domingo, abril 11

Busca no sótão

 


Pensamentos de vida e de vivo

Não, não te apiedes de quem morre. Porque a piedade supõe uma condição de superioridade e a gente só se pode compadecer de quem sofre mais do que nós. Porém saberás se não vais sofrer muito mais do que aquele que estás vendo morrer, se a dor do teu próprio trespasse não te vai ferir muito mais fundo e com horror muito maior do que o seu próprio trespasse o feriu a ele? Vês o morto e logo o imaginas distante e diferente, um estranho; no entanto a coisa única que te separa dele é uma questão de tempo – que pode ser apenas de minutos ou de horas. E então onde está a tua vantagem? Por que razão ter pena de quem talvez foi mais feliz do que tu? O teu instinto é te considerares imortal e invulnerável. Mas talvez no momento em que recuas com horror diante do corpo frio de alguém que tu conheceste ou amaste – talvez nessa hora o mal que te vai consumir já esteja incubado no teu corpo, ou o automóvel que te vai matar já esteja rodando para o fatal encontro, ou a água que te vai afogar te espere uma armadilha, dez passos além. Choras com desespero o teu morto, parece-te que aquela coisa horrenda e única só lhe sucedeu a ele, que é uma espécie de privilegiado da fatalidade. Ora, deixa em paz o morto. Quem sabe a sua parte foi mais branda do que será a tua? Ele afinal correu o seu caminho, venceu a sua etapa; prepara-te pois para a tua e vê se sairás dela tão galhardamente, tão silenciosa e discreta e humildemente quanto ele se saiu da sua. Não, não tenhas pena. Também não tenhas medo – melhor é te habituares com a ideia. Nem te suponhas garantido porque és moço, porque és forte, porque és são. A vida é como um gás volátil, tem tendência a se expandir e sumir-se; não importa a robustez do vaso, sempre dá jeito de encontrar uma fissura por onde fugir.

Mas se te digo que não tenhas medo da morte é principalmente porque a morte é estado tão natural quanto a vida – ou mais natural ainda. A vida é simplesmente um meio, enquanto a morte é um fim em si. Se nascemos para alguma coisa, se há uma lei comum regendo o nosso fim neste mundo, não há de ser para triunfar que nascemos, porque nem todos triunfam, nem para gozar porque a maioria o que faz é sofrer, nem para amar apenas, nem para ser bispo ou para ser soldado, nem para o bem nem para o mal: nascemos todos e vivemos poucos ou muitos anos do nosso lote com o fim único de morrer. Outra coisa não é a vida senão a preparação desse fim – e a cada dia que passa, pensamos que estamos crescendo, ou engordando, ou aprendendo inglês, ou ficando calvos, ou nos tornando ricos – mas na verdade estamos é consumindo mais um dia, mais uma semana, mais um mês, e nos aproximando cada vez mais do prazo, chegando cada vez mais perto do termo da nossa obrigação ou da nossa caminhada.

O mal é se traçar essa barreira de pavor entre mortos e vivos, como se separação real houvesse realmente entre vida e morte. Quando afinal o morto é apenas o vivo que concluiu o trabalho de viver, o vivo acabado de aprontar para a morte. Que a última demão é justamente aquilo: a imobilidade e o silêncio. O que não foi no princípio e que torna a ser igual o que não é do fim.
Rachel de Queiroz, O Cruzeiro, 16/10/1948

Leitora

 


Círculo do Livro

O chope comia solto no Genial, bar da Vila Madalena, quando o Marcelino Freire nos disse: “Assim que cheguei em São Paulo, o que eu queria mesmo era trabalhar de revisor no Círculo do Livro”. Foi uma daquelas frases que servem como anzol e pescam lembranças remotas, soterradas pelo passar dos anos.

Fui sócio do Círculo do Livro. Quase todos os meus irmãos eram também. No subúrbio, onde livraria é coisa tão rara quanto brisa de mar, o Círculo nos dava acesso a clássicos e novidades da literatura sem que precisássemos sair de casa. Funcionava assim: cada associado recebia mensalmente uma revista, que relacionava os lançamentos e títulos do catálogo. A cada número da revista, uma obra deveria ser comprada.

Os livros tinham preços bem mais em conta do que nas demais editoras e vinham em embalagem caprichada. Capa dura, encadernamento perfeito, miolo bem diagramado. Não esqueço o dia em que, após levar uma bronca da mãe, minha irmã Sandra me chamou em seu quarto e leu Flicts para mim. Uma publicação do Círculo. Minha irmã já se foi, não tenho ideia de onde o livro, que era dela, foi parar, e nunca mais encontrei aquela edição. Mas fora das páginas as cores não esmaeceram. São minha lembrança mais feliz da Sandra.

Bruno Schier

O Círculo mantinha, em seu catálogo, uma saraivada de best-sellers: Sidney Sheldon, Agatha Christie, Morris Welst, Harold Robbins, Jorge Amado. Apresentou-me autores como Albert Camus, Marguerite Duras e Zélia Gattai. E sempre abriu espaço para apostas. Como André Torres, preso político que fez algum barulho nos anos 1980 ao relatar sua experiência no cárcere. Exílio na Ilha Grande e Esmaguem meu coração, suas duas obras mais famosas, permanecem na estante lá de casa. Conservo-as como emblema de meus primeiros espantos.

“Troço fantástico os livros chegando via Correios, e logo ali no bairro pobre de Água Fria, onde eu morava”, contou o Marcelino no papo do Genial. Do Rio para Pernambuco, o mesmo sentimento. A mesma ânsia juvenil em checar a correspondência à espera de uma pequena caixa de papelão. Ou mesmo da revista, com suas pequenas resenhas que anunciavam o futuro nos livros que iríamos ler.

“Se não fosse o Círculo, possivelmente não haveria livros lá em casa”, comenta minha namorada Juliana Krapp, que morou em Cascadura e também estava à mesa do Genial. Ju era bem menina, mas guarda a alegria de folhear a revista do avô. Certa ocasião, sua família comprou uma seleta de contos escritos por crianças como ela. Incentivada por aquelas histórias, a hoje poeta e jornalista tomou coragem para arriscar o primeiro texto.

O Círculo chegou a ter 800 mil sócios, vendeu mais de 17 milhões de exemplares e encerrou as atividades, já deficitário, na década de 1990. Os números, impressionantes, talvez escondam o maior feito. Foi por intermédio de seus livros que eu – assim como o Marcelino, a Ju e tantos outros – comecei a perceber que a vida podia ser maior do que a casa dos meus pais. E a literatura, por vezes, uma insuspeita brisa de mar na abafada Madureira.

sábado, abril 10

Marcador tecno

 

Alfredo Martirena (Cuba)

Improvável, mas a carta chegou

Nos anos 50, meu sonho era ter uma jovem correspondente no exterior. Preferia uma francesa, adorava a língua, conseguia ler e escrever razoavelmente. E as francesas tinham um quê de sensualidade, eu via filmes com Cécile Aubry, Martine Carol, Pascale Petit, Françoise Arnoul, que o escritor Alex Salomon idolatrava. Fanny Marracini, professora de francês, me impressionou na primeira aula no ginasial: “Bonjour mes enfants. Isso quer dizer bom dia. Bom dia serão as duas únicas palavras em português que me ouvirão falar durante o curso”.

