Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
terça-feira, outubro 27
Achando o amor
Ele tem quinze anos, calça 42, usa cabelos razoavelmente compridos. Estava num bar do Leblon, na companhia de castigados adultos. Estes tomavam uísque; o rapazinho tomava a segunda coca média. Quando os homens feitos já tinham falado sobre mulheres, o time do Flamengo, o custo de vida, reviravolta política dum país africano, desastre espetacular no aterro, música da moda, o silêncio entrou no bar e empapou tudo como gordura. Um silêncio hepático ou pancreático ou esplenético. O silêncio que intoxica os etílicos. Para agravar o oleoso drama, era aquela hora da noite, já um pouco tarde para o jantar doméstico e ainda um pouco cedo para a irresponsabilidade. O encaroçado point of no return dos boêmios.
Então os etílicos foram buscar passarinhos no fundão do tempo e começaram também a passarinhar. O bar noturno virou um viveiro de cantores e cores. O Silêncio voltou de novo mais limpo, exorcizado.
O jovem retomou a palavra: o passarinho que mais o entusiasmou a vida toda não cantava nem era bonito. Até o dicionário dizia que ele era feio. Foi ao dicionário por não saber se o certo era chopim ou chupim.
O chupim põe os ovos em ninho de tico-tico, e é este que cria os filhotes. Tinha descoberto numa árvore da lagoa Rodrigo de Freitas um ninho de tico-tico com um ovo de chupim. Quando o chupim nasceu, o problema era mantê-lo vivo: arranjou um conta gotas e, todas as tardes, depois das aulas, subia à árvore e descia alimentos líquidos pela goela do filhote. No momento certo, levou o chupim pra casa. O passarinho não ficava preso, pelo menos grande parte do tempo, mas pousado num galho de arbusto decorativo. Saía às vezes para passear com o chupim e a cachorrinha: ele na frente, o chupim andando atrás, a cachorrinha saltitando em torno. Bastava um gesto e um assovio para que o chupim decolasse e viesse pousar em seu ombro. Espetacular! Pouco depois, passou a lançar o passarinho pela janela; ele sumia durante uma ou duas horas, pousando à tarde na amendoeira de defronte; um assovio, e o passarinho entrava pela janela, pousando no ombro do dono. Como um falcão amestrado! Mas era um chupim, um feio e triste chupim!
Uma tarde, quando o passarinho andava lá por fora, caiu a tempestade. O chupim não voltou. Ele ficou à janela até depois de escurecer; mas o chupim não voltou. Esperou ainda durante uma semana, sabendo que esperava sem motivo.
Confesso que fiquei triste às pampas, disse o jovem.
Aí o Silêncio que entrou parecia uma enorme bola de sabão, uma coisa que não vale nada, mas que nos inquieta de leve quando se desfaz.
O jovem arrematou: É engraçado, eu senti por aquele chupim um negócio esquisito. Eu não tenho vergonha de dizer pra vocês: chorei por causa do meu chupim. Eu sentia uma afeição pelo chupim... uma coisa profunda mesmo... Ora, eu amava aquele chupim... Agora é que tou entendendo: o que eu tinha pelo chupim era amor.
Paulo Mendes Campos, "Balé do pato e outras crônicas"
Aí o jovem disse que estava juntando dinheiro para comprar um sabiá. Talvez não comprasse um sabiá, mas um curió. Ia para o colégio de ônibus porque sempre estava em cima da hora, mas voltava a pé. Não comia sanduíche no recreio. Sabiá tá caro! Vendedor de passarinho tem muito trambique. Ele chateou tanto um, ali naquela lojinha de Ipanema, pedindo abatimento para pintassilgo, que o homem acabou lhe ensinando onde se compra pintassilgo mais barato na cidade. Tinha em casa azulão, canário, coleiro, bigodinho... Teve bicudo, corrupião, mainá... O triste é que passarinho morre.
Então os etílicos foram buscar passarinhos no fundão do tempo e começaram também a passarinhar. O bar noturno virou um viveiro de cantores e cores. O Silêncio voltou de novo mais limpo, exorcizado.
O jovem retomou a palavra: o passarinho que mais o entusiasmou a vida toda não cantava nem era bonito. Até o dicionário dizia que ele era feio. Foi ao dicionário por não saber se o certo era chopim ou chupim.
O chupim põe os ovos em ninho de tico-tico, e é este que cria os filhotes. Tinha descoberto numa árvore da lagoa Rodrigo de Freitas um ninho de tico-tico com um ovo de chupim. Quando o chupim nasceu, o problema era mantê-lo vivo: arranjou um conta gotas e, todas as tardes, depois das aulas, subia à árvore e descia alimentos líquidos pela goela do filhote. No momento certo, levou o chupim pra casa. O passarinho não ficava preso, pelo menos grande parte do tempo, mas pousado num galho de arbusto decorativo. Saía às vezes para passear com o chupim e a cachorrinha: ele na frente, o chupim andando atrás, a cachorrinha saltitando em torno. Bastava um gesto e um assovio para que o chupim decolasse e viesse pousar em seu ombro. Espetacular! Pouco depois, passou a lançar o passarinho pela janela; ele sumia durante uma ou duas horas, pousando à tarde na amendoeira de defronte; um assovio, e o passarinho entrava pela janela, pousando no ombro do dono. Como um falcão amestrado! Mas era um chupim, um feio e triste chupim!
Uma tarde, quando o passarinho andava lá por fora, caiu a tempestade. O chupim não voltou. Ele ficou à janela até depois de escurecer; mas o chupim não voltou. Esperou ainda durante uma semana, sabendo que esperava sem motivo.
Confesso que fiquei triste às pampas, disse o jovem.
Aí o Silêncio que entrou parecia uma enorme bola de sabão, uma coisa que não vale nada, mas que nos inquieta de leve quando se desfaz.
O jovem arrematou: É engraçado, eu senti por aquele chupim um negócio esquisito. Eu não tenho vergonha de dizer pra vocês: chorei por causa do meu chupim. Eu sentia uma afeição pelo chupim... uma coisa profunda mesmo... Ora, eu amava aquele chupim... Agora é que tou entendendo: o que eu tinha pelo chupim era amor.
Paulo Mendes Campos, "Balé do pato e outras crônicas"
Letra para um hino
É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja para fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem ser a olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.
É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja para fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem ser a olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não, grita comigo: não.
É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
Haicai-refúgio
O haicai tem sido meu refúgio, nestes tempos conflitantes. Ele acalma a alma, como canta Marisa Monte. Deixa recados oportunos, que traduzo em: sinta, sinta-se. Penso na pergunta inquietante do velho Abujamra, agora repetida por Marcelo Tass: o que é a vida? E aí, numa coincidência daquelas, a rádio Eldorado põe no ar Gonzaguinha, com a resposta das crianças: é bonita.
Belos também são os haicais, com suas releituras da realidade em que o óbvio cede lugar a detalhes nem sempre percebidos, o que me comove e, até, arrepia, quando a sensibilidade é extrema. Tudo depende do momento e agora, quando andamos tão sedentos de certezas, a poesia de três linhas atinge o alvo, não para ferir, mas resgatar nosso melhor.
Dois livros recentes têm me acompanhado nessa aventura: Um rio de nome vida, de Carlos Martins, e Rua do Ipê Branco, de Jonas Reis, dois haicaístas gigantes. O primeiro mescla prosa e poesia, que o autor classifica como “haibuns à maneira de crônicas”, contando saborosas lembranças, da infância à idade adulta, passando por ídolos e chegando à família (mãe, filhas e neta).
Chuva de verão
colheita de pêssegos –
Belos também são os haicais, com suas releituras da realidade em que o óbvio cede lugar a detalhes nem sempre percebidos, o que me comove e, até, arrepia, quando a sensibilidade é extrema. Tudo depende do momento e agora, quando andamos tão sedentos de certezas, a poesia de três linhas atinge o alvo, não para ferir, mas resgatar nosso melhor.
Dois livros recentes têm me acompanhado nessa aventura: Um rio de nome vida, de Carlos Martins, e Rua do Ipê Branco, de Jonas Reis, dois haicaístas gigantes. O primeiro mescla prosa e poesia, que o autor classifica como “haibuns à maneira de crônicas”, contando saborosas lembranças, da infância à idade adulta, passando por ídolos e chegando à família (mãe, filhas e neta).
Chuva de verão
Os meninos no campinho
de bolas de gude
Rua ruidosa
Rua ruidosa
Bicicletas e cigarras
ao entardecer
O olhar sorridente
O olhar sorridente
do casal em primavera
Vagão do Metrô
Clarão da lua
Clarão da lua
A dois metros da janela
começa a escuridão
Mendigo deitado
Mendigo deitado
na escadaria da Sé
Banho de sol
Noventa e sete anos
Noventa e sete anos
Os dedos sem digitais
nas contas do terço…
Início de inverno
Início de inverno
Não reconheço o velhinho
no espelho do ônibus
Alvorecer de outono
Alvorecer de outono
Uma mãozinha acena
da van escolar
Dia dos Pais
Dia dos Pais
Telefona, sonolenta,
a filha emigrante
No segundo, o lirismo transborda a cada capítulo relativo às estações do ano. Nascido no campo, o autor inclui vivências na cidade.
não são cinco horas
No segundo, o lirismo transborda a cada capítulo relativo às estações do ano. Nascido no campo, o autor inclui vivências na cidade.
não são cinco horas
e já tem conversa na árvore –
esses bem-te-vis…
rua do ipê branco –
rua do ipê branco –
diante do chão florido
hesita o gari
a terra molhada –
a terra molhada –
vaivém do joão-de-barro
na trégua da chuva
Dia da Criança –
Dia da Criança –
busco a minha que no espelho
brinca de esconder
colheita de pêssegos –
a revoada de rolinhas
na plantação
ribomba um trovão –
ribomba um trovão –
a chuva desce e acorda
o cheiro da terra
águas de março –
águas de março –
em meio à lama dos morros
escorrem casebres
corrente de rio –
corrente de rio –
sobre o tronco que flutua
vai a garça branca
só chegam em casa
só chegam em casa
as casquinhas da lichia –
passeio na feira
praça dos sem-teto –
praça dos sem-teto –
a ausência do orvalho
onde alguém dormiu
solidão urbana –
solidão urbana –
tudo aparece como é
no fim da neblina
E ainda há muito mais…
E ainda há muito mais…
O limpador de chaminés
Há pancadas e pancadas. Uma pancada na cabeça não é brincadeira. O cérebro e um órgão delicado, se não fosse assim, por que a alma estaria localizada no cérebro? Por que não no fígado ou, se me perdoam, nas tripas? Pode-se ver a alma nos olhos. Os olhos são janelinhas pelas quais a alma espia.
Tínhamos um limpador de chaminés na cidade, cujo apelido era Yash Preto. Todos os limpadores de chaminé são pretos - que mais podem ser? mas Yash parecia ter nascido preto. Seu cabelo era eriçado e negro como o piche. Os olhos eram negros e a pele nunca estava limpa da fuligem. Só os dentes eram brancos. O pai tinha sido limpador de chaminés da cidade e Yash herdara o oficio. Já era um homem adulto, mas continuava solteiro e morava com a velha mãe, Maciechowa.
Vinha a nossa casa uma vez por mês, descalço, e a cada passo deixava uma marca negra no chão. Minha mãe, que ela descanse em paz, corria para recebe-lo e não deixa-lo ir além. Era pago pela cidade, mas as mulheres lhe davam um groschen ou uma fatia de pão quando acabava o serviço. Era o costume. As crianças tinham terror dele, embora nunca fizesse mal a ninguém. E enquanto foi limpador de chaminés, as chaminés nunca pegaram fogo. Aos domingos, como todos os cristãos, ele se lavava e ia a igreja com a mãe. Mas, lavado, parecia ainda mais negro do que antes; talvez por isso nunca encontrasse esposa.
Uma segunda-feira - lembro-me como se fosse ontem -, Feitel, o aguadeiro, entrou e nos contou que Yash caíra do telhado de Tevye Boruch. Tevye Boruch era dono de um sobrado na praça do mercado. Todos sentiram pena do limpador de chaminés. Yash sempre trepara pelos telhados com a agilidade de um gato, mas se um homem esta predestinado a sofrer um acidente, não há como evitá-lo. E tinha que ser no prédio mais alto da cidade. Feitel disse que Yash batera com a cabeça, mas não quebrara nenhum membro. Alguém o levara para casa. Ele morava nos arredores da cidade, próximo as matas, num casebre decrépito.
– Feige Braine, soube das notícias? Yash, o limpador de chaminés agora lê pensamentos.
Minha mãe riu e cuspiu.
– Que brincadeira é essa? - perguntou.
– Não é brincadeira, Feige Braine. Não é brincadeira mesmo. Ele está deitado no catre com a cabeça enfaixada adivinhando os segredos de todo mundo.
– Você ficou maluco? – ralhou minha mãe.
Não tardou e a cidade inteira estava comentando. A pancada na cabeça de Yash afrouxara algum parafuso em seu cérebro e ele se tornara vidente.
