Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sábado, agosto 8
Cipreste amigo
Sempre desejei possuir um cipreste; posso, enfim, satisfazer esse meu desejo.
O cipreste que comprei fica no campo, mas daqui até a cidade a distância não é grande e posso vir vê-lo todas as tardes, ao pôr do sol, e sentar-me sob os seus ramos para meditar sabiamente. Houve até uma noite, plena madrugada, em que vim vê-lo sob um luar esplêndido, e em razão justamente desse luar: é que sob o meu quarto mora agora uma pobre louca, que não suporta a lua cheia e se põe a uivar desesperadamente — e eu não suporto o uivo dos loucos, sobretudo dos que não conheço. (Sempre ouvi falar dessa história de loucos ladrarem à lua cheia como se fossem cães desesperados, mas nunca lhe dei maior atenção; agora sei que é verdade.)
Aliás, foi para filosofar, mais do que tudo, que eu adquiri este cipreste solitário e perdido no campo, aos pés dessa cidade que não é a minha e que um dia terei que abandonar repentinamente, como tenho abandonado a tudo e a todos, antes que me abandonem. À falta de um pórtico grego ou romano, no puro estilo da Acrópole, a sombra de um cipreste sempre me pareceu o lugar ideal para divagações profundas sobre o eterno e o efêmero no destino humano, sobretudo quando se é solitário por natureza como eu sou e não se tem necessidade de espaço maior para cantar em surdina sua milenar angústia. Cipreste lembra morte — isto é, o inelutável, a única certeza que salta aos olhos até dos mais tolos e inocentes — e que melhor conselheiro e guia para os nossos pensamentos de grandeza mas sem grandeza, e nossos temores e angústias construídos de fumaça e que por isso mesmo nos intoxicam e nos turvam a visão?
Isto mesmo que estou escrevendo, está sendo escrito à luz do crepúsculo, nesta réstia de terra que é minha propriedade como o é o próprio cipreste que a cobre como consta, aliás, da escritura de venda que me passou o comerciante Nicanor, estabelecido com secos e molhados no cais do porto. Esta noite a louca sob os meus pés uivou muito e impediu-me de conciliar o sono, embora não fosse lua cheia, mas eu não pude vir porque chovia muito e a chuva molha a alma mais do que o corpo. Agora, porém, na paz deste campo ainda úmido e cheirando a cemitério, eu e o meu cipreste voltamos a unir-nos numa união perfeita e total, como se eu fora a sua sombra ou simplesmente a sua alma visível e taciturna. O vento é o nosso intérprete, o vento que vem do mar distante e agita os meus cabelos de eterno viúvo e os seus ramos em eterna prece, voltados para o infinito.
Um chinês bêbado é muito difícil de distinguir-se de um chinês sóbrio. Ambos têm os olhos fechados, embora abertos, e sorriem tranquilamente para o nada, como é do seu hábito. Há instantes em que eu me sinto um chinês perfeito — Chiang O’Lyi, por sinal — e me ponho a rememorar todos os meus antepassados milenários, com rabicho e bigodes em forma de antena, captando o mistério que vem dos subterrâneos do mundo. Cada dia, aliás, eu pertenço a uma raça diferente, negra, amarela, roxa ou simplesmente furta-cor, e já me tem acontecido despertar sob a pele de uma raça ainda inexistente e de que só darão notícia os etnólogos dentro de mil anos, se até lá chegar a raça humana. Sob a máscara unicápita que reflete o meu espelho jazem os milhões de rostos que formam o meu homo multiplex, e é em vão que tento iludir-me a mim mesmo quando me faço a barba, como se fora um ser único e cotidiano. O próprio Cristo, que se dizia unigênito, era em verdade tríplice e muito mais do que tríplice, tanto que o desconheciam os seus próprios irmãos e os desconhecia ele por sua vez numa humanidade que abrangia toda a humanidade, sem distinção de tempo ou espaço. Eu e meu irmão somos apenas uma partícula ínfima do meu todo onímodo e universal, que de fato compreende toda uma multidão incalculável, e é com pasmo que nos vejo a todos sentados sobre este metro quadrado de terra e de sombra, sem que sequer nos esmaguemos com nossos mil braços e pernas, quando porventura levamos a mão aos olhos para chorar um pouco.
Se você chama um avestruz de pássaro, está implicitamente fazendo-lhe o maior dos elogios, e ele ficará eternamente grato por isso. (E, para ser sincero, não é mais justo que se chame de pássaro ao avestruz, em vez do gavião ou da águia, que envergonham a espécie e mereceriam antes ser humanos?). Mas o avestruz a que você chamasse de pássaro estaria, por sua vez, implicitamente obrigado a proceder como tal, nem que isso lhe custasse todos os riscos de vida e a própria vida — como sei de um que, para provar sua condição de pássaro, se atirou do alto de um penhasco e foi morrer lá em baixo espatifado, sem tempo sequer para um gemido. Morreu como um pássaro, esta é que é a verdade, e como pássaro foi enterrado.
Quanto a mim, apetecer-me-ia ser chamado de santo, ou, melhor ainda, de fantasma, para ser obrigado a agir como tal, com esta força de convicção que emprego em tudo quanto faço, quando faço. Santo ainda seria um pouco difícil mas como fantasma eu me sentiria inteiramente à vontade, tanto me sinto fantasma em meus momentos de devaneio e me sinto deslocado em meio aos homens movidos a intestinos e testículos. Por vezes me sinto tão fantasma — em meio à noite, sobretudo que chego a erguer-me do solo, por um espaço de tempo que varia entre cinco a dez segundos, num puro fenômeno de levitação — o que me custa, é bem verdade, uma terrível dor nos rins e uma copiosa exsudação, logo refletidas numa dor de cabeça insuportável, que por pouco não me leva ao desespero. Bastaria, porém, (disso estou convicto) que alguém me tomasse sinceramente por um fantasma e me chamasse por esse belo nome, os cabelos eriçados de pavor como acontece no cinema — para que eu, sem o menor esforço, não só me pusesse a flutuar no espaço como ainda começasse a atravessar portas e paredes, com o ar mais displicente deste mundo. A confiança que os outros têm em nós é mais importante do que a que nós mesmos temos, e disso dou testemunho exatamente pela minha vocação frustrada de fantasma, à qual faltou apenas alguém que acreditasse cegamente em mim e me transmitisse essa crença inabalável.
Mas já se faz noite, ou quase, a esta altura de minhas lucubrações metapsíquicas, e eu não trouxe vela nem lanterna para iluminar meu caderno de notas e meu lápis de ponta vermelha, como deveria ter feito e cuidarei de fazer para o futuro.
Adeus, pois, cipreste amigo, por hoje pelo menos — e ficarei na expect..........................................
O cipreste que comprei fica no campo, mas daqui até a cidade a distância não é grande e posso vir vê-lo todas as tardes, ao pôr do sol, e sentar-me sob os seus ramos para meditar sabiamente. Houve até uma noite, plena madrugada, em que vim vê-lo sob um luar esplêndido, e em razão justamente desse luar: é que sob o meu quarto mora agora uma pobre louca, que não suporta a lua cheia e se põe a uivar desesperadamente — e eu não suporto o uivo dos loucos, sobretudo dos que não conheço. (Sempre ouvi falar dessa história de loucos ladrarem à lua cheia como se fossem cães desesperados, mas nunca lhe dei maior atenção; agora sei que é verdade.)
Mas o meu cipreste, modéstia à parte, é um mimo de cipreste e bem mereceria estar num cemitério, ao lado de outros fantasmas de sua espécie, povoando a solidão dos mortos e velando o seu sono tranquilo e eterno. A princípio pareceu-me um pouco baixo, mas nessa noite em que a lua cheia refletiu seu vulto trágico por sobre o campo pude capacitar-me de que era o cipreste que me convinha, e passei a amá-lo perdidamente. Hoje somos um só corpo e uma só alma, e passo horas recostado ao seu tronco amigo como um filho nos braços de sua mãe verdadeira, o olhar perdido na imensidão do campo e o coração pulsando suave e sem remorsos.
Aliás, foi para filosofar, mais do que tudo, que eu adquiri este cipreste solitário e perdido no campo, aos pés dessa cidade que não é a minha e que um dia terei que abandonar repentinamente, como tenho abandonado a tudo e a todos, antes que me abandonem. À falta de um pórtico grego ou romano, no puro estilo da Acrópole, a sombra de um cipreste sempre me pareceu o lugar ideal para divagações profundas sobre o eterno e o efêmero no destino humano, sobretudo quando se é solitário por natureza como eu sou e não se tem necessidade de espaço maior para cantar em surdina sua milenar angústia. Cipreste lembra morte — isto é, o inelutável, a única certeza que salta aos olhos até dos mais tolos e inocentes — e que melhor conselheiro e guia para os nossos pensamentos de grandeza mas sem grandeza, e nossos temores e angústias construídos de fumaça e que por isso mesmo nos intoxicam e nos turvam a visão?
Isto mesmo que estou escrevendo, está sendo escrito à luz do crepúsculo, nesta réstia de terra que é minha propriedade como o é o próprio cipreste que a cobre como consta, aliás, da escritura de venda que me passou o comerciante Nicanor, estabelecido com secos e molhados no cais do porto. Esta noite a louca sob os meus pés uivou muito e impediu-me de conciliar o sono, embora não fosse lua cheia, mas eu não pude vir porque chovia muito e a chuva molha a alma mais do que o corpo. Agora, porém, na paz deste campo ainda úmido e cheirando a cemitério, eu e o meu cipreste voltamos a unir-nos numa união perfeita e total, como se eu fora a sua sombra ou simplesmente a sua alma visível e taciturna. O vento é o nosso intérprete, o vento que vem do mar distante e agita os meus cabelos de eterno viúvo e os seus ramos em eterna prece, voltados para o infinito.
