, mas o cronista comum, o cronista raiz, aquele que escreve sobre o elevador que nunca chega ou sobre o cachorro que pensa que é gente, esse ficou sem calendário.

É estranho. Temos o Dia do Abraço, o Dia do Café, o Dia da Toalha, o Dia do Orgulho Geek e certamente deve existir o Dia Internacional do Fio Embolado Atrás da Mesa. O calendário contemporâneo abraça tudo. Qualquer objeto que permaneça parado tempo suficiente acaba homenageado. O cronista, porém, segue órfão de data.

Talvez seja justo.

O cronista vive do que escapa às datas. Ele trabalha no território do acontecimento inútil. Não o grande fato histórico, mas o pequeno desastre doméstico: a torrada que cai sempre do lado da manteiga, o sujeito que aperta o botão do elevador dezessete vezes como se estivesse enviando uma mensagem em código morse, a criança que faz perguntas surreais aos pais.

O cronista é uma espécie de arqueólogo do irrelevante.

Enquanto o repórter corre atrás da notícia, o cronista tenta alcançar a senhora que conversa com as plantas na sacada. E geralmente não a alcança, porque ela entra antes no elevador onde estava o sujeito do código morse.

Dar ao cronista um único dia talvez seja limitar sua atuação. Afinal, ele opera em tempo integral. O cronista está sempre de plantão diante da banalidade. Basta alguém espirrar de forma dramática num ônibus e pronto: nasce uma reflexão sobre a fragilidade humana e a circulação do vírus.

Há também outro problema. Se existir o Dia do Cronista, inevitavelmente surgirão eventos oficiais. Haverá palestras. Mesas-redondas na Flip. Painéis chamados “A crônica hodierna”. O cronista seria obrigado a usar crachá, e nada combina menos com um cronista do que uma identificação pendurada no peito.

Imagino até a cerimônia.

Alguém subiria ao palco para homenagear “os profissionais que transformam o cotidiano em alta literatura”, enquanto, no fundo do auditório, um cronista estaria escrevendo justamente sobre o microfone que não funciona. Ou sobre o garçom que serve café com expressão de quem desistiu da humanidade em 2007.

Por isso, proponho uma solução alternativa: teremos o Dia do Cronista, sim, mas ele seria em um feriado. Em um dia em que ninguém escreveria nada. Os jornais sairiam em branco. Os leitores leriam bula de remédio por falta de opção. Mas algum cronista, claro, inevitavelmente, acabaria anotando num guardanapo: “Hoje não aconteceu nada. Ainda bem. Já temos assunto.”

quarta-feira, maio 27

Leitura no parque

 


Os anjos contam histórias

O chefe da família na máquina de trabalhar. A mulher na enceradeira. A cozinheira no fogão. O passarinho na gaiola. Os peixes no mar. A gaivota pescando. A menina rolando no chão. O menino, doente, na cama. Todos nós somos deste mundo, menos as crianças. E o menino, perseguido de visões febris, vai falando sem parar:

“O filho da vaca é o bezerrinho, o pai da vaca é o boi. Não é? Eu vou morar num sítio. Morar muito. Um dia, quando eu fui fazer pipi, vi duas professoras de inglês. Igual. Eu vou trazer um pato do sítio e botar em cima da cabeça do Didi. Quando eu ficar bom, quero ir no circo. Eu já cortei a mão. Papai, papai-i: conta uma história de camelinho. História triste, não. Nova e alegre. Mãe, tá doendo, tou com dor de cabeça. Eu só gosto daquele remédio cor de laranja. Cafiaspirina eu não gosto. O gatinho caiu no poço, vestido de amarelo, todo mundo veio em volta pensando que era marmelo. Quando eu fui no colégio vi nuvens. A nuvem estava passando nas nuvens. Não estava chovendo. Ai, eu quero sair da cama! Laurita, eu não vou comer aquela coisa que arde. Papai é um burro, mamãe é a mulher do burro, e eu sou um burrinho. Mãe-i, você vai um dia naquela esquina longe? Lá tem anzol. Você compra uma vara nova, que o peixinho não gosta de vara velha, não.

