domingo, maio 17

Bom descanso

 


San Martín de los Andes

Uma choça abandonada nos indicou a fronteira. Eu já estava livre. Escrevi na parede da cabana: “Até breve, minha pátria. Vou-me embora mas levo-te comigo.”

Em San Martín de los Andes devia nos aguardar um amigo chileno. Essa cidadezinha da cordilheira argentina é tão pequena que me tinham dito como indicação única:

– Vai para o melhor hotel que ali Pedrito Ramírez irá te buscar.

Mas assim são as coisas. Em San Martín de los Andes não havia um melhor hotel: havia dois. Qual deles escolher? Decidimo-nos pelo mais caro, situado num bairro mais afastado, preterindo o primeiro que tínhamos visto defronte da bela praça da cidade.

Aconteceu que o hotel que escolhemos era tão de primeira classe que não quiseram nos aceitar. Observaram com hostilidade os efeitos de vários dias de viagem a cavalo, nossos casacos ao ombro, nossas caras com barba por fazer e poeirentas. A qualquer um dava medo de nos receber.

Ainda mais o gerente de um hotel que hospedava nobres ingleses procedentes da Escócia e que tinham vindo para pescar salmão na Argentina. Nós não tínhamos nada de lords. O gerente deu-nos o vade retro, alegando com ademanes e gestos teatrais que o último quarto disponível tinha sido reservado há dez minutos. Nisso assomou à porta um elegante cavalheiro de inconfundível tipo militar, acompanhado por uma loura cinematográfica, que gritou com voz trovejante:

– Alto! Não se manda os chilenos embora de nenhuma parte. Eles ficam aqui!

E ficamos. Nosso protetor parecia-se tanto com Perón e sua dama com Evita que pensamos todos: São eles! Mas depois, já de banho tomado e vestidos com roupa limpa, sentados à mesa e degustando uma garrafa de champanha duvidosa, soubemos que o homem era comandante da guarnição local e ela uma atriz de Buenos Aires que vinha visitá-lo.

Passamos por madeireiros chilenos dispostos a fazer bons negócios. O comandante me chamava “o Homem Montanha”. Víctor Bianchi, que até ali me acompanhava por amizade e por amor à aventura, descobriu uma guitarra e com suas pícaras canções chilenas encantava a argentinos e argentinas. Porém passaram-se três dias com suas noites e Pedrito Ramírez não chegava para me buscar. Fiquei apreensivo. Já não nos restava camisa limpa nem dinheiro para comprar novas. Um bom negociante de madeira, dizia Víctor Bianchi, pelo menos deve ter camisas.

Enquanto isso, o comandante nos ofereceu um almoço em seu regimento. Sua amizade conosco fez-se mais estreita e confessou-nos que, apesar de sua semelhança física com Perón, era antiperonista. Passávamos longas horas discutindo quem teria pior presidente, se o Chile ou a Argentina.

Certa manhã Pedrito Ramírez entrou de improviso em meu quarto.

– Desgraçado! – gritei. – Por que demoraste tanto?

Tinha sucedido o inevitável. Ele esperava tranquilamente minha chegada no outro hotel, no da praça.

Dez minutos depois estávamos rodando pelo pampa infinito. E continuamos rodando dia e noite. De vez em quando os argentinos detinham o automóvel para preparar um mate e depois continuávamos atravessando aquela monotonia interminável.
Pablo Neruda, "Confesso que Vivi"

Acordai

Acordai!

Acordai, homens que dormis
A embalar a dor
Dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raiz!

Acordai!
Acordai, raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações...

Acordai!
Acendei, de almas e de sóis,
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!
E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais.

Acordai!
José Gomes Ferreira

O caluniador

O professor de caligrafia Sergey Kapitonech Akhineiev casou-se com sua filha Natália com o professor de história e geografia Ivan Petrovich Lochdinei. A festa se realizou no meio da maior alegria. No salão se cantava, jogava e dançava. Corriam de um lado para outro das salas os investidores emprestados pelo clube, vestidos de negras casacas e gravatas brancas, bem sujas. Reinava em toda a casa alegre boatos de conversas.

O professor de matemática Tarantuloff, o francês Padekoi e o inspetor de segunda classe da Câmara de Comprovação, Egor Venedictech Mzda, sentados em fila no divã, relataram, um depois do outro, a alguns convidados, casos de enterrados vivos e expunham a sua opinião sobre o espiritismo. Nenhum dos três acreditava nisso, mas admitiam que neste mundo há muitas coisas que a inteligência humana não pode conceber.

Na sala contínua, o professor de literatura Duduski explicou um outro grupo de questionados os casos em que uma sentinela pode atirar sobre os transeuntes. As conversas, como veem eram espantosas, mas muito decididas. Pelas janelas que davam para o pátio olhavam pessoas que, pela sua situação ou posição social, não tinham o direito de entrar na casa.

À meia-noite em ponto, o dono da casa, Akhineiev, entrou na cozinha para ver se estava tudo em ordem para a ceia. Encontrou a cozinha cheia do agradável cheiro dos gansos e patos assados. Sobre as mesas expostas em artes desordem os zakuskas e as bebidas. Junto das mesas passando e tornava a passar, muito atarefada, a cozinheira Marta, mulher rubicunda, de volumoso ventre envolvida em faixas.

