Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
terça-feira, maio 26
O cervo escondido
Um lenhador de Cheng encontrou-se na campo com um cervo assustado e o matou. Para evitar que outros o descobrissem, enterrou-o na floresta, cobrindo a cova com f olhas e ramos. Pouco tempo depois esqueceu o local onde o havia escondido, e pensou que tudo não passara de um sonho. Assim, contou o fato a toda a gente como se fosse um sonho. Entre os ouvintes, houve um que foi procurar o cervo enterrado e o encontrou. Levou-o a sua casa e disse à sua mulher:
— Um lenhador sonhou que havia matado um cervo e esqueceu onde o tinha escondido, e agora eu o encontrei. Este homem sim, é que é um sonhador...
— Na certa sonhaste que viste um lenhador que havia matado um cervo. Crês realmente que existiu, o lenhador? Mas como o cervo está aqui, teu sonho deve ser verdadeiro — disse a mulher.
— Ainda que suponhamos que eu tenha encontrado o cervo graças a um sonho — respondeu ò marido — por que nos preocuparemos em saber qual dos dois sonhou?
Naquela noite o lenhador voltou para casa pensando ainda no cervo, e realmente sonhou, e neste sonho sonhou o lugar onde havia escondido o cervo e sonhou também quem o havia encontrado. Ao amanhecer foi a casa do outro e encontrou o cervo. Os dois discutiram e terminaram diante de um juiz para que este resolvesse o assunto. O juiz disse ao lenhador:
— Realmente mataste um cervo e pensaste que era um sonho. Em seguida sonhaste realmente, e então pensaste que era a realidade. O outro encontrou o cervo e agora o disputa, porém sua mulher pensa que ele sonhou que havia encontrado um cervo que outro havia matado. Logo, ninguém matou o cervo. Porém como aqui está o cervo, o melhor que os dois podem fazer é reparti-lo.
O caso chegou aos ouvidos do rei de Cheng e o rei de Cheng disse:
— E esse juiz? Não estará ele sonhando que reparte um cervo?
— Um lenhador sonhou que havia matado um cervo e esqueceu onde o tinha escondido, e agora eu o encontrei. Este homem sim, é que é um sonhador...
— Na certa sonhaste que viste um lenhador que havia matado um cervo. Crês realmente que existiu, o lenhador? Mas como o cervo está aqui, teu sonho deve ser verdadeiro — disse a mulher.
— Ainda que suponhamos que eu tenha encontrado o cervo graças a um sonho — respondeu ò marido — por que nos preocuparemos em saber qual dos dois sonhou?
Naquela noite o lenhador voltou para casa pensando ainda no cervo, e realmente sonhou, e neste sonho sonhou o lugar onde havia escondido o cervo e sonhou também quem o havia encontrado. Ao amanhecer foi a casa do outro e encontrou o cervo. Os dois discutiram e terminaram diante de um juiz para que este resolvesse o assunto. O juiz disse ao lenhador:
— Realmente mataste um cervo e pensaste que era um sonho. Em seguida sonhaste realmente, e então pensaste que era a realidade. O outro encontrou o cervo e agora o disputa, porém sua mulher pensa que ele sonhou que havia encontrado um cervo que outro havia matado. Logo, ninguém matou o cervo. Porém como aqui está o cervo, o melhor que os dois podem fazer é reparti-lo.
O caso chegou aos ouvidos do rei de Cheng e o rei de Cheng disse:
— E esse juiz? Não estará ele sonhando que reparte um cervo?
Lieh-tsé (c. 300 a.C.)
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"
O passarinho do Diabo
Qualquer que seja o desfecho, já se tem o símbolo da crise que mais uma vez nos põe à beira não do abismo, mas do imprevisto. Dizem que o imprevisto é a lei da História. E a História, por sua vez, já dizia Heródoto, é a mestra da vida. No caso do Brasil, os antecedentes não são muito animadores. Mas quero agora chamar a atenção é para o símbolo, ou seja, o morcego. Morcego Negro, se quiserem, com maiúsculas.
Que é que leva um sujeito a batizar um avião assim? Pensar num morcego! Um animal repelente, que rivaliza com o rato. Aliás, é rato na origem etimológica: mus, no acusativo murem. Rato cego, coecum, porque se supõe que o morcego não enxerga. Tem radar, como o avião moderno. Mamífero voador, quiróptero, é um bicho estranhíssimo. Não tem bico, mas tem asas, que são patágios, isto é, membranas. Nelas o povo vê uma espécie de capa sinistra.
Por mal dos pecados, o morcego é notívago. Só sai à noite, para melhor se esconder. Age na treva. Teme a luz do dia. Vive embiocado, fechado em si mesmo. Alimenta-se de frutos e de insetos. Mas pode ser ictiófago (come peixe). E, the last but not the least, é também hematófago. Neste caso, seu prato favorito é o sangue. Ladrão, o morcego na calada da noite se instala no lombo de um boi e lhe chupa o sangue. Há quem jure que a vítima pode ser igualmente um ser humano.
Aqui temos o vampiro. Exemplar da zoologia fantástica, existe também na vida real. Repulsivo, cientificamente conhecido como Desmodus rotundus, suga animais e homens. Pode lhes transmitir a raiva, ou hidrofobia. Na imaginação popular, o vampiro tem preferência pelas mulheres grávidas. E pelas moças virgens. Sobre o vampiro, há vasta literatura, com farta cinematografia. Toda e qualquer conotação é sempre negativa, para não dizer horrenda.
Entre as cem espécies de morcegos brasileiros, nenhum deixa de ser visto como bicho asqueroso. São feíssimos. Metaforicamente, morcego é pior do que rato. Ladrão, sanguessuga, no folclore é associado ao diabo. Passarinho do diabo, seu sócio, é malvisto e perseguido em toda parte. Até entre os indígenas, dito Cupendiepe, o morcego se esconde na caverna e de lá só sai para o mal. Representa o lado vicioso da natureza humana. O podre, anagrama de poder. Em suma, é o símbolo mais eloquente da corrupção.
Que é que leva um sujeito a batizar um avião assim? Pensar num morcego! Um animal repelente, que rivaliza com o rato. Aliás, é rato na origem etimológica: mus, no acusativo murem. Rato cego, coecum, porque se supõe que o morcego não enxerga. Tem radar, como o avião moderno. Mamífero voador, quiróptero, é um bicho estranhíssimo. Não tem bico, mas tem asas, que são patágios, isto é, membranas. Nelas o povo vê uma espécie de capa sinistra.
Por mal dos pecados, o morcego é notívago. Só sai à noite, para melhor se esconder. Age na treva. Teme a luz do dia. Vive embiocado, fechado em si mesmo. Alimenta-se de frutos e de insetos. Mas pode ser ictiófago (come peixe). E, the last but not the least, é também hematófago. Neste caso, seu prato favorito é o sangue. Ladrão, o morcego na calada da noite se instala no lombo de um boi e lhe chupa o sangue. Há quem jure que a vítima pode ser igualmente um ser humano.
Aqui temos o vampiro. Exemplar da zoologia fantástica, existe também na vida real. Repulsivo, cientificamente conhecido como Desmodus rotundus, suga animais e homens. Pode lhes transmitir a raiva, ou hidrofobia. Na imaginação popular, o vampiro tem preferência pelas mulheres grávidas. E pelas moças virgens. Sobre o vampiro, há vasta literatura, com farta cinematografia. Toda e qualquer conotação é sempre negativa, para não dizer horrenda.
Entre as cem espécies de morcegos brasileiros, nenhum deixa de ser visto como bicho asqueroso. São feíssimos. Metaforicamente, morcego é pior do que rato. Ladrão, sanguessuga, no folclore é associado ao diabo. Passarinho do diabo, seu sócio, é malvisto e perseguido em toda parte. Até entre os indígenas, dito Cupendiepe, o morcego se esconde na caverna e de lá só sai para o mal. Representa o lado vicioso da natureza humana. O podre, anagrama de poder. Em suma, é o símbolo mais eloquente da corrupção.
Otto Lara Resende
Sonho domado
Sei que é preciso sonhar.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Thiago de Mello
O jardineiro Timóteo
O casarão da fazenda era ao jeito das velhas moradias coloniais: frente com varanda, uma ala e pátio interno. Neste ficava o jardim, também à moda antiga, cheio de plantas antigas, cujas flores punham no ar um saudoso perfume de antanho. Quarenta anos havia que lhe zelava dos canteiros o bom Timóteo, um preto branco por dentro. Timóteo o plantou quando a fazenda se abria e a casa inda cheirava a reboco fresco e tintas de óleo recentes, e desde aí — lá se iam quarenta anos — ninguém mais teve licença de pôr a mão em “seu jardim”.
Verdadeiro poeta, o bom Timóteo.
Não desses que fazem versos, mas dos que sentem a poesia sutil das coisas. Compusera, sem o saber, um maravilhoso poema onde cada plantinha era um verso que só ele conhecia, verso vivo, risonho ao reflorir anual da primavera, desmedrado e sofredor quando junho sibilava no ar os látegos do frio. O jardim tornara-se a memória viva da casa. Tudo nele correspondia a uma significação familiar de suave encanto, e assim foi desde o começo, ao riscarem-se os canteiros na terra virgem ainda recendente à escavação. O canteiro principal consagrara-o Timóteo ao “Sinhô-Velho”, tronco da estirpe e generoso amigo que lhe dera carta de alforria muito antes da Lei Áurea. Nasceu faceiro e bonito, cercado de tijolos novos vindos do forno para ali inda quentes, e embutidos no chão como rude cíngulo de coral; hoje, semidesfeitos pela usura do tempo e tão tenros que a unha os penetra, esses tijolos esverdecem nos musgos da velhice.
“Veludo de muro velho” é como chama Timóteo a essa muscínea invasora, filha da sombra e da umidade. E é bem isso, porque o musgo foge sempre aos muros secos, vidrentos, esfogueados de sol, para estender devagarinho o seu veludo prenunciador de tapera sobre os muros alquebrados, de emboço já carcomido e todo aberto em fendas.
Bem no centro erguia-se um nodoso pé de jasmim-do-cabo, de galhos negros e copa dominante, ao qual o zeloso guardião nunca permitiu que outra planta sobre-excedesse em altura. Simbolizava o homem que o havia comprado por dois contos de réis, dum importador de escravos de Angola.
– Tenha paciência, minha negra! — conversava ele com as roseiras de setembro, teimosas em espichar para o céu brotos audazes. — Tenha paciência, que aqui ninguém olha de cima para o Sinhô-Velho.
E sua tesoura afiada punha abaixo, sem dó, todos os rebentos temerários.
Cercando o jasmineiro havia uma coroa de periquitos, e outra menor de cravinas. Mais nada.
– Ele era homem simples, pouco amigo de complicações. Que fique ali sozinho com o periquito e as irmãzinhas do cravo.
Dos outros canteiros, dois eram em forma de coração.
– Este é o de Sinhazinha; e como ela um dia há de casar, fica a par dele o canteiro do Sinhô-Moço.
O canteiro de Sinhazinha era de todos o mais alegre, dando bem a imagem de um coração de mulher rico de todas as flores do sentimento. Sempre risonho, tinha a propriedade de prender os olhos de quantos penetravam no jardim. Tal qual a moça, que desde menina se habituara a monopolizar os carinhos da família e a dedicação dos escravos, chegando esta a ponto de ao sobrevir a Lei Áurea nenhum ter ânimo de afastar-se da fazenda. Emancipação? Loucura! Quem, uma vez cativo de Sinhazinha, podia jamais romper as algemas da doce escravidão?
Assim ela na família, assim o seu canteiro entre os demais. Livro aberto, símbolo vivo, crônica vegetal, dizia pela boca das flores toda a sua vidinha de moça. O pé de flor-de-noiva, primeira “planta séria” ali brotada, marcou o dia em que foi pedida em casamento. Até então só vicejavam nele flores alegres de criança — esporinhas, bocas-de-leão, “borboletas”, ou flores amáveis da adolescência — amores-perfeitos, damas-entre-verdes, beijos-de-frade, escovinhas, miosótis.
Quando lhe nasceu, entre dores, o primeiro filho, plantou Timóteo os primeiros tufos de violeta.
– Começa a sofrer…
E no dia em que lhe morreu esse malogrado botãozinho de carne rósea, o jardineiro, em lágrimas, fincou na terra os primeiros goivos e as primeiras saudades. E fez ainda outras substituições: as alegres damas-entre-verdes cederam o lugar aos suspiros-roxos, e a sempre-viva foi para o canto onde viçavam as ridentes bocas-de-leão.
