Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
segunda-feira, julho 13
Mário Quintana e sua admiradora
Recebi uma carta do padre-poeta Armindo Trevisan. Ele me conta uma coisa que Mário Quintana lhe contou. Era uma vez uma menininha de oito anos, “linda e inteligente” que queria conhecer a todo o custo o poeta Quintana. E tanto insistiu com sua professora, que esta resolveu pedir uma audiência a Mário. Este acedeu.
No dia marcado, lá se foram a professora e a menininha à redação do Correio do Povo onde Quintana trabalha. A menina viu o poeta, conheceu-o, falou com ele, ouviu-o falar.
Logo depois que partiram, a professora telefonou ao Quintana e perguntou-lhe se ela poderia dizer-lhe as impressões da sua jovem admiradora. Quintana respondeu que a opinião de uma criança, favorável ou desfavorável, sempre merecia acatamento. Então a professora disse:
– Meu caro poeta, a menininha disse: “Ele é tão bonito mas parece meio pateta.”
Bendita patetice de um dos poetas que mais admiro.
Padre Armindo, você permite que eu cite um trecho de sua carta em que sua humildade cristã de novo se revela? Permita, por favor. Eu gosto muito de você, por isso transcrevo o pequeno trecho. Você escreve: “Se me permite, rezarei por você; não deixe, oh não, de rezar por mim que sou bem pecador, e preciso das suas orações, sejam quais forem, porque tenho a secreta certeza de que você está mais próxima de Deus do que eu, apesar de ser travessa para com Ele, e parecer mandar brasa sobre muitas coisas sobre as quais eu não mando...”
Padre Armindo, são quatro horas da madrugada e é uma hora tão bela que todo o mundo que estiver acordado está de algum modo rezando. Rezo para que o mundo lhe seja sempre bonito de se olhar e de se sentir, rezo para que você goste da comida que come, rezo para você sempre fazer poesia, fazer poesia é em si mesmo uma salvação.
É preciso que você reze por mim. Ando desnorteada, sem compreender o que me acontece e sobretudo o que não me acontece.
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"
No dia marcado, lá se foram a professora e a menininha à redação do Correio do Povo onde Quintana trabalha. A menina viu o poeta, conheceu-o, falou com ele, ouviu-o falar.
Logo depois que partiram, a professora telefonou ao Quintana e perguntou-lhe se ela poderia dizer-lhe as impressões da sua jovem admiradora. Quintana respondeu que a opinião de uma criança, favorável ou desfavorável, sempre merecia acatamento. Então a professora disse:
– Meu caro poeta, a menininha disse: “Ele é tão bonito mas parece meio pateta.”
Bendita patetice de um dos poetas que mais admiro.
Padre Armindo, você permite que eu cite um trecho de sua carta em que sua humildade cristã de novo se revela? Permita, por favor. Eu gosto muito de você, por isso transcrevo o pequeno trecho. Você escreve: “Se me permite, rezarei por você; não deixe, oh não, de rezar por mim que sou bem pecador, e preciso das suas orações, sejam quais forem, porque tenho a secreta certeza de que você está mais próxima de Deus do que eu, apesar de ser travessa para com Ele, e parecer mandar brasa sobre muitas coisas sobre as quais eu não mando...”
Padre Armindo, são quatro horas da madrugada e é uma hora tão bela que todo o mundo que estiver acordado está de algum modo rezando. Rezo para que o mundo lhe seja sempre bonito de se olhar e de se sentir, rezo para que você goste da comida que come, rezo para você sempre fazer poesia, fazer poesia é em si mesmo uma salvação.
É preciso que você reze por mim. Ando desnorteada, sem compreender o que me acontece e sobretudo o que não me acontece.
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"
Casa em ruínas
O xisto das paredes acolheu
os poucos desejos. O telhado
cortou os grandes frios da geada,
desviou a chuva das enxergas.
Pelos postigos entrou alguma luz.
Rezou-se e morreu-se nessa casa.
Hoje as paredes vão-se aos poucos derruindo:
aproximam-se do chão de que nasceram.
Como se se executasse nela
um antigo memento: quia petra es
et in petram reverteris.
Há muito que o vento derrubou
a derradeira telha. Caíram de podres
as vigas do telhado, e há já alguns invernos
que deram achas para arder no lume.
Quase não há vestígios de postigos –
salvo uma floreira que parece ali
um capricho escarninho.
Cumpriu-se na casa um ciclo.
Hoje não tem serventia,
salvo para alguns animais furtivos
que a ocupam e lhe pedem afinal
as mesmas funções simples
que aquele que a edificou pediu outrora.
Na sua decadência persistente,
a casa mete pena, como todos
os sonhos que algum dia floresceram
e depois se foram esfarelando.
Está visto: as casas não têm
a mesma estouvada vocação
de eternidade
que atormenta os seus donos.
os poucos desejos. O telhado
cortou os grandes frios da geada,
desviou a chuva das enxergas.
Pelos postigos entrou alguma luz.
Rezou-se e morreu-se nessa casa.
Hoje as paredes vão-se aos poucos derruindo:
aproximam-se do chão de que nasceram.
Como se se executasse nela
um antigo memento: quia petra es
et in petram reverteris.
Há muito que o vento derrubou
a derradeira telha. Caíram de podres
as vigas do telhado, e há já alguns invernos
que deram achas para arder no lume.
Quase não há vestígios de postigos –
salvo uma floreira que parece ali
um capricho escarninho.
Cumpriu-se na casa um ciclo.
Hoje não tem serventia,
salvo para alguns animais furtivos
que a ocupam e lhe pedem afinal
as mesmas funções simples
que aquele que a edificou pediu outrora.
Na sua decadência persistente,
a casa mete pena, como todos
os sonhos que algum dia floresceram
e depois se foram esfarelando.
Está visto: as casas não têm
a mesma estouvada vocação
de eternidade
que atormenta os seus donos.
A. M. Pires Cabral
A palavra
… Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam … Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as … Amo tanto as palavras … As inesperadas … As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem … Vocábulos amados … Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho … Persigo algumas palavras … São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema … Agarro-as no voo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas … E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as … Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda … Tudo está na palavra … Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu … Têm sombra, transparência, peso, plumas, pelos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes … São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada … Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos … Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais, se viu no mundo … Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas… Por onde passavam a terra ficava arrasada… Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes… o idioma. Saímos perdendo… Saímos ganhando… Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras.
Pablo Neruda, “Confesso que vivi“
Pablo Neruda, “Confesso que vivi“
O céu é um lugar muito distante
O menino tinha 5 anos e algumas convicções. Uma delas era não gostar da escolinha. Toda tarde, quando precisava ir, ele protestava, chorava, esperneava. Só depois de muita resistência acabava indo. E ia porque outra de suas convicções era a de que não havia um gato mais bonito que o da dona da escolinha.
O gato se chamava Bonito – o menino pronunciava Monito – e ficava escarrapachado num sofá, na secretaria da escola. Por isso, as mães de alguns alunos diziam que ele era o secretário da escola.
O menino via o gato só na entrada e na saída, mas sabia – essa mais uma de suas convicções – que, de todos os meninos e meninas da escola, era dele que Monito mais gostava. Esses dois momentos únicos serviam para tornar menos sofridas as tardes do menino.
Um dia, ao chegar à escola, ele não viu o gato.
“Cadê o Monito?”, perguntou, primeiro à mãe e depois à dona da escola.
As duas trocaram gestos e ele ficou sem resposta. Na saída, o sofá vazio o fez repetir a pergunta. A dona da escola, dando-lhe um beijo, disse que o gato estava viajando.
Na tarde seguinte, o menino quis novamente saber do gato e a dona da escola respondeu que ele tinha ido para o céu. Por uma semana o menino perguntou se Monito havia voltado. Sem o gato, as tardes se fizeram insuportáveis para ele. Agora, dava ainda mais valor aos sábados e domingos, dias em que ia à casa do avô para brincar com ele.
O menino não trocaria o avô por nenhum outro. O máximo que aceitaria fazer seria mudar uma coisinha ou outra nele. Por exemplo, gostaria que ele soubesse brincar um pouco melhor. O avô tinha boa vontade, esforçava-se, mas não sabia brincar direito de nada: nem jogar bola, nem empurrar carrinho, nem lutar espada.
Um domingo, o menino propôs ao avô que fossem ao quintal para experimentar a eficiência de um revólver espirrador de água. No começo, o avô se saiu muito bem. Os dois puseram uma lata sem tampa no chão e, em dez minutos, recarregando várias vezes o espirrador no tanque e revezando-se nos disparos, conseguiram enchê-la até transbordar. Uma façanha! O garoto se pôs a pular:
“Viva! Viva! Nós dois, vô, somos os maiores enchedores de lata do universo.”
O problema ocorreu depois. Vendo uma aranhinha no muro, o avô sugeriu uma brincadeira: fazer, com os jatos do revólver, um círculo em volta da aranha. Seria um rio que ela teria de atravessar. O menino aprovou a ideia e, com três disparos certeiros, desenhou uma parte do círculo. Depois, passou o revólver ao avô. Foi um grande erro. Com a inabilidade de sempre, o avô apertou o gatilho e atingiu a aranhinha em cheio.
“Para, vô”, gritou o menino, mas o avô já havia disparado mais um jato forte e acertado de novo a aranha, que ficou grudada no muro.
“Acho que ela morreu, vô.”
O avô disse que não, que ela estava viva, mas era mais um de seus enganos. A aranha estava morta, bem morta, e o menino começou a chorar.
“Calma, calma”, pediu o avô. “Chorar por quê? Ela agora vai para o céu.”
Ao ouvir isso, o menino, chorando ainda mais desconsoladamente, correu para a cozinha. Voltou um minuto depois, com uma caixa de fósforos vazia. Pegou a aranhinha com muito cuidado e colocou-a dentro da caixa:
“Ela não vai pro céu nada. Eu não deixo. Se ela for, ela não volta nunca mais, eu sei. Ela vai ficar comigo. Comigo.”
Foi a primeira vez que olhou com ressentimento para o avô.
O gato se chamava Bonito – o menino pronunciava Monito – e ficava escarrapachado num sofá, na secretaria da escola. Por isso, as mães de alguns alunos diziam que ele era o secretário da escola.
O menino via o gato só na entrada e na saída, mas sabia – essa mais uma de suas convicções – que, de todos os meninos e meninas da escola, era dele que Monito mais gostava. Esses dois momentos únicos serviam para tornar menos sofridas as tardes do menino.
Um dia, ao chegar à escola, ele não viu o gato.
“Cadê o Monito?”, perguntou, primeiro à mãe e depois à dona da escola.
As duas trocaram gestos e ele ficou sem resposta. Na saída, o sofá vazio o fez repetir a pergunta. A dona da escola, dando-lhe um beijo, disse que o gato estava viajando.
Na tarde seguinte, o menino quis novamente saber do gato e a dona da escola respondeu que ele tinha ido para o céu. Por uma semana o menino perguntou se Monito havia voltado. Sem o gato, as tardes se fizeram insuportáveis para ele. Agora, dava ainda mais valor aos sábados e domingos, dias em que ia à casa do avô para brincar com ele.
O menino não trocaria o avô por nenhum outro. O máximo que aceitaria fazer seria mudar uma coisinha ou outra nele. Por exemplo, gostaria que ele soubesse brincar um pouco melhor. O avô tinha boa vontade, esforçava-se, mas não sabia brincar direito de nada: nem jogar bola, nem empurrar carrinho, nem lutar espada.
Um domingo, o menino propôs ao avô que fossem ao quintal para experimentar a eficiência de um revólver espirrador de água. No começo, o avô se saiu muito bem. Os dois puseram uma lata sem tampa no chão e, em dez minutos, recarregando várias vezes o espirrador no tanque e revezando-se nos disparos, conseguiram enchê-la até transbordar. Uma façanha! O garoto se pôs a pular:
“Viva! Viva! Nós dois, vô, somos os maiores enchedores de lata do universo.”
O problema ocorreu depois. Vendo uma aranhinha no muro, o avô sugeriu uma brincadeira: fazer, com os jatos do revólver, um círculo em volta da aranha. Seria um rio que ela teria de atravessar. O menino aprovou a ideia e, com três disparos certeiros, desenhou uma parte do círculo. Depois, passou o revólver ao avô. Foi um grande erro. Com a inabilidade de sempre, o avô apertou o gatilho e atingiu a aranhinha em cheio.
“Para, vô”, gritou o menino, mas o avô já havia disparado mais um jato forte e acertado de novo a aranha, que ficou grudada no muro.
“Acho que ela morreu, vô.”
O avô disse que não, que ela estava viva, mas era mais um de seus enganos. A aranha estava morta, bem morta, e o menino começou a chorar.
“Calma, calma”, pediu o avô. “Chorar por quê? Ela agora vai para o céu.”
Ao ouvir isso, o menino, chorando ainda mais desconsoladamente, correu para a cozinha. Voltou um minuto depois, com uma caixa de fósforos vazia. Pegou a aranhinha com muito cuidado e colocou-a dentro da caixa:
“Ela não vai pro céu nada. Eu não deixo. Se ela for, ela não volta nunca mais, eu sei. Ela vai ficar comigo. Comigo.”
Foi a primeira vez que olhou com ressentimento para o avô.
Enterrados Vivos!
O chefe foi fiel à sua palavra e forneceu-nos provisões frescas em grande abundância. Achámos as tartarugas mais saborosas do que quaisquer outras que jamais tínhamos provado e os patos eram superiores às nossas melhores espécies de aves selvagens — excecionalmente tenros, suculentos e de sabor requintado. Além disso, os selvagens trouxeram-nos, depois de lhes termos feito compreender o nosso desejo, uma grande quantidade de aipo castanho e de cocleária, ou erva contra o escorbuto, assim como uma canoa cheia de peixe fresco e seco. O aipo foi para nós um verdadeiro regalo e a cocleária teve um resultado admirável, servindo para curar aqueles de nós que já tinham manifestado sintomas de doença. Em pouco tempo todos os enfermos se curaram. Recebemos ainda outras provisões frescas em abundância, entre as quais devo citar uma espécie de marisco, que pela forma se assemelhava ao mexilhão mas que sabia a ostra. Também nos trouxeram grande quantidade de camarões das duas espécies e ovos de albatroz e de outras aves, cujas cascas eram negras. Embarcámos uma boa provisão de carne de porco, da espécie de que já falei. A maior parte dos nossos homens achou-o um alimento agradável, mas a mim pareceu-me impregnado de um cheiro a peixe absolutamente repugnante. Em troca de todas estas boas coisas oferecemos aos nativos colares de contas azuis, joias de cobre, pregos, facas e tecidos vermelhos e eles mostraram-se encantados com a troca. Estabelecemos na costa um mercado regular, ao alcance dos canhões da escuna, e todo o tráfego se desenrolou sob a aparência da boa fé e com uma ordem que não seria de esperar da parte dos selvagens a julgar pela sua conduta na aldeia de Klock-Klock.
As coisas correram desta forma agradável durante alguns dias e nesse período grupos de indígenas vieram a bordo da escuna, enquanto destacamentos dos nossos homens se deslocaram várias vezes a terra, fazendo longas incursões para o interior e não sofrendo da parte dos selvagens nenhum vexame. Vendo a facilidade com que o navio podia ser carregado de escombro-do-mar, graças à disposição amistosa dos ilhéus e ao auxílio que nos podiam prestar para o apanhar, o capitão Guy resolveu entrar em negociações com Too-wit relativamente à construção de edifícios apropriados para a preparação do artigo e à forma de recompensá-lo e aos seus homens pelo trabalho de recolher o mais possível, enquanto nós aproveitaríamos o bom tempo para seguir a nossa viagem em direção ao Sul. Quando o chefe foi informado deste plano, pareceu disposto a aceitá-lo e, assim, o negócio foi concluído com vantagens para ambas as partes, ficando combinado que, depois dos preparativos necessários, tais como a escolha de um local conveniente e a construção de uma parte dos edifícios ou outras tarefas para as quais fosse preciso a participação de toda a tripulação, a escuna levantaria âncora, deixando na ilha três tripulantes para vigiarem o cumprimento do projeto e ensinarem aos nativos o modo de secar o escombro-do-mar. Quanto ao modo de pagamento dependeria do zelo e da atividade dos selvagens. Deviam receber uma certa quantidade de contas azuis, facas e panos vermelhos em troca de um certo número de piculs de escombro-do-mar, que tivessem preparado durante a nossa ausência.
