quarta-feira, abril 1

Proteja-se

 


Canção sensata

Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos,
A voz das sereias?

Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua,
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?

Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?

De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.

José Paulo Paes, "Antologia Poética"

Recenseamento

São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas.


O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:

- Quantos são aqui?

Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:

- Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.

E outro:

- Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota de seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor.

E outro:

- Eu? Tinha um amigo e um cachorro. O amigo se foi, levando minhas gravatas e deixando a conta da lavadeira. O cachorro está aí, chama-se Lord, tem três anos e meio e morde como um funcionário público.

E outro:

- Oh! sede bem-vindo. Aqui somos eu e ela, só nós dois. Mas nós dois somos apenas um. Breve, seremos três. Oh!

E outro:

- Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!

E outro:

- Aqui moro eu. Quer saber o meu nome? Procure uma senhorita loura que mora na terceira casa da segunda esquina, à direita. O meu nome está escrito na palma de sua mão.

E outro:

- Hoje não é possível, não há dinheiro nenhum. Volte amanhã. Hein? Ah, o sr. é do recenseamento? Uff! Quantos somos? Somos vinte, somos mil. Tenho oito filhos e cinco filhas. Total: quinze pestes. Mas todos os parentes de minha mulher se instalaram aqui. Meu nome? Ahn... João Lourenço, seu criado. Jesus Cristo João Lourenço. A minha idade? Oh! pergunte à minha filha, pergunte. É aquela jovem sirigaita que está dando murros naquele piano. Ontem quis ir não sei onde com um patife que ela chama de "meu pequeno". Não deixei, está claro. Ela disse que eu sou da idade da pedra lascada. Escreva isso, cavalheiro, escreva. Nome: João Lourenço; profissão: idiota; idade: da pedra lascada. Está satisfeito? Não, não faça caretas, cavalheiro. Creia que eu o aprecio muito. O sr. pelo menos não é parente da mulher. Isso é uma grande qualidade, cavalheiro! É a virtude que eu mais admiro! O sr. é divino, cavalheiro, o sr. é meu amigo íntimo desde já, para a vida e para a morte!
Rubem Braga. "Para gostar de ler 3"

Cada pergunta!

A menina brinca no tapete, parecendo nem ouvir o telejornal mas, quando começa o intervalo, levanta a cabeça:

— Pai, que que é corrupção?

O pai e a mãe se olham, o pai suspira e diz bem, corrupção…

— …não é coisa pra gente da sua idade, né.

Claro que é, diz a mãe:

— Responde direito, que se a criança pergunta, é porque quer resposta.

Bem, pigarreia ele, corrupção é…

— …por exemplo roubar dinheiro do governo, que é dinheiro de todo mundo.

— E como é que a corrupção rouba dinheiro do governo?

O pai explica que quem rouba não é a corrupção, é o corrupto, é alguém, ou melhor, é muita gente que rouba o governo:

— Por exemplo o funcionário que desvia dinheiro do governo. Ou o deputado que vende o voto dele lá no Congresso. Ou o juiz que emprega parentes nos gabinetes de outros juizes, em troca de empregar parentes deles. Ou o empresário que paga para ganhar concorrência das obras do governo. Ih, filha, tem tanto jeito de roubar o governo, não é, mulher?

— É, e o seu pai também rouba o que pode quando faz declaração de imposto de renda.

Volta o telejornal e a menina volta a brincar, eles voltam a ver as notícias. Novo intervalo, ela de novo ergue a cabeça:

— Por que o dólar sempre sobe e o real sempre cai?

O pai suspira fundo, e com voz monótona compara os Estados Unidos e o Brasil, as diferenças de colonização, Inglaterra e Portugal, e as diferenças geográficas, climáticas, culturais, mas a mãe diz que não é por nada disso:

— Acho que é porque eles são um povo menos corrupto, filha.

— Então o povo também é corrupto, mãe?

— E você acha que tinha tanta corrupção se o povo não fosse corrupto?

Você vai fundir a cabeça da menina, diz o pai:

— Isso não é conversa pra criança. E além disso, hem, cada pergunta!

— Por isso mesmo é preciso responder.

Volta o telejornal, e depois no intervalo a menina volta a perguntar:

— E o que que é impunidade?

— Essa eu mato fácil — o pai esfrega as mãos — Impunidade é quando você comete um crime e não é preso.

— E só tem tanta corrupção — emenda a mãe — porque tem muita impunidade, ninguém denuncia, entendeu?

Ela de novo volta a brincar, mas antes de mais um intervalo vai até diante da mãe:

— Então você acha que, pra acabar a corrupção, a gente tinha de contar que o pai rouba no imposto?

O pai pula da poltrona:

— Tá vendo?! Criança delatando pai só mesmo na Alemanha nazista! Eu falei que isso não era conversa boa! Mas você e sua educação moderna!…

Sai batendo a porta, a mãe solta longos suspiros.

— Que que eu falei de errado, mãe?

— Nada, filha, nada. Mas você faz cada pergunta!…

O fio da leitura

Sou de uma época em que leitores retiravam — felizmente — um grande prazer do ato solitário… da leitura.

Digo isso porque não me parece que os leitores de hoje estejam desfrutando do mesmo redondo vínculo de satisfação transmitida entre quem escreve e quem lê, naquele circuito sinérgico de prazeres que fez a força da literatura.

Às vezes penso, gelado, que houve uma mudança qualquer, desde quando li o meu primeiro Júlio Verne — A ilha misteriosa, incrustado na memória — até esta era da pressa esmagante entre outdoors e semáforos que acendem o alerta vermelho: estaremos perdendo o sentido da ficção, por exemplo, assim como se dilui um tanto, na maturidade, o princípio do sorvete?

Faço a pergunta a mim mesmo (quase indiferente a um combinado de maracujá com mangaba), no calor em que recordo o envolvimento, de cálidas urgências, com a página impressa e seu cheiro, a capa acetinada e sua textura, o conteúdo e o seu arrebatamento. Lembro que eu não podia, simplesmente, largar o volume meio ensebado de O fio da navalha — nem mesmo ao ouvir os chamados para o almoço a cheirar bem na mesa. O anúncio olfativo, a convocação dos parentes, nada tinha maior apelo do que continuar na leitura de alguns livros que ainda reverberam na mente relutante em aceitar que fossem de segunda ordem (na ordem confusa dos primeiros “sorvetes”).

De Verne a Charles Morgan, de Thomas Mann a Cronin, de Marcel Proust a Nevil Shute… os romances que eu lia (sabendo que éramos legião!) respondiam a uma urgência profunda de explicação, de experiência indireta e de uso agradável do tempo. Mas não pretendiam ensinar nada de prático, não prometiam nenhum tipo de compensação imediata na vida, nenhum consolo barato, nem quaisquer iniciações “místicas” de duvidosa origem e ainda pior eficácia.

Romances eram lidos por pura paixão da ficção desabalada na carreira de acontecimentos inventados — onde hoje está a atração da “realidade”, sob o influxo imediatista da TV (já agora em real time) — e os seus autores não tinham mais a oferecer do que o fio encantatório de relatos e ficções dos vários gêneros desatados das noites de Sherazade contando histórias para se manter viva pelo cordão de Ariadne da imaginação, maior ou menor, de “principais” e de “reservas” desnovelando fios de ouro e de prata para muito além do horizonte das cozinhas de pratos esfriando nas mesas.

