segunda-feira, outubro 12

Exercício matinal

 


Receita infalível

Quem bate e depois sopra não comete agressão? Quem machuca, quase mata e depois cura não comete crime? Essas perguntas andam me incomodando. Explico o motivo. Estive em Buenos Aires, e os argentinos me deram de presente a pior gripe da vida. Febre, dor, desânimo, sensação de fim do mundo, tudo junto. Pior que dengue ou zika. Parece que fortificaram o vírus antes de o inocularem em meu corpo.

Acontece que, quando contraio essas gripes deprimentes, meu remédio infalível vem da Argentina. Ele se chama Jorge Luis Borges. Assim que retomo o grande autor portenho, meu espírito se fortalece, o corpo se revigora, viajo na poderosa imaginação e cultura de Borges, embarco em seus labirintos e espelhos, quando dou por mim já não me lembro de doença, de vírus, estou em estado de graça.

Nesta semana, rendido à gripe, folheei as Obras Completas de Borges, mergulhei nas Ficções, na História Universal da Infâmia, no Aleph, nas Inquisições. Horas depois, o milagre. Recuperei o ânimo, encantado uma vez mais com o Bruxo. Minha cabeça voltou a funcionar, o mal-estar cedeu.

Em agradecimento, voltei mentalmente a Buenos Aires, à rua Tucumán, entre Esmeralda e Suipacha, onde Borges nasceu em 1899. Depois entrei no centenário Café Tortoni para curtir o rococó e as discussões intelectuais.

Numa de suas mesas, me encontrei certa vez com Borges, encontro imaginário ocorrido na verdade com um sósia e velho amigo dele. Me lembro de que foi lá no Tortoni que comecei a espirrar e a sentir calafrios. Teria eu respirado alguns vírus antigos, muito resistentes, deixados lá dentro, décadas atrás, pelo próprio Borges? Pois é. Fica a dúvida. Bate e sopra. Quase mata e depois salva. Como resolver o dilema?

Importa é que o remédio funcionou. Sempre funciona. Por que você não o experimenta na próxima gripe ou mesmo sem ela? Não tem contra-indicação e não lhe provocará questões éticas sobre culpa, doença e crime. Aqui entre nós: por conta dos efeitos literários benfazejos de Borges, eu até já perdoei os argentinos pelos vírus que me legaram. Perdoo de antemão. Sempre. Uma cabeça em deleite vale muito mais que um corpo com alguns bilhões de vírus a mais.

Por mais que nos doa a vida

Por mais que nos doa a vida
nunca se perca a esperança;
a falta de confiança
só da morte é conhecida.
Se a lágrimas for cumprida
a sorte, sentindo-a bem,
vereis que todo o mal vem
achar remédio na vida.
E pois que outro preço tem
depois do mal a bonança,
nunca se perca a esperança
enquanto a morte não vem.

Carlos de Oliveira, "Poesias"

Um teólogo da morte

Os anjos comunicaram-me que, quando Melanchton faleceu, ofereceram-lhe no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que tivera na Terra. (Para quase todos os recém-chegados à eternidade acontece o mesmo e por isso acreditam que não morreram.) Os objetos domésticos eram iguais: a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Logo que Melanchton acordou naquele domicílio, reatou suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver, e escreveu durante alguns dias sobre a justificação pela fé. Como era seu costume, não disse nenhuma palavra sobre a caridade. Os anjos notaram aquela omissão e mandaram pessoas interrogá-lo. Melanchton disse-lhes: “Demonstrei irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que, para entrar no céu, basta a fé”. Dizia aquelas coisas com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram aquele discurso, abandonaram-no.

Em poucas semanas, os móveis começaram a virar fantasmas até ficar invisíveis, exceto a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Além disso, as paredes do aposento mancharam-se de cal, e o piso, de um verniz amarelo. Até sua roupa já era muito mais ordinária. Continuava, porém, escrevendo, mas, como persistisse na negação da caridade, transladaram-no a um ateliê subterrâneo, onde havia outros teólogos como ele. Lá passou alguns dias encarcerado e começou a duvidar de sua tese e permitiram-lhe voltar. Sua roupa era de couro sem curtir, mas procurou imaginar que tudo tinha sido uma mera alucinação e continuou elevando a fé e depreciando a caridade. Num entardecer sentiu frio.

Percorreu então a casa e verificou que os outros aposentos já não correspondiam aos de sua moradia na Terra. Um deles estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro tinha diminuído tanto que era impossível entrar; outro não havia mudado, mas as janelas e portas davam para grandes dunas. O quarto do fundo estava cheio de pessoas que o adoravam e que lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio como ele. Aquela adoração agradou-o, mas, como algumas daquelas pessoas não tinham rosto e outros pareciam mortos, acabou por detestá-los e por desconfiar. Resolveu então escrever um elogio da caridade, mas as páginas escritas hoje apareciam amanhã apagadas. Isso aconteceu porque as compunha sem convicção.

Recebia muitas visitas de pessoas mortas havia pouco, mas sentia vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido. Para fazê-las crer que estava no céu, combinou com um bruxo dos do quarto do fundo, e este as enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Mal as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, e às vezes um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem rosto o levaram para as dunas e que agora é como um criado dos demônios.
(
Do livro Arcana coelestia, de Emanuel Swedenborg)
Jorge Luís Borges, "História universal da infâmia"

Memória de Natal

Imagine certa manhã em fins de novembro. Certa manhã num começo de inverno há mais de vinte anos. Tenha em mente a cozinha de uma velha casa espaçosa numa cidade de interior. A peça principal é um belo fogão preto; mas também há uma grande mesa redonda e uma lareira com duas cadeiras de balanço em frente. Hoje mesmo a lareira deu início ao seu rugido sazonal.

Uma mulher de cabelos brancos e tosados está postada diante da janela da cozinha. Usa um par de tênis e um suéter cinza disforme sobre um vestido leve de chita. É baixinha e vivaz como uma galinha garnisé; mas, por conta de uma longa doença na juventude, tem os ombros lamentavelmente arqueados. O rosto é notável — lembra o de Lincoln, marcado como o dele e tingido pelo sol e pelo vento; mas também é delicado, bem desenhado, e os olhos são tímidos e cor de xerez. “Ah”, exclama, o hálito embaçando a vidraça, “é tempo de bolo de frutas!”

Ela está falando comigo. Tenho sete anos; ela tem sessenta e tantos. Somos primos bem distantes e vivemos juntos — pelo menos, desde quando me lembro. Outras pessoas, nossos parentes, moram na casa; e, muito embora tenham poder sobre nós e volta e meia nos façam chorar, em geral não damos muita atenção a elas. Somos o melhor amigo um do outro. Ela me chama de Buddy, em consideração a um menino que foi seu melhor amigo em outros tempos. O outro Buddy morreu lá pela década de 1880, quando ela ainda era uma criança. Ela ainda é uma criança.

“Eu sabia antes de levantar”, ela diz, dando as costas à janela com um alvoroço decidido nos olhos. “O sino da prefeitura soou tão frio e claro. E não havia nenhum passarinho cantando; já foram para algum lugar mais quente, foram, sim. Ah, Buddy, pare de se empanturrar de biscoito e vá buscar a carreta. Veja se encontra o meu chapéu. Temos de assar trinta bolos.”

É sempre a mesma história: chega uma certa manhã de novembro, e minha amiga, como se inaugurasse oficialmente a temporada de Natal que lhe anima a fantasia e aquece o coração, anuncia: “É tempo de bolo de frutas! Vá buscar a carreta! Veja se encontra o meu chapéu”.

O chapéu é encontrado, um chapéu redondo de palha, enfeitado com rosas de veludo desbotadas; já pertenceu a uma parenta mais elegante. Juntos, conduzimos nossa carreta, um carrinho de bebê caindo aos pedaços, para o jardim e para um arvoredo de nogueiras-pecãs. A carreta é minha, quer dizer, foi comprada para mim quando nasci. É feita de vime, está um tanto surrada, e as rodas cambaleiam como as pernas de um bêbado. Mas é um objeto leal; na primavera, nós a levamos aos bosques e a enchemos de flores, arbustos e samambaias selvagens para os vasos da varanda; no verão, a entulhamos com a parafernália de piquenique e as varas de cana e descemos até a beira de um riacho; ela também tem serventia no inverno: como caçamba para carrear lenha do quintal para a cozinha, como cama quente para Queenie, a corajosa terrier branca e laranja que caça ratos e sobreviveu ao mau humor alheio e a duas mordidas de cascavel. Neste momento, Queenie vem trotando ao lado dela.

Três horas depois, estamos de volta à cozinha, descascando um vultoso carregamento de pecãs derrubadas pelo vento. Nossas costas doem de tanto nos agacharmos para catá-las: foi difícil encontrá-las (o grosso da safra tinha sido chacoalhado das árvores e vendido pelos donos do pomar, que não somos nós), escondidas no meio das folhas, da grama enregelada e traiçoeira. Craaaque! Um rangido jovial, estalos de trovão em miniatura ressoam quando as cascas se rompem, e vai crescendo o montículo de polpa doce, oleosa e esbranquiçada na tigela opalina. Queenie quer provar, e de tanto em tanto minha amiga surrupia um pedacinho, sempre comentando a falta que esse pouco vai fazer. “Não pode, Buddy. Se a gente começar, não para mais. E o que tem mal dá para o começo. São trinta bolos.”

A cozinha começa a escurecer. A penumbra transforma a janela em espelho: nossos reflexos se misturam à lua nascente, enquanto trabalhamos à luz da lareira. Por fim, quando a lua já vai alta, jogamos no fogo a última casca e suspiramos ao vê-la queimar. A carreta está vazia, a tigela está cheia até a borda. Jantamos (biscoitos, bacon, geleia de amora-preta) e falamos do dia seguinte.

Começa nesse dia o trabalho de que mais gosto: as compras. Cerejas e cidras, gengibre, baunilha e abacaxi em lata, frutas caramelizadas, uvas-passas e nozes e uísque e, ah, tanta farinha e manteiga, tantos ovos, especiarias, essências; desse jeito, vamos precisar de um pônei para puxar a carreta. Mas, antes que as compras possam ser feitas, há a questão do dinheiro. Nós dois não temos nenhum. Exceto pelas ninharias sovinas que as pessoas da casa nos dão (dez centavos são considerados uma dinheirama); ou pelo que nós mesmos arrecadamos em várias atividades: montando um bazar de velharias, vendendo baldes de amoras-pretas catadas uma a uma, potes de geleia caseira, gelatina de maçã e compota de pêssego, colhendo flores para funerais e casamentos.

