Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
terça-feira, março 3
Onde estão os leitores?
Estou em um café ao lado de uma pequena livraria em Ipanema. Um cantinho que tomo para mim em uma manhã roubada da rotina. Venho para a mesa de fora porque do lado de dentro dois homens falam alto. Quero silêncio. Trouxe para a leitura do momento: Quand tu écouteras cette chanson, de Lola Lafon, um livro premiado, lindo, que fala sobre a noite que a escritora em questão passou no Anexo, em Amsterdã, na casa clandestina de Anne Frank.
Ela reconta toda a caminhada da família até a clausura. Os preparativos, a corrida pelo “essencial”, os livros, a organização para que as meninas estudassem, lessem, não se afogassem nas horas vazias… Enquanto leio, observo o entorno da livraria. Ninguém lê. O gesto de pegar um livro e se manter em silêncio, imerso em um mundo distante, me parece cada vez mais raro. A moça na mesa da frente toma conta de duas crianças e está afogada na tela. As crianças relutam entre o desenho e… as telas. As senhoras dentro do café chegaram agora. Retomam a conversa do mês, e não há indícios de que sejam leitoras.
Por que digo isso? Estou em uma área de elite. Um dos bairros mais caros do Rio. E ninguém lê. Não vejo uma viva alma disposta a se acomodar em um canto, fazer silêncio e imergir em um mundo de papel. A moça da mesa da frente mostra com entusiasmo a viagem de sua médica por um país que ela logo identifica. Está radiante ao ver a viagem da outra. Isso basta.
Apontamos o dedo para as infâncias longe dos livros, mas o que fazer com os adultos? Uma causa perdida? Por onde tocar a sensibilidade para que tenham o gosto da leitura, que não é hábito, é prazer e ponto? Confesso que não sei. Talvez a gente tenha que agir mesmo no terreno da infância e ajudar as crianças a entender que a leitura está, sim, entre as coisas mais essenciais da vida. É um processo lento, envolve todos que, de alguma forma, trabalham e vivem entre os livros. Vamos nessa?
Retomo a minha viagem. Que livro lindo o de Lola Lafon. Que experiência sem medida é poder viajar para dentro de outras sensibilidades e situações sem sair do meu cantinho, um café simpático ao lado de uma bela livraria de bairro.
Ela reconta toda a caminhada da família até a clausura. Os preparativos, a corrida pelo “essencial”, os livros, a organização para que as meninas estudassem, lessem, não se afogassem nas horas vazias… Enquanto leio, observo o entorno da livraria. Ninguém lê. O gesto de pegar um livro e se manter em silêncio, imerso em um mundo distante, me parece cada vez mais raro. A moça na mesa da frente toma conta de duas crianças e está afogada na tela. As crianças relutam entre o desenho e… as telas. As senhoras dentro do café chegaram agora. Retomam a conversa do mês, e não há indícios de que sejam leitoras.
Por que digo isso? Estou em uma área de elite. Um dos bairros mais caros do Rio. E ninguém lê. Não vejo uma viva alma disposta a se acomodar em um canto, fazer silêncio e imergir em um mundo de papel. A moça da mesa da frente mostra com entusiasmo a viagem de sua médica por um país que ela logo identifica. Está radiante ao ver a viagem da outra. Isso basta.
Apontamos o dedo para as infâncias longe dos livros, mas o que fazer com os adultos? Uma causa perdida? Por onde tocar a sensibilidade para que tenham o gosto da leitura, que não é hábito, é prazer e ponto? Confesso que não sei. Talvez a gente tenha que agir mesmo no terreno da infância e ajudar as crianças a entender que a leitura está, sim, entre as coisas mais essenciais da vida. É um processo lento, envolve todos que, de alguma forma, trabalham e vivem entre os livros. Vamos nessa?
Retomo a minha viagem. Que livro lindo o de Lola Lafon. Que experiência sem medida é poder viajar para dentro de outras sensibilidades e situações sem sair do meu cantinho, um café simpático ao lado de uma bela livraria de bairro.
Janela sobre uma mulher 2
A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma maçã meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Uma água suja chove dentro de mim.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma maçã meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Uma água suja chove dentro de mim.
Eduardo Galeano, “Mulheres”
Aos deuses de tudo que existe
Não, os jardins não morrem no inverno, como os animais ou as pessoas, principalmente as mais velhas, apenas sofrem um pouco mais fundo do que de costume. Alguns, verdade, sucumbem. Minha vó Corruíra, por exemplo, costumava dizer: “Acho que deste agosto não passo”. E houve um do qual realmente não passou. Mas isso talvez fosse o destino, ou morre-se mais facilmente no inverno? sobretudo invernos gaúchos, quando o minuano vara frestas e fendas para cortar a pele feito navalha gelada. Enregelados, atravessamos agostos que parecem eternos e, nos setembros, suspiramos quase leves outra vez: “Meu Deus, passou”. O que vezenquando é puro engano: há pequenos agostos embutidos no entremeio dos doidos setembros.
Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente. Óbvias, quem sabe. Pra mim, não: é que nunca antes na vida tive um jardim. Que nem sequer, e ainda bem, é só meu. Tem a mão mais antiga de meu pai, e também o “dedo verde” de minha irmã Cláudia, que me ensina toques espertos contra pragas. Por que existem as pragas. Ah, se existem. E bem mais que as sete bíblicas. Fora os agostos, formigas-cortadeiras, caracóis, lesmas, pulgões, ácaros, cochonilhas e falanges do mal de nome ainda mais esquisito que esse último. Armados até os dentes, lutamos. Todo santo dia. Guerra sem tréguas, Bósnia.
Contabilizo perdas: foram-se a angélica, begônias, lágrimas-de-cristo que eu achava que eram brincos-de-princesa (meu pai jura que voltam), uma dália amarelinha adorada pelos erês de Oxum e outras muitas. A hortênsia empacou, o jasmineiro agonizou, mas resistiu bravo. Já as margaridas ficaram ainda mais folhudas, os gerânios cresceram loucamente e as roseiras se revelaram inesperadamente fortes, com menos de um ano de vida e de um metro de altura. A branca Lygia certos dias chegou a render nada menos que seis rosas. Todas abertas ao mesmo tempo, numa apoteose a Oxalá (sugestão para fantasia carnavalesca). O belo fica ainda mais belo, quando também é forte? Pois é.
E teve certa amarílis, que em julho dei por perdida. Semana passada, arrancando baldes de ervas-daninhas de nojentas raízes brancas estranguladoras, a alegria: como uma ponta de espada brotando da terra, miniexcalibur. Ao contrário, lá estava a amarílis nascendo outra vez. Limpei mais, adorei, conversei, bravo, é isso aí, minha filha, não se entrega não. Happy end? Ledo engano: manhã seguinte, a pontinha de espada não passava de um toco roído durante a noite não sei por que abantesma (só mesmo usando essa palavra) das trevas. Continuamos lutando, juntos, a amarílis e eu. Mas quando você pensa que um perigo medonho passou é porque outro ainda pior está vindo? Oh, Deus. E o perigo-passado realmente deixou você mais forte para o perigo-vindouro? E se só ficou o cansaço e se a amarílis desistir? E se eu desistir e for cuidar das verbenas, cravinas e amores-perfeitos que acabei de plantar?
Aprendem-se coisas, eu dizia. Vezenquando, assustadoras.
Mas lutamos, eu também dizia. E olho agora para trás e vejo na estante às minhas costas, bem à frente de um livro com reproduções de Egon Schiele, aquela árvore japonesa da fortuna e da felicidade, quando percebi que não superaria o inverno, transplantei-a do jardim para o meu quarto. Era um resto negro calcinado pela geada. E quase invisível, um pontinho verde de vida na base. Fui até lá agora e medi: está Com mais de meio palmo de altura empinadíssima, viva.
Então eu agradeço, eu tenho medo e espanto e terror e ao mesmo tempo maravilhamento e outras coisas com e sem nome, mas agradeço. Aos deuses dos jardins, aos deuses dos homens, aos deuses do tempo e até aos das ervas daninhas que nos fazem lutar feito tigres feridos fundo no peito, sim, eu agradeço.
Caio Fernando Abreu
Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente. Óbvias, quem sabe. Pra mim, não: é que nunca antes na vida tive um jardim. Que nem sequer, e ainda bem, é só meu. Tem a mão mais antiga de meu pai, e também o “dedo verde” de minha irmã Cláudia, que me ensina toques espertos contra pragas. Por que existem as pragas. Ah, se existem. E bem mais que as sete bíblicas. Fora os agostos, formigas-cortadeiras, caracóis, lesmas, pulgões, ácaros, cochonilhas e falanges do mal de nome ainda mais esquisito que esse último. Armados até os dentes, lutamos. Todo santo dia. Guerra sem tréguas, Bósnia.
Contabilizo perdas: foram-se a angélica, begônias, lágrimas-de-cristo que eu achava que eram brincos-de-princesa (meu pai jura que voltam), uma dália amarelinha adorada pelos erês de Oxum e outras muitas. A hortênsia empacou, o jasmineiro agonizou, mas resistiu bravo. Já as margaridas ficaram ainda mais folhudas, os gerânios cresceram loucamente e as roseiras se revelaram inesperadamente fortes, com menos de um ano de vida e de um metro de altura. A branca Lygia certos dias chegou a render nada menos que seis rosas. Todas abertas ao mesmo tempo, numa apoteose a Oxalá (sugestão para fantasia carnavalesca). O belo fica ainda mais belo, quando também é forte? Pois é.
E teve certa amarílis, que em julho dei por perdida. Semana passada, arrancando baldes de ervas-daninhas de nojentas raízes brancas estranguladoras, a alegria: como uma ponta de espada brotando da terra, miniexcalibur. Ao contrário, lá estava a amarílis nascendo outra vez. Limpei mais, adorei, conversei, bravo, é isso aí, minha filha, não se entrega não. Happy end? Ledo engano: manhã seguinte, a pontinha de espada não passava de um toco roído durante a noite não sei por que abantesma (só mesmo usando essa palavra) das trevas. Continuamos lutando, juntos, a amarílis e eu. Mas quando você pensa que um perigo medonho passou é porque outro ainda pior está vindo? Oh, Deus. E o perigo-passado realmente deixou você mais forte para o perigo-vindouro? E se só ficou o cansaço e se a amarílis desistir? E se eu desistir e for cuidar das verbenas, cravinas e amores-perfeitos que acabei de plantar?
Aprendem-se coisas, eu dizia. Vezenquando, assustadoras.
Mas lutamos, eu também dizia. E olho agora para trás e vejo na estante às minhas costas, bem à frente de um livro com reproduções de Egon Schiele, aquela árvore japonesa da fortuna e da felicidade, quando percebi que não superaria o inverno, transplantei-a do jardim para o meu quarto. Era um resto negro calcinado pela geada. E quase invisível, um pontinho verde de vida na base. Fui até lá agora e medi: está Com mais de meio palmo de altura empinadíssima, viva.
Então eu agradeço, eu tenho medo e espanto e terror e ao mesmo tempo maravilhamento e outras coisas com e sem nome, mas agradeço. Aos deuses dos jardins, aos deuses dos homens, aos deuses do tempo e até aos das ervas daninhas que nos fazem lutar feito tigres feridos fundo no peito, sim, eu agradeço.
Caio Fernando Abreu
Brincar de pensar
A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos da emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.
Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem houve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.
Bom, mas quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo. Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.
Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… e foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar no caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?
Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem houve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.
Bom, mas quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo. Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.
Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… e foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar no caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?
Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
Telas
Quando eu era menino, nas décadas de cinquenta/sessenta, só havia uma tela em casa: a da televisão Philco, dezesseis polegadas. Nela assistíamos, em preto e branco, aos programas que faziam sucesso na época. Geralmente à noitinha, depois de deixarmos a rua e tomarmos banho, já de pijama, antes do jantar e um pouquinho depois dele. O horário de dormir era rígido. Cedo para os padrões de hoje, estávamos deitados, em nossas camas, nos braços de Morfeu.
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
segunda-feira, março 2
Minha estação de mar
Quando eu tinha 10 anos, o ano tinha mais de quatro estações, e todas elas ficavam nas minhas mãos. A estação dos piões deixava um anel caloso no fura-bolo, onde a fieira apertava, e um furo na unha do dedão, onde o prego do pião girava até esquentar. A estação das búricas marcava o nó do dedão, com um calo grosso, rachado igual terra seca. Logo começava a estação das rolimãs, e as rachaduras desse calo enchiam de graxa, ficavam ali entupidas até a estação das mangas. Então crescia na mão o limo das mangueiras, uma placa visguenta. Depois, a mão fedia: na estação dos papagaios eu vivia com alho no bolso; era só esfregar no dedo e segurar linha de papagaio alheio, dali a pouco despencava com a linha roída.
Na estação do "bafo" a mão criava calos nas bordas, e acabava com cheiro de pena queimada, de tanta cuspida pra grudar as figurinhas. Depois a estação do "bete", a das tampinhas, a dos saquinhos de areia, todas lavrando cortes, calos e cheiros nas mãos, além do calo que uma caneta deixa no pai-de-todos quando tem que copiar, na escola, duzentas vezes uma frase. Naquele tempo a escola era a única prisão que eu conhecia. Mas o pai comprou um carro e, depois do passeio inaugural com minha mão avisando de todas as placas e esquinas, ele anunciou na janta:
— Este ano vamos tirar um mês na praia.