— Vamos ver, querida, onde está o esturjão? — disse Khineiev esfregando as mãos e requebrando-se. — Que cheiro magnífico! Eu sou capaz de comer toda a cozinha. Vamos, vamos, onde está o esturjão?

Marta mudou-se de um dos bancos e cuidadosamente chamou uma folha de jornal engordurado. Debaixo dessa folha, em enorme travessa, jazia um enorme esturjão enfeitado com azeitonas, alcaparras e cenouras, Akhineiev contemplou o peixe e soltou um ah! O seu rosto resplandeceu e os olhos se lhe lançaram. Inclinou-se e produzido com os lábios som iguais ao de uma roda sem sebo.

—Ah! Som de um beijo apaixonado!… Marta, com quem você está beijando por aí?

Ouviu-se uma voz dizer isto da sala ao lado e à porta assomou a cabeça pelada do auxiliar Vankin.

— Com quem você está beijando? Muito bem! Com quem? Com Sergey Kapitonech? Fora com o avô! Tête-à-tête com uma mulher!

— Eu não estou beijando com ninguém — respondeu Akhineiev, algo confuso. — Quem você disse coisa semelhante, maluco? Fui eu que fiz com os lábios esse ruído, encantado pelo esturjão.

— Não me venha com histórias!

Vankin deixou escapar e sumiu da porta. Akhineiev ficou vermelho.

— Que bobagem! — pensar.

— Agora este maroto vai sair com chocarrices… Esse animal vai me ridicularizar pela cidade toda…

Akhineiev entrou timidamente no salão e olhou para Vankin de Soslaio. Este estava de pé junto do piano e, inclinado, em atitude decidida, disse alguma coisa em voz em baixa à cunhada do inspetor, que ria.

— Está falando de mim — inventou Akhineiev. — De mim! Assim, maldito! E ela acredita! Está rindo! Meu Deus! Não, isto não pode ficar assim!… De maneira alguma! Tenho que arranjar as coisas de modo que ninguém acredita… Falarei com todos e ele ficará sendo um mexeriqueiro estúpido.

Akhineiev coçou a nuca e, sem deixar de ficar confuso, mudou-se de Padekoi.

Estive agora mesmo na cozinha a dar ordens para a ceia — disse ao francês. — Creio que o senhor gosta muito de peixe. Mandei prepara um esturjão de primeira! Tem duas varas! Hé, hé, hé!… A propósito… Já me ia esquecendo. Com este esturjão ocorreu-me agora, na cozinha, um caso divertido. Eu estava de entrar na cozinha para deitar uma olhadela no manjar… Ao contemplar o esturjão, fiz com os lábios um ruído acabou parecido com um beijo forte, ao ver como ele estava apetitoso, e nesse momento entrou o imbecil do Vankin, que disse: “Ah! Com Marta, com a cozinheira!… Que coisas acontecem a essa idiota! Essa mulher não tem nem cara nem corpo! Parece um animal e ele… “Estão vocês se beijando!” Que homem tão vulgar!

— Quem é vulgar?! Disse Tarantuloff, que eles se mudaram nesse instante.

— Esse Vankin. Entrei na cozinha…

E começou a contar o que aconteceu.

— Fez-me rir esse homem vulgar. Parece-me que é mais agradável beijar o cachorro do que Marta — acrescentou Akhineiev, olhando em derredor e vendo Mzda atrás de si.

— Aqui estamos falando de Vankin — disse-lhe. — Que tipo! Entrei na cozinha e me vi junto de Marta; e toca a inventar coisas.

— Que disse ele?

— “Vocês estão se beijando?” Talvez estejamos embriagados e por isso pensei ver que estávamos nos beijando. Garanto que antes beijaria um peru do que Marta. Além disso, o idiota sabe que sou casado. Que vontade tenho de rir!

Quem o fez rir? — disse a Akhineiev, o professor de religião, unindo-se ao grupo.

-Vankin. Estava eu ​​na cozinha Vendo o estuário…

Ao cabo de uns vinte minutos, toda a gente estava inteirada da história de Vankin e do esturjão.

— Que vá agora contar! — inventou Akhineiev, esfregando as mãos. — Começará com as suas tolices e todos logo lhe dirão: "Basta de maluquices, estúpido! Já sabemos tudo!"

E Akhineiev se tranquilizou a tal ponto que bebeu uns copos além do traje. Ao acompanhar depois da ceia os recém-casados ​​ao dormitório, foi em seguida para o seu quarto e ficou dormindo como uma criança inocente, e no dia seguinte já não se lembrava de mais nada da história do esturjão.

Mas o homem põe e Deus apresenta. As mais línguas fizeram das suas e de nada serviram a Akhineiev na estratégia. Ao cabo de quatro semanas exatas, precisamente na quarta-feira, após a terceira lição, quando Akhineiev se dirigia para a sala dos professores e tratava das inclinações viciosas do aluno Vesekin, ele se mudou para o diretor, que o chamou à parte.

— Trata-se de Sergey Kapitonech — disse o diretor. — O senhor me desculpará… Não é coisa minha… Sem dúvida, espero fazer-lo compreender… A minha obrigação… O senhor verificará… Correm rumores de que o senhor vive com essa… com a cozinheira… Não é coisa minha, mas… mas… O senhor vive com ela… Beijam-se… Façam o que quiserem; mas, por favor, não o faça publicamente! Peço-lhe! Não se esqueça de que é um pedagogo!

