Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quinta-feira, março 26
Pequena canção da onda
Os peixes de prata ficaram perdidos,
com as velas e os remos, no meio do mar.
A areia chamava, de longe, de longe,
ouvia-se a areia chamar e chorar!
A areia tem rosto de música
e o resto é tudo luar!
Por ventos contrários, em noite sem luzes,
do meio do oceano deixei-me rolar!
Meu corpo sonhava com a areia, com a areia,
desprendi-me do mundo do mar!
Mas o vento deu na areia.
A areia é de desmanchar.
Morro por seguir meu sonho,
longe do reino do mar!
Cecília Meireles. Obra poética
com as velas e os remos, no meio do mar.
A areia chamava, de longe, de longe,
ouvia-se a areia chamar e chorar!
A areia tem rosto de música
e o resto é tudo luar!
Por ventos contrários, em noite sem luzes,
do meio do oceano deixei-me rolar!
Meu corpo sonhava com a areia, com a areia,
desprendi-me do mundo do mar!
Mas o vento deu na areia.
A areia é de desmanchar.
Morro por seguir meu sonho,
longe do reino do mar!
Cecília Meireles. Obra poética
O tédio
Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama, sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que o meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum.
Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu coração batia como se falasse.
Com passos largos e falsos, que em vão procurara tornar outros, percorri, descalço, o comprimento pequeno do quarto, e a diagonal vazia do quarto interior, que tem a porta ao canto para o corredor da casa. Com movimentos incoerentes e imprecisos, toquei nas escovas em cima da cómoda, desloquei uma cadeira, e uma vez bati com a mão movida em baloiço o ferro acre dos pés da cama inglesa.
Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada.
Ah, que manhã é esta, que me desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela! Quase que choro, vendo esclarear-se diante de mim, debaixo de mim, a velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já se revelam castanho sujo na luz que se extravasa um pouco, o meu coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a conhecer a segurança de se não sentir.
Que manhã esta mágoa! E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? Nada: o som do primeiro elétrico como um fósforo que vai iluminar a escuridão da alma, e os passos altos do meu primeiro transeunte que são a realidade concreta a dizer-me, com voz de amigo, que não esteja assim.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu coração batia como se falasse.
Com passos largos e falsos, que em vão procurara tornar outros, percorri, descalço, o comprimento pequeno do quarto, e a diagonal vazia do quarto interior, que tem a porta ao canto para o corredor da casa. Com movimentos incoerentes e imprecisos, toquei nas escovas em cima da cómoda, desloquei uma cadeira, e uma vez bati com a mão movida em baloiço o ferro acre dos pés da cama inglesa.
Acendi um cigarro, que fumei por subconsciência, e só quando vi que tinha caído cinza sobre a cabeceira da cama — como, se eu não me debruçara ali? — compreendi que estava possesso, ou coisa análoga, em ser quando não em nome, e que a consciência de mim, que eu deveria ter, se tinha intervalado com o abismo.
Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada.
Ah, que manhã é esta, que me desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela! Quase que choro, vendo esclarear-se diante de mim, debaixo de mim, a velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já se revelam castanho sujo na luz que se extravasa um pouco, o meu coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a conhecer a segurança de se não sentir.
Que manhã esta mágoa! E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? Nada: o som do primeiro elétrico como um fósforo que vai iluminar a escuridão da alma, e os passos altos do meu primeiro transeunte que são a realidade concreta a dizer-me, com voz de amigo, que não esteja assim.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
O homem e a cidade
Agora, que não preciso mais ir à cidade todo dia, descubro um prazer novo em andar por essas velhas ruas do centro onde tanto vaguei outrora.
E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores, o mar e as montanhas azuis.
Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)
Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"
E pego um estranho dia de verão: há um alto nevoeiro aéreo sob o céu azul, mas o vento espanta alegremente as nuvens esgotadas de chover; o ar é fino, a luz é clara, a manhã é assanhada, com uma alegria de convalescente que pela primeira vez, depois de longa doença, sai a passear entre as árvores, o mar e as montanhas azuis.
Parece que estamos em maio ou setembro, num desses dias cambiantes e leves em que as folhas têm um brilho mais feliz. E sinto prazer em andar pela calçada larga da Rua do Passeio, em espiar as grandes vitrinas coloridas de presentes de Natal. (Não quero comprar nada, não preciso ganhar mais nada, não é verdade que recebi na minha porta a graça juvenil de uma rosa amarela?)
A calçada está cheia de gente, e é doce a gente se deixar ir andando à toa. Na Rua Senador Dantas vejo livros, camisas, aparelhos elétricos, discos, fuzis submarinos, gravatas; e os cartazes dizem que tudo é muito barato e fácil de comprar, os cartazes me fazem ofertas especiais para levar agora e só começar a pagar em fevereiro... Muito obrigado, muito obrigado, mas não preciso de nada. Entretanto, gosto de ver essa fartura de coisas: fico parado numa porta de mercearia contemplando reluzentes goiabadas e frascos de vinho, bebidas e gulodices de toda a espécie que vieram de terras longes se oferecerem a mim.
Mas de repente houve alguma coisa — a visão de um muro, o som de uma vitrola distante, algum rosto no meio da multidão? —, alguma coisa que me devolveu ao meu ser antigo. Sou um rapaz magro nesta mesma rua, sou o verdadeiro estudante de 1929 e talvez cruze numa esquina, sem conhecê-la ainda, aquela que há de ser a minha amada, e tire do bolso a minha carteirinha da Faculdade para ter direito ao abatimento no cinema. Mas logo, por um instante, sou o homem dramático e silencioso de 1938, e caminho carregado de angústia por essa calçada que, entretanto, é a mesma de hoje — há o vento palpitando nos vestidos coloridos de mulheres finas que sorriem com dentes muito brancos entre os lábios úmidos. E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! para sempre perdida Lenora.
Lenora... E me dá uma humildade entre o povo, completo o dinheiro da entrada de um menino que quer ir ao cinema, espero um bonde, ajudo uma senhora gorda a subir com seu embrulho, ela agradece e sorri, é cinquentona e pobre, mas seu sorriso é bom, ela e eu somos cidadãos da mesma cidade e antes de saltar ela me desejará boas-entradas. Vem o condutor, tem cara de alemão e é gordo, mas ágil e paciente, todos pagam sua passagem na boa ordem civil e cordial. Um homem conduz uma gaiola dentro do bonde, todos querem ver o passarinho — é um pintassilgo, diz ele.
Quieto, vou repetindo sem voz, para mim mesmo, teu nome, Lenora — perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na calçada, andando de cabelos ao vento dentro da minha cidade e de minha saudade, Lenora.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"
Buriti
Depois de saudades e tempo, Miguel voltava àquele lugar, à fazenda do Buriti Bom, alheia, longe. Dos de lá, desde ano, nunca tivera notícia; agora, entanto, desejava que de coração o acolhessem. Receava. Era um estranho; continuava um estranho, tornara a ser um estranho? Ao menos, pudessem recebê-lo com alegria maior que a surpresa. Mas, para ele, aproximar-se dali estava sendo talvez trocar o repensado contracurso de uma dúvida, pelo azado desatinozinho que o destino quer. Achava.
Viajara de jeep, em ermas etapas, e essa rapidez fora do comum dava para desentender-se um tanto o monótono redor, os conduzidos caminhos campeiros. Ia chegar à Casa, tardio mas enfim, noite sobre. Parara, para jantar, no mesmo ponto em que da primeira vez: perto duma funda grota — escondido muito lá em baixo um riachinho bichinho, bem um fiapo, só, só, que fugia no arrepiado susto de por algum boi de um gole ser todo bebido; um riinho, se recobrindo com miúdas folhagens, quase subterrâneas, sem cessar trementes e lambidas, plantinhas de floricas verdes, muito mais modestas que as violetas.
Sentados no barranco de beira da estrada, úmidos de sereno os capins, Miguel e o rapaz comeram seu farnel, já no sufusco e tempo fresco, já anoitecendo, enquanto ouviam o cucubo da coruja e o regougo da raposinha. Entrementes ocorria também o vozejo crocaz do socó: — Cró, cró, cró… — membranoso. Miguel acendeu cigarro; o rapaz mastigava uns restos. Não dilatava, bastando a gente guardar um pouco o silêncio, e o confuso de sons rodeava, tomava conta. Como a infância ou a velhice — tão pegadas a um país de medo. Miguel, sem o saber, sentia afastadas coisas, que se ocultavam de seu próprio pensamento. Levantou-se, caminhou uns passos, até ao jeep, apanhou a lanterna. Andou mais, na direção de onde tinham vindo. Como parou, dali o sipipilo do regato não se suspeitava. Só os grilos, por todo o campo, toda qualidade deles, sempre surgindo.