Não me preparei, mas me acordaram no dia marcado, às cinco da madrugada, com tudo preparado para mim. Nem tive tempo de perguntar por que levantar tão cedo se íamos passear; a mãe e o pai distribuíam ordens. Eu devia levantar logo e me lavar, escovar os dentes e trazer a escova. Devia comer pão com manteiga, café com leite, um ovo cozido e uma banana, mesmo que não tivesse fome. Ninguém ia ficar parando na estrada pra eu comer. E ninguém ia ficar parando antes de Ibiporã pra eu urinar, então fui urinar e quase durmo de novo na privada. Mas ninguém ia ficar esperando a vida inteira, bateram na porta, batiam portas de armários, fechavam malas, enchiam sacolas. Coma logo isso que seu pai já levou as malas. Cadê a bolsa, alguém viu a bolsa?
Você tem certeza de que esse carro aguenta? Desliga esse rádio, moleque, rádio de carro só com o motor funcionando. Enfia esta blusa que ainda é madrugada; não quero saber, enfia logo. Não vamos esquecer de desligar a luz. Não seria melhor fechar também o registro da água? Vai pro teu lugar, moleque, lá atrás, sim senhor. Tira o pé do banco, não abre o vidro que dá dor de ouvido.
E assim partimos para o mar.
Dormi e acordei com o sol, as pernas querendo esticar e uma zoeira no ouvido. Alice acordou logo e brigamos nem lembro por quê, então ela passou para o banco da frente, junto da mãe, e eu fiquei sem ter o que fazer. Passavam os mais compridos canaviais e cafezais do mundo, comecei a empurrar os bancos da frente com os pés, mas não podia. Comecei a tirar fiapos do cochinil, mas não podia. Examinei o cinzeiro por dentro e por fora várias vezes, comi ovos cozidos e chupei laranjas, descascadas pela Linalva porque eu podia me cortar com a faca. Quando lembrei do rádio, a mãe falou logo que não suportava rádio em viagem, e o pai avisou que não ia parar pra erguer a antena, de modo que chupei mais umas laranjas e descobri que o tapete de borracha podia virar um megafone, mas não podia; de modo que descasquei mais um ovo com todo cuidado pra não triscar a clara e comi só a gema. Descobri tudo que não se pode fazer num carro. Ler chapas, por exemplo.
Quando li a chapa do primeiro carro na frente, a mãe aproveitou pra testar minha visão em comparação com a da Alice. Depois de umas duas ou três chapas, achou que eu e a Alice enxergávamos a mesma coisa na mesma distância, e que devíamos ter puxado os olhos do pai dela, que já estava caduco sem nunca usar óculos. Continuei a ler as placas em voz alta, repetindo a mesma placa enquanto o pai não podava o carro da frente, até que falou que aquilo já tinha enchido e sugeriu que eu lesse uma vez cada placa, e só. Não passou muito tempo e aquilo também encheu todo mundo, mas a Linalva sugeriu que eu podia ler as placas mentalmente quantas vezes quisesse.
Mas isso logo me encheu.
Quando descobri que só podia ficar ali sentado, também descobri que estava na segunda prisão da vida, com a mãe no lugar da professora apontando as paisagens e outras coisas bonitas que o mundo tem mas ninguém pára pra ver direito. O pai só foi parar quando a Alice realmente se irmanou comigo pela primeira vez na vida. Ficamos os dois com uma coceira que a mãe logo identificou como formiga na bunda ou foguinho no rabo.
Esticamos as pernas, urinamos e tomamos guaraná num bar de posto de gasolina, o pai botou gasolina e voltamos à prisão. Demônios devem rondar os postos de gasolina, porque naquela viagem a mãe garantia que eu sempre ficava com o demônio no corpo depois que parávamos num posto.
Quando a situação ficou infernal dentro do carro tive que reconhecer: realmente o pai pararia para dar um jeito em mim se eu continuasse encapetado. De maneira que resolvi comer mais um ovo, mas não podia porque estava chegando a hora do almoço. Laranjas ainda podia, até que o pai ficou cheio de abrir o vidro pra eu jogar fora os bagaços e as sementes, e a mãe falou que eu não tinha tampa, parecia um buraco sem fundo e acabaram-se as laranjas. Quando comecei a estalar a boca, o pai falou que a mãe devia fazer alguma coisa porque aquilo era a coisa mais irritante do mundo, e ela falou que estalando a boca pelo menos eu ficava quieto com o rosto, aí ele falou, que ela sempre estava de acordo com qualquer coisa quando era pra contrariar uma opinião dele, aí ela falou, ele falou, de repente estavam discutindo os hábitos e defeitos um do outro, e depois não falaram mais até a hora de escolher onde almoçar.
A mãe achava que devíamos entrar numa cidade, mas o pai achava que um restaurante de beira de estrada seria ótimo. Ela falou em higiene, perigo de uma intoxicação e talheres sujos, e ele falou de preço e distância, gasolina e tempo perdido, e ela mandou que ele parasse onde quisesse e fizesse o que quisesse porque ela já tinha mesmo perdido o gosto de viajar e — aliás — nem sabia mesmo porque tinha vindo naquela viagem e — quer saber duma coisa? — por ela, podiam voltar dali mesmo. Aí o pai também falou — quer saber duma coisa você também? — e fez meia-volta. Eu senti que nunca ia ver o mar.
O motor foi rodando enfezado naquele silêncio, cada vez mais enfezado, até que o pai teve que brecar numa curva e o carro dançou pra lá e pra cá. A mãe não abriu a boca mas todo mundo ficou ouvindo o silêncio dela, tão pesado que o carro começou a andar devagar, tão devagar que dava agonia. Até que o pai parou num posto de gasolina com churrascaria. Como o posto era do outro lado da estrada, ele teve que fazer outra meia-volta, de jeito que ficamos de novo na direção do mar.
O pai freou o carro e falou: essa mulher não vê que onde tem muito carro parado é porque a comida é boa, mas eu sei o que ela está querendo. Mas na verdade só tinha o nosso carro parado ali, fora uns trinta caminhões, e a mãe falou com uma cara que o pai chama de cara de mártir: descem vocês, meus filhos, vai com eles, Linalva, hoje vocês vão comer comida de motorista de caminhão. Aí o pai falou: isso, meus filhos, vamos que decerto o pai de vocês vai envenenar vocês. A Linalva saiu com a gente e a mãe falou: cuidado, Linalva, olha bem essas carnes e não deixa eles nem chegarem perto de maionese, fruta só lavada e água só mineral.
Comi carne com maionese com o pai olhando agradecido, mas quando pedi um gole de cerveja ele não deixou. A Linalva, depois que encheu o prato de ossos, começou a apertar as mãos e suspirar de agonia, até que o pai falou pra ela levar uma coxa de frango, um pão e um copo de leite pra mãe lá no carro. E completou que não existia comida que a mãe mais gostava do que coxa com pão e leite. Falei que nunca tinha visto a mãe comer coxa com pão e leite, e ele respondeu que foi antes deles casarem, e que ela ia lembrar.
Realmente a mãe lembrou, porque o copo voltou vazio e, quando voltamos pro carro, ela não estava mais com uma cara tão perto da morte. E, como o carro já estava na direção do mar, o pai tocou em frente e passamos pela mesma paisagem até o ponto de onde tínhamos voltado. A mãe perguntou ao pai se ele tinha bebido, ele disse que só uma cervejinha, aí começaram a falar de novo das paisagens, o pai perguntou se o frango estava bom, a mãe disse que sim e eu aproveitei pra elogiar a maionese. Aí a mãe azedou, virou a cabeça e ficou olhando a paisagem, passamos um túnel e ela continuou olhando a paisagem dentro do túnel. Depois avisou que não ia mexer uma palha se a gente ficasse com o intestino solto, e que eu podia cagar até as tripas que ela não ia nem se incomodar.
O pai lembrou que eu tinha misturado laranja e ovo na barriga a manhã inteira, comparou que maionese é mistura de ovos com limão e portanto quase a mesma coisa, portanto eu já estava cheio de maionese antes mesmo de almoçar. Mas a mãe não falou mais nada até que começou a chover.
O diabo, como disse a Linalva, é que a maionese começou a fazer efeito justamente quando o pai mandou fechar todos os vidros por causa da chuva. A primeira vez em que o cheiro ficou preso junto com a gente no carro, o pai perguntou quem foi, a mãe perguntou pra Alice se tinha sido ela, depois pra mim, e concluiu logo que tinha sido eu, embora eu lembrasse que a Linalva também tinha misturado ovos com laranja. De modo que ficou sendo eu mesmo e no começo foi até engraçado, o pai disse que eu parecia usina de cana, que mastiga o doce mas deixa o ar azedo, e a Linalva completou que lá no Norte uma comida que empesteia muito os intestinos é mistura de carne de bode com uma frutinha que ela não lembrava o nome.
Na segunda vez o pai falou que a usina estava a todo vapor, a Alice riu e ficou olhando mecanismos e mistérios na minha barriga, e a mãe falou pro pai que, do jeito que ele falava, eu podia até acabar achando que aquilo era uma coisa muito bonita. Na terceira vez o pai não fez mais graça nenhuma e deu a caixa de fósforos pra mãe acender um. Na quarta vez o pai falou que agora já chegava e que eu parasse de gracinha porque não tinha graça nenhuma, mas aí a mãe falou que aquilo era uma coisa natural e ele não podia forçar o menino a segurar. Discutiram um pouco os intestinos e a natureza, a minha sem-vergonhice ou o mal que faz a maionese de restaurante. O pai começou a falar que a maionese de restaurante ainda nem me tinha chegado no intestino, mas teve que pedir pra mãe acender outro fósforo. Depois falou que tanto fósforo e tudo mais estava esquentando o ar e embaçando os vidros demais, abriu um pouco a janela mas a mãe lembrou que estava chovendo e era melhor sufocar do que arriscar um resfriado. Quando acabou a caixa de fósforo o pai falou que, por ele, eu podia até pegar pneumonia, abriu o vidro um minuto e fechou porque molhava até o ombro dele mesmo, e continuamos assim, a mãe dizendo que aquele cheiro dava vontade de vomitar o almoço e o pai abrindo e fechando o vidro de vez em quando. Em São Paulo a maionese parou de fazer efeito, estava anoitecendo e a Alice resmungava o tempo todo no colo da mãe, até que ela passou a ser uma menina cheia de nove-horas e eu menino quieto que devia ser imitado. Acontece que eu estava com sono ou qualquer coisa desse tipo, já nem tinha mais vontade de que o pai parasse ou de que os postos de gasolina tivessem confeitaria. Não sentia fome nem sede, tinha vontade de afundar mas, quando afundava a cabeça no colo da Linalva, dava vontade de levantar — até que acabei ficando de novo um moleque encapetado, a mãe falando que aquele carro estava um inferno e que ela não ia aguentar mais meia hora. Quando apareceram as luzes o pai falou — Eh São Paulo que não pára de crescer!… — e a mãe perguntou se ele ia saber dirigir na cidade. Ele falou que não precisava andar muito pra achar um hotelzinho mais ou menos, e conhecia a entrada como a palma da mão. A mãe lembrou que ele não ia a São Paulo desde solteiro, e que ninguém ia dormir em nenhum muquifo… Aí o pai falou bem compreensivo e devagar que a gente não precisava gastar um dinheirão pagando hotel de primeira pra dormir uma noite só, e a mãe falou que ninguém dorme mais de uma noite cada vez. Aí ele falou que numa noite de hotel em São Paulo a gente ia gastar mais que uma semana de aluguel de uma casa na praia. A Linalva começou a falar — vocês podem me deixar numa pensão mais barata e amanhã… — mas a mãe mandou calar a boca que de hotel quem entendia ela. O pai quis perder a paciência mas já estava numa rua com mais carro do que eu tinha visto na vida inteira.
Começaram a buzinar e a mãe falou que estavam buzinando pra nós, a Alice perguntou como é que sabiam que a gente ia chegar e o pai mandou todo mundo calar a boca porque tinha que se concentrar. A primeira placa de hotel que apareceu fui eu quem leu primeiro e dizia Hotel Paraíso, mas a mãe achou que não enganava ninguém só pelo jeito do prédio. Buzinaram pra nós e o pai continuou, mas aí já não sabia se contornava um tal de viaduto ou se ia em frente, de maneira que acabou virando antes do tal viaduto e acabamos numas ruas escuras onde disseram que hotel, do jeito que a mãe queria, o mais perto era do lado do tal viaduto. Quando o pai conseguiu achar de novo uma rua movimentada, buzinaram pra nós e ele perguntou se aqueles filhos da puta não podiam parar um minuto. A mãe falou que ele é que devia parar duma vez e perguntar pra um guarda. Discutiram isso uma meia hora com o carro andando mas, quando o pai parou e ela abriu a janela e botou a cara pra fora, o guarda apitou e mandou tocar em frente, tocar em frente, passamos de novo em frente o Hotel Paraíso e o pai xingou a mãe, São Paulo, os ônibus e o lazarento do espelho retrovisor que entortava toda hora.
