quarta-feira, novembro 4

Ida ao 'paraíso'

 


Tenho pena ...

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.

Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas desertas dos piamos onde nunca estarei. As épocas históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não há; vou despertar quando sonho o que pode haver.

Debruço-me, de uma das janelas de sacada do escritório abandonado ao meio-dia, sobre a rua onde a minha distração sente movimentos de gente nos olhos, e os não vê, da distância da meditação. Durmo sobre os cotovelos onde o corrimão me dói, e sei de nada com um grande prometimento. Os pormenores da rua parada onde muitos andam destacam-se-me com um afastamento mental: os caixotes apinhados na carroça, os sacos à porta do armazém do outro, e, na montra mais afastada da mercearia da esquina, o vislumbre das garrafas daquele vinho do Porto que sonho que ninguém pode comprar. Isola-se-me o espírito de metade da matéria. Investigo com a imaginação. A gente que passa na rua é sempre a mesma que passou há pouco, é sempre o aspeto flutuante de alguém, nódoas de movimento, vozes de incerteza, coisas que passam e não chegam a acontecer.
Anotação com a consciência dos sentidos, antes que com os mesmos sentidos…
A possibilidade de outras coisas... E, de repente, soa, de detrás de mim no escritório, a vinda metafisicamente abrupta do moço.

Sinto que o poderia matar por me interromper o que eu não estava pensando. Olho-o, voltando-me, com um silêncio cheio de ódio, escuto antecipadamente, numa tensão de homicídio latente, a voz que ele vai usar para me dizer qualquer coisa. Ele sorri do fundo da casa e dá-me as boas-tardes em voz alta. Odeio-o como ao universo. Tenho os olhos pesados de supor.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

Os centauros

O barulho de ferro batendo nas pedras me acordava de madrugada. O ruído das ferraduras se misturava com o relinchar dos cavalos. Eu me levantava e abria a única bandeira da janela. Só um pouquinho porque tinha medo de que me vissem. Eram seres misteriosos, misturas de homens e cavalos que, na bruma da manhã, me faziam imaginar centauros. Das ventas dos cavalos saía fumaça quando relinchavam. Como se fossem dragões. Do ângulo pelo qual os observava, através da fresta da janela, não me era possível ver os rostos dos soldados. Via-os pelas costas, inumeráveis, iam vagarosamente, a passo. Um exército inteiro de soldados dotados de força descomunal, a caminho de uma batalha. Que iam para uma batalha era certo: os fuzis pendentes dos coldres, ao lado direito das selas, esperavam a hora do fogo. Passado o último centauro, eu fechava a janela, voltava para a cama e ficava a imaginar a batalha, até dormir.
Rubem Alves, "O velho que acordou menino"

Uma didática da invenção

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.


II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:

Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.

Manoel de Barros

Sensini

A forma como se desenrolou minha amizade com Sensini sem duvida escapa ao costumeiro. Naquela época eu tinha vinte e tantos anos e era mais pobre que um rato. Morava nos arredores de Girona, numa casa em ruinas que minha irmã e meu cunhado tinham me deixado depois de irem para o México, e acabava de perder um trabalho de vigia noturno num camping de Barcelona, o qual havia acentuado minha propensão a não dormir de noite. Quase não tinha amigos e a única coisa que fazia era escrever e dar longos passeios que começavam às sete da noite, depois de acordar, momento em que meu corpo experimentava uma coisa parecida com o jet lag, uma sensação de estar e não estar, de distância com respeito ao que me rodeava, de indefinida fragilidade. Vivia com o que tinha economizado durante o verão e, embora quase não gastasse dinheiro, meu pé-de-meia ia minguando com o passar do outono. Talvez tenha sido isso que me levou a participar do Concurso Nacional de Literatura de Alcoy, aberto para escritores de língua castelhana, qualquer que fosse sua nacionalidade e seu lugar de residência.

O prêmio era dividido em três modalidades: poesia, conto e ensaio. Primeiro pensei me apresentar em poesia, mas enviar a luta com os leões (ou com as hienas) o que eu fazia melhor me pareceu indecoroso. Depois pensei me apresentar em ensaio, mas quando me mandaram o regulamento descobri que o ensaio devia versar sobre Alcoy, seus arredores, sua história, seus homens ilustres, sua projeção no futuro, e isso estava além da minha competência. Decidi, pois, me apresentar em conto: enviei em três copias o melhor que eu tinha (não eram muitos) e me sentei a espera.

Quando o prêmio saiu, eu trabalhava de vendedor ambulante numa feira de artesanato onde absolutamente ninguém vendia artesanato. Obtive o terceiro prêmio e dez mil pesetas que a prefeitura de Alcoy me pagou religiosamente. Pouco depois recebi o livro, no qual não escasseavam as erratas, com o vencedor e os seis finalistas. Claro, meu conto era melhor do que o que havia ganhado o primeiro premio, o que me levou a amaldiçoar o júri e dizer a mim mesmo que, enfim, isso sempre acontece. Mas o que realmente me surpreendeu foi encontrar no mesmo livro Luis Antonio Sensini, o escritor argentino, segundo prêmio, com um conto em que o narrador ia para o campo e ali morria seu filho ou com um conto em que o narrador ia para o campo porque na cidade seu filho tinha morrido, não ficava claro, o caso e que no campo, um campo plano e um tanto ermo, o filho do narrador continuava morrendo, enfim, o conto era claustrofóbico, bem no estilo de Sensini, dos grandes espaços geográficos de Sensini que de repente se reduziam até ter o tamanho de um caixão, e superior ao ganhador e primeiro prêmio e também superior ao terceiro pre­mio e ao quarto, quinto e sexto.

Não sei o que me levou a pedir a prefeitura de Alcoy o endereço de Sensini. Eu havia lido um romance dele e alguns dos seus contos em revistas latino-americanas. O romance era dos que fazem leitores. Chamava-se Ugarte e falava de alguns momentos da vida de Juan de Ugarte, burocrata do vice-reinado do Rio da Prata em fins do século XVIII. Alguns críticos, principalmente espanhóis, o haviam liquidado dizendo que se tratava de uma espécie de Kafka colonial, mas pouco a pouco o romance foi fazendo seus próprios leitores e, quando dei com Sensini no livro de contos de Alcoy, Ugarte tinha, em vários cantos da América e da Espanha, uns poucos e fervorosos leitores, quase todos amigos ou inimigos gratuitos entre si. Sensini, claro, tinha outros livros, publicados na Argentina ou em editoras espanholas desaparecidas, e pertencia a essa geração intermediaria de escritores nascidos nos anos 1920, depois de Cortázar, Bioy, Sabato, Mujica Lainez, e cujo expoente mais conhecido (pelo menos então, pelo menos para mim) era Haroldo Conti, desaparecido num dos campos especiais da ditadura de Videla e seus sequazes. Dessa geração (se bem que talvez a palavra geração seja excessiva) sobrava pouco, mas não por falta de brilho e talento; seguidores de Roberto Arlt, jornalistas, professores e tradutores de alguma maneira anunciaram o que viria em seguida, e anunciaram à sua maneira triste e cética que no fim foi engolindo todos.

Eu gostava deles. Numa época remota da minha vida eu tinha lido as obras teatrais de Abelardo Castillo, os contos de Rodolpho Walsh (como Conti, assassinado pela ditadura), os contos de Daniel Moyano, leituras parciais e fragmentadas oferecidas pelas revistas argentinas ou mexicanas ou cubanas, livros encontrados nos sebos do DF, antologias piratas da literatura portenha, provavelmente a melhor na língua espanhola deste século, literatura da qual eles faziam parte e que não era certamente a de Borges ou Cortázar e que Manuel Puig e Osvaldo Soriano não tardariam a deixar para trás, mas que oferecia ao leitor textos compactos, inteligentes, que propiciavam cumplicidade e alegria. Meu favorito, nem e preciso dizer, era Sensini, e o fato, de alguma maneira cruento e de alguma maneira lisonjeador, de encontra-lo num concurso literário de província me animou a entrar em contato com ele, cumprimenta-lo, dizer quanto gostava dele.

Assim, a prefeitura de Alcoy não demorou a me enviar seu endereço, ele morava em Madri, e uma noite, depois de jantar ou comer ou lanchar, eu lhe escrevi uma longa carta em que falava de Ugarte, dos outros contos dele que havia lido em revis­tas, de mim, da minha casa nos arredores de Girona, do con­curso literário (eu ria do vencedor), da situação política chilena e argentina (ambas as ditaduras ainda estavam bem estabelecidas), dos contos de Walsh (que era o outro de que eu mais gos­tava, junto com Sensini), da vida na Espanha e da vida em geral. Ao contrario do que esperava, recebi uma carta dele apenas uma semana depois. Começava me agradecendo pela minha, dizia que de fato a prefeitura de Alcoy também lhe enviara o livro com os contos premiados mas que, ao contrario de mim, ele não havia arranjado tempo (se bem que depois, quando voltava de forma enviesada ao mesmo tema, dizia que não tinha encontrado ânimo suficiente) para reler a narrativa vencedora e as outras premiadas, mas nestes dias havia lido o meu conto e o achara muito bom, “um conto de primeira ordem”, dizia, conservo a carta, e ao mesmo tempo me instava a perseverar, mas não, como a princípio entendi, a perseverar na escrita e sim a perseverar nos concursos, coisa que ele, me garantia, também faria. Ato contínuo passava a me perguntar pelos concursos literários que se “avistavam no horizonte”, recomendando-me que mal soubesse de um lhe informasse no ato. Em contrapartida me anexava as coordenadas de dois concursos de narrativas, um em Plasencia, o outro em Écija, de vinte e cinco mil e trinta mil pesetas respectivamente, cujo regulamento conforme pude verificar mais tarde ele tirava de jornais e revistas madrilenhas cuja simples existência era um crime ou um milagre, depende. Os dois concursos ainda estavam a meu alcance e Sensini terminava sua carta de maneira algo entusiasta, como se nós dois estivéssemos na linha de largada de uma corrida interminável, além de dura e sem sentido. “Coragem e mãos à obra”, dizia.

