sexta-feira, julho 19

Um lê, outro medita

 


,A escola perfeita

A Escola de Pais, fundada em Sambaíba, no Maranhão, não deu os resultados com que se sonhava. O estabelecimento tinha pouca frequência, e os pais iam beber no botequim próximo.

A direção da escola achou conveniente experimentar novos métodos, e colocou a responsabilidade do ensino nas mãos dos filhos dos alunos.

A princípio o aproveitamento foi extraordinário, pois os adolescentes que passaram a controlar a casa exerceram disciplina severa, exigindo dos pais o máximo de aplicação, pontualidade e aproveitamento. Depois, a disciplina foi abrandando, e havia meninos que convidavam seus pais e os pais de outros meninos a trocar a aula por futebol, no que eram atendidos.

Ao fim do semestre, a Escola de Pais tornara-se Escola de Pais e Filhos, sem programa definido, despertando imitação em outros pontos do Estado e até no Piauí.

Era uma escola festiva, em que os macacos, as borboletas, os seixos da estrada não só faziam parte do material escolar como davam palpites sobre a matéria, por esse ou aquele modo peculiar a cada um deles. O entusiasmo foi tamanho que pais e filhos chegaram à conclusão que melhor fora transformar o estabelecimento, já então sem sede fixa nem necessidade de tê-la, numa escola natural de coisas, em que tudo fosse objeto de curiosidade, sem currículo, e surgiu a escola da natureza, sem mestres, sem alunos, sem decreto, sem diploma, onde todos aprendem de todos, na maior alegria e falta de cerimônia, até que o INCRA ou outro organismo civilizador qualquer se lembre de dividir as terras de Sambaíba em fatias burocráticas legais. Será a escola perfeita?
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis",

Seremos todos telefones

Esse negócio de Google tirou a graça de muitas coisas. E dificultou a vida dos que mourejam nas letras, obrigados por profissão e ganha-pão a escrever com regularidade, fazendo o que podem para atrair o interesse de leitores e mostrar serviço, pois bem sabem que a mão que afaga é a mesma que apedreja e o quem-te-viu-quem-te-vê será o destino inglório daqueles que dormirem no ponto. Antes do Google, o esforçado cronista recorria a almanaques e enciclopédias e deles, laboriosamente, extraía novidades para motivar ou adornar seu texto. Agora todo mundo pode fazer isso num par de cliques. Além do mais, o cronista podia também exibir-se um pouco, o que talvez trouxesse algum benefício ao combalido Narciso que carrega n'alma, além de realçar-lhe a reputação. Somente alguns poucos, entre os quais ele, tinha tal ou qual informação, ou lembrava certos pormenores, em relação ao assunto comentado. O Google acabou com isso e quem hoje em dia chegar ao extremo de escrever algo do tipo "você sabia?" se arrisca a desmoralização instantânea.

Mesmo consciente desses perigos, ouso dizer que a maior parte de vocês não sabia que hoje é o dia do telefone. Eu por acaso sabia e me lembrei assim que vi a data no calendário. E também já sabia de uma porção de coisas adicionais, inúteis mas talvez vistosas. Tudo isso, juro que é verdade, sem recorrer ao Google. Faz mais tempo que eu gostaria de admitir, escrevi um trabalho escolar sobre Alexander Graham Bell, o inventor do telefone, e não me esqueci de fatos importantíssimos. Para começar, Bell não era americano, como geralmente se pensa; era escocês. E, se vocês pasmaram com esta, pasmem com a próxima: nos primeiros telefones, não se falava e escutava ao mesmo tempo, era como nos walkie-talkies dos filmes de guerra americanos e os interlocutores tinham que dizer "câmbio", ao terminarem cada fala.

E, sim, D. Pedro II garantiu o papel do Brasil no sucesso da invenção. Os historiadores americanos lembram como Sua Majestade, durante uma feira internacional em Filadélfia, ficou estupefato com o novo aparelho e exclamou: "Meu Deus, isto fala!". Parece que ele botou mais fé na novidade que os americanos, porque o presidente americano Rutherford B. Hayes declarou mais tarde que se tratava de um aparelho interessante, mas sem nenhuma utilidade. D. Pedro ganhou um e as centrais telefônicas começaram a se instalar no Brasil, notadamente no Rio de Janeiro e, segundo eu li, tinham o hábito de pegar fogo com grande frequência. O coronel Ubaldo, meu avô, como vários de seus contemporâneos, na hora de falar no telefone, botava o paletó e passava a mão na careca, parecendo ajeitar uma cabeleira invisível e, depois que contaram a ele que funcionava com eletricidade, acho que nunca mais tocou em nenhum.

E mais sensacionais revelações eu teria a fazer, mas suspeito que todas podem ser achadas no Google, para quem for suficientemente obsedado. O que não se acha no Google são minhas memórias pessoais em relação ao telefone. A primeira lembrança é o telefone lá de casa, quando morávamos em Aracaju. Se não me engano, o número era 631 e o aparelho ocupava um espaço solene, no corredor de entrada. Recordo as duas enormes baterias, com o formato de pilhas de lanterna, mas muito maiores. Pegava-se o fone, rodava-se a manivela e falava-se com a telefonista, para pedir a ligação. Nessa época, Salvador já tinha telefones automáticos, parecidos com os que a gente via no cinema e com um número enorme. O da casa de meu tio Cecéu, por exemplo, era 8521 e eu causava grande inveja em meus colegas de Aracaju, quando dizia que meu telefone em Salvador tinha esse numerozão - e sem telefonista.

Já as ligações interurbanas eram um problema, mesmo em Salvador ou qualquer outra cidade. Nem sempre se conseguia e o telefonema tinha que ser programado com muita antecedência. Às vezes, esperava-se o dia inteiro pela ligação. Quando a conversa se iniciava, as vozes se perdiam numa fanfarra de zumbidos, estalos, pequenos estampidos e ruídos de toda espécie, em que os telefonadores se esgoelavam em gritos altos e palavras repetidas aos berros. Era inevitável a suspeita, em alguns casos convicção, de que seria mais eficaz chegar à janela e soltar esses berros na direção da cidade para onde se telefonava, levando o papo diretamente no gogó, sem precisar de nenhum aparelho.

Pois é, nada como um dia depois do outro. Ainda passei por mentiroso, quando, regressado ao Brasil depois de uma longa temporada nos Estados Unidos, contei que o sujeito em Los Angeles discava diretamente para Nova York, na outra ponta do país, a ligação se completava como se fosse local e se ouvia perfeitamente a voz do lado de lá. Estabelecia-se um silêncio constrangido entre os ouvintes e não eram raros comentários elogiando minha fértil imaginação de romancista. O curioso é que lá eu também passava pela mesma situação, quando contava que, no Brasil, havia gente que esperava a instalação de um telefone durante décadas e as linhas eram valorizadas como excelente investimento e deixadas como herança.

