terça-feira, fevereiro 24

Faça esporte!

 


Madrugada

Acordou assustada e medrosa no silêncio da casa adormecida. Era como se fosse a única habitante de um mundo de quietude e solidão.Um mundo trêmulo de felicidade que um gesto desajeitado poderia quebrar e destruir. Escorregou de manso sob as cobertas, com medo que ele acordasse, a respiração ritmada de seu sono tranquilo, a mão largada junto ao rosto, nesse jeito meio perdido de criança de todo homem adormecido. Ficou sentada um pouco na beirada da cama, amaciando com a ponta do pé descalço a lã do tapete. E viu-se de repente no espelho, na madrugada que principiava a entrar de manso pelas frestas das venezianas, o rosto meio escondido pelo cabelo, uma vaga silhueta de mulher, um jeito meio ansioso, a ingênua camisola branca, refletida no espelho.

Tinha nascido com ela aquela sensação pungente da infinita precariedade de tudo, que a acompanhara, sem largar, por toda a vida. Fora assim que surpreendera a beleza no seu rosto, no céu, nas águas, no mundo. Fora com essas mãos surpreendidas e desesperadas de não poderem reter coisa nenhuma, que segurara um filho no colo, um rosto bem amado, um momento de prazer. E todos esses sentimentos se atropelavam, agora – suspensos em que noção de tempo? – nesta madrugada estrangeira, que ia virando dia, numa cidade com que sonhara uma vida inteira, ao lado de um homem que não era mais seu. O dia ia nascendo e com ele o anúncio de todas as partidas. E do fundo do seu sono ordenara a si mesma que acordasse, que ficasse a espiar, a tentar reter – como? – aquele momento, no escuro do quarto em que ele dormia, livre de cuidados, a sua última noite juntos.

Nunca sentira o mundo ou este homem mais seus do que nesse instante em que ambos ainda não tinham acordado e em que lhe pertenciam, tão brevemente, por inteiro. Levantou-se de manso – e seu vulto no espelho, amaciando os passos e a respiração, abriu sem ruído uma fresta da veneziana – sentiu no rosto o ar fresco que vinha lá de fora, guardou pedra por pedra na memória a ruazinha estreita, descendo para o porto, a névoa que começava a debruar o horizonte. Vinha do fim da ladeira um trabalhador encapotado, uma janela abriu-se barulhenta com um riso de mulher.

Teve medo desse dia que ia nascendo, fechou a janela depressa para que ele não entrasse no quarto. Voltou-se para a cama em que o homem dormia, ressonando de leve, escondendo o rosto no travesseiro para aprofundar mais no seu sono. Começou a falar baixinho, quase sem palavras, com ele – dizem que se pode falar assim com o espírito, que vagueia, dos que estão adormecidos. – Disse-lhe do seu amor, de sua angústia, de sua pena. De toda a solidão com que ia ficar. Estava alegre – sabe? – muito obrigada, sabe? – a ele, à vida, ao que fosse, meu Deus. Nunca mais dormiria o seu sono junto dela. Mas que dormisse bem. E acordasse em paz, em alegria. Essa hora ficaria com ela, só sua, de mais ninguém. E até nunca mais.

Elsie Lessa, “Crônicas de Amor e Desamor”

Rumor do mundo

As palavras, vício
torpe, antigo.
As últimas? As primeiras?
Como os ouriços
abrem-se ao rumor do mundo:
o sol ainda verde dos limões,
os esquilos
doutras tardes, o latido
da chuva nas janelas,
os velhos em redor do lume
— nunca foram tão belas.

Eugénio de Andrade, "Rente ao Dizer"

Uma viola-de-amor

Dêem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim… “Sairei de mim mesmo e irei ao encontro das flores humildes dos caminhos e das lentas aves dos crepúsculos, cujo pipilo suspende na paisagem uma lágrima que nunca se derrama. Sairei de mim mesmo em busca de mim mesmo, em busca de minha imagem perdida nos abismos do desespero, minha imagem de cuja face já não me lembro mais…

“Sairei de mim mesmo em busca das melodias esquecidas na memória, em busca dos instantes de total abandono e beleza, em busca dos milagres ainda não acontecidos…

“Que eu seja novamente aquele que ergue do chão o pássaro ferido e, no calor de sua mão, dá-lhe de morrer em paz; aquele que, em sua eterna peregrinação em busca da vida, ajuda o camponês a consertar a roda do seu carro…


“Que me seja dado, em minhas andanças, restituir a cada ser humano o consolo de chorar dias de lágrimas; e depois levá-lo lá onde existe a luz e chorar eu próprio ante a beleza do seu pranto ao sol…

“Possa eu mirar novamente os pélagos e compreendê-los; atravessar os desertos e amá-los. Possa eu deitar-me à noite na areia das praias e manter com as estrelas em delírio o colóquio da eternidade. Possa eu voltar a ser aquele que não teme ficar só consigo mesmo, numa dura solidão sem deliquescência…

“Bem haja o meu irmão no meu caminho, com as suas úlceras à mostra, que a ele eu hei de curar e dar abrigo no meu peito, Bem haja no meu caminho a dor do meu semelhante, que a ela estarei desvelado e atento…

“Seja a mulher a mãe, a esposa, a amante, a filha, a bem-amada do meu coração; possa eu amá-la e respeitá-la, dar-lhe filhos e silêncios. Possa eu coroá-la de folhas da primavera em seu nascimento, seu conúbio e sua morte. Tenha eu no meu pensamento a idéia constante de querê-la e lhe prestar serviço…

“Que o meu rosto reflita nos espelhos um olhar doce e tranquilo, mesmo no mais fundo sofrimento; e que eu não me esqueça nunca que devo estar constantemente em guarda de mim mesmo, para que sejam humanos e dignos o meu orgulho e a minha humildade, e para eu cresça sempre no sentido de Tempo…

“Pois o meu coração está antes de tudo com os que têm menos do que eu, e com os que, tendo mais do que eu, nada têm. Pois o meu coração está com a ovelha e não com o lobo; com o condenado e não com o carrasco…

“E que este seja o meu canto e o escutem os surdos de carinho e de piedade; e que ele vibre com um sino nos ouvidos dos falsos apóstolos dos falsos apóstatas; pois eu sou o homem, ser de poesia, portador do segredo e sua incomunicabilidade – e o meu largo canto vibra acima dos ócios e ressentimentos, das intrigas e vinganças, nos espaços infinitos…”.

Deem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim, que sua voz está rouca de tanto insulto inútil e seu coração triste, de tanta vã mentira que lhe ensinaram.
Vinicius de Moraes, "Para uma menina com uma flor"

A aposta

I
Era uma noite escura de outono. O velho banqueiro media a passadas o seu gabinete e recordava como, 15 anos atrás, no outono, ele dava uma festa. Nesta reunião, esteve muita gente inteligente e houve muitas conversas interessantes. Entre outros assuntos, falou-se da pena de morte. Os convidados, entre os quais havia não poucos sábios e jornalistas, na sua maioria tinham uma atitude negativa em relação à pena de morte. Achavam esse método de punição obsoleto, imoral, impróprio para os Estados cristãos. A opinião de alguns deles era de que a pena de morte deveria ser definitivamente abolida e substituída pela prisão perpétua.

— Não estou de acordo — disse o banqueiro, dono da casa. — Nunca experimentei nem a pena de morte nem a prisão perpétua, mas se é possível julgar a priori, a minha opinião é de que a pena de morte é mais moral e mais humana do que a prisão. A execução mata duma vez, ao passo que a prisão perpétua mata aos poucos. Que carrasco é, pois, mais humano — aquele que mata de repente ou o que arranca a vida no decorrer de muitos anos?

— Tanto uma coisa como outra são igualmente imorais — observou um dos convidados —, porque ambas têm a mesma finalidade: tirar a vida. O Estado não é Deus. Não tem o direito de tirar aquilo que não pode devolver, se quiser.

