Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quinta-feira, agosto 20
Aqui. Hoje.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.
Jorge Luís Borges
À beira do abismo
Eu o revejo com precisão, deitado no leito do hospital. Seu joelho ficou preso e foi quebrado pela empenagem do avião durante o salto de paraquedas, mas Sagon não sentiu o choque. Seu rosto e suas mãos estão gravemente queimados, mas, ao final das contas, ele não sofreu nada de preocupante. Ele nos conta lentamente sua história, com uma voz qualquer, como o relatório de uma tarefa…
Sagon faz bico. Pesa a questão. Julga importante dizer-nos se chamejava muito ou não muito. Hesita:
— Mesmo assim era fogo… Então, eu mandei que saltassem.
Pois o fogo, em dez segundos, transforma o avião em tocha!
— Abri, então, o canopi. Fiz mal. Entrou ar… O fogo… Fiquei incomodado.
Um forno de locomotiva cospe-lhe no ventre uma torrente de chamas, a sete mil metros de altitude e você ficou incomodado! Não trairei Sagon exaltando seu heroísmo ou seu pudor. Ele não reconheceria nem esse heroísmo nem esse pudor. Ele diria: “Sim, sim, fiquei incomodado…”. Ele faz, aliás, visíveis esforços para ser exato.
E bem sei que o campo da consciência é minúsculo. Ela só aceita um problema de cada vez. Se você brigar de soco e a estratégia da luta o preocupar, não sofrerá pelos socos. Quando quase me afoguei, num acidente de hidroavião, a água, que estava gelada, pareceu-me morna. Ou, mais precisamente: minha consciência não considerou a temperatura da água. Ela estava absorvida por outras preocupações.
— Pensei que estava sozinho. Achei que podia partir… (Ele já estava com o rosto e as mãos tostados). Levantei, pulei a carlinga e me mantive primeiro sobre a asa. Ali, debrucei à frente: não tinha visto o observador…
O observador, morto com um tiro só dos caças, jazia no fundo da carlinga.
— Recuei então e, atrás, não vi o artilheiro…
O artilheiro, também, havia desmoronado.
— Pensei que estava sozinho…
Ele refletiu:
— Se eu soubesse… Podia ter voltado a bordo… Não estava queimando tanto… Eu fiquei assim, muito tempo, na asa… Antes de sair da carlinga, eu tinha compensado o avião para cabrar. O voo estava estabilizado, a respiração suportável e eu me sentia bem. Ah! Fiquei tempo demais na asa… Não sabia o que fazer…
Não que se apresentassem a Sagon problemas inextricáveis: ele pensava estar sozinho a bordo, o avião em chamas e os caças repetiam suas passagens cuspindo projéteis. O que queria nos dizer Sagon é que ele não tinha nenhum desejo. Ele não sentia nada. Dispunha de todo o seu tempo. Imergia numa espécie de ócio infinito. E, ponto por ponto, eu reconhecia essa extraordinária sensação que acompanha às vezes a iminência da morte: um ócio inesperado… Como ela é desmentida pelo real! A imaginária da ofegante precipitação! Sagon permanecia ali, sobre a asa, como ejetado para fora do tempo!
— E depois eu saltei — disse ele —, saltei mal. Eu me vi turbilhonar. Tive medo de abrir cedo demais e me enrolar no paraquedas. Esperei ficar estabilizado. Ah, esperei muito tempo.
Sagon, assim, conserva a lembrança de ter, do início ao fim de sua aventura, esperado. Esperou chamejar mais forte. Depois, esperou na asa, não se sabe o quê. E, em queda livre, na vertical para o solo, ainda esperou.
E se tratava de Sagon mesmo, e ainda que se tratasse de um Sagon rudimentar, mais do que de costume, de um Sagon um pouco perplexo que, à beira de um abismo, esperneava entediado.
Antoine de Saint-Exupéry, "Piloto de Guerra"
A planta e a professora
Pois foi assim: os garotos queriam dar uma planta de presente à mestra. Não que gostassem dela: pelo contrário, a detestavam. Não tolerava o menor ruído em classe, dava temas enormes para serem feitos em casa e por qualquer coisa botava a turma de castigo. Mas esta irascível senhora tinha um ponto fraco: adorava plantas. Qualquer tipo de plantas. Segundo pessoas que a conheciam, até seu quarto de dormir estava cheio de vasos com as mais variadas folhagens. E assim, quando os alunos resolveram tirar sua desforra, pensaram justamente numa planta como instrumento de vingança. é que um dos garotos teve uma ideia: planta carnívora. Isto mesmo: pensou em dar de presente uma planta carnívora à professora. Naturalmente não seria dessas plantas de filme de terror, que engolem uma pessoa inteira. Uma planta menor, que apenas agarrasse a mão ou o dedo da mestra, dando-lhe um bom susto, já serviria.
O problema, porém, é que os garotos jamais tinham visto uma planta carnívora, e nem sabiam como obtê-la. Pesquisa daqui, pesquisa dali, descobriram um homem, um antigo chacareiro que podia lhes vender, mediante uma quantia que não era pequena para minguados bolsos, sementes de planta carnívora. Marcaram encontro com ele numa esquina perto da escola. Veio o homem, que era velho e de aparência sinistra; recolheu as notas e moedas e entregou aos meninos um pacotinho com sementes. E agora, como é que a gente faz? — perguntou um dos garotos. Plantem numa noite de lua cheia, disse o homem, e se foi.
Estavam em quarto minguante, de modo que tiveram de esperar bastante; mas na primeira noite de lua cheia, lá estavam eles, colocando as sementes num vaso com terra de primeira qualidade. Uns dias depois algo começou a brotar; era uma plantinha; de aparência inteiramente comum. Os garotos olhavam, intrigados; será que é mesmo uma planta carnívora, era a pergunta que tinham na cabeça (mas não se atreviam a formular em voz alta). De qualquer modo, regavam-na diariamente e colocavam adubo, na esperança que logo mostrasse sua ferocidade.
O que não aconteceu. A planta lá estava, quietinha como todas as plantas. Ocorreu-lhes que algum estímulo talvez fosse necessário; uma noite, deixaram por perto uns pedacinhos de carne. No dia seguinte a carne tinha desaparecido; poderia ter sido a planta, claro, mas a aparência demasiado satisfeita do gato fazia suspeitar o contrário.
Um dia suas esperanças ruíram definitivamente: é que a planta se abriu numa bela flor. Uma planta assim jamais fará mal a alguém, concluíram desolados.
Na falta de alternativa melhor, levaram a planta florida para a professora. Pela primeira vez ela lhes sorriu; e daí por diante não houve mais castigo nem repreensões. Como o meu garoto descobriu em sua escola: uma planta que floresce é uma lição de vida. Mesmo para professoras.
Há muitos estilos de viver
Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.
Sou e estou velho. Vivi enfrentando minhas deficiências, dores e, no meio dos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança. Apesar de tudo, permaneci companheiro de mim mesmo. Aprendi as chamadas “idades do homem” num tempo em que o gênero masculino englobava o feminino. Havia infância, juventude, maturidade e velhice. Abafava-se o nascimento para não terminar mencionando o que o nosso progressismo e desencanto reprimem: a morte ou o fim. Esse inexorável destino que o envelhecer trata muitas vezes como benefício, pois o velho corpo pode ser mais pesado do que a alma por ele inventada.