Akhineiev ficou petrificado. Foi para casa tão dolorido como se o tivesse picado um enxame de abelhas ou como se ele tivesse despejado pela cabeça abaixo de um balde de água fervendo. Dirigiu-se para sua casa e pareceu-lhe que toda gente o olhou como se tivesse untado de breu!… Em sua casa esperava-o nova destruição.

—Por que não vem? — Disse-lhe a esposa, à refeição. — O que você pensa? Nos amores? Você está apreciando menos a Marta? Sei de tudo, canalha! Houve boas almas que me abriram os olhos Uh!, uh, uh!… Miserável!

E, zás, um bofetão em pleno rosto. Akhineiev declarou-se da mesa e, tonto sem gorro nem capote, partiu para a casa de Vankin. Justamente, o encontrei em casa.

—Canalha! É um canal! — exclamou Akhineiev, dirigindo-se a Vankin. — Por que eu me enlamei diante de toda a gente? Por que lançaste essa calúnia?

—Que calúnia? O que você está inventando?

— E quem tal que fez correr a mentira de que eu beijei Marta? Você vai querer dizer que não foste seu bandido?

Vankin pestanejou e agitou todo o seu rosto consumido; além dos olhos para o ícone e disse:

— Que Deus me castigue, que eu fique sem olhos, ou morra agora mesmo, se disse uma só palavra a teu respeito!

A sinceridade de Vankin não permitia menor dúvida. Evidentemente não fora ele o autor da Calúnia.

—Mas, quem teria dito? Quem? — pensei Akhineiev, passando em revista mental todos os seus conhecidos e dando pancadas no peito. — Quem terá sido?

Quem terá sido? — perguntamos nós também, ao leitor…
Anton Tchekhov

Minha rua

Era estreita a nossa rua. No verão de céu azul, os raios de sol coavam a manhã fresca. Não existiam fronteiras em nossa rua, pelo menos no quarteirão onde eu morava. As famílias pareciam uma só, tamanha a intimidade que existia entre elas. Havia convívio harmonioso entre os vizinhos, fosse dia de festa ou de tristeza.


No tempo das férias escolares, havia nos passeios jogo de tampilha, pião e leilão de brinquedos. Jogar bola de gude ou bola era no meio da rua. Natural que durante o jogo surgissem disputas acaloradas, bate-boca, empurrões e até briga. Em pouco tempo tudo voltava ao normal. Os dias retomavam a sua temperatura agradável, como se nada de mais houvesse acontecido entre os que brigavam durante o jogo de futebol. Agora de vez em quando podia haver discussão acirrada, às vezes terminando em briga quando alguém dizia reiteiradas vezes que ali na rua o melhor jogador de bola não era seu irmão mais velho.

Naqueles idos que já vão longe não havia educação ambiental, os pais não se importavam se o menino tivesse uma atiradeira, andasse pelos quintais e outros locais da cidade caçando passarinho. Era uma atividade normal, que aperfeiçoava os brios de cada garoto. Os tempos eram outros, as brincadeiras e diversões não aconteciam com os jogos eletrônicos de hoje. Os meninos inventavam as aventuras, que tornavam a vida cheia de sustos esplêndidos, vitórias memoráveis.

Ninguém duvidasse, o estilingue mais certeiro não era o do irmão Orlando. No fim da tarde, o irmão chegava com a capanga cheia de passarinhos, eram abatidos com bala de estilingue no Jardim da Prefeitura ou em alguma roça próxima à cidade. O irmão no estilingue era mesmo um campeão. Ninguém ali na rua duvidasse da pontaria dele. Cada balaço que ele desferia acertava em passarinho pousado até em cocuruto de árvore alta.

Nossa rua ficava impregnada de um aroma verde, quando o homem passava com o tabuleiro de verduras na cabeça. Os ares coloridos, todos os dias, com o roxo da beterraba, o verde do repolho e o laranja da cenoura.

Era iluminada com a gritaria dos companheiros. Zoada havia de canto a canto. Corneta, apito, bangue-bangue, jogo de bola, pião rodava na mão e no chão.

Do que eu mais gostava era do jogo de bola. Quando a mulher gorda chegava no batente da porta, segurando a bola, que ela no mesmo instante furava, não encontrava um menino sequer pra perguntar quem foi o pestinho que acertou daquela vez a sua vidraça, dando-lhe outra vez um prejuízo danado.

Cedo, no outro dia, os companheiros voltavam ao jogo com bola de pano. Os lances aguerridos, rosto vermelho e suado, cabelos assanhados. Palavrão, bate-boca e, aos gritos, a comemoração da vitória.

A vidraça da janela de algum dos moradores de nossa rua não deixaria de ser acertada.

Ó que saudade da minha rua! Hoje, vejo-a estreita e nem tão comprida. Outrora tão grande para mim e os companheiros. O mundo ali cabia dentro das cores da verdura no tabuleiro. Bastava no leilão dos brinquedos, troca de gibi ou figurinhas do álbum de artistas do cinema americano, bala de estilingue nos quintais frutíferos, para não se falar no jogo de bola.

Ah, viver era uma canção verde como verde todos os dias a gente ouvia a voz do verdureiro. Era verde na voz dos companheiros colhendo coentro nos passeios.

