Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quinta-feira, agosto 6
O vento e suas maneiras
A mãe dizia:
– Pra dentro menino! É vem o vento levado levando cisco!
Quando feria o olho com um cisco, causava aborrecimento.
No verão abafado refrescava. Se fosse no tempo de veraneio, na cidade vizinha, de praias lindíssimas, tinha o gosto de sal. Rolava com as ondas, que rugiam como se fossem leões de jubas brancas e luminosas. Zangado batia, voltava, batia. Reinventava-se na areia como colares de espuma. Rendilhado murmurejava, cochichava com peixinhos minúsculos no raso. Ao largo fazia das vagas tirânicos vagões, incríveis vagalhões, tufão. Emborcava a embarcação. Mostrava-se indiferente aos gritos lancinantes dos náufragos pedindo por socorro. Era impiedoso, esbagaçava as ondas no rochedo.
Mágico, mais ligeiro do que tudo em movimento veloz, o único que sem pernas ia até o fim do mundo, chegando primeiro. Esmurrava o rio na enchente, causando estragos nas casas ribeirinhas e na avenida principal onde estava instalado um comercinho ativo. No mar tomava altura inimaginável.
Travesso tirava assovio na greta da porta e da janela. Interrompia o sono das pessoas quando dormiam na cidade pequena, após mais um dia de trabalho estafante, fazendo barulho nas telhas de alumínio no telhado.
Salpicado de verdes e azuis rolava no mar, pra lá, pra cá. Dava uma sensação agradável quando soprava no campo com o gosto de terra molhada. Morno, gostava de fazer carícia no rosto da árvore frutífera, folhas como cílios pestanejavam.
Tocava uma música suave nas folhas da palmeira, farfalhava no quintal durante a primavera cheia de passarinhos saltitantes, voos e gorjeios.
No inverno esvoaçava toalhas de névoa pelas ruas vazias da cidade, penetrada de frieza, os ares gelatinosos, tendo aspecto fantasmal. Em trêmulos movimentos, seus espectros de névoa vagavam por todos os cantos.
Vento, ventania, vendaval. Levava tudo que encontrava pela frente. Derrubava árvore, poste, ponte. Mudava a casa de um lugar para outro. Emborcava o caminhão, rompia a ponte, fazia rachaduras nas paredes do prédio. A lona do circo fora jogada longe, o sobrado desmoronou-se, ficou reduzido a escombros, não perdoou nem o nome do dono, Comendador Ataulfo Seabra, em grandes letras de bronze gravadas na fachada. Botou abaixo o muro que cercava o estádio de futebol, as torres de iluminação do campo ficaram aos pedaços.
Quando era leve, chegava de mansinho para soprar na florzinha da plantinha sozinha no brejo.
No velório amolava sua lâmina com os mudos gemidos da mulher, inconformada com a perda irreparável do marido. Dava frio na barriga dos que estavam presentes na vigília. A expressão do rosto assombrado, os olhos sem compreender o que estava acontecendo, atemorizados com a presença daquele vento, frio, sem cor, pousado no morto.
Era este o vento que metia mais medo, imóvel, surdo, cego, mudo, habitava no funeral das horas.
– Pra dentro menino! É vem o vento levado levando cisco!
Quando feria o olho com um cisco, causava aborrecimento.
No verão abafado refrescava. Se fosse no tempo de veraneio, na cidade vizinha, de praias lindíssimas, tinha o gosto de sal. Rolava com as ondas, que rugiam como se fossem leões de jubas brancas e luminosas. Zangado batia, voltava, batia. Reinventava-se na areia como colares de espuma. Rendilhado murmurejava, cochichava com peixinhos minúsculos no raso. Ao largo fazia das vagas tirânicos vagões, incríveis vagalhões, tufão. Emborcava a embarcação. Mostrava-se indiferente aos gritos lancinantes dos náufragos pedindo por socorro. Era impiedoso, esbagaçava as ondas no rochedo.
Mágico, mais ligeiro do que tudo em movimento veloz, o único que sem pernas ia até o fim do mundo, chegando primeiro. Esmurrava o rio na enchente, causando estragos nas casas ribeirinhas e na avenida principal onde estava instalado um comercinho ativo. No mar tomava altura inimaginável.
Travesso tirava assovio na greta da porta e da janela. Interrompia o sono das pessoas quando dormiam na cidade pequena, após mais um dia de trabalho estafante, fazendo barulho nas telhas de alumínio no telhado.
Salpicado de verdes e azuis rolava no mar, pra lá, pra cá. Dava uma sensação agradável quando soprava no campo com o gosto de terra molhada. Morno, gostava de fazer carícia no rosto da árvore frutífera, folhas como cílios pestanejavam.
Tocava uma música suave nas folhas da palmeira, farfalhava no quintal durante a primavera cheia de passarinhos saltitantes, voos e gorjeios.
No inverno esvoaçava toalhas de névoa pelas ruas vazias da cidade, penetrada de frieza, os ares gelatinosos, tendo aspecto fantasmal. Em trêmulos movimentos, seus espectros de névoa vagavam por todos os cantos.
Vento, ventania, vendaval. Levava tudo que encontrava pela frente. Derrubava árvore, poste, ponte. Mudava a casa de um lugar para outro. Emborcava o caminhão, rompia a ponte, fazia rachaduras nas paredes do prédio. A lona do circo fora jogada longe, o sobrado desmoronou-se, ficou reduzido a escombros, não perdoou nem o nome do dono, Comendador Ataulfo Seabra, em grandes letras de bronze gravadas na fachada. Botou abaixo o muro que cercava o estádio de futebol, as torres de iluminação do campo ficaram aos pedaços.
Quando era leve, chegava de mansinho para soprar na florzinha da plantinha sozinha no brejo.
No velório amolava sua lâmina com os mudos gemidos da mulher, inconformada com a perda irreparável do marido. Dava frio na barriga dos que estavam presentes na vigília. A expressão do rosto assombrado, os olhos sem compreender o que estava acontecendo, atemorizados com a presença daquele vento, frio, sem cor, pousado no morto.
Era este o vento que metia mais medo, imóvel, surdo, cego, mudo, habitava no funeral das horas.
Duas almas
Uma mulher com duas almas assombrava nossa rua. Uma alma de Deus a serviço de uma alma do demônio. Uma fada a serviço de uma bruxa. A fada possuía seu corpo, a bruxa, seu coração. Ela vestia seu estreito corpo com tecidos mansos, estampados de miosótis ou bolinhas de um azul calmo sobre seda clara. Seu cabelo, na altura da nuca, era branco misturado ao cinza que cobre as brasas. Andava com um passinho leve — pardal ciscando a terra. Seu sorriso, bastava reparar, era suspenso como o das hienas. O coração, contudo, um imenso caldeirão onde borbulhavam a inveja, a mágoa, o desamor. Diziam que seu marido partiu atrás de menos martírios. E a todos que a fada seduzia a bruxa servia sua poção amarga. Seu cachorro branco, tímido, portava uma doença de pele. Não sei se ele almejava o céu ou o inferno. O cão, ao olhar, suplicava carinho, mas não se deixava acariciar. Teria o cachorro também duas almas? A madrasta, arreada sobre o muro, nego ciava tomate com a mulher de duas almas. Eu suspeitava.
A cidade acordava lerda, como se fosse possível escolher os sonhos. O sino da igreja serrava as ruas, becos, praças. Os habitantes sentiam-se prenhes de Deus e perdoados dos pecados ainda por cometerem. O cheiro do café conciliava as almas e a vida, provisoriamente. Ao tomarem das palavras, os lamentos rabiscavam o povoado como se impedidos de escolher outro destino.
Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"
A cidade acordava lerda, como se fosse possível escolher os sonhos. O sino da igreja serrava as ruas, becos, praças. Os habitantes sentiam-se prenhes de Deus e perdoados dos pecados ainda por cometerem. O cheiro do café conciliava as almas e a vida, provisoriamente. Ao tomarem das palavras, os lamentos rabiscavam o povoado como se impedidos de escolher outro destino.
Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"
Esta é a madrugada que eu esperava ...