Já o canteiro de Sinhô-Moço revelava intenções simbólicas de energia. Cravos vermelhos em quantidade, roseiras fortes, ouriçadas de espinhos; palmas- de-santa-rita, de folhas laminadas; junquilhos nervosos.
E tudo mais assim.
Timóteo compunha os anais vivos da família, anotando nos canteiros, um por um, todos os fatos de alguma significação. Depois, exagerando, fez do jardim um canhenho de notas, o verdadeiro diário da fazenda. Registrava tudo. Incidentes corriqueiros, pequenas rusgas de cozinha, um lembrete azedo dos patrões, um namoro de mucama, um hóspede, uma geada mais forte, um cavalo de estimação que morria — tudo memorava ele, com hieróglifos vegetais, em seu jardim maravilhoso.
A hospedagem de certa família do Rio — pai, mãe e três sapequíssimas filhas — lá ficou assinalada por cinco pés de ora-pro-nóbis. E a venda do pampa calçudo, o melhor cavalo das redondezas, teve a mudança de dono marcada pela poda dum galho do jasmineiro.
Além desta comemoração anedótica, o jardim consagrava uma planta a cada subalterno ou animal doméstico. Havia a roseira-chá da mucama de Sinhazinha; o sangue-de-adão do Tibúrcio cocheiro; a rosa-maxixe da mulatinha Cesária, sirigaita enredeira, de cara fuxicada como essa flor. O Vinagre, o Meteoro, a Manjerona, a Teteia, todos os cães que na fazenda nasceram e morreram, ali estavam lembrados pelo seu pezinho de flor, um resedá, um tufo de violetas, uma touça de perpétuas. O cão mais inteligente da casa, Otelo, morto hidrófobo, teve as honras duma sempre-viva rajada.
– Quem há de esquecer um bicho daqueles, que até parecia gente?
Também os gatos tinham memória. Lá estava a cinerária da gata branca morta nos dentes do Vinagre, e o pé de alecrim relembrativo do velho gato Romão.
Ninguém, a não ser Timóteo, colhia flores naquele jardim. Sinhazinha o tolerava desde o dia em que ele explicou:
– Não sabem, Sinhazinha! Vão lá e atrapalham tudo. Ninguém sabe apanhar flor…
Era verdade. Só Timóteo sabia escolhê-las com intenção e sempre de acordo com o destino. Se as queriam para florir a mesa em dia de anos da moça, Timóteo combinava os buquês como estrofes vivas. Colhia-as resmungando:
– Perpétua? Não. Você não vai pra mesa hoje. É festa alegre. Nem você, dona violetinha!… Rosa-maxixe? Ah! Ah! Tinha graça a Cesária em festa de branco!…
E sua tesoura ia cortando os caules com ciência de mestre. Às vezes parava, a filosofar:
– Ninguém se lembra hoje do anjinho… Pra que, então, goivo nos vasos?
Quieto fique aqui o senhor goivo, que não é flor de vida, é flor de cemitério…
E sua linguagem de flores? Suas ironias, nunca percebidas de ninguém? Seus louvores, de ninguém suspeitados? Quantas vezes não depôs na mesa, sobre um prato, um aviso a um hóspede, um lembrete à patroa, uma censura ao senhor, composto sob forma dum ramalhete? Ignorantes da língua do jardim, riam-se eles da maluquice do Timóteo, incapazes de lhe alcançar o fino das intenções.
Timóteo era feliz. Raras criaturas realizam na vida mais formoso delírio de poeta. Sem família, criara uma família de flores; pobre, vivia ao pé de um tesouro.
Era feliz, sim. Trabalhava por amor, conversando com a terra e as plantas – embora a copa e a cozinha implicassem com aquilo.
– Que tanto resmunga o Timóteo! Fica ali mamparreando horas, a cochichar, a rir, como se estivesse no meio duma criançada…
É que na sua imaginação as flores se transfiguravam em seres vivos. Tinham cara, olhos, ouvidos… O jasmim-do-cabo, pois não é que lhe dava a bênção todas as manhãs? Mal Timóteo aparecia, murmurando “A bênção, Sinhô”, e já o velho, encarnado na planta, respondia com voz alegre: “Deus te abençoe, Timóteo”.
Contar isso aos outros? Nunca! “Está louco”, haviam de dizer. Mas bem que as plantinhas falavam…
– E como não hão de falar, se tudo é criatura de Deus, homessa!… Também dialogava com elas.
– Contentinha, hein? Boa chuva a de ontem, não?
— …
– Sim, lá isso é verdade. As chuvas miúdas são mais criadeiras, mas você bem sabe que não é tempo. E o grilo? Voltou? Voltou, sim, o ladrão… E aqui roeu mais esta folhinha… Mas deixe estar que eu curo ele!
E punha-se a procurar o grilo. Achava-o.
– Seu malfeitor!… Quero ver se continua agora a judiar das minhas flores. Matava-o, enterrava-o.
– Vira esterco, diabinho!
Pelo tempo da seca era um regalo ver Timóteo a chuviscar amorosamente sobre as flores com o seu velho regador.
– O sol seca a terra? Bobice!… Como se o Timóteo não estivesse aqui de chovedor na mão.
“Chega também, ué! Então quer sozinho um regador inteiro? Boa moda!
Não vê que as esporinhas estão com a língua de fora?
“E esta boca-de-leão, ah! ah!, está mesmo com uma boca de cachorro que correu veado! Tome lá, beba, beba!
“E você também, seu resedá, tome lá seu banho, pra depois namorar aquela dona hortênsia, moça bonita do ‘zoio’azul…”
E lá ia…
Plantas novas que abrolhavam o primeiro botão punham alvoroço de noivo no peito do poeta, que falava do acontecimento na copa, provocando as risadinhas impertinentes da Cesária.
– Diabo do negro velho, cada vez caducando mais! Conversa com flor como se flor fosse gente.
Só a moça, com o seu fino instinto de mulher, lhe compreendia as delicadezas do coração.
– Está aqui, Sinhá, a primeira rainha-margarida deste ano! Ela fingia-se extasiada e punha a flor no corpete.
– Que beleza!
E Timóteo ria-se, feliz, feliz…
Certa vez falou-se na reforma do jardim.
– Precisamos mudar isto — lembrou o moço, de volta dum passeio a São Paulo. — Há tantas flores modernas, lindas, enormes, e nós toda a vida com estas cinerárias, estas esporinhas, estas flores caipiras… Vi lá crisandálias magníficas, crisântemos deste tamanho e uma rosa nova, branca, tão grande que até parece flor artificial.
Quando soube da conversa, Timóteo sentiu gelo no coração. Foi agarrar-se com a moça. Ele também conhecia essas flores de fora, vira crisântemos em casa do coronel Barroso, e as tais dálias mestiças no peito duma faceira, no leilão do Espírito Santo.
– Mas aquilo nem é flor, Sinhá! Coisas da estranja que o Canhoto inventa para perder as criaturas de Deus. Eles lá que plantem. Nós aqui devemos zelar das plantas de família. Aquela dália rajada, está vendo? É singela, não tem o crespo das dobradas; mas quem troca uma menina de sainha de chita cor-de- rosa por uma semostradeira da cidade, de muita seda no corpo mas sem fé no coração? De manhã “fica assim” de abelhas e cuitelos em roda dela!… E eles sabem, eles não ignoram quem merece. Se as das cidades fossem de mais estimação, por que é que esses bichinhos de Deus ficam aqui e não vão pra lá? Não, Sinhá! É preciso tirar essa ideia da cabeça de Sinhô-Moço. Ele é criança ainda, não sabe a vida. É preciso respeitar as coisas de dantes…
E o jardim ficou.
Mas um dia… Ah! Bem sentira-se Timóteo tomado de aversão pela família dos ora-pro-nóbis! Pressentimento puro… O ora-pro-nóbis pai voltou e esteve ali uma semana em conciliábulo com o moço. Ao fim desse tempo, explodiu como bomba a grande notícia: estava negociada a fazenda, devendo a escritura passar- se dentro de poucos dias.
Timóteo recebeu a nova como quem recebe uma sentença de morte. Na sua idade, tal mudança lhe equivalia a um fim de tudo. Correu a agarrar-se à moça, mas desta vez nada puderam contra as armas do dinheiro os seus pobres argumentos de poeta.
Vendeu-se a fazenda. E certa manhã viu Timóteo arrumarem-se no trole os antigos patrões, as mucamas, tudo o que constituía a alma do velho patrimônio.
– Adeus, Timóteo! — disseram alegremente os senhores-moços, acomodando-se no veículo.
– Adeus! Adeus!…
E lá partiu o trole, a galope… Dobrou a curva da estrada… Sumiu-se para sempre…
Pela primeira vez na vida Timóteo esqueceu de regar o jardim. Quedou-se plantado a um canto, a esmoer o dia inteiro o mesmo pensamento doloroso:
– Branco não tem coração…
Os novos proprietários eram gente da moda, amigos do luxo e das novidades. Entraram na casa com franzimentos de nariz para tudo.
– Velharias, velharias…
E tudo reformaram. Em vez da austera mobília de cabiúna, adotaram móveis pechisbeques, com veludinhos e frisos. Determinaram o empapelamento das salas, a abertura de um hall, mil coisas esquisitas… Diante do jardim, abriram-se em gargalhadas.
– É incrível! Um jardim destes, cheirando a Tomé de Sousa, em pleno século das crisandálias!
E correram-no todo, a rir, como perfeitos malucos.
– Olha, Yvette, esporinhas! É inconcebível que inda haja esporinhas no mundo!
– E periquito, Odete! Pe-ri-qui-to!… — disse uma das moças, torcendo-se em gargalhadas.
Timóteo ouvia aquilo com mil mortes na alma. Não restava dúvida, era o fim de tudo, como pressentira: aqueles bugres da cidade arrasariam a casa, o jardim e o mais que lembrasse o tempo antigo. Queriam só o moderno.
E o jardim foi condenado. Mandariam vir o Ambrogi para traçar um plano novo de acordo com a arte moderníssima dos jardins ingleses. Reformariam as flores todas, plantando as últimas criações da floricultura alemã. Ficou decidido assim.
– E para não perder tempo, enquanto o Ambrogi não chega ponho aquele macaco a me arrasar isto — disse o homem apontando para Timóteo.
– Ó tição, vem cá!
Timóteo aproximou-se, com ar apatetado.
– Olha, ficas encarregado de limpar este mato e deixar a terra nuazinha. Quero fazer aqui um lindo jardim. Arrasa-me isto bem arrasadinho, entendes?
Timóteo, trêmulo, mal pôde engrolar uma palavra:
— Eu?…
– Sim, tu! Por que não?
O velho jardineiro, atarantado e fora de si, repetiu a pergunta:
– Eu? Eu, arrasar o jardim?
O fazendeiro encarou-o, espantado da sua audácia, sem nada compreender daquela resistência.
– Eu? Pois me acha com cara de criminoso?
E não podendo mais conter-se explodiu num assomo estupendo de cólera — o primeiro e o único de sua vida.
– Eu vou mas é embora daqui, morrer lá na porteira como um cachorro fiel. Mas olhe, moço, que hei de rogar tanta praga que isto há de virar uma tapera de lacraias! A geada há de torrar o café. A peste há de levar até as vacas de leite! Não há de ficar aqui nem uma galinha, nem um pé de vassoura! E a família amaldiçoada, coberta de lepra, há de comer na gamela com os cachorros lazarentos!… Deixa estar, gente amaldiçoada! Não se assassina assim uma coisa que dinheiro nenhum paga. Não se mata assim um pobre negro velho que tem dentro do peito uma coisa que lá na cidade ninguém sabe o que é. Deixa estar, branco de má casta! Deixa estar, caninana! Deixa estar!…
E fazendo com a mão espalmada o gesto fatídico, saiu às arrecuas, repetindo cem vezes a mesma ameaça:
– Deixa estar! Deixa estar!…
E longe, na porteira, ainda espalmava a mão para a fazenda, num gesto mudo:
– Deixa estar!…
Anoitecia. Os curiangos andavam a espacejar silenciosos voos de sombra pelas estradas desertas. O céu era todo um recamo fulgurante de estrelas. Os sapos coaxavam nos brejos e vaga-lumes silenciosos piscavam piques de luz no sombrio das capoeiras.
