quarta-feira, setembro 16

Cérebro fortificado

 


Desaprender

Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: - Cá está ele!.

Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.


Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado. Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios.

É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.

Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor. Pedra campal sobre o assunto.

Alexandre O'Neill, "Uma Coisa em Forma de Assim"

Apreensão ao começar um romance

Nunca senti maior apreensão ao começar um romance. E se digo romance é por não saber de que outra maneira chamá-lo. Não tem grande enredo, não acaba com morte nem com casamento. A morte põe termo a todas as coisas e é, portanto, fim lógico para uma história; mas também o casamento é solução muito correta e os blasés fariam mal em escarnecer daquilo que comumente se diz que “acabou bem”. O instinto popular anda acertado ao afirmar que, com isto, tudo o que devia ser dito foi dito. Quando, depois de inúmeras vicissitudes, macho e fêmea finalmente se reúnem, sua função biológica foi cumprida e o interesse passa à geração vindoura. Mas estou deixando o meu leitor no escuro. Este livro consiste das recordações que tenho de um homem com quem, em épocas muito espaçadas, tive íntimo contato; mas pouco sei do que lhe aconteceu nos intervalos. Creio que, recorrendo à imaginação, eu poderia preencher plausivelmente as lacunas e tornar mais coerente a minha narrativa; mas a tal não me sinto atraído. Quero unicamente relatar fatos de que tenho conhecimento.

Há anos escrevi um romance intitulado Um gosto e seis vinténs. Nele destaquei um famoso pintor, Paul Gauguin, e, valendo-me do privilégio do romancista, imaginei vários incidentes, no intuito de ilustrar o tipo que eu criara inspirado nos escassos fatos que conhecia da vida do artista francês. Na obra atual nada tentei de semelhante. Não inventei coisa alguma. Para poupar constrangimento a pessoas que ainda vivem, dei aos personagens desta história nomes fictícios e procurei, por outros meios, evitar que sejam reconhecidos. O homem sobre quem escrevo não é célebre; talvez nunca chegue a sê-lo. É possível que, ao atingir o fim da vida, não deixe, de sua passagem pela terra, vestígio maior que aquele que a pedra, atirada ao rio, deixa na superfície das águas. Neste caso, se o meu livro for lido, sê-lo-á exclusivamente pelo interesse intrínseco que possa ter. Mas é possível que o gênero de vida que esse homem escolheu para si próprio e a singular força e doçura do seu caráter tenham uma influência sempre crescente sobre seus semelhantes, de modo que, mesmo muito tempo depois de sua morte, talvez se compreenda que nesta época viveu uma criatura extraordinária. Ficará, então, claro sobre quem escrevi neste livro, e aqueles que desejarem conhecer alguma coisa dos primeiros anos da existência desse homem talvez aqui encontrem algo que lhes satisfaça. Creio que o meu livro, dentro de suas possibilidades, que reconheço limitadas, será uma útil fonte de informações para os biógrafos do meu amigo.

Não é minha intenção fazer crer que as conversas foram registradas literalmente. Não tomei nota sobre o que foi dito nesta ou naquela ocasião, mas tenho boa memória quanto ao que me diz respeito e creio que, embora expressas em minhas próprias palavras, essas conversas representam fielmente o que foi dito. Há pouco declarei nada ter inventado; quero agora modificar essa asserção. Tomei a liberdade, que desde o tempo de Heródoto os historiadores têm tomado, de pôr nos lábios dos meus personagens palavras que eu, pessoalmente, não poderia ter ouvido. Agi pela mesma razão que os fez agir; para dar vida e verossimilhança a cenas que teriam sido incolores se apenas relatadas. Quero ser lido, e creio estar no meu direito quando faço o possível para tornar agradável a leitura do meu livro. O leitor inteligente facilmente perceberá em que ocasiões me vali deste artifício e tem toda a liberdade de rejeitá-lo.
William Somerset Maugham, "O fio da navalha"

Vós que lá, do vosso império

Vós que lá, do vosso império

Prometeis um mundo novo
Calai-vos que pode o povo
Querer um mundo novo, a sério!

Aquele que trabalha e come,
Não come o pão de ninguém.
Mas quem não trabalha e come,
Come sempre o pão de alguém!
António Aleixo

