Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quinta-feira, abril 2
Ser e saber
Vi o vento soprar
e a noite descer.
Ouvi o grilo saltar
na grama estremecida.
Pisei a água
mais bela que a terra.
Vi a flor abrir-se
como se abrem as conchas.
O dia e a noite se uniram
para ungir-me.
O enlace de luz e sombra
cingiu os meus sonhos.
Vi a formiga esconder-se
na ranhura da pedra.
Assim se escondem os homens
entre as palavras.
A beleza do mundo me sustenta.
É o formoso pão matinal
que a mão mais humilde deposita
na mesa que separa.
Jamais serei um estrangeiro.
Não temo nenhum exílio.
Cada palavra minha
é uma pátria secreta.
Sou tudo o que é partilha
o trovão a claridade
os lábios do mundo
todas as estrelas que passam.
Só conheço a origem:
a água negra que lambe a terra
e os goiamuns à espreita
entre as raízes do mangue.
Só sei o que não aprendi:
o vento que sopra
a chuva que cai
e o amor.
Lêdo Ivo, "Crepúsculo civil"
e a noite descer.
Ouvi o grilo saltar
na grama estremecida.
Pisei a água
mais bela que a terra.
Vi a flor abrir-se
como se abrem as conchas.
O dia e a noite se uniram
para ungir-me.
O enlace de luz e sombra
cingiu os meus sonhos.
Vi a formiga esconder-se
na ranhura da pedra.
Assim se escondem os homens
entre as palavras.
A beleza do mundo me sustenta.
É o formoso pão matinal
que a mão mais humilde deposita
na mesa que separa.
Jamais serei um estrangeiro.
Não temo nenhum exílio.
Cada palavra minha
é uma pátria secreta.
Sou tudo o que é partilha
o trovão a claridade
os lábios do mundo
todas as estrelas que passam.
Só conheço a origem:
a água negra que lambe a terra
e os goiamuns à espreita
entre as raízes do mangue.
Só sei o que não aprendi:
o vento que sopra
a chuva que cai
e o amor.
Lêdo Ivo, "Crepúsculo civil"
Mysterium
Eu vi ainda debaixo do sol que a corrida não é para os mais ligeiros, nem a batalha para os mais fortes, nem o pão para os mais sábios, nem as riquezas para os mais inteligentes, mas tudo depende dos tempo e do acaso.
Eclesiastes
Ao mesmo tempo e ao acaso eu acrescento o grão do imprevisto. E o grão da loucura que é infinita na nossa finitude. Vejo minha vida e obra seguindo assim por trilhos paralelos e tão próximos, trilhos que podem se juntar (ou não) lá adiante mas tudo sem explicação, não tem explicação.
Mas os leitores pedem explicações, são curiosos e fazem perguntas. Respondo. Mas se me estendo nas respostas, acabo por pular de um trilho par a outro e começo a misturar a realidade com o imaginário, faço ficção em cima da ficção, ah! tanta vontade (disfarçada) de seduzir o leitor, esse leitor que gosta do devaneio. Do sonho. Queria estimular sua fantasia mas agora ele está pedindo lucidez, que a luz da razão.
Não gosto de teorizar porque na teoria acabo por me embrulhar feito um caramelo em papel transparente. Me dê um tempo! Eu peço. Quero ficar fria, espera. Espera que estou me aventurando na busca das descobertas, “Devagar já é pressa!”, disse Guimarães Rosa. Preciso agora atravessar o cipoal dos detalhes e são tantos! E tamanha a minha perplexidade diante do processo criador, Deus! os indefensáveis signos e símbolos. Ainda assim, avanço em meio da névoa, quero ser clara em meio desse claro que de repente ficou escuro, estou perdida?
Na tentativa de reter o questionador, acabo por inventar uma figuração na qual a idéia é representada por uma aranha. A teia dessa aranha seria o enredo. A trama. E a personagem, o inseto que chega naquele vôo livre e acaba por cair na teia da qual não consegue fugir, enleado pelos fios grudentos. Então desce (ou sobe) a aranha e nhac! prende e suga o inseto até abandoná-lo vazio. Oco.
O questionador acha a imagem meio dramática mas divertida, consegui fazê-lo sorrir? Acho que sim. Contudo, há aquele leitor desconfiado, que não se deixou seduzir porque quer ver as personagens em plena liberdade e nessa representação elas estão como que sujeitas a uma destinação. A uma condenação. E cita Jean-Paul Sartre que pregava a liberdade também para as personagens, ah! odiosa essa fatalidade dos seres inventados (ou não) caminhando para o Bem ou para o Mal sem mistura, e onde fica a ambigüidade?
Começo a me sentir prisioneira dos próprios fios que fui inventar, melhor voltas às divagações iniciais onde vejo (como eu mesma) o meu próximo também embrulhado. Ou embuçado? Desembrulhando esse próximo, também eu vou me revelando e na revelação, me deslumbro para me obumbrar novamente nesta viragem-voragem do ofício. E vida.
• • •
A temática da vocação que é paixão. Quase peço desculpas ao leitor por não ser mais otimista quando lido com a crueldade. Com a violência e com o medo. Vejo crescer o desamor pelas crianças e pelos bichos, vítimas maiores deste tempo e desta sociedade. Ainda assim, recorro ao humor, quero a graça da ironia para que o leitor não fuja entediado. Espera um pouco! — eu peço a esse leitor. Espera que posso até ficar engraçada mesmo em meio dos acessos de indignação, afinal, não estamos no Terceiro Mundo?
Há um perguntador que quer saber porque falo tanto na morte, nos contos e romances, sempre a morte. Faço uma pausa. Não sou inocente (o escritor não é inocente) e assim poderia agora começar um pequeno discurso para dourar a pílula: que importa a morte se a arte é a própria negação dessa morte? — pois não foi o que Ernest Becker repetiu mil vezes no seu famoso livro? Mas não será preciso recorrer aos livros para dizer uma coisa tão simples, a alma é imortal. A alma é imortal. Na reencarnação, essa alma irá habitar outro corpo da mesma espécie mas na transmigração a alma irá para um corpo que pode ser animal ou vegetal, que não fuja agora o nome do filósofo, Empédocles? “Pois já fui um rapaz e uma donzela, um arbusto e um pássaro e um peixe mudo do mar.”
Na transmigração (metempsicose) de um corpo para outro, o mistério. Que é ainda mais misterioso na sua raiz latina, mysterium. Vamos, repita em voz alta, MYSTERIUM — mas brecando um pouco no Y, boca aberto do abismo, mergulhe nesse abysmo. E repetindo a palavra-senha até ouvir lá no fundo o eco prolongado na queda pedregosa, uuuuuuummm…
• • •
Perguntei à minha mãe se podia escrever o meu nome com a letra i ao invés do y, pois assim seria mais simples. Ela pensou um pouco e respondeu que tinha que ser mesmo com y. Por quê?, perguntei. E acrescentei que na escola até a professora implicava com essa letra que ninguém mais usava, o i era mais fácil. Desconfie das facilidades! ela exclamou ao levantar-se da cadeira para ir até a poltrona, naquele mesmo estilo do meu pai que mudava de lugar quando queria mudar de assunto.
Pronto, também eu mudando de trilho, melhor voltar às personagens nas quais eu tentava levantar a máscara (ou a pele) na busca do outro ou de mim mesma. O jogo é singelo. E malicioso. Fico fascinada porque meu pai era um jogador e dele herdei o vício do risco. Mas ele jogava com fichas e o meu jogo é com as palavras, e então? Perdi? Num país com tão vasta área de analfabetos, não posso pensar em lucro, é claro, mas em alimentar esta viciosa esperança. E agora eu me lembro, depois das generosas apostas na roleta, o meu pai terminava a noite apenas com a quantia exata para a condução de volta, o tal cassino preferido era distante. Ah! como brilhavam seus olhos enquanto dizia, Hoje perdemos mas amanhã a gente ganha.
A servidão da esperança. Esse livro não deu certo mas quem sabe o próximo?… Recuso os meus primeiros livros (as precipitadas apostas) que considero prematuros, começo a contagem a partir do romance Ciranda de pedra, publicado no ano de 1954. Esse romance ficou sendo o divisor de águas dos livros vivos e dos outros.
• • •
Não quero ser compreendida, quer ser amada, respondi ao estudante de olhos asiáticos que se queixava, não entendeu o sentido de alguns dos meus contos. Ninguém compreende mesmo ninguém, difíceis as pessoas. As coisas. Quero apenas que meu leitor seja o meu parceiro e cúmplice no ato criador que é ansiedade e sofrimento. Busca e celebração.
Quis ainda saber qual dos meus livros eu preferia. Respondo que fico com o mais recente e ao qual ainda estou ligada, no caso, esse Invenção e Memória. Mais memória ou mais invenção? É impossível separar as águas de vasos comunicantes correndo pelos subterrâneos do inconsciente. Onde acaba a realidade e onde começa o sonho?
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Na antiga cozinha da minha infância, o caldeirão borbulhante, instalado no fogão de lenha. E Matilde, cozinheira e agregada, preparando a famosa sopa sem receita. Na noite escura, um ou outro morcego vinha se dependurar no teto enquanto ela, também esfumaçada, seguia indiferente na sua ronda sem pressa, preparando a sopa. Os ingredientes. Estendia o longo braço magro até o caldeirão fervente e deixava cair o ramo de ervas verdes. Agora era a vez das sementes estranhíssimas que tirava do boião de vidro — alguma hierarquia na entrada disso tudo? Mais uma aragem de sal que ela deixava cair do alto, num gesto de quase desdém. Não tem receita! respondia fechando a cara. Faço como me dá na telha.
Até que chegou aquela noite, quando minha mãe me chamou, Anda, vai lá e presta atenção em tudo e depois me conte o que viu. Contornei os baldes e caçarolas que aparavam as goteiras que caíam do teto (a tempestade) e fui me sentar num canto penumbroso. Matilde mexia na lenha do fogão, atiçando o braseiro que resistia, intratável. Mascava fumo negro e resmungava coisas desgarradas enquanto tirava a tampa do caldeirão paras mexer a sopa com a grande colher de pau. Com a mesma colher tentou afugentar o morcego mais próximo, Vai, vai Satanás! Fugi espavorida, Ela é louca! Fui repetindo enquanto corria, Ela é louca! Matilde e Macbeth lembrando que a vida “é história narrada por um idiota, cheia de som e de fúria e que não quer dizer nada”.
• • •
E o escritor que pode estar desesperado mas não vai desesperar o leitor, ao contrário, pode até transmitir-lhe alguma esperança. O escritor que pode ser um demente e ainda assim vai afastar o leitor da demência. Ou do vício. O escritor que pode ser um triste e no entanto via fazer rir o leitor nessa terapia silenciosa. O escritor que sendo um solitário, será a terna companhia daquele que está na solidão.
P.S. No ano de 1998, em Paris, na Sorbone, foi realizado um seminário sobre alguns dos meus livros publicados na França. O depoimento que fiz é esse Mysterium que reescrevi hoje.
A transfiguração pela poesia
Creio firmemente que o confinamento em si mesmo, imposto a toda uma legião de criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as explosões da paz. No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação crescer. Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza e reconstruí-lo livre. Pois na luta onde todos foram soldados - a minoria nos campos de batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade e contra ela, a favor da vida e contra ela - os sobreviventes, de corpo e espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar. E o pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal-entendido.
Porque haverá nos olhos, na boca, nas mãos, nos pés de todos uma ânsia tão intensa de repouso e de poesia, que a paixão os conduzirá para os mesmos caminhos, os únicos que fazem a vida digna: os da ternura e do despojamento.
Porque haverá nos olhos, na boca, nas mãos, nos pés de todos uma ânsia tão intensa de repouso e de poesia, que a paixão os conduzirá para os mesmos caminhos, os únicos que fazem a vida digna: os da ternura e do despojamento.
Tenho que só a poesia poderá salvar o mundo da paz política que se anuncia - a poesia que é carne, a carne dos pobres humilhados, das mulheres que sofrem, das crianças com frio, a carne das auroras e dos poentes sobre o chão ainda aberto em crateras.
Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã. E como que é possível senti-la fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres. Em quantos jovens corações, neste momento mesmo, já não terá vibrado o pasmo da sua obscura presença? Em quantos rostos não se terá ela plantado, amarga, incerta esperança de sobrevivência? Em quantas duras almas já não terá filtrado a sua claridade indecisa? Que langor, que anseio de voltar, que desejo de fruir, de fecundar, de pertencer, já não terá ela arrancado de tantos corpos parados no antemomento do ataque, na hora da derrota, no instante preciso da morte? E a quantos seres martirizados de espera, de resignação, de revolta já não terão chegado as ondas do seu misterioso apelo?
Sofre ainda o mundo de tirania e de opressão, da riqueza de alguns para a miséria de muitos, da arrogância de certos para a humilhação de quase todos. Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das pernas em couro, do corpo em pano e da cabeça em aço. Sofre o mundo da transformação das mãos em instrumentos de castigo e em símbolos.
De força. Sofre o mundo da transformação da pá em fuzil, do arado em tanque de guerra, da imagem do semeador que semeia na do autômato com seu lança-chamas, de cuja sementeira brotam solidões.
A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua voz. Parece tão vago, tão gratuito, e no entanto eu o sinto de maneira tão fatal! Não se trata de desencantá-la, porque creio na sua aparição espontânea, inevitável. Surgirá de vozes jovens fazendo ciranda em torno de um mundo caduco; de vozes de homens simples, operários, artistas, lavradores, marítimos, brancos e negros, cantando o seu labor de edificar, criar, plantar, navegar um novo mundo; de vozes de mães, esposas, amantes e filhas, procriando, lidando, fazendo amor, drama, perdão. E contra essas vozes não prevalecerão as vozes ásperas de mando dos senhores nem as vozes soberbas das elites. Porque a poesia ácida lhes terá corroído as roupas. E o povo então poderá cantar seus próprios cantos, porque os poetas serão em maior número e a poesia há de velar.
