Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
segunda-feira, setembro 21
O pó do que resta para o lixo
Penso, muitas vezes, em como eu seria se, resguardado do vento da sorte pelo biombo da riqueza, nunca houvesse sido trazido, pela mão moral do meu tio, para um escritório de Lisboa, nem houvesse ascendido dele para outros, até este píncaro barato de bom ajudante de guarda-livros, com um trabalho como uma certa sesta e um ordenado que dá para estar a viver.
Sei bem que, se esse passado que não foi tivesse sido, eu não seria hoje capaz de escrever estas páginas, em todo o caso melhores, por algumas, do que as nenhumas que em melhores circunstâncias não teria feito mais que sonhar. É que a banalidade é uma inteligência e a realidade, sobretudo se é estúpida ou áspera, um complemento natural da alma.
Se houvesse de inscrever, no lugar sem letras de resposta a um questionário, aque influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório. E a todos poria, em letras magnas, o endereço chave LISBOA.
Vendo bem, tanto o Cesário Verde como estes foram para a minha visão do mundo coeficientes de correção. Creio que é esta a frase, cujo sentido exato evidentemente ignoro, com que os engenheiros designam o tratamento que se faz à matemática para ela poder andar até à vida. Se é, foi isso mesmo. Se não é, passe por o que poderia ser, e a intenção valha pela metáfora que falhou.
Considerando, aliás, e com a clareza que posso, o que tem sido aparentemente a minha vida, vejo-a como uma coisa colorida — capa de chocolate ou anilha de charuto — varrida, pela escova leve da criada que escuta de cima, da toalha a levantar para a pá de lixo das migalhas, entre as côdeas da realidade propriamente dita. Destaca-se das coisas cujo destino é igual por um privilégio que vai ter à pá também. E a conversa dos deuses continua por cima do escovar, indiferente a esses incidentes do serviço do mundo.
Sim, se eu tivesse sido rico, resguardado, escovado, ornamental, não teria sido nem esse breve episódio de papel bonito entre migalhas; teria ficado num prato da sorte — “não, muito obrigado” — e recolheria ao aparador para envelhecer. Assim, rejeitado depois de me comerem o miolo prático, vou com o pó do que resta do corpo de Cristo para o caixote do lixo, e nem imagino o que se segue, e entre que astros; mas sempre é seguir.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Sei bem que, se esse passado que não foi tivesse sido, eu não seria hoje capaz de escrever estas páginas, em todo o caso melhores, por algumas, do que as nenhumas que em melhores circunstâncias não teria feito mais que sonhar. É que a banalidade é uma inteligência e a realidade, sobretudo se é estúpida ou áspera, um complemento natural da alma.
Devo ao ser guarda-livros grande parte do que posso sentir e pensar como a negação e a fuga do cargo.
Se houvesse de inscrever, no lugar sem letras de resposta a um questionário, aque influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório. E a todos poria, em letras magnas, o endereço chave LISBOA.
Vendo bem, tanto o Cesário Verde como estes foram para a minha visão do mundo coeficientes de correção. Creio que é esta a frase, cujo sentido exato evidentemente ignoro, com que os engenheiros designam o tratamento que se faz à matemática para ela poder andar até à vida. Se é, foi isso mesmo. Se não é, passe por o que poderia ser, e a intenção valha pela metáfora que falhou.
Considerando, aliás, e com a clareza que posso, o que tem sido aparentemente a minha vida, vejo-a como uma coisa colorida — capa de chocolate ou anilha de charuto — varrida, pela escova leve da criada que escuta de cima, da toalha a levantar para a pá de lixo das migalhas, entre as côdeas da realidade propriamente dita. Destaca-se das coisas cujo destino é igual por um privilégio que vai ter à pá também. E a conversa dos deuses continua por cima do escovar, indiferente a esses incidentes do serviço do mundo.
Sim, se eu tivesse sido rico, resguardado, escovado, ornamental, não teria sido nem esse breve episódio de papel bonito entre migalhas; teria ficado num prato da sorte — “não, muito obrigado” — e recolheria ao aparador para envelhecer. Assim, rejeitado depois de me comerem o miolo prático, vou com o pó do que resta do corpo de Cristo para o caixote do lixo, e nem imagino o que se segue, e entre que astros; mas sempre é seguir.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Um artista do trapézio
Um artista do trapézio — como se sabe, esta arte que se pratica no alto das cúpulas dos grandes circos é uma das mais difíceis entre todas aquelas possíveis ao homem — havia organizado sua vida de tal maneira que — primeiro por zelo profissional de perfeição, depois por um hábito que tinha se tornado tirânico — enquanto trabalhava para o mesmo patrão, permanecia dia e noite no trapézio. Todas suas necessidades — por outro lado, muito pequenas — eram satisfeitas por criados que se revezavam e ficavam, embaixo, vigiando. Tudo o que se necessitava em cima era levado e trazido em cestinhos construídos especialmente para aquela finalidade.
Dessa maneira de viver não resultavam para o trapezista dificuldades especiais com o resto do mundo. Era somente um pouco incômodo para os demais números do programa, porque não se podia ocultar que ficara lá em cima, se bem que se mantivesse quieto, alguns olhares do público se desviavam para ele. Mas os diretores perdoavam-no porque era um artista extraordinário, insubstituível. Ademais, sabia-se que não vivia assim por capricho e que só daquela maneira podia estar perfeitamente em forma e conservar a extrema perfeição de sua arte.
Além disso, lá em cima ele ficava muito bem. Quando, nos quentes dias de verão, se cobriam as janelas laterais que havia em redor da cúpula, e o sol e o ar irrompiam no crepuscular do circo, era até belo. Sua convivência humana era muito limitada, é claro. Às vezes trepava pela corda de ascensão algum colega de turnê, sentava-se a seu lado, no trapézio, apoiado um na corda da direita, outro na da esquerda, e conversavam longamente. Os operários que consertavam o teto trocavam algumas palavras com ele através da claraboia, ou o eletricista que verificava os fios na galeria mais alta gritava alguma palavra respeitosa, se bem que quase ininteligível.
A não ser nessas ocasiões, estava sempre sozinho. Às vezes, um empregado vagando na hora do descanso pelo circo vazio elevava o olhar à quase atraente altura em que o trapezista descansava ou se exercitava em sua arte, sem saber que era observado.
Assim, poderia viver tranquilo o artista do trapézio a não ser pelas inevitáveis viagens de um lugar para outro que o importunavam enormemente. Certo é que o empresário tratava de abreviar esse sofrimento.
O trapezista era conduzido à estação num carro de corridas que ia de madrugada pelas ruas desertas a toda velocidade; demasiado lento, entretanto, para sua nostalgia do trapézio.
No trem estava preparado um lugar especialmente para ele com uma substituição mesquinha — mas de algum modo equivalente, de sua maneira de viver.
No local de destino, já estava armado o trapézio muito antes de sua chegada, mesmo antes de serem cerradas as tábuas e colocadas as portas. Para o empresário o momento mais agradável era aquele em que o trapezista apoiava o pé na corda de subida e ia se acomodar novamente em seu trapézio.
Apesar de todas essas precauções, as viagens perturbavam gravemente os nervos do trapezista, de modo que, por melhores que fossem, economicamente falando, para o empresário, sempre lhe resultavam penosos.
Uma vez em que viajavam, o artista no seu posto, sonhando, e o empresário perto da janela, lendo, o homem do trapézio interpelou-o suavemente. E disse-lhe, mordendo os lábios, que daquele dia em diante necessitava, para viver, não um trapézio, como até então, mas dois, um em frente do outro.
O empresário acedeu imediatamente. Mas o trapezista, como se quisesse demonstrar que a aceitação do empresário não importava mais que sua oposição, acrescentou que nunca mais, em nenhuma ocasião, trabalharia unicamente sobre um trapézio. Parecia horrorizar-se diante da ideia que isso lhe pudesse acontecer alguma vez. O empresário, detendo-se e observando seu artista, reiterou sua absoluta conformidade. Dois trapézios é melhor do que um. Por outro lado, os exercícios seriam mais variados e mais agradáveis à vista.
Mas o artista, de repente, pôs-se a chorar. O empresário, profundamente comovido, levantou-se e perguntou o que havia. E, como não recebesse resposta, subiu para perto do artista, acariciou-o, abraçou-o e encostou seu rosto no dele, até sentir as lágrimas em sua pele. Depois de muitas perguntas e palavras carinhosas o trapezista exclamou soluçando:
Uma única barra nas mãos. Como eu poderia viver!
Então já se tornou mais fácil ao empresário consolá-lo. Prometeu-lhe que na primeira estação, na primeira parada, telegrafaria para que instalassem o segundo trapézio, e recriminou-se por ter deixado o artista trabalhar tanto tempo em um só trapézio. Enfim, agradeceu-lhe por ter-lhe feito notar aquela omissão imperdoável. Desta maneira, o empresário conseguiu tranquilizar o artista e retornar para seu lugar.
Em troca, ele é que não estava tranquilo. Com grave preocupação espiava, às ocultas, por cima do livro. Se semelhantes pensamentos haviam começado a atormentá-lo, poderiam cessar por completo? Não continuariam aumentando dia a dia? Não ameaçariam sua existência? E o empresário, alarmado, pensou ver naquele sonho aparentemente calmo, em que haviam terminado os soluços, começar a esboçar-se a primeira ruga na testa infantil do artista do trapézio.
Dessa maneira de viver não resultavam para o trapezista dificuldades especiais com o resto do mundo. Era somente um pouco incômodo para os demais números do programa, porque não se podia ocultar que ficara lá em cima, se bem que se mantivesse quieto, alguns olhares do público se desviavam para ele. Mas os diretores perdoavam-no porque era um artista extraordinário, insubstituível. Ademais, sabia-se que não vivia assim por capricho e que só daquela maneira podia estar perfeitamente em forma e conservar a extrema perfeição de sua arte.
Além disso, lá em cima ele ficava muito bem. Quando, nos quentes dias de verão, se cobriam as janelas laterais que havia em redor da cúpula, e o sol e o ar irrompiam no crepuscular do circo, era até belo. Sua convivência humana era muito limitada, é claro. Às vezes trepava pela corda de ascensão algum colega de turnê, sentava-se a seu lado, no trapézio, apoiado um na corda da direita, outro na da esquerda, e conversavam longamente. Os operários que consertavam o teto trocavam algumas palavras com ele através da claraboia, ou o eletricista que verificava os fios na galeria mais alta gritava alguma palavra respeitosa, se bem que quase ininteligível.
A não ser nessas ocasiões, estava sempre sozinho. Às vezes, um empregado vagando na hora do descanso pelo circo vazio elevava o olhar à quase atraente altura em que o trapezista descansava ou se exercitava em sua arte, sem saber que era observado.
Assim, poderia viver tranquilo o artista do trapézio a não ser pelas inevitáveis viagens de um lugar para outro que o importunavam enormemente. Certo é que o empresário tratava de abreviar esse sofrimento.
O trapezista era conduzido à estação num carro de corridas que ia de madrugada pelas ruas desertas a toda velocidade; demasiado lento, entretanto, para sua nostalgia do trapézio.
No trem estava preparado um lugar especialmente para ele com uma substituição mesquinha — mas de algum modo equivalente, de sua maneira de viver.
No local de destino, já estava armado o trapézio muito antes de sua chegada, mesmo antes de serem cerradas as tábuas e colocadas as portas. Para o empresário o momento mais agradável era aquele em que o trapezista apoiava o pé na corda de subida e ia se acomodar novamente em seu trapézio.
Apesar de todas essas precauções, as viagens perturbavam gravemente os nervos do trapezista, de modo que, por melhores que fossem, economicamente falando, para o empresário, sempre lhe resultavam penosos.
Uma vez em que viajavam, o artista no seu posto, sonhando, e o empresário perto da janela, lendo, o homem do trapézio interpelou-o suavemente. E disse-lhe, mordendo os lábios, que daquele dia em diante necessitava, para viver, não um trapézio, como até então, mas dois, um em frente do outro.
O empresário acedeu imediatamente. Mas o trapezista, como se quisesse demonstrar que a aceitação do empresário não importava mais que sua oposição, acrescentou que nunca mais, em nenhuma ocasião, trabalharia unicamente sobre um trapézio. Parecia horrorizar-se diante da ideia que isso lhe pudesse acontecer alguma vez. O empresário, detendo-se e observando seu artista, reiterou sua absoluta conformidade. Dois trapézios é melhor do que um. Por outro lado, os exercícios seriam mais variados e mais agradáveis à vista.
Mas o artista, de repente, pôs-se a chorar. O empresário, profundamente comovido, levantou-se e perguntou o que havia. E, como não recebesse resposta, subiu para perto do artista, acariciou-o, abraçou-o e encostou seu rosto no dele, até sentir as lágrimas em sua pele. Depois de muitas perguntas e palavras carinhosas o trapezista exclamou soluçando:
Uma única barra nas mãos. Como eu poderia viver!
Então já se tornou mais fácil ao empresário consolá-lo. Prometeu-lhe que na primeira estação, na primeira parada, telegrafaria para que instalassem o segundo trapézio, e recriminou-se por ter deixado o artista trabalhar tanto tempo em um só trapézio. Enfim, agradeceu-lhe por ter-lhe feito notar aquela omissão imperdoável. Desta maneira, o empresário conseguiu tranquilizar o artista e retornar para seu lugar.
Em troca, ele é que não estava tranquilo. Com grave preocupação espiava, às ocultas, por cima do livro. Se semelhantes pensamentos haviam começado a atormentá-lo, poderiam cessar por completo? Não continuariam aumentando dia a dia? Não ameaçariam sua existência? E o empresário, alarmado, pensou ver naquele sonho aparentemente calmo, em que haviam terminado os soluços, começar a esboçar-se a primeira ruga na testa infantil do artista do trapézio.
Franz Kafka
O jardim
Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
António Ramos Rosa
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
António Ramos Rosa
Um pinguim para a rainha
Malu é uma garotinha de quatro anos. Seria uma menina comum, se não fosse uma rainha. Ela não pertence a uma família real: a mãe é professora, e ganha muito mal, e o pai é auxiliar de escritório, e não ganha nada bem. Os avós paternos, e os maternos, são também gente simples.
De onde, então, Malu tirou a ideia de que é uma rainha, ninguém sabe. O fato é que desde os dois anos ela é mandona, respondona, majestática. Quer tudo, exige tudo, e que nem pensem em contrariá-la: ela esperneia, grita, xinga e despeja sobre os desobedientes sua ira régia.
Esses acessos, que felizmente são apenas dois ou três por dia, a fizeram ser conhecida, na família e até fora dela, como Rainha Maria Lúcia. Às vezes, esse tratamento assume um tom jocoso, e até depreciativo. Malu, porém, não dispensa nenhuma das prerrogativas que o título lhe concede.
Um exemplo de como ela defende com veemência esses direitos pôde ser observado num fim de semana em que ela estava em Santos, com o pai e a mãe, e, tendo achado a praia muito desinteressante, foi levada ao Aquário Municipal.
Entrou compenetrada – era a primeira vez que ia lá – e começou a observar, com sua sobriedade de rainha, as tartarugas, os polvos, as lagostas, os tubarões. Enquanto as outras crianças, em alegres tropelias, enchiam o imenso aquário de exclamações de júbilo, de surpresa, de admiração e de medo, ela olhava tudo como se já conhecesse aquilo desde antes de nascer. Parecia uma senhora de 60 anos examinando uma coleção de tecidos raros com um pincenê.
O pai e a mãe, quando ela disse que queria ir embora, se olharam, decepcionados: ela não tinha gostado. Por isso, foi enorme a surpresa deles quando a pequena rainha, assim que saíram do aquário, determinou:
“Eu quero um pinguim.”
Diante do aquário, uma banca de camelô exibia miniaturas de animais marinhos. O dono da banca estava conversando com um vendedor de sorvetes e foi seu filho, um garoto de uns dez anos, quem atendeu a menina. Pegou um pinguim grande e um pequeno e os mostrou a ela.
“Um de verdade”, disse Malu.
“O quê?”, perguntou o pai.
“Eu quero um de verdade”, respondeu Malu, mexendo-se inquieta no colo dele.