Entre os convidados, estava um jurista, jovem de uns 25 anos. Quando lhe perguntaram a sua opinião, ele disse:

— Tanto a pena de morte como a prisão perpétua são igualmente imorais, mas se me oferecessem a escolha entre a morte e a prisão perpétua, eu certamente escolheria a segunda. Viver de qualquer maneira é melhor do que não viver de todo.

Começou uma discussão animada. O banqueiro, que era então mais jovem e mais nervoso, súbito ficou fora de si, deu um murro na mesa e gritou para o jovem advogado:

— Não é verdade! Aposto dois milhões que o senhor não aguentará numa cadeia nem cinco anos.

— Se o senhor fala sério — respondeu-lhe o advogado —, eu aposto que posso aguentar a prisão não por cinco, mas por 15 anos!

— Quinze? Aceito! — gritou o banqueiro. — Senhores, eu ponho na mesa dois milhões!

— De acordo! O senhor põe dois milhões, e eu, a minha liberdade! — disse o jurista.

E essa aposta selvagem e insensata realizou-se! O banqueiro, que naquele tempo não tinha conta dos seus milhões, mimado e leviano, estava encantado com a aposta. Durante a ceia, ele pilheriava com o jurista e dizia:

— Caia em si, jovem, enquanto ainda não é tarde. Para mim, dois milhões são uma ninharia, mas o senhor se arrisca a perder três ou quatro dos melhores anos de sua vida. Eu digo três ou quatro porque o senhor não aguentará mais do que isso. Não esqueça, tampouco, infeliz, que a prisão voluntária é muito mais penosa do que a compulsória. O pensamento de que, a cada momento, o senhor pode sair para a liberdade, vai lhe envenenar toda a existência na prisão. Eu tenho pena do senhor!

E agora, o banqueiro, andando dum lado para outro, recordava tudo isso e se perguntava:

— Para que foi essa aposta? Qual é o proveito disso? O jurista perdeu 15 anos de sua vida, e eu jogo fora dois milhões? Será que isso poderá provar aos outros que a pena de morte é pior ou melhor que a prisão perpétua? Não e não, é tolice e insensatez. De minha parte, isso foi um capricho de homem enfastiado, e da parte do jurista, nada mais que avidez de dinheiro…

E ele continuou recordando o que aconteceu depois da famosa noitada. Ficou resolvido que o advogado passaria a sua reclusão, sob a mais severa vigilância, numa das alas construídas no jardim do banqueiro. Combinou-se que, no decorrer de 15 anos, ele ficaria privado do direito de atravessar a soleira da sua sala, de ver gente viva, ouvir vozes humanas e receber cartas e jornais. Permitiu-se que ele possuísse um instrumento musical, lesse livros, escrevesse cartas, tomasse vinho e fumasse. Pelo trato, suas comunicações com o mundo exterior poderiam ser apenas mudas, através de uma janelinha especialmente construída para esse fim. Tudo aquilo de que precisasse, livros, notas musicais, vinho e o resto, ele receberia, por intermédio de bilhetes, em qualquer quantidade, mas somente pela janelinha. O contrato previa todos os detalhes e minúcias, que faziam a reclusão rigorosamente solitária, e obrigava o advogado à permanência de 15 anos exatos, das 12 horas de 14 de novembro de 1870, terminando às 12 horas de 14 de novembro de 1885. A menor tentativa da parte do jurista de quebrar qualquer das condições, ainda que dois minutos antes do término do prazo, libertava o banqueiro da obrigação de pagar-lhe os dois milhões.

Durante o primeiro ano, o jurista, conforme se podia julgar pelos seus lacônicos bilhetes, sofria muito de solidão e tédio. Da sua ala, constantemente, dia e noite, ouviam-se os sons do piano. Ele recusou o vinho e o tabaco. O vinho, escrevia ele, excita os desejos, e os desejos são os primeiros inimigos do prisioneiro; além disso, não existe nada mais aborrecido do que tomar bom vinho sem ver ninguém. Quanto ao tabaco, poluía o ar do seu quarto. No primeiro ano, mandavam-lhe livros, de preferência de conteúdo leve: romances com complicadas intrigas amorosas, contos policiais e fantásticos, comédias etc.

No segundo ano, a música silenciou na ala, e o jurista, nos seus bilhetes, exigia somente os clássicos. No quinto ano, novamente ouviu-se a música, e o prisioneiro pediu vinho. Aqueles que o observavam através da janelinha diziam que todo esse ano ele só comia, bebia e ficava deitado na cama, bocejava muito e falava consigo mesmo, em tom irado. Não lia livros. Às vezes, durante a noite, ele se punha a escrever, escrevia longamente e, pela madrugada, rasgava em pedaços tudo o que escrevera. Mais de uma vez, ouviram-no chorar.

No sexto ano de reclusão, o prisioneiro dedicou-se com afinco ao estudo de línguas, filosofia e história. Ele se entregou a esses estudos com tamanha avidez que o banqueiro mal tinha tempo de fazer vir os livros necessários. No decorrer de quatro anos, por exigência do prisioneiro, foram importados cerca de seiscentos volumes. No período desta paixão, o banqueiro recebeu, entre outras, esta carta:

“Meu caro carcereiro! Escrevo-lhe estas linhas em seis idiomas. Mostre-as a pessoas competentes, para que as leiam. Se não encontrarem nenhum erro, peço-lhe encarecidamente que mande dar um tiro de espingarda no jardim. Este tiro me informará que os meus esforços não foram vãos. Os gênios de todos os séculos e países falam línguas diversas, mas em todos eles arde a mesma chama. Oh, se soubesse que inefável felicidade experimenta hoje a minha alma porque agora eu os posso compreender!” O desejo do prisioneiro foi atendido. O banqueiro mandou dar dois tiros de espingarda no jardim.

Mais tarde, depois do décimo ano, o jurista ficou sentado, imóvel, à mesa, e lia somente o Evangelho. Parecia estranho ao banqueiro que um homem que assimilara em quatro anos seiscentos tomos eruditos gastasse um ano inteiro na leitura de um único livro de fácil compreensão e pouca espessura. Depois do Evangelho, vieram a História das Religiões e a Teologia.

Nos últimos dois anos da reclusão, o encarcerado lia em quantidade enorme, sem nenhum critério. Ora ele se ocupava de ciências naturais, ora exigia Byron ou Shakespeare. Havia bilhetes seus em que pedia que lhe mandassem simultaneamente uma química, um compêndio de medicina, um romance e um tratado de filosofia ou de teologia. Suas leituras semelhavam algo como se ele estivesse boiando no mar entre os destroços de um navio naufragado, e, querendo salvar sua vida, se agarrasse convulsivamente ora a um destroço, ora a outro!

II
O velho banqueiro relembrava tudo isso e pensava:

“Amanhã, às 12 horas, ele recuperará a liberdade. Pelo contrato, eu terei de lhe pagar dois milhões. Se eu pagar, tudo estará perdido, eu estarei definitivamente arruinado.”

Quinze anos atrás, ele não tinha conta dos seus milhões, mas agora tinha medo de se perguntar o que ele tinha mais: dinheiro ou dívidas? Jogos da bolsa imprudentes, especulações arriscadas e a impulsividade, da qual ele não conseguia se libertar nem mesmo na velhice, pouco a pouco levaram à garra os seus negócios, e o ricaço orgulhoso, destemido e autossuficiente transformou-se num banqueiro de categoria mediana, que tremia a cada alta e baixa das ações.

— Maldita aposta! — balbuciava o velho, apertando nas mãos a cabeça, em desespero. — Por que aquele homem não morreu? Ainda está com 40 anos apenas. Ele me tirará os últimos recursos, se casará, gozará a vida, jogará na bolsa, e eu, como um mendigo, ficarei a olhá-lo com inveja e a ouvir dele, todos os dias, a mesma frase: “Eu lhe devo toda a felicidade da minha vida, permita-me que eu o ajude!” Não, isso é demais! A minha única salvação da bancarrota e da vergonha é a morte desse homem!

