quarta-feira, outubro 28

Leitura de janela

 


Do pai herói, no pulso esquerdo

Deve ter sido porque eu restaurei o velho relógio Omega do meu pai, comprado em 1950, e o relojoeiro me disse para, pelo amor de Deus!, não andar com ele na rua. Deve ter sido por isso, pela insistência camicase em carregar meu pai de novo pelas ruas da cidade, preso no pulso esquerdo, justo agora que começa o agosto da comemoração do dia dos pais.

Deve ter sido por isso, saudade e medo, só pode ter sido, que me veio a lembrança de um tempo em que meu pavor infantil era não o de ladrões na esquina, mas o de morrer de corrente de ar, uma ameaça que rondava as famílias, todas com exemplos de entes queridos mortos numa daquelas lufadas assassinas que entravam pela porta entreaberta e, babau, lá se ia aquela prima bonitinha.

Ninguém morre mais de corrente de ar como no agosto da minha infância. Os meninos hoje também não têm mais espinhela caída, não usam emplastro Sabiá no peito e ninguém lhes aplica mais, goela abaixo, uma colherada maligna de óleo de fígado de bacalhau para aprimorar o desenvolvimento do físico e da memória.

Eu não estou sentindo exatamente saudade de nada disso, mas o pensamento parece uma coisa à-toa e, quem ouviu Lupicínio sabe, como a gente avoa quando começa a pensar. O relógio do meu velho e querido pai, brilhando de novo pós-restauro, foi-me puxando de volta pelo pulso e, de repente, vai entender?!, tudo ficou com um leve gosto achocolatado de Sustincau. Será que tinha?

Hoje, quatro de agosto, é dia do padre. Acabei de ver tamanha bobagem num desses livros de cultura inútil e normalmente não prestaria atenção na abobrinha. Mas, sei lá, deve ter sido por causa do tempo Omega me levando de novo até as sensações da infância e também pela mais completa ausência de sentimento religioso que me permeia a alma herege no momento. Deve ter sido pelo tique-taque dessas emoções disparadas por agosto que, ao ver a palavra padre, imediatamente me veio não o pelo-sinal-da-santa-cruz, mas alguma voz no fundo gritando o “último lá é mulher do padre” - aquele momento decisivo em que saía todo mundo correndo.

O pulso, que agora me pulsa com o mesmo relógio que antes pulsava a autoridade do pai português, sabe que o passado visto assim do alto, e cada vez mais de longe, é um grande mentiroso. O Vigilante Rodoviário devia ser tristíssimo. Uma infância dividida em pêra, uva, maçã, bola ou búlica pode dar a impressão, hoje, de recender apenas a essência do sabonete Cinta-Azul, aquele que carregava uma pedra de água-marinha no bojo de alguns dos seus tabletes.

Mas e a cachumba? O mertiolate? O boletim de notas? A priminha bonitinha te dizendo “não” antes de morrer? A saudade é acrítica e nela tudo comove. Às vezes choramos apenas pela mais sublime e básica das sensações, a de termos sobrevivido às correntes de ar e aos jogos da memória.

Domingo desses, já com o Omega paterno me servindo de bússola, fui parar no Museu do Pontal, em Vargem Grande. Eu poderia narrar alguma coisa sobre a beleza da arte popular nacional exposta ali, esculturas geniais do mestre Vitalino. O que me impressionou mesmo no meio de todos aqueles bonequinhos de barro foi a reprodução de uma cena que já me tinha sumido: a brincadeira de carniça.

Era coisa de menino suburbano. Do mesmo jeito que as meninas não passam mais o anel, não se joga mais carniça. Eu desmentiria se alguém dissesse que a humanidade está desse jeito por ter abandonado a carniça. Era tudo meio estúpido, grosso. Aos quarentões de hoje peço apenas – não vou revelar detalhes, rapazes, ficam entre nós – peço apenas um minuto de silêncio pelos camaradas que se entusiasmaram com o capítulo de molhar a caneta no tinteiro e nunca mais foram os mesmos.

Às vezes eu tenho a impressão que a saudade, por mais água-marinha que se ponha no sabonete dela, não é essa coisa toda que a gente sente e geme “ai como era bom”. Eu estou passeando por ela, orgulhoso do Omega do portuga me dando corda e passando o bastão da existência, com todos os seus compromissos e horas marcadas para entregar a crônica ao editor. Mas não consigo dizer, por mais que o garoto da outra rua me provoque com gritos de “tá com medo tabaréu, tua linha é de carretel”, ninguém vai me ouvir dizer que “aquilo sim”. A nostalgia é uma velhota sem senso de ridículo. Havia o televizinho, o Jajá da Kibon, a maria-fumaça feita com jornal, o “que time é teu”, os cadernos Continental com o mapa do Brasil na capa e o hino na contra. Na rua, eu ouvia “Marraio, feridô sou rei” e em casa Amália Rodrigues baixava a bola, pré-dark, cantando que “tudo isso existe, tudo isso é triste, tudo isso é fado”. Havia muito mais. O resto, felizmente, vai ficando para muito antes de antes de ontem e eu agradeço, sem dó, sem precisar me confessar ao padre, à corrente de ar que pegou a memória sem camisa e, babau, matou a saudade.

O passado, quanto mais passado fica, costuma parecer restaurado, muito mais bonito, como o relógio que me encanta agora e serve de presente involuntário no dia dos pais. Melhor assim. O Omega veio do tempo em que Waldir Amaral gritava nos jogos de futebol do rádio o bordão testosterona, entre Freud e Nenen Prancha, de “O relóóóóógio maaaaarca”. Ele veio do tempo do “Papai sabe tudo”, a série da TV Tupi. Hoje a televisão vende a imagem do “Papai sabe xongas”. É sempre um sujeito perplexo como o Hommer Simpson. Não acho ruim, não acho que o pai esteja em baixa porque lhe tiraram a capa de super-homem e a autoridade inquestionável. A família desandou, mas, por favor, o velho não tem culpa dessa. O meu era um personagem austero, como o relógio que deixou de herança. Quase não ria, não abraçava, sempre resguardado nos seus negócios. De noite, os filhos pediam a bênção antes de dormir. Tocava um fado triste na vitrola.
Se não me falha a memória, se o elixir de inhame e o xarope de alcatrão fizeram algum efeito, eram todos assim. O pai-herói entregou o bastão ao pai-moleque e deu a missão por cumprida. O relógio que me vai no pulso é apenas um rito de passagem marcando o tempo presente – e não dói.

Joaquim Ferreira dos Santos, "Em busca do borogodó perdido"

Poema do Aviso Final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança
É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminho

É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana
se firmará a machadadas.

Torquato Neto, "O fato e a coisa"

Exausto

Não por percorrer distâncias, mas de tanta discussão e canelada. Não pela ansiedade dos prazos, mas pelas amizades desfeitas por política. Menos por subir oito lances de escada, mais por conta da luz que falta a qualquer ameaça de chuva. Não pelo peso de halteres e aparelhos, e sim pela ignorância que se orgulha de sua condição. Nem tanto pela tontura que antes fosse só pela idade, mais por aquela sensação de não pertencimento de três semanas atrás.

Não pelo noticiário na TV e sim por não ter mais criança em casa. Não pelas sete pílulas diárias (mais uma para proteger o estômago), mas pelas evidências escancaradas do aquecimento global. Muito menos pelo pernilongo que atazanou minha noite, senão pelos pesadelos que o sono trazia.


Um peso sobre os ombros que não sei de onde. Um espectro ao fechar os olhos (não fechemos os olhos, jamais). Uma aflição nas praças, bares e trens do metrô, comum a todos.

Menos pela saudade que não se resolve, mais por saber que ninguém do outro lado vai atender o telefone. Não pela feiúra absurda dos fios enrolados nos postes, mas pelas derrotas da delicadeza. Nem pelos fracassos do nosso futebol, mas por tanta gente normalizando o que não se deve. Não só pela glorificação da vulgaridade, mas pelo genocídio em Gaza. Menos pelas ruas vazias de medo às nove da noite, mais pela tentativa de infiltração das milícias em todos os setores.

Mais grave que a exaustão é o cansaço de falar sobre ela. E os algoritmos, sempre tão contra.

Não só pela indiferença dos privilegiados, mas também pela arrogância do sujeito que abriu o vidro do carro para jogar o lixo na rua. Não pelo sumiço dos amigos, mas por vê-los desorientados. Menos pelas relações desencontradas, mais pelas balas perdidas. Não pela demolição das casas simpáticas do bairro, mas pela impossibilidade de hoje abraçar minha filha.

Exausto pela prepotência dos que comandam a tecnologia e lucram com as nossas desavenças. Pela criança comemorando no capô do carro com uma arma na mão. Pelas ofensas naturalizadas. Pelas queimadas provocadas pelo homem. Pelas chicotadas no chão em tom de ameaça. O homem negro desfilando na avenida, acorrentado por um homem branco. Não pelo sim, muito mais pelo não.

Exausto. Mas aliviado.

