sábado, março 28

Dia de faxina

 


Palavras

Senhora do próprio tempo, resgatei as palavras cruzadas, hábito adquirido desde a infância. Após o almoço na casa da avó, o pai e eu sentávamos no banco do jardim construído pelo avô e nos divertíamos com o desafio quadriculado. Ele usava lápis, para poder apagar no caso de erro ou deixar o passatempo ainda disponível, já que a revista não nos pertencia. Assim, em idade pré-escolar, fui armazenando sinônimos, antônimos, verbos rebuscados e outros conhecimentos, caminhando em direção às letras que seriam meu destino.

Isso também era evidente, quando o avô abria o jornal sobre a mesa de refeições, tendo próximo um copo de cerveja (a avó não permitia que ele fosse beber no bar), e passava um longo tempo desvendando as notícias. Eu era tão pequena que, de pé a seu lado, via as páginas na altura dos olhos e me encantava com as letras grandes e pequenas, distribuídas ordenadamente em colunas e, de vez em quando, interrompidas por fotografias. Nunca soube o que ele deduzia daquelas tantas informações.

O pai também me despertou o interesse pelos livros. Nossa casa era das poucas onde havia uma estante na sala, fazendo companhia ao toca-discos. Eu tinha livre acesso aos volumes e às vezes assustava o proprietário por estar lendo “livros não recomendados aos pequenos”. A coleção infantil de Monteiro Lobato me enchia de orgulho, com suas capas verdes e títulos prateados. Foi comprada em prestações, de vendedores que iam de porta em porta oferecer seus pesados produtos. O pai lia (e traduzia) as histórias de Pedrinho, Narizinho, Emília, tia Nastácia, o visconde de Sabugosa, o marquês de Rabicó, a Cuca, o saci e muitos outros. Além disso, chegavam mensalmente os lançamentos do Clube do Livro, de que a família era sócia. Romances, a maioria.

A preferência paterna recaía sobre Cronin, e sua obra O Farol do Norte motivou minha escolha pelo jornalismo. O vestibular se aproximava a passos largos, e eu ainda não decidira sobre o futuro. Queria ser escritora, mas o curso de Letras não me atraía. Até que li o romance sobre a luta para a sobrevivência de um jornal à beira da falência e vi um anúncio sobre curso intensivo para os exames, então, decidi tentar. Passei entre os primeiros e segui em frente, com relativo sucesso.

Durante o curso, descobri os latinos e me apaixonei para sempre. Cortázar, García Márquez, Bioy Casares, Manuel Puig, Mario Vargas Llosa e outros me deram ganas de escrever. Daí venci alguns concursos literários, publiquei livros e hoje sou o que você conhece, leitor, um ser repleto de palavras e sentimentos que nunca se apagam.

Off Price

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado...
Thiago de Mello

É velhice ou não sei ler?

Sofro de memória curta para certas lembranças, inclusive para livros inteiros, muitos deles desbravados na hora, ardentemente e, mais à frente, esquecidos, ainda que me deixem algum rescaldo de tênue consistência.

Falo assim tendo à mão uma velha crônica de Martinho Moreira Franco fazendo menção ao meu pegadio com livros, dependência que não está longe do modo como vivi a primeira infância: filho único numa casa solitária, à distância de outras casas com crianças, cercado de advertências e medos de lobisomens (nesse tempo existia), de cachorro doente, do bote do guaxinim, de cobra coral, a que mais deslizava por entre as ervas rasteiras dos cantos de parede. Medo do doido Olegário, que andava pelos altos com seu grito rouco de fonemas que não chegavam a ter sentido.

Resumia-me numa convivência de silêncios, somente quebrada pelas falas da cozinha e o zunido das abelhas em seu voo incessante, das flores para os cortiços enfileirados no alpendre, com frente para o sol benéfico da manhã.

Lu-iz! Era, de vez em quando, o chamado lá de dentro, de tônica bem aguda, para saber onde e o que eu estava fazendo.


Já lendo sozinho, foi nos poucos livros de D. Antonina, todos sagrados, e no jornalzinho da igreja que fui achar companhias. No primeiro ou segundo “livro de leitura” é que fui atrelar-me a um casal de crianças que rumava de trem das terras do cacau para as do café com leite, deixando-me atrapalhado em Pindamonhangaba. Aí demorei soletrando, perdendo os dois de vista, que se foram para sempre com o trem que se chegou a sonhar e que empacou antes da serra de Areia, em Alagoa Grande.

E me adomei nessa dependência, remoendo o despreparo para o esporte: o vôlei do tempo de ginásio, o futebol a mim reduzido ao time de botão, com uma seleção em que entravam desde craques do Treze aos do Vasco da Copa de 1950.

Como se pode ver, não me peguei com o livro por opção, mas como refúgio para não ficar falando sozinho. Some-se a isso o internato, no antigo Pio XI, do padre Odilon Pedrosa, com mais horas no salão de leitura, na sala de aula, na missa, do que nos intervalos das refeições e do recreio.

É uma dependência, para não dizer vício, mas com uma vantagem: os livros não mudam. Serenos ou arrebatados, venham de Machado ou de Zé Lins, de Carlos Romero ou de Hildeberto, serão sempre os mesmos e sempre com mais significados quando voltamos a eles.

Mas a memória não me ajuda muito, salvo em leituras que me ferraram a sensibilidade ou se juntaram, vívidas, à minha experiência, ao meu espírito.

Por mais que estudasse, a meu modo, o fazer literário ou me detivesse no emprego da palavra que a ideia exigia, muita coisa se apartou da memória.

Agora mesmo, coisa de uma semana atrás, dei com uma antologia do conto norte-americano lida há uns trinta anos. Passei as folhas tendo como bem lembrado e vivo apenas um conto do velho Steinbeck, O pônei alazão. Dos demais, inclusive Poe, Henry James ou o mais jovem deles, Saroyan, todos com expressões ou frases inteiras frisadas na primeira leitura, ressurgiam inteiramente apagados, fora da memória.

O coração delator

— Verdade! – sou muito nervoso – terrivelmente nervoso – sempre fui e serei. Mas, por que dirão vocês que sou louco? A doença aguçara-me os sentidos – não os destruíra nem os anestesiara. Acima de tudo minha audição tornara-se agudíssima. Ouvia todas as coisas, as do céu e as da terra. Ouvia muitas coisas do inferno. Como então podem dizer que sou louco? Escutem-me! E observem com quanta lucidez, com quanta serenidade lhes conto toda a história.

É impossível dizer como a ideia me surgiu na mente, mas uma vez concebida perseguia-me noite e dia. Objetivo, não havia nenhum. Nem paixão havia. Eu até gostava do velho. Nunca me fizera mal algum. Jamais me maltratara. E eu também não lhe cobiçava o ouro. Creio que foi por causa daquele seu olho! Sim, foi por isso! Um de seus olhos assemelhava-se ao de um abutre – um olho de cor azul pálido encoberto por uma película. Sempre que o velho o pousava em mim, gelava-me o sangue, e, pouco a pouco, muito gradualmente, acabei decidindo tirar-lhe a vida e assim livrar-me daquele olhar de uma vez por todas.

Agora a questão é a seguinte: vocês me imaginam louco. Os loucos nada sabem. Vocês deviam ter-me visto a mim. Deveriam ter visto com quanta sabedoria procedi – com que cautela e antevisão – com que dissimulação pus-me ao trabalho!