Uma vez, ficamos com o septuagésimo nono prêmio, cinco dólares, de um concurso nacional de futebol. Não entendemos nada de futebol. É que simplesmente entramos em todo concurso de que ouvimos falar: no momento, nossas esperanças recaem no grande prêmio de cinquenta mil dólares oferecido a quem der o melhor nome a uma nova marca de café (sugerimos “am”, e, depois de alguma hesitação, pois minha amiga pensou que talvez isso fosse sacrílego, acrescentamos o slogan “am! Amém!”).

Para dizer a verdade, nosso único empreendimento realmente lucrativo foi o Museu de Monstros e Milagres, que montamos num telheiro do quintal, dois verões atrás. Os Milagres eram um estereoscópio com cromos de panoramas de Washington e de Nova York, cedidos por uma parenta que estivera nesses lugares (ela ficou furiosa ao descobrir por que tínhamos pedido os cromos emprestados); os Monstros se resumiam a um pintinho de três patas, chocado por uma de nossas galinhas. Todo mundo nas redondezas queria ver o pintinho: cobrávamos cinco centavos dos adultos e dois das crianças. E embolsamos uns bons vinte dólares antes que o museu fechasse em virtude do falecimento de sua atração principal.

Mas, de um modo ou de outro, todo ano fazemos nossas economias de Natal, nosso Fundo Bolo de Frutas. Mantemos esse dinheiro escondido numa velha bolsa de contas guardada embaixo de uma tábua solta do piso embaixo do penico embaixo da cama da minha amiga. A bolsa raramente é removida desse lugar seguro, exceto quando fazemos um depósito ou, como acontece todo sábado, um saque; pois aos sábados tenho direito a dez centavos para ir ao cinema. Minha amiga nunca foi ao cinema, nem pretende: “Prefiro ouvir você contar a história, Buddy. Assim posso imaginar mais. Além disso, uma pessoa da minha idade precisa economizar a vista. Quando o Senhor chegar, quero ver tudo direitinho”.

Além de jamais ter visto um filme, ela jamais: comeu num restaurante, viajou além de oito quilômetros da casa, recebeu ou enviou um telegrama, leu nada diferente dos quadrinhos ou da Bíblia, usou maquiagem, praguejou, desejou mal a ninguém, mentiu de caso pensado, deixou um cão faminto continuar com fome.

E aqui vão algumas coisas que ela fez e faz: matou com uma enxada a maior cascavel (com dezesseis guizos) que já se viu no condado, cheira rapé (em segredo), domestica beija-flores (tente fazer isso) até que venham pousar num dedo, conta histórias de fantasmas (nós dois acreditamos em fantasmas) de dar calafrios no meio do verão, fala sozinha, passeia na chuva, cultiva as camélias mais bonitas das redondezas, sabe a receita de todo tipo de antigas poções indígenas, até mesmo a de um mágico removedor de verrugas.

Agora, terminado o jantar, vamos nos retirar para o quarto, que fica bem nos fundos da casa; é lá que minha amiga dorme, numa cama de metal pintada de rosa, que é sua cor preferida, e coberta por uma colcha de retalhos. 
Silenciosamente, chafurdando nos prazeres da conspiração, tiramos a bolsa de contas do esconderijo e espalhamos o conteúdo dela sobre a colcha de retalhos. Notas de um dólar, bem enroladas e verdes como brotos de primavera. Moedas sombrias de cinquenta centavos, pesadas o bastante para fechar os olhos de um morto. Lindas moedas de dez, as mais alegres, as únicas que tilintam de verdade. Moedas de cinco e de vinte e cinco, lisas como pedras de córrego. Mas, na maior parte, um monte odioso de centavos azedos. No verão passado, as demais pessoas da casa nos ofereceram um centavo a cada vinte e cinco moscas mortas. Ah, a matança de agosto: as moscas que subiram aos céus! Mas não foi um trabalho que nos desse orgulho. E agora, contando os centavos, é como se novamente contabilizássemos moscas mortas. Nenhum de nós é bom de números; contamos devagar, nos perdemos, recomeçamos. Segundo os cálculos dela, temos doze dólares e setenta e três centavos; segundo os meus, exatamente treze dólares. “Espero que você esteja errado, Buddy. Não se brinca com o número 13. Os bolos vão murchar. Ou alguém vai parar no cemitério. Meu Deus, por nada deste mundo eu sairia da cama num dia 13.” É verdade: ela sempre passa o dia 13 na cama. Assim, por via das dúvidas, subtraímos um centavo e o jogamos pela janela.

Dos ingredientes para o bolo de frutas, o uísque é o mais caro e também o mais difícil de conseguir: as leis estaduais proíbem sua venda. Mas todo mundo sabe que se pode comprar uma garrafa do sr. Haha Jones. E, no dia seguinte, tendo concluído nossas compras mais prosaicas, seguimos para o endereço comercial do sr. Haha, um café “pecaminoso” (para citar a opinião pública), onde se dança e se come peixe frito, perto do rio. Já estivemos lá, e na mesma missão; mas, nos anos anteriores, fizemos negócio com a mulher de Haha, uma índia de pele escura feito iodo, cabelos descaradamente oxigenados e aparência exausta. Na verdade, jamais vimos o marido, mas ouvimos dizer que é índio também. Um gigante com cicatrizes de navalha no rosto. É chamado de Haha por ser um homem soturno, que nunca ri.

À medida que nos aproximamos do café (uma grande cabana de troncos, enfeitada por dentro e por fora com grinaldas feitas de lâmpadas berrantes, junto à margem enlameada do rio, à sombra de árvores carregadas de um musgo que toma conta dos galhos como uma neblina escura), nossos passos se tornam mais lentos. Até mesmo Queenie para de saracotear e segue ao nosso lado. Houve gente que morreu no café de Haha. Cortada em pedaços. Um golpe na cabeça. Há um caso que vai para o tribunal na semana que vem. É claro que esses acontecimentos se dão à noite, quando as luzes coloridas projetam sombras fantasiosas e a vitrola geme. Durante o dia, o café de Haha parece derreado e deserto.

Bato na porta, Queenie late, minha amiga chama: “Dona Haha? Senhora? Alguém em casa?”. Passos. A porta se abre. Nossos corações se viram pelo avesso. É o sr. Haha Jones em pessoa! E ele é um gigante; tem cicatrizes, e não ri. Não, ele nos encara com olhos satanicamente revirados e exige saber: “O que vocês querem com Haha?”. Por um instante, ficamos paralisados demais para responder. Mas logo minha amiga meio que recobra a voz, ao menos uma voz sussurrante: “Por favor, sr. Haha, gostaríamos de comprar um litro do seu melhor uísque”. Os olhos do índio reviram ainda mais. Quem diria? Haha está sorrindo! Rindo mesmo. “E qual de vocês é o bebum?”

“É para fazer bolo de frutas, sr. Haha. É para cozinhar.” Ele volta a ficar sério. Franze a testa. “Isso não é jeito de gastar uísque bom.” Mesmo assim, recua para o café sombrio e, segundos mais tarde, reaparece com uma garrafa de bebida sem rótulo, amarelo-margarida. Exibe o brilho à luz do sol e diz: “Dois dólares”. Pagamos com moedas de cinco, de dez e de um. De repente, quando o índio chacoalha as moedas na mão como um par de dados, seu rosto se descontrai. “Vamos fazer o seguinte”, propõe, vertendo o dinheiro de volta na bolsa de contas, “em vez de pagar com dinheiro, mandem um desses bolos para mim.” “Bem”, minha amiga comenta no caminho de volta, “eis um sujeito amável.

Vamos pôr uma xícara de passas a mais no bolo dele.” O fogão preto, repleto de carvão e lenha, brilha como uma abóbora iluminada. Os batedores de ovos rodopiam, as colheres giram em vasilhas com manteiga e açúcar, a baunilha adoça, o gengibre tempera o ar; cheiros que se desmancham e pinicam o nariz, saturando a cozinha, inundando a casa, saindo para o mundo com as baforadas da chaminé. Em quatro dias o trabalho está feito. Trinta e um bolos, umedecidos com uísque, descansam nas janelas e nas prateleiras. Mas para quem? Para amigos. Não necessariamente para amigos próximos; na verdade, a maior parte foi feita para pessoas que talvez tenhamos visto uma vez, quando muito. Pessoas que caem nas nossas graças. Como o presidente Roosevelt. Como o reverendo e a Sra. J. C. Lucey, missionários batistas em Bornéu que vieram dar palestras aqui no inverno passado. Ou o amolador de facas, que visita a cidade duas vezes por ano. Ou Abner Packer, o motorista do ônibus que chega às seis de Mobile, o qual troca acenos conosco todo dia ao passar num turbilhão de poeira. Ou como os Wiston, um casal de jovens da Califórnia cujo carro, uma tarde, quebrou em frente à nossa casa e que passaram uma hora agradável conversando conosco na varanda (o jovem Sr. Wiston bateu uma foto nossa, a única que temos). Será que é porque minha amiga é tímida com todo mundo, exceto com estranhos, que todos esses estranhos e conhecidos casuais parecem ser nossos melhores amigos? Acho que sim. Além disso, nossos álbuns com papel timbrado da Casa Branca, mensagens esparsas da Califórnia e de Bornéu, e cartões-postais baratos do amolador de facas fazem que nos sintamos conectados a mundos momentosos que ficam além da cozinha com sua vista para um céu que nos detém.

