sexta-feira, agosto 14

Vida nas ilhas


A poesia não vai

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.

Eugénio de Andrade

Os velhos e a borboleta

 Para Gerana Damulakis


The bee is not afraid of me,
I know the butterfly,
The pretty people in the Woods
Receive me cordially.
Emily Dickinson

No jardim a borboleta propõe as flores. Faz borboletices entre as florzinhas. É pura felicidade quando descobre a rosa charmosa. Ternura em hesitante tremor é o que os dois velhos sentados no banco do jardim estão vendo agora através de finas saliências da borboleta que acaba de pousar na rosa. Carícia de borboleta, seda de rosa, perfeito encontro dos que namoram na manhã luminosa. Depois que asas sublimes acabam de amar, a borboleta voa e vai levar ao vento a delícia de ter beijado a rosa.

O velho de cabelos grisalhos diz para o outro que a larva da borboleta não tece casulo, passando o período ninfal sob a forma de crisálida. Acrescenta com a voz mansa que a borboleta voa pela campina e o ar ilumina. Dá aulas de balé como a única bailarina do mundo que não usa sapatilha. Milagre na estação temperada de sol, oscila no voo pela colina, vive suavemente o sonho de viajar na natureza apenas um dia. Bailar, amar, é essa a sua vida no ar. Transluz na plantinha a sustentável leveza de ser, treme asas quando recebe da brisa ligeira convite para exercer a vida como a fantasia de um dia. E, sob ondulações que resvalam nas lâminas do ar, sabe que não existe sonho mais belo do que viver em tácito entendimento com a luz. Na poeira dourada da flor, a borboleta reverbera a fina escrita da beleza.

Muitas borboletas cobriam a terra fresca nos barrancos do rio, dando ideia de um manto feito com asas brancas, azuis e amarelas. Os meninos que tiveram comigo a felicidade de viver a aventura da infância achavam bonito ver as borboletas voando em bando, acima do rio. Nuvens formavam uma sinfonia de asas acima do espelho das águas. Era algo especial nas tardes de verão. Da balaustrada no jardim merecia ser contemplado. As borboletas oscilavam para o norte ou sul, voltavam, subiam, desciam, pousavam no barranco das margens do rio e da ilha.

Os velhos comparecem ao jardim para conversar sobre a idade das águas. Muitas já passaram por debaixo da ponte, bem sabem eles do inevitável dessas águas que correm para o mar. Embora o homem passe tocando suave o realejo, o menino anuncie a manchete do dia, tentando vender o jornal aos velhos, o que importa a eles nesse instante é indagar sobre as sombras na tarde, sentindo que os olhos não chegam a compreender aquilo que entardece sobre manchas. Penso que ficam contentes quando aparece uma borboleta, com seus devaneios de asas que purificam os olhos cansados da vida. A borboleta fica distraindo os velhos no voo translúcido ou pousada na flor, sem querer de suas almas nada em troca.

A pureza que uma borboleta põe na manhã tem a ver com a alegria dos sons que os passarinhos soltam dos bicos inquietos, voando ou saltitando nos galhos das árvores em floração. Asas sedosas enternecem enquanto sons de ouro alegram num só momento pleno dessa música que a natureza dá de graça, fazendo que os velhos esqueçam que o tempo engole a vida, virando a página de tudo em rigor de atitude que comanda.

O velho de cabelos grisalhos, numa voz indicativa de admiração, ante o milagre que faz a borboleta ser vida, observa para o outro que somente Deus pode criar tamanha ternura numa existência tão curta. Embora bem mais longa, ele sabe que a vida dos seres humanos tem também um fim. Ele mesmo rodopiará quando chegar o momento e cairá em algum lugar desconhecido. Como os outros, ele faz parte dessa regra soberba, criada pela natureza sem exceção. “Quando chegar minha vez e eu cair, haverá o anjo da guarda com asas de borboleta para me guiar depois da curva na estrada”, pulsa no velho de cabelos grisalhos esse pensamento, que apareceu de súbito na mente, irrompendo do escuro como um facho salvador.

Enquanto isso não acontecer, a borboleta no jardim virá propor as flores para dessa maneira adornar a conversa acerca dos anos idos e vividos. Perfumará as vozes que lembrarão o ritmo da cidade cada vez mais crescente, gente comprando e vendendo no comércio como num formigueiro. Tranquilizará os gestos dos velhos banhando-se na manhã de sol, recebendo a brisa na pele enrugada, em carícia de lenço. Um deles, que gosta de usar camisa axadrezada, boné azul-marinho, provavelmente estará informando, a certa altura da conversa vagarosa, sobre a coleção de carros novos do fazendeiro abastado. Como ele gosta de mostrá-la aos amigos no churrasco de fim-de-semana, que oferece na fazenda.

Acontece que, pensando, pensando, quando de novo brilhar na manhã do jardim as carícias que a borboleta vem fazer na rosa, extraindo na manhã de luz um beijo sutilíssimo feito de nácar e seda, belo, belo, belo, o velho de cabelos grisalhos não terá mais dúvida que, entre todos os homens abastados da cidade, somente ele é o ganhador.

Irá viajar pelo jardim, de canto a canto, com asas de borboleta. Pousará em cada flor para fazer carícia na manhã radiante de sol e cantos de passarinhos fazendo sua festa, voando e saltitando nos galhos da árvore salpicada de flores, que caem no chão formando uma camada quando o vento passa forte e refresca com as suas lufadas a atmosfera.

Grande Umbra

 Na Era da Grande Umbra, não sobrou vivalma na Terra.

Não sobrou um único exemplar de ginkgo biloba nem uma barata, a árvore e o inseto mais resistentes do planeta. Todavia, a tantos milhões de anos-luz de distância e tanto tempo depois do eclipse original, em Seh2U_el, não existe recordação da Grande Umbra que preencha a memória dos Olhos-Vivos.

Eu sou um Olho-Vivo de Última Ordem. A vós contarei – não aquilo de que me lembro, uma vez que os Olhos-Vivos não têm lembranças –, mas o que trouxe para Seh2U_el, muito depois de tudo acontecer.


Em primeiro lugar, dir-vos-ei que pertenço a uma linhagem marginal e amaldiçoada, sou feito de escória de terras raras, o que guardo é limitado, mas importante, apesar de, segundo alguns antigos humanos, não servir para nada. Não ser útil. Não servir como alimento. Não servir como bebida. Não servir para prover à sobrevivência. Não à nossa, claro, à dos ditos humanos, do reino da utilidade e do utilitarismo.

– Isso serve para quê ao certo?

Em Seh2U_el, a atmosfera ainda é mais violenta do que a da Terra na Era da Grande Umbra: chuvas de meteoritos, ventos ciclónicos que arrastam poeiras radioativas e gases tóxicos, uma neblina rala que corre sobre poças de ácidos corrosivos, deixando a nu uma superfície desértica. Se eu fosse um ser vivo, diria que, em Seh2U_el, a atmosfera é letal. Todavia, não posso afirmar tal coisa: um Olho-Vivo é apenas Memória enviada pelos humanos, para longe do seu planeta moribundo de modo que, um dia, tudo possa renascer, ser replicado noutra galáxia, noutra dimensão do espaço-tempo. Não sabemos quando isso acontecerá, se é que alguma vez acontecerá.

A geração inicial de Olhos-Vivos, batizada de Primeira Ordem, foi concebida para levar nos seus núcleos as células de todos os animais e as sementes de todas as plantas, como uma espécie de arca de Noé intergaláctica. Outros foram programados para encontrar um local onde, reunidas as condições mínimas, a vida terráquea pudesse recomeçar do zero. Esses ainda andam por aí, pelas galáxias, de Andrómeda à do Sombrero, de NGC 1300 a M87, em busca do Paraíso Perdido.

Eu sou da casta dos Últimos, dos que esperam. Estamos aqui em Seh2U_el, abrigados em galerias subterrâneas, numa espécie de hibernação que dura há uma eternidade – embora esse seja um conceito filosófico – a tender para o infinito matemático, desde que se abateu a Grande Umbra sobre a Terra. Todos temos uma forma esférica, do tamanho de um ovo de codorniz ao de um ovo de ganso e, no espaço, podemos igualar a velocidade da luz. Contemos ainda, além do precioso núcleo, um estrato mínimo de informação generalista que nos permite, por exemplo, saber o que são e comparar o tamanho de ovos.

