Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
segunda-feira, agosto 24
Ver claro
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade
A peste limpou as terras
O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.
A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
A Fazenda Califórnia
Quem decidiu o local da sede foi o açude, alimentado por dois grandes riachos. A barragem se levantou pela mão dos negros – terra puxada em couro de boi, aguada, batida a malho. O grande prato d´água ainda lá está hoje, serenando.
Em terreno plano, o cavaleiro do vale do sangradouro, alisou-se uma esplanada, levantou-se a capela. E, fechando os três lados ao redor da igrejinha, “a rua”, composta numa das faces pela morada do sinhô e, por trás e defronte à igreja, as casas de agregados, o vaqueiro, a professora. Adiante, no caminho da Croa Grande, o cemitério.
Houve inveja e falatório diante do arrojo inovador de Miguel Francisco. Era o tempo da descoberta das célebres minas de ouro da Califórnia, nos Estados Unidos, e até no sertão se falava e se sonhava com aquelas riquezas. Um primo e rival mandou recado irônico: como ia seu Miguel com a sua Califórnia? O velho riu, gostou do nome, e assim a fazenda se batizou por “São Francisco da Califórnia”. Na capela inaugurou-se a imagem do orago, um São Francisco de talha primitiva e forte; que hoje, aliás, está na capela do cemitério, onde o refugiamos para salvar da fúria airada de um vigário alemão que pretendia incinerar “aquela feiura barroca” e o substituiu por um santo de gesso, loiro, rosado, coberto de dourados.
Meu tio Miguel não tinha fihos: deixou tudo que era seu para meu avô, o dr. Arcelino; e nas mãos do novo dono a Califórnia virou realmente um condado. Mudou-se a casa-grande (que, no sertão, nós chamamos simplesmente “a fazenda”) para o outro cabeço, do lado de lá do sangradouro. Imensa, rodeada por fundos alpendres de 3 metros, 57 portas e janelas, salas e salões, quartos e alcovas onde se podem armar 120 redes. Nas festas do centenário, lá se hospedaram 125 pessoas. Por trás da “fazenda”, o vale profundo do sítio, o cano de irrigação partindo do açude, as valetas regando em sucessão primeiro a famosa horta de minha avó, depois o pomar onde se cultivavam até fruta-pão e jambo, até uvas. Além do pomar, o vale se alargava mais, e era o canavial.
Entre a “fazenda” e o açude, a “fábrica”: o engenho a vapor, os tachos de apurar a garapa, o locomóvel que apitava como um trem, o alambique, os paióis de rapadura e, por fim, em plano mais baixo, no escuro, deitando um cheiro forte que tonteava, a adega onde dormiam os toneis de cachaça.Saiba mais
Pena grande foi meu avô morrer cedo, deixando a viúva com dez filhos. Mas, mesmo em mão de viúva, a fazenda não decaiu. Ao contrário, parecia mais viva, com a presença frequente dos filhos, genros, noras e nós, as dezenas de netos. Dos sete filhos, cinco tiraram grau de doutor, o sexto fez seminário até o último ano, só o caçula não se formou. Concluídos os preparatórios, foi ele o escolhido para morar com a mãe e tomar conta da Califórnia. Só depois que ela morreu é que ele, solteirão, casou com uma prima. (A gente, na minha família, casava preferencialmente co primos. Dos dez da Califórnia, metade casou com primo ou prima.)
Até à morte de Dona Rachel, a Califórnia era mesmo o centro do nosso mundo. Era lá que nós os netos passávamos as férias, nas danças ao som de piano ou gramofone, cavalgatas, novenas, namoros.
Morta a avó, ficou de dono o caçula; nos anos em que lá esteve, se não fez melhoramentos, pelo menos não deixou que Nara arruinasse. Mas aí ele morreu (já viúvo) e a consanguinidade tinha atacado os herdeiros, jovens e irresponsáveis. Fazendeiro nordestino tem terras e senhoria, mas dinheiro vê muito pouco. E os órfãos queriam ver dinheiro na mão. Começaram vendendo cabras e ovelhas, depois passaram ao gado. Venderam o engenho, o locomóvel, o alambique.
E, parte a parte, foram vendendo afinal a terra da Califórnia – e por tutameia. A família não se envolveu – os moços faziam tudo às ocultas, “tinham cisma de parentes”. Quando se viu, acabavam de vender até a casa-grande, que aliás está caindo em ruínas.
Agora surgiu um problema que já deu até crime de morte. Acontece que os velhos moradores, descendentes da indiada e da escravaria do tempo de meu tio Miguel, sempre moraram na rua e plantaram nas croas do rio. Roçados que passam de pais a filhos há mais de século. A rua fica no Patrimônio, isto é, à terra do santo. Como é sabido, quem constrói igreja rural, tem que doar ao orago um patrimônio em terras que lhe sustente os serviços do culto. O velho Miguel demarcou para esse fim um retângulo generoso, que vai da “rua” ao cemitério e desce em procura do rio por mais de 1 quilômetro. Na degringolada os herdeiros deixaram que caducasse o aforamento perpétuo com que o velho garantira a posse efetiva do terreno: o Patrimônio reverteu à Cúria de Quixadá, que o administra. E os padres, por sua vez, passaram a lotear o Patrimônio. A velha rua se “urbaniza”, desfigurada em arruado, pululante de bodegas e biroscas. Mas o pessoal antigo que ainda mora lá quer continuar plantando nos seus velhos roçados que hoje pertencem a novos donos, diversos. Os donos novos querem reaver a terra; a disputa se envenena e, como já se disse, deu até crime de morte.
Na Califórnia, que já foi um condado, só existe hoje miséria e rixa.
A casa-grande assiste a tudo e protesta se desmoronando. No inverno passado caiu a queijaria de minha avó. Antes, ruíra o terraço empedrado. De longe a “fazenda” ainda faz figura, mas de perto está morrendo.
