Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
domingo, setembro 6
O papagaio de Braga
Diz-se que o cronista é um andarilho urbano. Um flâneur — como definem os pedantes. Uma figura fugidia e incerta, que vagueia pelas ruas e se deixa impregnar pelo que vê. Sem ter coisa melhor para dizer, não posso negar, eu mesmo já repeti isso muitas vezes. Em que triste pessoa eu me transformo nessas horas. Abdico de pensar e me torno um repetidor. Um papagaio. Traio assim a própria crônica, que não deve ser repetição, mas criação.
Agora mesmo, tendo que entregar minha crônica mensal ao senhor Pereira, aqui estou eu, andando pelo calçadão da Rua XV, esforçando-me para imitar Rubem Braga. Melhor dizer: para ser seu papagaio. Mas serão os papagaios cronistas? Preciso admitir: transformo-me, assim, em um ser preguiçoso e patético. Um zumbi da literatura. Ando, ando, entro em cafés, botecos e galerias, observo os pedestres. Esforço-me para estar à altura da tradição literária em que ousei me meter. Mas não chego a nada, a não ser ao fracasso. Repetir é a forma mais grave de fracassar.
Como costumo fazer nos momentos em que nada funciona, experimento inverter meus pensamentos. Decido que, em vez de andar, preciso parar. E que, no lugar de procurar, devo definir de antemão o que busco. Devo achar antes de procurar. Abandonar a vadiagem intelectual e me agarrar a um sentido. Também o cronista pode saber o que quer, por que não? Posto isso, eu me pergunto: o que eu quero?
Para facilitar minha busca, resolvo me fixar na primeira imagem que surgir à minha frente. Inspiro-me, de novo, em Rubem Braga, que só escreveu A borboleta amarela, uma de suas crônicas mais célebres, porque, um dia, caminhando atrasado pelo centro do Rio de Janeiro, esbarrou com uma borboleta amarela e deixou tudo de lado para segui-la. Foi a partir de uma escolha, e não de uma procura errática, que Braga se tornou um grande cronista. O mestre de todos nós.
Talvez, mais do que um flâneur, o cronista seja um detetive. Não um detetive que recebe encomendas, mas alguém que escolhe ele mesmo o que busca. Um detetive particular — tão particular que, além de ser o investigador, ele é, ao mesmo tempo, o cliente que lhe requisita o serviço. Alguém que sustenta suas escolhas. Esqueçam a cidade e seus flâneurs, os andarilhos sem rumo, nada disso interessa. Tudo se passa dentro, e não fora do cronista. Muito bem. Mas o que desejo investigar? Preciso eleger um objeto de posse. O primeiro objeto que — como uma borboleta amarela — surgir diante de mim. Mas terá sido assim, com uma postura assertiva e um olhar decidido, de “homem que sabe o que quer”, que Rubem Braga encontrou sua borboleta amarela? Parece que não.
Trato de reler a crônica, de 1953. Não, não foi com essa postura reta e positiva que Braga chegou à sua borboleta. Caminhava pelo centro do Rio, apressado — tinha algum compromisso, uma entrevista de trabalho, um dentista — e foi por acaso, distraído, que ele encontrou seu objeto amado e dele se apossou. A partir do momento em que o encontrou, deixou tudo para trás e não o largou mais. Não flanou, amou.
Pois bem, e eu? Em vez de procurar, preciso escolher. Detenho-me no meio do calçadão e fecho os olhos. Ao abri-los, o que vejo? Um vira-latas que fuça numa floreira. Eis minha borboleta, que não é uma borboleta, nem é amarela: é um cachorro. Um cachorro malhado, que zanza pela Rua XV. Ele sim, o verdadeiro flâneur. É preciso deixar claro de uma vez: o flâneur é ele, o cachorro, eu não passo de um cronista. Digo mais: um cronista que, a partir desse momento, se dedica a investigá-lo. A partir de agora, o vira-latas é o objeto do detetive em que me transformei. Eu, o perseguidor. Ele, a vítima. Vamos atrás do bicho.
Mas penso: talvez eu esteja enganado. Vira-latas buscam, quase sempre, alguma coisa também. Um osso, um resto de comida, uma porcaria qualquer que lhes sirva de alimento. Não andam à toa, não flanam, sabem o que querem. Avançam ansiosos, com a língua de fora e a passos tortos. Diante dessa constatação, muito constrangido, vejo-me obrigado a perguntar: será o vira-latas malhado também um cronista? Talvez não. Parece que o vira-latas não busca algo fora dele. O que ele mais quer é matar algo que está dentro dele — sua imensa fome. O que ele busca é o fim de toda busca. Será o vira-latas um monge?
Enrolado em meus pensamentos, já ia perdendo o vira-latas de vista. Ele cheira árvores, urina em postes, desvia-se das pessoas. E corre. Terei fôlego para acompanhá-lo? Uma mulher me olha com espanto. O que as pessoas veem quando me veem? O que a mulher vê em mim enquanto corro? Um cronista? Talvez ela nem saiba da existência das crônicas. A mulher se limita a ver um homem que corre atrás de um cachorro. Cena estranha, bizarra, não deveria ser o contrário? Nos filmes e nas novelas, são os cachorros que correm atrás dos homens. Se um leitor de crônicas, sentado em um dos bancos do calçadão, estiver observando essa cena, o que fará? Escreverá uma crônica?
Preciso me agarrar a meu objeto. Mas posso ter errado. Talvez meu objeto seja o homem de sobretudo que vem em minha direção. Talvez a menina que berra à porta da sorveteria. Pode ser o guarda de trânsito que apita na esquina. Vacilo e não consigo me decidir. Até que, sem nenhum interesse por nenhuma dessas figuras, indisposto e vazio, me vejo refletido no vidro de uma loja. Paro e, assustado, me olho. Me observo, enquanto alguma coisa se agita dentro de mim. Talvez, enfim, eu tenha chegado ao que busco. E se o objeto que busco for eu mesmo?
Desmancha-se, com isso, tudo em que sempre acreditei, tudo o que eu sempre disse a respeito das crônicas e dos cronistas. E se desfazem também todos os desmentidos que levantei a respeito. Parece que eu descobri: os objetos da crônica — uma borboleta amarela, um conde e seu passarinho, um pé de milho — não passam de disfarces que o cronista usa para falar de si mesmo. Máscaras, como no carnaval, usadas para esconder a grande melancolia que os cronistas levam no peito. Como não querem exibir sua dor, disfarçam-se. Uma vez fantasiados, escrevem crônicas. E assim, quando o olham, dizem: “Lá vai um cronista”.
Agora mesmo, tendo que entregar minha crônica mensal ao senhor Pereira, aqui estou eu, andando pelo calçadão da Rua XV, esforçando-me para imitar Rubem Braga. Melhor dizer: para ser seu papagaio. Mas serão os papagaios cronistas? Preciso admitir: transformo-me, assim, em um ser preguiçoso e patético. Um zumbi da literatura. Ando, ando, entro em cafés, botecos e galerias, observo os pedestres. Esforço-me para estar à altura da tradição literária em que ousei me meter. Mas não chego a nada, a não ser ao fracasso. Repetir é a forma mais grave de fracassar.
Como costumo fazer nos momentos em que nada funciona, experimento inverter meus pensamentos. Decido que, em vez de andar, preciso parar. E que, no lugar de procurar, devo definir de antemão o que busco. Devo achar antes de procurar. Abandonar a vadiagem intelectual e me agarrar a um sentido. Também o cronista pode saber o que quer, por que não? Posto isso, eu me pergunto: o que eu quero?
Para facilitar minha busca, resolvo me fixar na primeira imagem que surgir à minha frente. Inspiro-me, de novo, em Rubem Braga, que só escreveu A borboleta amarela, uma de suas crônicas mais célebres, porque, um dia, caminhando atrasado pelo centro do Rio de Janeiro, esbarrou com uma borboleta amarela e deixou tudo de lado para segui-la. Foi a partir de uma escolha, e não de uma procura errática, que Braga se tornou um grande cronista. O mestre de todos nós.
Talvez, mais do que um flâneur, o cronista seja um detetive. Não um detetive que recebe encomendas, mas alguém que escolhe ele mesmo o que busca. Um detetive particular — tão particular que, além de ser o investigador, ele é, ao mesmo tempo, o cliente que lhe requisita o serviço. Alguém que sustenta suas escolhas. Esqueçam a cidade e seus flâneurs, os andarilhos sem rumo, nada disso interessa. Tudo se passa dentro, e não fora do cronista. Muito bem. Mas o que desejo investigar? Preciso eleger um objeto de posse. O primeiro objeto que — como uma borboleta amarela — surgir diante de mim. Mas terá sido assim, com uma postura assertiva e um olhar decidido, de “homem que sabe o que quer”, que Rubem Braga encontrou sua borboleta amarela? Parece que não.
Trato de reler a crônica, de 1953. Não, não foi com essa postura reta e positiva que Braga chegou à sua borboleta. Caminhava pelo centro do Rio, apressado — tinha algum compromisso, uma entrevista de trabalho, um dentista — e foi por acaso, distraído, que ele encontrou seu objeto amado e dele se apossou. A partir do momento em que o encontrou, deixou tudo para trás e não o largou mais. Não flanou, amou.
Pois bem, e eu? Em vez de procurar, preciso escolher. Detenho-me no meio do calçadão e fecho os olhos. Ao abri-los, o que vejo? Um vira-latas que fuça numa floreira. Eis minha borboleta, que não é uma borboleta, nem é amarela: é um cachorro. Um cachorro malhado, que zanza pela Rua XV. Ele sim, o verdadeiro flâneur. É preciso deixar claro de uma vez: o flâneur é ele, o cachorro, eu não passo de um cronista. Digo mais: um cronista que, a partir desse momento, se dedica a investigá-lo. A partir de agora, o vira-latas é o objeto do detetive em que me transformei. Eu, o perseguidor. Ele, a vítima. Vamos atrás do bicho.
Mas penso: talvez eu esteja enganado. Vira-latas buscam, quase sempre, alguma coisa também. Um osso, um resto de comida, uma porcaria qualquer que lhes sirva de alimento. Não andam à toa, não flanam, sabem o que querem. Avançam ansiosos, com a língua de fora e a passos tortos. Diante dessa constatação, muito constrangido, vejo-me obrigado a perguntar: será o vira-latas malhado também um cronista? Talvez não. Parece que o vira-latas não busca algo fora dele. O que ele mais quer é matar algo que está dentro dele — sua imensa fome. O que ele busca é o fim de toda busca. Será o vira-latas um monge?
Enrolado em meus pensamentos, já ia perdendo o vira-latas de vista. Ele cheira árvores, urina em postes, desvia-se das pessoas. E corre. Terei fôlego para acompanhá-lo? Uma mulher me olha com espanto. O que as pessoas veem quando me veem? O que a mulher vê em mim enquanto corro? Um cronista? Talvez ela nem saiba da existência das crônicas. A mulher se limita a ver um homem que corre atrás de um cachorro. Cena estranha, bizarra, não deveria ser o contrário? Nos filmes e nas novelas, são os cachorros que correm atrás dos homens. Se um leitor de crônicas, sentado em um dos bancos do calçadão, estiver observando essa cena, o que fará? Escreverá uma crônica?
Preciso me agarrar a meu objeto. Mas posso ter errado. Talvez meu objeto seja o homem de sobretudo que vem em minha direção. Talvez a menina que berra à porta da sorveteria. Pode ser o guarda de trânsito que apita na esquina. Vacilo e não consigo me decidir. Até que, sem nenhum interesse por nenhuma dessas figuras, indisposto e vazio, me vejo refletido no vidro de uma loja. Paro e, assustado, me olho. Me observo, enquanto alguma coisa se agita dentro de mim. Talvez, enfim, eu tenha chegado ao que busco. E se o objeto que busco for eu mesmo?
Desmancha-se, com isso, tudo em que sempre acreditei, tudo o que eu sempre disse a respeito das crônicas e dos cronistas. E se desfazem também todos os desmentidos que levantei a respeito. Parece que eu descobri: os objetos da crônica — uma borboleta amarela, um conde e seu passarinho, um pé de milho — não passam de disfarces que o cronista usa para falar de si mesmo. Máscaras, como no carnaval, usadas para esconder a grande melancolia que os cronistas levam no peito. Como não querem exibir sua dor, disfarçam-se. Uma vez fantasiados, escrevem crônicas. E assim, quando o olham, dizem: “Lá vai um cronista”.
A casa rouca
Ficara o galo, sobrevivência da ruína.
Rouco o seu canto.
Canto que não parecia mais de galo,
senão a própria voz da casa abandonada.
Casa rachada ao sol, aluindo-se ao vento de chuva.
Não mais agora figuras humanas entrando;
apenas lagartixas e morcegos para recepção às sombras.
Casa rouca submersa no matagal, teu galo ficou.
E seu canto perdeu o timbre de sol,
já não inaugura os dias.
E se fez adequado aos estragos do reboco,
à podridão das esquadrias –
última secreção de pareces gemidas.
Galo rouco. Casa rouca.
