Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
terça-feira, outubro 20
Amor
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô,
Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou
a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de
meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha - com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto - ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido.
Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranquila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar - o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir - como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada - o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão - Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava - o bonde estacou, os passageiros olharam assustados. Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão - e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aleia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais. Um movimento leve e íntimo a sobressaltou - voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aleia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pelo eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranquila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário - era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega - era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno. Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria - e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.
Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito - o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu.
Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava - que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se trêmula. Porque a vida era periclitante.
Ela amava o mundo, amava o que fora criado - amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal - o cego ou o belo Jardim Botânico? - agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. O sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha? Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lado dos que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranquilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo - e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar o leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão. Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros.
Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
– O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
– Não foi nada, disse, sou um desajeitado.
Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
– Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
– Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo. Ela continuou sem força nos seus braços.
Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha - com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto - ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido.
Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranquila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar - o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir - como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada - o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão - Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava - o bonde estacou, os passageiros olharam assustados. Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão - e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aleia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais. Um movimento leve e íntimo a sobressaltou - voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aleia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pelo eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranquila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário - era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega - era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno. Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria - e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.
Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito - o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu.
Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava - que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se trêmula. Porque a vida era periclitante.
Ela amava o mundo, amava o que fora criado - amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal - o cego ou o belo Jardim Botânico? - agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. O sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha? Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lado dos que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranquilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo - e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar o leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão. Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros.
Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
– O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
– Não foi nada, disse, sou um desajeitado.
Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
– Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
– Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo. Ela continuou sem força nos seus braços.
Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.
Clarice Lispector
Baleia é a mãe
Ele gosta muito do pai. Mas gosta muito mais da mãe. Está com 12 anos e, desde quando se lembra, sempre foi assim. Nas suas memórias mais antigas, é com a mãe que ele se vê. E sorri quando mergulha nessas recordações.
Ah, que saudade daquelas primeiras tardes passadas no jardim de infância, daqueles sanduíches saborosos que a mãe punha na lancheira dele e os coleguinhas invejavam. Daqueles divinos churros vendidos na frente da escola, que espalhavam seu aroma por todo o quarteirão e que a mãe nunca se recusava a comprar para ele. Das outras delícias oferecidas num carrinho que ficava na esquina do jardim de infância. Dos amendoins, das pipocas quentinhas — salgadas e doces — que a mãe também nunca negava a ele, porque ela mesma gostava tanto daquilo tudo que ele precisava comer depressa, senão ficava sem nenhum.
Também nas fotos, é mais com a mãe que ele aparece. De vez em quando, os dois dão uma repassada nos álbuns e, enquanto ela vai repetindo que ele sempre foi uma coisinha fofa, ele olha menos para o garoto gorducho que foi, desde os tempos de bebê, e fixa os olhos na mãe, sempre sorrindo para ele como se estivesse diante do mais precioso dos bens.
São, na maioria, fotos que parecem ter sido tiradas na hora do almoço ou do jantar. Numa delas, ele está com cara de fome e com a mão estendida para uma bolacha que a mãe lhe oferece. Em outra, ele olha preocupado para a mãe, que finge querer dar uma dentada num enorme pirulito que ele segura e tenta tirar do alcance dela.
Mas a fotografia mais apreciada pelos dois é aquela em que, sentado no seu cadeirão de bebê, ele espera ansiosamente a mãe aproximar da boca dele uma colher de sopa. Sempre que chegam a essa foto, a mãe pergunta:
— Lembra como você gostava dessa brincadeira? Eu dizia que a colher era um avião e que a sua boca era um aeroporto. Você ficava tão feliz! Tomava até sopa de ervilha — você, que nunca foi muito fã de sopa de ervilha! Lembra?
Ele lembra, sim, e olha para a mãe com muita ternura. Sempre se deu melhor com ela do que com o pai. É um ranzinza o pai, sempre foi. Sempre resmungando pela casa, sempre procurando alguma coisa para pôr defeito:
— Você vai estragar esse menino, Mafalda. Olhe só como ele é desmazelado. Todas as coisas dele estão sempre fora do lugar: as roupas, os brinquedos, o material escolar. E você não vê que, comendo desse jeito, daqui a pouco ele não vai mais conseguir passar pelas portas? Será que você e ele não pensam em nada além de comer?
Depois de cada uma dessas descomposturas, ele fica muito triste com o pai e se tranca no quarto. Ali, ressentido com sua fama de guloso, promete a si mesmo que vai ficar um dia, talvez dois, sem comer.
Dali a meia hora, já faminto, abre a porta sorrindo para a mãe, que chega furtivamente com um sanduíche e um suco para ele.
Sempre foi assim sua mãe: amorosa e compreensiva. Por isso, ele está um pouco aborrecido hoje e tem vontade de se estapear quando lembra o que aconteceu. Na saída da escola, a mãe estava comprando dois saquinhos de pipoca — um para ele, outro para ela –, quando um menino da classe dele gritou para ele:
— Tchau, baleia!
Ele, no reflexo, respondeu:
— Baleia é a mãe!
No mesmo instante, arrependido como nunca tinha se sentido antes, ele ficou imaginando o que poderia dizer para se desculpar com a mãe. Mas, quando voltou os olhos para ela e a viu empenhada em jogar para dentro da boca um punhadão de pipocas, com grande alívio ele soube que a mãe não tinha percebido nada. Passou então o braço livre em torno do ombro dela e a beijou no rosto. Andando lado a lado, os dois ocupavam toda a calçada.
Ah, que saudade daquelas primeiras tardes passadas no jardim de infância, daqueles sanduíches saborosos que a mãe punha na lancheira dele e os coleguinhas invejavam. Daqueles divinos churros vendidos na frente da escola, que espalhavam seu aroma por todo o quarteirão e que a mãe nunca se recusava a comprar para ele. Das outras delícias oferecidas num carrinho que ficava na esquina do jardim de infância. Dos amendoins, das pipocas quentinhas — salgadas e doces — que a mãe também nunca negava a ele, porque ela mesma gostava tanto daquilo tudo que ele precisava comer depressa, senão ficava sem nenhum.
Também nas fotos, é mais com a mãe que ele aparece. De vez em quando, os dois dão uma repassada nos álbuns e, enquanto ela vai repetindo que ele sempre foi uma coisinha fofa, ele olha menos para o garoto gorducho que foi, desde os tempos de bebê, e fixa os olhos na mãe, sempre sorrindo para ele como se estivesse diante do mais precioso dos bens.
São, na maioria, fotos que parecem ter sido tiradas na hora do almoço ou do jantar. Numa delas, ele está com cara de fome e com a mão estendida para uma bolacha que a mãe lhe oferece. Em outra, ele olha preocupado para a mãe, que finge querer dar uma dentada num enorme pirulito que ele segura e tenta tirar do alcance dela.
Mas a fotografia mais apreciada pelos dois é aquela em que, sentado no seu cadeirão de bebê, ele espera ansiosamente a mãe aproximar da boca dele uma colher de sopa. Sempre que chegam a essa foto, a mãe pergunta:
— Lembra como você gostava dessa brincadeira? Eu dizia que a colher era um avião e que a sua boca era um aeroporto. Você ficava tão feliz! Tomava até sopa de ervilha — você, que nunca foi muito fã de sopa de ervilha! Lembra?
Ele lembra, sim, e olha para a mãe com muita ternura. Sempre se deu melhor com ela do que com o pai. É um ranzinza o pai, sempre foi. Sempre resmungando pela casa, sempre procurando alguma coisa para pôr defeito:
— Você vai estragar esse menino, Mafalda. Olhe só como ele é desmazelado. Todas as coisas dele estão sempre fora do lugar: as roupas, os brinquedos, o material escolar. E você não vê que, comendo desse jeito, daqui a pouco ele não vai mais conseguir passar pelas portas? Será que você e ele não pensam em nada além de comer?
Depois de cada uma dessas descomposturas, ele fica muito triste com o pai e se tranca no quarto. Ali, ressentido com sua fama de guloso, promete a si mesmo que vai ficar um dia, talvez dois, sem comer.
Dali a meia hora, já faminto, abre a porta sorrindo para a mãe, que chega furtivamente com um sanduíche e um suco para ele.
Sempre foi assim sua mãe: amorosa e compreensiva. Por isso, ele está um pouco aborrecido hoje e tem vontade de se estapear quando lembra o que aconteceu. Na saída da escola, a mãe estava comprando dois saquinhos de pipoca — um para ele, outro para ela –, quando um menino da classe dele gritou para ele:
— Tchau, baleia!
Ele, no reflexo, respondeu:
— Baleia é a mãe!
No mesmo instante, arrependido como nunca tinha se sentido antes, ele ficou imaginando o que poderia dizer para se desculpar com a mãe. Mas, quando voltou os olhos para ela e a viu empenhada em jogar para dentro da boca um punhadão de pipocas, com grande alívio ele soube que a mãe não tinha percebido nada. Passou então o braço livre em torno do ombro dela e a beijou no rosto. Andando lado a lado, os dois ocupavam toda a calçada.
Árvore
Onde os frutos maduram:
sal e sol em minhas veias
luz e mel em boca alheia.
Onde plantei
a alta acácia das febres
eu mesmo me deitei,
para ser a raiz da semente,
e da madeira e seiva
se fez o meu corpo.
Agora,
Chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.
Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras.
Mia Couto, “Vagas e Lumes”
sal e sol em minhas veias
luz e mel em boca alheia.
Onde plantei
a alta acácia das febres
eu mesmo me deitei,
para ser a raiz da semente,
e da madeira e seiva
se fez o meu corpo.
Agora,
Chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.
Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras.
Mia Couto, “Vagas e Lumes”
Aos 88 anos, ela se aproximou e me abraçou: era a namorada de infância
Dois momentos me tocaram fundo na primeira semana de outubro, ambos ligados a esta vida que chegou aos 90. O que chamo de vida é a de todos nós, brasileiros. O primeiro momento, tenebroso, foi a frase de um candidato à presidência do Brasil. Ela me desestruturou. A que ponto de sordidez chega a ambição de poder? A repelente, repulsiva, horrenda referência à prostituição em um cargo atribuída a Simone Tebet me deixou irado, desesperado. É vulgar, de espantosa baixeza, cafajestice. Inadmissível. Em que país vivemos? Ou viveremos?
O outro momento foi da emoção rara, que a vida às vezes nos confere. Um retorno à infância. Aos oito para nove anos fui coroinha na matriz de Araraquara. Já falei disso. E namorei Rosinha Gonçalves, linda. Linda foi até o final da vida. Namorar era olhar e sorrir. Se desse, pegar na mão, escondido do irmão, além de trocar sorrisos cúmplices e maliciosos. Depois, Rosinha passou a namorar Ronaldo Bertoldi, meu melhor amigo, vivo até hoje. Ainda amigo. Depois, comecei um flerte com Margarida Troncon, também Filha de Maria. Esta era uma associação em que todas se vestiam de branco e levavam uma fita azul. Ao se casarem e perderem a virgindade, mudavam de associação e a maioria ia para a de São José. Estas vestiam-se de preto, recebiam uma fita amarela, como minha mãe. Aliás, mamãe e a avó de Marcia eram amigas e desta associação.
Não me lembro de quanto durou o “namoro” com Margarida.
Também não me lembro de outros “namoros” de infância. Vivi, estudei, escrevi livros, casei-me com Bia, tive dois filhos, casei-me outra vez, fui traído, finalmente veio Marcia, estamos juntos há 42 anos, e ela me trouxe Rita, que me deu uma neta, Antonia, que deve ter lido Platão, O’Neill, Beckett, Beauvoir e Kafka no ventre da mãe.
Pois há um mês, terminado um encontro na Feira de Livro de Ribeirão Preto, das mais bem organizadas e consistentes há 25 anos, eu saía do palco e Marcia subiu para me ajudar a descer. Neste momento, uma mulher de 88 anos se aproximou, toda vestida de branco, me abraçou e abraçou Marcia, de 76 anos. Era Margarida Troncon, a namorada da infância.
Temos nos visto na feira da cidade, ela não perde minhas falas. Viúva, com filhas. E o mesmo rosto de quando flertávamos. Só aí fiquei sabendo que Marcia e Margarida, em momentos diferentes, nasceram e moraram na mesma rua de Araraquara, a Cinco, com uma quadra de diferença. Ali cresceram, sem saberem uma da outra. A vida ajeita as coisas ao modo dela. Com poesia, às vezes.
O outro momento foi da emoção rara, que a vida às vezes nos confere. Um retorno à infância. Aos oito para nove anos fui coroinha na matriz de Araraquara. Já falei disso. E namorei Rosinha Gonçalves, linda. Linda foi até o final da vida. Namorar era olhar e sorrir. Se desse, pegar na mão, escondido do irmão, além de trocar sorrisos cúmplices e maliciosos. Depois, Rosinha passou a namorar Ronaldo Bertoldi, meu melhor amigo, vivo até hoje. Ainda amigo. Depois, comecei um flerte com Margarida Troncon, também Filha de Maria. Esta era uma associação em que todas se vestiam de branco e levavam uma fita azul. Ao se casarem e perderem a virgindade, mudavam de associação e a maioria ia para a de São José. Estas vestiam-se de preto, recebiam uma fita amarela, como minha mãe. Aliás, mamãe e a avó de Marcia eram amigas e desta associação.