A propósito da neve úmida

Mas a fase de minhas devassidõezinhas estava terminando, e eu começava a ficar terrivelmente nauseado. Se era assomado pelo arrependimento, eu o enxotava: a náusea que ele causava era demasiada. Aos poucos, porém, fui me acostumando com isso também. Eu me acostumava a tudo, ou melhor, não me acostumava, propriamente, e sim, de certa forma, concordava voluntariamente em suportar. Mas eu tinha uma saída conciliadora, que era refugiar-me em tudo que fosse “belo e sublime”, em sonhos, naturalmente. Eu era um terrível sonhador, sonhava até por três meses seguidos, enfiado no meu canto, e creiam-me: nesses momentos eu não me parecia com aquele senhor que, na perturbação de seu coração de galinha, costurava uma pele de castor alemã à gola do seu capote. De repente me transformava em herói. Não admitiria meu tenente grandalhão na minha casa nem como visita. Já nem conseguia mais imaginá-lo. Agora é difícil dizer quais eram os meus sonhos e como eles podiam me satisfazer, mas o fato é que naquela época eles me satisfaziam. Aliás, mesmo agora eu me satisfaço parcialmente dessa maneira. Sonhos particularmente mais fortes e doces me vinham depois da devassidãozinha, vinham com arrependimento e lágrimas, com maldições e arrebatamentos. Aconteciam momentos tão bons de inebriamento, de tal felicidade, que, juro por Deus, não sentia dentro de mim nem sombra de deboche. O que havia era fé, esperança e amor. Acontece que, naquela época, o que eu acreditava cegamente era que por um milagre, por uma circunstância exterior qualquer, tudo de repente iria mover-se, alargar-se; que de repente surgiria o horizonte da atividade conveniente, nobre e maravilhosa e, principalmente, completamente pronta (exatamente qual seria eu nunca soube, mas o mais importante é que estaria completamente pronta), e eu surgiria de repente neste mundo de Deus nada menos que montado num cavalo branco e com uma coroa de louros. Um papel secundário eu nunca pude aceitar, e era por isso que na vida real ocupava muito tranquilamente o último lugar. Ou herói ou a lama, não havia meio-termo. Isso foi a minha perdição, porque, na lama, eu me consolava dizendo que em outras ocasiões eu era herói, e o herói encobria a sujeira: para uma pessoa comum, é vergonhoso sujar-se na lama, mas um herói está muito acima de tudo e não vai se sujar inteiramente, por isso ele pode sujar-se um pouco. É admirável que esses acessos de “tudo o que é belo e sublime” me vinham também durante minha devassidãozinha, e precisamente no momento em que eu me encontrava já no fundo; vinham como pequenos lampejos isolados, como que para se fazerem lembrar, mas, pelo fato de aparecerem, não a impediam; ao contrário, parece que a avivavam pelo contraste e vinham na medida exata para um bom molho. O molho, aqui, era constituído de contradições e sofrimentos, de uma análise interior martirizante, e todos esses suplícios e supliciozinhos conferiam um sabor picante e até um sentido à minha devassidãozinha – em suma, executavam perfeitamente a função de um bom molho. Tudo isso se dava não sem uma certa profundidade. E acaso eu poderia concordar com uma devassidãozinha de segunda, simples, vulgar, direta, de amanuense, e suportar toda essa sujeira? Que poderia haver nela para me seduzir e atrair para a rua à noite? Não, senhores, eu tinha uma escapatória nobre para tudo...


Porém, quanto amor, senhores, quanto amor eu experimentava nesses meus devaneios, nessas “salvações em tudo o que é belo e sublime”: embora fosse um amor fantástico que jamais se aplicaria a alguma coisa humana e real, ele era tão grande que nem se sentia necessidade de aplicá-lo à realidade, pois seria um luxo excessivo. Tudo, aliás, terminava sempre da maneira mais satisfatória, com a passagem preguiçosa e inebriante para a arte, ou seja, para as belas formas da existência, inteiramente acabadas, fortemente roubadas dos poetas e romancistas e que se adaptam facilmente a toda sorte de serviços e exigências. Eu, por exemplo, triunfo sobre todo mundo. Todos, evidentemente, viraram pó e são obrigados a reconhecer espontaneamente as minhas perfeições, mas eu os perdoo. Ora me apaixono, quando sou um poeta célebre e camerista da corte, ora recebo incontáveis milhões e logo em seguida sacrifico-os em prol do gênero humano e, na mesma ocasião, confesso diante do povo as minhas infâmias que, evidentemente, não são simplesmente infâmias, mas que encerram em si uma quantidade extraordinária de “belo e sublime”, algo “manfrediano”. Todos choram e me beijam (de outra forma, que idiotas eles seriam!), e eu parto, descalço e faminto, para pregar novas ideias e derroto os retrógrados em Austerlitz! Em seguida começa a soar uma marcha, é decretada a anistia, o papa concorda em deixar Roma e ir para o Brasil; depois há um baile para toda a Itália na Villa Borghese, que está situada na margem do lago de Como, que fora transportado para Roma especialmente para essa ocasião; depois há uma cena entre os arbustos, etc., etc. Será que senhores não sabem disso? Os senhores dirão que é vulgar e indigno expor tudo isso em praça pública, depois de tantos arrebatamentos e lágrimas que eu mesmo confessei. Por que seria indigno? Será possível que os senhores pensem que eu me envergonho de tudo isso e que tudo isso era mais idiota do que qualquer episódio de suas próprias vidas? Ademais, acreditem os senhores: algumas coisas estavam até bem resolvidas para mim... Nem tudo se passava no lago de Como. Aliás, os senhores estão certos: de fato era vulgar e indigno. Mas o mais indigno de tudo é que agora comecei a me justificar para os senhores. E mais indigno ainda é eu estar fazendo esta observação. Mas basta, senão isso nunca terá fim: sempre haverá uma coisa mais indigna que a anterior…

Eu não era capaz de ficar mais de três meses seguidos devaneando e começava então a sentir uma necessidade incontrolável de mergulhar na sociedade, o que, para mim, significava visitar o meu chefe de seção, Anton Anônytch Sétotchkin. Foi a única pessoa conhecida com quem mantive uma relação constante durante toda a vida, fato que, agora, até eu mesmo considero surpreendente. Mas, mesmo à sua casa, eu só ia quando entrava na fase oportuna, e meus sonhos atingiam tal felicidade que eu sentia uma necessidade imperiosa de imediatamente abraçar as pessoas e toda a humanidade; e, para isso, era necessário ter a presença de pelo menos uma pessoa concreta. Anton Antônytch recebia às terças-feiras e, consequentemente, a vontade de abraçar toda a humanidade tinha que cair sempre na terça-feira. Esse Anton Antônytch morava perto das Cinco Esquinas, no quarto andar, num apartamento de quatro peças, cada uma menor que a outra, com o teto baixinho, tudo meio amarelado e dando a impressão de economia. Viviam com ele as duas filhas e a tia delas, que servia o chá. As filhas tinham treze e catorze anos e ambas tinham narizinho arrebitado. Eu ficava terrivelmente constrangido na presença das meninas, porque elas cochichavam o tempo todo, dando risadinhas. O dono da casa geralmente permanecia no seu escritório, sentado num divã de couro em frente à mesa, em companhia de algum convidado de cabelos grisalhos, funcionário do nosso departamento ou mesmo de algum outro. Nunca vi lá mais de dois ou três visitantes, e eram sempre os mesmos. Conversavam sobre o imposto indireto, as licitações no senado, os salários, a produção, Sua Excelência, os meios de agradar, etc. etc. Pacientemente, eu ficava ali sentado umas quatro horas junto a essas pessoas como um idiota, ouvindo-as, sem coragem ou sem assunto para falar com elas. Sentia-me burro, vinham-me ondas de suor e parecia que estava tendo um ataque de paralisia, mas isso tinha seu lado bom e útil. Chegando em casa, por algum tempo desistia do meu desejo de abraçar a humanidade.