Um chinês bêbado é muito difícil de distinguir-se de um chinês sóbrio. Ambos têm os olhos fechados, embora abertos, e sorriem tranquilamente para o nada, como é do seu hábito. Há instantes em que eu me sinto um chinês perfeito — Chiang O’Lyi, por sinal — e me ponho a rememorar todos os meus antepassados milenários, com rabicho e bigodes em forma de antena, captando o mistério que vem dos subterrâneos do mundo. Cada dia, aliás, eu pertenço a uma raça diferente, negra, amarela, roxa ou simplesmente furta-cor, e já me tem acontecido despertar sob a pele de uma raça ainda inexistente e de que só darão notícia os etnólogos dentro de mil anos, se até lá chegar a raça humana. Sob a máscara unicápita que reflete o meu espelho jazem os milhões de rostos que formam o meu homo multiplex, e é em vão que tento iludir-me a mim mesmo quando me faço a barba, como se fora um ser único e cotidiano. O próprio Cristo, que se dizia unigênito, era em verdade tríplice e muito mais do que tríplice, tanto que o desconheciam os seus próprios irmãos e os desconhecia ele por sua vez numa humanidade que abrangia toda a humanidade, sem distinção de tempo ou espaço. Eu e meu irmão somos apenas uma partícula ínfima do meu todo onímodo e universal, que de fato compreende toda uma multidão incalculável, e é com pasmo que nos vejo a todos sentados sobre este metro quadrado de terra e de sombra, sem que sequer nos esmaguemos com nossos mil braços e pernas, quando porventura levamos a mão aos olhos para chorar um pouco.
Se você chama um avestruz de pássaro, está implicitamente fazendo-lhe o maior dos elogios, e ele ficará eternamente grato por isso. (E, para ser sincero, não é mais justo que se chame de pássaro ao avestruz, em vez do gavião ou da águia, que envergonham a espécie e mereceriam antes ser humanos?). Mas o avestruz a que você chamasse de pássaro estaria, por sua vez, implicitamente obrigado a proceder como tal, nem que isso lhe custasse todos os riscos de vida e a própria vida — como sei de um que, para provar sua condição de pássaro, se atirou do alto de um penhasco e foi morrer lá em baixo espatifado, sem tempo sequer para um gemido. Morreu como um pássaro, esta é que é a verdade, e como pássaro foi enterrado.
Quanto a mim, apetecer-me-ia ser chamado de santo, ou, melhor ainda, de fantasma, para ser obrigado a agir como tal, com esta força de convicção que emprego em tudo quanto faço, quando faço. Santo ainda seria um pouco difícil mas como fantasma eu me sentiria inteiramente à vontade, tanto me sinto fantasma em meus momentos de devaneio e me sinto deslocado em meio aos homens movidos a intestinos e testículos. Por vezes me sinto tão fantasma — em meio à noite, sobretudo que chego a erguer-me do solo, por um espaço de tempo que varia entre cinco a dez segundos, num puro fenômeno de levitação — o que me custa, é bem verdade, uma terrível dor nos rins e uma copiosa exsudação, logo refletidas numa dor de cabeça insuportável, que por pouco não me leva ao desespero. Bastaria, porém, (disso estou convicto) que alguém me tomasse sinceramente por um fantasma e me chamasse por esse belo nome, os cabelos eriçados de pavor como acontece no cinema — para que eu, sem o menor esforço, não só me pusesse a flutuar no espaço como ainda começasse a atravessar portas e paredes, com o ar mais displicente deste mundo. A confiança que os outros têm em nós é mais importante do que a que nós mesmos temos, e disso dou testemunho exatamente pela minha vocação frustrada de fantasma, à qual faltou apenas alguém que acreditasse cegamente em mim e me transmitisse essa crença inabalável.
Mas já se faz noite, ou quase, a esta altura de minhas lucubrações metapsíquicas, e eu não trouxe vela nem lanterna para iluminar meu caderno de notas e meu lápis de ponta vermelha, como deveria ter feito e cuidarei de fazer para o futuro.
Adeus, pois, cipreste amigo, por hoje pelo menos — e ficarei na expect..........................................
Campos de Carvalho, "A Lua Vem da Ásia"
O armário
Quando abrires o armário tem cuidado
mais que versos falhados cartões melancolia
pode sair de repente o que não esperas
aquela cujo sol de um outro tempo
quando olha para ti ainda te mata.
Por isso tem cuidado: não abras as gavetas
talvez Deus esteja escondido
ao lado do retrato da primeira comunhão.
Não abras: pode soltar-se
o espírito
podem sair os mortos todos
as bruxas o diabo as cartas o destino
e aquela parte da tua vida que não cabe
não cabe em nenhum verso.
E se o bafo soprar?
Não abras
não abras as gavetas.
Pode sair a tua guerra
os aerogramas
as cartas escritas da cadeia
o amor o tempo as emboscadas
as longas noites de interrogatório
e também os duzentos metros livres
uma tarde de glória na Praia das Maçãs.
Este no pódio és tu.
Não queiras ver.
O que passou passou e não passou.
Deixa ficar o sol fechado no armário
o sol e a vida
não só poemas cadernos e retratos
mas também lâminas um pincel de barba
um pente
os pequenos nadas do teu quotidiano
antes do salto.
Tão inúteis agora.
Ninguém regressa à vida interrompida
mesmo que por dentro do armário
bata por vezes um coração.
Tem cuidado ao abri-lo.
Pode sair o que nunca imaginaste
um pedaço de Deus em papéis velhos
uma foto esmaecida
um amor rasgado
sabe-se lá o quê.
Alguém que não conheces
alguém que não sabes quem
alguém que aponta o teu retrato
e de repente diz: Ninguém.
Manuel Alegre, "Livro do Português Errante"
mais que versos falhados cartões melancolia
pode sair de repente o que não esperas
aquela cujo sol de um outro tempo
quando olha para ti ainda te mata.
Por isso tem cuidado: não abras as gavetas
talvez Deus esteja escondido
ao lado do retrato da primeira comunhão.
Não abras: pode soltar-se
o espírito
podem sair os mortos todos
as bruxas o diabo as cartas o destino
e aquela parte da tua vida que não cabe
não cabe em nenhum verso.
E se o bafo soprar?
Não abras
não abras as gavetas.
Pode sair a tua guerra
os aerogramas
as cartas escritas da cadeia
o amor o tempo as emboscadas
as longas noites de interrogatório
e também os duzentos metros livres
uma tarde de glória na Praia das Maçãs.
Este no pódio és tu.
Não queiras ver.
O que passou passou e não passou.
Deixa ficar o sol fechado no armário
o sol e a vida
não só poemas cadernos e retratos
mas também lâminas um pincel de barba
um pente
os pequenos nadas do teu quotidiano
antes do salto.
Tão inúteis agora.
Ninguém regressa à vida interrompida
mesmo que por dentro do armário
bata por vezes um coração.
Tem cuidado ao abri-lo.
Pode sair o que nunca imaginaste
um pedaço de Deus em papéis velhos
uma foto esmaecida
um amor rasgado
sabe-se lá o quê.
Alguém que não conheces
alguém que não sabes quem
alguém que aponta o teu retrato
e de repente diz: Ninguém.
Manuel Alegre, "Livro do Português Errante"
A linguaruda
Natália Mikailovna, senhora garbosa e ainda jovem, chegou pelo trem de Jalta, onde passara o verão. Depois, durante o jantar falou sem parar, descrevendo as belezas daquela região. O marido, feliz com o retorno da esposa, a observava com os olhos cheios de ternura, ante a excitação dela, limitando-se apenas a fazer algumas perguntas esporádicas.
– Ouvi dizer que a vida lá está muito cara… – observou ele.
– Cara? Como vou dizer? Não é tão cara quanto dizem. Eu tinha com a Júlia Petrovna, um bom apartamento, bem confortável, por vinte rublos por dia. Precisa saber se controlar. Se vai se fazer um passeio aos montes, por exemplo ao Al-Ptri, se gasta mais… O cavalo, o guia… Tudo isso encarece, e muito… Mas, querido, que belos montes! Tu não imaginas como são altos! Mil vezes mais altos que a igreja… E em cima, neve! Nada mais do que neve… Embaixo, pedras, apenas… Ah, que beleza…
– A respeito disso, durante a sua ausência, fiquei preocupado quando li a respeito das crueldades praticadas pelos guias… Não é verdade que são perversos?
Natália fez uma careta e balançou a cabeça, negativamente.
– São como todos os tártaros – respondeu ela. – Além disso, só os vi de longe, uma ou duas vezes… Falaram a esse respeito, mas não dei muita importância… Sempre senti aversão aos circassianos, aos gregos, aos mouros…
– Me parece que são uns espertalhões…
– Pode ser… Mas tem algumas sem vergonhas que…
Seu semblante se transtornou e ela chegou a se levantar, como se visse o diabo. Encarou o marido com os olhos dilatados:
– Vasitchka! Tu não imaginas quantas mulheres levianas há no mundo! Que imoralidade! E não de classe baixa ou mesmo média, não! Aristocratas da alta!… Eu não acreditava no que via! Nunca mais vou esquecer! Só quem não tem princípios pode chegar a esse ponto… E nem me atrevo a contar! Veja só a Júlia Petrovna, minha companheira de viagem… Tem um marido tão bom, dois filhos, considerada da melhor sociedade… Quer passar por uma santa, mas sabes o que fazia? Tu não vais acreditar! Mas que fique entre nós… Me dás a palavra de honra que não dirás a ninguém!?
– Ora, que ideia! Vou contar para quem?
– Bom, vou confiar em ti!
Recostou-se na cadeira, aguçou o olhar e começou:
– Imagine! Um dia, Júlia Petrovna saiu a cavalo para um passeio pelos montes. Era um dia lindo e ela saiu na frente com o seu guia. Eu ia atrás. Cerca de dois ou três quilômetros do vilarejo, ela soltou um grito, levando as mãos ao peito. Se o tártaro não a agarrasse ela teria caído e poderia ter se machucado com gravidade… Corri para junto dela com o meu guia, para ver o que tinha acontecido e ela me respondeu que se sentia mal, que parecia que ia morrer. Imagine só! Assustada eu tentei convencê-la a voltar. Ela choramingava que não podia, que estava para morrer. Me disse até que se desse um passo a mais iria morrer! Choramingava dizendo que sentia vertigens. Então pediu a mim e a Suleiman que fôssemos apanhar um remédio que ela tinha no nosso apartamento…
– Espera aí, querida – interrompeu o marido. – Há pouco me dizias que não tinha visto os tártaros senão ao longe e me vens com esse Saleiman que a acompanhava?
– Não me venha com asneiras! – rompeu a esposa em reclamar. – Abomino essas suspeitas! Não suporto isso! É um absurdo!
