Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sexta-feira, junho 19
Canção breve
Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.
Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.
Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.
Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.
Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.
Eugénio de Andrade
Corpo fechado
José Boi caiu de um barranco de vinte metros; ficou com a cabeleira enterrada no chão e quebrou o pescoço. Mas, meio minuto antes, estava completamente bêbado e também no apogeu da carreira: era o “espanta-praças”, porque tinha escaramuçado, uma vez, um cabo e dois soldados, que não puderam reagir, por serem apenas três. — Você o conheceu, Manuel Fulô?
— Mas muito!… Bom homem… Muito amigo meu. Só que ele andava sempre coçando a cabeça, e eu tenho um medo da nado de piolho…
— Podia ser sinal de indecisão…
— Eu acompanhei até o enterro. Nunca vi defunto tão esticado de comprido…
Caixão especial no tamanho: acho que levou mais de peça e meia de galão…
— E quem tomou o lugar dele?
— Lugar? O sujeito não tinha cobre nem p’ra um bom animal de sela.., O que ganhava ia na pinga… Mão aberta…
— Mas, quem ficou sendo o valentão, depois que ele morreu?
— Ah, isso teve muitos: o Desidério…
— Cuera?
— Cabaça… Sé que era bruto como ele sé, e os outros tinham medo dele. Cavalo coiceiro…
Comigo nunca se engraçou!
— Como acabou?
— Acabou em casa de grades. Foi romper aleluia na cidade, e os soldados abotoaram o filho da mãe dele… Não voltou aqui, nunca mais…
— E o tal Dêjo?
— Esse foi depois… Antes teve o Miligido… E o nome daquele era Adejalma, nome bobo, que nem é de santo… Um peste. Muita prosa, muita farroma, mas eu virei o cujo do avesso!
Me respeitou! Me respeitou, seu doutor!
— Briga, Manuel?
— Lhe conto, seu doutor. Foi na venda: eu estava comprando cadarço de roupa, coisa de paz… O homem já veio chegando enjoado, me olhando com cara de herege… Negaceou.
Depois, virou p’ra o Pércio, que era caixeiro nesse tempo, e perguntou: “O senhor tem aí dessa raça de faca que entra na barriga e murgueia?” E olhou p’ra mim, outra vez, p’ra ver se eu estava com receio,..
— E você, Manuel Fulô?
— Eu ia serrar de cima, mas nem não tive tempo, porque nessa horinha vinha entrando um tropeiro da Soledade, que era homem duro, e pensou que a ofensa era p’ra ele… E aquilo foi o tropeiro dando um murro no balcão, e tossindo, e perguntando também p’ra o Pércio: “Por falar nisso, o senhor não terá também dessa raça de bala que bate na testa e chateia?!”
Pois aí o Adejalma se riu de medo, e disse que estava era brincando…
— Mas, então, Manuel, como foi que você virou o Dêjo pelo avesso?
— Ara, ara, seu doutor! Se o tropeiro não tivesse entrado, eu fazia desordem, e fazia mesmo… Porque, depois, o cachorro do Adejalma ainda me perguntou, sé por deboche, porque ele estava cansado de saber quem eu era: “Como é que você chama, rapaz?”…
— E você?
— Eu pus a mão na coronha da garrucha, e respondi: “Sé eu perguntando p’r’a minha mãe”…
— E ele?
— Um desgraçado! Era sé ele bulir, e eu mais o tropeiro mandávamos o corpo dele p’ra o quincumbim… Aquele sujo! Assassino! Tralha!
— Que raiva é essa, fora de hora, Manuel?
— Pois o senhor não imagina que, ao depois, o miserável desse Adejalma, sé por medo da minha macheza, me convidou, mais o tropeiro, p’ra beber com ele e fazer companhia?… O tropeiro agradeceu e não aceitou, mas eu fui, porque não sou soberbo… Pois o senhor não acredita que o canalha foi encomendando despesas, e me elogiando e respeitando, até que eu fiquei assim meio escurecido, e aí ele foi-s’embora e me deixou sozinho p’ra eu ter de pagar tudo, por perto de uns quatro mil réis É ou não é p’ra uma pessoa correta ter raiva? É ou não é?!… Cachorro! Morreu de erisipela na cara…
— – E o Miligido?
— Esse era bom… Homem justo. O que ele era era preto… Mais preto do que os outros pretos, engomado de preto… Eu acho que ele era preto até por dentro! Mas foi meu amigo.
Valentão valente, mesmo. Um dia ele me deu uma escova de dente, quase nova… Eu acho que ele encontrou a tal nalgum lugar e não sabia que serventia aquilo tinha…
— Matou muita gente, o Miligido?
— Quase nenhum, que eu esteja lembrado… Também, todo o mundo tinha medo dele…
Cada um dizia amém antes de ele rezar o fim da reza… Está vivo, mas não é valentão mais.
Muito velho… Deve de andar beirando uns setenta… Agora…
— Agora, o valentão é o Targino…
— Nem fala, seu doutor. Esse é ruim mesmo inteirado… Não respeita nem a honra das famílias! É um flagelo…
— Mas não parece…
— O quê?! Aquilo é cobra que pisca olho… Quando ele em birra, briga até com quem não quer brigar com ele… Nenhum dos outros não fazia essa maldade.., O senhor acha que isso é regra de ser valentão? Eu sei que, por causa de uns assim, até o Governo devia era de mandar um quartel de soldados p’ra aqui p ‘ra a Laginha…
— Você tem raiva desse, também, Manuel?
— Não é raiva, não seu doutor: é gastura… Esse-um é maligno e está até excomungado…
Ele é de uma turma de gente sem-que-fazer, que comeram carne e beberam cachaça na frente da igreja, em sexta-feira da Paixão, só p’ra pirraçar o padre e experimentar a paciência de Deus… Eles todos já foram castigados: o Roque se afogou numa água rasinha de enxurrada.., ele estava de chifre cheio… Gervásio sumiu no mundo, sem deixar rasto…
Laurindo, a mulher mesma torou a cabeça dele com um machado, uma noite.., foi em janeiro do ano passado… Camilo Matias acabou com mal-de-lázaro… Só quem está sobrando mesmo é o Targino. E o castigo demora, mas não falta…
— Mas, nesta sobrança, ele é quem vai castigando os outros, por conta própria, Manuel Fulô…
— Deixa ele, seu doutor… P’ra cavalo ruim, Deus bambeia a rédea… Um dia ele encontra outro mais grosso… Eu já estou vendo o diabo, com defunto na cacunda! … Esse sujeitinho ainda vai ter de dançar de ceroula, seu doutor! Isto aqui é terra de gente brava…
— Verdade, Manuel?
— Pode aprovar, seu doutor. Até João Brandão, que foi patente no clavinote, deu volta, quando passou por aqui… Meu pai viu isso… João Brandão vinha vindo p’ra o norte, com os seus homens, diz-se que ia levando armas p’ra o povo de Antônio Conselheiro, mais de uns vinte burros, com as cangalhas encalcadas… Na passagem de onde hoje é a ponte da Quininha, tiveram um tiroteio com os soldados… Isto aqui é uma terra terrível, seu doutor…
Eu mesmo… O senhor me vê mansinho deste jeito, mas eu fui batizado com água quente…
E assim falou Manuel Fulô.
José Boi, Desidério, Miligido, Dêjo… Só podia haver um valentão de cada vez. Mas o último, o Targino, tardava em ceder o lugar. O challenger não aparecia: rareavam os nascidos sob o signo de Marte, e Laginha estava, na ocasião, mal provida de bate-paus.
Havia, sim, os sub-valentões, sedentários de mão pronta e mau gênio, a quem, por garantia, todos gostavam de dar os filhos para batizar.
Os do-Quintiliano, por exemplo. Eram dois ou três irmãos, que mandavam na Vargem, espécie de arrabalde que prolongava o arraial para lá da linha férrea. Um dia, apareceu — papel pregado em árvore — um “pasquim”, sátira anônima, desabafo de algum oprimido:
“A Sofia mais os filho o lastro.
A Guilir o trem.
Joao do Quintiliano prosa com o que nao tem.
Cala a boca gente, que o Quintiliano envem!
Sebastiana mais a Lina passam bem.
Agora vira da outra banda.
Viva o povo da rua da Avenida,
Quem fez isto foi o Tonico da Rabada.”
Antonico da Rabada protestou: por todos os santos e mais deus-do-céu, a luz que alumia, esta cruz, e a alma da sua mãe, que não tinha escrito nada. E se escondeu.
João do Quintiliano saiu furioso, recendendo a cachaça, brandindo as armas, gritando desaforos a esmo; esbarrou no moirão da portela, tinha a cara encruada de dor-de-dente, deu tiros para cima, levava uma flor amarela no peito, e, junto com os parentes, conflagrou a Vargem. Muita porretada, algumas facadas, e foi um dia-de-domingo no meio da semana, porque ninguém trabalhou, Os do-Quintiliano andavam, casa por casa, procurando o editor responsável. Então, alguém pensou, naturalmente, no Manuel Baptista, o Aretino do arraial.
Foram atrás dele, para a satisfação, e encontraram-no no paiol do João Italiano, dando escola para os meninos do negociante.
Mas Manuel Baptista ficou bravo: vissem lá se ele era homem para andar pregando em árvore bobagens sem assinatura! E com tantos erros! Ele entendia de gramática, e seus pasquins, muito bem caprichados, sempre numa meia folha de papel almaço, só eram lidos por pessoas capazes de apreciá-los, e, mesmo assim, tendo cada um de solicitar a sua vez, com muito empenho! E, como prova, exibiu e leu, muito digno e neurastênico, a sua última produção, que debochava de muitas atualidades, terminando, como sempre, com o seu nome, bem rima do, no verso final:
“Essa história de phonetica
eu nunca pude entendê!
E tao feio se assigná
Manuel Batista, sem P!.."
João do Quintiliano ouviu, respeitoso, humilhado pelo poder da arte e da ciência. Pediu desculpas e veio reproduzindo, em sentido contrário, a peregrinação suburbana, dando pan cada em todo o pessoal com quem antipatizava. E só de tardinha, esfalfado, suado, foi que achou de bom aviso pôr uma pe dra em cima da questão.
Pois foi nesse tempo calamitoso que eu vim para Laginha, de morada, e fui tomando de tudo a devida nota.
O arraial era o mais monótono possível. Logo na chegada, ansioso por conversas à beira do fogo, desafios com viola, batuques e cavalhadas, procurei, procurei, e quebrei a foice. As noites, principalmente, impressionavam. Casas no escuro, rua deserta. Raro, o pataleio de um cavalo no cascalho. O responso pluralíssimo dos sapos. Um só latido, mágico, feito por muitos cachorros remotos. Grilos finfininhos e bezerros fonfonando. E pronto.
— Mas, gente, que é que vocês fazem de-noite?
— De noite, a gente lava os pés, come leite e dorme.
Agora, aos domingos, só aos domingos, gente como enchente. Cavalos, burros e ainda outros cavalos, amarrados em frente às casas — e aí foi que fiquei conhecendo o préstimo daqueles postes de guarantã ou de aroeira, cheios de argolas e plantados por toda a parte.
Vinha povo extraído e exumado de tudo quanto era grota e biboca, num raio de légua e meia. Tocava o sino, reinava o divino. E, depois da missa, derramava-se pelas duas ruas a balbúrdia sarapintada das comadres, com o cortejo dos homens: olhando muito para as pontas das botinas, assim joão gouveia-sapato-sem-meia, ou de meias e chinelos — mas só os que estavam de purgante.
Fastio. Há, neste mundo, muito tamanho de papo: pequi, pé ra, laranja, coco da Bahia. Um boi que tenha um chifre mais baixo que o outro é bisco, e o de cabeça negra com uma pinta branca na testa é silveiro. E os pretos vendem a vida pela festa do Congado, que, por sinal, leva três dias, mas exige ensaios que devem durar o ano inteiro.
Então foi que me mostraram o valentão Targino. Era magro, feio, de cara esverdeada.
Usava botinas e meias, e ligas que prendiam as meias por cima dos canos das calças. E não ria, nunca. Era uma pessoa excedente. Não me interessou.
Agora, o Manuel Fulô, este, sim! Um sujeito pingadinho, quase menino — “pepino que encorujou desde pequeno” — cara de bobo de fazenda, do segundo tipo ; porque toda fazenda tem o seu bobo, que é, ou um velhote baixote, de barba rara no queixo, ou um eterno rapazola, meio surdo, gago, glabro e alvar. Mas gostava de fechar a cara e roncar voz, todo enfarruscado, para mostrar brabeza, e só por descuido sorria, um sorriso manhoso de dono de hotel. E, em suas feições de caburé insalubre, amigavam-se as marcas do sangue aimoré e do gálico herdado: cabelo preto, corrido, que boi lambeu; dentes de fio em meia-lua; malares pontudos; lobo da orelha aderente; testa curta, fugidia; olhinhos de viés e nariz peba, mongol.
Era de uma apócrifa e abundante família Véiga, de uma veiguíssima veigaria molambo-mazelenta, tribo de trapeiros fracassados, que se mexiam daqui p’r’ali, se queixando da lida e da vida: “Um maltírio”… —; uns homens que trotavam léguas a bordo de uma égua magra, empilhados um na garupa, um na sela, mais um meninote no arção para virem vender no arraial um cacho de banana-ouro, meio saco de polvilho pubo, ou uma pele de raposão.
Mas, com o Manuel Véiga — vulgo Manuel Flor, melhor mente Mané Fulô, ás vezes Mané das Moças, ou ainda, quando xingado, Mané-minha-égua, — outros eram os acontecimentos e definitiva a ojeriza: não trabalhava mesmo, de jeito nenhum, e gostaria de saber quem foi que inventou o trabalho, para poder tirar vingança. Por isso, ou por qualquer outro motivo, acostumei-me a tratá-lo de Manuel Fulô, que não deixava de ser uma boa variante.
Começou por falar-me de um irmão seu, que tinha uma galinha d’angola domesticada e ensinada, que dormia debaixo do jirau. Não acreditei. Mas pessoas respeitáveis afiançaram o fato, ajuntando que, além da cocar mansinha, o rapaz conservava um rato enjaulado, pretendendo obter que ele e um gato de rajas se fizessem amigos de infância. Tive de pedir desculpas ao Manuel. E, aí, ficamos ótimos amigos. Mais o admirei, contudo, ao saber que ele era o único no arraial a comer cogumelos, com carne, à moda de quiabos. Não um urupê qualquer do mato, nem esses fungos de formato obsceno, nem as orelhas-de-pau, nem os chapéus-de-sol-de-sapo, nem os micetos que crescem na espuma seca dos regos de enxurrada, não senhor! Só o tortulho amarelo do chão das queimadas, “champignon” gostoso, o simpático carapicum. Provei. Exultei. E a nossa amizade cresceu.
O meu amigo gostava de moças, de cachaça, e de conversar fiado. Mas tinha a Beija-Flor.
Ah, essa era mesmo um motivo! Uma besta ruana, de cruz preta no dorso, lisa, vistosa e lustrosa, sábia e mansa — mas só para o dono. Tinha apenas um defeito: era nhata; e as maxilas erradas impediam-na de tosar os talos, já rentes à terra, da última relva da seca, e não deixavam que ela rasoirasse os brotos cio primeiro capim das águas. Mas tinha custado mais de conto de réis, num tempo em que os animais não valiam quase nada, e era o orgulho do Manuel Fulô.
Mais do que isso, era o seu complemento: juntos, centaurizavam gloriosamente.
Aos domingos, Manuel Fulô era infalível: — Vim p’r’a missa… — dizia. Mas chegava sempre atrasado, com o povo saindo da igreja; e então corria, um por um, todos os botequins e bitáculas, reclamador, difícil, mal-encarado, importante. Gostava, principal e fatalmente, de afirmar que era filho natural do Nhô Peixoto, o maior negociante do arraial; e isso, depois da posse da Beija-Flor, constituía a razão da sua importância.
De tardinha, na hora de pegar a estrada, tocavam, tardos: ele, tonto qual jamais outro, perdia logo a perpendicularidade, e se abraçava ao pescoço da mula, que se extremava em cuida dos e atenções. Se a barrigueira estava frouxa e o arreio meio caindo, Beija-Flor estacava e ficava muito quieta. Sabia também abrir porteiras e era por causa dessa e de mais outras habilidades que Manuel Fulô conseguia chegar em casa. “Nem minha mãe não cuidava melhor de mim, assim!”…
Mas, quando era para se mostrar no comércio, antes dos descalabros alcoólicos, o meu amigo caprichava em forçar a anda dura da burra, fornecendo-lhe pouca rédea e fazendo-a pedalar, garbosa, crânio alto, bate crina, como um cavalo de esquadrão. — Quando eu entro no arraial, amontado na minha mulinha formosa, que custou conto e trezentos na baixa, todos ficam gemendo de raiva de inveja, mas falam baixinho uns p’ra os outros: — “Lá vem Mané Fulô, na sua Beija-Fulô, aferrada dos quatro pés e das mãos também!”…
— E você, Manuel?
— Tenho pena deles…
— E as moças?
— Não falo nisso. Começa em olho e acaba em honra… E negócio de honra é na faca!
Pois bem, Manuel Fulô dera para visitar-me, mais que diariamente. E, como a Beija-Fulô depressa aprendia as coisas, assustei-me bastante, numa tarde em que ela veio escoucear minha porta, com o seu proprietário escornado em cima do arreio, na mais concreta abstração. Beija-Fulô queria entrar, por força, talvez para despejar o Manuel em cima de algum catre. Então, eu esvaziei um jarro d’água na cabeça do cava leiro, e depois perguntei aonde ele pretendia ir. Perene e solene, respondeu: — Eu?!… Eu: Tões, Militões, Canindéis, Maquinéis!
Loucura, porque nem nunca que ele havia de poder chegar à fazenda do Tão, nem na do Militão, pior ainda no Canindé, nem nunca que nunca no Maquiné, principalmente com a Beija-Fulô assim disposta a arrombar portas e ir embocando no domicílio de gente importante.
Ora pois, um dia, um meio-dia de mormaço e modorra, gritaram “Ó de casa!” e eu gritei “Ó de fora!”, e aí foi que a história começou. Bom, fui ver. Era uma rapariguinha risonha e redonda, peituda como uma perdiz. Bonita mesmo, e diversa, com sua pele muito clara e os olhos cor de chuchu. Pasmou parada, e virou pitanga, pois não contava decerto encontrar gente de cidade e gravata. Animei-a:
— Hã?
Então ela me disse que ia casar, e que por isso estava percorrendo o arraial, pedindo “adjutório”. Dei, com prazer, o “adju-tório”, mas perguntei quem era o noivo. Era o Manuel!
— Fulô?
— Sim, senhor…
E lá se foi embora a noivinha ditosa, mais a dona idosa que a acompanhava. A bem dizer, eram cor de abóbora os seus olhos. Tinha até um respingo de sardas, eu vi.
— Com que, heín, seu Manuel Fulô, Mané das Moças, que vai casar!
Manuel Fulô viera ver-me, nessa mesma tarde, chamando-me de flor dos doutores e pedindo para beber cerveja p’ra eu pagar.
— Caso mesmo. É este sangue de Peixoto! Não tem outro jeito…
— Que você casa, já sei, e bem que podia, antes, ter-me participado. E você não é Peixoto, é Véiga, dos Véigas do São Thomé…
— Vou lhe contar, seu doutor: sou filho natural de Nhô Peixoto! O senhor não reparou que eu não sou branquelo nem perrengue como esses Véigas?… Meu pai é meu pai por cortesia, e eu respeito… Mas sou mesmo é Peixoto. Raça de gente braba! Eu cá sou assim: estou quieto, não bulo com ninguém… Mas, não venham mexer comigo! porque desfeita eu não levo p’ra casa, e p’ra desaforo grosso a minha Beija-Fulô não dá condução…
— Bom, Manuel Fulô Peixoto, sua noiva é bonita…
— Não caçoa, seu doutor. Isto eu sei que ela não é, por causa que eu ainda não estou cego.
Mas, sacudidona, boazinha e trabalhadeira, ela é… O senhor não acha?
— Acho. Bem, Manuel, vamos tomar cerveja, para festejar o noivado!
Preferi fôssemos para a venda, porque sabia que Manuel Fulô gostava de exibir a nossa amizade. E, mal nos sentamos nas cadeiras dobradiças, fui perguntando: — Me conta, Manuel, você gosta mesmo dela?
— Amo! isso, lá, amo mesmo, seu doutor…
— Faz bem, Manuel, faz bem…
Então nos desolhamos, e pegamos a pensar, cada um para o seu lado, até que Manuel suspirou e explicou:
— É o jeito. Eu só queria treis coisas só: ter uma sela mexicana, p’ra arrear a Beija-Fulô…
E ser boticário ou chefe de trem-de-ferro, fardado de boné! Mas isso mesmo é que ainda é mais impossível… A pois, estando vendo que não arranjo nem trem-de-ferro, nem farmácia, nem a sela, me caso… Me caso! seu doutor…
E Manuel Fulô babou cerveja queixo abaixo, mas seus olhos ficaram sérios.
— Mas você não gosta da moça, Manuel Fulô?
— Gosto sim. Já estamos criando amor. Ela é boazinha… Pobre como eu… Mas eu queria uma sela mexicana, um arreio de gaúcho, graúdo, com bordados no couro dos estribos, com topete adiante e cabide de prego p’ra o laço, no santantônio… Aí é que era! Aí é que era, seu doutorzinho meu amigo!…
— Chega de beber, Manuel Fulô Peixoto meu amigo…
— Eu cá não estou bêb’do nenhuns-nada! Estou é com raiva. Sangue de Peixoto não é brinquedo, esquenta à toa, à toa… Estou com ódio não é por mim, é por causa da minha Beija-Fulô…
— Boa mula…
— Boa?! Uma santa de beleza de besta é que ela é!… Aquilo nem dorme… Nunca vi a Beija— Fulô deitada, por Deus do céu!… Montaria assim supimpa, assim desse jeito, nunca me disseram que houve… E olha que isso de animal é minha comida: entendo disso direito, sei puxar uma matéria!
