segunda-feira, maio 11

Abastecendo

 


Paisagem de após-chuva

A relva, os cavalos, as reses, as folhas,
tudo envernizadinho como no dia inolvidável
da inauguração do paraíso...
Mario Quintana

Revolta na Vila

Aquele oiti cresceu junto comigo. Enchi, muitas vezes, meu pequeno regador verde na bica do jardim pra dar de beber ao meu amigo. Fiz, é verdade, um ou outro xixizinho nele. Mas tudo na maior camaradagem. Sempre repartiu comigo a terra que o alimentava, pra que eu enchesse o balde e as forminhas de praia nas tardes em que batia a saudade da ilha de Paquetá. Nunca me deu esporro nos momentos que gravei meu nome, a canivete, em sua pele. Sabíamos que era uma coisa dolorosa e difícil de explicar, mas, quase sempre, são assim as grandes amizades. Salvou muitos gols dos inimigos nos jogos-contra, trave heroica. Jamais enredou em seus ramos honestos a linha da minha pipa. Nunca mais vou esquecer sua alegria no supercampeonato de 58, Vasco doente, balançava os galhos com a conquista do título, e eu repetia, todo emocionado:

— Casaca, oiti. Mais uma estrela na nossa bandeira.

Tinha o dia em que as árvores da Rua dos Artistas cortavam seus cabelos verdes. Vinham os cadetes da L.U. e deixavam as calçadas cobertas de galhos, que nem ficava, assim de cabelo, o chão da barbearia do Seu Teófilo. Meu amigo oiti usava um corte parecido com o meu, “Príncipe Danilo”, e eu mandava selo, carimbo, estampilha nele. Coração que não cabia no tronco, se preocupava muito com os ninhos que sustentava e, nos dias de vento, eu ficava tranquilizando da janela:

— Calma que tá tudo bem.

Esse negoço de elogiar muito um amigo costuma acontecer quando o cara empacota e é sempre a maior xaropada. Meus prezados leitores vão me desculpar, mas é que no caso do oiti não foi morte natural. Ele foi assassinado covardemente por uma imobiliária sem escrúpulos, sem mãe, em nome do pogresso. Pogresso é que nem, nos apartamentos que eles mesmos constroem, o que acontece nos tais respiradouros do banheiro: Você ouve o barulho, mas não sente o cheiro. Fica aí a sugestão para slogan do Sérgio Dourado.

Pois é, meu amigo dançou. Mas vai ter forra. Em cada morador da Vila cresce, prodigiosa, a revolta. Protestaremos sempre contra mais esse crime, nós, os sanhaços, os bem-te-vis, os coleiros, as tímidas juritis a quem ele abrigou; nós, os vira-latas, que urinamos em seu tronco amistoso; nós, os bêbados, que vomitamos amparados em seu ombro compreensivo; nós, os varredores das ruas, que limpamos a testa à sua sombra; nós, as crianças que nos escondemos atrás de seu corpo, trinta e um de janeiro, lá vou eu; nós, goiabeiras, avencas, samambaias, pequenas ervas sem nome, protestaremos contra essa covardia, irmãozinho.

E traremos, aliadas, as cigarras, com seu otimismo, e elas convidarão os decididos grilos de Vila Isabel, os mais boêmios da cidade.

Virão sabiás e pintassilgos, cágados e cabritos, gatos vadios e papagaios que falam palavrão. A denúncia desse crime estará nas pipas pastorinhas dos carneiros do céu; estará nos balões — do mais humilde balão japonês passando pelos grandes balões-tangerina cheios de lanterninhas até o balão visto pelo Zeca em Cachambi retratando, com cento e trinta e um figurantes, a Queda da Bastilha.

A denúncia desse crime estará nas estrelas e na lua — na lua, que vezes incontáveis mascarou-se, linda, com teus galhos. Criaremos códigos e senhas. O apito do guarda-noturno contará que te mataram. Contará que te mataram o assovio das facas do amolador. O grito do garrafeiro falará dessa covardia, assim como os livros de histórias, os gibis e as figurinhas. Leremos mensagens no desenho das nuvens, conspiraremos com os botões e as pétalas da primavera, ouviremos os conselhos das sábias folhas de outono. Seguirão notícias em gaivotas nas salas de aula e em barcos de jornal nas enchentes provocadas pelas chuvas de verão. O Penteado, tremendo gozador, inventará lorotas sobre o passado dos donos de imobiliárias atrás da bananeira. E o Esmeraldo passará, uma por uma, as mulheres deles na cara.

Porque sabemos que deve haver um pedaço teu, meu amigo, vivo. Embaixo da terra, em algum lugar, há um pedaço teu. E vivo.

E nós, que com nossos olhos secos e amargurados, com nossos galhos cobertos de fuligem, com nossas plumagens descoloridas, nós que, testemunhando mais esse crime, não deixamos que morresses de todo, nós vamo partir pra briga.
Volta logo. Combateremos à tua sombra, e que não falte cachaça e cervejinha pros nossos rapazes.

Volta logo, que nós vamos botar de novo as cadeiras na calçada e distribuir maços de Lincoln e chupar rebuçado e vestir pijamas de listras e usar chapéu panamá.
E cada vez que ouvirmos burrices do tipo “é preciso assumir” ou “o senso deve prevalecer”, responderemos, orgulhosos do que somos: dá o pé, louro! E mais: uma aqui pro nossa-amizade!

E, como golpe de misericórdia, a terrível sentença: conheceu, papudo?

Volta logo, e traz com você muitos bondes, bondes cheios de passarinhos e cachorros, mariolas, petecas e sonhadores. Faremos subir novas pipas com a forma dos nossos sonhos, novos balões que derramam lágrimas de ouro barato, e depois virá a lua, e desfilarão os ranchos e seremos todos palhaços, índios, piratas, e todos usaremos sutiã de casquinha de sorvete e nos apaixonaremos pela mesma deslumbrante odalisca, arrumadeira do 257.

As crianças baterão nos postes, como nas antigas noites de Ano-Novo. Acenderemos fogueiras e brincaremos de roda, nós, pássaros, nós, árvores, nós, homens, ao som da flauta inesquecível do Benedito Lacerda, do violão de Noel.

Vovó Noemia fará uma feijoada, coisa simples, e convidaremos Cosme e Damião pra ouvir as piadas do Waldyr Iapetec, a Maria da Ave pra ajudar minha vó, Papai Noel pra levar um esporro e parar de ficar feito prostituta em porta de loja; convidaremos o coelho da Páscoa (ô cara chato!), o santo casamenteiro pra tomar umas batidas feitas pelo Lindauro, o Pena Branca, todos os avôs do mundo, que é tão difícil a alegria sem avô, o lago da Quinta da Boa Vista, os brinquedos do Parque Shangai, os personagens do presépio, o time supercampeão do glorioso Vasco da Gama, os ciganos do carro-preto, o Armindo, que também foi assassinado, a turma toda, até o Ceceu Rico, que não gosta de festa. Que participem da nossa conjura abilolada, da nossa inconfidência delirante.
Pode ser que os sicários do verde, os carrascos da esperança, os verdugos da alegria — em nome do pogresso — tentem nos dispersar a cacetada, imponham o toque de silêncio a nossas flautas e violões e declarem estado de sítio nos fios,telhados e copas verdes onde zoneiam nossos passarinhos.

