Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
terça-feira, maio 19
O medo
Seis ou sete homens permanecíamos ali, em silenciosa admiração, enquanto viajávamos para a África distante. O capitão retomou a conversa que havíamos tido durante o jantar:
— Sim, naquele dia eu tive medo. Meu navio permaneceu seis horas açoitado pelas ondas, com um penhasco encravado no ventre. Por sorte, à noite passou um navio mercante inglês, que nos viu e nos recolheu.
Então um dos presentes resolveu contestar a expressão usada pelo capitão. Era um homem alto, de cara bronzeada pelo sol, com aspecto grave; um desses homens que à primeira vista nos dão a impressão de haver percorrido vastos países desconhecidos em meio a incessantes perigos, e cujo olhar sereno parecia guardar, na sua profundidade, algo das estranhas paisagens que vira; um desses homens que adivinhamos dotado de têmpera extraordinária.
— Capitão, o Sr. diz que teve medo, mas não o creio. O Sr. parece enganar-se sobre a palavra e sobre a sensação que teve. Um homem enérgico como o senhor nunca sente medo diante do perigo. Sente emoção, nervosismo, ansiedade, mas medo é outra coisa.
— Discordo! Asseguro-vos que tive medo!
— Permita-me que lhe explique. Até os homens mais intrépidos podem ter medo. Mas o medo é algo espantoso, uma sensação atroz, como uma desintegração da alma, um espasmo horrível do pensamento e do coração, cuja simples recordação dá estremecimentos de angústia. Mas quando se é valente, isso não ocorre nem diante de uma batalha, nem diante da morte inevitável nem diante de nenhuma das formas conhecidas do perigo. Acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas e diante de riscos indefinidos. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos fantásticos terrores primitivos. Um homem que acredita em fantasmas, e que imagina ver um espectro na noite, deve experimentar o medo em todo seu espantoso horror.
Eu descobri o que de fato é o medo há uns dez anos, em pleno dia. E pude experimentá-lo também no último inverno, numa noite de dezembro. Na verdade, passei já por muitas situações, muitos reveses, muitas aventuras que pareciam mortais: em certa ocasião, uns ladrões me deixaram como morto; na América, fui condenado à forca por motivo de rebelião; na China, fui jogado ao mar, da proa de um navio. Cada vez que me julguei perdido, tomei minhas decisões imediatamente, sem vacilar, e até mesmo sem pensar. Mas isso não é o medo.
Observem, senhores, que entre os orientais a vida não conta para nada. Logo se resignam. As noites são claras, órfãs das sombrias inquietudes que atormentam os cérebros nos países frios. No Oriente pode-se conhecer o pânico, mas se ignora o medo. Vou narrar-lhes o que me aconteceu na África.
Percorria eu as grande planícies ao sul de Ouargla. É um dos mais estranhos países do mundo. Os senhores conhecem a areia fina, a areia lisa das intermináveis praias do oceano. Imaginem agora o próprio oceano convertido em areia, em meio a um furacão. Imaginem uma tempestade silenciosa das ondas imóveis de pó amarelo. Essas ondas desiguais são altas como montanhas, encrespadas como torrentes desencadeadas, mas maiores ainda, e estriadas como a ágata. Sobre esse mar furioso, mudo e sem movimento, o sol devorador do Sul lança sua chama implacável e direta. Tem-se que subir nessas ondas de cinza dourada, subir mais uma vez, mais outra, subir sem cessar, sem descanso e sem proteção. Os animais se atolam até os joelhos, e resvalam ao descer pela outra vertente das surpreendentes colinas.
Éramos dois amigos, escoltados por oito spahis seguidos de quatro camelos com seus cameleiros. Íamos por aquele deserto ardente sem falar, assolados pelo calor, pelo cansaço e pela sede. Subitamente um dos homens deu um grito, e todos paramos e permanecemos imóveis, surpreendidos por um inexplicável fenômeno que os viajantes dessas regiões perdidas conhecem bem. Em algum lugar, perto de nós, numa direção indeterminada, soava um misterioso tambor, o misterioso tambor das dunas. Soava claramente, ora mais vibrante ora menos, cessando e logo recomeçando seu som fantástico. Os árabes, espantados, olhavam-se uns aos outros. Um deles disse:
— A morte vem para cima de nós.
De repente meu companheiro, meu amigo quase como um irmão, caiu do cavalo, de bruços, mortalmente atingido pela insolação. Durante duas horas, enquanto eu procurava em vão salvá-lo, aquele tambor, sempre impossível de localizar, me aturdia os ouvidos com seu ruído monótono, intermitente, inexplicável. Então senti que o medo, o verdadeiro medo, o horrível medo, me penetrava até à medula dos ossos, diante daquele cadáver querido, naquela depressão vergastada pelo sol entre quatro montes de areia, enquanto o eco desconhecido nos lançava, a duzentas léguas do povoado francês mais próximo, o dobre rápido de um inatingível tambor. Naquele dia eu compreendi o que é ter medo. Mas houve uma outra vez em que compreendi melhor ainda...
— Perdão, senhor, mas o que era esse tambor? — interrompeu o capitão.
— Não sei. Ninguém sabe. Os oficiais que depararam com esse surpreendente ruído geralmente o atribuem ao eco aumentado, multiplicado, desmesuradamente insuflado pelas ondulações das dunas, de um granizo de areia que o vento lança contra uma mata de ervas secas, pois já se notou que o fenômeno sempre se produz nas proximidades de pequenas plantas queimadas pelo sol, duras como o pergaminho. Segundo essa teoria, aquele tambor nada mais seria do que uma espécie de reflexo ampliado desse som. Mas eu só vim a saber disso mais tarde.
