Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quinta-feira, outubro 22
Não há sombra no espelho
Não é a primeira vez que escrevo meu nome, Renato Valenzuela, e o vejo como se fosse de outra pessoa, de alguém distante com quem perdi contato faz tempo. Em outras ocasiões, diante do espelho, quando acabo de me barbear, vejo um rosto que mal reconheço, como se fosse o esboço ou a caricatura de outro rosto, com que estou mais ou menos acostumado. Então acho que esse olhar não é o meu, que essas pupilas de rancor não me dizem respeito, que essas rugas pertencem a outra máscara, que esses fiordes de calvície não correspondem à minha geografia capilar. É verdade que tais divagações costumam ser momentâneas, metamorfoses que duram o tempo de um suspiro, mas sempre me deixam instável, desassossegado, indefeso. É por isso, Renato Valenzuela, que talvez tenha chegado a hora de acertar as nossas contas. Com o tempo, com o passado, com as feridas, com as promessas, contigo/comigo. Todas.
Não vamos cair na vulgaridade de atribuir tudo que há de ultrajante à vaga infância. Lá ficou ela, atrás da neblina. Minhas lembranças se deixam ver através de um vidro esmerilhado chamado memória. Eu te vejo nu no campo, sob uma chuva que não discriminava, os magros braços para o alto, usufruindo dessa felicidade inaugural, que por certo não se repetiria, ao menos com essa intensidade.
Eu te vejo criança, espantado diante do estranho espetáculo do peãozinho que fornicava (você achava que brincava) com alguma ovelha, passiva e inerte, decerto ausente daquela violação não regulamentar. Sua adolescência foi um sonho. Você sonhava incansavelmente, e quando afinal eu acordava, você continuava sonhando. Com bosques, com ondas, com seios, com sóis, com fomes, com mãos, com coxas. Seus sonhos eram de desejo, e minhas vigílias, de censura.
Volta e meia aparece algum sábio da arraia-miúda para garantir que o espelho é sempre honesto. Honesto porra nenhuma. O espelho é um farsante, um traidor, um pilantra. Esse Renato Valenzuela que aí está, olhando-me com sarcasmo, pálido de tanta insônia, é um frágil arremedo de mim mesmo, um fac-símile sem sangue, uma coisa. Onde está, por exemplo, a palpitação das minhas têmporas, o coração transbordante de conquistas e fracassos, as mãos que não são garras, mas provedoras de carícias?
A imagem do espelho é o que eu não quis ser: um fantoche gasto convocando a morte. Por esses falsos olhos circulam escombros de desejos, que já não consigo sequer vislumbrar, que dirá rememorar. Esse Renato Valenzuela é um epílogo do Renato Valenzuela que digo ser. Que sou. Ou não? Ou será, então, este eu de carne e osso o pobre duplo do que se move nesse espelho? Disse o poeta: “O mar como um vasto cristal azougado/ reflete a lâmina de um céu de zinco.” Esse Renato de cristal azougado refletirá o nada do meu céu de zinco? Ou estará mais próximo do que se diz na estrofe seguinte: “O sol como um vidro redondo e opaco/ com passo de doente caminha para o zênite”?
Onde está, nessa cópia servil que é o espelho, aquele rapaz que seduziu Irene, ou melhor, que foi seduzido por Irene, o que tremeu como uma vara quando ela o enlaçou com seus braços de enigma? Onde ficou aquele que beijou e tornou a beijar seu corpo indescritível, mergulhou cândido nele, feliz sem perceber, tonto de amor?
Não há sombra no espelho. A sombra é dos corpos, não das imagens. Meu filho Braulio tem seis anos de sombra. Nunca o ponho diante do espelho, para que não a perca. Irene, em compensação, não tem mais imagem. Nem sombra. O horror a levou. Há finais de paz, de dor, de inércia, também de horror. O dela foi de horror. Contudo, nos olhos do espelho não está sua morte. Nos olhos de mim mesmo está, sim. É impossível desalojá-la, omiti-la, extraviá-la.
Meu filho me olha com os olhos de Irene. Um rio de tristeza circula por minhas veias, mas me esqueci de chorar. Com meus olhos e com os do espelho. Não trago o Braulio para o espelho para que não se gaste, para que não comece, tão criança, a envelhecer, para que continue a olhar com os olhos de Irene.
Devo esclarecer que tudo isso pertence ao passado. Um passado recente, mas passado. Reconheço que hoje tive uma surpresa. Como todas as manhãs, encarei o espelho e falei com ele. Falei muito. Acho que até gritei com ele. De repente percebi que a boca do espelho permanecia fechada. Tornei a falar, o insultei. E nada. Seus lábios não se moveram. Curiosamente, seu olhar era de retrocesso.
.
Então me senti tomado por um estranho contentamento, um esboço de felicidade.
E não era para menos. Pela primeira vez eu o deixava mudo. Pela primeira vez o derrotara. Inapelavelmente.
Mario Benedetti, “Correio do tempo“
Não vamos cair na vulgaridade de atribuir tudo que há de ultrajante à vaga infância. Lá ficou ela, atrás da neblina. Minhas lembranças se deixam ver através de um vidro esmerilhado chamado memória. Eu te vejo nu no campo, sob uma chuva que não discriminava, os magros braços para o alto, usufruindo dessa felicidade inaugural, que por certo não se repetiria, ao menos com essa intensidade.
Eu te vejo criança, espantado diante do estranho espetáculo do peãozinho que fornicava (você achava que brincava) com alguma ovelha, passiva e inerte, decerto ausente daquela violação não regulamentar. Sua adolescência foi um sonho. Você sonhava incansavelmente, e quando afinal eu acordava, você continuava sonhando. Com bosques, com ondas, com seios, com sóis, com fomes, com mãos, com coxas. Seus sonhos eram de desejo, e minhas vigílias, de censura.
Volta e meia aparece algum sábio da arraia-miúda para garantir que o espelho é sempre honesto. Honesto porra nenhuma. O espelho é um farsante, um traidor, um pilantra. Esse Renato Valenzuela que aí está, olhando-me com sarcasmo, pálido de tanta insônia, é um frágil arremedo de mim mesmo, um fac-símile sem sangue, uma coisa. Onde está, por exemplo, a palpitação das minhas têmporas, o coração transbordante de conquistas e fracassos, as mãos que não são garras, mas provedoras de carícias?
A imagem do espelho é o que eu não quis ser: um fantoche gasto convocando a morte. Por esses falsos olhos circulam escombros de desejos, que já não consigo sequer vislumbrar, que dirá rememorar. Esse Renato Valenzuela é um epílogo do Renato Valenzuela que digo ser. Que sou. Ou não? Ou será, então, este eu de carne e osso o pobre duplo do que se move nesse espelho? Disse o poeta: “O mar como um vasto cristal azougado/ reflete a lâmina de um céu de zinco.” Esse Renato de cristal azougado refletirá o nada do meu céu de zinco? Ou estará mais próximo do que se diz na estrofe seguinte: “O sol como um vidro redondo e opaco/ com passo de doente caminha para o zênite”?
Onde está, nessa cópia servil que é o espelho, aquele rapaz que seduziu Irene, ou melhor, que foi seduzido por Irene, o que tremeu como uma vara quando ela o enlaçou com seus braços de enigma? Onde ficou aquele que beijou e tornou a beijar seu corpo indescritível, mergulhou cândido nele, feliz sem perceber, tonto de amor?
Não há sombra no espelho. A sombra é dos corpos, não das imagens. Meu filho Braulio tem seis anos de sombra. Nunca o ponho diante do espelho, para que não a perca. Irene, em compensação, não tem mais imagem. Nem sombra. O horror a levou. Há finais de paz, de dor, de inércia, também de horror. O dela foi de horror. Contudo, nos olhos do espelho não está sua morte. Nos olhos de mim mesmo está, sim. É impossível desalojá-la, omiti-la, extraviá-la.
Meu filho me olha com os olhos de Irene. Um rio de tristeza circula por minhas veias, mas me esqueci de chorar. Com meus olhos e com os do espelho. Não trago o Braulio para o espelho para que não se gaste, para que não comece, tão criança, a envelhecer, para que continue a olhar com os olhos de Irene.
Devo esclarecer que tudo isso pertence ao passado. Um passado recente, mas passado. Reconheço que hoje tive uma surpresa. Como todas as manhãs, encarei o espelho e falei com ele. Falei muito. Acho que até gritei com ele. De repente percebi que a boca do espelho permanecia fechada. Tornei a falar, o insultei. E nada. Seus lábios não se moveram. Curiosamente, seu olhar era de retrocesso.
.
Então me senti tomado por um estranho contentamento, um esboço de felicidade.
E não era para menos. Pela primeira vez eu o deixava mudo. Pela primeira vez o derrotara. Inapelavelmente.
Mario Benedetti, “Correio do tempo“
Faz de conta
Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde cintilante de olhos que veem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz de conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranquilidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando.
Clarice Lispector, "Todos as crônicas"
Clarice Lispector, "Todos as crônicas"
Poema para iludir a vida
Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.
Fernando Namora, “Mar de Sargaços”
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.
Fernando Namora, “Mar de Sargaços”
Crocodilo
Numa noite de outono, fazia um calor úmido e eu fui a uma cidade que me era quase desconhecida; a pouca luz das ruas estava atenuada pela umidade e por algumas folhas das arvores. Entrei num café que ficava perto de uma igreja, sentei-me numa mesa do fundo e fiquei pensando na vida. Eu sabia isolar as horas de felicidade e encerrar-me nelas; primeiro roubava com os olhos qualquer coisa descuidada da rua ou do interior das casas e depois a levava para minha solidão. Tinha tanto prazer em olha-la que se as pessoas soubessem teriam me odiado. Talvez não me restasse muito tempo de felicidade. Antes eu havia passado por aquelas cidades dando concertos de piano; as horas de felicidade foram escassas, pois eu vivia na angustia de reunir pessoas que quisessem aprovar a realização de um concerto; tinha de coordena-las, influencia-las e tratar de encontrar algum homem que fosse ativo. Quase sempre isso era como lutar com bêbados lentos e distraídos: quando conseguia trazer um, o outro me escapava. Além disso, eu tinha de estudar e escrever artigos nos jornais.
Fazia algum tempo que eu já não tinha essa preocupação: consegui entrar numa grande firma de meias para mulheres. Havia pensado que as meias eram mais necessárias que os concertos, e que seria mais fácil coloca-las. Um amigo meu disse ao gerente que eu tinha muitas relações femininas, porque era concertista de piano e percorrera muitas cidades: logo, poderia aproveitar a influencia dos concertos para vender meias.
O gerente torceu o nariz; mas aceitou, não só pela influência do meu amigo, mas também porque eu havia tirado o segundo prêmio no texto de propaganda para essas meias. Sua marca era Ilusão. E minha frase tinha sido: “Quem não acaricia, hoje, uma meia Ilusão?”. Mas vender meias acabava se mostrando também muito difícil para mim, e eu esperava que de um momento a outro me chamassem da matriz e me suspendessem as diárias. A principio eu fiz um grande esforço. (A venda de meias não tinha nada a ver com meus concertos: e eu tinha de me entender com ninguém menos que os comerciantes.) Quando encontrava velhos conhecidos, dizia-lhes que a representação de uma grande casa comercial me permitia viajar com independência e não obrigava meus amigos a patrocinar concertos quando não fossem oportunos. Meus concertos jamais foram oportunos. Nessa mesma cidade me apresentaram pretextos pouco comuns: o presidente do Clube estava de mau humor porque eu o havia feito levantar-se da mesa de jogo, e me disse que uma pessoa que tinha muitos parentes morrera e que metade da cidade estava de luto. Então eu lhe dizia: ficarei uns dias para ver se surge naturalmente o desejo de um concerto; mas lhes provocava má impressão o fato de que um concertista vendesse meias. E quanto a colocar meias, toda manhã eu me animava e toda noite desanimava: era como me vestir e me despir. Custava- me renovar a cada instante certa força grosseira necessária para insistir junto a comerciantes sempre apressados. Mas agora já havia me resignado a esperar que me despedissem e tratava de aproveitar enquanto duravam as diárias.
De repente reparei que entrara no café um cego com uma harpa; eu o havia visto de tarde. Decidi ir embora antes de perder a vontade de aproveitar a vida; mas ao passar perto dele tornei a vê-lo com um chapéu de abas mal dobradas e os olhos rodopiando na direção do céu, enquanto fazia esforço para tocar; algumas cordas da harpa tinham sido remendadas, e a madeira clara do instrumento e todo o homem estavam cobertos por uma gordura que eu nunca tinha visto. Pensei em mim e fiquei deprimido.
Quando acendi a luz no meu quarto do hotel, vi minha cama daqueles dias. Estava descoberta. e as varinhas niqueladas me faziam pensar numa jovem doida que se entregasse a qualquer um. Depois de deitado apaguei a luz, mas não conseguia dormir. Torne: a acende-la e a lâmpada surgiu debaixo da cúpula como o globo de um olho sob uma pálpebra escura. Apaguei-a em seguida e quis pensar no negocio das meias, mas por um momenta continuei vendo, no escuro, a cúpula. Tudo isso aconteceu no tempo que um mata-borrão levaria para absorver a tinta derramada.
No outro dia de manha, depois de me vestir e me reanimar, fui ver se o trem da noite tinha me trazido más noticias. Não recebi carta nem telegrama. Decidi percorrer o comercio de uma das principais ruas. Na ponta dessa rua havia uma loja. Ao entrar, me vi num cômodo repleto de trapos e bagatelas até o teto. Só havia um manequim, nu, de tecido vermelho, que tinha uma maçaneta preta no lugar da cabeça. Bati palmas e todos os trapos logo absorveram o ruído. Atrás do manequim apareceu uma menina de uns dez anos que me disse, com maus modos:
– O que quer?
– O dono está?
– Não tem dono. Quem manda aqui e mamãe.
– Ela não está?
– Foi na dona Vicenta e volta logo.
Apareceu um menino de uns três anos. Agarrou-se na saia da irmã e por um momento ficaram em fila o manequim, a menina e o menino. Eu disse:
– Vou esperar.
A menina não respondeu nada. Sentei-me num caixote e comecei a brincar com o irmãozinho. Lembrei que tinha um chocolatinho dos que havia comprado no cinema e o tirei do bolso. O garotinho aproximou-se rapidamente e o tomou de mim. Então pus as mãos no rosto e fingi chorar aos soluços. Tinha tapado os olhos: abri pequenas frestas no escuro que havia no oco de minhas mãos e comecei a olhar para o menino. Ele me observava imóvel e eu chorava cada vez mais alto. Por fim ele se decidiu a por o chocolatinho no meu joelho. Então ri e o devolvi a ele. Mas ao mesmo tempo me dei conta de que eu estava com a cara molhada.
Saí de lá antes que a dona chegasse. Ao passar por uma joalheria me olhei num espelho; meus olhos estavam secos. Depois de almoçar estive no café; mas vi o cego da harpa com os olhos revirando para cima e sai em seguida. Então fui a uma praça solitária num lugar despovoado e me sentei num banco em frente a um muro com uma trepadeira. Ali pensei nas lágrimas da manha. Estava intrigado com o fato de que houvessem saído de mim; e quis estar só, como se me escondesse para fazer andar um brinquedo que, sem querer, tinha feito funcionar poucas horas antes. Tinha um pouco de vergonha, perante mim mesmo, de ter me posto a chorar sem pretexto, embora fosse de brincadeira, como havia feito de manha. Franzi o nariz e os olhos, com um pouco de timidez, para ver se me saiam as lágrimas: mas depois pensei que não deveria buscar o pranto como quem torce um pano de chão, teria de me entregar ao fato com mais sinceridade; então pus as mãos na cara. Aquela atitude teve algo de serio; me comovi inesperadamente, senti certa pena de mim mesmo e as lágrimas começaram a sair.
Fazia um tempo que eu estava chorando quando vi que de cima do muro vinham descendo duas pernas de mulher com meias Ilusão semi-brilhantes. E em seguida notei uma saia verde que se confundia com a trepadeira. Eu não tinha ouvido a escada ser colocada. A mulher estava no último degrau e eu enxuguei rapidamente as lágrimas, mas tornei a por a cabeça baixa, como se estivesse pensativo. A mulher aproximou-se com lentidão e sentou-se do meu lado. Ela tinha descido dando-me as costas e eu não sabia como era sua cara. Por fim me disse:
– O que você tem? Sou uma pessoa em quem você pode confiar...
Transcorreram alguns instantes. Franzi o cenho como que para me esconder e continuar esperando. Nunca havia feito esse gesto e minhas sobrancelhas tremiam. Depois fiz um movimento com a mão como que para começar a falar e ainda não me ocorrera nada que pudesse lhe dizer. Ela tomou de novo a palavra:
– Fale, simplesmente fale. Eu tive filhos e sei o que e penar.
Eu já havia imaginado um rosto para aquela mulher e aquela saia verde. Mas quando disse isso dos filhos e dos sofrimentos, imaginei-a outra. E ao mesmo tempo eu disse:
– A senhora precisa pensar um pouco.
Ela respondeu:
– Nesses assuntos, quanto mais se pensa, pior.
Imediatamente senti cair perto de mim um pano molhado.
Mas na verdade era uma grande folha de plátano carregada de umidade. Em pouco tempo ela voltou a perguntar:
– Diga-me a verdade, como ela é?
A principio achei graça. Depois me veio a lembrança uma namorada que eu tive. Quando eu não queria acompanha-la para caminhar pela beira de um riacho - onde ela havia passeado com o pai quando ele era vivo –, essa minha namorada chorava silenciosamente. Então, embora eu me chateasse em ter que ir sempre para o mesmo lado, condescendia. E pensando nisso me ocorreu dizer à mulher, que agora estava do meu lado:
– Ela era uma mulher que costumava chorar.
A mulher pôs as mãos grandes e meio avermelhadas sobre a saia verde e riu, enquanto me dizia:
– Vocês sempre acreditam nas lágrimas das mulheres.
Pensei nas minhas; senti-me um pouco desconcertado, levantei-me do banco e disse:
– Acho que a senhora está enganada. Mas da mesma forma agradeço seu consolo.
E fui embora sem olhar para ela.
No outro dia, quando a manhã já ia bastante adiantada, entrei numa das lojas mais importantes. O dono estendeu minhas meias no balcão e ficou acariciando-as com seus dedos quadrados um bom tempo. Parecia não ouvir as minhas palavras. Tinha as suíças encanecidas como se tivesse esquecido nelas o creme de barbear.
- Mas, companheiro, um homem tem de ter mais animo...
Então me levantei como que por efeito de uma mola; tirei as duas mãos do rosto e a terceira que tinha no ombro, e disse, com a cara ainda molhada:
– Mas se me faz bem! E tenho muito animo! O que acontece e que as vezes me da isso; e como uma lembrança...
Apesar da expectativa e do silencio que fizeram para minhas palavras, ouvi que uma mulher dizia:
– Ai! Esta chorando por uma lembrança...
Depois o dono anunciou:
– Senhoras, já passou.
Eu sorria e limpava o rosto. Em seguida o amontoado de gente se desfez e apareceu uma mulher pequenina, com olhos de louca, que me disse:
– Eu conheço o senhor. Me parece que o vi em outro lugar, e que o senhor estava agitado.
Pensei que ela teria me visto num concerto, sacudindo- me num final de programa, mas calei a boca. A conversa de todas as mulheres disparou e algumas começaram a ir embora. Ficou comigo a que me conhecia. E se aproximou outra, que me disse:
– Já sei que o senhor vende meias. Por acaso, eu e algumas amigas minhas...
O dono interveio:
– Nao se preocupe. senhora. (E, dirigindo-se a mim:) Venha hoje a tarde.
– Vou embora depois do almoço. Quer duas dúzias?
– Não, fico com meia dúzia...
– A firma não vende menos de uma...
Puxei a caderneta de vendas e comecei a preencher a folha do pedido, escrevendo contra o vidro de uma porta e sem me aproximar do dono. Estava rodeado de mulheres conversando alto. Eu tinha medo que o dono se arrependesse. Por fim assinou o pedido e eu sal junto aos demais.
Rapidamente se soube que me acontecia “aquilo” que a principio era como uma lembrança. Eu chorei noutras lojas e vendi mais meias que de costume. Quando já havia chorado em varias cidades, minhas vendas eram como as de qualquer outro vendedor.