Vinicius de Moraes, "Para viver um grande amor"
Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã. E como que é possível senti-la fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres. Em quantos jovens corações, neste momento mesmo, já não terá vibrado o pasmo da sua obscura presença? Em quantos rostos não se terá ela plantado, amarga, incerta esperança de sobrevivência? Em quantas duras almas já não terá filtrado a sua claridade indecisa? Que langor, que anseio de voltar, que desejo de fruir, de fecundar, de pertencer, já não terá ela arrancado de tantos corpos parados no antemomento do ataque, na hora da derrota, no instante preciso da morte? E a quantos seres martirizados de espera, de resignação, de revolta já não terão chegado as ondas do seu misterioso apelo?
Sofre ainda o mundo de tirania e de opressão, da riqueza de alguns para a miséria de muitos, da arrogância de certos para a humilhação de quase todos. Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das pernas em couro, do corpo em pano e da cabeça em aço. Sofre o mundo da transformação das mãos em instrumentos de castigo e em símbolos.
De força. Sofre o mundo da transformação da pá em fuzil, do arado em tanque de guerra, da imagem do semeador que semeia na do autômato com seu lança-chamas, de cuja sementeira brotam solidões.
A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua voz. Parece tão vago, tão gratuito, e no entanto eu o sinto de maneira tão fatal! Não se trata de desencantá-la, porque creio na sua aparição espontânea, inevitável. Surgirá de vozes jovens fazendo ciranda em torno de um mundo caduco; de vozes de homens simples, operários, artistas, lavradores, marítimos, brancos e negros, cantando o seu labor de edificar, criar, plantar, navegar um novo mundo; de vozes de mães, esposas, amantes e filhas, procriando, lidando, fazendo amor, drama, perdão. E contra essas vozes não prevalecerão as vozes ásperas de mando dos senhores nem as vozes soberbas das elites. Porque a poesia ácida lhes terá corroído as roupas. E o povo então poderá cantar seus próprios cantos, porque os poetas serão em maior número e a poesia há de velar.
Vinicius de Moraes, "Para viver um grande amor"
Crônica indigesta
Já começo essa prosa afastando, de início, qualquer aproximação com algo saudosista, algo do passado, de um mundo antigo. O que vamos pensar juntos é um caminho para vivermos de forma mais agradável, mais humana e gentil e, claro, menos aborrecida e, por consequência, mais divertida.
A experiência indigesta se deu num restaurante aqui em Santos, a minha aprazível cidade praiana. Sim, eu reclamo de barriga cheia. Vou poupar o local e ocultar seu nome, pois não é um problema exclusivo dele — é um novo jeito desagradável de viver que está se implantando bem debaixo de nossas papilas gustativas.
Lá fomos nós, num domingo, almoçar num lugar amplo, com evocações à vida campestre e simpático aos produtos orgânicos. Nos sentamos e começa o estranhamento — nenhum garçom ou atendente nos apresenta um cardápio, uma pequena explicação sobre a casa, sobre a missão, ou até mesmo aquela dica do dia, do chef, aquele peixe que está perfeito recém-recebido. Nada. Só havia aquela trambolho, aquele tablete com o tal de QR code. Nos olhamos e nada. Então já vi que era eu e aquilo, aquela maravilha da tecnologia. Lá fomos nós, quatro pratos, entrada, bebidas, telas sem fim, até terminar o pedido com um final silencioso e, para mim, sempre com uma nuvem de insegurança — será que virá de maneira correta o que pedimos? Pois não veio. Apesar de termos feito tudo certo, um dos pratos não veio. E era justamente o prato mais simples, o que tinha como base uma salada. Três começaram a comer e uma pessoa não. Chamei a atendente e ela monossilábica disse que estava vindo. Dei uma olhada pro chef, a cozinha é daquelas abertas, conceito de se ver o pessoal em ação, mas acho que ele não gosta muito do conceito. Enquanto eu buscava o contato, ele virava pro outro lado. A salada com um salmão grelhado chegou e, claro, almoçamos sem pressa. No andamento mais tablete para pedir mais um refrigerante, mais tablet para uma sobremesa e mais para dois cafés e a conta.
Veio um rapaz com a máquina de cartão, paguei e saímos, nenhum diálogo com ninguém, ninguém!
Impossível para um livreiro que pensa sobre o nosso futuro, o futuro das livrarias principalmente, não ter uma impressão ruim dessa experiência. Claro que fiz as conexões entre as livrarias impessoais e os restaurantes impessoais.
As redes de livrarias que se deslumbraram com o autoatendimento, o self-service, o papo de deixar o leitor livre, leve e solto… e abandonado. Essas livrarias em bom número se enfraqueceram ou fecharam as portas. O afastamento do leitor, a impessoalidade, a falta de conversa, a falta de opinião sobre o que se vende — isso tudo vai minando o local e a sua força, a sua reputação e laços construídos com seus frequentadores.
E volto a bater na mesma tecla, não do teclado aqui, mas volto ao mesmo assunto, não se trata de ser saudosista. Acho que a tecnologia serve para tirar coisas e operações trabalhosas da nossa rotina e ela própria pode ser um ingrediente de aproximação, não o contrário. Claro que um restaurante ou uma livraria necessitam de um sistema operacional, de estarem conectados à internet, de estarem ativos em suas redes sociais. Mas será que um cardápio impresso, com um garçom que conduza as escolhas, contando curiosidades do chef ou algum segredo de um prato, ou até mesmo o chef vir prosear após a refeição e saber da gente o que achamos, isso é ser antigo?
Numa livraria, quero sempre conhecer o cliente, saber as manias do leitor, saber o que ele leu e gostou ou o que não gostou. Nossos espaços são de convívio, são convites de encontros para pessoas em busca de conhecimento, de diversão com conteúdo. Não sou um algoritmo, sou um livreiro, deixa eu arrumar, Livreiro, assim, com maiúscula. E num restaurante não quero um tablet famigerado, quero atendimento, quero ouvir causos, quero comer bem e sair com vontade de voltar mais vezes, transformado pelo que ouvi, comi e aprendi.
Longa vida ao Livro físico e ao cardápio físico.
Até já, chegou a hora de preparar o almoço.
A experiência indigesta se deu num restaurante aqui em Santos, a minha aprazível cidade praiana. Sim, eu reclamo de barriga cheia. Vou poupar o local e ocultar seu nome, pois não é um problema exclusivo dele — é um novo jeito desagradável de viver que está se implantando bem debaixo de nossas papilas gustativas.
Lá fomos nós, num domingo, almoçar num lugar amplo, com evocações à vida campestre e simpático aos produtos orgânicos. Nos sentamos e começa o estranhamento — nenhum garçom ou atendente nos apresenta um cardápio, uma pequena explicação sobre a casa, sobre a missão, ou até mesmo aquela dica do dia, do chef, aquele peixe que está perfeito recém-recebido. Nada. Só havia aquela trambolho, aquele tablete com o tal de QR code. Nos olhamos e nada. Então já vi que era eu e aquilo, aquela maravilha da tecnologia. Lá fomos nós, quatro pratos, entrada, bebidas, telas sem fim, até terminar o pedido com um final silencioso e, para mim, sempre com uma nuvem de insegurança — será que virá de maneira correta o que pedimos? Pois não veio. Apesar de termos feito tudo certo, um dos pratos não veio. E era justamente o prato mais simples, o que tinha como base uma salada. Três começaram a comer e uma pessoa não. Chamei a atendente e ela monossilábica disse que estava vindo. Dei uma olhada pro chef, a cozinha é daquelas abertas, conceito de se ver o pessoal em ação, mas acho que ele não gosta muito do conceito. Enquanto eu buscava o contato, ele virava pro outro lado. A salada com um salmão grelhado chegou e, claro, almoçamos sem pressa. No andamento mais tablete para pedir mais um refrigerante, mais tablet para uma sobremesa e mais para dois cafés e a conta.
Veio um rapaz com a máquina de cartão, paguei e saímos, nenhum diálogo com ninguém, ninguém!
Impossível para um livreiro que pensa sobre o nosso futuro, o futuro das livrarias principalmente, não ter uma impressão ruim dessa experiência. Claro que fiz as conexões entre as livrarias impessoais e os restaurantes impessoais.
As redes de livrarias que se deslumbraram com o autoatendimento, o self-service, o papo de deixar o leitor livre, leve e solto… e abandonado. Essas livrarias em bom número se enfraqueceram ou fecharam as portas. O afastamento do leitor, a impessoalidade, a falta de conversa, a falta de opinião sobre o que se vende — isso tudo vai minando o local e a sua força, a sua reputação e laços construídos com seus frequentadores.
E volto a bater na mesma tecla, não do teclado aqui, mas volto ao mesmo assunto, não se trata de ser saudosista. Acho que a tecnologia serve para tirar coisas e operações trabalhosas da nossa rotina e ela própria pode ser um ingrediente de aproximação, não o contrário. Claro que um restaurante ou uma livraria necessitam de um sistema operacional, de estarem conectados à internet, de estarem ativos em suas redes sociais. Mas será que um cardápio impresso, com um garçom que conduza as escolhas, contando curiosidades do chef ou algum segredo de um prato, ou até mesmo o chef vir prosear após a refeição e saber da gente o que achamos, isso é ser antigo?
Numa livraria, quero sempre conhecer o cliente, saber as manias do leitor, saber o que ele leu e gostou ou o que não gostou. Nossos espaços são de convívio, são convites de encontros para pessoas em busca de conhecimento, de diversão com conteúdo. Não sou um algoritmo, sou um livreiro, deixa eu arrumar, Livreiro, assim, com maiúscula. E num restaurante não quero um tablet famigerado, quero atendimento, quero ouvir causos, quero comer bem e sair com vontade de voltar mais vezes, transformado pelo que ouvi, comi e aprendi.
Longa vida ao Livro físico e ao cardápio físico.
Até já, chegou a hora de preparar o almoço.
quarta-feira, abril 1
Canção sensata
Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos,
A voz das sereias?
Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua,
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?
Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?
De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.
José Paulo Paes, "Antologia Poética"
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos,
A voz das sereias?
Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua,
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?
Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?
De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.
José Paulo Paes, "Antologia Poética"
Recenseamento
São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas.
O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:
- Quantos são aqui?
Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:
- Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.
E outro:
- Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota de seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor.
E outro:
- Eu? Tinha um amigo e um cachorro. O amigo se foi, levando minhas gravatas e deixando a conta da lavadeira. O cachorro está aí, chama-se Lord, tem três anos e meio e morde como um funcionário público.
E outro:
- Oh! sede bem-vindo. Aqui somos eu e ela, só nós dois. Mas nós dois somos apenas um. Breve, seremos três. Oh!
E outro:
- Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!
E outro:
- Aqui moro eu. Quer saber o meu nome? Procure uma senhorita loura que mora na terceira casa da segunda esquina, à direita. O meu nome está escrito na palma de sua mão.
E outro:
- Hoje não é possível, não há dinheiro nenhum. Volte amanhã. Hein? Ah, o sr. é do recenseamento? Uff! Quantos somos? Somos vinte, somos mil. Tenho oito filhos e cinco filhas. Total: quinze pestes. Mas todos os parentes de minha mulher se instalaram aqui. Meu nome? Ahn... João Lourenço, seu criado. Jesus Cristo João Lourenço. A minha idade? Oh! pergunte à minha filha, pergunte. É aquela jovem sirigaita que está dando murros naquele piano. Ontem quis ir não sei onde com um patife que ela chama de "meu pequeno". Não deixei, está claro. Ela disse que eu sou da idade da pedra lascada. Escreva isso, cavalheiro, escreva. Nome: João Lourenço; profissão: idiota; idade: da pedra lascada. Está satisfeito? Não, não faça caretas, cavalheiro. Creia que eu o aprecio muito. O sr. pelo menos não é parente da mulher. Isso é uma grande qualidade, cavalheiro! É a virtude que eu mais admiro! O sr. é divino, cavalheiro, o sr. é meu amigo íntimo desde já, para a vida e para a morte!
Rubem Braga. "Para gostar de ler 3"
O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:
- Quantos são aqui?
Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:
- Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.
E outro:
- Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota de seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor.
E outro:
- Eu? Tinha um amigo e um cachorro. O amigo se foi, levando minhas gravatas e deixando a conta da lavadeira. O cachorro está aí, chama-se Lord, tem três anos e meio e morde como um funcionário público.
E outro:
- Oh! sede bem-vindo. Aqui somos eu e ela, só nós dois. Mas nós dois somos apenas um. Breve, seremos três. Oh!
E outro:
- Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!
E outro:
- Aqui moro eu. Quer saber o meu nome? Procure uma senhorita loura que mora na terceira casa da segunda esquina, à direita. O meu nome está escrito na palma de sua mão.
E outro:
- Hoje não é possível, não há dinheiro nenhum. Volte amanhã. Hein? Ah, o sr. é do recenseamento? Uff! Quantos somos? Somos vinte, somos mil. Tenho oito filhos e cinco filhas. Total: quinze pestes. Mas todos os parentes de minha mulher se instalaram aqui. Meu nome? Ahn... João Lourenço, seu criado. Jesus Cristo João Lourenço. A minha idade? Oh! pergunte à minha filha, pergunte. É aquela jovem sirigaita que está dando murros naquele piano. Ontem quis ir não sei onde com um patife que ela chama de "meu pequeno". Não deixei, está claro. Ela disse que eu sou da idade da pedra lascada. Escreva isso, cavalheiro, escreva. Nome: João Lourenço; profissão: idiota; idade: da pedra lascada. Está satisfeito? Não, não faça caretas, cavalheiro. Creia que eu o aprecio muito. O sr. pelo menos não é parente da mulher. Isso é uma grande qualidade, cavalheiro! É a virtude que eu mais admiro! O sr. é divino, cavalheiro, o sr. é meu amigo íntimo desde já, para a vida e para a morte!
Rubem Braga. "Para gostar de ler 3"
Cada pergunta!
