sexta-feira, maio 29

Farol

 


Crepúsculo

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
David Mourão-Ferreira

Cor-de-rosa

O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa sua casa, e de azul-claro o beiral e os marcos e folhas das janelas. Esta providência dá margem a algumas divagações que aqui se transmitem ao leitor, nosso companheiro.

O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.

Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua existência.

De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar aquilo no chão.

A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição de algo fundamental, como é a casa em que vivemos.

Tendo destruído essa parte do ser, as pessoas transportam os remanescentes para os ossuários erguidos apressadamente no mesmo local, e que se arrumam pelo princípio da superposição de urnas. Aí aguardarão, talvez até a consumação dos séculos, o dia da ressurreição das casas.

Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa. Vale dizer que ele não atendeu o telefone, quando o chamaram para consultá-lo vagamente sobre a hipótese da derrubada, que não compareceu ao escritório onde peritos blandiciosos o convenceriam da inconveniência de morar à maneira antiga, metendo em brios o seu amor-próprio, pois se todo mundo desistiu de tal maneira, por que só ele continua teimando? Ou compareceu, foi amaciado, reagiu, tornaram a amaciá-lo, esteve a ponto de ceder, a vista se lhe turvou qual plúmbeo véu, eram tantos milhões de cruzeiros, mas cobrou ânimo e reagiu outra vez, o senhor é louco, não vê que a valorização naquela zona o proíbe de continuar a deter o surto imobiliário, isso é um crime, o senhor está perdendo dez mil cruzeiros por semana, onde é que anda o amor que devota a seus filhos, e o gabarito, e a vaga na garagem, e o fabuloso jardim de inverno, e o vizinho vai capitular, não, ainda, não; passa-lhe pela mente o frontispício cor-de-rosa, com elementos azuis, de uma antiga mansão onde a vida era feliz, ou pelo menos ficou sendo naquele tempo; depois que considerou bem, o vizinho enxuga o suor da testa, grita nããão, e sai e chama o pintor e lhe ordena: pinte tudo cor-de-rosa, com os beirais e as janelas de azul de mês de Maria, quero minha casa bem bonita, como bonito era o sobradão de 1800 e tantos onde meu bisavô nasceu, e quero ver, mas quero ver quem derruba minha casinha!
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De cor-de-rosa e de azul-claro ele pintou sua casa, de azul-claro e de rosa devíamos todos revestir uma fração de nossa vida, já que não é possível pintá-la completamente de cores tão puras.

Carlos Drummond de Andrade, “Fala, amendoeira”

Passeio à infância

Primeiro vamos lá embaixo no córrego; pegaremos dois pequenos cacas dourados. E como faz calor, veja, os lagostins saem da toca. Quer ir de batelão, na ilha, comer ingás? Ou vamos ficar bestando nessa areia onde o sol dourado atravessa a água rasa? Não catemos pedrinhas redondas para a atiradeira, porque é urgente subir no morro; os sanhaços estão bicando os cajus maduros. É janeiro, grande mês de janeiro!
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Podemos cortar folhas de pita, ir para o outro lado do morro e descer escorregando no capim até a beira do açude. Com dois paus de pita, faremos uma balsa, e, como o carnaval é no mês que vem, vamos apanhar tabatinga para fazer fôrmas de máscaras. Ou então vamos jogar bola-preta: do outro lado do jardim tem um pé de saboneteira.
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Se quiser, vamos. Converta-se, bela mulher estranha, numa simples menina de pernas magras e vamos passear nessa infância de uma terra longe. É verdade que jamais comeu angu de fundo de panela?


Bem pouca coisa eu sei: mas tudo que sei lhe ensino. Estaremos debaixo da goiabeira; eu cortarei uma forquilha com o canivete. Mas não consigo imaginá-la assim; talvez se na praia ainda houver pitangueiras… Havia pitangueiras na praia? Tenho uma ideia vaga de pitangueiras junto a praia. Iremos catar conchas cor-de-rosa e búzios crespos, ou armar o alçapão junto do brejo para pegar papa-capim. Quer? Agora devem ser três horas da tarde, as galinhas lá fora estão cacarejanda de sono, você gosta de fruta-pão assada com manteiga? Eu lhe dou aipim ainda quente com melado. Talvez você fosse como aquela menina rica;, de fora, que achou horrível nosso pobre doce de abóbora e coco.
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Mas eu a levarei para a beira do ribeirão, na sombra fria do bambual; ali pescarei piaus. Há rolinhas. Ou então ir descendo o rio numa canoa bem devagar e de repente dar um galope na correnteza, passando rente às pedras, como se a canoa fosse um cavalo solto. Ou nadar mar afora até não poder mais e depois virar e ficar olhando as nuvens brancas. Bem pouca coisa eu sei; os outros meninos riram de mim porque cortei uma iba de assa-peixe. Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado com os soldados de canoa dando tiros, e havia uma mulher do outro lado do rio gritando.

Mas como eu poderia, mulher estranha, convertê-la em menina para subir comigo pela capoeira? Uma vez vi uma urutu junto de um tronco queimado; e me lembro de muitas meninas. Tinha uma que era para mim uma adoração. Ah, paixão da infância, paixão que não amarga. Assim eu queria gostar de você, mulher estranha que ora venho conhecer, homem madura. Homem maduro, ido e vivido; mas quando a olhei, você estava distraída, meus olhos eram outra vez os encantados olhos daquele menino feio do segundo ano primário que quase não tinha coragem de olhar a menina um pouco mais alta da ponta direita do banco.
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Adoração de infância. Ao menos você conhece um passarinho chamado saíra? É um passarinho miúdo imagine uma saíra grande que de súbito aparecesse a um menino que só tivesse visto coleiros e curiós, ou pobres cambaxirras. Imagine um arco-íris visto na mais remota infância, sobre os morros e o rio. O menino da roça que pela primeira vez vê as algas do mar se balançando sob a onda clara, junto da pedra.

Ardente da mais pura paixão de beleza é a adoração da infância. Na minha adolescência você seria uma tortura. Quero levá-la para ,a meninice. Bem pouca coisa eu sei; uma vez na fazenda riram: ele não sabe nem passar um barbicacho! Mas o que sei lhe ensino; são pequenas coisas do mato e da água, são humildes coisas, e você é tão bela e estranha! Inutilmente tento convertê-la em menina de pernas magras, o joelho ralado, um pouco de lama seca do brejo no meio dos dedos dos pés.
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Linda como a areia que a onda ondeou. Saíra grande! Na adolescência me torturaria; mas sou um homem maduro. Ainda assim às vezes é como um bando de sanhaços bicando os cajus de meu cajueiro, um cardume de peixes dourados avançando, saltando ao sol, na piracema; um bambual com sombra fria, onde ouvi silvo de cobra, e eu quisera tanto dormir. Tanto dormir! Preciso de um sossego de beira de rio, com remanso, com cigarras. Mas você é como se houvesse demasiadas cigarras cantando numa pobre tarde de homem.