Por fim, chegaram os celulares e tabletes. Tem gente que não larga o celular nem no chuveiro e dizem que já é até um acessório sexual indispensável para muitos. Creio que, no futuro próximo, os recém-nascidos, ainda na maternidade, terão vários chips implantados no cérebro e serão conectados antes de aprenderem a falar, talvez numa rede social especializada. Um chip, secretamente instalado no celular do cônjuge infiel, mostrará à parte corneada o endereço exato do motel onde o(a) sem-vergonha prevarica. Um aplicativo ora sendo aperfeiçoado saberá, por sutis alterações na voz, quando quem fala está mentindo. Realiza-se o sonho de não passarmos de uma colmeia toda interligada, em que não haverá vida privada. Feliz dia do telefone para todos.

João Ubaldo Ribeiro

Arrependi-me sempre das palavras

Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim.

Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois, o tempo. Sempre o tempo como uma brisa. Uma aragem suave, mas definitiva, a empurrar-me os sentimentos, a deixá-los lá ao fundo e a mostrar-me na distância que eram pequenos, muito pequenos e sem valor. E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. Arrependi-me sempre das palavras.

José Luís Peixoto, "Uma Casa na Escuridão"

Os dons das fadas

Realizava-se a grande reunião das fadas, a fim de procederem à partilha dos dons entre todos os recém-nascidos das últimas vinte e quatro horas.

Muito diferiam umas das outras, todas essas antigas e fantasistas Irmãs do Destino, todas essas Mães estranhas da alegria e da dor: umas tinham aparência sombria e rebarbativa, outras a tinham folgazã e maliciosa; umas eram jovens, e sempre o haviam sido, outras eram velhas, e também sempre o haviam sido.

Todos os pais que acreditam nas Fadas haviam comparecido, cada qual trazendo nos braços o seu recém-nascido.


Os Dons, as Faculdades, os Bons Acasos, as Circunstâncias Invencíveis, estavam amontoados ao lado do Tribunal, como os prêmios sobre o tablado, em dia de distribuição de prêmios. O que havia de particular no caso é que os Dons não eram a recompensa de um esforço, mas pelo contrário, uma graça concedida àquele que ainda não vivera, uma graça capaz de determinar seu destino e de se tornar tanto a origem de sua má sorte, quanto de sua felicidade.

As pobres Fadas estavam sobrecarregadas de trabalho, porque era grande o número dos solicitantes, e o mundo intermediário colocado entre o homem e Deus está submetido, tanto quanto nós, à lei terrível do Tempo e de sua infinita posteridade, os Dias, as Horas, os Minutos, os Segundos.

Na realidade, elas estavam tão atordoadas quanto ministros em dia de audiência, ou empregados do Estabelecimento de Penhores, quando um dia de festa nacional autoriza as restituições sem pagamento. Acho mesmo que olhavam, de vez em quando, para o ponteiro do relógio, com impaciência igual à de juízes humanos que, por estarem em função desde cedo, não podem deixar de sonhar com o jantar, a família e os queridos chinelos. Se, na justiça sobrenatural, há um pouco de precipitação e de acaso, não nos admiremos que o mesmo aconteça às vezes na justiça humana. Nós mesmos seríamos, em tal caso, juízes injustos.

Destarte foram cometidas, nesse dia, algumas tolices — que poderíamos estranhar, se a prudência, e não a fantasia, fosse a característica peculiar, eterna, das Fadas.

Assim o poder de atrair magneticamente a fortuna foi concedido ao único herdeiro de uma família riquíssima que, não possuindo noção alguma de caridade, como também nenhuma cobiça dos bens visíveis da terra, devia encontrar-se, mais tarde, grandemente atrapalhado com seus milhões.

Assim foram concedidos o amor ao Belo e a Força Poética ao filho de um triste pobretão, um cavouqueiro absolutamente incapaz quer de favorecer os dotes, quer de prover às necessidades de sua lamentável progênie.

Esquecia-me de lhes dizer que a distribuição, em tais casos solenes, não comporta apelação, e que nenhum dom pode ser recusado...

Todas as Fadas já se estavam levantando, julgando concluída sua tarefa, porque não restava mais presente algum, munificência alguma para atirar a toda aquela nulidade humana, quando um bom homem, um pobre e modesto negociante, creio eu, ergueu-se e, agarrando por sua veste de vapores policrômicos a Fada que lhe ficava mais próxima, exclamou:

— Oh! Senhora! estamos esquecendo! Ainda falta meu pequeno! Não quero ficar sem receber coisa alguma!

A Fada deveria ficar perplexa, porque não restava mais nada.

Todavia, lembrou-se ela a tempo de uma lei bastante conhecida, embora raramente aplicada, no mundo sobrenatural, habitado pelas deidades etéreas, amigas do homem, e muitas vezes forçadas a se adaptarem às suas paixões, tais como as Fadas, os Gnomos, as Salamandras, as Sílfides, os Silfos, os Nixos, os Ondinos e as Ondinas, — quero referir-me à lei que concede às Fadas, em semelhante caso, isto é, no caso de os presentes se acabarem, a faculdade de concederem mais um, suplementar e excepcional, sob condição, todavia, de ela possuir imaginação bastante para criá-lo imediatamente.

Por isso a boa Fada respondeu, com uma segurança digna de sua situação:

— Dou a teu filho... dou-lhe... o Dom de agradar!

— Mas agradar como? agradar? por que agradar? — perguntou teimosamente o pequeno comerciante, que sem dúvida era um desses raciocinadores tão comuns, incapazes de se elevarem até a lógica do absurdo.

— Porque sim! porque sim! — replicou a Fada, colérica, voltando-lhe as costas; e, reunindo-se ao cortejo de suas companheiras, dizia-lhes: — Que acham desse francesinho vaidoso que tudo quer compreender e que, havendo obtido para o filho o melhor quinhão, ainda ousa interrogar e discutir o indiscutível?
Charles Baudelaire, "Os mais belos contos franceses dos mais famosos autores"

quinta-feira, julho 18

Leitura bem embalada

 


A presa

No gabinete de Leandro começara a agitação: cadeiras que se arrastavam, troca de saudações, uma máquina que escrevia e a manivela do telefone a rodar, a vencer distâncias pela noite. Ouviu-se um berro do sargento:

– A presa!

