Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
segunda-feira, abril 27
História do lenhador
Era uma vez, numa grande floresta, uma pobre lenhadora e um pobre lenhador.
Não, não, não, não, acalmem-se, isto não é o Pequeno Polegar! De modo nenhum. Tal como vocês, detesto essa história ridícula. Onde e quando já se viu pais a abandonarem os filhos por não terem o que lhes dar de comer? Vá lá…
Nessa grande floresta, portanto, reinavam a fome e o frio. Sobretudo no inverno. No verão, um calor sufocante abatia-se sobre a floresta e expulsava o frio. A fome, pelo contrário, era constante, sobretudo naqueles tempos em que grassava a guerra mundial.
A guerra mundial, sim, sim, sim, sim.
Como o pobre lenhador fora requisitado para serviços de interesse público – para benefício unicamente dos vencedores que ocupavam cidades, aldeias, campos e florestas ‒, era portanto a pobre lenhadora que, da aurora ao crepúsculo, percorria a floresta na esperança, frequentemente frustrada, de encontrar com que prover às necessidades do seu magro lar.
Por sorte – há males que vêm por bem –, o pobre lenhador e a pobre lenhadora não tinham filhos para alimentar.
O pobre lenhador agradecia aos céus essa graça todos os dias. A pobre lenhadora queixava-se do facto, mas em segredo.
Não tinha filhos para alimentar, é certo, mas também não tinha filhos para amar.
Por isso, rezava aos céus, aos deuses, ao vento, à chuva, às árvores e até ao sol, quando os seus raios perfuravam o arvoredo, iluminando o matagal com uma transparência feérica. Implorava assim a todas as potências do céu e da natureza que lhe concedessem finalmente a graça da vinda de um filho.
Jean-Claude Grumberg, "A Mais Preciosa Mercadoria"
Não, não, não, não, acalmem-se, isto não é o Pequeno Polegar! De modo nenhum. Tal como vocês, detesto essa história ridícula. Onde e quando já se viu pais a abandonarem os filhos por não terem o que lhes dar de comer? Vá lá…
Nessa grande floresta, portanto, reinavam a fome e o frio. Sobretudo no inverno. No verão, um calor sufocante abatia-se sobre a floresta e expulsava o frio. A fome, pelo contrário, era constante, sobretudo naqueles tempos em que grassava a guerra mundial.
A guerra mundial, sim, sim, sim, sim.
Como o pobre lenhador fora requisitado para serviços de interesse público – para benefício unicamente dos vencedores que ocupavam cidades, aldeias, campos e florestas ‒, era portanto a pobre lenhadora que, da aurora ao crepúsculo, percorria a floresta na esperança, frequentemente frustrada, de encontrar com que prover às necessidades do seu magro lar.
Por sorte – há males que vêm por bem –, o pobre lenhador e a pobre lenhadora não tinham filhos para alimentar.
O pobre lenhador agradecia aos céus essa graça todos os dias. A pobre lenhadora queixava-se do facto, mas em segredo.
Não tinha filhos para alimentar, é certo, mas também não tinha filhos para amar.
Por isso, rezava aos céus, aos deuses, ao vento, à chuva, às árvores e até ao sol, quando os seus raios perfuravam o arvoredo, iluminando o matagal com uma transparência feérica. Implorava assim a todas as potências do céu e da natureza que lhe concedessem finalmente a graça da vinda de um filho.
Jean-Claude Grumberg, "A Mais Preciosa Mercadoria"
Vocação do poeta
Não nasci no começo deste século:
Nasci no plano do eterno,
Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas.
Vim para conhecer o mal e o bem
E para separar o mal do bem.
Vim para amar e ser desamado.
Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos.
Não vim para construir minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.
Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.
Vim para experimentar dúvidas e contradições.
Vim para sofrer as influências do tempo
E para afirmar o princípio eterno de onde vim.
Vim para distribuir inspiração às musas.
Vim para anunciar que a voz dos homens
Abafará a voz da sirene e da máquina,
E que a palavra essencial de Jesus Cristo
Dominará as palavras do patrão e do operário.
Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,
Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.
Murilo Mendes, “Melhores poemas“
Nasci no plano do eterno,
Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas.
Vim para conhecer o mal e o bem
E para separar o mal do bem.
Vim para amar e ser desamado.
Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos.
Não vim para construir minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.
Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.
Vim para experimentar dúvidas e contradições.
Vim para sofrer as influências do tempo
E para afirmar o princípio eterno de onde vim.
Vim para distribuir inspiração às musas.
Vim para anunciar que a voz dos homens
Abafará a voz da sirene e da máquina,
E que a palavra essencial de Jesus Cristo
Dominará as palavras do patrão e do operário.
Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,
Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.
Murilo Mendes, “Melhores poemas“
Exílio
Por que se gosta de um autor? Gosta-se de um autor quando, ao lê-lo, tem-se a experiência de comunhão. Arte é isso: comunicar aos outros nossa identidade íntima com eles. Ao lê-lo eu me leio, melhor me entendo. Somos do mesmo sangue, companheiros no mesmo mundo. Não importa que o autor já tenha morrido há séculos… Inversamente, quando não gosto de um autor, é porque não há comunhão. É como se ele fosse uma comida estranha que causa repulsa. Essa é a razão por que gosto tanto de Nietzsche. Foi amor à primeira vista. O que ele diz ilumina o meu ser. E há nele um sentimento doloroso: o sentimento de exílio. “Em cada chegada eu sou uma partida”, ele disse. É comum entre os escritores esse sentimento de estranheza no mundo. Drummond via isso na Cecília e dizia que esse era um dos seus traços marcantes. Sinto o mesmo. Se os que creem na reencarnação estão certos, então está tudo explicado. Nasci neste tempo, mas minha alma ficou num lugar do passado que eu muito amei.
Rubem Alves, “Ostra feliz não faz pérola“
Rubem Alves, “Ostra feliz não faz pérola“
Homem de visão na Vila
Foi na última festa junina do 257, Rua dos Artistas.
O balão deu prego, foi escorado pelos fios (pauta musical do Orestes) e todo mundo achou que o danado se acabaria devagarinho quando o mundo estourou feito pluma, a luz apagou, as crianças gritaram... Aquele poeta que há muito tempo não dava o ar da sua graça, um que era meio maluco, misturou as lanterninhas:
— Esse troço foi no meu peito.
Trouxeram o lampião de querosene. O poeta deu de mostrar um três por quatro e um papel amarrotado. Ninguém acreditava, ninguém levava a sério:
— De quem será que ele roubou esse retrato?
— Tão moça, de olhinho claro, não ia gostar desse traste…
— Que solidão, né, menina? Ter que inventar uma namorada,tsc,tsc...
Ele ficava olhando o retrato e falava sozinho:
— Tô decorando ela, tô decorando elazinha... Vou botar esse papel com os nomes pra São João decidir. O que ficar mais orvalhado...
Ceceu Rico, o cético da rua, cuspiu na fogueira:
— Cada vez mais tantã. Isso que ele tá falando é samba-canção do Lupicínio.
— Não cospe na fogueira que tu fica seco.
A Lua apareceu de caipira, as manchas escuras feito sorriso onde falta dente ou bigode de rolha queimada. O festival de comiseração continuou:
— Dá um pouco de quentão pro coitado.
— Dá não. Ele ficou assim por causa da bebida.
— Que isso? Sujeito só bebe que nem ele quando sente a agonia do peru de véspera, cumpadre. Bebida só mata quando o tira-gosto é tristeza.