Pensando bem, eu ainda tinha um tipo de conhecido, o meu colega de escola Símonov. Eu tinha muitos ex-colegas de escola em Petersburgo, mas não me dava com eles e já nem os cumprimentava na rua. Talvez eu tenha pedido transferência para outro departamento justamente para não ficar junto deles e romper de uma vez por todas com a minha infância detestável. Que a maldição caia sobre aquela escola e aqueles terríveis anos de trabalhos forçados! Resumindo, eu me separei dos meus colegas assim que ganhei a liberdade. Restaram uns dois ou três que eu ainda cumprimentava quando encontrava. Um deles era Símonov, que na escola não se distinguia em nada, era quieto e constante, mas em quem eu percebi alguma independência de caráter e mesmo honestidade. Até nem acho que ele fosse muito limitado. Numa certa época, nós dois tivemos alguns momentos bastante agradáveis, mas que não duraram muito e, de repente, parece que foram encobertos por uma espécie de bruma. Aparentemente, essas recordações eram difíceis para ele, que parecia temer que eu voltasse ao antigo tom. Eu desconfiava de que lhe causava muita repugnância, mas apesar de tudo eu o visitava, pois não tinha certeza absoluta disso.

Certa quinta-feira, não suportando minha solidão e sabendo que naquele dia a porta de Anton Antônytch estava fechada, lembrei-me de Símonov. Quando subia para o quarto andar, estava exatamente pensando que esse senhor não se sentia à vontade comigo e que em vão eu o procurava. Mas, como sempre, tais reflexões, como que de propósito, incitavam-me ainda mais a me meter em situações dúbias, e eu entrei. Fazia quase um ano que eu não via Símonov.
Fiódor Dostoiévski, "Notas do Subsolo"

Num canto da memória

É preciso muito bem esquecer para experimentar a alegria de novamente lembrar-se. Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles. E a palavra — basta uma só palavra — é flecha para sangrar o abstrato morto. Há, contudo, dores que a palavra não esgota ao dizê-las.

Queria, sempre, desaparecer com um circo, mas circo não havia. Veio um dia.

Armaram na praça central da cidade, com aroma de pipoca e cor de amora. Minha mãe me levou. De mãos dadas penetramos sob a lona quente, numa tarde quente. Naquela noite me deitei, dobrei os joelhos e armei meu circo com o lençol alvejado da cama. Debaixo da lona me dividi em três: me sonhei equilibrando no arame, me imaginei girando no globo da morte e me incendiando ao cuspir fogo. Meu irmão não se interessava pelo circo, mas achava o vidro macio.

Um raso rio cortava ao meio minha cidade. As águas opacas corriam sorrindo pelas cócegas dos pequenos peixes, marinheiros à mercê da correnteza. A cidade partida me fazia, sempre, um morador do outro lado. Não havia opção: em qualquer lugar eu estaria em outra margem. Sem escolha, eu vivia o avesso por habitar a outra orla. Havia uma pequena ponte de madeira amarrando os dois pedaços, não como a exata costura dos alfaiates. Eu caminhava de cá para lá, sem me esbarrar em outra pátria.

Que a vida não tinha cura, o tempo me ensinou, e mais tarde. Na infância o calendário fora inventado para marcar o Natal, a Semana Santa, as férias da escola, os aniversários. Os dias deslizavam preguiçosos, repetindo manhãs e tardes, entremeadas por serenas estações. Impossível para uma criança viver a lucidez da ferida que se abre ao nascer, e não há bálsamo capaz de cicatrizá-la vida afora. Nascer é abrir-se em feridas.

Uma música desafinava a cidade. Impossível interditar o ruído que arranhava os ouvidos. A vizinha da rua direita não nos permitia o silêncio. O silêncio, ela repetia, é casa para os fantasmas. Depois de abandonada pelo marido — que viajou sem bilhete de retorno — abraçou com as pernas o violoncelo. Insistia em dominar os acordes como tentara dominar o esposo. Com o arco em punho — espada de aço frio — ela executava pequenas e repetidas melodias que encrespavam até os ventos.

Seu olhar me promovia a seu prisioneiro. Sempre, se ela me encarava ao mastigar o tomate, eu passava a existir dentro de seus olhos. Seu olhar assaltava-me. Ser o menino de seus olhos aturdia-me. Insistia em fugir, mas seu olhar me sequestrava. Negava ser ela o meu espelho. Meu espelho habitava, secreto, dentro de mim. E débil, naquele globo castanho e opaco, o medo mais se anunciava, com superlativo pavor. Morar em seus olhos era o mesmo que ser roubado de minha mãe. Eu traía, e assim padecia, ao me permitir tamanho deslocamento. Quem ficara guardado — para sempre — na menina dos olhos da morta?

Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"

terça-feira, setembro 15

Lembrança de outros tempos

 


Nove letras

Depois do almoço, gosto de observar o céu e sempre o avisto: um urubu adulto, muito grande, quase sempre solitário, que voa em largos círculos acompanhando as correntes de ar quente. Confesso que invejo sua liberdade, a vida que ele vive um dia de cada vez, empenhado apenas em sobreviver. Tão diferente de nós, humanos, presos a compromissos, vaidades, incertezas, com a atenção voltada para o ontem e o amanhã, enquanto o hoje escoa entre os dedos.

Tenho amigos que assistem pais idosos, prisioneiros do dever de cuidadores. Outros zelam por filhos com deficiência, abdicando da própria vida em favor dos dependentes. Quando uma dessas situações chega ao fim, demoram a se adaptar à nova realidade. “Estou cansada de tanto descanso”, revela uma amiga que perdeu a mãe há pouco tempo.

Quando moça, tinha uma teoria sobre doença e morte, querendo mudar o mundo como a Emília de Monteiro Lobato: devíamos ser como eletrodomésticos, manter a boa aparência até o fim e, de repente, parar de funcionar para sempre. Não precisaríamos ser cuidados por terceiros, não atrapalharíamos a vida de ninguém, apenas sairíamos de cena, deixando lembranças.

Aquele urubu não se preocupa com o minuto seguinte nem se encontrará alimento ou será atacado por algum inimigo. Vive intensamente o presente, extraindo dele a plenitude. Não sabe que morrerá um dia, se deixará descendentes, se o ninho será preservado. Suas asas e o ar são o que importam.

Devíamos aprender com a natureza que habitamos. Uma árvore aguenta a seca à espera da chuva, um rio seca na estiagem para depois reaparecer, as flores do deserto ficam encubadas até desabrochar lindamente, em mil cores, e alguns animais hibernam ou permanecem quase mortos, até que as condições externas os chamem de volta à vida.

Chamamos de liberdade o que conhecemos, louvando e reivindicando direitos. Nove letras tão desgastadas, limitadas por regras que nós mesmos criamos em nome de civilização, esquecidos de que somos animais que dividem o planeta com o restante da fauna e da flora, perecíveis e vulneráveis, talvez até mais que os vizinhos. Pois não sabemos voar por conta própria, o frio e o calor em excesso nos matam, perdemos a capacidade de pressentir o perigo, encontrar água debaixo do solo, distinguir alimentos e remédios nas matas encurraladas pelas cidades, parir sozinhas a prole… Viver é para os fortes. Ser livre, também.
Madô Martins

Não Desafies

Não desafies
a alegria.

Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?

Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria.

João José Cochofel, ‘Breve’

Sobre Pessoa

Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos”, foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.

José Saramago, "O caderno"

Peixe-boi

Informado de que a próxima Feira da Providência terá, entre mil atrações, um vasto peixe-boi, deliberei entrevistar esse triquequídeo, absolutamente inédito na Guanabara e adjacências.

Não foi difícil localizá-lo. Apesar de sua fama de esquivança e cautela, o peixe-boi faz um barulho dos diabos ao alimentar-se fora d’água. Ouvindo inusitado rumor à margem da piscina, onde cresce erva abundante, para lá me dirigi, e logo identifiquei o nosso hóspede, que pastava seus quarenta e cinco quilos de vegetação.

— Senhor peixe-boi, poderia atender à curiosidade dos leitores de minha coluna, respondendo a algumas perguntas?

— Não gosto de conversar na hora das refeições — resmoneou — mas seja tudo pelo amor da Feira da Providência, a que compareço como convidado especial. Fale, e responderei. Mas, antes de mais nada, eu é que vou lhe perguntar uma coisa. Já voltou a carne aos açougues?

— Veio a congelada.

— Ainda bem. Eu receava uma traição.

— Como assim?

— Sabe, esse nome, peixe-boi, pode dar margem a equívocos. Se falta o boi propriamente dito, peixe-boi deve botar as barbas de molho. Não me esqueço da mixira.

— Que que é isso?

— Mixira, meu caro desinformado, é chouriço de minha carne. Dizem que ela é insípida, e acho bom que o seja, para não atrair o apetite de vocês, mas por que faziam mixira de mim? Leia o dr. José Veríssimo, que conta o processo. Carne de peixe-boi, moqueada e cozinhada na gordura do próprio peixe-boi! Se já não se pratica mais isto, é porque a raça está acabando. Sou um dos poucos sobreviventes, e me cuido.

— De fato, parece que o senhor é mais uma originalidade que um exemplar.

— E olhe que até no Espírito Santo, nos tempos do padre Anchieta, nós circulávamos felizes, sem problemas. Depois, começou a matança. Mania de fazer óleo e azeite de cozinha com o meu toucinho. De fazer chicotes com o meu couro. Até mangueira d’água para os trens maria-fumaça tiravam de meu lombo! Não estou mentindo, ouça o que diz d. Flávia da Silveira Lobo, na sua enciclopédia animal. Tanto caçaram minha espécie que ela virou raridade, digna de ser mostrada em feira, com entrada paga.

— Louvo sua generosidade, comparecendo.

— Prezado colunista, ainda há generosidade nos peixes. Nos últimos da minha família, pelo menos. De resto, não sou propriamente peixe. Sou mamífero, como você, tenho alguma coisa de humano, como os próprios homens têm. Confesso que não vim ao Rio só por altruísmo. Vim também para saber das coisas, entende? Mamífero da Amazônia observa o comportamento dos mamíferos da Guanabara, que comem, bebem e dançam para ajudar os pobres. Peixe-boi se divertindo a olhar os que se divertem olhando o peixe-boi. Não sabem que estou achando graça neles. Meu focinho de bezerro inspira-lhes gracinhas. Também me rio dos que têm cara de macaco ou de foca. Nenhum deles tem de altura o que tenho de comprimento, nenhum pesa tanto quanto eu. Portanto, sou superior a vocês por mais de um título, e nem por isso me considero rei da natureza. Pasto minha relvinha — licença, vou papar mais um feixe, com a minha rica série de molares — e não chateio os outros, como vocês gostam de fazer.

