sexta-feira, outubro 23

Sexta de feira

 


Três Corações

“Vamos mudar para Três Corações”, disse o pai. Os negócios estavam melhorando. Três Corações era entroncamento ferroviário. Facilitava a vida de um viajante de caderneta quilométrica, boné e guarda-pó.

Em Três Corações passava o rio Verde.
Em Três Corações estavam soldados que andavam a cavalo...


Lembro-me do meu pai, assentado à escrivaninha, fazendo um inventário da sua riqueza: a Encyclopaedia e Diccionario Internacional, a Biblioteca Internacional de Obras Célebres, dois quadros a óleo, sem moldura, um navio a velas em meio a um mar agitado, um veado galheiro soltando vapor pelas narinas, o atlas francês, uma máquina de escrever Smith-Corona portátil, um relógio de bolso, de ouro. Nada mais.


Minha mãe vivia na tristeza. Saudades do sobrado. Eu não tinha um passado de riqueza para comparar com o presente de pobreza. Por isso era feliz na pobreza. Acho que foi a sua memória do sobrado que fez com que ela nunca reconhecesse a casa onde morávamos como a sua casa. Quando ela dizia “lá em casa” era ao sobrado que ela estava se referindo. Ela vivia com saudades do sobrado. Daí a sua depressão.

Os deprimidos querem dormir. No sono não há tristeza. Minha mãe ia cedo para a cama. Se pudesse dormiria sempre. Mas eu e o Ivan, meu irmão, estávamos alegres. Não queríamos dormir. Íamos para a cozinha para um “concerto” de leitura: a Astolfina nos lia, soletrando, as Histórias do arco da velha. O suspense era máximo e nos arrepiávamos de terror quando ela lia que o herói, dentro de um quarto, ouvia uma voz lúgubre que dizia: “Eu caio, eu caio...”. Ao que ele, sem se perturbar, respondia: “Pois caia com Deus...”. E uma perna caía. E ia assim, a cada “eu caio, eu caio”, caíam braços, mãos, pernas, pés, cabeça, até que o corpo inteiro estava deitado no chão. Íamos para a cama com medo de que pernas nos caíssem na cabeça.

Na cama ouvíamos o relógio da matriz tocar oito badaladas. Eu ainda vivia o tempo da roça. Valia que já o sol se pusera, a noite chegara e as galinhas estavam dormindo nos poleiros. Noite profunda, a cidade adormecida, todos nas suas camas, as ruas vazias, os monstros da noite correndo soltos pela cidade, tal como acontecia na roça.

A Tofa fazia bonecas de pano para mim. Eu gostava de brincar com bonecas. Mais tarde os homens me disseram que era vergonhoso para um menino brincar com bonecas: “Quem brinca com boneca são as meninas”. Troquei então as bonecas por um ursinho. Com ursinhos os meninos podem brincar. Não é vergonhoso.
Rubem Alves, "O Velho que Acordou Menino"

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Cecília Meireles

Para o seu bem

Ela sugeriu que, para o bem dele, se afastassem um pouco, dessem um tempo. Achava que ele estava apaixonado demais, o que poderia afetar sua saúde. “Um tempo? Quanto? Uma semana?”, ele perguntou, e ela disse: “Vamos ver.” Sairia para uma viagem e, quando retornasse, se ele tivesse conseguido domar sua paixão, reduzindo-a pelo menos à metade, retomariam o caminho do amor, “em bases mais civilizadas”.

Ela se foi. Ele ficou quatro anos sem saber onde e como ela estava, sem poder lhe enviar ou receber mensagens. Para o bem dele, naturalmente, como ela dissera.

Quando ela voltou, ele estava vivendo fazia quase um ano com uma garota meio bobinha (talvez até mais do que ele), que se arrastava pachorrentamente pela casa, carregando no ventre um bebê. No momento em que reviu a amada, ele se esqueceu da garota e do filho e lançou-se nos braços dela.

“Parece que você não mudou nada”, ela disse, contrariada, e ele se desculpou, atribuindo esse ímpeto ao longo tempo de ausência. Falou-lhe da sua nova situação, e ela, para espanto dele, achou muito conveniente o que acontecera enquanto estivera fora. Julgava-o agora mais preparado para encarar com equilíbrio uma relação amorosa.

Não foi assim. Ele se abrasou de novo e, seguindo-a em todos os lugares para os quais ela ia (ela era agora gerente nacional de vendas de uma empresa de cosméticos), abandonou a mulher e o filho que ia nascer.

Quando, dois meses depois, sua doce amada conseguiu o posto de diretora na sede mundial da empresa, na Suíça, ele quis acompanhá-la, fosse como fosse, mas ela o convenceu de que seria melhor que ele voltasse para casa. Para o bem dele.

Na volta, ele encontrou a garota ainda mais bobinha, mais gorda e pachorrenta, e sua primeira providência foi começar a procurar um emprego, porque o anterior, como tantas outras coisas, ele perdera no furacão amoroso que varrera sua vida.

O procurador de Judéia

L. Aelio Lâmia, natural da Itália e filho de pais ilustres, não deixara ainda de usar a pretexta quando foi estudar filosofia nas escolas de Atenas. Depois fixou-se em Roma e, na sua casa de Esquilies, passou a levar uma vida de prazer na companhia de um grupo de jovens debochados. Acusado, porém, de manter relações criminosas com Lépida, mulher de Suplício Quirino, uma alta personagem consular, e reconhecido culpado, Tibério César exilou-o. Ia fazer nessa altura 24 anos. Durante os dezoito que durou o seu exílio, percorreu a Síria, a Palestina, a Capadócia, a Arménia, fez demoradas estadias em Antióquia, em Cesaréia, em Jerusalém. Quando, após a morte de Tibério, Caio subiu ao trono imperial, Lâmia conseguiu autorização para regressar a Roma. Recuperou mesmo uma parte dos seus bens. A desgraça tornara-o sensato.

Evitou as relações com mulheres de condição livre, não procurou obter cargos públicos, manteve-se alheio às honras e viveu retirado na sua casa de Esquilino. Passando ao papel tudo quanto vira de notável nas suas remotas viagens, transformava, segundo ele próprio dizia, as penas passadas no divertimento das horas presentes. E, enquanto se entregava a estes pacíficos trabalhos, ao mesmo tempo que ia meditando longamente acerca dos livros de Epicuro, viu com surpresa e desgosto aproximar-se a velhice. Aos sessenta e dois anos, atormentado por um incómodo resfriado, foi tomar as águas de Baies. Esta praia, outrora tão do agrado dos anciãos, era então muito frequentada pelos romanos ricos e ávidos de prazer. Havia uma semana que Lâmia vivia só e sem nenhum amigo entre essa brilhante multidão, quando, certo dia, depois de jantar sentindo-se bem disposto, deu lhe na cabeça subir as colinas que cobertas de pâmpanos semelhantes a bacantes, olham lá do alto as vagas.


Tendo chegado ao cimo, sentou-se à beira de um carreiro, debaixo de um terebinto e espraiou o olhar pela bela paisagem. A sua esquerda estendiam-se, lívidos e nus, os campos Flégreos, até as ruínas de Cumos. A sua direita, o cabo Miseno espetava o agudo esporão no mar Tirreno. A seus pés, para ocidente, a rica Baies, acompanhando a graciosa curva da praia, ostentava os seus jardins, as suas vilas povoadas de estátuas, os seus pórticos, os seus terraços de mármore, a beira do mar azul onde brincavam golfinhos. Em frente, do outro lado do golfo, na costa da Campânia, dourada pelo sol já em declínio, brilhavam ao longe os templos, coroados pelos loureiros de Pausílipo, e muito ao fundo do horizonte fumegava o Vesúvio.

Lamia tirou de uma dobra da sua toga um rolo contendo o Tratado acerca da natureza, estendeu-se no chão e começou a ler. Mas os gritos de um escravo intimaram-no a levantar-se para dar passagem a uma liteira que trepava o estreito carreiro entre as vinhas. Aproximando-se da liteira toda coberta, Lamia viu, estendido nas almofadas, um velho muito corpulento que de testa apoiada na mão, fitava em volta um olhar orgulhoso e sombrio. O seu nariz aquilino descaía para cima dos lábios que esmagavam um queixo proeminente e as poderosas maxilas.

Lâmia teve a impressão de que conhecia aquela cara. Hesitou, porém, um momento no nome da personagem. Depois, subitamente, lançou-se para a liteira num impulso de surpresa e de alegria.

– Pôncio Pilatos! – exclamou ele. – Graças aos deuses, tenho a sorte de voltar a ver-te.

O velho, fazendo sinal aos escravos para se deterem, fixou com um olhar atento o homem que o cumprimentava.

– Pôncio, meu caro anfitrião – prosseguiu aquele – os vinte anos que passaram embranqueceram-me os cabelos e cavaram-me as faces a tal ponto, que já não reconheces o teu Aelio Lâmia.

Ouvindo este nome, Pôncio Pilatos desceu da liteira com toda a pressa que lhe permitiam a idade e o porte. Abraçou duas vezes Aelio Lâmia.

– Claro que tenho o maior prazer em voltar a ver-te – declarou ele. – Recordas-me os tempos antigos, quando eu era procurador da Judeia, na província da Síria. … a primeira vez que estou contigo desde há trinta anos. A ultima foi em Cesárea, onde arrastavas o aborrecimento do exílio.

Tive a felicidade de conseguir aliviar-te um pouco e, por amizade, Lâmia, seguiste-me até essa triste Jerusalém, onde os Judeus me encheram de amargura e desgosto. Tu foste, durante mais de dez anos, meu hospede e meu companheiro, e ambos, ao falarmos da Cidade, nos convolávamos mutuamente, tu dos teus infortúnios, eu das minhas grandezas.

Lâmia abraçou-o novamente.

– Não disseste tudo, Pôncio: esqueceste-te de que intercedeste por mim junto a Herodes Antipas e de que puseste generosamente a tua bolsa a minha disposição.

– Não falemos disso – retorquiu Pôncio – uma vez que mal regressaste a Roma, me remeteste por um dos teus escravos libertos o dinheiro suficiente para me reembolsar com juros.

- Pôncio, não creio que o dinheiro possa resgatar a minha dívida para contigo. Mas diz-me os deuses tem-te sido favoráveis? Desfrutas da felicidade que mereces? Fala-me da tua família, da tua fortuna, da tua saúde.