À rapariga de Cimadas a ordem do Leandro soou-lhe como uma chicotada. Sentiu um arrepio e logo a seguir uma dor morna no estômago, um malestar lento e teimoso, e calculou que era o medo, a dor do medo. Percebeu também que tinha a mão do guarda pousada no ombro – solta, sem vontade. Não era a garra de um carrasco, nem tão-pouco um sinal encorajador; era, quando muito, o gesto quase simbólico do carcereiro que se prepara para desligar da presa.

Floripes retirou para longe de si a mão que se demorara sobre ela. Depois, descalça e compondo o cabelo, encaminhou-se para a porta.

– Vira-te para a parede – ouviu dizer no corredor; e notou que era um dos algemados dando uma ordem um ao outro. Passou por esses vultos, ambos espalmados e unidos na penumbra, e não lhe deram tempo para ver mais nada.

Acabava de entrar no gabinete de Leandro.

Ali havia o sargento e havia um homem gordo de samarra e boina à espanhola que, mal ela chegou, não fez outra coisa senão mirá-la. Rodeou-a, mediu-a dos pés à cabeça, pela frente, pelas costas, como quem aprecia um animal de feira.
– Ora, muito bem, mocinha. – O sargento alinhou meia dúzia de fotografias sobre o tampo da secretária. – Conheces algum destes fulanos? O gordo de boina à espanhola veio colocar-se junto de Leandro, estudando a rapariga, enquanto ela passava, um por um, os retratos. Deitado para trás na cadeira, o sargento desfrutava o espetáculo. No fim de tudo sorriu:

– Não conheces ninguém, não é assim?

– Não, senhor.

– Pois é. Tens fraca memória, coitadinha. Tens fraca memória, não tens? – O sargento virou-se para o gordo: – Come muito queijo, compreende o senhor? E é pena. Uma mocinha como ela até parece mal ser tão esquecida. Lá em casa não te dão ovos, menina?

José Cardoso Pires, "O Hóspede de Job"

Uma vela para Dario

Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros que se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca. Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.


A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede — não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados — com vários objetos — de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade. Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes. O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo — os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio — quando vivo — só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

A última boca repete — Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto. Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.

Dalton Trevisan, "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século"

Tempo não falta


Não dispõe de tempo livre para a leitura. Todavia, possui tempo para controlar a arrogância; para se sobrepor ao prazer, à dor e ao amor pelo prestígio; para não se irritar com os estúpidos e os ingratos e até para cuidar deles.

Marco Aurélio (121 - 180 d.C), "Meditações" 

Chuva, chuva, chuva

É a primeira chuva a que assisto da minha janela de hóspede - neste verão que bem pode ser a primavera, pois não tenho noção do tempo nem disponho de bússola para me guiar entre as horas do dia e da noite. Ontem o deputado que se senta ao meu lado na mesa garantiu-me que estávamos em agosto, e até fez o sinal da cruz sobre o peito para demonstrar que não estava mentindo; mas eu tenho minhas dúvidas a respeito e continuo acreditando que não estamos sequer em janeiro ou em março, pois o rio que ouço a distância continua a caminhar para a direita e só com a chegada da primavera é que ele se volta para a esquerda e se torna realmente belo.

Presumo que aqui me encontro aproximadamente há uns vinte anos, ou uns cinco pelo menos, pois já me habituei com a cama, as cadeiras e a mesinha de cabeceira, e não sou de me habituar muito depressa com as coisas. Eu poderia, bem sei, perguntar ao criado ou à criada que me servem todos os dias, ou mesmo ao próprio gerente do hotel, ou ainda à sua jovem esposa tão louçã e já tão vesga, o tempo exato em que aqui me encontro e o mês e o ano em que porventura estamos vivendo nesta fria noite de chuva; mas tenho receio de que eles me tomem por um maníaco que está sempre a querer saber as coisas, eu que tenho fama de tão discreto e de tão educado, e prefiro morrer sem saber o dia da minha morte a ter que causar-lhes tamanha decepção.

De resto, a noite não é tão triste assim, e eu bem posso, querendo, sentar-me à beira da cama, colocar as duas mãos na fronte como o faria qualquer sujeito de bom senso, e distrair-me assim com o espetáculo da parede sempre branca e sempre imóvel, a dois palmos do meu nariz. Livros eu não tenho para ler no momento, nem eles dão coisa que preste e que me faça mais sábio do que sou, pelas amostras que já tive nestes últimos tempos (A Bíblia que me deram a ler era exatamente igual a todas as Bíblias que eu já conhecia antes de vir para cá, e o romance policial que de certa feita me emprestou a empregada trazia uma história ingênua e fácil de ser desvendada, como pude verificar logo pelas últimas páginas.) Violão também não tenho, nem piano, nem saxofone, de maneira que a chuva ainda é a melhor coisa que me poderia acontecer nesta noite sem mês e sem ano, já que as paredes brancas e iguais já não me oferecem segredo nenhum, à força de eu me postar diante delas como diante de um espelho. Exatamente: a noite foi feita para os galos dormirem e os insones roerem a sua insônia. Roerem - não disse bem?

Assombra-me (sempre me assombrou) ver a facilidade com que certas criaturas se recostam num travesseiro e caem logo num sono profundo, como se se houvessem suicidado inteiramente, sem problema nenhum a resolver no dia seguinte. Parecem bonecos de corda a que de repente faltasse a corda, e a sua consciência é também uma simples questão de corda a mais ou a menos, como o é também a sua voz, em tudo igual à de um boneco que fala mamãe. Em mim, o superlúcido, o sono foi sempre uma conquista muito difícil, e sua escalada através dos anos sempre me pareceu mais penosa e meritória do que a do Himalaia ou mesmo a do monte Everest.

Agora a chuva baila em torno da minha cabeça, e no hotel todos dormem ou fingem que dormem pelo menos, num silêncio que marca com exatidão o barulho da chuva sobre o telhado. Seu eu gritasse é possível que a chuva continuasse caindo, mas o silêncio pelo menos deixaria de existir dentro do meu quarto e dentro dos quartos vizinhos, e a chuva já não teria a marcá-la o compasso unânime do sono de todos os imbecis da terra. Vou gritar, espera!... - Não, é melhor eu deixar para gritar amanhã, ou num domingo, que é dia de júbilo universal e é quando todos gritam sem motivo ou pelos motivos mais tolos. Agora vou pentear o cabelo com a água da chuva, olhar um pouco mais o céu indevassável através das grades da janela (por causa dos ladrões) e depois recolher-me ao leito, como uma criança de dois anos. Nos meus bons tempos esta era a hora exatamente de eu sair à rua, de guarda-chuva aberto e a alma escancarada, até que encontrasse um bar simpático que me acolhesse e ao guarda-chuva e nos deixasse ficar a sós até alta madrugada. (Neste hotel, não sei por que, o regime é mais severo do que nos outros, e o hóspede não tem direito de pôr o pé na rua sem falar com o gerente ou com o subgerente, que geralmente lhe negam autorização. Coisas da nova democracia, parece-me.)