Mas agora, em dezembro, um galho pelado de figueira arranha a vidraça. A cozinha está vazia, os bolos se foram; ontem carreamos os últimos até a agência do correio, onde o preço dos selos esvazia nossos bolsos. Estamos falidos. Eu me entristeço, mas minha amiga insiste em festejar — com dois dedos de uísque no fundo da garrafa de Haha. Queenie ganha uma colherada numa vasilha de café (ela gosta de café forte e com sabor de chicória). O resto dividimos em dois potes de geleia. Ficamos temerosos diante da perspectiva de beber uísque puro, cujo gosto provoca expressões contorcidas e arrepios de amargor. Mas aos poucos começamos a cantar, ao mesmo tempo, cada qual uma canção. Não sei a letra da minha, só sei: “Come on along, come on along, to the dark-town strutters’ ball”. Mas sei dançar, e é isto que finjo ser: um sapateador de cinema. Minha sombra dançante evolui nas paredes; nossas vozes fazem tremer a porcelana; rimos como se mãos invisíveis nos fizessem cócegas. Queenie rola pelo chão, suas patas escavam o ar, algo parecido com um sorriso estica seus lábios negros. Quanto a mim, sinto-me tão quente e faiscante quanto a lenha que desmorona na lareira, tão livre quanto o vento na chaminé. Minha amiga valsa ao redor do fogão, com a barra da pobre saia de chita presa entre os dedos como se fosse um vestido de festa: “Show me the way to go home”, ela canta, os tênis guinchando no assoalho. “Show me the way to go home.”

Entram dois parentes. Muito bravos. Poderosos, com olhos que recriminam e línguas que ralham. Ouvimos o que têm a dizer, as palavras martelam uma canção colérica: “Uma criança de sete anos fedendo a uísque! onde você está com a cabeça? uma criança de sete anos! ficou maluca? começa assim a desgraça! lembra da prima Kate? do tio Charlie? do cunhado do tio Charlie? uma vergonha, um escândalo, uma humilhação! de joelhos, reze, vamos, reze ao Senhor!”. Queenie se esgueira para debaixo do fogão. Minha amiga fixa os olhos nos sapatos, o queixo estremece, ela levanta a saia e assoa o nariz, depois corre para o quarto.

A cidade já foi dormir há muito tempo, e a casa está em silêncio, exceto pelo badalar dos relógios e pelos estalos do fogo moribundo, mas ela continua chorando num travesseiro úmido feito um lenço de viúva. “Não chore”, digo, sentado ao pé da cama e tiritando apesar do pijama de flanela, que guarda o cheiro do xarope para tosse do inverno passado, “não chore”, peço, brincando com os pés dela, fazendo cócegas nos dedos, “você é velha demais para isso.” “É que eu sou”, ela soluça, “eu sou velha demais. Velha e esquisita.” “Esquisita, não. Engraçada. Mais que todo mundo. Escute. Se não parar de chorar, estará tão cansada amanhã que não vai dar para a gente cortar a árvore.” Ela se apruma. Queenie pula para cima da cama (onde não é admitida) para lamber as bochechas da minha amiga. “Sei onde encontrar umas bem bonitas, Buddy. E são azevinhos. Com bagas do tamanho dos seus olhos. Ficam bem no meio do bosque. Mais longe do que você já foi. Papai nos trazia árvores de lá, ele as carregava no ombro. Isso já faz cinquenta anos. Bem, eu mal posso esperar por amanhã.”

De manhã. O orvalho congelado faz a relva brilhar; o sol, redondo feito uma laranja e laranja feito uma lua de verão, pende no horizonte, lustra os bosques prateados pelo inverno. Um peru selvagem gruguleja. Um porco desgarrado grunhe no meio do matagal. Logo chegamos à margem de cursos de água mais fundos e velozes, onde precisamos abandonar a carreta. Queenie é a primeira a vadear os riachos, nadando e latindo contra a rapidez da correnteza, num frio de pegar pneumonia.

Nós a seguimos, erguendo os sapatos e o equipamento (uma machadinha, um saco de aniagem) acima da cabeça. Mais um quilômetro e meio de espinhos que nos castigam, ouriços e sarças que se agarram em nossas roupas, folhas de pinheiro pontudas e cor de ferrugem, fungos coloridos e penas soltas. Aqui e ali, um relance, um alvoroço, nos lembram que nem todos os pássaros voaram para o sul. O caminho se desenrola entre poças amarelo-limão de sol e túneis escuros de trepadeiras. Outro córrego a cruzar: uma armada irrequieta de trutas pintadas remexe a água ao redor, e sapos do tamanho de um prato treinam mergulhos de barriga; castores trabalhadores constroem um dique.

Na outra margem, Queenie se sacode e estremece. Minha amiga está tremendo também, não de frio, mas de entusiasmo. De uma das rosas esfarrapadas do chapéu cai uma pétala quando ela levanta a cabeça e aspira o ar tomado pelo cheiro dos pinheiros. “Estamos quase lá, dá para sentir o cheiro, não dá, Buddy?”, ela diz, como se nos aproximássemos do oceano. E, de fato, é uma espécie de oceano. Acres aromáticos de árvores de Natal, azevinhos de folhas espinhentas. Framboesas rebrilham como sinetas de porcelana, corvos negros se precipitam aos berros sobre elas.

Tendo enchido nossos sacos de aniagem com galhos e bagas para enfeitar uma dúzia de janelas, passamos a escolher uma árvore. “Ela deve ter”, minha amiga pondera, “o dobro da altura de um menino. Para menino nenhum roubar a estrela.” Escolhemos uma com o dobro da minha altura. Um belo e bravo brutamontes que resiste a trinta golpes de machadinha antes de vergar e quebrar com um estalo. Arrastando-o como a uma presa, começamos a longa jornada de volta. A cada tantos metros abandonamos a luta, sentamos e ofegamos. Mas temos a força de caçadores triunfantes; isso e o perfume gélido e viril da árvore nos reavivam e nos tocam para a frente.

Muitos cumprimentos acompanham nosso retorno crepuscular pela estrada de terra roxa, rumo à cidade; mas minha amiga é escorregadia e evasiva quando os transeuntes elogiam o tesouro empoleirado na nossa carreta: que bela árvore, de onde veio? “Daqueles lados”, ela murmura vagamente. A certa altura, um carro para, e a mulher rica e preguiçosa do dono da usina se inclina para fora e gane: “Dou vinte e cinco por essa árvore aí”. Em geral, minha amiga tem medo de dizer não; mas dessa vez sacode de pronto a cabeça: “Nem por um dólar”. A mulher do dono da usina insiste. “Um dólar, nem pensar! Cinquenta centavos. Última oferta. Que é isso, mulher, você consegue outra.” Em resposta, minha amiga alega gentilmente: “Duvido. Não há duas coisas iguais neste mundo”. Em casa: Queenie desaba junto ao fogo e dorme até o dia seguinte, roncando alto feito um homem.

Um baú no sótão contém: uma caixa de sapatos com estolas de arminho (da pelerine usada em noites de ópera por uma senhora esquisita que uma vez alugou um quarto na casa), emaranhados de lantejoulas corroídas e amarelecidas pelo tempo, uma estrela prateada, uma fieira curta de lâmpadas com aspecto de doces, desencapada e certamente perigosa. Decorações excelentes, na medida do possível, o que não é muita coisa: minha amiga quer que a árvore resplandeça “que nem uma janela de família batista”, arriando sob a neve ornamental. Mas não temos dinheiro para os esplendores made in Japan da loja de artigos populares.

De modo que fazemos o que sempre fizemos: sentamos por dias e dias à mesa da cozinha com tesouras e lápis e resmas de papel colorido. Desenho os moldes, e minha amiga corta: montes de gatos e também de peixes (são fáceis de desenhar), algumas maçãs, algumas melancias, uns poucos anjos alados, feitos do papel-alumínio que protege as barras de chocolate Hershey. Usamos alfinetes de segurança para prender essas criações à árvore; como toque final, salpicamos os galhos de algodão desfiado (colhido em agosto com esse propósito). Minha amiga, examinando o efeito, aperta as mãos, com os dedos entrelaçados. “Diga a verdade, Buddy. Não dá até vontade de comer?” Queenie tenta comer um anjo.
Depois de trançarmos e decorarmos guirlandas para todas as janelas, nosso próximo projeto é preparar os presentes para a família. Lenços tingidos para as mulheres; para os homens, um xarope caseiro de limão, alcaçuz e aspirina, a ser tomado “aos primeiros sintomas de resfriado ou após uma caçada”. Mas, quando chega a hora de prepararmos nossos próprios presentes, minha amiga e eu nos separamos para trabalhar em segredo. Eu gostaria de comprar para ela uma faca de cabo perolado, um rádio, meio quilo de cerejas cobertas de chocolate (certa vez, provamos algumas, e desde então ela jura: “Eu poderia viver só disso, Buddy, meu Deus, como eu poderia — e isso não é usar o nome Dele em vão”). Em vez disso, estou fazendo uma pipa. Ela gostaria de me dar uma bicicleta (já disse em milhares de ocasiões: “Se ao menos eu pudesse, Buddy. Já é ruim ter de viver sem alguma coisa que a gente quer; mas, arre, o que me tira do sério é não poder dar a alguém uma coisa que a gente quer que o outro tenha. Mas um dia desses eu consigo, Buddy. Vou arranjar uma bicicleta para você. Não me pergunte como. Roubando, quem sabe”). Em vez disso, tenho quase certeza de que ela está fazendo uma pipa para mim — como no ano passado e no retrasado: antes disso, trocamos estilingues. O que para mim está muito bom. Somos mestres da pipa, estudamos o vento feito marinheiros; minha amiga, mais experiente que eu, consegue levantar uma pipa quando a brisa mal remexe as nuvens.

Na véspera de Natal, juntamos cinco centavos e vamos ao açougue comprar o presente tradicional de Queenie, um osso de boi. O osso, embrulhado em papel de presente, é posto no alto da árvore, perto da estrela prateada. Queenie sabe que está bem ali. Senta ao pé da árvore, olhando para cima num êxtase famélico: quando chega a hora de dormir, ela se recusa a arredar dali. Sua agitação só tem igual na minha. Chuto os cobertores e viro o travesseiro como se esta fosse uma noite escaldante de verão. Em algum lugar, um galo canta, fora de hora, pois o sol ainda está do outro lado do mundo. “Buddy, está acordado?” É minha amiga, chamando do seu quarto, contíguo ao meu; num instante, está sentada na minha cama, segurando uma vela.