Abril é o mês mais cruel

Não soube se o que o despertou foi a claridade que entrava pela janela, o calor ou ambas as coisas. Ou quem sabe o barulho que ela fazia na cozinha preparando o café da manhã. Ouviu primeiro ela fritar os ovos e logo em seguida sentiu o cheiro da manteiga quente. Se esticou na cama e sentiu a frescura dos lençóis escorregando por debaixo de seu corpo e um arrepio agradável correu pelas costas até a nuca. Naquele momento ela entrou no quarto e ele se surpreendeu ao vê-la com o avental por cima do shorts. A lâmpada, que antes estava na mesinha ao lado da cama, já não estava mais ali e ali, ela pôs os pratos e os copos. Só então se certificou que ele estava acordado.

— Que me conta este dorminhoco? — perguntou ela brincando.

Em um bocejo ele respondeu: Bom dia.

— Como você se sente?

Ia dizer que muito bem, mas pensou que não era exatamente muito bem. Reconsiderou e disse:

— Admiravelmente.

Não mentia. Nunca tinha se sentido melhor. Mas se deu conta que palavras são traiçoeiras.

— Que bom! — disse ela.

Comeram. Quando ela terminou de lavar a louça, voltou ao quarto e propôs que eles fossem dar um mergulho.

— Faz um dia lindo — disse.

— Vi pela janela — disse ele.

— Viu?

— Bem, senti.

Se levantou, se lavou e colocou seu calção de banho. Por cima vestiu o roupão e foram a praia.

— Espere — disse ele na metade do caminho — Esqueci a chave.

Ela tirou a chave do bolso e mostrou. Ele sorriu.

— Você nunca esquece de nada?

— Sim — disse ela e o beijou na boca — Hoje tinha esquecido de te beijar. Quer dizer, depois de acordado.

Sentiu o ar do mar nas pernas, no rosto e respirou fundo.

— Isso é vida — disse.

Ela tinha tirado as sandálias e enterrava os dedos na areia ao andar. Olhou para ele e sorriu.

— Você acredita? — disse.

— Você não acredita? — retrucou ele.

— Oh, sim. Sem duvida. Nunca me senti melhor.

— Nem eu. Nunca na vida — disse ele.

Se banharam. Ela nadava muito bem, com braçadas longas de professional. Pouco depois ele regressou a praia e se deitou na areia. Sentiu que o sol secava a agua e os cristais de sal se grudavam nos seus poros. Ele pode observar onde estava se queimando mais e onde se formariam bolhas. Ele gostava de se bronzear ao sol. Ficar quieto, encostar a cara na areia e sentir a brisa formando e destruindo aquelas pequenas dunas e jogando grãos de areia para dentro de seu nariz, seus olhos, na boca e nos ouvidos. Parecia um deserto distante, imenso, misterioso e hostil. Cochilou.

Quando despertou, ela se penteava ao seu lado.

— Voltamos? — perguntou.

— Quando você quiser.

Ela preparou o almoço e comeram sem se falar. Tinha se queimado levemente no braço e ele foi até a farmácia que ficava a três quarteirões para comprar picrato. Depois ficaram no portal e até eles chegou o fresco, e as vezes rude, vento do mar que se levanta às tardes em abril.

Ele a olhou. Viu seus tornozelos delicados e bem desenhados, seus joelhos lisos e os músculos delineados com suavidade. Ela estava deitada na espreguiçadeira relaxada e em seus lábios grossos havia una tentativa de sorriso.

— Como você se sente? — perguntou.

Ela abriu seus olhos e voltou a fechar diante da claridade. Suas pestanas eram largas e curvas.

— Muito bem. E você?

— Muito bem também. Mas me conte... já saiu tudo?

— Sim — disse ela.

— E já não incomoda?

— Em absoluto. Te juro que nunca me senti melhor.

— Me alegro.

— Por quê?

— Porque incomodaria me sentir tão bem se você não está bem.

— Mas eu me sinto bem.

— Me alegro.

— Verdade. Acredite, por favor.

— Acredito.

Ficaram em silencio e ela falou:

— Damos um passeio pelas pedras?

— Você quer?

— Sem dúvida. Quando?

— Quando queiras.

— Não, diga você.

— Esta bem, dentro de uma hora.

Em uma hora tinham chegado aos penhas
cos e ela perguntou observando na praia o desenho da espuma das ondas que se estendia até as cabanas:

— Que altura você acha que deve haver até lá embaixo?

— Uns cinquenta metros. Talvez setenta e cinco.

— Cem não?

— Não creio.

Ela se sentou na pedra, de perfil para o mar com suas pernas contrastando com o azul do mar e do céu.

— Você já me fotografou assim? — perguntou ela.

— Sim.

— Me prometas que nunca fotografará outra mulher assim neste lugar.

Ele se zangou.

— As coisas que passam pela tua cabeça! Estamos em lua de mel, não? Como posso pensar em outra mulher.

—Não digo agora. Mais tarde. Quando você tenha se cansado de mim, quando a gente tenha se divorciado.

Ele a levantou e a beijou nos lábios com força.

— Você é boba.

Ela se aconchegou em seu peito.

— Não nos divorciaremos nunca?

— Nunca.

— Você vai me querer para sempre?

— Sempre.

Se beijaram. Quase em seguida escutaram que alguém lhes chamava.

— É com você.

— Não sei quem possa ser.

Viram um velho se aproximar por trás das ramas da folhagem.

— Ah. É o encarregado.

Ele os cumprimentou.

— Vocês partem amanhã?

— Sim, pela manhã bem cedo.

— Bem, então prefiro que paguem agora. Pode ser?

Ele olhou para ela.

— Vai você com ele. Eu quero ficar aqui um pouquinho mais.

— Por que você não vem também?

— Não— disse ela— Quero ver o por do sol.

— Não quero interromper. Mas é que gostaria de ir a casa da minha filha para ver as lutas de box pela televisão. Você sabe, ela vive aqui perto.

— Vá com ele— disse ela.

— Está bem — disse ele e saiu andando atrás do velho.

— Você sabe onde está o dinheiro?

— Sei — respondeu ele, olhando para trás.

— Vem me buscar depressa, pode ser?

— Está bem. Mas quando escurecer, descemos. Lembre-se.

— Está bem — disse — Me de um beijo antes de ir.

Ela o beijou com força e com dor.

Ele a sentiu tensa, afiada por dentro. Antes de se perder atrás das folhagens ele ainda acenou. Pelo ar chegou sua voz que dizia eu te quero. Ou talvez perguntava, você me quer?

Ficou olhando para o sol se pondo. Era um circulo cheio de fogo que o horizonte convertia em três quartos de circulo, em meio circulo e em nada, ainda que permanecesse um leve borbulhar vermelho por onde o sol desapareceu. Em seguida o céu foi ficando violeta, roxo e o negro da noite apagou os restos do crepúsculo.

— Teremos lua esta noite? — se perguntou ela falando alto.

Olhou para baixo, viu um buraco negro e logo abaixo, a crosta de espuma branca ainda visível. Se moveu para a borda onde estava sentada e deixou os pés pendurados no vazio. Depois apoiou as mãos na pedra, suspendeu o corpo e sem o menor ruído se deixou cair no poço negro e profundo que era a praia exatamente oitenta e dois metros abaixo.
Guillermo Cabrera Infante

terça-feira, outubro 27

Praia do leitor


Achando o amor

Ele tem quinze anos, calça 42, usa cabelos razoavelmente compridos. Estava num bar do Leblon, na companhia de castigados adultos. Estes tomavam uísque; o rapazinho tomava a segunda coca média. Quando os homens feitos já tinham falado sobre mulheres, o time do Flamengo, o custo de vida, reviravolta política dum país africano, desastre espetacular no aterro, música da moda, o silêncio entrou no bar e empapou tudo como gordura. Um silêncio hepático ou pancreático ou esplenético. O silêncio que intoxica os etílicos. Para agravar o oleoso drama, era aquela hora da noite, já um pouco tarde para o jantar doméstico e ainda um pouco cedo para a irresponsabilidade. O encaroçado point of no return dos boêmios.

Aí o jovem disse que estava juntando dinheiro para comprar um sabiá. Talvez não comprasse um sabiá, mas um curió. Ia para o colégio de ônibus porque sempre estava em cima da hora, mas voltava a pé. Não comia sanduíche no recreio. Sabiá tá caro! Vendedor de passarinho tem muito trambique. Ele chateou tanto um, ali naquela lojinha de Ipanema, pedindo abatimento para pintassilgo, que o homem acabou lhe ensinando onde se compra pintassilgo mais barato na cidade. Tinha em casa azulão, canário, coleiro, bigodinho... Teve bicudo, corrupião, mainá... O triste é que passarinho morre.

Então os etílicos foram buscar passarinhos no fundão do tempo e começaram também a passarinhar. O bar noturno virou um viveiro de cantores e cores. O Silêncio voltou de novo mais limpo, exorcizado.