Soaram as três horas. O banqueiro ficou atento: na casa, todos dormiam e só se ouvia, atrás das janelas, o farfalhar das árvores friorentas. Procurando não fazer nenhum ruído, ele tirou do cofre-forte a chave da porta que não fora aberta durante 15 anos, vestiu o capote e saiu da casa.

O jardim estava escuro e frio. Chovia. Um vento áspero e gelado uivava no jardim e não dava sossego às árvores. O banqueiro forçava a vista, mas não conseguia distinguir nem a terra, nem as alvas estátuas, nem a ala, nem as árvores. Aproximando-se do lugar onde ficava a ala, ele chamou o guarda por duas vezes. Não houve resposta. Decerto, o guarda se abrigara do mau tempo e agora dormia em algum canto da cozinha ou do caramanchão.

“Se eu tiver coragem suficiente para executar o meu plano”, pensou o velho, “as primeiras suspeitas recairão sobre o guarda”.

Ele encontrou, tateando no escuro, os degraus e a porta, e entrou no vestíbulo da ala; depois, tateando sempre, entrou no pequeno corredor e acendeu um fósforo. Aqui, não havia vivalma. Havia uma cama sem colchão e, num canto, a mancha escura de uma estufa de ferro. Os lacres na porta que dava para o quarto do prisioneiro estavam intactos.

Quando o fósforo se apagou, o velho, tremendo de emoção, espiou pela janelinha.

No quarto do prisioneiro, ardia a chama baça de uma vela. Ele mesmo estava sentado diante da mesa. Só se viam as suas costas, os cabelos na cabeça e as mãos. Sobre a mesa, nas duas poltronas e no tapete, espalhavam-se livros abertos.

Cinco minutos transcorreram sem que o prisioneiro se mexesse uma só vez. Quinze anos de reclusão o ensinaram a permanecer perfeitamente imóvel. O banqueiro bateu na janelinha e o prisioneiro não respondeu às batidas com um movimento que fosse. Então, o banqueiro arrancou, com cuidado, os lacres da porta e introduziu a chave no buraco da fechadura. A fechadura enferrujada emitiu um som rouco e a porta rangeu. O banqueiro esperava que imediatamente se ouvisse uma interjeição do espanto e passos, mas transcorreram uns três minutos, e atrás da porta, tudo continuava silencioso como antes. Ele decidiu-se a penetrar no quarto.

Diante da mesa, estava sentado um homem que não se parecia com os homens comuns. Era um esqueleto coberto de pele, com longos cachos femininos e barba hirsuta. Sua tez era amarela, com matizes terrosos, as faces encovadas, as costas longas e estreitas, e a mão que sustentava a cabeça descabelada era tão fina e magra que dava arrepios olhar para ela. Nos seus cabelos, já brilhavam fios de prata e, olhando o seu rosto encovado de velho, ninguém acreditaria que ele tinha apenas 40 anos. Ele dormia… Diante da sua cabeça inclinada, na mesa, estava uma folha de papel, na qual estava escrita alguma coisa em letra miúda.

“Homem lamentável!”, pensou o banqueiro. “Dorme e, decerto, sonha com os seus milhões! E, no entanto, basta que eu segure esse semimorto, atire-o na cama, abafe-o de leve com o travesseiro, e a mais minuciosa diligência policial não encontrará sinal algum de morte violenta. Mas, leiamos, primeiro o que ele escreveu aí…”

O banqueiro apanhou o papel da mesa e leu o seguinte:

“Amanhã, às 12 horas, eu receberei a liberdade e o direito de comunicação com os meus semelhantes. Mas, antes de deixar este quarto e de rever o sol, julgo necessário dizer-vos algumas palavras. Em sã consciência e diante de Deus, que me vê, eu vos declaro que desprezo a liberdade, a vida, a saúde, e tudo aquilo que nos seus livros é chamado os bens da vida.

“Durante 15 anos, estudei atentamente a vida terrena. É verdade que eu não via a terra e os homens, mas, nos vossos livros, eu sorvia vinhos aromáticos, entoava canções, caçava nos bosques cervos e porcos selvagens, amava mulheres… Beldades, leves como nuvens, criadas pela magia dos vossos poetas geniais, visitavam-me de noite e me sussurravam contos encantados que embriagavam a minha mente. Nos vossos livros, eu escalava os cumes do Elbrus e do monte Branco e via de lá como nascia o sol de madrugada e, ao anoitecer, como ele inundava o firmamento, o oceano e os cumes das montanhas de ouro rubro; eu via de lá os relâmpagos fendendo as nuvens por cima da minha cabeça; eu via os campos verdejantes, os rios, os lagos, as cidades, ouvia o canto das sereias e a música das flautas dos pastores, sentia as asas de formosos demônios que vinham conversar comigo a respeito de Deus… Nos vossos livros, eu mergulhava em abismos sem fundo, fazia milagres, matava, queimava cidades, pregava novas religiões, conquistava reinos inteiros…

“Os vossos livros deram-me sabedoria. Tudo aquilo que a infatigável mente humana criou durante séculos está comprimido no meu cérebro num pequeno novelo. Eu sei que sou mais sábio do que todos vós. E eu desprezo os vossos livros, desprezo todos os bens terrenos e a sabedoria. Tudo é mesquinho, perecível, espectral e ilusório, como a miragem. Podeis ser orgulhosos, sábios e belos, mas a morte vos apagará da face da terra, em igualdade com as ratazanas, e a vossa descendência, a vossa história, a imortalidade dos vossos heróis serão congeladas ou queimadas junto com o globo terrestre.

“Vós enlouquecestes e tomastes o caminho errado. Tomais a mentira pela verdade, e a deformidade pela beleza. Vós ficaríeis admirados se, em consequência de circunstâncias imprevistas, nascessem, nas macieiras e laranjeiras, em vez de maçãs e laranjas, sapos e lagartixas, ou se as rosas de repente começassem a exalar odores de cavalo suado; assim, eu me admiro de vós, que trocastes o céu pela terra. Não vos quero compreender.

“Para demonstrar-vos na prática o meu desprezo em relação a tudo o que é a vossa vida, eu renuncio aos dois milhões com os quais sonhei em outros tempos, como se fossem o paraíso que hoje eu desdenho. Para me privar do direito a eles, eu sairei daqui cinco horas antes do prazo combinado e, deste modo, quebrarei o trato…”

Tendo lido isso, o banqueiro repôs a folha na mesa, beijou a cabeça do estranho homem e, chorando, saiu da ala. Nunca antes, em tempo algum, mesmo após uma perda pesada na bolsa, ele sentira por si mesmo um desprezo tamanho como neste momento. Chegando em casa, ele se deitou na cama, mas a emoção e as lágrimas não o deixaram adormecer…

No dia seguinte de manhã, os guardas vieram correndo, pálidos, e lhe comunicaram que viram o homem que vivia na ala se esgueirar pela janela para o jardim, dirigir-se ao portão e desaparecer. O banqueiro dirigiu-se imediatamente à ala e, diante dos criados, constatou a fuga do seu prisioneiro. Para não dar azo a comentários supérfluos, ele tirou da mesa o papel com a renúncia e, voltando para o seu gabinete, trancou-o no cofre-forte.

Anton Tchekhov, “Contos“

domingo, fevereiro 22

Em mudança



Mila

Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a no peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.


Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?

Amá-la – foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.

Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.

No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.

Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.

Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.
Carlos Heitor Cony, "As Cem Melhoras Crônicas Brasileiras"

Aos deuses de tudo que existe

Não, os jardins não morrem no inverno, como os animais ou as pessoas, principalmente as mais velhas, apenas sofrem um pouco mais fundo do que de costume. Alguns, verdade, sucumbem. Minha vó Corruíra, por exemplo, costumava dizer: “Acho que deste agosto não passo”. E houve um do qual realmente não passou. Mas isso talvez fosse o destino, ou morre-se mais facilmente no inverno? sobretudo invernos gaúchos, quando o minuano vara frestas e fendas para cortar a pele feito navalha gelada. Enregelados, atravessamos agostos que parecem eternos e, nos setembros, suspiramos quase leves outra vez: “Meu Deus, passou”. O que vezenquando é puro engano: há pequenos agostos embutidos no entremeio dos doidos setembros.


Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente. Óbvias, quem sabe. Pra mim, não: é que nunca antes na vida tive um jardim. Que nem sequer, e ainda bem, é só meu. Tem a mão mais antiga de meu pai, e também o “dedo verde” de minha irmã Cláudia, que me ensina toques espertos contra pragas. Por que existem as pragas. Ah, se existem. E bem mais que as sete bíblicas. Fora os agostos, formigas-cortadeiras, caracóis, lesmas, pulgões, ácaros, cochonilhas e falanges do mal de nome ainda mais esquisito que esse último. Armados até os dentes, lutamos. Todo santo dia. Guerra sem tréguas, Bósnia.

Contabilizo perdas: foram-se a angélica, begônias, lágrimas-de-cristo que eu achava que eram brincos-de-princesa (meu pai jura que voltam), uma dália amarelinha adorada pelos erês de Oxum e outras muitas. A hortênsia empacou, o jasmineiro agonizou, mas resistiu bravo. Já as margaridas ficaram ainda mais folhudas, os gerânios cresceram loucamente e as roseiras se revelaram inesperadamente fortes, com menos de um ano de vida e de um metro de altura. A branca Lygia certos dias chegou a render nada menos que seis rosas. Todas abertas ao mesmo tempo, numa apoteose a Oxalá (sugestão para fantasia carnavalesca). O belo fica ainda mais belo, quando também é forte? Pois é.

E teve certa amarílis, que em julho dei por perdida. Semana passada, arrancando baldes de ervas-daninhas de nojentas raízes brancas estranguladoras, a alegria: como uma ponta de espada brotando da terra, miniexcalibur. Ao contrário, lá estava a amarílis nascendo outra vez. Limpei mais, adorei, conversei, bravo, é isso aí, minha filha, não se entrega não. Happy end? Ledo engano: manhã seguinte, a pontinha de espada não passava de um toco roído durante a noite não sei por que abantesma (só mesmo usando essa palavra) das trevas. Continuamos lutando, juntos, a amarílis e eu. Mas quando você pensa que um perigo medonho passou é porque outro ainda pior está vindo? Oh, Deus. E o perigo-passado realmente deixou você mais forte para o perigo-vindouro? E se só ficou o cansaço e se a amarílis desistir? E se eu desistir e for cuidar das verbenas, cravinas e amores-perfeitos que acabei de plantar?

Aprendem-se coisas, eu dizia. Vezenquando, assustadoras.

Mas lutamos, eu também dizia. E olho agora para trás e vejo na estante às minhas costas, bem à frente de um livro com reproduções de Egon Schiele, aquela árvore japonesa da fortuna e da felicidade, quando percebi que não superaria o inverno, transplantei-a do jardim para o meu quarto. Era um resto negro calcinado pela geada. E quase invisível, um pontinho verde de vida na base. Fui até lá agora e medi: está Com mais de meio palmo de altura empinadíssima, viva.

Então eu agradeço, eu tenho medo e espanto e terror e ao mesmo tempo maravilhamento e outras coisas com e sem nome, mas agradeço. Aos deuses dos jardins, aos deuses dos homens, aos deuses do tempo e até aos das ervas daninhas que nos fazem lutar feito tigres feridos fundo no peito, sim, eu agradeço.
Caio Fernando Abreu, "Pequenas Epifanias"

O verde

Estranha é a cabeça das pessoas.

Uma vez, em São Paulo, morei numa rua que era dominada por uma árvore incrível. Na época de floração, ela enchia a calçada de cores. Para usar um lugar-comum, ficava sobre o passeio um verdadeiro tapete de flores; esquecíamos o cinza que nos envolvia e vinha do asfalto, do concreto, do cimento, os elementos característicos desta cidade.


Percebi, certo dia, que a árvore começava a morrer. Secava lentamente, até que amanheceu inerte, em folha. "É um ciclo, ela renascerá", comentávamos no bar ou na padaria. Não voltou. Pedi ao Instituto Botânico que analisasse a árvore, e o técnico concluiu: fora envenenada.

Surpresos, nós, os moradores da rua, que tínhamos a árvore como verdadeiro símbolo, começamos a nos lembrar de uma vizinha de meia-idade que todas as manhãs estava ao pé da árvore com um regador. Cheios de suspeitas, fomos até ela, indagamos, e ela respondeu com calma, os olhos brilhando, agressivos e irritados:

- Matei mesmo aquela maldita árvore.

- Por quê?

- Porque na época da flor ela sujava minha calçada, eu vivia varrendo essas flores desgraçadas.

Ignácio de Loyola Brandão

As leituras

Com Walter Scott, mais tarde, apaixonou-se pelas coisas históricas, sonhou com baús, sala de guardas e menestréis. Teria gostado de viver em alguma velha mansão, como aquelas castelãs de longo corpete, que, sob o trevo das ogivas, passavam os seus dias, com o cotovelo sobre a pedra e o queixo na mão, a olhar vir do fundo da campanha um cavaleiro de pluma branca que galopa num cavalo negro. Teve, naquele tempo, um culto por Maria Stuart, e venerações entusiastas em relação a mulheres ilustres ou infortunadas. Joana d’Arc, Heloísa, Agnès Sorel, a bela Ferronnière e Clémence Isaure, para ela, destacavam-se como cometas na imensidão tenebrosa da história, onde se sobressaíam ainda, aqui ou acolá, porém mais perdidos na sombra e sem nenhuma relação entre eles, são Luís e o seu carvalho, Bayard moribundo, algumas ferocidades de Luís XI, um pouco de São Bartolomeu, o penacho do Béarnais, e sempre a lembrança dos pratos pintados em que Luís XIV era louvado.

Gustave Flaubert, Madame Bovary 

sábado, fevereiro 21

Leitura matinal


 

'A manhã começa a bater no meu poema'

A manhã começa a bater no meu poema.

As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

– Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
Herberto Helder, “Poemas completos”

Umbigo

Honra lhe seja, ao poeta Vinicius. Coube-lhe, por volta de 1945, a iniciativa de lançar o grito meio esportivo meio libertário:

Meninas, soltai as alças,
bicicletai, seios nus!

As meninas acataram-lhe imediatamente a recomendação, na primeira parte; quanto à segunda, estão (suas filhas) ensaiando ainda. Tanto tempo assim para cumprir a ordem do poeta? Ocorreram fatores vários que justificam a demora. Em 1945, positivamente não dava pé; nos anos seguintes, e nos seguintes aos seguintes, também não. Ultimamente, as coisas vêm mudando, umas em ritmo de tartaruga, outras em ritmo de cápsula espacial. A bicicleta voltou. Este verão é bicicleta pura. Alças, não foi preciso soltá-las; desapareceram. Apareceu o bustier, e o próprio busto oferece fatias laterais generosas, prenúncio da auroral exposição plena. Executado, afinal, o mandamento viniciano? Uma coisa é certa: o verbo bicicletar foi lançado por ele, e hoje, quando as garotas bicicleteiam em bloco, ou a uma, é o verso de Moraes que circula por aí.


O poeta não previu o umbigo em expô, mas que poeta pode prever tudo? Digamos que seu poema de 45 pode ser lido de várias maneiras, e uma delas seria:

Meninas, livrai o umbigo,
bicicletai, seios nus!


Com ou sem bicicleta, o umbigo feminino, particularmente o juvenil, é hoje uma festa da cidade. Os olhos pousam nele antes de tudo; não mais no rosto, ou nas pernas, e isso está certo e conforme às leis do ser humano, pois no umbigo se localiza o centro, o ponto fundamental da figura, na estética da natureza. Dele se irradiam as outras partes do corpo, os outros elementos da “paisagem viva”: “No cânon ideal, a altura do umbigo divide exatamente a altura total, segundo o corte de ouro” (Constable, The Curves of Life).