“Pois é, não consigo pregar o olho”, declara. “Minha cabeça fica pulando feito uma lebre. Buddy, você acha que a Sra. Roosevelt vai servir nosso bolo no jantar?” Nós nos aconchegamos na cama, e ela aperta minha mão com carinho. “Sua mão já foi tão pequenina. Não acho graça em ver você crescer. Quando você for grande, ainda vamos ser amigos?” Eu digo que sempre seremos. “Mas estou me sentindo tão mal, Buddy. Queria tanto dar uma bicicleta para você. Tentei vender o camafeu que papai me deu. Buddy”, ela hesita, “fiz outra pipa para você.” Então confesso que também fiz uma para ela; e rimos. A vela já está pequena demais para aguentar. Logo se apaga, dando vez à luz das estrelas, às estrelas que rodopiam na janela como uma cantoria visível que a madrugada silencia devagar, devagar.

Provavelmente cochilamos; mas o raiar do dia nos desperta como um banho de água fria: pulamos da cama, de olhos acesos, andando para cima e para baixo, esperando que os outros acordem. De caso pensado, minha amiga derruba uma chaleira no chão da cozinha. Eu sapateio diante das portas fechadas. Um a um, todos da casa emergem, com ar de que gostariam de nos matar; mas é Natal, não há jeito. Primeiro, um belo café-da-manhã: com tudo o que se possa imaginar, de panquecas a esquilo frito, de canjica a mel no favo. O que deixa todos de bom humor, com exceção da minha amiga e de mim. Francamente, estamos tão ansiosos pelos presentes que não comemos nem um bocado.

Bem, acabo me desapontando. Quem não se desapontaria? Um par de meias, uma camisa para a escola dominical, alguns lenços, um suéter de segunda mão e uma assinatura anual de uma revista religiosa para crianças, O Pastorzinho. É de ferver o sangue. É mesmo. Minha amiga tem mais sorte. Um saquinho de tangerinas japonesas é seu melhor presente. Mas ela fica orgulhosa mesmo é de um xale branco de lã, tricotado pela irmã casada. Porém, diz que prefere a pipa que eu fiz. E a pipa é bonita mesmo, mas não tão bonita quanto a que ela fez para mim, azul e pontilhada de estrelas de honra ao mérito verdes e douradas; além do mais, traz meu nome pintado em cima: “Buddy”.

“Buddy, está ventando.” Está ventando, e não há quem nos impeça de correr até um pasto atrás da casa, para onde Queenie disparou a fim de enterrar o osso (e onde, no próximo inverno, Queenie será enterrada também). Ali, mergulhando na relva viçosa que chega à cintura, empinamos as pipas, sentimos como se contorcem no fio tal qual peixes-voadores nadando no vento. Satisfeitos, aquecidos pelo sol, nos esparramamos na relva e descascamos tangerinas, observando as piruetas das pipas. Logo esqueço as meias e o suéter de segunda mão. Sinto-me feliz como se já tivéssemos ganhado o grande prêmio daquele concurso da marca de café. “Meu Deus, como sou boba”, minha amiga exclama, subitamente alerta, como uma mulher que lembra tarde demais dos biscoitos no forno. “Sabe o que eu sempre pensei?”, pergunta em tom de descoberta, rindo não para mim, mas para alguma coisa mais longe. “Sempre pensei que era preciso estar doente e quase à beira da morte para ver o Senhor. E eu achava que, quando Ele viesse, seria como olhar para uma janela de batista: bonito feito um vidro colorido contra a luz, tão brilhante que nem se nota que está escurecendo. E era um consolo pensar nesse brilho tirando toda sensação medonha. Mas agora aposto que não é desse jeito. Aposto que, bem no fim, a gente descobre que o Senhor já se mostrou. Que as coisas, do jeito que são”, a mão faz um círculo, num gesto que reúne as nuvens e as pipas e a relva e Queenie jogando terra em cima do osso, “do jeito que a gente sempre viu, já eram uma visão Dele. Por mim, eu poderia partir deste mundo com o dia de hoje nos olhos.”

É nosso último Natal juntos. A vida nos separa. Aqueles-que-sabem-o-que-é-melhor decidem que o lugar certo para mim é uma escola militar. E assim começa uma sucessão miserável de prisões a toque de clarim, penosos acampamentos de verão sob o jugo da alvorada. Tenho um novo lar também. Mas esse não conta. Meu lar é onde minha amiga está, e para lá eu jamais vou. E lá ela fica, circulando pela cozinha. Só ela e Queenie. Depois, só ela. (“Querido Buddy”, ela escreve, com a letra rebelde e difícil de ler, “ontem o cavalo do Jim Macy deu um coice feio na Queenie. Graças a Deus, ela não sofreu muito. Então a enrolei num lençol bonito e a levei na carreta até o pasto do Simpson, onde ela pode ficar com todos os ossinhos dela...”)

Por mais alguns novembros minha amiga continua a assar os bolos de frutas, sozinha; já não são tantos bolos, só alguns; e é claro que ela sempre me manda “o melhor da fornada”. Além disso, em toda carta enfia uma moeda de dez centavos embrulhada em papel higiênico: “Vá ao cinema e me conte a história”. Mas aos poucos ela começa a me confundir nas cartas com seu outro amigo, o Buddy morto na década de 1880; cada vez mais, o dia 13 não é o único que ela passa na cama; chega certa manhã em novembro, certa manhã de um começo de inverno sem folhas nem pássaros, em que ela não consegue mais levantar para dizer: “Ah, é tempo de bolo de frutas!”. E eu sei muito bem quando é que isso acontece. Uma mensagem a respeito só confirma a notícia que alguma veia secreta já recebera, cortando uma parte insubstituível de mim mesmo, soltando-a feito uma pipa de fio partido. É por isso que, caminhando pelo terreno da escola nesta manhã de dezembro, vasculho o céu. Como se esperasse ver, tal qual corações, um par de pipas voando direto para o paraíso.
Truman Capote

sábado, outubro 10

Leitura no silêncio

 


Rachados ao meio

Vamos conversar? Trocar abraços, confidenciar sonhos, ativar a esperança? Penso em você, meu amigo que mora em Portugal e se preocupa comigo. Como estará recebendo as notícias que chegam daqui?

Apesar da Primavera, os dias andam sombrios e vão se arrastar até o dia 25. Mas a fé move montanhas, como dizem, e não podemos abrir mão dela. Andamos cansados da realidade, que nos mostra um mundo quase todo tomado pela direita, a pior delas, nos contamina com a lentidão da Justiça, que mantém impunes tantos criminosos, e adota como mote o “quanto pior, melhor”.


O capital ainda financia nosso futuro, comprando votos e lançando candidatos criados só para confundir. Nestes tempos líquidos, falta-nos discernimento para separar o joio do trigo, falta informação confiável, falta isenção da mídia. O que esperar agora da eleição do presidente do país?

Abutres sobrevoam nossas cabeças, enquanto lutamos por reverter os efeitos da ignorância e da crendice. Enquanto isso, o país da águia contabiliza lucros, caso a direita chegue ao Executivo. Somos Davi diante de Golias, desejando que a lenda se torne verdade. Somos o amor, diante da paixão. Esta é sempre tentadora, mas nada garante, além de ilusão.

O abismo é logo ali e muitos já entregaram os pontos, admitindo a derrota. Outros, como nós, mal dormem, mal comem, pedindo iluminação aos deuses para estratégias bem-sucedidas que nos devolvam a paz. Na luta contra a barbárie, é vencer ou vencer. Não só por nós, mas também pelos que, equivocados, votaram na direita até aqui, abrindo mão de tantos direitos conquistados, mas podem mudar a escolha e restaurar a cidadania.

Há muito andamos rachados ao meio, esquecendo aquela máxima dos conquistadores: dividir para enfraquecer. E insistimos nessa guerra fratricida, colocando em risco a Nação, nossas riquezas, o papel que representamos no mundo, nossa potência por vezes ignorada pelos próprios brasileiros.

É, temos muito que conversar.

Poema do futuro

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.

António Gedeão

A letra A: palavra por palavra


Abismo: Havia, nos fundos do externato, um barranco perpendicular que caía do morro. Depois do recreio, alguns meninos, eu entre eles, ficavam de baixo a mirá-lo, medindo-lhe as possibilidades.

Era um tremendo desafio ao nosso espírito de aventura, pois despencava vertical de uma altura de uns trinta metros, e tudo o que tinha como ponto de apoio eram alguns degraus naturais da escavação e uns poucos arbustos e raízes que o corte deixara a nu. Nós ficávamos debaixo a observá-lo com olhos de alpinista, a medir-lhe a tentação e o perigo: um pequeno grupo de garotos de cáqui que já tinham lido Júlio Verne. E saímos dali a nos fazer apostas – sobe, não sobe: como se da coragem de tentar ou não a escalada dependesse toda a nossa futura dignidade de homens.


Uma tarde, depois de um bate-bola, partimos para lá. O barranco parecia me olhar, na luz do entardecer, e eu, a defrontá-lo, parecia ouvir-lhe a voz cavilosa que me desafiava:

– Vem se você é homem!

E súbito eu parti e pus-me a galgá-lo com raiva, as mãos fincadas na terra como garras, os pés vencendo o barro mole à força de escorregar e tentar novamente. Vários garotos me seguiram, que desistiram logo, à exceção de um que me acompanhava de perto. Quando consegui apoiar-me a um troço de raiz e olhei para baixo, vi que tinha subido uns bons dez metros. Vi também, no fim da perpendicular, o rosto impassível de meu amigo A.V.P., que um segundo antes tentara me dissuadir da aventura em nome do bom senso. Depois, de repente, o garoto que me seguia largou presa e escorregou barranco abaixo – mas sem se machucar, pois até o estágio onde nos encontrávamos o aclive não era arriscado. Respirei fundo ao vê-lo que se sacudia do barro que lhe imundava o uniforme, e logo a seguir partiu correndo. E foi aí que eu cometi a temeridade. Sim, sozinho na escalada, senti-me um vencedor. Pensei que era mais homem que os demais, que a mim estava reservado um destino maior. E olhando para cima, recomecei a subida.