– Não estou suspeitando de nada, mas porque mentir? Tu passeavas com os guias tártaros… porque esconder?
– Quando queres, és impossível! – protestou ela indignada. – Estás com ciúmes de Sulieman! É isso! Mas queria ver como irias ao monte sem guia! Ah! Queria ver mesmo! Se não conheces aquela região e seus costumes e dificuldades, faria melhor se calasse! Escute e aprenda! Lá não se pode dar um passo sem guia.
– É natural!
– Me faze o favor de deixar esses sorrisinhos bobos! Não sou uma Júlia qualquer para agüentá-los. Não quero passar por santa, mas não me permitiria certas coisas… Será que não vês que Mametkul passava o tempo todo com a Júlia? Comigo não! Quando dava onze horas eu já dizia: “Suleiman, estás liberado!” e o meu tartarosinho ia-se embora… Eu o tratava com muita serenidade e assim mesmo, às vezes vinha falar de dinheiro e gastos extras, mas logo eu me eximia do que não estava combinado. Han! Han! Sabes, Vasitchka? Ele tinha uns olhos negros como o carvão, uma carinha morena, uma graciosa cara de tártaro… Han! Han! Mas eu o tratava com muita firmeza!
– Imagino que sim… – murmurou o esposo, entretido com as bolinhas de pão.
– Estás maluco, Vasitchka? Completamente louco? Já sei o que estás pensando! Conheço a tua cabeça! Mas te asseguro que quando estávamos passeando não se conversava nunca! Íamos, por exemplo, nos montes ou na cascata de Ucha-Su e eu ordenava ao Suleiman que ficasse atrás. Entende? E o pobrezinho tinha que ir atrás mesmo! Não o deixava esquecer-se que ele era um tártaro e eu a esposa de um conselheiro de Estado! Han! Han!
Ela deu uma gargalhada meio forçada e fez uma cara de assustada logo em seguida:
– Mas a Júlia! Hum! Esta Júlia! A gente pode fazer uma travessura, distrair-se! Porque não? Precisamos aliviar um pouco a tensão e a frivolidade da vida mundana, penso eu! Temos que nos divertir, mas nos conter dos excessos, para poder exigir que nos respeitem. Fazer escândalos? Ah! Isso não! Mas imagina que ela estava com ciúmes de mim! Que tolice! Uma vez Mametkul chegou e ela não estava. Então o fiz entrar e conversamos um tempo. São muito interessantes esses tártaros… A tarde passou sem percebermos. De repente chega Júlia, como uma tempestade! Brigou comigo e com Mametkul, armando uma cena horrível! Isto, Vasitchka, eu não aceito…
Com um “hum” muito eloquente, ela franze as sobrancelhas e girou pela sala com passos firmes.
– Então, pelo que vejo, te distraíste bem! – disse o marido sorrindo.
– Que estúpido! Já sei tudo o que estás pensando! Tens sempre idéias maliciosas! Mas daqui para frente, já sei que não te contarei nada! Nada mesmo!
E calou-se, com uma cara de arrependida.
Anton Tchekhov
– Ouvi dizer que a vida lá está muito cara… – observou ele.
– Cara? Como vou dizer? Não é tão cara quanto dizem. Eu tinha com a Júlia Petrovna, um bom apartamento, bem confortável, por vinte rublos por dia. Precisa saber se controlar. Se vai se fazer um passeio aos montes, por exemplo ao Al-Ptri, se gasta mais… O cavalo, o guia… Tudo isso encarece, e muito… Mas, querido, que belos montes! Tu não imaginas como são altos! Mil vezes mais altos que a igreja… E em cima, neve! Nada mais do que neve… Embaixo, pedras, apenas… Ah, que beleza…
– A respeito disso, durante a sua ausência, fiquei preocupado quando li a respeito das crueldades praticadas pelos guias… Não é verdade que são perversos?
Natália fez uma careta e balançou a cabeça, negativamente.
– São como todos os tártaros – respondeu ela. – Além disso, só os vi de longe, uma ou duas vezes… Falaram a esse respeito, mas não dei muita importância… Sempre senti aversão aos circassianos, aos gregos, aos mouros…
– Me parece que são uns espertalhões…
– Pode ser… Mas tem algumas sem vergonhas que…
Seu semblante se transtornou e ela chegou a se levantar, como se visse o diabo. Encarou o marido com os olhos dilatados:
– Vasitchka! Tu não imaginas quantas mulheres levianas há no mundo! Que imoralidade! E não de classe baixa ou mesmo média, não! Aristocratas da alta!… Eu não acreditava no que via! Nunca mais vou esquecer! Só quem não tem princípios pode chegar a esse ponto… E nem me atrevo a contar! Veja só a Júlia Petrovna, minha companheira de viagem… Tem um marido tão bom, dois filhos, considerada da melhor sociedade… Quer passar por uma santa, mas sabes o que fazia? Tu não vais acreditar! Mas que fique entre nós… Me dás a palavra de honra que não dirás a ninguém!?
– Ora, que ideia! Vou contar para quem?
– Bom, vou confiar em ti!
Recostou-se na cadeira, aguçou o olhar e começou:
– Imagine! Um dia, Júlia Petrovna saiu a cavalo para um passeio pelos montes. Era um dia lindo e ela saiu na frente com o seu guia. Eu ia atrás. Cerca de dois ou três quilômetros do vilarejo, ela soltou um grito, levando as mãos ao peito. Se o tártaro não a agarrasse ela teria caído e poderia ter se machucado com gravidade… Corri para junto dela com o meu guia, para ver o que tinha acontecido e ela me respondeu que se sentia mal, que parecia que ia morrer. Imagine só! Assustada eu tentei convencê-la a voltar. Ela choramingava que não podia, que estava para morrer. Me disse até que se desse um passo a mais iria morrer! Choramingava dizendo que sentia vertigens. Então pediu a mim e a Suleiman que fôssemos apanhar um remédio que ela tinha no nosso apartamento…
– Espera aí, querida – interrompeu o marido. – Há pouco me dizias que não tinha visto os tártaros senão ao longe e me vens com esse Saleiman que a acompanhava?
– Não me venha com asneiras! – rompeu a esposa em reclamar. – Abomino essas suspeitas! Não suporto isso! É um absurdo!
– Não estou suspeitando de nada, mas porque mentir? Tu passeavas com os guias tártaros… porque esconder?
– Quando queres, és impossível! – protestou ela indignada. – Estás com ciúmes de Sulieman! É isso! Mas queria ver como irias ao monte sem guia! Ah! Queria ver mesmo! Se não conheces aquela região e seus costumes e dificuldades, faria melhor se calasse! Escute e aprenda! Lá não se pode dar um passo sem guia.
– É natural!
– Me faze o favor de deixar esses sorrisinhos bobos! Não sou uma Júlia qualquer para agüentá-los. Não quero passar por santa, mas não me permitiria certas coisas… Será que não vês que Mametkul passava o tempo todo com a Júlia? Comigo não! Quando dava onze horas eu já dizia: “Suleiman, estás liberado!” e o meu tartarosinho ia-se embora… Eu o tratava com muita serenidade e assim mesmo, às vezes vinha falar de dinheiro e gastos extras, mas logo eu me eximia do que não estava combinado. Han! Han! Sabes, Vasitchka? Ele tinha uns olhos negros como o carvão, uma carinha morena, uma graciosa cara de tártaro… Han! Han! Mas eu o tratava com muita firmeza!
– Imagino que sim… – murmurou o esposo, entretido com as bolinhas de pão.
– Estás maluco, Vasitchka? Completamente louco? Já sei o que estás pensando! Conheço a tua cabeça! Mas te asseguro que quando estávamos passeando não se conversava nunca! Íamos, por exemplo, nos montes ou na cascata de Ucha-Su e eu ordenava ao Suleiman que ficasse atrás. Entende? E o pobrezinho tinha que ir atrás mesmo! Não o deixava esquecer-se que ele era um tártaro e eu a esposa de um conselheiro de Estado! Han! Han!
Ela deu uma gargalhada meio forçada e fez uma cara de assustada logo em seguida:
– Mas a Júlia! Hum! Esta Júlia! A gente pode fazer uma travessura, distrair-se! Porque não? Precisamos aliviar um pouco a tensão e a frivolidade da vida mundana, penso eu! Temos que nos divertir, mas nos conter dos excessos, para poder exigir que nos respeitem. Fazer escândalos? Ah! Isso não! Mas imagina que ela estava com ciúmes de mim! Que tolice! Uma vez Mametkul chegou e ela não estava. Então o fiz entrar e conversamos um tempo. São muito interessantes esses tártaros… A tarde passou sem percebermos. De repente chega Júlia, como uma tempestade! Brigou comigo e com Mametkul, armando uma cena horrível! Isto, Vasitchka, eu não aceito…
Com um “hum” muito eloquente, ela franze as sobrancelhas e girou pela sala com passos firmes.
– Então, pelo que vejo, te distraíste bem! – disse o marido sorrindo.
– Que estúpido! Já sei tudo o que estás pensando! Tens sempre idéias maliciosas! Mas daqui para frente, já sei que não te contarei nada! Nada mesmo!
E calou-se, com uma cara de arrependida.
Anton Tchekhov
No mistério da noite
Mas à noite cavalos liberados das cargas e conduzidos à ervagem galopavam finos e soltos no escuro. Potros, rocins, alazões, longas éguas, cascos duros – de repente uma cabeça fria e escura de cavalo! – os cascos batendo, focinhos espumantes erguendo-se para o ar em ira e murmúrio. E às vezes uma longa respiração esfriava as ervas em tremor. Então o baio se adiantava. Andava de lado, a cabeça encurvada até o peito, cadenciado. Os outros assistiam sem olhar. Ouvindo o rumor dos cavalos, eu adivinhava os cascos secos avançando até estacarem no ponto mais alto da colina. E a cabeça a dominar a cidadezinha, lançando o longo relincho. O medo me tomava nas trevas do quarto, o terror de um rei, eu quereria responder com as gengivas à mostra em relincho. Na inveja do desejo meu rosto adquiria a nobreza inquieta de uma cabeça de cavalo. Cansada, jubilante, escutando o trote sonâmbulo. Mal eu saísse do quarto minha forma iria se avolumando e apurando, e, quando chegasse à rua, já estaria a galopar com patas sensíveis, os cascos escorregando nos últimos degraus da escada da casa. Da calçada deserta eu olharia: um canto e outro. E veria as coisas como um cavalo as vê. Essa era a minha vontade. Da casa eu procurava ao menos escutar o morro de pastagem onde nas trevas cavalos sem nome galopavam retornados ao estado de caça e guerra.
