Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
domingo, julho 26
Uma tarde de música no convento da Conceição
No jardim do convento, Juana canta e tange o alaúde. Luz verde, troncos verdes, verde brisa: estava morto o ar até que ela o tocou com as palavras e a música.
Juana é filha do juiz Maldonado, que distribui os índios da Guatemala em lavouras, minas e oficinas. De mil ducados foi o seu dote para o casamento com Jesus, e no convento seis escravas negras a servem. Enquanto Juana canta letras próprias ou alheias, as escravas, paradas à distância, escutam e esperam.
O bispo, sentado na frente da monja, não pode conter as caretas. Olha a cabeça de Juana inclinada sobre o mastro do alaúde, o pescoço nu, a boca que se abre, iluminada, e dá a si mesmo a ordem de ficar quieto. Tem fama de jamais mudar de expressão quando dá beijos ou os pêsames, mas agora franze essa cara imutável: sua boca se torce e batem asas, rebeldes, as suas pálpebras. Seu pulso firme parece alheio a essa mão que segura, trêmula, um cálice.
As melodias, alabanças a Deus ou melancolias profanas, se elevam na folhagem. Longe, ergue-se o verde vulcão de água e o bispo gostaria de concentrar-se naquelas plantações de milho e trigo e nos mananciais que brilham na ladeira.
O vulcão tem a água presa. Quem se aproxima escuta fervores de marmita. A última vez que vomitou, faz menos de um século, afogou a cidade que Pedro de Alvarado tinha fundado aos seus pés. Aqui, a cada verão treme a terra, prometendo fúrias; e vive a cidade em pânico, entre dois vulcões que cortam a sua respiração. Este a ameaça com o dilúvio. O outro, com o inferno.
Nas costas do bispo, frente ao vulcão de água, ergue-se o vulcão de fogo. As chamas que aparecem pela boca permitem ler cartas a uma légua, em plena noite. De tempos em tempos soa um troar de canhões e o vulcão bombardeia o mundo a pedradas: dispara pedras tão grandes que não as moveriam vinte mulas e enche o céu de cinza e o ar de um enxofre que fede.
Voa a voz da moça.
O bispo olha para o chão, querendo contar formigas, mas seus olhos deslizam até os pés de Juana, que os sapatos ocultam e delatam, e o olhar percorre este corpo bem lavrado que palpita debaixo do hábito branco, enquanto a memória desperta de repente e viaja até a infância. O bispo recorda aquelas vontades que sentia, incontíveis, de morder a hóstia em plena missa, e o pânico de que a hóstia sangrasse; e depois navega por um mar de palavras não ditas e cartas não escritas e sonhos não contados.
De tanto calar, o silêncio soa. O bispo percebe de repente que faz um bom tempo que Juana deixou de cantar e tocar. O alaúde repousa sobre seus joelhos e olha para o bispo, sorrindo muito, com esses olhos que nem ela merece ter. Uma auréola verde flutua ao redor.
O bispo sofre um ataque de tosse. O anis cai no chão e suas mãos ficam com bolhas-d’água de tanto aplaudir.
– Farei de ti superiora! – geme. – Farei de ti abadessa!
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
Juana é filha do juiz Maldonado, que distribui os índios da Guatemala em lavouras, minas e oficinas. De mil ducados foi o seu dote para o casamento com Jesus, e no convento seis escravas negras a servem. Enquanto Juana canta letras próprias ou alheias, as escravas, paradas à distância, escutam e esperam.
O bispo, sentado na frente da monja, não pode conter as caretas. Olha a cabeça de Juana inclinada sobre o mastro do alaúde, o pescoço nu, a boca que se abre, iluminada, e dá a si mesmo a ordem de ficar quieto. Tem fama de jamais mudar de expressão quando dá beijos ou os pêsames, mas agora franze essa cara imutável: sua boca se torce e batem asas, rebeldes, as suas pálpebras. Seu pulso firme parece alheio a essa mão que segura, trêmula, um cálice.
As melodias, alabanças a Deus ou melancolias profanas, se elevam na folhagem. Longe, ergue-se o verde vulcão de água e o bispo gostaria de concentrar-se naquelas plantações de milho e trigo e nos mananciais que brilham na ladeira.
O vulcão tem a água presa. Quem se aproxima escuta fervores de marmita. A última vez que vomitou, faz menos de um século, afogou a cidade que Pedro de Alvarado tinha fundado aos seus pés. Aqui, a cada verão treme a terra, prometendo fúrias; e vive a cidade em pânico, entre dois vulcões que cortam a sua respiração. Este a ameaça com o dilúvio. O outro, com o inferno.
Nas costas do bispo, frente ao vulcão de água, ergue-se o vulcão de fogo. As chamas que aparecem pela boca permitem ler cartas a uma légua, em plena noite. De tempos em tempos soa um troar de canhões e o vulcão bombardeia o mundo a pedradas: dispara pedras tão grandes que não as moveriam vinte mulas e enche o céu de cinza e o ar de um enxofre que fede.
Voa a voz da moça.
O bispo olha para o chão, querendo contar formigas, mas seus olhos deslizam até os pés de Juana, que os sapatos ocultam e delatam, e o olhar percorre este corpo bem lavrado que palpita debaixo do hábito branco, enquanto a memória desperta de repente e viaja até a infância. O bispo recorda aquelas vontades que sentia, incontíveis, de morder a hóstia em plena missa, e o pânico de que a hóstia sangrasse; e depois navega por um mar de palavras não ditas e cartas não escritas e sonhos não contados.
De tanto calar, o silêncio soa. O bispo percebe de repente que faz um bom tempo que Juana deixou de cantar e tocar. O alaúde repousa sobre seus joelhos e olha para o bispo, sorrindo muito, com esses olhos que nem ela merece ter. Uma auréola verde flutua ao redor.
O bispo sofre um ataque de tosse. O anis cai no chão e suas mãos ficam com bolhas-d’água de tanto aplaudir.
– Farei de ti superiora! – geme. – Farei de ti abadessa!
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
Creio que o guarda-chuva
Creio que o guarda-chuva é uma excelente invenção. Repare: não é um objecto que acabe com a chuva, é sim algo que evita a chuva individualmente. Não gosto dela, mas não acabo com ela, não a destruo. O guarda-chuva é uma filosofia que usamos no quotidiano. A água continua a cair nos campos, apenas evito que me estrague o penteado. É um objecto bondoso, que não magoa ninguém.
Afonso Cruz, "Flores"
O amigo do demônio
— Senhor conde Lucanor — disse Patronio —, um homem que havia sido rico ficou tão pobre que não tinha o que comer. Como não há no mundo maior desgraça que o infortúnio para o que já foi ditoso, aquele homem, que de tanta prosperidade havia sucumbido a tanta desventura, estava muito triste. Um dia, em que caminhava sozinho no bosque, muito aflito e preocupado, encontrou-se com o demônio. Como este sabe tudo o que acontece, sabia por que aquele homem estava tão triste. Apesar disto, perguntou-lhe a causa de sua tristeza.
O homem indagou por que motivo falaria, já que não havia como ser ajudado. O demônio replicou que, se ele lhe rendesse obediência, iria remediá-lo. E, para que o homem visse o que poderia fazer em seu favor, disse-lhe aquilo em que vinha pensando e a razão pela qual estava triste. Então contou ao homem a sua própria história e o motivo de sua tristeza, como quem muito bem de tudo sabia.
Disse-lhe, também, que, se quisesse fazer o que lhe dissesse, o tiraria da miséria e o faria mais rico que qualquer outro de sua linhagem, porquanto era o demônio e podia mesmo realizar tais coisas.
Quando o homem o ouviu dizer que era o demônio, ficou com muito medo, mas pela aflição e penúria em que encontrava, respondeu que, se voltasse a ficar rico, faria o que o demônio quisesse.
Saiba que demônio procura o momento mais propício para nos enganar. Quando o homem está em estado de muita necessidade ou abatimento, ou muito inquieto pelo temor ou pelo desejo de algo, consegue dele tudo o que se quer. Por isto, ao ver a aflição do homem, o demônio buscou um modo de enganá-lo.
Então fizeram um pacto e o homem declarou-se vassalo do demônio. Feito isto, disse-lhe o demônio que, doravante, passasse a roubar, pois nunca encontraria porta ou casa tão bem trancadas que não lhe fossem abertas, e que, se por acaso se visse em algum perigo, ou se fosse levado à prisão, não teria mais que o chamar, dizendo: “Socorra-me, dom Martín”, para que ele viesse, imediatamente, para livrá-lo daquele perigo. Depois, separam-se.
Quando anoiteceu, o homem rumou à casa de um mercador, pois os que querem fazer o mal têm aversão à luz. Ao chegar à porta, abriu-a o demônio, que fez o mesmo com as arcas, de modo que o homem pôde assenhorar-se de uma grande quantidade de dinheiro. No dia seguinte, fez um furto muito grande, e depois outro, até que ficou tão rico que não mais se recordava da miséria que havia passado.
O infeliz, não satisfeito por sair da pobreza, continuou roubando. Tanto roubou que acabou por ser preso. E quando o prenderam, clamou por dom Martín. Dom Martín chegou muito depressa e o livrou em seguida. Ao ver o homem que dom Martín cumpria a sua palavra, voltou a roubar e tanto roubou que chegou a ser muitíssimo rico.
Num destes roubos, foi novamente preso e chamou dom Martín, que não veio tão depressa quanto ele queria. Os juízes do lugar onde ele praticara o roubo já haviam começado a fazer as suas averiguações. Quando chegou dom Martín, o homem lhe disse:
— Ah, dom Martín, quanto medo eu passei! Por que não vieste antes?
Respondeu-lhe dom Martín que estava ocupado com um assunto urgente e que por isso se atrasara. Imediatamente, tirou-o da prisão.
O homem voltou a roubar. Ao cabo de muitos roubos, foi de novo preso e, realizado pelos juízes o interrogatório, foi condenado. Prolatada a sentença, veio dom Martín e o pôs na rua. Vendo o homem que dom Martín sempre o soltava, continuou roubando. Outra vez foi preso e chamou dom Martín, mas quando este chegou, o homem já havia sido condenado à morte. Recorreu dom Martín ao indulto real e, deste modo, voltou a libertá-lo.
Continuou roubando, foi preso outra vez e chamou dom Martín, mas quando este chegou, estava o homem ao pé da forca. Ao vê-lo, disse o homem:
— Ah, dom Martim, saiba que esta não foi de brincadeira! Não sabes o medo que tive!
Dom Martín lhe disse que lhe trazia quinhentos maravedis em uma bolsa, que os desse ao juiz e que, desta maneira, ficaria livre. O juiz havia dado a ordem de que o enforcassem e já estavam procurando a corda para isto. Enquanto a procuravam, chegou o homem ao juiz e lhe deu a bolsa. Crendo o juiz que o sentenciado lhe dera muito dinheiro, disse às pessoas que ali se encontravam:
— Amigos, alguém já viu faltar corda para enforcar um homem? Eu creio que este homem é inocente e, como Deus não quer que ele morra, falta-nos agora a corda. Esperemos até amanhã e vejamo-lo com mais atenção, porque, se ele for culpado, tempo nos resta para fazer justiça.
O juiz dizia isto para libertá-lo em troca do dinheiro que havia recebido, mas quando se afastou e olhou a bolsa de couro, em vez do dinheiro encontrou uma corda de enforcar. Imediatamente, mandou pendurar o prisioneiro. Tendo o verdugo ajustado aquela mesma corda ao seu pescoço, o homem pediu a dom Martín que o socorresse. Replicou dom Martín que sempre ajudava a todos os seus amigos, mas até que estes chegassem ao extremo do patíbulo; depois, não mais. Deste modo, perdeu aquele homem a vida e a alma por crer e fiar-se do demônio.
O homem indagou por que motivo falaria, já que não havia como ser ajudado. O demônio replicou que, se ele lhe rendesse obediência, iria remediá-lo. E, para que o homem visse o que poderia fazer em seu favor, disse-lhe aquilo em que vinha pensando e a razão pela qual estava triste. Então contou ao homem a sua própria história e o motivo de sua tristeza, como quem muito bem de tudo sabia.