Nunca fora tão bondoso com o velho como na semana antes de matá-lo. E todas os dias, por volta da meia-noite, girava o trinco da porta de seu quarto e a abria-a – ah, tão delicadamente! E, então, quando já a afastara por uns dois palmos, ia aos poucos enfiando no quarto uma lanterna escura, fechada, totalmente fechada de modo a não deixar escapar a mínima luz e só depois é que enfiava a minha cabeça. Ah! Vocês teriam rido muito se tivessem visto a astúcia com que eu realizava esse gesto. Movia minha cabeça bem devagar – muito devagarinho a fim de não perturbar o sono do velho. Levava uma hora inteira até fazer minha cabeça atravessar completamente a abertura e colocar-me a uma distância suficiente para poder vê-lo deitado no leito. Ah! Um louco teria agido assim tão sabiamente? E, depois, quando minha cabeça já estava completamente dentro do quarto, girava o obstruidor da lanterna com o máximo cuidado – com todo o cuidado! Muitíssimo cuidado (pois poderia fazer barulho) – girava-o o mínimo possível de forma que somente um único e finíssimo raio de luz fosse pousar sobre aquele olho de abutre. E fiz isso durante sete longas noites – todas as noites exatamente à meia-noite – mas descobria que o olho estava sempre fechado, era impossível realizar minha tarefa, já que não era o velho que me exasperava, e sim o seu Olho Maligno. E todas as manhãs, ao raiar do dia, estava no aposento corajosamente e falava-lhe sem nenhum temor, chamando-o pelo nome em tom animado e perguntando-lhe como passara a noite. Portanto, como vocês mesmos bem podem ver, ele teria de ser um homem muitíssimo sagaz para suspeitar que todas as noites, exatamente à meia-noite, eu punha-me a vigiá-lo enquanto dormia.

Na oitava noite, fui ainda mais cauteloso ao abrir a porta. Os ponteiros dos minutos de um relógio podiam se mover mais rápidos que minhas mãos. Até essa noite, nunca havia sentido o alcance de meus poderes, da minha astúcia. Mal podia conter a sensação de triunfo. Pensar que lá estava eu abrindo a porta pouco a pouco, sem que ele sequer sonhasse com os meus atos ou com os meus pensamentos secretos. Cheguei mesma a rir-me de tal ideia... e talvez ele tivesse me ouvido pois mexeu-se na cama repentinamente, como se acordasse assustado. Vocês devem estar pensando então que eu recuei – mas não! O aposento estava negro como breu (as pesadas janelas estavam bem trancadas por causa do medo de ladrões) e, sabendo muito bem que ele não poderia ver a porta se abrir, continuei a empurrá-la milimetricamente, mais e mais.

Já havia enfiado minha cabeça na abertura e estava prestes a abrir o obstruidor da lanterna, quando meu polegar escorregou no fecho de lata. O velho se ergueu na cama sobressaltado, gritando: "Quem está aí?"

Fiquei imóvel e nada disse. Por uma hora inteira não movi sequer um músculo e durante todo esse tempo não o ouvi deitar-se novamente. Ainda devia estar sentado na cama procurando ouvir qualquer coisa... tal como eu fizera, noite após noite, ouvindo a morte rondar por ali.

Não muito depois, escutei um leve gemido e sabia que era produto de um pânico mortal. Não se tratava de um gemido de dor ou sofrimento... Ah não!... Era o som grave e contido que brota de dor ou sofrimento... Ah não!... Era o som grave e contido que brota do fundo da alma quando o mundo ela está saturada de terror. Eu conhecia muito bem esse som. Muitos foram as noites nas quais á meia-noite em ponto, hora em que o mundo inteiro dorme, esse mesmo som emergia de meu próprio peito e com seus ecos horripilantes aguçava ainda mais os terrores que me aturdiam. Digo-lhes que o conhecia muito bem. Sabia como o velho devia estar se sentindo e tinha pena dele, se bem que no fundo me risse. Bem sabia que ele estivera acordado na cama desde o momento do primeiro ruído leve que o despertara. Desde então os temores se agigantavam dentro dele. Havia tentado se convencer de que eram improcedentes, mas era impossível. Havia repetido a si mesmo: "Não é nada... apenas o barulho do vento pela chaminé...", ou "é apenas um rato a correr pelo quarto...", ou ainda "Deve ter sido um grilo que cricrilou uma única vez". Sim, certamente tentara se consolar com tais suposições, mas tudo em vão. Tudo em vão, porque para dele se aproximar a Morte, viera sub-repticiamente, oculta no seu manto negro com o qual capturava a vítima. E foi a funesta influência desse manto invisível que o fez sentir — embora não pudesse ver ou ouvir — que o fez sentir a presença de minha cabeça no interior do quarto.

Depois de ter esperado por muito tempo com infinita paciência sem tê-lo ouvido deitar-se, decidi abrir uma pequenina fresta – uma fresta mínima – no obstruidor da lanterna. E assim o fiz, e vocês não podem nem imaginar com que lentidão fui girando-o, até que, por fim, um único raio de luz, fino como o fio de uma teia de aranha, projetou-se da pequena fresta e foi pousar-lhe diretamente no olho de abutre.

Estava aberto – bem aberto e arregalado – e ao vê-lo fui tomando de fúria. Via-o com perfeita nitidez – todo de um azul aguado, coberto por aquela película horrenda que me gelava até a medula dos ossos. No entanto, era só o que eu podia ver da face e do corpo do velho, pois, como que por instinto, apontara o raio de luz exatamente sobre aquele maldito ponto.

Mas então já não lhes disse que aquilo que vocês tomam por loucura nada mais é que uma hiperagudeza dos sentidos? Pois digo-lhes que nesse momento ouvi um ruído, baixo e abafado, como o tique-taque de um relógio enrolado num pano. Também conhecia muito bem esse som. Eram as batidas do coração do velho. Assim como o rufar dos tambores de guerra incita o soldado à luta, esse barulho deixava-me cada vez mais furioso.

Contudo, mesmo nessa hora ainda me contive, permanecendo imóvel. Mal podia respirar. Segurava a lanterna inerte. Com o máximo de firmeza possível tentei manter o raio de luz sobre o olho do velho. Enquanto isso, o som diabólico daquele coração ia crescendo. Tornava-se cada vez mais rápido e aumentava de volume a cada instante. O terror que se apossou do velho deve ter sido extremo! Batia mais e mais, asseguro-lhes eu, cada vez mais alto!... Estão compreendendo bem o que lhes digo? Já lhes disse que sou nervoso... é assim que sou. E então na calada da noite, em meio ao terrível silêncio daquela casa velha, um ruído tão estranho quanto aquele punha-se na excitação de um incontrolável pavor. Entretanto... por mais alguns segundos... contive-me e permaneci imóvel. Mais as batidas se tornavam mais altas! Pensei que o coração fosse explodir. E então outra angústia tomou conta de mim – o ruído poderia ser ouvido por algum vizinho! Chegara a hora do velho! Com um grito incontido, escancarei a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele soltou um grito – um só e estridente como o de uma ave – uma única vez! Em um instante arrastei-o para o chão e empurrei a cama pesada sobre ele. Então sorri de satisfação ao ver o ato consumado. Porém por vários minutos o coração continuou a bater com aquele som abafado. Mas isso não me perturbava; não poderia ser ouvido através da parede. Por fim cessou. O velho estava morto. Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, estava morto, morto como uma pedra. Coloquei minha mão sobre o coração e ali a deixei ficar por alguns minutos. Não havia pulsação. Morto como pedra. Aquele seu olho nunca mais me incomodaria.