Outra coisa que a chuva me faz lembrar sempre são os mortos. Tive um amigo que de certa feita escreveu esta frase lapidar: A chuva dá de beber aos mortos, e talvez por isso eu não possa sentir a chuva sem sentir a presença dos mortos ao meu lado, e até mesmo dentro de mim. Por outro lado, não é verdade que os mortos hão de sentir-se apavorados dentro da terra encharcada e gotejante, sobretudo os mortos recentes e que ainda não estão acostumados com a sua solidão? Eu, depois de morto, tanto se me dá que chova ou que deixe de chover, mas aquela frase do meu amigo não deixa de ser bela e profundamente inspiradora. Não acredito que a sede seja o que mais importune os mortos no seu silêncio, mas a poesia é sempre necessária e é bom que os poetas estejam lembrando-se dos mortos nos dias de chuva, como uma mãe dos seus filhos.

Agora que já olhei a chuva mais uma vez, e que o silêncio persiste dentro deste hotel mal-assombrado (mudar-me-ei amanhã) - o que me resta a fazer é não fazer nada, como sempre, e esperar que as horas escoem lentamente e que o meu corpo durma antes de mim, ao peso do cansaço e da mais absoluta monotonia. Deitar-me-ei como um faquir sobre os espinhos do meu leito - bela imagem, sem dúvida – apagarei a luz, rezarei um padre-nosso (eu que não creio em Deus nem creio que ele possa crer em mim) e fingirei de morto por algum tempo, só respirando e deixando que me bata o coração, por via das dúvidas. No escuro a noite é completamente escura, como o podem atestar todos os insones da terra, e o jeito que resta é a gente esperar que, mesmo com chuva, a alvorada volte a raiar no vidro da janela, e com ela de novo as esperanças e as ideias felizes, que são sempre as mesmas sempre, apesar de todas as decepções ou talvez por isso mesmo.
Campos de Carvalho, "A Lua Vem da Ásia"

quarta-feira, julho 17

'Abrigo' na rua

 


'Obrigada pelo fogo'

Aos 40 anos, a sra. Hanson era uma mulher bonita, mas um tanto apagada, que vendia espartilhos e cintas em viagens de negócios fora de Chicago. Por muitos anos seu território havia oscilado entre Toledo, Lima, Springfield, Columbus, Indianápolis e Fort Wayne, portanto a transferência para a região de Iowa - Kansas - Missouri fora uma promoção, já que a empresa estava mais fortemente estabelecida a oeste de Ohio.

No leste, ela conhecia pessoalmente a clientela e sempre tomava um drinque ou fumava um cigarro no escritório dos compradores, depois de concluídos os negócios. Mas logo descobriu que, na nova área, as coisas eram diferentes. Não só deixavam de lhe perguntar se ela desejava fumar como, em várias ocasiões, quando ela mesma indagou se alguém se importaria caso acendesse um cigarro, a resposta veio compungida: "Não é que eu me importe, mas seria um péssimo exemplo para os empregados".

"Ah, claro, eu entendo."

Às vezes, fumar era importante para a sra. Hanson. Ela trabalhava muito e era um jeito de fazê-la descansar e relaxar psicologicamente. Era viúva e não tinha nenhum parente próximo para quem escrever à noite, e assistir a mais de um filme por semana prejudicava seus olhos, de modo que fumar tornou-se um importante sinal de pontuação na comprida sentença de um dia na estrada.

Na última semana de sua primeira viagem pelo novo território, ela foi parar em Kansas City. Era meados de agosto e estava se sentindo sozinha entre seus novos contatos, portanto foi com alegria que encontrou, na recepção de uma das empresas, uma mulher que havia conhecido em Chicago. A Sra. Hanson sentou-se enquanto aguardava ser anunciada e, conversando, descobriu um pouco sobre o homem com quem iria se encontrar.

"Ele se importaria se eu fumasse?"

"O quê? Meu Deus, sim!", a amiga afirmou. "Ele deu dinheiro para financiar a lei contra o fumo."

"Ah. Bem, obrigada pelo conselho "" obrigada mesmo."

"É bom você tomar cuidado por aqui", a amiga acrescentou. "Principalmente com os maiores de 50 anos. Os que não estiveram na guerra. Um homem me disse que quem participou da guerra nunca faria objeção a um fumante."

Porém, em sua parada seguinte, a sra. Hanson topou com uma exceção. Ele parecia um jovem muito agradável, mas tinha os olhos fixos no cigarro que ela segurava entre os dedos, tanto que ela se viu obrigada a apagá-lo. Foi recompensada quando ele a convidou para almoçar e, ao longo do período, efetuou uma compra de valor substancial.

Depois disso, ele insistiu em lhe dar carona até o compromisso seguinte, embora ela tivesse a intenção de procurar um hotel nas redondezas e dar umas tragadas no banheiro.

Foi um desses dias repletos de espera - todos estavam ocupados ou atrasados e, quando os clientes chegavam a aparecer, eram homens de rosto duro que não toleravam a autocomplacência alheia, ou então mulheres consciente ou inconscientemente comprometidas com as ideias desses homens.

A sra. Hanson não acendia um cigarro desde o café da manhã e de repente percebeu que era por isso que sentia uma vaga insatisfação ao fim de cada reunião, não importando o quanto havia sido bem-sucedida financeiramente.
Ela dizia: "Acho que cobrimos um mercado diferente. É tudo entretela e látex, claro, mas nós realmente conseguimos juntá-los de um modo diferente. O aumento de 30 por cento nas vendas deste ano fala por si só".

Mas pensava consigo mesma: Se ao menos eu pudesse dar três tragadas, conseguiria vender até aqueles corpetes antiquados com barbatanas.

Só havia mais uma loja para visitar, porém o compromisso estava marcado para dali a meia hora. Daria tempo de passar no hotel, mas, sem nenhum táxi à vista, ela caminhou pela rua, pensando: "Talvez eu deva parar de fumar. Estou ficando viciada".

À sua frente havia uma catedral católica. Parecia muito alta, e de repente ela teve uma ideia: se tantas nuvens de incenso haviam subido em espirais até chegar a Deus, um pouco de fumaça no vestíbulo não faria a menor diferença. Por que é que o Altíssimo iria se importar com uma mulher exausta dando umas baforadas no vestíbulo?

Contudo, ainda que não fosse católica, o pensamento a incomodou. Fumar era tão importante assim, mesmo correndo o risco de ofender tanta gente?