Disse-lhe, também, que, se quisesse fazer o que lhe dissesse, o tiraria da miséria e o faria mais rico que qualquer outro de sua linhagem, porquanto era o demônio e podia mesmo realizar tais coisas.
Quando o homem o ouviu dizer que era o demônio, ficou com muito medo, mas pela aflição e penúria em que encontrava, respondeu que, se voltasse a ficar rico, faria o que o demônio quisesse.
Saiba que demônio procura o momento mais propício para nos enganar. Quando o homem está em estado de muita necessidade ou abatimento, ou muito inquieto pelo temor ou pelo desejo de algo, consegue dele tudo o que se quer. Por isto, ao ver a aflição do homem, o demônio buscou um modo de enganá-lo.
Então fizeram um pacto e o homem declarou-se vassalo do demônio. Feito isto, disse-lhe o demônio que, doravante, passasse a roubar, pois nunca encontraria porta ou casa tão bem trancadas que não lhe fossem abertas, e que, se por acaso se visse em algum perigo, ou se fosse levado à prisão, não teria mais que o chamar, dizendo: “Socorra-me, dom Martín”, para que ele viesse, imediatamente, para livrá-lo daquele perigo. Depois, separam-se.
Quando anoiteceu, o homem rumou à casa de um mercador, pois os que querem fazer o mal têm aversão à luz. Ao chegar à porta, abriu-a o demônio, que fez o mesmo com as arcas, de modo que o homem pôde assenhorar-se de uma grande quantidade de dinheiro. No dia seguinte, fez um furto muito grande, e depois outro, até que ficou tão rico que não mais se recordava da miséria que havia passado.
O infeliz, não satisfeito por sair da pobreza, continuou roubando. Tanto roubou que acabou por ser preso. E quando o prenderam, clamou por dom Martín. Dom Martín chegou muito depressa e o livrou em seguida. Ao ver o homem que dom Martín cumpria a sua palavra, voltou a roubar e tanto roubou que chegou a ser muitíssimo rico.
Num destes roubos, foi novamente preso e chamou dom Martín, que não veio tão depressa quanto ele queria. Os juízes do lugar onde ele praticara o roubo já haviam começado a fazer as suas averiguações. Quando chegou dom Martín, o homem lhe disse:
— Ah, dom Martín, quanto medo eu passei! Por que não vieste antes?
Respondeu-lhe dom Martín que estava ocupado com um assunto urgente e que por isso se atrasara. Imediatamente, tirou-o da prisão.
O homem voltou a roubar. Ao cabo de muitos roubos, foi de novo preso e, realizado pelos juízes o interrogatório, foi condenado. Prolatada a sentença, veio dom Martín e o pôs na rua. Vendo o homem que dom Martín sempre o soltava, continuou roubando. Outra vez foi preso e chamou dom Martín, mas quando este chegou, o homem já havia sido condenado à morte. Recorreu dom Martín ao indulto real e, deste modo, voltou a libertá-lo.
Continuou roubando, foi preso outra vez e chamou dom Martín, mas quando este chegou, estava o homem ao pé da forca. Ao vê-lo, disse o homem:
— Ah, dom Martim, saiba que esta não foi de brincadeira! Não sabes o medo que tive!
Dom Martín lhe disse que lhe trazia quinhentos maravedis em uma bolsa, que os desse ao juiz e que, desta maneira, ficaria livre. O juiz havia dado a ordem de que o enforcassem e já estavam procurando a corda para isto. Enquanto a procuravam, chegou o homem ao juiz e lhe deu a bolsa. Crendo o juiz que o sentenciado lhe dera muito dinheiro, disse às pessoas que ali se encontravam:
— Amigos, alguém já viu faltar corda para enforcar um homem? Eu creio que este homem é inocente e, como Deus não quer que ele morra, falta-nos agora a corda. Esperemos até amanhã e vejamo-lo com mais atenção, porque, se ele for culpado, tempo nos resta para fazer justiça.
O juiz dizia isto para libertá-lo em troca do dinheiro que havia recebido, mas quando se afastou e olhou a bolsa de couro, em vez do dinheiro encontrou uma corda de enforcar. Imediatamente, mandou pendurar o prisioneiro. Tendo o verdugo ajustado aquela mesma corda ao seu pescoço, o homem pediu a dom Martín que o socorresse. Replicou dom Martín que sempre ajudava a todos os seus amigos, mas até que estes chegassem ao extremo do patíbulo; depois, não mais. Deste modo, perdeu aquele homem a vida e a alma por crer e fiar-se do demônio.
Juan Manuel de Castela
A floresta adormecida
30 de Junho
As Flores e o Corvo erguem-se uma defronte da outra, separadas por um canal de quinze milhas, o Corvo espesso e nu, as Flores violeta e verde com rochas violetas e os cimos dum pasto delicado. Pelos altos das falésias povoações esparsas, o Monte, a Fazenda, Cedros, Ponta Ruiva, entre colinas arredondadas e renques de hortenses que dividem os campos. Lá para o fundo três pináculos escuros e mais longe alguns cerros de um azul quase negro. A costa vai-se aproximando com saliências e negrumes, e o verde tenro das ervas cada vez mais tenro, destacando-se da massa espessa, onde emergem os píncaros cada vez mais escuros. Um esguicho de sol cai de entre nuvens pesadas, ilumina e doira, desfaz-se em poeira sobre o primeiro piano, enquanto o outro se conserva esfumado. Mais pesada é a massa dos montes, o recorte dos penedos; só a água dum verde-claro estremece a meus pés. Entramos pelas rochas afiadas do porto de Santa Cruz. Duas ou três ruas muito limpas, a igreja, a praça, o convento, e logo por trás uma colina esmeralda de formas regulares e perfeitas como um seio túmido apontando o bico para o céu.
1 de Julho
Hoje, outro dia enevoado. Com este tempo turvo, amanhece tudo cheio de orvalho, as árvores, os milhos, o trevo em flor, as fitas prateadas da erva, cujas hastes estremecem e não podem com o peso. Olho num espanto a volúpia do monte verde cortado por sebes azuis de hortenses, com uma grande nuvem cor de chumbo em cima; a falésia monstruosa em roxo e verde, a luz carregada de humidade com clarões esbranquiçados de nevoeiro, que alastram e se desfazem em névoa peneirada e fina; o Corvo ao longe, desaparecendo na humidade e reaparecendo, quando a cortina se descerra – a fisionomia estranha da terra, a vida efémera da água, da chuva e do tempo fantasmagórico. O carácter desta paisagem é a serenidade com uma pontinha de tristeza... Sempre. enevoada e fresca, húmida, como aquele monte voluptuoso ao fundo, é uma paisagem casta, que se oculta e revela, uma paisagem feminina no momento único em que se desnuda com pudor. A chuva é leve, as névoas molhadas não passam de orvalho doirado que o sol ilumina e atravessa. E quando cai (cai muitas vezes), é em borrifos que vêm lá de cima de uma brancura, sobre o calor abafado. De repente aparece o Sol – de repente tudo muda à vista, como um cenário, tornando-se difuso e turvo. As nuvens nos Açores têm uma vida extraordinária, uma vida que não percebo bem! Hoje uma sobre o Corvo lembra uma auréola magnética. Amontoam-se no horizonte, surgem outras em bando, esguias nas extremidades, a que chamam baleotes e que indicam mudança de tempo. Há-as escuras com claridades extraordinárias pelo lado de trás; há-as que viajam no céu com importância de deuses... Tenho a impressão de que há nas Flores a luz mais delicada dos Açores, a luz vaporizada que se sensibiliza a todos os momentos. É talvez da cor, que é única, do pó roxo, do verde dos pastos sempre tenro e uniforme – é talvez da mistura dos nervos do mar, da chuva de Verão, do sol que se desfaz em oiro sobre tudo isto, e destas nuvens mágicas que interceptam a luz ruborizando-se como grandes velários de cor – para logo se desfazerem diante de meus olhos em arabescos, em fios ténues, em farrapos... Todas as cores se fundem e acabam por se apagar em cinzento, deixando só resquícios na atmosfera húmida. Nunca assim vi ambiente tão rico em prestigio, sempre diverso e sempre em movimento. É o cinzento que predomina – mas um cinzento colorido onde bóiam cores húmidas, principalmente o verde e o violeta –jorrando, atabafando em pardo e violeta montes verdes a escorrer. É o que dá prestigio a esta terra molhada, onde o próprio sol parece molhado – molhado e doirado, tão leve que mal trespassa o cinzento... Então, um momento iluminado, o panorama respira, arfa devagarinho como um seio, ainda orvalhado do banho e aquecido pelo Verão, ruborizado e sorrindo por ter de despir a camisa diante da gente. Outras vezes tudo desaparece ou toma proporções fantasmagóricas e a água goteja doirada. Água, ar e bruma intimamente se casam para produzirem esta impressão casta e cinzenta ou toda violeta como a obra de arte de uma individualidade estranha."
Raul Brandão, "As Ilhas Desconhecidas"
As Flores e o Corvo erguem-se uma defronte da outra, separadas por um canal de quinze milhas, o Corvo espesso e nu, as Flores violeta e verde com rochas violetas e os cimos dum pasto delicado. Pelos altos das falésias povoações esparsas, o Monte, a Fazenda, Cedros, Ponta Ruiva, entre colinas arredondadas e renques de hortenses que dividem os campos. Lá para o fundo três pináculos escuros e mais longe alguns cerros de um azul quase negro. A costa vai-se aproximando com saliências e negrumes, e o verde tenro das ervas cada vez mais tenro, destacando-se da massa espessa, onde emergem os píncaros cada vez mais escuros. Um esguicho de sol cai de entre nuvens pesadas, ilumina e doira, desfaz-se em poeira sobre o primeiro piano, enquanto o outro se conserva esfumado. Mais pesada é a massa dos montes, o recorte dos penedos; só a água dum verde-claro estremece a meus pés. Entramos pelas rochas afiadas do porto de Santa Cruz. Duas ou três ruas muito limpas, a igreja, a praça, o convento, e logo por trás uma colina esmeralda de formas regulares e perfeitas como um seio túmido apontando o bico para o céu.
1 de Julho
Hoje, outro dia enevoado. Com este tempo turvo, amanhece tudo cheio de orvalho, as árvores, os milhos, o trevo em flor, as fitas prateadas da erva, cujas hastes estremecem e não podem com o peso. Olho num espanto a volúpia do monte verde cortado por sebes azuis de hortenses, com uma grande nuvem cor de chumbo em cima; a falésia monstruosa em roxo e verde, a luz carregada de humidade com clarões esbranquiçados de nevoeiro, que alastram e se desfazem em névoa peneirada e fina; o Corvo ao longe, desaparecendo na humidade e reaparecendo, quando a cortina se descerra – a fisionomia estranha da terra, a vida efémera da água, da chuva e do tempo fantasmagórico. O carácter desta paisagem é a serenidade com uma pontinha de tristeza... Sempre. enevoada e fresca, húmida, como aquele monte voluptuoso ao fundo, é uma paisagem casta, que se oculta e revela, uma paisagem feminina no momento único em que se desnuda com pudor. A chuva é leve, as névoas molhadas não passam de orvalho doirado que o sol ilumina e atravessa. E quando cai (cai muitas vezes), é em borrifos que vêm lá de cima de uma brancura, sobre o calor abafado. De repente aparece o Sol – de repente tudo muda à vista, como um cenário, tornando-se difuso e turvo. As nuvens nos Açores têm uma vida extraordinária, uma vida que não percebo bem! Hoje uma sobre o Corvo lembra uma auréola magnética. Amontoam-se no horizonte, surgem outras em bando, esguias nas extremidades, a que chamam baleotes e que indicam mudança de tempo. Há-as escuras com claridades extraordinárias pelo lado de trás; há-as que viajam no céu com importância de deuses... Tenho a impressão de que há nas Flores a luz mais delicada dos Açores, a luz vaporizada que se sensibiliza a todos os momentos. É talvez da cor, que é única, do pó roxo, do verde dos pastos sempre tenro e uniforme – é talvez da mistura dos nervos do mar, da chuva de Verão, do sol que se desfaz em oiro sobre tudo isto, e destas nuvens mágicas que interceptam a luz ruborizando-se como grandes velários de cor – para logo se desfazerem diante de meus olhos em arabescos, em fios ténues, em farrapos... Todas as cores se fundem e acabam por se apagar em cinzento, deixando só resquícios na atmosfera húmida. Nunca assim vi ambiente tão rico em prestigio, sempre diverso e sempre em movimento. É o cinzento que predomina – mas um cinzento colorido onde bóiam cores húmidas, principalmente o verde e o violeta –jorrando, atabafando em pardo e violeta montes verdes a escorrer. É o que dá prestigio a esta terra molhada, onde o próprio sol parece molhado – molhado e doirado, tão leve que mal trespassa o cinzento... Então, um momento iluminado, o panorama respira, arfa devagarinho como um seio, ainda orvalhado do banho e aquecido pelo Verão, ruborizado e sorrindo por ter de despir a camisa diante da gente. Outras vezes tudo desaparece ou toma proporções fantasmagóricas e a água goteja doirada. Água, ar e bruma intimamente se casam para produzirem esta impressão casta e cinzenta ou toda violeta como a obra de arte de uma individualidade estranha."