Tudo adormecera na terra, em breve pausa de vida para o ressurgir do dia seguinte.
Só não ressurgirá Timóteo. Lá agoniza ao pé da porteira. Lá morre. E lá o encontrará a manhã enrijecido pelo relento, de borco na grama orvalhada, com a mão estendida para a fazenda num derradeiro gesto de ameaça:
– Deixa estar!…
Verdadeiro poeta, o bom Timóteo.
Não desses que fazem versos, mas dos que sentem a poesia sutil das coisas. Compusera, sem o saber, um maravilhoso poema onde cada plantinha era um verso que só ele conhecia, verso vivo, risonho ao reflorir anual da primavera, desmedrado e sofredor quando junho sibilava no ar os látegos do frio. O jardim tornara-se a memória viva da casa. Tudo nele correspondia a uma significação familiar de suave encanto, e assim foi desde o começo, ao riscarem-se os canteiros na terra virgem ainda recendente à escavação. O canteiro principal consagrara-o Timóteo ao “Sinhô-Velho”, tronco da estirpe e generoso amigo que lhe dera carta de alforria muito antes da Lei Áurea. Nasceu faceiro e bonito, cercado de tijolos novos vindos do forno para ali inda quentes, e embutidos no chão como rude cíngulo de coral; hoje, semidesfeitos pela usura do tempo e tão tenros que a unha os penetra, esses tijolos esverdecem nos musgos da velhice.
“Veludo de muro velho” é como chama Timóteo a essa muscínea invasora, filha da sombra e da umidade. E é bem isso, porque o musgo foge sempre aos muros secos, vidrentos, esfogueados de sol, para estender devagarinho o seu veludo prenunciador de tapera sobre os muros alquebrados, de emboço já carcomido e todo aberto em fendas.
Bem no centro erguia-se um nodoso pé de jasmim-do-cabo, de galhos negros e copa dominante, ao qual o zeloso guardião nunca permitiu que outra planta sobre-excedesse em altura. Simbolizava o homem que o havia comprado por dois contos de réis, dum importador de escravos de Angola.
– Tenha paciência, minha negra! — conversava ele com as roseiras de setembro, teimosas em espichar para o céu brotos audazes. — Tenha paciência, que aqui ninguém olha de cima para o Sinhô-Velho.
E sua tesoura afiada punha abaixo, sem dó, todos os rebentos temerários.
Cercando o jasmineiro havia uma coroa de periquitos, e outra menor de cravinas. Mais nada.
– Ele era homem simples, pouco amigo de complicações. Que fique ali sozinho com o periquito e as irmãzinhas do cravo.
Dos outros canteiros, dois eram em forma de coração.
– Este é o de Sinhazinha; e como ela um dia há de casar, fica a par dele o canteiro do Sinhô-Moço.
O canteiro de Sinhazinha era de todos o mais alegre, dando bem a imagem de um coração de mulher rico de todas as flores do sentimento. Sempre risonho, tinha a propriedade de prender os olhos de quantos penetravam no jardim. Tal qual a moça, que desde menina se habituara a monopolizar os carinhos da família e a dedicação dos escravos, chegando esta a ponto de ao sobrevir a Lei Áurea nenhum ter ânimo de afastar-se da fazenda. Emancipação? Loucura! Quem, uma vez cativo de Sinhazinha, podia jamais romper as algemas da doce escravidão?
Assim ela na família, assim o seu canteiro entre os demais. Livro aberto, símbolo vivo, crônica vegetal, dizia pela boca das flores toda a sua vidinha de moça. O pé de flor-de-noiva, primeira “planta séria” ali brotada, marcou o dia em que foi pedida em casamento. Até então só vicejavam nele flores alegres de criança — esporinhas, bocas-de-leão, “borboletas”, ou flores amáveis da adolescência — amores-perfeitos, damas-entre-verdes, beijos-de-frade, escovinhas, miosótis.
Quando lhe nasceu, entre dores, o primeiro filho, plantou Timóteo os primeiros tufos de violeta.
– Começa a sofrer…
E no dia em que lhe morreu esse malogrado botãozinho de carne rósea, o jardineiro, em lágrimas, fincou na terra os primeiros goivos e as primeiras saudades. E fez ainda outras substituições: as alegres damas-entre-verdes cederam o lugar aos suspiros-roxos, e a sempre-viva foi para o canto onde viçavam as ridentes bocas-de-leão.
Já o canteiro de Sinhô-Moço revelava intenções simbólicas de energia. Cravos vermelhos em quantidade, roseiras fortes, ouriçadas de espinhos; palmas- de-santa-rita, de folhas laminadas; junquilhos nervosos.
E tudo mais assim.
Timóteo compunha os anais vivos da família, anotando nos canteiros, um por um, todos os fatos de alguma significação. Depois, exagerando, fez do jardim um canhenho de notas, o verdadeiro diário da fazenda. Registrava tudo. Incidentes corriqueiros, pequenas rusgas de cozinha, um lembrete azedo dos patrões, um namoro de mucama, um hóspede, uma geada mais forte, um cavalo de estimação que morria — tudo memorava ele, com hieróglifos vegetais, em seu jardim maravilhoso.
A hospedagem de certa família do Rio — pai, mãe e três sapequíssimas filhas — lá ficou assinalada por cinco pés de ora-pro-nóbis. E a venda do pampa calçudo, o melhor cavalo das redondezas, teve a mudança de dono marcada pela poda dum galho do jasmineiro.
Além desta comemoração anedótica, o jardim consagrava uma planta a cada subalterno ou animal doméstico. Havia a roseira-chá da mucama de Sinhazinha; o sangue-de-adão do Tibúrcio cocheiro; a rosa-maxixe da mulatinha Cesária, sirigaita enredeira, de cara fuxicada como essa flor. O Vinagre, o Meteoro, a Manjerona, a Teteia, todos os cães que na fazenda nasceram e morreram, ali estavam lembrados pelo seu pezinho de flor, um resedá, um tufo de violetas, uma touça de perpétuas. O cão mais inteligente da casa, Otelo, morto hidrófobo, teve as honras duma sempre-viva rajada.
– Quem há de esquecer um bicho daqueles, que até parecia gente?
Também os gatos tinham memória. Lá estava a cinerária da gata branca morta nos dentes do Vinagre, e o pé de alecrim relembrativo do velho gato Romão.
Ninguém, a não ser Timóteo, colhia flores naquele jardim. Sinhazinha o tolerava desde o dia em que ele explicou:
– Não sabem, Sinhazinha! Vão lá e atrapalham tudo. Ninguém sabe apanhar flor…
Era verdade. Só Timóteo sabia escolhê-las com intenção e sempre de acordo com o destino. Se as queriam para florir a mesa em dia de anos da moça, Timóteo combinava os buquês como estrofes vivas. Colhia-as resmungando:
– Perpétua? Não. Você não vai pra mesa hoje. É festa alegre. Nem você, dona violetinha!… Rosa-maxixe? Ah! Ah! Tinha graça a Cesária em festa de branco!…
E sua tesoura ia cortando os caules com ciência de mestre. Às vezes parava, a filosofar:
– Ninguém se lembra hoje do anjinho… Pra que, então, goivo nos vasos?
Quieto fique aqui o senhor goivo, que não é flor de vida, é flor de cemitério…
E sua linguagem de flores? Suas ironias, nunca percebidas de ninguém? Seus louvores, de ninguém suspeitados? Quantas vezes não depôs na mesa, sobre um prato, um aviso a um hóspede, um lembrete à patroa, uma censura ao senhor, composto sob forma dum ramalhete? Ignorantes da língua do jardim, riam-se eles da maluquice do Timóteo, incapazes de lhe alcançar o fino das intenções.
Timóteo era feliz. Raras criaturas realizam na vida mais formoso delírio de poeta. Sem família, criara uma família de flores; pobre, vivia ao pé de um tesouro.
Era feliz, sim. Trabalhava por amor, conversando com a terra e as plantas – embora a copa e a cozinha implicassem com aquilo.
– Que tanto resmunga o Timóteo! Fica ali mamparreando horas, a cochichar, a rir, como se estivesse no meio duma criançada…
É que na sua imaginação as flores se transfiguravam em seres vivos. Tinham cara, olhos, ouvidos… O jasmim-do-cabo, pois não é que lhe dava a bênção todas as manhãs? Mal Timóteo aparecia, murmurando “A bênção, Sinhô”, e já o velho, encarnado na planta, respondia com voz alegre: “Deus te abençoe, Timóteo”.
Contar isso aos outros? Nunca! “Está louco”, haviam de dizer. Mas bem que as plantinhas falavam…
– E como não hão de falar, se tudo é criatura de Deus, homessa!… Também dialogava com elas.
– Contentinha, hein? Boa chuva a de ontem, não?
— …
– Sim, lá isso é verdade. As chuvas miúdas são mais criadeiras, mas você bem sabe que não é tempo. E o grilo? Voltou? Voltou, sim, o ladrão… E aqui roeu mais esta folhinha… Mas deixe estar que eu curo ele!
E punha-se a procurar o grilo. Achava-o.
– Seu malfeitor!… Quero ver se continua agora a judiar das minhas flores. Matava-o, enterrava-o.
– Vira esterco, diabinho!
Pelo tempo da seca era um regalo ver Timóteo a chuviscar amorosamente sobre as flores com o seu velho regador.
– O sol seca a terra? Bobice!… Como se o Timóteo não estivesse aqui de chovedor na mão.
“Chega também, ué! Então quer sozinho um regador inteiro? Boa moda!
Não vê que as esporinhas estão com a língua de fora?
“E esta boca-de-leão, ah! ah!, está mesmo com uma boca de cachorro que correu veado! Tome lá, beba, beba!
“E você também, seu resedá, tome lá seu banho, pra depois namorar aquela dona hortênsia, moça bonita do ‘zoio’azul…”
E lá ia…
Plantas novas que abrolhavam o primeiro botão punham alvoroço de noivo no peito do poeta, que falava do acontecimento na copa, provocando as risadinhas impertinentes da Cesária.
– Diabo do negro velho, cada vez caducando mais! Conversa com flor como se flor fosse gente.
Só a moça, com o seu fino instinto de mulher, lhe compreendia as delicadezas do coração.
– Está aqui, Sinhá, a primeira rainha-margarida deste ano! Ela fingia-se extasiada e punha a flor no corpete.
– Que beleza!
E Timóteo ria-se, feliz, feliz…
Certa vez falou-se na reforma do jardim.
– Precisamos mudar isto — lembrou o moço, de volta dum passeio a São Paulo. — Há tantas flores modernas, lindas, enormes, e nós toda a vida com estas cinerárias, estas esporinhas, estas flores caipiras… Vi lá crisandálias magníficas, crisântemos deste tamanho e uma rosa nova, branca, tão grande que até parece flor artificial.
Quando soube da conversa, Timóteo sentiu gelo no coração. Foi agarrar-se com a moça. Ele também conhecia essas flores de fora, vira crisântemos em casa do coronel Barroso, e as tais dálias mestiças no peito duma faceira, no leilão do Espírito Santo.
– Mas aquilo nem é flor, Sinhá! Coisas da estranja que o Canhoto inventa para perder as criaturas de Deus. Eles lá que plantem. Nós aqui devemos zelar das plantas de família. Aquela dália rajada, está vendo? É singela, não tem o crespo das dobradas; mas quem troca uma menina de sainha de chita cor-de- rosa por uma semostradeira da cidade, de muita seda no corpo mas sem fé no coração? De manhã “fica assim” de abelhas e cuitelos em roda dela!… E eles sabem, eles não ignoram quem merece. Se as das cidades fossem de mais estimação, por que é que esses bichinhos de Deus ficam aqui e não vão pra lá? Não, Sinhá! É preciso tirar essa ideia da cabeça de Sinhô-Moço. Ele é criança ainda, não sabe a vida. É preciso respeitar as coisas de dantes…
E o jardim ficou.
Mas um dia… Ah! Bem sentira-se Timóteo tomado de aversão pela família dos ora-pro-nóbis! Pressentimento puro… O ora-pro-nóbis pai voltou e esteve ali uma semana em conciliábulo com o moço. Ao fim desse tempo, explodiu como bomba a grande notícia: estava negociada a fazenda, devendo a escritura passar- se dentro de poucos dias.