Eu te dou um bombom. Galibi é menina, mas ela gosta de pescar. Se não fizer um poleiro, o galo sobe na árvore e estraga as pitangas. Pai-i, quando eu crescer, vou ganhar um trem de ferro elétrico. Você vai dar. Meu dodói dói. Eu não comi muita azeitona. Maionese eu não gosto. Maionese é aquele remédio que eu tomei agora.

Eu só gosto de remédio vermelho. Elefante gosta de amendoim. Tia Edir sabe fazer espantalho: snowman ela não sabe, não: aqui não tem inverno. Se você fala inglês, papagaio também fala. Mas fala também paracopaco, não fala? Leão de circo não come você, não; de jardim zoológico come. Galibi, conta uma história…”

A irmã sobe na cama e começa a contar uma história:

“Era uma vez um nenê. Era só cantar ‘Dorme, nenê’, que ele dormia. Mas logo depois precisava de chegar uma porção de anjos. Já conheciam a dona daquela casa, e por isso tinham dado o nenê para ela. A mãe fazia roupa para o seu nenê querido. Um dia, a família foi viajar; o nenê foi de roupa muito bonita. Quando voltaram da linda viagem, quem adorou mais foi o nenê. Era só o que faltava! Os anjos! Sim, sua mãe sempre precisava dos anjos para ajudar. O nenê adorava sua mãe, mas não podia faltar nada para ele, e, assim, não deixava ela fazer nada, gritava, chorava, fazia tantas molecagens que a mamãe não podia trabalhar. A mãe um dia chamou os anjos e pediu que eles dessem um jeito. Os anjos, muito espertos, levaram o nenê para a mata, para o galho duma árvore. O nenê ficou contente da vida! Os passarinhos traziam flores para ele, as abelhas traziam mel, o nenê ria. Enquanto isso, seu pai tinha viajado e sua mãe também. Antes de voltar da viagem, a mãe, de tanta saudade daquele nenê querido, mandou o irmão buscar ele na mata. Quando o irmão chegou, o nenê estava brincando com as estrelas do céu, e os anjos estavam procurando diamantes. Já era bem de noite e o sol estava se escondendo. Até o seu corrupião estava com fome. Mas, aí, sua mãe já era tão pobre que não tinha mais empregada. Todos eram pobres, o cachorro, a árvore, o cavalo. Mas enfim tudo estava em silêncio e quieto. Era uma hora da madrugada, e já estava quase ficando de dia. A noite era tão triste e a mãe não tinha comida. Na hora de jantar, só tinha dado leite, bife, batata, sopa, salada e aveia. Então chegou um anjinho e contou uma história para o nenê: ‘Era uma vez uma cidade que tinha muitas casas de frutas, mas o sol estava tão quente que mandava seus raios para todos os lados’. O nenê sentiu muito o sol da história, e o anjo então mandou que os raios de luz começassem a ir embora. Quando ficou de noite outra vez, o sol foi para a China. A China não é perto, é muito longe. O nenê também foi para a China, porque não gostava de escuro. E todo dia, quando ficava escuro, ia para a China. E os anjinhos nunca mais encontraram o nenê naquela caminha tão boa.”