— Claro que você sabe, Manuel Fulô…
— E sei mesmo! Então, p’ra que foi que eu havia de andar dois anos amadrinhado com os ciganos, acompanhando aquele povo p’ra baixo e p’ra riba? Então?!…
— Você viveu com os ciganos, Manuel Fulô? Me conta como foi que foi…
— Foi por causa que eu estava sem gosto p’ra caçar serviço bruto, naquele tempo… Garrei a maginar: o que eu nasci mesmo p’ra saber fazer é negócio de negociar com animal. Mas eu queria ser o melhor de todos… E quem é que é mestre nessa mexida? Não é cigano? Pois então eu quis viajar no meio da ciganada, por amor de aprender as mamparras lá deles. Me ajustei com um bando…
— Boa vida, Manuel?
— Assim-assim… Que me importa!? Eu só queria era estudar as tretas todas dos calões…
Dormia em barraca, comia quase que só repolho com cebola e carne de cabrito cozida… E tomei assunto, ligeiro, de um ror de coisas na língua disgramada que eles falam… Mas olha aqui: sou besta?… Fazia mas era de conta que não entendia nada! Ficava marombando…
P’ra negócio de consertar fundo de tacho e de gramar no cabo do mar telo p’ra fazer caldeirão, não vê que eu dava confiança!… Mas, opa! Que beleza de gente p’ra ser esperta!…
— Roubavam muito cavalo, heim?
— Ah, isso era só ter jeito de roubar, que estava roubado mesmo! E, ao depois, trabalhavam com os animais, p’ra botar eles bonitos, que nem cavalgadura de lei… Até pintar, p’ra ficar de cor diferente, eles pintavam… Muita vez nem o dono não era capaz de arreconhecer o bicho!… Pegavam num pangaré pelado, mexiam com ele daqui p’r’ali, repassavam, acertavam no freio, e depois era só chegar p’ra o ganjão e passar a perna nele, na barganha… E volta boa, em dinheiro, porque cigano só faz baldroca recebendo volta…
Senão, também, como é que eles haviam de poder viver? Como é?!…
…Eles gostavam muito de mim, porque pensavam que eu era bobo de deveras… Mesmo, por fim, por eu dar jeito assim de bobo, eles mandavam que eu fosse negociar os animais com os pessoais… E falavam comigo em antes: “Tu pode conversar o que quiser, mas não deixa eles te empulharem, e só aceita negócio a troco da besta preta do padeiro, com volta de cem, ou por aquele cavalo bragado da mulher do homem do beco, com volta de sessentão…”
…Ô beleza!… Eu saía com a cavalhada, e era que nem artista de circo-de-cavalinho!
Primeiro, fazia bonito na rua, repassando… Aquilo, eu caprichava comigo: p’ra animal murzelo, eu punha roupa preta, p’ra malhado, paletó d’uma cor, calça doutra… E fazia um negocião, porque todo o mundo pensavam que estavam me cinzando…
— E você gostou de alguma ciganinha, Manuel?
— É baixo! Não vê! Negócio é só negócio. E eu estava ali era feito menino de escola, só p’ra mór de aprender. Quando vi que tinha sabido tudo, vim membora… Bem que eles pediram p’ra eu ficar. Mas eu lá precisava mais de ciganada velhaca?!… Uma osga!
P’r’aqui mais p’r’aqui que eu fiquei!… (E Manuel Fulô toca os cotovelos.) …Já entendia de tudo quanto era manha de lidar com cavalo. Batia a mão num bicho de anca chata, cesto-de-urso, cambeta, de galope desunido, rasga-tapete, baixo de quartela, transcurvo ou boletado… Revirava com ele, fazia ele comer bastante milho, dava sal com enxofre, dava arsênico, dava outras coisas, que depois se o senhor quiser aprender eu lhe conto… Ajeitava um freio de-propósito, com bridão ou bocal de ferro, sojigando ou afrouxando a barbeia, aconforme os casos… Acostumava o bruto, e aquilo ele ficava prontinho uma montada luxenta, de ginete, manteúdo p’ra troca, de galope espertado, batido do lado esquerdo… Só vendo!
…P’ra conhecer; então, não tinha mais ninguém p’ra poder comigo: era só deixar eu empurrar a mão fechada no peito de um macho, p’ra eu ir gritando: — Passa p’ra cá, que este é dos meus!
..ou então, indas que ele fosse vistoso e sacudido, de es tampa: — Arrenego, que não presta! Não presta nem p’ra puxar pedra, por causa que é aberto de frente!…
…Passava o dedo na boca aberta de outra azêmula, e já sabia: — Barra com calo.., queixudo… Aparta esse p’ra lá, que nem de graça que ele não serve p’ra mim não!…
…Agora, canjica, niquento, debruçado ou ajoelhado, pesado de frente que nem jumento, isso então era coisa corriqueira: eu chamava nas truvancas, e, em menos de uma semana, punha o tal num preceito, que quando saía comigo p’r’a rua o diabo vinha rebolando, todo repinicado, pegando andorinha no ar!
…..Quando eu larguei a ciganagem, vim p’r’aqui p’r’o arraial, negociar por minha conta. Aí foi que eu ganhei um dinheirão! Merenguém bonito…
— Lesando os outros, Manuel?
— Não vê! A modo e coisa que, p’ra se fazer tratantagem, só mesmo quando a gente é andejo, porque não pára em lugar nenhum, e, quando o crente dá fé de que levou manta, a gente já está longe, e custa muito p’ra voltar. Aí, enquanto isso, é o tempinho certo do tal-um esfriar a raiva, mas ficar querendo cobrar o logro… E, quando a gente volta, o freguês quer porque quer fazer outra berganha, p’ra tirar a forra… E aí a gente torna a jogar cinza nos olhos dele outra vez…
…Mas, morando aqui de sempre, eu não podia fazer esperteza, tinha de negociar direito…
Ah, mas, também, isso eu garanto: p’ra ser honesto e honrado feito eu naquele tempo, não teve outro! Não havia!…
— Mas, Manuel, por que foi então que você deixou esse ramo?
— Ah, pois aí é que está! Isso mesmo é que eu ia condizendo… Foi tudo por causa do raio de uma bestagem que eu fiz… Calcule o senhor que, de vez em quando, eu pegava a pensar e tinha uma raiva danada dos ciganos terem me abusado, achando que eu era coió… E eu nunca fiquei por baixo! Não deixo rasto mal firmado! Tou de calça até dormindo!
…Cada vez, cada mês, a minha raiva era mais muita, e então eu arresolvi amostrar p’ra eles o quê que é gente que tem sangue de Peixoto! Imaginei, imaginei, e daí cacei dois sujeitinhos ordinários de cavalos, que eram mesmo o restolho da porcaria maior de tudo quanto é cavalo ruim que não presta…
— Que dois eram esses, Manuel?
— Um se chamava Furta-Moça. Só mesmo por graça, que nem velha coroca ele não era gente p’ra furtar! Era um alazão sopa-de-leite, com uma perna torta de defeito de nascença… Gázeo, remelento, que nem negro-aço, que não podia abrir os olhos p’r’a banda do sol… Sem-andar, manco, tirador de cabresto… Tinha p’ra mais de uns vinte anos de idade… E estirava, quando a gente prendia o tal na estaca…
..O outro ainda era ainda mais pior, porque era doido, mesmo, doido feito gente doida!
Estava com as canelas que eram isto, de sobrecanas… Se a gente punha o pobre num galope, era só alcançando, arregaçando ou arrastando os pés… No picado, arpejava e acalentava… Na andadura, era aquela feieza: interrompia o andar, com a gente escutando quatro batidas em vez de duas, em cada passada… Pois aquela sombração era um baio-lavado, chamado Ventarola… Cabeça chata… Até de travagem ele estava, e não podia mastigar!…
— Tanta coisa junta, Manuel?
— Verdade pura! Rico de rabo é que ele era, seu doutor!
— E, então…
— Então eu pus um perto do outro, e dei risada: pois há-de ser mesmo com estes mais mambembes que eu vou tochar uma certa naquela cambada!…
Isso foi que eu falei sozinho, p’ra eu mesmo sozinho escutar e ficar ainda mais enjerizado com os ciganos. Porque, só de pensar em cigano, eu ficava tinindo de tiririca!
…Foi uma campanha! Levei quase treis meses. Mas caprichei, porque eu estava todo determinado p’ra etcétera… E co mo eu sou mesmo opiniúdo, e quando entesto de fazer alguma coisa faço mesmo, nem comia nem dormia direito, só inventando outras papiatas p’ra compor com a minha junta de mulas-sem-cabeças de tirar vingança de cigano… Passei banha de jibóia no aleijão cia perna do Furta-Moça, trabalhei de dentista, p’r’amór de retocar os cientes dos dois… Pelejei, pelejei!… Pintando de preto, só um pouco, ao redor dos olhos, Furta-Moça aguentava o sol… E, p’ra andar, eu ensinei postiço, que nem com bicho de circo: eu estando perto, e sendo curtas distâncias, eles faziam força e caminhavam correto… Quando que riam voltar outra vez p’r’as suas desordens, eu assobiava, e tornavam a tomar jeito de gente, com medo de entrar no couro, que se não eu chegava mesmo o pau!
E eles concordaram com a minha regra, e cruzaram trato comigo, de andar direito o principiado dos minutos, eu acho que por causa que eles tinham bom coração…
…Eu sabia que na Semana-Santa os tais tinham de vir no arraial. E vieram mesmo. Mas aí Ventarola e Furta-Moça já estavam no ponto. Limpei as orelhas, tosei direito, escovei, lavei, pus bom freio, fantasiei a visagem deles… Fiz tudo!…
…A derradeira coisa, que eu aprontei, foi fazer Deus que me perdoe sendo maldade foi fazer um machucado nos beiços do Ventarola, porque, quando eles vissem que o pobre não podia comer direito, pensavam que era por via daquilo, e não iam espiar o céu-da-boca, p’ra mór de descobrir a travagem, não… E, aí então, chegou o dia!
…Tinha muita gente no largo de em frente da igreja, quando eu vim com os animais, no sábado-de-aleluia, de manhã. Vim passando, amontado no Furta-Moça, com Ventarola adestro, e fiz de conta que não sabia de nada de cigano ali, e que nem não estava campeando negócio. Mas seu Pachencho, que tinha sido meu patrão cigano, foi me vendo e esgoelando:
— “Eh, ganjão! Esses granéis são seus? Quer bater uma baldroca?”…
— Deus me livre, chefe! — arrespondi. — Tenho medo de levar manta… P’ra eu ficar molhando minhas costas, é? Eu não… Eu é que sei do meu respeito!
…Mas, aí por aí, o Cuntrino, um outro disgramado de cigano sem-vergonha, já estava examinando o Ventarola, e gritando:
— “Deixa de doença, amigo! Você não é nenhum ganjão… Você é mas é patrício, calão como nós… Vamos barganhar esses gráis!”… Gráis é cavalo…
— Eu sei. E depois?
— Depois, então, eu fui deixando… Eles estudaram tudo, olharam, cheiraram, cansaram de olhar, montaram, desamontaram, tornaram a olhar, apalpando, passando a unha, abrindo a boca dos dois éguas-velhas, puxando pelas cambas do freio, fazendo andarem de-fasto, tudo…
… Aí, tinha chegado também o Bertolameu, outro lá deles, que ficou espiando de longe, porque tem uns defeitos de cavalo que só mesmo de longe é que a gente pode ver… E aí foi que eu fiquei com uma despesa no estômago, porque eu estava cansado de saber que: um cigano sozinho, mesmo estando com os olhos fechados, já acerta com a metade dos defeitos de um animal; dois ciganos, juntos, são capazes de adivinhar o que é que c o bicho comeu e está dentro da barriga dele; mas, treis ciganos, então, seu doutor, eles falam p’ra o senhor até qual é que foi o nome da égua mãe…
… . E o Bertolameu juntou com seu Pachencho mais com o Cuntrino, e futricaram, um tempo todo, falando depressa na língua atrapalhada lá deles. Depois, vieram p’ra mim, e me ofereceram dois cavalinhos: um pica-pau assim héctico, tordilho, e um matungo ruço, passarinheiro e de duas crinas…
…Eu fui vendo logo que os animais deles não prestavam, O matungo, p’ra se deitar, ajoelhava que nem vaca, e a modo e coisa que era cego de um olho. Mas eu entendi que ele não era cego nenhuns-nada: era uma pelinha que tinha crescido tapando a vista que, até, depois, seu Raymundo boticário tirou p ‘ra mim.., O pica-pau parecia que não ia durar mais muito tempo vivo… Tinha sinal de duas sangraduras… Mau, mau! Mas depois eu farejei que o que ele precisava era só de descanso, porque os ciganos tinham viajado demais naqueles dois meses, e tinham vindo tocando muito ligeiro e maltratando a tropa deles, p’ra poderem chegar no arraial na Semana-Santa… Isso eu vi, por que as ferraduras dos cavalos estavam todas gastadas, e os cascos dos desferrados estavam desiguais de roidos, também…
…E tinham mais outros desmandos, mas eram muito mais p’ra o desconto do que os defeitos da parelha minha… Por isso eu fiz cara de quem não estava conhecendo as miserinhas dos deles… Ah, porque eu tinha de fazer de capim, p’ra comer o burro!… E até peguei a gabar: — Eta! Bonitinhos eles são… Mas, dinheiro p’ra volta é que eu não tenho, e até estou triste por não ter!…
…Aí, eles riram um p’ra o outro, e eu cá quieto, fazendo de conta que não estava vendo…
Queriam-porque-queriam que eu chegasse vinte mil-réis. Mas eu sabia que cigano tem uma esganação medonha, mesmo que doença, p ‘ra baldrocar cavalos, e fiz fincapé, suspirando, mentindo que nem um botão de calça eu não podia voltar. Ai, seu doutor meu amigo, a cacunda do bobo é o poleiro do esperto!… Eles tinham que dar o beiço e cair o cacho!… E eu fiquei mesmando…
…Por fim, quando eu relanceei que eles já estavam meio querendo me aceitar, entrei de zápede, espadilha e treis: — Bom, mas vocês têm de me voltar dez’tões de lambujem, que é p’ra uma cachacinha, porque o dinheiro aqui na minha terra anda vasqueiro…
…Mentira pura! Eu queria volta era só por a-mór de desonrar a raça toda de ciganos, p’ra uma vez!…
…Seu Pachencho fechou a cara, mas o tal Cuntrino veio comigo: — “Dez’tões é nada… Eu dou. …”
…Ai, meu pai! Não sei como é que eu não morri de alegria naquela hora! … Foi só a gente fechar o negócio, e eu peguei a dar viva, gritando que tinha embrulhado os ciganos, e chamando o povo p’ra escutar, e o povo querendo saber por quê, e eu mostrando os defeitos todos que eles não tinham sido gente p ‘ra descobrir! E até deitei no chão, com os pés p’ra cima, e gritei:
— Rach’ ou parta ô melodência!, que por mim o mundo agora já pode se acabar!…
— E os ciganos, Manuel?
— Ficaram danados, eles, e me rogaram muita praga, e até queriam desmanchar a troca.
Mas aí eu me alembrei do sangue que tenho, e falei minhas ordens. Mostrei só o biquinho da garrucha e dei um eco neles: Ti-ó-Frade, Tio-fró!… Fiquem sabendo que eu sou filho natural de Nhô Peixoto, e, já, já, vocês têm que desaparecer esses cavalos daqui!…
….E eles não fizeram nada, e foram-s’embora, porque, em qualquer parte em que cigano briga, seja lá com quem for, o povo todo do lugar se ajunta e todo o mundo aproveita p’ra dar pancada neles… Até eu não acho que seja direito…
…Mas, ôi, diabo! Até hoje eu ainda gosto mais de me alembrar disso do que de comer doce!…
— Foi bonito, Manuel…
— Pois não foi? Eu acho que a gente deve de fazer umas coisas assim, p’ra se consolar; mais tarde, com qualquer tristeza que tiver…
— Mais cerveja, Manuel?
— Eu cá nunca enjeito, seu doutor. Mas, lhe conto: o ruim foi depois: ninguém não queria fazer mais negócio comigo… Perdi a freguesia… E, eles, era ingratidão, porque eu nunca tinha feito velhacaria nenhuma com pessoa nenhuma do arraial. Não carrego rabo de palha… Mas, que-o-quê! Eles diziam: — “Qual, com você, não. Nunca mais! Sai p’ra lá, você embroma até cigano”…
….. De formas que foi só por via disso mesmo que eu não fiquei rico, e que agora estou me coçando com um dedo s E isso de se querer fazer bonito, seu doutor, é a pior coisa que tem.
Nunca que dá certo!… Basta só usar penacho uma vez, p’ra uma pessoa se emporcalhar toda ao despois. Um coice mal dado chega p’ra desmanchar a igrejinha da gente…
— Razão você tem, Manuel Fulô.. Mas, vê se bebe mais devagar…
— Não estou bêb’do, nada. Estou é com raiva, já falei! Fico que não posso, de jeriza, quando magino que o Toniquinho das Pedras tem uma sela mexicana boa, encostada, porque ele não tem cavalo nenhum, nem besta!… Podia me vender aquela, barato, porque ele não precisa de arreio… Precisa algum? Sé se for p’ra botar nas costas dele-lá-mesmo…!
Mas não vende, nem por nada, e eu já peguei qual é a manha dele: é porque ele quer apanhar a minha Beija-Fulô! Desaforo!… Não pega a minha mulinha, nem a troco de uma mina de brilhante!… Nem se ela, Deus a livre guarde, morresse, o que não é bom falar, eu nem o couro não havia de vender p’r’aquele judeu!…
— Sossega, Manuel.
— Tenho ódio dele, tenho mesmo! E um sujeito sem préstimo, sem aquela-coisa na cara… É o pior pedreiro do arraial, não sabe nem plantar uma parede. Sé sabe é fazer feitiço, vender garrafada de raiz do mato, e rezar reza brava. Tem partes com o porco sujo… Não presta!
Gente assim não devia de ter!…
— Mas tem muita, Manuelzinho Fulô.
— Não brinca, seu doutor! O senhor também devia mas é me ajudar a ter ódio do cachorro do Toniquinho das Águas… Ele vive desencaminhando o povo de ir se consultar com o senhor. Dizendo que o doutor-médico não cura nada, que ele sara os outros muito mais em-conta, baratinho… Ele quer plantar mato na sua roça e frigir ovo no seu fogão! O senhor não vê? Ele não faz receita no papel, sé porque não conhece os símplices, e acho que não sabe escrever, e isso que nem o boticário não aviava nenhuns-nada… Mas benze, trata de tudo, e aconselha que a gente não deve de tomar remédio de botica, que deve de tomar é só cordial… Qualquer dia ele arruma uma coisa-feita, p’ra modo de fazer o senhor ir-s’embora daqui…
— Feitiço em mim não pega, Manuel…
— É, mas o senhor devia era de fazer medo nele, falando em mandar vir um tenente com os soldados, se ele não parar com esses embondos de feitiço, e se não quiser vender a sela mexi cana p’ra mim!.., O senhor porque é bom demais, e não vê que ele está mas é roubando o de-comer de seus filhos…
— Mas eu não tenho filhos, Manuel!
— Ara, que ideia! Não tem, mas podia ter, e é a mesma coisa que ter!… Não tem mas vai ter!… E, olha aqui, seu doutor, falando sério, o senhor agora vai me responder uma pergunta: se uma pessoa tem uma sela guardada, sem serventia… E outra pessoa tem uma besta de-primeira, mas mesmo, de que não há outra igual, manteúda e talentosa, andadeira e esperta que nem gente… E se o que tem a sela quer comprar a mula, e o da mula quer comprar a sela, e ainda por riba falou primeiro no negócio… Quem é que o senhor acha que deve de ter direito? Não é o da besta, o da Beija-Fulô?!
— Mas, Manuel…
— Pois ‘tá’í! … Qualquer um vê logo que eu estou com o certo. Mas o tralha não tem crisma, só senta perto do cacifre… E eu até fico com medo, porque a sela, com tanto tempo que passa, pode querer se estragar. E já pensei também que ele, sabendo que gente dos Peixotos é gente mesmo opiniúda, e que eu não vendo — nã-o ven-do! — , que ele queira pôr algum quebranto na minha Beija-Fulozinha, benza-a Deus!
— Benza-a Deus, Manuel!
— É, mas se ele fizer algum caborje, morre no meu pinguelo! Seis tiros!…
— Chega de beber, Manuel Fulô. Você já está ficando vesgo.
— Bom, vamos mesmo parar, que a despesa já está alta, com tanta garrafa aberta… Só queria lhe explicar ainda, seu doutor, que, eu…
E Manuel Fulô desceu cachoeira, narrando alicantinas, praga e ponto e ponto e praga, até que. .. Até que assomou à porta da venda— feio como um defunto vivo, gasturento como faca em nervo, esfriante como um sapo — Sua Excelência o Valentão dos Valentões, Targino e Tal. E foi então que de fato a história começou.
O tigrão derreou o ombro esquerdo, limpou os pés, e riscou reto para nós, com o ar de um criado que vem entregar qual quer coisa.
Manuel Fulô se escorregara para a beira da cadeira, meio querendo se levantar, meio curvado em mesura, visivelmente desorganizado. E eu me imobilizei, bastante digno mas com um sus to por dentro, porque o ricto do fulano era mau mesmo mau.
Manuel Fulô nem esperou que o outro chegasse perto; foi cantando: — Boa noite, seu Targino, com’passou?
— … .noite!… noite, seu doutor…
E eu impei, com o tom respeitoso e com a completa tirada de chapéu. Mas o homem foi lacônico:
— Mané Fulô, tenho um particular, com licença de seu doutor…
Pura formalidade, a convocação:Targino falou alto, ali à por ta da venda, a três passos da minha pessoa. Manuel Fulô tremia nas pernas, e eu ouvi tudo. Peremptório e horrível: — Escuta, Mané Fulô: a coisa é que eu gostei da das Dor, e venho visitar sua noiva, amanhã… Já mandei recado, avisando a ela… E um dia só, depois vocês podem se casar…
Se você ficar quieto, não te faço nada… Se não… — E Targino, com o indicador da mão direita, deu um tiro mímico no meu pobre amigo, rindo, rindo, com a gelidez de um carrasco mandchu. Então, sem mais cortesias, virou-se e foi-se.