Quando passamos pela terceira vez pelo Hotel Paraíso o pai falou — quer saber duma coisa? — e enfiou o carro no estacionamento. Depois, na portaria, o homem falou que dois quartos, do jeito que minha mãe queria, não tinha, mas desocupavam no outro dia de manhã. Ela perguntou mas que hotel é este que não tem nem pia nos quartos, mas meu pai falou que servia sem pia mesmo e o homem disse que pra qualquer coisa o banheiro era no fim do corredor e muito asseado. O homem subiu com a gente e a mãe reclamando da escada e dizendo que já estava sentindo o cheiro nojento do banheiro. Aí o homem abriu uma porta e ela falou que o cheiro de mofo do quarto só faltava derrubar a gente, meu pai falou para o homem desculpar que ela era assim mesmo. Aí ela empurrou a gente pra dentro e fechou a porta, dali a pouco o pai e a Linalva entraram com as malas, o pai abriu a janela e ficou olhando pra fora e ouvindo as buzinas e a mãe, abrindo as malas e reclamando que ela não era vaca pra ser "assim mesmo".
O pai saiu e trouxe pastéis, empadinhas com azeitonas dentro, quibe e um leite que vinha em saquinhos de papel. A mãe falou que pelo menos uma coisa ele tinha acertado porque assim não precisava usar nenhum copo imundo de hotel, lavou um saquinho na pia, enxugou com uma das toalhas que a gente tinha levado, rasgou a ponta do saquinho e me deu, e aquilo foi a grande coisa que conheci naquele dia de viagem.
Depois de vazios eu e a Alice quisemos guardar nossos saquinhos, mas a mãe falou que só serviam pra chamar baratas de noite. Quando o pai sentou na cama com um jornal que falava do Palmeiras, a mãe falou que ele tinha que mandar o homem trazer logo o tal berço pra Alice, e tinha que buscar um travesseiro pra mim no quarto da Linalva. O pai saiu parecendo que ia explodir ou então murchar até virar um rato no chão, e a mãe ficou reclamando da falta de cabides.
Quando o berço já estava no nosso quarto e a Linalva no quarto dela, eu e a Alice de pijama já deitando, a mãe falou pro pai fechar a janela que ia entrar pernilongo. Ele disse que se ela quisesse morrer abafada ele ia dormir em outro quarto, mas acabou fechando a janela e dizendo que ia sair. Ela falou que ele podia voltar bem tarde e ele falou que ia era pra um lugar onde mulher sabe tratar um homem, ela disse que ele podia ficar lá pra sempre e ele saiu batendo a porta.
Ela acendeu um abajur no criado-mudo e falou que aquilo parecia quarto não sei do quê, tinha até abajur cor-de-rosa. Eu perguntei quarto do quê, ela disse que eu devia era ficar quieto e dormir que a Alice já estava no segundo sono.
No dia seguinte buzinaram não sei pra quem e eu acordei. A mãe estava sentada na cama de casal com um mata-mosquito na mão, tão igual ao de casa que fui ver e era ele mesmo com as marcas que eu tinha feito pra cada mosquito que matei numa tarde de castigo na despensa.
Quando entramos no carro o pai e a mãe ainda discutiam a questão dos pernilongos, ele dizendo que de luz acesa não dormia e ela que não dormia com pernilongo no ouvido. Ele dizendo que, agora, se você pensa que vamos encontrar casa pra alugar com ar-condicionado, pode tirar o cavalo da chuva. E ela respondendo que é só você não ficar abrindo janela que não entra pernilongo. E ele dizendo que esse negócio de pernilongo você pegou de uns tempos pra cá, porque na viagem de casamento, por exemplo, sempre dormi de janela aberta e nunca ouvi reclamação. E ela respondendo que acontece que naquele tempo era besta feito Jó, teve dia de amanhecer com o corpo empipocado de coceira, o braço em carne viva de tanto coçar. E ele dizendo que, se fosse assim, esse povo da roça já tinha morrido de pernilongo, borrachudo, mutuca, muriçoca. E ela respondendo que, bom, eu nunca vivi na roça nem tenho o couro grosso da sua família.
De modo que começaram a discutir os hábitos e os defeitos das famílias de cada um, as sogras e os cunhados e cunhadas, e aproveitei pra tirar fiapos do cochinil até abrir uma clareira do tamanho de um palmo. A Alice também começou a esfiapar lá na frente e a mãe disse que não podia, mas a Alice disse que podia porque eu também estava esfiapando atrás. Aí o pai e a mãe pararam de discutir pra examinar os estragos e concordaram que eu era mesmo um capeta e que, no fim de contas, era eu que infernizava a vida de todo mundo. Falei que não infernizava a vida de ninguém, que eu só queria viajar na frente e não deixavam, e que a Alice ia sempre no melhor lugar, e acabei convencendo todo mundo que aquele era meu dia de ir na frente.
Quando a Alice parou de chorar no banco de trás, fui descobrindo que ali na frente havia tanta coisa a fazer como lá atrás, e que todos os botões do painel eram perigosos, não podiam ser puxados nem apertados nem tocados e eu devia esquecer aqueles botões para o resto da vida, de modo que abri o porta-luvas e a mãe quase se enfiou lá dentro como se o carro tivesse brecado de repente, tirou de lá um revólver e começou a abrir depressa a janela, o pai foi brecando e encostou o carro, ela jogou o revólver na ribanceira e falou que ele não abrisse a boca, que ele nem pensasse em abrir a boca, e eu aproveitei pra enfiar a mão no porta-luvas antes que ela pegasse a chave e fechasse.
O pai abriu a boca quando o carro já estava rodando de novo: o revólver tinha custado não sei quantos cruzeiros não sei quantos anos atrás, e agora ele queria ver se aparecesse um ladrão na casa da praia. A mãe falou que era preferível entregar tudo pra um ladrão do que arriscar uma criança dessas com uma arma na mão, e começou a contar pra Linalva como tinha morrido um menino perto da casa dela quando era solteira, com um tiro na boca brincando com um revólver. Depois que ela acabou de contar o caso, perguntou o que eu tinha na boca e falei que era uma bala. A Alice falou que também queria bala e o pai garantiu que não tinha comprado bala pra ninguém no bar onde a gente tinha tomado café. Aí a mãe me abriu a boca na marra e tirou a bala, e foram discutindo se uma bala tem ou não tem perigo de explodir na boca de uma criança, e eu comecei a dizer que era muito bonito viajar no banco da frente porque assim a Alice não ia perceber como era muito melhor no banco de trás.
Entramos em Aparecida e o pai rodou até a mãe escolher um restaurante de cara boa. Mas acabou não servindo porque os copos estavam manchados e um guardanapo tinha uma mancha amarela que a mãe logo desconfiou. Voltamos para o carro e aproveitei pra passar pro banco de trás, a Alice sentou na frente e ficou procurando as vantagens que eu tinha falado. O pai deu a partida, tocou o carro mas a mãe achou que o restaurante do lado, ali mesmo, servia bem pra nós, então o pai tornou a estacionar no mesmo lugar, descemos e comemos uma comida intragável conforme o pai, muito limpinha e é isso que interessa conforme a mãe. Alice e eu aproveitamos pra descobrir que num restaurante a gente podia ler o cardápio e pedir o que quisesse, desde que fosse a mesma coisa que o pai e a mãe iam pedir depois. Descobri que camarão devia ser comida mais perigosa que maionese, e no entanto vinha do mar para onde a gente ia, e o mar me parecia uma coisa cada vez mais ótima.
Quando o pai pediu café, eu e a Alice pedimos pra ir numa praça que tinha em frente, Linalva ficou sem café pra ir cuidar da gente e, quando eu descobri dois moleques com um jogo de palitos que eu nunca tinha visto, o pai já entrou de novo no carro e começou a buzinar. Fomos entrando no carro e encostou um homem vendendo lembranças de Aparecida, tinha chaveiro de montes, binóculos de fotografia, santinho, crucifixo, terço, tudo pendurado num cabo de vassoura e a Alice escolheu um espelhinho que era santinho do outro lado. O pai falou que aquilo era bobagem mas a mãe falou que não ia contrariar um gosto sagrado da menina, eu falei que já tinha visto um daqueles espelhinhos mas com mulher pelada do outro lado. A mãe virou pro pai e perguntou o que ele preferia, uma filha iludida com bobagem de religião ou um filho depravado desde cedo. O pai falou que preferia um filho depravado e ficou rindo, aí a mãe falou que eu também devia escolher uma lembrança de Aparecida, e fui apontando e o homem desamarrando do pau e dizendo o preço, até que escolhi o mais caro, uma estátua de Nossa Senhora em porcelana opaca conforme o homem, de gesso vagabundo conforme o pai. Aí o homem falou que o que valia era a devoção, o pai respondeu que então não valia nada mesmo. A Alice falou que a avó tinha falado que o pai ia morrer sofrendo porque não tinha religião. O pai perguntou que vó, mãe dele ou da mãe, e virou pra mãe dizendo que só podia sair da mãe dela uma besteira daquelas.
E foi assim que voltamos pra estrada discutindo religião, até o pai falar que nunca mais deu peixe no rio onde pescaram a santa, aí a Linalva falou Deus me livre, credo em cruz, e o pai falou que a comida tinha dado azia nele e a Linalva garantiu que era castigo de Deus. A mãe não deixou o pai falar mais nada porque se falasse também tratasse de arranjar outra empregada, e continuamos estrada afora.
Alice teve enjoo e vomitou no colo da mãe, o pai teve que parar numa paisagem muito bonita de umas montanhas com um rio lá embaixo se entortando feito uma cobra. Tinha uma mina de água que saía das pedras e a mãe falou que ali, na natureza sem ninguém cuidar, nascia avenca e samambaia mais bonita que em estufa de rico. O pai falou que preferia ser rico e não ter avencas nem samambaias, mas um carro que nem um que passou e ia chegar muito antes da gente conforme o pai, ia acabar se matando numa curva conforme a mãe.
Alice melhorou tão depressa fora do carro, que quase despenca na ribanceira uma hora que a mãe descuidou, queria ver o que tinha lá embaixo. Aí o pai falou pra ela que lá embaixo tinha o mar, vamos lá ver o mar — e já foi entrando de novo no carro e continuamos estrada afora na direção do mar lá embaixo torto feito uma cobra.
O pai saía duma curva e entrava em outra naquelas montanhas, Alice vomitou no colo da Linalva e a mãe falou — agora vai assim mesmo —, e fomos com o vestido grudando na coxa da Linalva e um cheirinho azedo que o vento não carregava. Quando as montanhas acabaram, veio de novo a estrada de sempre, tão igual que até a mãe perguntou se a gente não estava voltando. O pai riu e falou que, se a gente não parasse mais nem uma vez, tal hora essas crianças vão conhecer o mar. Aí eu perguntei se ele tinha algum compromisso no mar, porque ele sempre falava em tal hora, hora tal sem falta, quando tinha algum compromisso com alguém. Ele falou que eu não entendia essas coisas, que em viagem a gente tem que fazer o tempo render, porque a menos de 80 por hora gasta muita gasolina, e eu empurrei o banco dele com o pé e fui descobrindo de novo tudo que não podia fazer dentro de um carro. Mas já não tinha graça e acabei dormindo com o diabo no corpo, conforme a mãe, e com os ossos meio doendo conforme eu mesmo.
Quando acordei o pai tinha acabado de parar o carro e estava conversando com um homem na frente duma casa, numa rua de areia com muitas latas vazias. A mãe olhou pra mim e falou: esse moleque está com alguma coisa. Me botou a mão na testa, me avisou que ficasse quieto que estava queimando de febre, ficou ensinando a Linalva a fazer chá de alho contra resfriado. A Linalva perguntou se eu não ia ver médico, a mãe falou que era um resfriado à toa, culpou o pai porque apanhei chuva da janela, disse que era só eu guardar em casa o dia seguinte e pronto.
Perguntei se a gente não ia no mar, o pai veio vindo e enfiou a cabeça na janela, disse todo alegrão que o aluguel da casa era um absurdo mas a mãe achou que pelo menos tinha tela na janela contra pernilongos. De modo que a Linalva começou a descarregar as malas com o pai, a mãe foi botar roupa numa cama pra eu dormir e ninguém me dizia onde estava o mar. A mãe me enfiou um comprimido na boca, o pai disse que a mãe ainda ia viciar esse moleque com esses calmantes, dormi e acordei no outro dia com cheiro de café.
A Linalva estava na cozinha fazendo café igual em casa, até o bule era o mesmo e a garrafa térmica. Eu e a Alice passamos o dia no jardim e na rua, com a mãe ou a Linalva olhando da janela todo minuto. O pai montava e desmontava cama, arrumava descarga de privada, consertava tela de janela, a mãe arrumava as roupas no guarda-roupa, a Linalva emprestou uma vassoura da casa vizinha e um rodinho com pano de chão, e o pai desentupia pia, a mãe fez lista de compras e ele saiu pra comprar, mas foi sozinho porque disse que senão nem comprava as coisas nem cuidava de mim no supermercado, e a Linalva passou pano dentro dos armários e guarda-roupas, amontoou as baratas mortas num canto, e a mãe desinfetava tudo e reclamava como é que puderam deixar uma casa naquele estado, e só sei que no fim do dia a mãe falou que tinha trabalhado mais que numa mudança, e o pai falou que nem sabia porque tinha inventado aqueles dias na praia.
Alice e eu conhecemos todos os formigueiros da redondeza e perdemos muito tempo esperando sair da toca um bichinho, siri conforme a mãe, caranguejo conforme a Linalva e pituí conforme o pai. O bicho botava duas anteninhas pra fora do buraco, pareciam olhos saindo fora do corpo, via se eu e a Alice estávamos bem escondidos e então saía. A gente ia chegando perto, ele parava na areia, mexia as anteninhas e voltava pro buraco, sem pedra que conseguisse acertar o desgraçado no caminho.