Tudo como da primeira vez, quando viera, a cavalo, por acaso em companhia de dois moços caçadores e, depois, de nhô Gualberto Gaspar, com quem quase mesmo no chegar tinham feito conhecimento. Da treva, longe submúsica, um daqueles acreditava perceber também, por trás do geral dos grilos, os curiangos, os sapos, o último canto das saracuras e o belo pio do nhambú. Devia de ser. Em parte, o outro caçador confirmou. Miguel assestara o ouvido. Orgulhava-se de ainda entender o mundo de lá: o quáah! quáah!, como risada lonjã, tinha de ser de um socó, outrossim, que ia voar do posto. — “E é…” — nhô Gualberto Gaspar aprovou — “Aí, menos longe, tem uma lagôa.” Um perguntara: — “Bom lugar, para se atirar em pato? Muito junco?” Mas, aquela hora, falava-se menos, em voz baixa, mesmo sem ser de propósito. Estavam fatigados. O certo, que todos ficavam escutando o corpo de noturno rumor, descobrindo os seres que o formam. Era uma necessidade. O sertão é de noite. Com pouco, estava-se num centro, no meio de um mar todo. — “A gente pode aprender sempre mais, por prática” — disse o primeiro caçador. Discorria da dificuldade em separarem-se sons, de seu amontoo contínuo. — “Só por precisão” — completou o segundo, o setelagoano. E mais disse: que dirá, então, os bichos, obrigados a constante defesa ou ataque? O lobo, o veado. O rato. O coelho, que, para melhor captar os anúncios de perigo, desenvolveu-se um pavilhão tão grande? Principal, na jungla, não é tanto a rapidez de movimentos, mas a paciência dormida e sagaz, a arma da imobilidade. À cabecinha de um coelho peludo, sentado à porta de sua lura, no fim da tarde, devem chegar mais envios sonoros que a uma central telefônica. — “Pois, p’ra isso, p’ra se conhecer o que está longe e perto…” — o setelagoano continuou. E, daí, silenciaram, depois falaram mais, desse e de outros assuntos. Falou-se no Chefe Zequiel.
Na última noite passada no Buriti Bom, Miguel tinha conversado a respeito de coisas assim. O que fora:
Na sala-de-jantar. A lamparina, no meio da mesa. Nos consolos, os grandes lampeões. O riso de Glória. Iô Liodoro jogava, com Dona Lalinha. Glória falava. Ele, Miguel, ouvia.
De repente, reconheceu, remoto, o barulhinho do monjolo. De par em par de minutos, o monjolo range. Gonzeia. Não se escuta sua pancada, que é fofa, no arroz. Ele estava batendo, todo o tempo; eu é que ainda não tinha podido notar. Dona Lalinha é uma linda mulher, tão moça, como é possível que o marido a tenha abandonado? Nela não se descobre tristeza, nem sombra de infelicidade. Parece uma noiva, à espera do noivo. Vê-se, é pessôa fina, criada e nascida em cidade maior, imagem de princesa. Cidade: é para se fazerem princesas. Sua feição — os sapatinhos, o vestido, as mãos, as unhas esmaltadas de carmesim, o perfume, o penteado. Tudo inesperado, tão absurdo, a gente não crê estar enxergando isto, aqui nas brenhas, na boca dos Gerais. Esta fazenda do Buriti Bom tem um enfeite. Dona Lalinha não é de verdade. No primeiro dia, pensei que ela não tivesse o juizo normal, e por ser louca a deixavam assim. Será que os roceiros de perto não vão dando notícia de ali haver aquela diferente criatura, e o caso não corre distâncias, no sertão? Uns devem de vir, com desculpa qualquer, mas só para a ela assistir, no real, tomarem a certeza de que não é uma invenção formada. Não entendem. Se, em desprevenido, ela surgisse, a pé, numa volta de estrada ou à borda de um mato, os capiaus que a avistassem faziam enorme espanto, se ajoelhavam, sem voz, porque ao milagre não se grita, diante. Sobre o delicado, o vivo do rosto, tão claro, os lindos pés, a cintura que com as duas mãos se abarca, a boca marcada de vermelho forte. Comigo, ela quase não fala. Evita conversar, está certo, na situação dela. Tem de ser mais honesta do que todas. Todo o mundo tem de afirmar que ela é honesta, direita. Sempre uma mulher casada. Mulher de iô Irvino, cunhada de Glória, de Maria Behú. O ranger do monjolo é como o de uma rede. O rego está com pouca água, daí a lentidão com que ele vai socando. E o outro gemer? — “Esse outro, é de bicho do brejo…” — Glorinha disse. Decidida. Glorinha é loura — ou, ou, alourada. Mais bonita do que ela, dificilmente alguma outra poderá ser. Bonita não dizendo bem: ela é bela, formosa. Quanto tudo nela respira saúde. Natural, como Dona Lalinha. Mas, tão desiguais. Glória: o olhar dado brilhante, sempre o sem-disfarce do sorriso como se abre, as descidas do rosto se assinalando — uma onçazinha; assim tirando às feições do pai, acentuados aqueles sulcos que vêm do nariz para os cantos da boca. Dona Lalinha, os cabelos muito lisos, muito, muito pretos; e o rosto a maior alvura. Ela tem um modo precioso de segurar as cartas, de jogar, de fumar, de não sorrir nem rir; e as espessas pálpebras, baixadas, os lábios tão mimosamente densos: será capaz de preguiça e de calma. Como há de ser a outra, a mulher por causa de quem iô Irvino a deixou? Faz tanto tempo, isso, e iô Liodoro ainda teima em conservar a nora aqui, à espera de que um dia o filho volte? Será que iô Liodoro a retém prisioneira, à força? Glorinha disse que iô Irvino é o filho de que iô Liodoro mais gosta. Iô Liodoro se fecha, sobre sério, calado com tanto poder. Não se sabe o que ele entende. Todo modo de Glorinha, o que move e dá, é desembaraçado. Ninguém diria que ela é irmã de Maria Behú. Desditosa, magra, Maria Behú, parecendo uma velha. Para ela, ter de viver com a cunhada e a irmã, na mesma casa, deve ser um martírio. Maria Behú reza, quase todo o tempo. Agora mesmo, de certo está rezando, recolhida no quarto. Bicho do brejo… — “Bicho do brejo? Não, dona Glória. Eu acho que é pássaro…” “— Deixa ele. Pássaro, guinchando? A esta hora…” “— E sei? Sapo?” “— O senhor está falando numa coisa, mas está com a ideia apartada…” “— Estou não. Meu jeito é mesmo assim.” “— O senhor está querendo aprender o que é da cidade?” “— Nasci no mato, também. Sei a roça.” “— Aonde? Aqui no sertão?” “— No meio dos Gerais, longe, longe. Transforma-se noutra tristeza, de tanto tempo. Mas de tudo me lembro bem.” Glorinha está querendo me compreender, saber tudo de mim, mal atenta no que falo. Mas nem sabe que, só na feição do meu pensamento, eu a trato de “Glorinha”. Até assenta melhor. Porque ela ainda oferece sua natureza, tem a fraqueza da força. É pura, corada, sacudida. Tão sem arrebiques nem convencimento, com faceirice de mulher, mas para agradar diretamente; outras vaidades não mostra. Perto dela, a gente vai sentindo a precisão de viver apenas o momento. Quase por acaso foi que descobri que ela esteve em colégio, isso nem menciona. — “Saí ao Papai…” — ela mesma diz. Ao contrário de Maria Behú — de perdida fisionomia. Maria Behú amarra esticados os cabelos, num coque, sem nenhuma graça, se desfaz. Iô Liodoro não dá aparência de mais de cinquenta anos. Ele joga a bisca, como se cuidasse negócios de gravidade. Só tem atenção para as cartas. Acho que ele mesmo não quer se fixar em outras coisas, nas pessôas. — “Ele gostou de você, mas demais!” — Glorinha disse. (“— … Vou falar ‘você’; não é melhor? O senhor é muito moço…”) Deve ser, ele simpatizou comigo, quis que eu ficasse mais três dias, depois de vacinados os bezerros, visto o gado. E bem, se eu disser: — Iô Liodoro, quero casar com sua filha Maria da Glória? — que é que ele me responde? Fantasia. Iô Liodoro é um dos homens mais ricos deste sertão do rio Abaeté, dono de muito. Fantasia? Nem sei se gosto de Maria da Glória, se um encantamento assim, mesmo crescente, quer dizer amor. Sei que desejaria parar, demorado, perto dela. Da alegria. — “Conte alguma coisa, do que está sonhando, pensativo?” “— De minha terra?” “— Lá tinha pássaros cantando de noite?” “— Sério. O mutúm. De dia, ele fica atoleimado, escondido em oco de pau, é fácil de se pegar à mão. Mas, à noite, sai para caçar comida. Canta, antes da meia-noite e do romper da aurora. Chega dá as horas. É grande e formoso, como as penas dele brilham, feito um pavão.” “— E como canta?” “— No meio do mato, de madrugada, ele geme: — Hu-hum… Uhu-hum… Não se parece com nenhum.” “— Aqui não tem.” “— É um pássaro tristonho…” “— Você teve namorada, lá, em sua terra?” Dona Lalinha deve de ter ouvido, olhou para cá, sorriu para Glorinha. O nome de Dona Lalinha é Leandra. — “Não tive. De lá saí muito menino…” — respondi. “— E que mais?” “— É um lugar que nem sei se ainda existe, lá. Minha gente se mudou…” “— Você é ingrato? Vai voltar aqui algum dia, para rever a gente?” “— Gostei muito daqui. De todos…” “— Você é noivo? Se casar, traz sua mulher, também…” “— Não sou, não. Tenho cara