quinta-feira, junho 25

Sugestão de quinta-feira


Parker Adderson, Filósofo

— Prisioneiro, seu nome?

— Vou perdê-lo amanhã de madrugada, não vale a pena escondê-lo. Sou Parker Adderson.

— Seu posto?

— Um tanto modesto; os oficiais superiores são demais importantes para se arriscarem missão perigosa de espião... Sou sargento.

— De que regimento?

— Queira desculpar-me. Minha resposta poderia dar uma ideia das forças que se acham na sua frente. Vim até suas fileiras para obter e não divulgar informações desta natureza.

— O sr. é muito sagaz.

— Se o general tiver paciência de esperar até amanhã, verá que não sou tal.

— Como sabe que vai morrer amanhã?

— É uma das solenidades tocantes da profissão.

O general pôs de lado essa dignidade própria de oficial superior e de renome, até o ponto de sorrir. Mas ninguém em seu poder ou fora de suas boas graças, teria aceito como feliz augúrio este sinal de aprovação. Não era benévolo nem contagioso. Não comunicava às pessoas que favorecia; nem ao espião capturado que o tinha provocado, nem ao guarda armado que acompanha o espião até a tenda, e que ficou um pouco de lado vigiando o seu prisioneiro à luz amarela da vela. Sorrir não fazia parte do dever deste guerreiro. Estava destacado por outro motivo. A conversa prosseguiu; era em rigor um julgamento fácil de adivinhar: pena capital.

— Confessa então que é espião... que entrou no meu acampamento disfarçado como está, na farda de soldado da Confederação, para obter informações, secretamente, sobre número e a disposição das minhas tropas?

— Principalmente acerca do número. A disposição delas eu já sabia e é bem triste.

O general sorriu mais uma vez. O guarda, com uma noção mais severa da sua responsabilidade, acentuou a austeridade no rosto, e ficou um pouco mais reto do que estava. O espião, girando o chapéu cinzento sobre o dedo polegar, examinava o ambiente lentamente. Era muito simples. A tenda era dessas comuns, de formato retangular, medindo oito pés por dez, iluminada pela luz de uma única vela de sebo, enfiada no cabo de uma baioneta, pregada numa mesa do pinho à qual se sentava o general, agora ocupado em escrever, aparentemente esquecido da visita involuntária. Um velho tapete esfarrapado cobria a terra. Uma velha mala de couro, uma cadeira e um rolo de cobertores era tudo quanto a tenda continha, porque, sob o comando do general Clavering, a simplicidade da Confederação tinha atingido alto desenvolvimento. Pendurado num prego enorme no mastro da tenda, havia um sabre comprido, uma pistola e cinto e — o que parecia absurdo — um facão. Era costume do general referir a esta arma pouco militar como sendo uma lembrança dos tempos pacíficos, quando paisano.
Era uma noite tempestuosa. A chuva torrencial caía em cascatas sobre a lona da tenda, fazendo efeito de um tambor surdo. Diante da forte ventania, a estrutura frágil se sacudia, abalava-se e esforçava-se para escapar das estacas que a prendiam.

O general acabou de escrever, dobrou a meia folha de papel e falou com o soldado que vigiava Adderson.

— Pronto Tassman... leva isto ao ajudante de ordens; depois volta aqui.

— E o prisioneiro, general? disse o soldado, fazendo continência com olhar interrogativo em direção do infeliz.

— Faça o que mando! — respondeu o oficial secamente.
O soldado, tomando a nota, inclinou-se e saiu da tenda.

General Clavering tornou o seu rosto para o espião, contemplou-o fixamente, talvez com piedade, e disse:

— É uma noite horrível, homem.

— Para mim é, general.

— Advinha o que escrevi?

— Uma coisa que vale a pena ler, com certeza. Talvez seja vaidade minha, mas atrevo-me a supor que meu nome está ali mencionado.

— Sim; a nota para uma ordem que vai ser lida às tropas sobra sua execução. Também uma instruções para guiar o comissário no arranjo dos pormenores desse ato.

— Espero, general, que o espetáculo será inteligentemente preparado, porque vou assisti-lo pessoalmente.

— O sr. não tem qualquer último pedido a fazer? Quer que chame um capelão, por exemplo?

— Não vejo como posso obter um descanso mais longo, privando dele os demais.

— Meu Deus, quer dizer que vai morrer só com pilherias nos lábios? Não sabe que a morte é coisa séria, homem?

— Como saber disso, se nunca morri na minha vida? Tenho ouvido falar que a morte é coisa séria mas nunca de quem já a experimentou...

O general ficou calado um momento. Este homem interessava-o, divertia-o até... um tipo jamais por ele observado.

— A morte, — disse ele — é ao menos, uma perda desta felicidade que temos, e de oportunidades para mais.

— Uma perda da qual nunca seremos conscientes pode ser suportada com calma, e portanto esperada sem pressentimento. O general deve ter observado, entre todos os mortos (que pelo seu caminho é hábito semear), que nenhum mostra sinais do arrependimento.

— Mas se a condição dos mortos não é pesarosa, em se ficando assim, o ato de morrer parece bastante desagradável para quem ainda não perdeu a faculdade de sentir.

— A dor é desagradável, não há dúvida. Nunca a sofro sem certo desconforto, mas quem vive mais tempo, mais se expõe a estas inconveniências. O que se chama morrer é simplesmente a última dor... Não existe realmente tal coisa "morrer". Suponhamos, por exemplo, que eu tentasse fugir. O general ergue o revólver tão prudentemente escondido sobre os joelhos, e...

O general corou que nem uma moça honesta, depois riu suavemente, revelando dentes muito brancos. Fez um leve aceno da cabeça e nada disse.

O espião continuou.

O general atira, e tenho dentro do estômago o que não engoli. Caio, mas não estou morto. Depois de meia hora de agonia, então sim. Mas a qualquer dado momento dessa meia hora, eu estaria ou vivo ou morto. Não há período transitório.

— Quando for fuzilado amanhã cedo, será a mesma coisa. Enquanto consciente, estarei vivo, quando morto, inconsciente. O destino parece ter arranjado o caso perfeitamente nos meus interesses — à maneira por que eu mesmo lhe teria ordenado. É tão simples, acrescentou ele sorrindo, que quase não vale a pena ser fuzilado...

Terminadas estas observações, houve um longo silêncio. O general sentado, impassível, olhava o rosto do espião, mas, na aparência, desatentamente. Era como se os seus olhos montassem guarda sobre o prisioneiro, enquanto o pensamento ocupava de outras coisas.

Em pouco, soltou um largo suspiro, e exclamou quase imperceptível:

— A morte deve ser horrível...

Assim falou este homem da morte.

— Era horrível aos nossos antepassados, disse o espião, gravemente, porque não tinham inteligência suficiente para separar a ideia do consciente da ideia das formas físicas por que é manifestado. Como uma ordem inferior de inteligência, a do macaco, por exemplo, que seria incapaz de imaginar uma casa sem moradores, e vendo uma cabana arruinada, imagina um habitante sofrendo. Para nós, é horrível porque herdamos a tendência de pensar assim, explicando a noção pelas teorias mais extravagantes e fantásticas de um outro mundo — da mesma maneira que os nomes de lugares dão origem às lendas, explicando-os. O comportamento desarrazoado se justifica por filosofias. O general pode enforcar-me, mas ali o seu poder termina... não me pode condenar ao céu.

O general parecia não ter ouvido. A conversa do espião tinha simplesmente levado seus pensamentos a uma direção diferente daquela em que chegavam as conclusões, independentes de sua vontade.

A tempestade tinha passado, e alguma coisa do espírito solene da noite infiltrou-se em suas reflexões, dando-lhe uma cor sombria de temor sobrenatural com talvez um elemento de presciência.

— Eu é que não queria morrer, disse ele, ao menos numa noite destas.

Foi interrompido pela entrada dum oficial do seu estado maior, capitão Hasterlinck, preboste-marechal. Voltou a si; o olhar distraído desapareceu de sua fisionomia.

— Capitão, disse ele, respondendo à continência do oficial, — este homem é o espião que foi capturado dentro das nossas fileiras com documentos comprometedores. Ele já confessou. Como está o tempo?

— A tempestade já passou e a lua está resplandecente.

— Bem. Leva uma fila de homens e conduze o prisioneiro ao campo para ser fuzilado...

Um grito de angústia escapou dos lábios do espião...

Atirou-se para a frente, esticou o pescoço, abriu bem os olhos, e crispou as mãos.

— Meu Deus! gritou roucamente, quase inarticuladamente. — O general enganou-se por certo: esquece de que não devo morrer até amanhã.

— Não falei nada de amanhã, respondeu o general friamente. Isso era presunção sua. Vai morrer agora.

— Mas general... peço... imploro que se lembre de uma coisa; — devo ser enforcado. Levará algum tempo para erigir o cadafalso... duas... uma hora. Todo espião é enforcado. Tenho direito sob a lei militar. Pelo amor dos seus, general, considere como é pouco...

— Capitão, cumpra com as minhas ordens.

O oficial puxou da espada e com os olhos cravados no prisioneiro, apontou silenciosamente para a abertura da tenda. O prisioneiro hesitava. O oficial, então, agarrou-o pelo colarinho e empurrou-o delicadamente para diante. Ao aproximar-se do mastro da tenda, o homem, frenético, deu um pulo e com agilidade felina, pegou no cabo do facão, arrancou-o da bainha, jogou o capitão de lado, e com a fúria de louco, pulou sobre o general, atirando-o ao chão, e caindo-lhe em cima. A mesa tinha virado, a vela apagou-se e os dois lutavam cegamente na escuridão. O preboste-marechal precipitou-se em auxílio do seu superior e lançou-se sobre as formas que se debatiam.