– Retirado na Sicília, onde tenho propriedades, cultivo e vendo o trigo que produzo. A minha filha mais velha, Púncia, a quem tanto amo, depois de enviuvar, foi viver comigo e é ela quem governa a casa. Graças aos deuses, conservei o vigor do espírito; a minha memória não enfraqueceu. Mas a velhice vem sempre acompanhada de um longo cortejo de dores e de enfermidades. A gota faz-me sofrer horrivelmente. E agora mesmo encaminho-me para os campos Flégreos em busca de remédio para os meus males. Essa terra ardente, de onde, a noite, brotam chamas, exala uns acres vapores de enxofre que, segundo dizem, acalmam as dores e restituem a maleabilidade as articulações dos membros. Pelo menos é o que os médicos garantem.

– Desejo que isso te faça bem, Pôncio! Mas, apesar da gota e dos grandes sofrimentos que esta provoca, tu pareces ter a mesma idade que eu, embora contes mais dez anos. Não há dúvida de que conservaste um vigor como eu nunca tive, e sinto-me satisfeito por te encontrar tão robusto. Por que motivo, meu caro, renunciaste tão cedo aos cargos públicos? Por que razão, ao abandonares o governo da Judeia, te exilaste voluntariamente nos teus domínios da Sicília? Esclarece-me acerca do que fizeste a partir da altura em que deixei de ser testemunha dos teus atos. Preparavas-te para reprimir uma revolta dos Samaritanos quando parti para a Capadócia, onde tinha a esperança de ganhar algum dinheiro a criar cavalos e mulas. Não voltei a ver-te depois disso. Qual foi o resultado dessa expedição? Conta-me, fala. Tudo quanto te diz respeito me interessa.

Pôncio Pilatos abanou tristemente a cabeça.

– Um zelo natural – declarou ele – e a noção do dever levaram-me a desempenhar as funções públicas não apenas com diligência, mas também com amor. O ódio, porém, perseguiu-me sem tréguas. A intriga e a calunia estragaram-me a vida na melhor idade, secando os frutos que deveria produzir. Interrogas-me acerca da revolta dos Samaritanos. Senta-te aí nesse cômoro. Vou satisfazer-te a curiosidade em poucas palavras. Tenho os fatos tão presentes como se houvessem ocorrido ontem. Um plebeu muito eloquente, conforme e vulgar na Síria, convenceu os Samaritanos a reunirem-se armados no monte Gazim, que nesse país é considerado um lugar santo, e prometeu apresentar-lhes os vasos sagrados que certo herói epônimo, ou melhor, um deus tribal, chamado Moisés, aí havia escondido, nos remotos tempos de Evandro e Eneias, nosso pai. Perante esta promessa, os Samaritanos revoltaram-se. Mas eu, avisado a tempo, mandei ocupar a montanha por destacamentos de infantaria e coloquei perto alguns grupos de cavaleiros para vigiarem os arredores. Estas medidas de prudência eram urgentes. Os rebeldes cercavam já a povoação de Tirataba, situada no sopé do monte Gazim. Dispersei-os facilmente e abafei a revolta a nascença. Em seguida, a fim de castigar sem fazer muitas vítimas, mandei supliciar os chefes da sedição. Mas tu não ignoras, Lâmia, até que ponto me encontrava sujeito ao pro cônsul Vitélio que, governando a Síria, não a favor de Roma, mas sim contra Roma, entendia que as províncias do Império são como uma espécie de quintas que se dão aos tetrarcas. Os mais importantes de entre os Samaritanos vieram chorar-lhe aos pés o seu ódio contra mim. Quem os ouvisse havia de ficar a supor que nada estava mais longe dos seus propósitos do que desobedecer a Cesar. Eu era um provocador, e apenas se tinham reunido em volta de Tirataba para resistirem as minhas violências. Vitélio deu ouvidos a tais queixumes e, confiando o governo da Judeia ao seu amigo Marcelo, ordenou que me fosse justificar perante o imperador. Cheio de amargura ressentimento, fiz-me ao mar. Quando aportei as costas da Itália, Tibério, gasto pela idade e pelo cargo, morria subitamente no cabo Miseno cujo dorso se vê daqui a alongar-se por entre a bruma do crepúsculo. Pedi justiça a Caio, o seu sucessor, que era dotado de um espírito vivo e que conhecia os assuntos da Síria. Vi lá meu caro Lâmia, a que ponto a sorte se obstinava em perseguir-me. Caio conservava nessa altura junto de si, na Cidade, o judeu Agripa, seu companheiro e amigo de infância, a quem queria mais do que aos próprios olhos. Ora, Agripa protegia Vitélio porque este era inimigo de Antipas que ele perseguia com todo o seu ódio. O imperador apoiou a maneira de sentir do seu amigo asiático e recusou-se até a receber-me. Tive de suportar as consequências de uma imerecida desgraça. Engolindo as lágrimas, cheio de raiva, retirei-me para as minhas terras da Sicília, onde teria morrido de desgosto se acaso a minha meiga Pôncia não me tivesse vindo consolar. Cultivei trigo e consegui produzir as melhores espigas de toda a província. A minha vida acabou. O futuro que se pronuncie entre mim e Vitélio."

– 
Pôncio – respondeu Lâmia – estou convencido de que agiste para com os Samaritanos segundo a retidão do teu caráter e apenas no interesse de Roma. Mas não terias tu obedecido demasiado nessa altura a impetuosa coragem que sempre te arrebatou? Sabes bem que, na Judeia - embora o fato de ser mais novo do que tu me devesse espicaçar o ímpeto - muitas vezes te aconselhei brandura e clemência.

– Brandura para com os Judeus - exclamou 
Pôncio Pilatos. - Embora tenhas vivido entre eles, conheces mal esses inimigos do gênero humano.

Orgulhosos e vis ao mesmo tempo, unindo uma ignominiosa cobardia a uma invencível obstinação, eles tanto aborrecem o amor como o ódio. O meu espírito, Lâmia, nutriu-se das máximas de Augusto. Quando fui nomeado procurador da Judeia, já a majestade da paz romana envolvia a terra. Nessa altura, deixara de se ver, como no tempo das nossas discórdias civis, os pro cônsules enriquecerem a custa das províncias. Eu sabia qual era o meu dever. Procurava a todo o custo agir com sensatez e moderação. Os deuses são testemunhas disso: Obstinei-me apenas na mansuetude. Mas de que me serviram estes benévolos desígnios? Viste-me, Lâmia, quando no início do meu governo estalou a primeira revolta. Será necessário recordar-te o que então se passou? A guarnição de Cesárea tinha ido ocupar os quartéis de inverno em Jerusalém. Os legionários ostentavam nas suas insígnias as imagens de Cesar. Isto ofendeu os Hierosolimitas que não conheciam a divindade do imperador, como se, uma vez que é preciso obedecer, não fosse mais honroso estar sujeito a um deus do que a um homem. Os padres da nação vieram, ao meu tribunal, pedir-me com altiva humildade que fizesse transportar as insígnias para fora da cidade santa. Recusei-me a fazer-lhes a vontade por causa do respeito que nos deve merecer a divindade de Cesar e a majestade do Império. Então, a plebe, unindo-se aos sacerdotes, cercou o pretório de ameaçadoras suplicas. Ordenei aos soldados que, depois de ensarilharem as lanças em frente da torre Antônia, fossem como simples lictores dispersar a chibatada aquela insolente multidão. Mas, insensíveis as pancadas, os Judeus increparam-se de novo, e os mais obstinados, deitando-se no chão, esticavam o pescoço e deixavam-se flagelar até a morte. Assististe a minha humilhação, Lâmia. Por ordem de Vitélio, tive de mandar as insígnias para Cesárea. Não merecia de fato tal vexame. Perante os deuses imortais te juro que, durante o meu governo, nunca infringi nem uma vez sequer a justiça ou as leis. Mas estou velho. Os meus inimigos e os meus delatores morreram. Portanto, desaparecerei também sem me vingar. Quem poderá defender-me a memória?

Depois de soltar um gemido calou-se. Lâmia respondeu:

– Tão insensato é confiarmos demasiado no volúvel futuro como desesperarmos dele. Que importa aquilo que os homens vierem a pensar dos atos que praticamos? Só nós próprios podemos ser as testemunhas e os juízes da nossa maneira de proceder. Confia apenas, 
Pôncio Pilatos, naquilo que pensas da tua virtude pessoal. Contenta-te com a estima que tens por ti mesmo e com a dos teus amigos. Quanto ao resto, a brandura não chega para governar os povos. Essa caridade pelo género humano, que a filosofia aconselha, pouco interessa aos atos dos homens públicos.

– Deixemos isso – declarou Pôncio. – Os vapores de enxofre que se exalam dos campos Flégreos são mais intensos quando saem da terra ainda aquecidos pelos raios do sol. Tenho de me despachar. Adeus. Uma vez, porém, que encontrei um amigo, quero aproveitar essa feliz circunstância. Aelio Lâmia, concede-me o favor de vires cear amanhã a minha casa, que fica junto da praia, no extremo da cidade, para os lados do cabo Miseno. Reconhecê-la-as facilmente pelo pórtico onde se vê pintado Orfeu no meio dos tigres e dos leões encantados com os sons da sua lira.

"Até amanhã, Lâmia - disse ainda, ao subir para a liteira. – Amanhã falaremos da Judeia."

No dia seguinte, Lâmia dirigiu-se, a hora da ceia, a casa de 
Pôncio Pilatos. Só se viam dois leitos a espera dos convivas. Servida sem fausto mas decentemente, a mesa tinha em cima diversos pratos de prata nos quais estavam preparados figos com mel, tordos, ostras de Lucrino e lampreias da Sicília. Pôncio e Lâmia, enquanto comiam, iam fazendo um ao outro diversas perguntas acerca das respectivas doenças, das quais descreviam pormenorizadamente os sintomas, e permutavam a indicação dos remédios que lhes haviam receitado. Depois, congratulando-se mutuamente pelo fato de se terem encontrado em Baies, gabaram muito a beleza dessa estância e a suavidade do seu clima. Lâmia elogiou a elegância das cortesãs que se passeavam na praia, carregadas de ouro e arrastando mantas bordadas pelos bárbaros. Mas o velho procurador deplorava essa ostentação que, em troca de pedrarias falsas e de teias de aranha fabricadas pelos homens, transferia o dinheiro romano para as mãos dos povos estrangeiros, alguns até inimigos do Império. Ocuparam-se então das importantes obras em curso na região, dessa prodigiosa ponte lançada por Caio entre Putéolos e Baies e dos canais abertos por Augusto, a fim de lançar as águas do mar nos lagos de Averno e Lucrino.