Não vimos crianças, só umas de outra casa, que chegaram pro almoço e saíram depois, todo mundo de maiô, os homens com as costas vermelhas e as mulheres com o corpo inteiro melecado de creme, as crianças com boias e pés-de-pato e máscaras.
No outro dia o pai pegou a gente logo cedo, viramos a esquina e lá na frente, no fim da rua, apareceu uma coisa azul. Fomos andando e a coisa foi mexendo e às vezes embranquecia, o pai falou olha as ondas. Quando a rua acabou e aquilo já era a maior água que eu já tinha visto, entramos numa areia onde era preciso cuidado pra não pisar nas anteninhas, todos andando fora dos buracos, tão grandes que a Alice achou que eles podiam perfeitamente ficar dentro dos buracos em vez de ficar saindo.
E de repente erguemos a cabeça na frente do mar, Alice desandou num choro que só parou no colo do pai. O coração batia junto com as ondas, não sei quanto tempo ficamos ali, o mundo estrondando, até que Alice foi acalmando e continuamos ali, o coração batendo junto com as ondas e um vento que parecia subir da água, molhado e cheiroso.
A mãe chegou e estendeu uma toalha na areia, começou a tirar coisas da sacola e encheu a toalha. A Linalva ficou esquisita de vestido e calça comprida por baixo, foi molhar os pés e eu fui junto, mas a mãe foi me buscar pra passar creme, o pai começou a me avisar dos perigos do mar, a mãe concordando e dizendo escuta teu pai, escuta bem o que o teu pai está dizendo.
Quatro dias depois eu tinha conhecido o mar. Tinha horário de entrar e de sair da água, horário de sol e horário de sombra, hora de passar creme e hora de tomar água, a fundura onde eu podia ir com a Linalva e a fundura até onde podia ir com o pai. A Alice descobriu um arroio cheio de conchinhas, mas a mãe desconfiou de onde devia vir aquela água e a Alice teve que acabar se conformando com as conchas quebradas da praia. Em casa não podia ficar tela aberta, de janela ou de porta, e à noite as casas afundavam na escuridão, a rua não tinha lâmpadas e a criançada não podia brincar fora de casa.
Um velho me mostrou como se pesca com linha, garrafa e anzol, mas levei um dia sem pegar nada, só um beliscão forte no fim da tarde. O velho falou que no dia seguinte eu decerto ia tirar peixe, mas de noite o pai falou:
— Uma semana de praia enjoa qualquer um.
A mãe deu a ideia de visitar uns parentes numa cidade perto, assim a viagem de volta não vai cansar tanto essas crianças, a gente sai cedo pra pegar o almoço e… O pai se entusiasmou e deu a ideia de passarmos também não sei onde, e começaram os dois a riscar a mesa com uma faca: a gente pára aqui, dorme aqui, almoça aqui, dorme mais um dia aqui e visita fulano, depois pára uns três dias na casa da tia fulana; e um ficava tirando a faca do outro pra riscar a mesa enquanto falavam, até que deixaram na madeira um mapa, parecia uma espinha de peixe. A mãe levantou e começou a dar ordens. Linalva pega aquilo, arruma isso, cadê a mala menor, e o pai saiu pra trocar o óleo do carro.
Na varanda a gente ouvia, no vento, as anteninhas roendo as costelas do mar, ondas estrondando no lombo de mar, espuma em cima e todos os peixes e mistérios lá embaixo. O vento continuava com um cheiro molhado e quente, tão forte que parecia que o mar rebentava logo depois da varanda, e meu peito foi inchando cheio de sal, siris e conchas, boias de cortiça, areia, até que desatei a chorar e o peito tornou a ficar pequeno depois.
No dia seguinte, às cinco horas da manhã, alguém começou a me sacudir. A mãe andava pela casa perguntando se ninguém estava esquecendo alguma coisa, e o pai já estava lá fora, esquentando o motor.
E a estação de mar acabou sendo a única que, nas mãos, não me deixou marca nenhuma.
Domingos Pellegrini Jr., "O moderno conto brasileiro"
Na estação do "bafo" a mão criava calos nas bordas, e acabava com cheiro de pena queimada, de tanta cuspida pra grudar as figurinhas. Depois a estação do "bete", a das tampinhas, a dos saquinhos de areia, todas lavrando cortes, calos e cheiros nas mãos, além do calo que uma caneta deixa no pai-de-todos quando tem que copiar, na escola, duzentas vezes uma frase. Naquele tempo a escola era a única prisão que eu conhecia. Mas o pai comprou um carro e, depois do passeio inaugural com minha mão avisando de todas as placas e esquinas, ele anunciou na janta:
— Este ano vamos tirar um mês na praia.
Eu conhecia o mar como uma lagoa grande, distante e sem graça nas figurinhas, onde aparecia às vezes verde e às vezes azul. Agora íamos conhecer o mar em pessoa, ia começar uma nova estação onde entravam todos — o pai, a mãe, Alice, eu e a Linalva, nossa empregada que já vira o mar de passagem quando viera do Norte. A estação do mar me encheu a cabeça. O pai começou a falar de ondas que rebentavam e a gente mergulhava dentro. Eu não conseguia imaginar, mas comecei a achar ótimo. A mãe ia tirando a mesa e, a cada vez que vinha da cozinha, lembrava os perigos do mar e dava conselhos. Sim, o mar devia ser uma coisa ótima. E o pai avisou, bicando a xícara quente de café: partida dali a três dias, todo mundo que se preparasse.
Não me preparei, mas me acordaram no dia marcado, às cinco da madrugada, com tudo preparado para mim. Nem tive tempo de perguntar por que levantar tão cedo se íamos passear; a mãe e o pai distribuíam ordens. Eu devia levantar logo e me lavar, escovar os dentes e trazer a escova. Devia comer pão com manteiga, café com leite, um ovo cozido e uma banana, mesmo que não tivesse fome. Ninguém ia ficar parando na estrada pra eu comer. E ninguém ia ficar parando antes de Ibiporã pra eu urinar, então fui urinar e quase durmo de novo na privada. Mas ninguém ia ficar esperando a vida inteira, bateram na porta, batiam portas de armários, fechavam malas, enchiam sacolas. Coma logo isso que seu pai já levou as malas. Cadê a bolsa, alguém viu a bolsa?
Você tem certeza de que esse carro aguenta? Desliga esse rádio, moleque, rádio de carro só com o motor funcionando. Enfia esta blusa que ainda é madrugada; não quero saber, enfia logo. Não vamos esquecer de desligar a luz. Não seria melhor fechar também o registro da água? Vai pro teu lugar, moleque, lá atrás, sim senhor. Tira o pé do banco, não abre o vidro que dá dor de ouvido.
E assim partimos para o mar.
Dormi e acordei com o sol, as pernas querendo esticar e uma zoeira no ouvido. Alice acordou logo e brigamos nem lembro por quê, então ela passou para o banco da frente, junto da mãe, e eu fiquei sem ter o que fazer. Passavam os mais compridos canaviais e cafezais do mundo, comecei a empurrar os bancos da frente com os pés, mas não podia. Comecei a tirar fiapos do cochinil, mas não podia. Examinei o cinzeiro por dentro e por fora várias vezes, comi ovos cozidos e chupei laranjas, descascadas pela Linalva porque eu podia me cortar com a faca. Quando lembrei do rádio, a mãe falou logo que não suportava rádio em viagem, e o pai avisou que não ia parar pra erguer a antena, de modo que chupei mais umas laranjas e descobri que o tapete de borracha podia virar um megafone, mas não podia; de modo que descasquei mais um ovo com todo cuidado pra não triscar a clara e comi só a gema. Descobri tudo que não se pode fazer num carro. Ler chapas, por exemplo.
Quando li a chapa do primeiro carro na frente, a mãe aproveitou pra testar minha visão em comparação com a da Alice. Depois de umas duas ou três chapas, achou que eu e a Alice enxergávamos a mesma coisa na mesma distância, e que devíamos ter puxado os olhos do pai dela, que já estava caduco sem nunca usar óculos. Continuei a ler as placas em voz alta, repetindo a mesma placa enquanto o pai não podava o carro da frente, até que falou que aquilo já tinha enchido e sugeriu que eu lesse uma vez cada placa, e só. Não passou muito tempo e aquilo também encheu todo mundo, mas a Linalva sugeriu que eu podia ler as placas mentalmente quantas vezes quisesse.
Mas isso logo me encheu.
Quando descobri que só podia ficar ali sentado, também descobri que estava na segunda prisão da vida, com a mãe no lugar da professora apontando as paisagens e outras coisas bonitas que o mundo tem mas ninguém pára pra ver direito. O pai só foi parar quando a Alice realmente se irmanou comigo pela primeira vez na vida. Ficamos os dois com uma coceira que a mãe logo identificou como formiga na bunda ou foguinho no rabo.
Esticamos as pernas, urinamos e tomamos guaraná num bar de posto de gasolina, o pai botou gasolina e voltamos à prisão. Demônios devem rondar os postos de gasolina, porque naquela viagem a mãe garantia que eu sempre ficava com o demônio no corpo depois que parávamos num posto.
Quando a situação ficou infernal dentro do carro tive que reconhecer: realmente o pai pararia para dar um jeito em mim se eu continuasse encapetado. De maneira que resolvi comer mais um ovo, mas não podia porque estava chegando a hora do almoço. Laranjas ainda podia, até que o pai ficou cheio de abrir o vidro pra eu jogar fora os bagaços e as sementes, e a mãe falou que eu não tinha tampa, parecia um buraco sem fundo e acabaram-se as laranjas. Quando comecei a estalar a boca, o pai falou que a mãe devia fazer alguma coisa porque aquilo era a coisa mais irritante do mundo, e ela falou que estalando a boca pelo menos eu ficava quieto com o rosto, aí ele falou, que ela sempre estava de acordo com qualquer coisa quando era pra contrariar uma opinião dele, aí ela falou, ele falou, de repente estavam discutindo os hábitos e defeitos um do outro, e depois não falaram mais até a hora de escolher onde almoçar.
A mãe achava que devíamos entrar numa cidade, mas o pai achava que um restaurante de beira de estrada seria ótimo. Ela falou em higiene, perigo de uma intoxicação e talheres sujos, e ele falou de preço e distância, gasolina e tempo perdido, e ela mandou que ele parasse onde quisesse e fizesse o que quisesse porque ela já tinha mesmo perdido o gosto de viajar e — aliás — nem sabia mesmo porque tinha vindo naquela viagem e — quer saber duma coisa? — por ela, podiam voltar dali mesmo. Aí o pai também falou — quer saber duma coisa você também? — e fez meia-volta. Eu senti que nunca ia ver o mar.
O motor foi rodando enfezado naquele silêncio, cada vez mais enfezado, até que o pai teve que brecar numa curva e o carro dançou pra lá e pra cá. A mãe não abriu a boca mas todo mundo ficou ouvindo o silêncio dela, tão pesado que o carro começou a andar devagar, tão devagar que dava agonia. Até que o pai parou num posto de gasolina com churrascaria. Como o posto era do outro lado da estrada, ele teve que fazer outra meia-volta, de jeito que ficamos de novo na direção do mar.
O pai freou o carro e falou: essa mulher não vê que onde tem muito carro parado é porque a comida é boa, mas eu sei o que ela está querendo. Mas na verdade só tinha o nosso carro parado ali, fora uns trinta caminhões, e a mãe falou com uma cara que o pai chama de cara de mártir: descem vocês, meus filhos, vai com eles, Linalva, hoje vocês vão comer comida de motorista de caminhão. Aí o pai falou: isso, meus filhos, vamos que decerto o pai de vocês vai envenenar vocês. A Linalva saiu com a gente e a mãe falou: cuidado, Linalva, olha bem essas carnes e não deixa eles nem chegarem perto de maionese, fruta só lavada e água só mineral.
Comi carne com maionese com o pai olhando agradecido, mas quando pedi um gole de cerveja ele não deixou. A Linalva, depois que encheu o prato de ossos, começou a apertar as mãos e suspirar de agonia, até que o pai falou pra ela levar uma coxa de frango, um pão e um copo de leite pra mãe lá no carro. E completou que não existia comida que a mãe mais gostava do que coxa com pão e leite. Falei que nunca tinha visto a mãe comer coxa com pão e leite, e ele respondeu que foi antes deles casarem, e que ela ia lembrar.
Realmente a mãe lembrou, porque o copo voltou vazio e, quando voltamos pro carro, ela não estava mais com uma cara tão perto da morte. E, como o carro já estava na direção do mar, o pai tocou em frente e passamos pela mesma paisagem até o ponto de onde tínhamos voltado. A mãe perguntou ao pai se ele tinha bebido, ele disse que só uma cervejinha, aí começaram a falar de novo das paisagens, o pai perguntou se o frango estava bom, a mãe disse que sim e eu aproveitei pra elogiar a maionese. Aí a mãe azedou, virou a cabeça e ficou olhando a paisagem, passamos um túnel e ela continuou olhando a paisagem dentro do túnel. Depois avisou que não ia mexer uma palha se a gente ficasse com o intestino solto, e que eu podia cagar até as tripas que ela não ia nem se incomodar.
O pai lembrou que eu tinha misturado laranja e ovo na barriga a manhã inteira, comparou que maionese é mistura de ovos com limão e portanto quase a mesma coisa, portanto eu já estava cheio de maionese antes mesmo de almoçar. Mas a mãe não falou mais nada até que começou a chover.