Agora vou lhes contar minha segunda sensação de medo. Aconteceu no inverno passado, num bosque do Noroeste da França. O céu estava tão sombrio naquele dia, que a noite caiu duas horas mais cedo. Era meu guia um camponês, que caminhava ao meu lado por uma trilha estreita numa floresta de abetos. O vento arrancava dessas árvores uma espécie de alarido. Por entre as copas das árvores eu via as nuvens que corriam, como que fugindo de um cataclismo. Às vezes, ante uma forte lufada de vento, todo o bosque se inclinava no mesmo sentido, com um gemido de sofrimento, e o frio me invadia, apesar do meu passo rápido e da minha grossa roupa de lã.
Tínhamos que chegar à casa de um guarda florestal, para jantar e dormir. Não estava muito distante, e eu me encontrava ali como caçador. Meu guia às vezes levantava os olhos e murmurava: “Que tempo triste!” Falou-me sobre as pessoas para cuja casa nos dirigíamos. O pai havia matado um caçador furtivo, dois anos antes, e desde então andava preocupado, como que atormentado por uma lembrança. Seus filhos, já casados, moravam com ele.
A escuridão era profunda, e eu não via nada ao redor de mim. As ramagens de todas as árvores, ao agitar-se, enchiam a noite de um rumor incessante. Afinal vi uma luz, e meu guia chamou a uma porta. Ouvimos gritos de mulheres lá dentro. Logo depois, uma voz de homem, como que estrangulada, perguntou: “Quem está aí?” Meu guia se identificou, a porta se abriu e entramos.
A cena que vimos é impossível de esquecer. Um homem velho, de cabelos brancos e com olhar arregalado e fixo, como de louco, nos aguardava de pé no meio da cozinha, tendo na mão uma espingarda carregada. Dois rapazes com pedaços de pau guardavam a porta. Na obscuridade, percebemos duas mulheres ajoelhadas, com os rostos voltados para a parede. Identificamo-nos, explicamos o motivo de nossa presença ali, e então o velho largou a arma e deu ordens para que nos preparassem acomodações. As duas mulheres continuavam imóveis, então ele me explicou: “Há exatamente dois anos, numa noite como esta, eu matei um homem. Quando se completou um ano, ele veio chamar-me, e esta noite eu estou certo de que voltará novamente. Por isso estamos todos intranquilos”.
Procurei tranquilizá-los o melhor que pude, mas intimamente estava satisfeito por ter chegado exatamente naquela noite e presenciar aquele espetáculo de terror supersticioso. Contei algumas histórias, e acabei por acalmá-los quase por completo.
Perto da lareira, um cachorro velho e quase cego — um desses cães que nos lembram alguma pessoa conhecida — dormia com o focinho entre as patas. Fora, a tormenta açoitava a choupana. Por uma estreita vidraça eu via passar, projetadas por grandes relâmpagos, as sombras de árvores agitadas pelo vento.
As duas mulheres voltaram a cair de joelhos, cobrindo os rostos, e os filhos pegaram de novo os seus paus. Já ia eu tentar novamente tranquilizá-los, quando o cachorro despertou bruscamente, levantou a cabeça, esticou o pescoço, olhando para a lareira com seu olhar quase apagado, e lançou um desses ganidos lúgubres, que fazem estremecer os caminhantes quando cruzam de noite locais ermos. Todos os olhos se voltaram para o animal, que permanecia agora imóvel sobre as patas, como obcecado por uma visão. O cão se pôs a ganir frente a algo invisível, desconhecido, espantoso sem dúvida, pois todo seu pelo estava eriçado.
As mulheres, como loucas, fizeram coro aos ganidos do cachorro. Um grande calafrio me percorreu a espinha. A visão do animal naquele lugar, naquela hora, em meio a pessoas apavoradas, era algo horrível. Durante uma meia hora o cão ganiu sem mover-se. Um medo espantoso me ia penetrando. Medo de quê? Lá sei eu. Era medo, pura e simplesmente.
Permanecemos imóveis, lívidos, à espera de um acontecimento horrendo, com o ouvido atento, o coração agitado, transtornados ao menor ruído. O cachorro se pôs a dar voltas ao redor da cozinha, farejando as paredes, sem cessar de gemer. O animal nos punha loucos. Então o meu guia se lançou sobre ele, numa espécie de paroxismo de terror furioso, agarrou-o, abriu uma porta de trás, que dava para uma espécie de cercado, e o lançou para fora da casa.
O cachorro se calou logo, e permanecemos algum tempo envoltos num silêncio ainda mais terrível. De repente, todos tivemos uma espécie de sobressalto: algo deslizava contra a parede externa, em direção ao bosque. Depois passou junto à porta, que pareceu apalpar com mãos trêmulas. Novo silêncio durante uns dois minutos, que nos deixou aterrorizados. Depois voltou, roçando sempre a parede, como uma criança com suas unhas. Subitamente apareceu junto à vidraça uma cabeça branca, com dois olhos luminosos como os das feras, e emitiu um gemido — um murmúrio como de quem se lamenta.