Rubem Braga,  “200 crônicas escolhidas”

Progresso

O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho do seu pai no tempo em que não havia computadores. O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs-se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada — e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar, encontrou-a dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preta e metade vermelha, colocando-a então de novo no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes sem conta eles estiveram juntos. “Como é que funciona, pai?”, o menino perguntou. “É assim que funciona...”, respondeu o pai. A seguir, colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquitilografar” (era assim que o meu pai falava) umas frases soltas. Ao ver a máquina em ação, o menino fez um “oh” de espanto. “Que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar as letras que o texto sai impresso...” O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Cortázar que se chama, se não me engano, A história das invenções. Só que tudo acontece não de trás para a frente, mas da frente para trás. A história começa num voo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens, inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, em vez de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de quinze quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim, poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e ver os rios, bosques e vilas... E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor... Até que, depois de muito progresso, da invenção dos navios a vela não poluentes e das bicicletas que fazem bem ao coração, os humanos inventam a mais fantástica de todas as invenções: eles inventam o “andar a pé”…
Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"

quinta-feira, maio 28

Asas à liberdade

 


O coração risonho

Sua vida é sua vida
Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.
Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão
Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.
Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.
Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.

Charles Bukowski, "Antologia Poética"

As velhinhas da rue Hamelin

Rue Hamelin, onde morreu Proust. Ali pertinho é a rua Lauriston, onde morreram muitas outras pessoas menos conhecidas: ali era a casa das torturas da Gestapo. Mas na rue Hamelin há coisas imortais: suas velhinhas não morrem nunca. Há aquelas duas que vão todo dia ao mesmo “bistrô”: uma corpulenta, sempre de chapéu, que lê o Figaro e reclama a qualidade do vinho tinto, mas reclama com uma dignidade que se ajusta bem aos seus 70 anos; reclama e bebe. Mora um pouco para baixo de minha casa, e eu gostaria de imaginar que mora na casa em que morreu Proust; mas não, onde Proust morreu vive hoje um sindicato.

Atravessa a av. Kleber com um passo lento no seu vestido negro sempre impecável; como todas essas outras digníssimas velhas usa um vestido que se fecha no pescoço em uma espécie de gola alta, onde há rendas e talvez elástico, talvez barbatana, uma gola que mantém a cabeça ereta através dos séculos, capaz de ver de cima, sem se curvar, as pequenezas do mundo presente. Atravessa a avenida sem olhar para os lados, como se todos os chauffeurs de Paris tivessem o dever de respeitá-la; talvez ao se aproximarem de sua pessoa esses carros motorizados se transformem secretamente em coches e diligências, para fazer ambiente para a sua travessia.


A outra velhinha tem o ar triste ― e come muito. Não creio que dure muito; mas é verdade que há trinta anos atrás ela poderia dar a mesma impressão. É infinitamente velha, e apesar da gola apertada anda devagarinho a olhar disfarçadamente para o chão, como se temesse tropeçar e cair dentro de alguma sepultura. Sua própria velhice já deve ser uma coisa muito velha; ela deve ter perdido algum neto muito querido na guerra franco-prussiana e desde então tem esse ar triste.

Há ainda uma velha pobre, mas também vestida com a maior dignidade. Outro dia cheguei à janela, atraído por alguns sons feios e tristes que pareciam querer se encaminhar no sentido de uma certa melodia: era essa velha que cantava. Cantava no meio da rua, em pleno sol, parada, olhando os cinco andares da janela. Hesitei um instante antes de lhe jogar algum dinheiro. Sua presença era tão severa como a da genitora de um magistrado mineiro em dia de missa de sétimo dia pela alma de outra genitora de outro magistrado mineiro, na igreja de São José.

Temi ofendê-la jogando-lhe dinheiro, como já fizera em benefício do cego e da mocinha ou do homem da rebeca ou do algeriano do macaco que dança ao som do tambor. (Sim, porque a rue Hamelin tem seus artistas errantes). A velha senhora tentava cantar uma velha canção; joguei-lhe algumas moedas dentro de um maço de cigarros. Parou de cantar e recolheu o dinheiro com um gesto difícil e lento, sem se dignar de me agradecer.

Há dois velhos extraordinariamente magros, extraordinariamente brancos, vestidos de negro, com chapéus negros, que andam juntos, mas não se falam nunca, como se há quarenta anos atrás tivessem esgotado de maneira irremediável o último assunto; mas há um velho que, segundo descobriu dom Carlos de Reverbel, adora o trato com os outros seres humanos. Veste-se com menos esmero, talvez com uma limpeza duvidosa; até seus cabelos brancos e sua pele parecem mais encardidos pelos anos e pelas intempéries. Usa uma espécie de sobrecasaca imutável e gosta de ficar parado perto do métro Boissiéres. De vez em quando detém um transeunte. Já assistimos a essa cena, que o próprio Reverbel, com sua paciência, já viveu duas vezes. O ancião pede desculpas e faz alguma pergunta sobre a direção em que deve viajar para uma certa gare. A pessoa explica com gentileza: descer em Trocadéro, pegar então direção de Sévres, etc. O velho ouve com a máxima atenção, movendo a cabeça; e acaba perguntando se não seria muito incômodo mostrar-lhe o itinerário no mapa. Vêm então os dois até o mapa e a explicação é repetida. O velho agradece muito, e o outro segue seu caminho, convencido de que praticou uma boa ação. O que não é inexato. Seria inexato, porém, pensar que o digno senhor pretendia ir à Rua Molitor ou a qualquer outra parte. Nunca. Jamais desce as escadas do métro; continua ali na calçada, com um ar meio desorientado, à espera de outra estação. Nunca vai, nunca foi a parte alguma; nasceu, já de sobrecasaca, num desses escuros casarões da rue Hamelin, e no lugar de morrer talvez vire estátua na pracinha ali atrás; há muitas estátuas em Paris e se esse velho se disfarçar em bronze e ficar quietinho no meio do jardim, ninguém duvidará que ele seja, por exemplo, o próprio Hamelin. (Desconfio vagamente que é).

Mas foi na esquina de Galilée que assisti a um dos encontros mais tocantes que me foi dado presenciar na vida. Vinha de um lado uma velhinha e de outro lado outra. À primeira vista eram iguais; vestidas de negro, luzidias, com passos miúdos, magrinhas como duas formigas. Duas formigas quando se encontram param para conversar ― e as velhinhas pararam na esquina. Durante um instante uma pareceu observar com atenção a outra; e cada uma deve ter chegado à conclusão de que a outra estava irrepreensível, desde os sapatos pretos até o chapéu preto, desde a bolsa até a pintura das faces. (Porque essas velhinhas de Paris, muitas vezes se pintam: além de se pintarem creio que se armam com espartilhos e outros mecanismos capazes de suster na vertical seus minguadíssimos restinhos de carne que talvez de outro modo, libertados de tudo isso, virassem cinza e se espalhassem ao vento dos boulevards). As duas formiguinhas se fiscalizaram um instante: eram ambas tão incrivelmente velhinhas que talvez cada uma apenas quisesse se certificar de que a outra realmente ainda estava viva, ainda existia ao cabo de tantos e tantos séculos. Ambas resistiram à crítica ― e então como ficaram alegrinhas em se ver! Como ficaram alegrinhas! Parei para vê-las: trocavam palavras gentis com suas vozes de meninas roucas, agitando um pouco ao falar, as duas mãos, movendo um pouco para a frente os corpos mirradinhos, concordando, agradecendo, sorrindo infinitamente felizes. Então se separaram ― e apenas achei um pouco exagerado que, ao se separarem, uma dissesse au revoir à outra. Não, elas não se reverão: não, tudo tem um limite, mesmo essas velhinhas da rue Hamelin. Certamente cada uma chegou em casa, deitou-se assim mesmo, toda bem vestidinha, em sua caminha, trançou as mãos sobre o peito murcho ― e morreu, afinal.
Rubem Braga

Dia do Cronista. Por que não?