E não se veja malícia no olhar que vai direto a esse acidente anatômico, pois é o umbigo que o chama, o intima, o imantiza. Ele quer ser visto e considerado em suas variantes de flor, que não se encontram duas iguais. Uns são recolhidos em si mesmos, por assim dizer secretos à luz do sol, misteriosos, exigindo código.

Outros, ofertantes, radiosos, públicos, democráticos, comunicantes. Há os retorcidos como certos vegetais que nasceram para lutar contra o vento e renunciam à postura comum. Quem ousa dizer que o umbigo é cicatriz, memória da gestação uterina? Estrela, sim, de ocultos raios, a iluminar a abóbada corporal; botão de flor ou de secreta campainha, que domina com seu timbre a orquestra dos membros; microlaguna onde boia, não um barquinho, mas o princípio de toda vida… Tudo isso e mais o que o obstetra, esse escultor, fez dele, ou a imaginação lhe acrescenta escolhendo entre as infinitas virtualidades da forma.

Umbigos andam por aí, desafiando tua capacidade de curtir o novo dentro do eterno. Se na praia eles nem são percebidos, porque se inserem no quadro global, na rua, no coletivo, na loja, no escritório, são uma presença nova, uma graça diferente acrescentada ao espetáculo feminino, um dom sem destinatário certo, que é a bonificação de um ano em que tantos perderam na Bolsa mas acabam lucrando na vista.

O umbigo deixa-se conversar, responde naturalmente. Há um diálogo novo entre ele e o transeunte. Certos umbigos parecem rir da piada que anda no ar, outros sorriem com discrição, e há os que se mostram sérios mas urbanos. De poucos sei que podem ser chamados de antipáticos, e esses, seria melhor que continuassem guardados. Receio que os mais pretensiosos acabem se ostentando em moldura barroca, cercados por um cordão de ouro ou pintura a óleo, quem sabe se com um diamante na cavidade? Nada de artifícios. O umbigo em si, casto e cantante, esse é que merece todo o poder e glória neste morrer de ano de 1972, em que precisamos ansiosamente contemplar alguma coisa pura, repousante: um umbigo que seja.

Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"

Exílio

Por que se gosta de um autor? Gosta-se de um autor quando, ao lê-lo, tem-se a experiência de comunhão. Arte é isso: comunicar aos outros nossa identidade íntima com eles. Ao lê-lo eu me leio, melhor me entendo. Somos do mesmo sangue, companheiros no mesmo mundo. Não importa que o autor já tenha morrido há séculos… Inversamente, quando não gosto de um autor, é porque não há comunhão. É como se ele fosse uma comida estranha que causa repulsa. Essa é a razão por que gosto tanto de Nietzsche. Foi amor à primeira vista. O que ele diz ilumina o meu ser. E há nele um sentimento doloroso: o sentimento de exílio. “Em cada chegada eu sou uma partida”, ele disse. É comum entre os escritores esse sentimento de estranheza no mundo. Drummond via isso na Cecília e dizia que esse era um dos seus traços marcantes. Sinto o mesmo. Se os que creem na reencarnação estão certos, então está tudo explicado. Nasci neste tempo, mas minha alma ficou num lugar do passado que eu muito amei.
Rubem Alves, “Ostra feliz não faz pérola“

Cupins sem fronteiras

Vivo dentro de uma biblioteca. Há livros por toda a parte, banheiros e cozinha inclusive. Pense numa pessoa que adora o carnaval: cinco dias de paz e sossego, espichada com os livros no sofá, na rede, na única poltrona à prova de gato que sobreviveu na casa — não muito bonita, não muito confortável, mas forrada numa camurça quase indestrutível.

Os blocos lá fora e eu aqui dentro, ar-condicionado polar subártico ligado, gatos dormindo ao meu redor, café forte e água gelada, paraíso.


Decidi catalogar os livros mais ou menos na época da pandemia, quando cupins comeram parte das minhas estantes e quase todos os livros importados. Até hoje não sei se foi o gosto requintado da cola estrangeira que os atraiu ou o sabor colonial do papel que veio de fora, mas o fato é que, com exceção de uma meia dúzia, os livros nacionais resistiram ao ataque. Independentemente de suas qualidades gastronômicas, porém, todos tiveram que ser retirados das estantes devoradas, separados, limpos e recolocados nas estantes novas. Era o momento ideal para trazer alguma ordem ao caos.

Um aplicativo chamado Libib (gratuito até cinco mil exemplares) e dois amigos livreiros vêm me ajudando na tarefa interminável. Hoje são exatamente 6.648 livros cadastrados, mas isso muda o tempo todo. Saem uns, entram outros. O total, curiosamente, só aumenta, embora eu me esforce para manter a coisa sob controle.

Cerca de mil são livros selvagens, ou seja, aqueles que ainda não encontraram o seu lugar nas estantes; mas até eles ficaram mais fáceis de achar depois do Libib, porque pelo menos sabemos em que parte da casa estão.

Graças ao meu trabalho, recebo muitos livros, um ou dois pacotinhos por dia, como se fosse um Natal permanente. Os gatos ficam extasiados com as caixas e com o papelão. E, desde que passei a ganhar o suficiente para gastar tudo em livros, gasto tudo em livros.

Agora mesmo não resisti e comprei uma coleção linda da Agatha Christie editada pela Harper Collins, que há meses me provoca pela internet. Não tenho mais onde botar um único exemplar e, de uma tacada só, mandei vir mais de 40. Novas traduções, capas coloridas, uma alegria.

Um dia ainda compro uma enciclopédia só porque as capas são bonitas.

Sim, eu já li tudo da Agatha Christie, e provavelmente algumas vezes; eu até traduzi Agatha Christie. Algumas vezes. Os cupins não pouparam nenhum dos que eu tinha, todos em inglês, naquele papel irresistível. Faz sentido que estejam em português, agora, porque netos e sobrinhos-netos começam a descobrir romances policiais e tenho o sonho secreto de que se tornem traças de biblioteca como a avó.

Onde vou botar tudo isso?

No domingo passado, os amigos livreiros vieram aqui. Estudamos as estantes com a maior seriedade, tiramos a trena da gaveta, fizemos cálculos e... não decidimos nada.

Por enquanto continuo no modo carnaval ativado e não me estresso. No dia em que o cardume chegar, vamos encontrar lugar: há sempre uma solução para quem vive dentro do problema.

quinta-feira, fevereiro 19

Hora de abastecer


 

Peso da solidão

Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita,
prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Clarice Lispector