E ainda assim. Ele não se importaria, pensou com persistência. Na época Dele, ainda não haviam descoberto o tabaco...

A Sra. Hanson entrou na igreja; o vestíbulo estava escuro e ela procurou um fósforo na bolsa, mas não encontrou nenhum.

Vou apanhar o fogo de uma das velas, pensou.

A escuridão da nave era cortada apenas por um facho de luz num dos cantos. Ela caminhou pelo corredor lateral em direção ao borrão esbranquiçado, então reparou que não era causado por velas e, em todo caso, estava quase sumindo - um homem parecia prestes a apagar a última lamparina a óleo.

"São oferendas votivas", ele disse. "Nós apagamos à noite. Acho que é mais importante para quem ofereceu se as economizarmos para o dia seguinte, em vez de mantê-las acesas a noite toda."

"Entendo."

Ele apagou a última chama. Não havia mais luz na catedral, salvos um candelabro elétrico no teto e a lâmpada sempre acesa diante do sacrário.

"Boa noite", disse o sacristão.

"Boa noite."

"Suponho que você tenha vindo para rezar."

"Isso mesmo."

Ele entrou na sacristia. A Sra. Hanson ajoelhou-se e rezou.

Fazia muito tempo que ela não rezava. Mal sabia para quê, então rezou para seu empregador e para os clientes em Des Moines e Kansas City. Quando terminou, olhou para cima. Uma imagem de Nossa Senhora a encarava de um nicho a menos de dois metros de sua cabeça.

A Sra. Hanson contemplou vagamente a imagem. Então ficou de pé e caiu, exausta, na beira do assento. Em sua imaginação, a Virgem desceu, como na peça "O Milagre", tomou seu lugar e vendeu espartilhos e cintas, ficando tão cansada quanto ela. Então a Sra. Hanson deve ter cochilado por uns minutos. Acordou com a sensação de que algo havia mudado, sentiu aos poucos um aroma familiar no ar, que não era de incenso, e sentiu que seus dedos doíam. Então percebeu que o cigarro que trazia entre os dedos estava aceso - e queimando.

Ainda sonolenta demais para pensar, ela deu uma tragada para manter a chama viva. Então olhou para cima e viu o nicho vago de Nossa Senhora, à meia-luz.

"Obrigada pelo fogo", ela disse.

Mas não lhe pareceu o suficiente, de modo que ela se ajoelhou, com a fumaça subindo em espirais do cigarro entre seus dedos.

"Muitíssimo obrigada pelo fogo", ela disse.
Francis Scott Fitzgerald, recusado em 1936 pela "New Yorker"

No silêncio da noite

Sempre me impressionou esse estranho caso que acontece no silêncio da noite e no interior das enciclopédias: a promiscuidade forçada das personagens dos verbetes, as quais, sem querer, se encontram alfabeticamente lado a lado... Não fosse a minha salutar preguiça, eu escreveria um novo Dialogues des morts. Deixo aqui a ideia a quem quiser aproveitá-la.

Que diria, por exemplo, Napoleão a Nabucodonosor, que, se não me engano muito, é ainda por cima o único lobisomem que aparece na Bíblia... Em todo caso, o orgulho do Imperador ficaria por demais ferido com a total ignorância de seu vizinho de página a respeito de suas andanças através da História. Ainda mais danado ficaria ele se pudesse ver os filmes em que é apresentado como um baixinho irrequieto, nervosinho, de gestos súbitos, um garnisé petulante. Por ocultos motivos, parece que é moda denegrir Napoleão entre os cineastas franceses. Isto apesar de os burgueses de França terem ficado seduzidos, até hoje, com as fitinhas da Legião de Honra, que ele, maliciosamente, criou exatamente para os civis — o que ainda agora o deve divertir muitíssimo.

Mas por que diabo foi ele vender a Louisiana aos Estados Unidos? Não fora isto, poderia transportar, depois de Waterloo, a sede do Governo para o Novo Mundo — como fez Dom João VI ao vir para o Brasil. Foi a mesma burrada (desculpem, não me ocorre no momento outra expressão), foi o mesmo, digo agora, que fez a Rússia ao vender o território do Alasca aos norte-americanos. Com que raiva não hão de pensar nisto os soviéticos, que, com um pé na América, aí sim, poderiam, literalmente falando, abarcar o mundo com as pernas. Mas, depois do que aconteceu, é tolice imaginar o que poderia não ter acontecido. Deixemos pois os guerreiros em imerecida paz e vamos falar daqueles cujo reino não é deste mundo.

Contudo, receio que Napoleão e Nabucodonosor não se estranhariam tanto como pessoas da mesma Era e da mesma Fé. Como Santa Teresa de Jesus, por exemplo, e Santa Teresinha do Menino Jesus, que se defrontam na mesma página. Deus me perdoe, mas creio até que o velho Teresão não daria importância àquela meiga menina, com suas chuvas de rosas... “Deixá-la falar! santinha de arrabalde...”

Mário Quintana, "A vaca e o hipogrifo"

Onde já se viu?

Uma tarde de inverno, estava eu lá, na Rua Barão de Itapetininga, mexendo nas estantes de uma livraria. (Não consigo passar por uma sem entrar pra fuçar no meio dos livros. Desde que eu tinha quatro anos de idade – o que já faz muito tempo – livro para mim é a coisa mais gostosa do mundo. A gente nunca sabe que surpresa vai encontrar entre duas capas. Pode ser coisa de boniteza, ou de tristeza, ou de poesia, ou de risada, ou de susto, sei lá. Um livro é sempre uma aventura, vale a pena tentar!)


Pois bem, estava eu ali, muito entretida, examinando os livros, quando de repente senti que alguém me puxava pela manga. Olhei para baixo e vi um menino – um garotinho de uns nove ou dez anos, magrelo, sujinho, de roupa esfarrapada e pé no chão. Uma dessas crianças que andam largadas pelas ruas da cidade, pedindo esmola. Ou, no melhor dos casos, vendendo colchetes ou dropes, essas coisas. Eu já ia abrindo a bolsa para livrar-me logo dele, quando o garoto disse:

-- Escuta, dona... (Naquele tempo, ninguém chamava a gente de tia: tia era só a irmã do pai ou da mãe.)

-- O quê? – perguntei. – O que você quer?

-- Eu... dona, me compra um livro? – disse ele baixinho, meio com medo.

Dizer que fiquei surpresa é pouco. O jeito do menino era de quem precisava de comida, de roupa, isso sim. Duvidei do que ouvira:

-- Você não prefere algum dinheiro? – perguntei.

-- Não, dona – disse o garoto, mais animado, olhando-me agora bem nos olhos. – Eu queria um livro. Me compra um livro?