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Náusea de viajar
A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. Avida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. Avida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Um diálogo no monte Pentélico
Aconteceu, e não há muitas semanas, que um grupo de turistas ingleses desceu a encosta do Pentélico. Eles porém teriam sido os primeiros a retificar esta frase e a assinalar o quanto de inexatidão e injustiça se continha nessa descrição de seu grupo. Porque chamar um homem de turista, quando o encontramos no exterior, é definir não apenas suas circunstâncias, mas também sua alma; e suas almas inglesas, teriam dito — mas os burros assim tropeçam nas pedras —, não estavam sujeitas a limitações desse tipo. Os alemães são turistas e os franceses são turistas, mas os ingleses são gregos. Tal era o sentido da conversa entre eles, e devemos ouvir suas palavras, que nisso, de fato, eram de muito bom senso. O monte Pentélico, como sabemos nós que lemos o Baedeker, traz porém em seu flanco a nobre cicatriz dos ferimentos sofridos nas mãos dos canteiros gregos que o talhavam, recebendo de Fídias um sorriso, quando não um insulto, como recompensa por seu trabalho. Assim, para fazer justiça ao monte, deve-se meditar sobre vários temas à parte e combiná-los da melhor maneira possível. Não se deve tomá-lo apenas por aquele contorno que passava por tantas janelas gregas — Platão erguia os olhos da página, nas manhãs ensolaradas —, mas também como oficina de trabalho e local de moradia onde inumeráveis escravos iam perder a vida. Para o grupo, quando ao meio-dia eles desmontaram, foi salutar ter de cambalear penosamente por entre os blocos de mármore em bruto que, por alguma razão, tinham sido esquecidos ou deixados de lado quando as carretas desciam para Atenas. Foi salutar porque na Grécia pode-se esquecer que as estátuas sejam feitas de mármore; foi benéfico ver como se opõe o mármore, sólido e fragoso e intratável, ao cinzel do escultor. “Assim eram os gregos!” Quem ouvisse tal grito poderia supor que cada um dos falantes tinha alguma conquista pessoal a celebrar, sendo ele mesmo o generoso vencedor da pedra. Que outrora a forçara, com suas próprias mãos, a entregar seus Hermes, seus Apolos. Mas então os burros, cujos ancestrais tinham sido estabulados na gruta, deram fim à meditação e os cavaleiros, seis em fila, foram descendo gravemente pelo flanco do monte. Tinham visto Maratona e Salamina, e Atenas, se não houvesse uma nuvem que a acariciava, também teria sido deles; de alguma forma, sentiam-se municiados, de ambos os lados, por presenças tremendas. E, para mostrarem-se devidamente inspirados, não só repartiram sua garrafa de vinho com o séquito de jovens gregos do campo, imundos, mas até condescenderam em dirigir-se a eles na própria língua local, como a falaria Platão, se tivesse aprendido grego em Harrow. Que outros decidam se foram justos ou não; mas o fato de palavras gregas faladas em solo grego serem mal compreendidas por gregos destrói de um só golpe toda a população da Grécia, homens, mulheres e crianças. Uma palavra apropriada, em face da crise, lhes veio aos lábios; uma palavra que Sófocles poderia ter dito e que Platão teria sancionado; eles eram “bárbaros”. Denunciá-los assim era não só desincumbir-se de um dever em relação aos mortos, mas também proclamar os legítimos herdeiros, e as pedreiras de mármore do Pentélico, por alguns minutos, estrondearam a notícia a todos que pudessem dormir debaixo dos seus calhaus ou ocupar as cavernas. O povo espúrio foi condenado; a raça escura e tagarela, de língua solta e instável de intenções, que por tanto tempo havia parodiado a fala e surrupiado o nome dos grandes, foi pega e condenada. Obediente ao grito do arrieiro ao descer aos locais de sua guarda — uma mula branca puxava a fila — com a boa vontade de alguém que livra as próprias costas a cada golpe que aplica sobre costas alheias. Pois o inglês, quando gritou, julgou que era melhor ir mais rápido. Não poderia ter-se mostrado mais feliz como crítico; o momento possuía sua própria palavra; poeta algum faria mais do que isso; e a um prosador seria fácil ter feito menos. Assim, com aquele simples grito, os ingleses saíram aos tropeções de seu clímax para descer a montanha em algazarra, tão despreocupados e jucundos como se a terra fosse deles. Mas a descida do Pentélico a certa altura se aplaina numa chapada verde onde a natureza parece soerguer-se um momento antes de mergulhar novamente encosta abaixo. Há grandes plátanos de mãos benevolentes abertas, e há cômodas moitinhas, dispostas em estrita ordem caseira; há um riacho do qual se pode pensar que cante loas e as delícias do vinho e da canção. Poder-se-ia ouvir a voz de Teócrito, na queixa que fazia nas pedras, e alguns dos ingleses a ouviram mesmo, embora o texto, nas prateleiras em casa, andasse bem empoeirado. Aqui, seja como for, a natureza e o cantar do espírito clássico impulsionaram os seis amigos a desmontar e descansar um pouco. Seus guias se recolheram, mas não tão longe que não pudessem ser vistos em seus trejeitos de bárbaros, pulando e cantando, puxando-se uns aos outros pela manga e falando das uvas já maduras que pendiam nos campos. Mas se há coisa que sabemos dos gregos é que eram gente tranquila, muito expressiva ao gesticular e falar, e aqueles, ao sentarem-se à beira do riacho, sob um plátano, dispuseram-se como um pintor de vasos teria certamente gostado de retratá-los: o rosto escuro do velho, quando seu queixo caiu sobre o cajado, virou-se para cima do jovem estendido no gramado a seus pés. Mulheres sérias, caladas, passavam de roupa branca por trás, equilibrando ânforas nos ombros. Nenhum especialista da Europa poderia recompor esse quadro, nem convencer nossos amigos de que algum teria mais direito de construir tais visões do que eles mesmos. Estenderam-se pois na sombra, e não foi culpa deles, nem dos antigos, se seu discurso não esteve à altura, na concepção pelo menos, de seu nobre modelo. Mas como, em se tratando de diálogos, escrever é ainda mais difícil do que falar, como é duvidoso se diálogos escritos foram jamais falados ou se diálogos falados jamais foram escritos, trataremos de salvar tão-somente fragmentos concernentes à nossa história. Não deixaremos de dizer todavia que a conversa entre eles era a melhor conversa do mundo.
Virginia Woolf
Virginia Woolf
terça-feira, agosto 4
Letra para um hino
É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja para fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja para fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem ser a olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.
É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.
É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
A mulher madura
O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o voo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta joias. As joias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
Affonso Romano de Sant’Anna
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o voo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta joias. As joias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
Affonso Romano de Sant’Anna
Ilhas de Minas, no voo das palavras
Você conhece a Ilha da Merenda? Nem eu. Mas gosto de saber que Minas Gerais tem uma Ilha da Merenda. Onde fica? Isso eu posso dizer a você, fica no rio São Francisco, entre a foz do córrego do Frade e a barra do rio Abaeté. Ou não fica mais, e acabou porque fizeram barragem, esse negócio de mexer com os rios para produzir energia, essa violentação da natureza que dizem ser necessária para sustentar o homem? Bem, não me meto nessas funduras, nem vou sair do meu canto para espiar se ainda tem por lá a Ilha da Merenda. Quero só curtir com você esse nome, essa ideia de ilha aonde a gente chega só para merendar, então a gente merenda — de preferência sobre a relva, como no quadro de Manet ou no quadro de Cézanne, e depois volta, ninguém mora na Ilha da Merenda, não deve morar. Essa ilha é uma pausa, as aves de lá, as árvores de lá sabem disso, não se importam muito com as visitas, ninguém vai lhes fazer mal, tudo é calma e fugacidade no intervalo.
Você pensa que minha terra, não sendo marítima, tem um punhadinho à-toa de ilhas? Está muito enganada. Nós temos a Ilha dos Bugres, que não tem bugres; teve. É ali acima da barra do rio Correntes de Canoas. Se ao menos deixassem os bugres ficarem por lá, longe de posseiros, de aculturadores, de integracionistas! Não deixaram, mas também deste nome eu gosto, e no faz-de-conta boto ali uma assembleia altaneira de índios, resistente à máquina protecionista e à cobiça dos invasores, tudo por conta própria, mantendo orgulhosa a derradeira república nativa do Brasil… Você vai pensar que estou meio pinel. Estou não, estou é vivendo a magia dos nomes de ilhas.
Agora, você já viu coisa mais mineira, caligraficamente sutil e bonita como geografia, do que a Ilha da Cabeça do M, junto ao cachoeirão do M, um M líquido, bordado em espuma cadente, inicial-resumo do santo nome de Minas? Do vértice do M cai a espumarada, a envolver de nuvens essa maior ilha de Minas, que é a própria Minas, tida como constelação de montanhas, mas por isso mesmo ilhada, alta ilha, ilha alterosa, a tamanha altura do nível do mar, ilha suspensa.
Ensandeço? Não. São as ilhas que subvertem a razão natural, interrompendo a continuidade do mundo. Elas se isolam, orgulhosas ou prudentes. Mas vamos adiante. Se estamos no rio Doce, cheguemos à ilha irônica do Talaveira, do maturrango, do mau cavaleiro, do bisonho no lidar com lavoura ou gado. Minas gosta de brincar com o imperfeito. E acha nomes engraçados para suas ilhas, como a da Pindaíba (ouço ainda a voz dos mais velhos: “Estou numa pindaíba danada”), tem a dos Casados e a das Marias; a do Periquito e a do Alferes, não sei se homenagem a Tiradentes ou alusiva a um dono qualquer de uniforme. Tem a dos Estados, a dos Pombos, a das Antas, a das Batatas e esta outra que faço questão de inventar uma história para ela: a Ilha Lucrécia, tão bórgia! Onde príncipes, cardeais, assassinos e outros figurantes, entre eles, uma turma ilustríssima de poetas e artistas, se dedicam às mais diversificadas aventuras em tomo dessa dama egrégia. Furo sensacionalíssimo de reportagem: Lucrécia, a magnífica, em Minas Gerais, numa ilha particular, tão particular que nela só pode ter acesso minha fantasia deste momento e você, se me der crédito e o prazer de acompanhar-me até lá…
Não, desisto de surpreender Lucrécia em sua ilha cativa. Minas é surrealista, concordo, mas sem exagero; conservo a justa medida das coisas, até no absurdo. Fiquemos por aqui, você e eu habitando em pensamento as ilhas que afloram em Minas, que enfloram Minas, essa ilha maior balançando no alto dos montes e serras…
Carlos Drummond de Andrade, "Boca de luar"
Você pensa que minha terra, não sendo marítima, tem um punhadinho à-toa de ilhas? Está muito enganada. Nós temos a Ilha dos Bugres, que não tem bugres; teve. É ali acima da barra do rio Correntes de Canoas. Se ao menos deixassem os bugres ficarem por lá, longe de posseiros, de aculturadores, de integracionistas! Não deixaram, mas também deste nome eu gosto, e no faz-de-conta boto ali uma assembleia altaneira de índios, resistente à máquina protecionista e à cobiça dos invasores, tudo por conta própria, mantendo orgulhosa a derradeira república nativa do Brasil… Você vai pensar que estou meio pinel. Estou não, estou é vivendo a magia dos nomes de ilhas.
Ah, a Ilha da Preguiça! O rio Doce, que é meu rio de nascença, sagrou-se mestre em ilhas assim, convidando ao devaneio. Esta aqui fica antes da barra do rio Esplendor, que na boca do povo se arredonda em Esplandor. Uma ilha destinada exclusivamente à preguiça, aos preguiçosos jogos de não fazer nada ou de fazer muito devagar, muito depois de depois de amanhã, uma ilha toda ócio, calme et volupté. As plantas não têm pressa de crescer; por isso crescem mais docemente, com viço mais tranquilo e também mais duradouro. Os animais dormem; se acordam é para tornar a dormir, dando ritmo ao sono. Até nas pedras há uma preguiça de reluzir ao sol, que as torna menos rígidas; são pedras que não fazem questão do estado mineral; estão à espera de se definir, sem afobação. É assim a Ilha da Preguiça, aonde um dia iremos nós dois, espreguiçar-nos de sociedade com tudo que cumpre lá seu destino indolente.
Agora, você já viu coisa mais mineira, caligraficamente sutil e bonita como geografia, do que a Ilha da Cabeça do M, junto ao cachoeirão do M, um M líquido, bordado em espuma cadente, inicial-resumo do santo nome de Minas? Do vértice do M cai a espumarada, a envolver de nuvens essa maior ilha de Minas, que é a própria Minas, tida como constelação de montanhas, mas por isso mesmo ilhada, alta ilha, ilha alterosa, a tamanha altura do nível do mar, ilha suspensa.