Se vocês ainda me acham louco, mudarão de opinião quando eu lhes descrever as sábias precauções que tomei para esconder o corpo. A noite findava e pus-me a trabalhar apressadamente, mas sempre em silêncio. Em primeiro lugar, desmembrei o corpo. Decepei-lhe a cabeça, os braços e as pernas.

E então arranquei depois três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as fendas. Recoloquei as tábuas com tanta habilidade, com tanta astúcia, que nenhum olho humano, – nem mesmo o dele – poderia detectar algo de errado. Não havia nada para ser lavado – nenhuma mancha de qualquer tipo – nem sequer um único pingo de sangue. Eu tinha sido extremamente cuidadoso para evitar a isso acontecesse: a banheira recolhera tudo... Ah! Ah! Ah!

Quando acabei essas tarefas eram quatro horas, mas ainda estava escuro como se fosse meia-noite. Quando o sino deu as horas, ouvi batidas na porta que dava para a rua. Desci para abri-la despreocupado... O que havia para temer agora? Entraram três homens e, com a maior palidez, identificaram-se como sendo da polícia. Um grito estridente fora ouvido por um vizinho durante a noite; levantara-se a suspeita de crime; a delegacia de polícia fora notificada e eles receberam a incumbência de investigar.

Sorri, pois que havia a temer? Dei as boas-vindas aos cavalheiros. O grito, disse-lhes, eu mesmo o dera durante um sonho. O velho, informei, estava fora, no interior. Levei os meus visitantes a todas as partes da casa. Sugeri que investigassem tudo e que investigassem muito bem. Por fim, eu os conduzi ao quarto dele. Mostrei-lhes os seus bens, totalmente seguros e intocados. Movido pelo entusiasmo de minha autoconfiança, levei cadeiras para o quarto e sugeri que descansassem ali, enquanto eu mesmo, na louca audácia de meu triunfo absoluto, colocava minha cadeira justamente sobre o local onde repousava o cadáver.

Os policiais ficaram satisfeitos. O modo como me portara convencera-os. Eu estava muito à vontade. Sentaram-se e enquanto eu ia-lhes respondendo animadamente, conversaram sobre assuntos corriqueiros. Porém, logo senti que começava a empalidecer e sejei que já tivessem ido embora. A cabeça me doía e imaginei estar ouvindo um zumbido nos ouvidos. Mas eles permaneciam sentados e continuavam a conversar. O zumbido ficou mais distinto; prosseguia e tornava-se mais nítido. Pus-me a falar com mais eloquência a fim de me livrar daquela sensação, mas o ruído continuava, cada vez mais nítido, até que, por fim, descobri que o som não estava em meus ouvidos.

Sem dúvida, nesse momento, fiquei lívido... mas falava mais, num tom mais alto. Contudo, o barulho também aumentava... e o que é que eu podia fazer? Era um ruído rápido, baixo e abafado... muito parecido com o som de um relógio enrolado num pano. Faltava-me o fôlego e, no entanto, os policiais nada ouviam. Comecei a falar mais depressa e com veemência; mas o som não parava de aumentar. Pus-me de pé e comecei a discutir sobre ninharias, com voz muito alterada e gestos violentos, mas o ruído continuava aumentando. Por que eles não iam embora? Andava de um lado para outro do quarto, com passadas largas e pesadas, como se o fato de ser assim observado por eles me levasse à loucura – e o ruído não parava de aumentar. Ah! Meu Deus! O que é que eu podia fazer? Esbravejei, vociferei, praguejei! Peguei a cadeira em que estivera sentado e pus-me a raspá-la nas tábuas do assoalho, mas o ruído excedia a tudo e aumentava mais e mais e mais. Tornou-se mais alto... mais alto... mais alto! E ainda assim os homens conversavam placidamente e sorriam. Seria possível que não estivessem ouvindo? Santíssimo Deus! Não e não! Estavam ouvindo, sim! Suspeitavam de mim! Sabiam de tudo! E zombavam do pavor que eu sentia! Foi isso que pensei, e é o que penso ainda. Mas qualquer coisa seria preferível a essa agonia! Qualquer coisa seria mais suportável que esse escárnio! Eu não podia suportar aqueles sorrisos hipócritas por nem mais um segundo! Senti que tinha de gritar ou então morreria!... E então, outra vez!... ouçam! Mais alto... Mais alto... Mais alto!...

“Canalhas!”, gritei, “parem com esse fingimento! Confesso o crime! Arranquem logo as tábuas!... Está aqui! aqui!... está aqui o bater desse coração hediondo!”
Edgar Allan Poe

A morte do livreiro

O melhor amigo de um leitor é um bom livreiro. Aquele que não só conhece o livro que você procura, mas, na falta deste, sabe indicar alternativas do mesmo autor ou de outro. Não que tenha lido esses livros, mas o convívio com tantos deles faz com que, pelos títulos, capas ou editoras, se torne um profissional à altura do produto com que trabalha. Entre esses profissionais, há um que admiro mais: o livreiro de sebo.

O livreiro comum conhece os livros que estão saindo. O de sebo conhece livros de todas as épocas, que costuma receber aos milhares de uma vez, do filho ou viúva de um colecionador. Aceita todos, não escolhe, e, no dia seguinte, já recebe outro lote igual. Catalogá-los, dar-lhes preço e botá-los nos escaninhos deveria ser o trabalho de uma equipe. Quase sempre ele o faz sozinho.

Tenho amigos entre esses livreiros por toda parte. Mas, nos últimos dez anos, um foi especial: Luiz Carlos Araújo, do sebo Mar de Histórias, em Copacabana. Para escrever meu livro "Metrópole à Beira-Mar", sobre o Rio moderno dos anos 1920, decidi que precisava ler a obra completa dos autores daquele tempo que, em minha opinião, já eram modernos —ou seja, escreviam de forma clara, adulta, objetiva, sem as firulas parnasianas ou os maneirismos modernistas. O problema é que, exceto por João do Rio e Manuel Bandeira, todos eram autores perdidos: Theo-Filho. Ronald de Carvalho, Carmen Dolores, Chrisanthème, Orestes Barbosa, Adelino Magalhães, Elysio de Carvalho, Agrippino Grieco. Pois, nos quatro anos que o trabalho me tomou, até 2019, Luiz Carlos encontrou-os um a um. Fez o mesmo com o material dos anos 1940 sobre a Segunda Guerra no Rio, que resultou em meu livro "Trincheira Tropical", de 2025.

Nesta segunda-feira, um enfarte levou Luiz Carlos, aos 66 anos. Não fomos apenas nós, seus clientes e amigos, que o perdemos. Quando morre um livreiro, são os livros os que mais perdem.