Uma vez me mandaram chamar da matriz - eu já tinha chorado por todo o norte do pais eu esperava minha vez para falar com o gerente e ouvi do cômodo contiguo o que dizia outro vendedor:
– Eu faço o que posso, mas não vou começar a chorar para comprarem!
E a voz doentia do gerente lhe respondeu:
– E preciso fazer qualquer coisa, e também chorar para eles...
O vendedor interrompeu:
– Mas de mim não saem lágrimas!
E depois de um silencio, o gerente:
– Como e quem lhe disse?
– Isso mesmo! Tem um que chora aos jorros...
Passado um tempo, me chamaram e me fizeram chorar diante do gerente, dos chefes de seção e de outros empregados. No começo, quando o gerente me mandou entrar e as coisas ficaram mais claras, ele ria dolorosamente e lhe brotavam lágrimas. Pediu-me, com muito bons modos, uma demonstração e assim que concordei, entraram uns empregados que estavam atrás da porta. Fez-se muito alvoroço, e me pediram que ainda não chorasse. Atrás de um biombo, ouvi dizer:
– Rápido, que um dos vendedores vai chorar.
– E por que?
– E eu vou saber?!
Eu estava sentado ao lado do gerente, no seu grande escritório; tinham chamado um dos donos, mas ele não podia ir. Os rapazes não se calavam e um havia gritado: “Pensa na mamãezinha, assim você chora mais depressa”. Então eu disse ao gerente:
– Quando eles fizerem silencio, eu choro.
Ele, com sua voz de doente, os ameaçou e, depois de alguns instantes de relativo silencio, olhei a copa de uma arvore por uma janela - estávamos no primeiro andar -, pus as mãos no rosto e tratei de chorar. Tinha certo desgosto. Sempre que eu havia chorado, os demais ignoravam meus sentimentos, mas aquelas pessoas sabiam que eu choraria e isso me inibia. Quando por fim me vieram as lágrimas, tirei uma mão do rosto para pegar o lenço e para que vissem minha cara molhada. Uns riam e outros ficavam sérios; então sacudi o rosto violentamente e todos riram. Mas em seguida fizeram silencio e começaram a rir. Eu enxugava as lágrimas enquanto a voz de doente repetia: "Muito bem, muito bem". Talvez todos estivessem decepcionados. E eu me sentia como uma garrafa vazia e suja; queria reagir, estava de mau humor e com vontade de ser mau. Então cheguei ate o gerente e disse a ele:
– Não gostaria que nenhum deles utilizasse o mesmo procedimento para a venda de meias, e desejaria que a casa reconhecesse a minha... iniciativa, e que me desse exclusividade por algum tempo.
– Volte amanha e falaremos disso.
No outro dia o secretario já havia preparado o documento e lia: “A casa se compromete a não utilizar e a fazer respeitar o sistema de propaganda que consiste em chorar...”. Aqui os dois começaram a rir e o gerente disse que aquilo não estava bem. Enquanto redigiam o documento, fui passeando ate o balcão. Atrás dele havia uma moça que falou comigo olhando para mim, e os olhos pareciam pintados por dentro.
– Então, quer dizer que o senhor chora por gosto?
– É verdade.
– Então eu sei mais do que o senhor. O senhor mesmo não sabe que sofre por alguma coisa.
A principio eu fiquei pensativo e depois disse a ela:
– Olhe: não e que eu tenha descoberto a felicidade, mas sei me entender com minha desgraça e sou quase feliz.
Enquanto ia embora - o gerente estava me chamando - ainda pude ver o olhar dela: tinha-o posto em cima de mim como se tivesse deixado uma mão no meu ombro.
Quando voltei as vendas, estava numa cidade pequena. Era um dia triste e eu não tinha vontade de chorar. Queria ficar só, no meu quarto, ouvindo a chuva e pensando que a agua me separava de todo o mundo. Eu viajava escondido atrás de uma careta de lágrimas; mas o rosto não estava cansado.
De repente senti que alguém se aproximara perguntando- me:
- O que esta acontecendo?
Então eu, como um empregado que e surpreendido sem trabalhar, quis retomar minha tarefa e, pondo as mãos no rosto, comecei a soluçar.
Naquele ano, chorei até dezembro, deixei de chorar em janeiro e parte de fevereiro, comecei a chorar de novo depois do carnaval. Esse descanso me fez bem e tornei a chorar com vontade. Nesse meio tempo, eu havia estranhado o êxito das minhas lágrimas e nascera em mim um certo orgulho de chorar. Os vendedores eram muitos mais; mas um ator que representasse algo sem aviso prévio e convencesse o publico com prantos...
Naquele novo ano eu comecei a chorar pelo oeste e cheguei a uma cidade onde meus concertos fizeram sucesso; na segunda vez que lá estive. o publico havia me recebido com uma ovação carinhosa e prolongada: eu agradecia parado junto ao piano e não me deixavam me sentar para iniciar o concerto. Com certeza agora daria, pelo menos, uma audição. Chorei ali, pela primeira vez, no hotel mais luxuoso; foi na hora do almoço e num dia radiante. Já havia comido e tomado café quando. os cotovelos na mesa, cobri o rosto com as mãos. Em poucos instantes, aproximaram-se alguns amigos que eu tinha cumprimentado; deixei-os parados algum tempo e enquanto isso, uma pobre velha - que não sei de onde havia saído - sentou-se a minha mesa, e eu a olhava através dos dedos já molhados. Ela baixava a cabeça e não dizia nada; mas tinha uma cara tão triste que dava vontade de começar a chorar...
No dia em que dei meu primeiro concerto sentia certo nervosismo que me vinha do cansaço; estava na ultima obra da primeira parte do programa e toquei um dos movimentos com demasiada velocidade; já havia tentado me deter; mas fiquei mais desajeitado e não tinha equilíbrio suficiente nem força; não me restou outro recurso senão continuar; mas minhas mãos iam ficando cansadas, eu perdia nitidez, e me dei conta de que não chegaria ao final. Então, antes de pensa-lo, já havia tirado as mãos do teclado e as tinha na cara; era a primeira vez que chorava em cena.
A principio houve murmúrios de surpresa, e não sei por que alguém tentou aplaudir; mas outros vaiaram e eu me levantei. Tapava os olhos com uma mão e com a outra tateava o piano e tratava de sair de cena. Algumas mulheres gritaram pois julgaram que eu cairia na plateia; e eu já ia passar por uma porta do cenário quando alguém me gritou la do galinheiro:
– Crocodilooooo!
Ouvi risadas; mas fui para o camarim, lavei o rosto e apareci em seguida. e com as mãos frescas terminei a primeira parte. Ao final muitas pessoas vieram me cumprimentar e comentou-se essa coisa do “crocodilo”. Eu lhes dizia:
– Acho que quem me gritou isso tem razão: na verdade eu não sei por que choro; o choro vem e não tem remédio; talvez seja tão natural para mim quanto para o crocodilo. Enfim, também não sei por que chora o crocodilo.
Uma das pessoas que haviam me apresentado tinha a cabeça alongada; e como se penteava deixando o cabelo espetado, a cabeça fazia pensar numa escova. Outro da roda o apontou e me disse:
– O amigo aqui é medico. O que diz, doutor?
Fiquei pálido. Ele me olhou com olhos de investigador policial e me perguntou:
– Diga-me uma coisa: quando e que o senhor chora mais, de dia ou de noite?
Lembrei que nunca chorava de noite porque a essa hora não vendia, e respondi:
– Choro unicamente de dia.
Não me lembro das outras perguntas. Mas por fim me aconselhou:
– Não coma came. O senhor tem uma velha intoxicação.
Dali a poucos dias deram uma festa para mim no clube principal. Aluguei um fraque com colete branco impecável e enquanto me olhava no espelho, pensava: “Não dirão que este crocodilo não tem barriga branca. Caramba! Acho que esse bicho tem uma papada como a minha. E é voraz...”.
Ao chegar a Clube encontrei pouca gente. Então percebi que havia chegado cedo demais. Vi um senhor da comissão e disse-lhe que desejava trabalhar um pouco no piano. Desse modo dissimularia o fato de ter me adiantado. Passamos por uma cortina verde e me vi numa grande sala vazia e preparada para o baile. Diante da cortina e no outro extremo da sala estava o piano. Acompanharam-me ate lá o senhor da comissão e o porteiro; enquanto abriam o piano, o senhor - que tinha sobrancelhas pretas e cabelo branco - me dizia que a festa teria muito sucesso, que o diretor do ginásio - amigo meu - faria um discurso muito bonito e que ele já o tinha escutado; procurou lembrar-se de algumas frases, mas depois decidiu que seria melhor não me dizer nada. Pus as mãos no piano e eles se foram. Enquanto tocava, pensei: “Esta noite não vou chorar... ficaria muito feio... o diretor do ginásio e capaz de desejar que eu chore para demonstrar o sucesso do discurso dele. Mas eu não vou chorar por nada deste mundo”.
Fazia tempo que via a cortina verde se mexer; e de repente saiu do meio de suas pregas uma moça alta e de cabelos soltos; fechou os olhos como que para enxergar de longe; olhava para mim e vinha em minha direção, trazendo algo na mão; atrás dela apareceu uma criada que a alcançou e começou a lhe falar de perto. Aproveitei para olhar suas pernas e notei que ela havia posto uma meia só; a cada instante, fazia movimentos que indicavam o fim da conversa; mas a criada continuava falando com ela e as duas voltavam ao assunto como a uma guloseima. Eu continuei tocando o piano e enquanto elas conversavam tive tempo de pensar: “O que será que ela quer com a meia assim?... Vai ver que não ficou boa, e sabendo que sou vendedor...? E logo agora, nesta festa!”.
Veio, por fim, e me disse:
– Com licença, senhor, gostaria que assinasse uma meia para mim.
Primeiro eu ri; e em seguida, tratei de falar com ela como se já tivessem me feito esse pedido outra vezes. Comecei a explicar que a meia e que não resistia a caneta; eu já havia solucionado isso assinando uma etiqueta que depois a interessada colava na meia. Mas enquanto dava essas explicações, demonstrava a experiência de um antigo comerciante que depois se teria feito pianista. A angustia já começava a me invadir quando ela se sentou no banco do piano e, ao vestir a meia, me dizia:
– E uma pena que o senhor tenha me saído tão mentiroso... devia ter me agradecido pela ideia.
Eu havia posto os olhos nas suas pernas; depois os tirei e minhas ideias travaram. Fez-se um silencio de mal-estar. Ela, com a cabeça inclinada, deixava escorrer o cabelo; e debaixo daquela cortina loira as mãos se moviam como se fugissem. Eu continuava calado e ela não terminava nunca. Por fim, a perna fez um movimento de dança, e no pé, em ponta, calçou o sapato na hora de se levantar, as mãos recolheram o cabelo, ela me fez um cumprimento silencioso e foi embora.
Quando começou a entrar gente, fui para o bar. Pensei em pedir uísque. 0 garçom m enumerou muitas marcas, e como eu não conhecia nenhuma, disse a ele:
– Dê-me dessa ultima.
Subi num banco do balcão e procurei não enrugar a cauda do fraque. Em vez de crocodilo, devia estar parecendo um papagaio negro. Estava calado, pensava na moça da meia, e a lembrança de suas mãos apressadas me deixava transtornado.
Senti-me levado para o salão pelo diretor do ginásio. Suspendeu-se o baile por um momento e ele fez seu discurso. Pronunciou varias vezes as palavras “avatares” e “mister”. Quando aplaudiram, levantei os bravos como um regente de orquestra antes de “atacar” e, assim que fizeram silencio, eu disse:
– Agora que devia chorar, não consigo. Também não consigo falar e não quero deixar separados por mais tempo os que hão de se juntar para dançar. - E terminei fazendo um salamaleque.
Depois de minha volta, abracei o diretor do ginásio; por cima de seu ombro via a moça da meia. Ela sorriu para mim, levantou a saia do lado esquerdo e me mostrou o lugar da meia onde havia colado um pequeno retrato meu recortado de um programa. Sorri, cheio de alegria, mas disse uma idiotice que todo mundo repetiu:
– Muito bem, muito bem, a perna do coração.
No entanto, me senti feliz e fui ao bar. Subi de novo num banco e o garçom me perguntou:
– Uísque Cavalo Branco?
E eu, com um gesto de mosqueteiro puxando a espada:
– Cavalo Branco ou Papagaio Negro.
Em pouco tempo veio um rapaz com uma mão escondida nas costas:
– Pocho me disse que o senhor não se importa que o chamem de “Crocodilo”.
– E verdade, eu gosto.
Então ele tirou a mão das costas e me mostrou uma caricatura. Era um grande crocodilo, muito parecido comigo; tinha uma pequena mão na boca, em que os dentes eram o teclado; e na outra mão trazia uma meia dependurada; com ela enxugava as lágrimas.
Quando os amigos me levaram para o hotel, eu pensava em tudo o que havia chorado naquele pais e sentia um prazer maligno em tê-los enganado; considerava-me um burguês da angustia. Mas quando fiquei só no meu quarto, me ocorreu algo inesperado: primeiro me olhei no espelho; tinha a caricatura na mão e olhava alternadamente para o crocodilo e para o meu rosto. De repente, e sem ter me proposto imitar o crocodilo, minha cara, por conta própria, se pôs a chorar. Eu a olhava como a uma irmã de quem ignorava a desgraça. Tinha rugas novas e por entre elas corriam as lágrimas. Apaguei a luz e me deitei. Minha cara continuava chorando; as lágrimas resvalavam pelo nariz e caiam pelo travesseiro.
Fazia algum tempo que eu já não tinha essa preocupação: consegui entrar numa grande firma de meias para mulheres. Havia pensado que as meias eram mais necessárias que os concertos, e que seria mais fácil coloca-las. Um amigo meu disse ao gerente que eu tinha muitas relações femininas, porque era concertista de piano e percorrera muitas cidades: logo, poderia aproveitar a influencia dos concertos para vender meias.
O gerente torceu o nariz; mas aceitou, não só pela influência do meu amigo, mas também porque eu havia tirado o segundo prêmio no texto de propaganda para essas meias. Sua marca era Ilusão. E minha frase tinha sido: “Quem não acaricia, hoje, uma meia Ilusão?”. Mas vender meias acabava se mostrando também muito difícil para mim, e eu esperava que de um momento a outro me chamassem da matriz e me suspendessem as diárias. A principio eu fiz um grande esforço. (A venda de meias não tinha nada a ver com meus concertos: e eu tinha de me entender com ninguém menos que os comerciantes.) Quando encontrava velhos conhecidos, dizia-lhes que a representação de uma grande casa comercial me permitia viajar com independência e não obrigava meus amigos a patrocinar concertos quando não fossem oportunos. Meus concertos jamais foram oportunos. Nessa mesma cidade me apresentaram pretextos pouco comuns: o presidente do Clube estava de mau humor porque eu o havia feito levantar-se da mesa de jogo, e me disse que uma pessoa que tinha muitos parentes morrera e que metade da cidade estava de luto. Então eu lhe dizia: ficarei uns dias para ver se surge naturalmente o desejo de um concerto; mas lhes provocava má impressão o fato de que um concertista vendesse meias. E quanto a colocar meias, toda manhã eu me animava e toda noite desanimava: era como me vestir e me despir. Custava- me renovar a cada instante certa força grosseira necessária para insistir junto a comerciantes sempre apressados. Mas agora já havia me resignado a esperar que me despedissem e tratava de aproveitar enquanto duravam as diárias.
De repente reparei que entrara no café um cego com uma harpa; eu o havia visto de tarde. Decidi ir embora antes de perder a vontade de aproveitar a vida; mas ao passar perto dele tornei a vê-lo com um chapéu de abas mal dobradas e os olhos rodopiando na direção do céu, enquanto fazia esforço para tocar; algumas cordas da harpa tinham sido remendadas, e a madeira clara do instrumento e todo o homem estavam cobertos por uma gordura que eu nunca tinha visto. Pensei em mim e fiquei deprimido.
Quando acendi a luz no meu quarto do hotel, vi minha cama daqueles dias. Estava descoberta. e as varinhas niqueladas me faziam pensar numa jovem doida que se entregasse a qualquer um. Depois de deitado apaguei a luz, mas não conseguia dormir. Torne: a acende-la e a lâmpada surgiu debaixo da cúpula como o globo de um olho sob uma pálpebra escura. Apaguei-a em seguida e quis pensar no negocio das meias, mas por um momenta continuei vendo, no escuro, a cúpula. Tudo isso aconteceu no tempo que um mata-borrão levaria para absorver a tinta derramada.
No outro dia de manha, depois de me vestir e me reanimar, fui ver se o trem da noite tinha me trazido más noticias. Não recebi carta nem telegrama. Decidi percorrer o comercio de uma das principais ruas. Na ponta dessa rua havia uma loja. Ao entrar, me vi num cômodo repleto de trapos e bagatelas até o teto. Só havia um manequim, nu, de tecido vermelho, que tinha uma maçaneta preta no lugar da cabeça. Bati palmas e todos os trapos logo absorveram o ruído. Atrás do manequim apareceu uma menina de uns dez anos que me disse, com maus modos:
– O que quer?
– O dono está?
– Não tem dono. Quem manda aqui e mamãe.
– Ela não está?
– Foi na dona Vicenta e volta logo.
Apareceu um menino de uns três anos. Agarrou-se na saia da irmã e por um momento ficaram em fila o manequim, a menina e o menino. Eu disse:
– Vou esperar.
A menina não respondeu nada. Sentei-me num caixote e comecei a brincar com o irmãozinho. Lembrei que tinha um chocolatinho dos que havia comprado no cinema e o tirei do bolso. O garotinho aproximou-se rapidamente e o tomou de mim. Então pus as mãos no rosto e fingi chorar aos soluços. Tinha tapado os olhos: abri pequenas frestas no escuro que havia no oco de minhas mãos e comecei a olhar para o menino. Ele me observava imóvel e eu chorava cada vez mais alto. Por fim ele se decidiu a por o chocolatinho no meu joelho. Então ri e o devolvi a ele. Mas ao mesmo tempo me dei conta de que eu estava com a cara molhada.
Saí de lá antes que a dona chegasse. Ao passar por uma joalheria me olhei num espelho; meus olhos estavam secos. Depois de almoçar estive no café; mas vi o cego da harpa com os olhos revirando para cima e sai em seguida. Então fui a uma praça solitária num lugar despovoado e me sentei num banco em frente a um muro com uma trepadeira. Ali pensei nas lágrimas da manha. Estava intrigado com o fato de que houvessem saído de mim; e quis estar só, como se me escondesse para fazer andar um brinquedo que, sem querer, tinha feito funcionar poucas horas antes. Tinha um pouco de vergonha, perante mim mesmo, de ter me posto a chorar sem pretexto, embora fosse de brincadeira, como havia feito de manha. Franzi o nariz e os olhos, com um pouco de timidez, para ver se me saiam as lágrimas: mas depois pensei que não deveria buscar o pranto como quem torce um pano de chão, teria de me entregar ao fato com mais sinceridade; então pus as mãos na cara. Aquela atitude teve algo de serio; me comovi inesperadamente, senti certa pena de mim mesmo e as lágrimas começaram a sair.
Fazia um tempo que eu estava chorando quando vi que de cima do muro vinham descendo duas pernas de mulher com meias Ilusão semi-brilhantes. E em seguida notei uma saia verde que se confundia com a trepadeira. Eu não tinha ouvido a escada ser colocada. A mulher estava no último degrau e eu enxuguei rapidamente as lágrimas, mas tornei a por a cabeça baixa, como se estivesse pensativo. A mulher aproximou-se com lentidão e sentou-se do meu lado. Ela tinha descido dando-me as costas e eu não sabia como era sua cara. Por fim me disse:
– O que você tem? Sou uma pessoa em quem você pode confiar...
Transcorreram alguns instantes. Franzi o cenho como que para me esconder e continuar esperando. Nunca havia feito esse gesto e minhas sobrancelhas tremiam. Depois fiz um movimento com a mão como que para começar a falar e ainda não me ocorrera nada que pudesse lhe dizer. Ela tomou de novo a palavra:
– Fale, simplesmente fale. Eu tive filhos e sei o que e penar.
Eu já havia imaginado um rosto para aquela mulher e aquela saia verde. Mas quando disse isso dos filhos e dos sofrimentos, imaginei-a outra. E ao mesmo tempo eu disse:
– A senhora precisa pensar um pouco.