O jovem retomou a palavra: o passarinho que mais o entusiasmou a vida toda não cantava nem era bonito. Até o dicionário dizia que ele era feio. Foi ao dicionário por não saber se o certo era chopim ou chupim.

O chupim põe os ovos em ninho de tico-tico, e é este que cria os filhotes. Tinha descoberto numa árvore da lagoa Rodrigo de Freitas um ninho de tico-tico com um ovo de chupim. Quando o chupim nasceu, o problema era mantê-lo vivo: arranjou um conta gotas e, todas as tardes, depois das aulas, subia à árvore e descia alimentos líquidos pela goela do filhote. No momento certo, levou o chupim pra casa. O passarinho não ficava preso, pelo menos grande parte do tempo, mas pousado num galho de arbusto decorativo. Saía às vezes para passear com o chupim e a cachorrinha: ele na frente, o chupim andando atrás, a cachorrinha saltitando em torno. Bastava um gesto e um assovio para que o chupim decolasse e viesse pousar em seu ombro. Espetacular! Pouco depois, passou a lançar o passarinho pela janela; ele sumia durante uma ou duas horas, pousando à tarde na amendoeira de defronte; um assovio, e o passarinho entrava pela janela, pousando no ombro do dono. Como um falcão amestrado! Mas era um chupim, um feio e triste chupim!

Uma tarde, quando o passarinho andava lá por fora, caiu a tempestade. O chupim não voltou. Ele ficou à janela até depois de escurecer; mas o chupim não voltou. Esperou ainda durante uma semana, sabendo que esperava sem motivo.

Confesso que fiquei triste às pampas, disse o jovem.

Aí o Silêncio que entrou parecia uma enorme bola de sabão, uma coisa que não vale nada, mas que nos inquieta de leve quando se desfaz.

O jovem arrematou: É engraçado, eu senti por aquele chupim um negócio esquisito. Eu não tenho vergonha de dizer pra vocês: chorei por causa do meu chupim. Eu sentia uma afeição pelo chupim... uma coisa profunda mesmo... Ora, eu amava aquele chupim... Agora é que tou entendendo: o que eu tinha pelo chupim era amor.

Paulo Mendes Campos, "Balé do pato e outras crônicas"

Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja para fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem ser a olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.

É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre

Haicai-refúgio

O haicai tem sido meu refúgio, nestes tempos conflitantes. Ele acalma a alma, como canta Marisa Monte. Deixa recados oportunos, que traduzo em: sinta, sinta-se. Penso na pergunta inquietante do velho Abujamra, agora repetida por Marcelo Tass: o que é a vida? E aí, numa coincidência daquelas, a rádio Eldorado põe no ar Gonzaguinha, com a resposta das crianças: é bonita.


Belos também são os haicais, com suas releituras da realidade em que o óbvio cede lugar a detalhes nem sempre percebidos, o que me comove e, até, arrepia, quando a sensibilidade é extrema. Tudo depende do momento e agora, quando andamos tão sedentos de certezas, a poesia de três linhas atinge o alvo, não para ferir, mas resgatar nosso melhor.

Dois livros recentes têm me acompanhado nessa aventura: Um rio de nome vida, de Carlos Martins, e Rua do Ipê Branco, de Jonas Reis, dois haicaístas gigantes. O primeiro mescla prosa e poesia, que o autor classifica como “haibuns à maneira de crônicas”, contando saborosas lembranças, da infância à idade adulta, passando por ídolos e chegando à família (mãe, filhas e neta).

Chuva de verão
Os meninos no campinho
de bolas de gude

Rua ruidosa
Bicicletas e cigarras
ao entardecer

O olhar sorridente
do casal em primavera
Vagão do Metrô

Clarão da lua
A dois metros da janela
começa a escuridão

Mendigo deitado
na escadaria da Sé
Banho de sol

Noventa e sete anos
Os dedos sem digitais
nas contas do terço…

Início de inverno
Não reconheço o velhinho
no espelho do ônibus

Alvorecer de outono
Uma mãozinha acena
da van escolar

Dia dos Pais
Telefona, sonolenta,
a filha emigrante

No segundo, o lirismo transborda a cada capítulo relativo às estações do ano. Nascido no campo, o autor inclui vivências na cidade.

não são cinco horas
e já tem conversa na árvore – 
esses bem-te-vis…

rua do ipê branco – 
diante do chão florido
hesita o gari

a terra molhada – 
vaivém do joão-de-barro
na trégua da chuva

Dia da Criança – 
busco a minha que no espelho
brinca de esconder

colheita de pêssegos – 
a revoada de rolinhas
na plantação

ribomba um trovão – 
a chuva desce e acorda
o cheiro da terra

águas de março – 
em meio à lama dos morros
escorrem casebres

corrente de rio – 
sobre o tronco que flutua 
vai a garça branca

só chegam em casa
as casquinhas da lichia – 
passeio na feira

praça dos sem-teto – 
a ausência do orvalho 
onde alguém dormiu

solidão urbana – 
tudo aparece como é 
no fim da neblina

E ainda há muito mais…

O limpador de chaminés

Há pancadas e pancadas. Uma pancada na cabeça não é brincadeira. O cérebro e um órgão delicado, se não fosse assim, por que a alma estaria localizada no cérebro? Por que não no fígado ou, se me perdoam, nas tripas? Pode-se ver a alma nos olhos. Os olhos são janelinhas pelas quais a alma espia.

Tínhamos um limpador de chaminés na cidade, cujo apelido era Yash Preto. Todos os limpadores de chaminé são pretos - que mais podem ser? mas Yash parecia ter nascido preto. Seu cabelo era eriçado e negro como o piche. Os olhos eram negros e a pele nunca estava limpa da fuligem. Só os dentes eram brancos. O pai tinha sido limpador de chaminés da cidade e Yash herdara o oficio. Já era um homem adulto, mas continuava solteiro e morava com a velha mãe, Maciechowa.

Vinha a nossa casa uma vez por mês, descalço, e a cada passo deixava uma marca negra no chão. Minha mãe, que ela descanse em paz, corria para recebe-lo e não deixa-lo ir além. Era pago pela cidade, mas as mulheres lhe davam um groschen ou uma fatia de pão quando acabava o serviço. Era o costume. As crianças tinham terror dele, embora nunca fizesse mal a ninguém. E enquanto foi limpador de chaminés, as chaminés nunca pegaram fogo. Aos domingos, como todos os cristãos, ele se lavava e ia a igreja com a mãe. Mas, lavado, parecia ainda mais negro do que antes; talvez por isso nunca encontrasse esposa.

Uma segunda-feira - lembro-me como se fosse ontem -, Feitel, o aguadeiro, entrou e nos contou que Yash caíra do telhado de Tevye Boruch. Tevye Boruch era dono de um sobrado na praça do mercado. Todos sentiram pena do limpador de chaminés. Yash sempre trepara pelos telhados com a agilidade de um gato, mas se um homem esta predestinado a sofrer um acidente, não há como evitá-lo. E tinha que ser no prédio mais alto da cidade. Feitel disse que Yash batera com a cabeça, mas não quebrara nenhum membro. Alguém o levara para casa. Ele morava nos arredores da cidade, próximo as matas, num casebre decrépito.

Durante algum tempo ninguém soube notícias de Yash. Mas que importava um limpador de chaminés? Se não podia mais trabalhar, a cidade contratava outro. Então um dia Feitel voltou, com dois baldes de agua no balancim e disse a minha mãe:

– Feige Braine, soube das notícias? Yash, o limpador de chaminés agora lê pensamentos.

Minha mãe riu e cuspiu.

– Que brincadeira é essa? - perguntou.

– Não é brincadeira, Feige Braine. Não é brincadeira mesmo. Ele está deitado no catre com a cabeça enfaixada adivinhando os segredos de todo mundo.

– Você ficou maluco? – ralhou minha mãe.

Não tardou e a cidade inteira estava comentando. A pancada na cabeça de Yash afrouxara algum parafuso em seu cérebro e ele se tornara vidente.

Tínhamos um professor na cidade, Nochem Mecheles, e ele chamava Yash de adivinho. Quem já ouvira falar numa coisa dessas? Se uma pancada na cabeça podia tornar um homem vidente, deveria haver centenas deles em cada cidade. Mas as pessoas tinham ido lá e presenciado com os próprios olhos. Um homem podia pegar um punhado de moedas no bolso e perguntar: “Yash, o que tenho na mão?”. E Yash respondia: “Tantas moedas de três groschen, tantas de quatro e de seis copeques”. Contavam as moedas e estava tudo certinho até o ultimo groschen. Outro homem perguntava: “Que foi que fiz na semana passada a essa hora em Lublin?”. E Yash dizia que fora a uma taverna com dois homens. E os descrevia como se estivessem diante dele.

Quando o médico e as autoridades da cidade ouviram a história, foram correndo ver. O casebre de Maciechowa era tão minúsculo e tão baixo que os chapéus dos visitantes tocavam no teto. Começaram a interrogá-Io e ele respondia tudo certo. O padre se alarmou; os camponeses estavam dizendo que Yash era santo. Um pouquinho mais, e principiariam a sair com ele em peregrinação como se fosse um ícone. Mas o médico dizia que não deviam removê-lo. Além do mais, ninguém nunca vira Yash na igreja exceto aos domingos.