Não me lembro de quanto durou o “namoro” com Margarida.
Também não me lembro de outros “namoros” de infância. Vivi, estudei, escrevi livros, casei-me com Bia, tive dois filhos, casei-me outra vez, fui traído, finalmente veio Marcia, estamos juntos há 42 anos, e ela me trouxe Rita, que me deu uma neta, Antonia, que deve ter lido Platão, O’Neill, Beckett, Beauvoir e Kafka no ventre da mãe.
Pois há um mês, terminado um encontro na Feira de Livro de Ribeirão Preto, das mais bem organizadas e consistentes há 25 anos, eu saía do palco e Marcia subiu para me ajudar a descer. Neste momento, uma mulher de 88 anos se aproximou, toda vestida de branco, me abraçou e abraçou Marcia, de 76 anos. Era Margarida Troncon, a namorada da infância.
Temos nos visto na feira da cidade, ela não perde minhas falas. Viúva, com filhas. E o mesmo rosto de quando flertávamos. Só aí fiquei sabendo que Marcia e Margarida, em momentos diferentes, nasceram e moraram na mesma rua de Araraquara, a Cinco, com uma quadra de diferença. Ali cresceram, sem saberem uma da outra. A vida ajeita as coisas ao modo dela. Com poesia, às vezes.
Um homem bom é difícil de encontrar
A avó não queria ir para a Florida. Queria visitar uns parentes no leste do Tennessee e aproveitava todas as oportunidades para induzir Bailey a mudar de ideia. Bailey, o filho com o qual ela morava, seu único filho homem, sentado a mesa na beira da cadeira, dobrava-se sobre o alaranjado da pagina de esportes do Journal. "Olhe só isso aqui, Bailey, olhe só, leia isso aqui", disse ela em pé a seu lado, com uma das mãos no quadril magro e a outra esfregando outra folha de jornal na careca do filho. "Esse tal cara que fugiu da penitenciaria federal, o Desajustado, como ele mesmo se chama, e que foi justamente em direção a Florida... leia só o que diz aqui, veja o que ele fez com as pessoas. Vale a pena você ler. Eu é que não levaria os meus filhos, fosse lá para onde fosse, com um bandido desses assim a solta na área. Não ficaria em paz com a minha consciência."
Bailey não olhou para cima, não parou de ler o que lia, e ela então deu uma volta. Foi ficar cara a cara com a mãe das crianças, mulher nova, numa calça folgada, cujo rosto era tão largo e inocente quanto um repolho, estando envolto num lenço verde de cabeça amarrado com duas pontas no alto, como as orelhas de um coelho. Ela, sentada no sofá para alimentar o bebê, dava-lhe geleia de damasco que tirava do vidro. "À Flórida as crianças já foram", disse a velha senhora. "Deveriam leva-las a algum outro lugar, para variar, para que vejam diferentes partes do mundo e possam ter perspectivas mais amplas. Ao leste do Tennessee elas nunca foram."
A mãe das crianças nem pareceu escutar, mas o garoto de oito anos, John Wesley, parrudinho e de óculos, disse: "Se a senhora não quer ir para a Flórida, por que e que não fica em casa?". Ele e a menina, June Star, estavam lendo historias em quadrinhos no chão.
"Em casa? Duvido. Por nada desse mundo ela fica", disse June Star sem levantar a cabeça.
"Ah, é? E o que fariam vocês, se esse camarada, o Desajustado, pegasse vocês?"
"Eu quebrava a cara dele", John Wesley disse.
"Nem por um milhão de dólares ela ficava em casa" June Star disse. "Tem medo de estar perdendo coisas. Tem de ir pra toda parte com a gente."
"Esta bem, mocinha", disse a avó. "Da próxima vez que me pedir para cachear seu cabelo, você vai ver uma coisa."
June Star disse que seu cabelo já era naturalmente cacheado.
Na manhã seguinte a avo foi a primeira a entrar no carro, pronta para partir. Tinha posto num canto sua enorme malinha preta, que parecia uma cabeça de hipopótamo, por baixo da qual ela escondia numa cesta o gato, Pitty Sing. Não quis deixar o gato em casa sozinho, por três dias, porque ele sentiria muito a sua falta e ela tinha medo de que acidentalmente se asfixiasse ao se esfregar num bico de gás. Mas o filho dela, Bailey, não gostava de chegar a um motel com um gato.
A avó ia no banco de trás, no meio, com um neto de cada lado, John Wesley e June Star. Bailey e a mãe das crianças com o bebê iam na frente e eles saíram as oito e quarenta e cinco de Atlanta com o painel indicando 89.944 quilômetros rodados. A avó anotou o numero por achar que seria interessante saber quantos quilômetros eles teriam feito, quando voltassem para casa. Levaram vinte minutos para atingir a periferia da cidade.
A velha senhora se instalou a vontade, tirando as luvas brancas de algodão e pondo-as junto com a bolsa no espaço por trás do banco. A mãe das crianças continuava com a mesma calça folgada, e com o mesmo lenço verde amarrado na cabeça, mas a avó estava usando um chapéu de palha azul-marinho, com um buque de violetas brancas na aba, e um vestido também azul-marinho de bolinhas brancas. A gola e os punhos eram de organdi branco, com debruns de renda, e um ramalhete roxo de violetas de pano, que era um sachê, estava pendurado em seu peito. Qualquer um que a visse morta na estrada, em caso de acidente, logo saberia tratar-se de uma senhora distinta.
Disse que o dia, a seu ver, era bom para viajar, nem muito quente nem muito frio demais, e lembrou a Bailey que o limite de velocidade era de noventa quilômetros por hora, e que os guardas rodoviários, escondidos atrás de anúncios e de amontoados de árvores, logo saiam em disparada atrás, sem nem dar chance de reduzir. E apontou interessantes detalhes dos panoramas: Stone Mountain; o granito azulado que nalguns trechos aflorava de ambos os lados da rodovia; os barrancos brilhantes, de barro vermelho rajado ligeiramente de roxo; e as diversas plantações enfileiradas como rendilhados verdes na terra. As árvores estavam cheias de uma luz solar prateada, e até mesmo as mais insignificantes brilhavam. As crianças iam lendo suas historias em quadrinhos e a mãe tinha voltado a dormir.
"Vamos passar pela Geórgia bem rápido para não ter de olhar muita coisa" John Wesley disse.
"Eu, se eu fosse um menino", disse a avó, "eu não falaria assim desse jeito do meu estado natal. O Tennessee tem montanhas, a Geórgia tem suas colinas..."
"O Tennessee não passa de um lixão, é uma terra de arigós" John Wesley disse, "e a Geórgia também é uma porcaria de estado."
"E isso mesmo", disse June Star.
"No meu tempo", a avó disse, cruzando os dedos de veias finas, "as crianças tinham mais respeito pela terra natal, pelos pais e por tudo o mais. Procedia-se bem, naquela época. Oh, mas vejam só o pretinho, que graça!" disse e apontou para um menino negro, em pé na porta de um barraco. "Não daria um quadro?" perguntou, e todos se viraram, olhando o menino negro pelo vidro de trás. Ele deu adeus.
"Ele estava sem calça", disse June Star.
“Talvez nem tenha" a avó explicou. "Os negrinhos da roça não são assim como nós, não tem coisas." E acrescentou: "Ah, se eu soubesse pintar, bem que faria esse quadro!".
As crianças trocaram de revista.
A avó se ofereceu para segurar o bebê, que a mãe das crianças lhe passou por cima do banco. Tendo-o posto nos joelhos, ela agora o puxava para cima e lhe falava das coisas pelas quais estavam passando. Revirava os olhos, fazia bico com a boca, colava a cara magra e dura no rosto, lisinho e fofo, da criança, que de vez em quando lhe dava algum sorriso distante. Passaram por uma grande plantação de algodão com um cercado com cinco ou seis túmulos no meio, como uma ilhota.
"Olhem lá o cemitério!" disse a avó, apontando. "O antigo campo- santo da família. Pertencia á fazenda."
"E onde esta a fazenda?" John Wesley perguntou.
"E o vento levou..." disse a avó. "Ha, ha."
As crianças, quando acabaram todas as revistas levadas, abriram e comeram seus lanches. A avó comeu um sanduiche de pasta de amendoim e uma azeitona e não deixou as crianças jogarem pela janela os guardanapos e sacos de papel. Quando não tinham mais o que fazer, brincaram de escolher uma nuvem para os outros adivinharem a forma que ela sugeria. John Wesley escolheu uma nuvem que tinha forma de vaca, June Star falou vaca e ele disse que não, que era carro, e June Star disse que John Wesley estava jogando sujo e logo estavam os dois, por cima da avó, aos tapas. A avó disse que contaria uma historia se eles ficassem quietos. E ela, quando contava uma historia, revirava os olhos e agitava a cabeça e era toda dramática. Contou então que nos seus tempos de moça tinha sido cortejada por um rapaz de Jasper, na Geórgia, chamado Charles Otoline Miles Erlanger Robertson. Um rapaz muito atraente, um cavalheiro, segundo a avó, que todo sábado á tarde, quando a visitava, levava-lhe uma melancia com suas iniciais gravadas: C.O.M.E R. Num desses sábados, como ela disse, Robertson chegou com a melancia e não havia ninguém em casa e ele a deixou na varanda e voltou para Jasper na charrete, mas essa melancia ela nunca viu, porque um negrinho a devorou, como ela disse, quando leu as iniciais C.O.M.E.R. A historinha agradou em cheio a John Wesley, que estourou numa gargalhada e se retorcia de rir, mas June Star não achou graça nenhuma. Disse que jamais se casaria com um homem que se limitasse a levar-lhe uma melancia no sábado. Já a avó disse que para ela teria sido uma beleza se casar com Robertson, porque ele era um homem muito distinto e comprou ações da Coca-Cola logo que foram lançadas e só tinha morrido ha poucos anos, riquíssimo.
Pararam para comer uns sanduiches grelhados num lugar chama- The Tower. Era um misto de salão de festas e posto de gasolina, parte em madeira, parte em estuque, instalado numa clareira nos arredores de Timothy. O dono era um gordo, Red Sammy Butts, e havia placas penduradas ali por toda parte, e por quilômetros na rodovia, dizendo: EXPERIMENTE O AFAMADO GRELHADO DE RED SAMMY. NENHUM SE COMPARA AO DELE! RED SAM, O GORDINHO DA RISADA FELIZ! UM VETERANO! RED SAMMY, O HOMEM CERTO!
Deitado no chão, do lado de fora do The Tower, estava o próprio Red Sammy. Tinha a cabeça enfiada embaixo de um caminhão, enquanto um mico cinzento de seus trinta centímetros, amarrado pela corrente a um pé de saboeiro, fazia papaguaiatas por perto. Bastou ver as crianças saltarem do carro e correrem na sua direção para o mico pular de volta na arvore e subir ao galho mais alto.
Por dentro, The Tower era um salão comprido e escuro, com um balcão de um lado, mesas do outro, e um espaço para dançar no meio. Sentaram-se a uma mesa de tábuas, ao lado da vitrola automática, e a mulher de Red Sam, alta, queimada, de cabelo e olhos mais claros do que sua pele morena, veio atende-los. A mãe das crianças pôs uma moeda na maquina e escolheu "A valsa do Tennessee". A avo disse que sempre sentia vontade de dançar com essa musica e perguntou a Bailey se ele dançaria com ela, mas ele apenas a olhou de banda.
"Que gracinha!" disse a mulher de Red Sam, debruçada no balcão. "Você quer vir morar comigo? Quer ser a minha filhinha?"
"Nem por sombra", June Star disse, "nem por um milhão de dólares eu moraria num lugar tão caído assim!" e voltou correndo para a mesa.
"Mas não e mesmo uma gracinha?", repetia a mulher, esticando polidamente os beiços.
A avo ralhou: "Não tem vergonha não?".
Red Sam entrou e disse a esposa para correr com o pedido dos fregueses, em vez de ficar ali no balcão fazendo hora. Sua calça caqui vinha arriada até quase as coxas, sob o peso da barriga que despencava como um saco de farinha trepidando por baixo da camisa. Aproximou-se, sentou-se perto e deixou escapar algo impreciso, combinação de suspiro e cantoria. "Não dá pra levar" dizia. “Assim não dá pra levar!" e com um lenço acinzentado enxugava o suor do rosto vermelho. "Hoje em dia não se pode confiar em ninguém", disse depois. "Não é verdade?"
"As pessoas certamente não são mais tão gentis como já foram", disse a avó.
"Semana passada" disse Red Sammy, "vieram aqui dois camaradas, num Chrysler. Um carro velho, muito rodado, mas bom, e os rapazes me pareciam gente direita. Disseram que trabalhavam no moinho, e não é que eu vendi gasolina fiado para eles? Por que fui fazer isso?"
"Porque o senhor é um homem bom", a avó disse.
"É, dona, acho que sim", disse Red Sam, como se ficasse, ele mesmo, espantado com a resposta.