Blasfêmias e gritos inarticulados de dor saíram daquela charfurdia de membros e corpos; a tenda caiu sobre eles e, debaixo das dobras embaraçosas, a luta continuava. Cabo Tassman, voltando do seu recado e vagamente conjecturando a situação, jogou no chão a carabina e pegou na lona movediça, ao acaso, numa tentativa baldada de descobrir os homens embaixo, e o sentinela descarregou a carabina.

O tiro alarmou o acampamento. Os tambores rufavam e as cornetas tocaram, trazendo enxames de homens semivestidos ao luar, outros, vestindo-se e correndo, entravam em linha ao comando dos oficias.

Estava bem isso; assim os homens estavam organizados. Ficaram em posição de sentido, enquanto o estado maior do general e os homens da sua escolta, estabeleceram ordem na confusão. Ergueram a tenda caída e separaram os protagonistas esfalfados e sangrentos daquela estranha contenda.

Esfalfado, deveras, foi um — o capitão, que estava morto. O cabo do facão projetara-se-lhe na goela, e tinha sido tio fortemente empurrado que a sua extremidade ficou encravada debaixo do queixo, e a mão que desferira esse golpe, não conseguira remover a arma. Na mão do morto estava sua espada, agarrada com firmeza tal que desafiava a força dos vivos para soltá-las. A lâmina estava raiada de sangue até o cabo.

Posto em pé, o general caiu para traz sobre o chão, gemendo e ali desmaiou. Além de pisaduras, tinha dois golpes de espada — um na coxa, outro no ombro.
Quem sofreu menor dano foi o espião. Embora tivesse o braço quebrado, as feridas eram o que poderia ter resultado de um combate com armas naturais.
Estava tonto e mal compreendia o que tinha acontecido.

Encolheu-se aos que o atendiam; agachou-se no chão e articulava protestos incoerentes.

Apesar do rosto estar inchado pelos golpes e manchado pelas gotas de sangue, mostrava-se, sob os cabelos em desalinho, tão branco, como cadáver.

— Este homem não é louco, disse o cirurgião que preparava faixas, em resposta a uma pergunta, está sofrendo do susto. Quem é e donde vem?

O cabo Tassman começou explicar. Era a maior oportunidade de sua vida. Nada foi omitido que pudesse realçar o seu papel nos acontecimentos da noite. Quando acabou de contar, estava pronto a começar outra vez, ninguém lhe prestava mais atenção.

O general tinha já recuperado os sentidos. Ergueu-se sobre um ombro, olhou em redor e vendo o espião agachado ao lado do fogo do acampamento, escoltado, disse simplesmente:

— Levem este homem para o campo para ser fuzilado.

— O general delira, disse um oficial perto.

— Ele não delira, disse o ajudante de ordens. Tenho uma nota que me deu sobre o caso. Tinha dado a mesma ordem ao Hasterlinck — apontando para o preboste morto, e por Deus, essa ordem será cumprida.

Dez minutos mais tarde, sargento Parker Adderson do exército federal, filósofo e espirituoso, ajoelhando-se ao luar e implorando incoerentemente pela vida, foi fuzilado por vinte homens.

Enquanto a selva ecoava no ambiente frio de meia noite, o general Clavering, prostrado, branco e quieto, no ardor do fogo vermelho do acampamento, abria os grandes olhos azuis e, contemplando com agrado os que estavam em redor, dizia:
— Como tudo é silencioso!

O cirurgião olhou para o ajudante de ordens. Era um olhar grave e significante. Os olhos do paciente fechavam-se vagarosamente, e assim ficava durante uns minutos. Então, com um sorriso de infinita doçura nos lábios, disse fracamente:
— Suponho que isto deve ser a Morte.

E passou ao Além...
Ambrose Bierce

Antes de virar gigante

No tempo d'eu menina
os corredores eram longos
as mesas altas
as camas enormes.
A colher não cabia
na minha boca
e a tigela de sopa
era sempre mais funda
do que a fome.
No tempo d'eu menina
só gigantes moravam
lá em casa.
Menos meu irmão e eu
que éramos gente grande
vinda de Lilliput.
Marina Colasanti

O holandês que cortava pepinos

A última coisa que se soube sobre o Holandês é que ele era nascido na Albânia e tinha passaporte britânico. Era um homem muito alto, gordo, com uma grande cara vermelha e gaiata; gostava de tomar cerveja consumindo toda sorte de peixes em conserva, frios, do Báltico. E frequentava um bar que havia em Tânger chamado Consulado — um bar cujo nome permitia a cônsules e auxiliares de qualquer país telefonar para casa a qualquer hora dizendo honradamente que estavam no Consulado.


O Holandês não era cônsul, era homem de negócios — não de um grande negócio, mas de muitos pequenos negócios, por exemplo: sócio de um varejo de cigarros e de dois táxis de turismo, intermediário correto na venda de alguns artigos de contrabando, representante de uma companhia de navegação cujos navios nunca vinham a Tânger, mas aceitavam transbordo de mercadorias para alguns portos do Mar do Norte; organizador de banquetes e coquetéis; entendia um pouco de tudo, inclusive de moedas e selos raros; tinha uma pequena mulher de cabelos brancos azulados, sempre de calças compridas, sorridente, de olhos azuis, com uns restos de beleza; fumava cachimbo; às vezes lhe vinham ideias. Aquela ideia lhe veio na madrugada de quinta para sexta-feira, duas semanas depois da Semana Santa, quando alguém da roda se queixou de que não conseguira transporte nem alojamento para assistir à Feira de Sevilha... Mais duas ou três pessoas concordaram em que realmente o papel seria ir a Sevilha, e o Holandês perguntou: — Vocês querem ir a Sevilha?

Fez um gesto com a imensa mão mandando que esperassem, foi ao telefone, demorou dez minutos, puxou um lápis do bolso, fez uns cálculos em um guardanapo de papel e anunciou que a 45 dólares por cabeça levaria oito pessoas a Sevilha para os dois últimos dias da Feira — sábado e domingo — incluindo transporte, alojamento, breakfast. Depois, com a maior naturalidade, tirou do bolso uma tábua de marés, estudou-a e disse: “Saímos sexta às 10:45 da noite, podemos estar de volta segunda-feira antes das duas da tarde.”

Quase ninguém ali trabalhava aos sábados; era matar apenas o primeiro expediente da segunda-feira. Na hora marcada todos embarcavam alegremente em um pequeno iate, menos a mulher do Holandês. Menos, quer dizer: ela embarcava, mas não alegremente; pelo contrário, chorava sem cessar, fazia "não" com a cabeça e puxava pelo paletó o seu grande marido que se curvava para ouvir recriminações ditas em segredo e depois piscava um olho para os outros, como quem diz: coisa de mulher. E bebia mais uma cerveja.

Atravessaram o estreito de Gibraltar em direção a Tarifa, foram bordejando a costa espanhola. Ao amanhecer, o Holandês apontou, à direita, Trafalgar e falou das relações do Almirante Nelson com os judeus de Tanger; na barra do rio que leva a Sevilha explicou que Guadalquivir vem do árabe “Ued-El-Kabir”, Rio Grande; sabia tudo, o Holandês, inclusive, como se viu depois, a origem das "casetas" da feira e a história dos negros touros miúras; só não sabia que, apesar de haver bem calculado a maré, seria impossível na volta, segunda-feira pela manhã, transpor a barra do rio de retorno ao Atlântico, isto porque duas lanchas da polícia rodearam o iate e uma delas acabou se atravessando em seu caminho, e obrigou-o a parar. Os homens que subiram a bordo declararam que o Holandês estava preso e o iate provisoriamente apreendido. O embaixador brasileiro no reino de Marrocos e o seu cônsul em Tânger discutiram a situação; conseguiram liberar o iate depois de provar que ele não pertencia ao Holandês, nem este era seu verdadeiro capitão, mas sim um amarfanhado marinheiro velho e louro que mostrou seus documentos. O cônsul ainda foi a terra ver se soltava o Holandês, mas desanimou diante de um telegrama da Interpol. A mulherzinha desmaiou; fez-se vir um médico de terra que a reanimou e levou de volta fumo de cachimbo para o prisioneiro. “Eu bem sabia, eu bem dizia”, dizia ela, “ele é louco”; e chorava mais.

Todos ficaram consternados: a) porque com a baixa maré só iriam chegar a Tânger à noite; b) porque o Holandês era boa-praça, tanto que fizera questão de oferecer uma ceia aquela madrugada, que ele mesmo preparava — “eu o vi cortar pepinos (disse a mulher de um vice-cônsul), com que cuidado ele cortava os pepinos, o pobre homem!”

Bem, naturalmente não fora por ele cortar mal pepinos que a Interpol o prendera, e sim por algum outro motivo, que não se soube. Tudo o que se soube, como eu já disse, foi que ele era nascido na Albânia e tinha passaporte britânico, o bom Holandês.
Rubem Braga, "Recado de Primavera"

Aquele quadro

Afastou o livro, pensou que os versos de Pound podiam ficar para depois, e resolveu gozar uma noite em que nada se devia esperar de sua parte. Uma noite de abril, o céu ainda claro. Aquela sala era calma, geralmente calmante e, assim como os três outros cômodos do apartamento, guardava trinta anos de memórias. Salas onde se viveu muito tempo acabam parecendo praias sujas: difícil saber de onde veio este ou aquele caco.