Bem, lá estava ele deitado na enxerga, falando como uma pessoa normal - comendo, bebendo, brincando com o cachorro que a mãe criava. Mas sabia tudo: o que as pessoas traziam nos bolsos do casaco e nos bolsos das calças; onde esse tinha escondido o dinheiro; quanto aquele gastara em bebidas anteontem.

Quando a mãe viu o afluxo de visitantes, começou a cobrar um copeque de entrada por pessoa. E elas pagavam. O médico escreveu uma carta para Lublin. O prefeito da cidade mandou - como chamam agora? - um relatório, e vieram personagens em altos postos de Zamosc e Lublin. Diziam que o próprio governador enviara um representante. O prefeito se assustou e mandou limpar todas as ruas. A praça do mercado ficou tão limpa que não se via nenhum graveto ou palha no chão. A prefeitura foi rapidamente caiada. E tudo por causa de quem? De Yash, o limpador de chaminés. A casa de Gitel, o estalajadeiro, estava num alvoroço - quem alguma vez sonhara com hospedes tão importantes?

A comitiva inteira partiu para ver Yash em seu casebre. Interrogaram-no, e as coisas que disse encheram de medo os corações dos funcionários. Quem sabe as culpas que pessoas assim carregam? Todas recebiam suborno, e ele lhes disse. Do que entende um limpador de chaminés? O visitante mais ilustre - esqueço seu nome - insistiu que Yash estava doido e devia ser mandado para um hospício. Mas o nosso médico argumentou que o paciente não podia viajar, isso o mataria.

Corria o boato de que o médico e o representante do governador tinham trocado palavras ásperas e quase chegaram as vias de fato. Mas o nosso médico também era funcionário publico; era o médico da municipalidade e fazia parte da junta de alistamento. Era um homem inflexível - ninguém conseguia compra-lo, por isso não temia a clarividência de Yash. Seja como for, o médico venceu. Mas depois o representante informou que Yash estava louco, e deve ter se queixado do médico, porque não tardou e ele foi transferido para outro distrito.

Nesse meio tempo, a cabeça de Yash sarou e ele voltou a limpar chaminés. Mas conservou os seus estranhos poderes. Entrava numa casa para receber o seu groschen e a mulher lhe perguntava: “Yash, o que esta guardado na gaveta do lado esquerdo?”, ou: “O que tenho na mão?”, ou: “O que ceei ontem a noite?”. E ele dizia tudo. Perguntavam:

“Yash, como e que você sabe disso?” Ele dava de ombros: “Sei. Foi a pancada na cabeça”. E apontava para a têmpora. Poderia ter sido levado para as grandes cidades e as pessoas comprariam entradas para vê-lo, mas quem se preocupava com essas coisas.

Havia diversos ladrões na cidade. Roubavam roupa dos sótãos e tudo o mais em que pudessem por as mãos. Agora já não podiam roubar. A vítima procurava Yash e ele dizia o nome do ladrão e o lugar onde o produto do roubo estava escondido. Os camponeses das aldeias próximas ouviram falar de Yash e sempre que um cavalo era roubado, o dono vinha vê-lo para descobrir onde se encontrava. Muitos ladrões já estavam na cadeia. Os ladrões ficaram de olho nele e diziam abertamente que era um homem marcado. Mas Yash sabia de seus pianos com antecedência. Foram espanca-lo certa noite, mas ele se escondera no celeiro do vizinho. Atiravam pedras, mas ele pulava de lado ou se abaixava bem antes da pedra passar voando.

As pessoas esqueciam onde punham as coisas - dinheiro, joias - e Yash sempre lhes dizia onde acha-las. Nem parava para pensar. Se uma criança se perdia, a mãe corria para Yash, e ele a levava até a criança. Os ladroes começaram a dizer que ele próprio sequestrara a criança, mas ninguém lhes dava credito. Ele nem mesmo recebia pela consulta. A mãe exigia dinheiro, mas ele era um bobalhão. Nunca aprendera muito bem o valor de uma moeda.

Tínhamos um rabino na cidade, Reb Arele. Viera de uma cidade grande. No Grande Sabá antes da Pascoa ele pregou na sinagoga. E qual foi o tema? Yash, o limpador de chaminés. Os céticos, disse, negam que Moises seja profeta. Dizem que tudo deve ser explicado pela razão. No entanto, como e que Yash, o limpador de chaminés, sabe que Itte Chaye, a padeira, deixou cair a aliança no poço? E se Yash, o limpador de chaminés, sabe das coisas ocultas, como alguém pode duvidar dos poderes dos santos? Havia alguns hereges na cidade, mas nem eles tinham resposta.

Nesse interim, as noticias sobre Yash tinham chegado a Varsóvia, e outras cidades. Os jornais escreveram sobre ele, e de Varsóvia enviaram uma comissão. Mais uma vez o prefeito despachou o pregoeiro da cidade para avisar que as casas e quintais deviam ser limpos. A praça do mercado foi novamente varrida ate ficar tinindo. Depois do Sukkoth (Festa dos Tabernáculos)
vieram as chuvas. Só tínhamos uma rua calcada - a da igreja. Tábuas e toras foram estendidas por toda a parte para que as pessoas importantes de Varsóvia não precisassem andar na lama. Gitel, o estalajadeiro, preparou camas e acomodações. A cidade inteira se alvoroçou. Yash era o único que não ligava. Continuava a correr as casas e a limpar chaminés, como de costume. Nem tinha o bom senso de recear os funcionários de Varsóvia.

Mas escutem só: um dia antes da comissão chegar, houve uma nevada e uma súbita geada. Na noite anterior, viram faíscas e até línguas de fogo voando da chaminé de Chaim, o padeiro. Chaim, preocupado que irrompesse um incêndio, mandou buscar Yash, o limpador de chaminés. Yash veio com a vassoura e limpou a chaminé. O forno de um padeiro permanece aceso muitas horas e uma grande quantidade de fuligem se prende a chaminé. Quando Yash estava descendo, escorregou e tornou a cair. Bateu mais uma vez com a cabeça, mas não com tanta força quanto da primeira vez. Nem saiu sangue. Ele se levantou e foi para casa.
Meus queridos amigos, no dia seguinte, quando a comissão chegou e começou a interrogar Yash, ele não sabia nada. A primeira pancada abrira alguma coisa, e a segunda a fechara. Os figurões perguntaram quanto dinheiro traziam, o que fizeram no dia anterior, o que comeram uma semana atrás aquela hora, mas Yash apenas sorria como um tolo e respondia: “Não sei”.

Os funcionários se enfureceram. Repreenderam o chefe de polícia e o novo médico. Exigiram saber por que tinham vindo de tão longe para ver aquele parvo, aquele campônio que não passava de um limpador de chaminés comum.
O chefe de polícia e os outros juraram que Yash sabia de tudo ha um ou dois dias atrás, mas os visitantes não quiseram escutar. Alguém lhes disse que Yash caíra de um telhado e tornara a bater com a cabeça, vocês sabem como as pessoas são: só acreditam no que veem. O chefe de polícia se aproximou de Yash e começou a bater com os punhos na cabeça dele. Talvez o parafuso se soltasse outra vez. Mas, uma vez que a portinhola no cérebro se fecha, permanece fechada.

A comissão regressou a Varsóvia e negou a historia do princípio ao fim. Yash continuou a limpar chaminés mais um ou dois anos. Então irrompeu uma epidemia na cidade e ele morreu.

O cérebro é cheio de todo tipo de portinholas e câmaras. As vezes uma pancada na cabeça desarruma tudo. Ainda assim, tudo isso tem relação com a alma. Sem a alma, a cabeça seria tão sabia quanto o pé.

Isaac Bashevis Singer

segunda-feira, outubro 26

Sem palavras

 


Declaração de amor

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa.

Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
Clarice Lispector

Não sou a areia

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft

Os velhos e a borboleta

Para Gerana Damulakis

The bee is not afraid of me,
I know the butterfly,
The pretty people in the Woods
Receive me cordially.

Emily Dickinson


No jardim a borboleta propõe as flores. Faz borboletices entre as florzinhas. É pura felicidade quando descobre a rosa charmosa. Ternura em hesitante tremor é o que os dois velhos sentados no banco do jardim estão vendo agora através de finas saliências da borboleta que acaba de pousar na rosa. Carícia de borboleta, seda de rosa, perfeito encontro dos que namoram na manhã luminosa. Depois que asas sublimes acabam de amar, a borboleta voa e vai levar ao vento a delícia de ter beijado a rosa.