As bestas não abandonavam sua vida secreta que se processa durante a noite. E se no meio da ronda selvagem aparecia um potro branco – era um assombro no escuro. Todos estacavam. O cavalo prodigioso aparecia, era aparição. Mostrava-se empinado um instante. Imóveis os animais aguardavam sem se espiar. Mas um deles batia o casco – e a breve pancada quebrava a vigília: fustigados moviam-se de súbito álacres, entrecruzando-se sem jamais se esbarrarem e entre eles se perdia o cavalo branco. Até que um relincho de súbita cólera os advertia – por um segundo atentos, logo se espalhavam de novo em nova composição de trote, o dorso sem cavaleiros, os pescoços abaixados até o focinho tocar no peito. Eriçadas as crinas. Eles cadenciados, incultos.
Noite alta – enquanto os homens dormiam – vinha encontrá-los imóveis nas trevas. Estáveis e sem peso. Lá estavam eles invisíveis, respirando. Aguardando com a inteligência curta. Embaixo, na cidadezinha adormecida, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Além da ferrovia um rato pronto a fugir. Então o tordilho batia a pata. Não tinha boca para falar mas dava o pequeno sinal que se manifestava de espaço a espaço na escuridão. Eles espiavam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado – nada precisava ser visto de frente por eles, e essa era a grande noite. Os flancos de uma égua percorridos por rápida contração. Nos silêncios da noite a égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade. O potro mais inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silêncio total.
Até que a frágil luminosidade da madrugada os revelava. Estavam separados, de pé sobre a colina. Exaustos, frescos. Tinham passado no escuro pelo mistério da natureza dos entes.
Clarice Lispector, "Todos os Contos"
As bestas não abandonavam sua vida secreta que se processa durante a noite. E se no meio da ronda selvagem aparecia um potro branco – era um assombro no escuro. Todos estacavam. O cavalo prodigioso aparecia, era aparição. Mostrava-se empinado um instante. Imóveis os animais aguardavam sem se espiar. Mas um deles batia o casco – e a breve pancada quebrava a vigília: fustigados moviam-se de súbito álacres, entrecruzando-se sem jamais se esbarrarem e entre eles se perdia o cavalo branco. Até que um relincho de súbita cólera os advertia – por um segundo atentos, logo se espalhavam de novo em nova composição de trote, o dorso sem cavaleiros, os pescoços abaixados até o focinho tocar no peito. Eriçadas as crinas. Eles cadenciados, incultos.
Noite alta – enquanto os homens dormiam – vinha encontrá-los imóveis nas trevas. Estáveis e sem peso. Lá estavam eles invisíveis, respirando. Aguardando com a inteligência curta. Embaixo, na cidadezinha adormecida, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Além da ferrovia um rato pronto a fugir. Então o tordilho batia a pata. Não tinha boca para falar mas dava o pequeno sinal que se manifestava de espaço a espaço na escuridão. Eles espiavam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado – nada precisava ser visto de frente por eles, e essa era a grande noite. Os flancos de uma égua percorridos por rápida contração. Nos silêncios da noite a égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade. O potro mais inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silêncio total.
Até que a frágil luminosidade da madrugada os revelava. Estavam separados, de pé sobre a colina. Exaustos, frescos. Tinham passado no escuro pelo mistério da natureza dos entes.
Clarice Lispector, "Todos os Contos"
sexta-feira, agosto 7
História de Cunegunda
“Eu estava na cama e dormia profundamente, quando aprouve aos céus enviar os búlgaros a nosso belo castelo de Thunder-ten-tronckh; degolaram o meu pai e o meu irmão e cortaram a minha mãe em pedaços. Um búlgaro grande, com seis pés de altura, vendo que diante desse espetáculo eu havia perdido os sentidos, pôs-se a violar-me; isso fez-me voltar a mim, recobrar os sentidos, gritei, debati-me, mordi, arranhei, queria arrancar os olhos desse búlgaro grande, não sabendo que tudo que estava acontecendo no castelo de meu pai era algo de costumeiro: o bruto me deu uma facada no flanco esquerdo de que ainda carrego a marca.” “Ah! Tenho a esperança de vê-la”, disse o ingênuo Cândido. “Vós a vereis”, disse Cunegunda, “mas continuemos.” “Continuai”, disse Cândido.
Ela retomou, assim, o fio de sua história: “Um capitão búlgaro entrou, viu-me toda ensanguentada, e o soldado não se perturbava. O capitão encolerizou-se pelo pouco respeito que lhe testemunhava aquele bruto e o matou sobre o meu corpo. Em seguida, mandou fazer-me curativos e levou-me como prisioneira de guerra para o seu quartel. Eu lavava as poucas camisas que ele tinha, cozinhava para ele; ele achava-me muito bonita, há que confessar; e eu não vou negar que ele tinha um belo porte e a pele branca e suave; aliás, pouco espírito, pouca filosofia: bem se via que não fora educado pelo doutor Pangloss. Ao cabo de três meses, tendo perdido todo o dinheiro e estando enjoado de mim, vendeu-me a um judeu chamado Issacar, que traficava na Holanda e em Portugal, e que gostava apaixonadamente de mulheres. Esse judeu apegou-se muito à minha pessoa, mas não podia triunfar sobre ela; resisti melhor a ele do que ao soldado búlgaro. Uma pessoa de honra pode ser violada uma vez, mas a sua virtude fortifica-se com isso. O judeu, para me amansar, trouxe-me para esta casa de campo que estais vendo. Eu tinha acreditado até então que não havia na terra nada tão belo quanto o castelo de Thunder-ten-tronckh; fui desiludida.
“O grande inquisidor viu-me um dia na missa, olhou-me demoradamente de soslaio e mandou dizer-me que precisava falar comigo sobre assuntos secretos. Fui conduzida ao seu palácio; informei-o sobre o meu nascimento; ele observou quanto estava abaixo da minha estirpe pertencer a um israelita. Foi proposto de sua parte a dom Issacar ceder-me a monsenhor. Dom Issacar, que é o banqueiro da corte e homem de crédito, nada quis fazer a respeito. O inquisidor ameaçou-o com um auto de fé. Finalmente o meu judeu, intimidado, fechou um negócio pelo qual a casa e eu pertenceríamos a ambos em comum; que o judeu teria para ele as segundas-feiras, as quartas e o dia do sabá. E que o inquisidor teria os outros dias da semana. Há seis meses que essa convenção se mantém. Não foi sem querelas; pois muitas vezes ficou indeciso se a noite do sábado para o domingo pertencia à antiga ou à nova lei.1 Quanto a mim, resisti até agora a ambas, e creio que é por essa razão que sempre fui amada.
“Enfim, para afastar o flagelo dos terremotos, e para intimidar dom Issacar, aprouve ao senhor inquisidor celebrar um auto de fé. Ele fez-me a honra de convidar-me para assistir. Fiquei muito bem colocada; foram servidos refrescos às senhoras entre a missa e a execução. Fui, na verdade, tomada de horror ao ver queimar aqueles dois judeus e aquele honesto biscainho que havia desposado a sua comadre; mas qual não foi a minha surpresa, o meu espanto, minha perturbação, quando vi, dentro de um sambenito e debaixo de uma mitra, uma figura que parecia ser a de Pangloss! Esfreguei os olhos, olhei atentamente, vi enforcarem-no; caí desfalecida. Mal recuperei os sentidos, vi o senhor despojado, todo nu: foi o cúmulo do horror, da consternação, da dor, do desespero. Dir-lhe-ei com verdade que sua pele é ainda mais branca e de um encarnado mais perfeito que a do meu capitão dos búlgaros. Essa visão redobrou todos os sentimentos que me acabrunhavam, que me devoravam. Bradei, quis dizer: ‘Parem, bárbaros!’, mas faltou-me a voz, e os meus brados teriam sido inúteis. Quando o senhor foi bem surrado: ‘Como pode acontecer’, dizia eu, ‘que o amável Cândido e o sábio Pangloss se encontrem em Lisboa, um para receber cem chibatadas e o outro para ser enforcado por ordem do senhor inquisidor de quem sou a bem-amada? Pangloss então me enganou muito cruelmente quando me disse que tudo vai pelo melhor do mundo’.
“Agitada, desorientada, ora fora de mim, ora prestes a morrer de fraqueza, eu estava com a cabeça plena do massacre de meu pai, de minha mãe, de meu irmão, da insolência do meu feio soldado búlgaro, da facada que ele me deu, da minha servidão, do meu serviço de cozinheira, do meu capitão búlgaro, do meu feio dom Issacar, do meu abominável inquisidor, do enforcamento do doutor Pangloss, daquele grande miserere2 em falso bordão durante o qual vos espancavam e principalmente do beijo que eu vos dera atrás de um biombo, no dia em que tinha visto o senhor pela última vez. Louvei a Deus, que o trazia de volta para mim por tantas provações. Recomendei à minha velha que cuidasse de vós e que trouxesse o senhor aqui logo que pudesse. Ela executou bem o meu pedido; experimentei o prazer inestimável de revê-lo, de ouvi-lo, de falar-lhe. Deveis estar com uma fome devoradora; eu estou com muito apetite; comecemos a jantar.”
Eis que se põem ambos à mesa; e depois do jantar, voltam para o belo sofá de que já se falou; estavam ali quando o senhor dom Issacar, um dos donos da casa, chegou. Era dia de sábado. Ele vinha desfrutar de seus direitos e explicar o seu terno amor.