O menino diz: “Pai, a Inês me ensinou a fazer navio”.
Paulo Mendes Campos

O pobre que ganhou no bicho graças a Nossa Senhora

Outro orientalismo na vida — inclusive na mística do brasileiro não só de Recife como do Brasil inteiro — parece que é o jogo do bicho. Diz-se que foi o barão de Drummond que o inventou. Mas em 1900 já havia quem sustentasse que não: que o jogo do bicho, em vez de inventado por brasileiro, fora adaptado ao Brasil, de modelo ou exemplo oriental. “A suposta e portentosa criação do finado barão de Drummond” — escrevia o Jornal pequeno, do Recife, em sua edição de 4 de setembro daquele ano: o primeiro ano de um novo século ou assim comemorado na capital de Pernambuco como noutras capitais, inclusive Londres — “o jogo dos bichos, hoje inveterado para sempre, talvez, em todas as classes da sociedade carioca e de quase todo o Brasil, não é positivamente uma criação, mas uma adaptação consciente ou inconsciente do que se pratica há longos anos na Cochinchina”. E para prová-lo, citava recente livro de um Pierre Nicolas no qual se descrevia velho jogo oriental com 36 bichos, evidentemente pai ou avô do jogo brasileiro.

Contou-me há anos o falecido mestre-cuca José Pedro, filho de célebre capoeira do Poço da Panela e que morreu senhor todo-poderoso do forno e do fogão de uma toca de solteirões perto da Casa-Forte — que no seu tempo de menino — “menino, não, moleque”, teria corrigido José Maria de Albuquerque e Melo, como de uma feita corrigiu, na presença do irmão, Manuel Caetano, o próprio José Patrocínio — conhecera um homem que se libertara da mais triste e feia pobreza, jogando um dia no bicho. Mas jogando no bicho na certeza de ganhar, desde que a própria Nossa Senhora do Carmo, sua madrinha, lhe aparecera nas nuvens e lhe indicara o bicho exato em que devia jogar.

O pobre do recifense já não sabia o que fazer para dar de comer à mulher e a não sei quantos filhos pequenos, todos a crescerem nus e barrigudinhos num mucambo da ilha do Joaneiro. Uma tarde de domingo estava ele a pensar na vida, estirado numa velha cama de vento, não dentro do mucambo mas ao ar livre. Céu aberto. Pensava na vida e ao mesmo tempo se distraía vendo passar as nuvens quase todas parecidas com carneirinhos, outras só com flocos de algodão. Mas nem cogitava o homem de jogo de bicho. Nem era jogador. Raramente arriscava um tostãozinho em jogo ou cachaça. Tampouco estava pensando na madrinha, que era Nossa Senhora do Carmo, à qual muito já tinha rezado para o livrar de pobreza tão negra; mas em vão. A madrinha parecia só ouvir as rezas dos afilhados ricos, dos filhos de comendadores, das moças elegantes que a enchiam de joias de ouro e se esmeravam em enfeitar os altares da igreja do Convento do Carmo, de flores raras.

De repente, porém, o pobre que — garantia José Pedro — “não estava dormindo” pois “pobre não sabe dormir de dia”, vê umas nuvens muito brancas se abrirem; e aparecer, no azul-celeste, como iluminada por muita luz elétrica, sua madrinha. Aparece a santa em toda sua glória e aponta com o dedo luminoso para uma nuvem que, também de repente, toma a forma de um bicho: a forma clara de um bicho que já não me lembro qual foi. Nem está vivo o bom do José Pedro para me refrescar a memória.

O recifense pobre esfregou os olhos: não era sonho. A santa lá estava e a nuvem com forma de bicho, também. Gritou então o afilhado de Nossa Senhora do Carmo pela mulher. Que corresse! Que viesse ver! Assombramento! Milagre! Pulou da cama. Mas nisso a santa se sumiu. A nuvem em forma de bicho foi tomando outro aspecto. O céu voltou a ser o mesmo céu recifensemente azul, sem outra iluminação que a do sol de fim de tarde. O recifense é que não cabia em si de assombrado e de contente. Era um sinal do céu para que ele se livrasse da pobreza.

Foi a um compadre e pediu dinheiro emprestado. O compadre fez cara feia mas acabou cedendo, impressionado de algum modo com a história da santa: conto de fada que, na boca de um homem que ele sabia sério e bom e não um falastrão qualquer, dava o que pensar.