Rouco o seu canto.
Canto que não parecia mais de galo,
senão a própria voz da casa abandonada.
Casa rachada ao sol, aluindo-se ao vento de chuva.
Não mais agora figuras humanas entrando;
apenas lagartixas e morcegos para recepção às sombras.
Casa rouca submersa no matagal, teu galo ficou.
E seu canto perdeu o timbre de sol,
já não inaugura os dias.
E se fez adequado aos estragos do reboco,
à podridão das esquadrias –
última secreção de pareces gemidas.
Galo rouco. Casa rouca.
Aníbal Machado
O céu é muito longe
O menino tinha cinco anos e algumas convicções. Uma delas era não gostar da escolinha. Toda tarde, quando precisava ir, ele protestava, chorava, esperneava. Só depois de muita resistência acabava indo. E ia porque outra de suas convicções era a de que não havia um gato mais bonito que o da dona da escolinha.
O gato se chamava Bonito – o menino pronunciava Monito – e ficava escarrapachado num sofá, na secretaria. Por isso, as mães de alguns alunos diziam que ele era o secretário da escola.
O menino via o gato só na entrada e na saída, mas sabia – essa era mais uma de suas convicções – que, de todos os meninos e meninas da escola, era dele que Monito mais gostava. Esses dois momentos únicos serviam para tornar menos sofridas as tardes.
Um dia, ao chegar à escola, ele não viu o gato.
“Cadê o Monito?”, perguntou, primeiro à mãe e depois à dona da escola.
As duas trocaram gestos e ele ficou sem resposta. Na saída, o sofá vazio o fez repetir a pergunta. A dona da escola, dando-lhe um beijo, disse que o gato estava viajando.
Na tarde seguinte, o menino quis novamente saber do gato, e a dona da escola respondeu que ele tinha ido para o céu. Por uma semana o menino perguntou se Monito havia voltado. Sem o gato, as tardes se fizeram insuportáveis para ele. Agora, dava ainda maior valor aos sábados e domingos, dias em que ia à casa do avô para brincar com ele.
Não trocaria o avô por nenhum outro. O máximo que aceitaria fazer seria mudar uma coisinha ou outra nele. Por exemplo, gostaria que ele soubesse brincar um pouco melhor. O avô tinha boa vontade, esforçava-se, mas não brincava direito de nada: nem de jogar bola, nem de empurrar carrinho de plástico, nem de lutar espada.
Um domingo, o menino propôs ao avô que fossem ao quintal para experimentar a eficiência de um esguichador de água. No começo, o avô se saiu muito bem. Os dois puseram uma latona sem tampa no chão e, em cinco minutos, recarregando várias vezes o espirrador no tanque e revezando-se nos disparos, conseguiram enchê-la até transbordar. Uma façanha! O garoto se pôs a pular:
“Viva! Viva! Nós dois, vô, somos os maiores enchedores de lata do mundo!”
O problema ocorreu depois. Vendo uma aranhinha no muro, o avô sugeriu uma brincadeira: fazer, com os jatos do espirrador, um círculo em volta da aranha. Seria um rio que ela teria de atravessar. O menino aprovou a ideia e, com três disparos certeiros, desenhou metade do círculo. Depois, passou o esguichador ao avô: completa, vô! Foi um grande erro. Com a inabilidade de sempre, o avô apertou o gatilho e atingiu a aranhinha em cheio.
“Para, vô”, gritou o menino, mas o avô já havia disparado mais um jato forte e acertado de novo a aranha, que ficou grudada no muro.
“Acho que ela morreu, vô.”
O avô disse que não, que ela estava viva, ms era mais um de seus enganos. A aranha estava morta, bem morta, e o menino começou a chorar.
“Calma, calma”, pediu o avô. “Chorar por quê? Ela agora vai para o céu.”
Ao ouvir isso, o menino, chorando ainda mais desconsoladamente, correu para a a cozinha.
Voltou um minuto depois, com uma caixa de fósforos vazia. Pegou a aranhinha com muito cuidado e colocou-a dentro da caixa:
“Ela não vai pro céu nada. Eu não deixo. Se ela for, ela não volta mais, eu sei, que nem o Monito. Ela vai ficar comigo. Comigo!”
Foi a primeira vez que olhou com ressentimento para o avô.
O gato se chamava Bonito – o menino pronunciava Monito – e ficava escarrapachado num sofá, na secretaria. Por isso, as mães de alguns alunos diziam que ele era o secretário da escola.
O menino via o gato só na entrada e na saída, mas sabia – essa era mais uma de suas convicções – que, de todos os meninos e meninas da escola, era dele que Monito mais gostava. Esses dois momentos únicos serviam para tornar menos sofridas as tardes.
Um dia, ao chegar à escola, ele não viu o gato.
“Cadê o Monito?”, perguntou, primeiro à mãe e depois à dona da escola.
As duas trocaram gestos e ele ficou sem resposta. Na saída, o sofá vazio o fez repetir a pergunta. A dona da escola, dando-lhe um beijo, disse que o gato estava viajando.
Na tarde seguinte, o menino quis novamente saber do gato, e a dona da escola respondeu que ele tinha ido para o céu. Por uma semana o menino perguntou se Monito havia voltado. Sem o gato, as tardes se fizeram insuportáveis para ele. Agora, dava ainda maior valor aos sábados e domingos, dias em que ia à casa do avô para brincar com ele.
Não trocaria o avô por nenhum outro. O máximo que aceitaria fazer seria mudar uma coisinha ou outra nele. Por exemplo, gostaria que ele soubesse brincar um pouco melhor. O avô tinha boa vontade, esforçava-se, mas não brincava direito de nada: nem de jogar bola, nem de empurrar carrinho de plástico, nem de lutar espada.
Um domingo, o menino propôs ao avô que fossem ao quintal para experimentar a eficiência de um esguichador de água. No começo, o avô se saiu muito bem. Os dois puseram uma latona sem tampa no chão e, em cinco minutos, recarregando várias vezes o espirrador no tanque e revezando-se nos disparos, conseguiram enchê-la até transbordar. Uma façanha! O garoto se pôs a pular:
“Viva! Viva! Nós dois, vô, somos os maiores enchedores de lata do mundo!”
O problema ocorreu depois. Vendo uma aranhinha no muro, o avô sugeriu uma brincadeira: fazer, com os jatos do espirrador, um círculo em volta da aranha. Seria um rio que ela teria de atravessar. O menino aprovou a ideia e, com três disparos certeiros, desenhou metade do círculo. Depois, passou o esguichador ao avô: completa, vô! Foi um grande erro. Com a inabilidade de sempre, o avô apertou o gatilho e atingiu a aranhinha em cheio.
“Para, vô”, gritou o menino, mas o avô já havia disparado mais um jato forte e acertado de novo a aranha, que ficou grudada no muro.
“Acho que ela morreu, vô.”
O avô disse que não, que ela estava viva, ms era mais um de seus enganos. A aranha estava morta, bem morta, e o menino começou a chorar.
“Calma, calma”, pediu o avô. “Chorar por quê? Ela agora vai para o céu.”
Ao ouvir isso, o menino, chorando ainda mais desconsoladamente, correu para a a cozinha.
Voltou um minuto depois, com uma caixa de fósforos vazia. Pegou a aranhinha com muito cuidado e colocou-a dentro da caixa:
“Ela não vai pro céu nada. Eu não deixo. Se ela for, ela não volta mais, eu sei, que nem o Monito. Ela vai ficar comigo. Comigo!”
Foi a primeira vez que olhou com ressentimento para o avô.
Inimigos em casa
Outubro de 2008
Dia 2
Que a família está em crise ninguém se atreverá a negá-lo, por muito que a Igreja Católica tente disfarçar o desastre sob a capa de uma retórica melíflua que já nem a ela própria engana, que muitos dos denominados valores tradicionais de convivência familiar e social se foram pelo cano abaixo arrastando consigo até aqueles que deveriam ter sido defendidos dos contínuos ataques desferidos pela sociedade altamente conflitiva em que vivemos, que a escola moderna, continuadora da escola velha, aquela que, durante sucessivas gerações, foi tacitamente encarregada, à falta de melhor, de suprir as falhas educacionais dos agregados familiares, está paralisada, acumulando contradições, erros, desorientada entre métodos pedagógicos que em realidade não o são, e que, demasiadas vezes, não passam de modas passageiras ou de experimentos voluntaristas condenados ao fracasso pela própria ausência de madurez intelectual e pela dificuldade de formular e responder à pergunta, essencial em minha opinião: que cidadão estamos a querer formar? O panorama não é agradável à vista. Singularmente, os nossos mais ou menos dignos governantes não parecem preocupar-se com estes problemas tanto quanto deveriam, talvez porque pensam que, sendo os ditos problemas universais, a solução, quando vier a ser encontrada, será automática, para toda a gente.
Não estou de acordo. Vivemos numa sociedade que parece ter feito da violência um sistema de relações. A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado, irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite, os vídeo-jogos que são como manuais de instruções para alcançar a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas, enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes, esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe, cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa: são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.
Dia 2
Que a família está em crise ninguém se atreverá a negá-lo, por muito que a Igreja Católica tente disfarçar o desastre sob a capa de uma retórica melíflua que já nem a ela própria engana, que muitos dos denominados valores tradicionais de convivência familiar e social se foram pelo cano abaixo arrastando consigo até aqueles que deveriam ter sido defendidos dos contínuos ataques desferidos pela sociedade altamente conflitiva em que vivemos, que a escola moderna, continuadora da escola velha, aquela que, durante sucessivas gerações, foi tacitamente encarregada, à falta de melhor, de suprir as falhas educacionais dos agregados familiares, está paralisada, acumulando contradições, erros, desorientada entre métodos pedagógicos que em realidade não o são, e que, demasiadas vezes, não passam de modas passageiras ou de experimentos voluntaristas condenados ao fracasso pela própria ausência de madurez intelectual e pela dificuldade de formular e responder à pergunta, essencial em minha opinião: que cidadão estamos a querer formar? O panorama não é agradável à vista. Singularmente, os nossos mais ou menos dignos governantes não parecem preocupar-se com estes problemas tanto quanto deveriam, talvez porque pensam que, sendo os ditos problemas universais, a solução, quando vier a ser encontrada, será automática, para toda a gente.
Não estou de acordo. Vivemos numa sociedade que parece ter feito da violência um sistema de relações. A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado, irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite, os vídeo-jogos que são como manuais de instruções para alcançar a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas, enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes, esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe, cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa: são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.
José Saramago, "O caderno"
sexta-feira, setembro 4
O mistério do sangue
A cidade de Siena estava como o doente que debalde busca uma boa posição na cama e acredita, ao se virar, iludir a dor. Várias vezes mudara o governo da república, que passou dos cônsules para as assembleias burguesas e que, primeiro confiado aos nobres, foi a seguir exercido pelos cambistas, os tecelões, os boticários, os peleiros, os negociantes de seda e todas as pessoas dedicadas às artes superiores. Mas tendo esses burgueses se revelado fracos e gananciosos, o povo os expulsou por sua vez e entregou o poder aos pequenos artífices. No ano de 1368 da gloriosa Encarnação do Filho de Deus, o governo foi composto de quatorze magistrados escolhidos entre os barreteiros, os magarefes, os serralheiros, os sapateiros e os pedreiros, que formaram o grande conselho chamado o Monte dos Reformadores. Eram plebeus rudes como a Loba de bronze, emblema da cidade, que amavam com um amor filial e terrível. Mas o povo, que os havia estabelecido sobre a república, deixara subsistir acima deles os Doze, pertencentes à classe dos banqueiros e dos ricos mercadores. Estes conspiravam com os nobres, à instigação .do imperador, para vender a cidade ao papa.
O césar alemão era a alma do conluio; prometia mercenários para garantir o êxito. Era grande a sua pressa para a conclusão do negócio, calculando que com o preço da venda poderia reaver a coroa de Carlos Magno empenhada por seiscentos e vinte florins aos banqueiros de Florença. Entretanto, os do Monte dos Reformadores, que compunham o governo, seguravam firme, a chibata do comando e velavam pela salvação da república. Esses artesãos, magistrados de um povo livre, haviam interditado ao imperador, entrado nos seus muros, o pão, a água, o sal e o fogo; haviam-no expulsado gemente e trêmulo, e condenavam os conspiradores à pena capital. Guardiões da cidade fundada pelo antigo Remo imitavam a severidade dos primeiros cônsules de Roma. Mas a sua cidade, vestida de ouro e seda, deslizava-lhes entre as mãos como uma cortesã lasciva e pérfida. E a inquietude os tornava impiedosos.
No ano de 1370, souberam que um gentil-homem de Perusa, Nicolas Tuldo, havia sido enviado pelo papa afim de induzir os sienenses a entregar, de acordo com o imperador, a cidade ao Santo Padre. Esse senhor estava na flor da mocidade e da beleza e aprendera entre as fidalgas essa arte de agradar e seduzir, que exercia agora no palácio dos Salembeni e nas lojas dos cambistas. E, embora fosse um tanto leviano e superficial, ganhava para a causa do papa muitos burgueses e alguns artesãos. Informados dessas intrigas, os magistrados do Monte dos Reformadores fizeram-no comparecer perante o seu sereníssimo conselho e, tendo-o interrogado sob o estandarte da república, onde se vê um leão que se arremessa, declararam-no culpado de atentar contra a liberdade da república.