Foi terrível, porque, a partir dali, a ribanceira descia a pique, e eu, mal dado o passo inicial, senti pela primeira vez a sensação do abismo embaixo, a sucção que a força de gravidade parecia exercer sobre meu corpo seguro apenas pelos pés e pelas mãos a pedaços precários de raízes e tufos de arbustos nascidos na encosta. Parar e descer pareceu-me impossível. Logo acima, uma raiz maior, como negra cariátide, protuberava um meio metro do barranco. Fazendo um desesperado esforço, consegui içar-me até ela e cavalgá-la, de costas para o abismo: um bem pequeno abismo, é certo, mas não menos assassino, pois a essa altura ele já adquirira para mim uma conotação até então desconhecida, de vertigem e perigo mortal.

A noite caía rapidamente, e as grandes árvores do morro começaram a criar um nicho de trevas, ali naquele desvão. Olhei para cima: deviam faltar ainda uns dez metros para alcançar o platô do morro – e só então vi que não podia fazer mais nada. Depois, cautelosamente, olhei para baixo: não havia mais ninguém. Até A.V.P., o amigo, abandonara-me ao perigo em que eu me encontrava. Tive vontade de chorar. Meu coração pôs-se a bater mais forte, sacudido pelo medo que me acometia mais e mais. Eu era, montado naquela raiz, um pequeno cavaleiro do abismo, sem nada em cima a que me soerguer, sem nada embaixo para me sustentar, senão, depois da queda, o chão que eu já mal distinguia, pois uma boca de treva se fora formando a meus pés, treda e como que à espera de que eu caísse para me deglutir.

Alguém já experimentou o sentimento físico da solidão? O sentimento de se saber irremediavelmente só, como deve ter sentido o poeta Hart Crane depois de jogar-se ao mar, de noite, e ver seu navio ir embora num feixe de luzes que se foram perdendo pouco a pouco no oceano? Ou como Guillaumet, quando seu pequeno avião caiu nos Andes, no grande deserto eriçado de picos, como catedrais de neve, e todo rasgado em gargantas indevassáveis?

Eu experimentei – um menino de apenas 13 anos – esse sentimento quando a noite veio e tudo o que eu tinha para me apoiar era um negro paredão de terra e a sela de uma velha raiz protuberante – e vinte metros de nada embaixo. Uma bem mesquinha solidão perto da desses dois ases da poesia e da aviação: mas para mim, adolescente, era a primeira; e eu não sabia ainda o que eles sabiam, que fez ao poeta escolher a morte no mar, em plena noite, e ao aviador andar três dias, gelado e faminto, na busca desesperada de um cimo bem visível onde lhe pudessem descobrir o corpo, a fim de que sua mulher não perdesse o seu seguro de vida. Neste, o auge do instinto de vida; no outro, o auge do instinto de morte.

Foi quando ouvi a voz de A.V.P. e a de um irmão secular do colégio, cujo nome não lembro mais. O amigo me concitava friamente a descer.

– Mas eu não vou poder…

– Vai sim. Se você subiu, pode descer.

Pensei que tudo era melhor que aquele sentimento experimentado: não o medo da morte, mas o terrível cara a cara com a solidão. Era melhor cair, quebrar-me todo, morrer, que senti-lo de novo. Aquelas vozes embaixo eram tudo de que eu precisava para voltar a ser eu mesmo, um menino entre os outros, um menino com pai, mãe, irmãos, e amigos; um menino que jogava no ataque e já revelava um individualismo feroz em seu futebol, driblando muito e querendo chegar sozinho à meta.

E desci. Desci lenta, cautelosamente, experimentando bem com o pé cada reentrância onde pisava, e nunca largando o apoio de cima senão ao me sentir seguro de não cair. Desci às cegas mas desci, sabendo que cada segundo ganho ao abismo era uma possibilidade cada vez maior de sobrevivência. E, na última etapa, quando risonho e esfogueado me voltei, a primeira coisa que vi foi a mão de A.V.P. estendida para mim, e seu rosto tenso que se relaxava ao contato de minha mão. A mão do amigo. Do amigo cuja vida ele não tivera dúvida em arriscar, na certeza de que nada no mundo é feito sem esperança.
A letra A: palavra por palavra 
Vinicius de Moraes, "Poesia completa e prosa"

A velha

Sua primeira menção, um tanto confusa, foi em qualquer manhã, pelo telefone. Uma senhora, muito velha e doente, pedia que o Cônsul lhe fosse à casa, para assunto de testamento. Frau Wetterhuse.

O recado se perdia, obrigação abstrata, no tumulto diário de casos, o Consulado invadindo-se de judeus, sob mó de angústias, famintos de partir, sofridos imenso, em desengano, público pranto e longo estremecer, quase cada rosto prometendo-se a coativa esperança final do suicídio. Vê-los, vinha à mente a voz de Hitler ao rádio — rouco, raivoso. Contra esses, desde novembro, se implacara mais desbordada e atroz a perseguição, dosada brutal. Viesse a guerra, a primeira ordem seria matá-los?

O nome Wetterhuse extinguia-se num zumbido, com o que o Norte tem de mais brumoso. Mas, seguinte, na semana, voltava, a súplica, embaixada-de-jó, apelo insistido. Prometi-me de ir lá. Fazia todo o frio.

Sumia-se no dia noturno a bela, grande cidade hanseática, nem se avistavam seu céu de ferro molhado e as silhuetas das cinco igrejas, suas torres de cobre em azinhavre. Dava-se, que nem caudas de cobras, delgados glaciais chicotes — nevando, fortes flocos — o vento mordaz. Saindo para o Glockengiesserwall, se bem que abafado em roupas, eu tivera que me enregemer, ao resfrio cravador e à umidade, que transia. Via-se, a cada canto, o emblema: pousada num círculo, onde cabia oblíqua a suástica, a águia de abertas asas. A fora, as sombras dos troncos de árvores, na neve, e as curvas dos corvos, o corvo da desdita. Dizia-se que, este, muitos anos faz, seria o mais duro inverno, de concumulados gelos: morriam muitos pássaros. O coração daquela natureza era manso, era mau? Sentia-se um, ao meio de tal ponte, à face do caos e espírito de catástrofe, em tempo tão ingeneroso, ante o critério último — o pecado de nascer — na tese anaximândrica. Todos pertencíamos, assim, mesmo, à vida.


A casa era no Harvesterhude, umbrosa, meio a um jardim que no verão teria sido amável, com seus olmos e os maciços de tuias e rododendros. Toquei e levaram-me ao salão — como se subterrâneo. Havia lá uma invernia de austeridade, o cheiro de irrenovável mofo e de humanidade macerada. Tapeçarias, reposteiros de falbalás, muito antigos móveis, tudo se unia num esfumado: as cinzas da neve. Assustava a esdruxularia daquele ambiente solífugo e antimundano, de sopor e semiviver, o sentido de solidão; circunstando um ar frio. Tinham acendido lareira. Dos lustres descia uma luz, de velas, era luz em cemitério. Esperava-se encontrar, em torno, duendes e lêmures. Encontravam-se criaturas — ao todo cinco mulheres, todas velhas, que se retraíam, estafermáticas, estornicadas nas vestes de veludo ou gorgorão de lã, de golas altas, longas mangas, terrível decoro.

Ao centro, numa poltrona em estrado — deveria ficar mais alta que nós, segundo um rito — a mais anciã. Era extraordinária de velha, exaustamente o rosto, todo angulado, cavado de sulcos, e em cujo esqualor olhos havia, ex-azuis, sem íris, de despupilada estátua. Passaria dos noventa, parecia centenária. Desde as aparências, porém, sabia-se que a gentil-dama, feita às sociais sobrancerias e ao comando íntimo, e a quem o recato levara a levantar-se do leito de semiparalítica, e ser vestida e colocada ali, em elevado assento, de mágoa hirta, de sua lívida vontade. E precisava de ser ouvida. Beijei-lhe a mão, os trêmulos dedos definhados.

Era a Dame Verônika. Dame Angélika, sua filha, e três parentas, as outras, ressemblantes, com, que nem que perucas, os tão brancos cabelos, que teriam sido amarelo-palha. Ordenadamente se sentavam, cada qual com mal pegado sorriso, prontas a conservar-se de parte, sentindo-se demasiado presentes ao versar do assunto conspirável. O qual, a justo ver, elas desconheciam.

Desfez-se um silêncio. Dame Verônika tomou a voz. Dissesse tão-só frases de polidez; repetia-as, balbuz, sob algum afrontamento, com um arrulha de asma. Ora fechava os olhos, sacudia, levíssima, a cabeça em frinas, reprincipiava. Devia de estar repassando-se de algo, muito passado, trazido de um túnel, relutante na resistência à evocação, fato de estrangulada memória. Confundia-se; eu tinha de prestar ouvidos. De repente, encarou-me mais, dava-me o todo gris dos olhos. E começara a falar em português.

Falava-o, tão perfeitamente, e não mais naquela dicção fosca, mas ressurgida, anos d’ora-atrás. E vi — que a voz pertence às estâncias da idade: que, bem assim, nesse teor de tom, que eu jamais ouvira, conversar-se-ia, outro tempo, em solar e saraus, em tertúlias, merendas e cavacos. Era como se falasse figura, de um álbum desbotado.

— “Vivi em vosso país, vossa pequena formosa cidade de Petropolyís... Conheci vosso bom Imperador — ele estudava o hebraico. Vosso Imperador estimava meu marido, Káspar... Dr. Káspar Eswepp, sabeis? Vosso Imperador nos convidava ao paço...”

Relembrava — revocava — sorriu-se a um persistir de imagens? E estremeceu. Voltava às brumas do presente, à sua gélida pátria. Só então entrou a falar sob força de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados. Olhávamos, ali, na parede, de corpo inteiro, o marido. — “Ele era judeu, sabeis?”

E — o retamente, o raso: a filha, também tão idosa Dame Angélika, seria teuto-hebreia uma mischling, “mestiça do primeiro grau”, segundo o código hediondo. Dona Verônica o disse, de soçobro. A filha, por sua eiva aboriginal, corria grave perigo. Ela, a Mãe, tinha de solicitar-se daquilo.

Sofria, seca. Preparava-se? Para desvendar-me seu motivo: o drama, sobreestranho, o coração da coisa, vagarosíssima verdade:

— “Minha filha não é filha do meu marido. Nem ela, nem ele jamais o souberam... Foi em vosso país... O pai da minha filha era um amigo nosso, que nos frequentava... O pai de minha filha não era de sangue judeu...”