Ela respondeu:
– Nesses assuntos, quanto mais se pensa, pior.
Imediatamente senti cair perto de mim um pano molhado.
Mas na verdade era uma grande folha de plátano carregada de umidade. Em pouco tempo ela voltou a perguntar:
– Diga-me a verdade, como ela é?
A principio achei graça. Depois me veio a lembrança uma namorada que eu tive. Quando eu não queria acompanha-la para caminhar pela beira de um riacho - onde ela havia passeado com o pai quando ele era vivo –, essa minha namorada chorava silenciosamente. Então, embora eu me chateasse em ter que ir sempre para o mesmo lado, condescendia. E pensando nisso me ocorreu dizer à mulher, que agora estava do meu lado:
– Ela era uma mulher que costumava chorar.
A mulher pôs as mãos grandes e meio avermelhadas sobre a saia verde e riu, enquanto me dizia:
– Vocês sempre acreditam nas lágrimas das mulheres.
Pensei nas minhas; senti-me um pouco desconcertado, levantei-me do banco e disse:
– Acho que a senhora está enganada. Mas da mesma forma agradeço seu consolo.
E fui embora sem olhar para ela.
No outro dia, quando a manhã já ia bastante adiantada, entrei numa das lojas mais importantes. O dono estendeu minhas meias no balcão e ficou acariciando-as com seus dedos quadrados um bom tempo. Parecia não ouvir as minhas palavras. Tinha as suíças encanecidas como se tivesse esquecido nelas o creme de barbear.
Nesse instante entraram varias mulheres; e ele, antes de ir, fez que não compraria, com um dos dedos que tinham acariciado as meias. Eu fiquei quieto e pensei em insistir; talvez pudesse me entender com ele, mais tarde, quando não houvesse gente: então lhe falaria de uma erva que, dissolvida n’água lhe tingiria as suíças. As pessoas não iam embora e eu tinha uma impaciência que não era costumeira: queria sair daquela loja, daquela cidade e daquela vida. Pensei em meu pais e em muitas coisas mais. E de repente, quando já estava me tranquilizando, tive uma ideia: “O que aconteceria se eu começasse a chorar aqui, diante dessa gente toda?”. Aquilo me pareceu muito violento; mas eu sentia o desejo, desde algum tempo, de tatear o mundo com algum fato não costumeiro; além disso, eu devia demonstrar para mim mesmo que era capaz de uma grande violência. E antes de me arrepender, sentei-me numa cadeira que estava recostada no balcão; e, rodeado de gente, pus as mãos na cara, e comecei a fazer barulho de soluços. Quase simultaneamente uma mulher deu um grito e disse: “Um homem esta chorando”. E depois ouvi o alvoroço e pedaços de conversa: “Não se aproxime, menina”... “Pode ter recebido alguma má noticia”... “O trem acabou de chegar e ele perdeu a baldeação”... “Pode ter recebido a noticia por telegrama”... Por entre os dedos vi uma gorda que dizia: “E preciso ver como esta o mundo. Se meus filhos não viessem me ver, eu também estaria chorando”. No começo fiquei desesperado porque as lágrimas não me vinham, e até pensei que tomariam como uma trapaça e me levariam preso. Mas a angustia e a força tremenda que fiz me congestionaram e as primeiras lágrimas foram possíveis. Senti uma mão pesada pousar em meu ombro e ao ouvir a voz do dono reconheci os dedos que haviam acariciado as meias. Ele dizia:
- Mas, companheiro, um homem tem de ter mais animo...
Então me levantei como que por efeito de uma mola; tirei as duas mãos do rosto e a terceira que tinha no ombro, e disse, com a cara ainda molhada:
– Mas se me faz bem! E tenho muito animo! O que acontece e que as vezes me da isso; e como uma lembrança...
Apesar da expectativa e do silencio que fizeram para minhas palavras, ouvi que uma mulher dizia:
– Ai! Esta chorando por uma lembrança...
Depois o dono anunciou:
– Senhoras, já passou.
Eu sorria e limpava o rosto. Em seguida o amontoado de gente se desfez e apareceu uma mulher pequenina, com olhos de louca, que me disse:
– Eu conheço o senhor. Me parece que o vi em outro lugar, e que o senhor estava agitado.
Pensei que ela teria me visto num concerto, sacudindo- me num final de programa, mas calei a boca. A conversa de todas as mulheres disparou e algumas começaram a ir embora. Ficou comigo a que me conhecia. E se aproximou outra, que me disse:
– Já sei que o senhor vende meias. Por acaso, eu e algumas amigas minhas...
O dono interveio:
– Nao se preocupe. senhora. (E, dirigindo-se a mim:) Venha hoje a tarde.
– Vou embora depois do almoço. Quer duas dúzias?
– Não, fico com meia dúzia...
– A firma não vende menos de uma...
Puxei a caderneta de vendas e comecei a preencher a folha do pedido, escrevendo contra o vidro de uma porta e sem me aproximar do dono. Estava rodeado de mulheres conversando alto. Eu tinha medo que o dono se arrependesse. Por fim assinou o pedido e eu sal junto aos demais.
Rapidamente se soube que me acontecia “aquilo” que a principio era como uma lembrança. Eu chorei noutras lojas e vendi mais meias que de costume. Quando já havia chorado em varias cidades, minhas vendas eram como as de qualquer outro vendedor.
Uma vez me mandaram chamar da matriz - eu já tinha chorado por todo o norte do pais eu esperava minha vez para falar com o gerente e ouvi do cômodo contiguo o que dizia outro vendedor:
– Eu faço o que posso, mas não vou começar a chorar para comprarem!
E a voz doentia do gerente lhe respondeu:
– E preciso fazer qualquer coisa, e também chorar para eles...
O vendedor interrompeu:
– Mas de mim não saem lágrimas!
E depois de um silencio, o gerente:
– Como e quem lhe disse?
– Isso mesmo! Tem um que chora aos jorros...
A voz doentia começou a rir com esforço e fazendo intervalos de tosse. Depois ouvi murmúrios e passos se afastando.
Passado um tempo, me chamaram e me fizeram chorar diante do gerente, dos chefes de seção e de outros empregados. No começo, quando o gerente me mandou entrar e as coisas ficaram mais claras, ele ria dolorosamente e lhe brotavam lágrimas. Pediu-me, com muito bons modos, uma demonstração e assim que concordei, entraram uns empregados que estavam atrás da porta. Fez-se muito alvoroço, e me pediram que ainda não chorasse. Atrás de um biombo, ouvi dizer:
– Rápido, que um dos vendedores vai chorar.
– E por que?
– E eu vou saber?!
Eu estava sentado ao lado do gerente, no seu grande escritório; tinham chamado um dos donos, mas ele não podia ir. Os rapazes não se calavam e um havia gritado: “Pensa na mamãezinha, assim você chora mais depressa”. Então eu disse ao gerente:
– Quando eles fizerem silencio, eu choro.
Ele, com sua voz de doente, os ameaçou e, depois de alguns instantes de relativo silencio, olhei a copa de uma arvore por uma janela - estávamos no primeiro andar -, pus as mãos no rosto e tratei de chorar. Tinha certo desgosto. Sempre que eu havia chorado, os demais ignoravam meus sentimentos, mas aquelas pessoas sabiam que eu choraria e isso me inibia. Quando por fim me vieram as lágrimas, tirei uma mão do rosto para pegar o lenço e para que vissem minha cara molhada. Uns riam e outros ficavam sérios; então sacudi o rosto violentamente e todos riram. Mas em seguida fizeram silencio e começaram a rir. Eu enxugava as lágrimas enquanto a voz de doente repetia: "Muito bem, muito bem". Talvez todos estivessem decepcionados. E eu me sentia como uma garrafa vazia e suja; queria reagir, estava de mau humor e com vontade de ser mau. Então cheguei ate o gerente e disse a ele:
– Não gostaria que nenhum deles utilizasse o mesmo procedimento para a venda de meias, e desejaria que a casa reconhecesse a minha... iniciativa, e que me desse exclusividade por algum tempo.
– Volte amanha e falaremos disso.
No outro dia o secretario já havia preparado o documento e lia: “A casa se compromete a não utilizar e a fazer respeitar o sistema de propaganda que consiste em chorar...”. Aqui os dois começaram a rir e o gerente disse que aquilo não estava bem. Enquanto redigiam o documento, fui passeando ate o balcão. Atrás dele havia uma moça que falou comigo olhando para mim, e os olhos pareciam pintados por dentro.
– Então, quer dizer que o senhor chora por gosto?
– É verdade.
– Então eu sei mais do que o senhor. O senhor mesmo não sabe que sofre por alguma coisa.
A principio eu fiquei pensativo e depois disse a ela:
– Olhe: não e que eu tenha descoberto a felicidade, mas sei me entender com minha desgraça e sou quase feliz.
Enquanto ia embora - o gerente estava me chamando - ainda pude ver o olhar dela: tinha-o posto em cima de mim como se tivesse deixado uma mão no meu ombro.
Quando voltei as vendas, estava numa cidade pequena. Era um dia triste e eu não tinha vontade de chorar. Queria ficar só, no meu quarto, ouvindo a chuva e pensando que a agua me separava de todo o mundo. Eu viajava escondido atrás de uma careta de lágrimas; mas o rosto não estava cansado.
De repente senti que alguém se aproximara perguntando- me:
- O que esta acontecendo?
Então eu, como um empregado que e surpreendido sem trabalhar, quis retomar minha tarefa e, pondo as mãos no rosto, comecei a soluçar.
Naquele ano, chorei até dezembro, deixei de chorar em janeiro e parte de fevereiro, comecei a chorar de novo depois do carnaval. Esse descanso me fez bem e tornei a chorar com vontade. Nesse meio tempo, eu havia estranhado o êxito das minhas lágrimas e nascera em mim um certo orgulho de chorar. Os vendedores eram muitos mais; mas um ator que representasse algo sem aviso prévio e convencesse o publico com prantos...
Naquele novo ano eu comecei a chorar pelo oeste e cheguei a uma cidade onde meus concertos fizeram sucesso; na segunda vez que lá estive. o publico havia me recebido com uma ovação carinhosa e prolongada: eu agradecia parado junto ao piano e não me deixavam me sentar para iniciar o concerto. Com certeza agora daria, pelo menos, uma audição. Chorei ali, pela primeira vez, no hotel mais luxuoso; foi na hora do almoço e num dia radiante. Já havia comido e tomado café quando. os cotovelos na mesa, cobri o rosto com as mãos. Em poucos instantes, aproximaram-se alguns amigos que eu tinha cumprimentado; deixei-os parados algum tempo e enquanto isso, uma pobre velha - que não sei de onde havia saído - sentou-se a minha mesa, e eu a olhava através dos dedos já molhados. Ela baixava a cabeça e não dizia nada; mas tinha uma cara tão triste que dava vontade de começar a chorar...
No dia em que dei meu primeiro concerto sentia certo nervosismo que me vinha do cansaço; estava na ultima obra da primeira parte do programa e toquei um dos movimentos com demasiada velocidade; já havia tentado me deter; mas fiquei mais desajeitado e não tinha equilíbrio suficiente nem força; não me restou outro recurso senão continuar; mas minhas mãos iam ficando cansadas, eu perdia nitidez, e me dei conta de que não chegaria ao final. Então, antes de pensa-lo, já havia tirado as mãos do teclado e as tinha na cara; era a primeira vez que chorava em cena.
A principio houve murmúrios de surpresa, e não sei por que alguém tentou aplaudir; mas outros vaiaram e eu me levantei. Tapava os olhos com uma mão e com a outra tateava o piano e tratava de sair de cena. Algumas mulheres gritaram pois julgaram que eu cairia na plateia; e eu já ia passar por uma porta do cenário quando alguém me gritou la do galinheiro:
– Crocodilooooo!
Ouvi risadas; mas fui para o camarim, lavei o rosto e apareci em seguida. e com as mãos frescas terminei a primeira parte. Ao final muitas pessoas vieram me cumprimentar e comentou-se essa coisa do “crocodilo”. Eu lhes dizia:
– Acho que quem me gritou isso tem razão: na verdade eu não sei por que choro; o choro vem e não tem remédio; talvez seja tão natural para mim quanto para o crocodilo. Enfim, também não sei por que chora o crocodilo.
Uma das pessoas que haviam me apresentado tinha a cabeça alongada; e como se penteava deixando o cabelo espetado, a cabeça fazia pensar numa escova. Outro da roda o apontou e me disse:
– O amigo aqui é medico. O que diz, doutor?
Fiquei pálido. Ele me olhou com olhos de investigador policial e me perguntou:
– Diga-me uma coisa: quando e que o senhor chora mais, de dia ou de noite?
Lembrei que nunca chorava de noite porque a essa hora não vendia, e respondi:
– Choro unicamente de dia.
Não me lembro das outras perguntas. Mas por fim me aconselhou:
– Não coma came. O senhor tem uma velha intoxicação.
Dali a poucos dias deram uma festa para mim no clube principal. Aluguei um fraque com colete branco impecável e enquanto me olhava no espelho, pensava: “Não dirão que este crocodilo não tem barriga branca. Caramba! Acho que esse bicho tem uma papada como a minha. E é voraz...”.
Ao chegar a Clube encontrei pouca gente. Então percebi que havia chegado cedo demais. Vi um senhor da comissão e disse-lhe que desejava trabalhar um pouco no piano. Desse modo dissimularia o fato de ter me adiantado. Passamos por uma cortina verde e me vi numa grande sala vazia e preparada para o baile. Diante da cortina e no outro extremo da sala estava o piano. Acompanharam-me ate lá o senhor da comissão e o porteiro; enquanto abriam o piano, o senhor - que tinha sobrancelhas pretas e cabelo branco - me dizia que a festa teria muito sucesso, que o diretor do ginásio - amigo meu - faria um discurso muito bonito e que ele já o tinha escutado; procurou lembrar-se de algumas frases, mas depois decidiu que seria melhor não me dizer nada. Pus as mãos no piano e eles se foram. Enquanto tocava, pensei: “Esta noite não vou chorar... ficaria muito feio... o diretor do ginásio e capaz de desejar que eu chore para demonstrar o sucesso do discurso dele. Mas eu não vou chorar por nada deste mundo”.
Fazia tempo que via a cortina verde se mexer; e de repente saiu do meio de suas pregas uma moça alta e de cabelos soltos; fechou os olhos como que para enxergar de longe; olhava para mim e vinha em minha direção, trazendo algo na mão; atrás dela apareceu uma criada que a alcançou e começou a lhe falar de perto. Aproveitei para olhar suas pernas e notei que ela havia posto uma meia só; a cada instante, fazia movimentos que indicavam o fim da conversa; mas a criada continuava falando com ela e as duas voltavam ao assunto como a uma guloseima. Eu continuei tocando o piano e enquanto elas conversavam tive tempo de pensar: “O que será que ela quer com a meia assim?... Vai ver que não ficou boa, e sabendo que sou vendedor...? E logo agora, nesta festa!”.
Veio, por fim, e me disse:
– Com licença, senhor, gostaria que assinasse uma meia para mim.
Primeiro eu ri; e em seguida, tratei de falar com ela como se já tivessem me feito esse pedido outra vezes. Comecei a explicar que a meia e que não resistia a caneta; eu já havia solucionado isso assinando uma etiqueta que depois a interessada colava na meia. Mas enquanto dava essas explicações, demonstrava a experiência de um antigo comerciante que depois se teria feito pianista. A angustia já começava a me invadir quando ela se sentou no banco do piano e, ao vestir a meia, me dizia:
– E uma pena que o senhor tenha me saído tão mentiroso... devia ter me agradecido pela ideia.
Eu havia posto os olhos nas suas pernas; depois os tirei e minhas ideias travaram. Fez-se um silencio de mal-estar. Ela, com a cabeça inclinada, deixava escorrer o cabelo; e debaixo daquela cortina loira as mãos se moviam como se fugissem. Eu continuava calado e ela não terminava nunca. Por fim, a perna fez um movimento de dança, e no pé, em ponta, calçou o sapato na hora de se levantar, as mãos recolheram o cabelo, ela me fez um cumprimento silencioso e foi embora.
Quando começou a entrar gente, fui para o bar. Pensei em pedir uísque. 0 garçom m enumerou muitas marcas, e como eu não conhecia nenhuma, disse a ele:
– Dê-me dessa ultima.
Subi num banco do balcão e procurei não enrugar a cauda do fraque. Em vez de crocodilo, devia estar parecendo um papagaio negro. Estava calado, pensava na moça da meia, e a lembrança de suas mãos apressadas me deixava transtornado.
Senti-me levado para o salão pelo diretor do ginásio. Suspendeu-se o baile por um momento e ele fez seu discurso. Pronunciou varias vezes as palavras “avatares” e “mister”. Quando aplaudiram, levantei os bravos como um regente de orquestra antes de “atacar” e, assim que fizeram silencio, eu disse:
– Agora que devia chorar, não consigo. Também não consigo falar e não quero deixar separados por mais tempo os que hão de se juntar para dançar. - E terminei fazendo um salamaleque.
Depois de minha volta, abracei o diretor do ginásio; por cima de seu ombro via a moça da meia. Ela sorriu para mim, levantou a saia do lado esquerdo e me mostrou o lugar da meia onde havia colado um pequeno retrato meu recortado de um programa. Sorri, cheio de alegria, mas disse uma idiotice que todo mundo repetiu:
– Muito bem, muito bem, a perna do coração.
No entanto, me senti feliz e fui ao bar. Subi de novo num banco e o garçom me perguntou:
– Uísque Cavalo Branco?
E eu, com um gesto de mosqueteiro puxando a espada:
– Cavalo Branco ou Papagaio Negro.
Em pouco tempo veio um rapaz com uma mão escondida nas costas:
– Pocho me disse que o senhor não se importa que o chamem de “Crocodilo”.
– E verdade, eu gosto.
Então ele tirou a mão das costas e me mostrou uma caricatura. Era um grande crocodilo, muito parecido comigo; tinha uma pequena mão na boca, em que os dentes eram o teclado; e na outra mão trazia uma meia dependurada; com ela enxugava as lágrimas.
Quando os amigos me levaram para o hotel, eu pensava em tudo o que havia chorado naquele pais e sentia um prazer maligno em tê-los enganado; considerava-me um burguês da angustia. Mas quando fiquei só no meu quarto, me ocorreu algo inesperado: primeiro me olhei no espelho; tinha a caricatura na mão e olhava alternadamente para o crocodilo e para o meu rosto. De repente, e sem ter me proposto imitar o crocodilo, minha cara, por conta própria, se pôs a chorar. Eu a olhava como a uma irmã de quem ignorava a desgraça. Tinha rugas novas e por entre elas corriam as lágrimas. Apaguei a luz e me deitei. Minha cara continuava chorando; as lágrimas resvalavam pelo nariz e caiam pelo travesseiro.
E assim adormeci. Quando despertei. senti a ardência das lágrimas que haviam secado. Quis me levantar e lavar os olhos: mas tive medo de que a cara começasse a chorar de novo. Fiquei quieto e girava os olhos na escuridão, como aquele cego que tocava harpa.