Nesse momento se ouviu um ruído formidável. O velho havia disparado sua arma, e em seguida os filhos se precipitaram para a vidraça, cobrindo-a com o tampo de uma grande mesa que reviraram. Com o estrépito do inesperado disparo, senti tal angústia no coração, na alma e no corpo, que me imaginei prestes a perder os sentidos, disposto a morrer de medo. Continuamos ali até o amanhecer, incapazes de mover-nos, de dizer uma palavra, crispados, desvairados. Ninguém se atreveu a abrir a porta antes de entrever alguma claridade fora, pelas frestas das madeiras.
Ao lado do muro, junto à porta, jazia o corpo do velho cachorro, com o focinho desfeito por uma bala. Havia saído do cercado, e procurara abrir alguma passagem junto à porta.
Naquela noite eu não corri nenhum perigo. Mas preferiria voltar a enfrentar todos os riscos mais terríveis que já enfrentei, para não ter de viver aquele único minuto em que o tiro foi disparado na cabeça que surgiu na vidraça.
Guy de Maupassant
É minha
– E minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.
Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela.
Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.
– E minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.
Mandei a carta e almocei tranquilo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciência valsara tanto na véspera, que chegou a ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à larga. Ventilai as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunstâncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta.
– Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsâmico, é uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?
E a boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da véspera, redonda, brilhante, nítida, multiplicando-se por si mesma, – ser dez – depois trinta – depois quinhentas, – exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um pouquinho mais.
Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Talvez não entendas o que ai fica; talvez queiras uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
Sentimento do tempo
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.
A galinha fuzilada
Esperava o bonde perfeitamente empertigado, quase em posição de sentido, e continência, apenas para as senhoras e superiores. A roupa (a farda) era sempre impecável, de vinco firme, com botas que poderiam servir de espelhos. No tempo da guerra, que acompanhou todinha pelo Repórter Esso, redobrou de austeridade. Aí já não cumprimentava os vizinhos, e as continências às senhoras, como tudo na época, foram drasticamente racionadas. No bairro, todos o respeitavam e não havia ladrão que se atrevesse a passar na esquina daquela rua. As filhas é que não olhavam com bons olhos aquele excesso de austeridade. Embora jeitosas, corriam o risco de ficar solteiras, pois nenhum mancebo se atrevia a aproximar-se da casa, ou melhor, do quartel.
Tinha um hobby: criar galinhas. Possuía umas cinquenta cabeças, algumas de boa raça. Todo domingo, num espetáculo inédito, soltava as galinhas na rua e, de pijama e cinturão — com um bruto revólver do lado —, ficava vigiando o piquenique. Passados uns trinta minutos, bastava que fizesse um “Xô, galinha” para que as cinquenta, uma a uma, fossem voltando para o jardim da casa e, finalmente, ao galinheiro. Era uma prova eloquente de que a disciplina naquela casa era igual para todos.
Até que um domingo não foi bem assim. Lembro-me bem de uma galinha preta que não atendeu ao primeiro “xô”, provocando, com esse ato de rebeldia, uma repetição do mesmo, em tom menos amigo. Ocorreu uma nova desobediência, seguida de novo “xô”.
Mas a doida, naturalmente julgando-se uma galinha civil, novamente desatendeu a ordem. Considerando-a insubmissa, e passível de crime militar, uma vez que estávamos em guerra, o valente coronel sacou de sua arma e fez partir um balaço que deve ter ido direto ao coração da galinha. Que nem estrebuchou. Ficou o dia inteiro por ali mesmo, gelando o sangue, até que foi encontrada por um mulato que, à noite, na encruzilhada, ao lado do corpo de penas pretas fez acender sete velas de cera. Até hoje, porém, não se sabe se foi macumba ou velório. E a única testemunha do crime foi este seu criado que, a respeito, nunca prestou declarações, mesmo porque, até agora, nada lhe foi perguntado.
O cemitério
Amontoavam-se esculturas de mármore, vasos, cruzes e inscrições; iam além; erguiam pirâmides de pedra tosca, faziam caramanchéis extravagantes, imaginavam complicações de matos e plantas – coisas brancas e delirantes, de um mau gosto que irritava. As inscrições exuberavam; longas, cheias de nomes, sobrenomes e datas, não nos traziam à lembrança nem um nome ilustre sequer; em vão procurei ler nelas celebridades, notabilidades mortas; não as encontrei. E de tal modo a nossa sociedade nos marca um tão profundo ponto, que até ali, naquele campo de mortos, mudo laboratório de decomposição, tive uma imagem dela, feita inconscientemente de um propósito, firmemente desenhada por aquele acesso de túmulos pobres e ricos, grotescos e nobres, de mármore e pedra, cobrindo vulgaridades iguais umas às outras por força estranha às suas vontades, a lutar…
Fomos indo. A carreta, empunhada pelas mãos profissionais dos empregados, ia dobrando as alamedas, tomando ruas, até que chegou à boca do soturno buraco, por onde se via fugir, para sempre do nosso olhar, a humildade e a tristeza do contínuo da Secretaria dos Cultos.
Antes que lá chegássemos, porém, detive-me um pouco num túmulo de límpidos mármores, ajeitados em capela gótica, com anjos e cruzes que a rematavam pretensiosamente.
Nos cantos da lápide, vasos com flores de biscuit e, debaixo de um vidro, à nívea altura da base da capelinha, em meio corpo, o retrato da morta que o túmulo engolira. Como se estivesse na Rua do Ouvidor, não pude suster um pensamento mau e quase exclamei:
— Bela mulher!