A menina brinca no tapete, parecendo nem ouvir o telejornal mas, quando começa o intervalo, levanta a cabeça:
— Pai, que que é corrupção?
O pai e a mãe se olham, o pai suspira e diz bem, corrupção…
— …não é coisa pra gente da sua idade, né.
Claro que é, diz a mãe:
— Responde direito, que se a criança pergunta, é porque quer resposta.
Bem, pigarreia ele, corrupção é…
— …por exemplo roubar dinheiro do governo, que é dinheiro de todo mundo.
— E como é que a corrupção rouba dinheiro do governo?
O pai explica que quem rouba não é a corrupção, é o corrupto, é alguém, ou melhor, é muita gente que rouba o governo:
— Por exemplo o funcionário que desvia dinheiro do governo. Ou o deputado que vende o voto dele lá no Congresso. Ou o juiz que emprega parentes nos gabinetes de outros juizes, em troca de empregar parentes deles. Ou o empresário que paga para ganhar concorrência das obras do governo. Ih, filha, tem tanto jeito de roubar o governo, não é, mulher?
— É, e o seu pai também rouba o que pode quando faz declaração de imposto de renda.
Volta o telejornal e a menina volta a brincar, eles voltam a ver as notícias. Novo intervalo, ela de novo ergue a cabeça:
— Por que o dólar sempre sobe e o real sempre cai?
O pai suspira fundo, e com voz monótona compara os Estados Unidos e o Brasil, as diferenças de colonização, Inglaterra e Portugal, e as diferenças geográficas, climáticas, culturais, mas a mãe diz que não é por nada disso:
— Acho que é porque eles são um povo menos corrupto, filha.
— Então o povo também é corrupto, mãe?
— E você acha que tinha tanta corrupção se o povo não fosse corrupto?
Você vai fundir a cabeça da menina, diz o pai:
— Isso não é conversa pra criança. E além disso, hem, cada pergunta!
— Por isso mesmo é preciso responder.
Volta o telejornal, e depois no intervalo a menina volta a perguntar:
— E o que que é impunidade?
— Essa eu mato fácil — o pai esfrega as mãos — Impunidade é quando você comete um crime e não é preso.
— E só tem tanta corrupção — emenda a mãe — porque tem muita impunidade, ninguém denuncia, entendeu?
Ela de novo volta a brincar, mas antes de mais um intervalo vai até diante da mãe:
— Então você acha que, pra acabar a corrupção, a gente tinha de contar que o pai rouba no imposto?
O pai pula da poltrona:
— Tá vendo?! Criança delatando pai só mesmo na Alemanha nazista! Eu falei que isso não era conversa boa! Mas você e sua educação moderna!…
Sai batendo a porta, a mãe solta longos suspiros.
— Que que eu falei de errado, mãe?
— Nada, filha, nada. Mas você faz cada pergunta!…
— Pai, que que é corrupção?
O pai e a mãe se olham, o pai suspira e diz bem, corrupção…
— …não é coisa pra gente da sua idade, né.
Claro que é, diz a mãe:
— Responde direito, que se a criança pergunta, é porque quer resposta.
Bem, pigarreia ele, corrupção é…
— …por exemplo roubar dinheiro do governo, que é dinheiro de todo mundo.
— E como é que a corrupção rouba dinheiro do governo?
O pai explica que quem rouba não é a corrupção, é o corrupto, é alguém, ou melhor, é muita gente que rouba o governo:
— Por exemplo o funcionário que desvia dinheiro do governo. Ou o deputado que vende o voto dele lá no Congresso. Ou o juiz que emprega parentes nos gabinetes de outros juizes, em troca de empregar parentes deles. Ou o empresário que paga para ganhar concorrência das obras do governo. Ih, filha, tem tanto jeito de roubar o governo, não é, mulher?
— É, e o seu pai também rouba o que pode quando faz declaração de imposto de renda.
Volta o telejornal e a menina volta a brincar, eles voltam a ver as notícias. Novo intervalo, ela de novo ergue a cabeça:
— Por que o dólar sempre sobe e o real sempre cai?
O pai suspira fundo, e com voz monótona compara os Estados Unidos e o Brasil, as diferenças de colonização, Inglaterra e Portugal, e as diferenças geográficas, climáticas, culturais, mas a mãe diz que não é por nada disso:
— Acho que é porque eles são um povo menos corrupto, filha.
— Então o povo também é corrupto, mãe?
— E você acha que tinha tanta corrupção se o povo não fosse corrupto?
Você vai fundir a cabeça da menina, diz o pai:
— Isso não é conversa pra criança. E além disso, hem, cada pergunta!
— Por isso mesmo é preciso responder.
Volta o telejornal, e depois no intervalo a menina volta a perguntar:
— E o que que é impunidade?
— Essa eu mato fácil — o pai esfrega as mãos — Impunidade é quando você comete um crime e não é preso.
— E só tem tanta corrupção — emenda a mãe — porque tem muita impunidade, ninguém denuncia, entendeu?
Ela de novo volta a brincar, mas antes de mais um intervalo vai até diante da mãe:
— Então você acha que, pra acabar a corrupção, a gente tinha de contar que o pai rouba no imposto?
O pai pula da poltrona:
— Tá vendo?! Criança delatando pai só mesmo na Alemanha nazista! Eu falei que isso não era conversa boa! Mas você e sua educação moderna!…
Sai batendo a porta, a mãe solta longos suspiros.
— Que que eu falei de errado, mãe?
— Nada, filha, nada. Mas você faz cada pergunta!…
O fio da leitura
Sou de uma época em que leitores retiravam — felizmente — um grande prazer do ato solitário… da leitura.
Digo isso porque não me parece que os leitores de hoje estejam desfrutando do mesmo redondo vínculo de satisfação transmitida entre quem escreve e quem lê, naquele circuito sinérgico de prazeres que fez a força da literatura.
Às vezes penso, gelado, que houve uma mudança qualquer, desde quando li o meu primeiro Júlio Verne — A ilha misteriosa, incrustado na memória — até esta era da pressa esmagante entre outdoors e semáforos que acendem o alerta vermelho: estaremos perdendo o sentido da ficção, por exemplo, assim como se dilui um tanto, na maturidade, o princípio do sorvete?
Faço a pergunta a mim mesmo (quase indiferente a um combinado de maracujá com mangaba), no calor em que recordo o envolvimento, de cálidas urgências, com a página impressa e seu cheiro, a capa acetinada e sua textura, o conteúdo e o seu arrebatamento. Lembro que eu não podia, simplesmente, largar o volume meio ensebado de O fio da navalha — nem mesmo ao ouvir os chamados para o almoço a cheirar bem na mesa. O anúncio olfativo, a convocação dos parentes, nada tinha maior apelo do que continuar na leitura de alguns livros que ainda reverberam na mente relutante em aceitar que fossem de segunda ordem (na ordem confusa dos primeiros “sorvetes”).
De Verne a Charles Morgan, de Thomas Mann a Cronin, de Marcel Proust a Nevil Shute… os romances que eu lia (sabendo que éramos legião!) respondiam a uma urgência profunda de explicação, de experiência indireta e de uso agradável do tempo. Mas não pretendiam ensinar nada de prático, não prometiam nenhum tipo de compensação imediata na vida, nenhum consolo barato, nem quaisquer iniciações “místicas” de duvidosa origem e ainda pior eficácia.
Romances eram lidos por pura paixão da ficção desabalada na carreira de acontecimentos inventados — onde hoje está a atração da “realidade”, sob o influxo imediatista da TV (já agora em real time) — e os seus autores não tinham mais a oferecer do que o fio encantatório de relatos e ficções dos vários gêneros desatados das noites de Sherazade contando histórias para se manter viva pelo cordão de Ariadne da imaginação, maior ou menor, de “principais” e de “reservas” desnovelando fios de ouro e de prata para muito além do horizonte das cozinhas de pratos esfriando nas mesas.
William Somerset Maugham supostamente pertence ao time reserva, ao segundo contingente e à cozinha de trás, na sombra da sua modéstia. Mas, suas omeletes!, suas cassatas — como recordá-las sem a lembrança de um prazer de qualidade vulgar e secreta ao mesmo tempo? Costumo imaginá-lo menos como escritor do que como o oficial da tropa de bravos encantadores de serpentes que me mantinham no sofá da sala ou na cadeira do terraço, distante do jantar. Devo demais à sua flauta doce — sobre o tapete de silêncios de antes da televisão — para jogar sobre esse amável escritor, trinta e tantos anos depois, algum ingrato desprezo dos seus temas, simples ou complicados, nos enredos de contos, novelas e romances servidos de dotes narrativos (e de observação) às vezes ausentes das grandes obras “artísticas”, escritas por autores demasiado elevados, quem sabe, para reparar em todos os detalhes de um saguão de hotel onde alguém acaba de perder um anel de estimação.
Os que vão morrer — com um bom romance na mão — saúdam essas (e outras) capacidades modestas, sensíveis e também um pouco perdidas no acúmulo de imagens das microcâmeras instaladas nos mesmos saguões.
Os que ainda são fiéis a Servidão humana, O pecado de Liza, Histórias dos mares do Sul e outros livros da linhagem “lateral” da literatura, ganham a coragem de confessar a admiração pelo autor capaz de convocar os gênios da lâmpada da escrita para reforçar o fascínio de uma história entreouvida no convés de um navio, da boca de algum pária das ilhas de Conrad… ou mesmo de uma delicada senhora que recebe amigas, longe do mar, sob um toldo colorido, numa Villa toscana debaixo da chuva. Você guardará a cor desse toldo para o resto da vida — e a luz coada sobre os rostos das mulheres ouvindo uma história de mulheres (puramente captada), permanecerá confundida, na imaginação, entre as visões e as vozes da tal “realidade” que hoje vigora como descolorido atrativo.
Eis o fascínio do médico, diplomata e viajante autor de O fio da navalha, nascido em 1874 e falecido em 1965 — com a glória de ter chegado a ser, na língua inglesa, o mais editado… depois do seu xará Shakespeare e daquele maravilhoso bruxo sentimental que foi Charles Dickens. Tais “escores” de almanaque não soam totalmente vulgares no prefácio de uma obra anatemizada pelo sucesso, “fruto da lavra” desse narrador cheio do poder de invenção de caravaneiros a se entreterem, na rota da seda, com os contos inventados entre dois oásis.
A vida cinzenta oferece muito pouco disso (oásis!), mas algo pelo menos restou nas ilhas do Éden da literatura — as “verdejantes ilhas da imaginação”, segundo Byron —, como herança transmitida pela veia dessa ficção de modéstia só aparente, rapazes. Aliás, viva a modéstia em literatura!, ou melhor: viva os modestos escritores capazes de nos dar mais do que o prazer pedido ao mundo interno dos livros. Você, que vai começar este de Somerset Maugham… perca a “esperança” de se enfastiar com a sua leitura.
Lamento, mas as páginas desta obra “secundária” irão arrastá-lo, com conversa, entre três continentes e alguns cubículos, muitas mansões e os anos passando sobre pessoas queridas. Quase vivas, elas hão de afastá-lo do tédio que acaso você procure (?), fruto do novo “prazer” — disfarçadamente perverso — que agora se cultiva deste lado do perdido paraíso da leitura: ler, sem fascínio, o que é oferecido com indiferente orgulho. (Ecos e bandolinos de corda me levam a avisar: nenhuma novel vontade de se chatear poderá se dar bem com a honesta obra dos Maugham da vida.)
O fio da navalha é a história de uma ascese no meio profano da burguesia americana. Aqui há, primeiro, o ambiente da Chicago endinheirada, vista como num romance de Sinclair Lewis. Depois, há uma Europa agitada, observada entre conversas distraídas e um intenso desencontro dos pontos de vista do “herói” e da “heróina”, na paisagem de uma Riviera bem diferente daquela de “Mr. Ripley” (pois a história é bem anterior ao cinismo que ostentamos entre amores novos & velhos crimes).
O Oriente comparece, mais atrás, focado pelo binóculo asséptico de Larry Darrell na sua busca meio bronca do Absoluto como se fosse uma jóia minerada, insensatamente, de penhor em penhor, nos tempos de depressão. O romance é narrado por Somerset em pessoa, atravessando os mares com um perfeito ar descansado (mas curioso de saber notícias de Larry entre as fumaças daquela perseguição do Ser Supremo como se fosse um fugitivo da justiça). É encantador — e ainda obtemos algumas lições de como manter o interesse do leitor suspenso do fio que não se parte.
Há perfis traçados com o carvão dos desenhistas rápidos, retratos que se encaixam num escondido jogo de decifração e pistas sobre a identidade real de muita gente que intervém nos sete longos capítulos de The Razor’s Edge. Vejam — ou revejam — Elliott Templeton como uma espécie de esboço caricatural do romancista Henry James, homem também mundano. Não creio que o autor de Retrato de uma dama forneça o modelo de Templeton até o fim, mas recomendo observar quão completa é a simpatia do circunspecto narrador, na cena da morte de Elliott. Podemos então compreender que fosse Somerset Maugham celebrado não só como autor, mas também como confidente da eleição de muitos homens e mulheres que o amaram, nos dois lados da Mancha, como um amigo antes de tudo.
Larry Darrell enxerga isso no escritor e dizem que, no seu retrato, o atento Maugham teria retocado a trajetória espiritual de Thomas Merton, montanha acima, por justos sete patamares. Quem conhece a autobiografia do padre americano sabe que ele conta uma história mais ou menos parecida, em muitos aspectos das suas viagens e experiências da juventude.
Mas Darrell é também um sub-Gatsby retirado dos bancos escolares da classe alta americana — que Maugham conhecia muito bem. Se “retocou a trajetória”, foi porque a idéia extravagante — para Chicago — de caminhar pelo fio da navalha (na busca do sentido da existência) fornecia a tensão ideal, acredito, para o conflito do interesse pragmático contra o modelo “último tipo” de inquietação capaz de assaltar um bom sujeito. Hoje, é possível ver que Larry se tornou parecido com mais alguém. Quem? Com um James Dean bem penteado? Faça o leitor a sua própria escolha, entre os rapazes angustiados.