Felisberto Hernandez
A Câmara das estátuas
Nos primeiros dias, havia no reino dos andaluzes uma cidade em que residiram seus reis e que tinha o nome de Lebtit ou Ceuta, ou Jaén. Havia um forte castelo naquela cidade, cuja porta de dois batentes não era para entrar nem mesmo para sair, mas para que a mantivessem fechada. Cada vez que um rei falecia e outro rei herdava o trono altíssimo, este acrescentava com as mãos uma fechadura nova na porta, até que foram vinte e quatro as fechaduras, uma para cada rei. Aconteceu então que um homem malvado, que não era da casa real, assenhorou-se do poder, e, em lugar de acrescentar uma fechadura, quis que as vinte e quatro anteriores fossem abertas para olhar o conteúdo daquele castelo. O vizir e os emires suplicaram-lhe que não fizesse tal coisa e esconderam dele o chaveiro de ferro e lhe disseram que acrescentar uma fechadura era mais fácil que forçar vinte e quatro, mas ele repetia com astúcia maravilhosa: “Quero examinar o conteúdo deste castelo”. Ofereceram-lhe então quantas riquezas podiam acumular em rebanhos, em ídolos cristãos, em prata e ouro, mas ele não quis desistir e abriu a porta com a mão direita (que arderá para sempre). Lá dentro os árabes estavam representados em metal e madeira, sobre seus rápidos camelos e potros, com turbantes que ondulavam sobre a espádua e alfanjes suspensos por talabartes e a lança em riste na mão direita. Todas aquelas figuras eram em relevo e projetavam sombras no chão, e um cego podia reconhecê-las mediante o simples tato, e as patas dianteiras dos cavalos não tocavam o solo e não caíam, como se tivessem empinado. Grande espanto causaram no rei aquelas primorosas figuras, e mais ainda a ordem e o silêncio perfeito que se observava nelas, porque todas olhavam para um mesmo lado, que era o poente, e não se ouvia nem uma voz nem um clarim. Era isso que havia na primeira câmara do castelo. Na segunda estava a mesa de Salomão, filho de Davi — seja para ambos a salvação! —, talhada numa única pedra esmeralda, cuja cor, como se sabe, é o verde, e cujas propriedades ocultas são indescritíveis e autênticas, porque serena as tempestades, mantém a castidade de seu portador, afugenta a disenteria e os maus espíritos, decide favoravelmente um litígio e é de grande socorro nos partos.
Na terceira acharam dois livros: um era negro e ensinava as virtudes dos metais, dos talismãs e dos dias, assim como a preparação de venenos e de contravenenos; outro era branco e não foi possível decifrar seu ensinamento, embora a escrita fosse clara. Na quarta encontraram um mapa-múndi, no qual estavam os reinos, as cidades, os mares, os castelos e os perigos, cada qual com seu nome verdadeiro e com sua precisa figura.
Na quinta encontraram um espelho em forma circular, obra de Salomão, filho de Davi — seja para ambos o perdão! —, cujo preço era alto, pois era feito de diversos metais e quem se mirasse em sua face veria os rostos de seus pais e de seus filhos, desde o primeiro Adão até os que ouvirão a Trombeta. A sexta estava cheia de elixir, do qual um único adarme bastava para mudar três mil onças de prata em três mil onças de ouro. A sétima pareceu-lhes vazia e era tão longa que o mais hábil dos arqueiros teria podido disparar uma flecha da porta sem conseguir cravá-la no fundo. Na parede final viram gravada uma inscrição terrível.
Essas coisas aconteceram no ano 89 da Hégira. Antes que chegasse a seu fim, Tárik apoderou-se daquela fortaleza e derrotou aquele rei e vendeu suas mulheres e seus filhos e desolou suas terras. Assim foram se expandindo os árabes pelo reino de Andaluzia, com suas figueiras e pradarias irrigadas nas quais não se padece de sede. Quanto aos tesouros, conta-se que Tárik, filho de Zaid, remeteu-os ao califa seu senhor, que os guardou numa pirâmide.
(Do Livro das mil e uma noites, noite 272)
Na terceira acharam dois livros: um era negro e ensinava as virtudes dos metais, dos talismãs e dos dias, assim como a preparação de venenos e de contravenenos; outro era branco e não foi possível decifrar seu ensinamento, embora a escrita fosse clara. Na quarta encontraram um mapa-múndi, no qual estavam os reinos, as cidades, os mares, os castelos e os perigos, cada qual com seu nome verdadeiro e com sua precisa figura.
Na quinta encontraram um espelho em forma circular, obra de Salomão, filho de Davi — seja para ambos o perdão! —, cujo preço era alto, pois era feito de diversos metais e quem se mirasse em sua face veria os rostos de seus pais e de seus filhos, desde o primeiro Adão até os que ouvirão a Trombeta. A sexta estava cheia de elixir, do qual um único adarme bastava para mudar três mil onças de prata em três mil onças de ouro. A sétima pareceu-lhes vazia e era tão longa que o mais hábil dos arqueiros teria podido disparar uma flecha da porta sem conseguir cravá-la no fundo. Na parede final viram gravada uma inscrição terrível.
O rei examinou-a e compreendeu-a, e dizia assim: “Se alguma mão abrir a porta deste castelo, os guerreiros de carne que se parecem aos guerreiros de metal da entrada se apoderarão do reino”.
Essas coisas aconteceram no ano 89 da Hégira. Antes que chegasse a seu fim, Tárik apoderou-se daquela fortaleza e derrotou aquele rei e vendeu suas mulheres e seus filhos e desolou suas terras. Assim foram se expandindo os árabes pelo reino de Andaluzia, com suas figueiras e pradarias irrigadas nas quais não se padece de sede. Quanto aos tesouros, conta-se que Tárik, filho de Zaid, remeteu-os ao califa seu senhor, que os guardou numa pirâmide.
(Do Livro das mil e uma noites, noite 272)
Jorge Luís Borges, "História universal da infâmia"
quarta-feira, outubro 21
Meu reino por um pente
Filhos - diz o poeta - melhor não tê-los. Já o Professor Aníbal Machado me confiou gravemente que a vida pode ter muito sofrimento, o mundo pode não ter explicação alguma, mas, filhos, era melhor tê-los.
A conclusão parece simples, mas não era; Aníbal tinha ido às raízes da vida, e de lá arrancara a certeza imperativa de que a procriação é uma verdade animal, uma coisa que não se discute, fora de alcance do radar filosófico. “Eu não sei por que, Paulo, mas fazer filhos é o que há de mais importante”.
Engraçado é que depois dessa conversa fui descobrindo devagar a melancólica impostura daquelas palavras corrosivas do final de Memórias Póstumas: “não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.
Filhos, melhor tê-los, aliás, o mesmo poeta corrige antiteticamente o pessimismo daquele verso, quando pergunta: mas, se não os temos, como sabê-lo? Resumindo: filhos, melhor não tê-los, mas é de todo indispensável tê-los para sabê-lo; logo, melhor tê-los.
Você vai se rir de mim ao saber que comecei a crônica desse jeito depois de procurar em vão meu bloco de papel. Pois se ria a valer: o desaparecimento de certos objetos tem o dom de conclamar, por um rápido edital, todas as brigadas neuróticas alojadas nas províncias de meu corpo.
Sobretudo instrumentos de trabalho. Vai-se-me por água a baixo o comedimento quando não acho minha caneta, meu lápis-tinta, meu papel, minha cola... Quando isso acontece (sempre) até taquicardia costumo ter; vem-me a tentação de demitir-me do emprego, de ir para uma praia deserta, de voltar para Minas Gerais, renunciar...
Ridículo? Sim, ridículo, mas nada posso fazer. Creio que seria capaz (talvez seja presunção) de aguentar com relativa indiferença uma hecatombe que destruísse de vez todos os meus pertences. O que não suporto é a repetição indefinida do desaparecimento desses objetos sem nenhum valor, mas, sem os quais, a gente não pode seguir adiante, tem de parar, tem de resolver primeiro.
Stanislaw Ponte Preta andou espalhando que eu usava ventilador para pentear os cabelos. Calúnia. Sou o maior comprador de pentes do Estado da Guanabara.
Chego em casa com os meus pentes e os distribuo a mancheias. Dois para você, quatro para você - segundo o temperamento e a distração de cada um. Aviso a todos que vou colocar um no armário do quarto, um no banheiro, um em cada mesa de cabeceira, dois na minha gaveta. Terminada essa operação ostensiva, fico malicioso e furtivo; secretamente, vou escondendo outros pentes por todos os cantos e recantos, debaixo do colchão, no alto de um móvel, atrás do exemplar dos Suspiros Poéticos e Saudades. Em seguida, reúno solenemente toda a família, inclusive o Poppy, tiro do bolso um pente singular, o mais ordinário encontrável na praça, e digo: “Este é o meu pente; este ninguém usa; neste, sob pretexto algum, ninguém toca! Estão todos de acordo? Ou algum dos presentes deseja fazer alguma objeção?”
Estão todos de acordo. A sinceridade do meu clã nesses momentos é de tal qualidade que, por um dia ou dois, tenho a ilusão de que, afinal, venci, de que descobri o approach certo para a família incerta. Mas, meu São Luís de Camões, ó caminhos da vida, sempre errados! Os dias passam, o vento passa a descabelar-nos, e os meus pentes, os meus pentes também passam. Misteriosamente, inexplicavelmente, eles desaparecem, pouco a pouco, com certa malícia, um a um, dois a dois, até chegar o momento dramático no qual, depois de vasculhar todos os meus esconderijos, fico em cabelos no meio da sala e, como Ricardo III em plena batalha, exclamo patético: “Um pente, um pente, meu reino por um pente!”.
Eu não fui - diz o primeiro; - eu não fui - diz o segundo; - eu não fui - diz o terceiro. Poppy, cuja especialidade é comer meias e sapatos, não diz nada, mas abana o rabo negativamente.
Não foi ninguém, foi Mr. Nobody, foi o diabo, foi a minha sina. Minha mansão tem apenas três quartos e uma sala. Pois é inacreditável a quantidade de objetos que estão desaparecidos aqui dentro. Um dia, quando me mudar, a gente vai achar tudo.
E sorrir um para o outro com uma nostalgia imprecisa, e dizer em silêncio que, filhos, e pais, melhor tê-los.
A conclusão parece simples, mas não era; Aníbal tinha ido às raízes da vida, e de lá arrancara a certeza imperativa de que a procriação é uma verdade animal, uma coisa que não se discute, fora de alcance do radar filosófico. “Eu não sei por que, Paulo, mas fazer filhos é o que há de mais importante”.
Engraçado é que depois dessa conversa fui descobrindo devagar a melancólica impostura daquelas palavras corrosivas do final de Memórias Póstumas: “não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.
Filhos, melhor tê-los, aliás, o mesmo poeta corrige antiteticamente o pessimismo daquele verso, quando pergunta: mas, se não os temos, como sabê-lo? Resumindo: filhos, melhor não tê-los, mas é de todo indispensável tê-los para sabê-lo; logo, melhor tê-los.
Você vai se rir de mim ao saber que comecei a crônica desse jeito depois de procurar em vão meu bloco de papel. Pois se ria a valer: o desaparecimento de certos objetos tem o dom de conclamar, por um rápido edital, todas as brigadas neuróticas alojadas nas províncias de meu corpo.
Sobretudo instrumentos de trabalho. Vai-se-me por água a baixo o comedimento quando não acho minha caneta, meu lápis-tinta, meu papel, minha cola... Quando isso acontece (sempre) até taquicardia costumo ter; vem-me a tentação de demitir-me do emprego, de ir para uma praia deserta, de voltar para Minas Gerais, renunciar...
Ridículo? Sim, ridículo, mas nada posso fazer. Creio que seria capaz (talvez seja presunção) de aguentar com relativa indiferença uma hecatombe que destruísse de vez todos os meus pertences. O que não suporto é a repetição indefinida do desaparecimento desses objetos sem nenhum valor, mas, sem os quais, a gente não pode seguir adiante, tem de parar, tem de resolver primeiro.
Stanislaw Ponte Preta andou espalhando que eu usava ventilador para pentear os cabelos. Calúnia. Sou o maior comprador de pentes do Estado da Guanabara.
Compro-os em quantidades industriais pelo menos duas vezes por mês, de todos os tamanhos, de todas as cores. Sou quase amigo de infância do vendedor de pentes que estaciona ali na esquina de Pedro Lessa e Rua México. A princípio, pensou que eu estava substabelecendo o comércio dele, comprando para vender mais caro, mas um dia eu lhe contei minha tragédia familiar, e ele sorriu e confessou: “Lá em casa é a mesma coisa”.
Chego em casa com os meus pentes e os distribuo a mancheias. Dois para você, quatro para você - segundo o temperamento e a distração de cada um. Aviso a todos que vou colocar um no armário do quarto, um no banheiro, um em cada mesa de cabeceira, dois na minha gaveta. Terminada essa operação ostensiva, fico malicioso e furtivo; secretamente, vou escondendo outros pentes por todos os cantos e recantos, debaixo do colchão, no alto de um móvel, atrás do exemplar dos Suspiros Poéticos e Saudades. Em seguida, reúno solenemente toda a família, inclusive o Poppy, tiro do bolso um pente singular, o mais ordinário encontrável na praça, e digo: “Este é o meu pente; este ninguém usa; neste, sob pretexto algum, ninguém toca! Estão todos de acordo? Ou algum dos presentes deseja fazer alguma objeção?”
Estão todos de acordo. A sinceridade do meu clã nesses momentos é de tal qualidade que, por um dia ou dois, tenho a ilusão de que, afinal, venci, de que descobri o approach certo para a família incerta. Mas, meu São Luís de Camões, ó caminhos da vida, sempre errados! Os dias passam, o vento passa a descabelar-nos, e os meus pentes, os meus pentes também passam. Misteriosamente, inexplicavelmente, eles desaparecem, pouco a pouco, com certa malícia, um a um, dois a dois, até chegar o momento dramático no qual, depois de vasculhar todos os meus esconderijos, fico em cabelos no meio da sala e, como Ricardo III em plena batalha, exclamo patético: “Um pente, um pente, meu reino por um pente!”.
Eu não fui - diz o primeiro; - eu não fui - diz o segundo; - eu não fui - diz o terceiro. Poppy, cuja especialidade é comer meias e sapatos, não diz nada, mas abana o rabo negativamente.
Não foi ninguém, foi Mr. Nobody, foi o diabo, foi a minha sina. Minha mansão tem apenas três quartos e uma sala. Pois é inacreditável a quantidade de objetos que estão desaparecidos aqui dentro. Um dia, quando me mudar, a gente vai achar tudo.
E sorrir um para o outro com uma nostalgia imprecisa, e dizer em silêncio que, filhos, e pais, melhor tê-los.
Paulo Mendes Campos, "Elenco de cronistas modernos"
A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtam
Quando o coágulo de sangue explodiu na cabeça de Jeffrey Curtam, algo nele foi cortado, como uma mangueira ou um caule. E o seu pensamento viu-se subitamente decepado do corpo.
Sem espanto, porque a dor lancinante não teve sequer o tempo de traduzir-se em grito antes que aquela estranha guilhotina o truncasse na boca. Passado isso, nada mais havia a não ser a nova dimensão.
— O Dr. Jewett acha que não há esperança — repetia a enfermeira em voz baixa, aos eventuais visitantes. — O Sr. Curtam poderá viver indefinidamente, mas não tornará a ver. Nem se mexerá, nem pensará. Apenas respirará.
Talvez fosse mais correto dizer que luzia. Pois nada do que havia vivido até então se assemelhava à luz límpida e pura por ele agora gerada na óssea escuridão da sua caverna. Jeffrey Curtam havia-se livrado para sempre da escravidão da coerência. Sua mente, solta, tudo se permitia, tudo realizava.
Aos poucos, a camada de pintura branca que cobria a casa de Jeffrey entrou em entendimento definitivo com o sol e com a chuva, fundindo sua obediência a ambos numa única tonalidade cinzenta, que somente sob as calhas permitia-se escurecer. Começou a descascar. Enormes escamas quebradiças abriam-se feito conchas na velha superfície, entregando a madeira ao tempo, sem que pérola rolasse.
Crescia a grama ao redor, manchada aqui e acolá pelas lascas mais frágeis que em constante outono desprendiam-se das paredes e caíam volteando, enquanto na imobilidade do corpo de Jeffrey, outro movimento se processava. Vinda dos pés — ou seria da nuca? — a paralisia que já lhe havia tomado os membros rastejava por dentro, buscando alcançar-lhe o coração. Na cidadezinha, todos se referiam a ele como se já estivesse morto. E todas as manhãs, sua mulher o barbeava e lavava, mudando-o, ela mesma, da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, falando-lhe como se fala a um cão amigo, embora sem ter sequer a esperança da resposta ou reconhecimento de que um cão é capaz. Nada lhe vinha daquele corpo, além do hábito.
Mas Roxanne falava sem esforço, com a mesma doçura dos primeiros dias, evitando perguntar-se se o fazia para evitar seu próprio silêncio ou se para preencher com suas palavras o silêncio que dele parecia emanar.
Sem que ela pudesse ouvir, por trás dos cabelos ralos e quase brancos, por trás da pele apergaminhada, por trás da espessa barreira dos ossos, um silêncio cheio de sons e palavras tecia sua sinfonia no cérebro de Jeffrey. Nunca mais ele havia precisado se expressar de forma audível ou legível. Nunca mais ele havia pensado para outros. Pensando só para si, seguia o fio sinuoso e inquebrável dos seus desejos, deixando-se escorrer por ele como em água, sem saltos ou fraturas. A fabulação, que havia sido sua forma de viver, tornava-se sua vida. E ali deitado, imóvel, Jeffrey criava e costurava, uma após a outra, as imagens da longa narrativa.
Um neurologista — fama convocada para validar o que vários outros já haviam afirmado — tentou convencer Roxanne de que era inútil dispensar tamanho cuidado ao enfermo. “Se Jeffrey tivesse consciência do seu estado”, disse em voz autoritariamente piedosa, “desejaria morrer. Desejaria libertar-se da prisão do próprio corpo.
Mas Jeffrey não desejava morrer. Assim como não desejava livrar-se do próprio corpo. Esse corpo que, sem movimentos, atrofiava-se aos poucos sobre a cama, não lhe era prisão. Nem lhe fazia falta. Antes, havia sido necessário ocupar-se dele, vigiar seus alarmas, suas dores, seus sintomas, lutar diariamente para atender sua fome inesgotável, protegê-lo. Antes havia sido imperioso servi-lo, e às suas exigências. Talvez então lhe fosse mais prisão do que agora, quando, impedido o contato entre o pensamento e suas carnes, eram elas que o serviam.
De alguma forma, poderia-se dizer que Jeffrey não tinha consciência do seu estado. Mas isso, não porque estivesse impedido de percebê-lo. E sim porque, na longa travessia na qual seu pensamento estava empenhado, o fato de não falar ou mover-se parecia tão menor que se via excluído. Jamais, olhando o vivo cadáver do marido, suspeitaria Roxanne da intensa movimentação que o habitava. Sem gesto que o cansasse, Jeffrey não dormia, seu estado era um só. E nesse estado, de absoluta entrega e absoluta atenção, ele mudava de tempo e de país, dialogava com os vivos e agia com os mortos, dançava como nunca havia dançado, cavalgava, respirava no fundo da água, e voava, voava.
Longas vezes, enfastiado talvez da tanta agitação, o cérebro de Jeffrey deixava-se ficar, girando apenas ao redor de um pensamento, envolvendo-o nos fios prateados das suas ideias, aprumando-lhe as formas e o sentido, até vê-lo crescer, tão intenso como se a vida não lhe tivesse sido dada ali, mas apenas explodisse naquele momento, carga milenar que desde sempre trazia consigo. Erguiam-se então na pálida atmosfera do quarto as invisíveis torres, e os sinos badalavam ensurdecedores no cérebro de Jeffrey. Sem que seu som cortasse o ar pesado do cheiro de remédios.
Os anos haviam devorado o seguro de Jeffrey. Roxanne fora obrigada a vender uma parte da terra atrás da casa, depois a abrir mão de uma faixa de jardim à direita. Uma hipoteca tornara-se inevitável.
E no entanto, como nos primeiros dias, quando a doença se manifestara e ainda parecia possível reverter o destino, ela continuava a amar o marido. Amava, em verdade, aquele homem que havia antes, e que ela teimava em sobrepor a esta pálida coisa cada dia menor e mais leve, coisa quase humana que ainda transportava da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, como se carregasse um fardo ou um feto.
— Que mais posso eu fazer? — perguntava-se puxando de leve as cortinas, não fosse o sol bater sobre o pobre rosto que, único movimento perceptível, parecia voltar-se sempre em direção à luz.
Uma luz quente derramava-se sobre as imagens dos pensamentos de Jeffrey, naquela tarde em que, pela primeira vez depois de tanto tempo, sentiu que seu corpo o chamava. Desobstruíam-se os ouvidos, sons alheios aos seus lhe chegavam como ruído de cachoeira, ou vento, ou cantoria. As placas ósseas da sua fronte, as maçãs do seu rosto abriam-se como batentes empurrados por dentro e o sol, com intensidade nunca antes alcançada, vinha expulsá-lo da caverna.
O fio do pensamento de Jeffrey lançou-se para aquela luz.