Abóbora nas valetas. Couve-flor nos calçamentos.

sábado, maio 16

Não deixe que se afogue

 


O cachorro e o frasco

– Que fofo, que amado, que lindo cãozinho; venha cá cheirar este excelente perfume comprado na melhor botica da cidade.

E o cachorro, abanando o rabo, gesto que creio ser o equivalente do riso e do sorriso entre essas pobres criaturas, aproximou-se e apoiou curioso o focinho úmido na boca do frasco destampado; depois, recuando de um pulo, ainda latiu contra mim, como para reclamar.

– Ah, cachorro maldito, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o farejaria deliciado, e possivelmente o devorava. E assim, companheiro indigno da minha triste vida, descubro-te tal qual o público, a quem não convém jamais oferecer perfumes delicados, que o exasperam, mas vilezas cuidadosamente escolhidas.

Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"

No mundo há muitas armadilhas

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Troia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.
Ferreira Gullar

Analfabetismo

Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

— Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

— A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

Replico eu:

— Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…

— As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.

E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.
Machado de Assis. Obra completa, vol. III

Grande sertão: savana

A primeira edição de “Grande Sertão: Veredas” veio a público em maio de 1956, com a chancela da José Olympio Editora. Passaram-se 70 anos. Para assinalar a data, o Museu da Língua Portuguesa organizou, em São Paulo, uma sessão de leitura do romance. Participei do evento há exatamente uma semana, ao lado de Leda Maria Martins e de Bruna Beber.

Enquanto escutava as minhas companheiras lendo trechos do livro, enquanto eu mesmo lia, espantava-me com a vitalidade das palavras de João Guimarães Rosa. Setenta anos depois, o romance continua tão novo, tão vigoroso, tão surpreendente — na linguagem e no enredo — como quando chegou pela primeira vez às livrarias.

“Grande Sertão: Veredas” mudou para sempre a literatura brasileira. O que poucos brasileiros sabem é que também mudou, para sempre, a literatura angolana e, numa segunda etapa — eco de um eco —, a literatura moçambicana.

Em 1964, o angolano José Vieira Mateus da Graça foi enviado para o campo de concentração do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, acusado de ligações com os movimentos independentistas. No Tarrafal, hoje transformado em museu, estavam presos muitos portugueses ligados aos partidos que se opunham à ditadura salazarista, além de numerosos nacionalistas africanos.

Naquela época, José da Graça já era o escritor Luandino Vieira, nome com o qual assinara um breve livro de contos, “Luuanda”, que em 1965 recebeu um dos mais prestigiados prêmios literários portugueses. O caso provocou enorme escândalo político e levou ao fechamento da Associação Portuguesa de Escritores, responsável pela premiação — e acusada, por isso, de ter premiado um “terrorista”.

Em 1969, Luandino recebeu na prisão um exemplar de “Grande Sertão: Veredas”. O diretor da cadeia tentou ler o livro para averiguar sua eventual natureza subversiva, mas desistiu logo nas primeiras páginas.

— Isto é ininteligível — teria comentado.

A iliteracia da polícia política portuguesa beneficiou Luandino Vieira — e toda a literatura angolana.

Lendo João Guimarães Rosa, Luandino compreendeu que também podia subverter a língua portuguesa, angolanizando-a, criando assim uma literatura que se afastasse da portuguesa. Era um projeto político, tanto quanto literário.

Os livros de Luandino ganharam enorme densidade e um tempero único. Lendo, por exemplo, “Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu” ou o belíssimo “Nós, os do Makulusu”, adivinha-se a sombra tutelar de Rosa. Contudo, já estamos, definitivamente, em outro universo.

Muitos anos depois, um jovem moçambicano leu Luandino e, estudando o português popular de seu país — profundamente contaminado pelas línguas locais —, experimentou um exercício semelhante. Assim nasceu Mia Couto.

Se Luandino é filho de Rosa, Mia é neto. Essa improvável linhagem literária constitui uma das mais belas aventuras da literatura em língua portuguesa.

Setenta anos depois, “Grande Sertão: Veredas” continua produzindo futuros. Há livros que envelhecem. Outros frutificam e espalham sementes. Às vezes, do sertão para a savana. 

José Eduardo Agualusa

sexta-feira, maio 15

Porta da liberdade

 


A lua dos fodidos

No céu azul alto, muito distante, a pequena nuvem solitária ganhou forma de algodão-doce. Talvez fosse a fome. Voltou no tempo e, feliz, na cidadezinha do interior, escondeu-se atrás da guloseima. Enorme, branca, a haste de madeira fina perdida entre seus dedos de criança. O carrossel girando sonhos, cavalinhos subindo e descendo, parque de diversões. Houve um tempo em que sabia rir.

Um vento gelado espetou-lhe as orelhas, desceu pelo pescoço até o peito, arrepiou-lhe o corpo encolhido. Outono, maio, a rua deserta no final da tarde parecia vazia demais. Ou era o estômago roncando? Ergueu a lapela do paletó puído, tentou enfiar o queixo sob a gola da camiseta; o bafo quente da própria respiração deu-lhe algum conforto. Que frio! A noite seria pior. Quem disse que o inferno é quente?

Quando o cheiro de pizza atravessou a calçada, apalpou os bolsos vazios. Talvez mais tarde conseguisse alguma sobra. Apesar da carestia. Margherita. E ânimo para adiantar o pedido, deixar acertado com o porteiro? Simpático até, o cearense. Engoliu em seco. Ar sem gosto.