William Somerset Maugham supostamente pertence ao time reserva, ao segundo contingente e à cozinha de trás, na sombra da sua modéstia. Mas, suas omeletes!, suas cassatas — como recordá-las sem a lembrança de um prazer de qualidade vulgar e secreta ao mesmo tempo? Costumo imaginá-lo menos como escritor do que como o oficial da tropa de bravos encantadores de serpentes que me mantinham no sofá da sala ou na cadeira do terraço, distante do jantar. Devo demais à sua flauta doce — sobre o tapete de silêncios de antes da televisão — para jogar sobre esse amável escritor, trinta e tantos anos depois, algum ingrato desprezo dos seus temas, simples ou complicados, nos enredos de contos, novelas e romances servidos de dotes narrativos (e de observação) às vezes ausentes das grandes obras “artísticas”, escritas por autores demasiado elevados, quem sabe, para reparar em todos os detalhes de um saguão de hotel onde alguém acaba de perder um anel de estimação.

Os que vão morrer — com um bom romance na mão — saúdam essas (e outras) capacidades modestas, sensíveis e também um pouco perdidas no acúmulo de imagens das microcâmeras instaladas nos mesmos saguões.

Os que ainda são fiéis a Servidão humana, O pecado de Liza, Histórias dos mares do Sul e outros livros da linhagem “lateral” da literatura, ganham a coragem de confessar a admiração pelo autor capaz de convocar os gênios da lâmpada da escrita para reforçar o fascínio de uma história entreouvida no convés de um navio, da boca de algum pária das ilhas de Conrad… ou mesmo de uma delicada senhora que recebe amigas, longe do mar, sob um toldo colorido, numa Villa toscana debaixo da chuva. Você guardará a cor desse toldo para o resto da vida — e a luz coada sobre os rostos das mulheres ouvindo uma história de mulheres (puramente captada), permanecerá confundida, na imaginação, entre as visões e as vozes da tal “realidade” que hoje vigora como descolorido atrativo.

Eis o fascínio do médico, diplomata e viajante autor de O fio da navalha, nascido em 1874 e falecido em 1965 — com a glória de ter chegado a ser, na língua inglesa, o mais editado… depois do seu xará Shakespeare e daquele maravilhoso bruxo sentimental que foi Charles Dickens. Tais “escores” de almanaque não soam totalmente vulgares no prefácio de uma obra anatemizada pelo sucesso, “fruto da lavra” desse narrador cheio do poder de invenção de caravaneiros a se entreterem, na rota da seda, com os contos inventados entre dois oásis.

A vida cinzenta oferece muito pouco disso (oásis!), mas algo pelo menos restou nas ilhas do Éden da literatura — as “verdejantes ilhas da imaginação”, segundo Byron —, como herança transmitida pela veia dessa ficção de modéstia só aparente, rapazes. Aliás, viva a modéstia em literatura!, ou melhor: viva os modestos escritores capazes de nos dar mais do que o prazer pedido ao mundo interno dos livros. Você, que vai começar este de Somerset Maugham… perca a “esperança” de se enfastiar com a sua leitura.

Lamento, mas as páginas desta obra “secundária” irão arrastá-lo, com conversa, entre três continentes e alguns cubículos, muitas mansões e os anos passando sobre pessoas queridas. Quase vivas, elas hão de afastá-lo do tédio que acaso você procure (?), fruto do novo “prazer” — disfarçadamente perverso — que agora se cultiva deste lado do perdido paraíso da leitura: ler, sem fascínio, o que é oferecido com indiferente orgulho. (Ecos e bandolinos de corda me levam a avisar: nenhuma novel vontade de se chatear poderá se dar bem com a honesta obra dos Maugham da vida.)

O fio da navalha é a história de uma ascese no meio profano da burguesia americana. Aqui há, primeiro, o ambiente da Chicago endinheirada, vista como num romance de Sinclair Lewis. Depois, há uma Europa agitada, observada entre conversas distraídas e um intenso desencontro dos pontos de vista do “herói” e da “heróina”, na paisagem de uma Riviera bem diferente daquela de “Mr. Ripley” (pois a história é bem anterior ao cinismo que ostentamos entre amores novos & velhos crimes).

O Oriente comparece, mais atrás, focado pelo binóculo asséptico de Larry Darrell na sua busca meio bronca do Absoluto como se fosse uma jóia minerada, insensatamente, de penhor em penhor, nos tempos de depressão. O romance é narrado por Somerset em pessoa, atravessando os mares com um perfeito ar descansado (mas curioso de saber notícias de Larry entre as fumaças daquela perseguição do Ser Supremo como se fosse um fugitivo da justiça). É encantador — e ainda obtemos algumas lições de como manter o interesse do leitor suspenso do fio que não se parte.

Há perfis traçados com o carvão dos desenhistas rápidos, retratos que se encaixam num escondido jogo de decifração e pistas sobre a identidade real de muita gente que intervém nos sete longos capítulos de The Razor’s Edge. Vejam — ou revejam — Elliott Templeton como uma espécie de esboço caricatural do romancista Henry James, homem também mundano. Não creio que o autor de Retrato de uma dama forneça o modelo de Templeton até o fim, mas recomendo observar quão completa é a simpatia do circunspecto narrador, na cena da morte de Elliott. Podemos então compreender que fosse Somerset Maugham celebrado não só como autor, mas também como confidente da eleição de muitos homens e mulheres que o amaram, nos dois lados da Mancha, como um amigo antes de tudo.

Larry Darrell enxerga isso no escritor e dizem que, no seu retrato, o atento Maugham teria retocado a trajetória espiritual de Thomas Merton, montanha acima, por justos sete patamares. Quem conhece a autobiografia do padre americano sabe que ele conta uma história mais ou menos parecida, em muitos aspectos das suas viagens e experiências da juventude.

Mas Darrell é também um sub-Gatsby retirado dos bancos escolares da classe alta americana — que Maugham conhecia muito bem. Se “retocou a trajetória”, foi porque a idéia extravagante — para Chicago — de caminhar pelo fio da navalha (na busca do sentido da existência) fornecia a tensão ideal, acredito, para o conflito do interesse pragmático contra o modelo “último tipo” de inquietação capaz de assaltar um bom sujeito. Hoje, é possível ver que Larry se tornou parecido com mais alguém. Quem? Com um James Dean bem penteado? Faça o leitor a sua própria escolha, entre os rapazes angustiados.

Seja com quem for, o personagem cresceu, pode se dizer, com toda aquela “geração de Katmandú” que ele antecipou, deslocado entre casacas e coquetéis, enquanto dançava ao som que não vinha do chefe de orquestra, num jardim de orquídeas alugadas. E permanece boa a forma como se capta, aqui, as razões de um jovem (destinado a um bom emprego) para se tornar um vagabundo vago como as estrelas da Ursa quando se trata de explicar porque simplesmente não volta para a noiva e para Chicago…

Sim, porque em Paris ele, Larry, “não faz nada”… e ela esplende — o melhor lugar para não se fazer nada —, a Paris onde Maugham nasceu por acaso, e que não é a de Hemingway, claro, mas a de Somerset: um céu mais do que azul, num véu pintado, vista da janela do Ritz sobre ruas molhadas, roupas certas e cardápios da moda, fortunas e etiquetas, horários de trens e convites para festas na Riviera.

