Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
domingo, agosto 16
A pata do macaco
I
Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas, na pequena sala de Laburnam Villa, as cortinas estavam fechadas e o fogo crepitava. Pai e filho jogavam xadrez. O primeiro tinha ideias sobre o jogo que implicavam lances radicais e colocou seu rei em perigo de modo tão precipitado e desnecessário que chegou a provocar um comentário da senhora de cabelos brancos que tricotava calmamente à beira do fogo.
– Escute o vento – disse o Sr. White, que, ao perceber o erro fatal tarde demais, estava cordialmente tentando evitar que seu filho o notasse.
– Estou ouvindo – disse o outro, examinando atentamente o tabuleiro, enquanto estendia a mão: – Xeque…
– Achava difícil que viesse esta noite – disse o pai, com a mão suspensa sobre o tabuleiro.
– …mate – concluiu o filho.
– Isso é o pior de morar tão longe – gritou o Sr. White com violência súbita e inesperada. – De todos os lugares desagradáveis, lamacentos, fora de mão para viver, este é o pior. A trilha é um pântano, e a estrada, uma torrente. Não sei o que estão pensando. Suponho que, como apenas duas casas ficaram na estrada, acham que o lugar não tem importância.
Anatomia
– Não se aborreça, querido – disse a esposa gentilmente. – Talvez você ganhe a próxima.
O Sr. White levantou os olhos rapidamente, bem a tempo de interceptar um olhar de cumplicidade entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios, e ele escondeu um sorriso de culpa em sua fina barba grisalha.
– Ei-lo – disse Herbert White quando o portão bateu ruidosamente e passos pesados se encaminharam para a porta.
O velho levantou-se com pressa hospitaleira e, abrindo a porta, pôde-se
ouvi-lo se lamentando com o recém-chegado. O visitante também tinha queixas a fazer, de modo que a Sra. White murmurou:
– Tsc, tsc! – E tossiu disfarçadamente enquanto o marido entrava na sala seguido de um homem alto, corpulento, de olhos arredondados e rosto corado.
Revistas
– Sargento-mor Morris – disse ele, apresentando-o.
O sargento-mor cumprimentou-os e, tomando o assento oferecido perto do fogo, observou-o com satisfação enquanto seu anfitrião pegava uísque, copos e uma pequena chaleira de cobre no fogo.
No terceiro copo, seus olhos ficaram mais vivos, e ele começou a falar. O pequeno círculo familiar observava com grande interesse esse visitante de lugares distantes, enquanto ele ajustava os largos ombros na cadeira e falava sobre episódios estranhos e feitos intrépidos, de guerras, pragas e pessoas incomuns.
– Vinte e um anos nisso – disse o Sr. White, fazendo um gesto para a esposa e o filho. – Até ele ir embora, era um jovem frágil no armazém. Agora, olhem para ele.
– Não parece ter se ferido muito – falou a Sra. White polidamente.
– Gostaria de viajar para a Índia – disse o velho. – Apenas para conhecer um pouco, sabe?
– O melhor lugar é sempre onde a gente está – sentenciou o sargento-mor, balançando a cabeça. Ele apoiou o copo vazio na mesa, suspirando baixinho.
– Gostaria de ver aqueles templos antigos, os faquires e malabaristas – falou o velho. – O que foi mesmo que você começou a me contar outro dia sobre uma pata de macaco, ou algo assim, Morris?
– Nada – apressou-se o sargento-mor a responder. – Pelo menos nada que valha a pena ser ouvido.
– Pata de macaco? – perguntou, curiosa, a Sra. White.
– Bem, talvez seja apenas uma dessas coisas que costumamos chamar de magia – respondeu o sargento-mor sem constrangimento.
Seus três ouvintes se inclinaram para a frente, curiosos. O visitante, distraidamente, levou seu copo vazio aos lábios e o baixou novamente. O anfitrião o encheu.
– Aqui está – disse o sargento-mor, mexendo no bolso. – É apenas uma pequena pata comum, mumificada. – Ele a tirou do bolso e a mostrou.
A Sra. White recuou com uma careta, mas seu filho pegou-a e examinou-a curiosamente.
– E o que há de especial sobre ela? – perguntou o Sr. White, após pegá-la do filho, examiná-la e colocá-la em cima da mesa.
– Foi enfeitiçada por um velho faquir – disse o sargento-mor. – Um homem muito santo. Ele queria mostrar que o destino rege a vida das pessoas e que aqueles que interferem nisso provocam seu próprio pesar. Colocou nela um feitiço de modo que três homens diferentes poderiam realizar, cada um, três desejos.
Seus modos eram tão impressionantes que os ouvintes tiveram a sensação de que os suaves risos soaram um pouco estridentes.
– Bem, por que não fez os seus, senhor? – perguntou habilmente Herbert White.
O soldado olhou-o da maneira como um homem de meia-idade encara a juventude, que considera presunçosa.
– Eu fiz – respondeu ele serenamente, e seu rosto marcado de varíola empalideceu.
– E o senhor realmente recebeu os três desejos? – perguntou a Sra. White.
– Recebi – disse o sargento-mor, e seu copo bateu levemente contra seus dentes fortes.
– E mais alguém a usou depois? – questionou a senhora.
– Sim, o primeiro homem obteve seus três desejos – foi a resposta. – Não sei quais foram os dois primeiros, mas o terceiro foi a morte. Foi assim que consegui a pata.
Seu tom era tão grave que um silêncio caiu sobre o grupo.
– Se realizar seus três desejos, não lhe serve mais agora, Morris – disse, finalmente, o velho. – Por que a guarda?
O soldado balançou a cabeça.
– Capricho, eu acho – respondeu calmamente. – Cheguei a pensar em vendê-la, mas acho que não o farei. Essa coisa já causou dano suficiente. Além disso, as pessoas não a comprariam. Algumas acham que é um conto de fadas, e aquelas que acreditam, seja lá como, vão querer experimentar primeiro e me pagar depois.
– Se pudesse realizar mais três desejos – perguntou o velho, encarando-o sutilmente –, você o faria?
– Não sei – respondeu o outro. – Eu não sei.
Ele pegou a pata e, balançando-a entre seu dedo indicador e o polegar, de repente a jogou no fogo. White, com um ligeiro grito, abaixou-se e pegou-a.
– Melhor deixá-la queimar – disse, solenemente, o soldado.
– Se você não a quer, Morris – respondeu o outro –, dê a pata para mim.
– Não – disse o amigo, inflexível. – Joguei-a no fogo. Se você a pegou, não me culpe pelo que acontecer. Seja um homem sensato e lance a pata novamente ao fogo.
O outro balançou a cabeça e examinou seu novo bem atentamente.
– Como funciona? – perguntou.
– Segure-a com a mão direita e formule o desejo em voz alta – disse o sargento-mor –, mas devo alertá-lo sobre as consequências.
– Soa como As Mil e Uma Noites – disse a Sra. White, enquanto se levantava para preparar o jantar. – Não acha que deveria desejar quatro pares de mãos para mim?
O marido tirou o talismã do bolso, e os três começaram a rir, enquanto o sargento-mor, com um olhar alarmante no rosto, segurou-o pelo braço.
Anatomia
– Se quer mesmo formular um desejo – disse rispidamente –, que seja algo razoável.
O Sr. White colocou o talismã de volta no bolso e, arrumando as cadeiras, convidou o amigo para a mesa. Durante o jantar, o assunto foi parcialmente esquecido, e, depois, os três sentaram-se para ouvir, fascinados, uma segunda sessão das aventuras do soldado na Índia.
– Como se a história sobre a pata do macaco fosse menos verídica do que tudo o que ele nos contou – disse Herbert quando a porta se fechou atrás do convidado, bem a tempo de ele tomar o último trem. – Não devemos levar muito em conta essas histórias.
– Você lhe deu algo por essa coisa, pai? – perguntou a Sra. White, encarando o marido.
– Uma ninharia – disse ele, corando ligeiramente. – Ele não queria, mas eu o fiz aceitar. E ele me pressionou novamente para jogá-la fora.
– Provavelmente – disse Herbert com horror fingido – porque, senão, nos tornaríamos ricos, famosos e felizes. Deseje ser um imperador, pai, só para começar; então não poderá ser dominado pela esposa.
Ele contornou rapidamente a mesa, seguido pela perigosa Sra. White armada com uma manta do estofado.
O Sr. White tirou a pata do bolso e ficou olhando-a com hesitação.
– Não sei o que desejar, e isso é um fato – disse calmamente. – Me parece que tenho tudo o que quero.
– Se você simplesmente quitasse a casa, ficaria muito feliz, não ficaria? – disse Herbert, com a mão no ombro dele. – Bem, deseje duzentas libras, então, é o suficiente.
O pai, sorrindo envergonhado com a própria credulidade, segurou o talismã, enquanto o filho, com o ar solene prejudicado por uma piscadela da mãe, sentou-se ao piano e tocou alguns acordes comoventes.
– Desejo duzentas libras – disse o velho decididamente.
Um belo acorde do piano saudou as palavras, interrompido por um grito de pavor do velho. A esposa e o filho correram em sua direção.
– Ela se mexeu – gritou de novo com um olhar de nojo para o objeto, que estava caído no chão. – Quando formulei o desejo, a pata se mexeu na minha mão, como uma cobra.
– Bem, não vejo o dinheiro – disse o filho enquanto apanhava a pata do chão e a colocava na mesa – e aposto que nunca verei.
– Certamente foi a sua imaginação, pai – disse a esposa, olhando-o
preocupada.
Ele balançou a cabeça.
– Esqueçam tudo. Nenhum mal aconteceu. Mas com certeza a pata me deu um arrepio.
Enquanto os três ficaram sentados à beira do fogo, os dois homens terminaram de fumar seus cachimbos. Lá fora, o vento estava mais forte do que nunca, e o velho começou a ficar nervoso com o som de uma porta batendo no andar de cima. Um silêncio incomum e deprimente se instalou entre eles e durou até o casal se levantar para se recolher.
– Espero que encontrem o dinheiro amarrado em um grande saco no meio da cama – disse Herbert, depois de dar boa-noite aos pais – e algo terrível agachado em cima do armário observando vocês enquanto embolsam seus ganhos ilícitos.
Herbert sentou-se sozinho no escuro, contemplando o fogo que esmaecia e vendo rostos nele. O último era tão horrendo e tão símio que ele o olhou com espanto. Era tão vívido que Herbert, com um ligeiro riso nervoso, tateou a mesa à procura de um copo com um pouco de água para jogá-la na lareira. Sua mão esbarrou na pata do macaco, e, com um ligeiro arrepio, ele limpou a mão no casaco e subiu para se deitar.
II
Brilhava o sol de inverno na manhã seguinte, e, ao passar pela mesa do café, Herbert riu de seus medos. Havia um ar de salubridade prosaica na sala, que havia faltado na noite anterior, e a pequena pata suja e enrugada foi posta no aparador com uma displicência que sinalizava pouca crença em seus poderes.
– Suponho que todos os velhos soldados sejam iguais – disse a Sra. White. – E pensar que ficamos ouvindo tais bobagens! Como desejos poderiam ser concedidos nos dias de hoje? E, se pudessem, como duzentas libras poderiam nos fazer mal, pai?
– Talvez caiam do céu na cabeça dele – disse o frívolo Herbert.
– Morris disse que as coisas acontecem muito naturalmente – comentou o pai –, que a realização do desejo pode ser atribuída até mesmo à coincidência.
– Bem, não acabe com o dinheiro até eu voltar – disse Herbert ao levantar da mesa. – Temo que isso o vá transformar em um homem mesquinho e avarento e tenhamos que o renegar.
A mãe riu e o acompanhou até a porta. Ficou observando-o descer pela estrada e, retornando à mesa do café da manhã, se divertiu à custa da credulidade do marido. Nada que evitasse que ela corresse à porta ao ouvir o carteiro nem que se referisse rapidamente ao sargento-mor reformado e ao hábito dele de beber demais, quando descobriu que o correio havia trazido a conta do alfaiate.
– Herbert terá mais algumas de suas observações espirituosas, com certeza, quando chegar em casa – disse ela enquanto jantavam.
– Ouso dizer – começou o Sr. White, servindo-se de cerveja – que, apesar de tudo, a coisa se mexeu na minha mão. Isso eu juro.
– Você pensou que se mexeu – disse a senhora suavemente.
– Digo que se mexeu – respondeu ele. – Não tenho dúvida. Preciso… O que houve?
A esposa não respondeu. Estava olhando os movimentos misteriosos de um homem, do lado de fora, que, examinando a casa de maneira indecisa, parecia estar preparando o espírito para entrar. Em uma conexão mental com as duzentas libras, ela reparou que o estranho estava bem-vestido e usava um chapéu novo de seda brilhante. Três vezes ele parou no portão e depois se moveu novamente. Na quarta vez, pousou a mão sobre o portão e, como em súbita decisão, abriu-o e avançou pelo caminho. A Sra. White, no mesmo momento, pôs as mãos para trás e rapidamente desatou o laço do avental, colocando o útil artefato embaixo da almofada de sua cadeira.