— Isso parece frase dele.
— Pô, não sei se agradeço ou se fico ofendido.
Velho dilema de quem é amigo de poeta.
Dançaram a quadrilha. Tuninho Sorvete chamuscou de novo as calças remendadas na fogueira. Meu avô Aguiar prendeu as rodinhas no cabo de vassoura. Um buscapé matreiro beijou a bunda da Isolda. Nunca se viu tanto voluntário pro Corpo de Bombeiros. Ela rebolou mais que Rainha do Bafo da Onça. Fagulha pra todo lado. Penteado deu um gole na branquinha e gozou o rescaldo:
— A calça dela ficou entre dois fogos...
Lindauro não tirava a mão do hidrante e a Deysinha abriu a torneira:
— O balão lambe e tu é que fica com a língua de fora, otário.
— Não chacoalha, tá? Manjo teu repertório. Tás na bronca porque tua bucha anda pingando muito breu.
— Tu fala de boca-cheia, Lindauro. Peraí que eu vou apanhar uns amendoins pra tua tromba. Tás precisando...
— Ah, vai tomar no...
— Tomate cru é na salada, teu cu é pra garotada.
Nem Santo Antônio, o casamenteiro calhorda, pacificaria aquele Oriente Médio. Mas o tal poeta, com certeza por ser meio maluco, pegou o violão e cantou como se estivesse no sonhado Papel Carbono, ao lado da inesquecível missiméri:
Tenho certas manchas no passado,
outras hei de ver no teu pescoço...
Ah,eu queria ser moço
pra dizer à mocidade
que ela brinca de “já era”
mas o que era hoje é você.
Um tremor rindo na boca de criança
que não esconde mais a fêmea e
o que ela quer.
Nada é mais profundo e verdadeiro
que o desejo solto na mulher.
Não adianta fugir desse encontro,
Não adianta evitar meu caminho
somos ambos cobra, ambos passarinho.
Meu fascínio é você que gera.
Teu olhar me enreda,
pago na mesma moeda,
minha bela fera.
Deu um branco momentâneo na festa e no texto.
O pessoal há havia virado poema do Manuel Bandeira, todos deitados dormindo profundamente, quando uma espécie de fada tocou a campainha — ninguém ouviu! —, fez carinho no bêbado — ninguém viu! — e voltou pro céu num bojo enorme, meio tangerina, meio charuto, com uma alegoria que lembrava a metade de um coração, ou a letra C, ou um pedaço de serpentina, ou uma estrela cadente, sei lá...
No meio da noite despertei, fui pra varanda olhar o céu e sou a única testemunha de tudo.
Mas acreditem, não me levem a sério, que eu também costumo beber e sonhar acordado.
Aldir Blanc, "Vila Isabel, inventário da infância"
O balão deu prego, foi escorado pelos fios (pauta musical do Orestes) e todo mundo achou que o danado se acabaria devagarinho quando o mundo estourou feito pluma, a luz apagou, as crianças gritaram... Aquele poeta que há muito tempo não dava o ar da sua graça, um que era meio maluco, misturou as lanterninhas:
— Esse troço foi no meu peito.
Trouxeram o lampião de querosene. O poeta deu de mostrar um três por quatro e um papel amarrotado. Ninguém acreditava, ninguém levava a sério:
— De quem será que ele roubou esse retrato?
— Tão moça, de olhinho claro, não ia gostar desse traste…
— Que solidão, né, menina? Ter que inventar uma namorada,tsc,tsc...
Ele ficava olhando o retrato e falava sozinho:
— Tô decorando ela, tô decorando elazinha... Vou botar esse papel com os nomes pra São João decidir. O que ficar mais orvalhado...
Ceceu Rico, o cético da rua, cuspiu na fogueira:
— Cada vez mais tantã. Isso que ele tá falando é samba-canção do Lupicínio.
— Não cospe na fogueira que tu fica seco.
A Lua apareceu de caipira, as manchas escuras feito sorriso onde falta dente ou bigode de rolha queimada. O festival de comiseração continuou:
— Dá um pouco de quentão pro coitado.
— Dá não. Ele ficou assim por causa da bebida.
— Que isso? Sujeito só bebe que nem ele quando sente a agonia do peru de véspera, cumpadre. Bebida só mata quando o tira-gosto é tristeza.
— Isso parece frase dele.
— Pô, não sei se agradeço ou se fico ofendido.
Velho dilema de quem é amigo de poeta.
Dançaram a quadrilha. Tuninho Sorvete chamuscou de novo as calças remendadas na fogueira. Meu avô Aguiar prendeu as rodinhas no cabo de vassoura. Um buscapé matreiro beijou a bunda da Isolda. Nunca se viu tanto voluntário pro Corpo de Bombeiros. Ela rebolou mais que Rainha do Bafo da Onça. Fagulha pra todo lado. Penteado deu um gole na branquinha e gozou o rescaldo:
— A calça dela ficou entre dois fogos...
Lindauro não tirava a mão do hidrante e a Deysinha abriu a torneira:
— O balão lambe e tu é que fica com a língua de fora, otário.
— Não chacoalha, tá? Manjo teu repertório. Tás na bronca porque tua bucha anda pingando muito breu.
— Tu fala de boca-cheia, Lindauro. Peraí que eu vou apanhar uns amendoins pra tua tromba. Tás precisando...
— Ah, vai tomar no...
— Tomate cru é na salada, teu cu é pra garotada.
Nem Santo Antônio, o casamenteiro calhorda, pacificaria aquele Oriente Médio. Mas o tal poeta, com certeza por ser meio maluco, pegou o violão e cantou como se estivesse no sonhado Papel Carbono, ao lado da inesquecível missiméri:
Tenho certas manchas no passado,
outras hei de ver no teu pescoço...
Ah,eu queria ser moço
pra dizer à mocidade
que ela brinca de “já era”
mas o que era hoje é você.
Um tremor rindo na boca de criança
que não esconde mais a fêmea e
o que ela quer.
Nada é mais profundo e verdadeiro
que o desejo solto na mulher.
Não adianta fugir desse encontro,
Não adianta evitar meu caminho
somos ambos cobra, ambos passarinho.
Meu fascínio é você que gera.
Teu olhar me enreda,
pago na mesma moeda,
minha bela fera.
Deu um branco momentâneo na festa e no texto.
O pessoal há havia virado poema do Manuel Bandeira, todos deitados dormindo profundamente, quando uma espécie de fada tocou a campainha — ninguém ouviu! —, fez carinho no bêbado — ninguém viu! — e voltou pro céu num bojo enorme, meio tangerina, meio charuto, com uma alegoria que lembrava a metade de um coração, ou a letra C, ou um pedaço de serpentina, ou uma estrela cadente, sei lá...
No meio da noite despertei, fui pra varanda olhar o céu e sou a única testemunha de tudo.
Mas acreditem, não me levem a sério, que eu também costumo beber e sonhar acordado.