Raul Brandão, "As Ilhas Desconhecidas"
sábado, julho 25
O senão do livro
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...
E caem! – Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar... Heis de cair. Turvo é o ar que respirais, amadas folhas. O sol que vos alumia, com ser de toda gente, é um sol opaco e reles, de cemitério e carnaval.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
Nobre rua São José
A rua é ainda egrégia e simpática. Tudo se vem fazendo por transformá-la em ponto de estacionamento de automóveis, mas a sombra de Rui Barbosa, a de João Ribeiro, de poetas antigos, sábios, professores, bibliófilos, estudantes, gente rica e gente pobre, com amor à leitura, que por lá buquinou durante anos e anos, parece frequentá-la ao jeito das sombras: discretamente, na memória dos que gostam de evocar, na saudade de alguns sobreviventes da velha geração de caixeiros, um pouco na poeira das estantes, que as estantes veneráveis não devem ser luzidias. Há também, esparsas, memórias de leiloeiros e antiquários.
Os “sebos” foram rareando, frequentadores assíduos se despediram para o Caju e o São João Batista, a cidade ensaiou novos hábitos, ou simplesmente perdeu velhos e não teve jeito de adquirir outros. Onde reinava o velho Quaresma e depois o velho Matos, há hoje latas de comestíveis. A “Principal”, a “Acadêmica”, o J. Leite saíram da paisagem, emigrando ou desvanecendo-se. Um lado inteiro da rua desapareceu, e foi como se arrancassem metade do tronco a um corpo vivo. Mas, no outro meio-fio, o sobrado da velha Briguiet se mantém fiel a seu destino de casa de livros. Com outro nome e outros ocupantes, o espírito literário não desertou aquelas paragens. Um menino, por assim dizer crescido na rua São José, ali está hoje, homem-feito, e a este não é possível demolir nem convencer de que deve negociar em política, importações ou apartamentos. Carlos Ribeiro mantém e revigora, quase sozinho, o espírito da gloriosa rua São José, que é uma universidade a seu modo: junto às pilhas de livros, sabedores de coisas filosofam ou pontificam; mocinhas supõem comprar romances, quando na realidade estão se provendo de noções da eterna e tenebrosa ciência de amar; o vice-presidente da Câmara, José Augusto, foge à barafunda parlamentar e mergulha nos clássicos; amadores contemplam estampas; o cônego Monteiro seleciona obras para a biblioteca do Círculo Operário de São José dos Campos, criada com o seu suor; não faltam nem as presses universitaires, pois a rua edita desde manuais de macumba até estudos eruditos; e há sempre uma ideia, um projeto, um traço intelectual no ar, um traço que não quer perder-se e reage contra a burrificação geral da vida carioca.
Mas essa rua é também uma praia, aonde vão dar os volumes de bibliotecas que naufragaram. Vêm de mistura os mestres do pensamento e aquelas tímidas obrinhas de principiantes, que o destinatário nem chegou a abrir. O livreiro recolhe esses destroços e os reanima, pondo-os de novo em circulação. Só na aparência é triste o comércio de livros usados. Realmente, ele assegura, dans un tumulte au silence pareil, uma vibração contínua, uma rotação infatigável aos produtos do espírito, que espírito também são, e não se sentiriam bem se agrilhoados eternamente à mesma prateleira imóvel.
O grande poeta estrangeiro oferece seu cântico ao grande poeta nacional e este, de alma doadora por natureza, o passa a um terceiro poeta, que, premido pela dura circunstância (e quem ainda não desfez ou pensou em desfazer sua biblioteca, num dia negro?), o lança à correnteza da rua São José, onde um quarto poeta o resgata — por quanto tempo? Assim a poesia circula como um facho levado por mãos que a prezam, e alguma coisa, no abismo, se salvará.
Carlos Drummond de Andrade, "Fala, Amendoeira"
Mas essa rua é também uma praia, aonde vão dar os volumes de bibliotecas que naufragaram. Vêm de mistura os mestres do pensamento e aquelas tímidas obrinhas de principiantes, que o destinatário nem chegou a abrir. O livreiro recolhe esses destroços e os reanima, pondo-os de novo em circulação. Só na aparência é triste o comércio de livros usados. Realmente, ele assegura, dans un tumulte au silence pareil, uma vibração contínua, uma rotação infatigável aos produtos do espírito, que espírito também são, e não se sentiriam bem se agrilhoados eternamente à mesma prateleira imóvel.
O grande poeta estrangeiro oferece seu cântico ao grande poeta nacional e este, de alma doadora por natureza, o passa a um terceiro poeta, que, premido pela dura circunstância (e quem ainda não desfez ou pensou em desfazer sua biblioteca, num dia negro?), o lança à correnteza da rua São José, onde um quarto poeta o resgata — por quanto tempo? Assim a poesia circula como um facho levado por mãos que a prezam, e alguma coisa, no abismo, se salvará.
Carlos Drummond de Andrade, "Fala, Amendoeira"
Brinquedos
Nós, que somos espantosamente grandes,
que já não deslizámos pelo gelo desde as duas guerras,
Ou se o fizemos alguma vez, sem querer
Já nos fracturámos um ano,
Um dos nossos importantes e duros anos
De gesso…
Oh, nós, os espantosamente grandes
Sentimos por vezes
Que nos faltam os brinquedos.
Temos tudo o que necessitamos,
Mas faltam-nos os brinquedos.
Temos saudades do optimismo
Do coração de algodão das bonecas
E da nossa nau
Com três fieiras de velas,
Que tanto sulcava as águas
Como a terra firme.
Gostaríamos de montar um cavalo de madeira
E que o cavalo relinchasse ao mesmo tempo que a madeira
E que nós lhe disséssemos: ‘Leva-nos a algum sítio
Não importa qual,
Porque em qualquer sítio da vida
Propomo-nos levar a cabo
Formidáveis façanhas’.
Oh, quanta falta, por vezes, nos fazem os brinquedos!
Mas nem sequer podemos estar tristes
Por essa razão,
E chorar com toda a alma,
Agarrando a perna da cadeira
Porque somos tão adultos
Que não há ninguém mais velho que nós
Para nos acariciar.
Marin Sorescu, “Simetria”
que já não deslizámos pelo gelo desde as duas guerras,
Ou se o fizemos alguma vez, sem querer
Já nos fracturámos um ano,
Um dos nossos importantes e duros anos
De gesso…
Oh, nós, os espantosamente grandes
Sentimos por vezes
Que nos faltam os brinquedos.
Temos tudo o que necessitamos,
Mas faltam-nos os brinquedos.
Temos saudades do optimismo
Do coração de algodão das bonecas
E da nossa nau
Com três fieiras de velas,
Que tanto sulcava as águas
Como a terra firme.
Gostaríamos de montar um cavalo de madeira
E que o cavalo relinchasse ao mesmo tempo que a madeira
E que nós lhe disséssemos: ‘Leva-nos a algum sítio
Não importa qual,
Porque em qualquer sítio da vida
Propomo-nos levar a cabo
Formidáveis façanhas’.
Oh, quanta falta, por vezes, nos fazem os brinquedos!
Mas nem sequer podemos estar tristes
Por essa razão,
E chorar com toda a alma,
Agarrando a perna da cadeira
Porque somos tão adultos
Que não há ninguém mais velho que nós
Para nos acariciar.
Marin Sorescu, “Simetria”
Os devaneios do General
Abre-se uma clareira azul no escuro céu de inverno.
O sol inunda os telhados de Jacarecanga. Um galo salta para cima da cerca do quintal, sacode a crista vermelha que fulgura, estica o pescoço e solta um cocoricó alegre. Nos quintais vizinhos outros galos respondem.
O sol! As poças d’água que as últimas chuvas deixaram no chão se enchem de joias coruscantes. Crianças saem de suas casas e vão brincar nos rios barrentos das sarjetas. Um vento frio afugenta as nuvens para as bandas do norte e dentro de alguns instantes o céu é todo um clarão de puro azul.
O General Chicuta resolve então sair da toca. A toca é o quarto. O quarto fica na casa da neta e é o seu último reduto. Aqui na sombra ele passa as horas sozinho, esperando a morte. Poucos móveis: a cama antiga, a cômoda com papeis velhos, medalhas, relíquias, uniformes, lembranças; a cadeira de balanço, o retrato do Senador; o busto do Patriarca; duas ou três cadeiras… E recordações… Recordações dum tempo bom que passou, — patifes! — dum mundo de homens diferentes dos de hoje. — Canalhas! — duma Jacarecanga passiva e ordeira, dócil e disciplinada, que não fazia nada sem primeiro ouvir o General Chicuta Campolargo.
O general aceita o convite do sol e vai sentar-se à janela que dá para a rua. Ali está ele com a cabeça atirada para trás, apoiada no respaldo da poltrona. Seus olhinhos sujos e diluídos se fecham ofuscados pela violência da luz. E ele arqueja, porque a caminhada do quarto até a janela foi penosa, cansativa. De seu peito sai um ronco que lembra o do estertor da morte.
O general passa a mão pelo rosto murcho: mão de cadáver passeando num rosto de cadáver. Sua barbicha branca e rala esvoaça ao vento. O velho deixa cair os braços e fica imóvel como um defunto.
Os galos tornam a cantar. As crianças gritam. Um preto de cara reluzente passa alegre na rua com um cesto de laranjas à cabeça.
Animado aos poucos pela ilusão de vida que a luz quente lhe dá, o general entreabre os olhos e devaneia…
Jacarecanga! Sim senhor! Quem diria? A gente não conhece mais a terra onde nasceu… Ares de cidade. Automóveis. Rádios. Modernismos. Negro quase igual a branco. Criado tão bom como patrão. Noutro tempo todos vinham pedir a benção ao General Chicuta, intendente municipal e chefe político… A oposição comia fogo com ele.
O general sorria a um pensamento travesso. Naquele dia toda a cidade ficou alvoroçada. Tinha aparecido na “Voz de Jacarecanga” um artigo desaforado… Não trazia assinatura. Dizia assim: “A hiena sanguinária que bebeu o sangue dos revolucionários de 93 agora tripudia sobre a nossa mísera cidade desgraçada”. Era com ele, sim, não havia dúvida. (Corria por todo o Estado a sua fama de degolador.) Era com ele! Por isso Jacarecanga tinha prendido fogo ao ler o artigo. Ele quase estourou de raiva. Tremeu, bufou, enxergou vermelho. Pegou o revólver. Largou. Resmungou “Patife! Canalha!” Depois ficou mais calmo. Botou a farda de general e dirigiu-se para a Intendência. Mandou chamar o Mendanha, diretor do jornal. O Mendanha veio. Estava pálido. Era atrevido mas covarde. Entrou de chapéu na mão, tremendo. Ficaram os dois sozinhos, frente a frente.
— Sente-se, canalha!
O Mendanha obedeceu. O general levantou-se. (Brilhavam os alamares dourados contra o pano negro do dólmã.) Tirou da gaveta da mesa a página do jornal que trazia o famoso artigo. Aproximou-se do adversário.
— Abra a boca! — ordenou.