de noivo, assim?” “— Para mim, tem.” Glorinha é afirmativa. Mas uma moça, mesmo por assim ser, engana. Às vezes dizem coisas, por desempeno, desenleadas — querendo ver o embaraço do homem, só por experimentar. Não vou ser acanhado. — “Está certo. Se eu casar, venho…” Eu disse. Estou arrependido de dizer. O que estou pensando, tenho de calar. Eu teria receio de gostar de Glorinha. Ela é franca demais, vive demais, abertamente; é uma mulher que deve desnortear, porque ainda não tem segredos. E eu já gosto dela? Mas tenho de ir-me embora, amanhã. Ela pôs os olhos em mim, tão declarados, com um querer que me enfrenta. — “O senhor não gosta de ninguém?” Ela disse muito “o senhor”; e eu respondi: — “Não.” Com o que estou sendo covarde, porque logo ri — imediatamente, que ela não tome a sério a minha resposta. Glorinha amuou, um nada, mas em seguida se conteve, e sorriu, riu também, com exagero, para aceitar a ideia de gracejo meu e bravata. Segura. E aprecio seu manejo reto, teimoso. Não gostaria que isso me envaidecesse. — “Volto, sim. Hei-de voltar aqui.” “— É promessa?” Agora ela sorriu sem manobra, falou: — “Por que você não vem caçar? Sabe, eu não disse a verdade, de propósito: por aqui também tem mutúm. Mutúm no mato, ronca cismado, que até enjôa a gente… Se caça. A carne é muito gostosa… Você não gosta de caçada?” Fugi de responder. O que devia ter dito: que odeio, de ódio. Assoante, pobre do tatú, correndo da cachorrada. O tatú-peba gorduchote, anda depressa, vai e volta, dá seu rosno baixo, quer traçar no chão uma cruz. — “Você pensa muito, demais. Que é, então?” “— Se eu dissesse, você ia achar tolice. Podia parecer até ofensa…” “— Pois diz, para eu não achar que é, uai!” “— Uma cachorra. Uma cachorrinha. Ela dava saltos, dobrada, e rolava na folhagem das violetas, e latia e ria, com brancos dentes, para o cachorrinho seu filhote… Ela estava quase cega…” Glória sorri, um pouco descorçoada. Pudesse, dizer a ela que penso com amor nas filas de maminhas de uma cachorra. Espera que, no fim, eu lhe explique alguma coisa. Agora, sei, estou-me defendendo dela, o que procuro nesta conversa é um campo branco, alguma surdina. Eu gosto de Glorinha. Seja, eu não quereria magoá-la. Glorinha, Glória, Maria da Glória. Mas ela é ainda sadia, simples, ainda nem pecou, não começou. Sempre se vê: se não, seus olhos trariam também alguma sombra, sua voz. Seu rosto guardaria uma expressão própria, remarcada. Seus gestos revelariam uma graça não gratuita, mas conseguida. Maria da Glória é inocente, de uma inocência forte, herdada, que a vida ainda irá desmanchar e depois refazer. A gente pode amar, de verdade, uma inocência? — “Sabe, você tem muito de parecido com o Irvino meu irmão, o modo…” Irvino, o que amou e depois abandonou Dona Lalinha… Eu podia gostar de Dona Lalinha? De Glorinha, eu sei. Imagino Glorinha casada comigo, no mesmo quarto, na mesma cama. Simples, como será, um corpo formoso. Dona Lalinha, não. Se Dona Lalinha se despisse, não sonho como seria. Um corpo diferente de todos, mais fino, mais alvo, cor-de-rosa uma beleza que não se sabe — como uma riqueza inesperada, roubada, como uma vertigem… Despir Dona Lalinha será sempre um pecado. Eu teria de ter vivido para a merecer — desde a hora do meu nascimento. — “Mas você deve de ter gostado de alguém. Você é bandoleiro?” Ao perguntar, ela terá pensado no irmão. Assim uma dúvida percorreu seu rosto, vibrou até nas asas do nariz. Glorinha é bela. Dona Lalinha é bonita. Mas as palavras não se movem tanto quanto as pessôas: um podia, não menos verdade, dizer — Dona Lalinha é bela, Glorinha é bonita… — “Dizem, de quem nasceu nos campos-gerais: que, ou é muito bandoleiro, ou em amor muito leal…” Não respondi. — “Você pensa demais.” Por um instante, deixou de mirar-me. — “Você tem irmãos?” Sei, Glorinha pode já estar no meu destino. Que é que a gente sabe? — “Tive um irmão, mais moço do que eu, morreu ainda menino… Um irmãozinho” — eu digo. Eu queria levar Glorinha comigo, às maiores distâncias de minha vida. — “… Até hoje, não posso demorar o pensamento nele. Tenho medo de sofrer. Você acha que sou fraco?” — “Acho não. Por quê? Fraqueza não é ter sentimento.” Eu queria que Glória me chamasse, me ensinasse lugares que fossem dela só — nós dois, sob sombra de uma antiga árvore, no centro de um bosque, rodeados de uma outra luz. — “E você, Glória? Você teve meninice?” “— Tive não. Pescaram um surubim, abriram, e me tiraram de dentro dele, já grande assim, sabendo falar, dansar valsa… E ih? Valeu a pena?” A alegria dela se estende, linda. Tenho de ter mão em mim. — “Viver sempre vale a pena…” Respondi. Foi como uma desfeita, eu tudo tivesse repelido. Maria da Glória resumiu um estremecimento, recuou o busto, se desempinando. Não escondeu o desapontamento, quase um dissabor. E, em mim, isso recebo como um desânimo, um cansaço, a necessidade de desistir? Com a mãozinha, ela tapou um bocejo. Eu mesmo, entendo, quase com um susto. Não vai acontecer mais nada. Não vamos namorar, falar de amor. Escuto o monjolo, azenho, fácil, meus ouvidos já sabem, já chegam ao lugarzinho dele no espaço, sem procura. E é tarde, daqui a pouco mais nos vamos separar, todos a dormir. Como será o quarto de Dona Lalinha? Caçam. Dona Lalinha pode ser que aprecie a carne do mutúm, que é branca, mais gostosa que a de perú. — “Você estranhou, o que eu falei, por brincadeira? Do peixe surubim?” “— Não, Maria da Glória. Mas você devia de ter nascido era no cacho de flores do buriti mais altaneiro, trazida por uma garça-rosada…” “— É bobo!” Sorrimos um sorriso. Iô Liodoro disse baixo qualquer coisa. Vão talvez jogar a derradeira mão. Dona Lalinha não respondeu, só parece, sempre, uma grande boneca, a mais de valor que existe. Iô Liodoro dá cartas. Este homem tudo faz comedido tão forte, acho que ele mesmo receia os estouvamentos de que é capaz. Não olha para Dona Lalinha. Dona Lalinha, de se jurar, está aqui forçada, presa, nesta fazenda. Iô Liodoro sabe que Irvino não vai voltar nunca mais, mas ele guarda a nora em sujeição, para garantir, mesmo assim, a honra do filho? E Dona Lalinha não vai poder sair, jamais, até que envelheça, ou que o carcereiro um dia morra. Será que ela não tem pais, irmãos, parentes? Saísse daqui, voltasse para a cidade, logo atraía outros homens, com tanta beleza, quem por ela não se apaixonaria? Um namoro, um amante, e o filho de iô Liodoro, e iô Liodoro mesmo, estariam infamados. Ainda que iô Irvino tenha repudiado a mulher, e esteja a viver com outra, Dona Lalinha tem de conservar sua solidão, não pode receber o prazer de outro homem. São casos, no sertão, se ouvem contar. Maria da Glória não pensa nisso, ou sabe, e ainda assim é capaz de variar sua alegria? Mas Maria Behú reza, sente as crueldades da vida. E esse bicho-do-brejo, que dá o outro som, que ranhe? É o socó. — “Você reparou, Maria da Glória? Socó ou o socó-boi? Ele vigia é de noite, revôa para ir pegar piabas nas lagôas…” “— Mas, agora, foi o monjolo.” “— Não: agora. Ele canta longe. Estou reconhecendo…” O monjolo é humano, reproduz a vontade de quem o fez e de quem o botou para trabalhar as arrobas de arroz. Maria da Glória ri. — “Que é que tem? Deixa esse…” Começou e conteve um espreguiçamento. Seus braços. Pudesse, amanhã, com ela sair a cavalo, ao Brejão, abraçá-la. Ao Buriti grande. Não escuto mais o “bicho-do-brejo”, mas me lembro dele. — “É o socó. Voou para mais longe…” “— Sabe, você está aprendendo com o Chefe?” O Chefe Zequiel, ele pode dizer, sem errar, qual é qualquer ruido da noite, mesmo o mais tênue. — “É bem. Ele há-de estar ouvindo, está lá no moinho, deitado mas acordado, a noite inteira, coitado, sofre de um pavor, não tem repouso. Quem sabe, na cidade, algum doutor não achava um remédio para ele, um calmante?” Aziago, o Chefe Zequiel espera um inimigo, que desconhece, escuta até aos fundos da noite, escuta as minhocas dentro da terra. Assunta, o que tem de observar, para ele a noite é um estudo terrível. — “E faz tempo que ele tem essa mania?” “— Figuro que de muito. Mas só de uns dois anos é que veio em piorar…” O que o Chefe devassou, assim, encheria livros. Iô Liodoro e Dona Lalinha se levantaram. Maria da Glória se põe triste, dando bôa-noite? Toma a benção ao pai. Dona Lalinha caminha serenamente. — “Não vá sonhar com o socó, nem com o mutúm…” — baixinho Glorinha disse. Sim, não. Não sonhar com Dona Lalinha… Pudesse sonhar com Maria da Glória, sonsa, risonha, sob o Buriti grande, encostada no Buriti grande. O monjolo trabalha a noite inteira…
Assim o que fora. Aquele serão de despedida, no Buriti Bom.