Lembro que pensei: que carta estranha, lembro que reli alguns capítulos de Ugarte, naqueles dias apareceram na praça dos cinemas de Girona os vendedores ambulantes de livros, gente que montava suas bancas ao redor da praça e oferecia principalmente estoques invendáveis, os saldos das editoras que não fazia muito haviam quebrado, livros da Segunda Guerra Mundial, romances de amor e de caubóis, coleções de postais. Numa das bancas encontrei um livro de contos de Sensini e comprei. Estava como novo — na verdade, era um livro novo, daqueles que as editoras vendem com desconto para os únicos que trabalham com esse material, os ambulantes, quando mais nenhuma livraria, nenhum distribuidor quer por as mãos nesse fogo — e aquela semana foi uma semana Sensini em todos os sentidos. As vezes eu relia pela centésima vez sua carta, outras vezes folheava Ugarte, e quando queria ação, novidade, lia seus contos. Estes, embora tratassem de uma gama variada de temas e situações, geralmente se desenrolavam no campo, na pampa, e eram o que pelo menos antigamente se chamavam histórias de homens a cavalo. Quer dizer, histórias de gente armada, desventurada, solitária ou com um senso peculiar da sociabilidade. Tudo o que em Ugarte era frieza, um pulso preciso de neurocirurgião, no livro de contos era calor, paisagens que se distanciavam do leitor muito lentamente (e que as vezes se afastavam com o leitor), personagens corajosos e à deriva.

Do concurso de Plasencia não consegui participar, mas do de Écija sim. Mal pus os exemplares do meu conto (pseudônimo: Aloysius Acker) no correio, compreendi que se ficasse esperando o resultado as coisas só podiam piorar. De modo que decidi procurar outros concursos e de passagem atender ao pedido de Sensini. Nos dias seguintes, quando descia a Girona, dedicava-me a fuçar jornais atrasados em busca de informação: em alguns ocupavam uma coluna junto da crônica social, em outros apareciam entre o noticiário geral e de esportes, o mais sério de todos os situava no meio do caminho entre a previsão do tempo e o obituário, nenhum, é claro, nas paginas culturais. Descobri também uma revista da Generalitat que, entre bolsas, intercâmbios, ofertas de emprego, cursos de pós-graduação, inseria anúncios de concursos literários, a maioria de âmbito catalão em língua catalã, mas nem todos. Logo tinha em perspectiva três concursos dos quais Sensini e eu podíamos participar e lhe escrevi uma carta.

Como sempre, a resposta veio logo em seguida. A carta de Sensini era breve. Respondia a algumas das minhas perguntas, a maioria delas relativa a seu livro de contos recém-comprado, e acrescentava por sua vez as fotocopias do regulamento de outros três concursos de contos, um deles patrocinado pela rede ferroviária, primeiro prêmio e dez finalistas a cinquenta mil pesetas por barba, dizia textualmente, quem não se apresenta não ganha, para que não fique na intenção. Respondi dizendo que não tinha tantos contos assim para cobrir os seis concursos em andamento, mas sobretudo tentei tocar em outros temas, a carta saiu do meu controle, falei de viagens, amores perdidos, Walsh, Conti, Fran­cisco Urondo, perguntei por Gelman que ele sem duvida conhecia, terminei contando minha historia em capítulos, sempre que falo com argentinos acabo me enredando no tango e no labirinto, isso acontece com muitos chilenos.

A resposta de Sensini foi pontual e extensa, pelo menos no tocante a produção e aos concursos. Numa folha escrita com espaço simples e dos dois lados expunha uma espécie de estratégia geral com respeito aos prêmios literários de províncias. Falo por experiência própria, dizia. A carta começava santificando-os (nunca soube se a sério ou de brincadeira), fonte de renda que ajudava no sustento cotidiano. Ao se referir as entidades patrocinadoras, prefeituras e caixas econômicas, dizia “essa boa gente que acredita na literatura”, ou “esses leitores puros e um pouco forçados”. Não tinha, do contrário, ilusões com respeito à informação da “boa gente”, os leitores que previsivelmente (ou nem tão previsivelmente) consumiriam aqueles livros invisíveis. Insistia em que eu participasse do maior número possível de prêmios, mas sugeria que como medida de precaução mudasse o título dos contos se com um só, por exemplo, me inscrevesse em três concursos cujos resultados saíssem mais ou menos na mesma data. Dava como exemplo sua narrativa Ao amanhecer, que eu não conhecia e que ele havia enviado a vários certames literários quase de maneira experimental, como o porquinho-da-índia destinado a testar os efeitos de uma vacina desconhecida. No primeiro concurso, o mais bem pago, Ao amanhecer foi como Ao amanhecer, no segundo concurso se apresentou como Os gaúchos, no terceiro concurso seu título era Na outra pampa, e no ultimo se chamava Sem remorsos. Ganhou no segundo e no último, e com o dinheiro obtido em ambos os prêmios pode pagar um mês e meio de aluguel, em Madri os preços estavam nas nuvens. Claro, ninguém ficou sabendo que Os gaúchos e Sem remorsos eram o mesmo conto com o título mudado, mas sempre havia o risco de topar em mais de uma contenda com um mesmo jurado, oficio singular que na Espanha era exercido de forma contumaz por uma plêiade de escritores e poetas menores ou autores laureados em festas anteriores. O mundo da literatura e terrível, além de ridículo, dizia. E acrescentava que nem o repetido encontro com um mesmo jurado constituía de fato um perigo, pois estes geralmente não liam as obras apresentadas ou as liam por alto ou as liam mais ou menos. E com maior razão, quem sabe se Os gaúchos e Sem remorsos não são duas narrativas distintas cuja singularidade resida precisamente no título. Parecidas, muito parecidas até, mas distintas. A carta concluía enfatizando que o ideal seria fazer outra coisa, por exemplo viver e escrever em Buenos Aires, sobre isso poucas duvidas tinha, mas que a realidade era a realidade, e a gente tinha que ganhar seus porotos (não sei se na Argentina o feijão é chamado de poroto, no Chile sim) e que por ora a saída era essa. E como passear pela geografia espanhola, dizia. Vou fazer sessenta anos, mas me sinto como se tivesse vinte e cinco, afirmava no fim da carta ou talvez num pós-escrito. A princípio me pareceu uma declaração muito triste, mas quando a li pela segunda ou terceira vez compreendi que era como se me dissesse: quantos anos você tem, pibe? Minha resposta, eu me lembro, foi imediata. Disse que tinha vinte e oito, três a mais que ele. Naquela manhã, foi como se eu recuperasse se não a felicidade, em todo caso a energia, uma energia que se parecia muito com o humor, um humor que se parecia muito com a memória.

Não me dediquei, como me sugeria Sensini, aos concursos de contos, embora tenha participado dos últimos daqueles que ele e eu havíamos descoberto. Não ganhei nenhum, Sensini voltou a fazer uma dobradinha, em Don Benito e em Écija, com uma narrativa que se intitulava originalmente Os sabres e que em Écija se chamou Duas espadas e em Don Benito O corte mais profundo. E ganhou um premio secundário no concurso da rede ferroviária espanhola, o que lhe proporcionou não só dinheiro mas também um passe para viajar de graça durante um ano.

Com o tempo fui sabendo mais coisas a seu respeito. Morava num apartamento em Madri com a mulher e a filha única, de dezessete anos, chamada Miranda. Outro filho, do seu primeiro casamento, andava perdido pela América Latina ou era o que ele queria acreditar. Chamava-se Gregorio, tinha trinta e cinco anos, era jornalista. As vezes Sensini me contava das suas diligencias em organismos humanitários ou vinculados aos departamentos de direitos humanos da União Europeia para averiguar o paradeiro de Gregorio. Nessas ocasiões as cartas costumavam ser pesadas, monótonas, como se mediante a descrição do labirinto burocrático Sensini exorcizasse seus próprios fantasmas. Deixei de viver com Gregorio, me disse em certa ocasião, quando o garoto tinha cinco anos. Não acrescentava mais nada, mas eu vi o Gregorio de cinco anos e vi Sensini escrevendo na redação de um jornal, e tudo era irremediável. Também me perguntei pelo nome e não sei por que cheguei a conclusão de que havia sido uma espécie de homenagem inconsciente a Gregorio Samsa. Isso, é claro, eu nunca lhe disse. Quando falava de Miranda, pelo contrário, Sensini ficava alegre, Miranda era jovem, tinha vontade de devorar o mundo, uma curiosidade insaciável e, além do mais, dizia, era linda e boa. Parece com Gregorio, dizia, só que Miranda é mulher (obviamente) e não teve que passar pelo que meu filho mais velho passou.

Pouco a pouco as cartas de Sensini foram se tornando mais extensas. Ele morava num bairro feioso de Madri, num apartamento de dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Saber que eu dispunha de mais espaço do que ele me pareceu surpreendente e também injusto. Sensini escrevia na sala, de noite, “quando a senhora e a menina já estão dormindo”, e abusava do tabaco. Seus rendimentos provinham de uns vagos trabalhos editoriais (creio que corrigia traduções) e dos contos que iam pelejar nas províncias. De vez em quando recebia um cheque por algum dos seus numerosos livros publicados, mas a maioria das editoras se fazia de esquecida ou havia quebrado. A única coisa que continuava dando dinheiro era Ugarte, cujos direitos pertenciam a uma editora de Barcelona. Vivia, não demorei a compreender, na pobreza, não numa pobreza absoluta mas uma pobreza de classe média baixa, de classe média desabonada e decente. Sua mulher (que ostentava o curioso nome de Carmela Zajdman) trabalhava fazendo bicos para editoras e dando aulas particulares de inglês, francês e hebraico, no entanto em mais de uma ocasião se vira obrigada a fazer faxina. A filha só se dedicava aos estudos e sua entrada na universidade era iminente. Numa das minhas cartas perguntei a Sensini se Miranda também ia se dedi­car a literatura. Em sua resposta dizia: não, por Deus, a menina vai estudar medicina.