Ele não respondeu a esses sapateiros e magarefes senão com um sorriso desdenhoso. Mas quando ouviu a sentença de morte, caiu num profundo assombro e conduziram-no como adormecido para a prisão. Mas logo que foi encarcerado, voltou a si do estupor e lastimou a sorte com todo ardor de um sangue jovem e de uma alma impetuosa; as imagens das suas voluptuosidades, armas, mulheres, cavalos, desfilavam-lhe diante dos olhos e, ao pensar que jamais os desfrutaria, foi arrebatado por um tão furioso desespero que bateu os punhos e a cabeça contra as paredes da sua enxovia, soltando lamentos e uivos que se ouviam por toda a redondeza até nas casas dos burgueses e nas barracas dos tecelões. Acudindo aos seus gritos, o carcereiro encontrou-o coberto de sangue e escuma.
Nicola Tuldo não cessou de urrar durante três dias e três noites.
Fizeram disso um relatório para o Monte dos Reformadores. Os membros do sereníssimo governo, depois de atender aos casos mais urgentes, examinaram o do infeliz condenado. Leone Rancati, tijoleiro do seu Estado, disse:
—Este homem deve pagar com a cabeça o seu crime contra a república de Siena; e ninguém pode resgatá-lo desse débito, sem usurpar os sagrados direitos da cidade, nossa mãe. É preciso que ele morra. Mas a sua alma pertence a Deus que a criou e não convém que, por nossa culpa, ele morra no desespero e no pecado. Asseguremos-lhes, pois, sua salvação eterna por todos os meios em nosso poder.
Mateino Renzano, o padeiro, que era notável pela sabedoria, levantou-se por seu turno e disse:
—Falaste bem, Leone Rancati. Eis por que convém enviar ao condenado Catarina, a filha do pisoeiro.
Esse parecer foi aprovado por todo o governo, que resolveu convidar Catarina a visitar Nicolau Tuldo na sua prisão.
Naquele tempo, Catarina, filha de Giacomo, o pisoeiro, perfumava com as suas virtudes a cidade de Siena. Residia numa célula na casa paterna e usava o hábito das Irmãos da Penitência. Cingia sob o vestido de lã branca uma cadeia de ferro, e flagelava-se diariamente durante uma hora. Depois, mostrando os braços cobertos de chagas, dizia: “Eis ai as minhas rosas!” Cultivava no seu quarto lírios e violetas com que fazia guirlandas para os altares da Virgem e dos Santos. E durante esse tempo cantava hinos em língua vulgar em louvor de Jesus e de Maria. Nesses tristes anos em que a cidade de Siena era uma hospedaria de dor e uma casa de alegria, Catarina visitava os prisioneiros e dizia às prostitutas: “Minhas irmãs, eu quisera ocultar-vos nas chagas amorosas do Salvador!”. E uma virgem tão pura, inflamada de uma tal caridade, não poderia desabrochar e florir senão em Siena que, sob as suas máculas e entre os seus crimes, permanecia sendo a cidade da Santa Virgem.
Avisada pelos magistrados, Catarina dirigiu-se à prisão pública na manhã do dia em que Nicolau Tuldo devia morrer. Encontrou-o estendido sobre o chão de pedras do cárcere, blasfemando em grandes gritos. Aí, erguendo o véu branco que o bem-aventurado Senhor, pessoalmente, descendo do Paraíso, lhe pusera sobre a cabeça, descobriu ao prisioneiro um rosto de beleza celeste. Como ele o encarasse, assombrado, ela inclinou-se sobre ele para enxugar-lhe a baba que escorria da boca.
Nicolau Tuldo, voltando para ela os olhos ainda ferozes, lhe disse:
—Afasta-te! Odeio-te porque és de Siena, que me mata. Oh, Siena, verdadeira loba que mergulha as presas vis na garganta de um nobre de Perusa! Ó, loba sórdida, ó cadela imunda e selvagem!
Catarina respondeu-lhe:
—Irmão, que significa uma cidade, que são todas as cidades da terra, ao pé da de Deus e dos anjos? Eu sou Catarina e venho convidar-te para as núpcias eternas.
A doçura dessa voz e a limpidez desse rosto derramaram de súbito a paz e a luz na alma de Nicolau Tuldo.
Recordou-se dos seus dias de inocência e chorou como uma criança.
O sol, erguendo-se sobre os Apeninos, branquejava a prisão com os seus primeiros raios.
Catarina disse:
—Eis a manhã! De pé para as núpcias eternas, meu irmão, de pé!
E, ajudando-o a levantar-se, conduziu-o à capela, onde Fra Cattaneo lhe ouviu a confissão.
Logo a seguir, Nicolau Tuldo assistiu devotamente à santa missa e recebeu o corpo de Jesus. Depois, voltou-se para Catarina e disse-lhe:
—Fica comigo; não me abandones e assim me sentirei bem e morrerei contente.
Os sinos puseram-se a bimbalhar, anunciando a morte do criminoso.
Catarina respondeu:
—Irmão, esperar-te-ei no lugar da justiça.
Então, Nicolau Tuldo sorriu e disse:
—Quê! A doçura da minha alma esperar-me-á no lugar santo da justiça!
Catarina meditou e orou dizendo:
—Meu Deus, enviaste-lhe uma grande luz, pois ele chama de santo o lugar da justiça.
Nicolau Tuldo disse ainda:
— Sim, caminharei animado e alegre. Tarda-me, como se eu tivesse de esperar mil anos, chegar lá onde a reencontrarei.
— Às núpcias, às núpcias eternas! — repetiu Catarina saindo da prisão.
Serviram ao condenado um pouco de pão e de vinho; deram-lhe um manto negro; depois foi conduzido através dos caminhos ladeirentos, ao som de trombetas, entre os guardas da cidade, sob o estandarte da república. As ruas estavam, cheias de curiosos e as mulheres levantavam nos braços os filhinhos mostrando o homem que ia morrer.
Nicolau Tuldo, entretanto, pensava em Catarina, e os seus lábios, tão cheios de amargor, entreabriam-se docemente como para beijar a imagem da santa.
Depois de haver subido durante algum tempo a rude calçada de tijolos, o cortejo atingiu uma das alturas que dominam a cidade e o condenado viu subitamente, com os seus olhos que em breve se extinguiriam, os tetos, os zimbórios, os campanários, as torres de Siena e, ao longe, os muros que seguiam o pendor das colinas. E teve saudade da cidade natal, da sua ridente Perusa, cingida de jardins, onde as águas correntes cantam entre frutos e flores. Lembrou-se do terraço que domina o vale do Trasimeno, onde o olhar bebe o dia com delícia.
E o arrependimento da sua vida afligiu-lhe de novo o coração. Suspirou:
— Ó minha cidade natal!… Ó… a casa dos meus pais!…
Depois o pensamento de Catarina lhe voltou à alma e a fez transbordar de alegria e paz.
Por fim, alcançaram a praça do mercado, onde, a cada sábado, os camponeses de Camiano e de Granayola expunham à venda os limões, as uvas, os figos, as maçãs e lançavam às donas de casa alegres pregãos misturados de ditos picantes. Era aí que estava erguido o cadafalso.
Nicolau Tuldo viu aí Catarina, orando ajoelhada, com a cabeça sobre o cepo.
Subiu os degraus com uma alegria impaciente.
À sua chegada, Catarina ergueu-se e volveu-se para ele com o ar da esposa que se une ao esposo; ela própria quis descobrir-lhe o pescoço e colocar o amigo sobre o cepo como sobre um leito nupcial.
Depois se ajoelhou ao lado dele. Quando ele disse três vezes com fervor: “Jesus, Catarina!”, o carrasco brandiu a sua espada e a virgem recebeu nas mãos a cabeça decepada.
Então pareceu-lhe que todo o sangue da vítima se difundia nela e enchia-lhe as veias com uma onda doce como o leite ainda quente; um odor delicioso fez-lhe pulsar as narinas; nos seus olhos inundados perpassavam sombras de anjos. Entre assombrada e enlevada, tombou molemente no abismo das delícias celestes.
Duas mulheres da ordem terceira de São Domingos, que estavam junto do cadafalso, vendo-a estendida e imóvel, apressaram-lhe em reerguê-la e ampará-la. Voltando a si a santa falou-hes:
— Vi o céu!
Como uma das mulheres se preparava para lavar com uma esponja o sangue que cobria o vestido da virgem, Catarina deteve-a vivamente:
— Não — disse —, não me subtraia esse sangue; não tirem a minha púrpura e os meus perfumes.
O césar alemão era a alma do conluio; prometia mercenários para garantir o êxito. Era grande a sua pressa para a conclusão do negócio, calculando que com o preço da venda poderia reaver a coroa de Carlos Magno empenhada por seiscentos e vinte florins aos banqueiros de Florença. Entretanto, os do Monte dos Reformadores, que compunham o governo, seguravam firme, a chibata do comando e velavam pela salvação da república. Esses artesãos, magistrados de um povo livre, haviam interditado ao imperador, entrado nos seus muros, o pão, a água, o sal e o fogo; haviam-no expulsado gemente e trêmulo, e condenavam os conspiradores à pena capital. Guardiões da cidade fundada pelo antigo Remo imitavam a severidade dos primeiros cônsules de Roma. Mas a sua cidade, vestida de ouro e seda, deslizava-lhes entre as mãos como uma cortesã lasciva e pérfida. E a inquietude os tornava impiedosos.
No ano de 1370, souberam que um gentil-homem de Perusa, Nicolas Tuldo, havia sido enviado pelo papa afim de induzir os sienenses a entregar, de acordo com o imperador, a cidade ao Santo Padre. Esse senhor estava na flor da mocidade e da beleza e aprendera entre as fidalgas essa arte de agradar e seduzir, que exercia agora no palácio dos Salembeni e nas lojas dos cambistas. E, embora fosse um tanto leviano e superficial, ganhava para a causa do papa muitos burgueses e alguns artesãos. Informados dessas intrigas, os magistrados do Monte dos Reformadores fizeram-no comparecer perante o seu sereníssimo conselho e, tendo-o interrogado sob o estandarte da república, onde se vê um leão que se arremessa, declararam-no culpado de atentar contra a liberdade da república.
Ele não respondeu a esses sapateiros e magarefes senão com um sorriso desdenhoso. Mas quando ouviu a sentença de morte, caiu num profundo assombro e conduziram-no como adormecido para a prisão. Mas logo que foi encarcerado, voltou a si do estupor e lastimou a sorte com todo ardor de um sangue jovem e de uma alma impetuosa; as imagens das suas voluptuosidades, armas, mulheres, cavalos, desfilavam-lhe diante dos olhos e, ao pensar que jamais os desfrutaria, foi arrebatado por um tão furioso desespero que bateu os punhos e a cabeça contra as paredes da sua enxovia, soltando lamentos e uivos que se ouviam por toda a redondeza até nas casas dos burgueses e nas barracas dos tecelões. Acudindo aos seus gritos, o carcereiro encontrou-o coberto de sangue e escuma.
Nicola Tuldo não cessou de urrar durante três dias e três noites.
Fizeram disso um relatório para o Monte dos Reformadores. Os membros do sereníssimo governo, depois de atender aos casos mais urgentes, examinaram o do infeliz condenado. Leone Rancati, tijoleiro do seu Estado, disse:
—Este homem deve pagar com a cabeça o seu crime contra a república de Siena; e ninguém pode resgatá-lo desse débito, sem usurpar os sagrados direitos da cidade, nossa mãe. É preciso que ele morra. Mas a sua alma pertence a Deus que a criou e não convém que, por nossa culpa, ele morra no desespero e no pecado. Asseguremos-lhes, pois, sua salvação eterna por todos os meios em nosso poder.
Mateino Renzano, o padeiro, que era notável pela sabedoria, levantou-se por seu turno e disse:
—Falaste bem, Leone Rancati. Eis por que convém enviar ao condenado Catarina, a filha do pisoeiro.
Esse parecer foi aprovado por todo o governo, que resolveu convidar Catarina a visitar Nicolau Tuldo na sua prisão.
Naquele tempo, Catarina, filha de Giacomo, o pisoeiro, perfumava com as suas virtudes a cidade de Siena. Residia numa célula na casa paterna e usava o hábito das Irmãos da Penitência. Cingia sob o vestido de lã branca uma cadeia de ferro, e flagelava-se diariamente durante uma hora. Depois, mostrando os braços cobertos de chagas, dizia: “Eis ai as minhas rosas!” Cultivava no seu quarto lírios e violetas com que fazia guirlandas para os altares da Virgem e dos Santos. E durante esse tempo cantava hinos em língua vulgar em louvor de Jesus e de Maria. Nesses tristes anos em que a cidade de Siena era uma hospedaria de dor e uma casa de alegria, Catarina visitava os prisioneiros e dizia às prostitutas: “Minhas irmãs, eu quisera ocultar-vos nas chagas amorosas do Salvador!”. E uma virgem tão pura, inflamada de uma tal caridade, não poderia desabrochar e florir senão em Siena que, sob as suas máculas e entre os seus crimes, permanecia sendo a cidade da Santa Virgem.