Francês ela falou ao longo de muitos anos e assim estudamos Chateaubriand, Lamartine, Stendhal, Flaubert, Prévert, Balzac, Victor Hugo, Dumas, Cocteau, chegamos a Collette, George Sand, Camus e, quando surgiu Françoise Sagan, célebre aos 18 anos, best-seller, com um romance que assombrou o mundo, Boa Dia, Tristeza, vi que se podia ser uma estrela, escrevendo. Esperem aí, não explica minha carreira, não. Foi dona Fanny quem me conseguiu uma correspondente na França, Francine Defrancq e era de Mulhouse, Alsácia. Levei dois dias para escrever em francês, levei à dona Fanny, que me corrigiu e elogiou.

Mandei e esperei. Quando mandávamos carta, sabíamos que esperar era virtude. Esperar com ansiedade, a cada dia, e imaginar o que a pessoa responderia. Passados treze dias, ao chegar em casa no começo da noite, meus pais, rindo, rindo, me entregaram o envelope com bordas em azul escuro e vermelho. Da França.


Sempre me submeti a testes de paciência, por ouvir minha mãe dizer: a paciência é uma virtude, torna a pessoa melhor. Só que ela é difícil. Hoje, a paciência se volatizou. Todo mundo vive ansioso, nervoso, angustiado, apressado, acelerado. Minha amada tia Terezinha usava uma palavra que pouco ouvi em minha vida: açodado. Famosa na família era a expressão dela, “você parece um Bernardino flagelado”, diante de uma pessoa impaciente, excitada, inquieta. Há meio século, meu primo Zezé Brandão, filho dela, publicitário em Araraquara, procura a origem do Bernardino.

Bem, aquela foi a primeira carta de uma série que se prolongou por anos. Francine escrevia com regularidade em papel rosa, tinha letra pequena, às vezes eu precisava adivinhar. Ela contava da vida cotidiana, de costumes, me corrigia, indicava filmes, livros e me enviava revistas como Cinémonde, Positif e Jeune Cinéma. Dela, recebi uma foto do filme O Salário do Medo. Ela foi fazendo minha cabeça. Nem imaginam o que aquelas cartas que atravessavam o oceano significavam para mim. Eram minha janela, libertação, eu não estava restrito a mesmice do meu dia a dia. Deixava de ir ao cinema – o que era quase impossível para mim – para ler e reler as cartas, uma vez que o carteiro chegava no final da tarde. Pouco antes que eu deixasse a cidade, 1957, vindo para São Paulo, Francine me avisou que estava se mudando para Paris, ia trabalhar em um banco. Avisei que também estava indo para a “vida”.

Meu pai, certo dia, me ligou: “Tem uma carta da Francine! Abro?” Ela me avisava que trabalhava em um banco no Boulevard Haussmann, 102. Envolvido pelos meus primeiros anos em São Paulo, deixei Francine de lado.

Em 1963, cheguei a Paris, levava o endereço do banco. Na manhã seguinte, cheguei ao local, vi que ali tinha morado Proust. No banco, descobri um jovem que trabalhara com Francine e ele me revelou “Elle est décédée, monsieur, je regrette”. Tinha falecido havia dois anos, me pareceu. Deixei para o final, o porquê dos meus pais rindo tanto quando chegou a primeira carta de minha correspondente. O envelope trazia meu nome e o endereço. Araraquara, Brasil. Nada mais. Um dia, ela explicou: “Perdi a tua primeira carta, me perdoe, tudo o que lembrava era o complicado nome de tua cidade, repleto de A. Impronunciável. Arrisquei, mandei”.

Chegou. No correio, comentaram divertidos a ousadia, “quem ele acha que é?”, mas um carteiro me conhecia, queria namorar a Cecilia, uma prima minha. Trouxe a carta.

Onde o tempo não passa

 

Junaida

Não são só os ricos que leem livros no Brasil, comprovam dados e também os relatos

Quando escuta que o governo federal tem argumentado que só ricos consomem livros, para defender a taxação do produto, o coveiro Osmair Cândido solta uma gargalhada.

Conhecido como Fininho, ele se formou em filosofia no Mackenzie há 14 anos, quando já estava na casa dos 40, mas gosta de literatura desde sempre. Os pais, no entanto, não tinham condições de comprar livros para ele e para o irmão.

“Eu ia na biblioteca, pedia emprestado, mas depois de um certo tempo senti necessidade de comprar os livros mesmo. É um tantinho caro, mas a gente compra. É melhor ter o Machado de Assis em livro, né?”, comenta, sobre o autor de quem diz ter lido a obra completa.


O coveiro,  durante o expediente no cemitério da Penha, em São Paulo, afirma que certa vez vendeu a televisão para gastar em literatura. “Ler livros economiza tolices”, brinca.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, na sua edição mais recente, mostrou que 46 s pessoas com renda familiar de menos de um salário mínimo são leitoras. Na faixa salarial seguinte, que recebe de um a dois salários mínimos, 51% têm o hábito de ler.

Isso não impediu a Receita Federal de produzir um relatório, nesta semana, afirmando que pessoas com renda de até dois salários mínimos não consomem livros e, por isso, eles deveriam ser tributados, com o objetivo de arrecadar recursos para políticas mais direcionadas.

É mais um capítulo da ameaça que a reforma tributária de Paulo Guedes impõe ao mercado editorial. A ideia é substituir as contribuições Pis e Cofins, que os livros não pagam por lei, por uma Contribuição sobre Bens e Serviços, com alíquota de 12%, a que eles estariam submetidos.

“Digo por experiência própria que esse discurso de que o brasileiro não gosta de ler é uma estratégia para justificar a ausência de políticas públicas voltadas ao livro e à literatura”, diz Débora Garcia, produtora cultural que toca o Sarau das Pretas, com forte atuação nas periferias de São Paulo. “A postura de taxar livros é uma forma de afastar ainda mais as pessoas do acesso ao conhecimento.”

A Frente Parlamentar em Defesa do Livro também emitiu, nesta quinta (8), uma nota em repúdio ao documento da Receita, afirmando que “as famílias com renda inferior a dez salários mínimos respondem por quase a metade do mercado de livros não didáticos”. “Em vez de ampliar esse acesso, o governo busca restringi-lo.”

“Não é ausência de interesse, é ausência de possibilidade”, aponta a poeta Luz Ribeiro, uma das convidadas da Flip do ano passado, buscando resumir a relação dos brasileiros mais pobres com os livros.

“Quando eu vou nas feiras de livro da USP, da Unesp, encontro muitos dos meus pares lá. Pessoas pretas, pessoas que são lidas como pobres. Porque o livro vai para um valor mais acessível.”