O velho de cabelos grisalhos diz para o outro que a larva da borboleta não tece casulo, passando o período ninfal sob a forma de crisálida. Acrescenta com a voz mansa que a borboleta voa pela campina e o ar ilumina. Dá aulas de balé como a única bailarina do mundo que não usa sapatilha. Milagre na estação temperada de sol, oscila no voo pela colina, vive suavemente o sonho de viajar na natureza apenas um dia. Bailar, amar, é essa a sua vida no ar. Transluz na plantinha a sustentável leveza de ser, treme asas quando recebe da brisa ligeira convite para exercer a vida como a fantasia de um dia. E, sob ondulações que resvalam nas lâminas do ar, sabe que não existe sonho mais belo do que viver em tácito entendimento com a luz. Na poeira dourada da flor, a borboleta reverbera a fina escrita da beleza.

Muitas borboletas cobriam a terra fresca nos barrancos do rio, dando ideia de um manto feito com asas brancas, azuis e amarelas. Os meninos que tiveram comigo a felicidade de viver a aventura da infância achavam bonito ver as borboletas voando em bando, acima do rio. Nuvens formavam uma sinfonia de asas acima do espelho das águas. Era algo especial nas tardes de verão. Da balaustrada no jardim merecia ser contemplado. As borboletas oscilavam para o norte ou sul, voltavam, subiam, desciam, pousavam no barranco das margens do rio e da ilha.

Os velhos comparecem ao jardim para conversar sobre a idade das águas. Muitas já passaram por debaixo da ponte, bem sabem eles do inevitável dessas águas que correm para o mar. Embora o homem passe tocando suave o realejo, o menino anuncie a manchete do dia, tentando vender o jornal aos velhos, o que importa a eles nesse instante é indagar sobre as sombras na tarde, sentindo que os olhos não chegam a compreender aquilo que entardece sobre manchas. Penso que ficam contentes quando aparece uma borboleta, com seus devaneios de asas que purificam os olhos cansados da vida. A borboleta fica distraindo os velhos no voo translúcido ou pousada na flor, sem querer de suas almas nada em troca.

A pureza que uma borboleta põe na manhã tem a ver com a alegria dos sons que os passarinhos soltam dos bicos inquietos, voando ou saltitando nos galhos das árvores em floração. Asas sedosas enternecem enquanto sons de ouro alegram num só momento pleno dessa música que a natureza dá de graça, fazendo que os velhos esqueçam que o tempo engole a vida, virando a página de tudo em rigor de atitude que comanda.

O velho de cabelos grisalhos, numa voz indicativa de admiração, ante o milagre que faz a borboleta ser vida, observa para o outro que somente Deus pode criar tamanha ternura numa existência tão curta. Embora bem mais longa, ele sabe que a vida dos seres humanos tem também um fim. Ele mesmo rodopiará quando chegar o momento e cairá em algum lugar desconhecido. Como os outros, ele faz parte dessa regra soberba, criada pela natureza sem exceção. “Quando chegar minha vez e eu cair, haverá o anjo da guarda com asas de borboleta para me guiar depois da curva na estrada”, pulsa no velho de cabelos grisalhos esse pensamento, que apareceu de súbito na mente, irrompendo do escuro como um facho salvador.

Enquanto isso não acontecer, a borboleta no jardim virá propor as flores para dessa maneira adornar a conversa acerca dos anos idos e vividos. Perfumará as vozes que lembrarão o ritmo da cidade cada vez mais crescente, gente comprando e vendendo no comércio como num formigueiro. Tranquilizará os gestos dos velhos banhando-se na manhã de sol, recebendo a brisa na pele enrugada, em carícia de lenço. Um deles, que gosta de usar camisa axadrezada, boné azul-marinho, provavelmente estará informando, a certa altura da conversa vagarosa, sobre a coleção de carros novos do fazendeiro abastado. Como ele gosta de mostrá-la aos amigos no churrasco de fim-de-semana, que oferece na fazenda.

Acontece que, pensando, pensando, quando de novo brilhar na manhã do jardim as carícias que a borboleta vem fazer na rosa, extraindo na manhã de luz um beijo sutilíssimo feito de nácar e seda, belo, belo, belo, o velho de cabelos grisalhos não terá mais dúvida que, entre todos os homens abastados da cidade, somente ele é o ganhador.

Irá viajar pelo jardim, de canto a canto, com asas de borboleta. Pousará em cada flor para fazer carícia na manhã radiante de sol e cantos de passarinhos fazendo sua festa, voando e saltitando nos galhos da árvore salpicada de flores, que caem no chão formando uma camada quando o vento passa forte e refresca com as suas lufadas a atmosfera.

Ainda há sol, ainda há mar

Soube, neste fim de ano, com tristeza, que você está doente. E, nesta manhã de sol claro e ondas fortes, tenho quase remorso em me sentir sólido e sadio diante do mar azul e pensar em você, em um escuro apartamento dessa Paris friorenta.

Não me lembro dessa rua em que você agora está morando, mas imagino uma ruazinha estreita do Quartier Latin, com um ou dois bistrôs, um açougue em que a carne de vaca é enfeitada com rosas de papel, uma loja de antiguidades, uma pequena livraria, uma venda de vinho e carvão, um hotel povoado de bolsistas africanos e estudantes suecos.

Imagino uma entrada escura, uma “concierge” de cabelos brancos presos no alto da cabeça, um pequeno elevador de duas portas oscilante que sobre, com um gemido quase humano, até um corredor triste e, dentro do apartamento, você com um capote preto, meio pálida, uma descuidada mecha de cabelos caindo pela testa. E quase ouço a sua voz grave me convidando a sentar, tomar um copo de vinho, “bouffer” alguma coisa. Nevou pela manhã. Agora, neste começo de tarde, a rua é nervosa e triste, com gente apressada nas calçadas estreitas e um ou outro táxi roncando e fazendo espirrar a lama. O dia é curto, já se faz escuro, está um pouco menos frio, mas tudo muito úmido. E você estará triste, desanimada, na cama, olhando o papel de parede como se nele quisesse descobrir as linhas de seu futuro, neste dezembro vazio e ruim de sua vida.

Não sei que lembrança você terá deste vago brasileiro, mas tenho a ilusão de pensar que lhe fará bem saber que muito, muito longe, além do mar, há um homem que esta manhã, na praia de espumas brilhantes, pensou em você, e pensou com ternura, e lembrou com saudade o seu riso claro e sua mecha de cabelos castanhos. Este homem é inútil e não pode lhe mandar nem um pouco deste sol para aquecer seu corpo nem um pouco deste vento sadio e limpo do mar para lavar o seu pulmão que respira esse ar confinado que o “chauffage” resseca, e a fumaça do cigarro vicia.

Mas guarde esta notícia, minha amiga: o mundo não é tão escuro e frio como lhe parece nesse momento; fique bem quieta e paciente, num canto da cama, vendo televisão ou ouvindo música e sabendo que logo haverá, também para você, dias de sol, cálidos e alegres, com espuma brilhando.

Foi este ano centenário de tantas coisas, cheio de peripécias no jogo das nações deste mundo. Em todas as lutas e episódios do Ocidente e Oriente soprou um espírito tão antigo, quanto novo, de liberdade. Ele muitas vezes terá feito balançar também algo no íntimo das pessoas. Agora fique quieta aí, agasalhada no seu canto. Mas, se você se erguer da cama e chegar lentamente até a janela para ver lá fora, pela vidraça embaçada, a rua escura e suja, e voltar ainda mais triste para a cama, pensa nesta notícia à toa que eu lhe mando, e é tudo que eu lhe posso mandar: ainda há sol, ainda há mar e o vento do mar.
Rubem Braga, “Um Cartão de Paris”

Matricídio

A morte precoce do pai de crianças bonitas e saudáveis certamente causará problemas. Witman tinha dois filhos, de quatro e cinco anos de idade, quando numa tarde ensolarada de novembro, com um pouco de vento, ele disse adeus ao mundo. Morreu sem muita dificuldade, e, de um modo geral, não deixou muito pesar atrás de si. A esposa, a viúva, era uma mulher bonita, mas de natureza pacata e extremamente egoísta. Nunca torturara o marido, mas além de certo ponto ela jamais o amara. Isso é muito mais desculpável entre homens do que entre mulheres, cuja vida inteira é justificada, salva ou tornada mais valiosa por esse sentimento forte, embora em muitos aspectos sem sentido. Entretanto, temos de perdoar a senhora Witman porque ela afinal trouxe ao mundo dois rapazes bonitos e fortes. Na rua em que eles moravam, em uma casa de dois andares, dilapidada, com uma escadaria de madeira, a senhora Witman, loira, vestida de luto, era decididamente respeitada. Embora a mulher tivesse a cintura fina e olhos infantis. Como ser humano ela não era nem boa nem má. Beijava os filhos tão pouco quanto batia neles. Ela e eles tinham pouco a ver uns com os outros, como aos poucos foi ficando cada vez mais claro.