Uma descrição da natureza deste importante artigo de comércio e do método de o preparar pode ter algum interesse para os leitores e acho que esta é a ocasião apropriada para o fazer. O relato que se segue, relativo à substância em questão, foi tirado de uma narrativa recente de uma viagem aos mares do Sul:
« Este molusco dos mares do Sul que comercialmente é conhecido pelo nome francês de bouche de mer (manjar extraído do mar) é aquele a que, se não estou em erro, Cuvier chama gasteropeda pulmonifera. Colhe-se em abundância nas costas das ilhas do Pacífico, principalmente para o mercado chinês, onde está cotado a alto preço, quase tanto como esses famosos ninhos comestíveis, que são feitos de uma matéria gelatinosa que determinada espécie de andorinha retira dos corpos destes moluscos. Não possuem nem concha, nem patas, nem qualquer membro saliente, exceto um órgão de absorção e outro de excreção, situados em partes opostas; mas, graças aos seus anéis, elásticos como os das lagartas e dos vermes, arrastam-se para os recifes pouco profundos onde, quando a maré está baixa, são apanhados por uma espécie de andorinha, cujo bico agudo lhes penetra o corpo mole retirando uma substância gomosa e filamentosa que lhes serve, quando seca, para solidificar as paredes do ninho. Daí o nome de gasteropeda pulmonifera.
"Estes moluscos têm uma forma oblonga e as suas dimensões variam entre 3 e 18 polegadas de comprimento; vi alguns que atingiam os dois pés. São quase redondos, mas ligeiramente achatados num dos lados, aquele que está virado para o fundo do mar, e têm uma espessura que varia entre 1 e 8 polegadas. Arrastam-se pelos recifes pouco fundos em certas épocas do ano, provavelmente para se reproduzirem, pois são vistos muitas vezes aos pares. Aproximam-se da costa quando o sol incidindo sobre a água a aquece e, por vezes, vão para águas tão pouco fundas que, quando a maré baixa, ficam expostos ao calor do sol. No entanto, não se reproduzem nos baixios, pois nunca vimos nenhuma cria e, quando os observámos a subir de águas mais fundas já tinham sempre atingido o seu estado adulto. Alimentam-se principalmente dessa espécie de zoófitos que o coral produz.
O escombro-do-mar apanha-se geralmente a uma profundidade de três ou quatro pés, depois do que é levado para a costa, onde, com a ponta de uma faca, se lhe faz uma incisão numa das extremidades, com cerca de uma polegada ou mais, segundo as dimensões do molusco. Através desta abertura tiram-se as entranhas, pressionando o corpo do animal, as quais, aliás, são semelhantes às de todos os pequenos animais que habitam o mar. São então lavadas e depois postas a ferver a uma determinada temperatura que não deve ser nem muito alta nem muito baixa. Seguidamente envolvem-se em terra durante quatro horas, fervem mais um pouco e finalmente põem-se a secar ou ao lume ou ao sol. Os moluscos melhores são os que são secos ao sol, mas, enquanto por este meio se obtém o valor de um picul (133 libras e 1/3), ao lume podem-se secar trinta piculs. Quando são convenientemente secos, podem ser conservados sem perigo três ou quatro anos num local seco, embora seja necessário examiná-los de vez em quando, talvez quatro vezes por ano para ver se a humidade não os atingiu e estragou.
Os chineses, como já disse, consideram o escombro-do-mar um dos mais deliciosos manjares, atribuindo-lhes os mais altos poderes alimentícios e fortificantes, além de o acharem apropriado para rejuvenescer um temperamento esgotado pelas volúpias desregradas. O molusco de primeira qualidade está altamente cotado em Cantão, onde se vende a 90 dólares o picul; o de segunda qualidade a 75 dólares; o de terceira a 50 dólares; o de quarta a 30 dólares; o de quinta a 20 dólares; o de sexta a 12 dólares; o de sétima a 8 dólares; e o de oitava a 4 dólares. No entanto, acontece que por vezes os pequenos carregamentos conseguem preços mais elevados nos mercados de Manila, Singapura e Batávia."
Estabelecido o acordo, desembarcámos imediatamente tudo o que era necessário para começar as construções e desbravar terreno. Escolhemos um amplo terreno plano, perto da costa e da baía, onde existia em abundância água e madeira, e a uma distância conveniente dos principais recifes onde se podia procurar o escombro-do-mar. Pusemos todos mãos à obra com grande afinco e em breve, para grande surpresa dos selvagens, tínhamos abatido um número de árvores suficiente para os nossos desígnios, as quais aparelhámos e fixámos para armar as construções. Ao fim de dois ou três dias os trabalhos estavam tão adiantados, que os podíamos entregar descansados aos três homens que deviam ficar em terra. Eram eles John Carson, Alfred Harris e… Peterson (todos de Londres, segundo julgo) que aliás se ofereceram para este serviço.
No fim do mês tínhamos tudo preparado para partir. No entanto, tínhamos combinado fazer uma visita solene de despedida à aldeia, e Too-wit insistiu tanto na necessidade de cumprirmos esta promessa, que julgámos conveniente não o ofender com uma recusa definitiva. Julgo que naquela altura nenhum de nós tinha a menor dúvida sobre a boa fé dos selvagens. Todos os nativos se tinham comportado respeitosamente, auxiliando-nos de bom grado nos nossos trabalhos, oferecendo-nos os seus produtos, muitas vezes gratuitamente e nunca, em caso algum, nos roubaram um único objeto, apesar do alto valor que atribuíam às nossas mercadorias a julgar pelas extravagantes demonstrações de alegria que faziam cada vez que os presenteávamos. Especialmente as mulheres eram muito solícitas em tudo e, numa palavra, teríamos de ser os homens mais desconfiados do mundo para suspeitarmos de qualquer pensamento de perfídia da parte de um povo que nos tratava tão bem. Porém precisámos de pouco tempo para verificarmos que aquela aparente solicitude não era mais do que o resultado de um plano bem estudado para nos levar à destruição e que aqueles ilhéus que nos tinham inspirado sentimentos de estima, pertenciam à raça dos mais bárbaros, manhosos e sanguinários miseráveis que jamais contaminaram o globo.
Foi no dia 1 de fevereiro que fomos a terra para visitar a aldeia. Embora, repito, não tivéssemos a menor suspeita, não negligenciámos nenhuma medida de precaução. Seis homens permaneceram a bordo da escuna, com ordem de não deixarem aproximar nenhum selvagem durante a nossa ausência, sob que pretexto fosse, e de estarem sempre na coberta. Recolheram-se as redes de filerete, carregaram-se os canhões com uma carga dupla de balas e metralha e as roqueiras foram carregadas com as caixas de balas de espingarda. O navio estava ancorado, com a âncora a pique, a cerca de uma milha da costa e nenhuma embarcação se podia aproximar por qualquer dos lados sem ser vista e sem ficar imediatamente ao alcance do fogo da nossa artilharia.
Excluindo os seis homens que tinham ficado a bordo, o nosso grupo era constituído por trinta e dois indivíduos, todos armados até aos dentes com espingardas, pistolas e punhais, além de cada homem levar a sua faca de marinheiro, um pouco semelhante à faca de mato, hoje tão popularizada em todas as nossas regiões do Sul e do Oeste. Uma centena de guerreiros, envergando peles negras, foram ao nosso encontro para nos conduzirem. Devo dizer que notámos com certa surpresa que não estavam armados. Quando interrogámos Too-wit sobre o assunto, respondeu-nos simplesmente: Mattee non we pa pa si — isto é — Entre irmãos não são precisas armas. Considerámos esta resposta favorável e prosseguimos o nosso caminho.
Tínhamos já passado a nascente e o regato de que falei anteriormente e penetrávamos numa estreita garganta através de colinas de pedra, no meio das quais estava situada a aldeia. A garganta era rochosa e muito desigual, a ponto de, por ocasião da nossa primeira incursão com Too-wit, a termos passado com extrema dificuldade. A ravina devia ter uma milha ou mais de comprimento. Serpenteava em mil sinuosidades através das colinas (em épocas recuadas devia ter sido o leito de uma torrente) e nunca continuava mais de vinte jardas sem fazer uma curva brusca. Tenho a certeza de que as vertentes deste vale se elevavam a mais de 70 ou 80 pés de altura na perpendicular e, em alguns sítios, as paredes atingiam tal altura que impediam a penetração da luz do dia. A largura média era de cerca de quarenta pés, mas por vezes estreitava tanto que só cabiam cinco ou seis homens de frente. Em suma, não podia existir melhor local para uma emboscada e não é de estranhar que nos agarrássemos às nossas armas assim que lá entrámos.
Quando agora penso na nossa enorme loucura, o que mais me espanta é que nos tivéssemos aventurado daquela maneira, sem atender às circunstâncias, pondo-nos assim à disposição de selvagens desconhecidos, a ponto de lhes permitirmos caminhar adiante e atrás de nós durante toda a extensão da ravina. No entanto, foi essa a ordem que cegamente adotámos fiando-nos estupidamente na nossa força, no desaparecimento das armas de Too-wit e dos seus homens, no efeito das nossas armas de fogo, cujo funcionamento ainda era um segredo para os nativos e, acima de tudo, nas repetidas manifestações de amizade daqueles infames canalhas. Cinco ou seis deles abriam caminho, como que para nos mostrar a estrada, fazendo gala nos seus cuidados, afastando pomposamente as grandes pedras ou outros objetos que nos entravassem o caminho. A seguir íamos nós, caminhando juntos, pois a nossa única preocupação era não nos separarmos. Atrás seguia o corpo principal dos selvagens, numa ordem e correção perfeitamente insólitas.
Dirk Peters, um tal Wilson Allen e eu caminhávamos à direita dos nossos camaradas, examinando tudo ao longo do percurso, nas estranhas estratificações da muralha que se erguiam sobre as nossas cabeças. Uma fenda na rocha despertou-nos a atenção. Era suficientemente larga para permitir a passagem de um homem e penetrava na montanha dezoito ou vinte pés em linha reta, virando depois para a esquerda. A altura do buraco, até onde podíamos ver, era de sessenta ou setenta pés. Através das sinuosidades cresciam dois ou três arbustos enfezados, que lembravam um pouco a aveleira e que eu tive a curiosidade de examinar; com este objetivo avancei resolutamente, tirei cinco ou seis avelãs de um cacho e retirei-me a toda a pressa. Quando regressava verifiquei que Peters e Allen me tinham seguido. Pedi-lhes que recuassem, pois não havia espaço para deixar passar duas pessoas e disse-lhes que lhes daria algumas das minhas avelãs. Assim, os meus companheiros deram meia volta e dirigiram-se para o caminho. Quando Allen estava quase à entrada da gruta, senti, de repente, uma sacudidela, como nunca tinha experimentado, a qual me inspirou uma vaga ideia (se na verdade posso dizer que tive uma ideia) de que as fundações do nosso globo estavam a ruir e que a hora da destruição final tinha chegado.
As coisas correram desta forma agradável durante alguns dias e nesse período grupos de indígenas vieram a bordo da escuna, enquanto destacamentos dos nossos homens se deslocaram várias vezes a terra, fazendo longas incursões para o interior e não sofrendo da parte dos selvagens nenhum vexame. Vendo a facilidade com que o navio podia ser carregado de escombro-do-mar, graças à disposição amistosa dos ilhéus e ao auxílio que nos podiam prestar para o apanhar, o capitão Guy resolveu entrar em negociações com Too-wit relativamente à construção de edifícios apropriados para a preparação do artigo e à forma de recompensá-lo e aos seus homens pelo trabalho de recolher o mais possível, enquanto nós aproveitaríamos o bom tempo para seguir a nossa viagem em direção ao Sul. Quando o chefe foi informado deste plano, pareceu disposto a aceitá-lo e, assim, o negócio foi concluído com vantagens para ambas as partes, ficando combinado que, depois dos preparativos necessários, tais como a escolha de um local conveniente e a construção de uma parte dos edifícios ou outras tarefas para as quais fosse preciso a participação de toda a tripulação, a escuna levantaria âncora, deixando na ilha três tripulantes para vigiarem o cumprimento do projeto e ensinarem aos nativos o modo de secar o escombro-do-mar. Quanto ao modo de pagamento dependeria do zelo e da atividade dos selvagens. Deviam receber uma certa quantidade de contas azuis, facas e panos vermelhos em troca de um certo número de piculs de escombro-do-mar, que tivessem preparado durante a nossa ausência.
Uma descrição da natureza deste importante artigo de comércio e do método de o preparar pode ter algum interesse para os leitores e acho que esta é a ocasião apropriada para o fazer. O relato que se segue, relativo à substância em questão, foi tirado de uma narrativa recente de uma viagem aos mares do Sul:
« Este molusco dos mares do Sul que comercialmente é conhecido pelo nome francês de bouche de mer (manjar extraído do mar) é aquele a que, se não estou em erro, Cuvier chama gasteropeda pulmonifera. Colhe-se em abundância nas costas das ilhas do Pacífico, principalmente para o mercado chinês, onde está cotado a alto preço, quase tanto como esses famosos ninhos comestíveis, que são feitos de uma matéria gelatinosa que determinada espécie de andorinha retira dos corpos destes moluscos. Não possuem nem concha, nem patas, nem qualquer membro saliente, exceto um órgão de absorção e outro de excreção, situados em partes opostas; mas, graças aos seus anéis, elásticos como os das lagartas e dos vermes, arrastam-se para os recifes pouco profundos onde, quando a maré está baixa, são apanhados por uma espécie de andorinha, cujo bico agudo lhes penetra o corpo mole retirando uma substância gomosa e filamentosa que lhes serve, quando seca, para solidificar as paredes do ninho. Daí o nome de gasteropeda pulmonifera.
"Estes moluscos têm uma forma oblonga e as suas dimensões variam entre 3 e 18 polegadas de comprimento; vi alguns que atingiam os dois pés. São quase redondos, mas ligeiramente achatados num dos lados, aquele que está virado para o fundo do mar, e têm uma espessura que varia entre 1 e 8 polegadas. Arrastam-se pelos recifes pouco fundos em certas épocas do ano, provavelmente para se reproduzirem, pois são vistos muitas vezes aos pares. Aproximam-se da costa quando o sol incidindo sobre a água a aquece e, por vezes, vão para águas tão pouco fundas que, quando a maré baixa, ficam expostos ao calor do sol. No entanto, não se reproduzem nos baixios, pois nunca vimos nenhuma cria e, quando os observámos a subir de águas mais fundas já tinham sempre atingido o seu estado adulto. Alimentam-se principalmente dessa espécie de zoófitos que o coral produz.