Ensandeço? Não. São as ilhas que subvertem a razão natural, interrompendo a continuidade do mundo. Elas se isolam, orgulhosas ou prudentes. Mas vamos adiante. Se estamos no rio Doce, cheguemos à ilha irônica do Talaveira, do maturrango, do mau cavaleiro, do bisonho no lidar com lavoura ou gado. Minas gosta de brincar com o imperfeito. E acha nomes engraçados para suas ilhas, como a da Pindaíba (ouço ainda a voz dos mais velhos: “Estou numa pindaíba danada”), tem a dos Casados e a das Marias; a do Periquito e a do Alferes, não sei se homenagem a Tiradentes ou alusiva a um dono qualquer de uniforme. Tem a dos Estados, a dos Pombos, a das Antas, a das Batatas e esta outra que faço questão de inventar uma história para ela: a Ilha Lucrécia, tão bórgia! Onde príncipes, cardeais, assassinos e outros figurantes, entre eles, uma turma ilustríssima de poetas e artistas, se dedicam às mais diversificadas aventuras em tomo dessa dama egrégia. Furo sensacionalíssimo de reportagem: Lucrécia, a magnífica, em Minas Gerais, numa ilha particular, tão particular que nela só pode ter acesso minha fantasia deste momento e você, se me der crédito e o prazer de acompanhar-me até lá…
Não, desisto de surpreender Lucrécia em sua ilha cativa. Minas é surrealista, concordo, mas sem exagero; conservo a justa medida das coisas, até no absurdo. Fiquemos por aqui, você e eu habitando em pensamento as ilhas que afloram em Minas, que enfloram Minas, essa ilha maior balançando no alto dos montes e serras…
Carlos Drummond de Andrade, "Boca de luar"
A crónica: a estante mais silenciosa
Entro numa livraria sem procurar um livro em particular. Caminho devagar entre as estantes, como quem percorre uma cidade desconhecida, sabendo que os melhores encontros raramente acontecem nos lugares assinalados no mapa. Pego num livro, leio duas páginas, volto a colocá-lo no lugar. Faço o mesmo noutro corredor. Às vezes saio sem comprar nada. Outras vezes levo apenas um volume, embora tenha passado mais de uma hora rodeado por milhares deles.
Há quem entre numa livraria para comprar livros. Eu entro para conversar. Conversar com autores que nunca conheci, com ideias que ainda não pensei e, sobretudo, comigo próprio.
As livrarias têm geografias invisíveis. Existem estantes luminosas, onde se acumulam as novidades e os livros que prometem mudar a nossa vida em poucos passos. Há corredores permanentemente concorridos e outros onde apenas entram os leitores mais pacientes. Ao longo dos anos, descobri que o meu percurso termina quase sempre diante da mesma estante: a da poesia e a das crónicas.
Não costumam ser as maiores. Raramente ocupam o lugar de destaque. Quase nunca reúnem filas de leitores. Está ali, discretas, entre o romance, os thrillers, o ensaio, como se pertencessem um pouco aos três e, ao mesmo tempo, a nenhum deles.
Durante muito tempo interroguei-me sobre essa estranha fidelidade. Hoje creio conhecer a resposta.
Costumamos dizer que a crónica escreve sobre o quotidiano. A afirmação é verdadeira, mas fica aquém da sua vocação mais profunda. O quotidiano é apenas o lugar onde ela começa. A sua verdadeira matéria é o reconhecimento.
Existe uma diferença essencial entre ver e reconhecer. Ver é um ato da perceção. Reconhecer é um ato da inteligência, da sensibilidade e da consciência. Todos atravessamos as mesmas ruas, cruzamos as mesmas pessoas, escutamos conversas interrompidas, assistimos a pequenos gestos de delicadeza ou de indiferença. Quase tudo desaparece na sucessão dos dias. O cronista faz precisamente aquilo que os restantes transeuntes não fizeram: detém-se. Não para engrandecer o banal, mas para revelar que o banal nunca o foi verdadeiramente.
Uma criança que faz uma pergunta inesperada. O homem que abre diariamente a banca de jornais antes de a cidade acordar. A árvore abatida que altera, sem alarde, a memória de uma avenida. O professor que espera alguns segundos antes de responder, porque percebe que um aluno está prestes a descobrir sozinho a solução. Nenhum destes episódios mudará o rumo da História. Todos dizem alguma coisa sobre a forma como vivemos.
É aqui que nasce a crónica. Não da excecionalidade dos acontecimentos, mas da capacidade de descobrir significado onde quase todos passaram sem reparar.
Um cronista não observa apenas uma árvore cortada. Interroga a paisagem que desapareceu com ela. Não descreve apenas um banco de jardim vazio. Pergunta quem ali deixou de se sentar. Não regista um silêncio. Procura compreender quem ficou por escutar. É nesse pequeno desvio do olhar que a realidade começa a transformar-se em literatura.
Há uma forma subtil de pobreza que raramente medimos: a pobreza da atenção. Uma sociedade pode dispor de riqueza, tecnologia e conhecimento e, ainda assim, tornar-se incapaz de reconhecer as vidas discretas que a sustentam. A mulher que limpa o hospital ou a escola, antes de todos chegarem. O carteiro que conhece cada porta de uma aldeia. O vizinho cujo nome nunca perguntámos. O idoso que passa despercebido no banco de jardim onde se senta há anos. A cidadania começa quando aprendemos a reparar. A literatura começa quando alguém decide escrever sobre aquilo que finalmente viu.
É por isso que a crónica ultrapassa largamente a literatura. É uma forma de educação do olhar.
Ensina-nos a distinguir informação de significado, opinião de compreensão, evidência de verdade. Recorda-nos que compreender uma sociedade exige tanto conhecer as suas leis como observar os seus gestos; tanto analisar os seus debates públicos como escutar as conversas que acontecem à mesa de uma família, numa sala de professores, numa paragem de autocarro ou numa pequena mercearia de bairro.
A palavra deriva do grego chronos, o tempo. Durante séculos, a crónica registou reinados, guerras e grandes acontecimentos. Com o desenvolvimento da imprensa, descobriu uma vocação ainda mais ambiciosa: mostrar que uma época também se escreve através das vidas comuns. A História permaneceu indispensável. Mas deixou de pertencer apenas aos reis, aos governos e às batalhas. Passou a habitar os cafés, as escolas, as aldeias, as cozinhas, os jardins e todos os lugares onde decorre, silenciosamente, a aventura humana.
Portugal compreendeu esta vocação como poucos países. Ramalho Ortigão e Eça de Queirós fizeram da ironia uma forma de intervenção cívica. Miguel Torga encontrou na paisagem uma consciência moral. Vergílio Ferreira prolongou na crónica as grandes perguntas da existência. Agustina Bessa-Luís descobriu metafísica nos gestos mais simples. José Cardoso Pires ensinou-nos a ler as cidades. António Lobo Antunes fez da memória uma geografia da alma. Miguel Esteves Cardoso devolveu dignidade literária à conversa quotidiana.
Também fora de Portugal encontramos esta mesma linhagem. Michel de Montaigne fez da experiência pessoal um caminho para compreender o ser humano. G. K. Chesterton descobria filosofia nas esquinas de Londres. George Orwell observava o quotidiano para compreender o poder e a liberdade. Natalia Ginzburg mostrou que uma família podia conter a memória inteira de uma época. Todos partiram da mesma convicção: a realidade nunca é pequena. Pequeno pode ser apenas o olhar que a contempla.
Durante demasiado tempo chamou-se à crónica um género menor. Menor em quê? Na extensão?
A literatura nunca se mediu pelo número de páginas. Algumas das obras mais breves permaneceram durante séculos porque alargaram a consciência dos seus leitores. Uma boa crónica aproxima-se do ensaio sem perder a delicadeza da narrativa; dialoga com a filosofia sem abandonar a emoção; observa como o jornalista, imagina como o romancista e pergunta como o filósofo. Poucos géneros desfrutam de semelhante liberdade.
Essa liberdade implica também uma responsabilidade. A de restituir dignidade ao que parecia invisível.
Num tempo em que a Inteligência Artificial já escreve textos tecnicamente irrepreensíveis, essa missão torna-se ainda mais evidente. As máquinas poderão organizar informação, resumir livros e reproduzir estilos, mas continuam incapazes de viver uma infância, regressar à casa onde cresceram, guardar o perfume de uma figueira no final do verão ou reconhecer, décadas depois, a ausência da árvore que marcou uma rua inteira. A literatura nasce dessa experiência encarnada do mundo. A crónica transforma-a em memória partilhada.
Quando saio de uma livraria, volto quase sempre a passar diante daquela estante discreta onde repousam os livros de crónicas. Continua a ser uma das menos concorridas. Talvez porque exige um leitor diferente. Não alguém que procure apenas histórias, mas alguém disposto a aprender uma nova maneira de olhar.
Enquanto houver leitores capazes desse encontro, a crónica continuará a cumprir a sua mais antiga e mais bela missão: impedir que as pessoas, os lugares e os pequenos acontecimentos desapareçam sem deixar rasto.
Escrever uma crónica é um dos mais discretos gestos de humanidade. É dizer ao mundo que nada do que é autenticamente humano merece permanecer invisível.
Há quem entre numa livraria para comprar livros. Eu entro para conversar. Conversar com autores que nunca conheci, com ideias que ainda não pensei e, sobretudo, comigo próprio.
As livrarias têm geografias invisíveis. Existem estantes luminosas, onde se acumulam as novidades e os livros que prometem mudar a nossa vida em poucos passos. Há corredores permanentemente concorridos e outros onde apenas entram os leitores mais pacientes. Ao longo dos anos, descobri que o meu percurso termina quase sempre diante da mesma estante: a da poesia e a das crónicas.
Não costumam ser as maiores. Raramente ocupam o lugar de destaque. Quase nunca reúnem filas de leitores. Está ali, discretas, entre o romance, os thrillers, o ensaio, como se pertencessem um pouco aos três e, ao mesmo tempo, a nenhum deles.
Durante muito tempo interroguei-me sobre essa estranha fidelidade. Hoje creio conhecer a resposta.
Costumamos dizer que a crónica escreve sobre o quotidiano. A afirmação é verdadeira, mas fica aquém da sua vocação mais profunda. O quotidiano é apenas o lugar onde ela começa. A sua verdadeira matéria é o reconhecimento.