A Paris do visitante, dos ricos tagarelando sobre a ameaça de guerra e dos parisienses comprando vinho barato e baguettes recheadas. Malicioso como uma dama de Florença, o escritor nos conduz para dentro do ponto de vista americano sobre o velho continente europeu, e nele engasta a sua história de um amor nublado por perguntas em torno de Deus.

É pouco? Só vi fazer melhor quando Graham Greene — outro inglês com a flauta mágica — escreveu End of the Affair (embora a fé católica pese demais sobre esse romance bem diferente deste relato “pagão”).

Sou de uma época em que se apreciava tudo isso. Havia ternura pela busca de valores abstratos, febre no amor feminino e no amor masculino com seus códigos intensificados pela diferenciação — e não o contrário. O erotismo podia ser o da vida e o da morte (como no romance de Greene), e uma certa dignidade essencial ainda não fora desfigurada pela guerra nas trincheiras, entre soldados com almas próprias, lembranças e olhos por fechar, nos campos de batalha depois abertos a visitantes de smoking, vindos da capital elegante.

Houve um tempo assim. Agora, está definitivamente acabado.

Uma parte dele — e aquele anel que resta atrás da samambaia do hotel ainda não demolido — jaz nas páginas deste “romanção” à antiga, cheio de coisas perdidas, prazer da narrativa e o mais que está ficando difícil de encontrar nas estantes onde você sempre pode pegar O fio da navalha sem dizer a ninguém e até mesmo fingindo que jamais leu quaisquer das novelas de W. Somerset Maugham.

terça-feira, março 31

Crie asas

 


Em uma tarde de outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono… Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos…
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol…

Olavo Bilac, "Poesias"

A letra A: palavra por palavra

Abismo: Havia, nos fundos do externato, um barranco perpendicular que caía do morro. Depois do recreio, alguns meninos, eu entre eles, ficavam de baixo a mirá-lo, medindo-lhe as possibilidades.

Era um tremendo desafio ao nosso espírito de aventura, pois despencava vertical de uma altura de uns trinta metros, e tudo o que tinha como ponto de apoio eram alguns degraus naturais da escavação e uns poucos arbustos e raízes que o corte deixara a nu. Nós ficávamos debaixo a observá-lo com olhos de alpinista, a medir-lhe a tentação e o perigo: um pequeno grupo de garotos de cáqui que já tinham lido Júlio Verne. E saímos dali a nos fazer apostas – sobe, não sobe: como se da coragem de tentar ou não a escalada dependesse toda a nossa futura dignidade de homens.

Uma tarde, depois de um bate-bola, partimos para lá. O barranco parecia me olhar, na luz do entardecer, e eu, a defrontá-lo, parecia ouvir-lhe a voz cavilosa que me desafiava:

– Vem se você é homem!

E súbito eu parti e pus-me a galgá-lo com raiva, as mãos fincadas na terra como garras, os pés vencendo o barro mole à força de escorregar e tentar novamente. Vários garotos me seguiram, que desistiram logo, à exceção de um que me acompanhava de perto. Quando consegui apoiar-me a um troço de raiz e olhei para baixo, vi que tinha subido uns bons dez metros. Vi também, no fim da perpendicular, o rosto impassível de meu amigo A.V.P., que um segundo antes tentara me dissuadir da aventura em nome do bom senso. Depois, de repente, o garoto que me seguia largou presa e escorregou barranco abaixo – mas sem se machucar, pois até o estágio onde nos encontrávamos o aclive não era arriscado. Respirei fundo ao vê-lo que se sacudia do barro que lhe imundava o uniforme, e logo a seguir partiu correndo. E foi aí que eu cometi a temeridade. Sim, sozinho na escalada, senti-me um vencedor. Pensei que era mais homem que os demais, que a mim estava reservado um destino maior. E olhando para cima, recomecei a subida.

Foi terrível, porque, a partir dali, a ribanceira descia a pique, e eu, mal dado o passo inicial, senti pela primeira vez a sensação do abismo embaixo, a sucção que a força de gravidade parecia exercer sobre meu corpo seguro apenas pelos pés e pelas mãos a pedaços precários de raízes e tufos de arbustos nascidos na encosta. Parar e descer pareceu-me impossível. Logo acima, uma raiz maior, como negra cariátide, protuberava um meio metro do barranco. Fazendo um desesperado esforço, consegui içar-me até ela e cavalgá-la, de costas para o abismo: um bem pequeno abismo, é certo, mas não menos assassino, pois a essa altura ele já adquirira para mim uma conotação até então desconhecida, de vertigem e perigo mortal.

A noite caía rapidamente, e as grandes árvores do morro começaram a criar um nicho de trevas, ali naquele desvão. Olhei para cima: deviam faltar ainda uns dez metros para alcançar o platô do morro – e só então vi que não podia fazer mais nada. Depois, cautelosamente, olhei para baixo: não havia mais ninguém. Até A.V.P., o amigo, abandonara-me ao perigo em que eu me encontrava. Tive vontade de chorar. Meu coração pôs-se a bater mais forte, sacudido pelo medo que me acometia mais e mais. Eu era, montado naquela raiz, um pequeno cavaleiro do abismo, sem nada em cima a que me soerguer, sem nada embaixo para me sustentar, senão, depois da queda, o chão que eu já mal distinguia, pois uma boca de treva se fora formando a meus pés, treda e como que à espera de que eu caísse para me deglutir.

Alguém já experimentou o sentimento físico da solidão? O sentimento de se saber irremediavelmente só, como deve ter sentido o poeta Hart Crane depois de jogar-se ao mar, de noite, e ver seu navio ir embora num feixe de luzes que se foram perdendo pouco a pouco no oceano? Ou como Guillaumet, quando seu pequeno avião caiu nos Andes, no grande deserto eriçado de picos, como catedrais de neve, e todo rasgado em gargantas indevassáveis?

Eu experimentei – um menino de apenas 13 anos – esse sentimento quando a noite veio e tudo o que eu tinha para me apoiar era um negro paredão de terra e a sela de uma velha raiz protuberante – e vinte metros de nada embaixo. Uma bem mesquinha solidão perto da desses dois ases da poesia e da aviação: mas para mim, adolescente, era a primeira; e eu não sabia ainda o que eles sabiam, que fez ao poeta escolher a morte no mar, em plena noite, e ao aviador andar três dias, gelado e faminto, na busca desesperada de um cimo bem visível onde lhe pudessem descobrir o corpo, a fim de que sua mulher não perdesse o seu seguro de vida. Neste, o auge do instinto de vida; no outro, o auge do instinto de morte.

Foi quando ouvi a voz de A.V.P. e a de um irmão secular do colégio, cujo nome não lembro mais. O amigo me concitava friamente a descer.

– Mas eu não vou poder…

– Vai sim. Se você subiu, pode descer.

Pensei que tudo era melhor que aquele sentimento experimentado: não o medo da morte, mas o terrível cara a cara com a solidão. Era melhor cair, quebrar-me todo, morrer, que senti-lo de novo. Aquelas vozes embaixo eram tudo de que eu precisava para voltar a ser eu mesmo, um menino entre os outros, um menino com pai, mãe, irmãos, e amigos; um menino que jogava no ataque e já revelava um individualismo feroz em seu futebol, driblando muito e querendo chegar sozinho à meta.