O fato é que as imposições da vida escondem e afugentam a inevitabilidade do fim. Esse fim que uma consciência onipresente e desenhada para a vida é incapaz de imaginar. Exceto por meio das imagens pastorais das crenças religiosas, muito embora essa morte seja experimentada todas as noites, quando dormimos, como conceitua um imenso Manuel Bandeira.
Tenho plena consciência de que cheguei ao término de um ciclo. Não é um fim, é uma fase. Na infância, almejamos a beleza da juventude. Na juventude, experimentamos os becos das escolhas. Maduros, inevitavelmente nos tornamos sérios, quadrados, controladores e, às vezes, sectários. Velhos, temos a suprema felicidade de testemunhar as estradas da vida que criamos. Conheci de perto a velhice casmurra do meu avô e o mais ou menos soturno envelhecimento do meu amado pai. Agiota que sou – como quer o paradoxo da vida –, mais velho que eles, entendo que há muitos estilos de viver e de morrer. O remédio é o amor que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e tudo isso que compete de igual para igual com a morte.
P.S.: Ah! Antes que eu me esqueça: na velhice não há futuro ou retornos...
quarta-feira, agosto 19
A ilha
Quando os homens de outrora puseram pé na ilha, ainda assim se perguntavam que caminho havia daqui para algum lugar, porque tudo subia sem parar, e muita terra é como apenas paredões onde se projectam sombras e aquilo que cai. Quiseram, de qualquer modo, povoar. Foram chegando do reino com avidez de mais fortuna, e o mar era abundante, e o chão voltava lentamente a florir, a reimaginar cada uma de suas flores, colorindo tudo, subindo e descendo e perfumando.
Diz-se que a ilha já inventaria suas flores só pela memória, sem semente nem água. E, àquele tempo, foi lançando pelo vento um chamado para bichos alados que foram voltando. A nossa ilha propende para a primavera. E as flores não têm vertigem. Os homens e as mulheres que foram ficando, para qualquer sustento que nossa terra pudesse dar, tiveram de mudar para pés de cabra. Pessoas de terras íngremes, terras verticais, sem medo do tamanho dos olhos, da vastidão que qualquer caminho faz diante do corpo, muito para cima, muito para baixo. Nada fica para a frente, senão a lisura infinita do mar. Como pode ser liso e imenso o mar, que se vê quieto, igual a uma pedra arrepiada em quase todos os dias do nosso ano.
A mitologia diz que podem ter sido cem anos de incêndio. Muito para lá de sete. Muito mais tempo, como nas histórias lendárias que ninguém sabe quem inventou. De qualquer jeito, o que ficou nas convicções dos ilhéus foi que mais se sobe e desce do que se avança. E mais se faz um madeirense na combustão do que na friúra. Por causa disto, quando se sofre, é sobretudo por destino que se pensa sofrer. O que implica uma bravura inesgotável, mas também, por defeito, uma resignação que obriga a aguentar. O ilhéu aguenta. Sete ou cem anos.
O Buraco da Caldeira, o esconso sombrio onde nossa casa foi feita, fica num cotovelo antes da Ribeira Brava. No Sítio do Jardim, acima da Chamorra, na freguesia de Campanário. Em mil setecentos e noventa e oito caiu do imenso rochedo do Ilhéu, no meio do nosso mar, uma pernada que o desfigurou. Antes que caísse, dizem os livros, era igual à torre dos sinos. Era um ilhéu igual ao cimo de uma igreja que estivesse afundada. O nome da nossa freguesia vem daí. Dessa igreja afundada que um abalo qualquer destruiu.
Quem passa estrada regional fora, a dado momento, uma altura de encosta sobe muito para lá dos olhos e vai para dentro, onde já não podem entrar carros. Naquele cotovelo, na verdade, para mais subir ou mais descer, já só por pé de cabra. Um pé depois do outro, fincado como der nas veredas que levam até à praia diante do Ilhéu, ou até ao cimo onde moramos nós. Não se pode subir para depois de onde é nossa casa, a casa dos Pardieiros. A rocha é bastante mais alta, mas não há vereda. Já é só lugar de pássaro. Ali para cima, é lugar de pássaro, não se caminha. Até para ser quem éramos, já nos conferiam uma metade de asa. Mas, na verdade, qualquer madeirense tem uma metade de asa.
Quando amanheci, espantado, o céu era rosado de mil vezes mil flamingos que migravam. Não existem flamingos na nossa ilha e nem devem existir mil vezes mil flamingos cor-de-rosa no mundo inteiro. Nem acredito que flamingos voassem tão alto para cima de encostas como estas. Era certamente a visão de um milagre qualquer. Um olhar extasiado que viesse de dentro. Estaria a ver o meu próprio interior, que chegava à revelia do que é possível e à revelia da tristeza que queriam atribuir ao nascimento de meu irmão. E eu levantei meus braços como se pudesse colher os flamingos, comecei a gritar de euforia. Aves belas eram aves felizes, faziam uma mancha imensa no céu que parecia florir mais do que nosso chão. Eu chamava meu pai e chamava minha mãe e ninguém vinha ou ninguém me ouvia, porque talvez eu sonhasse, talvez não estivesse a ver nem a gritar de verdade. Mas eu gritei. Queria que todos chegassem às suas portas e vissem como já a cobrir o mar ia gigante um povo voador lindo, tão lindo, um povo de pássaros que voara por nossas casas só para nos maravilhar, porque a vida fazia maravilha. Fazia sempre maravilha.
Quando os flamingos eram mais nada no horizonte, quando não havia bulício algum, nenhum bater de asas, entrei. Fui saber de meus pais em redor de Pouquinho e pedi: posso pegar meu irmão, nosso santo. E minha mãe me disse os bons dias e cobriu os olhos para não chorar e não chorou, porque eu imediatamente afirmei: vou cuidarde ti, meu irmão. Vais aprender tudo o que faz urgência na nossa vida aqui ao dependuro desta encosta. Vais nadar comigo por toda a volta do Ilhéu, vais escurecer a pele no calhau e vais ficar forte. Muito mais forte que os homens do mar. Porque tu vais saber tudo e vais ser esperto. Quem sabe coisas fortalece para depois do ferro. Fica bom para mandar no mundo. E eu comecei a rir. Queria rir. E prometi que lhe contaria tudo sobre os pardais, os gatos-bravos e os torrões que atirávamos aos poços. Ele saberia de como se faziam as fisgas e porque haveriam os estrangeiros de falar palavras diferentes.
Naquela manhã, o meu pai quis apertar-me no seu abraço mas eu senti que era difícil. Ficou atrapalhado e precisava de sair para fabricar. Trabalharia cheio de hesitações, distrações, muitos medos e alguma vergonha. A descer para as hortas nos nicos de lavra que tínhamos, o meu enorme pai estava emudecido e de pouca fé. Eu não saberia o que fazer. Mas julguei que melhoraria. Confiei que melhoraria. E então jurei que passaram mil vezes mil flamingos cor-de-rosa por sobre nossas cabeças. Juro. Eu disse. Eram tantos que o sol atravessava por brechas como se estivesse roto o céu. A minha mãe respondia: filho, a mãe não sente valor no corpo. Traz um bocado de pão, que tu és bonito.
De todas as vezes que fazia o que era pedido ou esperado, eu era bonito. Não havia melhor coisa para ser.