O escombro-do-mar apanha-se geralmente a uma profundidade de três ou quatro pés, depois do que é levado para a costa, onde, com a ponta de uma faca, se lhe faz uma incisão numa das extremidades, com cerca de uma polegada ou mais, segundo as dimensões do molusco. Através desta abertura tiram-se as entranhas, pressionando o corpo do animal, as quais, aliás, são semelhantes às de todos os pequenos animais que habitam o mar. São então lavadas e depois postas a ferver a uma determinada temperatura que não deve ser nem muito alta nem muito baixa. Seguidamente envolvem-se em terra durante quatro horas, fervem mais um pouco e finalmente põem-se a secar ou ao lume ou ao sol. Os moluscos melhores são os que são secos ao sol, mas, enquanto por este meio se obtém o valor de um picul (133 libras e 1/3), ao lume podem-se secar trinta piculs. Quando são convenientemente secos, podem ser conservados sem perigo três ou quatro anos num local seco, embora seja necessário examiná-los de vez em quando, talvez quatro vezes por ano para ver se a humidade não os atingiu e estragou.
Os chineses, como já disse, consideram o escombro-do-mar um dos mais deliciosos manjares, atribuindo-lhes os mais altos poderes alimentícios e fortificantes, além de o acharem apropriado para rejuvenescer um temperamento esgotado pelas volúpias desregradas. O molusco de primeira qualidade está altamente cotado em Cantão, onde se vende a 90 dólares o picul; o de segunda qualidade a 75 dólares; o de terceira a 50 dólares; o de quarta a 30 dólares; o de quinta a 20 dólares; o de sexta a 12 dólares; o de sétima a 8 dólares; e o de oitava a 4 dólares. No entanto, acontece que por vezes os pequenos carregamentos conseguem preços mais elevados nos mercados de Manila, Singapura e Batávia."
Estabelecido o acordo, desembarcámos imediatamente tudo o que era necessário para começar as construções e desbravar terreno. Escolhemos um amplo terreno plano, perto da costa e da baía, onde existia em abundância água e madeira, e a uma distância conveniente dos principais recifes onde se podia procurar o escombro-do-mar. Pusemos todos mãos à obra com grande afinco e em breve, para grande surpresa dos selvagens, tínhamos abatido um número de árvores suficiente para os nossos desígnios, as quais aparelhámos e fixámos para armar as construções. Ao fim de dois ou três dias os trabalhos estavam tão adiantados, que os podíamos entregar descansados aos três homens que deviam ficar em terra. Eram eles John Carson, Alfred Harris e… Peterson (todos de Londres, segundo julgo) que aliás se ofereceram para este serviço.
No fim do mês tínhamos tudo preparado para partir. No entanto, tínhamos combinado fazer uma visita solene de despedida à aldeia, e Too-wit insistiu tanto na necessidade de cumprirmos esta promessa, que julgámos conveniente não o ofender com uma recusa definitiva. Julgo que naquela altura nenhum de nós tinha a menor dúvida sobre a boa fé dos selvagens. Todos os nativos se tinham comportado respeitosamente, auxiliando-nos de bom grado nos nossos trabalhos, oferecendo-nos os seus produtos, muitas vezes gratuitamente e nunca, em caso algum, nos roubaram um único objeto, apesar do alto valor que atribuíam às nossas mercadorias a julgar pelas extravagantes demonstrações de alegria que faziam cada vez que os presenteávamos. Especialmente as mulheres eram muito solícitas em tudo e, numa palavra, teríamos de ser os homens mais desconfiados do mundo para suspeitarmos de qualquer pensamento de perfídia da parte de um povo que nos tratava tão bem. Porém precisámos de pouco tempo para verificarmos que aquela aparente solicitude não era mais do que o resultado de um plano bem estudado para nos levar à destruição e que aqueles ilhéus que nos tinham inspirado sentimentos de estima, pertenciam à raça dos mais bárbaros, manhosos e sanguinários miseráveis que jamais contaminaram o globo.
Foi no dia 1 de fevereiro que fomos a terra para visitar a aldeia. Embora, repito, não tivéssemos a menor suspeita, não negligenciámos nenhuma medida de precaução. Seis homens permaneceram a bordo da escuna, com ordem de não deixarem aproximar nenhum selvagem durante a nossa ausência, sob que pretexto fosse, e de estarem sempre na coberta. Recolheram-se as redes de filerete, carregaram-se os canhões com uma carga dupla de balas e metralha e as roqueiras foram carregadas com as caixas de balas de espingarda. O navio estava ancorado, com a âncora a pique, a cerca de uma milha da costa e nenhuma embarcação se podia aproximar por qualquer dos lados sem ser vista e sem ficar imediatamente ao alcance do fogo da nossa artilharia.
Excluindo os seis homens que tinham ficado a bordo, o nosso grupo era constituído por trinta e dois indivíduos, todos armados até aos dentes com espingardas, pistolas e punhais, além de cada homem levar a sua faca de marinheiro, um pouco semelhante à faca de mato, hoje tão popularizada em todas as nossas regiões do Sul e do Oeste. Uma centena de guerreiros, envergando peles negras, foram ao nosso encontro para nos conduzirem. Devo dizer que notámos com certa surpresa que não estavam armados. Quando interrogámos Too-wit sobre o assunto, respondeu-nos simplesmente: Mattee non we pa pa si — isto é — Entre irmãos não são precisas armas. Considerámos esta resposta favorável e prosseguimos o nosso caminho.
Tínhamos já passado a nascente e o regato de que falei anteriormente e penetrávamos numa estreita garganta através de colinas de pedra, no meio das quais estava situada a aldeia. A garganta era rochosa e muito desigual, a ponto de, por ocasião da nossa primeira incursão com Too-wit, a termos passado com extrema dificuldade. A ravina devia ter uma milha ou mais de comprimento. Serpenteava em mil sinuosidades através das colinas (em épocas recuadas devia ter sido o leito de uma torrente) e nunca continuava mais de vinte jardas sem fazer uma curva brusca. Tenho a certeza de que as vertentes deste vale se elevavam a mais de 70 ou 80 pés de altura na perpendicular e, em alguns sítios, as paredes atingiam tal altura que impediam a penetração da luz do dia. A largura média era de cerca de quarenta pés, mas por vezes estreitava tanto que só cabiam cinco ou seis homens de frente. Em suma, não podia existir melhor local para uma emboscada e não é de estranhar que nos agarrássemos às nossas armas assim que lá entrámos.
Quando agora penso na nossa enorme loucura, o que mais me espanta é que nos tivéssemos aventurado daquela maneira, sem atender às circunstâncias, pondo-nos assim à disposição de selvagens desconhecidos, a ponto de lhes permitirmos caminhar adiante e atrás de nós durante toda a extensão da ravina. No entanto, foi essa a ordem que cegamente adotámos fiando-nos estupidamente na nossa força, no desaparecimento das armas de Too-wit e dos seus homens, no efeito das nossas armas de fogo, cujo funcionamento ainda era um segredo para os nativos e, acima de tudo, nas repetidas manifestações de amizade daqueles infames canalhas. Cinco ou seis deles abriam caminho, como que para nos mostrar a estrada, fazendo gala nos seus cuidados, afastando pomposamente as grandes pedras ou outros objetos que nos entravassem o caminho. A seguir íamos nós, caminhando juntos, pois a nossa única preocupação era não nos separarmos. Atrás seguia o corpo principal dos selvagens, numa ordem e correção perfeitamente insólitas.
Dirk Peters, um tal Wilson Allen e eu caminhávamos à direita dos nossos camaradas, examinando tudo ao longo do percurso, nas estranhas estratificações da muralha que se erguiam sobre as nossas cabeças. Uma fenda na rocha despertou-nos a atenção. Era suficientemente larga para permitir a passagem de um homem e penetrava na montanha dezoito ou vinte pés em linha reta, virando depois para a esquerda. A altura do buraco, até onde podíamos ver, era de sessenta ou setenta pés. Através das sinuosidades cresciam dois ou três arbustos enfezados, que lembravam um pouco a aveleira e que eu tive a curiosidade de examinar; com este objetivo avancei resolutamente, tirei cinco ou seis avelãs de um cacho e retirei-me a toda a pressa. Quando regressava verifiquei que Peters e Allen me tinham seguido. Pedi-lhes que recuassem, pois não havia espaço para deixar passar duas pessoas e disse-lhes que lhes daria algumas das minhas avelãs. Assim, os meus companheiros deram meia volta e dirigiram-se para o caminho. Quando Allen estava quase à entrada da gruta, senti, de repente, uma sacudidela, como nunca tinha experimentado, a qual me inspirou uma vaga ideia (se na verdade posso dizer que tive uma ideia) de que as fundações do nosso globo estavam a ruir e que a hora da destruição final tinha chegado.
Edgar Allan Poe
domingo, julho 12
Em legítima defesa
Certo fidalgo, senhor de uma avultada fortuna, casou com uma dama, também de bons cabedais, de quem teve um filho e uma filha apenas, após o que anos passados, ela se finou. Em breve contraiu segundas núpcias; e a segunda esposa, posto que de mais baixa condição e menores haveres que a primeira, tomou a peito aborrecer e maltratar os filhos que ele tivera da outra mulher, o que fez a desarmonia da família, tanto no que respeita às crianças como no que toca ao próprio pai.
O primeiro resultado de tal comportamento da madrasta no seio da família foi o filho, mal começou a sentir-se homem, ter pedido ao pai que o deixasse viajar por terras estranhas. A madrasta, conquanto desejasse ver-se livre dele, como ele precisava de uma soma considerável para se manter no estrangeiro, opôs-se violentamente, fazendo com que o pai o não deixasse partir, depois de lhe ter dado autorização para isso.
Tão arreliado ficou o rapaz que, depois de haver renovado o seu pedido ao pai, com todo o respeito, quer diretamente quer por intermédio de alguns parentes, sem ter conseguido o seu intento, encorajado algum tanto por um tio, irmão da sua mãe, primeira mulher do pai, resolveu partir de casa sem licença; e se assim o pensou melhor o fez.
Por que parte do mundo viajou não me lembro; parece que o pai se manteve em contacto com ele por algum tempo e em condições de lhe fazer chegar às mãos uma razoável pensão, para sua mantença, a qual o rapaz mandava receber por meio de cartas de crédito, regularmente pagas; mas, algum tempo depois, governando a casa a madrasta, uma dessas cartas foi recusada e, depois de protestada, devolvida sem aceite; após o que, não mandou mais nenhuma nem nunca mais escreveu, e o pai nunca mais ouviu falar dele durante quatro anos, pouco mais ou menos.
Desse longo silêncio tirou a madrasta vários benefícios; primeiro começou por querer convencer o marido de que, tendo o rapaz necessariamente morrido, os bens dele deviam ser dispostos a favor do mais velho dos filhos dela (pois ela tinha vários filhos). O pai opôs-se firmemente a essa proposta, mas a mulher continuou a acossá-lo com importunações; e eram dois os argumentos contra ele, isto é, como quem diz, contra o filho.
Primeiro, se ele tivesse morrido, não havia lugar para objeções, pois o filho dela era o herdeiro legítimo.
Segundo, se ele não tivesse morrido, o seu comportamento para com o pai, a quem não escrevia há muito, era indesculpável, e este devia estar ressentido com isso, e proceder como se o filho tivesse morrido: que nada tão legitimamente o podia desobrigar e que, portanto, ele, seu pai, devia proceder como se ele, seu filho, fosse morto, e tratá-lo em conformidade, porque quem procedia assim para com o próprio pai como morto devia ser considerado quanto às suas relações filiais e ser tratado como merecia.
O pai, no entanto, opôs-se por muito tempo, alegando não poder decidir em consciência; que muita coisa podia ter acontecido no mundo que impedisse o filho de escrever; que podia ter sido feito prisioneiro dos turcos e levado como cativo; que podia achar-se entre os persas ou os árabes (o que parecia ser o caso) e assim não poder enviar novas suas, e que não se conformaria em deserdá-lo antes de verificar se tinha ou não razão para o fazer ou se o filho o tinha ou não ofendido.
Esta resposta, conquanto justa, estava longe de calar as queixas da mulher, queixas tamanhas que não dava descanso ao marido, fazendo a inquietação de toda a família; causava um grande mal estar e, numa palavra, compelia os filhos a fazerem o mesmo; e o fidalgo via-se tão consumido que uma ou duas vezes esteve a ponto de anuir, mas o coração repontou e ele voltou atrás com a sua palavra, recusando.
Como quer que fosse, o fato de o ter levado tão longe, constituiu um encorajamento para ela prosseguir com as suas impaciências e solicitações. Por fim, ele acabou por aceitar um ajuste provisório, pelo qual, se não ouvisse falar do filho durante um certo lapso de tempo, consentiria numa nova distribuição dos bens.
A mulher não ficou satisfeita com este ajuste condicional, mas, vendo-se incapaz de obter qualquer outro, sentiu-se forçada a aceitá-lo tal como ele se lhe apresentava; como muitas vezes lhe disse, estava, no entanto, pouco satisfeita com o prazo por ele fixado em quatro anos, como atrás ficou dito.
De tanto ouvir falar na mesma coisa, ele acabou por se enfurecer, respondendo que ela se devia dar por muito satisfeita, pois o tempo era escasso em relação às circunstâncias em que o filho se podia encontrar.
O certo é que ela tanto o atormentou que acabou por persuadi-lo a reduzir o prazo para um ano; mas, antes de tal consentir, disse-lhe, um dia, num ataque de cólera, que esperava, mais tarde ou mais cedo, que o espectro do filho lhe aparecesse a ele e lhe dissesse que estava morto e que convinha que ele fizesse justiça aos seus demais filhos, pois ele nunca mais voltaria para reclamar os seus bens.
Quando, por fim, ele acabou, contra vontade, por consentir na redução do prazo para um ano, disse-lhe esperar que o espectro do filho, posto que o não tivesse por morto, lhe aparecesse a ela, e lhe dissesse estar vivo, antes de o prazo findar.
“Por que não hão-de as almas injuriadas dos vivos,” disse ele, “andar por esse mundo como as dos mortos?”.
Aconteceu que uma tarde, depois disto, estando numa áspera quezília por causa do mesmo assunto, certa mão surgiu, subitamente, num postigo, como se tentasse abri-lo. Como todos os postigos de ferro usados nesse tempo abrissem para fora, embora se fechassem e prendessem por dentro, a mão parecia procurar, debalde, abrir o postigo. O fidalgo não deu por isso, mas a mulher, que viu, ergueu-se repentinamente, como que assustada e, esquecendo a briga, levantou as mãos para o céu.
“Valha-me Deus!” disse ela. “Há ladrões no jardim.”
O marido correu imediatamente para a porta da sala onde se encontravam e, abrindo-a, espreitou para fora.
“Não está ninguém no jardim,” disse ele; dizendo o que, fechou de novo a porta e voltou para o seu lugar.
“Tenho a certeza,” replicou ela, “que vi um homem ali.
— Então, era o diabo,” disse ele, “pois estou certo de que não há ninguém no jardim.
— Eu ia jurar,” tornou ela, “que vi um homem meter a mão para abrir o postigo, mas, achando-o preso, e, suponho eu,” acrescentou, “vendo-nos aqui, fugiu.
— É impossível ter fugido,” replicou ele, “não corri eu para a porta imediatamente? Além disso, sabes bem que os muros que cercam o jardim não o deixavam fugir.
— Suplico-te,” exclamou ela colericamente, “não estou embriagada nem muito menos a sonhar, sei muito bem reconhecer um homem, e não estava escuro, o sol ainda não se pôs de todo.
— Estás apenas assustada com alguma sombra,” disse ele (e cheio de maldade) “coisas destas só costumam acontecer às pessoas que não têm a consciência tranquila; quem sabe se era o diabo.
— Não, não!… Eu não me assusto facilmente,” disse ela, “se era o diabo, era o diabo no espectro do teu filho, que deve ter vindo dizer-te que está no inferno e por isso deves dar os teus bens ao mais velho dos teus filhos bastardos, já que desprezas o legítimo herdeiro.
