quarta-feira, junho 17

Gerações trocadas

 


O meu peixe graúdo

A porta da casa onde o rapaz vivia não estava trancada, e abriu-a e avançou silenciosamente com os pés descalços. O rapaz dormia numa maca na sala de entrada, e o velho via-o claramente à luz, que entrava, da lua a pôr-se. Agarrou-lhe delicadamente num pé e segurou-o até o rapaz acordar e se voltar e olhar para ele. O velho fez um aceno de cabeça, e o rapaz tirou as calças da cadeira ao pé da cama e, sentado na cama, enfiou-as.

O velho saiu a porta e o rapaz veio atrás dele. Estava ensonado, e o velho passou-lhe o braço pelo ombro e disse: – Desculpa.

– Qué va – respondeu o rapaz. – É o que cabe a um homem.

Desceram o caminho até à choupana do velho, e pela estrada fora, no escuro, homens descalços se moviam, acarretando os mastros dos seus barcos.

Quando chegaram à choupana do velho, o rapaz pegou no cesto das linhas e no arpão e no croque, e o velho levava ao ombro o mastro com a vela enrolada.
– Queres café? – perguntou o rapaz.

– Vamos pôr a palamenta no barco e depois tomamos café.

Tomaram café em latas de leite condensado, numa tasca que abria para os pescadores.

– Que tal dormiste, meu velho? – perguntou o rapaz. Agora é que ia acordando, embora lhe custasse a largar o sono.

– Muito bem, Manolin – respondeu o velho. Sinto-me hoje com confiança.

– Também eu. E agora vou arranjar-te as sardinhas, mais as minhas e a tua isca fresca. É que é ele quem traz a palamenta. Nunca quer que lhe tragam nada.

– Somos diferentes – disse o velho. – Deixo-te trazer coisas, desde os teus cinco anos.

Bem sei – disse o rapaz. – Volto já. Toma outro café. Aqui fiam à gente.

Saiu, descalço pelos rochedos coralíferos, a caminho do frigorífico onde eram guardadas as iscas.

O velho bebeu devagar o seu café. Era quanto comeria o dia inteiro, e sabia que precisava de o tomar. Havia muito tempo que o maçava comer, e nunca levava merenda. Na proa do barco tinha uma garrafa de água, e de mais não precisava.

O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia com seixos, e pegaram no esquife e meteram-no ao mar.

– Boa sorte, meu velho.

– Boa sorte – respondeu o velho. Enfiou as amarrações de corda dos remos nos toletes e, debruçando-se contra a resistência das pás na água, começou a remar nas trevas para fora do porto. Havia barcos de outras praias saindo para o mar, e o velho ouvia-lhes o mergulhar e o impulso dos remos embora não pudesse vê-los, com a lua já posta atrás dos montes.

Às vezes, num barco alguém falava. Mas a maior parte dos barcos ia silenciosa, à exceção do mergulhar dos remos.

Dispersaram-se, uma vez chegados à embocadura do porto, e cada qual aproou à parte do oceano em que esperava encontrar peixe. O velho sabia que ia muito para o largo, e deixou para trás o cheiro de terra e remou para o lavado e matinal cheiro do oceano. Via a fosforescência dos sargaços do Golfo na água, ao remar por sobre aquela parte que os pescadores chamam “o grande poço” e era uma súbita fossa de setenta braças onde se congregava toda a espécie de peixes arrastados pelo redemoinho da corrente contra a abrupta parede do fundo do oceano. Havia aí concentrações de camarões e de peixes de isca e, às vezes, bandos de calamares nas cavidades mais fundas, e estes subiam à noite até à superfície onde todos os peixes comiam neles.

No escuro o velho sentia a manhã que vinha, e remando ouvia o som trêmulo dos peixes-voadores a sair da água e o silvo que as asas tesas faziam quando eles cortavam as trevas.

Gostava muito dos peixes-voadores, seus diletos amigos no oceano. Dos pássaros tinha pena, em especial das andorinhas-do-mar, escuras, delicadas, pequenas, que andavam sempre a voar e a olhar e a quase nunca encontrar nada, e pensava: “As aves têm uma vida mais dura do que a nossa, à exceção das de rapina e das muito fortes. Porque há pássaros tão delicados e finos como essas andorinhas, quando o oceano pode ser tão cruel? É gentil e muito belo. Mas sabe ser tão cruel, e sê-lo tão de súbito, que tais pássaros que voam e mergulham à caça, com as suas vozinhas tristes, são demasiado delicados para o mar”.

Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam boias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.

Remava vigorosamente, o que não constituía um esforço para ele, visto que mantinha o andamento, e a superfície do oceano estava chã, com apenas ocasionais redemoinhos da corrente.

Deixava que a corrente fizesse um terço do trabalho, e ao começar a ser dia viu que já ia mais longe do que esperava ir àquela hora.

“Andei nos fundões uma semana, e nada, pensou. Pois vou hoje para onde vogam os cardumes de bonitos e albacoras, e talvez por lá apareça um dos grandes”.

Antes de ser dia claro, já ele tinha deitado as linhas e ia à deriva na corrente. Uma isca estava a quarenta braças. A segunda a setenta e cinco, e a terceira e a quarta estavam na água azul profunda a cem e a cento e vinte e cinco braças. As iscas pendiam de cabeça para baixo, com o corpo do anzol bem amarrado dentro do peixe; e a parte saliente do anzol, a curva e a ponta, estava coberta de sardinhas frescas. As sardinhas estavam enfiadas pelos olhos e eram assim como que uma grinalda no ferro saliente. Não havia uma porção de anzol que a um peixe graúdo não cheirasse bem e não soubesse melhor.

O rapaz havia-lhe dado duas pequenas “tunas” ou albacoras frescas, que como pesos pendiam das duas linhas mais profundas, e, nas outras, tinha ele um grande enxarréu e um chicharro que já haviam servido, mas estavam ainda em bom estado e as excelentes sardinhas lá lhes davam perfume e atrativo. Cada linha, da grossura de um lápis grande, estava montada numa cana, de modo que qualquer puxão ou toque no anzol logo faria a cana vergar, e cada linha tinha dois tambores de quarenta braças que podiam ser atados às reservas, a ponto de, se necessário, um peixe poder levar consigo mais de trezentas braças de linha.

E o homem observava as três canas à borda do esquife, e remava devagar para manter as linhas direitas e nas profundidades convenientes. Já era dia e de um momento para o outro nasceria o sol.

O sol ergueu-se levemente do mar, e o velho distinguia os outros barcos ao rés do horizonte e muito para terra, dispersos na corrente. Depois, o sol tornou-se mais resplandecente e o brilho veio sobre as águas, e depois, ao erguer-se de todo, o mar chão atirou-lhe o reflexo aos olhos e cegou-lhos, e remou pois sem olhar mais. Debruçou a vista para a água e observou as linhas que desciam direitas para a sombra profunda. Como ninguém ele as mantinha direitas, de modo a haver em cada nível das trevas da corrente uma isca exatamente aonde ele desejava que ela estivesse à espera de um peixe que por aí nadasse. Outros as deixavam ir à deriva na corrente, e às vezes estavam a sessenta braças quando os pescadores as julgavam a cem.

“Mas, pensou, eu aguento-as com precisão. O que já não tenho é sorte. Quem sabe? Talvez a tenha hoje. Cada dia é um novo dia. É preferível ter sorte. Mas eu prefiro ser exato. Assim, quando a sorte vem, está-se pronto para ela”.

O sol subira mais duas horas, e os olhos já se não doíam tanto de olhar para o oriente. Havia só três barcos à vista, muito na linha do horizonte e na direção de terra.

“Durante a vida inteira o sol nascente me fez mal aos olhos, pensou. Contudo, ainda são dos bons. Mais tarde, sou capaz de o olhar a direito sem ficar a ver negro. Mais tarde é mais forte. Mas pela manhã magoa”.

Nesse momento, viu um petrel com as longas asas negras, a voltear no céu à frente dele. A ave caiu subitamente, picando com as asas recuadas, e voltou depois a voar em círculo.

– Arranjou alguma coisa – disse o velho em voz alta. – Não está só à procura.
Remou devagar, com firmeza, para onde o pássaro pairava.

Não se apressava e mantinha as linhas em posição. Mas forçava um pouco a corrente, e pescava ainda corretamente, embora mais depressa do que pescaria, se não estivesse a tentar servir-se da ave.

Esta elevou-se no ar e pairou de novo, de asas imóveis.

Depois mergulhou repentinamente, e o velho viu peixes-voadores saltarem da água e voarem desesperadamente sobre a superfície.

– Delfins – disse alto o velho. – Delfins dos grandes.

Embarcou os remos e tirou da proa uma pequena linha. Tinha uma guia de arame e um anzol de tamanho médio, e o velho iscou-o com uma das sardinhas. Deitou-o pela borda fora e amarrou-o a um anel à ré. Iscou a seguir outra linha, que deixou ficar na sombra da proa. Voltou aos remos e a observar o pássaro negro, de longas asas, que pairava agora ao lume de água.

Enquanto o observava, a ave mergulhou com as asas recuadas, e depois bateu-as furiosamente e sem resultado na perseguição aos peixes-voadores. O velho bem via a ligeira saliência que na água os delfins erguiam atrás dos peixes fugitivos. Os delfins cortavam as águas sob o voo dos peixes e estariam em grande velocidade onde eles caíssem. É um grande bando de delfins, pensou. Vão dispersos e os peixes-voadores têm poucas probabilidades. O pássaro não tem nenhumas. Os peixes-voadores são grandes demais para ele e demasiado velozes.

Viu os peixes-voadores saltarem e tornarem a saltar e os movimentos ineficazes da ave. “Esse bando afasta-se de mim – pensou. Vão muito depressa e para muito longe. Mas talvez eu apanhe uns desgarrados e talvez que o meu peixe graúdo ande à volta deles. O meu peixe graúdo há-de estar nalguma parte”.
Ernest Hemingway, "O Velho e o Mar"

O homem

Não sei quem é, o que faz, desconheço-lhe o nome. Vejo-o sempre. Vizinho talvez. Deve morar perto, circula apressado pelas ladeiras do bairro, o rosto contraído, carregando invariável preocupação nos olhos. Inspira-me inquietação. Atravesso a via ao cruzar com aquela figura nervosa. Reconheço ter medo. Transpira loucura. Passa, pela outra calçada, atarantado, como se fugisse de um perseguidor invisível, espreitando o mundo de esguelha, movendo a cabeça desordenadamente, instável, conversando com alguém ao lado. Invisível! Deve ouvir vozes imperativas. Precisa obedecer, inconformado, às ordens transmitidas. Vez ou outra, me faz lembrar o coelho branco de Alice, segue ligeiro como se dissesse o tempo todo:

— Estou atrasado! Estou atrasado!

Parece indiferente à estação. Verão, inverno, calça e camisa de manga curta combinando, tons sóbrios, nunca um agasalho. Não faz má figura. Frio, calor, sobe e desce os caminhos no ritmo costumeiro. Discutindo apreensivo com o nada. Alucinado, esquizofrênico.

Outro dia, quando desenvolvia no parque minha rotina de exercícios, transitando distraído, o fone de ouvido trazendo as calamidades cotidianas das notícias, percebi o infeliz junto de mim. Apenas um átimo, e não estava mais lá. Arrepiei-me com o susto até a raiz dos cabelos. Devo até ter inchado, pois o auricular foi expelido para fora da orelha; tive que buscar o objeto no chão.

Qual a razão do pavor se nada me fez o indigitado? Nunca! Simplesmente conversa sozinho, em tão ele apa voz sussurrada. Mandos, ordens incômodas, obediente criatura. O pescoço feito periscópio girando Leste-Oeste, todo arregalado, esbugalhado, passos afobados, afogados, paralelo ao meu destino.

Não sei quem é o homem desesperado da minha rua. Quando dou por mim, engasgo com sua presença indesejada. Nos vãos da minha percepção alheada. No abismo do meu desconforto com doidos. Por quê? Se dou por mim absorto, volto e deixo a percepção tomar ciência, noto aquele sujeito vagando na vizinhança do meu antes disperso discernimento. Então, ele aparece inquieto, perturbado, invariavelmente repetindo:

— Estou atrasado! Estou atrasado!

Coelho homem branco. Ali, parado, quando abro a porta do elevador. Eu terrificado! Apenas um átimo e não mais o falso ascensorista presente. Espaço vazio, luz branca, apenas a placa limitando o lugar a oito pessoas.

Hoje, acordei mais tarde do que costumo. Abri os olhos e ele estava no quarto, em pé, feito sombra na penumbra da manhã enclausurada. O coelho nos braços. Branco.

— Estou atrasado! Estou atrasado!

Não sei do homem da minha rua.

Maquinomem


O homem esposou a máquina
e gerou um híbrido estranho:
um cronômetro no peito
e um dínamo no crânio.
As hemácias de seu sangue
são redondos algarismos.