Devo então explicar-vos o que aconteceu num passado indefinível na Terra: um eclipse do sol estava anunciado. O eclipse duraria, nas zonas de umbra, devido às forças em presença, no máximo, sete minutos e vinte segundos. Os humanos juntaram-se aí, aos magotes, com óculos de cartão na ponta do nariz alguns, outros armados com telescópios, para ver a Lua a interpor-se entre o Sol e a Terra até devorar por completo a sua circunferência, um minuto, dois, três, e depois sete. E depois oito minutos. E depois horas, dias, meses, um ano, uma década, séculos e séculos. É isso a Grande Umbra. Uma impossibilidade pelas leis da Física. Só que ainda dura, tanto quanto sei.

– E o que é que eu sei?

Quando perceberam a irreversibilidade do eclipse, os humanos quiseram fugir. No entanto, não havia para onde escapar da escuridão que se abateu sobre todo o planeta. As plantas deixaram de fazer fotossíntese, as colheitas pereceram, o plâncton morreu, depois os animais e os peixes, e a catástrofe alastrou em todos os ecossistemas, da terra aos mares. A temperatura desceu e desceu e desceu até uma crosta de gelo cobrir montes e vales e a superfície dos oceanos congelar.

Dos animais, restou o esquilo-do-Ártico que conseguia reduzir os batimentos cardíacos de trezentos por minuto a um único batimento por minuto e hibernar, com uma temperatura corporal de zero graus, mais de oito meses debaixo de meio metro de gelo. Quanto acordou da hibernação, não havia alimento. Morreu.

Dos humanos, sobreviveram apenas os incrivelmente ricos e poderosos, os que tiveram forma de aproveitar algum calor do núcleo da Terra ou que conceberam e controlaram, com muito custo, fontes de calor e luz artificial. Essa elite, que descendia de gente estúpida e sem escrúpulos, que não sabia ler nem escrever, muito menos raciocinar, vivia sustida por aditivos de doron, a droga da inteligência, e dominava outros ainda mais estúpidos e sem posses para comprar a dose diária dessa substância. No entanto, mesmo esses sabiam que todos os recursos acabariam por se extinguir.

Foi Hikari-to-Kage, a Insigne Cientista, que idealizou o Projeto Olhos-Vivos. A princípio, tudo correu bem: os Olhos-Vivos de Primeira Ordem seguiram para o espaço. A ganância da elite, no seu afã de salvar a própria pele, veio então corroer as coisas. Exigiu a Hikari-to-Kage, sob pena de morte, a criação de Olhos-Vivos hospedeiros, para si própria e para os seus filhos. A Insigne Cientista aquiesceu, mas criou apenas um protótipo disfuncional, que explodiu e se despenhou no momento do lançamento, enquanto ela fugia.

Hikari-to-Kage passou o resto da vida em fuga, a roubar e a catar o lixo dos laboratórios, e com restos de escória, construiu-nos, um por um. Antes de morrer, ou de ser eliminada, enviou para o espaço, à revelia da elite mandante, centenas de Olhos-Vivos cujos núcleos contêm, desmaterializadas, algumas das maiores obras de arte produzidas pelos humanos. Um trouxe a Pietà de Miguel Ângelo. O outro, a Odisseia de Homero. Aqueloutro, A Deposição da Cruz de Caravaggio. Eu carrego o Requiem de Mozart. Calhou-nos vir para Seh2U_el que, ironicamente, significa “Sol” em proto indo-europeu, uma língua reconstruída por linguistas também eles há muito desaparecidos.

Quando os Olhos-Vivos de Primeira Ordem encontrarem o Paraíso Perdido, instalar-nos-emos todos lá, reconstituiremos o mundo natural e, conforme o sonho de Hikari-to-Kage, a Insigne Cientista, a humanidade reencontrará o seu destino solar, luminoso e próspero, a Era da Grande Umbra dará então lugar à Era da Grande Luz. Enquanto isso não acontece, as notas do Requiem ecoam, circulares, perfeitas, mágicas, nas entranhas de Seh2U_el.

– Serão os humanos capazes de salvar a sua humanidade?

É velhice ou não sei ler?

 Sofro de memória curta para certas lembranças, inclusive para livros inteiros, muitos deles desbravados na hora, ardentemente e, mais à frente, esquecidos, ainda que me deixem algum rescaldo de tênue consistência.

Falo assim tendo à mão uma velha crônica de Martinho Moreira Franco fazendo menção ao meu pegadio com livros, dependência que não está longe do modo como vivi a primeira infância: filho único numa casa solitária, à distância de outras casas com crianças, cercado de advertências e medos de lobisomens (nesse tempo existia), de cachorro doente, do bote do guaxinim, de cobra coral, a que mais deslizava por entre as ervas rasteiras dos cantos de parede. Medo do doido Olegário, que andava pelos altos com seu grito rouco de fonemas que não chegavam a ter sentido.

Resumia-me numa convivência de silêncios, somente quebrada pelas falas da cozinha e o zunido das abelhas em seu voo incessante, das flores para os cortiços enfileirados no alpendre, com frente para o sol benéfico da manhã.

Lu-iz! Era, de vez em quando, o chamado lá de dentro, de tônica bem aguda, para saber onde e o que eu estava fazendo.

Já lendo sozinho, foi nos poucos livros de D. Antonina, todos sagrados, e no jornalzinho da igreja que fui achar companhias. No primeiro ou segundo “livro de leitura” é que fui atrelar-me a um casal de crianças que rumava de trem das terras do cacau para as do café com leite, deixando-me atrapalhado em Pindamonhangaba. Aí demorei soletrando, perdendo os dois de vista, que se foram para sempre com o trem que se chegou a sonhar e que empacou antes da serra de Areia, em Alagoa Grande.

E me adomei nessa dependência, remoendo o despreparo para o esporte: o vôlei do tempo de ginásio, o futebol a mim reduzido ao time de botão, com uma seleção em que entravam desde craques do Treze aos do Vasco da Copa de 1950.

Como se pode ver, não me peguei com o livro por opção, mas como refúgio para não ficar falando sozinho. Some-se a isso o internato, no antigo Pio XI, do padre Odilon Pedrosa, com mais horas no salão de leitura, na sala de aula, na missa, do que nos intervalos das refeições e do recreio.

É uma dependência, para não dizer vício, mas com uma vantagem: os livros não mudam. Serenos ou arrebatados, venham de Machado ou de Zé Lins, de Carlos Romero ou de Hildeberto, serão sempre os mesmos e sempre com mais significados quando voltamos a eles.

Mas a memória não me ajuda muito, salvo em leituras que me ferraram a sensibilidade ou se juntaram, vívidas, à minha experiência, ao meu espírito.

Por mais que estudasse, a meu modo, o fazer literário ou me detivesse no emprego da palavra que a ideia exigia, muita coisa se apartou da memória.

Agora mesmo, coisa de uma semana atrás, dei com uma antologia do conto norte-americano lida há uns trinta anos. Passei as folhas tendo como bem lembrado e vivo apenas um conto do velho Steinbeck, O pônei alazão. Dos demais, inclusive Poe, Henry James ou o mais jovem deles, Saroyan, todos com expressões ou frases inteiras frisadas na primeira leitura, ressurgiam inteiramente apagados, fora da memória.

quinta-feira, agosto 13

Livraria no cais

 


Marta

“Tenho quarenta anos, sou um homem sensível, gosto de música, poesia e cinema. Sou advogado, solteiro, moro sozinho. Procuro parceira para uma relação duradoura, de amor e respeito. Romântico Incorrigível.”

Fiquei uma semana, eu, o Romântico Incorrigível, entrando em vários sites de chat, e já estava ficando cansado quando a mulher que eu procurava apareceu:

“Querido Romântico Incorrigível. Como você, estou também à procura de uma relação duradoura com alguém carinhoso e digno. Também amo música e poesia e principalmente cinema. Fale mais de você. Louise Brooks.”

“Querida Louise Brooks. Nunca casei, não porque não tivesse condições financeiras para isso, pelo contrário, sou um homem de recursos, não obstante leve uma vida modesta. Até hoje não me casei por não ter encontrado a mulher ideal. Dizem que isso não existe, que é uma visão romântica. Mas eu me recuso a aceitar esse pessimismo. É por isso que adotei o pseudônimo de Romântico Incorrigível. E você? Qual a razão de Louise Brooks?”