— Se fosse o meu filho,” disse ele, “é que vinha dizer-nos estar vivo, isso te garanto eu, e perguntar como podes ser tão diabólica que o queiras deserdar;” e dizendo isto: “Alexandre!” exclamou em voz alta, por duas vezes, erguendo-se impetuosamente da cadeira, “se estás vivo, aparece, e faz com que eu deixe de ser insultado todos os dias por causa da tua morte.”
Estas palavras não eram ditas quando o postigo onde a dama tinha visto a mão se abriu por si mesmo e Alexandre em pessoa, fitando a mãe com um irado semblante, gritou:
“Estou aqui!… ” desaparecendo no mesmo momento.
A dama, até aí tão senhora de si, soltou um espantoso grito que alarmou toda a casa; a criada dela correu à sala para ver o que tinha acontecido, mas a ama tombara desmaiada num cadeirão.
Não caíra por terra, porque, estando ali uma grande cadeira, se apoiara a um dos braços dela, onde imediatamente a ampararam; só muito depois, no entanto, recuperou os sentidos.
O marido tinha corrido imediatamente para a porta do salão, e, abrindo-a, saiu para o jardim, onde não viu ninguém; depois dirigiu-se a outra porta praticada diretamente sobre o jardim e em seguida a outras duas que conduziam para fora dele, uma ao pátio da cavalariça e outra ao campo que se estendia para além da cerca; todas estavam bem fechadas e trancadas; vendo a um canto o jardineiro em companhia de um rapaz que arrastava um cilindro de pedra, perguntou-lhes se ninguém ali tinha estado, ao que eles responderam muitas vezes que não, que só eles ali se encontravam, cilindrando o passeio junto da casa.
Depois disso, voltou para dentro, sentou-se outra vez, e não disse palavra por muito tempo; as mulheres e os criados andavam numa azafama, fazendo quanto podiam para reanimar a senhora
Algum tempo depois, ela veio a si o bastante para poder falar; e as primeiras palavras que proferiu foram:
“Va… lha-me Deus! Que foi isto?
— Nada,” disse o marido. “Naturalmente foi o Alexandre.
Ao ouvir isto, acometeu-a um ataque e pôs-se a soltar gritos e ais cada vez mais medonhos.
O marido, sem saber que é que a tinha levado àquilo, procurou aplaca-la, dizendo-lhe que não era nada; mas nada conseguiu, tendo-se visto obrigado a conduzi-la à cama e a mandar chamar o físico; durante alguns dias esteve muito mal.
Fosse como fosse, graças a isto, durante um certo tempo, não voltou a referir-se a conveniência de deserdar o enteado.
Mas o tempo, que endurece o espírito em coisas ainda piores, foi lentamente consumindo a lembrança do ocorrido, e ela acabou por fazer reviver a mesma questão outra vez, posto que, de princípio, com menos ardor do que antes.
No entanto, o marido usou para com ela de uma certa má vontade também, e sempre que a questão vinha à baila, tapava-lhe a boca ou dizia-lhe que, se ela pronunciasse mais alguma palavra sobre o caso, ele pediria outra vez ao Alexandre que abrisse o postigo.
Isto agravou muito as coisas; e, se é certo tê-la atemorizado durante algum tempo, a verdade é que, por fim, o exaspero dela era tamanho que lhe disse estar certa de que ele tinha pacto com o diabo, a quem se vendera apenas com o intuito de lhe meter medo.
O marido pôs-se a brincar com ela, dizendo que qualquer esposo se sentiria grato para com o diabo que lhe calasse a mulher turbulenta e que se considerava muito feliz por ter encontrado maneira de o conseguir, embora isso lhe custasse.
Tão exasperada ela ficou que o ameaçou, caso voltasse a fazer uso das suas artes diabólicas, de o denunciar como feiticeiro e homem de tratos com o demônio; coisa bem fácil de provar, disse, pois a verdade é que ele tinha conjurado o diabo de propósito para a intimidar.
A disputa acabou nessa noite com palavras ruins e explosões de mau gênio, mas ele nunca pensou que a mulher pusesse em prática a sua ameaça: de modo que, no dia seguinte, tudo esquecera e estava de tão bom humor como se nada tivesse ocorrido.
A mulher, porém, apareceu-lhe pesarosa e mui atormentada, toda ressentida, ameaçando-o com o que resolvera fazer.
Como quer que fosse, ele pouco pensou que ela tentasse pôr em prática a maldade que tinha em mente, e propôs-lhe conversarem amistosamente; ela, todavia, repeliu-o com desdém, dizendo estar disposta a levar por diante o que dissera, pois não queria viver com um homem que mandava o diabo entrar em sua própria casa, sempre que lhe apetecia, com intenção de a matar.
O marido procurou apaziguá-la com boas palavras, replicando-lhe a ela falar sério; numa palavra, o caso tornou-se grave, pois a verdade é que a dama se dirigiu à justiça, onde declarou, sob juramento, que o marido tinha pacto com o demônio e que a vida dela corria perigo, obtendo assim um mandato de captura contra ele.
Resumindo: trouxe para casa a dita ordem de captura, mostrou-a ao marido, e disse-lhe que a não tinha confiado à autoridade por lhe querer conceder a liberdade de se apresentar voluntariamente ao juiz de paz, esperando que lhe participasse quando estava pronto para isso, pois ela o estava também, tendo tenção de pedir a alguns amigos seus que a acompanhassem.
Grande foi a surpresa dele, pois nunca pensara que ela tivesse falado a sério, e pôs-se a apaziguá-la o melhor que sabia; mas ela viu que o tinha assustado deveras, o que era verdade, pois, posto que aquilo nada tivesse em si de condenável, era óbvio que seria um escândalo, e contrariava-o a ideia de se dar em espectáculo; eis por que usou para com ela de todos os rogos de que era capaz, pedindo-lhe que não fizesse tal coisa.
Quanto mais ele se humilhava, porém, maior era o triunfo dela. A insolência foi tanta que, por ela lhe disse que justiça seria feita, como o advertira, que era certa de o fazer castigar se continuasse obstinado e que não estava disposta sujeitar-se a encantamentos e feitiçarias, pois a verdade era ignorar até onde ele seria capaz ir.
Para abreviar a história: tão grande ascendente ganhou sobre ele, que o marido acabou por propor que o caso fosse presente a pessoas imparciais, amigos das duas partes, os quais, convocados umas poucas de vezes, nunca chegaram a qualquer conclusão. Os amigos dele diziam que aquilo não tinha importância e que ele não devia intimidar-se; o acto de ele chamar pelo filho e alguém abrir o postigo e gritar: “Estou aqui”, não era prova de feitiçaria e insistiam em que ela nada podia fazer contra ele.
Os amigos dela comportavam-se altivamente, por ela instigados; alegando que ela estava pronta a jurar que ele a tinha ameaçado com o fantasma do filho; porque ele fizera aparecer um espectro, chamando pelo rapaz, evidentemente já falecido, e o fantasma aparecera imediatamente; que ele não poderia ter pedido ao diabo que lhe apresentasse o filho se ele próprio não tivesse pacto com o demônio e se não falasse com os espíritos, e que isto era de graves consequências para ela.
Perante tudo isto, o fidalgo carecia de coragem para resistir, sendo grande o seu receio de um escândalo: eis por que parecia dolorosamente perplexo, sem saber que fazer.
Quando ela percebeu que ele já estava suficientemente humilde, disse-lhe que, se lhe queria fazer justiça (como quem diz, dispor da herança a favor do filho dela), ela estava pronta a renunciar a tudo o mais, com a condição de ele lhe prometer não a tornar a assustar com o diabo.
Esta parte da proposta exasperou-o de novo, e lançou-lhe em rosto que aquilo não passava de uma calúnia, que estava pronto a afrontá-la e que ela podia provocar a sua própria desgraça.
Assim quebrou o acordo e ela outra vez o começou a ameaçar. Como quer que fosse, persuadiu-o, finalmente, a condescender, entregando-lhe ele um documento escrito pelo seu próprio punho, feito na presença de alguns amigos dela, no qual prometia cumprir o desejo da mulher, se o filho não chegasse nem desse novas dentro de quatro meses.
A dama ficou satisfeita com isto e voltaram a ser amigos como dantes, tendo-lhe ele confiado o dito documento; mas, quando lho entregou, na presença de duas testemunhas, tomou a liberdade de lhe dizer, numa espécie de discurso, grave e solene:
“Escuta,” disse ele, “tanto me atormentaste com o teu impaciente gênio que fizeste com que eu assinasse este contrato contrário à justiça, à moral, e à razão; no entanto, embora dependente dele, estou certo de que nunca o executarei.”
Uma das testemunhas disse:
“Porquê, senhor? Então isto não serve para nada. Se estais resolvido a não cumprir o contrato, para que o assinais? Para que prometeis o que não tendes a intenção de fazer? Isto apenas servirá para acender nova disputa quando o prazo expirar.
— Porque, no meu foro íntimo,” disse ele, “estou convencido de que o meu filho está vivo.
— Vamos, vamos,” disse a mulher para o fidalgo que discutia com o marido, “deixai-o assinar o contrato e eu me encarregarei de o obrigar a cumpri-lo.
— Está bem,” disse o marido, “terás o contrato, mas depois hás-de me deixar em paz: estou convencido de que nunca me pedirás para o cumprir; e, no entanto, não sou um feiticeiro,” acrescentou ele, “como tu maldosamente insinuaste.”
A dama replicou que podia provar que ele tinha pacto com o diabo, pois bastava que chamasse pelo nome do filho para surgir uma alma penada: e pôs-se a contar a história da mão e do postigo.
“Vamos,” disse o fidalgo para o amigo, “dai-me a pena: em toda a minha vida nunca tive pactos senão com um diabo, e esse diabo está aqui sentado,” virando-se para a mulher; “e acabo de fechar com ela um contrato que mulher alguma, a não ser o diabo, seria capaz de obrigar o próprio marido a assinar, e eu assino-o. Mas também vos garanto, dai-me a pena, que nem ela nem todos os diabos do inferno serão capazes de mo fazer cumprir; lembrai-vos do que vos acabo de dizer.”
Ela começou a protestar, preparando-se uma nova disputa, mas os fidalgos entrepuseram-se e o marido, assinando o escrito, pôs fim à quezília por aquela vez.
Ao fim dos quatro meses, ela exigiu o cumprimento do contrato, tendo sido designado um dia para isso, e os dois amigos que tinham servido de testemunhas foram convidados para jantar nessa ocasião, crendo que o marido cumpriria as cláusulas do contrato; e, de acordo com isso, os escritos foram todos apresentados e lidos por inteiro, bem como alguns velhos contratos, assinados no acto do casamento pelos curadores, que foram exibidos para serem cancelados de maneira a ela ficar quite na mesma parte da herança, no que dizia respeito ao filho. O marido foi convidado ou por modos pacíficos ou à força, talvez por estar de humor, antes por modos pacíficos, a executar as cláusulas do contrato, deserdando o filho, sendo-lhe dito que, se na verdade ele tivesse morrido, isso não o prejudicaria, e, se estivesse vivo, o fato de lhe não dar novas suas por um tão longo espaço de tempo era prova de desobediência e grossaria.
Além disso, alegaram que, se ele viesse a aparecer depois disto, o pai (cuja riqueza muito tinha prosperado) podia dar-lhe outros bens como justa satisfação pela perda que ele teria de sofrer na parte dos bens paternos.
Perante tais considerações, o pobre pusilânime marido estava quási a anuir, ou, pelo menos, quer tivesse anuído ou não, as coisas iam-se fazer de acordo com o que tinha sido causa daquela reunião.
Quando acabaram de discorrer acerca de todas estas particularidades e, como acima ficou dito, lidas as novas cláusulas, ela ou o marido pegou nos velhos documentos para os cancelar; creio que a história diz que, indo a mulher, não o marido, rasgar os selos, se ouviu, subitamente, um ruído no salão onde estavam, exatamente como se alguém tivesse penetrado pela porta que comunicava com o átrio e entrasse na sala, a caminho da porta do jardim, que estava fechada.
Todos se mostraram surpreendidos, pois isto foi perfeitamente notório, mas nada viram. A dama empalideceu, cheia de pavor; no entanto, como nada descortinara, reanimou-se um pouco, mas para começar, de novo, a implicar com o marido.
— Quê?” disse ela. “Tramaste nova conspiração para que os diabos tornassem a aparecer?”
O marido permaneceu sereno, posto que, no seu foro íntimo, não pouco surpreendido também.
Um dos dois fidalgos disse-lhe:
“Que quer isto dizer?
— Garanto-vos, senhor,” disse ele, “que sei tanto do que se trata como vós.
“Então, que será?” disse o outro fidalgo.
“Não faço a mais pequena ideia,” replicou o marido. “Não percebo absolutamente nada destas coisas.
— Não ouvistes dizer nada do vosso filho?” perguntou o fidalgo.
“Nem uma só palavra,” respondeu o pai; “não, nem a mais pequena palavra durante estes últimos cinco anos.
— Haveis-lhe mandado dizer alguma coisa,” voltou o fidalgo, “acerca deste contrato?
— Nem uma palavra,” disse ele; “não sabia para onde escrever-lhe.
— Senhor,” disse o fidalgo, “tenho ouvido falar muito de aparições, mas nunca vi nenhuma na minha vida nem nunca acreditei que houvesse qualquer verdade nisso; com efeito, contínuo sem nada ver agora mesmo; mas não há dúvida de que passou algum corpo, algum espírito ou coisa que o valha por esta sala: ouvi distintamente. Estou certo de que há aqui qualquer coisa invisível, tão certo como se a visse.
— Ainda mais,” disse a outra testemunha, “eu senti o ar deslocar-se quando passou por mim. Dizei-me, peço-vos,” disse ele, voltando-se para o marido, “estais vendo alguma coisa?
— Não, pela minha honra,” replicou ele, “absolutamente nada.
— Contaram-me,” disse a primeira testemunha “e li algures que uma aparição pode ser visível para umas pessoas e invisível para outras, embora todas juntas na mesma sala”.
Como quer que fosse, o marido protestou solenemente, perante todos os presentes, que nada tinha visto.
“Peço-vos, senhor,” disse a primeira testemunha, “haveis visto alguma coisa já noutra ocasião, haveis ouvido ruídos ou vozes ou haveis tido algum sonho acerca disto?
— É certo,” disse ele, “que tenho sonhado muitas vezes que meu filho está vivo e que falo com ele, e uma vez que lhe perguntei por que era tão desobediente e me desprezava tanto que me deixasse sem notícias durante tanto tempo, sabendo, como sabia, que eu o podia deserdar.
— Muito bem, e que respondeu ele?
— Nunca os meus sonhos duraram tanto que ele me pudesse responder; acabei sempre por acordar.
— E que pensais de tudo isso?” disse a testemunha; “pensais que ele tenha morrido?
— Não, nunca,” disse o pai, “penso, no fundo da minha consciência, que ele está vivo, tão vivo como eu próprio, e eis-me prestes a praticar um acto tão iníquo como homem algum ainda praticou.
— Na verdade,” disse a segunda testemunha “isto principia a incomodar-me; não sei que hei-de pensar destas coisas; não me quero intrometer mais neste assunto, pois me desagrada compelir um homem a praticar um acto contrário à sua consciência”.
Ao ouvir isto, a mulher, que, como eu disse, se reanimara algum tanto e se sentia particularmente animada por nada ter visto, ergueu-se repentinamente.
“A que propósito vêm todos estes discursos?” disse ela. “Pois ainda não está tudo regularizado? Que é que nós aqui viemos fazer?
— Além disso,” disse a primeira testemunha, “penso que não nos encontramos aqui para discutir o que se passa, mas para dar cumprimento às cláusulas do contrato. Por que estamos nós assustados?