Tínhamos um professor na cidade, Nochem Mecheles, e ele chamava Yash de adivinho. Quem já ouvira falar numa coisa dessas? Se uma pancada na cabeça podia tornar um homem vidente, deveria haver centenas deles em cada cidade. Mas as pessoas tinham ido lá e presenciado com os próprios olhos. Um homem podia pegar um punhado de moedas no bolso e perguntar: “Yash, o que tenho na mão?”. E Yash respondia: “Tantas moedas de três groschen, tantas de quatro e de seis copeques”. Contavam as moedas e estava tudo certinho até o ultimo groschen. Outro homem perguntava: “Que foi que fiz na semana passada a essa hora em Lublin?”. E Yash dizia que fora a uma taverna com dois homens. E os descrevia como se estivessem diante dele.
Quando o médico e as autoridades da cidade ouviram a história, foram correndo ver. O casebre de Maciechowa era tão minúsculo e tão baixo que os chapéus dos visitantes tocavam no teto. Começaram a interrogá-Io e ele respondia tudo certo. O padre se alarmou; os camponeses estavam dizendo que Yash era santo. Um pouquinho mais, e principiariam a sair com ele em peregrinação como se fosse um ícone. Mas o médico dizia que não deviam removê-lo. Além do mais, ninguém nunca vira Yash na igreja exceto aos domingos.
Bem, lá estava ele deitado na enxerga, falando como uma pessoa normal - comendo, bebendo, brincando com o cachorro que a mãe criava. Mas sabia tudo: o que as pessoas traziam nos bolsos do casaco e nos bolsos das calças; onde esse tinha escondido o dinheiro; quanto aquele gastara em bebidas anteontem.
Quando a mãe viu o afluxo de visitantes, começou a cobrar um copeque de entrada por pessoa. E elas pagavam. O médico escreveu uma carta para Lublin. O prefeito da cidade mandou - como chamam agora? - um relatório, e vieram personagens em altos postos de Zamosc e Lublin. Diziam que o próprio governador enviara um representante. O prefeito se assustou e mandou limpar todas as ruas. A praça do mercado ficou tão limpa que não se via nenhum graveto ou palha no chão. A prefeitura foi rapidamente caiada. E tudo por causa de quem? De Yash, o limpador de chaminés. A casa de Gitel, o estalajadeiro, estava num alvoroço - quem alguma vez sonhara com hospedes tão importantes?
A comitiva inteira partiu para ver Yash em seu casebre. Interrogaram-no, e as coisas que disse encheram de medo os corações dos funcionários. Quem sabe as culpas que pessoas assim carregam? Todas recebiam suborno, e ele lhes disse. Do que entende um limpador de chaminés? O visitante mais ilustre - esqueço seu nome - insistiu que Yash estava doido e devia ser mandado para um hospício. Mas o nosso médico argumentou que o paciente não podia viajar, isso o mataria.
Corria o boato de que o médico e o representante do governador tinham trocado palavras ásperas e quase chegaram as vias de fato. Mas o nosso médico também era funcionário publico; era o médico da municipalidade e fazia parte da junta de alistamento. Era um homem inflexível - ninguém conseguia compra-lo, por isso não temia a clarividência de Yash. Seja como for, o médico venceu. Mas depois o representante informou que Yash estava louco, e deve ter se queixado do médico, porque não tardou e ele foi transferido para outro distrito.
Nesse meio tempo, a cabeça de Yash sarou e ele voltou a limpar chaminés. Mas conservou os seus estranhos poderes. Entrava numa casa para receber o seu groschen e a mulher lhe perguntava: “Yash, o que esta guardado na gaveta do lado esquerdo?”, ou: “O que tenho na mão?”, ou: “O que ceei ontem a noite?”. E ele dizia tudo. Perguntavam:
“Yash, como e que você sabe disso?” Ele dava de ombros: “Sei. Foi a pancada na cabeça”. E apontava para a têmpora. Poderia ter sido levado para as grandes cidades e as pessoas comprariam entradas para vê-lo, mas quem se preocupava com essas coisas.
Havia diversos ladrões na cidade. Roubavam roupa dos sótãos e tudo o mais em que pudessem por as mãos. Agora já não podiam roubar. A vítima procurava Yash e ele dizia o nome do ladrão e o lugar onde o produto do roubo estava escondido. Os camponeses das aldeias próximas ouviram falar de Yash e sempre que um cavalo era roubado, o dono vinha vê-lo para descobrir onde se encontrava. Muitos ladrões já estavam na cadeia. Os ladrões ficaram de olho nele e diziam abertamente que era um homem marcado. Mas Yash sabia de seus pianos com antecedência. Foram espanca-lo certa noite, mas ele se escondera no celeiro do vizinho. Atiravam pedras, mas ele pulava de lado ou se abaixava bem antes da pedra passar voando.
As pessoas esqueciam onde punham as coisas - dinheiro, joias - e Yash sempre lhes dizia onde acha-las. Nem parava para pensar. Se uma criança se perdia, a mãe corria para Yash, e ele a levava até a criança. Os ladroes começaram a dizer que ele próprio sequestrara a criança, mas ninguém lhes dava credito. Ele nem mesmo recebia pela consulta. A mãe exigia dinheiro, mas ele era um bobalhão. Nunca aprendera muito bem o valor de uma moeda.
Tínhamos um rabino na cidade, Reb Arele. Viera de uma cidade grande. No Grande Sabá antes da Pascoa ele pregou na sinagoga. E qual foi o tema? Yash, o limpador de chaminés. Os céticos, disse, negam que Moises seja profeta. Dizem que tudo deve ser explicado pela razão. No entanto, como e que Yash, o limpador de chaminés, sabe que Itte Chaye, a padeira, deixou cair a aliança no poço? E se Yash, o limpador de chaminés, sabe das coisas ocultas, como alguém pode duvidar dos poderes dos santos? Havia alguns hereges na cidade, mas nem eles tinham resposta.
Nesse interim, as noticias sobre Yash tinham chegado a Varsóvia, e outras cidades. Os jornais escreveram sobre ele, e de Varsóvia enviaram uma comissão. Mais uma vez o prefeito despachou o pregoeiro da cidade para avisar que as casas e quintais deviam ser limpos. A praça do mercado foi novamente varrida ate ficar tinindo. Depois do Sukkoth (Festa dos Tabernáculos) vieram as chuvas. Só tínhamos uma rua calcada - a da igreja. Tábuas e toras foram estendidas por toda a parte para que as pessoas importantes de Varsóvia não precisassem andar na lama. Gitel, o estalajadeiro, preparou camas e acomodações. A cidade inteira se alvoroçou. Yash era o único que não ligava. Continuava a correr as casas e a limpar chaminés, como de costume. Nem tinha o bom senso de recear os funcionários de Varsóvia.
Os funcionários se enfureceram. Repreenderam o chefe de polícia e o novo médico. Exigiram saber por que tinham vindo de tão longe para ver aquele parvo, aquele campônio que não passava de um limpador de chaminés comum.
O chefe de polícia e os outros juraram que Yash sabia de tudo ha um ou dois dias atrás, mas os visitantes não quiseram escutar. Alguém lhes disse que Yash caíra de um telhado e tornara a bater com a cabeça, vocês sabem como as pessoas são: só acreditam no que veem. O chefe de polícia se aproximou de Yash e começou a bater com os punhos na cabeça dele. Talvez o parafuso se soltasse outra vez. Mas, uma vez que a portinhola no cérebro se fecha, permanece fechada.
A comissão regressou a Varsóvia e negou a historia do princípio ao fim. Yash continuou a limpar chaminés mais um ou dois anos. Então irrompeu uma epidemia na cidade e ele morreu.
O cérebro é cheio de todo tipo de portinholas e câmaras. As vezes uma pancada na cabeça desarruma tudo. Ainda assim, tudo isso tem relação com a alma. Sem a alma, a cabeça seria tão sabia quanto o pé.
Tínhamos um limpador de chaminés na cidade, cujo apelido era Yash Preto. Todos os limpadores de chaminé são pretos - que mais podem ser? mas Yash parecia ter nascido preto. Seu cabelo era eriçado e negro como o piche. Os olhos eram negros e a pele nunca estava limpa da fuligem. Só os dentes eram brancos. O pai tinha sido limpador de chaminés da cidade e Yash herdara o oficio. Já era um homem adulto, mas continuava solteiro e morava com a velha mãe, Maciechowa.
Vinha a nossa casa uma vez por mês, descalço, e a cada passo deixava uma marca negra no chão. Minha mãe, que ela descanse em paz, corria para recebe-lo e não deixa-lo ir além. Era pago pela cidade, mas as mulheres lhe davam um groschen ou uma fatia de pão quando acabava o serviço. Era o costume. As crianças tinham terror dele, embora nunca fizesse mal a ninguém. E enquanto foi limpador de chaminés, as chaminés nunca pegaram fogo. Aos domingos, como todos os cristãos, ele se lavava e ia a igreja com a mãe. Mas, lavado, parecia ainda mais negro do que antes; talvez por isso nunca encontrasse esposa.
Uma segunda-feira - lembro-me como se fosse ontem -, Feitel, o aguadeiro, entrou e nos contou que Yash caíra do telhado de Tevye Boruch. Tevye Boruch era dono de um sobrado na praça do mercado. Todos sentiram pena do limpador de chaminés. Yash sempre trepara pelos telhados com a agilidade de um gato, mas se um homem esta predestinado a sofrer um acidente, não há como evitá-lo. E tinha que ser no prédio mais alto da cidade. Feitel disse que Yash batera com a cabeça, mas não quebrara nenhum membro. Alguém o levara para casa. Ele morava nos arredores da cidade, próximo as matas, num casebre decrépito.
Durante algum tempo ninguém soube notícias de Yash. Mas que importava um limpador de chaminés? Se não podia mais trabalhar, a cidade contratava outro. Então um dia Feitel voltou, com dois baldes de agua no balancim e disse a minha mãe:
– Feige Braine, soube das notícias? Yash, o limpador de chaminés agora lê pensamentos.
Minha mãe riu e cuspiu.
– Que brincadeira é essa? - perguntou.
– Não é brincadeira, Feige Braine. Não é brincadeira mesmo. Ele está deitado no catre com a cabeça enfaixada adivinhando os segredos de todo mundo.
– Você ficou maluco? – ralhou minha mãe.
Não tardou e a cidade inteira estava comentando. A pancada na cabeça de Yash afrouxara algum parafuso em seu cérebro e ele se tornara vidente.
Tínhamos um professor na cidade, Nochem Mecheles, e ele chamava Yash de adivinho. Quem já ouvira falar numa coisa dessas? Se uma pancada na cabeça podia tornar um homem vidente, deveria haver centenas deles em cada cidade. Mas as pessoas tinham ido lá e presenciado com os próprios olhos. Um homem podia pegar um punhado de moedas no bolso e perguntar: “Yash, o que tenho na mão?”. E Yash respondia: “Tantas moedas de três groschen, tantas de quatro e de seis copeques”. Contavam as moedas e estava tudo certinho até o ultimo groschen. Outro homem perguntava: “Que foi que fiz na semana passada a essa hora em Lublin?”. E Yash dizia que fora a uma taverna com dois homens. E os descrevia como se estivessem diante dele.
Quando o médico e as autoridades da cidade ouviram a história, foram correndo ver. O casebre de Maciechowa era tão minúsculo e tão baixo que os chapéus dos visitantes tocavam no teto. Começaram a interrogá-Io e ele respondia tudo certo. O padre se alarmou; os camponeses estavam dizendo que Yash era santo. Um pouquinho mais, e principiariam a sair com ele em peregrinação como se fosse um ícone. Mas o médico dizia que não deviam removê-lo. Além do mais, ninguém nunca vira Yash na igreja exceto aos domingos.
Bem, lá estava ele deitado na enxerga, falando como uma pessoa normal - comendo, bebendo, brincando com o cachorro que a mãe criava. Mas sabia tudo: o que as pessoas traziam nos bolsos do casaco e nos bolsos das calças; onde esse tinha escondido o dinheiro; quanto aquele gastara em bebidas anteontem.
Quando a mãe viu o afluxo de visitantes, começou a cobrar um copeque de entrada por pessoa. E elas pagavam. O médico escreveu uma carta para Lublin. O prefeito da cidade mandou - como chamam agora? - um relatório, e vieram personagens em altos postos de Zamosc e Lublin. Diziam que o próprio governador enviara um representante. O prefeito se assustou e mandou limpar todas as ruas. A praça do mercado ficou tão limpa que não se via nenhum graveto ou palha no chão. A prefeitura foi rapidamente caiada. E tudo por causa de quem? De Yash, o limpador de chaminés. A casa de Gitel, o estalajadeiro, estava num alvoroço - quem alguma vez sonhara com hospedes tão importantes?
A comitiva inteira partiu para ver Yash em seu casebre. Interrogaram-no, e as coisas que disse encheram de medo os corações dos funcionários. Quem sabe as culpas que pessoas assim carregam? Todas recebiam suborno, e ele lhes disse. Do que entende um limpador de chaminés? O visitante mais ilustre - esqueço seu nome - insistiu que Yash estava doido e devia ser mandado para um hospício. Mas o nosso médico argumentou que o paciente não podia viajar, isso o mataria.
