quarta-feira, setembro 2

Onde gerações se encontram

 


Tradutor de chuvas

Um lenço branco
apaga o céu.

A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.

O mundo voa
E apenas o poeta
Faz companhia ao chão.
Mia Couto

Borboletas

Desde menino as borboletas me encantam. E acho que elas gostam de mim. Certa vez, na casa do Brandão, lá em Pocinhos do Rio Verde, uma borboleta assentou-se no meu rosto e lá ficou, imóvel e tranquila. Não me mexi, com medo de assustá-la. Ela ficou tanto tempo em meu rosto que deu tempo de o Brandão ir buscar sua câmera e tirar uma foto.

Penso que borboletas, seres alados, diáfanos e coloridos, devem ser emissários dos deuses, anjos que anunciam coisas do amor. Imaginei então que aquela borboleta era um anjo disfarçado que os deuses me enviavam com uma promessa de felicidade.

O imaginário mítico e poético sempre gostou de borboletas. Os gregos, por exemplo, imaginavam a alma como uma borboleta com corpo de menina. E Fernando Pessoa dedicou-lhes um maravilhoso poema: Eros e Psique.
Cecília Meireles também brincou com elas. Compôs um poema em que colocou uma pequenina borboleta equilibrando a pesadíssima grandeza cósmica:

No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.


Podem imaginar isso, que uma borboleta com suas levíssimas asas possa equilibrar um planeta? E numa cena do filme Sonhos, de Kurosawa, há uma revoada de milhares, milhões de borboletas.


Isso aconteceu faz muitos anos. A cena da borboleta pousada no meu rosto estava no esquecimento. Aí sonhei e a cena se tornou viva de novo.

Os sonhos são um mundo mágico. No mundo dos sonhos, não há nem antes nem depois, nem lá nem aqui. Tempo e espaço se misturam.

Aí, sonhando, ouvi o cantarolar de uma valsinha velha de que ninguém mais se lembra. Era só um cantarolar, sem palavras. Depois de acordar, fui ao Google e lá estava ela – “Linda borboleta”:

Certa manhã
Destas manhãs cheias de luz
Por entre as rosas do jardim
Eu vi passar
Gentil borboleta
De asas azuis
E o seu voo incerto
Me fez pensar

Que os namorados
Que passeiam por aí
São borboletas que a voar
De flor em flor
Procuram daqui
E procuram dali
Encontrar um novo amor

Voa, minha linda borboleta
Voa procurando a ilusão
Voa pois a vida é tão boa
Quando se tem
Um amor no coração


Sonhei com a borboleta que pousara no meu rosto. Mas de repente ela bateu asas e voou em meio às árvores da mata. Corri atrás, mas ela era mais rápida que eu.

A cena se alterou. A borboleta estava agora num shopping, voando, voando, e entrou numa joalheria. Fiquei confuso diante de tantas joias nas vitrines, até que vi a borboleta pousada num fino cordão de ouro. Mas foi só tocá-la para que ela se transformasse numa borboleta de vidro, as asas feitas com pedras coloridas.

Fiquei triste com essa transformação, porque eu preferia a borboleta viva, aquela que se assentara no meu rosto. De qualquer maneira, resolvi comprá-la. Era uma joia que eu poderia dar a alguém que se parecesse com a minha borboleta.

Pus a borboleta de pedras coloridas no bolso e me fui. Mas aí aconteceu o que eu não imaginara: como no filme de Kurosawa, milhares de borboletas começaram a sair do meu bolso e encheram de cores o espaço do shopping. E foi em meio a esse encantamento onírico que uma das borboletas não voou. Ela se assentou sobre o meu rosto e ali ficou...

Aí eu acordei...

***

Nestes jardins – há vinte anos – andaram os nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos.
Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo, todos nós choraríamos,
de mútua pena e susto imenso.
E assim nos separamos, suspirando dias futuros, nenhum se atrevia a desvelar
seus próprios mundos.
E agora que separados vivemos o que foi vivido, com doce amor choramos quem
fomos nesse tempo antigo.

Rubem Alves, "Cantos do Pássaro Encantado"

Ari Nhotim em retiro espiritual

Ari Nhotim não era bem um intelectual, mas alguém que apreciava ser confundido com um. Colecionava citações que nunca entendia, frequentava eventos culturais em busca de evidências fotográficas e possuía o raro talento de transformar qualquer banalidade em supostas reflexões sofisticadas.

E, para ser justo, depois de tantos anos praticando, já fazia isso com impressionante competência.

Foi assim que, certo dia, decidiu fazer um retiro de silêncio.

A verdadeira razão não era lá muito nobre: postar depois uma foto em preto e branco acompanhada da legenda “De vez em quando é preciso escutar o que o ruído esconde”.

Não fazia a menor ideia do que aquilo significava, mas sabia que renderia curtidas.

O retiro acontecia numa pousada ecológica no alto de uma serra. Durante três dias, os participantes deveriam permanecer em absoluto silêncio.

Logo na chegada, Ari sentiu-se inspirado.

Recebeu um crachá com seu nome e uma pequena cartilha explicativa. Leu apenas o título. Cartilhas são muito literais para alguém acostumado a experiências mais sensoriais.

Antes do início oficial, uma senhora lhe perguntou:

— O senhor já fez algum retiro desses?

— Prefiro não compartimentalizar minhas experiências.

Traduzindo: nunca.

O problema surgiu poucos minutos depois.

Ari descobriu que ficar calado era mais difícil do que imaginava. Ele precisava que os outros soubessem que estava vivendo algo importante.

No segundo dia, a situação piorou.

Sem poder falar, Ari começou a desenvolver um complexo sistema de expressões faciais. Franzia a testa para demonstrar transcendência. Erguia uma sobrancelha para indicar iluminação. Fechava os olhos para sinalizar conexão cósmica.

Um participante comentou baixinho com outro:

— Aquele homem ali está passando mal?

À tarde, durante uma caminhada meditativa, Ari encontrou um lago.

Ali enxergou sua grande oportunidade.

Sentou-se numa pedra à margem da água e assumiu uma pose contemplativa tão elaborada que parecia a estátua O pensador, de Rodin.

Permaneceu imóvel por quase quarenta minutos. Até que um funcionário da pousada se aproximou.

— Senhor, o pesque-pague é no sítio ao lado.

Ari sentiu o golpe. Mas permaneceu em silêncio. Afinal, regras são regras.

Na última noite, os participantes foram convidados a escrever anonimamente suas reflexões num mural coletivo.

Era o momento que ele aguardava.

Enquanto os demais registravam pensamentos simples sobre autoconhecimento e serenidade, Ari escreveu: “Entre a ausência do verbo e a presença do vazio, encontrei a gramática secreta da existência”.

Leu em voz alta a frase três vezes. Achou genial.

Na manhã seguinte, durante o encerramento, o coordenador comentou algumas mensagens deixadas no mural.

Ao chegar à de Ari, fez uma pausa.

Coçou a cabeça. Ajustou os óculos. E leu:

— “Entre a ausência do verbo e a presença do vazio…”

Depois veio o comentário:

— Bom, quem escreveu isso teve uma experiência bastante… específica.

Foi a primeira vez em todo o retiro que Ari sentiu verdadeiro crescimento espiritual. Confundiram sua frase com profundidade. Missão cumprida.

Na volta para casa, publicou uma fotografia em seu perfil do Instagram olhando para o horizonte.

Legenda: “Não voltei o mesmo”.

E estava certo.

Voltou com três mil novecentas e quarenta e sete curtidas a mais.

As sire­nes toca­ram a noite intei­ra sem parar...

Mefítico. O fedor vem dos cadá­ve­res, do lixo e dos excre­men­tos que se amon­toam além dos Círculos Oficiais Permitidos, para lá dos Acampamentos Paupérrimos. Que não me ouçam desig­nar tais regiões pelos ape­li­dos popu­la­res. Mal sei o que me pode acon­te­cer. Isolamento, acho.

Tentaram tudo para eli­mi­nar esse chei­ro de morte e decom­po­si­ção que nos ago­nia con­ti­nua­men­te. Será que ten­ta­ram? Nada con­se­gui­ram. Os cami­nhões, ale­gre­men­te pin­ta­dos de ama­re­lo e verde, des­pe­jam mor­tos, noite e dia. Sabemos, por­que tais coi­sas sem­pre se sabem. É assim.

Não há tempo para cre­mar todos os cor­pos. Empilham e espe­ram. Os esgo­tos se abrem ao ar livre, des­car­re­gam, em vago­ne­tes, na vala seca do rio. O lixo forma seten­ta e sete coli­nas que ondu­lam, habi­ta­das, todas. E o sol, vio­len­to demais, cor­rói e apo­dre­ce a carne em pou­cas horas.

O chei­ro infe­to dos mor­tos se mis­tu­ra ao dos inse­ti­ci­das impo­ten­tes e aos for­móis. Acre, faz o nariz san­grar em tar­des de inver­são atmos­fé­ri­ca. Atravessa as más­ca­ras obri­ga­tó­rias, res­se­ca a boca, os olhos lacri­me­jam, racha a pele. Ao nível do chão, os ani­mais mor­rem.

Forma­-se uma atmos­fe­ra pes­ti­len­cial que uma bate­ria de ven­ti­la­do­res pos­san­tes pro­cu­ra inu­til­men­te expul­sar. Para longe dos limi­tes dos oikou­me­nê, pala­vra que os soció­lo­gos, ocio­sos, recu­pe­ram da anti­gui­da­de, a fim de desig­nar o espa­ço exí­guo em que vive­mos. Vivemos?

Virei­-me assus­ta­do. Adelaide nunca tinha dado um grito em trin­ta e dois anos de casa­dos. Treze para as oito. Em qua­tro minu­tos deveria estar no ponto, ou per­de­ria o S­-7.58, minha con­du­ção auto­ri­za­da. Estranho, ela sabia. E por que então resol­via me atra­sar ainda mais?

– O que foi?

– O pale­tó! Esqueceu?

– Não aguen­to esse pale­tó. Passo o dia suan­do.

– Mas sem ele não te dei­xam tra­ba­lhar.

– Tomara.

Adelaide me olhou, aris­ca. Inquieto, enca­rei o rosto dela e me per­gun­tei. Pergunta que não tenho cora­gem de enfren­tar. Se eu admi­tir, ela se des­ven­da. Toma forma, cris­ta­li­za, reve­la. Será que depois de tan­tos anos com­pen­sa ver? Reagir agora? E se vales­se a pena?