Sua mulher chegou com os pedidos, carregando os cinco pratos, sem bandeja, de uma só vez: dois em cada mão e mais um equilibrado no braço. "Não há alma que seja neste mundo de Deus", disse ela, "em quem se possa confiar. E eu não excluo ninguém, ninguém mesmo", repetiu, olhando para Red Sammy.
“Vocês leram alguma coisa sobre aquele bandido, o Desajustado, que fugiu da cadeia?" a avó perguntou.
"Eu não ficaria nem um pouco surpresa se agora mesmo ele atacasse esse lugar aqui", disse a mulher. "Se ele souber que nós estamos aqui, e se me aparecer pela frente, não ficarei nada surpresa. Se souber que na caixa registradora tem algum dinheiro, não ficarei nada surpresa se ele..."
"Chega!" Red Sam disse. "Traz logo as Cocas dos fregueses", e a mulher lá se foi a completar o pedido.
"Um homem bom e difícil de encontrar", disse Red Sammy. "Tudo está ficando um horror. Lembro do tempo em que se podia sair tranquilamente de casa e deixar a porta aberta. Agora não mais."
Ele e a avó se distraíram conversando sobre tempos melhores. A culpada era a Europa, na opinião da velha senhora, se as coisas andavam assim agora. Pela atitude da Europa, segundo ela, até se poderia pensar que os americanos eram feitos de dinheiro, e Red Sam disse que nem adiantava falar daquilo, que ela estava coberta de razão. As crianças correram para fora, para a claridade do sol, e foram ver o macaquinho no saboeiro rendado. O mico estava entretido, catando pulgas que comia, como guloseimas, com um demorado estalar de dentes.
Depois, pela tarde quente, a família prosseguiu em viagem. A avó dava umas cochiladas e de quando em quando era despertada pelos seus próprios roncos. Nos arredores de Toombsboro, ao acordar de vez, lembrou-se de uma velha fazenda que ela havia visitado por ali, na região, quando moça. Disse que a casa tinha seis colunas brancas na frente, uma fileira de carvalhos conduzindo à entrada e dois pequenos caramanchões de madeira, bem na frente, um de cada lado, onde as moças sentavam-se com os pretendentes, depois de algumas voltas no jardim.
A estrada que era preciso pegar para chegar até lá veio-lhe com precisão à memoria. Ela sabia que Bailey não concordaria em perder tempo só para ir ver uma casa velha, mas quanto mais falava nisso, mais ela queria revê-la, querendo saber se os caramanchões geminados ainda estavam de pé "Havia nessa casa uma passagem secreta", disse pois com astucia, sem contar uma verdade, mas desejando que assim fosse, "e diziam que a prataria da família foi toda escondida lá, quando Sherman passou por aqui, e nunca pode ser encontrada..."
"Oba, então vamos lá!", John Wesley disse. "Vamos descobrir essa prata! E só abrir o madeirame, e só ir tirando as tabuas, que a gente acha. Quem mora lá? Onde e que se pega o caminho? Ei, pai, não dá para dobrar por ali?"
“Nunca vimos uma casa com passagem secreta", berrou June Star. "Vamos ver a casa com passagem secreta! Oba! Papai, temos de ir ver a casa com passagem secreta!"
"Eu sei que não fica longe daqui", disse a avó. "Nem bem uns vinte minutos."
Bailey olhava reto em frente, com o queixo tão rígido quanto uma ferradura. "Não", ele disse.
A gritaria das crianças, querendo ver a casa com passagem secreta, não fez senão aumentar. John Wesley chutava as costas do banco dianteiro, e June Star se pendurou no ombro da mãe, em cujo ouvido choramingou desesperada que era sempre assim mesmo, que nem nas ferias eles se divertiam, que eles nunca podiam fazer o que eles mesmos queriam. O bebê já estava berrando. E os chutes de John Wesley no assento se tornavam tão fortes que o pai já sentia os golpes nos rins.
"Tá legal!" o pai gritou, e parou o carro no acostamento. "Mas vocês querem calar a boca? Querem calar a boca um minuto? Se não se calarem, não vamos a lugar nenhum."
"Mas seria muito instrutivo para eles" murmurou a avó.
"Está bem", Bailey disse, "mas anotem: e a única vez em que nos vamos parar por uma coisa dessas. É a primeira e ultima vez."
"A estrada de terra que você tem de pegar já ficou lá para trás, a uns dois quilômetros", a avó orientou. "Eu a notei quando passamos."
"Estrada de terra...", resmungou Bailey.
Quando já iam, depois de terem feito um retorno, em direção a al estrada, a avó rememorou outros detalhes da casa, como o belo vitral sobre a entrada e o candelabro do salão. John Wesley disse que a passagem secreta provavelmente ficava na lareira.
"Não se pode entrar na casa", Bailey disse. "Nem sabemos quem mora lá."
"Posso ir por trás, enquanto vocês conversam com as pessoas na frente, e entrar por uma janela", John Wesley sugeriu.
"Não", disse a mãe, "vamos ficar todos no carro."
O carro, sacolejando muito, entrou pela estradinha de barro num turbilhão de poeira cor-de-rosa. A avó se lembrou dos tempos em que não havia estradas asfaltadas e se levava um dia inteiro para andar cinquenta quilômetros. A estradinha era acidentada e íngreme, com inesperadas crateras de atoleiros e curvas muito fechadas em perigosos barrancos. Ora eles estavam bem no alto de um morro, vendo as copas azuladas das arvores que se estendiam lá embaixo, por quilômetros em torno, ora, logo a seguir, já estavam numa depressão de terra vermelha, com arvores empoeiradas por cima.
"É melhor esse lugar aparecer logo", Bailey disse, "porque senão eu vou voltar."
Dava a impressão de que ninguém, há meses, passava naquela estrada.
"Não esta muito longe", disse a avó, e justamente quando o disse ela teve um pensamento horroroso. Um pensamento tão embaraçoso que seu rosto corou, seus olhos se dilataram e os pés se mexeram muito no chão, atingindo e deslocando a maletinha no canto. No mesmo instante em que a valise se moveu, a folha de jornal que ela usava como tampa da cesta que estava embaixo se levantou com um miado e voou no ombro de Bailey.
As crianças foram jogadas no chão. A mãe, agarrada ao bebê, foi jogada porta afora, na estrada. A velha senhora jogada para o banco da frente. O carro deu uma capotada e voltou à posição normal, mas fora da estrada, e numa vala. Bailey permanecia no lugar do motorista com o gato - listrado de cinza, cara branca achatada e focinho cor de laranja - agarrado como lagarta em seu pescoço.
As crianças, assim que conseguiram mexer braços e pernas, saíram se espremendo do carro, e gritavam: "Tivemos um acidente!". Ja a avó se encolheu sob o painel, com a esperança de estar ferida para que a ira de Bailey não se abatesse implacável sobre ela. O pensamento horroroso que havia tido, pouco antes do acidente, foi que a casa da qual ela se lembrava tão bem não ficava na Geórgia, mas sim no Tennessee.
Bailey tirou o gato do pescoço, com ambas as mãos, e o arremessou contra o caule de um pinheiro, pela janela. Depois, saindo do carro, foi procurar a mãe das crianças. Essa, que estava ao lado da valeta estripada, e ali sentada segurava o bebé aos berros, tinha ela mesma apenas uma fratura no ombro e um corte feio no rosto. "Tivemos um acidente!" gritavam as crianças numa alegria frenética.
"Mas não morreu ninguém'', disse, desapontada, June Star, quando a avó desceu mancando do carro com o chapéu ainda preso na cabeça, malgrado a aba desabada na frente, que ela tentava recolocar numa posição elegante, e o buque de violetas caído ao lado. Sentaram-se todos na valeta, menos as crianças, todos tremendo muito, para se refazerem do susto.
"Talvez venha um carro por aí, disse a mãe das crianças com a voz embargada.
"Acho que algum órgão meu foi afetado", disse a avó, apalpando- se de um lado do corpo, mas ninguém ligou para ela. Os dentes de Bailey batiam sem parar. Vestido numa camisa esporte amarela, na qual brilhavam, estampadas, umas araras-azuis, ele estava com o rosto da mesma cor da camisa. A avó achou melhor não dizer que a tal da casa era no Tennessee.
A estrada se encontrava cerca de três metros acima, e eles podiam ver apenas, do outro lado, o topo das arvores. Por trás da vala na qual estavam sentados se estendia a mata cerrada, escura e alta. Em poucos minutos avistaram um carro, não muito longe, no cocuruto de um morro, que vinha bem devagar, como se seus ocupantes os observas- sem. A avó, para lhes chamar a atenção, levantou-se em espalhafatosos acenos, agitando os dois braços. O carro, que continuava a se aproximar lentamente, desapareceu numa curva e ressurgiu adiante ainda mais devagar, já no cume do morro por que eles tinham passado. Era um grande automóvel preto e velho, em péssimo estado, que mais parecia um carro fúnebre. Levava três homens dentro.
Parou bem por cima deles e, por alguns minutos, o motorista ficou olhando para baixo, lá para onde eles estavam, de um modo fixo, porém sem expressão, e não disse nada. Depois, virando-se de cabeça, sussurrou algo aos outros dois, que desceram. Um, o gordo, de calça preta, que usava uma camiseta vermelha adornada no peito por um garanhão prateado, passou por eles e foi plantar-se à direita, do outro lado, de onde concentradamente os olhava, com uma espécie de riso frouxo na boca aberta pelo meio. O outro, de calça caqui e paletó listrado de azul, com um chapéu cinza tão enterrado na testa que lhe ocultava a maior parte do rosto, lentamente se aproximou pela esquerda. Nenhum dos dois falava nada.
O motorista saltou, mas continuou ao lado do carro, de pé, olhando para eles lá embaixo. Era mais velho do que os outros dois homens. Seu cabelo já estava meio grisalho, e os óculos de aros prateados davam-lhe um ar estudioso. Tinha o rosto enrugado e o peito nu, sem camisa nem camiseta. Sua calça blue jeans estava muito apertada e ele empunhava um revolver, tendo na outra mão seu chapeu preto. Os dois rapazes também estavam armados.
"Sofremos um acidente", as crianças gritavam.
A avó teve a nítida impressão de que já conhecia aquele homem de óculos. Seu rosto lhe era bem familiar, como se o tivesse conhecido a vida toda, e ela no entanto não conseguia se lembrar quem era. Ele se afastou do carro e começou a descer pelo barranco, firmando os pés com atenção, para não escorregar. Usava sapatos de duas cores, marrom e branco, sem meias, e tinha os tornozelos muito vermelhos e finos. "Boa tarde", ele disse. "Tiveram um probleminha, né?"
"Capotamos duas vezes!", disse a avó.
“Uma” ele corrigiu. "Nos vimos quando aconteceu. Ligue lá o carro deles, Hiram, pra ver se pega", disse calmamente para o rapaz de chapéu cinza.
"Pra que essa arma?", perguntou John Wesley. "Vai fazer o que com essa arma, hein?"
"Minha senhora", disse o homem para a mãe das crianças, "mande essas crianças sentarem-se ai ao seu lado, sim? Crianças me põem nervoso. Quero todos vocês sentados juntos aí, aí mesmo onde estão."
"Por que é que você está dando ordens pra gente?" June Star perguntou.
A mata se abria, por trás deles, como uma boca escura. "Venham pra cá", disse a mãe.
"Olha aqui", disse Bailey bruscamente, "nós estamos numa enrasca- da! Estamos nu..."
A avó deu um grito. Ficou em pé, encarou o homem e disse: "O senhor e o Desajustado! Eu logo vi!".
"É, dona, sou sim", disse o homem, com um ligeiro sorriso, como que satisfeito de sua fama, apesar dos pesares, "mas seria muito melhor para todos se a senhora não tivesse me reconhecido."
Bailey se virou abruptamente e disse para a sua mãe qualquer coisa que deixou até mesmo as crianças chocadas. A velha senhora começou a chorar, e o Desajustado corou.
"Minha senhora", ele disse, "não fique triste. As vezes um homem diz coisas sem querer. A intenção dele, penso eu, não era falar assim com a senhora."
"O senhor não atiraria em mulher, não é?" disse a avó, tirando do punho do vestido um lencinho limpo para enxugar os olhos
O Desajustado enfiou o bico de seu sapato na terra e fez um buraquinho que depois tampou. "Eu detestaria ter de fazer isso" disse.
"Escute aqui", disse a avó quase gritando, "eu sei que o senhor é um homem bom. Não aparenta nem um pouco ser pessoa comum. Sei que deve ser de boa familial"
"Ah, isso sim", disse ele, "da melhor do mundo." Deixava a mostra, quando ria, seus dentes brancos e fortes. "Deus nunca fez mulher mais perfeita do que a minha mãe, e o coração do meu pai era ouro puro", ele disse. O rapaz de camiseta vermelha deu a volta e, com sua arma apoiada na cintura, ficou em pé por trás deles. O Desajustado se agachou. "Olho nessas crianças, Bobby Lee", disse ele. "Você sabe que elas me deixam nervoso." Olhava para o grupo dos seis amontoados ali na sua frente e parecia confuso, como se não achasse o que dizer. "Nem uma nuvem no céu, não é?" observou, olhando para as alturas. "Não se vê o sol, mas também não se vê nuvem."