Corria o boato de que o médico e o representante do governador tinham trocado palavras ásperas e quase chegaram as vias de fato. Mas o nosso médico também era funcionário publico; era o médico da municipalidade e fazia parte da junta de alistamento. Era um homem inflexível - ninguém conseguia compra-lo, por isso não temia a clarividência de Yash. Seja como for, o médico venceu. Mas depois o representante informou que Yash estava louco, e deve ter se queixado do médico, porque não tardou e ele foi transferido para outro distrito.
Nesse meio tempo, a cabeça de Yash sarou e ele voltou a limpar chaminés. Mas conservou os seus estranhos poderes. Entrava numa casa para receber o seu groschen e a mulher lhe perguntava: “Yash, o que esta guardado na gaveta do lado esquerdo?”, ou: “O que tenho na mão?”, ou: “O que ceei ontem a noite?”. E ele dizia tudo. Perguntavam:
“Yash, como e que você sabe disso?” Ele dava de ombros: “Sei. Foi a pancada na cabeça”. E apontava para a têmpora. Poderia ter sido levado para as grandes cidades e as pessoas comprariam entradas para vê-lo, mas quem se preocupava com essas coisas.
Havia diversos ladrões na cidade. Roubavam roupa dos sótãos e tudo o mais em que pudessem por as mãos. Agora já não podiam roubar. A vítima procurava Yash e ele dizia o nome do ladrão e o lugar onde o produto do roubo estava escondido. Os camponeses das aldeias próximas ouviram falar de Yash e sempre que um cavalo era roubado, o dono vinha vê-lo para descobrir onde se encontrava. Muitos ladrões já estavam na cadeia. Os ladrões ficaram de olho nele e diziam abertamente que era um homem marcado. Mas Yash sabia de seus pianos com antecedência. Foram espanca-lo certa noite, mas ele se escondera no celeiro do vizinho. Atiravam pedras, mas ele pulava de lado ou se abaixava bem antes da pedra passar voando.
As pessoas esqueciam onde punham as coisas - dinheiro, joias - e Yash sempre lhes dizia onde acha-las. Nem parava para pensar. Se uma criança se perdia, a mãe corria para Yash, e ele a levava até a criança. Os ladroes começaram a dizer que ele próprio sequestrara a criança, mas ninguém lhes dava credito. Ele nem mesmo recebia pela consulta. A mãe exigia dinheiro, mas ele era um bobalhão. Nunca aprendera muito bem o valor de uma moeda.
Tínhamos um rabino na cidade, Reb Arele. Viera de uma cidade grande. No Grande Sabá antes da Pascoa ele pregou na sinagoga. E qual foi o tema? Yash, o limpador de chaminés. Os céticos, disse, negam que Moises seja profeta. Dizem que tudo deve ser explicado pela razão. No entanto, como e que Yash, o limpador de chaminés, sabe que Itte Chaye, a padeira, deixou cair a aliança no poço? E se Yash, o limpador de chaminés, sabe das coisas ocultas, como alguém pode duvidar dos poderes dos santos? Havia alguns hereges na cidade, mas nem eles tinham resposta.
Nesse interim, as noticias sobre Yash tinham chegado a Varsóvia, e outras cidades. Os jornais escreveram sobre ele, e de Varsóvia enviaram uma comissão. Mais uma vez o prefeito despachou o pregoeiro da cidade para avisar que as casas e quintais deviam ser limpos. A praça do mercado foi novamente varrida ate ficar tinindo. Depois do Sukkoth (Festa dos Tabernáculos) vieram as chuvas. Só tínhamos uma rua calcada - a da igreja. Tábuas e toras foram estendidas por toda a parte para que as pessoas importantes de Varsóvia não precisassem andar na lama. Gitel, o estalajadeiro, preparou camas e acomodações. A cidade inteira se alvoroçou. Yash era o único que não ligava. Continuava a correr as casas e a limpar chaminés, como de costume. Nem tinha o bom senso de recear os funcionários de Varsóvia.
Mas escutem só: um dia antes da comissão chegar, houve uma nevada e uma súbita geada. Na noite anterior, viram faíscas e até línguas de fogo voando da chaminé de Chaim, o padeiro. Chaim, preocupado que irrompesse um incêndio, mandou buscar Yash, o limpador de chaminés. Yash veio com a vassoura e limpou a chaminé. O forno de um padeiro permanece aceso muitas horas e uma grande quantidade de fuligem se prende a chaminé. Quando Yash estava descendo, escorregou e tornou a cair. Bateu mais uma vez com a cabeça, mas não com tanta força quanto da primeira vez. Nem saiu sangue. Ele se levantou e foi para casa.
Meus queridos amigos, no dia seguinte, quando a comissão chegou e começou a interrogar Yash, ele não sabia nada. A primeira pancada abrira alguma coisa, e a segunda a fechara. Os figurões perguntaram quanto dinheiro traziam, o que fizeram no dia anterior, o que comeram uma semana atrás aquela hora, mas Yash apenas sorria como um tolo e respondia: “Não sei”.
Meus queridos amigos, no dia seguinte, quando a comissão chegou e começou a interrogar Yash, ele não sabia nada. A primeira pancada abrira alguma coisa, e a segunda a fechara. Os figurões perguntaram quanto dinheiro traziam, o que fizeram no dia anterior, o que comeram uma semana atrás aquela hora, mas Yash apenas sorria como um tolo e respondia: “Não sei”.
Os funcionários se enfureceram. Repreenderam o chefe de polícia e o novo médico. Exigiram saber por que tinham vindo de tão longe para ver aquele parvo, aquele campônio que não passava de um limpador de chaminés comum.
O chefe de polícia e os outros juraram que Yash sabia de tudo ha um ou dois dias atrás, mas os visitantes não quiseram escutar. Alguém lhes disse que Yash caíra de um telhado e tornara a bater com a cabeça, vocês sabem como as pessoas são: só acreditam no que veem. O chefe de polícia se aproximou de Yash e começou a bater com os punhos na cabeça dele. Talvez o parafuso se soltasse outra vez. Mas, uma vez que a portinhola no cérebro se fecha, permanece fechada.
A comissão regressou a Varsóvia e negou a historia do princípio ao fim. Yash continuou a limpar chaminés mais um ou dois anos. Então irrompeu uma epidemia na cidade e ele morreu.
O cérebro é cheio de todo tipo de portinholas e câmaras. As vezes uma pancada na cabeça desarruma tudo. Ainda assim, tudo isso tem relação com a alma. Sem a alma, a cabeça seria tão sabia quanto o pé.
Isaac Bashevis Singer
segunda-feira, outubro 26
Declaração de amor
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa.
Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
Clarice Lispector
Não sou a areia
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
Lya Luft
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
Lya Luft
Os velhos e a borboleta
Para Gerana Damulakis
The bee is not afraid of me,
I know the butterfly,
The pretty people in the Woods
Receive me cordially.
Emily Dickinson
No jardim a borboleta propõe as flores. Faz borboletices entre as florzinhas. É pura felicidade quando descobre a rosa charmosa. Ternura em hesitante tremor é o que os dois velhos sentados no banco do jardim estão vendo agora através de finas saliências da borboleta que acaba de pousar na rosa. Carícia de borboleta, seda de rosa, perfeito encontro dos que namoram na manhã luminosa. Depois que asas sublimes acabam de amar, a borboleta voa e vai levar ao vento a delícia de ter beijado a rosa.
O velho de cabelos grisalhos diz para o outro que a larva da borboleta não tece casulo, passando o período ninfal sob a forma de crisálida. Acrescenta com a voz mansa que a borboleta voa pela campina e o ar ilumina. Dá aulas de balé como a única bailarina do mundo que não usa sapatilha. Milagre na estação temperada de sol, oscila no voo pela colina, vive suavemente o sonho de viajar na natureza apenas um dia. Bailar, amar, é essa a sua vida no ar. Transluz na plantinha a sustentável leveza de ser, treme asas quando recebe da brisa ligeira convite para exercer a vida como a fantasia de um dia. E, sob ondulações que resvalam nas lâminas do ar, sabe que não existe sonho mais belo do que viver em tácito entendimento com a luz. Na poeira dourada da flor, a borboleta reverbera a fina escrita da beleza.
Muitas borboletas cobriam a terra fresca nos barrancos do rio, dando ideia de um manto feito com asas brancas, azuis e amarelas. Os meninos que tiveram comigo a felicidade de viver a aventura da infância achavam bonito ver as borboletas voando em bando, acima do rio. Nuvens formavam uma sinfonia de asas acima do espelho das águas. Era algo especial nas tardes de verão. Da balaustrada no jardim merecia ser contemplado. As borboletas oscilavam para o norte ou sul, voltavam, subiam, desciam, pousavam no barranco das margens do rio e da ilha.
Os velhos comparecem ao jardim para conversar sobre a idade das águas. Muitas já passaram por debaixo da ponte, bem sabem eles do inevitável dessas águas que correm para o mar. Embora o homem passe tocando suave o realejo, o menino anuncie a manchete do dia, tentando vender o jornal aos velhos, o que importa a eles nesse instante é indagar sobre as sombras na tarde, sentindo que os olhos não chegam a compreender aquilo que entardece sobre manchas. Penso que ficam contentes quando aparece uma borboleta, com seus devaneios de asas que purificam os olhos cansados da vida. A borboleta fica distraindo os velhos no voo translúcido ou pousada na flor, sem querer de suas almas nada em troca.
A pureza que uma borboleta põe na manhã tem a ver com a alegria dos sons que os passarinhos soltam dos bicos inquietos, voando ou saltitando nos galhos das árvores em floração. Asas sedosas enternecem enquanto sons de ouro alegram num só momento pleno dessa música que a natureza dá de graça, fazendo que os velhos esqueçam que o tempo engole a vida, virando a página de tudo em rigor de atitude que comanda.
O velho de cabelos grisalhos, numa voz indicativa de admiração, ante o milagre que faz a borboleta ser vida, observa para o outro que somente Deus pode criar tamanha ternura numa existência tão curta. Embora bem mais longa, ele sabe que a vida dos seres humanos tem também um fim. Ele mesmo rodopiará quando chegar o momento e cairá em algum lugar desconhecido. Como os outros, ele faz parte dessa regra soberba, criada pela natureza sem exceção. “Quando chegar minha vez e eu cair, haverá o anjo da guarda com asas de borboleta para me guiar depois da curva na estrada”, pulsa no velho de cabelos grisalhos esse pensamento, que apareceu de súbito na mente, irrompendo do escuro como um facho salvador.
Enquanto isso não acontecer, a borboleta no jardim virá propor as flores para dessa maneira adornar a conversa acerca dos anos idos e vividos. Perfumará as vozes que lembrarão o ritmo da cidade cada vez mais crescente, gente comprando e vendendo no comércio como num formigueiro. Tranquilizará os gestos dos velhos banhando-se na manhã de sol, recebendo a brisa na pele enrugada, em carícia de lenço. Um deles, que gosta de usar camisa axadrezada, boné azul-marinho, provavelmente estará informando, a certa altura da conversa vagarosa, sobre a coleção de carros novos do fazendeiro abastado. Como ele gosta de mostrá-la aos amigos no churrasco de fim-de-semana, que oferece na fazenda.
Acontece que, pensando, pensando, quando de novo brilhar na manhã do jardim as carícias que a borboleta vem fazer na rosa, extraindo na manhã de luz um beijo sutilíssimo feito de nácar e seda, belo, belo, belo, o velho de cabelos grisalhos não terá mais dúvida que, entre todos os homens abastados da cidade, somente ele é o ganhador.
Irá viajar pelo jardim, de canto a canto, com asas de borboleta. Pousará em cada flor para fazer carícia na manhã radiante de sol e cantos de passarinhos fazendo sua festa, voando e saltitando nos galhos da árvore salpicada de flores, que caem no chão formando uma camada quando o vento passa forte e refresca com as suas lufadas a atmosfera.
Ainda há sol, ainda há mar
Soube, neste fim de ano, com tristeza, que você está doente. E, nesta manhã de sol claro e ondas fortes, tenho quase remorso em me sentir sólido e sadio diante do mar azul e pensar em você, em um escuro apartamento dessa Paris friorenta.
Não me lembro dessa rua em que você agora está morando, mas imagino uma ruazinha estreita do Quartier Latin, com um ou dois bistrôs, um açougue em que a carne de vaca é enfeitada com rosas de papel, uma loja de antiguidades, uma pequena livraria, uma venda de vinho e carvão, um hotel povoado de bolsistas africanos e estudantes suecos.
Imagino uma entrada escura, uma “concierge” de cabelos brancos presos no alto da cabeça, um pequeno elevador de duas portas oscilante que sobre, com um gemido quase humano, até um corredor triste e, dentro do apartamento, você com um capote preto, meio pálida, uma descuidada mecha de cabelos caindo pela testa. E quase ouço a sua voz grave me convidando a sentar, tomar um copo de vinho, “bouffer” alguma coisa. Nevou pela manhã. Agora, neste começo de tarde, a rua é nervosa e triste, com gente apressada nas calçadas estreitas e um ou outro táxi roncando e fazendo espirrar a lama. O dia é curto, já se faz escuro, está um pouco menos frio, mas tudo muito úmido. E você estará triste, desanimada, na cama, olhando o papel de parede como se nele quisesse descobrir as linhas de seu futuro, neste dezembro vazio e ruim de sua vida.