Voltaire, "Cândido ou o Otimismo"
Ela retomou, assim, o fio de sua história: “Um capitão búlgaro entrou, viu-me toda ensanguentada, e o soldado não se perturbava. O capitão encolerizou-se pelo pouco respeito que lhe testemunhava aquele bruto e o matou sobre o meu corpo. Em seguida, mandou fazer-me curativos e levou-me como prisioneira de guerra para o seu quartel. Eu lavava as poucas camisas que ele tinha, cozinhava para ele; ele achava-me muito bonita, há que confessar; e eu não vou negar que ele tinha um belo porte e a pele branca e suave; aliás, pouco espírito, pouca filosofia: bem se via que não fora educado pelo doutor Pangloss. Ao cabo de três meses, tendo perdido todo o dinheiro e estando enjoado de mim, vendeu-me a um judeu chamado Issacar, que traficava na Holanda e em Portugal, e que gostava apaixonadamente de mulheres. Esse judeu apegou-se muito à minha pessoa, mas não podia triunfar sobre ela; resisti melhor a ele do que ao soldado búlgaro. Uma pessoa de honra pode ser violada uma vez, mas a sua virtude fortifica-se com isso. O judeu, para me amansar, trouxe-me para esta casa de campo que estais vendo. Eu tinha acreditado até então que não havia na terra nada tão belo quanto o castelo de Thunder-ten-tronckh; fui desiludida.
“O grande inquisidor viu-me um dia na missa, olhou-me demoradamente de soslaio e mandou dizer-me que precisava falar comigo sobre assuntos secretos. Fui conduzida ao seu palácio; informei-o sobre o meu nascimento; ele observou quanto estava abaixo da minha estirpe pertencer a um israelita. Foi proposto de sua parte a dom Issacar ceder-me a monsenhor. Dom Issacar, que é o banqueiro da corte e homem de crédito, nada quis fazer a respeito. O inquisidor ameaçou-o com um auto de fé. Finalmente o meu judeu, intimidado, fechou um negócio pelo qual a casa e eu pertenceríamos a ambos em comum; que o judeu teria para ele as segundas-feiras, as quartas e o dia do sabá. E que o inquisidor teria os outros dias da semana. Há seis meses que essa convenção se mantém. Não foi sem querelas; pois muitas vezes ficou indeciso se a noite do sábado para o domingo pertencia à antiga ou à nova lei.1 Quanto a mim, resisti até agora a ambas, e creio que é por essa razão que sempre fui amada.
“Enfim, para afastar o flagelo dos terremotos, e para intimidar dom Issacar, aprouve ao senhor inquisidor celebrar um auto de fé. Ele fez-me a honra de convidar-me para assistir. Fiquei muito bem colocada; foram servidos refrescos às senhoras entre a missa e a execução. Fui, na verdade, tomada de horror ao ver queimar aqueles dois judeus e aquele honesto biscainho que havia desposado a sua comadre; mas qual não foi a minha surpresa, o meu espanto, minha perturbação, quando vi, dentro de um sambenito e debaixo de uma mitra, uma figura que parecia ser a de Pangloss! Esfreguei os olhos, olhei atentamente, vi enforcarem-no; caí desfalecida. Mal recuperei os sentidos, vi o senhor despojado, todo nu: foi o cúmulo do horror, da consternação, da dor, do desespero. Dir-lhe-ei com verdade que sua pele é ainda mais branca e de um encarnado mais perfeito que a do meu capitão dos búlgaros. Essa visão redobrou todos os sentimentos que me acabrunhavam, que me devoravam. Bradei, quis dizer: ‘Parem, bárbaros!’, mas faltou-me a voz, e os meus brados teriam sido inúteis. Quando o senhor foi bem surrado: ‘Como pode acontecer’, dizia eu, ‘que o amável Cândido e o sábio Pangloss se encontrem em Lisboa, um para receber cem chibatadas e o outro para ser enforcado por ordem do senhor inquisidor de quem sou a bem-amada? Pangloss então me enganou muito cruelmente quando me disse que tudo vai pelo melhor do mundo’.
“Agitada, desorientada, ora fora de mim, ora prestes a morrer de fraqueza, eu estava com a cabeça plena do massacre de meu pai, de minha mãe, de meu irmão, da insolência do meu feio soldado búlgaro, da facada que ele me deu, da minha servidão, do meu serviço de cozinheira, do meu capitão búlgaro, do meu feio dom Issacar, do meu abominável inquisidor, do enforcamento do doutor Pangloss, daquele grande miserere2 em falso bordão durante o qual vos espancavam e principalmente do beijo que eu vos dera atrás de um biombo, no dia em que tinha visto o senhor pela última vez. Louvei a Deus, que o trazia de volta para mim por tantas provações. Recomendei à minha velha que cuidasse de vós e que trouxesse o senhor aqui logo que pudesse. Ela executou bem o meu pedido; experimentei o prazer inestimável de revê-lo, de ouvi-lo, de falar-lhe. Deveis estar com uma fome devoradora; eu estou com muito apetite; comecemos a jantar.”
Eis que se põem ambos à mesa; e depois do jantar, voltam para o belo sofá de que já se falou; estavam ali quando o senhor dom Issacar, um dos donos da casa, chegou. Era dia de sábado. Ele vinha desfrutar de seus direitos e explicar o seu terno amor.
Voltaire, "Cândido ou o Otimismo"
Gorjeios
Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"
Luto pela família Silva
A assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem está morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.
João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos os imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à Silva.
João da Silva – nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue-azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telha de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.
Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.
Rubem Braga
João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos os imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à Silva.
João da Silva – nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue-azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telha de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.
Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.
Rubem Braga
Passos apressados
Durante dois anos, passei pelo mesmo homem todas as manhãs sem nunca lhe ter visto a cara. Dormia deitado de lado, debaixo da pala do prédio em frente à estação de Entrecampos, embrulhado num saco-cama azul que, com a chuva e o pó dos passeios, se tornou primeiro cinzento e depois de uma cor sem nome. Eu é que tinha deixado de olhar.
No início, reparava em tudo: nos sapatos alinhados junto à cabeça, como se mesmo na rua fosse importante manter alguma ordem; no saco de supermercado que mantinha sempre junto do corpo, perguntando-me muitas vezes o que guardaria ali com tanto cuidado; no hábito de acordar antes das oito, enrolando a cama e desaparecendo antes de a cidade acordar por completo.
Dias houve em que cheguei a pensar em lhe levar café. Não o fiz. Outros em que pensei em lhe perguntar o nome. Também não perguntei. A vida encarregou-se do resto. Ao fim de algumas semanas, o homem passou a fazer parte daquele percurso como a banca dos jornais, o semáforo que demorava demasiado a abrir ou a árvore que todos os outonos entupia o passeio de folhas. O cérebro tem esta habilidade extraordinária de apagar aquilo que não queremos ver sem precisar de o fazer desaparecer.
Na terça-feira em que não o encontrei, dei conta imediatamente. A pala do prédio estava vazia, o chão, mais gasto no lugar onde o saco-cama costumava ficar. Desejei que tivesse encontrado abrigo seguro ou que alguém da Santa Casa o tivesse finalmente convencido a sair dali. Talvez simplesmente se tivesse mudado para outra rua. Agarrei-me ao que desejara, e esse possível final feliz descansou-me durante alguns segundos. O sinal ficou verde, e eu atravessei a passadeira e fui trabalhar.
No dia seguinte, continuava sem aparecer. No seguinte, também. Na sexta-feira, dei por mim a abrandar o passo e a procurar sinais: o saco, os sapatos, o saco-cama. Nada. Senti uma inquietação absurda. Não sabia o nome daquele homem, nunca lhe ouvira a voz, mas a sua ausência criara um buraco na paisagem semelhante ao quadro que se retira de uma parede e só então percebemos que passávamos a vida a olhar para ele.
Foi o senhor da banca de jornais quem me esclareceu.
– Levaram-no para o hospital na segunda à noite. Estava com uma pneumonia valente.
Disse “levaram-no”, como se existisse uma entidade invisível encarregada de recolher pessoas quando deixamos de conseguir ignorá-las.
– Sabe para que hospital?
O homem olhou para mim com surpresa. Quem sabe se por eu usar saltos altos e um casaco caro. Ou porque, durante todo aquele tempo, nunca me tivesse visto parar.
– Santa Maria, acho eu. Chama-se Manuel.
Manuel. Repeti o nome em silêncio, como se tivesse acabado de descobrir uma informação íntima. Durante dois anos, passara por uma pessoa e apenas vira uma condição. Um sem-abrigo. A palavra servira-me de cortina: explicava tudo sem me obrigar a conhecer nada.
Nessa tarde, saí mais cedo do escritório e fui a Santa Maria. No caminho, comprei uma revista, uma garrafa de água e um pacote de bolachas. Só depois percebi a estupidez do gesto. Não sabia de que revistas Manuel gostava, se podia beber água, se tinha dentes para comer bolachas. Levei-lhe aquilo que a minha consciência conseguira comprar em dez minutos.
Encontrei-o numa enfermaria com seis camas. Parecia mais pequeno sem o saco-cama, mais velho sob a luz branca do hospital. Tinha o cabelo grisalho, a barba aparada por alguém e uma cânula de oxigénio presa ao nariz. Aproximei-me.
– Manuel?
Ele abriu os olhos.
– Desculpe incomodá-lo. Eu passo por si todos os dias.
Assim que disse a frase, tive vergonha: passar por alguém todos os dias não é uma relação, é apenas geografia. Ele observou-me com atenção e depois sorriu.
– Eu sei.
– Sabe?
– A senhora é a dos passos apressados. Às vezes, vem a falar ao telefone. À quinta-feira, costuma trazer flores.
Fiquei sem resposta. As flores eram para a receção do escritório. Nunca me ocorrera que ele reparasse.
– Posso fazer-lhe uma pergunta? – indagou.
Assenti.
– Porque veio hoje?
Olhei para o saco que tinha nas mãos.
– Porque desapareceu.
Manuel abanou a cabeça com um sorriso quase impercetível.
– Não. Eu já tinha desaparecido para si muito antes.
Não soube o que dizer. Ficámos algum tempo em silêncio.
– Sabe uma coisa curiosa? – perguntou ele.
Encolhi os ombros.
– As pessoas acham que quem vive na rua passa o dia a pedir.
No início, reparava em tudo: nos sapatos alinhados junto à cabeça, como se mesmo na rua fosse importante manter alguma ordem; no saco de supermercado que mantinha sempre junto do corpo, perguntando-me muitas vezes o que guardaria ali com tanto cuidado; no hábito de acordar antes das oito, enrolando a cama e desaparecendo antes de a cidade acordar por completo.