Tomávamos o café da manhã jun­tos, todos os dias. Depois ela me acom­pa­nha­va até a porta. Eu colo­ca­va o cha­péu (vol­tou o seu uso), aca­ri­cia­va seu ombro esquer­do (nem sei mais se há pra­zer nisto) e con­sul­ta­va o reló­gio. Ficava angus­tia­do se não esti­ves­se den­tro do horá­rio.

– Olha a nebli­na, está baixa. Vai esquen­tar muito.

Cada dia, a nebli­na desce. Quando envol­ver tudo, vamos supor­tar? Seis meses atrás, pai­ra­va no espa­ço como a cúpu­la de uma cate­dral gigan­tes­ca. O mor­ma­ço res­cal­da a cida­de, infla­ma a gente. Às vezes, a nebli­na some, fica o fedor que dá ânsias de vômi­to. A cabe­ça arde.

– Conseguiu dor­mir?

– Com as sire­nes tocan­do a noite intei­ra?

– Era alar­me de roubo?

– Incêndio. Me deixa com os ner­vos estou­ra­dos. A falta de sono até aguen­to. Mas os alar­mes me per­tur­bam.

– Não chega o calor infer­nal duran­te o dia? Ainda tem incên­dio à noite?

– Está tudo res­se­ca­do.

– Lembra­-se daque­le tempo em que os galões de gaso­li­na estou­ra­vam? Os pré­dios ardiam sem parar? Havia um depó­si­to em cada casa, logo depois do nefas­to perío­do de Racionamentos Incríveis.

Trouxe o pale­tó cinza. Tecido sin­té­ti­co que imper­mea­bi­li­za. Não deixa pas­sar calor, anun­cia­ram. Nada. Igual à casi­mi­ra. Me abafa. Vi sobre a mesa os calen­dá­rios sendo empi­lha­dos, ela esta­va reti­ran­do das pare­des. Puxa! Hoje deve ser 5 de janei­ro. O que me inte­res­sa?

Os calen­dá­rios desta casa per­ma­ne­cem sem­pre no pri­mei­ro do ano. O 1 ver­me­lho, fra­ter­ni­da­de uni­ver­sal. O ver­me­lho des­bo­ta, torna­-se rosa­do ao fim do ano. Todos os dias, Adelaide limpa. Horas e horas tiran­do o pó das folhi­nhas, na sala, cozi­nha, quar­to. Ansiosamente.

O 1 eter­no. Não é pre­ci­so mar­car o tempo, basta aban­do­ná­-lo, ela me disse uma vez. De que adian­ta saber que dia é hoje? As horas, sim, são impor­tan­tes. O dia é bem divi­di­do. Cada hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim. O que tiver de acon­te­cer, é den­tro dele.

Agora me dou conta. Não pare­cia coisa dela. Mulher quie­ta, ex­-escri­tu­rá­ria de estra­da de ferro. Nunca fala­va. Aceitava as coi­sas e só mos­tra­va irri­ta­ção calan­do­-se e coçan­do em baixo dos olhos. O lugar coça­do tor­na­va­-se enru­ga­do e os olhos alon­ga­vam­-se, como os de uma japo­ne­sa.

No come­ço do ano, reco­lhia os calen­dá­rios, fazia um pa­­co­te com papel­-pardo. No dia 5, ao sair, pedia: “Não se esque­ça do papel”. Repetiu, trin­ta e dois anos. Nunca me lem­bra­va, ela jamais se esque­cia. Dizia a frase, irre­me­dia­vel­men­te, ao nos des­pe­dir­mos, treze para as oito.

A subs­ti­tui­ção dos calen­dá­rios era auto­má­ti­ca no dia 5 de janei­ro. Pela manhã, Adelaide reti­ra­va­-os. Nesse dia, eu não fica­va na cida­de, vol­ta­va na hora do almo­ço. Depois de comer, sem­pre me dei­ta­va um pouco. Mas, agora, o quar­to aba­fa­do e o suor não me dei­xam dor­mir.

Mesmo assim, fico no quar­to. Ao sair, vejo os novos calen­dá­rios no lugar. E, sobre a mesa, o embru­lho de papel­-pardo. Devo levá­-lo ao anti­go quar­to de empre­ga­da, amon­toá­-lo junto com os outros. Ali estão empi­lha­das pela ordem as folhi­nhas dos últi­mos trin­ta e dois anos.

Onze mil e sete­cen­tos dias into­ca­dos. Empoeirados, ama­re­la­dos, não uti­li­za­dos, con­ser­va­dos. Naquele cômo­do, entro uma vez por ano. Nunca tive­mos empre­ga­da. Adelaide sem­pre fez tudo, dizia iro­ni­ca­men­te que era a sua mis­são. Só há pouco con­se­gui con­tra­tar uma faxi­nei­ra sema­nal.

E isso por­que empre­ga­dos ganham pou­quís­si­mo. As pes­soas tra­ba­lham em troca de um prato de comi­da, um copo de água por dia. Não que­rem dinhei­ro, só comer e beber. Aí está a gran­de difi­cul­da­de. Se acei­tas­sem dinhei­ro, tudo bem. Mas comi­da? E que dizer de água então?

Os dias guar­da­dos. Armazenados. Neles, nenhu­ma marca. Nem sequer rasura. Conjunto, soma de todos os nos­sos ins­tan­tes. Agora sei. Cada momen­to era uma ante­ce­dên­cia para nós. Uma espe­ra que se subs­ti­tuía infi­ni­ta­men­te. Vivíamos na ansie­da­de pela oca­sião que have­ria de che­gar.

Assim, nossa vida se dis­ten­dia como um elás­ti­co. Esticava­-se ao ponto máxi­mo, atin­gin­do o esta­do de ten­são, incô­mo­da in­­quie­­­ta­ção. Quando o dia se aca­ba­va, a espe­ran­ça nas­cia outra vez den­tro de nós. Aguardávamos os ins­tan­tes que fariam o dia seguin­te reple­to­-vazio.

Instantes des­pi­dos daqui­lo que fal­ta­va. Algo que neces­si­tá­va­mos e não íamos pro­cu­rar. Ficávamos na expec­ta­ti­va de que acon­te­ces­se. Havia uma falta. Não somen­te den­tro do tempo. Porém um vazio real, con­cre­to. Lancinante. Em cada canto da casa se pro­je­ta­va a sua som­bra. Compacta.

Fomos preen­chen­do o apar­ta­men­to com obje­tos. Até que ele se asse­me­lhou a um bazar de arti­gos úni­cos, inven­dá­veis. Cristaleiras cheias de com­po­tei­ras, xíca­ras, salei­ros, copos, taças e lico­rei­ras. Paredes com qua­dros, repro­du­ções, flâ­mu­las, san­tos, retra­tos, reló­gios para­dos.

Vasos, bibe­lôs, cria­dos­-mudos, mesi­nhas de cen­tro, cin­zei­ros lim­pos, esta­tue­tas, ima­gens, porta­-retra­tos, toa­lhi­nhas de renda, tape­tes de bar­ban­te, cai­xi­nhas deco­ra­das, vidros vazios, gar­ra­fas cor­ta­das, pesos de papel, aba­ju­res, lâm­pa­das voti­vas, ces­ti­nhas de cos­tu­ra deco­ra­das.

E calen­dá­rios. Dois ou três em cada cômo­do, esco­lhi­dos por ela. Brindes ganhos nos Superpostos de Distribuição Alimentar. Comprados na igre­ja. Folhinhas que nos ensi­na­vam vários cos­tu­mes obso­le­tos. Como a boa época para se plan­tar e colher. Ou que pre­viam o bom e o mau tempo.

Depois de guar­dar os paco­tes, eu vinha olhar, uma a uma, as folhi­nhas novas. Estampas colo­ri­das. Moças colhen­do café. Laranjais em fila india­na sobre a coli­na. Trigais dou­ra­dos ao sol, homens com cei­fa­dei­ras. Casas à beira de lagos, incên­dios na flo­res­ta. Tudo tão anti­go.

Índios, onças, gatos na cesta, pai preto, anjos velan­do meni­nos à borda de abis­mos. Tudo, menos moças nuas. Dessas que se viam nas ofi­ci­nas mecâ­ni­cas. Loiras diá­fa­nas, more­nas rechon­chu­das, sor­rin­do em tan­gas míni­mas. Contemplava rapi­da­men­te, teria o ano todo para admi­rá­-las.

– Tem um fio de cabe­lo bran­co. O que é isso, pai­zi­nho? Mal fez cin­quen­ta anos. Seu pai com noven­ta ainda tem a cabe­ça preta!

A mãe dela cha­ma­va o mari­do de pai. Mas nós? Onde está nosso filho? Nem sei se tive­mos. Pode pare­cer um absur­do, mas é ver­da­de. Podem acre­di­tar. Pela minha honra. Tudo se con­fun­de na minha cabe­ça, o que foi e o que deveria ser. O que era real­men­te e aqui­lo que eu gos­ta­ria que fosse.

– Souza, sonhei outra vez.

– De novo? O mesmo sonho?

– Mudou um pouco. Não foram as sire­nes que não me dei­xa­ram dor­mir. Foi o sonho. Tão níti­do. Real como aque­la noite no porto.

Não. Adelaide, não. Basta! Já temos o infer­no no cora­ção. Há coi­sas que devem ser esque­ci­das. Vamos sepul­tá­-las. É pre­ci­so. Combinamos um dia não falar nunca mais sobre o assun­to. Afinal, para nós, viver sem­pre foi tão calmo, recon­for­tan­te. Éramos feli­zes. Ao menos, pare­cia.

– Souza, foi impres­sio­nan­te. O navio afun­da­va num mar ter­rí­vel. Não havia tem­pes­ta­de algu­ma, nem vento, só o silên­cio. Sabe o que me con­ge­la­va? O ruído das lâm­pa­das quen­tes estou­ran­do quan­do toca­vam a água fria. Os cor­dões de lâm­pa­das se arre­ben­ta­vam, sol­tan­do uma fuma­ci­nha bran­ca. O mar foi fican­do escu­ro, escu­ro, até que a últi­ma lâm­pa­da se apa­gou. Eu sem enxer­gar nada, só ouvin­do aque­las explo­sões. Nem mesmo um gemi­do. Elas mor­re­ram todas, não mor­re­ram, Souza? Você vai ter de me con­tar uma hora. Será que não era o baru­lho das cabe­ci­nhas estou­ran­do?