“Querido Romântico. Louise Brooks era uma atriz linda, do cinema mudo. Um dia um namorado me deu uma foto dela tão parecida comigo que eu a guardo até hoje. Uma mulher com um ar misterioso, que eu, na verdade, não tenho. Sou um livro aberto. Também nunca casei e procuro o homem ideal. Sei que vou encontrá-lo. Quem sabe ele não é você? Você tem namorada? Louise Brooks.”

“Querida Louise. Não, não tenho namorada. Gostaria de me encontrar com você. Você deve estar pensando, ele não me conhece, como pode querer se encontrar comigo? Mas eu tenho certeza de que vamos nos dar muito bem. Pensa nisso. Romântico.”

“Querido Romântico. Sou uma pessoa tímida, moro com a minha mãe, estou fazendo essa loucura pela primeira vez na minha vida, conversar com um estranho pela internet. Não sei se devo levar isso adiante. Tenho medo. Louise.”

Eu tinha pressa de pegar aquela mulher.

“Querida Louise. Também sou uma pessoa tímida como você, esta é a primeira vez que faço isso. Mas sei, numa espécie de premonição, que vamos nos dar muito bem. Posso passar na sua casa? Sei que a sua mãe vai gostar de mim. Romântico.”

“Querido Romântico. Na minha casa é impossível, tem que ser na sua. Me dá o endereço. Passo aí amanhã, no início da noite. Beijos. Louise.”

“Querida Louise. Meu endereço é rua Gomes Monteiro, terceiro andar. É um edifício de quatro andares, um apartamento por andar, um daqueles prédios antigos que a especulação imobiliária ainda não conseguiu destruir. Você toca o interfone que eu abro a porta. Aguardo você ansioso. Romântico.”


Fiquei tenso o dia inteiro, e à medida que a hora se aproximava eu ficava ainda mais. Eu precisava pegar aquela mulher.

Então o interfone tocou.

“É a Louise.”

Apertei o controle remoto. Pouco depois a campainha do apartamento soou. Abri.
Era um mulher muito branca, de cabelos tão negros que pareciam pintados. Vestia uma minissaia que exibia lindas e longas pernas alvas.

“Por favor, entre.”

Ali estava a mulher que eu procurava. Ela entrou. Pedi que se sentasse.

“Bonito apartamento. É seu?”

“É. Tenho outro, na Barra, que está alugado.”

“Meu nome verdadeiro é Diana.”

“O meu é Carlos.”

“Olha aqui a foto da Louise Brooks”, ela disse.

Olhei. Uma foto em preto e branco. O cabelo também era de um negror raro e o rosto muito branco. Linda mulher.

“Quer beber alguma coisa?”

“Um uisquinho.”

Eu apanhei na copa uma garrafa de uísque, uma de água mineral e um balde de gelo.

“Gosto do meu sem gelo, só água e uísque, mais uísque do que água”, eu disse.

“O meu com gelo, por favor, e bastante água.”

Preparei as nossas bebidas. Coloquei os copos em uma bandeja.

“Você tem alguma coisa para a gente beliscar?”, ela perguntou.

“Vou ver lá dentro, não demoro", respondi.

Demorei um pouco, com o saco de biscoitos na mão, sentado na copa. Queria dar tempo a ela.

Depois de uns minutos voltei. Louise ergueu o copo.

“Queria fazer um brinde, desejando que o nosso relacionamento seja duradouro, como você disse no seu e-mail.”

Levei meu copo aos lábios.

“Antes de beber vou apanhar também uns salgadinhos na cozinha”, falei. “Eu só trouxe biscoitos.”

Fui para a cozinha levando o meu copo. Fiz o que tinha de fazer. Voltei com um prato de salgadinhos.

Ergui o copo. “A uma relação duradoura”, eu disse.

“Tim, tim”, respondeu ela, batendo com o seu copo no meu.

Bebemos enquanto conversávamos.

Ela era órfã de pai, e a mãe viúva com quem morava era muito controladora. Não tinha outros parentes.

Contei que tinha quatro irmãs, todas mais velhas do que eu. Disse que gostaria de viajar com ela, ir a Paris, ou Nova York. Eu já tinha os dólares para a viagem separados. Ela disse que queria conhecer Katmandu.

“Vou buscar mais água na cozinha”, eu disse, levantando-me.

Mas assim que levantei, cambaleei, apoiando-me no espaldar da poltrona.

“Estou meio tonto...”

Ela me abraçou.

“Está tonto mesmo ou isso é um truque para eu abraçar você?” Segurou no meu pau, que estava mole. “Daqui a pouco eu faço ele ficar duro. Senta um pouco na poltrona”, ela disse.

Sentei-me e logo minha cabeça pendeu para a frente.

“Carlos, Carlos, você está bem?”

Não obteve resposta.

Um pouco depois ela sacudiu o meu braço.

“Carlos, está me ouvindo?”

Continuei mudo.

Ouvi o barulho de Diana tentando abrir o quarto fechado. Senti as mãos dela revistando meus bolsos. Em seguida ouvi a voz dela, devia estar falando num celular.

“Ígor, ele colapsou. As coisas devem estar num quarto trancado. Sim, eu espero, você sabe o endereço, não sabe? Toca a campainha.”

Continuei imóvel, derreado na poltrona. Ouvi a campainha.

“É o Ígor”, ouvi a voz no interfone.

“Sobe”, disse Diana.

Barulho de porta sendo aberta.

“Foi fácil?”, voz de homem.

“Moleza. Acho que joias, dólares e o que interessa estão nesse quarto trancado. Mas não achei a chave.”

“Deve estar no bolso dele.”

“Já revistei. Não tem chave nenhuma. Ígor, vamos apagar o cara, fazer o serviço completo.”

“Não gosto disso, Marta.”

“Porra, ele viu a minha cara. Se você cortar a garganta dele o cara não vai sentir nada. Serviço completo, Ígor, pra isso você leva metade e ainda me come.”

“Vamos arrombar a porta”, disse Ígor.

Mas a porta se abriu antes que a arrombassem.

Os dois tiras que trabalhavam comigo saíram do quarto com as armas apontadas para eles. Mandaram que os dois se deitassem no chão com as mãos para trás.

Enquanto os dois eram algemados eu me levantei do sofá.

“Marta Castro e Ígor da Silva, vocês estão presos pelo assassinato de Edgard Gouveia”, eu disse.

Os dois começaram uma discussão acalorada em que Ígor dizia que a ideia fora de Marta, que o obrigara a matar o sujeito, e Marta dizia que tentara impedir, mas Ígor matara assim mesmo.

“Quem matou foi você”, repetia Marta.

“Você mandou, sua puta”, dizia Ígor.

Discutiram sem parar, até chegarmos à delegacia, onde foram autuados e a prisão preventiva solicitada ao juiz. Iam ser condenados a uma pena longa de reclusão.

Antes de ser trancafiada, Marta conversou comigo.

“Você não ficou desacordado e eu coloquei uma dose cavalar de entorpecente no seu copo. Como foi isso?”

“Quando fui na cozinha troquei de copo. O que eu bebi estava limpo.”

“Como foi que vocês me descobriram?”

“Examinando o computador da vítima de vocês, o Edgard Gouveia, que vocês mataram cortando a garganta. Estava lá inteirinho, o chat com a Louise Brooks. Você devia ter mudado o seu nome.”

“Mas eu queria ser ela. Louise é parecida comigo, não é?”

“Sim, muito”, respondi.

E era, realmente. Um rosto raro. Marta poderia ser modelo fotográfico ou fazer carreira no cinema. Mesmo sem mudar de nome. Mas quando saísse da cadeia seria tarde demais.
Rubem Fonseca, "Ela e Outras Mulheres"

O melhor pretexto

É tão frágil a vida,
tão efémero, tudo!
(Não é verdade, amiga,
olhinhos-cor-de-musgo?)

E ao mesmo tempo é forte,
forte da veleidade,
de resistir à morte
quanto maior a idade.

Assim, aos trinta e sete,
fechados alguns ciclos,
a vida ainda pede
mais sentimento, vínculos.

Não tanto os que nos deram
a fúria de viver,
como esses descobertos
depois de se saber

Que a vida não é outra
senão a que fazemos
(e a vida é uma só,
pois jamais voltaremos).

Partidários da vida,
melhor: do que está vivo,
digamos "não!" a tudo
que tenha outro sentido.