Veio logo cedo o padre Estêvão para lamúrias e rezas. Fora impedido por lonjuras no dia anterior. Mas sabia de Pouquinho e estava cheio de palavrinhas cândidas para motivar a família à recuperação. Padre Estêvão era deitado a salvações e chegara cansado da subida, com seus agrados prejudicados, meio sem ar e cheio de sede. Eu fui cuidar da água e fui cuidar de mais pão, e pousei tudo na camilha para que se servisse, de onde estava sentado numa cadeira almofadada com Pouquinho ao colo dizendo ideias muito bíblicas. A minha mãe agradecia-lhe tanto. Era toda grata aos padres porque acreditava muito, como todos nós, que intercediam perante Deus. Teriam modo de andar para dentro e fora da transcendência a oficiar assuntos de almas. Eram tão importantes, os padres, eram fundamentais para o sentido extremo da vida. E ele perguntou: buzico, e teu pai. Eu respondi: fabrica, meu pai fabrica as hortas, senhor padre Estêvão. E minha mãe pediu: chama teu pai. Que venha abençoar-se da presença do senhor padre, diz-lhe que veio ver o menino nosso. Fui ao precipício e apupei: uuuuuuh, paizinho, venha ao padre. Ao fundo, depois da casa da senhora Agostinha do Brinco, mas antes da casa da senhora Luisinha do Guerra, que fica mesmo acima da estrada, o meu pai ergueu a cabeça e parou de fabricar para se levantar. Começou logo a levantar-se na vereda porque, embora a sobrevivência fosse elementar, tinha a cabeça parada na aflição que havia em casa, e mais valia que estivesse em casa para se afligir de perto.
Com dez anos de idade, eu já cozinharia quase tudo. Era habituado ao fogo e às facas. Não se dava muito tempo à infância. Ser-se pequeno precisava de prestar serviço, tinha de se atarefar as crianças para que as famílias não sucumbissem às dificuldades, que eram quase todas as mesmas por toda a parte. As pobrezas e os temores repartiam-se como por justiça democrática. Não havia muita gente excluída de um destino assim. Cozinhar era cumprir uma infância útil, para ser decente e ter amanhã.
Metidos por dentro do Buraco da Caldeira, na casa mais subida e mais pobre, éramos bastos de nossas fazendas e uma levada vinha rente ao nosso telhado com a água mais limpa. Da levada, sem qualquer desafio, descíamos a água necessária e era generosa até para chuveirar os banhos que sabiam tão bem no tempo do verão. Tratado destas competências, eu fui a mando do almoço para se convidar o padre à sopa e a uma perna de frango. Padre Estêvão nunca ali vinha.
Para as pessoas pobres dos recônditos da ilha, que o padre entrasse em casa, subido de meia hora a pé pela encosta desde a estrada, era igual a vir o corpo de Cristo do tempo da Páscoa. O próprio corpo de Cristo naquela cruz de beijar, a suar de estafa e sede. Haveria de estar Deus e os santos inclinados à sua varanda para saber com que ternura lhe receberíamos o funcionário. Sobre meus ombros recaía tal responsabilidade. Mas de meus ombros se levantava também a força. Meu pai dizia: Paulinho, à tarde, fabricamos juntos, que é preciso puxar dos dois lados para passar o ferro naquele chão. E eu respondi: sim, senhor meu pai. Senti-me bonito. Cozinhei e sorri.
Pouquinho, de quando em vez, choramingava. Muito ligeirinho sem maldade. Tinha fome. Amamentava com qualquer minutinho. Era tão pequenino que devia encher com uns pingos de leite. A seguir, dormia. Padre Estêvão dizia que o crio ainda não tinha pretensão do mundo. Estava em negação. Devia ser verdade. Pouquinho levou muitos dias a abrir os olhos. Não era normal. Ficou mais de uma semana com eles fechados. Pensámos até que ele só veria para dentro. Talvez cegasse. Mas não era verdade. Certamente ficou demorado a ver para dentro, sim, antes da contingência de ver para fora e cegar para o interior, como acontece com todas as pessoas, uma a uma.
Quando estávamos a almoçar, todos gabando o sabor e bendizendo muitas sortes, chegaram vozes de mais abaixo, até mais abaixo da casa da senhora Agostinha, que apupavam por ali qualquer súplica. Meu pai foi acudir para saber que era. Pela rocha num eco vinha o som daquelas vozes que falavam de cachorros. Uns cachorros que fugiram. Bem se escutava, mesmo da mesa na cozinha de onde não me deixaram levantar e onde padre Estêvão repetia a sensatez bíblica que me devia ajudar. E eu prometia cumprir. Cumpriria tudo, mas queria saber de que cachorros se falava ali para fora. Coitados. Ou seriam perigosos. Talvez mordam as pessoas e os bichos domésticos. Talvez tenham fome. Alguns cachorros carregavam os piores espíritos. Pensavam em matar. Matavam tudo quanto pudessem e devoravam até tocos de árvores. Roíam mais que toupeiras e ratazanas.
Como o padre não se calava de tanta dedicação bíblica, fizemos uma oração à espera que meu pai voltasse a entrar. Suspendemos a refeição. Não pude escutar mais nada. Dizer palavras sagradas impunha que as pensasse por inteiro. Uma a uma, cada uma dita para ser sentida. Quem reza sem pensar está a oferecer-se ao diabo, deixa que a boca o traia, usa-a sem paixão. Fora como me ensinaram. Quem reza sem pensar faz o mesmo que trincar o dedo ao invés do pão. Padre Estêvão sabia de coração orações grandes. Nunca mais acabavam. Meu pai, que descera a ver que fazer às súplicas que por ali se gritavam, demorava. A comida esfriava e eu já sabia que meu cozinhado ficaria mal visto. Gostaria de deixar de ser impaciente, mas rabiava. Tinha uma infância aguda. Sofria de infantilidade drástica, máxima. Não era por ser à deriva das ideias, era por ter tantas ideias e tão poucos recursos e autoridade sobre mim mesmo. Tudo em mim se ajeitava a dominar o mundo. Mas minha condição era a de uma subalternidade absoluta. Minha idade subalterna passava lenta diante da urgência. Estava demasiado a acontecer para que soubesse ficar parado à espera. Minha mãe dizia: Paulinho, tira o cotovelo da mesa. Paulinho, não se balançam as pernas assim. Eu procurava aquietar-me, igual a parar o próprio coração de bater. Minha natureza era a do movimento. Quase sempre me movia antes de saber para onde ou por que razão. A cabeça nunca era mais rápida do que os nervos no corpo. A cabeça esperava razões e explicações, o corpo seguia a vertigem. Era um animal ativado pela simples evidência de pulsar.
Valter Hugo Mãe, "Deus na escuridão"
Os justos
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, “A Cifra”
Um porco passeia em Ipanema
“De onde surgem os assuntos?”
Eu costumo responder com a óbvia obrigação de ler bons autores, depois lembro que é preciso exercícios físicos porque ficar sentado, espremendo o cerebelo, também cansa. Por fim e enfático, recomendo que tenham um bichinho.
Otto Lara Rezende tinha Zano, um gato danadinho que um dia fugiu de casa e inspirou uma série de crônicas lindas sobre o medo de perder alguém tão querido. Carlos Heitor Cony debulhou o país em lágrimas quando morreu sua setter irlandesa ruiva, Mila, num dos textos mais bonitos do jornalismo brasileiro.