Existe uma diferença essencial entre ver e reconhecer. Ver é um ato da perceção. Reconhecer é um ato da inteligência, da sensibilidade e da consciência. Todos atravessamos as mesmas ruas, cruzamos as mesmas pessoas, escutamos conversas interrompidas, assistimos a pequenos gestos de delicadeza ou de indiferença. Quase tudo desaparece na sucessão dos dias. O cronista faz precisamente aquilo que os restantes transeuntes não fizeram: detém-se. Não para engrandecer o banal, mas para revelar que o banal nunca o foi verdadeiramente.
Uma criança que faz uma pergunta inesperada. O homem que abre diariamente a banca de jornais antes de a cidade acordar. A árvore abatida que altera, sem alarde, a memória de uma avenida. O professor que espera alguns segundos antes de responder, porque percebe que um aluno está prestes a descobrir sozinho a solução. Nenhum destes episódios mudará o rumo da História. Todos dizem alguma coisa sobre a forma como vivemos.
É aqui que nasce a crónica. Não da excecionalidade dos acontecimentos, mas da capacidade de descobrir significado onde quase todos passaram sem reparar.
Um cronista não observa apenas uma árvore cortada. Interroga a paisagem que desapareceu com ela. Não descreve apenas um banco de jardim vazio. Pergunta quem ali deixou de se sentar. Não regista um silêncio. Procura compreender quem ficou por escutar. É nesse pequeno desvio do olhar que a realidade começa a transformar-se em literatura.
Há uma forma subtil de pobreza que raramente medimos: a pobreza da atenção. Uma sociedade pode dispor de riqueza, tecnologia e conhecimento e, ainda assim, tornar-se incapaz de reconhecer as vidas discretas que a sustentam. A mulher que limpa o hospital ou a escola, antes de todos chegarem. O carteiro que conhece cada porta de uma aldeia. O vizinho cujo nome nunca perguntámos. O idoso que passa despercebido no banco de jardim onde se senta há anos. A cidadania começa quando aprendemos a reparar. A literatura começa quando alguém decide escrever sobre aquilo que finalmente viu.
É por isso que a crónica ultrapassa largamente a literatura. É uma forma de educação do olhar.
Ensina-nos a distinguir informação de significado, opinião de compreensão, evidência de verdade. Recorda-nos que compreender uma sociedade exige tanto conhecer as suas leis como observar os seus gestos; tanto analisar os seus debates públicos como escutar as conversas que acontecem à mesa de uma família, numa sala de professores, numa paragem de autocarro ou numa pequena mercearia de bairro.
A palavra deriva do grego chronos, o tempo. Durante séculos, a crónica registou reinados, guerras e grandes acontecimentos. Com o desenvolvimento da imprensa, descobriu uma vocação ainda mais ambiciosa: mostrar que uma época também se escreve através das vidas comuns. A História permaneceu indispensável. Mas deixou de pertencer apenas aos reis, aos governos e às batalhas. Passou a habitar os cafés, as escolas, as aldeias, as cozinhas, os jardins e todos os lugares onde decorre, silenciosamente, a aventura humana.
Portugal compreendeu esta vocação como poucos países. Ramalho Ortigão e Eça de Queirós fizeram da ironia uma forma de intervenção cívica. Miguel Torga encontrou na paisagem uma consciência moral. Vergílio Ferreira prolongou na crónica as grandes perguntas da existência. Agustina Bessa-Luís descobriu metafísica nos gestos mais simples. José Cardoso Pires ensinou-nos a ler as cidades. António Lobo Antunes fez da memória uma geografia da alma. Miguel Esteves Cardoso devolveu dignidade literária à conversa quotidiana.
Também fora de Portugal encontramos esta mesma linhagem. Michel de Montaigne fez da experiência pessoal um caminho para compreender o ser humano. G. K. Chesterton descobria filosofia nas esquinas de Londres. George Orwell observava o quotidiano para compreender o poder e a liberdade. Natalia Ginzburg mostrou que uma família podia conter a memória inteira de uma época. Todos partiram da mesma convicção: a realidade nunca é pequena. Pequeno pode ser apenas o olhar que a contempla.
Durante demasiado tempo chamou-se à crónica um género menor. Menor em quê? Na extensão?
A literatura nunca se mediu pelo número de páginas. Algumas das obras mais breves permaneceram durante séculos porque alargaram a consciência dos seus leitores. Uma boa crónica aproxima-se do ensaio sem perder a delicadeza da narrativa; dialoga com a filosofia sem abandonar a emoção; observa como o jornalista, imagina como o romancista e pergunta como o filósofo. Poucos géneros desfrutam de semelhante liberdade.
Essa liberdade implica também uma responsabilidade. A de restituir dignidade ao que parecia invisível.
Num tempo em que a Inteligência Artificial já escreve textos tecnicamente irrepreensíveis, essa missão torna-se ainda mais evidente. As máquinas poderão organizar informação, resumir livros e reproduzir estilos, mas continuam incapazes de viver uma infância, regressar à casa onde cresceram, guardar o perfume de uma figueira no final do verão ou reconhecer, décadas depois, a ausência da árvore que marcou uma rua inteira. A literatura nasce dessa experiência encarnada do mundo. A crónica transforma-a em memória partilhada.
Quando saio de uma livraria, volto quase sempre a passar diante daquela estante discreta onde repousam os livros de crónicas. Continua a ser uma das menos concorridas. Talvez porque exige um leitor diferente. Não alguém que procure apenas histórias, mas alguém disposto a aprender uma nova maneira de olhar.
Enquanto houver leitores capazes desse encontro, a crónica continuará a cumprir a sua mais antiga e mais bela missão: impedir que as pessoas, os lugares e os pequenos acontecimentos desapareçam sem deixar rasto.
Escrever uma crónica é um dos mais discretos gestos de humanidade. É dizer ao mundo que nada do que é autenticamente humano merece permanecer invisível.
segunda-feira, agosto 3
Tio Galileu
A mãe, tão pobre, deu Betinho àquele homem: agradasse ao tio Galileu, capaz de morrer de uma hora para outra, poderia ser o herdeiro.
Depois de partir lenha, puxar água do poço, limpar o poleiro do papagaio, o menino enxugava a louça para a cozinheira. Toda noite, Betinho subia a escada, para levar o urinol e tomar a bênção ao tio Galileu. Batia na porta: “Entre, meu filho”. O rapaz beijava a mão — branca, mole e úmida mãe-d’água. No domingo recebia a menor das moedas, que o padrinho desenterrava entre os nós do lenço xadrez.
Tio Galileu raramente saia e, ao tirar o paletó, exibia duas rodelas de suor na camisa.
Arrastava os pés, bufando, sempre a mão no peito. Afagava a cabecinha do papagaio, que sacudia o pescoço e eriçava a penugem: "Piolhinho... piolhinho..." Subindo a escada, dedos crispados no corrimão, isolava-se no quarto. O assobio através da porta: alegria de contar o dinheiro?
Fechava a porta e conduzia a chave. Diante dele era feita a limpeza, pelo rapaz ou pela negra, nunca por Mercedes. Sentado na cama, cocando eterno pozinho na perna, vigiava a pessoa que varria. E não assobiava com alguém no quarto. Instalado na cama que, essa, ele mesmo arrumava, sem permitir que virassem o colchão de palha.
Mercedes fazia compras, perfumada e de sombrinha azul. O homem discutia com ela, que o arruinava, por sua culpa sofria de angina.
Domingo, a negra de folga, Betinho preparava o café para Mercedes. Abria a porta, esperava acomodar-se à penumbra do quarto e, ao pousar a bandeja, sentia entre os lençóis a fragrância de maçã madura guardada na gaveta. Tio Galileu não admitia que Betinho ou a negra a surpreendessem de quimono vermelho pela casa.
Uma noite Mercedes surgiu no quarto de Betinho. Já deitado, luz apagada. Sentou-se ao pé da cama, casara com tio Galileu por ser velho, o primeiro a anunciar que morria de uma hora para outra. Mentira, para iludir as pessoas e servir-se delas sem pagar. Não sofria do coração, nem sabia o que era coração, a esconder mais dinheiro entre a palha. Ao crepitar o colchão lá no quarto o avarento remexia no tesouro. Tão mesquinho, não havia de morrer antes que fosse uma velhinha.
Um bruto, que a esquecia, dormindo em quarto separado, com medo de que, se fechasse os olhos, alguém fosse roubá-lo. Ó diabo, ela o xingou, pesteado como o papagaio louco, que a bicara e lhe deixara, no dedo o sinal. O rapaz inclinou-se para beijar o dedinho gordo. Mercedes ergueu-se e jurou que, se o monstro morresse, daria a Betinho o que lhe pedisse.
O rapaz não pôde dormir e, meia hora depois, saltou a janela. Agarrou no poleiro o papagaio, cabeça escondida na asa — os piolhos corriam pelo bico de ponta quebrada. Torceu como um lenço molhado o pescoço do bicho e o enterrou no quintal.
Dia seguinte o homem buscou o papagaio por toda a casa, a assobiar debaixo de cada árvore. Betinho sugeriu que a ave fugira. Foi colocar o vaso sob a cama e, ao tomar a bênção ao padrinho, o piolho correu de sua mão para a do velho — um dos piolhos vermelhos da peste.
Mercedes voltou ao seu quarto. Reclinada na cadeira, amarrava e desamarrava o cinto.
Noite quente, queixou-se do calor, abriu o quimono: nua sob o roupão. — Vá — disse a mulher. — Vá, meu bem. Primeiro o papagaio. Agora o velho.
Betinho ficou de pé. Tremia tanto, que ela o amparou até a porta:
— Vá, meu amor. A vez do velho.
Hora de pedir a bênção. Betinho subiu a escada. Aos passos no corredor o avarento, entre a bulha do colchão, perguntava quem era. Aquela noite falou. Betinho abriu a porta, avançou lentamente a cabeça. Tio Galileu deitara-se vestido, o saquinho de fumo derramado sobre o colete de veludo. O último cigarro, sem poder enrolar a palha com os dedos trementes...
Olho arregalado, a boca negra não abençoou Betinho. Fazia-se de morto, nunca mais fingiria.
Tio Galileu não gritou. Nem mesmo fechou os olhos, mais fácil que com o papagaio.