– Também eu – declarou 
Pôncio suspirando – pretendi levar a cabo alguns grandiosos projetos de utilidade pública. Quando, infelizmente, me foi concedido o governo da Judeia, tracei o plano de um aqueduto com duzentos estádios de comprimento, que deveria abastecer Jerusalém de água abundante e pura. Os níveis, a capacidade dos módulos, a inclinação dos cálices de bronze aos quais se adaptavam os tubos de distribuição, tudo eu havia estudado, e de acordo com o parecer dos maquinistas, nada me faltava resolver. Estava a preparar um regulamento para o policiamento das águas, a fim de que nenhum particular pudesse ilicitamente apropriar-se delas. Os arquitetos e os operários encontravam-se contratados. Ordenei que principiassem os trabalhos. Mas, em vez de verem com satisfação começar a erguer-se esta via que, assente em tão poderosos arcos, deveria trazer, com a água, a saúde a cidade, os Hierosolimitas romperam num lamentável coro de berros. Juntando-se em tumulto, protestando contra o sacrilégio e a impiedade, agrediam os operários e dispersavam as pedras das fundações. Podes imaginar, Lâmia, uma raça de bárbaros mais imunda? No entanto, Vitélio deu-lhes razão e recebi ordem para interromper a obra.

– … um problema grave – declarou Lâmia – esse de se saber se é legítimo tornarem-se os homens felizes contra vontade.

Pôncio Pilatos prosseguiu sem o ouvir:

– Recusar um aqueduto, que loucura! Mas tudo quanto vem dos Romanos é odioso para os Judeus. Consideram-nos uns seres impuros e a nossa simples presença constitui já uma profanação. Sabes muito bem que eles não se atreviam a entrar no pretório com medo de se conspurcarem e eu tinha de exercer a magistratura pública num tribunal armado ao ar livre, nesse terraço de mármore que tantas vezes pisavas. Eles receiam-nos e desprezam-nos ao mesmo tempo. E, no entanto, não é Roma a mãe é a tutora de todos os povos que, como crianças descansam e sorriem sobre o seu venerável seio? As nossas ·guias levaram a paz e a liberdade até aos limites do universo. Considerando os vencidos como amigos, concedemos, garantimos mesmo a cada povo conquistado o uso dos seus costumes e das suas leis. Não foi somente depois de Pompeu haver submetido a Síria, outrora dilacerada por tantos reis, que esta começou a desfrutar horas de repouso e prosperidade? E, embora Roma esteja em condições de vender a troco de ouro os seus favores, roubou ela alguma vez as riquezas que enchem os templos bárbaros? Despojou porventura a deusa Máe em Pessinonte, Júpiter na Morimíne e na Cilícia, a divindade dos Judeus em Jerusalém? Antioquia, Palmira, Apaméia, tranquilas apesar dos seus tesouros, e sem recearem já os árabes do deserto, erguem templos ao gênio de Roma e a divindade de Cesar. Apenas os Judeus nos odeiam e nos desafiam. Temos de lhes arrancar a força o tributo, e recusam-se obstinadamente a prestar o serviço militar.

– Os judeus – retorquiu Lâmia – são muito agarrados aos seus antigos usos. Suspeitavam, sem razão, concordo, de que pretendias abolir a sua fé e modificares os seus costumes. Desculpa que te diga, Poncio, mas nem sempre agiste de forma a dissipar-lhes os receios. Embora sem dares por isso, tinhas prazer em espicaçar as suas inquietações, e vi-te mais de uma vez deixar transparecer diante deles o desprezo que te inspiravam as suas crenças e as suas cerimonias religiosas. Vexava-los sobretudo com a atitude de mandares guardar pelos legionários, na torre Antônia, os trajes e os ornamentos do sumo-sacerdote. … preciso reconhecer que, embora não se tenham elevado como nós a contemplação das coisas divinas, os Judeus celebram mistérios veneráveis pela sua antiguidade.

Pôncio Pilatos encolheu os ombros e declarou:

– Eles não possuem uma noção exata da natureza dos deuses. Adoram Júpiter, mas sem lhe darem nome ou figura. Nem sequer o veneram sob a forma de uma simples pedra, como alguns povos da Ásia. Nada sabem acerca de Apolo, de Netuno, de Marte, de Plutão, nem de nenhuma deusa. No entanto, creio que outrora adoraram Vênus. Ainda hoje as mulheres levam pombas aos altares para servirem de vítimas, e sabes t„o bem como eu que os comerciantes, sob os pórticos do templo, vendem aves dessas aos pares para o sacrifício. Disseram-me até que, um dia, certo louco furioso tinha derrubado esses vendilhões de oferendas com as suas gaiolas. Os padres lamentavam-se disso como se fosse um sacrilégio. Creio que este uso de sacrificar pombas foi estabelecido em honra de Vênus. Porque estás tu a rir, Lâmia?

– Ria-me – explicou o interpelado – de uma coisa engraçada de que acabo de me lembrar. Pensei que um dia o Júpiter dos Judeus poderia vir vingar-se de ti a Roma. Porque não? Tanto a Ásia como a África já nos forneceram um grande número de deuses. Vimos erguerem-se em Roma templos em honra de Isis e do uivante Anúbis. Encontramos as vezes nos becos e até nas estradas a Boa Deusa dos Sírios as costas de um burro. E não sabes tu que, durante o principado de Tibério, certo jovem cavaleiro se fez passar pelo Júpiter cornudo dos Egípcios e alcançou, graças a este disfarce, os favores de uma dama ilustre, em demasia virtuosa para recusar fosse o que fosse aos deuses. Deves recear, Poncio, que o Júpiter invisível dos Judeus desembarque algum dia em Óstia!

Frente a ideia de que fosse possível vir para Itália um deus da Judeia, um sorriso furtivo passou pelo rosto severo do procurador. Depois respondeu gravemente:

– Como poderiam os judeus impor uma lei santa aos povos estranhos quando eles próprios discordam acerca da interpretação dessa mesma lei? Divididos em vinte seitas rivais - assististe a isso, Lâmia - injuriam-se uns aos outros, puxando as barbas. Viste-os, sobre o estilibata do templo, a rasgarem, como sinal de desgosto, as suas nojentas vestes em torno de qualquer miserável possesso de delírio profético. Eles não admitem que se possa discutir em paz, com serenidade, acerca das coisas divinas que, no entanto, se encontram tão veladas e cheias de incerteza. A natureza dos imortais permanece oculta aos nossos olhos e não nos é possível desvenda-la. Continuo, no entanto, a pensar que convém acreditar na Providência dos deuses. Mas os Judeus não têm nenhuma filosofia e não admitem a diversidade de opiniões. Pelo contrário, julgam dignos do suplício todos aqueles que professam a respeito da divindade sentimentos opostos a sua fé. E como, apos o gênio de Roma os ter submetido, todas as sentenças a pena capital pronunciadas pelos tribunais só podem ter execução depois de sancionadas pelo pro-cônsul ou pelo procurador, eles fazem pressão sobre o magistrado romano para que confirme as suas funestas decisões; cercam o pretório com os seus gritos de morte. Vi-os mais de cem vezes, ricos e pobres, agrupados em grande número, todos reconciliados, a volta da minha cadeira de marfim, a puxarem-me pela toga, pelas correias das sandálias, a reclamarem, a exigirem a morte de um infeliz qualquer cujo crime eu não podia compreender e que considerava tão louco como os seus acusadores. Que digo eu, cem vezes! Isso sucedia todos os dias, a todas as horas. E, no entanto, a minha obrigação era fazer executar a sua lei da mesma forma que a nossa, uma vez que Roma me nomeara para ser, não o destruidor, mas sim o sustentáculo dos seus costumes, e que eu representava para eles o chicote e o machado. Nos primeiros tempos, procurei chama-los a razão; tentei salvar do suplício as suas miseráveis vítimas. Mas esta mansuetude ainda os irritava mais; reclamavam a presa batendo em torno de mim com as asas e os bicos, como se fossem abutres. Os sacerdotes escreviam a Cesar acusando-me de violar as suas leis; e tais suplicas apoiadas por Vitélio, faziam-me incorrer nas mais severas censuras. Quantas vezes me deu vontade de, conforme dizem os Gregos, os mandar todos aos corvos, tanto acusados, como juízes! Mas não fiques a supor, Lâmia, que alimento ódios recalcados e raivas senis contra esse povo que, vencendo-me a mim, venceu Roma e a paz. Sendo impossível governa-los, impõe-se destrui-los. Não duvides disso: sempre rebeldes, chocando a revolta nas suas almas ardentes, farão estalar contra nós mais dia menos dia um furor tal, que, comparadas com ele, a cólera dos Nômidas e as ameaças dos Partas não passarão de simples caprichos de crianças. Nutrem na sombra esperanças insensatas e obceca-os a ideia de nos arruinarem. E poderiam passar-se as coisas de outra forma, uma vez que aguardam, confiantes na previsão de certo oraculo, a vinda de um príncipe do seu sangue que está destinado a reinar sobre o mundo? Nunca conseguiremos dominar esse povo. Temos de acabar com ele. É preciso destruir Jerusalém de alto a baixo. Apesar de ser velho, talvez me seja concedida a ventura de ver o dia em que as suas muralhas caiam, em que as chamas devorem as suas casas, em que os seus habitantes morram passados a fio de espada, em que se espalhará sal no sítio onde se ergueu o seu templo. Nesse dia, ficarei justificado.

Lâmia tentou encaminhar a conversa para um tom mais ameno.

– Pôncio – disse ele – compreendo bem os teus antigos ressentimentos e as tuas sinistras previsões. Não há dúvida de que a experiência que possuis acerca do caráter dos judeus não lhes é favorável. Mas eu, que vivia em Jerusalém como simples curioso e me misturava com o povo, consegui descobrir nesses homens certas virtudes ocultas, que não podias ver. Conheci alguns judeus muito amáveis, e tanto os seus costumes como a sua lealdade me faziam recordar aquilo que os nossos poetas diziam do velho legislador espartano. E tu próprio, Pôncio, viste morrer sob os golpes de bastão dos teus legionários muitos homens inocentes que, sem dizerem sequer como se chamavam, pereciam por uma causa que supunham justa. Esses não merecem o nosso desprezo. Digo isto porque é conveniente não perdermos nunca de vista, seja a respeito do que for, o equilíbrio e o espírito de justiça. Mas confesso que nunca tive grande simpatia pelos judeus. As judias, pelo contrário, agradavam-me muito. Eu, nesse tempo, era novo, e as sírias provocavam-me uma estranha perturbação nos sentidos. Os seus lábios vermelhos, as suas pupilas húmidas que brilhavam na sombra, os seus prolongados olhares penetravam-me até a medula. Pintadas e ungidas, cheiravam a nardo e a mirra, e a sua carne macerada de aromas tinha um estranho e delicioso sabor.