E desci. Desci lenta, cautelosamente, experimentando bem com o pé cada reentrância onde pisava, e nunca largando o apoio de cima senão ao me sentir seguro de não cair. Desci às cegas mas desci, sabendo que cada segundo ganho ao abismo era uma possibilidade cada vez maior de sobrevivência. E, na última etapa, quando risonho e esfogueado me voltei, a primeira coisa que vi foi a mão de A.V.P. estendida para mim, e seu rosto tenso que se relaxava ao contato de minha mão. A mão do amigo. Do amigo cuja vida ele não tivera dúvida em arriscar, na certeza de que nada no mundo é feito sem esperança.
Vinicius de Moraes, Poesia completa e prosa

O pai de Gregor Samsa era um barato

Sempre me intrigou a surpresa geral diante da metamorfose de Gregor Samsa. O sujeito acorda transformado numa barata e todo mundo reage como se aquilo fosse uma inovação biológica, uma espécie de upgrade evolutivo. Ora, ninguém vira barata do nada. Não é como uma gripe. Há, no mínimo, um histórico familiar.

Sustento, com minha conhecida irresponsabilidade científica, que o pai de Gregor já era um barato. Talvez não no sentido entomológico (não imagino o senhor Samsa pai andando pelas paredes ou disputando migalhas com formigas), mas no sentido moral, psicológico e doméstico da coisa. Era uma cascuda humana, que é uma espécie muito comum.

Reparem: o pai de Gregor passava o dia estendido no sofá, ruminando fracassos, emitindo sons guturais e exigindo sustento do filho. Se isso não é comportamento típico de um inseto, não sei o que é. Os ortópteros, como se sabe, são especialistas em sobreviver às custas do ambiente. Não produzem, não contribuem, mas aparecem sempre na hora de fazer uma boquinha.


Imagino a cena. Dona Samsa, resignada, olhando para o marido espalhado na poltrona como uma vírgula mal colocada e pensando: “Isso não é homem, é um rastejante”. A ciência ainda não reconhece o gene do “baratismo paterno”, mas ele deve existir, recessivo, aguardando uma oportunidade para se manifestar em forma de casco e antenas.

Gregor, coitado, foi apenas o primeiro da família a assumir em público o que os outros já eram conceitualmente. Sua metamorfose não foi uma transformação; foi uma sinceridade biológica. Enquanto o pai vestia o uniforme de autoridade e a mãe carregava o avental da abnegação, Gregor resolveu radicalizar: virou o que todos já insinuavam ser.

Aliás, suspeito da mãe também. Aquela dedicação exagerada, aquele amor aflito e, ao mesmo tempo, condicionado ao desempenho financeiro do filho. Há algo de muito barata nisso. Esses animais são conhecidos por uma maternidade intensa e até meio desesperada. Não me surpreenderia se, ao final da história, alguém levantasse o tapete da sala e encontrasse toda a linhagem Samsa acomodada ali, discutindo a prestação da casa e o preço da farinha.

O pai, quando descobre a nova forma do filho, reage com violência. Dá-lhe chutes e bengaladas. Nada mais típico de uma barata acuada do que atacar com o que estiver à pata. É o instinto de bicho que defende seu território.

Há também a questão do trabalho. Antes da metamorfose, Gregor era o único provedor. Depois que ele se torna um animal asqueroso, a família precisa trabalhar. E trabalha. Veja bem: quando o filho deixa de sustentar o lar, os pais subitamente recuperam a mobilidade. Milagre? Não. Sem o salário de Gregor, a despensa ficou vazia. E barata, quando a comida acaba, aprende até a usar gravata.

No fundo, a história não é sobre um homem que virou um ser irracional. É sobre uma família que já era um pequeno ecossistema de baratas dependentes e oportunistas. Gregor apenas teve a coragem (ou o azar) de tornar isso visível.

E talvez esteja aí a verdadeira tragédia kafkiana: não virar barata, mas descobrir que sempre se foi uma.

Crônica da Abolição

Eu pertenço a uma família de profetas “après coup”, “post factum”, “depois do gato morto”, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.


Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (“coupe do milieu”, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...

— Oh! meu senhô! Fico.

— Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.

Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

— Artura não qué dizê nada, não, senhô...

— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

— Eu vaio um galo, sim, senhô.

— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
Machado de Assis

sábado, março 28

Dia de faxina

 


Palavras

Senhora do próprio tempo, resgatei as palavras cruzadas, hábito adquirido desde a infância. Após o almoço na casa da avó, o pai e eu sentávamos no banco do jardim construído pelo avô e nos divertíamos com o desafio quadriculado. Ele usava lápis, para poder apagar no caso de erro ou deixar o passatempo ainda disponível, já que a revista não nos pertencia. Assim, em idade pré-escolar, fui armazenando sinônimos, antônimos, verbos rebuscados e outros conhecimentos, caminhando em direção às letras que seriam meu destino.

Isso também era evidente, quando o avô abria o jornal sobre a mesa de refeições, tendo próximo um copo de cerveja (a avó não permitia que ele fosse beber no bar), e passava um longo tempo desvendando as notícias. Eu era tão pequena que, de pé a seu lado, via as páginas na altura dos olhos e me encantava com as letras grandes e pequenas, distribuídas ordenadamente em colunas e, de vez em quando, interrompidas por fotografias. Nunca soube o que ele deduzia daquelas tantas informações.

O pai também me despertou o interesse pelos livros. Nossa casa era das poucas onde havia uma estante na sala, fazendo companhia ao toca-discos. Eu tinha livre acesso aos volumes e às vezes assustava o proprietário por estar lendo “livros não recomendados aos pequenos”. A coleção infantil de Monteiro Lobato me enchia de orgulho, com suas capas verdes e títulos prateados. Foi comprada em prestações, de vendedores que iam de porta em porta oferecer seus pesados produtos. O pai lia (e traduzia) as histórias de Pedrinho, Narizinho, Emília, tia Nastácia, o visconde de Sabugosa, o marquês de Rabicó, a Cuca, o saci e muitos outros. Além disso, chegavam mensalmente os lançamentos do Clube do Livro, de que a família era sócia. Romances, a maioria.

A preferência paterna recaía sobre Cronin, e sua obra O Farol do Norte motivou minha escolha pelo jornalismo. O vestibular se aproximava a passos largos, e eu ainda não decidira sobre o futuro. Queria ser escritora, mas o curso de Letras não me atraía. Até que li o romance sobre a luta para a sobrevivência de um jornal à beira da falência e vi um anúncio sobre curso intensivo para os exames, então, decidi tentar. Passei entre os primeiros e segui em frente, com relativo sucesso.

Durante o curso, descobri os latinos e me apaixonei para sempre. Cortázar, García Márquez, Bioy Casares, Manuel Puig, Mario Vargas Llosa e outros me deram ganas de escrever. Daí venci alguns concursos literários, publiquei livros e hoje sou o que você conhece, leitor, um ser repleto de palavras e sentimentos que nunca se apagam.

Off Price

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado...
Thiago de Mello

É velhice ou não sei ler?

Sofro de memória curta para certas lembranças, inclusive para livros inteiros, muitos deles desbravados na hora, ardentemente e, mais à frente, esquecidos, ainda que me deixem algum rescaldo de tênue consistência.