Uma noite lhe escrevi pedindo uma foto da família. Só depois de por a carta no correio me dei conta de que o que eu queria era conhecer Miranda. Uma semana depois chegou uma fotografia tirada certamente no parque do Retiro, onde se via um velho e uma mulher de meia-idade ao lado de uma adolescente de cabelos lisos, magra e alta, de peitos muito grandes. O velho sorria feliz, a mulher de meia-idade olhava para o rosto da filha, como se lhe dissesse alguma coisa, e Miranda fitava o fotógrafo com uma seriedade que achei comovente e inquietante. Com a foto me mandou a fotocópia de outra foto. Nesta aparecia um sujeito mais ou menos da minha idade, de traços acentuados, os lábios bem finos, os pômulos pronunciados, a testa ampla, sem dúvida um sujeito alto e forte que olhava para a câmera (era uma foto de estúdio) com segurança e talvez com uma ponta de impaciência. Era Gregorio Sensini, antes de desaparecer, aos vinte e dois anos, isto é, bem mais moço do que eu era então, mas com um ar de maturidade que o fazia parecer mais velho.

Por muito tempo a foto e a fotocópia ficaram na minha mesa de trabalho. As vezes eu passava um bom tempo contemplando-as, outras vezes as levava para o quarto e ficava olhando para elas até adormecer. Em sua carta Sensini tinha me pedido que eu também mandasse uma foto minha. Não tinha nada recente e resolvi tirar um instantâneo na cabine de fotos da estação, naqueles anos a única de toda Girona. Mas não gostei das fotos que tirei. Eu estava feio, magro, de cabelo mal cortado. De modo que cada dia adiava o envio da foto e cada dia gastava mais dinheiro naquela máquina. Finalmente peguei uma ao acaso, enfiei-a num envelope com um postal e a enviei. A resposta demorou a chegar. Nesse interim lembro ter escrito um poema muito longo, muito ruim, cheio de vozes e de rostos que pareciam diferentes mas que eram um só, o rosto de Miranda Sen­sini e que quando eu por fim podia reconhecê-lo, nomeá-lo, dizer a ele, Miranda, sou eu, o amigo epistolar do seu pai, ela dava meia-volta e saia correndo em busca do irmão, Gregorio Samsa, em busca dos olhos de Gregorio Samsa que brilhavam no fundo de um corredor em trevas onde se moviam imperceptivelmente os vultos escuros do terror latino-americano.

A resposta foi longa e cordial. Dizia que Carmela e ele me acharam muito simpático, tal como me imaginavam, um pouco magro talvez, mas com boa aparência e que também tinham gostado do postal da catedral de Girona que esperavam ver pessoalmente dentre em breve, assim que se vissem mais desafogados de algumas contingências econômicas e domésticas. Na carta dava por entendido que não só passariam para me ver como se hospedariam na minha casa. De passagem me ofereciam a deles quando eu quisesse ir a Madri. A casa é pobre, mas também não é limpa, dizia Sensini imitando um celebre gaúcho de tiras de quadrinhos que foi muito famoso no Cone Sul em princípios dos anos 1970. De seus afazeres literários não dizia nada. Tampouco falava dos concursos.

A princípio pensei em mandar meu poema para Miranda, mas depois de muita duvida e hesitação decidi não fazê-lo. Estou ficando louco, pensei, se mando isso para Miranda acabaram-se as cartas de Sensini e, aliás, com toda razão deste mundo. De modo que não mandei. Por um tempo me dediquei a descobrir regulamentos de concursos para ele. Numa carta, Sensini dizia temer que sua corda estivesse acabando. Interpretei suas palavras erroneamente, no sentido de que já não tinha certames literários bastantes para enviar suas narrativas.

Insisti em que viessem a Girona. Disse que Carmela e ele tinham minha casa à disposição, por uns dias até me obriguei a limpar, varrer, passar pano de chão e tirar a poeira dos cômodos na certeza (totalmente infundada) de que eles e Miranda estavam para chegar. Argumentei que com o bilhete em aberto da rede ferroviária na realidade só precisariam comprar duas passagens, uma para Carmela e outra para Miranda, e que a Catalunha tinha coisas maravilhosas a oferecer ao viajante. Falei de Barcelona, de Olot, da Costa Brava, dos dias felizes que sem duvida passaríamos juntos. Numa longa carta de resposta, na qual me agradecia pelo convite, Sensini me informava que por ora não podiam sair de Madri. A carta, pela primeira vez, era confusa, mas lá pela metade punha-se a falar dos prêmios (creio que havia ganhado outro) e me incitava a não esmorecer e continuar participando. Nessa parte da carta também falava do ofício de escritor, da profissão, e tive a impressão de que as palavras que ele vertia eram em parte para mim, em parte um lembrete que fazia para si mesmo. O resto, como já disse, era confuso. Ao terminar de ler tive a impressão de que alguém da sua família não estava bem de saúde.

Dois ou três meses depois recebi a notícia de que provavelmente haviam encontrado o cadáver de Gregorio num cemitério clandestino. Em sua carta, Sensini era econômico em expressões de dor, só me dizia que tal dia, a tal hora, um grupo de legistas, membros de organizações de direitos humanos, encontrara uma vala comum com mais de cinquenta cadáveres de jovens etc. Pela primeira vez não tive vontade de lhe escrever. Gostaria de haver telefonado, mas acho que ele nunca teve telefone e, se teve, eu não sabia o número. Minha resposta foi sucinta. Disse que sentia muito, aventurei a possibilidade de que talvez o cadáver de Gre­gorio não fosse o cadáver de Gregorio.

Depois chegou o verão e fui trabalhar num hotel da costa. Em Madri esse verão foi pródigo em conferencias, cursos, atividades culturais de toda índole, mas Sensini não participou de nenhuma delas, e se participou de alguma o jornal que eu lia não noticiou.

Em fins de agosto mandei-lhe um cartão-postal. Dizia que provavelmente quando a temporada acabasse ia lhe fazer uma visita. Mais nada. Quando voltei a Girona, em meados de setembro, entre a pouca correspondência acumulada debaixo da porta encontrei uma carta de Sensini datada de 7 de agosto. Era uma carta de despedida. Dizia que voltava para a Argentina, que com a democracia ninguém mais ia impedi-lo de fazer o que quer que fosse e que portanto era inútil permanecer mais tempo fora. Além disso, se quisesse ter certeza do destino final de Gregorio, não tinha outro jeito senão voltar. Carmela, claro, volta comigo, mas Miranda fica. Escrevi imediatamente para ele, para o único endereço que tinha, mas não recebi resposta.

Pouco a pouco fui me acostumando a idéia de que Sensini havia voltado para sempre para a Argentina e que se não me escrevesse de lá podia dar por encerrada nossa relação epistolar. Por muito tempo esperei sua carta ou assim creio agora, ao recordar. A carta de Sensini, claro, não chegou nunca. A vida em Bue­nos Aires, me consolei, devia ser rápida, explosiva, sem tempo para nada, só para respirar e pestanejar. Tornei a escrever ao endereço que tinha de Madri, com a esperança de que fizessem a carta chegar a Miranda, mas ao fim de um mês o correio a devolveu por ser o destinatário desconhecido no endereço. De modo que desisti, deixei os dias passarem e fui me esquecendo de Sensini, mas quando ia a Barcelona, muito de vez em quando, as vezes me enfiava tardes inteiras nos sebos e procurava seus livros, os livros que eu conhecia de nome e que nunca leria. Mas nas livrarias só encontrei velhos exemplares de Ugarte e de seu livro de contos publicado em Barcelona e cuja editora havia pedido concordata, quase como um sinal dirigido a Sensini, dirigido a mim.

Um ou dois anos depois soube que ele tinha morrido. Não sei em que jornal li a notícia. Talvez não a tenha lido em lugar nenhum, talvez tenham me contado, mas não me lembro de ter falado naqueles dias com gente que o conhecesse, de modo que provavelmente devo ter lido em algum lugar a notícia da sua morte. Ela foi sucinta: o escritor argentino Luis Antonio Sensini, exilado durante alguns anos na Espanha, morreu em Buenos Aires. Creio que também mencionavam, no fim, Ugarte. Não sei por que, a notícia não me impressionou. Não sei por que, o fato de Sensini voltar a Buenos Aires para morrer me pareceu lógico.

Tempos depois, quando a foto de Sensini, Carmela e Mi­randa e a fotocópia da foto de Gregorio repousavam com minhas outras lembranças numa caixa de papelão que por algum motivo que prefiro não investigar ainda não queimei, bateram na porta da minha casa. Devia ser meia-noite, mas eu estava acordado. A campainha, no entanto, me sobressaltou. Nenhuma das poucas pessoas que eu conhecia em Girona teria ido a minha casa a não ser que acontecesse algo fora do normal. Ao abrir deparei com uma mulher de cabelos compridos sob um grande casaco preto. Era Miranda Sensini, mas os anos transcorridos desde que seu pai me mandou a foto não haviam passado em vão. Ao lado dela estava um sujeito louro, alto, de cabelo comprido e nariz adunco. Sou Miranda Sensini, disse com um sorriso. Eu sei, disse eu e convidei-os a entrar. Iam de viagem a Itália e depois pensavam em cruzar o Adriático rumo a Grécia. Como não tinham muito dinheiro, viajavam pedindo carona. Naquela noite dormiram na minha casa. Fiz alguma coisa para eles jantarem. O sujeito se chamava Sebastian Cohen e também havia nascido na Argen­tina, mas desde muito jovem vivia em Madri. Ele me ajudou a aprontar o jantar enquanto Miranda inspecionava a casa. Faz muito tempo que você a conhece?, perguntou. Até este instante só a tinha visto em foto, respondi.

Depois do jantar preparei um quarto para eles e disse que podiam ir para a cama quando quisessem. Também pensei em me retirar para meu quarto e dormir, mas compreendi que ia ser difícil, se não impossível, e assim, quando supus que já estavam dormindo, desci ao térreo e liguei a tevê, com o volume baixinho, e fiquei pensando em Sensini.