Outro dia percebi um fato curioso: não existe o Dia do Cronista. Existe o do cronista esportivo, figura respeitável que sofre em público por causa do impedimento e da lateral mal cobrada, mas o cronista comum, o cronista raiz, aquele que escreve sobre o elevador que nunca chega ou sobre o cachorro que pensa que é gente, esse ficou sem calendário.

É estranho. Temos o Dia do Abraço, o Dia do Café, o Dia da Toalha, o Dia do Orgulho Geek e certamente deve existir o Dia Internacional do Fio Embolado Atrás da Mesa. O calendário contemporâneo abraça tudo. Qualquer objeto que permaneça parado tempo suficiente acaba homenageado. O cronista, porém, segue órfão de data.

Talvez seja justo.

O cronista vive do que escapa às datas. Ele trabalha no território do acontecimento inútil. Não o grande fato histórico, mas o pequeno desastre doméstico: a torrada que cai sempre do lado da manteiga, o sujeito que aperta o botão do elevador dezessete vezes como se estivesse enviando uma mensagem em código morse, a criança que faz perguntas surreais aos pais.

O cronista é uma espécie de arqueólogo do irrelevante.

Enquanto o repórter corre atrás da notícia, o cronista tenta alcançar a senhora que conversa com as plantas na sacada. E geralmente não a alcança, porque ela entra antes no elevador onde estava o sujeito do código morse.

Dar ao cronista um único dia talvez seja limitar sua atuação. Afinal, ele opera em tempo integral. O cronista está sempre de plantão diante da banalidade. Basta alguém espirrar de forma dramática num ônibus e pronto: nasce uma reflexão sobre a fragilidade humana e a circulação do vírus.

Há também outro problema. Se existir o Dia do Cronista, inevitavelmente surgirão eventos oficiais. Haverá palestras. Mesas-redondas na Flip. Painéis chamados “A crônica hodierna”. O cronista seria obrigado a usar crachá, e nada combina menos com um cronista do que uma identificação pendurada no peito.

Imagino até a cerimônia.

Alguém subiria ao palco para homenagear “os profissionais que transformam o cotidiano em alta literatura”, enquanto, no fundo do auditório, um cronista estaria escrevendo justamente sobre o microfone que não funciona. Ou sobre o garçom que serve café com expressão de quem desistiu da humanidade em 2007.

Por isso, proponho uma solução alternativa: teremos o Dia do Cronista, sim, mas ele seria em um feriado. Em um dia em que ninguém escreveria nada. Os jornais sairiam em branco. Os leitores leriam bula de remédio por falta de opção. Mas algum cronista, claro, inevitavelmente, acabaria anotando num guardanapo: “Hoje não aconteceu nada. Ainda bem. Já temos assunto.”

quarta-feira, maio 27

Leitura no parque

 


Os anjos contam histórias

O chefe da família na máquina de trabalhar. A mulher na enceradeira. A cozinheira no fogão. O passarinho na gaiola. Os peixes no mar. A gaivota pescando. A menina rolando no chão. O menino, doente, na cama. Todos nós somos deste mundo, menos as crianças. E o menino, perseguido de visões febris, vai falando sem parar:

“O filho da vaca é o bezerrinho, o pai da vaca é o boi. Não é? Eu vou morar num sítio. Morar muito. Um dia, quando eu fui fazer pipi, vi duas professoras de inglês. Igual. Eu vou trazer um pato do sítio e botar em cima da cabeça do Didi. Quando eu ficar bom, quero ir no circo. Eu já cortei a mão. Papai, papai-i: conta uma história de camelinho. História triste, não. Nova e alegre. Mãe, tá doendo, tou com dor de cabeça. Eu só gosto daquele remédio cor de laranja. Cafiaspirina eu não gosto. O gatinho caiu no poço, vestido de amarelo, todo mundo veio em volta pensando que era marmelo. Quando eu fui no colégio vi nuvens. A nuvem estava passando nas nuvens. Não estava chovendo. Ai, eu quero sair da cama! Laurita, eu não vou comer aquela coisa que arde. Papai é um burro, mamãe é a mulher do burro, e eu sou um burrinho. Mãe-i, você vai um dia naquela esquina longe? Lá tem anzol. Você compra uma vara nova, que o peixinho não gosta de vara velha, não.

Eu te dou um bombom. Galibi é menina, mas ela gosta de pescar. Se não fizer um poleiro, o galo sobe na árvore e estraga as pitangas. Pai-i, quando eu crescer, vou ganhar um trem de ferro elétrico. Você vai dar. Meu dodói dói. Eu não comi muita azeitona. Maionese eu não gosto. Maionese é aquele remédio que eu tomei agora.

Eu só gosto de remédio vermelho. Elefante gosta de amendoim. Tia Edir sabe fazer espantalho: snowman ela não sabe, não: aqui não tem inverno. Se você fala inglês, papagaio também fala. Mas fala também paracopaco, não fala? Leão de circo não come você, não; de jardim zoológico come. Galibi, conta uma história…”

A irmã sobe na cama e começa a contar uma história:

“Era uma vez um nenê. Era só cantar ‘Dorme, nenê’, que ele dormia. Mas logo depois precisava de chegar uma porção de anjos. Já conheciam a dona daquela casa, e por isso tinham dado o nenê para ela. A mãe fazia roupa para o seu nenê querido. Um dia, a família foi viajar; o nenê foi de roupa muito bonita. Quando voltaram da linda viagem, quem adorou mais foi o nenê. Era só o que faltava! Os anjos! Sim, sua mãe sempre precisava dos anjos para ajudar. O nenê adorava sua mãe, mas não podia faltar nada para ele, e, assim, não deixava ela fazer nada, gritava, chorava, fazia tantas molecagens que a mamãe não podia trabalhar. A mãe um dia chamou os anjos e pediu que eles dessem um jeito. Os anjos, muito espertos, levaram o nenê para a mata, para o galho duma árvore. O nenê ficou contente da vida! Os passarinhos traziam flores para ele, as abelhas traziam mel, o nenê ria. Enquanto isso, seu pai tinha viajado e sua mãe também. Antes de voltar da viagem, a mãe, de tanta saudade daquele nenê querido, mandou o irmão buscar ele na mata. Quando o irmão chegou, o nenê estava brincando com as estrelas do céu, e os anjos estavam procurando diamantes. Já era bem de noite e o sol estava se escondendo. Até o seu corrupião estava com fome. Mas, aí, sua mãe já era tão pobre que não tinha mais empregada. Todos eram pobres, o cachorro, a árvore, o cavalo. Mas enfim tudo estava em silêncio e quieto. Era uma hora da madrugada, e já estava quase ficando de dia. A noite era tão triste e a mãe não tinha comida. Na hora de jantar, só tinha dado leite, bife, batata, sopa, salada e aveia. Então chegou um anjinho e contou uma história para o nenê: ‘Era uma vez uma cidade que tinha muitas casas de frutas, mas o sol estava tão quente que mandava seus raios para todos os lados’. O nenê sentiu muito o sol da história, e o anjo então mandou que os raios de luz começassem a ir embora. Quando ficou de noite outra vez, o sol foi para a China. A China não é perto, é muito longe. O nenê também foi para a China, porque não gostava de escuro. E todo dia, quando ficava escuro, ia para a China. E os anjinhos nunca mais encontraram o nenê naquela caminha tão boa.”