Eu perdi o peso cio corpo, e estava frio. Me mexia todo, sem querer. Manuel Fulô oscilou para o balcão, mas não pôde segurar o copo; passou a mão no suor da testa: — Eu… eu… eu…
Aí eu vi que já se ajuntara gente, todos falando por metades só: — Coitado do Mané… Coitadinha dessa moça… Coitado do Mané Fulô…
Peguei-lhe do braço. Arrastei-o.
A rua já estava escura, e tropeçávamos na buraqueira. Subiu do chão, solerte, uma cabrita alvacenta. E, se o Manuel quisesse falar, cortava a língua, porque os seus dentes se mastigavam sem pausa.
Pus o amigo para dentro da minha casa:
— Você dorme aqui, Manuel. Eu vou agir…
Mas o infeliz, desmesurando os olhos, e numa vozinha aflita, que vinha de lá de mais baixo do que a cachaça, do que o gálico, do que a taba voz que vinha de tempo fundo suplicou: — Não faz nada não, seu doutor… Ele é o demônio… Não respeita nada e não tem medo de ninguém…
— Mas, Manuel! E até uma vergonha você dizer isso…
— Eu… Eu?
— Não fazer nada seria uma infâmia… Temos de defender a das Dor! Há momentos em que qualquer um é obrigado a ser herói…
— Uma osga!
— E o amor, Manuel? Ela é a tua noiva! Esta história… Que história, que mané-história! O senhor está é caçoando comigo…
— Não, porque…
— Porque-isquê!
— A minha…
— Que-inha?
— Cala a boca!
— Que-ôca?
— Manuel, se você não dominar um pouco essa bebedeira, eu jogo um josé na rua! … Ah, melhorou, não é? Precisamos de pensar… Por que você não vai pedir proteção ao Nhô Peixoto?
— Ele é pirrônico… Não amarro cavalo com ele… Bem, mas se o sangue de Peixoto é bom mesmo para fér ver, você vai preparar as armas, para enfrentar o Targino amanhã, na hora da baderna, não vai?
— Pois será que nem o senhor não é mais meu amigo? Está querendo ver a minha morte?
Qualquer um outro eu escorava mesmo, mas o senhor não sabe que esse Targino é o valentão?!…
— Bom, Manuel Fulô, não iremos pela força… Mas, você, que logrou até os ciganos, vai me ajudar agora a inventar um estratagema, um modo de fintarmos o Targino?
Manuel Fulô abriu um riso feio — vançando os dentes amarelos e grandes, como fieiras de grãos numa espiga de milho — tal e qual um cavalo; depois disse: — Ah, não tem jeito… Não tem prazo, seu doutor! Assim, de hoje p’r’amanhã, não adianta… Mal-e-mal eu estou podendo pensar o trivial…
Face ao inajeitável, me alvitrei que o melhor seria reforçar a anestesia, dar-lhe mais bebida.
E dei.
Bebeu, arrotou, e suplicou:
— O senhor não esquece de mandar cuidar da minha Beija Fulô?
— Oh, Manuel! Você gosta mais é da das Dor ou da Beija Fulô?
— Me desculpe, seu doutor, mas isto é pergunta que se faça? Gosto das duas por igual, mas primeiro da das Dor!…
E dormiu.
De manhã, acordei cedo. Manuel Fulô curtia o epílogo da cachaceira. Fui providenciar.
Quando ia saindo, encontrei o meu amigo Vicente Sorrente sapateiro, com olhos amplos, me avisando:
— Não faça isso, doutor. Mande o Manuel embora, O Targino pode pensar que o senhor esteja se metendo…
Até chegar à casa do Coronel Melguério, ouvi, mais ou me nos, essas mesmas palavras, umas quinze vezes. Porque a rua estava cheia dos habitantes de Laginha, assanhados que nem correição de saca-saia em véspera de mau tempo. Havia meses que o Targino não cometia alguma barbaridade, e forte era a sensação.
— Hoje é dia… E hoje!
O Coronel era boa pessoa, só que o chamavam de berda-Merguério. Ouviu, deu de ombros, e indeferiu:
— Se o senhor quiser, pode arranjar quem pegue o Targino à unha, que a autoridade aprova. Agora, gente p’ra isso é que não há por aqui… Ninguém não tem sopro p’ra esse homem…
Então, fui ao vigário. O reverendo olhou para cima, com um jeito de virgem nua rojada à arena, e prometeu rezar; o que não recusei, porque: dinheiro, carinho e reza, nunca se despreza.
E, aí, eu comecei a temer por minha pele própria, e voltei, frouxo, aflito por que passasse o dia, tudo acabasse, e a gente pudesse ver o resto como ia ser. Manuel Fulô não tivera coragem de pôr o pé fora da porta. E a Veigaria toda, que, não sei como, tivera ciência do ultimatum e acorrera, enchia a minha morada.
Uma mulher Véiga se ajoelhou, de mãos postas: — Não deixa acontecer nada com o Manezinho, que ele gosta muito do senhor!
E um Véiga barbaçudo, com um pouquinho mais de reserva, explicou: — Nós viemos aconselhar o Mané, p’ra ele não fazer nenhuma doideira… O senhor não acha que ele deve de entregar p’ra Deus e ficar quieto? A moça gosta dele… A gente esquece o que se deu, e eles casam… Faz de conta que foi coisa que nem doença… É que nem a gente se casar com mulher viúva…
E aqueles parentes não viam que o Manuel estava mesmo o mais Véiga de todos, pedindo a Deus que o pusesse entrevado num momento, ou que abrisse o chão, em grota fofa, para ele se enfiar e afundar.
Mas, com a barafunda, não se sabia o que fazer, e mais, ainda, com tanta gente curiosa, querendo consulta ou fazendo visita, em hora tão matinal. E, logo, de cochicho em cochicho, formou-se uma corrente informativa:.., o subdelegado saíra do arraial, de madrugadinha, para assunto urgente de capturar, a duas léguas do comércio, um ladrão de cavalos… Maria das Dores, na cafua, adoecera de pavor, e estava sozinha com a mãe, chamando pelo noivo.. . Targino ainda não saíra de casa.
— Quem sabe se ele não esqueceu ou desistiu?
— Ara, ara! Que esperança!
E, a que horas a Bela seria procurada pela Fera, não se podia saber.
Mas, de fato, cartas dadas, a história começa mesmo é aqui. Porque: era uma vez um pedreiro Antonico das Pedras ou Antonico das Águas, que tinha alma de pajé; e tinha também uma sela mexicana, encostada por falta de animal, e cobiçava ainda a Beija-Fulô, a qual, mesmo sendo nhata, custara um conto e trezentos, na baixa, e era o grande amor do meu amigo Manuel Fulô. Pois o Antônio curandeiro-feiticeiro, apesar de meu concorrente, lá me entrou de repente em casa, exigindo o Manuel Fulô a um canto — para assunto secretíssimo.
Nem eu pude ouvir. Isto é, escutava pouca coisa: Manuel Fulô dizia que não, gaguejava e relutava. E o outro falava pompeado, com grã viveza de gestos e calor para convencer.
O tempo passava, O povaréu falava, todo a uma vez, depois silenciava. Pesava demais a espera; e já era insuportável a situação.
Aí, de chofre, se abriu a porta do quarto-da-sala, onde os dois davam suas vozes, e o Antonico das Pedras surgiu, muito cínico e sacerdotal, requisitando agulha-e-linha, um prato fundo, cachaça e uma lata com brasas. E Manuel Fulô reapareceu também, muito mais amarelo do que antes, dizendo ao povo Véiga, funebremente: Podem entregar a minha Beija-Fulô p’ra o seu Toniquinho das Águas, que ela agora é dele…
Então eu me sobressaltei, e umas mulheres choramingaram, porque o dito equivalia a um perfeito legado testamentário. Mas os dois donos da Beija-Fulô tornaram a fechar-se no quar to, com o prato fundo, as brasas, a agulha-e-linha e a cachaça, e ainda outros aviamentos.
Houve um parado de próxima tempestade. Uma voz fina rezou o credo. Correram, na rua. E alguém, esbofado, entrou:
— Fechem as portas e as janelas, que seu Targino já vem vindo, e vai passar mesmo por aqui por frente da casa!
O povo se mexeu, como água em assoalho.
— Entra p’ra dentro, Tibitíu! gritou-se.
— Aí vem o homem!… — gritaram.
E, nisso, abriram outra vez a porta do quarto-da-sala, e Manuel Fulô saiu primeiro. Surgiu como uma surpresa, trans-mudado, teso, sonambúlico.
Abrimos caminho, e ele passou, para a rua. Ia do jeito com que os carneiros investem para a ponta da faca cio matador. Vilhe um brilho estricto, nos olhos.
E só depois que ele saiu foi que aVéiga mãe de todos os Véigas se desapalermou e pôde gritar:
— Me valei-me agora, minha Nossa Senhora!
E vi também o Antonico das Pedras, lampeiro e fagueiro, perguntando pela Beija-Fulô. Mas ninguém lhe deu atenção. Só perguntaram:
— O-quê que o senhor foi fazer com o meu irmão, seu Toniquinho?
— Fechei o corpo dele. Não careçam de ter medo, que para arma de fogo eu garanto!…
— Jesus! Targino mata o Manezinho… Não levou nem garrucha nem nada, o pobre!
— Corre atrás dele, gente! Seu Toniquinho botou meu filho doido!
Mas ninguém transpôs a porta. O Targino já aparecera lá adiante. Vinha lento, mas com passadas largas. E de certo se admirou de ver Manuel Fulô caminhar. Naquela hora, a rua, ancha e comprida, só estava cabendo os dois.
E eu pensei no trem-de–ferro colhendo e triturando um bezerro, na passagem de um corte.
Pronto! A dez metros do inimigo, Manuel Fulô parou, e rompeu numa voz, que de tão enérgica eu desconhecia, gritando uma inconveniência acerca da mãe do valentão.
Targino puxou o revólver. Eu me desdebrucei um pouco da janela. Cruzaram-se os insultos: — Arreda daí, piolho! Sujeito idiota!…
— Atira, cachorro, carantonho! Filho sem pai! Cedo será, que eu estou rezado fechado, e a tua hora já chegou!…
E só aí foi que o Manuel mexeu na cintura. Tirou a faquinha, uma quicé quase canivete, e cresceu. Targino parara, desconhecendo o adversário. Hesitava? Hesitou.
Eu tirei a cara da janela, e só ouvi as balas, que assoviaram, cinco vezes, rua a fora, de enfiada, com o zunido de arames es ticados que se soltam.
E, quando espiei outra vez, vi exato: Targino, fixo, como um manequim, e Manuel Fulô pulando nele e o esfaqueando, pela altura do peito tudo com rara elegância e suma precisão.
Targino girou na perna esquerda, ceifando o ar com a direita; capotou; e desviveu, num átimo. Seu rosto guardou um ar de temor salutar. Conheceu, diabo, o que é raça de Peixoto?!
E eis que isso foi ingratidão, em vista da lealdade dos Véigas, que agora enchiam o pedaço de rua. Pouco sério, também, foi ele ter dado mais uma porção de facadas no defunto, num as somo de raiva supérflua. E ainda cuspia e pontapeava, sujando-se todo de sangue. Mas grande era a sua desculpa, já que não é coisa vulgar a gente topar com um valentão na estrada da guerra, e extingui-lo a ferro frio.
Manuel Fulô fez festa um mês inteiro, e até adiou, por via disso, o casamento, porque o padre teimou que não matrimoniava gente bêbeda. Eu fui o padrinho.
E o melhor foi que meu afilhado conservou o titulo, porque, pouco depois, um destacamento policial veio para Laginha, e desapareceram os cabras possantes, com vocação para o disputar. Mas Manuel Fulô ficou sendo um valentão manso e decorativo, como mantença da tradição e para a glória do arraial. Só, de vez em longe, quando conseguia burlar a vigilância da es posa, ingeria um excesso de meia garrafa da branquinha, pedia a Beija-Fulô emprestada ao Antonico das Pedras-Águas, e dava trabalho ao povo, bloqueando a rua Direita, galopando e disparando, para cima, tiros de mentira ou de verdade, e gritando até adormecer, abraçado à tábua-do-pescoço da mula:
— Conheceu, gente, o que é sangue de Peixoto?!…
João Guimarães Rosa, “Sagarana“
— Mas muito!… Bom homem… Muito amigo meu. Só que ele andava sempre coçando a cabeça, e eu tenho um medo da nado de piolho…
— Podia ser sinal de indecisão…
— Eu acompanhei até o enterro. Nunca vi defunto tão esticado de comprido…
Caixão especial no tamanho: acho que levou mais de peça e meia de galão…
— E quem tomou o lugar dele?
— Lugar? O sujeito não tinha cobre nem p’ra um bom animal de sela.., O que ganhava ia na pinga… Mão aberta…
— Mas, quem ficou sendo o valentão, depois que ele morreu?
— Ah, isso teve muitos: o Desidério…
— Cuera?
— Cabaça… Sé que era bruto como ele sé, e os outros tinham medo dele. Cavalo coiceiro…
Comigo nunca se engraçou!
— Como acabou?
— Acabou em casa de grades. Foi romper aleluia na cidade, e os soldados abotoaram o filho da mãe dele… Não voltou aqui, nunca mais…
— E o tal Dêjo?
— Esse foi depois… Antes teve o Miligido… E o nome daquele era Adejalma, nome bobo, que nem é de santo… Um peste. Muita prosa, muita farroma, mas eu virei o cujo do avesso!
Me respeitou! Me respeitou, seu doutor!
— Briga, Manuel?
— Lhe conto, seu doutor. Foi na venda: eu estava comprando cadarço de roupa, coisa de paz… O homem já veio chegando enjoado, me olhando com cara de herege… Negaceou.
Depois, virou p’ra o Pércio, que era caixeiro nesse tempo, e perguntou: “O senhor tem aí dessa raça de faca que entra na barriga e murgueia?” E olhou p’ra mim, outra vez, p’ra ver se eu estava com receio,..
— E você, Manuel Fulô?
— Eu ia serrar de cima, mas nem não tive tempo, porque nessa horinha vinha entrando um tropeiro da Soledade, que era homem duro, e pensou que a ofensa era p’ra ele… E aquilo foi o tropeiro dando um murro no balcão, e tossindo, e perguntando também p’ra o Pércio: “Por falar nisso, o senhor não terá também dessa raça de bala que bate na testa e chateia?!”
Pois aí o Adejalma se riu de medo, e disse que estava era brincando…
— Mas, então, Manuel, como foi que você virou o Dêjo pelo avesso?
— Ara, ara, seu doutor! Se o tropeiro não tivesse entrado, eu fazia desordem, e fazia mesmo… Porque, depois, o cachorro do Adejalma ainda me perguntou, sé por deboche, porque ele estava cansado de saber quem eu era: “Como é que você chama, rapaz?”…
— E você?
— Eu pus a mão na coronha da garrucha, e respondi: “Sé eu perguntando p’r’a minha mãe”…
— E ele?
— Um desgraçado! Era sé ele bulir, e eu mais o tropeiro mandávamos o corpo dele p’ra o quincumbim… Aquele sujo! Assassino! Tralha!
— Que raiva é essa, fora de hora, Manuel?
— Pois o senhor não imagina que, ao depois, o miserável desse Adejalma, sé por medo da minha macheza, me convidou, mais o tropeiro, p’ra beber com ele e fazer companhia?… O tropeiro agradeceu e não aceitou, mas eu fui, porque não sou soberbo… Pois o senhor não acredita que o canalha foi encomendando despesas, e me elogiando e respeitando, até que eu fiquei assim meio escurecido, e aí ele foi-s’embora e me deixou sozinho p’ra eu ter de pagar tudo, por perto de uns quatro mil réis É ou não é p’ra uma pessoa correta ter raiva? É ou não é?!… Cachorro! Morreu de erisipela na cara…
— – E o Miligido?
— Esse era bom… Homem justo. O que ele era era preto… Mais preto do que os outros pretos, engomado de preto… Eu acho que ele era preto até por dentro! Mas foi meu amigo.
Valentão valente, mesmo. Um dia ele me deu uma escova de dente, quase nova… Eu acho que ele encontrou a tal nalgum lugar e não sabia que serventia aquilo tinha…
— Matou muita gente, o Miligido?
— Quase nenhum, que eu esteja lembrado… Também, todo o mundo tinha medo dele…
Cada um dizia amém antes de ele rezar o fim da reza… Está vivo, mas não é valentão mais.
Muito velho… Deve de andar beirando uns setenta… Agora…
— Agora, o valentão é o Targino…
— Nem fala, seu doutor. Esse é ruim mesmo inteirado… Não respeita nem a honra das famílias! É um flagelo…
— Mas não parece…
— O quê?! Aquilo é cobra que pisca olho… Quando ele em birra, briga até com quem não quer brigar com ele… Nenhum dos outros não fazia essa maldade.., O senhor acha que isso é regra de ser valentão? Eu sei que, por causa de uns assim, até o Governo devia era de mandar um quartel de soldados p’ra aqui p ‘ra a Laginha…
— Você tem raiva desse, também, Manuel?
— Não é raiva, não seu doutor: é gastura… Esse-um é maligno e está até excomungado…
Ele é de uma turma de gente sem-que-fazer, que comeram carne e beberam cachaça na frente da igreja, em sexta-feira da Paixão, só p’ra pirraçar o padre e experimentar a paciência de Deus… Eles todos já foram castigados: o Roque se afogou numa água rasinha de enxurrada.., ele estava de chifre cheio… Gervásio sumiu no mundo, sem deixar rasto…
Laurindo, a mulher mesma torou a cabeça dele com um machado, uma noite.., foi em janeiro do ano passado… Camilo Matias acabou com mal-de-lázaro… Só quem está sobrando mesmo é o Targino. E o castigo demora, mas não falta…
— Mas, nesta sobrança, ele é quem vai castigando os outros, por conta própria, Manuel Fulô…
— Deixa ele, seu doutor… P’ra cavalo ruim, Deus bambeia a rédea… Um dia ele encontra outro mais grosso… Eu já estou vendo o diabo, com defunto na cacunda! … Esse sujeitinho ainda vai ter de dançar de ceroula, seu doutor! Isto aqui é terra de gente brava…
— Verdade, Manuel?
— Pode aprovar, seu doutor. Até João Brandão, que foi patente no clavinote, deu volta, quando passou por aqui… Meu pai viu isso… João Brandão vinha vindo p’ra o norte, com os seus homens, diz-se que ia levando armas p’ra o povo de Antônio Conselheiro, mais de uns vinte burros, com as cangalhas encalcadas… Na passagem de onde hoje é a ponte da Quininha, tiveram um tiroteio com os soldados… Isto aqui é uma terra terrível, seu doutor…
Eu mesmo… O senhor me vê mansinho deste jeito, mas eu fui batizado com água quente…
E assim falou Manuel Fulô.
José Boi, Desidério, Miligido, Dêjo… Só podia haver um valentão de cada vez. Mas o último, o Targino, tardava em ceder o lugar. O challenger não aparecia: rareavam os nascidos sob o signo de Marte, e Laginha estava, na ocasião, mal provida de bate-paus.
Havia, sim, os sub-valentões, sedentários de mão pronta e mau gênio, a quem, por garantia, todos gostavam de dar os filhos para batizar.
Os do-Quintiliano, por exemplo. Eram dois ou três irmãos, que mandavam na Vargem, espécie de arrabalde que prolongava o arraial para lá da linha férrea. Um dia, apareceu — papel pregado em árvore — um “pasquim”, sátira anônima, desabafo de algum oprimido:
“A Sofia mais os filho o lastro.
A Guilir o trem.
Joao do Quintiliano prosa com o que nao tem.
Cala a boca gente, que o Quintiliano envem!
Sebastiana mais a Lina passam bem.
Agora vira da outra banda.
Viva o povo da rua da Avenida,
Quem fez isto foi o Tonico da Rabada.”
Antonico da Rabada protestou: por todos os santos e mais deus-do-céu, a luz que alumia, esta cruz, e a alma da sua mãe, que não tinha escrito nada. E se escondeu.
João do Quintiliano saiu furioso, recendendo a cachaça, brandindo as armas, gritando desaforos a esmo; esbarrou no moirão da portela, tinha a cara encruada de dor-de-dente, deu tiros para cima, levava uma flor amarela no peito, e, junto com os parentes, conflagrou a Vargem. Muita porretada, algumas facadas, e foi um dia-de-domingo no meio da semana, porque ninguém trabalhou, Os do-Quintiliano andavam, casa por casa, procurando o editor responsável. Então, alguém pensou, naturalmente, no Manuel Baptista, o Aretino do arraial.
Foram atrás dele, para a satisfação, e encontraram-no no paiol do João Italiano, dando escola para os meninos do negociante.
Mas Manuel Baptista ficou bravo: vissem lá se ele era homem para andar pregando em árvore bobagens sem assinatura! E com tantos erros! Ele entendia de gramática, e seus pasquins, muito bem caprichados, sempre numa meia folha de papel almaço, só eram lidos por pessoas capazes de apreciá-los, e, mesmo assim, tendo cada um de solicitar a sua vez, com muito empenho! E, como prova, exibiu e leu, muito digno e neurastênico, a sua última produção, que debochava de muitas atualidades, terminando, como sempre, com o seu nome, bem rima do, no verso final:
“Essa história de phonetica
eu nunca pude entendê!
E tao feio se assigná
Manuel Batista, sem P!.."
João do Quintiliano ouviu, respeitoso, humilhado pelo poder da arte e da ciência. Pediu desculpas e veio reproduzindo, em sentido contrário, a peregrinação suburbana, dando pan cada em todo o pessoal com quem antipatizava. E só de tardinha, esfalfado, suado, foi que achou de bom aviso pôr uma pe dra em cima da questão.
Pois foi nesse tempo calamitoso que eu vim para Laginha, de morada, e fui tomando de tudo a devida nota.
O arraial era o mais monótono possível. Logo na chegada, ansioso por conversas à beira do fogo, desafios com viola, batuques e cavalhadas, procurei, procurei, e quebrei a foice. As noites, principalmente, impressionavam. Casas no escuro, rua deserta. Raro, o pataleio de um cavalo no cascalho. O responso pluralíssimo dos sapos. Um só latido, mágico, feito por muitos cachorros remotos. Grilos finfininhos e bezerros fonfonando. E pronto.