Avisada pelos magistrados, Catarina dirigiu-se à prisão pública na manhã do dia em que Nicolau Tuldo devia morrer. Encontrou-o estendido sobre o chão de pedras do cárcere, blasfemando em grandes gritos. Aí, erguendo o véu branco que o bem-aventurado Senhor, pessoalmente, descendo do Paraíso, lhe pusera sobre a cabeça, descobriu ao prisioneiro um rosto de beleza celeste. Como ele o encarasse, assombrado, ela inclinou-se sobre ele para enxugar-lhe a baba que escorria da boca.
Nicolau Tuldo, voltando para ela os olhos ainda ferozes, lhe disse:
—Afasta-te! Odeio-te porque és de Siena, que me mata. Oh, Siena, verdadeira loba que mergulha as presas vis na garganta de um nobre de Perusa! Ó, loba sórdida, ó cadela imunda e selvagem!
Catarina respondeu-lhe:
—Irmão, que significa uma cidade, que são todas as cidades da terra, ao pé da de Deus e dos anjos? Eu sou Catarina e venho convidar-te para as núpcias eternas.
A doçura dessa voz e a limpidez desse rosto derramaram de súbito a paz e a luz na alma de Nicolau Tuldo.
Recordou-se dos seus dias de inocência e chorou como uma criança.
O sol, erguendo-se sobre os Apeninos, branquejava a prisão com os seus primeiros raios.
Catarina disse:
—Eis a manhã! De pé para as núpcias eternas, meu irmão, de pé!
E, ajudando-o a levantar-se, conduziu-o à capela, onde Fra Cattaneo lhe ouviu a confissão.
Logo a seguir, Nicolau Tuldo assistiu devotamente à santa missa e recebeu o corpo de Jesus. Depois, voltou-se para Catarina e disse-lhe:
—Fica comigo; não me abandones e assim me sentirei bem e morrerei contente.
Os sinos puseram-se a bimbalhar, anunciando a morte do criminoso.
Catarina respondeu:
—Irmão, esperar-te-ei no lugar da justiça.
Então, Nicolau Tuldo sorriu e disse:
—Quê! A doçura da minha alma esperar-me-á no lugar santo da justiça!
Catarina meditou e orou dizendo:
—Meu Deus, enviaste-lhe uma grande luz, pois ele chama de santo o lugar da justiça.
Nicolau Tuldo disse ainda:
— Sim, caminharei animado e alegre. Tarda-me, como se eu tivesse de esperar mil anos, chegar lá onde a reencontrarei.
— Às núpcias, às núpcias eternas! — repetiu Catarina saindo da prisão.
Serviram ao condenado um pouco de pão e de vinho; deram-lhe um manto negro; depois foi conduzido através dos caminhos ladeirentos, ao som de trombetas, entre os guardas da cidade, sob o estandarte da república. As ruas estavam, cheias de curiosos e as mulheres levantavam nos braços os filhinhos mostrando o homem que ia morrer.
Nicolau Tuldo, entretanto, pensava em Catarina, e os seus lábios, tão cheios de amargor, entreabriam-se docemente como para beijar a imagem da santa.
Depois de haver subido durante algum tempo a rude calçada de tijolos, o cortejo atingiu uma das alturas que dominam a cidade e o condenado viu subitamente, com os seus olhos que em breve se extinguiriam, os tetos, os zimbórios, os campanários, as torres de Siena e, ao longe, os muros que seguiam o pendor das colinas. E teve saudade da cidade natal, da sua ridente Perusa, cingida de jardins, onde as águas correntes cantam entre frutos e flores. Lembrou-se do terraço que domina o vale do Trasimeno, onde o olhar bebe o dia com delícia.
E o arrependimento da sua vida afligiu-lhe de novo o coração. Suspirou:
— Ó minha cidade natal!… Ó… a casa dos meus pais!…
Depois o pensamento de Catarina lhe voltou à alma e a fez transbordar de alegria e paz.
Por fim, alcançaram a praça do mercado, onde, a cada sábado, os camponeses de Camiano e de Granayola expunham à venda os limões, as uvas, os figos, as maçãs e lançavam às donas de casa alegres pregãos misturados de ditos picantes. Era aí que estava erguido o cadafalso.
Nicolau Tuldo viu aí Catarina, orando ajoelhada, com a cabeça sobre o cepo.
Subiu os degraus com uma alegria impaciente.
À sua chegada, Catarina ergueu-se e volveu-se para ele com o ar da esposa que se une ao esposo; ela própria quis descobrir-lhe o pescoço e colocar o amigo sobre o cepo como sobre um leito nupcial.
Depois se ajoelhou ao lado dele. Quando ele disse três vezes com fervor: “Jesus, Catarina!”, o carrasco brandiu a sua espada e a virgem recebeu nas mãos a cabeça decepada.
Então pareceu-lhe que todo o sangue da vítima se difundia nela e enchia-lhe as veias com uma onda doce como o leite ainda quente; um odor delicioso fez-lhe pulsar as narinas; nos seus olhos inundados perpassavam sombras de anjos. Entre assombrada e enlevada, tombou molemente no abismo das delícias celestes.
Duas mulheres da ordem terceira de São Domingos, que estavam junto do cadafalso, vendo-a estendida e imóvel, apressaram-lhe em reerguê-la e ampará-la. Voltando a si a santa falou-hes:
— Vi o céu!
Como uma das mulheres se preparava para lavar com uma esponja o sangue que cobria o vestido da virgem, Catarina deteve-a vivamente:
— Não — disse —, não me subtraia esse sangue; não tirem a minha púrpura e os meus perfumes.
Anatole France
Martín de Porres
Tocam fúnebres os sinos das igrejas de Santo Domingo. À luz das velas, banhado em suores gelados, Martín de Porres entregou sua alma depois de muito lutar contra o Demônio com o auxílio de Maria Santíssima e de Santa Catarina Virgem e Mártir. Morreu em sua cama, com uma pedra como travesseiro e uma caveira ao lado, enquanto o vice-rei de Lima de joelhos, beijava a sua mão e lhe rogava que intercedesse para que lhe abrissem um lugarzinho lá no Céu.
Martín de Porres tinha nascido de uma escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são iguais perante Deus.
Aos quinze anos, Martín foi doado ao convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de alecrim.
Quando soube que o convento sofria penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:
– Gratia plena.
– Que o senhor venda este mulato cachorro – ofereceu-se.
Deitava em sua cama os mendigos ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os anjos o acompanhavam ao coro levando luzes nas mãos. Sem sair de Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas, China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus. Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem autorização.
Depois das matinas se despia e açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue gritava:
– Vil mulato cachorro! Até quando vai durar tua vida pecadora?
Com olhos de súplica, lacrimejantes, sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
Martín de Porres tinha nascido de uma escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são iguais perante Deus.
Aos quinze anos, Martín foi doado ao convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de alecrim.
Quando soube que o convento sofria penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:
– Ave Maria.
– Gratia plena.
– Que o senhor venda este mulato cachorro – ofereceu-se.
Deitava em sua cama os mendigos ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os anjos o acompanhavam ao coro levando luzes nas mãos. Sem sair de Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas, China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus. Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem autorização.
Depois das matinas se despia e açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue gritava:
– Vil mulato cachorro! Até quando vai durar tua vida pecadora?
Com olhos de súplica, lacrimejantes, sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
Anoitecer em Outubro
A noite cai, chove manso lá fora
meu gato dorme
enrodilhado
na cadeira
Num dia qualquer
não existirá mais
nenhum de nós dois
para ouvir
nesta sala
a chuva que eventualmente caia
sobre as calçadas da rua Duvivier
Ferreira Gullar
meu gato dorme
enrodilhado
na cadeira
Num dia qualquer
não existirá mais
nenhum de nós dois
para ouvir
nesta sala
a chuva que eventualmente caia
sobre as calçadas da rua Duvivier
Ferreira Gullar
Vou ficar aqui, às escuras
Sou um homem arrasado. Doença! Não. Gozo de perfeita saúde. Quando o Costa Brito, por causa de duzentos mil réis que me queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou-me doente, aludindo a crimes que me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nenhum médico me entrou em casa. Não tenho doença nenhuma.
O que estou é velho. Cinquenta anos pelo São Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casaca espessa e vê ferir cá dentro a sensibilidade embotada.
Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?
As janelas estão fechadas. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta.
Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-me rolar no colchão até a madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto. Amanhã não terei com que me entreter.
Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-o. sinto um arrepio. A lembrança de Madalena persegue-me. Diligencio afastá-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue.
De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa:
– Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.
A agitação diminui.
– Estraguei a minha vida estupidamente.
Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.
A molecoreba de Mestre Caetano arrasta-se por aí, lambuzada, faminta. A Rosa, com a barriga quebrada de tanto parir, trabalha em casa, trabalha no campo e trabalha na cama. O marido é cada vez mais molambo. E os moradores que me restam são uns cambembes como ele.
Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em que se acham, reconheço ter contribuído para isso, mas não vou além. Estamos tão separados! A princípio estávamos juntos, mas esta desgraçada profissão nos distanciou.
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.
Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
E a desconfiança terrível, que me aponta inimigos em toda a parte!
A desconfiança é também consequência da profissão.
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.
Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.
A vela está quase a extinguir-se.
Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem.
Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão.
É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo.
Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!
Casimiro Lopes está dormindo, Marciano está dormindo. Patifes!
E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos.
O que estou é velho. Cinquenta anos pelo São Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casaca espessa e vê ferir cá dentro a sensibilidade embotada.
Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?
As janelas estão fechadas. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta.
Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-me rolar no colchão até a madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto. Amanhã não terei com que me entreter.
Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-o. sinto um arrepio. A lembrança de Madalena persegue-me. Diligencio afastá-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue.
De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa:
– Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.
A agitação diminui.
– Estraguei a minha vida estupidamente.
Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.
A molecoreba de Mestre Caetano arrasta-se por aí, lambuzada, faminta. A Rosa, com a barriga quebrada de tanto parir, trabalha em casa, trabalha no campo e trabalha na cama. O marido é cada vez mais molambo. E os moradores que me restam são uns cambembes como ele.
Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em que se acham, reconheço ter contribuído para isso, mas não vou além. Estamos tão separados! A princípio estávamos juntos, mas esta desgraçada profissão nos distanciou.
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.
Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
E a desconfiança terrível, que me aponta inimigos em toda a parte!
A desconfiança é também consequência da profissão.
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.
Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.
A vela está quase a extinguir-se.
Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem.
Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão.
É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo.
Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!
Casimiro Lopes está dormindo, Marciano está dormindo. Patifes!
E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos.
Graciliano Ramos, "São Bernardo"
quinta-feira, setembro 3
Vou diluir-me
A mulher desapertava a roupa, despia-se cantando, e eu me conservava distante, encabulado, tentando desamarrar o cordão do sapato, que tinha dado um nó. Não podia descalçar-me e olhava estupidamente um despertador que trabalhava muito depressa. Os ponteiros avançavam e o laço do sapato não queria desatar-se.
O professor explicava a lição comprida numa voz dura de matraca, falava como se mastigasse pedras.
O político influente entregava-me a carta de recomendação. Eu, gaguejava um agradecimento difícil, atrapalhava-me por causa da datilógrafa bonita, descia a escada perseguido pelos óculos de um secretário e pelo tique-taque da máquina de escrever.
Tudo se confunde. A rapariga que se despia, o professor, o político, misturam-se. A criança doente, os enfermeiros, os médicos, o homem dos esparadrapos, não se distinguem das árvores, dos telhados, do céu, das igrejas.
Vou diluir-me, deixar a coberta, subir na poeira luminosa das réstias, perder-me nos gemidos, nos gritos, nas vozes longínquas, nas pancadas medonhas do relógio velho.
Graciliano Ramos. "Insônia"
Data
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação.
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão.
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça.
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação.
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão.
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça.
Sophia de Mello B. Andresen
Vídeo-tape da insônia
Da casa em que nasci não me lembro nada. Contam que via o demônio e o apontava na parede, alvoroçadamente, como se fora um anjo. Minha vida começa em Saúde, arraial de minha infância, de onde me surgem as estampas essenciais: brincando com Íris no jardim; Íris no caixão sobre a mesa escura; a notícia do assassinato de meu tio Arquimedes, chegada cautelosamente no serão familiar; seu Rodolfo Caçador com sua perna de pau (derrubou o cacho de cocos com um tiro); minha mão de revólver procurando ladrão no quintal; o leproso dos Correios que comia ovos cozidos; meu encontro com a morte do tuberculoso na casa desconhecida; o guizo da mula sem cabeça tilintando na várzea.
Sempre parti sem pena. Ainda hoje é a mesma emoção, uma alegria doloridamente física, uma névoa infantil nos olhos, imitando as lágrimas. Da infância não trouxe no coração uma saudade direta, e tive terror dos mascarados e do batuque noturno dos tambores.