Pouco depois ouvi passos na escada. Era Miranda. Ela também não conseguia dormir. Sentou ao meu lado e me pediu um cigarro. No início falamos da sua viagem, de Girona (passaram o dia todo na cidade, não perguntei por que haviam chegado tão tarde em casa), das cidades que pretendiam visitar na Itália. Depois falamos de seu pai e de seu irmão. Segundo Miranda, Sensini nunca se recobrou da morte de Gregorio. Voltou para procurá-lo, embora todos soubéssemos que estava morto. Carmela também?, perguntei. Todos, disse Miranda, menos ele. Perguntei como tinha sido para ele na Argentina. Igual aqui, disse Miranda, igual em Madri, igual em toda parte. Mas na Argentina era benquisto, disse eu. Igual aqui, disse Miranda. Peguei uma garrafa de conhaque na cozinha e lhe ofereci um trago. Você esta chorando, disse Miranda. Quando olhei para ela, desviou o olhar. Estava escrevendo?, perguntou. Não, vendo televisão. Quero dizer, quando Sebastian e eu chegamos, disse Miranda, você estava escrevendo? Sim, disse. Narrativas? Não, poemas. Ah, fez Miranda. Bebemos em silêncio por um bom momento, olhando as imagens em branco e preto da televisão. Me diga uma coisa, falei, por que seu pai deu o nome de Grego­rio ao Gregorio? Por causa de Kafka, claro, disse Miranda. Por causa de Gregorio Samsa? Claro, disse Miranda. Era o que eu supunha, disse eu. Depois Miranda me contou em linhas gerais os últimos meses de Sensini em Buenos Aires.

Ele havia partido de Madri já doente e contra a opinião de vários médicos argentinos que o tratavam de graça e que inclu­sive tinham lhe conseguido umas internações nos hospitais da Previdência Social. O reencontro com Buenos Aires foi doloroso e feliz. Desde a primeira semana se mexeu para tentar descobrir o paradeiro de Gregorio. Quis voltar para a universidade mas, entre tramites burocráticos e invejas e rancores dos de sempre, o acesso lhe foi negado e ele teve que se conformar em fazer traduções para algumas editoras. Carmela, pelo contrário, conseguiu trabalho como professora e nos últimos tempos viveram exclusivamente com o que ela ganhava. Toda semana Sensini escrevia a Miranda. Segundo esta, seu pai se dava conta de que lhe restava pouca vida e em certas ocasiões até parecia ansioso por esgotar de uma vez por todas as últimas reservas e enfrentar a morte. Quanto a Gregorio, nenhuma notícia foi concludente. Segundo alguns legistas, seu corpo podia estar entre o monte de ossos exumados daquele cemitério clandestino, mas para maior segurança devia se fazer um exame de Dna, porem o governo não tinha verba ou não tinha vontade de que se fizesse o exame, e este ia se atrasando cada dia um pouco mais. Também se esforçou por encontrar uma moça, uma provável companheira que Goyo teria tido na clandestinidade, mas a moça não apareceu. Depois sua saúde se agravou e ele teve que ser hospitalizado. Nem escre­via mais, disse Miranda. Para ele era muito importante escrever todos os dias, em qualquer condição. Sim, disse a ela, acho que era mesmo. Depois perguntei se em Buenos Aires chegou a participar de algum concurso. Miranda olhou para mim e sorriu. Ah, você era aquele que participava dos concursos com ele, ele te conheceu num concurso. Pensei que tinha meu endereço pela simples razão de que tinha todos os endereços do seu pai, mas só naquele momento ela tinha me identificado. Eu sou o dos concursos, disse. Miranda serviu-se de mais conhaque e disse que durante um ano seu pai tinha falado bastante de mim. Notei que me fitava de outra maneira. Devo tê-lo importunado bastante, falei. Que é isso, disse ela, que importuna-lo o que, ele adorava suas cartas, sempre as lia para nos, para minha mãe e para mim. Espero que tenham sido divertidas, falei sem muita convicção. Eram divertidíssimas, disse Miranda, minha mãe ate os apelidou. Apelidou? Quem? Meu pai e você, ela os chamava de os pistoleiros ou os caçadores de recompensas, não me lembro mais, uma coisa assim, caçadores de escalpos. Imagino por quê, disse eu, mas creio que o verdadeiro caçador de recompen­sas era seu pai, eu só lhe passava um ou outro dado. Sim, ele era um profissional, disse Miranda subitamente seria. Quantos prêmios chegou a ganhar?, perguntei. Uns quinze, disse ela com ar ausente. E você? Eu, por ora só um. Um premio menor em Alcoy, graças ao qual conheci seu pai. Sabe que Borges uma vez escreveu uma carta para ele, em Madri, onde comentava um dos seus contos?, ela perguntou olhando para seu conhaque. Não, não sabia, disse eu. E Cortázar também escreveu sobre ele, e Mujica Lainez também. E que ele era um escritor muito bom, disse eu. Não sacaneie, disse Miranda e se levantou e saiu ao quintal, como se eu tivesse dito uma coisa que a houvesse ofendido. Deixei passar uns segundos, peguei a garrafa de conhaque e a segui. Miranda estava debruçada no parapeito vendo as luzes de Girona. Bonita vista você tem daqui, disse ela. Enchi seu copo, enchi o meu, e ficamos um tempo admirando a cidade iluminada pela lua. De repente me dei conta de que já estávamos em paz, de que por alguma razão misteriosa tínhamos conseguido juntos ficar em paz e que daí em diante as coisas imperceptivelmente começariam a mudar. Como se o mundo, de verdade, se movesse. Perguntei que idade tinha. Vinte e dois, respondeu. Então eu devo ter mais de trinta, falei, e até minha voz soou estranha.

Roberto Bolaño

terça-feira, novembro 3

Leitura na rua

 


Era uma noite de luar

O táxi ia rodando devagar pela rua mal iluminada, para que eu pudesse ir vendo os números das casas. Quando vi o 108, mandei parar. Tinha de ir ao 250 e perguntar por dona Judite. Era quase certo que não me seguiam; de qualquer modo não convinha parar o táxi diante da casa para não chamar a atenção. Tive, além disto, o cuidado de deixar o carro se afastar sem que o chofer pudesse ver a casa em que eu entrava. Naquele tempo vivíamos cercados de precauções. O menor descuido era a prisão – e as notícias que vinham lá de dentro eram de fazer tremer.

Andei pela calçada. Era uma rua sossegada, em um bairro onde antigamente viviam famílias ricas. Agora os ricos moravam em outras partes da cidade, e aqueles casarões envelhecidos, com seus parques de grandes árvores, pareciam dormir. Uma vez ou outra passava um auto; depois o luar aumentava o sossego da rua.

Apertei a campainha. Uma mulher gorda me disse que fosse pelo jardim, ao lado da casa; era uma porta que tinha uma escadinha nos fundos.Ao bater, ouvi um rumor lá dentro. Depois senti que alguém me espiava pela veneziana, sem dizer nada. Bati outra vez. Ouvi ainda uns rumores dentro do quarto e, por fim, uma voz nervosa:

– Quem é?

Marina não me havia reconhecido e com certeza estava inquieta. Tranquilizei-a:

– Sou eu, Domingos.

A porta abriu-se.

Tinha visto Marina poucas vezes, sempre em companhia do marido, na rua. Nunca havíamos trocado mais de duas ou três palavras. Não se podia dizer que fosse bonita, mas era agradável com seu ar um pouco seco, um pouco nervoso, e seu jeito de vestir-se com severidade. Agora estava diante de mim e não pude deixar de sorrir quando a vi metida em um macacão.

– Trago notícias do Alberto.

Dei o recado que um político solto no dia anterior havia trazido. Alberto mandava dizer que estava bem, que há muito tempo já não o interrogavam, e que não tinha nenhuma esperança de ser libertado tão cedo. Era bom que ela tentasse sair do Rio, onde podia ser presa a qualquer momento, e fosse para o Nordeste, onde morava sua família. A viagem de avião ou por mar seria impossível. O melhor era ir de trem até Belo Horizonte e seguir para Alagoas pelo São Francisco. Havia uma pessoa que podia arranjar uma parte do dinheiro, e um endereço em Belo Horizonte onde talvez conseguisse mais. Era preciso abrir o caixote de livros. e queimar um papel que estava dentro das Poesias de Olavo Bilac. Dei-lhe um número para onde devia telefonar.

– Acha que eles vão deixar o Alberto preso muito tempo?

Dei minha opinião com sinceridade. Alberto estava comprometido. Quando o pegou, a polícia não sabia grande coisa dele, mas lá dentro sua situação tinha piorado muito. Parece que tinham aparecido umas histórias velhas, de São Paulo…

– E você, como vai?

Ela fez um gesto desanimado. Podia continuar naquele quarto com direito a comida, mais uns oito dias. Já não tinha dinheiro nem para cigarros. Ofereci-lhe dos meus:

– Não sabia que você fumava.

Não fumava antes. Mas ali, obrigada a ficar dentro do quarto dias e dias, semanas e semanas começou a fumar. Há mais de três meses que não saía. Andava apenas pelo velho e pequeno parque, nos fundos da casa, quando não chovia. Havia lido todos os livros e estava cansada de ler.

– Isso aqui é pior do que prisão. Às vezes tenho vontade de sair, tomar um ônibus, andar por aí, ir a uma praia…

Arriscara-se a ir a um cinema do bairro, e quase morrera de medo. Na volta, um homem a seguiu. Teve certeza de que ia ser presa; quando estava perto de casa, o homem, mal-encarado, apertou o passo e a deteve, tocando-lhe o braço com a mão. Parou, trêmula, e logo saiu correndo e entrou em casa; jogou-se na cama chorando, num desabafo nervoso. O homem lhe havia feito uma proposta amorosa…

Contava essas coisas sentada na cama, um pouco excitada; e estava engraçada assim, metida no macacão do marido, com uma régua na mão, contando o seu susto. Rimos, mas logo ela se pôs a andar no quarto para um lado e outro, batendo com a régua na coxa.

– Que é que você acha que devo fazer?

Acendi um cigarro. Fazia calor. Na parede havia um quadro sem interesse, de um pintor amigo do casal. Ela pensava em procurar alguém que fosse amigo do governo. Talvez o doutor Antunes conseguisse…

– Também está preso.

– O doutor Antunes? Não é possível!

Vi que estava mal informada do que acontecia, e lhe dei várias notícias. Nenhuma era alegre. Sentou-se novamente na cama, batendo com a régua no joelho. Ficamos em silêncio. Achei que devia me despedir, mas ela me deteve:

– Espere, quero saber de uma coisa…

Perguntou-me pelos Amaral, se era verdade que a mulher tinha se suicidado. Era boato, ou pelo menos, parecia. Havia quem dissesse que o casal estava no Paraguai; outros diziam que ele estava preso no norte do Paraná, em Londrina…
Surgiram outros nomes. Eu quase não podia dar informações sobre ninguém, e muitos eu não conhecia nem de nome nem de vista. Voltamos a falar de Alberto.