Aldir Blanc, "Vila Isabel, inventário da infância"
Os que queimam os livros
Os que queimam os livros, que proscrevem e matam os poetas, sabem rigorosamente o que fazem. O poder indeterminado dos livros é incalculável. É indeterminado precisamente porque o mesmo livro, a mesma página pode ter efeitos inteiramente díspares sobre os seus leitores. Pode exaltar ou aviltar; seduzir ou repelir; intimar à virtude ou à barbárie; expandir a sensibilidade ou banalizá-la. Em termos extremamente desconcertantes, pode fazer uma e outra coisa, quase no mesmo momento, num impulso de resposta tão complexo, tão rápido na sua alternância e tão híbrido que nenhuma hermenêutica, nenhuma psicologia poderá predizer ou calcular a sua força. Em diferentes momentos da vida do leitor, um livro despertará reflexos inteiramente diferentes. Não há na experiência humana fenomenologia mais complexa do que a dos encontros entre texto e percepção, ou, como Dante notou, entre as formas da linguagem que excedem o nosso entendimento e as ordens de compreensão frente às quais a nossa linguagem se revela insuficiente: la debilitate de lo’nielleto e la cortezza del nostro parlare.
O encontro com o livro, como com o homem ou a mulher, que vai mudar a nossa vida, muitas vezes num instante de reconhecimento que se ignora , puro acaso talvez. O texto que nos converterá a uma fé, nos ligará a uma ideologia, dará à nossa existência um fim e um critério, podia estar à nossa espera nas prateleiras da estante de ocasião, dos livros desbotados ou dos saldos. Pode estar ali, poeirento e esquecido, numa prateleira de estante exatamente ao lado do volume de que andamos à procura. A sonoridade estranha das palavras impressas na capa envelhecida pode deter o nosso olhar: Zaratustra, Westoslicher Divan, Moby Dick, Horcynus Orca. Enquanto um texto sobrevive, algures à face da terra, ainda que num silêncio que nada vem quebrar, continua susceptível de ressureição. Walter Benjamin ensinava–o, Borges elaborou a sua mitologia: um livro autêntico nunca é um livro impaciente. Pode esperar séculos até despertar um eco vivificador. Pode estar à venda com cinquenta por cento de desconto numa estação de comboio, como o primeiro Celan que por acaso descobri e abri. A partir desse momento fortuito, a minha vida transformou-se, e eu tentei aprender “uma língua a Norte do futuro”.
Trata-se de uma transformação dialética. As suas parábolas são as da Anunciação e da Epifania. Conhecemos tão mal a génese da criação literária! Não temos por assim dizer qualquer acesso à neuroquímica possível do ato de imaginação e dos seus procedimentos. Até mesmo o rascunho informe de um poema é já uma etapa muito tardia na viagem que conduz à expressão e ao gesto performativo. O crepúsculo , o “ antes da madrugada” e as pressões no sentido da expressão que se exercem no subconsciente são para nós quase imperceptíveis. Mais concretamente: como é possível que alguns traços sobre uma tabuinha de argila, riscos de pena ou de lápis que muitas vezes mal chegam a ser legíveis num frágil pedaço de papel, constituam uma persona – uma Beatriz , um Falstaff, uma Anna Karenina- cuja substância, para um sem-número de leitores ou espectadores, excede a própria vida na sua realidade, na sua presença fenomenal, na sua longevidade social e encarnada? ( Este enigma da persona fictícia, mais viva, mais complexa do que a existência do seu criador e do seu “receptor” – que homem ou que mulher tem a beleza de Helena, a complexidade de Hamlet, ou é tão inesquecível como Emma Bovary? –tal é a questão decisiva, mas também a mais difícil, da poética e da psicologia.)
O conceito de leitura, encarado como um processo que na sua raiz releva da colaboração , é convincente. O leitor sério trabalha com o autor. Compreender um texto , “ ilustrá-lo” no quadro da nossa imaginação, da nossa memória e da nossa representação combinatória, é, na medida dos nossos meios , recriá-lo. Os maiores leitores de Sófocles e de Shakespeare são os atores e os encenadores que dão às palavras a sua carne viva. Aprender um poema de cor é encontrá-lo a meio-caminho na viagem sempre maravilhosa da sua chegada ao mundo. Numa “ leitura bem feita” (Péguy), o leitor faz dele qualquer coisa de paradoxal: um eco que reflete o texto, mas que lhe responde também com as suas próprias percepções, as suas necessidades e os seus desafios. As nossas relações de intimidade com um livro são, portanto, efetivamente dialéticas e recíprocas : lemos o livro, mas, mais profundamente talvez, é o livro que nos lê.
George Steiner, "Os Logocratas"
O encontro com o livro, como com o homem ou a mulher, que vai mudar a nossa vida, muitas vezes num instante de reconhecimento que se ignora , puro acaso talvez. O texto que nos converterá a uma fé, nos ligará a uma ideologia, dará à nossa existência um fim e um critério, podia estar à nossa espera nas prateleiras da estante de ocasião, dos livros desbotados ou dos saldos. Pode estar ali, poeirento e esquecido, numa prateleira de estante exatamente ao lado do volume de que andamos à procura. A sonoridade estranha das palavras impressas na capa envelhecida pode deter o nosso olhar: Zaratustra, Westoslicher Divan, Moby Dick, Horcynus Orca. Enquanto um texto sobrevive, algures à face da terra, ainda que num silêncio que nada vem quebrar, continua susceptível de ressureição. Walter Benjamin ensinava–o, Borges elaborou a sua mitologia: um livro autêntico nunca é um livro impaciente. Pode esperar séculos até despertar um eco vivificador. Pode estar à venda com cinquenta por cento de desconto numa estação de comboio, como o primeiro Celan que por acaso descobri e abri. A partir desse momento fortuito, a minha vida transformou-se, e eu tentei aprender “uma língua a Norte do futuro”.
Trata-se de uma transformação dialética. As suas parábolas são as da Anunciação e da Epifania. Conhecemos tão mal a génese da criação literária! Não temos por assim dizer qualquer acesso à neuroquímica possível do ato de imaginação e dos seus procedimentos. Até mesmo o rascunho informe de um poema é já uma etapa muito tardia na viagem que conduz à expressão e ao gesto performativo. O crepúsculo , o “ antes da madrugada” e as pressões no sentido da expressão que se exercem no subconsciente são para nós quase imperceptíveis. Mais concretamente: como é possível que alguns traços sobre uma tabuinha de argila, riscos de pena ou de lápis que muitas vezes mal chegam a ser legíveis num frágil pedaço de papel, constituam uma persona – uma Beatriz , um Falstaff, uma Anna Karenina- cuja substância, para um sem-número de leitores ou espectadores, excede a própria vida na sua realidade, na sua presença fenomenal, na sua longevidade social e encarnada? ( Este enigma da persona fictícia, mais viva, mais complexa do que a existência do seu criador e do seu “receptor” – que homem ou que mulher tem a beleza de Helena, a complexidade de Hamlet, ou é tão inesquecível como Emma Bovary? –tal é a questão decisiva, mas também a mais difícil, da poética e da psicologia.)
O conceito de leitura, encarado como um processo que na sua raiz releva da colaboração , é convincente. O leitor sério trabalha com o autor. Compreender um texto , “ ilustrá-lo” no quadro da nossa imaginação, da nossa memória e da nossa representação combinatória, é, na medida dos nossos meios , recriá-lo. Os maiores leitores de Sófocles e de Shakespeare são os atores e os encenadores que dão às palavras a sua carne viva. Aprender um poema de cor é encontrá-lo a meio-caminho na viagem sempre maravilhosa da sua chegada ao mundo. Numa “ leitura bem feita” (Péguy), o leitor faz dele qualquer coisa de paradoxal: um eco que reflete o texto, mas que lhe responde também com as suas próprias percepções, as suas necessidades e os seus desafios. As nossas relações de intimidade com um livro são, portanto, efetivamente dialéticas e recíprocas : lemos o livro, mas, mais profundamente talvez, é o livro que nos lê.