Será inútil, imobiliárias sem escrúpulos, sem mãe: a Vila avisa que resistirá até o último pardal, até o último oiti, até o último sonhador embriagado.
Aldir Blanc, Pasquim, nº 362

Os anjos contam histórias

O chefe da família na máquina de trabalhar. A mulher na enceradeira. A cozinheira no fogão. O passarinho na gaiola. Os peixes no mar. A gaivota pescando. A menina rolando no chão. O menino, doente, na cama. Todos nós somos deste mundo, menos as crianças. E o menino, perseguido de visões febris, vai falando sem parar:

“O filho da vaca é o bezerrinho, o pai da vaca é o boi. Não é? Eu vou morar num sítio. Morar muito. Um dia, quando eu fui fazer pipi, vi duas professoras de inglês. Igual. Eu vou trazer um pato do sítio e botar em cima da cabeça do Didi. Quando eu ficar bom, quero ir no circo. Eu já cortei a mão. Papai, papai-i: conta uma história de camelinho. História triste, não. Nova e alegre. Mãe, tá doendo, tou com dor de cabeça. Eu só gosto daquele remédio cor de laranja. Cafiaspirina eu não gosto. O gatinho caiu no poço, vestido de amarelo, todo mundo veio em volta pensando que era marmelo. Quando eu fui no colégio vi nuvens. A nuvem estava passando nas nuvens. Não estava chovendo. Ai, eu quero sair da cama! Laurita, eu não vou comer aquela coisa que arde. Papai é um burro, mamãe é a mulher do burro, e eu sou um burrinho. Mãe-i, você vai um dia naquela esquina longe? Lá tem anzol. Você compra uma vara nova, que o peixinho não gosta de vara velha, não. Eu te dou um bombom. Galibi é menina, mas ela gosta de pescar. Se não fizer um poleiro, o galo sobe na árvore e estraga as pitangas. Pai-i, quando eu crescer, vou ganhar um trem de ferro elétrico. Você vai dar. Meu dodói dói. Eu não comi muita azeitona. Maionese eu não gosto. Maionese é aquele remédio que eu tomei agora. Eu só gosto de remédio vermelho. Elefante gosta de amendoim. Tia Edir sabe fazer espantalho: snowman ela não sabe, não: aqui não tem inverno. Se você fala inglês, papagaio também fala. Mas fala também paracopaco, não fala? Leão de circo não come você, não; de jardim zoológico come. Galibi, conta uma história...”

A irmã sobe na cama e começa a contar uma história:

“Era uma vez um nenê. Era só cantar ‘Dorme, nenê’, que ele dormia. Mas logo depois precisava de chegar uma porção de anjos. Já conheciam a dona daquela casa, e por isso tinham dado o nenê para ela. A mãe fazia roupa para o seu nenê querido. Um dia, a família foi viajar; o nenê foi de roupa muito bonita. Quando voltaram da linda viagem, quem adorou mais foi o nenê. Era só o que faltava! Os anjos! Sim, sua mãe sempre precisava dos anjos para ajudar. O nenê adorava sua mãe, mas não podia faltar nada para ele, e, assim, não deixava ela fazer nada, gritava, chorava, fazia tantas molecagens que a mamãe não podia trabalhar. A mãe um dia chamou os anjos e pediu que eles dessem um jeito. Os anjos, muito espertos, levaram o nenê para a mata, para o galho duma árvore. O nenê ficou contente da vida! Os passarinhos traziam flores para ele, as abelhas traziam mel, o nenê ria. Enquanto isso, seu pai tinha viajado e sua mãe também. Antes de voltar da viagem, a mãe, de tanta saudade daquele nenê querido, mandou o irmão buscar ele na mata. Quando o irmão chegou, o nenê estava brincando com as estrelas do céu, e os anjos estavam procurando diamantes. Já era bem de noite e o sol estava se escondendo. Até o seu corrupião estava com fome. Mas, aí, sua mãe já era tão pobre que não tinha mais empregada. Todos eram pobres, o cachorro, a árvore, o cavalo. Mas enfim tudo estava em silêncio e quieto. Era uma hora da madrugada, e já estava quase ficando de dia. A noite era tão triste e a mãe não tinha comida. Na hora de jantar, só tinha dado leite, bife, batata, sopa, salada e aveia. Então chegou um anjinho e contou uma história para o nenê: ‘Era uma vez uma cidade que tinha muitas casas de frutas, mas o sol estava tão quente que mandava seus raios para todos os lados’. O nenê sentiu muito o sol da história, e o anjo então mandou que os raios de luz começassem a ir embora. Quando ficou de noite outra vez, o sol foi para a China. A China não é perto, é muito longe. O nenê também foi para a China, porque não gostava de escuro. E todo dia, quando ficava escuro, ia para a China. E os anjinhos nunca mais encontraram o nenê naquela caminha tão boa.”

O menino diz: “Pai, a Inês me ensinou a fazer navio”.

Paulo Mendes Campos, "Elenco de cronistas modernos - 7"

Do prazer de cheirar livros e da tirania simpática do 'muito sucesso'

Há um momento íntimo — e deliberadamente silencioso, quase erótico — que nenhum escritor deveria partilhar em excesso: aquele em que recebe o livro acabado. Não o PDF obediente, nem a maquete digital com comentários técnicos, mas o objeto real. O livro enquanto corpo. O peso preciso, a textura discreta, o cheiro quase indecente e inebriante a tinta e papel. Nesse instante, não há público, nem mercado, nem promessas: há apenas uma suspensão do mundo. O livro repousa nas mãos como algo que já não nos pertence totalmente e que, sem o sabermos ainda, nos deslocou ligeiramente o coração do sítio. Tudo o resto virá depois. Se vier.

Eu sei: isto soa a sentimentalismo de autor, essa doença crónica que se agrava com dedicatórias e piora com fotografias ao lado de pilhas de exemplares. Mas é um sentimentalismo com prova material — e com cheiro. Quem nunca encostou o nariz a um livro novo e sentiu uma espécie de euforia primitiva, como se o cérebro dissesse “finalmente, uma coisa verdadeira”, que atire a primeira caixa de cartão da transportadora.

Depois há o gesto de mirá‑lo: capa, contracapa, lombada. A lombada é o sítio onde a vaidade se torna minimalista e, por isso mesmo, mais perigosa. Na lombada, o nome parece sempre mais sério do que nós. E o título — ali, fininho, vertical, a lembrar que a literatura é uma forma elegante de teimosia.

E há o toque. A capa tem uma temperatura. Um livro recém‑nascido ainda está morno, como se tivesse saído de uma incubadora tipográfica. Apetece dizer coisas ridículas: “Olá.” “Chegaste.” “Foste tu que me escolheste?” Apetece, sobretudo, fazer aquilo que as pessoas sensatas fazem com os filhos dos outros: sorrir, elogiar e devolvê‑los rapidamente, antes que comecem a chorar.

Só que este filho não chora. Este filho exige. Exige tempo. Exige atenção. Exige leitores — essa espécie rara que, em Portugal, é frequentemente confundida com “pessoas que têm estantes bonitas na sala”.

Portugal é um país de poetas, já se sabe. Um país onde quase toda a gente conhece um verso, uma citação, um refrão, uma frase “muito profunda” que viu num story. A poesia aqui é como o bacalhau: há sempre uma receita na ponta da língua. O problema é quando se pergunta: “E ler, lê?” A pergunta cai no chão e parte‑se. Porque ler é uma intimidade que dá trabalho. Obriga a parar. Obriga a estar só. E a solidão, hoje, é um luxo ofensivo: parece preguiça, parece deserção, parece falta de produtividade.

É aqui que entram os amigos. Os verdadeiros e os outros — e, num lançamento de livro, há sempre de ambos, como num casamento: os que aparecem por amor e os que aparecem por buffet.

Há os amigos‑leitores. Não os que “adoram livros”, mas os que os abrem. São pessoas perigosas: fazem perguntas sobre páginas concretas, citam passagens, notam repetições, lembram‑se do que disseram duas crónicas antes. Esses são os que nos salvam da fantasia narcísica de escrever para o vácuo. E também nos aterrorizam, porque, em literatura, o elogio mais sério vem sempre com uma sombra de exigência: “Li. E voltei a ler.”

Depois há os outros, os que eu trato com carinho irónico, porque são muitos e, se os ofendo demasiado, fico a falar sozinho para as plantas: os pseudo‑leitores. São pessoas de uma delicadeza impecável. Dizem “que bonito”, “que importante”, “que orgulho”, e têm uma relação com o livro semelhante à relação que muitos têm com o ginásio: defendem a ideia, mas não frequentam o local. Um pseudo‑leitor compra um livro como quem compra um amuleto: não é para usar, é para dar sorte. E isto não é apenas maldade minha — é uma constatação civilizacional: a leitura dá trabalho e, por isso, é constantemente ameaçada pela vida em modo “scroll”.

Foi por isso que, quando Daniel Pennac escreveu que o verbo ler não tolera a ordem, estava a apontar o essencial: a leitura é uma liberdade, não uma marcha militar. E há outra ideia, igualmente luminosa e cruel: quando a leitura se torna obrigação, deixa de ser leitura e passa a ser castigo com capa.

O que nos leva ao ritual mais simpático e mais devastador do mundo literário: “Parabéns! Muito sucesso!”