Teve um sorrisinho titânico. Endireitou o busto, alisava-se o rosto, num ademã de extrema dignidade, fizera-se altiva. Num momento, ela precisara de profundar um poço, arrancar em si o que tanto sepultara à força do tempo, desistir do longo benefício do olvido. E já era a dor de dar, à fé, uma sua turpitude secreta, exsuscitar um negrego, a fementira. Seu coração não pesava um miligrama?

Ali, as outras quatro mulheres permaneciam, salvaguardadas, em circunstância de surda sociedade, sem participação emotiva. Aquelas meditavam o que não podiam entender — Dame Angélika, damas Filippa, Osna e Alwyna.

Dona Verônica não se voltara para a filha; só a mim encarava, ávida. Não sem intuito descobrira-me o inarrável. Tinha de satisfazer o problema, intentar o sarcimento. Sanar o obviável. — “Não? Sim?” E queria reforçar-se com minha opinião, tomar conselho. A filha não tinha sangue da outra raça. —“Por que, pois?” Pertencia-lhe, fidedigna,declarar aquilo, fatal como o sol, verifazer o real, renegar o inautêntico. Tomaria o grave passo. A tanto preço — o de se inquinar e malsinar-se, para o pouco restante da vida. Em dizer, porém, que não lhe era possível prestar fatos, produzir testemunhas, recorrer no caso à prova de sangue, nem ao menos apelar para a razão pública. Tão longe, tantos anos... Mas, quem sabe, poderia ter o apoio de um grande, forte país, de gente tão fidalga, de tanta ponderância! — “Sim. E?” Pegou o lenço, tivera um jacto de tosse. Ansiosa, querulante: — “Foi em vossa formosa, pequena cidade de Petropolyís...”

Não, em fato. Não. Tive de sacudir a cabeça. Dame Angélika nem mesmo era brasileira. Tudo indeterminado, sem fundamento certo, apenas o citar de um romance perdido no antigo, tão esfiapável, pátina, voz para memória. Quem iria querer crer? Ela mesma, Dona Verônica, não se lograva de ilusões. Ah, vivera demasiado tempo, distanciara-se das possibilidades manejáveis das coisas. Teve o chluque de um soluço. Ofegou. Ia abater-se. Súbito, porém, rompendo-se do desalento, algo flamejou nela, que nem um rebrilho de alma — uma glória — e exclamou:

— “Ele foi um vosso compatriota, um homem nobre... O amor de minha vida!...”

Sopitou-se, desopressa. Como poder pagar sua dívida dourada? Levantei-me; eu nem era um cooperador passivo do destino. Também aquelas senhoras presentes se levantaram, em sincera, distinta cortesia. Ali, borbulhavam pensamentos. Desfalecidos espíritos. Só silêncio. Dona Verônica mostrava-nos seu comprido rosto, escalavrado, blafardo, diáfano pergaminho. Dona Angélica passava-lhe meiga a mão por trás da cabeça. Todos nós jazíamos de pé, em volta dela. A longa mulher. O sistema do mundo. A velha vida.
Guimarães Rosa, "Ave, Palavra"

Uma rosa para Emília

Quando Miss Emily Grierson morreu, toda a nossa cidade compareceu ao enterro: os homens em atenção a essa espécie de carinho respeitoso que se tem por um monumento tombado; as mulheres movidas pela curiosidade de ver o interior de sua casa, onde ninguém entrara nos últimos dez anos, exceto um velho negro, ao mesmo tempo cozinheiro e jardineiro.

Era um casarão quadrado, de madeira, outrora branco, decorado de cúpulas, de flechas, de balcões, no estilo pesadamente frívolo da época de 1870, situado na rua que já tinha sido a mais distinta da cidade. Mas as garagens e as debulhadoras de algodão, multiplicando-se em derredor, acabaram por fazer desaparecer até os nomes augustos daquele bairro. A casa de Miss Emily era a única, levantando sua decrepitude teimosa e faceira acima dos vagões de algodão e das bombas de gasolina. Emily tinha ido juntar-se aos representantes daqueles nomes augustos, no cemitério adormecido sob os cedros, onde jaziam entre os túmulos enfileirados e anônimos, dos soldados da União e dos Confederados mortos no campo de batalha de Jefferson.

Viva, Miss Emily fora uma tradição, um dever e um aborrecimento: espécie de obrigação hereditária, pesando sobre a cidade desde o dia em que, em 1894, o Coronel Sartóris (o prefeito que baixou o decreto proibindo às negras saírem à rua sem avental) a isentara do pagamento de impostos, isenção definitiva, que datava da morte de seu pai. Isto não quer dizer que Miss Emily aceitasse a caridade. O Coronel Sartóris inventara a complicada história de um empréstimo em dinheiro, feito pelo pai de Miss Emily à cidade e que a cidade, por conveniência própria, preferia reembolsar dessa maneira. Só um homem da geração e com as ideias do Coronel Sartóris poderia ter imaginado semelhante coisa, e só uma mulher poderia ter acreditado.

Quando a geração seguinte, com suas ideias modernas, deu, por sua vez, prefeitos e intendentes municipais, essa concessão provocou alguns descontentamentos. No primeiro dia do ano, dirigiram a Miss Emily uma notificação de impostos. Fevereiro chegou, sem trazer resposta. Enviaram-lhe uma carta oficial, pedindo-lhe para passar, quando pudesse, no gabinete do delegado. Na semana seguinte, o próprio prefeito lhe escreveu, oferecendo-se para ir, em pessoa, à sua casa, ou para mandar buscá-la no seu carro particular. Recebeu, como resposta, uma folha de papel de feitio arcaico, escrita com tinta desbotada, numa letra miúda e fluente, comunicando-lhe que não saía mais de casa. A notificação de pagamento de imposto vinha inclusa, sem comentários.

O Conselho Municipal reuniu-se em sessão extraordinária. Uma delegação dirigiu-se à sua casa e bateu naquela porta que nenhum visitante transpusera desde que, oito ou dez anos antes, Miss Emily deixara de dar lições de pintura em porcelana. Os membros da delegação foram introduzidos num saguão escuro, de onde uma escada se projetava para as sombras ainda mais que espessas do andar superior. Havia em tudo um cheiro de poeira, de guardado, de coisas que nunca são usadas -um cheiro de mofo e umidade. O negro conduziu-os ao salão, de mobiliário pesado, forrado de couro. Quando o negro abriu as cortinas de uma das janelas, viram que o couro estava estalado, descascando e, ao se sentarem, uma nuvem leve de pó subiu-lhe preguiçosamente em volta das coxas e se espalhou em círculos vagarosos, desenrolando-se, desagregada, na única réstia de sol. Num cavalete de moldura dourada, perto da lareira, via-se o retrato a carvão do pai de Miss Emily.

Levantaram-se à sua entrada. Era uma mulherzinha pequena e gorda, vestida de preto, com uma fina corrente de ouro descendo-lhe do pescoço até a cintura, onde desaparecia no cós da saia. Tinha a ossatura pequena e delicada; talvez, por isso, o que em outra pessoa seria apenas gordura, parecia, nela, obesidade. Dava a impressão de estar inchada, como um cadáver muito tempo submerso numa água estagnada; tinha, mesmo, de um afogado, a carne lívida e balofa. Seus olhos, perdidos nas intumescências de sua face, lembravam dois pedacinhos de carvão enfiados numa bola de massa e iam de um rosto a outro, enquanto os visitantes expunham o caso.

Não mandou que sentassem. Conservou-se, apenas, em pé no limiar da sala, e esperou tranquilamente que o porta-voz se interrompesse, balbuciando. Então, puderam ouvir o tic-tac do relógio invisível, preso na ponta de sua corrente de ouro.

Sua voz era seca e fria:

– Não tenho impostos a pagar em Jefferson. O Coronel Sartóris me explicou isso. Talvez um dos senhores possa consultar os arquivos da cidade e dar satisfações aos demais.

– Mas nós o fizemos. Nós somos as autoridades no município, Miss Emily. A senhora não recebeu a notificação assinada pelo delegado?

– Sim, recebi um papel – disse Miss Emily. – Talvez ele se considere realmente o delegado… Não tenho impostos a pagar em Jefferson.

– Mas não há, nos livros, nada que o possa provar. Veja a senhora… É preciso que nós…

– Procurem o Coronel Sartóris. Não tenho impostos a pagar em Jefferson.

– Mas, Miss Emily –

– Procurem o Coronel Sartóris. (Havia quase dez anos que o Coronel Sartóris estava morto) – Não tenho impostos a pagar em Jefferson. Tobe! – O negro apareceu. – Acompanha estes cavalheiros.

Assim ela os venceu irremediavelmente, como já lhes vencera os pais, trinta anos antes, a respeito do cheiro. Isso aconteceu dois anos após a morte de seu pai, e quase em seguida à ocasião em que o namorado – aquele mesmo que nós pensávamos iria se casar com ela – a abandonou. Aquela morte e o abandono do namorado fizeram que ela depois pouco saísse de casa. Algumas senhoras tiveram a temeridade de ir visitá-la, mas não foram recebidas e, naquela casa, o único sinal de vida era o negro – ainda moço, então – que entrava e saía com um cesto de compras.

– Como se um homem – seja quem for! – pudesse conservar limpa uma cozinha! – diziam as senhoras. Assim, ninguém se surpreendeu quando se começou a sentir o cheiro. Foi um novo laço que se estendeu entre a gente grosseira e prolífica do bairro e os grandes e poderosos Grierson.

Uma mulher, sua vizinha, foi queixar-se ao prefeito, Juiz Stevens, que contava, então, oitenta anos.

– Mas que quer a senhora que eu faça? – perguntou ele.

– Ora, que ela acabe com isso – disse a mulher. Não existe lei?

– Estou certo de que não será necessário – afirmou o Juiz Stevens.
 Provavelmente, é só uma cobra ou um rato que o negro matou no quintal. Amanhã falarei com ele a esse respeito.

No dia seguinte, recebeu duas novas queixas; uma partiu de um homem, que apresentou uma súplica tímida.