Na sexta, eu lhe escrevera desculpando-me por estar alugando-o a respeito de mais um livro impossível. Ele respondeu: "Deixa comigo, Ruy. Estamos juntos. Estamos vivos".

sexta-feira, março 27

Assim nasce a leitora

 


As lições

Ensinaram-me a falar
aprendi a escrever.
Ensinaram-me a escrever
aprendi a falar.
Ensinaram-me a ler
aprendi a ver.
Ensinaram-me a ouvir
aprendi a calar.
Ensinaram-me a pedir
aprendi a dar.
Ensinaram-me a comprar
aprendi a ter.
Ensinaram-me a beber
aprendi a rir.
Ensinaram-me a fugir
aprendi a ficar.
Ensinaram-me a aprender
aprendi a ignorar.
Ensinaram-me a amar
aprendi a criar.
Ensinaram-me a viver
aprendi a morrer.
Ensinaram-me a estar só
aprendi a estar.
Ensinaram-me a ser livre
aprendi a ser.
Ana Hatherly

Grande Irmão

Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas. Winston Smith, queixo enfado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.

O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Winston avançou para a escada. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo quando tudo ia bem, era raro que funcionasse, e agora a eletricidade permanecia cortada enquanto houvesse luz natural. Era parte do esforço de economia durante os preparativos para a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, com seus trinta e nove anos e sua úlcera varicosa acima do tornozelo direito, subiu devagar, parando para descansar várias vezes durante o trajeto. Em todos os patamares, diante da porta do elevador, o pôster com o rosto enorme fitava-o da parede. Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.


No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou um interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. Winston foi para junto da janela: o macacão azul usado como uniforme do Partido não fazia mais que enfatizar a magreza de seu corpo frágil, miúdo. Seu cabelo era muito claro, o rosto naturalmente sanguíneo, a pele áspera por causa do sabão ordinário, das navalhas cegas e do frio do inverno que pouco antes chegara ao fim.

Fora, mesmo visto através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Lá embaixo, na rua, pequenos rodamoinhos de vento formavam espirais de poeira e papel picado e, embora o sol brilhasse e o céu fosse de um azul áspero, a impressão que se tinha era de que não havia cor em coisa alguma a não ser nos pôsteres colados por toda parte. Não havia lugar de destaque que não ostentasse aquele rosto de bigode negro a olhar para baixo. Na fachada da casa logo do outro lado da rua, via-se um deles. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, enquanto os olhos escuros pareciam perfurar os de Winston. Embaixo, no nível da rua, outro pôster, esse com um dos cantos rasgado, adejava operosamente ao vento, ora encobrindo, ora expondo uma palavra solitária: Socing. Ao longe, um helicóptero, voando baixo sobre os telhados, pairou um instante como uma libélula e voltou a afastar-se a grande velocidade, fazendo uma curva. Era a patrulha policial, bisbilhotando pelas janelas das pessoas. As patrulhas, contudo, não eram um problema. O único problema era a Polícia das Ideias.

Por trás de Winston, a voz da teletela continuava sua lenga-lenga infinita sobre o ferro-gusa e o total cumprimento - com folga - das metas do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Todo som produzido por Winston que ultrapassasse o nível de um sussurro muito discreto seria captado por ela; mais: enquanto Winston permanecesse no campo de visão enquadrado pela placa de metal, além de ouvido também poderia ser visto. Claro, não havia como saber se você estava sendo observado num momento específico. Tentar adivinhar o sistema utilizado pela Polícia das Ideias para conectar-se a cada aparelho individual ou a frequência com que o fazia não passava de especulação. Era possível inclusive que ela controlasse todo mundo o tempo todo. Fosse como fosse, uma coisa era certa: tinha meios de conectar-se a seu aparelho sempre que quisesse. Você era obrigado a viver - e vivia, em decorrência do hábito transformado em instinto - acreditando que todo som que fizesse seria ouvido e, se a escuridão não fosse completa, todo movimento examinado meticulosamente.

Winston mantinha as costas voltadas para a teletela. Era mais seguro; contudo, como sabia muito bem, mesmo as costas de uma pessoa podem ser reveladoras. A um quilômetro de distância, o Ministério da Verdade, onde ele trabalhava, erguia-se vasto e branco por sobre a paisagem encardida. Aquela, pensou com uma espécie de contrariedade difusa, aquela era Londres, principal cidade da Faixa Aérea Um, terceira mais populosa das províncias da Oceânia. Tentou localizar alguma lembrança de infância que lhe dissesse se Londres sempre fora assim. Será que sempre houvera aquele cenário de casas do século XIX caindo aos pedaços, paredes laterais escoradas com vigas de madeira, janelas remendadas com papelão, telhados reforçados com chapas de ferro corrugado, decrépitos muros de jardins adernando em todas as direções? E os lugares bombardeados, onde o pó de gesso dançava no ar e a salgueirinha crescia e se espalhava sobre as pilhas de entulho? E os locais onde as bombas haviam aberto clareiras maiores e onde tinham brotado colônias sórdidas de cabanas de madeira que mais pareciam galinheiros? Não adiantava, ele não conseguia se lembrar. Tudo o que lhe fcara da infância era uma série de tableaux superiluminados, desprovidos de paisagem de fundo e quase sempre ininteligíveis.

O Ministério da Verdade - Miniver, em Novafala - era extraordinariamente diferente de todos os outros objetos à vista. Era uma enorme estrutura piramidal de concreto branco cintilante, erguendo-se, terraço após terraço, trezentos metros espaço acima. Do lugar onde Winston estava mal dava para ler, escarvados na parede branca em letras elegantes, os três slogans do Partido:

GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA
George Orwell, "1984"

Minha terra, minha casa e minha gente

Pirapemas, o povoado em que eu nasci, era um dos lugarejos mais pobres e mais humildes do mundo. Ficava à margem do Itapicuru, no Maranhão, no alto da ribanceira do rio.


Uma ruazinha apenas, com vinte ou trinta casas, algumas palhoças espalhadas pelos arredores e nada mais. Nem igreja, nem farmácia, nem vigário. De civilização — a escola, apenas.

A rua e os caminhos tinham mais bichos do que gente. Criava-se tudo à solta: as galinhas, os porcos, as cabras, os carneiros e os bois.

Vila pacata e simples de gente simples e pacata. Parecia que ali as criaturas formavam uma só família. Se alguém matava um porco, a metade do porco era para distribuir pela vizinhança. Se um morador não tinha em casa café torrado para obsequiar uma visita, mandava-o buscar, sem-cerimônia, ao vizinho.

A melhor casa de telha era a da minha família, com muitos quartos e largo avarandado na frente e atrás. Chamavam-lhe a casa-grande por ser realmente a maior do povoado.

Para aquela gente paupérrima, éramos ricos.

Meu pai tinha umas duzentas cabeças de gado no campo, uma engenhoca de moer cana, uma máquina de descaroçar algodão e uma casa de negócios, em que vinham comprar moradores até de quinze ou vinte léguas distantes.

Não havia no lugarejo ninguém mais importante do que meu pai. Era tudo: autoridade policial, juiz, conselheiro, até médico.

A sua figura inspirava respeito; a sua presença serenava discórdias. Se havia uma desordem, mal ele chegava à desordem acabava. Bastava que desse razão a uma pessoa, para que todo mundo afirmasse que essa pessoa é que estava com a razão. Os seus conselhos faziam marido e mulher, desunidos, voltarem a viver juntos. Ninguém tomava um remédio sem lhe perguntar que remédio devia tomar.

Era um homem inculto, mas com uma inteligência tão viva, que se acreditava ter ele cursado escolas. E, ao lado disso, uma alma aberta, franca, alegre, jovial e generosa, que fazia amigos ao primeiro contato.

