terça-feira, julho 21

Dia de trabalho

 


Existe uma idade melhor?

A vida é um rio que corre. Nós somos os peixes, galhos e folhas caídas das árvores que essa torrente leva. Se pensarmos assim, imaginando que vamos desaguar no estranho silencioso nebuloso mar chamado morte, que pode não ser o fim de tudo, teremos uma visão realista das etapas da nossa existência. Sou pouco simpática à invenção de rótulos que distorcem realidades revelando apenas um preconceito: envelhecer é feio, é degradante, vamos ser eternamente jovens, seguindo aos pulinhos até o fim, fantasiados de Peter Pan. Disfarçamos realidades naturais porque as vemos como algo feio, inadmissível, pobres de nós, ignorantes do que é normal e digno e bom.

Assim, inventam-se termos para a velhice: um pior do que o outro. “Terceira idade” não significa grande coisa, pois, se podemos viver até 80 ou 90 ainda ativos – (o número de pessoas nessas condições tende a aumentar -, vamos criar uma quarta idade e uma quinta: isso tudo me parece bastante tolo. Pior ainda é chamar a velhice, que alguns consideram se iniciar aos 60, outros aos 70 ou aos 80, de “melhor idade”. Quem disse que é melhor? Melhor do que qual outra fase? Melhor é algo muito subjetivo, em geral nos referimos à infância, mas a infância é sempre feliz? A Juventude não sofre? A maturidade não exige trabalhos e sacrifício?

Por que consideramos a passagem do tempo decadência, e não transformação? Tudo é um processo que se inicia quando somos concebidos, depois somos lançados nesse rio de tantas águas chamado vida. Uma cadeia de mudanças que após um bom tempo traz limitações físicas, menos elasticidade, menos beleza no conceito geral, talvez menos lucidez. Alguma dependência de outros, quem sabe, e, se não cultivamos bons afetos, isso pode ser doloroso. Mas não necessariamente decrepitude e vergonha a esconder! Todas essas naturais transformações deveriam vir acompanhadas de qualidades que na juventude não tínhamos. Capacidade de amar melhor, por exemplo: filhos criados, amizades consolidadas, velhos casamentos sendo uma parceria tranquila, e tempo disponível, são grandes privilégios. Podemos amar com mais alegria, pois não precisamos educar netos, apenas curtir, querer bem, deixar que gostem de nossa companhia, não sendo os chatos cobradores, exigentes a reclamar que as visitas são poucas, que merecíamos mais atenção. Temos tempo para curtir coisas que passavam despercebidas na correria anterior, como uma bela paisagem, um bom filme, um bom livro, uma boa conversa, doces memórias, não pensando no que perdemos, mas no que tivemos e ficou em nós, se fomos atentos e não fúteis demais.

“O que a senhora faz para se manter jovem?”, me perguntou um jornalista recentemente. Achei graça: eu não quero me manter jovem, quero ser uma pessoa interessada, e quem sabe interessante, na fase em que estou. Querer ter 40 anos aos 70 é tão patético quanto querer ter 20 aos 40, como se nos tivessem embalsamado na idade que achamos ideal. Que idade será essa? A infância é para alguns a fase mais feliz; para outros foi a juventude, e assim vai. Não acho que a chamada “terceira idade” seja a melhor, e detesto a expressão “melhor idade”, que apenas revela um preconceito atroz. Mas nela podemos ter e passar adiante coisas boas, belas e alegres, e contemplar do alto desses anos todos com mais lucidez e calma, por exemplo, a mediocridade reinante neste momento no país, se é que isso nos interessa. Deveria interessar.

Mas uma cruel fixação na juventude nos impede de curtir naturalmente a passagem do tempo, que, se aliada a certo bom humor, nos torna amados e amorosos, ligados ao mundo mesmo quando a velha senhora morte começa a rondar a nossa casa. E, se acreditarmos que esse rio da vida que corre não termina num nada absurdo, mas em nova fase, quem sabe não precisaremos tapar a cabeça feito crianças diante do que nos espera nesse mar onde tudo deságua – inclusive nossos preconceitos, nossas fragilidades e nossas ilusões.

Lya Luft, Revista Veja, 30/01/2013

Sonho domado

Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Thiago de Mello

Histórias de beija-flores

Gostaria de ser um passarinho viciado em leite por sua dona e de ir buscá-lo em seus róseos mamilos. Saberia bicá-los com delicadeza, como um beija-flor.

***

Beija-flor com suarabácti é beija-folor.

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Um beija-flor te acompanhou por três ruas, porque levavas sem perceber uma migalha de pão no lábio, e, quando a atiraste ao chão, ele quase desceu. Mas, tangido por outro apelo, o da beleza, decidiu continuar te seguindo.

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Como nos conforta termos visto tão poucas vezes a beleza. Como nos alivia termos sentido tão raramente sua presença. Como suportaríamos mais lembranças, se as poucas que temos nos afligem como um espinho espetando o peito de um beija-flor?

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Um beija-flor é sempre uma presa fácil para poetas medíocres.

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As licenças poéticas deveriam ser concedidas por uma comissão da qual participassem uma borboleta, um beija-flor e um bem-te-vi.

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Palavras como beleza, quando requisitadas por um poeta, deveriam vir trazidas por um passarinho de alta hierarquia, como um beija-flor.

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O beija-flor faz pose de bonitão na antena de televisão.

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Se você estiver num jardim e notar que vem chegando um beija-flor, fique atento à rosa. Pode ser que a natureza esteja tramando um haicai.

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Para o aniversário da amada, o beija-flor levou um fiozinho de arco-íris, ainda quente de sol.

O vergalho

Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: – “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.

– Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!

– Meu senhor! gemia o outro.

– Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei... justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio - o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.

– E, sim, nhonhô.

– Fez-te alguma coisa?

– É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.

– Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

– Pois não, nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!

Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre.
Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente.

Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, – transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

O discurso do general Loewenhielm

“A misericórdia e a verdade, meus amigos, encontraram uma à outra”, disse o general. “A retidão e a bem-aventurança devem beijar uma à outra.”

Falava com uma voz límpida que fora exercitada em campos de treinamento militar e ecoara agradavelmente em salões da realeza e, mesmo assim, falava de uma maneira tão nova para si mesmo e tão estranhamente comovente que ao final da primeira frase teve de fazer uma pausa. Pois era seu hábito formar os discursos com cuidado, consciente de seu propósito, mas aqui, em meio à congregação simples do deão, era como se toda a figura do general Loewenhielm, o peito coberto de condecorações, não fosse senão a porta-voz de uma mensagem destinada a vir a público.