O que não tem resposta, nem nunca terá
Eu faria a Diadorim, herói/heroína de "Grande Sertão: Veredas", algumas perguntas indiscretas, talvez até impróprias: "Diadorim, como você conseguiu se passar por homem durante tanto tempo no meio daqueles jagunços abrutalhados? Eles faziam xixi em pé no mato, em grupo, e davam as três pancadinhas. E você? E se eles, entre uma batalha e outra, te desafiassem para um xixi à distância? Como era na hora de tomar banho, com todo mundo se jogando nu no rio? E, com todo respeito, como você se virava quando estava naqueles dias?". Uma pergunta de cada vez, claro, para não dar chance a Diadorim de me engabelar.
Mas não sei se a maioria das pessoas irá primeiro a Diadorim. Ninguém resistirá a tentar espremer a personagem mais enigmática, cuja intimidade todos gostariam de invadir —a insuperável Capitu, de "Dom Casmurro"—, para fazer a pergunta fatal: "Capitu, você, afinal, traiu ou não o Bentinho, seu marido, com o Escobar?" Ninguém se conforma com que Machado de Assis tenha deixado essa dúvida no ar, gerando dezenas de especulações e até romances que se atreveram a recontar a história.
Nas garras da IA, Capitu seria crivada de perguntas: "Capitu querida, o Bentinho era mesmo um bolha, mas, pelo amor de Deus, o que você viu no Escobar?". Ou então: "O Brás Cubas, outro personagem de Machado, era muito melhor. Por que você não pulou de livro e foi ter um caso com ele? Na ficção, tudo é possível!".
Enfim, são perguntas válidas. Só não confio nas respostas da IA, uma idiota da objetividade, incapaz de competir com os escritores naquilo que caracteriza a verdadeira criação: o intangível, o mágico, o que não tem resposta, nem nunca terá.
sábado, agosto 22
A mãe do menino
A casa era pequena, mas os dias tinham sempre as mãos zelosas da mãe. Colocavam nos vasos as rosas colhidas na roseira que ela mesma plantara, as quais agora como sonho enfeitado de pétalas davam a sensação de que a manhã era rosada e perfumada. Esbanjavam pelos ares só ternura.
Davam vida à máquina de costura as suas pernas ativas. Os bordados, como beleza tecida por mãos até certo ponto divinas, ganhavam admiração de quem fizesse a encomenda e fosse recebê-la quando estava pronta. Como o mundo de Deus era grandão. Os doces que a mãe fazia cativavam com açúcar.
Uma mãe é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe, certo dia ela disse, mas só depois como homem crescido o filho saberia o sentido justo do que a mãe quis dizer com isso. Conheceria então nos dias ásperos quanta falta as suas mãos faziam, pois já não mais cuidavam, não limpavam os caminhos na lei da vida para que ele estivesse seguro para fazer a travessia. Teriam de ser um dia com o filho sozinho os caminhos a percorrer na jornada da vida.
Da balaustrada no jardim gostava de olhar as nuvens acima do rio levando castelos, gente e carga. Antes que a noite chegasse, desenhavam gigantes, às vezes velhos barbudos, um deles apareceu em pé no tapete. De calção, peito nu, lá no pátio da casa, ficava vendo a passagem das nuvens no azul do céu. Como elas que retornavam naquele pedaço de céu, ele voltaria um dia para brincar com os amigos de infância quando já fosse um homem? Só havia um jeito de regressar ao passado, rindo, a mãe disse, sonhando acordado. Um homem com o menino conversando.
— Você quer ser peixe ou ser gente? — preocupada, a mãe perguntou. — Primeiro a obrigação, depois a diversão, só anda agora com o bando de amigos nadando e pescando no rio. Finalizou séria e se dirigiu calada para a cozinha.
A mãe alimentava com o marido a ideia de que o filho deveria estudar para se tornar um dia um homem formado, um cidadão de bem, exercendo na sociedade uma profissão importante como a de advogado, médico ou engenheiro civil.
A mãe e o pai ficaram contentes de alegria quando o filho regressou à cidade natal formado em advocacia. Era tudo que queriam para o filho caçula, o mais velho tornou-se em pouco tempo um médico cirurgião dos mais conceituados na cidade.
Cyro de Mattos
Dentro dos livros
marcas de quando os lemos.
Bilhetes de cinema,
autocarro, apontamentos
com demasiadas
abreviaturas, folhas
que dizem «não esquecer»
e foram esquecidas.
Nesta tarde li este verso.
O romance na página 89.
Agrupar os eventos
por contiguidade, remissão,
a data muito precisa
destes acasos
mais importantes
que a biografia.
Pedro Mexia
Pequena digressão
Logo no começo da fundação dos Quinze-Vingts, sabe-se que os asilados eram todos iguais e seus assuntos se decidiam por votação. Distinguiam perfeitamente, pelo tato, a moeda de cobre da de prata; nenhum deles tomou jamais vinho de Brie por vinho de Borgonha. Seu olfato era mais fino que o de seus patrícios que tinham dois olhos. Aprofundaram-se perfeitamente nos quatro sentidos. Isto é, ficaram sabendo acerca deles tudo quanto é possível; e viveram tranqüilos e felizes na medida em que os cegos o podem ser. Infelizmente, um de seus professores julgou possuir noções claras sobre o sentido da vista; fez-se ouvir, intrigou, granjeou partidários; reconheceram-no afinal como chefe da comunidade. Pôs-se a julgar soberanamente em matéria de cores, e aí é que foi a perdição.
Esse primeiro ditador dos Quinze-Vingts formou primeiro um pequeno conselho, com o qual se tornou depositário de todas as esmolas. Por esse motivo, ninguém se atreveu a resistir-lhe. Decidiu ele que todas as roupas do Quinze-Vingts eram brancas; os cegos acreditaram; não falavam senão de seus belos trajes brancos, embora não houvesse entre eles um único dessa cor. Como todo o mundo começasse então a zombar deles, foram queixar-se ao ditador, que os recebeu muito mal; tratou-os de inovadores, de espíritos fortes, de rebeldes, que se deixavam seduzir pelas opiniões errôneas daqueles que tinham olhos e ousavam duvidar da infalibilidade de seu senhor. Dessa querela, formaram-se dois partidos.