Betinho afogou-lhe a boca arreganhada debaixo do travesseiro.
— Acudam. Assassino! Matou Galileu …
Dalton Trevisan, "Novelas nada exemplares"
Depois de partir lenha, puxar água do poço, limpar o poleiro do papagaio, o menino enxugava a louça para a cozinheira. Toda noite, Betinho subia a escada, para levar o urinol e tomar a bênção ao tio Galileu. Batia na porta: “Entre, meu filho”. O rapaz beijava a mão — branca, mole e úmida mãe-d’água. No domingo recebia a menor das moedas, que o padrinho desenterrava entre os nós do lenço xadrez.
Tio Galileu raramente saia e, ao tirar o paletó, exibia duas rodelas de suor na camisa.
Arrastava os pés, bufando, sempre a mão no peito. Afagava a cabecinha do papagaio, que sacudia o pescoço e eriçava a penugem: "Piolhinho... piolhinho..." Subindo a escada, dedos crispados no corrimão, isolava-se no quarto. O assobio através da porta: alegria de contar o dinheiro?
Fechava a porta e conduzia a chave. Diante dele era feita a limpeza, pelo rapaz ou pela negra, nunca por Mercedes. Sentado na cama, cocando eterno pozinho na perna, vigiava a pessoa que varria. E não assobiava com alguém no quarto. Instalado na cama que, essa, ele mesmo arrumava, sem permitir que virassem o colchão de palha.
Mercedes fazia compras, perfumada e de sombrinha azul. O homem discutia com ela, que o arruinava, por sua culpa sofria de angina.
Domingo, a negra de folga, Betinho preparava o café para Mercedes. Abria a porta, esperava acomodar-se à penumbra do quarto e, ao pousar a bandeja, sentia entre os lençóis a fragrância de maçã madura guardada na gaveta. Tio Galileu não admitia que Betinho ou a negra a surpreendessem de quimono vermelho pela casa.
Uma noite Mercedes surgiu no quarto de Betinho. Já deitado, luz apagada. Sentou-se ao pé da cama, casara com tio Galileu por ser velho, o primeiro a anunciar que morria de uma hora para outra. Mentira, para iludir as pessoas e servir-se delas sem pagar. Não sofria do coração, nem sabia o que era coração, a esconder mais dinheiro entre a palha. Ao crepitar o colchão lá no quarto o avarento remexia no tesouro. Tão mesquinho, não havia de morrer antes que fosse uma velhinha.
Um bruto, que a esquecia, dormindo em quarto separado, com medo de que, se fechasse os olhos, alguém fosse roubá-lo. Ó diabo, ela o xingou, pesteado como o papagaio louco, que a bicara e lhe deixara, no dedo o sinal. O rapaz inclinou-se para beijar o dedinho gordo. Mercedes ergueu-se e jurou que, se o monstro morresse, daria a Betinho o que lhe pedisse.
O rapaz não pôde dormir e, meia hora depois, saltou a janela. Agarrou no poleiro o papagaio, cabeça escondida na asa — os piolhos corriam pelo bico de ponta quebrada. Torceu como um lenço molhado o pescoço do bicho e o enterrou no quintal.
Dia seguinte o homem buscou o papagaio por toda a casa, a assobiar debaixo de cada árvore. Betinho sugeriu que a ave fugira. Foi colocar o vaso sob a cama e, ao tomar a bênção ao padrinho, o piolho correu de sua mão para a do velho — um dos piolhos vermelhos da peste.
Mercedes voltou ao seu quarto. Reclinada na cadeira, amarrava e desamarrava o cinto.
Noite quente, queixou-se do calor, abriu o quimono: nua sob o roupão. — Vá — disse a mulher. — Vá, meu bem. Primeiro o papagaio. Agora o velho.
Betinho ficou de pé. Tremia tanto, que ela o amparou até a porta:
— Vá, meu amor. A vez do velho.
Hora de pedir a bênção. Betinho subiu a escada. Aos passos no corredor o avarento, entre a bulha do colchão, perguntava quem era. Aquela noite falou. Betinho abriu a porta, avançou lentamente a cabeça. Tio Galileu deitara-se vestido, o saquinho de fumo derramado sobre o colete de veludo. O último cigarro, sem poder enrolar a palha com os dedos trementes...
Olho arregalado, a boca negra não abençoou Betinho. Fazia-se de morto, nunca mais fingiria.
Tio Galileu não gritou. Nem mesmo fechou os olhos, mais fácil que com o papagaio.
Betinho afogou-lhe a boca arreganhada debaixo do travesseiro.
Os pés descalços de Mercedes desciam a escada. Ele ergueu o colchão, rasgou o pano, revolveu a palha: nada. Deteve-se à escuta: os passos perdidos da mulher. Avisá-la que o velho os enganara. Era tarde, ela abria a janela aos gritos:
— Acudam. Assassino! Matou Galileu …
Dalton Trevisan, "Novelas nada exemplares"
Não aprendo a lição
A lição de conviver,
senão de sobreviver
no mundo feroz dos homens,
me ensina que não convém
permitir que o tempo injusto
e a vida iníqua me impeçam
de dormir tranquilamente.
Pois sucede que não durmo.
Frente à verdade ferida
pelos guardiães da injustiça,
ao escárnio da opulência
e o poderio dourado
cujo esplendor se alimenta
da fome dos humilhados,
o melhor é acostumar-se,
o mundo foi sempre assim.
Contudo, não me acostumo.
A lição persiste sábia:
convém cabeça, cuidado,
que as engrenagens esmagam
o sonho que não se submete.
E que a razão prevaleça
vigilante e não conceda
espaços para a emoção.
Perante a vida ofendida
não vale a indignação.
Complexas são as causas
do desamparo do povo.
Mas não aprendo a lição.
Concedo que me comovo.
Thiago de Mello
senão de sobreviver
no mundo feroz dos homens,
me ensina que não convém
permitir que o tempo injusto
e a vida iníqua me impeçam
de dormir tranquilamente.
Pois sucede que não durmo.
Frente à verdade ferida
pelos guardiães da injustiça,
ao escárnio da opulência
e o poderio dourado
cujo esplendor se alimenta
da fome dos humilhados,
o melhor é acostumar-se,
o mundo foi sempre assim.
Contudo, não me acostumo.
A lição persiste sábia:
convém cabeça, cuidado,
que as engrenagens esmagam
o sonho que não se submete.
E que a razão prevaleça
vigilante e não conceda
espaços para a emoção.
Perante a vida ofendida
não vale a indignação.
Complexas são as causas
do desamparo do povo.
Mas não aprendo a lição.
Concedo que me comovo.
Thiago de Mello
Camelos também choram
Eu tinha lido que, lá na Índia, elefantes olhando o crepúsculo, às vezes, choram.
Mas agora está aí esse filme “Camelos também choram”.
A gente sabe que porcos e cabritos quando estão sendo mortos soltam gemidos e berros dilacerantes. Mas quem mata galinha, no interior, nunca relatou ter visto lágrimas nos olhos delas.
Contudo, esse filme feito sobre uma comunidade de pastores de ovelhas e camelos, lá na Mongólia, mostra que os camelos choram, mas choram não diante da morte, mas em certa circunstância que faria chorar qualquer ser humano. E, na plateia, eu vi, os não camelos também choravam.
É isto: eles vivem num deserto. Terra árida, pedregosa. Eles, dentro daquelas casas redondas de lona e madeira, que podem ser montadas e desmontadas. Lá fora um vento permanente ou o assombro do silêncio e da escuridão. E as ovelhas e carneiros ali em torno, pontuando a paisagem e sendo a fonte de vida dos humanos.
Sucede, então, que a rotina é quebrada com o parto difícil de um camelinho. Por isto, a mãe camela o rejeita. O filho ali, branquinho, mal se sustentando sobre as pernas, querendo mamar e ela fugindo, dando patadas e indo acariciar outro filhote, enquanto o rejeitado geme e segue inutilmente a mãe na seca paisagem.
“Só há uma solução”, diz alguém da família: “mandar chamar o músico!". Ao ouvir isto estremeci como se me preparasse para testemunhar um milagre. E o milagre começou musicalmente a acontecer.
Dois meninos montam agilmente seus camelos e vão a uma vila próxima chamar o músico. É uma vila pobre, mas já com coisas da modernidade, motos, televisão, e, na escola de música, dentro daquele deserto, jovens tocam instrumentos e dançam, como se a arte brotasse lindamente das pedras.
O professor de música, como se fosse um médico de aldeia chamado para uma emergência, viaja com seu instrumento de arco e cordas para tentar resolver a questão da rejeição materna.
Chega. E, ali no descampado, primeiro coloca o instrumento com uma bela fita azul sobre o dorso da mãe camela. A família mongol assiste à cena. Um vento suave começa a tanger as cordas do instrumento.
A natureza por si mesma harpeja sua harmônica sabedoria. A camela percebe. Todos os camelos percebem uma música reordenando suavemente os sentidos. Erguem a cabeça, aguçam os ouvidos, e esperam.
A seguir, o músico retoma seu instrumento e começa a tocá-lo, enquanto a dona da camela afaga o animal e canta. E enquanto cordas e voz soam, a mãe camela começa a acolher o filhote, empurrando-o docemente para suas tetas.
E o filhote, antes rejeitado e infeliz, vem e mama, mama, mama desesperadamente feliz!... E enquanto ele mama e a música continua, a câmara mostra em primeiro plano que lágrimas desbordam umas após outras dos olhos da mãe camela, dando sinais de que a natureza se reencontrou a si mesma, a rejeição foi superada, o afeto reuniu num todo amoroso os apartados elementos.
Nós, humanos, na plateia, olhamos aquilo estarrecidos. Maravilhados! Os mongóis na cena constatam apenas mais um exercício de sua milenar sabedoria.
E nós que perdemos o contato com o micro e o macrocosmos ficamos bestificados com nossa ignorância de coisas tão simples e essenciais.
Bem que os antigos falavam da terapêutica musical. Casos de instrumentos que abrandavam a fúria, curavam a surdez, a hipocondria, e saravam até a mania de perseguição.
Bem que o pensamento místico hindu dizia que a vida se consubstancia no universo com o primeiro som audível - um ré bemol - e que a palavra só surgiria mais tarde.
Bem que os pitagóricos, na Grécia, sustentavam que o universo era uma partitura musical, que o intervalo musical entre a Terra e a Lua era de um tom e que o cosmos era regido pela harmonia das esferas.