Não sei que lembrança você terá deste vago brasileiro, mas tenho a ilusão de pensar que lhe fará bem saber que muito, muito longe, além do mar, há um homem que esta manhã, na praia de espumas brilhantes, pensou em você, e pensou com ternura, e lembrou com saudade o seu riso claro e sua mecha de cabelos castanhos. Este homem é inútil e não pode lhe mandar nem um pouco deste sol para aquecer seu corpo nem um pouco deste vento sadio e limpo do mar para lavar o seu pulmão que respira esse ar confinado que o “chauffage” resseca, e a fumaça do cigarro vicia.
Mas guarde esta notícia, minha amiga: o mundo não é tão escuro e frio como lhe parece nesse momento; fique bem quieta e paciente, num canto da cama, vendo televisão ou ouvindo música e sabendo que logo haverá, também para você, dias de sol, cálidos e alegres, com espuma brilhando.
Foi este ano centenário de tantas coisas, cheio de peripécias no jogo das nações deste mundo. Em todas as lutas e episódios do Ocidente e Oriente soprou um espírito tão antigo, quanto novo, de liberdade. Ele muitas vezes terá feito balançar também algo no íntimo das pessoas. Agora fique quieta aí, agasalhada no seu canto. Mas, se você se erguer da cama e chegar lentamente até a janela para ver lá fora, pela vidraça embaçada, a rua escura e suja, e voltar ainda mais triste para a cama, pensa nesta notícia à toa que eu lhe mando, e é tudo que eu lhe posso mandar: ainda há sol, ainda há mar e o vento do mar.
Não me lembro dessa rua em que você agora está morando, mas imagino uma ruazinha estreita do Quartier Latin, com um ou dois bistrôs, um açougue em que a carne de vaca é enfeitada com rosas de papel, uma loja de antiguidades, uma pequena livraria, uma venda de vinho e carvão, um hotel povoado de bolsistas africanos e estudantes suecos.
Imagino uma entrada escura, uma “concierge” de cabelos brancos presos no alto da cabeça, um pequeno elevador de duas portas oscilante que sobre, com um gemido quase humano, até um corredor triste e, dentro do apartamento, você com um capote preto, meio pálida, uma descuidada mecha de cabelos caindo pela testa. E quase ouço a sua voz grave me convidando a sentar, tomar um copo de vinho, “bouffer” alguma coisa. Nevou pela manhã. Agora, neste começo de tarde, a rua é nervosa e triste, com gente apressada nas calçadas estreitas e um ou outro táxi roncando e fazendo espirrar a lama. O dia é curto, já se faz escuro, está um pouco menos frio, mas tudo muito úmido. E você estará triste, desanimada, na cama, olhando o papel de parede como se nele quisesse descobrir as linhas de seu futuro, neste dezembro vazio e ruim de sua vida.
Não sei que lembrança você terá deste vago brasileiro, mas tenho a ilusão de pensar que lhe fará bem saber que muito, muito longe, além do mar, há um homem que esta manhã, na praia de espumas brilhantes, pensou em você, e pensou com ternura, e lembrou com saudade o seu riso claro e sua mecha de cabelos castanhos. Este homem é inútil e não pode lhe mandar nem um pouco deste sol para aquecer seu corpo nem um pouco deste vento sadio e limpo do mar para lavar o seu pulmão que respira esse ar confinado que o “chauffage” resseca, e a fumaça do cigarro vicia.
Mas guarde esta notícia, minha amiga: o mundo não é tão escuro e frio como lhe parece nesse momento; fique bem quieta e paciente, num canto da cama, vendo televisão ou ouvindo música e sabendo que logo haverá, também para você, dias de sol, cálidos e alegres, com espuma brilhando.
Foi este ano centenário de tantas coisas, cheio de peripécias no jogo das nações deste mundo. Em todas as lutas e episódios do Ocidente e Oriente soprou um espírito tão antigo, quanto novo, de liberdade. Ele muitas vezes terá feito balançar também algo no íntimo das pessoas. Agora fique quieta aí, agasalhada no seu canto. Mas, se você se erguer da cama e chegar lentamente até a janela para ver lá fora, pela vidraça embaçada, a rua escura e suja, e voltar ainda mais triste para a cama, pensa nesta notícia à toa que eu lhe mando, e é tudo que eu lhe posso mandar: ainda há sol, ainda há mar e o vento do mar.
Rubem Braga, “Um Cartão de Paris”
Matricídio
A morte precoce do pai de crianças bonitas e saudáveis certamente causará problemas. Witman tinha dois filhos, de quatro e cinco anos de idade, quando numa tarde ensolarada de novembro, com um pouco de vento, ele disse adeus ao mundo. Morreu sem muita dificuldade, e, de um modo geral, não deixou muito pesar atrás de si. A esposa, a viúva, era uma mulher bonita, mas de natureza pacata e extremamente egoísta. Nunca torturara o marido, mas além de certo ponto ela jamais o amara. Isso é muito mais desculpável entre homens do que entre mulheres, cuja vida inteira é justificada, salva ou tornada mais valiosa por esse sentimento forte, embora em muitos aspectos sem sentido. Entretanto, temos de perdoar a senhora Witman porque ela afinal trouxe ao mundo dois rapazes bonitos e fortes. Na rua em que eles moravam, em uma casa de dois andares, dilapidada, com uma escadaria de madeira, a senhora Witman, loira, vestida de luto, era decididamente respeitada. Embora a mulher tivesse a cintura fina e olhos infantis. Como ser humano ela não era nem boa nem má. Beijava os filhos tão pouco quanto batia neles. Ela e eles tinham pouco a ver uns com os outros, como aos poucos foi ficando cada vez mais claro.
Os garotos costumavam brincar no vizinho. Não apareciam durante as longas tardes e até altas horas da noite. Falavam pouco e apenas entre si. Em seus pequenos olhos pretos brilhava a alma de Witman, o pai. Subiam em sótãos, remexiam caixas velhas, maltratavam gatos. Muitas vezes passavam pelas fendas dos sótãos para fora, para os telhados e as saídas de incêndio, até as chaminés de formas estranhas, cheirando a fumaça. Enquanto durava o verão eles se banhavam no rio e capturavam pássaros na mata. A senhora Witman lhes dava de comer e roupas de baixo limpas no sábado a noite. Ela também os acompanhava à escola para fazer a matrícula. Por outro lado, ela vivia silenciosamente, e, silenciosamente, engordava. Seis meses depois da morte do marido conheceu um funcionário de banco, um rapaz jovem e bonito, com o queixo barbeado, ombros largos, e a pele do rosto fina, cor-de-rosa e feminina; a senhora Witman o desejava, e embora lhe custasse e a cansasse, ela flertava com ele. O homem, por tédio e preguiça, não largou a mulher.
Os filhos de Witman pouco se preocupavam com a mãe e o amante; tinham planos e afazeres. Entraram no ginásio. Espicharam, os músculos se tencionaram como cabos de aço sobre os ossos finos e fortes. Faziam os deveres de casa com facilidade, depois de se levantarem, em um quarto de hora. A escola não tinha nenhum papel na vida deles. Consideravam a vida uma ocupação grandiosa e solene e, sem consciência e cedo, delinearam o tempo segundo as necessidades deles.
Em um canto oculto do sótão eles instalaram uma pequena cozinha de feitiçaria. Lá eles reuniam flechas, espingardas de balas de borracha, facas, alicates, cordas e parafusos escondidos e organizados. Nas noites de outono com vento, depois que jantavam — a mãe mergulhava em um romance alemão encadernado em vermelho —, com passos silenciosos e rápidos eles desciam para a rua, corriam, percorriam meia cidade. Espreitavam. Passavam uma corda no pescoço de um cachorro perdido e o arrastavam para casa. Amarravam a boca do animal e o estendiam sobre uma tábua. A lanterna diminuta deles, como um mundo distante de um castelo mal-assombrado da floresta, brilhava na escuridão marrom, úmida do sótão. Os dois rapazes se entregavam ao trabalho com uma lentidão nervosa. Abriam o peito do cachorro, faziam o sangue escorrer, e durante o trabalho ouviam os gemidos terríveis, impotentes, do animal. Olhavam seu coração batendo, pegavam na mão a pequena maquina quente, em movimento, e com picadas miúdas danificavam as artérias e as válvulas.
Tinham um interesse inesgotável pelo mistério da dor. Mais de uma vez eles se torturaram mutuamente, após acordo prévio, com surras ou beliscões. A tortura de animais se tornou uma paixão séria e natural. Exterminaram uma legião de gatos, galinhas, patos, de modos estranhos, sempre mais elaborados. E das coisas deles ninguém fazia ideia. Sabiam se esconder com segurança, com prudência e sabedoria viril.
Por outro lado, poucos na casa se preocupavam com eles. No primeiro andar morava um velho funcionário da justiça que mal ficava em casa, e uma costureira que trabalhava com quatro moças. No segundo andar, além dos Witman, morava somente o proprietário da casa. Um homem bastante jovem, filho do antigo dono, que não se ocupava muito da casa nem dos moradores. No térreo havia um vidraceiro e uma loja de tecidos. Ninguém sabia quando havia algum freguês nessas lojas. Os rapazes Witman tomaram conta da casa. No pequeno quintal sujo nunca se via ninguém. O sumagre que ficava no meio do quintal, e havia tantos anos produzia seus brotos, folhas e flores, provavelmente sentia que as coisas não andavam bem. A vida, porém, na pequena casa de dois andares progredia, como nos outros lugares. Entretanto, entre os moradores apenas os dois rapazes se divertiam, sempre ousavam pensar no amanhã e no depois de amanhã.
Certa noite de setembro eles chegaram em casa vermelhos, ofegantes. Carregavam uma coruja amarrada. Encontraram-na no sótão da velha igreja. Preparara-se durante uma semana, combinaram como a apanhariam e como a matariam. Conseguiram. Os olhos deles brilhavam, nos ombros fortes sentiam uma força viril quando, atravessando ruas escuras, chegaram em casa com o troféu. A coruja os interessava havia muito tempo. Sua cabeça parecia se resumir a dois grandes olhos. Em seu cérebro se abrigavam antigas histórias extraordinárias. Chegava a viver mais de cem anos… Eles precisavam de uma coruja, precisavam…
Lá estava ela. Tiraram uma a uma as penas de seu peito, e observaram as chamas coloridas da dor se acendendo nos olhos do pássaro. Depois amarraram com cordas as bases das asas, as garras, o bico, e, assim, imobilizada, contemplaram-na durante muito tempo, mudos. Comentaram que o pássaro era na verdade apenas uma casa para onde o sofrimento se mudara, e lá moraria até que eles matassem a coruja. Mas onde ele morava? Muito provavelmente em sua cabeça. Depois decidiram que durante a noite eles a deixariam lá porque dessa forma o sono deles seria belo e excitante. Na verdade, despiram-se agitados e em seguida ficaram escutando se do sótão vinha algum som. Sentiam que certa tensão tomava conta de seus músculos, como se as forças em vão desperdiçadas pelo animal amarrado, em convulsão, se derramassem sobre eles. Assim adormeceram.
No sonho percorreram juntos grandes campos, montados em imensos cavalos brancos, galopando loucamente. Alçavam voo de picos vertiginosamente altos e atravessavam a nado mares quentes, sangrentos. Toda a dor e o sofrimento existentes na terra estremeciam, uivavam e gritavam sob as patas dos cavalos.
Ao despertar, uma manhã de sol sorriu para eles; saltaram leves da cama. Pediram o café da manha da empregada, porque a senhora Witman costumava dormir até as dez horas. Correram para a coruja e em uma hora acabaram com ela. Primeiro arrancaram seus olhos, em seguida abriram seu peito, depois de libertarem a boca do pássaro porque queriam ouvir sua voz. O som, o som terrível, de enregelar os ossos, superava toda intensidade imaginável, mas por isso mesmo o trabalho tinha de ser finalizado logo, porque temiam que ele pudesse ser ouvido na casa. De um modo geral estavam muito satisfeitos, a coisa tinha compensado o empenho.
De tarde, o rapaz mais velho saiu de casa sozinho. Descobrira algo em outra casa. Tinha visto passar na janela uma moça seminua que se penteava numa camisola cor-de-rosa. Ele se voltara da esquina para olhar de novo o quarto. A moça agora estava de pé no fundo do quarto, seus ombros brancos brilhavam à luz do sol. O rapaz entrou pelo portão da casa. Uma velha veio em sua direção. mas, ao mesmo tempo, no final do corredor lateral apareceu a moça que se penteava. Ela caminhou na direção do rapaz e disse que desejava vê-lo mais de perto porque gostara muito dele. A moça acariciou com delicadeza o rosto límpido do rapaz magro, de calças curtas, que num gesto brusco abraçou seu pescoço e grudou os lábios no rosto dela. Nisso, portas se abriram silenciosamente a toda volta e cabeças de moças jovens os olharam; rapidamente, porém, elas recolheram as cabeças sem fazer ruído. No final do corredor ardia uma lamparina de vidro azul, e a moça levou o mais velho dos rapazes Witman nessa direção. Eles baixaram a cortina, o brilho amarelado do sol da tarde se filtrou no quarto perfumado. A moça se estendeu sobre o tapete e, imóvel, permitiu ser beijada, abraçada. O filho de Witman pensou na coruja e se perguntou por que tudo que era belo, primoroso e excitante na vida era também terrível, inexplicável e sangrento. Entretanto, ele logo se cansou da brincadeira. Levantou-se frustrado, esperou e olhou a mulher com os olhos bem abertos. Em seguida, ele se despediu apressado, mas prometeu que voltaria outra hora. Perguntou o nome da moça, e por fim disse:
— Até logo.