— Mas, gente, que é que vocês fazem de-noite?
— De noite, a gente lava os pés, come leite e dorme.
Agora, aos domingos, só aos domingos, gente como enchente. Cavalos, burros e ainda outros cavalos, amarrados em frente às casas — e aí foi que fiquei conhecendo o préstimo daqueles postes de guarantã ou de aroeira, cheios de argolas e plantados por toda a parte.
Vinha povo extraído e exumado de tudo quanto era grota e biboca, num raio de légua e meia. Tocava o sino, reinava o divino. E, depois da missa, derramava-se pelas duas ruas a balbúrdia sarapintada das comadres, com o cortejo dos homens: olhando muito para as pontas das botinas, assim joão gouveia-sapato-sem-meia, ou de meias e chinelos — mas só os que estavam de purgante.
Fastio. Há, neste mundo, muito tamanho de papo: pequi, pé ra, laranja, coco da Bahia. Um boi que tenha um chifre mais baixo que o outro é bisco, e o de cabeça negra com uma pinta branca na testa é silveiro. E os pretos vendem a vida pela festa do Congado, que, por sinal, leva três dias, mas exige ensaios que devem durar o ano inteiro.
Então foi que me mostraram o valentão Targino. Era magro, feio, de cara esverdeada.
Usava botinas e meias, e ligas que prendiam as meias por cima dos canos das calças. E não ria, nunca. Era uma pessoa excedente. Não me interessou.
Agora, o Manuel Fulô, este, sim! Um sujeito pingadinho, quase menino — “pepino que encorujou desde pequeno” — cara de bobo de fazenda, do segundo tipo ; porque toda fazenda tem o seu bobo, que é, ou um velhote baixote, de barba rara no queixo, ou um eterno rapazola, meio surdo, gago, glabro e alvar. Mas gostava de fechar a cara e roncar voz, todo enfarruscado, para mostrar brabeza, e só por descuido sorria, um sorriso manhoso de dono de hotel. E, em suas feições de caburé insalubre, amigavam-se as marcas do sangue aimoré e do gálico herdado: cabelo preto, corrido, que boi lambeu; dentes de fio em meia-lua; malares pontudos; lobo da orelha aderente; testa curta, fugidia; olhinhos de viés e nariz peba, mongol.
Era de uma apócrifa e abundante família Véiga, de uma veiguíssima veigaria molambo-mazelenta, tribo de trapeiros fracassados, que se mexiam daqui p’r’ali, se queixando da lida e da vida: “Um maltírio”… —; uns homens que trotavam léguas a bordo de uma égua magra, empilhados um na garupa, um na sela, mais um meninote no arção para virem vender no arraial um cacho de banana-ouro, meio saco de polvilho pubo, ou uma pele de raposão.
Mas, com o Manuel Véiga — vulgo Manuel Flor, melhor mente Mané Fulô, ás vezes Mané das Moças, ou ainda, quando xingado, Mané-minha-égua, — outros eram os acontecimentos e definitiva a ojeriza: não trabalhava mesmo, de jeito nenhum, e gostaria de saber quem foi que inventou o trabalho, para poder tirar vingança. Por isso, ou por qualquer outro motivo, acostumei-me a tratá-lo de Manuel Fulô, que não deixava de ser uma boa variante.
Começou por falar-me de um irmão seu, que tinha uma galinha d’angola domesticada e ensinada, que dormia debaixo do jirau. Não acreditei. Mas pessoas respeitáveis afiançaram o fato, ajuntando que, além da cocar mansinha, o rapaz conservava um rato enjaulado, pretendendo obter que ele e um gato de rajas se fizessem amigos de infância. Tive de pedir desculpas ao Manuel. E, aí, ficamos ótimos amigos. Mais o admirei, contudo, ao saber que ele era o único no arraial a comer cogumelos, com carne, à moda de quiabos. Não um urupê qualquer do mato, nem esses fungos de formato obsceno, nem as orelhas-de-pau, nem os chapéus-de-sol-de-sapo, nem os micetos que crescem na espuma seca dos regos de enxurrada, não senhor! Só o tortulho amarelo do chão das queimadas, “champignon” gostoso, o simpático carapicum. Provei. Exultei. E a nossa amizade cresceu.
O meu amigo gostava de moças, de cachaça, e de conversar fiado. Mas tinha a Beija-Flor.
Ah, essa era mesmo um motivo! Uma besta ruana, de cruz preta no dorso, lisa, vistosa e lustrosa, sábia e mansa — mas só para o dono. Tinha apenas um defeito: era nhata; e as maxilas erradas impediam-na de tosar os talos, já rentes à terra, da última relva da seca, e não deixavam que ela rasoirasse os brotos cio primeiro capim das águas. Mas tinha custado mais de conto de réis, num tempo em que os animais não valiam quase nada, e era o orgulho do Manuel Fulô.
Mais do que isso, era o seu complemento: juntos, centaurizavam gloriosamente.
Aos domingos, Manuel Fulô era infalível: — Vim p’r’a missa… — dizia. Mas chegava sempre atrasado, com o povo saindo da igreja; e então corria, um por um, todos os botequins e bitáculas, reclamador, difícil, mal-encarado, importante. Gostava, principal e fatalmente, de afirmar que era filho natural do Nhô Peixoto, o maior negociante do arraial; e isso, depois da posse da Beija-Flor, constituía a razão da sua importância.
De tardinha, na hora de pegar a estrada, tocavam, tardos: ele, tonto qual jamais outro, perdia logo a perpendicularidade, e se abraçava ao pescoço da mula, que se extremava em cuida dos e atenções. Se a barrigueira estava frouxa e o arreio meio caindo, Beija-Flor estacava e ficava muito quieta. Sabia também abrir porteiras e era por causa dessa e de mais outras habilidades que Manuel Fulô conseguia chegar em casa. “Nem minha mãe não cuidava melhor de mim, assim!”…
Mas, quando era para se mostrar no comércio, antes dos descalabros alcoólicos, o meu amigo caprichava em forçar a anda dura da burra, fornecendo-lhe pouca rédea e fazendo-a pedalar, garbosa, crânio alto, bate crina, como um cavalo de esquadrão. — Quando eu entro no arraial, amontado na minha mulinha formosa, que custou conto e trezentos na baixa, todos ficam gemendo de raiva de inveja, mas falam baixinho uns p’ra os outros: — “Lá vem Mané Fulô, na sua Beija-Fulô, aferrada dos quatro pés e das mãos também!”…
— E você, Manuel?
— Tenho pena deles…
— E as moças?
— Não falo nisso. Começa em olho e acaba em honra… E negócio de honra é na faca!
Pois bem, Manuel Fulô dera para visitar-me, mais que diariamente. E, como a Beija-Fulô depressa aprendia as coisas, assustei-me bastante, numa tarde em que ela veio escoucear minha porta, com o seu proprietário escornado em cima do arreio, na mais concreta abstração. Beija-Fulô queria entrar, por força, talvez para despejar o Manuel em cima de algum catre. Então, eu esvaziei um jarro d’água na cabeça do cava leiro, e depois perguntei aonde ele pretendia ir. Perene e solene, respondeu: — Eu?!… Eu: Tões, Militões, Canindéis, Maquinéis!
Loucura, porque nem nunca que ele havia de poder chegar à fazenda do Tão, nem na do Militão, pior ainda no Canindé, nem nunca que nunca no Maquiné, principalmente com a Beija-Fulô assim disposta a arrombar portas e ir embocando no domicílio de gente importante.
Ora pois, um dia, um meio-dia de mormaço e modorra, gritaram “Ó de casa!” e eu gritei “Ó de fora!”, e aí foi que a história começou. Bom, fui ver. Era uma rapariguinha risonha e redonda, peituda como uma perdiz. Bonita mesmo, e diversa, com sua pele muito clara e os olhos cor de chuchu. Pasmou parada, e virou pitanga, pois não contava decerto encontrar gente de cidade e gravata. Animei-a:
— Hã?
Então ela me disse que ia casar, e que por isso estava percorrendo o arraial, pedindo “adjutório”. Dei, com prazer, o “adju-tório”, mas perguntei quem era o noivo. Era o Manuel!
— Fulô?
— Sim, senhor…
E lá se foi embora a noivinha ditosa, mais a dona idosa que a acompanhava. A bem dizer, eram cor de abóbora os seus olhos. Tinha até um respingo de sardas, eu vi.
— Com que, heín, seu Manuel Fulô, Mané das Moças, que vai casar!
Manuel Fulô viera ver-me, nessa mesma tarde, chamando-me de flor dos doutores e pedindo para beber cerveja p’ra eu pagar.
— Caso mesmo. É este sangue de Peixoto! Não tem outro jeito…
— Que você casa, já sei, e bem que podia, antes, ter-me participado. E você não é Peixoto, é Véiga, dos Véigas do São Thomé…
— Vou lhe contar, seu doutor: sou filho natural de Nhô Peixoto! O senhor não reparou que eu não sou branquelo nem perrengue como esses Véigas?… Meu pai é meu pai por cortesia, e eu respeito… Mas sou mesmo é Peixoto. Raça de gente braba! Eu cá sou assim: estou quieto, não bulo com ninguém… Mas, não venham mexer comigo! porque desfeita eu não levo p’ra casa, e p’ra desaforo grosso a minha Beija-Fulô não dá condução…
— Bom, Manuel Fulô Peixoto, sua noiva é bonita…
— Não caçoa, seu doutor. Isto eu sei que ela não é, por causa que eu ainda não estou cego.
Mas, sacudidona, boazinha e trabalhadeira, ela é… O senhor não acha?
— Acho. Bem, Manuel, vamos tomar cerveja, para festejar o noivado!
Preferi fôssemos para a venda, porque sabia que Manuel Fulô gostava de exibir a nossa amizade. E, mal nos sentamos nas cadeiras dobradiças, fui perguntando: — Me conta, Manuel, você gosta mesmo dela?
— Amo! isso, lá, amo mesmo, seu doutor…
— Faz bem, Manuel, faz bem…
Então nos desolhamos, e pegamos a pensar, cada um para o seu lado, até que Manuel suspirou e explicou:
— É o jeito. Eu só queria treis coisas só: ter uma sela mexicana, p’ra arrear a Beija-Fulô…
E ser boticário ou chefe de trem-de-ferro, fardado de boné! Mas isso mesmo é que ainda é mais impossível… A pois, estando vendo que não arranjo nem trem-de-ferro, nem farmácia, nem a sela, me caso… Me caso! seu doutor…
E Manuel Fulô babou cerveja queixo abaixo, mas seus olhos ficaram sérios.
— Mas você não gosta da moça, Manuel Fulô?
— Gosto sim. Já estamos criando amor. Ela é boazinha… Pobre como eu… Mas eu queria uma sela mexicana, um arreio de gaúcho, graúdo, com bordados no couro dos estribos, com topete adiante e cabide de prego p’ra o laço, no santantônio… Aí é que era! Aí é que era, seu doutorzinho meu amigo!…
— Chega de beber, Manuel Fulô Peixoto meu amigo…
— Eu cá não estou bêb’do nenhuns-nada! Estou é com raiva. Sangue de Peixoto não é brinquedo, esquenta à toa, à toa… Estou com ódio não é por mim, é por causa da minha Beija-Fulô…
— Boa mula…
— Boa?! Uma santa de beleza de besta é que ela é!… Aquilo nem dorme… Nunca vi a Beija— Fulô deitada, por Deus do céu!… Montaria assim supimpa, assim desse jeito, nunca me disseram que houve… E olha que isso de animal é minha comida: entendo disso direito, sei puxar uma matéria!
— Claro que você sabe, Manuel Fulô…
— E sei mesmo! Então, p’ra que foi que eu havia de andar dois anos amadrinhado com os ciganos, acompanhando aquele povo p’ra baixo e p’ra riba? Então?!…
— Você viveu com os ciganos, Manuel Fulô? Me conta como foi que foi…
— Foi por causa que eu estava sem gosto p’ra caçar serviço bruto, naquele tempo… Garrei a maginar: o que eu nasci mesmo p’ra saber fazer é negócio de negociar com animal. Mas eu queria ser o melhor de todos… E quem é que é mestre nessa mexida? Não é cigano? Pois então eu quis viajar no meio da ciganada, por amor de aprender as mamparras lá deles. Me ajustei com um bando…
— Boa vida, Manuel?
— Assim-assim… Que me importa!? Eu só queria era estudar as tretas todas dos calões…
Dormia em barraca, comia quase que só repolho com cebola e carne de cabrito cozida… E tomei assunto, ligeiro, de um ror de coisas na língua disgramada que eles falam… Mas olha aqui: sou besta?… Fazia mas era de conta que não entendia nada! Ficava marombando…
P’ra negócio de consertar fundo de tacho e de gramar no cabo do mar telo p’ra fazer caldeirão, não vê que eu dava confiança!… Mas, opa! Que beleza de gente p’ra ser esperta!…
— Roubavam muito cavalo, heim?
— Ah, isso era só ter jeito de roubar, que estava roubado mesmo! E, ao depois, trabalhavam com os animais, p’ra botar eles bonitos, que nem cavalgadura de lei… Até pintar, p’ra ficar de cor diferente, eles pintavam… Muita vez nem o dono não era capaz de arreconhecer o bicho!… Pegavam num pangaré pelado, mexiam com ele daqui p’r’ali, repassavam, acertavam no freio, e depois era só chegar p’ra o ganjão e passar a perna nele, na barganha… E volta boa, em dinheiro, porque cigano só faz baldroca recebendo volta…
Senão, também, como é que eles haviam de poder viver? Como é?!…
…Eles gostavam muito de mim, porque pensavam que eu era bobo de deveras… Mesmo, por fim, por eu dar jeito assim de bobo, eles mandavam que eu fosse negociar os animais com os pessoais… E falavam comigo em antes: “Tu pode conversar o que quiser, mas não deixa eles te empulharem, e só aceita negócio a troco da besta preta do padeiro, com volta de cem, ou por aquele cavalo bragado da mulher do homem do beco, com volta de sessentão…”
…Ô beleza!… Eu saía com a cavalhada, e era que nem artista de circo-de-cavalinho!
Primeiro, fazia bonito na rua, repassando… Aquilo, eu caprichava comigo: p’ra animal murzelo, eu punha roupa preta, p’ra malhado, paletó d’uma cor, calça doutra… E fazia um negocião, porque todo o mundo pensavam que estavam me cinzando…
— E você gostou de alguma ciganinha, Manuel?
— É baixo! Não vê! Negócio é só negócio. E eu estava ali era feito menino de escola, só p’ra mór de aprender. Quando vi que tinha sabido tudo, vim membora… Bem que eles pediram p’ra eu ficar. Mas eu lá precisava mais de ciganada velhaca?!… Uma osga!
P’r’aqui mais p’r’aqui que eu fiquei!… (E Manuel Fulô toca os cotovelos.) …Já entendia de tudo quanto era manha de lidar com cavalo. Batia a mão num bicho de anca chata, cesto-de-urso, cambeta, de galope desunido, rasga-tapete, baixo de quartela, transcurvo ou boletado… Revirava com ele, fazia ele comer bastante milho, dava sal com enxofre, dava arsênico, dava outras coisas, que depois se o senhor quiser aprender eu lhe conto… Ajeitava um freio de-propósito, com bridão ou bocal de ferro, sojigando ou afrouxando a barbeia, aconforme os casos… Acostumava o bruto, e aquilo ele ficava prontinho uma montada luxenta, de ginete, manteúdo p’ra troca, de galope espertado, batido do lado esquerdo… Só vendo!
…P’ra conhecer; então, não tinha mais ninguém p’ra poder comigo: era só deixar eu empurrar a mão fechada no peito de um macho, p’ra eu ir gritando: — Passa p’ra cá, que este é dos meus!
..ou então, indas que ele fosse vistoso e sacudido, de es tampa: — Arrenego, que não presta! Não presta nem p’ra puxar pedra, por causa que é aberto de frente!…
…Passava o dedo na boca aberta de outra azêmula, e já sabia: — Barra com calo.., queixudo… Aparta esse p’ra lá, que nem de graça que ele não serve p’ra mim não!…
…Agora, canjica, niquento, debruçado ou ajoelhado, pesado de frente que nem jumento, isso então era coisa corriqueira: eu chamava nas truvancas, e, em menos de uma semana, punha o tal num preceito, que quando saía comigo p’r’a rua o diabo vinha rebolando, todo repinicado, pegando andorinha no ar!
…..Quando eu larguei a ciganagem, vim p’r’aqui p’r’o arraial, negociar por minha conta. Aí foi que eu ganhei um dinheirão! Merenguém bonito…
— Lesando os outros, Manuel?
— Não vê! A modo e coisa que, p’ra se fazer tratantagem, só mesmo quando a gente é andejo, porque não pára em lugar nenhum, e, quando o crente dá fé de que levou manta, a gente já está longe, e custa muito p’ra voltar. Aí, enquanto isso, é o tempinho certo do tal-um esfriar a raiva, mas ficar querendo cobrar o logro… E, quando a gente volta, o freguês quer porque quer fazer outra berganha, p’ra tirar a forra… E aí a gente torna a jogar cinza nos olhos dele outra vez…
…Mas, morando aqui de sempre, eu não podia fazer esperteza, tinha de negociar direito…
Ah, mas, também, isso eu garanto: p’ra ser honesto e honrado feito eu naquele tempo, não teve outro! Não havia!…
— Mas, Manuel, por que foi então que você deixou esse ramo?
— Ah, pois aí é que está! Isso mesmo é que eu ia condizendo… Foi tudo por causa do raio de uma bestagem que eu fiz… Calcule o senhor que, de vez em quando, eu pegava a pensar e tinha uma raiva danada dos ciganos terem me abusado, achando que eu era coió… E eu nunca fiquei por baixo! Não deixo rasto mal firmado! Tou de calça até dormindo!
…Cada vez, cada mês, a minha raiva era mais muita, e então eu arresolvi amostrar p’ra eles o quê que é gente que tem sangue de Peixoto! Imaginei, imaginei, e daí cacei dois sujeitinhos ordinários de cavalos, que eram mesmo o restolho da porcaria maior de tudo quanto é cavalo ruim que não presta…
— Que dois eram esses, Manuel?
— Um se chamava Furta-Moça. Só mesmo por graça, que nem velha coroca ele não era gente p’ra furtar! Era um alazão sopa-de-leite, com uma perna torta de defeito de nascença… Gázeo, remelento, que nem negro-aço, que não podia abrir os olhos p’r’a banda do sol… Sem-andar, manco, tirador de cabresto… Tinha p’ra mais de uns vinte anos de idade… E estirava, quando a gente prendia o tal na estaca…
..O outro ainda era ainda mais pior, porque era doido, mesmo, doido feito gente doida!
Estava com as canelas que eram isto, de sobrecanas… Se a gente punha o pobre num galope, era só alcançando, arregaçando ou arrastando os pés… No picado, arpejava e acalentava… Na andadura, era aquela feieza: interrompia o andar, com a gente escutando quatro batidas em vez de duas, em cada passada… Pois aquela sombração era um baio-lavado, chamado Ventarola… Cabeça chata… Até de travagem ele estava, e não podia mastigar!…
— Tanta coisa junta, Manuel?
— Verdade pura! Rico de rabo é que ele era, seu doutor!
— E, então…
— Então eu pus um perto do outro, e dei risada: pois há-de ser mesmo com estes mais mambembes que eu vou tochar uma certa naquela cambada!…
Isso foi que eu falei sozinho, p’ra eu mesmo sozinho escutar e ficar ainda mais enjerizado com os ciganos. Porque, só de pensar em cigano, eu ficava tinindo de tiririca!
…Foi uma campanha! Levei quase treis meses. Mas caprichei, porque eu estava todo determinado p’ra etcétera… E co mo eu sou mesmo opiniúdo, e quando entesto de fazer alguma coisa faço mesmo, nem comia nem dormia direito, só inventando outras papiatas p’ra compor com a minha junta de mulas-sem-cabeças de tirar vingança de cigano… Passei banha de jibóia no aleijão cia perna do Furta-Moça, trabalhei de dentista, p’r’amór de retocar os cientes dos dois… Pelejei, pelejei!… Pintando de preto, só um pouco, ao redor dos olhos, Furta-Moça aguentava o sol… E, p’ra andar, eu ensinei postiço, que nem com bicho de circo: eu estando perto, e sendo curtas distâncias, eles faziam força e caminhavam correto… Quando que riam voltar outra vez p’r’as suas desordens, eu assobiava, e tornavam a tomar jeito de gente, com medo de entrar no couro, que se não eu chegava mesmo o pau!
E eles concordaram com a minha regra, e cruzaram trato comigo, de andar direito o principiado dos minutos, eu acho que por causa que eles tinham bom coração…
…Eu sabia que na Semana-Santa os tais tinham de vir no arraial. E vieram mesmo. Mas aí Ventarola e Furta-Moça já estavam no ponto. Limpei as orelhas, tosei direito, escovei, lavei, pus bom freio, fantasiei a visagem deles… Fiz tudo!…
…A derradeira coisa, que eu aprontei, foi fazer Deus que me perdoe sendo maldade foi fazer um machucado nos beiços do Ventarola, porque, quando eles vissem que o pobre não podia comer direito, pensavam que era por via daquilo, e não iam espiar o céu-da-boca, p’ra mór de descobrir a travagem, não… E, aí então, chegou o dia!
…Tinha muita gente no largo de em frente da igreja, quando eu vim com os animais, no sábado-de-aleluia, de manhã. Vim passando, amontado no Furta-Moça, com Ventarola adestro, e fiz de conta que não sabia de nada de cigano ali, e que nem não estava campeando negócio. Mas seu Pachencho, que tinha sido meu patrão cigano, foi me vendo e esgoelando:
— “Eh, ganjão! Esses granéis são seus? Quer bater uma baldroca?”…
— Deus me livre, chefe! — arrespondi. — Tenho medo de levar manta… P’ra eu ficar molhando minhas costas, é? Eu não… Eu é que sei do meu respeito!