— Não estou assustada,” disse a mulher. “Eu não; vamos,” disse ela para o marido, altivamente “assina o documento; era capaz de cancelar as escrituras antigas, mesmo que estivessem quarenta diabos dentro da sala.” E, dizendo isto, pegou num dos documentos, pronta a rasgar o selo.
Naquele instante o tal postigo abriu-se de novo, posto que estivesse fechado por dentro, exatamente como da outra vez, e viu-se a sombra de um corpo, que parecia estar fora no jardim, com a cabeça metida no postigo, o rosto voltado para a sala, fitando diretamente a dama, com um severo e irado semblante.
“Alto!” disse o espectro, como se se dirigisse a ela, e imediatamente o postigo se fechou, desaparecendo o fantasma.
Impossível descrever o estado de desalento em que esta segunda aparição lançou toda aquela gente; a dama, que até aí se tinha mostrado tão corajosa, capaz de rasgar os selos, mesmo que quarenta demônios entrassem na sala, soltou um grito semelhante ao de uma mulher com um ataque, deixando cair os documentos das mãos; as duas testemunhas estavam extraordinariamente assustadas, embora não tanto como os demais; mas uma delas pegou na sentença que ambas tinham assinado e onde o marido era compelido a cumprir o contrato dispondo dos bens do filho.
“Atrevo-me a afirmar,” disse ele, “quer se trate de um bom quer de um mau espírito, que é seu desejo que isto não se cancele;” não dito o que, riscou o nome da sentença, no que foi seguido pela outra testemunha, e ambas se ergueram dos seus lugares dizendo que nada mais tinham a fazer ali.
O mais inesperado de tudo, porém, foi o próprio marido ter desfalecido de susto, não obstante tudo ser a seu favor, como era evidente.
Isto pôs ponto final a toda aquela questão, não só naquele momento, mas para sempre, como depois vim a saber.
A história tem muitas outras particularidades, longas de mais para que eu vos enfade com elas: mas duas há que não posso omitir, a saber:
1) Que dentro de cinco meses, pouco mais ou menos, a contar desta segunda aparição, o rapaz voltou das índias Orientais, para onde embarcara em Lisboa, num navio português, havia quatro anos.
2) Que tendo sido particularmente interrogado acerca de todas estas coisas e em especial sobre se tivera tido algum conhecimento delas, ou se alguma aparição, vozes, ou qualquer intimação lhe tinham dado a conhecer o que ocorrera em Inglaterra, ele afirmou repetidamente que de nada tivera notícia, salvo uma vez ter sonhado que o pai lhe escrevera uma carta colérica, ameaçando-o, caso não voltasse para casa, de deserda-lo, não lhe deixando um único xelim. Mas acrescentava que nunca tinha recebido em sua vida carta alguma do pai ou de qualquer outra pessoa.
Daniel Defoe
O primeiro resultado de tal comportamento da madrasta no seio da família foi o filho, mal começou a sentir-se homem, ter pedido ao pai que o deixasse viajar por terras estranhas. A madrasta, conquanto desejasse ver-se livre dele, como ele precisava de uma soma considerável para se manter no estrangeiro, opôs-se violentamente, fazendo com que o pai o não deixasse partir, depois de lhe ter dado autorização para isso.
Tão arreliado ficou o rapaz que, depois de haver renovado o seu pedido ao pai, com todo o respeito, quer diretamente quer por intermédio de alguns parentes, sem ter conseguido o seu intento, encorajado algum tanto por um tio, irmão da sua mãe, primeira mulher do pai, resolveu partir de casa sem licença; e se assim o pensou melhor o fez.
Por que parte do mundo viajou não me lembro; parece que o pai se manteve em contacto com ele por algum tempo e em condições de lhe fazer chegar às mãos uma razoável pensão, para sua mantença, a qual o rapaz mandava receber por meio de cartas de crédito, regularmente pagas; mas, algum tempo depois, governando a casa a madrasta, uma dessas cartas foi recusada e, depois de protestada, devolvida sem aceite; após o que, não mandou mais nenhuma nem nunca mais escreveu, e o pai nunca mais ouviu falar dele durante quatro anos, pouco mais ou menos.
Desse longo silêncio tirou a madrasta vários benefícios; primeiro começou por querer convencer o marido de que, tendo o rapaz necessariamente morrido, os bens dele deviam ser dispostos a favor do mais velho dos filhos dela (pois ela tinha vários filhos). O pai opôs-se firmemente a essa proposta, mas a mulher continuou a acossá-lo com importunações; e eram dois os argumentos contra ele, isto é, como quem diz, contra o filho.
Primeiro, se ele tivesse morrido, não havia lugar para objeções, pois o filho dela era o herdeiro legítimo.
Segundo, se ele não tivesse morrido, o seu comportamento para com o pai, a quem não escrevia há muito, era indesculpável, e este devia estar ressentido com isso, e proceder como se o filho tivesse morrido: que nada tão legitimamente o podia desobrigar e que, portanto, ele, seu pai, devia proceder como se ele, seu filho, fosse morto, e tratá-lo em conformidade, porque quem procedia assim para com o próprio pai como morto devia ser considerado quanto às suas relações filiais e ser tratado como merecia.
O pai, no entanto, opôs-se por muito tempo, alegando não poder decidir em consciência; que muita coisa podia ter acontecido no mundo que impedisse o filho de escrever; que podia ter sido feito prisioneiro dos turcos e levado como cativo; que podia achar-se entre os persas ou os árabes (o que parecia ser o caso) e assim não poder enviar novas suas, e que não se conformaria em deserdá-lo antes de verificar se tinha ou não razão para o fazer ou se o filho o tinha ou não ofendido.
Esta resposta, conquanto justa, estava longe de calar as queixas da mulher, queixas tamanhas que não dava descanso ao marido, fazendo a inquietação de toda a família; causava um grande mal estar e, numa palavra, compelia os filhos a fazerem o mesmo; e o fidalgo via-se tão consumido que uma ou duas vezes esteve a ponto de anuir, mas o coração repontou e ele voltou atrás com a sua palavra, recusando.
Como quer que fosse, o fato de o ter levado tão longe, constituiu um encorajamento para ela prosseguir com as suas impaciências e solicitações. Por fim, ele acabou por aceitar um ajuste provisório, pelo qual, se não ouvisse falar do filho durante um certo lapso de tempo, consentiria numa nova distribuição dos bens.
A mulher não ficou satisfeita com este ajuste condicional, mas, vendo-se incapaz de obter qualquer outro, sentiu-se forçada a aceitá-lo tal como ele se lhe apresentava; como muitas vezes lhe disse, estava, no entanto, pouco satisfeita com o prazo por ele fixado em quatro anos, como atrás ficou dito.
De tanto ouvir falar na mesma coisa, ele acabou por se enfurecer, respondendo que ela se devia dar por muito satisfeita, pois o tempo era escasso em relação às circunstâncias em que o filho se podia encontrar.
O certo é que ela tanto o atormentou que acabou por persuadi-lo a reduzir o prazo para um ano; mas, antes de tal consentir, disse-lhe, um dia, num ataque de cólera, que esperava, mais tarde ou mais cedo, que o espectro do filho lhe aparecesse a ele e lhe dissesse que estava morto e que convinha que ele fizesse justiça aos seus demais filhos, pois ele nunca mais voltaria para reclamar os seus bens.
Quando, por fim, ele acabou, contra vontade, por consentir na redução do prazo para um ano, disse-lhe esperar que o espectro do filho, posto que o não tivesse por morto, lhe aparecesse a ela, e lhe dissesse estar vivo, antes de o prazo findar.
“Por que não hão-de as almas injuriadas dos vivos,” disse ele, “andar por esse mundo como as dos mortos?”.
Aconteceu que uma tarde, depois disto, estando numa áspera quezília por causa do mesmo assunto, certa mão surgiu, subitamente, num postigo, como se tentasse abri-lo. Como todos os postigos de ferro usados nesse tempo abrissem para fora, embora se fechassem e prendessem por dentro, a mão parecia procurar, debalde, abrir o postigo. O fidalgo não deu por isso, mas a mulher, que viu, ergueu-se repentinamente, como que assustada e, esquecendo a briga, levantou as mãos para o céu.
“Valha-me Deus!” disse ela. “Há ladrões no jardim.”
O marido correu imediatamente para a porta da sala onde se encontravam e, abrindo-a, espreitou para fora.
“Não está ninguém no jardim,” disse ele; dizendo o que, fechou de novo a porta e voltou para o seu lugar.
“Tenho a certeza,” replicou ela, “que vi um homem ali.
— Então, era o diabo,” disse ele, “pois estou certo de que não há ninguém no jardim.
— Eu ia jurar,” tornou ela, “que vi um homem meter a mão para abrir o postigo, mas, achando-o preso, e, suponho eu,” acrescentou, “vendo-nos aqui, fugiu.
— É impossível ter fugido,” replicou ele, “não corri eu para a porta imediatamente? Além disso, sabes bem que os muros que cercam o jardim não o deixavam fugir.
— Suplico-te,” exclamou ela colericamente, “não estou embriagada nem muito menos a sonhar, sei muito bem reconhecer um homem, e não estava escuro, o sol ainda não se pôs de todo.
— Estás apenas assustada com alguma sombra,” disse ele (e cheio de maldade) “coisas destas só costumam acontecer às pessoas que não têm a consciência tranquila; quem sabe se era o diabo.
— Não, não!… Eu não me assusto facilmente,” disse ela, “se era o diabo, era o diabo no espectro do teu filho, que deve ter vindo dizer-te que está no inferno e por isso deves dar os teus bens ao mais velho dos teus filhos bastardos, já que desprezas o legítimo herdeiro.
— Se fosse o meu filho,” disse ele, “é que vinha dizer-nos estar vivo, isso te garanto eu, e perguntar como podes ser tão diabólica que o queiras deserdar;” e dizendo isto: “Alexandre!” exclamou em voz alta, por duas vezes, erguendo-se impetuosamente da cadeira, “se estás vivo, aparece, e faz com que eu deixe de ser insultado todos os dias por causa da tua morte.”
Estas palavras não eram ditas quando o postigo onde a dama tinha visto a mão se abriu por si mesmo e Alexandre em pessoa, fitando a mãe com um irado semblante, gritou:
“Estou aqui!… ” desaparecendo no mesmo momento.
A dama, até aí tão senhora de si, soltou um espantoso grito que alarmou toda a casa; a criada dela correu à sala para ver o que tinha acontecido, mas a ama tombara desmaiada num cadeirão.
Não caíra por terra, porque, estando ali uma grande cadeira, se apoiara a um dos braços dela, onde imediatamente a ampararam; só muito depois, no entanto, recuperou os sentidos.
O marido tinha corrido imediatamente para a porta do salão, e, abrindo-a, saiu para o jardim, onde não viu ninguém; depois dirigiu-se a outra porta praticada diretamente sobre o jardim e em seguida a outras duas que conduziam para fora dele, uma ao pátio da cavalariça e outra ao campo que se estendia para além da cerca; todas estavam bem fechadas e trancadas; vendo a um canto o jardineiro em companhia de um rapaz que arrastava um cilindro de pedra, perguntou-lhes se ninguém ali tinha estado, ao que eles responderam muitas vezes que não, que só eles ali se encontravam, cilindrando o passeio junto da casa.
Depois disso, voltou para dentro, sentou-se outra vez, e não disse palavra por muito tempo; as mulheres e os criados andavam numa azafama, fazendo quanto podiam para reanimar a senhora
Algum tempo depois, ela veio a si o bastante para poder falar; e as primeiras palavras que proferiu foram:
“Va… lha-me Deus! Que foi isto?
— Nada,” disse o marido. “Naturalmente foi o Alexandre.
Ao ouvir isto, acometeu-a um ataque e pôs-se a soltar gritos e ais cada vez mais medonhos.
O marido, sem saber que é que a tinha levado àquilo, procurou aplaca-la, dizendo-lhe que não era nada; mas nada conseguiu, tendo-se visto obrigado a conduzi-la à cama e a mandar chamar o físico; durante alguns dias esteve muito mal.
Fosse como fosse, graças a isto, durante um certo tempo, não voltou a referir-se a conveniência de deserdar o enteado.
Mas o tempo, que endurece o espírito em coisas ainda piores, foi lentamente consumindo a lembrança do ocorrido, e ela acabou por fazer reviver a mesma questão outra vez, posto que, de princípio, com menos ardor do que antes.
No entanto, o marido usou para com ela de uma certa má vontade também, e sempre que a questão vinha à baila, tapava-lhe a boca ou dizia-lhe que, se ela pronunciasse mais alguma palavra sobre o caso, ele pediria outra vez ao Alexandre que abrisse o postigo.
Isto agravou muito as coisas; e, se é certo tê-la atemorizado durante algum tempo, a verdade é que, por fim, o exaspero dela era tamanho que lhe disse estar certa de que ele tinha pacto com o diabo, a quem se vendera apenas com o intuito de lhe meter medo.
O marido pôs-se a brincar com ela, dizendo que qualquer esposo se sentiria grato para com o diabo que lhe calasse a mulher turbulenta e que se considerava muito feliz por ter encontrado maneira de o conseguir, embora isso lhe custasse.
Tão exasperada ela ficou que o ameaçou, caso voltasse a fazer uso das suas artes diabólicas, de o denunciar como feiticeiro e homem de tratos com o demônio; coisa bem fácil de provar, disse, pois a verdade é que ele tinha conjurado o diabo de propósito para a intimidar.
A disputa acabou nessa noite com palavras ruins e explosões de mau gênio, mas ele nunca pensou que a mulher pusesse em prática a sua ameaça: de modo que, no dia seguinte, tudo esquecera e estava de tão bom humor como se nada tivesse ocorrido.
A mulher, porém, apareceu-lhe pesarosa e mui atormentada, toda ressentida, ameaçando-o com o que resolvera fazer.
Como quer que fosse, ele pouco pensou que ela tentasse pôr em prática a maldade que tinha em mente, e propôs-lhe conversarem amistosamente; ela, todavia, repeliu-o com desdém, dizendo estar disposta a levar por diante o que dissera, pois não queria viver com um homem que mandava o diabo entrar em sua própria casa, sempre que lhe apetecia, com intenção de a matar.
O marido procurou apaziguá-la com boas palavras, replicando-lhe a ela falar sério; numa palavra, o caso tornou-se grave, pois a verdade é que a dama se dirigiu à justiça, onde declarou, sob juramento, que o marido tinha pacto com o demônio e que a vida dela corria perigo, obtendo assim um mandato de captura contra ele.
Resumindo: trouxe para casa a dita ordem de captura, mostrou-a ao marido, e disse-lhe que a não tinha confiado à autoridade por lhe querer conceder a liberdade de se apresentar voluntariamente ao juiz de paz, esperando que lhe participasse quando estava pronto para isso, pois ela o estava também, tendo tenção de pedir a alguns amigos seus que a acompanhassem.
Grande foi a surpresa dele, pois nunca pensara que ela tivesse falado a sério, e pôs-se a apaziguá-la o melhor que sabia; mas ela viu que o tinha assustado deveras, o que era verdade, pois, posto que aquilo nada tivesse em si de condenável, era óbvio que seria um escândalo, e contrariava-o a ideia de se dar em espectáculo; eis por que usou para com ela de todos os rogos de que era capaz, pedindo-lhe que não fizesse tal coisa.
Quanto mais ele se humilhava, porém, maior era o triunfo dela. A insolência foi tanta que, por ela lhe disse que justiça seria feita, como o advertira, que era certa de o fazer castigar se continuasse obstinado e que não estava disposta sujeitar-se a encantamentos e feitiçarias, pois a verdade era ignorar até onde ele seria capaz ir.