Pôncio escutava estes louvores com impaciência.

– Eu não era homem que me deixasse apanhar na rede das judias – declarou ele - e, já que me obrigas a isso, Lâmia, confesso-te que nunca aproveitei a tua incontinência. E se não censurei mais outrora o fato de haveres seduzido, em Roma, a mulher de um cônsul, foi atendendo a que então expiavas duramente o teu crime. O matrimônio, entre os patrícios, é sagrado; trata-se de uma das instituições em que Roma assenta. Quanto as mulheres escravas ou estrangeiras, pouca importância teriam as nossas relações com elas, se não fosse o caso de o corpo se habituar a uma vergonhosa moleza. Desculpa dizer-te que sacrificaste demasiado a Vênus das encruzilhadas; mas aquilo que mais te censuro, Lâmia, é o não te teres casado segundo a lei e não haveres dado filhos a Rep˙blica, conforme devem fazer todos os bons cidadãos.

Mas o exilado de Tibério já não escutava o velho magistrado. Depois de esvaziar a sua taça de Falerno, ficara a sorrir para qualquer imagem invisível.

Após um instante de silêncio, prosseguiu baixinho, erguendo pouco a pouco o tom:

- Dançam com tal languidez as mulheres da Síria! Conheci uma judia de Jerusalém que, em certa alfurja, a luz de uma pequena lamparina fumarenta, em cima de um tapete velho, bailava erguendo os braços para fazer ressoar os címbalos. Com os rins arqueados e a cabeça deitada para trás, como se fosse arrastada pelo peso dos seus compridos cabelos ruivos, mostrando os olhos húmidos de volúpia, ardente e languida, flexível, teria feito empalidecer de inveja a própria Cleópatra. Eu gostava das suas danças bárbaras, da sua maneira de cantar um pouco rouca e no entanto tão suave, do seu cheiro a incenso, do torpor em que parecia viver. Seguia-a para toda a parte. Misturava-me ao mundo vil dos soldados, dos histriões e dos publicanos de que estava sempre rodeada. Ela desapareceu um dia, e não voltei a vê-la. Procurei-a durante muito tempo pelas ruas suspeitas e nas tabernas. Era mais difícil desabituarmo-nos dela do que do vinho grego. Depois de a ter perdido há muitos meses, vim a saber por acaso que se reunira a um pequeno grupo de homens e de mulheres que seguiam um jovem taumaturgo galileu chamado Jesus, natural de Nazaré, e que foi crucificado por um crime qualquer. Poncio, lembras-te desse homem?

Pôncio Pilatos franziu os sobrolhos e levou a mão a testa, como quem procura recordar-se. Depois de alguns momentos de silêncio, murmurou:

– Jesus! Jesus de Nazaré? Não me recordo.
Anatole France

quinta-feira, outubro 22

Livro sempre à mão

 


Não há sombra no espelho

Não é a primeira vez que escrevo meu nome, Renato Valenzuela, e o vejo como se fosse de outra pessoa, de alguém distante com quem perdi contato faz tempo. Em outras ocasiões, diante do espelho, quando acabo de me barbear, vejo um rosto que mal reconheço, como se fosse o esboço ou a caricatura de outro rosto, com que estou mais ou menos acostumado. Então acho que esse olhar não é o meu, que essas pupilas de rancor não me dizem respeito, que essas rugas pertencem a outra máscara, que esses fiordes de calvície não correspondem à minha geografia capilar. É verdade que tais divagações costumam ser momentâneas, metamorfoses que duram o tempo de um suspiro, mas sempre me deixam instável, desassossegado, indefeso. É por isso, Renato Valenzuela, que talvez tenha chegado a hora de acertar as nossas contas. Com o tempo, com o passado, com as feridas, com as promessas, contigo/comigo. Todas.

Não vamos cair na vulgaridade de atribuir tudo que há de ultrajante à vaga infância. Lá ficou ela, atrás da neblina. Minhas lembranças se deixam ver através de um vidro esmerilhado chamado memória. Eu te vejo nu no campo, sob uma chuva que não discriminava, os magros braços para o alto, usufruindo dessa felicidade inaugural, que por certo não se repetiria, ao menos com essa intensidade.

Eu te vejo criança, espantado diante do estranho espetáculo do peãozinho que fornicava (você achava que brincava) com alguma ovelha, passiva e inerte, decerto ausente daquela violação não regulamentar. Sua adolescência foi um sonho. Você sonhava incansavelmente, e quando afinal eu acordava, você continuava sonhando. Com bosques, com ondas, com seios, com sóis, com fomes, com mãos, com coxas. Seus sonhos eram de desejo, e minhas vigílias, de censura.

Volta e meia aparece algum sábio da arraia-miúda para garantir que o espelho é sempre honesto. Honesto porra nenhuma. O espelho é um farsante, um traidor, um pilantra. Esse Renato Valenzuela que aí está, olhando-me com sarcasmo, pálido de tanta insônia, é um frágil arremedo de mim mesmo, um fac-símile sem sangue, uma coisa. Onde está, por exemplo, a palpitação das minhas têmporas, o coração transbordante de conquistas e fracassos, as mãos que não são garras, mas provedoras de carícias?

A imagem do espelho é o que eu não quis ser: um fantoche gasto convocando a morte. Por esses falsos olhos circulam escombros de desejos, que já não consigo sequer vislumbrar, que dirá rememorar. Esse Renato Valenzuela é um epílogo do Renato Valenzuela que digo ser. Que sou. Ou não? Ou será, então, este eu de carne e osso o pobre duplo do que se move nesse espelho? Disse o poeta: “O mar como um vasto cristal azougado/ reflete a lâmina de um céu de zinco.” Esse Renato de cristal azougado refletirá o nada do meu céu de zinco? Ou estará mais próximo do que se diz na estrofe seguinte: “O sol como um vidro redondo e opaco/ com passo de doente caminha para o zênite”?

Onde está, nessa cópia servil que é o espelho, aquele rapaz que seduziu Irene, ou melhor, que foi seduzido por Irene, o que tremeu como uma vara quando ela o enlaçou com seus braços de enigma? Onde ficou aquele que beijou e tornou a beijar seu corpo indescritível, mergulhou cândido nele, feliz sem perceber, tonto de amor?


Não há sombra no espelho. A sombra é dos corpos, não das imagens. Meu filho Braulio tem seis anos de sombra. Nunca o ponho diante do espelho, para que não a perca. Irene, em compensação, não tem mais imagem. Nem sombra. O horror a levou. Há finais de paz, de dor, de inércia, também de horror. O dela foi de horror. Contudo, nos olhos do espelho não está sua morte. Nos olhos de mim mesmo está, sim. É impossível desalojá-la, omiti-la, extraviá-la.

Meu filho me olha com os olhos de Irene. Um rio de tristeza circula por minhas veias, mas me esqueci de chorar. Com meus olhos e com os do espelho. Não trago o Braulio para o espelho para que não se gaste, para que não comece, tão criança, a envelhecer, para que continue a olhar com os olhos de Irene.

Devo esclarecer que tudo isso pertence ao passado. Um passado recente, mas passado. Reconheço que hoje tive uma surpresa. Como todas as manhãs, encarei o espelho e falei com ele. Falei muito. Acho que até gritei com ele. De repente percebi que a boca do espelho permanecia fechada. Tornei a falar, o insultei. E nada. Seus lábios não se moveram. Curiosamente, seu olhar era de retrocesso.
.
Então me senti tomado por um estranho contentamento, um esboço de felicidade.
E não era para menos. Pela primeira vez eu o deixava mudo. Pela primeira vez o derrotara. Inapelavelmente.
Mario Benedetti, “Correio do tempo“

Faz de conta

Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde cintilante de olhos que veem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz de conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranquilidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando.
Clarice Lispector, "Todos as crônicas"

Poema para iludir a vida

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.

O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.

Fernando Namora, “Mar de Sargaços”

Crocodilo

Numa noite de outono, fazia um calor úmido e eu fui a uma cidade que me era quase desconhecida; a pouca luz das ruas estava atenuada pela umidade e por algumas folhas das arvores. Entrei num café que ficava perto de uma igreja, sentei-me numa mesa do fundo e fiquei pensando na vida. Eu sabia isolar as horas de felicidade e encerrar-me nelas; primeiro roubava com os olhos qualquer coisa descuidada da rua ou do interior das casas e depois a levava para minha solidão. Tinha tanto prazer em olha-la que se as pessoas soubessem teriam me odiado. Talvez não me restasse muito tempo de felicidade. Antes eu havia passado por aquelas cidades dando concertos de piano; as horas de felicidade foram escassas, pois eu vivia na angustia de reunir pessoas que quisessem aprovar a realização de um concerto; tinha de coordena-las, influencia-las e tratar de encontrar algum homem que fosse ativo. Quase sempre isso era como lutar com bêbados lentos e distraídos: quando conseguia trazer um, o outro me escapava. Além disso, eu tinha de estudar e escrever artigos nos jornais.

Fazia algum tempo que eu já não tinha essa preocupação: consegui entrar numa grande firma de meias para mulheres. Havia pensado que as meias eram mais necessárias que os concertos, e que seria mais fácil coloca-las. Um amigo meu disse ao gerente que eu tinha muitas relações femininas, porque era concertista de piano e percorrera muitas cidades: logo, poderia aproveitar a influencia dos concertos para vender meias.

O gerente torceu o nariz; mas aceitou, não só pela influência do meu amigo, mas também porque eu havia tirado o segundo prêmio no texto de propaganda para essas meias. Sua marca era Ilusão. E minha frase tinha sido: “Quem não acaricia, hoje, uma meia Ilusão?”. Mas vender meias acabava se mostrando também muito difícil para mim, e eu esperava que de um momento a outro me chamassem da matriz e me suspendessem as diárias. A principio eu fiz um grande esforço. (A venda de meias não tinha nada a ver com meus concertos: e eu tinha de me entender com ninguém menos que os comerciantes.) Quando encontrava velhos conhecidos, dizia-lhes que a representação de uma grande casa comercial me permitia viajar com independência e não obrigava meus amigos a patrocinar concertos quando não fossem oportunos. Meus concertos jamais foram oportunos. Nessa mesma cidade me apresentaram pretextos pouco comuns: o presidente do Clube estava de mau humor porque eu o havia feito levantar-se da mesa de jogo, e me disse que uma pessoa que tinha muitos parentes morrera e que metade da cidade estava de luto. Então eu lhe dizia: ficarei uns dias para ver se surge naturalmente o desejo de um concerto; mas lhes provocava má impressão o fato de que um concertista vendesse meias. E quanto a colocar meias, toda manhã eu me animava e toda noite desanimava: era como me vestir e me despir. Custava- me renovar a cada instante certa força grosseira necessária para insistir junto a comerciantes sempre apressados. Mas agora já havia me resignado a esperar que me despedissem e tratava de aproveitar enquanto duravam as diárias.