Cora Rónai vive numa família de gatos, Marta Batalha é cachorreira, Ruth de Aquino observa pássaros, Agualusa tem no quintal de sua casa em Moçambique uma galinha chamada Sanji – definitivamente, eu digo aos que me perguntam sobre como ter sucesso nessa caçada insana e semanal de assuntos para escrever: tenham um bichinho.
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| Joaquim Ferreira dos Santos |
Domingo passado, comemorando o Dia dos Pais, almocei na calçada de um restaurante de Ipanema e observei numa mesa ao lado um cidadão que mantinha na coleira o seu animal de estimação. Era Pablo, chamado às vezes de Pablito, um mini-porco, daqueles que descendem do cruzamento de linhagens vietnamitas e americanas. De pelagem malhada e duas presas ameaçadoras fora da boca, quase um javali, Pablito não lembrava qualquer personagem do desenho Peppa Pig, mas ganhou da minha neta um “fofo” discreto.
A imagem pública do porco é a pior possível. É sempre associada à falta de higiene, aos maus modos, à gula (“come feito um porco”) e a políticos corruptos. George Orwell deu destaque negativo a eles em “A Revolução dos Bichos” e até os Beatles acharam boa metáfora descrever a classe média britânica a partir do cotidiano dos piggies. Estive apenas uma hora e meia ao lado do novo garoto de Ipanema, e não dá para esbanjar intimidade – mas me pareceu porco de outra estirpe.
O mini-porco passou o tempo todo na dele, procurando algum resto de comida pelo chão e sequer grunhiu oinc-oinc quando quase foi atropelado por uma bicicleta elétrica. Discreto, sempre de focinho baixo, cuidava da própria vida sem se importar com o tumulto da calçada invadida pelas mesas do restaurante. Posou com crianças para fotos. Sem ameaçar de volta com as presas, não deu a mínima aos cachorros que latiam provocações à sua inesperada presença.
A mascote memorável de Ipanema é o rato Sig, uma abreviação de Sigmund Freud. No jornal Pasquim, porta-voz da intelectualidade do bairro numa época em que humor sofisticado era arma contra a ditadura militar, ele ilustrava as páginas recitando sabedorias diversas. Pablo é o meu personagem da semana, e não só por ter me dado assunto para honrar a tradição da crônica de bichinho. Assim como as galinhas, gatos e cachorros dos meus colegas (Marta Batalha tem ainda um minhocário), um porco que passeia ordeiro pelo bairro caótico quer dizer alguma coisa – nem que sirva apenas para responder à moça da plateia de onde nascem as crônicas.
Chuva com lembranças
Nas terras secas, tanta gente, a esta hora, estará procurando também no céu um sinal de chuva! E, nas terras inundadas, quanta gente a suspirar por um raio de sol!
Penso em chuvas de outrora: chuvas matinais, que molham cabelos soltos, que despencam as flores das cercas, entram pelos cadernos escolares e vão apagar a caprichosa caligrafia dos exercícios.
Chuvas de viagens: tempestades na Mantiqueira, quando nem os ponteiros dos para-brisas dão vencimento à água; quando apenas se avista, recortada na noite, a paisagem súbita e fosfórea mostrada pelos relâmpagos. Catadupas despenhando sobre Veneza, misturando o céu e os canais numa água única, e transformando o Palácio dos Doges num imenso barco mágico, onde se movem, pelos tetos e paredes, os deuses do paganismo e os santos cristãos. Chuva da Galiléia, salpicando as ruas pobres de Nazaré, regando os campos virentes, toldando o lago de Tiberíades coberto ainda pelo eterno olhar dos Apóstolos. Chuva pontual sobre os belos campos semeados da França, e na fluida paisagem belga, por onde imensos cavalos sacodem, com displicente orgulho, a dourada crina…
Chuvas antigas, nesta cidade nossa, de perpétuas enchentes: a de 1811, que, com o desabamento de uma parte do morro do Castelo, soterrou várias pessoas, arrastou pontes, destruiu caminhos e causou tal pânico que durante sete dias as igrejas e capelas estiveram abertas, acesas, com os sacerdotes e o povo a implorarem a misericórdia divina. Uma, de 1864, que Vieira Fazenda descreve minuciosamente, com árvores arrancadas, janelas partidas, telhados pelos ares, desastres no mar e “vinte mil Lampiões da iluminação pública completamente inutilizados”.
Chuvas modernas, sem trovoada, sem igrejas em prece, mas com as ruas igualmente transformadas em rios, os barracos a escorregarem pelos morros, barreiras, pedras, telheiros a soterrarem pobre gente. Chuvas que interrompem estradas, estragam lavouras, deixam na miséria aqueles justamente que desejariam a boa rega do céu para a fecundidade de seus campos.
Por enquanto, caem apenas algumas gotas daqui e dali. Nem as borboletas ainda percebem. Os meninos esperam em vão pelas poças dágua onde pulariam contentes. Tudo é apenas calor e céu cinzento, um céu de pedra onde os sábios e avisados tantas coisas liam outrora:
“São Jerônimo, Santa Bárbara Virgem,
lá no céu está escrito, entre a cruz e a água benta:
Livrai-nos, Senhor, desta tormenta!”
Cecília Meireles, “Quadrante 2 ”
terça-feira, agosto 18
A festa do silêncio
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se de ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.
Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.
Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.
Um sonho
Na verdade não houve nem mesmo um beijo, ou, se houve, ele perdeu qualquer sentido, para ficar apenas dentro de mim essa impressão de doçura profunda e perfeita de felicidade. Aquela mulher estava nua. E escrevendo “mulher nua” no jornal, como soa a escândalo! Seria preciso escrever com uma grande delicadeza para fazer sentir como eu senti naquele momento: beleza, pureza – alguma coisa tão limpa e tão suave, além de qualquer desejo, apenas o sentimento da vida mansa daquela pele de um dourado pálido.
Além dos nossos sentidos há um outro – mas não estou falando de coisas espirituais, eu estou falando de sentimentos vividos em um instante em que não há diferença entre coisas materiais e espirituais. Se as linhas de seu corpo ainda existiam, eram como uma vaga lembrança, um desenho imaterial suspenso no ar. O que me emocionava era a carne, como se eu vivesse a vida de seus tecidos, a sua doce vida perante o ar – leve como um sussurro de ramos longe, como um ruflar de ave imponderável, um murmúrio perdido na distancia. E seu corpo era tão belo que senti um aperto na garganta, e os olhos úmidos.
Perdido! Eu lutava confusamente para não despertar de todo, pois sabia que então estaria perdido para sempre esse corpo feito de carne e sonho. Uma angústia se apossou de mim, a claridade da janela me feria os olhos, afundei a cabeça no leito para salvar essa visão de vinte anos antes.
E ainda o revi por um instante, como se estivesse sumindo em uma luz dourada, e na luz se perdendo, voltando a ser apenas luz.
Desperto. Penso um instante nessa mulher de quem há tantos anos não tenho notícia nem quase lembrança, essa que foi perfeita na dignidade e na pureza de sua nudez – e que hoje ainda não sei em que cidade ou país, não sei ao lado de quem – nem sei mesmo se ainda vive. Sua pessoa, sua risada, sua amargura, e o som de sua voz, tudo se perdeu em mim. Mas por um instante viveu, no meu sonho, aquele esplendor suave de uma nudez, que eu guardara tão quietamente no fundo de minha emoção como se quisesse proteger de todo o lirismo e de toda a sensualidade o momento melhor de minha vida.