Para abreviar a história: tão grande ascendente ganhou sobre ele, que o marido acabou por propor que o caso fosse presente a pessoas imparciais, amigos das duas partes, os quais, convocados umas poucas de vezes, nunca chegaram a qualquer conclusão. Os amigos dele diziam que aquilo não tinha importância e que ele não devia intimidar-se; o acto de ele chamar pelo filho e alguém abrir o postigo e gritar: “Estou aqui”, não era prova de feitiçaria e insistiam em que ela nada podia fazer contra ele.
Os amigos dela comportavam-se altivamente, por ela instigados; alegando que ela estava pronta a jurar que ele a tinha ameaçado com o fantasma do filho; porque ele fizera aparecer um espectro, chamando pelo rapaz, evidentemente já falecido, e o fantasma aparecera imediatamente; que ele não poderia ter pedido ao diabo que lhe apresentasse o filho se ele próprio não tivesse pacto com o demônio e se não falasse com os espíritos, e que isto era de graves consequências para ela.
Perante tudo isto, o fidalgo carecia de coragem para resistir, sendo grande o seu receio de um escândalo: eis por que parecia dolorosamente perplexo, sem saber que fazer.
Quando ela percebeu que ele já estava suficientemente humilde, disse-lhe que, se lhe queria fazer justiça (como quem diz, dispor da herança a favor do filho dela), ela estava pronta a renunciar a tudo o mais, com a condição de ele lhe prometer não a tornar a assustar com o diabo.
Esta parte da proposta exasperou-o de novo, e lançou-lhe em rosto que aquilo não passava de uma calúnia, que estava pronto a afrontá-la e que ela podia provocar a sua própria desgraça.
Assim quebrou o acordo e ela outra vez o começou a ameaçar. Como quer que fosse, persuadiu-o, finalmente, a condescender, entregando-lhe ele um documento escrito pelo seu próprio punho, feito na presença de alguns amigos dela, no qual prometia cumprir o desejo da mulher, se o filho não chegasse nem desse novas dentro de quatro meses.
A dama ficou satisfeita com isto e voltaram a ser amigos como dantes, tendo-lhe ele confiado o dito documento; mas, quando lho entregou, na presença de duas testemunhas, tomou a liberdade de lhe dizer, numa espécie de discurso, grave e solene:
“Escuta,” disse ele, “tanto me atormentaste com o teu impaciente gênio que fizeste com que eu assinasse este contrato contrário à justiça, à moral, e à razão; no entanto, embora dependente dele, estou certo de que nunca o executarei.”
Uma das testemunhas disse:
“Porquê, senhor? Então isto não serve para nada. Se estais resolvido a não cumprir o contrato, para que o assinais? Para que prometeis o que não tendes a intenção de fazer? Isto apenas servirá para acender nova disputa quando o prazo expirar.
— Porque, no meu foro íntimo,” disse ele, “estou convencido de que o meu filho está vivo.
— Vamos, vamos,” disse a mulher para o fidalgo que discutia com o marido, “deixai-o assinar o contrato e eu me encarregarei de o obrigar a cumpri-lo.
— Está bem,” disse o marido, “terás o contrato, mas depois hás-de me deixar em paz: estou convencido de que nunca me pedirás para o cumprir; e, no entanto, não sou um feiticeiro,” acrescentou ele, “como tu maldosamente insinuaste.”
A dama replicou que podia provar que ele tinha pacto com o diabo, pois bastava que chamasse pelo nome do filho para surgir uma alma penada: e pôs-se a contar a história da mão e do postigo.
“Vamos,” disse o fidalgo para o amigo, “dai-me a pena: em toda a minha vida nunca tive pactos senão com um diabo, e esse diabo está aqui sentado,” virando-se para a mulher; “e acabo de fechar com ela um contrato que mulher alguma, a não ser o diabo, seria capaz de obrigar o próprio marido a assinar, e eu assino-o. Mas também vos garanto, dai-me a pena, que nem ela nem todos os diabos do inferno serão capazes de mo fazer cumprir; lembrai-vos do que vos acabo de dizer.”
Ela começou a protestar, preparando-se uma nova disputa, mas os fidalgos entrepuseram-se e o marido, assinando o escrito, pôs fim à quezília por aquela vez.
Ao fim dos quatro meses, ela exigiu o cumprimento do contrato, tendo sido designado um dia para isso, e os dois amigos que tinham servido de testemunhas foram convidados para jantar nessa ocasião, crendo que o marido cumpriria as cláusulas do contrato; e, de acordo com isso, os escritos foram todos apresentados e lidos por inteiro, bem como alguns velhos contratos, assinados no acto do casamento pelos curadores, que foram exibidos para serem cancelados de maneira a ela ficar quite na mesma parte da herança, no que dizia respeito ao filho. O marido foi convidado ou por modos pacíficos ou à força, talvez por estar de humor, antes por modos pacíficos, a executar as cláusulas do contrato, deserdando o filho, sendo-lhe dito que, se na verdade ele tivesse morrido, isso não o prejudicaria, e, se estivesse vivo, o fato de lhe não dar novas suas por um tão longo espaço de tempo era prova de desobediência e grossaria.
Além disso, alegaram que, se ele viesse a aparecer depois disto, o pai (cuja riqueza muito tinha prosperado) podia dar-lhe outros bens como justa satisfação pela perda que ele teria de sofrer na parte dos bens paternos.
Perante tais considerações, o pobre pusilânime marido estava quási a anuir, ou, pelo menos, quer tivesse anuído ou não, as coisas iam-se fazer de acordo com o que tinha sido causa daquela reunião.
Quando acabaram de discorrer acerca de todas estas particularidades e, como acima ficou dito, lidas as novas cláusulas, ela ou o marido pegou nos velhos documentos para os cancelar; creio que a história diz que, indo a mulher, não o marido, rasgar os selos, se ouviu, subitamente, um ruído no salão onde estavam, exatamente como se alguém tivesse penetrado pela porta que comunicava com o átrio e entrasse na sala, a caminho da porta do jardim, que estava fechada.
Todos se mostraram surpreendidos, pois isto foi perfeitamente notório, mas nada viram. A dama empalideceu, cheia de pavor; no entanto, como nada descortinara, reanimou-se um pouco, mas para começar, de novo, a implicar com o marido.
— Quê?” disse ela. “Tramaste nova conspiração para que os diabos tornassem a aparecer?”
O marido permaneceu sereno, posto que, no seu foro íntimo, não pouco surpreendido também.
Um dos dois fidalgos disse-lhe:
“Que quer isto dizer?
— Garanto-vos, senhor,” disse ele, “que sei tanto do que se trata como vós.
“Então, que será?” disse o outro fidalgo.
“Não faço a mais pequena ideia,” replicou o marido. “Não percebo absolutamente nada destas coisas.
— Não ouvistes dizer nada do vosso filho?” perguntou o fidalgo.
“Nem uma só palavra,” respondeu o pai; “não, nem a mais pequena palavra durante estes últimos cinco anos.
— Haveis-lhe mandado dizer alguma coisa,” voltou o fidalgo, “acerca deste contrato?
— Nem uma palavra,” disse ele; “não sabia para onde escrever-lhe.
— Senhor,” disse o fidalgo, “tenho ouvido falar muito de aparições, mas nunca vi nenhuma na minha vida nem nunca acreditei que houvesse qualquer verdade nisso; com efeito, contínuo sem nada ver agora mesmo; mas não há dúvida de que passou algum corpo, algum espírito ou coisa que o valha por esta sala: ouvi distintamente. Estou certo de que há aqui qualquer coisa invisível, tão certo como se a visse.
— Ainda mais,” disse a outra testemunha, “eu senti o ar deslocar-se quando passou por mim. Dizei-me, peço-vos,” disse ele, voltando-se para o marido, “estais vendo alguma coisa?
— Não, pela minha honra,” replicou ele, “absolutamente nada.
— Contaram-me,” disse a primeira testemunha “e li algures que uma aparição pode ser visível para umas pessoas e invisível para outras, embora todas juntas na mesma sala”.
Como quer que fosse, o marido protestou solenemente, perante todos os presentes, que nada tinha visto.
“Peço-vos, senhor,” disse a primeira testemunha, “haveis visto alguma coisa já noutra ocasião, haveis ouvido ruídos ou vozes ou haveis tido algum sonho acerca disto?
— É certo,” disse ele, “que tenho sonhado muitas vezes que meu filho está vivo e que falo com ele, e uma vez que lhe perguntei por que era tão desobediente e me desprezava tanto que me deixasse sem notícias durante tanto tempo, sabendo, como sabia, que eu o podia deserdar.
— Muito bem, e que respondeu ele?
— Nunca os meus sonhos duraram tanto que ele me pudesse responder; acabei sempre por acordar.
— E que pensais de tudo isso?” disse a testemunha; “pensais que ele tenha morrido?
— Não, nunca,” disse o pai, “penso, no fundo da minha consciência, que ele está vivo, tão vivo como eu próprio, e eis-me prestes a praticar um acto tão iníquo como homem algum ainda praticou.
— Na verdade,” disse a segunda testemunha “isto principia a incomodar-me; não sei que hei-de pensar destas coisas; não me quero intrometer mais neste assunto, pois me desagrada compelir um homem a praticar um acto contrário à sua consciência”.
Ao ouvir isto, a mulher, que, como eu disse, se reanimara algum tanto e se sentia particularmente animada por nada ter visto, ergueu-se repentinamente.
“A que propósito vêm todos estes discursos?” disse ela. “Pois ainda não está tudo regularizado? Que é que nós aqui viemos fazer?
— Além disso,” disse a primeira testemunha, “penso que não nos encontramos aqui para discutir o que se passa, mas para dar cumprimento às cláusulas do contrato. Por que estamos nós assustados?
— Não estou assustada,” disse a mulher. “Eu não; vamos,” disse ela para o marido, altivamente “assina o documento; era capaz de cancelar as escrituras antigas, mesmo que estivessem quarenta diabos dentro da sala.” E, dizendo isto, pegou num dos documentos, pronta a rasgar o selo.
Naquele instante o tal postigo abriu-se de novo, posto que estivesse fechado por dentro, exatamente como da outra vez, e viu-se a sombra de um corpo, que parecia estar fora no jardim, com a cabeça metida no postigo, o rosto voltado para a sala, fitando diretamente a dama, com um severo e irado semblante.
“Alto!” disse o espectro, como se se dirigisse a ela, e imediatamente o postigo se fechou, desaparecendo o fantasma.
Impossível descrever o estado de desalento em que esta segunda aparição lançou toda aquela gente; a dama, que até aí se tinha mostrado tão corajosa, capaz de rasgar os selos, mesmo que quarenta demônios entrassem na sala, soltou um grito semelhante ao de uma mulher com um ataque, deixando cair os documentos das mãos; as duas testemunhas estavam extraordinariamente assustadas, embora não tanto como os demais; mas uma delas pegou na sentença que ambas tinham assinado e onde o marido era compelido a cumprir o contrato dispondo dos bens do filho.
“Atrevo-me a afirmar,” disse ele, “quer se trate de um bom quer de um mau espírito, que é seu desejo que isto não se cancele;” não dito o que, riscou o nome da sentença, no que foi seguido pela outra testemunha, e ambas se ergueram dos seus lugares dizendo que nada mais tinham a fazer ali.
O mais inesperado de tudo, porém, foi o próprio marido ter desfalecido de susto, não obstante tudo ser a seu favor, como era evidente.
Isto pôs ponto final a toda aquela questão, não só naquele momento, mas para sempre, como depois vim a saber.
A história tem muitas outras particularidades, longas de mais para que eu vos enfade com elas: mas duas há que não posso omitir, a saber:
1) Que dentro de cinco meses, pouco mais ou menos, a contar desta segunda aparição, o rapaz voltou das índias Orientais, para onde embarcara em Lisboa, num navio português, havia quatro anos.
2) Que tendo sido particularmente interrogado acerca de todas estas coisas e em especial sobre se tivera tido algum conhecimento delas, ou se alguma aparição, vozes, ou qualquer intimação lhe tinham dado a conhecer o que ocorrera em Inglaterra, ele afirmou repetidamente que de nada tivera notícia, salvo uma vez ter sonhado que o pai lhe escrevera uma carta colérica, ameaçando-o, caso não voltasse para casa, de deserda-lo, não lhe deixando um único xelim. Mas acrescentava que nunca tinha recebido em sua vida carta alguma do pai ou de qualquer outra pessoa.
Daniel Defoe
Despedidas
Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam já não mentem.
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam já não mentem.
Affonso Romano de Sant’Anna
No mistério da noite
Mas à noite cavalos liberados das cargas e conduzidos à ervagem galopavam finos e soltos no escuro. Potros, rocins, alazões, longas éguas, cascos duros – de repente uma cabeça fria e escura de cavalo! – os cascos batendo, focinhos espumantes erguendo-se para o ar em ira e murmúrio. E às vezes uma longa respiração esfriava as ervas em tremor. Então o baio se adiantava. Andava de lado, a cabeça encurvada até o peito, cadenciado. Os outros assistiam sem olhar. Ouvindo o rumor dos cavalos, eu adivinhava os cascos secos avançando até estacarem no ponto mais alto da colina. E a cabeça a dominar a cidadezinha, lançando o longo relincho. O medo me tomava nas trevas do quarto, o terror de um rei, eu quereria responder com as gengivas à mostra em relincho. Na inveja do desejo meu rosto adquiria a nobreza inquieta de uma cabeça de cavalo. Cansada, jubilante, escutando o trote sonâmbulo. Mal eu saísse do quarto minha forma iria se avolumando e apurando, e, quando chegasse à rua, já estaria a galopar com patas sensíveis, os cascos escorregando nos últimos degraus da escada da casa. Da calçada deserta eu olharia: um canto e outro. E veria as coisas como um cavalo as vê. Essa era a minha vontade. Da casa eu procurava ao menos escutar o morro de pastagem onde nas trevas cavalos sem nome galopavam retornados ao estado de caça e guerra.
Noite alta – enquanto os homens dormiam – vinha encontrá-los imóveis nas trevas. Estáveis e sem peso. Lá estavam eles invisíveis, respirando. Aguardando com a inteligência curta. Embaixo, na cidadezinha adormecida, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Além da ferrovia um rato pronto a fugir. Então o tordilho batia a pata. Não tinha boca para falar mas dava o pequeno sinal que se manifestava de espaço a espaço na escuridão. Eles espiavam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado – nada precisava ser visto de frente por eles, e essa era a grande noite. Os flancos de uma égua percorridos por rápida contração. Nos silêncios da noite a égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade. O potro mais inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silêncio total.
As bestas não abandonavam sua vida secreta que se processa durante a noite. E se no meio da ronda selvagem aparecia um potro branco – era um assombro no escuro. Todos estacavam. O cavalo prodigioso aparecia, era aparição. Mostrava-se empinado um instante. Imóveis os animais aguardavam sem se espiar. Mas um deles batia o casco – e a breve pancada quebrava a vigília: fustigados moviam-se de súbito álacres, entrecruzando-se sem jamais se esbarrarem e entre eles se perdia o cavalo branco. Até que um relincho de súbita cólera os advertia – por um segundo atentos, logo se espalhavam de novo em nova composição de trote, o dorso sem cavaleiros, os pescoços abaixados até o focinho tocar no peito. Eriçadas as crinas. Eles cadenciados, incultos.
Noite alta – enquanto os homens dormiam – vinha encontrá-los imóveis nas trevas. Estáveis e sem peso. Lá estavam eles invisíveis, respirando. Aguardando com a inteligência curta. Embaixo, na cidadezinha adormecida, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Além da ferrovia um rato pronto a fugir. Então o tordilho batia a pata. Não tinha boca para falar mas dava o pequeno sinal que se manifestava de espaço a espaço na escuridão. Eles espiavam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado – nada precisava ser visto de frente por eles, e essa era a grande noite. Os flancos de uma égua percorridos por rápida contração. Nos silêncios da noite a égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade. O potro mais inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silêncio total.