Roxanne, que cochilava na cadeira ao pé da cama, acordou sobressaltada. Estendeu a mão para tocar o marido. Não foi preciso. Antes mesmo de olhá-lo, soube que estava sozinha na casa. Recolheu a mão ao colo, segurou-a com a outra, e deixou-se ficar. O sol se pôs. O perfume dos lilases pareceu enlouquecer as cigarras, o coaxar das rãs pairou sobre o peitoril da janela. Só então Roxanne levantou-se.
Marina Colasanti, "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século"
Sem espanto, porque a dor lancinante não teve sequer o tempo de traduzir-se em grito antes que aquela estranha guilhotina o truncasse na boca. Passado isso, nada mais havia a não ser a nova dimensão.
— O Dr. Jewett acha que não há esperança — repetia a enfermeira em voz baixa, aos eventuais visitantes. — O Sr. Curtam poderá viver indefinidamente, mas não tornará a ver. Nem se mexerá, nem pensará. Apenas respirará.
De fato, Jeffrey respirava. Os pulmões, egoisticamente alheios à situação do restante do corpo, continuavam exercendo sua tarefa com a mesma fiel regularidade com que durante tantos anos lhe haviam fornecido aquele ar indispensável para que se levantasse a cada manhã, e a cada manhã se barbeasse dando a partida para mais um dia, que haveria de catapultá-lo da mesa de refeições para a mesa de trabalho, diante da máquina de escrever e dos contos que produzia para alimentar o próprio corpo, e com ele os próprios pulmões encarregados de fornecer aquele ar indispensável para. Jeffrey teria ficado orgulhoso dos seus pulmões, se apenas se desse conta de que funcionavam, ou sequer de que os tinha. Mas, apesar do corpo de Jeffrey continuar possuindo pulmões e outros órgãos em perfeito estado de funcionamento, seu cérebro os desconhecia e comportava-se como se deles não necessitasse. Assim como não necessitava da visão ou da audição. Cortadas as ligações que o haviam ancorado ao resto do corpo, o cérebro de Jeffrey Curtam não dava mais ordens. E os médicos, enganados pelo silêncio dessa voz de comando, haviam decretado sua morte, entretanto, emparedado na caixa craniana cujos orifícios a ruptura havia vedado com sangue espesso como chumbo, o cérebro pensava.
Talvez fosse mais correto dizer que luzia. Pois nada do que havia vivido até então se assemelhava à luz límpida e pura por ele agora gerada na óssea escuridão da sua caverna. Jeffrey Curtam havia-se livrado para sempre da escravidão da coerência. Sua mente, solta, tudo se permitia, tudo realizava.
Aos poucos, a camada de pintura branca que cobria a casa de Jeffrey entrou em entendimento definitivo com o sol e com a chuva, fundindo sua obediência a ambos numa única tonalidade cinzenta, que somente sob as calhas permitia-se escurecer. Começou a descascar. Enormes escamas quebradiças abriam-se feito conchas na velha superfície, entregando a madeira ao tempo, sem que pérola rolasse.
Crescia a grama ao redor, manchada aqui e acolá pelas lascas mais frágeis que em constante outono desprendiam-se das paredes e caíam volteando, enquanto na imobilidade do corpo de Jeffrey, outro movimento se processava. Vinda dos pés — ou seria da nuca? — a paralisia que já lhe havia tomado os membros rastejava por dentro, buscando alcançar-lhe o coração. Na cidadezinha, todos se referiam a ele como se já estivesse morto. E todas as manhãs, sua mulher o barbeava e lavava, mudando-o, ela mesma, da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, falando-lhe como se fala a um cão amigo, embora sem ter sequer a esperança da resposta ou reconhecimento de que um cão é capaz. Nada lhe vinha daquele corpo, além do hábito.
Mas Roxanne falava sem esforço, com a mesma doçura dos primeiros dias, evitando perguntar-se se o fazia para evitar seu próprio silêncio ou se para preencher com suas palavras o silêncio que dele parecia emanar.
Sem que ela pudesse ouvir, por trás dos cabelos ralos e quase brancos, por trás da pele apergaminhada, por trás da espessa barreira dos ossos, um silêncio cheio de sons e palavras tecia sua sinfonia no cérebro de Jeffrey. Nunca mais ele havia precisado se expressar de forma audível ou legível. Nunca mais ele havia pensado para outros. Pensando só para si, seguia o fio sinuoso e inquebrável dos seus desejos, deixando-se escorrer por ele como em água, sem saltos ou fraturas. A fabulação, que havia sido sua forma de viver, tornava-se sua vida. E ali deitado, imóvel, Jeffrey criava e costurava, uma após a outra, as imagens da longa narrativa.
Um neurologista — fama convocada para validar o que vários outros já haviam afirmado — tentou convencer Roxanne de que era inútil dispensar tamanho cuidado ao enfermo. “Se Jeffrey tivesse consciência do seu estado”, disse em voz autoritariamente piedosa, “desejaria morrer. Desejaria libertar-se da prisão do próprio corpo.
Mas Jeffrey não desejava morrer. Assim como não desejava livrar-se do próprio corpo. Esse corpo que, sem movimentos, atrofiava-se aos poucos sobre a cama, não lhe era prisão. Nem lhe fazia falta. Antes, havia sido necessário ocupar-se dele, vigiar seus alarmas, suas dores, seus sintomas, lutar diariamente para atender sua fome inesgotável, protegê-lo. Antes havia sido imperioso servi-lo, e às suas exigências. Talvez então lhe fosse mais prisão do que agora, quando, impedido o contato entre o pensamento e suas carnes, eram elas que o serviam.
De alguma forma, poderia-se dizer que Jeffrey não tinha consciência do seu estado. Mas isso, não porque estivesse impedido de percebê-lo. E sim porque, na longa travessia na qual seu pensamento estava empenhado, o fato de não falar ou mover-se parecia tão menor que se via excluído. Jamais, olhando o vivo cadáver do marido, suspeitaria Roxanne da intensa movimentação que o habitava. Sem gesto que o cansasse, Jeffrey não dormia, seu estado era um só. E nesse estado, de absoluta entrega e absoluta atenção, ele mudava de tempo e de país, dialogava com os vivos e agia com os mortos, dançava como nunca havia dançado, cavalgava, respirava no fundo da água, e voava, voava.
Longas vezes, enfastiado talvez da tanta agitação, o cérebro de Jeffrey deixava-se ficar, girando apenas ao redor de um pensamento, envolvendo-o nos fios prateados das suas ideias, aprumando-lhe as formas e o sentido, até vê-lo crescer, tão intenso como se a vida não lhe tivesse sido dada ali, mas apenas explodisse naquele momento, carga milenar que desde sempre trazia consigo. Erguiam-se então na pálida atmosfera do quarto as invisíveis torres, e os sinos badalavam ensurdecedores no cérebro de Jeffrey. Sem que seu som cortasse o ar pesado do cheiro de remédios.
Os anos haviam devorado o seguro de Jeffrey. Roxanne fora obrigada a vender uma parte da terra atrás da casa, depois a abrir mão de uma faixa de jardim à direita. Uma hipoteca tornara-se inevitável.
E no entanto, como nos primeiros dias, quando a doença se manifestara e ainda parecia possível reverter o destino, ela continuava a amar o marido. Amava, em verdade, aquele homem que havia antes, e que ela teimava em sobrepor a esta pálida coisa cada dia menor e mais leve, coisa quase humana que ainda transportava da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, como se carregasse um fardo ou um feto.
— Que mais posso eu fazer? — perguntava-se puxando de leve as cortinas, não fosse o sol bater sobre o pobre rosto que, único movimento perceptível, parecia voltar-se sempre em direção à luz.
Uma luz quente derramava-se sobre as imagens dos pensamentos de Jeffrey, naquela tarde em que, pela primeira vez depois de tanto tempo, sentiu que seu corpo o chamava. Desobstruíam-se os ouvidos, sons alheios aos seus lhe chegavam como ruído de cachoeira, ou vento, ou cantoria. As placas ósseas da sua fronte, as maçãs do seu rosto abriam-se como batentes empurrados por dentro e o sol, com intensidade nunca antes alcançada, vinha expulsá-lo da caverna.
O fio do pensamento de Jeffrey lançou-se para aquela luz.
Roxanne, que cochilava na cadeira ao pé da cama, acordou sobressaltada. Estendeu a mão para tocar o marido. Não foi preciso. Antes mesmo de olhá-lo, soube que estava sozinha na casa. Recolheu a mão ao colo, segurou-a com a outra, e deixou-se ficar. O sol se pôs. O perfume dos lilases pareceu enlouquecer as cigarras, o coaxar das rãs pairou sobre o peitoril da janela. Só então Roxanne levantou-se.
Marina Colasanti, "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século"
O túmulo da Múmia
Tinha vindo ao museu pesquisar sobre o Egito para o meu caderno de História. Passei pela enorme arcada e entrei na primeira das cinco salas que constituíam a coleção egípcia. As paredes altas pareciam húmidas e sombrias. A única coisa que iluminava a sala era a serena luz cinzenta de um dia de chuva. Sombras escuras espreitavam por trás das vitrinas e das estátuas, escondendo‑se nos cantos. Um cheiro bolorento dominava o ar gelado que me atravessava os ossos.
Nesta sala havia sobretudo cópias de mobiliário. Poucas peças verdadeiras enfeitavam as paredes.
A quinta sala, porém, fascinou‑me. As paredes estavam cobertas de velhos sarcófagos, e no centro deste misterioso lugar estendia‑se uma fileira de vitrinas baixas. Controlei o meu entusiasmo pelas múmias e aproximei‑me primeiro da fileira de mesas. O meu olhar distraído foi subitamente arrebatado por algo que brilhava no meio dos pendentes. Passou‑me pela cabeça que fosse um olho. Um olho humano! Costumo gabar‑me de possuir um temperamento calmo, resistente e curioso, mas naquele momento comecei a tremer por dentro e por fora. A roupa colava‑se‑me ao corpo, úmida de suor, ao mesmo tempo que um calafrio gélido me subia pelas costas. Enquanto tentava refazer os resquícios confusos daquilo a que gosto de chamar a minha compostura, li a legenda por baixo do olho. Era apenas feito de ágata! No entanto, sob o meu olhar frenético, tinha um aspecto gelatinoso, e a pupila parecia dilatar‑se ao fitar‑me.
Afastei‑me com alívio da vitrina e apressei‑me a ver os seis sarcófagos. Os primeiros cinco eram interessantes: tinham‑se soltado algumas lascas de tinta, o que lhes dava um agradável ar de antiguidade. Os rostos lisos e sérios desenhados no exterior dos sarcófagos olhavam diretamente para cima, como se tentassem ver além do pesado teto e obter um vislumbre dos céus soalheiros que não avistavam há tantos anos. Parei, espantada, em frente do sexto sarcófago. Dele saía um forte odor a carne putrefata!
— É claro que não pode haver nenhuma múmia antiga aqui — disse para comigo.
De repente, ocorreu‑me uma ideia horripilante… mas era demasiado improvável, demasiado horrível, para ser concebida pela mente humana. Enquanto pensava nisso, ouvi passos furtivos atrás de mim. Virei‑me depressa.
Na minha cabeça, imaginei toda a espécie de espetros sangrentos. No entanto, senti‑me tranquilizada por uma risada rouca provinda do velhote enrugado ao meu lado ao perceber a minha surpresa. Disse‑me então:
— Estava a observá‑la de trás daquela coluna ali; vi‑a a admirar o globo ocular na vitrina. Parece real, não é?
Durante toda a noite, fui assombrada por ideias terríveis. Não conseguia adormecer, porque visões assustadoras de olhos líquidos e múmias vivas desfilavam diante de mim. Tentei convencer‑me de que o facto de o olho ser real não passava de uma invenção do velhote, mas foi em vão.
Ainda estava a chover, quando os primeiros sinais da madrugada surgiram no horizonte. Acordei e vesti‑me. Depois comecei a refletir sobre a melhor estratégia a seguir. Não era altura para gestos imprudentes. Às cinco e meia da tarde o museu fechava, e eu não poderia escapar ao sensor fotoelétrico. Tive, então, uma ideia: se ao menos resultasse! Entretanto já eram oito e meia, por isso tomei o pequeno‑almoço com a dona da pensão e fui de seguida ao First National do bairro, onde comprei um pão e um frasco de manteiga de amendoim. Quando regressei ao quarto, preparei quatro sandes de manteiga de amendoim e embrulhei‑as em papel de cera antes de as colocar num saco de papel. Pus também de lado um chapéu de abas largas e um guarda‑chuva. Às quatro horas, peguei nas sandes e no guarda‑chuva, pus o chapéu na cabeça, puxei a gola do casaco para cima e apanhei o autocarro das 4h10 para o museu.
Quinze minutos depois, ao subir a escadaria de mármore, constatei que o museu estava vazio, com exceção de dois ou três guardas. Não havia ninguém por perto, quando passei pelo sensor fotoelétrico. Peguei, então, no guarda‑chuva e passei‑o pelo sensor como se alguém estivesse a sair. Levantei o útil guarda‑chuva e percorri os longos e escuros corredores do museu. Ninguém me conseguia ver na escuridão cerrada, mas (engoli em seco) eu também não conseguia ver ninguém. Não tinha lanterna! Esquecera‑me talvez da coisa mais importante. Com cuidado, atravessei depois o átrio que ia dar à sala egípcia. Encontrei um banco num canto escuro da entrada. Ali me deitei, tremendo de excitação. Devorei com fome as sandes e adormeci logo.
Não sei durante quanto tempo me agitei no meu sono perturbado ou o que me terá acordado, mas sentei‑me e fui, então, surpreendida por um débil raio de luz que atravessava a noite escura como uma faca. Vinha da sala egípcia, da zona do túmulo da múmia! O pungente cheiro a carne podre chegou‑me de novo às narinas. Entrei às escondidas na sala. O que ali vi deixou‑me paralisada de horror. Sentia o corpo dormente, e só conseguia observar de forma impotente as ações quase inconcebíveis praticadas por um monstro desumano, desprovido de sanidade.
A luz da vela acesa no túmulo tremeluzia ao sabor das correntes de ar, projetando sombras assustadoras na parede. Essa luz permitiu‑me entrever as feições loucas do empregado de cabelo branco que já tinha conhecido — na véspera. Carregava um corpo vivo, enfaixado em ligaduras brancas, com aberturas apenas nos olhos e no nariz. A figura soltava gemidos abafados e contorcia‑se. O empregado abriu depois o quinto sarcófago, ao lado daquele de onde vinha o peculiar cheiro. Para meu horror, vi que a metade de cima se abria como a tampa de um caixão e estava revestida de espigões compridos e afiados: decerto para torturar a vítima aprisionada! O empregado deitou, então, a criatura humana na caixa, mas não a fechou. Aproximei‑me aos poucos, colada às sombras na parede. O empregado pegara, entretanto, numa colher afiada e inclinava‑se para arrancar os olhos da vítima aterrorizada, quando me viu aparecer. Reconheceu‑me!!
— Ah! — comentou, lançando‑me um olhar de soslaio. — Conseguiste fugir ontem, mas hoje vai ser diferente. Vou abafar os teus gritos de angústia e deixar‑te esvair em sangue numa agonia terrível. Tens de ir ao encontro dos deuses egípcios. Vou cortar‑te devagar os olhos e endurecê‑los antes de os expor na vitrina.
Quando avançou na minha direção, bati‑lhe com o guarda‑chuva e ele caiu inanimado no chão com um baque surdo. Demasiados anos naquela silenciosa câmara de tortura tinham‑lhe enfraquecido o coração e enlouquecido os sentidos. Soltei a rapariga, que desmaiara com o susto, e amarrei o empregado com o generoso rolo de gaze e fita adesiva. Depois percorri os corredores já familiares que iam dar ao escritório do museu, onde telefonei à polícia para contar que tinha descoberto a rapariga desaparecida, cuja fotografia fora publicada em todos os jornais, bem como o louco raptor e futuro assassino. Quando regressei à fatídica sala para tranquilizar a rapariga restabelecida, o estrépito das sirenes policiais já fustigava o ar.
Na manhã seguinte, acordei por volta das dez horas com o telefone a tocar e atendi sonolentamente, pois ainda sentia o corpo dorido e uma dor de cabeça fortíssima. Era o chefe da polícia, que me contou que o empregado tinha confessado um assassinato e uma tentativa de assassinato antes de cair morto com um segundo ataque cardíaco. O chefe da polícia também me disse que o pai da rapariga me ia dar uma grande recompensa. Sorri ao lembrar‑me dela e disse ao chefe da polícia para agradecer ao pai em meu nome, mas para lhe dizer que guardasse a recompensa. Depois de desligar, voltei para a cama, mergulhando de imediato num sono tranquilo, liberto de sonhos.
Encontrava‑me sozinha neste memorial de tempos antigos. Os únicos pontos luminosos eram algumas tapeçarias desinteressantes. Nas vitrinas havia algumas joias danificadas do período egípcio. Junto a uma parede havia imponentes blocos de pedra, gravados com figuras grotescas. Fiz algumas anotações acerca do tipo de material usado na época egípcia, e passei depressa para a sala seguinte. Era inteiramente dedicada à cerâmica. Passei os olhos pela acumulação de obras tradicionais: as cores dominantes nos vasos eram o almagre, o verde‑água e o preto. As figuras representadas eram pintadas em cores contrastantes. Eram‑me familiares dos tempos da escola básica: rostos e pernas de perfil, busto e olhos de frente. A terceira sala continha apenas uma entediante quantidade de ferramentas e utensílios usados pelos egípcios. Listei alguns deles e passei para a quarta sala.
Nesta sala havia sobretudo cópias de mobiliário. Poucas peças verdadeiras enfeitavam as paredes.
A quinta sala, porém, fascinou‑me. As paredes estavam cobertas de velhos sarcófagos, e no centro deste misterioso lugar estendia‑se uma fileira de vitrinas baixas. Controlei o meu entusiasmo pelas múmias e aproximei‑me primeiro da fileira de mesas. O meu olhar distraído foi subitamente arrebatado por algo que brilhava no meio dos pendentes. Passou‑me pela cabeça que fosse um olho. Um olho humano! Costumo gabar‑me de possuir um temperamento calmo, resistente e curioso, mas naquele momento comecei a tremer por dentro e por fora. A roupa colava‑se‑me ao corpo, úmida de suor, ao mesmo tempo que um calafrio gélido me subia pelas costas. Enquanto tentava refazer os resquícios confusos daquilo a que gosto de chamar a minha compostura, li a legenda por baixo do olho. Era apenas feito de ágata! No entanto, sob o meu olhar frenético, tinha um aspecto gelatinoso, e a pupila parecia dilatar‑se ao fitar‑me.
Afastei‑me com alívio da vitrina e apressei‑me a ver os seis sarcófagos. Os primeiros cinco eram interessantes: tinham‑se soltado algumas lascas de tinta, o que lhes dava um agradável ar de antiguidade. Os rostos lisos e sérios desenhados no exterior dos sarcófagos olhavam diretamente para cima, como se tentassem ver além do pesado teto e obter um vislumbre dos céus soalheiros que não avistavam há tantos anos. Parei, espantada, em frente do sexto sarcófago. Dele saía um forte odor a carne putrefata!
— É claro que não pode haver nenhuma múmia antiga aqui — disse para comigo.
De repente, ocorreu‑me uma ideia horripilante… mas era demasiado improvável, demasiado horrível, para ser concebida pela mente humana. Enquanto pensava nisso, ouvi passos furtivos atrás de mim. Virei‑me depressa.
Na minha cabeça, imaginei toda a espécie de espetros sangrentos. No entanto, senti‑me tranquilizada por uma risada rouca provinda do velhote enrugado ao meu lado ao perceber a minha surpresa. Disse‑me então:
— Estava a observá‑la de trás daquela coluna ali; vi‑a a admirar o globo ocular na vitrina. Parece real, não é?
O velhote soltou outra risada das suas e levou‑me de volta à vitrina. Senti que estava a ser impelida por algum feitiço invisível, inédito, tal como acontece em sonhos, quando estamos a ser perseguidos e não conseguimos mexer nenhum músculo. Impotente, vi o homem de cabelo branco tirar do bolso uma minúscula lupa, que colocou sobre o olho. Para meu terror, o olho mexia‑se e fitava‑me lastimosamente à medida que o homem deslocava a lupa sobre o horrível órgão. Fui‑me embora em bicos de pés, depois de lançar um olhar furtivo à figura curvada, ainda alegremente absorta no seu bizarro jogo.