“O homem, meus amigos”, disse o general Loewenhielm, “é frágil e tolo. A todos já nos foi dito que a graça divina encontra-se por todo o universo. Mas em nossa tolice e miopia humanas, imaginamos ser a graça finita. Por esse motivo, trememos…” Nunca, até aquele momento, o general afirmara que tremia; ficou genuinamente surpreso e até chocado de ouvir a própria voz proclamar o fato. “Trememos antes de fazer nossas escolhas na vida e após tê-las feito trememos de medo de ter escolhido errado. Mas eis que chega o momento em que nossos olhos estão abertos e vemos e percebemos que a graça é infinita. A graça, meus amigos, não exige nada de nós senão que a aguardemos com confiança e a reconheçamos com gratidão. A graça, irmãos, não impõe condições e não escolhe nenhum de nós em particular; a graça nos toma a todos em seu seio e proclama anistia geral. Vejam! Aquilo que escolhemos nos é dado e aquilo que recusamos nos é igualmente, e ao mesmo tempo, concedido. Sim, que o que rejeitamos seja copiosamente vertido sobre nós. Pois que a misericórdia e a verdade encontraram uma à outra e a retidão e a bem-aventurança beijaram uma à outra!”

Os irmãos e irmãs não compreenderam inteiramente o discurso do general, mas seu rosto sereno e inspirado e o som de palavras bem conhecidas e estimadas capturou e comoveu todos os corações. Dessa maneira, após trinta e um anos, o general Loewenhielm triunfara em dominar a conversa à mesa de jantar do deão.
Sobre o que aconteceu mais tarde nessa noite, nada concreto pode ser afirmado. Nenhum dos convidados dali em diante guardou qualquer lembrança clara disso. Só sabiam que os aposentos da casa se encheram com uma luz celestial, como se inúmeros pequenos halos houvessem se misturado numa única e gloriosa radiância. Um bando de velhos taciturnos adquiriu o dom da glossolalia; ouvidos que por anos estiveram quase surdos abriram-se para ela. O próprio tempo fundiu-se na eternidade. Muito depois da meia-noite as janelas da casa brilhavam como ouro e canções douradas fluíam através da janela invernal.

As duas senhoras idosas que outrora haviam se difamado mutuamente agora em seus espíritos retrocediam muitos anos no passado, além do período malévolo ao qual estavam presas, aos dias da mais tenra infância quando, juntas, preparavam-se para a crisma e de mãos dadas haviam enchido as ruas de Berlevaag com cantorias. Um irmão na congregação deu em outro um soco nas costelas, como um bruto afago entre rapazes, e exclamou: “Você me tapeou com aquela madeira, seu patife!”. O irmão assim abordado quase desmaiou numa sublime explosão de risadas, mas as lágrimas corriam-lhe dos olhos. “Sim, eu fiz isso, amado irmão”, respondeu. “Eu fiz isso.” O Comandante Halvorsen e Madame Oppergaarden de repente viram-se bem juntos um do outro num canto e trocaram um longo, longo beijo, para o qual o romance incerto e secreto da juventude jamais lhes dera tempo.

O rebanho do velho deão era gente humilde. Quando, mais tarde em suas vidas, pensaram nessa noite, nunca lhes ocorreu, a nenhum deles, que pudessem ter se exaltado por mérito próprio. Percebiam que a graça infinita sobre a qual o general Loewenhielm falara fora-lhes outorgada e nem mesmo se espantaram com o fato, pois se tratara da concretização de uma esperança sempre presente. As vãs ilusões deste mundo haviam se desmanchado diante de seus olhos como fumaça e viram o universo como realmente é. Foram agraciados com uma hora do milênio.
A velha senhora Loewenhielm foi a primeira a sair. O sobrinho a acompanhou e suas anfitriãs iluminaram o caminho para eles. Enquanto Philippa ajudava a velha senhora com os inúmeros agasalhos, o general tomou a mão de Martine e a segurou por longo tempo sem dizer palavra. Finalmente, falou:

“Tenho estado com você todos os dias de minha vida. Sabe, não sabe, que tem sido assim?”.

“Sei”, disse Martine, “sei que tem sido assim.”

“E”, prosseguiu ele, “estarei com você por todos os dias que ainda me restarem. Todas as noites me sentarei, se não em carne e osso, que nada significam, em espírito, que é tudo, para jantarmos juntos, como esta noite. Pois esta noite descobri, querida irmã, que neste mundo tudo é possível.”

“Sim, assim é, querido irmão”, disse Martine. “Neste mundo, tudo é possível.”
Com isso, separaram-se.

Quando enfim o grupo se dispersou, a neve cessara. A cidade e as montanhas exibiam um esplendor branco, sobrenatural, e o céu cintilava com milhares de estrelas. Na rua a neve era tão profunda que ficava difícil caminhar. Os convidados da casa amarela bambeavam em seus pés, cambaleavam, sentavam-se abruptamente ou caíam adiante sobre os joelhos e as mãos, ficando cobertos de neve, como se tivessem de fato lavado os pecados e os deixado brancos como lã, e nesse inocente traje recuperado saltitassem como cordeirinhos. Foi um júbilo, para cada um deles, ter se tornado uma criança pequena. Foi também uma abençoada piada observar os velhos irmãos e irmãs, que se levavam tão a sério, naquela espécie de segunda infância celeste. Tropeçavam e ficavam de pé, seguiam caminhando ou estacavam, as mãos dadas no corpo e no espírito, por alguns momentos formando a grande corrente de lanciers beatíficos.

“Deus abençoe, Deus abençoe, Deus abençoe”, como uma reverberação da harmonia das esferas, ecoava de todos os lados.

Martine e Philippa permaneceram por um longo tempo nos degraus de pedra do lado de fora da casa. Não sentiam frio. “As estrelas estão mais próximas”, disse Philippa.

“E vão ficar todas as noites”, disse Martine, calmamente. “É bem possível que não neve nunca mais.”

Nisso, contudo, estava enganada. Uma hora mais tarde começou a nevar outra vez e foi uma nevasca forte como jamais se vira em Berlevaag. Na manhã seguinte, as pessoas mal conseguiram abrir as portas de tão altos que estavam os montes de neve. As janelas das casas tinham uma camada tão espessa, como se contou por anos a fio depois disso, que muitos pacatos cidadãos do lugar não perceberam o alvorecer e continuaram a dormir até bem tarde nesse dia.
Karen Blixen, "A festa de Babette"

segunda-feira, julho 20

Livraria no cais

 


A condição geral

O barro entendia que estão abusando de sua docilidade para a feitura de cerâmicas vulgares. A água queixou-se de recolher todas as imundícies da Terra, ela que sempre foi sinônimo de limpeza. O boi nem precisou falar: era a imagem da revolta contra o sacrifício da espécie — de todas as espécies imoladas. “E a mim?” — gemeu a árvore —, “a mim, que desempenho função vital no sistema da Terra, tacam-me fogo ou retalham-me a serra e machado.”