Ribeiro cresceu no bairro do Jardim Souza, na zona sul de São Paulo, e aos 33 anos mora no Capão Redondo. Herdou leituras da irmã mais velha e tinha acesso a livros pela biblioteca de sua escola da rede municipal. “Eu fui alfabetizada aos cinco anos e, desde então, minha grande companhia foram os livros.”

Taxá-los, segundo ela, é mais uma maneira de dizer a pessoas pobres e negras que a intelectualidade não cabe a elas. “Se o livro custar 50, 60, até mil reais, a pessoa com recursos vai comprar. Isso só vai fazer com que corpos parecidos com o meu fiquem ainda mais distanciados da leitura.”

No caso de Lívia Lima da Silva, que cuida da programação audiovisual do Sesc Belenzinho, a paixão por livros floresceu mesmo em meio a diversos empecilhos—não há biblioteca pública no bairro de sua família, Artur Alvim, e o acervo da escola estadual onde ela cursou o ensino médio ficava trancado, longe dos alunos.

Mas naquele momento, já era firme o hábito de ler, ganho na sala de leitura visitada esporadicamente por sua turma do ensino fundamental. Era o momento em que conseguia ter acesso a livros -o pai, metalúrgico, e a mãe, dona de casa, não tinham como comprá-los.

“A gente está sempre nesse lugar de entender que aquilo não é para a gente. Valoriza, mas entende que é inacessível. É bom, mas não é para você, porque você não é bom.”

Animada pelas descobertas literárias que fez indo à biblioteca da Penha, em outro bairro da zona leste, prestou vestibular para jornalismo e letras. Cursou as duas graduações ao mesmo tempo e, depois, concluiu um mestrado em estudos culturais na USP, pesquisando escritores de saraus paulistanos.

Ao ouvir a proposta de que se deve tributar os livros porque os mais pobres não os consomem, ela suspira. “É um ciclo sem fim, né? Se as pessoas não leem, é porque não têm dinheiro. Se não têm dinheiro, elas não vão ler.”

“A gente precisa, para além de pensar em não taxar livro, pensar ações para ofertar literatura para as pessoas”, diz Garcia, do Sarau das Pretas. “O livro nunca vai ser a primeira opção para uma pessoa que tem que escolher entre comer e ler.”

sexta-feira, abril 9

Leitura e flores

 

Suna Jo

García Lorca

Talvez poucos poetas tenham tido uma consagração póstuma tão decisiva na afirmação de seu valor literário e humano quanto a de Federico García Lorca. E que se combinou o poeta e o símbolo, uma grande poesia e a revolta contra um mundo que mata os seus artistas. Somos os espectadores e possíveis cúmplices de uma época em que a ordem política se levanta a desordem lírica e humana dos homens livres. Nisto reside o fundo emocional que nos leva a amar García Lorca. Além disso, a vida de García Lorca se traduz como um símbolo também da verdadeira Espanha, dessa Espanha sempre "disposta ao risco de resgatar a alma ou de derramar seu sangue". Mais que Rupert Brooke ou Péguy, porque a injustiça de sua morte digamos, foi mais pura, Lorca ficará como o sinal de tempo em que os poetas podem ser assassinados na rua em nome de um mito ou de uma política caudilhesca.

Lluis Bagaría i Bou, cartunista e autor da última entrevista do poeta amigo

Foi o poeta das coisas, foi, antes de tudo, um sensualista, professor dos cinco sentidos corporais, como ele próprio desejava que os poetas fossem. O edifício de sua construção poética é simplificado, mas esconde um mundo de minúcias técnicas, delicadezas pacientemente sutis, surpresas prodigiosas. Seu poder verbal chegou ao requinte da aparente pobreza. Com esta poesia, estamos nos antípodas da retórica, melhor inverte-se um conceito, porque o fausto se revela na poesia de García Lorca por uma opção pelas coisas pobres, pelas coisas que o desgaste cotidiano paralisou e emudeceu. É, enfim, uma poesia popular pelo espírito e aristocrática pelo manejo de uma técnica habilmente estruturada. Ele se convencera de que são os elementos arquitetônicos da poesia ― as palavras, as imagens e metáforas ― que asseguram ao poema os seus direitos de eternidade.

Em toda grande poesia, haveremos de notar sempre um conjunto de caracteres constantes que fornecem a linha concepcional do poeta, a linha que lhe empresta uma fisionomia dentro da diversidade. Em García Lorca, o amor, a terra, a morte e o povo são estas constantes principais. A viagem a Nova York forneceu-lhe o grande acidente, ou seja, um complexo de situações que o transtornaram, que se opuseram às suas convicções estéticas e as venceram. Poeta intimista diletante de nuança, consciente de sua solidão e da sua terra, Lorca se viu de súbito desenraizado de seu mundo, perdido num cenário diverso das paisagens granadinas. Troca então o subjetivismo por um sentimento coletivo desesperado, substitui a nuança pela metáfora, largo e contundente abandona o exercício de uma forma delicada e minuciosa pela espontaneidade de uma forma agressiva e desconcertante. Quando ele voltou dos Estados Unidos ao confessar que via a poesia de um modo diferente concluiu que o fato de ser ele granadino o levava a compreender os perseguidos, o negro, o judeu, o cigano. Esta solidariedade aliás, já estava no Romancero Gitano, canto de amor que se irmanaria aos vagabundos perseguidos pelos tenentes coronéis da guarda-civil.

E não apenas por isso que admiramos Lorca. Todos que amam a forma literária hão de ler comovidos poemas como Oda al Santíssimo Sacramento del altar ou Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, onde as palavras estão fixadas em uma ordem estranhamente perfeita.

Paulo Mendes Campos, Diário Carioca 6/10/1946

quinta-feira, abril 8

Hora do café

 

Chiac

Um sítio sem linguagem nem ruas

Metade da manhã já passou e, entretanto, o sol abriu. Vindo da serra, o Pedro chega com um enorme ramo de flores, A paisagem começa a encher-se de cor, anuncia satisfeito. São mimosas, diz a minha mãe depois de agradecer as flores e de lhes elogiar a beleza, Mais uma primavera, murmura indecisa, como se fizesse uma conta difícil.

Comoveu-me que o Pedro nos tivesse trazido bolinhas amarelas e alegres empoleiradas em longas hastes. Inexplicavelmente deu-me para esclarecer que as mimosas, as árvores de que o Pedro colhera flores, são uma espécie invasora, tendo chegado a Portugal há menos de um século, trazidas da Austrália. Logo eu que não percebo nada de botânica, que vou alimentando o meu conhecimento acerca de quase tudo como se ainda lesse as Seleções do Reader’s Digest. As mimosas dão-se bem em terras queimadas, sobrevivem quando o fogo as ataca ou mesmo quando são cortadas. Só se consegue matá-las dando-lhes um golpe profundo no tronco, esventrando o que não tem ventre. Então secam e morrem de pé. Uns esqueletos tristes presos à terra. O Pedro surpreende-se com a minha reação às suas flores primaveris, mas sorri, Estás a falar com a linguagem dos homens, brinca, devias pensar como a natureza, Isso se calhar é mais não pensar, replico. Na natureza não há espécies invasoras, o que existe, existe e pronto. Sabes coisas de mais, saber de mais pode ser tão prejudicial como saber de menos, acrescenta. A minha mãe acena com a cabeça, Ela foi sempre assim. Pois, imagino, remata o Pedro.