Ouviu-se um estrondo: era o peixe-boi mastigando. Cessada a manducação, não resisti:

— Mas o senhor faz tantas restrições ao gênero humano. Por que, afinal, atendeu ao convite?

— Amigo, até peixe-boi gosta de publicidade.

E mergulhou. Só então me espantei de que ele falasse, e falasse tanto. Expliquem os sábios na escritura que segredos são estes de Natura.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"

domingo, setembro 13

Leitura com cisnes

 


Pode acontecer

Pode acontecer o seguinte. As revelações sobre o envolvimento de figuras do governo passado em crimes e escândalos chegam a ponto crítico. Civis e militares de graduação inimaginável veem-se na iminência não de ir para a cadeia, o que contraria os hábitos brasileiros, mas de serem expostos como corruptos, torturadores, etc. O que, sei lá, seria chato. Os protestos contra “revanchismo” não adiantam. É preciso agir para deter a torrente de denúncias que ameaça destruir, na sua fúria persecutória, tudo o que o regime passado deixou de bom. Como, por exemplo, o, a… hm. Bem, é preciso agir. O golpe é decidido num telefonema no meio da noite. Falam em código.

– Alô, Mão em Cumbuca? Boca na Botija.

– Fala, Boca.

– Tudo certo para amanhã?

– Tudo.

– Tem certeza?

– Tenho. Houve resistência, mas o argumento de que até o Antônio Carlos está nas mãos dos comunistas foi decisivo. A maioria aderiu.

– Quer dizer que…

– Lá vamos nós outra vez.

– Será que não há mesmo outro jeito?

– Bem, se você quer ver nos jornais a história de como você roubava material do seu gabinete para vender…

– Ssssh!

– Nunca entendi. Você não se contentava com seu salário de…

– Sssshh!

– Tinha que vender os clipes de papel?!

– E você? E você?

– O que que tem eu?

– E o cabaré no porão do

– Ssshhh!

– Bom, agora não adianta ficar lamentando. O importante é que ninguém descubra. Como está o plano?

– Não pode falhar. Cercaremos o Congresso. Os congressistas se renderão. Usando os congressistas como reféns, exigiremos a capitulação do governo e das forças leais a Sarney.

– Uma vez no poder, censuraremos a imprensa. De novo.

– Exato.

– Boa sorte, Mão!

– Certo, Boca. No dia seguinte.

– Alô, Mão em Cumbuca?

– Não tem ninguém aqui com esse codinome.

– Já vi que não deu certo…

– É.

– O que houve?

– Atacamos o Congresso. Fomos direto ao cerne da democracia. Cercamos o prédio. Entramos para render os congressistas.
ConsultarProcessos Legislativos

– E?

– E não encontramos ninguém!

– O quê?!

– Bom, para não dizer que não tinha ninguém, tinha uma taquígrafa. Pensamos em usá-la como refém mas acabamos desistindo.

– Assim não dá!

– É. É impossível golpear as instituições se elas não estão onde deviam estar!

– O que vamos fazer agora, Mão?

– Eu se fosse você dava o fora do país, Boca.

– E de onde você pensa que eu estou falando, Mão?
 Luis Fernando Verissimo

Cinco coisas

Quero apenas cinco coisas…
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.
Pablo Neruda

A raposa e o avião

Um homem da cidade, perambulando no campo é suspeito. Se levar uma espingarda, explica-se perfeitamente a sua presença. Há sempre compreensão para um argumento belicoso. Troca-se um olhar de cumplicidade e a arma sugere reminiscências de velhas caçadas infrutíferas, que são lembradas como sucessos felizes.

Inútil espingarda! Encosto-a à primeira árvore de sombra e estiro-me na areia fofa e fulva, esperando a intimidade casual dos insetos e das aves. O tufo das manjeriobas bronzeadas esconde-me como um biombo. As formigas negras desfilam em cadência impecável, um a fundo. Duas aranhas tecem armadilhas baixas e sedutoras. Uma cobra verde suja deslizou e desapareceu. Invisível cigarra espalha sua cantilena atritante e teimosa. Vou adormecendo, embriagado de silêncio, quietação, serenidade.

Bruscamente, surgida do capão de pau-de-ferro que os cipós entrelaçam harmoniosamente, sai uma raposa ouro-cinza, viva, inquieta, ágil, farejadora. Num momento se detém perto de mim. O vento sopra-lhe no focinho escuro e fino, ocultando-lhe meu rastro pela inevitável emanação do cheiro de homem, índice de perigo mortal. Posso vê-la em liberdade, senhora de seus movimentos instintivos, na plenitude da força graciosa, da astúcia milenar, da feiticeira desenvoltura juvenil. O pelo igual e liso, acamado sem a ondulação de um arrepio, indica ausência de qualquer suspeita. A cauda na espessura normal roça o solo, sinal de tranquilidade. Camarada raposa não malda a proximidade de um espectador com uma linda carabina de repetição ao alcance do gesto.