Em Belo Horizonte, ao grito de “avião! avião!”, corria para a rua numa agitação de fim de mundo. Quantas tristezas de sexo precoce eu tive, sentindo, como um alarme, a violência do corpo.
As primeiras letras. Meu ódio à disciplina. O mistério do pátio das meninas. Minha primeira paixão chamava-se Maria e usava tranças. Minha segunda paixão era Maria e tinha olhos bonitos. As fitas em série aos domingos: O grande guerreiro! Bob Steele! Buck Jones!Ruas de Nova Iorque! Tempestade sobre a Ásia! A importância de retirar um livro da biblioteca pública!
Quando veio a Revolução de 30, estava de braço quebrado. As negras se arrastavam da Barroca até a Serra e aí chegavam famintas, esfarrapadas, apavoradas. Meu pai comprava e distribuía alimentos no armazém. Da caixa-d’água vi um avião bombardear o quartel.
Nossas molecagens! Nossas maldades! As brigas da nossa quadrilha! As árvores não cresciam em nossas ruas, a grama não pegava nos jardins, as lâmpadas não ficavam acesas nos postes. A mão imensa e brutal do padre alemão.
Aos onze anos, fugi de casa. Em companhia de Georges e Aristeu, demandei Goiás para viver com os índios. A primeira sede violenta. O desconhecido amedrontando e tentando. Cardoso, velho lenheiro, nos deu em sua choupana cama de palha, café com broa e conselhos mansos: “Acho que vocês vão dar uma estopada, meninos: o mundo é grande e mau”.
Reprovado no primeiro ano ginasial, fui mandado para o colégio interno. Lágrimas convulsas na primeira noite. Conheço a pusilanimidade, a traição, a delação, a covardia, a bofetada de um padre. Feroz é coração da infância. Um pátio com uma paineira e um retângulo de estrelas. A saudade à hora do crepúsculo estragou-me os outros crepúsculos. Dramas do sexo e da afeição tiveram apenas o testemunho irreal dos professores. Rebeldia, medo do inferno, sensibilidade ― tudo me fez a vida até hoje infeliz. No segundo ano, segundo a linguagem salesiana, comecei a ficar tíbio; participava da Société Impieté.
Não esqueço as férias e o esperar por elas, quando a primeira horda de bichinhos de luz invadia o estudo da noite. Não esqueço nada que haja escapado à vigilância, nenhuma rebeldia, alunos que desafiavam professores, os que fugiam e levavam nossos votos de boa sorte, o ridículo, a oratória besta, a vaidade, a crueldade, a raposice dos pedagogos. Não esquecerei nada. Seu João Maria me chamava de Laplace: não me puniu quando me viu roubar laranja. Obrigado, João Maria. Seu Vicente era manso e consolava os que choram. Seu Gilberto era um ótimo sujeito. Era suave o perfume do eucalipto, suave era o ar, doces eram as ameixas, ásperos e belos eram os caminhos da montanha. Coisas da natureza, obrigado. Obrigado, amigos meus. Que contentamento deixar Dom Bosco e seus fantasmas! Ah! Se pudesse levar comigo o aroma das resinas! Que contentamento tomar o trem na antiga Hargreaves e voltar! Que alvoroço de abelhas voltar! As férias vão terminar como sempre e o pórtico negro que me espera é ainda mais negro do que o outro.
Em São João del-Rei conheci sadios holandeses franciscanos e várias liberdades desconhecidas. Os primeiros amigos mortos a desfiar um rosário de tristezas minhas. Aplicação e desprezo pelos estudos, uma adivinhação de poesia nos florilégios estúpidos, frustradas inquietações políticas e patrióticas. A voz grossa e rápida de Frei Rufino, a vaguidão de Frei Lau querendo escrever com o charuto, o irrepreensível Frei Noberto, coisas inocentes que gelam dentro de mim um bloco irremovível.
Em dez meses de estudos bélicos, de marchas, ordem unida, maneabilidade, manobrando fuzis e metralhadoras, não descobri dentro de mim o soldado. Fui definitivamente um paisano.
Elza era delicada e ia ser dentista. Uma judia guardei como lembrança de perfeição adolescente. E as decaídas inesquecíveis: são ásperas e conservam purezas intratáveis.
A adolescência é um tribunal inesperado: o julgamento do pai pelo filho, o julgamento do filho pelo pai. Nesse conflito de culpas, apreensões e incertezas está o mistério dos caminhos da vida, sempre errados. Toda a perplexidade do homem cabe no encontro do pai e do filho, quando se encaram com um rancor de acusados à luz da madrugada. Cabe às mulheres a melhor parte do amor e do sofrimento porque as mães não podem julgar, e este é o mais linear dos mistérios.
Folha morta, déçà délà, fui arrastado pelas ruas da madrugada. Havia um poder suicida em cada coisa.
Já não entendo teu clamor, ó confusa adolescência. Morreu contigo o sol denso da tragédia. Morreu contigo o pássaro rubro amigo de meu ombro. Morreu contigo meu inconformismo cruel, minha dignidade na desgraça. Contigo a parte de mim mais infeliz e fiel.
Paulo Mendes Campos
Sempre parti sem pena. Ainda hoje é a mesma emoção, uma alegria doloridamente física, uma névoa infantil nos olhos, imitando as lágrimas. Da infância não trouxe no coração uma saudade direta, e tive terror dos mascarados e do batuque noturno dos tambores.
Em Belo Horizonte, ao grito de “avião! avião!”, corria para a rua numa agitação de fim de mundo. Quantas tristezas de sexo precoce eu tive, sentindo, como um alarme, a violência do corpo.
As primeiras letras. Meu ódio à disciplina. O mistério do pátio das meninas. Minha primeira paixão chamava-se Maria e usava tranças. Minha segunda paixão era Maria e tinha olhos bonitos. As fitas em série aos domingos: O grande guerreiro! Bob Steele! Buck Jones!Ruas de Nova Iorque! Tempestade sobre a Ásia! A importância de retirar um livro da biblioteca pública!
Quando veio a Revolução de 30, estava de braço quebrado. As negras se arrastavam da Barroca até a Serra e aí chegavam famintas, esfarrapadas, apavoradas. Meu pai comprava e distribuía alimentos no armazém. Da caixa-d’água vi um avião bombardear o quartel.
Nossas molecagens! Nossas maldades! As brigas da nossa quadrilha! As árvores não cresciam em nossas ruas, a grama não pegava nos jardins, as lâmpadas não ficavam acesas nos postes. A mão imensa e brutal do padre alemão.
Aos onze anos, fugi de casa. Em companhia de Georges e Aristeu, demandei Goiás para viver com os índios. A primeira sede violenta. O desconhecido amedrontando e tentando. Cardoso, velho lenheiro, nos deu em sua choupana cama de palha, café com broa e conselhos mansos: “Acho que vocês vão dar uma estopada, meninos: o mundo é grande e mau”.
Reprovado no primeiro ano ginasial, fui mandado para o colégio interno. Lágrimas convulsas na primeira noite. Conheço a pusilanimidade, a traição, a delação, a covardia, a bofetada de um padre. Feroz é coração da infância. Um pátio com uma paineira e um retângulo de estrelas. A saudade à hora do crepúsculo estragou-me os outros crepúsculos. Dramas do sexo e da afeição tiveram apenas o testemunho irreal dos professores. Rebeldia, medo do inferno, sensibilidade ― tudo me fez a vida até hoje infeliz. No segundo ano, segundo a linguagem salesiana, comecei a ficar tíbio; participava da Société Impieté.
Não esqueço as férias e o esperar por elas, quando a primeira horda de bichinhos de luz invadia o estudo da noite. Não esqueço nada que haja escapado à vigilância, nenhuma rebeldia, alunos que desafiavam professores, os que fugiam e levavam nossos votos de boa sorte, o ridículo, a oratória besta, a vaidade, a crueldade, a raposice dos pedagogos. Não esquecerei nada. Seu João Maria me chamava de Laplace: não me puniu quando me viu roubar laranja. Obrigado, João Maria. Seu Vicente era manso e consolava os que choram. Seu Gilberto era um ótimo sujeito. Era suave o perfume do eucalipto, suave era o ar, doces eram as ameixas, ásperos e belos eram os caminhos da montanha. Coisas da natureza, obrigado. Obrigado, amigos meus. Que contentamento deixar Dom Bosco e seus fantasmas! Ah! Se pudesse levar comigo o aroma das resinas! Que contentamento tomar o trem na antiga Hargreaves e voltar! Que alvoroço de abelhas voltar! As férias vão terminar como sempre e o pórtico negro que me espera é ainda mais negro do que o outro.
Em São João del-Rei conheci sadios holandeses franciscanos e várias liberdades desconhecidas. Os primeiros amigos mortos a desfiar um rosário de tristezas minhas. Aplicação e desprezo pelos estudos, uma adivinhação de poesia nos florilégios estúpidos, frustradas inquietações políticas e patrióticas. A voz grossa e rápida de Frei Rufino, a vaguidão de Frei Lau querendo escrever com o charuto, o irrepreensível Frei Noberto, coisas inocentes que gelam dentro de mim um bloco irremovível.
Em dez meses de estudos bélicos, de marchas, ordem unida, maneabilidade, manobrando fuzis e metralhadoras, não descobri dentro de mim o soldado. Fui definitivamente um paisano.
Elza era delicada e ia ser dentista. Uma judia guardei como lembrança de perfeição adolescente. E as decaídas inesquecíveis: são ásperas e conservam purezas intratáveis.
A adolescência é um tribunal inesperado: o julgamento do pai pelo filho, o julgamento do filho pelo pai. Nesse conflito de culpas, apreensões e incertezas está o mistério dos caminhos da vida, sempre errados. Toda a perplexidade do homem cabe no encontro do pai e do filho, quando se encaram com um rancor de acusados à luz da madrugada. Cabe às mulheres a melhor parte do amor e do sofrimento porque as mães não podem julgar, e este é o mais linear dos mistérios.
Folha morta, déçà délà, fui arrastado pelas ruas da madrugada. Havia um poder suicida em cada coisa.
Já não entendo teu clamor, ó confusa adolescência. Morreu contigo o sol denso da tragédia. Morreu contigo o pássaro rubro amigo de meu ombro. Morreu contigo meu inconformismo cruel, minha dignidade na desgraça. Contigo a parte de mim mais infeliz e fiel.
Paulo Mendes Campos
quarta-feira, setembro 2
Tradutor de chuvas
Um lenço branco
apaga o céu.
—
A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.
—
O mundo voa
E apenas o poeta
Faz companhia ao chão.
Mia Couto
apaga o céu.
—
A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.
—
O mundo voa
E apenas o poeta
Faz companhia ao chão.
Mia Couto
Borboletas
Desde menino as borboletas me encantam. E acho que elas gostam de mim. Certa vez, na casa do Brandão, lá em Pocinhos do Rio Verde, uma borboleta assentou-se no meu rosto e lá ficou, imóvel e tranquila. Não me mexi, com medo de assustá-la. Ela ficou tanto tempo em meu rosto que deu tempo de o Brandão ir buscar sua câmera e tirar uma foto.
Penso que borboletas, seres alados, diáfanos e coloridos, devem ser emissários dos deuses, anjos que anunciam coisas do amor. Imaginei então que aquela borboleta era um anjo disfarçado que os deuses me enviavam com uma promessa de felicidade.
O imaginário mítico e poético sempre gostou de borboletas. Os gregos, por exemplo, imaginavam a alma como uma borboleta com corpo de menina. E Fernando Pessoa dedicou-lhes um maravilhoso poema: Eros e Psique.
Cecília Meireles também brincou com elas. Compôs um poema em que colocou uma pequenina borboleta equilibrando a pesadíssima grandeza cósmica:
No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.
Podem imaginar isso, que uma borboleta com suas levíssimas asas possa equilibrar um planeta? E numa cena do filme Sonhos, de Kurosawa, há uma revoada de milhares, milhões de borboletas.
Isso aconteceu faz muitos anos. A cena da borboleta pousada no meu rosto estava no esquecimento. Aí sonhei e a cena se tornou viva de novo.
Os sonhos são um mundo mágico. No mundo dos sonhos, não há nem antes nem depois, nem lá nem aqui. Tempo e espaço se misturam.
Aí, sonhando, ouvi o cantarolar de uma valsinha velha de que ninguém mais se lembra. Era só um cantarolar, sem palavras. Depois de acordar, fui ao Google e lá estava ela – “Linda borboleta”:
Fiquei triste com essa transformação, porque eu preferia a borboleta viva, aquela que se assentara no meu rosto. De qualquer maneira, resolvi comprá-la. Era uma joia que eu poderia dar a alguém que se parecesse com a minha borboleta.
Pus a borboleta de pedras coloridas no bolso e me fui. Mas aí aconteceu o que eu não imaginara: como no filme de Kurosawa, milhares de borboletas começaram a sair do meu bolso e encheram de cores o espaço do shopping. E foi em meio a esse encantamento onírico que uma das borboletas não voou. Ela se assentou sobre o meu rosto e ali ficou...