O ditador, para os apaziguar, baixou um decreto segundo o qual todas as suas vestes eram vermelhas. Não havia uma única veste vermelha entre os Quinze-Vingts. Riram-se deles mais do que nunca. Novas queixas da comunidade. O ditador enfureceu-se, os outros cegos também. Disputaram longamente, e só se restabeleceu a concórdia quando foi permitido, a todos os Quinze-Vingts, suspenderem o juízo sobre a cor de sua roupa.
Um surdo, ao ler esta pequena história, confessou que os cegos tinham feito muito mal em querer julgar a respeito de cores, mas permaneceu firme na opinião de que só aos surdos compete falar de música.
Voltaire
Os bonecos de barro
Como, como explicar o milagre… Ela se amedrontava pensativa. Nada dizia, não se movia, mas interiormente sem nenhuma palavra repetia: Eu não sou nada, não tenho orgulho, tudo me pode acontecer; se quiser, me impedirá de fazer a massa de barro; se quiser, pode me pisar, me estragar tudo; eu sei que não sou nada. Era menos que uma visão, era uma sensação no corpo, um pensamento assustado sobre o que lhe permita conseguir tanto barro e água e diante de quem ela devia humilhar-se com seriedade . Ela lhe agradecia com uma alegria difícil, frágil e tensa; sentia em alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados. Mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como a ausência — compreendia-se ela, assentindo feroz e muda com a cabeça. Mas nada sabia de si, passaria inocente e distraída pela sua realidade sem reconhecê-la; como uma criança, como uma pessoa.
Depois de obtida a matéria, numa queda de cansaço ela poderia perder a vontade de fazer bonecos. Então ia vivendo para a frente como uma menina.
Um dia, porém, sentia seu corpo aberto e fino, e no fundo uma serenidade que não se podia conter, ora se desconhecendo, ora respirando trêmula de alegria, as coisas incompletas. Ela mesma insone como luz — esgazeada, fugaz, vazia, mas no íntimo um ardor que era vontade de guiar-se a uma só coisa, um interesse que fazia o coração acelerar-se sem ritmo… de súbito, como era vago viver. Tudo isso também poderia passar, a noite caindo repentinamente, a escuridão fresca sobre o dia morno.
Mas às vezes ela se lembrava do barro molhado, corria alegre e assustada para o pátio: mergulhava os dedos naquela mistura fria, muda e constante como uma espera; amassava, amassava, aos poucas ia extraindo formas. Fazia crianças, cavalos, uma mãe com um filho, uma mãe sozinha, uma menina fazendo coisas de barro, um menino descansando, uma menina contente, uma menina vendo se ia chover, uma flor, um cometa de cauda salpicada de areia lavada e faiscante, uma flor murcha com sol por cima, o cemitério do Brejo Alto, uma moça olhando… Muito mais, muito mais. Pequenas formas que nada significavam, mas que eram na realidade misteriosas e calmas. Às vezes alta como uma árvore alta, mas não eram árvores, nem eram nada…Ás vezes um pequeno objeto de forma quase estrelada, mas sério e cansado como uma pessoa. Um trabalho que jamais acabaria, isso era o que de mais bonito e atento ela já soubera. Pois se ela podia fazer o que existia e o que não existia!…
Depois de prontos, os bonecos eram colocados ao sol. Ninguém lhe ensinara, mas ela os depositava nas manchas de sol no chão, manchas sem vento nem ardor. O barro secava mansamente, conservava o tom claro, não enrugava, não rachava. mesmo quando seco parecia delicado, evanescente e úmido. E ela própria podia confundi-lo com o barro pastoso. As figurinhas assim, pareciam rápidas, quase como se fossem se desmanchar — e isso era como se elas fossem se movimentar. Olhava para o boneco imóvel e mudo. Por amor ou apenas prosseguindo o trabalho ela fechava os olhos e se concentrava numa força viva e luminosa, da qualidade do perigo e da esperança, numa força de sede que lhe percorria o corpo celeremente com um impulso que se destinava à figura. Quando, enfim, se abandonava, seu fresco e cansado bem-estar vinha de que ela podia enviar, embora não soubesse o que, talvez. Sim ela às vezes possuía um gosto dentro do corpo, um gosto alto e angustiante que tremia entre a força e o cansaço — era um pensamento como sons ouvidos, uma flor no coração: Antes que ele se dissolvesse, maciamente rápido, no seu ar interior, para sempre fugitivo, ela tocava com os dedos num objeto, entregando-o. E, quando queria dizer algo que vinha fino, obscuro e liso — e isso poderia ser perigoso — ela encostava um dedo apenas, um dedo pálido, polido e transparente, um dedo trêmulo de direção. No mais agudo e doído do seu sentimento ela pensava: Sou feliz. Na verdade, ela o era nesse instante, e se em vez de pensar: Sou feliz, procurava o futuro, era porque, obscuramente, escolhia um movimento para a frente que servisse de forma à sua sensação.
Assim juntara uma procissão de coisas miúdas. Quedavam-se quase despercebidas no seu quarto. Eram bonecos magrinhos e altos como ela mesma. Minuciosos, ligeiramente desproporcionados, alegres, um pouco perplexos — às vezes, subitamente, pareciam um homem coxo rindo. Mesmo suas figurinhas mais suaves tinham uma imobilidade atenta como a de um santo. E pareciam inclinar-se, para quem as olhava, também como os santos. Virgínia podia fitá-las uma manhã inteira, que seu amor e sua surpresa não diminuiriam.
— Bonito… bonito como uma coisinha molhada, dizia ela excedendo-se num ímpeto imperceptível e doce.
Ela observava: mesmo bem acabados, eles eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente, ela pensava que nem ela nem ninguém poderia tentar aperfeiçoá-los sem destruir sua linha de nascimento . Era como se eles só pudessem se aperfeiçoar por si mesmos, se isso fosse possível.
As dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo. Seus bonecos, pelo efeito do barro claro, eram pálidos. Se ela queria sombreá-los não o conseguia com o auxílio da cor, e por força dessa deficiência aprendeu a lhes dar sombra ainda por meio de forma. Depois inventou uma liberdade: com uma folhinha seca sob um fino traço de barro conseguia um vago colorido, triste assustada quase inteiramente morto. Misturando barro à terra, obtinha ainda outro material menos plástico, porém mais severo e solene. MAS COMO FAZER O CÉU? Nem começar podia! Não queria nuvens — o que poderia obter, pelo menos grosseiramente — mas o céu, o céu mesmo, com sua existência, cor solta, ausência de cor. Ela descobriu que precisava usar uma matéria mais leve que não pudesse sequer ser apalpada, sentida, talvez apenas vista, quem sabe! Compreendeu que isso ela conseguiria com tintas.
E às vezes numa queda, como se tudo se purificasse, ela se contentava em fazer uma superfície lisa, serena, unida, numa simplicidade fina e tranquila.
Clarice Lispector, "O Lustre"
sexta-feira, agosto 21
Nova York ou interior?
Não era nenhuma confissão sobre crise conjugal. Era, isto sim, uma manifestação da crise nacional (aliás, devo confessar que estou já meio exausto desse papo de crise, pois se num país normal já existe tanta gente em crise, num país em crise tudo é pretexto para os que vivem em crise se debitarem seu baixo astral no baixo astral nacional).
Mas a frase lançada assim entre copos e sorrisos numa esplêndida masão da Barra da Tijuca tinha implicações curiosas. Funcionava como termômetro do momento em que vivemos. E, evidentemente, surgiu depois de uma série de considerações e brincadeiras sobre as milhares de pessoas que estão saindo de Governador Valadares para ir trabalhar nos Estados Unidos.
Não é de hoje que se registra o conflito entre o campo e a cidade. No século passado, Eça de Queirós escreveu As cidades e as Serras. Até Guerra e Paz, de Tolstoi, fala disso. No Brasil, então, é um chavão e realidade. Tenho certeza que os cronistas que antes de mim revezaram neste espaço falaram disso. Alguns talvez tenham até lembrado aquela expressão de Roger Bastide de que o Brasil "é um país de contraste".
Portanto, não é por aí que vou. Vou noutra direção. Para o século 21. Quem for brasileiro, siga-me. E é la que essas diferenças devem diminuir, e, em alguns países, acabar.
Certa vez vivi em Iowa (Estados Unidos) - uma região agrícola famosa que foi indicada para receber a visita de Nikita Kruschev, lembram-se? Ele era aquele precursor da Perestroica, que num debate na ONU tirou o sapato e começou a bater com ele sobre a mesa para chamar a atenção sobre seu discurso.
Não, eu não estava em Iowa estudando agricultura. Estava num programa internacional de escritores. Mas visitei uma fazenda típica, tipicamente do oeste, com americanos típicos, vestindo camisas quadriculadas típicas, jeans típicos, trabalhando em tratores típicos. Só não era muito típica para mim a não diferença que havia entre o campo e a cidade. Porque pouca ou nenhuma diferença havia. A cidade tinha 60.000 habitantes, mas 40.000 estavam ligados à universidade. Uma universidade num ambiente rural, que produzia alguns dos instrumentos mais sofisticados dos foguetes interplanetários e tinha um departamento de música experimental e eletrônica.
A vanguarda, portanto, em muitos aspectos não estava em Nova York. Estava no campo. Tanto na indústria quanto nas artes.
Lembram-se daquele verso de Drummond: "No elevador penso na roça, no roça penso no elevador"? Pois a tendência é ir acabando com essa esquizofrenia. O século 21 nos chama e desafia. Chega de falas antinomias. Campo e cidade não devem mais ser espaços conflitantes.
Me lembro dos anos 60 e 70. Era moda entre os mais jovens tentar a vida no campo. Havia mesmo aquela música de Rodrix que a Elis e outros gravaram: "Eu quero uma casa no campo". E era comum o publicitário, o jornalista ou mesmo o funcionário público fantasiar que o certo era viver no campo. Muita ecologia, paz & amor, bicho! Havia além da ideologia hippie o desencanto político e a fuga do que Marcuse chamava de "sociedade afluente".
Mas não deu certo. Não deu certo o exílio no paraíso.
Era comum a gente reencontrar os mesmo casais reinstalados na cidade daí a algum tampo. "Uai? Não deu certo?". Não. Não tinha dado certo. The dream is over. Eles não estavam preparados para o interior, embora achassem que o interior é que não estava preparado para eles.
É possível que todas as duas coisas fossem verdadeiras.
Mas, vejam lá. Estou falando disseminadamente de século 21, metade porque acredito, metade porque quero acreditar. Imaginem: o mundo está entrando numa totalmente diferente. Está sendo redesenhado. A Europa em 1992 será um só país. As distâncias estão se encurtando. A informática está aproximando os homens no tempo e no espaço. As estrelas estão cada vez mais íntimas. Como ocorre na Europa, castelos e computadores coexistem pacificamente. Nova York e o interior vão se fundir. A sociedade pós-industrial tenderá a diminuir as diferenças culturais e tecnológicas. E a diferença entre Nova York e o interior deixará de ser dramática. Não teremos mais que fazer opções entre uma coisa e outra. Poderemos ter as duas.
A origem do mundo
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direcção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.
Nuno Júdice, “Meditação sobre Ruínas”
Phyllis e Rosamond
Que cada homem, ouvi dizer outro dia, ponha-se a anotar os detalhes de uma jornada de trabalho; a posteridade há de ficar tão contente com o catálogo quanto ficaríamos nós, se tivéssemos um tal registro de como o porteiro do Globe e o homem responsável pelos portões do Park passaram o sábado, 18 de março, do ano da graça de 1568.