– Nós precisamos, realmente, fazer alguma coisa nesse caso, sr. Juiz. Eu seria a última pessoa neste mundo capaz de incomodar Miss Emily, mas precisamos fazer alguma coisa.

Nessa mesma noite, reuniu-se o Conselho Municipal: três barbas grisalhas e um rapaz moço, membro da nova geração.

– A coisa é muito simples – disse o moço. – Mandem. lhe dizer para limpar a casa. Deem-lhe um certo prazo para obedecer e, se ela não…

– Deus me livre, senhor! – exclamou o Juiz Stevens. Quer então dizer a uma senhora, nas bochechas, que ela cheira mal?

Assim, na noite seguinte, de madrugada, quatro homens atravessaram o gramado do jardim de Miss Emily e, como assaltantes, rondaram a casa, farejando os alicerces de tijolos e os respiradouros do porão, enquanto um deles, com um saco nos ombros, fazia, com regularidade, o gesto do semeador. Arrombaram a porta da adega, que salpicaram de cal, assim como todas as dependências. Quando, de volta, atravessaram o gramado, uma janela, até então sombria, iluminou-se de repente e viram Miss Emily sentada à contraluz, ereta, rígida, imóvel como um ídolo. Atravessaram em silêncio o gramado, metendo-se por entre as sombras das acácias que margeavam a rua. Depois de uma ou duas semanas, o cheiro desapareceu.

Isso foi quando as pessoas começaram realmente a ter pena dela. A gente de nossa cidade, que se lembrava de Lady Wyatt, sua tia-avó, que acabara louca, achava que os Grierson se julgavam muito mais importantes do que eram na realidade. Nenhum dos rapazes da cidade fora jamais considerado à altura de Miss Emily. Nós os imaginávamos muitas vezes como um quadro: ao fundo, Miss Emily, esguia figura vestida de branco; no primeiro plano, a silhueta de seu pai, virando-lhe as costas, com as pernas abertas, um chicote na mão; ambos, enquadrados pelos caixilhos da porta escancarada. Assim, quando ela chegou aos trinta anos ainda solteira, não posso dizer que isso tenha causado uma verdadeira alegria, mas nós, os rapazes, nos sentimos vingados; mesmo com os casos de loucura na família, ela não teria virado as costas a todas as oportunidades, se essas se tivessem verdadeiramente materializado.

Morto o pai, correu o boato de que só lhe tinha ficado a casa de herança, o que, de certo modo, alegrou todo mundo. Até que enfim, podiam apiedar-se de Miss Emily. Sozinha e na pobreza, iria humanizar-se. Agora, ela também conheceria a velha satisfação e o velho desespero de um vintém a mais ou de um vintém a menos.

No dia seguinte ao da morte do velho, as senhoras da cidade preparavam-me para ir à sua casa, apresentar-lhe os pêsames, conforme o costume. Miss Emily recebeu-as no limiar da porta, vestida como nos outros dias, e sem a menor marca de tristeza ou sofrimento na expressão. Disse-lhes que o pai não tinha morrido. Repetiu essas palavras durante três dias, quando os pastores e os médicos iam vê-la, tentando persuadi-la a deixar dispor do cadáver. Mas, no momento em que estavam resolvidos a recorrer à Lei e à força, ela cedeu, e enterraram-lhe o pai a toda pressa.

Não se disse, então, que estava louca. Pensamos que tinha agido como devia. Lembrávamo-nos de todos os moços que seu pai afastara, e sabíamos que, achando-se sem nada, ela deveria agarrar-se àquele que a despojara de tudo, como em geral acontece.

Esteve muito tempo doente. Quando tornamos a vê-la, tinha os cabelos cortados, o que a fazia parecer uma menina e lhe dava uma vaga semelhança com os anjos dos vitrais de igreja – uma mistura de trágico e sereno.

A cidade acabava justamente de firmar o contrato para pavimentação das calçadas e, no verão que seguiu a morte de seu pai, começaram os trabalhos. A companhia construtora trouxe negros, mulas e máquinas, e um contramestre chamado Homer Barron, um “yankee”, homem grande, moreno e decidido, com um vozeirão enorme e olhos mais claros do que a pele do rosto. Os garotos seguiam-no aos bandos, para ouvi-lo gritar com os negros, e para ouvir os negros cantando em compasso, enquanto erguiam e abaixavam a picareta. Em breve, o contramestre conhecia toda a gente da cidade. Cada vez que se ouviam ruidosas gargalhadas na praça, podia-se jurar que Homer Barron estava no centro do grupo. Não tardamos a avistá-lo, nos domingos à tarde, passeando com Miss Emily na carriola de aluguel, que tinha rodas amarelas e era puxada por uma parelha de cavalos baios.
A princípio, todos ficaram satisfeitos de ver que Miss Emily tinha agora um interesse na vida. As senhoras andavam dizendo: “Naturalmente, nunca uma Grierson tomará a sério um nortista, um assalariado.”

Mas havia outras pessoas, as mais velhas, que achavam que nem mesmo o desgosto deveria fazer que uma verdadeira senhora se esquecesse de que “noblesse oblige”. (Sem no entanto, empregar essa expressão: Noblesse oblige). Diziam, apenas: “Pobre Emily. Os parentes deviam procurá-la.”

Tinha parentes em Alabama, mas, alguns anos antes, o pai rompera com eles por causa da herança da velha Lady Wyatt, a louca, e não havia mais relações entre as duas famílias. Nem sequer se tinham feito representar no enterro.

E, mal a gente velha exclamou “Pobre Emily”, os mexericos começaram: “Vocês imaginam que, realmente. . .” diziam uns para os outros. – “Mas nem há dúvida. Porque, a não ser isso. . ” tudo sussurrado atrás das mãos no amarrotado farfalhar de sedas e cetins por detrás das janelas fechadas ao sol das tardes de domingo, enquanto a parelha de cavalos baios passava num leve e apressado clop-clop-clop. – “Pobre Emily!”

Ela, porém, erguia a cabeça bem alto, mesmo quando pensávamos que tinha decaído. Parecia, mais do que nunca, exigir que se reconhecesse sua dignidade de última dos Grierson, como se fosse necessário aquele toque de vulgaridade terrestre para acentuar mais profundamente a sua impenetrabilidade. Tal como no dia em que comprou o veneno para ratos, o arsênico. Isso aconteceu um ano depois de terem começado a dizer: 
“Pobre Emily”, e quando as duas primas estavam hospedadas em sua casa.

– Quero comprar veneno – disse ao farmacêutico. Contava, então, mais de trinta anos; era ainda delgada, embora estivesse mais magra do que de costume, com os olhos negros, altivos e frios num rosto cuja pele se repuxava na altura das têmporas e em volta das pálpebras, como se imaginava que deveria ser o rosto de um guardião de farol. – Quero comprar veneno.

– Pois não, Miss Emily. Que espécie de veneno? para ratos ou qualquer coisa assim? Recomen…

– Quero o que o senhor tiver de melhor. Não importa qual seja.

O farmacêutico citou alguns:

– Matariam até mesmo um elefante. Mas o que a senhora quer e…

– Arsênico – disse ela. – É bom?

– É… arsênico? Pois sim, senhora. Mas o que a senhora quer ….

– Eu quero arsênico.

– Pois, naturalmente – disse ele. – Se é isso que a senhora quer. Porém, a lei determina que a senhora declare o fim que dará ao veneno.

Miss Emily limitou-se a fitá-lo, com a cabeça pendida para melhor fixar os olhos nos olhos dele, até forçá-lo a desviar o olhar e a ir buscar o arsênico, que embrulhou. O caixeiro negro que fazia entregas trouxe-lhe o pacote, pois o farmacêutico não tornou a aparecer. Ao chegar em casa, tirou o papel; na tampa da caixa, debaixo da caveira e os dois ossos, estava escrito: “Para ratos”.

Assim, no dia seguinte, nós dizíamos: “Ela vai suicidar-se”, e achávamos que era a melhor solução. Quando começáramos a vê-la com Homer Barrou, tínhamos dito: “Vai casar-se com ele”. Depois, dizíamos: “Ela ainda acabará por persuadi-lo”, porque o próprio Homer observava – gostava da companhia dos homens e sabia-se que bebia com os rapazes no Elk’s Club – que não era feito para casamento. Mais tarde, dissemos: “Pobre Emily”, por detrás das venezianas, quando ambos passavam, nas tardes de domingo, na carriola vistosa, Miss Emily de cabeça erguida e Homer Barrou com o chapéu de lado e um charuto entre os dentes, segurando as rédeas e o chicote nas luvas amarelas.

Então, algumas senhoras começaram a declarar que aquilo era uma vergonha para a cidade e um mau exemplo para a gente moça. Os homens não ousavam intervir, mas, finalmente, as mulheres forçaram o pastor batista – a gente de Miss Emily era episcopal – a ir procurá-la. O pastor negou-se sempre a contar o que acontecera durante a entrevista e recusou-se a voltar à sua casa. No domingo seguinte, saíram juntos novamente e, no outro dia, a mulher do ministro escreveu aos parentes de Miss Emily, em Alabama.

Dessa forma, ela teve pessoas de seu sangue outra vez debaixo de seu teto e nós ficamos todos à espera dos acontecimentos. A princípio, nada aconteceu. Depois, ficamos convencidos de que iam se casar. Soubemos que Miss Emily fora à joalheria e encomendara um jogo de toucador para homem, todo de prata, com as iniciais II. B. gravadas em cada peça. Dois dias mais tarde, fomos informados de que comprara um enxoval masculino completo, inclusive uma camisola de dormir, e dissemos: “Estão casados”. E ficamos contentes, porque as duas primas eram mais Grierson ainda do que Miss Emily jamais o fora.

Não tivemos grande surpresa quando, terminado o calçamento das ruas, Homer Barron partiu. Sentimo-nos um pouco decepcionados por não ter havido nenhuma manifestação pública de regozijo, mas julgamos que se tivesse afastado para preparar a ida de Miss Emily, ou para lhe dar a oportunidade de se livrar das primas. (Por essa época formáramos uma verdadeira cabala, e éramos todos aliados de Miss Emily no sentido de ajudá-la a alijar as primas). O que é certo é que elas partiram ao fim de outra semana. E, como esperávamos, no terceiro dia após essa partida, Homer Barron estava de volta à cidade. Os vizinhos viram o negro abrir-lhe a porta da cozinha, uma tarde ao escurecer.