Os primitivos na Mongólia sabem disto. Os camelos também.
Mas nós, os pós-modernos, cultivamos a rejeição, a ruptura e o ruído.
Haja professor de música para consertar isto.
Affonso Romano de Sant’Anna, "Tempo de delicadeza"
Mas agora está aí esse filme “Camelos também choram”.
A gente sabe que porcos e cabritos quando estão sendo mortos soltam gemidos e berros dilacerantes. Mas quem mata galinha, no interior, nunca relatou ter visto lágrimas nos olhos delas.
Contudo, esse filme feito sobre uma comunidade de pastores de ovelhas e camelos, lá na Mongólia, mostra que os camelos choram, mas choram não diante da morte, mas em certa circunstância que faria chorar qualquer ser humano. E, na plateia, eu vi, os não camelos também choravam.
Para nós, tão afastados da natureza, olhando a dureza do asfalto e a indiferença dos muros e vitrines; para nós que perdemos o diálogo com plantas e animais, e, por consequência, conosco mesmos, testemunhar com aquela bela família de mongóis o nascimento de um filhote de camelo e sua relação com a mãe, é uma forma de reencontrar a nossa própria e destroçada humanidade.
É isto: eles vivem num deserto. Terra árida, pedregosa. Eles, dentro daquelas casas redondas de lona e madeira, que podem ser montadas e desmontadas. Lá fora um vento permanente ou o assombro do silêncio e da escuridão. E as ovelhas e carneiros ali em torno, pontuando a paisagem e sendo a fonte de vida dos humanos.
Sucede, então, que a rotina é quebrada com o parto difícil de um camelinho. Por isto, a mãe camela o rejeita. O filho ali, branquinho, mal se sustentando sobre as pernas, querendo mamar e ela fugindo, dando patadas e indo acariciar outro filhote, enquanto o rejeitado geme e segue inutilmente a mãe na seca paisagem.
A família mongol e vizinhos tentam forçar a mãe camela a alimentar o filho. Em vão.
“Só há uma solução”, diz alguém da família: “mandar chamar o músico!". Ao ouvir isto estremeci como se me preparasse para testemunhar um milagre. E o milagre começou musicalmente a acontecer.
Dois meninos montam agilmente seus camelos e vão a uma vila próxima chamar o músico. É uma vila pobre, mas já com coisas da modernidade, motos, televisão, e, na escola de música, dentro daquele deserto, jovens tocam instrumentos e dançam, como se a arte brotasse lindamente das pedras.
O professor de música, como se fosse um médico de aldeia chamado para uma emergência, viaja com seu instrumento de arco e cordas para tentar resolver a questão da rejeição materna.
Chega. E, ali no descampado, primeiro coloca o instrumento com uma bela fita azul sobre o dorso da mãe camela. A família mongol assiste à cena. Um vento suave começa a tanger as cordas do instrumento.
A natureza por si mesma harpeja sua harmônica sabedoria. A camela percebe. Todos os camelos percebem uma música reordenando suavemente os sentidos. Erguem a cabeça, aguçam os ouvidos, e esperam.
A seguir, o músico retoma seu instrumento e começa a tocá-lo, enquanto a dona da camela afaga o animal e canta. E enquanto cordas e voz soam, a mãe camela começa a acolher o filhote, empurrando-o docemente para suas tetas.
E o filhote, antes rejeitado e infeliz, vem e mama, mama, mama desesperadamente feliz!... E enquanto ele mama e a música continua, a câmara mostra em primeiro plano que lágrimas desbordam umas após outras dos olhos da mãe camela, dando sinais de que a natureza se reencontrou a si mesma, a rejeição foi superada, o afeto reuniu num todo amoroso os apartados elementos.
Nós, humanos, na plateia, olhamos aquilo estarrecidos. Maravilhados! Os mongóis na cena constatam apenas mais um exercício de sua milenar sabedoria.
E nós que perdemos o contato com o micro e o macrocosmos ficamos bestificados com nossa ignorância de coisas tão simples e essenciais.
Bem que os antigos falavam da terapêutica musical. Casos de instrumentos que abrandavam a fúria, curavam a surdez, a hipocondria, e saravam até a mania de perseguição.
Bem que o pensamento místico hindu dizia que a vida se consubstancia no universo com o primeiro som audível - um ré bemol - e que a palavra só surgiria mais tarde.
Bem que os pitagóricos, na Grécia, sustentavam que o universo era uma partitura musical, que o intervalo musical entre a Terra e a Lua era de um tom e que o cosmos era regido pela harmonia das esferas.
Os primitivos na Mongólia sabem disto. Os camelos também.
Mas nós, os pós-modernos, cultivamos a rejeição, a ruptura e o ruído.
Haja professor de música para consertar isto.
Affonso Romano de Sant’Anna, "Tempo de delicadeza"
Fup aprendendo a voar
Uma tarde, ele estava sentado na varanda, deixando a mente vaguear como de costume, tomando um gole aqui e ali, pondo um pouquinho no pires de Fup, quando de repente tomou consciência de que já se estava entediando com a imortalidade. Precisava de uma tarefa, uma tarefa que não somente desafiasse sua sabedoria, mas a ampliasse: precisava ensinar algo que não sabia. Um aluno, felizmente, estava logo à mão. Inclinando-se e acariciando seu pescoço liso, disse persuasivamente:
– Fup, acho que você devia aprender a voar. Faria milagres pela sua vida social. Diabos, talvez você pudesse arranjar um marido ou pelo menos dar uma escapadinha rápida nas tábuas com algum macho de cabeça cor de esmeralda. Miúdo e eu temos falado em te arranjar um companheiro, mas a verdade é que não tenho nada de cafetão em mim… e, de qualquer maneira, seria um insulto pra tua boa aparência.
Fup olhou para ele sem emitir qualquer som e, enfastiada, enfiou a cabeça debaixo da asa.
– Poxa, benzinho – insistiu vovô –, pense no assunto. Você podia voar pro México, ficar planando nos ares, olhando tudo de cima e dar um grande e belo quac!
Fup tirou a cabeça do refúgio embaixo da asa e, numa forte voz, decidida e sem uma ponta sequer de mofa, respondeu:
– Quac… quac… quac – E então assoviou um pouco e deu umas pisoteadas. Vovô Jake tomou isso como uma concordância por assédio.
Mas não concordou de modo algum com a dieta. Miúdo só concordou com muita relutância, observando corretamente:
– Ela não vai gostar.
– Se quer voar – argumentou vovô –, tem que fazer sacrifícios. Como é que ela vai sair do chão com todo aquele peso?
– Ela sé é grande pra idade – defendeu Miúdo. – Tudo é proporcional.
– Miúdo, ela não é só grande pra idade dela, meu filho; ela é enorme mesmo para um pato maduro. Eu vi milhões deles no meu tempo, e Fup não só um pouquinho maior, ou um tiquinho maior, ou a metade, ou o dobro: ela é umas sete vezes o tamanho de qualquer pato dos grandes. Agora, eu não acho que ela seja grotescamente gorda ou coisa assim. Ela é simplesmente um pouco pesada demais pra voar, só isso. Inferno, a gente vai continuar dando de comer pra ela, só que não tanto.
Mas Fup queria aquele tanto, e quando não recebia ficava amuada. Examinava as porções como se forçasse a vista para enxergar, e aí, avistando a comida engolia tudo num frenesi de falsa gratidão, dava as costas e cagava no prato. Continuava sua rotina diária, em parte mantida pelas guloseimas extras que Miúdo lhe passava no trabalho, mas fazia beiço e enlanguescia a cada oportunidade. Nas menores oportunidades, Jake gostava de contar a qualquer um que estivesse ao alcance de sua voz os três grandes segredos de como proceder quando não se tem a mais vaga ideia do que se está fazendo. Esses segredos, na ordem em que invariavelmente os listava, eram: intuição, razão e desespero. Sua intuição como instrutor de voo o persuadiu de que seria melhor simplesmente agarrar Fup, levá-la a um lugar bonito e bem aberto e arremessá-la para o ar. Ele provavelmente se surpreenderia no início, mas o instinto faria com que, sem dúvida alguma, abrisse as asas, e desse ponto em diante ela com certeza captaria a ideia.
Fup, sem a menor abanada de asas, chocou-se contra a terra como um saco de cimento, moveu-se desajeitada e fracamente uma ou duas vezes e depois ficou quieta, deitada. “Cruz-credo, eu a matei”, pensou vovô consigo mesmo enquanto corria até ela, mas, à sua aproximação, ela se pôs instintivamente de pé, o bico abrindo e fechando com um som semelhante ao de um viciado em bolinhas tocando castanholas; mirou direto no vovô Jake e então atacou. Este, protegendo as gônadas com as duas mãos em concha, tomou o ângulo mais agudo até a varanda, mas não foi suficientemente rápido: Fup o atingiu como quem passa uma rasteira proposital e rasteira, um golpe baixo e forte. Enquanto ele se levantava, ainda tonto, xingando o solista lunático que estava tocando os gongos em sua cabeça e pensando que de fato andava apanhando do reino animal ultimamente, Fup deu um giro e começou de novo. Imediatamente, e com sabedoria, vovô Jake se rendeu.
Obviamente, a abordagem intuitiva, se por acaso estivesse funcionando, não o estava muito bem. Portanto, sem esforço algum, Jake mudou para a razão e as belezas mecânicas da lógica. Não ficou nem um pouco perturbado pelo fato de sua intuição ter dado errado: a intuição frequentemente falhava, às vezes de modo espetacular, mas, quando funcionava economizava tanto tempo que o espírito dava um salto adiante… e, é claro, não havia motivo para se negar o prazer essencialmente humano de acertar da primeira vez. A razão era a mais fidedigna, embora lenta. Mas, também, a paciência não é propriamente um luxo para os imortais. Há tempo de tentar até dar certo.
Jim Dodge, "Fup"
– Fup, acho que você devia aprender a voar. Faria milagres pela sua vida social. Diabos, talvez você pudesse arranjar um marido ou pelo menos dar uma escapadinha rápida nas tábuas com algum macho de cabeça cor de esmeralda. Miúdo e eu temos falado em te arranjar um companheiro, mas a verdade é que não tenho nada de cafetão em mim… e, de qualquer maneira, seria um insulto pra tua boa aparência.
Fup olhou para ele sem emitir qualquer som e, enfastiada, enfiou a cabeça debaixo da asa.