Dias houve em que cheguei a pensar em lhe levar café. Não o fiz. Outros em que pensei em lhe perguntar o nome. Também não perguntei. A vida encarregou-se do resto. Ao fim de algumas semanas, o homem passou a fazer parte daquele percurso como a banca dos jornais, o semáforo que demorava demasiado a abrir ou a árvore que todos os outonos entupia o passeio de folhas. O cérebro tem esta habilidade extraordinária de apagar aquilo que não queremos ver sem precisar de o fazer desaparecer.
Na terça-feira em que não o encontrei, dei conta imediatamente. A pala do prédio estava vazia, o chão, mais gasto no lugar onde o saco-cama costumava ficar. Desejei que tivesse encontrado abrigo seguro ou que alguém da Santa Casa o tivesse finalmente convencido a sair dali. Talvez simplesmente se tivesse mudado para outra rua. Agarrei-me ao que desejara, e esse possível final feliz descansou-me durante alguns segundos. O sinal ficou verde, e eu atravessei a passadeira e fui trabalhar.
No dia seguinte, continuava sem aparecer. No seguinte, também. Na sexta-feira, dei por mim a abrandar o passo e a procurar sinais: o saco, os sapatos, o saco-cama. Nada. Senti uma inquietação absurda. Não sabia o nome daquele homem, nunca lhe ouvira a voz, mas a sua ausência criara um buraco na paisagem semelhante ao quadro que se retira de uma parede e só então percebemos que passávamos a vida a olhar para ele.
Foi o senhor da banca de jornais quem me esclareceu.
– Levaram-no para o hospital na segunda à noite. Estava com uma pneumonia valente.
Disse “levaram-no”, como se existisse uma entidade invisível encarregada de recolher pessoas quando deixamos de conseguir ignorá-las.
– Sabe para que hospital?
O homem olhou para mim com surpresa. Quem sabe se por eu usar saltos altos e um casaco caro. Ou porque, durante todo aquele tempo, nunca me tivesse visto parar.
– Santa Maria, acho eu. Chama-se Manuel.
Manuel. Repeti o nome em silêncio, como se tivesse acabado de descobrir uma informação íntima. Durante dois anos, passara por uma pessoa e apenas vira uma condição. Um sem-abrigo. A palavra servira-me de cortina: explicava tudo sem me obrigar a conhecer nada.
Nessa tarde, saí mais cedo do escritório e fui a Santa Maria. No caminho, comprei uma revista, uma garrafa de água e um pacote de bolachas. Só depois percebi a estupidez do gesto. Não sabia de que revistas Manuel gostava, se podia beber água, se tinha dentes para comer bolachas. Levei-lhe aquilo que a minha consciência conseguira comprar em dez minutos.
Encontrei-o numa enfermaria com seis camas. Parecia mais pequeno sem o saco-cama, mais velho sob a luz branca do hospital. Tinha o cabelo grisalho, a barba aparada por alguém e uma cânula de oxigénio presa ao nariz. Aproximei-me.
– Manuel?
Ele abriu os olhos.
– Desculpe incomodá-lo. Eu passo por si todos os dias.
Assim que disse a frase, tive vergonha: passar por alguém todos os dias não é uma relação, é apenas geografia. Ele observou-me com atenção e depois sorriu.
– Eu sei.
– Sabe?
– A senhora é a dos passos apressados. Às vezes, vem a falar ao telefone. À quinta-feira, costuma trazer flores.
Fiquei sem resposta. As flores eram para a receção do escritório. Nunca me ocorrera que ele reparasse.
– Posso fazer-lhe uma pergunta? – indagou.
Assenti.
– Porque veio hoje?
Olhei para o saco que tinha nas mãos.
– Porque desapareceu.
Manuel abanou a cabeça com um sorriso quase impercetível.
– Não. Eu já tinha desaparecido para si muito antes.
Não soube o que dizer. Ficámos algum tempo em silêncio.
– Sabe uma coisa curiosa? – perguntou ele.
Encolhi os ombros.
– As pessoas acham que quem vive na rua passa o dia a pedir.
Fez uma pausa.
– Não é verdade. Passamos o dia a olhar. Sabemos quem vai sempre atrasado, quem canta baixinho quando pensa que ninguém o ouve, quem leva flores à quinta-feira… A senhora reparou em mim, mas eu também reparei em si.
Nunca me ocorrera que, durante dois anos, também eu pudesse ter sido observada. Baixei os olhos para o saco de plástico: a revista, as bolachas, a garrafa de água. Tudo me pareceu ridiculamente insuficiente. Há gestos que fazemos mais para sossegar a consciência do que para aliviar o sofrimento dos outros. Ficámos os dois em silêncio durante alguns segundos. Pela primeira vez desde que entrara naquela enfermaria, deixei de procurar uma coisa inteligente para dizer. Olhei de novo para o que trazia nas mãos.
– Achei que talvez precisasse de alguma coisa.
Manuel olhou para o saco e sorriu.
– Preciso. – Hesitou. – Preciso que me diga se hoje está sol.
Aproximei-me da janela. O céu de Lisboa estava limpo, quase indecente de tão azul.
– Está.
– Ainda bem. Daqui não consigo ver.
Puxei uma cadeira e sentei-me. Manuel contou-me que fora tipógrafo, tinha uma filha em França com quem já não falava e que guardava um livro dentro do saco de plástico, Explicação das Árvores e de Outros Animais, tantas vezes lido que já sabia poemas inteiros de cor. Perguntou-me o nome. Eu disse-lho.
Quando saí do hospital, o dia começava a escurecer. Por instinto, levantei os olhos para o céu e procurei o Sol, embora soubesse que ainda estava lá. Foi então que percebi: os eclipses mais perigosos não acontecem quando a Lua encobre o Sol. Acontecem quando alguma coisa se atravessa entre nós e os outros – o medo, a pressa, o incómodo – e nos convence de que deixaram de existir.
Na segunda-feira seguinte, a pala do prédio continuava vazia. Pela primeira vez em dois anos, olhei para todas as pessoas que dormiam ao longo da avenida. Perguntei-me quantas alinhariam os sapatos antes de adormecer, quantas guardariam um livro dentro de um saco de supermercado, quantas teriam uma filha à espera noutro país. Manuel devolvera-me o olhar.
Nunca me ocorrera que, durante dois anos, também eu pudesse ter sido observada. Baixei os olhos para o saco de plástico: a revista, as bolachas, a garrafa de água. Tudo me pareceu ridiculamente insuficiente. Há gestos que fazemos mais para sossegar a consciência do que para aliviar o sofrimento dos outros. Ficámos os dois em silêncio durante alguns segundos. Pela primeira vez desde que entrara naquela enfermaria, deixei de procurar uma coisa inteligente para dizer. Olhei de novo para o que trazia nas mãos.
– Achei que talvez precisasse de alguma coisa.
Manuel olhou para o saco e sorriu.
– Preciso. – Hesitou. – Preciso que me diga se hoje está sol.
Aproximei-me da janela. O céu de Lisboa estava limpo, quase indecente de tão azul.
– Está.
– Ainda bem. Daqui não consigo ver.
Puxei uma cadeira e sentei-me. Manuel contou-me que fora tipógrafo, tinha uma filha em França com quem já não falava e que guardava um livro dentro do saco de plástico, Explicação das Árvores e de Outros Animais, tantas vezes lido que já sabia poemas inteiros de cor. Perguntou-me o nome. Eu disse-lho.
Quando saí do hospital, o dia começava a escurecer. Por instinto, levantei os olhos para o céu e procurei o Sol, embora soubesse que ainda estava lá. Foi então que percebi: os eclipses mais perigosos não acontecem quando a Lua encobre o Sol. Acontecem quando alguma coisa se atravessa entre nós e os outros – o medo, a pressa, o incómodo – e nos convence de que deixaram de existir.
Na segunda-feira seguinte, a pala do prédio continuava vazia. Pela primeira vez em dois anos, olhei para todas as pessoas que dormiam ao longo da avenida. Perguntei-me quantas alinhariam os sapatos antes de adormecer, quantas guardariam um livro dentro de um saco de supermercado, quantas teriam uma filha à espera noutro país. Manuel devolvera-me o olhar.
quinta-feira, agosto 6
O vento e suas maneiras
A mãe dizia:
– Pra dentro menino! É vem o vento levado levando cisco!
Quando feria o olho com um cisco, causava aborrecimento.
No verão abafado refrescava. Se fosse no tempo de veraneio, na cidade vizinha, de praias lindíssimas, tinha o gosto de sal. Rolava com as ondas, que rugiam como se fossem leões de jubas brancas e luminosas. Zangado batia, voltava, batia. Reinventava-se na areia como colares de espuma. Rendilhado murmurejava, cochichava com peixinhos minúsculos no raso. Ao largo fazia das vagas tirânicos vagões, incríveis vagalhões, tufão. Emborcava a embarcação. Mostrava-se indiferente aos gritos lancinantes dos náufragos pedindo por socorro. Era impiedoso, esbagaçava as ondas no rochedo.
Mágico, mais ligeiro do que tudo em movimento veloz, o único que sem pernas ia até o fim do mundo, chegando primeiro. Esmurrava o rio na enchente, causando estragos nas casas ribeirinhas e na avenida principal onde estava instalado um comercinho ativo. No mar tomava altura inimaginável.
Travesso tirava assovio na greta da porta e da janela. Interrompia o sono das pessoas quando dormiam na cidade pequena, após mais um dia de trabalho estafante, fazendo barulho nas telhas de alumínio no telhado.
Salpicado de verdes e azuis rolava no mar, pra lá, pra cá. Dava uma sensação agradável quando soprava no campo com o gosto de terra molhada. Morno, gostava de fazer carícia no rosto da árvore frutífera, folhas como cílios pestanejavam.
Tocava uma música suave nas folhas da palmeira, farfalhava no quintal durante a primavera cheia de passarinhos saltitantes, voos e gorjeios.
No inverno esvoaçava toalhas de névoa pelas ruas vazias da cidade, penetrada de frieza, os ares gelatinosos, tendo aspecto fantasmal. Em trêmulos movimentos, seus espectros de névoa vagavam por todos os cantos.