Até que a frágil luminosidade da madrugada os revelava. Estavam separados, de pé sobre a colina. Exaustos, frescos. Tinham passado no escuro pelo mistério da natureza dos entes.
Clarice Lispector, "Todos os Contos"
O relógio
Os chineses veem a hora no olho dos gatos.
Um dia um missionário, passeando nos subúrbios de Nanquim, percebeu que havia esquecido seu relógio e perguntou a hora a um garoto.
O menino do Império celeste primeiro hesitou; depois, mudando de ideia, respondeu: “Vou dizer-lhe”. Poucos instantes depois reapareceu, tendo nos braços um gato muito gordo, e, olhando-o, como se diz, no branco dos olhos, afirmou sem hesitar: “Ainda não é exatamente meio-dia”. O que era verdade.
E se alguém importuno viesse incomodar-me enquanto meu olhar repousa nesse delicioso quadrante, se algum Gênio desonesto e intolerante, algum Demônio do contratempo viesse dizer-me: “O que você está olhando aí com tanta atenção? O que você procura nos olhos dessa criatura? Mortal pródigo e preguiçoso, você está vendo a hora?”, eu responderia sem hesitar: “Sim, estou vendo a hora; é a Eternidade!”. Não lhe parece, senhora, que este é um madrigal verdadeiramente meritório, e tão enfático quanto a senhora mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esse pretensioso galanteio, que não lhe pedirei nada em troca.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Um dia um missionário, passeando nos subúrbios de Nanquim, percebeu que havia esquecido seu relógio e perguntou a hora a um garoto.
O menino do Império celeste primeiro hesitou; depois, mudando de ideia, respondeu: “Vou dizer-lhe”. Poucos instantes depois reapareceu, tendo nos braços um gato muito gordo, e, olhando-o, como se diz, no branco dos olhos, afirmou sem hesitar: “Ainda não é exatamente meio-dia”. O que era verdade.
Quanto a mim, se me inclino para a bela Féline, cujo nome lhe cabe tão bem, e que é ao mesmo tempo honra de seu sexo, orgulho de meu coração e perfume de meu espírito, seja de noite, seja de dia, na luz plena ou na escuridão opaca, no fundo de seus olhos adoráveis sempre vejo a hora com clareza, sempre a mesma, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisões de minutos nem de segundos — uma hora imóvel que não é marcada nos relógios, e todavia leve como um suspiro, rápida como uma espiadela.
E se alguém importuno viesse incomodar-me enquanto meu olhar repousa nesse delicioso quadrante, se algum Gênio desonesto e intolerante, algum Demônio do contratempo viesse dizer-me: “O que você está olhando aí com tanta atenção? O que você procura nos olhos dessa criatura? Mortal pródigo e preguiçoso, você está vendo a hora?”, eu responderia sem hesitar: “Sim, estou vendo a hora; é a Eternidade!”. Não lhe parece, senhora, que este é um madrigal verdadeiramente meritório, e tão enfático quanto a senhora mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esse pretensioso galanteio, que não lhe pedirei nada em troca.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Um amigo em talas
O meu antigo companheiro de pensão Amadeu Amaral Júnior, um homem louro e fornido, tinha costumes singulares que espantavam os outros hóspedes.
Para falar com propriedade, aquilo não era exatamente pensão, mas isto não tem importância: com um pouco de esforço podíamos admitir que estávamos numa pensão de gente bem comportada. Bocejávamos em demasia, contávamos as pessoas que subiam ou desciam um morro próximo, dormíamos cedo e recebíamos com regularidade a visita do gerente do estabelecimento, o major Nunes, ótima criatura que deixou o cargo por lhe faltar o espírito do negócio.
Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinqüenta, que projetou meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente daquela e pagar ao barbeiro.
Mudamo-nos, separamo-nos, perdemo-nos de vista. Creio que os artigos de psicologia não foram publicados, pois há tempo li este anúncio num semanário: “Intelectual desempregado. Amadeu Amaral Júnior, em estado de desemprego, aceita esmolas, donativos, roupa velha, pão dormido. Também aceita trabalho”.
O anúncio não produziu nenhum efeito, é o que meses depois, nos declara Amadeu Amaral Júnior: “Minha situação continua preta. Reitero o apelo às almas bem formadas: deem de comer a quem tem fome, uma fome atávica, milenária. Deem-me trabalho.” E, catalogando as suas habilidades: “Escrevo poesias, crônicas, contos (policiais, psicológicos, de aventura, de terror, de mistério), novelas, discursos, conferências. Sei inglês, francês, italiano, espanhol e um bocado de alemão. Deem-me trabalho pelo amor de Deus ou do diabo.”
De literato brasileiro não conheço página mais sincera e razoável que essa. Ao ler o pedido de roupa velha e pão duro, fiquei meio escandalizado, mas refletindo, confessei publicamente que o meu velho companheiro procedia com acerto. E agora, completamente solidário com ele, admiro a exposição que nos faz das suas aptidões e lamento que não as utilizem.
É evidente que Amadeu Amaral Júnior conhece bem o nosso mercado literário e apregoa as mercadorias mais próprias para o consumo: discursos, contos policiais, de aventura, de terror e de mistério. Julgo que vive sem ocupação por não haver falado antes nisso.
O meio cento de artigos redigidos naquelas noites de insônia encalhou certamente na redação, preterido pelas novelas de arrepiar cabelos. Indignado, Amadeu Amaral Júnior oferece de novo os seus préstimos ao editor, afirmando que também sabe compor histórias policiais, de aventura, de terror e de mistério, que arrancam lágrimas e se vendem regularmente.
A maneira como pede trabalho, pelo amor de Deus ou do diabo, revela que o escritor está impaciente e talvez não escrupulize em pôr a sua pena a serviço de qualquer dessas duas entidades, o que não admira, pois Amadeu é jornalista.
Muita gente se espanta com o procedimento desse amigo. Não sei por quê. Os fabricantes anunciam os seus produtos e os sujeitos desempregados costumam, desde que há jornais, dizer neles para que servem. Por que apenas o articulista, precisamente o indivíduo capaz de arrumar umas linhas com decência, deve calar-se e roer chifres?
Eu por mim acho que Amadeu Amaral Júnior andou muito bem. Todos os jornalistas necessitados deviam seguir o exemplo dele. O anúncio, pois não. E, em duros casos, a propaganda oral, numa esquina, aos gritos. Exatamente como quem vende pomada para calos.
Para falar com propriedade, aquilo não era exatamente pensão, mas isto não tem importância: com um pouco de esforço podíamos admitir que estávamos numa pensão de gente bem comportada. Bocejávamos em demasia, contávamos as pessoas que subiam ou desciam um morro próximo, dormíamos cedo e recebíamos com regularidade a visita do gerente do estabelecimento, o major Nunes, ótima criatura que deixou o cargo por lhe faltar o espírito do negócio.
Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinqüenta, que projetou meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente daquela e pagar ao barbeiro.
Mudamo-nos, separamo-nos, perdemo-nos de vista. Creio que os artigos de psicologia não foram publicados, pois há tempo li este anúncio num semanário: “Intelectual desempregado. Amadeu Amaral Júnior, em estado de desemprego, aceita esmolas, donativos, roupa velha, pão dormido. Também aceita trabalho”.
O anúncio não produziu nenhum efeito, é o que meses depois, nos declara Amadeu Amaral Júnior: “Minha situação continua preta. Reitero o apelo às almas bem formadas: deem de comer a quem tem fome, uma fome atávica, milenária. Deem-me trabalho.” E, catalogando as suas habilidades: “Escrevo poesias, crônicas, contos (policiais, psicológicos, de aventura, de terror, de mistério), novelas, discursos, conferências. Sei inglês, francês, italiano, espanhol e um bocado de alemão. Deem-me trabalho pelo amor de Deus ou do diabo.”
De literato brasileiro não conheço página mais sincera e razoável que essa. Ao ler o pedido de roupa velha e pão duro, fiquei meio escandalizado, mas refletindo, confessei publicamente que o meu velho companheiro procedia com acerto. E agora, completamente solidário com ele, admiro a exposição que nos faz das suas aptidões e lamento que não as utilizem.
É evidente que Amadeu Amaral Júnior conhece bem o nosso mercado literário e apregoa as mercadorias mais próprias para o consumo: discursos, contos policiais, de aventura, de terror e de mistério. Julgo que vive sem ocupação por não haver falado antes nisso.
O meio cento de artigos redigidos naquelas noites de insônia encalhou certamente na redação, preterido pelas novelas de arrepiar cabelos. Indignado, Amadeu Amaral Júnior oferece de novo os seus préstimos ao editor, afirmando que também sabe compor histórias policiais, de aventura, de terror e de mistério, que arrancam lágrimas e se vendem regularmente.
A maneira como pede trabalho, pelo amor de Deus ou do diabo, revela que o escritor está impaciente e talvez não escrupulize em pôr a sua pena a serviço de qualquer dessas duas entidades, o que não admira, pois Amadeu é jornalista.
Muita gente se espanta com o procedimento desse amigo. Não sei por quê. Os fabricantes anunciam os seus produtos e os sujeitos desempregados costumam, desde que há jornais, dizer neles para que servem. Por que apenas o articulista, precisamente o indivíduo capaz de arrumar umas linhas com decência, deve calar-se e roer chifres?
Eu por mim acho que Amadeu Amaral Júnior andou muito bem. Todos os jornalistas necessitados deviam seguir o exemplo dele. O anúncio, pois não. E, em duros casos, a propaganda oral, numa esquina, aos gritos. Exatamente como quem vende pomada para calos.
Graciliano Ramos
sábado, julho 11
Entardeceres
A clara profusão de um poente
enalteceu a rua,
a rua aberta como um vasto sonho
para qualquer acaso.
O límpido arvoredo
perde o último pássaro, o ouro último.
A mão andrajosa de um mendigo
agrava a tristeza dessa tarde.
O silêncio que mora nos espelhos
forçou seu cárcere.
A escuridão é o sangue
das coisas feridas.
No ocaso incerto
a tarde mutilada
foi umas pobres cores.
enalteceu a rua,
a rua aberta como um vasto sonho
para qualquer acaso.
O límpido arvoredo
perde o último pássaro, o ouro último.
A mão andrajosa de um mendigo
agrava a tristeza dessa tarde.
O silêncio que mora nos espelhos
forçou seu cárcere.
A escuridão é o sangue
das coisas feridas.
No ocaso incerto
a tarde mutilada
foi umas pobres cores.
Jorge Luís Borges
O expresso das cinco horas
No verão de 1903, Iúri viajava pelos campos, com o tio, em uma carroça. Iam para Duplianka, propriedade do fabricante de tecidos de seda e grande patrono das artes, Kologrivov. O objetivo da viagem era encontrar-se com o pedagogo e divulgador de conhecimentos úteis, Ivan Ivanovitch Voskoboinikov.
— E esses? — perguntava Nikolai Nikolaievitch a Pavel, um trabalhador braçal e vigia da editora de livros, que estava sentado de lado no banco, encurvado e com as pernas cruzadas, atitude que demonstrava bem que não era um cocheiro autêntico e que estava guiando apenas para fazer um favor.
— Esses são do dono — respondia Pavel, tentando acender um cigarro —, agora aqueles — conseguindo se livrar do fogo e dar uma tragada, apontava ele, após uma longa pausa, com a ponta do chicote virada para o outro lado —, aqueles são nossos. Ah, dormiram? — gritava ele vez por outra para os cavalos, olhando a toda hora para os rabos e ancas dos bichos, feito um maquinista para o manômetro.
Porém os cavalos andavam como qualquer cavalo do mundo, ou seja, o do meio corria sempre em linha reta como é característico de sua natureza simples; o cavalo do lado se parecia, para um ignorante, a um vagabundo rematado que só sabia dançar prisiadka, curvando-se feito um cisne, ao som dos guizos que ele mesmo tocava com seus saltos.
Nikolai Nikolaievitch levava para Voskoboinikov a tarefa de corrigir seu livro sobre a questão agrária. Pois, devido à crescente pressão da censura, a editora pedira uma revisão.
— O povo anda fazendo confusão na província — dizia Nikolai Nikolaievitch. — Na região Pankovskaia mataram um comerciante, puseram fogo no haras do administrador do conselho. O que você acha disso? O que comentam na aldeia?
Mas Pavel olhava para estas coisas de maneira mais sombria do que o censor que queria conter as paixões agrárias de Voskoboinikov.
— O que comentam? O povo está muito solto. Brincadeira, dizem. Nossa gente não pode ser tratada assim. Dê liberdade ao mujique, e um esmaga o outro, meu Deus do céu! Ah, dormiu?
Esta era a segunda viagem do tio e do sobrinho a Duplianka. Iúri achava que lembrava do caminho. Toda vez que os campos se ampliavam e eram abarcados por uma barra fininha de florestas, pela frente e por trás, lhe parecia que ele estava reconhecendo aquele lugar onde a estrada fazia uma curva para a direita. Depois da curva deveria surgir, e em um minuto sumir, o panorama da aldeia Kologrivovskaia, localizada a dez verstas, com o rio brilhando ao longe e a estrada de ferro do outro lado do rio. Mas, a toda hora, ele se enganava. Outros campos sucediam os campos. Eram novamente abarcados por florestas. Esta sucessão de vastidões dava boa disposição. Dava vontade de sonhar e pensar no futuro.
Nenhum dos livros de Nikolai Nikolaievitch que ficariam famosos no futuro ainda fora escrito. Mas suas ideias já estavam definidas. Ele só não sabia que já estava perto a sua hora.
Em breve, entre os representantes da literatura daquela época, entre os professores da universidade e os filósofos da revolução, deveria surgir essa pessoa que pensava em todos os temas deles, mas que, além da terminologia, não possuía nada em comum com eles. Todos eles defendiam certos dogmas e se satisfaziam com palavras e aparências. Porém, Nikolai era padre, passou pelo tolstovstvo e a revolução e ia cada vez mais longe. Ele ansiava por uma ideia, inspirada e concreta, que rabiscasse sem hipocrisia os diferentes caminhos em seu movimento, que mudasse o mundo para melhor e que fosse perceptível, como o brilho do relâmpago ou o rastro do trovão passageiro, até mesmo para a criança ou o ignorante. Ele ansiava pelo novo.
Iúri sentia-se bem com o tio. Este parecia-se com sua mãe. Como ela, ele era um homem livre, livre de preconceitos para com qualquer coisa que fosse insólita. Como ela, ele possuía o sentimento nobre de igualdade para com todos os seres. Ele, como ela, entendia tudo apenas ao primeiro olhar e sabia expressar imediatamente as ideias da maneira como estas lhe vinham à cabeça, enquanto ainda estivessem vivas e não tivessem perdido o sentido.
Iúri estava feliz por ter viajado com o tio para Duplianka. Lá era muito bonito e o local pitoresco lembrava sua mãe, que amava a natureza e frequentemente levava Iúri em seus passeios. Além do mais, pensava com satisfação, encontraria Nika Dudorov, um ginasiano que morava com Voskoboinikov, que provavelmente o odiava porque era dois anos mais velho que ele e, que ao cumprimentá-lo, puxava com força a mão para baixo e inclinava tanto a cabeça que os cabelos lhe caíam na testa, cobrindo o rosto pela metade.