…Mas, aí por aí, o Cuntrino, um outro disgramado de cigano sem-vergonha, já estava examinando o Ventarola, e gritando:
— “Deixa de doença, amigo! Você não é nenhum ganjão… Você é mas é patrício, calão como nós… Vamos barganhar esses gráis!”… Gráis é cavalo…
— Eu sei. E depois?
— Depois, então, eu fui deixando… Eles estudaram tudo, olharam, cheiraram, cansaram de olhar, montaram, desamontaram, tornaram a olhar, apalpando, passando a unha, abrindo a boca dos dois éguas-velhas, puxando pelas cambas do freio, fazendo andarem de-fasto, tudo…
… Aí, tinha chegado também o Bertolameu, outro lá deles, que ficou espiando de longe, porque tem uns defeitos de cavalo que só mesmo de longe é que a gente pode ver… E aí foi que eu fiquei com uma despesa no estômago, porque eu estava cansado de saber que: um cigano sozinho, mesmo estando com os olhos fechados, já acerta com a metade dos defeitos de um animal; dois ciganos, juntos, são capazes de adivinhar o que é que c o bicho comeu e está dentro da barriga dele; mas, treis ciganos, então, seu doutor, eles falam p’ra o senhor até qual é que foi o nome da égua mãe…
… . E o Bertolameu juntou com seu Pachencho mais com o Cuntrino, e futricaram, um tempo todo, falando depressa na língua atrapalhada lá deles. Depois, vieram p’ra mim, e me ofereceram dois cavalinhos: um pica-pau assim héctico, tordilho, e um matungo ruço, passarinheiro e de duas crinas…
…Eu fui vendo logo que os animais deles não prestavam, O matungo, p’ra se deitar, ajoelhava que nem vaca, e a modo e coisa que era cego de um olho. Mas eu entendi que ele não era cego nenhuns-nada: era uma pelinha que tinha crescido tapando a vista que, até, depois, seu Raymundo boticário tirou p ‘ra mim.., O pica-pau parecia que não ia durar mais muito tempo vivo… Tinha sinal de duas sangraduras… Mau, mau! Mas depois eu farejei que o que ele precisava era só de descanso, porque os ciganos tinham viajado demais naqueles dois meses, e tinham vindo tocando muito ligeiro e maltratando a tropa deles, p’ra poderem chegar no arraial na Semana-Santa… Isso eu vi, por que as ferraduras dos cavalos estavam todas gastadas, e os cascos dos desferrados estavam desiguais de roidos, também…
…E tinham mais outros desmandos, mas eram muito mais p’ra o desconto do que os defeitos da parelha minha… Por isso eu fiz cara de quem não estava conhecendo as miserinhas dos deles… Ah, porque eu tinha de fazer de capim, p’ra comer o burro!… E até peguei a gabar: — Eta! Bonitinhos eles são… Mas, dinheiro p’ra volta é que eu não tenho, e até estou triste por não ter!…
…Aí, eles riram um p’ra o outro, e eu cá quieto, fazendo de conta que não estava vendo…
Queriam-porque-queriam que eu chegasse vinte mil-réis. Mas eu sabia que cigano tem uma esganação medonha, mesmo que doença, p ‘ra baldrocar cavalos, e fiz fincapé, suspirando, mentindo que nem um botão de calça eu não podia voltar. Ai, seu doutor meu amigo, a cacunda do bobo é o poleiro do esperto!… Eles tinham que dar o beiço e cair o cacho!… E eu fiquei mesmando…
…Por fim, quando eu relanceei que eles já estavam meio querendo me aceitar, entrei de zápede, espadilha e treis: — Bom, mas vocês têm de me voltar dez’tões de lambujem, que é p’ra uma cachacinha, porque o dinheiro aqui na minha terra anda vasqueiro…
…Mentira pura! Eu queria volta era só por a-mór de desonrar a raça toda de ciganos, p’ra uma vez!…
…Seu Pachencho fechou a cara, mas o tal Cuntrino veio comigo: — “Dez’tões é nada… Eu dou. …”
…Ai, meu pai! Não sei como é que eu não morri de alegria naquela hora! … Foi só a gente fechar o negócio, e eu peguei a dar viva, gritando que tinha embrulhado os ciganos, e chamando o povo p’ra escutar, e o povo querendo saber por quê, e eu mostrando os defeitos todos que eles não tinham sido gente p ‘ra descobrir! E até deitei no chão, com os pés p’ra cima, e gritei:
— Rach’ ou parta ô melodência!, que por mim o mundo agora já pode se acabar!…
— E os ciganos, Manuel?
— Ficaram danados, eles, e me rogaram muita praga, e até queriam desmanchar a troca.
Mas aí eu me alembrei do sangue que tenho, e falei minhas ordens. Mostrei só o biquinho da garrucha e dei um eco neles: Ti-ó-Frade, Tio-fró!… Fiquem sabendo que eu sou filho natural de Nhô Peixoto, e, já, já, vocês têm que desaparecer esses cavalos daqui!…
….E eles não fizeram nada, e foram-s’embora, porque, em qualquer parte em que cigano briga, seja lá com quem for, o povo todo do lugar se ajunta e todo o mundo aproveita p’ra dar pancada neles… Até eu não acho que seja direito…
…Mas, ôi, diabo! Até hoje eu ainda gosto mais de me alembrar disso do que de comer doce!…
— Foi bonito, Manuel…
— Pois não foi? Eu acho que a gente deve de fazer umas coisas assim, p’ra se consolar; mais tarde, com qualquer tristeza que tiver…
— Mais cerveja, Manuel?
— Eu cá nunca enjeito, seu doutor. Mas, lhe conto: o ruim foi depois: ninguém não queria fazer mais negócio comigo… Perdi a freguesia… E, eles, era ingratidão, porque eu nunca tinha feito velhacaria nenhuma com pessoa nenhuma do arraial. Não carrego rabo de palha… Mas, que-o-quê! Eles diziam: — “Qual, com você, não. Nunca mais! Sai p’ra lá, você embroma até cigano”…
….. De formas que foi só por via disso mesmo que eu não fiquei rico, e que agora estou me coçando com um dedo s E isso de se querer fazer bonito, seu doutor, é a pior coisa que tem.
Nunca que dá certo!… Basta só usar penacho uma vez, p’ra uma pessoa se emporcalhar toda ao despois. Um coice mal dado chega p’ra desmanchar a igrejinha da gente…
— Razão você tem, Manuel Fulô.. Mas, vê se bebe mais devagar…
— Não estou bêb’do, nada. Estou é com raiva, já falei! Fico que não posso, de jeriza, quando magino que o Toniquinho das Pedras tem uma sela mexicana boa, encostada, porque ele não tem cavalo nenhum, nem besta!… Podia me vender aquela, barato, porque ele não precisa de arreio… Precisa algum? Sé se for p’ra botar nas costas dele-lá-mesmo…!
Mas não vende, nem por nada, e eu já peguei qual é a manha dele: é porque ele quer apanhar a minha Beija-Fulô! Desaforo!… Não pega a minha mulinha, nem a troco de uma mina de brilhante!… Nem se ela, Deus a livre guarde, morresse, o que não é bom falar, eu nem o couro não havia de vender p’r’aquele judeu!…
— Sossega, Manuel.
— Tenho ódio dele, tenho mesmo! E um sujeito sem préstimo, sem aquela-coisa na cara… É o pior pedreiro do arraial, não sabe nem plantar uma parede. Sé sabe é fazer feitiço, vender garrafada de raiz do mato, e rezar reza brava. Tem partes com o porco sujo… Não presta!
Gente assim não devia de ter!…
— Mas tem muita, Manuelzinho Fulô.
— Não brinca, seu doutor! O senhor também devia mas é me ajudar a ter ódio do cachorro do Toniquinho das Águas… Ele vive desencaminhando o povo de ir se consultar com o senhor. Dizendo que o doutor-médico não cura nada, que ele sara os outros muito mais em-conta, baratinho… Ele quer plantar mato na sua roça e frigir ovo no seu fogão! O senhor não vê? Ele não faz receita no papel, sé porque não conhece os símplices, e acho que não sabe escrever, e isso que nem o boticário não aviava nenhuns-nada… Mas benze, trata de tudo, e aconselha que a gente não deve de tomar remédio de botica, que deve de tomar é só cordial… Qualquer dia ele arruma uma coisa-feita, p’ra modo de fazer o senhor ir-s’embora daqui…
— Feitiço em mim não pega, Manuel…
— É, mas o senhor devia era de fazer medo nele, falando em mandar vir um tenente com os soldados, se ele não parar com esses embondos de feitiço, e se não quiser vender a sela mexi cana p’ra mim!.., O senhor porque é bom demais, e não vê que ele está mas é roubando o de-comer de seus filhos…
— Mas eu não tenho filhos, Manuel!
— Ara, que ideia! Não tem, mas podia ter, e é a mesma coisa que ter!… Não tem mas vai ter!… E, olha aqui, seu doutor, falando sério, o senhor agora vai me responder uma pergunta: se uma pessoa tem uma sela guardada, sem serventia… E outra pessoa tem uma besta de-primeira, mas mesmo, de que não há outra igual, manteúda e talentosa, andadeira e esperta que nem gente… E se o que tem a sela quer comprar a mula, e o da mula quer comprar a sela, e ainda por riba falou primeiro no negócio… Quem é que o senhor acha que deve de ter direito? Não é o da besta, o da Beija-Fulô?!
— Mas, Manuel…
— Pois ‘tá’í! … Qualquer um vê logo que eu estou com o certo. Mas o tralha não tem crisma, só senta perto do cacifre… E eu até fico com medo, porque a sela, com tanto tempo que passa, pode querer se estragar. E já pensei também que ele, sabendo que gente dos Peixotos é gente mesmo opiniúda, e que eu não vendo — nã-o ven-do! — , que ele queira pôr algum quebranto na minha Beija-Fulozinha, benza-a Deus!
— Benza-a Deus, Manuel!
— É, mas se ele fizer algum caborje, morre no meu pinguelo! Seis tiros!…
— Chega de beber, Manuel Fulô. Você já está ficando vesgo.
— Bom, vamos mesmo parar, que a despesa já está alta, com tanta garrafa aberta… Só queria lhe explicar ainda, seu doutor, que, eu…
E Manuel Fulô desceu cachoeira, narrando alicantinas, praga e ponto e ponto e praga, até que. .. Até que assomou à porta da venda— feio como um defunto vivo, gasturento como faca em nervo, esfriante como um sapo — Sua Excelência o Valentão dos Valentões, Targino e Tal. E foi então que de fato a história começou.
O tigrão derreou o ombro esquerdo, limpou os pés, e riscou reto para nós, com o ar de um criado que vem entregar qual quer coisa.
Manuel Fulô se escorregara para a beira da cadeira, meio querendo se levantar, meio curvado em mesura, visivelmente desorganizado. E eu me imobilizei, bastante digno mas com um sus to por dentro, porque o ricto do fulano era mau mesmo mau.
Manuel Fulô nem esperou que o outro chegasse perto; foi cantando: — Boa noite, seu Targino, com’passou?
— … .noite!… noite, seu doutor…
E eu impei, com o tom respeitoso e com a completa tirada de chapéu. Mas o homem foi lacônico:
— Mané Fulô, tenho um particular, com licença de seu doutor…
Pura formalidade, a convocação:Targino falou alto, ali à por ta da venda, a três passos da minha pessoa. Manuel Fulô tremia nas pernas, e eu ouvi tudo. Peremptório e horrível: — Escuta, Mané Fulô: a coisa é que eu gostei da das Dor, e venho visitar sua noiva, amanhã… Já mandei recado, avisando a ela… E um dia só, depois vocês podem se casar…
Se você ficar quieto, não te faço nada… Se não… — E Targino, com o indicador da mão direita, deu um tiro mímico no meu pobre amigo, rindo, rindo, com a gelidez de um carrasco mandchu. Então, sem mais cortesias, virou-se e foi-se.
Eu perdi o peso cio corpo, e estava frio. Me mexia todo, sem querer. Manuel Fulô oscilou para o balcão, mas não pôde segurar o copo; passou a mão no suor da testa: — Eu… eu… eu…
Aí eu vi que já se ajuntara gente, todos falando por metades só: — Coitado do Mané… Coitadinha dessa moça… Coitado do Mané Fulô…
Peguei-lhe do braço. Arrastei-o.
A rua já estava escura, e tropeçávamos na buraqueira. Subiu do chão, solerte, uma cabrita alvacenta. E, se o Manuel quisesse falar, cortava a língua, porque os seus dentes se mastigavam sem pausa.
Pus o amigo para dentro da minha casa:
— Você dorme aqui, Manuel. Eu vou agir…
Mas o infeliz, desmesurando os olhos, e numa vozinha aflita, que vinha de lá de mais baixo do que a cachaça, do que o gálico, do que a taba voz que vinha de tempo fundo suplicou: — Não faz nada não, seu doutor… Ele é o demônio… Não respeita nada e não tem medo de ninguém…
— Mas, Manuel! E até uma vergonha você dizer isso…
— Eu… Eu?
— Não fazer nada seria uma infâmia… Temos de defender a das Dor! Há momentos em que qualquer um é obrigado a ser herói…
— Uma osga!
— E o amor, Manuel? Ela é a tua noiva! Esta história… Que história, que mané-história! O senhor está é caçoando comigo…
— Não, porque…
— Porque-isquê!
— A minha…
— Que-inha?
— Cala a boca!
— Que-ôca?
— Manuel, se você não dominar um pouco essa bebedeira, eu jogo um josé na rua! … Ah, melhorou, não é? Precisamos de pensar… Por que você não vai pedir proteção ao Nhô Peixoto?
— Ele é pirrônico… Não amarro cavalo com ele… Bem, mas se o sangue de Peixoto é bom mesmo para fér ver, você vai preparar as armas, para enfrentar o Targino amanhã, na hora da baderna, não vai?
— Pois será que nem o senhor não é mais meu amigo? Está querendo ver a minha morte?
Qualquer um outro eu escorava mesmo, mas o senhor não sabe que esse Targino é o valentão?!…
— Bom, Manuel Fulô, não iremos pela força… Mas, você, que logrou até os ciganos, vai me ajudar agora a inventar um estratagema, um modo de fintarmos o Targino?
Manuel Fulô abriu um riso feio — vançando os dentes amarelos e grandes, como fieiras de grãos numa espiga de milho — tal e qual um cavalo; depois disse: — Ah, não tem jeito… Não tem prazo, seu doutor! Assim, de hoje p’r’amanhã, não adianta… Mal-e-mal eu estou podendo pensar o trivial…
Face ao inajeitável, me alvitrei que o melhor seria reforçar a anestesia, dar-lhe mais bebida.
E dei.
Bebeu, arrotou, e suplicou:
— O senhor não esquece de mandar cuidar da minha Beija Fulô?
— Oh, Manuel! Você gosta mais é da das Dor ou da Beija Fulô?
— Me desculpe, seu doutor, mas isto é pergunta que se faça? Gosto das duas por igual, mas primeiro da das Dor!…
E dormiu.
De manhã, acordei cedo. Manuel Fulô curtia o epílogo da cachaceira. Fui providenciar.
Quando ia saindo, encontrei o meu amigo Vicente Sorrente sapateiro, com olhos amplos, me avisando:
— Não faça isso, doutor. Mande o Manuel embora, O Targino pode pensar que o senhor esteja se metendo…
Até chegar à casa do Coronel Melguério, ouvi, mais ou me nos, essas mesmas palavras, umas quinze vezes. Porque a rua estava cheia dos habitantes de Laginha, assanhados que nem correição de saca-saia em véspera de mau tempo. Havia meses que o Targino não cometia alguma barbaridade, e forte era a sensação.
— Hoje é dia… E hoje!
O Coronel era boa pessoa, só que o chamavam de berda-Merguério. Ouviu, deu de ombros, e indeferiu:
— Se o senhor quiser, pode arranjar quem pegue o Targino à unha, que a autoridade aprova. Agora, gente p’ra isso é que não há por aqui… Ninguém não tem sopro p’ra esse homem…
Então, fui ao vigário. O reverendo olhou para cima, com um jeito de virgem nua rojada à arena, e prometeu rezar; o que não recusei, porque: dinheiro, carinho e reza, nunca se despreza.
E, aí, eu comecei a temer por minha pele própria, e voltei, frouxo, aflito por que passasse o dia, tudo acabasse, e a gente pudesse ver o resto como ia ser. Manuel Fulô não tivera coragem de pôr o pé fora da porta. E a Veigaria toda, que, não sei como, tivera ciência do ultimatum e acorrera, enchia a minha morada.
Uma mulher Véiga se ajoelhou, de mãos postas: — Não deixa acontecer nada com o Manezinho, que ele gosta muito do senhor!
E um Véiga barbaçudo, com um pouquinho mais de reserva, explicou: — Nós viemos aconselhar o Mané, p’ra ele não fazer nenhuma doideira… O senhor não acha que ele deve de entregar p’ra Deus e ficar quieto? A moça gosta dele… A gente esquece o que se deu, e eles casam… Faz de conta que foi coisa que nem doença… É que nem a gente se casar com mulher viúva…
E aqueles parentes não viam que o Manuel estava mesmo o mais Véiga de todos, pedindo a Deus que o pusesse entrevado num momento, ou que abrisse o chão, em grota fofa, para ele se enfiar e afundar.
Mas, com a barafunda, não se sabia o que fazer, e mais, ainda, com tanta gente curiosa, querendo consulta ou fazendo visita, em hora tão matinal. E, logo, de cochicho em cochicho, formou-se uma corrente informativa:.., o subdelegado saíra do arraial, de madrugadinha, para assunto urgente de capturar, a duas léguas do comércio, um ladrão de cavalos… Maria das Dores, na cafua, adoecera de pavor, e estava sozinha com a mãe, chamando pelo noivo.. . Targino ainda não saíra de casa.
— Quem sabe se ele não esqueceu ou desistiu?
— Ara, ara! Que esperança!
E, a que horas a Bela seria procurada pela Fera, não se podia saber.
Mas, de fato, cartas dadas, a história começa mesmo é aqui. Porque: era uma vez um pedreiro Antonico das Pedras ou Antonico das Águas, que tinha alma de pajé; e tinha também uma sela mexicana, encostada por falta de animal, e cobiçava ainda a Beija-Fulô, a qual, mesmo sendo nhata, custara um conto e trezentos, na baixa, e era o grande amor do meu amigo Manuel Fulô. Pois o Antônio curandeiro-feiticeiro, apesar de meu concorrente, lá me entrou de repente em casa, exigindo o Manuel Fulô a um canto — para assunto secretíssimo.
Nem eu pude ouvir. Isto é, escutava pouca coisa: Manuel Fulô dizia que não, gaguejava e relutava. E o outro falava pompeado, com grã viveza de gestos e calor para convencer.
O tempo passava, O povaréu falava, todo a uma vez, depois silenciava. Pesava demais a espera; e já era insuportável a situação.
Aí, de chofre, se abriu a porta do quarto-da-sala, onde os dois davam suas vozes, e o Antonico das Pedras surgiu, muito cínico e sacerdotal, requisitando agulha-e-linha, um prato fundo, cachaça e uma lata com brasas. E Manuel Fulô reapareceu também, muito mais amarelo do que antes, dizendo ao povo Véiga, funebremente: Podem entregar a minha Beija-Fulô p’ra o seu Toniquinho das Águas, que ela agora é dele…
Então eu me sobressaltei, e umas mulheres choramingaram, porque o dito equivalia a um perfeito legado testamentário. Mas os dois donos da Beija-Fulô tornaram a fechar-se no quar to, com o prato fundo, as brasas, a agulha-e-linha e a cachaça, e ainda outros aviamentos.
Houve um parado de próxima tempestade. Uma voz fina rezou o credo. Correram, na rua. E alguém, esbofado, entrou:
— Fechem as portas e as janelas, que seu Targino já vem vindo, e vai passar mesmo por aqui por frente da casa!
O povo se mexeu, como água em assoalho.
— Entra p’ra dentro, Tibitíu! gritou-se.
— Aí vem o homem!… — gritaram.
E, nisso, abriram outra vez a porta do quarto-da-sala, e Manuel Fulô saiu primeiro. Surgiu como uma surpresa, trans-mudado, teso, sonambúlico.
Abrimos caminho, e ele passou, para a rua. Ia do jeito com que os carneiros investem para a ponta da faca cio matador. Vilhe um brilho estricto, nos olhos.
E só depois que ele saiu foi que aVéiga mãe de todos os Véigas se desapalermou e pôde gritar:
— Me valei-me agora, minha Nossa Senhora!
E vi também o Antonico das Pedras, lampeiro e fagueiro, perguntando pela Beija-Fulô. Mas ninguém lhe deu atenção. Só perguntaram:
— O-quê que o senhor foi fazer com o meu irmão, seu Toniquinho?
— Fechei o corpo dele. Não careçam de ter medo, que para arma de fogo eu garanto!…
— Jesus! Targino mata o Manezinho… Não levou nem garrucha nem nada, o pobre!
— Corre atrás dele, gente! Seu Toniquinho botou meu filho doido!
Mas ninguém transpôs a porta. O Targino já aparecera lá adiante. Vinha lento, mas com passadas largas. E de certo se admirou de ver Manuel Fulô caminhar. Naquela hora, a rua, ancha e comprida, só estava cabendo os dois.
E eu pensei no trem-de–ferro colhendo e triturando um bezerro, na passagem de um corte.
Pronto! A dez metros do inimigo, Manuel Fulô parou, e rompeu numa voz, que de tão enérgica eu desconhecia, gritando uma inconveniência acerca da mãe do valentão.
Targino puxou o revólver. Eu me desdebrucei um pouco da janela. Cruzaram-se os insultos: — Arreda daí, piolho! Sujeito idiota!…
— Atira, cachorro, carantonho! Filho sem pai! Cedo será, que eu estou rezado fechado, e a tua hora já chegou!…
E só aí foi que o Manuel mexeu na cintura. Tirou a faquinha, uma quicé quase canivete, e cresceu. Targino parara, desconhecendo o adversário. Hesitava? Hesitou.