Suas orelhas recortam-se, hirtas, sensíveis à captação da mais longínqua denúncia inimiga. Fica imóvel como uma pedra. O focinho desloca-se, vagaroso, num amplo raio verificante, perscrutador, irradiando suspicalidade. As orelhas funcionam como detentores dos ruídos distantes. Ninguém! Se o vento mudar de quadrante serei localizado, pelo meu aroma inconfundível, às suas narinas delicadas. Dará um arranco sacudido, princípio de carreira olímpica, quase sem barulho audível, e desaparecerá como uma sombra, diluída na orla mosqueada da mataria rala. 
Avança, leve e fácil, fincando as patas na areia tépida, numa indizível elegância vulpina. No céu escampo de nuvens, de incomparável azul, perpassa um surdo, persistente e rouco zumbido que faz vibrar a paisagem silenciosa na tarde lenta de verão. O rítmico ronronar enche de sonoridade estranha o descampado solitário. Durante segundos, a raposa procurou fixar o som nas vizinhanças, virando o focinho para todas as direções, orelhas erguidas e paralelas, a cauda alteada, os olhos faiscantes de curiosidade e medo inicial. Estacou: patas dianteiras retesadas e firmes, vibrantes como alavancas de aceleração, e as traseiras curvas, trêmulas, ansiosas para o salto salvador na solução da escapula.

Na linha do horizonte passava o pássaro de prata, de asas estendidas, haloado pela luz do sol que o incendiava de branco, deixando a trauta inusitada daquele ruído atordoador. Era um avião de carreira, rumando para o aeroporto.

Vejo a raposa imóvel, focinho apontado para cima, olhando o avião sonoro. A bocarra úmida entreabre-se num espanto inconcebível, mandíbula decaída, mostrando a ponta escalarte da língua, a cauda baixa e grossa, os quadris curvados, as orelhas atentas, duras como se armados em latão, seguindo a ave reboante; dois olhos escancarados, luzentes, crescidos de assombro, fitam o mistério presente, ruidoso e alto, acompanhado pelas patrulhas do rumor. Sinto que a curiosidade chumbou-a ao solo quando o corpo palpitante anseia pela libertação veloz. Filha do mato, primitiva, arrebatada, fiel a todos os seus velhos instintos de fome e de sexo, ladra, fugitiva, predadora, covarde, rebelde aos amavios humilhantes da domesticação, incapaz de figurar num circo, aprender um bailado, obedecer a um gesto, livre, faminta e rústica, a raposa olha o avião sereno, semeador de ecos.

Durante dois minutos o animal está estático, inteiramente possuído por aquele centro de interesse de inaudita novidade. A cabeça afunilada acompanha automaticamente a trajetória do avião cintilante. As patas dianteiras mergulham na areia, duras, esticadas como de madeira rija; as traseiras têm um leve e visível frêmito de impaciência e pavor. Como o mirmecólio tinha a frente de leão e o final de formiga, a raposa ostenta a coragem da atenção obstinada por diante e o medo incontido por detrás. Está tremendo mas parada, quieta, subjugada pela visão inesperada da grande ave prateada e canora.

Se a raposa “pensa” por uma sucessão de imagens, não haverá nenhuma anterior para determinar-lhe o processo da comparação assimiladora. É uma imagem nova, virgem e de impossível cotejo no fichário mental das reminiscências raposinas. Qual será a reação íntima e maravilhosa dessa contemplação? Quais as soluções mais ou menos duradouras, subsequentes ao conhecimento visual da aeronave? Com que a raposa comparará o avião atravessando nuvens com seus motores sonorizantes? Tê-lo-á como uma ave gigantesca, jamais anteriormente vista, feita, como todas as aves deste mundo, de carne, penas e sangue, susceptível de mastigação e deglutição saboreadas? O focinho, seguindo obedientemente o voo, não seria uma muda perseguição ideal, prevendo e observando o local do pouso da imensa caça voadora?

Creio que a raposa, a dar-se crédito ao seu “romance” onde é personagem clássica, terá muito pouco de sentimentalismo e de visão abstrata das coisas inidôneas para um bom almoço. Admite-se que o sapo cante às estrelas e o veado duele por amor, valentemente, como um canário, uma lagartixa ou um escorpião. Ninguém, sob a cúpula do céu, evoca uma raposa lírica e sim perpetuamente ligada ao programa rendoso de utilitarismo imediato e prático, cientemente cumprido como num master plan da United States Information Agency.

Águias já têm morrido enfrentando aviões, atraídas pelo seu estridor e, quem sabe, batendo-se pelo monopólio do domínio aéreo. A raposa, a deduzir-se pelo que dela sabemos, lemos e vemos, terá no avião uma possibilidade mental de refeição inacabável e de sabor nunca degustado.

Talvez deduza que o ronco do motores é um resfolegar de agonia, de próximo declínio fatal. E quando o aparelho desapareceu pensaria na felicidade das outras raposas porventura vigilantes nas proximidades do pouso. A imensa presa iria para outras gargantas, outros estômagos mais afortunados.

Aqui onde estou dista dois quilômetros das casas que rodeiam a vila vizinha. A raposa será familiar frequentadora dos galinheiros providos para a festa do Natal. Já viu automóvel, certamente. Ouviu os clamores dos rádios domésticos e deve ter encontrado semelhança entre a sua e a voz de certas glórias cantantes nos microfones submissos.

Está a poucos metros de mim, olhando o avião que se tornou pequenino. O focinho continua no mesmo nível anterior, patas dianteiras firmes, as traseiras trêmulas, recurvadas, os olhos ansiosos, tontos, abismados na sedução irresistível que se desfaz na altura da tarde.