Viajara de jeep, em ermas etapas, e essa rapidez fora do comum dava para desentender-se um tanto o monótono redor, os conduzidos caminhos campeiros. Ia chegar à Casa, tardio mas enfim, noite sobre. Parara, para jantar, no mesmo ponto em que da primeira vez: perto duma funda grota — escondido muito lá em baixo um riachinho bichinho, bem um fiapo, só, só, que fugia no arrepiado susto de por algum boi de um gole ser todo bebido; um riinho, se recobrindo com miúdas folhagens, quase subterrâneas, sem cessar trementes e lambidas, plantinhas de floricas verdes, muito mais modestas que as violetas.
Sentados no barranco de beira da estrada, úmidos de sereno os capins, Miguel e o rapaz comeram seu farnel, já no sufusco e tempo fresco, já anoitecendo, enquanto ouviam o cucubo da coruja e o regougo da raposinha. Entrementes ocorria também o vozejo crocaz do socó: — Cró, cró, cró… — membranoso. Miguel acendeu cigarro; o rapaz mastigava uns restos. Não dilatava, bastando a gente guardar um pouco o silêncio, e o confuso de sons rodeava, tomava conta. Como a infância ou a velhice — tão pegadas a um país de medo. Miguel, sem o saber, sentia afastadas coisas, que se ocultavam de seu próprio pensamento. Levantou-se, caminhou uns passos, até ao jeep, apanhou a lanterna. Andou mais, na direção de onde tinham vindo. Como parou, dali o sipipilo do regato não se suspeitava. Só os grilos, por todo o campo, toda qualidade deles, sempre surgindo.
Tudo como da primeira vez, quando viera, a cavalo, por acaso em companhia de dois moços caçadores e, depois, de nhô Gualberto Gaspar, com quem quase mesmo no chegar tinham feito conhecimento. Da treva, longe submúsica, um daqueles acreditava perceber também, por trás do geral dos grilos, os curiangos, os sapos, o último canto das saracuras e o belo pio do nhambú. Devia de ser. Em parte, o outro caçador confirmou. Miguel assestara o ouvido. Orgulhava-se de ainda entender o mundo de lá: o quáah! quáah!, como risada lonjã, tinha de ser de um socó, outrossim, que ia voar do posto. — “E é…” — nhô Gualberto Gaspar aprovou — “Aí, menos longe, tem uma lagôa.” Um perguntara: — “Bom lugar, para se atirar em pato? Muito junco?” Mas, aquela hora, falava-se menos, em voz baixa, mesmo sem ser de propósito. Estavam fatigados. O certo, que todos ficavam escutando o corpo de noturno rumor, descobrindo os seres que o formam. Era uma necessidade. O sertão é de noite. Com pouco, estava-se num centro, no meio de um mar todo. — “A gente pode aprender sempre mais, por prática” — disse o primeiro caçador. Discorria da dificuldade em separarem-se sons, de seu amontoo contínuo. — “Só por precisão” — completou o segundo, o setelagoano. E mais disse: que dirá, então, os bichos, obrigados a constante defesa ou ataque? O lobo, o veado. O rato. O coelho, que, para melhor captar os anúncios de perigo, desenvolveu-se um pavilhão tão grande? Principal, na jungla, não é tanto a rapidez de movimentos, mas a paciência dormida e sagaz, a arma da imobilidade. À cabecinha de um coelho peludo, sentado à porta de sua lura, no fim da tarde, devem chegar mais envios sonoros que a uma central telefônica. — “Pois, p’ra isso, p’ra se conhecer o que está longe e perto…” — o setelagoano continuou. E, daí, silenciaram, depois falaram mais, desse e de outros assuntos. Falou-se no Chefe Zequiel.
Na última noite passada no Buriti Bom, Miguel tinha conversado a respeito de coisas assim. O que fora:
Na sala-de-jantar. A lamparina, no meio da mesa. Nos consolos, os grandes lampeões. O riso de Glória. Iô Liodoro jogava, com Dona Lalinha. Glória falava. Ele, Miguel, ouvia.
De repente, reconheceu, remoto, o barulhinho do monjolo. De par em par de minutos, o monjolo range. Gonzeia. Não se escuta sua pancada, que é fofa, no arroz. Ele estava batendo, todo o tempo; eu é que ainda não tinha podido notar. Dona Lalinha é uma linda mulher, tão moça, como é possível que o marido a tenha abandonado? Nela não se descobre tristeza, nem sombra de infelicidade. Parece uma noiva, à espera do noivo. Vê-se, é pessôa fina, criada e nascida em cidade maior, imagem de princesa. Cidade: é para se fazerem princesas. Sua feição — os sapatinhos, o vestido, as mãos, as unhas esmaltadas de carmesim, o perfume, o penteado. Tudo inesperado, tão absurdo, a gente não crê estar enxergando isto, aqui nas brenhas, na boca dos Gerais. Esta fazenda do Buriti Bom tem um enfeite. Dona Lalinha não é de verdade. No primeiro dia, pensei que ela não tivesse o juizo normal, e por ser louca a deixavam assim. Será que os roceiros de perto não vão dando notícia de ali haver aquela diferente criatura, e o caso não corre distâncias, no sertão? Uns devem de vir, com desculpa qualquer, mas só para a ela assistir, no real, tomarem a certeza de que não é uma invenção formada. Não entendem. Se, em desprevenido, ela surgisse, a pé, numa volta de estrada ou à borda de um mato, os capiaus que a avistassem faziam enorme espanto, se ajoelhavam, sem voz, porque ao milagre não se grita, diante. Sobre o delicado, o vivo do rosto, tão claro, os lindos pés, a cintura que com as duas mãos se abarca, a boca marcada de vermelho forte. Comigo, ela quase não fala. Evita conversar, está certo, na situação dela. Tem de ser mais honesta do que todas. Todo o mundo tem de afirmar que ela é honesta, direita. Sempre uma mulher casada. Mulher de iô Irvino, cunhada de Glória, de Maria Behú. O ranger do monjolo é como o de uma rede. O rego está com pouca água, daí a lentidão com que ele vai socando. E o outro gemer? — “Esse outro, é de bicho do brejo…” — Glorinha disse. Decidida. Glorinha é loura — ou, ou, alourada. Mais bonita do que ela, dificilmente alguma outra poderá ser. Bonita não dizendo bem: ela é bela, formosa. Quanto tudo nela respira saúde. Natural, como Dona Lalinha. Mas, tão desiguais. Glória: o olhar dado brilhante, sempre o sem-disfarce do sorriso como se abre, as descidas do rosto se assinalando — uma onçazinha; assim tirando às feições do pai, acentuados aqueles sulcos que vêm do nariz para os cantos da boca. Dona Lalinha, os cabelos muito lisos, muito, muito pretos; e o rosto a maior alvura. Ela tem um modo precioso de segurar as cartas, de jogar, de fumar, de não sorrir nem rir; e as espessas pálpebras, baixadas, os lábios tão mimosamente densos: será capaz de preguiça e de calma. Como há de ser a outra, a mulher por causa de quem iô Irvino a deixou? Faz tanto tempo, isso, e iô Liodoro ainda teima em conservar a nora aqui, à espera de que um dia o filho volte? Será que iô Liodoro a retém prisioneira, à força? Glorinha disse que iô Irvino é o filho de que iô Liodoro mais gosta. Iô Liodoro se fecha, sobre sério, calado com tanto poder. Não se sabe o que ele entende. Todo modo de Glorinha, o que move e dá, é desembaraçado. Ninguém diria que ela é irmã de Maria Behú. Desditosa, magra, Maria Behú, parecendo uma velha. Para ela, ter de viver com a cunhada e a irmã, na mesma casa, deve ser um martírio. Maria Behú reza, quase todo o tempo. Agora mesmo, de certo está rezando, recolhida no quarto. Bicho do brejo… — “Bicho do brejo? Não, dona Glória. Eu acho que é pássaro…” “— Deixa ele. Pássaro, guinchando? A esta hora…” “— E sei? Sapo?” “— O senhor está falando numa coisa, mas está com a ideia apartada…” “— Estou não. Meu jeito é mesmo assim.” “— O senhor está querendo aprender o que é da cidade?” “— Nasci no mato, também. Sei a roça.” “— Aonde? Aqui no sertão?” “— No meio dos Gerais, longe, longe. Transforma-se noutra tristeza, de tanto tempo. Mas de tudo me lembro bem.” Glorinha está querendo me compreender, saber tudo de mim, mal atenta no que falo. Mas nem sabe que, só na feição do meu pensamento, eu a trato de “Glorinha”. Até assenta melhor. Porque ela ainda oferece sua natureza, tem a fraqueza da força. É pura, corada, sacudida. Tão sem arrebiques nem convencimento, com faceirice de mulher, mas para agradar diretamente; outras vaidades não mostra. Perto dela, a gente vai sentindo a precisão de viver apenas o momento. Quase por acaso foi que descobri que ela esteve em colégio, isso