George Steiner, "Os Logocratas"
sábado, abril 25
O homem que lê
Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
Rainer Maria Rilke, "O Livro das Imagens"
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
Rainer Maria Rilke, "O Livro das Imagens"
Semelhanças
Espero chegar o livro “Menos que um”, de Patrícia Melo. Segundo as recomendações, é um relato sensível sobre a vida interior dos que moram nas ruas. Um de meus interesses também, mas a timidez (ainda resiste) me impede que os aborde e os ouça. Coleciono histórias de alguns que falam várias línguas, são formados em diversas profissões, mas, por alguma cruel razão, perderam seu lugar na sociedade. Sei que o assunto é prato cheio para a pieguice, mas me recuso a ignorar a condição desses anônimos, lamentando que o país não consiga beneficiá-los de forma eficiente.
Poucos dias atrás, estava numa via movimentada e notei a presença invisível de um homem ainda moço, sentado junto às paredes, muito atento ao livro em suas mãos. Ao me aproximar, vi que se tratava de uma dessas publicações para colorir, que ele preenchia lenta e caprichosamente com um toco de lápis de cor. Teria sido um artista plástico em outros tempos? Teria filhos que já não via e com quem talvez pudesse dividir o passatempo? Seria sua maneira de anestesiar a solidão?
Num primeiro impulso, pensei em ir até uma papelaria e lhe dar lápis de presente. Porém suas roupas sujas, o cabelo e a barba grandes, a coberta rasgada onde se acomodara provavam que suas necessidades eram muito maiores. Segui meu caminho, sentindo culpa pela atitude burguesa, arremedo de indiferença. Desde que mudei para cá, ando avessa a envolvimentos pessoais, como bicho em posição de defesa. Espero que, quando conhecer melhor lugares e habitantes, volte à atitude risonha e franca.
O afeto pelas pessoas não mudou, assim como aos animais e vegetais, a arquitetura, o metrô, as paisagens, o céu com todas as cores, meu apartamento ninho. Mas a metrópole impõe um comportamento de alerta permanente, a mídia me enche de preocupação, a ponto de ouvir os helicópteros que a toda hora passam por aqui e logo pensar na guerra atual e seus mísseis.
Quatro meses e ainda me sinto um pouco peixe fora d’água nesta cidade que sempre amei, mas até o momento não desvendo. Aos poucos, estendo minhas andanças e descubro novas facetas, mas o ritmo urbano é alucinante para quem desconhece certezas. Se duvidar, guardadas as proporções, a sensação de desamparo muito se assemelha à dos sem-teto que me ferem os olhos e a alma por essas calçadas onde não chega o futuro.
Poucos dias atrás, estava numa via movimentada e notei a presença invisível de um homem ainda moço, sentado junto às paredes, muito atento ao livro em suas mãos. Ao me aproximar, vi que se tratava de uma dessas publicações para colorir, que ele preenchia lenta e caprichosamente com um toco de lápis de cor. Teria sido um artista plástico em outros tempos? Teria filhos que já não via e com quem talvez pudesse dividir o passatempo? Seria sua maneira de anestesiar a solidão?
Num primeiro impulso, pensei em ir até uma papelaria e lhe dar lápis de presente. Porém suas roupas sujas, o cabelo e a barba grandes, a coberta rasgada onde se acomodara provavam que suas necessidades eram muito maiores. Segui meu caminho, sentindo culpa pela atitude burguesa, arremedo de indiferença. Desde que mudei para cá, ando avessa a envolvimentos pessoais, como bicho em posição de defesa. Espero que, quando conhecer melhor lugares e habitantes, volte à atitude risonha e franca.
O afeto pelas pessoas não mudou, assim como aos animais e vegetais, a arquitetura, o metrô, as paisagens, o céu com todas as cores, meu apartamento ninho. Mas a metrópole impõe um comportamento de alerta permanente, a mídia me enche de preocupação, a ponto de ouvir os helicópteros que a toda hora passam por aqui e logo pensar na guerra atual e seus mísseis.
Quatro meses e ainda me sinto um pouco peixe fora d’água nesta cidade que sempre amei, mas até o momento não desvendo. Aos poucos, estendo minhas andanças e descubro novas facetas, mas o ritmo urbano é alucinante para quem desconhece certezas. Se duvidar, guardadas as proporções, a sensação de desamparo muito se assemelha à dos sem-teto que me ferem os olhos e a alma por essas calçadas onde não chega o futuro.
O horror da solidão
Parece tão horrível ser solteiro, envelhecer lutando por manter a dignidade enquanto se pede um convite sempre que se deseja passar o serão em companhia, tendo de levar a refeição para casa, incapaz de esperar alguém com um sentimento de lassidão e de calma confiança, apenas capaz de, com dificuldade e vexame, dar um presente a alguém, tendo de dizer boa noite à porta de casa, nunca podendo subir as escadas a correr ao lado da mulher, não tendo outra consolação quando estiver doente que a vista da janela, se se puder sentar na cama, tendo somente portas ao lado que dão para salas de estar de outras pessoas, sentindo-se afastado da própria família, com quem só pelo casamento se pode manter laços de intimidade, primeiro pelo casamento dos pais, depois, passado o efeito deste casamento, pelo próprio, tendo de admirar os filhos dos outros e não lhe sendo sequer permitido continuar a dizer: «Eu não tenho nenhum», nunca se sentindo envelhecer uma vez que não há gente da família a crescer à volta, formando-se na aparência e no comportamento segundo os modelos de uma ou duas pessoas solteiras que conheceu na juventude. Tudo isto é verdade, mas é fácil cometer o erro de desdobrar de tal maneira os sofrimentos futuros à nossa frente que os nossos olhos têm de passar por eles e nunca mais voltar, quando, na realidade, tanto hoje como amanhã, a pessoa permanece com um corpo verdadeiro e uma cabeça verdadeira, e uma testa verdadeira, para bater com a mão.
Franz Kafka
Os que morrem por amor
Os que morrem por amor continuam a pertencer à lenda. Os seus funerais arrastam uma multidão piedosa, tal como decerto aconteceu na cidade de Verona, há seiscentos anos. Ainda que nesse tempo os costumes fossem bastante fáceis, a prática erótica da juventude era muito mais modesta. Reflectindo melhor, é de crer que a própria licença produzisse um tipo de pessoas orgulhosas da sua intimidade afectiva; o que, se não é virtude, algo se parece. Este orgulho da própria intimidade conduz a uma atitude hostil em relação a tudo o que pode burocratizar os sentimentos. Há um sociólogo inclinado a crer que existe muito de romantismo burocrático no amor moderno. É possível. E quando aparecem os contestatários dessa espécie de burocracia, como são os Romeus e Julietas do Candal, a cidade fica-lhes agradecida. No campo dos afectos trata-se da luta obstinada que resulta do choque entre a vida privada e o regime governativo; entre um corpo animado de impulsos e uma autoridade explicada por leis. Através de inquéritos feitos nos meios juvenis para inquirir das transformações que se efectuam no âmbito das relações afectivas, deparam-se declarações bastante confusas. Elas pairam entre uma sinceridade elementar que descura a experiência e teorias perfeitamente viciadas nos lugares-comuns do século. Entre outras coisas, afirmam que o amor é o último terreno não colonizado e, por isso, o único que oferece alguma possibilidade de salvação. Tudo isto não passa de rumor e timidez moral. Tem pouco conteúdo e pouca verdade.
