Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
domingo, outubro 25
Menina a caminho
Vindo de casa, a menina caminha sem pressa, andando descalça no meio da rua, às vezes se desviando ágil pra espantar as galinhas que bicam a grama crescida entre as pedras da sarjeta. O vestido caseiro, costurado provavelmente com dois retalhos, cobre seu corpo magro feito um tubo; a saia é de um pano grosso e desbotado, a blusa do vestido é de algodão acetinado, um fundo preto e brilhante, berrando em cima uma estampa enorme em cores vivas, tão grande que sobre o peito liso da menina não aparece mais que o pedaço de uma folha tropical. Deve dormir e acordar, dia após dia, com as mesmas tranças, uns restos amarrotados. Uma delas, toda esfiapada, é presa por dois grampos se engolindo; já quase desfeita, as mechas da outra estão mal apanhadas no alto por um laço encardido que cai feito flor murcha sobre a testa. Lambendo, enquanto anda, os fios colados à roda amarela e gosmenta de manga ao redor da boca, a menina esquece um momento outras distrações da rua ao se aproximar da pequena agitação diante da maquina de beneficiar arroz: três meninos estão saindo pela porta grande do armazém, puxando cada um deles um saco de palha.
“O Quinzinho só levou dois sacos até agora” resmunga um dos meninos.
“Mas ele vai emprestar a farda de quando era escoteiro mascote” diz um segundo.
“E daí? A Lena-minha-irmã vai emprestar duas fantasias, de baiana e havaiana, e eu já levei seis sacos, são sete com este ...”
A menina se encanta acompanhando assim clandestinamente aquela disputa, sente um entusiasmo gostoso escondido atrás da discussão.
“Eu acho bom você parar de reclamar” recomenda o terceiro menino.
Descalços, sem camisa, os corpos arcados, os meninos arrastam os sacos, que puxam por um dos cantos como se os puxassem pela orelha. E a palha, com o movimento às vezes emperrado, vai estufando cada vez mais a barriga gorda do fundo dos sacos. Passando pro chão de terra, um dos meninos vê a menina acocorada, observando-os por sob a barriga abaulada de um cavalo, cujas rédeas estão amarradas numa das argolas chumbadas na guia. Os três meninos param.
“O cirquinho é hoje, na casa do Dinho” grita um deles se agachando pra encontrar os olhos da menina por baixo da barriga do cavalo.
A menina vislumbra um fundo escuro de quintal, um grande círculo fofo de palha de arroz, velas acesas na ponta de estacas, os casacas de ferro, os meninos trapezistas, e seus olhos piscam de fantasias.
“São dez palitos a entrada” diz o Dinho se agachando também.
O Zuza, rapazote que marcha na calçada do outro lado, uma bola de capotão no arco do braço, diminui o passo e vem pro meio da rua:
“Na casa de quem, o cirquinho?” vai perguntando.
“Lá em casa” diz o Dinho.
“E quem trabalha nesse cirquinho?”
“A gente, mais o Quinzinho, a Tuta co’a Iracema que vão cantar ‘Um carro de boi’, a Eunice ... “
“A Nice não vai” intervém um dos meninos. “A mãe dela diz que da outra vez teve aquilo ...”
“Aquilo o quê?” pergunta o Zuza, malandramente.
“Você sabe, ara!”
O Zuza estufa o peito, cheio de si, enquanto o menino adverte com medo:
“A mãe do Dinho disse que quem tem mais de doze anos não entra dessa vez, só o Quinzinho que o Quinzinho vai emprestar a ...”
“Fecha esse bico, gordinho.”
O menino se tranca e enfia os olhos no chão. O Zuza faz ainda um trejeito com a boca:
“Cirquinho mixo esse ... e o Quinzinho que não se meta a besta comigo” diz despeitado, e, largando de repente a bola de capotão, mata com destreza a pelota, pisando em cima com o pé direito. Os braços livres, arma num instante o gesto: “Aqui que eu não entro nesse cirquinho” diz movimentando lentamente o braço teso da banana, pra cima e pra baixo, os olhos cheios de safadeza:
“Aqui que eu não entro, aqui, Ó.”
A menina arregala uns olhos deste tamanho e acompanha apreensiva a ameaça do rapazote. Os três meninos nem se mexem e, ao pé deles, um depois do outro, estão caídos os três sacos, vomitando palha pela boca aberta, como se tivessem levado um murro violento na barriga.
“Zuza! Ó Zuza!”
O Zuza interrompe rápido a banana, apanha dissimulado a bola e olha. “Zuza, vem cá um pouquinho.”
Debruçada sobre uma almofada de cetim azul, no parapeito de uma janela alta, dona Ismênia, robusta, cheia de pintura, desfrutando a primeira sombra que já tomba da sua casa, acena a mão chamando o Zuza. O rapazote abandona o meio da rua enquanto os três meninos, sem mais demora, apanham os sacos pela orelha e se safam apressadamente dali, deixando no chão três rodelas de palha amarela, como se fossem três gemas enormes se cozendo ao sol. O Zuza sobe a calçada meio sem jeito e ergue os olhos pra janela.
“Mas Zuza, não faz nem uma semana que você começou a trabalhar e você já está nessa folga?” diz a dona Ismênia brincando com os olhos, o rosto colorido que nem bunda de mandril.
O Zuza continua olhando pro alto, a bola de capotão no arco do braço.
“Será que você está mesmo de folga, hem Zuza?”
“Tou” responde encabulado.
“É verdade que o seu América fechou o armazém?”
“É verdade, sim.”
“E vocêe sabe por quê?”.
“O seu Américo mandou fechar as portas e eu fechei, não faz meia hora.”
“Como assim?”
“Disse que era por causa do calor e que eu podia ir embora.”
“O quê?!”
Outra mulher, que mal se esconde atrás da cortina repuxada pr’um dos lados, belisca com certeza a coxa grossa da dona Ismênia que protesta c’um grito esganiçado, voltando logo o rosto e alongando mais o riso. Debruçando se de novo na almofada, os seios leitosos, explosivos, quase espirrando pela Canoa do decote, encabulam inda mais o rapazote.
“Me diz uma coisa, Zuza: que história é essa que andam falando do filho do seu Américo?...”
O vulto atrás da cortina já não sustenta o recato, se arrebenta, sem mostrar a cara, numa solta gargalhada, enquanto a dona Ismênia, afogando-se de gozo, se sacode tanto na janela, parece até que vai vomitar algum sabugo. O Zuza ri também, sem saber por que, as faces formigando, mas a algazarra incompreensível das duas mulheres pouco a pouco se abranda.
“Posso te fazer outra pergunta, Zuza?”
“Claro.”
“Me diz só mais uma coisa: quem te ensinou a dar banana daquele jeito?”
“A banana que você dá é muito bem dada, Zuza ...” acrescenta a dona Ismênia logo depois, alimentando fartamente a fogueira de riso. Sacudindo se de novo na janela, fazendo tremer os seios de gelatina, ela até lacrimeja de tanto rir, gritando no fim do gozo com o beliscão que mais uma vez lhe aplicam na coxa. Termina extenuada: “Uff!...” “Ai, Mênia, que vergonha!...” diz a voz atrás da cortina.
O Zuza está ardendo de vermelhidão, as orelhas num fogaréu.
“É só, Zuza” encerra a dona Ismênia entre suspiros.
O Zuza continua olhando pra cima.
“É só” diz ela se desvencilhando, desviando o olhar pra bem longe e cantarolando baixinho: “larará, larará, lariri...”. Volta-se de novo pro rapazote:
“Sua mãe está boa, Zuza?”
“Tá boa, sim.”
“Dê lembranças pra ela.”
O Zuza não se mexe.
“Dê lembranças” repete a dona Ismênia vendo que o Zuza não arreda pé. Atrás da cortina, um risinho, meio miado, aparece e desaparece.
“Até logo, dona Ismênia” diz enfim o rapazote.
“Até logo, Zuza, e dê lembranças pra sua mãe, viu?”
O Zuza se aparta dali, andando cada vez mais rápido, atendendo quem sabe à curiosidade que cresce com os passos, enquanto na janela da dona Ismênia o riso ressurge com ardor revigorado.
Acocorada ainda ao lado do cavalo, a menina desvia os olhos da janela e alcança, bem afastados, os três meninos arrastando os sacos de palha pelo chão de terra, como se fossem três pequenos arados, um ao lado do outro, que tivessem deixado à sua passagem uma seara estreita ao longo da rua.
Só quando o cavalo distancia as patas traseiras é que a menina repara, escondido no alto entre as pernas, e se mostrando cada vez mais volumoso, no seu sexo de piche. Ela desmancha rápido a postura, se joga pra trás, os bracinhos esticados, as palmas das mãos se plantando na terra. Recebe mesmo assim os respingos do esguicho forte, o jato de mijo abrindo uma biroca no chão. O susto nos olhos dela aumenta com a gargalhada dos carregadores, dois crioulos musculosos e um branco atarracado, que fazem a sesta na calçada, estirados à sombra de uma árvore.
“O Quinzinho só levou dois sacos até agora” resmunga um dos meninos.
“Mas ele vai emprestar a farda de quando era escoteiro mascote” diz um segundo.
“E daí? A Lena-minha-irmã vai emprestar duas fantasias, de baiana e havaiana, e eu já levei seis sacos, são sete com este ...”
A menina se encanta acompanhando assim clandestinamente aquela disputa, sente um entusiasmo gostoso escondido atrás da discussão.
“Eu acho bom você parar de reclamar” recomenda o terceiro menino.
Descalços, sem camisa, os corpos arcados, os meninos arrastam os sacos, que puxam por um dos cantos como se os puxassem pela orelha. E a palha, com o movimento às vezes emperrado, vai estufando cada vez mais a barriga gorda do fundo dos sacos. Passando pro chão de terra, um dos meninos vê a menina acocorada, observando-os por sob a barriga abaulada de um cavalo, cujas rédeas estão amarradas numa das argolas chumbadas na guia. Os três meninos param.
“O cirquinho é hoje, na casa do Dinho” grita um deles se agachando pra encontrar os olhos da menina por baixo da barriga do cavalo.
A menina vislumbra um fundo escuro de quintal, um grande círculo fofo de palha de arroz, velas acesas na ponta de estacas, os casacas de ferro, os meninos trapezistas, e seus olhos piscam de fantasias.
“São dez palitos a entrada” diz o Dinho se agachando também.
O Zuza, rapazote que marcha na calçada do outro lado, uma bola de capotão no arco do braço, diminui o passo e vem pro meio da rua:
“Na casa de quem, o cirquinho?” vai perguntando.
“Lá em casa” diz o Dinho.
“E quem trabalha nesse cirquinho?”
“A gente, mais o Quinzinho, a Tuta co’a Iracema que vão cantar ‘Um carro de boi’, a Eunice ... “
“A Nice não vai” intervém um dos meninos. “A mãe dela diz que da outra vez teve aquilo ...”
“Aquilo o quê?” pergunta o Zuza, malandramente.
“Você sabe, ara!”
O Zuza estufa o peito, cheio de si, enquanto o menino adverte com medo:
“A mãe do Dinho disse que quem tem mais de doze anos não entra dessa vez, só o Quinzinho que o Quinzinho vai emprestar a ...”
“Fecha esse bico, gordinho.”
O menino se tranca e enfia os olhos no chão. O Zuza faz ainda um trejeito com a boca:
“Cirquinho mixo esse ... e o Quinzinho que não se meta a besta comigo” diz despeitado, e, largando de repente a bola de capotão, mata com destreza a pelota, pisando em cima com o pé direito. Os braços livres, arma num instante o gesto: “Aqui que eu não entro nesse cirquinho” diz movimentando lentamente o braço teso da banana, pra cima e pra baixo, os olhos cheios de safadeza:
“Aqui que eu não entro, aqui, Ó.”
A menina arregala uns olhos deste tamanho e acompanha apreensiva a ameaça do rapazote. Os três meninos nem se mexem e, ao pé deles, um depois do outro, estão caídos os três sacos, vomitando palha pela boca aberta, como se tivessem levado um murro violento na barriga.
“Zuza! Ó Zuza!”
O Zuza interrompe rápido a banana, apanha dissimulado a bola e olha. “Zuza, vem cá um pouquinho.”
Debruçada sobre uma almofada de cetim azul, no parapeito de uma janela alta, dona Ismênia, robusta, cheia de pintura, desfrutando a primeira sombra que já tomba da sua casa, acena a mão chamando o Zuza. O rapazote abandona o meio da rua enquanto os três meninos, sem mais demora, apanham os sacos pela orelha e se safam apressadamente dali, deixando no chão três rodelas de palha amarela, como se fossem três gemas enormes se cozendo ao sol. O Zuza sobe a calçada meio sem jeito e ergue os olhos pra janela.
“Mas Zuza, não faz nem uma semana que você começou a trabalhar e você já está nessa folga?” diz a dona Ismênia brincando com os olhos, o rosto colorido que nem bunda de mandril.
O Zuza continua olhando pro alto, a bola de capotão no arco do braço.
“Será que você está mesmo de folga, hem Zuza?”
“Tou” responde encabulado.
“É verdade que o seu América fechou o armazém?”
“É verdade, sim.”
“E vocêe sabe por quê?”.
“O seu Américo mandou fechar as portas e eu fechei, não faz meia hora.”
“Como assim?”
“Disse que era por causa do calor e que eu podia ir embora.”
“O quê?!”
Outra mulher, que mal se esconde atrás da cortina repuxada pr’um dos lados, belisca com certeza a coxa grossa da dona Ismênia que protesta c’um grito esganiçado, voltando logo o rosto e alongando mais o riso. Debruçando se de novo na almofada, os seios leitosos, explosivos, quase espirrando pela Canoa do decote, encabulam inda mais o rapazote.
“Me diz uma coisa, Zuza: que história é essa que andam falando do filho do seu Américo?...”
O vulto atrás da cortina já não sustenta o recato, se arrebenta, sem mostrar a cara, numa solta gargalhada, enquanto a dona Ismênia, afogando-se de gozo, se sacode tanto na janela, parece até que vai vomitar algum sabugo. O Zuza ri também, sem saber por que, as faces formigando, mas a algazarra incompreensível das duas mulheres pouco a pouco se abranda.
“Posso te fazer outra pergunta, Zuza?”
“Claro.”
“Me diz só mais uma coisa: quem te ensinou a dar banana daquele jeito?”
pergunta a dona Ismênia carregando na malícia, se engasgando ao mesmo tempo com o novo acesso de riso. “Chega, Mênia! Tadinho .... “ diz a voz atrás da cortina.
“A banana que você dá é muito bem dada, Zuza ...” acrescenta a dona Ismênia logo depois, alimentando fartamente a fogueira de riso. Sacudindo se de novo na janela, fazendo tremer os seios de gelatina, ela até lacrimeja de tanto rir, gritando no fim do gozo com o beliscão que mais uma vez lhe aplicam na coxa. Termina extenuada: “Uff!...” “Ai, Mênia, que vergonha!...” diz a voz atrás da cortina.
O Zuza está ardendo de vermelhidão, as orelhas num fogaréu.
“É só, Zuza” encerra a dona Ismênia entre suspiros.
O Zuza continua olhando pra cima.
“É só” diz ela se desvencilhando, desviando o olhar pra bem longe e cantarolando baixinho: “larará, larará, lariri...”. Volta-se de novo pro rapazote:
“Sua mãe está boa, Zuza?”
“Tá boa, sim.”
“Dê lembranças pra ela.”
O Zuza não se mexe.
“Dê lembranças” repete a dona Ismênia vendo que o Zuza não arreda pé. Atrás da cortina, um risinho, meio miado, aparece e desaparece.
“Até logo, dona Ismênia” diz enfim o rapazote.
“Até logo, Zuza, e dê lembranças pra sua mãe, viu?”
O Zuza se aparta dali, andando cada vez mais rápido, atendendo quem sabe à curiosidade que cresce com os passos, enquanto na janela da dona Ismênia o riso ressurge com ardor revigorado.
Acocorada ainda ao lado do cavalo, a menina desvia os olhos da janela e alcança, bem afastados, os três meninos arrastando os sacos de palha pelo chão de terra, como se fossem três pequenos arados, um ao lado do outro, que tivessem deixado à sua passagem uma seara estreita ao longo da rua.
Só quando o cavalo distancia as patas traseiras é que a menina repara, escondido no alto entre as pernas, e se mostrando cada vez mais volumoso, no seu sexo de piche. Ela desmancha rápido a postura, se joga pra trás, os bracinhos esticados, as palmas das mãos se plantando na terra. Recebe mesmo assim os respingos do esguicho forte, o jato de mijo abrindo uma biroca no chão. O susto nos olhos dela aumenta com a gargalhada dos carregadores, dois crioulos musculosos e um branco atarracado, que fazem a sesta na calçada, estirados à sombra de uma árvore.
Raduan Nassar
Data
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação.
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão.
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça.
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação.
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão.
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça.
Sophia de Mello B. Andresen
Fama
Ninguém se espante com o diálogo que mantive com um bebê de quinze dias de existência. Hoje, a comunicação não conhece fronteiras espaciais ou etárias. O bebê não fala o português de Portugal nem o português brasileiro, ensinado pelo saudoso professor Stanislaw Ponte Preta. Mas fala a seu modo, desde que se saiba interrogá-lo, e eu, não é por me gabar, tenho meus macetes. Perguntei-lhe de saída:
— Então, satisfeita de vir ao mundo?
Respondeu-me com rabugem, em termos que traduzirei assim:
— Como posso estar satisfeita, se ainda bem não cheguei a este lugar, já me televisionaram e estão me entrevistando?
— É a era tecnológico-aldeiglobal-consumística, minha querida. Desde o primeiro minuto de vida extrauterina você participa da sociedade eletrônico-difusoro-cósmica ilimitada.
— É, estou vendo mas não acho graça nenhuma.
— Não é para achar graça nem desgraça, é para se integrar, entende? Você tem de aderir ao processo. O processo é irreversível. Melhor você não dar uma de contestadora, e entrar na jogada.
— Mas eu nem tive tempo de contestar, me botaram diante das câmeras, fechei os olhos para não me ofuscar com aquelas luzes, chorei em sinal de protesto, riram de mim, e agora, pelo que vejo, estou em todas.
— De fato. Seu índice de publicidade é dos mais altos. Em duas semanas você varou o Brasil, fez concorrência a Elizabeth Taylor, aos terroristas palestinos e aos não palestinos, governos que caem, governos que sobem, técnicas de exorcismo…
— E daí? Pensa que o meu Ibope me dá prazer?
— Ibope não dá prazer. Dá dividendos. Você tem o futuro garantido, se for sempre dócil às exigências do sistema. Não deve bobear. Esteja sempre perto de uma objetiva, um gravador, uma passarela.
— Preferia viver a vida, com a sensação de ter uma vida realmente minha.
— Quem tem isso hoje em dia, meus-encantos? Só os loucos, isso mesmo, apenas certos loucos, não marcados pela psicose de governar o mundo. Loucos mansos, vamos dizer assim. São raros, a maioria é agitada, e não só recebe a influência da comunicação delirante, como, por sua vez, influi sobre esta, aumentando-lhe o delírio. De sorte que é bom você renunciar ao ideal individualista e anacrônico. Vida particular da gente já era. Agora vivemos a vida dos outros, em bloco, ou melhor, a de ninguém.
— De qualquer maneira, os direitos da criança… O direito de mamar sem virar manchete, de fazer cocozinho à vontade sem ser objeto de curiosidade geral, como se eu pudesse fazê-lo de pérolas. Isso não está mais em vigor?
— Depende. Há criança e criança. Umas nascem destinadas à obscuridade total e permanente, senão mesmo a coisa mais negativa, que é não viver. Nascem para não conhecer a vida. Em pouco tempo voltam para o outro lado, onde, ao que se sabe, ainda há o aproveitamento industrial do ser. Você até que é dos bebês privilegiados. Centenas de milhares, ou milhões, de espectadores debruçam-se diante dos seus cueiros, pela circunstância feliz de que você é extensão da glória de sua mãezinha.
— Vou pedir a ela para me esconder.
— Ela não pode fazer isso. Compreenda o seu papel, ó flor reclamante. Não se pode fazer nada nesta situação, a não ser exigir que as fotos saiam caprichadas, mesmo porque se não saírem será preciso tirar outras. Sua imagem é mais importante do que você. E você não se pertence; você é a sua imagem multiplicada, em cor e som. Cresça como puder, mas apareça. Aparecer é ser, em nosso tempo. Bem, vou me despedir, já estão chegando outras equipes que naturalmente vão pedir a você que estreie na próxima novela das vinte e duas horas. Trate de se preparar para tudo. Sucesso, hem? E tchauzinho, mon amour de bebê.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
— Então, satisfeita de vir ao mundo?
Respondeu-me com rabugem, em termos que traduzirei assim:
— Como posso estar satisfeita, se ainda bem não cheguei a este lugar, já me televisionaram e estão me entrevistando?
— É a era tecnológico-aldeiglobal-consumística, minha querida. Desde o primeiro minuto de vida extrauterina você participa da sociedade eletrônico-difusoro-cósmica ilimitada.
— É, estou vendo mas não acho graça nenhuma.
— Não é para achar graça nem desgraça, é para se integrar, entende? Você tem de aderir ao processo. O processo é irreversível. Melhor você não dar uma de contestadora, e entrar na jogada.
— Mas eu nem tive tempo de contestar, me botaram diante das câmeras, fechei os olhos para não me ofuscar com aquelas luzes, chorei em sinal de protesto, riram de mim, e agora, pelo que vejo, estou em todas.
— De fato. Seu índice de publicidade é dos mais altos. Em duas semanas você varou o Brasil, fez concorrência a Elizabeth Taylor, aos terroristas palestinos e aos não palestinos, governos que caem, governos que sobem, técnicas de exorcismo…
— E daí? Pensa que o meu Ibope me dá prazer?
— Ibope não dá prazer. Dá dividendos. Você tem o futuro garantido, se for sempre dócil às exigências do sistema. Não deve bobear. Esteja sempre perto de uma objetiva, um gravador, uma passarela.
— Preferia viver a vida, com a sensação de ter uma vida realmente minha.
— Quem tem isso hoje em dia, meus-encantos? Só os loucos, isso mesmo, apenas certos loucos, não marcados pela psicose de governar o mundo. Loucos mansos, vamos dizer assim. São raros, a maioria é agitada, e não só recebe a influência da comunicação delirante, como, por sua vez, influi sobre esta, aumentando-lhe o delírio. De sorte que é bom você renunciar ao ideal individualista e anacrônico. Vida particular da gente já era. Agora vivemos a vida dos outros, em bloco, ou melhor, a de ninguém.
— De qualquer maneira, os direitos da criança… O direito de mamar sem virar manchete, de fazer cocozinho à vontade sem ser objeto de curiosidade geral, como se eu pudesse fazê-lo de pérolas. Isso não está mais em vigor?
— Depende. Há criança e criança. Umas nascem destinadas à obscuridade total e permanente, senão mesmo a coisa mais negativa, que é não viver. Nascem para não conhecer a vida. Em pouco tempo voltam para o outro lado, onde, ao que se sabe, ainda há o aproveitamento industrial do ser. Você até que é dos bebês privilegiados. Centenas de milhares, ou milhões, de espectadores debruçam-se diante dos seus cueiros, pela circunstância feliz de que você é extensão da glória de sua mãezinha.