Estive a ver a fotografia e logo em seguida me veio à mente que aqueles olhos, que aquela boca provocadora de beijos, que aqueles seios túmidos, tentadores de longos contatos carnais, estariam àquela hora reduzidos a uma pasta fedorenta, debaixo de uma porção de terra embebida de gordura.
Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo, e fugaz.
Abalei-me! Eu que dizia a todo o mundo que amava a vida, eu que afirmava a minha admiração pelas coisas da sociedade – eu meditar como um cientista profeta hebraico! Era estranho! Remanescente de noções que se me infiltraram e cuja entrada em mim mesmo eu não percebera! Quem pode fugir a elas?
Continuando a andar, adivinhei as mãos da mulher, diáfanas e de dedos longos; compus o seu busto ereto e cheio, a cintura, os quadris, o pescoço, esguio e modelado, as espáduas brancas, o rosto sereno e iluminado por um par de olhos indefinidos de tristeza e desejos…
Já não era mais o retrato da mulher do túmulo; era de uma, viva, que me falava.
Com que surpresa, verifiquei isso.
Pois eu, eu que vivia desde os dezesseis anos, despreocupadamente, passando pelos meus olhos, na Rua do Ouvidor, todos os figurinos dos jornais de modas, eu me impressionar por aquela menina do cemitério! Era curioso.
E, por mais que procurasse explicar, não pude.
domingo, maio 17
San Martín de los Andes
Em San Martín de los Andes devia nos aguardar um amigo chileno. Essa cidadezinha da cordilheira argentina é tão pequena que me tinham dito como indicação única:
– Vai para o melhor hotel que ali Pedrito Ramírez irá te buscar.
Mas assim são as coisas. Em San Martín de los Andes não havia um melhor hotel: havia dois. Qual deles escolher? Decidimo-nos pelo mais caro, situado num bairro mais afastado, preterindo o primeiro que tínhamos visto defronte da bela praça da cidade.
Aconteceu que o hotel que escolhemos era tão de primeira classe que não quiseram nos aceitar. Observaram com hostilidade os efeitos de vários dias de viagem a cavalo, nossos casacos ao ombro, nossas caras com barba por fazer e poeirentas. A qualquer um dava medo de nos receber.
Ainda mais o gerente de um hotel que hospedava nobres ingleses procedentes da Escócia e que tinham vindo para pescar salmão na Argentina. Nós não tínhamos nada de lords. O gerente deu-nos o vade retro, alegando com ademanes e gestos teatrais que o último quarto disponível tinha sido reservado há dez minutos. Nisso assomou à porta um elegante cavalheiro de inconfundível tipo militar, acompanhado por uma loura cinematográfica, que gritou com voz trovejante:
– Alto! Não se manda os chilenos embora de nenhuma parte. Eles ficam aqui!
E ficamos. Nosso protetor parecia-se tanto com Perón e sua dama com Evita que pensamos todos: São eles! Mas depois, já de banho tomado e vestidos com roupa limpa, sentados à mesa e degustando uma garrafa de champanha duvidosa, soubemos que o homem era comandante da guarnição local e ela uma atriz de Buenos Aires que vinha visitá-lo.
Passamos por madeireiros chilenos dispostos a fazer bons negócios. O comandante me chamava “o Homem Montanha”. Víctor Bianchi, que até ali me acompanhava por amizade e por amor à aventura, descobriu uma guitarra e com suas pícaras canções chilenas encantava a argentinos e argentinas. Porém passaram-se três dias com suas noites e Pedrito Ramírez não chegava para me buscar. Fiquei apreensivo. Já não nos restava camisa limpa nem dinheiro para comprar novas. Um bom negociante de madeira, dizia Víctor Bianchi, pelo menos deve ter camisas.
Enquanto isso, o comandante nos ofereceu um almoço em seu regimento. Sua amizade conosco fez-se mais estreita e confessou-nos que, apesar de sua semelhança física com Perón, era antiperonista. Passávamos longas horas discutindo quem teria pior presidente, se o Chile ou a Argentina.
Certa manhã Pedrito Ramírez entrou de improviso em meu quarto.
– Desgraçado! – gritei. – Por que demoraste tanto?
Tinha sucedido o inevitável. Ele esperava tranquilamente minha chegada no outro hotel, no da praça.
Dez minutos depois estávamos rodando pelo pampa infinito. E continuamos rodando dia e noite. De vez em quando os argentinos detinham o automóvel para preparar um mate e depois continuávamos atravessando aquela monotonia interminável.
Pablo Neruda, "Confesso que Vivi"
Acordai
Acordai, homens que dormis
A embalar a dor
Dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raiz!
Acordai!
Acordai, raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações...
Acordai!
Acendei, de almas e de sóis,
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!
E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais.
Acordai!
O caluniador
O professor de matemática Tarantuloff, o francês Padekoi e o inspetor de segunda classe da Câmara de Comprovação, Egor Venedictech Mzda, sentados em fila no divã, relataram, um depois do outro, a alguns convidados, casos de enterrados vivos e expunham a sua opinião sobre o espiritismo. Nenhum dos três acreditava nisso, mas admitiam que neste mundo há muitas coisas que a inteligência humana não pode conceber.
Na sala contínua, o professor de literatura Duduski explicou um outro grupo de questionados os casos em que uma sentinela pode atirar sobre os transeuntes. As conversas, como veem eram espantosas, mas muito decididas. Pelas janelas que davam para o pátio olhavam pessoas que, pela sua situação ou posição social, não tinham o direito de entrar na casa.