Aparo as mimosas na bancada da cozinha. Estou de costas para a minha mãe e para o Pedro, enquanto eles escolhem as jarras para colocar as flores. Não fiquei ofendida, mas inquieta-me o que quer dizer Ela foi sempre assim e Pois, imagino. Aparentemente a despropósito, uma outra frase começa a fazer o seu caminho na minha cabeça, Mrs. Dalloway disse que ela própria ia comprar flores. As flores que a Mrs. Dalloway compra para a festa que vai dar na sua casa de Westminster, nessa noite de junho de 1923, e as que tenho nas mãos misturam-se como se pertencessem à mesma realidade.


Procuro o romance da Virginia Woolf nos caixotes de livros que trouxe de minha casa. Muitos desses caixotes continuam fechados, aguardando espaço nas estantes que estou a improvisar na parede do fundo do último andar. Já despejei alguns livros de forma baralhada nas prateleiras de baixo. Isto angustia-me. Vivo cada vez mais provisoriamente, quase me ouço dizer. Respondo-me pela voz do Pedro, que aparece entretanto, Só a morte é definitiva, a vida é provisória por natureza. Ajuda-me, peço-lhe. Sei que é quase impossível encontrar o livro entre centenas de outros, mas não desisto. A Mrs. Dalloway está mais perdida neste quarto do que nas suas memórias. Irremediavelmente. O Pedro cansa-se passado pouco tempo, Não podes ler outro livro? Não!, quase choramingo, e ele propõe-se comprar Mrs. Dalloway em formato digital. Explico-lhe que sublinhei o meu livro das várias vezes que o li, só a minha Mrs. Dalloway me permite avistar as outras que fui sendo.

Ela foi sempre assim
Pois, imagino


Desamparada, tento concentrar-me no que estou a escrever: “As palavras falharam. Só elas poderiam ter-nos salvado da tragédia ou de uma tal dimensão de tragédia.” Estou sozinha no último andar, o fantasma da Mrs. Dalloway algures atrás de mim e o resto da casa em barulhos que me chegam confundidos por portas e recordações. “De que nos serve a fúria surda e cega do progresso (para onde, para quê) se”… O almoço está pronto.

Depois do almoço, resolvo despachar as compras do supermercado. Ao sair de casa, conto até quatro, como sempre agora faço, um dedo espetado por cada coisa a não esquecer: chaves, carteira, telemóvel, máscara. São cada vez mais as coisas a não esquecer. Ah, e os sacos das compras. Depois, tal como sempre, direita, direita, direita, sempre em frente até à rotunda, esquerda, direita. Quase uma hora depois, desdobro o caminho feito, de regresso ao texto que me espera no último andar. Esquerda, sempre em frente até à rotunda, direita, esquerda, esquerda, esquerda. Eu, peça de um jogo de tabuleiro.

Escrevo, “O que existe, só existe mal, se soubermos que é possível inventar-lhe outra existência com menos sofrimento; senão o que existe, existe, simplesmente, nem bem nem mal.” Como a natureza de que o Pedro fala.

O sol apouca-se, desço e ponho-me a cavar no quintal. Desenho os carreiros onde plantarei milho, tomate, espinafres, acelgas, coentros, manjericão e o que mais me der na cabeça. Estando o mundo fora do sítio, a minha vida fora do sítio, resta-me abrir caminhos na terra escura.

Troco mensagens com a Rita pelo WhatsApp.
não tarda podemos sair à vontade
ir onde quisermos
nunca pensei sentir tanto a falta de gente


aparece escrito no ecrã do meu telemóvel. Não consigo partilhar aquele entusiasmo e respondo com um smile ao meme de uma gata com óculos de sol numa esplanada. A Rita, dando conta do meu comedimento, pergunta, antes de se despedir, Não estarás a ficar deprimida?

Ela foi sempre assim
Pois, imagino


A sala está finalmente vazia. Sento-me no sofá. A minha mãe já deitada, o Pedro no escritório a trabalhar no fuso horário dos Estados Unidos da América, onde viveu mais de 40 anos. Ligo a televisão para ver Allen vs. Farrow. O Pedro pensa em inglês. Quando foi para os Estados Unidos da América, aos 9 anos, por certo pensava em português. Agora, quando fala comigo, procura na memória palavras entorpecidas e só consegue entregar-me uma tradução de si mesmo. Desisto de ver o documentário. Acontece-me o mesmo com o filme A Pereira Brava. Vou vendo trailers, uns atrás dos outros. Detenho-me no de Paris, Texas e lembro-me do Travis a contar-se à Jane como se ele não fosse ele,
– E, pela primeira vez, desejou estar muito longe. Perdido num profundo e vasto país onde ninguém o conhecesse. Um sítio sem linguagem nem ruas.

Decido que amanhã vou com o Pedro à serra. Em vez de ficar a ler no carro, como tantas vezes acontece, subirei com ele pela encosta. Eu própria colherei as flores.

quarta-feira, abril 7

Acrobata

 

Lütfü Çakın (Turquia)

Um primo e um livro

Parece que cada dia as coisas vão ficando mais conhecidas, mais sem surpresa. O mundo anda cheio de prodígios e, contudo, o homem não quer mais prodígios: boceja de tédio ante todas as maravilhas e pede, como o outro, para ver algo nuevo. Pois felicitai-me, que num dia só tive duas surpresas felizes: descobri um livro e descobri um primo.

Talvez alguém vá dizer que não há novidade em livros nem em primos. Mas é que tudo depende da qualidade. E no caso em apreço livro e primo são raridades preciosas, sendo ainda mais que é o primo o autor do livro.