Dizem‑no com a melhor das intenções, eu sei. Dizem‑no como se oferecessem flores. Mas há ali um equívoco cultural inteiro. Porque, no mundo dos livros, o “sucesso” foi sequestrado pelas vendas, como se a literatura fosse uma espécie de supermercado com ambição metafísica. Confunde‑se sucesso com faturação, leitores com clientes, livros com detergentes. E, a partir desse instante, o escritor transforma‑se num comerciante envergonhado: se não vende, “falhou”; se vende, “finalmente conseguiu”. É um raciocínio tão português quanto injusto: mede‑se a qualidade pelo ruído, mede‑se a importância pela lotação, mede‑se a literatura pela caixa registadora.

Mas o verdadeiro sucesso de um autor não acontece nas contas — acontece no leitor. E é, quase sempre, silencioso. O sucesso real é um acontecimento íntimo: alguém lê devagar, sublinha uma frase (e bem conheço quem o faça!), pousa o livro para pensar, regressa a uma página dias depois, sente que uma ideia lhe mexeu no sítio. Isto não cabe em rankings. Não dá para fotografar. Não dá para “partilhar” sem estragar. E, no entanto, é a única coisa que importa.

Italo Calvino (que sabia brincar com o leitor como poucos) insistiu, ao seu modo, que ler é um encontro com algo que ainda está a tornar‑se — e que ninguém sabe, à partida, no que dará. É por isso que o livro, quando sai das mãos do autor, começa verdadeiramente a existir: cada leitor reescreve‑o dentro de si, com a sua memória, os seus medos, a sua biografia e até os seus silêncios. O autor publica; o leitor inaugura.

E foi exatamente isso — essa inauguração — que se sentiu no lançamento de Serendipidade – 50 Crónicas do acaso e do ocaso, no passado dia 6 de maio de 2026, às 21h00, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa.

Não foi apenas uma sessão. Foi um encontro com gosto. A Fábrica Braço de Prata tem esse poder: a literatura ali não parece um adereço — parece uma forma de estar. Houve a apresentação por Raquel Varela. Houve intervenções de Onésimo Teotónio de Almeida, Alberto Jorge Santos, Ângelo Ribeiro e Ana Sofia Melo. Houve ainda a leitura de uma mensagem editorial de Avelina Ferraz, lida por Catarina Pombo Nabais, representando a livraria.

E houve — isto é importante — uma ideia clara, dita sem barroquismos: aquele livro convidava o leitor a reencontrar-se com o essencial num tempo de ruído e fragmentação, propondo cinquenta textos onde o pensamento, a emoção e a consciência se cruzam. Num país onde se fala muito de cultura como quem fala de meteorologia (“sim, é importante, sim, devia haver mais”), ouvir isto em voz alta, num espaço intimista, teve o sabor raro do concreto.

Mais: havia ali um elogio à criação que não era banal. A mensagem destacava o trabalho artístico de Ângelo Ribeiro e a forma como a dimensão visual elevava o livro. E isso lembrou-nos outra coisa que se esquece frequentemente: um livro também é matéria plástica. É desenho. É forma. É objeto que se deseja. Não é só “conteúdo”. Um livro que entra bem no olhar prepara o coração para entrar bem no texto.

O prefácio — ou, pelo menos, o modo como dele se falou e como o material de divulgação o ecoa — sublinha essa dimensão de esperança e de resistência: as crónicas chegam “de outro mundo”, apontam para a vida e para o futuro, como uma luz que reaparece ao fundo do túnel. Em tempos de cinismo fácil, dizer isto sem soar a propaganda é um ato de coragem literária. Porque esperança, quando não é tonta, dá trabalho. Exige lucidez. E exige leitores.

No fim, a mesa com exemplares empilhados tinha uma beleza quase doméstica: livros como pão acabado de cozer. Alguns saíram logo, debaixo do braço, como quem leva um segredo. Outros ficaram à espera — e os livros sabem esperar melhor do que nós. O autor assina, sorri, agradece, faz de conta que está tranquilo. Mas por dentro acontece aquilo que só a literatura provoca: um nervo exposto que, paradoxalmente, dá prazer.

E é aqui que eu volto ao início: ao silêncio. Porque, depois do barulho bom de um lançamento — os abraços, as palavras, os brindes, a alegria breve de sentir que não se está sozinho — vem o regresso a casa. Vem o corredor. Vem a luz da sala. Vem o livro pousado na mesa, novamente só, como se nada tivesse acontecido. E acontece uma coisa estranha: naquele silêncio doméstico, o livro parece ainda mais livro. Mais verdadeiro. Mais inevitável. O objeto respira. E nós percebemos — com uma humildade tardia — que ele não foi feito para a nossa vaidade, nem para as contas da editora, nem para as fotografias. Foi feito para o leitor. Para esse desconhecido que, algures, há de abrir a primeira página e entrar numa vida que não é a sua — e, ao mesmo tempo, é.

E, se isso acontecer, tudo se justifica.

O sucesso de um escritor não se mede em vendas, mas no silêncio atento de quem, algures, fecha um livro com o coração ligeiramente deslocado.

sábado, maio 9

Durma bem

 


Referências

Meu pai tinha um pato de estimação. Esperava por ele no portão, quando voltava da escola, e lhe fazia companhia no quintal, durante as brincadeiras. Ambos cresciam juntos, até que a cozinheira da avó o serviu no almoço de domingo. O garoto não comeu e foi chorar escondido no quarto, ferido com a traição dos adultos.

Soube do episódio por minha mãe, anos mais tarde, e magoei o pai novamente, ao convidá-lo para almoçar num restaurante oriental e escolher pato no cardápio. Notei que ele demonstrava desconforto, mas então não sabia de sua dor através do tempo.

Lembro sempre disso a caminho de casa, quando costumo passar por um estabelecimento chinês que exibe na vitrine patos prontos para consumo, pendurados em ganchos, como nos açougues. Noto que agradam a freguesia, porque esgotam rapidamente. E sinto alívio que o pai já não esteja por aqui para reabrir suas feridas.

Quantas coisas desconhecemos de nossos familiares… Quantas referências levarei para o túmulo sem que, por sua vez, meu filho tenha conhecimento. A vida é assim, vasta, mutante e muito particular, já que só nós vivemos a própria história, muitas vezes sem testemunhas.

Por isso, deixo aqui registradas impressões recentes, a quem possa interessar. Sem fotos ou postagens, apenas gravadas na memória que um dia poderá se apagar. Além dos patos, meu bairro atual é cheio de curiosidades: um beco que me lembra Montmartre, em que uma escadaria íngreme leva a uma rua secundária, formada apenas por sobradinhos.

Um elevado cujo trânsito jamais dorme. O ferro-velho que mantém as portas sempre abertas, à espera dos carrinheiros. Uma padaria que só atende os fregueses pela janela. Uma escola, com aulas diurnas e noturnas. Uma viatura policial que permanece dia e noite estacionada em determinado trecho da avenida próxima. Um vendedor de frutas que ocupa a esquina de um movimentado cruzamento com seu carrinho e já se tornou atração turística, exibido em programas de tevê.

Mercado, bistrô, loja de ferragens, boteco e ateliê de costura dividem a mesma quadra. Meu prédio, um dos mais altos e recentes, que pode ser visto de vários pontos, como a Torre Eiffel em Paris. Os sinos da igreja que tocam em vários horários, com sabor de bênção divina. Sim, os sentidos tropeçam em belezas e feiuras, igualmente surpreendentes para sonhadoras como eu. E vou vivendo, com saudade dos que já se foram e seu baú de histórias.

Metzengerstein

O horror e a fatalidade uniram-se sempre em todos os séculos. Para que serviria uma data na história que tenho para contar? Basta dizer que na época de que falo existia no centro da Hungria uma crença secreta, mas muito arreigada na metempsicose. Nada direi das doutrinas em si e da sua falsidade ou veracidade. Afirmo, no entanto, que uma boa parte da nossa credulidade vem, como disse La Bruy ère — que atribui toda a nossa desgraça a esta causa única — de não se poder estar só.

Mas havia alguns pontos na superstição húngara que tendiam fortemente para o absurdo. Os Húngaros diferiam muito essencialmente das autoridades do Oriente. Por exemplo, a alma, segundo creem — cito os termos de um subtil e inteligente parisiense — permanece apenas uma vez num corpo sensível. Assim, um cavalo, um cão, mesmo um homem, não passam, na aparência ilusória destes seres.