Foi essa a última vez que vimos Homer Barron. E, durante algum tempo, não tornamos também a ver Miss Emily. O negro ia e vinha com a cesta das compras, mas a porta da entrada continuava fechada. Uma vez ou outra conseguimos avistá-la à janela por alguns instantes, como naquela noite em que os homens foram à sua casa espalhar a cal; durante mais de seis meses, porém, ela não apareceu nas ruas. Compreendemos que isso também era de esperar; como se aquele aspecto do caráter de seu pai, que tantas vezes constrangera sua vida de mulher, fosse virulento e furioso demais para morrer assim.

Quando a vimos novamente, Miss Emily tinha engordado muito e seus cabelos estavam ficando grisalhos. Nos anos seguintes, foram ficando cada vez mais grisalhos, até o momento em que, tendo adquirido um tom cinzento-de-aço, sua cabeleira não mudou mais de cor. Até o dia de sua morte, aos setenta e quatro anos, aqueles cabelos conservavam ainda esse vigoroso tom cinzento-de-aço, como os cabelos de um homem ativo.

Desde aquela época, sua porta ficara fechada, exceto no decorrer de um período de seis ou sete anos, quando ela, quarentona, dava aulas de pintura em porcelana. Instalara, num aposento do andar térreo, o atelier onde as filhas e netas dos contemporâneos do Coronel Sartóris lhe eram enviadas com a mesma regularidade e dentro do mesmo espírito com que as mandavam à igreja, nos domingos, munidas de uma moedinha de vinte centavos para a hora da coleta. Nesse ínterim, Miss Emily se vira dispensada do pagamento de impostos.

A nova geração tornou-se, então, a espinha dorsal e a alma da cidade, as alunas cresceram e dispersaram-se, e não lhe mandaram as filhas com as caixinhas de tinta, os aborrecidos pincéis e os modelos recortados das revistas ilustradas femininas. A porta fechou-se sobre a última aluna e ficou fechada desde então.

Quando a cidade adotou a distribuição gratuita do correio, Miss Emily foi a única pessoa que se negou a consentir que fixassem um número de metal acima de sua porta e uma caixa postal ao lado. Não houve argumento que a convencesse.

Dias, meses e anos, vimos o negro, cada vez mais grisalho e curvado, entrando e saindo com a cesta de compras. Anualmente, em dezembro, mandavam-lhe a declaração de impostos, que o correio devolvia na semana seguinte, com a nota de não haver sido reclamada. Uma vez ou outra, nós a avistávamos diante da janela do andar térreo – tinha, evidentemente, fechado todo o andar superior da casa – semelhante ao busto esculpido de um ídolo no seu nicho, e nunca chegamos a saber se estava olhando para nós, ou se nem sequer nos via. E assim passou ela de geração para geração – querida, inevitável, impenetrável, tranquila e perversa.

E, então, ela morreu. Caiu doente no seu casarão cheio de sombras e de pó, tendo como único auxílio o negro caduco. Nem ao menos soubéramos que estava doente, pois havia já muito tempo que desistíramos de arrancar qualquer informação ao negro. Não falava com pessoa alguma, talvez nem mesmo com ela; sua voz se tornara áspera e rouquenha como uma voz que não serve nunca.
Morreu num dos quartos do andar térreo, numa cama de nogueira maciça com cortinados, a cabeça grisalha erguida por um travesseiro amarelo e mofado pelo tempo e pela falta de sol.

O negro encontrou a primeira das senhoras na porta da frente; deixou-as entrar, com suas vozes sussurradas e sibilantes, com seus olhares rápidos, furtivos e curiosos, e depois desapareceu. Meteu-se pela casa a dentro, atravessou-a toda, saiu pelos fundos e sumiu para sempre.

A duas primas não tardaram a chegar. Fizeram o enterro no segundo dia. A cidade em peso compareceu para ver Miss Emily coberta por um montão de flores compradas, o retrato, a carvão, de seu pai profundamente pensativo, acima do caixão, cercado pelas senhoras sibilantes e macabras. No saguão e no gramado, homens, muito velhos – alguns nos uniformes de confederados muito bem escovadinhos – falavam de Miss Emily como se fosse uma de suas contemporâneas, imaginando que tinham dançado com ela, e até mesmo, talvez, que a tinham namorado, confundindo o tempo e a progressão matemática, como fazem os velhos, para os quais o passado não é uma estrada que se vai encurtando, porém uma vasta planície nunca atingida pelo inverno, dividida para eles, agora, pelo estreito gargalo da ampulheta dos últimos dez anos.

Nós todos já sabíamos da existência, naquela região, do andar superior, onde ninguém pisara há quarenta anos, de um quarto fechado que seria preciso arrombar. Esperamos que Miss Emily estivesse docemente enterrada, antes de forçá-lo.

A violência com que pusemos a porta abaixo pareceu encher o quarto de uma poeira penetrante. Era como se uma mortalha, tênue e acre, se estendesse sobre todas as coisas daquele quarto, mobiliado e enfeitado para urna noite de núpcias: sobre as desbotadas cortinas de pesada seda cor-de-rosa, sobre os quebra. Luzes rosados das lâmpadas, sobre a penteadeira, sobre os delicados objetos de cristal, sobre as peças do aparelho de toucador para homem, com seus dorsos de prata embaciados, tão embaciados que nem se distinguiam os monogramas escurecidos.
Entre os pertences do toucador, estavam jogados um colarinho e uma gravata, como se tivessem acabado de tirá-los naquele momento; quando os levantamos, deixaram na superfície uma pálida meia lua traçada na poeira. O terno de roupa estava dobrado cuidadosamente numa cadeira, debaixo da qual se viam os dois sapatos mudos e as meias largadas no chão.

E o homem estava deitado na cama.

Durante muito tempo, ali ficamos, imóveis, olhando para o seu ricto profundo e descarnado, O corpo devia ter, a principio, repousado na atitude de carícia, abraçado a outro corpo, mas agora o grande sono que sobrevive ao amor, o grande sono que vence até mesmo as carícias do amor, dominara-o afinal. O que restava dele, em decomposição dentro do que restava de sua camisola de dormir, tornara-se inseparável do leito em que jazia; e sobre ele, assim como sobre o travesseiro vazio ao seu lado, estendera-se aquela camada espessa de paciente e obstinada poeira.

Notamos, então, que no segundo travesseiro havia a marca funda de uma cabeça. Um de nós encontrou qualquer coisa caída sobre esse travesseiro e, debruçando-se, enquanto a leve, impalpável poeira acre e seca, nos entrava pelas narinas, vimos um longo fio de cabelo de um tom cinzento-de-aço.
William Faulkner

sexta-feira, outubro 9

Bem acomodado

 


A lógica do maluco

Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o chapéu. Contou-me o caso, o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em traze-lo a público, sem o nome do doente – o que farei sem nenhuma discrepância.


Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte até da Academia de Letras da Vitória, Estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, as pressas...

A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que ne­la têm assento.

O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à Constituição, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.

Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência de lhe dar de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.

O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:

– Então, o que há, doutor?

O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – coisa que não era nem da defunta guarda nacional, sepultada, como tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sen­tou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:

– Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.

– Para que? Para que você quer falar ao doutor Juliano?

– É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vi­tória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.

– Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.

– Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.

– Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.

– Como?

– Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é que você pode exercer um cargo público?

– Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...

– Mas, você...

– Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.

Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o do­ente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:

– Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor ju­rídico.
Lima Barreto

O rio no coração

O menino carregava no coração o rio de sua cidade, chamado de Cachoeira. Para ele não existia no mundo um rio melhor do que aquele, que dividia a sua cidade em duas partes. Um dia, a Ponte Velha foi erguida para unir as duas margens, facilitando a comunicação das pessoas. No dia da inauguração foi declarado feriado municipal, os sinos da igrejinha tocaram em homenagem à festa que a cidade fazia com o ganho daquele portentoso cartão postal. Gente importante vestida de roupa de linho branca, usando sapato da última moda, homens sisudos com chapéu da palhinha, bigode retorcido nas pontas, ficaram no dia da inauguração fazendo a travessia da Ponte velha, pra lá, pra cá.

Passou a saber agora que uma visita à Ponte Velha de vez em quando era necessária para que os olhos não esquecessem o visual bonito de ver, através da paisagem que o rio oferecia numa canção constante das águas descendo serenas rumo ao mar. No final esqueceria tudo que era doce, a pancada formosa, as águas conversando amiúde entre as pedras, o vento, o sol, a chuva, a lua, a estrela, os seus eternos companheiros de viagem.

Da balaustrada, ficava olhando as águas passando debaixo da Ponte Velha. O visual impressionava vivamente. Casas ribeirinhas no aclive do terreno, as lavadeiras estendendo roupas que coloriam as inúmeras pedras pretas, os areeiros tirando areia dos trechos rasos. Jumentos transportavam em latas as cargas de areia. Tempo bom para o areeiro retirar a areia do fundo do rio era nos meses de verão. A cidade toda sabia, pelas mãos do areeiro, que o rio era uma dádiva e a argamassa da casa feita de fibra específica: calo, suor e areia. O pescador na canoa jogava a tarrafa no poço e a recolhia das águas cheia de peixes. De lá, no meio da ponte, avistava a Ilha do Jegue, recordava que as águas desciam furiosas na cheia, lambiam seus barrancos, diminuindo cada vez mais o seu tamanho.

Como esquecer cada enchente do rio? Descia feito um réptil sem tamanho, espumando e invadindo as ruas ribeirinhas, até mesmo a avenida do comércio, a principal da cidade. Levava no lombo toro de pau, bicho morto, porta, janela e cama. Algumas dessas enchentes ficaram na memória do povo, um poeta popular chegou a fotografar em versos a zanga do pequeno rio.

Dizia em certo trecho:

As casas comerciais,
Assim que o dono chegava,
A que tinha ainda porta,
Quando ele a destrancava,
A sua mercadoria
Coberta de lama achava.

Tinha gente que acordava
Naquele grande alvoroço,
A água levando tudo,
Fazendo o maior destroço,
O pobre salvava a vida
Com água pelo pescoço.