Vamos primeiro ao primo, o que dito assim vem a ser um pleonasmo, pois primo quer dizer primeiro. Mas vamos ao primo. Não é engraçada a ideia de se pensar que há espalhados, não só em terra nossa como em terra estrangeira pessoas desconhecidas, das quais nunca tivemos notícias, nem mesmo sabemos o nome, que têm nas veias o nosso sangue, e falando e andando usam vozes e gestos idênticos aos nossos, ou que têm o nosso nariz, o nosso ondeado de cabelo, ou a nossa idiossincrasia por pimenta de cheiro.... Não é estranho? Porque os parentes já identificados são entidades conhecidas e deixam de interessar. Mas o parente ignorado, até faz um certo receio. Imagine-se se fosse eu à cidade de Juiz de Fora, ― que não conheço senão de nome e fama ― e visse passeando pela rua um senhor jamais visto antes, mas no qual sentiria qualquer coisa familiar. O andar, um cacoete, uma feição. Mas que poderia eu ter de familiar com um passeante da rua Halfeld, onde jamais pusera meus pés? Seria um desses mistérios do espiritismo e ali estaria encontrando um amigo de passadas encarnações! E quando eu já estivesse sentindo um pouco de medo, porque a verdade é que não gosto de mistérios, alguém me diria o nome do senhor em questão ― e diante do nome eu identificava o primo. Ora veja! Ali, em plenas Alterosas, trazido por ignorada emigração, estava o neto de um avô ou bisavô comum, traço de união da terra que eu nunca vira com as margens da lagoa de Mecejana, onde costumavam nascer os Alencar. Sim, o primo chama-se Alencar, Gilberto de Alencar. Não sabiam que também tenho direito de usar Alencar no sobrenome? Não o uso porque sou mesmo uma modesta violeta. Mas posso. E tanto eu como o meu primo Gilberto somos parentes muito próximos do "Guarani", de "Iracema" e de "Lucíola". Nossa vovó Miliquinha, que eu ainda conheci, escutou, na roda de primas, a leitura do "Guarani", feita pelo romancista em pessoa, à medida que ia terminando os capítulos. Diz que no primeiro original Ceci e Peri morriam no incêndio da casa de fazenda. Mas as primas choraram tanto, fizeram tal alarido com pena dos namorados que o primo José teve que arranjar um happy-end por isso inventou a enchente, a palmeira, o feite hercúleo do índio. Depois os entendidos ficaram dizendo que o autor deliberadamente dera ao par um destino alegórico, baseado na lenda de Tamandaré. Pode ser; mas nesse caso a alegoria foi empregada apenas para consolar o choro das primas.

Falemos agora do livro do meu novo primo: chama-se "Memórias sem malícia de Gudesteu Rodavalho". Não sei se por causa do parentesco ― mas creio que não ― O fato é que essas memórias souberam-me maravilhosamente. Falei que são memórias porque assim as chama o autor; mas a intenção de quem as fez foi de romance e não sei se a realizou; pois saíram umas memórias tão aparentemente genuínas, que a gente tomaria o livro por nada mais que autobiográfico. E quanta coisa deliciosa que elas contam! Lembraram-me outro livro, lido há algum tempo com enorme prazer: "Minha vida de menina", de Helena Morley. O cenário é quase o mesmo: as pequenas cidades do estado de Minas. A época também mais ou menos idêntica, ― a penúltima e última década do século passado. E o colorido de autenticidade o mesmo, a mesma despretensão de narrativa, o mesmo desdém pelos grandes efeitos cênicos. A linguagem é que varia, porque a da moça Helena é mais desataviada e corredia, enquanto a do primo Gilberto tem fatura artística excelente e está dentro da melhor tradição machadiana.

Disse antes que talvez não seja o livro um romance. Mas é. Um romance sem acontecimentos, talvez, mas romance. A história de um homem que pensou que a vida esperasse por ele e que apenas cumprir o que considerava o seu dever, viu, ao "emergir do túnel", que perdera o trem: a vida tocara para diante, e ele se achava sozinho na estação vazia. Vira-se para um lado, vira-se para o outro, procura as marcas da infância, da adolescência e da mocidade que fora traçando com tanto cuidado, mas viu que mão estranha as apagara. Nada mais restava, só ele. E num tal desamparo e solidão se encontra que planeja mandar pôr no jornal o seguinte anúncio:

"Pequeno burguês casado, à beira dos sessenta anos, instruído, dispondo de recursos, aspirando viver o que lhe resta à moda de 1898, ou por aí assim, gostaria de entrar em entendimento com pessoas que se encontrem nas mesmas condições, isto é, que também tenham alguma coisa de seu. Possuam alguma cultura e desejem ir terminar os seus dias num povoado do interior do país, onde haja porta de farmácia para longas conversas de calçada, ausência de iluminação capaz de atrapalhar o luar nas ruas, tardes plácidas, horas vagarosas e notícias do planeta apenas pelo jornal do Rio, se possível, dia sim, dia não. Para dar tempo de comentar. Também se pode ter em vista como diversão suplementar a bisca de quatro, com o tento a duzentos réis no máximo".

Sabe, primo, não ponha o anúncio. Venha primeiro conhecer como são as coisas aqui na ilha onde moro. Isto por cá é uma espécie de refúgio, e talvez lhe servisse muito bem. Aqui ainda cultivamos muitos desses prazeres antiquados que a mocidade atual desconhece. Pesca de caniço, bate papo inocente na farmácia ou no botequim. Briga-se por política, vai-se esperar a barca que traz os jornais, quase como no seu Carandaí se ia esperar o trem expresso do Rio. Sei que há diferenças, mas não são muitas, nem chocantes. Se não se joga a bisca de quatro, como você sugere, joga-se xadrez, damas, gamão. Empresta-se jornal ao vizinho, discutem-se as novidades. Tem festa de igreja com procissão, anjos, novena e barraquinhas de sortes. Tem sessões espíritas muito animadas. O velho Solidônio Rodovalho se trouxesse para cá a sua alfaiataria com a tabuleta desbotada da "Tesoura Fiel", dar-se-ia muito bem. Queria que você visse as rodas de conversa que se formam nos bancos da praia do Cocotá, à sombra das amendoeiras, ou à porta do botequim do seu Pinto, vizinho ao açougue de seu Álvaro. Queria que visse como é animada, inteligente e desinteressada a palestra no estabelecimento do nosso amigo Cajueiro, juntinho à Farmácia, na Freguesia.

Verdade, verdade que há zonas sofisticadas e há veranistas. São a praga do século. Mas afinal de contas não são a maioria; e a gente pode ignorar umas e outros e viver feliz. Venha ver a ilha, primo!

Livros salvam vidas

 


Vamos ler sem complexos!

Acabo de publicar, na editora Guerra & Paz, um livrinho que pretende ser um modesto mas empenhado convite à leitura, dirigido a pessoas normalmente arredias do hábito saboroso de ler. Talvez ninguém lhes tenha dito, de modo suficientemente persuasivo, que ler, além de instruir, pode ser um enorme prazer e que até nos pode servir de eficaz lenitivo, em momentos de grande aflição.
Quando eu tinha apenas catorze anos, perdi o meu irmão mais velho, que tinha dezasseis. Foi o meu primeiro grande encontro de frente com a morte e foi um abalo de grandes dimensões. Salvou-me, como verdadeira purga, a leitura, entre outras coisas, de alguma tragédia grega e do livro do poeta Luciano, sobre o luto. Ésquilo e Sófocles, mergulhando-me no grande mundo trágico, não me deprimiram, pelo contrário, levantaram-me. E o ensaio de Luciano, falando-me da morte com naturalidade, permitiu-me finalmente meter “a bordo” que morrer é parte do viver. O grande pensador e aforista francês, La Rochefoucauld, dizia, num aforismo célebre, que nem o sol nem a morte se conseguem olhar de frente. Com a ajuda desses grandes perscrutadores dos abismos da condição humana, aprendi a encarar de frente a morte como termo natural da vida. Fiquei a dever-lhes uma incomensurável dádiva.