À meia-noite em ponto, o dono da casa, Akhineiev, entrou na cozinha para ver se estava tudo em ordem para a ceia. Encontrou a cozinha cheia do agradável cheiro dos gansos e patos assados. Sobre as mesas expostas em artes desordem os zakuskas e as bebidas. Junto das mesas passando e tornava a passar, muito atarefada, a cozinheira Marta, mulher rubicunda, de volumoso ventre envolvida em faixas.
— Vamos ver, querida, onde está o esturjão? — disse Khineiev esfregando as mãos e requebrando-se. — Que cheiro magnífico! Eu sou capaz de comer toda a cozinha. Vamos, vamos, onde está o esturjão?
Marta mudou-se de um dos bancos e cuidadosamente chamou uma folha de jornal engordurado. Debaixo dessa folha, em enorme travessa, jazia um enorme esturjão enfeitado com azeitonas, alcaparras e cenouras, Akhineiev contemplou o peixe e soltou um ah! O seu rosto resplandeceu e os olhos se lhe lançaram. Inclinou-se e produzido com os lábios som iguais ao de uma roda sem sebo.
—Ah! Som de um beijo apaixonado!… Marta, com quem você está beijando por aí?
Ouviu-se uma voz dizer isto da sala ao lado e à porta assomou a cabeça pelada do auxiliar Vankin.
— Com quem você está beijando? Muito bem! Com quem? Com Sergey Kapitonech? Fora com o avô! Tête-à-tête com uma mulher!
— Eu não estou beijando com ninguém — respondeu Akhineiev, algo confuso. — Quem você disse coisa semelhante, maluco? Fui eu que fiz com os lábios esse ruído, encantado pelo esturjão.
— Não me venha com histórias!
Vankin deixou escapar e sumiu da porta. Akhineiev ficou vermelho.
— Que bobagem! — pensar.
— Agora este maroto vai sair com chocarrices… Esse animal vai me ridicularizar pela cidade toda…
Akhineiev entrou timidamente no salão e olhou para Vankin de Soslaio. Este estava de pé junto do piano e, inclinado, em atitude decidida, disse alguma coisa em voz em baixa à cunhada do inspetor, que ria.
— Está falando de mim — inventou Akhineiev. — De mim! Assim, maldito! E ela acredita! Está rindo! Meu Deus! Não, isto não pode ficar assim!… De maneira alguma! Tenho que arranjar as coisas de modo que ninguém acredita… Falarei com todos e ele ficará sendo um mexeriqueiro estúpido.
Akhineiev coçou a nuca e, sem deixar de ficar confuso, mudou-se de Padekoi.
Estive agora mesmo na cozinha a dar ordens para a ceia — disse ao francês. — Creio que o senhor gosta muito de peixe. Mandei prepara um esturjão de primeira! Tem duas varas! Hé, hé, hé!… A propósito… Já me ia esquecendo. Com este esturjão ocorreu-me agora, na cozinha, um caso divertido. Eu estava de entrar na cozinha para deitar uma olhadela no manjar… Ao contemplar o esturjão, fiz com os lábios um ruído acabou parecido com um beijo forte, ao ver como ele estava apetitoso, e nesse momento entrou o imbecil do Vankin, que disse: “Ah! Com Marta, com a cozinheira!… Que coisas acontecem a essa idiota! Essa mulher não tem nem cara nem corpo! Parece um animal e ele… “Estão vocês se beijando!” Que homem tão vulgar!
— Quem é vulgar?! Disse Tarantuloff, que eles se mudaram nesse instante.
— Esse Vankin. Entrei na cozinha…
E começou a contar o que aconteceu.
— Fez-me rir esse homem vulgar. Parece-me que é mais agradável beijar o cachorro do que Marta — acrescentou Akhineiev, olhando em derredor e vendo Mzda atrás de si.
— Aqui estamos falando de Vankin — disse-lhe. — Que tipo! Entrei na cozinha e me vi junto de Marta; e toca a inventar coisas.
— Que disse ele?
— “Vocês estão se beijando?” Talvez estejamos embriagados e por isso pensei ver que estávamos nos beijando. Garanto que antes beijaria um peru do que Marta. Além disso, o idiota sabe que sou casado. Que vontade tenho de rir!
Quem o fez rir? — disse a Akhineiev, o professor de religião, unindo-se ao grupo.
-Vankin. Estava eu na cozinha Vendo o estuário…
Ao cabo de uns vinte minutos, toda a gente estava inteirada da história de Vankin e do esturjão.
— Que vá agora contar! — inventou Akhineiev, esfregando as mãos. — Começará com as suas tolices e todos logo lhe dirão: "Basta de maluquices, estúpido! Já sabemos tudo!"
E Akhineiev se tranquilizou a tal ponto que bebeu uns copos além do traje. Ao acompanhar depois da ceia os recém-casados ao dormitório, foi em seguida para o seu quarto e ficou dormindo como uma criança inocente, e no dia seguinte já não se lembrava de mais nada da história do esturjão.
Mas o homem põe e Deus apresenta. As mais línguas fizeram das suas e de nada serviram a Akhineiev na estratégia. Ao cabo de quatro semanas exatas, precisamente na quarta-feira, após a terceira lição, quando Akhineiev se dirigia para a sala dos professores e tratava das inclinações viciosas do aluno Vesekin, ele se mudou para o diretor, que o chamou à parte.