— Vou pedir a ela para me esconder.
— Ela não pode fazer isso. Compreenda o seu papel, ó flor reclamante. Não se pode fazer nada nesta situação, a não ser exigir que as fotos saiam caprichadas, mesmo porque se não saírem será preciso tirar outras. Sua imagem é mais importante do que você. E você não se pertence; você é a sua imagem multiplicada, em cor e som. Cresça como puder, mas apareça. Aparecer é ser, em nosso tempo. Bem, vou me despedir, já estão chegando outras equipes que naturalmente vão pedir a você que estreie na próxima novela das vinte e duas horas. Trate de se preparar para tudo. Sucesso, hem? E tchauzinho, mon amour de bebê.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
O Homem da Flor na Boca
PERSONAGENS: O pacifico freguês e o homem da flor na boca
ATO ÚNICO
CENA – Noite de verão. Uma pequena rua solitária que acaba numa avenida. Ao fundo, entre os galhos das arvores, aparecem os candeeiros elétricos acesos. No prédio de esquina da pequena rua, à esquerda, um pobre café noturno, com mesinhas e cadeiras de passeio fracamente iluminadas pelo candeeiro aceso, à beira do mesmo passeio. Diante da casa da direita uma lâmpada acesa. No ângulo da ultima casa da esquerda que faz esquina com a avenida outro candeeiro aceso.
Quase no fim do dialogo, na altura indicada no texto, aparecerá por duas vezes um vulto de mulher, vestida de preto, com um velho chapéu enfeitado com penas já sem frescura.
É um pouco mais de meia noite. Em alguns intervalos da peça ouvir-se-á um som distante tilintante de um bandolim. Quando o pano sobe, aparece o Homem da Flor na Boca sentado numa das mesas, observando demoradamente e em silencio um Pacifico Freguês que na mesa ao lado chupa com um canudo um refrigerante.
O HOMEM: Pelo que vejo, o senhor, um homem pacifico e metódico... perdeu o trem?
O FREGUÊS: Por um minuto, sabe? Chego na estação e lá o vejo, fugindo diante de mim.
O HOMEM: Podia ter corrido atrás dele!
O FREGUÊS: Podia! É engraçado, eu sei! Se eu não tivesse que carregar todos aqueles embrulhos e embrulhinhos... Mais carregado que um burro! Mas as mulheres... sabe como é – pedindo sempre encomendas e não param. Você acredita que quando desci do carro, eu levei três minutos só para arrumar nos dedos os barbantes de todos os pacotes: dois em cada dedo.
O HOMEM: Gostaria de ter visto isso. Sabe o que eu faria no seu lugar? Teria deixado tudo no carro.
O FREGUÊS: E minha mulher? E as minhas filhas? E todas as amigas delas?
O HOMEM: Iam gritar muito, e eu ia me divertir com isso.
O FREGUÊS: Talvez o senhor não saiba como se tornam as mulheres quando estão de férias.
O HOMEM: Ora! Sei, e muito bem! Digo isso justamente por saber. Todas dizem que não precisam de nada.
O FREGUÊS: Nada? Elas são até capazes de dizer que vão viajar pra fora só com a intenção de economizar. Depois assim que chegam em alguma cidadezinha aqui por perto, quanto mais feia, suja e miserável for, mais elas insistem em enfeitá-la caprichando nos figurinos acessórios. Ora, as mulheres, meu caro senhor! Mas a final, é a profissão delas!...”Se você desse um pulo até a cidade, meu amor!... Eu estava precisando realmente disso... disso... daquilo... e também você podia... se não se incomoda (engraçado esse: ”se não se incomoda”, não acha?)... Já que você vai pra lá, quando passar em frente...”- Mas, minha querida, como é que você quer que eu faça tudo isso em apenas em três horas? – “Ora, o que é que tem? Você pega um táxi...” – O pior é que eu achava que só ia demorar três horas e não trouxe a chave de casa.
O HOMEM: Essa é muito boa! E depois?
O FREGUÊS: Ora, depois eu deixei aquele montão de encomendas e fui jantar num restaurante; depois, eu fui ao teatro pra dar uma espairecida. Lá estava muito quente. Na saída me perguntei: E agora, vou fazer o que? Já passa da meia noite e às quatro da manhã eu tenho que pegar o primeiro trem, então nem vale a pena ir deitar. E vim até aqui. Este café não fecha, né?
O HOMEM: Não fecha, não senhor! (PAUSA) E, então, deixou todos os seus pacotes na estação?
O FREGUÊS: Porque me pergunta isso? Por acaso não estão seguros lá? Estavam todos tão bem embrulhados e...
O HOMEM: Não, não digo isso! Muito bem embrulhados, calculo: Com aquela arte especial dos vendedores, de embrulhar os objetos que vendem... (PAUSA) Que mãos! Uma bela folha de papel dobrada, vermelha, polida... que só de olha-la já é um prazer...Tão lisa, que até dá vontade de encostá-la no rosto para sentir o seu toque delicado... Estendem a folha sobre o balcão, e depois, com elegância e desembaraço, colocam em cima, precisamente no meio, o tecido fino, bem dobrado. Levantam primeiro de baixo, com o dorso da mão, uma ponta da folha de papel; dorso da mão, uma ponta de papel: até lhe fazem uma pequena prega, supérflua, só por amor à arte. Então, dobram de um lado e do outro, em triângulo, a folha de papel, e viram por baixo as duas pontas; estendem uma das mãos para o rolo de fita; puxam o necessário para atar o embrulho. E atam tão rapidamente que nem temos tempo de admirar a habilidade do empregado, e já nos apresentam o embrulho feito, com o nó pronto pra levarmos pendurado nos dedos.
O FREGUÊS: Percebo que o senhor dedicou muita atenção aos empregados das lojas...
O HOMEM: Eu? Meu caro amigo, eu passo dias inteiros observando-os! Sou capaz de ficar mais de uma hora, parado, olhando pra dentro das lojas através das vitrines. Chego a esquecer de mim. Parece que sou, e realmente gostaria de ser, aquele tecido de seda... aquele cetim... a fita vermelha, ou azul, que as vendedoras das lojas, depois de a medirem com o metro... já viu como fazem? Enrolam no polegar em forma de oito, antes de embrulhar. (PAUSA) Observo o cliente ou a cliente que sai da loja com o embrulho na mão, ou numa sacola, ou debaixo do braço... Sigo- os com os olhos, até sumirem da minha vista... fico imaginando... - Ah, quantas coisas imagino!, o senhor não faz ideia! (PAUSA,
O FREGUÊS: (PAUSA) Desculpe... o que é que lhe ajuda?
O HOMEM: Me agarrar assim – quero dizer, com a imaginação – à vida. Como uma planta trepadeira nas grades de um portão... (PAUSA) Ah, nunca deixar a imaginação descansar, nem um instante sequer: - Aderir, aderir com ela, continuamente, à vida dos outros... – mas não à vida de gente que conheço! Não! Não! A essa não! Eu sinto por ela... uma repugnância, se o senhor soubesse! Um nojo! Aderir à vida dos estranhos, em volta dos quais a minha imaginação pode trabalhar livremente; mas isso não é um capricho meu, muito pelo contrario, levando em consideração as menores peculiaridades descobertas neste ou naquele estranho. E se soubesse quanto e como ela trabalha! Dependendo até onde consigo aprofundar, vejo até mesmo a casa deste ou daquele indivíduo; vivo lá dentro; me sinto dentro dela, até sinto o cheiro... sabe? Aquela espécie de cheiro particular de cada casa! Da sua, da minha... – mas na nossa, nos já não sentimos mais, porque já é o cheiro da nossa própria vida...Não sei se eu tô sendo claro. Ah, pelo visto sim e...
O FREGUÊS: Sim, porque...quero dizer: deve ser realmente muito prazeroso para o senhor imaginar todas essas coisas...
O HOMEM: (COM EVIDENTE FADIGA DEPOIS DE PENSAR UM INSTANTE)- Prazeroso? Pra mim?
O FREGUÊS: Quer dizer... calculo...
O HOMEM: Me diz uma coisa. Já foi consultar algum médico de renome?
O FREGUÊS: Eu não! Por que? Não estou doente!
O HOMEM: Não se assuste! Só tô perguntando para saber se já viu, no consultório desses grandes médicos, a sala onde os clientes esperam a sua vez de serem atendidos.
O FREGUÊS: Já vi, sim. Tive de acompanhar uma vez uma das minhas filhas, que sofria dos nervos, e...
O HOMEM: Muito bem. Não me interessa saber. Só me interessam aquelas salas... (PAUSA) Já reparou nelas? Um sofá de tom escuro, desses antigos... as cadeiras estofadas, muitas vezes desiguais... Tudo comprado de ocasião, de segunda mão, colocadas ali para os clientes; não pertencem ao lugar. Já o médico tem na sua casa rica e bela, uma outra sala, para ele e para as amigas da esposa. Imagine como destoaria uma das suas cadeiras ou poltronas se fosse trazida para cá, para o lugar reservado aos clientes, a quem basta esses moveis sem pretensões, decentes, sóbrios. Queria saber se o senhor, quando foi com a sua filha, reparou bem na poltrona ou na cadeira onde se sentou enquanto esperava.
O FREGUÊS: Eu não, com francamente...
O HOMEM: É verdade: o senhor não estava doente... (PAUSA). Mas nem todos os doentes reparam naquilo, mergulhados como estão no pensamento da sua própria doença... (PAUSA) E, no entanto, quantas vezes alguns deles estão ali, atentos, observando os movimentos ansiosos dos dedos que fazem sinais inúteis, no braço puído daquela cadeira em que estão sentados!...Pensam e não veem. Mas que efeito faz. Quando saímos da consulta, e voltamos a atravessar a sala, vendo de novo a cadeira onde há pouco estávamos sentados, à espera da sentença do nosso mal ainda ignorado! Ocupada por outro paciente, também ele com a sua doença secreta; ou ali, vazia, impassível, à espera de um outro qualquer que vai ocupá-la... (PAUSA) Mas o que estávamos falando?... Ah, sim, é verdade... O prazer da imaginação. – Não sei bem porque me lembrei logo de uma das cadeiras dessas salas dos médicos, onde os pacientes estão à espera da consulta...
O FREGUÊS: Sim... realmente...
O HOMEM… Não vê a relação? Nem eu. Mas é que certos laços ligando imagens entre si longínquas, são tão particulares a cada um de nós, e determinados por causas e experiências tão singulares, que deixaríamos de nos compreender se, ao falarmos, não nos inibíssemos de utilizá-los. Nada mais lógico, por vezes, do que estas analogias. Mas a relação pode talvez ser esta, repare: – “Teriam prazer, aquelas cadeiras, em imaginar quem é o paciente que vai sentar-se nelas, à espera da consulta? Que doença ele tem? Para onde ele vai? O que fará depois da consulta?” Nenhum prazer. E assim eu também: Nenhum! Entram e saem os clientes e elas, pobres cadeiras, estão lá à espera de serem ocupadas. Pois bem, a minha é uma ocupação parecida. Ora me ocupa este, ora aquele. Neste momento está me ocupando o senhor, e creia que não sinto prazer algum com o trem que perdeu, com a família que espera o espera na cidadezinha de ferias, com todas as reclamações que eu imagino que tenha...
O FREGUÊS: Ai, tantas, nem calcula!
O HOMEM: Dê graças a Deus que não passam de reclamações. (PAUSA) Existem coisas piores, meu amigo. Eu lhe digo que tenho necessidade de me agarrar com a imaginação à vida alheia; mas assim, sem prazer, sem me interessar de maneira alguma, muito pelo contrário... pelo contrário... para sentir a irritação da vida, para julgá-la estúpida e inútil, tanto que realmente não deve importar muito a ninguém perdê-la. (RAIVOSAMENTE) E isso é necessário que a gente perceba, sabe? Com provas e exemplos contínuos, implacavelmente. Porque, meu caro senhor, não sabemos de que é feito esse desejo de viver, mas existe, existe! Todos a sentimos aqui, como uma angustia na garganta, o gosto da vida que nunca se satisfaz, que nunca se pode satisfazer, porque a vida, no próprio ato de a vivermos, é tão gulosa de si própria, que não se deixa saborear. O sabor está no passado, que permanece vivo dentro de nós. É daí que nos vem o desejo de viver, das recordações que nos mantém presos. Mas presos a que? A esta estupidez... a estas lamentações... a tantas ilusões absurdas... a tantas amarguras que nos ocupam... Sim! Esta, que foi uma estupidez!... Aquela, que foi uma lamentação... e posso até dizer: essa que agora parece ser uma desventura, uma verdadeira desventura... daquí a quatro, cinco, dez anos, quem sabe que gosto virão a ter...que gosto virão a ter as próprias lágrimas de hoje?... E a vida, por Deus, só a ideia de a perdermos... especialmente quando se sabe que é uma questão de dias...(NESTE MOMENTO APARECE O VULTO DA MULHER VESTIDA DE PRETO, ESPREITANDO A ESQUINA.) Pronto... está vendo? Ali, ali, naquela esquina...Então não vê um vulto de mulher? – Já se escondeu!
O FREGUÊS: Quem? Quem era?
O HOMEM: Não viu? Se escondeu.
O FREGUÊS: Uma mulher?
O HOMEM: Sim. Minha mulher.
O FREGUÊS: Ah! Sua esposa?
O HOMEM: (DEPOIS DE UMA PAUSA) Vigia-me de longe. E acredite, tenho vontade de ir até ela e mandá-la embora a pontapés! Mas seria inútil... É como uma dessas cadelas sem dono, teimosas, que quanto mais pontapés nós damos, mais grudam nos nossos calcanhares. (PAUSA) O que aquela mulher está sofrendo por mim, o senhor nem pode imaginar. Já não come, não dorme... Segue-me dia e noite, assim, à distancia. Se pelo menos tentasse escovar aquele cabelo... aqueles vestidos... – Já não parece uma mulher, mas um trapo velho. O cabelo empoeirado. E tem apenas trinta e quatro anos! (PAUSA) Sinto uma raiva tão grande que não imagina. Às vezes a pego nos ombros e grito na sua cara: – Estúpida, imbecil! – E sacudo-a. Aceita tudo. Fica parada, olhando pra mim, com uns olhos.. .com uns olhos que, juro pra você, fazem-me subir aos dedos um desejo selvagem de estrangulá-la. Mas nada. Espera que me afaste, para recomeçar a me seguir de longe. (DE NOVO A MULHER TORNA A ESPREITAR) Olha, olha, espreitou outra vez aquela esquina!
O FREGUÊS: Pobre senhora!
O HOMEM: Que pobre senhora! Percebe o que ela queria? Queria que eu ficasse em casa, muito calmo, muito quieto, descansando no meio dos seus carinhos; admirando a ordem perfeita de todos os cômodos, da beleza de todos os móveis, aquele silêncio de espelho que havia antes na minha casa, medido pelo tique- taque do relógio de pendulo da sala de jantar. – Era isso que ela queria! E eu pergunto a você, para lhe fazer compreender o absurdo... Não! Que estou dizendo? “O absurdo?” – a macabra ferocidade dessa pretensão! Eu pergunto se julga possível que as casas de Avezzano, as casas da Messina, se tivessem tido conhecimento do terremoto que em breve as iriam derrubar, teriam conseguido ficar muito sossegadas sob o luar, ordenadas em fileiras, ao longo das ruas e das praças, obedecendo ao plano regulador da Comissão Organizadora da Câmara Municipal. Casas, por Deus, de pedra e madeira, e também elas teriam fugido! Imagine então os habitantes de Avezzano, os habitantes da Messina, a despirem-se plácidos, para se deitarem, dobrando as roupas, pondo os sapatos diante da porta, e enfiando-se depois debaixo dos cobertores, gozando a brancura fresca dos lençóis bem lavados, com a consciência de que, dentro de algumas horas, morreriam. Parece-lhe possível?
O FREGUÊS: Mas por acaso, a sua esposa...
O HOMEM: Deixe-me falar! Se a morte, meu amigo, fosse como um daqueles insetos esquisitos, repugnantes, que pousam em cima de nós, sem percebermos... O senhor vai passando pela rua; outro pedestre, de repente o faz parar, e com toda cautela, com os dedos estendidos, lhe diz: “Perdão amigo, com licença. Vossa excelência tem a morte em cima de si!” E, com os tais dedos estendidos, pega-lhe e atira com ela para longe... Então seria magnifico! Mas a morte não é como um desses insetos repugnantes. Quantos daqueles que passeiam tranquilos e sem preocupações, talvez a tragam em cima em si; ninguém a vê; e eles vão tranquilamente planejando seu dia de amanhã e depois de amanhã. Ora, eu, meu caro senhor... (LEVANTA-SE) Vem!... vem mais pra cá... (CONDUZ O FREGUÊS PARA JUNTO DO CANDEEIRO ACESO)...Quero mostrar uma coisa...Olhe aqui, debaixo do bigode... Aqui, está vendo? Não vê que linda tuberosidade violácea? Sabe como se chama isso? Ah, um nome muito doce, mais doce que um rocambole: – Epitelioma, é assim que se chama. Pronuncie, verá que doçura: Epitelioma... A morte, percebe? Passou por mim. Pôs esta flor na boca, e disse: - “Fica com ela, querido: voltarei a passar por aqui dentro de oito ou dez meses!” (PAUSA). E agora me diz, se com essa flor na boca, eu podia ficar em casa tranquilo e sossegado, como desejava aquela infeliz. Eu grito com ela: - Ah, então, você quer que eu te beije? – Sim, me beija! – Mas sabe o que ela fez?: Com um alfinete, a semana passada, fez um arranhão aqui no lábio superior, e depois agarrou minha cabeça e queria me beijar... me beijar na boca... Porque diz que quer morrer comigo... (PAUSA) Está louca... (RAIVOSAMENTE) Em casa é que eu não fico! Preciso estar atrás das vitrines das lojas, admirando a habilidade dos vendedores. Porque, o senhor compreende, se por momentos sinto um vazio dentro de mim... compreende, posso até matar, como se nada fosse, uma pessoa que nem sequer conheço... sacar uma arma e matar um sujeito que, como o senhor, tenha apenas perdido o trem... (RINDO) Não, não se assuste, meu caro senhor, estou brincando! (PAUSA) Eu vou embora (PAUSA) Eu me mataria primeiro (PAUSA) Mas existem, nesta altura do ano, certos damascos tão bons... De que maneira costuma comê-los? Com a boca toda, não é? Abre-se pelo meio; depois apertamos com os dedos até escorrer o sumo... como dois lábios carnudos... Que delícia! (RI. PAUSA) Meus respeitos à sua distinguida esposa e às suas filhas que estão de férias. (PAUSA) Eu as imagino vestidas de branco ou de azul celeste, numa linda ladeira, sob a sombra. (PAUSA) E talvez possa me fazer um favor, amanhã de manhã, quando chegar. Imagino que a cidadezinha estará perto da estação. – Ao romper do dia, poderá fazer o caminho a pé. – O primeiro ramo de ervas que encontrar ao longo da estação, repare bem nele. Conte os fios de erva por mim. Quantos fios contar, tantos serão os dias que ainda terei que viver. Mas escolhe um bem grande, pelo amor de Deus! (RI.) Boa noite, meu caro senhor.
AFASTA-SE CANTAROLANDO, DE BOCA FECHADA. A ÁRIA QUE O BANDOLIM TOCA, AO LONGE. MAS ANTES DE CHEGAR À ESQUINA DA DIREITA, LEMBRA-SE DE QUE A MULHER ESTÁ LÁ À SUA ESPERA. ENTAO RECUA UNS PASSOS, ATRAVESSA A RUA E DOBRA A ESQUINA DO OUTRO LADO, SEGUIDO PELO O OLHAR DO PACÍFICO FREGUÊS, QUASE PETRIFICADO.)
ATO ÚNICO
CENA – Noite de verão. Uma pequena rua solitária que acaba numa avenida. Ao fundo, entre os galhos das arvores, aparecem os candeeiros elétricos acesos. No prédio de esquina da pequena rua, à esquerda, um pobre café noturno, com mesinhas e cadeiras de passeio fracamente iluminadas pelo candeeiro aceso, à beira do mesmo passeio. Diante da casa da direita uma lâmpada acesa. No ângulo da ultima casa da esquerda que faz esquina com a avenida outro candeeiro aceso.
Quase no fim do dialogo, na altura indicada no texto, aparecerá por duas vezes um vulto de mulher, vestida de preto, com um velho chapéu enfeitado com penas já sem frescura.
É um pouco mais de meia noite. Em alguns intervalos da peça ouvir-se-á um som distante tilintante de um bandolim. Quando o pano sobe, aparece o Homem da Flor na Boca sentado numa das mesas, observando demoradamente e em silencio um Pacifico Freguês que na mesa ao lado chupa com um canudo um refrigerante.
O HOMEM: Pelo que vejo, o senhor, um homem pacifico e metódico... perdeu o trem?
O FREGUÊS: Por um minuto, sabe? Chego na estação e lá o vejo, fugindo diante de mim.
O HOMEM: Podia ter corrido atrás dele!
O FREGUÊS: Podia! É engraçado, eu sei! Se eu não tivesse que carregar todos aqueles embrulhos e embrulhinhos... Mais carregado que um burro! Mas as mulheres... sabe como é – pedindo sempre encomendas e não param. Você acredita que quando desci do carro, eu levei três minutos só para arrumar nos dedos os barbantes de todos os pacotes: dois em cada dedo.
O HOMEM: Gostaria de ter visto isso. Sabe o que eu faria no seu lugar? Teria deixado tudo no carro.
O FREGUÊS: E minha mulher? E as minhas filhas? E todas as amigas delas?
O HOMEM: Iam gritar muito, e eu ia me divertir com isso.
O FREGUÊS: Talvez o senhor não saiba como se tornam as mulheres quando estão de férias.
O HOMEM: Ora! Sei, e muito bem! Digo isso justamente por saber. Todas dizem que não precisam de nada.
O FREGUÊS: Nada? Elas são até capazes de dizer que vão viajar pra fora só com a intenção de economizar. Depois assim que chegam em alguma cidadezinha aqui por perto, quanto mais feia, suja e miserável for, mais elas insistem em enfeitá-la caprichando nos figurinos acessórios. Ora, as mulheres, meu caro senhor! Mas a final, é a profissão delas!...”Se você desse um pulo até a cidade, meu amor!... Eu estava precisando realmente disso... disso... daquilo... e também você podia... se não se incomoda (engraçado esse: ”se não se incomoda”, não acha?)... Já que você vai pra lá, quando passar em frente...”- Mas, minha querida, como é que você quer que eu faça tudo isso em apenas em três horas? – “Ora, o que é que tem? Você pega um táxi...” – O pior é que eu achava que só ia demorar três horas e não trouxe a chave de casa.
O HOMEM: Essa é muito boa! E depois?
O FREGUÊS: Ora, depois eu deixei aquele montão de encomendas e fui jantar num restaurante; depois, eu fui ao teatro pra dar uma espairecida. Lá estava muito quente. Na saída me perguntei: E agora, vou fazer o que? Já passa da meia noite e às quatro da manhã eu tenho que pegar o primeiro trem, então nem vale a pena ir deitar. E vim até aqui. Este café não fecha, né?
O HOMEM: Não fecha, não senhor! (PAUSA) E, então, deixou todos os seus pacotes na estação?