Ela fez o estranho entrar na sala, e ele parecia pouco à vontade. Olhava furtivamente para a Sra. White e a ouviu, preocupado, se desculpar da aparência da sala e do casaco do marido, roupa que ele normalmente reservava para uso no jardim. A Sra. White, então, aguardou, com a paciência que seu sexo permitia, que ele dissesse a razão de sua visita, mas, num primeiro momento, ele ficou estranhamente silencioso.
– Eu… me enviaram para… – O Sr. White parou e pegou no bolso da calça um pedaço de algodão. – Venho da Maw & Meggins.
A senhora ficou assustada.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou sem fôlego. – Aconteceu alguma coisa com Herbert? O que foi? O que foi?
O marido interferiu.
– Vamos, vamos, mãe – apressou-se a dizer. – Sente aí e não tire conclusões precipitadas. O senhor não trouxe más notícias, tenho certeza – ponderou o Sr. White e olhou o outro ansiosamente.
– Lamento… – começou o visitante.
– Ele está machucado? – interpelou a mãe. O visitante se curvou, concordando.
– Terrivelmente ferido – disse ele calmamente –, mas não sente dores.
– Oh, graças a Deus! – disse a senhora, apertando as mãos. – Graças a Deus por isso! Graças…
Parou subitamente ante o significado sinistro da evidência e viu a terrível confirmação de seus medos no rosto desviado do outro. Prendeu a respiração e, virando-se para o marido, mais lento de raciocínio, colocou a mão trêmula sobre a dele. E houve um longo silêncio.
– Ele foi pego pela máquina – disse, por fim, o visitante em voz baixa.
– Pego pela máquina – repetiu o Sr. White, de maneira confusa –, mas…
Ele sentou-se olhando fixamente para fora da janela e, tomando a mão de sua esposa entre as suas, apertou-a como fazia no tempo em que a cortejava, havia quase quarenta anos.
– Herbert era a única coisa que nos restava – disse ele virando-se lentamente para o visitante. – Isso é duro.
O outro tossiu e, levantando-se, encaminhou-se lentamente para a janela.
– A empresa me incumbiu de lhes transmitir sinceros sentimentos por sua enorme perda – disse ele, sem olhar ao redor. – Espero que entendam que sou apenas um empregado e que meramente cumpro ordens.
Não houve resposta. A face da senhora estava pálida, seu olhar, fixo, e sua respiração, inaudível. No rosto do marido, uma expressão tal como a que deve ter surgido no rosto do sargento, seu amigo, em sua primeira batalha.
– Devo dizer que a Maw & Meggins nega qualquer responsabilidade – continuou o outro. – Eles não admitem culpa alguma, mas, em consideração aos serviços de seu filho, desejam oferecer a vocês certa quantia como forma de compensação.
O Sr. White largou a mão da esposa e, ficando de pé, encarou o visitante com horror. Seus lábios secos soltaram uma palavra:
– Quanto?
– Duzentas libras – respondeu o funcionário da Maw & Meggins.
Insensível ao grito da esposa, o velho sorriu vagamente, estendeu as mãos como um cego e desabou inconsciente no chão.
III
No enorme cemitério novo, a cerca de duas milhas de distância, os velhos enterraram seu morto e retornaram para casa mergulhados em sombras e silêncio. Tudo havia acontecido tão rápido que, a princípio, eles mal conseguiam compreender e permaneceram em estado de expectativa, como se mais alguma coisa estivesse por vir, algo para aliviar carga tão pesada para ser suportada por corações de idosos.
Mas os dias se passaram, e a expectativa deu lugar à resignação, à desesperançosa resignação dos velhos, às vezes chamada erroneamente de apatia. Algumas vezes, mal trocavam uma palavra. Não tinham nada sobre o que falar, e seus dias eram exaustivamente longos.
Foi cerca de uma semana mais tarde que o velho, acordando subitamente no meio da noite, esticou a mão e se percebeu sozinho. O quarto estava escuro, e o som de um choro abafado vinha da janela. Sentou-se na cama e ficou escutando.
– Volte – disse ele carinhosamente. – Você vai se resfriar.
– Está mais frio para o meu filho – disse a senhora, e chorou mais ainda.
O som dos soluços da mulher foi morrendo nos ouvidos dele. A cama estava quente, e seus olhos, pesados de sono. Cochilou irregularmente e então dormiu até que um grito repentino da esposa o acordou de sobressalto.
– A pata! – gritava ela furiosamente. – A pata do macaco! Ele se levantou assustado.
– Onde? Onde está? O que houve?
Ela veio tropeçando pelo quarto em direção a ele. – Eu a quero – disse ela calmamente. – Você não a destruiu!
– Está na sala, na prateleira – respondeu ele, pasmo. – Por quê?
Ela chorava e ria ao mesmo tempo e, curvando-se, beijou a bochecha dele.
– Eu apenas me lembrei… – disse histericamente. – Por que não pensei nisso antes? Por que você não pensou nisso?
– Pensar em quê? – questionou ele.
– Os outros dois desejos – respondeu ela rapidamente. – Fizemos apenas um.
– Não foi o suficiente? – perguntou ele furiosamente.
– Não! – gritou ela, triunfante. – Teremos mais um. Desça e pegue-a,
rápido, e deseje que nosso menino viva novamente.
O homem sentou na cama e afastou as cobertas de suas pernas trêmulas.
– Meu Deus, você está louca! – gritou, aterrorizado.
– Pegue-a! – Ela suspirou. – Pegue-a, rápido, e faça o desejo. Oh, meu menino, meu menino!
O marido riscou um fósforo e acendeu uma vela.
– Volte para a cama – disse, sem convicção. – Você não sabe o que está dizendo.
– Tivemos o primeiro desejo atendido – disse a senhora agitadamente –, por que não o segundo?
– Uma coincidência – gaguejou o velho.
– Vá, pegue-a e formule o desejo! – gritou a esposa, tremendo de agitação.
O velho virou-se e olhou para ela. Sua voz estremeceu:
– Ele está morto há dez dias, e, além disso… eu não lhe contaria, mas… eu só fui capaz de reconhecê-lo pelas roupas. Se há dez dias estava terrível demais para você vê-lo, muito mais agora.
– Traga-o de volta! – gritou a senhora e o empurrou em direção à porta. – Você acha que eu tenho medo da criança que amamentei?
Ele desceu na escuridão, tateou o caminho até a sala e então até a lareira. O talismã estava no lugar, e um medo horrível de que o desejo não dito pudesse trazer seu filho mutilado antes que pudesse fugir da sala se apossou dele. Prendeu a respiração e percebeu que havia perdido a direção da porta. Com a testa coberta de suor gelado, tateou o caminho ao redor da mesa e ao longo da parede até se encontrar na pequena passagem com a perniciosa coisa na mão.
Até o rosto de sua esposa parecia ter mudado quando ele entrou no quarto. Era pálido e esperançoso, e, para seu desespero, ela parecia olhá-lo de um jeito não natural. Sentiu medo dela.
– Faça o desejo! – gritou ela.
– É insensato e perverso – vacilou ele.
– Faça! – repetiu a esposa. Ele levantou a mão:
– Desejo meu filho vivo novamente.
O talismã caiu no chão, e ele o olhou com pavor. Então se afundou na cadeira, enquanto a senhora, com os olhos faiscantes, caminhou até a janela e levantou a cortina.
Ele permaneceu sentado até congelar de frio, voltando-se ocasionalmente para a figura da mulher, que espiava pela janela. O final da vela, que queimava até abaixo da borda do castiçal de porcelana, lançava sombras pulsantes no teto e nas paredes, até que, após uma centelha maior que as outras, apagou-se. O velho, com uma indizível sensação de alívio pelo fracasso do talismã, se arrastou de volta para a cama, e um minuto ou dois depois a senhora veio, apática e silenciosamente, para perto dele.
Ninguém falou. Ficaram em silêncio ouvindo o tique-taque do relógio. Um degrau rangeu, e um estridente rato correu ruidosamente pela parede. A escuridão era opressiva. Após um tempo tomando coragem, ele pegou a caixa de fósforos, riscou um e desceu para buscar uma vela.
Ao pé da escada, o fósforo se apagou, e ele fez uma pausa para riscar outro. Nesse exato instante, uma batida, tão calma e furtiva que mal era audível, soou na porta da frente.
Os fósforos caíram de sua mão e se espalharam no assoalho. Ele ficou imóvel, a respiração suspensa, até que a batida se repetiu. Então, se virou, fugiu ligeiro para o quarto e fechou a porta atrás de si. Uma terceira batida ecoou pela casa.
– O que foi isso? – gritou a mulher se levantando.
– Um rato – disse o velho com a voz trêmula. – Um rato. Passou por mim na escada.
A esposa sentou-se na cama para ouvir. Outra batida alta ressoou pela
casa.
– É Herbert! – gritou ela. – É Herbert!
Então correu para a porta, mas o marido chegou antes, agarrou-a pelo braço e a deteve com força.
– O que você vai fazer? – sussurrou ele com a voz rouca.
– É o meu menino, é Herbert! – gritou ela, se debatendo mecanicamente.
– Esqueci que ele estava a três quilômetros daqui. Por que você está me segurando? Me largue. Preciso abrir a porta.
– Pelo amor de Deus, não deixe isso entrar! – pediu o velho, trêmulo.
– Você está com medo de nosso filho! – gritou ela se debatendo. – Me solte! Estou indo, Herbert! Estou indo!
Houve outra batida e mais outra. A senhora, com um movimento súbito, se soltou e correu para fora do quarto. O marido a seguiu, chamando pela esposa, implorando, enquanto ela descia correndo a escada. Ele ouviu o barulho da corrente sendo puxada e o do ferrolho saindo lenta e asperamente do soquete. Em seguida ouviu também a voz da senhora, tensa e ofegante:
– O ferrolho! – gritou bem alto. – Venha aqui! Não consigo alcançá-lo!
Mas o marido estava com as mãos e os joelhos no chão, tateando-o loucamente à procura da pata. Se conseguisse pelo menos encontrá-la antes que a coisa lá fora entrasse… Uma sequência perfeita de batidas reverberou pela casa, e ele ouviu o arrastar de uma cadeira que a esposa estava encostando na porta. Escutou o ranger do ferrolho sendo movido lentamente. Nesse exato momento encontrou a pata do macaco e desesperadamente formulou, sem voz, seu terceiro e último desejo.
As batidas cessaram de repente, embora ainda se ouvisse o eco pela casa. Ele escutou a cadeira ser arrastada para trás e a porta se abrir. Um vento gelado subiu rapidamente pela escada, e um longo e sonoro lamento de decepção e sofrimento da esposa lhe deu coragem para correr até ela e a seguir até o portão, lá fora. O candeeiro de rua, do outro lado, brilhava, trêmulo, em uma estrada tranquila e deserta.
W. W. Jacobs
Retrato do artista quando coisa
A maior riqueza do homem é sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
Manoel de Barros
No Morro da Geada
Subir o morro era fácil; descer, já não era, não. O coração não pedia pra gente descer.
Que eu moro na roça, não sei viver na cidade; compro o jornal pra saber das novidades...
Assim balangado, jongado, arteiro, cheio de marras era o viver espontâneo do morro. Completa liberdade, do balacobaco. Como no canto de Clementina de Jesus, uma pessoa mais bonita e de elegância natural que o país já teve. E de quem o país não cuidou como devia, o que já é outra história. E é vergonha.
Mas lá em cima. Dali a gente espiava os primeiros espigões surgindo na linha do horizonte, naquele tempo chamado arranha-céus. A gente tão perto da cidade e tão longe dela.
No morro, roça. Uma cachorrada sem conta, uma molecadinha mestiçada de um quase tudo, que o morro de imigrantes era um mar. De nações ou de tribos que não haviam dado certo em parte nenhuma do mundo. O morro tinha húngaro, magiar, que a gente chamava hungarês; os poloneses, que chamávamos de polacos; os armênios, que a gente tratava de turcos...e havia russos que conheciam a Manchúria devido a guerras, espanhóis, italianos, portugueses, a quem tratávamos de burrugas... e até brasileiros escorridos de outros cantos, como o nosso pessoal, amulatado, mameluco, que, tangido pela fome de 29, na crise grande, pulou fora do Estado do Rio e foi bater no Morro da Geada.
saiba mais
Pois. Tínhamos horta, cuidávamos das verduras, do milho, do inhame, da mandioca, bebíamos leite de cabra e leite de vaca. Vovó Lula abominava orquídea dentro de casa e só nos tratava pela homeopatia. Orquídea era mau agouro, vento encanado, fio desencapado, asa negra, ziquizira. Caveira de burro, azar dos capetas.
No morro éramos rurais. Batíamos café e amendoim no pilão, fazíamos nossa paçoca e nosso quentão, com gengibre, nas festas de junho. Gostávamos de mandioca frita, do pinhão assado, do cuscuz paulista que aprendêramos a comer no morro. Nosso curau.