— Trata-se de Sergey Kapitonech — disse o diretor. — O senhor me desculpará… Não é coisa minha… Sem dúvida, espero fazer-lo compreender… A minha obrigação… O senhor verificará… Correm rumores de que o senhor vive com essa… com a cozinheira… Não é coisa minha, mas… mas… O senhor vive com ela… Beijam-se… Façam o que quiserem; mas, por favor, não o faça publicamente! Peço-lhe! Não se esqueça de que é um pedagogo!
Akhineiev ficou petrificado. Foi para casa tão dolorido como se o tivesse picado um enxame de abelhas ou como se ele tivesse despejado pela cabeça abaixo de um balde de água fervendo. Dirigiu-se para sua casa e pareceu-lhe que toda gente o olhou como se tivesse untado de breu!… Em sua casa esperava-o nova destruição.
—Por que não vem? — Disse-lhe a esposa, à refeição. — O que você pensa? Nos amores? Você está apreciando menos a Marta? Sei de tudo, canalha! Houve boas almas que me abriram os olhos Uh!, uh, uh!… Miserável!
E, zás, um bofetão em pleno rosto. Akhineiev declarou-se da mesa e, tonto sem gorro nem capote, partiu para a casa de Vankin. Justamente, o encontrei em casa.
—Canalha! É um canal! — exclamou Akhineiev, dirigindo-se a Vankin. — Por que eu me enlamei diante de toda a gente? Por que lançaste essa calúnia?
—Que calúnia? O que você está inventando?
— E quem tal que fez correr a mentira de que eu beijei Marta? Você vai querer dizer que não foste seu bandido?
Vankin pestanejou e agitou todo o seu rosto consumido; além dos olhos para o ícone e disse:
— Que Deus me castigue, que eu fique sem olhos, ou morra agora mesmo, se disse uma só palavra a teu respeito!
A sinceridade de Vankin não permitia menor dúvida. Evidentemente não fora ele o autor da Calúnia.
—Mas, quem teria dito? Quem? — pensei Akhineiev, passando em revista mental todos os seus conhecidos e dando pancadas no peito. — Quem terá sido?
Quem terá sido? — perguntamos nós também, ao leitor…
Minha rua
No tempo das férias escolares, havia nos passeios jogo de tampilha, pião e leilão de brinquedos. Jogar bola de gude ou bola era no meio da rua. Natural que durante o jogo surgissem disputas acaloradas, bate-boca, empurrões e até briga. Em pouco tempo tudo voltava ao normal. Os dias retomavam a sua temperatura agradável, como se nada de mais houvesse acontecido entre os que brigavam durante o jogo de futebol. Agora de vez em quando podia haver discussão acirrada, às vezes terminando em briga quando alguém dizia reiteiradas vezes que ali na rua o melhor jogador de bola não era seu irmão mais velho.
Naqueles idos que já vão longe não havia educação ambiental, os pais não se importavam se o menino tivesse uma atiradeira, andasse pelos quintais e outros locais da cidade caçando passarinho. Era uma atividade normal, que aperfeiçoava os brios de cada garoto. Os tempos eram outros, as brincadeiras e diversões não aconteciam com os jogos eletrônicos de hoje. Os meninos inventavam as aventuras, que tornavam a vida cheia de sustos esplêndidos, vitórias memoráveis.
Ninguém duvidasse, o estilingue mais certeiro não era o do irmão Orlando. No fim da tarde, o irmão chegava com a capanga cheia de passarinhos, eram abatidos com bala de estilingue no Jardim da Prefeitura ou em alguma roça próxima à cidade. O irmão no estilingue era mesmo um campeão. Ninguém ali na rua duvidasse da pontaria dele. Cada balaço que ele desferia acertava em passarinho pousado até em cocuruto de árvore alta.
Nossa rua ficava impregnada de um aroma verde, quando o homem passava com o tabuleiro de verduras na cabeça. Os ares coloridos, todos os dias, com o roxo da beterraba, o verde do repolho e o laranja da cenoura.
Era iluminada com a gritaria dos companheiros. Zoada havia de canto a canto. Corneta, apito, bangue-bangue, jogo de bola, pião rodava na mão e no chão.
Do que eu mais gostava era do jogo de bola. Quando a mulher gorda chegava no batente da porta, segurando a bola, que ela no mesmo instante furava, não encontrava um menino sequer pra perguntar quem foi o pestinho que acertou daquela vez a sua vidraça, dando-lhe outra vez um prejuízo danado.
Cedo, no outro dia, os companheiros voltavam ao jogo com bola de pano. Os lances aguerridos, rosto vermelho e suado, cabelos assanhados. Palavrão, bate-boca e, aos gritos, a comemoração da vitória.
A vidraça da janela de algum dos moradores de nossa rua não deixaria de ser acertada.
Ó que saudade da minha rua! Hoje, vejo-a estreita e nem tão comprida. Outrora tão grande para mim e os companheiros. O mundo ali cabia dentro das cores da verdura no tabuleiro. Bastava no leilão dos brinquedos, troca de gibi ou figurinhas do álbum de artistas do cinema americano, bala de estilingue nos quintais frutíferos, para não se falar no jogo de bola.
Ah, viver era uma canção verde como verde todos os dias a gente ouvia a voz do verdureiro. Era verde na voz dos companheiros colhendo coentro nos passeios.