– Não seja louca, Adelaide. Como a cabe­ça delas ia estou­rar?

– Criança tem a cabe­ça tão fra­qui­nha.

– É tudo sonho, Adelaide, não tem nada a ver. Se acal­me.

– Não posso sos­se­gar, e você tem­bém não, até que eu saiba.

O navio, nossa afli­ção, esta­va esque­ci­do. Imaginei que jamais retor­nas­se. Antes, mais novos, tínha­mos capa­ci­da­de para supor­tar. Adelaide, prin­ci­pal­men­te. Está can­sa­da, acho que doen­te. Desassossegada. Para nós, o tempo não aju­dou a esque­cer, ao con­trá­rio, ali­men­tou lem­bran­ças.

Quatro para as oito; se não corro, perco o ôni­bus. Não fosse esta perna, eu teria uma bici­cle­ta, como todo mundo. Uma artro­se no joe­lho me impe­de de peda­lar. Tive de pas­sar por deze­nas de exa­mes, cen­te­nas de gabi­ne­tes, paguei gor­je­tas, conhe­ci todos os peque­nos subor­nos.

Escorreguei fichas de água nas mãos de fun­cio­ná­rios. Fichas que me fize­ram falta. Transferi cotas de ali­men­tos, e espe­rei até que saís­se a pra­ti­ca­men­te impos­sí­vel auto­ri­za­ção para o ôni­bus. Ganhei a ficha espe­cial de cir­cu­la­ção para o S­-7.58. O des­gra­ça­do é pon­tual, até irri­ta.

Abro a porta, o bafo quen­te vem do cor­re­dor. Já estou mela­do, quan­do che­gar ao cen­tro esta­rei em sopa. Como todo mundo. A vizi­nha varre o chão, furio­sa­men­te. Como se fosse pos­sí­vel lutar con­tra a poei­ra negra, a imun­dí­cie. Não for­ne­cem água para lavar as par­tes comuns.

Vou pela esca­da. Há muito desis­ti desse emper­ra­do ele­va­dor soli­tá­rio, mam­bem­be. Serve trin­ta anda­res, cento e cin­quen­ta apar­ta­men­tos. Somente os velhos e invá­li­dos espe­ram por esse apa­re­lho des­con­jun­ta­do, amea­ça­dor. O cor­re­dor da entra­da atu­lha­do de lixo. Uma ver­go­nha.

Lixo que aumen­ta dia a dia. Não pode­mos ati­rar na rua, e não há onde depo­si­tar. O cami­nhão car­re­ga o que pode quan­do passa. Se passa. Vem tão cheio que leva muito pouco. Ratos dila­ce­ram os sacos, o lixo se espar­ra­ma, espa­lha um fedor insu­por­tá­vel. Ora, um chei­ro a mais.

Nem sei por que paga­mos zela­dor, ele nunca está, se es­que­­­ce de ligar o Sônico Antirratos. Um zela­dor hoje em dia preci­sa ser polí­ti­co, nego­ciar com os Homens dos Caminhões de Lixo, com os Civiltares de Segurança, dia­lo­gar habil­men­te com For­ne­ce­do­res Oficiais de Água.

A bar­bea­ria está abrin­do. Antigamente, havia neste hall loji­nhas minús­cu­las, boni­tas. Existia até um café, com toa­lhas xadrez, chás e tor­tas, sonhos e bolos, sor­ve­tes, água gela­da, refri­ge­ran­tes e sucos. Fecharam, as vitri­nes estão cer­ra­das com pla­cas de plás­ti­co pre­ga­das aos baten­tes.

Lacrado por pla­cas pre­ga­das por fora. Assim me sinto. Contando os dias, deta­lhan­do meus pas­sos. Sensação de que me obser­vo em micros­có­pio, aumen­tado deze­nas de vezes. Quantas vezes não reco­nhe­ço este Souza que des­li­za num líqui­do vis­co­so. Sou, toda­via não pode ser eu.

No cor­re­dor, somen­te o bar­bei­ro resis­tiu. Sei lá como, ou por quê. Não enten­do. Os velhos des­cem de vez em quan­do para uma barba, um cabe­lo. Através dos vidros encar­di­dos, mal se per­ce­be o salão. Cumprimento com um aceno, Prata me faz um sinal, gosta de uma pro­si­nha. Inevitável, indo­lor.

– Tem água esta sema­na?

– E eu sei? Pergunte ao dis­tri­bui­dor.

– É que você tem aque­le sobri­nho.

– Não faço a míni­ma ideia.

– Desorganizaram as entre­gas, ou aumen­ta­ram os pra­zos.

Coceira nas mãos. Arde e no lugar está uma peque­na depres­são, como se eu tives­se aper­ta­do uma bola de gude por muito tempo. Fiquei pas­san­do o dedo pela depres­são, sen­tin­do cóce­gas. Será uma pica­da de inse­to? Não senti nada. Medo. Anda apa­re­cen­do cada bicho estra­nho!

O cami­nhão des­car­re­ga refri­ge­ran­tes fac­tí­cios no bar. Portanto um mês se pas­sou. Durante as fes­tas o tempo voa. Besteira, o que me inte­res­sa a cor­ri­da do tempo? Não exis­te nada a fazer com ele. Que impor­ta a velo­ci­da­de se já não tenho uso para minha vida. Quem tem?
Ignácio de Loyola Brandão, "Não verás país nenhum"

terça-feira, setembro 1

Leitor de rua

 


O edifício

"Chegará o dia em que os teus pardieiros se transformarão em edifícios; naquele dia ficarás fora da lei"
Miquéias, VII, 11

Mais de cem anos foram necessários para se terminar as fundações do edifício, que, segundo o manifesto de incorporação, teria ilimitado número de andares. As especificações técnicas, cálculos e plantas, eram perfeitas, não obstante o ceticismo com que o catedrático da Faculdade de Engenharia encarava o assunto. Obrigado a se manifestar sobre a matéria, por alunos insatisfeitos com o tom reticencioso do mestre, resvalava para a malícia afirmando tratar-se de "vagas experiências de outra escola de concretagem".

Batida a última estaca e concluídos os alicerces, o Conselho Superior da Fundação, a que incumbia a direção geral do empreendimento, dispensou os técnicos e operários, para, em seguida, recrutar nova equipe de profissionais e artífices.

1. A LENDA

Ao engenheiro responsável, recém-contratado, nada falaram das finalidades do prédio. Finalidades, aliás, que pouco interessavam a João Gaspar, orgulhoso como se encontrava de, no início da carreira, dirigir a construção do maior arranha-céu de que se tinha notícia.

Ouviu atentamente as instruções dos conselheiros, cujas barbas brancas, terminadas em ponta, lhes emprestavam aspecto de severa pertinácia.

Davam-lhe ampla liberdade, condicionando-a apenas a duas ou três normas, que deveriam ser corretamente observadas. A sua missão não seria somente exercer funções de natureza técnica. Envolvia toda a complexidade de um organismo singular. Os menores detalhes do funcionamento da empresa construtora estariam a seu cargo, cabendo-lhe proporcionar salários compensadores e constante assistência ao operariado. Competia-lhe, ainda, evitar quaisquer motivos de desarmonia entre os empregados. Essa diretriz, conforme lhe acentuaram, destinava-se a cumprir importante determinação dos falecidos idealizadores do projeto e anular a lenda corrente de que sobreviveria irremovível confusão no meio dos obreiros ao se atingir o octingentésimo andar do edifício e, consequentemente, o malogro definitivo do empreendimento.

No decorrer das minuciosas explicações dos dirigentes da Fundação, o jovem engenheiro conservou-se tranquilo, demonstrando absoluta confiança em si, e nenhum receio quanto ao êxito das obras. Houve, todavia, uma hora em que se perturbou ligeiramente, gaguejando uma frase ambígua. Já terminara a entrevista e ele recolhia os papéis espalhados pela mesa, quando um dos velhos o advertiu:

— Nesta construção não há lugar para os pretensiosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. Você morrerá bem antes disso. Nós que aqui estamos constituímos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.

2. A ADVERTÊNCIA

A mesma orientação que recebera dos seus superiores, o engenheiro a transmitiu aos subordinados imediatos. Nem sequer omitiu a advertência que o encabulara. E vendo que suas palavras tinham impressionado bem mais a seus ouvintes do que a ele as do ancião, sentiu-se plenamente satisfeito.

3. A COMISSÃO

João Gaspar era meticuloso e detestava improvisações. Antes de encher-se a primeira forma de concreto, instituiu uma comissão de controle para fiscalizar o pessoal, organizar tabelas de salários e elaborar um boletim destinado a registrar as ocorrências do dia.

Essa medida valeu maior rendimento de trabalho e evitou, por diversas vezes, dissensões entre os assalariados.

A fim de estimular a camaradagem entre os que lidavam na construção, desenvolviam-se aos domingos alegres programas sociais. Devido a esse e outros fatores, tudo corria tranquilamente, encaminhando-se a obra para as etapas previstas.

De cinquenta em cinquenta andares, João Gaspar, oferecia uma festa aos empregados. Fazia um discurso. Envelhecia.

4. O BAILE

Inquietante expectativa marcou a aproximação do 8002 pavimento. Redobraram-se os cuidados, triplicou-se o número de membros da Comissão de Controle, cuja atividade se tornara incessante, superando dificuldades, aplainando divergências, Deliberadamente, adiou-se o baile que se realizava ao termo de cada cinquenta pisos concluídos.

Afinal, dissiparam-se as preocupações. Haviam chegado sem embaraços ao octingentésimo andar. O acontecimento foi comemorado com uma festa maior que as precedentes.

Pela madrugada, porém, o álcool ingerido em demasia e um incidente de pequena importância provocaram um conflito de incrível violência. Homens e mulheres, indiscriminadamente, se atracaram com ferocidade, transformando o salão num amontoado de destroços. Enquanto cadeiras e garrafas cortavam o ar, o engenheiro, aflito, lutava para acalmar os ânimos. Não conseguiu. Um objeto pesado atingiu-o na cabeça, pondo fim a seus esforços conciliatórios. Quando voltou a si, o corpo ensanguentado e dolorido pelas pancadas e pontapés que recebera após a queda, sentiu-se vítima de terrível cilada. De modo inesperado, cumprira-se a antiga predição.