O FREGUÊS: Porque me pergunta isso? Por acaso não estão seguros lá? Estavam todos tão bem embrulhados e...
O HOMEM: Não, não digo isso! Muito bem embrulhados, calculo: Com aquela arte especial dos vendedores, de embrulhar os objetos que vendem... (PAUSA) Que mãos! Uma bela folha de papel dobrada, vermelha, polida... que só de olha-la já é um prazer...Tão lisa, que até dá vontade de encostá-la no rosto para sentir o seu toque delicado... Estendem a folha sobre o balcão, e depois, com elegância e desembaraço, colocam em cima, precisamente no meio, o tecido fino, bem dobrado. Levantam primeiro de baixo, com o dorso da mão, uma ponta da folha de papel; dorso da mão, uma ponta de papel: até lhe fazem uma pequena prega, supérflua, só por amor à arte. Então, dobram de um lado e do outro, em triângulo, a folha de papel, e viram por baixo as duas pontas; estendem uma das mãos para o rolo de fita; puxam o necessário para atar o embrulho. E atam tão rapidamente que nem temos tempo de admirar a habilidade do empregado, e já nos apresentam o embrulho feito, com o nó pronto pra levarmos pendurado nos dedos.
O FREGUÊS: Percebo que o senhor dedicou muita atenção aos empregados das lojas...
O HOMEM: Eu? Meu caro amigo, eu passo dias inteiros observando-os! Sou capaz de ficar mais de uma hora, parado, olhando pra dentro das lojas através das vitrines. Chego a esquecer de mim. Parece que sou, e realmente gostaria de ser, aquele tecido de seda... aquele cetim... a fita vermelha, ou azul, que as vendedoras das lojas, depois de a medirem com o metro... já viu como fazem? Enrolam no polegar em forma de oito, antes de embrulhar. (PAUSA) Observo o cliente ou a cliente que sai da loja com o embrulho na mão, ou numa sacola, ou debaixo do braço... Sigo- os com os olhos, até sumirem da minha vista... fico imaginando... - Ah, quantas coisas imagino!, o senhor não faz ideia! (PAUSA,
DEPOIS PARA SI) Mas me ajuda, isso me ajuda.
O FREGUÊS: (PAUSA) Desculpe... o que é que lhe ajuda?
O HOMEM: Me agarrar assim – quero dizer, com a imaginação – à vida. Como uma planta trepadeira nas grades de um portão... (PAUSA) Ah, nunca deixar a imaginação descansar, nem um instante sequer: - Aderir, aderir com ela, continuamente, à vida dos outros... – mas não à vida de gente que conheço! Não! Não! A essa não! Eu sinto por ela... uma repugnância, se o senhor soubesse! Um nojo! Aderir à vida dos estranhos, em volta dos quais a minha imaginação pode trabalhar livremente; mas isso não é um capricho meu, muito pelo contrario, levando em consideração as menores peculiaridades descobertas neste ou naquele estranho. E se soubesse quanto e como ela trabalha! Dependendo até onde consigo aprofundar, vejo até mesmo a casa deste ou daquele indivíduo; vivo lá dentro; me sinto dentro dela, até sinto o cheiro... sabe? Aquela espécie de cheiro particular de cada casa! Da sua, da minha... – mas na nossa, nos já não sentimos mais, porque já é o cheiro da nossa própria vida...Não sei se eu tô sendo claro. Ah, pelo visto sim e...
O FREGUÊS: Sim, porque...quero dizer: deve ser realmente muito prazeroso para o senhor imaginar todas essas coisas...
O HOMEM: (COM EVIDENTE FADIGA DEPOIS DE PENSAR UM INSTANTE)- Prazeroso? Pra mim?
O FREGUÊS: Quer dizer... calculo...
O HOMEM: Me diz uma coisa. Já foi consultar algum médico de renome?
O FREGUÊS: Eu não! Por que? Não estou doente!
O HOMEM: Não se assuste! Só tô perguntando para saber se já viu, no consultório desses grandes médicos, a sala onde os clientes esperam a sua vez de serem atendidos.
O FREGUÊS: Já vi, sim. Tive de acompanhar uma vez uma das minhas filhas, que sofria dos nervos, e...
O HOMEM: Muito bem. Não me interessa saber. Só me interessam aquelas salas... (PAUSA) Já reparou nelas? Um sofá de tom escuro, desses antigos... as cadeiras estofadas, muitas vezes desiguais... Tudo comprado de ocasião, de segunda mão, colocadas ali para os clientes; não pertencem ao lugar. Já o médico tem na sua casa rica e bela, uma outra sala, para ele e para as amigas da esposa. Imagine como destoaria uma das suas cadeiras ou poltronas se fosse trazida para cá, para o lugar reservado aos clientes, a quem basta esses moveis sem pretensões, decentes, sóbrios. Queria saber se o senhor, quando foi com a sua filha, reparou bem na poltrona ou na cadeira onde se sentou enquanto esperava.
O FREGUÊS: Eu não, com francamente...
O HOMEM: É verdade: o senhor não estava doente... (PAUSA). Mas nem todos os doentes reparam naquilo, mergulhados como estão no pensamento da sua própria doença... (PAUSA) E, no entanto, quantas vezes alguns deles estão ali, atentos, observando os movimentos ansiosos dos dedos que fazem sinais inúteis, no braço puído daquela cadeira em que estão sentados!...Pensam e não veem. Mas que efeito faz. Quando saímos da consulta, e voltamos a atravessar a sala, vendo de novo a cadeira onde há pouco estávamos sentados, à espera da sentença do nosso mal ainda ignorado! Ocupada por outro paciente, também ele com a sua doença secreta; ou ali, vazia, impassível, à espera de um outro qualquer que vai ocupá-la... (PAUSA) Mas o que estávamos falando?... Ah, sim, é verdade... O prazer da imaginação. – Não sei bem porque me lembrei logo de uma das cadeiras dessas salas dos médicos, onde os pacientes estão à espera da consulta...
O FREGUÊS: Sim... realmente...
O HOMEM… Não vê a relação? Nem eu. Mas é que certos laços ligando imagens entre si longínquas, são tão particulares a cada um de nós, e determinados por causas e experiências tão singulares, que deixaríamos de nos compreender se, ao falarmos, não nos inibíssemos de utilizá-los. Nada mais lógico, por vezes, do que estas analogias. Mas a relação pode talvez ser esta, repare: – “Teriam prazer, aquelas cadeiras, em imaginar quem é o paciente que vai sentar-se nelas, à espera da consulta? Que doença ele tem? Para onde ele vai? O que fará depois da consulta?” Nenhum prazer. E assim eu também: Nenhum! Entram e saem os clientes e elas, pobres cadeiras, estão lá à espera de serem ocupadas. Pois bem, a minha é uma ocupação parecida. Ora me ocupa este, ora aquele. Neste momento está me ocupando o senhor, e creia que não sinto prazer algum com o trem que perdeu, com a família que espera o espera na cidadezinha de ferias, com todas as reclamações que eu imagino que tenha...
O FREGUÊS: Ai, tantas, nem calcula!
O HOMEM: Dê graças a Deus que não passam de reclamações. (PAUSA) Existem coisas piores, meu amigo. Eu lhe digo que tenho necessidade de me agarrar com a imaginação à vida alheia; mas assim, sem prazer, sem me interessar de maneira alguma, muito pelo contrário... pelo contrário... para sentir a irritação da vida, para julgá-la estúpida e inútil, tanto que realmente não deve importar muito a ninguém perdê-la. (RAIVOSAMENTE) E isso é necessário que a gente perceba, sabe? Com provas e exemplos contínuos, implacavelmente. Porque, meu caro senhor, não sabemos de que é feito esse desejo de viver, mas existe, existe! Todos a sentimos aqui, como uma angustia na garganta, o gosto da vida que nunca se satisfaz, que nunca se pode satisfazer, porque a vida, no próprio ato de a vivermos, é tão gulosa de si própria, que não se deixa saborear. O sabor está no passado, que permanece vivo dentro de nós. É daí que nos vem o desejo de viver, das recordações que nos mantém presos. Mas presos a que? A esta estupidez... a estas lamentações... a tantas ilusões absurdas... a tantas amarguras que nos ocupam... Sim! Esta, que foi uma estupidez!... Aquela, que foi uma lamentação... e posso até dizer: essa que agora parece ser uma desventura, uma verdadeira desventura... daquí a quatro, cinco, dez anos, quem sabe que gosto virão a ter...que gosto virão a ter as próprias lágrimas de hoje?... E a vida, por Deus, só a ideia de a perdermos... especialmente quando se sabe que é uma questão de dias...(NESTE MOMENTO APARECE O VULTO DA MULHER VESTIDA DE PRETO, ESPREITANDO A ESQUINA.) Pronto... está vendo? Ali, ali, naquela esquina...Então não vê um vulto de mulher? – Já se escondeu!
O FREGUÊS: Quem? Quem era?
O HOMEM: Não viu? Se escondeu.
O FREGUÊS: Uma mulher?
O HOMEM: Sim. Minha mulher.
O FREGUÊS: Ah! Sua esposa?
O HOMEM: (DEPOIS DE UMA PAUSA) Vigia-me de longe. E acredite, tenho vontade de ir até ela e mandá-la embora a pontapés! Mas seria inútil... É como uma dessas cadelas sem dono, teimosas, que quanto mais pontapés nós damos, mais grudam nos nossos calcanhares. (PAUSA) O que aquela mulher está sofrendo por mim, o senhor nem pode imaginar. Já não come, não dorme... Segue-me dia e noite, assim, à distancia. Se pelo menos tentasse escovar aquele cabelo... aqueles vestidos... – Já não parece uma mulher, mas um trapo velho. O cabelo empoeirado. E tem apenas trinta e quatro anos! (PAUSA) Sinto uma raiva tão grande que não imagina. Às vezes a pego nos ombros e grito na sua cara: – Estúpida, imbecil! – E sacudo-a. Aceita tudo. Fica parada, olhando pra mim, com uns olhos.. .com uns olhos que, juro pra você, fazem-me subir aos dedos um desejo selvagem de estrangulá-la. Mas nada. Espera que me afaste, para recomeçar a me seguir de longe. (DE NOVO A MULHER TORNA A ESPREITAR) Olha, olha, espreitou outra vez aquela esquina!
O FREGUÊS: Pobre senhora!
O HOMEM: Que pobre senhora! Percebe o que ela queria? Queria que eu ficasse em casa, muito calmo, muito quieto, descansando no meio dos seus carinhos; admirando a ordem perfeita de todos os cômodos, da beleza de todos os móveis, aquele silêncio de espelho que havia antes na minha casa, medido pelo tique- taque do relógio de pendulo da sala de jantar. – Era isso que ela queria! E eu pergunto a você, para lhe fazer compreender o absurdo... Não! Que estou dizendo? “O absurdo?” – a macabra ferocidade dessa pretensão! Eu pergunto se julga possível que as casas de Avezzano, as casas da Messina, se tivessem tido conhecimento do terremoto que em breve as iriam derrubar, teriam conseguido ficar muito sossegadas sob o luar, ordenadas em fileiras, ao longo das ruas e das praças, obedecendo ao plano regulador da Comissão Organizadora da Câmara Municipal. Casas, por Deus, de pedra e madeira, e também elas teriam fugido! Imagine então os habitantes de Avezzano, os habitantes da Messina, a despirem-se plácidos, para se deitarem, dobrando as roupas, pondo os sapatos diante da porta, e enfiando-se depois debaixo dos cobertores, gozando a brancura fresca dos lençóis bem lavados, com a consciência de que, dentro de algumas horas, morreriam. Parece-lhe possível?
O FREGUÊS: Mas por acaso, a sua esposa...
O HOMEM: Deixe-me falar! Se a morte, meu amigo, fosse como um daqueles insetos esquisitos, repugnantes, que pousam em cima de nós, sem percebermos... O senhor vai passando pela rua; outro pedestre, de repente o faz parar, e com toda cautela, com os dedos estendidos, lhe diz: “Perdão amigo, com licença. Vossa excelência tem a morte em cima de si!” E, com os tais dedos estendidos, pega-lhe e atira com ela para longe... Então seria magnifico! Mas a morte não é como um desses insetos repugnantes. Quantos daqueles que passeiam tranquilos e sem preocupações, talvez a tragam em cima em si; ninguém a vê; e eles vão tranquilamente planejando seu dia de amanhã e depois de amanhã. Ora, eu, meu caro senhor... (LEVANTA-SE) Vem!... vem mais pra cá... (CONDUZ O FREGUÊS PARA JUNTO DO CANDEEIRO ACESO)...Quero mostrar uma coisa...Olhe aqui, debaixo do bigode... Aqui, está vendo? Não vê que linda tuberosidade violácea? Sabe como se chama isso? Ah, um nome muito doce, mais doce que um rocambole: – Epitelioma, é assim que se chama. Pronuncie, verá que doçura: Epitelioma... A morte, percebe? Passou por mim. Pôs esta flor na boca, e disse: - “Fica com ela, querido: voltarei a passar por aqui dentro de oito ou dez meses!” (PAUSA). E agora me diz, se com essa flor na boca, eu podia ficar em casa tranquilo e sossegado, como desejava aquela infeliz. Eu grito com ela: - Ah, então, você quer que eu te beije? – Sim, me beija! – Mas sabe o que ela fez?: Com um alfinete, a semana passada, fez um arranhão aqui no lábio superior, e depois agarrou minha cabeça e queria me beijar... me beijar na boca... Porque diz que quer morrer comigo... (PAUSA) Está louca... (RAIVOSAMENTE) Em casa é que eu não fico! Preciso estar atrás das vitrines das lojas, admirando a habilidade dos vendedores. Porque, o senhor compreende, se por momentos sinto um vazio dentro de mim... compreende, posso até matar, como se nada fosse, uma pessoa que nem sequer conheço... sacar uma arma e matar um sujeito que, como o senhor, tenha apenas perdido o trem... (RINDO) Não, não se assuste, meu caro senhor, estou brincando! (PAUSA) Eu vou embora (PAUSA) Eu me mataria primeiro (PAUSA) Mas existem, nesta altura do ano, certos damascos tão bons... De que maneira costuma comê-los? Com a boca toda, não é? Abre-se pelo meio; depois apertamos com os dedos até escorrer o sumo... como dois lábios carnudos... Que delícia! (RI. PAUSA) Meus respeitos à sua distinguida esposa e às suas filhas que estão de férias. (PAUSA) Eu as imagino vestidas de branco ou de azul celeste, numa linda ladeira, sob a sombra. (PAUSA) E talvez possa me fazer um favor, amanhã de manhã, quando chegar. Imagino que a cidadezinha estará perto da estação. – Ao romper do dia, poderá fazer o caminho a pé. – O primeiro ramo de ervas que encontrar ao longo da estação, repare bem nele. Conte os fios de erva por mim. Quantos fios contar, tantos serão os dias que ainda terei que viver. Mas escolhe um bem grande, pelo amor de Deus! (RI.) Boa noite, meu caro senhor.
AFASTA-SE CANTAROLANDO, DE BOCA FECHADA. A ÁRIA QUE O BANDOLIM TOCA, AO LONGE. MAS ANTES DE CHEGAR À ESQUINA DA DIREITA, LEMBRA-SE DE QUE A MULHER ESTÁ LÁ À SUA ESPERA. ENTAO RECUA UNS PASSOS, ATRAVESSA A RUA E DOBRA A ESQUINA DO OUTRO LADO, SEGUIDO PELO O OLHAR DO PACÍFICO FREGUÊS, QUASE PETRIFICADO.)
Luigi Pirandello
sexta-feira, outubro 23
Três Corações
“Vamos mudar para Três Corações”, disse o pai. Os negócios estavam melhorando. Três Corações era entroncamento ferroviário. Facilitava a vida de um viajante de caderneta quilométrica, boné e guarda-pó.
Em Três Corações passava o rio Verde.
Em Três Corações estavam soldados que andavam a cavalo...
Lembro-me do meu pai, assentado à escrivaninha, fazendo um inventário da sua riqueza: a Encyclopaedia e Diccionario Internacional, a Biblioteca Internacional de Obras Célebres, dois quadros a óleo, sem moldura, um navio a velas em meio a um mar agitado, um veado galheiro soltando vapor pelas narinas, o atlas francês, uma máquina de escrever Smith-Corona portátil, um relógio de bolso, de ouro. Nada mais.
Os deprimidos querem dormir. No sono não há tristeza. Minha mãe ia cedo para a cama. Se pudesse dormiria sempre. Mas eu e o Ivan, meu irmão, estávamos alegres. Não queríamos dormir. Íamos para a cozinha para um “concerto” de leitura: a Astolfina nos lia, soletrando, as Histórias do arco da velha. O suspense era máximo e nos arrepiávamos de terror quando ela lia que o herói, dentro de um quarto, ouvia uma voz lúgubre que dizia: “Eu caio, eu caio...”. Ao que ele, sem se perturbar, respondia: “Pois caia com Deus...”. E uma perna caía. E ia assim, a cada “eu caio, eu caio”, caíam braços, mãos, pernas, pés, cabeça, até que o corpo inteiro estava deitado no chão. Íamos para a cama com medo de que pernas nos caíssem na cabeça.
Na cama ouvíamos o relógio da matriz tocar oito badaladas. Eu ainda vivia o tempo da roça. Valia que já o sol se pusera, a noite chegara e as galinhas estavam dormindo nos poleiros. Noite profunda, a cidade adormecida, todos nas suas camas, as ruas vazias, os monstros da noite correndo soltos pela cidade, tal como acontecia na roça.
A Tofa fazia bonecas de pano para mim. Eu gostava de brincar com bonecas. Mais tarde os homens me disseram que era vergonhoso para um menino brincar com bonecas: “Quem brinca com boneca são as meninas”. Troquei então as bonecas por um ursinho. Com ursinhos os meninos podem brincar. Não é vergonhoso.
Rubem Alves, "O Velho que Acordou Menino"
Em Três Corações passava o rio Verde.
Em Três Corações estavam soldados que andavam a cavalo...
Lembro-me do meu pai, assentado à escrivaninha, fazendo um inventário da sua riqueza: a Encyclopaedia e Diccionario Internacional, a Biblioteca Internacional de Obras Célebres, dois quadros a óleo, sem moldura, um navio a velas em meio a um mar agitado, um veado galheiro soltando vapor pelas narinas, o atlas francês, uma máquina de escrever Smith-Corona portátil, um relógio de bolso, de ouro. Nada mais.
Minha mãe vivia na tristeza. Saudades do sobrado. Eu não tinha um passado de riqueza para comparar com o presente de pobreza. Por isso era feliz na pobreza. Acho que foi a sua memória do sobrado que fez com que ela nunca reconhecesse a casa onde morávamos como a sua casa. Quando ela dizia “lá em casa” era ao sobrado que ela estava se referindo. Ela vivia com saudades do sobrado. Daí a sua depressão.
Os deprimidos querem dormir. No sono não há tristeza. Minha mãe ia cedo para a cama. Se pudesse dormiria sempre. Mas eu e o Ivan, meu irmão, estávamos alegres. Não queríamos dormir. Íamos para a cozinha para um “concerto” de leitura: a Astolfina nos lia, soletrando, as Histórias do arco da velha. O suspense era máximo e nos arrepiávamos de terror quando ela lia que o herói, dentro de um quarto, ouvia uma voz lúgubre que dizia: “Eu caio, eu caio...”. Ao que ele, sem se perturbar, respondia: “Pois caia com Deus...”. E uma perna caía. E ia assim, a cada “eu caio, eu caio”, caíam braços, mãos, pernas, pés, cabeça, até que o corpo inteiro estava deitado no chão. Íamos para a cama com medo de que pernas nos caíssem na cabeça.
Na cama ouvíamos o relógio da matriz tocar oito badaladas. Eu ainda vivia o tempo da roça. Valia que já o sol se pusera, a noite chegara e as galinhas estavam dormindo nos poleiros. Noite profunda, a cidade adormecida, todos nas suas camas, as ruas vazias, os monstros da noite correndo soltos pela cidade, tal como acontecia na roça.
A Tofa fazia bonecas de pano para mim. Eu gostava de brincar com bonecas. Mais tarde os homens me disseram que era vergonhoso para um menino brincar com bonecas: “Quem brinca com boneca são as meninas”. Troquei então as bonecas por um ursinho. Com ursinhos os meninos podem brincar. Não é vergonhoso.
Rubem Alves, "O Velho que Acordou Menino"
Ou isto ou aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Cecília Meireles
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Cecília Meireles
Para o seu bem
Ela sugeriu que, para o bem dele, se afastassem um pouco, dessem um tempo. Achava que ele estava apaixonado demais, o que poderia afetar sua saúde. “Um tempo? Quanto? Uma semana?”, ele perguntou, e ela disse: “Vamos ver.” Sairia para uma viagem e, quando retornasse, se ele tivesse conseguido domar sua paixão, reduzindo-a pelo menos à metade, retomariam o caminho do amor, “em bases mais civilizadas”.
Ela se foi. Ele ficou quatro anos sem saber onde e como ela estava, sem poder lhe enviar ou receber mensagens. Para o bem dele, naturalmente, como ela dissera.
Quando ela voltou, ele estava vivendo fazia quase um ano com uma garota meio bobinha (talvez até mais do que ele), que se arrastava pachorrentamente pela casa, carregando no ventre um bebê. No momento em que reviu a amada, ele se esqueceu da garota e do filho e lançou-se nos braços dela.
“Parece que você não mudou nada”, ela disse, contrariada, e ele se desculpou, atribuindo esse ímpeto ao longo tempo de ausência. Falou-lhe da sua nova situação, e ela, para espanto dele, achou muito conveniente o que acontecera enquanto estivera fora. Julgava-o agora mais preparado para encarar com equilíbrio uma relação amorosa.
Não foi assim. Ele se abrasou de novo e, seguindo-a em todos os lugares para os quais ela ia (ela era agora gerente nacional de vendas de uma empresa de cosméticos), abandonou a mulher e o filho que ia nascer.
Quando, dois meses depois, sua doce amada conseguiu o posto de diretora na sede mundial da empresa, na Suíça, ele quis acompanhá-la, fosse como fosse, mas ela o convenceu de que seria melhor que ele voltasse para casa. Para o bem dele.
Na volta, ele encontrou a garota ainda mais bobinha, mais gorda e pachorrenta, e sua primeira providência foi começar a procurar um emprego, porque o anterior, como tantas outras coisas, ele perdera no furacão amoroso que varrera sua vida.
Ela se foi. Ele ficou quatro anos sem saber onde e como ela estava, sem poder lhe enviar ou receber mensagens. Para o bem dele, naturalmente, como ela dissera.
Quando ela voltou, ele estava vivendo fazia quase um ano com uma garota meio bobinha (talvez até mais do que ele), que se arrastava pachorrentamente pela casa, carregando no ventre um bebê. No momento em que reviu a amada, ele se esqueceu da garota e do filho e lançou-se nos braços dela.
“Parece que você não mudou nada”, ela disse, contrariada, e ele se desculpou, atribuindo esse ímpeto ao longo tempo de ausência. Falou-lhe da sua nova situação, e ela, para espanto dele, achou muito conveniente o que acontecera enquanto estivera fora. Julgava-o agora mais preparado para encarar com equilíbrio uma relação amorosa.