Sardanápalo

Sou farmacêutico, modesto, de bairro pobre, mas assim como o senhor me vê, apenas bem mais moço e mais sonhador, já tive minhas fumaças de literato, e gozei mesmo de certo renome de poeta estudantil, nos tempos em que cursei farmácia em ouro Preto. Meu Ouro Preto das boemias nos casarões infinitos cheios de quartos e de tradições, com percevejos de barbas multisseculares! Velha cidade que se conserva sempre a mesma, dentro deste século onde tudo mudou. Mas não falemos do meu Ouro Preto de todos os tempos, uma vez que a minha intenção é lhe explicar porque me arrepiei todo à passagem um simples gato pela porta da minha farmácia, a esta hora noturna. Não é nenhuma superstição minha. Somente não gosto de gatos, ou melhor, já gostei excessivamente de gatos, naquele tempo em que me tinha na conta de poeta e levava declaradamente uma vida de intelectual. Baudelaire e os gatos! Me convencera de que era espiritual ter desses bichanos no meu quarto de estudante, bicho amigo dos poetas, dos lunáticos. Influência dos vates franceses, de suas elegâncias esquisses, com pulgas... Eu tinha gato enorme no meu quarto de estudante, bem alimentado, preguiçoso e inútil, que batizara pomposamente, parnasianamente, de Sardanápalo. Imagine o senhor, Sardanápalo, hein! E mesmo pra rir... Assunto tenebroso para mim, gatos. A questão não é propriamente nem deixar de gostar deles. E que me sugerem qualquer coisa como remorso, ou remordimento de consciência, presa este Sardanápalo que se tornou uma mancha negra na minha vida... Bem alimentado, o meu bichano não descia de sua condição especial de gato de poeta para comer os ratos que transitavam pela nossa república. Afugentava-os, às vezes, por desfastio ou talvez respeito tradição de família. Era um gato preto, como convinha a um cultor das boas letras, que já lera Poe traduzido por Baudelaire. Preto e gordo. E lerdo. Tão gordo e lerdo que certa altura observei que ia perdendo inteiramente as qualidades características da raça, que são em suma o ódio de morte aos ratos. Já nem os afugentava! Os ratos de Ouro Preto são também dignos e solenes e — não ria! — tradicionalistas... descendentes de outros ratos que naqueles mesmos casarões presenciaram acontecimentos importantes de nossa história... No sobrado do desembargador Tomás Antônio Gonzaga, imagine o senhor uma reunião dos sonhadores inconfidentes, com os antepassados daqueles ratos a passearem pelo sótão ou mesmo pelo assoalho por entre as pernas dos homens absortos na esperança da independência nacional! E depois, os ancestres daqueles roedores que eu via agora deslizar sutilmente no meu quarto podiam ter subido pelo poste da ignomínia colonial, onde estava exposta a cabeça do Tiradentes! E quando as órbitas se descarnaram ignominiosamente, podiam até ter penetrado no recesso daquele crânio onde verdadeiramente ardera sem literatura, com simplicidade do heroísmo, febre nacionalista... São pensamentos que me vinham daquela ocasião, mas nem por isso desculpavam falta de caráter em que ia chafurdando o meu Sardanápalo, a tal ponto que os ratos começaram trafegar livremente na própria canapé em que ele repousava a sua existência sem qualquer interesse. Via-o entreabrir um dos olhos, espiá-lo uns segundos, continuar a dormir. Enquanto isto, os meus livros, até os meus caros livros dos poetas amados, apareciam roídos! Principiei então a diminuir-lhe os alimentas, devagar mas metodicamente ao mesmo tempo que Sardanápalo voltava mais ou menos a ser gato, saindo de súbito de sua madorna habitual para assustar com um tapa ao rato ousado que lhe passasse por perto. Não os deixava passar fome, o que não estava nos meus planos: desejava apenas que, apesar de bichano literário a que até já dedicara um soneto em alexandrinos, ou em razão disto, ele cumprisse uma função maneira de policiar os meus bens intelectuais contra a ação subversiva dos roedores. Porém a despeito do racionamento, aliás um tanto generoso, eis que aparece parcialmente destruído um dos cadernos dos meus próprios versos. Olhei para Sardanápalo com desprezo, com raivosa insistência: o inútil supôs que se tratasse de um olhar de carinho mais prolongado e veio agradecer-mo roçando pelas minhas pernas! Acabei coçando-lhe a cabeça, sorrindo diante daquele caso sem remédio, e saí para a rua, para a noite que iria terminar com uma daquelas ceias responsáveis pela minha dispepsia atual... Já pelas tantas, ao voltar para casa me lembrei dos versos roídos e resolvi não levar pra ele, como sempre fazia, um pedaço de linguiça da ceia. À última hora, cedendo ao bom coração, reuni somente alguns pedaços de pão largados sobre a mesa. Quando abri a porta Sardanápalo saltou do canapé, festivo e interesseiro: lhe atirei as migalhas num gesto de desdém e caí pesadamente na cama... Despertei com uma estranha barulhada no quarto, uma cadeira que tombava como uma bomba sobre as tábuas do soalho, som que retumbava nos cômodos vazios e abandonados do andar de baixo, de mistura com o chiar assustado de um rato. A pálida madrugada ouro-pretana, ainda em começo, entrava pela minha vidraça perto do céu, para me revelar Sardanápalo sentado no meio do aposento pousando uma das mãos sobre um rato enorme. Seria uma demonstração de sua eficiência, um esforça para se reabilitar? Naquele instante, parecia tão possuído pelo gozo do apresamento que não deu a mínima importância à minha atenção pelo seu triunfo. Retirou a pata de cima presa e deitou em frente dela, preguiçosamente, como numa boa disposição para dormir ou pelo menos para cochilar. Segundos decorreram e de repente a rato disparou em fuga, sem conseguir atingir senão uma pequena distância, menos da largura de uma tábua, pois Sardanápalo deu um salto, abocanhou-o trazendo-o à posição primitiva, humilde, anulado, perto do seu focinho, e se espichou com estudada displicência junto dele. Não o abocanhou propriamente, o que dá a impressão de violência: manteve-o delicadamente entre os dentes, sem magoá-lo, forçando-o a retornar ao ponto de partida. Não era a primeira vez que eu presenciava aquela cena entre um gato e um rato. Mas era a primeira vez que via meu Sardanápalo agir assim, depois de ter sido arrancado do sono da madrugada, naquela hora confusa e indistinta, sem que meu corpo abandonasse a posição do sono, nem mesmo o agradável torpor das células meio adormecidas, até com a cabeça no travesseiro para seguir o desenvolvimento dos fatos... Dentro de alguns minutos, só existíamos no mundo, no universo, no espaço e no tempo, eu, o gato e o rato. Sardanápalo se pôs a sufocar com pequenos golpes das patas dianteiras a menor tentativa de movimento do seu prisioneiro. Depois dos inumeráveis golpes delicados, quase gentis, que não o magoavam, deu início ao combate simulado. O rato, de tão deu início ao combate simulado. O rato, de tão insignificante, parecia ter diminuído de tamanho. Pobre, mísero ratinho que se entregou a movimentos desesperados que facilitaram a simulação da luta: sem ligar mais para a insistente delicadeza com que as patas do gato lhe ordenavam que estivesse quieto, procurava fugir-lhes a toda força, e Sardanápalo caía sobre ele, jogava-o no ar e se punha rapidamente de costas para apará-lo nas quatro patas, embolava-se com ele e vinham rolando juntos, como se o ratinho estivesse mesmo reagindo, até perto da cama; e voltavam rolando... Houve números de acrobacia quando Sardanápalo, de costas, manteve o animalzinho no ar sobre as patas, uma, duas, cinco vezes... Em seguida, permitiu que o rato, cada vez mais diminuído, medisse em correria a extensão do quarto, e foi saltando por cima dele, obliquamente, da cauda para a cabeça, de modo que o fugitivo tinha de momento a momento o seu caminho impedido e mudava constantemente de direção, desorientado e desesperado. Parecia mesmo brincadeira, mas nós três sabíamos que não era. O meu gato cumpria fielmente o imperativo tradicional de raça contra raça, ou de espécie contra espécie, com todo o abuso da superioridade física, da supremacia do tamanho e da agilidade. A madrugada se tornara franca e a claridade descendo das penedias dava absoluta nitidez ao desenrolar natural daquelas crueldades impregnadas de elegância e se gentileza. Eu já não estava deitado e sim sentado, sem me importar com o frio (devia ter febre, parece-me hoje), as pernas pendendo da cama velha e alta, sem perder o mínimo detalhe de tudo, insensatamente entregue à observação da extrema variedade de atos. Mais do que entregue, — dominado eu mesmo por uma crueldade abstrata, com um sentimento bizarro que se me afigurava orgulho de ser dono de Sardanápalo, partícipe indireto mas voluntário daquele suplício que não acabava nunca!... O senhor conhece um conto de Villiers de Lisle Adam, o Suplício da Esperança? Não? Um inquisidor determina que se suplicie uma de suas vítimas, como último recurso para tentar a salvação de sua alma, com a esperança de poder fugir da prisão; o homem descobre que a porta do calabouço foi esquecida com a fechadura aberta, empurra-a e sai pelos intermináveis corredores; os frades passam por ele, sem vê-lo em algum cotovelo de muro em que procurava se ocultar; um deles, que vem discutindo com outro sobre alto problema teológico, pousa sobre o fugitivo o olhar distraído, e o fugitivo se imobiliza num calafrio gelado, dentro de um desvão de parede; mas ambos distraidamente se afastam repetindo, entre outras palavras pias, o nome de Cristo; o fugitivo já está vendo a porta de saída, lá fora há luz e ar; se aproxima da liberdade, quando se sente abraçado pelo próprio inquisidor, que o chama de filho e lhe diz para não fugir dali, para não fugir de Cristo... É assim que guardei a recordação do conto, lido naquele tempo. No entanto, naquela hora estranha, me lembrei apenas daquele sistema original de suplício revelado ou imaginado pelo contista, e Sardanápalo — não ria! — também se lembrou de aplicá-lo, ou melhor, eu lhe transmiti o meu pensamento... O meu gato se deitava nonchalantemente e permitia que o prisioneiro corresse quanto que podia (já estava meio titubeante e exaurido, embora sem um arranhão), até no ângulo do quarto onde havia um buraco de rato que eu entupia vãmente com jornais; já estava perto do buraco enxergando a abertura sombria, prelibando a escuridão e a estreiteza dos meandros onde nenhum gato jamais entrara ou entraria, a liberdade na sombra... já se aproximava do buraco, já estava a poucos centímetros dele! E o algoz em dois pulos alcançava-o e o trazia novamente na boca para o ponto de partida. Aliás, tudo aquilo, desde o começo, era puro suplício da esperança, com todas as variações imagináveis, cada variação repetida uma, duas, cinco, dez vezes... E eu sentado na cama acompanhando-as, empregando nervos e músculos em repetir até certo ponto aquelas diversões, gato eu mesmo, sim gato eu mesmo, não ria! Possuído por um entusiasmo cruel, torcendo como fazem os assistentes das pugnas esportivas de hoje... O rato já era um frangalho, martirizado com tal habilidade que não se lhe via o menor sinal de sangue. Se lhe acontecia, a um golpe de Sardanápalo, virar de costas, permanecia de costas agitando as patinhas e procurando apoio no infinito para tornar à posição normal, sem ânimo e sem forças... Também, já estávamos no fim. Sim, já estávamos no fim, eu e o meu gato contra aquele animalzinho quase sem alento de vida e que já nem se movia a novos e derradeiros tapas das patas. Talvez ainda pudesse se mover um pouco, mas não o tentava, convencido da absoluta inutilidade de tudo, nirvanizado... E o meu interesse pela progressão do acontecimento, interesse sem piedade, antes o contrário, estava atingindo o auge. Porém de minha parte não havia qualquer intenção de vingança ou pesar pelos versos roídos, pois tal espírito de vingança contra um insignificante ratinho, dentro de um ser humano, seria uma imperdoável monstruosidade. Era crueldade gratuita, uma intoxicação estranha e única de perversidade, com os nervos alertas mandando cargas para os músculos, tal se os músculos estivessem todos se movimentando como os de Sardanápalo no corpo do homem sentado, curvado sobre o supliciador e o supliciado, sacudindo as pernas nuas, agitando os braços, sem alma e sem frio, um possesso! Sim, é a palavra: um possesso! Sem repugnância alguma, até com uma certa volúpia demoníaca, vi o gato enorme, que enchia o quarto enorme com sua importância extraordinária, abrir a boca, mostrar a face, e fechar a boca tendo entre os dentes o cabeça do ratinho, esmigalhando-o e engolindo-o lentamente... O rabinho penetrou ainda mais devagar, como uma cobrinha, e Sardanápalo teve uma ânsia de tosse, uma espécie de engasgo, quando a ponta fina e delicada lhe fez cócegas na garganta. Só então se dignou de olhar para mim. Mas que olhar! De cúmplice agradecido e enternecido talvez, depois de cumprir a ordem de matar que provinha do meu desprezo lhe manifestado na véspera. Mas sobretudo de acrobata exibidor gratíssimo por aquele meu aplauso mudo e paciente às suas habilidades. Talvez nada disso e apenasmente uma deferência amável para com o seu dono, após mostrar quanto podia fazer, como era hábil, ágil e poderoso... O certo é que não compreendi bem aquele olhar, a que correspondi constrangido, não pela humilhação da cumplicidade ou porque já me trabalhasse o remorso: — porque percebi assustado e confuso que a crueldade despertada em mim não estava satisfeita! Antes de voltar ao canapé, Sardanápalo veio até junto da cama, fitando-me ainda e sempre, e esfregou o corpo fluxuoso, peludo e quente, contra os meus pés frios e nus. Uma, duas, quatro vezes... Comecei a brincar nervosamente com ele, afastando os pés para que perdesse o equilíbrio quando mais se lhes encostava, calcando levemente com as plantas aquela barriga onde estava sepultado o ratinho. Sardanápalo abandonava-se no chão, agora se fazia pequenino, carinhosamente pequenino. Coloquei um dos calcanhares em cima de sua cabeça que se abaixou reverentemente, mansamente, agradecidamente. Súbita e irreprimível violência, desci o calcanhar com todo o peso do corpo e lhe esmigalhei o crânio. Não morreu logo. Começou a se afastar de costas, arrastando a cabeça, sem poder levantá-la do soalho, com a espinha dorsal partida, como se a cabeça estivesse presa com visgo a tábuas, sem miar nem gemer, apenas com uma espécie de engasgo. Abri a vidraça, agarrei-o pelo rabo e atirei-o para o ar puro e alto, o mais distante que pude. Foi cair lá no fundo do quintal abandonado e cheio de mato, rolou pelo declive forte até que uma moita de assa-peixe o reteve. Lá embaixo, ainda se movia, se arrastava. Desapareceu entre as folhas.
João Alphonsus