Aí eu acordei...
Nestes jardins – há vinte anos – andaram os nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos.
Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo, todos nós choraríamos,
de mútua pena e susto imenso.
E assim nos separamos, suspirando dias futuros, nenhum se atrevia a desvelar
seus próprios mundos.
E agora que separados vivemos o que foi vivido, com doce amor choramos quem
fomos nesse tempo antigo.
Rubem Alves, "Cantos do Pássaro Encantado"
Penso que borboletas, seres alados, diáfanos e coloridos, devem ser emissários dos deuses, anjos que anunciam coisas do amor. Imaginei então que aquela borboleta era um anjo disfarçado que os deuses me enviavam com uma promessa de felicidade.
O imaginário mítico e poético sempre gostou de borboletas. Os gregos, por exemplo, imaginavam a alma como uma borboleta com corpo de menina. E Fernando Pessoa dedicou-lhes um maravilhoso poema: Eros e Psique.
Cecília Meireles também brincou com elas. Compôs um poema em que colocou uma pequenina borboleta equilibrando a pesadíssima grandeza cósmica:
No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.
Podem imaginar isso, que uma borboleta com suas levíssimas asas possa equilibrar um planeta? E numa cena do filme Sonhos, de Kurosawa, há uma revoada de milhares, milhões de borboletas.
Isso aconteceu faz muitos anos. A cena da borboleta pousada no meu rosto estava no esquecimento. Aí sonhei e a cena se tornou viva de novo.
Os sonhos são um mundo mágico. No mundo dos sonhos, não há nem antes nem depois, nem lá nem aqui. Tempo e espaço se misturam.
Aí, sonhando, ouvi o cantarolar de uma valsinha velha de que ninguém mais se lembra. Era só um cantarolar, sem palavras. Depois de acordar, fui ao Google e lá estava ela – “Linda borboleta”:
Certa manhã
Destas manhãs cheias de luz
Por entre as rosas do jardim
Eu vi passar
Gentil borboleta
De asas azuis
E o seu voo incerto
Me fez pensar
Que os namorados
Que passeiam por aí
São borboletas que a voar
De flor em flor
Procuram daqui
E procuram dali
Encontrar um novo amor
Voa, minha linda borboleta
Voa procurando a ilusão
Voa pois a vida é tão boa
Quando se tem
Um amor no coração
Sonhei com a borboleta que pousara no meu rosto. Mas de repente ela bateu asas e voou em meio às árvores da mata. Corri atrás, mas ela era mais rápida que eu.
Destas manhãs cheias de luz
Por entre as rosas do jardim
Eu vi passar
Gentil borboleta
De asas azuis
E o seu voo incerto
Me fez pensar
Que os namorados
Que passeiam por aí
São borboletas que a voar
De flor em flor
Procuram daqui
E procuram dali
Encontrar um novo amor
Voa, minha linda borboleta
Voa procurando a ilusão
Voa pois a vida é tão boa
Quando se tem
Um amor no coração
Sonhei com a borboleta que pousara no meu rosto. Mas de repente ela bateu asas e voou em meio às árvores da mata. Corri atrás, mas ela era mais rápida que eu.
A cena se alterou. A borboleta estava agora num shopping, voando, voando, e entrou numa joalheria. Fiquei confuso diante de tantas joias nas vitrines, até que vi a borboleta pousada num fino cordão de ouro. Mas foi só tocá-la para que ela se transformasse numa borboleta de vidro, as asas feitas com pedras coloridas.
Fiquei triste com essa transformação, porque eu preferia a borboleta viva, aquela que se assentara no meu rosto. De qualquer maneira, resolvi comprá-la. Era uma joia que eu poderia dar a alguém que se parecesse com a minha borboleta.
Pus a borboleta de pedras coloridas no bolso e me fui. Mas aí aconteceu o que eu não imaginara: como no filme de Kurosawa, milhares de borboletas começaram a sair do meu bolso e encheram de cores o espaço do shopping. E foi em meio a esse encantamento onírico que uma das borboletas não voou. Ela se assentou sobre o meu rosto e ali ficou...
Aí eu acordei...
***
Nestes jardins – há vinte anos – andaram os nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos.
Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo, todos nós choraríamos,
de mútua pena e susto imenso.
E assim nos separamos, suspirando dias futuros, nenhum se atrevia a desvelar
seus próprios mundos.
E agora que separados vivemos o que foi vivido, com doce amor choramos quem
fomos nesse tempo antigo.
Rubem Alves, "Cantos do Pássaro Encantado"
Ari Nhotim em retiro espiritual
Ari Nhotim não era bem um intelectual, mas alguém que apreciava ser confundido com um. Colecionava citações que nunca entendia, frequentava eventos culturais em busca de evidências fotográficas e possuía o raro talento de transformar qualquer banalidade em supostas reflexões sofisticadas.
E, para ser justo, depois de tantos anos praticando, já fazia isso com impressionante competência.
Foi assim que, certo dia, decidiu fazer um retiro de silêncio.
A verdadeira razão não era lá muito nobre: postar depois uma foto em preto e branco acompanhada da legenda “De vez em quando é preciso escutar o que o ruído esconde”.
Não fazia a menor ideia do que aquilo significava, mas sabia que renderia curtidas.
O retiro acontecia numa pousada ecológica no alto de uma serra. Durante três dias, os participantes deveriam permanecer em absoluto silêncio.
Logo na chegada, Ari sentiu-se inspirado.
Recebeu um crachá com seu nome e uma pequena cartilha explicativa. Leu apenas o título. Cartilhas são muito literais para alguém acostumado a experiências mais sensoriais.
Antes do início oficial, uma senhora lhe perguntou:
— O senhor já fez algum retiro desses?
— Prefiro não compartimentalizar minhas experiências.
Traduzindo: nunca.
O problema surgiu poucos minutos depois.
Ari descobriu que ficar calado era mais difícil do que imaginava. Ele precisava que os outros soubessem que estava vivendo algo importante.
No segundo dia, a situação piorou.
Sem poder falar, Ari começou a desenvolver um complexo sistema de expressões faciais. Franzia a testa para demonstrar transcendência. Erguia uma sobrancelha para indicar iluminação. Fechava os olhos para sinalizar conexão cósmica.
Um participante comentou baixinho com outro:
— Aquele homem ali está passando mal?
À tarde, durante uma caminhada meditativa, Ari encontrou um lago.
Ali enxergou sua grande oportunidade.
Sentou-se numa pedra à margem da água e assumiu uma pose contemplativa tão elaborada que parecia a estátua O pensador, de Rodin.
Permaneceu imóvel por quase quarenta minutos. Até que um funcionário da pousada se aproximou.
— Senhor, o pesque-pague é no sítio ao lado.
Ari sentiu o golpe. Mas permaneceu em silêncio. Afinal, regras são regras.
Na última noite, os participantes foram convidados a escrever anonimamente suas reflexões num mural coletivo.
Era o momento que ele aguardava.
Enquanto os demais registravam pensamentos simples sobre autoconhecimento e serenidade, Ari escreveu: “Entre a ausência do verbo e a presença do vazio, encontrei a gramática secreta da existência”.
Leu em voz alta a frase três vezes. Achou genial.
Na manhã seguinte, durante o encerramento, o coordenador comentou algumas mensagens deixadas no mural.
Ao chegar à de Ari, fez uma pausa.
Coçou a cabeça. Ajustou os óculos. E leu:
— “Entre a ausência do verbo e a presença do vazio…”
Depois veio o comentário:
— Bom, quem escreveu isso teve uma experiência bastante… específica.
Foi a primeira vez em todo o retiro que Ari sentiu verdadeiro crescimento espiritual. Confundiram sua frase com profundidade. Missão cumprida.
Na volta para casa, publicou uma fotografia em seu perfil do Instagram olhando para o horizonte.
Legenda: “Não voltei o mesmo”.
E estava certo.
Voltou com três mil novecentas e quarenta e sete curtidas a mais.
E, para ser justo, depois de tantos anos praticando, já fazia isso com impressionante competência.
Foi assim que, certo dia, decidiu fazer um retiro de silêncio.
A verdadeira razão não era lá muito nobre: postar depois uma foto em preto e branco acompanhada da legenda “De vez em quando é preciso escutar o que o ruído esconde”.
Não fazia a menor ideia do que aquilo significava, mas sabia que renderia curtidas.
O retiro acontecia numa pousada ecológica no alto de uma serra. Durante três dias, os participantes deveriam permanecer em absoluto silêncio.
Logo na chegada, Ari sentiu-se inspirado.
Recebeu um crachá com seu nome e uma pequena cartilha explicativa. Leu apenas o título. Cartilhas são muito literais para alguém acostumado a experiências mais sensoriais.
Antes do início oficial, uma senhora lhe perguntou:
— O senhor já fez algum retiro desses?
— Prefiro não compartimentalizar minhas experiências.
Traduzindo: nunca.
O problema surgiu poucos minutos depois.
Ari descobriu que ficar calado era mais difícil do que imaginava. Ele precisava que os outros soubessem que estava vivendo algo importante.
No segundo dia, a situação piorou.
Sem poder falar, Ari começou a desenvolver um complexo sistema de expressões faciais. Franzia a testa para demonstrar transcendência. Erguia uma sobrancelha para indicar iluminação. Fechava os olhos para sinalizar conexão cósmica.
Um participante comentou baixinho com outro:
— Aquele homem ali está passando mal?
À tarde, durante uma caminhada meditativa, Ari encontrou um lago.
Ali enxergou sua grande oportunidade.
Sentou-se numa pedra à margem da água e assumiu uma pose contemplativa tão elaborada que parecia a estátua O pensador, de Rodin.
Permaneceu imóvel por quase quarenta minutos. Até que um funcionário da pousada se aproximou.
— Senhor, o pesque-pague é no sítio ao lado.
Ari sentiu o golpe. Mas permaneceu em silêncio. Afinal, regras são regras.
Na última noite, os participantes foram convidados a escrever anonimamente suas reflexões num mural coletivo.
Era o momento que ele aguardava.
Enquanto os demais registravam pensamentos simples sobre autoconhecimento e serenidade, Ari escreveu: “Entre a ausência do verbo e a presença do vazio, encontrei a gramática secreta da existência”.
Leu em voz alta a frase três vezes. Achou genial.
Na manhã seguinte, durante o encerramento, o coordenador comentou algumas mensagens deixadas no mural.
Ao chegar à de Ari, fez uma pausa.
Coçou a cabeça. Ajustou os óculos. E leu:
— “Entre a ausência do verbo e a presença do vazio…”
Depois veio o comentário:
— Bom, quem escreveu isso teve uma experiência bastante… específica.
Foi a primeira vez em todo o retiro que Ari sentiu verdadeiro crescimento espiritual. Confundiram sua frase com profundidade. Missão cumprida.
Na volta para casa, publicou uma fotografia em seu perfil do Instagram olhando para o horizonte.
Legenda: “Não voltei o mesmo”.
E estava certo.
Voltou com três mil novecentas e quarenta e sete curtidas a mais.
As sirenes tocaram a noite inteira sem parar...
Mefítico. O fedor vem dos cadáveres, do lixo e dos excrementos que se amontoam além dos Círculos Oficiais Permitidos, para lá dos Acampamentos Paupérrimos. Que não me ouçam designar tais regiões pelos apelidos populares. Mal sei o que me pode acontecer. Isolamento, acho.
Tentaram tudo para eliminar esse cheiro de morte e decomposição que nos agonia continuamente. Será que tentaram? Nada conseguiram. Os caminhões, alegremente pintados de amarelo e verde, despejam mortos, noite e dia. Sabemos, porque tais coisas sempre se sabem. É assim.
Não há tempo para cremar todos os corpos. Empilham e esperam. Os esgotos se abrem ao ar livre, descarregam, em vagonetes, na vala seca do rio. O lixo forma setenta e sete colinas que ondulam, habitadas, todas. E o sol, violento demais, corrói e apodrece a carne em poucas horas.
O cheiro infeto dos mortos se mistura ao dos inseticidas impotentes e aos formóis. Acre, faz o nariz sangrar em tardes de inversão atmosférica. Atravessa as máscaras obrigatórias, resseca a boca, os olhos lacrimejam, racha a pele. Ao nível do chão, os animais morrem.
Forma-se uma atmosfera pestilencial que uma bateria de ventiladores possantes procura inutilmente expulsar. Para longe dos limites dos oikoumenê, palavra que os sociólogos, ociosos, recuperam da antiguidade, a fim de designar o espaço exíguo em que vivemos. Vivemos?
Virei-me assustado. Adelaide nunca tinha dado um grito em trinta e dois anos de casados. Treze para as oito. Em quatro minutos deveria estar no ponto, ou perderia o S-7.58, minha condução autorizada. Estranho, ela sabia. E por que então resolvia me atrasar ainda mais?
– O que foi?
– O paletó! Esqueceu?
– Não aguento esse paletó. Passo o dia suando.
– Mas sem ele não te deixam trabalhar.