– Poxa, benzinho – insistiu vovô –, pense no assunto. Você podia voar pro México, ficar planando nos ares, olhando tudo de cima e dar um grande e belo quac!
Fup tirou a cabeça do refúgio embaixo da asa e, numa forte voz, decidida e sem uma ponta sequer de mofa, respondeu:
– Quac… quac… quac – E então assoviou um pouco e deu umas pisoteadas. Vovô Jake tomou isso como uma concordância por assédio.
Mas não concordou de modo algum com a dieta. Miúdo só concordou com muita relutância, observando corretamente:
– Ela não vai gostar.
– Se quer voar – argumentou vovô –, tem que fazer sacrifícios. Como é que ela vai sair do chão com todo aquele peso?
– Ela sé é grande pra idade – defendeu Miúdo. – Tudo é proporcional.
– Miúdo, ela não é só grande pra idade dela, meu filho; ela é enorme mesmo para um pato maduro. Eu vi milhões deles no meu tempo, e Fup não só um pouquinho maior, ou um tiquinho maior, ou a metade, ou o dobro: ela é umas sete vezes o tamanho de qualquer pato dos grandes. Agora, eu não acho que ela seja grotescamente gorda ou coisa assim. Ela é simplesmente um pouco pesada demais pra voar, só isso. Inferno, a gente vai continuar dando de comer pra ela, só que não tanto.
Mas Fup queria aquele tanto, e quando não recebia ficava amuada. Examinava as porções como se forçasse a vista para enxergar, e aí, avistando a comida engolia tudo num frenesi de falsa gratidão, dava as costas e cagava no prato. Continuava sua rotina diária, em parte mantida pelas guloseimas extras que Miúdo lhe passava no trabalho, mas fazia beiço e enlanguescia a cada oportunidade. Nas menores oportunidades, Jake gostava de contar a qualquer um que estivesse ao alcance de sua voz os três grandes segredos de como proceder quando não se tem a mais vaga ideia do que se está fazendo. Esses segredos, na ordem em que invariavelmente os listava, eram: intuição, razão e desespero. Sua intuição como instrutor de voo o persuadiu de que seria melhor simplesmente agarrar Fup, levá-la a um lugar bonito e bem aberto e arremessá-la para o ar. Ele provavelmente se surpreenderia no início, mas o instinto faria com que, sem dúvida alguma, abrisse as asas, e desse ponto em diante ela com certeza captaria a ideia.
Fup, sem a menor abanada de asas, chocou-se contra a terra como um saco de cimento, moveu-se desajeitada e fracamente uma ou duas vezes e depois ficou quieta, deitada. “Cruz-credo, eu a matei”, pensou vovô consigo mesmo enquanto corria até ela, mas, à sua aproximação, ela se pôs instintivamente de pé, o bico abrindo e fechando com um som semelhante ao de um viciado em bolinhas tocando castanholas; mirou direto no vovô Jake e então atacou. Este, protegendo as gônadas com as duas mãos em concha, tomou o ângulo mais agudo até a varanda, mas não foi suficientemente rápido: Fup o atingiu como quem passa uma rasteira proposital e rasteira, um golpe baixo e forte. Enquanto ele se levantava, ainda tonto, xingando o solista lunático que estava tocando os gongos em sua cabeça e pensando que de fato andava apanhando do reino animal ultimamente, Fup deu um giro e começou de novo. Imediatamente, e com sabedoria, vovô Jake se rendeu.
Obviamente, a abordagem intuitiva, se por acaso estivesse funcionando, não o estava muito bem. Portanto, sem esforço algum, Jake mudou para a razão e as belezas mecânicas da lógica. Não ficou nem um pouco perturbado pelo fato de sua intuição ter dado errado: a intuição frequentemente falhava, às vezes de modo espetacular, mas, quando funcionava economizava tanto tempo que o espírito dava um salto adiante… e, é claro, não havia motivo para se negar o prazer essencialmente humano de acertar da primeira vez. A razão era a mais fidedigna, embora lenta. Mas, também, a paciência não é propriamente um luxo para os imortais. Há tempo de tentar até dar certo.
Jim Dodge, "Fup"
domingo, agosto 2
A Capitoa
A meu mestre Pierre Louys
Relatório do senhor Jacques-Constant d’Erlob, capitão de nau de guerra de quinta classe, comandante da nau Ceres, Sua Majestade, – ao senhor rnarquês Desherbiers, de l´Estenduère, Comandante da Esquadra, no porto de Quiberon.
"Senhor marquês:
De acordo com suas ordens, tenho a honra. de enviar-lhe o presente relatório, no intuito de prestar-lhe contas da missão que o senhor se dignou de me confiar, e da qual me desincumbi com felicidade para o serviço do rei, a partir de terça-feira, 12 de abril, dia em que recebi do senhor, por uma nota, liberdade de manobras para seguir meu destino secreto, até esta sexta-feira, 6 de maio, dia em que me encontro de regresso ao vosso pavilhão, tendo cumprido minha tarefa, com a ajuda de Deus.
Senhor marquês, tendo aparelhado a “Ceres” na data indicada acima, e tomado rumo S. S. 0., conforme o rumo que o senhor me havia marcado, corri primeiro cerca de cento e vinte milhas nessa direção, até o dia seguinte pelo meio-dia, com uma fresca brisa do norte. A “Ceres” conduziu-se, a essa velocidade de alto mar, tão bem quanto se podia esperar de uma fragata de escantilhão medíocre, provida apenas de quatorze bocas de fogo, pois correu sete a oito nós por hora, sem fadiga. A limpeza da quilha, que o senhor me permitira realizar recentemente, libertara bastante nossas obras vivas das algas, sargaços, conchas e outros parasitas que antigamente prejudicavam a marcha da fragata. Por isso desde logo pude prever um resultado venturoso para as nossas armas.
Obedecendo, então, às suas instruções verbais, rompi ao meio dia de quarta-feira, 13 de abril, o sinete da sobrecarta que o senhor se dignara de me confiar. Como sabe, nela encontrei a ordem, com todos os requisitos, referendada pelo sr. Almirante de França, conde de Tolosa, para perseguir por toda parte e exterminar determinado navio pirata muitas vezes aprestado como bergantim, arvorando quando queria o pavilhão negro com caveiras brancas, e sucessivamente chamado, conforme o lugar, a época e a oportunidade: Corvo, Pavão, Aleto ou Terçó. Esse bergantim de múltiplas denominações incorrera repetidas vezes na cólera do rei, por deter, saquear, incendiar e afundai numerosos navios mercantes franceses, que seus documentos em boa e devida forma não conseguiam proteger contra o furor assassino de flibusteiros sem fé nem lei. Por isso, Sua Majestade, disposta a restaurar sem detença a segurança necessária em todos os mares batidos por seu pavilhão, ordenava e dispunha a todos os seus capitães que atacassem e capturassem, onde quer que o encontrassem, o referido bergantim. 0 senhor mesmo, senhor marquês, incumbia-me particularmente da execução imediata das ordens e disposições de Sua Majestade.
Estavam anexadas à sobrecarta lacrada muitas indicações de seu punho. Delas depreendia-se a probabilidade de o pirata estar na ocasião infestando a costa ocidental da Irlanda, onde diversos crimes os tinham infelizmente assinalado. Encontrando-me eu a 44 graus e 20 minutos de latitude norte e 9 graus e 40 minutos de longitude oeste, isto é, muito ao sul e a leste do luar indicado, apressei-me em me dirigir para 0. N. O., a fim de ganhar em latitude. É durante todo o dia 13, bem como a 14, 15, 16 e 17, demos bordadas para alcançar a costa irlandesa, que foi assinalada pelos vigias, na manhã de 18, a 52 graus e 10 minutos de L. Norte e 13 graus e 15minutos de G. Oeste. A “Ceres”, durante toda essa navegação à bolina, deu provas de possuir qualidades apreciáveis.
Na tarde desse dia 18 de abril, ancorei com oito braças de água, fundo de areia e cascalho, à entrada de uma baía muito desabrigada, não longe de uma aldeia que as minhas cartas denominaram Clifden. Completei minha provisão d’água e entrei em relações com os habitantes do lugar, que me acolheram muito bem. 0 pirata havia sido, na semana anterior, avistado ao largo do litoral. Tinha mesmo, por várias vezes, levado a audácia a ponto de ancorar à distância de um tiro de mosquete e sem temer nenhuma represália, desembarcado e exigido contribuição da aldeia. Duas fragatas de Sua Majestade Britânica tinham, posteriormente, esquadrinhado em vão todos os recantos da costa sem descobrir o menor casco suspeito. Haviam então velejado juntos para alcançar as Hébridas, persuadidas de que o bergantim perseguido se refugiara aí e, sem a menor dúvida, encontrara ajuda e cumplicidade por parte dos pescadores nativos daquelas ilhas, que são criaturas selvagens por natureza e recolhedores de despojos de naufrágios por verdadeira profissão, porque seu principal meio de subsistência provém menos dos peixes que pescam que dos destroços que eles saqueiam após terem provocado, com luzes mórbidas e pérfidas, o naufrágio de navios sem rumo. Julguei, todavia, pouco provável fossem os piratas tão estúpidos que escolhessem como centro de operações um estuário fora de todas as rotas marítimas, e continuei certo de que me encontrava onde era necessário para satisfazer sem detença a vontade do rei.
Foi então que me acudiu a astúcia de guerra que nos valeu o êxito final. Depois de interrogar demoradamente os habitantes de Clifden sobre o rumo das fragatas inglesas, e tendo assim convencido a população do meu intento de seguir a estratégia das fragatas, completei minhas provisões de boca, meus víveres, minha água e, ostensivamente, orientei-me para o norte, como que tencionando contornar a Irlanda e alcançar as Hébridas. Mas a cerca de vinte e cinco milhas além da baía de Clifden abre-se a baía de Clew, vasta e toda semeada de escolhos e de bancos que a tornam o flagelo dos navegantes e até dos simples pescadores e marinheiros. Foi aí que me pus em capa, certo de que ninguém desconfiaria de a “Ceres” ter-se emboscado naquele lugar temível.
Ancorei a fragata, após algumas sondagens prudentes, na entrada do porto, atrás de uma ilha deserta e bastante alta, assinalada em minhas cartas como ilha Clara, a qual devia servir-me simultaneamente de tapagem e abrigo. Depois disse, esperei, persuadido de que em pouco minha paciência seria recompensada por notícias favoráveis.