O menino diz: “Pai, a Inês me ensinou a fazer navio”.
Paulo Mendes Campos

O pobre que ganhou no bicho graças a Nossa Senhora

Outro orientalismo na vida — inclusive na mística do brasileiro não só de Recife como do Brasil inteiro — parece que é o jogo do bicho. Diz-se que foi o barão de Drummond que o inventou. Mas em 1900 já havia quem sustentasse que não: que o jogo do bicho, em vez de inventado por brasileiro, fora adaptado ao Brasil, de modelo ou exemplo oriental. “A suposta e portentosa criação do finado barão de Drummond” — escrevia o Jornal pequeno, do Recife, em sua edição de 4 de setembro daquele ano: o primeiro ano de um novo século ou assim comemorado na capital de Pernambuco como noutras capitais, inclusive Londres — “o jogo dos bichos, hoje inveterado para sempre, talvez, em todas as classes da sociedade carioca e de quase todo o Brasil, não é positivamente uma criação, mas uma adaptação consciente ou inconsciente do que se pratica há longos anos na Cochinchina”. E para prová-lo, citava recente livro de um Pierre Nicolas no qual se descrevia velho jogo oriental com 36 bichos, evidentemente pai ou avô do jogo brasileiro.

Contou-me há anos o falecido mestre-cuca José Pedro, filho de célebre capoeira do Poço da Panela e que morreu senhor todo-poderoso do forno e do fogão de uma toca de solteirões perto da Casa-Forte — que no seu tempo de menino — “menino, não, moleque”, teria corrigido José Maria de Albuquerque e Melo, como de uma feita corrigiu, na presença do irmão, Manuel Caetano, o próprio José Patrocínio — conhecera um homem que se libertara da mais triste e feia pobreza, jogando um dia no bicho. Mas jogando no bicho na certeza de ganhar, desde que a própria Nossa Senhora do Carmo, sua madrinha, lhe aparecera nas nuvens e lhe indicara o bicho exato em que devia jogar.

O pobre do recifense já não sabia o que fazer para dar de comer à mulher e a não sei quantos filhos pequenos, todos a crescerem nus e barrigudinhos num mucambo da ilha do Joaneiro. Uma tarde de domingo estava ele a pensar na vida, estirado numa velha cama de vento, não dentro do mucambo mas ao ar livre. Céu aberto. Pensava na vida e ao mesmo tempo se distraía vendo passar as nuvens quase todas parecidas com carneirinhos, outras só com flocos de algodão. Mas nem cogitava o homem de jogo de bicho. Nem era jogador. Raramente arriscava um tostãozinho em jogo ou cachaça. Tampouco estava pensando na madrinha, que era Nossa Senhora do Carmo, à qual muito já tinha rezado para o livrar de pobreza tão negra; mas em vão. A madrinha parecia só ouvir as rezas dos afilhados ricos, dos filhos de comendadores, das moças elegantes que a enchiam de joias de ouro e se esmeravam em enfeitar os altares da igreja do Convento do Carmo, de flores raras.

De repente, porém, o pobre que — garantia José Pedro — “não estava dormindo” pois “pobre não sabe dormir de dia”, vê umas nuvens muito brancas se abrirem; e aparecer, no azul-celeste, como iluminada por muita luz elétrica, sua madrinha. Aparece a santa em toda sua glória e aponta com o dedo luminoso para uma nuvem que, também de repente, toma a forma de um bicho: a forma clara de um bicho que já não me lembro qual foi. Nem está vivo o bom do José Pedro para me refrescar a memória.

O recifense pobre esfregou os olhos: não era sonho. A santa lá estava e a nuvem com forma de bicho, também. Gritou então o afilhado de Nossa Senhora do Carmo pela mulher. Que corresse! Que viesse ver! Assombramento! Milagre! Pulou da cama. Mas nisso a santa se sumiu. A nuvem em forma de bicho foi tomando outro aspecto. O céu voltou a ser o mesmo céu recifensemente azul, sem outra iluminação que a do sol de fim de tarde. O recifense é que não cabia em si de assombrado e de contente. Era um sinal do céu para que ele se livrasse da pobreza.

Foi a um compadre e pediu dinheiro emprestado. O compadre fez cara feia mas acabou cedendo, impressionado de algum modo com a história da santa: conto de fada que, na boca de um homem que ele sabia sério e bom e não um falastrão qualquer, dava o que pensar.

Na segunda-feira, o afilhado da santa madrugou junto à banca do melhor bicheiro da Encruzilhada naquela época. Fez jogo completo. Carregou na centena. Aventurou alguma coisa no milhar. E de tarde, por mais estranho que pareça, era um triunfador completo. Ganhara em tudo. Estava cheio de “louras”, como então ainda se dizia.

Garantia-me José Pedro, que conhecia o “calso” em todas as suas minúcias, que tudo se passara assim. Que de mucambo da ilha de Joaneiro o pobre, de repente enriquecido graças a Nossa Senhora do Carmo, passara a morar em chalé da Torre, com os filhos em colégio de padre e a mulher com dente de ouro e chapéu de pluma, passeando na rua Nova e tomando sorvete no Café Rui.
Gilberto Freyre

O homem que lê

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke, "O Livro das Imagens"

Madrugada

Acordou assustada e medrosa no silêncio da casa adormecida. Era como se fosse a única habitante de um mundo de quietude e solidão. Um mundo trêmulo de felicidade que um gesto desajeitado poderia quebrar e destruir. Escorregou de manso sob as cobertas, com medo que ele acordasse, a respiração ritmada de seu sono tranquilo, a mão largada junto ao rosto, nesse jeito meio perdido de criança de todo homem adormecido. Ficou sentada um pouco na beirada da cama, amaciando com a ponta do pé descalço a lã do tapete. E viu-se de repente no espelho, na madrugada que principiava a entrar de manso pelas frestas das venezianas, o rosto meio escondido pelo cabelo, uma vaga silhueta de mulher, um jeito meio ansioso, a ingênua camisola branca, refletida no espelho.

Tinha nascido com ela aquela sensação pungente da infinita precariedade de tudo, que a acompanhara, sem largar, por toda a vida. Fora assim que surpreendera a beleza no seu rosto, no céu, nas águas, no mundo. Fora com essas mãos surpreendidas e desesperadas de não poderem reter coisa nenhuma, que segurara um filho no colo, um rosto bem amado, um momento de prazer. E todos esses sentimentos se atropelavam, agora – suspensos em que noção de tempo? – nesta madrugada estrangeira, que ia virando dia, numa cidade com que sonhara uma vida inteira, ao lado de um homem que não era mais seu. O dia ia nascendo e com ele o anúncio de todas as partidas. E do fundo do seu sono ordenara a si mesma que acordasse, que ficasse a espiar, a tentar reter – como? – aquele momento, no escuro do quarto em que ele dormia, livre de cuidados, a sua última noite juntos.

Nunca sentira o mundo ou este homem mais seus do que nesse instante em que ambos ainda não tinham acordado e em que lhe pertenciam, tão brevemente, por inteiro. Levantou-se de manso – e seu vulto no espelho, amaciando os passos e a respiração, abriu sem ruído uma fresta da veneziana – sentiu no rosto o ar fresco que vinha lá de fora, guardou pedra por pedra na memória a ruazinha estreita, descendo para o porto, a névoa que começava a debruar o horizonte. Vinha do fim da ladeira um trabalhador encapotado, uma janela abriu-se barulhenta com um riso de mulher.