– Tomara.
Adelaide me olhou, arisca. Inquieto, encarei o rosto dela e me perguntei. Pergunta que não tenho coragem de enfrentar. Se eu admitir, ela se desvenda. Toma forma, cristaliza, revela. Será que depois de tantos anos compensa ver? Reagir agora? E se valesse a pena?
Tomávamos o café da manhã juntos, todos os dias. Depois ela me acompanhava até a porta. Eu colocava o chapéu (voltou o seu uso), acariciava seu ombro esquerdo (nem sei mais se há prazer nisto) e consultava o relógio. Ficava angustiado se não estivesse dentro do horário.
– Olha a neblina, está baixa. Vai esquentar muito.
Cada dia, a neblina desce. Quando envolver tudo, vamos suportar? Seis meses atrás, pairava no espaço como a cúpula de uma catedral gigantesca. O mormaço rescalda a cidade, inflama a gente. Às vezes, a neblina some, fica o fedor que dá ânsias de vômito. A cabeça arde.
– Conseguiu dormir?
– Com as sirenes tocando a noite inteira?
– Era alarme de roubo?
– Incêndio. Me deixa com os nervos estourados. A falta de sono até aguento. Mas os alarmes me perturbam.
– Não chega o calor infernal durante o dia? Ainda tem incêndio à noite?
– Está tudo ressecado.
– Lembra-se daquele tempo em que os galões de gasolina estouravam? Os prédios ardiam sem parar? Havia um depósito em cada casa, logo depois do nefasto período de Racionamentos Incríveis.
Trouxe o paletó cinza. Tecido sintético que impermeabiliza. Não deixa passar calor, anunciaram. Nada. Igual à casimira. Me abafa. Vi sobre a mesa os calendários sendo empilhados, ela estava retirando das paredes. Puxa! Hoje deve ser 5 de janeiro. O que me interessa?
Os calendários desta casa permanecem sempre no primeiro do ano. O 1 vermelho, fraternidade universal. O vermelho desbota, torna-se rosado ao fim do ano. Todos os dias, Adelaide limpa. Horas e horas tirando o pó das folhinhas, na sala, cozinha, quarto. Ansiosamente.
O 1 eterno. Não é preciso marcar o tempo, basta abandoná-lo, ela me disse uma vez. De que adianta saber que dia é hoje? As horas, sim, são importantes. O dia é bem dividido. Cada hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim. O que tiver de acontecer, é dentro dele.
Agora me dou conta. Não parecia coisa dela. Mulher quieta, ex-escriturária de estrada de ferro. Nunca falava. Aceitava as coisas e só mostrava irritação calando-se e coçando em baixo dos olhos. O lugar coçado tornava-se enrugado e os olhos alongavam-se, como os de uma japonesa.
No começo do ano, recolhia os calendários, fazia um pacote com papel-pardo. No dia 5, ao sair, pedia: “Não se esqueça do papel”. Repetiu, trinta e dois anos. Nunca me lembrava, ela jamais se esquecia. Dizia a frase, irremediavelmente, ao nos despedirmos, treze para as oito.
A substituição dos calendários era automática no dia 5 de janeiro. Pela manhã, Adelaide retirava-os. Nesse dia, eu não ficava na cidade, voltava na hora do almoço. Depois de comer, sempre me deitava um pouco. Mas, agora, o quarto abafado e o suor não me deixam dormir.
Mesmo assim, fico no quarto. Ao sair, vejo os novos calendários no lugar. E, sobre a mesa, o embrulho de papel-pardo. Devo levá-lo ao antigo quarto de empregada, amontoá-lo junto com os outros. Ali estão empilhadas pela ordem as folhinhas dos últimos trinta e dois anos.
Onze mil e setecentos dias intocados. Empoeirados, amarelados, não utilizados, conservados. Naquele cômodo, entro uma vez por ano. Nunca tivemos empregada. Adelaide sempre fez tudo, dizia ironicamente que era a sua missão. Só há pouco consegui contratar uma faxineira semanal.
E isso porque empregados ganham pouquíssimo. As pessoas trabalham em troca de um prato de comida, um copo de água por dia. Não querem dinheiro, só comer e beber. Aí está a grande dificuldade. Se aceitassem dinheiro, tudo bem. Mas comida? E que dizer de água então?
Os dias guardados. Armazenados. Neles, nenhuma marca. Nem sequer rasura. Conjunto, soma de todos os nossos instantes. Agora sei. Cada momento era uma antecedência para nós. Uma espera que se substituía infinitamente. Vivíamos na ansiedade pela ocasião que haveria de chegar.
Assim, nossa vida se distendia como um elástico. Esticava-se ao ponto máximo, atingindo o estado de tensão, incômoda inquietação. Quando o dia se acabava, a esperança nascia outra vez dentro de nós. Aguardávamos os instantes que fariam o dia seguinte repleto-vazio.
Instantes despidos daquilo que faltava. Algo que necessitávamos e não íamos procurar. Ficávamos na expectativa de que acontecesse. Havia uma falta. Não somente dentro do tempo. Porém um vazio real, concreto. Lancinante. Em cada canto da casa se projetava a sua sombra. Compacta.
Fomos preenchendo o apartamento com objetos. Até que ele se assemelhou a um bazar de artigos únicos, invendáveis. Cristaleiras cheias de compoteiras, xícaras, saleiros, copos, taças e licoreiras. Paredes com quadros, reproduções, flâmulas, santos, retratos, relógios parados.
Vasos, bibelôs, criados-mudos, mesinhas de centro, cinzeiros limpos, estatuetas, imagens, porta-retratos, toalhinhas de renda, tapetes de barbante, caixinhas decoradas, vidros vazios, garrafas cortadas, pesos de papel, abajures, lâmpadas votivas, cestinhas de costura decoradas.
E calendários. Dois ou três em cada cômodo, escolhidos por ela. Brindes ganhos nos Superpostos de Distribuição Alimentar. Comprados na igreja. Folhinhas que nos ensinavam vários costumes obsoletos. Como a boa época para se plantar e colher. Ou que previam o bom e o mau tempo.
Depois de guardar os pacotes, eu vinha olhar, uma a uma, as folhinhas novas. Estampas coloridas. Moças colhendo café. Laranjais em fila indiana sobre a colina. Trigais dourados ao sol, homens com ceifadeiras. Casas à beira de lagos, incêndios na floresta. Tudo tão antigo.
Índios, onças, gatos na cesta, pai preto, anjos velando meninos à borda de abismos. Tudo, menos moças nuas. Dessas que se viam nas oficinas mecânicas. Loiras diáfanas, morenas rechonchudas, sorrindo em tangas mínimas. Contemplava rapidamente, teria o ano todo para admirá-las.
– Tem um fio de cabelo branco. O que é isso, paizinho? Mal fez cinquenta anos. Seu pai com noventa ainda tem a cabeça preta!
A mãe dela chamava o marido de pai. Mas nós? Onde está nosso filho? Nem sei se tivemos. Pode parecer um absurdo, mas é verdade. Podem acreditar. Pela minha honra. Tudo se confunde na minha cabeça, o que foi e o que deveria ser. O que era realmente e aquilo que eu gostaria que fosse.
– Souza, sonhei outra vez.
– De novo? O mesmo sonho?
– Mudou um pouco. Não foram as sirenes que não me deixaram dormir. Foi o sonho. Tão nítido. Real como aquela noite no porto.
Não. Adelaide, não. Basta! Já temos o inferno no coração. Há coisas que devem ser esquecidas. Vamos sepultá-las. É preciso. Combinamos um dia não falar nunca mais sobre o assunto. Afinal, para nós, viver sempre foi tão calmo, reconfortante. Éramos felizes. Ao menos, parecia.
– Souza, foi impressionante. O navio afundava num mar terrível. Não havia tempestade alguma, nem vento, só o silêncio. Sabe o que me congelava? O ruído das lâmpadas quentes estourando quando tocavam a água fria. Os cordões de lâmpadas se arrebentavam, soltando uma fumacinha branca. O mar foi ficando escuro, escuro, até que a última lâmpada se apagou. Eu sem enxergar nada, só ouvindo aquelas explosões. Nem mesmo um gemido. Elas morreram todas, não morreram, Souza? Você vai ter de me contar uma hora. Será que não era o barulho das cabecinhas estourando?
– Não seja louca, Adelaide. Como a cabeça delas ia estourar?
– Criança tem a cabeça tão fraquinha.
– É tudo sonho, Adelaide, não tem nada a ver. Se acalme.
– Não posso sossegar, e você tembém não, até que eu saiba.
O navio, nossa aflição, estava esquecido. Imaginei que jamais retornasse. Antes, mais novos, tínhamos capacidade para suportar. Adelaide, principalmente. Está cansada, acho que doente. Desassossegada. Para nós, o tempo não ajudou a esquecer, ao contrário, alimentou lembranças.
Quatro para as oito; se não corro, perco o ônibus. Não fosse esta perna, eu teria uma bicicleta, como todo mundo. Uma artrose no joelho me impede de pedalar. Tive de passar por dezenas de exames, centenas de gabinetes, paguei gorjetas, conheci todos os pequenos subornos.
Escorreguei fichas de água nas mãos de funcionários. Fichas que me fizeram falta. Transferi cotas de alimentos, e esperei até que saísse a praticamente impossível autorização para o ônibus. Ganhei a ficha especial de circulação para o S-7.58. O desgraçado é pontual, até irrita.
Abro a porta, o bafo quente vem do corredor. Já estou melado, quando chegar ao centro estarei em sopa. Como todo mundo. A vizinha varre o chão, furiosamente. Como se fosse possível lutar contra a poeira negra, a imundície. Não fornecem água para lavar as partes comuns.
Vou pela escada. Há muito desisti desse emperrado elevador solitário, mambembe. Serve trinta andares, cento e cinquenta apartamentos. Somente os velhos e inválidos esperam por esse aparelho desconjuntado, ameaçador. O corredor da entrada atulhado de lixo. Uma vergonha.
Lixo que aumenta dia a dia. Não podemos atirar na rua, e não há onde depositar. O caminhão carrega o que pode quando passa. Se passa. Vem tão cheio que leva muito pouco. Ratos dilaceram os sacos, o lixo se esparrama, espalha um fedor insuportável. Ora, um cheiro a mais.
Nem sei por que pagamos zelador, ele nunca está, se esquece de ligar o Sônico Antirratos. Um zelador hoje em dia precisa ser político, negociar com os Homens dos Caminhões de Lixo, com os Civiltares de Segurança, dialogar habilmente com Fornecedores Oficiais de Água.
A barbearia está abrindo. Antigamente, havia neste hall lojinhas minúsculas, bonitas. Existia até um café, com toalhas xadrez, chás e tortas, sonhos e bolos, sorvetes, água gelada, refrigerantes e sucos. Fecharam, as vitrines estão cerradas com placas de plástico pregadas aos batentes.
Lacrado por placas pregadas por fora. Assim me sinto. Contando os dias, detalhando meus passos. Sensação de que me observo em microscópio, aumentado dezenas de vezes. Quantas vezes não reconheço este Souza que desliza num líquido viscoso. Sou, todavia não pode ser eu.
No corredor, somente o barbeiro resistiu. Sei lá como, ou por quê. Não entendo. Os velhos descem de vez em quando para uma barba, um cabelo. Através dos vidros encardidos, mal se percebe o salão. Cumprimento com um aceno, Prata me faz um sinal, gosta de uma prosinha. Inevitável, indolor.
– Tem água esta semana?
– E eu sei? Pergunte ao distribuidor.
– É que você tem aquele sobrinho.
– Não faço a mínima ideia.
– Desorganizaram as entregas, ou aumentaram os prazos.
Coceira nas mãos. Arde e no lugar está uma pequena depressão, como se eu tivesse apertado uma bola de gude por muito tempo. Fiquei passando o dedo pela depressão, sentindo cócegas. Será uma picada de inseto? Não senti nada. Medo. Anda aparecendo cada bicho estranho!
O caminhão descarrega refrigerantes factícios no bar. Portanto um mês se passou. Durante as festas o tempo voa. Besteira, o que me interessa a corrida do tempo? Não existe nada a fazer com ele. Que importa a velocidade se já não tenho uso para minha vida. Quem tem?
Tentaram tudo para eliminar esse cheiro de morte e decomposição que nos agonia continuamente. Será que tentaram? Nada conseguiram. Os caminhões, alegremente pintados de amarelo e verde, despejam mortos, noite e dia. Sabemos, porque tais coisas sempre se sabem. É assim.
Não há tempo para cremar todos os corpos. Empilham e esperam. Os esgotos se abrem ao ar livre, descarregam, em vagonetes, na vala seca do rio. O lixo forma setenta e sete colinas que ondulam, habitadas, todas. E o sol, violento demais, corrói e apodrece a carne em poucas horas.
O cheiro infeto dos mortos se mistura ao dos inseticidas impotentes e aos formóis. Acre, faz o nariz sangrar em tardes de inversão atmosférica. Atravessa as máscaras obrigatórias, resseca a boca, os olhos lacrimejam, racha a pele. Ao nível do chão, os animais morrem.