Crescem cactos estatísticos
em seus abstratos jardins.

Exato planejamento,
a vida do maquinomem.
Trepidam as engrenagens
no esforço das realizações.

Em seu íntimo ignorado,
há uma estranha prisioneira,
cujos gritos estremecem
a metálica estrutura;
há reflexos flamejantes
de uma luz imponderável
que perturbam a frieza
do blindado maquinomem.
Helena Kolody

Pequenos contos da cidade pequena

I

O Poeta está deitado de sapatos sobre a colcha de renda de bilros — relíquia de Vovozinha.

— ... e de melhores dias — suspira o Anjo, completando-lhe o pensamento.

— Anjo, você está cada vez mais aburguesado.

— Essa não, menino! Eu não sou comunista...

II

Do ferro de engomar, que se assoprava por trás, saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia no centro de mesa da sala de jantar. Não sei por que estou evocando todos esses pormenores — eles não levam a nenhum enredo notório, desculpem... Eu me aproximo como um gato, por trás.

III

O auto que passa e a vitrina da esquina trocam um duelo de reflexos.

IV

Escarrapachadas nas cadeiras da calçada, as comadres fazem trancinha. Nada lhes escapa. Nem um ponto. Mas para o menino quieto que ali se acha a tiracolo das tias o grande escândalo é a Lua, que acaba de surgir, à traição, enorme, sangrenta, assassina — ao contrário de tudo que se esperava dela —, logo ali entre as torres da igreja.

V

Noite alta um bêbado passa cantando a marchinha de um antigo carnaval. Tem uma voz de vidro moído. Uma voz aguda e esfarelada de velho.

VI

Um rodar, um estrépito de patas. Abafadamente. Mas já não se haviam sumido, há tempo, esses carros puxados a cavalo? Sia Carolina acorda e benze-se. É a Morte! É a Morte que passa, no seu carro fantasma, a visitar seus doentes.
Mario Quintana, "Caderno H"

A multidão

Spallner levou as mãos ao rosto.

Houve uma sensação de movimento no espaço, um grito de tortura, maravilhoso, o impacto do carro, a capotagem contra o muro, através do muro, a subida, a queda, como um brinquedo; e ele, arremessado fora do carro. Depois… silêncio.

A multidão veio correndo. Dali, de onde estava deitado, ouviu-a correr, vagamente. Pôde identificar idades, tamanhos, nos sons daqueles pés, tão numerosos, correndo pelo gramado de verão, pelas faixas do calçamento, pela rua de asfalto, caminhando, cuidadosos, pelos tijolos atropelados, até o lugar onde o carro se encontrava, pendurado pelo meio, com o bico voltado para o céu da noite, com as rodas ainda a girar, numa centrífuga inteiramente sem sentido.

De onde vinha a multidão, não sabia. Esforçou-se para manter a consciência, e viu os rostos da multidão rodearem-no, debruçarem qual folhas largas, lustrosas, de árvores inclinadas. Formavam um anel de rostos que se moviam, comprimiam e mudavam sobre ele, olhando para baixo, para baixo, procurando, em seu rosto, identificar-lhe o tempo de vida, ou de morte, transformando-lhe o rosto num relógio lunar, em que, atrás do nariz, projetada nas maçãs do rosto, a sombra do luar informava o momentum da respiração, ou da não respiração, para nunca mais.

Puxa, pensou, a multidão anda depressa, é como a íris de um olho que se comprime a partir do nada.

Uma sirene. Uma voz policial. Movimento. O sangue escorria-lhe dos lábios, e ele era colocado numa ambulância. Alguém disse:

– Ele morreu? Alguém respondeu:

– Não, não morreu não. Alguém mais afirmou:

– Ele não vai morrer, não vai não.

Na noite, Spallner viu, por cima dele, os rostos da multidão, e pôde perceber, por aquelas expressões, que não iria morrer. De uma maneira estranha. Viu o rosto de um homem, magro, efusivo, pálido, que engolia em seco e mordia os lábios, muito doente. E também uma mulher baixa, de cabelos ruivos, e muito vermelho nas maçãs do rosto e nos lábios. E um menininho sardento. E outros rostos. Um velho, com o lábio superior enrugado, uma velha com um sinal de nascença no queixo. Vieram todos… de onde? Das casas, carros, ruas laterais, do mundo imediato, chocado, do acidente. Das ruas laterais, dos hotéis, dos bondes e, aparentemente, do nada.

A multidão o olhava. Spallner olhava a multidão e não gostava. Em todos, pairava um grande equívoco, e ele não conseguia atinar qual. Eram bem piores que essa coisa metálica por que havia passado há pouco.

Bateram as portas da ambulância. Pelas janelas, viu a multidão olhando lá para dentro, olhando. Aquela mesma multidão que sempre chegava tão rápida, estranhamente rápida, e formava um círculo para bisbilhotar, sondar, embasbacar, perguntar, apontar, perturbar e destruir, por meio da curiosidade franca, a intimidade da agonia de outrem.

A ambulância partiu. Spallner prostou-se de costas e os rostos ainda continuaram a olhá-lo; ele, já com os olhos fechados.

Em sua cabeça, as rodas do automóvel giraram por dias a fio. Uma roda, quatro rodas, girando, girando, zumbindo, girando mais e mais. Mas aquilo estava errado. Havia algo de errado com aquelas rodas, com todo o acidente, com a pressa daqueles pés, com a curiosidade. Os rostos da multidão misturavam-se, giravam com a rotação desenfreada das rodas.

Acordou.

O sol, num quarto de hospital, u’a mão tomava-lhe o pulso. O médico perguntou:

– Como está se sentindo?

As rodas desapareceram. Sr. Spallner olhou em volta.

– Bem… creio.

Procurou palavras. A respeito do acidente.

– Doutor?

– Pode falar.

– A multidão… foi ontem à noite?

– Já foi há dois dias. Você está aqui desde quinta-feira. Mas você está bem.

Está reagindo bem. Não se levante para testar.

– A multidão. E rodas também. É comum as pessoas ficarem meio… fora de si, depois de um acidente desses?

– Às vezes, temporariamente. Deitado, Spallner olha o médico.

– E afeta a noção de tempo?

– O pânico às vezes afeta.

– Faz um minuto parecer uma hora, ou, quem sabe, uma hora parecer um minuto?

– Faz.

– Então, vou contar-lhe algo.

Debaixo do corpo, Spallner sentiu a cama; no rosto, a luz do sol.

– O senhor vai pensar que eu sou maluco. Sei que estava dirigindo depressa. Agora me arrependo. Subi no meio-fio e acertei o muro. Eu me machuquei, fiquei paralisado, mas ainda me lembro. Principalmente… da multidão.

Fez uma pausa. Depois, decidiu continuar, pois, de repente, percebeu o que o incomodava.

– A multidão chegou muito depressa. Trinta segundos depois da batida, as pessoas já estavam lá, debruçadas por cima de mim, olhando… Não me parece verossímil que tenham chegado tão rápido assim, àquela hora da noite…

– É que o senhor pensa que haviam passado apenas uns trinta segundos, quando, na verdade, foram três ou quatro minutos. Os seus sentidos…

– Sei, claro… os meus sentidos… o acidente. Mas eu estava consciente! E me lembro de uma coisa, que resume as coisas, e dá a tudo um tom de estranheza, de muita estranheza. As rodas do carro, de cabeça para baixo. As rodas ainda estavam girando quando a multidão chegou ao local.

O médico sorria.

O homem deitado prosseguiu.

– Eu tenho certeza! As rodas ainda giravam, e rápidas… as rodas da frente! As rodas não giram por tanto tempo assim, a fricção as desacelera. E elas estavam girando de verdade!

– O senhor deve estar um pouco confuso.

– Não estou confuso não. A rua estava vazia. Nenhuma alma à vista. Em seguida, o acidente, as rodas ainda girando e aqueles rostos todos em cima de mim, rapidamente, sem defasagem de tempo. E, pela maneira com que me olharam, percebi que não ia morrer…

– Simples estado de choque! O médico se afastou.

Duas semanas depois, Spallner recebeu alta do hospital. Foi de táxi para casa. Pessoas vieram visitá-lo durante as duas semanas que passou deitado, e, a todas, contou sua história, o acidente, as rodas girando, a multidão. Todo riram de sua preocupação e se foram.

Inclinou-se à frente, bateu na vidraça de proteção do motorista.

– O que é que está havendo? O motorista olhou para trás.

– Sinto muito, patrão. É uma parada dirigir nessa cidade! Foi um acidente ali adiante. O senhor quer que eu saia fora?

– Quero. Não! Não! Siga em frente. Quero dar uma olhada. O motorista seguiu em frente, buzinando, e resmungou:

– Que coisa estranha! Ei, seu…! Tira essa geringonça da frente. Mais tranqüilo:

– Que coisa estranha! Mais gente ainda! Quanta gente curiosa! O Sr. Spallner percebeu os dedos tremerem em cima dos joelhos.

– O senhor também notou?

– Claro. É toda hora! Sempre ajunta gente. Parece até que foi a mãe deles quem morreu!

O homem sentado no banco de trás observou:

– E eles chegam tão rápido!

– É incêndio, explosão, é sempre a mesma coisa. Ninguém à vista. Pam!

Junta uma porção de gente. Sei lá…

– O senhor já presenciou algum acidente à noite? O motorista confirmou com a cabeça.

– Claro. Tanto faz. A multidão está sempre lá.

Agora já podiam ver a batida. Um corpo caído no asfalto. Mesmo que não conseguisse vê-lo, qualquer um saberia que havia um corpo ali. Por causa do ajuntamento. Do ajuntamento que ele, ali sentado no banco de trás, podia ver pelas costas. Spallner abriu a janela, e por pouco não começou a gritar. Não o fez por falta de coragem, pois, se gritasse, talvez a multidão se virasse.

E ele sentiu medo de ver-lhes os rostos.

No escritório, conversou.

– Parece que eu tenho um pendor para acidentes.

Quase fim de tarde. O amigo, sentado do outro lado da escrivaninha, ouvia.

– Saí hoje de manhã do hospital e, no caminho de casa, passei por um atropelamento.

– As coisas têm seus ciclos — observou Morgan.

– Vou te contar meu acidente.

– Já me contaram. Já me contaram tudo.

– Você tem que admitir que foi estranho.

– É, foi sim. Mas… vamos tomar um aperitivo?

Conversaram por meia hora ou mais. Durante toda a conversa, no fundo do cérebro de Spallner, um reloginho tiquetaqueava; o reloginho dispensava corda. Eram reminiscências de umas certas coisinhas. Rodas, rostos.

Por volta das cinco e meia, na rua, um ruído de metal duro. Morgan acenou com a cabeça, olhou pela janela, lá para baixo.

– Não falei? Ciclos. Um caminhão e um Cadillac creme. Claro, claro. Spallner foi até a janela. Demonstrava muita frieza, consultava o relógio no pulso, o ponteiro dos segundos. Um, dois, três, quatro, cinco segundos — as pessoas corriam — oito, nove, dez, onze, doze — pessoas chegavam, correndo, de todas as direções — quinze, dezesseis, dezessete, dezoito segundos — mais gente, mais automóveis, mais buzinas. Curiosamente alheio, Spallner contemplou aquela cena como uma explosão invertida, os fragmentos da detonação de volta ao ponto de impulsão. Dezenove, vinte, vinte e um segundos, e lá estava a multidão. Spallner lançou-lhes um gesto, sem palavras.

A multidão ajuntara-se depressa demais.

Spallner vira um corpo de mulher, instantes antes de ser engolido pela multidão.

– Você está abatido. Olhe, por que não termina o aperitivo?

– Eu estou bem. Estou bem. Quero ficar sozinho. Eu estou bem. Você está vendo aquela gente lá? Você consegue identificar alguém? Gostaria de vê-los mais de perto.

– Ei, onde é que você vai? — gritou Morgan.

Spallner saíra porta afora, desabalado, e Morgan fora atrás, escada abaixo.

– Venha e ande depressa.

– Calma, homem, você não está em boas condições!

Foram até a rua. Spallner forçou passagem. Pensou ter visto uma mulher ruiva com muito vermelho nas maçãs do rosto e nos lábios. Rápido, voltou-se para Morgan.

– Ali! Você a viu?

– Quem?

– Merda! Ela sumiu. A multidão a escondeu!

A multidão se espalhava por todos os lugares, respirando, embaralhando, misturando, balbuciando e atravacando-lhe o caminho quando tentou passar. Era evidente, a mulher ruiva o vira e desaparecera.

Spallner viu outro rosto conhecido! Um garotinho sardento. Mas, existem tantos garotos sardentos no mundo! De qualquer modo, foi inútil, pois, antes que Spallner o alcançasse, o garotinho fugira, desaparecera na multidão.