As famílias Berlifitzing e Metzengerstein tinham vivido em discórdia durante séculos. Jamais se viram duas casas tão ilustres reciprocamente votadas a uma inimizade mortal. Este ódio podia ter a sua origem nas palavras de uma antiga profecia: — Um nome ilustre terá uma queda terrível quando, como o cavaleiro sobre o seu cavalo, a mortalidade de Metzengerstein triunfar da imortalidade de Berlifitzing.

Na verdade, os termos tinham apenas pouco ou nenhum sentido. Mas as causas mais vulgares deram origem — e isso, sem ir muito longe — a consequências igualmente cheias de grandes acontecimentos. Além disso, as duas casas, que eram vizinhas, tinham por muito tempo exercido influência rival nos negócios de um governo tumultuoso. Mais ainda, os vizinhos próximos também eram raramente amigos, e do alto das suas muralhas maciças, os habitantes do castelo Berlifitzing podiam ver mesmo distintamente para dentro das janelas do palácio de Metzengerstein. Enfim, o alarde de uma magnificência mais que feudal não servia para acalmar os sentimentos irritáveis dos Berlifitzing, menos antigos e menos ricos.

Haverá pois razão para nos admirarmos que os termos desta predição, se bem que perfeitamente ridículos, tenham criado e mantido a discórdia entre duas famílias já predispostas às zangas por todas as instigações de um ciúme hereditário? A profecia parecia implicar — se implicava qualquer coisa — um triunfo final do lado da casa mais poderosa, e naturalmente vivia na memória da mais fraca e da menos influente, e enchia-a de uma amarga animosidade.

Wilhelm, conde Berlifitzing, se bem que fosse de uma nobre linhagem, era, na época desta história, apenas um velho enfermo disparatado, que não tinha nada de notável, senão uma antipatia inveterada e louca contra a família do seu rival e uma paixão tão viva pelos cavalos e pela caça, que nada — nem as suas enfermidades físicas, nem a sua idade avençada, nem o enfraquecimento do seu espírito — o podia impedir de tomar diariamente parte nos perigos deste exercício. Do outro lado, Frederico, barão Metzengerstein, não era ainda maior. Seu pai, o ministro G…, morrera ainda novo. E sua mãe, Maria, seguiu-o pouco depois. Frederico tinha nessa época dezoito anos. Numa cidade, dezoito anos não é um longo período de tempo; mas em solidão, mesmo numa magnífica solidão como esta velha propriedade, o pêndulo vibra com uma mais profunda e mais significativa solenidade.

Devido a certas circunstâncias resultantes da administração de seu pai, o jovem barão, logo após a morte deste, entrou na posse dos seus vastos domínios. Raramente se via um nobre húngaro possuir um tal património. Os seus castelos eram inumeráveis. O mais esplêndido e o mais vasto era o palácio de Metzengerstein. A linha que delimitava os seus domínios não fora nitidamente definida; mas o seu parque principal abarcava uma circunferência de cinquenta milhas. O aparecimento de um proprietário tão jovem, e de um caráter tão bem conhecido, com uma fortuna tão incomparável deixava pouco lugar às conjeturas, relativamente à sua linha provável de conduta. E, em verdade, no espaço de três dias, a conduta do herdeiro fez empalidecer o renome de Herodes e ultrapassou em magnificência as esperanças dos seus mais entusiásticos admiradores. Medonhos deboches, flagrantes perfídias, atrocidades espantosas fizeram em breve compreender aos seus vassalos temerosos que nada — nem submissão servil da sua parte, nem escrúpulos de consciência — lhes garantiria para o futuro segurança contra as garras impiedosas deste pequeno Calígula. Na noite do quarto dia, registou-se um grande fogo nas cavalariças do castelo Berlifitzing, e a opinião unânime da vizinhança juntou o crime de incêndio à lista já horrível dos delitos e atrocidades do barão.

Quanto ao jovem cavalheiro, durante o tumulto ocasionado por este acidente, mantinha-se aparentemente mergulhado numa meditação no alto do palácio da família dos Metzengerstein, num vasto apartamento solitário. A tapeçaria, rica, ainda que fanada, que pendia melancolicamente das paredes, representava as figuras fantásticas e majestosas de mil antepassados ilustres. Aqui, padres ricamente vestidos de arminho, dignitários pontifícios, sentavam-se familiarmente com o autocrata e o soberano, opunham o seu veto aos caprichos de um rei mundano ou continham com o fiat do todo-poderoso papa o cetro rebelde do grande inimigo, príncipe das trevas. Ali, as sombrias e grandes figuras dos príncipes Metzengerstein — os seus musculosos cavalos de guerra calcando os cadáveres dos inimigos caídos — abalavam os nervos dos mais firmes pela sua forte expressão. E além, por sua vez, voluptuosas e brancas como os cisnes, as imagens das damas de outros tempos flutuavam ao longe nos meandros de uma dança fantástica, ao som de uma melodia imaginária.

Mas enquanto que o barão escutava ou fingia ouvir o estrondo sempre crescente das cavalariças de Berlifitzing — e talvez meditasse nalgum delito novo, algum rasgo decidido de audácia — os seus olhos viraram-se maquinalmente para a imagem do cavalo enorme, de uma cor extranatural e representada na tapeçaria como pertencendo a um antepassado da família do seu rival. O cavalo aparecia no primeiro plano do quadro, imóvel como uma estátua — ao passo que um pouco longe, atrás dele, o seu cavaleiro derrubado morria sob o punhal de um Metzengerstein.

Nos lábios de Frederico surgia uma expressão diabólica quando se apercebeu da direção que o seu olhar tomara involuntariamente. No entanto, não desviou os olhos. Bem longe dali, não podia de nenhuma forma dar razão da ansiedade opressiva que parecia cair sobre os seus sentidos como uma mortalha. Conciliava dificilmente as suas sensações incoerentes como as dos sonhos com a certeza de ser despertado. Quanto mais contemplava, mais absorvido se tornava o seu olhar pela fascinação desta tapeçaria. Mas o tumulto do exterior, ao tornar- se repentinamente mais violento, fê-lo fazer enfim um esforço a contragosto e desviou a sua atenção para uma explosão de luz vermelha, projetada em cheio das cavalariças inflamadas sobre as janelas do aposento.

A ação, no entanto, foi apenas momentânea; o seu olhar virou-se maquinalmente para a parede. Com grande espanto seu, a cabeça do gigantesco corcel — coisa horrível! — tinha entretanto mudado de posição. O pescoço do animal, primeiramente inclinado como por compaixão para o corpo tombado do seu senhor, estava agora estendido, rígido e a todo o comprimento, na direção do barão. Os olhos há pouco invisíveis, continham agora uma expressão enérgica e humana, e brilhavam com uma tonalidade vermelha, ardente e extraordinária; e os beiços distendidos desse cavalo de aspeto enraivecido deixavam aperceber plenamente os seus dentes sepulcrais e repugnantes.

Estupefacto pelo terror, o jovem senhor saiu cambaleando. Ao abrir a porta, um clarão de luz vermelha brilhou ao longo da sala, desenhando nitidamente o seu reflexo na tapeçaria trémula; e quando o barão hesitou um instante no patamar, estremeceu vendo que esse reflexo tomava a mesma posição e preenchia exatamente o contorno do implacável e triunfante assassino do Berlifitzing vencido.

Para aliviar o seu espírito deprimido, o barão Frederico procurou precipitadamente o ar livre. A porta principal do palácio encontrou três escudeiros. Estes, com muita dificuldade e com perigo da sua vida, comprimiam os saltos convulsivos de um cavalo gigantesco, cor de fogo.

– De quem é este cavalo? Onde o encontraram? — perguntou o jovem com voz imperiosa e rouca, reconhecendo imediatamente que o misterioso cavalo da tapeçaria era o próprio animal furioso que tinha diante dele.

– É sua propriedade, senhor — respondeu um dos escudeiros — pelo menos nenhum proprietário o reclamou. Apanhámo-lo quando fugia, ardente e espumante de raiva, das cavalariças escaldantes do castelo Berlifitzing. Supondo que pertencesse à coudelaria estrangeira do velho conde, trouxemo-lo com os restantes. Mas os criados abdicaram dos direitos sobre o animal, o que é estranho, pois ele tem marcas evidentes do fogo, o que prova que escapou de boa.