Timóteo recebeu a nova como quem recebe uma sentença de morte. Na sua idade, tal mudança lhe equivalia a um fim de tudo. Correu a agarrar-se à moça, mas desta vez nada puderam contra as armas do dinheiro os seus pobres argumentos de poeta.
Vendeu-se a fazenda. E certa manhã viu Timóteo arrumarem-se no trole os antigos patrões, as mucamas, tudo o que constituía a alma do velho patrimônio.
– Adeus, Timóteo! — disseram alegremente os senhores-moços, acomodando-se no veículo.
– Adeus! Adeus!…
E lá partiu o trole, a galope… Dobrou a curva da estrada… Sumiu-se para sempre…
Pela primeira vez na vida Timóteo esqueceu de regar o jardim. Quedou-se plantado a um canto, a esmoer o dia inteiro o mesmo pensamento doloroso:
– Branco não tem coração…
Os novos proprietários eram gente da moda, amigos do luxo e das novidades. Entraram na casa com franzimentos de nariz para tudo.
– Velharias, velharias…
E tudo reformaram. Em vez da austera mobília de cabiúna, adotaram móveis pechisbeques, com veludinhos e frisos. Determinaram o empapelamento das salas, a abertura de um hall, mil coisas esquisitas… Diante do jardim, abriram-se em gargalhadas.
– É incrível! Um jardim destes, cheirando a Tomé de Sousa, em pleno século das crisandálias!
E correram-no todo, a rir, como perfeitos malucos.
– Olha, Yvette, esporinhas! É inconcebível que inda haja esporinhas no mundo!
– E periquito, Odete! Pe-ri-qui-to!… — disse uma das moças, torcendo-se em gargalhadas.
Timóteo ouvia aquilo com mil mortes na alma. Não restava dúvida, era o fim de tudo, como pressentira: aqueles bugres da cidade arrasariam a casa, o jardim e o mais que lembrasse o tempo antigo. Queriam só o moderno.
E o jardim foi condenado. Mandariam vir o Ambrogi para traçar um plano novo de acordo com a arte moderníssima dos jardins ingleses. Reformariam as flores todas, plantando as últimas criações da floricultura alemã. Ficou decidido assim.
– E para não perder tempo, enquanto o Ambrogi não chega ponho aquele macaco a me arrasar isto — disse o homem apontando para Timóteo.
– Ó tição, vem cá!
Timóteo aproximou-se, com ar apatetado.
– Olha, ficas encarregado de limpar este mato e deixar a terra nuazinha. Quero fazer aqui um lindo jardim. Arrasa-me isto bem arrasadinho, entendes?
Timóteo, trêmulo, mal pôde engrolar uma palavra:
— Eu?…
– Sim, tu! Por que não?
O velho jardineiro, atarantado e fora de si, repetiu a pergunta:
– Eu? Eu, arrasar o jardim?
O fazendeiro encarou-o, espantado da sua audácia, sem nada compreender daquela resistência.
– Eu? Pois me acha com cara de criminoso?
E não podendo mais conter-se explodiu num assomo estupendo de cólera — o primeiro e o único de sua vida.
– Eu vou mas é embora daqui, morrer lá na porteira como um cachorro fiel. Mas olhe, moço, que hei de rogar tanta praga que isto há de virar uma tapera de lacraias! A geada há de torrar o café. A peste há de levar até as vacas de leite! Não há de ficar aqui nem uma galinha, nem um pé de vassoura! E a família amaldiçoada, coberta de lepra, há de comer na gamela com os cachorros lazarentos!… Deixa estar, gente amaldiçoada! Não se assassina assim uma coisa que dinheiro nenhum paga. Não se mata assim um pobre negro velho que tem dentro do peito uma coisa que lá na cidade ninguém sabe o que é. Deixa estar, branco de má casta! Deixa estar, caninana! Deixa estar!…
E fazendo com a mão espalmada o gesto fatídico, saiu às arrecuas, repetindo cem vezes a mesma ameaça:
– Deixa estar! Deixa estar!…
E longe, na porteira, ainda espalmava a mão para a fazenda, num gesto mudo:
– Deixa estar!…
Anoitecia. Os curiangos andavam a espacejar silenciosos voos de sombra pelas estradas desertas. O céu era todo um recamo fulgurante de estrelas. Os sapos coaxavam nos brejos e vaga-lumes silenciosos piscavam piques de luz no sombrio das capoeiras.
Tudo adormecera na terra, em breve pausa de vida para o ressurgir do dia seguinte.
Só não ressurgirá Timóteo. Lá agoniza ao pé da porteira. Lá morre. E lá o encontrará a manhã enrijecido pelo relento, de borco na grama orvalhada, com a mão estendida para a fazenda num derradeiro gesto de ameaça:
– Deixa estar!…
Monteiro Lobato
Transformar o Rio na cidade de Machado de Assis
Os passos de Machado de Assis pelo Rio sempre despertaram curiosidade e paixão proporcionais ao tamanho de sua obra. Ao longo de 69 anos (1839-1908), o autor carioca fez da cidade sua própria casa. Foram nove moradias, sempre como inquilino. Nasceu, foi criado e trabalhou na região central — onde viveu em cinco imóveis —, e morou nas zonas Norte e Sul. Conheceu como poucos o território que povoou com seus personagens. Na quinta-feira, o arquiteto e escritor Nireu Cavalcanti lança um livro que contesta informações há tempos estabelecidas a respeito e mexe um pouco com as coordenadas dessa cartografia machadiana.
Das páginas de “Machado de Assis - Caminhos de suas moradias na cidade do Rio de Janeiro” (Editora Lacre), surgem uma casa esquecida na Rua da Alfândega, placas instaladas em imóveis errados e a revelação de que a residência de Laranjeiras, dada como demolida, segue de pé.
O “desaparecimento” do sobrado — sétima morada do autor de Quincas Borba, localizado na Rua das Laranjeiras, 22 —, teria ocorrido devido a um equívoco em antiga publicação que buscava atualizar a numeração nos logradouros da cidade. Nireu esmiúça a descoberta com direito à reprodução de farto material iconográfico, uma característica marcante em todo o livro, aliás.
Em outro trecho, Nireu aponta para uma habitação ainda não conhecida no rol das moradias machadianas: um sobrado na Rua da Alfândega, 123. No capítulo em que apresenta a terceira residência da lista, o livro trata de descartar a informação, amplamente difundida, de que, a exemplo de Bentinho e Capitu, personagens imortais de Dom Casmurro, Machado tenha vivido na antiga Rua de Matacavalos, atual Rua do Riachuelo. A história que se conta é que, ali, ele teria dividido a casa com o amigo Francisco Ramos Paz.
— Tem toda a aparência de autopromoção. O sujeito (Ramos Paz) dizia que morou com Machado, mas não deu endereço, não apresentou prova. Eles realmente se conheciam. Talvez Machado tenha ficado alguns meses hospedado ali, um período curto. Mas não há documentação, não vou dar fé a um depoimento desses sem prova — explica o autor.
A evidência trazida pelo historiador para afirmar que Machado morou na Rua da Alfândega é uma autodeclaração de residência feita pelo próprio ao ser apresentado para ingressar como sócio efetivo na Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.
As revelações trazidas por Nireu começam logo na origem: durante muito tempo se acreditou que Machado havia nascido em uma casa no Morro do Livramento, mas o autor garante que não. No livro, é citado um documento de 1845 no qual Francisco José de Assis, pai de Machado, é apontado como residente na Rua Nova do Livramento, 131. O endereço corresponde ao atual nº 151 da Rua do Livramento, no bairro da Gamboa.
— Quando ele nasceu, a chácara já estava sendo loteada e já tinha sido aberta a Rua Nova do Livramento, em 1828. Nessa casa ele perdeu a mãe, de tuberculose, e a irmã, de sarampo, o que certamente foi um trauma — diz Nireu.
Dona Leopoldina Machado de Assis, nascida na Ilha de São Miguel, nos Açores, morreu em 1849, quando o pequeno Joaquim Maria Machado de Assis tinha 9 anos. A irmã, Maria Machado de Assis, faleceu antes, em julho de 1845. Ele ainda ficaria no endereço até 1854, quando o pai se casou novamente. A família, então, seguiu para São Cristóvão, a segunda casa, onde permaneceria pelos próximos 13 anos.
Em novembro de 1869, o “bruxo do Cosme Velho” se casa com Carolina Augusta Xavier de Novaes e os dois vão para a Rua dos Andradas. É a quarta casa de Machado de Assis na cidade. Da velha construção, hoje, só resta a fachada. Daqui para frente, o casal segue unido até o fim, passando por mais cinco endereços da cidade.
A parada seguinte foi na Rua Santa Luzia, no Centro, e, na sequência, na Rua da Lapa, mais precisamente no segundo andar de um sobrado que está de pé até hoje. O local precisa de reformas, mas, observa o autor, guarda características da época em que o casal famoso viveu por lá. Em 2008, a prefeitura instalou uma placa indicando que ali morou o maior dos escritores brasileiros. Ótima iniciativa, mas imprecisa, diz Nireu:
— Colocaram a placa em outro prédio, limpo e pintado, provavelmente para não precisarem restaurar o verdadeiro imóvel. O sobrado correto fica na Rua da Lapa, 264. Está lá, muito degradado.
O mesmo, segundo Nireu Cavalcanti, aconteceu no Cosme Velho, bairro da nona e última residência de Machado e Carolina — antes de seguir para lá, os dois viveram na Rua do Catete, em casa térrea derrubada por ocasião das obras do metrô.
O chalé para onde o casal se mudou no Cosme Velho, em 1884, fazia parte de um conjunto de três construções idênticas. Duas delas foram derrubadas e uma permanece de pé. A placa evocando a presença do ilustre morador foi instalada no nº 174 da rua que leva o mesmo nome do bairro, mas, pelas pesquisas de Nireu, o correto é que estivesse no prédio vizinho, atual nº 136:
— A placa deveria estar no prédio de três andares ao lado.
Foi no período do Cosme Velho que Machado publicou muitas de suas obras, entre elas os romances “Quincas Borba” (1891), “Dom Casmurro” (1900), “Esaú e Jacó” (1904) e o derradeiro, “Memorial de Aires” (1908).
Funcionário — assíduo e dedicado, lembra Nireu — do Ministério da Agricultura e escritor renomado, não consta que Machado, de origem humilde, tenha padecido de dificuldades financeiras na vida adulta. Ainda assim, é curioso notar que sempre morou de aluguel.
— Chegou praticamente ao cargo de secretário do ministro, tinha um ótimo salário. Mesmo assim, nunca comprou uma casa. Não encontrei documento em que ele manifestasse desejo de comprar um imóvel — conta Nireu.
As nove casas são o ponto de partida. O livro extrapola a função de compilar esse pequeno condomínio machadiano e acaba virando um retrato da própria cidade entre a segunda metade do século XIX e o início do XX. Retrato não apenas geográfico, mas da sociedade, seus costumes, suas mazelas. Tudo costurado pelo caminho das muitas moradas de Machado:
— Gostaria que a sociedade carioca, as autoridades e as grandes empresas entendessem que existe uma oportunidade histórica de transformar o Rio na cidade de Machado de Assis. Restaurar os lugares onde ele viveu e dar a eles funções culturais criaria uma característica única para a cidade.
Das páginas de “Machado de Assis - Caminhos de suas moradias na cidade do Rio de Janeiro” (Editora Lacre), surgem uma casa esquecida na Rua da Alfândega, placas instaladas em imóveis errados e a revelação de que a residência de Laranjeiras, dada como demolida, segue de pé.
O “desaparecimento” do sobrado — sétima morada do autor de Quincas Borba, localizado na Rua das Laranjeiras, 22 —, teria ocorrido devido a um equívoco em antiga publicação que buscava atualizar a numeração nos logradouros da cidade. Nireu esmiúça a descoberta com direito à reprodução de farto material iconográfico, uma característica marcante em todo o livro, aliás.
Em outro trecho, Nireu aponta para uma habitação ainda não conhecida no rol das moradias machadianas: um sobrado na Rua da Alfândega, 123. No capítulo em que apresenta a terceira residência da lista, o livro trata de descartar a informação, amplamente difundida, de que, a exemplo de Bentinho e Capitu, personagens imortais de Dom Casmurro, Machado tenha vivido na antiga Rua de Matacavalos, atual Rua do Riachuelo. A história que se conta é que, ali, ele teria dividido a casa com o amigo Francisco Ramos Paz.