Falo assim tendo à mão uma velha crônica de Martinho Moreira Franco fazendo menção ao meu pegadio com livros, dependência que não está longe do modo como vivi a primeira infância: filho único numa casa solitária, à distância de outras casas com crianças, cercado de advertências e medos de lobisomens (nesse tempo existia), de cachorro doente, do bote do guaxinim, de cobra coral, a que mais deslizava por entre as ervas rasteiras dos cantos de parede. Medo do doido Olegário, que andava pelos altos com seu grito rouco de fonemas que não chegavam a ter sentido.

Resumia-me numa convivência de silêncios, somente quebrada pelas falas da cozinha e o zunido das abelhas em seu voo incessante, das flores para os cortiços enfileirados no alpendre, com frente para o sol benéfico da manhã.

Lu-iz! Era, de vez em quando, o chamado lá de dentro, de tônica bem aguda, para saber onde e o que eu estava fazendo.


Já lendo sozinho, foi nos poucos livros de D. Antonina, todos sagrados, e no jornalzinho da igreja que fui achar companhias. No primeiro ou segundo “livro de leitura” é que fui atrelar-me a um casal de crianças que rumava de trem das terras do cacau para as do café com leite, deixando-me atrapalhado em Pindamonhangaba. Aí demorei soletrando, perdendo os dois de vista, que se foram para sempre com o trem que se chegou a sonhar e que empacou antes da serra de Areia, em Alagoa Grande.

E me adomei nessa dependência, remoendo o despreparo para o esporte: o vôlei do tempo de ginásio, o futebol a mim reduzido ao time de botão, com uma seleção em que entravam desde craques do Treze aos do Vasco da Copa de 1950.

Como se pode ver, não me peguei com o livro por opção, mas como refúgio para não ficar falando sozinho. Some-se a isso o internato, no antigo Pio XI, do padre Odilon Pedrosa, com mais horas no salão de leitura, na sala de aula, na missa, do que nos intervalos das refeições e do recreio.

É uma dependência, para não dizer vício, mas com uma vantagem: os livros não mudam. Serenos ou arrebatados, venham de Machado ou de Zé Lins, de Carlos Romero ou de Hildeberto, serão sempre os mesmos e sempre com mais significados quando voltamos a eles.

Mas a memória não me ajuda muito, salvo em leituras que me ferraram a sensibilidade ou se juntaram, vívidas, à minha experiência, ao meu espírito.

Por mais que estudasse, a meu modo, o fazer literário ou me detivesse no emprego da palavra que a ideia exigia, muita coisa se apartou da memória.

Agora mesmo, coisa de uma semana atrás, dei com uma antologia do conto norte-americano lida há uns trinta anos. Passei as folhas tendo como bem lembrado e vivo apenas um conto do velho Steinbeck, O pônei alazão. Dos demais, inclusive Poe, Henry James ou o mais jovem deles, Saroyan, todos com expressões ou frases inteiras frisadas na primeira leitura, ressurgiam inteiramente apagados, fora da memória.

O coração delator

— Verdade! – sou muito nervoso – terrivelmente nervoso – sempre fui e serei. Mas, por que dirão vocês que sou louco? A doença aguçara-me os sentidos – não os destruíra nem os anestesiara. Acima de tudo minha audição tornara-se agudíssima. Ouvia todas as coisas, as do céu e as da terra. Ouvia muitas coisas do inferno. Como então podem dizer que sou louco? Escutem-me! E observem com quanta lucidez, com quanta serenidade lhes conto toda a história.

É impossível dizer como a ideia me surgiu na mente, mas uma vez concebida perseguia-me noite e dia. Objetivo, não havia nenhum. Nem paixão havia. Eu até gostava do velho. Nunca me fizera mal algum. Jamais me maltratara. E eu também não lhe cobiçava o ouro. Creio que foi por causa daquele seu olho! Sim, foi por isso! Um de seus olhos assemelhava-se ao de um abutre – um olho de cor azul pálido encoberto por uma película. Sempre que o velho o pousava em mim, gelava-me o sangue, e, pouco a pouco, muito gradualmente, acabei decidindo tirar-lhe a vida e assim livrar-me daquele olhar de uma vez por todas.

Agora a questão é a seguinte: vocês me imaginam louco. Os loucos nada sabem. Vocês deviam ter-me visto a mim. Deveriam ter visto com quanta sabedoria procedi – com que cautela e antevisão – com que dissimulação pus-me ao trabalho!

Nunca fora tão bondoso com o velho como na semana antes de matá-lo. E todas os dias, por volta da meia-noite, girava o trinco da porta de seu quarto e a abria-a – ah, tão delicadamente! E, então, quando já a afastara por uns dois palmos, ia aos poucos enfiando no quarto uma lanterna escura, fechada, totalmente fechada de modo a não deixar escapar a mínima luz e só depois é que enfiava a minha cabeça. Ah! Vocês teriam rido muito se tivessem visto a astúcia com que eu realizava esse gesto. Movia minha cabeça bem devagar – muito devagarinho a fim de não perturbar o sono do velho. Levava uma hora inteira até fazer minha cabeça atravessar completamente a abertura e colocar-me a uma distância suficiente para poder vê-lo deitado no leito. Ah! Um louco teria agido assim tão sabiamente? E, depois, quando minha cabeça já estava completamente dentro do quarto, girava o obstruidor da lanterna com o máximo cuidado – com todo o cuidado! Muitíssimo cuidado (pois poderia fazer barulho) – girava-o o mínimo possível de forma que somente um único e finíssimo raio de luz fosse pousar sobre aquele olho de abutre. E fiz isso durante sete longas noites – todas as noites exatamente à meia-noite – mas descobria que o olho estava sempre fechado, era impossível realizar minha tarefa, já que não era o velho que me exasperava, e sim o seu Olho Maligno. E todas as manhãs, ao raiar do dia, estava no aposento corajosamente e falava-lhe sem nenhum temor, chamando-o pelo nome em tom animado e perguntando-lhe como passara a noite. Portanto, como vocês mesmos bem podem ver, ele teria de ser um homem muitíssimo sagaz para suspeitar que todas as noites, exatamente à meia-noite, eu punha-me a vigiá-lo enquanto dormia.

Na oitava noite, fui ainda mais cauteloso ao abrir a porta. Os ponteiros dos minutos de um relógio podiam se mover mais rápidos que minhas mãos. Até essa noite, nunca havia sentido o alcance de meus poderes, da minha astúcia. Mal podia conter a sensação de triunfo. Pensar que lá estava eu abrindo a porta pouco a pouco, sem que ele sequer sonhasse com os meus atos ou com os meus pensamentos secretos. Cheguei mesma a rir-me de tal ideia... e talvez ele tivesse me ouvido pois mexeu-se na cama repentinamente, como se acordasse assustado. Vocês devem estar pensando então que eu recuei – mas não! O aposento estava negro como breu (as pesadas janelas estavam bem trancadas por causa do medo de ladrões) e, sabendo muito bem que ele não poderia ver a porta se abrir, continuei a empurrá-la milimetricamente, mais e mais.

Já havia enfiado minha cabeça na abertura e estava prestes a abrir o obstruidor da lanterna, quando meu polegar escorregou no fecho de lata. O velho se ergueu na cama sobressaltado, gritando: "Quem está aí?"