Não foi assim. Ele se abrasou de novo e, seguindo-a em todos os lugares para os quais ela ia (ela era agora gerente nacional de vendas de uma empresa de cosméticos), abandonou a mulher e o filho que ia nascer.
Quando, dois meses depois, sua doce amada conseguiu o posto de diretora na sede mundial da empresa, na Suíça, ele quis acompanhá-la, fosse como fosse, mas ela o convenceu de que seria melhor que ele voltasse para casa. Para o bem dele.
Na volta, ele encontrou a garota ainda mais bobinha, mais gorda e pachorrenta, e sua primeira providência foi começar a procurar um emprego, porque o anterior, como tantas outras coisas, ele perdera no furacão amoroso que varrera sua vida.
O procurador de Judéia
L. Aelio Lâmia, natural da Itália e filho de pais ilustres, não deixara ainda de usar a pretexta quando foi estudar filosofia nas escolas de Atenas. Depois fixou-se em Roma e, na sua casa de Esquilies, passou a levar uma vida de prazer na companhia de um grupo de jovens debochados. Acusado, porém, de manter relações criminosas com Lépida, mulher de Suplício Quirino, uma alta personagem consular, e reconhecido culpado, Tibério César exilou-o. Ia fazer nessa altura 24 anos. Durante os dezoito que durou o seu exílio, percorreu a Síria, a Palestina, a Capadócia, a Arménia, fez demoradas estadias em Antióquia, em Cesaréia, em Jerusalém. Quando, após a morte de Tibério, Caio subiu ao trono imperial, Lâmia conseguiu autorização para regressar a Roma. Recuperou mesmo uma parte dos seus bens. A desgraça tornara-o sensato.
Evitou as relações com mulheres de condição livre, não procurou obter cargos públicos, manteve-se alheio às honras e viveu retirado na sua casa de Esquilino. Passando ao papel tudo quanto vira de notável nas suas remotas viagens, transformava, segundo ele próprio dizia, as penas passadas no divertimento das horas presentes. E, enquanto se entregava a estes pacíficos trabalhos, ao mesmo tempo que ia meditando longamente acerca dos livros de Epicuro, viu com surpresa e desgosto aproximar-se a velhice. Aos sessenta e dois anos, atormentado por um incómodo resfriado, foi tomar as águas de Baies. Esta praia, outrora tão do agrado dos anciãos, era então muito frequentada pelos romanos ricos e ávidos de prazer. Havia uma semana que Lâmia vivia só e sem nenhum amigo entre essa brilhante multidão, quando, certo dia, depois de jantar sentindo-se bem disposto, deu lhe na cabeça subir as colinas que cobertas de pâmpanos semelhantes a bacantes, olham lá do alto as vagas.
Tendo chegado ao cimo, sentou-se à beira de um carreiro, debaixo de um terebinto e espraiou o olhar pela bela paisagem. A sua esquerda estendiam-se, lívidos e nus, os campos Flégreos, até as ruínas de Cumos. A sua direita, o cabo Miseno espetava o agudo esporão no mar Tirreno. A seus pés, para ocidente, a rica Baies, acompanhando a graciosa curva da praia, ostentava os seus jardins, as suas vilas povoadas de estátuas, os seus pórticos, os seus terraços de mármore, a beira do mar azul onde brincavam golfinhos. Em frente, do outro lado do golfo, na costa da Campânia, dourada pelo sol já em declínio, brilhavam ao longe os templos, coroados pelos loureiros de Pausílipo, e muito ao fundo do horizonte fumegava o Vesúvio.
Lamia tirou de uma dobra da sua toga um rolo contendo o Tratado acerca da natureza, estendeu-se no chão e começou a ler. Mas os gritos de um escravo intimaram-no a levantar-se para dar passagem a uma liteira que trepava o estreito carreiro entre as vinhas. Aproximando-se da liteira toda coberta, Lamia viu, estendido nas almofadas, um velho muito corpulento que de testa apoiada na mão, fitava em volta um olhar orgulhoso e sombrio. O seu nariz aquilino descaía para cima dos lábios que esmagavam um queixo proeminente e as poderosas maxilas.
Lâmia teve a impressão de que conhecia aquela cara. Hesitou, porém, um momento no nome da personagem. Depois, subitamente, lançou-se para a liteira num impulso de surpresa e de alegria.
– Pôncio Pilatos! – exclamou ele. – Graças aos deuses, tenho a sorte de voltar a ver-te.
O velho, fazendo sinal aos escravos para se deterem, fixou com um olhar atento o homem que o cumprimentava.
– Pôncio, meu caro anfitrião – prosseguiu aquele – os vinte anos que passaram embranqueceram-me os cabelos e cavaram-me as faces a tal ponto, que já não reconheces o teu Aelio Lâmia.
Ouvindo este nome, Pôncio Pilatos desceu da liteira com toda a pressa que lhe permitiam a idade e o porte. Abraçou duas vezes Aelio Lâmia.
– Claro que tenho o maior prazer em voltar a ver-te – declarou ele. – Recordas-me os tempos antigos, quando eu era procurador da Judeia, na província da Síria. … a primeira vez que estou contigo desde há trinta anos. A ultima foi em Cesárea, onde arrastavas o aborrecimento do exílio.
Tive a felicidade de conseguir aliviar-te um pouco e, por amizade, Lâmia, seguiste-me até essa triste Jerusalém, onde os Judeus me encheram de amargura e desgosto. Tu foste, durante mais de dez anos, meu hospede e meu companheiro, e ambos, ao falarmos da Cidade, nos convolávamos mutuamente, tu dos teus infortúnios, eu das minhas grandezas.
Lâmia abraçou-o novamente.
– Não disseste tudo, Pôncio: esqueceste-te de que intercedeste por mim junto a Herodes Antipas e de que puseste generosamente a tua bolsa a minha disposição.
– Não falemos disso – retorquiu Pôncio – uma vez que mal regressaste a Roma, me remeteste por um dos teus escravos libertos o dinheiro suficiente para me reembolsar com juros.
- Pôncio, não creio que o dinheiro possa resgatar a minha dívida para contigo. Mas diz-me os deuses tem-te sido favoráveis? Desfrutas da felicidade que mereces? Fala-me da tua família, da tua fortuna, da tua saúde.
– Retirado na Sicília, onde tenho propriedades, cultivo e vendo o trigo que produzo. A minha filha mais velha, Púncia, a quem tanto amo, depois de enviuvar, foi viver comigo e é ela quem governa a casa. Graças aos deuses, conservei o vigor do espírito; a minha memória não enfraqueceu. Mas a velhice vem sempre acompanhada de um longo cortejo de dores e de enfermidades. A gota faz-me sofrer horrivelmente. E agora mesmo encaminho-me para os campos Flégreos em busca de remédio para os meus males. Essa terra ardente, de onde, a noite, brotam chamas, exala uns acres vapores de enxofre que, segundo dizem, acalmam as dores e restituem a maleabilidade as articulações dos membros. Pelo menos é o que os médicos garantem.
– Desejo que isso te faça bem, Pôncio! Mas, apesar da gota e dos grandes sofrimentos que esta provoca, tu pareces ter a mesma idade que eu, embora contes mais dez anos. Não há dúvida de que conservaste um vigor como eu nunca tive, e sinto-me satisfeito por te encontrar tão robusto. Por que motivo, meu caro, renunciaste tão cedo aos cargos públicos? Por que razão, ao abandonares o governo da Judeia, te exilaste voluntariamente nos teus domínios da Sicília? Esclarece-me acerca do que fizeste a partir da altura em que deixei de ser testemunha dos teus atos. Preparavas-te para reprimir uma revolta dos Samaritanos quando parti para a Capadócia, onde tinha a esperança de ganhar algum dinheiro a criar cavalos e mulas. Não voltei a ver-te depois disso. Qual foi o resultado dessa expedição? Conta-me, fala. Tudo quanto te diz respeito me interessa.
Pôncio Pilatos abanou tristemente a cabeça.
– Um zelo natural – declarou ele – e a noção do dever levaram-me a desempenhar as funções públicas não apenas com diligência, mas também com amor. O ódio, porém, perseguiu-me sem tréguas. A intriga e a calunia estragaram-me a vida na melhor idade, secando os frutos que deveria produzir. Interrogas-me acerca da revolta dos Samaritanos. Senta-te aí nesse cômoro. Vou satisfazer-te a curiosidade em poucas palavras. Tenho os fatos tão presentes como se houvessem ocorrido ontem. Um plebeu muito eloquente, conforme e vulgar na Síria, convenceu os Samaritanos a reunirem-se armados no monte Gazim, que nesse país é considerado um lugar santo, e prometeu apresentar-lhes os vasos sagrados que certo herói epônimo, ou melhor, um deus tribal, chamado Moisés, aí havia escondido, nos remotos tempos de Evandro e Eneias, nosso pai. Perante esta promessa, os Samaritanos revoltaram-se. Mas eu, avisado a tempo, mandei ocupar a montanha por destacamentos de infantaria e coloquei perto alguns grupos de cavaleiros para vigiarem os arredores. Estas medidas de prudência eram urgentes. Os rebeldes cercavam já a povoação de Tirataba, situada no sopé do monte Gazim. Dispersei-os facilmente e abafei a revolta a nascença. Em seguida, a fim de castigar sem fazer muitas vítimas, mandei supliciar os chefes da sedição. Mas tu não ignoras, Lâmia, até que ponto me encontrava sujeito ao pro cônsul Vitélio que, governando a Síria, não a favor de Roma, mas sim contra Roma, entendia que as províncias do Império são como uma espécie de quintas que se dão aos tetrarcas. Os mais importantes de entre os Samaritanos vieram chorar-lhe aos pés o seu ódio contra mim. Quem os ouvisse havia de ficar a supor que nada estava mais longe dos seus propósitos do que desobedecer a Cesar. Eu era um provocador, e apenas se tinham reunido em volta de Tirataba para resistirem as minhas violências. Vitélio deu ouvidos a tais queixumes e, confiando o governo da Judeia ao seu amigo Marcelo, ordenou que me fosse justificar perante o imperador. Cheio de amargura ressentimento, fiz-me ao mar. Quando aportei as costas da Itália, Tibério, gasto pela idade e pelo cargo, morria subitamente no cabo Miseno cujo dorso se vê daqui a alongar-se por entre a bruma do crepúsculo. Pedi justiça a Caio, o seu sucessor, que era dotado de um espírito vivo e que conhecia os assuntos da Síria. Vi lá meu caro Lâmia, a que ponto a sorte se obstinava em perseguir-me. Caio conservava nessa altura junto de si, na Cidade, o judeu Agripa, seu companheiro e amigo de infância, a quem queria mais do que aos próprios olhos. Ora, Agripa protegia Vitélio porque este era inimigo de Antipas que ele perseguia com todo o seu ódio. O imperador apoiou a maneira de sentir do seu amigo asiático e recusou-se até a receber-me. Tive de suportar as consequências de uma imerecida desgraça. Engolindo as lágrimas, cheio de raiva, retirei-me para as minhas terras da Sicília, onde teria morrido de desgosto se acaso a minha meiga Pôncia não me tivesse vindo consolar. Cultivei trigo e consegui produzir as melhores espigas de toda a província. A minha vida acabou. O futuro que se pronuncie entre mim e Vitélio."
– Pôncio – respondeu Lâmia – estou convencido de que agiste para com os Samaritanos segundo a retidão do teu caráter e apenas no interesse de Roma. Mas não terias tu obedecido demasiado nessa altura a impetuosa coragem que sempre te arrebatou? Sabes bem que, na Judeia - embora o fato de ser mais novo do que tu me devesse espicaçar o ímpeto - muitas vezes te aconselhei brandura e clemência.
– Brandura para com os Judeus - exclamou Pôncio Pilatos. - Embora tenhas vivido entre eles, conheces mal esses inimigos do gênero humano.
Orgulhosos e vis ao mesmo tempo, unindo uma ignominiosa cobardia a uma invencível obstinação, eles tanto aborrecem o amor como o ódio. O meu espírito, Lâmia, nutriu-se das máximas de Augusto. Quando fui nomeado procurador da Judeia, já a majestade da paz romana envolvia a terra. Nessa altura, deixara de se ver, como no tempo das nossas discórdias civis, os pro cônsules enriquecerem a custa das províncias. Eu sabia qual era o meu dever. Procurava a todo o custo agir com sensatez e moderação. Os deuses são testemunhas disso: Obstinei-me apenas na mansuetude. Mas de que me serviram estes benévolos desígnios? Viste-me, Lâmia, quando no início do meu governo estalou a primeira revolta. Será necessário recordar-te o que então se passou? A guarnição de Cesárea tinha ido ocupar os quartéis de inverno em Jerusalém. Os legionários ostentavam nas suas insígnias as imagens de Cesar. Isto ofendeu os Hierosolimitas que não conheciam a divindade do imperador, como se, uma vez que é preciso obedecer, não fosse mais honroso estar sujeito a um deus do que a um homem. Os padres da nação vieram, ao meu tribunal, pedir-me com altiva humildade que fizesse transportar as insígnias para fora da cidade santa. Recusei-me a fazer-lhes a vontade por causa do respeito que nos deve merecer a divindade de Cesar e a majestade do Império. Então, a plebe, unindo-se aos sacerdotes, cercou o pretório de ameaçadoras suplicas. Ordenei aos soldados que, depois de ensarilharem as lanças em frente da torre Antônia, fossem como simples lictores dispersar a chibatada aquela insolente multidão. Mas, insensíveis as pancadas, os Judeus increparam-se de novo, e os mais obstinados, deitando-se no chão, esticavam o pescoço e deixavam-se flagelar até a morte. Assististe a minha humilhação, Lâmia. Por ordem de Vitélio, tive de mandar as insígnias para Cesárea. Não merecia de fato tal vexame. Perante os deuses imortais te juro que, durante o meu governo, nunca infringi nem uma vez sequer a justiça ou as leis. Mas estou velho. Os meus inimigos e os meus delatores morreram. Portanto, desaparecerei também sem me vingar. Quem poderá defender-me a memória?
Depois de soltar um gemido calou-se. Lâmia respondeu:
– Tão insensato é confiarmos demasiado no volúvel futuro como desesperarmos dele. Que importa aquilo que os homens vierem a pensar dos atos que praticamos? Só nós próprios podemos ser as testemunhas e os juízes da nossa maneira de proceder. Confia apenas, Pôncio Pilatos, naquilo que pensas da tua virtude pessoal. Contenta-te com a estima que tens por ti mesmo e com a dos teus amigos. Quanto ao resto, a brandura não chega para governar os povos. Essa caridade pelo género humano, que a filosofia aconselha, pouco interessa aos atos dos homens públicos.
– Deixemos isso – declarou Pôncio. – Os vapores de enxofre que se exalam dos campos Flégreos são mais intensos quando saem da terra ainda aquecidos pelos raios do sol. Tenho de me despachar. Adeus. Uma vez, porém, que encontrei um amigo, quero aproveitar essa feliz circunstância. Aelio Lâmia, concede-me o favor de vires cear amanhã a minha casa, que fica junto da praia, no extremo da cidade, para os lados do cabo Miseno. Reconhecê-la-as facilmente pelo pórtico onde se vê pintado Orfeu no meio dos tigres e dos leões encantados com os sons da sua lira.
"Até amanhã, Lâmia - disse ainda, ao subir para a liteira. – Amanhã falaremos da Judeia."
No dia seguinte, Lâmia dirigiu-se, a hora da ceia, a casa de Pôncio Pilatos. Só se viam dois leitos a espera dos convivas. Servida sem fausto mas decentemente, a mesa tinha em cima diversos pratos de prata nos quais estavam preparados figos com mel, tordos, ostras de Lucrino e lampreias da Sicília. Pôncio e Lâmia, enquanto comiam, iam fazendo um ao outro diversas perguntas acerca das respectivas doenças, das quais descreviam pormenorizadamente os sintomas, e permutavam a indicação dos remédios que lhes haviam receitado. Depois, congratulando-se mutuamente pelo fato de se terem encontrado em Baies, gabaram muito a beleza dessa estância e a suavidade do seu clima. Lâmia elogiou a elegância das cortesãs que se passeavam na praia, carregadas de ouro e arrastando mantas bordadas pelos bárbaros. Mas o velho procurador deplorava essa ostentação que, em troca de pedrarias falsas e de teias de aranha fabricadas pelos homens, transferia o dinheiro romano para as mãos dos povos estrangeiros, alguns até inimigos do Império. Ocuparam-se então das importantes obras em curso na região, dessa prodigiosa ponte lançada por Caio entre Putéolos e Baies e dos canais abertos por Augusto, a fim de lançar as águas do mar nos lagos de Averno e Lucrino.
– Também eu – declarou Pôncio suspirando – pretendi levar a cabo alguns grandiosos projetos de utilidade pública. Quando, infelizmente, me foi concedido o governo da Judeia, tracei o plano de um aqueduto com duzentos estádios de comprimento, que deveria abastecer Jerusalém de água abundante e pura. Os níveis, a capacidade dos módulos, a inclinação dos cálices de bronze aos quais se adaptavam os tubos de distribuição, tudo eu havia estudado, e de acordo com o parecer dos maquinistas, nada me faltava resolver. Estava a preparar um regulamento para o policiamento das águas, a fim de que nenhum particular pudesse ilicitamente apropriar-se delas. Os arquitetos e os operários encontravam-se contratados. Ordenei que principiassem os trabalhos. Mas, em vez de verem com satisfação começar a erguer-se esta via que, assente em tão poderosos arcos, deveria trazer, com a água, a saúde a cidade, os Hierosolimitas romperam num lamentável coro de berros. Juntando-se em tumulto, protestando contra o sacrilégio e a impiedade, agrediam os operários e dispersavam as pedras das fundações. Podes imaginar, Lâmia, uma raça de bárbaros mais imunda? No entanto, Vitélio deu-lhes razão e recebi ordem para interromper a obra.
– … um problema grave – declarou Lâmia – esse de se saber se é legítimo tornarem-se os homens felizes contra vontade.
Pôncio Pilatos prosseguiu sem o ouvir:
– Recusar um aqueduto, que loucura! Mas tudo quanto vem dos Romanos é odioso para os Judeus. Consideram-nos uns seres impuros e a nossa simples presença constitui já uma profanação. Sabes muito bem que eles não se atreviam a entrar no pretório com medo de se conspurcarem e eu tinha de exercer a magistratura pública num tribunal armado ao ar livre, nesse terraço de mármore que tantas vezes pisavas. Eles receiam-nos e desprezam-nos ao mesmo tempo. E, no entanto, não é Roma a mãe é a tutora de todos os povos que, como crianças descansam e sorriem sobre o seu venerável seio? As nossas ·guias levaram a paz e a liberdade até aos limites do universo. Considerando os vencidos como amigos, concedemos, garantimos mesmo a cada povo conquistado o uso dos seus costumes e das suas leis. Não foi somente depois de Pompeu haver submetido a Síria, outrora dilacerada por tantos reis, que esta começou a desfrutar horas de repouso e prosperidade? E, embora Roma esteja em condições de vender a troco de ouro os seus favores, roubou ela alguma vez as riquezas que enchem os templos bárbaros? Despojou porventura a deusa Máe em Pessinonte, Júpiter na Morimíne e na Cilícia, a divindade dos Judeus em Jerusalém? Antioquia, Palmira, Apaméia, tranquilas apesar dos seus tesouros, e sem recearem já os árabes do deserto, erguem templos ao gênio de Roma e a divindade de Cesar. Apenas os Judeus nos odeiam e nos desafiam. Temos de lhes arrancar a força o tributo, e recusam-se obstinadamente a prestar o serviço militar.
– Os judeus – retorquiu Lâmia – são muito agarrados aos seus antigos usos. Suspeitavam, sem razão, concordo, de que pretendias abolir a sua fé e modificares os seus costumes. Desculpa que te diga, Poncio, mas nem sempre agiste de forma a dissipar-lhes os receios. Embora sem dares por isso, tinhas prazer em espicaçar as suas inquietações, e vi-te mais de uma vez deixar transparecer diante deles o desprezo que te inspiravam as suas crenças e as suas cerimonias religiosas. Vexava-los sobretudo com a atitude de mandares guardar pelos legionários, na torre Antônia, os trajes e os ornamentos do sumo-sacerdote. … preciso reconhecer que, embora não se tenham elevado como nós a contemplação das coisas divinas, os Judeus celebram mistérios veneráveis pela sua antiguidade.
Pôncio Pilatos encolheu os ombros e declarou:
– Eles não possuem uma noção exata da natureza dos deuses. Adoram Júpiter, mas sem lhe darem nome ou figura. Nem sequer o veneram sob a forma de uma simples pedra, como alguns povos da Ásia. Nada sabem acerca de Apolo, de Netuno, de Marte, de Plutão, nem de nenhuma deusa. No entanto, creio que outrora adoraram Vênus. Ainda hoje as mulheres levam pombas aos altares para servirem de vítimas, e sabes t„o bem como eu que os comerciantes, sob os pórticos do templo, vendem aves dessas aos pares para o sacrifício. Disseram-me até que, um dia, certo louco furioso tinha derrubado esses vendilhões de oferendas com as suas gaiolas. Os padres lamentavam-se disso como se fosse um sacrilégio. Creio que este uso de sacrificar pombas foi estabelecido em honra de Vênus. Porque estás tu a rir, Lâmia?
– Ria-me – explicou o interpelado – de uma coisa engraçada de que acabo de me lembrar. Pensei que um dia o Júpiter dos Judeus poderia vir vingar-se de ti a Roma. Porque não? Tanto a Ásia como a África já nos forneceram um grande número de deuses. Vimos erguerem-se em Roma templos em honra de Isis e do uivante Anúbis. Encontramos as vezes nos becos e até nas estradas a Boa Deusa dos Sírios as costas de um burro. E não sabes tu que, durante o principado de Tibério, certo jovem cavaleiro se fez passar pelo Júpiter cornudo dos Egípcios e alcançou, graças a este disfarce, os favores de uma dama ilustre, em demasia virtuosa para recusar fosse o que fosse aos deuses. Deves recear, Poncio, que o Júpiter invisível dos Judeus desembarque algum dia em Óstia!