O diabo, como disse a Linalva, é que a maionese começou a fazer efeito justamente quando o pai mandou fechar todos os vidros por causa da chuva. A primeira vez em que o cheiro ficou preso junto com a gente no carro, o pai perguntou quem foi, a mãe perguntou pra Alice se tinha sido ela, depois pra mim, e concluiu logo que tinha sido eu, embora eu lembrasse que a Linalva também tinha misturado ovos com laranja. De modo que ficou sendo eu mesmo e no começo foi até engraçado, o pai disse que eu parecia usina de cana, que mastiga o doce mas deixa o ar azedo, e a Linalva completou que lá no Norte uma comida que empesteia muito os intestinos é mistura de carne de bode com uma frutinha que ela não lembrava o nome.
Na segunda vez o pai falou que a usina estava a todo vapor, a Alice riu e ficou olhando mecanismos e mistérios na minha barriga, e a mãe falou pro pai que, do jeito que ele falava, eu podia até acabar achando que aquilo era uma coisa muito bonita. Na terceira vez o pai não fez mais graça nenhuma e deu a caixa de fósforos pra mãe acender um. Na quarta vez o pai falou que agora já chegava e que eu parasse de gracinha porque não tinha graça nenhuma, mas aí a mãe falou que aquilo era uma coisa natural e ele não podia forçar o menino a segurar. Discutiram um pouco os intestinos e a natureza, a minha sem-vergonhice ou o mal que faz a maionese de restaurante. O pai começou a falar que a maionese de restaurante ainda nem me tinha chegado no intestino, mas teve que pedir pra mãe acender outro fósforo. Depois falou que tanto fósforo e tudo mais estava esquentando o ar e embaçando os vidros demais, abriu um pouco a janela mas a mãe lembrou que estava chovendo e era melhor sufocar do que arriscar um resfriado. Quando acabou a caixa de fósforo o pai falou que, por ele, eu podia até pegar pneumonia, abriu o vidro um minuto e fechou porque molhava até o ombro dele mesmo, e continuamos assim, a mãe dizendo que aquele cheiro dava vontade de vomitar o almoço e o pai abrindo e fechando o vidro de vez em quando. Em São Paulo a maionese parou de fazer efeito, estava anoitecendo e a Alice resmungava o tempo todo no colo da mãe, até que ela passou a ser uma menina cheia de nove-horas e eu menino quieto que devia ser imitado. Acontece que eu estava com sono ou qualquer coisa desse tipo, já nem tinha mais vontade de que o pai parasse ou de que os postos de gasolina tivessem confeitaria. Não sentia fome nem sede, tinha vontade de afundar mas, quando afundava a cabeça no colo da Linalva, dava vontade de levantar — até que acabei ficando de novo um moleque encapetado, a mãe falando que aquele carro estava um inferno e que ela não ia aguentar mais meia hora. Quando apareceram as luzes o pai falou — Eh São Paulo que não pára de crescer!… — e a mãe perguntou se ele ia saber dirigir na cidade. Ele falou que não precisava andar muito pra achar um hotelzinho mais ou menos, e conhecia a entrada como a palma da mão. A mãe lembrou que ele não ia a São Paulo desde solteiro, e que ninguém ia dormir em nenhum muquifo… Aí o pai falou bem compreensivo e devagar que a gente não precisava gastar um dinheirão pagando hotel de primeira pra dormir uma noite só, e a mãe falou que ninguém dorme mais de uma noite cada vez. Aí ele falou que numa noite de hotel em São Paulo a gente ia gastar mais que uma semana de aluguel de uma casa na praia. A Linalva começou a falar — vocês podem me deixar numa pensão mais barata e amanhã… — mas a mãe mandou calar a boca que de hotel quem entendia ela. O pai quis perder a paciência mas já estava numa rua com mais carro do que eu tinha visto na vida inteira.
Começaram a buzinar e a mãe falou que estavam buzinando pra nós, a Alice perguntou como é que sabiam que a gente ia chegar e o pai mandou todo mundo calar a boca porque tinha que se concentrar. A primeira placa de hotel que apareceu fui eu quem leu primeiro e dizia Hotel Paraíso, mas a mãe achou que não enganava ninguém só pelo jeito do prédio. Buzinaram pra nós e o pai continuou, mas aí já não sabia se contornava um tal de viaduto ou se ia em frente, de maneira que acabou virando antes do tal viaduto e acabamos numas ruas escuras onde disseram que hotel, do jeito que a mãe queria, o mais perto era do lado do tal viaduto. Quando o pai conseguiu achar de novo uma rua movimentada, buzinaram pra nós e ele perguntou se aqueles filhos da puta não podiam parar um minuto. A mãe falou que ele é que devia parar duma vez e perguntar pra um guarda. Discutiram isso uma meia hora com o carro andando mas, quando o pai parou e ela abriu a janela e botou a cara pra fora, o guarda apitou e mandou tocar em frente, tocar em frente, passamos de novo em frente o Hotel Paraíso e o pai xingou a mãe, São Paulo, os ônibus e o lazarento do espelho retrovisor que entortava toda hora.
Quando passamos pela terceira vez pelo Hotel Paraíso o pai falou — quer saber duma coisa? — e enfiou o carro no estacionamento. Depois, na portaria, o homem falou que dois quartos, do jeito que minha mãe queria, não tinha, mas desocupavam no outro dia de manhã. Ela perguntou mas que hotel é este que não tem nem pia nos quartos, mas meu pai falou que servia sem pia mesmo e o homem disse que pra qualquer coisa o banheiro era no fim do corredor e muito asseado. O homem subiu com a gente e a mãe reclamando da escada e dizendo que já estava sentindo o cheiro nojento do banheiro. Aí o homem abriu uma porta e ela falou que o cheiro de mofo do quarto só faltava derrubar a gente, meu pai falou para o homem desculpar que ela era assim mesmo. Aí ela empurrou a gente pra dentro e fechou a porta, dali a pouco o pai e a Linalva entraram com as malas, o pai abriu a janela e ficou olhando pra fora e ouvindo as buzinas e a mãe, abrindo as malas e reclamando que ela não era vaca pra ser "assim mesmo".
O pai saiu e trouxe pastéis, empadinhas com azeitonas dentro, quibe e um leite que vinha em saquinhos de papel. A mãe falou que pelo menos uma coisa ele tinha acertado porque assim não precisava usar nenhum copo imundo de hotel, lavou um saquinho na pia, enxugou com uma das toalhas que a gente tinha levado, rasgou a ponta do saquinho e me deu, e aquilo foi a grande coisa que conheci naquele dia de viagem.
Depois de vazios eu e a Alice quisemos guardar nossos saquinhos, mas a mãe falou que só serviam pra chamar baratas de noite. Quando o pai sentou na cama com um jornal que falava do Palmeiras, a mãe falou que ele tinha que mandar o homem trazer logo o tal berço pra Alice, e tinha que buscar um travesseiro pra mim no quarto da Linalva. O pai saiu parecendo que ia explodir ou então murchar até virar um rato no chão, e a mãe ficou reclamando da falta de cabides.
Quando o berço já estava no nosso quarto e a Linalva no quarto dela, eu e a Alice de pijama já deitando, a mãe falou pro pai fechar a janela que ia entrar pernilongo. Ele disse que se ela quisesse morrer abafada ele ia dormir em outro quarto, mas acabou fechando a janela e dizendo que ia sair. Ela falou que ele podia voltar bem tarde e ele falou que ia era pra um lugar onde mulher sabe tratar um homem, ela disse que ele podia ficar lá pra sempre e ele saiu batendo a porta.
Ela acendeu um abajur no criado-mudo e falou que aquilo parecia quarto não sei do quê, tinha até abajur cor-de-rosa. Eu perguntei quarto do quê, ela disse que eu devia era ficar quieto e dormir que a Alice já estava no segundo sono.
No dia seguinte buzinaram não sei pra quem e eu acordei. A mãe estava sentada na cama de casal com um mata-mosquito na mão, tão igual ao de casa que fui ver e era ele mesmo com as marcas que eu tinha feito pra cada mosquito que matei numa tarde de castigo na despensa.
Quando entramos no carro o pai e a mãe ainda discutiam a questão dos pernilongos, ele dizendo que de luz acesa não dormia e ela que não dormia com pernilongo no ouvido. Ele dizendo que, agora, se você pensa que vamos encontrar casa pra alugar com ar-condicionado, pode tirar o cavalo da chuva. E ela respondendo que é só você não ficar abrindo janela que não entra pernilongo. E ele dizendo que esse negócio de pernilongo você pegou de uns tempos pra cá, porque na viagem de casamento, por exemplo, sempre dormi de janela aberta e nunca ouvi reclamação. E ela respondendo que acontece que naquele tempo era besta feito Jó, teve dia de amanhecer com o corpo empipocado de coceira, o braço em carne viva de tanto coçar. E ele dizendo que, se fosse assim, esse povo da roça já tinha morrido de pernilongo, borrachudo, mutuca, muriçoca. E ela respondendo que, bom, eu nunca vivi na roça nem tenho o couro grosso da sua família.
De modo que começaram a discutir os hábitos e os defeitos das famílias de cada um, as sogras e os cunhados e cunhadas, e aproveitei pra tirar fiapos do cochinil até abrir uma clareira do tamanho de um palmo. A Alice também começou a esfiapar lá na frente e a mãe disse que não podia, mas a Alice disse que podia porque eu também estava esfiapando atrás. Aí o pai e a mãe pararam de discutir pra examinar os estragos e concordaram que eu era mesmo um capeta e que, no fim de contas, era eu que infernizava a vida de todo mundo. Falei que não infernizava a vida de ninguém, que eu só queria viajar na frente e não deixavam, e que a Alice ia sempre no melhor lugar, e acabei convencendo todo mundo que aquele era meu dia de ir na frente.
Quando a Alice parou de chorar no banco de trás, fui descobrindo que ali na frente havia tanta coisa a fazer como lá atrás, e que todos os botões do painel eram perigosos, não podiam ser puxados nem apertados nem tocados e eu devia esquecer aqueles botões para o resto da vida, de modo que abri o porta-luvas e a mãe quase se enfiou lá dentro como se o carro tivesse brecado de repente, tirou de lá um revólver e começou a abrir depressa a janela, o pai foi brecando e encostou o carro, ela jogou o revólver na ribanceira e falou que ele não abrisse a boca, que ele nem pensasse em abrir a boca, e eu aproveitei pra enfiar a mão no porta-luvas antes que ela pegasse a chave e fechasse.
O pai abriu a boca quando o carro já estava rodando de novo: o revólver tinha custado não sei quantos cruzeiros não sei quantos anos atrás, e agora ele queria ver se aparecesse um ladrão na casa da praia. A mãe falou que era preferível entregar tudo pra um ladrão do que arriscar uma criança dessas com uma arma na mão, e começou a contar pra Linalva como tinha morrido um menino perto da casa dela quando era solteira, com um tiro na boca brincando com um revólver. Depois que ela acabou de contar o caso, perguntou o que eu tinha na boca e falei que era uma bala. A Alice falou que também queria bala e o pai garantiu que não tinha comprado bala pra ninguém no bar onde a gente tinha tomado café. Aí a mãe me abriu a boca na marra e tirou a bala, e foram discutindo se uma bala tem ou não tem perigo de explodir na boca de uma criança, e eu comecei a dizer que era muito bonito viajar no banco da frente porque assim a Alice não ia perceber como era muito melhor no banco de trás.
Entramos em Aparecida e o pai rodou até a mãe escolher um restaurante de cara boa. Mas acabou não servindo porque os copos estavam manchados e um guardanapo tinha uma mancha amarela que a mãe logo desconfiou. Voltamos para o carro e aproveitei pra passar pro banco de trás, a Alice sentou na frente e ficou procurando as vantagens que eu tinha falado. O pai deu a partida, tocou o carro mas a mãe achou que o restaurante do lado, ali mesmo, servia bem pra nós, então o pai tornou a estacionar no mesmo lugar, descemos e comemos uma comida intragável conforme o pai, muito limpinha e é isso que interessa conforme a mãe. Alice e eu aproveitamos pra descobrir que num restaurante a gente podia ler o cardápio e pedir o que quisesse, desde que fosse a mesma coisa que o pai e a mãe iam pedir depois. Descobri que camarão devia ser comida mais perigosa que maionese, e no entanto vinha do mar para onde a gente ia, e o mar me parecia uma coisa cada vez mais ótima.
Quando o pai pediu café, eu e a Alice pedimos pra ir numa praça que tinha em frente, Linalva ficou sem café pra ir cuidar da gente e, quando eu descobri dois moleques com um jogo de palitos que eu nunca tinha visto, o pai já entrou de novo no carro e começou a buzinar. Fomos entrando no carro e encostou um homem vendendo lembranças de Aparecida, tinha chaveiro de montes, binóculos de fotografia, santinho, crucifixo, terço, tudo pendurado num cabo de vassoura e a Alice escolheu um espelhinho que era santinho do outro lado. O pai falou que aquilo era bobagem mas a mãe falou que não ia contrariar um gosto sagrado da menina, eu falei que já tinha visto um daqueles espelhinhos mas com mulher pelada do outro lado. A mãe virou pro pai e perguntou o que ele preferia, uma filha iludida com bobagem de religião ou um filho depravado desde cedo. O pai falou que preferia um filho depravado e ficou rindo, aí a mãe falou que eu também devia escolher uma lembrança de Aparecida, e fui apontando e o homem desamarrando do pau e dizendo o preço, até que escolhi o mais caro, uma estátua de Nossa Senhora em porcelana opaca conforme o homem, de gesso vagabundo conforme o pai. Aí o homem falou que o que valia era a devoção, o pai respondeu que então não valia nada mesmo. A Alice falou que a avó tinha falado que o pai ia morrer sofrendo porque não tinha religião. O pai perguntou que vó, mãe dele ou da mãe, e virou pra mãe dizendo que só podia sair da mãe dela uma besteira daquelas.