– As letras W. V. B. estão igualmente marcadas a ferro muito distintamente na testa — interrompeu um segundo escudeiro. — Suponho pois que se trata das iniciais de Wilhelm von Berlifitzing, mas toda a gente no castelo afirma positivamente não ter conhecimento do cavalo.

– Extremamente singular! — disse o jovem barão, com ar sonhador, como se não tivesse nenhuma consciência do sentido das suas palavras. — É, como diz, um cavalo notável, um cavalo prodigioso! Se bem que ele seja, como reparou com justeza, de um caráter assustadiço e intratável, vamos lá! Pois será meu, não o duvido — disse ele depois de uma pausa. — Talvez só um cavaleiro como Frederico de Metzengerstein poderá domar o próprio diabo das cavalariças de Berlifitzing.

– Engana-se, senhor. O cavalo, como lhe dissemos, creia, não pertence às cavalariças do conde. Se tal tivesse sido o caso, nós conhecíamos muito bem o nosso dever para o levar à presença de uma pessoa nobre da sua família.

– É verdade! — observou o barão secamente.

E nesse momento um jovem criado de quarto chegou do palácio, afogueado e com passos precipitados. Falou ao ouvido do patrão, da história do desaparecimento repentino de um pedaço de tapeçaria, num quarto que designou, entrando então em pormenores de um caráter minucioso e circunstanciado. Mas, como tudo isso foi comunicado em voz muito baixa, nem uma palavra transpirou que pudesse satisfazer a curiosidade excitada dos escudeiros.

O jovem Frederico, durante a conversa, parecia agitado por emoções várias. Contudo, recobrou pouco depois a sua calma, e uma expressão de maldade desenhava-se já na sua fisionomia quando deu ordens perentórias para que o aposento em questão fosse imediatamente fechado e a chave posta nas suas próprias mãos.

– Teve conhecimento da morte deplorável de Berlifitzing, o velho caçador? — disse ao barão um dos seus vassalos, ao afastar-se o pajem, enquanto o enorme corcel, que o fidalgo tinha adotado como seu, pulava e saltava com uma fúria dobrada pela longa avenida que se estendia do palácio às cavalariças de Metzengerstein.

– Não — disse o barão voltando-se bruscamente para o que falava. — Morto, dizes tu?

– É a pura verdade, senhor, e presumo que para um senhor do seu nome não é uma informação demasiado desagradável.

Um rápido sorriso surgiu na fisionomia do barão.

– Como morreu?

– Devido aos seus esforços imprudentes para salvar a parte preferida da
sua coudelaria de caça, pereceu miseravelmente nas chamas.

– Na… ver… da… de…! — exclamou o barão, como que impressionado, lenta e gradualmente, por qualquer evidência misteriosa.

– Na verdade — repetiu o vassalo.

– Horrível! — disse o jovem com muita calma. E entrou tranquilamente no palácio.

A partir desta época uma alteração marcante registou-se na conduta exterior do jovem desenfreado. Verdadeiramente a sua conduta desapontava todas as esperanças e derrotava as intrigas de mais de uma mãe. Os seus hábitos e maneiras vincaram-se cada vez mais, não havendo relações de simpatia, e menos do que nunca, com qualquer pessoa da aristocracia da vizinhança. Nunca o viam para além dos limites do seu próprio domínio, e no vasto mundo social estava absolutamente só — a menos que aquele grande cavalo impetuoso e invulgar, cor de fogo, que montava continuamente a partir dessa época, não tivesse na verdade qualquer direito misterioso ao título de amigo.

Contudo, chegavam periodicamente convites da parte dos vizinhos: — « O barão honrará a nossa festa com a sua presença?» — « O barão juntar-se-á connosco para uma caçada ao javali?»

– « Metzengerstein não caça.» — « Metzengerstein não irá.» — Tais eram as suas altivas e lacónicas respostas.

Estes insultos repetidos não podiam ser suportados por uma nobreza orgulhosa. Os convites tornaram-se menos cordiais — menos frequentes — e com o tempo até cessaram por completo. Ouviu-se a viúva do infortunado conde Berlifitzing exprimir o voto de « que o barão ficasse em casa quando desejasse não estar lá, visto que desdenhava da companhia dos seus iguais; e que saísse a cavalo quando também não quisesse, pois que preferia a companhia de um cavalo» . Isto certamente não passava de explosão irada do ódio hereditário e provava que as palavras se tornam singularmente absurdas quando queremos dar-lhes uma forma extraordinariamente enérgica.

As pessoas caridosas, todavia, atribuíam a mudança dos modos do jovem fidalgo ao desgosto natural de um filho privado prematuramente dos seus pais, esquecendo, contudo, a sua atroz e descuidada conduta durante os dias que se seguiram a esta perda. Houve alguns que viam simplesmente no caso uma ideia exagerada da sua importância e da sua dignidade. Outras, por sua vez (e entre aquelas pode ser citado o médico da família), falavam sem hesitar de uma melancolia mórbida e de um mal hereditário. No entanto, insinuações mais tenebrosas, de uma natureza equívoca, corriam por entre o povo.

Na realidade, a dedicação perversa do barão pela sua montada de recente aquisição — dedicação que parecia tomar uma nova força em cada novo exemplo que o animal dava das suas ferozes e demoníacas inclinações — tornava-se com o decorrer do tempo, aos olhos de todas as pessoas, uma tendência horrível e contra a natureza. No deslumbramento do meio-dia, às horas profundas da noite — doente ou de boa saúde — o jovem Metzengerstein parecia pregado à sela do cavalo colossal cujas insuportáveis audácias se harmonizavam bem com o seu próprio caráter.

Havia, para mais, circunstâncias que ligadas aos acontecimentos recentes, davam um caráter sobrenatural e monstruoso à mania do cavaleiro e à capacidade do animal. O espaço que ele transpunha de um só salto tinha sido cuidadosamente medido e ultrapassava com uma diferença espantosa as conjeturas mais largas e mais exageradas. O barão, além disso, não dera ainda ao animal qualquer nome particular, ainda que todos os cavalos da coudelaria fossem distinguidos pelos nomes característicos. Este cavalo tinha a sua cavalariça a uma certa distância das outras e, quanto ao tratamento e a todo o serviço necessário, ninguém, exceto o proprietário em pessoa, se teria arriscado a preencher estas funções, nem mesmo a entrar no recinto onde estava construída a sua cavalariça particular. Observou-se também que os três palafreneiros, que se tinham apoderado do corcel quando fugia ao incêndio de Berlifitzing, embora tivessem conseguido parar a sua corrida com a ajuda de uma cadeia de nó corredio, no entanto, nenhum dos três podia afirmar com a certeza de que, durante essa perigosa luta, tivessem pousado a mão no corpo do animal. Provas de inteligência particular na conduta de um nobre animal cheio de ardor não bastariam certamente para excitar uma atenção sem motivos. Mas havia certas circunstâncias que tinham alertado os espíritos mais céticos e mais fleumáticos, e dizia-se que por vezes o animal fizera recuar de horror a multidão curiosa frente ao profundo e chocante significado da sua marca — que por vezes o jovem Metzengerstein se tornara pálido e se furtara diante da expressão rápida do seu olhar sério e quase humano.

Entre todos os criados do barão não se encontrava, contudo, ninguém que duvidasse do fervor extraordinário e afeição que excitavam no jovem fidalgo as qualidades brilhantes do seu cavalo. Ninguém, exceto pelo menos um insignificante pajenzinho, um pateta que exibia por toda a parte ofuscante fealdade e cujas opiniões não tinham a mínima importância possível. Tinha o desaforo de afirmar — se as suas ideias valessem a pena ser mencionadas — que o seu dono jamais subira para a sela sem um inexplicável e quase impercetível arrepio, e que no regresso de cada um dos seus longos e habituais passeios, uma expressão de maldade desfigurava a sua face.

Durante uma noite tempestuosa, Metzengerstein, ao acordar de um pesado sono, desceu como um maníaco do seu quarto e, montando o cavalo a toda a pressa, lançou-se a galope através do labirinto da floresta.

Um acontecimento tão vulgar não podia chamar em particular a atenção. Porém, o seu regresso foi esperado com uma intensa ansiedade por todos os seus criados, quando, depois de algumas horas de ausência, as prodigiosas e magníficas construções do palácio de Metzengerstein se puseram a estalar e a tremer até às fundações, sob o efeito de um fogo imenso, uma massa espessa e lívida.