Os garotos costumavam brincar no vizinho. Não apareciam durante as longas tardes e até altas horas da noite. Falavam pouco e apenas entre si. Em seus pequenos olhos pretos brilhava a alma de Witman, o pai. Subiam em sótãos, remexiam caixas velhas, maltratavam gatos. Muitas vezes passavam pelas fendas dos sótãos para fora, para os telhados e as saídas de incêndio, até as chaminés de formas estranhas, cheirando a fumaça. Enquanto durava o verão eles se banhavam no rio e capturavam pássaros na mata. A senhora Witman lhes dava de comer e roupas de baixo limpas no sábado a noite. Ela também os acompanhava à escola para fazer a matrícula. Por outro lado, ela vivia silenciosamente, e, silenciosamente, engordava. Seis meses depois da morte do marido conheceu um funcionário de banco, um rapaz jovem e bonito, com o queixo barbeado, ombros largos, e a pele do rosto fina, cor-de-rosa e feminina; a senhora Witman o desejava, e embora lhe custasse e a cansasse, ela flertava com ele. O homem, por tédio e preguiça, não largou a mulher.

Os filhos de Witman pouco se preocupavam com a mãe e o amante; tinham planos e afazeres. Entraram no ginásio. Espicharam, os músculos se tencionaram como cabos de aço sobre os ossos finos e fortes. Faziam os deveres de casa com facilidade, depois de se levantarem, em um quarto de hora. A escola não tinha nenhum papel na vida deles. Consideravam a vida uma ocupação grandiosa e solene e, sem consciência e cedo, delinearam o tempo segundo as necessidades deles.

Em um canto oculto do sótão eles instalaram uma pequena cozinha de feitiçaria. Lá eles reuniam flechas, espingardas de balas de borracha, facas, alicates, cordas e parafusos escondidos e organizados. Nas noites de outono com vento, depois que jantavam — a mãe mergulhava em um romance alemão encadernado em vermelho —, com passos silenciosos e rápidos eles desciam para a rua, corriam, percorriam meia cidade. Espreitavam. Passavam uma corda no pescoço de um cachorro perdido e o arrastavam para casa. Amarravam a boca do animal e o estendiam sobre uma tábua. A lanterna diminuta deles, como um mundo distante de um castelo mal-assombrado da floresta, brilhava na escuridão marrom, úmida do sótão. Os dois rapazes se entregavam ao trabalho com uma lentidão nervosa. Abriam o peito do cachorro, faziam o sangue escorrer, e durante o trabalho ouviam os gemidos terríveis, impotentes, do animal. Olhavam seu coração batendo, pegavam na mão a pequena maquina quente, em movimento, e com picadas miúdas danificavam as artérias e as válvulas.

Tinham um interesse inesgotável pelo mistério da dor. Mais de uma vez eles se torturaram mutuamente, após acordo prévio, com surras ou beliscões. A tortura de animais se tornou uma paixão séria e natural. Exterminaram uma legião de gatos, galinhas, patos, de modos estranhos, sempre mais elaborados. E das coisas deles ninguém fazia ideia. Sabiam se esconder com segurança, com prudência e sabedoria viril.

Por outro lado, poucos na casa se preocupavam com eles. No primeiro andar morava um velho funcionário da justiça que mal ficava em casa, e uma costureira que trabalhava com quatro moças. No segundo andar, além dos Witman, morava somente o proprietário da casa. Um homem bastante jovem, filho do antigo dono, que não se ocupava muito da casa nem dos moradores. No térreo havia um vidraceiro e uma loja de tecidos. Ninguém sabia quando havia algum freguês nessas lojas. Os rapazes Witman tomaram conta da casa. No pequeno quintal sujo nunca se via ninguém. O sumagre que ficava no meio do quintal, e havia tantos anos produzia seus brotos, folhas e flores, provavelmente sentia que as coisas não andavam bem. A vida, porém, na pequena casa de dois andares progredia, como nos outros lugares. Entretanto, entre os moradores apenas os dois rapazes se divertiam, sempre ousavam pensar no amanhã e no depois de amanhã.
Certa noite de setembro eles chegaram em casa vermelhos, ofegantes. Carregavam uma coruja amarrada. Encontraram-na no sótão da velha igreja. Preparara-se durante uma semana, combinaram como a apanhariam e como a matariam. Conseguiram. Os olhos deles brilhavam, nos ombros fortes sentiam uma força viril quando, atravessando ruas escuras, chegaram em casa com o troféu. A coruja os interessava havia muito tempo. Sua cabeça parecia se resumir a dois grandes olhos. Em seu cérebro se abrigavam antigas histórias extraordinárias. Chegava a viver mais de cem anos… Eles precisavam de uma coruja, precisavam…

Lá estava ela. Tiraram uma a uma as penas de seu peito, e observaram as chamas coloridas da dor se acendendo nos olhos do pássaro. Depois amarraram com cordas as bases das asas, as garras, o bico, e, assim, imobilizada, contemplaram-na durante muito tempo, mudos. Comentaram que o pássaro era na verdade apenas uma casa para onde o sofrimento se mudara, e lá moraria até que eles matassem a coruja. Mas onde ele morava? Muito provavelmente em sua cabeça. Depois decidiram que durante a noite eles a deixariam lá porque dessa forma o sono deles seria belo e excitante. Na verdade, despiram-se agitados e em seguida ficaram escutando se do sótão vinha algum som. Sentiam que certa tensão tomava conta de seus músculos, como se as forças em vão desperdiçadas pelo animal amarrado, em convulsão, se derramassem sobre eles. Assim adormeceram.

No sonho percorreram juntos grandes campos, montados em imensos cavalos brancos, galopando loucamente. Alçavam voo de picos vertiginosamente altos e atravessavam a nado mares quentes, sangrentos. Toda a dor e o sofrimento existentes na terra estremeciam, uivavam e gritavam sob as patas dos cavalos.
Ao despertar, uma manhã de sol sorriu para eles; saltaram leves da cama. Pediram o café da manha da empregada, porque a senhora Witman costumava dormir até as dez horas. Correram para a coruja e em uma hora acabaram com ela. Primeiro arrancaram seus olhos, em seguida abriram seu peito, depois de libertarem a boca do pássaro porque queriam ouvir sua voz. O som, o som terrível, de enregelar os ossos, superava toda intensidade imaginável, mas por isso mesmo o trabalho tinha de ser finalizado logo, porque temiam que ele pudesse ser ouvido na casa. De um modo geral estavam muito satisfeitos, a coisa tinha compensado o empenho.

De tarde, o rapaz mais velho saiu de casa sozinho. Descobrira algo em outra casa. Tinha visto passar na janela uma moça seminua que se penteava numa camisola cor-de-rosa. Ele se voltara da esquina para olhar de novo o quarto. A moça agora estava de pé no fundo do quarto, seus ombros brancos brilhavam à luz do sol. O rapaz entrou pelo portão da casa. Uma velha veio em sua direção. mas, ao mesmo tempo, no final do corredor lateral apareceu a moça que se penteava. Ela caminhou na direção do rapaz e disse que desejava vê-lo mais de perto porque gostara muito dele. A moça acariciou com delicadeza o rosto límpido do rapaz magro, de calças curtas, que num gesto brusco abraçou seu pescoço e grudou os lábios no rosto dela. Nisso, portas se abriram silenciosamente a toda volta e cabeças de moças jovens os olharam; rapidamente, porém, elas recolheram as cabeças sem fazer ruído. No final do corredor ardia uma lamparina de vidro azul, e a moça levou o mais velho dos rapazes Witman nessa direção. Eles baixaram a cortina, o brilho amarelado do sol da tarde se filtrou no quarto perfumado. A moça se estendeu sobre o tapete e, imóvel, permitiu ser beijada, abraçada. O filho de Witman pensou na coruja e se perguntou por que tudo que era belo, primoroso e excitante na vida era também terrível, inexplicável e sangrento. Entretanto, ele logo se cansou da brincadeira. Levantou-se frustrado, esperou e olhou a mulher com os olhos bem abertos. Em seguida, ele se despediu apressado, mas prometeu que voltaria outra hora. Perguntou o nome da moça, e por fim disse:

— Até logo.

Naquele dia os dois rapazes Witman vagaram até tarde da noite pelos campos. Não falaram sobre os acontecimentos. O mais velho contou que no ar viviam seres que se pareciam com os homens, e quando soprava um vento fraco se podia sentir seus corpos flutuando. Depois eles pararam, fecharam os olhos e estenderam os braços. O mais velho afirmou que à sua volta pairavam moças imensas, de corpo macio, etéreo, e elas tocavam seu rosto com as costas e com os seios. Passados alguns minutos o irmão declarou que também sentia as moças. Em casa, na cama, eles continuaram falando das mulheres etéreas. Elas entraram.