O meu livro – VAMOS LER! – que anda por aí a circular com gratificante acolhimento pretende, não só falar dos grandes préstimos da leitura, mas também oferecer uma primeira lista de autores e livros que possam servir de aliciante “isca” para o leitor relutante. Tenho, no livro, o cuidado de dizer que não fiz uma escolha exaustiva e que não incluí alguns grandes autores portugueses (a minha lista só inclui autores portugueses), por me não parecer que se deva avançar um projecto como o meu, com textos de mais difícil acessibilidade. Em bom português de mangas arregaçadas, diria que não é com vinagre que se apanham moscas. Ora aqui é que se começaram a promover alguns equívocos. As pessoas tendem muitas vezes a ler, nos textos, não o que lá está mas o que elas neles querem ou julgam ver. Eu aviso, desde o início, com clareza e lealdade, que o cânone que proponho não é muito longo (para não assustar) e não inclui alguns grandes nomes como Fernão Lopes, Aquilino Ribeiro ou Vitorino Nemésio (sempre para não assustar). Estes grandes autores ficam para mais tarde, quando o meu leitor relutante se tiver convertido em leitor viciado (assim o espero). O pior que pedagogicamente se pode fazer é dar a ler a gente pouco experimentada certos grandes autores na altura errada. Era o que acontecia, no meu tempo de estudante, quando davam o Auto da Alma, de Gil Vicente, a alunos de catorze anos. Um verdadeiro disparate! (Ainda se fosse o Auto da Índia ou A Farsa de Inês Pereira, vá lá, embora a linguagem de mestre Gil, ainda com um pèzinho na Idade Média, possa confundir o leitor impreparado). Nada pode fazer tanto mal a um grande clássico, como dá-lo a ler prematuramente. Como, infelizmente, a escola tem feito isso o tempo todo – e não só em Portugal – o grande dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw, dizia que gostaria de ter poderes legais para proibir a toda a posteridade a utilização das suas admiráveis peças de teatro, nas escolas. Por uma razão: por querer continuar a ser lido e por saber que as escolas eram as principais responsáveis por os alunos detestarem certos grandes autores. E continuarem a detestá-los por toda a vida. Eu não quero matar, nas pessoas que ando a querer convencer de que ler é bom, esse gosto de ler, pondo-as demasiado cedo diante de certos autores. O meu livro não é uma exibição parola dos meus gostos alevantados. Por isso não convido o meu leitor relutante a começar por Fernão Lopes ou Gil Vicente ou Aquilino Ribeiro ou Vitorino Nemésio ou Mário Cesariny ou Herberto Hélder – porque seriam escolhas desastradas e um mau serviço prestado a estes grandes autores e ao leitor que pretendo aliciar. Por isso, peço aos meus amigos que me têm inquirido sobre certas ausências, que leiam com atenção o meu livro. Por outro lado., não incluí no meu cânone, autores que muito admiro e são de leitura acessível, por uma razão muito simples: porque não cabem: o meu limite eram 50 obras de 35 autores. Quando um aluno engraçadinho perguntou um dia ao meu inesquecível professor de Ciências Geográficas, Cardigos dos Reis, por que razão o sol não ficava nunca entre a Terra e a Lua, ele respondeu-lhe, arregaçando uma sobrancelha cáustica: “Olhe, menino, além do mais, porque não cabe.” Portanto, se me perguntarem por que não incluí, por exemplo, a grande Florbela Espanca, a minha resposta é curta: “Porque não coube.”

Outro ponto da minha escolha que desassossegou não pequeno número de amigos meus (o que não será dos que não são meus amigos!) foi a escolha de Miguel de Sousa Tavares e de Rosa Lobato Faria, muito mais ele do que ela. O problema será menos o alegado feitio um bocado afrontoso e sem papas na língua do autor de Equador. E o defender, por vezes, pontos de vista muito controversos. Porque eu creio que a principal objecção é o livro ter-se vendido muito bem e ser de extrema aliciante leitura. Aqui, entramos no reino do preconceito: como se um livro de grande entretenimento não pudesse ser boa literatura. Por acaso, até acho que os romances de Dickens, Charlotte e Emily Bronte, George Eliot, Joseph Conrad, Stendhal, Balzac, Benjamin Constant, Choderlos de Laclos, Zola, Tolstoi, Dostoiewsky, Turguenev, Mark Twain, Steinbeck, Pirandello, Camilo, Eça e muitos outros são de enorme qualidade literária e dotados de grande poder de entretenimento. Este poder até lhes não faz mal e é um excelente veículo para transportar outras eminentes virtudes que eles também têm. A este respeito, o grande romancista alemão, Thomas Mann, num belíssimo ensaio intitulado “O artista e a sociedade” faz uma troça descabelada daqueles que dizem haver duas espécies de arte: uma com “a” minúsculo e outra com “A” maiúsculo. Começa por se apoiar em Goethe, dizendo, com malícia, ser “impossível contradizê-lo quando ele dizia que a missão da arte era ser um animador, em todas as acepções do termo, e nada mais.”

Depois, o autor de Morte em Veneza, vai ao ponto de contar, deliciadamente, o seu encontro em Estocolmo com a escritora sueca Selma Lagerlöf, quando, em 1929, ali foi receber o Prémio Nobel, atribuído ao seu romance Buddenbrooks. A grande escritora, que fora também laureada com o Prémio, ficou sentada ao lado de Mann, num almoço, e este aproveitou para lhe dizer quanto admirava a sua obra e salientando a extraordinária carreira mundial da saga de Gosta Berling. Humilde, a grande escritora observou que os seus livros tinham sido escritos apenas para entreter os seus sobrinhos e sobrinhas, visto que não tinha filhos. Deliciado, Thomas Mann confessou-lhe que tinha escrito o seu volumoso romance, que lhe valera estar ali naquele dia para receber o galardão, sem qualquer prurido de grande seriedade: “tinha sido, de começo um assunto e um divertimento familiares, o rascunho quase facecioso de um jovem de vinte anos, não muito conformista, que eu lia aos meus e que nos fazia rir até às lágrimas.” Comparando a carreira mundial de um livro que ele escrevera para entreter os familiares, ao serão, com a idêntica fortuna que obtivera a saga escrita por ela, para entreter os sobrinhos, o grande escritor alemão e a grande escritora sueca riram às gargalhadas naquele memorável almoço. Por isso, nesse mesmo ensaio, o grande escritor alemão alude, de modo provocante, “ao tempo em que a arte [com “a” minúsculo] ainda não sabia que era “a Arte” [ com “A” maiúsculo] e se ria de si própria.” E acrescenta, significativamente, estas palavras que particularmente recomendo à atenção das vestais da nossa praça literária: “No fundo, o artista quereria mantê-la nesse estado. A arte devia, na sua opinião, rir-se de si; e ele, o artista, quereria, pelo seu lado, poder rir-se dela, sempre, em vez de acolher com ar solene as honrarias e dignidades, assim renegando a sua juventude indócil e solitária.”

E por aqui me fico, pensando ter atrás semeado alguns bons argumentos para o meu leitor ler, descomplexadamente, os sonetos de Camões e o romance de Miguel de Sousa Tavares. A verdadeira arte não faz boquinhas e até aprecia o bom entretenimento. Só os patetas empertigados têm medo dele, nem bem sabem porquê.