Teve medo desse dia que ia nascendo, fechou a janela depressa para que ele não entrasse no quarto. Voltou-se para a cama em que o homem dormia, ressonando de leve, escondendo o rosto no travesseiro para aprofundar mais no seu sono. Começou a falar baixinho, quase sem palavras, com ele – dizem que se pode falar assim com o espírito, que vagueia, dos que estão adormecidos. – Disse-lhe do seu amor, de sua angústia, de sua pena. De toda a solidão com que ia ficar. Estava alegre – sabe? – muito obrigada, sabe? – a ele, à vida, ao que fosse, meu Deus. Nunca mais dormiria o seu sono junto dela. Mas que dormisse bem. E acordasse em paz, em alegria. Essa hora ficaria com ela, só sua, de mais ninguém. E até nunca mais.
Elsie Lessa

terça-feira, maio 26

Cada um lê onde pode

 


O cervo escondido

Um lenhador de Cheng encontrou-se na campo com um cervo assustado e o matou. Para evitar que outros o descobrissem, enterrou-o na floresta, cobrindo a cova com f olhas e ramos. Pouco tempo depois esqueceu o local onde o havia escondido, e pensou que tudo não passara de um sonho. Assim, contou o fato a toda a gente como se fosse um sonho. Entre os ouvintes, houve um que foi procurar o cervo enterrado e o encontrou. Levou-o a sua casa e disse à sua mulher:

— Um lenhador sonhou que havia matado um cervo e esqueceu onde o tinha escondido, e agora eu o encontrei. Este homem sim, é que é um sonhador...

— Na certa sonhaste que viste um lenhador que havia matado um cervo. Crês realmente que existiu, o lenhador? Mas como o cervo está aqui, teu sonho deve ser verdadeiro — disse a mulher.

— Ainda que suponhamos que eu tenha encontrado o cervo graças a um sonho — respondeu ò marido — por que nos preocuparemos em saber qual dos dois sonhou?

Naquela noite o lenhador voltou para casa pensando ainda no cervo, e realmente sonhou, e neste sonho sonhou o lugar onde havia escondido o cervo e sonhou também quem o havia encontrado. Ao amanhecer foi a casa do outro e encontrou o cervo. Os dois discutiram e terminaram diante de um juiz para que este resolvesse o assunto. O juiz disse ao lenhador:

— Realmente mataste um cervo e pensaste que era um sonho. Em seguida sonhaste realmente, e então pensaste que era a realidade. O outro encontrou o cervo e agora o disputa, porém sua mulher pensa que ele sonhou que havia encontrado um cervo que outro havia matado. Logo, ninguém matou o cervo. Porém como aqui está o cervo, o melhor que os dois podem fazer é reparti-lo.

O caso chegou aos ouvidos do rei de Cheng e o rei de Cheng disse:

— E esse juiz? Não estará ele sonhando que reparte um cervo?
Lieh-tsé (c. 300 a.C.) 
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"

O passarinho do Diabo

Qualquer que seja o desfecho, já se tem o símbolo da crise que mais uma vez nos põe à beira não do abismo, mas do imprevisto. Dizem que o imprevisto é a lei da História. E a História, por sua vez, já dizia Heródoto, é a mestra da vida. No caso do Brasil, os antecedentes não são muito animadores. Mas quero agora chamar a atenção é para o símbolo, ou seja, o morcego. Morcego Negro, se quiserem, com maiúsculas.

Que é que leva um sujeito a batizar um avião assim? Pensar num morcego! Um animal repelente, que rivaliza com o rato. Aliás, é rato na origem etimológica: mus, no acusativo murem. Rato cego, coecum, porque se supõe que o morcego não enxerga. Tem radar, como o avião moderno. Mamífero voador, quiróptero, é um bicho estranhíssimo. Não tem bico, mas tem asas, que são patágios, isto é, membranas. Nelas o povo vê uma espécie de capa sinistra.

Por mal dos pecados, o morcego é notívago. Só sai à noite, para melhor se esconder. Age na treva. Teme a luz do dia. Vive embiocado, fechado em si mesmo. Alimenta-se de frutos e de insetos. Mas pode ser ictiófago (come peixe). E, the last but not the least, é também hematófago. Neste caso, seu prato favorito é o sangue. Ladrão, o morcego na calada da noite se instala no lombo de um boi e lhe chupa o sangue. Há quem jure que a vítima pode ser igualmente um ser humano.

Aqui temos o vampiro. Exemplar da zoologia fantástica, existe também na vida real. Repulsivo, cientificamente conhecido como Desmodus rotundus, suga animais e homens. Pode lhes transmitir a raiva, ou hidrofobia. Na imaginação popular, o vampiro tem preferência pelas mulheres grávidas. E pelas moças virgens. Sobre o vampiro, há vasta literatura, com farta cinematografia. Toda e qualquer conotação é sempre negativa, para não dizer horrenda.

Entre as cem espécies de morcegos brasileiros, nenhum deixa de ser visto como bicho asqueroso. São feíssimos. Metaforicamente, morcego é pior do que rato. Ladrão, sanguessuga, no folclore é associado ao diabo. Passarinho do diabo, seu sócio, é malvisto e perseguido em toda parte. Até entre os indígenas, dito Cupendiepe, o morcego se esconde na caverna e de lá só sai para o mal. Representa o lado vicioso da natureza humana. O podre, anagrama de poder. Em suma, é o símbolo mais eloquente da corrupção.
Otto Lara Resende

Sonho domado

Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Thiago de Mello

O jardineiro Timóteo

O casarão da fazenda era ao jeito das velhas moradias coloniais: frente com varanda, uma ala e pátio interno. Neste ficava o jardim, também à moda antiga, cheio de plantas antigas, cujas flores punham no ar um saudoso perfume de antanho. Quarenta anos havia que lhe zelava dos canteiros o bom Timóteo, um preto branco por dentro. Timóteo o plantou quando a fazenda se abria e a casa inda cheirava a reboco fresco e tintas de óleo recentes, e desde aí — lá se iam quarenta anos — ninguém mais teve licença de pôr a mão em “seu jardim”.

Verdadeiro poeta, o bom Timóteo.

Não desses que fazem versos, mas dos que sentem a poesia sutil das coisas. Compusera, sem o saber, um maravilhoso poema onde cada plantinha era um verso que só ele conhecia, verso vivo, risonho ao reflorir anual da primavera, desmedrado e sofredor quando junho sibilava no ar os látegos do frio. O jardim tornara-se a memória viva da casa. Tudo nele correspondia a uma significação familiar de suave encanto, e assim foi desde o começo, ao riscarem-se os canteiros na terra virgem ainda recendente à escavação. O canteiro principal consagrara-o Timóteo ao “Sinhô-Velho”, tronco da estirpe e generoso amigo que lhe dera carta de alforria muito antes da Lei Áurea. Nasceu faceiro e bonito, cercado de tijolos novos vindos do forno para ali inda quentes, e embutidos no chão como rude cíngulo de coral; hoje, semidesfeitos pela usura do tempo e tão tenros que a unha os penetra, esses tijolos esverdecem nos musgos da velhice.

“Veludo de muro velho” é como chama Timóteo a essa muscínea invasora, filha da sombra e da umidade. E é bem isso, porque o musgo foge sempre aos muros secos, vidrentos, esfogueados de sol, para estender devagarinho o seu veludo prenunciador de tapera sobre os muros alquebrados, de emboço já carcomido e todo aberto em fendas.