Ela sabia exatamente de onde provinha cada tralha teatral: de que peça ou de que ator. Mas no parapeito da janela havia uma tigela cheia de pedrinhas coloridas que havia apanhado às portas de uma cidade na Provença, onde fora passear com os dois filhos, então com doze e treze anos. Como era o nome daquela cidade? Visitara a mesma região diversas vezes, e sempre colhera pedras para trazer para casa. Cordões de contas em todos os tons de vermelho presos em forma de leque numa prancha que ocupava boa parte de uma parede. Por que guardava aquilo? Pilhas de livros sobre teatro subiam junto às paredes: fazia anos que não abria alguns deles. E também o poster do Mardi Gras. Estava ali, olhando para ela, havia décadas, aquele jovem arrogante, sexy, com a roupa de losangos vermelhos e pretos e aquele ar de não me toques. Parecia-se com seu filho — bem, quer dizer, há muito tempo. George era agora um cientista quase de meia-idade.

Atualmente, quando de fato olhava a reprodução (afinal, não olhamos muito para as coisas que temos nas paredes), seus olhos examinavam o outro jovem do quadro, inseguro, com seus pensativos olhos escuros, na roupa folgada de Pierrô. Sua filha, aos quinze anos, havia pedido uma fantasia de Pierrô, e ela, mãe de Cathie, entendera que era uma espécie de afirmação. Sou como ele. Preciso de um disfarce. Queria não ser insegura, mas sim como o Arlequim, que sabe que é lindo. Cathie agora não tinha nada de insegura, uma bem-sucedida matrona, com filhos, emprego e um marido satisfatório.

Sarah sabia que via aquele quadro como retrato de seus próprios filhos. Por que o mantinha ali? Muitas vezes, os pais sentem um carinho secreto por fotos de suas crias que já não têm nada a ver com a idade delas, e elas nem sempre são crianças atraentemente desamparadas.

Tinha de se livrar de toda aquela tralha… então, de repente, sentou-se ereta na cadeira, depois se levantou e começou a caminhar pela sala. Não era a primeira vez que lhe vinha a ideia. Anos antes, olhara em torno daquela sala, cheia de coisas que acabaram indo parar ali por uma razão ou outra, e pensara: Tenho de me livrar disso tudo.

O poster estava ali porque sua filha, Cathie, o trouxera para casa. Não tinha nada a ver com ela, Sarah. O que podia chamar de seu? Os livros, os livros de referência: instrumentos de trabalho. E o resto da casa? Uma prolongada ronda, na época, repetida agora, a fizera repassar pratos com conchas apanhadas pelas crianças décadas antes, um armário que ainda guardava as roupas velhas delas, cartões-postais presos com percevejos num quadro de cortiça, enviados por pessoas em férias. Suas roupas? Podia afirmar que eram suas porque as tinha escolhido? Até que sim, mas haviam sido ditadas pela moda.

Naquela noite, anos antes, tinha chegado à inquietante conclusão de que muito pouco daqueles quatro grandes cômodos se achava ali por uma ponderada escolha sua. Escolha daquela parte de si própria que considerava como sendo ela mesma. Não, e decidira vasculhar as salas e jogar tudo fora… bom, quase tudo: ali estava uma coisa que ficaria, mesmo que todo o resto fosse para a lata de lixo. Era uma fotografia de verdade, que se levava a sério. Um homem agradável, um tanto preocupado talvez, ou cansado? — uma rede de finas rugas em torno de olhos azuis francos e camaradas, fios brancos entre os cabelos louros (cuja maciez de seda ainda podia sentir nos dedos), provavelmente um primeiro sinal do ataque do coração que o mataria tão jovem, aos quarenta anos. Sentado com os braços em torno de duas crianças, um menino e uma menina, de oito e nove anos. Os três sorrindo para Sarah. A foto estava numa moldura de prata, art déco, não do gosto de Sarah, mas que lhe tinha sido dada pelo marido, que a ganhara da mãe. Será que devia jogar fora a moldura, já que nunca gostara dela?

Por que não tinha feito uma faxina completa? Porque havia estado ocupada demais. Alguma peça nova no teatro, provavelmente. Trabalhava tanto, sempre.

Sarah parou diante de um espelho. Viu uma mulher bonita, aparentando meia-idade, com um bom corpo. Os cabelos, sempre presos por questão de conveniência — não podia se dar ao trabalho de ir a cabeleireiros —, eram descritos no passaporte como louros, mas eram, antes, de um amarelo sem graça, como latão sem polir. Com toda a certeza ela já devia ter pelo menos um ou outro fio branco. Mas essa tonalidade quase nunca fica grisalha, nem branca, pelo menos até a velhice propriamente dita. Enquanto jovens, aqueles que têm os cabelos dessa cor almejam tonalidades mais vivas e podem tingi-los. Quando mais velhos, agradecidos, deixam-nos em paz e são acusados de tingi-los. Ela quase nunca se olhava no espelho: não se preocupava com a aparência. Por que deveria? Consideravam-na sempre vinte anos mais nova que sua idade real. Num outro espelho, além da porta aberta de seu quarto, parecia ainda mais nova.

Torcendo o corpo conseguia ver-se refletida nele. Tinha as costas eretas e era cheia de vitalidade. O osteopata com quem se tratara por causa de dores nas costas (que agora pareciam voltar a se manifestar) perguntara se havia sido bailarina. Os dois espelhos estavam ali porque décadas antes seu marido dissera: “Sarah, essas salas são muito escuras. Não dá para deixá-las mais claras?”. As paredes foram então pintadas de um branco brilhante, mas tinham esmaecido, e as cortinas que haviam sido brancas eram agora cor-de-creme escuro. Quando o sol entrava, o quarto se enchia de luz, sombra, reflexos em movimento, um espaço de sugestões e possibilidades. Sem sol, os espelhos mostravam a mobília pairando numa luz imóvel como água. Uma luz perolada. Repousante. Gostava desses cômodos, não podia imaginar nada pior do que ter de deixá-los. Podiam ser criticados por estarem em mau estado. Era o que seu irmão dizia, mas ela achava a casa dele chique e horrenda. Fazia anos que nada mudava ali. As salas se fundiam suavemente em aceitação: do fato de ela estar sempre tão ocupada e, no fundo, não muito interessada, e do modo como os anos se acumulavam, deixando depositados sedimentos, livros e fotografias, cartões-postais e coisas do teatro.

Aquele lixo todo tinha de ser jogado fora… Ali na parede de seu quarto havia um grupo de fotos. Algumas eram de sua avó e seu avô na Índia, posadas e formais, cumprindo seu dever, às quais havia acrescentado um recorte de revista, com uma moça vestida de acordo com a moda do ano em que Sarah Anstruther partira para se casar com o noivo, que ia muito bem no Serviço Civil Indiano. Essa moça não era a avó de Sarah Durham, mas todas as fotos que Sarah guardava dessa mulher que jamais conhecera mostravam uma jovem matrona encarando o mundo com competência, e a desconhecida tímida e medrosa era — Sarah Durham tinha quase certeza — muito mais relevante. Uma moça de dezoito anos, viajando para um país de que nada sabia, onde iria se casar com um jovem que mal conhecia, para tornar-se uma memsahib… bastante comum, naquela época, mas que coragem.

A vida de Sarah Durham não havia tido nenhuma escolha tão dramática. Uma biografia reduzida, do tipo que se lê nas orelhas dos livros ou em notas de programas teatrais, diria assim:

Sarah Durham nasceu em 1924 em Colchester. Dois filhos. O irmão estudou medicina. Frequentou algumas escolas bastante conceituadas para moças. Na universidade estudou francês e italiano, depois passou um ano na Universidade de Montpellier estudando música, morando com uma tia casada com um francês.

Durante a guerra, foi motorista para o movimento França Livre, em Londres. Em 1946, casou-se com Alan Durham e tiveram dois filhos. Ele faleceu, deixando-a viúva aos trinta e poucos anos. Ela continuou vivendo em Londres, com os filhos.

Uma mulher calma e razoável… verdade que a morte de Alan a havia lançado na infelicidade por algum tempo, mas isso acabara passando. Era assim que via as coisas agora, sabendo que estava escolhendo não lembrar a miséria daquela época. Hipócrita memória… gentil memória que lhe permitia evocar uma vida tranquila.

Voltou à sala de trabalho e leu outra vez aquela passagem exemplar do livro, aquela que começava com “Envelhecer com graça…”. O trecho concluía um capítulo e o seguinte começava assim: “Aquilo de que mais gostei em minha viagem à Índia foram as manhãs, antes de o calor piorar e termos de ficar dentro de casa. Quando afinal resolvi não me casar com Rupert, tenho hoje certeza de que era o calor e não a ele que recusava. Não o amava, mas não sabia disso então. Ainda não havia aprendido o que era amar”.

Pela terceira vez, leu “Envelhecer com graça…” até o fim do capítulo. É, aquilo servia bem. Aos sessenta e cinco anos, via-se dizendo a amigos mais jovens que envelhecer não era nada, bastante agradável até, pois, ainda que se perca uma coisa ou outra, outros prazeres dos quais os jovens nem suspeitam acabam surgindo, e nos surpreendemos muitas vezes nos perguntando qual será a próxima surpresa. Dizia essas coisas de boa-fé, e, quando observava os torvelinhos emocionais de quem era até uma só década mais jovem do que ela, permitia-se ficar arrepiada diante da ideia de passar por tudo aquilo de novo — fórmula que incluía o amor. Quanto a amar, ocorreu-lhe que fazia vinte anos que se apaixonara pela última vez, ela que se apaixonava com tanta facilidade e — tinha de admitir — até com certa avidez. Não conseguia acreditar que pudesse amar de novo. Também isso ela dizia com complacência, esquecendo a dura lei segundo a qual acabamos passando por aquilo que desprezamos.