Uma voz perguntou:

– Ela morreu? Ela morreu? Alguém ponderou:

– Está morrendo. Vai morrer antes que chegue a ambulância. Não deveriam tê-la tirado do lugar. Não deveriam…

Todos os rostos da multidão — conhecidos e tão desconhecidos debruçavam- se, olhando, olhando.

– Ei, prezado, vê se não empurra!

– Pare de empurrar, companheiro!

Spallner retirou-se; Morgan o segurou antes que caísse, e chamou-o às falas:

– Você é mesmo teimoso. Você ainda está doente. O que é que tinha que vir fazer aqui na rua?

– Não sei… não sei mesmo. Eles tiraram o corpo dela do lugar, Morgan, e isso não se faz com um acidentado. É morte certa. É morte certa.

– Pois é, mas as pessoas são assim mesmo. Um bando de imbecis.

Com cuidado, Spallner organizava os recortes de jornais. Morgan passava os olhos.

– Para que isso? Agora, depois do seu acidente, você pensa que qualquer tumulto no trânsito faz parte de você! Que recortes são esses?

– Recortes de desastres de automóveis e fotos. Dê uma olhada. Nos carros não. Na multidão em volta.

Spallner apontava.

– Olhe. Compare essa foto de um desastre no Distrito de Wilshire com essa outra de Westwood. Não existe semelhança alguma. Mas, agora, pegue essa foto de Westwood e coloque ao lado dessa outra, também do Distrito de Westwood, dez anos atrás.

Spallner apontou novamente.

– Esta mulher está nas duas fotografias.

Coincidência, a mulher estava lá em 1936, e novamente em 1946.

– Vá lá. Uma vez, pode ser coincidência. Mas doze vezes num período de dez anos, em acidentes que ocorreram a uns cinco quilômetros de distância uns dos outros, não é não. Olhe aqui.

Spallner estendeu doze fotografias.

– Ela está em todas.

– Ora, talvez seja uma pervertida!

– É mais do que isso! Como é que ela consegue chegar tão rápido ao local do acidente? E como é possível estar com a mesma roupa nessas fotografias tiradas num período de uma década?

– Não é que você tem razão!

– E, para encerrar, por que ela estava lá, em pé, debruçada em cima de mim, na noite do meu acidente, há duas semanas?

Foram tomar um aperitivo. Morgan passou os olhos na coleção.

– O que é que você fez? Contratou uma firma de pesquisa de jornais, enquanto esteve no hospital, para que colecionassem os recortes para você?

Spallner confirmou com a cabeça. Morgan tomou um gole do aperitivo.

Ficava tarde. As luzes já se acendiam na rua lá embaixo.

– E isso tudo leva a quê?

– Não sei. Só sei que existe uma lei universal a respeito dos acidentes: as multidões. Sempre ajunta gente. E assim como você, como eu, as pessoas ficam a imaginar, por anos a fio, na tentativa de descobrir como a multidão consegue reunir-se tão rapidamente. E por quê? Eu sei a resposta. Ei-la.

Spallner jogou os recortes sobre a mesa.

– Isso até me assusta.

– Essas pessoas, Spallner… não seriam caçadores de emoções, sensacionalistas pervertidos cujo desejo carnal se volta para o sangue, para a morbidez?

Spallner encolheu os ombros.

– E isso explicaria o fato de estarem em todos os acidentes? Repare. Elas se atem a certos territórios. Um acidente em Brentwood desentoca um determinado grupo. Em Huntington Park, outro grupo. Mas há um padrão, no que diz respeito aos rostos; uma certa percentagem aparece em todos os acidentes.

– Os rostos não são sempre os mesmos, não é verdade?

– Claro que não. Acidentes costumam atrair pessoas normais também, no curso do tempo. Mas esses aqui, eu estou vendo, são sempre os primeiros a chegar.

– Quem são? O que querem? Você faz as insinuações, mas não diz nada. Meu Deus, eu sei que você está com alguma idéia na cabeça. Você já se assustou, e agora quem está aflito sou eu.

– Eu já tentei abordá-los, mas alguém sempre atravessa no meu caminho, e eu sempre chego tarde. Eles se esgueiram pela multidão e desaparecem. Parece que a multidão oferece proteção a alguns de seus membros. Sempre me vêem chegar.

– Isso está me cheirando a uma espécie de bando.

– Uma coisa eles têm em comum. Sempre aparecem juntos. Em incêndios, explosões, na periferia das guerras, em qualquer demonstração pública dessa coisa chamada morte. Abutres, hienas, santos? Simplesmente não sei. Mas eu vou levar isso à polícia hoje à noite. Isso já foi longe demais. Hoje, um deles mexeu no corpo daquela mulher. Não deveriam ter tocado nela. Foi por isso que ela morreu.

Spallner guardou os recortes na pasta. Morgan levantou-se e deslizou paletó adentro. Spallner fechou a pasta.

– Ou então… estou pensando…

– O que é?

—… que talvez eles quisessem que ela morresse.

– Por quê?

– Sei lá. Quer ir comigo?

– Não vai dar. Já está tarde. Nos vemos amanhã. Boa sorte. Os dois saíram juntos.

– Dê lembranças aos tiras. Você acha mesmo que eles vão acreditar em você?

– Claro, ora se vão! Até amanhã!

Rumo ao centro da cidade, Spallner dirigiu devagar. Disse para si mesmo:

– Quero chegar vivo!

Spallner chocou-se, mas, nem por isso, surpreendeu-se, quando, saindo de uma rua lateral, um caminhão veio diretamente de encontro a ele. Foi no exato momento em que ele se parabenizava por possuir um senso de observação tão aguçado, e em que ensaiava, na cabeça, o que iria dizer ao policial, que o caminhão espatifou-se contra seu carro. Bem, o carro não era exatamente seu, e esse foi o aspecto desanimador da coisa. Com a preocupação a rondar-lhe o espírito, foi atirado primeiro para um lado, depois para o outro, e, enquanto isso, pensava: que pena, Morgan foi para casa, e deixou comigo seu segundo carro, por alguns dias, até que o meu fosse consertado, e aqui estou eu de novo. O pára- brisa bateu-lhe no rosto. Spallner foi jogado para trás, para a frente, em diversas sacudidelas-relâmpagos. Depois, todo o movimento aquietou, todo ruído, e apenas a dor o preencheu.

Ouviu passos correrem, correrem. De mal jeito, tateou a porta. A porta estalou. Spallner caiu ao solo, meio desacordado, e ali ficou com o ouvido colado ao asfalto, a ouvi-los se aproximar. Como se fossem uma tempestade, com muitos pingos, pesados, leves, médios, a tocarem o chão. Esperou alguns segundos, ouviu-lhes a aproximação, a chegada. Depois, fraco, na expectativa, virou a cabeça e olhou.

A multidão lá estava.

Spallner sentiu-lhes a respiração, os odores mistos de muitas pessoas sugando, sugando o ar de que todo homem necessita para viver. Ajuntavam-se, acotovelavam-se, sugavam, sugavam o ar que lhe envolvia o rosto arquejante, e ele ainda tentou dizer que recuassem, que o estavam fazendo viver num vácuo. A cabeça sangrava muito. Tentou mover-se, e percebeu que havia algo de errado com a coluna. Na hora do impacto, não sentira muito, mas a coluna estava mesmo avariada. Não ousou mover-se.

Não conseguia falar. Abriu a boca, apenas engasgos saíram. Alguém disse:

– Me ajudem aqui. Vamos virá-lo, levantá-lo e colocá-lo numa posição mais confortável.

A cabeça de Spallner pareceu estilhaçar.

Não, não toquem em mim! Casual, a voz insistiu:

– Vamos tirá-lo daqui!

Seus imbecis, vocês vão me matar. Não façam isso!

Nada do que disse fora audível. Dissera-o apenas no pensamento.

Mãos o seguraram. Começaram a levantá-lo. Ele soltou um grito e a ânsia de vômito o asfixiou. Aprumaram-no, deitado, num monturo de agonia. Dois homens o fizeram. Um era magro, efusivo, pálido, atento, um jovem. O outro, muito velho, tinha o lábio superior enrugado.

Spallner já vira aqueles rostos antes. Uma voz, conhecida, perguntou:

– Ele morreu?

Outra voz, uma voz memorável, respondeu:

– Não, ainda não. Mas vai morrer antes que chegue a ambulância.

Um ardil tolo, louco. Como qualquer acidente. Spallner soltou um grito histérico, para aquela parede de rostos sólida. Estavam todos ao redor, esses juizes, jurados, com rostos que já vira antes. Contou-os, na dor.

O garoto sardento, o velho com o lábio superior enrugado.

A mulher ruiva, de maçãs do rosto vermelhas. Uma velha com um sinal de nascença no queixo.

Sei por que vocês estão aqui, pensou. Estão aqui porque vocês estão em todos os acidentes. Para se certificarem de que as pessoas certas irão viver, e de que as pessoas certas irão morrer. Foi por isso que me levantaram. Sabiam que isso iria me matar. Sabiam que, se não me tocassem, eu iria viver.

E tem sido assim desde os primórdios do tempo, quando as multidões se encontram. É um meio mais fácil de assassinar. O álibi é muito simples: vocês simplesmente não sabiam que não se deve mover o corpo de um acidentado. Não foi de propósito que o prejudicaram.

Spallner olhou para eles, ali em cima, e sentiu a curiosidade de quem está debaixo d’água, bem no fundo, e olha as pessoas numa ponte. Quem são vocês? De onde vêm, e como conseguem chegar tão depressa? Vocês são a multidão, que sempre atravanca a passagem, que consome o ar sadio de que carecem os pulmões de um moribundo, que tomam o espaço em que ele deveria permanecer só, deitado, que espezinham as pessoas para terem certeza de que elas irão morrer. Vocês são isso mesmo. Conheço-os bem.

Foi um monólogo cortês. Eles nada disseram. Rostos. O velho. A mulher ruiva.

Alguém pegou a pasta de Spallner.

– De quem é?

É minha! E está cheia de provas contra vocês todos!

Olhos entrecuzaram-se por cima dele. Olhos brilhantes, debaixo de cabelos desalinhados, ou de chapéus.

Rostos.

Em algum canto… uma sirene. A ambulância chegava.

Ao olhar aqueles rostos, porém, a construção, o olhar, o formato, Spallner percebeu que era tarde demais. Pôde lê-lo naqueles rostos. Eles sabiam.

Spallner tentou falar. Pronunciou algo, muito pouco.

– Parece… que… em breve… estarei com vocês. Acho que… daqui por diante… farei parte… deste grupo.

Cerrou os olhos e esperou pelo investigador.
Ray Bradbury

terça-feira, junho 16

Luz própria

 


A solidão

Disse-me um jornalista filantropo que a solidão é prejudicial ao homem. E, em apoio de sua tese, citou-me, como todos os incrédulos, palavras dos Pais da Igreja.

Eu sei que o Demônio gosta de frequentar os lugares áridos e que o Espírito do crime e da lubricidade inflama-se maravilhosamente na solidão. Mas, é possível que essa solidão só seja perigosa para as almas indolentes e extravagantes que a povoam com suas paixões e quimeras.

É certo que um tagarela, cujo supremo prazer consiste em falar do alto de uma cátedra ou de uma tribuna, estaria bastante arriscado a ficar louco furioso na ilha de Robinson. Não exijo do meu jornalista as corajosas virtudes de Crusoé, mas peço-lhe que não condene os amantes da solidão e do mistério.

Há, em nossas raças palradoras, indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo, se lhes fosse permitido fazer do alto do cadafalso uma arenga interminável, sem recear que os tambores de Santerre lhes cortasse intempestivamente a palavra.

Não os lastimo, porque percebo que suas efusões oratórias lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que outros tiram do silêncio e do recolhimento. Mas os desprezo.

Desejo, sobretudo, que o meu maldito jornalista me deixe divertir-me à vontade.

— Então, — perguntou-me num tom fanhoso e muito apostólico, — jamais experimenta você a necessidade de partilhar suas alegrias? Sutil invejoso! Como sabe que desprezo as dele, vem insinuar-se nas minhas! Hediondo desmancha-prazeres! “A grande felicidade de não poder estar só!” — diz algures La Bruyère, como para envergonhar todos aqueles que procuram esquecer-se na multidão, decerto com receio de não poderem suportar a si mesmos.

"Quase todas as nossas desgraças provêm de não termos sabido ficar em nosso quarto”, — diz outro sábio, Pascal, parece, evocando assim, na cela do recolhimento, todos os alucinados que buscam a felicidade no movimento e numa prostituição a que eu poderia chamar de fraternária, se quisesse falar a bela língua do meu século.

Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"

Retrato do artista quando coisa

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.

Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"

O burguês e o crime

O burguês

Foi durante a noite que, de repente, ele se fez a pergunta:

— Por que não?