E foi assim que voltamos pra estrada discutindo religião, até o pai falar que nunca mais deu peixe no rio onde pescaram a santa, aí a Linalva falou Deus me livre, credo em cruz, e o pai falou que a comida tinha dado azia nele e a Linalva garantiu que era castigo de Deus. A mãe não deixou o pai falar mais nada porque se falasse também tratasse de arranjar outra empregada, e continuamos estrada afora.
Alice teve enjoo e vomitou no colo da mãe, o pai teve que parar numa paisagem muito bonita de umas montanhas com um rio lá embaixo se entortando feito uma cobra. Tinha uma mina de água que saía das pedras e a mãe falou que ali, na natureza sem ninguém cuidar, nascia avenca e samambaia mais bonita que em estufa de rico. O pai falou que preferia ser rico e não ter avencas nem samambaias, mas um carro que nem um que passou e ia chegar muito antes da gente conforme o pai, ia acabar se matando numa curva conforme a mãe.
Alice melhorou tão depressa fora do carro, que quase despenca na ribanceira uma hora que a mãe descuidou, queria ver o que tinha lá embaixo. Aí o pai falou pra ela que lá embaixo tinha o mar, vamos lá ver o mar — e já foi entrando de novo no carro e continuamos estrada afora na direção do mar lá embaixo torto feito uma cobra.
O pai saía duma curva e entrava em outra naquelas montanhas, Alice vomitou no colo da Linalva e a mãe falou — agora vai assim mesmo —, e fomos com o vestido grudando na coxa da Linalva e um cheirinho azedo que o vento não carregava. Quando as montanhas acabaram, veio de novo a estrada de sempre, tão igual que até a mãe perguntou se a gente não estava voltando. O pai riu e falou que, se a gente não parasse mais nem uma vez, tal hora essas crianças vão conhecer o mar. Aí eu perguntei se ele tinha algum compromisso no mar, porque ele sempre falava em tal hora, hora tal sem falta, quando tinha algum compromisso com alguém. Ele falou que eu não entendia essas coisas, que em viagem a gente tem que fazer o tempo render, porque a menos de 80 por hora gasta muita gasolina, e eu empurrei o banco dele com o pé e fui descobrindo de novo tudo que não podia fazer dentro de um carro. Mas já não tinha graça e acabei dormindo com o diabo no corpo, conforme a mãe, e com os ossos meio doendo conforme eu mesmo.
Quando acordei o pai tinha acabado de parar o carro e estava conversando com um homem na frente duma casa, numa rua de areia com muitas latas vazias. A mãe olhou pra mim e falou: esse moleque está com alguma coisa. Me botou a mão na testa, me avisou que ficasse quieto que estava queimando de febre, ficou ensinando a Linalva a fazer chá de alho contra resfriado. A Linalva perguntou se eu não ia ver médico, a mãe falou que era um resfriado à toa, culpou o pai porque apanhei chuva da janela, disse que era só eu guardar em casa o dia seguinte e pronto.
Perguntei se a gente não ia no mar, o pai veio vindo e enfiou a cabeça na janela, disse todo alegrão que o aluguel da casa era um absurdo mas a mãe achou que pelo menos tinha tela na janela contra pernilongos. De modo que a Linalva começou a descarregar as malas com o pai, a mãe foi botar roupa numa cama pra eu dormir e ninguém me dizia onde estava o mar. A mãe me enfiou um comprimido na boca, o pai disse que a mãe ainda ia viciar esse moleque com esses calmantes, dormi e acordei no outro dia com cheiro de café.
A Linalva estava na cozinha fazendo café igual em casa, até o bule era o mesmo e a garrafa térmica. Eu e a Alice passamos o dia no jardim e na rua, com a mãe ou a Linalva olhando da janela todo minuto. O pai montava e desmontava cama, arrumava descarga de privada, consertava tela de janela, a mãe arrumava as roupas no guarda-roupa, a Linalva emprestou uma vassoura da casa vizinha e um rodinho com pano de chão, e o pai desentupia pia, a mãe fez lista de compras e ele saiu pra comprar, mas foi sozinho porque disse que senão nem comprava as coisas nem cuidava de mim no supermercado, e a Linalva passou pano dentro dos armários e guarda-roupas, amontoou as baratas mortas num canto, e a mãe desinfetava tudo e reclamava como é que puderam deixar uma casa naquele estado, e só sei que no fim do dia a mãe falou que tinha trabalhado mais que numa mudança, e o pai falou que nem sabia porque tinha inventado aqueles dias na praia.
Alice e eu conhecemos todos os formigueiros da redondeza e perdemos muito tempo esperando sair da toca um bichinho, siri conforme a mãe, caranguejo conforme a Linalva e pituí conforme o pai. O bicho botava duas anteninhas pra fora do buraco, pareciam olhos saindo fora do corpo, via se eu e a Alice estávamos bem escondidos e então saía. A gente ia chegando perto, ele parava na areia, mexia as anteninhas e voltava pro buraco, sem pedra que conseguisse acertar o desgraçado no caminho.
Não vimos crianças, só umas de outra casa, que chegaram pro almoço e saíram depois, todo mundo de maiô, os homens com as costas vermelhas e as mulheres com o corpo inteiro melecado de creme, as crianças com boias e pés-de-pato e máscaras.
No outro dia o pai pegou a gente logo cedo, viramos a esquina e lá na frente, no fim da rua, apareceu uma coisa azul. Fomos andando e a coisa foi mexendo e às vezes embranquecia, o pai falou olha as ondas. Quando a rua acabou e aquilo já era a maior água que eu já tinha visto, entramos numa areia onde era preciso cuidado pra não pisar nas anteninhas, todos andando fora dos buracos, tão grandes que a Alice achou que eles podiam perfeitamente ficar dentro dos buracos em vez de ficar saindo.
E de repente erguemos a cabeça na frente do mar, Alice desandou num choro que só parou no colo do pai. O coração batia junto com as ondas, não sei quanto tempo ficamos ali, o mundo estrondando, até que Alice foi acalmando e continuamos ali, o coração batendo junto com as ondas e um vento que parecia subir da água, molhado e cheiroso.
A mãe chegou e estendeu uma toalha na areia, começou a tirar coisas da sacola e encheu a toalha. A Linalva ficou esquisita de vestido e calça comprida por baixo, foi molhar os pés e eu fui junto, mas a mãe foi me buscar pra passar creme, o pai começou a me avisar dos perigos do mar, a mãe concordando e dizendo escuta teu pai, escuta bem o que o teu pai está dizendo.
Quatro dias depois eu tinha conhecido o mar. Tinha horário de entrar e de sair da água, horário de sol e horário de sombra, hora de passar creme e hora de tomar água, a fundura onde eu podia ir com a Linalva e a fundura até onde podia ir com o pai. A Alice descobriu um arroio cheio de conchinhas, mas a mãe desconfiou de onde devia vir aquela água e a Alice teve que acabar se conformando com as conchas quebradas da praia. Em casa não podia ficar tela aberta, de janela ou de porta, e à noite as casas afundavam na escuridão, a rua não tinha lâmpadas e a criançada não podia brincar fora de casa.
Um velho me mostrou como se pesca com linha, garrafa e anzol, mas levei um dia sem pegar nada, só um beliscão forte no fim da tarde. O velho falou que no dia seguinte eu decerto ia tirar peixe, mas de noite o pai falou:
— Uma semana de praia enjoa qualquer um.
A mãe deu a ideia de visitar uns parentes numa cidade perto, assim a viagem de volta não vai cansar tanto essas crianças, a gente sai cedo pra pegar o almoço e… O pai se entusiasmou e deu a ideia de passarmos também não sei onde, e começaram os dois a riscar a mesa com uma faca: a gente pára aqui, dorme aqui, almoça aqui, dorme mais um dia aqui e visita fulano, depois pára uns três dias na casa da tia fulana; e um ficava tirando a faca do outro pra riscar a mesa enquanto falavam, até que deixaram na madeira um mapa, parecia uma espinha de peixe. A mãe levantou e começou a dar ordens. Linalva pega aquilo, arruma isso, cadê a mala menor, e o pai saiu pra trocar o óleo do carro.
Na varanda a gente ouvia, no vento, as anteninhas roendo as costelas do mar, ondas estrondando no lombo de mar, espuma em cima e todos os peixes e mistérios lá embaixo. O vento continuava com um cheiro molhado e quente, tão forte que parecia que o mar rebentava logo depois da varanda, e meu peito foi inchando cheio de sal, siris e conchas, boias de cortiça, areia, até que desatei a chorar e o peito tornou a ficar pequeno depois.
No dia seguinte, às cinco horas da manhã, alguém começou a me sacudir. A mãe andava pela casa perguntando se ninguém estava esquecendo alguma coisa, e o pai já estava lá fora, esquentando o motor.
E a estação de mar acabou sendo a única que, nas mãos, não me deixou marca nenhuma.
Domingos Pellegrini Jr., "O moderno conto brasileiro"
Arca botânica
Escolho as roupas que vou usar na montanha, e levamos tudo o que é necessário para poder trabalhar, evitando assim – na medida do possível – complicações. As plantas ficam. Já há algum tempo que, se uma morre, não tento substituí-la. Continuo a cuidar delas como sempre, claro, mas tenho consciência de que talvez haja alguma perda na minha ausência.
Há vários verões que nos organizamos assim, como se tivéssemos estabelecido um pacto sagrado desde o dia em que despertámos para este furor botânico: esta necessidade de cuidar e de nos rodearmos de vida e beleza.
Porque, quando este furor ataca, não há volta a dar. De repente, as plantas deixam de ser apenas decoração e tornam-se parte essencial da vida quotidiana. Transformam-se em algo que precisamos de compreender e de cuidar de um modo quase compulsivo. E, praticamente sem nos darmos conta, começamos a procurar mais informação, a ler sobre os seus ciclos e as suas necessidades. Cada nova planta abre uma porta para mais interesse, e essa curiosidade é insaciável. Nunca é suficiente. Queremos aprender a reconhecê-las, a intuir as suas necessidades só de olhá-las, a mantê-las não apenas vivas mas também no seu esplendor máximo.
Este afã de entesourar plantas e cuidar delas transforma-se numa busca constante. Estamos sempre a pensar em qual será a próxima aquisição, que recanto da casa se vai transformar num pequeno santuário verde. De modo instintivo, esse furor cresce, ramifica-se e invade todos os espaços disponíveis.
Laura Agustí, "Furor Botânico"
Há vários verões que nos organizamos assim, como se tivéssemos estabelecido um pacto sagrado desde o dia em que despertámos para este furor botânico: esta necessidade de cuidar e de nos rodearmos de vida e beleza.
Porque, quando este furor ataca, não há volta a dar. De repente, as plantas deixam de ser apenas decoração e tornam-se parte essencial da vida quotidiana. Transformam-se em algo que precisamos de compreender e de cuidar de um modo quase compulsivo. E, praticamente sem nos darmos conta, começamos a procurar mais informação, a ler sobre os seus ciclos e as suas necessidades. Cada nova planta abre uma porta para mais interesse, e essa curiosidade é insaciável. Nunca é suficiente. Queremos aprender a reconhecê-las, a intuir as suas necessidades só de olhá-las, a mantê-las não apenas vivas mas também no seu esplendor máximo.
Este afã de entesourar plantas e cuidar delas transforma-se numa busca constante. Estamos sempre a pensar em qual será a próxima aquisição, que recanto da casa se vai transformar num pequeno santuário verde. De modo instintivo, esse furor cresce, ramifica-se e invade todos os espaços disponíveis.
Laura Agustí, "Furor Botânico"
A mestra e os alunos
Dizem que a História é a mestra da vida. Mas como é que os seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Não lhes aproveitou em nada o exemplo das reprovações anteriores.
Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.
Mario Quintana, "Caderno H"
Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.
Mario Quintana, "Caderno H"
Mulher de segurar navio
Prometi apanhá-lo com meu carro às duas e meia em ponto. Às três e quinze sai da estação de Saint Pancras o ônibus que o levará às docas de Londres. Ele embarca para Portugal hoje, com toda família.
Encontro-o já à porta do edifício onde mora, em Kensington, cercado de malas por todos os lados. Começo a rir, digo-lhe que desista: no meu carro não caberá tanta mala. Ele me olhou com um sorriso desalentado de quem acha que brincadeira tem hora. Com jeito vai - assegura-me.
Para começar, não sabe o que fazer com o embrulho quadrado e chato que tem na mão - um quadro que está levando de presente para o pai. Acaba deixando-o à porta do edifício, e, com minha ajuda, põe-se a transportar a bagagem para dentro do carro.
Em pouco já não há quase espaço vazio: mala traseira, bancos, tudo abarrotado. E neste instante surge à porta sua jovem mulher, como sempre tranquila, repousada e repousante, com aquela suavidade das antigas mães de família, para quem tudo há de dar certo. Não se preocupem, que vamos todos aí dentro - assegura-nos, quando o marido já sugeria um táxi suplementar, difícil de se conseguir assim à última hora.