De repente reparei que entrara no café um cego com uma harpa; eu o havia visto de tarde. Decidi ir embora antes de perder a vontade de aproveitar a vida; mas ao passar perto dele tornei a vê-lo com um chapéu de abas mal dobradas e os olhos rodopiando na direção do céu, enquanto fazia esforço para tocar; algumas cordas da harpa tinham sido remendadas, e a madeira clara do instrumento e todo o homem estavam cobertos por uma gordura que eu nunca tinha visto. Pensei em mim e fiquei deprimido.

Quando acendi a luz no meu quarto do hotel, vi minha cama daqueles dias. Estava descoberta. e as varinhas niqueladas me faziam pensar numa jovem doida que se entregasse a qualquer um. Depois de deitado apaguei a luz, mas não conseguia dormir. Torne: a acende-la e a lâmpada surgiu debaixo da cúpula como o globo de um olho sob uma pálpebra escura. Apaguei-a em seguida e quis pensar no negocio das meias, mas por um momenta continuei vendo, no escuro, a cúpula. Tudo isso aconteceu no tempo que um mata-borrão levaria para absorver a tinta derramada.

No outro dia de manha, depois de me vestir e me reanimar, fui ver se o trem da noite tinha me trazido más noticias. Não recebi carta nem telegrama. Decidi percorrer o comercio de uma das principais ruas. Na ponta dessa rua havia uma loja. Ao entrar, me vi num cômodo repleto de trapos e bagatelas até o teto. Só havia um manequim, nu, de tecido vermelho, que tinha uma maçaneta preta no lugar da cabeça. Bati palmas e todos os trapos logo absorveram o ruído. Atrás do manequim apareceu uma menina de uns dez anos que me disse, com maus modos:

– O que quer?

– O dono está?

– Não tem dono. Quem manda aqui e mamãe.

– Ela não está?

– Foi na dona Vicenta e volta logo.

Apareceu um menino de uns três anos. Agarrou-se na saia da irmã e por um momento ficaram em fila o manequim, a menina e o menino. Eu disse:

– Vou esperar.

A menina não respondeu nada. Sentei-me num caixote e comecei a brincar com o irmãozinho. Lembrei que tinha um chocolatinho dos que havia comprado no cinema e o tirei do bolso. O garotinho aproximou-se rapidamente e o tomou de mim. Então pus as mãos no rosto e fingi chorar aos soluços. Tinha tapado os olhos: abri pequenas frestas no escuro que havia no oco de minhas mãos e comecei a olhar para o menino. Ele me observava imóvel e eu chorava cada vez mais alto. Por fim ele se decidiu a por o chocolatinho no meu joelho. Então ri e o devolvi a ele. Mas ao mesmo tempo me dei conta de que eu estava com a cara molhada.

Saí de lá antes que a dona chegasse. Ao passar por uma joalheria me olhei num espelho; meus olhos estavam secos. Depois de almoçar estive no café; mas vi o cego da harpa com os olhos revirando para cima e sai em seguida. Então fui a uma praça solitária num lugar despovoado e me sentei num banco em frente a um muro com uma trepadeira. Ali pensei nas lágrimas da manha. Estava intrigado com o fato de que houvessem saído de mim; e quis estar só, como se me escondesse para fazer andar um brinquedo que, sem querer, tinha feito funcionar poucas horas antes. Tinha um pouco de vergonha, perante mim mesmo, de ter me posto a chorar sem pretexto, embora fosse de brincadeira, como havia feito de manha. Franzi o nariz e os olhos, com um pouco de timidez, para ver se me saiam as lágrimas: mas depois pensei que não deveria buscar o pranto como quem torce um pano de chão, teria de me entregar ao fato com mais sinceridade; então pus as mãos na cara. Aquela atitude teve algo de serio; me comovi inesperadamente, senti certa pena de mim mesmo e as lágrimas começaram a sair.

Fazia um tempo que eu estava chorando quando vi que de cima do muro vinham descendo duas pernas de mulher com meias Ilusão semi-brilhantes. E em seguida notei uma saia verde que se confundia com a trepadeira. Eu não tinha ouvido a escada ser colocada. A mulher estava no último degrau e eu enxuguei rapidamente as lágrimas, mas tornei a por a cabeça baixa, como se estivesse pensativo. A mulher aproximou-se com lentidão e sentou-se do meu lado. Ela tinha descido dando-me as costas e eu não sabia como era sua cara. Por fim me disse:

– O que você tem? Sou uma pessoa em quem você pode confiar...

Transcorreram alguns instantes. Franzi o cenho como que para me esconder e continuar esperando. Nunca havia feito esse gesto e minhas sobrancelhas tremiam. Depois fiz um movimento com a mão como que para começar a falar e ainda não me ocorrera nada que pudesse lhe dizer. Ela tomou de novo a palavra:
– Fale, simplesmente fale. Eu tive filhos e sei o que e penar.

Eu já havia imaginado um rosto para aquela mulher e aquela saia verde. Mas quando disse isso dos filhos e dos sofrimentos, imaginei-a outra. E ao mesmo tempo eu disse:

– A senhora precisa pensar um pouco.

Ela respondeu:

– Nesses assuntos, quanto mais se pensa, pior.

Imediatamente senti cair perto de mim um pano molhado.

Mas na verdade era uma grande folha de plátano carregada de umidade. Em pouco tempo ela voltou a perguntar:

– Diga-me a verdade, como ela é?

A principio achei graça. Depois me veio a lembrança uma namorada que eu tive. Quando eu não queria acompanha-la para caminhar pela beira de um riacho - onde ela havia passeado com o pai quando ele era vivo –, essa minha namorada chorava silenciosamente. Então, embora eu me chateasse em ter que ir sempre para o mesmo lado, condescendia. E pensando nisso me ocorreu dizer à mulher, que agora estava do meu lado:

– Ela era uma mulher que costumava chorar.

A mulher pôs as mãos grandes e meio avermelhadas sobre a saia verde e riu, enquanto me dizia:

– Vocês sempre acreditam nas lágrimas das mulheres.

Pensei nas minhas; senti-me um pouco desconcertado, levantei-me do banco e disse:

– Acho que a senhora está enganada. Mas da mesma forma agradeço seu consolo.
E fui embora sem olhar para ela.

No outro dia, quando a manhã já ia bastante adiantada, entrei numa das lojas mais importantes. O dono estendeu minhas meias no balcão e ficou acariciando-as com seus dedos quadrados um bom tempo. Parecia não ouvir as minhas palavras. Tinha as suíças encanecidas como se tivesse esquecido nelas o creme de barbear.

Nesse instante entraram varias mulheres; e ele, antes de ir, fez que não compraria, com um dos dedos que tinham acariciado as meias. Eu fiquei quieto e pensei em insistir; talvez pudesse me entender com ele, mais tarde, quando não houvesse gente: então lhe falaria de uma erva que, dissolvida n’água lhe tingiria as suíças. As pessoas não iam embora e eu tinha uma impaciência que não era costumeira: queria sair daquela loja, daquela cidade e daquela vida. Pensei em meu pais e em muitas coisas mais. E de repente, quando já estava me tranquilizando, tive uma ideia: “O que aconteceria se eu começasse a chorar aqui, diante dessa gente toda?”. Aquilo me pareceu muito violento; mas eu sentia o desejo, desde algum tempo, de tatear o mundo com algum fato não costumeiro; além disso, eu devia demonstrar para mim mesmo que era capaz de uma grande violência. E antes de me arrepender, sentei-me numa cadeira que estava recostada no balcão; e, rodeado de gente, pus as mãos na cara, e comecei a fazer barulho de soluços. Quase simultaneamente uma mulher deu um grito e disse: “Um homem esta chorando”. E depois ouvi o alvoroço e pedaços de conversa: “Não se aproxime, menina”... “Pode ter recebido alguma má noticia”... “O trem acabou de chegar e ele perdeu a baldeação”... “Pode ter recebido a noticia por telegrama”... Por entre os dedos vi uma gorda que dizia: “E preciso ver como esta o mundo. Se meus filhos não viessem me ver, eu também estaria chorando”. No começo fiquei desesperado porque as lágrimas não me vinham, e até pensei que tomariam como uma trapaça e me levariam preso. Mas a angustia e a força tremenda que fiz me congestionaram e as primeiras lágrimas foram possíveis. Senti uma mão pesada pousar em meu ombro e ao ouvir a voz do dono reconheci os dedos que haviam acariciado as meias. Ele dizia:

- Mas, companheiro, um homem tem de ter mais animo...

Então me levantei como que por efeito de uma mola; tirei as duas mãos do rosto e a terceira que tinha no ombro, e disse, com a cara ainda molhada:

– Mas se me faz bem! E tenho muito animo! O que acontece e que as vezes me da isso; e como uma lembrança...

Apesar da expectativa e do silencio que fizeram para minhas palavras, ouvi que uma mulher dizia:

– Ai! Esta chorando por uma lembrança...

Depois o dono anunciou:

– Senhoras, já passou.

Eu sorria e limpava o rosto. Em seguida o amontoado de gente se desfez e apareceu uma mulher pequenina, com olhos de louca, que me disse:

– Eu conheço o senhor. Me parece que o vi em outro lugar, e que o senhor estava agitado.

Pensei que ela teria me visto num concerto, sacudindo- me num final de programa, mas calei a boca. A conversa de todas as mulheres disparou e algumas começaram a ir embora. Ficou comigo a que me conhecia. E se aproximou outra, que me disse:

– Já sei que o senhor vende meias. Por acaso, eu e algumas amigas minhas...

O dono interveio:

– Nao se preocupe. senhora. (E, dirigindo-se a mim:) Venha hoje a tarde.

– Vou embora depois do almoço. Quer duas dúzias?

– Não, fico com meia dúzia...

– A firma não vende menos de uma...

Puxei a caderneta de vendas e comecei a preencher a folha do pedido, escrevendo contra o vidro de uma porta e sem me aproximar do dono. Estava rodeado de mulheres conversando alto. Eu tinha medo que o dono se arrependesse. Por fim assinou o pedido e eu sal junto aos demais.

Rapidamente se soube que me acontecia “aquilo” que a principio era como uma lembrança. Eu chorei noutras lojas e vendi mais meias que de costume. Quando já havia chorado em varias cidades, minhas vendas eram como as de qualquer outro vendedor.