Eu tirei a cara da janela, e só ouvi as balas, que assoviaram, cinco vezes, rua a fora, de enfiada, com o zunido de arames es ticados que se soltam.
E, quando espiei outra vez, vi exato: Targino, fixo, como um manequim, e Manuel Fulô pulando nele e o esfaqueando, pela altura do peito tudo com rara elegância e suma precisão.
Targino girou na perna esquerda, ceifando o ar com a direita; capotou; e desviveu, num átimo. Seu rosto guardou um ar de temor salutar. Conheceu, diabo, o que é raça de Peixoto?!
E eis que isso foi ingratidão, em vista da lealdade dos Véigas, que agora enchiam o pedaço de rua. Pouco sério, também, foi ele ter dado mais uma porção de facadas no defunto, num as somo de raiva supérflua. E ainda cuspia e pontapeava, sujando-se todo de sangue. Mas grande era a sua desculpa, já que não é coisa vulgar a gente topar com um valentão na estrada da guerra, e extingui-lo a ferro frio.
Manuel Fulô fez festa um mês inteiro, e até adiou, por via disso, o casamento, porque o padre teimou que não matrimoniava gente bêbeda. Eu fui o padrinho.
E o melhor foi que meu afilhado conservou o titulo, porque, pouco depois, um destacamento policial veio para Laginha, e desapareceram os cabras possantes, com vocação para o disputar. Mas Manuel Fulô ficou sendo um valentão manso e decorativo, como mantença da tradição e para a glória do arraial. Só, de vez em longe, quando conseguia burlar a vigilância da es posa, ingeria um excesso de meia garrafa da branquinha, pedia a Beija-Fulô emprestada ao Antonico das Pedras-Águas, e dava trabalho ao povo, bloqueando a rua Direita, galopando e disparando, para cima, tiros de mentira ou de verdade, e gritando até adormecer, abraçado à tábua-do-pescoço da mula:
— Conheceu, gente, o que é sangue de Peixoto?!…
João Guimarães Rosa, “Sagarana“
Tartarugas e Cronópios
Agora acontece que as tartarugas são grandes admiradoras da velocidade, como é natural.
As esperanças sabem disso e não ligam.
Os famas sabem e caçoam.
Os cronópios sabem e cada vez que encontram uma tartaruga, puxam a caixa de giz colorido e na lousa redonda da tartaruga desenham uma andorinha.
Julio Cortázar, "Histórias de Cronópios e de Famas"
As esperanças sabem disso e não ligam.
Os famas sabem e caçoam.
Os cronópios sabem e cada vez que encontram uma tartaruga, puxam a caixa de giz colorido e na lousa redonda da tartaruga desenham uma andorinha.
Julio Cortázar, "Histórias de Cronópios e de Famas"
O guarda-livros
Quando o velho Leras, guarda-livros da firma Labuze & Cia., saiu do estabelecimento, ficou alguns instantes deslumbrado com o brilho do sol poente. Trabalhara todo o dia à luz amarelada do bico do gás, no fundo da loja, junto da área estreita e profunda como um poço. Era tão escura a saleta na qual, havia quarenta anos, passava os dias, que mesmo em pleno verão ele só podia dispensar a luz artificial entre as onze e as três horas.
Havia sempre ali umidade e frio; e as emanações daquela espécie de fossa em que se abria a janela entravam pela saleta escura e a enchiam de um cheiro de bolor e de esgoto.
Desde quarenta anos passados chegava Leras todas as manhãs, às 8 horas, a essa prisão e ali ficava até às 7 horas da noite, curvado sobre os livros, escrevendo com o afã de um bom empregado.
Ganhava atualmente três mil francos por ano, tendo começado com a metade. Era celibatário, porque o seu ordenado nunca lhe permitira que se casasse. E nada tendo gozado da vida, não tinha ambição alguma. No entanto, uma vez ou outra, cansado do seu labor monótono, formulava um desejo platônico: “Ah! se eu tivesse cinco mil libras de renda que boa vida!”
Essa boa vida, ele aliás nunca a tivera, pois nunca passara dos seus vencimentos mensais.
Entrara aos vinte e um anos para a casa Labuze & Cia. e de lá não mais saíra.
Em 1856 perdera o pai, e depois a mãe em 1859. E depois disso o único acontecimento da sua vida fora uma mudança em 1868, porque o seu senhorio aumentara o aluguel do quarto.
Saltava do leito todos os dias às 6 horas precisas, ao som de um ruído terrível do despertador.
Saía, comprava um pão na padaria Lahure, de que conhecera doze proprietários diferentes, sem que ela perdesse o nome do primeiro. E punha-se a caminho, a comer vagarosamente.
A sua existência inteira decorrera, pois, na estreita sala sombria, forrada sempre com o mesmo papel. Entrara moço, como ajudante do sr. Brument e com o desejo de substituí-lo mais tarde.
Substituíra-o, e agora nada mais esperava.
Toda a messe de recordações que colhem os outros homens no decorrer da existência, os imprevistos, os amores doces ou trágicos, as viagens aventurosas, todos os acasos de uma vida livre haviam-lhe sido estranhos.
Nesse dia o velho Leras ficou deslumbrado, na porta da rua, pelo fulgor do sol poente; e em vez de se dirigir à casa, teve a ideia de fazer um pequeno giro antes do jantar, o que lhe acontecera quatro ou cinco vezes por ano.
Chegou aos bulevares, onde agitava a multidão sob as árvores reverdecidas. Era uma tarde de primavera, uma dessas primaveras tépidas e macias que turbam os corações com uma embriaguez de vida.
Leras caminhava com o seu passo saltitante de velho; ia com um brilho alegre no olhar, feliz com a alegria universal e com a tepidez do ar.
Chegou aos Campos Elíseos e continuou a andar, reanimado pelos eflúvios de mocidade que passavam na brisa.
O céu inteiro flamejava e o Arco do Triunfo desenhava sua massa negra sobre o fundo iluminado do horizonte, como um incêndio. Quando chegou junto ao monstruoso monumento, o velho guarda-livros sentiu fome e entrou num restaurante para jantar.
Serviram-lhe numa mesinha da calçada e Leras jantou como havia muito não fazia.
Depois de haver pago, sentou-se alegre, vivo e mesmo um tanto perturbado. Disse consigo: “Que linda noite! Vou o passeio até à entrada do Bois de Boulogne, isso me fará bem!”
E partiu. A noite descera sobre Paris, uma noite sem vento, uma noite de estufa. Leras seguia a Avenida do Bois e distraía-se a ver passarem as carruagens. Os carros vinham, com os seus olhos luminosos, um atrás do outro, deixando ver por momentos um par abraçado, a mulher de vestido claro, o homem de terno preto.
Era uma longa procissão de namorados, a passar sob o céu estrelado e ardente. E eles passavam, passavam sempre recostados nas carruagens, mudos, aconchegados, perdidos na alucinação, na emoção do desejo, no frêmito do próximo amplexo. A sombra tépida parecia cheia de beijos que voejavam, que flutuavam no ar. Uma sensação de ternura enlanguescia o ambiente, tornava-o mais sufocante. Todas essas criaturas enlaçadas, na embriaguez do mesmo desejo, do mesmo pensamento faziam correr um frêmito pelo ar. Todas essas carruagens, cheias de carícias, deixavam à sua passagem uma emanação sutil e perturbadora.
Um tanto fatigado da marcha, sentou-se Leras a um banco. “Antes eu não tivesse vindo!” pensou. “Estou incomodado, aborrecido...”
E pôs-se a pensar em todo esse amor, venal ou passional, em todos esses beijos, livres ou pagos, que passavam diante dele.
O amor! ele mal o conhecera! Só tivera na vida duas ou três mulheres, por acaso, de surpresa. As suas posses não lhe permitiam aventuras. E pensava na vida que levara, tão diferente da vida dos outros, na sua vida tão sombria e insípida, estéril e vazia...
Há criaturas que positivamente não têm sorte. E de repente, como se se houvesse rasgado um denso véu, ele percebeu a miséria, a infinita, a monótona miséria da sua existência: a miséria passada, a presente e a futura; os últimos dias em tudo iguais aos primeiros, sem nada em volta dele, nada no coração, nada em parte alguma, nada...
O destilar dos carros continuava. E ele via sempre aparecerem e desaparecerem, na rápida passagem do carro descoberto, os pares silenciosos e abraçados. Parecia-lhe que a humanidade inteira desfilava diante dele, ébria de alegria, de prazer e de felicidade. E ele sozinho a olhá-la, só, inteiramente só. E amanhã estaria ainda só, isolado como ninguém no mundo...
Levantou-se, deu alguns passos e bruscamente fatigado, como se acabasse de fazer uma longa viagem a pé, caiu pesadamente sob o banco próximo.
Que esperava ele? Nada! Pensava apenas que deve ser agradável, quando se é velho, achar, ao entrar em casa, crianças que a papagueiam. É doce envelhecer quando estamos cercados desses pequeninos entes que nos devem a vida, que nos amam e acariciam, que dizem essas palavras ingênuas e encantadoras que reanimam o coração e consolam de tudo...
E ao pensar no seu quarto vazio, no seu pequeno quarto limpo e triste, onde só ele entrava, uma sensação de agonia assaltou-lhe a alma. O seu quarto pareceu-lhe ainda mais lamentável que o escritório.
Ninguém o visitava, ninguém falava ali. Era um quarto morto, mudo, sem eco de voz humana. Dir-se-ia que as paredes guardam qualquer coisa das pessoas que vivem entre elas, qualquer coisa das suas atitudes, figuras, palavras. As casas habitadas por famílias felizes são mais alegres do que as habitações dos miseráveis. O seu quarto era vazio de recordações como a sua vida. E alarmou-o a ideia de entrar sozinho nesse quarto, deitar-se na cama, repetir todos os movimentos e todos os trabalhos costumeiros. E como para mais se afastar desse sinistro aposento e da hora de para ele voltar, levantou-se e entrou pela primeira alameda, para sentar se a relva.
Ouvia entorno, no alto em toda parte, um rumor confuso, imenso, contínuo, feito de ruídos internos e diferentes, um rumor surdo, próximo, distante, uma vaga e enorme palpitação de vida: há o hálito de Paris, que respirava como um ser colossal.
O sol, já alto, derramava uma onda de luz sobre o Bois de Boulogne. Começavam a circular alguns carros e vários cavalheiros chegavam alegremente.
Um casal ia a passo por uma alameda deserta. Subitamente a moça, erguendo os olhos, viu um vulto escuro nos galhos de uma árvore. Levantou a mão, admirada e inquieta:
Olha... que é aquilo?
Depois, com um grito, caiu desmaiada nos braços do companheiro.
Chamados os guardas, estes retiraram dos ramos um velho enforcado nos suspensórios.
Verificou-se que a morte ocorrera na véspera. Pelos papéis encontrados nos seus bolsos, ficou apurado tratar-se do guarda-livros Leras, empregado da casa Labuze & Cia.
A sua morte foi atribuída a suicídio de causa ignorada. Talvez um súbito acesso de loucura...
Havia sempre ali umidade e frio; e as emanações daquela espécie de fossa em que se abria a janela entravam pela saleta escura e a enchiam de um cheiro de bolor e de esgoto.
Desde quarenta anos passados chegava Leras todas as manhãs, às 8 horas, a essa prisão e ali ficava até às 7 horas da noite, curvado sobre os livros, escrevendo com o afã de um bom empregado.
Ganhava atualmente três mil francos por ano, tendo começado com a metade. Era celibatário, porque o seu ordenado nunca lhe permitira que se casasse. E nada tendo gozado da vida, não tinha ambição alguma. No entanto, uma vez ou outra, cansado do seu labor monótono, formulava um desejo platônico: “Ah! se eu tivesse cinco mil libras de renda que boa vida!”
Essa boa vida, ele aliás nunca a tivera, pois nunca passara dos seus vencimentos mensais.
A vida lhe passara sem acidentes, sem emoções e quase sem esperanças. A faculdade de sonho, que cada um de nós traz consigo, nunca se desenvolvera na mediocridade das suas ambições.
Entrara aos vinte e um anos para a casa Labuze & Cia. e de lá não mais saíra.
Em 1856 perdera o pai, e depois a mãe em 1859. E depois disso o único acontecimento da sua vida fora uma mudança em 1868, porque o seu senhorio aumentara o aluguel do quarto.
Saltava do leito todos os dias às 6 horas precisas, ao som de um ruído terrível do despertador.
Saía, comprava um pão na padaria Lahure, de que conhecera doze proprietários diferentes, sem que ela perdesse o nome do primeiro. E punha-se a caminho, a comer vagarosamente.
A sua existência inteira decorrera, pois, na estreita sala sombria, forrada sempre com o mesmo papel. Entrara moço, como ajudante do sr. Brument e com o desejo de substituí-lo mais tarde.
Substituíra-o, e agora nada mais esperava.
Toda a messe de recordações que colhem os outros homens no decorrer da existência, os imprevistos, os amores doces ou trágicos, as viagens aventurosas, todos os acasos de uma vida livre haviam-lhe sido estranhos.
***
Chegou aos bulevares, onde agitava a multidão sob as árvores reverdecidas. Era uma tarde de primavera, uma dessas primaveras tépidas e macias que turbam os corações com uma embriaguez de vida.
Leras caminhava com o seu passo saltitante de velho; ia com um brilho alegre no olhar, feliz com a alegria universal e com a tepidez do ar.
Chegou aos Campos Elíseos e continuou a andar, reanimado pelos eflúvios de mocidade que passavam na brisa.
O céu inteiro flamejava e o Arco do Triunfo desenhava sua massa negra sobre o fundo iluminado do horizonte, como um incêndio. Quando chegou junto ao monstruoso monumento, o velho guarda-livros sentiu fome e entrou num restaurante para jantar.
Serviram-lhe numa mesinha da calçada e Leras jantou como havia muito não fazia.
Depois de haver pago, sentou-se alegre, vivo e mesmo um tanto perturbado. Disse consigo: “Que linda noite! Vou o passeio até à entrada do Bois de Boulogne, isso me fará bem!”
E partiu. A noite descera sobre Paris, uma noite sem vento, uma noite de estufa. Leras seguia a Avenida do Bois e distraía-se a ver passarem as carruagens. Os carros vinham, com os seus olhos luminosos, um atrás do outro, deixando ver por momentos um par abraçado, a mulher de vestido claro, o homem de terno preto.
Era uma longa procissão de namorados, a passar sob o céu estrelado e ardente. E eles passavam, passavam sempre recostados nas carruagens, mudos, aconchegados, perdidos na alucinação, na emoção do desejo, no frêmito do próximo amplexo. A sombra tépida parecia cheia de beijos que voejavam, que flutuavam no ar. Uma sensação de ternura enlanguescia o ambiente, tornava-o mais sufocante. Todas essas criaturas enlaçadas, na embriaguez do mesmo desejo, do mesmo pensamento faziam correr um frêmito pelo ar. Todas essas carruagens, cheias de carícias, deixavam à sua passagem uma emanação sutil e perturbadora.
Um tanto fatigado da marcha, sentou-se Leras a um banco. “Antes eu não tivesse vindo!” pensou. “Estou incomodado, aborrecido...”
E pôs-se a pensar em todo esse amor, venal ou passional, em todos esses beijos, livres ou pagos, que passavam diante dele.
O amor! ele mal o conhecera! Só tivera na vida duas ou três mulheres, por acaso, de surpresa. As suas posses não lhe permitiam aventuras. E pensava na vida que levara, tão diferente da vida dos outros, na sua vida tão sombria e insípida, estéril e vazia...
Há criaturas que positivamente não têm sorte. E de repente, como se se houvesse rasgado um denso véu, ele percebeu a miséria, a infinita, a monótona miséria da sua existência: a miséria passada, a presente e a futura; os últimos dias em tudo iguais aos primeiros, sem nada em volta dele, nada no coração, nada em parte alguma, nada...
O destilar dos carros continuava. E ele via sempre aparecerem e desaparecerem, na rápida passagem do carro descoberto, os pares silenciosos e abraçados. Parecia-lhe que a humanidade inteira desfilava diante dele, ébria de alegria, de prazer e de felicidade. E ele sozinho a olhá-la, só, inteiramente só. E amanhã estaria ainda só, isolado como ninguém no mundo...
Levantou-se, deu alguns passos e bruscamente fatigado, como se acabasse de fazer uma longa viagem a pé, caiu pesadamente sob o banco próximo.
Que esperava ele? Nada! Pensava apenas que deve ser agradável, quando se é velho, achar, ao entrar em casa, crianças que a papagueiam. É doce envelhecer quando estamos cercados desses pequeninos entes que nos devem a vida, que nos amam e acariciam, que dizem essas palavras ingênuas e encantadoras que reanimam o coração e consolam de tudo...
E ao pensar no seu quarto vazio, no seu pequeno quarto limpo e triste, onde só ele entrava, uma sensação de agonia assaltou-lhe a alma. O seu quarto pareceu-lhe ainda mais lamentável que o escritório.
Ninguém o visitava, ninguém falava ali. Era um quarto morto, mudo, sem eco de voz humana. Dir-se-ia que as paredes guardam qualquer coisa das pessoas que vivem entre elas, qualquer coisa das suas atitudes, figuras, palavras. As casas habitadas por famílias felizes são mais alegres do que as habitações dos miseráveis. O seu quarto era vazio de recordações como a sua vida. E alarmou-o a ideia de entrar sozinho nesse quarto, deitar-se na cama, repetir todos os movimentos e todos os trabalhos costumeiros. E como para mais se afastar desse sinistro aposento e da hora de para ele voltar, levantou-se e entrou pela primeira alameda, para sentar se a relva.
Ouvia entorno, no alto em toda parte, um rumor confuso, imenso, contínuo, feito de ruídos internos e diferentes, um rumor surdo, próximo, distante, uma vaga e enorme palpitação de vida: há o hálito de Paris, que respirava como um ser colossal.
***
Um casal ia a passo por uma alameda deserta. Subitamente a moça, erguendo os olhos, viu um vulto escuro nos galhos de uma árvore. Levantou a mão, admirada e inquieta:
Olha... que é aquilo?
Depois, com um grito, caiu desmaiada nos braços do companheiro.
Chamados os guardas, estes retiraram dos ramos um velho enforcado nos suspensórios.
Verificou-se que a morte ocorrera na véspera. Pelos papéis encontrados nos seus bolsos, ficou apurado tratar-se do guarda-livros Leras, empregado da casa Labuze & Cia.
A sua morte foi atribuída a suicídio de causa ignorada. Talvez um súbito acesso de loucura...
Guy de Maupassant
quinta-feira, junho 18
A casa onde podemos ser nós
O segredo da vida é transformar vontades em farturas. Há uma maneira natural de conseguir e uma maneira mais inteligente.
A natural é ir tantas vezes a Nova Iorque que já não apetece nada ir a Nova Iorque. A inteligente é observar que as vontades são mais férteis do que as farturas e que não é preciso ir 20 vezes a Nova Iorque para perceber que tudo cansa e que a culpa não é de tudo, mas do pendor humano para o cansaço.
A pessoa sábia é aquela que prefere ficar em casa. Há umas que preferem ficar em casa porque desperdiçaram a vida a conhecer tudo o que o mundo tem, até descobrir que é em casa que se está bem. Depois há outras, mais rápidas, que descobrem cedo que o melhor que se pode fazer nesta vida faz-se melhor em casa do que no resto do mundo.
Digo casa, como quem diz a minha casa, ou Colares, ou Lisboa, ou Portugal: a nossa casa é concêntrica. Sim, mas é no centro que se está melhor.
O melhor da nossa casa não é a casa em si – é ser nossa. É isso que nenhum paraíso exterior pode oferecer. Nós somos a nossa casa. Quando mudamos de casa, nunca mudamos o que mais interessa, que somos nós.
Se estamos tristes e viajamos para fugir à tristeza, cedo descobrimos que a tristeza veio conosco. Mas com a alegria é a mesma coisa. A lição é que tanto faz ficar em casa ou viajar.
A casa verdadeira somos nós. O nosso ego, a nossa alma, a nossa maneira de ser é a inquilina do nosso corpo. Já tem casa. E é por isso que se sente em casa onde se pode sentir mais à vontade, onde pode ser mais desinibidamente ela própria: em casa.
Quando somos jovens só queremos exterioridades. Só queremos o que não temos. Penduramos todos os nossos sonhos em coisas que ainda não temos.
Infelizmente é inevitável que assim seja. Só assim – depois de obter algumas dessas coisas importantíssimas e ficar a perceber que não tinham importância nenhuma – é que aprendemos que já tínhamos tudo – ou quase tudo – de que precisávamos para nos divertirmos.
A natural é ir tantas vezes a Nova Iorque que já não apetece nada ir a Nova Iorque. A inteligente é observar que as vontades são mais férteis do que as farturas e que não é preciso ir 20 vezes a Nova Iorque para perceber que tudo cansa e que a culpa não é de tudo, mas do pendor humano para o cansaço.
A pessoa sábia é aquela que prefere ficar em casa. Há umas que preferem ficar em casa porque desperdiçaram a vida a conhecer tudo o que o mundo tem, até descobrir que é em casa que se está bem. Depois há outras, mais rápidas, que descobrem cedo que o melhor que se pode fazer nesta vida faz-se melhor em casa do que no resto do mundo.
Digo casa, como quem diz a minha casa, ou Colares, ou Lisboa, ou Portugal: a nossa casa é concêntrica. Sim, mas é no centro que se está melhor.
O melhor da nossa casa não é a casa em si – é ser nossa. É isso que nenhum paraíso exterior pode oferecer. Nós somos a nossa casa. Quando mudamos de casa, nunca mudamos o que mais interessa, que somos nós.
Se estamos tristes e viajamos para fugir à tristeza, cedo descobrimos que a tristeza veio conosco. Mas com a alegria é a mesma coisa. A lição é que tanto faz ficar em casa ou viajar.
A casa verdadeira somos nós. O nosso ego, a nossa alma, a nossa maneira de ser é a inquilina do nosso corpo. Já tem casa. E é por isso que se sente em casa onde se pode sentir mais à vontade, onde pode ser mais desinibidamente ela própria: em casa.
Quando somos jovens só queremos exterioridades. Só queremos o que não temos. Penduramos todos os nossos sonhos em coisas que ainda não temos.