Seja com quem for, o personagem cresceu, pode se dizer, com toda aquela “geração de Katmandú” que ele antecipou, deslocado entre casacas e coquetéis, enquanto dançava ao som que não vinha do chefe de orquestra, num jardim de orquídeas alugadas. E permanece boa a forma como se capta, aqui, as razões de um jovem (destinado a um bom emprego) para se tornar um vagabundo vago como as estrelas da Ursa quando se trata de explicar porque simplesmente não volta para a noiva e para Chicago…
Sim, porque em Paris ele, Larry, “não faz nada”… e ela esplende — o melhor lugar para não se fazer nada —, a Paris onde Maugham nasceu por acaso, e que não é a de Hemingway, claro, mas a de Somerset: um céu mais do que azul, num véu pintado, vista da janela do Ritz sobre ruas molhadas, roupas certas e cardápios da moda, fortunas e etiquetas, horários de trens e convites para festas na Riviera.
A Paris do visitante, dos ricos tagarelando sobre a ameaça de guerra e dos parisienses comprando vinho barato e baguettes recheadas. Malicioso como uma dama de Florença, o escritor nos conduz para dentro do ponto de vista americano sobre o velho continente europeu, e nele engasta a sua história de um amor nublado por perguntas em torno de Deus.
É pouco? Só vi fazer melhor quando Graham Greene — outro inglês com a flauta mágica — escreveu End of the Affair (embora a fé católica pese demais sobre esse romance bem diferente deste relato “pagão”).
Sou de uma época em que se apreciava tudo isso. Havia ternura pela busca de valores abstratos, febre no amor feminino e no amor masculino com seus códigos intensificados pela diferenciação — e não o contrário. O erotismo podia ser o da vida e o da morte (como no romance de Greene), e uma certa dignidade essencial ainda não fora desfigurada pela guerra nas trincheiras, entre soldados com almas próprias, lembranças e olhos por fechar, nos campos de batalha depois abertos a visitantes de smoking, vindos da capital elegante.
Houve um tempo assim. Agora, está definitivamente acabado.
Uma parte dele — e aquele anel que resta atrás da samambaia do hotel ainda não demolido — jaz nas páginas deste “romanção” à antiga, cheio de coisas perdidas, prazer da narrativa e o mais que está ficando difícil de encontrar nas estantes onde você sempre pode pegar O fio da navalha sem dizer a ninguém e até mesmo fingindo que jamais leu quaisquer das novelas de W. Somerset Maugham.
Digo isso porque não me parece que os leitores de hoje estejam desfrutando do mesmo redondo vínculo de satisfação transmitida entre quem escreve e quem lê, naquele circuito sinérgico de prazeres que fez a força da literatura.
Às vezes penso, gelado, que houve uma mudança qualquer, desde quando li o meu primeiro Júlio Verne — A ilha misteriosa, incrustado na memória — até esta era da pressa esmagante entre outdoors e semáforos que acendem o alerta vermelho: estaremos perdendo o sentido da ficção, por exemplo, assim como se dilui um tanto, na maturidade, o princípio do sorvete?
Faço a pergunta a mim mesmo (quase indiferente a um combinado de maracujá com mangaba), no calor em que recordo o envolvimento, de cálidas urgências, com a página impressa e seu cheiro, a capa acetinada e sua textura, o conteúdo e o seu arrebatamento. Lembro que eu não podia, simplesmente, largar o volume meio ensebado de O fio da navalha — nem mesmo ao ouvir os chamados para o almoço a cheirar bem na mesa. O anúncio olfativo, a convocação dos parentes, nada tinha maior apelo do que continuar na leitura de alguns livros que ainda reverberam na mente relutante em aceitar que fossem de segunda ordem (na ordem confusa dos primeiros “sorvetes”).
De Verne a Charles Morgan, de Thomas Mann a Cronin, de Marcel Proust a Nevil Shute… os romances que eu lia (sabendo que éramos legião!) respondiam a uma urgência profunda de explicação, de experiência indireta e de uso agradável do tempo. Mas não pretendiam ensinar nada de prático, não prometiam nenhum tipo de compensação imediata na vida, nenhum consolo barato, nem quaisquer iniciações “místicas” de duvidosa origem e ainda pior eficácia.
Romances eram lidos por pura paixão da ficção desabalada na carreira de acontecimentos inventados — onde hoje está a atração da “realidade”, sob o influxo imediatista da TV (já agora em real time) — e os seus autores não tinham mais a oferecer do que o fio encantatório de relatos e ficções dos vários gêneros desatados das noites de Sherazade contando histórias para se manter viva pelo cordão de Ariadne da imaginação, maior ou menor, de “principais” e de “reservas” desnovelando fios de ouro e de prata para muito além do horizonte das cozinhas de pratos esfriando nas mesas.
William Somerset Maugham supostamente pertence ao time reserva, ao segundo contingente e à cozinha de trás, na sombra da sua modéstia. Mas, suas omeletes!, suas cassatas — como recordá-las sem a lembrança de um prazer de qualidade vulgar e secreta ao mesmo tempo? Costumo imaginá-lo menos como escritor do que como o oficial da tropa de bravos encantadores de serpentes que me mantinham no sofá da sala ou na cadeira do terraço, distante do jantar. Devo demais à sua flauta doce — sobre o tapete de silêncios de antes da televisão — para jogar sobre esse amável escritor, trinta e tantos anos depois, algum ingrato desprezo dos seus temas, simples ou complicados, nos enredos de contos, novelas e romances servidos de dotes narrativos (e de observação) às vezes ausentes das grandes obras “artísticas”, escritas por autores demasiado elevados, quem sabe, para reparar em todos os detalhes de um saguão de hotel onde alguém acaba de perder um anel de estimação.
Os que vão morrer — com um bom romance na mão — saúdam essas (e outras) capacidades modestas, sensíveis e também um pouco perdidas no acúmulo de imagens das microcâmeras instaladas nos mesmos saguões.
Os que ainda são fiéis a Servidão humana, O pecado de Liza, Histórias dos mares do Sul e outros livros da linhagem “lateral” da literatura, ganham a coragem de confessar a admiração pelo autor capaz de convocar os gênios da lâmpada da escrita para reforçar o fascínio de uma história entreouvida no convés de um navio, da boca de algum pária das ilhas de Conrad… ou mesmo de uma delicada senhora que recebe amigas, longe do mar, sob um toldo colorido, numa Villa toscana debaixo da chuva. Você guardará a cor desse toldo para o resto da vida — e a luz coada sobre os rostos das mulheres ouvindo uma história de mulheres (puramente captada), permanecerá confundida, na imaginação, entre as visões e as vozes da tal “realidade” que hoje vigora como descolorido atrativo.
Eis o fascínio do médico, diplomata e viajante autor de O fio da navalha, nascido em 1874 e falecido em 1965 — com a glória de ter chegado a ser, na língua inglesa, o mais editado… depois do seu xará Shakespeare e daquele maravilhoso bruxo sentimental que foi Charles Dickens. Tais “escores” de almanaque não soam totalmente vulgares no prefácio de uma obra anatemizada pelo sucesso, “fruto da lavra” desse narrador cheio do poder de invenção de caravaneiros a se entreterem, na rota da seda, com os contos inventados entre dois oásis.
A vida cinzenta oferece muito pouco disso (oásis!), mas algo pelo menos restou nas ilhas do Éden da literatura — as “verdejantes ilhas da imaginação”, segundo Byron —, como herança transmitida pela veia dessa ficção de modéstia só aparente, rapazes. Aliás, viva a modéstia em literatura!, ou melhor: viva os modestos escritores capazes de nos dar mais do que o prazer pedido ao mundo interno dos livros. Você, que vai começar este de Somerset Maugham… perca a “esperança” de se enfastiar com a sua leitura.
Lamento, mas as páginas desta obra “secundária” irão arrastá-lo, com conversa, entre três continentes e alguns cubículos, muitas mansões e os anos passando sobre pessoas queridas. Quase vivas, elas hão de afastá-lo do tédio que acaso você procure (?), fruto do novo “prazer” — disfarçadamente perverso — que agora se cultiva deste lado do perdido paraíso da leitura: ler, sem fascínio, o que é oferecido com indiferente orgulho. (Ecos e bandolinos de corda me levam a avisar: nenhuma novel vontade de se chatear poderá se dar bem com a honesta obra dos Maugham da vida.)
O fio da navalha é a história de uma ascese no meio profano da burguesia americana. Aqui há, primeiro, o ambiente da Chicago endinheirada, vista como num romance de Sinclair Lewis. Depois, há uma Europa agitada, observada entre conversas distraídas e um intenso desencontro dos pontos de vista do “herói” e da “heróina”, na paisagem de uma Riviera bem diferente daquela de “Mr. Ripley” (pois a história é bem anterior ao cinismo que ostentamos entre amores novos & velhos crimes).
O Oriente comparece, mais atrás, focado pelo binóculo asséptico de Larry Darrell na sua busca meio bronca do Absoluto como se fosse uma jóia minerada, insensatamente, de penhor em penhor, nos tempos de depressão. O romance é narrado por Somerset em pessoa, atravessando os mares com um perfeito ar descansado (mas curioso de saber notícias de Larry entre as fumaças daquela perseguição do Ser Supremo como se fosse um fugitivo da justiça). É encantador — e ainda obtemos algumas lições de como manter o interesse do leitor suspenso do fio que não se parte.
Há perfis traçados com o carvão dos desenhistas rápidos, retratos que se encaixam num escondido jogo de decifração e pistas sobre a identidade real de muita gente que intervém nos sete longos capítulos de The Razor’s Edge. Vejam — ou revejam — Elliott Templeton como uma espécie de esboço caricatural do romancista Henry James, homem também mundano. Não creio que o autor de Retrato de uma dama forneça o modelo de Templeton até o fim, mas recomendo observar quão completa é a simpatia do circunspecto narrador, na cena da morte de Elliott. Podemos então compreender que fosse Somerset Maugham celebrado não só como autor, mas também como confidente da eleição de muitos homens e mulheres que o amaram, nos dois lados da Mancha, como um amigo antes de tudo.
Larry Darrell enxerga isso no escritor e dizem que, no seu retrato, o atento Maugham teria retocado a trajetória espiritual de Thomas Merton, montanha acima, por justos sete patamares. Quem conhece a autobiografia do padre americano sabe que ele conta uma história mais ou menos parecida, em muitos aspectos das suas viagens e experiências da juventude.
Mas Darrell é também um sub-Gatsby retirado dos bancos escolares da classe alta americana — que Maugham conhecia muito bem. Se “retocou a trajetória”, foi porque a idéia extravagante — para Chicago — de caminhar pelo fio da navalha (na busca do sentido da existência) fornecia a tensão ideal, acredito, para o conflito do interesse pragmático contra o modelo “último tipo” de inquietação capaz de assaltar um bom sujeito. Hoje, é possível ver que Larry se tornou parecido com mais alguém. Quem? Com um James Dean bem penteado? Faça o leitor a sua própria escolha, entre os rapazes angustiados.
Seja com quem for, o personagem cresceu, pode se dizer, com toda aquela “geração de Katmandú” que ele antecipou, deslocado entre casacas e coquetéis, enquanto dançava ao som que não vinha do chefe de orquestra, num jardim de orquídeas alugadas. E permanece boa a forma como se capta, aqui, as razões de um jovem (destinado a um bom emprego) para se tornar um vagabundo vago como as estrelas da Ursa quando se trata de explicar porque simplesmente não volta para a noiva e para Chicago…
Sim, porque em Paris ele, Larry, “não faz nada”… e ela esplende — o melhor lugar para não se fazer nada —, a Paris onde Maugham nasceu por acaso, e que não é a de Hemingway, claro, mas a de Somerset: um céu mais do que azul, num véu pintado, vista da janela do Ritz sobre ruas molhadas, roupas certas e cardápios da moda, fortunas e etiquetas, horários de trens e convites para festas na Riviera.
A Paris do visitante, dos ricos tagarelando sobre a ameaça de guerra e dos parisienses comprando vinho barato e baguettes recheadas. Malicioso como uma dama de Florença, o escritor nos conduz para dentro do ponto de vista americano sobre o velho continente europeu, e nele engasta a sua história de um amor nublado por perguntas em torno de Deus.
É pouco? Só vi fazer melhor quando Graham Greene — outro inglês com a flauta mágica — escreveu End of the Affair (embora a fé católica pese demais sobre esse romance bem diferente deste relato “pagão”).
Sou de uma época em que se apreciava tudo isso. Havia ternura pela busca de valores abstratos, febre no amor feminino e no amor masculino com seus códigos intensificados pela diferenciação — e não o contrário. O erotismo podia ser o da vida e o da morte (como no romance de Greene), e uma certa dignidade essencial ainda não fora desfigurada pela guerra nas trincheiras, entre soldados com almas próprias, lembranças e olhos por fechar, nos campos de batalha depois abertos a visitantes de smoking, vindos da capital elegante.
Houve um tempo assim. Agora, está definitivamente acabado.
Uma parte dele — e aquele anel que resta atrás da samambaia do hotel ainda não demolido — jaz nas páginas deste “romanção” à antiga, cheio de coisas perdidas, prazer da narrativa e o mais que está ficando difícil de encontrar nas estantes onde você sempre pode pegar O fio da navalha sem dizer a ninguém e até mesmo fingindo que jamais leu quaisquer das novelas de W. Somerset Maugham.
terça-feira, março 31
Em uma tarde de outono
Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono… Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…
Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?
A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos…
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!
E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol…
Olavo Bilac, "Poesias"
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono… Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…
Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?
A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos…
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!
E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol…
Olavo Bilac, "Poesias"
A letra A: palavra por palavra
Abismo: Havia, nos fundos do externato, um barranco perpendicular que caía do morro. Depois do recreio, alguns meninos, eu entre eles, ficavam de baixo a mirá-lo, medindo-lhe as possibilidades.