Não ia sentar-se e trabalhar… ocorreu-lhe que uma das razões para aquele exagerado não a mais uma noite trabalhando naquilo que fazia o dia inteiro era seu — sim, não havia outra palavra — medo daquela música. Aqueles lamentos de outros tempos eram como uma droga. Será que o jazz realmente a dominara como a Condessa Dié e Bernard, Pierre e Giraut? E aquela mulher que agora a ocupava — Julie Vairon, cuja música jazia ali naquelas pilhas amarelecidas sobre a mesa? Não, ela desconfiava da música. Estava em boa companhia, afinal; muitos dos grandes e sábios consideravam a música um amigo dúbio. Sempre escutara música com um certo espírito de: você não vai me dominar, nem pense nisso!

Não: nada de trabalho e nada de música. Estava tão inquieta que podia… subir uma montanha, andar vinte quilômetros. Sarah descobriu que estava arrumando a sala, que sem dúvida precisava de arrumação. Podia aproveitar e passar o aspirador… por que não nos quatro cômodos? Na cozinha. No banheiro. Por volta da meia-noite, o apartamento era um modelo de perfeição. Qualquer um pensaria que aquela mulher se orgulhava de suas virtudes de dona de casa. Em vez disso, tinha uma faxineira que vinha uma vez por semana, e só.

Com toda a certeza não estava nervosa por ter de se encontrar — como teria de fazer amanhã — com Stephen Ellington-Smith, chamado de brincadeira na companhia de Nosso Anjo. Não se lembrava de ter jamais ficado nervosa com esse tipo de encontro. Afinal, era sua função encontrar-se com patrocinadores, benfeitores e anjos e abrandá-los, era o que fazia o tempo todo.
Doris Lessing, "Amor, de novo"

quarta-feira, junho 24

Relax da tarde

 


Momento

Nesta hora insolúvel,
apego-me a tudo:
presente, passado ...
Futuro? Este é mudo.

Invento prodígios,
a ver se me iludo.
A mágica falha.
Do fundo da noite,
de mãos estendidas,
virá quem me valha?

Nesta hora insolúvel,
perdi meu caminho:
Nem rota, nem porto.
Quem é que me conta
se estou vivo ou morto?

Navego sozinho.
Emílio Moura

Furto de flor

Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.

Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.

Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.

– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!

Carlos Drummond de Andrade. "Contos plausíveis"

A harmonia

O que é a felicidade além da simples harmonia entre o homem e a vida que ele leva?

Albert Camus

O modelo milionário

Quando não se tem capital, de nada serve ser um homem encantador.

A novela é um privilégio de ricos e não uma profissão para os que não têm emprego.

Mais vale ter uma renda fixa que ser encantador.

Tais são os grandes axiomas da Frida moderna, e Hughie Erskine nunca os pôde assimilar. Pobre Hughie!

Sob o ponto de vista intelectual, é preciso reconhecer que não era nenhum fenômeno. Não tivera na vida um rasgo brilhante, nem uma ironia. Não obstante isso, era singularmente sedutor, com o seu cabelo ondeado, seu perfil puramente delineado e os seus olhos cinzentos.

Era acolhido tão favoravelmente entre os homens como entre as mulheres. Possuía toda a classe de talentos, menos o de ganhar dinheiro.

Seu pai lhe legara um espadão de cavalaria e uma “História da Guerra da Península”, em quinze volumes.

— Hughie pendurou o primeiro destes legados em cima do seu espelho, e alinhou o segundo sobre uma estante, entre a “Guia” de Ruff e o “Magazine” de Bayley. Vivia de uma renda anual de 200 libras que lhe dava uma tia velha.

Intentou tudo.

— Frequentou a Bolsa durante seis meses, mas que quereis que suceda a uma mariposa entre touros e ursos?

Dedicou-se a comerciar em chás, e se bem que isso o distraísse um pouco mais, acabou por cansar-se do “pekoé” e do “Souchong".

Depois, intentou vender “Sherry” seco. E o negócio lhe falhou. O “sherry” saía talvez demasiado seco.

E, por último, se dedicou... Bem não se dedicou a nada; continuou rapaz encantador que não serve para nada, sempre com o seu perfil perfeito e sempre vago.

E para que a sua desdita fosse completa, enamorou-se. A pequena que amava chamava-se Laura Merton. Seu pai era um coronel reformado que tinha perdido toda a paciência e todas as faculdades digestivas na Índia, sem jamais conseguir recuperá-las.

Laura adorava Hughie, e este seria capaz de beijar os cordões dos sapatinhos de Laura.

Era o par mais encantador que se podia ver em Londres.

O coronel sentiu um grande afeto por Hughie, porém nem queria ouvir falar de matrimonio.

— Meu filho, dizia frequente mente, venha ver-me quando for dono de dez mil libras bem seguras. Então, veremos.

E a Hughie, depois disso, o gênio se lhe azedava e precisava para consolar-se, ter Laura ao Seu lado.

Uma manhã, quando se dirigia a Holland Park, que era onde viviam os Merton, lembrou-lhe fazer uma visita, de passagem, ao seu grande amigo, Alan Trevor.

Trevor era pintor. Hoje em dia, poucas pessoas escapam desse contágio. Mas ele era também um artista, e artistas existem muitos poucos.

A julgar pelas aparências, Alan era uma pessoa rara, selvagem, com uma cara marcada de sinais, e uma barba ruiva e hirsuta. Porém logo que colhia um pincel, à gente se achava ante um mestre, é os seus quadros eram solicitadíssimos.

Experimentou — desde o princípio — uma viva inclinação por Hughie, devida unicamente, é preciso confessá-lo, do encanto pessoal deste.

— As únicas pessoas que um pintor devia conhecer, repetia, são aquelas que são belas e frívolas, aquelas cuja contemplação vos produz um prazer artístico e cuja conversação vos proporciona repouso intelectual. Os homens vaidosos e as mulheres elegantes: eis os seres que manejam o mundo, ou que, pelo menos, deveriam manejá-lo.

Mas quando foi conhecendo a fundo Hughie, terminou por querer-lhe tanto pela sua animação e pelo seu bom humor, como pelo seu caráter generoso. E concedeu-lhe livre entrada a qualquer hora em seu estúdio. Uma vez aí, Hughie encontrou Trevor dando as últimas pinceladas num quadro magistral, que representava um mendigo, em tamanho natural.

O mendigo em pessoa servia de modelo, sobre um estrado colocado num canto do estúdio.

Era um velho cheio de rugas, cujo rosto parecia de pergaminho amarrotado e com uma expressão lastimável.

Levava sobre os ombros uma capa de pano muito ordinário, cheio de andrajos e buracos; duas grandes botas estavam remendadas e cheias de cortes. Apoiava-se com uma mão num cajado e com a outra estendida um resto de chapéu, na atitude de quem pede esmola.

— Soberbo modelo! disse Hughie em voz baixa, estreitando a mão de seu amigo.

— Soberbo, acho mesmo! Exclamou Trevor em voz alta. Não se encontram todos os dias mendigos como este. Um achado, meu amigo, um Velásquez em carne e osso! Que quadro faria Rembrandt com isto, Deus meu!

— Pobre velho! disse Hughie. Que aspecto tão desditoso tem! Se bem que suponho que, para vocês pintores, a cara está em relação com a fortuna.

— Com efeito, disse Trevor, não quererá você que um mendigo tenha um aspecto de alegria.

— Quanto ganha um modelo por seção? perguntou Hughie depois de acomodar-se agradavelmente num divã:

— Um shilling por hora.

— E quanto lhe renderá o quadro, Alan?

— Oh! por este me pagarão no mínimo duas mil.

— Libras?

— Não, guinés. Os pintores, os poetas e os médicos contam sempre por guinés.

— Pois bem: opino que o modelo devia ter uma porcentagem, replicou Hughie rindo, pois trabalha tanto como você.

— Tudo isso são loucuras. Só o trabalho que significa diluir a cores e permanecer em pé com o pincel na mão, é incalculável. Você fala por falar, Hughie; mas lhe asseguro que em certos momentos a arte se eleva ao nível de um ofício manual. Enfim, deixemos isto! Estou ocupadíssimo. Apanhe um cigarro e fique quieto.

Minutos após entrou o criado para dizer a Trevor que o fabricante de molduras desejava falar-lhe.

— Não vá embora, Hughie, disse ao sair, eu já volto.

O velho mendigo aproveitou a ausência de Trevor para descansar um pouco num banco.

Tinha um aspecto tão abatido e tão miserável que Hughie não pôde deixar de compadecer-se e palpou os bolsos para ver quanto tinha.

Não encontrou mais que uma libra e umas moedas de cobre.

— Pobre velho! disse consigo, mais falta lhe faz que a mim. Quer dizer que passarei quinze dias sem tomar carros de aluguel.

E, cruzando o estúdio, deslisou a libra na mão do mendigo.

O velho estremeceu.

Depois, um leve sorriso vagou em seus lábios secos.

— Obrigado, cavalheiro, obrigado.

Quando Trevor voltou, Hughie se despediu deli e algo atordoado pelo seu ato. Passou o dia todo com Laura, que lhe passou um pito encantador pela sua prodigalidade, e teve que voltar a pé para casa. Naquela noite entrou no Club da Palheta lá pelas onze, encontrando Trevor só, no salão de fumar, em frente dum copo de vinho branco com água de Seltz.

— E então, Alan? disse-lhe, acendendo um cigarro. Terminou, o quadro como desejava?

— Terminei-o e lhe pus moldura, respondeu Trevor. A propósito, você fez uma conquista; esse velho modelo que viu, está encantado com você. Não tive remédio senão falar-lhe de você e contar-lhe tudo..., quem você é, seus rendimentos, seus projetos para o futuro...