O menino ofereceu de novo o pinguim grande e o pequeno.
“Eu disse de verdade”, berrou a jovem rainha, dando um tapa que jogou os dois pinguins ao chão.
Enquanto Malu, o pai e a mãe se afastavam, o dono da banca puxou o filho pela orelha:
“Menino burro! Nunca você vai aprender a trabalhar.”
O garoto pensou nos amiguinhos, que naquele momento deviam estar vagabundeando, jogando bola e atirando pedras em vidraças, e recolheu os pinguins com uma revolta que o fez desejar que a menina riquinha quebrasse as pernas, os braços, os dentes. Quem ela pensava que era? Uma rainha?
De onde, então, Malu tirou a ideia de que é uma rainha, ninguém sabe. O fato é que desde os dois anos ela é mandona, respondona, majestática. Quer tudo, exige tudo, e que nem pensem em contrariá-la: ela esperneia, grita, xinga e despeja sobre os desobedientes sua ira régia.
Esses acessos, que felizmente são apenas dois ou três por dia, a fizeram ser conhecida, na família e até fora dela, como Rainha Maria Lúcia. Às vezes, esse tratamento assume um tom jocoso, e até depreciativo. Malu, porém, não dispensa nenhuma das prerrogativas que o título lhe concede.
Um exemplo de como ela defende com veemência esses direitos pôde ser observado num fim de semana em que ela estava em Santos, com o pai e a mãe, e, tendo achado a praia muito desinteressante, foi levada ao Aquário Municipal.
Entrou compenetrada – era a primeira vez que ia lá – e começou a observar, com sua sobriedade de rainha, as tartarugas, os polvos, as lagostas, os tubarões. Enquanto as outras crianças, em alegres tropelias, enchiam o imenso aquário de exclamações de júbilo, de surpresa, de admiração e de medo, ela olhava tudo como se já conhecesse aquilo desde antes de nascer. Parecia uma senhora de 60 anos examinando uma coleção de tecidos raros com um pincenê.
O pai e a mãe, quando ela disse que queria ir embora, se olharam, decepcionados: ela não tinha gostado. Por isso, foi enorme a surpresa deles quando a pequena rainha, assim que saíram do aquário, determinou:
“Eu quero um pinguim.”
Diante do aquário, uma banca de camelô exibia miniaturas de animais marinhos. O dono da banca estava conversando com um vendedor de sorvetes e foi seu filho, um garoto de uns dez anos, quem atendeu a menina. Pegou um pinguim grande e um pequeno e os mostrou a ela.
“Um de verdade”, disse Malu.
“O quê?”, perguntou o pai.
“Eu quero um de verdade”, respondeu Malu, mexendo-se inquieta no colo dele.
O menino ofereceu de novo o pinguim grande e o pequeno.
“Eu disse de verdade”, berrou a jovem rainha, dando um tapa que jogou os dois pinguins ao chão.
Enquanto Malu, o pai e a mãe se afastavam, o dono da banca puxou o filho pela orelha:
“Menino burro! Nunca você vai aprender a trabalhar.”
O garoto pensou nos amiguinhos, que naquele momento deviam estar vagabundeando, jogando bola e atirando pedras em vidraças, e recolheu os pinguins com uma revolta que o fez desejar que a menina riquinha quebrasse as pernas, os braços, os dentes. Quem ela pensava que era? Uma rainha?
Miss Algrave
Ela era sujeita a julgamento. Por isso não contou nada a ninguém. Se contasse, não acreditariam porque não acreditavam na realidade. Mas ela, que morava em Londres, onde os fantasmas existem nos becos escuros, sabia da verdade.
Seu dia, sexta-feira, fora igual aos outros. Só aconteceu sábado de noite. Mas na sexta fez tudo igual como sempre. Embora a atormentasse uma lembrança horrível: quando era pequena, com uns sete anos de idade, brincava de marido e mulher com seu primo Jack, na cama grande da vovó. E ambos faziam tudo para ter filhinhos sem conseguir. Nunca mais vira Jack nem queria vê-lo. Se era culpada, ele também o era.
Solteira, é claro, virgem, é claro. Morava sozinha numa cobertura em Soho. Nesse dia tinha feito suas compras de comida: legumes e frutas. Porque comer carne ela considerava pecado.
Quando passava pela Piccadilly Circus e via as mulheres esperando homens nas esquinas, só faltava vomitar. Ainda mais por dinheiro! Era demais para se suportar. E aquela estátua de Eros, ali, indecente.
Foi depois do almoço ao trabalho: era datilógrafa perfeita. Seu chefe nunca olhava para ela e tratava-a felizmente com respeito, chamando-a de Miss Algrave. Seu primeiro nome era Ruth. E descendia de irlandeses. Era ruiva, usava os cabelos enrolados na nuca em coque severo. Tinha muitas sardas e pele tão clara e fina que parecia uma seda branca. Os cílios também eram ruivos. Era uma mulher bonita.
Orgulhava-se muito de seu físico: cheia de corpo e alta. Mas nunca ninguém havia tocado nos seus seios.
Costumava jantar num restaurante barato em Soho mesmo. Comia macarrão com molho de tomate. E nunca entrara num pub: nauseava-a o cheiro de álcool, quando passava por um. Sentia-se ofendida pela humanidade.
Cultivava gerânios vermelhos que eram uma glória na primavera. Seu pai fora pastor protestante e a mãe ainda morava em Dublin com o filho casado. Seu irmão era casado com uma verdadeira cadela chamada Tootzi.
De vez em quando Miss Algrave escrevia uma carta de protesto para o Time. E eles publicavam. Via com muito gosto o seu nome: sincerely Ruth Algrave.
Tomava banho só uma vez por semana, no sábado. Para não ver o seu corpo nu, não tirava nem as calcinhas nem o sutiã.
No dia em que aconteceu era sábado e não tinha portanto trabalho. Acordou muito cedo e tomou chá de jasmim. Depois rezou. Depois saiu para tomar ar.
Perto do Savoy Hotel quase foi atropelada. Se isso acontecesse e ela morresse teria sido horrível porque nada lhe aconteceria de noite.
Foi ao ensaio do canto coral. Tinha voz maviosa. Sim, era uma pessoa privilegiada.
Depois foi almoçar e permitiu-se comer camarão: estava tão bom que até parecia pecado.
Então dirigiu-se ao Hyde Park e sentou-se na grama. Levara uma Bíblia para ler. Mas – que Deus a perdoasse – o sol estava tão guerrilheiro, tão bom, tão quente, que não leu nada, ficou só sentada no chão sem coragem de se deitar. Procurou não olhar os casais que se beijavam e se acariciavam sem a menor vergonha.
Depois foi para casa, regou as begônias e tomou banho. Então visitou Mrs. Cabot que tinha noventa e sete anos. Levou-lhe um pedaço de bolo com passas e tomaram chá. Miss Algrave sentia-se muito feliz, embora... Bem, embora.
Às sete horas voltou para casa. Nada tinha a fazer. Então tricotou uma suéter para o inverno. De cor esplendorosa: amarela como o sol.
Antes de dormir tomou mais chá de jasmim com biscoitos, escovou os dentes, mudou de roupa e meteu-se na cama. Suas cortinas de gaze ela mesma fizera e pendurara.
Era maio. As cortinas se balançavam à brisa dessa noite tão singular. Singular por quê? Não sabia.
Leu um pouco o jornal da manhã e fechou a luz da cabeceira. Pela janela aberta via o luar. Era noite de lua cheia.
Suspirou muito porque era difícil viver só. A solidão a esmagava. Terrível não ter uma só pessoa para conversar. Era a criatura mais solitária que conhecia. Até Mrs. Cabot tinha um gato. Ruth Algrave não tinha bicho nenhum: eram bestiais demais para o seu gosto. Nem tinha televisão. Por dois motivos: faltava-lhe dinheiro e não queria ficar vendo as imoralidades que apareciam na tela. Na televisão de Mrs. Cabot vira um homem beijando uma mulher na boca. E isso sem falar no perigo da transmissão de micróbios. Ah, se pudesse escreveria todos os dias uma carta de protesto para o Time. Mas não adiantava protestar, ao que parecia. A falta de vergonha estava no ar. Até já vira um cachorro com uma cadela. Ficou impressionada. Mas se assim Deus queria, que então assim fosse. Mas ninguém a tocaria jamais, pensou. Ficava curtindo a solidão.
Até as crianças eram imorais. Evitava-as. E lamentava muito ter nascido da incontinência de seu pai e de sua mãe. Sentia pudor deles não terem tido pudor.
Como deixava arroz cru na janela, os pombos vinham visitá-la. Às vezes entravam-lhe no quarto. Eram enviados por Deus. Tão inocentes. Arrulhando. Mas era meio imoral o arrulho deles, embora menos do que ver mulher quase nua na televisão. Ia amanhã sem falta escrever uma carta protestando contra os maus costumes daquela cidade maldita que era Londres. Chegara uma vez a ver uma fila de viciados junto de uma farmácia, esperando a vez de tomarem uma aplicação. Como é que a Rainha permitia? Mistério. Escreveria mais uma carta denunciando a própria Rainha. Escrevia bem, sem erros de gramática e batia as cartas na máquina do escritório quando tinha um instante de folga. Mr. Clairson, seu chefe, elogiava muito as suas cartas publicadas. Até dissera que ela poderia um dia vir a ser escritora. Ficara orgulhosa e agradecera muito.
Estava assim deitada na cama com a sua solidão. O embora.
Foi então que aconteceu.
Sentiu que pela janela entrava uma coisa que não era um pombo. Teve medo. Falou bem alto:
– Quem é?
E a resposta veio em forma de vento:
– Eu sou um eu.
– Quem é você? perguntou trêmula.
– Vim de Saturno para amar você.
– Mas eu não estou vendo ninguém! gritou.
– O que importa é que você está me sentindo.
E sentia-o mesmo. Teve um frisson eletrônico.
– Como é que você se chama? perguntou com medo.
– Pouco importa.
– Mas quero chamar seu nome!
– Chame-me de Ixtlan.
Eles se entendiam em sânscrito. Seu contato era frio como o de uma lagartixa, dava-lhe calafrios.
Ixtlan tinha sobre a cabeça uma coroa de cobras entrelaçadas, mansas pelo terror de poder morrer. O manto que cobria o seu corpo era da mais sofrida cor roxa, era ouro mau e púrpura coagulada.
Ele disse:
– Tire a roupa.
Ela tirou a camisola. A lua estava enorme dentro do quarto. Ixtlan era branco e pequeno. Deitou-se ao seu lado na cama de ferro. E passou as mãos pelos seus seios. Rosas negras.
Ela nunca tinha sentido o que sentiu. Era bom demais. Tinha medo que acabasse. Era como se um aleijado jogasse no ar o seu cajado.
Começou a suspirar e disse para Ixtlan:
– Eu te amo, meu amor! meu grande amor!
E – é, sim. Aconteceu. Ela queria que não acabasse nunca. Como era bom, meu Deus. Tinha vontade de mais, mais e mais.
Ela pensava: aceitai-me! Ou então: “Eu me vos oferto.” Era o domínio do “aqui e agora”.
Perguntou-lhe: quando é que você volta?
Ixtlan respondeu:
– Na próxima lua cheia.
– Mas eu não posso esperar tanto!
– É o jeito, disse ele até friamente.
– Vou ficar esperando bebê?
– Não.
– Mas vou morrer de saudade de você! como é que eu faço?
– Use-se.
Ele se levantou, beijou-a castamente na testa. E saiu pela janela.
Começou a chorar baixinho. Parecia um triste violino sem arco. A prova de que tudo isso acontecera mesmo era o lençol manchado de sangue. Guardou-o sem lavá-lo e poderia mostrá-lo a quem não acreditasse nela.
Viu a madrugada nascer toda cor-de-rosa. No fog os primeiros passarinhos começavam a pipilar com doçura, ainda sem alvoroço.
Deus iluminava seu corpo.
Mas, como uma baronesa Von Blich, nostalgicamente recostada no dossel de cetim de seu leito, fingiu tocar a campainha para chamar o mordomo que lhe traria café quente, forte, forte.
Ela o amava e ia esperar ardentemente pela nova lua cheia. Não quis tomar banho para não tirar de si o gosto de Ixtlan. Com ele não fora pecado e sim uma delícia. Não queria mais escrever nenhuma carta de protesto: não protestava mais.
E não foi à igreja. Era mulher realizada. Tinha marido.
Então, no domingo, na hora do almoço, comeu filet mignon com purê de batata. A carne sangrenta era ótima. E tomou vinho tinto italiano. Era mesmo privilegiada. Fora escolhida por um ser de Saturno.
Tinha lhe perguntado por que a havia escolhido. Ele dissera que era por ela ser ruiva e virgem. Sentia-se bestial. Não tinha mais nojo de bichos. Eles que se amassem, era a melhor coisa do mundo. E ela esperaria por Ixtlan. Ele voltaria: eu sei, eu sei, eu sei, pensava ela. Também não tinha mais repulsa pelos casais do Hyde Park. Sabia como eles se sentiam.
Como era bom viver. Como era bom comer carne sangrenta. Como era bom tomar vinho italiano bem adstringente, meio amargando e restringindo a língua.
Era agora imprópria para menores de dezoito anos. E se deleitava, babava-se de gosto nisso.
Como era domingo, foi ao canto coral. Cantou melhor do que nunca e não se surpreendeu quando a escolheram para solista. Cantou a sua aleluia. Assim: Aleluia! Aleluia! Aleluia!
Depois foi ao Hyde Park e deitou-se na grama quente, abriu um pouco as pernas para o sol entrar. Ser mulher era uma coisa soberba. Só quem era mulher sabia.
Pensou: será que ele gostara de mim porque sou um pouco estrábica? Na próxima lua cheia perguntaria a ele. Se fosse por isso, não tinha dúvida: forçaria a mão e se tornaria completamente vesga. Ixtlan, tudo o que você quiser que eu faça,eu faço. Só que morria de saudade. Volte, my love.
Sim. Mas fez uma coisa que era traição. Ixtlan a compreenderia e perdoaria. Afinal de contas, a pessoa tinha que dar um jeito, não tinha?
Foi o seguinte: não aguentando mais,encaminhou-se para Piccadilly Circuse achegou-se a um homem cabeludo. Levou-o ao seu quarto. Disse-lhe que não precisava pagar. Masele fez questão e antes de ir embora deixou na mesa de cabeceira uma libra inteira! Bem que estava precisada de dinheiro. Ficou furiosa, porém, quando ele não quis acreditar na sua história. Mostrou-lhe, quase até o seu nariz, o lençol manchado de sangue. Ele riu-se dela.
Na segunda-feira de manhã resolveu-se: não ia mais trabalhar como datilógrafa, tinha outros dons. Mr. Clairson que se danasse. Ia era ficar mesmo nas ruas e levar homens para o quarto. Como era boa de cama, pagar-lhe-iam muito bem. Poderia beber vinho italiano todos os dias. Tinha vontade de comprar um vestido bem vermelho com o dinheiro que o cabeludo lhe deixara. Soltara os cabelos bastos que eram uma beleza de ruivos. Ela parecia um uivo.
Aprendera que valia muito. Se Mr. Clairson, o sonso, quisesse que ela trabalhasse para ele, teria que ser de outro bom modo.
Antes compraria o vestido vermelho decotado e depois iria ao escritório chegando de propósito, pela primeira vez na vida, bem atrasada. E falaria assim com o chefe:
– Chega de datilografia! Você que não me venha com uma de sonso! Quer saber de uma coisa? deite-se comigo na cama, seu desgraçado!e tem mais: me pague um salário alto por mês, seu sovina!
Tinha certeza de que ele aceitaria. Era casado com uma mulher pálida e insignificante, a Joan, e tinha uma filha anêmica, a Lucy. Vai é se deliciar comigo, o filho de uma cadela.
E quando chegasse a lua cheia – tomaria um banho purificador de todos os homens para estar pronta para o festim com Ixtlan.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Seu dia, sexta-feira, fora igual aos outros. Só aconteceu sábado de noite. Mas na sexta fez tudo igual como sempre. Embora a atormentasse uma lembrança horrível: quando era pequena, com uns sete anos de idade, brincava de marido e mulher com seu primo Jack, na cama grande da vovó. E ambos faziam tudo para ter filhinhos sem conseguir. Nunca mais vira Jack nem queria vê-lo. Se era culpada, ele também o era.