Descendo, virávamos bichos urbanos, que conheciam a água encanada, o automóvel, a luz elétrica, o rádio. O paralelepípedo e o asfalto. De cedo, aprendi a subir a ladeira e a pegar bonde andando.
Eu conheci, lá longe, o sol de montanha no Morro da Geada, lá pelos lados do Jaguaré, de onde se avistava, mais à direita, um ponto meio preto, quase azulado, tão vistoso - o Pico do Jaraguá. Ah, tempos...o rio Tietê, como o Pinheiros, dava peixe, a gente atravessava os dois de balsa ou de bote, uns caíques que enchiam o coração das velhas de medo e o deste aqui de um tropel. A gente não dizia: o rio, os rios; todos diziam: o Tietê, o Pinheiros. Eles eram tão da gente.
Nossa pobreza não era envergonhada. Ainda não fora substituída pela miséria nos morros pobres como o da Geada. Que tinha esse nome a propósito: lá pelos altos do Jaguaré, quando fazia muito frio, no morro costumava gear. Tínhamos um par de sapato para o domingo. Só. A semana tocada de tamancos ou de pés no chão. A gente tirava água de poço e tomava banho de tina.
Não há lembrança que me chegue sem os sabores. Será difícil esquecer, lá no morro, o gosto de fel do chá para os rins, chá de carqueja, empurrado goela abaixo pelas mãos da minha bisavó Júlia, apelidada Lula pela gente miúda, pena de bisnetos amulatados, mequetrefes, gentinha impossível. Vó Lula, escura e geniosa, cabelos lisos de provável mameluca, quem sabe, na mocidade, sensual e com certeza supersticiosa e de arroubos imprevisíveis, acostumada e mandona. Tratava filhos, netos e bisnetos pela homeopatia. Os doentes não tomassem café.
Havia pobreza, marcada. Mas se o chá de carqueja me descia brabo pela goela, como me é difícil esquecer o gosto bom do leite quente na caneca esmaltada estirada, amorosamente, também no Morro da Geada, pelas mãos de minha avó Nair, filha da bisavó geniosa. Leite puro, tirado das tetas. Sou assim, homem de sorte. De pequeno, paparicado por avó, bisavó e doze tios e tias-avós. Todo esse povo, ah, méis daqueles tempos, escondia os maus feitos da minha pilantragem, e como! Escondia mais do que a noite. Muita sorte, inda agora tenho avó viva. É Nair, dona Nair, dona Nair Cardoso de Sá Gomes, a que sabe fazer - até hoje, aos 86 anos - uns olhos azuis e sararás tão femininos e bons fora da conta, que se viajam para os netos. E quando se dará conta que eu não sou mais criança, que viajei e calejei, embora ela, quando em quando, esquecida ou lembrada, me chame de Joãozinho?
Ah, isso tudo dói um bocado.
Mas os bondes. Nada fácil esquecê-los. Os abertos, que a gente pegava e de que saltava andando; os fechados, a que chamávamos camarões. Vinham, volada, que cantavam nos trilhos, cortando desde o Largo do Correio, pegando toda a Avenida São João, entrando pelos bairros e acabando lá longe, no Anastácio. Ou, ainda melhor, lá em Domingos de Morais. Uma viagem em todos os sentidos.
Nem dá pra esquecer o tio mais alto, o ainda tio-avô Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, empaletozado como na época, empertigado, namorador impertinente e alegre e, pioneiro, a me ensinar nos bondes a olhar as pernas nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o lugar. Havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.
A miséria não substituíra a pobreza. E, lá no Morro da Geada, além do futebol e do jogo de malha, a gente criava de um tudo. Havia galinha, cabrito, porco, marreco, pato, ganso, passarinho; e a natureza criava rolinha, curríra, papa-capim, andorinha, quanto. Tudo ali nos Jaguarés, sem televisão, sem aparelho de som e sem inflação.
Hoje, se a voz mestiça no disco me manda que amor lá no morro é amor pra chuchu, me traz também um arrepio nos pelos do braço.
Nenhum de nós sabia dizer a palavra solidariedade. Mas na casa de outro tio, o nosso tio Otacílio, criavam-se até filhos dos outros e estou certo que o nosso coração era simples, espichado e melhor. Não desandávamos a reclamar da vida, não nos hostilizávamos feito possessos, tocávamos a pé pra baixo e pra cima e, quando um encontrava com o outro, a gente não dizia "oi!". A gente se salvava, largo e profundo:
- Ô, batuta!
Que eu moro na roça, não sei viver na cidade; compro o jornal pra saber das novidades...
Assim balangado, jongado, arteiro, cheio de marras era o viver espontâneo do morro. Completa liberdade, do balacobaco. Como no canto de Clementina de Jesus, uma pessoa mais bonita e de elegância natural que o país já teve. E de quem o país não cuidou como devia, o que já é outra história. E é vergonha.
Mas lá em cima. Dali a gente espiava os primeiros espigões surgindo na linha do horizonte, naquele tempo chamado arranha-céus. A gente tão perto da cidade e tão longe dela.
No morro, roça. Uma cachorrada sem conta, uma molecadinha mestiçada de um quase tudo, que o morro de imigrantes era um mar. De nações ou de tribos que não haviam dado certo em parte nenhuma do mundo. O morro tinha húngaro, magiar, que a gente chamava hungarês; os poloneses, que chamávamos de polacos; os armênios, que a gente tratava de turcos...e havia russos que conheciam a Manchúria devido a guerras, espanhóis, italianos, portugueses, a quem tratávamos de burrugas... e até brasileiros escorridos de outros cantos, como o nosso pessoal, amulatado, mameluco, que, tangido pela fome de 29, na crise grande, pulou fora do Estado do Rio e foi bater no Morro da Geada.
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Pois. Tínhamos horta, cuidávamos das verduras, do milho, do inhame, da mandioca, bebíamos leite de cabra e leite de vaca. Vovó Lula abominava orquídea dentro de casa e só nos tratava pela homeopatia. Orquídea era mau agouro, vento encanado, fio desencapado, asa negra, ziquizira. Caveira de burro, azar dos capetas.
No morro éramos rurais. Batíamos café e amendoim no pilão, fazíamos nossa paçoca e nosso quentão, com gengibre, nas festas de junho. Gostávamos de mandioca frita, do pinhão assado, do cuscuz paulista que aprendêramos a comer no morro. Nosso curau.
Descendo, virávamos bichos urbanos, que conheciam a água encanada, o automóvel, a luz elétrica, o rádio. O paralelepípedo e o asfalto. De cedo, aprendi a subir a ladeira e a pegar bonde andando.
Eu conheci, lá longe, o sol de montanha no Morro da Geada, lá pelos lados do Jaguaré, de onde se avistava, mais à direita, um ponto meio preto, quase azulado, tão vistoso - o Pico do Jaraguá. Ah, tempos...o rio Tietê, como o Pinheiros, dava peixe, a gente atravessava os dois de balsa ou de bote, uns caíques que enchiam o coração das velhas de medo e o deste aqui de um tropel. A gente não dizia: o rio, os rios; todos diziam: o Tietê, o Pinheiros. Eles eram tão da gente.
Nossa pobreza não era envergonhada. Ainda não fora substituída pela miséria nos morros pobres como o da Geada. Que tinha esse nome a propósito: lá pelos altos do Jaguaré, quando fazia muito frio, no morro costumava gear. Tínhamos um par de sapato para o domingo. Só. A semana tocada de tamancos ou de pés no chão. A gente tirava água de poço e tomava banho de tina.
Não há lembrança que me chegue sem os sabores. Será difícil esquecer, lá no morro, o gosto de fel do chá para os rins, chá de carqueja, empurrado goela abaixo pelas mãos da minha bisavó Júlia, apelidada Lula pela gente miúda, pena de bisnetos amulatados, mequetrefes, gentinha impossível. Vó Lula, escura e geniosa, cabelos lisos de provável mameluca, quem sabe, na mocidade, sensual e com certeza supersticiosa e de arroubos imprevisíveis, acostumada e mandona. Tratava filhos, netos e bisnetos pela homeopatia. Os doentes não tomassem café.
Havia pobreza, marcada. Mas se o chá de carqueja me descia brabo pela goela, como me é difícil esquecer o gosto bom do leite quente na caneca esmaltada estirada, amorosamente, também no Morro da Geada, pelas mãos de minha avó Nair, filha da bisavó geniosa. Leite puro, tirado das tetas. Sou assim, homem de sorte. De pequeno, paparicado por avó, bisavó e doze tios e tias-avós. Todo esse povo, ah, méis daqueles tempos, escondia os maus feitos da minha pilantragem, e como! Escondia mais do que a noite. Muita sorte, inda agora tenho avó viva. É Nair, dona Nair, dona Nair Cardoso de Sá Gomes, a que sabe fazer - até hoje, aos 86 anos - uns olhos azuis e sararás tão femininos e bons fora da conta, que se viajam para os netos. E quando se dará conta que eu não sou mais criança, que viajei e calejei, embora ela, quando em quando, esquecida ou lembrada, me chame de Joãozinho?
Ah, isso tudo dói um bocado.
Mas os bondes. Nada fácil esquecê-los. Os abertos, que a gente pegava e de que saltava andando; os fechados, a que chamávamos camarões. Vinham, volada, que cantavam nos trilhos, cortando desde o Largo do Correio, pegando toda a Avenida São João, entrando pelos bairros e acabando lá longe, no Anastácio. Ou, ainda melhor, lá em Domingos de Morais. Uma viagem em todos os sentidos.
Nem dá pra esquecer o tio mais alto, o ainda tio-avô Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, empaletozado como na época, empertigado, namorador impertinente e alegre e, pioneiro, a me ensinar nos bondes a olhar as pernas nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o lugar. Havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.
A miséria não substituíra a pobreza. E, lá no Morro da Geada, além do futebol e do jogo de malha, a gente criava de um tudo. Havia galinha, cabrito, porco, marreco, pato, ganso, passarinho; e a natureza criava rolinha, curríra, papa-capim, andorinha, quanto. Tudo ali nos Jaguarés, sem televisão, sem aparelho de som e sem inflação.
Hoje, se a voz mestiça no disco me manda que amor lá no morro é amor pra chuchu, me traz também um arrepio nos pelos do braço.
Nenhum de nós sabia dizer a palavra solidariedade. Mas na casa de outro tio, o nosso tio Otacílio, criavam-se até filhos dos outros e estou certo que o nosso coração era simples, espichado e melhor. Não desandávamos a reclamar da vida, não nos hostilizávamos feito possessos, tocávamos a pé pra baixo e pra cima e, quando um encontrava com o outro, a gente não dizia "oi!". A gente se salvava, largo e profundo:
- Ô, batuta!
João Antônio, revista Globo Rural, setembro de 1987
Levantar a mão
Houve tempo em que minha maior preocupação diária, depois de acordar, era desvencilhar-me imediatamente do pijama, tomar uma chuveirada, vestir-me e sair logo, para ir encostar a barriga no primeiro balcão. Nunca fui comerciante, mas nessa época poderia ter sido - e dos bons. Era uma figura mais presente nos bares que os próprios donos. Meu amor a esses estabelecimentos era comovente. Chegava muito cedo e, quando saía, geralmente de madrugada, quase sempre era sob protesto. Às vezes, precisavam pôr-me para fora.
Duas instituições impediam que eu me entregasse ao copo em período integral: o trabalho e a família. O primeiro me roubava, de segunda a sábado, pelo menos cinco irrecuperáveis horas por dia. A segunda - mulher e, na época, dois filhos - submetia-me à sua tirania especialmente nos fins de semana: eu ansiava por me enfiar em uma bodega qualquer, para emborcar uns bons conhaques, e acabava indo parar em uma matinê de Tom e Jerry, em um teatrinho infantil ou em um cirquinho de periferia, onde minhas mãos, atacadas de inexplicável tremor nessa época, emborcavam não os cálices almejados, mas os algodões-doces, as pipocas e os refrigerantes que meus filhos me mandavam segurar, enquanto aplaudiam as peripécias da tela, as aventuras do palco ou as eletrizantes atrações do picadeiro.
Esses contratempos me exasperavam, mas não me desviavam de minha vocação. Nem podiam. Eu era um grande copo, possivelmente o maior de todos, e nada ia me tirar esse orgulho. Nem a família, nem o trabalho, nem o tremor nas mãos, nem as vacilações de memória que eu começava a notar. Não era nada grave. Simplesmente me acontecia, algumas vezes, acordar e não lembrar nem como tinha chegado nem como havia subido a escada até o meu quarto. Nessas ocasiões, minha mulher me dizia que eu viera carregado por vizinhos ou por motoristas de táxi. Naturalmente, eu não acreditava nela, nem dava atenção às suas censuras. Vestia-me depressa e corria para o bar. Lá me respeitavam.