5. O EQUÍVOCO

Depois do incidente, João Gaspar trancou-se em casa, recusando-se a receber os seus mais íntimos colaboradores, para não ouvir deles palavras de consolo.

Já que se fazia impossível continuar as obras, desejava, ao menos, descobrir o erro em que incorrera. Acreditava ter obedecido fielmente às instruções do Conselho. Se fracassara, a culpa deveria ser atribuída à omissão de algum detalhe desconhecido da profecia.

A insistência dos auxiliares venceu sua teimosia e concordou em atendê-los. Queriam saber por que desanimara, não mais comparecera ao edifício. Ficara ressentido pela briga?

— Que adiantaria a minha presença? Não lhes satisfez a minha humilhação?

— Como? — indagaram. — Aquilo fora uma simples bebedeira. — Estavam todos envergonhados com o que acontecera e lhe pediam desculpas.

— E ninguém abandonou o trabalho?

Ante a resposta negativa, ele se abraçou aos companheiros:

— Daqui para frente nenhum obstáculo interromperá nossos planos! (Os olhos permaneciam umedecidos, mas os lábios ostentavam um sorriso de altivez.)

6. O RELATÓRIO

Em ambiente calmo, todos se empenhando nas suas tarefas, mais noventa e seis andares foram acrescidos ao prédio. As coisas seguiam perfeitas, a média de trabalho dos assalariados era excelente.

Empolgado por um delirante contentamento, o engenheiro distribuía gratificações, desfazia-se em gentilezas com o pessoal, vagava pelas escadas, debruçava-se nas janelas, dava pulos, enrolava nas mãos as barbas embranquecidas.

Para prolongar o sabor do triunfo, que o cansaço começava solapar, ocorreu-lhe redigir um circunstanciado relatório aos diretores da Fundação, contando os pormenores da vitória. Demonstraria também a impossibilidade de surgir, no futuro, outras profecias que pudessem embaraçar o prosseguimento das obras. Ultimado o memorial, ele se dirigiu à sede do Conselho, lugar em que estivera poucas vezes e em época bem remota. Em vez dos cumprimentos que julgava merecer, uma surpresa o aguardava: haviam morrido os últimos conselheiros e, de acordo com as normas estabelecidas após a desmoralização da lenda, não se preencheram as vagas abertas.

Ainda duvidando do que ouvira, o engenheiro indagou ao arquivista — único auxiliar remanescente do enorme corpo de funcionários da entidade — se lhe tinham deixado recomendações especiais para a continuação do prédio.

De nada sabia, nem mesmo por que estava ali, sem patrões e serviços a executar.

Ansiosos por descobrir documentos que os orientassem, atiraram-se à faina de revolver armários e arquivos. Nada conseguiram. Só encontraram especificações técnicas e uma frase que, amiúde, aparecia à margem de livros, relatórios e plantas: "É preciso evitar-se a confusão. Ela virá ao cabo do octingentésimo pavimento".

7. A DÚVIDA

Esvaíra-se a euforia de João Gaspar. Vago e melancólico, retornou ao edifício. Da última laje, as mãos apoiadas na cintura, teve um momento de mesquinha grandeza, julgando-se senhor absoluto do monumento que estava a seus pés. Quem mais poderia ser, desde que o Conselho se extinguira?!

Fugaz foi o seu desmedido orgulho. Ao regressar a casa, onde sempre faltara a diligência de uns dedos femininos, as dúvidas o perseguiam. Por que legavam a um mero profissional tamanho encargo? Quais os objetivos dos que tinham idealizado tão absurdo arranha-céu?

As perguntas iam e vinham, enquanto o edifício se elevava e menores se faziam as probabilidades de se tornar claro o que nascera misterioso.

Sorrateiro, o desânimo substituiu nele o primitivo entusiasmo pela obra. Queixava-se aos amigos do tédio que lhe provocava o infindável movimento de argamassa, pedra britada, fôrmas de madeira, além da angústia que sentia, vendo o monótono subir e descer de elevadores.

Quando a ansiedade ameaçou levá-lo ao colapso, convocou os trabalhadores para uma reunião. Explicou-lhes, com enfática riqueza de detalhes, que a dissolução do Conselho obrigava-o a paralisar a construção do edifício.

— Falta-nos, agora, um plano diretor. Sem este não vejo razões para se construir um prédio interminável — concluiu.

Os operários ouviram tudo com respeitoso silêncio e, em nome deles, respondeu firme e duro um especialista em concretagem:

— Acatamos o senhor como chefe, mas as ordens que recebemos partiram de autoridades superiores e não foram revogadas.

8. O DESESPERO

João Gaspar, inutilmente, apelaria para a compreensão dos servidores. Usava recursos convincentes, numa linguagem branda, porque seus propósitos eram pacíficos. Igualmente corteses, os empregados repeliam a ideia de abandonar o trabalho.

— Ouçam-me — pedia ele, impaciente com a obstinação dos subordinados. — É inexequível um monstro de ilimitados pavimentos! Seria necessário que as fundações fossem reforçadas à medida que se aumentasse o número de andares. Também isto é impraticável.

Apesar de ouvido sempre com atenção, não convencia a ninguém. E teve que assumir uma atitude de intransigência, demitindo todo o pessoal.

Os operários se negaram a aceitar o ato de dispensa. Alegavam a irrevogabilidade das determinações dos falecidos conselheiros. Por fim, disseram que iriam trabalhar à noite e aos domingos, independente de qualquer pagamento adicional.

9. O ENGANO

A decisão dos assalariados de aumentar o número de horas de serviço deu novo alento ao engenheiro, que esperava vê-los vencidos pela estafa, pois lhes seria impossível manter por muito tempo semelhante esforço coletivo.

Logo verificaria seu engano. Além de não apresentarem sinais de cansaço, para ajudá-los vieram das cidades vizinhas centenas de trabalhadores que se dispunham a auxiliar gratuitamente os colegas. Vinham cantando, sobraçando as ferramentas, como se preparados para longa e alegre campanha.

Pouco adiantava recusar-lhes a colaboração, eles mesmos escolhiam as tarefas e as iniciavam com entusiasmo, indiferentes à agressiva repulsa de João Gaspar.

10. OS DISCURSOS

Vendo multiplicar as levas de voluntários, o engenheiro, não teve mais ânimo de enxotá-los. Passou a percorrer, um por um, os andaimes, exortando-os a abandonar o trabalho. Fazia longos discursos e, muitas vezes, caía desfalecido de tanto falar.

A princípio, os empregados se desculpavam, constrangidos por não ouvirem atentamente as suas palavras. Com o passar dos anos, habituaram-se a elas e as consideravam peça importante nas recomendações recebidas pelo engenheiro-chefe antes da dissolução do Conselho.

Não raro, entusiasmados com a beleza das imagens do orador, pediam-lhe que as repetisse. João Gaspar se enfurecia, desmandava-se em violentos insultos. Mas estes vinham vazados em tão bom estilo, que ninguém se irritava. E, risonhos, os obreiros retornavam ao serviço, enquanto o edifício continuava a ganhar altura.
Murilo Rubião, Obra completa

A verdadeira mão

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
Ana Hatherly, "O Pavão Negro"

O holandês que cortava pepinos

A última coisa que se soube sobre o Holandês é que ele era nascido na Albânia e tinha passaporte britânico. Era um homem muito alto, gordo, com uma grande cara vermelha e gaiata; gostava de tomar cerveja consumindo toda sorte de peixes em conserva, frios, do Báltico. E frequentava um bar que havia em Tânger chamado Consulado — um bar cujo nome permitia a cônsules e auxiliares de qualquer país telefonar para casa a qualquer hora dizendo honradamente que estavam no Consulado.

O Holandês não era cônsul, era homem de negócios — não de um grande negócio, mas de muitos pequenos negócios, por exemplo: sócio de um varejo de cigarros e de dois táxis de turismo, intermediário correto na venda de alguns artigos de contrabando, representante de uma companhia de navegação cujos navios nunca vinham a Tânger, mas aceitavam transbordo de mercadorias para alguns portos do Mar do Norte; organizador de banquetes e coquetéis; entendia um pouco de tudo, inclusive de moedas e selos raros; tinha uma pequena mulher de cabelos brancos azulados, sempre de calças compridas, sorridente, de olhos azuis, com uns restos de beleza; fumava cachimbo; às vezes lhe vinham ideias. Aquela ideia lhe veio na madrugada de quinta para sexta-feira, duas semanas depois da Semana Santa, quando alguém da roda se queixou de que não conseguira transporte nem alojamento para assistir à Feira de Sevilha... Mais duas ou três pessoas concordaram em que realmente o papel seria ir a Sevilha, e o Holandês perguntou: — Vocês querem ir a Sevilha?

Fez um gesto com a imensa mão mandando que esperassem, foi ao telefone, demorou dez minutos, puxou um lápis do bolso, fez uns cálculos em um guardanapo de papel e anunciou que a 45 dólares por cabeça levaria oito pessoas a Sevilha para os dois últimos dias da Feira — sábado e domingo — incluindo transporte, alojamento, breakfast. Depois, com a maior naturalidade, tirou do bolso uma tábua de marés, estudou-a e disse: “Saímos sexta às 10:45 da noite, podemos estar de volta segunda-feira antes das duas da tarde.”

Quase ninguém ali trabalhava aos sábados; era matar apenas o primeiro expediente da segunda-feira. Na hora marcada todos embarcavam alegremente em um pequeno iate, menos a mulher do Holandês. Menos, quer dizer: ela embarcava, mas não alegremente; pelo contrário, chorava sem cessar, fazia "não" com a cabeça e puxava pelo paletó o seu grande marido que se curvava para ouvir recriminações ditas em segredo e depois piscava um olho para os outros, como quem diz: coisa de mulher. E bebia mais uma cerveja.