Ela havia perdido o nervosismo; falava agora no seu tom habitual, um pouco seco, um pouco distante. Falava do marido e de si mesma como se estivesse examinando um problema alheio, com frieza e lógica. Tinha na gaveta um velho Guia Levi, e consultou preços de passagens e horários. Certamente deveria tomar o trem em alguma estação do estado do Rio, se resolvesse ir para o Norte.

– Vai?

– Isso é que estou pensando. Em Alagoas posso ficar na fazenda de minha tia, perto de São Miguel. Ali não haveria nenhum perigo, mas…

Voltou a perguntar se não haveria mesmo nenhum jeito de fazer alguma coisa pela libertação de Alberto. Talvez aquele ex-deputado, amigo do Amaral, pudesse…

Balancei a cabeça. A polícia não estava soltando ninguém. Prendera gente demais, inocentes e culpados, e enquanto não interrogava todo mundo, não apurava as coisas, não queria soltar ninguém. Uma ou outra pessoa conseguia sair quando tinha proteção muito forte e estava completamente inocente. Alberto já fora preso antes, era um elemento marcado. A única esperança estava na mudança que diziam que ia haver no Ministério. Mas estavam sempre dizendo essas coisas, e ninguém saía do governo. Dava a impressão de que ia ser assim eternamente…

– Que coisa!

Voltou a falar de Alberto, contou detalhes de sua prisão. Ela havia escapado por milagre. Mas estava ali, sozinha, sem poder sair de casa… Começou quase a lamentar-se e subitamente pareceu de novo tranquila. Os cabelos despenteados e o macacão lhe davam um ar ao mesmo tempo gracioso e cordial de rapazola. Devia ter uns trinta anos. Agora sua voz parecia ter cinquenta:

– A situação é esta: se não fosse por causa do Alberto eu poderia ter fugido para o Sul. Mas perdi a oportunidade. Mais tarde, na hora de alugar este quarto, estive quase resolvendo outra vez fugir. Mas queria esperar Alberto… Está visto que não posso ficar esperando a vida inteira. O senhor acha que há possibilidade…

Era engraçado que me chamasse de “senhor”, quando começara me tratando de “você”. Mas logo, na frase seguinte, com uma pequena hesitação na voz, voltou a me chamar de “você”.

Levantei-me e procurei com a vista um cinzeiro para pôr o cigarro. Não havia. Abri uma banda da janela para jogá-lo no jardim.

– Posso deixar a janela aberta? Está quente…

Sentada na cama, ela ficou em silêncio. Resolvi ir-me embora, e fiquei pensando se devia lhe dar o pouco dinheiro que tinha no bolso. Eu voltaria de ônibus. Tirei a nota do bolso. Ela aceitou secamente e me deu um aperto de mão rápido.

Sua voz era tranquila, quase fria.

– Obrigada. Se tiver alguma novidade estes dias, apareça outra vez. Meu nome aqui é Judite de Sousa.

– Sei. Tem telefone?

– Não. Ah, um momento! Pode pôr uma carta no correio para mim?

Tirou uma carta da gaveta, meteu-a em um envelope e começou a escrever o endereço. Junto à janela, lá fora, eu via as grandes árvores gordas, beijadas pelo luar, enquanto ouvia o ranger da pena no papel.

Comentei ao acaso:

– Bonito luar…

Ela acabara de escrever o endereço e respondeu, dando um olhar à janela:

– É.

Foi um “é” tão seco que me arrependi do que havia dito, como se tivesse sido alguma coisa inconveniente. Depois de fechar o envelope ela veio para junto da janela onde eu estava. Para ver melhor lá fora, abri o outro lado da janela e a lua apareceu, redonda, branca, entre as copas das árvores. Foi apenas um instante.

Ela fechou os dois lados da janela com brutalidade:

– Não faça isso! Estúpido! Não vê que eu não posso com isso? Que estou sozinha desde que Alberto foi preso?

Ficou um momento diante de mim, pálida, os lábios trêmulos; eu não sabia o que dizer.

– Vá-se embora!

Lançou-se na cama, escondeu a cabeça nas mãos e começou a chorar. Os soluços agitavam seu corpo magro e nervoso sob o macacão azul.
Rubem Braga, "Melhores contos"

O viandante

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

Carlos de Oliveira

Literatura puxa-nos para um mundo real

É um erro imenso em que a sociedade quer que nós acreditemos, que a literatura é uma fuga. A verdadeira literatura é o contrário de uma fuga: ela abre a janela e puxa-nos para um mundo real, obriga-nos a ver, a ouvir, a sentir o que está nesse mundo.
Alberto Manguel

Uma rosa para Emília

Quando Miss Emily Grierson morreu, toda a nossa cidade compareceu ao enterro: os homens em atenção a essa espécie de carinho respeitoso que se tem por um monumento tombado; as mulheres movidas pela curiosidade de ver o interior de sua casa, onde ninguém entrara nos últimos dez anos, exceto um velho negro, ao mesmo tempo cozinheiro e jardineiro.


Era um casarão quadrado, de madeira, outrora branco, decorado de cúpulas, de flechas, de balcões, no estilo pesadamente frívolo da época de 1870, situado na rua que já tinha sido a mais distinta da cidade. Mas as garagens e as debulhadoras de algodão, multiplicando-se em derredor, acabaram por fazer desaparecer até os nomes augustos daquele bairro. A casa de Miss Emily era a única, levantando sua decrepitude teimosa e faceira acima dos vagões de algodão e das bombas de gasolina. Emily tinha ido juntar-se aos representantes daqueles nomes augustos, no cemitério adormecido sob os cedros, onde jaziam entre os túmulos enfileirados e anônimos, dos soldados da União e dos Confederados mortos no campo de batalha de Jefferson.

Viva, Miss Emily fora uma tradição, um dever e um aborrecimento: espécie de obrigação hereditária, pesando sobre a cidade desde o dia em que, em 1894, o Coronel Sartóris (o prefeito que baixou o decreto proibindo às negras saírem à rua sem avental) a isentara do pagamento de impostos, isenção definitiva, que datava da morte de seu pai. Isto não quer dizer que Miss Emily aceitasse a caridade. O Coronel Sartóris inventara a complicada história de um empréstimo em dinheiro, feito pelo pai de Miss Emily à cidade e que a cidade, por conveniência própria, preferia reembolsar dessa maneira. Só um homem da geração e com as ideias do Coronel Sartóris poderia ter imaginado semelhante coisa, e só uma mulher poderia ter acreditado.

Quando a geração seguinte, com suas ideias modernas, deu, por sua vez, prefeitos e intendentes municipais, essa concessão provocou alguns descontentamentos. No primeiro dia do ano, dirigiram a Miss Emily uma notificação de impostos. Fevereiro chegou, sem trazer resposta. Enviaram-lhe uma carta oficial, pedindo-lhe para passar, quando pudesse, no gabinete do delegado. Na semana seguinte, o próprio prefeito lhe escreveu, oferecendo-se para ir, em pessoa, à sua casa, ou para mandar buscá-la no seu carro particular. Recebeu, como resposta, uma folha de papel de feitio arcaico, escrita com tinta desbotada, numa letra miúda e fluente, comunicando-lhe que não saía mais de casa. A notificação de pagamento de imposto vinha inclusa, sem comentários.

O Conselho Municipal reuniu-se em sessão extraordinária. Uma delegação dirigiu-se à sua casa e bateu naquela porta que nenhum visitante transpusera desde que, oito ou dez anos antes, Miss Emily deixara de dar lições de pintura em porcelana. Os membros da delegação foram introduzidos num saguão escuro, de onde uma escada se projetava para as sombras ainda mais que espessas do andar superior. Havia em tudo um cheiro de poeira, de guardado, de coisas que nunca são usadas -um cheiro de mofo e umidade. O negro conduziu-os ao salão, de mobiliário pesado, forrado de couro. Quando o negro abriu as cortinas de uma das janelas, viram que o couro estava estalado, descascando e, ao se sentarem, uma nuvem leve de pó subiu-lhe preguiçosamente em volta das coxas e se espalhou em círculos vagarosos, desenrolando-se, desagregada, na única réstia de sol. Num cavalete de moldura dourada, perto da lareira, via-se o retrato a carvão do pai de Miss Emily.

Levantaram-se à sua entrada. Era uma mulherzinha pequena e gorda, vestida de preto, com uma fina corrente de ouro descendo-lhe do pescoço até a cintura, onde desaparecia no cós da saia. Tinha a ossatura pequena e delicada; talvez, por isso, o que em outra pessoa seria apenas gordura, parecia, nela, obesidade. Dava a impressão de estar inchada, como um cadáver muito tempo submerso numa água estagnada; tinha, mesmo, de um afogado, a carne lívida e balofa. Seus olhos, perdidos nas intumescências de sua face, lembravam dois pedacinhos de carvão enfiados numa bola de massa e iam de um rosto a outro, enquanto os visitantes expunham o caso.

Não mandou que sentassem. Conservou-se, apenas, em pé no limiar da sala, e esperou tranquilamente que o porta-voz se interrompesse, balbuciando. Então, puderam ouvir o tic-tac do relógio invisível, preso na ponta de sua corrente de ouro.

Sua voz era seca e fria:

– Não tenho impostos a pagar em Jefferson. O Coronel Sartóris me explicou isso. Talvez um dos senhores possa consultar os arquivos da cidade e dar satisfações aos demais.

– Mas nós o fizemos. Nós somos as autoridades no município, Miss Emily. A senhora não recebeu a notificação assinada pelo delegado?

– Sim, recebi um papel – disse Miss Emily. – Talvez ele se considere realmente o delegado… Não tenho impostos a pagar em Jefferson.

– Mas não há, nos livros, nada que o possa provar. Veja a senhora… É preciso que nós…

– Procurem o Coronel Sartóris. Não tenho impostos a pagar em Jefferson.

– Mas, Miss Emily ...

– Procurem o Coronel Sartóris. (Havia quase dez anos que o Coronel Sartóris estava morto) – Não tenho impostos a pagar em Jefferson. Tobe! – O negro apareceu. – Acompanhe estes cavalheiros.