Chegam agora a governanta e as duas crianças, que se multiplicam por três, correndo e brincando. Ele não perde tempo e vai tratando de enfiá-las no carro. Depois chega a vez dos adultos. Tira-se uma mala, entra um, ajeita-se, entra outro, todos se acomodam, agora é o carrinho da criança, a porta não se fecha. Sobrou uma mala, não têm importância, vai no colo - e ele desaparece a meu lado sob um imenso saco de viagem. Há nessa partida um vago ar de fita cômica que atrai a atenção do leiteiro junto ao caminhão, sorrindo do outro lado da rua. Mal consigo me mexer na direção, ao movimentar o carro. Mas estaremos na estação às três e quinze. Deus seja louvado. A menos que ...
- Vamos voltar - exclama ele, já a meio caminho.
Era o que eu temia.
- O quadro. Esquecemos o quadro, lá na porta da rua.
A mulher comparece com a solução.
- Não há tempo. Toma um táxi que a gente vai indo e te espera lá. Eu seguro o ônibus.
Esta extraordinária observação, feita com tamanha naturalidade, me deixa assombrado. Ele , sem uma palavra, sai do carro e se manda pela rua atrás de um táxi. Enquanto prosseguimos, ponho em dúvida a capacidade de quem quer que seja de interferir no horário de um ônibus na Inglaterra: segura o ônibus como?
- Já segurei um navio, então não posso segurar um ônibus?
Conta-me então que seu tio deveria embarcar num transatlântico italiano, foi despedir-se dele no cais. E até o último momento, nada do tio. Telefona para ele do próprio navio, ficou sabendo que não lhe haviam avisado uma antecipação da hora de partida. Mas isso é um desaforo - decidiu ela: pois pode vir que o navio espera. Quis falar com o comandante, não foi atendida. Os alto-falantes de bordo pediam a retirada imediata dos visitantes, era o último sinal. Os oficiais mandaram retirar a escada. Antes que a escada fosse completamente recolhida, ela se precipitou, desceu alguns degraus e se viu suspensa no espaço, como num imenso trampolim. Lá embaixo a multidão, já acenando despedidas, completava, nariz para o ar, aquele espetáculo de circo: a mulher era passageira? Queria subir ou descer? Ela não queria nada, e era o que repetia teimosamente para oficiais e marinheiros que a intimavam aos berros a sair dali: daqui não saio, daqui ninguém me tira - esperam chegar meu tio. Tiveram de esperar: tirá-la à força era perigoso, acabaria todo mundo n'água. Esperaram meia hora até que chegasse o tio, com a mulher, filhos, carrinho de criança, gaiola de papagaio - mais ou menos como hoje. E, envergonhadíssimo, por pouco desiste de embarcar quando finalmente lhe baixaram a escada, sob aplauso da multidão.
Olho-a furtivamente pelo espelhinho do carro. Vejo uma confusão de malas, embrulhos, crianças cercando o rosto familiar desta brasileira tranquila. Nunca pensei que ela fosse mulher de segurar navio. Quanto mais se vive mais se aprende.
Tudo ajeitado no ônibus, fico à espreita, olho pregado na esquina. Ela não parece preocupada. Começo a temer pela sorte deste motorista alto, ossudo, de cabelos grisalhos e extremamente inglês que já consulta o relógio e vai se ajeitar ao volante, para dar partida. Mal desconfia ele que está correndo o risco de entrar para a História, como protagonista de um extraordinário acontecimento nos anais do império Britânico. São exatamente três e quinze.
Respiro com alívio, ao ver, no último segundo, meu amigo saltar de um táxi e vir correndo com o quadro na mão. Mal teve tempo de entrar, eo ônibus já se afasta, a família acenando alegremente.
Volto para casa pensativo, com aquela esquisita sensação de quem fica. Mas em breve voltarão das férias. E então certamente ficarei sabendo, caso tenham esquecido mais alguma coisa, como o ônibus se desviou de sua rota para que fossem buscá-la em casa.
Fernando Sabino, "A inglesa deslumbrada"
Encontro-o já à porta do edifício onde mora, em Kensington, cercado de malas por todos os lados. Começo a rir, digo-lhe que desista: no meu carro não caberá tanta mala. Ele me olhou com um sorriso desalentado de quem acha que brincadeira tem hora. Com jeito vai - assegura-me.
Para começar, não sabe o que fazer com o embrulho quadrado e chato que tem na mão - um quadro que está levando de presente para o pai. Acaba deixando-o à porta do edifício, e, com minha ajuda, põe-se a transportar a bagagem para dentro do carro.
Em pouco já não há quase espaço vazio: mala traseira, bancos, tudo abarrotado. E neste instante surge à porta sua jovem mulher, como sempre tranquila, repousada e repousante, com aquela suavidade das antigas mães de família, para quem tudo há de dar certo. Não se preocupem, que vamos todos aí dentro - assegura-nos, quando o marido já sugeria um táxi suplementar, difícil de se conseguir assim à última hora.
Chegam agora a governanta e as duas crianças, que se multiplicam por três, correndo e brincando. Ele não perde tempo e vai tratando de enfiá-las no carro. Depois chega a vez dos adultos. Tira-se uma mala, entra um, ajeita-se, entra outro, todos se acomodam, agora é o carrinho da criança, a porta não se fecha. Sobrou uma mala, não têm importância, vai no colo - e ele desaparece a meu lado sob um imenso saco de viagem. Há nessa partida um vago ar de fita cômica que atrai a atenção do leiteiro junto ao caminhão, sorrindo do outro lado da rua. Mal consigo me mexer na direção, ao movimentar o carro. Mas estaremos na estação às três e quinze. Deus seja louvado. A menos que ...
- Vamos voltar - exclama ele, já a meio caminho.
Era o que eu temia.
- O quadro. Esquecemos o quadro, lá na porta da rua.
A mulher comparece com a solução.
- Não há tempo. Toma um táxi que a gente vai indo e te espera lá. Eu seguro o ônibus.
Esta extraordinária observação, feita com tamanha naturalidade, me deixa assombrado. Ele , sem uma palavra, sai do carro e se manda pela rua atrás de um táxi. Enquanto prosseguimos, ponho em dúvida a capacidade de quem quer que seja de interferir no horário de um ônibus na Inglaterra: segura o ônibus como?
- Já segurei um navio, então não posso segurar um ônibus?
Conta-me então que seu tio deveria embarcar num transatlântico italiano, foi despedir-se dele no cais. E até o último momento, nada do tio. Telefona para ele do próprio navio, ficou sabendo que não lhe haviam avisado uma antecipação da hora de partida. Mas isso é um desaforo - decidiu ela: pois pode vir que o navio espera. Quis falar com o comandante, não foi atendida. Os alto-falantes de bordo pediam a retirada imediata dos visitantes, era o último sinal. Os oficiais mandaram retirar a escada. Antes que a escada fosse completamente recolhida, ela se precipitou, desceu alguns degraus e se viu suspensa no espaço, como num imenso trampolim. Lá embaixo a multidão, já acenando despedidas, completava, nariz para o ar, aquele espetáculo de circo: a mulher era passageira? Queria subir ou descer? Ela não queria nada, e era o que repetia teimosamente para oficiais e marinheiros que a intimavam aos berros a sair dali: daqui não saio, daqui ninguém me tira - esperam chegar meu tio. Tiveram de esperar: tirá-la à força era perigoso, acabaria todo mundo n'água. Esperaram meia hora até que chegasse o tio, com a mulher, filhos, carrinho de criança, gaiola de papagaio - mais ou menos como hoje. E, envergonhadíssimo, por pouco desiste de embarcar quando finalmente lhe baixaram a escada, sob aplauso da multidão.
Olho-a furtivamente pelo espelhinho do carro. Vejo uma confusão de malas, embrulhos, crianças cercando o rosto familiar desta brasileira tranquila. Nunca pensei que ela fosse mulher de segurar navio. Quanto mais se vive mais se aprende.
Tudo ajeitado no ônibus, fico à espreita, olho pregado na esquina. Ela não parece preocupada. Começo a temer pela sorte deste motorista alto, ossudo, de cabelos grisalhos e extremamente inglês que já consulta o relógio e vai se ajeitar ao volante, para dar partida. Mal desconfia ele que está correndo o risco de entrar para a História, como protagonista de um extraordinário acontecimento nos anais do império Britânico. São exatamente três e quinze.
Respiro com alívio, ao ver, no último segundo, meu amigo saltar de um táxi e vir correndo com o quadro na mão. Mal teve tempo de entrar, eo ônibus já se afasta, a família acenando alegremente.
Volto para casa pensativo, com aquela esquisita sensação de quem fica. Mas em breve voltarão das férias. E então certamente ficarei sabendo, caso tenham esquecido mais alguma coisa, como o ônibus se desviou de sua rota para que fossem buscá-la em casa.
Fernando Sabino, "A inglesa deslumbrada"
domingo, março 1
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O’Neill
Os jeguinhos de minha mãe
Quem entrasse na sala de estar via logo aquela mesa especial no canto. De madeira maciça encerada, móvel pesado, a tampa grossa e lustrosa, nem escura nem clara, distinção na medida certa. Sobre ela, espalhados, os jeguinhos de minha mãe. De todos os tipos, para os gostos mais variados, bonita coleção. Grandes, médios, pequenos, feitos com materiais diversos. Os de porcelana, pintados, talvez fossem os mais românticos.
Eu quase sempre parava e ficava olhando aquela maravilha. Às vezes percebia uma nova aquisição. Podia ser de pano, palha; ela expunha todos, sem fazer diferença.
Virou um hábito na família. Quando viajávamos, ficávamos atentos. De repente, sem aviso prévio, encontrávamos o jumentinho que seria levado de presente. Em uma loja, feiras populares, certa ocasião encontrei vários sobre uma canga estendida na areia de uma praia. Feitos em arame por um rapaz com aparência que lembrava os hippies dos anos setenta. Caros. O artista sabia se valorizar. Comprei logo dois. Belíssimos!
— Por que você gosta tanto de burrinhos em cima dessa mesa, mãe?
Ela ria e não respondia imediatamente. Fazia certo charme.
— Por quê, hein?
— Porque não posso pôr meus filhos em cima dela.
Foi como uma febre. A coleção hoje não existe mais. Aos poucos, D. Marise foi perdendo a vontade de cuidar dos bichinhos, parou de reclamar quando algum, por desventura, caía e se quebrava. A tropa foi minguando sobre o tampo do aparador. Ela espalhou os poucos que sobraram pelos mais variados cantos do apartamento; a burricada deixou de ser exibida em conjunto. Pena!
Eu nunca entendi direito o que faz uma pessoa desejar colecionar alguma coisa. Como jamais possuí o hábito, estranhei aquela disposição acumulativa de minha mãe. O fato de ter tido começo e fim. E lamentei a interrupção. Sem graça andar por aí sem procurar jeguinhos para D. Marise. Era um hábito prazeroso.
Gosto de livros. Além de ganhar muitos, existe a compulsão de adquiri-los. Entrar em livrarias é sempre um desafio; dificilmente saio sem carregar comigo algum volume. Mas não me considero um colecionador de livros. Orgulho-me de minha biblioteca, mas bibliotecas não podem ser chamadas de coleções de livros. Ou será que podem?
O fato é que se aproxima o Natal. Espalham-se pela cidade presépios, e neles sempre existem os jericos. Afinal, eles carregaram Maria e o menino Jesus. Quando os vejo, sinto falta dos jeguinhos de minha mãe.
Juro que nunca vou esquecer
Nunca vou esquecer o olhar da rapariga que espera o tratamento de radioterapia. Sentada numa das cadeiras de plástico, o homem que a acompanha (o pai?) coloca-lhe uma almofada na nuca para ela encostar a cabeça à parede e assim fica, magra, imóvel, calada, com os olhos a gritarem o que ninguém ouve. O homem tira o lenço do bolso, passa-lho devagarinho na cara e os seus olhos gritam também: na sala onde tanta gente aguarda lá fora, algumas vindas de longe, de terras do Alentejo quase na fronteira, desembarcam pessoas de maca, um senhor idoso de fato completo, botão do colarinho abotoado, sem gravata, a mesma nódoa sempre na manga (a nódoa grita) caminhando devagarinho para o balcão numa dignidade de príncipe. É pobre, vê-se que é pobre, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam, a mão esquelética consegue puxar da algibeira o cartãozinho onde lhe marcam as sessões. Mulheres com lenços a cobrirem a ausência de cabelo, outras de perucas patéticas que não ligam com as feições nem aderem ao crânio, lhes flutuam em torno. E a imensa solidão de todos eles. À entrada do corredor, no espaço entre duas portas, uma africana de óculos chora sem ruído, metendo os polegares por baixo das lentes a secar as pálpebras. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeça sequer, apagando-se a si mesma com o verniz estalado das unhas. Um sujeito de pé com um saco de plástico. Um outro a arrastar uma das pernas. A chuva incessante contra as janelas enormes. Plantas em vasos. Revistas que as pessoas não lêem. E eu, cheio de vergonha de ser eu, a pensar faltam-me duas sessões, eles morrem e eu fico vivo, graças a Deus sofri de uma coisa sem importância, estou aqui para um tratamento preventivo, dizem-me que me curei, fico vivo, daqui a pouco tudo isto não passou de um pesadelo, uma irrealidade, fico vivo, dentro de mim estas pessoas a doerem-me tanto, fico vivo como, a rapariga de cabeça encostada à parede não vê ninguém, os outros (nós) somos transparentes para ela, toda no interior do seu tormento, o homem poisa-lhe os dedos e ela não sente os dedos, fico vivo de que maneira, como, mudei tanto nestes últimos meses, os meus companheiros dão-me vontade de ajoelhar, não os mereço da mesma forma que eles não merecem isto, que estúpido perguntar
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico (não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico (não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.