Os quatro concordaram que não está direito. Reclamaram do homem, e este lhes declarou que não podia fazer nada. Vive onerado de impostos, afligido de doenças, e mal tem tempo de se coçar. “Em vez de me coçar”, acrescentou, “assisto a seriados americanos de televisão, enquanto não se inventa outra coisa. E me entedio. Voltem para seus lugares e guardem o que lhes digo. Vocês pensam que ser homem é fácil?”

Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"

Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja para fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem ser a olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.

É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre

Quando até os melhores sonhos ferem

Assim que ultrapassou a linha dos 70 anos, desabaram sobre ele, de uma vez só, todas as calamidades do corpo e da alma. Tudo lhe doía, tudo lhe pesava: andar, ficar sentado, mastigar, e até respirar. Uma depressão aguda passou a martirizá-lo e, apesar das consultas bimestrais com o psiquiatra, a única mudança que a mulher, os parentes e os amigos notavam na situação dele era: ia de mal a pior.

Ele se lastimava o dia inteiro, blasfemava, gemia, xingava, dizia que ninguém se importava com ele. Mas, se a mulher lhe perguntava se ele queria alguma coisa, respondia:

“Não quero nada. O que eu podia querer?”

E voltava a se lastimar, a blasfemar, a gemer, a xingar, a dizer que ninguém se importava com ele. Procurando alívio no sono, cada vez ia se deitar mais cedo: às nove, às oito e meia, às oito. Mas acordava às dez, à meia-noite, às duas, às quatro, às seis, atormentado por pesadelos em que a única variação era a forma pela qual morria:afogado no naufrágio de um transatlântico, sufocado no incêndio da casa, baleado num assalto.

Levantava-se de manhã como se levantaria um morto da tumba: pálido e mudo. A mulher, para não receber respostas desaforadas, não fazia nenhuma pergunta. Punha o café, o leite, o pão, a margarina, o queijo, sentava-se e tentava comer sem um barulhinho, para adiar a primeira explosão do marido.

Certa manhã, uma surpresa: o homem sentou-se, abriu um sorriso, deu um bom gole no café, estalou a língua, satisfeito, e mordeu o pãozinho como se fosse a maior das delícias.

A mulher se encorajou:

“Você parece ótimo hoje.”

“É.”

“O que foi?”

“Eu tive um sonho bom. Voltei no tempo. Sonhei que tinha dez anos. Era 23 de dezembro e meu pai prometeu me dar no dia seguinte a bicicleta que eu vinha pedindo fazia dois anos.”

“É bom ser jovem de novo.”

“É. Mesmo que seja só num sonho.”

Nesse dia, o homem gemeu menos e quase não foi ranzinza. À noite, foi abençoado com outro sonho, que se apressou a contar à mulher na manhã seguinte:

“Ganhei a bicicleta. Foi justinho como aconteceu de verdade, 60 anos atrás. A bicicleta não estava com os outros presentes embaixo da árvore e eu achei que meu pai ia me decepcionar outra vez. Mas ela estava escondida na garagem. Meu pai me pediu para ir dar a partida no carro, para ele consertar o motor, mas era uma pegadinha. Quando ele acendeu a luz, lá estava a bicicleta. Você não me ouviu gritar de alegria?”

“Não. É engraçado, isso. Você anda sonhando em sequência.”

“É. Como se eu estivesse vivendo de novo minha infância, um dia depois do outro.”

Também nesse dia o homem pareceu ter esquecido as dores e a depressão. Tagarelou a manhã toda, almoçou com gosto e, à tarde, animou-se a dar um passeio a pé.

A mulher estava preparando o jantar quando ele voltou. Vinha irritado e triste.

“Ei, o que foi?”, ela estranhou.

“Estou pensando se esta noite eu vou sonhar de novo.”

“E isso não é bom?”

“Bom? Como pode ser bom? Pela lógica, hoje eu vou sonhar que é 25 de dezembro e que eu vou sair pela rua com a bicicleta que ganhei ontem.”

“E daí?”

“Daí que eu não vou conseguir, com as pernas doendo como estão.”

“No sonho você consegue, você vai ver.”

O homem parou para pensar. Ficou assim alguns instantes. Depois, ainda desanimado, disse, apalpando a perna, onde havia uma cicatriz bem antiga:

“É. Mas, se eu conseguir, vou bater no muro e cair bem na frente da minha namoradinha. E todos vão rir de mim, como naquele dia.”

Nessa noite, o homem deitou-se tarde e fez o possível e o impossível para se manter acordado.

Silêncio

Escuta – disse o demônio, pousando a mão sobre a minha cabeça. – O país de que te falo é um país lúgubre, na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali não há repouso nem silêncio. As águas do rio, amarelas e insalubres, não correm para o mar, mas palpitam sempre sob o olhar ardente do Sol, com um movimento convulsivo. De cada lado do rio, sobre as margens lodosas, estende-se ao longe um deserto sombrio de gigantescos nenúfares, que suspiram na solidão, erguendo para o céu os longos pescoços espectrais e meneando tristemente as cabeças sempiternas. E do meio deles sai um sussurro confuso, semelhante ao murmúrio de uma torrente subterrânea. E os nenúfares, voltados uns para os outros, suspiram na solidão.

E o seu império tem por limite uma floresta alta, cerrada, medonha! Lá, – como as vagas em torno das Híbridas, pequenos arbustos agitam-se sem repouso, contudo não há vento no céu! – e as grandes árvores primitivas oscilam continuamente, com um estrépito enorme. E dos seus cumes elevados filtra, gota a gota, um orvalho eterno. A seus pés contorcem-se num sono agitado, flores desconhecidas – venenosas. E por cima das suas cabeças, com um ruge-ruge retumbante, precipitam-se as nuvens negras a caminho do ocidente, até rolarem as cataratas para trás da muralha abrasada do horizonte. E nas margens do rio Zaire há repouso nem silêncio.

Era noite e a chuva caía enquanto caía, era água mas quando chegava ao chão era sangue! E eu estava na planície lodosa, por entre os nenúfares, vendo a chuva que caía sobre mim. E os nenúfares voltados uns para os outros suspira na solenidade da sua desolação.

De repente apareceu a lua através do nevoeiro fúnebre vinha toda carmesim! e o meu olhar caiu sobre um rochedo enorme, sombrio, que se erguia a borda do Zaire, refletindo a claridade da lua; era um rochedo sombrio sinistro de uma altura descomunal!

Sobre o seu cume estavam gravadas algumas letras. Caminhei através dos pântanos de nenúfares, até a margem para ler as letras gravadas na pedra; mas não pude decifrá-las. Ia voltar quando a lua brilhou mais viva e mais vermelha; olhando outra vez para o rochedo distingui só caracteres. E esses caracteres diziam: desolação.