Naquele dia os dois rapazes Witman vagaram até tarde da noite pelos campos. Não falaram sobre os acontecimentos. O mais velho contou que no ar viviam seres que se pareciam com os homens, e quando soprava um vento fraco se podia sentir seus corpos flutuando. Depois eles pararam, fecharam os olhos e estenderam os braços. O mais velho afirmou que à sua volta pairavam moças imensas, de corpo macio, etéreo, e elas tocavam seu rosto com as costas e com os seios. Passados alguns minutos o irmão declarou que também sentia as moças. Em casa, na cama, eles continuaram falando das mulheres etéreas. Elas entraram.
Depois do almoço eles se trancaram no quarto e falaram sobre a moça; concordaram que haviam experimentado algo que superava incomparavelmente todas as aventuras que haviam tido antes, até mesmo a tortura da coruja.
– Somente por isso vale a pena viver — disse o menor.
– É o que tanto procuramos — declarou o outro.
Em uma tarde linda e quente de maio eles partiram para a escola sem livros. No entanto, foram direto para a casa, para a janela da moça. Não encontraram ninguém. Voltaram: da segunda vez, a cortina se moveu e a moça olhou para fora. Eles pararam. A moca abriu a janela.
– Vocês vem amanhã de manhã? — ela perguntou com um rosto sorridente. — Venham amanhã, tragam alguma coisa. Ela acenou e fechou a janela.
Os rapazes ficaram vermelhos e palpitantes à visão dela.
– Vamos lhe trazer joias, pulseiras ou anéis de ouro — disse depois de um longo silêncio o mais velho.
– Sim, mas de onde?
– Nossa mãe tem, vamos pedir a ela.
– Ela não vai dar.
– Vamos arranjar a chave do armário de vidro.
– Ela não vai dar a chave.
– Mas ela tem quatro pulseiras de ouro e sete anéis.
Nos dedos ela também usa três anéis.
De noite eles rodearam o armário examinando as preciosidades da mãe. Havia entre elas uma pulseira cravejada de perolas e rubis vistosos. Pediram a senhora Witman que lhes mostrasse as coisas. A mulher — loira, frágil, de natureza teimosa — os expulsou da sala. Tinha um pouco de medo dos filhos, sentia-os muito distantes dela.
Os rapazes correram para a rua para discutir.
– Não podemos pedir a ela.
– De modo algum.
– Ela não vai dar.
– Não, não.
– Temos de arrombar o armário.
– Ela vai acordar, vai fazer barulho, e nos vamos continuar sem nada.
– Ela não vai acordar!
O coração deles estava cheio de ódio da mãe loira, de olhos azuis, preguiçosa e gorda, desejavam torturá-la também.
– Eu vou quebrar uma das laterais de vidro com o cabo do meu canivete e não vai haver mais nenhum outro barulho. Você ilumina com a lanterna, e eu vou pegar todas as pulseiras e anéis.
– Mas não vamos levar tudo!
– Sim, vamos levar tudo; ela não precisa, pode ficar sem nada, ela pode chorar a vontade depois.
Subiram correndo para o sótão, deram uma busca entre as ferramentas e pegaram uma talhadeira, um alicate, verificaram a lanterna e puseram tudo nos bolsos. Em seguida, desceram correndo e se deitaram. Porém, antes espiaram pela fenda debaixo da porta e viram que o quarto da mãe estava escuro. Enquanto se despiam decidiram que só voltariam por volta da meia-noite. Não tiraram as meias, para não fazerem barulho quando andassem, e se deitaram despertos, mas serenos. Apoiados nos cotovelos fizeram pianos, de manha, depois da escola iriam correndo para a casa da moça. Esconderiam as preciosidades no sótão e as levariam aos poucos. De manhã, negariam tudo, e, se a mãe quisesse surrá-los, fugiriam. Sentiram-se felizes ao pensar que ela ficaria furiosa e choraria impotente, por não encontrar as joias. Nem por um instante consideraram a possibilidade de que ela pudesse acordar. Depois saíram da cama, abriram a janela, e se debruçaram na noite morna de maio. Os latidos dos cães, o estrépito dos carros que de tempos em tempos repartiam a noite em capítulos não encurtaram a passagem lenta das horas.
Quando por fim o relógio da torre bateu meia-noite, lentamente, eles começaram a se preparar. Acenderam a lanterna, o Witman mais jovem pegou o alicate, a serra e a lanterna, o outro somente o canivete com a longa lamina aberta. Ele foi na frente. Esgueiraram-se calmos e seguros pela sala de jantar, em seguida o mais velho se adiantou e abriu a porta que dava para o quarto da senhora Witman. As dobradiças não rangeram nem um pouco. Respiraram aliviados. Voltada para a parede, a senhora Witman dormia serena, só se via suas costas gordas, largas, cobertas por uma manta tricotada. Postaram-se diante do armário.
– Bern, isso está resolvido — disse o mais velho —, agora vamos pegar as coisas.
– Agora vamos logo, vamos nos lavar e trocar de roupa.
Voltaram para o quarto deles, lavaram as mãos, despejaram a água, mas não tiveram de se trocar, nas roupas não tinham nenhum sinal de sangue. Voltaram para o cenário do crime. O mais jovem abriu a janela do quarto ao lado e esperou pelo irmão, que trancou o quarto da senhora Witman por dentro, e pela janela, passando pelo parapeito, entrou pela outra janela aberta.
A rua estava completamente escura, fazia um silêncio mortal, mas eles tinham de se apressar porque o relógio da torre tinha soado uma hora e eles ainda queriam dormir. Despiram-se, entraram na cama, e, exaustos pela excitação, em alguns instantes estavam os dois profundamente adormecidos.
De manhã a mulher da limpeza que sempre chegava pontualmente as seis e meia os acordou. Estava acostumada a que a senhora Witman levantasse as dez e por isso não foi ao quarto dela. Depois de limpar a sala de jantar, ela acordou os meninos, que se lavaram depressa, tomaram o café e desapareceram com as preciosidades nos bolsos.
– Antes da escola!
– Está bem!
– Temos de ser pontuais para a apresentação.
– Claro, especialmente hoje.
– As onze horas vão nos chamar para casa.
– Vamos logo.
O portão da casa estava aberto. Até chegarem pelo corredor a porta de moça não cruzaram com ninguém. Entraram. A mulher, com o rosto vermelho, dormia profundamente, eles a descobriram e a beijaram, em seguida tiraram dos bolsos os tesouros. Puseram-nos sobre a barriga, o peito e as coxas dela.
– Veja o que trouxemos.
– É tudo seu.
A mulher, com dificuldade, porem sorrindo, voltou a si, apertou as cabeças duras dos dois pequenos malfeitores, agradeceu a visita, e se virou para a parede.
– Hoje ou amanhã voltaremos.
Com isso, os rapazes se despediram, e saíram correndo para a escola.
Os garotos costumavam brincar no vizinho. Não apareciam durante as longas tardes e até altas horas da noite. Falavam pouco e apenas entre si. Em seus pequenos olhos pretos brilhava a alma de Witman, o pai. Subiam em sótãos, remexiam caixas velhas, maltratavam gatos. Muitas vezes passavam pelas fendas dos sótãos para fora, para os telhados e as saídas de incêndio, até as chaminés de formas estranhas, cheirando a fumaça. Enquanto durava o verão eles se banhavam no rio e capturavam pássaros na mata. A senhora Witman lhes dava de comer e roupas de baixo limpas no sábado a noite. Ela também os acompanhava à escola para fazer a matrícula. Por outro lado, ela vivia silenciosamente, e, silenciosamente, engordava. Seis meses depois da morte do marido conheceu um funcionário de banco, um rapaz jovem e bonito, com o queixo barbeado, ombros largos, e a pele do rosto fina, cor-de-rosa e feminina; a senhora Witman o desejava, e embora lhe custasse e a cansasse, ela flertava com ele. O homem, por tédio e preguiça, não largou a mulher.
Os filhos de Witman pouco se preocupavam com a mãe e o amante; tinham planos e afazeres. Entraram no ginásio. Espicharam, os músculos se tencionaram como cabos de aço sobre os ossos finos e fortes. Faziam os deveres de casa com facilidade, depois de se levantarem, em um quarto de hora. A escola não tinha nenhum papel na vida deles. Consideravam a vida uma ocupação grandiosa e solene e, sem consciência e cedo, delinearam o tempo segundo as necessidades deles.
Em um canto oculto do sótão eles instalaram uma pequena cozinha de feitiçaria. Lá eles reuniam flechas, espingardas de balas de borracha, facas, alicates, cordas e parafusos escondidos e organizados. Nas noites de outono com vento, depois que jantavam — a mãe mergulhava em um romance alemão encadernado em vermelho —, com passos silenciosos e rápidos eles desciam para a rua, corriam, percorriam meia cidade. Espreitavam. Passavam uma corda no pescoço de um cachorro perdido e o arrastavam para casa. Amarravam a boca do animal e o estendiam sobre uma tábua. A lanterna diminuta deles, como um mundo distante de um castelo mal-assombrado da floresta, brilhava na escuridão marrom, úmida do sótão. Os dois rapazes se entregavam ao trabalho com uma lentidão nervosa. Abriam o peito do cachorro, faziam o sangue escorrer, e durante o trabalho ouviam os gemidos terríveis, impotentes, do animal. Olhavam seu coração batendo, pegavam na mão a pequena maquina quente, em movimento, e com picadas miúdas danificavam as artérias e as válvulas.
Tinham um interesse inesgotável pelo mistério da dor. Mais de uma vez eles se torturaram mutuamente, após acordo prévio, com surras ou beliscões. A tortura de animais se tornou uma paixão séria e natural. Exterminaram uma legião de gatos, galinhas, patos, de modos estranhos, sempre mais elaborados. E das coisas deles ninguém fazia ideia. Sabiam se esconder com segurança, com prudência e sabedoria viril.
Por outro lado, poucos na casa se preocupavam com eles. No primeiro andar morava um velho funcionário da justiça que mal ficava em casa, e uma costureira que trabalhava com quatro moças. No segundo andar, além dos Witman, morava somente o proprietário da casa. Um homem bastante jovem, filho do antigo dono, que não se ocupava muito da casa nem dos moradores. No térreo havia um vidraceiro e uma loja de tecidos. Ninguém sabia quando havia algum freguês nessas lojas. Os rapazes Witman tomaram conta da casa. No pequeno quintal sujo nunca se via ninguém. O sumagre que ficava no meio do quintal, e havia tantos anos produzia seus brotos, folhas e flores, provavelmente sentia que as coisas não andavam bem. A vida, porém, na pequena casa de dois andares progredia, como nos outros lugares. Entretanto, entre os moradores apenas os dois rapazes se divertiam, sempre ousavam pensar no amanhã e no depois de amanhã.
Certa noite de setembro eles chegaram em casa vermelhos, ofegantes. Carregavam uma coruja amarrada. Encontraram-na no sótão da velha igreja. Preparara-se durante uma semana, combinaram como a apanhariam e como a matariam. Conseguiram. Os olhos deles brilhavam, nos ombros fortes sentiam uma força viril quando, atravessando ruas escuras, chegaram em casa com o troféu. A coruja os interessava havia muito tempo. Sua cabeça parecia se resumir a dois grandes olhos. Em seu cérebro se abrigavam antigas histórias extraordinárias. Chegava a viver mais de cem anos… Eles precisavam de uma coruja, precisavam…
Lá estava ela. Tiraram uma a uma as penas de seu peito, e observaram as chamas coloridas da dor se acendendo nos olhos do pássaro. Depois amarraram com cordas as bases das asas, as garras, o bico, e, assim, imobilizada, contemplaram-na durante muito tempo, mudos. Comentaram que o pássaro era na verdade apenas uma casa para onde o sofrimento se mudara, e lá moraria até que eles matassem a coruja. Mas onde ele morava? Muito provavelmente em sua cabeça. Depois decidiram que durante a noite eles a deixariam lá porque dessa forma o sono deles seria belo e excitante. Na verdade, despiram-se agitados e em seguida ficaram escutando se do sótão vinha algum som. Sentiam que certa tensão tomava conta de seus músculos, como se as forças em vão desperdiçadas pelo animal amarrado, em convulsão, se derramassem sobre eles. Assim adormeceram.
No sonho percorreram juntos grandes campos, montados em imensos cavalos brancos, galopando loucamente. Alçavam voo de picos vertiginosamente altos e atravessavam a nado mares quentes, sangrentos. Toda a dor e o sofrimento existentes na terra estremeciam, uivavam e gritavam sob as patas dos cavalos.