— Tem toda a aparência de autopromoção. O sujeito (Ramos Paz) dizia que morou com Machado, mas não deu endereço, não apresentou prova. Eles realmente se conheciam. Talvez Machado tenha ficado alguns meses hospedado ali, um período curto. Mas não há documentação, não vou dar fé a um depoimento desses sem prova — explica o autor.
A evidência trazida pelo historiador para afirmar que Machado morou na Rua da Alfândega é uma autodeclaração de residência feita pelo próprio ao ser apresentado para ingressar como sócio efetivo na Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.
As revelações trazidas por Nireu começam logo na origem: durante muito tempo se acreditou que Machado havia nascido em uma casa no Morro do Livramento, mas o autor garante que não. No livro, é citado um documento de 1845 no qual Francisco José de Assis, pai de Machado, é apontado como residente na Rua Nova do Livramento, 131. O endereço corresponde ao atual nº 151 da Rua do Livramento, no bairro da Gamboa.
— Quando ele nasceu, a chácara já estava sendo loteada e já tinha sido aberta a Rua Nova do Livramento, em 1828. Nessa casa ele perdeu a mãe, de tuberculose, e a irmã, de sarampo, o que certamente foi um trauma — diz Nireu.
| Nireu Cavalcanti na casa onde Machado de Assis morou na Lapa |
Dona Leopoldina Machado de Assis, nascida na Ilha de São Miguel, nos Açores, morreu em 1849, quando o pequeno Joaquim Maria Machado de Assis tinha 9 anos. A irmã, Maria Machado de Assis, faleceu antes, em julho de 1845. Ele ainda ficaria no endereço até 1854, quando o pai se casou novamente. A família, então, seguiu para São Cristóvão, a segunda casa, onde permaneceria pelos próximos 13 anos.
Em novembro de 1869, o “bruxo do Cosme Velho” se casa com Carolina Augusta Xavier de Novaes e os dois vão para a Rua dos Andradas. É a quarta casa de Machado de Assis na cidade. Da velha construção, hoje, só resta a fachada. Daqui para frente, o casal segue unido até o fim, passando por mais cinco endereços da cidade.
A parada seguinte foi na Rua Santa Luzia, no Centro, e, na sequência, na Rua da Lapa, mais precisamente no segundo andar de um sobrado que está de pé até hoje. O local precisa de reformas, mas, observa o autor, guarda características da época em que o casal famoso viveu por lá. Em 2008, a prefeitura instalou uma placa indicando que ali morou o maior dos escritores brasileiros. Ótima iniciativa, mas imprecisa, diz Nireu:
— Colocaram a placa em outro prédio, limpo e pintado, provavelmente para não precisarem restaurar o verdadeiro imóvel. O sobrado correto fica na Rua da Lapa, 264. Está lá, muito degradado.
O mesmo, segundo Nireu Cavalcanti, aconteceu no Cosme Velho, bairro da nona e última residência de Machado e Carolina — antes de seguir para lá, os dois viveram na Rua do Catete, em casa térrea derrubada por ocasião das obras do metrô.
O chalé para onde o casal se mudou no Cosme Velho, em 1884, fazia parte de um conjunto de três construções idênticas. Duas delas foram derrubadas e uma permanece de pé. A placa evocando a presença do ilustre morador foi instalada no nº 174 da rua que leva o mesmo nome do bairro, mas, pelas pesquisas de Nireu, o correto é que estivesse no prédio vizinho, atual nº 136:
— A placa deveria estar no prédio de três andares ao lado.
Foi no período do Cosme Velho que Machado publicou muitas de suas obras, entre elas os romances “Quincas Borba” (1891), “Dom Casmurro” (1900), “Esaú e Jacó” (1904) e o derradeiro, “Memorial de Aires” (1908).
Funcionário — assíduo e dedicado, lembra Nireu — do Ministério da Agricultura e escritor renomado, não consta que Machado, de origem humilde, tenha padecido de dificuldades financeiras na vida adulta. Ainda assim, é curioso notar que sempre morou de aluguel.
— Chegou praticamente ao cargo de secretário do ministro, tinha um ótimo salário. Mesmo assim, nunca comprou uma casa. Não encontrei documento em que ele manifestasse desejo de comprar um imóvel — conta Nireu.
As nove casas são o ponto de partida. O livro extrapola a função de compilar esse pequeno condomínio machadiano e acaba virando um retrato da própria cidade entre a segunda metade do século XIX e o início do XX. Retrato não apenas geográfico, mas da sociedade, seus costumes, suas mazelas. Tudo costurado pelo caminho das muitas moradas de Machado:
— Gostaria que a sociedade carioca, as autoridades e as grandes empresas entendessem que existe uma oportunidade histórica de transformar o Rio na cidade de Machado de Assis. Restaurar os lugares onde ele viveu e dar a eles funções culturais criaria uma característica única para a cidade.
segunda-feira, maio 25
Meu infinito
Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles. E pasmo do automatismo meu com que os outros me desconhecem. Porque atravesso a vida quotidiana sem largar a mão da ama astral, e os meus passos na rua vão concordes e consoantes com obscuros desígnios da imaginação de dormir. E na rua vou certo; não cambaleio; respondo bem; existo.
Mas, quando há um intervalo, e não tenho que vigiar o curso da minha marcha, para evitar veículos ou não estorvar peões, quando não tenho que falar a alguém, nem me pesa a entrada para uma porta próxima, largo-me de novo nas águas do sonho, como um barco de papel dobrado em bicos, e de novo regresso à ilusão mortiça que me acalentara a vaga consciência da manhã nascendo entre o som dos carros que hortaliçam.
E então, em plena vida, é que o sonho tem grandes cinemas. Desço uma rua irreal da Baixa e a realidade das vidas que não são ata-me, com carinho, a cabeça num trapo branco de reminiscências falsas. Sou navegador num desconhecimento de mim. Venci tudo onde nunca estive. E é uma brisa nova esta sonolência com que posso andar, curvado para a frente numa marcha sobre o impossível.
Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Mas, quando há um intervalo, e não tenho que vigiar o curso da minha marcha, para evitar veículos ou não estorvar peões, quando não tenho que falar a alguém, nem me pesa a entrada para uma porta próxima, largo-me de novo nas águas do sonho, como um barco de papel dobrado em bicos, e de novo regresso à ilusão mortiça que me acalentara a vaga consciência da manhã nascendo entre o som dos carros que hortaliçam.
E então, em plena vida, é que o sonho tem grandes cinemas. Desço uma rua irreal da Baixa e a realidade das vidas que não são ata-me, com carinho, a cabeça num trapo branco de reminiscências falsas. Sou navegador num desconhecimento de mim. Venci tudo onde nunca estive. E é uma brisa nova esta sonolência com que posso andar, curvado para a frente numa marcha sobre o impossível.
Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Canção da tarde no campo
Caminho do campo verde
estrada depois de estrada.
Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.
Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.
Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!
Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.
Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vai fugindo,
minha alma é a sombra da tua.
Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.
De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.
Eu ando sozinha
ao longo da noite,
Mas a estrela é minha.
estrada depois de estrada.
Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.
Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.
Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!
Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.
Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vai fugindo,
minha alma é a sombra da tua.
Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.
De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.
Eu ando sozinha
ao longo da noite,
Mas a estrela é minha.
Cecília Meireles
Iaiá no seu jardim
A janela de Iaiá dava para um pequeno jardim. Um pé de laranjeira, um pé de malva-rosa. Cobrindo a cerca alta, um jasmineiro todo estrelado de flores. Uma roseira de cacho. Touceiras de manjericão ao pé da parede; e, bem defronte à janela, na sua forquilha de três braços, a panela de barro com o craveiro — desses cravos brancos pequenos, apertados, de coração rosado e tão cheiroso que de noite, com a janela trancada, o perfume passava pela telha-vã e chegava até a rede onde Iaiá dormia.
Aquele jardim fechado, minúsculo, cheiroso e fresco, era talvez a coisa única que Iaiá podia chamar de seu, no mundo inteiro. Na casa-grande, invadida pela criançada rumorosa, pela mãe dominadora, pelas cunhãs da cozinha, se o quarto do oratório era o refúgio da avó — o pequeno jardim era o oratório de Iaiá. A família pensava que Iaiá adorava plantas —, aquela menina é louca por um pé de flor! Mas o que a moça adorava mesmo era a intimidade, o silêncio, o ar fechado e secreto daquele quadrado sombrio, entre a cerca e a parede — onde podia proibir a entrada até das crianças, sob o pretexto fácil de que iriam fazer malinação. E lá dentro, isolada com as suas flores, cavando, podando, adubando, arrancando mato, Iaiá podia pensar que não estava naquela terra nem no meio daquela família. Que era filha única de um casal rico, e morava numa casa de rua com piano na sala, e ia ao cinema e à avenida, e tinha um namorado de terno de casimira. O jardim, tão pequeno e cultivado, não tinha nada com a bruteza do sertão, não sofria alternativas de seca nem de inverno; nele as estações não variavam, a rega substituía a chuva, a boa terra vegetal que Iaiá fabricava enterrando folhas, a sombra da casa que poupava do mormaço as plantas mais mimosas — tudo criava um clima artificial, um clima estrangeiro, gostava Iaiá de pensar. Ah, de todas as palavras da língua, era essa que Iaiá considerava mais sedutora: estrangeiro. Significava falar outra língua, trocada, incompreensível e tão belíssima! Ver neve, comer maçãs no pé — imagine! E uvas e cerejas e peras e pêssegos — todas essas coisas que ela só conhecia de livros — os poucos, pouquíssimos livros que Iaiá possuía, lidos, treslidos, decorados: Toutinegra do moinho, Amor de perdição, O grande industrial, O mártir do Gólgota, O moço loiro e, escondido, disfarçado dentro de uma velha camisola aberta de renda, no fundo do baú — a Dama das camélias…
Com certo sentimento de culpa, porque ainda não cumprira as suas tarefas do dia, Iaiá especava com varinhas de taquara os ramos do craveiro que o vento da noite tombara. Mas logo se pôs a sonhar. Podia, quando morrer, se enterrar no seu jardim. Ao pé da rosa de cacho, com uns ramos do jasmineiro se derramando por cima da cova…E Iaiá se imaginava morta, de vestido branco e capela, no caixão branco e azul… Mas pensando em véu e capela, mudou de ideia — e agora se via vestida de noiva, saindo para casar na cidade, com um buquê feito de todas as flores do seu jardim… Marcava o dia do casamento para quando a laranjeira florasse — fora mesmo pensando secretamente no seu casamento que plantara a laranjeira… E o buquê teria jasmins, rosas e bogaris — sim, ainda não se mencionou o pé de bogari, redondo e coberto de botões, bem no ângulo da cerca! E no centro do buquê um molho cheiroso de cravos… E agora Iaiá pensava no cortejo, irresoluta… Como o faria? De trem? Tão vulgar! De automóvel — mas havia tão poucos automóveis na pequena cidade próxima, impossível de caber toda a família. O que mais lhe agradava era um belo cortejo a cavalo, dezenas, talvez uma centena de cavalos, levando os pais, irmãos, tias, primos, conhecidos; e à frente os dois — ela à garupa do noivo, o véu flutuando ao vento, as saias espalhadas sobre a anca do cavalo, a cauda apanhada no seu braço esquerdo, o braço direito rodeando o peito do noivo, com a mão sobre o coração dele… Ah, o noivo. Iaiá não sabia como seria o seu rosto, mas sentia com uma força de verdade aquele coração quente batendo debaixo da sua palma aberta. Era o abraço mais bonito que podia conceber — os dois correndo em cima do cavalo, o ar veloz lhes batendo no rosto, aquele torso forte de homem encostado ao seu peito… meu Deus, tão comovente, que Iaiá tinha vontade de chorar.
Mas, lá de dentro da cozinha, a voz da mãe gritou:
— Iaiá, você já deu comida aos pintos?
E Iaiá acabou de atar o galho do craveiro com uma palhinha de milho, soltou um suspiro fundo e foi pilar o xerém para dar comida aos pintos.