Meu coração começou a bater forte.

-- Escolha o livro que você quiser – falei.

As pessoas na livraria começaram a observar a cena, incrédulas e curiosas. O menino já estava junto à prateleira, examinando ora um ora outro livro, todo excitado. Um vendedor se aproximou, meio desconfiado, com cara de querer intervir:

-- Deixe o menino escolher um livro – falei. – Eu pago.

As pessoas em volta me olhavam admiradas. Onde já se viu alguém comprar um livro para um molequinho maltrapilho daqueles?

Pois vou lhes contar: foi exatamente o que se viu naquela tarde, naquela livraria. O menino acabou se decidindo por um livro de aventuras, nem me lembro qual. Mas me lembro bem da minha emoção quando lhe entreguei o volume e vi seus olhinhos brilhando ao me dizer um apressado "obrigada, dona!" antes de sair em disparada abraçando o livro apertado ao peito.

Quanto aos meus próprios olhos, estes se embaçaram estranhamente, quando pensei comigo: "Tanta criança rica não sabe o que perde, não lendo, e este pobre menino – que certamente não era um pobre menino – sabe o valor que tem essa maravilha que se chama livro!"

Isso aconteceu há vários anos. Bem que eu gostaria de saber o que foi feito daquele menino...

Tatiana Belinky

Autopublicação: o futuro para autores, leitores e para a sociedade


Hoje, o autor não necessita de implorar pela publicação, uma vez que pode autopublicar-se diretamente, contando com vantagens oferecidas pela tecnologia moderna que antes não estavam ao seu alcance. É o caso da gratuidade, já que autopublicar-se, hoje, não custa absolutamente nada ao autor, que, através de plataformas tecnológicas, pode inclusive estabelecer quanto deseja ganhar por venda

Aquilo que nos diferencia enquanto humanos de todos os outros seres vivos com os quais partilhamos o planeta é a nossa capacidade de contar histórias. Quando contamos as nossas experiências, quando despejamos sobre terceiros a nossa imaginação, quando damos as nossas interpretações pessoais de passados longínquos e as catapultamos para futuros ainda mais longínquos, desafiamos – e domamos – a lei mais rígida do universo: o tempo.

É o livro, afinal, que consegue imortalizar conhecimentos, imaginações, visões, experiências

A nossa capacidade de partilhar histórias torna-nos independentes das nossas comunidades mais próximas e dos nossos próprios – e por vezes falhados – instintos. Conseguimos tomar decisões, afinal, com base não apenas no que os nossos pais nos ensinaram, mas também com base nas experiências de antepassados, de personagens fictícias, de conhecimentos científicos e filosóficos que nos foram inseridos na mente através do elemento mais sagrado concebido pela humanidade: o livro.

É o livro, afinal, que consegue imortalizar conhecimentos, imaginações, visões, experiências. Mas o livro tem, naturalmente, dois lados: o de quem lê e o de quem escreve. E até há muito pouco tempo, escrever e, principalmente publicar, era uma tarefa restrita, de difícil acesso e, portanto, altamente fechada à sociedade. Para ter um livro publicado, o escritor precisava de convencer, seja com argumentos (que, cada vez mais, caíam em ouvidos moucos) ou com dinheiro (exigido em quantias cada vez maiores por bolsos vazios), um punhado de editoras que, com domínio sobre o mercado e os seus canais de distribuição, efetivamente decidiam que livros estariam disponíveis ao público.

Esse tempo mudou. E ainda bem. Hoje, o autor não necessita de implorar pela publicação, uma vez que pode autopublicar-se diretamente, contando com vantagens oferecidas pela tecnologia moderna que antes não estavam ao seu alcance. É o caso da gratuidade, já que autopublicar-se, hoje, não custa absolutamente nada ao autor, que, através de plataformas tecnológicas, pode inclusive estabelecer quanto deseja ganhar por venda. Existe, também, a possibilidade de ser multiformato, afinal, se apenas 21% dos leitores preferem ler em formato eletrónico, de acordo com estudo feito pela Stora Enso, não faz sentido para os autores autopublicarem-se apenas como ebook.

Com a tecnologia de impressão on demand, é possível disponibilizar o seu livro à venda de maneira a que seja produzido um a um, mediante cada venda ocorrida, eliminando, portanto, a necessidade de arcar com os custos de tiragens mínimas. Outra das vantagens prende-se com a distribuição, tendo em conta que, hoje em dia, as plataformas que permitem a autopublicação gratuita já estão integradas em milhares de canais de venda por todo o mundo. Um livro publicado a partir de Portugal, por exemplo, pode ser vendido, em formato impresso ou digital, no Brasil, no México, na China, na Índia ou em qualquer outro país.

A transparência é outra das vantagens. Como os modelos de autopublicação, principalmente os que se baseiam em impressão on demand, não trabalham com consignação de exemplares, o autor é informado de cada venda, conseguindo acompanhar os seus resultados em tempo real. Por último, não podemos esquecer a inteligência artificial, seja para apoiar na criação da capa do livro ou para contribuir para a estratégia de divulgação, a tecnologia está ao serviço de todos os autores, permitindo que o sucesso esteja ao alcance.

Nunca, em nenhum outro momento da História, a Humanidade teve à sua disposição ferramentas que facilitam tanto a sua capacidade de partilhar histórias. Ferramentas que, ao juntarem sofisticação, distribuição, gratuidade e transparência, permitem que todos possam imortalizar as suas visões do mundo.

Quem é que ganha com isso? Escritores, claro, que passam a ter à sua disposição um mercado aberto e absolutamente democrático. Mas também nós, leitores, que passamos a poder contar com uma diversidade de conhecimento absolutamente inédita e, certamente, capaz de nos levar, enquanto sociedade, a patamares muito superiores aos que nos encontramos hoje.
Ricardo Almeida

terça-feira, julho 16

Manhã

 


Vida em Nácori Grande

Sua própria vida, conforme explicava, havia sido um aprendizado constante. Não aprendeu a ler nem a escrever até os vinte anos, para dar um número redondo. Nascera em Nácori Grande e não pôde ir à escola como uma menina normal porque sua mãe era cega, e ela precisou cuidar dela. De seus irmãos, dos quais guardava uma lembrança vaga e carinhosa, não sabia nada. O vendaval da vida foi levando eles para os quatro cantos do México e provavelmente já estavam debaixo da terra. Sua infância, apesar dos apertos e das desventuras próprias de uma família camponesa, foi feliz. Adorava o campo, dizia, se bem que agora me incomode um pouco porque me desacostumei com os bichos.