António Lobo Antunes
A palavra
Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito — como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven — e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído — talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven — e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído — talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"
quinta-feira, fevereiro 26
A Paz
Ter em minhas mãos
Uns jasmins com sol,
Com o primeiro sol;
Saber que amanhece
Em meu coração;
Ouvir de manhã
Uma única voz…
É tudo o que quero.
Regressar sem ódios,
Calmo adormecer,
Sonhar ter nas mãos
Silindras com sol,
Com o último sol;
Dormir escutando
Uma única voz…
É tudo o que quero.
Manuel Bandeira
Uns jasmins com sol,
Com o primeiro sol;
Saber que amanhece
Em meu coração;
Ouvir de manhã
Uma única voz…
É tudo o que quero.
Regressar sem ódios,
Calmo adormecer,
Sonhar ter nas mãos
Silindras com sol,
Com o último sol;
Dormir escutando
Uma única voz…
É tudo o que quero.
Manuel Bandeira
Mas tudo é novo debaixo do sol!
Resmungam os velhos: — “Não há nada de novo debaixo do sol” — e nem se lembram dos que, neste momento, estão recriando o mundo: os poetas, os artistas, os recém-nascidos.
Mario Quintana, "Caderno H"
Mario Quintana, "Caderno H"
Fabiano
Fabiano curou no rasto a bicheira da novilha raposa. Levava no aió um frasco de creolina, e se houvesse achado o animal, teria feito o curativo ordinário. Não o encontrou, mas supôs distinguir as pisadas dele na areia, baixou-se, cruzou dois gravetos no chão e rezou. Se o bicho não estivesse morto, voltaria para o curral, que a oração era forte.
Cumprida a obrigação, Fabiano levantou-se com a consciência tranquila e marchou para casa. Chegou-se a beira do rio. A areia fofa cansava-o, mas ali, na lama seca, as alpercatas dele faziam chape-chape, os badalos dos chocalhos que lhe pesavam no ombro, pendurados em correias, batiam surdos. A cabeça inclinada, o espinhaço curvo, agitava os braços para a direita e para a esquerda. Esses movimentos eram inúteis, mas o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o avô e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mãos. E os filhos já começavam a reproduzir o gesto hereditário.
Chape-chape. Os três pares de alpercatas batiam na lama rachada, seca e branca por cima, preta e mole por baixo. A lama da beira do rio, calcada pelas alpercatas, balançava.
A cachorra Baleia corria na frente, o focinho arregaçado, procurando na catinga a novilha raposa.
Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.
Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado.
– Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: – Você é um bicho, Fabiano.
Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.
Chegara naquela situação medonha - e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.
– Um bicho, Fabiano.
Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada.
E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.
Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. Olhou as quipás, os mandacarus e os xiquexiques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, Sinha Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra.
Chape-chape. As alpercatas batiam no chão rachado. O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco.
Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.
Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se: – Você é um bicho, Baleia.
Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. As vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.
Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado: – Esses capetas têm ideias...
Não completou o pensamento, mas achou que aquilo estava errado. Tentou recordar o seu tempo de infância, viu-se miúdo, enfezado, a camisinha encardida e rota acompanhando o pai no serviço do campo, interrogando-o debalde. Chamou os filhos, falou de coisas imediatas, procurou interessá-los. Bateu palmas: – Ecô! ecô!
A cachorra Baleia saiu correndo entre os alastrados e quipás, farejando a novilha raposa. Depois de alguns minutos voltou desanimada, triste, o rabo murcho. Fabiano consolou-a, afagou-a. Queria apenas dar um ensinamento aos meninos. Era bom eles saberem que deviam proceder assim.
Alargou o passo, deixou a lama seca da beira do rio, chegou à ladeira que levava ao pátio. Ia inquieto, uma sombra no olho azulado. Era como se na sua vida houvesse aparecido um buraco. Necessitava falar com a mulher, afastar aquela perturbação, encher os cestos, dar pedaços de mandacaru ao gado. Felizmente a novilha estava curada com reza. Se morresse, não seria por culpa dele.
– Eco! ecô!
Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianças divertiram-se, animaram-se, e o espírito de Fabiano se destoldou. Aquilo é que estava certo. Baleia não podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exercício fácil – bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal. A cachorra tornou a voltar, a língua pendurada, arquejando. Fabiano tomou a frente do grupo, satisfeito com a lição, pensando na égua que ia montar, uma égua que não fora ferrada nem levara sela. Haveria na catinga um barulho medonho.
Agora queria entender-se com Sinha Vitória a respeito da educação dos pequenos. Certamente ela não era culpada. Entregue aos arranjos da casa, regando os craveiros e as panelas de losna, descendo ao bebedouro com o pote vazio e regressando com o pote cheio, deixava os filhos soltos no barreiro, enlameados como porcos. E eles estavam perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.
– Está aí.
Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.
Lembrou-se de seu Tomás da bolandeira. Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Porquê? Só se era porque lia demais.
Ele, Fabiano, muitas vezes dissera: – “seu Tomás, vossemecê não regula. Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros.” Pois viera a seca, o pobre do velho, tão bom e tão lido, perdera tudo, andava por aí, mole. Talvez já tivesse dado o couro às varas, que pessoa como ele não podia aguentar verão puxado.
Certamente aquela sabedoria inspirava respeito. Quando seu Tomás da bolandeira passava, amarelo, sisudo, corcunda, montado num cavalo cego, pé aqui, pé acolá, Fabiano e outros semelhantes descobriam-se. E seu Tomás respondia tocando na beira do chapéu de palha, virava-se para um lado e para outro, abrindo muito as pernas calçadas em botas pretas com remendos vermelhos.
Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, o convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.
Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! Quem disse que não obedeciam?
Os outros brancos eram diferentes. O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, o Fabiano ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço, desculpava-se e prometia emendar-se. Mentalmente jurava não emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida?
Fabiano, uma coisa da fazenda, um traste, seria despedido quando menos esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de fábrica, perneiras, gibão, guarda-peito e sapatões de couro cru, mas ao sair largaria tudo ao vaqueiro que o substituísse.
Sinha Vitória desejava possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teriam meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau.
Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo - anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar.
Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas - ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo.
Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu- se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer genteimportante como seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
– Um homem, Fabiano.
Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.
Mas depois? Fabiano tinha a certeza de que não se acabaria tão cedo. Passara dias sem comer, apertando o cinturão, encolhendo o estômago. Viveria muitos anos, viveria um século,. Mas se morresse de fome ou nas pontas de um touro, deixaria filhos robustos, que gerariam outros filhos.
Tudo seco em redor. E o patrão era seco também, arreliado, exigente e ladrão, espinhoso como um pé de mandacaru.
Indispensável os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de seu Tomás da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto livro, tanto jornal? Morrera por causa do estômago doente e das pernas fracas.
Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. Seu Tomás da bolandeira é que devia ter lido isso. Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos.
Agora tinham obrigação de comportar-se como gente da laia deles.
Alcançou o pátio, enxergou a casa baixa e escura, de telhas pretas, deixou atrás os juazeiros, as pedras onde se jogavam cobras mortas, o carro de bois. As alpercatas dos pequenos batiam no chão branco e liso. A cachorra Baleia trotava arquejando, a boca aberta.
Aquela hora Sinha Vitória devia estar na cozinha, acocorada junto à trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, preparando a janta. Fabiano sentiu vontade de comer. Depois da comida, falaria com Sinha Vitória a respeito da educação dos meninos.
Graciliano Ramos, em Vidas Secas
Cumprida a obrigação, Fabiano levantou-se com a consciência tranquila e marchou para casa. Chegou-se a beira do rio. A areia fofa cansava-o, mas ali, na lama seca, as alpercatas dele faziam chape-chape, os badalos dos chocalhos que lhe pesavam no ombro, pendurados em correias, batiam surdos. A cabeça inclinada, o espinhaço curvo, agitava os braços para a direita e para a esquerda. Esses movimentos eram inúteis, mas o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o avô e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mãos. E os filhos já começavam a reproduzir o gesto hereditário.
Chape-chape. Os três pares de alpercatas batiam na lama rachada, seca e branca por cima, preta e mole por baixo. A lama da beira do rio, calcada pelas alpercatas, balançava.
A cachorra Baleia corria na frente, o focinho arregaçado, procurando na catinga a novilha raposa.
Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.
Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado.
– Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: – Você é um bicho, Fabiano.
Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.
Chegara naquela situação medonha - e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.
– Um bicho, Fabiano.
Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada.
E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.
Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. Olhou as quipás, os mandacarus e os xiquexiques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, Sinha Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra.
Chape-chape. As alpercatas batiam no chão rachado. O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco.
Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.
Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se: – Você é um bicho, Baleia.
Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. As vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.
Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado: – Esses capetas têm ideias...
Não completou o pensamento, mas achou que aquilo estava errado. Tentou recordar o seu tempo de infância, viu-se miúdo, enfezado, a camisinha encardida e rota acompanhando o pai no serviço do campo, interrogando-o debalde. Chamou os filhos, falou de coisas imediatas, procurou interessá-los. Bateu palmas: – Ecô! ecô!
A cachorra Baleia saiu correndo entre os alastrados e quipás, farejando a novilha raposa. Depois de alguns minutos voltou desanimada, triste, o rabo murcho. Fabiano consolou-a, afagou-a. Queria apenas dar um ensinamento aos meninos. Era bom eles saberem que deviam proceder assim.
Alargou o passo, deixou a lama seca da beira do rio, chegou à ladeira que levava ao pátio. Ia inquieto, uma sombra no olho azulado. Era como se na sua vida houvesse aparecido um buraco. Necessitava falar com a mulher, afastar aquela perturbação, encher os cestos, dar pedaços de mandacaru ao gado. Felizmente a novilha estava curada com reza. Se morresse, não seria por culpa dele.
– Eco! ecô!
Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianças divertiram-se, animaram-se, e o espírito de Fabiano se destoldou. Aquilo é que estava certo. Baleia não podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exercício fácil – bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal. A cachorra tornou a voltar, a língua pendurada, arquejando. Fabiano tomou a frente do grupo, satisfeito com a lição, pensando na égua que ia montar, uma égua que não fora ferrada nem levara sela. Haveria na catinga um barulho medonho.
Agora queria entender-se com Sinha Vitória a respeito da educação dos pequenos. Certamente ela não era culpada. Entregue aos arranjos da casa, regando os craveiros e as panelas de losna, descendo ao bebedouro com o pote vazio e regressando com o pote cheio, deixava os filhos soltos no barreiro, enlameados como porcos. E eles estavam perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.
– Está aí.
Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.
Lembrou-se de seu Tomás da bolandeira. Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Porquê? Só se era porque lia demais.
Ele, Fabiano, muitas vezes dissera: – “seu Tomás, vossemecê não regula. Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros.” Pois viera a seca, o pobre do velho, tão bom e tão lido, perdera tudo, andava por aí, mole. Talvez já tivesse dado o couro às varas, que pessoa como ele não podia aguentar verão puxado.
Certamente aquela sabedoria inspirava respeito. Quando seu Tomás da bolandeira passava, amarelo, sisudo, corcunda, montado num cavalo cego, pé aqui, pé acolá, Fabiano e outros semelhantes descobriam-se. E seu Tomás respondia tocando na beira do chapéu de palha, virava-se para um lado e para outro, abrindo muito as pernas calçadas em botas pretas com remendos vermelhos.
Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, o convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.
Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! Quem disse que não obedeciam?
Os outros brancos eram diferentes. O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, o Fabiano ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço, desculpava-se e prometia emendar-se. Mentalmente jurava não emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida?
Fabiano, uma coisa da fazenda, um traste, seria despedido quando menos esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de fábrica, perneiras, gibão, guarda-peito e sapatões de couro cru, mas ao sair largaria tudo ao vaqueiro que o substituísse.
Sinha Vitória desejava possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teriam meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau.
Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo - anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar.
Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas - ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo.
Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu- se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer genteimportante como seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
– Um homem, Fabiano.
Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.
Mas depois? Fabiano tinha a certeza de que não se acabaria tão cedo. Passara dias sem comer, apertando o cinturão, encolhendo o estômago. Viveria muitos anos, viveria um século,. Mas se morresse de fome ou nas pontas de um touro, deixaria filhos robustos, que gerariam outros filhos.
Tudo seco em redor. E o patrão era seco também, arreliado, exigente e ladrão, espinhoso como um pé de mandacaru.
Indispensável os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de seu Tomás da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto livro, tanto jornal? Morrera por causa do estômago doente e das pernas fracas.
Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. Seu Tomás da bolandeira é que devia ter lido isso. Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos.
Agora tinham obrigação de comportar-se como gente da laia deles.
Alcançou o pátio, enxergou a casa baixa e escura, de telhas pretas, deixou atrás os juazeiros, as pedras onde se jogavam cobras mortas, o carro de bois. As alpercatas dos pequenos batiam no chão branco e liso. A cachorra Baleia trotava arquejando, a boca aberta.
Aquela hora Sinha Vitória devia estar na cozinha, acocorada junto à trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, preparando a janta. Fabiano sentiu vontade de comer. Depois da comida, falaria com Sinha Vitória a respeito da educação dos meninos.
Graciliano Ramos, em Vidas Secas
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