Ao despertar, uma manhã de sol sorriu para eles; saltaram leves da cama. Pediram o café da manha da empregada, porque a senhora Witman costumava dormir até as dez horas. Correram para a coruja e em uma hora acabaram com ela. Primeiro arrancaram seus olhos, em seguida abriram seu peito, depois de libertarem a boca do pássaro porque queriam ouvir sua voz. O som, o som terrível, de enregelar os ossos, superava toda intensidade imaginável, mas por isso mesmo o trabalho tinha de ser finalizado logo, porque temiam que ele pudesse ser ouvido na casa. De um modo geral estavam muito satisfeitos, a coisa tinha compensado o empenho.
De tarde, o rapaz mais velho saiu de casa sozinho. Descobrira algo em outra casa. Tinha visto passar na janela uma moça seminua que se penteava numa camisola cor-de-rosa. Ele se voltara da esquina para olhar de novo o quarto. A moça agora estava de pé no fundo do quarto, seus ombros brancos brilhavam à luz do sol. O rapaz entrou pelo portão da casa. Uma velha veio em sua direção. mas, ao mesmo tempo, no final do corredor lateral apareceu a moça que se penteava. Ela caminhou na direção do rapaz e disse que desejava vê-lo mais de perto porque gostara muito dele. A moça acariciou com delicadeza o rosto límpido do rapaz magro, de calças curtas, que num gesto brusco abraçou seu pescoço e grudou os lábios no rosto dela. Nisso, portas se abriram silenciosamente a toda volta e cabeças de moças jovens os olharam; rapidamente, porém, elas recolheram as cabeças sem fazer ruído. No final do corredor ardia uma lamparina de vidro azul, e a moça levou o mais velho dos rapazes Witman nessa direção. Eles baixaram a cortina, o brilho amarelado do sol da tarde se filtrou no quarto perfumado. A moça se estendeu sobre o tapete e, imóvel, permitiu ser beijada, abraçada. O filho de Witman pensou na coruja e se perguntou por que tudo que era belo, primoroso e excitante na vida era também terrível, inexplicável e sangrento. Entretanto, ele logo se cansou da brincadeira. Levantou-se frustrado, esperou e olhou a mulher com os olhos bem abertos. Em seguida, ele se despediu apressado, mas prometeu que voltaria outra hora. Perguntou o nome da moça, e por fim disse:
— Até logo.
Naquele dia os dois rapazes Witman vagaram até tarde da noite pelos campos. Não falaram sobre os acontecimentos. O mais velho contou que no ar viviam seres que se pareciam com os homens, e quando soprava um vento fraco se podia sentir seus corpos flutuando. Depois eles pararam, fecharam os olhos e estenderam os braços. O mais velho afirmou que à sua volta pairavam moças imensas, de corpo macio, etéreo, e elas tocavam seu rosto com as costas e com os seios. Passados alguns minutos o irmão declarou que também sentia as moças. Em casa, na cama, eles continuaram falando das mulheres etéreas. Elas entraram.
Esgueiraram-se sem fazer ruído, mal tocaram o vidro da janela com as costas aveludadas, e, levitando, flutuando, se deitaram junto deles sobre a colcha, sobre os travesseiros. Elas curvaram o pescoço sobre a boca e o rosto dos rapazes, e em seguida escorregaram mais para baixo com movimentos cansados, preguiçosos e leves. Passaram a noite toda com eles no quarto. Abraçavam-nos curvadas, flutuavam sorrindo na direção da janela, depois de novo deslizavam na direção deles, deitavam-se e se aninhavam sobre eles. Somente quando o dia irrompeu no quarto com raios brilhantes e quentes, elas se distanciaram pela janela, com um murmúrio lento, sonhador, arrastado, e se desfizeram no ar fresco da manhã.
Nesse dia os dois rapazes foram a casa da moça juntos. Na manhã quente de maio, eles passaram por lá voltando da escola e se esgueiraram pelo portão. A mulher veio na direção deles sorrindo, despenteada, mas com uma risada fresca, alta, e levou os Witman para seu quarto. Eles depuseram os livros, se estenderam sobre o tapete, puxaram a moça para junto deles e a beijaram, morderam, abraçaram. A mulher riu de boca fechada, e fechou os olhos. Os olhos dos rapazes de súbito se cruzaram. Os dois começaram a bater nela. A mulher agora ria de boca cheia, como se lhe fizessem cócegas. Os dois Witman se apoderaram da moça, beliscaram-na, prenderam, rolaram e a torturaram. A mulher, imóvel, ofegante, permitiu que fizessem com ela o que quisessem. Os rapazes com o rosto vermelho se esticaram sobre seu robe de seda cor-de-rosa. Mais tarde, eles recolheram os livros, e disseram a moça que ela era a jovem mais bela que já viram. Irén respondeu que gostava deles, mas caso viessem outra vez que lhe trouxessem algo, um doce, uma flor. O Witman mais velho disse que ela se contentaria com o que trouxessem. A mulher acompanhou os rapazes até o portão e beijou-lhes a mão.
Nesse dia os dois rapazes foram a casa da moça juntos. Na manhã quente de maio, eles passaram por lá voltando da escola e se esgueiraram pelo portão. A mulher veio na direção deles sorrindo, despenteada, mas com uma risada fresca, alta, e levou os Witman para seu quarto. Eles depuseram os livros, se estenderam sobre o tapete, puxaram a moça para junto deles e a beijaram, morderam, abraçaram. A mulher riu de boca fechada, e fechou os olhos. Os olhos dos rapazes de súbito se cruzaram. Os dois começaram a bater nela. A mulher agora ria de boca cheia, como se lhe fizessem cócegas. Os dois Witman se apoderaram da moça, beliscaram-na, prenderam, rolaram e a torturaram. A mulher, imóvel, ofegante, permitiu que fizessem com ela o que quisessem. Os rapazes com o rosto vermelho se esticaram sobre seu robe de seda cor-de-rosa. Mais tarde, eles recolheram os livros, e disseram a moça que ela era a jovem mais bela que já viram. Irén respondeu que gostava deles, mas caso viessem outra vez que lhe trouxessem algo, um doce, uma flor. O Witman mais velho disse que ela se contentaria com o que trouxessem. A mulher acompanhou os rapazes até o portão e beijou-lhes a mão.
Depois do almoço eles se trancaram no quarto e falaram sobre a moça; concordaram que haviam experimentado algo que superava incomparavelmente todas as aventuras que haviam tido antes, até mesmo a tortura da coruja.
– Somente por isso vale a pena viver — disse o menor.
– É o que tanto procuramos — declarou o outro.
Em uma tarde linda e quente de maio eles partiram para a escola sem livros. No entanto, foram direto para a casa, para a janela da moça. Não encontraram ninguém. Voltaram: da segunda vez, a cortina se moveu e a moça olhou para fora. Eles pararam. A moca abriu a janela.
– Vocês vem amanhã de manhã? — ela perguntou com um rosto sorridente. — Venham amanhã, tragam alguma coisa. Ela acenou e fechou a janela.
Os rapazes ficaram vermelhos e palpitantes à visão dela.
– Vamos lhe trazer joias, pulseiras ou anéis de ouro — disse depois de um longo silêncio o mais velho.
– Sim, mas de onde?
– Nossa mãe tem, vamos pedir a ela.
– Ela não vai dar.
– Vamos arranjar a chave do armário de vidro.
– Ela não vai dar a chave.
– Mas ela tem quatro pulseiras de ouro e sete anéis.
Nos dedos ela também usa três anéis.
De noite eles rodearam o armário examinando as preciosidades da mãe. Havia entre elas uma pulseira cravejada de perolas e rubis vistosos. Pediram a senhora Witman que lhes mostrasse as coisas. A mulher — loira, frágil, de natureza teimosa — os expulsou da sala. Tinha um pouco de medo dos filhos, sentia-os muito distantes dela.
Os rapazes correram para a rua para discutir.
– Não podemos pedir a ela.
– De modo algum.
– Ela não vai dar.
– Não, não.
– Temos de arrombar o armário.
– Ela vai acordar, vai fazer barulho, e nos vamos continuar sem nada.
– Ela não vai acordar!
O coração deles estava cheio de ódio da mãe loira, de olhos azuis, preguiçosa e gorda, desejavam torturá-la também.
– Eu vou quebrar uma das laterais de vidro com o cabo do meu canivete e não vai haver mais nenhum outro barulho. Você ilumina com a lanterna, e eu vou pegar todas as pulseiras e anéis.
– Mas não vamos levar tudo!
– Sim, vamos levar tudo; ela não precisa, pode ficar sem nada, ela pode chorar a vontade depois.
Subiram correndo para o sótão, deram uma busca entre as ferramentas e pegaram uma talhadeira, um alicate, verificaram a lanterna e puseram tudo nos bolsos. Em seguida, desceram correndo e se deitaram. Porém, antes espiaram pela fenda debaixo da porta e viram que o quarto da mãe estava escuro. Enquanto se despiam decidiram que só voltariam por volta da meia-noite. Não tiraram as meias, para não fazerem barulho quando andassem, e se deitaram despertos, mas serenos. Apoiados nos cotovelos fizeram pianos, de manha, depois da escola iriam correndo para a casa da moça. Esconderiam as preciosidades no sótão e as levariam aos poucos. De manhã, negariam tudo, e, se a mãe quisesse surrá-los, fugiriam. Sentiram-se felizes ao pensar que ela ficaria furiosa e choraria impotente, por não encontrar as joias. Nem por um instante consideraram a possibilidade de que ela pudesse acordar. Depois saíram da cama, abriram a janela, e se debruçaram na noite morna de maio. Os latidos dos cães, o estrépito dos carros que de tempos em tempos repartiam a noite em capítulos não encurtaram a passagem lenta das horas.
Quando por fim o relógio da torre bateu meia-noite, lentamente, eles começaram a se preparar. Acenderam a lanterna, o Witman mais jovem pegou o alicate, a serra e a lanterna, o outro somente o canivete com a longa lamina aberta. Ele foi na frente. Esgueiraram-se calmos e seguros pela sala de jantar, em seguida o mais velho se adiantou e abriu a porta que dava para o quarto da senhora Witman. As dobradiças não rangeram nem um pouco. Respiraram aliviados. Voltada para a parede, a senhora Witman dormia serena, só se via suas costas gordas, largas, cobertas por uma manta tricotada. Postaram-se diante do armário.
O garoto ergueu o canivete para golpear a lateral do armário. Ensaiou por alguns instantes e depois bateu no vidro. O estridor foi terrivelmente forte, forte como se alguém tivesse atirado uma porção de copos de vidro em uma caixa pela janela alta de um sobrado. A senhora Witman se mexeu, se virou, em seguida, apoiando-se nos cotovelos, abriu os olhos. Seu rosto expressou raiva e ódio obstinados, mas ela não chegou a falar porque o rapaz mais velho saltou sobre a cama e a golpeou no peito com o canivete. A mulher caiu para trás e sua mão direita se agitou no ar. O menor também já estava na cama e prendeu as pernas dela. O maior tirou a lamina sangrenta do peito da mãe e a golpeou de novo. Não era necessário, porque ela estava morta. De seu peito o sangue corria lentamente debaixo da colcha.
– Bern, isso está resolvido — disse o mais velho —, agora vamos pegar as coisas.
Tiraram as joias do armário, as pulseiras, os broches, os anéis, o relógio e a longa corrente de ouro do relógio. Puseram calmamente sobre a mesa o tesouro conquistado, e, de pleno acordo, eles o classificaram e separaram.
– Agora vamos logo, vamos nos lavar e trocar de roupa.
Voltaram para o quarto deles, lavaram as mãos, despejaram a água, mas não tiveram de se trocar, nas roupas não tinham nenhum sinal de sangue. Voltaram para o cenário do crime. O mais jovem abriu a janela do quarto ao lado e esperou pelo irmão, que trancou o quarto da senhora Witman por dentro, e pela janela, passando pelo parapeito, entrou pela outra janela aberta.
A rua estava completamente escura, fazia um silêncio mortal, mas eles tinham de se apressar porque o relógio da torre tinha soado uma hora e eles ainda queriam dormir. Despiram-se, entraram na cama, e, exaustos pela excitação, em alguns instantes estavam os dois profundamente adormecidos.
De manhã a mulher da limpeza que sempre chegava pontualmente as seis e meia os acordou. Estava acostumada a que a senhora Witman levantasse as dez e por isso não foi ao quarto dela. Depois de limpar a sala de jantar, ela acordou os meninos, que se lavaram depressa, tomaram o café e desapareceram com as preciosidades nos bolsos.
– Antes da escola!
– Está bem!
– Temos de ser pontuais para a apresentação.
– Claro, especialmente hoje.
– As onze horas vão nos chamar para casa.
– Vamos logo.
O portão da casa estava aberto. Até chegarem pelo corredor a porta de moça não cruzaram com ninguém. Entraram. A mulher, com o rosto vermelho, dormia profundamente, eles a descobriram e a beijaram, em seguida tiraram dos bolsos os tesouros. Puseram-nos sobre a barriga, o peito e as coxas dela.
– Veja o que trouxemos.
– É tudo seu.
A mulher, com dificuldade, porem sorrindo, voltou a si, apertou as cabeças duras dos dois pequenos malfeitores, agradeceu a visita, e se virou para a parede.