Morto em Resaca

O melhor soldado da nossa guarnição era o tenente Herman Brayle, um dos ajudantes de ordem. Não me recordo bem de onde o general o mandara vir; creio que de Ohio. Para não provocar ciumeira o invejas, o general escolhia seus auxiliares em outros regimentos e todos consideravam isso uma grande honra.

O tenente Brayle era um belo rapaz, de olhos azuis e de cabelos claros. Gostava de andar sempre com o uniforme completo; tinha modos cavalheirescos e uma coragem do leão.

Todos nós apreciávamos Brayle e foi com pesar que notamos — depois da primeiro combate em Stone's River — que ele possuía um torpe defeito: era vaidoso da sua coragem e tinha a mania de se mostrar o mais possível em locais perigosos, só se acautelando quando censurado pelo general. Este, porém, tinha mais que fazer do que tomar conta de seus subordinados.

Brayle montava admiravelmente. Nas refegas, quando os oficiais buscavam abrigo, ele enfrentava proposital e inutilmente o fogo. Enquanto ficávamos apequenados contra o solo por horas a fio, como se faz em luta de campo aberto. Brayle pavoneava-se como se estivesse num passeio. Se tinha de levar uma ordem na linha de fogo, em voz de ir de cabeça baixa e correndo, para evitar ser alvo de algum atirador, ia distraidamente como se estivesse em atividade de lazer.

Mas, justiça seja feita, ele não fazia isso por deboche aos camaradas ou para depois se gaba; nunca falava de suas proezas. Apenas, uma vez, disse ao capitão:

— Se algum dia eu morrer por imprudência e por não ter ouvido os seus conselhos, prometa que alegrará os meus últimos momentos, dizendo: — Não lhe dizia eu?

Pouco tempo depois, quando o capitão foi despedaçado por uma bala, Brayle, sem preocupar-se com as granadas, ficou longo tempo junto ao corpo, a recompor os membros esfacelados. Ato heroico fácil do censurar e... difícil de imitar...