Mendanha abriu, sem dizer palavra. O general picou a página em pedacinhos, amassou-os todos numa bola e atochou-a na boca do outro.
— Come! — gritou.
Os olhos de Mendanha estavam arregalados. O sangue lhe fugira do rosto.
— Coma! — sibilou o general.
Mendanha suplicava com o olhar. O general encostou-lhe no peito o cano do revolver e rosnou com raiva mal contida.
— Coma, pústula!
E o homem comeu.
Um avião passa roncando por cima da casa, cujas vidraças trepidam. O general tem um sobressalto desagradável. A sombra do grande pássaro se desenha lá em baixo, no chão do jardim. O general ergue o punho para o ar, numa ameaça.
— Patifes! Vagabundos, ordinários! Não têm mais o que fazer? Vão pegar no cabo duma enxada, seus canalhas. Isso não é serviço de homem macho.
Fica olhando, com olho hostil, o avião amarelo que passa voando rente aos telhados da cidade.
No seu tempo não havia daquelas engenhocas, daquelas malditas máquinas. Para que servem? Para matar gente. Para acordar quem dorme. Para gastar dinheiro. Para a guerra. Guerras covardes, as de hoje! Antigamente brigava-se em campo aberto, peito contra peito, homem contra homem. Hoje se metem os poltrões nesses “banheiros” que voam, e lá de cima se põem a atirar bombas em cima da infantaria. A guerra perdeu toda a sua dignidade.
O general remergulha no devaneio.
93… Foi lindo. O Rio Grande inteiro cheirava a sangue. Quando se aproximava a hora do combate, ele ficava assanhado. Tinha perto de cinqüenta anos mas não se trocava por nenhum rapaz de vinte.
Por um instante, o general se revê montado no seu tordilho, teso e glorioso, a espada chispando ao sol, o pala voando ao vento… Vejam só! Agora está aqui, um caco velho, sem força nem serventia, esperando a todo instante a visita da morte. Pode entrar. Sente-se. Cale a boca!
Morte… O general vê mentalmente uma garganta aberta sangrando. Fecha os olhos e pensa naquela noite… Naquela noite que ele nunca mais esqueceu. Naquela noite que é uma recordação que o há de acompanhar decerto até o outro mundo… se houver outro mundo.
Os seus vanguardeiros voltaram contando que a força revolucionária estava dormindo desprevenida, sem sentinelas… Se fizessem um ataque rápido, ela seria apanhada de surpresa. O general deu um pulo. Chamou os oficiais. Traçou o plano. Cercariam o acampamento inimigo. Marchariam no maior silêncio e, a um sinal, cairiam sobre os “maragatos”. Ia ser uma festa! Acrescentou com energia: “Inimigo não se poupa. Ferro neles!”
Sorriu um sorriso torto de canto de boca. (Como a gente se lembra dos mínimos detalhes…) Passou o indicador da mão direita pelo próprio pescoço, no simulacro duma operação familiar… Os oficiais sorriam, compreendendo. O ataque se fez. Foi uma tempestade. Não ficou nenhum prisioneiro vivo para contar dos outros. Quando a madrugada raiou, a luz do dia novo caiu sobre duzentos homens degolados. Corvos voavam sobre o acampamento de cadáveres. O general passou por entre os destroços. Encontrou conhecidos entre os mortos, antigos camaradas. Deu com a cabeça dum prisioneiro fincada no espeto que na tarde anterior servira aos maragatos para assar churrasco. Teve um leve estremecimento. Mas uma frase soou-lhe na mente: “Inimigo não se poupa”.
O general agora recorda… Remorso? Qual! Um homem é um homem e um gato é um bicho.
Lambe os lábios gretados. Sede. Procura gritar:
— Petronilho!
A voz que sai da garganta é tão remota e apagada que parece a voz de um moribundo, vinda do fundo do tempo, dum acampamento de 93.
— Petronilho! Negro safado! Petronilho!
Começa a bater forte no chão com a ponta da bengala, frenético. A neta aparece à porta. Traz nas mãos duas agulhas vermelhas de tricô e um novelo de lã verde.
— Que é, vovô?
— Morreu a gente desta casa? Ninguém me atende. Canalhas! Onde está o Petronilho?
— Está lá fora, vovô.
— Ele não ganha pra cuidar de mim? Então? Chame ele.
— Não precisa ficar brabo, vovô. Que é que o senhor quer?
— Quero um copo d’água. Estou com sede.
— Por que não toma suco de laranja?
— Água, eu disse.
A neta suspira e sai. O general entrega-se a pensamentos amargos. Deus negou-lhe filhos homens. Deu-lhe uma única filha mulher que morreu no dia em que dava à luz uma neta. Uma neta! Por que não um neto, um macho? Agora aí está a Juventina, metida o dia inteiro com tricôs e figurinos, casada com um bacharel que fala em socialismo, na extinção dos latifúndios, em igualdade. Há seis anos nasceu-lhe um filho. Homem, até que enfim! Mas está sendo mal educado. Ensinam-lhe boas maneiras. Dão-lhe mimos. Estão a transformá-lo num maricas. Parece uma menina. Tem a pele tão delicada, tão macia, tão corada… Chiquinho… Não tem nada que lembre os Campolargos. Os Campolargos que brilharam na guerra do Paraguai, na Revolução de 1893 e que ainda defenderam o governo em 1923…
Um dia ele perguntou ao menino:
— Chiquinho, você quer ser general como o vovô?
— Não. Eu quero ser doutor como o papai.
— Canalhinha! Patifinho!
Petronilho entra, trazendo um copo de suco de laranja.
— Eu disse água! — sibila o general.
O mulato sacode os ombros.
— Mas eu digo suco de laranja.
— Eu quero água. Vá buscar água, seu cachorro!
Petronilho responde sereno:
— Não vou, general de bobagem…
O general escabuja de raiva, esgrime a bengala, procurando inutilmente atingir o criado. Agita-se todo, num tremor desesperado.
— Canalha! — cicia arquejante — Vou te mandar dar umas chicotadas!
— Suco de laranja — cantarola o mulato.
— Água! Juventina! Negro patife! Cachorro!
Petronilho sorri:
— Suco de laranja, seu sargento!
Com um grito de fera o general arremessa a bengala na direção do criado. Num movimento ágil de gato, Petronilho quebra o corpo e esquiva-se do golpe.
O general se entrega. Atira a cabeça para trás e, de braços caídos, fica todo trêmulo, com a respiração ofegante e os olhos revirados, uma baba a escorrer-lhe pelos cantos da boca mole, parda e gretada.
Petronilho sorri. Já faz três anos que assiste com gozo a esta agonia. Veio oferecer-se de propósito para cuidar do general. Pediu apenas casa, comida e roupa. Não quis mais nada. Só tinha um desejo: ver os últimos dias da fera. Porque ele sabe que foi o general Chicuta Campolargo que mandou matar o seu pai. Uma bala na cabeça, os miolos escorrendo para o chão… Só porque o mulato velho na última eleição fora o melhor cabo eleitoral da oposição. O general chamou-o a intendência. Quis esbofeteá-lo. O mulato reagiu, disse-lhe desaforos, saiu altivo. No outro dia…
Petronilho compreendeu tudo. Muito menino, pensou na vingança mas, com o correr do tempo, esqueceu. Depois a situação política da cidade melhorou. O general aos poucos foi perdendo a autoridade. Hoje os jornais já falam na “hiena que bebeu em 93 o sangue dos degolados”. Ninguém mais dá importância ao velho. chegou aos ouvidos de Petronilho a notícia de que a fera agonizava. Então ele se apresentou como enfermeiro. Agora goza, provoca, desrespeita. E fica rindo… Pede a Deus que lhe permita ver o fim, que não deve tardar. É questão de meses, de semanas, talvez até de dias… O animal passou o inverno metido na toca, conversando com os seus defuntos, gritando, dizendo desaforos para os fantasmas, dando vozes de comando: “Romper fogo! Cessar Fogo! Acampar”.
E recitando coisas esquisitas. “V. Exa. precisa de ser reeleito para glória do nosso invencível Partido”. Outras vezes olhava para o busto e berrava: “Inimigo não se poupa. Ferro neles”.
Mais sereno agora, o general estende a mão pedindo. Petronilho dá-lhe o copo de suco de laranja. O velho bebe, tremulamente. Lambendo os beiços, como se acabasse de saborear o seu prato predileto, o mulato volta para a cozinha, a pensar em novas perversidades.
O general contempla os telhados de Jacarecanga. Tudo isto já lhe pertenceu… Aqui ele mandava e desmandava. Elegia sempre os seus candidatos; derrubava urnas, anulava eleições. Conforme a sua conveniência, condenava ou absolvia réus. Certa vez mandou dar uma sova num promotor público que não lhe obedeceu à ordem de ser brando na acusação. Doutra feita correu a relho da cidade um juiz que teve o caradurismo de assumir ares de integridade de opor resistência a uma ordem sua.
Fecha os olhos e recorda a glória antiga.
Um grito de criança. O general baixa os olhos. No jardim, o bisneto brinca com os pedregulhos do chão. Seus cabelos louros estão incendiados de sol. O general contempla-o com tristeza e se perde em divagações…
Que será o mundo de amanhã, quando Chiquinho for homem feito? Mais aviões cruzarão nos céus. E terá desaparecido o último “homem” da face da terra. Só restarão idiotas efeminados, criaturas que acreditam na igualdade social, que não têm o sentido da autoridade, fracalhões que não se hão de lembrar dos feitos dos seus antepassados, nem… Oh! Não vale a pena pensar no que será amanhã o mundo dos maricas, o mundo de Chiquinho, talvez o último dos Campolargos!
E, dispnéico, se entrega de novo ao devaneio, adormentado pela carícia do sol.
De repente, a criança entra de novo na sala, correndo, muito vermelho:
— Vovô! Vovô!
Traz a mão erguida e seus olhos brilham. Faz alto ao pé da poltrona do general.
— A lagartixa, vovozinho…
O general inclina a cabeça. Uma lagartixa verde se retorce na mãozinha delicada, manchada de sangue. O velho olha para o bisneto com ar interrogador. Alvorotado, o menino explica:
— Degolei a lagartixa, vovô!
No primeiro instante o general perde a voz, no choque da surpresa. Depois murmura, comovido:
— Seu patife! Seu canalha! Degolou a lagartixa? Muito bem. Inimigo não se poupa. Seu patife!
E afaga a cabeça do bisneto, com uma luz de esperança nos olhos de sáurio.
Erico Verissimo, "Entrevero"
O sol inunda os telhados de Jacarecanga. Um galo salta para cima da cerca do quintal, sacode a crista vermelha que fulgura, estica o pescoço e solta um cocoricó alegre. Nos quintais vizinhos outros galos respondem.
O sol! As poças d’água que as últimas chuvas deixaram no chão se enchem de joias coruscantes. Crianças saem de suas casas e vão brincar nos rios barrentos das sarjetas. Um vento frio afugenta as nuvens para as bandas do norte e dentro de alguns instantes o céu é todo um clarão de puro azul.
O General Chicuta resolve então sair da toca. A toca é o quarto. O quarto fica na casa da neta e é o seu último reduto. Aqui na sombra ele passa as horas sozinho, esperando a morte. Poucos móveis: a cama antiga, a cômoda com papeis velhos, medalhas, relíquias, uniformes, lembranças; a cadeira de balanço, o retrato do Senador; o busto do Patriarca; duas ou três cadeiras… E recordações… Recordações dum tempo bom que passou, — patifes! — dum mundo de homens diferentes dos de hoje. — Canalhas! — duma Jacarecanga passiva e ordeira, dócil e disciplinada, que não fazia nada sem primeiro ouvir o General Chicuta Campolargo.
O general aceita o convite do sol e vai sentar-se à janela que dá para a rua. Ali está ele com a cabeça atirada para trás, apoiada no respaldo da poltrona. Seus olhinhos sujos e diluídos se fecham ofuscados pela violência da luz. E ele arqueja, porque a caminhada do quarto até a janela foi penosa, cansativa. De seu peito sai um ronco que lembra o do estertor da morte.
O general passa a mão pelo rosto murcho: mão de cadáver passeando num rosto de cadáver. Sua barbicha branca e rala esvoaça ao vento. O velho deixa cair os braços e fica imóvel como um defunto.