– Hoje ou amanhã voltaremos.
Com isso, os rapazes se despediram, e saíram correndo para a escola.
Géza Csáth
domingo, outubro 25
Menina a caminho
Vindo de casa, a menina caminha sem pressa, andando descalça no meio da rua, às vezes se desviando ágil pra espantar as galinhas que bicam a grama crescida entre as pedras da sarjeta. O vestido caseiro, costurado provavelmente com dois retalhos, cobre seu corpo magro feito um tubo; a saia é de um pano grosso e desbotado, a blusa do vestido é de algodão acetinado, um fundo preto e brilhante, berrando em cima uma estampa enorme em cores vivas, tão grande que sobre o peito liso da menina não aparece mais que o pedaço de uma folha tropical. Deve dormir e acordar, dia após dia, com as mesmas tranças, uns restos amarrotados. Uma delas, toda esfiapada, é presa por dois grampos se engolindo; já quase desfeita, as mechas da outra estão mal apanhadas no alto por um laço encardido que cai feito flor murcha sobre a testa. Lambendo, enquanto anda, os fios colados à roda amarela e gosmenta de manga ao redor da boca, a menina esquece um momento outras distrações da rua ao se aproximar da pequena agitação diante da maquina de beneficiar arroz: três meninos estão saindo pela porta grande do armazém, puxando cada um deles um saco de palha.
“O Quinzinho só levou dois sacos até agora” resmunga um dos meninos.
“Mas ele vai emprestar a farda de quando era escoteiro mascote” diz um segundo.
“E daí? A Lena-minha-irmã vai emprestar duas fantasias, de baiana e havaiana, e eu já levei seis sacos, são sete com este ...”
A menina se encanta acompanhando assim clandestinamente aquela disputa, sente um entusiasmo gostoso escondido atrás da discussão.
“Eu acho bom você parar de reclamar” recomenda o terceiro menino.
Descalços, sem camisa, os corpos arcados, os meninos arrastam os sacos, que puxam por um dos cantos como se os puxassem pela orelha. E a palha, com o movimento às vezes emperrado, vai estufando cada vez mais a barriga gorda do fundo dos sacos. Passando pro chão de terra, um dos meninos vê a menina acocorada, observando-os por sob a barriga abaulada de um cavalo, cujas rédeas estão amarradas numa das argolas chumbadas na guia. Os três meninos param.
“O cirquinho é hoje, na casa do Dinho” grita um deles se agachando pra encontrar os olhos da menina por baixo da barriga do cavalo.
A menina vislumbra um fundo escuro de quintal, um grande círculo fofo de palha de arroz, velas acesas na ponta de estacas, os casacas de ferro, os meninos trapezistas, e seus olhos piscam de fantasias.
“São dez palitos a entrada” diz o Dinho se agachando também.
O Zuza, rapazote que marcha na calçada do outro lado, uma bola de capotão no arco do braço, diminui o passo e vem pro meio da rua:
“Na casa de quem, o cirquinho?” vai perguntando.
“Lá em casa” diz o Dinho.
“E quem trabalha nesse cirquinho?”
“A gente, mais o Quinzinho, a Tuta co’a Iracema que vão cantar ‘Um carro de boi’, a Eunice ... “
“A Nice não vai” intervém um dos meninos. “A mãe dela diz que da outra vez teve aquilo ...”
“Aquilo o quê?” pergunta o Zuza, malandramente.
“Você sabe, ara!”
O Zuza estufa o peito, cheio de si, enquanto o menino adverte com medo:
“A mãe do Dinho disse que quem tem mais de doze anos não entra dessa vez, só o Quinzinho que o Quinzinho vai emprestar a ...”
“Fecha esse bico, gordinho.”
O menino se tranca e enfia os olhos no chão. O Zuza faz ainda um trejeito com a boca:
“Cirquinho mixo esse ... e o Quinzinho que não se meta a besta comigo” diz despeitado, e, largando de repente a bola de capotão, mata com destreza a pelota, pisando em cima com o pé direito. Os braços livres, arma num instante o gesto: “Aqui que eu não entro nesse cirquinho” diz movimentando lentamente o braço teso da banana, pra cima e pra baixo, os olhos cheios de safadeza:
“Aqui que eu não entro, aqui, Ó.”
A menina arregala uns olhos deste tamanho e acompanha apreensiva a ameaça do rapazote. Os três meninos nem se mexem e, ao pé deles, um depois do outro, estão caídos os três sacos, vomitando palha pela boca aberta, como se tivessem levado um murro violento na barriga.
“Zuza! Ó Zuza!”
O Zuza interrompe rápido a banana, apanha dissimulado a bola e olha. “Zuza, vem cá um pouquinho.”
Debruçada sobre uma almofada de cetim azul, no parapeito de uma janela alta, dona Ismênia, robusta, cheia de pintura, desfrutando a primeira sombra que já tomba da sua casa, acena a mão chamando o Zuza. O rapazote abandona o meio da rua enquanto os três meninos, sem mais demora, apanham os sacos pela orelha e se safam apressadamente dali, deixando no chão três rodelas de palha amarela, como se fossem três gemas enormes se cozendo ao sol. O Zuza sobe a calçada meio sem jeito e ergue os olhos pra janela.
“Mas Zuza, não faz nem uma semana que você começou a trabalhar e você já está nessa folga?” diz a dona Ismênia brincando com os olhos, o rosto colorido que nem bunda de mandril.
O Zuza continua olhando pro alto, a bola de capotão no arco do braço.
“Será que você está mesmo de folga, hem Zuza?”
“Tou” responde encabulado.
“É verdade que o seu América fechou o armazém?”
“É verdade, sim.”
“E vocêe sabe por quê?”.
“O seu Américo mandou fechar as portas e eu fechei, não faz meia hora.”
“Como assim?”
“Disse que era por causa do calor e que eu podia ir embora.”
“O quê?!”
Outra mulher, que mal se esconde atrás da cortina repuxada pr’um dos lados, belisca com certeza a coxa grossa da dona Ismênia que protesta c’um grito esganiçado, voltando logo o rosto e alongando mais o riso. Debruçando se de novo na almofada, os seios leitosos, explosivos, quase espirrando pela Canoa do decote, encabulam inda mais o rapazote.
“Me diz uma coisa, Zuza: que história é essa que andam falando do filho do seu Américo?...”
O vulto atrás da cortina já não sustenta o recato, se arrebenta, sem mostrar a cara, numa solta gargalhada, enquanto a dona Ismênia, afogando-se de gozo, se sacode tanto na janela, parece até que vai vomitar algum sabugo. O Zuza ri também, sem saber por que, as faces formigando, mas a algazarra incompreensível das duas mulheres pouco a pouco se abranda.
“Posso te fazer outra pergunta, Zuza?”
“Claro.”
“Me diz só mais uma coisa: quem te ensinou a dar banana daquele jeito?”
“A banana que você dá é muito bem dada, Zuza ...” acrescenta a dona Ismênia logo depois, alimentando fartamente a fogueira de riso. Sacudindo se de novo na janela, fazendo tremer os seios de gelatina, ela até lacrimeja de tanto rir, gritando no fim do gozo com o beliscão que mais uma vez lhe aplicam na coxa. Termina extenuada: “Uff!...” “Ai, Mênia, que vergonha!...” diz a voz atrás da cortina.
O Zuza está ardendo de vermelhidão, as orelhas num fogaréu.
“É só, Zuza” encerra a dona Ismênia entre suspiros.
O Zuza continua olhando pra cima.
“É só” diz ela se desvencilhando, desviando o olhar pra bem longe e cantarolando baixinho: “larará, larará, lariri...”. Volta-se de novo pro rapazote:
“Sua mãe está boa, Zuza?”
“Tá boa, sim.”
“Dê lembranças pra ela.”
O Zuza não se mexe.
“Dê lembranças” repete a dona Ismênia vendo que o Zuza não arreda pé. Atrás da cortina, um risinho, meio miado, aparece e desaparece.
“Até logo, dona Ismênia” diz enfim o rapazote.
“Até logo, Zuza, e dê lembranças pra sua mãe, viu?”
O Zuza se aparta dali, andando cada vez mais rápido, atendendo quem sabe à curiosidade que cresce com os passos, enquanto na janela da dona Ismênia o riso ressurge com ardor revigorado.
Acocorada ainda ao lado do cavalo, a menina desvia os olhos da janela e alcança, bem afastados, os três meninos arrastando os sacos de palha pelo chão de terra, como se fossem três pequenos arados, um ao lado do outro, que tivessem deixado à sua passagem uma seara estreita ao longo da rua.
Só quando o cavalo distancia as patas traseiras é que a menina repara, escondido no alto entre as pernas, e se mostrando cada vez mais volumoso, no seu sexo de piche. Ela desmancha rápido a postura, se joga pra trás, os bracinhos esticados, as palmas das mãos se plantando na terra. Recebe mesmo assim os respingos do esguicho forte, o jato de mijo abrindo uma biroca no chão. O susto nos olhos dela aumenta com a gargalhada dos carregadores, dois crioulos musculosos e um branco atarracado, que fazem a sesta na calçada, estirados à sombra de uma árvore.
“O Quinzinho só levou dois sacos até agora” resmunga um dos meninos.
“Mas ele vai emprestar a farda de quando era escoteiro mascote” diz um segundo.
“E daí? A Lena-minha-irmã vai emprestar duas fantasias, de baiana e havaiana, e eu já levei seis sacos, são sete com este ...”
A menina se encanta acompanhando assim clandestinamente aquela disputa, sente um entusiasmo gostoso escondido atrás da discussão.
“Eu acho bom você parar de reclamar” recomenda o terceiro menino.
Descalços, sem camisa, os corpos arcados, os meninos arrastam os sacos, que puxam por um dos cantos como se os puxassem pela orelha. E a palha, com o movimento às vezes emperrado, vai estufando cada vez mais a barriga gorda do fundo dos sacos. Passando pro chão de terra, um dos meninos vê a menina acocorada, observando-os por sob a barriga abaulada de um cavalo, cujas rédeas estão amarradas numa das argolas chumbadas na guia. Os três meninos param.
“O cirquinho é hoje, na casa do Dinho” grita um deles se agachando pra encontrar os olhos da menina por baixo da barriga do cavalo.
A menina vislumbra um fundo escuro de quintal, um grande círculo fofo de palha de arroz, velas acesas na ponta de estacas, os casacas de ferro, os meninos trapezistas, e seus olhos piscam de fantasias.
“São dez palitos a entrada” diz o Dinho se agachando também.
O Zuza, rapazote que marcha na calçada do outro lado, uma bola de capotão no arco do braço, diminui o passo e vem pro meio da rua:
“Na casa de quem, o cirquinho?” vai perguntando.
“Lá em casa” diz o Dinho.
“E quem trabalha nesse cirquinho?”
“A gente, mais o Quinzinho, a Tuta co’a Iracema que vão cantar ‘Um carro de boi’, a Eunice ... “
“A Nice não vai” intervém um dos meninos. “A mãe dela diz que da outra vez teve aquilo ...”
“Aquilo o quê?” pergunta o Zuza, malandramente.
“Você sabe, ara!”
O Zuza estufa o peito, cheio de si, enquanto o menino adverte com medo:
“A mãe do Dinho disse que quem tem mais de doze anos não entra dessa vez, só o Quinzinho que o Quinzinho vai emprestar a ...”
“Fecha esse bico, gordinho.”
O menino se tranca e enfia os olhos no chão. O Zuza faz ainda um trejeito com a boca:
“Cirquinho mixo esse ... e o Quinzinho que não se meta a besta comigo” diz despeitado, e, largando de repente a bola de capotão, mata com destreza a pelota, pisando em cima com o pé direito. Os braços livres, arma num instante o gesto: “Aqui que eu não entro nesse cirquinho” diz movimentando lentamente o braço teso da banana, pra cima e pra baixo, os olhos cheios de safadeza:
“Aqui que eu não entro, aqui, Ó.”
A menina arregala uns olhos deste tamanho e acompanha apreensiva a ameaça do rapazote. Os três meninos nem se mexem e, ao pé deles, um depois do outro, estão caídos os três sacos, vomitando palha pela boca aberta, como se tivessem levado um murro violento na barriga.
“Zuza! Ó Zuza!”
O Zuza interrompe rápido a banana, apanha dissimulado a bola e olha. “Zuza, vem cá um pouquinho.”
Debruçada sobre uma almofada de cetim azul, no parapeito de uma janela alta, dona Ismênia, robusta, cheia de pintura, desfrutando a primeira sombra que já tomba da sua casa, acena a mão chamando o Zuza. O rapazote abandona o meio da rua enquanto os três meninos, sem mais demora, apanham os sacos pela orelha e se safam apressadamente dali, deixando no chão três rodelas de palha amarela, como se fossem três gemas enormes se cozendo ao sol. O Zuza sobe a calçada meio sem jeito e ergue os olhos pra janela.
“Mas Zuza, não faz nem uma semana que você começou a trabalhar e você já está nessa folga?” diz a dona Ismênia brincando com os olhos, o rosto colorido que nem bunda de mandril.
O Zuza continua olhando pro alto, a bola de capotão no arco do braço.