Não perdi a confiança no meu taco nem quando ratos, cobras e morcegos passaram a invadir minha casa e meu sono. Tinha um remédio infalível: aumentar a dose. Numa das noites em que eu reforçava minhas defesas para enfrentar os pesadelos, saí do meu rumo, fui arrastado pela ressaca para os lados da praça João Mendes e, quando vi, estava, não sei como, na porta de - nada mais, nada menos - uma liga antialcoólica. O que me empurrou para dentro é uma questão que passo ao leitor. No dia, atribuí o impulso à curiosidade: ia conhecer meus opostos.
A reunião já havia começado. Umas cinquenta pessoas acompanhavam o relato de um senhor que, pelo aspecto, eu apostaria jamais ter tomado nada mais forte que um Biotônico Fontoura ou uma groselha. No entanto, ele nos garantia que, com aquela cara de santo, tinha sido capaz, antes de entrar na associação, de espancar a mulher dia sim dia sim, durante anos, sem nunca admitir que o fazia, porque o álcool transformava certos momentos de sua vida num buraco negro, inacessível à memória. Depois dele, outros convertidos falaram. E eram histórias tristes, de gente que estourava o cofrinho dos filhos, torrava a herança da mãe e desviava o dinheiro da firma para manter a barriga encostada no balcão. Ouvi uma, ouvi outra, ouvi todas e descobri que não estava entre opostos, mas entre semelhantes. Como eu, eles haviam julgado ser campeões e não passaram de perdedores até o dia em que, finalmente, reconheceram isso.
Quando o coordenador da reunião perguntou se havia ali mais alguém escravizado pelo álcool e disposto a se libertar, cinco homens de rosto sofrido levantaram timidamente a mão. Eu era um deles e não me arrependo do gesto, passados vinte anos. Espero que os outros quatro também não.
Raul Drewnick, "Antes de Madonna"
Duas instituições impediam que eu me entregasse ao copo em período integral: o trabalho e a família. O primeiro me roubava, de segunda a sábado, pelo menos cinco irrecuperáveis horas por dia. A segunda - mulher e, na época, dois filhos - submetia-me à sua tirania especialmente nos fins de semana: eu ansiava por me enfiar em uma bodega qualquer, para emborcar uns bons conhaques, e acabava indo parar em uma matinê de Tom e Jerry, em um teatrinho infantil ou em um cirquinho de periferia, onde minhas mãos, atacadas de inexplicável tremor nessa época, emborcavam não os cálices almejados, mas os algodões-doces, as pipocas e os refrigerantes que meus filhos me mandavam segurar, enquanto aplaudiam as peripécias da tela, as aventuras do palco ou as eletrizantes atrações do picadeiro.
Esses contratempos me exasperavam, mas não me desviavam de minha vocação. Nem podiam. Eu era um grande copo, possivelmente o maior de todos, e nada ia me tirar esse orgulho. Nem a família, nem o trabalho, nem o tremor nas mãos, nem as vacilações de memória que eu começava a notar. Não era nada grave. Simplesmente me acontecia, algumas vezes, acordar e não lembrar nem como tinha chegado nem como havia subido a escada até o meu quarto. Nessas ocasiões, minha mulher me dizia que eu viera carregado por vizinhos ou por motoristas de táxi. Naturalmente, eu não acreditava nela, nem dava atenção às suas censuras. Vestia-me depressa e corria para o bar. Lá me respeitavam.
Não perdi a confiança no meu taco nem quando ratos, cobras e morcegos passaram a invadir minha casa e meu sono. Tinha um remédio infalível: aumentar a dose. Numa das noites em que eu reforçava minhas defesas para enfrentar os pesadelos, saí do meu rumo, fui arrastado pela ressaca para os lados da praça João Mendes e, quando vi, estava, não sei como, na porta de - nada mais, nada menos - uma liga antialcoólica. O que me empurrou para dentro é uma questão que passo ao leitor. No dia, atribuí o impulso à curiosidade: ia conhecer meus opostos.
A reunião já havia começado. Umas cinquenta pessoas acompanhavam o relato de um senhor que, pelo aspecto, eu apostaria jamais ter tomado nada mais forte que um Biotônico Fontoura ou uma groselha. No entanto, ele nos garantia que, com aquela cara de santo, tinha sido capaz, antes de entrar na associação, de espancar a mulher dia sim dia sim, durante anos, sem nunca admitir que o fazia, porque o álcool transformava certos momentos de sua vida num buraco negro, inacessível à memória. Depois dele, outros convertidos falaram. E eram histórias tristes, de gente que estourava o cofrinho dos filhos, torrava a herança da mãe e desviava o dinheiro da firma para manter a barriga encostada no balcão. Ouvi uma, ouvi outra, ouvi todas e descobri que não estava entre opostos, mas entre semelhantes. Como eu, eles haviam julgado ser campeões e não passaram de perdedores até o dia em que, finalmente, reconheceram isso.
Quando o coordenador da reunião perguntou se havia ali mais alguém escravizado pelo álcool e disposto a se libertar, cinco homens de rosto sofrido levantaram timidamente a mão. Eu era um deles e não me arrependo do gesto, passados vinte anos. Espero que os outros quatro também não.
Raul Drewnick, "Antes de Madonna"
sábado, agosto 15
Menino
Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco. A gente toda que estava ali olhava para o quadro como se estivesse a assistir a um espetáculo. Vi então que minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la, quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou estão que todos saíssem, que só podia ficar ali a Polícia e mais ninguém.
Levaram-me para o fundo da casa, onde os comentários sobre o fato eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai ainda com o revolver na mão e a minha mãe ensanguentada. “O doutor matou a Dona Clarisse! Por quê?” Ninguém sabia compreender. O que eu sentia era uma vontade desesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijar minha mãe. Mas a porta do quarto estava fechada, e o homem sisudo que entrara não permitia que ninguém se aproximasse dali. O criado e a ama, diziam, estavam lá dentro em interrogatório. O que se passou depois não me ficou bem na memória.
À tarde o criado leu para a gente da cozinha os jornais com os retratos grandes de minha mãe e meu pai. Ouvi como se aquilo fosse uma história de Trancoso. Pareciam-me tão longe, já, os factos da manhã, que aquela narrativa me interessava como se não fossem os meus pais os protagonistas. Mas logo que vi na página de um dos jornais a minha mãe, estendida, com os cabelos soltos e a boca aberta, caí num choro convulsivo. Levaram-me estão para a praça que ficava perto de minha casa. Lá estavam outros meninos do meu tamanho e eu brinquei com eles a tarde toda. As crianças é que conversavam muito sobre o meu pai e a minha mãe, contando umas às outras coisas a que eu não prestava atenção, pois no que eu cuidava era nos meus brinquedos com os amigos. Na hora de dormir foi que senti de verdade a ausência da mãe. A casa vazia e o quarto dela fechado. Um soldado tomando conta de tudo. As criadas da vizinhança queriam vir conversar por ali. O soldado não consentia. Deitaram-me a dormir, sozinho. E o sono demorou a chegar. Fechava os olhos, mas faltava-me qualquer coisa. Pela minha cabeça passavam, às pressas e truncados, os sucessos do dia. Então começava a chorar baixinho para o travesseiro, um choro abafado, de quem tivesse medo de chorar.
José Lins do Rego, "Menino de Engenho"
Rio Cachoeira
Havia o fragor de espumas,
Havia o verde das vagas,
Havia o tesouro na ilha,
Havia o areal de prata.
Havia margarida nas margens,
Havia borboletas no barranco,
Havia o sol na canoa,
Havia as fotos da lua.
Havia lavadeira nas pedras,
Havia andorinhas na vidraça,
Havia areeiros na música,
Havia pescadores na fábula.
Ao menino bebedor de poesia
Que falava com os peixes no mergulho
Certamente uma miragem que havia,
Sem saber de encalhe e caramujo
Reservando o pantanal de ventania.
O rio transpira claro nessa tarde
Na voz que vem das águas sem alarde
Dizendo que no leito antigamente
O tempo conspirava no horizonte.
Se na manhã de azul era banhado
Noturno o rio mirava o bem-amado.
Havia o verde das vagas,
Havia o tesouro na ilha,
Havia o areal de prata.
Havia margarida nas margens,
Havia borboletas no barranco,
Havia o sol na canoa,
Havia as fotos da lua.
Havia lavadeira nas pedras,
Havia andorinhas na vidraça,
Havia areeiros na música,
Havia pescadores na fábula.
Ao menino bebedor de poesia
Que falava com os peixes no mergulho
Certamente uma miragem que havia,
Sem saber de encalhe e caramujo
Reservando o pantanal de ventania.
O rio transpira claro nessa tarde
Na voz que vem das águas sem alarde
Dizendo que no leito antigamente
O tempo conspirava no horizonte.
Se na manhã de azul era banhado
Noturno o rio mirava o bem-amado.
Cyro de Mattos
Jardineiros
Tenho especial carinho pelos profissionais da área, desde que, na adolescência, acompanhei na extinta TV Tupi a novela “O jardineiro espanhol”, em que o protagonista sofria toda sorte de injustiças, mas não deixava de amar seu ofício. Anos mais tarde, conheci um jardineiro da Prefeitura e com ele conversava sobre plantas e livros, porque ambos gostávamos de ler. Era um homem doce e tinha orgulho de exibir sua obra anônima nos jardins e praças municipais, cuidando do verde como filho. Também gostava de poesia, e me presenteou com um livro de bolso de Casimiro de Abreu, bastante usado e já sem capa, por certo de tanto ser manuseado.
Agora moro numa torre cuja entrada conta com um jardim encantador, com folhagem farta e muitas flores. Estão sempre bonitas, graças ao trato cuidadoso do zelador, que quase todas as tardes as rega e livra de eventuais parasitas. Num desses dias de sol, elogiei sua dedicação. Mas através dele descobri que, além dos canteiros floridos da frente, o prédio guarda surpresas para os mais atentos.
Satisfeito com meu interesse, levou-me até o pomar: outro pequeno gramado nos fundos do edifício, onde discretamente crescem árvores frutíferas. Ali voltei à infância, porque fui apresentada a uma amoreira ainda jovem, entre várias outras. Viajei até o quintal da tia Carlota, onde colhia e comia amoras, além de imaginar que eram os cachos de uva das bonecas. Penso que, logo, haverá borboletas e passarinhos por aqui, atraídos pelos frutos.
Mas o melhor ainda estava por vir. “Tenho um segredo”, revelou o amigo zelador. E me mostrou um cantinho discreto onde cultiva pimenta-de-janela e alecrim em vasos. Esfregamos nas mãos um ramo do condimento, e elas ficaram imediatamente perfumadas. Como é bom estreitar laços com a natureza, tão presente e tão esquecida em nossas vidas… E como é bom saber que ainda existem pessoas sensíveis, que se deixam tocar pelos jardins, seus perfumes e cores, suas histórias de ontem e de hoje. Jardineiros que resistem à frieza da cidade e do concreto. Poetas modestos, que talvez nem saibam que fazem brotar poesia da terra.
Agora moro numa torre cuja entrada conta com um jardim encantador, com folhagem farta e muitas flores. Estão sempre bonitas, graças ao trato cuidadoso do zelador, que quase todas as tardes as rega e livra de eventuais parasitas. Num desses dias de sol, elogiei sua dedicação. Mas através dele descobri que, além dos canteiros floridos da frente, o prédio guarda surpresas para os mais atentos.Satisfeito com meu interesse, levou-me até o pomar: outro pequeno gramado nos fundos do edifício, onde discretamente crescem árvores frutíferas. Ali voltei à infância, porque fui apresentada a uma amoreira ainda jovem, entre várias outras. Viajei até o quintal da tia Carlota, onde colhia e comia amoras, além de imaginar que eram os cachos de uva das bonecas. Penso que, logo, haverá borboletas e passarinhos por aqui, atraídos pelos frutos.
Mas o melhor ainda estava por vir. “Tenho um segredo”, revelou o amigo zelador. E me mostrou um cantinho discreto onde cultiva pimenta-de-janela e alecrim em vasos. Esfregamos nas mãos um ramo do condimento, e elas ficaram imediatamente perfumadas. Como é bom estreitar laços com a natureza, tão presente e tão esquecida em nossas vidas… E como é bom saber que ainda existem pessoas sensíveis, que se deixam tocar pelos jardins, seus perfumes e cores, suas histórias de ontem e de hoje. Jardineiros que resistem à frieza da cidade e do concreto. Poetas modestos, que talvez nem saibam que fazem brotar poesia da terra.
O Angelus nos mares da Sicília
O dia se tinha escoado em meio a exaustivos cuidados para evitar o naufrágio, e a noite começava a descer. Aproximávamo-nos de Messina, e eu me lembrava da profecia do piloto, que nos havia anunciado que duas horas após a Ave-Maria teríamos chegado ao nosso destino. Isso me recordou que desde nossa partida eu não havia visto nenhum dos nossos marinheiros cumprir ostensivamente os deveres da Religião, que no entanto os filhos do mar consideram sagrados.