"Pois é, está um dia lindo!" disse a avó. "Mas ouça" acrescentou, "o senhor não deveria se chamar de Desajustado, porque eu sei que é um homem de bom coração. Basta olhar a sua pessoa, que eu logo vejo."
"Silêncio", gritou Bailey. "Boca calada todo mundo! Deixem comigo que eu resolvo a parada." Ele estava a postos, na posição de um corredor na largada, mas não se moveu.
"Obrigado por suas boas palavras, minha senhora" disse o Desajustado, traçando com o cabo da arma uma rodinha no chão.
"Levaria uma meia hora para ajeitar esse carro", gritou Hiram, olhando por cima do capô aberto.
'Tudo bem, mas primeiro você e o Bobby Lee levem o cara e o garotinho para dar uma andada", disse o Desajustado, apontando Bailey e John Wesley. "Os rapazes querem te perguntar uma coisa", disse ele para Bailey. "Pode dar uma chegadinha ali na mata com eles?"
"Escute aqui", começou Bailey, "nos estamos numa enrascada terrível! Será que ninguém percebe?" mas sua voz sumiu, e ele permaneceu completamente parado, com os olhos de um azul tão intenso quanto as araras da camisa que usava.
A avó se esticou para ajeitar a beirada do chapéu, como se tivesse de ir para a mata também, mas o chapéu acabou caindo na sua mão. Ela o olhou por algum tempo e depois o deixou cair no chão. Hiram puxou Bailey pelo braço, como se estivesse ajudando a um velho. John Wesley se agarrou na mão do pai, e Bobby Lee os seguiu. Foram lá para a mata, e quando estavam chegando a orla escura Bailey se virou e, apoiado no caule nu e acinzentado de um tronco de pinheiro, gritou: "Eu volto logo, mamãe, me espere aí!".
"Volte já! Agora mesmo!", gritou a mãe, mas todos tinham desaparecido na mata.
"Bailey, meu filho!" chamou a avó numa voz trágica, mas deu-se conta de que tinha pela frente, agachado no chão, o Desajustado, para o qual alias estava olhando. "Sei que o senhor e um homem bom", disse, desesperada. "Não é uma pessoa qualquer!"
"Não, dona, não sou bom não", o Desajustado disse um segundo depois, como se houvesse refletido sobre o que ela tinha dito, "mas também não sou o pior do mundo. Meu pai dizia que eu era de outra raça, diferente dos meus irmãos e irmãs. Dizia que há pessoas capazes de passar a vida toda sem perguntar por quê, mas que outras tem de saber o porquê das coisas, e que eu era desse tipo e ia me meter em tudo." Pôs o chapéu preto, olhou bruscamente para cima e logo desviou o olhar lá para a mata, como se estivesse novamente sem jeito.
"Mas então está tudo bem" disse a avó. "Bailey deve ter uma camisa extra na mala."
"Ah, eu vou dar uma olhada", disse o Desajustado.
"Para onde estão levando eles?", berrou a mãe das crianças.
"O meu velho era um colosso. Ninguém passava a perna nele. Nunca se meteu numa encrenca, sabia como lidar com autoridades."
"O senhor também, se quisesse tentar, poderia ser honesto", disse a avó. "Já pensou que maravilha seria fixar-se numa vida tranquila, sem ter de pensar se há alguém a persegui-lo o tempo todo?"
O Desajustado pareceu refletir. Continuava rabiscando no chão, com o cabo da arma, e disse: "Tem sempre alguém atrás da gente".
A avó pode notar que os ombros dele eram estreitos demais, logo abaixo do chapéu, porque, estando em pé, ela o via de cima. "Costuma rezar?", perguntou.
Ele meneou a cabeça. Ela só viu o chapéu preto balançando em seus ombros. E ele disse: "Não".
A um tiro de pistola na mata seguiu-se logo mais um. Depois, silencio. A cabeça da avo rodopiou. Ela ouviu o vento passando pelo alto das arvores como uma tomada de ar longa e satisfatória. "Bailey, meu filho!" gritou.
"Por uns tempos, fui cantor gospel", disse o Desajustado. "Já fiz um pouco de tudo. Fiz meu serviço militar, em terra e no mar, no país e lá fora, já me casei duas vezes, já fui agente funerário, já fui ferroviário e já lavrei a mãe terra, estive em um tornado, certa vez vi um homem queimado vivo..." e olhou para a mãe das crianças e a garota, que estavam sentadas bem juntinhas, com o rosto pálido e os olhares vidrados. "Vi até uma mulher ser chicoteada", acrescentou.
"Reze", interveio a avó. "Reze..."
"Não me lembro de ter sido um mau menino", o Desajustado disse, numa voz como que em devaneio, "mas o fato e que lá pelas tantas fiz alguma coisa de errado e fui para a cadeia. Enterrado vivo, na penitenciária" e olhou para cima, prendendo-lhe a atenção com um olhar persistente.
"Era então que devia ter começado a rezar", ela disse. "O que foi que fez para ser mandado para a penitenciária dessa primeira vez?"
"Do lado direito uma parede" disse o Desajustado, "do lado esquerdo outra. Se eu me virasse para cima, via o teto; para baixo, o chão. Esqueci o que eu fiz, minha senhora. Sentava lá e ficava tentando lembrar o que eu tinha feito e até hoje não lembro. De vez em quando parecia que ia vir, que eu ia me lembrar, mas não vinha."
"Talvez o tenham prendido por engano", disse vagamente a velha senhora.
"Não", ele disse. "Não houve erro. Sabiam tudo a meu respeito."
"Teria roubado alguma coisa, por acaso?" ela disse.
O Desajustado, zombando um pouco, riu. "Ninguém tinha nada que eu quisesse" disse. "Um medico lá da penitenciaria, um medico de cabeça, sabe, cismou que eu mesmo tinha matado meu pai. Invenção dele, é claro. Meu pai morreu na epidemia de gripe de 1919, e eu nunca tive nada com isso. Foi enterrado no cemitério da igreja batista de Mount Hopewell. Se quiser, pode ir lá ver."
"Jesus lhe ajudaria" disse a velha senhora, "se o senhor rezasse."
"Isso é verdade", disse o Desajustado.
"Mas então por que não reza?" perguntou ela, trêmula, num repentino deleite.
"Não quero ajuda", disse ele. "Tenho me dado bem sozinho."
Bobby Lee e Hiram voltaram da mata a passos lentos. O primeiro arrastando uma camisa amarela com araras-azuis muito brilhantes.
"Jogue essa camisa pra mim", disse o Desajustado. E a camisa veio voando, pousou em seu ombro e ele a vestiu. A avó não conseguia saber o que é que a camisa lhe trazia a lembrança. "Não, dona" disse o Desajustado, enquanto a abotoava, "eu descobri que o crime não importa. Você pode fazer isso ou aquilo, matar um homem ou roubar um pneu do carro dele, porque mais cedo ou mais tarde você se esquecerá do que fez e será punido justamente por isso."
A mãe das crianças começou a dar uns gemidos, como se não pudesse respirar muito bem. "Dona", ele pediu, "pode dar uma chegada com Bobby Lee e Hiram ate ali, com a garotinha, para juntar-se ao seu marido?"
"Sim, obrigada" disse, enfraquecida, a mulher. Seu braço esquerdo pendia bambo, e com o outro ela amparava o bebe, que agora estava dormindo. "Ajude a moça, Hiram", disse o Desajustado, quando ela já se esforçava para sair da valeta, "enquanto o Bobby Lee pega a garota pela mão."
"Não quero que ele me pegue pela mão", disse June Star. "Parece um porco."
O gordo corou e riu e a pegou pelo braço e foi levando para a mata atrás de Hiram e da mãe.
Sozinha com o Desajustado, a avó constatou ter perdido a voz. Não havia uma só nuvem, nem sol, no céu. Nada, em torno dela, a não ser a mata. Ela queria dizer que ele devia rezar. Abriu e fechou diversas vezes a boca, mas a frase não saía. Finalmente deu consigo dizendo: "Jesus, Jesus", querendo dizer Jesus vai lhe ajudar, embora mais parecesse estar xingando, pelo modo como falou.
"É, dona", disse o Desajustado, como se concordasse. "Jesus desequilibrou as coisas. O mesmo caso, o dele e o meu, só que ele não praticou nenhum crime, e o meu eles puderam provar, porque tinham tudo anotado na minha ficha. É claro", disse ele, "que nunca me mostraram a ficha. Por isso agora assino tudo. Ha muito que eu digo, o negócio é caprichar na assinatura, assinar tudo que fizer e guardar cópia. Você assim poderá saber o que fez, podendo comparar o crime ao castigo, para ver se correspondem, e por fim terá alguma coisa para provar, se não for tratado direito. Se eu me chamo Desajustado", disse ele, "e porque não faço esse ajuste, não consigo encaixar as coisas para que tudo que eu fiz de errado corresponda a tudo que sofri de castigo."
Veio da mata um grito lancinante, logo seguido por um tiro de pistola. "A senhora acha justo que um receba punição rigorosa e outro nem sequer seja punido?"
"Jesus!", gritou a velha. "O senhor tem sangue bom. Tenho certeza de que não atiraria numa mulher. Sei que vem de boa família... Jesus, reze! Numa senhora o senhor não deve atirar. Eu lhe dou todo o dinheiro que eu tenho!"
"Minha senhora", disse o Desajustado, olhando bem além dela, para a mata, "cadáver não dá gorjeta para quem faz o serviço."
Houve mais dois tiros de pistola e a avó ergueu a cabeça, como uma perua sedenta pedindo agua para se refrescar, e gritou: "Bailey, meu filho! Bailey, meu filho!" como se o seu coração fosse explodir.
"Jesus foi o único a ressuscitar os mortos" prosseguiu o Desajustado, "e ele não devia ter feito isso. Desequilibrou tudo. Se ele fazia o que dizia, não temos outra coisa a fazer a não ser renunciar a tudo e segui-lo. Mas, se não fazia, então o que nos cabe e desfrutar dos poucos minutos que nos restam da melhor maneira possível - matando alguém ou queimando a casa de alguém ou lhe fazendo alguma outra maldade. Sem maldade não ha prazer", disse ele, e sua voz era quase um rosnado.
"Vai ver que ele não ressuscitou os mortos", murmurou a velha senhora, já sem saber o que dizia e se sentindo tão tonta que arriou na vala, a medida que suas pernas foram se retorcendo.
"Se fez ou não fez, não sei, porque eu não estava lá", disse o Desajustado. "E bem que eu gostaria de ter estado", acrescentou, dando um soco no chão. "Não é justo ser assim, porque, se eu tivesse estado lá, eu saberia. Sabe de uma coisa, madame", disse em voz alta: "Se eu tivesse estado lá, eu saberia, e não seria como sou agora". Sua voz parecia a ponto de rachar, e a cabeça da avó clareou por um instante. Ela viu o rosto do homem contorcendo-se próximo ao dela, como se ele fosse chorar, e balbuciou: "Mas você é uma das minhas crianças, um dos meus filhinhos!" esticando o braço para toca-lo no ombro. O Desajustado deu um pulo para trás, como se uma cobra o picasse, e atirou três vezes nela, todas no peito. Depois botou a arma no chão, tirou os óculos e começou a limpá-los.
Hiram e Bobby Lee voltaram da mata e pararam na beirada da vala, de onde olhavam para a avó lá embaixo, meio sentada, meio deitada numa poça de sangue, com as pernas cruzadas sob o corpo, como pernas de criança, e o rosto rindo para o alto, para o céu sem nuvens.
Os olhos do Desajustado, sem os óculos, eram lívidos, orlados de vermelho e indefesos. "Levem ela daqui e joguem lá onde jogaram os outros" disse ele, apanhando o gato, que se esfregava em sua perna.
"Ela falava demais, né?" disse em voz cantante Bobby Lee, ao escorregar vala adentro.
"Seria até boa mulher", o Desajustado disse, "se a cada instante de sua vida houvesse alguém nas cercanias para lhe dar um tiro."
"Teria sido gozado!" disse Bobby Lee.
"Cala essa boca, Bobby Lee!", disse o Desajustado. "É, na vida não há prazer verdadeiro."
Bailey não olhou para cima, não parou de ler o que lia, e ela então deu uma volta. Foi ficar cara a cara com a mãe das crianças, mulher nova, numa calça folgada, cujo rosto era tão largo e inocente quanto um repolho, estando envolto num lenço verde de cabeça amarrado com duas pontas no alto, como as orelhas de um coelho. Ela, sentada no sofá para alimentar o bebê, dava-lhe geleia de damasco que tirava do vidro. "À Flórida as crianças já foram", disse a velha senhora. "Deveriam leva-las a algum outro lugar, para variar, para que vejam diferentes partes do mundo e possam ter perspectivas mais amplas. Ao leste do Tennessee elas nunca foram."
A mãe das crianças nem pareceu escutar, mas o garoto de oito anos, John Wesley, parrudinho e de óculos, disse: "Se a senhora não quer ir para a Flórida, por que e que não fica em casa?". Ele e a menina, June Star, estavam lendo historias em quadrinhos no chão.
"Em casa? Duvido. Por nada desse mundo ela fica", disse June Star sem levantar a cabeça.