Solteira, é claro, virgem, é claro. Morava sozinha numa cobertura em Soho. Nesse dia tinha feito suas compras de comida: legumes e frutas. Porque comer carne ela considerava pecado.
Quando passava pela Piccadilly Circus e via as mulheres esperando homens nas esquinas, só faltava vomitar. Ainda mais por dinheiro! Era demais para se suportar. E aquela estátua de Eros, ali, indecente.
Foi depois do almoço ao trabalho: era datilógrafa perfeita. Seu chefe nunca olhava para ela e tratava-a felizmente com respeito, chamando-a de Miss Algrave. Seu primeiro nome era Ruth. E descendia de irlandeses. Era ruiva, usava os cabelos enrolados na nuca em coque severo. Tinha muitas sardas e pele tão clara e fina que parecia uma seda branca. Os cílios também eram ruivos. Era uma mulher bonita.
Orgulhava-se muito de seu físico: cheia de corpo e alta. Mas nunca ninguém havia tocado nos seus seios.
Costumava jantar num restaurante barato em Soho mesmo. Comia macarrão com molho de tomate. E nunca entrara num pub: nauseava-a o cheiro de álcool, quando passava por um. Sentia-se ofendida pela humanidade.
Cultivava gerânios vermelhos que eram uma glória na primavera. Seu pai fora pastor protestante e a mãe ainda morava em Dublin com o filho casado. Seu irmão era casado com uma verdadeira cadela chamada Tootzi.
De vez em quando Miss Algrave escrevia uma carta de protesto para o Time. E eles publicavam. Via com muito gosto o seu nome: sincerely Ruth Algrave.
Tomava banho só uma vez por semana, no sábado. Para não ver o seu corpo nu, não tirava nem as calcinhas nem o sutiã.
No dia em que aconteceu era sábado e não tinha portanto trabalho. Acordou muito cedo e tomou chá de jasmim. Depois rezou. Depois saiu para tomar ar.
Perto do Savoy Hotel quase foi atropelada. Se isso acontecesse e ela morresse teria sido horrível porque nada lhe aconteceria de noite.
Foi ao ensaio do canto coral. Tinha voz maviosa. Sim, era uma pessoa privilegiada.
Depois foi almoçar e permitiu-se comer camarão: estava tão bom que até parecia pecado.
Então dirigiu-se ao Hyde Park e sentou-se na grama. Levara uma Bíblia para ler. Mas – que Deus a perdoasse – o sol estava tão guerrilheiro, tão bom, tão quente, que não leu nada, ficou só sentada no chão sem coragem de se deitar. Procurou não olhar os casais que se beijavam e se acariciavam sem a menor vergonha.
Depois foi para casa, regou as begônias e tomou banho. Então visitou Mrs. Cabot que tinha noventa e sete anos. Levou-lhe um pedaço de bolo com passas e tomaram chá. Miss Algrave sentia-se muito feliz, embora... Bem, embora.
Às sete horas voltou para casa. Nada tinha a fazer. Então tricotou uma suéter para o inverno. De cor esplendorosa: amarela como o sol.
Antes de dormir tomou mais chá de jasmim com biscoitos, escovou os dentes, mudou de roupa e meteu-se na cama. Suas cortinas de gaze ela mesma fizera e pendurara.
Era maio. As cortinas se balançavam à brisa dessa noite tão singular. Singular por quê? Não sabia.
Leu um pouco o jornal da manhã e fechou a luz da cabeceira. Pela janela aberta via o luar. Era noite de lua cheia.
Suspirou muito porque era difícil viver só. A solidão a esmagava. Terrível não ter uma só pessoa para conversar. Era a criatura mais solitária que conhecia. Até Mrs. Cabot tinha um gato. Ruth Algrave não tinha bicho nenhum: eram bestiais demais para o seu gosto. Nem tinha televisão. Por dois motivos: faltava-lhe dinheiro e não queria ficar vendo as imoralidades que apareciam na tela. Na televisão de Mrs. Cabot vira um homem beijando uma mulher na boca. E isso sem falar no perigo da transmissão de micróbios. Ah, se pudesse escreveria todos os dias uma carta de protesto para o Time. Mas não adiantava protestar, ao que parecia. A falta de vergonha estava no ar. Até já vira um cachorro com uma cadela. Ficou impressionada. Mas se assim Deus queria, que então assim fosse. Mas ninguém a tocaria jamais, pensou. Ficava curtindo a solidão.
Até as crianças eram imorais. Evitava-as. E lamentava muito ter nascido da incontinência de seu pai e de sua mãe. Sentia pudor deles não terem tido pudor.
Como deixava arroz cru na janela, os pombos vinham visitá-la. Às vezes entravam-lhe no quarto. Eram enviados por Deus. Tão inocentes. Arrulhando. Mas era meio imoral o arrulho deles, embora menos do que ver mulher quase nua na televisão. Ia amanhã sem falta escrever uma carta protestando contra os maus costumes daquela cidade maldita que era Londres. Chegara uma vez a ver uma fila de viciados junto de uma farmácia, esperando a vez de tomarem uma aplicação. Como é que a Rainha permitia? Mistério. Escreveria mais uma carta denunciando a própria Rainha. Escrevia bem, sem erros de gramática e batia as cartas na máquina do escritório quando tinha um instante de folga. Mr. Clairson, seu chefe, elogiava muito as suas cartas publicadas. Até dissera que ela poderia um dia vir a ser escritora. Ficara orgulhosa e agradecera muito.
Estava assim deitada na cama com a sua solidão. O embora.
Foi então que aconteceu.
Sentiu que pela janela entrava uma coisa que não era um pombo. Teve medo. Falou bem alto:
– Quem é?
E a resposta veio em forma de vento:
– Eu sou um eu.
– Quem é você? perguntou trêmula.
– Vim de Saturno para amar você.
– Mas eu não estou vendo ninguém! gritou.
– O que importa é que você está me sentindo.
E sentia-o mesmo. Teve um frisson eletrônico.
– Como é que você se chama? perguntou com medo.
– Pouco importa.
– Mas quero chamar seu nome!
– Chame-me de Ixtlan.
Eles se entendiam em sânscrito. Seu contato era frio como o de uma lagartixa, dava-lhe calafrios.
Ixtlan tinha sobre a cabeça uma coroa de cobras entrelaçadas, mansas pelo terror de poder morrer. O manto que cobria o seu corpo era da mais sofrida cor roxa, era ouro mau e púrpura coagulada.
Ele disse:
– Tire a roupa.
Ela tirou a camisola. A lua estava enorme dentro do quarto. Ixtlan era branco e pequeno. Deitou-se ao seu lado na cama de ferro. E passou as mãos pelos seus seios. Rosas negras.
Ela nunca tinha sentido o que sentiu. Era bom demais. Tinha medo que acabasse. Era como se um aleijado jogasse no ar o seu cajado.
Começou a suspirar e disse para Ixtlan:
– Eu te amo, meu amor! meu grande amor!
E – é, sim. Aconteceu. Ela queria que não acabasse nunca. Como era bom, meu Deus. Tinha vontade de mais, mais e mais.
Ela pensava: aceitai-me! Ou então: “Eu me vos oferto.” Era o domínio do “aqui e agora”.
Perguntou-lhe: quando é que você volta?
Ixtlan respondeu:
– Na próxima lua cheia.
– Mas eu não posso esperar tanto!
– É o jeito, disse ele até friamente.
– Vou ficar esperando bebê?
– Não.
– Mas vou morrer de saudade de você! como é que eu faço?
– Use-se.
Ele se levantou, beijou-a castamente na testa. E saiu pela janela.
Começou a chorar baixinho. Parecia um triste violino sem arco. A prova de que tudo isso acontecera mesmo era o lençol manchado de sangue. Guardou-o sem lavá-lo e poderia mostrá-lo a quem não acreditasse nela.
Viu a madrugada nascer toda cor-de-rosa. No fog os primeiros passarinhos começavam a pipilar com doçura, ainda sem alvoroço.
Deus iluminava seu corpo.
Mas, como uma baronesa Von Blich, nostalgicamente recostada no dossel de cetim de seu leito, fingiu tocar a campainha para chamar o mordomo que lhe traria café quente, forte, forte.
Ela o amava e ia esperar ardentemente pela nova lua cheia. Não quis tomar banho para não tirar de si o gosto de Ixtlan. Com ele não fora pecado e sim uma delícia. Não queria mais escrever nenhuma carta de protesto: não protestava mais.
E não foi à igreja. Era mulher realizada. Tinha marido.
Então, no domingo, na hora do almoço, comeu filet mignon com purê de batata. A carne sangrenta era ótima. E tomou vinho tinto italiano. Era mesmo privilegiada. Fora escolhida por um ser de Saturno.
Tinha lhe perguntado por que a havia escolhido. Ele dissera que era por ela ser ruiva e virgem. Sentia-se bestial. Não tinha mais nojo de bichos. Eles que se amassem, era a melhor coisa do mundo. E ela esperaria por Ixtlan. Ele voltaria: eu sei, eu sei, eu sei, pensava ela. Também não tinha mais repulsa pelos casais do Hyde Park. Sabia como eles se sentiam.
Como era bom viver. Como era bom comer carne sangrenta. Como era bom tomar vinho italiano bem adstringente, meio amargando e restringindo a língua.
Era agora imprópria para menores de dezoito anos. E se deleitava, babava-se de gosto nisso.
Como era domingo, foi ao canto coral. Cantou melhor do que nunca e não se surpreendeu quando a escolheram para solista. Cantou a sua aleluia. Assim: Aleluia! Aleluia! Aleluia!
Depois foi ao Hyde Park e deitou-se na grama quente, abriu um pouco as pernas para o sol entrar. Ser mulher era uma coisa soberba. Só quem era mulher sabia.
Mas pensou: será que vou ter que pagar um preço muito caro pela minha felicidade? Não se incomodava. Pagaria tudo o que tivesse de pagar. Sempre pagara e sempre fora infeliz. E agora acabara-se a infelicidade. Ixtlan! Volte logo! Não posso mais esperar! Venha! Venha! Venha!
Pensou: será que ele gostara de mim porque sou um pouco estrábica? Na próxima lua cheia perguntaria a ele. Se fosse por isso, não tinha dúvida: forçaria a mão e se tornaria completamente vesga. Ixtlan, tudo o que você quiser que eu faça,eu faço. Só que morria de saudade. Volte, my love.
Sim. Mas fez uma coisa que era traição. Ixtlan a compreenderia e perdoaria. Afinal de contas, a pessoa tinha que dar um jeito, não tinha?
Foi o seguinte: não aguentando mais,encaminhou-se para Piccadilly Circuse achegou-se a um homem cabeludo. Levou-o ao seu quarto. Disse-lhe que não precisava pagar. Masele fez questão e antes de ir embora deixou na mesa de cabeceira uma libra inteira! Bem que estava precisada de dinheiro. Ficou furiosa, porém, quando ele não quis acreditar na sua história. Mostrou-lhe, quase até o seu nariz, o lençol manchado de sangue. Ele riu-se dela.
Na segunda-feira de manhã resolveu-se: não ia mais trabalhar como datilógrafa, tinha outros dons. Mr. Clairson que se danasse. Ia era ficar mesmo nas ruas e levar homens para o quarto. Como era boa de cama, pagar-lhe-iam muito bem. Poderia beber vinho italiano todos os dias. Tinha vontade de comprar um vestido bem vermelho com o dinheiro que o cabeludo lhe deixara. Soltara os cabelos bastos que eram uma beleza de ruivos. Ela parecia um uivo.
Aprendera que valia muito. Se Mr. Clairson, o sonso, quisesse que ela trabalhasse para ele, teria que ser de outro bom modo.
Antes compraria o vestido vermelho decotado e depois iria ao escritório chegando de propósito, pela primeira vez na vida, bem atrasada. E falaria assim com o chefe:
– Chega de datilografia! Você que não me venha com uma de sonso! Quer saber de uma coisa? deite-se comigo na cama, seu desgraçado!e tem mais: me pague um salário alto por mês, seu sovina!
Tinha certeza de que ele aceitaria. Era casado com uma mulher pálida e insignificante, a Joan, e tinha uma filha anêmica, a Lucy. Vai é se deliciar comigo, o filho de uma cadela.
E quando chegasse a lua cheia – tomaria um banho purificador de todos os homens para estar pronta para o festim com Ixtlan.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
domingo, setembro 20
Preâmbulo
Rever a minha infância? Já lá se vão mais de dez lustros, mas minha vista cansada talvez pudesse ver a luz que dela ainda emana, não fosse a interposição de obstáculos de toda espécie, verdadeiras montanhas: todos esses anos e algumas horas de minha vida.
Depois do almoço, comodamente esparramado numa poltrona de braços, eis-me de lápis e papel na mão. Tenho a fronte completamente descontraída, pois eliminei da mente todo e qualquer esforço. Meu pensamento parece dissociado de mim. Chego a vê-lo. Ergue-se, torna a baixar... e esta é sua única atividade. Para recordar-lhe que é meu pensamento e que tem por obrigação manifestar-se, empunho o lápis. Eis que minha fronte se enruga ao pensar nas palavras que são compostas de tantas letras. O presente imperioso ressurge e ofusca o passado.
Ontem tentei um abandono total. A experiência terminou no sono mais profundo e não obtive outro resultado senão um grande descanso e a curiosa sensação de haver visto alguma coisa importante durante o sono. Mas esqueci-me do que era, perdendo-a para sempre.”
Italo Svevo, "A consciência de Zeno"
O doutor recomendou-me que não me obstinasse em perscrutar longe demais. Os fatos recentes são igualmente preciosos, sobretudo as imagens e os sonhos da noite anterior. Mas é preciso estabelecer uma certa ordem para poder começar ab ovo. Mal deixei o consultório do médico, que deverá estar ausente de Trieste por algum tempo, corri a comprar um compêndio de psicanálise e li-o no intuito de facilitar-me a tarefa. Não o achei difícil de entender, embora bastante enfadonho.
Depois do almoço, comodamente esparramado numa poltrona de braços, eis-me de lápis e papel na mão. Tenho a fronte completamente descontraída, pois eliminei da mente todo e qualquer esforço. Meu pensamento parece dissociado de mim. Chego a vê-lo. Ergue-se, torna a baixar... e esta é sua única atividade. Para recordar-lhe que é meu pensamento e que tem por obrigação manifestar-se, empunho o lápis. Eis que minha fronte se enruga ao pensar nas palavras que são compostas de tantas letras. O presente imperioso ressurge e ofusca o passado.
Ontem tentei um abandono total. A experiência terminou no sono mais profundo e não obtive outro resultado senão um grande descanso e a curiosa sensação de haver visto alguma coisa importante durante o sono. Mas esqueci-me do que era, perdendo-a para sempre.”
Italo Svevo, "A consciência de Zeno"
Num mundo fragmentado, ler é um ato de rebeldia
Todos os dias, Mendel, o homem estudioso, ia ao Café Gluck em Viena, no topo da Rua Alser. Sentava-se a uma pequena mesa quadrada com tampo de mármore cinza sujo, sempre repleta de livros e documentos. Seu olhar, por trás dos óculos, era fixo, hipnoticamente absorto em um livro. Este é Jakob Mendel, o protagonista da história ” Mendel, o Homem Estudioso “, do escritor Stefan Zweig . Refiro-me a Zweig como escritor porque é assim que ele é conhecido, mas ele bem poderia ser considerado um psicólogo por suas descrições profundas e delicadas dos recônditos da mente humana. Zweig nasceu em Viena em 1881 e morreu no Brasil em 1942, onde tirou a própria vida junto com sua esposa. Ele não queria testemunhar o declínio da Europa; suponho que esperava muito mais da humanidade. Conhecia bem suas fraquezas, mas ainda mais suas forças. Nessa história, ele nos apresenta Mendel, um apaixonado por livros, alguém que não via nem ouvia nada do que acontecia ao seu redor quando tinha um livro diante de si. Sua obsessão por livros é um espetáculo grotesco que nos mostra aquela maravilha, aquele dom dos deuses, que é a leitura.