Nossa casa vivia cheia de gente. Gente da família, gente do povoado, gente de fora.

Meus pais eram padrinhos de quase toda a meninada dos arredores e o maior prazer de minha mãe era criar.

Se uma de suas comadres morria, deixando filhos pequeninos, ela, a pretexto de que as madrinhas devem ser segundas mães, ia buscá-los para que não morressem de abandono e de fome.

Às vezes, pela porta adentro, nos entravam verdadeiras braçadas de fedelhos, enchendo os quartos de alaridos e de berros. E minha mãe os criava com os mesmos cuidados e os mesmos carinhos com que criava os filhos.

Os “gaiolas” (vaporezinhos de roda que faziam a navegação do rio) paravam no povoado para se abastecer de lenha e para embarcar e desembarcar mercadorias e passageiros.

Não sei por que, os fazendeiros do sertão, quando tinham de tomar passagem para a capital, preferiam aquele porto insignificante. Rara era a semana em que não chegava gente de fora à povoação.

E, como a nossa casa era a maior de todas, era nela que eles se hospedavam.

No interior do Brasil a hospitalidade é um dever sagrado que se cumpre religiosamente. Nossa casa vivia apinhada de criaturas estranhas vindas de longe.

Às vezes, tarde da noite, ouviam-se rumores no terreiro. Eram hóspedes pedindo pousada.

Ao hóspede que chega não se pergunta de que precisa. Quem vem de longe, através de caminhos difíceis e desertos, certamente tem cansaço e fome. Necessita de alimento e de cama.

À nossa porta, ora à meia-noite, ora mais tarde, chegavam frequentemente dez, doze, quinze pessoas desconhecidas. A essa hora acordavam meu pai e minha mãe para mandar fazer comida para os hóspedes.

Em certos dias, ao amanhecer, eu despertava num quarto que não era o meu e no meio de um punhado de crianças. É que nem sempre havia redes para todas as pessoas de fora. A família desalojava-se: dormiam duas ou três pessoas juntas, para que não faltasse acomodação aos estranhos.

Em outras ocasiões, quando os hóspedes chegavam, o "gaiola" havia passado na véspera. Só havia outro, dez ou quinze dias depois.

Dez ou quinze dias ficavam famílias inteiras em nossa casa, morando e comendo tranquilamente.

Ao se despedirem apertavam a mão de minha mãe, apertavam a mão de meu pai, dizendo-lhes "obrigado" e nada mais.

É que nada mais lhes era permitido. No sertão do Brasil, quem perguntar o preço da hospedagem ofende aquele que a deu.

A hospitalidade por lá é uma religião e ninguém se furta a um dever religioso.
Viriato Corrêa, "Cazuza"

quinta-feira, março 26

Desjejum



Pequena canção da onda

Os peixes de prata ficaram perdidos,
com as velas e os remos, no meio do mar.
A areia chamava, de longe, de longe,
ouvia-se a areia chamar e chorar!

A areia tem rosto de música
e o resto é tudo luar!

Por ventos contrários, em noite sem luzes,
do meio do oceano deixei-me rolar!
Meu corpo sonhava com a areia, com a areia,
desprendi-me do mundo do mar!

Mas o vento deu na areia.
A areia é de desmanchar.
Morro por seguir meu sonho,
longe do reino do mar!

Cecília Meireles. Obra poética

O tédio

Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama, sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que o meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum.

Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu coração batia como se falasse.

Com passos largos e falsos, que em vão procurara tornar outros, percorri, descalço, o comprimento pequeno do quarto, e a diagonal vazia do quarto interior, que tem a porta ao canto para o corredor da casa. Com movimentos incoerentes e imprecisos, toquei nas escovas em cima da cómoda, desloquei uma cadeira, e uma vez bati com a mão movida em baloiço o ferro acre dos pés da cama inglesa.

 Acendi um cigarro, que fumei por subconsciência, e só quando vi que tinha caído cinza sobre a cabeceira da cama — como, se eu não me debruçara ali? — compreendi que estava possesso, ou coisa análoga, em ser quando não em nome, e que a consciência de mim, que eu deveria ter, se tinha intervalado com o abismo.

Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada.

Ah, que manhã é esta, que me desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela! Quase que choro, vendo esclarear-se diante de mim, debaixo de mim, a velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já se revelam castanho sujo na luz que se extravasa um pouco, o meu coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a conhecer a segurança de se não sentir.

Que manhã esta mágoa! E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? Nada: o som do primeiro elétrico como um fósforo que vai iluminar a escuridão da alma, e os passos altos do meu primeiro transeunte que são a realidade concreta a dizer-me, com voz de amigo, que não esteja assim.

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

O homem e a cidade

Agora, que não preciso mais ir à cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas ruas do centro onde tanto vaguei outrora.

E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores, o mar e as montanhas azuis.

Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)

A calçada está cheia de gente, e é doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos, gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas não preciso de nada. Entretanto, gosto de ver essa fartura de coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie que vieram de terras longes se oferecerem a mim.

Mas de repente houve alguma coisa — a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda, aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema. Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de 1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que, entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! para sempre perdida Lenora.

Lenora... E me dá uma humildade entre o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.

Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.

Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"

Buriti

Depois de saudades e tempo, Miguel voltava àquele lugar, à fazenda do Buriti Bom, alheia, longe. Dos de lá, desde ano, nunca tivera notícia; agora, entanto, desejava que de coração o acolhessem. Receava. Era um estranho; continuava um estranho, tornara a ser um estranho? Ao menos, pudessem recebê-lo com alegria maior que a surpresa. Mas, para ele, aproximar-se dali estava sendo talvez trocar o repensado contracurso de uma dúvida, pelo azado desatinozinho que o destino quer. Achava.

Viajara de jeep, em ermas etapas, e essa rapidez fora do comum dava para desentender-se um tanto o monótono redor, os conduzidos caminhos campeiros. Ia chegar à Casa, tardio mas enfim, noite sobre. Parara, para jantar, no mesmo ponto em que da primeira vez: perto duma funda grota — escondido muito lá em baixo um riachinho bichinho, bem um fiapo, só, só, que fugia no arrepiado susto de por algum boi de um gole ser todo bebido; um riinho, se recobrindo com miúdas folhagens, quase subterrâneas, sem cessar trementes e lambidas, plantinhas de floricas verdes, muito mais modestas que as violetas.


Sentados no barranco de beira da estrada, úmidos de sereno os capins, Miguel e o rapaz comeram seu farnel, já no sufusco e tempo fresco, já anoitecendo, enquanto ouviam o cucubo da coruja e o regougo da raposinha. Entrementes ocorria também o vozejo crocaz do socó: — Cró, cró, cró… — membranoso. Miguel acendeu cigarro; o rapaz mastigava uns restos. Não dilatava, bastando a gente guardar um pouco o silêncio, e o confuso de sons rodeava, tomava conta. Como a infância ou a velhice — tão pegadas a um país de medo. Miguel, sem o saber, sentia afastadas coisas, que se ocultavam de seu próprio pensamento. Levantou-se, caminhou uns passos, até ao jeep, apanhou a lanterna. Andou mais, na direção de onde tinham vindo. Como parou, dali o sipipilo do regato não se suspeitava. Só os grilos, por todo o campo, toda qualidade deles, sempre surgindo.