Havia mais: uma pequena cruz de oliveira incrustada de nácar, semelhante àquelas que os monges do Santo Sepulcro fazem e os peregrinos trazem de Jerusalém, havia desaparecido de nossa cabine, e eu a havia reencontrado na proa da embarcação, acima de uma imagem da Madonna di Pie’ di Grotta, sob a invocação da qual nossa pequena embarcação estava colocada. Depois de me ter informado se havia um motivo particular para mudar a cruz de lugar, e ter sabido que não, eu a retomei de onde estava e a levei à cabine, na qual ficou desde então. Estava claro que a Madonna, agradecida sem dúvida, nos protegera na hora do perigo.
Nesse momento eu me virara, e percebi o capitão próximo a nós.
— Capitão — disse-lhe — parece-me que em todos os navios napolitanos, genoveses ou sicilianos, quando vem a hora da Ave-Maria, se faz uma prece em comum. Não é esse o seu hábito a bordo do Speronare?
— De fato, Excelência, de fato! — respondeu vivamente o capitão — E devo esclarecer que estamos embaraçados por não o podermos fazer.
— Mas o que o impede?
— Desculpe-me, Excelência, mas como nós conduzimos com freqüência ingleses que são protestantes, gregos que são cismáticos e franceses que não são nada, temos sempre receio de ferir a crença ou de excitar a incredulidade de nossos passageiros pela vista de práticas religiosas que não serão as deles. Mas quando os passageiros nos autorizam a agir cristãmente, somos muito agradecidos a eles por isso. De sorte que, se o permite…
— Como não, capitão! Eu lhes peço, e se quiserem podem começar em seguida; parece-me que já está próximo das dezoito horas…
O capitão tirou seu relógio, e vendo que não havia tempo a perder, anunciou em voz alta:
— A Ave-Maria!
A estas palavras, cada um saiu das escotilhas e lançou-se no convés. Mais de um, sem dúvida, já havia começado mentalmente a Saudação Angélica, mas a interrompeu para vir tomar parte na prece geral.
De um extremo ao outro da Itália, essa oração, que cai em uma hora solene, encerra o dia e abre a noite. Esse momento do crepúsculo, em toda parte cheio de poesia, no mar se acresce de uma santidade infinita. Essa misteriosa imensidade do ar e das ondas, esse sentimento profundo da fraqueza humana comparada ao poder onipotente de Deus, essa escuridão que avança, e durante a qual o perigo sempre presente vai ainda crescer, tudo isso predispõe o coração a uma melancolia religiosa, a uma confiança santa que soergue a alma nas asas da fé. Essa tarde sobretudo, o perigo do qual acabáramos de escapar, e que nos era lembrado de tempos em tempos por uma onda encapelada ou rugidos longínquos, tudo inspirava à tripulação e a nós um recolhimento profundo.
No momento em que nos juntávamos no convés, a noite começava a tornar-se mais espessa no oriente. As montanhas da Calábria e a ponta do cabo de Pelora perdiam sua bela cor azul para se confundir em uma tintura acinzentada que parecia descer do céu, como se estivesse caindo uma fina chuva de cinzas. A ocidente, um pouco à direita do arquipélago de Lipari, cujas ilhas de formas extravagantes destacavam-se com vigor sobre um horizonte de fogo, o sol alargado e listrado de longas faixas violetas começava a embeber a orla de seu disco no Mar Tirreno, que, cintilante e movimentado, parecia rolar ondas de ouro fundido.
Nesse momento o piloto levantou-se atrás da cabine e tomou em seus braços o filho do capitão, que pôs de joelhos sobre o estrado. Abandonando o leme, como se a embarcação estivesse suficientemente guiada pela oração, sustentou o menino para que o balanço não lhe fizesse perder o equilíbrio. Esse grupo singular destacou-se logo sobre um fundo dourado, semelhante a uma pintura de Giovanni Fiesole ou de Benozzo Gozzoli. Com uma voz tão fraca que apenas chegava até nós, e que entretanto subia até Deus, começou a recitar a prece virginal, que os marinheiros escutavam de joelhos, e nós inclinados.
Eis uma dessas lembranças para as quais o pincel é inábil e a pena insuficiente; eis uma dessas cenas que nenhuma narração pode descrever, nenhum quadro pode reproduzir, porque a sua grandiosidade está inteira no sentimento íntimo dos atores que a realizam. Para um leitor de viagens ou um amador das coisas do mar, será apenas uma criança que ora, homens que respondem e um navio que flutua. Mas para qualquer um que tiver assistido a uma cena assim, será um dos mais magníficos espetáculos que ele tenha visto, uma das mais magníficas lembranças que ele tenha guardado. Será a fraqueza que reza, a imensidade que olha, e Deus que escuta.
Alexandre Dumas, Pai
Havia mais: uma pequena cruz de oliveira incrustada de nácar, semelhante àquelas que os monges do Santo Sepulcro fazem e os peregrinos trazem de Jerusalém, havia desaparecido de nossa cabine, e eu a havia reencontrado na proa da embarcação, acima de uma imagem da Madonna di Pie’ di Grotta, sob a invocação da qual nossa pequena embarcação estava colocada. Depois de me ter informado se havia um motivo particular para mudar a cruz de lugar, e ter sabido que não, eu a retomei de onde estava e a levei à cabine, na qual ficou desde então. Estava claro que a Madonna, agradecida sem dúvida, nos protegera na hora do perigo.
Nesse momento eu me virara, e percebi o capitão próximo a nós.
— Capitão — disse-lhe — parece-me que em todos os navios napolitanos, genoveses ou sicilianos, quando vem a hora da Ave-Maria, se faz uma prece em comum. Não é esse o seu hábito a bordo do Speronare?
— De fato, Excelência, de fato! — respondeu vivamente o capitão — E devo esclarecer que estamos embaraçados por não o podermos fazer.
— Mas o que o impede?
— Desculpe-me, Excelência, mas como nós conduzimos com freqüência ingleses que são protestantes, gregos que são cismáticos e franceses que não são nada, temos sempre receio de ferir a crença ou de excitar a incredulidade de nossos passageiros pela vista de práticas religiosas que não serão as deles. Mas quando os passageiros nos autorizam a agir cristãmente, somos muito agradecidos a eles por isso. De sorte que, se o permite…
— Como não, capitão! Eu lhes peço, e se quiserem podem começar em seguida; parece-me que já está próximo das dezoito horas…
O capitão tirou seu relógio, e vendo que não havia tempo a perder, anunciou em voz alta:
— A Ave-Maria!
A estas palavras, cada um saiu das escotilhas e lançou-se no convés. Mais de um, sem dúvida, já havia começado mentalmente a Saudação Angélica, mas a interrompeu para vir tomar parte na prece geral.
De um extremo ao outro da Itália, essa oração, que cai em uma hora solene, encerra o dia e abre a noite. Esse momento do crepúsculo, em toda parte cheio de poesia, no mar se acresce de uma santidade infinita. Essa misteriosa imensidade do ar e das ondas, esse sentimento profundo da fraqueza humana comparada ao poder onipotente de Deus, essa escuridão que avança, e durante a qual o perigo sempre presente vai ainda crescer, tudo isso predispõe o coração a uma melancolia religiosa, a uma confiança santa que soergue a alma nas asas da fé. Essa tarde sobretudo, o perigo do qual acabáramos de escapar, e que nos era lembrado de tempos em tempos por uma onda encapelada ou rugidos longínquos, tudo inspirava à tripulação e a nós um recolhimento profundo.
No momento em que nos juntávamos no convés, a noite começava a tornar-se mais espessa no oriente. As montanhas da Calábria e a ponta do cabo de Pelora perdiam sua bela cor azul para se confundir em uma tintura acinzentada que parecia descer do céu, como se estivesse caindo uma fina chuva de cinzas. A ocidente, um pouco à direita do arquipélago de Lipari, cujas ilhas de formas extravagantes destacavam-se com vigor sobre um horizonte de fogo, o sol alargado e listrado de longas faixas violetas começava a embeber a orla de seu disco no Mar Tirreno, que, cintilante e movimentado, parecia rolar ondas de ouro fundido.
Nesse momento o piloto levantou-se atrás da cabine e tomou em seus braços o filho do capitão, que pôs de joelhos sobre o estrado. Abandonando o leme, como se a embarcação estivesse suficientemente guiada pela oração, sustentou o menino para que o balanço não lhe fizesse perder o equilíbrio. Esse grupo singular destacou-se logo sobre um fundo dourado, semelhante a uma pintura de Giovanni Fiesole ou de Benozzo Gozzoli. Com uma voz tão fraca que apenas chegava até nós, e que entretanto subia até Deus, começou a recitar a prece virginal, que os marinheiros escutavam de joelhos, e nós inclinados.
Eis uma dessas lembranças para as quais o pincel é inábil e a pena insuficiente; eis uma dessas cenas que nenhuma narração pode descrever, nenhum quadro pode reproduzir, porque a sua grandiosidade está inteira no sentimento íntimo dos atores que a realizam. Para um leitor de viagens ou um amador das coisas do mar, será apenas uma criança que ora, homens que respondem e um navio que flutua. Mas para qualquer um que tiver assistido a uma cena assim, será um dos mais magníficos espetáculos que ele tenha visto, uma das mais magníficas lembranças que ele tenha guardado. Será a fraqueza que reza, a imensidade que olha, e Deus que escuta.
Alexandre Dumas, Pai
sexta-feira, agosto 14
A poesia não vai
A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.
Eugénio de Andrade
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.
Eugénio de Andrade
Os velhos e a borboleta
Para Gerana Damulakis
The bee is not afraid of me,I know the butterfly,The pretty people in the WoodsReceive me cordially.Emily Dickinson
O velho de cabelos grisalhos diz para o outro que a larva da borboleta não tece casulo, passando o período ninfal sob a forma de crisálida. Acrescenta com a voz mansa que a borboleta voa pela campina e o ar ilumina. Dá aulas de balé como a única bailarina do mundo que não usa sapatilha. Milagre na estação temperada de sol, oscila no voo pela colina, vive suavemente o sonho de viajar na natureza apenas um dia. Bailar, amar, é essa a sua vida no ar. Transluz na plantinha a sustentável leveza de ser, treme asas quando recebe da brisa ligeira convite para exercer a vida como a fantasia de um dia. E, sob ondulações que resvalam nas lâminas do ar, sabe que não existe sonho mais belo do que viver em tácito entendimento com a luz. Na poeira dourada da flor, a borboleta reverbera a fina escrita da beleza.
Muitas borboletas cobriam a terra fresca nos barrancos do rio, dando ideia de um manto feito com asas brancas, azuis e amarelas. Os meninos que tiveram comigo a felicidade de viver a aventura da infância achavam bonito ver as borboletas voando em bando, acima do rio. Nuvens formavam uma sinfonia de asas acima do espelho das águas. Era algo especial nas tardes de verão. Da balaustrada no jardim merecia ser contemplado. As borboletas oscilavam para o norte ou sul, voltavam, subiam, desciam, pousavam no barranco das margens do rio e da ilha.
Os velhos comparecem ao jardim para conversar sobre a idade das águas. Muitas já passaram por debaixo da ponte, bem sabem eles do inevitável dessas águas que correm para o mar. Embora o homem passe tocando suave o realejo, o menino anuncie a manchete do dia, tentando vender o jornal aos velhos, o que importa a eles nesse instante é indagar sobre as sombras na tarde, sentindo que os olhos não chegam a compreender aquilo que entardece sobre manchas. Penso que ficam contentes quando aparece uma borboleta, com seus devaneios de asas que purificam os olhos cansados da vida. A borboleta fica distraindo os velhos no voo translúcido ou pousada na flor, sem querer de suas almas nada em troca.
A pureza que uma borboleta põe na manhã tem a ver com a alegria dos sons que os passarinhos soltam dos bicos inquietos, voando ou saltitando nos galhos das árvores em floração. Asas sedosas enternecem enquanto sons de ouro alegram num só momento pleno dessa música que a natureza dá de graça, fazendo que os velhos esqueçam que o tempo engole a vida, virando a página de tudo em rigor de atitude que comanda.
O velho de cabelos grisalhos, numa voz indicativa de admiração, ante o milagre que faz a borboleta ser vida, observa para o outro que somente Deus pode criar tamanha ternura numa existência tão curta. Embora bem mais longa, ele sabe que a vida dos seres humanos tem também um fim. Ele mesmo rodopiará quando chegar o momento e cairá em algum lugar desconhecido. Como os outros, ele faz parte dessa regra soberba, criada pela natureza sem exceção. “Quando chegar minha vez e eu cair, haverá o anjo da guarda com asas de borboleta para me guiar depois da curva na estrada”, pulsa no velho de cabelos grisalhos esse pensamento, que apareceu de súbito na mente, irrompendo do escuro como um facho salvador.