nem menciona. — “Saí ao Papai…” — ela mesma diz. Ao contrário de Maria Behú — de perdida fisionomia. Maria Behú amarra esticados os cabelos, num coque, sem nenhuma graça, se desfaz. Iô Liodoro não dá aparência de mais de cinquenta anos. Ele joga a bisca, como se cuidasse negócios de gravidade. Só tem atenção para as cartas. Acho que ele mesmo não quer se fixar em outras coisas, nas pessôas. — “Ele gostou de você, mas demais!” — Glorinha disse. (“— … Vou falar ‘você’; não é melhor? O senhor é muito moço…”) Deve ser, ele simpatizou comigo, quis que eu ficasse mais três dias, depois de vacinados os bezerros, visto o gado. E bem, se eu disser: — Iô Liodoro, quero casar com sua filha Maria da Glória? — que é que ele me responde? Fantasia. Iô Liodoro é um dos homens mais ricos deste sertão do rio Abaeté, dono de muito. Fantasia? Nem sei se gosto de Maria da Glória, se um encantamento assim, mesmo crescente, quer dizer amor. Sei que desejaria parar, demorado, perto dela. Da alegria. — “Conte alguma coisa, do que está sonhando, pensativo?” “— De minha terra?” “— Lá tinha pássaros cantando de noite?” “— Sério. O mutúm. De dia, ele fica atoleimado, escondido em oco de pau, é fácil de se pegar à mão. Mas, à noite, sai para caçar comida. Canta, antes da meia-noite e do romper da aurora. Chega dá as horas. É grande e formoso, como as penas dele brilham, feito um pavão.” “— E como canta?” “— No meio do mato, de madrugada, ele geme: — Hu-hum… Uhu-hum… Não se parece com nenhum.” “— Aqui não tem.” “— É um pássaro tristonho…” “— Você teve namorada, lá, em sua terra?” Dona Lalinha deve de ter ouvido, olhou para cá, sorriu para Glorinha. O nome de Dona Lalinha é Leandra. — “Não tive. De lá saí muito menino…” — respondi. “— E que mais?” “— É um lugar que nem sei se ainda existe, lá. Minha gente se mudou…” “— Você é ingrato? Vai voltar aqui algum dia, para rever a gente?” “— Gostei muito daqui. De todos…” “— Você é noivo? Se casar, traz sua mulher, também…” “— Não sou, não. Tenho cara de noivo, assim?” “— Para mim, tem.” Glorinha é afirmativa. Mas uma moça, mesmo por assim ser, engana. Às vezes dizem coisas, por desempeno, desenleadas — querendo ver o embaraço do homem, só por experimentar. Não vou ser acanhado. — “Está certo. Se eu casar, venho…” Eu disse. Estou arrependido de dizer. O que estou pensando, tenho de calar. Eu teria receio de gostar de Glorinha. Ela é franca demais, vive demais, abertamente; é uma mulher que deve desnortear, porque ainda não tem segredos. E eu já gosto dela? Mas tenho de ir-me embora, amanhã. Ela pôs os olhos em mim, tão declarados, com um querer que me enfrenta. — “O senhor não gosta de ninguém?” Ela disse muito “o senhor”; e eu respondi: — “Não.” Com o que estou sendo covarde, porque logo ri — imediatamente, que ela não tome a sério a minha resposta. Glorinha amuou, um nada, mas em seguida se conteve, e sorriu, riu também, com exagero, para aceitar a ideia de gracejo meu e bravata. Segura. E aprecio seu manejo reto, teimoso. Não gostaria que isso me envaidecesse. — “Volto, sim. Hei-de voltar aqui.” “— É promessa?” Agora ela sorriu sem manobra, falou: — “Por que você não vem caçar? Sabe, eu não disse a verdade, de propósito: por aqui também tem mutúm. Mutúm no mato, ronca cismado, que até enjôa a gente… Se caça. A carne é muito gostosa… Você não gosta de caçada?” Fugi de responder. O que devia ter dito: que odeio, de ódio. Assoante, pobre do tatú, correndo da cachorrada. O tatú-peba gorduchote, anda depressa, vai e volta, dá seu rosno baixo, quer traçar no chão uma cruz. — “Você pensa muito, demais. Que é, então?” “— Se eu dissesse, você ia achar tolice. Podia parecer até ofensa…” “— Pois diz, para eu não achar que é, uai!” “— Uma cachorra. Uma cachorrinha. Ela dava saltos, dobrada, e rolava na folhagem das violetas, e latia e ria, com brancos dentes, para o cachorrinho seu filhote… Ela estava quase cega…” Glória sorri, um pouco descorçoada. Pudesse, dizer a ela que penso com amor nas filas de maminhas de uma cachorra. Espera que, no fim, eu lhe explique alguma coisa. Agora, sei, estou-me defendendo dela, o que procuro nesta conversa é um campo branco, alguma surdina. Eu gosto de Glorinha. Seja, eu não quereria magoá-la. Glorinha, Glória, Maria da Glória. Mas ela é ainda sadia, simples, ainda nem pecou, não começou. Sempre se vê: se não, seus olhos trariam também alguma sombra, sua voz. Seu rosto guardaria uma expressão própria, remarcada. Seus gestos revelariam uma graça não gratuita, mas conseguida. Maria da Glória é inocente, de uma inocência forte, herdada, que a vida ainda irá desmanchar e depois refazer. A gente pode amar, de verdade, uma inocência? — “Sabe, você tem muito de parecido com o Irvino meu irmão, o modo…” Irvino, o que amou e depois abandonou Dona Lalinha… Eu podia gostar de Dona Lalinha? De Glorinha, eu sei. Imagino Glorinha casada comigo, no mesmo quarto, na mesma cama. Simples, como será, um corpo formoso. Dona Lalinha, não. Se Dona Lalinha se despisse, não sonho como seria. Um corpo diferente de todos, mais fino, mais alvo, cor-de-rosa uma beleza que não se sabe — como uma riqueza inesperada, roubada, como uma vertigem… Despir Dona Lalinha será sempre um pecado. Eu teria de ter vivido para a merecer — desde a hora do meu nascimento. — “Mas você deve de ter gostado de alguém. Você é bandoleiro?” Ao perguntar, ela terá pensado no irmão. Assim uma dúvida percorreu seu rosto, vibrou até nas asas do nariz. Glorinha é bela. Dona Lalinha é bonita. Mas as palavras não se movem tanto quanto as pessôas: um podia, não menos verdade, dizer — Dona Lalinha é bela, Glorinha é bonita… — “Dizem, de quem nasceu nos campos-gerais: que, ou é muito bandoleiro, ou em amor muito leal…” Não respondi. — “Você pensa demais.” Por um instante, deixou de mirar-me. — “Você tem irmãos?” Sei, Glorinha pode já estar no meu destino. Que é que a gente sabe? — “Tive um irmão, mais moço do que eu, morreu ainda menino… Um irmãozinho” — eu digo. Eu queria levar Glorinha comigo, às maiores distâncias de minha vida. — “… Até hoje, não posso demorar o pensamento nele. Tenho medo de sofrer. Você acha que sou fraco?” — “Acho não. Por quê? Fraqueza não é ter sentimento.” Eu queria que Glória me chamasse, me ensinasse lugares que fossem dela só — nós dois, sob sombra de uma antiga árvore, no centro de um bosque, rodeados de uma outra luz. — “E você, Glória? Você teve meninice?” “— Tive não. Pescaram um surubim, abriram, e me tiraram de dentro dele, já grande assim, sabendo falar, dansar valsa… E ih? Valeu a pena?” A alegria dela se estende, linda. Tenho de ter mão em mim. — “Viver sempre vale a pena…” Respondi. Foi como uma desfeita, eu tudo tivesse repelido. Maria da Glória resumiu um estremecimento, recuou o busto, se desempinando. Não escondeu o desapontamento, quase um dissabor. E, em mim, isso recebo como um desânimo, um cansaço, a necessidade de desistir? Com a mãozinha, ela tapou um bocejo. Eu mesmo, entendo, quase com um susto. Não vai acontecer mais nada. Não vamos namorar, falar de amor. Escuto o monjolo, azenho, fácil, meus ouvidos já sabem, já chegam ao lugarzinho dele no espaço, sem procura. E é tarde, daqui a pouco mais nos vamos separar, todos a dormir. Como será o quarto de Dona Lalinha? Caçam. Dona Lalinha pode ser que aprecie a carne do mutúm, que é branca, mais gostosa que a de perú. — “Você estranhou, o que eu falei, por brincadeira? Do peixe surubim?” “— Não, Maria da Glória. Mas você devia de ter nascido era no cacho de flores do buriti mais altaneiro, trazida por uma garça-rosada…” “— É bobo!” Sorrimos um sorriso. Iô Liodoro disse baixo qualquer coisa. Vão talvez jogar a derradeira mão. Dona Lalinha não respondeu, só parece, sempre, uma grande boneca, a mais de valor que existe. Iô Liodoro dá cartas. Este homem tudo faz comedido tão forte, acho que ele mesmo receia os estouvamentos de que é capaz. Não olha para Dona Lalinha. Dona Lalinha, de se jurar, está aqui forçada, presa, nesta fazenda. Iô Liodoro sabe que Irvino não vai voltar nunca mais, mas ele guarda a