Como as chamas, quando as avistaram pela primeira vez, já tinham lavrado terrivelmente e todos os esforços para salvar qualquer porção dos edifícios tivessem sido inúteis, toda a população da vizinhança se conservava silenciosamente em volta, numa estupefação silenciosa, até mesmo apática.

Mas um objeto terrível e novo atraiu em breve a atenção de todos, e demonstrou quanto é mais intenso o interesse excitado pelos sentimentos de uma multidão pela contemplação de uma agonia humana do que a criada pelos mais espantosos espetáculos da matéria inanimada.

Na longa avenida dos velhos castanheiros, que começava na floresta e terminava à entrada principal do palácio de Metzengerstein, um corcel, trazendo um cavaleiro de cabelo em desordem, vinha a saltar com uma impetuosidade que desafiava a fúria da própria tempestade. O cavaleiro não estava evidentemente senhor desta corrida desenfreada. A angústia da sua fisionomia os esforços convulsivos de todo o seu ser, testemunhavam bem uma luta sobre- humana, mas nenhum som, exceto um único grito, se escapou pelos lábios lacerados, que mordia, ora um ora outro, na intensidade do seu terror. Num instante, o choque dos cascos ecoou com um barulho agudo, atroador, mais alto que o rugir das chamas e o ulular do vento. Num instante apenas, transpondo de um salto a porta grande e o fosso, o corcel lançou-se pelas escadas oscilantes do palácio e desapareceu com o seu cavaleiro no turbilhão daquele fogo caótico.

A fúria da tempestade apaziguou-se de repente e sobreveio a calma mais absoluta. Uma chama branca envolvia ainda o edifício como um sudário e brilhava ao longo da atmosfera tranquila, dardejando uma luz de um fulgor sobrenatural, enquanto uma nuvem de fumo descia pesadamente por cima das construções, sob a forma distinta de um gigantesco cavalo.
Edgar Allan Poe

Depois de tudo

Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.

Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.

Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?

Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.
Cassiano Ricardo

Bíblico

Quem não lê é mais analfabeto do que quem não sabe ler.

Millôr Fernandes, "A bíblia do caos"

Minha terra tem palmeiras

Vejo de minha janela uma nesga do mar verde-azul de Copacabana e me penetra uma infinita doçura. Estou de volta à minha terra... A máquina de escrever conta-me uma antiga história, canta-me uma antiga música no bater de seu teclado. Estou de volta à minha terra, respiro a brisa marinha que me afaga a pele, seu aroma vem da infância. Retomo o diálogo com a minha gente. Uma empregada mulata assoma ao parapeito defronte, o busto vazando do decote, há toalhas coloridas secando sobre o abismo vertical dos apartamentos, dá-me uma vertigem. Que doçura!

Sinto borboletas no estômago, deve ter sido o tutu com torresmo ontem misturado ao camarão à baiana de anteontem misturado à galinha ao molho-pardo de trasanteontem misturada aos quindins, papos-de-anjo, doces de coco do primeiro dia. Digiro o Brasil. Qual canard au sang, qual loup flambé au fenouil, qual paté Strasbourgeois, qual nada! A calda dourada da baba-de-moça infiltra-se entre as papilas, elas desmaiam de prazer, tudo deságua em lentas lavas untuosas num amoroso mar de suco gástrico...

– É a brazuca! – disse-me Antônio Carlos Jobim balançando a cabeça com ar convicto, enquanto empinava o seu VW em direção ao Arpoador.

Há uma semana e meia atrás, pelas cinco da manhã, eu tocava violão para uns brasileiros e espanhóis da terceira classe, no Charles Tellier, que me trazia da Europa. De repente, um clarão lambeu o navio e todo mundo correu para a amurada. Era um farol de terra, possivelmente o de Cabo Frio. Havia entre nós um padre que regressava depois de quatro anos de estudos em Roma e Paris, um bom padre mineiro cheio de zelo pela nova missão de que vinha investido. Juro que vi o velho palavrão admirativo, o clássico palavrão labial de assombro formar-se em sua boca sem que ele sequer desse por isso. Domingo passado fui almoçar na casa materna. Muito mais que as coisas vistas, os sons é que me emocionaram. Lá estava na parede o velho quadro de Di Cavalcanti, representando um ângulo da rua Direita pouco depois do antigo Hotel Toffolo, em Ouro Preto, mas o que me chegou foi o tinir das ferraduras dos burrinhos nas velhas pedras do calçamento, de mistura ao soar dos sinos e à voz presente de minha filha Luciana chamando-me: “Pai... iê!” para que eu fosse ver qualquer coisa. Depois, o sussurrar de vozes se amando baixinho no escuro de um beco, sob a luz congelada de estrelas enormes...

– Você gosta de mim?

– Gosto.

– Muito?

– Muito!

Minhas artérias entraram em constrição violenta, o peito doeu-me todo e eu me levantei e fui até a rua para respirar. Sei que morrerei um dia de uma emoção assim. Mas não adiantou. Lá estava o capim brotando de entre os paralelepípedos, lá estava a ladeira subindo para o verde úmido do morro, ali à esquerda ficava um antigo apartamento onde eu morei. Naquele tempo eu ganhava novecentos mil-réis por mês e estudava para o concurso do Itamarati. Dava apertado, mas dava.
Porque será que só no Brasil brota capim de entre os paralelepípedos, e particularmente na Gávea? Existe por acaso um sorvete como o do seu Morais às margens do Ródano? Veem-se jamais as silhuetas de Lúcio Rangel e Paulo Mendes Campos numa cervejaria em Munique? Quem já viu passar a garota de Ipanema em Saint-Tropez?

Adeus mãe Europa. Tão cedo não te quero ver. Teus olhos se endureceram na visão de muitas guerras. Tua alma se perdeu. Teu corpo se gastou. Adeus, velha argentária. Guarda os teus tesouros, os teus símbolos, as tuas catedrais. Quero agora dormir em berço esplêndido, entre meus vivos e meus mortos, ao som do mar e à luz de um céu profundo. Malgrado o meu muito lutar contra, eis que me vou lentamente tornando – logo eu! – num isolacionista brasileiro.

Vinicius de Moraes, "Prosa"

quinta-feira, maio 7

Sem fim

 


Leituras na árvore

Levava consigo para as árvores todos os livros que fugiam à conduta daquilo que então se podia esperar de uma futura mulher. Ainda era só menina, pensava. Nos verões era mais fácil esconder estes livros da família. Como não chovia, deixava-os pendurados como frutos sob os ramos e sonhava com uma árvore real que amadurecesse as histórias. Semeava palavras e delas crescia a natureza das cabeças. Que bom seria ter a liberdade de plantar pensamentos. Maria Teresa sonhava com essa possibilidade tão remota de liberdade. Liberdade das meias esticadas até ao joelho e das cuecas que lhe faziam comichão. Liberdade suja e sem horas. Mas rapidamente ouvia as vozes que a traziam de volta à prisão dos dias.

- Maria Teresa, vai tomar banho, que hoje vem cá jantar o senhor padre!

E, assim, deixava as histórias a pernoitar nas árvores para enfrentar aquela realidade menos aventureira e esperançosa.
Sara Duarte Brandão, "Quem Tem Medo dos Santos da Casa"

O filho do século

Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos voos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
Murilo Mendes

Vista cansada

 
Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.


Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.
Otto Lara Resende

O que ninguém quer fazer

Faz o pai e faz o filho o que ninguém quer fazer, não para por aí o serviço _de montar tijolo nas paredes da fossa quando quebra, a engrenagem do fluxo dos estercos, levar o adubo nas costas erguido para alimentar os bichos da terra de muita bosta, os chorumes do lixo que descem pelos cotovelos, restaurar covas caseiras para o sossego dos mortos _é verdade que mesmo depois de enterrados crescem nos corpos-defuntos unhas e cabelos?