Como os retratos desse tipo que temos são quase invariavelmente do sexo masculino, que se empertigava pelo palco com proeminência maior, parece valer a pena tomar como modelo uma dessas muitas mulheres que se agrupam na sombra. Pois que um estudo de história e biografia convence qualquer pessoa bem-intencionada de que essas figuras obscuras ocupam um lugar não diferente daquele que a mão do exibidor assume na dança das marionetes, com o dedo posto no coração. É verdade que nossos olhos ingênuos acreditaram por muitas eras que as figuras dançavam por sua livre vontade, dando os passos que bem queriam; e a luz parcial que romancistas e historiadores já começaram a lançar sobre o espaço apertado e escuro dos bastidores pouco fez por enquanto, a não ser nos mostrar quantos cordões existem, mantidos em mãos ocultas, para uma torção ou puxão dos quais dependem todos os meneios da dança. Este preâmbulo nos conduz pois ao ponto do qual partimos; tão firmes quanto pudermos, tencionamos olhar para um grupinho que vive neste momento (20 de junho de 1906); e que parece, por algumas razões que iremos dar, sintetizar os atributos de muitos. É um caso comum, porque afinal são numerosas as jovens nascidas de pais bem-colocados, respeitáveis e prósperos; e todas elas devem ter muitos dos mesmos problemas, não podendo senão haver, infelizmente, pouca diversidade nas respostas que dão.
São cinco filhas, todas mulheres, como lhe explicarão com pesar: lamentando esse erro inicial, ao que parece pela vida afora, que seus pais cometeram. Além disso, acham-se em campos separados: duas irmãs se opõem a duas; e a quinta vacila uniformemente entre as outras. Decretou a natureza que duas delas herdarão um espírito resoluto e combativo, que se aplica com êxito, e nunca de modo inoportuno, a problemas sociais e à economia política; enquanto as outras duas a natureza fez frívolas, domésticas, de temperamentos mais sensíveis e simples. Essas últimas estão condenadas a ser o que, no jargão do século, chama-se de ”filhas caseiras”. Suas irmãs, decididas a cultivar o espírito, entram na faculdade, lá se dão bem e casam-se com professores. Fazem carreiras tão idênticas às dos próprios homens que nem chega a valer a pena convertê-las em objetos de investigação especial. A quinta irmã distingue-se menos pelo caráter que qualquer uma das outras; casando-se aos 22 anos, mal tem tempo de desenvolver os traços individuais da condição de senhorinha que nos pusemos a descrever. Nas duas ”filhas caseiras”, Phyllis e Rosamond, como as chamaremos, encontramos um material excelente para nossa pesquisa.
Alguns fatos nos ajudarão a colocá-las em seus devidos lugares, antes de iniciarmos o exame. Phyllis tem 28 anos, Rosamond, 24. São pessoas graciosas, de faces rosadas, vivazes; um olhar minucioso não encontrará em seus traços uma beleza perfeita; mas seus trajes e maneiras dão-lhes o efeito da beleza, sem lhes dar a substância. Parecem nativas da sala de visitas, como se, nascidas em vestidos de seda para a noite, jamais tivessem posto o pé num solo mais irregular do que o tapete turco, ou reclinado em superfície mais áspera do que a poltrona ou o sofá. Vê-las na sala cheia de mulheres e homens bem trajados é como ver um negociante na Bolsa, ou um advogado no Fórum. Esta, proclamam cada gesto e palavra, é sua inata aparência; este é o seu local de trabalho, sua arena profissional. Claramente é aqui que elas praticam as artes nas quais foram desde a infância instruídas. Aqui talvez ganhem seu pão e obtenham suas vitórias. Mas seria tão fácil quanto injusto insistir na metáfora até levá-la a sugerir que a comparação fosse adequada e completa em todas as suas partes. Ela falha; mas onde falha e por que falha só pode ser descoberto com atenção e algum tempo.
Deve-se estar em condições de acompanhar estas senhorinhas em casa e de ouvir seus comentários, no quarto de dormir, à luz da vela; deve-se estar a seu lado quando acordam, na manhã seguinte; deve-se assistir às progressões que ambas fazem no decurso do dia. Quem tiver feito isso, e não só por um dia, mas por vários, será então capaz de aquilatar os valores das impressões que estarão por ser recebidas à noite, na sala de visitas.
Eis o tanto que se pode reter da metáfora já utilizada; que o cenário da sala representa para elas trabalho, não diversão. Tudo isso é tornado muito claro pela cena na carruagem que demanda à casa. Lady Hibbert é uma crítica severa de tais performances; ela notou se suas filhas estavam bem, se falaram bem, se se comportaram bem; se atraíram as pessoas certas, repelindo as que não convinham; e se a impressão que deixaram foi favorável no todo. A partir da multiplicidade e da minuciosidade dos seus comentários é fácil perceber que duas horas de entretenimento, para artistas dessa estirpe, são uma produção assaz delicada e complicada. Ao que parece, muito depende da maneira como elas se desempenham. As filhas respondem submissamente e se mantêm caladas, quer a mãe as reprove, quer elogie; e sua censura é acerba. Quando se acham finalmente sozinhas, elas que dividem um quarto modesto pelas dimensões no topo de uma casa grande e feiosa, ei-las que espicham os braços e passam a suspirar de alívio. Não é das mais edi?cantes a conversa que travam; é o ”ramerrame” dos homens de negócios; elas calculam suas perdas e ganhos e é claro que no fundo não têm nenhum interesse, a não ser o próprio. Podem porém ter sido ouvidas a papaguear sobre livros e pinturas e peças, como se fosse a essas coisas que dessem mais importância; discuti-las era a única razão de uma ”festa”.
Observar-se-á também, nessa hora de franqueza pouco atraente, algo que é bem sincero também, embora de modo algum desairoso. As irmãs gostavam muito e abertamente uma da outra. Na maioria dos casos, sua afeição tomou a forma de uma simpatia instintiva que é tudo o que se quiser, menos sentimental; suas esperanças e medos são, sem exceção, partilhados; trata-se porém de um sentimento legítimo, profundo, malgrado seu exterior tão prosaico. Elas são rigorosamente honestas em todas as transações que efetuam juntas; e há até mesmo algo de cavalheiresco na atitude da irmã mais nova para com a mais velha. Sendo essa a mais fraca, por ser a que já tem mais idade, deve sempre ficar com a melhor parte. Há algo de tocante também na gratidão com que Phyllis aceita tal vantagem. Todavia já está ficando tarde e, em atenção às próprias peles, essas moças tão metódicas lembram agora uma à outra que já é hora de apagar a luz.
A despeito da prévia reflexão, não são elas avessas a dormir mais um pouco, depois que as chamam de manhã. Rosamond no entanto se levanta e sacode Phyllis. ”Phyllis, vamo-nos atrasar para o café.”