A pergunta finalizava a série de pensamentos que haviam começado horas antes, quando estava no teatro. Fora com a mulher assistir a uma peça de sucesso, com artistas de sucesso, estreia recente e também de sucesso. As duas primeiras noites haviam sido dedicadas à alta sociedade, às classes produtoras, ao Corpo Diplomático, às autoridades constituídas e a penetras de diferentes origens e feitios. Na altura da terceira apresentação, ele chegara em casa e a mulher o intimara:

— É o fim, Figueiredo! Todo mundo já viu a peça, menos nós. Tem de ser hoje.


Uma semana depois, a peça seria suspensa por falta de público, mas naquela terceira noite ele teve de se acotovelar na entrada, discutir com os bilheteiros e terminar sendo explorado por um cambista que lhe vendeu duas péssimas poltronas com ágio pesado e imerecido.

Suportou, lá dentro — e estoicamente — os primeiros momentos da peça, mas ainda em meio ao primeiro ato desanimou de procurar entender o que se passava no palco. Era um drama complicado e palavroso, uma jovem que tinha neurose e amantes, um analista, uma enfermeira lésbica e, presidindo a tudo, um pai severo e asmático. Em suma: um conflito acima de suas possibilidades e de seu interesse.

Quando ia ao cinema, sempre podia dormir quando o filme seguia um rumo surpreendente assim. No escuro o cochilo ficava impune, a mulher nem suspeitava. À saída, ele concordava com a opinião da mulher e conseguiam chegar em casa sãos e salvos. Mas no teatro era difícil o cochilo. Havia luz, e pior que a luz, havia sempre a iminência de algo espantoso, o cenário despencar, a roupa da atriz cair, um ator ter enfarte ou esquecer o texto, um fósforo botar fogo no pano de boca. Tais e tantos atrativos impediam-no de dormir, mas propiciavam discreta dormência, o pensamento solicitado ora pelo calor, ora pela peça, ora ainda pelo pigarro de um velho na plateia, ou pelo sapato um pouco apertado que Ema — a mulher — o obrigara a usar.

Tivera um dia calmo, calmos eram todos os seus dias. A firma, apesar do sócio que era uma toupeira, prosperava. Saúde boa, perspectivas boas. Não tinha motivos para pensar no futuro ou no passado. Sobravam-lhe motivos para dormir no presente, a peça já era um motivo.

A frase, dita por alguém no palco, chamou-o de volta. Ele já contara as pregas do lado direito da cortina que compunha o fundo do cenário, e preparava-se, resignado, pra contar as pregas do lado esquerdo, quando ouviu alguém falar em morte.

Não, não ameaçavam ninguém de morte. O drama do palco era existencial, não continha mortes nem ameaças de. Fora uma frase convencional, assim como “não devemos matar a velha de susto”, ou “se a velha souber disso pode morrer”.

Matar ou morrer? Não chegava a ser uma opção, nem no palco, nem em sua vida, mas uma série de pensamentos que tinham, ora a sua lógica, ora o seu absurdo, e em ambos os casos, a sua conveniência. Evidente, não pensava nunca em sua própria morte, mas sabia que havia gente que morria e gente que matava. Os que morriam eram os doentes, os suicidas, os atropelados, os assassinos, os passageiros de avião ou da Central do Brasil. Os que matavam eram os criminosos, os ladrões noturnos, os tiranos, os motoristas de ônibus.

Não era agradável pensar em morrer. Logo retirou este elemento de sua opção e ficou apenas com o matar.

Matar o quê? Matar para quê? Na peça, falavam em matar uma velha de susto. Ele não tinha velha nenhuma à vista. A mãe já morrera, as parentas de velhice mais agressiva também já haviam morrido. Havia a sogra, ainda, mas não chegava a ser uma velha, e, além do mais, era uma excelente pessoa.

Se não adiantava matar uma velha, matar o quê?

Matar por matar, amor à arte, eis a questão. Matar para experimentar os nervos, ou para provar a si mesmo do que era capaz. Sim, isso justificava um crime. Mas para provar do que era capaz, não bastaria matar — isso qualquer idiota poderia fazer. Tinha de matar e permanecer impune — para poder se olhar no espelho e se sentir redimido, confiante: sou um caráter!

Foi então que surgiu o problema — que seria, nos próximos dias, o seu problema, o único problema realmente sério de sua vida — como obter o crime perfeito? Matar o porteiro de seu edifício, por exemplo, nunca seria um crime perfeito. Mais cedo ou mais tarde a polícia apertaria os moradores do prédio e ele acabaria confessando. Para matar impunemente teria de escolher um comerciário de Brás de Pina, uma funcionária subalterna que voltasse, tarde da noite, para o Leblon.

Mas seria estúpido matar sem motivo, embora matasse perfeitamente. O crime perfeito, sem lucro pessoal, não lhe interessava, aliás, pensando bem, agora que o primeiro ato terminava, nenhum crime lhe interessava.

Teve coragem para o comentário.

— Uma peça muito profunda!

A mulher não concordou nem discordou. Apenas disse:

— Vamos esperar pelo resto. Acho que vai sair um escândalo!

Foi a vez de ele concordar, embora não suspeitasse que tipo de escândalo estava prestes a estourar. Saiu para o hall circulou entre estranhos, bebeu um gole d’água gelada, sem sede mesmo, só para passar o tempo.

Durante o segundo ato os pensamentos seguiram outro rumo. Surgiu no palco um pastor protestante. Surgiu também um militar reformado que era mudo — e ele começou a pensar em como seria sua vida — e como seria ele mesmo — se não tivesse voz.

Chegou à conclusão e ao fim da peça: poderia manter o mesmo padrão de vida se, por acaso, ficasse sem voz. Era-lhe coisa inútil, espécie de adorno. Para ganhar dinheiro e dormir com a mulher — a voz era dispensável, uma responsabilidade incômoda.

Ao saírem, cumprimentou com a cabeça alguns conhecidos e fez a viagem de volta imaginando-se mudo. Conseguiu chegar em casa sem ter pronunciado uma só palavra — o que não era uma vantagem especial, sempre que iam ou que voltavam de algum lugar, a mulher é quem falava, ele apenas ouvia.

A grande oportunidade para testar a sua disciplina interior foi ao guardar o carro na garagem. Todas as vezes tinha de pedir à mulher que suspendesse o vidro da porta:

— Suspenda o seu vidro, Ema.

Àquela noite, engoliu em seco e esperou que a mulher saísse para, então inclinar-se no banco, com algum esforço para sua espinha já bombardeado por sedimentações calcareas que prenunciavam um respeitável bico-de-papagaio, e rodar a manivelinha até fechar o vidro.

Na cama, preparado para dormir, a palavra primeiramente, e o conceito depois, retornaram à sua cabeça e às suas preocupações: matar. Há muito não tinha insônia. A firma prosperava, vendia material de escritório aos ministérios militares, era pago em dia, e não faltavam encomendas, tanto Marinha como o Exército e a Aeronáutica — felizmente para ele e para Pátria — gastavam mais em papel timbrado do que em pólvora.

Geralmente, caía duro em cima da cama. De quinze em quinze dias ou de vinte em vinte dias, procurava a mulher para um amor apressado e quase sempre incompleto da parte dela.

Quando percebeu as horas, viu que gastara a noite toda pensando. Tinha disciplina interior feroz e eficiente. Se dormisse até as 9, estaria salvo. Virou para o lado e antes de escorregar definitivamente no sono, teve um pensamento também definitivo:

— “Se não fosse a polícia, eu matava!”

O crime

A firma era próspera e prosperava, apesar do sócio: um belo homem excelente caráter, pai amantíssimo, esposo exemplar, amigo irreprochável foi o mínimo que um orador, à beira do túmulo, disse dele, no dia do enterro: “Colhidos pela brutalidade de tua morte, aqui estamos, Anselmo, para prantearmos o excelente caráter, o pai amantíssimo, o esposo exemplar, o amigo irreprochável que acabamos de perder!”.

No mesmo cemitério, à beira de outro túmulo, e mais ou menos mesma hora, Ema foi sepultada e chorada quase que solitariamente: quatro coveiros a sepultaram, com suas correntes e más vontades, e o marido chorou, apesar de tudo, segundo afirmaram alguns poucos presentes que ouviram os soluços de um enterro e o discurso do outro.

À noite, apareceram-lhe em casa alguns amigos compenetrados. Conforme afirmaram mais tarde, foram à casa dele unicamente para que Figueiredo “não fizesse uma besteira”.

Apesar da presença dos amigos, Figueiredo conteve-se e não cometeu besteira nenhuma. Tomou apenas um porre, como lhe convinha, e disse obscenidades a respeito da vida e de si mesmo, chamando a vida de merda e chamando-se a si mesmo de corno. O que ia de encontro aos pensamentos gerais, embora os amigos protestassem, deixa disso, Figueiredo, deixa disso!

No dia seguinte ao do enterro, apareceu mal vestido e barbado para iniciar as providências legais das sucessões, pois sucedia ao sócio no controle da firma e sucedia à mulher nos bens do casal que eram muitos, o sogro lhe havia deixado apólices e casas em Vila Isabel.

Estava rico e livre agora da chatice do sócio e da chatice da mulher. E para ficar livre dos amigos, começou a cultivar mau hálito, o que impedia que os mais importunos se acercassem dele para dar conselhos, principalmente quando, após o escândalo da dupla morte, revelou-se o outro escândalo, o da fortuna que lhe chegava às mãos através de tão rudes eventos.

Rosnavam que, se não fossem as trágicas e patentes circunstâncias, a polícia deveria investigar melhor aquilo tudo. Mas a suspeita não tinha consistência — apesar do ódio que Figueiredo passou a provocar pela fortuna, pelo mau hálito, e pela liberdade que lhe chegara à vida. Ele mesmo, com o tempo, começou a esquecer, a duvidar do passado, e um dia, vendo no fundo do armário uma peça íntima de Ema, suspirou e sentiu saudades. Logo se aprumou, afugentou o pensamento macabro que lhe surgiu, e embora não houvesse ninguém à volta, disse em voz alta, como convinha a um homem que sofrera tanto:

— “Aquela cachorra!”

Porém já cinco anos eram passados da morte da cachorra e do cachorro. Cinco anos daquela tragédia que enlutou a família cristã, rudemente golpeada pelo escândalo daquele pacto de morte. Cronistas sem assunto escreveram sobre o pacto de morte tão romanticamente previsto e executado, foram ouvidas opiniões de sociólogos, de pedagogos e de sacerdotes sobre o caso. Cinco dias depois já ninguém falava no assunto e cinco anos depois, só mesmo ele, e às vezes, pensava em tudo, detalhadamente, como num passo heroico de sua vida.

Chegara àquela noite em casa, de uma viagem rápida a São Paulo, e baqueara ao entrar em seu quarto: caídos e nus, em cima da cama, a sua mulher e o sócio. Próximo do sócio, o copo partido, cujos resíduos foram examinados pelo Instituto de Criminalística e cuja malignidade foi devidamente provada.

A perícia, com a ajuda dele, reconstituiu os acontecimentos. Ele viajara a São Paulo, voltaria na noite seguinte. Tão logo se mandou pela estrada, Ema chamara o amante. A perícia examinou a vagina de Ema e encontrou sinais evidentes do coito recente. O imperscrutável aconteceu — e aqui o relatório policial foi respeitoso, ao afirmar que, “após manterem relações de fundo sexual, os dois amantes decidiram pôr fim à vida através de um pacto de morte que foi imediatamente cumprido”.

Anselmo preparou o veneno, Ema bebeu estoicamente, sem repugnância pela morte ou pelo gosto de amêndoas que saía do copo. E Anselmo, logo em seguida, ingeriu o restante. Contorceram-se pouco, e logo se imobilizaram — e foi assim que, à noite, Figueiredo e mais tarde a polícia os encontraram.

No 18° Distrito Policial o pacto de morte foi classificado como “Ocorrência nº. 53.697” e arquivado após despacho do delegado-auxiliar, cumpridas as formalidades legais e pagas as taxas do costume.

O crime e o burguês

— “Se não fosse a polícia eu matava!”.

Com essa frase ele adormecera, uma semana antes da tragédia que abalou a sociedade cristã e a sua vida. Viera do teatro e ficara pensando em matar, mas não sabia nem como, nem a quem matar. Não tinha nenhum problema importante na vida, tudo lhe ia bem, e essa inexistência de um problema dava-lhe a sensação de burrice, de imprestabilidade.

Desde que pensara em matar, sentiu que iniciava uma nova vida, fugia à rotina, à qual sempre se submetera. Era o seu problema, embora não fosse, ainda, a sua vontade. No trabalho, em casa, andando pelas ruas, tinha agora uma ordem fixa de pensamentos e de energias.