Forma-se uma atmosfera pestilencial que uma bateria de ventiladores possantes procura inutilmente expulsar. Para longe dos limites dos oikoumenê, palavra que os sociólogos, ociosos, recuperam da antiguidade, a fim de designar o espaço exíguo em que vivemos. Vivemos?
Virei-me assustado. Adelaide nunca tinha dado um grito em trinta e dois anos de casados. Treze para as oito. Em quatro minutos deveria estar no ponto, ou perderia o S-7.58, minha condução autorizada. Estranho, ela sabia. E por que então resolvia me atrasar ainda mais?
– O que foi?
– O paletó! Esqueceu?
– Não aguento esse paletó. Passo o dia suando.
– Mas sem ele não te deixam trabalhar.
– Tomara.
Adelaide me olhou, arisca. Inquieto, encarei o rosto dela e me perguntei. Pergunta que não tenho coragem de enfrentar. Se eu admitir, ela se desvenda. Toma forma, cristaliza, revela. Será que depois de tantos anos compensa ver? Reagir agora? E se valesse a pena?
Tomávamos o café da manhã juntos, todos os dias. Depois ela me acompanhava até a porta. Eu colocava o chapéu (voltou o seu uso), acariciava seu ombro esquerdo (nem sei mais se há prazer nisto) e consultava o relógio. Ficava angustiado se não estivesse dentro do horário.
– Olha a neblina, está baixa. Vai esquentar muito.
Cada dia, a neblina desce. Quando envolver tudo, vamos suportar? Seis meses atrás, pairava no espaço como a cúpula de uma catedral gigantesca. O mormaço rescalda a cidade, inflama a gente. Às vezes, a neblina some, fica o fedor que dá ânsias de vômito. A cabeça arde.
– Conseguiu dormir?
– Com as sirenes tocando a noite inteira?
– Era alarme de roubo?
– Incêndio. Me deixa com os nervos estourados. A falta de sono até aguento. Mas os alarmes me perturbam.
– Não chega o calor infernal durante o dia? Ainda tem incêndio à noite?
– Está tudo ressecado.
– Lembra-se daquele tempo em que os galões de gasolina estouravam? Os prédios ardiam sem parar? Havia um depósito em cada casa, logo depois do nefasto período de Racionamentos Incríveis.
Trouxe o paletó cinza. Tecido sintético que impermeabiliza. Não deixa passar calor, anunciaram. Nada. Igual à casimira. Me abafa. Vi sobre a mesa os calendários sendo empilhados, ela estava retirando das paredes. Puxa! Hoje deve ser 5 de janeiro. O que me interessa?
Os calendários desta casa permanecem sempre no primeiro do ano. O 1 vermelho, fraternidade universal. O vermelho desbota, torna-se rosado ao fim do ano. Todos os dias, Adelaide limpa. Horas e horas tirando o pó das folhinhas, na sala, cozinha, quarto. Ansiosamente.
O 1 eterno. Não é preciso marcar o tempo, basta abandoná-lo, ela me disse uma vez. De que adianta saber que dia é hoje? As horas, sim, são importantes. O dia é bem dividido. Cada hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim. O que tiver de acontecer, é dentro dele.
Agora me dou conta. Não parecia coisa dela. Mulher quieta, ex-escriturária de estrada de ferro. Nunca falava. Aceitava as coisas e só mostrava irritação calando-se e coçando em baixo dos olhos. O lugar coçado tornava-se enrugado e os olhos alongavam-se, como os de uma japonesa.
No começo do ano, recolhia os calendários, fazia um pacote com papel-pardo. No dia 5, ao sair, pedia: “Não se esqueça do papel”. Repetiu, trinta e dois anos. Nunca me lembrava, ela jamais se esquecia. Dizia a frase, irremediavelmente, ao nos despedirmos, treze para as oito.
A substituição dos calendários era automática no dia 5 de janeiro. Pela manhã, Adelaide retirava-os. Nesse dia, eu não ficava na cidade, voltava na hora do almoço. Depois de comer, sempre me deitava um pouco. Mas, agora, o quarto abafado e o suor não me deixam dormir.
Mesmo assim, fico no quarto. Ao sair, vejo os novos calendários no lugar. E, sobre a mesa, o embrulho de papel-pardo. Devo levá-lo ao antigo quarto de empregada, amontoá-lo junto com os outros. Ali estão empilhadas pela ordem as folhinhas dos últimos trinta e dois anos.
Onze mil e setecentos dias intocados. Empoeirados, amarelados, não utilizados, conservados. Naquele cômodo, entro uma vez por ano. Nunca tivemos empregada. Adelaide sempre fez tudo, dizia ironicamente que era a sua missão. Só há pouco consegui contratar uma faxineira semanal.
E isso porque empregados ganham pouquíssimo. As pessoas trabalham em troca de um prato de comida, um copo de água por dia. Não querem dinheiro, só comer e beber. Aí está a grande dificuldade. Se aceitassem dinheiro, tudo bem. Mas comida? E que dizer de água então?
Os dias guardados. Armazenados. Neles, nenhuma marca. Nem sequer rasura. Conjunto, soma de todos os nossos instantes. Agora sei. Cada momento era uma antecedência para nós. Uma espera que se substituía infinitamente. Vivíamos na ansiedade pela ocasião que haveria de chegar.
Assim, nossa vida se distendia como um elástico. Esticava-se ao ponto máximo, atingindo o estado de tensão, incômoda inquietação. Quando o dia se acabava, a esperança nascia outra vez dentro de nós. Aguardávamos os instantes que fariam o dia seguinte repleto-vazio.
Instantes despidos daquilo que faltava. Algo que necessitávamos e não íamos procurar. Ficávamos na expectativa de que acontecesse. Havia uma falta. Não somente dentro do tempo. Porém um vazio real, concreto. Lancinante. Em cada canto da casa se projetava a sua sombra. Compacta.
Fomos preenchendo o apartamento com objetos. Até que ele se assemelhou a um bazar de artigos únicos, invendáveis. Cristaleiras cheias de compoteiras, xícaras, saleiros, copos, taças e licoreiras. Paredes com quadros, reproduções, flâmulas, santos, retratos, relógios parados.
Vasos, bibelôs, criados-mudos, mesinhas de centro, cinzeiros limpos, estatuetas, imagens, porta-retratos, toalhinhas de renda, tapetes de barbante, caixinhas decoradas, vidros vazios, garrafas cortadas, pesos de papel, abajures, lâmpadas votivas, cestinhas de costura decoradas.
E calendários. Dois ou três em cada cômodo, escolhidos por ela. Brindes ganhos nos Superpostos de Distribuição Alimentar. Comprados na igreja. Folhinhas que nos ensinavam vários costumes obsoletos. Como a boa época para se plantar e colher. Ou que previam o bom e o mau tempo.
Depois de guardar os pacotes, eu vinha olhar, uma a uma, as folhinhas novas. Estampas coloridas. Moças colhendo café. Laranjais em fila indiana sobre a colina. Trigais dourados ao sol, homens com ceifadeiras. Casas à beira de lagos, incêndios na floresta. Tudo tão antigo.
Índios, onças, gatos na cesta, pai preto, anjos velando meninos à borda de abismos. Tudo, menos moças nuas. Dessas que se viam nas oficinas mecânicas. Loiras diáfanas, morenas rechonchudas, sorrindo em tangas mínimas. Contemplava rapidamente, teria o ano todo para admirá-las.
– Tem um fio de cabelo branco. O que é isso, paizinho? Mal fez cinquenta anos. Seu pai com noventa ainda tem a cabeça preta!
A mãe dela chamava o marido de pai. Mas nós? Onde está nosso filho? Nem sei se tivemos. Pode parecer um absurdo, mas é verdade. Podem acreditar. Pela minha honra. Tudo se confunde na minha cabeça, o que foi e o que deveria ser. O que era realmente e aquilo que eu gostaria que fosse.
– Souza, sonhei outra vez.
– De novo? O mesmo sonho?
– Mudou um pouco. Não foram as sirenes que não me deixaram dormir. Foi o sonho. Tão nítido. Real como aquela noite no porto.
Não. Adelaide, não. Basta! Já temos o inferno no coração. Há coisas que devem ser esquecidas. Vamos sepultá-las. É preciso. Combinamos um dia não falar nunca mais sobre o assunto. Afinal, para nós, viver sempre foi tão calmo, reconfortante. Éramos felizes. Ao menos, parecia.
– Souza, foi impressionante. O navio afundava num mar terrível. Não havia tempestade alguma, nem vento, só o silêncio. Sabe o que me congelava? O ruído das lâmpadas quentes estourando quando tocavam a água fria. Os cordões de lâmpadas se arrebentavam, soltando uma fumacinha branca. O mar foi ficando escuro, escuro, até que a última lâmpada se apagou. Eu sem enxergar nada, só ouvindo aquelas explosões. Nem mesmo um gemido. Elas morreram todas, não morreram, Souza? Você vai ter de me contar uma hora. Será que não era o barulho das cabecinhas estourando?
– Não seja louca, Adelaide. Como a cabeça delas ia estourar?
– Criança tem a cabeça tão fraquinha.
– É tudo sonho, Adelaide, não tem nada a ver. Se acalme.
– Não posso sossegar, e você tembém não, até que eu saiba.
O navio, nossa aflição, estava esquecido. Imaginei que jamais retornasse. Antes, mais novos, tínhamos capacidade para suportar. Adelaide, principalmente. Está cansada, acho que doente. Desassossegada. Para nós, o tempo não ajudou a esquecer, ao contrário, alimentou lembranças.
Quatro para as oito; se não corro, perco o ônibus. Não fosse esta perna, eu teria uma bicicleta, como todo mundo. Uma artrose no joelho me impede de pedalar. Tive de passar por dezenas de exames, centenas de gabinetes, paguei gorjetas, conheci todos os pequenos subornos.
Escorreguei fichas de água nas mãos de funcionários. Fichas que me fizeram falta. Transferi cotas de alimentos, e esperei até que saísse a praticamente impossível autorização para o ônibus. Ganhei a ficha especial de circulação para o S-7.58. O desgraçado é pontual, até irrita.
Abro a porta, o bafo quente vem do corredor. Já estou melado, quando chegar ao centro estarei em sopa. Como todo mundo. A vizinha varre o chão, furiosamente. Como se fosse possível lutar contra a poeira negra, a imundície. Não fornecem água para lavar as partes comuns.
Vou pela escada. Há muito desisti desse emperrado elevador solitário, mambembe. Serve trinta andares, cento e cinquenta apartamentos. Somente os velhos e inválidos esperam por esse aparelho desconjuntado, ameaçador. O corredor da entrada atulhado de lixo. Uma vergonha.
Lixo que aumenta dia a dia. Não podemos atirar na rua, e não há onde depositar. O caminhão carrega o que pode quando passa. Se passa. Vem tão cheio que leva muito pouco. Ratos dilaceram os sacos, o lixo se esparrama, espalha um fedor insuportável. Ora, um cheiro a mais.
Nem sei por que pagamos zelador, ele nunca está, se esquece de ligar o Sônico Antirratos. Um zelador hoje em dia precisa ser político, negociar com os Homens dos Caminhões de Lixo, com os Civiltares de Segurança, dialogar habilmente com Fornecedores Oficiais de Água.
A barbearia está abrindo. Antigamente, havia neste hall lojinhas minúsculas, bonitas. Existia até um café, com toalhas xadrez, chás e tortas, sonhos e bolos, sorvetes, água gelada, refrigerantes e sucos. Fecharam, as vitrines estão cerradas com placas de plástico pregadas aos batentes.
Lacrado por placas pregadas por fora. Assim me sinto. Contando os dias, detalhando meus passos. Sensação de que me observo em microscópio, aumentado dezenas de vezes. Quantas vezes não reconheço este Souza que desliza num líquido viscoso. Sou, todavia não pode ser eu.
No corredor, somente o barbeiro resistiu. Sei lá como, ou por quê. Não entendo. Os velhos descem de vez em quando para uma barba, um cabelo. Através dos vidros encardidos, mal se percebe o salão. Cumprimento com um aceno, Prata me faz um sinal, gosta de uma prosinha. Inevitável, indolor.
– Tem água esta semana?
– E eu sei? Pergunte ao distribuidor.
– É que você tem aquele sobrinho.
– Não faço a mínima ideia.
– Desorganizaram as entregas, ou aumentaram os prazos.
Coceira nas mãos. Arde e no lugar está uma pequena depressão, como se eu tivesse apertado uma bola de gude por muito tempo. Fiquei passando o dedo pela depressão, sentindo cócegas. Será uma picada de inseto? Não senti nada. Medo. Anda aparecendo cada bicho estranho!
O caminhão descarrega refrigerantes factícios no bar. Portanto um mês se passou. Durante as festas o tempo voa. Besteira, o que me interessa a corrida do tempo? Não existe nada a fazer com ele. Que importa a velocidade se já não tenho uso para minha vida. Quem tem?
Ignácio de Loyola Brandão, "Não verás país nenhum"
terça-feira, setembro 1
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