Assim ela os venceu irremediavelmente, como já lhes vencera os pais, trinta anos antes, a respeito do cheiro. Isso aconteceu dois anos após a morte de seu pai, e quase em seguida à ocasião em que o namorado – aquele mesmo que nós pensávamos iria se casar com ela – a abandonou. Aquela morte e o abandono do namorado fizeram que ela depois pouco saísse de casa. Algumas senhoras tiveram a temeridade de ir visitá-la, mas não foram recebidas e, naquela casa, o único sinal de vida era o negro – ainda moço, então – que entrava e saía com um cesto de compras.

– Como se um homem – seja quem for! – pudesse conservar limpa uma cozinha!
– diziam as senhoras. Assim, ninguém se surpreendeu quando se começou a sentir o cheiro. Foi um novo laço que se estendeu entre a gente grosseira e prolífica do bairro e os grandes e poderosos Grierson.

Uma mulher, sua vizinha, foi queixar-se ao prefeito, Juiz Stevens, que contava, então, oitenta anos.

– Mas que quer a senhora que eu faça? – perguntou ele.

– Ora, que ela acabe com isso – disse a mulher. Não existe lei?

– Estou certo de que não será necessário – afirmou o Juiz Stevens. 
Provavelmente, é só uma cobra ou um rato que o negro matou no quintal. Amanhã falarei com ele a esse respeito.

No dia seguinte, recebeu duas novas queixas; uma partiu de um homem, que apresentou uma súplica tímida.

– Nós precisamos, realmente, fazer alguma coisa nesse caso, sr. Juiz. Eu seria a última pessoa neste mundo capaz de incomodar Miss Emily, mas precisamos fazer alguma coisa.

Nessa mesma noite, reuniu-se o Conselho Municipal: três barbas grisalhas e um rapaz moço, membro da nova geração.

– A coisa é muito simples – disse o moço. – Mandem. lhe dizer para limpar a casa. Deem-lhe um certo prazo para obedecer e, se ela não…

– Deus me livre, senhor! – exclamou o Juiz Stevens. Quer então dizer a uma senhora, nas bochechas, que ela cheira mal?

Assim, na noite seguinte, de madrugada, quatro homens atravessaram o gramado do jardim de Miss Emily e, como assaltantes, rondaram a casa, farejando os alicerces de tijolos e os respiradouros do porão, enquanto um deles, com um saco nos ombros, fazia, com regularidade, o gesto do semeador. Arrombaram a porta da adega, que salpicaram de cal, assim como todas as dependências. Quando, de volta, atravessaram o gramado, uma janela, até então sombria, iluminou-se de repente e viram Miss Emily sentada à contraluz, ereta, rígida, imóvel como um ídolo. Atravessaram em silêncio o gramado, metendo-se por entre as sombras das acácias que margeavam a rua. Depois de uma ou duas semanas, o cheiro desapareceu.

Isso foi quando as pessoas começaram realmente a ter pena dela. A gente de nossa cidade, que se lembrava de Lady Wyatt, sua tia-avó, que acabara louca, achava que os Grierson se julgavam muito mais importantes do que eram na realidade. Nenhum dos rapazes da cidade fora jamais considerado à altura de Miss Emily. Nós os imaginávamos muitas vezes como um quadro: ao fundo, Miss Emily, esguia figura vestida de branco; no primeiro plano, a silhueta de seu pai, virando-lhe as costas, com as pernas abertas, um chicote na mão; ambos, enquadrados pelos caixilhos da porta escancarada. Assim, quando ela chegou aos trinta anos ainda solteira, não posso dizer que isso tenha causado uma verdadeira alegria, mas nós, os rapazes, nos sentimos vingados; mesmo com os casos de loucura na família, ela não teria virado as costas a todas as oportunidades, se essas se tivessem verdadeiramente materializado.

Morto o pai, correu o boato de que só lhe tinha ficado a casa de herança, o que, de certo modo, alegrou todo mundo. Até que enfim, podiam apiedar-se de Miss Emily. Sozinha e na pobreza, iria humanizar-se. Agora, ela também conheceria a velha satisfação e o velho desespero de um vintém a mais ou de um vintém a menos.

No dia seguinte ao da morte do velho, as senhoras da cidade preparavam-me para ir à sua casa, apresentar-lhe os pêsames, conforme o costume. Miss Emily recebeu-as no limiar da porta, vestida como nos outros dias, e sem a menor marca de tristeza ou sofrimento na expressão. Disse-lhes que o pai não tinha morrido. Repetiu essas palavras durante três dias, quando os pastores e os médicos iam vê-la, tentando persuadi-la a deixar dispor do cadáver. Mas, no momento em que estavam resolvidos a recorrer à Lei e à força, ela cedeu, e enterraram-lhe o pai a toda pressa.

Não se disse, então, que estava louca. Pensamos que tinha agido como devia. Lembrávamo-nos de todos os moços que seu pai afastara, e sabíamos que, achando-se sem nada, ela deveria agarrar-se àquele que a despojara de tudo, como em geral acontece.

Esteve muito tempo doente. Quando tornamos a vê-la, tinha os cabelos cortados, o que a fazia parecer uma menina e lhe dava uma vaga semelhança com os anjos dos vitrais de igreja – uma mistura de trágico e sereno.

A cidade acabava justamente de firmar o contrato para pavimentação das calçadas e, no verão que seguiu a morte de seu pai, começaram os trabalhos. A companhia construtora trouxe negros, mulas e máquinas, e um contramestre chamado Homer Barron, um “yankee”, homem grande, moreno e decidido, com um vozeirão enorme e olhos mais claros do que a pele do rosto. Os garotos seguiam-no aos bandos, para ouvi-lo gritar com os negros, e para ouvir os negros cantando em compasso, enquanto erguiam e abaixavam a picareta. Em breve, o contramestre conhecia toda a gente da cidade. Cada vez que se ouviam ruidosas gargalhadas na praça, podia-se jurar que Homer Barron estava no centro do grupo. Não tardamos a avistá-lo, nos domingos à tarde, passeando com Miss Emily na carriola de aluguel, que tinha rodas amarelas e era puxada por uma parelha de cavalos baios.
A princípio, todos ficaram satisfeitos de ver que Miss Emily tinha agora um interesse na vida. As senhoras andavam dizendo: “Naturalmente, nunca uma Grierson tomará a sério um nortista, um assalariado.”

Mas havia outras pessoas, as mais velhas, que achavam que nem mesmo o desgosto deveria fazer que uma verdadeira senhora se esquecesse de que “noblesse oblige”. (Sem no entanto, empregar essa expressão: Noblesse oblige). Diziam, apenas: “Pobre Emily. Os parentes deviam procurá-la.”

Tinha parentes em Alabama, mas, alguns anos antes, o pai rompera com eles por causa da herança da velha Lady Wyatt, a louca, e não havia mais relações entre as duas famílias. Nem sequer se tinham feito representar no enterro.

E, mal a gente velha exclamou “Pobre Emily”, os mexericos começaram: “Vocês imaginam que, realmente. . .” diziam uns para os outros. – “Mas nem há dúvida. Porque, a não ser isso. . ” tudo sussurrado atrás das mãos no amarrotado farfalhar de sedas e cetins por detrás das janelas fechadas ao sol das tardes de domingo, enquanto a parelha de cavalos baios passava num leve e apressado clop-clop-clop. – “Pobre Emily!”

Ela, porém, erguia a cabeça bem alto, mesmo quando pensávamos que tinha decaído. Parecia, mais do que nunca, exigir que se reconhecesse sua dignidade de última dos Grierson, como se fosse necessário aquele toque de vulgaridade terrestre para acentuar mais profundamente a sua impenetrabilidade. Tal como no dia em que comprou o veneno para ratos, o arsênico. Isso aconteceu um ano depois de terem começado a dizer: 
“Pobre Emily”, e quando as duas primas estavam hospedadas em sua casa.

– Quero comprar veneno – disse ao farmacêutico. Contava, então, mais de trinta anos; era ainda delgada, embora estivesse mais magra do que de costume, com os olhos negros, altivos e frios num rosto cuja pele se repuxava na altura das têmporas e em volta das pálpebras, como se imaginava que deveria ser o rosto de um guardião de farol. – Quero comprar veneno.

– Pois não, Miss Emily. Que espécie de veneno? para ratos ou qualquer coisa assim? Recomen…

– Quero o que o senhor tiver de melhor. Não importa qual seja.

O farmacêutico citou alguns:

– Matariam até mesmo um elefante. Mas o que a senhora quer e…

– Arsênico – disse ela. – É bom?

– É… arsênico? Pois sim, senhora. Mas o que a senhora quer ….

– Eu quero arsênico.

– Pois, naturalmente – disse ele. – Se é isso que a senhora quer. Porém, a lei determina que a senhora declare o fim que dará ao veneno.

Miss Emily limitou-se a fitá-lo, com a cabeça pendida para melhor fixar os olhos nos olhos dele, até forçá-lo a desviar o olhar e a ir buscar o arsênico, que embrulhou. O caixeiro negro que fazia entregas trouxe-lhe o pacote, pois o farmacêutico não tornou a aparecer. Ao chegar em casa, tirou o papel; na tampa da caixa, debaixo da caveira e os dois ossos, estava escrito: “Para ratos”.

Assim, no dia seguinte, nós dizíamos: “Ela vai suicidar-se”, e achávamos que era a melhor solução. Quando começáramos a vê-la com Homer Barrou, tínhamos dito: “Vai casar-se com ele”. Depois, dizíamos: “Ela ainda acabará por persuadi-lo”, porque o próprio Homer observava – gostava da companhia dos homens e sabia-se que bebia com os rapazes no Elk’s Club – que não era feito para casamento.

Mais tarde, dissemos: “Pobre Emily”, por detrás das venezianas, quando ambos passavam, nas tardes de domingo, na carriola vistosa, Miss Emily de cabeça erguida e Homer Barrou com o chapéu de lado e um charuto entre os dentes, segurando as rédeas e o chicote nas luvas amarelas.

Então, algumas senhoras começaram a declarar que aquilo era uma vergonha para a cidade e um mau exemplo para a gente moça. Os homens não ousavam intervir, mas, finalmente, as mulheres forçaram o pastor batista – a gente de Miss Emily era episcopal – a ir procurá-la. O pastor negou-se sempre a contar o que acontecera durante a entrevista e recusou-se a voltar à sua casa. No domingo seguinte, saíram juntos novamente e, no outro dia, a mulher do ministro escreveu aos parentes de Miss Emily, em Alabama.