Levantei os olhos; na crista do rochedo estava um homem de figura majestosa. Pendia-lhe dos ombros a antiga toga romana, cobrindo-se até aos pés. Os contornos da sua pessoa não se distinguiam, mas as feições eram as da divindade porque brilhavam através da escuridão da noite a do nevoeiro. Tinha a fronte alta e pensativa, os olhos profundos e melancólicos. Nas rugas do semblante, liam-se as legendas da desgraça e da fadiga o aborrecimento da humanidade e o amor da solidão. Escondi-me no meio dos nenúfares para ver o que aquele homem fazia ali.

E o homem assentou-se no rochedo, deixou pender a cabeça sobre a mão e espraiou a vista pela soledade, contemplou os arbustos buliçosos e as grandes árvores primitivas; depois, ergueu os olhos para a céu a para a lua carmesim. Eu observava as ações do homem escondido no meio dos nenúfares e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

Então o homem desviou os olhos do céu para o rio lúgubre para as águas amarelas do Zaire, e para as legiões sinistras dos nenúfares; escutou-lhes os suspiros melancólicos e as oscilações murmurantes E eu o espreitava sempre, do meu esconderijo e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

Embrenhei-me na profundezas longínquas do pântano, caminhei sobre e as flores dos nenúfares e chamei os hipopótamos que habitavam a espessura do bosque. E os hipopótamos ouviram o meu chamado e vieram os Behemothes até o pé do rochedo e soltaram um rugido medonho. E eu, escondido por entre os nenúfares, espreitava os movimentos do homem e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

Então invoquei os elementos e uma tempestade horrorosa rosa sobreveio. E o céu tornou-se lívido pela violência da tempestade e a chuva caía em torrente sobre a cabeça do homem e as ondas do rio transbordavam e o rio espumava enfurecido e os nenúfares suspiravam com mais força, e a floresta debatia-se com o vento, e o trovão ribombava e os raios flamejavam, e o rochedo estremecia.

Irritei-me e amaldiçoei a tempestade, o rio e os nenúfares, o vento e as floresta, o céu e o trovão. E na minha maldição os elementos emudeceram e a lua parou na sua carreira, e o trovão expirou e o raio deixou de faiscar, e as nuvens ficaram imóveis e as águas tornaram n repousar no seu imenso leito, e as árvores cessaram de se agitar, e os nenúfares não suspiraram mais e na floresta não se tornou a ouvir o mínimo murmúrio, nem a sombra de um som no vasto deserto sem limites. Olhei para os caracteres escritos no rochedo e os caracteres diziam agora: Silêncio.

Volvi outra vez os olhos para o homem, e o seu rosto estava pálido de terror. De repente, levantou a cabeça, ergueu-se sobre o rochedo e pôs o ouvido à escuta. Mas não se ouviu nem uma voz no deserto ilimitado. E os caracteres gravados no rochedo diziam sempre: Silêncio. E o homem estremeceu e fugiu e para tão longe fugiu que jamais o tornei a ver.

Ora, os livros dos magos, os melancólicos livros dos magos encerram belos contos, esplêndidas histórias do céu, da terra e do mar poderosos; dos gênios que têm reinado sobre a terra, sobre o mar e sobre o céu sublime. Há muita ciência na palavra das Sibilas. E das florestas sombrias de Dodona saíam outrora oráculos profundos.

Mas jamais se ouviu uma história tão espantosa como esta! Foi o demônio que ma contou, assentado ao um lado, na solidão do túmulo. Quando acabou de falar, desatou a rir e como não pudesse rir com ele, amaldiçoou-me. Então o lince, que vive eternamente no túmulo, saiu do seu esconderijo e veio deitar-se aos pés do demônio, olhando-o fixamente nas pupilas.
Edgar Allan Poe

domingo, julho 19

Serviço de bar

 


Chove!

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
José Gomes Ferreira

Sequência

Na estrada das Tabocas, uma vaca viajava. Vinha pelo meio do caminho, como uma criatura cristã. A vaquinha vermelha, a cor grossa e afundada — o tom intenso de azamar. Ela solevava as ancas, no trote balançado e manso, seus cascos no chão batiam poeira. Nem hesitava nas encruzilhadas. Sacudia os chifres, recurvos em coroa, e baixava testa, ao rumo, que reto a trazia, para o rio, e — para lá do rio — a terras de um Major Quitério, nos confins do dia, à fazenda do Pãodolhão.

No Arcanjo, onde a estrada borda o povoado, foi notada, e, vendo que era uma rês fujã, tentaram rebatê-la; se esvencilhou, feroz, e foi-se, porém. De beira dos pastos, os anus, que voavam cruzando-a, desvinham de pousar-lhe às costas. No riachinho do Gonçalves, quase findo à míngua d’água, se deteve para beber. Deram tiros, no campo, caçando às codornas. Latidos, noutra parte, faziam-na entrar oculta no cerrado. Ora corriam dela umas mulheres, que andavam buscando lenha. Se encontrava cavaleiros, sabia deles se alonjar, colada ao tapume, com disfarces: sonsa curvada a pastar, no sofrido simulamento. Légua adiante, entanto, nos Antônios, desabalava em galope, espandongada, ao passar por currais, donde ouvia gente e não era ainda o seu termo. Tio Terêncio, o velho, à porta de casa, conversou com o outro: — “Meo fi’o, q’vaca qu’é essa?” — “Nho pai, e’a n’é nossa, não.” Seguia, certa; por amor, não por acaso.

Só, assim, a vaquinha se fugira, da Pedra, madrugadamente — entre o primeiro canto dos melros e o terceiro dos galos — o sol saindo à sua frente, num céu quase da sua cor. Fazia parte de um gado, transportado, de boiadeiros, gado de coração ativo. Viera do Pãodolhão — sua querência. Apressava-se nela o empolgo de saudade que adoece o boi sertanejo em terra estranha, cada outubro, no prever os trovões. Apanhara a boca-da-estrada — para os onde caminhos — fronteando o nascente.

Soada a notícia, seo Rigério, o dono da Pedra, disse: — “Diaba”. Ele era alto, o homem, para tão pequenina coisa. Seus sabedores informavam: que a marca sendo a de grande fazendeiro, da outra banda, distante. Seus vaqueiros, postos, prontos. Esse seo Rigério tinha os filhos diversos, que por em volta se achavam. Nem deles, para o quê, havia a necessidade. E vede de que maneira tudo então se passou.

Só um dos filhos, rapaz, senhor-moço, quis-se, de repente, para aquilo: levar em brio e tomar em conta. Atou o laço na garupa. Disse: — “É uma vaquinha pitanga?” Pôs-se a cavalo. Soubesse o que por lá o botava, se capaz. Saiu à estrada-geral. Ia indo, à espora leve. Ia desconhecidamente. Indo de oeste para leste.