— Meu caro Alan, replicou Hughie, estou certo de que vou encontrá-lo de guarda à porta de minha, casa, quando me recolher. Estou brincando. Pobre homem! Quisera poder fazer algo por ele. Acho terrível que alguém possa ser tio miserável. Tenho tanta roupa velha em casa! Crê que ele gostaria? Parece-me que sim, pois os seus farrapos cabiam em pedaços.

— Mas também lhe assentavam admiravelmente! disse Trevor. Jamais lhe faria o retrato de fraque. O que você chama de andrajos, chamo pitoresco; o que a você parece pobreza, me parece sabor local. Apesar de tudo isso, falar-lhe-ei de sua oferta.

— Alan, disse Hughie em tom sério, vocês pintores não têm coração.

— Um artista tem o coração na cabeça — respondeu Trevor. Além disso, nossa missão consiste, em ver o mundo tal como é, e não em refazê-lo, segundo o que dele sabemos. Cada qual em seu ofício. E agora, dê-me notícias de Laura. O velho modelo se interessou realmente por ela.

— Não me quer dizer que lhe falou de minha noiva? disse Hughie.

— Mas está claro que sim, ele sabe tudo já: o coronel inflexível, a encantadora Laura e as dez mil libras.

— E você contou meus assuntos particulares a esse velho mendigo! exclamou Hughie, de cara zangada e cheio de cólera.

— Meu amigo, disse Trevor sorrindo, esse velho mendigo, como você diz, é um dos homens mais ricos da Europa. Poderia comprar toda Londres amanhã sem esgotar a sua fortuna. Possui uma casa em todas as capitais. Come em baixela de ouro, e se lhe incomoda que a Rússia continue em guerra, pode impedi-lo.

— Que me diz você? articulou Hughie.

Não exagero, prosseguiu Trevor. O velho que você viu hoje em meu estúdio era o barão de Hansberg. É um de meus melhores amigos. Compra todos os meus quadros e muitos mais. Há um mês, me pediu que lhe fizesse um retrato em trajes de mendigo. Que quer você? Capricho de milionário. Mas devo reconhecer que ficava magnifico com os seus farrapos. Ou melhor, com os meus farrapos. É um traje antigo que adquiri na Espanha.

— O barão Hansberg: Deus meu! exclamou Hughie E eu que lhe dei uma libra!

E se deixou cair numa poltrona como uma encarnação viva do desalento.

— Que? Você lhe deu uma libra! gritou Trevor dando uma gargalhada. Pois não tornará a ver essa libra, meu amigo! O negócio do barão Hansberg é precisamente o dinheiro dos outros.

Parece-me, Alan, que você me devia ter avisado, disse Hughie em tom mal humorado, em vez de me deixar cometer unia tolice tão ridícula.

— Vamos, Hughie, disse Trevor. Em primeiro lugar não podia saber que você andava assim, ao acaso, repartindo esmolas dessa maneira extravagante. Que beijasse meu modelo feminino bonito, compreendo-o, mas que desse um litro a um modelo de fealdade, isso é que não, por Jupiter! Além disso. naquele dia a minha porta estiva fechada para todo o mundo. Quando você chegou, pensei se Hansberg gostaria de se dar a conhecer. Como você viu, ele não estava em traje de baile.

— Estou certo de que ele faz de mim um belo juízo.

— Nada disso! Estava encantado. Quando você se foi, não deixava de murmurar e de esfregar eis mãos enrugadas. Eu me perguntava porque insistia tanto em saber tudo quanto se referia a você, mas não podia compreender; porém agora vejo claríssimo. Vai colocar essa libra em seu nome, Hughie. Cada semestre lhe enviará os juros, e assim terá uma história magnífica para contar aos seus descendentes.

— Sou um desgraçado, — gaguejou Hughie. O melhor que posso fazer é ir me deitar! Quanto a você, caro Alan, suplico-lhe que não o conte a ninguém: ou não torno a sair à rua.

— Ora, tolices! Isso faz muita honra a seu espirito filantrópico, Hughie. Não vá ainda! Pegue outro cigarro, e me fale de Laura, tudo o que quiser.

Mas Hughie não quiz ficar.

Regressou a pé para casa, sentindo-se muito magoado e deixou Alan com um ataque de riso.

Na manhã seguinte, enquanto almoçava, o criado lhe entregou um cartão com estas palavras: "Gustavo Naudin. De parte do senhor barão de Hansberg".

— Suponho que me manda pedir explicações, pensou Hughie. E ordenou ao criado que introduzisse aquele cavalheiro.

Entrou um senhor velho de óculos de ouro e cabelos grisalhos, e disse com um leve sotaque francês:

— É ao senhor Hughie Erskine que tenho a honra de falar?

Hughie se inclinou.

— Venho de parte do barão de Hansberg, juntou...O barão...

— Rogo-lhe, cavalheiro, que apresente ao barão as minhas Tilais sinceras desculpas, balbuciou Hughie.

O barão, prosseguiu o senhor idoso, me encarregou de lhe entregar esta carta.

E lhe deu um sobrescrito lacrado.

Nele estavam escritas as seguintes palavras:

"Presente de casamento oferecido a Hughie Erskine e Laura Merton, por um velho mendigo."

E dentro havia um cheque de dez mil libras.

Quando se celebrou o casamento, Alan foi uma das testemunhas e o barão pronunciou um discurso no almoço nupcial.

— Modelos milionários, fez notar Alan, são já uma coisa raríssima, porém milionários modelos são algo ainda mais raro.

Oscar Wilde

segunda-feira, junho 22

É o carro do livro passando!

 


Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…
Miguel Torga

Infância e poesia

Havia em minha casa também um baú com objetos fascinantes. No fundo resplandecia um maravilhoso papagaio de calendário. Um dia em que minha mãe remexia aquela arca sagrada, caí de cabeça dentro ao tentar alcançar o papagaio. Mas quando fui crescendo abri-a secretamente. Havia lá uns leques preciosos e impalpáveis.

Conservo outra lembrança daquele baú. A primeira história de amor que me apaixonou. Eram centenas de cartões-postais, enviados por alguém que os assinava não sei se Henrique ou Alberto, e todos dirigidos a Maria Thielman. Estes cartões eram maravilhosos. Eram retratos das grandes atrizes da época com pedacinhos de vidro engastados e às vezes com cabeleira colada. Havia também castelos, cidades e paisagens distantes. Durante anos me contentei somente com as figuras. Mas, à medida que fui crescendo, fui lendo aquelas mensagens de amor escritas com uma caligrafia perfeita. Sempre imaginei que o galã era um homem de chapéu-coco, bengala e brilhante na gravata. Mas aquelas linhas eram de paixão arrebatadora. Foram enviadas a todos os pontos da Terra pelo visitante, cheias de frases deslumbrantes, de audácia enamorada. Comecei a enamorar-me também de Maria Thielman. Imaginava-a como uma atriz desdenhosa, coroada de pérolas. Como haviam chegado ao baú de minha mãe essas cartas? Nunca pude saber.


O ano de 1910 chegou à cidade de Temuco. Nesse ano memorável entrei no liceu, um vasto casarão com salas desarrumadas e subterrâneos sombrios. Do alto do liceu, na primavera, se divisava o ondulante e delicioso rio Cautín, com suas margens cheias de maçãs silvestres. Fugíamos das aulas para mergulhar os pés na água fria que corria sobre as pedras brancas.

Mas o liceu era um território de perspectivas imensas para meus seis anos de idade. Tudo tinha possibilidade de mistério: o laboratório de Física (onde não me deixavam entrar), cheio de instrumentos deslumbrantes, de retortas e pequenas cubas; a biblioteca, eternamente fechada. (Os filhos dos pioneiros não gostavam da sabedoria.) No entanto, o lugar de maior fascínio era o subterrâneo. Havia ali um silêncio e uma escuridão muito grandes. A luz das velas brincávamos de guerra, os vencedores amarravam os prisioneiros nas velhas colunas. E conservo na memória o cheiro de umidade, de lugar escondido, de túmulo, que emanava do subterrâneo do liceu de Temuco.

Fui crescendo. Os livros começaram a me interessar. Nas façanhas de Buffalo Bill, nas * In: William J. Bennett, O livro das virtudes. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993. viagens de Salgari, foi se estendendo meu espírito pelas regiões do sonho. Os primeiros amores, os puríssimos, se desenvolveram em cartas enviadas a Blanca Wilson. Esta menina era filha do ferreiro e um dos rapazes, perdido de amor por ela, pediu-me que escrevesse por ele suas cartas amorosas. Não me lembro de como seriam estas cartas que foram talvez meus primeiros trabalhos literários, pois, certa vez, ao encontrar-me com a estudante, esta me perguntou se era eu o autor das cartas que seu namorado lhe levava.

Não me atrevi a renegar minhas obras e muito perturbado respondi que sim. Então ela me deu um doce de marmelo que, é claro, não quis comer e guardei como um tesouro. Afastado assim meu companheiro do coração da menina, continuei escrevendo intermináveis cartas de amor e recebendo doces de marmelo.

Os meninos no liceu não conheciam nem respeitavam minha condição de poeta. A fronteira tinha esse caráter maravilhoso de far west sem preconceitos. Meus companheiros se chamavam Schnakes, Schlers, Hausers, Smiths, Taitos, Seranis. Éramos iguais entre os Aracenas e os Ramirez e os Rayes. Não havia sobrenomes bascos. Havia sefarditas: Albalas, Francos. Havia irlandeses: McGyntis. Poloneses: Yanichewkys. Brilhavam com luz escura e sobrenome araucanos, com um perfume de madeira e água: Melivilus, Catrileos.