Deve ter sido de certo peso o argumento, porque Phyllis pulou fora da cama e começou a se arrumar em silêncio. A pressa porém não impediu que elas vestissem suas roupas com grande esmero e destreza, sendo o resultado minuciosamente inspecionado por ambas, cada qual a seu turno, antes de descerem. O relógio batia nove horas quando entraram na copa: o pai, que já estava lá, perfunctoriamente beijou suas duas filhas, passou sua xícara para o café, leu seu jornal e sumiu. Foi uma refeição silenciosa. O desjejum de lady Hibbert era feito no quarto; mas elas, depois do seu, tinham de visitá-la para receber as ordens do dia; enquanto uma tomava notas para a mãe, ia a outra falar com a cozinheira para combinar o almoço e o jantar. Às onze horas ficaram livres, por enquanto, e reencontraram-se no quarto de estudo, onde a irmã mais nova, Doris, de 16 anos, escrevia uma dissertação em francês sobre a Magna Carta. Suas queixas pela interrupção – posto que ela já sonhasse com uma aprovação escolar – não ?zeram jus a honrarias. ”Temos de ficar por aqui, porque não há outro lugar para nós”, observou Rosamond. ”Não precisa pensar que queremos sua companhia”, acrescentou Phyllis. Mas tais reparos foram ditos sem nenhum azedume, como simples e repisados chavões da vida cotidiana.
Contudo, em deferência à irmã, Phyllis pegou um volume de Anatole France, e Rosamond abriu os Estudos gregos de Walter Pater. Por alguns minutos elas leram em silêncio; uma criada depois bateu na porta, esbaforida, com o recado de que ”madame estava chamando as senhoritas na sala”. Todas duas resmungaram; Rosamond se ofereceu para ir sozinha; Phyllis disse que não, que ambas eram vítimas; e, perguntando-se qual seria a incumbência, lá se foram, de mau humor, escada abaixo. Lady Hibbert, impaciente, aguardava-as.
”Oh, enfim vocês chegaram!”, exclamou ela. ”Seu pai mandou dizer que convidou mr. Middleton e sir Thomas Carew para almoçar. Que amolação ele nos arrumou, não é? Não consigo imaginar por que os terá convidado, e almoço não há – e já vi que você não providenciou as flores, Phyllis; e quero que você, Rosamond, ponha uma gola nova no meu vestido marrom. Ah, meu Deus, como os homens são imprevidentes!”
As filhas estavam acostumadas a essas insinuações contra o pai: ficavam em geral do seu lado, mas não o diziam nunca.
Afastavam-se agora, em silêncio, nas suas missões à parte: Phyllis teve de sair para comprar flores e um prato extra para o almoço; Rosamond sentou-se para costurar.
Mal terminaram suas tarefas a tempo de se vestir para o almoço; mas à 1h30 adentravam, sorridentes e rosadas, pela grande e pomposa sala de visitas. Mr. Middleton era secretário de sir William Hibbert; um jovem em boa situação e com perspectivas, tal como o definia lady Hibbert, que poderia ser incentivado. Sir Thomas, funcionário da mesma repartição, era uma parte elegante do conjunto, com sua solidez, sua gota, mas sem nenhuma importância individual.
Durante o almoço animou-se um pouco a conversa entre mr. Middleton e Phyllis, enquanto os mais velhos, em sonoras vozes profundas, diziam banalidades. Rosamond se manteve meio calada, como de seu hábito; a especular sutilmente sobre o caráter do secretário que poderia vir a ser seu cunhado; e a conferir certas teorias que ela então já fizera a cada nova palavra proferida por ele. Mr. Middleton, por franco consentimento, não passava de uma brincadeira da irmã, que se atinha aos limites. Se alguém conseguisse ler os pensamentos de Rosamond, enquanto ela escutava as histórias de sir Thomas sobre a década de 1860 na Índia, constataria que ela andava ocupada com cálculos de certo modo abstrusos; o Middletonzinho, como o chamava, não era lá de todo mau; tinha a cabeça boa; era bom filho, ela o sabia, e daria um bom marido. Além do mais, era abastado e faria sucesso na carreira. Mas dizia-lhe sua agudeza psicológica, por outro lado, que ele era curto de espírito, sem um pingo de imaginação ou de intelecto, no sentido em que isso era entendido por ela; conhecia muito bem sua irmã para saber que ela nunca amaria este homenzinho ativo e eficiente, embora fosse capaz de respeitá-lo. Era esta a questão: deveria casar-se então com ele? E esse era o ponto a que chegara quando lord Mayo foi assassinado; enquanto seus lábios murmuravam ohs e ahs de horror, seus olhos telegrafavam pela mesa: ”Fico na dúvida”. Se ela houvesse feito que sim com a cabeça, sua irmã já teria passado à prática daquelas artes pelas quais tantas propostas se têm consolidado. Entretanto Rosamond, sem saber ainda o necessário para tomar decisão, mandou um telegrama bem simples: ”Continue a jogar com ele”.
Virginia Woolf
Clima, crime e castigo
Curiosamente, uma matéria publicada hoje pelo Estadão revela que dois dos cinco títulos mais lidos no MEC Livros são dele: Noites Brancas, que, acredite, já viralizou no TikTok, e Crime e Castigo.
Reli recentemente as primeiras páginas de Crime e Castigo e fui fisgada por um detalhe do qual não me lembrava.
É assim que começa um dos maiores romances já escritos.
Estamos em São Petersburgo, no início de julho, e Raskólnikov deixa o pequeno quarto onde vive para caminhar pela cidade.
Dostoiévski faz questão de nos dizer, logo na primeira frase, que fazia um calor excepcional naquele fim de tarde. Não é apenas uma informação meteorológica.
A cidade que encontramos nas páginas seguintes parece sufocar junto com o personagem. Há poeira, mau cheiro, gente demais, tavernas, apartamentos apertados, pobreza.
Raskólnikov está irritado, perturbado, com os nervos à flor da pele. Tudo incomoda: as pessoas, a cidade, o próprio ar.