Eugénio Lisboa

terça-feira, abril 6

Biblioteca caseira

 

Clare Wassermann

A vingança

Às vésperas de partir do Brasil para morar e trabalhar em Kuala Lumpur, publiquei um texto, A Partida, em que mencionava os livros que viajariam comigo na mala. A mudança foi fechada em Brasília em 17 de janeiro. Recebi-a apenas na última semana de maio, por causa do confinamento na Malásia, decretado em 18 de março. Ela ficou dez semanas abandonada no cais de Port Klang.

De janeiro a maio, montei uma pequena biblioteca no apartamento vazio em Kuala Lumpur. Trouxe cinco livros do Brasil. Recebi da França, umas duas semanas antes de o isolamento social começar, uma encomenda com outros cinco. Houve as visitas, aos domingos, à minha livraria local predileta, Kinokuniya, filial de uma cadeia japonesa. Outros foram presentes de amigos. Um dia antes do início do confinamento, fiz uma última visita à Kinokuniya e comprei sete volumes, para mitigar o desconforto de saber que durante semanas livrarias ficariam inacessíveis.

No apartamento, até final de maio, havia apenas minha cama, a mesa de cabeceira, a escrivaninha no quarto. Uma mesa redonda na sala, algumas cadeiras. As roupas que vieram na mala, 33 livros e Kiki, a gata persa. Foi bom viver de forma tão ascética, por tantos meses, sem um objeto sequer.

Pouco a pouco, comecei porém a sentir falta da biblioteca. Vieram saudades de livros que eu gostaria de ler, reler, folhear, segurar. Não podia fazê-lo; eles estavam inalcançáveis. Proust sobretudo foi uma ausência forte. Uma edição de À la recherche du temps perdu publicada entre 1946 e 1947 está disponível na página eletrônica Open Culture, que aliás não considero agradável de usar. O Projeto Gutenberg também oferece os sucessivos volumes, mas não vi lá o último, Le temps retrouvé. Durante vários dias, entrei em um dos dois serviços, para reler algumas páginas específicas. Livros porém são entidades personalizadas. Havia a falta de Proust, mas havia também a falta da minha edição de Proust, a segunda da Pléiade, em quatro volumes, coordenada entre 1987 e 1989 pelo seu biógrafo, Jean-Yves Tadié. E havia a falta dos meus exemplares dessa edição, muitas vezes manuseados, já surrados, um deles, o quarto, estragado pela areia, o vento e o mar da praia da Ferradura em Búzios.

No Projeto Gutenberg, encontrei também Guerra e Paz, na primeira tradução para o francês, de 1879. É anônima, “por uma russa“, mas a Internet não preserva segredos e, pesquisando, descobri, apesar da ausência de meus livros, que essa tradutora foi a condessa Irina Ivanovna Paskevitch. Parece-me significativo que a primeira versão para o francês tenha sido por uma russa morando na Rússia, em claro esforço para tornar uma obra-prima da literatura de seu país acessível a leitores estrangeiros. Deu certo. A primeira tradução para o inglês, em 1886, foi baseada na versão francesa de Irina Paskevitch. O Projeto Gutenberg oferece a tradução de Louise e Aylmer Maude, de 1922-1923, famosos por terem sido amigos — e ele também seu biógrafo — de Tolstoi. Essas porém não são a tradução de que gosto, a de Henri Mongault, publicada na coleção da Pléiade em 1944. Um dia, no começo do maio, acordei pensando em Anatole Kuraguin e em sua irmã, a bela Hélène Bezukhova, as duas principais encarnações do Mal no romance. Reli no Projeto Gutenberg alguns trechos em que eles falam, atuam, seduzem, traem, interagem um com o outro, planejam suas maldades, morrem. Não era porém o meu Tolstoi.

Nunca há como saber de que livros vamos sentir falta. A necessidade de abrir um volume específico vem de repente. Na página eletrônica da National Gallery de Londres vi uma referência que me fez ter vontade de reler algumas páginas de Viagem à Itália de Goethe. Informa o museu que um quadro em sua coleção de que gosto particularmente, A família de Dario diante de Alexandre, de Veronese, pintado entre 1565 e 1567, e que revi em setembro de 2019, é descrito pelo escritor. É a única pintura mencionada por ele na relação de sua visita a Veneza, em 1786. Novamente, o Projeto Gutenberg me socorreu. Pude ler — ou reler — o que Goethe tem a dizer sobre o quadro, que naquela época encontrava-se ainda, e desde que fora pintado duzentos anos antes, em mãos da família Pisani, que o venderia à National Gallery em 1857. A obra, opina Goethe, possui “encantadora harmonia” e “está em excelente estado de conservação e se apresenta a nós com o frescor de ontem”.

É perturbador, provoca humildade pensar que o olhar do escritor, em 1786, pousou-se, no palácio Pisani Moretta, em Veneza, sobre o mesmíssimo quadro de Veronese que descobri aos 20 anos em Londres, dois séculos depois. Nós todos decairemos e partiremos. Outras gerações virão, e a tela de Veronese seguirá viva, protegida, conservada, restaurada, perpetuando o nome do pintor e ajudando a propalar a fama de Alexandre, o Grande e a derrota de Dario III. Em 2019, disse-me um iraniano: “Os americanos têm de lembrar que nós, os persas, nunca fomos derrotados”. Supus imediatamente que ele nunca havia ido à National Gallery e visto a família do rei dos reis ajoelhada frente ao conquistador macedônio, solicitando sua clemência.

Foi um reconforto poder acessar no Projeto Gutenberg o texto de Goethe elogiando o quadro. Teria eu, porém, preferido ler suas palavras no meu exemplar do livro, aquele que é empacotado e desempacotado a cada mudança, que já morou em vários países e descobriu a Itália junto comigo. Exemplar de uma edição barata e fácil de achar, mas onde as páginas estão amareladas, foram abertas muitas e muitas vezes e têm a marca dos meus dedos, da poeira de trens italianos e manchas de chocolate criadas por mim. Senti falta do livro como objeto, como algo que eu reconhecesse como sendo parte da minha história.

Em dezembro, cometi um grave erro. Reli Quincas Borba. A questão com Machado de Assis é que, quando caímos em seu universo, não podemos mais sair por um bom tempo. O carinho que ele dedica a seus personagens — cujas preocupações compartilhamos — e o humor delicado tornam a leitura viciante. Em maio, pensei muito em Quincas Borba. Senti saudades da evocação da praia de Botafogo, que Machado transforma em um lugar mágico. Sua obra está disponível na Internet, gratuitamente, em mais de uma página. Entrei em Quincas Borba. Li: “A lua estava então brilhante; a enseada, vista pelas janelas, apresentava aquele aspecto sedutor que nenhum carioca pode crer que exista em outra parte do mundo.” Uma frase, em si, tão simples. No entanto, era todo o Rio de Janeiro e uma certa ideia de Brasil que ela trazia ao meu apartamento vazio em Kuala Lumpur. Meu olhar cai sobre um conto intitulado Antes que cases… A primeira frase já me gruda na tela do computador: “Era um dia um rapaz de vinte e cinco anos, bonito e celibatário, não rico, mas vantajosamente empregado.” Parece o início de um conto de fadas. Depois de algumas linhas, porém, começo a ficar incomodado com a luminosidade da tela e a sentir falta dos três volumes da edição da Nova Aguilar, imperfeita como é, ou da antologia de contos por John Gledson, em dois volumes, publicada pela Companhia das Letras, esta sim perfeita.