Os galos tornam a cantar. As crianças gritam. Um preto de cara reluzente passa alegre na rua com um cesto de laranjas à cabeça.
Animado aos poucos pela ilusão de vida que a luz quente lhe dá, o general entreabre os olhos e devaneia…
Jacarecanga! Sim senhor! Quem diria? A gente não conhece mais a terra onde nasceu… Ares de cidade. Automóveis. Rádios. Modernismos. Negro quase igual a branco. Criado tão bom como patrão. Noutro tempo todos vinham pedir a benção ao General Chicuta, intendente municipal e chefe político… A oposição comia fogo com ele.
O general sorria a um pensamento travesso. Naquele dia toda a cidade ficou alvoroçada. Tinha aparecido na “Voz de Jacarecanga” um artigo desaforado… Não trazia assinatura. Dizia assim: “A hiena sanguinária que bebeu o sangue dos revolucionários de 93 agora tripudia sobre a nossa mísera cidade desgraçada”. Era com ele, sim, não havia dúvida. (Corria por todo o Estado a sua fama de degolador.) Era com ele! Por isso Jacarecanga tinha prendido fogo ao ler o artigo. Ele quase estourou de raiva. Tremeu, bufou, enxergou vermelho. Pegou o revólver. Largou. Resmungou “Patife! Canalha!” Depois ficou mais calmo. Botou a farda de general e dirigiu-se para a Intendência. Mandou chamar o Mendanha, diretor do jornal. O Mendanha veio. Estava pálido. Era atrevido mas covarde. Entrou de chapéu na mão, tremendo. Ficaram os dois sozinhos, frente a frente.
— Sente-se, canalha!
O Mendanha obedeceu. O general levantou-se. (Brilhavam os alamares dourados contra o pano negro do dólmã.) Tirou da gaveta da mesa a página do jornal que trazia o famoso artigo. Aproximou-se do adversário.
— Abra a boca! — ordenou.
Mendanha abriu, sem dizer palavra. O general picou a página em pedacinhos, amassou-os todos numa bola e atochou-a na boca do outro.
— Come! — gritou.
Os olhos de Mendanha estavam arregalados. O sangue lhe fugira do rosto.
— Coma! — sibilou o general.
Mendanha suplicava com o olhar. O general encostou-lhe no peito o cano do revolver e rosnou com raiva mal contida.
— Coma, pústula!
E o homem comeu.
Um avião passa roncando por cima da casa, cujas vidraças trepidam. O general tem um sobressalto desagradável. A sombra do grande pássaro se desenha lá em baixo, no chão do jardim. O general ergue o punho para o ar, numa ameaça.
— Patifes! Vagabundos, ordinários! Não têm mais o que fazer? Vão pegar no cabo duma enxada, seus canalhas. Isso não é serviço de homem macho.
Fica olhando, com olho hostil, o avião amarelo que passa voando rente aos telhados da cidade.
No seu tempo não havia daquelas engenhocas, daquelas malditas máquinas. Para que servem? Para matar gente. Para acordar quem dorme. Para gastar dinheiro. Para a guerra. Guerras covardes, as de hoje! Antigamente brigava-se em campo aberto, peito contra peito, homem contra homem. Hoje se metem os poltrões nesses “banheiros” que voam, e lá de cima se põem a atirar bombas em cima da infantaria. A guerra perdeu toda a sua dignidade.
O general remergulha no devaneio.
93… Foi lindo. O Rio Grande inteiro cheirava a sangue. Quando se aproximava a hora do combate, ele ficava assanhado. Tinha perto de cinqüenta anos mas não se trocava por nenhum rapaz de vinte.
Por um instante, o general se revê montado no seu tordilho, teso e glorioso, a espada chispando ao sol, o pala voando ao vento… Vejam só! Agora está aqui, um caco velho, sem força nem serventia, esperando a todo instante a visita da morte. Pode entrar. Sente-se. Cale a boca!
Morte… O general vê mentalmente uma garganta aberta sangrando. Fecha os olhos e pensa naquela noite… Naquela noite que ele nunca mais esqueceu. Naquela noite que é uma recordação que o há de acompanhar decerto até o outro mundo… se houver outro mundo.
Os seus vanguardeiros voltaram contando que a força revolucionária estava dormindo desprevenida, sem sentinelas… Se fizessem um ataque rápido, ela seria apanhada de surpresa. O general deu um pulo. Chamou os oficiais. Traçou o plano. Cercariam o acampamento inimigo. Marchariam no maior silêncio e, a um sinal, cairiam sobre os “maragatos”. Ia ser uma festa! Acrescentou com energia: “Inimigo não se poupa. Ferro neles!”
Sorriu um sorriso torto de canto de boca. (Como a gente se lembra dos mínimos detalhes…) Passou o indicador da mão direita pelo próprio pescoço, no simulacro duma operação familiar… Os oficiais sorriam, compreendendo. O ataque se fez. Foi uma tempestade. Não ficou nenhum prisioneiro vivo para contar dos outros. Quando a madrugada raiou, a luz do dia novo caiu sobre duzentos homens degolados. Corvos voavam sobre o acampamento de cadáveres. O general passou por entre os destroços. Encontrou conhecidos entre os mortos, antigos camaradas. Deu com a cabeça dum prisioneiro fincada no espeto que na tarde anterior servira aos maragatos para assar churrasco. Teve um leve estremecimento. Mas uma frase soou-lhe na mente: “Inimigo não se poupa”.
O general agora recorda… Remorso? Qual! Um homem é um homem e um gato é um bicho.
Lambe os lábios gretados. Sede. Procura gritar:
— Petronilho!
A voz que sai da garganta é tão remota e apagada que parece a voz de um moribundo, vinda do fundo do tempo, dum acampamento de 93.
— Petronilho! Negro safado! Petronilho!
Começa a bater forte no chão com a ponta da bengala, frenético. A neta aparece à porta. Traz nas mãos duas agulhas vermelhas de tricô e um novelo de lã verde.
— Que é, vovô?
— Morreu a gente desta casa? Ninguém me atende. Canalhas! Onde está o Petronilho?
— Está lá fora, vovô.
— Ele não ganha pra cuidar de mim? Então? Chame ele.
— Não precisa ficar brabo, vovô. Que é que o senhor quer?
— Quero um copo d’água. Estou com sede.
— Por que não toma suco de laranja?
— Água, eu disse.
A neta suspira e sai. O general entrega-se a pensamentos amargos. Deus negou-lhe filhos homens. Deu-lhe uma única filha mulher que morreu no dia em que dava à luz uma neta. Uma neta! Por que não um neto, um macho? Agora aí está a Juventina, metida o dia inteiro com tricôs e figurinos, casada com um bacharel que fala em socialismo, na extinção dos latifúndios, em igualdade. Há seis anos nasceu-lhe um filho. Homem, até que enfim! Mas está sendo mal educado. Ensinam-lhe boas maneiras. Dão-lhe mimos. Estão a transformá-lo num maricas. Parece uma menina. Tem a pele tão delicada, tão macia, tão corada… Chiquinho… Não tem nada que lembre os Campolargos. Os Campolargos que brilharam na guerra do Paraguai, na Revolução de 1893 e que ainda defenderam o governo em 1923…
Um dia ele perguntou ao menino:
— Chiquinho, você quer ser general como o vovô?
— Não. Eu quero ser doutor como o papai.
— Canalhinha! Patifinho!
Petronilho entra, trazendo um copo de suco de laranja.
— Eu disse água! — sibila o general.
O mulato sacode os ombros.
— Mas eu digo suco de laranja.
— Eu quero água. Vá buscar água, seu cachorro!
Petronilho responde sereno:
— Não vou, general de bobagem…
O general escabuja de raiva, esgrime a bengala, procurando inutilmente atingir o criado. Agita-se todo, num tremor desesperado.
— Canalha! — cicia arquejante — Vou te mandar dar umas chicotadas!
— Suco de laranja — cantarola o mulato.
— Água! Juventina! Negro patife! Cachorro!
Petronilho sorri:
— Suco de laranja, seu sargento!
Com um grito de fera o general arremessa a bengala na direção do criado. Num movimento ágil de gato, Petronilho quebra o corpo e esquiva-se do golpe.
O general se entrega. Atira a cabeça para trás e, de braços caídos, fica todo trêmulo, com a respiração ofegante e os olhos revirados, uma baba a escorrer-lhe pelos cantos da boca mole, parda e gretada.
Petronilho sorri. Já faz três anos que assiste com gozo a esta agonia. Veio oferecer-se de propósito para cuidar do general. Pediu apenas casa, comida e roupa. Não quis mais nada. Só tinha um desejo: ver os últimos dias da fera. Porque ele sabe que foi o general Chicuta Campolargo que mandou matar o seu pai. Uma bala na cabeça, os miolos escorrendo para o chão… Só porque o mulato velho na última eleição fora o melhor cabo eleitoral da oposição. O general chamou-o a intendência. Quis esbofeteá-lo. O mulato reagiu, disse-lhe desaforos, saiu altivo. No outro dia…
Petronilho compreendeu tudo. Muito menino, pensou na vingança mas, com o correr do tempo, esqueceu. Depois a situação política da cidade melhorou. O general aos poucos foi perdendo a autoridade. Hoje os jornais já falam na “hiena que bebeu em 93 o sangue dos degolados”. Ninguém mais dá importância ao velho. chegou aos ouvidos de Petronilho a notícia de que a fera agonizava. Então ele se apresentou como enfermeiro. Agora goza, provoca, desrespeita. E fica rindo… Pede a Deus que lhe permita ver o fim, que não deve tardar. É questão de meses, de semanas, talvez até de dias… O animal passou o inverno metido na toca, conversando com os seus defuntos, gritando, dizendo desaforos para os fantasmas, dando vozes de comando: “Romper fogo! Cessar Fogo! Acampar”.
E recitando coisas esquisitas. “V. Exa. precisa de ser reeleito para glória do nosso invencível Partido”. Outras vezes olhava para o busto e berrava: “Inimigo não se poupa. Ferro neles”.
Mais sereno agora, o general estende a mão pedindo. Petronilho dá-lhe o copo de suco de laranja. O velho bebe, tremulamente. Lambendo os beiços, como se acabasse de saborear o seu prato predileto, o mulato volta para a cozinha, a pensar em novas perversidades.
O general contempla os telhados de Jacarecanga. Tudo isto já lhe pertenceu… Aqui ele mandava e desmandava. Elegia sempre os seus candidatos; derrubava urnas, anulava eleições. Conforme a sua conveniência, condenava ou absolvia réus. Certa vez mandou dar uma sova num promotor público que não lhe obedeceu à ordem de ser brando na acusação. Doutra feita correu a relho da cidade um juiz que teve o caradurismo de assumir ares de integridade de opor resistência a uma ordem sua.
Fecha os olhos e recorda a glória antiga.
Um grito de criança. O general baixa os olhos. No jardim, o bisneto brinca com os pedregulhos do chão. Seus cabelos louros estão incendiados de sol. O general contempla-o com tristeza e se perde em divagações…
Que será o mundo de amanhã, quando Chiquinho for homem feito? Mais aviões cruzarão nos céus. E terá desaparecido o último “homem” da face da terra. Só restarão idiotas efeminados, criaturas que acreditam na igualdade social, que não têm o sentido da autoridade, fracalhões que não se hão de lembrar dos feitos dos seus antepassados, nem… Oh! Não vale a pena pensar no que será amanhã o mundo dos maricas, o mundo de Chiquinho, talvez o último dos Campolargos!
E, dispnéico, se entrega de novo ao devaneio, adormentado pela carícia do sol.
De repente, a criança entra de novo na sala, correndo, muito vermelho:
— Vovô! Vovô!
Traz a mão erguida e seus olhos brilham. Faz alto ao pé da poltrona do general.
— A lagartixa, vovozinho…
O general inclina a cabeça. Uma lagartixa verde se retorce na mãozinha delicada, manchada de sangue. O velho olha para o bisneto com ar interrogador. Alvorotado, o menino explica:
— Degolei a lagartixa, vovô!