Começou a tremer. Batendo os dentes, viu de repente o pesadelo do irmão. Embora miseravelmente triste, sorriu. A caveira dançando, abrindo e fechando a boca, o ruído estridente dos maxilares se chocando. Calma, Zé, fantasma não existe! Não naquele tempo. Apenas mais tarde eles o assombrariam. Tentou controlar o sacudir involuntário. Mas o frio era tanto… Ainda não tinha reparado na dor daquele balanço das carnes. Poucas, magras, feridas. E tremeu tudo o que podia tremer. Tanto assim que se desapercebeu do sacolejar, acostumou-se.

A sonolência chegou meio fora de hora. Junto com a lua. Não a dos apaixonados. Aquela em que recebeu o primeiro beijo na boca, na pracinha. Margarida, namorada. Algodão-doce, carrossel, Margarida. O pensamento insistia em carregar seu coração para trás. Encolhido, resolveu deitar-se. Quase se sentiu bem. Torpor, um cansaço tão grande… Tentou cantar, mas percebeu a língua enrolando, as palavras tropeçando, escorregando na saliva. Apalpou do lado e encontrou a garrafa. Puxou a rolha e deu um gole. O fogo desceu, aquecendo as entranhas. Se tivesse um cobertor, certamente o poria de lado, calor bom. Acomodou-se melhor e pareceu-lhe estar em Riacho Velho. Uma charrete passou. Era o Edvaldo e seu amigo Tordilho. Certamente voltavam para a fazenda. Dona Ermelinda, professora, escurecendo a calçada. Diacho de velha ruim! Por detrás dela, a parede caiada do cemitério pichada: Aqui vivem os mortos! Margarida na janela. Saudade.

Aos poucos, foi amolecendo, quieto, respirando pouco, lentamente, quase nada. Ainda se lembrou dos seis graus anunciados. Será? Tão frio… Devia ser menos. Cidade grande, enorme, monstra. A parede dura ofendeu-lhe a nuca. Mas não mudou de posição. Fechou os olhos assim, molambo. Pano velho e sujo. Amolengado. E esqueceu-se de viver.

O padre então chorou. Pobrezinhos dos viventes da rua! Com os olhos rasos, olhou para cima e viu a mesma lua. Enorme. A lua dos fodidos.

Off Price

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado...
Thiago de Mello

Os desastres de Sofia

Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão, e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o que sabíamos dele.

O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho:

— Cale-se ou expulso a senhora da sala.

Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto do ódio daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava. Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia. Eu o espicaçava, e ao conseguir exacerbá-lo sentia na boca, em glória de martírio, a acidez insuportável da begônia quando é esmagada entre os dentes; e roía as unhas, exultante. De manhã, ao atravessar os portões da escola, pura como ia com meu café com leite e a cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homem que me fizera devanear por um abismal minuto antes de dormir. Em superfície de tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos séculos de escuríssima doçura. De manhã — como se eu não tivesse contado com a existência real daquele que desencadeara meus negros sonhos de amor — de manhã, diante do homem grande com seu paletó curto, em choque eu era jogada na vergonha, na perplexidade e na assustadora esperança. A esperança era o meu pecado maior.

Cada dia renovava-se a mesquinha luta que eu encetara pela salvação daquele homem. Eu queria o seu bem, e em resposta ele me odiava. Contundida, eu me tornara o seu demônio e tormento, símbolo do inferno que devia ser para ele ensinar aquela turma risonha de desinteressados. Tornara-se um prazer já terrível o de não deixá-lo em paz. O jogo, como sempre, me fascinava. Sem saber que eu obedecia a velhas tradições, mas com uma sabedoria com que os ruins já nascem — aqueles ruins que roem as unhas de espanto —, sem saber que obedecia a uma das coisas que mais acontecem no mundo, eu estava sendo a prostituta e ele o santo. Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar — uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer desabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras. Assim, pois, não falarei mais no sorvedouro que havia em mim enquanto eu devaneava antes de adormecer. Senão eu mesma terminarei pensando que era apenas essa macia voragem o que me impelia para ele, esquecendo minha desesperada abnegação. Eu me tornara a sua sedutora, dever que ninguém me impusera. Era de se lamentar que tivesse caído em minhas mãos erradas a tarefa de salvá-lo pela tentação, pois de todos os adultos e crianças daquele tempo eu era provavelmente a menos indicada. "Essa não é flor que se cheire", como dizia nossa empregada. Mas era como se, sozinha com um alpinista paralisado pelo terror do precipício, eu, por mais inábil que fosse, não pudesse senão tentar ajudá-lo a descer. O professor tivera a falta de sorte de ter sido logo a mais imprudente quem ficara sozinha com ele nos seus ermos. Por mais arriscado que fosse o meu lado, eu era obrigada a arrastá-lo para o meu lado, pois o dele era mortal. Era o que eu fazia, como uma criança importuna puxa um grande pela aba do paletó. Ele não olhava para trás, não perguntava o que eu queria, e livrava-se de mim com um safanão. Eu continuava a puxá-lo pelo paletó, meu único instrumento era a insistência. E disso tudo ele só percebia que eu lhe rasgava os bolsos. É verdade que nem eu mesma sabia ao certo o que fazia, minha vida com o professor era invisível. Mas eu sentia que meu papel era ruim e perigoso: impelia-me a voracidade por uma vida real que tardava, e pior que inábil, eu também tinha gosto em lhe rasgar os bolsos. Só Deus perdoaria o que eu era porque só Ele sabia do que me fizera e para o quê. Eu me deixava, pois, ser matéria d'Ele. Ser matéria de Deus era a minha única bondade. E a fonte de um nascente misticismo. Não misticismo por Ele, mas pela matéria d'Ele, mas pela vida crua e cheia de prazeres: eu era uma adoradora. Aceitava a vastidão do que eu não conhecia e a ela me confiava toda, com segredos de confessionário. Seria para as escuridões da ignorância que eu seduzia o professor? e com o ardor de uma freira na cela. Freira alegre e monstruosa, ai de mim. E nem disso eu poderia me vangloriar: na classe todos nós éramos igualmente monstruosos e suaves, ávida matéria de Deus.