Certa tarde, regressando da cidade, parou no Flamengo. Entrou num prédio, tomou o elevador, fechou os olhos e apertou um botão: qualquer andar em que o elevador parasse, serviria. Parou no sétimo andar. Havia duas portas à frente, apertou a campainha do 701. A velhinha veio abrir e ele quase chegou ao crime: levou as duas mãos para a frente em direção ao gasganete da velha. Mas deu-lhe uma tremedeira nas pernas e ele recuou. O elevador ficara parado no andar e ele pôde fugir. Poderia ter deixado a velha morta, ninguém teria visto nada. Mas deixou a velha apenas surpreendida e irritada.

Passou uma noite de cão, reprovando-se a covardia. Tivera tudo à mão, a velha, o elevador, não esbarrara com ninguém, nunca entrara naquele prédio. A polícia procuraria pelos parentes da velha, os desafetos, os fornecedores, as ex-empregadas, os vizinhos. Não tivera ao alcance das mãos apenas o gasganete da velha: tivera nas mãos o crime perfeito — e o desperdiçara, sem lucro algum.

E então tremeu, emocionado e surpreso: acabara de descobrir o crime verdadeiramente perfeito: O LUCRO. Matar sem lucro, como no caso da velha, seria uma brincadeira idiota. Tinha de matar com muito lucro, com tanto lucro que ficasse óbvia a lucrabilidade do crime. E para tornar patente essa lucrabilidade, tinha de escolher uma vítima que fosse patentemente próxima de seus interesses. Viu a mulher dormindo a seu lado.

— “Se mato esta mulher — a minha mulher — o primeiro e necessário suspeito serei eu mesmo”.

Riu, com a facilidade do problema. Tão fácil era o problema que resolveu exagerar. Não mataria apenas uma pessoa, mas duas. E, na escala de importância e de lucro, a segunda pessoa que lhe apareceu foi o sócio, o qual hipotecara, há tempos, a parte dele, para levar a mulher aos Estados Unidos, curar um tumor no colo do útero. Ele emprestara o dinheiro e ficara com as hipotecas do sócio. Se matasse o sócio, a firma ficaria inteiramente em suas mãos, era um lucro evidente, agressivo.

Dois dias depois, avisou à mulher que ia a São Paulo, viagem rápida. Saiu à noite, subiu em direção a Teresópolis. Deixou o carro numa rua que lhe pareceu deserta, tomou um ônibus e antes da meia-noite estava novamente em casa. Entrou pela garagem, como o fazia todas as noites, mas sem o carro, e por causa disso, não teve necessidade de acordar o garagista.

Surpreendeu a esposa:

— Uê? Você já voltou?

— Você está vendo.

Explicou que o carro enguiçara no quilômetro 97 da Rio — São Paulo, tomara um ônibus, amanhã voltaria ao local, com um mecânico. Foram dormir e ele procurou a mulher. Dessa vez, pela primeira vez em muitos anos, concentrou-se no esforço de fazê-la gozar — era parte do plano. Depois que ela estremeceu e gritou coisas indecentes — sinal que finalmente gozara — ele conseguiu, também, um escasso prazer. Mas logo levou a mão ao peito:

— Ema, o enfarte!

Caiu para o lado, olhos arregalados, bufando grosso. Ema deu um pulo da cama, nua.

— Vou buscar a coramina!

— Não! Chame o Anselmo, preciso falar com ele, é urgente, mas diga a ele para não contar a ninguém, para vir já! As hipotecas dele! Ele pode perder tudo!

Ema foi ao telefone, acordou Anselmo:

— O Figueiredo teve um enfarte. Venha correndo, mas não diga nada a ninguém. As hipotecas!

A mulher de Anselmo perguntou quem chamava o marido dela àquela hora da noite, mas Anselmo, apesar de esposo exemplar e pai amantíssimo, deu um grito:

— Vá à merda, mulher. Depois eu explico!

Ema foi à cozinha, apanhou um copo d’água. Quando voltou ao quarto, pingando gotas de coramina no copo, encontrou o marido em pé, com um copo na mão.

— Uê? Já ficou bom?

Figueiredo avançou para ela.

— Beba isso!

— Mas…

— Beba, sua idiota!

Era a primeira vez, em dezenove anos de casados, que se dava o nome ao boi naquela casa. Ema apanhou o copo, sentiu um cheiro estranho. Bebeu um gole e ainda teve tempo de perguntar:

— Para que é isso?

— É um afrodisíaco. Faz a gente gozar mais ainda.

Mas Ema não ouviu que ia gozar mais ainda. Caiu próximo à cama e Figueiredo arrumou-a o melhor que pôde. Mais alguns minutos, foi à porta da frente, esperar pelo sócio. Viu o elevador subir, a luzinha crescendo, crescendo. Anselmo saiu do elevador e deu com ele na porta.

— E o enfarte?

— Entre depressa!

Anselmo não gostou. A mulher dele ia falar o resto da vida contra aquela saída abrupta, misteriosa, ia ser o diabo explicar.

— Brincadeira tem hora! Cadê o enfarte?

Figueiredo estendeu-lhe o copo.

— Prove essa droga! Veja que gosto tem e se concorda comigo.

Anselmo provou, sentiu um gosto adocicado de amêndoas, mas não teve tempo de concordar. Figueiredo arrastou-o ao quarto, tirou-lhe a roupa, deitou-o ao lado de Ema, a mão estendida para fora do leito. Pegou no copo, colocou-o na mão de Anselmo, deixou que o copo se partisse no chão.

Apagou as luzes, deixando apenas um pequeno abajur aceso. Ganhou a rua, atravessando a garagem do prédio, o garagista tinha sono de pedra, quando chegava tarde, com o carro, tinha de esmurrar a campainha para que o homem lhe abrisse a porta dos carros.

Andou pela cidade, esperando o primeiro ônibus para Teresópolis. Deixara impressões no copo, nas roupas, em todos os lugares. Mas o lucro era tão dele que invalidava a suspeita. Deixara atrás de si um crime que se explicava por si mesmo.

Tomou o ônibus para Teresópolis. Com o sereno da noite, o carro ficara melado como um bicho. Antes de ligar o motor, abriu o painel de instrumentos e desligou o cabo do velocímetro. Desceu a serra, almoçou um frango assado à beira da estrada, atingiu a Avenida Brasil e cortou em direção oposta à cidade. Andou mais alguns quilômetros e pegou a Rio — São Paulo. Enfrentou as retas iniciais, atingiu a serra mas logo fez um contorno e embicou de volta ao Rio. Parou no posto de gasolina para abastecer o carro.

— Tem mecânico aí?

O mulato de maus dentes surgiu das entranhas de uma camioneta.

— É o cabo do velocímetro. Acho que houve alguma coisa com ele.

Deu boa gorjeta ao mecânico e ao homem do posto que lhe enchera o tanque,

tinha agora duas pessoas que atestariam que ele regressava de São Paulo.

Quando arrancou, os dois homens o chamaram de doutor:

— Boa viagem, doutor!

Chegou em casa, após uma boa viagem, e viu o quadro que logo os policiais examinaram, os jornais noticiaram e com o qual ele lucrou.

Moral

O crime, para o burguês, só não compensa quando a polícia está contra.
Carlos Heitor Cony, “Babilônia, Babilônia”

Calça literária

É assíduo leitor de blusas, camisas, saias, calças estampadas. Não lhe escapa um exemplar novo. Parece desligado, e observa tudo. Segundo ele, as peças de indumentária, masculina e feminina, ostentando símbolos e nomes de universidades americanas, manchetes, páginas de jornal, retratos de Pelé e Jimi Hendrix, apelos ao amor que não à guerra etc., há muito deixaram de ser originais. Constituem invólucros rotineiros de pessoas de qualquer idade. A gente estranha é uma camisa inteiramente nua de dizeres ou figuras, a roupa que não diz nada, só roupa. Hoje, lê-se mais nos tecidos do que nos livros, e não é ler apenas, é ver cinema e televisão, pois os corpos, ao se moverem, dinamizam as figuras estampadas. O que, de um modo ou de outro, contribui para a cultura de massas. Informa:

— Estou pensando em aproveitar esse material para fins especificamente didáticos. Através dele, ensinar geografia, história, matemática, medicina de urgência, imposto de renda, ortografia desmistificada, essas coisas. O indivíduo cobre-se e vai distribuindo ciência. Ou aprendendo. Vinte minutos no ônibus — que aula! Classes ao ar livre, na feira, na fila. Escola dinâmica.

— Você sozinho é um Mobral 1971.

— Ontem eu li uma calça comprida, de mulher que à primeira vista não tinha nada de especial. Estava escrita como tantas outras. Mas o texto (não confundir com textura) me chamou a atenção. Geralmente, calças e blusas não são literárias. Trazem notícias, anúncios, slogans, mas versos, ainda não tinha visto. Pois essa tinha poemas em português, de Camões ao Vinicius.

— Tomou nota?

— Claro. Aliás, a usuária foi muito gentil. Percebendo que eu mirava a parte inferior do seu revestimento, gratificou-me com um sorriso que eu traduzi assim: “Pode mirar mais”. E eu mirei. Aí, puxei da caneta, e ela sorriu outra vez, como quem diz: “Pode copiar também”. Copiei.

— Tudo?

— Tudo não. A dona da calça estava sentada na sala de espera do cinema. Só o que era visível. Depois se levantou, foi ao bebedouro, deu tempo para eu colher mais alguma coisa, no ir e vir. Não tive coragem de pedir-lhe que desse umas voltas. Você compreende: sou tímido.

— Estou vendo.

— Foi a primeira calça literária, totalmente poética, do meu conhecimento. Feita em São Paulo? Talvez. Caracteres pretos sobre fundo branco. Versos em todas as direções. De Bilac, de Cecília, de Bandeira, de Castro Alves, de Fernando Pessoa. Uma antologia, bicho. Sem ordem, naturalmente. Escuta aí: Onde vais à tardezinha, morena flor do sertão? O que eu adoro em ti é a vida. Aqui outrora retumbaram hinos. Oh abelha imaginativa! o que o desejo inventa… Vou-me embora pra Pasárgada. Amor é fogo que arde sem se ver. Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho. No monte de amor andei, por ter de monteiro fama, sem tomar gamo nem gama. Clorindas e Belindas brincam no tempo das berlindas. Eu tenho amado tanto e não conheço o amor. Estrela Vésper do pastor errante. ‘Tamos em pleno mar: dois infinitos ali se alteiam…

— Beleza.

— Não é? Tem mais. Transforma-se o amador na coisa amada. Antônia, você parece uma lagarta listrada. D. Janaína, rainha do mar, dai-me licença para eu também brincar no vosso reinado. Por que não nasci eu um simples vaga-lume? Não queiras indagar do meu segredo. Mas que seja infinito enquanto dure. Cantando espalharei por toda parte. Tudo não escondido perde a graça. O cinamomo floresce em frente do teu postigo. Crisântemo divino aberto em meio da solidão… Tinha uma pedra no meio do caminho.

— Isso já é prosa, amizade.

— É mesmo. Em todo caso, trata-se da primeira calça poética luso-brasileira. Os poetas que tratem de defender seus direitos autorais. A menos que considerem uma honra vestir de versos as mulheres.

Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"

segunda-feira, junho 15

O que faz o livro




O cego e o guia

Se o cego Marujo não enxergava, os olhos esbranquiçados nas órbitas graúdas, submersos nas sombras, cobertos por uns óculos de lente escura, como é que conseguia contar aquelas histórias adquiridas com os trovadores da cidade? Comentava-se que o seu guia, um menino de cor, apelidado de Zoinho por causa dos olhos pequenos sumidos na cara, era quem lia as histórias de cordel para ele no barraco onde moravam no bairro da Conceição.

Ele fazia a música que se encaixava perfeita na letra do cordel cujo conteúdo mais marcava a alma cantante acostumada nas visões alegres e sentimentos tristes. Sua memória prodigiosa gravava a história do cordel lida pelo menino, sem perder um detalhe, mas também gostava de improvisar com cantigas baseadas em histórias que ele mesmo inventava.

Além de guia, o menino Zoinho chamava o povo para escutar mais uma cantoria do cego Marujo. Aquele menino esperto não tinha pai nem mãe, vivia sem rumo, fazendo biscates na feira aos sábados e no terminal das marinetes na semana. Pedia comida na porta da família rica. Dormia embaixo da ponte numa cama improvisada com papelão grosso. Se cobria com uma coberta de lã velha, tinha vários furos no pano puído.

Até que um dia pediu ao cego Marujo para ser seu guia e fazer a limpeza no barraco. Não só fazia isso, preparava o café pela manhã e a comida à noite. Fazia a feirinha de mercado no armazém do português. De tal sorte um pegou afeição pelo outro, que o cego Marujo dizia que o menino era o filho que não teve, este dizia que ele era o pai que sempre quis ter. Antes de dormir e depois de acordar no outro dia, o menino Zoinho não esquecia de dizer:

– Benção, pai Marujo.