Era um tremendo desafio ao nosso espírito de aventura, pois despencava vertical de uma altura de uns trinta metros, e tudo o que tinha como ponto de apoio eram alguns degraus naturais da escavação e uns poucos arbustos e raízes que o corte deixara a nu. Nós ficávamos debaixo a observá-lo com olhos de alpinista, a medir-lhe a tentação e o perigo: um pequeno grupo de garotos de cáqui que já tinham lido Júlio Verne. E saímos dali a nos fazer apostas – sobe, não sobe: como se da coragem de tentar ou não a escalada dependesse toda a nossa futura dignidade de homens.
Uma tarde, depois de um bate-bola, partimos para lá. O barranco parecia me olhar, na luz do entardecer, e eu, a defrontá-lo, parecia ouvir-lhe a voz cavilosa que me desafiava:
– Vem se você é homem!
E súbito eu parti e pus-me a galgá-lo com raiva, as mãos fincadas na terra como garras, os pés vencendo o barro mole à força de escorregar e tentar novamente. Vários garotos me seguiram, que desistiram logo, à exceção de um que me acompanhava de perto. Quando consegui apoiar-me a um troço de raiz e olhei para baixo, vi que tinha subido uns bons dez metros. Vi também, no fim da perpendicular, o rosto impassível de meu amigo A.V.P., que um segundo antes tentara me dissuadir da aventura em nome do bom senso. Depois, de repente, o garoto que me seguia largou presa e escorregou barranco abaixo – mas sem se machucar, pois até o estágio onde nos encontrávamos o aclive não era arriscado. Respirei fundo ao vê-lo que se sacudia do barro que lhe imundava o uniforme, e logo a seguir partiu correndo. E foi aí que eu cometi a temeridade. Sim, sozinho na escalada, senti-me um vencedor. Pensei que era mais homem que os demais, que a mim estava reservado um destino maior. E olhando para cima, recomecei a subida.
Foi terrível, porque, a partir dali, a ribanceira descia a pique, e eu, mal dado o passo inicial, senti pela primeira vez a sensação do abismo embaixo, a sucção que a força de gravidade parecia exercer sobre meu corpo seguro apenas pelos pés e pelas mãos a pedaços precários de raízes e tufos de arbustos nascidos na encosta. Parar e descer pareceu-me impossível. Logo acima, uma raiz maior, como negra cariátide, protuberava um meio metro do barranco. Fazendo um desesperado esforço, consegui içar-me até ela e cavalgá-la, de costas para o abismo: um bem pequeno abismo, é certo, mas não menos assassino, pois a essa altura ele já adquirira para mim uma conotação até então desconhecida, de vertigem e perigo mortal.
A noite caía rapidamente, e as grandes árvores do morro começaram a criar um nicho de trevas, ali naquele desvão. Olhei para cima: deviam faltar ainda uns dez metros para alcançar o platô do morro – e só então vi que não podia fazer mais nada. Depois, cautelosamente, olhei para baixo: não havia mais ninguém. Até A.V.P., o amigo, abandonara-me ao perigo em que eu me encontrava. Tive vontade de chorar. Meu coração pôs-se a bater mais forte, sacudido pelo medo que me acometia mais e mais. Eu era, montado naquela raiz, um pequeno cavaleiro do abismo, sem nada em cima a que me soerguer, sem nada embaixo para me sustentar, senão, depois da queda, o chão que eu já mal distinguia, pois uma boca de treva se fora formando a meus pés, treda e como que à espera de que eu caísse para me deglutir.
Alguém já experimentou o sentimento físico da solidão? O sentimento de se saber irremediavelmente só, como deve ter sentido o poeta Hart Crane depois de jogar-se ao mar, de noite, e ver seu navio ir embora num feixe de luzes que se foram perdendo pouco a pouco no oceano? Ou como Guillaumet, quando seu pequeno avião caiu nos Andes, no grande deserto eriçado de picos, como catedrais de neve, e todo rasgado em gargantas indevassáveis?
Eu experimentei – um menino de apenas 13 anos – esse sentimento quando a noite veio e tudo o que eu tinha para me apoiar era um negro paredão de terra e a sela de uma velha raiz protuberante – e vinte metros de nada embaixo. Uma bem mesquinha solidão perto da desses dois ases da poesia e da aviação: mas para mim, adolescente, era a primeira; e eu não sabia ainda o que eles sabiam, que fez ao poeta escolher a morte no mar, em plena noite, e ao aviador andar três dias, gelado e faminto, na busca desesperada de um cimo bem visível onde lhe pudessem descobrir o corpo, a fim de que sua mulher não perdesse o seu seguro de vida. Neste, o auge do instinto de vida; no outro, o auge do instinto de morte.
Foi quando ouvi a voz de A.V.P. e a de um irmão secular do colégio, cujo nome não lembro mais. O amigo me concitava friamente a descer.
– Mas eu não vou poder…
– Vai sim. Se você subiu, pode descer.
Pensei que tudo era melhor que aquele sentimento experimentado: não o medo da morte, mas o terrível cara a cara com a solidão. Era melhor cair, quebrar-me todo, morrer, que senti-lo de novo. Aquelas vozes embaixo eram tudo de que eu precisava para voltar a ser eu mesmo, um menino entre os outros, um menino com pai, mãe, irmãos, e amigos; um menino que jogava no ataque e já revelava um individualismo feroz em seu futebol, driblando muito e querendo chegar sozinho à meta.
E desci. Desci lenta, cautelosamente, experimentando bem com o pé cada reentrância onde pisava, e nunca largando o apoio de cima senão ao me sentir seguro de não cair. Desci às cegas mas desci, sabendo que cada segundo ganho ao abismo era uma possibilidade cada vez maior de sobrevivência. E, na última etapa, quando risonho e esfogueado me voltei, a primeira coisa que vi foi a mão de A.V.P. estendida para mim, e seu rosto tenso que se relaxava ao contato de minha mão. A mão do amigo. Do amigo cuja vida ele não tivera dúvida em arriscar, na certeza de que nada no mundo é feito sem esperança.
Vinicius de Moraes, Poesia completa e prosa
Era um tremendo desafio ao nosso espírito de aventura, pois despencava vertical de uma altura de uns trinta metros, e tudo o que tinha como ponto de apoio eram alguns degraus naturais da escavação e uns poucos arbustos e raízes que o corte deixara a nu. Nós ficávamos debaixo a observá-lo com olhos de alpinista, a medir-lhe a tentação e o perigo: um pequeno grupo de garotos de cáqui que já tinham lido Júlio Verne. E saímos dali a nos fazer apostas – sobe, não sobe: como se da coragem de tentar ou não a escalada dependesse toda a nossa futura dignidade de homens.
Uma tarde, depois de um bate-bola, partimos para lá. O barranco parecia me olhar, na luz do entardecer, e eu, a defrontá-lo, parecia ouvir-lhe a voz cavilosa que me desafiava:
– Vem se você é homem!
E súbito eu parti e pus-me a galgá-lo com raiva, as mãos fincadas na terra como garras, os pés vencendo o barro mole à força de escorregar e tentar novamente. Vários garotos me seguiram, que desistiram logo, à exceção de um que me acompanhava de perto. Quando consegui apoiar-me a um troço de raiz e olhei para baixo, vi que tinha subido uns bons dez metros. Vi também, no fim da perpendicular, o rosto impassível de meu amigo A.V.P., que um segundo antes tentara me dissuadir da aventura em nome do bom senso. Depois, de repente, o garoto que me seguia largou presa e escorregou barranco abaixo – mas sem se machucar, pois até o estágio onde nos encontrávamos o aclive não era arriscado. Respirei fundo ao vê-lo que se sacudia do barro que lhe imundava o uniforme, e logo a seguir partiu correndo. E foi aí que eu cometi a temeridade. Sim, sozinho na escalada, senti-me um vencedor. Pensei que era mais homem que os demais, que a mim estava reservado um destino maior. E olhando para cima, recomecei a subida.
Foi terrível, porque, a partir dali, a ribanceira descia a pique, e eu, mal dado o passo inicial, senti pela primeira vez a sensação do abismo embaixo, a sucção que a força de gravidade parecia exercer sobre meu corpo seguro apenas pelos pés e pelas mãos a pedaços precários de raízes e tufos de arbustos nascidos na encosta. Parar e descer pareceu-me impossível. Logo acima, uma raiz maior, como negra cariátide, protuberava um meio metro do barranco. Fazendo um desesperado esforço, consegui içar-me até ela e cavalgá-la, de costas para o abismo: um bem pequeno abismo, é certo, mas não menos assassino, pois a essa altura ele já adquirira para mim uma conotação até então desconhecida, de vertigem e perigo mortal.
A noite caía rapidamente, e as grandes árvores do morro começaram a criar um nicho de trevas, ali naquele desvão. Olhei para cima: deviam faltar ainda uns dez metros para alcançar o platô do morro – e só então vi que não podia fazer mais nada. Depois, cautelosamente, olhei para baixo: não havia mais ninguém. Até A.V.P., o amigo, abandonara-me ao perigo em que eu me encontrava. Tive vontade de chorar. Meu coração pôs-se a bater mais forte, sacudido pelo medo que me acometia mais e mais. Eu era, montado naquela raiz, um pequeno cavaleiro do abismo, sem nada em cima a que me soerguer, sem nada embaixo para me sustentar, senão, depois da queda, o chão que eu já mal distinguia, pois uma boca de treva se fora formando a meus pés, treda e como que à espera de que eu caísse para me deglutir.
Alguém já experimentou o sentimento físico da solidão? O sentimento de se saber irremediavelmente só, como deve ter sentido o poeta Hart Crane depois de jogar-se ao mar, de noite, e ver seu navio ir embora num feixe de luzes que se foram perdendo pouco a pouco no oceano? Ou como Guillaumet, quando seu pequeno avião caiu nos Andes, no grande deserto eriçado de picos, como catedrais de neve, e todo rasgado em gargantas indevassáveis?
Eu experimentei – um menino de apenas 13 anos – esse sentimento quando a noite veio e tudo o que eu tinha para me apoiar era um negro paredão de terra e a sela de uma velha raiz protuberante – e vinte metros de nada embaixo. Uma bem mesquinha solidão perto da desses dois ases da poesia e da aviação: mas para mim, adolescente, era a primeira; e eu não sabia ainda o que eles sabiam, que fez ao poeta escolher a morte no mar, em plena noite, e ao aviador andar três dias, gelado e faminto, na busca desesperada de um cimo bem visível onde lhe pudessem descobrir o corpo, a fim de que sua mulher não perdesse o seu seguro de vida. Neste, o auge do instinto de vida; no outro, o auge do instinto de morte.
Foi quando ouvi a voz de A.V.P. e a de um irmão secular do colégio, cujo nome não lembro mais. O amigo me concitava friamente a descer.
– Mas eu não vou poder…
– Vai sim. Se você subiu, pode descer.
Pensei que tudo era melhor que aquele sentimento experimentado: não o medo da morte, mas o terrível cara a cara com a solidão. Era melhor cair, quebrar-me todo, morrer, que senti-lo de novo. Aquelas vozes embaixo eram tudo de que eu precisava para voltar a ser eu mesmo, um menino entre os outros, um menino com pai, mãe, irmãos, e amigos; um menino que jogava no ataque e já revelava um individualismo feroz em seu futebol, driblando muito e querendo chegar sozinho à meta.
E desci. Desci lenta, cautelosamente, experimentando bem com o pé cada reentrância onde pisava, e nunca largando o apoio de cima senão ao me sentir seguro de não cair. Desci às cegas mas desci, sabendo que cada segundo ganho ao abismo era uma possibilidade cada vez maior de sobrevivência. E, na última etapa, quando risonho e esfogueado me voltei, a primeira coisa que vi foi a mão de A.V.P. estendida para mim, e seu rosto tenso que se relaxava ao contato de minha mão. A mão do amigo. Do amigo cuja vida ele não tivera dúvida em arriscar, na certeza de que nada no mundo é feito sem esperança.
Vinicius de Moraes, Poesia completa e prosa
O pai de Gregor Samsa era um barato
Sempre me intrigou a surpresa geral diante da metamorfose de Gregor Samsa. O sujeito acorda transformado numa barata e todo mundo reage como se aquilo fosse uma inovação biológica, uma espécie de upgrade evolutivo. Ora, ninguém vira barata do nada. Não é como uma gripe. Há, no mínimo, um histórico familiar.
Sustento, com minha conhecida irresponsabilidade científica, que o pai de Gregor já era um barato. Talvez não no sentido entomológico (não imagino o senhor Samsa pai andando pelas paredes ou disputando migalhas com formigas), mas no sentido moral, psicológico e doméstico da coisa. Era uma cascuda humana, que é uma espécie muito comum.
Reparem: o pai de Gregor passava o dia estendido no sofá, ruminando fracassos, emitindo sons guturais e exigindo sustento do filho. Se isso não é comportamento típico de um inseto, não sei o que é. Os ortópteros, como se sabe, são especialistas em sobreviver às custas do ambiente. Não produzem, não contribuem, mas aparecem sempre na hora de fazer uma boquinha.
Imagino a cena. Dona Samsa, resignada, olhando para o marido espalhado na poltrona como uma vírgula mal colocada e pensando: “Isso não é homem, é um rastejante”. A ciência ainda não reconhece o gene do “baratismo paterno”, mas ele deve existir, recessivo, aguardando uma oportunidade para se manifestar em forma de casco e antenas.
Gregor, coitado, foi apenas o primeiro da família a assumir em público o que os outros já eram conceitualmente. Sua metamorfose não foi uma transformação; foi uma sinceridade biológica. Enquanto o pai vestia o uniforme de autoridade e a mãe carregava o avental da abnegação, Gregor resolveu radicalizar: virou o que todos já insinuavam ser.