Os seres humanos nascem com a capacidade inata para a fala, mas não para a leitura . E esse tem sido precisamente um dos enigmas mais interessantes da neurociência: entender como o cérebro consegue nos ensinar a ler. No século XIX, foi proposta a teoria de Wernicke-Geschwind, segundo a qual as áreas visuais do cérebro, localizadas na parte posterior, reconhecem a palavra como uma imagem. Posteriormente, o lobo parietal atribui significado a essa imagem. Dessa forma, estabelece-se uma equivalência sequencial entre o visual, o auditivo e o semântico. Mas o advento da neuro-imagem revolucionou essa teoria. Mais especificamente, foi o professor francês Stanislas Dehaene. De acordo com sua teoria, ainda válida hoje, aprender a ler envolve a criação de duas vias de processamento de informação: uma lexical e outra não lexical. Por um lado, as palavras que conhecemos são recuperadas do “repositório de memória”, como Dehaene o chamou. E as palavras desconhecidas ativam uma via fonológica; podemos ler algo sem saber o seu significado. Mas isso não é ler. Isso implica que aprender a ler reorganiza o cérebro, à medida que novas vias neurais são geradas. Mas, como dissemos, ler não é inato; é uma habilidade que o cérebro adquire. E isso acontece por meio de um processo chamado “reciclagem neuronal”, também proposto por Dehaene. O cérebro utiliza redes neurais existentes, que ele “recicla” para dedicá-las à leitura. É assim que as áreas para a formação visual de palavras, ou popularmente conhecidas como “caixas de letras”, localizadas no córtex visual temporal do hemisfério esquerdo, são geradas. As palavras são tratadas como uma imagem que deve ser interpretada, uma imagem que está ligada à linguagem. Por exemplo, se vemos a palavra “flor” escrita, o cérebro visualiza essa imagem formada por quatro símbolos (f, l, o, r), reconhece imediatamente seu significado e verbaliza, silenciosamente ou em voz alta, o fonema “flor”. Em outras palavras, quando lemos, atribuímos um som à imagem.
Mas ler é muito mais do que isso. Ler é um processo de atenção. Mendel, aquele com os livros, saboreava os mistérios da concentração absoluta. Como diz Zweig em sua história, a concentração é o segredo eterno de toda perfeição. Quando Mendel lia, ninguém podia perturbá-lo naquele momento, tal como um verdadeiro crente durante a oração. Sim, ler tem algo de cerimonial. A atenção é um exercício de rebeldia, como disse Simone Weil. Quando pegamos um livro, o corpo se prepara para mergulhar em outra realidade, uma jornada onde quem somos fica para trás. Começa a supressão da própria identidade e contexto, alcançada pela inibição da atividade das ínsulas, localizadas nas regiões centrais do cérebro, que são as áreas responsáveis por nos lembrar quem somos e onde estamos. Ler paralisa o nosso mundo por alguns instantes, e admitamos que isso é, às vezes, delicioso. Quando lemos, nos tornamos outros personagens, aprendemos com eles, mas também aprendemos a ouvir, a observar, a encontrar palavras que jamais usaríamos de outra forma. A leitura nos ajuda a sermos melhores contadores de histórias, tanto sobre nossas próprias experiências quanto sobre as dos outros. Ler expande nosso vocabulário, o que, por sua vez, fomenta a comunicação com os outros e uma compreensão mais profunda de nossas próprias vivências. A sutil diferença entre duas palavras pode ser imensa e reveladora. Mas, acima de tudo, a leitura cultiva a atenção. As páginas repletas de palavras geram ondas gama no córtex frontal, criando coreografias neurais de extrema precisão. É assim que os neurônios são treinados, acostumando-se a servir à atenção. A leitura treina o cérebro a se concentrar no que é escolhido e, portanto, a deixar de lado todo o resto. A atenção também é um processo de esquecer o que não é relevante no momento. Quando lemos um livro, nos entregamos ao mundo de seus personagens, e isso nos torna mais empáticos e melhores em compreender a complexidade humana. Ninguém disse isso melhor do que Stefan Zweig: os livros são escritos unicamente para, além da nossa própria respiração, unir os seres humanos e, assim, nos defender do inexorável outro lado da existência: a transitoriedade e o esquecimento.
Os seres humanos nascem com a capacidade inata para a fala, mas não para a leitura . E esse tem sido precisamente um dos enigmas mais interessantes da neurociência: entender como o cérebro consegue nos ensinar a ler. No século XIX, foi proposta a teoria de Wernicke-Geschwind, segundo a qual as áreas visuais do cérebro, localizadas na parte posterior, reconhecem a palavra como uma imagem. Posteriormente, o lobo parietal atribui significado a essa imagem. Dessa forma, estabelece-se uma equivalência sequencial entre o visual, o auditivo e o semântico. Mas o advento da neuro-imagem revolucionou essa teoria. Mais especificamente, foi o professor francês Stanislas Dehaene. De acordo com sua teoria, ainda válida hoje, aprender a ler envolve a criação de duas vias de processamento de informação: uma lexical e outra não lexical. Por um lado, as palavras que conhecemos são recuperadas do “repositório de memória”, como Dehaene o chamou. E as palavras desconhecidas ativam uma via fonológica; podemos ler algo sem saber o seu significado. Mas isso não é ler. Isso implica que aprender a ler reorganiza o cérebro, à medida que novas vias neurais são geradas. Mas, como dissemos, ler não é inato; é uma habilidade que o cérebro adquire. E isso acontece por meio de um processo chamado “reciclagem neuronal”, também proposto por Dehaene. O cérebro utiliza redes neurais existentes, que ele “recicla” para dedicá-las à leitura. É assim que as áreas para a formação visual de palavras, ou popularmente conhecidas como “caixas de letras”, localizadas no córtex visual temporal do hemisfério esquerdo, são geradas. As palavras são tratadas como uma imagem que deve ser interpretada, uma imagem que está ligada à linguagem. Por exemplo, se vemos a palavra “flor” escrita, o cérebro visualiza essa imagem formada por quatro símbolos (f, l, o, r), reconhece imediatamente seu significado e verbaliza, silenciosamente ou em voz alta, o fonema “flor”. Em outras palavras, quando lemos, atribuímos um som à imagem.
Mas ler é muito mais do que isso. Ler é um processo de atenção. Mendel, aquele com os livros, saboreava os mistérios da concentração absoluta. Como diz Zweig em sua história, a concentração é o segredo eterno de toda perfeição. Quando Mendel lia, ninguém podia perturbá-lo naquele momento, tal como um verdadeiro crente durante a oração. Sim, ler tem algo de cerimonial. A atenção é um exercício de rebeldia, como disse Simone Weil. Quando pegamos um livro, o corpo se prepara para mergulhar em outra realidade, uma jornada onde quem somos fica para trás. Começa a supressão da própria identidade e contexto, alcançada pela inibição da atividade das ínsulas, localizadas nas regiões centrais do cérebro, que são as áreas responsáveis por nos lembrar quem somos e onde estamos. Ler paralisa o nosso mundo por alguns instantes, e admitamos que isso é, às vezes, delicioso. Quando lemos, nos tornamos outros personagens, aprendemos com eles, mas também aprendemos a ouvir, a observar, a encontrar palavras que jamais usaríamos de outra forma. A leitura nos ajuda a sermos melhores contadores de histórias, tanto sobre nossas próprias experiências quanto sobre as dos outros. Ler expande nosso vocabulário, o que, por sua vez, fomenta a comunicação com os outros e uma compreensão mais profunda de nossas próprias vivências. A sutil diferença entre duas palavras pode ser imensa e reveladora. Mas, acima de tudo, a leitura cultiva a atenção. As páginas repletas de palavras geram ondas gama no córtex frontal, criando coreografias neurais de extrema precisão. É assim que os neurônios são treinados, acostumando-se a servir à atenção. A leitura treina o cérebro a se concentrar no que é escolhido e, portanto, a deixar de lado todo o resto. A atenção também é um processo de esquecer o que não é relevante no momento. Quando lemos um livro, nos entregamos ao mundo de seus personagens, e isso nos torna mais empáticos e melhores em compreender a complexidade humana. Ninguém disse isso melhor do que Stefan Zweig: os livros são escritos unicamente para, além da nossa própria respiração, unir os seres humanos e, assim, nos defender do inexorável outro lado da existência: a transitoriedade e o esquecimento.
Canção do dia de sempre
Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
Mario Quintana
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
Mario Quintana
A voz da casa
Andei conversando mansamente com uma casa. Ela me contou de si, dos seus, das feridas do tempo nos seus ossos. E a voz era tão baixa, que só eu ouvi.
Bastou virar a esquina para saber que a rua havia mudado. Antes serena e somente residencial, recanto insuspeitado com suas árvores e modestos jardins, ostentava agora uma revenda de carros com toda a parafernália chamativa que esse comércio exige. Nem silêncio mais, nem penumbra.
A casa também havia mudado. O muro baixinho ao tempo em que a conheci, havia ganho uma primeira fileira de grades, alteada depois por uma segunda, testemunho do crescer da violência urbana ao longo dos anos.
Era, quando entrei nela pela primeira vez, a casa acolhedora de uma família grande e calorosa, como sabem ser as famílias de origem libanesa. Pai, mãe, e os irmãos e irmã da minha amiga me acolheram com abraços e comida, café e conversa, doces e sorrisos. Acabamos a tarde na copa, ao redor de mais xícaras e pratos.
Ponhamos alguns anos entre essa primeira visita e a segunda, que conservo na memória e que voltou intacta ao entrar outra vez na casa em recente fim de semana. Revejo a cena em movimento e, ainda assim, fixa como um fotograma. Eu estou de pé naquela mesma copa clara, a mãe da minha amiga entra lentamente, arrastando os chinelos. Está doente de Alzheimer, vem com uma acompanhante. Não quer comer. E, de pé diante dela, a minha amiga que a mãe não reconhece começa a lhe dar comida docemente, de colher. Os sons e a alegria da casa se foram, a cena que guardo é quase muda.
Mais alguns anos, e fui visitar o pai, agora viúvo e sozinho na casa porque os filhos, crescidos, haviam tomado cada qual seu rumo. Tinha muita idade e vinha de sofrer um assalto, ladrão armado entrando na casa e fazendo exigências. Falou do fato sem nenhuma animosidade, com a mesma doçura e elegância com que pautava a vida. Não era mais tempo de açúcares e elaboradas comidas árabes, mas o tempo da generosidade continuava intacto, e ele não deixaria de me oferecer alguma coisa. Embora fosse cedo, tomamos uísque.
Depois que o pai se foi, a casa continuou sendo da família. Ninguém mais mora nela. Uma caseira limpa, um filho se hospeda em certos dias da semana, os outros, eventualmente. Tudo está no mesmo lugar em que foi deixado.
E porque eu tinha um evento na cidade, generosamente como havia-me recebido várias vezes, minha amiga quis me abrigar. Ofereceu-me a suíte, a cama de muitos cobertores.
E mais uma vez sentei à mesa na copa, toalha e pratos brancos, luz clara, escovão atrás da porta como a mãe exigia para garantir a limpeza. Havia um bolo, uma trança confeitada debaixo de um guardanapo, e café perfumava o ambiente. Quase como antes. Mas, sentados ao redor, estávamos mais velhos.
À noite, no quarto que conserva sobre os móveis a coleção de objetos miúdos, limpos e arrumados como no passado, a casa falou de si. Na parede atrás da cama corre funda rachadura. A construção sólida, de tijolos deitados, concebida pelo patriarca para proteger a família e sua descendência ao longo de várias gerações, resistiu como pode à gravíssima inundação que atingiu a cidade há alguns anos. Mas teve que ceder, e guarda até hoje a ferida.
Passei os dedos em carícia nas beiras do corte. Depois deitei, e adormeci embalada pela voz da casa.
Bastou virar a esquina para saber que a rua havia mudado. Antes serena e somente residencial, recanto insuspeitado com suas árvores e modestos jardins, ostentava agora uma revenda de carros com toda a parafernália chamativa que esse comércio exige. Nem silêncio mais, nem penumbra.
A casa também havia mudado. O muro baixinho ao tempo em que a conheci, havia ganho uma primeira fileira de grades, alteada depois por uma segunda, testemunho do crescer da violência urbana ao longo dos anos.
Era, quando entrei nela pela primeira vez, a casa acolhedora de uma família grande e calorosa, como sabem ser as famílias de origem libanesa. Pai, mãe, e os irmãos e irmã da minha amiga me acolheram com abraços e comida, café e conversa, doces e sorrisos. Acabamos a tarde na copa, ao redor de mais xícaras e pratos.
Ponhamos alguns anos entre essa primeira visita e a segunda, que conservo na memória e que voltou intacta ao entrar outra vez na casa em recente fim de semana. Revejo a cena em movimento e, ainda assim, fixa como um fotograma. Eu estou de pé naquela mesma copa clara, a mãe da minha amiga entra lentamente, arrastando os chinelos. Está doente de Alzheimer, vem com uma acompanhante. Não quer comer. E, de pé diante dela, a minha amiga que a mãe não reconhece começa a lhe dar comida docemente, de colher. Os sons e a alegria da casa se foram, a cena que guardo é quase muda.
Mais alguns anos, e fui visitar o pai, agora viúvo e sozinho na casa porque os filhos, crescidos, haviam tomado cada qual seu rumo. Tinha muita idade e vinha de sofrer um assalto, ladrão armado entrando na casa e fazendo exigências. Falou do fato sem nenhuma animosidade, com a mesma doçura e elegância com que pautava a vida. Não era mais tempo de açúcares e elaboradas comidas árabes, mas o tempo da generosidade continuava intacto, e ele não deixaria de me oferecer alguma coisa. Embora fosse cedo, tomamos uísque.
Depois que o pai se foi, a casa continuou sendo da família. Ninguém mais mora nela. Uma caseira limpa, um filho se hospeda em certos dias da semana, os outros, eventualmente. Tudo está no mesmo lugar em que foi deixado.
E porque eu tinha um evento na cidade, generosamente como havia-me recebido várias vezes, minha amiga quis me abrigar. Ofereceu-me a suíte, a cama de muitos cobertores.
E mais uma vez sentei à mesa na copa, toalha e pratos brancos, luz clara, escovão atrás da porta como a mãe exigia para garantir a limpeza. Havia um bolo, uma trança confeitada debaixo de um guardanapo, e café perfumava o ambiente. Quase como antes. Mas, sentados ao redor, estávamos mais velhos.
À noite, no quarto que conserva sobre os móveis a coleção de objetos miúdos, limpos e arrumados como no passado, a casa falou de si. Na parede atrás da cama corre funda rachadura. A construção sólida, de tijolos deitados, concebida pelo patriarca para proteger a família e sua descendência ao longo de várias gerações, resistiu como pode à gravíssima inundação que atingiu a cidade há alguns anos. Mas teve que ceder, e guarda até hoje a ferida.
Passei os dedos em carícia nas beiras do corte. Depois deitei, e adormeci embalada pela voz da casa.
A cidade pequena
A cidade pequena vive sua infância tropeçando nas ruas enlameadas quando é chegado o tempo de chuva pesada. Lateja nas veias a vontade visível de como ela quer crescer através do trabalho de seu povo. Move-se pela riqueza de poucos abastados e o esforço da maioria pobre, mas sem miséria. É evidente que se mostra como uma cidade ainda acanhada nos gestos e nas coisas. Há pouco movimento de carro na rua, os primeiros sobrados começam a ser erguidos no local onde moram as famílias ricas. Essa cidade caminha nos dias atribulados, sem hesitar nos passos incansáveis, tornozelos e pulsos no esforço dos que levantam coisas pesadas.
Mãos rústicas arrumam maxixes, quiabos e pimentões sobre a tábua rústica da mesa armada perto do ponto de ônibus. O verdureiro carrega o tabuleiro na cabeça mercando pelas ruas couve, alface e coentro, alardeando o verde na semana, feito de verduras e legumes. Por onde passa, segue com a voz que não para, entoa uma música com notas vagarosas, quentes, que agrada a quem escuta. Merca seu produto batido pelos raios de sol, enquanto o verão aquece todas as coisas através do seu brilho trazido do infinito e que se reflete pelas pedras irregulares das ruas estreitas.