Já a vaca. O avanço, que levava, não se lhe dava de o bastante. Ante o morro, a passo, breve, nem parava para os capins dos barrancos: arrancava-os, mesmo em marcha, no mesmo surdo insossego. Se subia — cabeceava, num desconjuntado trabalho de si. Se descia — era beira-abismos, patas abertas, se borneando. Após, no plano, trotava. Agora, lá num campal, outras vacas se avistavam. Olhava-as: alteou-se e berrou — o berro encheu a região tristonha. O dia era grande, azul e branco, por cima de matos e poeiras. O sol inteiro.

Já o rapaz se anorteava. Só via o horizonte e sim. Sabia o de uma vaquinha fugida: que, de alma, marca o rumo e faz atalhos — querençosa. Entrequanto, ele perguntava. Davam-lhe novas da arribada. Seu cavalo murça se aplicava, indo noutra forma, ligeiro. Sabia que coisa era o tempo, a involuntária aventura. E esquipava. Ia o longo, longo, longo. Deu patas à fantasia. Ali, escampava. Tempo sem chuvas, terrentas campinas, os tabuleiros tão sujos, campos sem fisionomia. O rapaz ora se cansava. Desde aí, o muito descansou. Do que, após, se atormentava. Apertou.

Com horas de diferença, a vaquinha providenciava. Aqui alta cerca a parou, foi seguindo-a, beira, beira. Dava num córrego. No córrego a vaquinha entrou, veio vindo, dentro d’água. Três vezes esperta. Até que outra cerca travou-a, ia deixando-a desairada. Volveu — irrompida ida: de um ímpeto então a saltou: num salto que queria ser vôo. Vencia. E além se sumia a vaca vermelha, suspensa em bailado, a cauda oscilando. O inimigo já vinha perto.

O rapaz, no vão do mundo, assim vocado e ordenado. Ele agora se irritava. Pensou de arrepender caminho, suspender aquilo para mais tarde. Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O incomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? Triste em torno. Só as encostas guardando o florir de árvores esfolhadas: seu roxo-escuro de julho as carobinhas, ipês seu amarelo de agosto. Só via os longes de um quadro. O absurdo ar. Chatos mapas. O céu de se abismar. E indagava o chão, rastreava. Agora, manchava o campo a sombra grande de uma nuvem. O rapaz lançou longe um olhar. De repente, ajustou a mão à testa, e exclamou. Do ponto, descortinou que: aquela. A vaquinha, respoeirando. Aí e lá, tomou-a em vista. O vulto, pé de pessoa, que a cumeada do morro escalava. Ver o que diabo. Reduzida, ocupou, um instante, a lomba linha do espigão. Aí, se afundou para o de lá, e se escondeu de seus olhos. Transcendia ao que se destinava.

O rapaz, durante e tanto, montado no bom cavalo, à espora avante, galgando. Sempre e agudamente olhava. Podia seguir com os olhos como o rastro se formava. Só perseguia a paisagem. Preparava-se uma vastidão: de manchas cinzas e amarelas. O céu também em amarelo. Pitavam extensões de campo, no virar do sol, das queimadas; altas, mais altas, azuis, as fumaças desmanchavam- se. O rapaz — desdobrada vida — se pensou: — “Seja o que seja.”

Aí, subia também ao morro, de onde muito se enxergava: antes das portas do longe, as colinas convalares — e um rio, em suas baixadas, em sua várzea empalmeirada. O rio, liso e brilhante, de movimentos invisíveis. Como cortando o mundo em dois, no caminho se atravessava — sem som. Seriam buracos negros, as sombras perto das margens.

Depois dos destornamentos, a vaquinha chegava à beira, às derradeiras canas-bravas. Com roubada rapidez, ia a levantar o desterro. Foi uma mexidinha figura — quase que mal os dois chifres nadando — a vaca vermelha o transpondo, a esse rio, de tardinha; que em setembro. Sob o céu que recebia a noite, e que as fumaças chamava.

Outrarte o ouro esboço do crepúsculo. O rapaz, o cavalo bom, como vinham, contornando. Antes do rio não viam: as aves, que já ninhavam. À beira, na tardação, não queria desastrar-se, de nada; pensava. Às pausas, parte por parte. Não ouviu sino de vésperas. Tinha de perder de ganhar? Já que sim e já que não, pensou assim: jamais, jamenos… — o filho de seo Rigério. A fatal perseguição, podia quebrar e quitar-se. Hesitou, se. Por certo não passaria, sem o que ele mesmo não sabia — a oculta, súbita saudade. Passo extremo! Pegou a descalçar as botas. E entrou — de peito feito. Àquelas 
tranquilas águas — às braças. Era um rio e seu além. Estava, já, do outro lado.

– “A vaca?” — e apertava o encalço — à boa espora, à rédea larga. Mas a vaca era uma malícia, precipitava-se o logro. Nisso, anoiteceu. E não é que, seu cavalo, o murça, se sentia — da viagem de pêlo a pêlo: os joelhos bambeava, descaía, quase caía para a frente o cavaleiro.

Iam-se, na ceguez da noite — à casa da mãe do breu: a vaca, o homem, a vaca — transeuntes, galopando. — “Onde então o Pãodolhão? Cujo dono? Vinha- se a qual destinatário?” Pelas vertentes, distante, e até ao cimo do monte, um campo se incendiava: faíscas — as primeiras estrelas. O andamento. O rapaz: obcego. Sofria como podia, nem podia mais desespero. O arrepio negro das árvores. O mundo entre as estrelas e os grilos. Semiluz: sós estrelas. Onde e aonde? A vaca, essa, sabia: por amor desses lugares.

Chegava, chegavam. Os pastos da vasta fazenda. A vaca surgia-se na treva. Mugiu, arrancadamente. Remugiu em fim. A um bago de luz, lá, lá. Às luzes que pontilhavam, acolá, as janelas da casa, grande. Só era uma luz de entrequanto? A casa de um Major Quitério.

O rapaz e a vaca se entravam pela porteira-mestra dos currais. O rapaz desapeava. Sob o estúrdio atontamento, começou a subir a escada. Tanto tinha de explicar.

Tanto ele era o bem-chegado!

A uma roda de pessoas. Às quatro moças da casa. A uma delas, a segunda. Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se? O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: — “É sua.” Suas duas almas se transformavam? E tudo à sazão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.