Aquele jardim fechado, minúsculo, cheiroso e fresco, era talvez a coisa única que Iaiá podia chamar de seu, no mundo inteiro. Na casa-grande, invadida pela criançada rumorosa, pela mãe dominadora, pelas cunhãs da cozinha, se o quarto do oratório era o refúgio da avó — o pequeno jardim era o oratório de Iaiá. A família pensava que Iaiá adorava plantas —, aquela menina é louca por um pé de flor! Mas o que a moça adorava mesmo era a intimidade, o silêncio, o ar fechado e secreto daquele quadrado sombrio, entre a cerca e a parede — onde podia proibir a entrada até das crianças, sob o pretexto fácil de que iriam fazer malinação. E lá dentro, isolada com as suas flores, cavando, podando, adubando, arrancando mato, Iaiá podia pensar que não estava naquela terra nem no meio daquela família. Que era filha única de um casal rico, e morava numa casa de rua com piano na sala, e ia ao cinema e à avenida, e tinha um namorado de terno de casimira. O jardim, tão pequeno e cultivado, não tinha nada com a bruteza do sertão, não sofria alternativas de seca nem de inverno; nele as estações não variavam, a rega substituía a chuva, a boa terra vegetal que Iaiá fabricava enterrando folhas, a sombra da casa que poupava do mormaço as plantas mais mimosas — tudo criava um clima artificial, um clima estrangeiro, gostava Iaiá de pensar. Ah, de todas as palavras da língua, era essa que Iaiá considerava mais sedutora: estrangeiro. Significava falar outra língua, trocada, incompreensível e tão belíssima! Ver neve, comer maçãs no pé — imagine! E uvas e cerejas e peras e pêssegos — todas essas coisas que ela só conhecia de livros — os poucos, pouquíssimos livros que Iaiá possuía, lidos, treslidos, decorados: Toutinegra do moinho, Amor de perdição, O grande industrial, O mártir do Gólgota, O moço loiro e, escondido, disfarçado dentro de uma velha camisola aberta de renda, no fundo do baú — a Dama das camélias…
Com certo sentimento de culpa, porque ainda não cumprira as suas tarefas do dia, Iaiá especava com varinhas de taquara os ramos do craveiro que o vento da noite tombara. Mas logo se pôs a sonhar. Podia, quando morrer, se enterrar no seu jardim. Ao pé da rosa de cacho, com uns ramos do jasmineiro se derramando por cima da cova…E Iaiá se imaginava morta, de vestido branco e capela, no caixão branco e azul… Mas pensando em véu e capela, mudou de ideia — e agora se via vestida de noiva, saindo para casar na cidade, com um buquê feito de todas as flores do seu jardim… Marcava o dia do casamento para quando a laranjeira florasse — fora mesmo pensando secretamente no seu casamento que plantara a laranjeira… E o buquê teria jasmins, rosas e bogaris — sim, ainda não se mencionou o pé de bogari, redondo e coberto de botões, bem no ângulo da cerca! E no centro do buquê um molho cheiroso de cravos… E agora Iaiá pensava no cortejo, irresoluta… Como o faria? De trem? Tão vulgar! De automóvel — mas havia tão poucos automóveis na pequena cidade próxima, impossível de caber toda a família. O que mais lhe agradava era um belo cortejo a cavalo, dezenas, talvez uma centena de cavalos, levando os pais, irmãos, tias, primos, conhecidos; e à frente os dois — ela à garupa do noivo, o véu flutuando ao vento, as saias espalhadas sobre a anca do cavalo, a cauda apanhada no seu braço esquerdo, o braço direito rodeando o peito do noivo, com a mão sobre o coração dele… Ah, o noivo. Iaiá não sabia como seria o seu rosto, mas sentia com uma força de verdade aquele coração quente batendo debaixo da sua palma aberta. Era o abraço mais bonito que podia conceber — os dois correndo em cima do cavalo, o ar veloz lhes batendo no rosto, aquele torso forte de homem encostado ao seu peito… meu Deus, tão comovente, que Iaiá tinha vontade de chorar.
Mas, lá de dentro da cozinha, a voz da mãe gritou:
— Iaiá, você já deu comida aos pintos?
E Iaiá acabou de atar o galho do craveiro com uma palhinha de milho, soltou um suspiro fundo e foi pilar o xerém para dar comida aos pintos.
Rachel de Queiroz
O dia em que Lygia Bojunga virou ameaça
Uma escola militar do Distrito Federal decidiu retirar de circulação A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, após reclamações de pais que enxergaram na obra referências inadequadas a questões de gênero. A notícia chama atenção por transformar um dos maiores clássicos da literatura infantil brasileira em objeto de suspeita ideológica.
Publicado em 1976, em pleno regime militar, A Bolsa Amarela ajudou a transformar a literatura infantil no Brasil. Lygia Bojunga pertence a uma geração de autores, como Ana Maria Machado ou Ruth Rocha, que rompeu com a ideia de que livros destinados a crianças deveriam ser apenas moralizantes ou pedagógicos. Sua literatura introduziu densidade emocional, imaginação, medo, inadequação, desejo de liberdade e conflitos interiores como elementos legítimos da experiência infantil. Não por acaso, tornou-se a primeira autora brasileira a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante reconhecimento internacional da literatura infantil e juvenil.
É justamente aí que reside a principal contradição do episódio. O problema não parece estar no livro, mas na forma como ele passou a ser lido. Literatura não é cartilha ideológica. Personagens não são panfletos. Conflitos narrativos não equivalem automaticamente à defesa de comportamentos ou agendas políticas. Quando uma obra literária passa a ser examinada apenas como instrumento de vigilância moral, perde-se a capacidade de compreender o que distingue literatura de propaganda.
A questão ultrapassa, portanto, o debate específico sobre gênero. O que está em jogo é algo mais amplo: a dificuldade crescente de lidar com ambiguidades, metáforas, e conflitos próprios da literatura. Em vez de formar leitores capazes de interpretar criticamente textos complexos, cria-se uma cultura de leitura policialesca, na qual livros passam a ser investigados em busca de desvios ideológicos.
O paradoxo histórico é inevitável. A Bolsa Amarela surgiu em pleno regime militar, nunca foi censurada e logo consolidou-se como um clássico da literatura infantil brasileira. Décadas depois, passa a ser alvo de suspeita não por crítica política explícita, mas porque parte da sociedade passou a enxergar ameaças ideológicas até mesmo em narrativas voltadas à imaginação infantil.
Naturalmente, escolas e famílias têm o direito, e até o dever, de discutir adequação etária, mediação pedagógica e critérios de escolha de obras literárias. Esse debate é legítimo. O problema começa quando a reação abandona o terreno pedagógico e passa a tratar a literatura como objeto de interdição moral ou suspeita política.
Não é a primeira vez que obras literárias se transformam em objetos de suspeita. Isso quase nunca fortaleceu a educação ou a cultura. A literatura infantil séria nunca tratou apenas de histórias leves ou edificantes. Ela também aborda medos, frustrações, inadequações e descobertas.
Proteção excessiva pode produzir exatamente o oposto do que pretende: jovens menos preparados para lidar com complexidade, diferença e pensamento crítico.
Talvez o aspecto mais preocupante do episódio seja outro. Uma sociedade começa a empobrecer culturalmente quando perde a capacidade de distinguir livros de panfletos. Quando clássicos da imaginação infantil passam a ser tratados como ameaça ideológica, talvez o problema já não esteja nos livros.
“Eu achei aquilo tão impressionante! É claro que eu já tinha visto gente com mania de dizer que a gente tem que ganhar dos outros, tem que ser a primeira disso, a primeira daquilo, mas nunca pensei que alguém tinha que ganhar tanto assim.”
Publicado em 1976, em pleno regime militar, A Bolsa Amarela ajudou a transformar a literatura infantil no Brasil. Lygia Bojunga pertence a uma geração de autores, como Ana Maria Machado ou Ruth Rocha, que rompeu com a ideia de que livros destinados a crianças deveriam ser apenas moralizantes ou pedagógicos. Sua literatura introduziu densidade emocional, imaginação, medo, inadequação, desejo de liberdade e conflitos interiores como elementos legítimos da experiência infantil. Não por acaso, tornou-se a primeira autora brasileira a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante reconhecimento internacional da literatura infantil e juvenil.
É justamente aí que reside a principal contradição do episódio. O problema não parece estar no livro, mas na forma como ele passou a ser lido. Literatura não é cartilha ideológica. Personagens não são panfletos. Conflitos narrativos não equivalem automaticamente à defesa de comportamentos ou agendas políticas. Quando uma obra literária passa a ser examinada apenas como instrumento de vigilância moral, perde-se a capacidade de compreender o que distingue literatura de propaganda.
A questão ultrapassa, portanto, o debate específico sobre gênero. O que está em jogo é algo mais amplo: a dificuldade crescente de lidar com ambiguidades, metáforas, e conflitos próprios da literatura. Em vez de formar leitores capazes de interpretar criticamente textos complexos, cria-se uma cultura de leitura policialesca, na qual livros passam a ser investigados em busca de desvios ideológicos.
O paradoxo histórico é inevitável. A Bolsa Amarela surgiu em pleno regime militar, nunca foi censurada e logo consolidou-se como um clássico da literatura infantil brasileira. Décadas depois, passa a ser alvo de suspeita não por crítica política explícita, mas porque parte da sociedade passou a enxergar ameaças ideológicas até mesmo em narrativas voltadas à imaginação infantil.
Naturalmente, escolas e famílias têm o direito, e até o dever, de discutir adequação etária, mediação pedagógica e critérios de escolha de obras literárias. Esse debate é legítimo. O problema começa quando a reação abandona o terreno pedagógico e passa a tratar a literatura como objeto de interdição moral ou suspeita política.
Não é a primeira vez que obras literárias se transformam em objetos de suspeita. Isso quase nunca fortaleceu a educação ou a cultura. A literatura infantil séria nunca tratou apenas de histórias leves ou edificantes. Ela também aborda medos, frustrações, inadequações e descobertas.
Proteção excessiva pode produzir exatamente o oposto do que pretende: jovens menos preparados para lidar com complexidade, diferença e pensamento crítico.
Talvez o aspecto mais preocupante do episódio seja outro. Uma sociedade começa a empobrecer culturalmente quando perde a capacidade de distinguir livros de panfletos. Quando clássicos da imaginação infantil passam a ser tratados como ameaça ideológica, talvez o problema já não esteja nos livros.
O suspiro dos comboios
— Lhe vou confessar miúdo. Eu sei que é verdade: não somos nós que estamos a andar. É a estrada.
— Isso eu disse desde há muito tempo.
— Você disse, não. Eu é que digo.
E Tuahir revela: de todas as vezes que ele lhe guiara pelos caminhos era só fingimento. Porque nenhuma das vezes que saíram pelos matos eles se tinham afastado por reais distâncias.
— Sempre estávamos aqui pertinho, a reduzidos metros.
— É miúdo, estamos a viajar. Nesse machimbombo parado nós não paramos de viajar. Me faz lembrar quando andava no comboio.
O velho se lembrava, olhos quiméricos. Recordava o trem resfolegando pela savana, trazendo as boas simpatias de muito longe, os mineiros que chegavam carregados de mil ofertas. Sua memória se inundava de vapores e fumos, esses que cacimbam as sonolentas estações. Há quanto tempo os comboios tinham parado de espalhar seus fumos mágicos?
— Você alguma vez escutou a fala do comboio?
— Nunca, tio.
— É bonito de se ouvir. Túúúúúú-úú.
Tuahir se recorda. Seu serviço tinha sido numa estaçãozinha. Quando a guerra chegou, os comboios deixaram de passar. Mas ele ficou em seu posto, sua lanterna, sua atenta bandeira. Aquela lanterna tinha restado como única luz entre tanto mato como se fosse uma lâmpada não dos homens mas da terra. Pontualmente Tuahir madrugava na gare, varria o patamar, reparava as tábuas da casinha. Aplicava seu princípio: há-de vir, um dia o comboio virá. Quando chegasse a data ele estaria à frente da ocasião, todo fardado, todo organizado. Como sempre fizera, saudaria a locomotiva em solene continência. As carruagens arrastariam seu suspiro de ferros, as meninas correriam com seus cestos vendendo frutas e a vida se banharia de luzes e vozes.
— Às vezes me apetece arrumar este machimbombo como eu fazia com a estação. Mas agora não vale a pena.
— Não vale a pena porquê?
— Também não vale a pena responder. Vê esse apito?
E retira do bolso um velho apito. Era um amuleto que o tinha acompanhado todos aqueles anos.
— Leve. Para lhe dar sorte.
Muidinga, de princípio, não aceita. O apito tem valores sentimentais que só o velho conhece. Mas Tuahir insiste e ele acaba por recolher o pequeno objecto. Em sua alma, porém, há uma pedrinha. Por que motivo não mereceria a pena cuidarem do autocarro? Porquê aquela desistência do tio? E lhe fala, com devoção. Lhe fala de risos futuros, o mundo brincando em suas mãos. Voltariam os dois a cuidar da estação, lanternas e bandeiras a ordenar o trânsito das carruagens.