A vida em Nácori Grande, embora muitos custem a acreditar, podia ser às vezes muito intensa. Cuidar da mãe cega podia ser divertido. Cuidar das galinhas podia ser divertido. Lavar roupa podia ser divertido. Cozinhar podia ser divertido. A única coisa que lamentava era não ter ido à escola. Depois se mudaram, por causas que não vinham ao caso, para Villa Pesqueira, onde sua mãe morreu e ela, oito meses depois do falecimento, se casou com um homem a quem quase não conhecia, uma pessoa trabalhadora, honrada, respeitosa com todo o mundo, um homem bem mais velho do que ela, diga-se de passagem, que na hora de ir para o altar tinha trinta e oito anos e ela só dezessete, quer dizer, um homem vinte e um anos mais velho!, que trabalhava com compra e venda de animais, sobretudo cabras e ovelhas, se bem que de vez em quando também vendia ou comprava gado bovino e até suíno, e que por essas circunstâncias de trabalho tinha de viajar constantemente pelas cidades da região, como San José de Batuc, San Pedro de la Cueva, Huépari, Tepache, Lampazos, Divisaderos, Nácori Chico, El Chorro e Napopa, por estradinhas de terra ou trilhas de animais e por atalhos que margeavam aquelas montanhas intrincadas. Seus negócios não iam mal. Às vezes ela o acompanhava em alguma das suas viagens, não muitas, porque era malvisto um comerciante de gado viajar com uma mulher, ainda mais se fosse sua própria mulher, mas em algumas o acompanhou. Era uma oportunidade única de ver o mundo. Para ver outras paisagens que, embora pareçam a mesma, se você olhasse bem, com os olhos bem abertos, se revelavam no fim das contas muito diferentes das paisagens de Villa Pesqueira. A cada cem metros o mundo muda, dizia Florita Almada. Isso de que há lugares iguais a outros é mentira. O mundo é como um tremor.

Claro, ela gostaria de ter tido filhos, mas a natureza (a natureza em geral ou a natureza do seu marido, dizia rindo) privou-a dessa responsabilidade. O tempo que teria dedicado ao bebê empregou em estudar. Quem a ensinou a ler? As crianças me ensinaram, afirmava Florita Almada, não existe melhor professor do que elas. As crianças, com seus abecedários, que iam à sua casa pedir que lhes desse pinole. A vida é assim, justo quando acreditava que se desvaneciam para sempre as possibilidades de estudar ou voltar aos estudos (vã esperança, em Villa Pesqueira achava-se que Escola Noturna era o nome de um bordel nos arredores de San José de Pimas), aprendeu, sem maiores esforços, a ler e a escrever. A partir desse momento leu tudo o que lhe caía nas mãos. Num caderno anotou as impressões e pensamentos que suas leituras lhe produziram. Leu revistas e jornais velhos, leu programas políticos, que de quando em quando jovens de bigode vindos em caminhonetes entregavam no vilarejo, e jornais recentes, leu os poucos livros que pôde encontrar, e seu marido, depois de cada ausência traficando com animais nos lugares vizinhos, se acostumou a lhe trazer livros que às vezes comprava não por unidade mas por peso. Cinco quilos de livros. Dez quilos. Uma vez chegou com vinte quilos. Ela não deixou de ler um só e de todos, sem exceção, extraiu algum ensinamento. Às vezes lia revistas que chegavam da Cidade do México, às vezes lia livros de história, às vezes lia livros de religião, às vezes lia livros licenciosos que a faziam corar, sozinha, sentada na mesa, as páginas iluminadas por um abajur cuja luz parecia bailar ou adotar formas demoníacas, às vezes lia livros técnicos sobre o cultivo de vinhedos ou sobre a construção de casas pré-fabricadas, às vezes lia histórias de terror e de assombração, qualquer tipo de leitura que a divina providência pusesse ao alcance da sua mão, e com todos eles aprendeu alguma coisa, às vezes muito pouco, mas alguma coisa ficava, como uma pepita de ouro numa montanha de lixo, ou para afinar a metáfora, dizia Florita, como uma boneca perdida e reencontrada numa montanha de lixo desconhecida.

Enfim, ela não era uma pessoa instruída, em todo caso não tinha o que se chama de educação clássica, pelo que se desculpava, mas tampouco se envergonhava de ser o que era, pois o que Deus tira de um lado a Virgem repõe do outro, e quando isso acontece a gente tem de estar em paz com o mundo. Assim passaram os anos.

Seu marido, por essas coisas misteriosas que alguns chamam de simetria, um dia ficou cego. Por sorte ela já tinha experiência em cuidado com os deficientes visuais e os últimos anos do comerciante foram sossegados, pois sua mulher cuidou dele com eficiência e carinho. Depois ficou sozinha, e por então já havia feito quarenta e quatro anos. Não se casou de novo, não porque faltassem pretendentes, mas porque tomou gosto pela solidão. O que fez foi comprar um revólver calibre 38, porque a escopeta que seu marido lhe deixou de herança lhe pareceu pouco manejável, e dar, momentaneamente, seguimento aos negócios de compra e venda de animais. Mas o problema, explicava, é que para comprar e sobretudo para vender animais era necessária certa sensibilidade, certa educação, certa propensão à cegueira que ela de modo algum possuía.

Viajar com os animais pelas trilhas dos morros era muito bonito, praceá-los no mercado ou no matadouro era um horror. De modo que em pouco tempo abandonou o negócio e continuou viajando, em companhia do cachorro de seu falecido marido, do seu revólver e às vezes dos seus animais, que começaram a envelhecer com ela, mas desta vez fazia isso como uma curandeira transumante, das tantas que há no bendito estado de Sonora, e durante as viagens procurava ervas ou escrevia pensamentos enquanto os animais pastavam, como fazia Benito Juárez quando era um menino pastor, ai, Benito Juárez, que grande homem, que correto, que íntegro, mas também que menino mais encantador, desse pedaço da sua vida se falava pouco, em parte porque pouco se sabia, em parte porque os mexicanos sabem que quando falam de crianças costumam dizer besteiras ou cafonices.
Roberto Bolaño, "2666"

O menino e o cedro

Era de fato maior que um gigante, dez vezes gigante, de tão alto que, no outono, se encontrava com as nuvens. Duzentos metros, a altura. O tronco, de casca cheia de rugas, com as raízes no coração da terra, daria madeira para cem casas. Os galhos imensos, sempre com enormes flores brancas, carregados de folhagem, sombreavam a mata embaixo. 