O amor está relacionado com a memória. Ama-se só o que nos recorda alguma coisa ou alguém. A memória é um estado de afeição. Em amor, a improvisação não existe. Ele é a pintura emocional duma pintura mental. Portanto, é o terreno mais colonizado que existe. Mas também é certo que o amor se encontra cada vez mais ligado ao processo de humanização. A sensibilidade é uma criação do homem; e o amor é uma ocupação da sensibilidade. Nas sociedades primitivas havia instinto maternal e instinto de conservação. O amor resulta do equilíbrio dos dois. Em dados momentos históricos dá-se uma espécie de regresso e a violenta reacção contra a sensibilidade como invenção produtora de civilização. Procura-se o tom do entusiasmo na libertação do instinto. Mas o verdadeiro entusiasmo é sóbrio. As épocas aparentemente muito inovadoras são épocas que escondem a perturbação e o medo, atrás dum falso entusiasmo. As grandes ideias partem da energia eficaz, e não da agitação mais ou menos vegetal.
De repente, um jovem mata-se por amor. E aquela turba, que estava entregue aos seus empregos e aos seus negócios, fica suspensa duma interrogação: "É possível que alguém se mate por amor numa sociedade já afastada dos traumatismos da repressão?" É possível. Até porque a extrema libertação dos costumes conduz à instabilidade quanto ao comportamento do outro. É um facto. Desejamos a nossa liberação, mas não a de quem nós amamos.
Mas, sobretudo, morrer por amor é exemplo duma realidade sensível. Uma realidade sensível recebe a sua existência pelo que participa na natureza das coisas e das pessoas. Isto é o amor. E por isto mesmo havia um pouco de alegria discreta na multidão que enchia o jardim junto da morgue. O entusiasmo quebrava o luto e ardia até ao alto das frondosas árvores.Agustina Bessa-Luís
O amor está relacionado com a memória. Ama-se só o que nos recorda alguma coisa ou alguém. A memória é um estado de afeição. Em amor, a improvisação não existe. Ele é a pintura emocional duma pintura mental. Portanto, é o terreno mais colonizado que existe. Mas também é certo que o amor se encontra cada vez mais ligado ao processo de humanização. A sensibilidade é uma criação do homem; e o amor é uma ocupação da sensibilidade. Nas sociedades primitivas havia instinto maternal e instinto de conservação. O amor resulta do equilíbrio dos dois. Em dados momentos históricos dá-se uma espécie de regresso e a violenta reacção contra a sensibilidade como invenção produtora de civilização. Procura-se o tom do entusiasmo na libertação do instinto. Mas o verdadeiro entusiasmo é sóbrio. As épocas aparentemente muito inovadoras são épocas que escondem a perturbação e o medo, atrás dum falso entusiasmo. As grandes ideias partem da energia eficaz, e não da agitação mais ou menos vegetal.
De repente, um jovem mata-se por amor. E aquela turba, que estava entregue aos seus empregos e aos seus negócios, fica suspensa duma interrogação: "É possível que alguém se mate por amor numa sociedade já afastada dos traumatismos da repressão?" É possível. Até porque a extrema libertação dos costumes conduz à instabilidade quanto ao comportamento do outro. É um facto. Desejamos a nossa liberação, mas não a de quem nós amamos.
Mas, sobretudo, morrer por amor é exemplo duma realidade sensível. Uma realidade sensível recebe a sua existência pelo que participa na natureza das coisas e das pessoas. Isto é o amor. E por isto mesmo havia um pouco de alegria discreta na multidão que enchia o jardim junto da morgue. O entusiasmo quebrava o luto e ardia até ao alto das frondosas árvores.
sexta-feira, abril 24
Resenha de livros que não existem
A moça conheceu o rapaz em um cemitério. Tinha quinze anos, estava entediada e resolveu passear entre as tumbas. Não sei que tipo de sapatos calçava, mas imagino que um par de galochas vermelhas causaria bom impacto na cena que estava para acontecer: a mocinha encontrou um crânio no chão e resolveu chutar para longe. Deu um pontapé no encaixe perfeito de ossos que, um dia, abrigou os pensamentos de alguém. E isso não a abalou em nada, não parecia um gesto reprovável, até chegar aquele homem indignado, em passos rápidos até ela. Observou a cena de longe e chegou para dizer a verdade necessária: que aquilo não se faz, não é certo chutar a cabeça de um morto. Talvez alguém ainda chore por ele, você pensou nisso?
Claro que ela não pensou. No momento ela só pensava no quanto era bonito o moço, naquele sotaque e na força dos traços. Era um sírio, imigrante vindo de longe, trazendo mistérios de outras terras. Casaram, seguiram religiões diferentes em solo brasileiro, tiveram filhos, netos, netas, e uma delas me contou essa história. Encontraram um ao outro por causa de um esqueleto no meio do cemitério.
Na primeira versão do relato a moça chutava umas flores que alguém deixou em homenagem a um falecido recente, mas dar um piparote na caveira causa um efeito muito melhor para um encontro amoroso. Não ouvi isso sozinha, éramos mais de trinta pessoas em uma sala de aula, impressionadas com a ação do acaso nessa história que merece ser escrita em detalhes.
Faz parte do meu ofício o encontro constante com livros inexistentes: as pessoas me contam. São projetos que vagam em pedaços separados, correndo entre os pensamentos de quem quer escrever, algo como as cenas de transeuntes atravessando largas avenidas de seis faixas, as trombadas em sentido contrário, a velocidade, a profusão de gestos, o barulho confuso. Organizar a criação é um trabalho que exige muito. Às vezes o verbo certo não é organizar, mas permitir.
Alguns projetos de livros nunca serão escritos e nem sempre isso é ruim. Ideias podem ser tão insignificantes quanto mosquitos, merecem uma palma da morte e nada mais. É preciso entender isso para aprender a encontrar o que merece dedicação. Escrever um livro é entregar um bom pedaço da própria vida a um devaneio. Diante do fato de que não sabemos quanto tempo temos na vida, é prudente escolher bem o que fazer com ele.
Pois de todos os casos, os meus preferidos sempre são as histórias reais que provam o poder do acaso, como o chute na caveira. Na mesma aula outra aluna contou que seus pais se conheceram por causa de um trote, ao telefone. A moça achou a voz do outro lado bem bonita e resolveu esticar a conversa. Outro aluno relatou o curioso caso que presenciou em uma escola de Educação de Jovens e Adultos, na zona rural do Ceará.
Um aluno e uma aluna, ambos idosos e até pouco tempo analfabetos, exercitaram a capacidade recém adquirida de ler e escrever na gostosa tarefa de trocar bilhetes de amor proibido. Poucas palavras, pontos de interrogação. “Amanhã?” era o conteúdo de um dos bilhetes encontrados. Um belo dia, ao amanhecer, os dois não estavam mais em suas respectivas casas. Fugiram, deixando para trás um marido, uma esposa, filhos e um rastro de espanto. A escrita deu força e impulso para que fizessem o que talvez tivessem vontade de fazer há tempos. Devem estar felizes, em algum lugar.
A sorte que tenho por escutar essa coleção de histórias faz de mim uma leitora de dois tipos de livros: os escritos e os imaginados. Muitos nunca irão nascer, vão ficar pelo caminho, apenas como ideia insana que apareceu na cabeça, um delírio momentâneo. Aprendi a apreciar e falar sobre livros que não existem. São palavras, frases, parágrafos inteiros sobre nossas cabeças. Uma infinidade de livros invisíveis voando pelo céu.