Entra e sai verão, o sol atira seus raios como flechas luminosas sobre todos os cantos da cidade. No inverno, o aguaceiro bate no dorso do rio, escorrendo pelas valetas, deixando com lama as ruas sem calçamento. No tempo de estio, a cidade esbanja ardor debaixo dos azuis do céu e por entre os verdes que gramam os barrancos do rio. Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos nas águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos rasgando fendas no silêncio da natureza. Era quando mais sorria. Isso acontecia quando o rio, pleno de inocências e purezas, tinha peixe em abundância.
Havia a cidade vizinha de praias belíssimas. Lá acontecia o veraneio em cada verão com o sol iluminando os seres e as coisas postas no mundo por Deus para que sejam alcançadas, contempladas, apanhadas e utilizadas. Aquela cidade marinha havia sido abençoada pela natureza, o mar batia, voltava, batia. O sol se admirava nos mil espelhos que espalhavam nas ondas que jogavam pra lá, pra cá.
No entanto, a cidade pequena, com um rio que a dividia em duas partes, ofertava ao menino de calção, peito nu, pé no chão as aventuras mais incríveis. Sustos esplêndidos, surpresas inesquecíveis. Ah, a vida era compreendida com suas marcas ardorosas no verão, aconchegantes no sono quando o inverno chegava com suas toalhas esvoaçantes e envolvia na manhã fria a paisagem escondida no fumo das horas.
Aquela cidade pequena enchia de sentimentos a alma do menino. Era mais envolvente por isso. Muito linda.
Mãos rústicas arrumam maxixes, quiabos e pimentões sobre a tábua rústica da mesa armada perto do ponto de ônibus. O verdureiro carrega o tabuleiro na cabeça mercando pelas ruas couve, alface e coentro, alardeando o verde na semana, feito de verduras e legumes. Por onde passa, segue com a voz que não para, entoa uma música com notas vagarosas, quentes, que agrada a quem escuta. Merca seu produto batido pelos raios de sol, enquanto o verão aquece todas as coisas através do seu brilho trazido do infinito e que se reflete pelas pedras irregulares das ruas estreitas.
Entra e sai verão, o sol atira seus raios como flechas luminosas sobre todos os cantos da cidade. No inverno, o aguaceiro bate no dorso do rio, escorrendo pelas valetas, deixando com lama as ruas sem calçamento. No tempo de estio, a cidade esbanja ardor debaixo dos azuis do céu e por entre os verdes que gramam os barrancos do rio. Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos nas águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos rasgando fendas no silêncio da natureza. Era quando mais sorria. Isso acontecia quando o rio, pleno de inocências e purezas, tinha peixe em abundância.
Havia a cidade vizinha de praias belíssimas. Lá acontecia o veraneio em cada verão com o sol iluminando os seres e as coisas postas no mundo por Deus para que sejam alcançadas, contempladas, apanhadas e utilizadas. Aquela cidade marinha havia sido abençoada pela natureza, o mar batia, voltava, batia. O sol se admirava nos mil espelhos que espalhavam nas ondas que jogavam pra lá, pra cá.
No entanto, a cidade pequena, com um rio que a dividia em duas partes, ofertava ao menino de calção, peito nu, pé no chão as aventuras mais incríveis. Sustos esplêndidos, surpresas inesquecíveis. Ah, a vida era compreendida com suas marcas ardorosas no verão, aconchegantes no sono quando o inverno chegava com suas toalhas esvoaçantes e envolvia na manhã fria a paisagem escondida no fumo das horas.
Aquela cidade pequena enchia de sentimentos a alma do menino. Era mais envolvente por isso. Muito linda.
sexta-feira, setembro 18
Meu coração
Passei o dia pensando – coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com – cor, ação – repetido, invertido – ação, cor – sem sentido – couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “I´m too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A plateia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam por destruir tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Vega. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração é teu.
Caio Fernando Abreu, "Pequenas epifanias"
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “I´m too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A plateia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam por destruir tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Vega. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração é teu.
Caio Fernando Abreu, "Pequenas epifanias"
Homem, intentada viagem
Por exemplo: José Osvaldo.
O qual foi um brasileiro, a-histórico e desvalido, nas épocas de 39 ou 38, a perambular pela Europa para-a-guerra, híspida de espaventos. Veio a Hamburgo. Trazia-o uma comunicação do nosso Cônsul em Viena: “Não tem passaporte nem título de identidade e diz já ter sido repatriado duas vezes por esse Consulado-Geral. Deve haver aí algum papel, que o refira.”
E como de feito: achado que, pela terceira vez, no pouco de três anos, revia-se aqui, na estrangeiria e na máxima lástima, contando com que de novo o mandássemos para casa. Veterano, de disparatada veterância, coisa tão dessemelhada. Ele era corado, baixo, iria nos trinta anos. O bem-encarado, bem-avindo, sem semblante de bobático, sem sentir-se de sua situação, antes todo feito para imperturbar-se. Cumpria-se em serenidade fresca, expedindo uma paz, muito coada, propríssima. A uns, pareceu-nos algo nortista, a outros um tanto mineiro; bem alguma espécie. Nisso, e mais, por enquanto, não falava. Fora-se-lhe o último pfennig, do que Moreira da Silva em Viena lhe ministrara, no bolso nem tusta. Levava porém roupa asseada e não amarrotada inexplicadamente, e até com no peito uma flor, dessas de si semi-secas, sempre-viva. Assim bem-trapilho, um rico diabo. Mas, lil, lilil, pelo Evangelho, quase lilial que nem os lírios do campo, jovializava.
Tinha-se, em autoridade consular, de chefiar-lhe a ida, na sexta-feira, pelo navio da linha regular da Hamburg-Süd, que partia para o Brasil, gozando da “regalia de paquete” e, então, com a regra de conduzir repatriados. Era só requisitar-se a passagem. Estávamos, porém, em começo de semana, tendo o José Osvaldo de esperar os quatro dias. Com quantia mínima que recebeu, para comida e cama em albergue, deu-se por socorrido magnificamente. Ele em enleio de problemas não se retardava.
Nesse tempo, não deixou de vir passá-lo, o inteiro possível, no Consulado — de abertura a fechamento — bem se dava a ver um viajante desprovido de curiosidade. Comparecia, sentado no banco, no compartimento do público, junto ao balcão que separava a sala-grande, onde os Auxiliares trabalhavam. Olhava-os, quieto, brejeiro às vezes, com sorrisos seriosos. Falava língua nenhuma, jejuava em tudo. Seu fluido, neutro, não incomodava. Frequentava ali, como se, em lugar do interior, em porta de farmácia: o aspecto e atitude desmentindo as linhas tortas de seu procedimento. Não seria louco, a não ser da básica e normal doideira humana, a metafisicamente dita. Valeria, sim, saber-se o grau virtual de sua aloprabilidade. A gente nem tem ideia de como, por debaixo dos enredos da vida, talvez se esteja é somente e sempre buscando conseguir-se no sulco pessoal do próprio destino, que é naturalmente encoberto; e, se acaso, por breve trecho e a-de-leve, se entremostra, então aturde, por parecer gratuito absurdo e sem-razão. Convém ver. Só raros casos puros, aliás, abrem-nos aqui um pouco os olhos.
Notavelmente, o de Zé Osvaldo. Não é dizer fosse um raso vezeiro vagamundo, por ânimo de vadiação e hábito de irrealidade, atreito às formas da aventura. Outra a sua famigeração e círculo de motivos: sujeito a um rumo incondicional, à aproximação de outro tempo, projeto de vastidão, e mais que se pense; propósito de natureza — a crer-se em sua palavra. E o saberia? Sem efeito, que é que a gente conhece, de si mesmo, em verdade? Nem pretendia explicar-se, certo a certo, em quando respondia a umas perguntas, ali, observado entre lente e lâmina, sentado no banco, no faz-nada. Comum como uma terça-feira, otimista como um pau de cerca, risonho como um boi no Egito, indefeso como um pingo d’água sozinho, desmemoriado como um espelho. Dava trabalho, retrilhar-lhe as pegadas.
Sua cidade, o Rio. Não tinha ninguém. Tinha aquilo, que lhe vinha repetidamente sempre, tântalas vezes: a necessidade de partir e longinquir, se exportar, exairar-se, sem escopo, à lontania, às penúltimas plagas. Apenas não a simples veleidade de fugir ao normal, à lengalenga lógica, para espraiar cuidados, uma maneira prática de quimerizar. Mas, o que se mostrava a princípio exigência pacífica, ia-se tornando energia enorme de direção, futurativa, distanciânsia — a fome espacial dos sufocados. Então, se metia num navio, fizera já assim em quantas ocasiões. Voltara toda-a-vida à Europa: fora repatriado em Hamburgo, Trieste, Helsinque, Bordéus e Antuérpia. Ia-se, ao grande léu, como os tantos outros de sua abstrata raça, em íntimo intimados a seguir derrota, ignorantes de seu clandestino.
Por começo, engajara-se sem formalidades em vapores gregos ou panamenhos, como trabalhador de bordo, viajava de forasta. Mas era um ser pegado com a terra, no enxuto, não-marinheiro, nem tinha tatuagem. Pojavam em longe porto, ele se escapava. Agora, por último, nem mais se alistava: subintrava-se a bordo, sorrelfo às ocultas, com justeza matemática, sem isso nem isso, quer-se o que se quer, penetrava. O mar era-lhe apenas o meio de trajeção, seu instrumento incerto, distância que palpita. O mar, que faz lonjura. Ele era sempre da outra margem.
De suas artes em terra, não se tirariam marábulas, matéria de contos arábicos. Só — a licença aberta, a abstância e percorrência, o girogirar, o vagar a ver. Sempre a outros ultras, perléguas: itivo e latitudinário, paraginoso, na mal-entendida viagem, todo através-de. Até o desvaler-se de vez e miserar-se, e pôr ponto. Aí, caía num Consulado, socorria-se de seguridade, davam-lhe a repatriação.
Vago, vivo Zé Osvaldo, entre que confusas, em-sombras forças mediava, severas causas? Contou-nos os sucessivos episódios do que se lhe dera, de ingentes turlupinadas e estradas, desta vinda e feita.
Descido em Gênova, fora-se adentro, como sempre, trotamundo e alheio. Apanhou-o a polícia italiana. Mas não sabiam com ele o que resolver, a falta de documentos empalhando qualquer processo de expulsão. Deram-no à guarda da fronteira, que o levou, de noite, à beirada da Iugoslávia, e traspassaram-no para lá, de sorrate — subterfugido. Parece que o costume era obrarem às vezes desse jeito, naquelas partes. Porque, depois, os da polícia iugoslava fizeram-no para o lado-de-lá húngaro, também de noite e escondidamente, sob carabinas. Pego pelos húngaros, contrabandearam-no de novo para a Iugoslávia. Idem, os iugoslavos abalançando-o outra vez para a Hungria. E os húngaros, afinal, para a Áustria. Mas, por aí, já ele se aborrecera de tanto ser revirado transfronteiras. Antes que outros saíssem-lhe por diante para apajeá-lo, tratou de enviar-se a Viena, como pôde.
Simples gracejo, perguntamo-lhe: por que não tentava pôr por obra, aqui, sua arte de astuto, introduzindo-se à socapa num dos navios surtos no porto, a zarpar para o Rio? Seja por brio de esportividade, ou fosse por concordância ingênua, isso o botou influído. Por todo o dia, desapareceu. Mas, quando voltou, no seguinte, foi para confessar seu malogro, com igual sossego. Estivera no porto, no ver a ver. Achara navio a valer, mais de um. Mas o esforço não provou bem, a vigilância ali era um a-fio.
Segue-se que enfim partiu, na sexta. Sumária foi sua expedição. Não tinha bagagem, nem mesmo pacotilha. Sumiu-se, liso e recontente, o sorriso sem defeito, na lapela a sempre-viva. Ninguém se lembrou de dar-lhe algum dinheiro, só se pensou nisso tarde, já despachado o navio; com o atropelo de divertimentos e trabalhos, a gente não só negligencia, mas mesmo negligeia e neglige. Agora, já se estaria longe, navegantibundo, a descer o Elba, a entrar do Mar do Norte.
Mas, na outra manhã, cobrava-nos a Hamburg-Süd a importância de dez marcos, a ele favorecidos contra recibo tosco a lápis, e em termos de “esta requisição”. O desenvolvido Zeosvaldo, capaz e calmo, sabendo fazer de si, servidamente! E não ia voltar — como o entanto, o vento, a ave?
Sim que, anos depois, realmente retornou à Europa, não lhe puderam tolher a empresa. De novo, também, foi repatriado, para a epilogação. O nada acontece muitas vezes. Assim — na entrada da Guanabara — sabe-se que ele se atirou de bordo; perturbado? Acabou por começar. Isto é, rematou em nem-que-quando, zeosvaldo, mar abaixo, na caudalosa morte. Só morreu, com as coisas todas que não soubesse.
Inconseguiu-se?
Guimarães Rosa, "Ave, palavra/'
O qual foi um brasileiro, a-histórico e desvalido, nas épocas de 39 ou 38, a perambular pela Europa para-a-guerra, híspida de espaventos. Veio a Hamburgo. Trazia-o uma comunicação do nosso Cônsul em Viena: “Não tem passaporte nem título de identidade e diz já ter sido repatriado duas vezes por esse Consulado-Geral. Deve haver aí algum papel, que o refira.”
E como de feito: achado que, pela terceira vez, no pouco de três anos, revia-se aqui, na estrangeiria e na máxima lástima, contando com que de novo o mandássemos para casa. Veterano, de disparatada veterância, coisa tão dessemelhada. Ele era corado, baixo, iria nos trinta anos. O bem-encarado, bem-avindo, sem semblante de bobático, sem sentir-se de sua situação, antes todo feito para imperturbar-se. Cumpria-se em serenidade fresca, expedindo uma paz, muito coada, propríssima. A uns, pareceu-nos algo nortista, a outros um tanto mineiro; bem alguma espécie. Nisso, e mais, por enquanto, não falava. Fora-se-lhe o último pfennig, do que Moreira da Silva em Viena lhe ministrara, no bolso nem tusta. Levava porém roupa asseada e não amarrotada inexplicadamente, e até com no peito uma flor, dessas de si semi-secas, sempre-viva. Assim bem-trapilho, um rico diabo. Mas, lil, lilil, pelo Evangelho, quase lilial que nem os lírios do campo, jovializava.
Tinha-se, em autoridade consular, de chefiar-lhe a ida, na sexta-feira, pelo navio da linha regular da Hamburg-Süd, que partia para o Brasil, gozando da “regalia de paquete” e, então, com a regra de conduzir repatriados. Era só requisitar-se a passagem. Estávamos, porém, em começo de semana, tendo o José Osvaldo de esperar os quatro dias. Com quantia mínima que recebeu, para comida e cama em albergue, deu-se por socorrido magnificamente. Ele em enleio de problemas não se retardava.
Nesse tempo, não deixou de vir passá-lo, o inteiro possível, no Consulado — de abertura a fechamento — bem se dava a ver um viajante desprovido de curiosidade. Comparecia, sentado no banco, no compartimento do público, junto ao balcão que separava a sala-grande, onde os Auxiliares trabalhavam. Olhava-os, quieto, brejeiro às vezes, com sorrisos seriosos. Falava língua nenhuma, jejuava em tudo. Seu fluido, neutro, não incomodava. Frequentava ali, como se, em lugar do interior, em porta de farmácia: o aspecto e atitude desmentindo as linhas tortas de seu procedimento. Não seria louco, a não ser da básica e normal doideira humana, a metafisicamente dita. Valeria, sim, saber-se o grau virtual de sua aloprabilidade. A gente nem tem ideia de como, por debaixo dos enredos da vida, talvez se esteja é somente e sempre buscando conseguir-se no sulco pessoal do próprio destino, que é naturalmente encoberto; e, se acaso, por breve trecho e a-de-leve, se entremostra, então aturde, por parecer gratuito absurdo e sem-razão. Convém ver. Só raros casos puros, aliás, abrem-nos aqui um pouco os olhos.