Boris Pasternak, "Doutor Jivago"
Era época da Kazanskaia e a colheita estava no auge. Em razão da hora do almoço ou da festa nos campos não se encontrava vivalma. O sol queimava faixas de terra não ceifadas, que pareciam nucas raspadas de presos. Sobre os campos os pássaros voavam em círculo. Com as espigas inclinadas, o trigo esticava-se como uma corda pela total ausência de vento ou erguia-se em cruzetas longe da estrada, de onde, ante o olhar atento, assumia uma aparência de figuras móveis, como se fossem agrimensores que andavam ao longo do horizonte anotando algo.
— E esses? — perguntava Nikolai Nikolaievitch a Pavel, um trabalhador braçal e vigia da editora de livros, que estava sentado de lado no banco, encurvado e com as pernas cruzadas, atitude que demonstrava bem que não era um cocheiro autêntico e que estava guiando apenas para fazer um favor.
— Esses são do dono ou dos camponeses?
— Esses são do dono — respondia Pavel, tentando acender um cigarro —, agora aqueles — conseguindo se livrar do fogo e dar uma tragada, apontava ele, após uma longa pausa, com a ponta do chicote virada para o outro lado —, aqueles são nossos. Ah, dormiram? — gritava ele vez por outra para os cavalos, olhando a toda hora para os rabos e ancas dos bichos, feito um maquinista para o manômetro.
Porém os cavalos andavam como qualquer cavalo do mundo, ou seja, o do meio corria sempre em linha reta como é característico de sua natureza simples; o cavalo do lado se parecia, para um ignorante, a um vagabundo rematado que só sabia dançar prisiadka, curvando-se feito um cisne, ao som dos guizos que ele mesmo tocava com seus saltos.
Nikolai Nikolaievitch levava para Voskoboinikov a tarefa de corrigir seu livro sobre a questão agrária. Pois, devido à crescente pressão da censura, a editora pedira uma revisão.
— O povo anda fazendo confusão na província — dizia Nikolai Nikolaievitch. — Na região Pankovskaia mataram um comerciante, puseram fogo no haras do administrador do conselho. O que você acha disso? O que comentam na aldeia?
Mas Pavel olhava para estas coisas de maneira mais sombria do que o censor que queria conter as paixões agrárias de Voskoboinikov.
— O que comentam? O povo está muito solto. Brincadeira, dizem. Nossa gente não pode ser tratada assim. Dê liberdade ao mujique, e um esmaga o outro, meu Deus do céu! Ah, dormiu?
Esta era a segunda viagem do tio e do sobrinho a Duplianka. Iúri achava que lembrava do caminho. Toda vez que os campos se ampliavam e eram abarcados por uma barra fininha de florestas, pela frente e por trás, lhe parecia que ele estava reconhecendo aquele lugar onde a estrada fazia uma curva para a direita. Depois da curva deveria surgir, e em um minuto sumir, o panorama da aldeia Kologrivovskaia, localizada a dez verstas, com o rio brilhando ao longe e a estrada de ferro do outro lado do rio. Mas, a toda hora, ele se enganava. Outros campos sucediam os campos. Eram novamente abarcados por florestas. Esta sucessão de vastidões dava boa disposição. Dava vontade de sonhar e pensar no futuro.
Nenhum dos livros de Nikolai Nikolaievitch que ficariam famosos no futuro ainda fora escrito. Mas suas ideias já estavam definidas. Ele só não sabia que já estava perto a sua hora.
Em breve, entre os representantes da literatura daquela época, entre os professores da universidade e os filósofos da revolução, deveria surgir essa pessoa que pensava em todos os temas deles, mas que, além da terminologia, não possuía nada em comum com eles. Todos eles defendiam certos dogmas e se satisfaziam com palavras e aparências. Porém, Nikolai era padre, passou pelo tolstovstvo e a revolução e ia cada vez mais longe. Ele ansiava por uma ideia, inspirada e concreta, que rabiscasse sem hipocrisia os diferentes caminhos em seu movimento, que mudasse o mundo para melhor e que fosse perceptível, como o brilho do relâmpago ou o rastro do trovão passageiro, até mesmo para a criança ou o ignorante. Ele ansiava pelo novo.
Iúri sentia-se bem com o tio. Este parecia-se com sua mãe. Como ela, ele era um homem livre, livre de preconceitos para com qualquer coisa que fosse insólita. Como ela, ele possuía o sentimento nobre de igualdade para com todos os seres. Ele, como ela, entendia tudo apenas ao primeiro olhar e sabia expressar imediatamente as ideias da maneira como estas lhe vinham à cabeça, enquanto ainda estivessem vivas e não tivessem perdido o sentido.
Iúri estava feliz por ter viajado com o tio para Duplianka. Lá era muito bonito e o local pitoresco lembrava sua mãe, que amava a natureza e frequentemente levava Iúri em seus passeios. Além do mais, pensava com satisfação, encontraria Nika Dudorov, um ginasiano que morava com Voskoboinikov, que provavelmente o odiava porque era dois anos mais velho que ele e, que ao cumprimentá-lo, puxava com força a mão para baixo e inclinava tanto a cabeça que os cabelos lhe caíam na testa, cobrindo o rosto pela metade.
Boris Pasternak, "Doutor Jivago"
Há um cansaço da inteligência abstracta
Há um cansaço da inteligência abstracta e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo nem inquieta como o cansaço pela emoção. É um peso da consciência o mundo, um não poder respirar com a alma.
.Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e estrelado.
O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos — a da incarnação disforme do Não-ser. Outras vezes está atrás de nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu horror profundíssimo de a desconhecermos.
Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?
E então vem-me o desejo transbordante, absurdo, de uma espécie de satanismo que precedeu Satan, de que um dia — um dia sem tempo nem substância — se encontre uma fuga para fora de Deus e o mais profundo de nós deixe, não sei como, de fazer parte do ser ou do não-ser.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos — a da incarnação disforme do Não-ser. Outras vezes está atrás de nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu horror profundíssimo de a desconhecermos.
Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. E o sentimento súbito de se estar enclausurado numa cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?
E então vem-me o desejo transbordante, absurdo, de uma espécie de satanismo que precedeu Satan, de que um dia — um dia sem tempo nem substância — se encontre uma fuga para fora de Deus e o mais profundo de nós deixe, não sei como, de fazer parte do ser ou do não-ser.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
As pernas
Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do hotel Pharoux. De costume jantava ai; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram.
Abençoadas pernas! E há quem vos trate com desdém ou indiferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigáveis, quando não podíeis ir além de certo ponto, e me deixáveis com o desejo a avoaçar, à semelhança de galinha atada pelos pés.
Aquele caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília, e dissestes uma à outra: – Ele precisa comer, são horas de jantar, vamos levá-lo ao Pharoux; dividamos a consciência dele, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que ele vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapéu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes à risca o vosso propósito, amáveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta página.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
sexta-feira, julho 10
O verbo matar
Quem se espanta com o espetáculo de horror diversificado que o mundo de hoje oferece faria bem se tivesse o dicionário como livro de leitura diurna e noturna. Pois ali está, na letra M, a chave do temperamento homicida, que convive no homem com suas tendências angélicas, e convive em perfeita harmonia de namorados.
O consulente verá que matar é verbo copiosamente conjugado por ele próprio. Não importa que cultive a mansuetude, a filantropia, o sentimentalismo; que redija projetos de paz universal, à maneira de Kant, e considere abominações o assassínio e o genocídio. Vive matando.
A ideia de matar é de tal modo inerente ao homem, que, à falta de atentados sanguinolentos a cometer, ele mata calmamente o tempo. Sua linguagem o trai. Por que não diz, nas horas de ócio e recreação ingênua, que está vivendo o tempo? Prefere matá-lo.
O estudante que falta à classe confessa que matou a aula, o que implica matança do professor, da matéria e, consequentemente, de parte do seu acervo individual de conhecimento, morta antes de chegar a destino. No jogo mais intelectual que se conhece, pretende-se não apenas vencer o competidor, mas liquidá-lo pela aplicação de xeque-mate. Não admira que, nas discussões, o argumento mais poderoso se torne arma de fogo de grande eficácia letal: mata na cabeça.
Beber um gole no botequim, ato de aparência gratuita, confortador e pacificante, envolve sinistra conotação. É o mata-bicho, indiscriminado. E quantos bichos se matam, em pensamento, a cada instante! Até para definir as coisas naturais adotamos ponto de vista de morte violenta. Essa planta convolvulácea é apresentada por sua propriedade maléfica: mata-cabras. Nasceu para isso, para dizimar determinada espécie de mamíferos? Não. Assim a batizamos. Outra é mata-cachorro. Uma terceira, mata-cavalo, e o dicionarista acrescenta o requinte: “goza da fama de produzir frutos venenosos”. Certo peixe fluvial atende (ou devia atender) por mata-gato, como se pulasse d’água para caçar felinos por aí, ou se estes mergulhassem com intenção de ajustar contas com ele. Em Santa Catarina, o vento de inverno que sopra lá dos Andes é recebido com a exclamação: “Chegou o mata-baiano”.
Já não se usa, mas usou-se muito um processo de secar a tinta em cartas e documentos quaisquer: botar por cima um papel grosso, chupão, que se chamava mata-borrão e matava mesmo, sugando o sangue azul da vítima, qual vampiro de escritório.
A carreta necessita de correia de couro que una seu eixo ao leito. O nome que se arranjou para identificá-la, com sadismo, é mata-boi. Mata-cachorro não é só planta flacurtiácea, que acumula o título de mata-calado. É também alcunha de soldado de polícia estadual, e do pobre-diabo que, no circo, estende o tapete e prepara o picadeiro para a função.
Matar charadas constitui motivo de orgulho intelectual para o matador. Há um matador profissional, remunerado pelos cofres públicos: o mata-mosquito, que pouca gente conhece como guarda sanitário. Mata-junta? É a fasquia usada para vedar juntas entre tábuas. O sujeito vulgarmente conhecido como chato, ao repetir a mesma cantilena, “mata o bicho do ouvido”. Certa espécie de algodoeiro é mata-mineiro, certa árvore é matamatá, ninguém no interior ignora o que seja mata-burro, mata-cobra tanto é marimbondo como porrete e formiga. Ferida em lombo de animal chama-se matadura. Nosso admirável dedo polegar, só lhe reconhecem uma prestança: a de mata-piolhos.
Mandioca mata-negro. Peixe matante. Vegetal mata-olho. Mata-pulga, planta de que se fazem vassouras. Mata-rato, cigarro ordinário. Enfeites e atavios, meios especiais para atingir certos fins, são matadores. “Ela veio com todos os matadores” provoca admiração e êxtase. “Eunice com seus olhos matadores”, decassílabo de vítima jubilosa.
Se a linguagem espelha o homem, e se o homem adorna a linguagem com tais subpensamentos de matar, não admira que os atos de banditismo, a explosão intencional de aviões, o fuzilamento de reféns, o bombardeio aéreo de alvos residenciais, os pogroms, o napalm, as bombas A e H, a variada tragédia dos dias modernos se revele como afirmação cotidiana do lado perverso do ser humano. Admira é que existam a pesquisa de antibióticos, Cruz Vermelha Internacional, Mozart, o amor.
Carlos Drummond de Andrade, "De notícias e não notícias faz-se a crônica"
O consulente verá que matar é verbo copiosamente conjugado por ele próprio. Não importa que cultive a mansuetude, a filantropia, o sentimentalismo; que redija projetos de paz universal, à maneira de Kant, e considere abominações o assassínio e o genocídio. Vive matando.
A ideia de matar é de tal modo inerente ao homem, que, à falta de atentados sanguinolentos a cometer, ele mata calmamente o tempo. Sua linguagem o trai. Por que não diz, nas horas de ócio e recreação ingênua, que está vivendo o tempo? Prefere matá-lo.
Todos os dias, mais de uma vez, matamos a fome, em vez de satisfazê-la. Não é preciso lembrar como um número infinito de pessoas perpetra essa morte: através da morte efetiva de rebanhos inteiros, praticada tecnicamente em lugar de horror industrial, denominado matadouro. Aí, matar já não é expressão metafórica: é matar mesmo.
O estudante que falta à classe confessa que matou a aula, o que implica matança do professor, da matéria e, consequentemente, de parte do seu acervo individual de conhecimento, morta antes de chegar a destino. No jogo mais intelectual que se conhece, pretende-se não apenas vencer o competidor, mas liquidá-lo pela aplicação de xeque-mate. Não admira que, nas discussões, o argumento mais poderoso se torne arma de fogo de grande eficácia letal: mata na cabeça.
Beber um gole no botequim, ato de aparência gratuita, confortador e pacificante, envolve sinistra conotação. É o mata-bicho, indiscriminado. E quantos bichos se matam, em pensamento, a cada instante! Até para definir as coisas naturais adotamos ponto de vista de morte violenta. Essa planta convolvulácea é apresentada por sua propriedade maléfica: mata-cabras. Nasceu para isso, para dizimar determinada espécie de mamíferos? Não. Assim a batizamos. Outra é mata-cachorro. Uma terceira, mata-cavalo, e o dicionarista acrescenta o requinte: “goza da fama de produzir frutos venenosos”. Certo peixe fluvial atende (ou devia atender) por mata-gato, como se pulasse d’água para caçar felinos por aí, ou se estes mergulhassem com intenção de ajustar contas com ele. Em Santa Catarina, o vento de inverno que sopra lá dos Andes é recebido com a exclamação: “Chegou o mata-baiano”.
Já não se usa, mas usou-se muito um processo de secar a tinta em cartas e documentos quaisquer: botar por cima um papel grosso, chupão, que se chamava mata-borrão e matava mesmo, sugando o sangue azul da vítima, qual vampiro de escritório.
A carreta necessita de correia de couro que una seu eixo ao leito. O nome que se arranjou para identificá-la, com sadismo, é mata-boi. Mata-cachorro não é só planta flacurtiácea, que acumula o título de mata-calado. É também alcunha de soldado de polícia estadual, e do pobre-diabo que, no circo, estende o tapete e prepara o picadeiro para a função.
Matar charadas constitui motivo de orgulho intelectual para o matador. Há um matador profissional, remunerado pelos cofres públicos: o mata-mosquito, que pouca gente conhece como guarda sanitário. Mata-junta? É a fasquia usada para vedar juntas entre tábuas. O sujeito vulgarmente conhecido como chato, ao repetir a mesma cantilena, “mata o bicho do ouvido”. Certa espécie de algodoeiro é mata-mineiro, certa árvore é matamatá, ninguém no interior ignora o que seja mata-burro, mata-cobra tanto é marimbondo como porrete e formiga. Ferida em lombo de animal chama-se matadura. Nosso admirável dedo polegar, só lhe reconhecem uma prestança: a de mata-piolhos.
Mandioca mata-negro. Peixe matante. Vegetal mata-olho. Mata-pulga, planta de que se fazem vassouras. Mata-rato, cigarro ordinário. Enfeites e atavios, meios especiais para atingir certos fins, são matadores. “Ela veio com todos os matadores” provoca admiração e êxtase. “Eunice com seus olhos matadores”, decassílabo de vítima jubilosa.
Se a linguagem espelha o homem, e se o homem adorna a linguagem com tais subpensamentos de matar, não admira que os atos de banditismo, a explosão intencional de aviões, o fuzilamento de reféns, o bombardeio aéreo de alvos residenciais, os pogroms, o napalm, as bombas A e H, a variada tragédia dos dias modernos se revele como afirmação cotidiana do lado perverso do ser humano. Admira é que existam a pesquisa de antibióticos, Cruz Vermelha Internacional, Mozart, o amor.
Carlos Drummond de Andrade, "De notícias e não notícias faz-se a crônica"
Para um amigo tenho sempre um relógio
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
António Ramos Rosa, "Viagem através de uma nebulosa"
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
António Ramos Rosa, "Viagem através de uma nebulosa"
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