Durante toda a noite, fui assombrada por ideias terríveis. Não conseguia adormecer, porque visões assustadoras de olhos líquidos e múmias vivas desfilavam diante de mim. Tentei convencer‑me de que o facto de o olho ser real não passava de uma invenção do velhote, mas foi em vão.
Ainda estava a chover, quando os primeiros sinais da madrugada surgiram no horizonte. Acordei e vesti‑me. Depois comecei a refletir sobre a melhor estratégia a seguir. Não era altura para gestos imprudentes. Às cinco e meia da tarde o museu fechava, e eu não poderia escapar ao sensor fotoelétrico. Tive, então, uma ideia: se ao menos resultasse! Entretanto já eram oito e meia, por isso tomei o pequeno‑almoço com a dona da pensão e fui de seguida ao First National do bairro, onde comprei um pão e um frasco de manteiga de amendoim. Quando regressei ao quarto, preparei quatro sandes de manteiga de amendoim e embrulhei‑as em papel de cera antes de as colocar num saco de papel. Pus também de lado um chapéu de abas largas e um guarda‑chuva. Às quatro horas, peguei nas sandes e no guarda‑chuva, pus o chapéu na cabeça, puxei a gola do casaco para cima e apanhei o autocarro das 4h10 para o museu.
Quinze minutos depois, ao subir a escadaria de mármore, constatei que o museu estava vazio, com exceção de dois ou três guardas. Não havia ninguém por perto, quando passei pelo sensor fotoelétrico. Peguei, então, no guarda‑chuva e passei‑o pelo sensor como se alguém estivesse a sair. Levantei o útil guarda‑chuva e percorri os longos e escuros corredores do museu. Ninguém me conseguia ver na escuridão cerrada, mas (engoli em seco) eu também não conseguia ver ninguém. Não tinha lanterna! Esquecera‑me talvez da coisa mais importante. Com cuidado, atravessei depois o átrio que ia dar à sala egípcia. Encontrei um banco num canto escuro da entrada. Ali me deitei, tremendo de excitação. Devorei com fome as sandes e adormeci logo.
Não sei durante quanto tempo me agitei no meu sono perturbado ou o que me terá acordado, mas sentei‑me e fui, então, surpreendida por um débil raio de luz que atravessava a noite escura como uma faca. Vinha da sala egípcia, da zona do túmulo da múmia! O pungente cheiro a carne podre chegou‑me de novo às narinas. Entrei às escondidas na sala. O que ali vi deixou‑me paralisada de horror. Sentia o corpo dormente, e só conseguia observar de forma impotente as ações quase inconcebíveis praticadas por um monstro desumano, desprovido de sanidade.
A luz da vela acesa no túmulo tremeluzia ao sabor das correntes de ar, projetando sombras assustadoras na parede. Essa luz permitiu‑me entrever as feições loucas do empregado de cabelo branco que já tinha conhecido — na véspera. Carregava um corpo vivo, enfaixado em ligaduras brancas, com aberturas apenas nos olhos e no nariz. A figura soltava gemidos abafados e contorcia‑se. O empregado abriu depois o quinto sarcófago, ao lado daquele de onde vinha o peculiar cheiro. Para meu horror, vi que a metade de cima se abria como a tampa de um caixão e estava revestida de espigões compridos e afiados: decerto para torturar a vítima aprisionada! O empregado deitou, então, a criatura humana na caixa, mas não a fechou. Aproximei‑me aos poucos, colada às sombras na parede. O empregado pegara, entretanto, numa colher afiada e inclinava‑se para arrancar os olhos da vítima aterrorizada, quando me viu aparecer. Reconheceu‑me!!
— Ah! — comentou, lançando‑me um olhar de soslaio. — Conseguiste fugir ontem, mas hoje vai ser diferente. Vou abafar os teus gritos de angústia e deixar‑te esvair em sangue numa agonia terrível. Tens de ir ao encontro dos deuses egípcios. Vou cortar‑te devagar os olhos e endurecê‑los antes de os expor na vitrina.
Quando avançou na minha direção, bati‑lhe com o guarda‑chuva e ele caiu inanimado no chão com um baque surdo. Demasiados anos naquela silenciosa câmara de tortura tinham‑lhe enfraquecido o coração e enlouquecido os sentidos. Soltei a rapariga, que desmaiara com o susto, e amarrei o empregado com o generoso rolo de gaze e fita adesiva. Depois percorri os corredores já familiares que iam dar ao escritório do museu, onde telefonei à polícia para contar que tinha descoberto a rapariga desaparecida, cuja fotografia fora publicada em todos os jornais, bem como o louco raptor e futuro assassino. Quando regressei à fatídica sala para tranquilizar a rapariga restabelecida, o estrépito das sirenes policiais já fustigava o ar.
Na manhã seguinte, acordei por volta das dez horas com o telefone a tocar e atendi sonolentamente, pois ainda sentia o corpo dorido e uma dor de cabeça fortíssima. Era o chefe da polícia, que me contou que o empregado tinha confessado um assassinato e uma tentativa de assassinato antes de cair morto com um segundo ataque cardíaco. O chefe da polícia também me disse que o pai da rapariga me ia dar uma grande recompensa. Sorri ao lembrar‑me dela e disse ao chefe da polícia para agradecer ao pai em meu nome, mas para lhe dizer que guardasse a recompensa. Depois de desligar, voltei para a cama, mergulhando de imediato num sono tranquilo, liberto de sonhos.
Sylvia Plath, "Prosa Reunida"
Ítaca
Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
Repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
Nem o colérico Poseidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Poseidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
E belas mercancias adquirir. Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.
Konstantinos Kavafis, "Pequeno Compêndio de Poemas Luminosos"
Faz votos de que o caminho seja longo
Repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
Nem o colérico Poseidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Poseidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
E belas mercancias adquirir. Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.
Konstantinos Kavafis, "Pequeno Compêndio de Poemas Luminosos"
O nadador
Era um daqueles domingos de verão em que todo mundo diz: "Ontem à noite bebi demais." Podiam-se ouvir os fiéis a sussurra-lo ao sair da igreja, ou da boca do próprio padre, a tentar livrar-se da sotaina na sacristia, podia-se ouvir no golfe e na quadra de tênis, ou na reserva natural onde o chefe do grupo Audubon de observadores de pássaros curtia uma tremenda ressaca. "Bebi demais", disse Donald Westerhazy. "Todos bebemos demais", disse Lucinda Merrill. "Deve ter sido o vinho", disse Helen Westerhazy. "Bebi demais daquele clarete."
A vida dele não era uma prisão, e o prazer que esta observação lhe deu não se podia explicar pela evasão que sugeria. Parecia vendo, com olho de cartógrafo, a linha de piscinas, aquele riacho quase subterrâneo que traçava uma curva através da região. Tinha feito uma descoberta, uma contribuição para a geografia moderna; iria dar ao rio o nome de Lucinda, como a mulher. Não era pessoa dada a brincadeiras e não era bobo, mas era decididamente original e tinha uma vaga e modesta ideia de si mesmo como uma figura lendária. O dia estava bonito e pareceu-lhe que nadar uma grande distância podia aumentar e comemorar essa beleza.
Tirou o pulôver que tinha sobre os ombros e mergulhou. Sentia um desprezo inexplicável pelos homens que não se atiravam às piscinas. Nadou num crawl sacudido, respirando ora a cada braçada, ora à quarta braçada e contando, algures no fundo da consciência, o um-dois, um-dois, da batida dos pés. Não era a braçada indicada para longas distâncias, mas o treino da natação tinha imposto ao esporte a sela de alguns costumes e nesta parte do mundo o crawl era um costume. Ser abraçado e sustentado pela água verde-clara era menos um prazer, dava a impressão, do que o reassumir de uma condição natural, e teria gostado de nadar sem calções, mas isso não era possível, considerando o seu projeto. Içou-se para a borda no canto oposto – nunca usava a escada - e afastou-se pelo gramado. Quando Lucinda perguntou onde ia, disse que ia para casa a nado.
Os únicos mapas e roteiros que tinha de seguir eram de memória ou imaginários, mas suficientemente claros. Primeiro havia os Grahams, os Hammers, os Lears, os Howlands, e os Crosscups. Atravessava Ditmar Street para os Bunkers e seguia, depois de uma curta corrida, para os Levys, os Welchers, e a piscina pública de Lancaster. Depois havia os Hallorans, os Sachses, os Biswangers, Shirley Adams, os Gilmartins, e os Clydes. O dia estava magnífico, e viver num mundo tão generosamente fornecido de água parecia-lhe um verdadeiro dom, uma dádiva. Sentia o coração ligeiro e atravessou a grama correndo. Voltar a casa por uma rota desacostumada fazia-o sentir-se um peregrino, um explorador, um homem com um destino, e sabia que iria encontrar amigos ao longo de todo o caminho; as margens do Rio Lucinda estariam cobertas de amigos.
Atravessou uma sebe que separava o terreno dos Westerhazy do dos Grahams, passou debaixo de umas macieiras em flor, seguiu até onde estavam a bomba e o filtro e foi dar à piscina dos Grahams. "Olha o Neddy", disse a Sra. Graham, "que bela surpresa. Passei a manhã ao telefone a ver se te encontrava. Vai, deixa-me arranjar-te uma bebida." Percebeu e não, como qualquer explorador, que os costumes e tradições de hospitalidade dos nativos tinham de ser tratados com diplomacia se realmente quisesse chegar ao seu destino. Não queria deixar confusos os Grahams nem parecer indelicado, mas não tinha tempo para se demorar ali. Nadou a piscina de uma ponta à outra e foi se encontrar com eles ao sol, sendo salvo, minutos depois, pela chegada de dois carros cheios de amigos de Connecticut. No meio do alarido do encontro conseguiu escapar-se. Desceu pela frente da casa dos Grahams, passou por cima de uma sebe com espinhos e atravessou um terreno vago para os Hammers. A Sra. Hammer, levantando os olhos das roseiras, viu-o passar a nado embora não percebesse muito bem quem era. Os Lears ouviram-no passar a espadanar pelas janelas abertas da sala de estar. Os Howlands e os Crosscups estavam fora. Depois de sair dos Howlands atravessou Ditmar Street e dirigiu-se aos Bunkers, onde podia ouvir, mesmo àquela distância, o ruído de uma festa.
A água refratava o som das vozes e dos risos e parecia deixá-lo suspenso no ar. A piscina dos Bunkers ficava numa elevação e teve de subir umas escadas até um terraço onde uns vinte e cinco ou trinta homens e mulheres estavam bebendo. A única pessoa na água era Rusty Towers, que estava num colchão de inflável. Oh, como eram boas e verdejantes as margens do Rio Lucinda! Homens e mulheres prósperos reunidos junto às águas cor de safira, enquanto empregados de casaco branco lhes serviam gin gelado. Nos ares, um pequeno avião De Haviland dava voltas e voltas no céu com o que parecia a alegria de uma criança num balanço. Ned sentiu uma afeição passageira pela cena, um enternecimento por aquele convívio, como se fosse uma coisa que pudesse tocar. Ao longe ouviu um trovão. Assim que Enid Bunker o viu, começou a berrar: "Oh, olha quem está aqui! Mas que bela surpresa! Quando a Lucinda me disse que não podias vir, quase morri." Abriu caminho até ele pelo meio do grupo, e depois de trocarem um beijo levou-o até ao bar, um percurso interrompido por ter de beijar outras oito ou dez mulheres e apertar a mão a outros tantos homens. Um barman sorridente que tinha visto numas cem festas serviu-lhe um gin com água tônica e Ned deixou-se ficar um pouco junto ao bar, ansioso por não se deixar segurar em alguma conversa que lhe pudesse atrasar a travessia. Quando parecia estar prestes a ficar cercado, deu um mergulho e nadou junto à borda para evitar colidir com o colchão de Rusty. Na ponta oposta da piscina passou pelos Tomlisons com um grande sorriso e seguiu em passo de corrida pela trilha do jardim. Os gravetos cortavam-lhe os pés, mas era a única coisa desagradável. A festa estava confinada à piscina, e à medida que avançava em direção à casa, ouvia o som vivo e aquático das vozes mais apagado, ouvia o ruído de um rádio na cozinha dos Bunkers, onde alguém escutava um jogo de beisebol. Domingo à tarde. Esgueirou-se pelo meio dos carros estacionados e desceu pelo caminho gramado até Alewives Lane. Não queria que o vissem na estrada de shorts, mas não havia trânsito e percorreu a curta distância que o separava do caminho de entrada dos Levys, assinalado com uma tabuleta de PROPRIEDADE PRIVADA e um tubo verde para o New York Times. Todas as portas e janelas da casa enorme estavam abertas mas não havia sinais de vida; nem sequer um cão latindo. Deu a volta à casa até à piscina e viu que os Levys não tinham saído há muito tempo. Havia copos, garrafas e pratos de nozes em cima de uma mesa junto ao lado fundo da piscina, onde havia um vestiário ou um pavilhão, decorado com lanternas japonesas. Depois de ter nadado uma piscina, pegou num copo e serviu-se de uma bebida. Era a sua quarta ou quinta bebida e nadara cerca de metade do comprimento do Rio Lucinda. Sentia-se cansado, limpo, contente nesse momento por estar só; contente com tudo.
Ia cair uma tempestade. A formação de cúmulos - a tal cidade - subira e estava mais escura, e enquanto estava ali sentado voltou a ouvir o ribombar do trovão. O De Haviland girava ainda nos ares e Ned teve a impressão de que quase podia ouvir o piloto a rir de prazer na tarde; mas quando se ouviu um novo trovão largou para casa. Soou o apito de um trem e perguntou-se que horas seriam. Quatro? Cinco? Imaginou o salão da estação àquela hora, onde um empregado de mesa, o smoking sob um avental de plástico, um anão com um ramo de flores embrulhado em jornal, uma mulher que tinha estado a chorar, estariam á espera do trem suburbano. De repente começou a escurecer; foi nesse momento que os pássaros minúsculos deram a impressão de mudar o seu canto para um qualquer agudo e reconhecível anúncio da aproximação da tempestade. Ouviu então o tênue ruído de água a cair da copa de um carvalho atrás dele, como se alguém tivesse aberto uma torneira. E então um ruído de fontes chegou-lhe das copas de todas as árvores altas. Porque gostaria de tempestades, que significado teria a sua excitação quando as portas se escancaravam e os ventos da chuva irrompiam violentamente pelas escadas acima, porque lhe teria a simples tarefa de fechar as janelas de uma casa antiga parecido necessária e urgente, porque tinham para ele as primeiras notas líquidas de uma tempestade o som inconfundível das boas notícias, das novas festivas e alegres ? Depois houve uma explosão, um cheiro a pólvora, e a chuva fustigou as lanternas japonesas que a Sra. Levy tinha comprado em Quioto há dois anos, ou fora ainda no ano antes desse?
Deixou-se ficar no pavilhão dos Levys até passar a tempestade. A chuva arrefecera o ar e Ned estremeceu. A força do vento tinha despido um plátano das folhas vermelhas e amarelas, espalhando-as pela grama e a água. Era em fins de Junho, pelo que a ·árvore devia estar com míldio, no entanto sentiu uma tristeza estranha com este sinal do Outono. Retesou os ombros, esvaziou o copo, e encaminhou-se para a piscina dos Welchers. Isto significava atravessar o picadeiro dos Lindleys e ficou admirado ao vê-lo cheio de mato e todos os obstáculos desmontados. Perguntou-se se os Lindleys teriam vendido os cavalos ou se teriam ido passar fora o Verão e deixado os animais em pensão. Pareceu-lhe lembrar-se de ter ouvido qualquer coisa sobre os Lindleys e os cavalos, mas a lembrança era confusa. Prosseguiu então, descalço pela grama molhada, para os Welchers, onde descobriu que a piscina estava seca.
Esta quebra na sua corrente de água desapontou-o de um modo absurdo, e sentiu-se como um explorador que procura uma nascente torrencial e encontra um regato morto. Sentia-se desapontado e ludibriado. Era bastante comum ir para fora no Verão, mas nunca ninguém esvaziava a piscina. Os Welchers tinham claramente ido embora. Os apetrechos da piscina estavam dobrados, empilhados e cobertos com uma lona. O vestiário estava fechado á chave. Todas as janelas da casa estavam fechadas, e quando deu a volta até á entrada viu uma tabuleta de VENDE-SE pregada numa árvore. Quando fora a última vez que ouvira falar nos Welchers - ou melhor, quando fora a última vez que ele e Lucinda tinham recusado um convite deles para jantar? Parecia ter sido apenas há uma semana ou à volta disso. Será que a memória lhe começava a falhar ou ser· que a tinha disciplinado de tal modo na repressão dos fatos desagradáveis que acabara por lhe atingir o sentido da verdade? E então ouviu ao longe o som de um jogo de tênis. Isto animou-o, apagou todas as suas apreensões, permitindo-lhe olhar o céu carregado e o frio do ar com indiferença. Este era o dia em que Neddy Merrill tinha atravessado a nado o distrito. Grande dia! Encaminhou-se então para a sua passagem mais difícil.
Quem tivesse ido dar uma volta de carro nessa tarde de domingo, tê-lo-ia visto, praticamente nu, parado na beira da Estrada 424, à espera de uma oportunidade para atravessar. Poderiam ficar a pensar se teria sido vítima de alguma brincadeira de mau gosto, se o carro teria quebrado, ou se era simplesmente algum maluco. Ali postado, descalço no meio dos detritos da autoestrada - latas de cerveja, papéis e remendos de borracha – exposto ao ridículo, tinha um ar patético. Sabia desde o começo que isto fazia parte da travessia - figurava nos seus mapas - mas confrontado com as filas de trânsito, contorcendo-se na luz estival, percebeu não estar preparado. Riam-se dele, faziam chacota, atiraram-lhe uma lata de cerveja, e sentia-se sem dignidade nem disposição para enfrentar a situação. Podia ter voltado para trás, para os Westerhazys, onde Lucinda ainda devia estar sentada ao sol. Não tinha assinado nada, prometido nada, nem feito qualquer juramento, nem sequer a si próprio. Acreditando como acreditava que toda a teimosia humana era sensível ao bom-senso, por que era incapaz de voltar para trás? Por que estava ele determinado a completar a travessia mesmo que isso significasse pôr a vida em perigo? A partir de que altura esta brincadeira, esta piada, esta criancice, se tinha tornado numa coisa séria? Não podia voltar para trás, não conseguia sequer lembrar-se com clareza da água verde dos Westerhazys, do sentimento de inalar os elementos do dia, as vozes amigas e calmas dizendo que tinham bebido demais. No espaço de uma hora, mais ou menos, tinha coberto uma distância que tornara o regresso impossível.
Um homem de idade, rodando pela auto-estrada a vinte quilômetros por hora, permitiu-lhe atingir o meio da estrada, onde havia um ilha de grama. Ficava agora exposto à zombaria do trânsito que seguia para Norte, mas ao fim de dez ou quinze minutos conseguiu atravessar. Daqui não tinha de caminhar muito para chegar ao Centro Recreativo no limite da aldeia de Lancaster, onde havia alguns campos de handebol e uma piscina pública.
O efeito da água nas vozes, a ilusão de brilho e de suspense, era o mesmo que nos Bunkers, mas os sons aqui eram mais altos, ásperos, e havia mais guinchos, e assim que entrou no recinto apinhado deparou com o regulamento. "TODOS OS BANHISTAS DEVEM TOMAR UMA DUCHA ANTES DE ENTRAR NA PISCINA. TODOS OS BANHISTAS DEVEM PASSAR PELO LAVA-PÉS. TODOS OS BANHISTAS DEVEM USAR O CRACHÁ DE IDENTIFICAÇAO." Tomou uma ducha, andou por uma solução turva e acre, e abriu caminho até à borda da piscina. Tresandava a cloro e dava-lhe a impressão de um tanque. Dois salva-vidas em duas torres, a intervalos que pareciam regulares, sopravam apitos de polÌcia e descompunham os banhistas através de alto-falantes. Neddy lembrou-se com saudade da água cor de safira dos Bunkers e pensou que se calhar ia ficar contaminado - arriscando a prosperidade e o encanto - ao nadar naquele caldo, mas lembrou-se que era um explorador, um peregrino, e que isto não passava de uma curva estagnada no Rio Lucinda. Mergulhou, com um franzir desgostado, no cloro e viu-se obrigado a nadar com a cabeça fora da água para evitar colisões, mas mesmo assim não deixaram de esbarrar nele, de o salpicar, de o empurrar. Quando atingiu a parte baixa, ambos os guardas estavam aos berros: "Eh! Você, você sem crachá de identificação, saia já da piscina." Obedeceu, mas não tinham maneira de o perseguir e ele continuou, por entre cheiro de bronzeador e cloro, pela vedação de rede e passou os campos de handebol. Atravessando a estrada entrou na parte arborizada da propriedade dos Hallorans. A mata não tinha sido limpa, o caminho era traiçoeiro e difícil até chegar ao gramado e à sebe aparada de faia que rodeava a piscina.