Guardará o segredo deste conhecimento de imagem nova ou comunicá-la-á às companheiras no fortuito convívio dos comandos predatórios da madrugada?
Minha impressão é bem diversa, meus senhores. Parece-me que a raposa hipnotizada está fazendo um esforço milagroso para compreender. Toda ela é tensão, nervos polarizados na direção única de encontrar um processo dedutivo de assimilação, uma assimilação que leve a imagem para o fichário das imagens anteriores, vulpinas e úteis. Que íntimas reações permanecerão na memória deste Canis vulpis depois de haver contemplado a retumbante ave platinada? No meio de toda numerosa fauna, onde conta vítimas e perseguidores implacáveis, como deverá incluir a existência do possante pássaro roncador voando sem bater asas brilhantes?

Agora o avião não é mais avistado. O rumor morreu no ar. A raposa volta à última forma. O focinho vira para o chão, areia, gravetos, rastros de animais, folhas secas, banais. Apruma-se e trota, airosa, para frente, sem mais olhar o céu pálido do entardecer onde passara a grande ave de prata.

Com as pernas formigando de cãibras ergo-me, apanho a espingarda incólume e caminho, trôpego. Na vereda, fundos, estão os quatro orifícios do rastro da raposa, denúncia de sua atenção inquieta, de sua curiosidade sôfrega, de sua expectativa despremiada.

Pode ser que, na meia-noite, ao esgueirar-se para o assalto às galinhas dorminhocas, passe, rápida e sonora, a visão fulgurante daquele pássaro estranho e branco, tão grande, bem maior que dois carros de bois, rugindo dez vezes mais, fazendo-a deter-se e olhar para o alto, para onde raramente as raposas olham.
Luís da Câmara Cascudo, "Canto de Muro"

Bicho-de-pé

Todo menino tinha bicho-de-pé. Eu tive muitos. Ter um bicho-de-pé era uma felicidade...

Como é provável que a maioria dos meus leitores nem tenha tido a felicidade de ter um bicho-de-pé no dedo do pé e nem mesmo tenha ouvido falar desse minúsculo animal, trato de dar as informações devidas. Trata-se de uma espécie de pulga, nome científico Tunga penetrans, que tem especial predileção pelos dedos dos pés. Esse gosto é específico das fêmeas, que, penetrando sob a pele dos humanos, ali se põem a botar uma enorme quantidade de ovos minúsculos que formam uma bolha transparente, como se fosse de plástico, do tamanho de uma pimenta-do-reino. Essa bolha recebe vulgarmente o nome de “batata”.

A descoberta de uma ou mais batatas nos dedos era sempre um motivo de felicidade, por uma razão que explicarei depois. A extração de uma batata requeria uma habilidade protocirúrgica, ou seja, a manipulação de uma agulha de costura. Procedia-se de forma ordenada: com a ponta da agulha ia-se cortando a pele circularmente à volta da batata até que, completada a operação, espetava-se a mesma no seu centro, marcado pelo ponto negro da Tunga penetrans, para então cuidadosamente proceder-se à conclusão da cirurgia, qual seja, puxar a batata para fora. Sendo bem-sucedida a operação, a batata saía redonda e inteira, sendo exibida triunfalmente como um troféu pela cirurgiã. No seu lugar fica uma pequena cratera, cratera esta que tem uma capacidade enorme de produzir prazer, sob a forma de coceira.

Coceira é uma coisa estranha: dor que dá prazer. Todo mundo já teve frieira — prazer parecido com o da batata. A gente coça até sair sangue. É provável que o mistério do masoquismo encontre sua explicação mais profunda no prazer doloroso da coceira. Meu irmão Murilo, por medo da agulha, não deixava que suas batatas fossem extraídas. Mas tratava de obter o prazer a que tinha direito por meio de um interminável esfrega-esfrega das batatas com uma bucha.

O amor à verdade obriga-me a uma informação desagradável: o bicho-de-pé, para existir, precisa de sujeira. É nos chiqueiros que ele engorda. Há prazeres que necessitam de um ambiente suíno para existir.

O bicho-de-pé, juntamente com as pulgas, eram partes normais da vida, conviviam com os humanos. De noite as pulgas começavam a fazer cócegas, andando sobre a pele, à procura de um lugar propício à sua mordida hematófaga.
Mas depois vieram os inseticidas, o BHC, o Neocid, e elas se foram. Hoje só sobrevivem em locais distantes. São animais em perigo de extinção, mas ninguém sai em sua defesa. Os bichos-de-pé mereceriam sobreviver pelo seu uso metafórico na educação sexual. A jovem, com medo da noite de núpcias, perguntou à mãe se doía muito. Ao que a mãe respondeu: “É feito bicho-de-pé. Dói um pouquinho mas depois a gente não quer parar de esfregar...”.
Rubem Alves, "O Velho que Acordou Menino"

A biblioteca, a fogueira e o feed

Em 2008 estive na Biblioteca Angélica, em Roma. Fica ao lado da Piazza Navona, escondida atrás de uma igreja agostiniana. E mudou-me a forma de ver o mundo. Mas calma, que eu explico.

Eu era bibliotecária. E nesse dia, tive nas mãos um manuscrito com quase mil anos. Pergaminho a sério, não é papel. Tinta feita à mão por alguém que morreu séculos antes de eu nascer. E tremia. Não o manuscrito. Eu.


Houve bibliotecas abertas a toda a gente no mundo antigo. Alexandria teve a maior de todas. Há dois mil e trezentos anos, uma pessoa que não sabia ler podia sentar-se e ouvir alguém a ler para ela. Grátis. Ao ar livre. O primeiro podcast da história era em papiro e não tinha patrocínios. E depois perdeu-se. Ninguém sabe ao certo se ardeu, se foi destruída, se simplesmente a deixaram morrer. Mas o saber desapareceu. E durante quase mil anos, ficou trancado em mosteiros. Quem o guardou foi a Igreja. Quem o trancou também.