Claro que ela não pensou. No momento ela só pensava no quanto era bonito o moço, naquele sotaque e na força dos traços. Era um sírio, imigrante vindo de longe, trazendo mistérios de outras terras. Casaram, seguiram religiões diferentes em solo brasileiro, tiveram filhos, netos, netas, e uma delas me contou essa história. Encontraram um ao outro por causa de um esqueleto no meio do cemitério.
Na primeira versão do relato a moça chutava umas flores que alguém deixou em homenagem a um falecido recente, mas dar um piparote na caveira causa um efeito muito melhor para um encontro amoroso. Não ouvi isso sozinha, éramos mais de trinta pessoas em uma sala de aula, impressionadas com a ação do acaso nessa história que merece ser escrita em detalhes.
Faz parte do meu ofício o encontro constante com livros inexistentes: as pessoas me contam. São projetos que vagam em pedaços separados, correndo entre os pensamentos de quem quer escrever, algo como as cenas de transeuntes atravessando largas avenidas de seis faixas, as trombadas em sentido contrário, a velocidade, a profusão de gestos, o barulho confuso. Organizar a criação é um trabalho que exige muito. Às vezes o verbo certo não é organizar, mas permitir.
Alguns projetos de livros nunca serão escritos e nem sempre isso é ruim. Ideias podem ser tão insignificantes quanto mosquitos, merecem uma palma da morte e nada mais. É preciso entender isso para aprender a encontrar o que merece dedicação. Escrever um livro é entregar um bom pedaço da própria vida a um devaneio. Diante do fato de que não sabemos quanto tempo temos na vida, é prudente escolher bem o que fazer com ele.
Pois de todos os casos, os meus preferidos sempre são as histórias reais que provam o poder do acaso, como o chute na caveira. Na mesma aula outra aluna contou que seus pais se conheceram por causa de um trote, ao telefone. A moça achou a voz do outro lado bem bonita e resolveu esticar a conversa. Outro aluno relatou o curioso caso que presenciou em uma escola de Educação de Jovens e Adultos, na zona rural do Ceará.
Um aluno e uma aluna, ambos idosos e até pouco tempo analfabetos, exercitaram a capacidade recém adquirida de ler e escrever na gostosa tarefa de trocar bilhetes de amor proibido. Poucas palavras, pontos de interrogação. “Amanhã?” era o conteúdo de um dos bilhetes encontrados. Um belo dia, ao amanhecer, os dois não estavam mais em suas respectivas casas. Fugiram, deixando para trás um marido, uma esposa, filhos e um rastro de espanto. A escrita deu força e impulso para que fizessem o que talvez tivessem vontade de fazer há tempos. Devem estar felizes, em algum lugar.
A sorte que tenho por escutar essa coleção de histórias faz de mim uma leitora de dois tipos de livros: os escritos e os imaginados. Muitos nunca irão nascer, vão ficar pelo caminho, apenas como ideia insana que apareceu na cabeça, um delírio momentâneo. Aprendi a apreciar e falar sobre livros que não existem. São palavras, frases, parágrafos inteiros sobre nossas cabeças. Uma infinidade de livros invisíveis voando pelo céu.
O guarda-chuva preto
Esquecido na mesa,
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.
Adélia Prado, "O Coração Disparado"
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.
Adélia Prado, "O Coração Disparado"
Encarnação involuntária
Às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho algum tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria autoacusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdoo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesma.
Um dia, no avião... ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida de missionária já me haviam tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar no chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para eu conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. E ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzentas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depurado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, senão no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava sendo hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance de minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Um dia, no avião... ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida de missionária já me haviam tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar no chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para eu conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. E ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzentas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depurado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, senão no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava sendo hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance de minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Os namorados
O Pião e a Bola achavam-se numa gaveta, junto com outros brinquedos, e o Pião disse a Bola:
- Vamos ser namorados, já que estamos juntos na mesma gaveta?
A Bola, porém, feita de marroquim, e tão vaidosa como uma senhorita elegante, nem resposta quis dar a semelhante pergunta.
No dia seguinte, veio o menino, dono dos brinquedos. Pintou o Pião de vermelho e amarelo, e pregou-lhe bem no centro um prego de latão. Era muito bonito quando o Pião girava.
- Olhe para mim - disse o Pião à Bola - que diz você agora? Não vamos então ser namorados? Servimos muito bem um para o outro: você pula e eu danço. Ninguém poderá ser mais feliz que nós dois.
- É o que o senhor pensa - disse a Bola - certamente não sabe que meu pai e minha mãe foram chinelos de marroquim, e que tenho dentro de mim uma cortiça.
E eu sou feito de mogno - disse o Pião - o próprio prefeito me torneou em seu torno, o que lhe deu um grande prazer.
- Se eu pudesse acreditar nisso! - disse a Bola.
- Quero nunca mais ver uma fieira em toda a minha vida se for mentira o que eu disse - respondeu o Pião.
O senhor advoga bem a própria causa - disse a Bola - mas não posso namorar.
"Quer? Quer?"
Ora, eu intimamente já disse que sim, o que equivale a um meio compromisso. Mas lhe prometo que nunca o esquecerei!
- E isso vai adiantar muito! - disse o Pião.
E nada mais disseram.
No dia seguinte vieram buscar a Bola. O Pião viu como ela subia a grande altura, como um pássaro, desaparecendo de vista. Voltava todas as vezes, mas dava um grande salto cada vez que tocava o chão. Devia ser por causa das saudades, ou por causa da cortiça que ela tinha dentro dela. A nona vez a Bola subiu ao alto, e não mais voltou. O menino procurou muito, e nada: a Bola sumira.
- Bem sei onde ela está - suspirou o Pião - está no ninho do sr. Andorinha e com ele se casou.
Quanto mais o Pião pensava naquilo, tanto mais se apaixonava pela Bola. Por não poder tê-la, seu amor por ela aumentava. O fato de ter ela ficado com outro, tornava o caso mais apaixonante. O Pião dançava ao redor e zunia, mas sempre pensava na Bola, que em seus pensamentos se foi tornando cada vez mais bonita. Passaram-se assim muitos anos e o amor do Pião transformou-se num velho sonho.
O Pião não era mais moço. Um dia, porém, foi inteiramente pintado de dourado. Nunca fora antes tão bonito. Era agora um Pião de Ouro, e pulava, deixando um zunido pairando no ar. Aquilo sim, era formidável! Mas de repente ele saltou alto demais - e sumiu.
Procuraram por toda a parte, até na adega, mas nada de aparecer o Pião.
- Onde estaria ele?
Pulara para dentro da barrica de lixo, onde jaziam amontoados talos de couve, cisco e entulho caído da calha.
"Estou bem arrumado" - pensou o Pião - "aqui a douração não tardará a sair de mim. E que gentalha é essa em cujo meio vim parar!" Olhou de esguelha para um longo talo de couve e para um estranho objeto redondo, que parecia uma maçã velha. Mas não era uma maçã. Era uma velha Bola que durante muitos anos estivera caída na calha, embebida de água.
- Graças a Deus, aí vem alguém com quem se pode falar - disse a Bola ao ver o Pião Dourado - eu, para falar a verdade, sou de marroquim, costurada pelas mãos de uma gentil senhorita, e tenho uma cortiça dentro de mim. Mas duvido que se veja isso agora. Eu estava prestes a casar-me com uma andorinha quando caí na calha, e ali estive por cinco anos, encharcada de água. É um longo tempo, pode crer, para uma jovem.