Na segunda-feira, o afilhado da santa madrugou junto à banca do melhor bicheiro da Encruzilhada naquela época. Fez jogo completo. Carregou na centena. Aventurou alguma coisa no milhar. E de tarde, por mais estranho que pareça, era um triunfador completo. Ganhara em tudo. Estava cheio de “louras”, como então ainda se dizia.

Garantia-me José Pedro, que conhecia o “calso” em todas as suas minúcias, que tudo se passara assim. Que de mucambo da ilha de Joaneiro o pobre, de repente enriquecido graças a Nossa Senhora do Carmo, passara a morar em chalé da Torre, com os filhos em colégio de padre e a mulher com dente de ouro e chapéu de pluma, passeando na rua Nova e tomando sorvete no Café Rui.
Gilberto Freyre

O homem que lê

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke, "O Livro das Imagens"

Madrugada

Acordou assustada e medrosa no silêncio da casa adormecida. Era como se fosse a única habitante de um mundo de quietude e solidão. Um mundo trêmulo de felicidade que um gesto desajeitado poderia quebrar e destruir. Escorregou de manso sob as cobertas, com medo que ele acordasse, a respiração ritmada de seu sono tranquilo, a mão largada junto ao rosto, nesse jeito meio perdido de criança de todo homem adormecido. Ficou sentada um pouco na beirada da cama, amaciando com a ponta do pé descalço a lã do tapete. E viu-se de repente no espelho, na madrugada que principiava a entrar de manso pelas frestas das venezianas, o rosto meio escondido pelo cabelo, uma vaga silhueta de mulher, um jeito meio ansioso, a ingênua camisola branca, refletida no espelho.

Tinha nascido com ela aquela sensação pungente da infinita precariedade de tudo, que a acompanhara, sem largar, por toda a vida. Fora assim que surpreendera a beleza no seu rosto, no céu, nas águas, no mundo. Fora com essas mãos surpreendidas e desesperadas de não poderem reter coisa nenhuma, que segurara um filho no colo, um rosto bem amado, um momento de prazer. E todos esses sentimentos se atropelavam, agora – suspensos em que noção de tempo? – nesta madrugada estrangeira, que ia virando dia, numa cidade com que sonhara uma vida inteira, ao lado de um homem que não era mais seu. O dia ia nascendo e com ele o anúncio de todas as partidas. E do fundo do seu sono ordenara a si mesma que acordasse, que ficasse a espiar, a tentar reter – como? – aquele momento, no escuro do quarto em que ele dormia, livre de cuidados, a sua última noite juntos.

Nunca sentira o mundo ou este homem mais seus do que nesse instante em que ambos ainda não tinham acordado e em que lhe pertenciam, tão brevemente, por inteiro. Levantou-se de manso – e seu vulto no espelho, amaciando os passos e a respiração, abriu sem ruído uma fresta da veneziana – sentiu no rosto o ar fresco que vinha lá de fora, guardou pedra por pedra na memória a ruazinha estreita, descendo para o porto, a névoa que começava a debruar o horizonte. Vinha do fim da ladeira um trabalhador encapotado, uma janela abriu-se barulhenta com um riso de mulher.

Teve medo desse dia que ia nascendo, fechou a janela depressa para que ele não entrasse no quarto. Voltou-se para a cama em que o homem dormia, ressonando de leve, escondendo o rosto no travesseiro para aprofundar mais no seu sono. Começou a falar baixinho, quase sem palavras, com ele – dizem que se pode falar assim com o espírito, que vagueia, dos que estão adormecidos. – Disse-lhe do seu amor, de sua angústia, de sua pena. De toda a solidão com que ia ficar. Estava alegre – sabe? – muito obrigada, sabe? – a ele, à vida, ao que fosse, meu Deus. Nunca mais dormiria o seu sono junto dela. Mas que dormisse bem. E acordasse em paz, em alegria. Essa hora ficaria com ela, só sua, de mais ninguém. E até nunca mais.
Elsie Lessa