Em 1604, um bispo chamado Angelo Rocca fez uma coisa estranha: abriu uma biblioteca em Roma para toda a gente. Sem limites de classe. Sem limites de riqueza. Qualquer pessoa podia entrar. A Biblioteca Angélica guarda duzentos mil volumes. Mas a parte mais bonita não é o tamanho. É que a Igreja lhe deu autorização especial para guardar livros proibidos. Livros que a própria Igreja mandou queimar estão lá dentro, intactos. O homem do Vaticano abriu a porta que o Vaticano queria fechada. E guardou o que o Vaticano queria destruir. Se isto não é subversão, não sei o que é. Um padre subversivo. Filha, isto é o meu tipo de padre.

Eu tive um desses livros nas mãos. E percebi que sem aquele objeto, sem a cadeia de gente que passou a vida a copiar à mão o que outros tinham pensado, não haveria ciência, não haveria democracia, não haveria nada do que hoje damos como adquirido. A civilização é um manuscrito copiado à mão. E quem controla o manuscrito, controla a civilização.

Durante quase dois mil anos, quem controlou o manuscrito foi a Igreja. O Vaticano é o data center mais antigo do mundo. Não usa servidores. Usa abóbadas. Não guarda ficheiros. Guarda segredos. Os Arquivos Apostólicos, que até 2019 se chamavam Arquivos Secretos, não são de livre acesso. Dois mil anos de informação controlada por uma instituição que decidiu que o conhecimento era perigoso demais para ser partilhado.

Não é paranoia. É modelo de negócio. Quem detém o conhecimento, detém o poder. E durante séculos, a Igreja não só controlou o que se sabia. Controlou o que se sentia. A relação das pessoas com o sagrado, com o corpo, com o medo, com a morte, com o amor. Não precisou de algoritmo. Precisou de púlpito. E de fogueira para quem perguntasse demais.

E o que é que esconderam? Tudo o que não cabia na narrativa. Antes de Abraão, antes do deus único e masculino, havia deusas. Inanna na Suméria, Ishtar na Babilónia, Astarte em Canaã. Havia sacerdotisas. Na Mesopotâmia, os templos tinham sacerdotes chamados gala, que não eram homens nem mulheres, e que eram considerados sagrados precisamente por isso. A arqueologia documenta-o. A ciência confirma-o. Havia Lilith, que, segundo o próprio texto hebraico, recusou ser submissa e saiu do Paraíso por vontade própria. O monoteísmo não inventou Deus. Inventou o masculino de Deus. E tudo o que era feminino, fluido, ambíguo, múltiplo, ficou trancado na cave dos arquivos ou ardeu na fogueira. O manuscrito que eu tive nas mãos sobreviveu. Eu também. E olhem que as probabilidades não eram grandes para nenhum dos dois. Milhares não tiveram essa sorte. E o que eles diziam, nunca saberemos.

Se meia dúzia de escribas conseguiram manter este poder durante dois milénios com tinta e pergaminho, imaginem o que vem a seguir.

Os donos das plataformas digitais não são os novos reis. São os novos papas. Não controlam territórios. Controlam atenção. Não têm exércitos. Têm algoritmos. Não escrevem bulas papais. Escrevem termos de serviço que ninguém lê e que dizem, no fundo, o mesmo que a Igreja sempre disse: confia em nós, não precisas de perceber como funciona, basta aceitar. Como a missa em latim. Séculos de gente a rezar sem perceber o que dizia, a quem dizia, nem porquê. E aceitava. Porque quem não aceita, arde. Agora em vez de latim é código. Em vez de incenso é dados. Mas a congregação continua de joelhos.

A IA vai colonizar o pensamento. Não com violência. Com conveniência. Com respostas antes de teres feito a pergunta. Não vais perceber que já não estás a pensar. Estás a ser pensado.

A Igreja opera sem escrutínio. A Santa Casa fiscaliza os seus próprios jogos. A Igreja investigou os seus próprios abusos de crianças. O réu é o juiz. O padrão é sempre o mesmo.

Uma Igreja fundada no mito de um homem que jantou com prostitutas e lavou os pés aos pobres. E o que fizeram com ele? Construíram o edifício mais rico do mundo. E continuam a chamar-se seguidores de um homem que não tinha onde dormir.

Eu não tenho problema com a fé. Tenho problema com a empresa que a sequestrou.

Do manuscrito ao algoritmo, a lógica é a mesma: quem controla a informação, controla o mundo. A diferença é que o monge copiava um manuscrito por ano. O algoritmo copia-te a ti em milissegundos. E quando te copia, não te está a preservar. Está a prever. E quem te prevê, controla-te antes de saberes que foste controlado.

Naquela tarde em Roma, com o manuscrito nas mãos, senti o peso do que foi preciso para chegarmos até aqui. Séculos de mãos a copiar. De olhos a arder à luz de velas. De gente que morreu para que o saber não morresse com eles. E agora olho para o ecrã e pergunto: quem está a copiar agora? E para quem?

A biblioteca era de todos. O algoritmo é de sete. Sete. Como os pecados capitais. A cabeça e o cofre.

E enquanto o algoritmo te distrai com o feed, alguém está a comprar o monte onde acampavas, o prédio onde moravas, o bairro onde cresceste. Os novos papas não precisam de abóbadas. Precisam de escrituras.

E a pergunta que ninguém faz: se a Igreja precisou de dois mil anos para perder o monopólio da verdade, quanto tempo vão demorar estes? Eu cá já estou a contar.

Mia Xeila de Graça 

sábado, setembro 12

Barco da aventura

 


Pensar é transgredir

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
Lya Luft

Os justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, “A Cifra”