Vento, ventania, vendaval. Levava tudo que encontrava pela frente. Derrubava árvore, poste, ponte. Mudava a casa de um lugar para outro. Emborcava o caminhão, rompia a ponte, fazia rachaduras nas paredes do prédio. A lona do circo fora jogada longe, o sobrado desmoronou-se, ficou reduzido a escombros, não perdoou nem o nome do dono, Comendador Ataulfo Seabra, em grandes letras de bronze gravadas na fachada. Botou abaixo o muro que cercava o estádio de futebol, as torres de iluminação do campo ficaram aos pedaços.
Quando era leve, chegava de mansinho para soprar na florzinha da plantinha sozinha no brejo.
No velório amolava sua lâmina com os mudos gemidos da mulher, inconformada com a perda irreparável do marido. Dava frio na barriga dos que estavam presentes na vigília. A expressão do rosto assombrado, os olhos sem compreender o que estava acontecendo, atemorizados com a presença daquele vento, frio, sem cor, pousado no morto.
Era este o vento que metia mais medo, imóvel, surdo, cego, mudo, habitava no funeral das horas.
– Pra dentro menino! É vem o vento levado levando cisco!
Quando feria o olho com um cisco, causava aborrecimento.
No verão abafado refrescava. Se fosse no tempo de veraneio, na cidade vizinha, de praias lindíssimas, tinha o gosto de sal. Rolava com as ondas, que rugiam como se fossem leões de jubas brancas e luminosas. Zangado batia, voltava, batia. Reinventava-se na areia como colares de espuma. Rendilhado murmurejava, cochichava com peixinhos minúsculos no raso. Ao largo fazia das vagas tirânicos vagões, incríveis vagalhões, tufão. Emborcava a embarcação. Mostrava-se indiferente aos gritos lancinantes dos náufragos pedindo por socorro. Era impiedoso, esbagaçava as ondas no rochedo.
Mágico, mais ligeiro do que tudo em movimento veloz, o único que sem pernas ia até o fim do mundo, chegando primeiro. Esmurrava o rio na enchente, causando estragos nas casas ribeirinhas e na avenida principal onde estava instalado um comercinho ativo. No mar tomava altura inimaginável.
Travesso tirava assovio na greta da porta e da janela. Interrompia o sono das pessoas quando dormiam na cidade pequena, após mais um dia de trabalho estafante, fazendo barulho nas telhas de alumínio no telhado.
Salpicado de verdes e azuis rolava no mar, pra lá, pra cá. Dava uma sensação agradável quando soprava no campo com o gosto de terra molhada. Morno, gostava de fazer carícia no rosto da árvore frutífera, folhas como cílios pestanejavam.
Tocava uma música suave nas folhas da palmeira, farfalhava no quintal durante a primavera cheia de passarinhos saltitantes, voos e gorjeios.
No inverno esvoaçava toalhas de névoa pelas ruas vazias da cidade, penetrada de frieza, os ares gelatinosos, tendo aspecto fantasmal. Em trêmulos movimentos, seus espectros de névoa vagavam por todos os cantos.
Vento, ventania, vendaval. Levava tudo que encontrava pela frente. Derrubava árvore, poste, ponte. Mudava a casa de um lugar para outro. Emborcava o caminhão, rompia a ponte, fazia rachaduras nas paredes do prédio. A lona do circo fora jogada longe, o sobrado desmoronou-se, ficou reduzido a escombros, não perdoou nem o nome do dono, Comendador Ataulfo Seabra, em grandes letras de bronze gravadas na fachada. Botou abaixo o muro que cercava o estádio de futebol, as torres de iluminação do campo ficaram aos pedaços.
Quando era leve, chegava de mansinho para soprar na florzinha da plantinha sozinha no brejo.
No velório amolava sua lâmina com os mudos gemidos da mulher, inconformada com a perda irreparável do marido. Dava frio na barriga dos que estavam presentes na vigília. A expressão do rosto assombrado, os olhos sem compreender o que estava acontecendo, atemorizados com a presença daquele vento, frio, sem cor, pousado no morto.
Era este o vento que metia mais medo, imóvel, surdo, cego, mudo, habitava no funeral das horas.
Duas almas
Uma mulher com duas almas assombrava nossa rua. Uma alma de Deus a serviço de uma alma do demônio. Uma fada a serviço de uma bruxa. A fada possuía seu corpo, a bruxa, seu coração. Ela vestia seu estreito corpo com tecidos mansos, estampados de miosótis ou bolinhas de um azul calmo sobre seda clara. Seu cabelo, na altura da nuca, era branco misturado ao cinza que cobre as brasas. Andava com um passinho leve — pardal ciscando a terra. Seu sorriso, bastava reparar, era suspenso como o das hienas. O coração, contudo, um imenso caldeirão onde borbulhavam a inveja, a mágoa, o desamor. Diziam que seu marido partiu atrás de menos martírios. E a todos que a fada seduzia a bruxa servia sua poção amarga. Seu cachorro branco, tímido, portava uma doença de pele. Não sei se ele almejava o céu ou o inferno. O cão, ao olhar, suplicava carinho, mas não se deixava acariciar. Teria o cachorro também duas almas? A madrasta, arreada sobre o muro, nego ciava tomate com a mulher de duas almas. Eu suspeitava.
A cidade acordava lerda, como se fosse possível escolher os sonhos. O sino da igreja serrava as ruas, becos, praças. Os habitantes sentiam-se prenhes de Deus e perdoados dos pecados ainda por cometerem. O cheiro do café conciliava as almas e a vida, provisoriamente. Ao tomarem das palavras, os lamentos rabiscavam o povoado como se impedidos de escolher outro destino.
Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"
A cidade acordava lerda, como se fosse possível escolher os sonhos. O sino da igreja serrava as ruas, becos, praças. Os habitantes sentiam-se prenhes de Deus e perdoados dos pecados ainda por cometerem. O cheiro do café conciliava as almas e a vida, provisoriamente. Ao tomarem das palavras, os lamentos rabiscavam o povoado como se impedidos de escolher outro destino.
Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"
Esta é a madrugada que eu esperava ...
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Náusea de viajar
A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. Avida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. Avida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Um diálogo no monte Pentélico
Aconteceu, e não há muitas semanas, que um grupo de turistas ingleses desceu a encosta do Pentélico. Eles porém teriam sido os primeiros a retificar esta frase e a assinalar o quanto de inexatidão e injustiça se continha nessa descrição de seu grupo. Porque chamar um homem de turista, quando o encontramos no exterior, é definir não apenas suas circunstâncias, mas também sua alma; e suas almas inglesas, teriam dito — mas os burros assim tropeçam nas pedras —, não estavam sujeitas a limitações desse tipo. Os alemães são turistas e os franceses são turistas, mas os ingleses são gregos. Tal era o sentido da conversa entre eles, e devemos ouvir suas palavras, que nisso, de fato, eram de muito bom senso. O monte Pentélico, como sabemos nós que lemos o Baedeker, traz porém em seu flanco a nobre cicatriz dos ferimentos sofridos nas mãos dos canteiros gregos que o talhavam, recebendo de Fídias um sorriso, quando não um insulto, como recompensa por seu trabalho. Assim, para fazer justiça ao monte, deve-se meditar sobre vários temas à parte e combiná-los da melhor maneira possível. Não se deve tomá-lo apenas por aquele contorno que passava por tantas janelas gregas — Platão erguia os olhos da página, nas manhãs ensolaradas —, mas também como oficina de trabalho e local de moradia onde inumeráveis escravos iam perder a vida. Para o grupo, quando ao meio-dia eles desmontaram, foi salutar ter de cambalear penosamente por entre os blocos de mármore em bruto que, por alguma razão, tinham sido esquecidos ou deixados de lado quando as carretas desciam para Atenas. Foi salutar porque na Grécia pode-se esquecer que as estátuas sejam feitas de mármore; foi benéfico ver como se opõe o mármore, sólido e fragoso e intratável, ao cinzel do escultor. “Assim eram os gregos!” Quem ouvisse tal grito poderia supor que cada um dos falantes tinha alguma conquista pessoal a celebrar, sendo ele mesmo o generoso vencedor da pedra. Que outrora a forçara, com suas próprias mãos, a entregar seus Hermes, seus Apolos. Mas então os burros, cujos ancestrais tinham sido estabulados na gruta, deram fim à meditação e os cavaleiros, seis em fila, foram descendo gravemente pelo flanco do monte. Tinham visto Maratona e Salamina, e Atenas, se não houvesse uma nuvem que a acariciava, também teria sido deles; de alguma forma, sentiam-se municiados, de ambos os lados, por presenças tremendas. E, para mostrarem-se devidamente inspirados, não só repartiram sua garrafa de vinho com o séquito de jovens gregos do campo, imundos, mas até condescenderam em dirigir-se a eles na própria língua local, como a falaria Platão, se tivesse aprendido grego em Harrow. Que outros decidam se foram justos ou não; mas o fato de palavras gregas faladas em solo grego serem mal compreendidas por gregos destrói de um só golpe toda a população da Grécia, homens, mulheres e crianças. Uma palavra apropriada, em face da crise, lhes veio aos lábios; uma palavra que Sófocles poderia ter dito e que Platão teria sancionado; eles eram “bárbaros”. Denunciá-los assim era não só desincumbir-se de um dever em relação aos mortos, mas também proclamar os legítimos herdeiros, e as pedreiras de mármore do Pentélico, por alguns minutos, estrondearam a notícia a todos que pudessem dormir debaixo dos seus calhaus ou ocupar as cavernas. O povo espúrio foi condenado; a raça escura e tagarela, de língua solta e instável de intenções, que por tanto tempo havia parodiado a fala e surrupiado o nome dos grandes, foi pega e condenada. Obediente ao grito do arrieiro ao descer aos locais de sua guarda — uma mula branca puxava a fila — com a boa vontade de alguém que livra as próprias costas a cada golpe que aplica sobre costas alheias. Pois o inglês, quando gritou, julgou que era melhor ir mais rápido. Não poderia ter-se mostrado mais feliz como crítico; o momento possuía sua própria palavra; poeta algum faria mais do que isso; e a um prosador seria fácil ter feito menos. Assim, com aquele simples grito, os ingleses saíram aos tropeções de seu clímax para descer a montanha em algazarra, tão despreocupados e jucundos como se a terra fosse deles. Mas a descida do Pentélico a certa altura se aplaina numa chapada verde onde a natureza parece soerguer-se um momento antes de mergulhar novamente encosta abaixo. Há grandes plátanos de mãos benevolentes abertas, e há cômodas moitinhas, dispostas em estrita ordem caseira; há um riacho do qual se pode pensar que cante loas e as delícias do vinho e da canção. Poder-se-ia ouvir a voz de Teócrito, na queixa que fazia nas pedras, e alguns dos ingleses a ouviram mesmo, embora o texto, nas prateleiras em casa, andasse bem empoeirado. Aqui, seja como for, a natureza e o cantar do espírito clássico impulsionaram os seis amigos a desmontar e descansar um pouco. Seus guias se recolheram, mas não tão longe que não pudessem ser vistos em seus trejeitos de bárbaros, pulando e cantando, puxando-se uns aos outros pela manga e falando das uvas já maduras que pendiam nos campos. Mas se há coisa que sabemos dos gregos é que eram gente tranquila, muito expressiva ao gesticular e falar, e aqueles, ao sentarem-se à beira do riacho, sob um plátano, dispuseram-se como um pintor de vasos teria certamente gostado de retratá-los: o rosto escuro do velho, quando seu queixo caiu sobre o cajado, virou-se para cima do jovem estendido no gramado a seus pés. Mulheres sérias, caladas, passavam de roupa branca por trás, equilibrando ânforas nos ombros. Nenhum especialista da Europa poderia recompor esse quadro, nem convencer nossos amigos de que algum teria mais direito de construir tais visões do que eles mesmos. Estenderam-se pois na sombra, e não foi culpa deles, nem dos antigos, se seu discurso não esteve à altura, na concepção pelo menos, de seu nobre modelo. Mas como, em se tratando de diálogos, escrever é ainda mais difícil do que falar, como é duvidoso se diálogos escritos foram jamais falados ou se diálogos falados jamais foram escritos, trataremos de salvar tão-somente fragmentos concernentes à nossa história. Não deixaremos de dizer todavia que a conversa entre eles era a melhor conversa do mundo.