Tudo é maravilhoso
Uma erva do asfalto
O que está separando hoje os brasileiros em dois grupos, para não dizer duas raças, é uma diferença de visão entre os do campo e os das cidades. Enquanto a diferença entre caipiras (no sentido sociológico) e urbanistas se vinculava ao modo de vestir e de falar, ficávamos no humorístico e no folclórico. Hoje a diferença corta mais fundo: prende-se ao modo de sentir, de pensar e de agir das pessoas.
Não estou sendo claro? Então acompanhem a historinha que se passou comigo, e vocês vão entender logo. Meu tio Filogônio é lavrador em Abadiânia, a 100 quilômetros de Brasília, na estrada de Anápolis. Lá ele planta feijão, arroz, milho, mandioca e uma batatinha que pouca gente hoje conhece, o mangarito (Xanthósoma violaceum), que ele exporta quase todo para São Paulo. Também cria uns porcos e um gadinho. Sempre que tenho tempo, ou algum problema me desassossegando, peço licença a dona Clérida e vou conversar com tio Filogônio, meu santo remédio.
Fiz isso mês passado. Saí do Rio com a cabeça fervendo de tanto ouvir falar em inflação (que não desinfla), recessão (batendo na porta), constituição (que não transita), trileão (que não se aplaca). Cheguei a Brasília depois de rodar mais de 1.100 quilômetros, e a fervura aumentou. Dormi mal, tive pesadelo, acordei suando. Cancelei um compromisso para almoço, que só iria agravar o meu estado, e toquei para o sítio de tio Filogônio. Na estrada de Brasília - Anápolis (detesto falar em BRs, designação de burocrata) vira-se à esquerda em Abadiânia, passado um renque de eucaliptos à direita. Paro no café-bilhar do Cândido para tomar uma cerveja e saber as novidades. Viajo mais nove, dez quilômetros (meu tio diz que é légua e meia) numa estrada de terra. Atravesso uma pontezinha que parece de brinquedo. Subo uma ladeira, e logo estou na porteira do tio Filogônio.
Quando chego ao sítio, ali pelas onze, onze e meia, tio Filogônio não está em casa.
- Filó tá na roça - diz tia Olímpia. - Senta aí que eu vou coar um café fresco.
Enquanto coa o café na cozinha de fogão de rabo, tia Olímpia vai me passando as novidades.
- Sabe aquela muda que você trouxe no ano passado, disse que se chama toranja? Tá na Viçosa que só vendo. Depois lhe mostro. Lembra do Tangá? Aquele cachorro que caçava cobra? Morreu, coitado. Chifrada de vaca com cria. Filó levou no doutor, não teve jeito.
- E a prima Benigna? Sempre casou? - pergunto.
- Graças a Deus. Estava muito nervosa. Também, coitada, beirando os quarenta. Mora em Brasília, quero dizer, Taguatinga. De vez em quando vem aí com o marido. Senhor muito correto. Vende sementes.
- E o tio Filó. Tá bom?
- Aquele? Vai morrer com saúde. Parece que é de ferro. E come de um tudo. Levanta de madrugada e não para mais. Parece um maquinismo. Estava na hora de amenizar, você não acha? Fale pra ele. Você é estudado, pode ser que ele escute.
E ela vai falando. Nos bichos, nas pessoas, na lavoura. Nem uma palavra sobre crise, inflação, transição. Impaciente, pergunto:
- E a crise, tia?
- A o quê?
- A crise.
- Dou notícia, não.
Não é possível. Tia Olímpia está brincando. Tomo café, acompanhado de um incrível bolinho de fubá com açúcar em cima, que ela fez enquanto conversava, nem percebi que estava fazendo. E ela retoma o noticiário sobre as plantas, os conhecidos, as obras que o tio Filogônio vai fazer na casa quando o tempo firmar. Pergunta para Clérida, quando é que ela vai deixar a soberba e visitar parentes pobres, passar um temporada.
Chega tio Filogônio trazendo dois pés de mandioca, um em cada mão, estrelado de raízes.
- Olhe aqui, Límpia. Pra fazer um quibebe e um bolo pra nós.
Deixa as mandiocas lá fora, limpa as botinas na grade e entra. Dá comigo na varanda e exclama:
- Epa! Que boa surpresa! Como é que vai a vida lá na selva? A família?
Antes que eu achasse o que responder, ele emendou:
- Nossa! Que cara é essa? Tá doente?
Justifiquei-me dizendo que estava preocupado com a dúvida externa. Ele acendia um cigarro com um graveto que tinha chegado ao fogo; parou e disse:
- Dívida externa, é? Sai disso, menino. O que não tem remédio, remediado está. Já almoçou? Claro que não. Vocês na cidade almoçam na hora do jantar aqui. Límpia, avie um almoço pro nosso sobrinho aí. Límpia tá sozinha hoje, a ajudante foi consultar. Gosta de lombo com tutu?
Como sempre, o almoço receberia no mínimo quatro estrelas de qualquer guia gastronômico. Tio Filó, que já havia almoçado às nove, me fez companhia, sem ligar às advertências de Tia Olímpia - comer tanto assim faz mal, olha a idade, não abuse, etc. Enquanto comia, ele ia falando nos projetos; fazer um puxado na casa para hospedar Benigna e o marido com mais conforto, construir tanques para criar peixes ("carpa tá dando dinheiro em Brasília, sabia?"), cultivar stévia para exportar ("Já escrevi pra Embrapa, vão me mandar as explicações").
Curioso. O velho falava, falava, e nem uma palavra sobre a crise. Seria combinação deles? Quando tive uma vaza, perguntei pela crise.
- Crise? Crise? Estou sabendo não. Se for coisa boa, o Cândido lá em Abadiânia acaba sabendo e me passa. Falar nisso, você está muito cansado da viagem? Se não, depois que fizer o quilo me leva em Abadiânia, fiquei de ajudar compadre Gervásio na instalação de um moinho de fubá. Vamos ter um despropósito de milho nesta safra. Eu ia de bicicleta, mas de quatro rodas é melhor. E a gente aproveita pra conversar.
Passei mais de uma semana com meu tio, visitamos vizinhos, fomos a Anápolis levar uns queijos ao mercado, fomos a Pirenópolis comprar cachaça (o alambique do tio estava desativado temporariamente por falta de uma peça encomendada aqui em São Paulo). Comemos pamonha, pequi, tudo que a tia dizia que era "remoso" - e não ouvi ninguém falar em crise. No Brasil de lá só vi gente trabalhando, produzindo, vinvendo. Conclusão: crise só viceja no asfalto.
segunda-feira, agosto 17
Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não -vivência
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório, momentâneo…
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
Ana Hatherly
O eclipse e a euforia inútil
Estava ontem em Lagos, não em Bragança, a festejar o aniversário de uma amiga com outros amigos — uns que já conhecia, outros que conheci agora —, um pouco afastado do mar e das praias, numa casa linda no meio do campo, em cima de um monte, com uma mini, um copo de bom vinho ou uma sangria na mão — mas nada de beber demais —, a celebrar a vida, a ver estrelas cadentes e a observar esse outro fenómeno extraordinário que acontece todos os dias sem tanta euforia: um belo pôr-do-sol no fim de um belo dia de Verão. Foi aí, aliás, que comecei a pensar nesta crónica.