nora em sujeição, para garantir, mesmo assim, a honra do filho? E Dona Lalinha não vai poder sair, jamais, até que envelheça, ou que o carcereiro um dia morra. Será que ela não tem pais, irmãos, parentes? Saísse daqui, voltasse para a cidade, logo atraía outros homens, com tanta beleza, quem por ela não se apaixonaria? Um namoro, um amante, e o filho de iô Liodoro, e iô Liodoro mesmo, estariam infamados. Ainda que iô Irvino tenha repudiado a mulher, e esteja a viver com outra, Dona Lalinha tem de conservar sua solidão, não pode receber o prazer de outro homem. São casos, no sertão, se ouvem contar. Maria da Glória não pensa nisso, ou sabe, e ainda assim é capaz de variar sua alegria? Mas Maria Behú reza, sente as crueldades da vida. E esse bicho-do-brejo, que dá o outro som, que ranhe? É o socó. — “Você reparou, Maria da Glória? Socó ou o socó-boi? Ele vigia é de noite, revôa para ir pegar piabas nas lagôas…” “— Mas, agora, foi o monjolo.” “— Não: agora. Ele canta longe. Estou reconhecendo…” O monjolo é humano, reproduz a vontade de quem o fez e de quem o botou para trabalhar as arrobas de arroz. Maria da Glória ri. — “Que é que tem? Deixa esse…” Começou e conteve um espreguiçamento. Seus braços. Pudesse, amanhã, com ela sair a cavalo, ao Brejão, abraçá-la. Ao Buriti grande. Não escuto mais o “bicho-do-brejo”, mas me lembro dele. — “É o socó. Voou para mais longe…” “— Sabe, você está aprendendo com o Chefe?” O Chefe Zequiel, ele pode dizer, sem errar, qual é qualquer ruido da noite, mesmo o mais tênue. — “É bem. Ele há-de estar ouvindo, está lá no moinho, deitado mas acordado, a noite inteira, coitado, sofre de um pavor, não tem repouso. Quem sabe, na cidade, algum doutor não achava um remédio para ele, um calmante?” Aziago, o Chefe Zequiel espera um inimigo, que desconhece, escuta até aos fundos da noite, escuta as minhocas dentro da terra. Assunta, o que tem de observar, para ele a noite é um estudo terrível. — “E faz tempo que ele tem essa mania?” “— Figuro que de muito. Mas só de uns dois anos é que veio em piorar…” O que o Chefe devassou, assim, encheria livros. Iô Liodoro e Dona Lalinha se levantaram. Maria da Glória se põe triste, dando bôa-noite? Toma a benção ao pai. Dona Lalinha caminha serenamente. — “Não vá sonhar com o socó, nem com o mutúm…” — baixinho Glorinha disse. Sim, não. Não sonhar com Dona Lalinha… Pudesse sonhar com Maria da Glória, sonsa, risonha, sob o Buriti grande, encostada no Buriti grande. O monjolo trabalha a noite inteira…
Assim o que fora. Aquele serão de despedida, no Buriti Bom.
João Guimarães Rosa, “Noites do sertão“
quarta-feira, março 25
Que seja doce
ao abrir as janelas para deixar
entrar o sol ou o cinza dos dias,
bem assim: que seja doce.
Quando há sol, e esse sol bate
na minha cara amassada do sono
ou da insônia,
contemplando as partículas de poeira soltas no ar,
feito um pequeno universo,
repito sete vezes para dar sorte:
que seja doce que seja doce que seja doce
e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse
o que deverá ser doce,
talvez não saiba responder.
Tudo é tão vago como se fosse nada.
Ninguém perguntará coisa alguma, penso.
Depois continuo a contar para mim mesmo,
como se fosse ao mesmo tempo
o velho que conta e a criança que escuta,
sentado no colo de mim.
Caio Fernando Abreu
As estrelas
Numa das noites daquele mês de abril estava Dona Benta na sua cadeira de balanço, lá na varanda, com olhos no céu cheio de estrelas. A criançada também se reunira ali.
Súbito, Narizinho, que estava em outro degrau da escada fazendo tricô, deu um berro.
- Vovó, Emília está botando a língua para mim!
Mas Dona Benta não ouviu. Não tirava os olhos das estrelas. Estranhando aquilo, os meninos foram se aproximando. E ficaram também a olhar para o céu, em procura do que estava prendendo a atenção da boa velha.
- Que é vovó, que a senhora está vendo lá em cima? Eu não estou enxergando nada – disse Pedrinho.
Dona Benta não pôde deixar de rir-se. Pôs nele os óculos e puxou-o para o seu colo e falou:
- Não está vendo nada, meu filho? Então olha para o céu estrelado e não vê nada?
- Só vejo estrelinhas – murmurou o menino.
- E acha pouco, meu filho?
Monteiro Lobato, "Viagem ao Céu"
Súbito, Narizinho, que estava em outro degrau da escada fazendo tricô, deu um berro.
- Vovó, Emília está botando a língua para mim!
Mas Dona Benta não ouviu. Não tirava os olhos das estrelas. Estranhando aquilo, os meninos foram se aproximando. E ficaram também a olhar para o céu, em procura do que estava prendendo a atenção da boa velha.
- Que é vovó, que a senhora está vendo lá em cima? Eu não estou enxergando nada – disse Pedrinho.
Dona Benta não pôde deixar de rir-se. Pôs nele os óculos e puxou-o para o seu colo e falou:
- Não está vendo nada, meu filho? Então olha para o céu estrelado e não vê nada?
- Só vejo estrelinhas – murmurou o menino.
- E acha pouco, meu filho?
Monteiro Lobato, "Viagem ao Céu"
Encontro com os passados
A leitura de todos os bons livros é como uma conversa com as pessoas mais honestas dos séculos passados que foram seus autores.
René Descartes
Uma história de tanto amor
Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longínquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.
Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou-lhe:
– Nós comemos Petronilha.
A menina era criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe.
– Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.
Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das minas gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.
Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.
O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma presciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.
Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.
Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia: “Você não tem coisa nenhuma no fígado.” Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café – e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.
Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava:
– Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!
– Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!
Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou-lhe:
– Nós comemos Petronilha.
A menina era criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe.
– Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.
Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das minas gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.
Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.
O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma presciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.
…
Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
sexta-feira, março 20
A adiada enchente
Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.
Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.
Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as palavras.
Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome
Mia Couto, "Idades cidades divindades"
Antigo, sim.
Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.
Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as palavras.
Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome
Mia Couto, "Idades cidades divindades"
Estamos vivos
Lisboa, 21 de janeiro de 2017 (sábado) – Dívidas de gratidão para com o meu corpo. À parte uma asma alérgica trazida de África, entretanto debelada, uma apendicite operada de urgência em Espanha, já sob ameaça de peritonite, a artrite reumatoide do pulso, o meu foi sempre um corpo amável, cordato, satisfatoriamente competente em dar-me o que podia e em receber o que lhe era devido. Em 2014 veio-lhe um sobressalto, um desvio de rumo, talvez uma distorção. Sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo. Aprenderei a escutar os seus silêncios e o menor suspiro que dele me venha, sabendo que daqui em diante paira sobre nós os dois uma sombra, uma ameaça. Nele, corpo, mora a minha vida. Nada há mais saudável do que estarmos vivos.