Tudo como da primeira vez, quando viera, a cavalo, por acaso em companhia de dois moços caçadores e, depois, de nhô Gualberto Gaspar, com quem quase mesmo no chegar tinham feito conhecimento. Da treva, longe submúsica, um daqueles acreditava perceber também, por trás do geral dos grilos, os curiangos, os sapos, o último canto das saracuras e o belo pio do nhambú. Devia de ser. Em parte, o outro caçador confirmou. Miguel assestara o ouvido. Orgulhava-se de ainda entender o mundo de lá: o quáah! quáah!, como risada lonjã, tinha de ser de um socó, outrossim, que ia voar do posto. — “E é…” — nhô Gualberto Gaspar aprovou — “Aí, menos longe, tem uma lagôa.” Um perguntara: — “Bom lugar, para se atirar em pato? Muito junco?” Mas, aquela hora, falava-se menos, em voz baixa, mesmo sem ser de propósito. Estavam fatigados. O certo, que todos ficavam escutando o corpo de noturno rumor, descobrindo os seres que o formam. Era uma necessidade. O sertão é de noite. Com pouco, estava-se num centro, no meio de um mar todo. — “A gente pode aprender sempre mais, por prática” — disse o primeiro caçador. Discorria da dificuldade em separarem-se sons, de seu amontoo contínuo. — “Só por precisão” — completou o segundo, o setelagoano. E mais disse: que dirá, então, os bichos, obrigados a constante defesa ou ataque? O lobo, o veado. O rato. O coelho, que, para melhor captar os anúncios de perigo, desenvolveu-se um pavilhão tão grande? Principal, na jungla, não é tanto a rapidez de movimentos, mas a paciência dormida e sagaz, a arma da imobilidade. À cabecinha de um coelho peludo, sentado à porta de sua lura, no fim da tarde, devem chegar mais envios sonoros que a uma central telefônica. — “Pois, p’ra isso, p’ra se conhecer o que está longe e perto…” — o setelagoano continuou. E, daí, silenciaram, depois falaram mais, desse e de outros assuntos. Falou-se no Chefe Zequiel.

Na última noite passada no Buriti Bom, Miguel tinha conversado a respeito de coisas assim. O que fora:

Na sala-de-jantar. A lamparina, no meio da mesa. Nos consolos, os grandes lampeões. O riso de Glória. Iô Liodoro jogava, com Dona Lalinha. Glória falava. Ele, Miguel, ouvia.