Clarice Lispector, "A Legião Estrangeira"

O bolo

Eu estava viajando. A paisagem em que me encontrava era de uma grandeza e de uma nobreza irresistíveis. Sem dúvida nesse momento algo disso passou pela minha alma. Meus pensamentos volteavam com leveza igual à da atmosfera; as paixões usuais, tais como ódio e amor profano, pareciam-me agora tão afastadas quanto as nuvens que desfilavam no fundo dos abismos sob meus pés; minha alma parecia-me tão vasta e tão pura quanto a cúpula do céu pelo qual eu estava envolvido; a lembrança das coisas terrestres só chegava a meu coração enfraquecida e diminuída, como o som da campainha dos animais imperceptíveis que passavam longe, bem longe, na vertente de outra montanha. No pequeno lago imóvel, negro por sua imensa profundidade, passava às vezes a sombra de uma nuvem, como o reflexo do manto de um gigante aéreo voando pelo céu. E me lembro de que essa sensação solene e rara, causada por um grande movimento perfeitamente silencioso, me enchia de uma alegria misturada com medo. Em suma, eu me sentia, graças à entusiasmante beleza que me circundava, em perfeita paz comigo mesmo e com o universo; creio até que, em minha perfeita beatitude e em meu total esquecimento de todo o mal terrestre, acabei por não mais achar tão ridículos os jornais que pretendem que o homem nasceu bom; como então a matéria incurável renovava suas exigências, pensei em reparar o cansaço e aliviar o apetite causados por uma subida tão longa. Tirei do bolso um grande pedaço de pão, um copo de couro e um frasco de certo elixir que os farmacêuticos nessa época vendiam aos turistas para o misturarem, quando fosse o caso, com água de neve.

Cortava tranquilamente meu pão, quando um ruído muito leve fez-me erguer os olhos. Diante de mim estava um pequeno ser esfarrapado, negro, desgrenhado, cujos olhos encovados, ariscos e como que suplicantes, devoravam o pedaço de pão. Ouvi-o suspirar, com voz baixa e rouca, a palavra: bolo! Não pude deixar de rir ao ouvir a denominação com que queria honrar meu pão quase branco e cortei para ele uma bela fatia, que lhe ofereci. Lentamente ele se aproximou, sem que os olhos abandonassem o objeto de sua cobiça; depois, agarrando com a mão o pedaço, recuou abruptamente, como se tivesse medo de que meu oferecimento não fosse sincero ou de que eu já estivesse arrependido.

Todavia, no mesmo instante ele foi derrubado por outro pequeno selvagem, saído não sei de onde e tão perfeitamente parecido com o primeiro que seria possível tomá-lo por seu irmão gêmeo. Juntos rolaram pelo chão, disputando a preciosa presa, pois, sem dúvida, nenhum deles desejava sacrificar a metade para o irmão. O primeiro, exasperado, agarrou o segundo pelos cabelos; este pegou-lhe a orelha com os dentes e cuspiu um pequeno pedaço sangrento com um esplêndido palavrão em dialeto. O legítimo proprietário do bolo tentou enfiar suas pequenas garras nos olhos do usurpador; este, por sua vez, aplicou todas as forças para estrangular o adversário com uma das mãos, enquanto com a outra tentava enfiar em seu bolso o prêmio do combate. No entanto, reanimado pelo desespero, o vencido ergueu-se e fez com que o vencedor rolasse por terra com uma cabeçada no estômago. Para que descrever uma luta horrível que durou na verdade mais tempo que suas forças infantis pareciam prometer? O bolo viajava de mão em mão e mudava de bolso a todo momento; mas, infelizmente, mudava também de volume; e quando por fim, extenuados, ofegantes, ensanguentados, pararam pela impossibilidade de continuar, não havia mais, para dizer a verdade, nenhum objeto de batalha; o pedaço de pão tinha desaparecido, e estava desfeito em migalhas semelhantes aos grãos de areia com os quais estava misturado.