João de Melo, "Novas Fases da Lua"
João de Melo, "Novas Fases da Lua"
No fundo obscuro da alma
Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama, sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que o meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum.
Com passos largos e falsos, que em vão procurara tornar outros, percorri, descalço, o comprimento pequeno do quarto, e a diagonal vazia do quarto interior, que tem a porta ao canto para o corredor da casa. Com movimentos incoerentes e imprecisos, toquei nas escovas em cima da cómoda, desloquei uma cadeira, e uma vez bati com a mão movida em baloiço o ferro acre dos pés da cama inglesa. Acendi um cigarro, que fumei por subconsciência, e só quando vi que tinha caído cinza sobre a cabeceira da cama — como, se eu não me debruçara ali? — compreendi que estava possesso, ou coisa análoga, em ser quando não em nome, e que a consciência de mim, que eu deveria ter, se tinha intervalado com o abismo.
Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada.
Ah, que manhã é esta, que me desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela! Quase que choro, vendo esclarear-se diante de mim, debaixo de mim, a velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já se revelam castanho sujo na luz que se extravasa um pouco, o meu coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a conhecer a segurança de se não sentir.
Que manhã esta mágoa! E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? Nada: o som do primeiro elétrico como um fósforo que vai iluminar a escuridão da alma, e os passos altos do meu primeiro transeunte que são a realidade concreta a dizer-me, com voz de amigo, que não esteja assim.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
O calor que mudou o nosso vocabulário
Nos meus tempos de Universidade de Brasília, onde cursei Letras, o Sebinho fazia parte da minha vida cotidiana. Eu passava por ele praticamente todos os dias. Às vezes entrava para procurar algum livro; outras, simplesmente para tomar um café ali perto e observar o movimento.
Naquele tempo, há quase 30 anos, o clima era outro. Não digo isso apenas no sentido figurado. O clima era realmente outro.
Lembro de dias quentes, claro. Brasília sempre soube o que é calor (principalmente em julho e agosto). Mas o calor era apenas calor. Algo que resolvíamos com uma sombra, um copo d’água ou um ventilador improvisado.
Hoje, o calor ganhou sobrenomes. É que não se trata apenas da “quentura”, como dizemos em Fortaleza. É sensação térmica de 42 graus. É onda de calor. É cúpula de calor. É ilha de calor urbana.
De repente, nosso vocabulário meteorológico ficou técnico.
Acompanhamos aplicativos do tempo como se fossem boletins médicos. “Hoje a sensação térmica vai chegar a 45”, dizemos. Daí pode-se ouvir: “É por causa da umidade”. É… “dizem que é a terceira onda de calor do ano”.
Interessante. Antigamente ninguém falava assim, ou falava?
Esse fenômeno não surpreende os linguistas. A língua, como aprendi nas Letras, muda quando o mundo muda. Novas experiências exigem novas palavras. Às vezes surgem neologismos. Outras vezes, palavras antigas ganham sentidos novos.
O clima parece estar fazendo exatamente isso com o nosso vocabulário cotidiano. Fico imaginando se o mesmo acontece em outras línguas. Acredito que sim.
A verdade é que hoje falamos como meteorologistas amadores. Foi-se o tempo em que o calor era descrito de maneira quase poética: “calor de fritar ovo na calçada”, “calor de não aguentar”, “calor de derreter o asfalto”.
De forma menos lírica, o clima entrou definitivamente na conversa cotidiana, e pela linguagem. E sabemos que quando palavras saem dos relatórios e entram nas conversas de elevador, é porque alguma coisa mudou de verdade.
George Orwell escreveu que a linguagem e o pensamento se influenciam mutuamente. Algo parecido talvez esteja acontecendo com o clima.
Sentada aqui no Sebinho, cercada de livros de todo tipo, fico pensando que certas mudanças, silenciosas, aparecem primeiro nas palavras.
E só depois percebemos que o mundo inteiro já mudou junto com elas.
Mariana Caminha
Naquele tempo, há quase 30 anos, o clima era outro. Não digo isso apenas no sentido figurado. O clima era realmente outro.
Lembro de dias quentes, claro. Brasília sempre soube o que é calor (principalmente em julho e agosto). Mas o calor era apenas calor. Algo que resolvíamos com uma sombra, um copo d’água ou um ventilador improvisado.
Hoje, o calor ganhou sobrenomes. É que não se trata apenas da “quentura”, como dizemos em Fortaleza. É sensação térmica de 42 graus. É onda de calor. É cúpula de calor. É ilha de calor urbana.
De repente, nosso vocabulário meteorológico ficou técnico.
Acompanhamos aplicativos do tempo como se fossem boletins médicos. “Hoje a sensação térmica vai chegar a 45”, dizemos. Daí pode-se ouvir: “É por causa da umidade”. É… “dizem que é a terceira onda de calor do ano”.
Interessante. Antigamente ninguém falava assim, ou falava?
Esse fenômeno não surpreende os linguistas. A língua, como aprendi nas Letras, muda quando o mundo muda. Novas experiências exigem novas palavras. Às vezes surgem neologismos. Outras vezes, palavras antigas ganham sentidos novos.
O clima parece estar fazendo exatamente isso com o nosso vocabulário cotidiano. Fico imaginando se o mesmo acontece em outras línguas. Acredito que sim.
A verdade é que hoje falamos como meteorologistas amadores. Foi-se o tempo em que o calor era descrito de maneira quase poética: “calor de fritar ovo na calçada”, “calor de não aguentar”, “calor de derreter o asfalto”.
De forma menos lírica, o clima entrou definitivamente na conversa cotidiana, e pela linguagem. E sabemos que quando palavras saem dos relatórios e entram nas conversas de elevador, é porque alguma coisa mudou de verdade.
George Orwell escreveu que a linguagem e o pensamento se influenciam mutuamente. Algo parecido talvez esteja acontecendo com o clima.
Sentada aqui no Sebinho, cercada de livros de todo tipo, fico pensando que certas mudanças, silenciosas, aparecem primeiro nas palavras.
E só depois percebemos que o mundo inteiro já mudou junto com elas.
Mariana Caminha
quinta-feira, março 19
As coisas que mais prazer me deram na vida
Agrafar, carimbar, cortar uma página pelo picotado, fazer buraquinhos numa folha com aquela maquineta de fazer buraquinhos, o palrar de um bebé, calar de súbito o som a meio de uma ária de ópera, esmagar as bolhinhas de uma folha de plástico transparente, ver da janela, lá em baixo, o primeiro pássaro da manhã, olhar o retrato do Papa Inocêncio de Velázquez, meter na boca um pé de criança de três meses, uma finta de Garrincha na televisão, o sorriso súbito de certas mulheres, um sino de aldeia ao fim da tarde, as luzes de Beja à noite na planície, a Serra da Estrela vista da varanda dos meus avós quando eu tinha cinco anos, a minha filha Joana, pequenina, a desenhar a sua primeira árvore, o meu avô a fazer-me uma festa comigo quase a adormecer, o tenente, quando eu era cadete, a ordenar a Marcha lento e à vontade, um pirilampo no quintal a meio da noite, a voz da minha mãe a recitar António Nobre, um gato caminhando devagarinho no muro da buganvília, montar uma zebra de pau no carrossel do oito, dizer gosto de ti para um rosto que aumenta, os olhos azuis da Avó Querida quando me chamava meu amor, agrafar mais, carimbar mais, uma mulher a murmurar Meu Deus na almofada, o pneu afinal não ter furo nenhum, o médico junto à minha cama Vou dar-lhe alta, um falcão a passar junto à janela, o guardanapo com uma rã a saltar ao eixo, começar a ver o fundo do prato quando me davam sopa, beber água da bilha na casa de Nelas, a campainha do recreio a meio de uma frase do professor de Matemática, a primeira vez que dancei de cara encostada com uma menina de treze anos também, o palhaço que me apertou a mão no circo, a tia Madalena para mim Estou aqui filho comigo com a tuberculose, o raio verde no Caramulo, agrafar mais, carimbar mais, vestir a camisola do Benfica aos quinze anos no primeiro treino, as Variações Goldberg, chegar da mata em Angola, os primeiros passos da minha filha Zézinha, eu a ensinar a Isabel a ler, o meu primo António a explicar-me Se a mãe sêsse o pai puzia gravata, um abraço do meu tio João Maria, o meu pai a deixar–me ganhar-lhe uma corrida, o meu irmão Pedro a contar Já vou no Pardal de regresso de uma aula de Catequese sobre o Espírito Santo, o primo Alfredo que me levantava acima da sua cabeça e eu maior do que toda a família, a minha mãe perfumada com Chanel número cinco, a Gija a coçar-me as costas antes de me vestir o pijama, a professora de Português, no primeiro ano do liceu, a apontar-me à turma Este menino vai ser um grande escritor e eu feliz, a primeira vez que li A Ruiva de Fialho de Almeida, o sabor da minha boca depois de um rebuçado de hortelã pimenta, a cor do mar da Praia das Maçãs às seis da tarde, receber uma carta de Céline quando lhe escrevi aos quinze anos, o dia em que o Cifra me veio dizer que tinha uma filha e fui chorar de felicidade e raiva para o arame farpado, os meus pais terem-me encontrado quando me perdi em Veneza aos sete anos junto a um dos leões de pedra na Praça de São Marcos, o meu avô a murmurar Meu netinho acariciando-me o pescoço, beber água da bilha, o primeiro dente de leite que descobri de manhã na almofada, a esperança de voltar a ler As Aventuras De Dona Redonda E Da Sua Gente, a minha pilinha de repente grande e eu cheio de orgulho e vergonha, com a minha mãe a fingir que não via, o tio Joaquim a levar-me até aos Correios, na Beira Alta, no quadro da bicicleta, o palhaço pobre que me deu um passou bem no circo, comer cocada de Belém do Pará feita pela tia Isabel, eu em Paris à procura da cegonha que me tinha trazido dali para Lisboa sete anos antes: ainda não perdi a esperança de a encontrar e de certeza que ela se lembra de mim, acho eu. Ter feito chichi em Nova Iorque ao lado de Mickey Rooney. Cortar, mal acabe isto, todas as páginas do bloco pelo picotado. Acho que devo ter por aí uma dessas coisas de fazer buraquinhos: que mais pode um homem desejar?