De repente, reconheceu, remoto, o barulhinho do monjolo. De par em par de minutos, o monjolo range. Gonzeia. Não se escuta sua pancada, que é fofa, no arroz. Ele estava batendo, todo o tempo; eu é que ainda não tinha podido notar. Dona Lalinha é uma linda mulher, tão moça, como é possível que o marido a tenha abandonado? Nela não se descobre tristeza, nem sombra de infelicidade. Parece uma noiva, à espera do noivo. Vê-se, é pessôa fina, criada e nascida em cidade maior, imagem de princesa. Cidade: é para se fazerem princesas. Sua feição — os sapatinhos, o vestido, as mãos, as unhas esmaltadas de carmesim, o perfume, o penteado. Tudo inesperado, tão absurdo, a gente não crê estar enxergando isto, aqui nas brenhas, na boca dos Gerais. Esta fazenda do Buriti Bom tem um enfeite. Dona Lalinha não é de verdade. No primeiro dia, pensei que ela não tivesse o juizo normal, e por ser louca a deixavam assim. Será que os roceiros de perto não vão dando notícia de ali haver aquela diferente criatura, e o caso não corre distâncias, no sertão? Uns devem de vir, com desculpa qualquer, mas só para a ela assistir, no real, tomarem a certeza de que não é uma invenção formada. Não entendem. Se, em desprevenido, ela surgisse, a pé, numa volta de estrada ou à borda de um mato, os capiaus que a avistassem faziam enorme espanto, se ajoelhavam, sem voz, porque ao milagre não se grita, diante. Sobre o delicado, o vivo do rosto, tão claro, os lindos pés, a cintura que com as duas mãos se abarca, a boca marcada de vermelho forte. Comigo, ela quase não fala. Evita conversar, está certo, na situação dela. Tem de ser mais honesta do que todas. Todo o mundo tem de afirmar que ela é honesta, direita. Sempre uma mulher casada. Mulher de iô Irvino, cunhada de Glória, de Maria Behú. O ranger do monjolo é como o de uma rede. O rego está com pouca água, daí a lentidão com que ele vai socando. E o outro gemer? — “Esse outro, é de bicho do brejo…” — Glorinha disse. Decidida. Glorinha é loura — ou, ou, alourada. Mais bonita do que ela, dificilmente alguma outra poderá ser. Bonita não dizendo bem: ela é bela, formosa. Quanto tudo nela respira saúde. Natural, como Dona Lalinha. Mas, tão desiguais. Glória: o olhar dado brilhante, sempre o sem-disfarce do sorriso como se abre, as descidas do rosto se assinalando — uma onçazinha; assim tirando às feições do pai, acentuados aqueles sulcos que vêm do nariz para os cantos da boca. Dona Lalinha, os cabelos muito lisos, muito, muito pretos; e o rosto a maior alvura. Ela tem um modo precioso de segurar as cartas, de jogar, de fumar, de não sorrir nem rir; e as espessas pálpebras, baixadas, os lábios tão mimosamente densos: será capaz de preguiça e de calma. Como há de ser a outra, a mulher por causa de quem iô Irvino a deixou? Faz tanto tempo, isso, e iô Liodoro ainda teima em conservar a nora aqui, à espera de que um dia o filho volte? Será que iô Liodoro a retém prisioneira, à força? Glorinha disse que iô Irvino é o filho de que iô Liodoro mais gosta. Iô Liodoro se fecha, sobre sério, calado com tanto poder. Não se sabe o que ele entende. Todo modo de Glorinha, o que move e dá, é desembaraçado. Ninguém diria que ela é irmã de Maria Behú. Desditosa, magra, Maria Behú, parecendo uma velha. Para ela, ter de viver com a cunhada e a irmã, na mesma casa, deve ser um martírio. Maria Behú reza, quase todo o tempo. Agora mesmo, de certo está rezando, recolhida no quarto. Bicho do brejo… — “Bicho do brejo? Não, dona Glória. Eu acho que é pássaro…” “— Deixa ele. Pássaro, guinchando? A esta hora…” “— E sei? Sapo?” “— O senhor está falando numa coisa, mas está com a ideia apartada…” “— Estou não. Meu jeito é mesmo assim.” “— O senhor está querendo aprender o que é da cidade?” “— Nasci no mato, também. Sei a roça.” “— Aonde? Aqui no sertão?” “— No meio dos Gerais, longe, longe. Transforma-se noutra tristeza, de tanto tempo. Mas de tudo me lembro bem.” Glorinha está querendo me compreender, saber tudo de mim, mal atenta no que falo. Mas nem sabe que, só na feição do meu pensamento, eu a trato de “Glorinha”. Até assenta melhor. Porque ela ainda oferece sua natureza, tem a fraqueza da força. É pura, corada, sacudida. Tão sem arrebiques nem convencimento, com faceirice de mulher, mas para agradar diretamente; outras vaidades não mostra. Perto dela, a gente vai sentindo a precisão de viver apenas o momento. Quase por acaso foi que descobri que ela esteve em colégio, isso nem menciona. — “Saí ao Papai…” — ela mesma diz. Ao contrário de Maria Behú — de perdida fisionomia. Maria Behú amarra esticados os cabelos, num coque, sem nenhuma graça, se desfaz. Iô Liodoro não dá aparência de mais de cinquenta anos. Ele joga a bisca, como se cuidasse negócios de gravidade. Só tem atenção para as cartas. Acho que ele mesmo não quer se fixar em outras coisas, nas pessôas. — “Ele gostou de você, mas demais!” — Glorinha disse. (“— … Vou falar ‘você’; não é melhor? O senhor é muito moço…”) Deve ser, ele simpatizou comigo, quis que eu ficasse mais três dias, depois de vacinados os bezerros, visto o gado. E bem, se eu disser: — Iô Liodoro, quero casar com sua filha Maria da Glória? — que é que ele me responde? Fantasia. Iô Liodoro é um dos homens mais ricos deste sertão do rio Abaeté, dono de muito. Fantasia? Nem sei se gosto de Maria da Glória, se um encantamento assim, mesmo crescente, quer dizer amor. Sei que desejaria parar, demorado, perto dela. Da alegria. — “Conte alguma coisa, do que está sonhando, pensativo?” “— De minha terra?” “— Lá tinha pássaros cantando de noite?” “— Sério. O mutúm. De dia, ele fica atoleimado, escondido em oco de pau, é fácil de se pegar à mão. Mas, à noite, sai para caçar comida. Canta, antes da meia-noite e do romper da aurora. Chega dá as horas. É grande e formoso, como as penas dele brilham, feito um pavão.” “— E como canta?” “— No meio do mato, de madrugada, ele geme: — Hu-hum… Uhu-hum… Não se parece com nenhum.” “— Aqui não tem.” “— É um pássaro tristonho…” “— Você teve namorada, lá, em sua terra?” Dona Lalinha deve de ter ouvido, olhou para cá, sorriu para Glorinha. O nome de Dona Lalinha é Leandra. — “Não tive. De lá saí muito menino…” — respondi. “— E que mais?” “— É um lugar que nem sei se ainda existe, lá. Minha gente se mudou…” “— Você é ingrato? Vai voltar aqui algum dia, para rever a gente?” “— Gostei muito daqui. De todos…” “— Você é noivo? Se casar, traz sua mulher, também…” “— Não sou, não. Tenho cara de noivo, assim?” “— Para mim, tem.” Glorinha é afirmativa. Mas uma moça, mesmo por assim ser, engana. Às vezes dizem coisas, por desempeno, desenleadas — querendo ver o embaraço do homem, só por experimentar. Não vou ser acanhado. — “Está certo. Se eu casar, venho…” Eu disse. Estou arrependido de dizer. O que estou pensando, tenho de calar. Eu teria receio de gostar de Glorinha. Ela é franca demais, vive demais, abertamente; é uma mulher que deve desnortear, porque ainda não tem segredos. E eu já gosto dela? Mas tenho de ir-me embora, amanhã. Ela pôs os olhos em mim, tão declarados, com um querer que me enfrenta. — “O senhor não gosta de ninguém?” Ela disse muito “o senhor”; e eu respondi: — “Não.” Com o que estou sendo covarde, porque logo ri — imediatamente, que ela não tome a sério a minha resposta. Glorinha amuou, um nada, mas em seguida se conteve, e sorriu, riu também, com exagero, para aceitar a ideia de gracejo meu e bravata. Segura. E aprecio seu manejo reto, teimoso. Não gostaria que isso me envaidecesse. — “Volto, sim. Hei-de voltar aqui.” “— É promessa?” Agora ela sorriu sem manobra, falou: — “Por que você não vem caçar? Sabe, eu não disse a verdade, de propósito: por aqui também tem mutúm. Mutúm no mato, ronca cismado, que até enjôa a gente… Se caça. A carne é muito gostosa… Você não gosta de caçada?” Fugi de responder. O que devia ter dito: que odeio, de ódio. Assoante, pobre do tatú, correndo da cachorrada. O tatú-peba gorduchote, anda depressa, vai e volta, dá seu rosno baixo, quer traçar no chão uma cruz. — “Você pensa muito, demais. Que é, então?” “— Se eu dissesse, você ia achar tolice. Podia parecer até ofensa…” “— Pois diz, para eu não achar que é, uai!” “— Uma cachorra. Uma cachorrinha. Ela dava saltos, dobrada, e rolava na folhagem das violetas, e latia e ria, com brancos dentes, para o cachorrinho seu filhote… Ela estava quase cega…” Glória sorri, um pouco descorçoada. Pudesse, dizer a ela que penso com amor nas filas de maminhas de uma cachorra. Espera que, no fim, eu lhe explique alguma coisa. Agora, sei, estou-me defendendo dela, o que procuro nesta conversa é um campo branco, alguma surdina. Eu gosto de Glorinha. Seja, eu não quereria magoá-la. Glorinha, Glória, Maria da Glória. Mas ela é ainda sadia, simples, ainda nem pecou, não começou. Sempre se vê: se não, seus olhos trariam também alguma sombra, sua voz. Seu rosto guardaria uma expressão própria, remarcada. Seus gestos revelariam uma graça não gratuita, mas conseguida. Maria da Glória é inocente, de uma inocência forte, herdada, que a vida ainda irá desmanchar e depois refazer. A gente pode amar, de verdade, uma inocência? — “Sabe, você tem muito de parecido com o Irvino meu irmão, o modo…” Irvino, o que amou e depois abandonou Dona Lalinha… Eu podia gostar de Dona Lalinha? De Glorinha, eu sei. Imagino Glorinha casada comigo, no mesmo quarto, na mesma cama. Simples, como será, um corpo formoso. Dona Lalinha, não. Se Dona Lalinha se despisse, não sonho como seria. Um corpo diferente de todos, mais fino, mais alvo, cor-de-rosa uma beleza que não se sabe — como uma riqueza inesperada, roubada, como uma vertigem… Despir Dona Lalinha será sempre um pecado. Eu teria de ter vivido para a merecer — desde a hora do meu nascimento. — “Mas você deve de ter gostado de alguém. Você é bandoleiro?” Ao perguntar, ela terá pensado no irmão. Assim uma dúvida percorreu seu rosto, vibrou até nas asas do nariz. Glorinha é bela. Dona Lalinha é bonita. Mas as palavras não se movem tanto quanto as pessôas: um podia, não menos verdade, dizer — Dona Lalinha é bela, Glorinha é bonita… — “Dizem, de quem nasceu nos campos-gerais: que, ou é muito bandoleiro, ou em amor muito leal…” Não respondi. — “Você pensa demais.” Por um instante, deixou de mirar-me. — “Você tem irmãos?” Sei, Glorinha pode já estar no meu destino. Que é que a gente sabe? — “Tive um irmão, mais moço do que eu, morreu ainda menino… Um irmãozinho” — eu digo. Eu queria levar Glorinha comigo, às maiores distâncias de minha vida. — “… Até hoje, não posso demorar o pensamento nele. Tenho medo de sofrer. Você acha que sou fraco?” — “Acho não. Por quê? Fraqueza não é ter sentimento.” Eu queria que Glória me chamasse, me ensinasse lugares que fossem dela só — nós dois, sob sombra de uma antiga árvore, no centro de um bosque, rodeados de uma outra luz. — “E você, Glória? Você teve meninice?” “— Tive não. Pescaram um surubim, abriram, e me tiraram de dentro dele, já grande assim, sabendo falar, dansar valsa… E ih? Valeu a pena?” A alegria dela se estende, linda. Tenho de ter mão em mim. — “Viver sempre vale a pena…” Respondi. Foi como uma desfeita, eu tudo tivesse repelido. Maria da Glória resumiu um estremecimento, recuou o busto, se desempinando. Não escondeu o desapontamento, quase um dissabor. E, em mim, isso recebo como um desânimo, um cansaço, a necessidade de desistir? Com a mãozinha, ela tapou um bocejo. Eu mesmo, entendo, quase com um susto. Não vai acontecer mais nada. Não vamos namorar, falar de amor. Escuto o monjolo, azenho, fácil, meus ouvidos já sabem, já chegam ao lugarzinho dele no espaço, sem procura. E é tarde, daqui a pouco mais nos vamos separar, todos a dormir. Como será o quarto de Dona Lalinha? Caçam. Dona Lalinha pode ser que aprecie a carne do mutúm, que é branca, mais gostosa que a de perú. — “Você estranhou, o que eu falei, por brincadeira? Do peixe surubim?” “— Não, Maria da Glória. Mas você devia de ter nascido era no cacho de flores do buriti mais altaneiro, trazida por uma garça-rosada…” “— É bobo!” Sorrimos um sorriso. Iô Liodoro disse baixo qualquer coisa. Vão talvez jogar a derradeira mão. Dona Lalinha não respondeu, só parece, sempre, uma grande boneca, a mais de valor que existe. Iô Liodoro dá cartas. Este homem tudo faz comedido tão forte, acho que ele mesmo receia os estouvamentos de que é capaz. Não olha para Dona Lalinha. Dona Lalinha, de se jurar, está aqui forçada, presa, nesta fazenda. Iô Liodoro sabe que Irvino não vai voltar nunca mais, mas ele guarda a nora em sujeição, para garantir, mesmo assim, a honra do filho? E Dona Lalinha não vai poder sair, jamais, até que envelheça, ou que o carcereiro um dia morra. Será que ela não tem pais, irmãos, parentes? Saísse daqui, voltasse para a cidade, logo atraía outros homens, com tanta beleza, quem por ela não se apaixonaria? Um namoro, um amante, e o filho de iô Liodoro, e iô Liodoro mesmo, estariam infamados. Ainda que iô Irvino tenha repudiado a mulher, e esteja a viver com outra, Dona Lalinha tem de conservar sua solidão, não pode receber o prazer de outro homem. São casos, no sertão, se ouvem contar. Maria da Glória não pensa nisso, ou sabe, e ainda assim é capaz de variar sua alegria? Mas Maria Behú reza, sente as crueldades da vida. E esse bicho-do-brejo, que dá o outro som, que ranhe? É o socó. — “Você reparou, Maria da Glória? Socó ou o socó-boi? Ele vigia é de noite, revôa para ir pegar piabas nas lagôas…” “— Mas, agora, foi o monjolo.” “— Não: agora. Ele canta longe. Estou reconhecendo…” O monjolo é humano, reproduz a vontade de quem o fez e de quem o botou para trabalhar as arrobas de arroz. Maria da Glória ri. — “Que é que tem? Deixa esse…” Começou e conteve um espreguiçamento. Seus braços. Pudesse, amanhã, com ela sair a cavalo, ao Brejão, abraçá-la. Ao Buriti grande. Não escuto mais o “bicho-do-brejo”, mas me lembro dele. — “É o socó. Voou para mais longe…” “— Sabe, você está aprendendo com o Chefe?” O Chefe Zequiel, ele pode dizer, sem errar, qual é qualquer ruido da noite, mesmo o mais tênue. — “É bem. Ele há-de estar ouvindo, está lá no moinho, deitado mas acordado, a noite inteira, coitado, sofre de um pavor, não tem repouso. Quem sabe, na cidade, algum doutor não achava um remédio para ele, um calmante?” Aziago, o Chefe Zequiel espera um inimigo, que desconhece, escuta até aos fundos da noite, escuta as minhocas dentro da terra. Assunta, o que tem de observar, para ele a noite é um estudo terrível. — “E faz tempo que ele tem essa mania?” “— Figuro que de muito. Mas só de uns dois anos é que veio em piorar…” O que o Chefe devassou, assim, encheria livros. Iô Liodoro e Dona Lalinha se levantaram. Maria da Glória se põe triste, dando bôa-noite? Toma a benção ao pai. Dona Lalinha caminha serenamente. — “Não vá sonhar com o socó, nem com o mutúm…” — baixinho Glorinha disse. Sim, não. Não sonhar com Dona Lalinha… Pudesse sonhar com Maria da Glória, sonsa, risonha, sob o Buriti grande, encostada no Buriti grande. O monjolo trabalha a noite inteira…