Uma vez me mandaram chamar da matriz - eu já tinha chorado por todo o norte do pais eu esperava minha vez para falar com o gerente e ouvi do cômodo contiguo o que dizia outro vendedor:

– Eu faço o que posso, mas não vou começar a chorar para comprarem!

E a voz doentia do gerente lhe respondeu:

– E preciso fazer qualquer coisa, e também chorar para eles...

O vendedor interrompeu:

– Mas de mim não saem lágrimas!

E depois de um silencio, o gerente:

– Como e quem lhe disse?

– Isso mesmo! Tem um que chora aos jorros...

A voz doentia começou a rir com esforço e fazendo intervalos de tosse. Depois ouvi murmúrios e passos se afastando.

Passado um tempo, me chamaram e me fizeram chorar diante do gerente, dos chefes de seção e de outros empregados. No começo, quando o gerente me mandou entrar e as coisas ficaram mais claras, ele ria dolorosamente e lhe brotavam lágrimas. Pediu-me, com muito bons modos, uma demonstração e assim que concordei, entraram uns empregados que estavam atrás da porta. Fez-se muito alvoroço, e me pediram que ainda não chorasse. Atrás de um biombo, ouvi dizer:

– Rápido, que um dos vendedores vai chorar.

– E por que?

– E eu vou saber?!

Eu estava sentado ao lado do gerente, no seu grande escritório; tinham chamado um dos donos, mas ele não podia ir. Os rapazes não se calavam e um havia gritado: “Pensa na mamãezinha, assim você chora mais depressa”. Então eu disse ao gerente:

– Quando eles fizerem silencio, eu choro.

Ele, com sua voz de doente, os ameaçou e, depois de alguns instantes de relativo silencio, olhei a copa de uma arvore por uma janela - estávamos no primeiro andar -, pus as mãos no rosto e tratei de chorar. Tinha certo desgosto. Sempre que eu havia chorado, os demais ignoravam meus sentimentos, mas aquelas pessoas sabiam que eu choraria e isso me inibia. Quando por fim me vieram as lágrimas, tirei uma mão do rosto para pegar o lenço e para que vissem minha cara molhada. Uns riam e outros ficavam sérios; então sacudi o rosto violentamente e todos riram. Mas em seguida fizeram silencio e começaram a rir. Eu enxugava as lágrimas enquanto a voz de doente repetia: "Muito bem, muito bem". Talvez todos estivessem decepcionados. E eu me sentia como uma garrafa vazia e suja; queria reagir, estava de mau humor e com vontade de ser mau. Então cheguei ate o gerente e disse a ele:

– Não gostaria que nenhum deles utilizasse o mesmo procedimento para a venda de meias, e desejaria que a casa reconhecesse a minha... iniciativa, e que me desse exclusividade por algum tempo.

– Volte amanha e falaremos disso.

No outro dia o secretario já havia preparado o documento e lia: “A casa se compromete a não utilizar e a fazer respeitar o sistema de propaganda que consiste em chorar...”. Aqui os dois começaram a rir e o gerente disse que aquilo não estava bem. Enquanto redigiam o documento, fui passeando ate o balcão. Atrás dele havia uma moça que falou comigo olhando para mim, e os olhos pareciam pintados por dentro.

– Então, quer dizer que o senhor chora por gosto?

– É verdade.

– Então eu sei mais do que o senhor. O senhor mesmo não sabe que sofre por alguma coisa.

A principio eu fiquei pensativo e depois disse a ela:

– Olhe: não e que eu tenha descoberto a felicidade, mas sei me entender com minha desgraça e sou quase feliz.

Enquanto ia embora - o gerente estava me chamando - ainda pude ver o olhar dela: tinha-o posto em cima de mim como se tivesse deixado uma mão no meu ombro.

Quando voltei as vendas, estava numa cidade pequena. Era um dia triste e eu não tinha vontade de chorar. Queria ficar só, no meu quarto, ouvindo a chuva e pensando que a agua me separava de todo o mundo. Eu viajava escondido atrás de uma careta de lágrimas; mas o rosto não estava cansado.

De repente senti que alguém se aproximara perguntando- me:

- O que esta acontecendo?

Então eu, como um empregado que e surpreendido sem trabalhar, quis retomar minha tarefa e, pondo as mãos no rosto, comecei a soluçar.

Naquele ano, chorei até dezembro, deixei de chorar em janeiro e parte de fevereiro, comecei a chorar de novo depois do carnaval. Esse descanso me fez bem e tornei a chorar com vontade. Nesse meio tempo, eu havia estranhado o êxito das minhas lágrimas e nascera em mim um certo orgulho de chorar. Os vendedores eram muitos mais; mas um ator que representasse algo sem aviso prévio e convencesse o publico com prantos...

Naquele novo ano eu comecei a chorar pelo oeste e cheguei a uma cidade onde meus concertos fizeram sucesso; na segunda vez que lá estive. o publico havia me recebido com uma ovação carinhosa e prolongada: eu agradecia parado junto ao piano e não me deixavam me sentar para iniciar o concerto. Com certeza agora daria, pelo menos, uma audição. Chorei ali, pela primeira vez, no hotel mais luxuoso; foi na hora do almoço e num dia radiante. Já havia comido e tomado café quando. os cotovelos na mesa, cobri o rosto com as mãos. Em poucos instantes, aproximaram-se alguns amigos que eu tinha cumprimentado; deixei-os parados algum tempo e enquanto isso, uma pobre velha - que não sei de onde havia saído - sentou-se a minha mesa, e eu a olhava através dos dedos já molhados. Ela baixava a cabeça e não dizia nada; mas tinha uma cara tão triste que dava vontade de começar a chorar...

No dia em que dei meu primeiro concerto sentia certo nervosismo que me vinha do cansaço; estava na ultima obra da primeira parte do programa e toquei um dos movimentos com demasiada velocidade; já havia tentado me deter; mas fiquei mais desajeitado e não tinha equilíbrio suficiente nem força; não me restou outro recurso senão continuar; mas minhas mãos iam ficando cansadas, eu perdia nitidez, e me dei conta de que não chegaria ao final. Então, antes de pensa-lo, já havia tirado as mãos do teclado e as tinha na cara; era a primeira vez que chorava em cena.

A principio houve murmúrios de surpresa, e não sei por que alguém tentou aplaudir; mas outros vaiaram e eu me levantei. Tapava os olhos com uma mão e com a outra tateava o piano e tratava de sair de cena. Algumas mulheres gritaram pois julgaram que eu cairia na plateia; e eu já ia passar por uma porta do cenário quando alguém me gritou la do galinheiro:

– Crocodilooooo!

Ouvi risadas; mas fui para o camarim, lavei o rosto e apareci em seguida. e com as mãos frescas terminei a primeira parte. Ao final muitas pessoas vieram me cumprimentar e comentou-se essa coisa do “crocodilo”. Eu lhes dizia:

– Acho que quem me gritou isso tem razão: na verdade eu não sei por que choro; o choro vem e não tem remédio; talvez seja tão natural para mim quanto para o crocodilo. Enfim, também não sei por que chora o crocodilo.

Uma das pessoas que haviam me apresentado tinha a cabeça alongada; e como se penteava deixando o cabelo espetado, a cabeça fazia pensar numa escova. Outro da roda o apontou e me disse:

– O amigo aqui é medico. O que diz, doutor?

Fiquei pálido. Ele me olhou com olhos de investigador policial e me perguntou:

– Diga-me uma coisa: quando e que o senhor chora mais, de dia ou de noite?

Lembrei que nunca chorava de noite porque a essa hora não vendia, e respondi:

– Choro unicamente de dia.

Não me lembro das outras perguntas. Mas por fim me aconselhou:

– Não coma came. O senhor tem uma velha intoxicação.

Dali a poucos dias deram uma festa para mim no clube principal. Aluguei um fraque com colete branco impecável e enquanto me olhava no espelho, pensava: “Não dirão que este crocodilo não tem barriga branca. Caramba! Acho que esse bicho tem uma papada como a minha. E é voraz...”.

Ao chegar a Clube encontrei pouca gente. Então percebi que havia chegado cedo demais. Vi um senhor da comissão e disse-lhe que desejava trabalhar um pouco no piano. Desse modo dissimularia o fato de ter me adiantado. Passamos por uma cortina verde e me vi numa grande sala vazia e preparada para o baile. Diante da cortina e no outro extremo da sala estava o piano. Acompanharam-me ate lá o senhor da comissão e o porteiro; enquanto abriam o piano, o senhor - que tinha sobrancelhas pretas e cabelo branco - me dizia que a festa teria muito sucesso, que o diretor do ginásio - amigo meu - faria um discurso muito bonito e que ele já o tinha escutado; procurou lembrar-se de algumas frases, mas depois decidiu que seria melhor não me dizer nada. Pus as mãos no piano e eles se foram. Enquanto tocava, pensei: “Esta noite não vou chorar... ficaria muito feio... o diretor do ginásio e capaz de desejar que eu chore para demonstrar o sucesso do discurso dele. Mas eu não vou chorar por nada deste mundo”.

Fazia tempo que via a cortina verde se mexer; e de repente saiu do meio de suas pregas uma moça alta e de cabelos soltos; fechou os olhos como que para enxergar de longe; olhava para mim e vinha em minha direção, trazendo algo na mão; atrás dela apareceu uma criada que a alcançou e começou a lhe falar de perto. Aproveitei para olhar suas pernas e notei que ela havia posto uma meia só; a cada instante, fazia movimentos que indicavam o fim da conversa; mas a criada continuava falando com ela e as duas voltavam ao assunto como a uma guloseima. Eu continuei tocando o piano e enquanto elas conversavam tive tempo de pensar: “O que será que ela quer com a meia assim?... Vai ver que não ficou boa, e sabendo que sou vendedor...? E logo agora, nesta festa!”.

Veio, por fim, e me disse:

– Com licença, senhor, gostaria que assinasse uma meia para mim.

Primeiro eu ri; e em seguida, tratei de falar com ela como se já tivessem me feito esse pedido outra vezes. Comecei a explicar que a meia e que não resistia a caneta; eu já havia solucionado isso assinando uma etiqueta que depois a interessada colava na meia. Mas enquanto dava essas explicações, demonstrava a experiência de um antigo comerciante que depois se teria feito pianista. A angustia já começava a me invadir quando ela se sentou no banco do piano e, ao vestir a meia, me dizia:

– E uma pena que o senhor tenha me saído tão mentiroso... devia ter me agradecido pela ideia.