Os Hallorans eram amigos, um casal idoso com uma fortuna enorme que parecia deliciar-se com a suspeita de que pudessem ser comunistas. Eram devotados reformistas, mas não eram comunistas, e no entanto, sempre que os acusavam, como por vezes acontecia, de subversão, dava a impressão de que isso lhes agradava e os entusiasmava. A sebe de faia estava amarela e Ned pensou que deveria estar com mÌldio, tal como o plátano dos Levys. Gritou olé, olé, para avisar os Hollorans da sua chegada, para atenuar a invasão da sua privacidade. Os Hallorans, por razıes que nunca lhe tinham sido explicadas, não usavam maiôs. Nem havia, de fato, explicações a dar. O nudismo era um aspecto do seu inflexível zelo reformista e Ned tirou educadamente os shorts antes de passar pela abertura na sebe.
A Sra. Halloran, uma mulher corpulenta de cabelos brancos e rosto sereno, estava lendo o Times. O Sr. Holloran estava a retirar folhas da piscina com um apanhador. Não pareciam surpreendidos ou desagradados por o verem. A piscina deles era talvez a mais antiga da região, um retângulo em alvenaria, alimentada por um riacho. Não tinha filtro nem bomba e a água era do dourado opaco da torrente.
– Estou atravessando o Condado a nado - disse Ned.
– Sim? Não sabia que era possível - exclamou A Sra. Halloran.
– Bem, já consegui vir desde os Westerhazys - disse Ned. - Devem ser uns seis quilômetros e tal.
Deixou os shorts junto ao lado fundo da piscina, dirigiu-se à parte baixa e fez a distância a nado. Quando estava saindo da água ouviu a Sra. Halloran dizer: "Ficamos imensamente tristes com todas as suas desgraças, Neddy."
– As minhas desgraças? – perguntou Ned. – Não sei do que está falando.
– Então, mas ouvimos dizer que vendeu a casa e que as suas pobres filhas...
– Não me lembro de ter vendido a casa – disse Ned – e as meninas estão em casa.
– Pois - suspirou a Sra. Halloran – Pois é.... – A voz dela enchia o ar de uma melancolia inesperada e Ned respondeu com vivacidade:
– Obrigado pelo mergulho.
– Então, bom passeio – disse a Sra. Halloran.
Passando a sebe, vestiu os shorts. Estavam largos e Ned perguntou-se se, no espaço de uma tarde, poderia ter perdido algum peso. Estava com frio e cansado e os Hallorans nus e a água escura deles tinham-no deprimido.
Tanto tempo a nadar era demasiado para as suas forças, mas como poderia tê-lo adivinhado, ao escorregar pelo corrimão nessa manhã ou sentado ao sol em casa dos Westerhazys? Sentia os braços sem forças. As pernas pareciam de borracha e doíam-lhe nas articulações. O pior era o frio nos ossos e o pressentimento de que não voltariam a aquecer. As folhas caíam á sua volta e sentiu o cheiro de fumaça de lenha no vento. Quem estaria fazendo fogueiras nesta época do ano?
Precisava de uma bebida. Um uísque havia de o aquecer, de lhe levantar o moral, aguentá-lo durante a última parte da jornada, renovando-lhe o sentimento de que era original e valoroso atravessar o distrito a nado. Os nadadores do Canal bebiam brandy. Precisava de um estimulante. Atravessou o gramado em frente da casa dos Hallorans e foi por uma vereda que descia até onde eles tinham construído uma casa para a filha única, Helen, e o marido, Eric Sachs. A piscina dos Sachs era pequena e Ned encontrou lá Helen e o marido.
– Oh, Neddy – disse Helen – Almoçou em casa da mãe?
– Não foi bem isso – disse Ned. – Passei para ver os teus pais. – Pareceu-lhe ser uma explicação suficiente – Lamento imenso uma intrusão destas, mas apanhei um resfriado e pensei se me dariam uma bebida.
– Pois, teria muito prazer – disse Helen – mas nesta casa nunca mais houve nada que se bebesse desde a operação do Eric. Já lá vão três anos.
Será que estava perdendo a memória, será que a sua capacidade para ignorar fatos penosos fizera com que se esquecesse de que tinha vendido a casa, que as filhas estavam com problemas, e que o amigo tinha estado doente? Os olhos desviaram-se do rosto de Eric para o seu abdomem, onde viu três cicatrizes apagadas, suturadas, duas delas com pelo menos trinta centímetros de comprimento. O umbigo tinha desaparecido, e como seria, pensou Neddy, quando a mão tateante que às três da manhã avalia o que recebemos da natureza encontrasse uma barriga sem umbigo, sem nenhuma ligação ao nascimento, uma tal quebra na sucessão?
– Tenho a certeza de que encontra uma bebida nos Biswangers – disse Helen.
– Há uma festa enorme. Ouve-se daqui. Escute!
Helen levantou a cabeça e do outro lado da estrada, dos gramados, dos jardins, do arvoredo, dos campos, Ned ouviu de novo o animado som das vozes por cima da água. "Bem, vou-me molhar", disse ele, continuando a sentir que não tinha liberdade de escolha quanto aos seus meios de viajar. Mergulhou na água fria dos Sachs e, arquejante, quase se afogando, atravessou a piscina de uma ponta à outra. "Lucinda e eu queremos imenso vê-los – disse ele por cima do ombro, o rosto voltado para casa dos Biswangers. – Lamentamos ter deixado passar tanto tempo e vamos telefonar muito em breve."
Atravessou alguns campos até chegar a casa dos Biswangers e aos ruídos de farra que de lá vinham. Haviam de sentir que era uma honra dar-lhe uma bebida, seria um prazer darem-lhe uma bebida. Os Biswangers convidavam-no para jantar, a ele e Lucinda, quatro vezes por ano, com seis semanas de antecedência. Eram sempre rejeitados e mesmo assim continuavam a mandar-lhes convites, sem querer compreender as rígidas e pouco democráticas realidades da sua sociedade.
– Olha, nesta festa há de tudo – disse ela em voz alta – até mesmo penetras.
Não que lhe pudesse incomodar - tal hipótese estava fora de questão e por isso não se encolheu.
– E como penetra – perguntou delicadamente – tenho direito a bebida?"
– Faça como entender – disse ela. – Não me parece que ligue muito a convites.
Virou-lhe as costas e Ned dirigiu-se ao bar e pediu um uísque. O barman serviu-o, mas serviu-o com maus modos. Ned pertencia a um universo onde os empregados respeitavam os escalões sociais e ser enxovalhado por um tipo que era barman de meio espediente significava que tinha sofrido alguma perda de estima social. Ou talvez o homem fosse novo e mal informado. E então ouviu Grace dizer às suas costas: "Perderam tudo de um ia para o outro – ficaram só com o ordenado – e ele apareceu aqui bêbado um domingo e pediu cinco mil dólares emprestados..." Aquela estava sempre a falar em dinheiro. Pior do que comer ervilhas com faca. Mergulhou na piscina, nadou de uma ponta à outra e foi-se embora.
A piscina seguinte na lista, a antepenúltima, era a da sua antiga amante, Shirley Adams. Se em casa dos Biswangers sofrera algumas feridas, seriam saradas aqui. O amor - a intimidade sexual, na verdade - era o supremo elixir, o analgésico, a pílula de cores alegres capaz de trazer de novo a Primavera à sua vida, a alegria de viver ao seu coração. Tinham tido um caso na semana passada, no mês passado, no ano passado. Não conseguia lembrar-se. Tinha sido ele a romper, ele é que saíra por cima, e transpôs a cancela do muro que rodeava a piscina sem sequer lhe aflorar alguma sombra à sua autoconfiança. Parecia-lhe de certo modo ser a sua própria piscina, pois que o amante, especialmente o amante ilícito, dispõe dos bens da amante com uma autoridade que o sagrado matrimônio desconhece. Shirley estava lá, o cabelo cor de cobre, mas a sua figura, na borda da água luminosa, cerúlea, não despertou nele nenhuma lembrança profunda. Tinha sido, pensou, um caso ligeiro, embora ela tivesse chorado quando ele rompeu. Pareceu-lhe ficar confusa ao vê-lo e Ned perguntou-se se ainda estaria magoada. Será que ela, Deus queira que não, iria chorar outra vez?
– Que é que que você quer? – perguntou ela.
– Estou a atravessar o Condado a nado.
– Meu Deus. Será que nunca mais cresces?
– O que está acontecendo?
– Se veio pedir dinheiro - disse ela - não te dou nem mais um centavo.
– Podia me oferecer uma bebida.
– Podia, mas não ofereço. Não estou só.
– Bem, então vou andando.
Mergulhou e atravessou a piscina, mas quando tentou içar-se para a borda apercebeu-se de ficara sem força nos braços e nos ombros e esbracejou até às escadas, subindo-as para sair. Olhando por cima do ombro viu, no vestiário iluminado, um homem novo. Ao sair para a grama escura sentiu o cheiro dos crisântemos ou malmequeres - um desses teimosos aromas outonais - no ar da noite, forte como um gás. Levantando os olhos, viu que as estrelas já tinham surgido, mas por que tinha a impressão de estar vendo Andrômeda, Cefeu e a Cassiopéia? Onde estavam as constelações de Junho? Começou a chorar.
Era provavelmente a primeira vez em sua vida de adulto que chorava, e seguramente a primeira vez na vida que se tinha sentido tão perdido, enregelado, cansado e confuso. Não conseguia entender a grosseria do barman ou a brusquidão de uma amante que tivera ajoelhada aos seus pés e lhe molhara de lágrimas as calças. Tinha nadado demais, tinha estado imerso demasiado tempo, e o nariz e a garganta doíam-lhe por causa da água. Precisava de uma bebida, de um pouco de companhia, e algumas roupas lavadas e secas, e embora pudesse ir diretamente pela estrada para casa, prosseguiu em direção à piscina dos Gilmartins. Aqui, pela primeira vez na sua vida, não mergulhou, descendo antes a escada para as águas gélidas e nadou de lado, sem jeito, uma coisa que devia ter aprendido em rapaz. Cambaleava de fadiga ao caminhar para casa dos Clydes e esbracejou a todo o comprimento da piscina deles, detendo-se várias vezes com a mão na borda para descansar. Subiu pela escada e perguntou a si próprio se teria forças para chegar a casa. Tinha feito o que queria, tinha atravessado o Condado a nadar, mas estava tão aturdido de cansaço que o triunfo lhe surgia vago. Curvado, segurando-se às estacas da cerca como apoio, subiu o caminho da sua própria casa.
Estava tudo às escuras. Seria assim tão tarde que já estavam todos deitados? Será que Lucinda tinha ficado em casa dos Westerhazys para jantar? E que as meninas tinham ido se encontrar com ela ou tinham ido a qualquer outro lugar? Então não tinham combinado, como faziam todos os domingos, não aceitar nenhum convite e ficar em casa? Experimentou as portas da garagem para ver que carros estavam, mas as portas estavam fechadas à chave e as mãos ficaram-lhe cheias da ferrugem dos puxadores. Dirigindo-se a casa, viu que a violência da tempestade tinha desprendido uma calha. Pendia agora por cima da porta de entrada como uma vareta de guarda-chuva, mas podia repará-la na manhã seguinte. A casa estava fechada, e Ned pensou que o estúpido do cozinheiro ou a estúpida da empregada deviam ter fechado tudo à chave até que se lembrou que há muito tempo não tinham cozinheiro nem empregada. Gritou, bateu à porta, tentou força-la com o ombro, e então, espreitando pela janela, viu que a casa estava vazia.
Passava-se isto na borda da piscina dos Westerhazy. A piscina, alimentada por um poço artesiano com alto teor de ferro, era de um verde pálido. Estava um dia magnífico. A Oeste havia uma densa formação de cúmulos tão parecida com uma cidade vista de longe - da proa de um barco que se aproximasse - que podia ter um nome. Lisboa. Hackensack. O sol estava quente. Neddy Merrill estava sentado junto da piscina, uma mão dentro d’água verde, outra segurando um copo de gin. Era um homem esguio – parecia ter a elegância particular da juventude - e embora estivesse longe de ser novo, nessa manhã descera pelo corrimão e dera um piparote nas costas de bronze da Afrodite de cima da mesa da entrada, enquanto trotava em direção ao cheiro do café na sala de jantar. Poderia ser comparado a um dia de Verão, mais precisamente às últimas horas da tarde, e apesar de não trazer uma raquete de tênis, a impressão que dava era decididamente de juventude, de esportista e de tempo ameno. Tinha estado a nadar e agora respirava profundamente, arquejante como se pudesse engolir pelos pulmões os elementos desse momento, o calor do sol, a intensidade do prazer que sentia. Parecia fluir-lhe tudo para o peito. A casa dele ficava em Bullet Park, cerca de treze quilômetros para Sul, onde as suas quatro lindas filhas já teriam almoçado e deviam estar a jogar tênis. Ocorreu-lhe então que se fizesse um desvio para Sudoeste podia ir a nado para casa.
A vida dele não era uma prisão, e o prazer que esta observação lhe deu não se podia explicar pela evasão que sugeria. Parecia vendo, com olho de cartógrafo, a linha de piscinas, aquele riacho quase subterrâneo que traçava uma curva através da região. Tinha feito uma descoberta, uma contribuição para a geografia moderna; iria dar ao rio o nome de Lucinda, como a mulher. Não era pessoa dada a brincadeiras e não era bobo, mas era decididamente original e tinha uma vaga e modesta ideia de si mesmo como uma figura lendária. O dia estava bonito e pareceu-lhe que nadar uma grande distância podia aumentar e comemorar essa beleza.
Tirou o pulôver que tinha sobre os ombros e mergulhou. Sentia um desprezo inexplicável pelos homens que não se atiravam às piscinas. Nadou num crawl sacudido, respirando ora a cada braçada, ora à quarta braçada e contando, algures no fundo da consciência, o um-dois, um-dois, da batida dos pés. Não era a braçada indicada para longas distâncias, mas o treino da natação tinha imposto ao esporte a sela de alguns costumes e nesta parte do mundo o crawl era um costume. Ser abraçado e sustentado pela água verde-clara era menos um prazer, dava a impressão, do que o reassumir de uma condição natural, e teria gostado de nadar sem calções, mas isso não era possível, considerando o seu projeto. Içou-se para a borda no canto oposto – nunca usava a escada - e afastou-se pelo gramado. Quando Lucinda perguntou onde ia, disse que ia para casa a nado.
Os únicos mapas e roteiros que tinha de seguir eram de memória ou imaginários, mas suficientemente claros. Primeiro havia os Grahams, os Hammers, os Lears, os Howlands, e os Crosscups. Atravessava Ditmar Street para os Bunkers e seguia, depois de uma curta corrida, para os Levys, os Welchers, e a piscina pública de Lancaster. Depois havia os Hallorans, os Sachses, os Biswangers, Shirley Adams, os Gilmartins, e os Clydes. O dia estava magnífico, e viver num mundo tão generosamente fornecido de água parecia-lhe um verdadeiro dom, uma dádiva. Sentia o coração ligeiro e atravessou a grama correndo. Voltar a casa por uma rota desacostumada fazia-o sentir-se um peregrino, um explorador, um homem com um destino, e sabia que iria encontrar amigos ao longo de todo o caminho; as margens do Rio Lucinda estariam cobertas de amigos.
Atravessou uma sebe que separava o terreno dos Westerhazy do dos Grahams, passou debaixo de umas macieiras em flor, seguiu até onde estavam a bomba e o filtro e foi dar à piscina dos Grahams. "Olha o Neddy", disse a Sra. Graham, "que bela surpresa. Passei a manhã ao telefone a ver se te encontrava. Vai, deixa-me arranjar-te uma bebida." Percebeu e não, como qualquer explorador, que os costumes e tradições de hospitalidade dos nativos tinham de ser tratados com diplomacia se realmente quisesse chegar ao seu destino. Não queria deixar confusos os Grahams nem parecer indelicado, mas não tinha tempo para se demorar ali. Nadou a piscina de uma ponta à outra e foi se encontrar com eles ao sol, sendo salvo, minutos depois, pela chegada de dois carros cheios de amigos de Connecticut. No meio do alarido do encontro conseguiu escapar-se. Desceu pela frente da casa dos Grahams, passou por cima de uma sebe com espinhos e atravessou um terreno vago para os Hammers. A Sra. Hammer, levantando os olhos das roseiras, viu-o passar a nado embora não percebesse muito bem quem era. Os Lears ouviram-no passar a espadanar pelas janelas abertas da sala de estar. Os Howlands e os Crosscups estavam fora. Depois de sair dos Howlands atravessou Ditmar Street e dirigiu-se aos Bunkers, onde podia ouvir, mesmo àquela distância, o ruído de uma festa.
A água refratava o som das vozes e dos risos e parecia deixá-lo suspenso no ar. A piscina dos Bunkers ficava numa elevação e teve de subir umas escadas até um terraço onde uns vinte e cinco ou trinta homens e mulheres estavam bebendo. A única pessoa na água era Rusty Towers, que estava num colchão de inflável. Oh, como eram boas e verdejantes as margens do Rio Lucinda! Homens e mulheres prósperos reunidos junto às águas cor de safira, enquanto empregados de casaco branco lhes serviam gin gelado. Nos ares, um pequeno avião De Haviland dava voltas e voltas no céu com o que parecia a alegria de uma criança num balanço. Ned sentiu uma afeição passageira pela cena, um enternecimento por aquele convívio, como se fosse uma coisa que pudesse tocar. Ao longe ouviu um trovão. Assim que Enid Bunker o viu, começou a berrar: "Oh, olha quem está aqui! Mas que bela surpresa! Quando a Lucinda me disse que não podias vir, quase morri." Abriu caminho até ele pelo meio do grupo, e depois de trocarem um beijo levou-o até ao bar, um percurso interrompido por ter de beijar outras oito ou dez mulheres e apertar a mão a outros tantos homens. Um barman sorridente que tinha visto numas cem festas serviu-lhe um gin com água tônica e Ned deixou-se ficar um pouco junto ao bar, ansioso por não se deixar segurar em alguma conversa que lhe pudesse atrasar a travessia. Quando parecia estar prestes a ficar cercado, deu um mergulho e nadou junto à borda para evitar colidir com o colchão de Rusty. Na ponta oposta da piscina passou pelos Tomlisons com um grande sorriso e seguiu em passo de corrida pela trilha do jardim. Os gravetos cortavam-lhe os pés, mas era a única coisa desagradável. A festa estava confinada à piscina, e à medida que avançava em direção à casa, ouvia o som vivo e aquático das vozes mais apagado, ouvia o ruído de um rádio na cozinha dos Bunkers, onde alguém escutava um jogo de beisebol. Domingo à tarde. Esgueirou-se pelo meio dos carros estacionados e desceu pelo caminho gramado até Alewives Lane. Não queria que o vissem na estrada de shorts, mas não havia trânsito e percorreu a curta distância que o separava do caminho de entrada dos Levys, assinalado com uma tabuleta de PROPRIEDADE PRIVADA e um tubo verde para o New York Times. Todas as portas e janelas da casa enorme estavam abertas mas não havia sinais de vida; nem sequer um cão latindo. Deu a volta à casa até à piscina e viu que os Levys não tinham saído há muito tempo. Havia copos, garrafas e pratos de nozes em cima de uma mesa junto ao lado fundo da piscina, onde havia um vestiário ou um pavilhão, decorado com lanternas japonesas. Depois de ter nadado uma piscina, pegou num copo e serviu-se de uma bebida. Era a sua quarta ou quinta bebida e nadara cerca de metade do comprimento do Rio Lucinda. Sentia-se cansado, limpo, contente nesse momento por estar só; contente com tudo.