Claro que antes vi o eclipse e vi o monte a escurecer. Ou melhor: vi o suficiente para não poder dizer que não vi. Espreitei durante uns segundos por uns óculos emprestados, disse cá para mim qualquer coisa parecida com “ah, sim, realmente”, partilhei-os com outra pessoa, com a minha companheira, e continuei a minha vida de copo na mão, no meio da conversa e de muitas piadas.
Não comprei óculos, não procurei óculos e, pelo que percebi, mesmo que tivesse querido comprá-los estavam completamente esgotados. Passei à porta de um oculista na cidade e a montra estava cheia de avisos: “Óculos para ver o eclipse esgotados”. Os óculos eclipsaram-se antes do eclipse, o que me parece, aliás, a primeira grande vitória comercial da Lua sobre o Sol.
Enquanto meio mundo e metade do país pareciam preparar-se para a chegada de uma nave extraterrestre, eu já estava no Algarve desde a noite anterior, com um céu nocturno tão limpo que se viam estrelas às centenas e, de vez em quando, uma cadente. E confesso que me emociona mais uma estrela cadente, talvez porque dura tão pouco — como nós, humanos, à dimensão do universo —, não vem com manual de instruções e ainda me permite a infantilidade de pedir um desejo.
Aos anos que tenho, continuar a pedir desejos às estrelas parece-me bastante mais saudável do que correr para os centros comerciais e lojas à procura de uns óculos de cartão.
Compreendo perfeitamente a importância científica de um eclipse. Ainda bem que há gente capaz de explicar o que acontece quando a Lua se atravessa entre nós e o Sol sem transformar imediatamente a coisa numa teoria da conspiração.
Ontem, 12 de Agosto, em Portugal só houve uma pequeníssima zona do Parque Natural de Montesinho onde a ocultação foi total durante cerca de 26 segundos; no Aeródromo de Bragança chegou aos 99,8%. No resto do país, o eclipse foi parcial, embora muito expressivo, diziam. A própria NASA confirmou que apenas um pequeno canto de Portugal entrava na faixa da totalidade. E foi.
Raro? Sem dúvida. Cientificamente fascinante? Evidentemente. Razão suficiente para Portugal inteiro entrar em estado de emergência ocular? Aqui comecei logo a perder o entusiasmo.
Porque foi praticamente isso que aconteceu. Durante dias, os óculos próprios para observar o eclipse adquiriram o estatuto económico de um apartamento no centro de Lisboa: toda a gente queria um, quase ninguém os encontrava e quem os tinha começou provavelmente a desconfiar de que podia fazer fortuna.
Lojas com avisos à porta — “NÃO TEMOS ÓCULOS” —, pessoas a telefonar a amigos, amigos a telefonar a primos, primos a descobrir que um cunhado talvez tivesse dois pares. Houve quem os encomendasse online para os receber depois do eclipse, o que constitui um magnífico exemplo português de planeamento estratégico. E houve até quem recorresse a máscaras de soldador. Faltou apenas aparecer alguém no OLX a trocar uns óculos ISO por um T2 em Alvalade.
A nossa espécie humana — e a portuguesa em particular, com a preciosa ajuda dos media e dos comentadores de ocasião, como vi, por exemplo, também ontem na Sky News, que fui acompanhando de vez em quando — tem esta extraordinária capacidade de transformar qualquer acontecimento raro numa obrigação colectiva.
Não basta haver um eclipse: é preciso vê-lo. Não basta vê-lo: é preciso fotografá-lo. Não basta fotografá-lo: é preciso publicar a fotografia no Instagram para provar aos outros que estivemos presentes quando a Lua fez aquilo que faz há milhões de anos sem precisar de influencers, patrocinadores ou um save the date. Se não pusermos o eclipse no Instagram, terá o eclipse realmente acontecido? Contra mim falo: acabei também por partilhar uma story de uma amiga que estava na festa.
O mais divertido foi a solenidade disto tudo e, sobretudo, a forma como nos foi noticiado.
“É uma oportunidade única.” “Não pode perder.” “Só volta em 2144.” E é verdade: a Ciência Viva assinalava 1912 como a última vez em que um eclipse total foi visível em Portugal e 2144 como a próxima. Como se em 2144 eu pudesse estar furioso comigo próprio por ter desperdiçado a tarde de 12 de Agosto de 2026. Imagino-me, com 184 anos — sim, porque a ciência já quase admite isso —, instalado num lar orbital, a dizer aos meus bisnetos: “Se eu soubesse, tinha comprado os óculos quando ainda os havia.”
Entretanto, o eclipse passou, a Lua seguiu a sua vida, o Sol reapareceu e nós continuámos exactamente com os mesmos problemas e as mesmas alegrias. A prestação da casa não baixou. O IRS não se comoveu. O carro continua a precisar da revisão. Finalmente, as pautas com as notas dos putos já saíram, depois do pedido de revisão. O vizinho continuará certamente a pegar no berbequim às oito da manhã para pregar um quadro na parede. O WhatsApp continua cheio de grupos de que ninguém teve ainda coragem de sair. Não houve, afinal, uma epifania internacional e nacional às 19h31. Ninguém se tornou melhor pessoa porque viu a coroa solar durante 26 segundos. No máximo, tornou-se uma pessoa que viu a coroa solar durante 26 segundos e passou o resto da noite a falar disso ao jantar. Não foi o nosso caso. Vimos. E depois continuou a festa.
Talvez seja precisamente por isso que quase sempre me separo destas euforias colectivas. Desconfio um bocadinho quando toda a gente começa a correr na mesma direcção, sobretudo se essa direcção envolve filas, estacionamento e acessórios homologados. Não me chamem insensível; chamem-me terrestre. A obrigação de deslumbramento deixa-me frio. Há dias em que parece que já não basta viver: é preciso viver o acontecimento certo, à hora certa, com os óculos certos, no miradouro certo e, sobretudo, com a legenda certa. E, no entanto, o céu dá espectáculos todos os dias e quase ninguém faz fila.
O Sol nasce todas as manhãs sem termos de comprar bilhete. Basta lavar a cara, tirar as remelas dos olhos e pôr uns óculos escuros para disfarçar as olheiras de termos ficado acordados até às tantas a ver todos os episódios da nova série de uma das plataformas.
Depois, o Sol põe-se todas as tardes sem pré-inscrição. Há noites de Agosto em que as estrelas aparecem por cima do campo como se alguém tivesse furado o tecto do mundo com uma agulha, como aconteceu ontem. Há luas enormes sobre o mar, pores-do-sol magníficos, madrugadas silenciosas e aquela luz de fim de tarde que transforma durante cinco minutos uma parede branca numa coisa mais bela do que muitas obras de arte penduradas num museu de arte contemporânea. E ninguém põe um cartaz à porta a dizer: “ESGOTADO”.
Talvez eu seja pouco cósmico. É verdade. Aceito a acusação. Dêem-me um pôr-do-sol à beira-mar, uma cervejinha bem gelada, um copo de vinho rosé ou branco, uma sangria com amigos ou um bom café bebido de manhã, quando ainda ninguém decidiu estragar-nos o dia, e fico perfeitamente reconciliado com o universo. Não preciso que a Lua tape o Sol. Às vezes basta-me que uma nuvem tape o calor durante três minutos.