Aliás, suspeito da mãe também. Aquela dedicação exagerada, aquele amor aflito e, ao mesmo tempo, condicionado ao desempenho financeiro do filho. Há algo de muito barata nisso. Esses animais são conhecidos por uma maternidade intensa e até meio desesperada. Não me surpreenderia se, ao final da história, alguém levantasse o tapete da sala e encontrasse toda a linhagem Samsa acomodada ali, discutindo a prestação da casa e o preço da farinha.
O pai, quando descobre a nova forma do filho, reage com violência. Dá-lhe chutes e bengaladas. Nada mais típico de uma barata acuada do que atacar com o que estiver à pata. É o instinto de bicho que defende seu território.
Há também a questão do trabalho. Antes da metamorfose, Gregor era o único provedor. Depois que ele se torna um animal asqueroso, a família precisa trabalhar. E trabalha. Veja bem: quando o filho deixa de sustentar o lar, os pais subitamente recuperam a mobilidade. Milagre? Não. Sem o salário de Gregor, a despensa ficou vazia. E barata, quando a comida acaba, aprende até a usar gravata.
No fundo, a história não é sobre um homem que virou um ser irracional. É sobre uma família que já era um pequeno ecossistema de baratas dependentes e oportunistas. Gregor apenas teve a coragem (ou o azar) de tornar isso visível.
E talvez esteja aí a verdadeira tragédia kafkiana: não virar barata, mas descobrir que sempre se foi uma.
Sustento, com minha conhecida irresponsabilidade científica, que o pai de Gregor já era um barato. Talvez não no sentido entomológico (não imagino o senhor Samsa pai andando pelas paredes ou disputando migalhas com formigas), mas no sentido moral, psicológico e doméstico da coisa. Era uma cascuda humana, que é uma espécie muito comum.
Reparem: o pai de Gregor passava o dia estendido no sofá, ruminando fracassos, emitindo sons guturais e exigindo sustento do filho. Se isso não é comportamento típico de um inseto, não sei o que é. Os ortópteros, como se sabe, são especialistas em sobreviver às custas do ambiente. Não produzem, não contribuem, mas aparecem sempre na hora de fazer uma boquinha.
Imagino a cena. Dona Samsa, resignada, olhando para o marido espalhado na poltrona como uma vírgula mal colocada e pensando: “Isso não é homem, é um rastejante”. A ciência ainda não reconhece o gene do “baratismo paterno”, mas ele deve existir, recessivo, aguardando uma oportunidade para se manifestar em forma de casco e antenas.
Gregor, coitado, foi apenas o primeiro da família a assumir em público o que os outros já eram conceitualmente. Sua metamorfose não foi uma transformação; foi uma sinceridade biológica. Enquanto o pai vestia o uniforme de autoridade e a mãe carregava o avental da abnegação, Gregor resolveu radicalizar: virou o que todos já insinuavam ser.
Aliás, suspeito da mãe também. Aquela dedicação exagerada, aquele amor aflito e, ao mesmo tempo, condicionado ao desempenho financeiro do filho. Há algo de muito barata nisso. Esses animais são conhecidos por uma maternidade intensa e até meio desesperada. Não me surpreenderia se, ao final da história, alguém levantasse o tapete da sala e encontrasse toda a linhagem Samsa acomodada ali, discutindo a prestação da casa e o preço da farinha.
O pai, quando descobre a nova forma do filho, reage com violência. Dá-lhe chutes e bengaladas. Nada mais típico de uma barata acuada do que atacar com o que estiver à pata. É o instinto de bicho que defende seu território.
Há também a questão do trabalho. Antes da metamorfose, Gregor era o único provedor. Depois que ele se torna um animal asqueroso, a família precisa trabalhar. E trabalha. Veja bem: quando o filho deixa de sustentar o lar, os pais subitamente recuperam a mobilidade. Milagre? Não. Sem o salário de Gregor, a despensa ficou vazia. E barata, quando a comida acaba, aprende até a usar gravata.
No fundo, a história não é sobre um homem que virou um ser irracional. É sobre uma família que já era um pequeno ecossistema de baratas dependentes e oportunistas. Gregor apenas teve a coragem (ou o azar) de tornar isso visível.
E talvez esteja aí a verdadeira tragédia kafkiana: não virar barata, mas descobrir que sempre se foi uma.
Crônica da Abolição
Eu pertenço a uma família de profetas “après coup”, “post factum”, “depois do gato morto”, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (“coupe do milieu”, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...
— Oh! meu senhô! Fico.
— Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.
Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
— Artura não qué dizê nada, não, senhô...
— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
— Eu vaio um galo, sim, senhô.
— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (“coupe do milieu”, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...
— Oh! meu senhô! Fico.
— Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.
Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
— Artura não qué dizê nada, não, senhô...
— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
— Eu vaio um galo, sim, senhô.
— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
Machado de Assis
sábado, março 28
Palavras
Senhora do próprio tempo, resgatei as palavras cruzadas, hábito adquirido desde a infância. Após o almoço na casa da avó, o pai e eu sentávamos no banco do jardim construído pelo avô e nos divertíamos com o desafio quadriculado. Ele usava lápis, para poder apagar no caso de erro ou deixar o passatempo ainda disponível, já que a revista não nos pertencia. Assim, em idade pré-escolar, fui armazenando sinônimos, antônimos, verbos rebuscados e outros conhecimentos, caminhando em direção às letras que seriam meu destino.
Isso também era evidente, quando o avô abria o jornal sobre a mesa de refeições, tendo próximo um copo de cerveja (a avó não permitia que ele fosse beber no bar), e passava um longo tempo desvendando as notícias. Eu era tão pequena que, de pé a seu lado, via as páginas na altura dos olhos e me encantava com as letras grandes e pequenas, distribuídas ordenadamente em colunas e, de vez em quando, interrompidas por fotografias. Nunca soube o que ele deduzia daquelas tantas informações.
O pai também me despertou o interesse pelos livros. Nossa casa era das poucas onde havia uma estante na sala, fazendo companhia ao toca-discos. Eu tinha livre acesso aos volumes e às vezes assustava o proprietário por estar lendo “livros não recomendados aos pequenos”. A coleção infantil de Monteiro Lobato me enchia de orgulho, com suas capas verdes e títulos prateados. Foi comprada em prestações, de vendedores que iam de porta em porta oferecer seus pesados produtos. O pai lia (e traduzia) as histórias de Pedrinho, Narizinho, Emília, tia Nastácia, o visconde de Sabugosa, o marquês de Rabicó, a Cuca, o saci e muitos outros. Além disso, chegavam mensalmente os lançamentos do Clube do Livro, de que a família era sócia. Romances, a maioria.
A preferência paterna recaía sobre Cronin, e sua obra O Farol do Norte motivou minha escolha pelo jornalismo. O vestibular se aproximava a passos largos, e eu ainda não decidira sobre o futuro. Queria ser escritora, mas o curso de Letras não me atraía. Até que li o romance sobre a luta para a sobrevivência de um jornal à beira da falência e vi um anúncio sobre curso intensivo para os exames, então, decidi tentar. Passei entre os primeiros e segui em frente, com relativo sucesso.
Durante o curso, descobri os latinos e me apaixonei para sempre. Cortázar, García Márquez, Bioy Casares, Manuel Puig, Mario Vargas Llosa e outros me deram ganas de escrever. Daí venci alguns concursos literários, publiquei livros e hoje sou o que você conhece, leitor, um ser repleto de palavras e sentimentos que nunca se apagam.
Isso também era evidente, quando o avô abria o jornal sobre a mesa de refeições, tendo próximo um copo de cerveja (a avó não permitia que ele fosse beber no bar), e passava um longo tempo desvendando as notícias. Eu era tão pequena que, de pé a seu lado, via as páginas na altura dos olhos e me encantava com as letras grandes e pequenas, distribuídas ordenadamente em colunas e, de vez em quando, interrompidas por fotografias. Nunca soube o que ele deduzia daquelas tantas informações.
O pai também me despertou o interesse pelos livros. Nossa casa era das poucas onde havia uma estante na sala, fazendo companhia ao toca-discos. Eu tinha livre acesso aos volumes e às vezes assustava o proprietário por estar lendo “livros não recomendados aos pequenos”. A coleção infantil de Monteiro Lobato me enchia de orgulho, com suas capas verdes e títulos prateados. Foi comprada em prestações, de vendedores que iam de porta em porta oferecer seus pesados produtos. O pai lia (e traduzia) as histórias de Pedrinho, Narizinho, Emília, tia Nastácia, o visconde de Sabugosa, o marquês de Rabicó, a Cuca, o saci e muitos outros. Além disso, chegavam mensalmente os lançamentos do Clube do Livro, de que a família era sócia. Romances, a maioria.
A preferência paterna recaía sobre Cronin, e sua obra O Farol do Norte motivou minha escolha pelo jornalismo. O vestibular se aproximava a passos largos, e eu ainda não decidira sobre o futuro. Queria ser escritora, mas o curso de Letras não me atraía. Até que li o romance sobre a luta para a sobrevivência de um jornal à beira da falência e vi um anúncio sobre curso intensivo para os exames, então, decidi tentar. Passei entre os primeiros e segui em frente, com relativo sucesso.
Durante o curso, descobri os latinos e me apaixonei para sempre. Cortázar, García Márquez, Bioy Casares, Manuel Puig, Mario Vargas Llosa e outros me deram ganas de escrever. Daí venci alguns concursos literários, publiquei livros e hoje sou o que você conhece, leitor, um ser repleto de palavras e sentimentos que nunca se apagam.
Off Price
Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado...
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado...
Thiago de Mello
É velhice ou não sei ler?
Sofro de memória curta para certas lembranças, inclusive para livros inteiros, muitos deles desbravados na hora, ardentemente e, mais à frente, esquecidos, ainda que me deixem algum rescaldo de tênue consistência.
Falo assim tendo à mão uma velha crônica de Martinho Moreira Franco fazendo menção ao meu pegadio com livros, dependência que não está longe do modo como vivi a primeira infância: filho único numa casa solitária, à distância de outras casas com crianças, cercado de advertências e medos de lobisomens (nesse tempo existia), de cachorro doente, do bote do guaxinim, de cobra coral, a que mais deslizava por entre as ervas rasteiras dos cantos de parede. Medo do doido Olegário, que andava pelos altos com seu grito rouco de fonemas que não chegavam a ter sentido.
Resumia-me numa convivência de silêncios, somente quebrada pelas falas da cozinha e o zunido das abelhas em seu voo incessante, das flores para os cortiços enfileirados no alpendre, com frente para o sol benéfico da manhã.
Lu-iz! Era, de vez em quando, o chamado lá de dentro, de tônica bem aguda, para saber onde e o que eu estava fazendo.
Já lendo sozinho, foi nos poucos livros de D. Antonina, todos sagrados, e no jornalzinho da igreja que fui achar companhias. No primeiro ou segundo “livro de leitura” é que fui atrelar-me a um casal de crianças que rumava de trem das terras do cacau para as do café com leite, deixando-me atrapalhado em Pindamonhangaba. Aí demorei soletrando, perdendo os dois de vista, que se foram para sempre com o trem que se chegou a sonhar e que empacou antes da serra de Areia, em Alagoa Grande.
E me adomei nessa dependência, remoendo o despreparo para o esporte: o vôlei do tempo de ginásio, o futebol a mim reduzido ao time de botão, com uma seleção em que entravam desde craques do Treze aos do Vasco da Copa de 1950.
Como se pode ver, não me peguei com o livro por opção, mas como refúgio para não ficar falando sozinho. Some-se a isso o internato, no antigo Pio XI, do padre Odilon Pedrosa, com mais horas no salão de leitura, na sala de aula, na missa, do que nos intervalos das refeições e do recreio.
É uma dependência, para não dizer vício, mas com uma vantagem: os livros não mudam. Serenos ou arrebatados, venham de Machado ou de Zé Lins, de Carlos Romero ou de Hildeberto, serão sempre os mesmos e sempre com mais significados quando voltamos a eles.
Mas a memória não me ajuda muito, salvo em leituras que me ferraram a sensibilidade ou se juntaram, vívidas, à minha experiência, ao meu espírito.
Por mais que estudasse, a meu modo, o fazer literário ou me detivesse no emprego da palavra que a ideia exigia, muita coisa se apartou da memória.
Agora mesmo, coisa de uma semana atrás, dei com uma antologia do conto norte-americano lida há uns trinta anos. Passei as folhas tendo como bem lembrado e vivo apenas um conto do velho Steinbeck, O pônei alazão. Dos demais, inclusive Poe, Henry James ou o mais jovem deles, Saroyan, todos com expressões ou frases inteiras frisadas na primeira leitura, ressurgiam inteiramente apagados, fora da memória.
Falo assim tendo à mão uma velha crônica de Martinho Moreira Franco fazendo menção ao meu pegadio com livros, dependência que não está longe do modo como vivi a primeira infância: filho único numa casa solitária, à distância de outras casas com crianças, cercado de advertências e medos de lobisomens (nesse tempo existia), de cachorro doente, do bote do guaxinim, de cobra coral, a que mais deslizava por entre as ervas rasteiras dos cantos de parede. Medo do doido Olegário, que andava pelos altos com seu grito rouco de fonemas que não chegavam a ter sentido.
Resumia-me numa convivência de silêncios, somente quebrada pelas falas da cozinha e o zunido das abelhas em seu voo incessante, das flores para os cortiços enfileirados no alpendre, com frente para o sol benéfico da manhã.
Lu-iz! Era, de vez em quando, o chamado lá de dentro, de tônica bem aguda, para saber onde e o que eu estava fazendo.
Já lendo sozinho, foi nos poucos livros de D. Antonina, todos sagrados, e no jornalzinho da igreja que fui achar companhias. No primeiro ou segundo “livro de leitura” é que fui atrelar-me a um casal de crianças que rumava de trem das terras do cacau para as do café com leite, deixando-me atrapalhado em Pindamonhangaba. Aí demorei soletrando, perdendo os dois de vista, que se foram para sempre com o trem que se chegou a sonhar e que empacou antes da serra de Areia, em Alagoa Grande.