E que melhor pretexto
(quem o saiba que o diga!)
teremos p'ra viver
senão a própria vida?
Alexandre O’Neill, "Poemas com endereço"

Odradek

Alguns derivam do eslavo a palavra Odradek e querem explicar sua formaçao mediante essa origem. Outros a derivam do alemão e admitem apenas uma influência do eslavo. A incerteza de ambas as interpretações é a melhor prova de que são falsas; além disso, nenhuma delas nos dá uma explicação da palavra.


Naturalmente ninguém perderia tempo em tais estudos se não existisse realmente um ser chamado Odradek. Seu aspecto é o de um carretel de linha, achatado e em forma de estrela, e a verdade é que se parece feito de linha, mas de pedaços de linha, cortados, velhos, emaranhados e cheios de nós, de todos os tipos e cores diferentes. Não é apenas um carretel; do centro da estrela sai uma
hastezinha e nesta se articula outra em 6angulo reto. Com a ajuda desta última de um lado e um dos raios da estrela do outro, o conjunto pode ficar em pé como se tivesse duas pernas.

Seriamos tentados e crer que esta estrutura teve alguma vez uma forma adequada e uma função, e que agora apenas está quebrada. Entretanto, esse não parece ser o caso; não há pelo menos nenhum sinal disso; em parte alguma se veem remendos ou rupturas; o conjunto parece sem sentido, porém completo à sua maneira. Nada mais podemos dizer, porque Odradek tem extraordinária mobilidade e não se deixa capturar.

Tanto pode estar no forro, como no Vão da escada, nos corredores, no saguão. Ás vezes passam-se meses sem que alguém o veja. Terá se aninhado nas casas vizinhas, mas sempre volta à nossa. Muitas vezes, quando cruzamos a porta e o vemos lá embaixo, encostado ao balaústre da escada, temos vontade de falar-lhe.

Naturalmente não se fazem a ele perguntas difíceis, mas sim o tratamos – seu diminuto tamanho nos leva a isso – tal qual uma criança. “Como te chamas?” perguntam-lhe. “Odradek”, diz. “E onde moras?” “Domicilio Incerto”, responde , e ri, mas é um riso sem pulmões. Soa como um sussurro de folhas secas.

Geralmente o diálogo acaba aí. Nem sempre se conseguem essas respostas; por vezes guarda um silêncio, como a madeira de que parece ser feito. Inutilmente me pergunto o que acontecerá a ele. Pode morrer? Tudo que morre teve antes um objetivo, uma espécie de atividade, e assim se gastou; isto não acontece com Odradek. Descerá a escada arrastando fiapos frente aos pés de meus filhos e dos filhos de meus filhos? Não faz mal à ninguém mas a ideia de que possa sobreviver-me é quase dolorosa para mim.
Franz Kafka

O universo não é meu: sou eu

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza da minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.

Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação de quem os escreve. E se quem os escreve tem imaginação, tanto nos pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição, forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver.

Somos todos míopes, exceto para dentro. Só o sonho vê com o olhar.

No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas só — o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda a experiência humana — o céu vasto, com o dia e a noite que acontecem dele e nele; o correr dos rios — todos da mesma água sororal e fresca; os mares, montanhas tremulamente extensas, guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos, as estações, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos; o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem forma, mãe da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que é tudo...
Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma adâmico que todos entendem. Mas que linguagem estilhaçada e babélica falaria eu quando descrevesse o Elevador de Santa Justa, a Catedral de Reims, os calções dos zuavos, a maneira como o português se pronuncia em Trás-os-Montes? Estas coisas são acidentes da superfície; podem sentir-se com o andar mas não com o sentir. O que no Elevador de Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo. O que na Catedral de Reims é verdade não é a Catedral nem o Reims, mas a majestade religiosa dos edifícios consagrados ao conhecimento da profundeza da alma humana. O que nos calções dos zuavos é eterno é a ficção colorida dos trajes, linguagem humana, criando uma simplicidade social que é no seu modo uma nova nudez. O que nas pronúncias locais é universal é o timbre caseiro das vozes de gente que vive espontânea, a diversidade dos seres juntos, a sucessão multicolor das maneiras, as diferenças dos povos, e a vasta variedade das nações.

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos.

Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

terça-feira, agosto 11

Leitura não tem limites

 


A flor de vidro

E haverá um dia conhecido do Senhor que não será dia nem noite, e na tarde desse dia aparecerá a luz.
(Zacarias, XIV, 7)

Da flor de vidro restava somente uma reminiscência amarga. Mas havia a saudade de Marialice, cujos movimentos se insinuavam pelos campos — às vezes verdes, também cinzentos. O sorriso dela brincava na face tosca das mulheres dos colonos, escorria pelo verniz dos móveis, desprendia-se das paredes alvas do casarão. Acompanhava o trem de ferro que ele via passar, todas as tardes, da sede da fazenda. A máquina soltava fagulhas e o apito gritava: Marialice, Marialice, Marialice. A última nota era angustiante.

— Marialice!

Foi a velha empregada que gritou e Eronides ficou sem saber se o nome brotara da garganta de Rosária ou do seu pensamento.

— Sim, ela vai chegar. Ela vai chegar!

Uma realidade inesperada sacudiu-lhe o corpo com violência. Afobado, colocou uma venda negra na vista inutilizada e passou a navalha no resto do cabelo que lhe rodeava a cabeça.

Lançou-se pela escadaria abaixo, empurrado por uma alegria desvairada. Correu entre aleias de eucaliptos, atingindo a várzea.

Marialice saltou rápida do vagão e abraçou-o demoradamente:

— Oh, meu general russo! Como está lindo!

Não envelhecera tanto como ele. Os seus trinta anos, ágeis e lépidos, davam a impressão de vinte e dois — sem vaidade, sem ânsia de juventude.

Antes que chegassem a casa, apertou-a nos braços, beijando-a por longo tempo. Ela não opôs resistência e Eronides compreendeu que Marialice viera para sempre.
Horas depois (as paredes conservavam a umidade dos beijos deles), indagou o que fizera na sua ausência.

Preferiu responder à sua maneira:

— Ontem pensei muito em você.


A noite surpreendeu-os sorrindo. Os corpos unidos, quis falar em Dagô, mas se convenceu de que não houvera outros homens. Nem antes nem depois.

As moscas de todas as noites, que sempre velaram a sua insônia, não vieram.

Acordou cedo, vagando ainda nos limites do sonho. Olhou para o lado e, não vendo Marialice, tentou reencetar o sono interrompido. Pelo seu corpo, porém, perpassava uma seiva nova. Jogou-se fora da cama e encontrou, no espelho, os cabelos antigos. Brilhavam-lhe os olhos e a venda negra desaparecera.

Ao abrir a porta, deu com Marialice:

— Seu preguiçoso, esqueceu-se do nosso passeio?

Contemplou-a maravilhado, vendo-a jovem e fresca. Dezoito anos rondavam-lhe o corpo esbelto. Agarrou-a com sofreguidão, desejando lembrar-lhe a noite anterior. Silenciou-o a convicção de que doze anos tinham se esvanecido.

O roteiro era antigo, mas algo de novo irrompia pelas suas faces. A manhã mal despontara e o orvalho passava do capim para os seus pés. Os braços dele rodeavam os ombros da namorada e, amiúde, interrompia a caminhada para beijar-lhe os cabelos. Ao se aproximarem da mata — termo de todos os seus passeios — o sol brilhava intenso. Largou-a na orla do cerrado e penetrou no bosque. Exasperada, ela acompanhava-o com dificuldade:

— Bruto! Ó bruto! Me espera!

Rindo, sem voltar-se, os ramos arranhando o seu rosto, Eronides desapareceu por entre as árvores. Ouvia, a espaços, os gritos dela:

— Tomara que um galho lhe fure os olhos, diabo!


De lá, trouxe-lhe uma flor azul.

Marialice chorava. Aos poucos acalmou-se, aceitou a flor e lhe deu um beijo rápido. Eronides avançou para abraçá-la, mas ela escapuliu, correndo pelo campo afora.

Mais adiante tropeçou e caiu. Ele segurou-a no chão, enquanto Marialice resistia, puxando-lhe os cabelos.

A paz não tardou a retornar, porque neles o amor se nutria da luta e do desespero.


Os passeios sucediam-se. Mudavam o horário e acabavam na mata. Às vezes, pensando ter divisado a flor de vidro no alto de uma árvore, comprimia Marialice nos braços. Ela assustava-se, olhava-o silenciosa, à espera de uma explicação. Contudo, ele guardava para si as razões do seu terror.