Afinal chegou o seu dia. Foi em Resaca, na Geórgia, durante o movimento que resultou da captura de Atlanta. Em nossa frente a linha inimiga de terra corria através dos campos abertos sobre uma leve crista. Em cada momento e em cada ponto do terreno, estávamos próximo do inimigo, mas só poderíamos ocupar espaço quando escurecesse. Estávamos aproximadamente a um quilômetro e meio de distância, numa mata, em semicírculo. A linha inimiga achava-se em forma de uma corda de arco.

— Tenente, vá dizer ao coronel Ward que se aproxime com cautela o mais que puder, para não gastar munição desnecessária. Deixo aqui o cavalo.

Mas antes que alguém pudesse impedir, Brayle galopava em direção ao campo!

— Pare aquele idiota — gritou o general.

Um soldado raso, com mais ambição que do que cérebro, tomou um cavalo e partiu a correr; ele e o animal morreram em campo de honra.

Brayle galopava sem parar, sendo alvo de centenas de disparos, obrigando a nossa linha a ir socorrê-lo, pois ninguém podia suportar tanta brutalidade. Isto culminou em tiroteio dos dois lados e seguiu-se uma luta terrível. Brayle, no entanto, único responsável pela carnificina, estava de pé, o cavalo caído a pouca distância. Logo adivinhei porque ele estava parado. Como engenheiro topográfico eu havia, horas antes, feito um leve exame do terreno e me lembrei do que naquele ponto havia um profundo e sinuoso abismo invisível do local em que nos achávamos; Brayle, porém, ignorava isto.

A passagem era impraticável; mais dois passos e seria a morte. Assim que ele caiu o fogo cessou como que por milagre; só alguns tiros esparsos, do longe em longe quebravam o silêncio.

Entre os objetos encontrados nos bolsos de Brayle, estava uma velha carteira de couro oriunda da Rússia; o general me presenteou-a como recordação de um herói.

Um ano depois da guerra, em caminho para a Califórnia, tirando a carteira do bolso, abria-a e examinei-a. Continha uma carta sem envelope o sem endereço. Era letra de mulher e começava com uma palavra de carinho, mas não havia menção do remetente. Estava assinada em caracteres sublinhados: Querida. Abaixo da assinatura: Marian Mendenhall — São Francisco. Julho de 1862. Dizia a missiva:

“O senhor Winters, a quem sempre odiarei por isso, contou-me que numa batalha qualquer, em Virgínia, onde ele foi ferido, você se escondeu atrás de uma árvore. Penso que ele quer diminuir minha estima por você, pois sabe o quanto detesto a covardia. Prefiro saber da morte do meu amado soldado, a sabê-lo covarde”.

Foram estas as palavras que causaram a morte de uma centena de homens. E a mulher culpada?

Uma tarde lembrei-me de procurar a sra. Mendenhall, a fim de lhe devolver a carta. Tencionava dizer-lhe também qual tinha sido o resultado das suas palavras. Encontrei-a: era linda e gentil.

— A senhora conheceu o tenente Brayle? — indaguei estouvadamente. — Sabe decerto que ele morreu em combate; em sua carteira achei esta carta que lhe pertence.

— Foi muito amável — disse ela depois examinar o documento. — Sinto que tenha tido tanto trabalho por tão pouca coisa.

Depois, reparando numa mancha pardacenta sobre o papel:

— É sangue?... sangue? Não pode ser!

— Senhora — retorqui — é exatamente o sangue de um coração valente e nobre; o melhor coração que conheci.

— Não, não posso suportar a vista de sangue — gritou a moça, atirando a carta à chama do fogo. E depois mais calma:

— Diga-me; como foi que morreu?

Eu ainda tentei instintivamente salvar aquele papel tão sagrado para mim. Voltei a cabeça com a intenção de responder à pergunta. A claridade da chama refletiu-se no seu rosto, espalhando-se sobre toda sua fisionomia uma mancha rubra como se fora sangue.

Nunca vira coisa alguma mais linda do que aquela miserável criatura.

— BrayIe morreu — respondi fitando-a — picado por uma víbora.
Ambrose Bierce

O homem que resolveu contar apenas mentiras

Naquela manhã, acordou disposto a só contar mentiras. A não dizer uma única verdade. A ninguém. Nem à própria mulher. E assim quando afirmou: “vou para o trabalho”, empregou sua primeira mentira. Não ia. Tinha resolvido faltar, esquecer o escritório, a mesa, os papéis. Parar, ficar na rua.

Quando disse bom-dia para o zelador do prédio, também mentia, porque odiava o zelador, um oportunista, que não conservava o prédio, fazia fofocas entre empregadas, pedia gorjetas, ganhava porcentagem na compra de materiais de limpeza.

Quando disse o endereço ao motorista do táxi, também mentia, não pretendia ir para aquele lugar. Mas o chofer exigira o destino pois as pessoas vivem exigindo as coisas. E nem sempre temos vontade ou possibilidade de fazer. E as exigências crescem e se tornam parte de nossa vida diária. Nos acostumamos com elas, nos acomodamos, sem perceber que cada concessão é um pedaço da gente mesmo, envenenado, que a gente engole.

Quando o homem entrou no bar e pediu café, mentia, porque não queria café. Estava apenas fazendo um teste, enquanto observava o gesto maquinal daquele empregado que destacava uma ficha e a entregava. Será que aquele funcionário, alguma vez, imaginou que alguém pudesse não querer café? Pedir, por pedir, mas não querer? Nem sequer desejar ver a xícara fumegante?

Com a ficha na mão, saiu pela rua. Outra mentira, não queria ficar na rua. Mas se entrasse no escritório, seria mentira maior. Odiava o escritório, o empregado, os colegas. De duas mentiras, preferiu a menor, ainda que, ponderando, descobrisse que ficar com a mentira menor era igualmente fuga, mentira, porque nesse dia tinha decidido mentir. E, quando se decide uma coisa, o melhor é levá-la até o fim.

Andou. Pensando como a cidade era bonita com seus prédios batidos de Sol e os vidros dando mil reflexos. Bonita com a gente que andava apressada para trabalhar e construir alguma coisa. Bonita na tranquilidade da vida, no sossego das casas, na calma que se estampava nos rostos das gentes. Bonita no que oferecia de futuro e de perspectivas. Bonita nos carros que andavam em fila, ruidosamente, um atrás do outro, sempre para frente, sempre para frente. Bonita na fumaça negra que escapava dos veículos e subia em espirais, milhares de fumaças reunidas, formando uma bela nuvem negra, como um negro véu, que surgia sobre a terra, espanando o Céu.

Andou sem querer andar.

Viu, sem querer ver.

Sentiu, sem querer sentir.

Cansou, sem querer cansar.

Tudo uma grande mentira neste dia. Como mentira era a vida que ele vivia, cotidianamente, falsificada, pré-fabricada, exaurida, imposta. Suada. Que repousante era viver este dia de mentira. Negar tudo. Reviver.

Andou até a hora de voltar para casa. Outra mentira, não queria voltar para casa, o lar, o aconchego, o refúgio, a fuga. A verdade de sua vida encerrada entre aquelas quatro paredes, a família, o amor, o carinho, o aconchego, o lar, o refúgio, a fuga, a realidade.

Não voltar e andar. Percorrendo as ruas, entrando nos prédios, conversando com as pessoas. No entanto, não tinha vontade de conversar. Sabia que precisava, mas não tinha vontade de falar. Falava pouco, sua língua andava entorpecida, sem prática. O medo é que um dia desacostumasse e perdesse a capacidade de se comunicar. E como andava difícil se comunicar. Ficou parado numa esquina, esperando a noite passar.

Quando o dia chegou, tinha acabado o período da mentira, podia enfrentar de novo a verdade. E disse bom-dia ao porteiro, deu o endereço ao táxi, ligou para a mulher e o patrão. Disse no emprego que estava doente. E, na verdade, estava.

Ignácio de Loyola Brandão, "O homem do furo na mão e outras histórias"