Infelizmente é inevitável que assim seja. Só assim – depois de obter algumas dessas coisas importantíssimas e ficar a perceber que não tinham importância nenhuma – é que aprendemos que já tínhamos tudo – ou quase tudo – de que precisávamos para nos divertirmos.
O rio
Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.
Manuel Bandeira
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.
Manuel Bandeira
O vadio
Ele conhecera dias mais felizes, apesar do estado de miséria e de doença em que ora se encontrava.
Na idade de quinze anos, ficara com as pernas esmagadas por uma carruagem, na estrada real de Varville. Desde então mendigou, arrastando-se ao longo dos caminhos, através dos pátios das quintas, balouçado nas muletas, que lhe tinham feito levantar os ombros à altura das orelhas. A sua cabeça dir-se-ia enterrada entre duas montanhas.
Enjeitado encontrado num fosso, pelo cura de Billette, na véspera do dia de Finados, e batizado em razão disso, Nicolau Toussaint, educado por caridade, ficara estranho a todo e qualquer grau de instrução, estropiado depois de ter bebido alguns copos de aguardente oferecidos pelo padeiro da aldeia, para que ele fizesse rir, não tardou em dar em vagabundo, e mais nada sabia fazer do que estender a mão à caridade.
Outrora, a baronesa d'Avray concedia-lhe, para dormir, uma espécie de nicho cheio de palha, ao lado do galinheiro, na herdade que se ligava ao castelo: e ele ali estava ao abrigo, certo de, nos dias de grande fome, encontrar sempre um pedaço de pão e um copo de cidra na cozinha. Muitas vezes, recebia também alguns "sous" atirados pela velha senhora do alto da sua escadaria ou das janelas do seu quarto. Porém, ela morrera.
Nas aldeias, não lhe davam nada: conheciam-no por demais; estavam fartos de o ver; havia quarenta anos que o viam passear o deformado de seu corpo andrajoso sobre as suas duas patas de madeira.
Todavia, ele não queria deixar aqueles sítios, porque não conhecia outra coisa sobre a terra a não ser aquele canto de país, aquelas três ou quatro aldeias onde arrastara a sua vida miserável.
Marcara fronteiras à sua mendicidade e não teria nunca passado os limites que se acostumara a não ultrapassar.
Ignorava se o mundo se estenderia ainda muito para além das árvores que sempre tinham servido de limite à sua vida. Nem sequer o perguntava a si próprio. E quando os camponeses, cantados de o encontrarem todos os dias à beira dos seus campos ou ao longo dos seus fossos, lhe gritavam:
— Por que não vais tu para as outras aldeias, em lugar de andares sempre a mendigar por aqui? Ele não respondia, e afastava-se, tomado de um medo vago pelo desconhecido, de um medo de pobre que receia confusamente mil coisas, as novas caras, as injúrias, os olhares de desconfiança e suspeita das pessoas que o não conheciam, e os guardas que vão dois a dois pelas estradas e que o faziam esconder, por instinto, nas moitas ou por detrás das pedras.
Quando os via de longe, reluzentes ao sol — encontrava de repente uma agilidade singular, uma agilidade de monstro, para alcançar qualquer esconderijo. Saltava nas muletas, e deixava-se cair à maneira de um trapo, rolando como uma bola, tornando-se pequenino, invisível, acaçapado como uma lebre na sua toca, confundindo os seus trapos russos com a terra.
Ele não tivera, no entanto, nada com eles. Mas aquilo estava-lhe na massa do sangue, como se houvesse recebido aquele temor e aquela manha dos seus ascendentes, que não conhecera.
Não tinha refúgio, nem teto, nem cabana, nem abrigo. Dormia por toda a parte, quer de verão quer de inverno, e introduzia-se nas granjas ou nos estábulos com uma ligeireza notável. E raspava-se sempre antes que houvessem dado pela sua presença. Conhecia os buracos para penetrar nas construções, e o manejar das muletas havia-lhe dado aos braços um vigor tão surpreendente, que trepava só à força de pulso até aos celeiros de forragens, onde se conservava quatro ou cinco dias sem bulir, quando havia recolhido no seu giro as provisões suficientes.
Vivia como os animais dos bosques no meio dos homens, sem conhecer ninguém, sem amar ninguém, não excitando aos camponeses mais que uma espécie de desprezo indiferente e de hostilidade resignada. Tinham-lhe posto a alcunha do "Sino" porque se balouçava, entre as duas muletas de pau como um sino se balouça entre os seus suportes.
Havia dois dias que não comia. Ninguém já lhe dava nada. Por fim, nem já o queriam ver. Os camponeses, dos seus portais, gritavam-lhe quando o viam chegar:
— Vê lá se te queres pôr a andar, tonante! Ainda não há três dias que te dei um bocado de pão!
E ele girava sobre as suas estacas e dirigia-se à casa vizinha, onde o recebiam da mesma maneira.
As mulheres declaravam de porta para porta:
— Mas é que a gente não pode dar de comer a este preguiçoso todo o ano.
Todavia, o preguiçoso tinha necessidade de comer todos os dias.
Tinha percorrido Saint-Hilaire, Varville e les Bocettes, sem recolher um cêntimo nem uma simples côdea. Só lhe restava uma esperança, era, Tournolles; mas era-lhe preciso caminhar ainda duas léguas pela estrada real, e sentia-se cansado a ponto de não poder arrastar-se mais, tendo o ventre tão vazio como a algibeira.
Apesar de tudo, pôs-se em marcha.
Era em dezembro. Um vento frio percorria os campos, sibilava nos ramos nus; e as nuvens galopavam através do céu baixo e sombrio, apressando-se não se sabe para onde. O estropiado caminhava lentamente, deslocando os seus suportes um após outro com penoso esforço, escorando-se na perna torcida que lhe restava, terminada por um pé aleijado e calçado por um trapo.
De tempos a tempos, assentava-se no fosso e descansava alguns minutos. A fome punha uma grande mágoa na alma confusa e pesada. Ele sô tinha uma ideia: "comer", mas não sabia por que meio.
Durante três horas, penou na comprida estrada; depois, quando avistou as árvores da aldeia, apressou os seus movimentos.
O primeiro lavrador que encontrou e ao qual pediu esmola, respondeu-lhe:
— Tu ainda por aqui? velho desprezível! Então eu nunca me verei livre de ti?
E o "Sino" afastou-se. De porta em porta, correram-no, recambiaram-no, sem lhe darem nada. E ele continuava, apesar disso, o seu giro, paciente e obstinado. Não recolheu um sou.
Então visitou as herdades, caminhando através das terras amolecidas pelas chuvas, por tal forma extenuado que nem sequer podia levantar as muletas. Escorraçavam-no de toda a parte. Era um desses dias frios e tristes em que os corações se fecham, em que os espíritos se irritam, em que a alma está sombria, em que a mão não se abre nem para dar nem para socorrer.
Quando acabou de visitar todas as casas que conhecia, foi cair ao canto de uma vala, ao longo do pátio do tio Chiquet. Despegou-se, como se dizia para exprimir a maneira porque se deixava cair de entre as muletas que fazia escorregar por debaixo dos braços. Ficou por largo tempo imóvel, torturado pela fome, mas era muito bruto para que pudesse penetrar a sua insondável miséria.
Esperava não se sabe o que, naquela vaga esperança que existe constante em nós.
Esperava ao canto daquele pátio, sob o vento gelado, o auxílio misterioso que se espera sempre do céu ou dos homens, sem que saiba como, nem por que, nem por quem ele nos poderá chegar. Passava um bando de galinhas pretas, buscando a sua vida na terra que alimenta todos os seres. A cada instante, picavam com uma bicada um grão ou um inseto invisível, depois continuavam a sua busca lenta e segura.
O "Sino" olhava para elas sem pensar em nada; depois veio-lhe, mais ao ventre que propriamente à cabeça, mais à sensação que à ideia, que um daqueles animais seria bom para comer assado no borralho de uns troncos secos. A suposição de que ia cometer um roubo nem de leve roçou pelo seu espírito. Pegou numa pedra que se achava ao alcance da mão, e, como a tinha certeira, matou redondamente, atirando logo por terra a ave que estava mais próxima. O animal caíra de flanco, remexendo as asas. As outras fugiram, balouçando-se nas suas patas delgadas, e o "Sino", escalando novamente as suas muletas, pôs-se em marcha para ir apanhar a sua caça, com movimentos iguais aos das galinhas.
Ao chegar perto do pequeno corpo preto manchado de vermelho na cabeça, recebeu um empurrão terrível pelas costas, que o fez cair das muletas e o fez rolar a dez passos para a frente.
E o tio Chiquet, exasperado, precipitando-se sobre o pilha, encheu-o de pancadas, batendo como um furioso, como bate um camponês roubado, com o punho e com o joelho por todo o corpo do enfermo, que não podia defender-se.
As pessoas da herdade chegaram por sua vez e puseram-se com o patrão a sovar o mendigo. Depois, quando se cansaram de lhe bater, agarraram nele, levaram-no e fecharam-no na casa da lenha, enquanto iam busca das autoridades.
"Sino", meio morto, sangrando e estourando de fome, ficou deitado no chão. Chegou a tarde, veio a noite, depois a aurora, e ele sem comer.
Pelo meio dia, os guardas apareceram e abriram a porta com precaução, esperando uma resistência, porque o tio Chiquet dizia ter sido atacado pelo vadio e ter-se defendido a grande custo.
O cabo bradou:
— Vamos! saia daí!
Mas "Sino" não se podia mexer; ainda tentou erguer-se nos seus suportes, mas não o conseguiu. Julgaram que era fingimento, que era manha, que era má vontade do malfeitor, e os dois homens armados trataram-no asperamente, empunharam-no e puseram-no à força sobre as muletas.
O medo apossara-se dele, aquele medo inato que os desgraçados têm das correias militares, o medo a caça em presença do caçador, do rato diante do gato. E, com esforços sobre-humanos, lá conseguiu pôr-se em pé.
— Marche! disse o cabo. Ele marchou. Todo o pessoal da herdade o via partir. As mulheres mostravam-lhe o punho; os homens chacoteavam-no; injuriavam-no: tinham-lhe dado fim! Estavam livres.
Ele afastou-se entre os dois guardas. Achou a energia desesperada que lhe era precisa para se arrastar ainda até à noite, embrutecido, não sabendo nem sequer o que lhe sucedia, assustado por demais para que pudesse compreender.
As pessoas que o encontravam detinham-se para o ver assar, e os camponeses murmuravam:
— É algum ladrão!
Pela noitinha, chegaram à comarca. Ele nunca tinha ido até ali. Não dava verdadeiramente conta do que se passava nem do que lhe podia acontecer. Todas aquelas casas novas o consternavam.
Não pronunciou mais uma palavra, nada tendo a dizer, porque nada compreendia. Desde muitos anos que não falava a ninguém, por isso quase perdera o uso da linguagem; e o seu pensamento estava também muito confuso para poder formular palavras. Encerraram-no na prisão da Villa. Os guardas não pensaram em que ele poderia ter vontade de comer, e deixaram-no até ao outro dia.
Mas, quando vieram para o interrogar, logo de manhãzinha, acharam-no morto, no chão.
Que surpresa!
Na idade de quinze anos, ficara com as pernas esmagadas por uma carruagem, na estrada real de Varville. Desde então mendigou, arrastando-se ao longo dos caminhos, através dos pátios das quintas, balouçado nas muletas, que lhe tinham feito levantar os ombros à altura das orelhas. A sua cabeça dir-se-ia enterrada entre duas montanhas.
Enjeitado encontrado num fosso, pelo cura de Billette, na véspera do dia de Finados, e batizado em razão disso, Nicolau Toussaint, educado por caridade, ficara estranho a todo e qualquer grau de instrução, estropiado depois de ter bebido alguns copos de aguardente oferecidos pelo padeiro da aldeia, para que ele fizesse rir, não tardou em dar em vagabundo, e mais nada sabia fazer do que estender a mão à caridade.
Outrora, a baronesa d'Avray concedia-lhe, para dormir, uma espécie de nicho cheio de palha, ao lado do galinheiro, na herdade que se ligava ao castelo: e ele ali estava ao abrigo, certo de, nos dias de grande fome, encontrar sempre um pedaço de pão e um copo de cidra na cozinha. Muitas vezes, recebia também alguns "sous" atirados pela velha senhora do alto da sua escadaria ou das janelas do seu quarto. Porém, ela morrera.
Nas aldeias, não lhe davam nada: conheciam-no por demais; estavam fartos de o ver; havia quarenta anos que o viam passear o deformado de seu corpo andrajoso sobre as suas duas patas de madeira.
Todavia, ele não queria deixar aqueles sítios, porque não conhecia outra coisa sobre a terra a não ser aquele canto de país, aquelas três ou quatro aldeias onde arrastara a sua vida miserável.
Marcara fronteiras à sua mendicidade e não teria nunca passado os limites que se acostumara a não ultrapassar.
Ignorava se o mundo se estenderia ainda muito para além das árvores que sempre tinham servido de limite à sua vida. Nem sequer o perguntava a si próprio. E quando os camponeses, cantados de o encontrarem todos os dias à beira dos seus campos ou ao longo dos seus fossos, lhe gritavam:
— Por que não vais tu para as outras aldeias, em lugar de andares sempre a mendigar por aqui? Ele não respondia, e afastava-se, tomado de um medo vago pelo desconhecido, de um medo de pobre que receia confusamente mil coisas, as novas caras, as injúrias, os olhares de desconfiança e suspeita das pessoas que o não conheciam, e os guardas que vão dois a dois pelas estradas e que o faziam esconder, por instinto, nas moitas ou por detrás das pedras.
Quando os via de longe, reluzentes ao sol — encontrava de repente uma agilidade singular, uma agilidade de monstro, para alcançar qualquer esconderijo. Saltava nas muletas, e deixava-se cair à maneira de um trapo, rolando como uma bola, tornando-se pequenino, invisível, acaçapado como uma lebre na sua toca, confundindo os seus trapos russos com a terra.
Ele não tivera, no entanto, nada com eles. Mas aquilo estava-lhe na massa do sangue, como se houvesse recebido aquele temor e aquela manha dos seus ascendentes, que não conhecera.
Não tinha refúgio, nem teto, nem cabana, nem abrigo. Dormia por toda a parte, quer de verão quer de inverno, e introduzia-se nas granjas ou nos estábulos com uma ligeireza notável. E raspava-se sempre antes que houvessem dado pela sua presença. Conhecia os buracos para penetrar nas construções, e o manejar das muletas havia-lhe dado aos braços um vigor tão surpreendente, que trepava só à força de pulso até aos celeiros de forragens, onde se conservava quatro ou cinco dias sem bulir, quando havia recolhido no seu giro as provisões suficientes.
Vivia como os animais dos bosques no meio dos homens, sem conhecer ninguém, sem amar ninguém, não excitando aos camponeses mais que uma espécie de desprezo indiferente e de hostilidade resignada. Tinham-lhe posto a alcunha do "Sino" porque se balouçava, entre as duas muletas de pau como um sino se balouça entre os seus suportes.
Havia dois dias que não comia. Ninguém já lhe dava nada. Por fim, nem já o queriam ver. Os camponeses, dos seus portais, gritavam-lhe quando o viam chegar:
— Vê lá se te queres pôr a andar, tonante! Ainda não há três dias que te dei um bocado de pão!
E ele girava sobre as suas estacas e dirigia-se à casa vizinha, onde o recebiam da mesma maneira.
As mulheres declaravam de porta para porta:
— Mas é que a gente não pode dar de comer a este preguiçoso todo o ano.
Todavia, o preguiçoso tinha necessidade de comer todos os dias.
Tinha percorrido Saint-Hilaire, Varville e les Bocettes, sem recolher um cêntimo nem uma simples côdea. Só lhe restava uma esperança, era, Tournolles; mas era-lhe preciso caminhar ainda duas léguas pela estrada real, e sentia-se cansado a ponto de não poder arrastar-se mais, tendo o ventre tão vazio como a algibeira.
Apesar de tudo, pôs-se em marcha.
Era em dezembro. Um vento frio percorria os campos, sibilava nos ramos nus; e as nuvens galopavam através do céu baixo e sombrio, apressando-se não se sabe para onde. O estropiado caminhava lentamente, deslocando os seus suportes um após outro com penoso esforço, escorando-se na perna torcida que lhe restava, terminada por um pé aleijado e calçado por um trapo.
De tempos a tempos, assentava-se no fosso e descansava alguns minutos. A fome punha uma grande mágoa na alma confusa e pesada. Ele sô tinha uma ideia: "comer", mas não sabia por que meio.
Durante três horas, penou na comprida estrada; depois, quando avistou as árvores da aldeia, apressou os seus movimentos.
O primeiro lavrador que encontrou e ao qual pediu esmola, respondeu-lhe:
— Tu ainda por aqui? velho desprezível! Então eu nunca me verei livre de ti?
E o "Sino" afastou-se. De porta em porta, correram-no, recambiaram-no, sem lhe darem nada. E ele continuava, apesar disso, o seu giro, paciente e obstinado. Não recolheu um sou.
Então visitou as herdades, caminhando através das terras amolecidas pelas chuvas, por tal forma extenuado que nem sequer podia levantar as muletas. Escorraçavam-no de toda a parte. Era um desses dias frios e tristes em que os corações se fecham, em que os espíritos se irritam, em que a alma está sombria, em que a mão não se abre nem para dar nem para socorrer.
Quando acabou de visitar todas as casas que conhecia, foi cair ao canto de uma vala, ao longo do pátio do tio Chiquet. Despegou-se, como se dizia para exprimir a maneira porque se deixava cair de entre as muletas que fazia escorregar por debaixo dos braços. Ficou por largo tempo imóvel, torturado pela fome, mas era muito bruto para que pudesse penetrar a sua insondável miséria.
Esperava não se sabe o que, naquela vaga esperança que existe constante em nós.
Esperava ao canto daquele pátio, sob o vento gelado, o auxílio misterioso que se espera sempre do céu ou dos homens, sem que saiba como, nem por que, nem por quem ele nos poderá chegar. Passava um bando de galinhas pretas, buscando a sua vida na terra que alimenta todos os seres. A cada instante, picavam com uma bicada um grão ou um inseto invisível, depois continuavam a sua busca lenta e segura.
O "Sino" olhava para elas sem pensar em nada; depois veio-lhe, mais ao ventre que propriamente à cabeça, mais à sensação que à ideia, que um daqueles animais seria bom para comer assado no borralho de uns troncos secos. A suposição de que ia cometer um roubo nem de leve roçou pelo seu espírito. Pegou numa pedra que se achava ao alcance da mão, e, como a tinha certeira, matou redondamente, atirando logo por terra a ave que estava mais próxima. O animal caíra de flanco, remexendo as asas. As outras fugiram, balouçando-se nas suas patas delgadas, e o "Sino", escalando novamente as suas muletas, pôs-se em marcha para ir apanhar a sua caça, com movimentos iguais aos das galinhas.
Ao chegar perto do pequeno corpo preto manchado de vermelho na cabeça, recebeu um empurrão terrível pelas costas, que o fez cair das muletas e o fez rolar a dez passos para a frente.
E o tio Chiquet, exasperado, precipitando-se sobre o pilha, encheu-o de pancadas, batendo como um furioso, como bate um camponês roubado, com o punho e com o joelho por todo o corpo do enfermo, que não podia defender-se.
As pessoas da herdade chegaram por sua vez e puseram-se com o patrão a sovar o mendigo. Depois, quando se cansaram de lhe bater, agarraram nele, levaram-no e fecharam-no na casa da lenha, enquanto iam busca das autoridades.
"Sino", meio morto, sangrando e estourando de fome, ficou deitado no chão. Chegou a tarde, veio a noite, depois a aurora, e ele sem comer.
Pelo meio dia, os guardas apareceram e abriram a porta com precaução, esperando uma resistência, porque o tio Chiquet dizia ter sido atacado pelo vadio e ter-se defendido a grande custo.
O cabo bradou:
— Vamos! saia daí!
Mas "Sino" não se podia mexer; ainda tentou erguer-se nos seus suportes, mas não o conseguiu. Julgaram que era fingimento, que era manha, que era má vontade do malfeitor, e os dois homens armados trataram-no asperamente, empunharam-no e puseram-no à força sobre as muletas.
O medo apossara-se dele, aquele medo inato que os desgraçados têm das correias militares, o medo a caça em presença do caçador, do rato diante do gato. E, com esforços sobre-humanos, lá conseguiu pôr-se em pé.
— Marche! disse o cabo. Ele marchou. Todo o pessoal da herdade o via partir. As mulheres mostravam-lhe o punho; os homens chacoteavam-no; injuriavam-no: tinham-lhe dado fim! Estavam livres.
Ele afastou-se entre os dois guardas. Achou a energia desesperada que lhe era precisa para se arrastar ainda até à noite, embrutecido, não sabendo nem sequer o que lhe sucedia, assustado por demais para que pudesse compreender.
As pessoas que o encontravam detinham-se para o ver assar, e os camponeses murmuravam:
— É algum ladrão!
Pela noitinha, chegaram à comarca. Ele nunca tinha ido até ali. Não dava verdadeiramente conta do que se passava nem do que lhe podia acontecer. Todas aquelas casas novas o consternavam.
Não pronunciou mais uma palavra, nada tendo a dizer, porque nada compreendia. Desde muitos anos que não falava a ninguém, por isso quase perdera o uso da linguagem; e o seu pensamento estava também muito confuso para poder formular palavras. Encerraram-no na prisão da Villa. Os guardas não pensaram em que ele poderia ter vontade de comer, e deixaram-no até ao outro dia.
Mas, quando vieram para o interrogar, logo de manhãzinha, acharam-no morto, no chão.
Que surpresa!