O final das férias coincidiu com as últimas chuvas. Debaixo de tremendo aguaceiro, Eronides levou-a à estação.

Quando o trem se pôs em movimento, a presença da flor de vidro revelou-se imediatamente. Os seus olhos se turvaram e um apelo rouco desprendeu-se dos seus lábios.

O lenço branco, sacudido da janela, foi a única resposta. Porém os trilhos, paralelos, sumindo-se ao longe, condenavam-no a irreparável solidão.

Na volta, um galho cegou-lhe a vista.
Murilo Rubião, Obra Completa

Santo e senha

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar a não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da térrea de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.

Miguel Torga, "Diário I"

Três quadros

Primeiro

É impossível não encontrar quadros por toda a parte, pois o simples fato de meu pai haver sido ferreiro, por exemplo, e o vosso, Par do Reino, leva-nos uns para com os outros, a assumir o aspecto de personagens de quadro, o que possivelmente não poderíamos evitar se saíssemos da moldura que as circunstâncias criaram para nós, por mais que procuremos expressar-nos com toda naturalidade.

Ao lembrarem-se de mim, certamente me imaginarão à porta da forja, com uma ferradura na mão, e hão de comentar: “Que coisa mais pitoresca!”. De minha parte, não posso evitar as fantasias que me assaltam de ver-nos comodamente reclinados num luxuoso carro, cumprimentando o povo, e tal visão a meus olhos, é o símbolo da Inglaterra aristocrata. Certamente, nem uma, nem outra destas duas imagens corresponderá à realidade, mas, que posso fazer?

Ora, acontece que, há pouco, numa curva da estrada, divisei um desses quadros que poderia intitular-se “O regresso do marinheiro”, ou coisa parecida. Tratava-se de um marinheiro jovem, simpático, transportando um saco na mão e de uma moça agarrada ao seu braço; em volta dele, alguns vizinhos e, ao fundo, uma pequena casa rodeada de um jardim florido.

Ao passar, via-se que aquele marinheiro acabava de chegar da China e que, no interior da casa, a sala fora cuidadosamente preparada para recebê-lo. Adivinhava-se também que, no saco que ele transportava, trazia um presente para a jovem mulher, e que esta ia dar-lhe o primeiro filho. Tudo estava certo, tudo parecia perfeito nesse quadro, e contemplar tamanha felicidade tornava a vida mais suave e agradável de viver.

Pensando assim, segui adiante, completando o quadro, de memória, o mais que pude, com pormenores que conseguia observar, a cor do vestido dela, a expressão dos olhos deles, o gato amarelo enroscado à porta da casa.

Durante certo tempo o quadro fixou-me nos olhos, tornando tudo em volta mais brilhante, mais quente e mais simples do que é habitual, e fazendo com que certas coisas se me apresentassem como loucuras, outras como tolices e outras ainda exatas, perfeitas, e com muito mais sentido do que sempre imaginara. Naquele dia e no dia seguinte, nos momentos mais singulares, o quadro voltou-me à memória, pensando com inveja, mas também com ternura, no marinheiro e na mulher, perguntava-me o que estariam fazendo e dizendo, naquele instante.

A minha imaginação, aos poucos, foi acrescentando ao primeiro, outros quadros que, por assim dizer, o completavam. Via o marinheiro rachando lenha, tirando água do poço do jardim; ouvia-o conversar com a mulher sobre o que vira na China, imaginava ela colocando cuidadosamente o presente que o marido trouxera sobre a lareira da sala, depois imaginava a moça costurando roupinhas de crianças enquanto todas as portas e janelas se encontravam abertas para o jardim, onde pássaros cantavam e abelhas zumbiam. Rogers – era o nome dele – não encontrava palavras para expressar o prazer que tudo lhe causava, depois de ter percorrido os mares da China, e detinha-se a fumar cachimbo, fora da porta, admirando o jardim.

Segundo

No meio da noite, um grito dilacerante rompeu o silêncio; depois, ouviu-se como que um vozear, a seguir um silêncio de morte dominou tudo. O que pude divisar, da minha janela, foi uma haste do lilás do jardim, pendendo imóvel sobre a estrada. Era ainda noite escura. Não havia luar. O grito emprestara às coisas um aspecto singular. Quem gritara? Por que gritara ela? Tratava-se de uma voz de mulher, quase inexpressiva, quase assexuada, pela violência da emoção.

Dir-se-ia a natureza humana gritando contra qualquer inexplicável iniqüidade, contra qualquer indescritível horror. Seguiu-se ao grito um silêncio de morte. As estrelas cintilavam nítidas, serenas, os campos dormiam tranqüilos e as árvores continuavam imóveis; no entanto, por toda a parte se espalhara um sentimento de culpa, todas as coisas se sentiam responsáveis por não sei que tremendo crime. Tinha-se a sensação de que era imprescindível tentar qualquer coisa. Devia, forçosamente, aparecer alguma luz agitando-se, movendo-se, inquieta, numa e noutra direção. Alguém devia aparecer correndo pela estrada. As janelas da casinha curva do caminho iluminar-se-iam e então talvez um outro grito se fizesse ouvir menos desesperado, no entanto, já não inarticulado e repleto de tão indescritível horror.

Contudo, nenhuma luz apareceu, nenhum rumor de passo se ouviu, e não houve segundo grito. O primeiro extinguira-se, desapareceram dele os derradeiros ecos, e seguiu-se-lhe um silêncio mortal.

Deitada no escuro do quarto, inutilmente eu escutava. Fora uma voz apenas. Uma voz sem sentido. Não era possível imaginar qualquer quadro que com esse grito tivesse relação e que pudesse ajudar a interpretá-la ou a torná-lo inteligível. A manhã começava a romper quando avistei uma forma humana, meio diluída em treva, indefinida, informe, erguendo em vão um braço gigantesco contra qualquer intransponível iniquidade.

Terceiro

O tempo permanecia suave. Se não tivesse ouvido aquele grito durante a noite, teria a impressão de que, finalmente, o mundo aportara a porto seguro, que vida deixara de ser agitada pelo vendaval, que o mundo alcançara, enfim, uma enseada tranqüila, onde repousaria quase imóvel. Entretanto, nos meus ouvidos, o som persistia. Onde quer que me dirigisse e, mesmo ao dar um passeio pelas colinas, qualquer coisa me parecia existir sob a superfície serena das coisas, fazendo-me descrer da estabilidade, da segurança, que à minha volta pareciam existir. Pela vertente, um rebanho pastava tranqüilo e o vale, ao fundo, estendia-se, ondulado como um mar calmo de verão. Passei por uma herdade solitária. No pátio um cachorro brincava e borboletas voltejavam sobre a urze. Tudo parecia gozar uma felicidade serena e pura. Contudo, na noite anterior, ouvira-se aquele grito e toda a beleza, toda a serenidade, que eu tinha ante os olhos, fora cúmplice. Sim, pelo menos consentira, e tudo continuava sereno, belo, embora aquele grito se tivesse feito ouvir e pudesse voltar a repetir-se. Toda a serenidade, toda a segurança eram aparência falaz…

E então, para alegrar-me, para dominar esta opressiva disposição, recordei a chegada do marinheiro. Tornei a ver o quadro, enriquecendo-o ainda com mais alguns pormenores – o vestido azul que ela trazia, a sombra que a árvore florida projetava sobre o jardim – que não notara até ali. Tornei a avistá-los junto da porta da casa, ele com seu saco, ela enfiando-lhe o braço, o gato amarelo enroscado à porta. E desta maneira, rememorando o quadro em todos os seus pormenores, pude, aos poucos, convencer-me de que realmente existiam calma e bem-estar para além da superfície das coisas e não nos esperava sempre qualquer surpresa traiçoeira e sinistra.

O rebanho pastando, espalhado pelo ondulado das colinas, a herdade longínqua, guardada pelo cão, e as borboletas pousando aqui e ali, eram realmente fatos e nada havia oculto sob tais aparências. E assim regressei à casa, pensando no marinheiro e na mulher, desenhando, um após outro, vários quadros de felicidade perene e de alegria, de modo a silenciar o desassossego que o tremendo grito deixara dentro de mim.

Alcancei finalmente a aldeia, atravessando o adro, por onde é forçoso atravessar; e, como sempre me acontece de cada vez que passo naquele local de paz, atentei na tranqüilidade das cinzas, repousando dentro do túmulo de pedra, ou em covas onde não existe sequer um nome a recordar. Quando por aqui passo, tenho sempre a impressão de que a morte é uma coisa alegre.