"Ah, é? E o que fariam vocês, se esse camarada, o Desajustado, pegasse vocês?"
"Eu quebrava a cara dele", John Wesley disse.
"Nem por um milhão de dólares ela ficava em casa" June Star disse. "Tem medo de estar perdendo coisas. Tem de ir pra toda parte com a gente."
"Esta bem, mocinha", disse a avó. "Da próxima vez que me pedir para cachear seu cabelo, você vai ver uma coisa."
June Star disse que seu cabelo já era naturalmente cacheado.
Na manhã seguinte a avo foi a primeira a entrar no carro, pronta para partir. Tinha posto num canto sua enorme malinha preta, que parecia uma cabeça de hipopótamo, por baixo da qual ela escondia numa cesta o gato, Pitty Sing. Não quis deixar o gato em casa sozinho, por três dias, porque ele sentiria muito a sua falta e ela tinha medo de que acidentalmente se asfixiasse ao se esfregar num bico de gás. Mas o filho dela, Bailey, não gostava de chegar a um motel com um gato.
A avó ia no banco de trás, no meio, com um neto de cada lado, John Wesley e June Star. Bailey e a mãe das crianças com o bebê iam na frente e eles saíram as oito e quarenta e cinco de Atlanta com o painel indicando 89.944 quilômetros rodados. A avó anotou o numero por achar que seria interessante saber quantos quilômetros eles teriam feito, quando voltassem para casa. Levaram vinte minutos para atingir a periferia da cidade.
A velha senhora se instalou a vontade, tirando as luvas brancas de algodão e pondo-as junto com a bolsa no espaço por trás do banco. A mãe das crianças continuava com a mesma calça folgada, e com o mesmo lenço verde amarrado na cabeça, mas a avó estava usando um chapéu de palha azul-marinho, com um buque de violetas brancas na aba, e um vestido também azul-marinho de bolinhas brancas. A gola e os punhos eram de organdi branco, com debruns de renda, e um ramalhete roxo de violetas de pano, que era um sachê, estava pendurado em seu peito. Qualquer um que a visse morta na estrada, em caso de acidente, logo saberia tratar-se de uma senhora distinta.
Disse que o dia, a seu ver, era bom para viajar, nem muito quente nem muito frio demais, e lembrou a Bailey que o limite de velocidade era de noventa quilômetros por hora, e que os guardas rodoviários, escondidos atrás de anúncios e de amontoados de árvores, logo saiam em disparada atrás, sem nem dar chance de reduzir. E apontou interessantes detalhes dos panoramas: Stone Mountain; o granito azulado que nalguns trechos aflorava de ambos os lados da rodovia; os barrancos brilhantes, de barro vermelho rajado ligeiramente de roxo; e as diversas plantações enfileiradas como rendilhados verdes na terra. As árvores estavam cheias de uma luz solar prateada, e até mesmo as mais insignificantes brilhavam. As crianças iam lendo suas historias em quadrinhos e a mãe tinha voltado a dormir.
"Vamos passar pela Geórgia bem rápido para não ter de olhar muita coisa" John Wesley disse.
"Eu, se eu fosse um menino", disse a avó, "eu não falaria assim desse jeito do meu estado natal. O Tennessee tem montanhas, a Geórgia tem suas colinas..."
"O Tennessee não passa de um lixão, é uma terra de arigós" John Wesley disse, "e a Geórgia também é uma porcaria de estado."
"E isso mesmo", disse June Star.
"No meu tempo", a avó disse, cruzando os dedos de veias finas, "as crianças tinham mais respeito pela terra natal, pelos pais e por tudo o mais. Procedia-se bem, naquela época. Oh, mas vejam só o pretinho, que graça!" disse e apontou para um menino negro, em pé na porta de um barraco. "Não daria um quadro?" perguntou, e todos se viraram, olhando o menino negro pelo vidro de trás. Ele deu adeus.
"Ele estava sem calça", disse June Star.
“Talvez nem tenha" a avó explicou. "Os negrinhos da roça não são assim como nós, não tem coisas." E acrescentou: "Ah, se eu soubesse pintar, bem que faria esse quadro!".
As crianças trocaram de revista.
A avó se ofereceu para segurar o bebê, que a mãe das crianças lhe passou por cima do banco. Tendo-o posto nos joelhos, ela agora o puxava para cima e lhe falava das coisas pelas quais estavam passando. Revirava os olhos, fazia bico com a boca, colava a cara magra e dura no rosto, lisinho e fofo, da criança, que de vez em quando lhe dava algum sorriso distante. Passaram por uma grande plantação de algodão com um cercado com cinco ou seis túmulos no meio, como uma ilhota.
"Olhem lá o cemitério!" disse a avó, apontando. "O antigo campo- santo da família. Pertencia á fazenda."
"E onde esta a fazenda?" John Wesley perguntou.
"E o vento levou..." disse a avó. "Ha, ha."
As crianças, quando acabaram todas as revistas levadas, abriram e comeram seus lanches. A avó comeu um sanduiche de pasta de amendoim e uma azeitona e não deixou as crianças jogarem pela janela os guardanapos e sacos de papel. Quando não tinham mais o que fazer, brincaram de escolher uma nuvem para os outros adivinharem a forma que ela sugeria. John Wesley escolheu uma nuvem que tinha forma de vaca, June Star falou vaca e ele disse que não, que era carro, e June Star disse que John Wesley estava jogando sujo e logo estavam os dois, por cima da avó, aos tapas. A avó disse que contaria uma historia se eles ficassem quietos. E ela, quando contava uma historia, revirava os olhos e agitava a cabeça e era toda dramática. Contou então que nos seus tempos de moça tinha sido cortejada por um rapaz de Jasper, na Geórgia, chamado Charles Otoline Miles Erlanger Robertson. Um rapaz muito atraente, um cavalheiro, segundo a avó, que todo sábado á tarde, quando a visitava, levava-lhe uma melancia com suas iniciais gravadas: C.O.M.E R. Num desses sábados, como ela disse, Robertson chegou com a melancia e não havia ninguém em casa e ele a deixou na varanda e voltou para Jasper na charrete, mas essa melancia ela nunca viu, porque um negrinho a devorou, como ela disse, quando leu as iniciais C.O.M.E.R. A historinha agradou em cheio a John Wesley, que estourou numa gargalhada e se retorcia de rir, mas June Star não achou graça nenhuma. Disse que jamais se casaria com um homem que se limitasse a levar-lhe uma melancia no sábado. Já a avó disse que para ela teria sido uma beleza se casar com Robertson, porque ele era um homem muito distinto e comprou ações da Coca-Cola logo que foram lançadas e só tinha morrido ha poucos anos, riquíssimo.
Pararam para comer uns sanduiches grelhados num lugar chama- The Tower. Era um misto de salão de festas e posto de gasolina, parte em madeira, parte em estuque, instalado numa clareira nos arredores de Timothy. O dono era um gordo, Red Sammy Butts, e havia placas penduradas ali por toda parte, e por quilômetros na rodovia, dizendo: EXPERIMENTE O AFAMADO GRELHADO DE RED SAMMY. NENHUM SE COMPARA AO DELE! RED SAM, O GORDINHO DA RISADA FELIZ! UM VETERANO! RED SAMMY, O HOMEM CERTO!
Deitado no chão, do lado de fora do The Tower, estava o próprio Red Sammy. Tinha a cabeça enfiada embaixo de um caminhão, enquanto um mico cinzento de seus trinta centímetros, amarrado pela corrente a um pé de saboeiro, fazia papaguaiatas por perto. Bastou ver as crianças saltarem do carro e correrem na sua direção para o mico pular de volta na arvore e subir ao galho mais alto.
Por dentro, The Tower era um salão comprido e escuro, com um balcão de um lado, mesas do outro, e um espaço para dançar no meio. Sentaram-se a uma mesa de tábuas, ao lado da vitrola automática, e a mulher de Red Sam, alta, queimada, de cabelo e olhos mais claros do que sua pele morena, veio atende-los. A mãe das crianças pôs uma moeda na maquina e escolheu "A valsa do Tennessee". A avo disse que sempre sentia vontade de dançar com essa musica e perguntou a Bailey se ele dançaria com ela, mas ele apenas a olhou de banda.
Não tinha a disposição dela, assim toda animada, e as viagens o deixavam nervoso. Os olhos da avó, olhos castanhos, brilhavam muito. Sentada, ela fazia de conta que dançava, jogando a cabeça, na cadeira, para os dois lados. June Star pediu para tocar uma musica que desse para sapatear e assim a mãe das crianças pôs uma outra moedinha e escolheu algo mais rápido. June Star pulou na pista e, como era de seu habito, sapateou.
"Que gracinha!" disse a mulher de Red Sam, debruçada no balcão. "Você quer vir morar comigo? Quer ser a minha filhinha?"
"Nem por sombra", June Star disse, "nem por um milhão de dólares eu moraria num lugar tão caído assim!" e voltou correndo para a mesa.
"Mas não e mesmo uma gracinha?", repetia a mulher, esticando polidamente os beiços.
A avo ralhou: "Não tem vergonha não?".
Red Sam entrou e disse a esposa para correr com o pedido dos fregueses, em vez de ficar ali no balcão fazendo hora. Sua calça caqui vinha arriada até quase as coxas, sob o peso da barriga que despencava como um saco de farinha trepidando por baixo da camisa. Aproximou-se, sentou-se perto e deixou escapar algo impreciso, combinação de suspiro e cantoria. "Não dá pra levar" dizia. “Assim não dá pra levar!" e com um lenço acinzentado enxugava o suor do rosto vermelho. "Hoje em dia não se pode confiar em ninguém", disse depois. "Não é verdade?"
"As pessoas certamente não são mais tão gentis como já foram", disse a avó.
"Semana passada" disse Red Sammy, "vieram aqui dois camaradas, num Chrysler. Um carro velho, muito rodado, mas bom, e os rapazes me pareciam gente direita. Disseram que trabalhavam no moinho, e não é que eu vendi gasolina fiado para eles? Por que fui fazer isso?"
"Porque o senhor é um homem bom", a avó disse.
"É, dona, acho que sim", disse Red Sam, como se ficasse, ele mesmo, espantado com a resposta.
Sua mulher chegou com os pedidos, carregando os cinco pratos, sem bandeja, de uma só vez: dois em cada mão e mais um equilibrado no braço. "Não há alma que seja neste mundo de Deus", disse ela, "em quem se possa confiar. E eu não excluo ninguém, ninguém mesmo", repetiu, olhando para Red Sammy.
“Vocês leram alguma coisa sobre aquele bandido, o Desajustado, que fugiu da cadeia?" a avó perguntou.
"Eu não ficaria nem um pouco surpresa se agora mesmo ele atacasse esse lugar aqui", disse a mulher. "Se ele souber que nós estamos aqui, e se me aparecer pela frente, não ficarei nada surpresa. Se souber que na caixa registradora tem algum dinheiro, não ficarei nada surpresa se ele..."
"Chega!" Red Sam disse. "Traz logo as Cocas dos fregueses", e a mulher lá se foi a completar o pedido.
"Um homem bom e difícil de encontrar", disse Red Sammy. "Tudo está ficando um horror. Lembro do tempo em que se podia sair tranquilamente de casa e deixar a porta aberta. Agora não mais."
Ele e a avó se distraíram conversando sobre tempos melhores. A culpada era a Europa, na opinião da velha senhora, se as coisas andavam assim agora. Pela atitude da Europa, segundo ela, até se poderia pensar que os americanos eram feitos de dinheiro, e Red Sam disse que nem adiantava falar daquilo, que ela estava coberta de razão. As crianças correram para fora, para a claridade do sol, e foram ver o macaquinho no saboeiro rendado. O mico estava entretido, catando pulgas que comia, como guloseimas, com um demorado estalar de dentes.
Depois, pela tarde quente, a família prosseguiu em viagem. A avó dava umas cochiladas e de quando em quando era despertada pelos seus próprios roncos. Nos arredores de Toombsboro, ao acordar de vez, lembrou-se de uma velha fazenda que ela havia visitado por ali, na região, quando moça. Disse que a casa tinha seis colunas brancas na frente, uma fileira de carvalhos conduzindo à entrada e dois pequenos caramanchões de madeira, bem na frente, um de cada lado, onde as moças sentavam-se com os pretendentes, depois de algumas voltas no jardim.
A estrada que era preciso pegar para chegar até lá veio-lhe com precisão à memoria. Ela sabia que Bailey não concordaria em perder tempo só para ir ver uma casa velha, mas quanto mais falava nisso, mais ela queria revê-la, querendo saber se os caramanchões geminados ainda estavam de pé "Havia nessa casa uma passagem secreta", disse pois com astucia, sem contar uma verdade, mas desejando que assim fosse, "e diziam que a prataria da família foi toda escondida lá, quando Sherman passou por aqui, e nunca pode ser encontrada..."
"Oba, então vamos lá!", John Wesley disse. "Vamos descobrir essa prata! E só abrir o madeirame, e só ir tirando as tabuas, que a gente acha. Quem mora lá? Onde e que se pega o caminho? Ei, pai, não dá para dobrar por ali?"