Guy de Maupassant
Da utilidade dos animais
Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram animais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós, e, além disso, são muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca… Todos ajudam.— Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?— Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de carga. Do pelo se fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.— Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?— Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.— Ele faz pincel, professora?— Quem, o texugo? Não, só fornece o pelo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer. Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a utilidade do canguru.— Bolsas, malas, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando na carne. Canguru é utilíssimo.— Vivo, fessora?— A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pelo dela preparamos ponchos, mantos, cobertores etc.— Depois a gente come a vicunha, né fessora?— Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a crescer…— E a gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.— Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?— A carne também é listrada? — pergunta que desencadeia riso geral.— Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível por causa disso. Ah, o pinguim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento — não sabem o que é? O cocô do pinguim é um adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito com a gordura do pinguim…— A senhora disse que a gente deve respeitar.— Claro. Mas o óleo é bom.— Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.— Pois lucra. O pelo dá escovas de ótima qualidade.— E o castor?— Pois quando voltar a moda do chapéu para homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar um bom exemplo.— Eu, hem?— Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living de sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pelos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não calculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa… O biguá é engraçado.— Engraçado, como?— Apanha peixe pra gente.— Apanha e entrega professora?— Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe, mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.— Bobo que ele é.— Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu Ricardo?— Entendi. A gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o pelo, o couro e os ossos.
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
Ceição
A escada tem vinte e oito degraus. E liga as tirânicas necessidades da mesa de D. Marfisa ao comércio ambulante e rumoroso que lhe passa pela frente do sobrado. Ao longo dessa escada, circulam pra baixo e pra cima, incansavelmente, duas pernas finas e esfoladas. São as pernas de Maria da Conceição – a Ceição. Agora, a carrocinha do verdureiro para defronte à casa de D. Marfisa. E, Dona Marfisa comanda:
- Ceição, dá um pulinho lá e pergunta o que é que ele tem de bom, hoje.
Conceição vai e volta:
- Tem abobra, chuchu, couve, repolho, agrião…
- Pergunta pra ele se tem alface. Ceição vai e volta:
- Mandou dizer que tem.
- Pergunta pra ele se a alface é nova. Ceição vai e volta:
- Mandou dizer que é.
- Pergunta pra ele quanto é o pé. Ceição vai e volta:
- Mandou dizer que é cinquenta…
- Pergunta pra ele se não acha caro. Ceição vai e volta:
- Mandou dizer que não, que é até barato.
- Então, pede dois pés. Ceição vai e volta:
- Tai, madrinha. D. Marfisa apanha os pés de alface, olha-os, examina-os.
- Bem. Agora, dá um pulinho lá e pergunta pra ele se tem troco pra uma nota de duzentos. Ceição vai e volta:
- Mandou dizer que tem.
- Pergunta pra ele se não é melhor assentar no caderno. Ceição vai e volta:
- Mandou dizer que, se a senhora quiser, ele assenta.
- Diz pra ele que não. Leva o dinheiro e paga já. Não quero mais saber de caderno. Ceição vai e volta:
- Mandou dizer que é pra senhora conferir o troco.
D. Marfisa confere:
- Tá certo. Mas esta nota parece que é falsa. Dá um pulinho lá e diz pra ele que me mande outra. Ceição vai e volta. Volta e geme:
- Tai, madrinha.
Então as duas pernas dobram, vergam – os ossos de Ceição quase se desmancham no assoalho asseadíssimo do sobrado da madrinha.
Ontem, D. Marfisa estava dizendo para a cozinheira:
- Como tu vês, Josefa, eu poupo o mais possível essa negrinha…
Athos Damasceno, "Persianas Verdes"
quarta-feira, junho 17
O meu peixe graúdo
A porta da casa onde o rapaz vivia não estava trancada, e abriu-a e avançou silenciosamente com os pés descalços. O rapaz dormia numa maca na sala de entrada, e o velho via-o claramente à luz, que entrava, da lua a pôr-se. Agarrou-lhe delicadamente num pé e segurou-o até o rapaz acordar e se voltar e olhar para ele. O velho fez um aceno de cabeça, e o rapaz tirou as calças da cadeira ao pé da cama e, sentado na cama, enfiou-as.
O velho saiu a porta e o rapaz veio atrás dele. Estava ensonado, e o velho passou-lhe o braço pelo ombro e disse: – Desculpa.
– Qué va – respondeu o rapaz. – É o que cabe a um homem.
Desceram o caminho até à choupana do velho, e pela estrada fora, no escuro, homens descalços se moviam, acarretando os mastros dos seus barcos.
Quando chegaram à choupana do velho, o rapaz pegou no cesto das linhas e no arpão e no croque, e o velho levava ao ombro o mastro com a vela enrolada.
– Queres café? – perguntou o rapaz.
– Vamos pôr a palamenta no barco e depois tomamos café.
Tomaram café em latas de leite condensado, numa tasca que abria para os pescadores.
– Que tal dormiste, meu velho? – perguntou o rapaz. Agora é que ia acordando, embora lhe custasse a largar o sono.
– Muito bem, Manolin – respondeu o velho. Sinto-me hoje com confiança.
– Também eu. E agora vou arranjar-te as sardinhas, mais as minhas e a tua isca fresca. É que é ele quem traz a palamenta. Nunca quer que lhe tragam nada.
– Somos diferentes – disse o velho. – Deixo-te trazer coisas, desde os teus cinco anos.
Bem sei – disse o rapaz. – Volto já. Toma outro café. Aqui fiam à gente.
Saiu, descalço pelos rochedos coralíferos, a caminho do frigorífico onde eram guardadas as iscas.
O velho bebeu devagar o seu café. Era quanto comeria o dia inteiro, e sabia que precisava de o tomar. Havia muito tempo que o maçava comer, e nunca levava merenda. Na proa do barco tinha uma garrafa de água, e de mais não precisava.
O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia com seixos, e pegaram no esquife e meteram-no ao mar.
– Boa sorte, meu velho.
– Boa sorte – respondeu o velho. Enfiou as amarrações de corda dos remos nos toletes e, debruçando-se contra a resistência das pás na água, começou a remar nas trevas para fora do porto. Havia barcos de outras praias saindo para o mar, e o velho ouvia-lhes o mergulhar e o impulso dos remos embora não pudesse vê-los, com a lua já posta atrás dos montes.
Às vezes, num barco alguém falava. Mas a maior parte dos barcos ia silenciosa, à exceção do mergulhar dos remos.
Dispersaram-se, uma vez chegados à embocadura do porto, e cada qual aproou à parte do oceano em que esperava encontrar peixe. O velho sabia que ia muito para o largo, e deixou para trás o cheiro de terra e remou para o lavado e matinal cheiro do oceano. Via a fosforescência dos sargaços do Golfo na água, ao remar por sobre aquela parte que os pescadores chamam “o grande poço” e era uma súbita fossa de setenta braças onde se congregava toda a espécie de peixes arrastados pelo redemoinho da corrente contra a abrupta parede do fundo do oceano. Havia aí concentrações de camarões e de peixes de isca e, às vezes, bandos de calamares nas cavidades mais fundas, e estes subiam à noite até à superfície onde todos os peixes comiam neles.
No escuro o velho sentia a manhã que vinha, e remando ouvia o som trêmulo dos peixes-voadores a sair da água e o silvo que as asas tesas faziam quando eles cortavam as trevas.
Gostava muito dos peixes-voadores, seus diletos amigos no oceano. Dos pássaros tinha pena, em especial das andorinhas-do-mar, escuras, delicadas, pequenas, que andavam sempre a voar e a olhar e a quase nunca encontrar nada, e pensava: “As aves têm uma vida mais dura do que a nossa, à exceção das de rapina e das muito fortes. Porque há pássaros tão delicados e finos como essas andorinhas, quando o oceano pode ser tão cruel? É gentil e muito belo. Mas sabe ser tão cruel, e sê-lo tão de súbito, que tais pássaros que voam e mergulham à caça, com as suas vozinhas tristes, são demasiado delicados para o mar”.
Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam boias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.
Remava vigorosamente, o que não constituía um esforço para ele, visto que mantinha o andamento, e a superfície do oceano estava chã, com apenas ocasionais redemoinhos da corrente.
Deixava que a corrente fizesse um terço do trabalho, e ao começar a ser dia viu que já ia mais longe do que esperava ir àquela hora.
“Andei nos fundões uma semana, e nada, pensou. Pois vou hoje para onde vogam os cardumes de bonitos e albacoras, e talvez por lá apareça um dos grandes”.
Antes de ser dia claro, já ele tinha deitado as linhas e ia à deriva na corrente. Uma isca estava a quarenta braças. A segunda a setenta e cinco, e a terceira e a quarta estavam na água azul profunda a cem e a cento e vinte e cinco braças. As iscas pendiam de cabeça para baixo, com o corpo do anzol bem amarrado dentro do peixe; e a parte saliente do anzol, a curva e a ponta, estava coberta de sardinhas frescas. As sardinhas estavam enfiadas pelos olhos e eram assim como que uma grinalda no ferro saliente. Não havia uma porção de anzol que a um peixe graúdo não cheirasse bem e não soubesse melhor.
O rapaz havia-lhe dado duas pequenas “tunas” ou albacoras frescas, que como pesos pendiam das duas linhas mais profundas, e, nas outras, tinha ele um grande enxarréu e um chicharro que já haviam servido, mas estavam ainda em bom estado e as excelentes sardinhas lá lhes davam perfume e atrativo. Cada linha, da grossura de um lápis grande, estava montada numa cana, de modo que qualquer puxão ou toque no anzol logo faria a cana vergar, e cada linha tinha dois tambores de quarenta braças que podiam ser atados às reservas, a ponto de, se necessário, um peixe poder levar consigo mais de trezentas braças de linha.
E o homem observava as três canas à borda do esquife, e remava devagar para manter as linhas direitas e nas profundidades convenientes. Já era dia e de um momento para o outro nasceria o sol.
O sol ergueu-se levemente do mar, e o velho distinguia os outros barcos ao rés do horizonte e muito para terra, dispersos na corrente. Depois, o sol tornou-se mais resplandecente e o brilho veio sobre as águas, e depois, ao erguer-se de todo, o mar chão atirou-lhe o reflexo aos olhos e cegou-lhos, e remou pois sem olhar mais. Debruçou a vista para a água e observou as linhas que desciam direitas para a sombra profunda. Como ninguém ele as mantinha direitas, de modo a haver em cada nível das trevas da corrente uma isca exatamente aonde ele desejava que ela estivesse à espera de um peixe que por aí nadasse. Outros as deixavam ir à deriva na corrente, e às vezes estavam a sessenta braças quando os pescadores as julgavam a cem.
“Mas, pensou, eu aguento-as com precisão. O que já não tenho é sorte. Quem sabe? Talvez a tenha hoje. Cada dia é um novo dia. É preferível ter sorte. Mas eu prefiro ser exato. Assim, quando a sorte vem, está-se pronto para ela”.
O sol subira mais duas horas, e os olhos já se não doíam tanto de olhar para o oriente. Havia só três barcos à vista, muito na linha do horizonte e na direção de terra.
“Durante a vida inteira o sol nascente me fez mal aos olhos, pensou. Contudo, ainda são dos bons. Mais tarde, sou capaz de o olhar a direito sem ficar a ver negro. Mais tarde é mais forte. Mas pela manhã magoa”.
Nesse momento, viu um petrel com as longas asas negras, a voltear no céu à frente dele. A ave caiu subitamente, picando com as asas recuadas, e voltou depois a voar em círculo.
– Arranjou alguma coisa – disse o velho em voz alta. – Não está só à procura.
Remou devagar, com firmeza, para onde o pássaro pairava.
Não se apressava e mantinha as linhas em posição. Mas forçava um pouco a corrente, e pescava ainda corretamente, embora mais depressa do que pescaria, se não estivesse a tentar servir-se da ave.
Esta elevou-se no ar e pairou de novo, de asas imóveis.
Depois mergulhou repentinamente, e o velho viu peixes-voadores saltarem da água e voarem desesperadamente sobre a superfície.
– Delfins – disse alto o velho. – Delfins dos grandes.
Embarcou os remos e tirou da proa uma pequena linha. Tinha uma guia de arame e um anzol de tamanho médio, e o velho iscou-o com uma das sardinhas. Deitou-o pela borda fora e amarrou-o a um anel à ré. Iscou a seguir outra linha, que deixou ficar na sombra da proa. Voltou aos remos e a observar o pássaro negro, de longas asas, que pairava agora ao lume de água.
Enquanto o observava, a ave mergulhou com as asas recuadas, e depois bateu-as furiosamente e sem resultado na perseguição aos peixes-voadores. O velho bem via a ligeira saliência que na água os delfins erguiam atrás dos peixes fugitivos. Os delfins cortavam as águas sob o voo dos peixes e estariam em grande velocidade onde eles caíssem. É um grande bando de delfins, pensou. Vão dispersos e os peixes-voadores têm poucas probabilidades. O pássaro não tem nenhumas. Os peixes-voadores são grandes demais para ele e demasiado velozes.
Viu os peixes-voadores saltarem e tornarem a saltar e os movimentos ineficazes da ave. “Esse bando afasta-se de mim – pensou. Vão muito depressa e para muito longe. Mas talvez eu apanhe uns desgarrados e talvez que o meu peixe graúdo ande à volta deles. O meu peixe graúdo há-de estar nalguma parte”.
Ernest Hemingway, "O Velho e o Mar"
O velho saiu a porta e o rapaz veio atrás dele. Estava ensonado, e o velho passou-lhe o braço pelo ombro e disse: – Desculpa.
– Qué va – respondeu o rapaz. – É o que cabe a um homem.
Desceram o caminho até à choupana do velho, e pela estrada fora, no escuro, homens descalços se moviam, acarretando os mastros dos seus barcos.
Quando chegaram à choupana do velho, o rapaz pegou no cesto das linhas e no arpão e no croque, e o velho levava ao ombro o mastro com a vela enrolada.
– Queres café? – perguntou o rapaz.
– Vamos pôr a palamenta no barco e depois tomamos café.
Tomaram café em latas de leite condensado, numa tasca que abria para os pescadores.
– Que tal dormiste, meu velho? – perguntou o rapaz. Agora é que ia acordando, embora lhe custasse a largar o sono.
– Muito bem, Manolin – respondeu o velho. Sinto-me hoje com confiança.
– Também eu. E agora vou arranjar-te as sardinhas, mais as minhas e a tua isca fresca. É que é ele quem traz a palamenta. Nunca quer que lhe tragam nada.
– Somos diferentes – disse o velho. – Deixo-te trazer coisas, desde os teus cinco anos.
Bem sei – disse o rapaz. – Volto já. Toma outro café. Aqui fiam à gente.
Saiu, descalço pelos rochedos coralíferos, a caminho do frigorífico onde eram guardadas as iscas.
O velho bebeu devagar o seu café. Era quanto comeria o dia inteiro, e sabia que precisava de o tomar. Havia muito tempo que o maçava comer, e nunca levava merenda. Na proa do barco tinha uma garrafa de água, e de mais não precisava.
O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia com seixos, e pegaram no esquife e meteram-no ao mar.
– Boa sorte, meu velho.
– Boa sorte – respondeu o velho. Enfiou as amarrações de corda dos remos nos toletes e, debruçando-se contra a resistência das pás na água, começou a remar nas trevas para fora do porto. Havia barcos de outras praias saindo para o mar, e o velho ouvia-lhes o mergulhar e o impulso dos remos embora não pudesse vê-los, com a lua já posta atrás dos montes.
Às vezes, num barco alguém falava. Mas a maior parte dos barcos ia silenciosa, à exceção do mergulhar dos remos.
Dispersaram-se, uma vez chegados à embocadura do porto, e cada qual aproou à parte do oceano em que esperava encontrar peixe. O velho sabia que ia muito para o largo, e deixou para trás o cheiro de terra e remou para o lavado e matinal cheiro do oceano. Via a fosforescência dos sargaços do Golfo na água, ao remar por sobre aquela parte que os pescadores chamam “o grande poço” e era uma súbita fossa de setenta braças onde se congregava toda a espécie de peixes arrastados pelo redemoinho da corrente contra a abrupta parede do fundo do oceano. Havia aí concentrações de camarões e de peixes de isca e, às vezes, bandos de calamares nas cavidades mais fundas, e estes subiam à noite até à superfície onde todos os peixes comiam neles.
No escuro o velho sentia a manhã que vinha, e remando ouvia o som trêmulo dos peixes-voadores a sair da água e o silvo que as asas tesas faziam quando eles cortavam as trevas.
Gostava muito dos peixes-voadores, seus diletos amigos no oceano. Dos pássaros tinha pena, em especial das andorinhas-do-mar, escuras, delicadas, pequenas, que andavam sempre a voar e a olhar e a quase nunca encontrar nada, e pensava: “As aves têm uma vida mais dura do que a nossa, à exceção das de rapina e das muito fortes. Porque há pássaros tão delicados e finos como essas andorinhas, quando o oceano pode ser tão cruel? É gentil e muito belo. Mas sabe ser tão cruel, e sê-lo tão de súbito, que tais pássaros que voam e mergulham à caça, com as suas vozinhas tristes, são demasiado delicados para o mar”.
Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam boias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.
Remava vigorosamente, o que não constituía um esforço para ele, visto que mantinha o andamento, e a superfície do oceano estava chã, com apenas ocasionais redemoinhos da corrente.
Deixava que a corrente fizesse um terço do trabalho, e ao começar a ser dia viu que já ia mais longe do que esperava ir àquela hora.
“Andei nos fundões uma semana, e nada, pensou. Pois vou hoje para onde vogam os cardumes de bonitos e albacoras, e talvez por lá apareça um dos grandes”.
Antes de ser dia claro, já ele tinha deitado as linhas e ia à deriva na corrente. Uma isca estava a quarenta braças. A segunda a setenta e cinco, e a terceira e a quarta estavam na água azul profunda a cem e a cento e vinte e cinco braças. As iscas pendiam de cabeça para baixo, com o corpo do anzol bem amarrado dentro do peixe; e a parte saliente do anzol, a curva e a ponta, estava coberta de sardinhas frescas. As sardinhas estavam enfiadas pelos olhos e eram assim como que uma grinalda no ferro saliente. Não havia uma porção de anzol que a um peixe graúdo não cheirasse bem e não soubesse melhor.
O rapaz havia-lhe dado duas pequenas “tunas” ou albacoras frescas, que como pesos pendiam das duas linhas mais profundas, e, nas outras, tinha ele um grande enxarréu e um chicharro que já haviam servido, mas estavam ainda em bom estado e as excelentes sardinhas lá lhes davam perfume e atrativo. Cada linha, da grossura de um lápis grande, estava montada numa cana, de modo que qualquer puxão ou toque no anzol logo faria a cana vergar, e cada linha tinha dois tambores de quarenta braças que podiam ser atados às reservas, a ponto de, se necessário, um peixe poder levar consigo mais de trezentas braças de linha.
E o homem observava as três canas à borda do esquife, e remava devagar para manter as linhas direitas e nas profundidades convenientes. Já era dia e de um momento para o outro nasceria o sol.
O sol ergueu-se levemente do mar, e o velho distinguia os outros barcos ao rés do horizonte e muito para terra, dispersos na corrente. Depois, o sol tornou-se mais resplandecente e o brilho veio sobre as águas, e depois, ao erguer-se de todo, o mar chão atirou-lhe o reflexo aos olhos e cegou-lhos, e remou pois sem olhar mais. Debruçou a vista para a água e observou as linhas que desciam direitas para a sombra profunda. Como ninguém ele as mantinha direitas, de modo a haver em cada nível das trevas da corrente uma isca exatamente aonde ele desejava que ela estivesse à espera de um peixe que por aí nadasse. Outros as deixavam ir à deriva na corrente, e às vezes estavam a sessenta braças quando os pescadores as julgavam a cem.
“Mas, pensou, eu aguento-as com precisão. O que já não tenho é sorte. Quem sabe? Talvez a tenha hoje. Cada dia é um novo dia. É preferível ter sorte. Mas eu prefiro ser exato. Assim, quando a sorte vem, está-se pronto para ela”.
O sol subira mais duas horas, e os olhos já se não doíam tanto de olhar para o oriente. Havia só três barcos à vista, muito na linha do horizonte e na direção de terra.
“Durante a vida inteira o sol nascente me fez mal aos olhos, pensou. Contudo, ainda são dos bons. Mais tarde, sou capaz de o olhar a direito sem ficar a ver negro. Mais tarde é mais forte. Mas pela manhã magoa”.
Nesse momento, viu um petrel com as longas asas negras, a voltear no céu à frente dele. A ave caiu subitamente, picando com as asas recuadas, e voltou depois a voar em círculo.
– Arranjou alguma coisa – disse o velho em voz alta. – Não está só à procura.
Remou devagar, com firmeza, para onde o pássaro pairava.
Não se apressava e mantinha as linhas em posição. Mas forçava um pouco a corrente, e pescava ainda corretamente, embora mais depressa do que pescaria, se não estivesse a tentar servir-se da ave.
Esta elevou-se no ar e pairou de novo, de asas imóveis.
Depois mergulhou repentinamente, e o velho viu peixes-voadores saltarem da água e voarem desesperadamente sobre a superfície.
– Delfins – disse alto o velho. – Delfins dos grandes.
Embarcou os remos e tirou da proa uma pequena linha. Tinha uma guia de arame e um anzol de tamanho médio, e o velho iscou-o com uma das sardinhas. Deitou-o pela borda fora e amarrou-o a um anel à ré. Iscou a seguir outra linha, que deixou ficar na sombra da proa. Voltou aos remos e a observar o pássaro negro, de longas asas, que pairava agora ao lume de água.
Enquanto o observava, a ave mergulhou com as asas recuadas, e depois bateu-as furiosamente e sem resultado na perseguição aos peixes-voadores. O velho bem via a ligeira saliência que na água os delfins erguiam atrás dos peixes fugitivos. Os delfins cortavam as águas sob o voo dos peixes e estariam em grande velocidade onde eles caíssem. É um grande bando de delfins, pensou. Vão dispersos e os peixes-voadores têm poucas probabilidades. O pássaro não tem nenhumas. Os peixes-voadores são grandes demais para ele e demasiado velozes.
Viu os peixes-voadores saltarem e tornarem a saltar e os movimentos ineficazes da ave. “Esse bando afasta-se de mim – pensou. Vão muito depressa e para muito longe. Mas talvez eu apanhe uns desgarrados e talvez que o meu peixe graúdo ande à volta deles. O meu peixe graúdo há-de estar nalguma parte”.
Ernest Hemingway, "O Velho e o Mar"
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