Chamava o povo para assistir mais uma cantoria do cego Marujo, que de repente gostava de tirar do sério o público, escutando-o em silêncio o que cantava em tom lamentoso. Terminava a cantoria com um gracejo que fazia a plateia cair na gargalhada. Não deixava de ressaltar alguma façanha que fazia no tempo de pescador. Certa vez, ouvi o cego Marujo falar do tempo que era jovem, enxergava até agulha na areia, e o que mais gostava, o mar como uma piscina sem fim alagado de azul. Era pescador que saía cedo para pegar o peixe nos longes mares bravios de Ilhéus.

O barco feito brinquedo
Indo pra lá e pra cá
Em cada onda gigante
Assombrando a tripulação,
Só Marujo não tinha medo
Quanto maior fosse o perigo
Causando enorme aflição.

Cyro de Mattos

________

Minha hospedeira

E antes que me desse conta peguei no sono e dormi durante quatro ou cinco horas. Eram mais de dez da manhã quando acordei, com as roupas todas amarrotadas, exausto, e em minha cabeça a memória semiesquecida da sensação horrível do dia anterior; mas estava vivo, tinha esperança e felizes pensamentos.

Ao voltar para casa, já não sentia aquele terror que teria sentido se regressasse na véspera.

Na escada, no andar acima do pinheirinho, dei de encontro com a “tia”, minha hospedeira, a quem via de raro em raro, mas cuja amistosa presença me era muito agradável. Tal encontro não fora muito oportuno, pois estava sujo e tresnoitado, despenteado e com a barba por fazer. Cumprimentou-se e quis passar adiante. Ela sempre respeitava meu desejo de estar sozinho e de não ser observado continuamente, mas hoje parecia ter-se rompido um véu entre mim e o mundo em redor, ter-se desmoronado a barreira — ela sorriu e permaneceu parada.

— Divertiu-se esta noite, hein, Sr. Haller? Não desfez a cama e decerto deve estar cansado, não?

— Sim — disse eu, e tive de sorrir também — a noite de ontem foi animada e, como não quisesse interromper a paz de sua casa, acabei dormindo num hotel. Meu respeito pela calma e a honorabilidade de sua casa é muito grande, e às vezes me sinto como um “corpo estranho” nela.

— Não faça pouco, Sr. Haller.

— Eu só faço pouco de mim mesmo.

— Pois não devia fazê-lo. Não devia sentir-se em minha casa como um “corpo estranho”. Pode viver como melhor lhe convenha e fazer o que bem entenda. Já tive muitos inquilinos distintos, verdadeiras joias de amabilidade, mas nenhum era tão sossegado ou nos incomodou menos que o senhor. E agora, quer tomar uma chávena de chá? Não me opus. Na sala de jantar, entre formosos retratos de seus antepassados e os móveis de seus avós, tomei um chá excelente e conversamos um pouco; a amável senhora, sem que o perguntasse expressamente, ficou sabendo algumas coisas a respeito de minha vida e de meus pensamentos, e ouviu-me com esse misto de respeito e de indulgência maternal que as mulheres prudentes têm para com as complicações dos homens. Falou-me também de seu sobrinho e me mostrou num quarto contíguo o trabalho que este fizera durante as últimas férias: um aparelho de rádio. Ali o esforçado jovem passava seus momentos de ócio e montara aquela máquina, seduzido pela telegrafia sem fios, prostrado de joelhos diante do deus da técnica, cujo poder possibilitou o descobrimento, após milhares de anos, de um fato que todos os pensadores sempre souberam e do qual fizeram melhor uso do que neste recente e muito imperfeito estágio atual. Falamos a propósito disso, pois a senhora era inclinada à devoção e os temas religiosos não lhe eram desagradáveis. Disse-lhe que a onipresença de todas as forças e ações eram bem conhecidas pelos antigos hindus, e a técnica havia simplesmente trazido um pouco desse fato à consciência comum, e por esse meio, no que se refere às ondas sonoras, havia construído um emissor e um receptor que ainda estavam totalmente imperfeitos. A base daquela ideia antiga, a irrealidade do tempo, não fora ainda observada pela técnica, mas naturalmente viria a ser finalmente "descoberta" e cairia nas mãos dos laboriosos engenheiros. Seria descoberto, talvez muito em breve, pois não só as imagens e acontecimentos presentes e momentâneos poderiam chegar continuamente até nós, como a música de Paris ou de Berlim se faz agora audível em Frankfurt ou em Munique, mas também tudo o que já aconteceu fica registrado e pode tornar-se atual; e que um dia, com fios ou sem eles, com ou sem ruídos, chegaremos a ouvir a voz do rei Salomão ou a de Walter von der Vogelwide. E que tudo isto, como hoje os primórdios do rádio, só servirá ao homem para fugir de si mesmo e de sua meta e envolver-se numa rede cada vez mais cerrada de distrações e ocupações inúteis. Mas disse todas essas coisas não no costumeiro tom de amargura e desdém contra os tempos atuais e a técnica, mas em tom de pilhéria e com ar de brincalhão; a senhora se ria e passamos assim uma hora juntos, a tomar chá e a nos divertirmos. Havia convidado a admirável jovem do Águia Negra para a noite de terça-feira, e não me foi fácil esperar que chegasse aquele dia; quando por fim chegou a terça-feira, tive perfeita noção da importância que tinham para mim as relações com aquela moça, uma simples desconhecida, e isso me encheu de espanto. Só pensava nela, e esperava tudo dela, estava disposto a sacrificar-lhe tudo e pôr tudo a seus pés, embora não estivesse em absoluto enamorado dela. Bastava imaginar que não compareceria ao encontro ou que dele se houvesse esquecido, para ver claramente o que ela representava para mim; o mundo me parecia então novamente vazio, os dias eram escuros e destituídos de encanto, voltava a envolver-me a cruel quietude e a morte, e não via outra saída daquele inferno silencioso senão a navalha de barbear. E a navalha de barbear não fora nada agradável para mim nestes dias, não havia perdido nada de seu antigo horror. Isto era exatamente o mais terrível: sentia uma profunda e opressiva angústia em cortar a garganta, temia a morte como uma força tão obstinada e selvagem, como se fosse o homem mais saudável do mundo e minha vida um verdadeiro paraíso. Conhecia meu estado com plena e brutal clareza e reconhecia que a tensão insuportável entre o não poder viver e o não poder morrer era o que me fazia dar tanta importância à desconhecida, à linda bailarina do Águia Negra. Era a única janela, a luminosa e diminuta abertura em minha sombria e angustiosa caverna. Era a salvação, o caminho para a liberdade. Haveria de ensinar-me a viver ou ensinar-me a morrer, haveria de tocar com sua mão firme e formosa meu coração transido, para que ele, em contato com a vida, de novo florescesse ou se tornasse em cinzas. De onde tirava ela essa força, de onde lhe vinha a magia, de que profundos abismos se elevava até ela essa profunda significação que tinha para mim? Não sabia e não me importava sabê-lo. Bastava-me saber de sua existência. Nenhuma ciência, nenhum conhecimento me importara tanto; estava saciado deles, precisamente nisto consistia a ignomínia e o tormento mais agudos de que eu padecia: ver tão claramente meu próprio estado, ter perfeita consciência dele. Via a este infeliz, a este Lobo da Estepe diante de mim como uma mosca numa teia de aranha, e contemplava como seu destino forçava o desenlace, como pendia da teia enlaçado e indefeso, como a aranha se dispunha a devorá-lo, como aparecia também uma salvadora mão. Poderia dizer as coisas mais racionais e inteligentes sobre a concatenação e os motivos do meu padecimento, da enfermidade de minha alma, de meu enfeitiçamento e de minha neurose, pois a mecânica era evidente para mim. O que mais me fazia falta, aquilo por que suspirava tão desesperadamente, não era saber e compreender, mas vida, decisão, movimento e impulso. Embora durante aqueles dois dias de espera nunca duvidasse de que minha amiga cumpriria o prometido, às últimas horas estive muito excitado e inseguro; nunca na vida esperara com tamanha ansiedade a noite de nenhum dia. E embora a tensão e a impaciência se me tornassem quase insuportáveis, aquilo me causou um grande bem: era indizivelmente formoso e novo para mim, para o desiludido que há muito tempo nada mais esperava, que não se satisfazia com o que quer que fosse; era maravilhoso correr daqui para ali o dia todo, cheio de impaciência, de inquietude e veemente expectativa, imaginar antecipadamente o encontro, a conversação, os acontecimentos da noite, barbear se e vestir-se para o encontro (com muito apuro, camisa nova, gravata nova, cordões novos nos sapatos). Fosse quem fosse aquela moça inteligente e misteriosa, que tivesse chegado até mim por este ou aquele caminho, tudo me era indiferente; ali estava, e realizara-se o prodígio de eu voltar a sentir-me um ser humano e encontrar novamente interesse na vida! Só me importava que tudo prosseguisse, abandonar-me àquela atração, seguir aquela estrela! Momento inesquecível em que tornei a vê-la! Estava sentado junto a uma mesinha no antigo e confortável restaurante, a qual eu reservara pelo telefone, sem que houvesse necessidade; examinei o cardápio e coloquei no jarro duas formosas orquídeas que comprara para presentear minha amiga. Tive de esperá-la algum tempo, mas sempre na certeza de que viria, e não me angustiei. E chegou, e deteve-se junto ao vestiário e me cumprimentou somente com um olhar atento, um tanto inquisitivo, de seus claros olhos cor de cinza. Desconfiado, fiquei observando como o moço do vestuário se comportaria com ela. Não, graças a Deus, não houve qualquer intimidade entre eles, qualquer falta de respeito; mostrou-se impecavelmente correto. E, no entanto, se conheciam, pois ela o chamou por Emil.

Quando lhe dei as orquídeas, alegrou-se e sorriu.

— Muito obrigada pela sua atenção, Harry. Você queria me dar um presente, não é? E não sabia exatamente o que escolher. Não estava certo se eu ficaria satisfeita em receber o presente ou se me ofenderia, por isso escolheu orquídeas, que não passam de flores, mas são sempre muito apreciadas. Portanto, muito, muito grata. E aproveito para dizer-lhe que não quero que me traga presentes. Vivo à custa dos homens, mas não quero viver à sua custa. Mas, como você está diferente! Parece até outra pessoa! Outro dia estava como alguém que foi salvo da forca e agora já está quase um homem outra vez.
Hermann Hesse, "O Lobo da Estepe"

Estranheza do Mundo

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.
Ferreira Gullar

Júpiter

Nunca me esquecerei da sua imagem à beira do canal, contemplando a obra que ele – aquele criminoso, aquele monstro! – realizara. Só Deus sabe que, naquele momento, nenhum de nós era capaz de raciocinar. Ainda assim, lembro de saber muito bem o que se passava em seu pequeno cérebro vingativo e extraordinário.

Tentarei agora contar desde o início a história toda, quem sabe só para mim mesmo.

Quando me retirei dos negócios, há cerca de oito anos, minha mulher e eu resolvemos procurar um recanto tranquilo no interior. Encontramos o que procurávamos próximo do vilarejo de Dover, no norte do estado de Nova York. A região era permeada por um velho canal que cem anos antes costumava ficar repleto de barcos. Mas então chegou a ferrovia e o tráfego no canal diminuiu, os guardadores das eclusas foram demitidos e hoje essa atmosfera especial de solidão torna a região romântica e misteriosa.

Ali, num morro perto do canal, ficava a casa que compráramos, a poucas milhas da cidade. Sentados no nosso terraço ao ar livre, víamos a casa, as árvores, o jardim e a relva refletidos na suave superfície da água. Não estávamos completamente isolados, pois a algumas centenas de jardas de distância havia outra casa, bastante parecida com a nossa.

Certa manhã, pouco tempo depois de nos mudarmos para a casa, apareceu uma jovem esguia e bonita, de seus vinte e oito ou vinte e nove anos, que se apresentou como mrs. Surgis. Tinha olhos inteligentes e gentis, era simpática, e em pouco tempo já estávamos conversando como velhos conhecidos. Mr. Surgis trabalhava em Buffalo, e embora precisasse viajar uma hora e meia de trem de manhã e à noite, fazia-o de bom grado por causa da beleza da paisagem.

Achei estranha a maneira como a jovem se referia ao marido e tive a impressão de que ela não sentia sua falta, embora, de alguma maneira, gostasse dele.

Quando, alguns dias depois, passeávamos à margem do canal, escutamos passos atrás de nós. Um homem grande e forte veio ao nosso encontro e apertou nossas mãos. Era Roger Surgis. Disse que sua mulher lhe falara a nosso respeito e que, ao nos ver passando, quis nos cumprimentar. E não era uma linda manhã? Também não achávamos que aquele era o melhor lugar do mundo? E não era inimaginável querer viver na cidade, se existia um lugar como aquele?