O Pião não respondeu. Pensava em sua antiga namorada, e quanto mais a ouvia, tanto mais certo estava de que era ela.
Nisto chegou a criada e quis virar a lata de lixo.
- Oh! Aqui está o Pião Dourado! - disse ela.
E o Pião retornou à sala, à antiga posição de respeito, mas da Bola nada mais se ouviu. O Pião nunca mais falou em seu antigo amor. O amor se extingue quando a amada passa cinco anos numa calha, embebendo-se de água. Nem a conhecem mais quando a encontram na lata de lixo.
- Vamos ser namorados, já que estamos juntos na mesma gaveta?
A Bola, porém, feita de marroquim, e tão vaidosa como uma senhorita elegante, nem resposta quis dar a semelhante pergunta.
No dia seguinte, veio o menino, dono dos brinquedos. Pintou o Pião de vermelho e amarelo, e pregou-lhe bem no centro um prego de latão. Era muito bonito quando o Pião girava.
- Olhe para mim - disse o Pião à Bola - que diz você agora? Não vamos então ser namorados? Servimos muito bem um para o outro: você pula e eu danço. Ninguém poderá ser mais feliz que nós dois.
- É o que o senhor pensa - disse a Bola - certamente não sabe que meu pai e minha mãe foram chinelos de marroquim, e que tenho dentro de mim uma cortiça.
E eu sou feito de mogno - disse o Pião - o próprio prefeito me torneou em seu torno, o que lhe deu um grande prazer.
- Se eu pudesse acreditar nisso! - disse a Bola.
- Quero nunca mais ver uma fieira em toda a minha vida se for mentira o que eu disse - respondeu o Pião.
O senhor advoga bem a própria causa - disse a Bola - mas não posso namorar.
Estou quase comprometida com um sr. Andorinha. Cada vez que subo ao espaço, ele põe a cabeça fora do ninho e pergunta:
"Quer? Quer?"
Ora, eu intimamente já disse que sim, o que equivale a um meio compromisso. Mas lhe prometo que nunca o esquecerei!
- E isso vai adiantar muito! - disse o Pião.
E nada mais disseram.
No dia seguinte vieram buscar a Bola. O Pião viu como ela subia a grande altura, como um pássaro, desaparecendo de vista. Voltava todas as vezes, mas dava um grande salto cada vez que tocava o chão. Devia ser por causa das saudades, ou por causa da cortiça que ela tinha dentro dela. A nona vez a Bola subiu ao alto, e não mais voltou. O menino procurou muito, e nada: a Bola sumira.
- Bem sei onde ela está - suspirou o Pião - está no ninho do sr. Andorinha e com ele se casou.
Quanto mais o Pião pensava naquilo, tanto mais se apaixonava pela Bola. Por não poder tê-la, seu amor por ela aumentava. O fato de ter ela ficado com outro, tornava o caso mais apaixonante. O Pião dançava ao redor e zunia, mas sempre pensava na Bola, que em seus pensamentos se foi tornando cada vez mais bonita. Passaram-se assim muitos anos e o amor do Pião transformou-se num velho sonho.
O Pião não era mais moço. Um dia, porém, foi inteiramente pintado de dourado. Nunca fora antes tão bonito. Era agora um Pião de Ouro, e pulava, deixando um zunido pairando no ar. Aquilo sim, era formidável! Mas de repente ele saltou alto demais - e sumiu.
Procuraram por toda a parte, até na adega, mas nada de aparecer o Pião.
- Onde estaria ele?
Pulara para dentro da barrica de lixo, onde jaziam amontoados talos de couve, cisco e entulho caído da calha.
"Estou bem arrumado" - pensou o Pião - "aqui a douração não tardará a sair de mim. E que gentalha é essa em cujo meio vim parar!" Olhou de esguelha para um longo talo de couve e para um estranho objeto redondo, que parecia uma maçã velha. Mas não era uma maçã. Era uma velha Bola que durante muitos anos estivera caída na calha, embebida de água.
- Graças a Deus, aí vem alguém com quem se pode falar - disse a Bola ao ver o Pião Dourado - eu, para falar a verdade, sou de marroquim, costurada pelas mãos de uma gentil senhorita, e tenho uma cortiça dentro de mim. Mas duvido que se veja isso agora. Eu estava prestes a casar-me com uma andorinha quando caí na calha, e ali estive por cinco anos, encharcada de água. É um longo tempo, pode crer, para uma jovem.
O Pião não respondeu. Pensava em sua antiga namorada, e quanto mais a ouvia, tanto mais certo estava de que era ela.
Nisto chegou a criada e quis virar a lata de lixo.
- Oh! Aqui está o Pião Dourado! - disse ela.
E o Pião retornou à sala, à antiga posição de respeito, mas da Bola nada mais se ouviu. O Pião nunca mais falou em seu antigo amor. O amor se extingue quando a amada passa cinco anos numa calha, embebendo-se de água. Nem a conhecem mais quando a encontram na lata de lixo.
Hans Christian Andersen
quinta-feira, abril 23
Nós e o mundo
Se a nossa vida fosse um eterno estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos montes. Se assim ficássemos para além de sempre!
Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras!
Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras!
Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
O pedestre
Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de novembro, pousar os pés naquela sólida calçada de concreto, pisar nas fendas de mato, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as calçadas enluaradas nas quatro direções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só, e com uma decisão final tomada, um caminho escolhido, sairia andando, soltando rastros de ar congelado à sua frente, como a fumaça de um cigarro.
Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com suas janelas escuras, e não era diferente de caminhar por um cemitério onde só o mais fraco luzir de um vagalume como que tremeluzia por detrás das janelas. Súbitos espectros acinzentados pareciam manifestar-se sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-tumba ainda estava aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, pés sem fazer ruído na calçada irregular. Há muito, prudentemente, passara a usar sapatos de tênis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam sua caminhada com seus latidos, se usasse calçado com sola de couro, e luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, e toda uma rua sobressaltar-se com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de novembro.
Nesta noite, em particular, começou sua jornada para o oeste rumo ao mar, invisível. Havia um bom frio cristalino, no ar; cortava o nariz e fazia os pulmões arderem por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava seu calçado macio empurrar delicadamente as folhas de outono, satisfeito, e assobiava frio e baixinho, entredentes, ocasionalmente arrancando uma folha, de passagem, examinando o desenho esqueletal, às poucas lâmpadas, enquanto ia adiante, cheirando seu odor enferrujado.
— Ó de casa — ele murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava.
Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com suas janelas escuras, e não era diferente de caminhar por um cemitério onde só o mais fraco luzir de um vagalume como que tremeluzia por detrás das janelas. Súbitos espectros acinzentados pareciam manifestar-se sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-tumba ainda estava aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, pés sem fazer ruído na calçada irregular. Há muito, prudentemente, passara a usar sapatos de tênis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam sua caminhada com seus latidos, se usasse calçado com sola de couro, e luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, e toda uma rua sobressaltar-se com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de novembro.
Nesta noite, em particular, começou sua jornada para o oeste rumo ao mar, invisível. Havia um bom frio cristalino, no ar; cortava o nariz e fazia os pulmões arderem por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava seu calçado macio empurrar delicadamente as folhas de outono, satisfeito, e assobiava frio e baixinho, entredentes, ocasionalmente arrancando uma folha, de passagem, examinando o desenho esqueletal, às poucas lâmpadas, enquanto ia adiante, cheirando seu odor enferrujado.