Notavelmente, o de Zé Osvaldo. Não é dizer fosse um raso vezeiro vagamundo, por ânimo de vadiação e hábito de irrealidade, atreito às formas da aventura. Outra a sua famigeração e círculo de motivos: sujeito a um rumo incondicional, à aproximação de outro tempo, projeto de vastidão, e mais que se pense; propósito de natureza — a crer-se em sua palavra. E o saberia? Sem efeito, que é que a gente conhece, de si mesmo, em verdade? Nem pretendia explicar-se, certo a certo, em quando respondia a umas perguntas, ali, observado entre lente e lâmina, sentado no banco, no faz-nada. Comum como uma terça-feira, otimista como um pau de cerca, risonho como um boi no Egito, indefeso como um pingo d’água sozinho, desmemoriado como um espelho. Dava trabalho, retrilhar-lhe as pegadas.
Sua cidade, o Rio. Não tinha ninguém. Tinha aquilo, que lhe vinha repetidamente sempre, tântalas vezes: a necessidade de partir e longinquir, se exportar, exairar-se, sem escopo, à lontania, às penúltimas plagas. Apenas não a simples veleidade de fugir ao normal, à lengalenga lógica, para espraiar cuidados, uma maneira prática de quimerizar. Mas, o que se mostrava a princípio exigência pacífica, ia-se tornando energia enorme de direção, futurativa, distanciânsia — a fome espacial dos sufocados. Então, se metia num navio, fizera já assim em quantas ocasiões. Voltara toda-a-vida à Europa: fora repatriado em Hamburgo, Trieste, Helsinque, Bordéus e Antuérpia. Ia-se, ao grande léu, como os tantos outros de sua abstrata raça, em íntimo intimados a seguir derrota, ignorantes de seu clandestino.
Por começo, engajara-se sem formalidades em vapores gregos ou panamenhos, como trabalhador de bordo, viajava de forasta. Mas era um ser pegado com a terra, no enxuto, não-marinheiro, nem tinha tatuagem. Pojavam em longe porto, ele se escapava. Agora, por último, nem mais se alistava: subintrava-se a bordo, sorrelfo às ocultas, com justeza matemática, sem isso nem isso, quer-se o que se quer, penetrava. O mar era-lhe apenas o meio de trajeção, seu instrumento incerto, distância que palpita. O mar, que faz lonjura. Ele era sempre da outra margem.
De suas artes em terra, não se tirariam marábulas, matéria de contos arábicos. Só — a licença aberta, a abstância e percorrência, o girogirar, o vagar a ver. Sempre a outros ultras, perléguas: itivo e latitudinário, paraginoso, na mal-entendida viagem, todo através-de. Até o desvaler-se de vez e miserar-se, e pôr ponto. Aí, caía num Consulado, socorria-se de seguridade, davam-lhe a repatriação.
Vago, vivo Zé Osvaldo, entre que confusas, em-sombras forças mediava, severas causas? Contou-nos os sucessivos episódios do que se lhe dera, de ingentes turlupinadas e estradas, desta vinda e feita.
Descido em Gênova, fora-se adentro, como sempre, trotamundo e alheio. Apanhou-o a polícia italiana. Mas não sabiam com ele o que resolver, a falta de documentos empalhando qualquer processo de expulsão. Deram-no à guarda da fronteira, que o levou, de noite, à beirada da Iugoslávia, e traspassaram-no para lá, de sorrate — subterfugido. Parece que o costume era obrarem às vezes desse jeito, naquelas partes. Porque, depois, os da polícia iugoslava fizeram-no para o lado-de-lá húngaro, também de noite e escondidamente, sob carabinas. Pego pelos húngaros, contrabandearam-no de novo para a Iugoslávia. Idem, os iugoslavos abalançando-o outra vez para a Hungria. E os húngaros, afinal, para a Áustria. Mas, por aí, já ele se aborrecera de tanto ser revirado transfronteiras. Antes que outros saíssem-lhe por diante para apajeá-lo, tratou de enviar-se a Viena, como pôde.
Simples gracejo, perguntamo-lhe: por que não tentava pôr por obra, aqui, sua arte de astuto, introduzindo-se à socapa num dos navios surtos no porto, a zarpar para o Rio? Seja por brio de esportividade, ou fosse por concordância ingênua, isso o botou influído. Por todo o dia, desapareceu. Mas, quando voltou, no seguinte, foi para confessar seu malogro, com igual sossego. Estivera no porto, no ver a ver. Achara navio a valer, mais de um. Mas o esforço não provou bem, a vigilância ali era um a-fio.
Segue-se que enfim partiu, na sexta. Sumária foi sua expedição. Não tinha bagagem, nem mesmo pacotilha. Sumiu-se, liso e recontente, o sorriso sem defeito, na lapela a sempre-viva. Ninguém se lembrou de dar-lhe algum dinheiro, só se pensou nisso tarde, já despachado o navio; com o atropelo de divertimentos e trabalhos, a gente não só negligencia, mas mesmo negligeia e neglige. Agora, já se estaria longe, navegantibundo, a descer o Elba, a entrar do Mar do Norte.
Mas, na outra manhã, cobrava-nos a Hamburg-Süd a importância de dez marcos, a ele favorecidos contra recibo tosco a lápis, e em termos de “esta requisição”. O desenvolvido Zeosvaldo, capaz e calmo, sabendo fazer de si, servidamente! E não ia voltar — como o entanto, o vento, a ave?
Sim que, anos depois, realmente retornou à Europa, não lhe puderam tolher a empresa. De novo, também, foi repatriado, para a epilogação. O nada acontece muitas vezes. Assim — na entrada da Guanabara — sabe-se que ele se atirou de bordo; perturbado? Acabou por começar. Isto é, rematou em nem-que-quando, zeosvaldo, mar abaixo, na caudalosa morte. Só morreu, com as coisas todas que não soubesse.
Inconseguiu-se?
Guimarães Rosa, "Ave, palavra/'
Intermezzo
Hoje não posso ver ninguém:
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.
António Gedeão
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.
António Gedeão
Folha de álbum
Era, verdadeiramente, um personagem impossível. Tímido demais, sem nada para dizer, absolutamente. E que peso! Uma vez instalado em vosso atelier, não sabia mais como sair, até que vos fizesse quase gritar; tínheis vontade, assim que ele se retirava afinal, encabulado, de atirar em cima dele qualquer coisa enorme — o fogão, por exemplo. Mas, o curioso é que, à primeira vista, ele parecia muito interessante. Todo mundo estava de acordo. Indo ao café, à tarde, podereis descobrir um jovem magro e moreno, vestido de uma camisa azul debaixo de um paletó cinzento abotoado, sentado num canto, em frente a uma xícara de café. De qualquer maneira, essa camisa azul e esse paletó cinzento de mangas curtas lhe dava ar de rapaz resolvido a suicidar-se mar e que, na realidade, se suicidaria. Daqui a pouco ele se vai levantar, dependurar na ponta da bengala o lenço amarrado contendo a camisola de dormir e o retrato de sua mãe, sair a afogar-se. Ele cairá mesmo da beira do cais dirigindo-se para o seu navio... Tinha os cabelos pretos cortados rente, olhos cinzentos de pestanas longas, faces pálidas e uma boca que fazia beicinho, decidida a não chorar... Haveria a possibilidade de resistir, pergunto eu? A sua presença apertava o coração e, como se isso não bastasse, havia ainda aquela mania de enrubescer... Todas as vezes que o rapaz se acercava de alguém, tornava-se escarlate.
— Que é isso, querida? Sabeis qualquer coisa?
— Sim, ele se chama Ian French. Dizem que é um pintor de muito talento.
E logo uma daquelas senhoras começou por lhe dispensar os enternecidos cuidados de uma mãe. Perguntou-lhe quantas vezes recebia notícias de sua casa, se tinha bastantes cobertas para a cama e quanto de leite tomava por dia. Mas, quando ela foi ao seu atelier examinar as meias, cansou-se de tocar a campainha: ninguém abriu a porta, apesar de que ela juraria ouvir alguém respirar no interior... Desesperador!
Uma outra decidiu que seria bom que ele se apaixonasse. Puxou-o para junto de si, chamou-o "meu pequeno", apoiou-se sobre ele, para fazê-lo respirar o perfume embriagador dos seus cabelos, pegou-lhe o braço e disse-lhe quanto a vida seria maravilhosa se tivessem coragem; afinal, resolveu passar no seu atelier uma noite. Cansou-se de tocar a campainha... Desesperador!
— Esse pobre rapaz tem sobretudo necessidade de ser estimulado — declarou uma terceira. — Foram juntos aos cafés e aos cabarés, nos lugares onde se bebe qualquer coisa com o gosto de sumo de abricó de conserva, mas que custa vinte e sete xelins a garrafa e que se chama champanhe. Depois, em outros lugares tão excitantes que nem se pode dizer. A gente se senta numa escuridão horrível: justamente no lugar onde alguém foi assassinado na noite da véspera. Nem um cabelo de Ian se mexeu. Somente uma vez ele se embebedou bastante, mas em vez de se animar, conservou-se sentado, imóvel como um poste, duas manchas vermelhas nas faces, uma verdadeira imagem do "ragtime" que se tocava, a "Boneca Quebrada". Mas quando a sua companheira o acompanhou ao atelier, de volta, ele já recobrara os sentidos e despediu-se em baixo, na rua, com um "boa-noite" indiferente como se voltassem juntos da igreja... Desesperador!
Só depois de uma infinidade de tentativas — porque o espírito de bondade morre dificilmente nas mulheres — renunciaram a ele. Naturalmente elas eram ainda perfeitamente encantadoras, convidavam-no para as suas exposições, brincavam nos cafés, mas não passava disso. Quando se é artista não se tem tempo a perder com as pessoas que não correspondem às tentativas da gente, não é mesmo?
— E depois, creio sinceramente que existe nisso tudo qualquer coisa de suspeito... Você não acha? Isso não pode ser tão inocente quanto parece. Para que vir a Paris se ele quer conservar-se como um lírio nos campos? Não, eu não sou desconfiada, mas...
Ele morava num desses grandes edifícios que parecem tão românticos nas noites de chuva ou de luar, quando estão fechadas as janelas e a pesada porta e que a tabuleta “pequeno apartamento para alugar" se lê com uma inexprimível melancolia. Um desses edifícios cujo cheiro se conserva tão prosaico de um começo de ano a outro! A encarregada habita uma caixa de vidro no rés-do-chão; envolvida em um xale sórdido, remexe com a colher qualquer coisa em uma caçarola, uma espécie de erva, que ela dá ao velho cão inchado, estendido numa almofada de pérolas... Do atelier, dependurado no ar, tem-se uma vista maravilhosa. As duas grandes janelas se abrem para o rio. Ian pode ver os navios balançando-se e olhar a extremidade de uma ilhota plantada de árvores, como um buquê redondo. A janela do lado dá para outra casa ainda menor e embaixo se acha um mercado de flores. Podereis examinar as barracas em que se vendem plantas em caixas e palmas úmidas, luzentas, em potes de terra cota. Mulheres velhas andam de um lado para o outro, como tartarugas, entre flores. Certamente não havia necessidade de sair; ele poderia ficar lá, em sua janela, anos e anos, o tempo necessário para que sua barba branca caísse sobre o peitoril, e achando ainda qualquer coisa para desenhar...
Que espanto para essas ternas mulheres se elas chegassem a forçar a porta! Porque Ian French tinha o seu atelier limpo como um níquel novo. Todo ele era arranjado como para formar um desenho, uma pequena natureza morta, se preferem; as caçarolas arrumadas atrás do forno de gás, com suas tampas; a terrina de ovos, o pote de leite e o bule de chá sobre a prateleira; os livros e a lâmpada, com seu abajur de papel ondulado, em cima da mesa. Uma cortina de tecido da Índia, sobre a qual corriam leopardos vermelhos, cobria o leito de dia, e, na parede, ao lado, ao nível dos olhos quando se estava deitado, pendia um letreiro cuidadosamente impresso: “Levanta-te logo".
Quase todos os dias se pareciam uns com os outros. Enquanto a luz estava boa, ele pintava. Depois, cozinhava sua comida e punha tudo em ordem. À noite ia ao café ou então ficava em casa lendo ou fazendo orçamentos de despesas complicadas com o seguinte título: "Dinheiro com que eu devia contentar-me" e esta promessa: "Juro não gastar este total no próximo mês". Assinado: Ian French.
Nada de comprometedor nisto tudo, mas aquelas mulheres astuciosas tinham razão: havia outra coisa.
Uma tarde, sentado perto da janela lateral, ele comia ameixas, jogando os caroços sobre os enormes guarda-chuvas do mercado das flores deserto. Tinha chovido. A primeira chuva verdadeira da primavera acabava de desabar. Tudo estava salpicado de lantejoulas: o ar cheirava a brotos verdes de terra úmida. Vozes calmas, satisfeitas, ressoavam no crepúsculo. As pessoas que vinham fechar as venezianas trocavam ideias e se debruçavam para fora. Embaixo, no mercado, tudo se coloria de verde-novo. O acendedor de lampiões se aproximava. Ian reparou na casa em frente, pequena, em ruínas. De repente, como resposta ao seu olhar, duas folhas da janela se abriram e uma moça, carregando um vaso de narcisos, apareceu na minúscula sacada. Extremamente magra, vestia um avental escuro; um lenço cor de rosa envolvia-lhe a cabeça e as mangas, arregaçadas até perto dos ombros, deixavam-lhe à mostra os braços franzinos, contrastando com o pano escuro.
— Sim, está fazendo muito calor, isso vai fazer-lhes bem! E, depositando o vaso de flores, voltou-se para alguém que estava no interior, levantando as mãos para prender os cabelos no lenço. O seu olhar correu pelo mercado embaixo, depois pelo céu, sem reparar na casa da frente. Poderia não existir o lugar onde Ian French estava sentado. Depois, ela desapareceu.
O coração de Ian despencou da janela do atelier para a sacada e mergulhou no vaso de narcisos no meio de botões entreabertos e as hastes verdes. O quarto com a sacada era a sala de estar e o outro ao lado era a cozinha. Ele ouvia o barulho da louça que se lavava depois do jantar. Depois a moça se aproximava da janela, sacudiu o esfregão da louça e o dependurava num prego para secar. Nunca foi vista soltando os cabelos, cantando ou estendendo os braços para a lua, como fazem sempre as donzelas. Vestia sempre o mesmo avental escuro, o mesmo lenço cor de rosa na cabeça. Com quem vivia? Ninguém, senão ela, aparecia naquelas duas janelas. E, no entanto, ouvia-se que falava continuamente com alguém. Ele imaginou que a mãe dela estava doente, que as mulheres faziam costura, que o pai tinha morrido... Tinha sido jornalista, muito pálido, com longos bigodes; uma placa de cabelos pretos caía-lhe sobre a testa.
Trabalhando todos os dias, elas tinham continuamente com que viver, mas nunca saíam e não tinham amigos. Ultimamente, quando Ian se sentava à mesa, tomava nota de uma longa série de promessas; "Não ir à janela do lado antes de uma certa hora”. Assinado: Ian French. "Não pensar nela antes de guardar os seus pincéis no fim do dia". Assinado: Ian French.
Era bem simples: essa pessoa era a única que ele desejava conhecer, o único ser vivo do mundo, decerto que tivesse exatamente a sua idade. Não suportava as moças caçoístas e não sabia o que fazer com as mulheres feitas... ela tinha a sua idade... ela era... exatamente como ele. Sentado no seu atelier escuro, cansado, um braço caído sobre o espaldar da cadeira, olhava fixamente para a janela debaixo e se sentia junto dela. Às vezes brigavam seriamente, pois ela tinha caráter violento, uma maneira de bater os pés e de torcer as mãos no avental... furiosa! O seu riso, muito raro, só se ouvia quando contava histórias do seu absurdo gatinho que se zangava pretendendo ser um leão, quando se lhe dava carne para comer — ou outras histórias desse gênero... Mas habitualmente estavam juntos, bem sossegados, ele, sentado como está agora, e a moça, as mãos cruzadas no colo e os pés para trás. Conversavam baixinho, silenciosos e cansados, depois trabalho diário. Certamente nunca se cogitava dos seus quadros e ela detestava os seus maravilhosos retratos feitos por ele, achando que estava muito magra e muito escura... Mas como chegaria a conhecê-la? Isso poderia durar anos do mesmo jeito...