Abóbora nas valetas. Couve-flor nos calçamentos.
sábado, maio 16
O cachorro e o frasco
E o cachorro, abanando o rabo, gesto que creio ser o equivalente do riso e do sorriso entre essas pobres criaturas, aproximou-se e apoiou curioso o focinho úmido na boca do frasco destampado; depois, recuando de um pulo, ainda latiu contra mim, como para reclamar.
– Ah, cachorro maldito, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o farejaria deliciado, e possivelmente o devorava. E assim, companheiro indigno da minha triste vida, descubro-te tal qual o público, a quem não convém jamais oferecer perfumes delicados, que o exasperam, mas vilezas cuidadosamente escolhidas.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Troia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.
Analfabetismo
Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:
— Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.
A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:
— A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.
Replico eu:
— Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…
— As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.
E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.
Machado de Assis. Obra completa, vol. III
Grande sertão: savana
A primeira edição de “Grande Sertão: Veredas” veio a público em maio de 1956, com a chancela da José Olympio Editora. Passaram-se 70 anos. Para assinalar a data, o Museu da Língua Portuguesa organizou, em São Paulo, uma sessão de leitura do romance. Participei do evento há exatamente uma semana, ao lado de Leda Maria Martins e de Bruna Beber.
Enquanto escutava as minhas companheiras lendo trechos do livro, enquanto eu mesmo lia, espantava-me com a vitalidade das palavras de João Guimarães Rosa. Setenta anos depois, o romance continua tão novo, tão vigoroso, tão surpreendente — na linguagem e no enredo — como quando chegou pela primeira vez às livrarias.
“Grande Sertão: Veredas” mudou para sempre a literatura brasileira. O que poucos brasileiros sabem é que também mudou, para sempre, a literatura angolana e, numa segunda etapa — eco de um eco —, a literatura moçambicana.
Em 1964, o angolano José Vieira Mateus da Graça foi enviado para o campo de concentração do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, acusado de ligações com os movimentos independentistas. No Tarrafal, hoje transformado em museu, estavam presos muitos portugueses ligados aos partidos que se opunham à ditadura salazarista, além de numerosos nacionalistas africanos.
Naquela época, José da Graça já era o escritor Luandino Vieira, nome com o qual assinara um breve livro de contos, “Luuanda”, que em 1965 recebeu um dos mais prestigiados prêmios literários portugueses. O caso provocou enorme escândalo político e levou ao fechamento da Associação Portuguesa de Escritores, responsável pela premiação — e acusada, por isso, de ter premiado um “terrorista”.
Em 1969, Luandino recebeu na prisão um exemplar de “Grande Sertão: Veredas”. O diretor da cadeia tentou ler o livro para averiguar sua eventual natureza subversiva, mas desistiu logo nas primeiras páginas.
— Isto é ininteligível — teria comentado.
A iliteracia da polícia política portuguesa beneficiou Luandino Vieira — e toda a literatura angolana.
Lendo João Guimarães Rosa, Luandino compreendeu que também podia subverter a língua portuguesa, angolanizando-a, criando assim uma literatura que se afastasse da portuguesa. Era um projeto político, tanto quanto literário.
Os livros de Luandino ganharam enorme densidade e um tempero único. Lendo, por exemplo, “Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu” ou o belíssimo “Nós, os do Makulusu”, adivinha-se a sombra tutelar de Rosa. Contudo, já estamos, definitivamente, em outro universo.
Muitos anos depois, um jovem moçambicano leu Luandino e, estudando o português popular de seu país — profundamente contaminado pelas línguas locais —, experimentou um exercício semelhante. Assim nasceu Mia Couto.
Se Luandino é filho de Rosa, Mia é neto. Essa improvável linhagem literária constitui uma das mais belas aventuras da literatura em língua portuguesa.
Setenta anos depois, “Grande Sertão: Veredas” continua produzindo futuros. Há livros que envelhecem. Outros frutificam e espalham sementes. Às vezes, do sertão para a savana.
sexta-feira, maio 15
A lua dos fodidos
Um vento gelado espetou-lhe as orelhas, desceu pelo pescoço até o peito, arrepiou-lhe o corpo encolhido. Outono, maio, a rua deserta no final da tarde parecia vazia demais. Ou era o estômago roncando? Ergueu a lapela do paletó puído, tentou enfiar o queixo sob a gola da camiseta; o bafo quente da própria respiração deu-lhe algum conforto. Que frio! A noite seria pior. Quem disse que o inferno é quente?
Quando o cheiro de pizza atravessou a calçada, apalpou os bolsos vazios. Talvez mais tarde conseguisse alguma sobra. Apesar da carestia. Margherita. E ânimo para adiantar o pedido, deixar acertado com o porteiro? Simpático até, o cearense. Engoliu em seco. Ar sem gosto.
Começou a tremer. Batendo os dentes, viu de repente o pesadelo do irmão. Embora miseravelmente triste, sorriu. A caveira dançando, abrindo e fechando a boca, o ruído estridente dos maxilares se chocando. Calma, Zé, fantasma não existe! Não naquele tempo. Apenas mais tarde eles o assombrariam. Tentou controlar o sacudir involuntário. Mas o frio era tanto… Ainda não tinha reparado na dor daquele balanço das carnes. Poucas, magras, feridas. E tremeu tudo o que podia tremer. Tanto assim que se desapercebeu do sacolejar, acostumou-se.