Esgueiraram-se sem fazer ruído, mal tocaram o vidro da janela com as costas aveludadas, e, levitando, flutuando, se deitaram junto deles sobre a colcha, sobre os travesseiros. Elas curvaram o pescoço sobre a boca e o rosto dos rapazes, e em seguida escorregaram mais para baixo com movimentos cansados, preguiçosos e leves. Passaram a noite toda com eles no quarto. Abraçavam-nos curvadas, flutuavam sorrindo na direção da janela, depois de novo deslizavam na direção deles, deitavam-se e se aninhavam sobre eles. Somente quando o dia irrompeu no quarto com raios brilhantes e quentes, elas se distanciaram pela janela, com um murmúrio lento, sonhador, arrastado, e se desfizeram no ar fresco da manhã.
Nesse dia os dois rapazes foram a casa da moça juntos. Na manhã quente de maio, eles passaram por lá voltando da escola e se esgueiraram pelo portão. A mulher veio na direção deles sorrindo, despenteada, mas com uma risada fresca, alta, e levou os Witman para seu quarto. Eles depuseram os livros, se estenderam sobre o tapete, puxaram a moça para junto deles e a beijaram, morderam, abraçaram. A mulher riu de boca fechada, e fechou os olhos. Os olhos dos rapazes de súbito se cruzaram. Os dois começaram a bater nela. A mulher agora ria de boca cheia, como se lhe fizessem cócegas. Os dois Witman se apoderaram da moça, beliscaram-na, prenderam, rolaram e a torturaram. A mulher, imóvel, ofegante, permitiu que fizessem com ela o que quisessem. Os rapazes com o rosto vermelho se esticaram sobre seu robe de seda cor-de-rosa. Mais tarde, eles recolheram os livros, e disseram a moça que ela era a jovem mais bela que já viram. Irén respondeu que gostava deles, mas caso viessem outra vez que lhe trouxessem algo, um doce, uma flor. O Witman mais velho disse que ela se contentaria com o que trouxessem. A mulher acompanhou os rapazes até o portão e beijou-lhes a mão.

Depois do almoço eles se trancaram no quarto e falaram sobre a moça; concordaram que haviam experimentado algo que superava incomparavelmente todas as aventuras que haviam tido antes, até mesmo a tortura da coruja.

– Somente por isso vale a pena viver — disse o menor.

– É o que tanto procuramos — declarou o outro.

Em uma tarde linda e quente de maio eles partiram para a escola sem livros. No entanto, foram direto para a casa, para a janela da moça. Não encontraram ninguém. Voltaram: da segunda vez, a cortina se moveu e a moça olhou para fora. Eles pararam. A moca abriu a janela.

– Vocês vem amanhã de manhã? — ela perguntou com um rosto sorridente. — Venham amanhã, tragam alguma coisa. Ela acenou e fechou a janela.

Os rapazes ficaram vermelhos e palpitantes à visão dela.

– Vamos lhe trazer joias, pulseiras ou anéis de ouro — disse depois de um longo silêncio o mais velho.

– Sim, mas de onde?

– Nossa mãe tem, vamos pedir a ela.

– Ela não vai dar.

– Vamos arranjar a chave do armário de vidro.

– Ela não vai dar a chave.

– Mas ela tem quatro pulseiras de ouro e sete anéis.

Nos dedos ela também usa três anéis.

De noite eles rodearam o armário examinando as preciosidades da mãe. Havia entre elas uma pulseira cravejada de perolas e rubis vistosos. Pediram a senhora Witman que lhes mostrasse as coisas. A mulher — loira, frágil, de natureza teimosa — os expulsou da sala. Tinha um pouco de medo dos filhos, sentia-os muito distantes dela.

Os rapazes correram para a rua para discutir.

– Não podemos pedir a ela.

– De modo algum.

– Ela não vai dar.

– Não, não.

– Temos de arrombar o armário.

– Ela vai acordar, vai fazer barulho, e nos vamos continuar sem nada.

– Ela não vai acordar!

O coração deles estava cheio de ódio da mãe loira, de olhos azuis, preguiçosa e gorda, desejavam torturá-la também.

– Eu vou quebrar uma das laterais de vidro com o cabo do meu canivete e não vai haver mais nenhum outro barulho. Você ilumina com a lanterna, e eu vou pegar todas as pulseiras e anéis.

– Mas não vamos levar tudo!

– Sim, vamos levar tudo; ela não precisa, pode ficar sem nada, ela pode chorar a vontade depois.

Subiram correndo para o sótão, deram uma busca entre as ferramentas e pegaram uma talhadeira, um alicate, verificaram a lanterna e puseram tudo nos bolsos. Em seguida, desceram correndo e se deitaram. Porém, antes espiaram pela fenda debaixo da porta e viram que o quarto da mãe estava escuro. Enquanto se despiam decidiram que só voltariam por volta da meia-noite. Não tiraram as meias, para não fazerem barulho quando andassem, e se deitaram despertos, mas serenos. Apoiados nos cotovelos fizeram pianos, de manha, depois da escola iriam correndo para a casa da moça. Esconderiam as preciosidades no sótão e as levariam aos poucos. De manhã, negariam tudo, e, se a mãe quisesse surrá-los, fugiriam. Sentiram-se felizes ao pensar que ela ficaria furiosa e choraria impotente, por não encontrar as joias. Nem por um instante consideraram a possibilidade de que ela pudesse acordar. Depois saíram da cama, abriram a janela, e se debruçaram na noite morna de maio. Os latidos dos cães, o estrépito dos carros que de tempos em tempos repartiam a noite em capítulos não encurtaram a passagem lenta das horas.

Quando por fim o relógio da torre bateu meia-noite, lentamente, eles começaram a se preparar. Acenderam a lanterna, o Witman mais jovem pegou o alicate, a serra e a lanterna, o outro somente o canivete com a longa lamina aberta. Ele foi na frente. Esgueiraram-se calmos e seguros pela sala de jantar, em seguida o mais velho se adiantou e abriu a porta que dava para o quarto da senhora Witman. As dobradiças não rangeram nem um pouco. Respiraram aliviados. Voltada para a parede, a senhora Witman dormia serena, só se via suas costas gordas, largas, cobertas por uma manta tricotada. Postaram-se diante do armário.

O garoto ergueu o canivete para golpear a lateral do armário. Ensaiou por alguns instantes e depois bateu no vidro. O estridor foi terrivelmente forte, forte como se alguém tivesse atirado uma porção de copos de vidro em uma caixa pela janela alta de um sobrado. A senhora Witman se mexeu, se virou, em seguida, apoiando-se nos cotovelos, abriu os olhos. Seu rosto expressou raiva e ódio obstinados, mas ela não chegou a falar porque o rapaz mais velho saltou sobre a cama e a golpeou no peito com o canivete. A mulher caiu para trás e sua mão direita se agitou no ar. O menor também já estava na cama e prendeu as pernas dela. O maior tirou a lamina sangrenta do peito da mãe e a golpeou de novo. Não era necessário, porque ela estava morta. De seu peito o sangue corria lentamente debaixo da colcha.

– Bern, isso está resolvido — disse o mais velho —, agora vamos pegar as coisas.

Tiraram as joias do armário, as pulseiras, os broches, os anéis, o relógio e a longa corrente de ouro do relógio. Puseram calmamente sobre a mesa o tesouro conquistado, e, de pleno acordo, eles o classificaram e separaram.

– Agora vamos logo, vamos nos lavar e trocar de roupa.

Voltaram para o quarto deles, lavaram as mãos, despejaram a água, mas não tiveram de se trocar, nas roupas não tinham nenhum sinal de sangue. Voltaram para o cenário do crime. O mais jovem abriu a janela do quarto ao lado e esperou pelo irmão, que trancou o quarto da senhora Witman por dentro, e pela janela, passando pelo parapeito, entrou pela outra janela aberta.

A rua estava completamente escura, fazia um silêncio mortal, mas eles tinham de se apressar porque o relógio da torre tinha soado uma hora e eles ainda queriam dormir. Despiram-se, entraram na cama, e, exaustos pela excitação, em alguns instantes estavam os dois profundamente adormecidos.

De manhã a mulher da limpeza que sempre chegava pontualmente as seis e meia os acordou. Estava acostumada a que a senhora Witman levantasse as dez e por isso não foi ao quarto dela. Depois de limpar a sala de jantar, ela acordou os meninos, que se lavaram depressa, tomaram o café e desapareceram com as preciosidades nos bolsos.

– Antes da escola!

– Está bem!

– Temos de ser pontuais para a apresentação.

– Claro, especialmente hoje.

– As onze horas vão nos chamar para casa.

– Vamos logo.

O portão da casa estava aberto. Até chegarem pelo corredor a porta de moça não cruzaram com ninguém. Entraram. A mulher, com o rosto vermelho, dormia profundamente, eles a descobriram e a beijaram, em seguida tiraram dos bolsos os tesouros. Puseram-nos sobre a barriga, o peito e as coxas dela.

– Veja o que trouxemos.

– É tudo seu.

A mulher, com dificuldade, porem sorrindo, voltou a si, apertou as cabeças duras dos dois pequenos malfeitores, agradeceu a visita, e se virou para a parede.

– Hoje ou amanhã voltaremos.

Com isso, os rapazes se despediram, e saíram correndo para a escola.