Esse espetáculo havia toldado para mim a paisagem, e a calma alegria em que minha alma se regozijava, antes de ter visto esses pequenos homens, tinha desaparecido por completo; fiquei bastante tempo triste com isso, repetindo-me constantemente: “Há, portanto, um país esplêndido onde pão se chama bolo, iguaria tão rara que basta para engendrar uma guerra perfeitamente fratricida!”.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"

quinta-feira, maio 14

Bandeira de todos

 


Além do possível

Coisa fácil é julgar os outros e difícil é compreendê-los. Já afirmei, aqui, que quem admite a complexidade da realidade não pode ser radical nem sectário, pela simples razão de que, se os problemas são complexos, não serão resolvidos de uma penada. Alias, toda vez que se tenta fazê-lo, o desastre é inevitável. Mas a tendência mais comum é acreditar nas soluções milagrosas, mesmo porque aceitar que as coisas são complicadas custa muito, a não ser se se trata de nós mesmos. Claro, quando alguém nos acusa de ter agido mal, nossa resposta é sempre que não deu pra fazer melhor. “As coisas são complicadas”, a gente argumenta. E são mesmo, mas para os outros também.

Essas considerações vêm a propósito de uma conversa que tive com uma amiga muito querida, que vive sonhando. Devo esclarecer que nasci sob o signo de Virgo e sou, portanto, segundo a discutível astrologia, um tipo da terra, que vive pesando e medindo tudo, sem tirar os pés do chão. Tanto isso é verdade que muito raramente escrevo poesia, uma vez que a poesia nos obriga a voar. Essa é a razão por que, quando me perguntam se eu sou o poeta Ferreira Gullar, eu respondo: “Às vezes”. Dá então para entender a dificuldade que tenho de discutir certas coisas com uma pessoa do signo de Balança, por exemplo. Essa minha amiga é de Balança, isto é, não só hesita, sobe e desce, como flutua o tempo todo. E por isso, apesar do carinho que nos une, frequentemente nos desentendemos.

- Mas você não vê que isso é loucura, menina?

- Loucura? Só porque desejo ir pro deserto de Atacama catar múmia?

- Não sabia que você virou arqueóloga!

- E precisa ser arqueóloga pra ir catar múmia em Atacama?

- Precisa, sim. Mesmo porque aquilo deve ser um campo arqueológico, supervisionado pelo governo chileno. Não pode qualquer pessoa chegar lá e começar a cavucar.

- Você é um chato, ouviu! É por isso que não suporto os virginianos!

- Você não suporta é a realidade, meu amor!

Pedi a conta e saímos amuados do restaurante. Ao chegar em casa, refleti.

- Que diabo tenho eu que ficar botando areia no sonho dos outros?

E, como bom virginiano, aleguei que só falara aquilo temendo que ela entrasse numa fria, se tocasse para o deserto de Atacama e desse com os burros n’água.

No dia seguinte, liguei para ela e me desculpei, expliquei-lhe que minha intenção era apenas alertá-la.

- E você pensa que eu sou maluca? Acha que eu ia mesmo me tocar para Atacama semana que vem?

- Temia que...

- O que você não entende é que tenho necessidade de sonhar, de imaginar coisas maravilhosas. Se as levarei à prática ou não, é secundário. Às vezes levo, como a viagem que fiz ao Himalaia e a outra, a Machu Picchu. Sei muito bem que fazer é mais difícil que sonhar, e por isso mesmo é que eu sonho.

Caí em mim. Lembrei-me de uma coisa que sei e de que às vezes me esqueço: a vida não é só o possível. Sem o impossível, não se vai muito além da próxima esquina.

Ferreira Gullar, "Ferreira Gullar: crônicas para jovens"

Os três astronautas

Era uma vez a Terra. E era uma vez Marte.

Estavam muito distantes um do outro, no meio do céu, e em volta havia milhões de planetas e de galáxias.

Os homens que moravam na Terra queriam alcançar Marte e os outros planetas: mas estavam tão longe!

De qualquer forma eles fizeram o possível. Primeiro lançaram satélites que giravam em volta da Terra durante dois dias e depois voltavam.

Depois lançaram foguetes que também giravam algumas vezes em volta da Terra, mas em vez de voltar, escapavam da atração terrestre e se perdiam no espaço infinito.


Primeiro colocaram cães nos foguetes: mas os cães não sabiam falar; e pelo rádio só transmitiam “au-au”. E os homens não entendiam o que eles tinham visto e aonde haviam chegado.

No fim encontraram homens corajosos que queriam ser astronautas.

O astronauta se chamava assim porque partia para explorar o espaço infinito, com os astros, os planetas, as galáxias e tudo aquilo que existe em volta.

Os astronautas partiam sem saber se iriam voltar. Queriam conquistar as estrelas, para que um dia todos pudessem viajar de um planeta para o outro, porque a Terra tinha ficado muito apertada, e os homens aumentavam dia a dia.

Uma bela manhã partiram da Terra, de três pontos diferentes, três foguetes. No primeiro tinha um americano que assobiava alegremente uma musiquinha de jazz. No segundo tinha um russo que cantava com voz profunda “Volga, Volga”. No terceiro tinha um chinês que cantava uma bela canção, que aos outros dois parecia desafinada.

Cada um dos três queria ser o primeiro a chegar a Marte, para mostrar que era o melhor. Na verdade o americano não gostava do russo, o russo não gostava do americano, e o chinês desconfiava dos outros dois. E isso porque o americano, para dizer bom dia, dizia: “how do you do” e o russo dizia: “fig.”. Por isso não se entendiam e se achavam diferentes.