A sonolência chegou meio fora de hora. Junto com a lua. Não a dos apaixonados. Aquela em que recebeu o primeiro beijo na boca, na pracinha. Margarida, namorada. Algodão-doce, carrossel, Margarida. O pensamento insistia em carregar seu coração para trás. Encolhido, resolveu deitar-se. Quase se sentiu bem. Torpor, um cansaço tão grande… Tentou cantar, mas percebeu a língua enrolando, as palavras tropeçando, escorregando na saliva. Apalpou do lado e encontrou a garrafa. Puxou a rolha e deu um gole. O fogo desceu, aquecendo as entranhas. Se tivesse um cobertor, certamente o poria de lado, calor bom. Acomodou-se melhor e pareceu-lhe estar em Riacho Velho. Uma charrete passou. Era o Edvaldo e seu amigo Tordilho. Certamente voltavam para a fazenda. Dona Ermelinda, professora, escurecendo a calçada. Diacho de velha ruim! Por detrás dela, a parede caiada do cemitério pichada: Aqui vivem os mortos! Margarida na janela. Saudade.
Aos poucos, foi amolecendo, quieto, respirando pouco, lentamente, quase nada. Ainda se lembrou dos seis graus anunciados. Será? Tão frio… Devia ser menos. Cidade grande, enorme, monstra. A parede dura ofendeu-lhe a nuca. Mas não mudou de posição. Fechou os olhos assim, molambo. Pano velho e sujo. Amolengado. E esqueceu-se de viver.
O padre então chorou. Pobrezinhos dos viventes da rua! Com os olhos rasos, olhou para cima e viu a mesma lua. Enorme. A lua dos fodidos.
Off Price
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado...
Os desastres de Sofia
O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho:
— Cale-se ou expulso a senhora da sala.
Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto do ódio daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava. Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia. Eu o espicaçava, e ao conseguir exacerbá-lo sentia na boca, em glória de martírio, a acidez insuportável da begônia quando é esmagada entre os dentes; e roía as unhas, exultante. De manhã, ao atravessar os portões da escola, pura como ia com meu café com leite e a cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homem que me fizera devanear por um abismal minuto antes de dormir. Em superfície de tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos séculos de escuríssima doçura. De manhã — como se eu não tivesse contado com a existência real daquele que desencadeara meus negros sonhos de amor — de manhã, diante do homem grande com seu paletó curto, em choque eu era jogada na vergonha, na perplexidade e na assustadora esperança. A esperança era o meu pecado maior.
Cada dia renovava-se a mesquinha luta que eu encetara pela salvação daquele homem. Eu queria o seu bem, e em resposta ele me odiava. Contundida, eu me tornara o seu demônio e tormento, símbolo do inferno que devia ser para ele ensinar aquela turma risonha de desinteressados. Tornara-se um prazer já terrível o de não deixá-lo em paz. O jogo, como sempre, me fascinava. Sem saber que eu obedecia a velhas tradições, mas com uma sabedoria com que os ruins já nascem — aqueles ruins que roem as unhas de espanto —, sem saber que obedecia a uma das coisas que mais acontecem no mundo, eu estava sendo a prostituta e ele o santo. Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar — uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer desabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras. Assim, pois, não falarei mais no sorvedouro que havia em mim enquanto eu devaneava antes de adormecer. Senão eu mesma terminarei pensando que era apenas essa macia voragem o que me impelia para ele, esquecendo minha desesperada abnegação. Eu me tornara a sua sedutora, dever que ninguém me impusera. Era de se lamentar que tivesse caído em minhas mãos erradas a tarefa de salvá-lo pela tentação, pois de todos os adultos e crianças daquele tempo eu era provavelmente a menos indicada. "Essa não é flor que se cheire", como dizia nossa empregada. Mas era como se, sozinha com um alpinista paralisado pelo terror do precipício, eu, por mais inábil que fosse, não pudesse senão tentar ajudá-lo a descer. O professor tivera a falta de sorte de ter sido logo a mais imprudente quem ficara sozinha com ele nos seus ermos. Por mais arriscado que fosse o meu lado, eu era obrigada a arrastá-lo para o meu lado, pois o dele era mortal. Era o que eu fazia, como uma criança importuna puxa um grande pela aba do paletó. Ele não olhava para trás, não perguntava o que eu queria, e livrava-se de mim com um safanão. Eu continuava a puxá-lo pelo paletó, meu único instrumento era a insistência. E disso tudo ele só percebia que eu lhe rasgava os bolsos. É verdade que nem eu mesma sabia ao certo o que fazia, minha vida com o professor era invisível. Mas eu sentia que meu papel era ruim e perigoso: impelia-me a voracidade por uma vida real que tardava, e pior que inábil, eu também tinha gosto em lhe rasgar os bolsos. Só Deus perdoaria o que eu era porque só Ele sabia do que me fizera e para o quê. Eu me deixava, pois, ser matéria d'Ele. Ser matéria de Deus era a minha única bondade. E a fonte de um nascente misticismo. Não misticismo por Ele, mas pela matéria d'Ele, mas pela vida crua e cheia de prazeres: eu era uma adoradora. Aceitava a vastidão do que eu não conhecia e a ela me confiava toda, com segredos de confessionário. Seria para as escuridões da ignorância que eu seduzia o professor? e com o ardor de uma freira na cela. Freira alegre e monstruosa, ai de mim. E nem disso eu poderia me vangloriar: na classe todos nós éramos igualmente monstruosos e suaves, ávida matéria de Deus.
Clarice Lispector, "A Legião Estrangeira"