António Lobo
António Lobo
Ser e saber
Vi o vento soprar
e a noite descer.
Ouvi o grilo saltar
na grama estremecida.
Pisei a água
mais bela que a terra.
Vi a flor abrir-se
como se abrem as conchas.
O dia e a noite se uniram
para ungir-me.
O enlace de luz e sombra
cingiu os meus sonhos.
Vi a formiga esconder-se
na ranhura da pedra.
Assim se escondem os homens
entre as palavras.
A beleza do mundo me sustenta.
É o formoso pão matinal
que a mão mais humilde deposita
na mesa que separa.
Jamais serei um estrangeiro.
Não temo nenhum exílio.
Cada palavra minha
é uma pátria secreta.
Sou tudo o que é partilha
o trovão a claridade
os lábios do mundo
todas as estrelas que passam.
Só conheço a origem:
a água negra que lambe a terra
e os goiamuns à espreita
entre as raízes do mangue.
Só sei o que não aprendi:
o vento que sopra
a chuva que cai
e o amor.
Lêdo Ivo. "Crepúsculo civil"
e a noite descer.
Ouvi o grilo saltar
na grama estremecida.
Pisei a água
mais bela que a terra.
Vi a flor abrir-se
como se abrem as conchas.
O dia e a noite se uniram
para ungir-me.
O enlace de luz e sombra
cingiu os meus sonhos.
Vi a formiga esconder-se
na ranhura da pedra.
Assim se escondem os homens
entre as palavras.
A beleza do mundo me sustenta.
É o formoso pão matinal
que a mão mais humilde deposita
na mesa que separa.
Jamais serei um estrangeiro.
Não temo nenhum exílio.
Cada palavra minha
é uma pátria secreta.
Sou tudo o que é partilha
o trovão a claridade
os lábios do mundo
todas as estrelas que passam.
Só conheço a origem:
a água negra que lambe a terra
e os goiamuns à espreita
entre as raízes do mangue.
Só sei o que não aprendi:
o vento que sopra
a chuva que cai
e o amor.
Lêdo Ivo. "Crepúsculo civil"
Epidemia polissilábica
Já se disse que a crise é de dicionário. Paulo Rónai denunciou a existência de uma geração sem palavras. Uma só, não, digo eu. Várias. A crise é semântica, disse um professor na Sorbonne, que convocou um seminário. Pode ser, diz o Pedro Gomes. Mas é também polissilábica. E me expõe a sua tese: nenhum país aguenta tantos palavrões como os que circulam agora por aí. Palavrão no sentido estrito de palavra grande.
Na porta do Jockey, depois do almoço, um sujeito conversava outro dia, sereno, sobre a atratividade do investimento superavitário. Temi pela sua digestão, se é que não foi vítima de uma congestão. Ou de um insulto cerebral. Mas há pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral. É o caso do cidadão que discorreu sobre o obstaculizado caminho que o Brasil tem de percorrer, se quiser alcançar um nível de competitividade num cenário de internacionalização do livre-cambismo.
Até a carta-testamento do Getúlio, obstaculizar não tinha feito a sua aparição triunfal. Dizem que foi ideia do Maciel Filho, que tinha este vezo nacionalista da palavra complicada. Na verdade, é difícil inovar o jargão político. Para atacar José Américo de Almeida, história antiga, Benedito Valladares lançou no mercado a palavra boquirroto. Logo os adversários disseram que era soprado pelo Orozimbo Nonato, um íntimo do Vieira e do Bernardes. Arrazoava com um cunho seiscentista.
Enfim, tudo hoje em dia gera distorções. Gerar é um verbo-ônibus. Serve para tudo. Confiemos, porém, que a seu tempo, a nível de país, na expressão abominável que hoje é corrente, a solução seja equacionada. A desestabilização extrapola de qualquer colocação. Longe de mim o catastrofismo, mas no caminho polissilábico em que vamos, a ingovernabilidade é fatal. E talvez passemos antes pela platino-dolarização contingencial.
A maior delas, como aprendemos na remota infância, tem até governado o Brasil. É essa mesmo: inconstitucionalissimamente. Depois deste advérbio, no seu hoje modesto pioneirismo, apareceram verdadeiros bondes vocabulares. Autênticos minhocões. São cada vez mais numerosos e compridos, como a composição ferroviária que transporta minérios. A perder de vista, todos têm de cinco sílabas para cima. São centopeias de tirar o fôlego e de destroncar a língua.
Na porta do Jockey, depois do almoço, um sujeito conversava outro dia, sereno, sobre a atratividade do investimento superavitário. Temi pela sua digestão, se é que não foi vítima de uma congestão. Ou de um insulto cerebral. Mas há pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral. É o caso do cidadão que discorreu sobre o obstaculizado caminho que o Brasil tem de percorrer, se quiser alcançar um nível de competitividade num cenário de internacionalização do livre-cambismo.
Até a carta-testamento do Getúlio, obstaculizar não tinha feito a sua aparição triunfal. Dizem que foi ideia do Maciel Filho, que tinha este vezo nacionalista da palavra complicada. Na verdade, é difícil inovar o jargão político. Para atacar José Américo de Almeida, história antiga, Benedito Valladares lançou no mercado a palavra boquirroto. Logo os adversários disseram que era soprado pelo Orozimbo Nonato, um íntimo do Vieira e do Bernardes. Arrazoava com um cunho seiscentista.
Enfim, tudo hoje em dia gera distorções. Gerar é um verbo-ônibus. Serve para tudo. Confiemos, porém, que a seu tempo, a nível de país, na expressão abominável que hoje é corrente, a solução seja equacionada. A desestabilização extrapola de qualquer colocação. Longe de mim o catastrofismo, mas no caminho polissilábico em que vamos, a ingovernabilidade é fatal. E talvez passemos antes pela platino-dolarização contingencial.
Otto Lara Resende
O gato sou eu
– Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
– Continuou dormindo.
– Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
– Que espécie de gato?
– Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
– A que você associa essa imagem?
– Não era uma imagem: era um gato.
– Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
– Associo a um gato.
– Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
– Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
– Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
– Uma projeção do senhor?
– Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
– Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
– Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
– Em quem o senhor está falando?
– Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
– Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
– Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
– Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
– Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
– Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
– Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
– E eu insisto em dizer: não é.
– Sou.
– Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
– Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
– Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
– É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
– Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
– Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
– Já disse que o gato sou eu!
– Sou eu!
– Ponha-se para fora do meu gato!
– Ponha-se para fora daqui!
– Sou eu!
– Eu!
– Eu! Eu!
– Eu! Eu! Eu!
– Continuou dormindo.
– Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
– Que espécie de gato?
– Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
– A que você associa essa imagem?
– Não era uma imagem: era um gato.
– Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
– Associo a um gato.
– Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
– Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
– Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
– Uma projeção do senhor?
– Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
– Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
– Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
– Em quem o senhor está falando?
– Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
– Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
– Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
– Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
– Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
– Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
– Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
– E eu insisto em dizer: não é.
– Sou.
– Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
– Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
– Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
– É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
– Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
– Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
– Já disse que o gato sou eu!
– Sou eu!
– Ponha-se para fora do meu gato!
– Ponha-se para fora daqui!
– Sou eu!
– Eu!
– Eu! Eu!
– Eu! Eu! Eu!
Fernando Sabino
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