Fiquei imóvel e nada disse. Por uma hora inteira não movi sequer um músculo e durante todo esse tempo não o ouvi deitar-se novamente. Ainda devia estar sentado na cama procurando ouvir qualquer coisa... tal como eu fizera, noite após noite, ouvindo a morte rondar por ali.

Não muito depois, escutei um leve gemido e sabia que era produto de um pânico mortal. Não se tratava de um gemido de dor ou sofrimento... Ah não!... Era o som grave e contido que brota de dor ou sofrimento... Ah não!... Era o som grave e contido que brota do fundo da alma quando o mundo ela está saturada de terror. Eu conhecia muito bem esse som. Muitos foram as noites nas quais á meia-noite em ponto, hora em que o mundo inteiro dorme, esse mesmo som emergia de meu próprio peito e com seus ecos horripilantes aguçava ainda mais os terrores que me aturdiam. Digo-lhes que o conhecia muito bem. Sabia como o velho devia estar se sentindo e tinha pena dele, se bem que no fundo me risse. Bem sabia que ele estivera acordado na cama desde o momento do primeiro ruído leve que o despertara. Desde então os temores se agigantavam dentro dele. Havia tentado se convencer de que eram improcedentes, mas era impossível. Havia repetido a si mesmo: "Não é nada... apenas o barulho do vento pela chaminé...", ou "é apenas um rato a correr pelo quarto...", ou ainda "Deve ter sido um grilo que cricrilou uma única vez". Sim, certamente tentara se consolar com tais suposições, mas tudo em vão. Tudo em vão, porque para dele se aproximar a Morte, viera sub-repticiamente, oculta no seu manto negro com o qual capturava a vítima. E foi a funesta influência desse manto invisível que o fez sentir — embora não pudesse ver ou ouvir — que o fez sentir a presença de minha cabeça no interior do quarto.

Depois de ter esperado por muito tempo com infinita paciência sem tê-lo ouvido deitar-se, decidi abrir uma pequenina fresta – uma fresta mínima – no obstruidor da lanterna. E assim o fiz, e vocês não podem nem imaginar com que lentidão fui girando-o, até que, por fim, um único raio de luz, fino como o fio de uma teia de aranha, projetou-se da pequena fresta e foi pousar-lhe diretamente no olho de abutre.

Estava aberto – bem aberto e arregalado – e ao vê-lo fui tomando de fúria. Via-o com perfeita nitidez – todo de um azul aguado, coberto por aquela película horrenda que me gelava até a medula dos ossos. No entanto, era só o que eu podia ver da face e do corpo do velho, pois, como que por instinto, apontara o raio de luz exatamente sobre aquele maldito ponto.

Mas então já não lhes disse que aquilo que vocês tomam por loucura nada mais é que uma hiperagudeza dos sentidos? Pois digo-lhes que nesse momento ouvi um ruído, baixo e abafado, como o tique-taque de um relógio enrolado num pano. Também conhecia muito bem esse som. Eram as batidas do coração do velho. Assim como o rufar dos tambores de guerra incita o soldado à luta, esse barulho deixava-me cada vez mais furioso.

Contudo, mesmo nessa hora ainda me contive, permanecendo imóvel. Mal podia respirar. Segurava a lanterna inerte. Com o máximo de firmeza possível tentei manter o raio de luz sobre o olho do velho. Enquanto isso, o som diabólico daquele coração ia crescendo. Tornava-se cada vez mais rápido e aumentava de volume a cada instante. O terror que se apossou do velho deve ter sido extremo! Batia mais e mais, asseguro-lhes eu, cada vez mais alto!... Estão compreendendo bem o que lhes digo? Já lhes disse que sou nervoso... é assim que sou. E então na calada da noite, em meio ao terrível silêncio daquela casa velha, um ruído tão estranho quanto aquele punha-se na excitação de um incontrolável pavor. Entretanto... por mais alguns segundos... contive-me e permaneci imóvel. Mais as batidas se tornavam mais altas! Pensei que o coração fosse explodir. E então outra angústia tomou conta de mim – o ruído poderia ser ouvido por algum vizinho! Chegara a hora do velho! Com um grito incontido, escancarei a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele soltou um grito – um só e estridente como o de uma ave – uma única vez! Em um instante arrastei-o para o chão e empurrei a cama pesada sobre ele. Então sorri de satisfação ao ver o ato consumado. Porém por vários minutos o coração continuou a bater com aquele som abafado. Mas isso não me perturbava; não poderia ser ouvido através da parede. Por fim cessou. O velho estava morto. Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, estava morto, morto como uma pedra. Coloquei minha mão sobre o coração e ali a deixei ficar por alguns minutos. Não havia pulsação. Morto como pedra. Aquele seu olho nunca mais me incomodaria.

Se vocês ainda me acham louco, mudarão de opinião quando eu lhes descrever as sábias precauções que tomei para esconder o corpo. A noite findava e pus-me a trabalhar apressadamente, mas sempre em silêncio. Em primeiro lugar, desmembrei o corpo. Decepei-lhe a cabeça, os braços e as pernas.

E então arranquei depois três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as fendas. Recoloquei as tábuas com tanta habilidade, com tanta astúcia, que nenhum olho humano, – nem mesmo o dele – poderia detectar algo de errado. Não havia nada para ser lavado – nenhuma mancha de qualquer tipo – nem sequer um único pingo de sangue. Eu tinha sido extremamente cuidadoso para evitar a isso acontecesse: a banheira recolhera tudo... Ah! Ah! Ah!

Quando acabei essas tarefas eram quatro horas, mas ainda estava escuro como se fosse meia-noite. Quando o sino deu as horas, ouvi batidas na porta que dava para a rua. Desci para abri-la despreocupado... O que havia para temer agora? Entraram três homens e, com a maior palidez, identificaram-se como sendo da polícia. Um grito estridente fora ouvido por um vizinho durante a noite; levantara-se a suspeita de crime; a delegacia de polícia fora notificada e eles receberam a incumbência de investigar.

Sorri, pois que havia a temer? Dei as boas-vindas aos cavalheiros. O grito, disse-lhes, eu mesmo o dera durante um sonho. O velho, informei, estava fora, no interior. Levei os meus visitantes a todas as partes da casa. Sugeri que investigassem tudo e que investigassem muito bem. Por fim, eu os conduzi ao quarto dele. Mostrei-lhes os seus bens, totalmente seguros e intocados. Movido pelo entusiasmo de minha autoconfiança, levei cadeiras para o quarto e sugeri que descansassem ali, enquanto eu mesmo, na louca audácia de meu triunfo absoluto, colocava minha cadeira justamente sobre o local onde repousava o cadáver.

Os policiais ficaram satisfeitos. O modo como me portara convencera-os. Eu estava muito à vontade. Sentaram-se e enquanto eu ia-lhes respondendo animadamente, conversaram sobre assuntos corriqueiros. Porém, logo senti que começava a empalidecer e sejei que já tivessem ido embora. A cabeça me doía e imaginei estar ouvindo um zumbido nos ouvidos. Mas eles permaneciam sentados e continuavam a conversar. O zumbido ficou mais distinto; prosseguia e tornava-se mais nítido. Pus-me a falar com mais eloquência a fim de me livrar daquela sensação, mas o ruído continuava, cada vez mais nítido, até que, por fim, descobri que o som não estava em meus ouvidos.