Dessa forma, ela teve pessoas de seu sangue outra vez debaixo de seu teto e nós ficamos todos à espera dos acontecimentos. A princípio, nada aconteceu. Depois, ficamos convencidos de que iam se casar. Soubemos que Miss Emily fora à joalheria e encomendara um jogo de toucador para homem, todo de prata, com as iniciais II. B. gravadas em cada peça. Dois dias mais tarde, fomos informados de que comprara um enxoval masculino completo, inclusive uma camisola de dormir, e dissemos: “Estão casados”. E ficamos contentes, porque as duas primas eram mais Grierson ainda do que Miss Emily jamais o fora.

Não tivemos grande surpresa quando, terminado o calçamento das ruas, Homer Barron partiu. Sentimo-nos um pouco decepcionados por não ter havido nenhuma manifestação pública de regozijo, mas julgamos que se tivesse afastado para preparar a ida de Miss Emily, ou para lhe dar a oportunidade de se livrar das primas. (Por essa época formáramos uma verdadeira cabala, e éramos todos aliados de Miss Emily no sentido de ajudá-la a alijar as primas). O que é certo é que elas partiram ao fim de outra semana. E, como esperávamos, no terceiro dia após essa partida, Homer Barron estava de volta à cidade. Os vizinhos viram o negro abrir-lhe a porta da cozinha, uma tarde ao escurecer.

Foi essa a última vez que vimos Homer Barron. E, durante algum tempo, não tornamos também a ver Miss Emily. O negro ia e vinha com a cesta das compras, mas a porta da entrada continuava fechada. Uma vez ou outra conseguimos avistá-la à janela por alguns instantes, como naquela noite em que os homens foram à sua casa espalhar a cal; durante mais de seis meses, porém, ela não apareceu nas ruas. Compreendemos que isso também era de esperar; como se aquele aspecto do caráter de seu pai, que tantas vezes constrangera sua vida de mulher, fosse virulento e furioso demais para morrer assim.

Quando a vimos novamente, Miss Emily tinha engordado muito e seus cabelos estavam ficando grisalhos. Nos anos seguintes, foram ficando cada vez mais grisalhos, até o momento em que, tendo adquirido um tom cinzento-de-aço, sua cabeleira não mudou mais de cor. Até o dia de sua morte, aos setenta e quatro anos, aqueles cabelos conservavam ainda esse vigoroso tom cinzento-de-aço, como os cabelos de um homem ativo.

Desde aquela época, sua porta ficara fechada, exceto no decorrer de um período de seis ou sete anos, quando ela, quarentona, dava aulas de pintura em porcelana. Instalara, num aposento do andar térreo, o atelier onde as filhas e netas dos contemporâneos do Coronel Sartóris lhe eram enviadas com a mesma regularidade e dentro do mesmo espírito com que as mandavam à igreja, nos domingos, munidas de uma moedinha de vinte centavos para a hora da coleta. Nesse ínterim, Miss Emily se vira dispensada do pagamento de impostos.

A nova geração tornou-se, então, a espinha dorsal e a alma da cidade, as alunas cresceram e dispersaram-se, e não lhe mandaram as filhas com as caixinhas de tinta, os aborrecidos pincéis e os modelos recortados das revistas ilustradas femininas. A porta fechou-se sobre a última aluna e ficou fechada desde então.

Quando a cidade adotou a distribuição gratuita do correio, Miss Emily foi a única pessoa que se negou a consentir que fixassem um número de metal acima de sua porta e uma caixa postal ao lado. Não houve argumento que a convencesse.

Dias, meses e anos, vimos o negro, cada vez mais grisalho e curvado, entrando e saindo com a cesta de compras. Anualmente, em dezembro, mandavam-lhe a declaração de impostos, que o correio devolvia na semana seguinte, com a nota de não haver sido reclamada. Uma vez ou outra, nós a avistávamos diante da janela do andar térreo – tinha, evidentemente, fechado todo o andar superior da casa – semelhante ao busto esculpido de um ídolo no seu nicho, e nunca chegamos a saber se estava olhando para nós, ou se nem sequer nos via. E assim passou ela de geração para geração – querida, inevitável, impenetrável, tranquila e perversa.

E, então, ela morreu. Caiu doente no seu casarão cheio de sombras e de pó, tendo como único auxílio o negro caduco. Nem ao menos soubéramos que estava doente, pois havia já muito tempo que desistíramos de arrancar qualquer informação ao negro. Não falava com pessoa alguma, talvez nem mesmo com ela; sua voz se tornara áspera e rouquenha como uma voz que não serve nunca.

Morreu num dos quartos do andar térreo, numa cama de nogueira maciça com cortinados, a cabeça grisalha erguida por um travesseiro amarelo e mofado pelo tempo e pela falta de sol.

O negro encontrou a primeira das senhoras na porta da frente; deixou-as entrar, com suas vozes sussurradas e sibilantes, com seus olhares rápidos, furtivos e curiosos, e depois desapareceu. Meteu-se pela casa a dentro, atravessou-a toda, saiu pelos fundos e sumiu para sempre.

A duas primas não tardaram a chegar. Fizeram o enterro no segundo dia. A cidade em peso compareceu para ver Miss Emily coberta por um montão de flores compradas, o retrato, a carvão, de seu pai profundamente pensativo, acima do caixão, cercado pelas senhoras sibilantes e macabras. No saguão e no gramado, homens, muito velhos – alguns nos uniformes de confederados muito bem escovadinhos – falavam de Miss Emily como se fosse uma de suas contemporâneas, imaginando que tinham dançado com ela, e até mesmo, talvez, que a tinham namorado, confundindo o tempo e a progressão matemática, como fazem os velhos, para os quais o passado não é uma estrada que se vai encurtando, porém uma vasta planície nunca atingida pelo inverno, dividida para eles, agora, pelo estreito gargalo da ampulheta dos últimos dez anos.

Nós todos já sabíamos da existência, naquela região, do andar superior, onde ninguém pisara há quarenta anos, de um quarto fechado que seria preciso arrombar. Esperamos que Miss Emily estivesse docemente enterrada, antes de forçá-lo.

A violência com que pusemos a porta abaixo pareceu encher o quarto de uma poeira penetrante. Era como se uma mortalha, tênue e acre, se estendesse sobre todas as coisas daquele quarto, mobiliado e enfeitado para urna noite de núpcias: sobre as desbotadas cortinas de pesada seda cor-de-rosa, sobre os quebra. Luzes rosados das lâmpadas, sobre a penteadeira, sobre os delicados objetos de cristal, sobre as peças do aparelho de toucador para homem, com seus dorsos de prata embaciados, tão embaciados que nem se distinguiam os monogramas escurecidos.
Entre os pertences do toucador, estavam jogados um colarinho e uma gravata, como se tivessem acabado de tirá-los naquele momento; quando os levantamos, deixaram na superfície uma pálida meia lua traçada na poeira. O terno de roupa estava dobrado cuidadosamente numa cadeira, debaixo da qual se viam os dois sapatos mudos e as meias largadas no chão.

E o homem estava deitado na cama.

Durante muito tempo, ali ficamos, imóveis, olhando para o seu ricto profundo e descarnado, O corpo devia ter, a principio, repousado na atitude de carícia, abraçado a outro corpo, mas agora o grande sono que sobrevive ao amor, o grande sono que vence até mesmo as carícias do amor, dominara-o afinal. O que restava dele, em decomposição dentro do que restava de sua camisola de dormir, tornara-se inseparável do leito em que jazia; e sobre ele, assim como sobre o travesseiro vazio ao seu lado, estendera-se aquela camada espessa de paciente e obstinada poeira.

Notamos, então, que no segundo travesseiro havia a marca funda de uma cabeça. Um de nós encontrou qualquer coisa caída sobre esse travesseiro e, debruçando-se, enquanto a leve, impalpável poeira acre e seca, nos entrava pelas narinas, vimos um longo fio de cabelo de um tom cinzento-de-aço.
William Faulkner

domingo, novembro 1

Leitura com café

 


Vacina contra o medo: o papel da literatura infantil no enfrentamento de emoções difíceis

Um gesto comum em famílias com crianças até 8-10 anos, quando chega a hora da leitura: evitar o contato com o medo, a tristeza, a perda e outros sentimentos difíceis. O adulto chega à página do lobo, da bruxa ou da floresta escura, hesita, e vira duas de uma vez. Às vezes o livro vai parar no fundo da estante. A intenção é boa: queremos poupar do que acreditamos representar sofrimento ou angústia. Mas vale perguntar o que estamos tirando deles junto com o medo.

Uma história assustadora é, antes de tudo, uma aventura. Na ficção — e, portanto, na imaginação —, a criança se perde no bosque, se defronta com o vilão malvado, cai na armadilha, consegue fugir. Ela passa por perigos que a vida real não lhe oferece, e passa por eles no lugar mais seguro que existe: o colo de alguém, com a voz conhecida lendo ao lado. Ela sabe que está em segurança, e o risco é na imaginação. Mas tem que lidar com a emoção que sente no momento.

E emoções precisam ser exercitadas. É um pouco como a imunidade: um corpo mantido longe de toda sujeira não aprende a se defender, ou pode acabar reagindo demais, de forma alérgica, a um elemento estranho. Com a mente infantil acontece um processo semelhante. Sentir medo em pequenas doses, em um ambiente protegido, vai criando “anticorpos emocionais”, preparando o sistema nervoso para lidar com emoções difíceis como medos e tristezas, quando chegarem de verdade. A coragem vai se construindo aos poucos, com sustos de tamanho adequado.

Cada criança lê uma mesma história de modos diferentes. Para uma, o susto vai fazer rir, para outra, se encolher de medo. O detalhe que uma esquece na hora, outra carrega por semanas. Essa diferença é justamente o que torna a literatura uma experiência pessoal e insubstituível. O que importa é que haja alguém por perto quando a emoção aparece.

A leitura compartilhada tem esse valor. Quando o monstro surge, o adulto está ali para parar e perguntar: você ficou com medo? E para admitir: eu também fiquei. Dar nome ao que se sente, em companhia, pode criar oportunidades ótimas para uma boa conversa. Reconhecer e falar sobre emoções fortalece o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança, e esse aprendizado a acompanha pela vida.