Atravessaram o estreito de Gibraltar em direção a Tarifa, foram bordejando a costa espanhola. Ao amanhecer, o Holandês apontou, à direita, Trafalgar e falou das relações do Almirante Nelson com os judeus de Tânger; na barra do rio que leva a Sevilha explicou que Guadalquivir vem do árabe “Ued-El-Kabir”, Rio Grande; sabia tudo, o Holandês, inclusive, como se viu depois, a origem das "casetas" da feira e a história dos negros touros miúras; só não sabia que, apesar de haver bem calculado a maré, seria impossível na volta, segunda-feira pela manhã, transpor a barra do rio de retorno ao Atlântico, isto porque duas lanchas da polícia rodearam o iate e uma delas acabou se atravessando em seu caminho, e obrigou-o a parar. Os homens que subiram a bordo declararam que o Holandês estava preso e o iate provisoriamente apreendido. O embaixador brasileiro no reino de Marrocos e o seu cônsul em Tânger discutiram a situação; conseguiram liberar o iate depois de provar que ele não pertencia ao Holandês, nem este era seu verdadeiro capitão, mas sim um amarfanhado marinheiro velho e louro que mostrou seus documentos. O cônsul ainda foi a terra ver se soltava o Holandês, mas desanimou diante de um telegrama da Interpol. A mulherzinha desmaiou; fez-se vir um médico de terra que a reanimou e levou de volta fumo de cachimbo para o prisioneiro. “Eu bem sabia, eu bem dizia”, dizia ela, “ele é louco”; e chorava mais.

Todos ficaram consternados: a) porque com a baixa maré só iriam chegar a Tânger à noite; b) porque o Holandês era boa-praça, tanto que fizera questão de oferecer uma ceia aquela madrugada, que ele mesmo preparava — “eu o vi cortar pepinos (disse a mulher de um vice-cônsul), com que cuidado ele cortava os pepinos, o pobre homem!”

Bem, naturalmente não fora por ele cortar mal pepinos que a Interpol o prendera, e sim por algum outro motivo, que não se soube. Tudo o que se soube, como eu já disse, foi que ele era nascido na Albânia e tinha passaporte britânico, o bom Holandês.
Rubem Braga, "Recado de primavera"

O ronco do lobo

Estou na sala de espera de um médico. Machuquei o braço, preciso de um raio X. A sala está cheia, vai demorar. Para me distrair, por vício, passo a observar as pessoas à minha frente. Bem diante de mim, está um homem grande, de face afogueada e orelhas tortas, sustentadas por um pescoço que mais parece um tronco. Veias negras, como formigas, descem em direção a seu peito. O nariz tem a forma de um bico. Tudo nele remete ao mundo natural. Não aos encantos, mas à brutalidade da natureza.

Veste um paletó social que, mesmo surrado, não combina com sua rudeza de camponês. As sandálias, meladas de terra, denunciam a incompatibilidade entre os dois. Tudo nele, como em uma avalanche, despenca. E esse desmoronamento, que não consigo deixar de ver, logo me provoca um estranho desgosto. O estômago embrulha. Seguro a náusea, respiro fundo, mas continuo a investigar o homem. Preciso descobrir o que nele me afronta. Seu olhar e seu desamparo me incomodam. Por quê?

O que espero de um homem que espera em uma sala de espera? Falo também de mim, ansioso e amuado, preso à mesma esperança. Vão demorar a nos atender. Vem-me, então, a vontade insensata de perguntar ao homem como ele me vê. Pedir que ele faça a gentileza de me dizer quem sou. Pobre homem, não me entenderá e me tomará por louco. Essas são perguntas que só fazemos às escondidas. São perguntas indecentes, que rompem o equilíbrio da existência. Não se fazem, não devem ser feitas, e por isso não farei.

A pergunta, contudo, continua a me arder a garganta, mas, de meu interior, não vem resposta alguma. Só agora, quando o homem a deixa cair no chão, percebo que ele se abraça a uma pasta. Quando se abaixa para apanhá-la, o paletó se esgarça às suas costas, prestes a se romper. Não é só um paletó usado, é um paletó comprado em uma loja de usados. Ou herdado de algum falecido da família. Um sinal de penúria e de dor.

Custa a alcançar a pasta caída a seus pés, pois a barriga o atrapalha. Vem-me o medo de que ele se desequilibre e role no chão. Medo, ou desejo? Tudo pode acontecer com esse homem. As orelhas estão ainda mais vermelhas. A qualquer momento, ele pode explodir. Tentando ser melhor do que sou, ergo-me e digo: “O senhor quer ajuda?”. Desempenho o papel errado, pois sou bem mais velho do que ele. “Pode deixar”, ele se limita a dizer, erguendo o rosto. Volto a meu lugar. Que se dane. Que despenque como uma árvore velha e se esparrame no chão. Mas por que sinto tanta raiva do sujeito? O que no pobre homem me incomoda tanto?

Um dos atendentes chama: “Senhor José Manuel”. O homem imediatamente se levanta e vai até o guichê. Tudo se passa a meu lado, posso ouvir a conversa. “Falta um documento”, o rapaz diz. “Falta seu CPF.” O homem começa a remexer na pasta, mas não encontra o que procura. “O RG não basta?” O recepcionista, que usa um brinco ameaçador em forma de foice, avalia: “Não, seu RG não traz o CPF”. Fala com tom de autoridade — como se o homem, a qualquer momento, pudesse ser preso. Faz cara feia. Será que vai colocá-lo de castigo? Procuro as algemas, não existem algemas. Preciso controlar meus pensamentos. Eles me esfaqueiam e eu os desconheço.

Também eu visto um paletó social. Só que, em vez de sandálias, calço sapatos novos e escovados. Meu terno não é novo, mas quase nunca o uso. Minhas meias são de seda. Será isso, essa estampa de homem civilizado, que me indispõe com o homem da pasta? Essa ideia não faz sentido algum, e chega a ser repulsiva. Vou dizer a verdade: fico torcendo para que ele seja impedido de fazer seu exame. Que seja mandado de volta para casa. Que sofra. Que seja castigado. Mas por que ele deveria ser castigado? De onde vem esse meu ódio? O que o sujeito me fez?

Começo a sentir medo do ódio que cresce dentro de mim. O que me perturba não é o homem, mas o que sinto. A náusea, descabida, aumenta. A repulsa. Não repulsa ao homem, mas repulsa a mim mesmo. Tento pensar em outra coisa. Tento silenciar. Tento me castigar? Ouço estalos de chicote que vêm dos fundos da recepção. Sei que são uma ilusão, são obra de meus nervos, mas meu medo aumenta. Agora tenho a sensação de que o homem, ciente de meus pensamentos agressivos, passa a me encarar. Só me resta encará-lo também.

E só então vejo claramente: grossas lágrimas escorrem dos olhos do homem da pasta. Se a falta de um documento o impede de fazer o exame, por que ainda espera? Já devia ter ido embora. Devia, mas não foi. Voltou à mesma cadeira e continua a esperar. O que mais ele quer? As lágrimas aumentam e escorrem pelas bochechas. Em desamparo, ele se abraça mais ainda à pasta. O mais grave, o mais intolerável é que, quanto mais lágrimas escorrem em sua face, mais raiva eu sinto. Raiva do homem, ou de mim?

Preciso admitir: sou eu, com minha aparência civilizada e limpa, que carrego um lobo no peito. É em mim que a natureza se torna desgovernada e cruel. Sou eu o agressor, e não ele. Sou eu o selvagem. Entendo então que devo fugir dali, já que é impossível fugir de mim. Vou até o guichê e devolvo a senha. “Não posso esperar mais.” O rapaz examina o número e diz: “Mas o senhor será o próximo”. Tentando matar o lobo que carrego no peito, sem pensar, eu sugiro: “Está vendo o homem da pasta? Chame-o em meu lugar”. O rapaz é ríspido: “Isso é impossível. Ele não trouxe os documentos necessários”.

Penso em me despedir do homem da pasta. Mas ele não me entenderá. Na verdade, é de mim, ou de algo em mim, que me despeço. Do lobo? Ainda o examino mais um pouco. Ele se agarra à pasta, como a um bote salva-vidas. Agora está claro: o nojo que sinto é de mim mesmo. O homem da pasta é só um álibi. Uma vítima. Um trampolim que usei para chegar ao pior de mim. De repente, o sujeito passa a soluçar. Uma senhora se ergue e o consola. Ampara-o, zelosa, até a toalete. Logo que eles desaparecem no corredor, saio em disparada pela entrada principal. Chamo um Uber. Respiro fundo. Fujo, mas o maldito lobo continua no meu pé.

segunda-feira, agosto 31

Visita noturna

 


O vapor das panelas e o tinir das moedas

Existem em Alexandria umas ruas chamadas “dos sarracenos”, que gozam de especial renome porque os árabes que mantêm ali suas tendas são os melhores cozinheiros, e os pratos que eles preparam deliciam os gastrônomos mais exigentes. Os sibaritas, gente verdadeiramente refinada em assuntos de mesa, frequentam aquelas ruas da mesma forma que, nas cidades elegantes, as pessoas frequentam as ruas onde há comércio de quadros.

Encontrava-se na sua cozinha um daqueles famosos cozinheiros, chamado Fabrac, quando se apresentou ali, com uma empada na mão, um mendigo sarraceno, que nem de longe tinha dinheiro para pagar o preço de um daqueles pratos famosos. O mendigo segurou a empada sobre a panela em que estava sendo preparado um guisado, e ela foi sendo impregnada pelo cheiroso vapor que dela se desprendia. Depois que a sentiu bem no ponto, retirou-a e se deliciou com o resultado do seu expediente culinário.

Fabrac não gostou daquilo. Não achava correto o procedimento do mendigo, e o intimou:

— Agora você tem de me pagar o que pegou da minha cozinha.

— Da sua cozinha eu não peguei nada. Só usei um pouco do seu vapor.

— Que seja! Você tem de me pagar então o vapor que pegou.

Tanto discutiram, tanto se encresparam, e tal escândalo moveram por causa da estranha reclamação, que a coisa chegou aos ouvidos do sultão. Como o assunto era muito original, o sultão não quis resolvê-lo antes de conhecer a opinião dos dois contendores. Chamou-os à sua presença, e a questão foi planteada pelo cozinheiro nos termos mais enérgicos.

Os sábios da corte do sultão começaram a discutir, argumentar, distinguir e sutilizar, como só os orientais o sabem fazer. Um dizia que o vapor não era do cozinheiro, pois se tratava de coisa que o demandante não podia reter, e se dissipava na atmosfera, além de carecer de substância corpórea e não deter propriedades úteis. Portanto, o mendigo não estava obrigado a pagar.