Ele falava com tanto entusiasmo que era difícil interrompê-lo, mas assim pelo menos pude observá-lo minuciosamente. Devia ter uns trinta e cinco anos, um metro e oitenta de altura, um verdadeiro gigante de ombros largos e quadrados. E que homem bondoso! Falava e ria sem parar. Ao mesmo tempo, irradiava tal sentimento de felicidade e profundo contentamento que, querendo ou não, nos contagiava. Ambos fomos arrebatados pelo seu bom humor e ficamos encantados em ter um vizinho tão jovial.

Mas nosso entusiasmo não durou muito tempo. Na realidade, não havia a menor objeção a fazer a Roger Surgis. Era cortês, simpático e solícito – um homem gentil e confiável. E no entanto…

Para dizer a verdade: com o passar do tempo, foi ficando difícil suportar a sua presença, por ser tão ruidoso e ininterruptamente alegre. Para ele, tudo sempre estava ótimo, no melhor dos mundos. Sua casa era perfeita, a mulher era o ideal e o seu cachimbo o melhor jamais fabricado. Antes de conhecer Roger Surgis, nem em sonhos eu imaginara como virtudes honradas podem ser cansativas e capazes de nos levar ao desespero.

Aos poucos, comecei a compreender a estranha ambiguidade com que sua mulher falava dele. Ele a amava apaixonadamente, assim como amava qualquer coisa que fosse sua. Mimava-a com um carinho exagerado e chegava a ser constrangedor o orgulho que sentia dela. Ela tinha plena consciência desse constrangimento, mas o que podia fazer? Era simplesmente impossível aborrecer-se com pessoa tão devotada.


Minha mulher e eu conversamos sobre os dois e chegamos à conclusão de que lhes fazia falta um filho. Ela me contou que mrs. Surgis desejava engravidar, e que aquela era a grande decepção do casamento. Haviam contado com um filho no primeiro, no segundo e no terceiro ano da união, mas depois de oito anos já haviam perdido as esperanças.

Naquela altura, Betty, minha mulher, foi visitar velhos amigos em Rochester e, ao voltar, acreditava ter uma ideia brilhante. Seus conhecidos tinham uma cadela bull terrier que acabara de dar cria. Betty recusara um dos filhotes que a amiga quis lhe oferecer por achar que não poderíamos cuidar adequadamente dele, mas disse que um cachorrinho seria a melhor coisa para mrs. Surgis. Concordei, e na mesma noite perguntei o que achariam de ter um filhote de cachorro. Mrs. Surgis ficou calada, como sempre quando o marido estava por perto, mas ele imediatamente aceitou nossa oferta. Maravilhoso! E por que não haviam pensado nisso antes? Que ideia maravilhosa! Ele não parava de nos agradecer.

Dois dias depois chegou o cachorrinho. Era uma criatura engraçada, amável e pequena, de pelo branco, muitas dobras e patas imensas, um exemplar típico da raça. E aconteceu o exato contrário daquilo que pensáramos.

Havíamos imaginado o cachorro como companheiro para a mulher. Todavia, Surgis apoderou-se dele. Pouco depois ele me contava, a qualquer oportunidade, que no mundo inteiro não havia cão mais inteligente e belo, e que era especial, um rei de sua raça.

Parece quase inacreditável o que essa nova paixão fez com Roger Surgis. À vezes, escutávamos latidos altos na casa vizinha, mas não era Júpiter que latia. Era Surgis que, deitado no chão, brincava como uma criança com seu xodó. Eu seria capaz de jurar que ele se preocupava mais com a dieta do animal do que com a sua própria e lembro que, quando certa vez o jornal informou sobre um caso de tifo na vizinhança, Júpiter passou a ganhar apenas água mineral para beber.

Havia uma única vantagem para nós: com Surgis concentrado no cão, sua impetuosidade afetava menos a sua mulher e a nós. Passava horas brincando com o cachorro sem se entediar e fazia longos passeios com ele. E Deus sabe que mrs. Surgis não era ciumenta. Seu marido encontrara um novo ídolo para adorar, o que foi um imenso alívio para ela.

Júpiter cresceu e se desenvolveu. Preencheu as dobras de seu pelo com carne rija e firme, seu peito se alargou, as ancas tornaram-se fortes e as patas, imensas. Admito que, com seu pelo sedoso e cuidadosamente escovado, era um belo animal. De início, ainda tinha boa índole. Mas isso logo mudou – primeiro sem que percebêssemos, e depois de forma cada vez mais visível. Era inteligente e logo descobriu que seu senhor – ou melhor, seu escravo – idolatrava-o e fazia vista grossa para todas as suas travessuras. O resultado foi inevitável.

Ele parou de obedecer – não só isso: tornou-se tirânico. Tudo na casa precisava girar em torno dele. Quando chegava visita e ele era deixado do lado de fora, na esperança de que Surgis viesse correndo atirava-se com tal ímpeto contra a porta que ela rangia. Então aparecia na sala, sem se dignar sequer a olhar para as visitas, e saltava no sofá, o móvel mais valioso, onde se esparramava, distraído e entediado. Sempre demorava para atender os chamados de Surgis. Somente dava o ar de sua graça se o dono o pressionasse e suplicasse. E, embora durante o dia se comportasse como um cão normal, cruzando campos e relvas em grande velocidade, caçando galinhas, cavando buracos e explorando a área, seu comportamento se alterava radicalmente quando Surgis voltava da cidade à noite.

Preguiçoso, ficava deitado no sofá, sem tomar o menor conhecimento do dono, que se precipitava sobre ele com um afetivo “Olá, velho Júpiter”, e nem sequer abanar o rabo em resposta à saudação.

Ele era um tirano cada vez mais consciente de seu poder. Foi quando descobriu uma nova brincadeira. Algumas mulheres pobres de uma vila nas vizinhanças costumavam levar cestos de roupa para lavar no canal. Júpiter sabia muito bem os dias em que vinham. Esgueirava-se para perto delas, apoderava-se de seus cestos num momento propício e com um golpe de sua cabeça poderosa lançava-os n’água. Em seguida, desaparecia com a boca entreaberta, como se estivesse rindo. Seus pequenos olhos cor-de-rosa brilhavam, parecendo zombar das lavadeiras que corriam atrás dele e tentavam pegá-lo. E mesmo quando conseguiam não adiantava nada, pois ele tinha a força de um cavalo. Elas acabaram indo lavar sua roupa em outro ponto do canal, e Júpiter perdeu um pouco de seu poder.

Assim se passou um ano. Júpiter estava totalmente desenvolvido. Era agora um animal crescido, insolente e arrogante que só dominava bem uma arte: a de espezinhar seu senhor, que a ele se submetia como um escravo.

Então chegou o dia em que tudo mudaria.

Havia algum tempo tínhamos a impressão de que mrs. Surgis evitava qualquer conversa conosco. Essa estranha relutância chamou nossa atenção, e um belo dia Betty decidiu tentar descobrir o motivo.

– Judith – disse ela –, sou bem mais velha que você e não tenho razão alguma para acanhamento. Por isso, resolvi quebrar o gelo. Se fizemos algo que a ofendeu, peço que diga o que foi.

Mrs. Surgis gaguejou um pouco, hesitou um momento e em seguida nos confidenciou a grande novidade. Depois de nove anos de casada, já não acreditava mais que poderia ser mãe, mas agora estava grávida. Estivera no médico e ele confirmara suas suspeitas. Sua alegria era imensa, mas de alguma maneira não conseguia falar com o marido a esse respeito. Ela temia um pouco a virulência da sua reação. Nós sabíamos como ele era. Por isso, pensara em nos pedir que falássemos com ele para preparar o seu espírito. Naturalmente, ficamos encantados. Deixei uma mensagem para Surgis, pedindo que nos procurasse tão logo voltasse da cidade. Às seis e meia em ponto ele chegou, com toda a sua vitalidade.

– Roger – eu lhe disse –, posso lhe fazer uma pergunta, de brincadeira? O que você pediria se tivesse direito a um desejo?

Meio sério, meio rindo, Surgis balançou a cabeça.

– Quer saber o que eu pediria? Por quê?

– Certamente deve ter algum sonho!

– Mas o que é isso?

– É sério. Qual seria seu maior desejo? Ele sorriu.

– Ai de mim se eu soubesse o que quero… Tenho tudo de que necessito: minha mulher, minha casa, minha profissão e meu…

Ele queria dizer “meu cachorro”, mas no último momento mudou de ideia, pois sabia bem o que achávamos daquele animal diabólico.

– Bem, e o que será que mrs. Surgis mais gostaria de ter? Estupefato, ele me olhou.

– O que ela poderia querer?

– Talvez algo mais que um cachorro.

Por fim, ele compreendeu. Arregalou os olhos de tal maneira que se via apenas a parte branca. Ergueu-se de um salto e atravessou o gramado correndo, pulou a cerca e só escutamos a porta batendo.

Rimos. Sua reação não nos surpreendeu.

Mas houve quem ficasse surpreso: alguém que estava deitado no sofá, de olhos fechados, esperando a reverência cotidiana que, na sua opinião, o seu dono lhe devia. Alguém que esperava que o homem entrasse na sala, se ajoelhasse a seu lado e o acariciasse – e que esperava poder ignorar totalmente essa veneração.

Mas o que era aquilo? Sem uma palavra sequer, o homem passou correndo por ele até o quarto, e ele escutou um falatório interminável, risadas e choro. Ninguém deu atenção a ele, Júpiter, o tirano, o maravilhoso e orgulhoso Júpiter.

Passou-se uma hora. A empregada lhe trouxe a tigela com a ração. Ele a desprezou. Chegou até a rosnar para a mulher. Que todos vissem que ele não admitia ser tratado daquela maneira! Mas naquela noite ninguém parecia notar que ele desprezara sua comida. Surgis falava incessantemente com a esposa, inundando-a com seus conselhos preocupados e com seu carinho. Júpiter estava orgulhoso demais para forçar a atenção do dono para si. Enroscado em seu canto, ficou esperando.

Mas esperou em vão.

Na manhã seguinte, Surgis voltou a passar correndo por ele, sem sequer lhe lançar um olhar. A mesma sensação amarga ele teria à noite, e na manhã e na noite seguintes – dia após dia.



O animal era inteligente, mas aquilo superava sua capacidade de compreender. Ficou nervoso e irritadiço. Não correria atrás do dono, jamais! Surgis que voltasse ao normal e desse o primeiro passo para aproximar-se dele.

Na terceira semana, começou a mancar. Em circunstâncias normais, Surgis teria chamado um veterinário, mas dessa vez nem ele nem qualquer outra pessoa da casa reparou naquele comportamento, e assim ele desistiu, cheio de amargura. Alguns dias mais tarde, tentou uma greve de fome. Era suficientemente inteligente para lançar mão também desses expedientes sutis. Mas ninguém ligou. Durante dois dias, ele recusou qualquer alimento. Se ninguém se preocupasse, morreria de inanição. Mas no final sua fome foi maior do que a força de vontade. Sim, eu disse força de vontade, pois eu conhecia aquele cachorro – e ele voltou a comer, mas certamente sem a menor alegria.

Emagreceu. E começou a se mover de maneira diferente. Em vez de correr por aí, indômito e insolente, agora se esgueirava pelos cantos. Seu pelo, antes cuidadosamente escovado, perdeu o brilho sedoso. Seus olhinhos cor-de-rosa tinham um ar desorientado. Quando o encontrávamos, baixava a cabeça e passava direto por nós, para que não pudéssemos ver seus olhos.

Sua greve de fome, mancar, todos os seus truques haviam sido inúteis. Algo mudara naquela casa que ele dominara. O que diferencia a mente animal da humana é que a primeira se limita ao passado e ao presente; o futuro, para ela, é uma dimensão desconhecida. E assim Júpiter estava condenado a sentir, com medo e desespero, que algo invisível crescia na casa e se preparava, algo que era contra ele: um ladrão vil e diabólico.

Meses depois, ele estava no fim de suas forças – pelo menos parecia o fim. Se fosse uma pessoa, com certeza teria cometido suicídio. Sumiu durante três dias inteiros. Na noite do terceiro dia, voltou, sujo, faminto e estropiado, parecendo que saíra de uma luta. Em sua fúria irada e cega deve ter atacado todo e qualquer cachorro que tinha cruzado o seu caminho. Mas voltou como um homem que atravessara as piores profundezas. Quem sabe algo havia mudado… Porém novas humilhações o esperavam. Ninguém o recebeu, ninguém se alegrou com o seu retorno. A empregada sequer o deixou entrar.

Foi uma decisão acertada, pois o parto de mrs. Surgis estava por acontecer e a casa estava repleta de gente ocupadíssima. Surgis quis que o bebê nascesse em casa, e como o hospital mais próximo estava superlotado, o médico concordara. Assim, todos estávamos reunidos: o médico, uma enfermeira, a mãe de mrs. Surgis, minha mulher e eu.