Combatíamos, às vezes, no grande galpão fechado, com bolotas de azinheira. Só quem levou um bolotaço sabe o quanto dói. Antes de chegar ao liceu enchíamos os bolsos de munição. Eu tinha habilidade escassa, nenhuma força e pouca astúcia. Sempre levava a pior. Enquanto me entretinha observando a maravilhosa bolota, verde e perfeita com sua carapuça rugosa e cinzenta, enquanto tratava desajeitadamente de fabricar com ela um desses pitos que logo me arrebatavam, já me havia caído um dilúvio de bolotaços na cabeça. Quando estava no segundo ano me ocorreu usar um chapéu impermeável verde bem vivo. Este chapéu pertencia a meu pai, assim como sua manta de lã, suas lanternas de sinais verdes e vermelhos que estavam carregados de fascínio para mim que, sempre que podia, levava ao colégio para me pavonear [...]. Certa vez chovia implacavelmente e nada parecia mais formidável que o chapéu de oleado verde como um papagaio. Apenas cheguei à sacada meu chapéu voou como um papagaio. Eu o perseguia e quando ia pegá-lo, voava de novo entre a gritaria mais ensurdecedora que jamais escutei. Nunca mais voltei a vê-lo.

Nestas recordações não vejo bem a precisão periódica do tempo. Confundem-me acontecimentos minúsculos que tiveram importância para mim e parece que esta foi a primeira aventura erótica, estranhamente misturada à história natural. Talvez o amor e a natureza foram desde muito cedo as jazidas de minha poesia.

Em frente à minha casa viviam duas meninas que continuamente lançavam olhares que me ruborizavam. O que tinha eu de tímido e de silencioso, tinham elas de precoces e diabólicas. Uma vez, parado na porta de minha casa, tratava de não olhar para elas, mas tinham nas mãos algo que me fascinava. Aproximei-me com cautela e me mostraram um ninho de pássaro silvestre, tecido com musgo e pluminhas, que guardava em seu interior maravilhosos ovinhos de cor turquesa. Quando fui tomá-lo, uma delas disse que primeiro deviam tirar minhas roupas. Tremi de terror e escapuli rapidamente, perseguido pelas jovens ninfas que exibiam o instigante tesouro. Na perseguição entrei por um beco até uma padaria fechada de propriedade de meu pai. As assaltantes conseguiram me alcançar e começaram a tirar minhas calças quando pelo corredor se ouviam os passos de meu pai. Era uma vez um ninho. Os maravilhosos ovinhos se quebraram na padaria abandonada enquanto, debaixo do balcão, assaltado e assaltantes contínhamos a respiração.

Lembro-me também de que uma vez, buscando os pequenos objetos e os minúsculos seres de meu mundo no fundo da casa, achei um buraco na tábua da cerca. Olhei através do vão e vi um terreno igual ao de minha casa, baldio e silvestre. Recuei uns passos porque adivinhei que ia acontecer alguma coisa. Súbito apareceu uma mão. Era a mão pequenina de um menino da minha idade. Quando me aproximei, a mão já não estava e, em seu lugar, havia uma pequena ovelha branca.

Era uma ovelha de lã desbotada. As rodas com que deslizava haviam sumido. Nunca tinha visto uma ovelha tão linda. Fui em casa e voltei com um presente que deixei no mesmo lugar: uma pinha de pinheiro entreaberta, cheirosa e balsâmica, que eu adorava.

Nunca mais vi a mão do menino. Nunca mais voltei a ver uma ovelhinha como aquela. Perdi-a num incêndio. E ainda agora, nestes anos todos, quando passo por uma loja de brinquedos, olho furtivamente as vitrinas. Mas é inútil. Nunca mais se fez uma ovelha como aquela.
Pablo Neruda

Exílio

Por que se gosta de um autor? Gosta-se de um autor quando, ao lê-lo, tem-se a experiência de comunhão. Arte é isso: comunicar aos outros nossa identidade íntima com eles. Ao lê-lo eu me leio, melhor me entendo. Somos do mesmo sangue, companheiros no mesmo mundo. Não importa que o autor já tenha morrido há séculos… Inversamente, quando não gosto de um autor, é porque não há comunhão. É como se ele fosse uma comida estranha que causa repulsa. Essa é a razão por que gosto tanto de Nietzsche. Foi amor à primeira vista. O que ele diz ilumina o meu ser. E há nele um sentimento doloroso: o sentimento de exílio. “Em cada chegada eu sou uma partida”, ele disse. É comum entre os escritores esse sentimento de estranheza no mundo. Drummond via isso na Cecília e dizia que esse era um dos seus traços marcantes. Sinto o mesmo. Se os que creem na reencarnação estão certos, então está tudo explicado. Nasci neste tempo, mas minha alma ficou num lugar do passado que eu muito amei.

Rubem Alves, “Ostra feliz não faz pérola“

A raposa e o avião

Um homem da cidade, perambulando no campo é suspeito. Se levar uma espingarda, explica-se perfeitamente a sua presença. Há sempre compreensão para um argumento belicoso. Troca-se um olhar de cumplicidade e a arma sugere reminiscências de velhas caçadas infrutíferas, que são lembradas como sucessos felizes.

Inútil espingarda! Encosto-a à primeira árvore de sombra e estiro-me na areia fofa e fulva, esperando a intimidade casual dos insetos e das aves. O tufo das manjeriobas bronzeadas esconde-me como um biombo. As formigas negras desfilam em cadência impecável, um a fundo. Duas aranhas tecem armadilhas baixas e sedutoras. Uma cobra verde suja deslizou e desapareceu. Invisível cigarra espalha sua cantilena atritante e teimosa. Vou adormecendo, embriagado de silêncio, quietação, serenidade.

Bruscamente, surgida do capão de pau-de-ferro que os cipós entrelaçam harmoniosamente, sai uma raposa ouro-cinza, viva, inquieta, ágil, farejadora. Num momento se detém perto de mim. O vento sopra-lhe no focinho escuro e fino, ocultando-lhe meu rastro pela inevitável emanação do cheiro de homem, índice de perigo mortal. Posso vê-la em liberdade, senhora de seus movimentos instintivos, na plenitude da força graciosa, da astúcia milenar, da feiticeira desenvoltura juvenil. O pelo igual e liso, acamado sem a ondulação de um arrepio, indica ausência de qualquer suspeita. A cauda na espessura normal roça o solo, sinal de tranquilidade. Camarada raposa não malda a proximidade de um espectador com uma linda carabina de repetição ao alcance do gesto.

Suas orelhas recortam-se, hirtas, sensíveis à captação da mais longínqua denúncia inimiga. Fica imóvel como uma pedra. O focinho desloca-se, vagaroso, num amplo raio verificante, perscrutador, irradiando suspicalidade. As orelhas funcionam como detentores dos ruídos distantes. Ninguém! Se o vento mudar de quadrante serei localizado, pelo meu aroma inconfundível, às suas narinas delicadas. Dará um arranco sacudido, princípio de carreira olímpica, quase sem barulho audível, e desaparecerá como uma sombra, diluída na orla mosqueada da mataria rala. Avança, leve e fácil, fincando as patas na areia tépida, numa indizível elegância vulpina. No céu escampo de nuvens, de incomparável azul, perpassa um surdo, persistente e rouco zumbido que faz vibrar a paisagem silenciosa na tarde lenta de verão. O rítmico ronronar enche de sonoridade estranha o descampado solitário.

Durante segundos, a raposa procurou fixar o som nas vizinhanças, virando o focinho para todas as direções, orelhas erguidas e paralelas, a cauda alteada, os olhos faiscantes de curiosidade e medo inicial. Estacou: patas dianteiras retesadas e firmes, vibrantes como alavancas de aceleração, e as traseiras curvas, trêmulas, ansiosas para o salto salvador na solução da escapula.

Na linha do horizonte passava o pássaro de prata, de asas estendidas, haloado pela luz do sol que o incendiava de branco, deixando a trauta inusitada daquele ruído atordoador. Era um avião de carreira, rumando para o aeroporto.

Vejo a raposa imóvel, focinho apontado para cima, olhando o avião sonoro. A bocarra úmida entreabre-se num espanto inconcebível, mandíbula decaída, mostrando a ponta escalarte da língua, a cauda baixa e grossa, os quadris curvados, as orelhas atentas, duras como se armados em latão, seguindo a ave reboante; dois olhos escancarados, luzentes, crescidos de assombro, fitam o mistério presente, ruidoso e alto, acompanhado pelas patrulhas do rumor. Sinto que a curiosidade chumbou-a ao solo quando o corpo palpitante anseia pela libertação veloz. Filha do mato, primitiva, arrebatada, fiel a todos os seus velhos instintos de fome e de sexo, ladra, fugitiva, predadora, covarde, rebelde aos amavios humilhantes da domesticação, incapaz de figurar num circo, aprender um bailado, obedecer a um gesto, livre, faminta e rústica, a raposa olha o avião sereno, semeador de ecos.

Durante dois minutos o animal está estático, inteiramente possuído por aquele centro de interesse de inaudita novidade. A cabeça afunilada acompanha automaticamente a trajetória do avião cintilante. As patas dianteiras mergulham na areia, duras, esticadas como de madeira rija; as traseiras têm um leve e visível frêmito de impaciência e pavor. Como o mirmecólio tinha a frente de leão e o final de formiga, a raposa ostenta a coragem da atenção obstinada por diante e o medo incontido por detrás. Está tremendo mas parada, quieta, subjugada pela visão inesperada da grande ave prateada e canora.