Outros, pelo contrário, sustentavam que o vapor era uma propriedade inerente ao que estava sendo cozinhado, algo consubstancial com ele, produzido por ele e só atribuível a ele; e como o prato saboroso era um resultado da perícia do cozinheiro e do seu trabalho, sendo do seu trabalho que cada homem deve viver, era lógico que o demandante recebesse um pagamento pelo uso daquele resultado do seu trabalho.

Muitos foram os argumentos, as razões, as argúcias e até os sofismas que se esgrimiram na contenda. Mas nada superou a engenhosa solução dada pelo sultão.

— Senhores, quando o cozinheiro vende a alguém o prato que preparou, é justo que esse resultado material e tangível do seu trabalho seja pago com algo também material e tangível, que são as moedas. Tendo em vista que o vapor é a parte sutil e não tangível do prato que o cozinheiro preparou, deve também ser paga com algo imaterial e intangível.

Dirigindo-se então ao mendigo, perguntou:

— Tens aí algumas moedas?

— Sim, senhor, pois as pessoas me ajudam geralmente com moedas, ainda que de pouco valor.

— Então tome-as dentro de um saquinho, e agite-as bem.

Feito isso, o sultão despediu o demandante, dizendo-lhe:

— Considere-se pago, e muito adequadamente, pois o tinir das moedas é a parte imaterial e intangível delas.
Novellino

Eu e Bebu na hora neutra da madrugada

Muitos homens, e até senhoras, já receberam a visita do Diabo, e conversaram com ele de um modo elegante e paradoxal. Centenas de escritores sem assunto inventaram uma palestra com o Diabo. Quanto a mim, o caso é diferente. Ele não entrou subitamente em meu quarto, não apareceu pelo buraco da fechadura, nem sob a luz vermelha do abajur. Passou um dia inteiro comigo. Descemos juntos o elevador, andamos pelas ruas, trabalhamos e comemos juntos.

A princípio confesso que estava um pouco inquieto. Quando fui comprar cigarros, receei que ele dirigisse algum galanteio baixo à moça da tabacaria. É uma senhorinha de olhos de garapa e cabelos castanhos muito simples, que eu conheço e me conhece, embora a gente não se cumprimente. Mas o Diabo se portou honestamente. O dia toda – era um sábado – correu sem novidade. Ele esteve ao meu lado na mesa de trabalho, no restaurante, no engraxate, no barbeiro. Eu lhe paguei o cafezinho; ele me pagou o bonde.
Religiãoe crença


À tarde, eu já não o chamava de Belzebu, mas apenas de Bebu, e ele me chamava de Rubem. Nossa intimidade caminhava rapidamente, mesmo sem a gente esperar. Quando um cego nos pediu esmola, dei duzentos réis. É meu hábito, sempre dou duzentos réis. Ele deu uma prata de dois mil-réis, não sei se por veneta ou porque não tinha mais miúdo. Conversamos pouco; não havia assunto.

À noite, depois do jantar, fomos ao cinema… Outra vez me voltou a inquietude, que sentira pela manhã. Por coincidência, ele ficou sentado junto a duas mocinhas que eu conhecia vagamente, por serem amigas de uma prima que tenho no subúrbio. Temi que ele fosse inconveniente; ficaria constrangido. Vigiei-o durante a metade da fita, mas ele estava sossegado em sua cadeira; tranqüilizei-me. Foi então que reparei que ao meu lado esquerdo sentara-se uma rapariga que me pareceu bonita. Observei-a na penumbra. A sua pele era morena, e os cabelos quase crespos. Sentia a tepidez de seu corpo. Ela acompanhava a fita com muita. atenção. Lentamente, toquei o seu braço com o meu; era fácil e natural; isto sempre acontece por acaso com as pessoas que estão sentadas juntas no cinema.

Mas aquela carícia banal me encheu as velas de desejo. Suavemente, não deslizei a minha mão para a esquerda. A moça continuava olhando para pio o filme. Achei-a linda e tive a impressão de que ela sentia como eu estava me emocionado, e que isto lhe dava prazer. Mas neste momento, ouço um pequeno riso e viro-me. Bebu está do me olhando. Na verdade não está rindo; está sério. Mas em seus olhos há uma qualquer malícia. Envergonhei-me como uma criança. A fita acabou e não falamos no incidente. Eu fui para o jornal fazer o plantão da noite. Só conversamos à vontade pela madrugada. A madrugada tem uma hora neutra que há muito tempo observo. É quando passo a tarde toda trabalhando, e depois ainda trabalho até a meia-noite na redação. Estou fatigado, mas não me agrada dormir. É aí que vem, não sei como, a hora neutra. Eu e Bebu ficamos diante de uma garrafa de cerveja em um bar qualquer. Bebemos lentamente sem prazer e sem aborrecimento. Na minha cabeça havia uma vaga sensação de efervescência, alguma coisa morna, como há um pequeno peso. Isto sempre me acontece: é a madrugada, depois de um de dia de trabalheiras cacetes. Conversamos não me lembro sobre o que. Pedimos outra cerveja. Muitas vezes pedimos outra cerveja. Houve um momento em que olhei sua cara banal, seu ar de burocrata avariado, e disse: – Bebu, você não parece o Diabo. É apenas, como se costuma dizer, um pobre-diabo. Ele me fitou com seus olhos escuros e disse:

– Um pobre-diabo é um pobre Deus que fracassou.

Disse isto sem solenidade nenhuma, como se não tivesse feito uma frase. De repente me perguntou se eu acreditava no Bem e no Mal. Não respondi; eu não acreditava.

Mas a nossa conversa estava ficando ridícula. Desagradava-me falar eu sobre esses assuntos vagos e solenes. Disse-lhe isto, mas ele não me deu a menor atenção. Grunhiu apenas.

– Existem.

Depois, afrouxou o laço da gravata e falou:

– Há o Bem e o Mal, mas não é como você pensa. Afinal quem é você? Em que você pensa? Com certeza naquela moça que vende cigarros, de cabelos castanhos…

Estas palavras de Bebu me desagradaram. Ele dissera exatamente como por acaso aquela moça de olhos de garapa… Era assim que eu me exprimia mentalmente, era esta a imagem que me vinha a cabeça sempre que pensava nos olhos daquela senhorinha.”

Sei que não é uma comparação nova; há muitos olhos que tem aquela, mesma cor meio verde, meio escura, de ca1d.o de cana; olhos doces, muito ver doces; e muitas pessoas já notaram isso; e até eu já vi essa imagem em uma poesia, não me lembro de quem. Mas a coincidência era alarmante; não podia ser coincidência. Bebu lia no meu pensamento, e, o que era pior, lia sem nenhum interesse, como se lê um jornal de anteontem. Isso me irritou:

– Ora, Bebu, não se trata de mim. Você estava falando do Bem e do Mal. Uma conversa besta…

Ele não ligou:

– Está bem, Rubem: o Bem e o Mal existem, fique sabendo. Você morou muito tempo em São José do Rio Branco, não morou?

– Estive lá quase dois anos. Trabalhava com o meu tio. Um lugarzinho parado…

– Bem. Lá havia um prefeito, um velho prefeito, o Coronel Barbirato. Mas o nome não tem importância. Imagine isto uma cidade pequena onde há sempre um prefeito, o mesmo prefeito. Esse prefeito nunca será deposto, nunca deixará de ser reeleito, sempre será o prefeito. E há também um homem que lhe faz oposição. Esse homem uma vez quis depor o prefeito, mas foi derrotado e o será sempre. O povo da cidade teme, aborrece, estima, odeia o prefeito; não importa. Pois é isto.

Bebu pós um pouco de cerveja no copo e continuou falando.

– É isto o Bem e o Mal. O prefeito acha que os bancos do jardim devem ser colocados diante da igreja: isto é o Bem. O homem da oposição acha que eles devem ficar em volta do coreto? Isto é o Mal. Entretanto…

– Bebu, deixe de ser chato.

– Não amole. Você sabe a minha história. Fiz uma revolução contra Deus. Perdi, fui vencido, fui exilado; nunca tive nem implorei anistia. Deus me venceu para todos os séculos, para a eternidade. É o prefeito eterno, ninguém pode fazer nada. Agora, se tem coragem, imagine isto eu saio de meu inferno uma bela tarde, junto meu pessoal, faço uma campanha de radiodifusão, arranjo armamento, vou até o Paraíso e derroto aquele patife. Expulso de lá aquela canalha, todas aquelas onze mil virgens, aquela santaria imunda. O que acontece?

Eu não respondi. Irritava-me aquele modo de falar Bebu continuou com mais veemência:

– Acontece isto, seu animal: não acontece nada! Você reparou quando uma revolução vence? Os homens se renderão diante do fato consumado. O Bem será o Mal, e o Mal será o Bem. Quem passou a vida adulando Deus irá para o inferno deixar de ser imbecil. Eu farei a derrubada: em vez de anjinhos, os capetinhas; em vez dos santos, os dem5nios. Tudo será a mesma coisa, mas exatamente o contrário. Não precisarei nem modificar as religiões. Só mudar uma palavra, nos livros santos onde estiver “não”, escrever “sim”, onde estiver “pecado”, escrever “virtude”. E o mundo tocara para a frente. Vocês não seguirão a minha lei, como não seguem a dele; não importa, será sempre a lei.

Eu me senti a atordoado. Percebi que lá fora, na rua, as lâmpadas se apagavam e murmurei: seis horas. Bebu falava com um ar de desconsolo.

– Mas não pense nisto. Aquele patife está firme. É possível depô-lo? Impossível! Impossível…

Olhei a sua cara. Dentro de seus olhos, no fundo deles, muito longe, havia um brilho. Era uma pequena, miserável esperança, muito distante, mas todavia irredutível. Senti pena de Bebu. É estranho, eu não passo olhar uma pessoa assim, no fundo dos olhas, sem sentir pena. Fui consolando.