E a vaca — vitória, em seus ondes, por seus passos.
Guimarães Rosa

Seduzindo para o prazer de ler

Nietzsche estava certo: “De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo – ler um livro é simplesmente algo depravado…” É o que sinto ao andar pelos maravilhosos caminhos da Fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas. Procuro esquecer-me de tudo o que li nos livros. É preciso que a cabeça esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam ver. Aprendi isso lendo Alberto Caeiro, especialista inigualável na difícil arte de ver. Dizia ele que “pensar é estar doente dos olhos…”. Mas meus esforços são frustrados. As coisas que vejo são como o beijo do príncipe: elas vão acordando os poemas que aprendi de cor e que agora estão adormecidos na minha memória. Assim, ao não pensar da visão une-se o não pensar da poesia. E penso que o meu mundo seria muito pobre se em mim não estivessem os livros que li e amei. Pois, se não sabe, somente as coisas amadas são guardadas na memória poética, lugar da beleza. “Aquilo que a memória amou fica eterno”, tal como o disse Adélia Prado, amiga querida.

Os livros que amo não me deixam. Caminham comigo. Há os livros que moram na cabeça e vão se desgastando com o tempo. Esses, eu deixo em casa. Mas há os livros que moram no corpo. Esses são eternamente jovens. Como no amor, uma vez não chega. De novo, de novo, de novo…


Um amigo me telefonou. Tinha uma casa em Cabo Frio. Convidou-me. Gostei. Mas meu sorriso entortou quando ele disse: “Vão também cinco adolescentes…”

Adolescentes podem ser uma alegria. Mas podem ser também uma perturbação para o espírito. Assim, resolvi tomar minhas providências. Comprei uma arma de amansar adolescentes. Um livro. Uma versão condensada da Odisseia, as fantásticas viagens de Ulisses de volta a casa, por mares traiçoeiros…Primeiro dia: praia; almoço; sono. Lá pelas cinco, os dorminhocos acordaram, sem ter o que fazer. E, antes que tivessem ideias próprias, eu tomei a iniciativa. Com voz autoritária dirigi-me a eles, ainda sob o efeito do torpor: “Ei, vocês… Venham cá na sala. Quero lhes mostrar uma coisa…” Não consultei as bases. Teria sido terrível. Uma decisão democrática das bases optaria por ligar a televisão. Claro. Como poderiam decidir por uma coisa que ignoravam? Peguei o livro e comecei a leitura. Ao espanto inicial seguiu-se silêncio e atenção. Vi, pelos seus olhos, que já estavam sob o domínio do encantamento. Daí para a frente foi uma coisa só. Não me deixavam. Por onde quer que eu fosse, lá vinham eles com a Odisseia na mão, pedindo que eu lesse mais. Nem na praia me deram descanso..

Essa experiência me fez pensar que deve haver algo errado na afirmação que sempre se repete de que os adolescentes não gostam da leitura. Sei que, como regra, não gostam de ler. O que não é a mesma coisa que não gostar da leitura. Lembro-me da escola primária que frequentei. Havia uma aula de leitura. Era a aula que mais amávamos. A professora lia para que nós ouvíssemos. Leu todo o Monteiro Lobato. E leu aqueles livros que se liam naqueles tempos: Heidi, Pollyanna, A ilha do tesouro. Quando a aula terminava, era a tristeza. Mas o bom mesmo é que não havia provas ou avaliações. Era prazer puro. E estava certo. Porque esse é o objetivo da literatura: prazer. O que os exames vestibulares tentam fazer é transformar a literatura em informações que podem ser armazenadas na cabeça. Mas o lugar da literatura não é a cabeça: é o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformações alquímicas que deseja realizar. Se não concorda, que leia Guimarães Rosa que dizia que literatura é feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano.

Quando minha filha estava sendo introduzida na literatura, o professor lhe deu como dever de casa ler e fichar um livro chatíssimo. Sofrimento dos adolescentes, sofrimento para os pais. A pura visão do livro provocava uma preguiça imensa, aquela preguiça que Barthes declarou ser essencial à experiência escolar. Escrevi carta delicada ao professor lembrando-lhe que Borges havia declarado que não havia razão para se ler um livro que não dá prazer quando há milhares de livros que dão prazer. Sugeri-lhe começar por algo mais próximo da condição emotiva dos jovens. Ele me respondeu com o discurso de esquerda, que sempre teve medo do prazer: “O meu objetivo é produzir a consciência crítica…” Quando eu li isso, percebi que não havia esperança. O professor não sabia o essencial. Não sabia que literatura não é para produzir consciência crítica.

O escritor não escreve com intenções didático-pedagógicas. Ele escreve para produzir prazer. Para fazer amor. Escrever e ler são formas de fazer amor. É por isso que os amores pobres em literatura ou são de vida curta, ou são de vida longa e tediosa… Parodiando as palavras de Jesus, “nem só de beijos e transas viverá o amor, mas de toda palavra que sai das mãos dos escritores…”.
Rubem Alves, "A educação dos sentidos"

O santuário das almas

Um silêncio estranho reinava sobre a aldeia. Naquela época do ano havia muito a ser recolhido na praia, mas não havia ninguém à vista na areia. Mesmo as crianças sentiam o humor dos adultos e não estavam brincando e correndo pela trilha. Depois de esconder todo o arroz e as outras coisas nas montanhas, os habitantes da aldeia passaram os dias enfurnados em casa, contendo a respiração. A mãe de Isaku cuidou dos ferimentos enquanto secava grãos vindos da outra aldeia ou tecia panos no tear.

Isaku passou o tempo reparando seu material de pesca, e ocasionalmente olhava pela porta dos fundos para a trilha que seguia até a aldeia vizinha, ou para o mar. Se os homens da agência de transporte viessem, seria ou pelo passo nas montanhas ou de barco pela costa. Tinham falado em colocar vigias perto do passo e nos promontórios, mas desistiram da ideia porque, como alguém observara, se eles percebessem os vigias, isso iria levantar suspeitas.
Isaku ouviu os homens da aldeia discutindo como seria a punição. Ficou aterrorizado. Falaram sobre pessoas sendo chicoteadas, depois arrastadas e puxadas por uma corda e então crucificadas de cabeça para baixo e espetadas com lanças até as entranhas caírem. Falaram sobre pessoas sendo cortadas com uma serra antes de ser crucificadas. Se descobrissem que tinham roubado a carga de um navio e espancado o capitão até matá-lo, sem dúvida o destino de todos seria similar a isso.

Apenas uma trilha levava para fora da aldeia, e para chegar à aldeia vizinha era preciso seguir as trilhas mais estreitas cortadas no coração das montanhas, passando por um vale e picos pelo caminho. Isaku havia ido até a aldeia vizinha pela primeira vez quando seu pai partira para a servidão, e a sensação de poder que lhe causara fora suficiente para deixá-lo zonzo. Fileiras de casas e lojas vendendo todo tipo de coisa, assim como construções de dois andares para acomodar viajantes. As ruas eram cheias de gente, e ele vira coisas das quais tinha apenas ouvido falar mas nunca vira antes, tais como um boi, que passara diante dele com carga amarrada nas costas. No porto ele vira navios de carga e de barcos de pesca. Não parara de se mover por um segundo, olhando tudo de forma incansável, até ficar exausto.