Se a raposa “pensa” por uma sucessão de imagens, não haverá nenhuma anterior para determinar-lhe o processo da comparação assimiladora. É uma imagem nova, virgem e de impossível cotejo no fichário mental das reminiscências raposinas. Qual será a reação íntima e maravilhosa dessa contemplação? Quais as soluções mais ou menos duradouras, subsequentes ao conhecimento visual da aeronave? Com que a raposa comparará o avião atravessando nuvens com seus motores sonorizantes? Tê-lo-á como uma ave gigantesca, jamais anteriormente vista, feita, como todas as aves deste mundo, de carne, penas e sangue, susceptível de mastigação e deglutição saboreadas? O focinho, seguindo obedientemente o voo, não seria uma muda perseguição ideal, prevendo e observando o local do pouso da imensa caça voadora?

Creio que a raposa, a dar-se crédito ao seu “romance” onde é personagem clássica, terá muito pouco de sentimentalismo e de visão abstrata das coisas inidôneas para um bom almoço. Admite-se que o sapo cante às estrelas e o veado duele por amor, valentemente, como um canário, uma lagartixa ou um escorpião. Ninguém, sob a cúpula do céu, evoca uma raposa lírica e sim perpetuamente ligada ao programa rendoso de utilitarismo imediato e prático, cientemente cumprido como num master plan da United States Information Agency.

Águias já têm morrido enfrentando aviões, atraídas pelo seu estridor e, quem sabe, batendo-se pelo monopólio do domínio aéreo. A raposa, a deduzir-se pelo que dela sabemos, lemos e vemos, terá no avião uma possibilidade mental de refeição inacabável e de sabor nunca degustado.

Talvez deduza que o ronco do motores é um resfolegar de agonia, de próximo declínio fatal. E quando o aparelho desapareceu pensaria na felicidade das outras raposas porventura vigilantes nas proximidades do pouso. A imensa presa iria para outras gargantas, outros estômagos mais afortunados.

Aqui onde estou dista dois quilômetros das casas que rodeiam a vila vizinha. A raposa será familiar frequentadora dos galinheiros providos para a festa do Natal. Já viu automóvel, certamente. Ouviu os clamores dos rádios domésticos e deve ter encontrado semelhança entre a sua e a voz de certas glórias cantantes nos microfones submissos.

Está a poucos metros de mim, olhando o avião que se tornou pequenino. O focinho continua no mesmo nível anterior, patas dianteiras firmes, as traseiras trêmulas, recurvadas, os olhos ansiosos, tontos, abismados na sedução irresistível que se desfaz na altura da tarde.

Guardará o segredo deste conhecimento de imagem nova ou comunicá-la-á às companheiras no fortuito convívio dos comandos predatórios da madrugada?
Minha impressão é bem diversa, meus senhores. Parece-me que a raposa hipnotizada está fazendo um esforço milagroso para compreender. Toda ela é tensão, nervos polarizados na direção única de encontrar um processo dedutivo de assimilação, uma assimilação que leve a imagem para o fichário das imagens anteriores, vulpinas e úteis. Que íntimas reações permanecerão na memória deste Canis vulpis depois de haver contemplado a retumbante ave platinada? No meio de toda numerosa fauna, onde conta vítimas e perseguidores implacáveis, como deverá incluir a existência do possante pássaro roncador voando sem bater asas brilhantes?

Agora o avião não é mais avistado. O rumor morreu no ar. A raposa volta à última forma. O focinho vira para o chão, areia, gravetos, rastros de animais, folhas secas, banais. Apruma-se e trota, airosa, para frente, sem mais olhar o céu pálido do entardecer onde passara a grande ave de prata.

Com as pernas formigando de cãibras ergo-me, apanho a espingarda incólume e caminho, trôpego. Na vereda, fundos, estão os quatro orifícios do rastro da raposa, denúncia de sua atenção inquieta, de sua curiosidade sôfrega, de sua expectativa despremiada.

Pode ser que, na meia-noite, ao esgueirar-se para o assalto às galinhas dorminhocas, passe, rápida e sonora, a visão fulgurante daquele pássaro estranho e branco, tão grande, bem maior que dois carros de bois, rugindo dez vezes mais, fazendo-a deter-se e olhar para o alto, para onde raramente as raposas olham.
Luís da Câmara Cascudo, "Canto de Muro"

domingo, junho 21

Boa chuveirada

 


A praia

Aníbal Machado contava que, algum tempo depois de casado, se viu desempregado e sem dinheiro no Rio. Desempregado, sem dinheiro e com várias filhas meninas.

O português, dono da casa em que ele morava, tinha um ar feroz, mas era a flor dos senhorios: esperava meses e meses que “seu dotoire” pudesse dar alguma coisa por conta dos atrasados. Mas nem todo credor era assim, e alguns vinham todo dia bater à porta, enchendo de angústia o escritor.

“O que me salvou foi a praia”, disse Aníbal. Metia um calção de banho e ia para a areia.

Lá respirava feliz, diante do mar. Um dia viu um credor que andava de um lado para outro, na calçada. Fez que não viu — e caiu n'água. O homem foi-se embora...

Se o Rio de Janeiro não tivesse mar, seria a capital da angústia. Vivi aqui dias tristes, sombrios, em que faltava não apenas dinheiro como liberdade. Era perigoso visitar um amigo ou receber uma visita; conversar num bar ou num café, ainda mais. Só havia um território livre, democrático, onde a gente podia se encontrar: a praia. Com o vento do mar e o sol, que brilha para todos. E as ondas recitando Baudelaire:

Homme libre, toujours tu chériras la mer…

Rubem Braga, "Recado de primavera"

Inteiramente vazio

Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios.

Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Pa­rece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa.

Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama.

Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das ­palmas cicatrizaram.

Impossível trabalhar. Dão-me um ofício, um relatório, para datilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro. Tento vencer a obsessão, capricho em não usar a borracha. Concluo o trabalho, mas a resma de papel fica muito reduzida.

À noite fecho as portas, sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal.
Vitória resmunga na cozinha, ratos famintos remexem latas e embrulhos no guarda-comidas, automóveis roncam na rua.

Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte nomes.

Quando não consigo formar combinações novas, traço rabiscos que representam uma espada, uma lira, uma cabeça de mulher e outros disparates. Penso em indivíduos e em obje­tos que não têm relação com os desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretário, políticos, sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo.

Tipos bestas. Ficam dias inteiros fuxicando nos cafés e preguiçando, indecentes. Quando avisto essa cambada, encolho-me, colo-me às paredes como um rato assustado. Como um rato, exatamente. Fujo dos negociantes que soltam gargalhadas enormes, discutem política e putaria.

Não posso pagar o aluguel da casa. Dr. Gouveia aperta-me com bilhetes de cobrança. Bilhetes inúteis, mas dr. Gouveia não compreen­de isto. Há também o homem da luz, o ­Moisés das prestações, uma promissória de quinhentos mil-réis, já reformada. E coisas piores, muito piores.

O artigo que me pediram afasta-se do papel. É verdade que tenho­ o cigarro e tenho o álcool, mas quando bebo demais ou fumo demais, a minha tristeza cresce. Tristeza e raiva. Ar, mar, ria, arma, ira. Passatempo estúpido.

Dr. Gouveia é um monstro. Compôs, no quinto ano, duas colunas que publicou por dinheiro na seção livre de um jornal ordinário. Meteu esse trabalhinho num caixilho dourado e pregou-o na parede, por cima do bureau. Está cheio de erros e pastéis. Mas dr. Gouveia não os sente. O espírito dele não tem ambições. Dr. Gouveia só se ocupa com o temporal: a renda das propriedades e o cobre que o tesouro lhe pinga.

Não consigo escrever. Dinheiro e propriedades, que me dão sempre desejos violentos de mortandade e outras destruições, as duas colunas mal impressas, caixilho, dr. ­Gouveia, Moisés, homem da luz, negociantes, políticos, diretor e secretário, tudo se move na minha cabeça, como um bando de vermes, em cima de uma coisa amarela, gorda e mole que é, reparando-se bem, a cara balofa de Julião Tavares muito aumentada. Essas sombras se arrastam com lentidão viscosa, misturando-se, formando um novelo confuso.

Afinal tudo desaparece. E, inteiramente vazio, fico tempo sem fim ocupado em riscar as palavras e os desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, até que deixo no papel alguns borrões compridos, umas tarjas muito pretas.
Graciliano Ramos, "Angústia"

Chuva

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...
Ribeiro Couto

O vadio

Ele conhecera dias mais felizes, apesar do estado de miséria e de doença em que ora se encontrava.

Na idade de quinze anos, ficara com as pernas esmagadas por uma carruagem, na estrada real de Varville. Desde então mendigou, arrastando-se ao longo dos caminhos, através dos pátios das quintas, balouçado nas muletas, que lhe tinham feito levantar os ombros à altura das orelhas. A sua cabeça dir-se-ia enterrada entre duas montanhas.

Enjeitado encontrado num fosso, pelo cura de Billette, na véspera do dia de Finados, e batizado em razão disso, Nicolau Toussaint, educado por caridade, ficara estranho a todo e qualquer grau de instrução, estropiado depois de ter bebido alguns copos de aguardente oferecidos pelo padeiro da aldeia, para que ele fizesse rir, não tardou em dar em vagabundo, e mais nada sabia fazer do que estender a mão à caridade.


Outrora, a baronesa d'Avray concedia-lhe, para dormir, uma espécie de nicho cheio de palha, ao lado do galinheiro, na herdade que se ligava ao castelo: e ele ali estava ao abrigo, certo de, nos dias de grande fome, encontrar sempre um pedaço de pão e um copo de cidra na cozinha. Muitas vezes, recebia também alguns "sous" atirados pela velha senhora do alto da sua escadaria ou das janelas do seu quarto. Porém, ela morrera.