Foi o que não demorou muito. Por um benefício único dos fatos, aconteceu que eu adivinhara mais exatamente do que julgava; e a felicidade constante que favorece fielmente as armas do rei fez com que a baía de Clew servisse justamente naquele caso de antro para os piratas que aí haviam descoberto um canal tortuoso mas praticável, justamente em certas horas de refluxo. Eu ancorara junto à ilha Clara na tarde de vinte e quatro de abril, e na manhã de vinte e seis, na hora de nossa limpeza de bordo, o ninho de corvo assinalou uma vela que surgia bem no meio dos recifes da baía interior. Verifiquei imediatamente a exatidão do fato e reconheci as enxárcias de um bergantim igual em todos os pontos àquele que me fora ordenado capturar. Tomei imediatamente minhas medidas. Mas, antes de a “Ceres” ter-se podido aparelhar, o pirata, levado pela corrente de refluxo que uma forte brisa de oeste aumentava, colocou-se fora de nosso alcance e distanciou-se. Fora-me impossível cochar os cabos pela ponta, por causa do risco de ser levado contra os espigões da ilha. Precisei ancorar pela popa e virar sobre ela. De maneira que o bergantim ganhou sobre nós três a quatro milhas antes de estarmos em condições de persegui-lo.
Mas, na continuação, um salto do vento favoreceu-nos muito, porque a brisa passou de leste para sudoeste e soprou fortemente, A “Ceres”, de tonelagem superior à do adversário, arfou menos do que ele, jogou menos e começou a recuperar as milhas perdidas. Em breve pude ler com a lente de meu óculos de alcance o nome do bergantim escrito em letras vermelhas sobre o costado preto. Li: “Corvo”… e minhas últimas dúvidas desfizeram-se.
Pelas duas horas da tarde chegávamos ao alcance e desviei-me do rumo para o tiro de advertência, com que reforcei, como é costume, o pavilhão real arvorado na caixa do mastro. Não obtendo resposta do pirata, disparei o tiro de chamada à fala. Dessa vez a escuna teve a impertinência de nos responder com dois canhões de recuo que ela descobriu, e cujas balas furaram nosso velame em muitos pontos.
Inquieto com uma possível avaria que teria, se ouso dizer, cortado nossas asas e salvado o pássaro negro das garras de nosso falcão, virei completamente de lado e mandei abrir fogo de toda a minha bordada para destruir a mastreação. 0 inimigo continuou a fugir. Mas, após algumas salvas, seu mastro grande foi despedaçado por uma bala. Eu esperava ver aquela canalha acuada descer seus botes para tentar à força de remos uma evasão duvidosa, uma vez que outra espera31ça não lhe restava. Ora, tal não se verificou e os flibusteiros deram mostra de uma coragem que eu não esperava de uma pessoa sem honra: puseram-se à capa, descobriram as últimas bocas de fogo de sua bordada, embora muito inferior em tudo à nossa, e responderam a nosso fogo, não sem primeiro terem contraposto às nossas flores de lis as suas horripilantes caveiras que eles pregaram na popa, como nem sempre tenho visto fazer, mesmo os mais valentes servidores do rei!
Segue-se uma batalha bastante encarniçada, no decorrer da qual tenho o pesar de lhe participar haverem sido sensíveis nossas perdas, que se elevaram a oito mortos, dos quais um oficial e treze feridos, entre eles o quartel-mestre de artilharia. A bravura dos piratas foi estrema e furiosa. Porque, sem mastreação, afundando, com o convés coberto de sangue, não cessaram de combater e de aumentar nossas perdas: muito além do que o bom senso aconselharia a um leal adversário. Desesperando de liquidá-los antes de anoitecer, e disposto, custasse o que custasse, a concluir as ordens do rei, manobrei para a abordagem. Meu imediato, sr. de Soria, teve essa honra. A divisão, reforçada, saltou para o convés do bergantim e acutilou os últimos flibusteiros, nenhum dos quais se rendeu. Foi então que ocorreu um incidente pelo menos singular, cuja descrição, sem dúvida, fará com que o senhor desculpe o tamanho do presente relatório.
Os últimos de nossos inimigos haviam-se feito todos matar diante do seu castelo de popa, cuja entrada eles pareciam Ter querido defender até o último alento. Jazendo todos no chão, o 6P, sr. Soria, julgou interessante arrombar a porta e prudente entrar de pistola em punho, porque era provável que esse castelo de popa contivesse alguma coisa ou alguém pouco católico. Muitos de nossos homens entraram atrás do imediato. E a surpresa de todos foi grande: o lugar que servia de quarto para o capitão, como provavam uma quantidade de livros, mapas e instrumentos, estava ocupado por uma bela e jovem senhora ricamente vestida, adornada, pintada, empoada, que se conservava sentada numa poltrona de brocado, e olhava os vencedores entrarem sem nenhum sinal exterior, quer de cólera, quer de satisfação.
Sem saber se estava na presença de uma prisioneira ou duma cúmplice dos piratas, o sr. de Soria intimou imediatamente a senhora a se explicar. A única e sangrenta resposta que ele teve foi um tiro que o fez cair, gravemente ferido. Notaram então, um pouco tarde, que a dama tinha em suas pequenas e alvas mãos duas pistolas que sabia utilizar perfeitamente. Duas outras estavam a seu lado, pelo que, quatro homens ficaram fora de combate antes que fosse possível subjugar aquela fúria de aparência tão graciosa. Nossos marinheiros trouxeram-na à minha presença amarrada como era preciso. Ela não teve a menor dificuldade em se glorificar de ter sido, não prisioneira ou cúmplice, mas pirata ela própria e, o que é pior, chefe dos piratas e o próprio capitão… ou a própria capitoa… daquele Corvo que se tornava, a seu bel-prazer, Pavão, Aleto, Alfaneque, ou Terçó. Provou-me, aliás, complacente e eruditamente, que era de fato o que se gabava de ser, isto é, um marinheiro notável, muito a par das teorias modernas, aplicadas, seja à navegação em alto mar, seja à manobra, seja à astronomia náutica.
Informado, mandei enforcar sem mais cerimônia aquela capitoa, ou capitão fêmea, incontestavelmente culpada de mais crimes do que se exige para o enforcamento de pelo menos doze ‘bandidos do outro sexo. A única objeção que a condenada apresentou foi esta: pediu-me, com a maior cortesia deste mundo, que içasse com ela, e na mesma grande verga da “Ceres”, dois de seus antigos companheiros insubordinados que ela me nomeou, um dos quais foi encontrado morto e o outro muito ferido. Julguei poder anuir a esse derradeiro e último desejo de uma criatura que muitas vezes devia ter expressado outros menos aceitáveis, aos quais numerosos homens tinham sem dúvida se sentido muito honrados em se submeter. Prontas as três cordas e passadas as três gravatas nos três pescoços, chamei nosso capelão que veio, misericordioso como de costume, de crucifixo em punho. A mulher pirata beijou de bom grado a santa imagem; mas exigiu depois a mercê de beijar da mesma forma a boca de seus dois companheiros de patíbulo, que ela afirmou estarem mais desejosos do que Nosso Senhor podia estar, de obterem dela esta volúpia suprema e superficial.
Interrompi essa tagarelice sacrílega da maneira que o senhor imagina.
Depois do que, tendo sido também enforcados os outros piratas feridos ou mortos e incendiado o bergantim, mandei aparelhar e segui caminho para reunir-me a seu pavilhão.
Tenho a honra de ser, com o mais profundo respeito, senhor marquês, seu muito humilde, muito obediente e muito fiel servidor.
Assinado : Jacques-Constant d’Erlot
Comandante da Ceres a bordo da Ceres, navio de Sua Majestade, no porto de Quiberon, a 6 de maio de 1.689"
Claude Ferrère
O fotógrafo
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski — seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski — seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"
Da utilidade dos animais
Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram animais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós, e além disso são muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca… Todos ajudam.
— Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de carga. Do pelo se fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.
— Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?
— Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.
— Ele faz pincel, professora?
— Quem, o texugo? Não, só fornece o pelo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer.
Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a utilidade do canguru:
— Bolsas, malas, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando na carne. Canguru é utilíssimo.
— Vivo, fessora?
— A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pelo dela nós preparamos ponchos, mantas, cobertores etc.
— Depois a gente come a vicunha, né fessora?
— Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a crescer…
— E a gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.
— Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?
— A carne também é listrada? — pergunta que desencadeia riso geral.
— Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível por causa disto. Ah, o pinguim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza.
— A senhora disse que a gente deve respeitar.
— Claro. Mas o óleo é bom.
— Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.
— Pois lucra. O pelo dá escovas de ótima qualidade.
— E o castor?
— Pois quando voltar a moda do chapéu para homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar um bom exemplo.
— Eu, hem?
— Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living de sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pelos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não calculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa… O biguá é engraçado.
— Engraçado como?
— Apanha peixe pra gente.
— Apanha e entrega, professora?
— Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.
— Bobo que ele é.
— Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu, Ricardo?
— Entendi. A gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o pelo, o couro e os ossos.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
— Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de carga. Do pelo se fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.
— Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?
— Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.
— Ele faz pincel, professora?
— Quem, o texugo? Não, só fornece o pelo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer.
Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a utilidade do canguru:
— Bolsas, malas, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando na carne. Canguru é utilíssimo.
— Vivo, fessora?
— A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pelo dela nós preparamos ponchos, mantas, cobertores etc.
— Depois a gente come a vicunha, né fessora?
— Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a crescer…
— E a gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.
— Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?
— A carne também é listrada? — pergunta que desencadeia riso geral.
— Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível por causa disto. Ah, o pinguim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza.
Pensam que só serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento — não sabem o que é? O cocô do pinguim é um adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito com a gordura do pinguim…
— A senhora disse que a gente deve respeitar.
— Claro. Mas o óleo é bom.
— Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.
— Pois lucra. O pelo dá escovas de ótima qualidade.
— E o castor?
— Pois quando voltar a moda do chapéu para homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar um bom exemplo.
— Eu, hem?
— Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living de sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pelos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não calculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa… O biguá é engraçado.
— Engraçado como?
— Apanha peixe pra gente.
— Apanha e entrega, professora?
— Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.
— Bobo que ele é.
— Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu, Ricardo?
— Entendi. A gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o pelo, o couro e os ossos.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
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