Mas como todos os três eram muito bons, chegaram a Marte quase ao mesmo tempo. Desceram das astronaves, de capacete e macacão espacial... e encontraram uma paisagem maravilhosa e inquietante: o solo era sulcado por longos canais cheios de uma água verde-esmeralda. Havia estranhas árvores azuis com pássaros jamais vistos, com plumas de cor estranhíssima. No horizonte se viam montanhas vermelhas que mandavam estranhos reflexos.

Os astronautas olhavam-se uns aos outros, e cada um ficava no seu canto, um desconfiado do outro.

Depois chegou a noite. Havia em volta um estranho silêncio, e a Terra brilhava no céu como se fosse uma estrela longínqua.

Os astronautas se sentiam tristes e perdidos, e o americano, na escuridão, chamou a mãe. Disse “Mommy...” E o russo disse: “Mama”. E o chinês disse: “MaMa”.

Mas logo entenderam que estavam falando a mesma coisa e tinham os mesmos sentimentos. Assim um sorriu para o outro, se aproximaram, acenderam juntos uma bela fogueira, e cada um cantou as músicas da sua terra. Então criaram coragem e, esperando a manhã, aprenderam a se conhecer.

Enfim chegou a manhã: fazia muito frio. E de repente, detrás de uma moita saiu um marciano. Era mesmo horrível de se ver! Todo verde, com duas antenas no lugar das orelhas, uma tromba e seis braços.

O marciano olhou-os e disse: “GRRRR!” Que na língua dele queria dizer: “Minha nossa, quem são aqueles seres horríveis?!”

Mas os terrestres não o entenderam e acharam que aquilo fosse um rugido de guerra. Era tão diferente deles que não conseguiam entendê-lo nem amá-lo. Subitamente se sentiram de acordo e se uniram contra ele. Frente àquele monstro, suas pequenas diferenças sumiam. Que importância tinha se falavam línguas diferentes? Compreenderam que eram todos os três seres humanos. O outro não. Era muito feio, e os terrestres pensavam que quem é feio é também mau. Assim decidiram matá-lo com seus desintegradores atômicos.

Mas de repente, no grande frio da manhã, um passarinho marciano, que com certeza tinha escapado do ninho, caiu no chão tremendo de frio e medo. Piava desesperadamente, mais ou menos como um passarinho terrestre. Dava mesmo pena. O americano, o russo e o chinês o olharam e não conseguiam segurar uma lágrima de compaixão.

E naquele momento aconteceu um fato estranho. Também o marciano se aproximou do passarinho, olhou-o e deixou escapar dois filetes de fumaça da tromba. E os terrestres, imediatamente, compreenderam que o marciano estava chorando. À sua maneira, como fazem os marcianos. Depois viram que ele se inclinava sobre o passarinho e o erguia com seus seis braços, tentando aquecê-lo.

O chinês se virou então para seus dois amigos terrestres.

“Entenderam?”, ele falou. “Nós achávamos que este monstro fosse diferente de nós, mas ele também ama os animais, sabe comover-se, tem um coração e, sem dúvida, também um cérebro! Acreditam que seja ainda o caso de matá-lo?’’

Nem era preciso perguntar. Os terrestres já tinham entendido a lição: não é porque dois seres são diferentes que têm que ser inimigos. Por isso se aproximaram do marciano e lhe estenderam a mão. E o marciano, que tinha seis mãos, apertou de uma só vez a mão dos três, enquanto com as livres fazia gestos de saudação. E apontando a Terra lá no céu, deixou entender que queria fazer uma viagem, para conhecer os outros habitantes e estudar junto com eles a maneira de fundar uma grande república espacial, na qual todos vivessem em paz e harmonia.

Bem contentes, os terrestres disseram que sim. E para festejar o acontecimento lhe ofereceram uma garrafinha de água fresquíssima trazida da Terra. O marciano, todo feliz, enfiou o nariz na garrafa, aspirou, e depois disse que tinha gostado muito daquela bebida, mesmo que o tivesse deixado um pouco tonto. Mas agora mais nada surpreendia os terrestres.

Tinham compreendido que na Terra, como nos outros planetas, cada um tem seus próprios gostos, e que é só uma questão de se entenderem uns aos outros.

Umberto Eco e Eugênio Carmi, "Os três astronautas"

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Carlos Drummond de Andrade, “Antologia poética”

O cérebro é um moleque

Ser realista não lhe caiu bem. Era menos infeliz outrora, quando dava olhos à pirotecnia do sol e ouvidos à demagogia matinal dos bem-te-vis.

***

Desde os quinze anos, o que mais venho fazendo é escrever. Se você me acha escritor, eu lhe agradeço. Se não, eu lhe agradeço se não me disser.

***

Há quatro dias não escrevo. Há quatro dias, como se fosse um cão abandonado, uma frase me segue, aflita: “Há de ser um lugar tranquilo.” Não é literatura, mas eu a registro aqui. A vida é assim, direta e pedinchona como um manifesto.

***

Às vezes, meu cérebro age como se fosse um moleque endiabrado. Hoje, por exemplo, me sugeriu este exercício como o mais adequado para a minha idade e meu futuro próximo: fechar os olhos, sempre que possível, e mantê-los assim, cada dia com maior determinação.

***

É fácil ser sábio quando os caminhos se reduzem a só um e o cansaço economiza cada passo.

***

Discípulo de Rimbaud, perdeu a calça de veludo num lupanar e o estilo num joguinho de dados.