Tinham passado apenas uma noite no chão de terra da casa do intermediário, mas Isaku nunca iria se esquecer da sublime tranquilidade que experimentara quando atravessara novamente o passo nas montanhas e avistara as casas de sua aldeia lá embaixo. Estava certo de que nunca poderia viver em outro lugar que não fosse aquele.

No momento em que ouviu dizer que os agentes da transportadora estavam procurando um navio desaparecido, a aldeia vizinha passou a representar para Isaku tudo que era misterioso e assustador. A vila vizinha ficava localizada na mesma ilha e pertencia à vasta extensão de terra do outro lado do mar. Cada aldeia tinha seu próprio código de leis, passado adiante através das eras.
Raro como era, via-se o aparecimento de O-fune-sama sob a mesma luz dos inesperados cardumes de peixes que às vezes apareciam perto da costa, ou quantidades especialmente grandes de cogumelos ou legumes da montanha encontrados na floresta. O-fune-sama era parte dos presentes oferecidos pelo mar, e seu aparecimento acabara de salvar as pessoas da aldeia da fome. Para a aldeia de Isaku, o naufrágio de O-fune-sama era a coisa mais alegre possível, mas para outras pessoas, em outros lugares, tais como a aldeia vizinha, era algo ruim e que merecia a punição máxima. Mas se O-fune-sama não abençoasse sua praia, a aldeia havia muito teria deixado de existir, e a baía não seria mais que uma área de mar rodeada por pedras. Seus ancestrais haviam vivido ali, e eles, por sua vez, só podiam sobreviver graças a O-fune-sama.

Diziam que as almas dos mortos da aldeia iam para longe pelo mar e que, com o tempo, voltariam para encontrar abrigo no útero de uma mulher grávida. Não havia nenhum lugar para onde elas poderiam retornar além da aldeia. Se retornassem para um lugar onde as regras fossem diferentes, onde eventos festivos fossem considerados crimes, o resultado não seria bom. Se Isaku viesse a constituir sua própria família, sabia que teria de ir até a aldeia vizinha vender sal e outras coisas, mas estava determinado a evitar tais viagens. Queria permanecer na segurança da aldeia onde seguiam princípios fixos de como viver.

Às vezes ele pensava sobre sua própria morte. Seu corpo sendo queimado e os ossos enterrados no chão, sua alma deixando a aldeia e seguindo por cima da água, realizando uma longa jornada antes de alcançar o lugar longínquo no mar onde as almas dos outros mortos da aldeia estariam esperando. Os espíritos tinham uma moradia no fundo do mar onde tudo era claro e brilhante. Densos campos de algas marinhas balançavam como bosques de árvores, e todo tipo de mariscos e outras conchas coloridas se agarravam às pedras, brilhando como madrepérola.

Cardumes de peixes pequenos, as escamas prateadas brilhando enquanto nadavam., viravam ao mesmo tempo quando o líder mudava de direção, da mesma forma que um grupo de flocos de neve dançando no ar.

O fundo do mar era sempre calmo e a temperatura da água não mudava. As almas mortas pareciam águas-vivas em suas vestes transparentes, e tinham um brilho saudável nos cabelos. Sempre sorriam e nunca eram admoestados. Estavam no estado de profunda serenidade induzido pela morte. Ali ele viu a avó, de quem tinha apenas uma vaga lembrança, e Teru, sua irmãzinha que morrera dois anos antes. As pessoas mais atrás deviam ser seus ancestrais.

Ele se moveu até eles e parou junto de Teru. Antes que se desse conta, ele também foi envolto em vestes transparentes, e sua face tinha sempre um sorriso gentil. Ele se sentiu agradavelmente aquecido dentro daquela roupa.

Às vezes, alguns espíritos se afastavam, levados por aqueles que tinham ficado para trás. Eram as almas voltando para a aldeia para reencarnar no útero através da união sexual de um homem e uma mulher. E quando a reencarnação ocorreria? Muito provavelmente, um longo tempo depois da morte.

Ele não tinha dúvidas de que ele, também, era um espírito reencarnado no útero de sua mãe. Acreditava que a moradia das almas mortas lá longe no mar não era apenas imaginação, mas algo que podia visualizar tão claramente porque se tratava de um lugar do qual ele uma vez fizera parte.

Não tinha medo de morrer, especialmente porque acreditava que havia um lugar onde se vivia em paz depois da morte. Mas, se fosse levado para longe e morresse em um lugar distante, achava que seria difícil para seu espírito conseguir alcançar o santuário das almas mortas de sua aldeia. Sem dúvida, seu espírito seria condenado a um inferno cheio de almas de estranhos com expressões tristes.
Se os homens da agência de transporte viessem até a aldeia e descobrissem que os habitantes tinham roubado a carga de um navio naufragado, eles seriam presos e mortos, não poderiam saborear a tranquilidade depois da morte. Isaku orou para que os homens da agência de transporte nunca aparecessem.

Akira Yoshimura, "Naufrágios"

sábado, julho 18

Nos sábados de antigamente

 


Quando não havia senão noite

Antigamente, e Deus pastoreava as estrelas no céu. Quando lhes dava mais alimento elas engordavam e a sua pança abarrotava de luz. Nesse tempo, todas as estrelas comiam, todas luziam de igual alegria. Os dias ainda não haviam nascido e, por isso, o Tempo caminhava com uma perna só. E tudo era tão lento no infinito firmamento!


Até que, no rebanho do pastor, nasceu uma estrela com ganância de ser maior que todas as outras. Essa estrela chamava-se Sol e cedo se apropriou dos pastos celestiais, expulsando para longe as outras estrelas que começaram a definhar.

Pela primeira vez houve estrelas que penaram e, magrinhas, foram engolidas pelo escuro. Mais e mais o Sol ostentava grandeza, vaidoso dos seus domínios e do seu nome tão masculino. Ele, então, se intitulou patrão de todos os astros, assumindo arrogâncias de centro do Universo. Não tardou a proclamar que ele é que tinha criado Deus.

O que sucedeu, na verdade, é que, com o Sol, assim soberano e imenso, tinha nascido o Dia. A Noite só se atrevia a aproximar-se quando o Sol, cansado, se ia deitar. Com o Dia, os homens esqueceram-se dos tempos infinitos em que todas as estrelas brilhavam de igual felicidade. E esqueceram a lição da Noite que sempre tinha sido rainha sem nunca ter que reinar.