Géza Csáth

domingo, outubro 25

Boa domingueira

 


Menina a caminho

Vindo de casa, a menina caminha sem pressa, andando descalça no meio da rua, às vezes se desviando ágil pra espantar as galinhas que bicam a grama crescida entre as pe­dras da sarjeta. O vestido caseiro, costurado provavelmente com dois retalhos, cobre seu corpo magro feito um tubo; a saia é de um pano grosso e desbotado, a blusa do vestido é de algodão acetinado, um fundo preto e brilhante, berrando em cima uma estampa enorme em cores vivas, tão grande que sobre o peito liso da menina não aparece mais que o pedaço de uma folha tropical. Deve dormir e acordar, dia após dia, com as mesmas tranças, uns restos amarrotados. Uma delas, toda esfiapada, é presa por dois grampos se engolindo; já quase desfeita, as mechas da outra estão mal apanhadas no alto por um laço encardido que cai feito flor murcha sobre a testa. Lambendo, enquanto anda, os fios colados à roda amarela e gosmenta de manga ao redor da boca, a menina esquece um momento outras distrações da rua ao se aproximar da pequena agitação diante da maquina de beneficiar arroz: três meninos estão saindo pela porta grande do armazém, puxando cada um deles um saco de palha.

“O Quinzinho só levou dois sacos até agora” resmunga um dos meninos.

“Mas ele vai emprestar a farda de quando era escoteiro ­mascote” diz um segundo.
“E daí? A Lena-minha-irmã vai emprestar duas fantasias, de baiana e havaiana, e eu já levei seis sacos, são sete com este ...”

A menina se encanta acompanhando assim clandestinamente aquela disputa, sente um entusiasmo gostoso escondido atrás da discussão.

“Eu acho bom você parar de reclamar” recomenda o terceiro menino.

Descalços, sem camisa, os corpos arcados, os meninos arrastam os sacos, que puxam por um dos cantos como se os puxassem pela orelha. E a palha, com o movimento às vezes emperrado, vai estufando cada vez mais a barriga gorda do fundo dos sacos. Passando pro chão de terra, um dos meninos vê a menina acocorada, observando-os por sob a barriga abaulada de um cavalo, cujas rédeas estão amarradas numa das argolas chumbadas na guia. Os três meninos param.
“O cirquinho é hoje, na casa do Dinho” grita um deles se agachando pra encontrar os olhos da menina por baixo da barriga do cavalo.

A menina vislumbra um fundo escuro de quintal, um grande círculo fofo de palha de arroz, velas acesas na ponta de estacas, os casacas­ de ­ferro, os meninos­ trapezistas, e seus olhos piscam de fantasias.

“São dez palitos a entrada” diz o Dinho se agachando também.

O Zuza, rapazote que marcha na calçada do outro lado, uma bola de capotão no arco do braço, diminui o passo e vem pro meio da rua:

“Na casa de quem, o cirquinho?” vai perguntando.

“Lá em casa” diz o Dinho.

“E quem trabalha nesse cirquinho?”

“A gente, mais o Quinzinho, a Tuta co’a Iracema que vão cantar ‘Um carro de boi’, a Eunice ... “

“A Nice não vai” intervém um dos meninos. “A mãe dela diz que da outra vez teve aquilo ...”

“Aquilo o quê?” pergunta o Zuza, malandramente.

“Você sabe, ara!”

O Zuza estufa o peito, cheio de si, enquanto o menino adverte com medo:

“A mãe do Dinho disse que quem tem mais de doze anos não entra dessa vez, só o Quinzinho que o Quinzinho vai emprestar a ...”

“Fecha esse bico, gordinho.”

O menino se tranca e enfia os olhos no chão. O Zuza faz ainda um trejeito com a boca:

“Cirquinho mixo esse ... e o Quinzinho que não se meta a besta comigo” diz despeitado, e, largando de repente a bola de capotão, mata com destreza a pelota, pisando em cima com o pé direito. Os braços livres, arma num instante o gesto: “Aqui que eu não entro nesse cirquinho” diz movimentando lentamente o braço teso da banana, pra cima e pra baixo, os olhos cheios de safadeza:

“Aqui que eu não entro, aqui, Ó.”

A menina arregala uns olhos deste tamanho e acompanha apreensiva a ameaça do rapazote. Os três meninos nem se mexem e, ao pé deles, um depois do outro, estão caídos os três sacos, vomitando palha pela boca aberta, como se tivessem levado um murro violento na barriga.

“Zuza! Ó Zuza!”

O Zuza interrompe rápido a banana, apanha dissimulado a bola e olha. “Zuza, vem cá um pouquinho.”

Debruçada sobre uma almofada de cetim azul, no parapeito de uma janela alta, dona Ismênia, robusta, cheia de pintura, desfrutando a primeira sombra que já tomba da sua casa, acena a mão chamando o Zuza. O rapazote abandona o meio da rua enquanto os três meninos, sem mais demora, apanham os sacos pela orelha e se safam apressadamente dali, deixando no chão três rodelas de palha amarela, como se fossem três gemas enormes se cozendo ao sol. O Zuza sobe a calçada meio sem jeito e ergue os olhos pra janela.

“Mas Zuza, não faz nem uma semana que você começou a trabalhar e você já está nessa folga?” diz a dona Ismênia brincando com os olhos, o rosto colorido que nem bunda de mandril.

O Zuza continua olhando pro alto, a bola de capotão no arco do braço.

“Será que você está mesmo de folga, hem Zuza?”

“Tou” responde encabulado.

“É verdade que o seu América fechou o armazém?”

“É verdade, sim.”

“E vocêe sabe por quê?”.

“O seu Américo mandou fechar as portas e eu fechei, não faz meia hora.”

“Como assim?”

“Disse que era por causa do calor e que eu podia ir embora.”

“O quê?!”

Outra mulher, que mal se esconde atrás da cortina repuxada pr’um dos lados, belisca com certeza a coxa grossa da dona Ismênia que protesta c’um grito esganiçado, voltando logo o rosto e alongando mais o riso. Debruçando se de novo na almofada, os seios leitosos, explosivos, quase espirrando pela Canoa do decote, encabulam inda mais o rapazote.

“Me diz uma coisa, Zuza: que história é essa que andam falando do filho do seu Américo?...”

O vulto atrás da cortina já não sustenta o recato, se arrebenta, sem mostrar a cara, numa solta gargalhada, enquanto a dona Ismênia, afogando-se de gozo, se sacode tanto na janela, parece até que vai vomitar algum sabugo. O Zuza ri também, sem saber por que, as faces formigando, mas a algazarra incompreensível das duas mulheres pouco a pouco se abranda.

“Posso te fazer outra pergunta, Zuza?”

“Claro.”

“Me diz só mais uma coisa: quem te ensinou a dar banana daquele jeito?”
pergunta a dona Ismênia carregando na malícia, se engasgando ao mesmo tempo com o novo acesso de riso. “Chega, Mênia! Tadinho .... “ diz a voz atrás da cortina.

“A banana que você dá é muito bem dada, Zuza ...” acrescenta a dona Ismênia logo depois, alimentando fartamente a fogueira de riso. Sacudindo ­se de novo na janela, fazendo tremer os seios de gelatina, ela até lacrimeja de tanto rir, gritando no fim do gozo com o beliscão que mais uma vez lhe aplicam na coxa. Termina extenuada: “Uff!...” “Ai, Mênia, que vergonha!...” diz a voz atrás da cortina.

O Zuza está ardendo de vermelhidão, as orelhas num fogaréu.

“É só, Zuza” encerra a dona Ismênia entre suspiros.

O Zuza continua olhando pra cima.

“É só” diz ela se desvencilhando, desviando o olhar pra bem longe e cantarolando baixinho: “larará, larará, lariri...”. Volta-se de novo pro rapazote:

“Sua mãe está boa, Zuza?”

“Tá boa, sim.”

“Dê lembranças pra ela.”

O Zuza não se mexe.

“Dê lembranças” repete a dona Ismênia vendo que o Zuza não arreda pé. Atrás da cortina, um risinho, meio miado, aparece e desaparece.

“Até logo, dona Ismênia” diz enfim o rapazote.

“Até logo, Zuza, e dê lembranças pra sua mãe, viu?”

O Zuza se aparta dali, andando cada vez mais rápido, atendendo quem sabe à curiosidade que cresce com os passos, enquanto na janela da dona Ismênia o riso ressurge com ardor revigorado.

Acocorada ainda ao lado do cavalo, a menina desvia os olhos da janela e alcança, bem afastados, os três meninos arrastando os sacos de palha pelo chão de terra, como se fossem três pequenos arados, um ao lado do outro, que tivessem deixado à sua passagem uma seara estreita ao longo da rua.

Só quando o cavalo distancia as patas traseiras é que a menina repara, escondido no alto entre as pernas, e se mostrando cada vez mais volumoso, no seu sexo de piche. Ela desmancha rápido a postura, se joga pra trás, os bracinhos esticados, as palmas das mãos se plantando na terra. Recebe mesmo assim os respingos do esguicho forte, o jato de mijo abrindo uma biroca no chão. O susto nos olhos dela aumenta com a gargalhada dos carregadores, dois crioulos musculosos e um branco atarracado, que fazem a sesta na calçada, estirados à sombra de uma árvore.
Raduan Nassar