E me adomei nessa dependência, remoendo o despreparo para o esporte: o vôlei do tempo de ginásio, o futebol a mim reduzido ao time de botão, com uma seleção em que entravam desde craques do Treze aos do Vasco da Copa de 1950.
Como se pode ver, não me peguei com o livro por opção, mas como refúgio para não ficar falando sozinho. Some-se a isso o internato, no antigo Pio XI, do padre Odilon Pedrosa, com mais horas no salão de leitura, na sala de aula, na missa, do que nos intervalos das refeições e do recreio.
É uma dependência, para não dizer vício, mas com uma vantagem: os livros não mudam. Serenos ou arrebatados, venham de Machado ou de Zé Lins, de Carlos Romero ou de Hildeberto, serão sempre os mesmos e sempre com mais significados quando voltamos a eles.
Mas a memória não me ajuda muito, salvo em leituras que me ferraram a sensibilidade ou se juntaram, vívidas, à minha experiência, ao meu espírito.
Por mais que estudasse, a meu modo, o fazer literário ou me detivesse no emprego da palavra que a ideia exigia, muita coisa se apartou da memória.
Agora mesmo, coisa de uma semana atrás, dei com uma antologia do conto norte-americano lida há uns trinta anos. Passei as folhas tendo como bem lembrado e vivo apenas um conto do velho Steinbeck, O pônei alazão. Dos demais, inclusive Poe, Henry James ou o mais jovem deles, Saroyan, todos com expressões ou frases inteiras frisadas na primeira leitura, ressurgiam inteiramente apagados, fora da memória.
O coração delator
— Verdade! – sou muito nervoso – terrivelmente nervoso – sempre fui e serei. Mas, por que dirão vocês que sou louco? A doença aguçara-me os sentidos – não os destruíra nem os anestesiara. Acima de tudo minha audição tornara-se agudíssima. Ouvia todas as coisas, as do céu e as da terra. Ouvia muitas coisas do inferno. Como então podem dizer que sou louco? Escutem-me! E observem com quanta lucidez, com quanta serenidade lhes conto toda a história.
É impossível dizer como a ideia me surgiu na mente, mas uma vez concebida perseguia-me noite e dia. Objetivo, não havia nenhum. Nem paixão havia. Eu até gostava do velho. Nunca me fizera mal algum. Jamais me maltratara. E eu também não lhe cobiçava o ouro. Creio que foi por causa daquele seu olho! Sim, foi por isso! Um de seus olhos assemelhava-se ao de um abutre – um olho de cor azul pálido encoberto por uma película. Sempre que o velho o pousava em mim, gelava-me o sangue, e, pouco a pouco, muito gradualmente, acabei decidindo tirar-lhe a vida e assim livrar-me daquele olhar de uma vez por todas.
Agora a questão é a seguinte: vocês me imaginam louco. Os loucos nada sabem. Vocês deviam ter-me visto a mim. Deveriam ter visto com quanta sabedoria procedi – com que cautela e antevisão – com que dissimulação pus-me ao trabalho!
Nunca fora tão bondoso com o velho como na semana antes de matá-lo. E todas os dias, por volta da meia-noite, girava o trinco da porta de seu quarto e a abria-a – ah, tão delicadamente! E, então, quando já a afastara por uns dois palmos, ia aos poucos enfiando no quarto uma lanterna escura, fechada, totalmente fechada de modo a não deixar escapar a mínima luz e só depois é que enfiava a minha cabeça. Ah! Vocês teriam rido muito se tivessem visto a astúcia com que eu realizava esse gesto. Movia minha cabeça bem devagar – muito devagarinho a fim de não perturbar o sono do velho. Levava uma hora inteira até fazer minha cabeça atravessar completamente a abertura e colocar-me a uma distância suficiente para poder vê-lo deitado no leito. Ah! Um louco teria agido assim tão sabiamente? E, depois, quando minha cabeça já estava completamente dentro do quarto, girava o obstruidor da lanterna com o máximo cuidado – com todo o cuidado! Muitíssimo cuidado (pois poderia fazer barulho) – girava-o o mínimo possível de forma que somente um único e finíssimo raio de luz fosse pousar sobre aquele olho de abutre. E fiz isso durante sete longas noites – todas as noites exatamente à meia-noite – mas descobria que o olho estava sempre fechado, era impossível realizar minha tarefa, já que não era o velho que me exasperava, e sim o seu Olho Maligno. E todas as manhãs, ao raiar do dia, estava no aposento corajosamente e falava-lhe sem nenhum temor, chamando-o pelo nome em tom animado e perguntando-lhe como passara a noite. Portanto, como vocês mesmos bem podem ver, ele teria de ser um homem muitíssimo sagaz para suspeitar que todas as noites, exatamente à meia-noite, eu punha-me a vigiá-lo enquanto dormia.
Na oitava noite, fui ainda mais cauteloso ao abrir a porta. Os ponteiros dos minutos de um relógio podiam se mover mais rápidos que minhas mãos. Até essa noite, nunca havia sentido o alcance de meus poderes, da minha astúcia. Mal podia conter a sensação de triunfo. Pensar que lá estava eu abrindo a porta pouco a pouco, sem que ele sequer sonhasse com os meus atos ou com os meus pensamentos secretos. Cheguei mesma a rir-me de tal ideia... e talvez ele tivesse me ouvido pois mexeu-se na cama repentinamente, como se acordasse assustado. Vocês devem estar pensando então que eu recuei – mas não! O aposento estava negro como breu (as pesadas janelas estavam bem trancadas por causa do medo de ladrões) e, sabendo muito bem que ele não poderia ver a porta se abrir, continuei a empurrá-la milimetricamente, mais e mais.
Já havia enfiado minha cabeça na abertura e estava prestes a abrir o obstruidor da lanterna, quando meu polegar escorregou no fecho de lata. O velho se ergueu na cama sobressaltado, gritando: "Quem está aí?"
Fiquei imóvel e nada disse. Por uma hora inteira não movi sequer um músculo e durante todo esse tempo não o ouvi deitar-se novamente. Ainda devia estar sentado na cama procurando ouvir qualquer coisa... tal como eu fizera, noite após noite, ouvindo a morte rondar por ali.
Não muito depois, escutei um leve gemido e sabia que era produto de um pânico mortal. Não se tratava de um gemido de dor ou sofrimento... Ah não!... Era o som grave e contido que brota de dor ou sofrimento... Ah não!... Era o som grave e contido que brota do fundo da alma quando o mundo ela está saturada de terror. Eu conhecia muito bem esse som. Muitos foram as noites nas quais á meia-noite em ponto, hora em que o mundo inteiro dorme, esse mesmo som emergia de meu próprio peito e com seus ecos horripilantes aguçava ainda mais os terrores que me aturdiam. Digo-lhes que o conhecia muito bem. Sabia como o velho devia estar se sentindo e tinha pena dele, se bem que no fundo me risse. Bem sabia que ele estivera acordado na cama desde o momento do primeiro ruído leve que o despertara. Desde então os temores se agigantavam dentro dele. Havia tentado se convencer de que eram improcedentes, mas era impossível. Havia repetido a si mesmo: "Não é nada... apenas o barulho do vento pela chaminé...", ou "é apenas um rato a correr pelo quarto...", ou ainda "Deve ter sido um grilo que cricrilou uma única vez". Sim, certamente tentara se consolar com tais suposições, mas tudo em vão. Tudo em vão, porque para dele se aproximar a Morte, viera sub-repticiamente, oculta no seu manto negro com o qual capturava a vítima. E foi a funesta influência desse manto invisível que o fez sentir — embora não pudesse ver ou ouvir — que o fez sentir a presença de minha cabeça no interior do quarto.
Depois de ter esperado por muito tempo com infinita paciência sem tê-lo ouvido deitar-se, decidi abrir uma pequenina fresta – uma fresta mínima – no obstruidor da lanterna. E assim o fiz, e vocês não podem nem imaginar com que lentidão fui girando-o, até que, por fim, um único raio de luz, fino como o fio de uma teia de aranha, projetou-se da pequena fresta e foi pousar-lhe diretamente no olho de abutre.
Estava aberto – bem aberto e arregalado – e ao vê-lo fui tomando de fúria. Via-o com perfeita nitidez – todo de um azul aguado, coberto por aquela película horrenda que me gelava até a medula dos ossos. No entanto, era só o que eu podia ver da face e do corpo do velho, pois, como que por instinto, apontara o raio de luz exatamente sobre aquele maldito ponto.
Mas então já não lhes disse que aquilo que vocês tomam por loucura nada mais é que uma hiperagudeza dos sentidos? Pois digo-lhes que nesse momento ouvi um ruído, baixo e abafado, como o tique-taque de um relógio enrolado num pano. Também conhecia muito bem esse som. Eram as batidas do coração do velho. Assim como o rufar dos tambores de guerra incita o soldado à luta, esse barulho deixava-me cada vez mais furioso.
Contudo, mesmo nessa hora ainda me contive, permanecendo imóvel. Mal podia respirar. Segurava a lanterna inerte. Com o máximo de firmeza possível tentei manter o raio de luz sobre o olho do velho. Enquanto isso, o som diabólico daquele coração ia crescendo. Tornava-se cada vez mais rápido e aumentava de volume a cada instante. O terror que se apossou do velho deve ter sido extremo! Batia mais e mais, asseguro-lhes eu, cada vez mais alto!... Estão compreendendo bem o que lhes digo? Já lhes disse que sou nervoso... é assim que sou. E então na calada da noite, em meio ao terrível silêncio daquela casa velha, um ruído tão estranho quanto aquele punha-se na excitação de um incontrolável pavor. Entretanto... por mais alguns segundos... contive-me e permaneci imóvel. Mais as batidas se tornavam mais altas! Pensei que o coração fosse explodir. E então outra angústia tomou conta de mim – o ruído poderia ser ouvido por algum vizinho! Chegara a hora do velho! Com um grito incontido, escancarei a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele soltou um grito – um só e estridente como o de uma ave – uma única vez! Em um instante arrastei-o para o chão e empurrei a cama pesada sobre ele. Então sorri de satisfação ao ver o ato consumado. Porém por vários minutos o coração continuou a bater com aquele som abafado. Mas isso não me perturbava; não poderia ser ouvido através da parede. Por fim cessou. O velho estava morto. Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, estava morto, morto como uma pedra. Coloquei minha mão sobre o coração e ali a deixei ficar por alguns minutos. Não havia pulsação. Morto como pedra. Aquele seu olho nunca mais me incomodaria.
Se vocês ainda me acham louco, mudarão de opinião quando eu lhes descrever as sábias precauções que tomei para esconder o corpo. A noite findava e pus-me a trabalhar apressadamente, mas sempre em silêncio. Em primeiro lugar, desmembrei o corpo. Decepei-lhe a cabeça, os braços e as pernas.
E então arranquei depois três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as fendas. Recoloquei as tábuas com tanta habilidade, com tanta astúcia, que nenhum olho humano, – nem mesmo o dele – poderia detectar algo de errado. Não havia nada para ser lavado – nenhuma mancha de qualquer tipo – nem sequer um único pingo de sangue. Eu tinha sido extremamente cuidadoso para evitar a isso acontecesse: a banheira recolhera tudo... Ah! Ah! Ah!
Quando acabei essas tarefas eram quatro horas, mas ainda estava escuro como se fosse meia-noite. Quando o sino deu as horas, ouvi batidas na porta que dava para a rua. Desci para abri-la despreocupado... O que havia para temer agora? Entraram três homens e, com a maior palidez, identificaram-se como sendo da polícia. Um grito estridente fora ouvido por um vizinho durante a noite; levantara-se a suspeita de crime; a delegacia de polícia fora notificada e eles receberam a incumbência de investigar.
Sorri, pois que havia a temer? Dei as boas-vindas aos cavalheiros. O grito, disse-lhes, eu mesmo o dera durante um sonho. O velho, informei, estava fora, no interior. Levei os meus visitantes a todas as partes da casa. Sugeri que investigassem tudo e que investigassem muito bem. Por fim, eu os conduzi ao quarto dele. Mostrei-lhes os seus bens, totalmente seguros e intocados. Movido pelo entusiasmo de minha autoconfiança, levei cadeiras para o quarto e sugeri que descansassem ali, enquanto eu mesmo, na louca audácia de meu triunfo absoluto, colocava minha cadeira justamente sobre o local onde repousava o cadáver.
Os policiais ficaram satisfeitos. O modo como me portara convencera-os. Eu estava muito à vontade. Sentaram-se e enquanto eu ia-lhes respondendo animadamente, conversaram sobre assuntos corriqueiros. Porém, logo senti que começava a empalidecer e sejei que já tivessem ido embora. A cabeça me doía e imaginei estar ouvindo um zumbido nos ouvidos. Mas eles permaneciam sentados e continuavam a conversar. O zumbido ficou mais distinto; prosseguia e tornava-se mais nítido. Pus-me a falar com mais eloquência a fim de me livrar daquela sensação, mas o ruído continuava, cada vez mais nítido, até que, por fim, descobri que o som não estava em meus ouvidos.