Enquanto isso não acontecer, a borboleta no jardim virá propor as flores para dessa maneira adornar a conversa acerca dos anos idos e vividos. Perfumará as vozes que lembrarão o ritmo da cidade cada vez mais crescente, gente comprando e vendendo no comércio como num formigueiro. Tranquilizará os gestos dos velhos banhando-se na manhã de sol, recebendo a brisa na pele enrugada, em carícia de lenço. Um deles, que gosta de usar camisa axadrezada, boné azul-marinho, provavelmente estará informando, a certa altura da conversa vagarosa, sobre a coleção de carros novos do fazendeiro abastado. Como ele gosta de mostrá-la aos amigos no churrasco de fim-de-semana, que oferece na fazenda.
Acontece que, pensando, pensando, quando de novo brilhar na manhã do jardim as carícias que a borboleta vem fazer na rosa, extraindo na manhã de luz um beijo sutilíssimo feito de nácar e seda, belo, belo, belo, o velho de cabelos grisalhos não terá mais dúvida que, entre todos os homens abastados da cidade, somente ele é o ganhador.
Irá viajar pelo jardim, de canto a canto, com asas de borboleta. Pousará em cada flor para fazer carícia na manhã radiante de sol e cantos de passarinhos fazendo sua festa, voando e saltitando nos galhos da árvore salpicada de flores, que caem no chão formando uma camada quando o vento passa forte e refresca com as suas lufadas a atmosfera.
Grande Umbra
Na Era da Grande Umbra, não sobrou vivalma na Terra.
Não sobrou um único exemplar de ginkgo biloba nem uma barata, a árvore e o inseto mais resistentes do planeta. Todavia, a tantos milhões de anos-luz de distância e tanto tempo depois do eclipse original, em Seh2U_el, não existe recordação da Grande Umbra que preencha a memória dos Olhos-Vivos.Eu sou um Olho-Vivo de Última Ordem. A vós contarei – não aquilo de que me lembro, uma vez que os Olhos-Vivos não têm lembranças –, mas o que trouxe para Seh2U_el, muito depois de tudo acontecer.
Em primeiro lugar, dir-vos-ei que pertenço a uma linhagem marginal e amaldiçoada, sou feito de escória de terras raras, o que guardo é limitado, mas importante, apesar de, segundo alguns antigos humanos, não servir para nada. Não ser útil. Não servir como alimento. Não servir como bebida. Não servir para prover à sobrevivência. Não à nossa, claro, à dos ditos humanos, do reino da utilidade e do utilitarismo.
– Isso serve para quê ao certo?
Em Seh2U_el, a atmosfera ainda é mais violenta do que a da Terra na Era da Grande Umbra: chuvas de meteoritos, ventos ciclónicos que arrastam poeiras radioativas e gases tóxicos, uma neblina rala que corre sobre poças de ácidos corrosivos, deixando a nu uma superfície desértica. Se eu fosse um ser vivo, diria que, em Seh2U_el, a atmosfera é letal. Todavia, não posso afirmar tal coisa: um Olho-Vivo é apenas Memória enviada pelos humanos, para longe do seu planeta moribundo de modo que, um dia, tudo possa renascer, ser replicado noutra galáxia, noutra dimensão do espaço-tempo. Não sabemos quando isso acontecerá, se é que alguma vez acontecerá.
A geração inicial de Olhos-Vivos, batizada de Primeira Ordem, foi concebida para levar nos seus núcleos as células de todos os animais e as sementes de todas as plantas, como uma espécie de arca de Noé intergaláctica. Outros foram programados para encontrar um local onde, reunidas as condições mínimas, a vida terráquea pudesse recomeçar do zero. Esses ainda andam por aí, pelas galáxias, de Andrómeda à do Sombrero, de NGC 1300 a M87, em busca do Paraíso Perdido.
Eu sou da casta dos Últimos, dos que esperam. Estamos aqui em Seh2U_el, abrigados em galerias subterrâneas, numa espécie de hibernação que dura há uma eternidade – embora esse seja um conceito filosófico – a tender para o infinito matemático, desde que se abateu a Grande Umbra sobre a Terra. Todos temos uma forma esférica, do tamanho de um ovo de codorniz ao de um ovo de ganso e, no espaço, podemos igualar a velocidade da luz. Contemos ainda, além do precioso núcleo, um estrato mínimo de informação generalista que nos permite, por exemplo, saber o que são e comparar o tamanho de ovos.
Devo então explicar-vos o que aconteceu num passado indefinível na Terra: um eclipse do sol estava anunciado. O eclipse duraria, nas zonas de umbra, devido às forças em presença, no máximo, sete minutos e vinte segundos. Os humanos juntaram-se aí, aos magotes, com óculos de cartão na ponta do nariz alguns, outros armados com telescópios, para ver a Lua a interpor-se entre o Sol e a Terra até devorar por completo a sua circunferência, um minuto, dois, três, e depois sete. E depois oito minutos. E depois horas, dias, meses, um ano, uma década, séculos e séculos. É isso a Grande Umbra. Uma impossibilidade pelas leis da Física. Só que ainda dura, tanto quanto sei.
– E o que é que eu sei?
Quando perceberam a irreversibilidade do eclipse, os humanos quiseram fugir. No entanto, não havia para onde escapar da escuridão que se abateu sobre todo o planeta. As plantas deixaram de fazer fotossíntese, as colheitas pereceram, o plâncton morreu, depois os animais e os peixes, e a catástrofe alastrou em todos os ecossistemas, da terra aos mares. A temperatura desceu e desceu e desceu até uma crosta de gelo cobrir montes e vales e a superfície dos oceanos congelar.
Dos animais, restou o esquilo-do-Ártico que conseguia reduzir os batimentos cardíacos de trezentos por minuto a um único batimento por minuto e hibernar, com uma temperatura corporal de zero graus, mais de oito meses debaixo de meio metro de gelo. Quanto acordou da hibernação, não havia alimento. Morreu.
Dos humanos, sobreviveram apenas os incrivelmente ricos e poderosos, os que tiveram forma de aproveitar algum calor do núcleo da Terra ou que conceberam e controlaram, com muito custo, fontes de calor e luz artificial. Essa elite, que descendia de gente estúpida e sem escrúpulos, que não sabia ler nem escrever, muito menos raciocinar, vivia sustida por aditivos de doron, a droga da inteligência, e dominava outros ainda mais estúpidos e sem posses para comprar a dose diária dessa substância. No entanto, mesmo esses sabiam que todos os recursos acabariam por se extinguir.
Foi Hikari-to-Kage, a Insigne Cientista, que idealizou o Projeto Olhos-Vivos. A princípio, tudo correu bem: os Olhos-Vivos de Primeira Ordem seguiram para o espaço. A ganância da elite, no seu afã de salvar a própria pele, veio então corroer as coisas. Exigiu a Hikari-to-Kage, sob pena de morte, a criação de Olhos-Vivos hospedeiros, para si própria e para os seus filhos. A Insigne Cientista aquiesceu, mas criou apenas um protótipo disfuncional, que explodiu e se despenhou no momento do lançamento, enquanto ela fugia.
Hikari-to-Kage passou o resto da vida em fuga, a roubar e a catar o lixo dos laboratórios, e com restos de escória, construiu-nos, um por um. Antes de morrer, ou de ser eliminada, enviou para o espaço, à revelia da elite mandante, centenas de Olhos-Vivos cujos núcleos contêm, desmaterializadas, algumas das maiores obras de arte produzidas pelos humanos. Um trouxe a Pietà de Miguel Ângelo. O outro, a Odisseia de Homero. Aqueloutro, A Deposição da Cruz de Caravaggio. Eu carrego o Requiem de Mozart. Calhou-nos vir para Seh2U_el que, ironicamente, significa “Sol” em proto indo-europeu, uma língua reconstruída por linguistas também eles há muito desaparecidos.
Quando os Olhos-Vivos de Primeira Ordem encontrarem o Paraíso Perdido, instalar-nos-emos todos lá, reconstituiremos o mundo natural e, conforme o sonho de Hikari-to-Kage, a Insigne Cientista, a humanidade reencontrará o seu destino solar, luminoso e próspero, a Era da Grande Umbra dará então lugar à Era da Grande Luz. Enquanto isso não acontece, as notas do Requiem ecoam, circulares, perfeitas, mágicas, nas entranhas de Seh2U_el.
– Serão os humanos capazes de salvar a sua humanidade?
É velhice ou não sei ler?
Sofro de memória curta para certas lembranças, inclusive para livros inteiros, muitos deles desbravados na hora, ardentemente e, mais à frente, esquecidos, ainda que me deixem algum rescaldo de tênue consistência.Falo assim tendo à mão uma velha crônica de Martinho Moreira Franco fazendo menção ao meu pegadio com livros, dependência que não está longe do modo como vivi a primeira infância: filho único numa casa solitária, à distância de outras casas com crianças, cercado de advertências e medos de lobisomens (nesse tempo existia), de cachorro doente, do bote do guaxinim, de cobra coral, a que mais deslizava por entre as ervas rasteiras dos cantos de parede. Medo do doido Olegário, que andava pelos altos com seu grito rouco de fonemas que não chegavam a ter sentido.
Resumia-me numa convivência de silêncios, somente quebrada pelas falas da cozinha e o zunido das abelhas em seu voo incessante, das flores para os cortiços enfileirados no alpendre, com frente para o sol benéfico da manhã.
Lu-iz! Era, de vez em quando, o chamado lá de dentro, de tônica bem aguda, para saber onde e o que eu estava fazendo.
Já lendo sozinho, foi nos poucos livros de D. Antonina, todos sagrados, e no jornalzinho da igreja que fui achar companhias. No primeiro ou segundo “livro de leitura” é que fui atrelar-me a um casal de crianças que rumava de trem das terras do cacau para as do café com leite, deixando-me atrapalhado em Pindamonhangaba. Aí demorei soletrando, perdendo os dois de vista, que se foram para sempre com o trem que se chegou a sonhar e que empacou antes da serra de Areia, em Alagoa Grande.
E me adomei nessa dependência, remoendo o despreparo para o esporte: o vôlei do tempo de ginásio, o futebol a mim reduzido ao time de botão, com uma seleção em que entravam desde craques do Treze aos do Vasco da Copa de 1950.
Como se pode ver, não me peguei com o livro por opção, mas como refúgio para não ficar falando sozinho. Some-se a isso o internato, no antigo Pio XI, do padre Odilon Pedrosa, com mais horas no salão de leitura, na sala de aula, na missa, do que nos intervalos das refeições e do recreio.
É uma dependência, para não dizer vício, mas com uma vantagem: os livros não mudam. Serenos ou arrebatados, venham de Machado ou de Zé Lins, de Carlos Romero ou de Hildeberto, serão sempre os mesmos e sempre com mais significados quando voltamos a eles.
Mas a memória não me ajuda muito, salvo em leituras que me ferraram a sensibilidade ou se juntaram, vívidas, à minha experiência, ao meu espírito.
Por mais que estudasse, a meu modo, o fazer literário ou me detivesse no emprego da palavra que a ideia exigia, muita coisa se apartou da memória.
Agora mesmo, coisa de uma semana atrás, dei com uma antologia do conto norte-americano lida há uns trinta anos. Passei as folhas tendo como bem lembrado e vivo apenas um conto do velho Steinbeck, O pônei alazão. Dos demais, inclusive Poe, Henry James ou o mais jovem deles, Saroyan, todos com expressões ou frases inteiras frisadas na primeira leitura, ressurgiam inteiramente apagados, fora da memória.
Resumia-me numa convivência de silêncios, somente quebrada pelas falas da cozinha e o zunido das abelhas em seu voo incessante, das flores para os cortiços enfileirados no alpendre, com frente para o sol benéfico da manhã.
Lu-iz! Era, de vez em quando, o chamado lá de dentro, de tônica bem aguda, para saber onde e o que eu estava fazendo.
Já lendo sozinho, foi nos poucos livros de D. Antonina, todos sagrados, e no jornalzinho da igreja que fui achar companhias. No primeiro ou segundo “livro de leitura” é que fui atrelar-me a um casal de crianças que rumava de trem das terras do cacau para as do café com leite, deixando-me atrapalhado em Pindamonhangaba. Aí demorei soletrando, perdendo os dois de vista, que se foram para sempre com o trem que se chegou a sonhar e que empacou antes da serra de Areia, em Alagoa Grande.
E me adomei nessa dependência, remoendo o despreparo para o esporte: o vôlei do tempo de ginásio, o futebol a mim reduzido ao time de botão, com uma seleção em que entravam desde craques do Treze aos do Vasco da Copa de 1950.
Como se pode ver, não me peguei com o livro por opção, mas como refúgio para não ficar falando sozinho. Some-se a isso o internato, no antigo Pio XI, do padre Odilon Pedrosa, com mais horas no salão de leitura, na sala de aula, na missa, do que nos intervalos das refeições e do recreio.
É uma dependência, para não dizer vício, mas com uma vantagem: os livros não mudam. Serenos ou arrebatados, venham de Machado ou de Zé Lins, de Carlos Romero ou de Hildeberto, serão sempre os mesmos e sempre com mais significados quando voltamos a eles.