Frente a ideia de que fosse possível vir para Itália um deus da Judeia, um sorriso furtivo passou pelo rosto severo do procurador. Depois respondeu gravemente:
– Como poderiam os judeus impor uma lei santa aos povos estranhos quando eles próprios discordam acerca da interpretação dessa mesma lei? Divididos em vinte seitas rivais - assististe a isso, Lâmia - injuriam-se uns aos outros, puxando as barbas. Viste-os, sobre o estilibata do templo, a rasgarem, como sinal de desgosto, as suas nojentas vestes em torno de qualquer miserável possesso de delírio profético. Eles não admitem que se possa discutir em paz, com serenidade, acerca das coisas divinas que, no entanto, se encontram tão veladas e cheias de incerteza. A natureza dos imortais permanece oculta aos nossos olhos e não nos é possível desvenda-la. Continuo, no entanto, a pensar que convém acreditar na Providência dos deuses. Mas os Judeus não têm nenhuma filosofia e não admitem a diversidade de opiniões. Pelo contrário, julgam dignos do suplício todos aqueles que professam a respeito da divindade sentimentos opostos a sua fé. E como, apos o gênio de Roma os ter submetido, todas as sentenças a pena capital pronunciadas pelos tribunais só podem ter execução depois de sancionadas pelo pro-cônsul ou pelo procurador, eles fazem pressão sobre o magistrado romano para que confirme as suas funestas decisões; cercam o pretório com os seus gritos de morte. Vi-os mais de cem vezes, ricos e pobres, agrupados em grande número, todos reconciliados, a volta da minha cadeira de marfim, a puxarem-me pela toga, pelas correias das sandálias, a reclamarem, a exigirem a morte de um infeliz qualquer cujo crime eu não podia compreender e que considerava tão louco como os seus acusadores. Que digo eu, cem vezes! Isso sucedia todos os dias, a todas as horas. E, no entanto, a minha obrigação era fazer executar a sua lei da mesma forma que a nossa, uma vez que Roma me nomeara para ser, não o destruidor, mas sim o sustentáculo dos seus costumes, e que eu representava para eles o chicote e o machado. Nos primeiros tempos, procurei chama-los a razão; tentei salvar do suplício as suas miseráveis vítimas. Mas esta mansuetude ainda os irritava mais; reclamavam a presa batendo em torno de mim com as asas e os bicos, como se fossem abutres. Os sacerdotes escreviam a Cesar acusando-me de violar as suas leis; e tais suplicas apoiadas por Vitélio, faziam-me incorrer nas mais severas censuras. Quantas vezes me deu vontade de, conforme dizem os Gregos, os mandar todos aos corvos, tanto acusados, como juízes! Mas não fiques a supor, Lâmia, que alimento ódios recalcados e raivas senis contra esse povo que, vencendo-me a mim, venceu Roma e a paz. Sendo impossível governa-los, impõe-se destrui-los. Não duvides disso: sempre rebeldes, chocando a revolta nas suas almas ardentes, farão estalar contra nós mais dia menos dia um furor tal, que, comparadas com ele, a cólera dos Nômidas e as ameaças dos Partas não passarão de simples caprichos de crianças. Nutrem na sombra esperanças insensatas e obceca-os a ideia de nos arruinarem. E poderiam passar-se as coisas de outra forma, uma vez que aguardam, confiantes na previsão de certo oraculo, a vinda de um príncipe do seu sangue que está destinado a reinar sobre o mundo? Nunca conseguiremos dominar esse povo. Temos de acabar com ele. É preciso destruir Jerusalém de alto a baixo. Apesar de ser velho, talvez me seja concedida a ventura de ver o dia em que as suas muralhas caiam, em que as chamas devorem as suas casas, em que os seus habitantes morram passados a fio de espada, em que se espalhará sal no sítio onde se ergueu o seu templo. Nesse dia, ficarei justificado.
Pôncio escutava estes louvores com impaciência.
– Eu não era homem que me deixasse apanhar na rede das judias – declarou ele - e, já que me obrigas a isso, Lâmia, confesso-te que nunca aproveitei a tua incontinência. E se não censurei mais outrora o fato de haveres seduzido, em Roma, a mulher de um cônsul, foi atendendo a que então expiavas duramente o teu crime. O matrimônio, entre os patrícios, é sagrado; trata-se de uma das instituições em que Roma assenta. Quanto as mulheres escravas ou estrangeiras, pouca importância teriam as nossas relações com elas, se não fosse o caso de o corpo se habituar a uma vergonhosa moleza. Desculpa dizer-te que sacrificaste demasiado a Vênus das encruzilhadas; mas aquilo que mais te censuro, Lâmia, é o não te teres casado segundo a lei e não haveres dado filhos a Rep˙blica, conforme devem fazer todos os bons cidadãos.
Mas o exilado de Tibério já não escutava o velho magistrado. Depois de esvaziar a sua taça de Falerno, ficara a sorrir para qualquer imagem invisível.
Após um instante de silêncio, prosseguiu baixinho, erguendo pouco a pouco o tom:
- Dançam com tal languidez as mulheres da Síria! Conheci uma judia de Jerusalém que, em certa alfurja, a luz de uma pequena lamparina fumarenta, em cima de um tapete velho, bailava erguendo os braços para fazer ressoar os címbalos. Com os rins arqueados e a cabeça deitada para trás, como se fosse arrastada pelo peso dos seus compridos cabelos ruivos, mostrando os olhos húmidos de volúpia, ardente e languida, flexível, teria feito empalidecer de inveja a própria Cleópatra. Eu gostava das suas danças bárbaras, da sua maneira de cantar um pouco rouca e no entanto tão suave, do seu cheiro a incenso, do torpor em que parecia viver. Seguia-a para toda a parte. Misturava-me ao mundo vil dos soldados, dos histriões e dos publicanos de que estava sempre rodeada. Ela desapareceu um dia, e não voltei a vê-la. Procurei-a durante muito tempo pelas ruas suspeitas e nas tabernas. Era mais difícil desabituarmo-nos dela do que do vinho grego. Depois de a ter perdido há muitos meses, vim a saber por acaso que se reunira a um pequeno grupo de homens e de mulheres que seguiam um jovem taumaturgo galileu chamado Jesus, natural de Nazaré, e que foi crucificado por um crime qualquer. Poncio, lembras-te desse homem?
Pôncio Pilatos franziu os sobrolhos e levou a mão a testa, como quem procura recordar-se. Depois de alguns momentos de silêncio, murmurou:
– Jesus! Jesus de Nazaré? Não me recordo.
Evitou as relações com mulheres de condição livre, não procurou obter cargos públicos, manteve-se alheio às honras e viveu retirado na sua casa de Esquilino. Passando ao papel tudo quanto vira de notável nas suas remotas viagens, transformava, segundo ele próprio dizia, as penas passadas no divertimento das horas presentes. E, enquanto se entregava a estes pacíficos trabalhos, ao mesmo tempo que ia meditando longamente acerca dos livros de Epicuro, viu com surpresa e desgosto aproximar-se a velhice. Aos sessenta e dois anos, atormentado por um incómodo resfriado, foi tomar as águas de Baies. Esta praia, outrora tão do agrado dos anciãos, era então muito frequentada pelos romanos ricos e ávidos de prazer. Havia uma semana que Lâmia vivia só e sem nenhum amigo entre essa brilhante multidão, quando, certo dia, depois de jantar sentindo-se bem disposto, deu lhe na cabeça subir as colinas que cobertas de pâmpanos semelhantes a bacantes, olham lá do alto as vagas.
Tendo chegado ao cimo, sentou-se à beira de um carreiro, debaixo de um terebinto e espraiou o olhar pela bela paisagem. A sua esquerda estendiam-se, lívidos e nus, os campos Flégreos, até as ruínas de Cumos. A sua direita, o cabo Miseno espetava o agudo esporão no mar Tirreno. A seus pés, para ocidente, a rica Baies, acompanhando a graciosa curva da praia, ostentava os seus jardins, as suas vilas povoadas de estátuas, os seus pórticos, os seus terraços de mármore, a beira do mar azul onde brincavam golfinhos. Em frente, do outro lado do golfo, na costa da Campânia, dourada pelo sol já em declínio, brilhavam ao longe os templos, coroados pelos loureiros de Pausílipo, e muito ao fundo do horizonte fumegava o Vesúvio.
Lamia tirou de uma dobra da sua toga um rolo contendo o Tratado acerca da natureza, estendeu-se no chão e começou a ler. Mas os gritos de um escravo intimaram-no a levantar-se para dar passagem a uma liteira que trepava o estreito carreiro entre as vinhas. Aproximando-se da liteira toda coberta, Lamia viu, estendido nas almofadas, um velho muito corpulento que de testa apoiada na mão, fitava em volta um olhar orgulhoso e sombrio. O seu nariz aquilino descaía para cima dos lábios que esmagavam um queixo proeminente e as poderosas maxilas.
Lâmia teve a impressão de que conhecia aquela cara. Hesitou, porém, um momento no nome da personagem. Depois, subitamente, lançou-se para a liteira num impulso de surpresa e de alegria.
– Pôncio Pilatos! – exclamou ele. – Graças aos deuses, tenho a sorte de voltar a ver-te.
O velho, fazendo sinal aos escravos para se deterem, fixou com um olhar atento o homem que o cumprimentava.
– Pôncio, meu caro anfitrião – prosseguiu aquele – os vinte anos que passaram embranqueceram-me os cabelos e cavaram-me as faces a tal ponto, que já não reconheces o teu Aelio Lâmia.
Ouvindo este nome, Pôncio Pilatos desceu da liteira com toda a pressa que lhe permitiam a idade e o porte. Abraçou duas vezes Aelio Lâmia.
– Claro que tenho o maior prazer em voltar a ver-te – declarou ele. – Recordas-me os tempos antigos, quando eu era procurador da Judeia, na província da Síria. … a primeira vez que estou contigo desde há trinta anos. A ultima foi em Cesárea, onde arrastavas o aborrecimento do exílio.
Tive a felicidade de conseguir aliviar-te um pouco e, por amizade, Lâmia, seguiste-me até essa triste Jerusalém, onde os Judeus me encheram de amargura e desgosto. Tu foste, durante mais de dez anos, meu hospede e meu companheiro, e ambos, ao falarmos da Cidade, nos convolávamos mutuamente, tu dos teus infortúnios, eu das minhas grandezas.
Lâmia abraçou-o novamente.
– Não disseste tudo, Pôncio: esqueceste-te de que intercedeste por mim junto a Herodes Antipas e de que puseste generosamente a tua bolsa a minha disposição.
– Não falemos disso – retorquiu Pôncio – uma vez que mal regressaste a Roma, me remeteste por um dos teus escravos libertos o dinheiro suficiente para me reembolsar com juros.
- Pôncio, não creio que o dinheiro possa resgatar a minha dívida para contigo. Mas diz-me os deuses tem-te sido favoráveis? Desfrutas da felicidade que mereces? Fala-me da tua família, da tua fortuna, da tua saúde.
– Retirado na Sicília, onde tenho propriedades, cultivo e vendo o trigo que produzo. A minha filha mais velha, Púncia, a quem tanto amo, depois de enviuvar, foi viver comigo e é ela quem governa a casa. Graças aos deuses, conservei o vigor do espírito; a minha memória não enfraqueceu. Mas a velhice vem sempre acompanhada de um longo cortejo de dores e de enfermidades. A gota faz-me sofrer horrivelmente. E agora mesmo encaminho-me para os campos Flégreos em busca de remédio para os meus males. Essa terra ardente, de onde, a noite, brotam chamas, exala uns acres vapores de enxofre que, segundo dizem, acalmam as dores e restituem a maleabilidade as articulações dos membros. Pelo menos é o que os médicos garantem.
– Desejo que isso te faça bem, Pôncio! Mas, apesar da gota e dos grandes sofrimentos que esta provoca, tu pareces ter a mesma idade que eu, embora contes mais dez anos. Não há dúvida de que conservaste um vigor como eu nunca tive, e sinto-me satisfeito por te encontrar tão robusto. Por que motivo, meu caro, renunciaste tão cedo aos cargos públicos? Por que razão, ao abandonares o governo da Judeia, te exilaste voluntariamente nos teus domínios da Sicília? Esclarece-me acerca do que fizeste a partir da altura em que deixei de ser testemunha dos teus atos. Preparavas-te para reprimir uma revolta dos Samaritanos quando parti para a Capadócia, onde tinha a esperança de ganhar algum dinheiro a criar cavalos e mulas. Não voltei a ver-te depois disso. Qual foi o resultado dessa expedição? Conta-me, fala. Tudo quanto te diz respeito me interessa.
Pôncio Pilatos abanou tristemente a cabeça.
– Um zelo natural – declarou ele – e a noção do dever levaram-me a desempenhar as funções públicas não apenas com diligência, mas também com amor. O ódio, porém, perseguiu-me sem tréguas. A intriga e a calunia estragaram-me a vida na melhor idade, secando os frutos que deveria produzir. Interrogas-me acerca da revolta dos Samaritanos. Senta-te aí nesse cômoro. Vou satisfazer-te a curiosidade em poucas palavras. Tenho os fatos tão presentes como se houvessem ocorrido ontem. Um plebeu muito eloquente, conforme e vulgar na Síria, convenceu os Samaritanos a reunirem-se armados no monte Gazim, que nesse país é considerado um lugar santo, e prometeu apresentar-lhes os vasos sagrados que certo herói epônimo, ou melhor, um deus tribal, chamado Moisés, aí havia escondido, nos remotos tempos de Evandro e Eneias, nosso pai. Perante esta promessa, os Samaritanos revoltaram-se. Mas eu, avisado a tempo, mandei ocupar a montanha por destacamentos de infantaria e coloquei perto alguns grupos de cavaleiros para vigiarem os arredores. Estas medidas de prudência eram urgentes. Os rebeldes cercavam já a povoação de Tirataba, situada no sopé do monte Gazim. Dispersei-os facilmente e abafei a revolta a nascença. Em seguida, a fim de castigar sem fazer muitas vítimas, mandei supliciar os chefes da sedição. Mas tu não ignoras, Lâmia, até que ponto me encontrava sujeito ao pro cônsul Vitélio que, governando a Síria, não a favor de Roma, mas sim contra Roma, entendia que as províncias do Império são como uma espécie de quintas que se dão aos tetrarcas. Os mais importantes de entre os Samaritanos vieram chorar-lhe aos pés o seu ódio contra mim. Quem os ouvisse havia de ficar a supor que nada estava mais longe dos seus propósitos do que desobedecer a Cesar. Eu era um provocador, e apenas se tinham reunido em volta de Tirataba para resistirem as minhas violências. Vitélio deu ouvidos a tais queixumes e, confiando o governo da Judeia ao seu amigo Marcelo, ordenou que me fosse justificar perante o imperador. Cheio de amargura ressentimento, fiz-me ao mar. Quando aportei as costas da Itália, Tibério, gasto pela idade e pelo cargo, morria subitamente no cabo Miseno cujo dorso se vê daqui a alongar-se por entre a bruma do crepúsculo. Pedi justiça a Caio, o seu sucessor, que era dotado de um espírito vivo e que conhecia os assuntos da Síria. Vi lá meu caro Lâmia, a que ponto a sorte se obstinava em perseguir-me. Caio conservava nessa altura junto de si, na Cidade, o judeu Agripa, seu companheiro e amigo de infância, a quem queria mais do que aos próprios olhos. Ora, Agripa protegia Vitélio porque este era inimigo de Antipas que ele perseguia com todo o seu ódio. O imperador apoiou a maneira de sentir do seu amigo asiático e recusou-se até a receber-me. Tive de suportar as consequências de uma imerecida desgraça. Engolindo as lágrimas, cheio de raiva, retirei-me para as minhas terras da Sicília, onde teria morrido de desgosto se acaso a minha meiga Pôncia não me tivesse vindo consolar. Cultivei trigo e consegui produzir as melhores espigas de toda a província. A minha vida acabou. O futuro que se pronuncie entre mim e Vitélio."
– Pôncio – respondeu Lâmia – estou convencido de que agiste para com os Samaritanos segundo a retidão do teu caráter e apenas no interesse de Roma. Mas não terias tu obedecido demasiado nessa altura a impetuosa coragem que sempre te arrebatou? Sabes bem que, na Judeia - embora o fato de ser mais novo do que tu me devesse espicaçar o ímpeto - muitas vezes te aconselhei brandura e clemência.
– Brandura para com os Judeus - exclamou Pôncio Pilatos. - Embora tenhas vivido entre eles, conheces mal esses inimigos do gênero humano.
Orgulhosos e vis ao mesmo tempo, unindo uma ignominiosa cobardia a uma invencível obstinação, eles tanto aborrecem o amor como o ódio. O meu espírito, Lâmia, nutriu-se das máximas de Augusto. Quando fui nomeado procurador da Judeia, já a majestade da paz romana envolvia a terra. Nessa altura, deixara de se ver, como no tempo das nossas discórdias civis, os pro cônsules enriquecerem a custa das províncias. Eu sabia qual era o meu dever. Procurava a todo o custo agir com sensatez e moderação. Os deuses são testemunhas disso: Obstinei-me apenas na mansuetude. Mas de que me serviram estes benévolos desígnios? Viste-me, Lâmia, quando no início do meu governo estalou a primeira revolta. Será necessário recordar-te o que então se passou? A guarnição de Cesárea tinha ido ocupar os quartéis de inverno em Jerusalém. Os legionários ostentavam nas suas insígnias as imagens de Cesar. Isto ofendeu os Hierosolimitas que não conheciam a divindade do imperador, como se, uma vez que é preciso obedecer, não fosse mais honroso estar sujeito a um deus do que a um homem. Os padres da nação vieram, ao meu tribunal, pedir-me com altiva humildade que fizesse transportar as insígnias para fora da cidade santa. Recusei-me a fazer-lhes a vontade por causa do respeito que nos deve merecer a divindade de Cesar e a majestade do Império. Então, a plebe, unindo-se aos sacerdotes, cercou o pretório de ameaçadoras suplicas. Ordenei aos soldados que, depois de ensarilharem as lanças em frente da torre Antônia, fossem como simples lictores dispersar a chibatada aquela insolente multidão. Mas, insensíveis as pancadas, os Judeus increparam-se de novo, e os mais obstinados, deitando-se no chão, esticavam o pescoço e deixavam-se flagelar até a morte. Assististe a minha humilhação, Lâmia. Por ordem de Vitélio, tive de mandar as insígnias para Cesárea. Não merecia de fato tal vexame. Perante os deuses imortais te juro que, durante o meu governo, nunca infringi nem uma vez sequer a justiça ou as leis. Mas estou velho. Os meus inimigos e os meus delatores morreram. Portanto, desaparecerei também sem me vingar. Quem poderá defender-me a memória?
Depois de soltar um gemido calou-se. Lâmia respondeu:
– Tão insensato é confiarmos demasiado no volúvel futuro como desesperarmos dele. Que importa aquilo que os homens vierem a pensar dos atos que praticamos? Só nós próprios podemos ser as testemunhas e os juízes da nossa maneira de proceder. Confia apenas, Pôncio Pilatos, naquilo que pensas da tua virtude pessoal. Contenta-te com a estima que tens por ti mesmo e com a dos teus amigos. Quanto ao resto, a brandura não chega para governar os povos. Essa caridade pelo género humano, que a filosofia aconselha, pouco interessa aos atos dos homens públicos.
– Deixemos isso – declarou Pôncio. – Os vapores de enxofre que se exalam dos campos Flégreos são mais intensos quando saem da terra ainda aquecidos pelos raios do sol. Tenho de me despachar. Adeus. Uma vez, porém, que encontrei um amigo, quero aproveitar essa feliz circunstância. Aelio Lâmia, concede-me o favor de vires cear amanhã a minha casa, que fica junto da praia, no extremo da cidade, para os lados do cabo Miseno. Reconhecê-la-as facilmente pelo pórtico onde se vê pintado Orfeu no meio dos tigres e dos leões encantados com os sons da sua lira.
"Até amanhã, Lâmia - disse ainda, ao subir para a liteira. – Amanhã falaremos da Judeia."
No dia seguinte, Lâmia dirigiu-se, a hora da ceia, a casa de Pôncio Pilatos. Só se viam dois leitos a espera dos convivas. Servida sem fausto mas decentemente, a mesa tinha em cima diversos pratos de prata nos quais estavam preparados figos com mel, tordos, ostras de Lucrino e lampreias da Sicília. Pôncio e Lâmia, enquanto comiam, iam fazendo um ao outro diversas perguntas acerca das respectivas doenças, das quais descreviam pormenorizadamente os sintomas, e permutavam a indicação dos remédios que lhes haviam receitado. Depois, congratulando-se mutuamente pelo fato de se terem encontrado em Baies, gabaram muito a beleza dessa estância e a suavidade do seu clima. Lâmia elogiou a elegância das cortesãs que se passeavam na praia, carregadas de ouro e arrastando mantas bordadas pelos bárbaros. Mas o velho procurador deplorava essa ostentação que, em troca de pedrarias falsas e de teias de aranha fabricadas pelos homens, transferia o dinheiro romano para as mãos dos povos estrangeiros, alguns até inimigos do Império. Ocuparam-se então das importantes obras em curso na região, dessa prodigiosa ponte lançada por Caio entre Putéolos e Baies e dos canais abertos por Augusto, a fim de lançar as águas do mar nos lagos de Averno e Lucrino.
– Também eu – declarou Pôncio suspirando – pretendi levar a cabo alguns grandiosos projetos de utilidade pública. Quando, infelizmente, me foi concedido o governo da Judeia, tracei o plano de um aqueduto com duzentos estádios de comprimento, que deveria abastecer Jerusalém de água abundante e pura. Os níveis, a capacidade dos módulos, a inclinação dos cálices de bronze aos quais se adaptavam os tubos de distribuição, tudo eu havia estudado, e de acordo com o parecer dos maquinistas, nada me faltava resolver. Estava a preparar um regulamento para o policiamento das águas, a fim de que nenhum particular pudesse ilicitamente apropriar-se delas. Os arquitetos e os operários encontravam-se contratados. Ordenei que principiassem os trabalhos. Mas, em vez de verem com satisfação começar a erguer-se esta via que, assente em tão poderosos arcos, deveria trazer, com a água, a saúde a cidade, os Hierosolimitas romperam num lamentável coro de berros. Juntando-se em tumulto, protestando contra o sacrilégio e a impiedade, agrediam os operários e dispersavam as pedras das fundações. Podes imaginar, Lâmia, uma raça de bárbaros mais imunda? No entanto, Vitélio deu-lhes razão e recebi ordem para interromper a obra.
– … um problema grave – declarou Lâmia – esse de se saber se é legítimo tornarem-se os homens felizes contra vontade.
Pôncio Pilatos prosseguiu sem o ouvir:
– Recusar um aqueduto, que loucura! Mas tudo quanto vem dos Romanos é odioso para os Judeus. Consideram-nos uns seres impuros e a nossa simples presença constitui já uma profanação. Sabes muito bem que eles não se atreviam a entrar no pretório com medo de se conspurcarem e eu tinha de exercer a magistratura pública num tribunal armado ao ar livre, nesse terraço de mármore que tantas vezes pisavas. Eles receiam-nos e desprezam-nos ao mesmo tempo. E, no entanto, não é Roma a mãe é a tutora de todos os povos que, como crianças descansam e sorriem sobre o seu venerável seio? As nossas ·guias levaram a paz e a liberdade até aos limites do universo. Considerando os vencidos como amigos, concedemos, garantimos mesmo a cada povo conquistado o uso dos seus costumes e das suas leis. Não foi somente depois de Pompeu haver submetido a Síria, outrora dilacerada por tantos reis, que esta começou a desfrutar horas de repouso e prosperidade? E, embora Roma esteja em condições de vender a troco de ouro os seus favores, roubou ela alguma vez as riquezas que enchem os templos bárbaros? Despojou porventura a deusa Máe em Pessinonte, Júpiter na Morimíne e na Cilícia, a divindade dos Judeus em Jerusalém? Antioquia, Palmira, Apaméia, tranquilas apesar dos seus tesouros, e sem recearem já os árabes do deserto, erguem templos ao gênio de Roma e a divindade de Cesar. Apenas os Judeus nos odeiam e nos desafiam. Temos de lhes arrancar a força o tributo, e recusam-se obstinadamente a prestar o serviço militar.