Ia cair uma tempestade. A formação de cúmulos - a tal cidade - subira e estava mais escura, e enquanto estava ali sentado voltou a ouvir o ribombar do trovão. O De Haviland girava ainda nos ares e Ned teve a impressão de que quase podia ouvir o piloto a rir de prazer na tarde; mas quando se ouviu um novo trovão largou para casa. Soou o apito de um trem e perguntou-se que horas seriam. Quatro? Cinco? Imaginou o salão da estação àquela hora, onde um empregado de mesa, o smoking sob um avental de plástico, um anão com um ramo de flores embrulhado em jornal, uma mulher que tinha estado a chorar, estariam á espera do trem suburbano. De repente começou a escurecer; foi nesse momento que os pássaros minúsculos deram a impressão de mudar o seu canto para um qualquer agudo e reconhecível anúncio da aproximação da tempestade. Ouviu então o tênue ruído de água a cair da copa de um carvalho atrás dele, como se alguém tivesse aberto uma torneira. E então um ruído de fontes chegou-lhe das copas de todas as árvores altas. Porque gostaria de tempestades, que significado teria a sua excitação quando as portas se escancaravam e os ventos da chuva irrompiam violentamente pelas escadas acima, porque lhe teria a simples tarefa de fechar as janelas de uma casa antiga parecido necessária e urgente, porque tinham para ele as primeiras notas líquidas de uma tempestade o som inconfundível das boas notícias, das novas festivas e alegres ? Depois houve uma explosão, um cheiro a pólvora, e a chuva fustigou as lanternas japonesas que a Sra. Levy tinha comprado em Quioto há dois anos, ou fora ainda no ano antes desse?
Deixou-se ficar no pavilhão dos Levys até passar a tempestade. A chuva arrefecera o ar e Ned estremeceu. A força do vento tinha despido um plátano das folhas vermelhas e amarelas, espalhando-as pela grama e a água. Era em fins de Junho, pelo que a ·árvore devia estar com míldio, no entanto sentiu uma tristeza estranha com este sinal do Outono. Retesou os ombros, esvaziou o copo, e encaminhou-se para a piscina dos Welchers. Isto significava atravessar o picadeiro dos Lindleys e ficou admirado ao vê-lo cheio de mato e todos os obstáculos desmontados. Perguntou-se se os Lindleys teriam vendido os cavalos ou se teriam ido passar fora o Verão e deixado os animais em pensão. Pareceu-lhe lembrar-se de ter ouvido qualquer coisa sobre os Lindleys e os cavalos, mas a lembrança era confusa. Prosseguiu então, descalço pela grama molhada, para os Welchers, onde descobriu que a piscina estava seca.
Esta quebra na sua corrente de água desapontou-o de um modo absurdo, e sentiu-se como um explorador que procura uma nascente torrencial e encontra um regato morto. Sentia-se desapontado e ludibriado. Era bastante comum ir para fora no Verão, mas nunca ninguém esvaziava a piscina. Os Welchers tinham claramente ido embora. Os apetrechos da piscina estavam dobrados, empilhados e cobertos com uma lona. O vestiário estava fechado á chave. Todas as janelas da casa estavam fechadas, e quando deu a volta até á entrada viu uma tabuleta de VENDE-SE pregada numa árvore. Quando fora a última vez que ouvira falar nos Welchers - ou melhor, quando fora a última vez que ele e Lucinda tinham recusado um convite deles para jantar? Parecia ter sido apenas há uma semana ou à volta disso. Será que a memória lhe começava a falhar ou ser· que a tinha disciplinado de tal modo na repressão dos fatos desagradáveis que acabara por lhe atingir o sentido da verdade? E então ouviu ao longe o som de um jogo de tênis. Isto animou-o, apagou todas as suas apreensões, permitindo-lhe olhar o céu carregado e o frio do ar com indiferença. Este era o dia em que Neddy Merrill tinha atravessado a nado o distrito. Grande dia! Encaminhou-se então para a sua passagem mais difícil.
Quem tivesse ido dar uma volta de carro nessa tarde de domingo, tê-lo-ia visto, praticamente nu, parado na beira da Estrada 424, à espera de uma oportunidade para atravessar. Poderiam ficar a pensar se teria sido vítima de alguma brincadeira de mau gosto, se o carro teria quebrado, ou se era simplesmente algum maluco. Ali postado, descalço no meio dos detritos da autoestrada - latas de cerveja, papéis e remendos de borracha – exposto ao ridículo, tinha um ar patético. Sabia desde o começo que isto fazia parte da travessia - figurava nos seus mapas - mas confrontado com as filas de trânsito, contorcendo-se na luz estival, percebeu não estar preparado. Riam-se dele, faziam chacota, atiraram-lhe uma lata de cerveja, e sentia-se sem dignidade nem disposição para enfrentar a situação. Podia ter voltado para trás, para os Westerhazys, onde Lucinda ainda devia estar sentada ao sol. Não tinha assinado nada, prometido nada, nem feito qualquer juramento, nem sequer a si próprio. Acreditando como acreditava que toda a teimosia humana era sensível ao bom-senso, por que era incapaz de voltar para trás? Por que estava ele determinado a completar a travessia mesmo que isso significasse pôr a vida em perigo? A partir de que altura esta brincadeira, esta piada, esta criancice, se tinha tornado numa coisa séria? Não podia voltar para trás, não conseguia sequer lembrar-se com clareza da água verde dos Westerhazys, do sentimento de inalar os elementos do dia, as vozes amigas e calmas dizendo que tinham bebido demais. No espaço de uma hora, mais ou menos, tinha coberto uma distância que tornara o regresso impossível.
Um homem de idade, rodando pela auto-estrada a vinte quilômetros por hora, permitiu-lhe atingir o meio da estrada, onde havia um ilha de grama. Ficava agora exposto à zombaria do trânsito que seguia para Norte, mas ao fim de dez ou quinze minutos conseguiu atravessar. Daqui não tinha de caminhar muito para chegar ao Centro Recreativo no limite da aldeia de Lancaster, onde havia alguns campos de handebol e uma piscina pública.
O efeito da água nas vozes, a ilusão de brilho e de suspense, era o mesmo que nos Bunkers, mas os sons aqui eram mais altos, ásperos, e havia mais guinchos, e assim que entrou no recinto apinhado deparou com o regulamento. "TODOS OS BANHISTAS DEVEM TOMAR UMA DUCHA ANTES DE ENTRAR NA PISCINA. TODOS OS BANHISTAS DEVEM PASSAR PELO LAVA-PÉS. TODOS OS BANHISTAS DEVEM USAR O CRACHÁ DE IDENTIFICAÇAO." Tomou uma ducha, andou por uma solução turva e acre, e abriu caminho até à borda da piscina. Tresandava a cloro e dava-lhe a impressão de um tanque. Dois salva-vidas em duas torres, a intervalos que pareciam regulares, sopravam apitos de polÌcia e descompunham os banhistas através de alto-falantes. Neddy lembrou-se com saudade da água cor de safira dos Bunkers e pensou que se calhar ia ficar contaminado - arriscando a prosperidade e o encanto - ao nadar naquele caldo, mas lembrou-se que era um explorador, um peregrino, e que isto não passava de uma curva estagnada no Rio Lucinda. Mergulhou, com um franzir desgostado, no cloro e viu-se obrigado a nadar com a cabeça fora da água para evitar colisões, mas mesmo assim não deixaram de esbarrar nele, de o salpicar, de o empurrar. Quando atingiu a parte baixa, ambos os guardas estavam aos berros: "Eh! Você, você sem crachá de identificação, saia já da piscina." Obedeceu, mas não tinham maneira de o perseguir e ele continuou, por entre cheiro de bronzeador e cloro, pela vedação de rede e passou os campos de handebol. Atravessando a estrada entrou na parte arborizada da propriedade dos Hallorans. A mata não tinha sido limpa, o caminho era traiçoeiro e difícil até chegar ao gramado e à sebe aparada de faia que rodeava a piscina.
Os Hallorans eram amigos, um casal idoso com uma fortuna enorme que parecia deliciar-se com a suspeita de que pudessem ser comunistas. Eram devotados reformistas, mas não eram comunistas, e no entanto, sempre que os acusavam, como por vezes acontecia, de subversão, dava a impressão de que isso lhes agradava e os entusiasmava. A sebe de faia estava amarela e Ned pensou que deveria estar com mÌldio, tal como o plátano dos Levys. Gritou olé, olé, para avisar os Hollorans da sua chegada, para atenuar a invasão da sua privacidade. Os Hallorans, por razıes que nunca lhe tinham sido explicadas, não usavam maiôs. Nem havia, de fato, explicações a dar. O nudismo era um aspecto do seu inflexível zelo reformista e Ned tirou educadamente os shorts antes de passar pela abertura na sebe.
A Sra. Halloran, uma mulher corpulenta de cabelos brancos e rosto sereno, estava lendo o Times. O Sr. Holloran estava a retirar folhas da piscina com um apanhador. Não pareciam surpreendidos ou desagradados por o verem. A piscina deles era talvez a mais antiga da região, um retângulo em alvenaria, alimentada por um riacho. Não tinha filtro nem bomba e a água era do dourado opaco da torrente.
– Estou atravessando o Condado a nado - disse Ned.
– Sim? Não sabia que era possível - exclamou A Sra. Halloran.
– Bem, já consegui vir desde os Westerhazys - disse Ned. - Devem ser uns seis quilômetros e tal.
Deixou os shorts junto ao lado fundo da piscina, dirigiu-se à parte baixa e fez a distância a nado. Quando estava saindo da água ouviu a Sra. Halloran dizer: "Ficamos imensamente tristes com todas as suas desgraças, Neddy."
– As minhas desgraças? – perguntou Ned. – Não sei do que está falando.
– Então, mas ouvimos dizer que vendeu a casa e que as suas pobres filhas...
– Não me lembro de ter vendido a casa – disse Ned – e as meninas estão em casa.
– Pois - suspirou a Sra. Halloran – Pois é.... – A voz dela enchia o ar de uma melancolia inesperada e Ned respondeu com vivacidade:
– Obrigado pelo mergulho.
– Então, bom passeio – disse a Sra. Halloran.
Passando a sebe, vestiu os shorts. Estavam largos e Ned perguntou-se se, no espaço de uma tarde, poderia ter perdido algum peso. Estava com frio e cansado e os Hallorans nus e a água escura deles tinham-no deprimido.
Tanto tempo a nadar era demasiado para as suas forças, mas como poderia tê-lo adivinhado, ao escorregar pelo corrimão nessa manhã ou sentado ao sol em casa dos Westerhazys? Sentia os braços sem forças. As pernas pareciam de borracha e doíam-lhe nas articulações. O pior era o frio nos ossos e o pressentimento de que não voltariam a aquecer. As folhas caíam á sua volta e sentiu o cheiro de fumaça de lenha no vento. Quem estaria fazendo fogueiras nesta época do ano?
Precisava de uma bebida. Um uísque havia de o aquecer, de lhe levantar o moral, aguentá-lo durante a última parte da jornada, renovando-lhe o sentimento de que era original e valoroso atravessar o distrito a nado. Os nadadores do Canal bebiam brandy. Precisava de um estimulante. Atravessou o gramado em frente da casa dos Hallorans e foi por uma vereda que descia até onde eles tinham construído uma casa para a filha única, Helen, e o marido, Eric Sachs. A piscina dos Sachs era pequena e Ned encontrou lá Helen e o marido.
– Oh, Neddy – disse Helen – Almoçou em casa da mãe?
– Não foi bem isso – disse Ned. – Passei para ver os teus pais. – Pareceu-lhe ser uma explicação suficiente – Lamento imenso uma intrusão destas, mas apanhei um resfriado e pensei se me dariam uma bebida.
– Pois, teria muito prazer – disse Helen – mas nesta casa nunca mais houve nada que se bebesse desde a operação do Eric. Já lá vão três anos.
Será que estava perdendo a memória, será que a sua capacidade para ignorar fatos penosos fizera com que se esquecesse de que tinha vendido a casa, que as filhas estavam com problemas, e que o amigo tinha estado doente? Os olhos desviaram-se do rosto de Eric para o seu abdomem, onde viu três cicatrizes apagadas, suturadas, duas delas com pelo menos trinta centímetros de comprimento. O umbigo tinha desaparecido, e como seria, pensou Neddy, quando a mão tateante que às três da manhã avalia o que recebemos da natureza encontrasse uma barriga sem umbigo, sem nenhuma ligação ao nascimento, uma tal quebra na sucessão?
– Tenho a certeza de que encontra uma bebida nos Biswangers – disse Helen.
– Há uma festa enorme. Ouve-se daqui. Escute!
Helen levantou a cabeça e do outro lado da estrada, dos gramados, dos jardins, do arvoredo, dos campos, Ned ouviu de novo o animado som das vozes por cima da água. "Bem, vou-me molhar", disse ele, continuando a sentir que não tinha liberdade de escolha quanto aos seus meios de viajar. Mergulhou na água fria dos Sachs e, arquejante, quase se afogando, atravessou a piscina de uma ponta à outra. "Lucinda e eu queremos imenso vê-los – disse ele por cima do ombro, o rosto voltado para casa dos Biswangers. – Lamentamos ter deixado passar tanto tempo e vamos telefonar muito em breve."
Atravessou alguns campos até chegar a casa dos Biswangers e aos ruídos de farra que de lá vinham. Haviam de sentir que era uma honra dar-lhe uma bebida, seria um prazer darem-lhe uma bebida. Os Biswangers convidavam-no para jantar, a ele e Lucinda, quatro vezes por ano, com seis semanas de antecedência. Eram sempre rejeitados e mesmo assim continuavam a mandar-lhes convites, sem querer compreender as rígidas e pouco democráticas realidades da sua sociedade.
Eram o tipo de pessoas que discutem o preço das coisas nas recepções, que trocam dicas sobre a Bolsa durante o jantar, e que depois do jantar contam anedotas porcas sem olhar quem está por perto. Não pertenciam ao círculo de Ned - nem sequer estavam na lista de cartões de Natal de Lucinda. Dirigiu-se à piscina deles com um sentimento de indiferença, de benevolência, e alguma inquietação, uma vez que parecia estar escurecendo, quando estes eram os dias mais compridos do ano. A festa, quando entrou, estava animada e com muita gente. Grace Biswanger era o tipo de anfitriã que convidava o oculista, o veterinário, o agente imobiliário, e o dentista. Não havia ninguém a nadar e o crepúsculo, refletindo-se na água da piscina, tinha uma claridade de inverno. Havia um bar e Ned dirigiu-se para lá. Quando Grace Biswanger o avistou veio ter com ele, não amistosamente como tinha todo o direito de esperar, mas sim com ar belicoso.
– Olha, nesta festa há de tudo – disse ela em voz alta – até mesmo penetras.
Não que lhe pudesse incomodar - tal hipótese estava fora de questão e por isso não se encolheu.
– E como penetra – perguntou delicadamente – tenho direito a bebida?"
– Faça como entender – disse ela. – Não me parece que ligue muito a convites.
Virou-lhe as costas e Ned dirigiu-se ao bar e pediu um uísque. O barman serviu-o, mas serviu-o com maus modos. Ned pertencia a um universo onde os empregados respeitavam os escalões sociais e ser enxovalhado por um tipo que era barman de meio espediente significava que tinha sofrido alguma perda de estima social. Ou talvez o homem fosse novo e mal informado. E então ouviu Grace dizer às suas costas: "Perderam tudo de um ia para o outro – ficaram só com o ordenado – e ele apareceu aqui bêbado um domingo e pediu cinco mil dólares emprestados..." Aquela estava sempre a falar em dinheiro. Pior do que comer ervilhas com faca. Mergulhou na piscina, nadou de uma ponta à outra e foi-se embora.
A piscina seguinte na lista, a antepenúltima, era a da sua antiga amante, Shirley Adams. Se em casa dos Biswangers sofrera algumas feridas, seriam saradas aqui. O amor - a intimidade sexual, na verdade - era o supremo elixir, o analgésico, a pílula de cores alegres capaz de trazer de novo a Primavera à sua vida, a alegria de viver ao seu coração. Tinham tido um caso na semana passada, no mês passado, no ano passado. Não conseguia lembrar-se. Tinha sido ele a romper, ele é que saíra por cima, e transpôs a cancela do muro que rodeava a piscina sem sequer lhe aflorar alguma sombra à sua autoconfiança. Parecia-lhe de certo modo ser a sua própria piscina, pois que o amante, especialmente o amante ilícito, dispõe dos bens da amante com uma autoridade que o sagrado matrimônio desconhece. Shirley estava lá, o cabelo cor de cobre, mas a sua figura, na borda da água luminosa, cerúlea, não despertou nele nenhuma lembrança profunda. Tinha sido, pensou, um caso ligeiro, embora ela tivesse chorado quando ele rompeu. Pareceu-lhe ficar confusa ao vê-lo e Ned perguntou-se se ainda estaria magoada. Será que ela, Deus queira que não, iria chorar outra vez?
– Que é que que você quer? – perguntou ela.
– Estou a atravessar o Condado a nado.
– Meu Deus. Será que nunca mais cresces?
– O que está acontecendo?
– Se veio pedir dinheiro - disse ela - não te dou nem mais um centavo.
– Podia me oferecer uma bebida.
– Podia, mas não ofereço. Não estou só.
– Bem, então vou andando.
Mergulhou e atravessou a piscina, mas quando tentou içar-se para a borda apercebeu-se de ficara sem força nos braços e nos ombros e esbracejou até às escadas, subindo-as para sair. Olhando por cima do ombro viu, no vestiário iluminado, um homem novo. Ao sair para a grama escura sentiu o cheiro dos crisântemos ou malmequeres - um desses teimosos aromas outonais - no ar da noite, forte como um gás. Levantando os olhos, viu que as estrelas já tinham surgido, mas por que tinha a impressão de estar vendo Andrômeda, Cefeu e a Cassiopéia? Onde estavam as constelações de Junho? Começou a chorar.
Era provavelmente a primeira vez em sua vida de adulto que chorava, e seguramente a primeira vez na vida que se tinha sentido tão perdido, enregelado, cansado e confuso. Não conseguia entender a grosseria do barman ou a brusquidão de uma amante que tivera ajoelhada aos seus pés e lhe molhara de lágrimas as calças. Tinha nadado demais, tinha estado imerso demasiado tempo, e o nariz e a garganta doíam-lhe por causa da água. Precisava de uma bebida, de um pouco de companhia, e algumas roupas lavadas e secas, e embora pudesse ir diretamente pela estrada para casa, prosseguiu em direção à piscina dos Gilmartins. Aqui, pela primeira vez na sua vida, não mergulhou, descendo antes a escada para as águas gélidas e nadou de lado, sem jeito, uma coisa que devia ter aprendido em rapaz. Cambaleava de fadiga ao caminhar para casa dos Clydes e esbracejou a todo o comprimento da piscina deles, detendo-se várias vezes com a mão na borda para descansar. Subiu pela escada e perguntou a si próprio se teria forças para chegar a casa. Tinha feito o que queria, tinha atravessado o Condado a nadar, mas estava tão aturdido de cansaço que o triunfo lhe surgia vago. Curvado, segurando-se às estacas da cerca como apoio, subiu o caminho da sua própria casa.
Estava tudo às escuras. Seria assim tão tarde que já estavam todos deitados? Será que Lucinda tinha ficado em casa dos Westerhazys para jantar? E que as meninas tinham ido se encontrar com ela ou tinham ido a qualquer outro lugar? Então não tinham combinado, como faziam todos os domingos, não aceitar nenhum convite e ficar em casa? Experimentou as portas da garagem para ver que carros estavam, mas as portas estavam fechadas à chave e as mãos ficaram-lhe cheias da ferrugem dos puxadores. Dirigindo-se a casa, viu que a violência da tempestade tinha desprendido uma calha. Pendia agora por cima da porta de entrada como uma vareta de guarda-chuva, mas podia repará-la na manhã seguinte. A casa estava fechada, e Ned pensou que o estúpido do cozinheiro ou a estúpida da empregada deviam ter fechado tudo à chave até que se lembrou que há muito tempo não tinham cozinheiro nem empregada. Gritou, bateu à porta, tentou força-la com o ombro, e então, espreitando pela janela, viu que a casa estava vazia.
John Cheever
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