Mia Couto, “A confissão da leoa”

Encontro

Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.
Almada Negreiros

A paixão da leitura

Nesta época tardia da história do mundo, encontram-se livros por toda parte da casa – no quarto das crianças, na sala de estar, na sala de jantar, na cozinha. E, em algumas casas, eles aumentaram tanto que têm que ser acomodados num aposento exclusivo. Romances, poemas, histórias, memórias, livros caros em couro, livros baratos em brochura – detemo-nos diante deles e, num assombro passageiro, perguntamos: que prazer extraímos ou que proveito tiramos ao percorrer com os olhos essas inumeráveis linhas em letra de imprensa?

Ler é uma arte muito complexa – é o que nos revelará até mesmo o exame mais apressado de nossas sensações como leitores. E nossas obrigações como leitores são muitas e variadas. Mas talvez se possa dizer que nossa primeira obrigação para com um livro é que devemos lê-lo pela primeira vez como se o tivéssemos escrevendo. Para começar, devemos nos sentar no banco dos réus e não na poltrona do juiz. Devemos, nesse ato de criação, não importa se bom ou ruim, ser cúmplices do escritor. Pois cada um desses livros, não importando o gênero ou a qualidade, representa um esforço para criar algo. E nossa primeira obrigação como leitores é tentar entender o que o escritor está fazendo, desde a primeira palavra com que compõe a primeira frase até a última com que termina o livro. Não devemos impor-lhe nosso plano, não devemos tentar fazer com que sua vontade se conforme à nossa. Devemos deixar que Defoe seja Defoe e que Jane Austen seja Jane Austen tão livremente quanto deixamos que o tigre tenha seu pelo e a tartaruga sua carapaça. E isso é muito difícil. Pois uma das qualidades da grandeza consiste em deixar que o céu e a terra e a natureza se conformem à visão que lhes é própria.

Os grandes escritores exigem, assim, que façamos frequentes e heroicos esforços para lê-los corretamente. Eles nos vergam, eles nos quebram. Ir de Defoe a Jane Austen, de Hardy a Peacock, de Trollope a Meredith, de Richardson a Rudyard Kipling é ser torcido e distorcido, é ser jogado violentamente para um lado e para o outro. E isso vale também para os escritores menores. Cada um deles é singular; cada um tem uma visão, uma experiência, uma característica própria que pode entrar em conflito com a nossa, mas que devemos permitir que se expresse plenamente se quisermos fazer-lhe justiça. E os escritores que mais têm para nos oferecer são, muitas vezes, os que mais violentam os nossos preconceitos, particularmente se são nossos contemporâneos, de maneira que precisamos de toda a imaginação e compreensão se quisermos tirar o máximo proveito daquilo que eles podem nos oferecer.

Mas ler, como sugerimos, é um ato complexo. Não consiste simplesmente em estar em sintonia e compreender. Consiste, também, em criticar e em julgar. O leitor deve deixar o banco dos réus e se acomodar na poltrona do juiz. Deve deixar de ser amigo; deve se tornar juiz. E este segundo processo, que podemos chamar de processo pós-leitura, pois é, frequentemente, realizado sem termos o livro à nossa frente, proporciona um prazer ainda mais sólido do que o obtido quando estamos virando as páginas. Durante a leitura, novas impressões estão sempre anulando ou completando as velhas. Deleite, raiva, enfado, riso se alternam, enquanto lemos sem parar. O julgamento fica em suspenso, pois não podemos saber o que está por vir. Mas agora o livro acabou. Tomou uma forma definitiva. E o livro como um todo é diferente do livro há pouco absorvido em variadas e diferentes partes. Ele tem uma forma, ele tem um ser. E essa forma, esse ser, pode ser retido na mente e comparado com a forma de outros livros e se lhe pode atribuir o seu próprio tamanho e insignificância em comparação com os deles.

Mas se esse processo de julgar e decidir está cheio de prazer, está também cheio de dificuldades. Não se pode esperar muita ajuda do exterior. Críticos e resenhas críticas abundam, mas ler as opiniões de outra mente não ajuda muito quando a nossa ainda está fervendo de um livro que acabamos de ler. É só depois que formamos nossa opinião que as opiniões dos outros se mostram mais esclarecedoras. É quando podemos defender nosso próprio julgamento que obtemos o máximo do julgamento dos grandes críticos – os Johnson, os Dryden e os Arnold. Para que possamos tomar nossa decisão, a melhor forma de ajudarmos a nós mesmos é, primeiro, compreender tão completa e exatamente quanto possível a impressão que o livro deixou e, depois, comparar essa impressão com as impressões que formulamos no passado. Elas estão ali, penduradas no armário da mente – as formas dos livros que já lemos, como roupas que tiramos e penduramos à espera da estação adequada. Assim, se acabamos de ler pela primeira vez, digamos, Clarissa Harlowe, nós o pegamos e deixamos que se mostre contra a forma que continua em nossa mente desde que lemos Ana Karenina. Colocamos os dois lado a lado e, imediatamente, as silhuetas dos dois livros aparecem recortadas uma contra a outra tal como o canto de uma casa (para mudar de figura) aparece recortado contra a plenitude da lua cheia. Contrastamos as características salientes de Richardson com as de Tolstói. Contrastamos a sua obliquidade e verbosidade com a brevidade e a falta de rodeios de Tolstói. Perguntamo-nos por que cada escritor escolheu um ângulo tão diferente de abordagem. Comparamos a emoção que sentimos em diferentes crises de seus livros. Especulamos sobre as diferenças entre o século dezoito na Inglaterra e o século dezenove na Rússia – mas as questões que se insinuam assim que juntamos os livros não têm fim. Assim, por etapas, fazendo perguntas e respondendo-as, descobrimos que decidimos que o livro que acabamos de ler é deste tipo ou do outro, que tem este ou aquele nível de mérito, toma o seu lugar neste ou naquele ponto na literatura como um todo. E se somos bons leitores julgamos, assim, não apenas os clássicos e as obras-primas dos mortos, mas prestamos aos escritores vivos o cumprimento de compará-los como devem ser comparados: com o padrão dos grandes livros do passado.

Assim, pois, quando os moralistas nos perguntam o que ganhamos quando nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer livros bons ao mundo e a tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente. Na verdade, o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo. Quando o dia do juízo final chegar e todos os segredos forem revelados, não devemos ficar surpresos ao saber que a razão pela qual evoluímos do macaco ao homem, e deixamos nossas cavernas e depusemos nossos arcos e flechas e sentamos ao redor do fogo e conversamos e demos aos pobres e ajudamos os doentes, a razão pela qual construímos, partindo da aridez do deserto e dos emaranhados da floresta, abrigos e sociedades, é simplesmente esta: nós desenvolvemos a paixão da leitura.
Virginia Woolf, "O sol e o peixe"