Ian descobriu então que uma, vez por semana, à tarde, ela saía para fazer suas compras. Duas quintas-feiras viu-a à janela, com uma capa fora da moda, carregando um cesto. Do lugar onde estava, era impossível ver a porta, mas, quinta-feira seguinte, à mesma hora, tomou o boné e desceu as escadas correndo. Uma luz rósea envolveu tudo, o rio estava cor de brasa e a gente, que caminhava em sentido contrário, tinha caras e mãos róseas.
Esperou-a encostado à parede da casa onde morava sem a menor ideia do que faria ou diria. "Ela vem vindo!” murmurou-lhe uma voz interior. Ela andava depressa, com passos curtos, leves; com uma das mãos carregava os cestos, com a outra segurava a capa... Não havia outra coisa senão segui-la. Ela começou por entrar no armazém e ali ficou muito tempo, depois no açougue, onde fez cauda esperando a sua vez. Ficou uma eternidade numa loja, depois comprou um limão num fruteiro. Quanto mais Ian examinava a moça, mais necessidade tinha de conhecê-la imediatamente. O seu sangue frio, o seu ar sério, a sua solidão, e até o seu de jeito de andar, como se tivesse pressa ir para longe daquela gente, tudo parecia a Ian muito natural, inevitável.
— Sim, ela é assim, pensou com orgulho. Nós nada temos de comum com essa gente.
A moça voltava agora para casa e Ian continuava sempre tão longe... Ela voltou-se bruscamente e entrou na leiteria. Através da vitrina, Ian viu-a comprar um ovo, escolhê-lo na cesta com tanto cuidado! — um ovo avermelhado, admiravelmente formado, exatamente o mesmo que ele teria escolhido. Assim que ela saiu, ele entrou. Um instante depois, continuava a segui-la. Passaram a casa de Ian, atravessaram o mercado de flores, evitando os enormes guarda-chuvas, pisando as flores caídas e as marcas redondas deixadas pelos vasos... Ele foi seguindo de perto, passou o umbral da porta, subiu pela escada, dando os passos ao mesmo tempo que a rapariga para não chamar a da atenção. Enfim, ela parou no patamar da escada e tirou a chave da bolsa. No momento em que a colocava na fechadura, ele saltou e postou-se diante dela. Corando, mais escarlate do que nunca, disse-lhe com um olhar duro, quase num tom de raiva:
"Desculpe-me, mas a senhorita deixou cair isto".
E apresentou-lhe um ovo.
— Que é isso, querida? Sabeis qualquer coisa?
— Sim, ele se chama Ian French. Dizem que é um pintor de muito talento.
E logo uma daquelas senhoras começou por lhe dispensar os enternecidos cuidados de uma mãe. Perguntou-lhe quantas vezes recebia notícias de sua casa, se tinha bastantes cobertas para a cama e quanto de leite tomava por dia. Mas, quando ela foi ao seu atelier examinar as meias, cansou-se de tocar a campainha: ninguém abriu a porta, apesar de que ela juraria ouvir alguém respirar no interior... Desesperador!
Uma outra decidiu que seria bom que ele se apaixonasse. Puxou-o para junto de si, chamou-o "meu pequeno", apoiou-se sobre ele, para fazê-lo respirar o perfume embriagador dos seus cabelos, pegou-lhe o braço e disse-lhe quanto a vida seria maravilhosa se tivessem coragem; afinal, resolveu passar no seu atelier uma noite. Cansou-se de tocar a campainha... Desesperador!
— Esse pobre rapaz tem sobretudo necessidade de ser estimulado — declarou uma terceira. — Foram juntos aos cafés e aos cabarés, nos lugares onde se bebe qualquer coisa com o gosto de sumo de abricó de conserva, mas que custa vinte e sete xelins a garrafa e que se chama champanhe. Depois, em outros lugares tão excitantes que nem se pode dizer. A gente se senta numa escuridão horrível: justamente no lugar onde alguém foi assassinado na noite da véspera. Nem um cabelo de Ian se mexeu. Somente uma vez ele se embebedou bastante, mas em vez de se animar, conservou-se sentado, imóvel como um poste, duas manchas vermelhas nas faces, uma verdadeira imagem do "ragtime" que se tocava, a "Boneca Quebrada". Mas quando a sua companheira o acompanhou ao atelier, de volta, ele já recobrara os sentidos e despediu-se em baixo, na rua, com um "boa-noite" indiferente como se voltassem juntos da igreja... Desesperador!
Só depois de uma infinidade de tentativas — porque o espírito de bondade morre dificilmente nas mulheres — renunciaram a ele. Naturalmente elas eram ainda perfeitamente encantadoras, convidavam-no para as suas exposições, brincavam nos cafés, mas não passava disso. Quando se é artista não se tem tempo a perder com as pessoas que não correspondem às tentativas da gente, não é mesmo?
— E depois, creio sinceramente que existe nisso tudo qualquer coisa de suspeito... Você não acha? Isso não pode ser tão inocente quanto parece. Para que vir a Paris se ele quer conservar-se como um lírio nos campos? Não, eu não sou desconfiada, mas...
Ele morava num desses grandes edifícios que parecem tão românticos nas noites de chuva ou de luar, quando estão fechadas as janelas e a pesada porta e que a tabuleta “pequeno apartamento para alugar" se lê com uma inexprimível melancolia. Um desses edifícios cujo cheiro se conserva tão prosaico de um começo de ano a outro! A encarregada habita uma caixa de vidro no rés-do-chão; envolvida em um xale sórdido, remexe com a colher qualquer coisa em uma caçarola, uma espécie de erva, que ela dá ao velho cão inchado, estendido numa almofada de pérolas... Do atelier, dependurado no ar, tem-se uma vista maravilhosa. As duas grandes janelas se abrem para o rio. Ian pode ver os navios balançando-se e olhar a extremidade de uma ilhota plantada de árvores, como um buquê redondo. A janela do lado dá para outra casa ainda menor e embaixo se acha um mercado de flores. Podereis examinar as barracas em que se vendem plantas em caixas e palmas úmidas, luzentas, em potes de terra cota. Mulheres velhas andam de um lado para o outro, como tartarugas, entre flores. Certamente não havia necessidade de sair; ele poderia ficar lá, em sua janela, anos e anos, o tempo necessário para que sua barba branca caísse sobre o peitoril, e achando ainda qualquer coisa para desenhar...
Que espanto para essas ternas mulheres se elas chegassem a forçar a porta! Porque Ian French tinha o seu atelier limpo como um níquel novo. Todo ele era arranjado como para formar um desenho, uma pequena natureza morta, se preferem; as caçarolas arrumadas atrás do forno de gás, com suas tampas; a terrina de ovos, o pote de leite e o bule de chá sobre a prateleira; os livros e a lâmpada, com seu abajur de papel ondulado, em cima da mesa. Uma cortina de tecido da Índia, sobre a qual corriam leopardos vermelhos, cobria o leito de dia, e, na parede, ao lado, ao nível dos olhos quando se estava deitado, pendia um letreiro cuidadosamente impresso: “Levanta-te logo".
Quase todos os dias se pareciam uns com os outros. Enquanto a luz estava boa, ele pintava. Depois, cozinhava sua comida e punha tudo em ordem. À noite ia ao café ou então ficava em casa lendo ou fazendo orçamentos de despesas complicadas com o seguinte título: "Dinheiro com que eu devia contentar-me" e esta promessa: "Juro não gastar este total no próximo mês". Assinado: Ian French.
Nada de comprometedor nisto tudo, mas aquelas mulheres astuciosas tinham razão: havia outra coisa.
Uma tarde, sentado perto da janela lateral, ele comia ameixas, jogando os caroços sobre os enormes guarda-chuvas do mercado das flores deserto. Tinha chovido. A primeira chuva verdadeira da primavera acabava de desabar. Tudo estava salpicado de lantejoulas: o ar cheirava a brotos verdes de terra úmida. Vozes calmas, satisfeitas, ressoavam no crepúsculo. As pessoas que vinham fechar as venezianas trocavam ideias e se debruçavam para fora. Embaixo, no mercado, tudo se coloria de verde-novo. O acendedor de lampiões se aproximava. Ian reparou na casa em frente, pequena, em ruínas. De repente, como resposta ao seu olhar, duas folhas da janela se abriram e uma moça, carregando um vaso de narcisos, apareceu na minúscula sacada. Extremamente magra, vestia um avental escuro; um lenço cor de rosa envolvia-lhe a cabeça e as mangas, arregaçadas até perto dos ombros, deixavam-lhe à mostra os braços franzinos, contrastando com o pano escuro.
— Sim, está fazendo muito calor, isso vai fazer-lhes bem! E, depositando o vaso de flores, voltou-se para alguém que estava no interior, levantando as mãos para prender os cabelos no lenço. O seu olhar correu pelo mercado embaixo, depois pelo céu, sem reparar na casa da frente. Poderia não existir o lugar onde Ian French estava sentado. Depois, ela desapareceu.
O coração de Ian despencou da janela do atelier para a sacada e mergulhou no vaso de narcisos no meio de botões entreabertos e as hastes verdes. O quarto com a sacada era a sala de estar e o outro ao lado era a cozinha. Ele ouvia o barulho da louça que se lavava depois do jantar. Depois a moça se aproximava da janela, sacudiu o esfregão da louça e o dependurava num prego para secar. Nunca foi vista soltando os cabelos, cantando ou estendendo os braços para a lua, como fazem sempre as donzelas. Vestia sempre o mesmo avental escuro, o mesmo lenço cor de rosa na cabeça. Com quem vivia? Ninguém, senão ela, aparecia naquelas duas janelas. E, no entanto, ouvia-se que falava continuamente com alguém. Ele imaginou que a mãe dela estava doente, que as mulheres faziam costura, que o pai tinha morrido... Tinha sido jornalista, muito pálido, com longos bigodes; uma placa de cabelos pretos caía-lhe sobre a testa.
Trabalhando todos os dias, elas tinham continuamente com que viver, mas nunca saíam e não tinham amigos. Ultimamente, quando Ian se sentava à mesa, tomava nota de uma longa série de promessas; "Não ir à janela do lado antes de uma certa hora”. Assinado: Ian French. "Não pensar nela antes de guardar os seus pincéis no fim do dia". Assinado: Ian French.
Era bem simples: essa pessoa era a única que ele desejava conhecer, o único ser vivo do mundo, decerto que tivesse exatamente a sua idade. Não suportava as moças caçoístas e não sabia o que fazer com as mulheres feitas... ela tinha a sua idade... ela era... exatamente como ele. Sentado no seu atelier escuro, cansado, um braço caído sobre o espaldar da cadeira, olhava fixamente para a janela debaixo e se sentia junto dela. Às vezes brigavam seriamente, pois ela tinha caráter violento, uma maneira de bater os pés e de torcer as mãos no avental... furiosa! O seu riso, muito raro, só se ouvia quando contava histórias do seu absurdo gatinho que se zangava pretendendo ser um leão, quando se lhe dava carne para comer — ou outras histórias desse gênero... Mas habitualmente estavam juntos, bem sossegados, ele, sentado como está agora, e a moça, as mãos cruzadas no colo e os pés para trás. Conversavam baixinho, silenciosos e cansados, depois trabalho diário. Certamente nunca se cogitava dos seus quadros e ela detestava os seus maravilhosos retratos feitos por ele, achando que estava muito magra e muito escura... Mas como chegaria a conhecê-la? Isso poderia durar anos do mesmo jeito...
Ian descobriu então que uma, vez por semana, à tarde, ela saía para fazer suas compras. Duas quintas-feiras viu-a à janela, com uma capa fora da moda, carregando um cesto. Do lugar onde estava, era impossível ver a porta, mas, quinta-feira seguinte, à mesma hora, tomou o boné e desceu as escadas correndo. Uma luz rósea envolveu tudo, o rio estava cor de brasa e a gente, que caminhava em sentido contrário, tinha caras e mãos róseas.
Esperou-a encostado à parede da casa onde morava sem a menor ideia do que faria ou diria. "Ela vem vindo!” murmurou-lhe uma voz interior. Ela andava depressa, com passos curtos, leves; com uma das mãos carregava os cestos, com a outra segurava a capa... Não havia outra coisa senão segui-la. Ela começou por entrar no armazém e ali ficou muito tempo, depois no açougue, onde fez cauda esperando a sua vez. Ficou uma eternidade numa loja, depois comprou um limão num fruteiro. Quanto mais Ian examinava a moça, mais necessidade tinha de conhecê-la imediatamente. O seu sangue frio, o seu ar sério, a sua solidão, e até o seu de jeito de andar, como se tivesse pressa ir para longe daquela gente, tudo parecia a Ian muito natural, inevitável.
— Sim, ela é assim, pensou com orgulho. Nós nada temos de comum com essa gente.
A moça voltava agora para casa e Ian continuava sempre tão longe... Ela voltou-se bruscamente e entrou na leiteria. Através da vitrina, Ian viu-a comprar um ovo, escolhê-lo na cesta com tanto cuidado! — um ovo avermelhado, admiravelmente formado, exatamente o mesmo que ele teria escolhido. Assim que ela saiu, ele entrou. Um instante depois, continuava a segui-la. Passaram a casa de Ian, atravessaram o mercado de flores, evitando os enormes guarda-chuvas, pisando as flores caídas e as marcas redondas deixadas pelos vasos... Ele foi seguindo de perto, passou o umbral da porta, subiu pela escada, dando os passos ao mesmo tempo que a rapariga para não chamar a da atenção. Enfim, ela parou no patamar da escada e tirou a chave da bolsa. No momento em que a colocava na fechadura, ele saltou e postou-se diante dela. Corando, mais escarlate do que nunca, disse-lhe com um olhar duro, quase num tom de raiva:
"Desculpe-me, mas a senhorita deixou cair isto".
E apresentou-lhe um ovo.
Katherine Mansfield
O caderninho azul de um aprendiz de feiticeiro
O garoto devia ter uns 10 anos e nessa idade hoje eles já estão cansados de saber de onde vêm os bebês. Queria mais. Queria o etéreo, o mistério para além da biologia profana. ‘Tio”, ele perguntou lá do fundo da sala, num encontro que tive com estudantes, “tio, de onde nascem as crônicas?”
Qualquer pessoa que abre uma tela de computador com a obrigação de em seguida enchê-la de palavrinhas sabe que essa é a pergunta basilar. De onde vem o baião, de onde nasce o mote que deflagra a criação? Eu vi, em 1996, na minha frente, Carlos Heitor Cony escrevendo uma crônica de tamanho médio, de qualidade alta, em não mais que 15 minutos. Acho que Cony sabe a resposta.
É íntimo demais e só vai declarado aqui porque li, ou um professor das antigas me disse, que o cronicar é de exposição do autor, um gênero de bermudas em que o dono delas, geralmente um tímido-assanhado, radicaliza o processo e parte para o desnudamento total diante da plateia.
Abrir o caderninho azul é um strip-tease de cabeça. Confesso que em algum momento da vida anotei nele, para reflexões que me poderiam inspirar mais adiante, tanto uma pergunta do barbudo Enéas num debate de televisão (“Lula, o que você pretende fazer com a bauxita refratária?”), como a máxima do filósofo africano Hardy Har-Har (“Não vai dar certo, Lippy!”). O juiz de futebol Mario Vianna também está perpetuado: “No meu dicionário não tem o verbo modéstia à parte.”
Jamais me acudi diretamente dessas sabedorias alheias, mas sabe-se lá como essas coisas funcionam nas engrenagens internas. São frases ora recolhidas em orações católicas (“Zombam da fé, os insensatos”, do hino “Queremos Deus”), ora em hinos de times de futebol (“Ninguém nos vence em vibração”, do Esporte Clube Bahia), ora em panfletos da Madame Cecília (“Resolve problemas de impotência e safra da lavoura”). Um caos de despropósitos. O locutor da Rádio Relógio propagandeia barato que “Depois do sol, quem ilumina seu lar é a Galeria Silvestre” e, em seguida, antes de dar a hora exata, filosofa que “Cada minuto da vida é um milagre que não se repete”. O argentino Hector Babenco explica por que ficou no Brasil: “Só aqui tem Fanta Uva.”