Sem dúvida, nesse momento, fiquei lívido... mas falava mais, num tom mais alto. Contudo, o barulho também aumentava... e o que é que eu podia fazer? Era um ruído rápido, baixo e abafado... muito parecido com o som de um relógio enrolado num pano. Faltava-me o fôlego e, no entanto, os policiais nada ouviam. Comecei a falar mais depressa e com veemência; mas o som não parava de aumentar. Pus-me de pé e comecei a discutir sobre ninharias, com voz muito alterada e gestos violentos, mas o ruído continuava aumentando. Por que eles não iam embora? Andava de um lado para outro do quarto, com passadas largas e pesadas, como se o fato de ser assim observado por eles me levasse à loucura – e o ruído não parava de aumentar. Ah! Meu Deus! O que é que eu podia fazer? Esbravejei, vociferei, praguejei! Peguei a cadeira em que estivera sentado e pus-me a raspá-la nas tábuas do assoalho, mas o ruído excedia a tudo e aumentava mais e mais e mais. Tornou-se mais alto... mais alto... mais alto! E ainda assim os homens conversavam placidamente e sorriam. Seria possível que não estivessem ouvindo? Santíssimo Deus! Não e não! Estavam ouvindo, sim! Suspeitavam de mim! Sabiam de tudo! E zombavam do pavor que eu sentia! Foi isso que pensei, e é o que penso ainda. Mas qualquer coisa seria preferível a essa agonia! Qualquer coisa seria mais suportável que esse escárnio! Eu não podia suportar aqueles sorrisos hipócritas por nem mais um segundo! Senti que tinha de gritar ou então morreria!... E então, outra vez!... ouçam! Mais alto... Mais alto... Mais alto!...
“Canalhas!”, gritei, “parem com esse fingimento! Confesso o crime! Arranquem logo as tábuas!... Está aqui! aqui!... está aqui o bater desse coração hediondo!”
Edgar Allan Poe
É impossível dizer como a ideia me surgiu na mente, mas uma vez concebida perseguia-me noite e dia. Objetivo, não havia nenhum. Nem paixão havia. Eu até gostava do velho. Nunca me fizera mal algum. Jamais me maltratara. E eu também não lhe cobiçava o ouro. Creio que foi por causa daquele seu olho! Sim, foi por isso! Um de seus olhos assemelhava-se ao de um abutre – um olho de cor azul pálido encoberto por uma película. Sempre que o velho o pousava em mim, gelava-me o sangue, e, pouco a pouco, muito gradualmente, acabei decidindo tirar-lhe a vida e assim livrar-me daquele olhar de uma vez por todas.
Agora a questão é a seguinte: vocês me imaginam louco. Os loucos nada sabem. Vocês deviam ter-me visto a mim. Deveriam ter visto com quanta sabedoria procedi – com que cautela e antevisão – com que dissimulação pus-me ao trabalho!
Nunca fora tão bondoso com o velho como na semana antes de matá-lo. E todas os dias, por volta da meia-noite, girava o trinco da porta de seu quarto e a abria-a – ah, tão delicadamente! E, então, quando já a afastara por uns dois palmos, ia aos poucos enfiando no quarto uma lanterna escura, fechada, totalmente fechada de modo a não deixar escapar a mínima luz e só depois é que enfiava a minha cabeça. Ah! Vocês teriam rido muito se tivessem visto a astúcia com que eu realizava esse gesto. Movia minha cabeça bem devagar – muito devagarinho a fim de não perturbar o sono do velho. Levava uma hora inteira até fazer minha cabeça atravessar completamente a abertura e colocar-me a uma distância suficiente para poder vê-lo deitado no leito. Ah! Um louco teria agido assim tão sabiamente? E, depois, quando minha cabeça já estava completamente dentro do quarto, girava o obstruidor da lanterna com o máximo cuidado – com todo o cuidado! Muitíssimo cuidado (pois poderia fazer barulho) – girava-o o mínimo possível de forma que somente um único e finíssimo raio de luz fosse pousar sobre aquele olho de abutre. E fiz isso durante sete longas noites – todas as noites exatamente à meia-noite – mas descobria que o olho estava sempre fechado, era impossível realizar minha tarefa, já que não era o velho que me exasperava, e sim o seu Olho Maligno. E todas as manhãs, ao raiar do dia, estava no aposento corajosamente e falava-lhe sem nenhum temor, chamando-o pelo nome em tom animado e perguntando-lhe como passara a noite. Portanto, como vocês mesmos bem podem ver, ele teria de ser um homem muitíssimo sagaz para suspeitar que todas as noites, exatamente à meia-noite, eu punha-me a vigiá-lo enquanto dormia.
Na oitava noite, fui ainda mais cauteloso ao abrir a porta. Os ponteiros dos minutos de um relógio podiam se mover mais rápidos que minhas mãos. Até essa noite, nunca havia sentido o alcance de meus poderes, da minha astúcia. Mal podia conter a sensação de triunfo. Pensar que lá estava eu abrindo a porta pouco a pouco, sem que ele sequer sonhasse com os meus atos ou com os meus pensamentos secretos. Cheguei mesma a rir-me de tal ideia... e talvez ele tivesse me ouvido pois mexeu-se na cama repentinamente, como se acordasse assustado. Vocês devem estar pensando então que eu recuei – mas não! O aposento estava negro como breu (as pesadas janelas estavam bem trancadas por causa do medo de ladrões) e, sabendo muito bem que ele não poderia ver a porta se abrir, continuei a empurrá-la milimetricamente, mais e mais.
Já havia enfiado minha cabeça na abertura e estava prestes a abrir o obstruidor da lanterna, quando meu polegar escorregou no fecho de lata. O velho se ergueu na cama sobressaltado, gritando: "Quem está aí?"
Fiquei imóvel e nada disse. Por uma hora inteira não movi sequer um músculo e durante todo esse tempo não o ouvi deitar-se novamente. Ainda devia estar sentado na cama procurando ouvir qualquer coisa... tal como eu fizera, noite após noite, ouvindo a morte rondar por ali.
Não muito depois, escutei um leve gemido e sabia que era produto de um pânico mortal. Não se tratava de um gemido de dor ou sofrimento... Ah não!... Era o som grave e contido que brota de dor ou sofrimento... Ah não!... Era o som grave e contido que brota do fundo da alma quando o mundo ela está saturada de terror. Eu conhecia muito bem esse som. Muitos foram as noites nas quais á meia-noite em ponto, hora em que o mundo inteiro dorme, esse mesmo som emergia de meu próprio peito e com seus ecos horripilantes aguçava ainda mais os terrores que me aturdiam. Digo-lhes que o conhecia muito bem. Sabia como o velho devia estar se sentindo e tinha pena dele, se bem que no fundo me risse. Bem sabia que ele estivera acordado na cama desde o momento do primeiro ruído leve que o despertara. Desde então os temores se agigantavam dentro dele. Havia tentado se convencer de que eram improcedentes, mas era impossível. Havia repetido a si mesmo: "Não é nada... apenas o barulho do vento pela chaminé...", ou "é apenas um rato a correr pelo quarto...", ou ainda "Deve ter sido um grilo que cricrilou uma única vez". Sim, certamente tentara se consolar com tais suposições, mas tudo em vão. Tudo em vão, porque para dele se aproximar a Morte, viera sub-repticiamente, oculta no seu manto negro com o qual capturava a vítima. E foi a funesta influência desse manto invisível que o fez sentir — embora não pudesse ver ou ouvir — que o fez sentir a presença de minha cabeça no interior do quarto.
Depois de ter esperado por muito tempo com infinita paciência sem tê-lo ouvido deitar-se, decidi abrir uma pequenina fresta – uma fresta mínima – no obstruidor da lanterna. E assim o fiz, e vocês não podem nem imaginar com que lentidão fui girando-o, até que, por fim, um único raio de luz, fino como o fio de uma teia de aranha, projetou-se da pequena fresta e foi pousar-lhe diretamente no olho de abutre.
Estava aberto – bem aberto e arregalado – e ao vê-lo fui tomando de fúria. Via-o com perfeita nitidez – todo de um azul aguado, coberto por aquela película horrenda que me gelava até a medula dos ossos. No entanto, era só o que eu podia ver da face e do corpo do velho, pois, como que por instinto, apontara o raio de luz exatamente sobre aquele maldito ponto.
Mas então já não lhes disse que aquilo que vocês tomam por loucura nada mais é que uma hiperagudeza dos sentidos? Pois digo-lhes que nesse momento ouvi um ruído, baixo e abafado, como o tique-taque de um relógio enrolado num pano. Também conhecia muito bem esse som. Eram as batidas do coração do velho. Assim como o rufar dos tambores de guerra incita o soldado à luta, esse barulho deixava-me cada vez mais furioso.
Contudo, mesmo nessa hora ainda me contive, permanecendo imóvel. Mal podia respirar. Segurava a lanterna inerte. Com o máximo de firmeza possível tentei manter o raio de luz sobre o olho do velho. Enquanto isso, o som diabólico daquele coração ia crescendo. Tornava-se cada vez mais rápido e aumentava de volume a cada instante. O terror que se apossou do velho deve ter sido extremo! Batia mais e mais, asseguro-lhes eu, cada vez mais alto!... Estão compreendendo bem o que lhes digo? Já lhes disse que sou nervoso... é assim que sou. E então na calada da noite, em meio ao terrível silêncio daquela casa velha, um ruído tão estranho quanto aquele punha-se na excitação de um incontrolável pavor. Entretanto... por mais alguns segundos... contive-me e permaneci imóvel. Mais as batidas se tornavam mais altas! Pensei que o coração fosse explodir. E então outra angústia tomou conta de mim – o ruído poderia ser ouvido por algum vizinho! Chegara a hora do velho! Com um grito incontido, escancarei a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele soltou um grito – um só e estridente como o de uma ave – uma única vez! Em um instante arrastei-o para o chão e empurrei a cama pesada sobre ele. Então sorri de satisfação ao ver o ato consumado. Porém por vários minutos o coração continuou a bater com aquele som abafado. Mas isso não me perturbava; não poderia ser ouvido através da parede. Por fim cessou. O velho estava morto. Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, estava morto, morto como uma pedra. Coloquei minha mão sobre o coração e ali a deixei ficar por alguns minutos. Não havia pulsação. Morto como pedra. Aquele seu olho nunca mais me incomodaria.
Se vocês ainda me acham louco, mudarão de opinião quando eu lhes descrever as sábias precauções que tomei para esconder o corpo. A noite findava e pus-me a trabalhar apressadamente, mas sempre em silêncio. Em primeiro lugar, desmembrei o corpo. Decepei-lhe a cabeça, os braços e as pernas.
E então arranquei depois três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as fendas. Recoloquei as tábuas com tanta habilidade, com tanta astúcia, que nenhum olho humano, – nem mesmo o dele – poderia detectar algo de errado. Não havia nada para ser lavado – nenhuma mancha de qualquer tipo – nem sequer um único pingo de sangue. Eu tinha sido extremamente cuidadoso para evitar a isso acontecesse: a banheira recolhera tudo... Ah! Ah! Ah!
Quando acabei essas tarefas eram quatro horas, mas ainda estava escuro como se fosse meia-noite. Quando o sino deu as horas, ouvi batidas na porta que dava para a rua. Desci para abri-la despreocupado... O que havia para temer agora? Entraram três homens e, com a maior palidez, identificaram-se como sendo da polícia. Um grito estridente fora ouvido por um vizinho durante a noite; levantara-se a suspeita de crime; a delegacia de polícia fora notificada e eles receberam a incumbência de investigar.
Sorri, pois que havia a temer? Dei as boas-vindas aos cavalheiros. O grito, disse-lhes, eu mesmo o dera durante um sonho. O velho, informei, estava fora, no interior. Levei os meus visitantes a todas as partes da casa. Sugeri que investigassem tudo e que investigassem muito bem. Por fim, eu os conduzi ao quarto dele. Mostrei-lhes os seus bens, totalmente seguros e intocados. Movido pelo entusiasmo de minha autoconfiança, levei cadeiras para o quarto e sugeri que descansassem ali, enquanto eu mesmo, na louca audácia de meu triunfo absoluto, colocava minha cadeira justamente sobre o local onde repousava o cadáver.
Os policiais ficaram satisfeitos. O modo como me portara convencera-os. Eu estava muito à vontade. Sentaram-se e enquanto eu ia-lhes respondendo animadamente, conversaram sobre assuntos corriqueiros. Porém, logo senti que começava a empalidecer e sejei que já tivessem ido embora. A cabeça me doía e imaginei estar ouvindo um zumbido nos ouvidos. Mas eles permaneciam sentados e continuavam a conversar. O zumbido ficou mais distinto; prosseguia e tornava-se mais nítido. Pus-me a falar com mais eloquência a fim de me livrar daquela sensação, mas o ruído continuava, cada vez mais nítido, até que, por fim, descobri que o som não estava em meus ouvidos.
Sem dúvida, nesse momento, fiquei lívido... mas falava mais, num tom mais alto. Contudo, o barulho também aumentava... e o que é que eu podia fazer? Era um ruído rápido, baixo e abafado... muito parecido com o som de um relógio enrolado num pano. Faltava-me o fôlego e, no entanto, os policiais nada ouviam. Comecei a falar mais depressa e com veemência; mas o som não parava de aumentar. Pus-me de pé e comecei a discutir sobre ninharias, com voz muito alterada e gestos violentos, mas o ruído continuava aumentando. Por que eles não iam embora? Andava de um lado para outro do quarto, com passadas largas e pesadas, como se o fato de ser assim observado por eles me levasse à loucura – e o ruído não parava de aumentar. Ah! Meu Deus! O que é que eu podia fazer? Esbravejei, vociferei, praguejei! Peguei a cadeira em que estivera sentado e pus-me a raspá-la nas tábuas do assoalho, mas o ruído excedia a tudo e aumentava mais e mais e mais. Tornou-se mais alto... mais alto... mais alto! E ainda assim os homens conversavam placidamente e sorriam. Seria possível que não estivessem ouvindo? Santíssimo Deus! Não e não! Estavam ouvindo, sim! Suspeitavam de mim! Sabiam de tudo! E zombavam do pavor que eu sentia! Foi isso que pensei, e é o que penso ainda. Mas qualquer coisa seria preferível a essa agonia! Qualquer coisa seria mais suportável que esse escárnio! Eu não podia suportar aqueles sorrisos hipócritas por nem mais um segundo! Senti que tinha de gritar ou então morreria!... E então, outra vez!... ouçam! Mais alto... Mais alto... Mais alto!...
“Canalhas!”, gritei, “parem com esse fingimento! Confesso o crime! Arranquem logo as tábuas!... Está aqui! aqui!... está aqui o bater desse coração hediondo!”
Edgar Allan Poe
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