— Não é o tio que sempre repete: qualquer coisa vai acontecer?
— Digo isso porque já perdi a esperança.
— Mentira. Se tivesse perdido por que razão me havia de oferecer esse apito?
O velho pede então que o miúdo dê voz aos cadernos. Dividissem aquele encanto como sempre repartiram a comida. Ainda bem você sabe ler, comenta o velho. Não fossem as leituras eles estariam condenados à solidão. Seus devaneios caminhavam agora pelas letrinhas daqueles escritos.
— Me lê, miúdo. Vai lendo enquanto eu faço um serviço.
Então, o velho improvisa um xipefo, solta um pano vermelho. Apanha um ramo de palmeira e inventa uma vassoura. Varre o interior do machimbombo enquanto canta. O miúdo desfolha os cadernos sorridente. O velho se recriava, igual ao seu antigo emprego. E é como se o próprio Muidinga estivesse sentado na estação, aguardando o próximo comboio. Tuahir vai juntando os resíduos do queimado numa velha tampa. Depois, sai do autocarro e espalha as cinzas pelas terras em volta.
— Estou semear este adubo. É para amanhã quando chover. Continue, filho. Não pare de ler.
Mia Couto, "Terra Sonâmbula"
— Isso eu disse desde há muito tempo.
— Você disse, não. Eu é que digo.
E Tuahir revela: de todas as vezes que ele lhe guiara pelos caminhos era só fingimento. Porque nenhuma das vezes que saíram pelos matos eles se tinham afastado por reais distâncias.
— Sempre estávamos aqui pertinho, a reduzidos metros.
Tudo acontecera na vizinhança do autocarro. Era o país que desfilava por ali, sonhambulante. Siqueleto esvaindo, Nhamataca fazendo rios, as velhas caçando gafanhotos, tudo o que se passara tinha sucedido em plena estrada.
— É miúdo, estamos a viajar. Nesse machimbombo parado nós não paramos de viajar. Me faz lembrar quando andava no comboio.
O velho se lembrava, olhos quiméricos. Recordava o trem resfolegando pela savana, trazendo as boas simpatias de muito longe, os mineiros que chegavam carregados de mil ofertas. Sua memória se inundava de vapores e fumos, esses que cacimbam as sonolentas estações. Há quanto tempo os comboios tinham parado de espalhar seus fumos mágicos?
— Você alguma vez escutou a fala do comboio?
— Nunca, tio.
— É bonito de se ouvir. Túúúúúú-úú.
Tuahir se recorda. Seu serviço tinha sido numa estaçãozinha. Quando a guerra chegou, os comboios deixaram de passar. Mas ele ficou em seu posto, sua lanterna, sua atenta bandeira. Aquela lanterna tinha restado como única luz entre tanto mato como se fosse uma lâmpada não dos homens mas da terra. Pontualmente Tuahir madrugava na gare, varria o patamar, reparava as tábuas da casinha. Aplicava seu princípio: há-de vir, um dia o comboio virá. Quando chegasse a data ele estaria à frente da ocasião, todo fardado, todo organizado. Como sempre fizera, saudaria a locomotiva em solene continência. As carruagens arrastariam seu suspiro de ferros, as meninas correriam com seus cestos vendendo frutas e a vida se banharia de luzes e vozes.
— Às vezes me apetece arrumar este machimbombo como eu fazia com a estação. Mas agora não vale a pena.
— Não vale a pena porquê?
— Também não vale a pena responder. Vê esse apito?
E retira do bolso um velho apito. Era um amuleto que o tinha acompanhado todos aqueles anos.
— Leve. Para lhe dar sorte.
Muidinga, de princípio, não aceita. O apito tem valores sentimentais que só o velho conhece. Mas Tuahir insiste e ele acaba por recolher o pequeno objecto. Em sua alma, porém, há uma pedrinha. Por que motivo não mereceria a pena cuidarem do autocarro? Porquê aquela desistência do tio? E lhe fala, com devoção. Lhe fala de risos futuros, o mundo brincando em suas mãos. Voltariam os dois a cuidar da estação, lanternas e bandeiras a ordenar o trânsito das carruagens.
— Não é o tio que sempre repete: qualquer coisa vai acontecer?
— Digo isso porque já perdi a esperança.
— Mentira. Se tivesse perdido por que razão me havia de oferecer esse apito?
O velho pede então que o miúdo dê voz aos cadernos. Dividissem aquele encanto como sempre repartiram a comida. Ainda bem você sabe ler, comenta o velho. Não fossem as leituras eles estariam condenados à solidão. Seus devaneios caminhavam agora pelas letrinhas daqueles escritos.
— Me lê, miúdo. Vai lendo enquanto eu faço um serviço.
Então, o velho improvisa um xipefo, solta um pano vermelho. Apanha um ramo de palmeira e inventa uma vassoura. Varre o interior do machimbombo enquanto canta. O miúdo desfolha os cadernos sorridente. O velho se recriava, igual ao seu antigo emprego. E é como se o próprio Muidinga estivesse sentado na estação, aguardando o próximo comboio. Tuahir vai juntando os resíduos do queimado numa velha tampa. Depois, sai do autocarro e espalha as cinzas pelas terras em volta.
— O que está a fazer, tio?
— Estou semear este adubo. É para amanhã quando chover. Continue, filho. Não pare de ler.
Mia Couto, "Terra Sonâmbula"
sábado, maio 23
O espelho de vento-e-lua
Em um ano, o sofrimento de Kia Yui se agravou. A imagem da inacessível senhora Fênix consumia seus dias; os pesadelos e a insônia, as suas noites.
Uma tarde, um mendigo taoista pedia esmolas na rua e proclamava que podia curar as doenças da alma. Kia Yui mandou chamá-lo. Disse-lhe o mendigo: “Seu mal não sara com remédios. Tenho aqui algo que o curará se seguir minhas indicações”. Tirou da manga um espelho polido nas duas faces, com a seguinte inscrição: Precioso Espelho de Vento-e-Lua.
Acrescentou o mendigo: “Este espelho vem do Palácio da Fada do Terrível Despertar e tem a virtude de curar os males causados pelos ventos impuros. Evite, porém, olhar o verso. Amanhã voltarei para buscar o espelho e para felicitá-lo por suas melhoras”. Não quis aceitar as moedas que lhe foram oferecidas.
Kia Yui olhou a frente do espelho, e aterrorizado atirou-o longe.
O espelho refletia sua caveira. Amaldiçoou o mendigo e quis olhar o verso do espelho. Lá do fundo, a senhora Fênix, esplendidamente vestida, lhe fazia sinais. Kia Yui sentiu-se arrebatado, atravessou o metal e realizou o ato de amor. Fênix acompanhou-o até a saída.
Quando Kia Yui acordou, o espelho estava ao contrário e novamente lhe mostrava a caveira. Esgotado pelas delícias do lado feliz, Kia Yui não resistiu a tentação de olhá-lo uma vez mais. A senhora Fênix lhe fazia sinais, e ele cruzou o metal novamente e novamente fizeram amor. Isto ocorreu umas quantas vezes. Na última, dois homens o prenderam quando saía e o acorrentaram. “Eu os seguirei”, murmurou, “mas deixem-me levar o espelho”.
Foram suas últimas palavras.
Encontraram-no morto, sobre o lençol manchado.(Tsao Hsue-qin, Sonho do aposento vermelho)
Uma tarde, um mendigo taoista pedia esmolas na rua e proclamava que podia curar as doenças da alma. Kia Yui mandou chamá-lo. Disse-lhe o mendigo: “Seu mal não sara com remédios. Tenho aqui algo que o curará se seguir minhas indicações”. Tirou da manga um espelho polido nas duas faces, com a seguinte inscrição: Precioso Espelho de Vento-e-Lua.
Acrescentou o mendigo: “Este espelho vem do Palácio da Fada do Terrível Despertar e tem a virtude de curar os males causados pelos ventos impuros. Evite, porém, olhar o verso. Amanhã voltarei para buscar o espelho e para felicitá-lo por suas melhoras”. Não quis aceitar as moedas que lhe foram oferecidas.
Kia Yui olhou a frente do espelho, e aterrorizado atirou-o longe.
O espelho refletia sua caveira. Amaldiçoou o mendigo e quis olhar o verso do espelho. Lá do fundo, a senhora Fênix, esplendidamente vestida, lhe fazia sinais. Kia Yui sentiu-se arrebatado, atravessou o metal e realizou o ato de amor. Fênix acompanhou-o até a saída.
Quando Kia Yui acordou, o espelho estava ao contrário e novamente lhe mostrava a caveira. Esgotado pelas delícias do lado feliz, Kia Yui não resistiu a tentação de olhá-lo uma vez mais. A senhora Fênix lhe fazia sinais, e ele cruzou o metal novamente e novamente fizeram amor. Isto ocorreu umas quantas vezes. Na última, dois homens o prenderam quando saía e o acorrentaram. “Eu os seguirei”, murmurou, “mas deixem-me levar o espelho”.
Foram suas últimas palavras.
Encontraram-no morto, sobre o lençol manchado.(Tsao Hsue-qin, Sonho do aposento vermelho)
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"
Leitura natural
Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias
da sala
e recrudesce nas montanhas.
Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.
Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.
Affonso Romano de Sant'Anna
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias
da sala
e recrudesce nas montanhas.
Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.
Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.
Affonso Romano de Sant'Anna
Conta aquela da poesia
Os três homens falavam de poesia. Pessoa, Drummond, Borges, Lorca, Bishop, Plath, Szymborska. Poesia, poesia, poesia, ouvia o garçom toda vez que passava pela mesa. No momento em que dois avisaram que precisavam ir embora, o terceiro protestou: “Justo agora que a prosa está ficando boa?” “A prosa? Que horror!”, exclamaram ao mesmo tempo os outros dois. A gargalhada dos três, alta, escandalosa, fez com que todos olhassem para eles. Ora, quem diria, aqueles senhores empertigados… Quando o garçom foi buscar para eles a maquininha de cartões, o dono do restaurante perguntou: “Que piada foi aquela? Me conta.” “Não sei, um negócio qualquer de poesia.” “Ah, poesia”, murmurou decepcionado o dono.
Na poesia, os milagres são mais possíveis que na prosa. A prosa tem a mania da construção e da lógica. A poesia é imprevisível como um vento desembestado. A prosa abomina o acaso. Ela é um trabalho do homem. A poesia é uma distração dos deuses.
Penso que a melhor poesia não é aquela que define, mas aquela que sugere. Ela deve ser não a ilha, talvez nem mesmo a sua ideia, mas uma percepção, um pressentimento de ilha. Sob esse aspecto, a poesia japonesa é inigualável.
Não acredito em poetas que atribuem à poesia a função e a capacidade de salvar o mundo. Isso soa como manifesto, e manifestos não calham bem à poesia. Ela existe para alimentar e aliviar a sede de algumas poucas almas, assim como a música de Beethoven, Mozart e Bach.
Diga a teoria o que disser sobre a exata proporção entre a inspiração e a transpiração, um poema pode muito bem se fazer sozinho – se quiser. A poesia é um vício tão antigo que qualquer aldeão ou aldeã semialfabetizada podem num instante colher uma batelada. Poesia pode fazê-la o vento, pode fazê-la o rio, pode fazê-la o mar, pode também fazê-la o poeta, desde que aquilo que o poeta faça seja poesia.
Fazer poemas nós conseguimos. Já a poesia é diferente. Ninguém faz a poesia. Ela se faz e, por condescendência, permite às vezes que o poeta revele algo dela, aquilo que as insuficientes palavras conseguem alcançar. Deixar-se traduzir inteira é raro. Sabe-se de um caso ou dois. Rilke é um deles.
***
Os antigos enfeitavam a poesia com flores e passarinhos. Gerações posteriores desenvolveram o conceito de que as flores e os passarinhos não eram adornos, mas a essência da poesia. Tudo isso até que as flores, os passarinhos e a poesia entraram no ciclo de decadência que os atiraria ao tristíssimo marasmo atual.***
Na poesia, os milagres são mais possíveis que na prosa. A prosa tem a mania da construção e da lógica. A poesia é imprevisível como um vento desembestado. A prosa abomina o acaso. Ela é um trabalho do homem. A poesia é uma distração dos deuses.