– Os judeus – retorquiu Lâmia – são muito agarrados aos seus antigos usos. Suspeitavam, sem razão, concordo, de que pretendias abolir a sua fé e modificares os seus costumes. Desculpa que te diga, Poncio, mas nem sempre agiste de forma a dissipar-lhes os receios. Embora sem dares por isso, tinhas prazer em espicaçar as suas inquietações, e vi-te mais de uma vez deixar transparecer diante deles o desprezo que te inspiravam as suas crenças e as suas cerimonias religiosas. Vexava-los sobretudo com a atitude de mandares guardar pelos legionários, na torre Antônia, os trajes e os ornamentos do sumo-sacerdote. … preciso reconhecer que, embora não se tenham elevado como nós a contemplação das coisas divinas, os Judeus celebram mistérios veneráveis pela sua antiguidade.
Pôncio Pilatos encolheu os ombros e declarou:
– Eles não possuem uma noção exata da natureza dos deuses. Adoram Júpiter, mas sem lhe darem nome ou figura. Nem sequer o veneram sob a forma de uma simples pedra, como alguns povos da Ásia. Nada sabem acerca de Apolo, de Netuno, de Marte, de Plutão, nem de nenhuma deusa. No entanto, creio que outrora adoraram Vênus. Ainda hoje as mulheres levam pombas aos altares para servirem de vítimas, e sabes t„o bem como eu que os comerciantes, sob os pórticos do templo, vendem aves dessas aos pares para o sacrifício. Disseram-me até que, um dia, certo louco furioso tinha derrubado esses vendilhões de oferendas com as suas gaiolas. Os padres lamentavam-se disso como se fosse um sacrilégio. Creio que este uso de sacrificar pombas foi estabelecido em honra de Vênus. Porque estás tu a rir, Lâmia?
– Ria-me – explicou o interpelado – de uma coisa engraçada de que acabo de me lembrar. Pensei que um dia o Júpiter dos Judeus poderia vir vingar-se de ti a Roma. Porque não? Tanto a Ásia como a África já nos forneceram um grande número de deuses. Vimos erguerem-se em Roma templos em honra de Isis e do uivante Anúbis. Encontramos as vezes nos becos e até nas estradas a Boa Deusa dos Sírios as costas de um burro. E não sabes tu que, durante o principado de Tibério, certo jovem cavaleiro se fez passar pelo Júpiter cornudo dos Egípcios e alcançou, graças a este disfarce, os favores de uma dama ilustre, em demasia virtuosa para recusar fosse o que fosse aos deuses. Deves recear, Poncio, que o Júpiter invisível dos Judeus desembarque algum dia em Óstia!
Frente a ideia de que fosse possível vir para Itália um deus da Judeia, um sorriso furtivo passou pelo rosto severo do procurador. Depois respondeu gravemente:
– Como poderiam os judeus impor uma lei santa aos povos estranhos quando eles próprios discordam acerca da interpretação dessa mesma lei? Divididos em vinte seitas rivais - assististe a isso, Lâmia - injuriam-se uns aos outros, puxando as barbas. Viste-os, sobre o estilibata do templo, a rasgarem, como sinal de desgosto, as suas nojentas vestes em torno de qualquer miserável possesso de delírio profético. Eles não admitem que se possa discutir em paz, com serenidade, acerca das coisas divinas que, no entanto, se encontram tão veladas e cheias de incerteza. A natureza dos imortais permanece oculta aos nossos olhos e não nos é possível desvenda-la. Continuo, no entanto, a pensar que convém acreditar na Providência dos deuses. Mas os Judeus não têm nenhuma filosofia e não admitem a diversidade de opiniões. Pelo contrário, julgam dignos do suplício todos aqueles que professam a respeito da divindade sentimentos opostos a sua fé. E como, apos o gênio de Roma os ter submetido, todas as sentenças a pena capital pronunciadas pelos tribunais só podem ter execução depois de sancionadas pelo pro-cônsul ou pelo procurador, eles fazem pressão sobre o magistrado romano para que confirme as suas funestas decisões; cercam o pretório com os seus gritos de morte. Vi-os mais de cem vezes, ricos e pobres, agrupados em grande número, todos reconciliados, a volta da minha cadeira de marfim, a puxarem-me pela toga, pelas correias das sandálias, a reclamarem, a exigirem a morte de um infeliz qualquer cujo crime eu não podia compreender e que considerava tão louco como os seus acusadores. Que digo eu, cem vezes! Isso sucedia todos os dias, a todas as horas. E, no entanto, a minha obrigação era fazer executar a sua lei da mesma forma que a nossa, uma vez que Roma me nomeara para ser, não o destruidor, mas sim o sustentáculo dos seus costumes, e que eu representava para eles o chicote e o machado. Nos primeiros tempos, procurei chama-los a razão; tentei salvar do suplício as suas miseráveis vítimas. Mas esta mansuetude ainda os irritava mais; reclamavam a presa batendo em torno de mim com as asas e os bicos, como se fossem abutres. Os sacerdotes escreviam a Cesar acusando-me de violar as suas leis; e tais suplicas apoiadas por Vitélio, faziam-me incorrer nas mais severas censuras. Quantas vezes me deu vontade de, conforme dizem os Gregos, os mandar todos aos corvos, tanto acusados, como juízes! Mas não fiques a supor, Lâmia, que alimento ódios recalcados e raivas senis contra esse povo que, vencendo-me a mim, venceu Roma e a paz. Sendo impossível governa-los, impõe-se destrui-los. Não duvides disso: sempre rebeldes, chocando a revolta nas suas almas ardentes, farão estalar contra nós mais dia menos dia um furor tal, que, comparadas com ele, a cólera dos Nômidas e as ameaças dos Partas não passarão de simples caprichos de crianças. Nutrem na sombra esperanças insensatas e obceca-os a ideia de nos arruinarem. E poderiam passar-se as coisas de outra forma, uma vez que aguardam, confiantes na previsão de certo oraculo, a vinda de um príncipe do seu sangue que está destinado a reinar sobre o mundo? Nunca conseguiremos dominar esse povo. Temos de acabar com ele. É preciso destruir Jerusalém de alto a baixo. Apesar de ser velho, talvez me seja concedida a ventura de ver o dia em que as suas muralhas caiam, em que as chamas devorem as suas casas, em que os seus habitantes morram passados a fio de espada, em que se espalhará sal no sítio onde se ergueu o seu templo. Nesse dia, ficarei justificado.
Lâmia tentou encaminhar a conversa para um tom mais ameno.
– Pôncio – disse ele – compreendo bem os teus antigos ressentimentos e as tuas sinistras previsões. Não há dúvida de que a experiência que possuis acerca do caráter dos judeus não lhes é favorável. Mas eu, que vivia em Jerusalém como simples curioso e me misturava com o povo, consegui descobrir nesses homens certas virtudes ocultas, que não podias ver. Conheci alguns judeus muito amáveis, e tanto os seus costumes como a sua lealdade me faziam recordar aquilo que os nossos poetas diziam do velho legislador espartano. E tu próprio, Pôncio, viste morrer sob os golpes de bastão dos teus legionários muitos homens inocentes que, sem dizerem sequer como se chamavam, pereciam por uma causa que supunham justa. Esses não merecem o nosso desprezo. Digo isto porque é conveniente não perdermos nunca de vista, seja a respeito do que for, o equilíbrio e o espírito de justiça. Mas confesso que nunca tive grande simpatia pelos judeus. As judias, pelo contrário, agradavam-me muito. Eu, nesse tempo, era novo, e as sírias provocavam-me uma estranha perturbação nos sentidos. Os seus lábios vermelhos, as suas pupilas húmidas que brilhavam na sombra, os seus prolongados olhares penetravam-me até a medula. Pintadas e ungidas, cheiravam a nardo e a mirra, e a sua carne macerada de aromas tinha um estranho e delicioso sabor.
Pôncio escutava estes louvores com impaciência.
– Eu não era homem que me deixasse apanhar na rede das judias – declarou ele - e, já que me obrigas a isso, Lâmia, confesso-te que nunca aproveitei a tua incontinência. E se não censurei mais outrora o fato de haveres seduzido, em Roma, a mulher de um cônsul, foi atendendo a que então expiavas duramente o teu crime. O matrimônio, entre os patrícios, é sagrado; trata-se de uma das instituições em que Roma assenta. Quanto as mulheres escravas ou estrangeiras, pouca importância teriam as nossas relações com elas, se não fosse o caso de o corpo se habituar a uma vergonhosa moleza. Desculpa dizer-te que sacrificaste demasiado a Vênus das encruzilhadas; mas aquilo que mais te censuro, Lâmia, é o não te teres casado segundo a lei e não haveres dado filhos a Rep˙blica, conforme devem fazer todos os bons cidadãos.
Mas o exilado de Tibério já não escutava o velho magistrado. Depois de esvaziar a sua taça de Falerno, ficara a sorrir para qualquer imagem invisível.
Após um instante de silêncio, prosseguiu baixinho, erguendo pouco a pouco o tom:
- Dançam com tal languidez as mulheres da Síria! Conheci uma judia de Jerusalém que, em certa alfurja, a luz de uma pequena lamparina fumarenta, em cima de um tapete velho, bailava erguendo os braços para fazer ressoar os címbalos. Com os rins arqueados e a cabeça deitada para trás, como se fosse arrastada pelo peso dos seus compridos cabelos ruivos, mostrando os olhos húmidos de volúpia, ardente e languida, flexível, teria feito empalidecer de inveja a própria Cleópatra. Eu gostava das suas danças bárbaras, da sua maneira de cantar um pouco rouca e no entanto tão suave, do seu cheiro a incenso, do torpor em que parecia viver. Seguia-a para toda a parte. Misturava-me ao mundo vil dos soldados, dos histriões e dos publicanos de que estava sempre rodeada. Ela desapareceu um dia, e não voltei a vê-la. Procurei-a durante muito tempo pelas ruas suspeitas e nas tabernas. Era mais difícil desabituarmo-nos dela do que do vinho grego. Depois de a ter perdido há muitos meses, vim a saber por acaso que se reunira a um pequeno grupo de homens e de mulheres que seguiam um jovem taumaturgo galileu chamado Jesus, natural de Nazaré, e que foi crucificado por um crime qualquer. Poncio, lembras-te desse homem?
Pôncio Pilatos franziu os sobrolhos e levou a mão a testa, como quem procura recordar-se. Depois de alguns momentos de silêncio, murmurou:
– Jesus! Jesus de Nazaré? Não me recordo.
Anatole France
quinta-feira, outubro 22
Não há sombra no espelho
Não é a primeira vez que escrevo meu nome, Renato Valenzuela, e o vejo como se fosse de outra pessoa, de alguém distante com quem perdi contato faz tempo. Em outras ocasiões, diante do espelho, quando acabo de me barbear, vejo um rosto que mal reconheço, como se fosse o esboço ou a caricatura de outro rosto, com que estou mais ou menos acostumado. Então acho que esse olhar não é o meu, que essas pupilas de rancor não me dizem respeito, que essas rugas pertencem a outra máscara, que esses fiordes de calvície não correspondem à minha geografia capilar. É verdade que tais divagações costumam ser momentâneas, metamorfoses que duram o tempo de um suspiro, mas sempre me deixam instável, desassossegado, indefeso. É por isso, Renato Valenzuela, que talvez tenha chegado a hora de acertar as nossas contas. Com o tempo, com o passado, com as feridas, com as promessas, contigo/comigo. Todas.
Não vamos cair na vulgaridade de atribuir tudo que há de ultrajante à vaga infância. Lá ficou ela, atrás da neblina. Minhas lembranças se deixam ver através de um vidro esmerilhado chamado memória. Eu te vejo nu no campo, sob uma chuva que não discriminava, os magros braços para o alto, usufruindo dessa felicidade inaugural, que por certo não se repetiria, ao menos com essa intensidade.
Eu te vejo criança, espantado diante do estranho espetáculo do peãozinho que fornicava (você achava que brincava) com alguma ovelha, passiva e inerte, decerto ausente daquela violação não regulamentar. Sua adolescência foi um sonho. Você sonhava incansavelmente, e quando afinal eu acordava, você continuava sonhando. Com bosques, com ondas, com seios, com sóis, com fomes, com mãos, com coxas. Seus sonhos eram de desejo, e minhas vigílias, de censura.
Volta e meia aparece algum sábio da arraia-miúda para garantir que o espelho é sempre honesto. Honesto porra nenhuma. O espelho é um farsante, um traidor, um pilantra. Esse Renato Valenzuela que aí está, olhando-me com sarcasmo, pálido de tanta insônia, é um frágil arremedo de mim mesmo, um fac-símile sem sangue, uma coisa. Onde está, por exemplo, a palpitação das minhas têmporas, o coração transbordante de conquistas e fracassos, as mãos que não são garras, mas provedoras de carícias?
A imagem do espelho é o que eu não quis ser: um fantoche gasto convocando a morte. Por esses falsos olhos circulam escombros de desejos, que já não consigo sequer vislumbrar, que dirá rememorar. Esse Renato Valenzuela é um epílogo do Renato Valenzuela que digo ser. Que sou. Ou não? Ou será, então, este eu de carne e osso o pobre duplo do que se move nesse espelho? Disse o poeta: “O mar como um vasto cristal azougado/ reflete a lâmina de um céu de zinco.” Esse Renato de cristal azougado refletirá o nada do meu céu de zinco? Ou estará mais próximo do que se diz na estrofe seguinte: “O sol como um vidro redondo e opaco/ com passo de doente caminha para o zênite”?
Onde está, nessa cópia servil que é o espelho, aquele rapaz que seduziu Irene, ou melhor, que foi seduzido por Irene, o que tremeu como uma vara quando ela o enlaçou com seus braços de enigma? Onde ficou aquele que beijou e tornou a beijar seu corpo indescritível, mergulhou cândido nele, feliz sem perceber, tonto de amor?
Não há sombra no espelho. A sombra é dos corpos, não das imagens. Meu filho Braulio tem seis anos de sombra. Nunca o ponho diante do espelho, para que não a perca. Irene, em compensação, não tem mais imagem. Nem sombra. O horror a levou. Há finais de paz, de dor, de inércia, também de horror. O dela foi de horror. Contudo, nos olhos do espelho não está sua morte. Nos olhos de mim mesmo está, sim. É impossível desalojá-la, omiti-la, extraviá-la.
Meu filho me olha com os olhos de Irene. Um rio de tristeza circula por minhas veias, mas me esqueci de chorar. Com meus olhos e com os do espelho. Não trago o Braulio para o espelho para que não se gaste, para que não comece, tão criança, a envelhecer, para que continue a olhar com os olhos de Irene.
Devo esclarecer que tudo isso pertence ao passado. Um passado recente, mas passado. Reconheço que hoje tive uma surpresa. Como todas as manhãs, encarei o espelho e falei com ele. Falei muito. Acho que até gritei com ele. De repente percebi que a boca do espelho permanecia fechada. Tornei a falar, o insultei. E nada. Seus lábios não se moveram. Curiosamente, seu olhar era de retrocesso.
.
Então me senti tomado por um estranho contentamento, um esboço de felicidade.
E não era para menos. Pela primeira vez eu o deixava mudo. Pela primeira vez o derrotara. Inapelavelmente.
Mario Benedetti, “Correio do tempo“
Não vamos cair na vulgaridade de atribuir tudo que há de ultrajante à vaga infância. Lá ficou ela, atrás da neblina. Minhas lembranças se deixam ver através de um vidro esmerilhado chamado memória. Eu te vejo nu no campo, sob uma chuva que não discriminava, os magros braços para o alto, usufruindo dessa felicidade inaugural, que por certo não se repetiria, ao menos com essa intensidade.
Eu te vejo criança, espantado diante do estranho espetáculo do peãozinho que fornicava (você achava que brincava) com alguma ovelha, passiva e inerte, decerto ausente daquela violação não regulamentar. Sua adolescência foi um sonho. Você sonhava incansavelmente, e quando afinal eu acordava, você continuava sonhando. Com bosques, com ondas, com seios, com sóis, com fomes, com mãos, com coxas. Seus sonhos eram de desejo, e minhas vigílias, de censura.
Volta e meia aparece algum sábio da arraia-miúda para garantir que o espelho é sempre honesto. Honesto porra nenhuma. O espelho é um farsante, um traidor, um pilantra. Esse Renato Valenzuela que aí está, olhando-me com sarcasmo, pálido de tanta insônia, é um frágil arremedo de mim mesmo, um fac-símile sem sangue, uma coisa. Onde está, por exemplo, a palpitação das minhas têmporas, o coração transbordante de conquistas e fracassos, as mãos que não são garras, mas provedoras de carícias?
A imagem do espelho é o que eu não quis ser: um fantoche gasto convocando a morte. Por esses falsos olhos circulam escombros de desejos, que já não consigo sequer vislumbrar, que dirá rememorar. Esse Renato Valenzuela é um epílogo do Renato Valenzuela que digo ser. Que sou. Ou não? Ou será, então, este eu de carne e osso o pobre duplo do que se move nesse espelho? Disse o poeta: “O mar como um vasto cristal azougado/ reflete a lâmina de um céu de zinco.” Esse Renato de cristal azougado refletirá o nada do meu céu de zinco? Ou estará mais próximo do que se diz na estrofe seguinte: “O sol como um vidro redondo e opaco/ com passo de doente caminha para o zênite”?
Onde está, nessa cópia servil que é o espelho, aquele rapaz que seduziu Irene, ou melhor, que foi seduzido por Irene, o que tremeu como uma vara quando ela o enlaçou com seus braços de enigma? Onde ficou aquele que beijou e tornou a beijar seu corpo indescritível, mergulhou cândido nele, feliz sem perceber, tonto de amor?
Não há sombra no espelho. A sombra é dos corpos, não das imagens. Meu filho Braulio tem seis anos de sombra. Nunca o ponho diante do espelho, para que não a perca. Irene, em compensação, não tem mais imagem. Nem sombra. O horror a levou. Há finais de paz, de dor, de inércia, também de horror. O dela foi de horror. Contudo, nos olhos do espelho não está sua morte. Nos olhos de mim mesmo está, sim. É impossível desalojá-la, omiti-la, extraviá-la.
Meu filho me olha com os olhos de Irene. Um rio de tristeza circula por minhas veias, mas me esqueci de chorar. Com meus olhos e com os do espelho. Não trago o Braulio para o espelho para que não se gaste, para que não comece, tão criança, a envelhecer, para que continue a olhar com os olhos de Irene.
Devo esclarecer que tudo isso pertence ao passado. Um passado recente, mas passado. Reconheço que hoje tive uma surpresa. Como todas as manhãs, encarei o espelho e falei com ele. Falei muito. Acho que até gritei com ele. De repente percebi que a boca do espelho permanecia fechada. Tornei a falar, o insultei. E nada. Seus lábios não se moveram. Curiosamente, seu olhar era de retrocesso.
.
Então me senti tomado por um estranho contentamento, um esboço de felicidade.
E não era para menos. Pela primeira vez eu o deixava mudo. Pela primeira vez o derrotara. Inapelavelmente.
Mario Benedetti, “Correio do tempo“
Faz de conta
Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde cintilante de olhos que veem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz de conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranquilidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando.
Clarice Lispector, "Todos as crônicas"
Clarice Lispector, "Todos as crônicas"
Poema para iludir a vida
Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.
Fernando Namora, “Mar de Sargaços”
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.
Fernando Namora, “Mar de Sargaços”
Crocodilo
Numa noite de outono, fazia um calor úmido e eu fui a uma cidade que me era quase desconhecida; a pouca luz das ruas estava atenuada pela umidade e por algumas folhas das arvores. Entrei num café que ficava perto de uma igreja, sentei-me numa mesa do fundo e fiquei pensando na vida. Eu sabia isolar as horas de felicidade e encerrar-me nelas; primeiro roubava com os olhos qualquer coisa descuidada da rua ou do interior das casas e depois a levava para minha solidão. Tinha tanto prazer em olha-la que se as pessoas soubessem teriam me odiado. Talvez não me restasse muito tempo de felicidade. Antes eu havia passado por aquelas cidades dando concertos de piano; as horas de felicidade foram escassas, pois eu vivia na angustia de reunir pessoas que quisessem aprovar a realização de um concerto; tinha de coordena-las, influencia-las e tratar de encontrar algum homem que fosse ativo. Quase sempre isso era como lutar com bêbados lentos e distraídos: quando conseguia trazer um, o outro me escapava. Além disso, eu tinha de estudar e escrever artigos nos jornais.
Fazia algum tempo que eu já não tinha essa preocupação: consegui entrar numa grande firma de meias para mulheres. Havia pensado que as meias eram mais necessárias que os concertos, e que seria mais fácil coloca-las. Um amigo meu disse ao gerente que eu tinha muitas relações femininas, porque era concertista de piano e percorrera muitas cidades: logo, poderia aproveitar a influencia dos concertos para vender meias.
O gerente torceu o nariz; mas aceitou, não só pela influência do meu amigo, mas também porque eu havia tirado o segundo prêmio no texto de propaganda para essas meias. Sua marca era Ilusão. E minha frase tinha sido: “Quem não acaricia, hoje, uma meia Ilusão?”. Mas vender meias acabava se mostrando também muito difícil para mim, e eu esperava que de um momento a outro me chamassem da matriz e me suspendessem as diárias. A principio eu fiz um grande esforço. (A venda de meias não tinha nada a ver com meus concertos: e eu tinha de me entender com ninguém menos que os comerciantes.) Quando encontrava velhos conhecidos, dizia-lhes que a representação de uma grande casa comercial me permitia viajar com independência e não obrigava meus amigos a patrocinar concertos quando não fossem oportunos. Meus concertos jamais foram oportunos. Nessa mesma cidade me apresentaram pretextos pouco comuns: o presidente do Clube estava de mau humor porque eu o havia feito levantar-se da mesa de jogo, e me disse que uma pessoa que tinha muitos parentes morrera e que metade da cidade estava de luto. Então eu lhe dizia: ficarei uns dias para ver se surge naturalmente o desejo de um concerto; mas lhes provocava má impressão o fato de que um concertista vendesse meias. E quanto a colocar meias, toda manhã eu me animava e toda noite desanimava: era como me vestir e me despir. Custava- me renovar a cada instante certa força grosseira necessária para insistir junto a comerciantes sempre apressados. Mas agora já havia me resignado a esperar que me despedissem e tratava de aproveitar enquanto duravam as diárias.
De repente reparei que entrara no café um cego com uma harpa; eu o havia visto de tarde. Decidi ir embora antes de perder a vontade de aproveitar a vida; mas ao passar perto dele tornei a vê-lo com um chapéu de abas mal dobradas e os olhos rodopiando na direção do céu, enquanto fazia esforço para tocar; algumas cordas da harpa tinham sido remendadas, e a madeira clara do instrumento e todo o homem estavam cobertos por uma gordura que eu nunca tinha visto. Pensei em mim e fiquei deprimido.
Quando acendi a luz no meu quarto do hotel, vi minha cama daqueles dias. Estava descoberta. e as varinhas niqueladas me faziam pensar numa jovem doida que se entregasse a qualquer um. Depois de deitado apaguei a luz, mas não conseguia dormir. Torne: a acende-la e a lâmpada surgiu debaixo da cúpula como o globo de um olho sob uma pálpebra escura. Apaguei-a em seguida e quis pensar no negocio das meias, mas por um momenta continuei vendo, no escuro, a cúpula. Tudo isso aconteceu no tempo que um mata-borrão levaria para absorver a tinta derramada.