Sabemos o que aquela caminhada anuncia.
Publicado em 1866, Crime e Castigo obviamente não é um livro sobre mudança climática. Seria absurdo tentar transformar Dostoiévski em ambientalista um século e meio depois.
Mas, ao ler aquelas páginas hoje, é difícil não enxergar algo que talvez passasse despercebido aos leitores de outras gerações: o ambiente também age sobre nós.
Cento e sessenta anos depois de Raskólnikov atravessar uma São Petersburgo sufocante, a ciência consegue medir parte daquilo que Dostoiévski observava nos seres humanos.
Pesquisadores vêm encontrando associações entre temperaturas elevadas e diferentes formas de violência.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 reuniu estudos de diferentes partes do mundo sobre a relação entre aumento da temperatura, crime e violência. Outro estudo, publicado no mesmo ano, encontrou associação entre temperaturas mais altas e crimes violentos na Coreia do Sul.
O calor não inventa assassinos, evidentemente. Nem explica Raskólnikov. Mas nossos corpos não são indiferentes ao ambiente em que vivem.
O calor extremo interfere no sono, provoca estresse fisiológico, agrava condições de saúde e transforma tarefas banais em esforços maiores. E, à medida que o planeta esquenta, aquilo que durante séculos tratamos como pano de fundo – a temperatura, o ar, a água, o espaço onde vivemos – começa a ocupar o centro da história.
Há ainda outra relação com a natureza na obra de Dostoiévski.
Em Os Irmãos Karamázov, publicado poucos anos antes de sua morte, a natureza deixa de ser apenas o ambiente que oprime e aparece como algo ao qual o ser humano pertence.
O starets Zóssima ensina Aliócha a amar a criação inteira: os animais, as plantas, cada folha, cada raio de luz. Não há nada de ecologismo moderno nisso. A visão de Dostoiévski é profundamente religiosa. Mas há ali uma noção que hoje podemos reconhecer também em outra linguagem: a da interdependência.
E então vem uma das cenas mais bonitas do livro.
Depois da morte de Zóssima, abalado pela perda de seu mestre, Aliócha deixa a cela e sai para a noite. Sobre ele, há um céu cheio de estrelas. Dostoiévski descreve o horizonte de tal forma que céu e terra parecem se tocar.
Tomado por uma emoção que ele próprio não consegue explicar, Aliócha se joga no chão. Abraça a terra.
E a beija.
Chora enquanto a beija e promete amá-la para sempre.
Entre o calor sufocante de Raskólnikov e a terra abraçada por Aliócha existe algo que, aos olhos de hoje, permite uma leitura inesperadamente ambiental de Dostoiévski.
De um lado, um homem caminha por uma cidade hostil, sufocado pelo calor, pelos odores, pela pobreza e pelo próprio isolamento. Do outro, um homem atravessa uma transformação ao perceber que faz parte de algo infinitamente maior.
Dostoiévski morreu em 1881. Não conheceu o efeito estufa como o entendemos hoje, nunca ouviu falar em aquecimento global e certamente não imaginou um planeta que, quase um século e meio depois, ultrapassaria temporariamente a marca de 1,5 grau de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais.
Mas compreendeu como poucos a relação entre aquilo que acontece fora de nós e aquilo que carregamos por dentro.
Raskólnikov caminha por uma cidade sufocante.
Aliócha, sob um céu cheio de estrelas, cai de joelhos, abraça a terra e a beija.
Um século e meio depois, descobrimos, de uma maneira muito menos poética, aquilo que une as duas cenas: nunca existiu um mundo humano separado do mundo natural.
A terra que Aliócha abraça é também aquela sobre a qual Raskólnikov caminha.
E não existe crime contra a Terra cujo castigo não chegue, de alguma forma, até nós.
quinta-feira, agosto 20
Aqui. Hoje.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.
Jorge Luís Borges
À beira do abismo
Eu o revejo com precisão, deitado no leito do hospital. Seu joelho ficou preso e foi quebrado pela empenagem do avião durante o salto de paraquedas, mas Sagon não sentiu o choque. Seu rosto e suas mãos estão gravemente queimados, mas, ao final das contas, ele não sofreu nada de preocupante. Ele nos conta lentamente sua história, com uma voz qualquer, como o relatório de uma tarefa…
Sagon faz bico. Pesa a questão. Julga importante dizer-nos se chamejava muito ou não muito. Hesita:
— Mesmo assim era fogo… Então, eu mandei que saltassem.
Pois o fogo, em dez segundos, transforma o avião em tocha!
— Abri, então, o canopi. Fiz mal. Entrou ar… O fogo… Fiquei incomodado.
Um forno de locomotiva cospe-lhe no ventre uma torrente de chamas, a sete mil metros de altitude e você ficou incomodado! Não trairei Sagon exaltando seu heroísmo ou seu pudor. Ele não reconheceria nem esse heroísmo nem esse pudor. Ele diria: “Sim, sim, fiquei incomodado…”. Ele faz, aliás, visíveis esforços para ser exato.
E bem sei que o campo da consciência é minúsculo. Ela só aceita um problema de cada vez. Se você brigar de soco e a estratégia da luta o preocupar, não sofrerá pelos socos. Quando quase me afoguei, num acidente de hidroavião, a água, que estava gelada, pareceu-me morna. Ou, mais precisamente: minha consciência não considerou a temperatura da água. Ela estava absorvida por outras preocupações.
— Pensei que estava sozinho. Achei que podia partir… (Ele já estava com o rosto e as mãos tostados). Levantei, pulei a carlinga e me mantive primeiro sobre a asa. Ali, debrucei à frente: não tinha visto o observador…
O observador, morto com um tiro só dos caças, jazia no fundo da carlinga.
— Recuei então e, atrás, não vi o artilheiro…
O artilheiro, também, havia desmoronado.