E naturalmente Roger Surgis. Trêmulo de nervosismo e com as faces ardentes, ele ficava atravancando o caminho de todos.

E diante da porta havia mais alguém à espera: Júpiter!

O que acontecia ali dentro? Ele escutava vozes, o ruído de água, o tilintar de vidro e barulho de metal. Alguma coisa se passava ali que ele não entendia, mas instintivamente ele sabia que o responsável era aquele ser misterioso que causara sua derrota e sua humilhação – aquele inimigo invisível, infame, covarde.

No momento em que a porta se abrisse, aquele ser apareceria – e não haveria de lhe escapar.

Seus poderosos músculos se retesaram. Ele se agachou e esperou.

Dentro de casa, nem imaginávamos nada daquilo. Betty e eu havíamos sido incumbidos de reter Surgis na sala. Dada a sua excitação, foi uma missão torturante para nós. Mas finalmente veio a boa-nova: era uma menina. E logo a porta do quarto se abriu e a enfermeira apareceu com uma pequena trouxa. O médico a seguiu, sorridente.

– Bem, mr. Surgis – disse –, venha e segure sua filha um momento, e nos conte como se sente como pai.

Trêmulo, o homem imenso estendeu os braços e a enfermeira lhe entregou o bebê, que ele admirou com os olhos marejados.

O médico calçou as luvas para sair.

– Tudo em ordem – disse. – Não precisa se preocupar. Eu me vou, pois. Depois de se despedir de todos, abriu a porta de entrada.

Naquele instante algo passou voando por entre suas pernas, e eis que Júpiter estava no meio da sala.

Encarou Surgis. Seus pequenos olhinhos cor-de-rosa estavam fixados na trouxa que seu dono segurava, e finalmente ele compreendeu – tenho certeza disso! – que aquele pacotinho branco era o ser misterioso.

Atacou, latindo furioso.

E o ataque foi tão súbito e violento que o homem pesado e largo cambaleou sob o impacto e caiu contra a parede. No último instante, ainda tentou instintivamente salvar a criança, erguendo o travesseiro com o bebê. Betty estava a seu lado. Agarrou a trouxinha e passou-a para a enfermeira, que estava na porta do quarto. Em seguida, empurrou a enfermeira para o quarto e bateu a porta com toda a força.

Enquanto isso, Surgis recuperara o equilíbrio. Acometido pela mesma fúria do cachorro, atirou-se sobre Júpiter. Cadeiras e mesas voaram. Finalmente, o médico e eu voltamos à razão. Batemos em Júpiter com tudo o que nos caía nas mãos, até o animal ficar inconsciente. Então, amarramos as suas patas e o arrastamos para o gramado. Surgis cambaleava como um bêbado. Seu sobretudo estava rasgado e só então vimos – ele próprio ainda não notara – que seu braço direito estava bastante ensanguentado. O doutor o levou para o outro quarto, tirou a sua roupa e tratou das feridas causadas pelos dentes de Júpiter. Só então Surgis caiu no sono, exausto física e psiquicamente.

E o que devia acontecer com Júpiter?

– Vamos dar-lhe um tiro de misericórdia – sugeri ao médico, que foi contra, dizendo que seria melhor observá-lo por algum tempo, a fim de verificar se era hidrófobo, pois nesse caso Surgis teria que ser submetido a um tratamento especial.

Assim, Júpiter foi levado embora no carro do médico, meio inconsciente, com as patas amarradas.

Mais tarde soubemos que os exames de Pasteur tinham sido negativos e que Júpiter se comportava dentro da absoluta normalidade. Surgis, seu dono, que antes o idolatrara, naturalmente nunca mais quis vê-lo. Por um acaso, o médico soube que um comerciante de ferro procurava um cão de guarda. Ofereceu-lhe Júpiter, e ele aceitou.

Assim, o cachorro desapareceu por algum tempo do nosso horizonte. Não pensamos mais nele, nem mesmo Surgis. Pois ele agora tinha um novo ídolo, infinitamente mais precioso. E com ele esbanjava toda a sua paixão e o seu carinho. A cada dia, cada hora, cada minuto ele descobria novos deleites no seu lindo bebezinho. Mal aguentava despedir-se dele de manhã e ir para o escritório. De lá, ligava durante o dia para ouvir como estava o bebê. E toda noite quando voltava trazia um chocalho, um mordedor ou outros brinquedos. Sua idolatria era total.

Todos esquecemos de Júpiter – ele não passava de um pesadelo –, até, certa noite, eu ser lembrado dele por um acaso.

Por algum motivo, eu não conseguia dormir. Finalmente, levantei-me, vesti o roupão e fui à cozinha para esquentar um pouco de leite. Quando voltei e passei pela sala, olhei pela janela e vi como estava bonita a noite. A lua estava escondida atrás de um tênue véu de nuvens prateadas, e toda vez que aparecia, pura e clara, o jardim inteiro brilhava como se estivesse coberto de neve. Tudo estava em silêncio; acho que escutaria se uma única folha se movesse.

Assustei-me ao notar de repente uma sombra se mexendo sem ruído algum naquele silêncio absoluto na cerca entre os nossos dois jardins.

Era Júpiter.

Rastejando, a barriga quase tocando o chão, avançava devagar. Parecia que viera para investigar e espionar o terreno, mas dessa vez sem aquela segurança arrogante e rápida que o caracterizavam antes. Instintivamente, me inclinei na janela para observá-lo melhor. Meu cotovelo bateu num vaso de plantas, que caiu no chão com grande ruído. Com um salto silencioso, o imenso cão desapareceu no escuro. O jardim voltou a ficar à luz do luar, brilhante e solitário.

Fechei a janela, trancando-a.

No dia seguinte, tudo me pareceu inacreditável. Afinal, não passava de um cachorro, não era um ser pensante, nem mesmo um lobo, um tigre ou uma fera. Assim, não mencionei nada para Surgis. No entanto, alguns dias mais tarde, enquanto trabalhava no jardim, vi a empregada deles pendurando a roupinha do neném no varal e perguntei se ela vira Júpiter nos últimos tempos.

Ela respondeu que não quisera contar nada para mrs. Surgis para não deixá-la preocupada, mas que há cerca de uma semana ela vira algo inusitado. Quando estava passeando com o bebê, um carro passara por eles. No momento em que o carro emparelhou com elas, ouvira um latido nervoso. Olhando para cima viu um grande cachorro branco sentado ao lado do motorista. Era um carro de entregas com a inscrição “Artigos de ferro”.

Devia ser Júpiter. E havia apenas uma explicação: ele vira e reconhecera a babá, o carrinho e o bebê e latira exprimindo todo o seu ódio. Então fiquei preocupado. O cachorro não esquecera nada. Eu o vira casualmente uma noite, mas quantas noites antes ou depois ele ainda se esgueirara por perto da casa?

– Se voltar a vê-lo, conte logo para mr. Surgis ou para mim, se ele não estiver em casa – disse eu para a babá. – Na próxima vez em que eu estiver na cidade, direi ao ferragista que não deixe o cachorro solto.

Mas me fiz a seguinte pergunta: era possível que um cachorro se lembrasse de maneira tão vívida e dolorosa? Entre humanos, rivalidade é um sentimento natural, mas aquele era um animal normal, sem capacidades intelectuais, que há meses já tinha um dono novo e vivia em outro ambiente. Seria possível um cão ter tal memória?

Isso não aconteceria com qualquer cachorro doméstico normal – o bom e velho Rover, Jack ou Sport. Mas Júpiter não era um cachorro comum. Em primeiro lugar, tinha sido mimado ao extremo. Havia sido coberto de atenção e veneração, e de um só golpe fora privado de tudo. Aquele cachorro era inteligente, de uma inteligência insidiosa, amarga. Eu o odiava, mas só o fato de ter tais sentimentos por ele, como jamais imaginaria ter por um animal, revelava que eu acreditava em sua inteligência.

O que eu deveria fazer? Informar a polícia sobre meus temores e pedir que impedissem a circulação do cachorro? Talvez devesse ter feito isso. Mas a ideia me pareceu demasiado absurda e até imaginei os policiais rindo de mim.

– O que? Quem é o criminoso? Um cachorro? Ou o seu dono? E pensava também no comerciante de artigos de ferro:

– Por quê? O que aconteceu? É um cachorro maravilhoso, um excelente cão de guarda, além disso tem pedigree. Eu o ganhei de presente e quero ficar com ele.

Assim, nada fiz. Mas continuei preocupado, dando tratos à bola, sem fazer nada. E assim se passaram os dias até aquele domingo fatídico e inesquecível.

Era uma belíssima tarde e nós tínhamos ido visitar os Surgis. Estávamos sentados conversando no terraço inferior, de onde descia um gramado num declive suave até o canal. Perto de nós e no mesmo plano estava o carrinho de bebê, e não preciso mencionar que Surgis interrompia sempre a nossa conversa para ir até o bebê e falar com ele, rir e brincar.

Depois de algum tempo, mrs. Surgis nos chamou para a casa, que ficava uns cem pés acima do terraço interior:

– Venham tomar o chá logo, senão as torradas esfriam!

Nós subimos e Surgis nos seguiu alguns instantes depois. Já estávamos sentados à mesa quando ele entrou. Mrs. Surgis serviu a todos e nós conversamos sobre o tempo, as rosas e outras coisas, até Surgis, como sempre, falar do seu assunto preferido.

– A bebê está dormindo. Sabem, acho maravilhoso, ela mal nos dá trabalho.

Jamais nos acorda à noite, nunca chora…

– Ela está no sol? – perguntou mrs. Surgis.

– Um pouco, mas é bom para ela. Pensei em trazê-la, mas achei que poderia despertar com o movimento.

– Você a deixou no terraço? – perguntei, na suposição de que ele teria empurrado o carrinho para cima.

– Sim. Ela estava dormindo, e eu pensei…

Tive um pressentimento ruim. Ele percebeu, fez menção de se erguer e olhou para mim. Era como se o seu amor incomensurável e devotado pela filha o tivesse habilitado a ler o pensamento que nem terminara de pensar.

– Oh, Roger, agora sente e tome o seu chá – disse mrs. Surgis. – Você realmente é mais preocupado do que uma avó!

Ela sorriu. Ele, não. Olhei para ele, ele para mim, e embora eu tentasse espantar o pensamento, não consegui. Ele não se sentou mais. Alguma coisa, talvez um leve ruído bem ao longe, o fez ir até a porta. Então escutamos o seu grito terrível e desesperado.

Ele não gritou alto, mas acho que foi o pior ruído que jamais escutei – abafado, lamurioso, como o último som de um moribundo.

– Pelo amor de Deus, o que aconteceu? – berrei.

Era como se Surgis tivesse ficado totalmente petrificado com a cena terrível que vira. Empurramos nossas cadeiras e corremos em sua direção. Esse movimento o tirou de seu imobilismo. Ele abriu a porta e saiu correndo pela varanda.

O carrinho de bebê não estava mais no terraço.

Foi quando o vi flutuando no canal. Rolara morro abaixo até a água. Como por milagre, ainda estava em pé, mas enquanto olhávamos e ainda tentávamos compreender o inacreditável, ele tombou e afundou em poucos segundos.

E Júpiter estava ali.

Júpiter, o imenso animal branco que, quando ainda dominava a casa, divertia- se descendo até o canal e jogando os cestos de roupa dentro d’água, empurrando- os com seus poderosos músculos.

Ali estava ele, assistindo como o carrinho afundava lentamente, um vencedor que, no final, triunfava sobre todos.

O carrinho virou para o lado. Vimos panos brancos, bracinhos e perninhas se agitando e a criança caindo n’água.

Então eu vi como os poderosos músculos do animal se retesaram. Vi como ele se lançou no canal. Só precisou nadar um pouco. Seus poderosos maxilares se abriram e ele agarrou a criança. Mas foi uma mordida suave. Júpiter voltou nadando e deitou o bebê na margem. E Surgis já chegara. Ele abraçou a criança e a apertou contra si. Viu que respirava e estava incólume. O cachorro estava lá, olhando para ambos: o senhor que o venerara e o inimigo que lhe roubara a veneração, e que agora era amorosamente abraçado pelo seu senhor – o inimigo que ele, Júpiter, voltara a entregar ao seu senhor.

Surgis se ajoelhou. Os músculos de seu rosto se contraíram. De joelhos, abraçava a criança, mas olhava para o cão. E eu o escutei dizendo:

– Júpiter.

A mão estava estendida para acariciar o cão. O cachorro ficou imóvel.

– Vem, meu velho!

Júpiter se virou e saiu andando, e Surgis ficou para trás com o bebê. Eu sei quem foi o vencedor.

Stefan Zweig