Sem dúvida, nesse momento, fiquei lívido... mas falava mais, num tom mais alto. Contudo, o barulho também aumentava... e o que é que eu podia fazer? Era um ruído rápido, baixo e abafado... muito parecido com o som de um relógio enrolado num pano. Faltava-me o fôlego e, no entanto, os policiais nada ouviam. Comecei a falar mais depressa e com veemência; mas o som não parava de aumentar. Pus-me de pé e comecei a discutir sobre ninharias, com voz muito alterada e gestos violentos, mas o ruído continuava aumentando. Por que eles não iam embora? Andava de um lado para outro do quarto, com passadas largas e pesadas, como se o fato de ser assim observado por eles me levasse à loucura – e o ruído não parava de aumentar. Ah! Meu Deus! O que é que eu podia fazer? Esbravejei, vociferei, praguejei! Peguei a cadeira em que estivera sentado e pus-me a raspá-la nas tábuas do assoalho, mas o ruído excedia a tudo e aumentava mais e mais e mais. Tornou-se mais alto... mais alto... mais alto! E ainda assim os homens conversavam placidamente e sorriam. Seria possível que não estivessem ouvindo? Santíssimo Deus! Não e não! Estavam ouvindo, sim! Suspeitavam de mim! Sabiam de tudo! E zombavam do pavor que eu sentia! Foi isso que pensei, e é o que penso ainda. Mas qualquer coisa seria preferível a essa agonia! Qualquer coisa seria mais suportável que esse escárnio! Eu não podia suportar aqueles sorrisos hipócritas por nem mais um segundo! Senti que tinha de gritar ou então morreria!... E então, outra vez!... ouçam! Mais alto... Mais alto... Mais alto!...

“Canalhas!”, gritei, “parem com esse fingimento! Confesso o crime! Arranquem logo as tábuas!... Está aqui! aqui!... está aqui o bater desse coração hediondo!”
Edgar Allan Poe

A morte do livreiro

O melhor amigo de um leitor é um bom livreiro. Aquele que não só conhece o livro que você procura, mas, na falta deste, sabe indicar alternativas do mesmo autor ou de outro. Não que tenha lido esses livros, mas o convívio com tantos deles faz com que, pelos títulos, capas ou editoras, se torne um profissional à altura do produto com que trabalha. Entre esses profissionais, há um que admiro mais: o livreiro de sebo.

O livreiro comum conhece os livros que estão saindo. O de sebo conhece livros de todas as épocas, que costuma receber aos milhares de uma vez, do filho ou viúva de um colecionador. Aceita todos, não escolhe, e, no dia seguinte, já recebe outro lote igual. Catalogá-los, dar-lhes preço e botá-los nos escaninhos deveria ser o trabalho de uma equipe. Quase sempre ele o faz sozinho.

Tenho amigos entre esses livreiros por toda parte. Mas, nos últimos dez anos, um foi especial: Luiz Carlos Araújo, do sebo Mar de Histórias, em Copacabana. Para escrever meu livro "Metrópole à Beira-Mar", sobre o Rio moderno dos anos 1920, decidi que precisava ler a obra completa dos autores daquele tempo que, em minha opinião, já eram modernos —ou seja, escreviam de forma clara, adulta, objetiva, sem as firulas parnasianas ou os maneirismos modernistas. O problema é que, exceto por João do Rio e Manuel Bandeira, todos eram autores perdidos: Theo-Filho. Ronald de Carvalho, Carmen Dolores, Chrisanthème, Orestes Barbosa, Adelino Magalhães, Elysio de Carvalho, Agrippino Grieco. Pois, nos quatro anos que o trabalho me tomou, até 2019, Luiz Carlos encontrou-os um a um. Fez o mesmo com o material dos anos 1940 sobre a Segunda Guerra no Rio, que resultou em meu livro "Trincheira Tropical", de 2025.

Nesta segunda-feira, um enfarte levou Luiz Carlos, aos 66 anos. Não fomos apenas nós, seus clientes e amigos, que o perdemos. Quando morre um livreiro, são os livros os que mais perdem.

Na sexta, eu lhe escrevera desculpando-me por estar alugando-o a respeito de mais um livro impossível. Ele respondeu: "Deixa comigo, Ruy. Estamos juntos. Estamos vivos".

sexta-feira, março 27

Assim nasce a leitora

 


As lições

Ensinaram-me a falar
aprendi a escrever.
Ensinaram-me a escrever
aprendi a falar.
Ensinaram-me a ler
aprendi a ver.
Ensinaram-me a ouvir
aprendi a calar.
Ensinaram-me a pedir
aprendi a dar.
Ensinaram-me a comprar
aprendi a ter.
Ensinaram-me a beber
aprendi a rir.
Ensinaram-me a fugir
aprendi a ficar.
Ensinaram-me a aprender
aprendi a ignorar.
Ensinaram-me a amar
aprendi a criar.
Ensinaram-me a viver
aprendi a morrer.
Ensinaram-me a estar só
aprendi a estar.
Ensinaram-me a ser livre
aprendi a ser.
Ana Hatherly

Grande Irmão

Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas. Winston Smith, queixo enfado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.

O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Winston avançou para a escada. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo quando tudo ia bem, era raro que funcionasse, e agora a eletricidade permanecia cortada enquanto houvesse luz natural. Era parte do esforço de economia durante os preparativos para a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, com seus trinta e nove anos e sua úlcera varicosa acima do tornozelo direito, subiu devagar, parando para descansar várias vezes durante o trajeto. Em todos os patamares, diante da porta do elevador, o pôster com o rosto enorme fitava-o da parede. Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.


No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou um interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. Winston foi para junto da janela: o macacão azul usado como uniforme do Partido não fazia mais que enfatizar a magreza de seu corpo frágil, miúdo. Seu cabelo era muito claro, o rosto naturalmente sanguíneo, a pele áspera por causa do sabão ordinário, das navalhas cegas e do frio do inverno que pouco antes chegara ao fim.

Fora, mesmo visto através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Lá embaixo, na rua, pequenos rodamoinhos de vento formavam espirais de poeira e papel picado e, embora o sol brilhasse e o céu fosse de um azul áspero, a impressão que se tinha era de que não havia cor em coisa alguma a não ser nos pôsteres colados por toda parte. Não havia lugar de destaque que não ostentasse aquele rosto de bigode negro a olhar para baixo. Na fachada da casa logo do outro lado da rua, via-se um deles. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, enquanto os olhos escuros pareciam perfurar os de Winston. Embaixo, no nível da rua, outro pôster, esse com um dos cantos rasgado, adejava operosamente ao vento, ora encobrindo, ora expondo uma palavra solitária: Socing. Ao longe, um helicóptero, voando baixo sobre os telhados, pairou um instante como uma libélula e voltou a afastar-se a grande velocidade, fazendo uma curva. Era a patrulha policial, bisbilhotando pelas janelas das pessoas. As patrulhas, contudo, não eram um problema. O único problema era a Polícia das Ideias.