Bem no centro erguia-se um nodoso pé de jasmim-do-cabo, de galhos negros e copa dominante, ao qual o zeloso guardião nunca permitiu que outra planta sobre-excedesse em altura. Simbolizava o homem que o havia comprado por dois contos de réis, dum importador de escravos de Angola.

– Tenha paciência, minha negra! — conversava ele com as roseiras de setembro, teimosas em espichar para o céu brotos audazes. — Tenha paciência, que aqui ninguém olha de cima para o Sinhô-Velho.

E sua tesoura afiada punha abaixo, sem dó, todos os rebentos temerários.

Cercando o jasmineiro havia uma coroa de periquitos, e outra menor de cravinas. Mais nada.

– Ele era homem simples, pouco amigo de complicações. Que fique ali sozinho com o periquito e as irmãzinhas do cravo.

Dos outros canteiros, dois eram em forma de coração.

– Este é o de Sinhazinha; e como ela um dia há de casar, fica a par dele o canteiro do Sinhô-Moço.

O canteiro de Sinhazinha era de todos o mais alegre, dando bem a imagem de um coração de mulher rico de todas as flores do sentimento. Sempre risonho, tinha a propriedade de prender os olhos de quantos penetravam no jardim. Tal qual a moça, que desde menina se habituara a monopolizar os carinhos da família e a dedicação dos escravos, chegando esta a ponto de ao sobrevir a Lei Áurea nenhum ter ânimo de afastar-se da fazenda. Emancipação? Loucura! Quem, uma vez cativo de Sinhazinha, podia jamais romper as algemas da doce escravidão?

Assim ela na família, assim o seu canteiro entre os demais. Livro aberto, símbolo vivo, crônica vegetal, dizia pela boca das flores toda a sua vidinha de moça. O pé de flor-de-noiva, primeira “planta séria” ali brotada, marcou o dia em que foi pedida em casamento. Até então só vicejavam nele flores alegres de criança — esporinhas, bocas-de-leão, “borboletas”, ou flores amáveis da adolescência — amores-perfeitos, damas-entre-verdes, beijos-de-frade, escovinhas, miosótis.

Quando lhe nasceu, entre dores, o primeiro filho, plantou Timóteo os primeiros tufos de violeta.

– Começa a sofrer…

E no dia em que lhe morreu esse malogrado botãozinho de carne rósea, o jardineiro, em lágrimas, fincou na terra os primeiros goivos e as primeiras saudades. E fez ainda outras substituições: as alegres damas-entre-verdes cederam o lugar aos suspiros-roxos, e a sempre-viva foi para o canto onde viçavam as ridentes bocas-de-leão.

Já o canteiro de Sinhô-Moço revelava intenções simbólicas de energia. Cravos vermelhos em quantidade, roseiras fortes, ouriçadas de espinhos; palmas- de-santa-rita, de folhas laminadas; junquilhos nervosos.

E tudo mais assim.

Timóteo compunha os anais vivos da família, anotando nos canteiros, um por um, todos os fatos de alguma significação. Depois, exagerando, fez do jardim um canhenho de notas, o verdadeiro diário da fazenda. Registrava tudo. Incidentes corriqueiros, pequenas rusgas de cozinha, um lembrete azedo dos patrões, um namoro de mucama, um hóspede, uma geada mais forte, um cavalo de estimação que morria — tudo memorava ele, com hieróglifos vegetais, em seu jardim maravilhoso.

A hospedagem de certa família do Rio — pai, mãe e três sapequíssimas filhas — lá ficou assinalada por cinco pés de ora-pro-nóbis. E a venda do pampa calçudo, o melhor cavalo das redondezas, teve a mudança de dono marcada pela poda dum galho do jasmineiro.

Além desta comemoração anedótica, o jardim consagrava uma planta a cada subalterno ou animal doméstico. Havia a roseira-chá da mucama de Sinhazinha; o sangue-de-adão do Tibúrcio cocheiro; a rosa-maxixe da mulatinha Cesária, sirigaita enredeira, de cara fuxicada como essa flor. O Vinagre, o Meteoro, a Manjerona, a Teteia, todos os cães que na fazenda nasceram e morreram, ali estavam lembrados pelo seu pezinho de flor, um resedá, um tufo de violetas, uma touça de perpétuas. O cão mais inteligente da casa, Otelo, morto hidrófobo, teve as honras duma sempre-viva rajada.

– Quem há de esquecer um bicho daqueles, que até parecia gente?

Também os gatos tinham memória. Lá estava a cinerária da gata branca morta nos dentes do Vinagre, e o pé de alecrim relembrativo do velho gato Romão.

Ninguém, a não ser Timóteo, colhia flores naquele jardim. Sinhazinha o tolerava desde o dia em que ele explicou:

– Não sabem, Sinhazinha! Vão lá e atrapalham tudo. Ninguém sabe apanhar flor…

Era verdade. Só Timóteo sabia escolhê-las com intenção e sempre de acordo com o destino. Se as queriam para florir a mesa em dia de anos da moça, Timóteo combinava os buquês como estrofes vivas. Colhia-as resmungando:

– Perpétua? Não. Você não vai pra mesa hoje. É festa alegre. Nem você, dona violetinha!… Rosa-maxixe? Ah! Ah! Tinha graça a Cesária em festa de branco!…

E sua tesoura ia cortando os caules com ciência de mestre. Às vezes parava, a filosofar:

– Ninguém se lembra hoje do anjinho… Pra que, então, goivo nos vasos?

Quieto fique aqui o senhor goivo, que não é flor de vida, é flor de cemitério…

E sua linguagem de flores? Suas ironias, nunca percebidas de ninguém? Seus louvores, de ninguém suspeitados? Quantas vezes não depôs na mesa, sobre um prato, um aviso a um hóspede, um lembrete à patroa, uma censura ao senhor, composto sob forma dum ramalhete? Ignorantes da língua do jardim, riam-se eles da maluquice do Timóteo, incapazes de lhe alcançar o fino das intenções.

Timóteo era feliz. Raras criaturas realizam na vida mais formoso delírio de poeta. Sem família, criara uma família de flores; pobre, vivia ao pé de um tesouro.

Era feliz, sim. Trabalhava por amor, conversando com a terra e as plantas – embora a copa e a cozinha implicassem com aquilo.

– Que tanto resmunga o Timóteo! Fica ali mamparreando horas, a cochichar, a rir, como se estivesse no meio duma criançada…

É que na sua imaginação as flores se transfiguravam em seres vivos. Tinham cara, olhos, ouvidos… O jasmim-do-cabo, pois não é que lhe dava a bênção todas as manhãs? Mal Timóteo aparecia, murmurando “A bênção, Sinhô”, e já o velho, encarnado na planta, respondia com voz alegre: “Deus te abençoe, Timóteo”.

Contar isso aos outros? Nunca! “Está louco”, haviam de dizer. Mas bem que as plantinhas falavam…

– E como não hão de falar, se tudo é criatura de Deus, homessa!… Também dialogava com elas.

– Contentinha, hein? Boa chuva a de ontem, não?

— …

– Sim, lá isso é verdade. As chuvas miúdas são mais criadeiras, mas você bem sabe que não é tempo. E o grilo? Voltou? Voltou, sim, o ladrão… E aqui roeu mais esta folhinha… Mas deixe estar que eu curo ele!