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Penso que a melhor poesia não é aquela que define, mas aquela que sugere. Ela deve ser não a ilha, talvez nem mesmo a sua ideia, mas uma percepção, um pressentimento de ilha. Sob esse aspecto, a poesia japonesa é inigualável.
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Não acredito em poetas que atribuem à poesia a função e a capacidade de salvar o mundo. Isso soa como manifesto, e manifestos não calham bem à poesia. Ela existe para alimentar e aliviar a sede de algumas poucas almas, assim como a música de Beethoven, Mozart e Bach.
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Diga a teoria o que disser sobre a exata proporção entre a inspiração e a transpiração, um poema pode muito bem se fazer sozinho – se quiser. A poesia é um vício tão antigo que qualquer aldeão ou aldeã semialfabetizada podem num instante colher uma batelada. Poesia pode fazê-la o vento, pode fazê-la o rio, pode fazê-la o mar, pode também fazê-la o poeta, desde que aquilo que o poeta faça seja poesia.
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Fazer poemas nós conseguimos. Já a poesia é diferente. Ninguém faz a poesia. Ela se faz e, por condescendência, permite às vezes que o poeta revele algo dela, aquilo que as insuficientes palavras conseguem alcançar. Deixar-se traduzir inteira é raro. Sabe-se de um caso ou dois. Rilke é um deles.
O gavião
Gente olhando para o céu: não é mais disco voador. Disco voador perdeu o cartaz com tanto satélite beirando o sol e a lua. Olhamos todos para o céu em busca de algo mais sensacional e comovente — o gavião malvado, que mata pombas.
O centro da cidade do Rio de Janeiro retorna assim à contemplação de um drama bem antigo, e há o partido das pombas e o partido do gavião. Os pombistas ou pombeiros (qualquer palavra é melhor que “columbófilo”) querem matar o gavião.
Os amigos deste dizem que ele não é malvado tal; na verdade come a sua pombinha com a mesma inocência com que a pomba come seu grão de milho.
Não tomarei partido; admiro a túrgida inocência das pombas e também o lance magnífico em que o gavião se despenca sobre uma delas. Comer pombas é, como diria Saint-Exupéry, “a verdade do gavião”, mas matar um gavião no ar com um belo tiro pode também ser a verdade do caçador.
A verdade é que não posso mais falar de aves: dei meus passarinhos. No fim eram apenas um casal de canários e um corrupião. Faço muitas viagens curtas e achei que a empregada não cuidava deles bastante bem na minha ausência; mesmo que os cuidasse não lhes fazia companhia, pois mora longe. E o prazer de minhas pequenas viagens era estragado com a lembrança do corrupião tristemente trancado em uma sala o dia inteiro, sem ter com quem conversar, ele que é tão animado e tagarela.
Sinto saudade deles (da canarinha, na verdade, não: era sem graça, e andava doente) e sem eles me sinto mais solteiro. Mas se, por exemplo, desaba uma chuvarada súbita, ainda me assusto pensando em tirar os bichos da varanda em que ficam nas noites quentes; quando me lembro que não estão mais comigo, que não devo mais ter esse susto e essa aflição, então me vem um certo alívio. Sou mais só, mas também mais livre.
Que o gavião mate a pomba e o homem mate alegremente o gavião; ao homem, se não houver outro bicho que o mate, pode lhe suceder que ele encontre seu gavião em outro homem. A vida é rapina. Perdi os cantos do meu canário e os assovios de meu sofrê; meu coração está mais triste, mas mais leve também.
O centro da cidade do Rio de Janeiro retorna assim à contemplação de um drama bem antigo, e há o partido das pombas e o partido do gavião. Os pombistas ou pombeiros (qualquer palavra é melhor que “columbófilo”) querem matar o gavião.
Os amigos deste dizem que ele não é malvado tal; na verdade come a sua pombinha com a mesma inocência com que a pomba come seu grão de milho.
Não tomarei partido; admiro a túrgida inocência das pombas e também o lance magnífico em que o gavião se despenca sobre uma delas. Comer pombas é, como diria Saint-Exupéry, “a verdade do gavião”, mas matar um gavião no ar com um belo tiro pode também ser a verdade do caçador.
A verdade é que não posso mais falar de aves: dei meus passarinhos. No fim eram apenas um casal de canários e um corrupião. Faço muitas viagens curtas e achei que a empregada não cuidava deles bastante bem na minha ausência; mesmo que os cuidasse não lhes fazia companhia, pois mora longe. E o prazer de minhas pequenas viagens era estragado com a lembrança do corrupião tristemente trancado em uma sala o dia inteiro, sem ter com quem conversar, ele que é tão animado e tagarela.
Sinto saudade deles (da canarinha, na verdade, não: era sem graça, e andava doente) e sem eles me sinto mais solteiro. Mas se, por exemplo, desaba uma chuvarada súbita, ainda me assusto pensando em tirar os bichos da varanda em que ficam nas noites quentes; quando me lembro que não estão mais comigo, que não devo mais ter esse susto e essa aflição, então me vem um certo alívio. Sou mais só, mas também mais livre.
Que o gavião mate a pomba e o homem mate alegremente o gavião; ao homem, se não houver outro bicho que o mate, pode lhe suceder que ele encontre seu gavião em outro homem. A vida é rapina. Perdi os cantos do meu canário e os assovios de meu sofrê; meu coração está mais triste, mas mais leve também.
Rubem Braga
Nuvens de palavras
Devia ter entre 8 e 9 anos quando tive uma iluminação. Diria epifania, se conhecesse a palavra naquela época. Era algo fascinante (esse adjetivo eu sabia, só faltava ocasião para usá-lo): um texto sem versos ou rimas, mas com os dons encantatórios de um poema. Não contava uma história, como num conto — era mais um comentário, quase confidência. E tinha humor. Muito. Eu, incapaz de rimar ou metrificar e sem me sentir à vontade ao inventar enredos, intuí — com um tiquinho de ingenuidade e muita pretensão — que aquilo eu conseguiria escrever. Bastava ser eu mesmo, tirando partido de tudo o que ignorava (e era coisa pra caramba). Só bem depois vim a saber que aquela camaradagem por escrito se chamava crônica.
Do texto em si, não ficou uma sílaba na memória, ainda que eu o tenha copiado no caderno e tentado datilografá-lo, catando milho na Remington do meu pai. Só me lembro do esquisitíssimo nome do autor: Millôr. Ele me pareceu um adulto que não se esquecera de um dia ter sido criança.
Anos mais tarde, topei com Carlos Eduardo Novaes, outro que ria com as palavras — mas eu não havia sido apresentado ao substantivo “lúdico” para definir o que me atraía nele. Então chegaram Stanislaw Ponte Preta, Leon Eliachar, Luís Fernando Veríssimo — todos eles adultos brincalhões, dando uma pista de que eu não precisaria abrir mão de ser quem eu era quando virasse gente grande (mal sabia que ser cronista é nunca virar gente grande).
Fui aos poucos descobrindo a prosa amena de Drummond, um avô de quem era bom ouvir os casos. De Fernando Sabino, o tio amoroso. De Rubem Braga, o padrinho cuja presença silenciava tudo à sua volta. Mais adiante, Antônio Maria se juntou à família — e a estante quase que só tinha esse povo que escreve em língua de gente, não de livro.
Um dia, depois de ter sido arquiteto por quatro décadas e ter desistido (temporariamente) do atrevimento de ser psicanalista, lá estava eu, escrevendo crônica em jornal, em revista e coordenando uma oficina em que aquele arrebatamento pelo Millôr fosse compartilhado com quem tivesse tido experiências similares com Cecília, Rachel, Machado, Clarice.
Nesta semana, na oficina, acompanhamos Ruth de Aquino fazer de Atafona personagem de uma saga familiar, e André Gabeh reinventar, pela via do riso, os perrengues do subúrbio. Experimentamos com Ivan Lessa a sensação de ser estrangeiros no tempo, na geografia, dentro de nós mesmos. Pelos olhos de Carlos Heitor Cony, nos vimos no dia seguinte ao golpe de 1964. Nélson Rodrigues nos levou por um Rio de Janeiro que renascia, pós-gripe espanhola, no carnaval de 1920. E aí percebemos serem as crônicas — raramente vistas nas chamadas de primeira página — aquilo que melhor retrata o festival de besteiras que assola o país, a alma encantadora das ruas, o caos nosso de cada dia, a comédia da vida privada. E que é preciso muito treino para ser natural, muito vocabulário para escrever como se fala.
Quem quer que, ainda aos 8 anos ou já pelos 80, tenha lido Artur Xexéo, Danuza Leão ou João Ubaldo há de ter tido a ilusão de sermos todos cronistas em suspensão, capazes de tanger, com a mesma leveza, uma nuvem de palavras.
Eduardo Affonso
Do texto em si, não ficou uma sílaba na memória, ainda que eu o tenha copiado no caderno e tentado datilografá-lo, catando milho na Remington do meu pai. Só me lembro do esquisitíssimo nome do autor: Millôr. Ele me pareceu um adulto que não se esquecera de um dia ter sido criança.
Anos mais tarde, topei com Carlos Eduardo Novaes, outro que ria com as palavras — mas eu não havia sido apresentado ao substantivo “lúdico” para definir o que me atraía nele. Então chegaram Stanislaw Ponte Preta, Leon Eliachar, Luís Fernando Veríssimo — todos eles adultos brincalhões, dando uma pista de que eu não precisaria abrir mão de ser quem eu era quando virasse gente grande (mal sabia que ser cronista é nunca virar gente grande).
Fui aos poucos descobrindo a prosa amena de Drummond, um avô de quem era bom ouvir os casos. De Fernando Sabino, o tio amoroso. De Rubem Braga, o padrinho cuja presença silenciava tudo à sua volta. Mais adiante, Antônio Maria se juntou à família — e a estante quase que só tinha esse povo que escreve em língua de gente, não de livro.
Um dia, depois de ter sido arquiteto por quatro décadas e ter desistido (temporariamente) do atrevimento de ser psicanalista, lá estava eu, escrevendo crônica em jornal, em revista e coordenando uma oficina em que aquele arrebatamento pelo Millôr fosse compartilhado com quem tivesse tido experiências similares com Cecília, Rachel, Machado, Clarice.
Nesta semana, na oficina, acompanhamos Ruth de Aquino fazer de Atafona personagem de uma saga familiar, e André Gabeh reinventar, pela via do riso, os perrengues do subúrbio. Experimentamos com Ivan Lessa a sensação de ser estrangeiros no tempo, na geografia, dentro de nós mesmos. Pelos olhos de Carlos Heitor Cony, nos vimos no dia seguinte ao golpe de 1964. Nélson Rodrigues nos levou por um Rio de Janeiro que renascia, pós-gripe espanhola, no carnaval de 1920. E aí percebemos serem as crônicas — raramente vistas nas chamadas de primeira página — aquilo que melhor retrata o festival de besteiras que assola o país, a alma encantadora das ruas, o caos nosso de cada dia, a comédia da vida privada. E que é preciso muito treino para ser natural, muito vocabulário para escrever como se fala.
Quem quer que, ainda aos 8 anos ou já pelos 80, tenha lido Artur Xexéo, Danuza Leão ou João Ubaldo há de ter tido a ilusão de sermos todos cronistas em suspensão, capazes de tanger, com a mesma leveza, uma nuvem de palavras.
Eduardo Affonso
sexta-feira, maio 22
A influência dos livros e dos jornais
Os jornais e os livros exercem no nascimento e na propagação das opiniões uma influência imensa, conquanto inferior à dos discursos. Os livros atuam muito menos que os jornais, pois a multidão não os lê. Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influência sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais são as obras de Rousseau, verdadeira bíblia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tomás, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secessão na América do Norte. Outras obras como Robinson Crusoé e os romances de Júlio Verne exerceram grande influência nas opiniões da juventude e determinaram muitas carreiras.
Essa força dos livros era, sobretudo, considerável quando se lia pouco. A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.
Hoje, a influência dos jornais é muito superior à força dos livros. São em número incalculável as pessoas que têm unicamente a opinião do jornal que elas leem.
Gustave Le Bon
Essa força dos livros era, sobretudo, considerável quando se lia pouco. A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.
Hoje, a influência dos jornais é muito superior à força dos livros. São em número incalculável as pessoas que têm unicamente a opinião do jornal que elas leem.
Gustave Le Bon
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