“Nunca vimos uma casa com passagem secreta", berrou June Star. "Vamos ver a casa com passagem secreta! Oba! Papai, temos de ir ver a casa com passagem secreta!"
"Eu sei que não fica longe daqui", disse a avó. "Nem bem uns vinte minutos."
Bailey olhava reto em frente, com o queixo tão rígido quanto uma ferradura. "Não", ele disse.
A gritaria das crianças, querendo ver a casa com passagem secreta, não fez senão aumentar. John Wesley chutava as costas do banco dianteiro, e June Star se pendurou no ombro da mãe, em cujo ouvido choramingou desesperada que era sempre assim mesmo, que nem nas ferias eles se divertiam, que eles nunca podiam fazer o que eles mesmos queriam. O bebê já estava berrando. E os chutes de John Wesley no assento se tornavam tão fortes que o pai já sentia os golpes nos rins.
"Tá legal!" o pai gritou, e parou o carro no acostamento. "Mas vocês querem calar a boca? Querem calar a boca um minuto? Se não se calarem, não vamos a lugar nenhum."
"Mas seria muito instrutivo para eles" murmurou a avó.
"Está bem", Bailey disse, "mas anotem: e a única vez em que nos vamos parar por uma coisa dessas. É a primeira e ultima vez."
"A estrada de terra que você tem de pegar já ficou lá para trás, a uns dois quilômetros", a avó orientou. "Eu a notei quando passamos."
"Estrada de terra...", resmungou Bailey.
Quando já iam, depois de terem feito um retorno, em direção a al estrada, a avó rememorou outros detalhes da casa, como o belo vitral sobre a entrada e o candelabro do salão. John Wesley disse que a passagem secreta provavelmente ficava na lareira.
"Não se pode entrar na casa", Bailey disse. "Nem sabemos quem mora lá."
"Posso ir por trás, enquanto vocês conversam com as pessoas na frente, e entrar por uma janela", John Wesley sugeriu.
"Não", disse a mãe, "vamos ficar todos no carro."
O carro, sacolejando muito, entrou pela estradinha de barro num turbilhão de poeira cor-de-rosa. A avó se lembrou dos tempos em que não havia estradas asfaltadas e se levava um dia inteiro para andar cinquenta quilômetros. A estradinha era acidentada e íngreme, com inesperadas crateras de atoleiros e curvas muito fechadas em perigosos barrancos. Ora eles estavam bem no alto de um morro, vendo as copas azuladas das arvores que se estendiam lá embaixo, por quilômetros em torno, ora, logo a seguir, já estavam numa depressão de terra vermelha, com arvores empoeiradas por cima.
"É melhor esse lugar aparecer logo", Bailey disse, "porque senão eu vou voltar."
Dava a impressão de que ninguém, há meses, passava naquela estrada.
"Não esta muito longe", disse a avó, e justamente quando o disse ela teve um pensamento horroroso. Um pensamento tão embaraçoso que seu rosto corou, seus olhos se dilataram e os pés se mexeram muito no chão, atingindo e deslocando a maletinha no canto. No mesmo instante em que a valise se moveu, a folha de jornal que ela usava como tampa da cesta que estava embaixo se levantou com um miado e voou no ombro de Bailey.
As crianças foram jogadas no chão. A mãe, agarrada ao bebê, foi jogada porta afora, na estrada. A velha senhora jogada para o banco da frente. O carro deu uma capotada e voltou à posição normal, mas fora da estrada, e numa vala. Bailey permanecia no lugar do motorista com o gato - listrado de cinza, cara branca achatada e focinho cor de laranja - agarrado como lagarta em seu pescoço.
As crianças, assim que conseguiram mexer braços e pernas, saíram se espremendo do carro, e gritavam: "Tivemos um acidente!". Ja a avó se encolheu sob o painel, com a esperança de estar ferida para que a ira de Bailey não se abatesse implacável sobre ela. O pensamento horroroso que havia tido, pouco antes do acidente, foi que a casa da qual ela se lembrava tão bem não ficava na Geórgia, mas sim no Tennessee.
Bailey tirou o gato do pescoço, com ambas as mãos, e o arremessou contra o caule de um pinheiro, pela janela. Depois, saindo do carro, foi procurar a mãe das crianças. Essa, que estava ao lado da valeta estripada, e ali sentada segurava o bebé aos berros, tinha ela mesma apenas uma fratura no ombro e um corte feio no rosto. "Tivemos um acidente!" gritavam as crianças numa alegria frenética.
"Mas não morreu ninguém'', disse, desapontada, June Star, quando a avó desceu mancando do carro com o chapéu ainda preso na cabeça, malgrado a aba desabada na frente, que ela tentava recolocar numa posição elegante, e o buque de violetas caído ao lado. Sentaram-se todos na valeta, menos as crianças, todos tremendo muito, para se refazerem do susto.
"Talvez venha um carro por aí, disse a mãe das crianças com a voz embargada.
"Acho que algum órgão meu foi afetado", disse a avó, apalpando- se de um lado do corpo, mas ninguém ligou para ela. Os dentes de Bailey batiam sem parar. Vestido numa camisa esporte amarela, na qual brilhavam, estampadas, umas araras-azuis, ele estava com o rosto da mesma cor da camisa. A avó achou melhor não dizer que a tal da casa era no Tennessee.
A estrada se encontrava cerca de três metros acima, e eles podiam ver apenas, do outro lado, o topo das arvores. Por trás da vala na qual estavam sentados se estendia a mata cerrada, escura e alta. Em poucos minutos avistaram um carro, não muito longe, no cocuruto de um morro, que vinha bem devagar, como se seus ocupantes os observas- sem. A avó, para lhes chamar a atenção, levantou-se em espalhafatosos acenos, agitando os dois braços. O carro, que continuava a se aproximar lentamente, desapareceu numa curva e ressurgiu adiante ainda mais devagar, já no cume do morro por que eles tinham passado. Era um grande automóvel preto e velho, em péssimo estado, que mais parecia um carro fúnebre. Levava três homens dentro.
Parou bem por cima deles e, por alguns minutos, o motorista ficou olhando para baixo, lá para onde eles estavam, de um modo fixo, porém sem expressão, e não disse nada. Depois, virando-se de cabeça, sussurrou algo aos outros dois, que desceram. Um, o gordo, de calça preta, que usava uma camiseta vermelha adornada no peito por um garanhão prateado, passou por eles e foi plantar-se à direita, do outro lado, de onde concentradamente os olhava, com uma espécie de riso frouxo na boca aberta pelo meio. O outro, de calça caqui e paletó listrado de azul, com um chapéu cinza tão enterrado na testa que lhe ocultava a maior parte do rosto, lentamente se aproximou pela esquerda. Nenhum dos dois falava nada.
O motorista saltou, mas continuou ao lado do carro, de pé, olhando para eles lá embaixo. Era mais velho do que os outros dois homens. Seu cabelo já estava meio grisalho, e os óculos de aros prateados davam-lhe um ar estudioso. Tinha o rosto enrugado e o peito nu, sem camisa nem camiseta. Sua calça blue jeans estava muito apertada e ele empunhava um revolver, tendo na outra mão seu chapeu preto. Os dois rapazes também estavam armados.
"Sofremos um acidente", as crianças gritavam.
A avó teve a nítida impressão de que já conhecia aquele homem de óculos. Seu rosto lhe era bem familiar, como se o tivesse conhecido a vida toda, e ela no entanto não conseguia se lembrar quem era. Ele se afastou do carro e começou a descer pelo barranco, firmando os pés com atenção, para não escorregar. Usava sapatos de duas cores, marrom e branco, sem meias, e tinha os tornozelos muito vermelhos e finos. "Boa tarde", ele disse. "Tiveram um probleminha, né?"
"Capotamos duas vezes!", disse a avó.
“Uma” ele corrigiu. "Nos vimos quando aconteceu. Ligue lá o carro deles, Hiram, pra ver se pega", disse calmamente para o rapaz de chapéu cinza.
"Pra que essa arma?", perguntou John Wesley. "Vai fazer o que com essa arma, hein?"
"Minha senhora", disse o homem para a mãe das crianças, "mande essas crianças sentarem-se ai ao seu lado, sim? Crianças me põem nervoso. Quero todos vocês sentados juntos aí, aí mesmo onde estão."
"Por que é que você está dando ordens pra gente?" June Star perguntou.
A mata se abria, por trás deles, como uma boca escura. "Venham pra cá", disse a mãe.
"Olha aqui", disse Bailey bruscamente, "nós estamos numa enrasca- da! Estamos nu..."
A avó deu um grito. Ficou em pé, encarou o homem e disse: "O senhor e o Desajustado! Eu logo vi!".
"É, dona, sou sim", disse o homem, com um ligeiro sorriso, como que satisfeito de sua fama, apesar dos pesares, "mas seria muito melhor para todos se a senhora não tivesse me reconhecido."
Bailey se virou abruptamente e disse para a sua mãe qualquer coisa que deixou até mesmo as crianças chocadas. A velha senhora começou a chorar, e o Desajustado corou.
"Minha senhora", ele disse, "não fique triste. As vezes um homem diz coisas sem querer. A intenção dele, penso eu, não era falar assim com a senhora."
"O senhor não atiraria em mulher, não é?" disse a avó, tirando do punho do vestido um lencinho limpo para enxugar os olhos
O Desajustado enfiou o bico de seu sapato na terra e fez um buraquinho que depois tampou. "Eu detestaria ter de fazer isso" disse.
"Escute aqui", disse a avó quase gritando, "eu sei que o senhor é um homem bom. Não aparenta nem um pouco ser pessoa comum. Sei que deve ser de boa familial"
"Ah, isso sim", disse ele, "da melhor do mundo." Deixava a mostra, quando ria, seus dentes brancos e fortes. "Deus nunca fez mulher mais perfeita do que a minha mãe, e o coração do meu pai era ouro puro", ele disse. O rapaz de camiseta vermelha deu a volta e, com sua arma apoiada na cintura, ficou em pé por trás deles. O Desajustado se agachou. "Olho nessas crianças, Bobby Lee", disse ele. "Você sabe que elas me deixam nervoso." Olhava para o grupo dos seis amontoados ali na sua frente e parecia confuso, como se não achasse o que dizer. "Nem uma nuvem no céu, não é?" observou, olhando para as alturas. "Não se vê o sol, mas também não se vê nuvem."
"Pois é, está um dia lindo!" disse a avó. "Mas ouça" acrescentou, "o senhor não deveria se chamar de Desajustado, porque eu sei que é um homem de bom coração. Basta olhar a sua pessoa, que eu logo vejo."
"Silêncio", gritou Bailey. "Boca calada todo mundo! Deixem comigo que eu resolvo a parada." Ele estava a postos, na posição de um corredor na largada, mas não se moveu.
"Obrigado por suas boas palavras, minha senhora" disse o Desajustado, traçando com o cabo da arma uma rodinha no chão.
"Levaria uma meia hora para ajeitar esse carro", gritou Hiram, olhando por cima do capô aberto.
'Tudo bem, mas primeiro você e o Bobby Lee levem o cara e o garotinho para dar uma andada", disse o Desajustado, apontando Bailey e John Wesley. "Os rapazes querem te perguntar uma coisa", disse ele para Bailey. "Pode dar uma chegadinha ali na mata com eles?"
"Escute aqui", começou Bailey, "nos estamos numa enrascada terrível! Será que ninguém percebe?" mas sua voz sumiu, e ele permaneceu completamente parado, com os olhos de um azul tão intenso quanto as araras da camisa que usava.
A avó se esticou para ajeitar a beirada do chapéu, como se tivesse de ir para a mata também, mas o chapéu acabou caindo na sua mão. Ela o olhou por algum tempo e depois o deixou cair no chão. Hiram puxou Bailey pelo braço, como se estivesse ajudando a um velho. John Wesley se agarrou na mão do pai, e Bobby Lee os seguiu. Foram lá para a mata, e quando estavam chegando a orla escura Bailey se virou e, apoiado no caule nu e acinzentado de um tronco de pinheiro, gritou: "Eu volto logo, mamãe, me espere aí!".
"Volte já! Agora mesmo!", gritou a mãe, mas todos tinham desaparecido na mata.
"Bailey, meu filho!" chamou a avó numa voz trágica, mas deu-se conta de que tinha pela frente, agachado no chão, o Desajustado, para o qual alias estava olhando. "Sei que o senhor e um homem bom", disse, desesperada. "Não é uma pessoa qualquer!"
"Não, dona, não sou bom não", o Desajustado disse um segundo depois, como se houvesse refletido sobre o que ela tinha dito, "mas também não sou o pior do mundo. Meu pai dizia que eu era de outra raça, diferente dos meus irmãos e irmãs. Dizia que há pessoas capazes de passar a vida toda sem perguntar por quê, mas que outras tem de saber o porquê das coisas, e que eu era desse tipo e ia me meter em tudo." Pôs o chapéu preto, olhou bruscamente para cima e logo desviou o olhar lá para a mata, como se estivesse novamente sem jeito.
"Desculpem eu estar sem camisa assim diante das senhoras", disse, dobrando ligeiramente os ombros. "Nos enterramos nossas roupas depois da fuga, e temos nos safado com essas até achar coisa melhor. Essas nós pegamos com um pessoal que encontramos", explicou.