Virginia Woolf
Virginia Woolf
terça-feira, agosto 4
Letra para um hino
É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja para fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja para fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem ser a olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.
É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.
É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
A mulher madura
O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o voo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta joias. As joias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
Affonso Romano de Sant’Anna
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o voo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta joias. As joias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
Affonso Romano de Sant’Anna
Ilhas de Minas, no voo das palavras
Você conhece a Ilha da Merenda? Nem eu. Mas gosto de saber que Minas Gerais tem uma Ilha da Merenda. Onde fica? Isso eu posso dizer a você, fica no rio São Francisco, entre a foz do córrego do Frade e a barra do rio Abaeté. Ou não fica mais, e acabou porque fizeram barragem, esse negócio de mexer com os rios para produzir energia, essa violentação da natureza que dizem ser necessária para sustentar o homem? Bem, não me meto nessas funduras, nem vou sair do meu canto para espiar se ainda tem por lá a Ilha da Merenda. Quero só curtir com você esse nome, essa ideia de ilha aonde a gente chega só para merendar, então a gente merenda — de preferência sobre a relva, como no quadro de Manet ou no quadro de Cézanne, e depois volta, ninguém mora na Ilha da Merenda, não deve morar. Essa ilha é uma pausa, as aves de lá, as árvores de lá sabem disso, não se importam muito com as visitas, ninguém vai lhes fazer mal, tudo é calma e fugacidade no intervalo.
Você pensa que minha terra, não sendo marítima, tem um punhadinho à-toa de ilhas? Está muito enganada. Nós temos a Ilha dos Bugres, que não tem bugres; teve. É ali acima da barra do rio Correntes de Canoas. Se ao menos deixassem os bugres ficarem por lá, longe de posseiros, de aculturadores, de integracionistas! Não deixaram, mas também deste nome eu gosto, e no faz-de-conta boto ali uma assembleia altaneira de índios, resistente à máquina protecionista e à cobiça dos invasores, tudo por conta própria, mantendo orgulhosa a derradeira república nativa do Brasil… Você vai pensar que estou meio pinel. Estou não, estou é vivendo a magia dos nomes de ilhas.
Agora, você já viu coisa mais mineira, caligraficamente sutil e bonita como geografia, do que a Ilha da Cabeça do M, junto ao cachoeirão do M, um M líquido, bordado em espuma cadente, inicial-resumo do santo nome de Minas? Do vértice do M cai a espumarada, a envolver de nuvens essa maior ilha de Minas, que é a própria Minas, tida como constelação de montanhas, mas por isso mesmo ilhada, alta ilha, ilha alterosa, a tamanha altura do nível do mar, ilha suspensa.
Ensandeço? Não. São as ilhas que subvertem a razão natural, interrompendo a continuidade do mundo. Elas se isolam, orgulhosas ou prudentes. Mas vamos adiante. Se estamos no rio Doce, cheguemos à ilha irônica do Talaveira, do maturrango, do mau cavaleiro, do bisonho no lidar com lavoura ou gado. Minas gosta de brincar com o imperfeito. E acha nomes engraçados para suas ilhas, como a da Pindaíba (ouço ainda a voz dos mais velhos: “Estou numa pindaíba danada”), tem a dos Casados e a das Marias; a do Periquito e a do Alferes, não sei se homenagem a Tiradentes ou alusiva a um dono qualquer de uniforme. Tem a dos Estados, a dos Pombos, a das Antas, a das Batatas e esta outra que faço questão de inventar uma história para ela: a Ilha Lucrécia, tão bórgia! Onde príncipes, cardeais, assassinos e outros figurantes, entre eles, uma turma ilustríssima de poetas e artistas, se dedicam às mais diversificadas aventuras em tomo dessa dama egrégia. Furo sensacionalíssimo de reportagem: Lucrécia, a magnífica, em Minas Gerais, numa ilha particular, tão particular que nela só pode ter acesso minha fantasia deste momento e você, se me der crédito e o prazer de acompanhar-me até lá…
Não, desisto de surpreender Lucrécia em sua ilha cativa. Minas é surrealista, concordo, mas sem exagero; conservo a justa medida das coisas, até no absurdo. Fiquemos por aqui, você e eu habitando em pensamento as ilhas que afloram em Minas, que enfloram Minas, essa ilha maior balançando no alto dos montes e serras…
Carlos Drummond de Andrade, "Boca de luar"
Você pensa que minha terra, não sendo marítima, tem um punhadinho à-toa de ilhas? Está muito enganada. Nós temos a Ilha dos Bugres, que não tem bugres; teve. É ali acima da barra do rio Correntes de Canoas. Se ao menos deixassem os bugres ficarem por lá, longe de posseiros, de aculturadores, de integracionistas! Não deixaram, mas também deste nome eu gosto, e no faz-de-conta boto ali uma assembleia altaneira de índios, resistente à máquina protecionista e à cobiça dos invasores, tudo por conta própria, mantendo orgulhosa a derradeira república nativa do Brasil… Você vai pensar que estou meio pinel. Estou não, estou é vivendo a magia dos nomes de ilhas.
Ah, a Ilha da Preguiça! O rio Doce, que é meu rio de nascença, sagrou-se mestre em ilhas assim, convidando ao devaneio. Esta aqui fica antes da barra do rio Esplendor, que na boca do povo se arredonda em Esplandor. Uma ilha destinada exclusivamente à preguiça, aos preguiçosos jogos de não fazer nada ou de fazer muito devagar, muito depois de depois de amanhã, uma ilha toda ócio, calme et volupté. As plantas não têm pressa de crescer; por isso crescem mais docemente, com viço mais tranquilo e também mais duradouro. Os animais dormem; se acordam é para tornar a dormir, dando ritmo ao sono. Até nas pedras há uma preguiça de reluzir ao sol, que as torna menos rígidas; são pedras que não fazem questão do estado mineral; estão à espera de se definir, sem afobação. É assim a Ilha da Preguiça, aonde um dia iremos nós dois, espreguiçar-nos de sociedade com tudo que cumpre lá seu destino indolente.
Agora, você já viu coisa mais mineira, caligraficamente sutil e bonita como geografia, do que a Ilha da Cabeça do M, junto ao cachoeirão do M, um M líquido, bordado em espuma cadente, inicial-resumo do santo nome de Minas? Do vértice do M cai a espumarada, a envolver de nuvens essa maior ilha de Minas, que é a própria Minas, tida como constelação de montanhas, mas por isso mesmo ilhada, alta ilha, ilha alterosa, a tamanha altura do nível do mar, ilha suspensa.
Ensandeço? Não. São as ilhas que subvertem a razão natural, interrompendo a continuidade do mundo. Elas se isolam, orgulhosas ou prudentes. Mas vamos adiante. Se estamos no rio Doce, cheguemos à ilha irônica do Talaveira, do maturrango, do mau cavaleiro, do bisonho no lidar com lavoura ou gado. Minas gosta de brincar com o imperfeito. E acha nomes engraçados para suas ilhas, como a da Pindaíba (ouço ainda a voz dos mais velhos: “Estou numa pindaíba danada”), tem a dos Casados e a das Marias; a do Periquito e a do Alferes, não sei se homenagem a Tiradentes ou alusiva a um dono qualquer de uniforme. Tem a dos Estados, a dos Pombos, a das Antas, a das Batatas e esta outra que faço questão de inventar uma história para ela: a Ilha Lucrécia, tão bórgia! Onde príncipes, cardeais, assassinos e outros figurantes, entre eles, uma turma ilustríssima de poetas e artistas, se dedicam às mais diversificadas aventuras em tomo dessa dama egrégia. Furo sensacionalíssimo de reportagem: Lucrécia, a magnífica, em Minas Gerais, numa ilha particular, tão particular que nela só pode ter acesso minha fantasia deste momento e você, se me der crédito e o prazer de acompanhar-me até lá…
Não, desisto de surpreender Lucrécia em sua ilha cativa. Minas é surrealista, concordo, mas sem exagero; conservo a justa medida das coisas, até no absurdo. Fiquemos por aqui, você e eu habitando em pensamento as ilhas que afloram em Minas, que enfloram Minas, essa ilha maior balançando no alto dos montes e serras…
Carlos Drummond de Andrade, "Boca de luar"
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