_faz o pai e faz o filho o rejunte de pisos nunca vistos, por eles lustrosos de tão vermelhos _quando se tem dinheiro o proprietário quer assentar com banha de cera a sala de visita, dar brilho na beirada das telhas _para quem mexe com palhas, folhas de cipós de parcas bananeiras, não é mistério subir em cima das cumieiras sem medo de morcegos que dormem de cabeça revirada e cagam tanta sujeira _dinheiro pago em centavos, moedas poucas para tantos remendos nos quintais alheios _por mais que ali nos quilômetros da cidadela não haja ricos quintais, enxovais, instâncias minerais, sempre tem alguém que tem mais grau de condições, agricultores de serragem, mirrados fazendeiros, cabeças de algum gado no pasto irrigado com caminhões particulares de água _sem contar os maquinários que têm chegado para roubar ventania _e há ainda as caixas do professor _é preciso saber do que se trata o tanto de caixa _o pai não gosta nadinha do professor e não gosta de livros, nunca gostou _o tanto de livro que muito pesa espera por eles _amontoados compêndios, dicionários, volumes ilustrados, romances em cordel _será mais de uma tonelada de papel no lombo do filho analfabeto e no lombo do pai carregador

Depois de tantas léguas, aqui e ali uma sombra de pássaro, no céu um barulho de estilhaços do passado, aquela explosão que até hoje reverbera pedaços de pernas, botinas de soldados expulsas no ar, as guerras mais antigas ainda podemos escutar pelo caminho, árduo caminho

até chegar ao miolo da crosta, bate mais sol nos

silicatos de alumínio _o menino gosta da novidade que é a cidadela, embora ela já tenha começado a perder o cheiro que ele guarda da casca de aroeira mansa, da brisa quando descansa da viagem que faz e senta refém para apreciar a cantoria da água que se retém embaixo da raiz do umbuzeiro, um chuveiro subterrâneo _qual o serviço de agora, qual será o encargo sub-humano? _porque os dois retirantes, pai e filho, não têm tempo nem de parar para acompanhar o grande parque eólico se expandir, a cidadela virou uma promessa de progresso _vejam ali _foram adquiridas mais terras, mais hélices para os aerogeradores, os doutores de capacetes calculando os números a céu aberto _quanto mais gente de fora por perto, mais trabalho para os músculos ferros _ei, bora avexe-se _o endereço do patrão que o chamou é mais adiante, um ou outro passante cumprimenta sem desprezo os visitantes _não tem quem não conheça as duas verdadeiras pedreiras-criaturas que são o homem de machado na mão e esse menino, merecedor de nosso apreço, tão esforçado, crescerá ainda mais, ficará da altura daquelas enormes torres de vento _sabe como ninguém sabe sobre o sistema gerador do movimento dos beija-flores

O pai na companhia do filho chega à casa do fiscal de obras, uma casa com porta para bater, sineta para tocar e esperar debaixo do calor, lá dentro tem aparelho de ventilador para refrescar e uma água que vem em copo que depois joga-se fora _o pai leva o copo embora, não descarta qualquer sobra de plástico, garrafa de coca-cola _olha quem está de chegada _e o fiscal de obras bate nas costas do pai, se espanta com o tamanho do filho _varapau _perdeu a mãe muito cedo, coitado, um dia era menino, hoje um combatente, cavaleiro valente, medieval _arregimentado, o pai espera o patrão oferecer uma cadeira _de longe enxerga a geladeira que deixa a vida mais fácil, a luz elétrica e agora aquele futuro energético a olhos vistos _viu os bons ventos que sopram? _e tem gente que não concorda, defende a liberdade dos besouros, ora, bosta, ô, tranqueira, raça de gente ruim que vem ao mundo só para reclamar, arruaçar, tirar o que é nosso, o nosso roçado _o menino emburra toda vez que vai ao palácio do chefe promulgador, bate um cansaço, daqui a pouco a mesma conversa de futebol _gosta de jogar esse potranco, pivete? _está ficando de maior com as pernas tortas _ei, ei _torce por qual time? _eu vou te comprar uma bola _ei, ei _no arranco, enrola a língua, bufa um discurso infindável de político que gosta de falar bonito, de dar conselho, um alerta, um aviso _tenho uma notícia boa, aquele professor finalmente, desta vez morreu, num pó de giz desapareceu, se apagou _e volta a bater nas costas do pai, procura a cabeça do filho para ciscar feito um papa, um padre, um sacerdote costuma ciscar as mãos por cima e o menino, já posto na janela, avista a menina que outro dia viu passar, sem coragem pobre de olhar, baixou o olho _a imagem ficou tremida, arrepiou _não dê confiança para essa garota, qualquer hora vai se perder, ela e a avó dela, uma trepeça, nenhuma presta _o fiscal de obras explica que na casa que o professor abandonou, foi reparar _um chão que afundou, uma parede caída precisa ajeitar e não para de chegar livro apreendido, vai tudo então para lá _segundo ele um presídio de palavras perigosas, algumas páginas é preciso queimar, talvez guardar, muita coisa jogar fora, será feita uma varredura fina _eu passarei um olho ligeiro _preciso conversar uma coisinha com seu pai, por que seu filho não vai um pouco para a rua, sai para admirar as engenhocas de nossa energia limpa? _quem se diz revolucionário não enxerga essa verdadeira evolução eólica, ecológica _nada está bom para essa tropa de beneficiado do governo _daqui a dois anos o nosso povoado vai se tornar independente, vai ter um prefeito _vou lançar minha candidatura a favor da pátria e do meio ambiente, a grande luta será contra qualquer futuro comunista dirigente

As turbinas eólicas, comedoras de gavião, de fato não deixavam de impressionar _ já eram quase dez, um, dois, seis os dedos da mão do menino pensando, arquitetando guardar desde já, em caixas secretas, o pulmão das cavernas, ir ao topo da rocha gritar feito um beduíno faz para espalhar a voz no deserto, a respiração que de repente parou quando a menina que ele avistou chegou-se mais perto.
Marcelino Freire, "Escalavra"

Uma ilha cheia de encantos

Sentia-me aliviado por ter encontrado um lugar de terra firme, que não se resumia a rochedos estéreis no meio do mar. Mas isso ainda não era tudo: aquela ilha parecia ocultar um segredo muito além da minha compreensão, pois eu era capaz de jurar que ela aumentava de tamanho, à medida que eu avançava para o seu interior. Era como se cada um de meus pequenos passos seu tamanho se multiplicasse em todas as direções; como se ela fosse se expandindo espontaneamente, a partir de não sei o quê.

Continuei a avançar por aquela trilha estreita, que logo se dividiu em duas, e tive de escolher uma direção a seguir. Tomei o rumo da esquerda, que mais à frente também se bifurcou. E novamente escolhi o caminho da esquerda.

Logo a trilha desapareceu num vale profundo entre duas montanhas. Ali, tartarugas gigantescas arrastavam-se por entre arbustos. As maiores tinham mais de dois metros de comprimento. Já ouvira falar de tartarugas assim tão grandes, mas era a primeira vez que as via com meus próprios olhos. Uma delas esticou a cabeça fora de sua carapaça e olhou para mim, como se quisesse me dar as boas-vindas à ilha.

Durante todo o dia continuei a caminhada. Vi outras florestas, vales, planaltos, mas nada de ver o mar. Tive a sensação de estar perdido numa paisagem mágica, uma espécie de labirinto às avessas, dentro do qual os caminhos nunca chegaram a uma parede.

Já no fim da tarde cheguei a um campo aberto, uma paisagem plana e vasta com um grande lago, cujas águas cintilavam intensamente à luz do sol da tarde. Deixei-me cair à margem e saciei minha sede. Pela primeira vez em semanas bebia uma água diferente da água do navio.

Há muito tempo também não tomava banho. Resolvi, então, arrancar aquela apertada roupa de marujo e saí nadando. Depois de toda a tarde andando sob o sol escaldante dos trópicos, experimentei uma indescritível sensação de frescor.

Só então percebi o quanto meu rosto e meu couro cabeludo tinham sido queimados pelo sol durante todos aqueles dias sem proteção no bote salva-vidas.
Mergulhei algumas vezes e quando abria os olhos dentro da água via enormes cardumes de peixes que tinham todas as cores do arco-íris. Alguns eram verdes como as folhagens da margem, outros azuis como pedras preciosas e outros ainda tinham um brilho dourado em suas escamas vermelhas, amarelas e alaranjadas. Ao mesmo tempo, cada um deles tinha uma faixa de todas as cores.

Nadei de volta até a margem e me deitei ao sol do fim da tarde para me secar. Só então senti como estava faminto. Olhei à minha volta e descobri um arbusto carregado com pesadas pencas de umas frutinhas amarelas do tamanho de morangos. Nunca tinha visto aquelas frutinhas, mas supus que fossem comestíveis. Tinham o gosto de uma mistura de nozes e de bananas. Depois de ter me fartado de comer, vesti de novo minhas roupas e acabei adormecendo, exausto, à margem do grande lago.