— Pensei que estava sozinho…
Ele refletiu:
— Se eu soubesse… Podia ter voltado a bordo… Não estava queimando tanto… Eu fiquei assim, muito tempo, na asa… Antes de sair da carlinga, eu tinha compensado o avião para cabrar. O voo estava estabilizado, a respiração suportável e eu me sentia bem. Ah! Fiquei tempo demais na asa… Não sabia o que fazer…
Não que se apresentassem a Sagon problemas inextricáveis: ele pensava estar sozinho a bordo, o avião em chamas e os caças repetiam suas passagens cuspindo projéteis. O que queria nos dizer Sagon é que ele não tinha nenhum desejo. Ele não sentia nada. Dispunha de todo o seu tempo. Imergia numa espécie de ócio infinito. E, ponto por ponto, eu reconhecia essa extraordinária sensação que acompanha às vezes a iminência da morte: um ócio inesperado… Como ela é desmentida pelo real! A imaginária da ofegante precipitação! Sagon permanecia ali, sobre a asa, como ejetado para fora do tempo!
— E depois eu saltei — disse ele —, saltei mal. Eu me vi turbilhonar. Tive medo de abrir cedo demais e me enrolar no paraquedas. Esperei ficar estabilizado. Ah, esperei muito tempo.
Sagon, assim, conserva a lembrança de ter, do início ao fim de sua aventura, esperado. Esperou chamejar mais forte. Depois, esperou na asa, não se sabe o quê. E, em queda livre, na vertical para o solo, ainda esperou.
E se tratava de Sagon mesmo, e ainda que se tratasse de um Sagon rudimentar, mais do que de costume, de um Sagon um pouco perplexo que, à beira de um abismo, esperneava entediado.
Antoine de Saint-Exupéry, "Piloto de Guerra"
A planta e a professora
Pois foi assim: os garotos queriam dar uma planta de presente à mestra. Não que gostassem dela: pelo contrário, a detestavam. Não tolerava o menor ruído em classe, dava temas enormes para serem feitos em casa e por qualquer coisa botava a turma de castigo. Mas esta irascível senhora tinha um ponto fraco: adorava plantas. Qualquer tipo de plantas. Segundo pessoas que a conheciam, até seu quarto de dormir estava cheio de vasos com as mais variadas folhagens. E assim, quando os alunos resolveram tirar sua desforra, pensaram justamente numa planta como instrumento de vingança. é que um dos garotos teve uma ideia: planta carnívora. Isto mesmo: pensou em dar de presente uma planta carnívora à professora. Naturalmente não seria dessas plantas de filme de terror, que engolem uma pessoa inteira. Uma planta menor, que apenas agarrasse a mão ou o dedo da mestra, dando-lhe um bom susto, já serviria.
O problema, porém, é que os garotos jamais tinham visto uma planta carnívora, e nem sabiam como obtê-la. Pesquisa daqui, pesquisa dali, descobriram um homem, um antigo chacareiro que podia lhes vender, mediante uma quantia que não era pequena para minguados bolsos, sementes de planta carnívora. Marcaram encontro com ele numa esquina perto da escola. Veio o homem, que era velho e de aparência sinistra; recolheu as notas e moedas e entregou aos meninos um pacotinho com sementes. E agora, como é que a gente faz? — perguntou um dos garotos. Plantem numa noite de lua cheia, disse o homem, e se foi.
Estavam em quarto minguante, de modo que tiveram de esperar bastante; mas na primeira noite de lua cheia, lá estavam eles, colocando as sementes num vaso com terra de primeira qualidade. Uns dias depois algo começou a brotar; era uma plantinha; de aparência inteiramente comum. Os garotos olhavam, intrigados; será que é mesmo uma planta carnívora, era a pergunta que tinham na cabeça (mas não se atreviam a formular em voz alta). De qualquer modo, regavam-na diariamente e colocavam adubo, na esperança que logo mostrasse sua ferocidade.
O que não aconteceu. A planta lá estava, quietinha como todas as plantas. Ocorreu-lhes que algum estímulo talvez fosse necessário; uma noite, deixaram por perto uns pedacinhos de carne. No dia seguinte a carne tinha desaparecido; poderia ter sido a planta, claro, mas a aparência demasiado satisfeita do gato fazia suspeitar o contrário.
Um dia suas esperanças ruíram definitivamente: é que a planta se abriu numa bela flor. Uma planta assim jamais fará mal a alguém, concluíram desolados.
Na falta de alternativa melhor, levaram a planta florida para a professora. Pela primeira vez ela lhes sorriu; e daí por diante não houve mais castigo nem repreensões. Como o meu garoto descobriu em sua escola: uma planta que floresce é uma lição de vida. Mesmo para professoras.
Há muitos estilos de viver
Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.
Sou e estou velho. Vivi enfrentando minhas deficiências, dores e, no meio dos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança. Apesar de tudo, permaneci companheiro de mim mesmo. Aprendi as chamadas “idades do homem” num tempo em que o gênero masculino englobava o feminino. Havia infância, juventude, maturidade e velhice. Abafava-se o nascimento para não terminar mencionando o que o nosso progressismo e desencanto reprimem: a morte ou o fim. Esse inexorável destino que o envelhecer trata muitas vezes como benefício, pois o velho corpo pode ser mais pesado do que a alma por ele inventada.
O fato é que as imposições da vida escondem e afugentam a inevitabilidade do fim. Esse fim que uma consciência onipresente e desenhada para a vida é incapaz de imaginar. Exceto por meio das imagens pastorais das crenças religiosas, muito embora essa morte seja experimentada todas as noites, quando dormimos, como conceitua um imenso Manuel Bandeira.
Tenho plena consciência de que cheguei ao término de um ciclo. Não é um fim, é uma fase. Na infância, almejamos a beleza da juventude. Na juventude, experimentamos os becos das escolhas. Maduros, inevitavelmente nos tornamos sérios, quadrados, controladores e, às vezes, sectários. Velhos, temos a suprema felicidade de testemunhar as estradas da vida que criamos. Conheci de perto a velhice casmurra do meu avô e o mais ou menos soturno envelhecimento do meu amado pai. Agiota que sou – como quer o paradoxo da vida –, mais velho que eles, entendo que há muitos estilos de viver e de morrer. O remédio é o amor que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e tudo isso que compete de igual para igual com a morte.
P.S.: Ah! Antes que eu me esqueça: na velhice não há futuro ou retornos...