Mas a memória não me ajuda muito, salvo em leituras que me ferraram a sensibilidade ou se juntaram, vívidas, à minha experiência, ao meu espírito.
Por mais que estudasse, a meu modo, o fazer literário ou me detivesse no emprego da palavra que a ideia exigia, muita coisa se apartou da memória.
Agora mesmo, coisa de uma semana atrás, dei com uma antologia do conto norte-americano lida há uns trinta anos. Passei as folhas tendo como bem lembrado e vivo apenas um conto do velho Steinbeck, O pônei alazão. Dos demais, inclusive Poe, Henry James ou o mais jovem deles, Saroyan, todos com expressões ou frases inteiras frisadas na primeira leitura, ressurgiam inteiramente apagados, fora da memória.
quinta-feira, agosto 13
Marta
“Tenho quarenta anos, sou um homem sensível, gosto de música, poesia e cinema. Sou advogado, solteiro, moro sozinho. Procuro parceira para uma relação duradoura, de amor e respeito. Romântico Incorrigível.”
Fiquei uma semana, eu, o Romântico Incorrigível, entrando em vários sites de chat, e já estava ficando cansado quando a mulher que eu procurava apareceu:
“Querido Romântico Incorrigível. Como você, estou também à procura de uma relação duradoura com alguém carinhoso e digno. Também amo música e poesia e principalmente cinema. Fale mais de você. Louise Brooks.”
“Querida Louise Brooks. Nunca casei, não porque não tivesse condições financeiras para isso, pelo contrário, sou um homem de recursos, não obstante leve uma vida modesta. Até hoje não me casei por não ter encontrado a mulher ideal. Dizem que isso não existe, que é uma visão romântica. Mas eu me recuso a aceitar esse pessimismo. É por isso que adotei o pseudônimo de Romântico Incorrigível. E você? Qual a razão de Louise Brooks?”
“Querido Romântico. Louise Brooks era uma atriz linda, do cinema mudo. Um dia um namorado me deu uma foto dela tão parecida comigo que eu a guardo até hoje. Uma mulher com um ar misterioso, que eu, na verdade, não tenho. Sou um livro aberto. Também nunca casei e procuro o homem ideal. Sei que vou encontrá-lo. Quem sabe ele não é você? Você tem namorada? Louise Brooks.”
“Querida Louise. Não, não tenho namorada. Gostaria de me encontrar com você. Você deve estar pensando, ele não me conhece, como pode querer se encontrar comigo? Mas eu tenho certeza de que vamos nos dar muito bem. Pensa nisso. Romântico.”
“Querido Romântico. Sou uma pessoa tímida, moro com a minha mãe, estou fazendo essa loucura pela primeira vez na minha vida, conversar com um estranho pela internet. Não sei se devo levar isso adiante. Tenho medo. Louise.”
Eu tinha pressa de pegar aquela mulher.
“Querida Louise. Também sou uma pessoa tímida como você, esta é a primeira vez que faço isso. Mas sei, numa espécie de premonição, que vamos nos dar muito bem. Posso passar na sua casa? Sei que a sua mãe vai gostar de mim. Romântico.”
“Querido Romântico. Na minha casa é impossível, tem que ser na sua. Me dá o endereço. Passo aí amanhã, no início da noite. Beijos. Louise.”
“Querida Louise. Meu endereço é rua Gomes Monteiro, terceiro andar. É um edifício de quatro andares, um apartamento por andar, um daqueles prédios antigos que a especulação imobiliária ainda não conseguiu destruir. Você toca o interfone que eu abro a porta. Aguardo você ansioso. Romântico.”
Fiquei tenso o dia inteiro, e à medida que a hora se aproximava eu ficava ainda mais. Eu precisava pegar aquela mulher.
Então o interfone tocou.
“É a Louise.”
Apertei o controle remoto. Pouco depois a campainha do apartamento soou. Abri.
Era um mulher muito branca, de cabelos tão negros que pareciam pintados. Vestia uma minissaia que exibia lindas e longas pernas alvas.
“Por favor, entre.”
Ali estava a mulher que eu procurava. Ela entrou. Pedi que se sentasse.
“Bonito apartamento. É seu?”
“É. Tenho outro, na Barra, que está alugado.”
“Meu nome verdadeiro é Diana.”
“O meu é Carlos.”
“Olha aqui a foto da Louise Brooks”, ela disse.
Olhei. Uma foto em preto e branco. O cabelo também era de um negror raro e o rosto muito branco. Linda mulher.
“Quer beber alguma coisa?”
“Um uisquinho.”
Eu apanhei na copa uma garrafa de uísque, uma de água mineral e um balde de gelo.
“Gosto do meu sem gelo, só água e uísque, mais uísque do que água”, eu disse.
“O meu com gelo, por favor, e bastante água.”
Preparei as nossas bebidas. Coloquei os copos em uma bandeja.
“Você tem alguma coisa para a gente beliscar?”, ela perguntou.
“Vou ver lá dentro, não demoro", respondi.
Demorei um pouco, com o saco de biscoitos na mão, sentado na copa. Queria dar tempo a ela.
Depois de uns minutos voltei. Louise ergueu o copo.
“Queria fazer um brinde, desejando que o nosso relacionamento seja duradouro, como você disse no seu e-mail.”
Levei meu copo aos lábios.
“Antes de beber vou apanhar também uns salgadinhos na cozinha”, falei. “Eu só trouxe biscoitos.”
Fui para a cozinha levando o meu copo. Fiz o que tinha de fazer. Voltei com um prato de salgadinhos.
Ergui o copo. “A uma relação duradoura”, eu disse.
“Tim, tim”, respondeu ela, batendo com o seu copo no meu.
Bebemos enquanto conversávamos.
Ela era órfã de pai, e a mãe viúva com quem morava era muito controladora. Não tinha outros parentes.
Contei que tinha quatro irmãs, todas mais velhas do que eu. Disse que gostaria de viajar com ela, ir a Paris, ou Nova York. Eu já tinha os dólares para a viagem separados. Ela disse que queria conhecer Katmandu.
“Vou buscar mais água na cozinha”, eu disse, levantando-me.
Mas assim que levantei, cambaleei, apoiando-me no espaldar da poltrona.
“Estou meio tonto...”
Ela me abraçou.
“Está tonto mesmo ou isso é um truque para eu abraçar você?” Segurou no meu pau, que estava mole. “Daqui a pouco eu faço ele ficar duro. Senta um pouco na poltrona”, ela disse.
Sentei-me e logo minha cabeça pendeu para a frente.
“Carlos, Carlos, você está bem?”
Não obteve resposta.
Um pouco depois ela sacudiu o meu braço.
“Carlos, está me ouvindo?”
Continuei mudo.
Ouvi o barulho de Diana tentando abrir o quarto fechado. Senti as mãos dela revistando meus bolsos. Em seguida ouvi a voz dela, devia estar falando num celular.
“Ígor, ele colapsou. As coisas devem estar num quarto trancado. Sim, eu espero, você sabe o endereço, não sabe? Toca a campainha.”
Continuei imóvel, derreado na poltrona. Ouvi a campainha.
“É o Ígor”, ouvi a voz no interfone.
Barulho de porta sendo aberta.
“Foi fácil?”, voz de homem.
“Moleza. Acho que joias, dólares e o que interessa estão nesse quarto trancado. Mas não achei a chave.”
“Deve estar no bolso dele.”
“Já revistei. Não tem chave nenhuma. Ígor, vamos apagar o cara, fazer o serviço completo.”
“Não gosto disso, Marta.”
“Porra, ele viu a minha cara. Se você cortar a garganta dele o cara não vai sentir nada. Serviço completo, Ígor, pra isso você leva metade e ainda me come.”
“Vamos arrombar a porta”, disse Ígor.
Mas a porta se abriu antes que a arrombassem.
Os dois tiras que trabalhavam comigo saíram do quarto com as armas apontadas para eles. Mandaram que os dois se deitassem no chão com as mãos para trás.
Enquanto os dois eram algemados eu me levantei do sofá.
“Marta Castro e Ígor da Silva, vocês estão presos pelo assassinato de Edgard Gouveia”, eu disse.
Os dois começaram uma discussão acalorada em que Ígor dizia que a ideia fora de Marta, que o obrigara a matar o sujeito, e Marta dizia que tentara impedir, mas Ígor matara assim mesmo.
“Quem matou foi você”, repetia Marta.
“Você mandou, sua puta”, dizia Ígor.
Discutiram sem parar, até chegarmos à delegacia, onde foram autuados e a prisão preventiva solicitada ao juiz. Iam ser condenados a uma pena longa de reclusão.
“Você não ficou desacordado e eu coloquei uma dose cavalar de entorpecente no seu copo. Como foi isso?”
“Quando fui na cozinha troquei de copo. O que eu bebi estava limpo.”
“Como foi que vocês me descobriram?”
“Examinando o computador da vítima de vocês, o Edgard Gouveia, que vocês mataram cortando a garganta. Estava lá inteirinho, o chat com a Louise Brooks. Você devia ter mudado o seu nome.”
“Mas eu queria ser ela. Louise é parecida comigo, não é?”
“Sim, muito”, respondi.
E era, realmente. Um rosto raro. Marta poderia ser modelo fotográfico ou fazer carreira no cinema. Mesmo sem mudar de nome. Mas quando saísse da cadeia seria tarde demais.
Rubem Fonseca, "Ela e Outras Mulheres"
Fiquei uma semana, eu, o Romântico Incorrigível, entrando em vários sites de chat, e já estava ficando cansado quando a mulher que eu procurava apareceu:
“Querido Romântico Incorrigível. Como você, estou também à procura de uma relação duradoura com alguém carinhoso e digno. Também amo música e poesia e principalmente cinema. Fale mais de você. Louise Brooks.”
“Querida Louise Brooks. Nunca casei, não porque não tivesse condições financeiras para isso, pelo contrário, sou um homem de recursos, não obstante leve uma vida modesta. Até hoje não me casei por não ter encontrado a mulher ideal. Dizem que isso não existe, que é uma visão romântica. Mas eu me recuso a aceitar esse pessimismo. É por isso que adotei o pseudônimo de Romântico Incorrigível. E você? Qual a razão de Louise Brooks?”
“Querido Romântico. Louise Brooks era uma atriz linda, do cinema mudo. Um dia um namorado me deu uma foto dela tão parecida comigo que eu a guardo até hoje. Uma mulher com um ar misterioso, que eu, na verdade, não tenho. Sou um livro aberto. Também nunca casei e procuro o homem ideal. Sei que vou encontrá-lo. Quem sabe ele não é você? Você tem namorada? Louise Brooks.”
“Querida Louise. Não, não tenho namorada. Gostaria de me encontrar com você. Você deve estar pensando, ele não me conhece, como pode querer se encontrar comigo? Mas eu tenho certeza de que vamos nos dar muito bem. Pensa nisso. Romântico.”
“Querido Romântico. Sou uma pessoa tímida, moro com a minha mãe, estou fazendo essa loucura pela primeira vez na minha vida, conversar com um estranho pela internet. Não sei se devo levar isso adiante. Tenho medo. Louise.”
Eu tinha pressa de pegar aquela mulher.
“Querida Louise. Também sou uma pessoa tímida como você, esta é a primeira vez que faço isso. Mas sei, numa espécie de premonição, que vamos nos dar muito bem. Posso passar na sua casa? Sei que a sua mãe vai gostar de mim. Romântico.”
“Querido Romântico. Na minha casa é impossível, tem que ser na sua. Me dá o endereço. Passo aí amanhã, no início da noite. Beijos. Louise.”
“Querida Louise. Meu endereço é rua Gomes Monteiro, terceiro andar. É um edifício de quatro andares, um apartamento por andar, um daqueles prédios antigos que a especulação imobiliária ainda não conseguiu destruir. Você toca o interfone que eu abro a porta. Aguardo você ansioso. Romântico.”
Fiquei tenso o dia inteiro, e à medida que a hora se aproximava eu ficava ainda mais. Eu precisava pegar aquela mulher.
Então o interfone tocou.
“É a Louise.”
Apertei o controle remoto. Pouco depois a campainha do apartamento soou. Abri.
Era um mulher muito branca, de cabelos tão negros que pareciam pintados. Vestia uma minissaia que exibia lindas e longas pernas alvas.
“Por favor, entre.”
Ali estava a mulher que eu procurava. Ela entrou. Pedi que se sentasse.
“Bonito apartamento. É seu?”
“É. Tenho outro, na Barra, que está alugado.”
“Meu nome verdadeiro é Diana.”
“O meu é Carlos.”
“Olha aqui a foto da Louise Brooks”, ela disse.
Olhei. Uma foto em preto e branco. O cabelo também era de um negror raro e o rosto muito branco. Linda mulher.
“Quer beber alguma coisa?”
“Um uisquinho.”
Eu apanhei na copa uma garrafa de uísque, uma de água mineral e um balde de gelo.
“Gosto do meu sem gelo, só água e uísque, mais uísque do que água”, eu disse.
“O meu com gelo, por favor, e bastante água.”