No primeiro instante o general perde a voz, no choque da surpresa. Depois murmura, comovido:
— Seu patife! Seu canalha! Degolou a lagartixa? Muito bem. Inimigo não se poupa. Seu patife!
E afaga a cabeça do bisneto, com uma luz de esperança nos olhos de sáurio.
Erico Verissimo, "Entrevero"
sexta-feira, julho 24
Um carneiro em minha casa
Eu tinha um parente senador que, depois de ter vencido novas eleições, veio passar uns dias em minha casa de Isla Negra. Assim começa a história do cordeiro.
Acontece que seus eleitores mais entusiastas vieram para festejar o senador. Na primeira tarde da festa assaram um carneiro à moda do campo do Chile, com uma grande fogueira ao ar livre e o corpo do animal enfiado num assador de madeira. A isto chamam asado al palo, que é celebrado com muito vinho e queixosas guitarras criollas.
Outro carneiro ficou para a cerimônia do dia seguinte. Enquanto não chegava a sua hora, amarraram-no junto de minha janela. A noite toda gemeu e chorou, baliu e se queixou de sua solidão. Partia a alma escutar as modulações daquele carneiro, ao ponto que decidi me levantar de madrugada e raptá-lo.
Metido num automóvel levei-o a cento e cinquenta quilômetros dali, à minha casa de Santiago, onde não o alcançassem as facas. Mal entrou, pôs-se a pastar vorazmente no melhor lugar de meu jardim. As tulipas o entusiasmaram e ele não respeitou nenhuma delas. Ainda que por razões espinhosas, não se atreveu com as roseiras. Mas devorou em troca os goiveiros e os lírios com estranho prazer.
Nesse ponto se entrecruza a história de Juanito com a história do cordeiro. Acontece que por aquele tempo havia começado uma greve de camponeses no sul. Os latifundiários da região, que pagavam a seus rendeiros não mais de apenas vinte centavos de dólar por dia, terminaram a pauladas e prisões com aquela greve.
Um jovem camponês teve tanto medo que subiu num trem em movimento. O rapaz se chamava Juanito, era muito católico e não sabia nada das coisas deste mundo. Quando passou o cobrador do trem examinando as passagens, ele respondeu que não tinha, que se dirigia a Santiago e que pensava que os trens eram para que a gente subisse neles e viajasse quando precisasse. Trataram de desembarcá-lo, naturalmente. Mas os passageiros de terceira classe – gente do povo, sempre generosa – fizeram uma coleta e pagaram a passagem.
Por ruas e praças da capital andou Juanito com um embrulho de roupa debaixo do braço. Como não conhecia ninguém, não queria falar com ninguém. No campo dizia-se que em Santiago tinha mais ladrões do que habitantes e ele tinha medo que lhe roubassem a camisa e as alpercatas que levava debaixo do braço, embrulhadas num jornal. Durante o dia perambulava pelas ruas mais frequentadas, onde as pessoas sempre tinham pressa e afastavam com um empurrão este Gaspar Hauser vindo de outro planeta. De noite buscava também os bairros mais concorridos mas estes eram as avenidas de cabarés e de vida noturna e ali sua presença era mais estranha ainda, pálido pastor perdido entre os pecadores. Como não tinha um só centavo, não podia comer, tanto assim que um dia caiu ao solo sem sentidos.
Uma multidão de curiosos rodeou o homem estendido na rua. A porta defronte da qual caiu correspondia a um pequeno restaurante. Levaram-no para dentro e o deixaram no chão. É o coração, disseram uns. É uma crise hepática, disseram outros. O dono do restaurante se aproximou, olhou-o e disse: “É fome.” Mal comeu algumas garfadas aquele cadáver reviveu. O dono o pôs para lavar pratos e se tomou de amores por ele. Tinha razões para isso. Sempre sorridente, o jovem camponês lavava montanhas de pratos. Tudo ia bem. Comia muito mais do que na sua terra.
O sortilégio da cidade se teceu de maneira estranha para que se juntassem certa vez, em minha casa, o pastor e o carneiro.
Deu vontade no pastor de conhecer a cidade, encaminhando então seus passos um pouco além das montanhas de louça. Tomou com entusiasmo uma rua, atravessou uma praça, e tudo o deslumbrava. Mas, quando quis voltar, já não o podia fazer. Não tinha anotado o endereço porque não sabia escrever, buscando assim em vão a porta hospitaleira que o tinha recebido. Nunca mais a encontrou.
Um transeunte, com pena de sua confusão, disse-lhe que devia se dirigir a mim, ao poeta Pablo Neruda. Não sei por que lhe sugeriram esta ideia. Provavelmente porque no Chile se tem por mania me encarregar de quanta coisa estranha passe pela cabeça das pessoas e ao mesmo tempo de me jogar a culpa de tudo o que acontece. São estranhos costumes nacionais.
O certo é que o rapaz chegou um dia à minha casa e se encontrou com o bicho preso. Já que eu estava tomando conta daquele carneiro inútil, não me custava também tomar conta deste pastor. Deixei a seu cargo a tarefa de impedir que o carneiro gourmet devorasse exclusivamente minhas flores mas sim que também, de vez em quando, saciasse o apetite com a grama de meu jardim.
Compreenderam-se na hora. Nos primeiros dias ele lhe pôs, só para constar, uma cordinha no pescoço com uma fita e com ela o conduzia de um lugar para outro. O carneiro comia incessantemente e o pastor individualista também, transitando ambos por toda a casa, inclusive por dentro de meus aposentos. Era uma união perfeita, conseguida pelo cordão umbilical da mãe terra, pelo autêntico mandato do homem. Assim se passaram muitos meses. Tanto o pastor como o carneiro arredondaram suas formas carnais, especialmente o ruminante que apenas podia seguir seu pastor de tão gordo que ficou. Às vezes entrava parcimoniosamente em meu quarto, olhava-me com indiferença e saía deixando um pequeno rosário de contas escuras no chão.
Tudo acabou quando o camponês sentiu a nostalgia do campo e me disse que voltava para sua terra distante. Era uma resolução de última hora. Tinha que pagar uma promessa à Virgem de seu povoado. Não podia levar o carneiro. Despediram-se com ternura. O pastor tomou o trem, desta vez com sua passagem na mão. Foi patética aquela despedida.
Em meu jardim não deixou um carneiro mas sim um problema grave, ou melhor, gordo. O que fazer com o ruminante? Quem cuidaria dele agora? Eu tinha preocupações políticas demais. Minha casa andava desordenada depois das perseguições que a minha poesia combativa me trouxe. O carneiro começou de novo a balir suas partituras queixosas.
Fechei os olhos e disse à minha irmã que o levasse. Ai, desta vez eu tinha certeza de que não se livraria do forno!
Pablo Neruda, "Confesso que vivi"
Acontece que seus eleitores mais entusiastas vieram para festejar o senador. Na primeira tarde da festa assaram um carneiro à moda do campo do Chile, com uma grande fogueira ao ar livre e o corpo do animal enfiado num assador de madeira. A isto chamam asado al palo, que é celebrado com muito vinho e queixosas guitarras criollas.
Outro carneiro ficou para a cerimônia do dia seguinte. Enquanto não chegava a sua hora, amarraram-no junto de minha janela. A noite toda gemeu e chorou, baliu e se queixou de sua solidão. Partia a alma escutar as modulações daquele carneiro, ao ponto que decidi me levantar de madrugada e raptá-lo.
Metido num automóvel levei-o a cento e cinquenta quilômetros dali, à minha casa de Santiago, onde não o alcançassem as facas. Mal entrou, pôs-se a pastar vorazmente no melhor lugar de meu jardim. As tulipas o entusiasmaram e ele não respeitou nenhuma delas. Ainda que por razões espinhosas, não se atreveu com as roseiras. Mas devorou em troca os goiveiros e os lírios com estranho prazer.
Não tive remédio senão amarrá-lo outra vez. E de imediato se pôs a balir, tratando visivelmente de me comover como antes. Senti-me desesperado.
Nesse ponto se entrecruza a história de Juanito com a história do cordeiro. Acontece que por aquele tempo havia começado uma greve de camponeses no sul. Os latifundiários da região, que pagavam a seus rendeiros não mais de apenas vinte centavos de dólar por dia, terminaram a pauladas e prisões com aquela greve.
Um jovem camponês teve tanto medo que subiu num trem em movimento. O rapaz se chamava Juanito, era muito católico e não sabia nada das coisas deste mundo. Quando passou o cobrador do trem examinando as passagens, ele respondeu que não tinha, que se dirigia a Santiago e que pensava que os trens eram para que a gente subisse neles e viajasse quando precisasse. Trataram de desembarcá-lo, naturalmente. Mas os passageiros de terceira classe – gente do povo, sempre generosa – fizeram uma coleta e pagaram a passagem.
Por ruas e praças da capital andou Juanito com um embrulho de roupa debaixo do braço. Como não conhecia ninguém, não queria falar com ninguém. No campo dizia-se que em Santiago tinha mais ladrões do que habitantes e ele tinha medo que lhe roubassem a camisa e as alpercatas que levava debaixo do braço, embrulhadas num jornal. Durante o dia perambulava pelas ruas mais frequentadas, onde as pessoas sempre tinham pressa e afastavam com um empurrão este Gaspar Hauser vindo de outro planeta. De noite buscava também os bairros mais concorridos mas estes eram as avenidas de cabarés e de vida noturna e ali sua presença era mais estranha ainda, pálido pastor perdido entre os pecadores. Como não tinha um só centavo, não podia comer, tanto assim que um dia caiu ao solo sem sentidos.
Uma multidão de curiosos rodeou o homem estendido na rua. A porta defronte da qual caiu correspondia a um pequeno restaurante. Levaram-no para dentro e o deixaram no chão. É o coração, disseram uns. É uma crise hepática, disseram outros. O dono do restaurante se aproximou, olhou-o e disse: “É fome.” Mal comeu algumas garfadas aquele cadáver reviveu. O dono o pôs para lavar pratos e se tomou de amores por ele. Tinha razões para isso. Sempre sorridente, o jovem camponês lavava montanhas de pratos. Tudo ia bem. Comia muito mais do que na sua terra.
O sortilégio da cidade se teceu de maneira estranha para que se juntassem certa vez, em minha casa, o pastor e o carneiro.
Deu vontade no pastor de conhecer a cidade, encaminhando então seus passos um pouco além das montanhas de louça. Tomou com entusiasmo uma rua, atravessou uma praça, e tudo o deslumbrava. Mas, quando quis voltar, já não o podia fazer. Não tinha anotado o endereço porque não sabia escrever, buscando assim em vão a porta hospitaleira que o tinha recebido. Nunca mais a encontrou.
Um transeunte, com pena de sua confusão, disse-lhe que devia se dirigir a mim, ao poeta Pablo Neruda. Não sei por que lhe sugeriram esta ideia. Provavelmente porque no Chile se tem por mania me encarregar de quanta coisa estranha passe pela cabeça das pessoas e ao mesmo tempo de me jogar a culpa de tudo o que acontece. São estranhos costumes nacionais.
O certo é que o rapaz chegou um dia à minha casa e se encontrou com o bicho preso. Já que eu estava tomando conta daquele carneiro inútil, não me custava também tomar conta deste pastor. Deixei a seu cargo a tarefa de impedir que o carneiro gourmet devorasse exclusivamente minhas flores mas sim que também, de vez em quando, saciasse o apetite com a grama de meu jardim.
Compreenderam-se na hora. Nos primeiros dias ele lhe pôs, só para constar, uma cordinha no pescoço com uma fita e com ela o conduzia de um lugar para outro. O carneiro comia incessantemente e o pastor individualista também, transitando ambos por toda a casa, inclusive por dentro de meus aposentos. Era uma união perfeita, conseguida pelo cordão umbilical da mãe terra, pelo autêntico mandato do homem. Assim se passaram muitos meses. Tanto o pastor como o carneiro arredondaram suas formas carnais, especialmente o ruminante que apenas podia seguir seu pastor de tão gordo que ficou. Às vezes entrava parcimoniosamente em meu quarto, olhava-me com indiferença e saía deixando um pequeno rosário de contas escuras no chão.