Eis então que um quadro mais se me apareceu.

Um homem abrindo uma cova e um bando de crianças merendando ao lado da sepultura. A mulher do coveiro, gorda e bonita, encostada a um túmulo, estendera o avental na relva, mesmo ao lado da cova que acabava de ser aberta, fazendo-o de toalha. De vez em quando, algum torrão caía no meio do serviço de chá. “Quem vai ser enterrado”, perguntei, “morreu finalmente o velho Sr. Dodson?”, “Não, não”, respondeu-me a mulher. “É para Rogers, o marinheiro. Morreu a noite passada de uma febre que apanhou na viagem. Não ouviu a mulher? Veio à estrada e gritou…” A seguir, virando-se para um dos pequenos, “tem juízo, Tommy, estás te sujando de terra!”

Que quadro tremendo que nem sequer me atrevo a esboçar…
Virgínia Wolf

Empresas de IA estão destruindo milhares de livros antigos ao redor do mundo

Em 30 de abril, Marçal Font recebeu uma encomenda que chamou sua atenção na Livraria Fénix, uma referência no comércio de livros antigos na cidade catalã de Badalona, na Espanha.

"Há 20 anos me dedico a ser livreiro de livros usados, ou seja, já tive milhões de compras estranhas, então isso já não me alarma", conta o também poeta e professor de Literatura Comparada da Universidade de Barcelona.

A encomenda vinha de uma empresa localizada no Canadá, mas não era a primeira vez que a livraria enviava livros em catalão para o exterior. "Mandamos livros até para o Japão, não é algo incomum; mas o padrão (de compra) era estranho".

Quando, no início de maio, chegou uma nova série de pedidos, Font decidiu investigar por receio de que se tratasse de uma fraude.

"Não é frequente procurar saber quem compra de nós, mas naquele caso começamos a olhar, principalmente porque eram pedidos em uma janela de uma hora ou 40 minutos. Tínhamos três ou quatro e-mails pedindo uma quantidade incomum de livros. E os custos de envio associados eram absurdos."

Então ele consultou seu amigo Xavier Vinaixa, com quem compartilha, além do amor pelos livros e pelo humanismo, a paixão pela inteligência artificial.

"Ele me ligou e disse: 'olha, estou recebendo pedidos com padrões estranhos, o mesmo cliente, envio para o exterior e pagando três vezes os custos de envio'. E a primeira coisa em que ele pensou foi que talvez fosse um golpe", lembra Vinaixa.

"Foi aí que começamos a seguir a pista e encontramos outras pessoas, com as mesmas preocupações de Marçal, na Alemanha, na Nova Zelândia... E então ficou muito claro para nós", acrescenta Vinaixa, que é pesquisador de inteligência artificial e diretor técnico da empresa de tecnologia Sorensen.ai.


Se alguém fizer uma busca na internet pelos termos "livros antigos" e "inteligência artificial", encontrará rapidamente essas "preocupações" às quais Vinaixa se refere.

Em um artigo do jornal britânico The Telegraph intitulado "Barbárie cultural: como as empresas de IA estão destruindo os livros do mundo", um livreiro de Haarlem, na Holanda, relata a surpresa que sentiu ao receber uma encomenda em massa de livros:

"No comércio de livros antigos é muito raro que as pessoas queiram comprar mais de um livro. Portanto, se alguém chega e diz 'quero algumas centenas dos seus livros', isso é muito estranho", contou o antiquário Pieter de Vries.

O jornal The Guardian citou uma livreira no estado australiano de Victoria que recebeu um pedido da mesma empresa que comprou de Marçal Font: "Eles fizeram o pedido, pagaram antecipadamente e não questionaram os custos de envio", explicou Delfina Manor.

Ambos os artigos, assim como aqueles que contaram a história do livreiro catalão, fazem referência à investigação jornalística que revelou o que é conhecido como o "Projeto Panamá".

Em setembro de 2025, a empresa de IA Anthropic concordou em pagar US$ 1,5 bilhão (R$ 7,2 bi) para encerrar uma ação coletiva movida por autores que alegavam que a companhia havia utilizado suas obras sem permissão para treinar seus modelos de IA.

Quatro meses depois, o jornal Washington Post publicou com exclusividade um documento que fez parte do processo judicial, no qual era mencionada a existência de um plano para digitalizar todas as obras escritas pela humanidade.

"O Projeto Panamá é nosso esforço para escanear de forma destrutiva todos os livros do mundo", dizia o texto vazado, que mais adiante especificava: "Não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso".

Maximiliano Firtman, professor argentino e autor de livros sobre programação e inteligência artificial, foi um dos autores que processaram a Anthropic nessa ação coletiva.

Segundo contou à BBC Mundo, o juiz determinou que, se a empresa comprasse o exemplar do livro, poderia utilizá-lo para treinar a IA.

"E então começaram a surgir os relatos de livreiros ao redor do mundo que recebiam pedidos de livros que ninguém procurava, e de algumas empresas que se dedicam a escanear esses livros e fornecer o texto já digitalizado às empresas de inteligência artificial. É aí que surge a questão da destruição dos livros."

Rodrigo Álvarez, jornalista especializado em tecnologia do veículo argentino Todo Noticias (TN), explica que existem dois métodos para digitalizar livros, um dos quais não implica a destruição do exemplar, pois utiliza escâneres planos ou dispositivos em forma de V que digitalizam as páginas sem desmontar a encadernação.

"O procedimento 'destrutivo' é basicamente um processo que começa com o corte da lombada para que as folhas fiquem soltas; as páginas já separadas são introduzidas em escâneres industriais de alta velocidade que as digitalizam muito mais rapidamente, de forma automática", explica.

Uma vez digitalizadas as páginas, o livro já não pode ser montado novamente e seus restos costumam ser enviados para reciclagem.

"As empresas escolhem essa segunda alternativa por uma questão de escala: ela permite digitalizar milhões de exemplares com mais rapidez e a um custo menor. No caso documentado da Anthropic, para o Projeto Panamá foi utilizado esse procedimento", conclui Álvarez.

Digitalizar livros permite preservar os textos escritos ao longo da história humana, mas o objetivo principal parece obedecer mais ao treinamento da inteligência artificial do que a um espírito de conservação.

"Quando falamos de IA, normalmente subentende-se que estamos falando de um LLM (sigla em inglês para Large Language Model), um grande modelo de linguagem", esclarece Xavier Vinaixa.

Os LLMs, como, por exemplo, o ChatGPT, são programas de inteligência artificial que aprendem a compreender, resumir, traduzir e gerar texto ou outros conteúdos prevendo a palavra ou o trecho seguinte.

"Todos usamos o teclado preditivo em nossos telefones. Você escreve 'olá, estou chegando...' e talvez ele sugira a palavra 'atrasado'. Como funciona esse teclado preditivo? Com base em estatísticas de textos anteriores que você escreveu. Isso mesmo, mas elevado à milionésima potência, é um LLM", exemplifica Maximiliano Firtman.

Então, para treinar esses grandes modelos de linguagem na complexa arte de encontrar conexões entre palavras, eles foram inicialmente "alimentados" com toda a informação disponível na internet, como Wikipédia, blogs e fóruns. Quando isso começou a se esgotar, passaram a ser treinados com matérias de jornais e até com legendas de vídeos do YouTube.

"Tudo o que tinham à mão era dado a essa máquina que engole textos e, quando isso acabou, começaram a procurar nos livros impressos que já estavam digitalizados, depois nas bibliotecas e agora começaram a procurar livros estranhos que não são comerciais. E onde eles estão? Em livrarias de livros usados e antiquários", acrescenta Firtman.

"No caso de Marçal", diz Xavier Vinaixa, "ele me comentava sobre pedidos que recebia, por exemplo, de obras sobre a história dos embutidos catalães, coisas que certamente ainda não foram usadas para treinamento".

A destruição dos livros digitalizados para treinar a IA tem gerado questionamentos e dúvidas em diversos círculos.

Miguel Ángel Ortega, presidente da Associação Profissional do Livro e do Colecionismo Antigos da Espanha, diz que se deveria distinguir se se trata de exemplares de grandes tiragens ou de tiragens limitadas.

"Como comerciantes que preservamos o patrimônio e realizamos um trabalho de conservação, acreditamos que o destino final de uma obra, de uma edição muito limitada, rara ou única, logicamente, não deveria ser a destruição."