— Ó de casa — ele murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava.
— O que está passando hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Por onde estão correndo os “cow-boys”, e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?
A rua estava silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, em meio a um campo. Fechou os olhos, e ficou bem quieto, congelado, e podia imaginar-se no meio de uma planície, um deserto Americano, sem ventos, inverno, sem casa nenhuma num raio de mil milhas, e só leitos de rios, as ruas, para companhia.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando para seu relógio de pulso. — Oito e meia? Hora de uma dúzia de assassinatos diversos? Uma charada? Um musical? Um comediante levando um tombo?
Aquilo foi um ruído de dentro de uma casa à luz da lua? Hesitou, mas continuou, quando nada mais se notou. Tropeçou numa irregularidade maior da calçada. O cimento estava desaparecento, sob as flores e o mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa andando, nunca, nem uma só vez.
Chegou a um trevo, deserto, onde duas estradas principais cruzavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insetos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo de seus escapamentos, deslizavam para casa, nas mais diversas direções. Mas agora, estas estradas, eram como rios temporários no verão, só pedra, leito, e luar.
Virou por uma rua secundária, fazendo a volta para casa. Estava a um quarteirão de seu destino, quando aquele carro solitário virou uma esquina, repentinamente, e acendeu um forte cone de luz branca sobre ele. Ficou em transe, não muito diferente de uma mariposa, atordoada pela iluminação, e então, atraído para ela.
Uma voz metálica dirigiu-se a ele:
— Fique parado. Fique onde está! Não se mova!
Ele parou.
— Erga as mãos!
— Mas… — ele falou.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava desaparecendo; não havia necessidade de polícia, exceto este carro solitário vagando e vagando pelas ruas desertas.
— Seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte em seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode chamar de escritor.
— Sem profissão — disse o carro de polícia, como se falando sozinho. A luz mantinha-o transfixado como um espécime de museu, agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer que sim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Não se vendiam mais livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-tumbas, à noite, ele pensou. Os túmulos, mal-iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas sentavam-se como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca de fato tocando a eles.
— Sem profissão — disse a voz de vitrola, chiando. — Que está fazendo aqui fora?
— Andando — disse Leonard Mead.
— Andando!
— Só andando — ele disse, simplesmente, mas seu rosto gelou.
— Andando, só andando, andando?
— Sim, senhor.
— Andando para onde? Para que?
— Para tomar ar. Andando para ver.
— Seu endereço.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E há ar na sua casa; o senhor não tem um condicionador de ar, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela para ver, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção cheia de estalidos, que em si era uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas eram cinzentas e caladas.
— Ninguém me queria — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas andando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para tomar ar, e ver, e simplesmente, só para andar um pouco.
— Já fez isso muitas vezes?
— Toda noite, há anos.
O carro de polícia estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — ele perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Espere, não fiz nada!
— Entre.
— Eu protesto.
— Sr. Mead.
Ele caminhou como um homem subitamente bêbado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para dentro. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma jaulinha escura, com barras. Cheirava a aço rebitado. Cheirava a anti-séptico forte; cheirava a coisa muito limpa, e dura, e metálica. Não havia nada macio, ali.
— Se você tivesse uma esposa, para dar-lhe um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde está me levando?
O carro hesitou, ou melhor, deu um estalido e um zunido, como se a informação, em algum lugar, estivesse sendo dada por cartões perfurados, e olhos elétricos. — Ao Centro Psiquiátrico para Pesquisa de Tendências Regressivas.
Ele entrou. A porta fechou com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, em meio à noite, com as lanternas acesas.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as suas luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias de leitos de rios, afastando-se, deixando as ruas vazias, com suas calçadas vazias, sem som nem movimento, por todo o resto da fria noite de novembro.
A rua estava silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, em meio a um campo. Fechou os olhos, e ficou bem quieto, congelado, e podia imaginar-se no meio de uma planície, um deserto Americano, sem ventos, inverno, sem casa nenhuma num raio de mil milhas, e só leitos de rios, as ruas, para companhia.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando para seu relógio de pulso. — Oito e meia? Hora de uma dúzia de assassinatos diversos? Uma charada? Um musical? Um comediante levando um tombo?
Aquilo foi um ruído de dentro de uma casa à luz da lua? Hesitou, mas continuou, quando nada mais se notou. Tropeçou numa irregularidade maior da calçada. O cimento estava desaparecento, sob as flores e o mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa andando, nunca, nem uma só vez.
Chegou a um trevo, deserto, onde duas estradas principais cruzavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insetos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo de seus escapamentos, deslizavam para casa, nas mais diversas direções. Mas agora, estas estradas, eram como rios temporários no verão, só pedra, leito, e luar.
Virou por uma rua secundária, fazendo a volta para casa. Estava a um quarteirão de seu destino, quando aquele carro solitário virou uma esquina, repentinamente, e acendeu um forte cone de luz branca sobre ele. Ficou em transe, não muito diferente de uma mariposa, atordoada pela iluminação, e então, atraído para ela.
Uma voz metálica dirigiu-se a ele:
— Fique parado. Fique onde está! Não se mova!
Ele parou.
— Erga as mãos!
— Mas… — ele falou.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava desaparecendo; não havia necessidade de polícia, exceto este carro solitário vagando e vagando pelas ruas desertas.
— Seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte em seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode chamar de escritor.
— Sem profissão — disse o carro de polícia, como se falando sozinho. A luz mantinha-o transfixado como um espécime de museu, agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer que sim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Não se vendiam mais livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-tumbas, à noite, ele pensou. Os túmulos, mal-iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas sentavam-se como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca de fato tocando a eles.
— Sem profissão — disse a voz de vitrola, chiando. — Que está fazendo aqui fora?
— Andando — disse Leonard Mead.
— Andando!
— Só andando — ele disse, simplesmente, mas seu rosto gelou.
— Andando, só andando, andando?
— Sim, senhor.
— Andando para onde? Para que?
— Para tomar ar. Andando para ver.
— Seu endereço.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E há ar na sua casa; o senhor não tem um condicionador de ar, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela para ver, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção cheia de estalidos, que em si era uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas eram cinzentas e caladas.
— Ninguém me queria — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas andando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para tomar ar, e ver, e simplesmente, só para andar um pouco.
— Já fez isso muitas vezes?
— Toda noite, há anos.
O carro de polícia estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — ele perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Espere, não fiz nada!
— Entre.
— Eu protesto.
— Sr. Mead.
Ele caminhou como um homem subitamente bêbado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para dentro. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma jaulinha escura, com barras. Cheirava a aço rebitado. Cheirava a anti-séptico forte; cheirava a coisa muito limpa, e dura, e metálica. Não havia nada macio, ali.
— Se você tivesse uma esposa, para dar-lhe um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde está me levando?
O carro hesitou, ou melhor, deu um estalido e um zunido, como se a informação, em algum lugar, estivesse sendo dada por cartões perfurados, e olhos elétricos. — Ao Centro Psiquiátrico para Pesquisa de Tendências Regressivas.
Ele entrou. A porta fechou com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, em meio à noite, com as lanternas acesas.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as suas luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias de leitos de rios, afastando-se, deixando as ruas vazias, com suas calçadas vazias, sem som nem movimento, por todo o resto da fria noite de novembro.
Ray Bradbury, "A cidade inteira dorme e outros contos breves"
Quantos Seremos?
Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Miguel Torga
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