Na manhã seguinte, antes mesmo de o sol nascer, acordei daquele sono profundo e me senti desperto na mesma hora. Tinha sobrevivido a um naufrágio! Pensei. Só agora me dava conta disso. Era como se tivesse nascido de novo.

À esquerda do lago erguia-se um paredão rochoso absolutamente intransponível. Era coberto por gramíneas amarelas e flores vermelhas em forma de sinos, que se moviam com leveza à brisa fresca da manhã. Antes de o sol aparecer no céu, eu já tinha chegado ao ponto mais elevado de uma colina. E mesmo ali de cima não conseguia ver o mar. O que via na minha frente era uma vasta paisagem de dimensões continentais. Já tinha estado na América do Norte e do Sul, mas não era possível que estivesse lá. E em parte alguma via um vestígio sequer de gente.

Fiquei lá em cima da colina até que o sol apareceu no Leste: vermelho como um tomate, mas trêmulo como uma miragem. E com a linha do horizonte tão distante, aquele era o sol maior e mais vermelho que já tinha visto em toda minha vida, inclusive durante os tempos que passei no mar.

Seria aquele sol o mesmo que estaria iluminando meus pais lá em Lubeck?

Durante toda a manhã, continuei caminhando de paisagem em paisagem. Quando o sol estava a pino, cheguei a um vale cheio de roseiras amarelas. Borboletas gigantes voavam de roseira em roseira; as maiores tinham asas tão grandes quanto as de uma gralha, mas eram infinitamente mais bonitas. Eram de um azul-profundo e tinham nas asas duas grandes estrelas vermelha-sangue. Para mim era como se fossem flores vivas; era como se de repente algumas flores da ilha tivessem se libertado do chão, ganhando o ar e aprendido a arte de voo. O mais curioso, porém, era que o ruído das borboletas era como música. Elas sibilavam em diferentes tonalidades e espalhavam por todo o vale o som suave de suas flautas. Parecia que os flautistas de uma grande orquestra estavam afinando seus instrumentos. Às vezes, quando passavam por mim, suas asas macias roçavam minha pele. Percebi que elas tinham um perfume mais forte e mais doce do que o mais caro perfume.

Um rio de águas agitadas cortava o vale. Decidi seguir o seu curso para não ficar errando sem direção por aquela imensa ilha. Além disso, estava certo de que mais cedo ou mais tarde encontraria o mar. Pelo menos era o que eu achava. Só que isso era mais difícil do que eu pensava, pois a uma certa hora da tarde aquele extenso vale chegou ao fim. Primeiramente ele foi ficando estreito como um funil e então, de repente, vi-me bem na frente de um rochedo maciço.

A princípio não entendi nada. Afinal, um rio não pode simplesmente dar meia-volta e correr em sentido contrário sobre o leito de onde tinha vindo. Foi então que percebi que o rio entrava por uma caverna. Fui até a entrada da caverna no rochedo e olhei par dentro. No interior da caverna, a água corria mais calma e formava um canal subterrâneo.

Diante da entrada da caverna no rochedo alguns sapos enormes saltavam na margem do rio. Eram do tamanho de coelhos, coaxavam sem parar numa confusão de ruídos e provocavam um barulho infernal. Para mim era novidade que existissem na natureza sapos daquele tamanho. Pela relva úmida das margens também se arrastavam gordos lagartos e iguanas maiores ainda. Já estava habituado a ver animais como esses nas muitas cidades portuárias por onde tinha passado. Mas não daquele tamanho e nem naquelas cores: na ilha, os répteis eram vermelhos e amarelos e azuis.

Descobri que era possível adentrar a caverna seguindo pela margem do rio. Decidi entrar para ver até onde eu chegava.

Continuei minha jornada vale adentro. E ali descobri os milucos...

Já tinha ficado espantado com as abelhas e as borboletas da ilha; mas embora elas fossem mais belas e maiores do que seus parentes na Alemanha, ainda assim continuavam sendo abelhas e borboletas. E o mesmo valia para os sapos e répteis. Agora, porém, o que eu via eram animais brancos, de grande porte, tão diferentes de tudo o que eu já tinha visto ou ouvido falar na minha vida de esfregar os olhos várias vezes para acreditar no que via.

Era um rebanho de uns doze ou quinze animais. Eles eram do tamanho de cavalos e vacas, mas tinham uma pele grossa e branca, que lembrava a pele dos porcos. E todos tinham seis patas! Suas cabeças eram enormes e mais pontiagudas que as do cavalos e vacas. E de vez em quando erguiam o pescoço para o céu e emitiam um som mais ou menos assim: Brasch, brasch!

Não tive medo: os animais de seis patas pareciam tão tolos e amigáveis quanto as vacas que eu conhecia na Alemanha. A sua aparição só me deixava clara uma coisa: eu estava num lugar que não existia no mapa. Literalmente! E a sensação que tive ao constatar isso foi comparável, talvez, à sensação de encontrar uma pessoa sem rosto.

Jostein Gaarder, "O dia do Curinga"

quarta-feira, maio 6

Não desperte o gato

 


Fim de Outono

Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

Tudo seco pelas hortas,
Grandes lágrimas no chão
Nem uma flor pelos montes,
Tudo numa quietação
Soluça numa oração
O triste cantar das fontes.

Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

A terra fechou as portas
Aos beijos do sol ardente,
E agora está na agonia...
Valha à terra agonizante
A Santa Virgem Maria!

Fim de Outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia
Fernanda de Castro

O dono do livro

Escutei outro dia um fato engraçado contado pelo escritor moçambicano Mia Couto. Ele disse que certa vez chegou em casa no fim do dia, já havia anoitecido, quando um garoto humilde de 16 anos o esperava sentado no muro. O garoto estava com um dos braços para trás, o que perturbou o escritor, que imaginou que pudesse ser assaltado. Mas logo o menino mostrou o que tinha em mãos: um livro do próprio Mia Couto. “Esse livro é seu?”, perguntou o menino. “Sim”, respondeu o escritor. “Vim devolver.” O garoto explicou que horas antes estava na rua quando viu uma moça com aquele livro nas mãos, cuja capa trazia a foto do autor. O garoto reconheceu Mia Couto pelas fotos que já havia visto em jornais. Então perguntou para a moça: “Esse livro é do Mia Couto?”. Ela respondeu: “É”. E o garoto mais que ligeiro tirou o livro das mãos dela e correu para a casa do escritor para fazer a boa ação de devolver a obra ao verdadeiro dono.

Uma história assim pode acontecer em qualquer país habitado por pessoas que ainda não estejam familiarizadas com livros – aqui no Brasil, inclusive. De quem é o livro? A resposta não é a mesma de quando se pergunta quem escreveu o livro. O autor é quem escreve, mas o livro é de quem lê, e isso de uma forma muito mais abrangente do que o conceito de propriedade privada. O livro é de quem lê mesmo quando foi retirado de uma biblioteca, mesmo que seja emprestado, mesmo que tenha sido encontrado num banco de praça.

O livro é de quem tem acesso às suas páginas e através delas consegue imaginar os personagens, os cenários, a voz e o jeito com que se movimentam. São do leitor as sensações provocadas, a tristeza, a euforia, o medo, o espanto, tudo o que é transmitido pelo autor, mas que reflete em quem lê de uma forma muito pessoal. É do leitor o prazer. É do leitor a identificação. É do leitor o aprendizado. É do leitor o livro.

Dias atrás gravei um depoimento para o rádio em que falo aos leitores exatamente isso: os meus livros são os seus livros. E são, de fato. Não existe livro sem leitor. Não existe. É um objeto fantasma que não serve pra nada.

Aquele garoto de Moçambique não vê assim. Para ele, o livro é de quem traz o nome estampado na capa, como se isso sinalizasse o direito de posse. Não tem ideia de como se dá o processo todo, possivelmente nunca entrou numa livraria, nem sabe o que significa tiragem. Mas, em seu desengano, teve a gentileza de tentar colocar as coisas em seu devido lugar, mesmo que para isso tenha roubado o livro de uma garota sem perceber. Ela era a dona do livro. E deve ter ficado estupefata. Um fã do Mia Couto afanou seu exemplar. Não levou o celular, a carteira, só quis o livro. Um danado de um amante da literatura, deve ter pensado ela. Assim são as histórias escritas também pela vida, interpretadas a seu modo por cada um.

Martha Medeiros, “A graça da coisa“