– Enfim, meu caro, não adiantaria coisa alguma. Você como está, vai bem. Tem seu prestígio…

– Eu estou bem? Canalha! Pensa que, quando me revoltei, foi à toa? Conhece o meu programa de governo, sabe quais foram os ideais que me levaram à luta? Padre explicar por que, através de todos as séculos, desde que o mundo não era mundo até hoje, até sempre, fui eu, Lúcifer, o único que teve peito para se revoltar? Você sabe que, modéstia à parte, eu era o melhor da turma? Eu era o mais brilhante, o mais feliz, o mais puro, era feito de luz. Porque é que me levantei contra ele, arriscando tudo? O governo atual diz que eu fui movido pela ambição e pela vaidade. Mas todos os governos dizem isto de todos os revolucionários fracassados! Olhe, você é tão burro que eu vou lhe dizer. Esta joça não ficava assim não. Eu podia lhe contar o meu programa; não conto, porque não sou nenhum desses políticas idiotas que vivem salvando a pátria com plataformas. Mas reflita um pouco, meu animal. Deus me derrotou, me esmagou, e nunca nenhum vencedor foi mais infame para com um vencido. Mas pelo amor que você tem a esse canalha, diga-me: o que é que ele fez até agora? A vida que ele organizou e que ele dirige não é uma miséria? – uma porca miséria? Você sabe perfeitamente disto. Os homens não sofrem, não se matam, não vivem fazendo burradas? É impossível esconder o fracasso. Deus fracassou, fracassou mi-se-ra-vel-men-te! E agora, vamos, me diga: por pior que eu fosse, acha possível, camarada, acha possível que eu organizasse um mundo tão ridículo, tão sujo?

Não respondi a Bebu. Esvaziamos em silêncio o último copo de cerveja. Eu ia pedir outra, mas refleti amargamente que não tinha mais dinheiro na bolso. Ele, por sua vez, constatou o mesmo. Saímos. Lá fora já era dia:

– Puxa vida! Que sol claro, Bebu! Isto deve ser sete horas. Andamos até a esquina da Avenida.

Ele me perguntou:

– Onde é que você vai?

– Vou dormir. E você?

Bebu me olhou com seus olhos escuros e respondeu com um sorriso de anjo.

– Vou à missa…
Rubem Braga

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Manuel Bandeira, "Estrela da manhã"

Como Fernando Sabino fez da cidade um trajeto de encontros e afetos

O edifício Elisabeth, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, foi o primeiro endereço de Fernando Sabino (1923-2004) no Rio e sua a porta de entrada entrada para a vida cultural da cidade. O belo-horizontino se mudou para a então capital federal em 1944, ainda jovem e aspirando à glória literária. Não demorou a se aproximar de figuras que admirava e a recebê-las em casa. Quando o autor de “O encontro marcado” jogava as chaves do apartamento pela janela do sexto andar para os convidados, tudo podia acontecer: sessões mediúnicas com Vinicius de Moraes, visitas de ídolos como Pablo Neruda e baterias tocando madrugada adentro.

O endereço e suas histórias abrem o percurso do recém-lançado “O Rio de Fernando Sabino” (Autêntica), que refaz os passos do escritor, jornalista e editor pela cidade. O livro de Teresa Montero mapeia os lugares onde o mineiro circulava, trabalhava e, claro, confraternizava com seus pares. Mais do que um retrato do autor em seus espaços de predileção, o livro compõe uma geografia das relações sociais e afetivas da cidade, onde Sabino viveria 56 dos seus 80 anos.

Com suas livrarias, galerias, boates, cafés, bares, clubes e edifícios residenciais, o Rio da segunda metade do século XX era um catalisador de amizades, trocas e criações coletivas. A nata literária pensava o mundo entre rodadas de chope e copos de uísque nas mesas do Amarelinho (Cinelândia) e dos extintos Alcazar (Copacabana) e Bar Brahma (Centro). Mestre da arte do encontro, Sabino viraria ele próprio um dos principais cronistas da sociabilidade carioca.

— Os caminhos sabinianos levantados no livro mostram os lugares que atraíam o escritor, mas também as pessoas que integravam suas relações — explica Teresa Montero, também autora de “O Rio de Clarice Lispector”. — O Rio é onde estavam todos os seus ídolos literários, e ele chegou aqui louco para encontrá-los. Antes que a geração de Sabino formasse seus próprios círculos, figuras já consagradas, como Mário de Andrade, abriram as portas para ela.

Entre as principais ligações de Sabino no Rio estavam escritores mais velhos, como Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes, e autores de sua própria geração, como Clarice Lispector. Com os conterrâneos Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende, formou o grupo conhecido como “Os quatro cavaleiros do Apocalipse”. Foi no restaurante Alcazar, na altura do Posto 5, que os mineiros encontraram Vinicius pela primeira vez. O poetinha, de calção e bicicleta, diante dos jovens literatos em provincianos terno e gravata, como contou Sabino na crônica “O menestrel dos nossos tempos”.

Por sinal, poucos lugares ajudaram Sabino a se aproximar dos talentos locais quanto o Alcazar. Para os recém-chegados de Minas como ele, o templo da boemia serviu como “bar, lar, chope, arte, oceano, sociedade e principalmente amor eterno/ casual”, nas palavras de Paulo Mendes Campos. Lá, ao contrário de Belo Horizonte, as mulheres discutiam política e literatura na mesa e falavam palavrão.

Com sua concentração de moradores ou visitantes ilustres, Copacabana favorecia encontros casuais. Certo dia, Sabino passava de ônibus pela Nossa Senhora quando viu na calçada um cabisbaixo Pablo Neruda (o flagra rendeu uma crônica que quase acabou com a amizade dos dois). O bairro abrigava ainda o Cassino Atlântico (hoje um shopping), a Boate Vogue e a sede da editora Sabiá, segunda aventura editorial de Sabino nos anos 1960 e 1970.

As recepções no apartamento de Schmidt, muito frequentado por Sabino, são outra prova de que a literatura brasileira acontecia também na intimidade dos jantares, bebedeiras, namoricos e projetos editoriais.

— Havia uma generosidade no acolhimento, inclusive entre pessoas com divergências ideológicas importantes — observa Montero. — Jovens autores enviavam seus originais para os veteranos e recebiam dicas ou até ajuda para publicar. Isso foi fundamental para a efervescência cultural do período. Olha o que produziu essas gerações de autores que viveram no Rio entre 1930 e 1970...


Sabino é o protagonista dessa história social, e o mapa desenhado por Montero segue o olhar do cronista. Em seus deslocamentos, ressurge um Rio esquecido. Demolida em 1957, a Galeria Cruzeiro, no Centro, reunia “tantas coisas prazerosas em um único endereço”, lembra Teresa Montero, como os bares Brahma e Nacional. Na mesma região, próximo da Escola Nacional de Belas Artes, o Bar Vermelhinho, também desativado hoje, atraía estudantes e professores, e tinha entre seus habitués Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

O livro acompanha as transformações testemunhadas pelo escritor e recupera um ritmo de vida que o Rio perdeu. Depois de, num raro momento de timidez, deixar passar a chance de abordar seu ídolo Manuel Bandeira dentro de um ônibus, o cronista se tornaria próximo do poeta. Frequentava seu apartamento na Avenida Beira-Mar, no Centro, onde as conversas se estendiam até o escurecer, sem a interrupção dos celulares.

A escala urbana permitia uma outra relação com o tempo. No fim dos anos 1950, Sabino estava desquitado e trabalhava de casa, depois de deixar o cargo em um cartório, arranjado pelo primeiro sogro, aliado de Getúlio Vargas. O autor resolvia todos os seus compromissos no Centro em um só dia (percorrer as livrarias, procurar amigos, resolver pendências) e voltava “suado e pálido” para sua residência em Ipanema. A violência era muito menos temida e, nos anos 1970, Sabino contou ter dado carona a um rapaz desconhecido que pedia ajuda no sinal.

— O livro começa nos anos 1940 e termina nos anos 2000, e nesse tempo todo Sabino nunca deixou de falar sobre a cidade em detalhes fascinantes — diz Montero.

O histórico residencial de Sabino também acompanha a evolução da Zona Sul. Nos anos 1960, o escritor comprou uma casa no Leblon e testemunhou sua transformação na área mais disputada da cidade. A vida cultural ainda estava longe do agito que viria depois e seus moradores nem reconheceram Mick Jagger quando Sabino, que o ciceroneou no Rio em 1968, levou o cantor para passear no bairro. Os moradores mais pobres indicavam aos novos chegados onde comprar casas e terrenos baratos, sem perceber que estavam acelerando a sua própria expulsão da região.

— Sabino pegou esse canto da orla quando ele ainda estava se fazendo, e documentou todo esse processo — diz Montero. — Sua história no Rio é toda na Zona Sul, com alto padrão de vida, mas o seu Rio não é o do cartão-postal. Ele fazia questão de apontar as desigualdades sociais em seus escritos.

De fato, a Zona Norte está pouco representada no mapa sabiniano (apenas o Maracanã). O trabalho de Sabino se concentrava no Centro, onde ficavam a Editora do Autor, que o escritor abriu no Edifício Porto Alegre, e a maioria dos jornais. As amizades, na Zona Sul. Mas isso não significava um olhar alienado sobre a cidade. O Leme é retratado como um oásis turístico e cenário de prostituição infantil. A fome mata um homem em meio ao agito intelectual do Centro. Mulheres andam com lata d’água na cabeça enquanto o Leblon se valoriza.

— Eliana Sabino, filha mais velha do escritor, me contou que, até o fim da vida, o pai ia até a Galeria Menescal (em Copacabana) apenas para visitar uma amiga sua em situação de rua — revela Montero, que, além de estudar as crônicas do mestre, pegou o depoimento de seus amigos e familiares para escrever o livro.

O Mosteiro de São Bento, no Centro no Rio, é um curioso ponto no mapa de Fernando Sabino. De formação católica, o autor ia lá buscar conforto em momentos difíceis. Em uma dessas crises, alterado por um porre na Galeria Cruzeiro e frustrado com seu trabalho no cartório, procurou um monge em busca de conselhos.

O religioso lhe apresentou dois caminhos: abandonar tudo se tiver vocação para a pobreza ou aceitar a vida que levava sem culpa. Sabino se desligaria do cartório pouco tempo depois, em 1952.

O local é também um dos possíveis cenários de “O encontro marcado”, best-seller semiautobiográfico que completa 70 anos agora em 2026. O protagonista Eduardo Marciano, alter ego do autor, vive uma crise existencial em sua chegada aos 30. Como Sabino, fracassa no primeiro casamento e se sente aprisionado por uma carreira burocrática.