No outro dia de manha, depois de me vestir e me reanimar, fui ver se o trem da noite tinha me trazido más noticias. Não recebi carta nem telegrama. Decidi percorrer o comercio de uma das principais ruas. Na ponta dessa rua havia uma loja. Ao entrar, me vi num cômodo repleto de trapos e bagatelas até o teto. Só havia um manequim, nu, de tecido vermelho, que tinha uma maçaneta preta no lugar da cabeça. Bati palmas e todos os trapos logo absorveram o ruído. Atrás do manequim apareceu uma menina de uns dez anos que me disse, com maus modos:
– O que quer?
– O dono está?
– Não tem dono. Quem manda aqui e mamãe.
– Ela não está?
– Foi na dona Vicenta e volta logo.
Apareceu um menino de uns três anos. Agarrou-se na saia da irmã e por um momento ficaram em fila o manequim, a menina e o menino. Eu disse:
– Vou esperar.
A menina não respondeu nada. Sentei-me num caixote e comecei a brincar com o irmãozinho. Lembrei que tinha um chocolatinho dos que havia comprado no cinema e o tirei do bolso. O garotinho aproximou-se rapidamente e o tomou de mim. Então pus as mãos no rosto e fingi chorar aos soluços. Tinha tapado os olhos: abri pequenas frestas no escuro que havia no oco de minhas mãos e comecei a olhar para o menino. Ele me observava imóvel e eu chorava cada vez mais alto. Por fim ele se decidiu a por o chocolatinho no meu joelho. Então ri e o devolvi a ele. Mas ao mesmo tempo me dei conta de que eu estava com a cara molhada.
Saí de lá antes que a dona chegasse. Ao passar por uma joalheria me olhei num espelho; meus olhos estavam secos. Depois de almoçar estive no café; mas vi o cego da harpa com os olhos revirando para cima e sai em seguida. Então fui a uma praça solitária num lugar despovoado e me sentei num banco em frente a um muro com uma trepadeira. Ali pensei nas lágrimas da manha. Estava intrigado com o fato de que houvessem saído de mim; e quis estar só, como se me escondesse para fazer andar um brinquedo que, sem querer, tinha feito funcionar poucas horas antes. Tinha um pouco de vergonha, perante mim mesmo, de ter me posto a chorar sem pretexto, embora fosse de brincadeira, como havia feito de manha. Franzi o nariz e os olhos, com um pouco de timidez, para ver se me saiam as lágrimas: mas depois pensei que não deveria buscar o pranto como quem torce um pano de chão, teria de me entregar ao fato com mais sinceridade; então pus as mãos na cara. Aquela atitude teve algo de serio; me comovi inesperadamente, senti certa pena de mim mesmo e as lágrimas começaram a sair.
Fazia um tempo que eu estava chorando quando vi que de cima do muro vinham descendo duas pernas de mulher com meias Ilusão semi-brilhantes. E em seguida notei uma saia verde que se confundia com a trepadeira. Eu não tinha ouvido a escada ser colocada. A mulher estava no último degrau e eu enxuguei rapidamente as lágrimas, mas tornei a por a cabeça baixa, como se estivesse pensativo. A mulher aproximou-se com lentidão e sentou-se do meu lado. Ela tinha descido dando-me as costas e eu não sabia como era sua cara. Por fim me disse:
– O que você tem? Sou uma pessoa em quem você pode confiar...
Transcorreram alguns instantes. Franzi o cenho como que para me esconder e continuar esperando. Nunca havia feito esse gesto e minhas sobrancelhas tremiam. Depois fiz um movimento com a mão como que para começar a falar e ainda não me ocorrera nada que pudesse lhe dizer. Ela tomou de novo a palavra:
– Fale, simplesmente fale. Eu tive filhos e sei o que e penar.
Eu já havia imaginado um rosto para aquela mulher e aquela saia verde. Mas quando disse isso dos filhos e dos sofrimentos, imaginei-a outra. E ao mesmo tempo eu disse:
– A senhora precisa pensar um pouco.
Ela respondeu:
– Nesses assuntos, quanto mais se pensa, pior.
Imediatamente senti cair perto de mim um pano molhado.
Mas na verdade era uma grande folha de plátano carregada de umidade. Em pouco tempo ela voltou a perguntar:
– Diga-me a verdade, como ela é?
A principio achei graça. Depois me veio a lembrança uma namorada que eu tive. Quando eu não queria acompanha-la para caminhar pela beira de um riacho - onde ela havia passeado com o pai quando ele era vivo –, essa minha namorada chorava silenciosamente. Então, embora eu me chateasse em ter que ir sempre para o mesmo lado, condescendia. E pensando nisso me ocorreu dizer à mulher, que agora estava do meu lado:
– Ela era uma mulher que costumava chorar.
A mulher pôs as mãos grandes e meio avermelhadas sobre a saia verde e riu, enquanto me dizia:
– Vocês sempre acreditam nas lágrimas das mulheres.
Pensei nas minhas; senti-me um pouco desconcertado, levantei-me do banco e disse:
– Acho que a senhora está enganada. Mas da mesma forma agradeço seu consolo.
E fui embora sem olhar para ela.
No outro dia, quando a manhã já ia bastante adiantada, entrei numa das lojas mais importantes. O dono estendeu minhas meias no balcão e ficou acariciando-as com seus dedos quadrados um bom tempo. Parecia não ouvir as minhas palavras. Tinha as suíças encanecidas como se tivesse esquecido nelas o creme de barbear.
- Mas, companheiro, um homem tem de ter mais animo...
Então me levantei como que por efeito de uma mola; tirei as duas mãos do rosto e a terceira que tinha no ombro, e disse, com a cara ainda molhada:
– Mas se me faz bem! E tenho muito animo! O que acontece e que as vezes me da isso; e como uma lembrança...
Apesar da expectativa e do silencio que fizeram para minhas palavras, ouvi que uma mulher dizia:
– Ai! Esta chorando por uma lembrança...
Depois o dono anunciou:
– Senhoras, já passou.
Eu sorria e limpava o rosto. Em seguida o amontoado de gente se desfez e apareceu uma mulher pequenina, com olhos de louca, que me disse:
– Eu conheço o senhor. Me parece que o vi em outro lugar, e que o senhor estava agitado.
Pensei que ela teria me visto num concerto, sacudindo- me num final de programa, mas calei a boca. A conversa de todas as mulheres disparou e algumas começaram a ir embora. Ficou comigo a que me conhecia. E se aproximou outra, que me disse:
– Já sei que o senhor vende meias. Por acaso, eu e algumas amigas minhas...
O dono interveio:
– Nao se preocupe. senhora. (E, dirigindo-se a mim:) Venha hoje a tarde.
– Vou embora depois do almoço. Quer duas dúzias?
– Não, fico com meia dúzia...
– A firma não vende menos de uma...
Puxei a caderneta de vendas e comecei a preencher a folha do pedido, escrevendo contra o vidro de uma porta e sem me aproximar do dono. Estava rodeado de mulheres conversando alto. Eu tinha medo que o dono se arrependesse. Por fim assinou o pedido e eu sal junto aos demais.
Rapidamente se soube que me acontecia “aquilo” que a principio era como uma lembrança. Eu chorei noutras lojas e vendi mais meias que de costume. Quando já havia chorado em varias cidades, minhas vendas eram como as de qualquer outro vendedor.
Uma vez me mandaram chamar da matriz - eu já tinha chorado por todo o norte do pais eu esperava minha vez para falar com o gerente e ouvi do cômodo contiguo o que dizia outro vendedor:
– Eu faço o que posso, mas não vou começar a chorar para comprarem!
E a voz doentia do gerente lhe respondeu:
– E preciso fazer qualquer coisa, e também chorar para eles...
O vendedor interrompeu:
– Mas de mim não saem lágrimas!
E depois de um silencio, o gerente:
– Como e quem lhe disse?
– Isso mesmo! Tem um que chora aos jorros...
Passado um tempo, me chamaram e me fizeram chorar diante do gerente, dos chefes de seção e de outros empregados. No começo, quando o gerente me mandou entrar e as coisas ficaram mais claras, ele ria dolorosamente e lhe brotavam lágrimas. Pediu-me, com muito bons modos, uma demonstração e assim que concordei, entraram uns empregados que estavam atrás da porta. Fez-se muito alvoroço, e me pediram que ainda não chorasse. Atrás de um biombo, ouvi dizer:
– Rápido, que um dos vendedores vai chorar.
– E por que?
– E eu vou saber?!
Eu estava sentado ao lado do gerente, no seu grande escritório; tinham chamado um dos donos, mas ele não podia ir. Os rapazes não se calavam e um havia gritado: “Pensa na mamãezinha, assim você chora mais depressa”. Então eu disse ao gerente:
– Quando eles fizerem silencio, eu choro.
Ele, com sua voz de doente, os ameaçou e, depois de alguns instantes de relativo silencio, olhei a copa de uma arvore por uma janela - estávamos no primeiro andar -, pus as mãos no rosto e tratei de chorar. Tinha certo desgosto. Sempre que eu havia chorado, os demais ignoravam meus sentimentos, mas aquelas pessoas sabiam que eu choraria e isso me inibia. Quando por fim me vieram as lágrimas, tirei uma mão do rosto para pegar o lenço e para que vissem minha cara molhada. Uns riam e outros ficavam sérios; então sacudi o rosto violentamente e todos riram. Mas em seguida fizeram silencio e começaram a rir. Eu enxugava as lágrimas enquanto a voz de doente repetia: "Muito bem, muito bem". Talvez todos estivessem decepcionados. E eu me sentia como uma garrafa vazia e suja; queria reagir, estava de mau humor e com vontade de ser mau. Então cheguei ate o gerente e disse a ele:
– Não gostaria que nenhum deles utilizasse o mesmo procedimento para a venda de meias, e desejaria que a casa reconhecesse a minha... iniciativa, e que me desse exclusividade por algum tempo.
– Volte amanha e falaremos disso.
No outro dia o secretario já havia preparado o documento e lia: “A casa se compromete a não utilizar e a fazer respeitar o sistema de propaganda que consiste em chorar...”. Aqui os dois começaram a rir e o gerente disse que aquilo não estava bem. Enquanto redigiam o documento, fui passeando ate o balcão. Atrás dele havia uma moça que falou comigo olhando para mim, e os olhos pareciam pintados por dentro.
– Então, quer dizer que o senhor chora por gosto?
– É verdade.
– Então eu sei mais do que o senhor. O senhor mesmo não sabe que sofre por alguma coisa.
A principio eu fiquei pensativo e depois disse a ela:
– Olhe: não e que eu tenha descoberto a felicidade, mas sei me entender com minha desgraça e sou quase feliz.
Enquanto ia embora - o gerente estava me chamando - ainda pude ver o olhar dela: tinha-o posto em cima de mim como se tivesse deixado uma mão no meu ombro.
Quando voltei as vendas, estava numa cidade pequena. Era um dia triste e eu não tinha vontade de chorar. Queria ficar só, no meu quarto, ouvindo a chuva e pensando que a agua me separava de todo o mundo. Eu viajava escondido atrás de uma careta de lágrimas; mas o rosto não estava cansado.
De repente senti que alguém se aproximara perguntando- me:
- O que esta acontecendo?
Então eu, como um empregado que e surpreendido sem trabalhar, quis retomar minha tarefa e, pondo as mãos no rosto, comecei a soluçar.
Naquele ano, chorei até dezembro, deixei de chorar em janeiro e parte de fevereiro, comecei a chorar de novo depois do carnaval. Esse descanso me fez bem e tornei a chorar com vontade. Nesse meio tempo, eu havia estranhado o êxito das minhas lágrimas e nascera em mim um certo orgulho de chorar. Os vendedores eram muitos mais; mas um ator que representasse algo sem aviso prévio e convencesse o publico com prantos...
Naquele novo ano eu comecei a chorar pelo oeste e cheguei a uma cidade onde meus concertos fizeram sucesso; na segunda vez que lá estive. o publico havia me recebido com uma ovação carinhosa e prolongada: eu agradecia parado junto ao piano e não me deixavam me sentar para iniciar o concerto. Com certeza agora daria, pelo menos, uma audição. Chorei ali, pela primeira vez, no hotel mais luxuoso; foi na hora do almoço e num dia radiante. Já havia comido e tomado café quando. os cotovelos na mesa, cobri o rosto com as mãos. Em poucos instantes, aproximaram-se alguns amigos que eu tinha cumprimentado; deixei-os parados algum tempo e enquanto isso, uma pobre velha - que não sei de onde havia saído - sentou-se a minha mesa, e eu a olhava através dos dedos já molhados. Ela baixava a cabeça e não dizia nada; mas tinha uma cara tão triste que dava vontade de começar a chorar...
No dia em que dei meu primeiro concerto sentia certo nervosismo que me vinha do cansaço; estava na ultima obra da primeira parte do programa e toquei um dos movimentos com demasiada velocidade; já havia tentado me deter; mas fiquei mais desajeitado e não tinha equilíbrio suficiente nem força; não me restou outro recurso senão continuar; mas minhas mãos iam ficando cansadas, eu perdia nitidez, e me dei conta de que não chegaria ao final. Então, antes de pensa-lo, já havia tirado as mãos do teclado e as tinha na cara; era a primeira vez que chorava em cena.
A principio houve murmúrios de surpresa, e não sei por que alguém tentou aplaudir; mas outros vaiaram e eu me levantei. Tapava os olhos com uma mão e com a outra tateava o piano e tratava de sair de cena. Algumas mulheres gritaram pois julgaram que eu cairia na plateia; e eu já ia passar por uma porta do cenário quando alguém me gritou la do galinheiro:
– Crocodilooooo!
Ouvi risadas; mas fui para o camarim, lavei o rosto e apareci em seguida. e com as mãos frescas terminei a primeira parte. Ao final muitas pessoas vieram me cumprimentar e comentou-se essa coisa do “crocodilo”. Eu lhes dizia:
– Acho que quem me gritou isso tem razão: na verdade eu não sei por que choro; o choro vem e não tem remédio; talvez seja tão natural para mim quanto para o crocodilo. Enfim, também não sei por que chora o crocodilo.
Uma das pessoas que haviam me apresentado tinha a cabeça alongada; e como se penteava deixando o cabelo espetado, a cabeça fazia pensar numa escova. Outro da roda o apontou e me disse:
– O amigo aqui é medico. O que diz, doutor?
Fiquei pálido. Ele me olhou com olhos de investigador policial e me perguntou:
– Diga-me uma coisa: quando e que o senhor chora mais, de dia ou de noite?
Lembrei que nunca chorava de noite porque a essa hora não vendia, e respondi:
– Choro unicamente de dia.
Não me lembro das outras perguntas. Mas por fim me aconselhou:
– Não coma came. O senhor tem uma velha intoxicação.
Dali a poucos dias deram uma festa para mim no clube principal. Aluguei um fraque com colete branco impecável e enquanto me olhava no espelho, pensava: “Não dirão que este crocodilo não tem barriga branca. Caramba! Acho que esse bicho tem uma papada como a minha. E é voraz...”.
Ao chegar a Clube encontrei pouca gente. Então percebi que havia chegado cedo demais. Vi um senhor da comissão e disse-lhe que desejava trabalhar um pouco no piano. Desse modo dissimularia o fato de ter me adiantado. Passamos por uma cortina verde e me vi numa grande sala vazia e preparada para o baile. Diante da cortina e no outro extremo da sala estava o piano. Acompanharam-me ate lá o senhor da comissão e o porteiro; enquanto abriam o piano, o senhor - que tinha sobrancelhas pretas e cabelo branco - me dizia que a festa teria muito sucesso, que o diretor do ginásio - amigo meu - faria um discurso muito bonito e que ele já o tinha escutado; procurou lembrar-se de algumas frases, mas depois decidiu que seria melhor não me dizer nada. Pus as mãos no piano e eles se foram. Enquanto tocava, pensei: “Esta noite não vou chorar... ficaria muito feio... o diretor do ginásio e capaz de desejar que eu chore para demonstrar o sucesso do discurso dele. Mas eu não vou chorar por nada deste mundo”.
Fazia tempo que via a cortina verde se mexer; e de repente saiu do meio de suas pregas uma moça alta e de cabelos soltos; fechou os olhos como que para enxergar de longe; olhava para mim e vinha em minha direção, trazendo algo na mão; atrás dela apareceu uma criada que a alcançou e começou a lhe falar de perto. Aproveitei para olhar suas pernas e notei que ela havia posto uma meia só; a cada instante, fazia movimentos que indicavam o fim da conversa; mas a criada continuava falando com ela e as duas voltavam ao assunto como a uma guloseima. Eu continuei tocando o piano e enquanto elas conversavam tive tempo de pensar: “O que será que ela quer com a meia assim?... Vai ver que não ficou boa, e sabendo que sou vendedor...? E logo agora, nesta festa!”.
Veio, por fim, e me disse:
– Com licença, senhor, gostaria que assinasse uma meia para mim.
Primeiro eu ri; e em seguida, tratei de falar com ela como se já tivessem me feito esse pedido outra vezes. Comecei a explicar que a meia e que não resistia a caneta; eu já havia solucionado isso assinando uma etiqueta que depois a interessada colava na meia. Mas enquanto dava essas explicações, demonstrava a experiência de um antigo comerciante que depois se teria feito pianista. A angustia já começava a me invadir quando ela se sentou no banco do piano e, ao vestir a meia, me dizia:
– E uma pena que o senhor tenha me saído tão mentiroso... devia ter me agradecido pela ideia.
Eu havia posto os olhos nas suas pernas; depois os tirei e minhas ideias travaram. Fez-se um silencio de mal-estar. Ela, com a cabeça inclinada, deixava escorrer o cabelo; e debaixo daquela cortina loira as mãos se moviam como se fugissem. Eu continuava calado e ela não terminava nunca. Por fim, a perna fez um movimento de dança, e no pé, em ponta, calçou o sapato na hora de se levantar, as mãos recolheram o cabelo, ela me fez um cumprimento silencioso e foi embora.
Quando começou a entrar gente, fui para o bar. Pensei em pedir uísque. 0 garçom m enumerou muitas marcas, e como eu não conhecia nenhuma, disse a ele:
– Dê-me dessa ultima.
Subi num banco do balcão e procurei não enrugar a cauda do fraque. Em vez de crocodilo, devia estar parecendo um papagaio negro. Estava calado, pensava na moça da meia, e a lembrança de suas mãos apressadas me deixava transtornado.
Senti-me levado para o salão pelo diretor do ginásio. Suspendeu-se o baile por um momento e ele fez seu discurso. Pronunciou varias vezes as palavras “avatares” e “mister”. Quando aplaudiram, levantei os bravos como um regente de orquestra antes de “atacar” e, assim que fizeram silencio, eu disse:
– Agora que devia chorar, não consigo. Também não consigo falar e não quero deixar separados por mais tempo os que hão de se juntar para dançar. - E terminei fazendo um salamaleque.
Depois de minha volta, abracei o diretor do ginásio; por cima de seu ombro via a moça da meia. Ela sorriu para mim, levantou a saia do lado esquerdo e me mostrou o lugar da meia onde havia colado um pequeno retrato meu recortado de um programa. Sorri, cheio de alegria, mas disse uma idiotice que todo mundo repetiu:
– Muito bem, muito bem, a perna do coração.
No entanto, me senti feliz e fui ao bar. Subi de novo num banco e o garçom me perguntou:
– Uísque Cavalo Branco?
E eu, com um gesto de mosqueteiro puxando a espada:
– Cavalo Branco ou Papagaio Negro.
Em pouco tempo veio um rapaz com uma mão escondida nas costas:
– Pocho me disse que o senhor não se importa que o chamem de “Crocodilo”.
– E verdade, eu gosto.
Então ele tirou a mão das costas e me mostrou uma caricatura. Era um grande crocodilo, muito parecido comigo; tinha uma pequena mão na boca, em que os dentes eram o teclado; e na outra mão trazia uma meia dependurada; com ela enxugava as lágrimas.
Quando os amigos me levaram para o hotel, eu pensava em tudo o que havia chorado naquele pais e sentia um prazer maligno em tê-los enganado; considerava-me um burguês da angustia. Mas quando fiquei só no meu quarto, me ocorreu algo inesperado: primeiro me olhei no espelho; tinha a caricatura na mão e olhava alternadamente para o crocodilo e para o meu rosto. De repente, e sem ter me proposto imitar o crocodilo, minha cara, por conta própria, se pôs a chorar. Eu a olhava como a uma irmã de quem ignorava a desgraça. Tinha rugas novas e por entre elas corriam as lágrimas. Apaguei a luz e me deitei. Minha cara continuava chorando; as lágrimas resvalavam pelo nariz e caiam pelo travesseiro.
Fazia algum tempo que eu já não tinha essa preocupação: consegui entrar numa grande firma de meias para mulheres. Havia pensado que as meias eram mais necessárias que os concertos, e que seria mais fácil coloca-las. Um amigo meu disse ao gerente que eu tinha muitas relações femininas, porque era concertista de piano e percorrera muitas cidades: logo, poderia aproveitar a influencia dos concertos para vender meias.
O gerente torceu o nariz; mas aceitou, não só pela influência do meu amigo, mas também porque eu havia tirado o segundo prêmio no texto de propaganda para essas meias. Sua marca era Ilusão. E minha frase tinha sido: “Quem não acaricia, hoje, uma meia Ilusão?”. Mas vender meias acabava se mostrando também muito difícil para mim, e eu esperava que de um momento a outro me chamassem da matriz e me suspendessem as diárias. A principio eu fiz um grande esforço. (A venda de meias não tinha nada a ver com meus concertos: e eu tinha de me entender com ninguém menos que os comerciantes.) Quando encontrava velhos conhecidos, dizia-lhes que a representação de uma grande casa comercial me permitia viajar com independência e não obrigava meus amigos a patrocinar concertos quando não fossem oportunos. Meus concertos jamais foram oportunos. Nessa mesma cidade me apresentaram pretextos pouco comuns: o presidente do Clube estava de mau humor porque eu o havia feito levantar-se da mesa de jogo, e me disse que uma pessoa que tinha muitos parentes morrera e que metade da cidade estava de luto. Então eu lhe dizia: ficarei uns dias para ver se surge naturalmente o desejo de um concerto; mas lhes provocava má impressão o fato de que um concertista vendesse meias. E quanto a colocar meias, toda manhã eu me animava e toda noite desanimava: era como me vestir e me despir. Custava- me renovar a cada instante certa força grosseira necessária para insistir junto a comerciantes sempre apressados. Mas agora já havia me resignado a esperar que me despedissem e tratava de aproveitar enquanto duravam as diárias.
De repente reparei que entrara no café um cego com uma harpa; eu o havia visto de tarde. Decidi ir embora antes de perder a vontade de aproveitar a vida; mas ao passar perto dele tornei a vê-lo com um chapéu de abas mal dobradas e os olhos rodopiando na direção do céu, enquanto fazia esforço para tocar; algumas cordas da harpa tinham sido remendadas, e a madeira clara do instrumento e todo o homem estavam cobertos por uma gordura que eu nunca tinha visto. Pensei em mim e fiquei deprimido.