Comecei a registrar esse garimpo desconexo depois de ter lido, nas entrevistas da Paris Review, que dúzias de grandes autores faziam o mesmo. Anotavam o que lhes parecia curioso, engraçado, estimulante, misterioso – e entregavam à depuração de suas almas. É uma espécie de agenda de elucubrações, uma malhação intelectual, tranco que se dá quando o raciocínio não pega. Sabe-se que meia dúzia de supinos turbinam o bíceps. Mas o que fazem com a gente as palavras que jogamos para dentro?
Não sei, por exemplo, o que fiz exatamente com a informação registrada do filme “Aviso aos navegantes”. Está anotada no meu caderninho. Oscarito, falso médico, diagnostica numa paciente “um desequilíbrio no vago-simpático” e lhe receita “bigamatinil propitelamina composta de efeito fulminante”. Um disparate desses não move uma linha no texto de ninguém. Mas, delícia das delícias, sugere aos feixes nervosos do intelecto o tom de por onde você quer trafegar.
Uma crônica pode nascer de uma palavra, eu disse ao garoto enquanto desfolhava o caderninho azul, e dei como exemplo um texto surgido apenas com a intenção, o resto era detalhe, de encher seis mil toques em louvor à existência entre nós, e não deixar que morresse jamais, a palavra borogodó. Torço para que o mesmo não aconteça com bucentauro, berdamerda, nenúfar, alaúza, tremebunda, obnubilar, nefelibata, buteiro, perrengue, parlapatão, peripatético e outras palavras de muitas sílabas que fui anotando na medida em que elas desapareciam dos livros. Costumo recomendar palavras curtas a quem pede conselhos para escrever bem. Mas, de vez em quando, acho que a proparoxítona cai redonda, pedra de gelo que dá choque térmico e muda o ritmo de um texto telegráfico.
O caderninho azul que ora abro em público é uma tremenda bandeira.
Tem pílulas da ética de Don Corleone (“fique perto dos amigos e muito mais dos inimigos”), máximas cínicas do jornalismo (“a função do bom editor é separar o joio do trigo, e publicar o joio”), mandamentos da masculinidade por John Wayne (“fale com calma, fale devagar e não diga muita coisa”). Qualquer dia desses vou mandá-lo para a minha analista freudiana. Alguns escrevem diários, outros anotam frases soltas. Se existe quem leia a vida das pessoas na borra do café, imagine consultando um caderninho desses.
Anotei nele que “Escrevo para ficar louro e de olhos azuis”, declaração de um escritor perguntado sobre a razão de tanto esforço solitário com as palavras. Pode ser daí, por vaidade, que nasçam as crônicas. Anotei também a sabedoria de Tom Jobim (“O prazo é a grande musa inspiradora”). Pode ser daí, da necessidade mais prática. Donde quer que nasçam esses bucentauros de levezas que às vezes parecem querer dizer outra coisa, como o nome estranho da gôndola dos duques de Veneza, as crônicas só querem mesmo é navegar com o leitor até este porto final e desejar que ele tenha se divertido com a viagem.
Joaquim Ferreira dos Santos, "Em busca do borogodó perdido"
Qualquer pessoa que abre uma tela de computador com a obrigação de em seguida enchê-la de palavrinhas sabe que essa é a pergunta basilar. De onde vem o baião, de onde nasce o mote que deflagra a criação? Eu vi, em 1996, na minha frente, Carlos Heitor Cony escrevendo uma crônica de tamanho médio, de qualidade alta, em não mais que 15 minutos. Acho que Cony sabe a resposta.
Eu, modesto aprendiz de feiticeiro, temeroso de oferecer abstrações ao garoto pragmático, recitei como única pista um caderno azul que carrego há décadas. Existe. Nele fui jogando palavras extravagantes, pensamentos curiosos, frases de efeito, pára-choques de caminhão e tudo o mais que pulsasse letras. Eu esperava que, num dia de crise, uma palavra daquelas, friccionada com as enzimas do crânio, provocasse a faísca, fizesse jorrar aquele filetinho de sangue que escorre da testa de todo autor quando ele encontra o assunto. Sabia que um dia ele me faria sentido. Ei-lo.
É íntimo demais e só vai declarado aqui porque li, ou um professor das antigas me disse, que o cronicar é de exposição do autor, um gênero de bermudas em que o dono delas, geralmente um tímido-assanhado, radicaliza o processo e parte para o desnudamento total diante da plateia.
Abrir o caderninho azul é um strip-tease de cabeça. Confesso que em algum momento da vida anotei nele, para reflexões que me poderiam inspirar mais adiante, tanto uma pergunta do barbudo Enéas num debate de televisão (“Lula, o que você pretende fazer com a bauxita refratária?”), como a máxima do filósofo africano Hardy Har-Har (“Não vai dar certo, Lippy!”). O juiz de futebol Mario Vianna também está perpetuado: “No meu dicionário não tem o verbo modéstia à parte.”
Jamais me acudi diretamente dessas sabedorias alheias, mas sabe-se lá como essas coisas funcionam nas engrenagens internas. São frases ora recolhidas em orações católicas (“Zombam da fé, os insensatos”, do hino “Queremos Deus”), ora em hinos de times de futebol (“Ninguém nos vence em vibração”, do Esporte Clube Bahia), ora em panfletos da Madame Cecília (“Resolve problemas de impotência e safra da lavoura”). Um caos de despropósitos. O locutor da Rádio Relógio propagandeia barato que “Depois do sol, quem ilumina seu lar é a Galeria Silvestre” e, em seguida, antes de dar a hora exata, filosofa que “Cada minuto da vida é um milagre que não se repete”. O argentino Hector Babenco explica por que ficou no Brasil: “Só aqui tem Fanta Uva.”
Comecei a registrar esse garimpo desconexo depois de ter lido, nas entrevistas da Paris Review, que dúzias de grandes autores faziam o mesmo. Anotavam o que lhes parecia curioso, engraçado, estimulante, misterioso – e entregavam à depuração de suas almas. É uma espécie de agenda de elucubrações, uma malhação intelectual, tranco que se dá quando o raciocínio não pega. Sabe-se que meia dúzia de supinos turbinam o bíceps. Mas o que fazem com a gente as palavras que jogamos para dentro?
Não sei, por exemplo, o que fiz exatamente com a informação registrada do filme “Aviso aos navegantes”. Está anotada no meu caderninho. Oscarito, falso médico, diagnostica numa paciente “um desequilíbrio no vago-simpático” e lhe receita “bigamatinil propitelamina composta de efeito fulminante”. Um disparate desses não move uma linha no texto de ninguém. Mas, delícia das delícias, sugere aos feixes nervosos do intelecto o tom de por onde você quer trafegar.
Uma crônica pode nascer de uma palavra, eu disse ao garoto enquanto desfolhava o caderninho azul, e dei como exemplo um texto surgido apenas com a intenção, o resto era detalhe, de encher seis mil toques em louvor à existência entre nós, e não deixar que morresse jamais, a palavra borogodó. Torço para que o mesmo não aconteça com bucentauro, berdamerda, nenúfar, alaúza, tremebunda, obnubilar, nefelibata, buteiro, perrengue, parlapatão, peripatético e outras palavras de muitas sílabas que fui anotando na medida em que elas desapareciam dos livros. Costumo recomendar palavras curtas a quem pede conselhos para escrever bem. Mas, de vez em quando, acho que a proparoxítona cai redonda, pedra de gelo que dá choque térmico e muda o ritmo de um texto telegráfico.
O caderninho azul que ora abro em público é uma tremenda bandeira.
Tem pílulas da ética de Don Corleone (“fique perto dos amigos e muito mais dos inimigos”), máximas cínicas do jornalismo (“a função do bom editor é separar o joio do trigo, e publicar o joio”), mandamentos da masculinidade por John Wayne (“fale com calma, fale devagar e não diga muita coisa”). Qualquer dia desses vou mandá-lo para a minha analista freudiana. Alguns escrevem diários, outros anotam frases soltas. Se existe quem leia a vida das pessoas na borra do café, imagine consultando um caderninho desses.
Anotei nele que “Escrevo para ficar louro e de olhos azuis”, declaração de um escritor perguntado sobre a razão de tanto esforço solitário com as palavras. Pode ser daí, por vaidade, que nasçam as crônicas. Anotei também a sabedoria de Tom Jobim (“O prazo é a grande musa inspiradora”). Pode ser daí, da necessidade mais prática. Donde quer que nasçam esses bucentauros de levezas que às vezes parecem querer dizer outra coisa, como o nome estranho da gôndola dos duques de Veneza, as crônicas só querem mesmo é navegar com o leitor até este porto final e desejar que ele tenha se divertido com a viagem.
Joaquim Ferreira dos Santos, "Em busca do borogodó perdido"
quinta-feira, setembro 17
O comerciante
É possível que algumas pessoas tenham compaixão cie mim, mas eu não percebo nada. Minha pequena loja me enche de preocupações que me doem dentro da fronte e das têmporas, mas sem me oferecer a perspectiva da satisfação, pois a loja é pequena.
Com antecipação de horas preciso tomar providências, manter alerta a memória do empregado, advertir contra erros que eu temo e levar em conta, numa temporada, as modas da seguinte, não como elas irão dominar entre as pessoas do meu círculo, mas entre as populações inacessíveis do campo.
Meu dinheiro está nas mãos de pessoas estranhas; a situação delas não pode ser clara para mim; o infortúnio que poderia atingi-las eu não sou capaz de pressentir, como é que poderia evitá-lo? Talvez elas tenham se tornado pródigas e deem uma festa no jardim -de um restaurante e outras ainda permaneçam um pouco na festa, na sua rota de fuga para a América.
Quando pois ao anoitecer de um dia útil a loja é fechada e de repente vejo diante de mim horas nas quais não poderei trabalhar cm nome das necessidades ininterruptas da minha loja, minha excitação — despachada de manhã, previamente, para bem longe — irrompe em mim como a maré que retorna, mas não se detém e me arrasta consigo sem objetivo.
No entanto não tenho de modo algum a capacidade de usar esse humor e só posso ir para casa, pois tenho o rosto e as mãos sujos e suados, a roupa coberta de nódoas e pó, o boné de serviço na cabeça e as botas arranhadas pelos pregos dos caixotes. Caminho então como sobre ondas, estalo os dedos das duas mãos e acaricio o cabelo das crianças que vêm em minha direção.
Mas o caminho é curto demais. Logo estou cm minha casa, abro a porta do elevador e entro.
Vejo agora que de repente estou só. Outros, que têm de subir pelas escadas, cansam-se um pouco ao fazê-lo, precisam esperar com os pulmões respirando às pressas, até que venham abrir a porta do apartamento, nesse momento eles têm um motivo para irritação e impaciência, entram então na antessala, onde penduram o chapéu e só quando atravessam o corredor, ao longo de algumas portas de vidro, e penetram no próprio quarto, é que estão sozinhos.
Mas estou só logo no elevador e apoiado nos joelhos olho para o estreito espelho. Quando o elevador começa a subir eu digo:
— Fiquem quietos, recuem, querem entrar na sombra das árvores, atrás dos cortinados das janelas, dentro do caramanchão?
Falo com os dentes e os corrimões da escada escorregam pelas placas de vidro leitoso Como água que se precipita.
Partam voando daqui; que as asas que eu nunca enxerguei os transportem para o vale da aldeia ou a Paris, se o impulso é para lá. Mas desfrutem a vista da janela quando das três ruas chegam as procissões que não se desviam umas das outras, se embaralham e deixam o espaço livre outra vez entre as últimas filas. Acenem com os lenços, fiquem horrorizados, comovidos e elogiem a bela senhora que passa. Atravessem o riacho pela ponte de madeira, acenem com a cabeça aos meninos que se banham e espantem-se com o hurra! dos mil marinheiros no navio de guerra distante. Persigam o homem insignificante e quando o tiverem atirado num vão de entrada, assaltem-no e vejam, cada qual com as mãos nos bolsos, como ele segue triste pela rua da esquerda. Galopando dispersa nos seus cavalos, a polícia refreia os animais e os força a recuar. Deixem-na, as ruas vazias a farão infeliz, eu sei. O que foi que eu disse?
— Já estão cavalgando aos pares, lentos nas esquinas e a toda nas praças.
Aí tenho de descer do elevador e mandá-lo de volta para baixo, tocar a campainha e a empregada abre a porta enquanto eu cumprimento.
Franz Kafka, "Contemplação"
Com antecipação de horas preciso tomar providências, manter alerta a memória do empregado, advertir contra erros que eu temo e levar em conta, numa temporada, as modas da seguinte, não como elas irão dominar entre as pessoas do meu círculo, mas entre as populações inacessíveis do campo.
Meu dinheiro está nas mãos de pessoas estranhas; a situação delas não pode ser clara para mim; o infortúnio que poderia atingi-las eu não sou capaz de pressentir, como é que poderia evitá-lo? Talvez elas tenham se tornado pródigas e deem uma festa no jardim -de um restaurante e outras ainda permaneçam um pouco na festa, na sua rota de fuga para a América.
Quando pois ao anoitecer de um dia útil a loja é fechada e de repente vejo diante de mim horas nas quais não poderei trabalhar cm nome das necessidades ininterruptas da minha loja, minha excitação — despachada de manhã, previamente, para bem longe — irrompe em mim como a maré que retorna, mas não se detém e me arrasta consigo sem objetivo.
No entanto não tenho de modo algum a capacidade de usar esse humor e só posso ir para casa, pois tenho o rosto e as mãos sujos e suados, a roupa coberta de nódoas e pó, o boné de serviço na cabeça e as botas arranhadas pelos pregos dos caixotes. Caminho então como sobre ondas, estalo os dedos das duas mãos e acaricio o cabelo das crianças que vêm em minha direção.
Mas o caminho é curto demais. Logo estou cm minha casa, abro a porta do elevador e entro.
Vejo agora que de repente estou só. Outros, que têm de subir pelas escadas, cansam-se um pouco ao fazê-lo, precisam esperar com os pulmões respirando às pressas, até que venham abrir a porta do apartamento, nesse momento eles têm um motivo para irritação e impaciência, entram então na antessala, onde penduram o chapéu e só quando atravessam o corredor, ao longo de algumas portas de vidro, e penetram no próprio quarto, é que estão sozinhos.
Mas estou só logo no elevador e apoiado nos joelhos olho para o estreito espelho. Quando o elevador começa a subir eu digo:
— Fiquem quietos, recuem, querem entrar na sombra das árvores, atrás dos cortinados das janelas, dentro do caramanchão?
Falo com os dentes e os corrimões da escada escorregam pelas placas de vidro leitoso Como água que se precipita.
Partam voando daqui; que as asas que eu nunca enxerguei os transportem para o vale da aldeia ou a Paris, se o impulso é para lá. Mas desfrutem a vista da janela quando das três ruas chegam as procissões que não se desviam umas das outras, se embaralham e deixam o espaço livre outra vez entre as últimas filas. Acenem com os lenços, fiquem horrorizados, comovidos e elogiem a bela senhora que passa. Atravessem o riacho pela ponte de madeira, acenem com a cabeça aos meninos que se banham e espantem-se com o hurra! dos mil marinheiros no navio de guerra distante. Persigam o homem insignificante e quando o tiverem atirado num vão de entrada, assaltem-no e vejam, cada qual com as mãos nos bolsos, como ele segue triste pela rua da esquerda. Galopando dispersa nos seus cavalos, a polícia refreia os animais e os força a recuar. Deixem-na, as ruas vazias a farão infeliz, eu sei. O que foi que eu disse?
— Já estão cavalgando aos pares, lentos nas esquinas e a toda nas praças.
Aí tenho de descer do elevador e mandá-lo de volta para baixo, tocar a campainha e a empregada abre a porta enquanto eu cumprimento.
Franz Kafka, "Contemplação"
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