Nisso concorda Rodrigo Álvarez, o jornalista de tecnologia da TN, para quem o maior risco "é que as compras indiscriminadas destruam exemplares raros ou esgotados sem verificar antes quantos desses exemplares ainda restam nos estoques de distribuidoras e livrarias, ou mesmo em posse das pessoas".

Marçal Font, por outro lado, não se preocupa tanto com a destruição de livros: "Não sou nada romântico nesse sentido".

"Assim como os veterinários que estudam para salvar os animais acabam sendo os que mais sacrificam animais, meu ponto de vista é que não há ninguém que destrua mais livros do que um livreiro de livros usados, porque compramos bibliotecas inteiras, salvamos tudo o que é possível salvar, mas há muita coisa que não se salva."

Font explica que, se um livro possui depósito legal, o que garante a conservação de pelo menos cinco ou dez exemplares, "que um exemplar seja destruído para que toda essa informação vá para um novo formato de conhecimento me parece até positivo".

Sua preocupação está no fato de que a digitalização de todo o material produzido pela humanidade deixe de lado aquilo que não possui ISBN (International Standard Book Number), o número que identifica cada livro publicado.

"Toda a dissidência política do mundo, a luta LGBT, todos os fanzines de rebeldia, a contracultura, tudo o que é underground foi produzido sem ISBN", afirma, advertindo que esse material pode se perder para as futuras gerações se também não for digitalizado.

Por essa razão, tanto Álvarez quanto Font destacam que não se deve confundir digitalização com conservação.

"A digitalização de um livro não é a mesma coisa que a conservação de um livro; geralmente esse arquivo digital fica em uma base de dados privada, fora do alcance de leitores, bibliotecas e pesquisadores", adverte Álvarez.

O jornalista de tecnologia acrescenta que, nessa digitalização extrema, também podem se perder características que vão além do texto, como sua encadernação, anotações, ilustrações, qualidade de impressão, procedência e outras particularidades.

Para Font, a ausência desses "metadados" deixa de lado elementos fundamentais para a boa interpretação de um texto, de modo que os dados produzidos até mesmo para a própria indústria de IA são, na sua opinião, deficientes.

"Que haja uma transferência de conhecimento do formato livro para os novos formatos me parece muito positivo; nos séculos 15 e 16 já houve um processo semelhante com aqueles livros da recém-inaugurada imprensa, e também se perdia a qualidade dos dados de um formato para outro. Como isso foi resolvido? Com metadados."

Ele cita o exemplo de quando informações inscritas em pedras foram transpostas para o papel: "Não bastava transcrever o texto que estava na pedra; era preciso até desenhar a pedra, falar sobre seus materiais, sua localização. Todos esses metadados são o que hoje nos permite reconstruir o que aquela pedra realmente dizia".

O presidente da Associação Profissional do Livro e do Colecionismo Antigos da Espanha explica que até mesmo dois livros com o mesmo texto podem ter valores culturais muito diferentes.

"Eles podem ter a mesma informação, mas um possui um ex libris (uma pequena etiqueta decorativa colada na parte interna da capa frontal para indicar quem é seu proprietário), uma encadernação artesanal ou anotações, elementos que não poderão ser transferidos para o formato digital, um pouco como ocorre com o formato do livro eletrônico."

Para evitar a digitalização que destrói livros e deixa de lado informações essenciais, tanto Font quanto Vinaixa propõem eliminar os intermediários.

"A solução que propomos é que nós mesmos digitalizemos nosso patrimônio em nossa língua, guardemos isso e licenciemos os dados; se você quiser os dados, eu os forneço da melhor forma possível e fico com o livro, porque para quem faz pesquisa também é importante saber como é a capa do livro, como ele foi costurado, não apenas o conteúdo", diz Vinaixa.

O diretor técnico da empresa de tecnologia Sorensen.ai acrescenta que a demanda por dados continuará até que já não haja mais com o que alimentar a inteligência artificial.

"Achávamos que a IA atingiria seu limite quando não houvesse mais capacidade de processamento. Pois não, o limite são os dados; a IA ficou limitada porque já não há mais dados."

Para Firtman, ainda não sabemos o que acontecerá quando a informação gerada por humanos acabar:

"O próximo passo são os dados sintéticos, os textos escritos pela própria IA. O maior risco daqui a algumas décadas é que, quando passarmos a perguntar tudo a uma IA sem recorrer às fontes, essa IA comece a se degradar porque estará sendo treinada com a mesma informação que ela própria gerou."

O jornalista Rodrigo Álvarez ilustra essa degradação com a imagem de uma serpente que devora a própria cauda:

"As empresas alimentariam seus modelos com conteúdo gerado por outras inteligências artificiais e, nesse caso, os erros poderiam se multiplicar, tornando a linguagem cada vez mais básica, como um resumo de um resumo de um resumo, cada vez mais simples, uma síntese de uma síntese que se afasta da informação original."

Enquanto isso, na Livraria Fénix de Marçal Font, a situação foi mudando após as compras "estranhas" de abril e maio.

"Eles foram mudando a logística e a empresa. Também começaram a nos pedir para enviar os livros não apenas para a América do Norte, mas também para a Alemanha."

E, após um mês sem novidades, Font recebeu uma nova encomenda justamente esta semana, o que, para ele, só pode significar uma coisa:

"O Projeto Panamá continua em andamento."

segunda-feira, agosto 10

Sempre pronta!

 


Quem era o homem feio dos sonhos

Ela já estava chegando aos 31 anos e, desde o início da adolescência, quase todas as noites sonhava com um homem feio. Nunca era o mesmo homem, mas era sempre um homem feio, muito feio, alguém que ela havia visto naquele dia em algum lugar. Nos sonhos, o homem nunca falava. Olhava para ela, aproximava-se, cada passo durando uma eternidade, e quando chegava perto, muito perto, parava e ficava mais uma eternidade olhando para ela, só olhando. Quando esses sonhos se desfaziam, ela permanecia de olhos abertos, fitando o escuro, mas sem medo. Era sempre uma decepção o desfecho. Preferiria que o homem a atacasse, a xingasse, a aterrorizasse. O que não aguentava era aquele silêncio, aquela omissão, aquela indiferença pior do que um insulto. O que ele queria, afinal, com ela? Por que aparecia assim nas suas noites, nas suas madrugadas e até, às vezes, quando o sol e os primeiros ruídos da manhã já se elevavam?

O sonho era sempre aquele: um homem muito feio, que andava na sua direção e parava de repente, como se descobrisse que tinha se enganado. Os amigos, ao interpretar o sonho, resvalavam para a comédia e até para a galhofa. Um viu no homem o Diabo, outro adivinhou nele um príncipe que se revelaria em toda sua formosura se fosse beijado ou tocado com carinho. Mas, quando ela estava com 15 anos, uma amiga sugeriu que o visitante noturno poderia ser a Morte. Por muito tempo, talvez pelo nome de vidente da amiga (Zora), ela achou lógica essa hipótese, mas agora, com quase 31 anos, não acreditava numa Morte que tivesse a pachorra de se anunciar com tanta antecedência e empenho.

Aos 21 anos, tinha ido morar com um homem tão belo que, quando saía com ele, ela sentia dores no pescoço, enjoo, comichões: era a inveja feroz das outras mulheres. Viveu com esse homem um ano e meio e não sonhou com ele uma noite sequer. Continuava a sonhar com desconhecidos: alguém que tivesse visto no escritório dele, no elevador, no restaurante onde jantavam. Sempre alguém feio – não horrendo, não assustador, mas muito feio. Não podia dizer que eram pesadelos, porque o homem dos sonhos se mantinha calado e a uma distância mais que respeitosa. Mas isso ainda a perturbava: o que, afinal, ele queria com ela?

Com 28 anos, havia morado com um homem de 21, inacreditavelmente mais belo que o anterior, e nem nos seis meses em que viveu com ele, nem depois, quando se separaram, sonhou com ele. Assim que completou 30 anos, começou a sonhar com um homem que era tão feio quanto os outros, mas tinha algo que ela, se fosse definir, diria que era charme. Isso a inquietou profundamente, e também o fato de que nunca, antes, havia sonhado mais de uma vez com o mesmo rosto. E, agora, sonhava com esse até três vezes por noite. E ele, ao contrário dos outros, falava, embora só uma palavra: o nome dela.