Eu havia posto os olhos nas suas pernas; depois os tirei e minhas ideias travaram. Fez-se um silencio de mal-estar. Ela, com a cabeça inclinada, deixava escorrer o cabelo; e debaixo daquela cortina loira as mãos se moviam como se fugissem. Eu continuava calado e ela não terminava nunca. Por fim, a perna fez um movimento de dança, e no pé, em ponta, calçou o sapato na hora de se levantar, as mãos recolheram o cabelo, ela me fez um cumprimento silencioso e foi embora.
Quando começou a entrar gente, fui para o bar. Pensei em pedir uísque. 0 garçom m enumerou muitas marcas, e como eu não conhecia nenhuma, disse a ele:

– Dê-me dessa ultima.

Subi num banco do balcão e procurei não enrugar a cauda do fraque. Em vez de crocodilo, devia estar parecendo um papagaio negro. Estava calado, pensava na moça da meia, e a lembrança de suas mãos apressadas me deixava transtornado.
Senti-me levado para o salão pelo diretor do ginásio. Suspendeu-se o baile por um momento e ele fez seu discurso. Pronunciou varias vezes as palavras “avatares” e “mister”. Quando aplaudiram, levantei os bravos como um regente de orquestra antes de “atacar” e, assim que fizeram silencio, eu disse:

– Agora que devia chorar, não consigo. Também não consigo falar e não quero deixar separados por mais tempo os que hão de se juntar para dançar. - E terminei fazendo um salamaleque.

Depois de minha volta, abracei o diretor do ginásio; por cima de seu ombro via a moça da meia. Ela sorriu para mim, levantou a saia do lado esquerdo e me mostrou o lugar da meia onde havia colado um pequeno retrato meu recortado de um programa. Sorri, cheio de alegria, mas disse uma idiotice que todo mundo repetiu:

– Muito bem, muito bem, a perna do coração.

No entanto, me senti feliz e fui ao bar. Subi de novo num banco e o garçom me perguntou:

– Uísque Cavalo Branco?

E eu, com um gesto de mosqueteiro puxando a espada:

– Cavalo Branco ou Papagaio Negro.

Em pouco tempo veio um rapaz com uma mão escondida nas costas:

– Pocho me disse que o senhor não se importa que o chamem de “Crocodilo”.

– E verdade, eu gosto.

Então ele tirou a mão das costas e me mostrou uma caricatura. Era um grande crocodilo, muito parecido comigo; tinha uma pequena mão na boca, em que os dentes eram o teclado; e na outra mão trazia uma meia dependurada; com ela enxugava as lágrimas.

Quando os amigos me levaram para o hotel, eu pensava em tudo o que havia chorado naquele pais e sentia um prazer maligno em tê-los enganado; considerava-me um burguês da angustia. Mas quando fiquei só no meu quarto, me ocorreu algo inesperado: primeiro me olhei no espelho; tinha a caricatura na mão e olhava alternadamente para o crocodilo e para o meu rosto. De repente, e sem ter me proposto imitar o crocodilo, minha cara, por conta própria, se pôs a chorar. Eu a olhava como a uma irmã de quem ignorava a desgraça. Tinha rugas novas e por entre elas corriam as lágrimas. Apaguei a luz e me deitei. Minha cara continuava chorando; as lágrimas resvalavam pelo nariz e caiam pelo travesseiro.

E assim adormeci. Quando despertei. senti a ardência das lágrimas que haviam secado. Quis me levantar e lavar os olhos: mas tive medo de que a cara começasse a chorar de novo. Fiquei quieto e girava os olhos na escuridão, como aquele cego que tocava harpa.
Felisberto Hernandez

A Câmara das estátuas

Nos primeiros dias, havia no reino dos andaluzes uma cidade em que residiram seus reis e que tinha o nome de Lebtit ou Ceuta, ou Jaén. Havia um forte castelo naquela cidade, cuja porta de dois batentes não era para entrar nem mesmo para sair, mas para que a mantivessem fechada. Cada vez que um rei falecia e outro rei herdava o trono altíssimo, este acrescentava com as mãos uma fechadura nova na porta, até que foram vinte e quatro as fechaduras, uma para cada rei. Aconteceu então que um homem malvado, que não era da casa real, assenhorou-se do poder, e, em lugar de acrescentar uma fechadura, quis que as vinte e quatro anteriores fossem abertas para olhar o conteúdo daquele castelo. O vizir e os emires suplicaram-lhe que não fizesse tal coisa e esconderam dele o chaveiro de ferro e lhe disseram que acrescentar uma fechadura era mais fácil que forçar vinte e quatro, mas ele repetia com astúcia maravilhosa: “Quero examinar o conteúdo deste castelo”. Ofereceram-lhe então quantas riquezas podiam acumular em rebanhos, em ídolos cristãos, em prata e ouro, mas ele não quis desistir e abriu a porta com a mão direita (que arderá para sempre). Lá dentro os árabes estavam representados em metal e madeira, sobre seus rápidos camelos e potros, com turbantes que ondulavam sobre a espádua e alfanjes suspensos por talabartes e a lança em riste na mão direita. Todas aquelas figuras eram em relevo e projetavam sombras no chão, e um cego podia reconhecê-las mediante o simples tato, e as patas dianteiras dos cavalos não tocavam o solo e não caíam, como se tivessem empinado. Grande espanto causaram no rei aquelas primorosas figuras, e mais ainda a ordem e o silêncio perfeito que se observava nelas, porque todas olhavam para um mesmo lado, que era o poente, e não se ouvia nem uma voz nem um clarim. Era isso que havia na primeira câmara do castelo. Na segunda estava a mesa de Salomão, filho de Davi — seja para ambos a salvação! —, talhada numa única pedra esmeralda, cuja cor, como se sabe, é o verde, e cujas propriedades ocultas são indescritíveis e autênticas, porque serena as tempestades, mantém a castidade de seu portador, afugenta a disenteria e os maus espíritos, decide favoravelmente um litígio e é de grande socorro nos partos.

Na terceira acharam dois livros: um era negro e ensinava as virtudes dos metais, dos talismãs e dos dias, assim como a preparação de venenos e de contravenenos; outro era branco e não foi possível decifrar seu ensinamento, embora a escrita fosse clara. Na quarta encontraram um mapa-múndi, no qual estavam os reinos, as cidades, os mares, os castelos e os perigos, cada qual com seu nome verdadeiro e com sua precisa figura.

Na quinta encontraram um espelho em forma circular, obra de Salomão, filho de Davi — seja para ambos o perdão! —, cujo preço era alto, pois era feito de diversos metais e quem se mirasse em sua face veria os rostos de seus pais e de seus filhos, desde o primeiro Adão até os que ouvirão a Trombeta. A sexta estava cheia de elixir, do qual um único adarme bastava para mudar três mil onças de prata em três mil onças de ouro. A sétima pareceu-lhes vazia e era tão longa que o mais hábil dos arqueiros teria podido disparar uma flecha da porta sem conseguir cravá-la no fundo. Na parede final viram gravada uma inscrição terrível.

O rei examinou-a e compreendeu-a, e dizia assim: “Se alguma mão abrir a porta deste castelo, os guerreiros de carne que se parecem aos guerreiros de metal da entrada se apoderarão do reino”.

Essas coisas aconteceram no ano 89 da Hégira. Antes que chegasse a seu fim, Tárik apoderou-se daquela fortaleza e derrotou aquele rei e vendeu suas mulheres e seus filhos e desolou suas terras. Assim foram se expandindo os árabes pelo reino de Andaluzia, com suas figueiras e pradarias irrigadas nas quais não se padece de sede. Quanto aos tesouros, conta-se que Tárik, filho de Zaid, remeteu-os ao califa seu senhor, que os guardou numa pirâmide.

(Do Livro das mil e uma noites, noite 272)
Jorge Luís Borges, "História universal da infâmia"

quarta-feira, outubro 21

Leitura a dois

 


Meu reino por um pente

Filhos - diz o poeta - melhor não tê-los. Já o Professor Aníbal Machado me confiou gravemente que a vida pode ter muito sofrimento, o mundo pode não ter explicação alguma, mas, filhos, era melhor tê-los.

A conclusão parece simples, mas não era; Aníbal tinha ido às raízes da vida, e de lá arrancara a certeza imperativa de que a procriação é uma verdade animal, uma coisa que não se discute, fora de alcance do radar filosófico. “Eu não sei por que, Paulo, mas fazer filhos é o que há de mais importante”.

Engraçado é que depois dessa conversa fui descobrindo devagar a melancólica impostura daquelas palavras corrosivas do final de Memórias Póstumas: “não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Filhos, melhor tê-los, aliás, o mesmo poeta corrige antiteticamente o pessimismo daquele verso, quando pergunta: mas, se não os temos, como sabê-lo? Resumindo: filhos, melhor não tê-los, mas é de todo indispensável tê-los para sabê-lo; logo, melhor tê-los.

Você vai se rir de mim ao saber que comecei a crônica desse jeito depois de procurar em vão meu bloco de papel. Pois se ria a valer: o desaparecimento de certos objetos tem o dom de conclamar, por um rápido edital, todas as brigadas neuróticas alojadas nas províncias de meu corpo.

Sobretudo instrumentos de trabalho. Vai-se-me por água a baixo o comedimento quando não acho minha caneta, meu lápis-tinta, meu papel, minha cola... Quando isso acontece (sempre) até taquicardia costumo ter; vem-me a tentação de demitir-me do emprego, de ir para uma praia deserta, de voltar para Minas Gerais, renunciar...

Ridículo? Sim, ridículo, mas nada posso fazer. Creio que seria capaz (talvez seja presunção) de aguentar com relativa indiferença uma hecatombe que destruísse de vez todos os meus pertences. O que não suporto é a repetição indefinida do desaparecimento desses objetos sem nenhum valor, mas, sem os quais, a gente não pode seguir adiante, tem de parar, tem de resolver primeiro.

Stanislaw Ponte Preta andou espalhando que eu usava ventilador para pentear os cabelos. Calúnia. Sou o maior comprador de pentes do Estado da Guanabara.

Compro-os em quantidades industriais pelo menos duas vezes por mês, de todos os tamanhos, de todas as cores. Sou quase amigo de infância do vendedor de pentes que estaciona ali na esquina de Pedro Lessa e Rua México. A princípio, pensou que eu estava substabelecendo o comércio dele, comprando para vender mais caro, mas um dia eu lhe contei minha tragédia familiar, e ele sorriu e confessou: “Lá em casa é a mesma coisa”.