Por trás de Winston, a voz da teletela continuava sua lenga-lenga infinita sobre o ferro-gusa e o total cumprimento - com folga - das metas do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Todo som produzido por Winston que ultrapassasse o nível de um sussurro muito discreto seria captado por ela; mais: enquanto Winston permanecesse no campo de visão enquadrado pela placa de metal, além de ouvido também poderia ser visto. Claro, não havia como saber se você estava sendo observado num momento específico. Tentar adivinhar o sistema utilizado pela Polícia das Ideias para conectar-se a cada aparelho individual ou a frequência com que o fazia não passava de especulação. Era possível inclusive que ela controlasse todo mundo o tempo todo. Fosse como fosse, uma coisa era certa: tinha meios de conectar-se a seu aparelho sempre que quisesse. Você era obrigado a viver - e vivia, em decorrência do hábito transformado em instinto - acreditando que todo som que fizesse seria ouvido e, se a escuridão não fosse completa, todo movimento examinado meticulosamente.

Winston mantinha as costas voltadas para a teletela. Era mais seguro; contudo, como sabia muito bem, mesmo as costas de uma pessoa podem ser reveladoras. A um quilômetro de distância, o Ministério da Verdade, onde ele trabalhava, erguia-se vasto e branco por sobre a paisagem encardida. Aquela, pensou com uma espécie de contrariedade difusa, aquela era Londres, principal cidade da Faixa Aérea Um, terceira mais populosa das províncias da Oceânia. Tentou localizar alguma lembrança de infância que lhe dissesse se Londres sempre fora assim. Será que sempre houvera aquele cenário de casas do século XIX caindo aos pedaços, paredes laterais escoradas com vigas de madeira, janelas remendadas com papelão, telhados reforçados com chapas de ferro corrugado, decrépitos muros de jardins adernando em todas as direções? E os lugares bombardeados, onde o pó de gesso dançava no ar e a salgueirinha crescia e se espalhava sobre as pilhas de entulho? E os locais onde as bombas haviam aberto clareiras maiores e onde tinham brotado colônias sórdidas de cabanas de madeira que mais pareciam galinheiros? Não adiantava, ele não conseguia se lembrar. Tudo o que lhe fcara da infância era uma série de tableaux superiluminados, desprovidos de paisagem de fundo e quase sempre ininteligíveis.

O Ministério da Verdade - Miniver, em Novafala - era extraordinariamente diferente de todos os outros objetos à vista. Era uma enorme estrutura piramidal de concreto branco cintilante, erguendo-se, terraço após terraço, trezentos metros espaço acima. Do lugar onde Winston estava mal dava para ler, escarvados na parede branca em letras elegantes, os três slogans do Partido:

GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA
George Orwell, "1984"

Minha terra, minha casa e minha gente

Pirapemas, o povoado em que eu nasci, era um dos lugarejos mais pobres e mais humildes do mundo. Ficava à margem do Itapicuru, no Maranhão, no alto da ribanceira do rio.


Uma ruazinha apenas, com vinte ou trinta casas, algumas palhoças espalhadas pelos arredores e nada mais. Nem igreja, nem farmácia, nem vigário. De civilização — a escola, apenas.

A rua e os caminhos tinham mais bichos do que gente. Criava-se tudo à solta: as galinhas, os porcos, as cabras, os carneiros e os bois.

Vila pacata e simples de gente simples e pacata. Parecia que ali as criaturas formavam uma só família. Se alguém matava um porco, a metade do porco era para distribuir pela vizinhança. Se um morador não tinha em casa café torrado para obsequiar uma visita, mandava-o buscar, sem-cerimônia, ao vizinho.

A melhor casa de telha era a da minha família, com muitos quartos e largo avarandado na frente e atrás. Chamavam-lhe a casa-grande por ser realmente a maior do povoado.

Para aquela gente paupérrima, éramos ricos.

Meu pai tinha umas duzentas cabeças de gado no campo, uma engenhoca de moer cana, uma máquina de descaroçar algodão e uma casa de negócios, em que vinham comprar moradores até de quinze ou vinte léguas distantes.

Não havia no lugarejo ninguém mais importante do que meu pai. Era tudo: autoridade policial, juiz, conselheiro, até médico.

A sua figura inspirava respeito; a sua presença serenava discórdias. Se havia uma desordem, mal ele chegava à desordem acabava. Bastava que desse razão a uma pessoa, para que todo mundo afirmasse que essa pessoa é que estava com a razão. Os seus conselhos faziam marido e mulher, desunidos, voltarem a viver juntos. Ninguém tomava um remédio sem lhe perguntar que remédio devia tomar.

Era um homem inculto, mas com uma inteligência tão viva, que se acreditava ter ele cursado escolas. E, ao lado disso, uma alma aberta, franca, alegre, jovial e generosa, que fazia amigos ao primeiro contato.

Nossa casa vivia cheia de gente. Gente da família, gente do povoado, gente de fora.

Meus pais eram padrinhos de quase toda a meninada dos arredores e o maior prazer de minha mãe era criar.

Se uma de suas comadres morria, deixando filhos pequeninos, ela, a pretexto de que as madrinhas devem ser segundas mães, ia buscá-los para que não morressem de abandono e de fome.

Às vezes, pela porta adentro, nos entravam verdadeiras braçadas de fedelhos, enchendo os quartos de alaridos e de berros. E minha mãe os criava com os mesmos cuidados e os mesmos carinhos com que criava os filhos.

Os “gaiolas” (vaporezinhos de roda que faziam a navegação do rio) paravam no povoado para se abastecer de lenha e para embarcar e desembarcar mercadorias e passageiros.

Não sei por que, os fazendeiros do sertão, quando tinham de tomar passagem para a capital, preferiam aquele porto insignificante. Rara era a semana em que não chegava gente de fora à povoação.

E, como a nossa casa era a maior de todas, era nela que eles se hospedavam.

No interior do Brasil a hospitalidade é um dever sagrado que se cumpre religiosamente. Nossa casa vivia apinhada de criaturas estranhas vindas de longe.

Às vezes, tarde da noite, ouviam-se rumores no terreiro. Eram hóspedes pedindo pousada.

Ao hóspede que chega não se pergunta de que precisa. Quem vem de longe, através de caminhos difíceis e desertos, certamente tem cansaço e fome. Necessita de alimento e de cama.

À nossa porta, ora à meia-noite, ora mais tarde, chegavam frequentemente dez, doze, quinze pessoas desconhecidas. A essa hora acordavam meu pai e minha mãe para mandar fazer comida para os hóspedes.

Em certos dias, ao amanhecer, eu despertava num quarto que não era o meu e no meio de um punhado de crianças. É que nem sempre havia redes para todas as pessoas de fora. A família desalojava-se: dormiam duas ou três pessoas juntas, para que não faltasse acomodação aos estranhos.

Em outras ocasiões, quando os hóspedes chegavam, o "gaiola" havia passado na véspera. Só havia outro, dez ou quinze dias depois.

Dez ou quinze dias ficavam famílias inteiras em nossa casa, morando e comendo tranquilamente.

Ao se despedirem apertavam a mão de minha mãe, apertavam a mão de meu pai, dizendo-lhes "obrigado" e nada mais.

É que nada mais lhes era permitido. No sertão do Brasil, quem perguntar o preço da hospedagem ofende aquele que a deu.

A hospitalidade por lá é uma religião e ninguém se furta a um dever religioso.
Viriato Corrêa, "Cazuza"