Quando acendi a luz no meu quarto do hotel, vi minha cama daqueles dias. Estava descoberta. e as varinhas niqueladas me faziam pensar numa jovem doida que se entregasse a qualquer um. Depois de deitado apaguei a luz, mas não conseguia dormir. Torne: a acende-la e a lâmpada surgiu debaixo da cúpula como o globo de um olho sob uma pálpebra escura. Apaguei-a em seguida e quis pensar no negocio das meias, mas por um momenta continuei vendo, no escuro, a cúpula. Tudo isso aconteceu no tempo que um mata-borrão levaria para absorver a tinta derramada.
No outro dia de manha, depois de me vestir e me reanimar, fui ver se o trem da noite tinha me trazido más noticias. Não recebi carta nem telegrama. Decidi percorrer o comercio de uma das principais ruas. Na ponta dessa rua havia uma loja. Ao entrar, me vi num cômodo repleto de trapos e bagatelas até o teto. Só havia um manequim, nu, de tecido vermelho, que tinha uma maçaneta preta no lugar da cabeça. Bati palmas e todos os trapos logo absorveram o ruído. Atrás do manequim apareceu uma menina de uns dez anos que me disse, com maus modos:
– O que quer?
– O dono está?
– Não tem dono. Quem manda aqui e mamãe.
– Ela não está?
– Foi na dona Vicenta e volta logo.
Apareceu um menino de uns três anos. Agarrou-se na saia da irmã e por um momento ficaram em fila o manequim, a menina e o menino. Eu disse:
– Vou esperar.
A menina não respondeu nada. Sentei-me num caixote e comecei a brincar com o irmãozinho. Lembrei que tinha um chocolatinho dos que havia comprado no cinema e o tirei do bolso. O garotinho aproximou-se rapidamente e o tomou de mim. Então pus as mãos no rosto e fingi chorar aos soluços. Tinha tapado os olhos: abri pequenas frestas no escuro que havia no oco de minhas mãos e comecei a olhar para o menino. Ele me observava imóvel e eu chorava cada vez mais alto. Por fim ele se decidiu a por o chocolatinho no meu joelho. Então ri e o devolvi a ele. Mas ao mesmo tempo me dei conta de que eu estava com a cara molhada.
Saí de lá antes que a dona chegasse. Ao passar por uma joalheria me olhei num espelho; meus olhos estavam secos. Depois de almoçar estive no café; mas vi o cego da harpa com os olhos revirando para cima e sai em seguida. Então fui a uma praça solitária num lugar despovoado e me sentei num banco em frente a um muro com uma trepadeira. Ali pensei nas lágrimas da manha. Estava intrigado com o fato de que houvessem saído de mim; e quis estar só, como se me escondesse para fazer andar um brinquedo que, sem querer, tinha feito funcionar poucas horas antes. Tinha um pouco de vergonha, perante mim mesmo, de ter me posto a chorar sem pretexto, embora fosse de brincadeira, como havia feito de manha. Franzi o nariz e os olhos, com um pouco de timidez, para ver se me saiam as lágrimas: mas depois pensei que não deveria buscar o pranto como quem torce um pano de chão, teria de me entregar ao fato com mais sinceridade; então pus as mãos na cara. Aquela atitude teve algo de serio; me comovi inesperadamente, senti certa pena de mim mesmo e as lágrimas começaram a sair.
Fazia um tempo que eu estava chorando quando vi que de cima do muro vinham descendo duas pernas de mulher com meias Ilusão semi-brilhantes. E em seguida notei uma saia verde que se confundia com a trepadeira. Eu não tinha ouvido a escada ser colocada. A mulher estava no último degrau e eu enxuguei rapidamente as lágrimas, mas tornei a por a cabeça baixa, como se estivesse pensativo. A mulher aproximou-se com lentidão e sentou-se do meu lado. Ela tinha descido dando-me as costas e eu não sabia como era sua cara. Por fim me disse:
– O que você tem? Sou uma pessoa em quem você pode confiar...
Transcorreram alguns instantes. Franzi o cenho como que para me esconder e continuar esperando. Nunca havia feito esse gesto e minhas sobrancelhas tremiam. Depois fiz um movimento com a mão como que para começar a falar e ainda não me ocorrera nada que pudesse lhe dizer. Ela tomou de novo a palavra:
– Fale, simplesmente fale. Eu tive filhos e sei o que e penar.
Eu já havia imaginado um rosto para aquela mulher e aquela saia verde. Mas quando disse isso dos filhos e dos sofrimentos, imaginei-a outra. E ao mesmo tempo eu disse:
– A senhora precisa pensar um pouco.
Ela respondeu:
– Nesses assuntos, quanto mais se pensa, pior.
Imediatamente senti cair perto de mim um pano molhado.
Mas na verdade era uma grande folha de plátano carregada de umidade. Em pouco tempo ela voltou a perguntar:
– Diga-me a verdade, como ela é?
A principio achei graça. Depois me veio a lembrança uma namorada que eu tive. Quando eu não queria acompanha-la para caminhar pela beira de um riacho - onde ela havia passeado com o pai quando ele era vivo –, essa minha namorada chorava silenciosamente. Então, embora eu me chateasse em ter que ir sempre para o mesmo lado, condescendia. E pensando nisso me ocorreu dizer à mulher, que agora estava do meu lado:
– Ela era uma mulher que costumava chorar.
A mulher pôs as mãos grandes e meio avermelhadas sobre a saia verde e riu, enquanto me dizia:
– Vocês sempre acreditam nas lágrimas das mulheres.
Pensei nas minhas; senti-me um pouco desconcertado, levantei-me do banco e disse:
– Acho que a senhora está enganada. Mas da mesma forma agradeço seu consolo.
E fui embora sem olhar para ela.
No outro dia, quando a manhã já ia bastante adiantada, entrei numa das lojas mais importantes. O dono estendeu minhas meias no balcão e ficou acariciando-as com seus dedos quadrados um bom tempo. Parecia não ouvir as minhas palavras. Tinha as suíças encanecidas como se tivesse esquecido nelas o creme de barbear.
Nesse instante entraram varias mulheres; e ele, antes de ir, fez que não compraria, com um dos dedos que tinham acariciado as meias. Eu fiquei quieto e pensei em insistir; talvez pudesse me entender com ele, mais tarde, quando não houvesse gente: então lhe falaria de uma erva que, dissolvida n’água lhe tingiria as suíças. As pessoas não iam embora e eu tinha uma impaciência que não era costumeira: queria sair daquela loja, daquela cidade e daquela vida. Pensei em meu pais e em muitas coisas mais. E de repente, quando já estava me tranquilizando, tive uma ideia: “O que aconteceria se eu começasse a chorar aqui, diante dessa gente toda?”. Aquilo me pareceu muito violento; mas eu sentia o desejo, desde algum tempo, de tatear o mundo com algum fato não costumeiro; além disso, eu devia demonstrar para mim mesmo que era capaz de uma grande violência. E antes de me arrepender, sentei-me numa cadeira que estava recostada no balcão; e, rodeado de gente, pus as mãos na cara, e comecei a fazer barulho de soluços. Quase simultaneamente uma mulher deu um grito e disse: “Um homem esta chorando”. E depois ouvi o alvoroço e pedaços de conversa: “Não se aproxime, menina”... “Pode ter recebido alguma má noticia”... “O trem acabou de chegar e ele perdeu a baldeação”... “Pode ter recebido a noticia por telegrama”... Por entre os dedos vi uma gorda que dizia: “E preciso ver como esta o mundo. Se meus filhos não viessem me ver, eu também estaria chorando”. No começo fiquei desesperado porque as lágrimas não me vinham, e até pensei que tomariam como uma trapaça e me levariam preso. Mas a angustia e a força tremenda que fiz me congestionaram e as primeiras lágrimas foram possíveis. Senti uma mão pesada pousar em meu ombro e ao ouvir a voz do dono reconheci os dedos que haviam acariciado as meias. Ele dizia:
- Mas, companheiro, um homem tem de ter mais animo...
Então me levantei como que por efeito de uma mola; tirei as duas mãos do rosto e a terceira que tinha no ombro, e disse, com a cara ainda molhada:
– Mas se me faz bem! E tenho muito animo! O que acontece e que as vezes me da isso; e como uma lembrança...
Apesar da expectativa e do silencio que fizeram para minhas palavras, ouvi que uma mulher dizia:
– Ai! Esta chorando por uma lembrança...
Depois o dono anunciou:
– Senhoras, já passou.
Eu sorria e limpava o rosto. Em seguida o amontoado de gente se desfez e apareceu uma mulher pequenina, com olhos de louca, que me disse:
– Eu conheço o senhor. Me parece que o vi em outro lugar, e que o senhor estava agitado.
Pensei que ela teria me visto num concerto, sacudindo- me num final de programa, mas calei a boca. A conversa de todas as mulheres disparou e algumas começaram a ir embora. Ficou comigo a que me conhecia. E se aproximou outra, que me disse:
– Já sei que o senhor vende meias. Por acaso, eu e algumas amigas minhas...
O dono interveio:
– Nao se preocupe. senhora. (E, dirigindo-se a mim:) Venha hoje a tarde.
– Vou embora depois do almoço. Quer duas dúzias?
– Não, fico com meia dúzia...
– A firma não vende menos de uma...
Puxei a caderneta de vendas e comecei a preencher a folha do pedido, escrevendo contra o vidro de uma porta e sem me aproximar do dono. Estava rodeado de mulheres conversando alto. Eu tinha medo que o dono se arrependesse. Por fim assinou o pedido e eu sal junto aos demais.
Rapidamente se soube que me acontecia “aquilo” que a principio era como uma lembrança. Eu chorei noutras lojas e vendi mais meias que de costume. Quando já havia chorado em varias cidades, minhas vendas eram como as de qualquer outro vendedor.
Uma vez me mandaram chamar da matriz - eu já tinha chorado por todo o norte do pais eu esperava minha vez para falar com o gerente e ouvi do cômodo contiguo o que dizia outro vendedor:
– Eu faço o que posso, mas não vou começar a chorar para comprarem!
E a voz doentia do gerente lhe respondeu:
– E preciso fazer qualquer coisa, e também chorar para eles...
O vendedor interrompeu:
– Mas de mim não saem lágrimas!
E depois de um silencio, o gerente:
– Como e quem lhe disse?
– Isso mesmo! Tem um que chora aos jorros...
A voz doentia começou a rir com esforço e fazendo intervalos de tosse. Depois ouvi murmúrios e passos se afastando.
Passado um tempo, me chamaram e me fizeram chorar diante do gerente, dos chefes de seção e de outros empregados. No começo, quando o gerente me mandou entrar e as coisas ficaram mais claras, ele ria dolorosamente e lhe brotavam lágrimas. Pediu-me, com muito bons modos, uma demonstração e assim que concordei, entraram uns empregados que estavam atrás da porta. Fez-se muito alvoroço, e me pediram que ainda não chorasse. Atrás de um biombo, ouvi dizer:
– Rápido, que um dos vendedores vai chorar.
– E por que?
– E eu vou saber?!
Eu estava sentado ao lado do gerente, no seu grande escritório; tinham chamado um dos donos, mas ele não podia ir. Os rapazes não se calavam e um havia gritado: “Pensa na mamãezinha, assim você chora mais depressa”. Então eu disse ao gerente:
– Quando eles fizerem silencio, eu choro.
Ele, com sua voz de doente, os ameaçou e, depois de alguns instantes de relativo silencio, olhei a copa de uma arvore por uma janela - estávamos no primeiro andar -, pus as mãos no rosto e tratei de chorar. Tinha certo desgosto. Sempre que eu havia chorado, os demais ignoravam meus sentimentos, mas aquelas pessoas sabiam que eu choraria e isso me inibia. Quando por fim me vieram as lágrimas, tirei uma mão do rosto para pegar o lenço e para que vissem minha cara molhada. Uns riam e outros ficavam sérios; então sacudi o rosto violentamente e todos riram. Mas em seguida fizeram silencio e começaram a rir. Eu enxugava as lágrimas enquanto a voz de doente repetia: "Muito bem, muito bem". Talvez todos estivessem decepcionados. E eu me sentia como uma garrafa vazia e suja; queria reagir, estava de mau humor e com vontade de ser mau. Então cheguei ate o gerente e disse a ele:
– Não gostaria que nenhum deles utilizasse o mesmo procedimento para a venda de meias, e desejaria que a casa reconhecesse a minha... iniciativa, e que me desse exclusividade por algum tempo.
– Volte amanha e falaremos disso.
No outro dia o secretario já havia preparado o documento e lia: “A casa se compromete a não utilizar e a fazer respeitar o sistema de propaganda que consiste em chorar...”. Aqui os dois começaram a rir e o gerente disse que aquilo não estava bem. Enquanto redigiam o documento, fui passeando ate o balcão. Atrás dele havia uma moça que falou comigo olhando para mim, e os olhos pareciam pintados por dentro.
– Então, quer dizer que o senhor chora por gosto?
– É verdade.
– Então eu sei mais do que o senhor. O senhor mesmo não sabe que sofre por alguma coisa.
A principio eu fiquei pensativo e depois disse a ela:
– Olhe: não e que eu tenha descoberto a felicidade, mas sei me entender com minha desgraça e sou quase feliz.
Enquanto ia embora - o gerente estava me chamando - ainda pude ver o olhar dela: tinha-o posto em cima de mim como se tivesse deixado uma mão no meu ombro.
Quando voltei as vendas, estava numa cidade pequena. Era um dia triste e eu não tinha vontade de chorar. Queria ficar só, no meu quarto, ouvindo a chuva e pensando que a agua me separava de todo o mundo. Eu viajava escondido atrás de uma careta de lágrimas; mas o rosto não estava cansado.
De repente senti que alguém se aproximara perguntando- me:
- O que esta acontecendo?
Então eu, como um empregado que e surpreendido sem trabalhar, quis retomar minha tarefa e, pondo as mãos no rosto, comecei a soluçar.
Naquele ano, chorei até dezembro, deixei de chorar em janeiro e parte de fevereiro, comecei a chorar de novo depois do carnaval. Esse descanso me fez bem e tornei a chorar com vontade. Nesse meio tempo, eu havia estranhado o êxito das minhas lágrimas e nascera em mim um certo orgulho de chorar. Os vendedores eram muitos mais; mas um ator que representasse algo sem aviso prévio e convencesse o publico com prantos...
Naquele novo ano eu comecei a chorar pelo oeste e cheguei a uma cidade onde meus concertos fizeram sucesso; na segunda vez que lá estive. o publico havia me recebido com uma ovação carinhosa e prolongada: eu agradecia parado junto ao piano e não me deixavam me sentar para iniciar o concerto. Com certeza agora daria, pelo menos, uma audição. Chorei ali, pela primeira vez, no hotel mais luxuoso; foi na hora do almoço e num dia radiante. Já havia comido e tomado café quando. os cotovelos na mesa, cobri o rosto com as mãos. Em poucos instantes, aproximaram-se alguns amigos que eu tinha cumprimentado; deixei-os parados algum tempo e enquanto isso, uma pobre velha - que não sei de onde havia saído - sentou-se a minha mesa, e eu a olhava através dos dedos já molhados. Ela baixava a cabeça e não dizia nada; mas tinha uma cara tão triste que dava vontade de começar a chorar...
No dia em que dei meu primeiro concerto sentia certo nervosismo que me vinha do cansaço; estava na ultima obra da primeira parte do programa e toquei um dos movimentos com demasiada velocidade; já havia tentado me deter; mas fiquei mais desajeitado e não tinha equilíbrio suficiente nem força; não me restou outro recurso senão continuar; mas minhas mãos iam ficando cansadas, eu perdia nitidez, e me dei conta de que não chegaria ao final. Então, antes de pensa-lo, já havia tirado as mãos do teclado e as tinha na cara; era a primeira vez que chorava em cena.
A principio houve murmúrios de surpresa, e não sei por que alguém tentou aplaudir; mas outros vaiaram e eu me levantei. Tapava os olhos com uma mão e com a outra tateava o piano e tratava de sair de cena. Algumas mulheres gritaram pois julgaram que eu cairia na plateia; e eu já ia passar por uma porta do cenário quando alguém me gritou la do galinheiro:
– Crocodilooooo!
Ouvi risadas; mas fui para o camarim, lavei o rosto e apareci em seguida. e com as mãos frescas terminei a primeira parte. Ao final muitas pessoas vieram me cumprimentar e comentou-se essa coisa do “crocodilo”. Eu lhes dizia:
– Acho que quem me gritou isso tem razão: na verdade eu não sei por que choro; o choro vem e não tem remédio; talvez seja tão natural para mim quanto para o crocodilo. Enfim, também não sei por que chora o crocodilo.
Uma das pessoas que haviam me apresentado tinha a cabeça alongada; e como se penteava deixando o cabelo espetado, a cabeça fazia pensar numa escova. Outro da roda o apontou e me disse:
– O amigo aqui é medico. O que diz, doutor?
Fiquei pálido. Ele me olhou com olhos de investigador policial e me perguntou:
– Diga-me uma coisa: quando e que o senhor chora mais, de dia ou de noite?
Lembrei que nunca chorava de noite porque a essa hora não vendia, e respondi:
– Choro unicamente de dia.
Não me lembro das outras perguntas. Mas por fim me aconselhou:
– Não coma came. O senhor tem uma velha intoxicação.
Dali a poucos dias deram uma festa para mim no clube principal. Aluguei um fraque com colete branco impecável e enquanto me olhava no espelho, pensava: “Não dirão que este crocodilo não tem barriga branca. Caramba! Acho que esse bicho tem uma papada como a minha. E é voraz...”.
Ao chegar a Clube encontrei pouca gente. Então percebi que havia chegado cedo demais. Vi um senhor da comissão e disse-lhe que desejava trabalhar um pouco no piano. Desse modo dissimularia o fato de ter me adiantado. Passamos por uma cortina verde e me vi numa grande sala vazia e preparada para o baile. Diante da cortina e no outro extremo da sala estava o piano. Acompanharam-me ate lá o senhor da comissão e o porteiro; enquanto abriam o piano, o senhor - que tinha sobrancelhas pretas e cabelo branco - me dizia que a festa teria muito sucesso, que o diretor do ginásio - amigo meu - faria um discurso muito bonito e que ele já o tinha escutado; procurou lembrar-se de algumas frases, mas depois decidiu que seria melhor não me dizer nada. Pus as mãos no piano e eles se foram. Enquanto tocava, pensei: “Esta noite não vou chorar... ficaria muito feio... o diretor do ginásio e capaz de desejar que eu chore para demonstrar o sucesso do discurso dele. Mas eu não vou chorar por nada deste mundo”.
Fazia tempo que via a cortina verde se mexer; e de repente saiu do meio de suas pregas uma moça alta e de cabelos soltos; fechou os olhos como que para enxergar de longe; olhava para mim e vinha em minha direção, trazendo algo na mão; atrás dela apareceu uma criada que a alcançou e começou a lhe falar de perto. Aproveitei para olhar suas pernas e notei que ela havia posto uma meia só; a cada instante, fazia movimentos que indicavam o fim da conversa; mas a criada continuava falando com ela e as duas voltavam ao assunto como a uma guloseima. Eu continuei tocando o piano e enquanto elas conversavam tive tempo de pensar: “O que será que ela quer com a meia assim?... Vai ver que não ficou boa, e sabendo que sou vendedor...? E logo agora, nesta festa!”.
Veio, por fim, e me disse:
– Com licença, senhor, gostaria que assinasse uma meia para mim.
Primeiro eu ri; e em seguida, tratei de falar com ela como se já tivessem me feito esse pedido outra vezes. Comecei a explicar que a meia e que não resistia a caneta; eu já havia solucionado isso assinando uma etiqueta que depois a interessada colava na meia. Mas enquanto dava essas explicações, demonstrava a experiência de um antigo comerciante que depois se teria feito pianista. A angustia já começava a me invadir quando ela se sentou no banco do piano e, ao vestir a meia, me dizia:
– E uma pena que o senhor tenha me saído tão mentiroso... devia ter me agradecido pela ideia.
Eu havia posto os olhos nas suas pernas; depois os tirei e minhas ideias travaram. Fez-se um silencio de mal-estar. Ela, com a cabeça inclinada, deixava escorrer o cabelo; e debaixo daquela cortina loira as mãos se moviam como se fugissem. Eu continuava calado e ela não terminava nunca. Por fim, a perna fez um movimento de dança, e no pé, em ponta, calçou o sapato na hora de se levantar, as mãos recolheram o cabelo, ela me fez um cumprimento silencioso e foi embora.
Quando começou a entrar gente, fui para o bar. Pensei em pedir uísque. 0 garçom m enumerou muitas marcas, e como eu não conhecia nenhuma, disse a ele:
– Dê-me dessa ultima.
Subi num banco do balcão e procurei não enrugar a cauda do fraque. Em vez de crocodilo, devia estar parecendo um papagaio negro. Estava calado, pensava na moça da meia, e a lembrança de suas mãos apressadas me deixava transtornado.
Senti-me levado para o salão pelo diretor do ginásio. Suspendeu-se o baile por um momento e ele fez seu discurso. Pronunciou varias vezes as palavras “avatares” e “mister”. Quando aplaudiram, levantei os bravos como um regente de orquestra antes de “atacar” e, assim que fizeram silencio, eu disse:
– Agora que devia chorar, não consigo. Também não consigo falar e não quero deixar separados por mais tempo os que hão de se juntar para dançar. - E terminei fazendo um salamaleque.
Depois de minha volta, abracei o diretor do ginásio; por cima de seu ombro via a moça da meia. Ela sorriu para mim, levantou a saia do lado esquerdo e me mostrou o lugar da meia onde havia colado um pequeno retrato meu recortado de um programa. Sorri, cheio de alegria, mas disse uma idiotice que todo mundo repetiu:
– Muito bem, muito bem, a perna do coração.
No entanto, me senti feliz e fui ao bar. Subi de novo num banco e o garçom me perguntou:
– Uísque Cavalo Branco?
E eu, com um gesto de mosqueteiro puxando a espada:
– Cavalo Branco ou Papagaio Negro.
Em pouco tempo veio um rapaz com uma mão escondida nas costas:
– Pocho me disse que o senhor não se importa que o chamem de “Crocodilo”.
– E verdade, eu gosto.
Então ele tirou a mão das costas e me mostrou uma caricatura. Era um grande crocodilo, muito parecido comigo; tinha uma pequena mão na boca, em que os dentes eram o teclado; e na outra mão trazia uma meia dependurada; com ela enxugava as lágrimas.
Quando os amigos me levaram para o hotel, eu pensava em tudo o que havia chorado naquele pais e sentia um prazer maligno em tê-los enganado; considerava-me um burguês da angustia. Mas quando fiquei só no meu quarto, me ocorreu algo inesperado: primeiro me olhei no espelho; tinha a caricatura na mão e olhava alternadamente para o crocodilo e para o meu rosto. De repente, e sem ter me proposto imitar o crocodilo, minha cara, por conta própria, se pôs a chorar. Eu a olhava como a uma irmã de quem ignorava a desgraça. Tinha rugas novas e por entre elas corriam as lágrimas. Apaguei a luz e me deitei. Minha cara continuava chorando; as lágrimas resvalavam pelo nariz e caiam pelo travesseiro.
E assim adormeci. Quando despertei. senti a ardência das lágrimas que haviam secado. Quis me levantar e lavar os olhos: mas tive medo de que a cara começasse a chorar de novo. Fiquei quieto e girava os olhos na escuridão, como aquele cego que tocava harpa.
Felisberto Hernandez
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