E punha-se a procurar o grilo. Achava-o.

– Seu malfeitor!… Quero ver se continua agora a judiar das minhas flores. Matava-o, enterrava-o.

– Vira esterco, diabinho!

Pelo tempo da seca era um regalo ver Timóteo a chuviscar amorosamente sobre as flores com o seu velho regador.

– O sol seca a terra? Bobice!… Como se o Timóteo não estivesse aqui de chovedor na mão.

“Chega também, ué! Então quer sozinho um regador inteiro? Boa moda!

Não vê que as esporinhas estão com a língua de fora?

“E esta boca-de-leão, ah! ah!, está mesmo com uma boca de cachorro que correu veado! Tome lá, beba, beba!

“E você também, seu resedá, tome lá seu banho, pra depois namorar aquela dona hortênsia, moça bonita do ‘zoio’azul…”

E lá ia…

Plantas novas que abrolhavam o primeiro botão punham alvoroço de noivo no peito do poeta, que falava do acontecimento na copa, provocando as risadinhas impertinentes da Cesária.

– Diabo do negro velho, cada vez caducando mais! Conversa com flor como se flor fosse gente.

Só a moça, com o seu fino instinto de mulher, lhe compreendia as delicadezas do coração.

– Está aqui, Sinhá, a primeira rainha-margarida deste ano! Ela fingia-se extasiada e punha a flor no corpete.

– Que beleza!

E Timóteo ria-se, feliz, feliz…

Certa vez falou-se na reforma do jardim.

– Precisamos mudar isto — lembrou o moço, de volta dum passeio a São Paulo. — Há tantas flores modernas, lindas, enormes, e nós toda a vida com estas cinerárias, estas esporinhas, estas flores caipiras… Vi lá crisandálias magníficas, crisântemos deste tamanho e uma rosa nova, branca, tão grande que até parece flor artificial.

Quando soube da conversa, Timóteo sentiu gelo no coração. Foi agarrar-se com a moça. Ele também conhecia essas flores de fora, vira crisântemos em casa do coronel Barroso, e as tais dálias mestiças no peito duma faceira, no leilão do Espírito Santo.

– Mas aquilo nem é flor, Sinhá! Coisas da estranja que o Canhoto inventa para perder as criaturas de Deus. Eles lá que plantem. Nós aqui devemos zelar das plantas de família. Aquela dália rajada, está vendo? É singela, não tem o crespo das dobradas; mas quem troca uma menina de sainha de chita cor-de- rosa por uma semostradeira da cidade, de muita seda no corpo mas sem fé no coração? De manhã “fica assim” de abelhas e cuitelos em roda dela!… E eles sabem, eles não ignoram quem merece. Se as das cidades fossem de mais estimação, por que é que esses bichinhos de Deus ficam aqui e não vão pra lá? Não, Sinhá! É preciso tirar essa ideia da cabeça de Sinhô-Moço. Ele é criança ainda, não sabe a vida. É preciso respeitar as coisas de dantes…

E o jardim ficou.

Mas um dia… Ah! Bem sentira-se Timóteo tomado de aversão pela família dos ora-pro-nóbis! Pressentimento puro… O ora-pro-nóbis pai voltou e esteve ali uma semana em conciliábulo com o moço. Ao fim desse tempo, explodiu como bomba a grande notícia: estava negociada a fazenda, devendo a escritura passar- se dentro de poucos dias.

Timóteo recebeu a nova como quem recebe uma sentença de morte. Na sua idade, tal mudança lhe equivalia a um fim de tudo. Correu a agarrar-se à moça, mas desta vez nada puderam contra as armas do dinheiro os seus pobres argumentos de poeta.

Vendeu-se a fazenda. E certa manhã viu Timóteo arrumarem-se no trole os antigos patrões, as mucamas, tudo o que constituía a alma do velho patrimônio.

– Adeus, Timóteo! — disseram alegremente os senhores-moços, acomodando-se no veículo.

– Adeus! Adeus!…

E lá partiu o trole, a galope… Dobrou a curva da estrada… Sumiu-se para sempre…

Pela primeira vez na vida Timóteo esqueceu de regar o jardim. Quedou-se plantado a um canto, a esmoer o dia inteiro o mesmo pensamento doloroso:

– Branco não tem coração…

Os novos proprietários eram gente da moda, amigos do luxo e das novidades. Entraram na casa com franzimentos de nariz para tudo.

– Velharias, velharias…

E tudo reformaram. Em vez da austera mobília de cabiúna, adotaram móveis pechisbeques, com veludinhos e frisos. Determinaram o empapelamento das salas, a abertura de um hall, mil coisas esquisitas… Diante do jardim, abriram-se em gargalhadas.

– É incrível! Um jardim destes, cheirando a Tomé de Sousa, em pleno século das crisandálias!

E correram-no todo, a rir, como perfeitos malucos.

– Olha, Yvette, esporinhas! É inconcebível que inda haja esporinhas no mundo!

– E periquito, Odete! Pe-ri-qui-to!… — disse uma das moças, torcendo-se em gargalhadas.

Timóteo ouvia aquilo com mil mortes na alma. Não restava dúvida, era o fim de tudo, como pressentira: aqueles bugres da cidade arrasariam a casa, o jardim e o mais que lembrasse o tempo antigo. Queriam só o moderno.

E o jardim foi condenado. Mandariam vir o Ambrogi para traçar um plano novo de acordo com a arte moderníssima dos jardins ingleses. Reformariam as flores todas, plantando as últimas criações da floricultura alemã. Ficou decidido assim.

– E para não perder tempo, enquanto o Ambrogi não chega ponho aquele macaco a me arrasar isto — disse o homem apontando para Timóteo.

– Ó tição, vem cá!

Timóteo aproximou-se, com ar apatetado.

– Olha, ficas encarregado de limpar este mato e deixar a terra nuazinha. Quero fazer aqui um lindo jardim. Arrasa-me isto bem arrasadinho, entendes?

Timóteo, trêmulo, mal pôde engrolar uma palavra:

— Eu?…

– Sim, tu! Por que não?

O velho jardineiro, atarantado e fora de si, repetiu a pergunta:

– Eu? Eu, arrasar o jardim?

O fazendeiro encarou-o, espantado da sua audácia, sem nada compreender daquela resistência.

– Eu? Pois me acha com cara de criminoso?

E não podendo mais conter-se explodiu num assomo estupendo de cólera — o primeiro e o único de sua vida.

– Eu vou mas é embora daqui, morrer lá na porteira como um cachorro fiel. Mas olhe, moço, que hei de rogar tanta praga que isto há de virar uma tapera de lacraias! A geada há de torrar o café. A peste há de levar até as vacas de leite! Não há de ficar aqui nem uma galinha, nem um pé de vassoura! E a família amaldiçoada, coberta de lepra, há de comer na gamela com os cachorros lazarentos!… Deixa estar, gente amaldiçoada! Não se assassina assim uma coisa que dinheiro nenhum paga. Não se mata assim um pobre negro velho que tem dentro do peito uma coisa que lá na cidade ninguém sabe o que é. Deixa estar, branco de má casta! Deixa estar, caninana! Deixa estar!…

E fazendo com a mão espalmada o gesto fatídico, saiu às arrecuas, repetindo cem vezes a mesma ameaça:

– Deixa estar! Deixa estar!…

E longe, na porteira, ainda espalmava a mão para a fazenda, num gesto mudo:

– Deixa estar!…

Anoitecia. Os curiangos andavam a espacejar silenciosos voos de sombra pelas estradas desertas. O céu era todo um recamo fulgurante de estrelas. Os sapos coaxavam nos brejos e vaga-lumes silenciosos piscavam piques de luz no sombrio das capoeiras.