Dos livros que comprei na Kinokuniya até o começo do confinamento, o mais lúdico é The Man in the Red Coat, obra de não-ficção de Julian Barnes, lançada em 2019. O escritor inspirou-se de um quadro de John Singer Sargent de 1881, Dr. Pozzi em Casa, que retrata um célebre médico francês da época. O retratado está em pé, aos 35 anos de idade, vestindo um roupão vermelho frente a uma cortina também vermelha. Do corpo, vemos apenas as mãos, magras e elegantes, de dedos finos, e o rosto — que a princesa de Mônaco daquele tempo considerava “irritantemente bonito” — com barba curta e bigode. A narrativa de Barnes mistura biografia de Samuel Pozzi, divagações sobre a Belle Époque e comentários sobre literatura e vida artística na França e na Inglaterra nas últimas décadas do século XIX e sobre a mania dos duelos entre escritores e rivalidades literárias.

Fazem aparições Proust, Oscar Wilde, Flaubert, Maupassant, Huysmans, Edmond de Goncourt, Henry James, Baudelaire, o então famoso conde Robert de Montesquiou — lembrado hoje por ter sido um dos modelos para o barão de Charlus — Sarah Bernhardt, Whistler, Degas, Gustave Moreau e Jean Lorrain, jornalista e escritor só conhecido hoje por causa de seu duelo a bala com Proust. Todo o volume pode ser tomado como a transcrição das ideias surgidas em Julian Barnes ao ver o retrato de Pozzi em Londres, em uma exposição na National Portrait Gallery dedicada a Sargent. A melhor anedota relatada envolve um jornalista, Robert Caze, que, ferido de morte em um duelo aos 33 anos, agonizante, recebe a visita, em seu último dia de vida, de Huysmans e Edmond de Goncourt. Ao morrer, Caze, que acabara de publicar um romance, ia deixar uma viúva e dois filhos pequenos, que ficariam desamparados. Sua preocupação porém foi indagar de Huysmans: “Você leu meu livro?”.

Até certo ponto, The Man in the Red Coat satisfez meu constante apetite por Proust, que conheceu bem Samuel Pozzi, amigo de sua família e um dos modelos para o desagradável Dr. Cottard, personagem de La Recherche. O que Julian Barnes não consegue é transformar o homem, médico próspero, famoso, bem-sucedido, bem-relacionado, em algo tão interessante quanto o retrato pintado por Sargent. Seu êxito profissional e seus problemas matrimoniais parecem irrelevantes e tediosos. Do poder de encantamento que ele exercia sobre seus contemporâneos, nada sobrou. O pintor criou uma obra fascinante. Da pessoa em si, resta um eco dificilmente apreensível. A frase mais recorrente no livro, quando Barnes tenta explicar aspectos da vida ou da personalidade de Pozzi, é: “we cannot know“.

Um homem inspira um pintor. Por meio do quadro resultante, o mesmo homem motiva um escritor. O modelo porém é bem menos marcante do que as obras de arte — quadro e livro — que a existência dele provocou. Da mesma forma, as pessoas que inspiraram Proust na criação de seus personagens, como o próprio Pozzi, morreram e são lembradas apenas pela presença na vida e no romance do escritor. É a vingança do artista sobre a morte. É a vingança da arte sobre a vida.

segunda-feira, abril 5

Prazeres do mundo

Carolina T. Godina

 

Injeções

George Leslie Hunter 
Mês passado tomei a primeira dose da vacina e fiquei tão emocionada quanto os demais setentões que ordeiramente esperavam sua vez. Emocionada, alegre e um tanto tensa, pois raramente tomo injeção no braço. Talvez por isso, o local da picada sangrou e ainda apresento uma mancha roxa ali, parecida com a de uma batida. Fora tal senão, nenhuma reação à Coronavac, felizmente.

Fui e voltei de táxi. Os motoristas têm sido meus únicos interlocutores atualmente, já que no supermercado respondo apenas ao que a funcionária pergunta – CPF na nota? Precisa comprovante para o estacionamento? – e ela pouco me olha, ocupada em registrar os preços. Na farmácia, o quadro é parecido. O/a balconista escuta meu pedido, diz o valor, me oferece desconto quando o convênio é válido, recebe o pagamento e se despede. No banco, uso o caixa automático, eternamente mudo.

Com toda essa ausência de diálogos de verdade, a conversa com os taxistas ganha relevo. É com eles que posso trocar opiniões sobre o desgoverno atual, contar que a agulha da vacina talvez pudesse ser mais fina, mas sei que também este material deve estar em falta, como tudo o mais que depende da logística do Ministério da Saúde, e ouvir boas histórias.

Uma delas me foi contada por um filho de enfermeiro já aposentado, que vacinava público numeroso há algumas décadas, quando não existiam seringas ou agulhas descartáveis. O profissional, antes de iniciar o expediente, dedicava-se a fazer nova ponta na extremidade da agulha, que após um dia inteiro de uso ficava rombuda. Parece lenda, não?

Outro relato chegou por um amigo que vive em Portugal e fora convocado pelo Exército para a guerra pela independência das colonias africanas. Era rapaz e, junto com a tropa recém-chegada, foi levado para receber algum medicamento preventivo. Segundo ele, os recrutas se puseram em fila para atendimento por três enfermeiros. Como numa linha de montagem, o primeiro higienizava o braço de cada um. O segundo espetava a agulha no local limpo. E o terceiro acoplava à agulha a seringa com o líquido. Fiquei imaginando aquela agulha enfiada nos braços à espera de complemento. Que agonia!

Sou antiga, e cheguei a conhecer as injeções não descartáveis. Vinham numas caixinhas de metal que, na infância, pareciam atraentes porque prateadas e brilhantes. Algumas ampolas eram bonitas, com um vidro opaco semelhante aos jateados de agora. Mas as agulhas eram sempre temerárias, compridas, grossas, e ainda precisávamos assistir ao ritual de espirrar parte do líquido para o ar, a fim de mantê-la desentupida, o que parecia prolongar por uma eternidade a expectativa.

Agora se aproxima a data da segunda dose contra a Covid-19 e, por via das dúvidas, pretendo recebê-la num posto diferente. No primeiro, fiquei preocupada com a integridade das vacinas, porque era um ginásio de esportes amplo e sem ar condicionado, onde fazia muito calor. Já não estarei tão ansiosa como antes, a enfermeira será outra e quem sabe, desta vez, saia apenas com um furinho quase invisível em vez de mancha e, com certeza, levarei para casa imensa esperança de um tempo melhor, a partir do 16º dia.