A convite de um ex-colega de juventude que virou frade, decide passar uns dias de recolhimento em um convento. Na escola, os dois haviam feito um pacto de se reunir no ginásio 15 anos depois, mas o plano fracassou. Na comunidade religiosa, o encontro frustrado volta à tona, de forma ambígua. É tanto um compromisso entre amigos quanto a confrontação de Marciano com seu próprio destino.

— A amizade é um dos temas centrais de “O encontro marcado” e em toda obra de Sabino — diz Montero. — O personagem circula pela cidade do mesmo modo que ele circulava na vida real. Os amigos de Belo Horizonte aparecem, visitam o Rio, se mudam para cá, reencontram o personagem anos depois. O tal “encontro marcado” é uma busca eterna, porque não tem como fugir dos seus amigos.
Bolívar Torres

sábado, agosto 29

Navegantes

 


A morte de um presidente

Há cerca de dez dias deitei-me muito tarde. Havia estado aguardando uns despachos muito importantes... Logo em seguida comecei a sonhar. Parecia envolver-me a rigidez da morte. Escutei soluços sufocados, como se várias pessoas estivessem chorando. No sonho, saí da cama e lancei-me escadas abaixo.
Ali o silêncio era rompido por idênticos soluços, porém os que sofriam eram invisíveis. Caminhei de quarto em quarto. Não havia ninguém a vista e os lamentos me seguiam enquanto caminhava.

As salas estavam iluminadas, os objetos me eram familiares; mas onde estava esta gente cujos corações pareciam estar a ponto de rebentar de aflição?
Invadiram-me a confusão e o medo. Que significava tudo isto?

Decidido a descobrir as causas desta situação tão chocante e misteriosa, segui até a Sala Oriental. Encontrei-me aí com uma surpresa perturbadora. Em um cadafalso se achava um cadáver envergando vestimentas funerárias. Ao seu redor, soldados de guarda, e um indígena que olhava com tristeza o corpo que ali jazia, cujo rosto estava oculto por um lenço. Outros choravam com profundo pesar.

— Quem foi que morreu na Casa Branca?, perguntei a um dos soldados.

— O presidente — respondeu-me ele. Foi morto por um assassino.

Anotado por Ward Hill Lamon, chefe de polícia do distrito de Columbia, que se encontrava presente quando Abraham Lincoln narrou a um grupo de amigos, na Casa Branca, um sonho que tivera em uma das noites anteriores e pouco antes de ser mortalmente baleado na cabeça, dentro do Teatro Ford, de Washington (14 de abril de 1865) por John Wilkes Booth.
Jorge Luís Borges, "Livro de Sonhos"

Esquece o futuro

Esquece o futuro... Ele não te pertence!
O presente te basta!
Mas é preciso ser rápido, quando ele é mau presente
E andar devagar quando se trata de saboreá-lo
Expressões como: ‘passar o tempo’ espelham bem a maneira
de viver dessa gente prudente.... que imagina não haver coisa melhor
para fazer da vida.
Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente
Como se estar vivo fosse uma coisa desprezível
Porque a natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis
que só mesmo por nossa culpa ela poderia se tornar pesada e inútil!

Michel de Montaigne

Remédios

A farmácia na roça era simples. Para dor de barriga, chá-de-bico. Para tosse, especialmente tosse de cachorro, chá de poejo e angu quente enrolado em pano aplicado no peito. Para estômago embrulhado, chá de losna. Vômito instantâneo. Para bronquite, inalação: água fervendo com folhas de eucalipto numa caneca sobre a qual se aplicava um funil invertido feito com papel. Para dor de dentes, bochechos com água morna. Os grandes bochechavam com pinga. Se houvesse maiores recursos da ciência, cera Doutor Lustosa, com que se enchia o buraco do dente. Para dor de garganta, gargarejo de água morna e sal. Para espantar os pernilongos, folhas de eucalipto queimadas numa lata, dentro do quarto. Pra picadura de cobra ouvi dizer que duas colheres de querosene é remédio bom. Mas não posso confirmar.
Rubem Alves, "O Velho que Acordou Menino"

A história do medo

Em fila indiana no corredor do colégio, os alunos esperam pelo professor de latim. Enquanto todos, abnegados, resistem, eu sinto muito medo. Medo não do corredor ou do professor, nem mesmo do latim. Medo de algo que vem desde muito antes. Desde onde? Vasculho a memória, esse grande depósito de impressões, em cujas prateleiras mofadas e tortas minhas crônicas se abastecem. Tudo o que consigo ver é que tenho medo do Sentinela.

As imagens retornam, estendidas umas sobre as outras, presas ao grande varal do tempo. Quando escrevo, a esses fios me agarro. O que vejo? Nos fundos do colégio, há um descampado. Entre cavalos e moscas, o jovem Sentinela está em seu posto à entrada da várzea. Quando penso nele, a voz irritante do professor de Latim me corrige: “Não é o sentinela; é a sentinela. Mesmo sendo um rapaz, você deve usar o feminino”. Recuso-me a empregar o feminino para falar de um garoto que tem o rosto quadrado, a barba áspera e o pescoço cheio de veias. Não me importa a gramática, mas a realidade.

O Sentinela é mais velho do que eu. Nunca nos falamos, de modo que jamais me disse algo que pudesse me aborrecer ou humilhar. Só me repugna o fedor de seu corpo, mas muitos rapazes do campo fedem. Eu mesmo, que não sou do campo, quase sempre cheiro mal. Insisto: nada tenho contra o rapaz, compenetrado em seu posto de trabalho. Usa a mesma farda surrada e as botas com os cadarços soltos. Isso eu sempre observo porque, caso ele decida me perseguir, terá grandes chances de tropeçar.

Da entrada do descampado, a única coisa que avisto é o hangar desativado do Zeppelin. Mas havia um hangar para o Zeppelin em Botafogo? A memória é perigosa, mas isso não me interessa. Só consigo pensar que o Sentinela me atacará. Nem chega a ser um pensamento ou um pressentimento: é uma certeza. Não sei como o ataque acontecerá, apenas sinto medo. Tento vencer o medo e me aproximar do rapaz. Sai-me então a pergunta idiota: “Será que hoje chove?”. O Sentinela dá um passo à frente e diz: “Sai para lá. Aqui ninguém entra. Só entram os homens do Zeppelin”.

Depois da pergunta idiota, dei as costas e fugi. Corri em disparada de volta ao colégio. Devia ter 8 ou 9 anos. Escapei de um perigo que desconhecia, mas estava salvo. Mesmo assim, voltei outras vezes ao descampado e a cena, com variações sutis, se repetiu. Eu queria atravessar a cancela, o rapaz não deixava. Estufava o peito, fechava a cara e se mantinha inerte. Parece que eu desejava justamente essa proibição. Ansiava por ela, como um drogado. Eu queria a alegria do “não”. Como em Kafka, eu jogava com a Lei.

Nunca mais voltei ao descampado. Dessas lembranças, sobrou o medo. Medo sem objeto que, nos corredores dos jesuítas, eu continuava a sentir. Eu era um menino tolo, balofo, feio, quase sem sangue. O Sentinela também não era grande coisa, mas tinha uma farda e isso lhe dava alguma grandeza. Em farrapos, mas uma farda. Ele fazia parte de uma série, a dos garotos fardados. Ele era alguém. Contudo, quem ele era? Nunca soube seu nome, mas isso não importa. Não importa quem ele era; importa quem eu era. E eu estava reduzido ao medo que sentia. Até hoje, tudo o que restou é o medo.

Lembro bem: não havia nenhuma divisória ou demarcação visível. Havia o portão, e além dele mais nada. Nem mesmo uma estrada ou uma trilha. Estranho portão, que não dava acesso a coisa alguma, só a si mesmo. Estranha cancela, que nada barrava, só atravancava o caminho. E agora aqui estou, à espera do professor de Latim que não chega. Tudo desapareceu: o Sentinela, o descampado, o portão. As moscas e os cavalos também. Só ficou um medo puro, que gira em torno de mim. Que me assombra. Da vida, ficam os sentimentos. Com eles construímos a memória. Ou será da memória que construímos os sentimentos?

Enfim, chega o professor. Abre a porta da sala e diz: “Vamos entrando”. Meu medo aumenta. Tomo meu lugar, abro o caderno. O professor começa suas anotações no quadro-negro. Sou incapaz de segui-las, pois o medo toma conta de tudo. Antes o Sentinela aparecesse para incorporar meus temores. Eu fugiria dele e o medo desapareceria. Mas já não há Sentinela algum. Não há sequer um portão a me barrar. Mesmo com todas as cadeiras ocupadas pelos alunos, a sala de aula dos jesuítas se parece com um deserto. Sou um beduíno que vaga pelo vazio.

O bondoso professor de Latim percebe meu desencanto e, depois da aula, me chama para conversar. “Estou preso a um sentimento”, eu lhe digo. “Um sentimento que me inferniza e que não serve para nada.” Cheio de dedos, envergonhado, resumo a história do Sentinela. Depois de me ouvir, o professor me diz: “Todos precisamos de um inimigo. Sem alguém para enfrentar, sem um rival, os homens morrem”. Me disse ainda que, para um rapaz, é essencial eleger um oponente. Sem esse antagonista, ficamos com sentimentos frouxos, como as moças. Ele disse.

Não se trata de odiar, mas de lutar, ainda me alertou. “Sem luta não há vida.” Ocorre que sempre me esquivei do enfrentamento. Disfarçava, fugia, negava, tudo para não desafiar os outros. Foi o que fiz com o Sentinela: meu medo foi uma maneira de apagá-lo. Ocorreu que, ao fazer isso, apaguei a mim também. E agora aqui estou, com um sentimento puro e bruto, um diamante inútil, desprovido de brilho. Como uma faca sem sua carne ou um copo sem sua água.

Observo meus colegas de sala. Banho tomado, uniformes passados, cheirando a lavanda. Belos penteados, sapatos brilhantes e cuecas limpas. Eles estão em paz porque acreditam que têm algo a defender e algo a enfrentar. Enquanto isso, o professor desiste de mim e se vai. No mesmo momento, um vento gelado entra pela janela da sala de aula. Quisera ser o Sentinela. Estar em meu posto diante do portão. Sujo, repulsivo, pobre rapaz, mas cheio de certezas. Estar lá, atento ao sopro do vento e ao mugir das vacas. Não ter dúvidas. Não sofrer. Saber quem sou. Mas isso existe?