Tudo adormecera na terra, em breve pausa de vida para o ressurgir do dia seguinte.

Só não ressurgirá Timóteo. Lá agoniza ao pé da porteira. Lá morre. E lá o encontrará a manhã enrijecido pelo relento, de borco na grama orvalhada, com a mão estendida para a fazenda num derradeiro gesto de ameaça:

– Deixa estar!…
Monteiro Lobato

Transformar o Rio na cidade de Machado de Assis

Os passos de Machado de Assis pelo Rio sempre despertaram curiosidade e paixão proporcionais ao tamanho de sua obra. Ao longo de 69 anos (1839-1908), o autor carioca fez da cidade sua própria casa. Foram nove moradias, sempre como inquilino. Nasceu, foi criado e trabalhou na região central — onde viveu em cinco imóveis —, e morou nas zonas Norte e Sul. Conheceu como poucos o território que povoou com seus personagens. Na quinta-feira, o arquiteto e escritor Nireu Cavalcanti lança um livro que contesta informações há tempos estabelecidas a respeito e mexe um pouco com as coordenadas dessa cartografia machadiana.

Das páginas de “Machado de Assis - Caminhos de suas moradias na cidade do Rio de Janeiro” (Editora Lacre), surgem uma casa esquecida na Rua da Alfândega, placas instaladas em imóveis errados e a revelação de que a residência de Laranjeiras, dada como demolida, segue de pé.

O “desaparecimento” do sobrado — sétima morada do autor de Quincas Borba, localizado na Rua das Laranjeiras, 22 —, teria ocorrido devido a um equívoco em antiga publicação que buscava atualizar a numeração nos logradouros da cidade. Nireu esmiúça a descoberta com direito à reprodução de farto material iconográfico, uma característica marcante em todo o livro, aliás.

Em outro trecho, Nireu aponta para uma habitação ainda não conhecida no rol das moradias machadianas: um sobrado na Rua da Alfândega, 123. No capítulo em que apresenta a terceira residência da lista, o livro trata de descartar a informação, amplamente difundida, de que, a exemplo de Bentinho e Capitu, personagens imortais de Dom Casmurro, Machado tenha vivido na antiga Rua de Matacavalos, atual Rua do Riachuelo. A história que se conta é que, ali, ele teria dividido a casa com o amigo Francisco Ramos Paz.

— Tem toda a aparência de autopromoção. O sujeito (Ramos Paz) dizia que morou com Machado, mas não deu endereço, não apresentou prova. Eles realmente se conheciam. Talvez Machado tenha ficado alguns meses hospedado ali, um período curto. Mas não há documentação, não vou dar fé a um depoimento desses sem prova — explica o autor.

A evidência trazida pelo historiador para afirmar que Machado morou na Rua da Alfândega é uma autodeclaração de residência feita pelo próprio ao ser apresentado para ingressar como sócio efetivo na Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.

As revelações trazidas por Nireu começam logo na origem: durante muito tempo se acreditou que Machado havia nascido em uma casa no Morro do Livramento, mas o autor garante que não. No livro, é citado um documento de 1845 no qual Francisco José de Assis, pai de Machado, é apontado como residente na Rua Nova do Livramento, 131. O endereço corresponde ao atual nº 151 da Rua do Livramento, no bairro da Gamboa.

— Quando ele nasceu, a chácara já estava sendo loteada e já tinha sido aberta a Rua Nova do Livramento, em 1828. Nessa casa ele perdeu a mãe, de tuberculose, e a irmã, de sarampo, o que certamente foi um trauma — diz Nireu.

Nireu Cavalcanti na casa onde Machado de Assis morou na Lapa

Dona Leopoldina Machado de Assis, nascida na Ilha de São Miguel, nos Açores, morreu em 1849, quando o pequeno Joaquim Maria Machado de Assis tinha 9 anos. A irmã, Maria Machado de Assis, faleceu antes, em julho de 1845. Ele ainda ficaria no endereço até 1854, quando o pai se casou novamente. A família, então, seguiu para São Cristóvão, a segunda casa, onde permaneceria pelos próximos 13 anos.

Em novembro de 1869, o “bruxo do Cosme Velho” se casa com Carolina Augusta Xavier de Novaes e os dois vão para a Rua dos Andradas. É a quarta casa de Machado de Assis na cidade. Da velha construção, hoje, só resta a fachada. Daqui para frente, o casal segue unido até o fim, passando por mais cinco endereços da cidade.

A parada seguinte foi na Rua Santa Luzia, no Centro, e, na sequência, na Rua da Lapa, mais precisamente no segundo andar de um sobrado que está de pé até hoje. O local precisa de reformas, mas, observa o autor, guarda características da época em que o casal famoso viveu por lá. Em 2008, a prefeitura instalou uma placa indicando que ali morou o maior dos escritores brasileiros. Ótima iniciativa, mas imprecisa, diz Nireu:

— Colocaram a placa em outro prédio, limpo e pintado, provavelmente para não precisarem restaurar o verdadeiro imóvel. O sobrado correto fica na Rua da Lapa, 264. Está lá, muito degradado.

O mesmo, segundo Nireu Cavalcanti, aconteceu no Cosme Velho, bairro da nona e última residência de Machado e Carolina — antes de seguir para lá, os dois viveram na Rua do Catete, em casa térrea derrubada por ocasião das obras do metrô.

O chalé para onde o casal se mudou no Cosme Velho, em 1884, fazia parte de um conjunto de três construções idênticas. Duas delas foram derrubadas e uma permanece de pé. A placa evocando a presença do ilustre morador foi instalada no nº 174 da rua que leva o mesmo nome do bairro, mas, pelas pesquisas de Nireu, o correto é que estivesse no prédio vizinho, atual nº 136:

— A placa deveria estar no prédio de três andares ao lado.

Foi no período do Cosme Velho que Machado publicou muitas de suas obras, entre elas os romances “Quincas Borba” (1891), “Dom Casmurro” (1900), “Esaú e Jacó” (1904) e o derradeiro, “Memorial de Aires” (1908).

Funcionário — assíduo e dedicado, lembra Nireu — do Ministério da Agricultura e escritor renomado, não consta que Machado, de origem humilde, tenha padecido de dificuldades financeiras na vida adulta. Ainda assim, é curioso notar que sempre morou de aluguel.

— Chegou praticamente ao cargo de secretário do ministro, tinha um ótimo salário. Mesmo assim, nunca comprou uma casa. Não encontrei documento em que ele manifestasse desejo de comprar um imóvel — conta Nireu.

As nove casas são o ponto de partida. O livro extrapola a função de compilar esse pequeno condomínio machadiano e acaba virando um retrato da própria cidade entre a segunda metade do século XIX e o início do XX. Retrato não apenas geográfico, mas da sociedade, seus costumes, suas mazelas. Tudo costurado pelo caminho das muitas moradas de Machado:

— Gostaria que a sociedade carioca, as autoridades e as grandes empresas entendessem que existe uma oportunidade histórica de transformar o Rio na cidade de Machado de Assis. Restaurar os lugares onde ele viveu e dar a eles funções culturais criaria uma característica única para a cidade.