Ontem à noite houve, aliás, outro espectáculo no céu que se calhar passou despercebido à maioria das pessoas, demasiado focadas no eclipse: as Perseidas, ou chuva de estrelas, que por esta altura de Agosto atingem o seu momento mais favorável. E talvez, se o sono depois de um dia bem passado não tivesse falado mais alto, ainda tivesse ficado a vê-las a noite inteira até ao nascer do Sol. Já as vi uma vez, não há muito tempo, nas ruínas romanas de Tróia — a nossa, não a de A Odisseia — e foi um espectáculo incrível, num local incrível que recomendo. Até vimos Júpiter através de um telescópio e o Starlink a passar. Fartei-me de pedir desejos. Mas agora não vou contar meteoros por hora, instalar uma aplicação nem consultar um gráfico. Olho para cima quando me apetece. Se passar uma estrela cadente, peço mais um desejo, sobretudo uma longa vida e saúde para mim e para os meus, paz no mundo e aquelas coisas que se pedem sempre. Se não passar uma estrela cadente, bebo mais um copo e converso com quem está ao meu lado. É uma metodologia científica discutível, reconheço, mas até agora tem produzido bons resultados. O eclipse foi extraordinário. Foi sim senhor. Mas a corrida ao eclipse é que me divertiu e me deixou ainda mais a pensar. Porque revela esta nossa necessidade contemporânea de transformar tudo em “evento”, de criar urgência até para o movimento dos astros, de viver debaixo da tirania permanente do “não podes perder”.
Posso, sim. Posso perder um eclipse, uma série, o restaurante da moda, uma tendência do TikTok e até aquela promoção extraordinária válida apenas até à meia-noite. A vida, felizmente, não é uma lista de experiências obrigatórias que temos de ir riscando antes de morrer. E há qualquer coisa quase cómica em haver gente que atravessou meio país e foi até Montesinho, discutiu meteorologia e astronomia como cientista de última hora, comprou óculos especiais, descarregou aplicações e organizou uma tarde inteira à volta de um acontecimento cuja grande intervenção prática nas nossas vidas consistiu em ficar um bocadinho mais escuro durante uns minutos. O universo trabalhou milhões de anos para isto e a malta respondeu com uma fila numa caixa de uma grande superfície comercial para comprar uns óculos.
Por isso, ontem à tarde, enquanto meio mundo e Portugal inteiro levantavam os olhos para o céu com os seus preciosos óculos de cartão, pedi uns emprestados duas ou três vezes durante dez segundos. Olhei. Confirmei que a Lua continuava a saber passar à frente do Sol. Disse “muito bonito”. E passei-os imediatamente a outra pessoa. Depois voltei à conversa com os meus amigos, aqueles que, como eu, também não ligaram assim tanto ao eclipse. Voltei ao campo, ao vinho, às piadas e, mais tarde, às estrelas.
Porque talvez seja essa a minha pequena heresia astronómica: entre um fenómeno que só acontece uma vez em mais de cem anos e as pessoas de quem gosto, continuo a achar muito mais raro conseguir juntar um grupo de amigos à mesma mesa para celebrar um aniversário — no fundo, para celebrar a vida. O eclipse acabou. A vida continuou. E hoje, enquanto escrevo esta crónica, porque gosto de me levantar cedo, o Sol nasceu outra vez.
Sem óculos. Sem aplicações. Sem filas. Sem comentadores em directo. E completamente grátis.
A 'explosão'
Eu me achava chorando à mesa de um bar, tendo às mãos uma revista licenciosa, repleta de fotos lúbricas, quando de mim se aproximou sorrateiramente, sob pretexto de pedir-me fósforos, o próprio diretor do filme, um tal Christian Jaque, que, ao ver-me debulhado em lágrimas, me perguntou se eu havia perdido algum membro importante da minha família e se necessitava de algum adiantamento para o enterro. Fiz-lhe ver que o meu mal era apenas dor de dentes (deslavada mentira) e aproveitei a oportunidade para mostrar-lhe uma fotografia de um sensualismo feroz que justamente estava vendo naquele instante e que pareceu tê-lo impressionado vivamente. Dois minutos depois, e sem que se tivesse tocado em questão de dinheiro, eu já estava contratado para participar da tal cena superexplosiva, a vinte quilômetros mais ou menos do ponto em que nos encontrávamos. A única exigência que lhe fiz foi a de que o meu cipreste também participasse do filme, nem que fosse de relance apenas, o que ele, após fitar-me meio de lado, aceitou prontamente. E eu lhe mostrei então outra foto escabrosa da revista, para selar o nosso acordo.
A cena em que eu aparecia durava uma fração de minuto apenas, mas era importantíssima. No meio da estrada, com o meu cipreste ao fundo, durante a passagem de uma procissão de que eu participava com o ar mais contrito deste mundo — com uma vela acesa numa das mãos e um rosário imenso na outra — ocorria a explosão de uma mina deixada pelo inimigo na última guerra, e tudo ia lindamente pelos ares, num espetáculo pirotécnico digno dos maiores encômios. (Pena que o filme não fosse em cores, para se ter uma ideia exata do sangue derramado e das postas de carne espalhadas num raio de duzentos metros). Eu, após o estrondo formidável, captado em som perspecta-estereofônico, via-me obrigado a recolher uma das pernas às costas e a simular a mais horripilante das dores, dando vazão, para gáudio do diretor e de seus assistentes, a um dos berros mais bem dados em toda a história do cinema universal, com a câmara funcionando a dois palmos de meu ensanguentado nariz. Foi tão real e convincente o meu grito de pavor, e tão autênticas as lágrimas que me desciam dos olhos e me inundavam a camisa e as calças, indo desaguar sobre um pseudodefunto ao meu lado, que, finda a filmagem, todos vieram correndo saudar-me pelo meu êxito espetacular, inclusive o citado pseudodefunto, que era um dos astros principais do filme. Ali mesmo recebi a proposta de fazer catorze filmes na França e dois na Inglaterra — com ou sem ciprestes, à minha escolha — o que todavia recusei sem entrar em maiores detalhes, mesmo porque eu continuava chorando e os soluços não me permitiam uma conversa muito longa.
A cena calamitosa valeu-me a bagatela de trinta mil francos (sem contar a vela e o terço, que me foram dados como lembrança) e um retraio de corpo inteiro, já com as duas pernas, tirado ao lado do diretor e de seus trezentos assistentes, e que foi publicado no dia seguinte em todos os jornais da cidade, com louvores unânimes à minha imprevista atuação. O rosário e a vela doei-os à Santa Casa para serem distribuídos a algum defunto pobre, e os trinta mil francos estou acabando de gastá-los ao meu modo, isto é, como se fossem trezentos mil ou três milhões, dado que sempre vivi aujourlejour e não me interessa levar nem um cêntimo para o inferno.