Muitas vezes o medo que atrapalha não é o da criança. É o nosso medo de que ela sinta medo. Ler todos os dias com os filhos é um ritual que presenteia todo mundo. Produz memórias afetivas que duram, ajuda a criança a ser mais inteligente e criativa e a lidar melhor com o que sente, inclusive com o medo.

O túmulo da Múmia

Tinha vindo ao museu pesquisar sobre o Egito para o meu caderno de História. Passei pela enorme arcada e entrei na primeira das cinco salas que constituíam a coleção egípcia. As paredes altas pareciam húmidas e sombrias. A única coisa que iluminava a sala era a serena luz cinzenta de um dia de chuva. Sombras escuras espreitavam por trás das vitrinas e das estátuas, escondendo‑se nos cantos. Um cheiro bolorento dominava o ar gelado que me atravessava os ossos.

Encontrava‑me sozinha neste memorial de tempos antigos. Os únicos pontos luminosos eram algumas tapeçarias desinteressantes. Nas vitrinas havia algumas joias danificadas do período egípcio. Junto a uma parede havia imponentes blocos de pedra, gravados com figuras grotescas. Fiz algumas anotações acerca do tipo de material usado na época egípcia, e passei depressa para a sala seguinte. Era inteiramente dedicada à cerâmica. Passei os olhos pela acumulação de obras tradicionais: as cores dominantes nos vasos eram o almagre, o verde‑água e o preto. As figuras representadas eram pintadas em cores contrastantes. Eram‑me familiares dos tempos da escola básica: rostos e pernas de perfil, busto e olhos de frente. A terceira sala continha apenas uma entediante quantidade de ferramentas e utensílios usados pelos egípcios. Listei alguns deles e passei para a quarta sala.
Nesta sala havia sobretudo cópias de mobiliário. Poucas peças verdadeiras enfeitavam as paredes.

A quinta sala, porém, fascinou‑me. As paredes estavam cobertas de velhos sarcófagos, e no centro deste misterioso lugar estendia‑se uma fileira de vitrinas baixas. Controlei o meu entusiasmo pelas múmias e aproximei‑me primeiro da fileira de mesas. O meu olhar distraído foi subitamente arrebatado por algo que brilhava no meio dos pendentes. Passou‑me pela cabeça que fosse um olho. Um olho humano! Costumo gabar‑me de possuir um temperamento calmo, resistente e curioso, mas naquele momento comecei a tremer por dentro e por fora. A roupa colava‑se‑me ao corpo, húmida de suor, ao mesmo tempo que um calafrio gélido me subia pelas costas. Enquanto tentava refazer os resquícios confusos daquilo a que gosto de chamar a minha compostura, li a legenda por baixo do olho. Era apenas feito de ágata! No entanto, sob o meu olhar frenético, tinha um aspecto gelatinoso, e a pupila parecia dilatar‑se ao fitar‑me.

Afastei‑me com alívio da vitrina e apressei‑me a ver os seis sarcófagos. Os primeiros cinco eram interessantes: tinham‑se soltado algumas lascas de tinta, o que lhes dava um agradável ar de antiguidade. Os rostos lisos e sérios desenhados no exterior dos sarcófagos olhavam diretamente para cima, como se tentassem ver além do pesado teto e obter um vislumbre dos céus soalheiros que não avistavam há tantos anos. Parei, espantada, em frente do sexto sarcófago. Dele saía um forte odor a carne putrefata!

— É claro que não pode haver nenhuma múmia antiga aqui — disse para comigo.
De repente, ocorreu‑me uma ideia horripilante… mas era demasiado improvável, demasiado horrível, para ser concebida pela mente humana. Enquanto pensava nisso, ouvi passos furtivos atrás de mim. Virei‑me depressa.

Na minha cabeça, imaginei toda a espécie de espetros sangrentos. No entanto, senti‑me tranquilizada por uma risada rouca provinda do velhote enrugado ao meu lado ao perceber a minha surpresa. Disse‑me então:

— Estava a observá‑la de trás daquela coluna ali; vi‑a a admirar o globo ocular na vitrina. Parece real, não é?

O velhote soltou outra risada das suas e levou‑me de volta à vitrina. Senti que estava a ser impelida por algum feitiço invisível, inédito, tal como acontece em sonhos, quando estamos a ser perseguidos e não conseguimos mexer nenhum músculo. Impotente, vi o homem de cabelo branco tirar do bolso uma minúscula lupa, que colocou sobre o olho. Para meu terror, o olho mexia‑se e fitava‑me lastimosamente à medida que o homem deslocava a lupa sobre o horrível órgão.

Fui‑me embora em bicos de pés, depois de lançar um olhar furtivo à figura curvada, ainda alegremente absorta no seu bizarro jogo.

Durante toda a noite, fui assombrada por ideias terríveis. Não conseguia adormecer, porque visões assustadoras de olhos líquidos e múmias vivas desfilavam diante de mim. Tentei convencer‑me de que o facto de o olho ser real não passava de uma invenção do velhote, mas foi em vão.

Ainda estava a chover, quando os primeiros sinais da madrugada surgiram no horizonte. Acordei e vesti‑me. Depois comecei a refletir sobre a melhor estratégia a seguir. Não era altura para gestos imprudentes. Às cinco e meia da tarde o museu fechava, e eu não poderia escapar ao sensor fotoelétrico. Tive, então, uma ideia: se ao menos resultasse! Entretanto já eram oito e meia, por isso tomei o pequeno‑almoço com a dona da pensão e fui de seguida ao First National do bairro, onde comprei um pão e um frasco de manteiga de amendoim. Quando regressei ao quarto, preparei quatro sandes de manteiga de amendoim e embrulhei‑as em papel de cera antes de as colocar num saco de papel. Pus também de lado um chapéu de abas largas e um guarda‑chuva. Às quatro horas, peguei nas sandes e no guarda‑chuva, pus o chapéu na cabeça, puxei a gola do casaco para cima e apanhei o autocarro das 4h10 para o museu.

Quinze minutos depois, ao subir a escadaria de mármore, constatei que o museu estava vazio, com exceção de dois ou três guardas. Não havia ninguém por perto, quando passei pelo sensor fotoelétrico. Peguei, então, no guarda‑chuva e passei‑o pelo sensor como se alguém estivesse a sair. Levantei o útil guarda‑chuva e percorri os longos e escuros corredores do museu. Ninguém me conseguia ver na escuridão cerrada, mas (engoli em seco) eu também não conseguia ver ninguém. Não tinha lanterna! Esquecera‑me talvez da coisa mais importante. Com cuidado, atravessei depois o átrio que ia dar à sala egípcia. Encontrei um banco num canto escuro da entrada. Ali me deitei, tremendo de excitação. Devorei com fome as sandes e adormeci logo.

Não sei durante quanto tempo me agitei no meu sono perturbado ou o que me terá acordado, mas sentei‑me e fui, então, surpreendida por um débil raio de luz que atravessava a noite escura como uma faca. Vinha da sala egípcia, da zona do túmulo da múmia! O pungente cheiro a carne podre chegou‑me de novo às narinas. Entrei às escondidas na sala. O que ali vi deixou‑me paralisada de horror. Sentia o corpo dormente, e só conseguia observar de forma impotente as ações quase inconcebíveis praticadas por um monstro desumano, desprovido de sanidade.

A luz da vela acesa no túmulo tremeluzia ao sabor das correntes de ar, projetando sombras assustadoras na parede. Essa luz permitiu‑me entrever as feições loucas do empregado de cabelo branco que já tinha conhecido — na véspera. Carregava um corpo vivo, enfaixado em ligaduras brancas, com aberturas apenas nos olhos e no nariz. A figura soltava gemidos abafados e contorcia‑se. O empregado abriu depois o quinto sarcófago, ao lado daquele de onde vinha o peculiar cheiro. Para meu horror, vi que a metade de cima se abria como a tampa de um caixão e estava revestida de espigões compridos e afiados: decerto para torturar a vítima aprisionada! O empregado deitou, então, a criatura humana na caixa, mas não a fechou. Aproximei‑me aos poucos, colada às sombras na parede. O empregado pegara, entretanto, numa colher afiada e inclinava‑se para arrancar os olhos da vítima aterrorizada, quando me viu aparecer. Reconheceu‑me!!

— Ah! — comentou, lançando‑me um olhar de soslaio. — Conseguiste fugir ontem, mas hoje vai ser diferente. Vou abafar os teus gritos de angústia e deixar‑te esvair em sangue numa agonia terrível. Tens de ir ao encontro dos deuses egípcios. Vou cortar‑te devagar os olhos e endurecê‑los antes de os expor na vitrina.

Quando avançou na minha direção, bati‑lhe com o guarda‑chuva e ele caiu inanimado no chão com um baque surdo. Demasiados anos naquela silenciosa câmara de tortura tinham‑lhe enfraquecido o coração e enlouquecido os sentidos.

Soltei a rapariga, que desmaiara com o susto, e amarrei o empregado com o generoso rolo de gaze e fita adesiva. Depois percorri os corredores já familiares que iam dar ao escritório do museu, onde telefonei à polícia para contar que tinha descoberto a rapariga desaparecida, cuja fotografia fora publicada em todos os jornais, bem como o louco raptor e futuro assassino. Quando regressei à fatídica sala para tranquilizar a rapariga restabelecida, o estrépito das sirenes policiais já fustigava o ar.

Na manhã seguinte, acordei por volta das dez horas com o telefone a tocar e atendi sonolentamente, pois ainda sentia o corpo dorido e uma dor de cabeça fortíssima. Era o chefe da polícia, que me contou que o empregado tinha confessado um assassinato e uma tentativa de assassinato antes de cair morto com um segundo ataque cardíaco. O chefe da polícia também me disse que o pai da rapariga me ia dar uma grande recompensa. Sorri ao lembrar‑me dela e disse ao chefe da polícia para agradecer ao pai em meu nome, mas para lhe dizer que guardasse a recompensa. Depois de desligar, voltei para a cama, mergulhando de imediato num sono tranquilo, liberto de sonhos.
Sylvia Plath, "Prosa Reunida"