"Mas então está tudo bem" disse a avó. "Bailey deve ter uma camisa extra na mala."
"Ah, eu vou dar uma olhada", disse o Desajustado.
"Para onde estão levando eles?", berrou a mãe das crianças.
"O meu velho era um colosso. Ninguém passava a perna nele. Nunca se meteu numa encrenca, sabia como lidar com autoridades."
"O senhor também, se quisesse tentar, poderia ser honesto", disse a avó. "Já pensou que maravilha seria fixar-se numa vida tranquila, sem ter de pensar se há alguém a persegui-lo o tempo todo?"
O Desajustado pareceu refletir. Continuava rabiscando no chão, com o cabo da arma, e disse: "Tem sempre alguém atrás da gente".
A avó pode notar que os ombros dele eram estreitos demais, logo abaixo do chapéu, porque, estando em pé, ela o via de cima. "Costuma rezar?", perguntou.
Ele meneou a cabeça. Ela só viu o chapéu preto balançando em seus ombros. E ele disse: "Não".
A um tiro de pistola na mata seguiu-se logo mais um. Depois, silencio. A cabeça da avo rodopiou. Ela ouviu o vento passando pelo alto das arvores como uma tomada de ar longa e satisfatória. "Bailey, meu filho!" gritou.
"Por uns tempos, fui cantor gospel", disse o Desajustado. "Já fiz um pouco de tudo. Fiz meu serviço militar, em terra e no mar, no país e lá fora, já me casei duas vezes, já fui agente funerário, já fui ferroviário e já lavrei a mãe terra, estive em um tornado, certa vez vi um homem queimado vivo..." e olhou para a mãe das crianças e a garota, que estavam sentadas bem juntinhas, com o rosto pálido e os olhares vidrados. "Vi até uma mulher ser chicoteada", acrescentou.
"Reze", interveio a avó. "Reze..."
"Não me lembro de ter sido um mau menino", o Desajustado disse, numa voz como que em devaneio, "mas o fato e que lá pelas tantas fiz alguma coisa de errado e fui para a cadeia. Enterrado vivo, na penitenciária" e olhou para cima, prendendo-lhe a atenção com um olhar persistente.
"Era então que devia ter começado a rezar", ela disse. "O que foi que fez para ser mandado para a penitenciária dessa primeira vez?"
"Do lado direito uma parede" disse o Desajustado, "do lado esquerdo outra. Se eu me virasse para cima, via o teto; para baixo, o chão. Esqueci o que eu fiz, minha senhora. Sentava lá e ficava tentando lembrar o que eu tinha feito e até hoje não lembro. De vez em quando parecia que ia vir, que eu ia me lembrar, mas não vinha."
"Talvez o tenham prendido por engano", disse vagamente a velha senhora.
"Não", ele disse. "Não houve erro. Sabiam tudo a meu respeito."
"Teria roubado alguma coisa, por acaso?" ela disse.
O Desajustado, zombando um pouco, riu. "Ninguém tinha nada que eu quisesse" disse. "Um medico lá da penitenciaria, um medico de cabeça, sabe, cismou que eu mesmo tinha matado meu pai. Invenção dele, é claro. Meu pai morreu na epidemia de gripe de 1919, e eu nunca tive nada com isso. Foi enterrado no cemitério da igreja batista de Mount Hopewell. Se quiser, pode ir lá ver."
"Jesus lhe ajudaria" disse a velha senhora, "se o senhor rezasse."
"Isso é verdade", disse o Desajustado.
"Mas então por que não reza?" perguntou ela, trêmula, num repentino deleite.
"Não quero ajuda", disse ele. "Tenho me dado bem sozinho."
Bobby Lee e Hiram voltaram da mata a passos lentos. O primeiro arrastando uma camisa amarela com araras-azuis muito brilhantes.
"Jogue essa camisa pra mim", disse o Desajustado. E a camisa veio voando, pousou em seu ombro e ele a vestiu. A avó não conseguia saber o que é que a camisa lhe trazia a lembrança. "Não, dona" disse o Desajustado, enquanto a abotoava, "eu descobri que o crime não importa. Você pode fazer isso ou aquilo, matar um homem ou roubar um pneu do carro dele, porque mais cedo ou mais tarde você se esquecerá do que fez e será punido justamente por isso."
A mãe das crianças começou a dar uns gemidos, como se não pudesse respirar muito bem. "Dona", ele pediu, "pode dar uma chegada com Bobby Lee e Hiram ate ali, com a garotinha, para juntar-se ao seu marido?"
"Sim, obrigada" disse, enfraquecida, a mulher. Seu braço esquerdo pendia bambo, e com o outro ela amparava o bebe, que agora estava dormindo. "Ajude a moça, Hiram", disse o Desajustado, quando ela já se esforçava para sair da valeta, "enquanto o Bobby Lee pega a garota pela mão."
"Não quero que ele me pegue pela mão", disse June Star. "Parece um porco."
O gordo corou e riu e a pegou pelo braço e foi levando para a mata atrás de Hiram e da mãe.
Sozinha com o Desajustado, a avó constatou ter perdido a voz. Não havia uma só nuvem, nem sol, no céu. Nada, em torno dela, a não ser a mata. Ela queria dizer que ele devia rezar. Abriu e fechou diversas vezes a boca, mas a frase não saía. Finalmente deu consigo dizendo: "Jesus, Jesus", querendo dizer Jesus vai lhe ajudar, embora mais parecesse estar xingando, pelo modo como falou.
"É, dona", disse o Desajustado, como se concordasse. "Jesus desequilibrou as coisas. O mesmo caso, o dele e o meu, só que ele não praticou nenhum crime, e o meu eles puderam provar, porque tinham tudo anotado na minha ficha. É claro", disse ele, "que nunca me mostraram a ficha. Por isso agora assino tudo. Ha muito que eu digo, o negócio é caprichar na assinatura, assinar tudo que fizer e guardar cópia. Você assim poderá saber o que fez, podendo comparar o crime ao castigo, para ver se correspondem, e por fim terá alguma coisa para provar, se não for tratado direito. Se eu me chamo Desajustado", disse ele, "e porque não faço esse ajuste, não consigo encaixar as coisas para que tudo que eu fiz de errado corresponda a tudo que sofri de castigo."
Veio da mata um grito lancinante, logo seguido por um tiro de pistola. "A senhora acha justo que um receba punição rigorosa e outro nem sequer seja punido?"
"Jesus!", gritou a velha. "O senhor tem sangue bom. Tenho certeza de que não atiraria numa mulher. Sei que vem de boa família... Jesus, reze! Numa senhora o senhor não deve atirar. Eu lhe dou todo o dinheiro que eu tenho!"
"Minha senhora", disse o Desajustado, olhando bem além dela, para a mata, "cadáver não dá gorjeta para quem faz o serviço."
Houve mais dois tiros de pistola e a avó ergueu a cabeça, como uma perua sedenta pedindo agua para se refrescar, e gritou: "Bailey, meu filho! Bailey, meu filho!" como se o seu coração fosse explodir.
"Jesus foi o único a ressuscitar os mortos" prosseguiu o Desajustado, "e ele não devia ter feito isso. Desequilibrou tudo. Se ele fazia o que dizia, não temos outra coisa a fazer a não ser renunciar a tudo e segui-lo. Mas, se não fazia, então o que nos cabe e desfrutar dos poucos minutos que nos restam da melhor maneira possível - matando alguém ou queimando a casa de alguém ou lhe fazendo alguma outra maldade. Sem maldade não ha prazer", disse ele, e sua voz era quase um rosnado.
"Vai ver que ele não ressuscitou os mortos", murmurou a velha senhora, já sem saber o que dizia e se sentindo tão tonta que arriou na vala, a medida que suas pernas foram se retorcendo.
"Se fez ou não fez, não sei, porque eu não estava lá", disse o Desajustado. "E bem que eu gostaria de ter estado", acrescentou, dando um soco no chão. "Não é justo ser assim, porque, se eu tivesse estado lá, eu saberia. Sabe de uma coisa, madame", disse em voz alta: "Se eu tivesse estado lá, eu saberia, e não seria como sou agora". Sua voz parecia a ponto de rachar, e a cabeça da avó clareou por um instante. Ela viu o rosto do homem contorcendo-se próximo ao dela, como se ele fosse chorar, e balbuciou: "Mas você é uma das minhas crianças, um dos meus filhinhos!" esticando o braço para toca-lo no ombro. O Desajustado deu um pulo para trás, como se uma cobra o picasse, e atirou três vezes nela, todas no peito. Depois botou a arma no chão, tirou os óculos e começou a limpá-los.
Hiram e Bobby Lee voltaram da mata e pararam na beirada da vala, de onde olhavam para a avó lá embaixo, meio sentada, meio deitada numa poça de sangue, com as pernas cruzadas sob o corpo, como pernas de criança, e o rosto rindo para o alto, para o céu sem nuvens.
Os olhos do Desajustado, sem os óculos, eram lívidos, orlados de vermelho e indefesos. "Levem ela daqui e joguem lá onde jogaram os outros" disse ele, apanhando o gato, que se esfregava em sua perna.
"Ela falava demais, né?" disse em voz cantante Bobby Lee, ao escorregar vala adentro.
"Seria até boa mulher", o Desajustado disse, "se a cada instante de sua vida houvesse alguém nas cercanias para lhe dar um tiro."
"Teria sido gozado!" disse Bobby Lee.
"Cala essa boca, Bobby Lee!", disse o Desajustado. "É, na vida não há prazer verdadeiro."
Flannery O’Connor
sexta-feira, outubro 16
As três perguntas
Certa vez, ocorreu a um imperador que, se soubesse responder apenas às seguintes perguntas, nada jamais o afastaria do caminho justo:
- Qual é o melhor momento para qualquer coisa?
- Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?
- Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?
O imperador promulgou um decreto para todo o seu império, anunciando que quem soubesse responder às três perguntas receberia uma grande recompensa. Depois de ler este decreto, muitos se dirigiram ao palácio com as suas diferentes respostas.
Respondendo à primeira pergunta, alguém sugeriu ao imperador que estabelecesse uma ocupação total do tempo, com as horas, dias, meses, anos e as tarefas a realizar. Se seguisse isso à letra, o imperador poderia então vir a fazer cada coisa em seu devido tempo. Uma outra pessoa retorquiu que era impossível prever tudo, que o imperador devia pôr todas as distrações inúteis à parte e manter-se atento a todas as coisas, para saber quando e como agir. Uma outra insistiu que o imperador sozinho não podia possuir a clarividência e a competência necessárias para decidir quando fazer algo. Parecia-lhe que o mais importante era nomear um Conselho de Sábios e agir de acordo com as suas recomendações.
As respostas à segunda pergunta também divergiram muito entre si. Alguém disse que o imperador devia colocar toda a sua confiança nos seus ministros; um outro recomendou que fosse aos padres e aos monges; outros, ainda, aos médicos e mesmo aos militares.
À terceira pergunta foram dadas respostas igualmente variadas. Alguns afirmaram que a procura mais importante era a ciência, outros insistiram que era a religião e outros, ainda, a arte da guerra. O imperador não ficou satisfeito com nenhuma das repostas e não atribuiu a ninguém a recompensa.
Depois de várias noites de reflexão, o soberano decidiu visitar um eremita que vivia na montanha e que era tido por ser iluminado. O imperador desejava encontrar o santo homem para lhe fazer as três perguntas, mas sabia muito bem que o eremita nunca deixava as montanhas e que era conhecido por não receber senão pessoas pobres e por recusar qualquer contato com ricos e poderosos. Por esta razão, o soberano disfarçou-se como um pobre camponês e ordenou à sua escolta que esperasse por ele aos pés da montanha, enquanto sozinho procurava o eremita.
Ao chegar à morada do homem santo, o imperador avistou-o a cavar o jardim diante da sua cabana. Ao ver o estrangeiro, o eremita saudou-o com a cabeça e continuou a cavar. Era um trabalho aparentemente muito penoso para um velho: ele ofegava ruidosamente a cada vez que enterrava a enxada no solo para revolver a terra. O imperador aproximou-se dele e disse: “Vim pedir a vossa ajuda. São estas as minhas perguntas”:
“Qual é o melhor momento para qualquer coisa?” “Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?” “Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?”
O eremita escutou-o atentamente e retomou o trabalho depois de dar uma pequena palmada no ombro do imperador. O monarca disse então: “Deveis estar cansado. Deixai-me ajudar-vos”.
O velho homem agradeceu-lhe, entregou-lhe a enxada e sentou-se no chão para descansar. Depois de ter cavado duas fileiras, o imperador parou, voltou-se para o eremita e repetiu-lhe as suas três perguntas. De novo, o velho homem não respondeu, mas levantou- se e disse-lhe, mostrando a enxada: “Porque não descansais um pouco? Eu continuo”. Mas o imperador continuou a cavar a terra.
O eremita levantou a cabeça e perguntou ao imperador: “Ouvis alguém a correr na nossa direção?”. O imperador virou a cabeça e ambos viram surgir do bosque um homem com uma longa barba branca. Corria tropegamente, com as mãos a pressionar uma ferida no ventre, que sangrava. O homem correu em direção ao soberano até cair sem sentidos no chão. Gemia. Ao abrir a sua camisa, o imperador e o eremita viram que ele tinha uma ferida profunda. O monarca limpou-a totalmente e, a seguir, fez-lhe um curativo com a sua própria camisa.