De tudo isso o que me desagrada é a popularidade que de súbito se fez em torno do meu nome — eu, até ontem um desconhecido nesta desconhecida cidade — e que me obriga a conceder entrevista cada vez que me surpreendem chorando pelos cantos, com se estivesse posando não apenas para um filme mas para a própria posteridade. A glória, que já tantas vezes me bafejou com seu bafo nauseabundo, e que já parecia haver-me esquecido nestes últimos tempos, atirou-me de novo e sem piedade à fúria dos caçadores de escândalo (mesmo que esse escândalo seja apenas uma manifestação inusitada de arte, como no caso) expondo-me ao ridículo de ter que responder a perguntas ridículas e a aceitar sem um revide os maiores elogios à queima-roupa, como se eu fosse um quadro de Picasso. Houve um imbecil, de uma coluna especializada em cinema, que me comparou a um cometa fulgurante que só passa pela terra de mil em mil anos — o que, apesar de conter certo exagero, deixa-me pelo menos a esperança de só vir a relê-lo daqui a mil anos, quando certamente ele já não estará escrevendo para o mesmo jornal. Outro, citando Platão e os druidas, e com a mesma ponta de exagero do seu colega, achou de considerar-me um caso de verdadeiro Milagre (a maiúscula é dele) dentro da 7ª Arte, propondo ao Senado da República que faça lavrar em ata um voto de Louvor (ainda é dele a maiúscula) à minha importantíssima contribuição à arte dramática universal, num papel que outro qualquer teria deixado passar despercebido, apesar de todo o barulho causado pela explosão. E, no instante mesmo em que escrevo isto, uma senhora aparentemente decente e que usa uma verruga na ponta do nariz pede-me humildemente um autógrafo para o seu álbum de autógrafos célebres, tendo sem dúvida me reconhecido pelas centenas de fotografias minhas que os jornais estamparam esta semana, sobretudo chorando.
A esses beócios todos de nada adiantaria eu lhes dizer que o meu pranto nada tem de cinematográfico, sendo como é puramente humano e de todo alheio à minha vontade — e que, se a passagem explosiva de L’Explosion vai ficar realmente antológica (como, sem a menor sombra de dúvida, há de ficar) culpa ou mérito nenhum disso me caberá, como tampouco caberá ao diretor ou ao cameraman que me surpreenderam em meu paroxismo de angústia, em meio a mortos e feridos. Para todos os efeitos sou o próprio Zanconi redivivo, queira-o ou não, e nem eu mesmo conseguiria convencê-los do contrário, como de resto ocorre a todos os falsos profetas e criadores de mitos, sejam artísticos ou simplesmente religiosos.
E agora vou chorar mais um pouco.
Campos de Carvalho, "A Lua Vem da Ásia"
Cavalos
Sobre a estante de livros estão oito cavalos de porcelana azul. São presente de um amigo. Vieram da China, dentro de uma caixa de papelão, e agora estão sobre a estante de livros, tocados pela luz de julho da cidade de Porto Alegre. Cada um dos cavalos tem seu jeito de ser. Poderiam ser dispostos deste ou daquele modo, mas foram se alinhando quase com naturalidade, até formar uma tropilha perfeita.
O da frente, o mais orgulhoso, o de pescoço erguido e ventas desafiantes, o de crinas voadoras e cascos velozes, cujo dorso é uma curva de onda, esse, por vontade e eleição do artista que o moldou, é o chefe. Não lhe cabe outro lugar senão à frente da tropilha. Olha para diante, focinho erguido. Ninguém lhe bota a mão. Em suas pernas crispa-se o músculo da velocidade. Não irá puxar carroça ou charrete elegante. É um cavalo guerreiro. Será montado (se o for) por príncipe ou capitão de guerrilhas. Nas estepes da Manchúria ou no pampa do Seival.Terá sido, quem sabe, o cavalo de Gengis Khan, contemplado por olhos deslumbrados de um viajante ocidental, ao encontrá-lo à frente de seus exércitos e estandartes e liteiras com centenas de concubinas, e vê-lo desembainhar a espada para comando e ataque. Mas, também, poderia ser o cavalo do infeliz Major Lucas de Oliveira, que atravessou léguas e léguas de pampa noturno para soprar ao ouvido do coronel Neto que era chegada a hora de proclamar a República e separar o Rio Grande do resto do Brasil. Infeliz, porque o mesmo major, dez anos mais tarde, fez jornada semelhante, para sussurrar ao ouvido do General Canabarro recado inverso.
O pequeno cavalo de porcelana está imóvel, e suas narinas parecem farejar o ar de inverno. Estaria ele entre os duzentos cavalos que invadiram a cidade de Uruguaiana num fim de tarde, depois de um tiroteio na estação Ferroviária? Os brigadianos tinham cercado o bandido Juvência Gutierrez perto do curral onde estavam os duzentos cavalos recém-chegados de Curuzu Cuatiá, pelo trem que vinha da Argentina, e, assustados pelos tiros, romperam a cerca e dispararam cidade a dentro.
Recém-chegado à cidade estava também um pacato representante e vendedor de freio para carros, vindo de São Paulo, quando deparou não só com os tiros mas com o tropel, não só com o tropel mas com a inundação das crinas, e relinchos, e cascos, e fúrias, que dobraram a esquina em disparada e arrebataram o jornal de suas mãos e o fizeram entrar de volta ao Hotel Glória, de um salto, e cair no meio da sala, sem fôlego e dignidade, branco como coalhada e jurando nunca mais por os pés naquele lugar dos demônios.
Talvez, porém, o cavalo que esteja dentro do pequeno cavalo de porcelana azul seja outro cavalo, um cavalo visto por um adolescente, trinta anos atrás, nos idos de 50, no portal de sua casa perto do rio, em Uruguaiana. O adolescente tinha um livro nas mãos, O tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, e a parte que lia era a saga de um certo capitão Rodrigo. Como todos os adolescentes da época, ele lia sem parar as aventuras de Rocambole, Sacaramouche, Os Três Mosqueteiros, aventuras que se desenrolavam em países distantes, castelos de pontes levadiças, ruas labirínticas, intrigas à luz de velas, campos de batalhas trêmulos, de estandartes coloridos.
O mundo da aventura e da imaginação era um privilégio desses países, cujos nomes soavam como promessas de algum prazer misterioso, vedado ao cotidiano da pequena cidade junto ao rio. Mas o poder de Érico já tinha soprado vida ao capitão Rodrigo Cambará. O capitão já povoava a imaginação do adolescente, surgindo em nuvens de fumo e pólvora, investindo contra canhões de castelhanos, arrebatando bandeiras. Ali, no portal da casa, perto do meio-dia, esperando o almoço, aquecido pelo Sol da primavera, o adolescente ouviu um som de página que lia. O cavaleiro vinha pelo meio da rua de terra, a trote, silencioso e solitário, imponente no poncho negro, chapéu de barbicacho, rebenque pendendo do pulso. O cavalo subia e descia a cabeça inquieta, as crinas relampejavam. O cavaleiro passou em frente ao rapaz, tocou com os dois dedos na aba do chapéu e foi se afastando no mesmo trote cadenciado, como uma aparição, ou como se tivesse saído das páginas do livro.
Só é real aquilo a que emprestamos realidade. Ergo os olhos da máquina de escrever e contemplo a tropilha sobre a estante de livros. O chefe estica o pescoço nobre e fareja o ar, inquieto, desafiador. Meu pequeno cavalo de porcelana azul medita em pastagens livres, batalhas heroicas, cavalgadas sem fim, bravo guardião do mundo do sonhos e da imaginação.

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