Tudo acabou quando o camponês sentiu a nostalgia do campo e me disse que voltava para sua terra distante. Era uma resolução de última hora. Tinha que pagar uma promessa à Virgem de seu povoado. Não podia levar o carneiro. Despediram-se com ternura. O pastor tomou o trem, desta vez com sua passagem na mão. Foi patética aquela despedida.
Em meu jardim não deixou um carneiro mas sim um problema grave, ou melhor, gordo. O que fazer com o ruminante? Quem cuidaria dele agora? Eu tinha preocupações políticas demais. Minha casa andava desordenada depois das perseguições que a minha poesia combativa me trouxe. O carneiro começou de novo a balir suas partituras queixosas.
Fechei os olhos e disse à minha irmã que o levasse. Ai, desta vez eu tinha certeza de que não se livraria do forno!
Pablo Neruda, "Confesso que vivi"
Lugar
Ainda que seja
um grão no deserto
o poema é meu lugar
onde tudo arrisco.
Irriga minhas veias
como a chuva à terra
em suas mil línguas.
Antigo, bem antigo,
me anuncia no vale,
me consuma real,
viajante cativo
da solidão solidária.
Sem esse jeito
de ser flor e vento,
sonho e música,
uma coisa só amor,
não há o espanto,
a lágrima, o beijo,
o riso, o epitáfio,
não há o sentido.
um grão no deserto
o poema é meu lugar
onde tudo arrisco.
Irriga minhas veias
como a chuva à terra
em suas mil línguas.
Antigo, bem antigo,
me anuncia no vale,
me consuma real,
viajante cativo
da solidão solidária.
Sem esse jeito
de ser flor e vento,
sonho e música,
uma coisa só amor,
não há o espanto,
a lágrima, o beijo,
o riso, o epitáfio,
não há o sentido.
Cyro de Mattos
Medo do desconhecido
Então isso era a felicidade. E por assim dizer sem motivo. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
Clarice Lispector, "A descoberta do mundo"
Manel Capineiro
Quem conhece a Estrada Real de Santa Cruz? Pouca gente do Rio de Janeiro. Nós todos vivemos tão presos à avenida, tão adstritos à Rua do Ouvidor, que pouco ou nada sabemos desse nosso vasto Rio, a não ser as coisas clássicas da Tijuca, da Gávea e do Corcovado.
Um nome tão sincero, tão altissonante, batiza, entretanto, uma pobre azinhaga, aqui mais larga, ali mais estreita, povoada, a espaços, de pobres casas de gente pobre, às vezes, uma chácara mais assim ali. mas tendo ela em todo o seu trajeto até Cascadura e mesmo além, um forte aspecto de tristeza, de pobreza e mesmo de miséria. Falta-lhe um debrum de verdura, de árvores, de jardins. O carvoeiro e o lenhador de há muito tiraram os restos de matas que deviam bordá-la; e, hoje, é com alegria que se vê, de onde em onde, algumas mangueiras majestosas a quebrar a monotonia, a esterilidade decorativa de imensos capinzais sem limites.
Essa estrada real, estrada de rei, é atualmente uma estrada de pobres; e as velhas casas de fazenda, ao alto das meias-laranjas, não escaparam ao retalho para casas de cômodos.
Eu a vejo todo dia de manhã, ao sair de casa e é minha admiração apreciar a intensidade de sua vida, a prestança do carvoeiro, em servir a minha vasta cidade.
São carvoeiros com as suas carroças pejadas que passam; são os carros de bois cheios de capim que vão vencendo os atoleiros e os “caldeirões”, as tropas e essa espécie de vagabundos rurais que fogem à rua urbana com horror.
Vejo-a no Capão do Bispo, na sua desolação e no seu trabalho; mas vejo também dali os Órgãos azuis, dos quais toda a hora se espera que ergam aos céus um longo e acendrado hino de louvor e de glória.
Como se fosse mesmo uma estrada de lugares afastados, ela tem também seus “pousos”. O trajeto dos capineiros, dos carvoeiros, dos tropeiros é longo e pede descanso e boas “pingas” pelo caminho.
Ali no “Capão”, há o armazém “Duas Américas” em que os transeuntes param, conversam e bebem.
Para ali o “Tutu”, um carvoeiro das bandas de Irajá, mulato quase preto, ativo, que aceita e endossa letras sem saber ler nem escrever. É um espécime do que podemos dar de trabalho, de iniciativa e de vigor. Não há dia em que ele não desça com a sua carroça carregada de carvão e não há dia em que ele não volte com ela, carregada de alfafa, de farelo, de milho, para os seus muares.
Também vem ter ao armazém o Senhor Antônio do Açougue, um ilhéu falador, bondoso, cuja maior parte da vida se ocupou em ser carniceiro. Lá se encontra também o “Parafuso”, um preto, domador de cavalos e alveitar estimado. Todos eles discutem, todos eles comentam a crise, quando não tratam estreitamente dos seus negócios.
Passa pelas portas da venda uma singular rapariga. É branca e de boas feições. Notei-lhe o cuidado em ter sempre um vestido por dia, observando ao mesmo tempo que eles eram feitos de velhas roupas. Todas as manhãs, ela vai não sei onde e traz habitualmente na mão direita um bouquet feito de miseráveis flores silvestres. Perguntei ao dono quem era. Uma vagabunda, disse-me ele.
“Tutu” está sempre ocupado com a moléstia dos seus muares.
O “Garoto” está mancando de uma perna e a “Jupira” puxa de um dos quartos. O “Seu” Antônio do Açougue, assim chamado porque já possuiu um muito tempo, conta a sua vida, as suas perdas de dinheiro, e o desgosto de não ter mais açougue. Não se conforma absolutamente com esse neg6cio de vender leite; o seu destino é talhar carne.
Outro que lá vai é o Manel Capineiro. Mora na redondeza e a sua vida se faz no capinzal, em cujo seio vive, a vigiá-lo dia e noite dos ladrões, pois os há, mesmo de feixes de capim. O “Capineiro” colhe o capim à tarde, enche as carroças; e, pela madrugada, sai com estas a entregá-lo à freguesia. Um companheiro fica na choupana no meio do vasto capinzal a vigiá-lo, e ele vai carreando uma das carroças, tocando com o guião de leve os seus dois bois – “Estrela” e “Moreno”.
Manel os ama tenazmente e evita o mais possível feri-los com a farpa que lhes dá a direção requerida.
Manel Capineiro é português e não esconde as saudades que tem do seu Portugal, do seu caldo de unto, das suas festanças aldeãs, das suas lutas a varapau; mas se conforma com a vida atual e mesmo não se queixa das cobras que abundam no capinzal.
– Ai! As cobras!… Ontem dei com uma, mas matei-a .
Está aí um estrangeiro que não implica com os nossos ofídios o que deve agradar aos nossos compatriotas, que se indignam com essa implicância.
Ele e os bois vivem em verdadeira comunhão. Os bois são negros, de grandes chifres, tendo o “Estrela” uma mancha branca na testa, que lhe deu o nome.
Nas horas do ócio, Manel vem à venda conversar, mas logo que olha o relógio e vê que é hora da ração, abandona tudo e vai ao encontro daquelas suas duas criaturas, que tão abnegadamente lhe ajudam a viver.
Os seus carrapatos lhe dão cuidado; as suas “manqueiras” também. Não sei bem a que propósito me disse um dia:
– Senhor fulano, se não fosse eles, eu não saberia como iria viver. Eles são o meu pão.
Imaginem que desastre não foi na sua vida, a perda dos seus dois animais de tiro. Ela se verificou em condições bem lamentáveis. Manel Capineiro saiu de madrugada, como de hábito, com o seu carro de capim. Tomou a estrada pra riba, dobrou a Rua José dos Reis e tratou de atravessar a linha da estrada de ferro, na cancela dessa rua.
Fosse a máquina, fosse um descuido do guarda, uma imprudência de Manel, um comboio, um expresso, implacável como a fatalidade, inflexível, inexorável, veio-lhe em cima do carro e lhe trucidou os bois. O capineiro, diante dos despojos sangrentos do “Estrela” e do “Moreno”, diante daquela quase ruína de sua vida, chorou como se chorasse um filho uma mãe e exclamou cheio de pesar, de saudade, de desespero:
– Ai mô gado! Antes fora eu!…
Lima Barreto
Um nome tão sincero, tão altissonante, batiza, entretanto, uma pobre azinhaga, aqui mais larga, ali mais estreita, povoada, a espaços, de pobres casas de gente pobre, às vezes, uma chácara mais assim ali. mas tendo ela em todo o seu trajeto até Cascadura e mesmo além, um forte aspecto de tristeza, de pobreza e mesmo de miséria. Falta-lhe um debrum de verdura, de árvores, de jardins. O carvoeiro e o lenhador de há muito tiraram os restos de matas que deviam bordá-la; e, hoje, é com alegria que se vê, de onde em onde, algumas mangueiras majestosas a quebrar a monotonia, a esterilidade decorativa de imensos capinzais sem limites.
Essa estrada real, estrada de rei, é atualmente uma estrada de pobres; e as velhas casas de fazenda, ao alto das meias-laranjas, não escaparam ao retalho para casas de cômodos.
Eu a vejo todo dia de manhã, ao sair de casa e é minha admiração apreciar a intensidade de sua vida, a prestança do carvoeiro, em servir a minha vasta cidade.
São carvoeiros com as suas carroças pejadas que passam; são os carros de bois cheios de capim que vão vencendo os atoleiros e os “caldeirões”, as tropas e essa espécie de vagabundos rurais que fogem à rua urbana com horror.
Vejo-a no Capão do Bispo, na sua desolação e no seu trabalho; mas vejo também dali os Órgãos azuis, dos quais toda a hora se espera que ergam aos céus um longo e acendrado hino de louvor e de glória.
Como se fosse mesmo uma estrada de lugares afastados, ela tem também seus “pousos”. O trajeto dos capineiros, dos carvoeiros, dos tropeiros é longo e pede descanso e boas “pingas” pelo caminho.
Ali no “Capão”, há o armazém “Duas Américas” em que os transeuntes param, conversam e bebem.
Para ali o “Tutu”, um carvoeiro das bandas de Irajá, mulato quase preto, ativo, que aceita e endossa letras sem saber ler nem escrever. É um espécime do que podemos dar de trabalho, de iniciativa e de vigor. Não há dia em que ele não desça com a sua carroça carregada de carvão e não há dia em que ele não volte com ela, carregada de alfafa, de farelo, de milho, para os seus muares.
Também vem ter ao armazém o Senhor Antônio do Açougue, um ilhéu falador, bondoso, cuja maior parte da vida se ocupou em ser carniceiro. Lá se encontra também o “Parafuso”, um preto, domador de cavalos e alveitar estimado. Todos eles discutem, todos eles comentam a crise, quando não tratam estreitamente dos seus negócios.
Passa pelas portas da venda uma singular rapariga. É branca e de boas feições. Notei-lhe o cuidado em ter sempre um vestido por dia, observando ao mesmo tempo que eles eram feitos de velhas roupas. Todas as manhãs, ela vai não sei onde e traz habitualmente na mão direita um bouquet feito de miseráveis flores silvestres. Perguntei ao dono quem era. Uma vagabunda, disse-me ele.
“Tutu” está sempre ocupado com a moléstia dos seus muares.
O “Garoto” está mancando de uma perna e a “Jupira” puxa de um dos quartos. O “Seu” Antônio do Açougue, assim chamado porque já possuiu um muito tempo, conta a sua vida, as suas perdas de dinheiro, e o desgosto de não ter mais açougue. Não se conforma absolutamente com esse neg6cio de vender leite; o seu destino é talhar carne.
Outro que lá vai é o Manel Capineiro. Mora na redondeza e a sua vida se faz no capinzal, em cujo seio vive, a vigiá-lo dia e noite dos ladrões, pois os há, mesmo de feixes de capim. O “Capineiro” colhe o capim à tarde, enche as carroças; e, pela madrugada, sai com estas a entregá-lo à freguesia. Um companheiro fica na choupana no meio do vasto capinzal a vigiá-lo, e ele vai carreando uma das carroças, tocando com o guião de leve os seus dois bois – “Estrela” e “Moreno”.