Chego em casa com os meus pentes e os distribuo a mancheias. Dois para você, quatro para você - segundo o temperamento e a distração de cada um. Aviso a todos que vou colocar um no armário do quarto, um no banheiro, um em cada mesa de cabeceira, dois na minha gaveta. Terminada essa operação ostensiva, fico malicioso e furtivo; secretamente, vou escondendo outros pentes por todos os cantos e recantos, debaixo do colchão, no alto de um móvel, atrás do exemplar dos Suspiros Poéticos e Saudades. Em seguida, reúno solenemente toda a família, inclusive o Poppy, tiro do bolso um pente singular, o mais ordinário encontrável na praça, e digo: “Este é o meu pente; este ninguém usa; neste, sob pretexto algum, ninguém toca! Estão todos de acordo? Ou algum dos presentes deseja fazer alguma objeção?”

Estão todos de acordo. A sinceridade do meu clã nesses momentos é de tal qualidade que, por um dia ou dois, tenho a ilusão de que, afinal, venci, de que descobri o approach certo para a família incerta. Mas, meu São Luís de Camões, ó caminhos da vida, sempre errados! Os dias passam, o vento passa a descabelar-nos, e os meus pentes, os meus pentes também passam. Misteriosamente, inexplicavelmente, eles desaparecem, pouco a pouco, com certa malícia, um a um, dois a dois, até chegar o momento dramático no qual, depois de vasculhar todos os meus esconderijos, fico em cabelos no meio da sala e, como Ricardo III em plena batalha, exclamo patético: “Um pente, um pente, meu reino por um pente!”.

Eu não fui - diz o primeiro; - eu não fui - diz o segundo; - eu não fui - diz o terceiro. Poppy, cuja especialidade é comer meias e sapatos, não diz nada, mas abana o rabo negativamente.

Não foi ninguém, foi Mr. Nobody, foi o diabo, foi a minha sina. Minha mansão tem apenas três quartos e uma sala. Pois é inacreditável a quantidade de objetos que estão desaparecidos aqui dentro. Um dia, quando me mudar, a gente vai achar tudo.

E sorrir um para o outro com uma nostalgia imprecisa, e dizer em silêncio que, filhos, e pais, melhor tê-los.
Paulo Mendes Campos, "Elenco de cronistas modernos"

A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtam

Quando o coágulo de sangue explodiu na cabeça de Jeffrey Curtam, algo nele foi cortado, como uma mangueira ou um caule. E o seu pensamento viu-se subitamente decepado do corpo.

Sem espanto, porque a dor lancinante não teve sequer o tempo de traduzir-se em grito antes que aquela estranha guilhotina o truncasse na boca. Passado isso, nada mais havia a não ser a nova dimensão.

— O Dr. Jewett acha que não há esperança — repetia a enfermeira em voz baixa, aos eventuais visitantes. — O Sr. Curtam poderá viver indefinidamente, mas não tornará a ver. Nem se mexerá, nem pensará. Apenas respirará.

De fato, Jeffrey respirava. Os pulmões, egoisticamente alheios à situação do restante do corpo, continuavam exercendo sua tarefa com a mesma fiel regularidade com que durante tantos anos lhe haviam fornecido aquele ar indispensável para que se levantasse a cada manhã, e a cada manhã se barbeasse dando a partida para mais um dia, que haveria de catapultá-lo da mesa de refeições para a mesa de trabalho, diante da máquina de escrever e dos contos que produzia para alimentar o próprio corpo, e com ele os próprios pulmões encarregados de fornecer aquele ar indispensável para. Jeffrey teria ficado orgulhoso dos seus pulmões, se apenas se desse conta de que funcionavam, ou sequer de que os tinha. Mas, apesar do corpo de Jeffrey continuar possuindo pulmões e outros órgãos em perfeito estado de funcionamento, seu cérebro os desconhecia e comportava-se como se deles não necessitasse. Assim como não necessitava da visão ou da audição. Cortadas as ligações que o haviam ancorado ao resto do corpo, o cérebro de Jeffrey Curtam não dava mais ordens. E os médicos, enganados pelo silêncio dessa voz de comando, haviam decretado sua morte, entretanto, emparedado na caixa craniana cujos orifícios a ruptura havia vedado com sangue espesso como chumbo, o cérebro pensava.

Talvez fosse mais correto dizer que luzia. Pois nada do que havia vivido até então se assemelhava à luz límpida e pura por ele agora gerada na óssea escuridão da sua caverna. Jeffrey Curtam havia-se livrado para sempre da escravidão da coerência. Sua mente, solta, tudo se permitia, tudo realizava.

Aos poucos, a camada de pintura branca que cobria a casa de Jeffrey entrou em entendimento definitivo com o sol e com a chuva, fundindo sua obediência a ambos numa única tonalidade cinzenta, que somente sob as calhas permitia-se escurecer. Começou a descascar. Enormes escamas quebradiças abriam-se feito conchas na velha superfície, entregando a madeira ao tempo, sem que pérola rolasse.

Crescia a grama ao redor, manchada aqui e acolá pelas lascas mais frágeis que em constante outono desprendiam-se das paredes e caíam volteando, enquanto na imobilidade do corpo de Jeffrey, outro movimento se processava. Vinda dos pés — ou seria da nuca? — a paralisia que já lhe havia tomado os membros rastejava por dentro, buscando alcançar-lhe o coração. Na cidadezinha, todos se referiam a ele como se já estivesse morto. E todas as manhãs, sua mulher o barbeava e lavava, mudando-o, ela mesma, da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, falando-lhe como se fala a um cão amigo, embora sem ter sequer a esperança da resposta ou reconhecimento de que um cão é capaz. Nada lhe vinha daquele corpo, além do hábito.

Mas Roxanne falava sem esforço, com a mesma doçura dos primeiros dias, evitando perguntar-se se o fazia para evitar seu próprio silêncio ou se para preencher com suas palavras o silêncio que dele parecia emanar.

Sem que ela pudesse ouvir, por trás dos cabelos ralos e quase brancos, por trás da pele apergaminhada, por trás da espessa barreira dos ossos, um silêncio cheio de sons e palavras tecia sua sinfonia no cérebro de Jeffrey. Nunca mais ele havia precisado se expressar de forma audível ou legível. Nunca mais ele havia pensado para outros. Pensando só para si, seguia o fio sinuoso e inquebrável dos seus desejos, deixando-se escorrer por ele como em água, sem saltos ou fraturas. A fabulação, que havia sido sua forma de viver, tornava-se sua vida. E ali deitado, imóvel, Jeffrey criava e costurava, uma após a outra, as imagens da longa narrativa.

Um neurologista — fama convocada para validar o que vários outros já haviam afirmado — tentou convencer Roxanne de que era inútil dispensar tamanho cuidado ao enfermo. “Se Jeffrey tivesse consciência do seu estado”, disse em voz autoritariamente piedosa, “desejaria morrer. Desejaria libertar-se da prisão do próprio corpo.

Mas Jeffrey não desejava morrer. Assim como não desejava livrar-se do próprio corpo. Esse corpo que, sem movimentos, atrofiava-se aos poucos sobre a cama, não lhe era prisão. Nem lhe fazia falta. Antes, havia sido necessário ocupar-se dele, vigiar seus alarmas, suas dores, seus sintomas, lutar diariamente para atender sua fome inesgotável, protegê-lo. Antes havia sido imperioso servi-lo, e às suas exigências. Talvez então lhe fosse mais prisão do que agora, quando, impedido o contato entre o pensamento e suas carnes, eram elas que o serviam.

De alguma forma, poderia-se dizer que Jeffrey não tinha consciência do seu estado. Mas isso, não porque estivesse impedido de percebê-lo. E sim porque, na longa travessia na qual seu pensamento estava empenhado, o fato de não falar ou mover-se parecia tão menor que se via excluído. Jamais, olhando o vivo cadáver do marido, suspeitaria Roxanne da intensa movimentação que o habitava. Sem gesto que o cansasse, Jeffrey não dormia, seu estado era um só. E nesse estado, de absoluta entrega e absoluta atenção, ele mudava de tempo e de país, dialogava com os vivos e agia com os mortos, dançava como nunca havia dançado, cavalgava, respirava no fundo da água, e voava, voava.

Longas vezes, enfastiado talvez da tanta agitação, o cérebro de Jeffrey deixava-se ficar, girando apenas ao redor de um pensamento, envolvendo-o nos fios prateados das suas ideias, aprumando-lhe as formas e o sentido, até vê-lo crescer, tão intenso como se a vida não lhe tivesse sido dada ali, mas apenas explodisse naquele momento, carga milenar que desde sempre trazia consigo. Erguiam-se então na pálida atmosfera do quarto as invisíveis torres, e os sinos badalavam ensurdecedores no cérebro de Jeffrey. Sem que seu som cortasse o ar pesado do cheiro de remédios.

Os anos haviam devorado o seguro de Jeffrey. Roxanne fora obrigada a vender uma parte da terra atrás da casa, depois a abrir mão de uma faixa de jardim à direita. Uma hipoteca tornara-se inevitável.

E no entanto, como nos primeiros dias, quando a doença se manifestara e ainda parecia possível reverter o destino, ela continuava a amar o marido. Amava, em verdade, aquele homem que havia antes, e que ela teimava em sobrepor a esta pálida coisa cada dia menor e mais leve, coisa quase humana que ainda transportava da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, como se carregasse um fardo ou um feto.

— Que mais posso eu fazer? — perguntava-se puxando de leve as cortinas, não fosse o sol bater sobre o pobre rosto que, único movimento perceptível, parecia voltar-se sempre em direção à luz.

Uma luz quente derramava-se sobre as imagens dos pensamentos de Jeffrey, naquela tarde em que, pela primeira vez depois de tanto tempo, sentiu que seu corpo o chamava. Desobstruíam-se os ouvidos, sons alheios aos seus lhe chegavam como ruído de cachoeira, ou vento, ou cantoria. As placas ósseas da sua fronte, as maçãs do seu rosto abriam-se como batentes empurrados por dentro e o sol, com intensidade nunca antes alcançada, vinha expulsá-lo da caverna.

O fio do pensamento de Jeffrey lançou-se para aquela luz.

Roxanne, que cochilava na cadeira ao pé da cama, acordou sobressaltada. Estendeu a mão para tocar o marido. Não foi preciso. Antes mesmo de olhá-lo, soube que estava sozinha na casa. Recolheu a mão ao colo, segurou-a com a outra, e deixou-se ficar. O sol se pôs. O perfume dos lilases pareceu enlouquecer as cigarras, o coaxar das rãs pairou sobre o peitoril da janela. Só então Roxanne levantou-se.
Marina Colasanti, "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século"