Num fim de tarde, voltando para casa, ao descer do metrô, ela viu o homem. Ele se aproximou, chamou-a pelo nome e a conduziu suavemente por uma dezena de ruas que ela conhecia mas que pareciam diferentes, como se ela estivesse num sonho. “Fazia muito tempo que eu queria falar com você. Vamos, minha casa é logo ali”, disse o homem. Ela foi. A casa parecia simples, mas ao entrar ela se viu numa sala descomunal. Na parede, havia uma tela muito grande, na qual o homem aparecia sorrindo ao lado de gente que ela não conhecia, e também de pessoas célebres, algumas de fama recente, outras de meio século antes, de um século, de um milênio atrás. Ela quis perguntar como aquilo era possível, mas ele já a tinha levado para a cozinha. Quando viu a faca na mão dele, soube que a amiga Zora tinha razão.
Raul Drewnick

O livro

Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para
ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para
metade da livraria.

Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa,
senão estou perdido.

No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas
muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.

* * * * *


Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a sciencia que tratada vida; era justamente do que eu necessitava–pôr sciencia na minha
vida.

Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.

Disseram-me que era necessario estar já iniciado, ora eu só
tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo á imagem
e semelhança de Deus. Não basta?

* * * * *

Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como
ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim
parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos,
não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!

Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha
hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma
hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia.
Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com
a morada e o dia.

* * * * *

Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome,
cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar
sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.

Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si–não saber
cuidar de si é ser cão.

Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me
ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono
de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele
soube cuidar de si!

* * * * *

Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se
diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma
arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos,
só de uma peça: Um homem!

* * * * *

Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar
e nenhuma era para copiar.

Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio
o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei
com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.

Talvez que nos outros livros… mas os titulos dos livros são
como os nomes das pessoas–não quere dizer nada, é só para não
se confundir…

* * * * *

Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito
antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só
maneira para todas as especies de seus vassalos!

Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu
seja Mestre!

Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial
conselheiro»! Não achas, Mãe?

O Mestre escreveu o que sabia–por isso ele foi Mestre. As palavras
tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras
ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam
a ler para chegarem a Mestres–era com esta intenção que se
aprendia a ler antigamente.

* * * * *

Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava
cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á
escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o
papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente
do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da
tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha
as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava
com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era
assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que
os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.

* * * * *

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já
estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.

–O pequeno é como o grande.
–O que está em cima é analogo ao que está em baixo.
–O interior é como o exterior das coisas.
–Tudo está em tudo.
Almada Negreiros, "A invenção do dia claro"

O inventário

Peço a um amigo que me ajude neste transe melancólico; aluguei uma casa mobiliada, e o velho casal de proprietários fez uma lista de seus trecos para eu conferir. A lista é minuciosa e, por isso, imensa; são mil grandes e pequenas coisas, duas marquesas, um quadro a carvão representando São Francisco de Assis (mas o desenho é ruim e o santo está gordo), uma horrível, incomodíssima cômoda de metal, dois “choapinos”, um espelho quadrado que agora será visitado pela minha cara e talvez por hábito me faça meio parecido com esse velho chileno que sofre do coração.

Ah, sim, o piano. O velho quer levar o antigo piano alemão; resisto; quero o piano; não sei tocar, mas me agrada ter em casa um piano; não seria possível deixar o piano? Os velhos se consultam; sim, ficará o piano. Em compensação há essa absurda mesa de pôquer que eles insistem em deixar, enorme, horrível, esses quadros a óleo detestáveis que eles elogiam tanto e que eu meterei todos dentro de um armário, um tinteiro de cobre, uma estatueta japonesa, coisas antigas como um violetero onde jamais colocarei violetas, um licoreiro que nunca verá licor, um paraguero que sonha com os guarda-chuvas dantanho, e essa feia mesita ratona, e essas coisas inúteis de metal e cristal, o relógio de cuco com o passarinho sempre cantando errado, pobre passarinho extraviado no tempo...

A lista é terrivelmente minuciosa; eu terei de apresentar, ao sair desta casa, tantos ganchos de pendurar roupa e tantos cinzeirinhos de cobre; e já que insisti pelo piano, tenho de me conformar com a presença de um enorme e sinistro mueble musiquero, onde se guardam velhos tangos e valsas.

Meu amigo confere as coisas, de lista na mão, e a velha vai repetindo os nomes e apontando os objetos, numa ladainha interminável; bocejo no meio de meu reino desordenado e precário; uma a uma terei de entregar um dia todas essas coisas de volta a esses velhos; e para eles são coisas de certo modo sagradas, com o longo contato de seus olhos e de suas mãos, coisas de suas vidas que incorporaram minutos e anos, lembranças, palavras, emoções. Bocejo, depois fumo; nego-me a examinar, como eles gostariam, o detalhe de cada coisa, e minha indiferença parece que vagamente os ofende. Creio que sentem no fundo da alma um ódio deste estranho que vai morar em sua casa, com suas coisas; sou um intruso, o mais antipático dos intrusos, o intruso que paga o direito de ser intruso. E então eles ficam mais minuciosos, gastam meia hora para acrescentar na lista algumas coisinhas sem importância que tinham omitido, são avaros do que me alugam...

Partem. Chego à janela, vejo-os que fecham com todo o cuidado o portão. E sorrio. Esses velhos são uns insensatos. Arrolaram centenas de cacarecos inúteis e se esqueceram do mais importante, do que me atraiu a esta casa, dos bens sem preço que um vândalo poderia destruir e, entretanto, não estão no inventário; daqueles bens que, se sumissem, fariam esses dois velhos desfalecer de espanto e dor; o que eles não compraram com dinheiro, mas com o longo amor, o longo, cotidiano carinho: as árvores altas, belas, ainda úmidas da chuva da noite, brilhando, muito verdes, ao sol.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"

A castanhola encaliçada

A vida força a passagem pelo interstício da parede arruinada. É uma castanhola, três folhas largas, espalmadas, rebentando verdes da caliça de 1890 ou 1900.

De nenhuma raiz brotaram essas folhas. Não há lugar para raiz em parede a meio metro do solo, ainda mais quando a construção não tem menos de cem anos.

De alguma semente? Que passarinho teria se interessado em inocular, numa fresta infecunda de parede, o germe da castanhola, árvore mais de pouso que de alimento?

Só ao equilíbrio do beija-flor, parado no ar, seria permitida essa operação. Mas a fuliginosa Maciel Pinheiro, rua de autopeças e oficinas, não é lugar para beija-flores.

No mínimo, a castanhola entrou na argamassa de cal e barro, batidos pela colher de alguém que, em 1890, já era pedreiro. Entrou semente, embrião dos muitos e muitos que proliferam ao redor da fonte de Gravatá (sítio da antiga Maciel), e ficou esperando a hora de brotar, acondicionada na vermelhidão dos tijolos bem cozidos, privada de ar e de sol pelo reboco forte e ultrarresistente.

Está aqui. O caule não tem nada de superficial; vem de dentro, germinado na própria caliça. Foi na massa e aí ficou. Passou o Império, entrou a República, que ficou Velha; foram-se para sempre os apitos do vapor chamando para os desembarques no porto paraibano do Sanhauá; encobriram-se no infinito a sirene da Alfândega, os suspiros de ansiedade ante os balcões de seda importada, o vozerio dos cafés políticos, a euforia dos epitacistas, os tropéis e os gritos da ordem revolucionária de 1930... Tudo isso e mais o ruge-ruge promíscuo do cabaré em que se transformou a primitiva Rua das Convertidas.

Rua do Conde D'Eu, por onde passaram os pregões do açúcar demerara, os pileques dos capitães, agentes e consignatários dos navios surtos no rio ou em Cabedelo, as manchetes pioneiras do jornal de Arthur Achilles.

Depois, tudo se mudou. O porto se mudou para a barra; os balcões de seda, a Alfândega, os tugúrios conspiratórios, as Ritas Maias, as Osanas e Antoninhas; muitas paredes desboroando, o tempo descascando suas chagas, abrindo feridas em frontais que não passam de ruínas.

Convenço-me agora (e de forma irrecusável) de que a castanhola que vem rebentando, emergindo da ruína, veio da colher de argamassa do começo do século XX. Rebentou verde de tijolo largo, chato, que, nos anos 1920, apogeu das Trincheiras, não se batia nem se cozinhava mais. Da ferida de cal escapole a folha. Quem sabe se descendente do jardim fundado por Beaurepaire Rohan, que começava nas traseiras do Palácio e vinha terminar nas encostas do mangue, aproveitadora deste sol atemporal de fim de século.