Preparei as nossas bebidas. Coloquei os copos em uma bandeja.
“Você tem alguma coisa para a gente beliscar?”, ela perguntou.
“Vou ver lá dentro, não demoro", respondi.
Demorei um pouco, com o saco de biscoitos na mão, sentado na copa. Queria dar tempo a ela.
Depois de uns minutos voltei. Louise ergueu o copo.
“Queria fazer um brinde, desejando que o nosso relacionamento seja duradouro, como você disse no seu e-mail.”
Levei meu copo aos lábios.
“Antes de beber vou apanhar também uns salgadinhos na cozinha”, falei. “Eu só trouxe biscoitos.”
Fui para a cozinha levando o meu copo. Fiz o que tinha de fazer. Voltei com um prato de salgadinhos.
Ergui o copo. “A uma relação duradoura”, eu disse.
“Tim, tim”, respondeu ela, batendo com o seu copo no meu.
Bebemos enquanto conversávamos.
Ela era órfã de pai, e a mãe viúva com quem morava era muito controladora. Não tinha outros parentes.
Contei que tinha quatro irmãs, todas mais velhas do que eu. Disse que gostaria de viajar com ela, ir a Paris, ou Nova York. Eu já tinha os dólares para a viagem separados. Ela disse que queria conhecer Katmandu.
“Vou buscar mais água na cozinha”, eu disse, levantando-me.
Mas assim que levantei, cambaleei, apoiando-me no espaldar da poltrona.
“Estou meio tonto...”
Ela me abraçou.
“Está tonto mesmo ou isso é um truque para eu abraçar você?” Segurou no meu pau, que estava mole. “Daqui a pouco eu faço ele ficar duro. Senta um pouco na poltrona”, ela disse.
Sentei-me e logo minha cabeça pendeu para a frente.
“Carlos, Carlos, você está bem?”
Não obteve resposta.
Um pouco depois ela sacudiu o meu braço.
“Carlos, está me ouvindo?”
Continuei mudo.
Ouvi o barulho de Diana tentando abrir o quarto fechado. Senti as mãos dela revistando meus bolsos. Em seguida ouvi a voz dela, devia estar falando num celular.
“Ígor, ele colapsou. As coisas devem estar num quarto trancado. Sim, eu espero, você sabe o endereço, não sabe? Toca a campainha.”
Continuei imóvel, derreado na poltrona. Ouvi a campainha.
“É o Ígor”, ouvi a voz no interfone.
“Sobe”, disse Diana.
Barulho de porta sendo aberta.
“Foi fácil?”, voz de homem.
“Moleza. Acho que joias, dólares e o que interessa estão nesse quarto trancado. Mas não achei a chave.”
“Deve estar no bolso dele.”
“Já revistei. Não tem chave nenhuma. Ígor, vamos apagar o cara, fazer o serviço completo.”
“Não gosto disso, Marta.”
“Porra, ele viu a minha cara. Se você cortar a garganta dele o cara não vai sentir nada. Serviço completo, Ígor, pra isso você leva metade e ainda me come.”
“Vamos arrombar a porta”, disse Ígor.
Mas a porta se abriu antes que a arrombassem.
Os dois tiras que trabalhavam comigo saíram do quarto com as armas apontadas para eles. Mandaram que os dois se deitassem no chão com as mãos para trás.
Enquanto os dois eram algemados eu me levantei do sofá.
“Marta Castro e Ígor da Silva, vocês estão presos pelo assassinato de Edgard Gouveia”, eu disse.
Os dois começaram uma discussão acalorada em que Ígor dizia que a ideia fora de Marta, que o obrigara a matar o sujeito, e Marta dizia que tentara impedir, mas Ígor matara assim mesmo.
“Quem matou foi você”, repetia Marta.
“Você mandou, sua puta”, dizia Ígor.
Discutiram sem parar, até chegarmos à delegacia, onde foram autuados e a prisão preventiva solicitada ao juiz. Iam ser condenados a uma pena longa de reclusão.
Antes de ser trancafiada, Marta conversou comigo.
“Você não ficou desacordado e eu coloquei uma dose cavalar de entorpecente no seu copo. Como foi isso?”
“Quando fui na cozinha troquei de copo. O que eu bebi estava limpo.”
“Como foi que vocês me descobriram?”
“Examinando o computador da vítima de vocês, o Edgard Gouveia, que vocês mataram cortando a garganta. Estava lá inteirinho, o chat com a Louise Brooks. Você devia ter mudado o seu nome.”
“Mas eu queria ser ela. Louise é parecida comigo, não é?”
“Sim, muito”, respondi.
E era, realmente. Um rosto raro. Marta poderia ser modelo fotográfico ou fazer carreira no cinema. Mesmo sem mudar de nome. Mas quando saísse da cadeia seria tarde demais.
Rubem Fonseca, "Ela e Outras Mulheres"
O melhor pretexto
É tão frágil a vida,
tão efémero, tudo!
(Não é verdade, amiga,
olhinhos-cor-de-musgo?)
E ao mesmo tempo é forte,
forte da veleidade,
de resistir à morte
quanto maior a idade.
Assim, aos trinta e sete,
fechados alguns ciclos,
a vida ainda pede
mais sentimento, vínculos.
Não tanto os que nos deram
a fúria de viver,
como esses descobertos
depois de se saber
Que a vida não é outra
senão a que fazemos
(e a vida é uma só,
pois jamais voltaremos).
Partidários da vida,
melhor: do que está vivo,
digamos "não!" a tudo
que tenha outro sentido.
E que melhor pretexto
(quem o saiba que o diga!)
teremos p'ra viver
senão a própria vida?
Alexandre O’Neill, "Poemas com endereço"
(Não é verdade, amiga,
olhinhos-cor-de-musgo?)
E ao mesmo tempo é forte,
forte da veleidade,
de resistir à morte
quanto maior a idade.
Assim, aos trinta e sete,
fechados alguns ciclos,
a vida ainda pede
mais sentimento, vínculos.
Não tanto os que nos deram
a fúria de viver,
como esses descobertos
depois de se saber
Que a vida não é outra
senão a que fazemos
(e a vida é uma só,
pois jamais voltaremos).
Partidários da vida,
melhor: do que está vivo,
digamos "não!" a tudo
que tenha outro sentido.
E que melhor pretexto
(quem o saiba que o diga!)
teremos p'ra viver
senão a própria vida?
Alexandre O’Neill, "Poemas com endereço"
Odradek
Alguns derivam do eslavo a palavra Odradek e querem explicar sua formaçao mediante essa origem. Outros a derivam do alemão e admitem apenas uma influência do eslavo. A incerteza de ambas as interpretações é a melhor prova de que são falsas; além disso, nenhuma delas nos dá uma explicação da palavra.
Naturalmente ninguém perderia tempo em tais estudos se não existisse realmente um ser chamado Odradek. Seu aspecto é o de um carretel de linha, achatado e em forma de estrela, e a verdade é que se parece feito de linha, mas de pedaços de linha, cortados, velhos, emaranhados e cheios de nós, de todos os tipos e cores diferentes. Não é apenas um carretel; do centro da estrela sai uma
hastezinha e nesta se articula outra em 6angulo reto. Com a ajuda desta última de um lado e um dos raios da estrela do outro, o conjunto pode ficar em pé como se tivesse duas pernas.
Seriamos tentados e crer que esta estrutura teve alguma vez uma forma adequada e uma função, e que agora apenas está quebrada. Entretanto, esse não parece ser o caso; não há pelo menos nenhum sinal disso; em parte alguma se veem remendos ou rupturas; o conjunto parece sem sentido, porém completo à sua maneira. Nada mais podemos dizer, porque Odradek tem extraordinária mobilidade e não se deixa capturar.
Tanto pode estar no forro, como no Vão da escada, nos corredores, no saguão. Ás vezes passam-se meses sem que alguém o veja. Terá se aninhado nas casas vizinhas, mas sempre volta à nossa. Muitas vezes, quando cruzamos a porta e o vemos lá embaixo, encostado ao balaústre da escada, temos vontade de falar-lhe.
Naturalmente não se fazem a ele perguntas difíceis, mas sim o tratamos – seu diminuto tamanho nos leva a isso – tal qual uma criança. “Como te chamas?” perguntam-lhe. “Odradek”, diz. “E onde moras?” “Domicilio Incerto”, responde , e ri, mas é um riso sem pulmões. Soa como um sussurro de folhas secas.
Geralmente o diálogo acaba aí. Nem sempre se conseguem essas respostas; por vezes guarda um silêncio, como a madeira de que parece ser feito. Inutilmente me pergunto o que acontecerá a ele. Pode morrer? Tudo que morre teve antes um objetivo, uma espécie de atividade, e assim se gastou; isto não acontece com Odradek. Descerá a escada arrastando fiapos frente aos pés de meus filhos e dos filhos de meus filhos? Não faz mal à ninguém mas a ideia de que possa sobreviver-me é quase dolorosa para mim.
Franz Kafka
Naturalmente ninguém perderia tempo em tais estudos se não existisse realmente um ser chamado Odradek. Seu aspecto é o de um carretel de linha, achatado e em forma de estrela, e a verdade é que se parece feito de linha, mas de pedaços de linha, cortados, velhos, emaranhados e cheios de nós, de todos os tipos e cores diferentes. Não é apenas um carretel; do centro da estrela sai uma
hastezinha e nesta se articula outra em 6angulo reto. Com a ajuda desta última de um lado e um dos raios da estrela do outro, o conjunto pode ficar em pé como se tivesse duas pernas.
Seriamos tentados e crer que esta estrutura teve alguma vez uma forma adequada e uma função, e que agora apenas está quebrada. Entretanto, esse não parece ser o caso; não há pelo menos nenhum sinal disso; em parte alguma se veem remendos ou rupturas; o conjunto parece sem sentido, porém completo à sua maneira. Nada mais podemos dizer, porque Odradek tem extraordinária mobilidade e não se deixa capturar.
Tanto pode estar no forro, como no Vão da escada, nos corredores, no saguão. Ás vezes passam-se meses sem que alguém o veja. Terá se aninhado nas casas vizinhas, mas sempre volta à nossa. Muitas vezes, quando cruzamos a porta e o vemos lá embaixo, encostado ao balaústre da escada, temos vontade de falar-lhe.
Naturalmente não se fazem a ele perguntas difíceis, mas sim o tratamos – seu diminuto tamanho nos leva a isso – tal qual uma criança. “Como te chamas?” perguntam-lhe. “Odradek”, diz. “E onde moras?” “Domicilio Incerto”, responde , e ri, mas é um riso sem pulmões. Soa como um sussurro de folhas secas.
Geralmente o diálogo acaba aí. Nem sempre se conseguem essas respostas; por vezes guarda um silêncio, como a madeira de que parece ser feito. Inutilmente me pergunto o que acontecerá a ele. Pode morrer? Tudo que morre teve antes um objetivo, uma espécie de atividade, e assim se gastou; isto não acontece com Odradek. Descerá a escada arrastando fiapos frente aos pés de meus filhos e dos filhos de meus filhos? Não faz mal à ninguém mas a ideia de que possa sobreviver-me é quase dolorosa para mim.
Franz Kafka
O universo não é meu: sou eu
A renúncia é a libertação. Não querer é poder.
Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza da minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.
Somos todos míopes, exceto para dentro. Só o sonho vê com o olhar.
No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas só — o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda a experiência humana — o céu vasto, com o dia e a noite que acontecem dele e nele; o correr dos rios — todos da mesma água sororal e fresca; os mares, montanhas tremulamente extensas, guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos, as estações, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos; o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem forma, mãe da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que é tudo...
Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos.
Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza da minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.
Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação de quem os escreve. E se quem os escreve tem imaginação, tanto nos pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição, forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver.
Somos todos míopes, exceto para dentro. Só o sonho vê com o olhar.
No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas só — o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda a experiência humana — o céu vasto, com o dia e a noite que acontecem dele e nele; o correr dos rios — todos da mesma água sororal e fresca; os mares, montanhas tremulamente extensas, guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos, as estações, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos; o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem forma, mãe da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que é tudo...
Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma adâmico que todos entendem. Mas que linguagem estilhaçada e babélica falaria eu quando descrevesse o Elevador de Santa Justa, a Catedral de Reims, os calções dos zuavos, a maneira como o português se pronuncia em Trás-os-Montes? Estas coisas são acidentes da superfície; podem sentir-se com o andar mas não com o sentir. O que no Elevador de Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo. O que na Catedral de Reims é verdade não é a Catedral nem o Reims, mas a majestade religiosa dos edifícios consagrados ao conhecimento da profundeza da alma humana. O que nos calções dos zuavos é eterno é a ficção colorida dos trajes, linguagem humana, criando uma simplicidade social que é no seu modo uma nova nudez. O que nas pronúncias locais é universal é o timbre caseiro das vozes de gente que vive espontânea, a diversidade dos seres juntos, a sucessão multicolor das maneiras, as diferenças dos povos, e a vasta variedade das nações.
Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos.
Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
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