Manel os ama tenazmente e evita o mais possível feri-los com a farpa que lhes dá a direção requerida.
Manel Capineiro é português e não esconde as saudades que tem do seu Portugal, do seu caldo de unto, das suas festanças aldeãs, das suas lutas a varapau; mas se conforma com a vida atual e mesmo não se queixa das cobras que abundam no capinzal.
– Ai! As cobras!… Ontem dei com uma, mas matei-a .
Está aí um estrangeiro que não implica com os nossos ofídios o que deve agradar aos nossos compatriotas, que se indignam com essa implicância.
Ele e os bois vivem em verdadeira comunhão. Os bois são negros, de grandes chifres, tendo o “Estrela” uma mancha branca na testa, que lhe deu o nome.
Nas horas do ócio, Manel vem à venda conversar, mas logo que olha o relógio e vê que é hora da ração, abandona tudo e vai ao encontro daquelas suas duas criaturas, que tão abnegadamente lhe ajudam a viver.
Os seus carrapatos lhe dão cuidado; as suas “manqueiras” também. Não sei bem a que propósito me disse um dia:
– Senhor fulano, se não fosse eles, eu não saberia como iria viver. Eles são o meu pão.
Imaginem que desastre não foi na sua vida, a perda dos seus dois animais de tiro. Ela se verificou em condições bem lamentáveis. Manel Capineiro saiu de madrugada, como de hábito, com o seu carro de capim. Tomou a estrada pra riba, dobrou a Rua José dos Reis e tratou de atravessar a linha da estrada de ferro, na cancela dessa rua.
Fosse a máquina, fosse um descuido do guarda, uma imprudência de Manel, um comboio, um expresso, implacável como a fatalidade, inflexível, inexorável, veio-lhe em cima do carro e lhe trucidou os bois. O capineiro, diante dos despojos sangrentos do “Estrela” e do “Moreno”, diante daquela quase ruína de sua vida, chorou como se chorasse um filho uma mãe e exclamou cheio de pesar, de saudade, de desespero:
– Ai mô gado! Antes fora eu!…
Lima Barreto
terça-feira, julho 21
Existe uma idade melhor?
A vida é um rio que corre. Nós somos os peixes, galhos e folhas caídas das árvores que essa torrente leva. Se pensarmos assim, imaginando que vamos desaguar no estranho silencioso nebuloso mar chamado morte, que pode não ser o fim de tudo, teremos uma visão realista das etapas da nossa existência. Sou pouco simpática à invenção de rótulos que distorcem realidades revelando apenas um preconceito: envelhecer é feio, é degradante, vamos ser eternamente jovens, seguindo aos pulinhos até o fim, fantasiados de Peter Pan. Disfarçamos realidades naturais porque as vemos como algo feio, inadmissível, pobres de nós, ignorantes do que é normal e digno e bom.
Assim, inventam-se termos para a velhice: um pior do que o outro. “Terceira idade” não significa grande coisa, pois, se podemos viver até 80 ou 90 ainda ativos – (o número de pessoas nessas condições tende a aumentar -, vamos criar uma quarta idade e uma quinta: isso tudo me parece bastante tolo. Pior ainda é chamar a velhice, que alguns consideram se iniciar aos 60, outros aos 70 ou aos 80, de “melhor idade”. Quem disse que é melhor? Melhor do que qual outra fase? Melhor é algo muito subjetivo, em geral nos referimos à infância, mas a infância é sempre feliz? A Juventude não sofre? A maturidade não exige trabalhos e sacrifício?
Por que consideramos a passagem do tempo decadência, e não transformação? Tudo é um processo que se inicia quando somos concebidos, depois somos lançados nesse rio de tantas águas chamado vida. Uma cadeia de mudanças que após um bom tempo traz limitações físicas, menos elasticidade, menos beleza no conceito geral, talvez menos lucidez. Alguma dependência de outros, quem sabe, e, se não cultivamos bons afetos, isso pode ser doloroso. Mas não necessariamente decrepitude e vergonha a esconder! Todas essas naturais transformações deveriam vir acompanhadas de qualidades que na juventude não tínhamos. Capacidade de amar melhor, por exemplo: filhos criados, amizades consolidadas, velhos casamentos sendo uma parceria tranquila, e tempo disponível, são grandes privilégios. Podemos amar com mais alegria, pois não precisamos educar netos, apenas curtir, querer bem, deixar que gostem de nossa companhia, não sendo os chatos cobradores, exigentes a reclamar que as visitas são poucas, que merecíamos mais atenção. Temos tempo para curtir coisas que passavam despercebidas na correria anterior, como uma bela paisagem, um bom filme, um bom livro, uma boa conversa, doces memórias, não pensando no que perdemos, mas no que tivemos e ficou em nós, se fomos atentos e não fúteis demais.
“O que a senhora faz para se manter jovem?”, me perguntou um jornalista recentemente. Achei graça: eu não quero me manter jovem, quero ser uma pessoa interessada, e quem sabe interessante, na fase em que estou. Querer ter 40 anos aos 70 é tão patético quanto querer ter 20 aos 40, como se nos tivessem embalsamado na idade que achamos ideal. Que idade será essa? A infância é para alguns a fase mais feliz; para outros foi a juventude, e assim vai. Não acho que a chamada “terceira idade” seja a melhor, e detesto a expressão “melhor idade”, que apenas revela um preconceito atroz. Mas nela podemos ter e passar adiante coisas boas, belas e alegres, e contemplar do alto desses anos todos com mais lucidez e calma, por exemplo, a mediocridade reinante neste momento no país, se é que isso nos interessa. Deveria interessar.
Mas uma cruel fixação na juventude nos impede de curtir naturalmente a passagem do tempo, que, se aliada a certo bom humor, nos torna amados e amorosos, ligados ao mundo mesmo quando a velha senhora morte começa a rondar a nossa casa. E, se acreditarmos que esse rio da vida que corre não termina num nada absurdo, mas em nova fase, quem sabe não precisaremos tapar a cabeça feito crianças diante do que nos espera nesse mar onde tudo deságua – inclusive nossos preconceitos, nossas fragilidades e nossas ilusões.
Assim, inventam-se termos para a velhice: um pior do que o outro. “Terceira idade” não significa grande coisa, pois, se podemos viver até 80 ou 90 ainda ativos – (o número de pessoas nessas condições tende a aumentar -, vamos criar uma quarta idade e uma quinta: isso tudo me parece bastante tolo. Pior ainda é chamar a velhice, que alguns consideram se iniciar aos 60, outros aos 70 ou aos 80, de “melhor idade”. Quem disse que é melhor? Melhor do que qual outra fase? Melhor é algo muito subjetivo, em geral nos referimos à infância, mas a infância é sempre feliz? A Juventude não sofre? A maturidade não exige trabalhos e sacrifício?
Por que consideramos a passagem do tempo decadência, e não transformação? Tudo é um processo que se inicia quando somos concebidos, depois somos lançados nesse rio de tantas águas chamado vida. Uma cadeia de mudanças que após um bom tempo traz limitações físicas, menos elasticidade, menos beleza no conceito geral, talvez menos lucidez. Alguma dependência de outros, quem sabe, e, se não cultivamos bons afetos, isso pode ser doloroso. Mas não necessariamente decrepitude e vergonha a esconder! Todas essas naturais transformações deveriam vir acompanhadas de qualidades que na juventude não tínhamos. Capacidade de amar melhor, por exemplo: filhos criados, amizades consolidadas, velhos casamentos sendo uma parceria tranquila, e tempo disponível, são grandes privilégios. Podemos amar com mais alegria, pois não precisamos educar netos, apenas curtir, querer bem, deixar que gostem de nossa companhia, não sendo os chatos cobradores, exigentes a reclamar que as visitas são poucas, que merecíamos mais atenção. Temos tempo para curtir coisas que passavam despercebidas na correria anterior, como uma bela paisagem, um bom filme, um bom livro, uma boa conversa, doces memórias, não pensando no que perdemos, mas no que tivemos e ficou em nós, se fomos atentos e não fúteis demais.
“O que a senhora faz para se manter jovem?”, me perguntou um jornalista recentemente. Achei graça: eu não quero me manter jovem, quero ser uma pessoa interessada, e quem sabe interessante, na fase em que estou. Querer ter 40 anos aos 70 é tão patético quanto querer ter 20 aos 40, como se nos tivessem embalsamado na idade que achamos ideal. Que idade será essa? A infância é para alguns a fase mais feliz; para outros foi a juventude, e assim vai. Não acho que a chamada “terceira idade” seja a melhor, e detesto a expressão “melhor idade”, que apenas revela um preconceito atroz. Mas nela podemos ter e passar adiante coisas boas, belas e alegres, e contemplar do alto desses anos todos com mais lucidez e calma, por exemplo, a mediocridade reinante neste momento no país, se é que isso nos interessa. Deveria interessar.
Mas uma cruel fixação na juventude nos impede de curtir naturalmente a passagem do tempo, que, se aliada a certo bom humor, nos torna amados e amorosos, ligados ao mundo mesmo quando a velha senhora morte começa a rondar a nossa casa. E, se acreditarmos que esse rio da vida que corre não termina num nada absurdo, mas em nova fase, quem sabe não precisaremos tapar a cabeça feito crianças diante do que nos espera nesse mar onde tudo deságua – inclusive nossos preconceitos, nossas fragilidades e nossas ilusões.
Lya Luft, Revista Veja, 30/01/2013
Sonho domado
Sei que é preciso sonhar.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Thiago de Mello
Histórias de beija-flores
Gostaria de ser um passarinho viciado em leite por sua dona e de ir buscá-lo em seus róseos mamilos. Saberia bicá-los com delicadeza, como um beija-flor.
Beija-flor com suarabácti é beija-folor.
Um beija-flor te acompanhou por três ruas, porque levavas sem perceber uma migalha de pão no lábio, e, quando a atiraste ao chão, ele quase desceu. Mas, tangido por outro apelo, o da beleza, decidiu continuar te seguindo.
Como nos conforta termos visto tão poucas vezes a beleza. Como nos alivia termos sentido tão raramente sua presença. Como suportaríamos mais lembranças, se as poucas que temos nos afligem como um espinho espetando o peito de um beija-flor?
Um beija-flor é sempre uma presa fácil para poetas medíocres.
As licenças poéticas deveriam ser concedidas por uma comissão da qual participassem uma borboleta, um beija-flor e um bem-te-vi.
Palavras como beleza, quando requisitadas por um poeta, deveriam vir trazidas por um passarinho de alta hierarquia, como um beija-flor.
O beija-flor faz pose de bonitão na antena de televisão.
Se você estiver num jardim e notar que vem chegando um beija-flor, fique atento à rosa. Pode ser que a natureza esteja tramando um haicai.
Para o aniversário da amada, o beija-flor levou um fiozinho de arco-íris, ainda quente de sol.
***
Beija-flor com suarabácti é beija-folor.
***
***
Como nos conforta termos visto tão poucas vezes a beleza. Como nos alivia termos sentido tão raramente sua presença. Como suportaríamos mais lembranças, se as poucas que temos nos afligem como um espinho espetando o peito de um beija-flor?
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Um beija-flor é sempre uma presa fácil para poetas medíocres.
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As licenças poéticas deveriam ser concedidas por uma comissão da qual participassem uma borboleta, um beija-flor e um bem-te-vi.
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Palavras como beleza, quando requisitadas por um poeta, deveriam vir trazidas por um passarinho de alta hierarquia, como um beija-flor.
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O beija-flor faz pose de bonitão na antena de televisão.
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Se você estiver num jardim e notar que vem chegando um beija-flor, fique atento à rosa. Pode ser que a natureza esteja tramando um haicai.
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Para o aniversário da amada, o beija-flor levou um fiozinho de arco-íris, ainda quente de sol.
O vergalho
Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: – “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.
– Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
– Meu senhor! gemia o outro.
– Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio - o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
– E, sim, nhonhô.
– Fez-te alguma coisa?
– É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
– Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
– Pois não, nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre.
Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente.
Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, – transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
– Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
– Meu senhor! gemia o outro.
– Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio - o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
– E, sim, nhonhô.
– Fez-te alguma coisa?
– É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
– Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
– Pois não, nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre.
Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente.
Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, – transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
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