Finalmente, o homem ferido retomou a consciência e pediu água. O imperador correu até ao rio e trouxe consigo uma bilha de água fresca. Ao longo de todo este tempo, o sol pusera-se e o frio da noite viera. O eremita ajudou o imperador a levar o homem para a cabana, onde o deitaram sobre a cama. Aí, ele fechou os olhos e adormeceu sossegadamente. O soberano estava esgotado pela longa jornada que fizera, por caminhar na montanha e cavar o jardim. Apoiando-se à porta, adormeceu. Por um momento, esqueceu-se de onde estava e o que ali tinha ido fazer. Quando acordou, olhou para a cama e viu o homem ferido, que também se perguntava o que fazia ali naquela cabana. Quando este viu o imperador, olhou-o atentamente nos olhos e disse num murmúrio dificilmente perceptível:
“Mas o que fizestes para merecerdes ser perdoado?”, perguntou o soberano.
“Vossa Majestade não me conhece, mas eu vos conheço. Eu fui vosso inimigo e fiz o voto de me vingar por terdes morto o meu irmão na última guerra e por terdes se apoderado de todos os meus bens. Quando soube que vínheis sozinho a esta montanha para vos encontrardes com o eremita, decidi montar-vos uma cilada e matar-vos. Esperei durante muito tempo, mas vendo que não vínheis, deixei o meu esconderijo para vos procurar. Foi assim que acabei por dar com os soldados da vossa guarda que, ao reconhecerem- me, infligiram- me esta ferida.
O imperador encheu-se de alegria ao ver com que facilidade se havia reconciliado com um antigo inimigo. Não apenas o perdoou, mas prometeu também restituir-lhe todos os seus bens e enviar o seu próprio médico e os seus servidores para se ocuparem dele até se curar completamente. Após ter dado ordem à sua escolta de reconduzir o homem a sua casa, o imperador regressou para se encontrar com o eremita. Antes de regressar ao seu palácio, o soberano desejava, por uma última vez, fazer as três perguntas ao velho homem. Encontrou o eremita a semear os grãos nas fileiras cavadas na véspera. O velho homem levantou-se e olhou-o: “Mas já tendes a resposta a essas perguntas”.
“Como assim?”, disse o imperador intrigado. “Ontem, se não tivésseis tido piedade da minha velhice e não me tivésseis ajudado a cavar a terra, teríeis sido atacado por este homem quando regressásses. Teríeis então lamentado profundamente não terdes ficado comigo. Por consequência, o momento mais importante foi o tempo passado a cavar o jardim, a pessoa mais importante fui eu e a coisa mais importante foi ajudares-me. Mais tarde, depois da chegada do homem ferido, o momento mais importante foi aquele que passastes a tratar da ferida, porque se o não tivésseis feito, ele teria morrido e vós teríeis desperdiçado a ocasião de vos reconciliar com um inimigo. Do mesmo modo, ele foi a pessoa mais importante, e cuidar da ferida foi a tarefa mais importante. Lembrai-vos que não existe senão um único momento importante, que é agora. Este instante presente é o único momento sobre o qual podemos exercer o nosso magistério. A pessoa mais importante é sempre a pessoa com a qual se está, aquela que está diante de vós, porque quem sabe se vireis a estar ocupado com uma outra no futuro? A tarefa mais importante é fazer feliz a pessoa que está ao vosso lado, porque a procura da vida é apenas isso”.
- Qual é o melhor momento para qualquer coisa?
- Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?
- Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?
O imperador promulgou um decreto para todo o seu império, anunciando que quem soubesse responder às três perguntas receberia uma grande recompensa. Depois de ler este decreto, muitos se dirigiram ao palácio com as suas diferentes respostas.
Respondendo à primeira pergunta, alguém sugeriu ao imperador que estabelecesse uma ocupação total do tempo, com as horas, dias, meses, anos e as tarefas a realizar. Se seguisse isso à letra, o imperador poderia então vir a fazer cada coisa em seu devido tempo. Uma outra pessoa retorquiu que era impossível prever tudo, que o imperador devia pôr todas as distrações inúteis à parte e manter-se atento a todas as coisas, para saber quando e como agir. Uma outra insistiu que o imperador sozinho não podia possuir a clarividência e a competência necessárias para decidir quando fazer algo. Parecia-lhe que o mais importante era nomear um Conselho de Sábios e agir de acordo com as suas recomendações.
Uma outra pessoa disse que certas questões necessitavam de uma decisão imediata e não podiam esperar por uma consulta. Contudo, se o soberano desejasse conhecer com antecedência o que ia acontecer, ser-lhe-ia possível interrogar os adivinhos e os magos.
As respostas à segunda pergunta também divergiram muito entre si. Alguém disse que o imperador devia colocar toda a sua confiança nos seus ministros; um outro recomendou que fosse aos padres e aos monges; outros, ainda, aos médicos e mesmo aos militares.
À terceira pergunta foram dadas respostas igualmente variadas. Alguns afirmaram que a procura mais importante era a ciência, outros insistiram que era a religião e outros, ainda, a arte da guerra. O imperador não ficou satisfeito com nenhuma das repostas e não atribuiu a ninguém a recompensa.
Depois de várias noites de reflexão, o soberano decidiu visitar um eremita que vivia na montanha e que era tido por ser iluminado. O imperador desejava encontrar o santo homem para lhe fazer as três perguntas, mas sabia muito bem que o eremita nunca deixava as montanhas e que era conhecido por não receber senão pessoas pobres e por recusar qualquer contato com ricos e poderosos. Por esta razão, o soberano disfarçou-se como um pobre camponês e ordenou à sua escolta que esperasse por ele aos pés da montanha, enquanto sozinho procurava o eremita.
Ao chegar à morada do homem santo, o imperador avistou-o a cavar o jardim diante da sua cabana. Ao ver o estrangeiro, o eremita saudou-o com a cabeça e continuou a cavar. Era um trabalho aparentemente muito penoso para um velho: ele ofegava ruidosamente a cada vez que enterrava a enxada no solo para revolver a terra. O imperador aproximou-se dele e disse: “Vim pedir a vossa ajuda. São estas as minhas perguntas”:
“Qual é o melhor momento para qualquer coisa?” “Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?” “Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?”
O eremita escutou-o atentamente e retomou o trabalho depois de dar uma pequena palmada no ombro do imperador. O monarca disse então: “Deveis estar cansado. Deixai-me ajudar-vos”.
O velho homem agradeceu-lhe, entregou-lhe a enxada e sentou-se no chão para descansar. Depois de ter cavado duas fileiras, o imperador parou, voltou-se para o eremita e repetiu-lhe as suas três perguntas. De novo, o velho homem não respondeu, mas levantou- se e disse-lhe, mostrando a enxada: “Porque não descansais um pouco? Eu continuo”. Mas o imperador continuou a cavar a terra.
Passaram uma e outra hora. Por fim, o sol pôs-se atrás da montanha. O soberano pousou a enxada e disse ao eremita: “Escutai-me, eu vim até aqui para vos perguntar se sabeis responder às minhas três perguntas. Mas se não souberdes, dizei-mo para eu regressar à minha casa”.
O eremita levantou a cabeça e perguntou ao imperador: “Ouvis alguém a correr na nossa direção?”. O imperador virou a cabeça e ambos viram surgir do bosque um homem com uma longa barba branca. Corria tropegamente, com as mãos a pressionar uma ferida no ventre, que sangrava. O homem correu em direção ao soberano até cair sem sentidos no chão. Gemia. Ao abrir a sua camisa, o imperador e o eremita viram que ele tinha uma ferida profunda. O monarca limpou-a totalmente e, a seguir, fez-lhe um curativo com a sua própria camisa.
Visto que o sangue corria abundantemente, teve de enxaguar e enfaixar várias vezes a sua camisa até conseguir estancar o sangue da ferida.
Finalmente, o homem ferido retomou a consciência e pediu água. O imperador correu até ao rio e trouxe consigo uma bilha de água fresca. Ao longo de todo este tempo, o sol pusera-se e o frio da noite viera. O eremita ajudou o imperador a levar o homem para a cabana, onde o deitaram sobre a cama. Aí, ele fechou os olhos e adormeceu sossegadamente. O soberano estava esgotado pela longa jornada que fizera, por caminhar na montanha e cavar o jardim. Apoiando-se à porta, adormeceu. Por um momento, esqueceu-se de onde estava e o que ali tinha ido fazer. Quando acordou, olhou para a cama e viu o homem ferido, que também se perguntava o que fazia ali naquela cabana. Quando este viu o imperador, olhou-o atentamente nos olhos e disse num murmúrio dificilmente perceptível:
“Por favor, perdoai-me”.
“Mas o que fizestes para merecerdes ser perdoado?”, perguntou o soberano.
“Vossa Majestade não me conhece, mas eu vos conheço. Eu fui vosso inimigo e fiz o voto de me vingar por terdes morto o meu irmão na última guerra e por terdes se apoderado de todos os meus bens. Quando soube que vínheis sozinho a esta montanha para vos encontrardes com o eremita, decidi montar-vos uma cilada e matar-vos. Esperei durante muito tempo, mas vendo que não vínheis, deixei o meu esconderijo para vos procurar. Foi assim que acabei por dar com os soldados da vossa guarda que, ao reconhecerem- me, infligiram- me esta ferida.
Felizmente, consegui fugir e correr até aqui. Se não vos tivésseis encontrado, teria, com certeza, morrido na hora. Eu tinha a intenção de vos matar e vós salvastes-me a vida! Sinto uma enorme vergonha, mas também um reconhecimento infinito. Se viver, faço o voto de vos servir até ao meu derradeiro sopro e ordenarei aos meus filhos e aos meus netos que sigam o meu exemplo. Suplico-vos, Majestade, concedei-me o vosso perdão!”.
O imperador encheu-se de alegria ao ver com que facilidade se havia reconciliado com um antigo inimigo. Não apenas o perdoou, mas prometeu também restituir-lhe todos os seus bens e enviar o seu próprio médico e os seus servidores para se ocuparem dele até se curar completamente. Após ter dado ordem à sua escolta de reconduzir o homem a sua casa, o imperador regressou para se encontrar com o eremita. Antes de regressar ao seu palácio, o soberano desejava, por uma última vez, fazer as três perguntas ao velho homem. Encontrou o eremita a semear os grãos nas fileiras cavadas na véspera. O velho homem levantou-se e olhou-o: “Mas já tendes a resposta a essas perguntas”.
“Como assim?”, disse o imperador intrigado. “Ontem, se não tivésseis tido piedade da minha velhice e não me tivésseis ajudado a cavar a terra, teríeis sido atacado por este homem quando regressásses. Teríeis então lamentado profundamente não terdes ficado comigo. Por consequência, o momento mais importante foi o tempo passado a cavar o jardim, a pessoa mais importante fui eu e a coisa mais importante foi ajudares-me. Mais tarde, depois da chegada do homem ferido, o momento mais importante foi aquele que passastes a tratar da ferida, porque se o não tivésseis feito, ele teria morrido e vós teríeis desperdiçado a ocasião de vos reconciliar com um inimigo. Do mesmo modo, ele foi a pessoa mais importante, e cuidar da ferida foi a tarefa mais importante. Lembrai-vos que não existe senão um único momento importante, que é agora. Este instante presente é o único momento sobre o qual podemos exercer o nosso magistério. A pessoa mais importante é sempre a pessoa com a qual se está, aquela que está diante de vós, porque quem sabe se vireis a estar ocupado com uma outra no futuro? A tarefa mais importante é fazer feliz a pessoa que está ao vosso lado, porque a procura da vida é apenas isso”.
León Tolstói
Idades
No início,
eu queria um instante.
A flor.
Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.
Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.
Mia Couto, "Poemas Escolhidos"
eu queria um instante.
A flor.
Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.
Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.
Mia Couto, "Poemas Escolhidos"
Erudição da sensibilidade.
Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.
Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. “Qualquer estrada”, disse Carlylé, “até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.” Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre, “Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações”. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra.
Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos.
Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
Nos países que os outros visitam, visitam-nos anónimos e peregrinos. Nos países que tenho visitado, tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens, as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a substância da minha imaginação.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.
Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. “Qualquer estrada”, disse Carlylé, “até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.” Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre, “Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações”. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra.
Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos.
Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
Nos países que os outros visitam, visitam-nos anónimos e peregrinos. Nos países que tenho visitado, tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens, as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a substância da minha imaginação.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
O ex-mágico da Taberna Minhota
Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
porque eu sou desvalido e pobre.
(Salmos. LXXXV, I)
Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.
Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.
O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó.
Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.
Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.
A plateia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.
O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.
Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.
Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.
Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.
Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.
Situação cruciante.
Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.
Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.
Também, à noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.
Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.
Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.
Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.
Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.
— O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.
Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:
— Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.
Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.
Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.
O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.
Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um paraquedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.
Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.
Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.
Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.
Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.
Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.
1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.
Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.
Quando era mágico, pouco lidava com os homens -o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.
O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via -me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.
O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.
Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!
1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)
Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.
Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.
Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.
Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.
Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.
Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.
Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.
Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.
Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.
Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.
Murilo Rubião
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