Assim o que fora. Aquele serão de despedida, no Buriti Bom.
João Guimarães Rosa, “Noites do sertão“

quarta-feira, março 25

Leitura sob o poste

 


Que seja doce

Repito todas as manhãs,
ao abrir as janelas para deixar
entrar o sol ou o cinza dos dias,
bem assim: que seja doce.
Quando há sol, e esse sol bate
na minha cara amassada do sono
ou da insônia,
contemplando as partículas de poeira soltas no ar,
feito um pequeno universo,
repito sete vezes para dar sorte:
que seja doce que seja doce que seja doce
e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse
o que deverá ser doce,
talvez não saiba responder.
Tudo é tão vago como se fosse nada.
Ninguém perguntará coisa alguma, penso.
Depois continuo a contar para mim mesmo,
como se fosse ao mesmo tempo
o velho que conta e a criança que escuta,
sentado no colo de mim.

Caio Fernando Abreu

As estrelas

Numa das noites daquele mês de abril estava Dona Benta na sua cadeira de balanço, lá na varanda, com olhos no céu cheio de estrelas. A criançada também se reunira ali.

Súbito, Narizinho, que estava em outro degrau da escada fazendo tricô, deu um berro.

- Vovó, Emília está botando a língua para mim!

Mas Dona Benta não ouviu. Não tirava os olhos das estrelas. Estranhando aquilo, os meninos foram se aproximando. E ficaram também a olhar para o céu, em procura do que estava prendendo a atenção da boa velha.

- Que é vovó, que a senhora está vendo lá em cima? Eu não estou enxergando nada – disse Pedrinho.

Dona Benta não pôde deixar de rir-se. Pôs nele os óculos e puxou-o para o seu colo e falou:

- Não está vendo nada, meu filho? Então olha para o céu estrelado e não vê nada?

- Só vejo estrelinhas – murmurou o menino.

- E acha pouco, meu filho?

Monteiro Lobato, "Viagem ao Céu"

Encontro com os passados

A leitura de todos os bons livros é como uma conversa com as pessoas mais honestas dos séculos passados que foram seus autores.
René Descartes

Uma história de tanto amor

Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longínquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.

Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia: “Você não tem coisa nenhuma no fígado.” Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café – e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.

Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava:
– Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!

Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou-lhe:

– Nós comemos Petronilha.

A menina era criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe.

– Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.

Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das minas gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.

Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.

O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma presciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.

Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.
Clarice Lispector, "Todos os contos"