Nas aldeias, não lhe davam nada: conheciam-no por demais; estavam fartos de o ver; havia quarenta anos que o viam passear o deformado de seu corpo andrajoso sobre as suas duas patas de madeira.

Todavia, ele não queria deixar aqueles sítios, porque não conhecia outra coisa sobre a terra a não ser aquele canto de país, aquelas três ou quatro aldeias onde arrastara a sua vida miserável.

Marcara fronteiras à sua mendicidade e não teria nunca passado os limites que se acostumara a não ultrapassar.

Ignorava se o mundo se estenderia ainda muito para além das árvores que sempre tinham servido de limite à sua vida. Nem sequer o perguntava a si próprio. E quando os camponeses, cantados de o encontrarem todos os dias à beira dos seus campos ou ao longo dos seus fossos, lhe gritavam:

— Por que não vais tu para as outras aldeias, em lugar de andares sempre a mendigar por aqui? Ele não respondia, e afastava-se, tomado de um medo vago pelo desconhecido, de um medo de pobre que receia confusamente mil coisas, as novas caras, as injúrias, os olhares de desconfiança e suspeita das pessoas que o não conheciam, e os guardas que vão dois a dois pelas estradas e que o faziam esconder, por instinto, nas moitas ou por detrás das pedras.

Quando os via de longe, reluzentes ao sol — encontrava de repente uma agilidade singular, uma agilidade de monstro, para alcançar qualquer esconderijo. Saltava nas muletas, e deixava-se cair à maneira de um trapo, rolando como uma bola, tornando-se pequenino, invisível, acaçapado como uma lebre na sua toca, confundindo os seus trapos russos com a terra.

Ele não tivera, no entanto, nada com eles. Mas aquilo estava-lhe na massa do sangue, como se houvesse recebido aquele temor e aquela manha dos seus ascendentes, que não conhecera.

Não tinha refúgio, nem teto, nem cabana, nem abrigo. Dormia por toda a parte, quer de verão quer de inverno, e introduzia-se nas granjas ou nos estábulos com uma ligeireza notável. E raspava-se sempre antes que houvessem dado pela sua presença. Conhecia os buracos para penetrar nas construções, e o manejar das muletas havia-lhe dado aos braços um vigor tão surpreendente, que trepava só à força de pulso até aos celeiros de forragens, onde se conservava quatro ou cinco dias sem bulir, quando havia recolhido no seu giro as provisões suficientes.

Vivia como os animais dos bosques no meio dos homens, sem conhecer ninguém, sem amar ninguém, não excitando aos camponeses mais que uma espécie de desprezo indiferente e de hostilidade resignada. Tinham-lhe posto a alcunha do "Sino" porque se balouçava, entre as duas muletas de pau como um sino se balouça entre os seus suportes.

Havia dois dias que não comia. Ninguém já lhe dava nada. Por fim, nem já o queriam ver. Os camponeses, dos seus portais, gritavam-lhe quando o viam chegar:

— Vê lá se te queres pôr a andar, tonante! Ainda não há três dias que te dei um bocado de pão!

E ele girava sobre as suas estacas e dirigia-se à casa vizinha, onde o recebiam da mesma maneira.

As mulheres declaravam de porta para porta:

— Mas é que a gente não pode dar de comer a este preguiçoso todo o ano.

Todavia, o preguiçoso tinha necessidade de comer todos os dias.

Tinha percorrido Saint-Hilaire, Varville e les Bocettes, sem recolher um cêntimo nem uma simples côdea. Só lhe restava uma esperança, era, Tournolles; mas era-lhe preciso caminhar ainda duas léguas pela estrada real, e sentia-se cansado a ponto de não poder arrastar-se mais, tendo o ventre tão vazio como a algibeira.

Apesar de tudo, pôs-se em marcha.

Era em dezembro. Um vento frio percorria os campos, sibilava nos ramos nus; e as nuvens galopavam através do céu baixo e sombrio, apressando-se não se sabe para onde. O estropiado caminhava lentamente, deslocando os seus suportes um após outro com penoso esforço, escorando-se na perna torcida que lhe restava, terminada por um pé aleijado e calçado por um trapo.

De tempos a tempos, assentava-se no fosso e descansava alguns minutos. A fome punha uma grande mágoa na alma confusa e pesada. Ele sô tinha uma ideia: "comer", mas não sabia por que meio.

Durante três horas, penou na comprida estrada; depois, quando avistou as árvores da aldeia, apressou os seus movimentos.

O primeiro lavrador que encontrou e ao qual pediu esmola, respondeu-lhe:

— Tu ainda por aqui? velho desprezível! Então eu nunca me verei livre de ti?

E o "Sino" afastou-se. De porta em porta, correram-no, recambiaram-no, sem lhe darem nada. E ele continuava, apesar disso, o seu giro, paciente e obstinado. Não recolheu um sou.

Então visitou as herdades, caminhando através das terras amolecidas pelas chuvas, por tal forma extenuado que nem sequer podia levantar as muletas. Escorraçavam-no de toda a parte. Era um desses dias frios e tristes em que os corações se fecham, em que os espíritos se irritam, em que a alma está sombria, em que a mão não se abre nem para dar nem para socorrer.

Quando acabou de visitar todas as casas que conhecia, foi cair ao canto de uma vala, ao longo do pátio do tio Chiquet. Despegou-se, como se dizia para exprimir a maneira porque se deixava cair de entre as muletas que fazia escorregar por debaixo dos braços. Ficou por largo tempo imóvel, torturado pela fome, mas era muito bruto para que pudesse penetrar a sua insondável miséria.

Esperava não se sabe o que, naquela vaga esperança que existe constante em nós.

Esperava ao canto daquele pátio, sob o vento gelado, o auxílio misterioso que se espera sempre do céu ou dos homens, sem que saiba como, nem por que, nem por quem ele nos poderá chegar. Passava um bando de galinhas pretas, buscando a sua vida na terra que alimenta todos os seres. A cada instante, picavam com uma bicada um grão ou um inseto invisível, depois continuavam a sua busca lenta e segura.

O "Sino" olhava para elas sem pensar em nada; depois veio-lhe, mais ao ventre que propriamente à cabeça, mais à sensação que à ideia, que um daqueles animais seria bom para comer assado no borralho de uns troncos secos. A suposição de que ia cometer um roubo nem de leve roçou pelo seu espírito. Pegou numa pedra que se achava ao alcance da mão, e, como a tinha certeira, matou redondamente, atirando logo por terra a ave que estava mais próxima. O animal caíra de flanco, remexendo as asas. As outras fugiram, balouçando-se nas suas patas delgadas, e o "Sino", escalando novamente as suas muletas, pôs-se em marcha para ir apanhar a sua caça, com movimentos iguais aos das galinhas.

Ao chegar perto do pequeno corpo preto manchado de vermelho na cabeça, recebeu um empurrão terrível pelas costas, que o fez cair das muletas e o fez rolar a dez passos para a frente.

E o tio Chiquet, exasperado, precipitando-se sobre o pilha, encheu-o de pancadas, batendo como um furioso, como bate um camponês roubado, com o punho e com o joelho por todo o corpo do enfermo, que não podia defender-se.

As pessoas da herdade chegaram por sua vez e puseram-se com o patrão a sovar o mendigo. Depois, quando se cansaram de lhe bater, agarraram nele, levaram-no e fecharam-no na casa da lenha, enquanto iam busca das autoridades.

"Sino", meio morto, sangrando e estourando de fome, ficou deitado no chão. Chegou a tarde, veio a noite, depois a aurora, e ele sem comer.

Pelo meio dia, os guardas apareceram e abriram a porta com precaução, esperando uma resistência, porque o tio Chiquet dizia ter sido atacado pelo vadio e ter-se defendido a grande custo.

O cabo bradou:

— Vamos! saia daí!

Mas "Sino" não se podia mexer; ainda tentou erguer-se nos seus suportes, mas não o conseguiu. Julgaram que era fingimento, que era manha, que era má vontade do malfeitor, e os dois homens armados trataram-no asperamente, empunharam-no e puseram-no à força sobre as muletas.

O medo apossara-se dele, aquele medo inato que os desgraçados têm das correias militares, o medo a caça em presença do caçador, do rato diante do gato. E, com esforços sobre-humanos, lá conseguiu pôr-se em pé.

— Marche! disse o cabo. Ele marchou. Todo o pessoal da herdade o via partir. As mulheres mostravam-lhe o punho; os homens chacoteavam-no; injuriavam-no: tinham-lhe dado fim! Estavam livres.

Ele afastou-se entre os dois guardas. Achou a energia desesperada que lhe era precisa para se arrastar ainda até à noite, embrutecido, não sabendo nem sequer o que lhe sucedia, assustado por demais para que pudesse compreender.

As pessoas que o encontravam detinham-se para o ver assar, e os camponeses murmuravam:

— É algum ladrão!

Pela noitinha, chegaram à comarca. Ele nunca tinha ido até ali. Não dava verdadeiramente conta do que se passava nem do que lhe podia acontecer. Todas aquelas casas novas o consternavam.

Não pronunciou mais uma palavra, nada tendo a dizer, porque nada compreendia. Desde muitos anos que não falava a ninguém, por isso quase perdera o uso da linguagem; e o seu pensamento estava também muito confuso para poder formular palavras. Encerraram-no na prisão da Villa. Os guardas não pensaram em que ele poderia ter vontade de comer, e deixaram-no até ao outro dia.

Mas, quando vieram para o interrogar, logo de manhãzinha, acharam-no morto, no chão.

Que surpresa!
Guy de Maupassant