A guerra, entre Nico e o Vermelho, ainda não terminara. Grilim, quatro dias depois, saberia que o pai não se renderia com facilidade. Nico esperou que o sol subisse no céu e, quando esquentou de alimentar uma queimada, voltou ao cedro. Levou, desta vez, uma enxada e uma garrafa de querosene. Conseguiria com o fogo o que não conseguiria com o machado. Capinou em volta do cedro e, feito o pequeno aceiro, envolveu-o com gravetos que embebeu no querosene. Riscou o fósforo e a fogueira logo cresceu a queimar o cedro por baixo. Não havia como salvar-se e, em um ou dois dias, sem qualquer suporte, cairia. Vendo o fogo tão aceso que já comia o tronco, a fumaça subindo, retornou a casa para esperar o barulhão da queda.

– Peça para mil estacas – disse à mulher, já em casa, a lavar as mãos.

Uma hora depois, sempre a primeira a descobrir as coisas, Manió apurou o faro e sentiu o cheiro da fumaça. Latiu alto e, a saltar, puxou Grilim pelo braço como a mostrar a fumaça que vinha do cedro. Ambos correram, o menino e a cachorra, e viram a fogueira que acabaria por derrubar o Vermelho. O pai, trabalho do pai, o pai sabia como vencer as árvores! Ele, Grilim, não podia permitir aquilo e nem deixar que o cedro caísse. Tinha, pois, que apagar o fogo.

– Apagar o fogo, e depressa! – disse, a gritar, para que Manió ouvisse. [...]

Grilim contornou o oitão da casa para alcançar o rio e, alcançando-o, apanhou o balde que ali ficava, sobre as pedras, onde a mãe lavava a roupa. E, com ele cheio, retornou ao cedro e derramou a água no fogo. Repetiu o trabalho inúmeras vezes, até que viu o fogo esmorecer, enfraquecendo, e apagar-se de uma vez.

Nico, ao regressar das plantações, foi direto ao cedro. Queria calcular o tempo que o fogo gastaria para jogá-lo no chão. E, dando com o fogo gastaria para jogá-la no chão. E, dando com o fogo apagado, logo achou que aquilo fosse serviço de Grilim. Não pensou um segundo para concluir que um motivo bastante forte prendia o filho ao cedro. Não pedira e não insistira para que não o derrubasse e não fizesse as estacas? A tristeza que dele se apossara, quando decidira derrubar o Vermelho, parecia coisa de feitiço. Não devia, pois, contrariar a vontade do mundo. A alegria do filho, embora precisasse de dinheiro, valia muito mais que todas as moedas de ouro.

Percebeu, ao entrar em casa, que Grilim, de tão desconfiado, se escondia pelos cantos.

– Grilim!

O menino, muito pálido, se voltou para o pai. Era certo, como a luz do candeeiro, que a bronca explodiria. Manió também se voltou, a cabeça baixa, fingindo que estava assustada. A pergunta de Nico veio em voz leve:

– Por que você apagou o fogo?

– O Vermelho, pai, é nosso amigo –– Grilim disse, perdendo o medo, a explicar.


– Vosmecê, pai, ainda não entendeu. Ele conhece a gente e ouve tudo o que se fala.

– O Vermelho vai ficar ali, de pé, até que Deus assim queira. — E, com a voz um pouco emocionada, pediu: –– Amanhã, logo cedo, diga a ele que peço desculpas.

Grilim levou a mão aos olhos para enxugar as lágrimas. Não sabia o que dizer e como agradecer. Pensou apenas que o pai era o melhor de todos os homens. Recuou um passo e, com suavidade agora no semblante, recuou outro passo. E, finalmente, disse:

– Vamos dormir, Manió.
Adonias Filho

Uni, duni, tê

Nunca me dei bem com os números. Primeiro, apanhei nas aulas de matemática durante toda a vida escolar. Agora, sofro para decorar telefones, senhas, datas e, principalmente, apartamentos. Batata: chego diante de um prédio, sei que é ali o endereço em que devo ir, mas não decoro o bendito número do apartamento.

Quando há porteiros, o problema pode ser sanado com uma pequena dose de constrangimento. Digo o nome do morador, confesso que esqueci o apartamento dele, recebo um pouco de boa vontade e consigo ser anunciado. Pior é quando fico diante daquele painel de botões, todos com os mesmos números: 101, 102, 103 etc. Na base da sorte, lembro o andar. Também parto para deduções: é nos fundos e, por convenção, os primeiros números contemplam os apartamentos de frente. Logo, é 505, 506, 507 ou 508. Uni, duni, tê…


A violência urbana entra como fator complicador. Quando escolho o apartamento na base do palpite, e erro, quem está ao interfone fica muito desconfiado. Menos quando é uma idosa, que abre a porta sem medo. Mas aí corro outro risco: estou dentro do prédio, mas ainda não sei qual é o apartamento. Em edifícios antigos tudo é mais fácil – as portas já estão repletas de diferenças. Ou tem uma samambaia, ou um vaso com espada de Espada de São Jorge, ou o modelo da grade é diferente, ou tem aquele capacho peculiar… Pior são os edifícios novos e seu padrão rígido de design, tão mais harmônico quanto impessoal. Aí é torcer para que o amigo seja judeu e tenha à direita de sua porta o Mezuzá.

Minha redenção chegou em forma de tecnologia: telefone celular. Em sua agenda, posso colocar nome, números e endereço. Ou basta ligar para o morador e avisar que estou ali na rua, já defronte ao prédio. O celular ainda conta com uma vantagem adicional, que é a de não precisar mais decorar o número do sujeito. Digito o nome e ele já sabe (agora mesmo que desaprendi os telefones dos amigos). Se eu perder o aparelho ou o chip, estou frito.

Em tudo sou diferente dos profissionais de portaria. Para eles, decorar os números é questão de qualidade. Os apartamentos passam a ser uma espécie de sobrenome dos moradores. Se o jardineiro perguntar quem entrou agora mesmo, o porteiro responderá que foi o seu João do 403. Quem? O esposo da dona Maria Rita do 403. Ah, o pai do Julinho do 403! Nem Cunha, nem Santos, nem da Silva. A família (incluindo o cachorro) passa a ser os do 403. E não apenas para consumo interno: se um prestador de serviços perguntar quem é o síndico, dirão o nome do seu Ivo do 607.

Saudade do tempo em que a maioria das pessoas com quem eu me relacionava habitava casas localizadas em bairros. Bastava ir uma única vez e já estaria decorado. E, se fosse o caso de referir, dizia: o Roberto, da casa verde, de esquina. Ou aquela do telhado alto, com janelas brancas, muro marrom. Nada de números, apenas imagens. Muito mais humano! Afinal, quando estou diante do porteiro especulando um apartamento e o morador está em dúvida de quem seja eu, ele não informa o RG. Sempre escuto: é um rapaz magrinho, branquinho, assim meio calvo…

Rubem Penz