“Será que você está mesmo de folga, hem Zuza?”
“Tou” responde encabulado.
“É verdade que o seu América fechou o armazém?”
“É verdade, sim.”
“E vocêe sabe por quê?”.
“O seu Américo mandou fechar as portas e eu fechei, não faz meia hora.”
“Como assim?”
“Disse que era por causa do calor e que eu podia ir embora.”
“O quê?!”
Outra mulher, que mal se esconde atrás da cortina repuxada pr’um dos lados, belisca com certeza a coxa grossa da dona Ismênia que protesta c’um grito esganiçado, voltando logo o rosto e alongando mais o riso. Debruçando se de novo na almofada, os seios leitosos, explosivos, quase espirrando pela Canoa do decote, encabulam inda mais o rapazote.
“Me diz uma coisa, Zuza: que história é essa que andam falando do filho do seu Américo?...”
O vulto atrás da cortina já não sustenta o recato, se arrebenta, sem mostrar a cara, numa solta gargalhada, enquanto a dona Ismênia, afogando-se de gozo, se sacode tanto na janela, parece até que vai vomitar algum sabugo. O Zuza ri também, sem saber por que, as faces formigando, mas a algazarra incompreensível das duas mulheres pouco a pouco se abranda.
“Posso te fazer outra pergunta, Zuza?”
“Claro.”
“Me diz só mais uma coisa: quem te ensinou a dar banana daquele jeito?”
pergunta a dona Ismênia carregando na malícia, se engasgando ao mesmo tempo com o novo acesso de riso. “Chega, Mênia! Tadinho .... “ diz a voz atrás da cortina.
“A banana que você dá é muito bem dada, Zuza ...” acrescenta a dona Ismênia logo depois, alimentando fartamente a fogueira de riso. Sacudindo se de novo na janela, fazendo tremer os seios de gelatina, ela até lacrimeja de tanto rir, gritando no fim do gozo com o beliscão que mais uma vez lhe aplicam na coxa. Termina extenuada: “Uff!...” “Ai, Mênia, que vergonha!...” diz a voz atrás da cortina.
O Zuza está ardendo de vermelhidão, as orelhas num fogaréu.
“É só, Zuza” encerra a dona Ismênia entre suspiros.
O Zuza continua olhando pra cima.
“É só” diz ela se desvencilhando, desviando o olhar pra bem longe e cantarolando baixinho: “larará, larará, lariri...”. Volta-se de novo pro rapazote:
“Sua mãe está boa, Zuza?”
“Tá boa, sim.”
“Dê lembranças pra ela.”
O Zuza não se mexe.
“Dê lembranças” repete a dona Ismênia vendo que o Zuza não arreda pé. Atrás da cortina, um risinho, meio miado, aparece e desaparece.
“Até logo, dona Ismênia” diz enfim o rapazote.
“Até logo, Zuza, e dê lembranças pra sua mãe, viu?”
O Zuza se aparta dali, andando cada vez mais rápido, atendendo quem sabe à curiosidade que cresce com os passos, enquanto na janela da dona Ismênia o riso ressurge com ardor revigorado.
Acocorada ainda ao lado do cavalo, a menina desvia os olhos da janela e alcança, bem afastados, os três meninos arrastando os sacos de palha pelo chão de terra, como se fossem três pequenos arados, um ao lado do outro, que tivessem deixado à sua passagem uma seara estreita ao longo da rua.
Só quando o cavalo distancia as patas traseiras é que a menina repara, escondido no alto entre as pernas, e se mostrando cada vez mais volumoso, no seu sexo de piche. Ela desmancha rápido a postura, se joga pra trás, os bracinhos esticados, as palmas das mãos se plantando na terra. Recebe mesmo assim os respingos do esguicho forte, o jato de mijo abrindo uma biroca no chão. O susto nos olhos dela aumenta com a gargalhada dos carregadores, dois crioulos musculosos e um branco atarracado, que fazem a sesta na calçada, estirados à sombra de uma árvore.
Raduan Nassar
Data
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação.
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão.
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça.
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação.
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão.
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça.
Sophia de Mello B. Andresen
Fama
Ninguém se espante com o diálogo que mantive com um bebê de quinze dias de existência. Hoje, a comunicação não conhece fronteiras espaciais ou etárias. O bebê não fala o português de Portugal nem o português brasileiro, ensinado pelo saudoso professor Stanislaw Ponte Preta. Mas fala a seu modo, desde que se saiba interrogá-lo, e eu, não é por me gabar, tenho meus macetes. Perguntei-lhe de saída:
— Então, satisfeita de vir ao mundo?
Respondeu-me com rabugem, em termos que traduzirei assim:
— Como posso estar satisfeita, se ainda bem não cheguei a este lugar, já me televisionaram e estão me entrevistando?
— É a era tecnológico-aldeiglobal-consumística, minha querida. Desde o primeiro minuto de vida extrauterina você participa da sociedade eletrônico-difusoro-cósmica ilimitada.
— É, estou vendo mas não acho graça nenhuma.
— Não é para achar graça nem desgraça, é para se integrar, entende? Você tem de aderir ao processo. O processo é irreversível. Melhor você não dar uma de contestadora, e entrar na jogada.
— Mas eu nem tive tempo de contestar, me botaram diante das câmeras, fechei os olhos para não me ofuscar com aquelas luzes, chorei em sinal de protesto, riram de mim, e agora, pelo que vejo, estou em todas.
— De fato. Seu índice de publicidade é dos mais altos. Em duas semanas você varou o Brasil, fez concorrência a Elizabeth Taylor, aos terroristas palestinos e aos não palestinos, governos que caem, governos que sobem, técnicas de exorcismo…
— E daí? Pensa que o meu Ibope me dá prazer?
— Ibope não dá prazer. Dá dividendos. Você tem o futuro garantido, se for sempre dócil às exigências do sistema. Não deve bobear. Esteja sempre perto de uma objetiva, um gravador, uma passarela.
— Preferia viver a vida, com a sensação de ter uma vida realmente minha.
— Quem tem isso hoje em dia, meus-encantos? Só os loucos, isso mesmo, apenas certos loucos, não marcados pela psicose de governar o mundo. Loucos mansos, vamos dizer assim. São raros, a maioria é agitada, e não só recebe a influência da comunicação delirante, como, por sua vez, influi sobre esta, aumentando-lhe o delírio. De sorte que é bom você renunciar ao ideal individualista e anacrônico. Vida particular da gente já era. Agora vivemos a vida dos outros, em bloco, ou melhor, a de ninguém.
— De qualquer maneira, os direitos da criança… O direito de mamar sem virar manchete, de fazer cocozinho à vontade sem ser objeto de curiosidade geral, como se eu pudesse fazê-lo de pérolas. Isso não está mais em vigor?
— Depende. Há criança e criança. Umas nascem destinadas à obscuridade total e permanente, senão mesmo a coisa mais negativa, que é não viver. Nascem para não conhecer a vida. Em pouco tempo voltam para o outro lado, onde, ao que se sabe, ainda há o aproveitamento industrial do ser. Você até que é dos bebês privilegiados. Centenas de milhares, ou milhões, de espectadores debruçam-se diante dos seus cueiros, pela circunstância feliz de que você é extensão da glória de sua mãezinha.
— Vou pedir a ela para me esconder.
— Ela não pode fazer isso. Compreenda o seu papel, ó flor reclamante. Não se pode fazer nada nesta situação, a não ser exigir que as fotos saiam caprichadas, mesmo porque se não saírem será preciso tirar outras. Sua imagem é mais importante do que você. E você não se pertence; você é a sua imagem multiplicada, em cor e som. Cresça como puder, mas apareça. Aparecer é ser, em nosso tempo. Bem, vou me despedir, já estão chegando outras equipes que naturalmente vão pedir a você que estreie na próxima novela das vinte e duas horas. Trate de se preparar para tudo. Sucesso, hem? E tchauzinho, mon amour de bebê.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
— Então, satisfeita de vir ao mundo?
Respondeu-me com rabugem, em termos que traduzirei assim:
— Como posso estar satisfeita, se ainda bem não cheguei a este lugar, já me televisionaram e estão me entrevistando?
— É a era tecnológico-aldeiglobal-consumística, minha querida. Desde o primeiro minuto de vida extrauterina você participa da sociedade eletrônico-difusoro-cósmica ilimitada.
— É, estou vendo mas não acho graça nenhuma.
— Não é para achar graça nem desgraça, é para se integrar, entende? Você tem de aderir ao processo. O processo é irreversível. Melhor você não dar uma de contestadora, e entrar na jogada.
— Mas eu nem tive tempo de contestar, me botaram diante das câmeras, fechei os olhos para não me ofuscar com aquelas luzes, chorei em sinal de protesto, riram de mim, e agora, pelo que vejo, estou em todas.
— De fato. Seu índice de publicidade é dos mais altos. Em duas semanas você varou o Brasil, fez concorrência a Elizabeth Taylor, aos terroristas palestinos e aos não palestinos, governos que caem, governos que sobem, técnicas de exorcismo…
— E daí? Pensa que o meu Ibope me dá prazer?
— Ibope não dá prazer. Dá dividendos. Você tem o futuro garantido, se for sempre dócil às exigências do sistema. Não deve bobear. Esteja sempre perto de uma objetiva, um gravador, uma passarela.
— Preferia viver a vida, com a sensação de ter uma vida realmente minha.
— Quem tem isso hoje em dia, meus-encantos? Só os loucos, isso mesmo, apenas certos loucos, não marcados pela psicose de governar o mundo. Loucos mansos, vamos dizer assim. São raros, a maioria é agitada, e não só recebe a influência da comunicação delirante, como, por sua vez, influi sobre esta, aumentando-lhe o delírio. De sorte que é bom você renunciar ao ideal individualista e anacrônico. Vida particular da gente já era. Agora vivemos a vida dos outros, em bloco, ou melhor, a de ninguém.
— De qualquer maneira, os direitos da criança… O direito de mamar sem virar manchete, de fazer cocozinho à vontade sem ser objeto de curiosidade geral, como se eu pudesse fazê-lo de pérolas. Isso não está mais em vigor?
— Depende. Há criança e criança. Umas nascem destinadas à obscuridade total e permanente, senão mesmo a coisa mais negativa, que é não viver. Nascem para não conhecer a vida. Em pouco tempo voltam para o outro lado, onde, ao que se sabe, ainda há o aproveitamento industrial do ser. Você até que é dos bebês privilegiados. Centenas de milhares, ou milhões, de espectadores debruçam-se diante dos seus cueiros, pela circunstância feliz de que você é extensão da glória de sua mãezinha.
— Vou pedir a ela para me esconder.
— Ela não pode fazer isso. Compreenda o seu papel, ó flor reclamante. Não se pode fazer nada nesta situação, a não ser exigir que as fotos saiam caprichadas, mesmo porque se não saírem será preciso tirar outras. Sua imagem é mais importante do que você. E você não se pertence; você é a sua imagem multiplicada, em cor e som. Cresça como puder, mas apareça. Aparecer é ser, em nosso tempo. Bem, vou me despedir, já estão chegando outras equipes que naturalmente vão pedir a você que estreie na próxima novela das vinte e duas horas. Trate de se preparar para tudo. Sucesso, hem? E tchauzinho, mon amour de bebê.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
O Homem da Flor na Boca
PERSONAGENS: O pacifico freguês e o homem da flor na boca
ATO ÚNICO
CENA – Noite de verão. Uma pequena rua solitária que acaba numa avenida. Ao fundo, entre os galhos das arvores, aparecem os candeeiros elétricos acesos. No prédio de esquina da pequena rua, à esquerda, um pobre café noturno, com mesinhas e cadeiras de passeio fracamente iluminadas pelo candeeiro aceso, à beira do mesmo passeio. Diante da casa da direita uma lâmpada acesa. No ângulo da ultima casa da esquerda que faz esquina com a avenida outro candeeiro aceso.
Quase no fim do dialogo, na altura indicada no texto, aparecerá por duas vezes um vulto de mulher, vestida de preto, com um velho chapéu enfeitado com penas já sem frescura.
É um pouco mais de meia noite. Em alguns intervalos da peça ouvir-se-á um som distante tilintante de um bandolim. Quando o pano sobe, aparece o Homem da Flor na Boca sentado numa das mesas, observando demoradamente e em silencio um Pacifico Freguês que na mesa ao lado chupa com um canudo um refrigerante.
O HOMEM: Pelo que vejo, o senhor, um homem pacifico e metódico... perdeu o trem?
O FREGUÊS: Por um minuto, sabe? Chego na estação e lá o vejo, fugindo diante de mim.
O HOMEM: Podia ter corrido atrás dele!
O FREGUÊS: Podia! É engraçado, eu sei! Se eu não tivesse que carregar todos aqueles embrulhos e embrulhinhos... Mais carregado que um burro! Mas as mulheres... sabe como é – pedindo sempre encomendas e não param. Você acredita que quando desci do carro, eu levei três minutos só para arrumar nos dedos os barbantes de todos os pacotes: dois em cada dedo.
O HOMEM: Gostaria de ter visto isso. Sabe o que eu faria no seu lugar? Teria deixado tudo no carro.
O FREGUÊS: E minha mulher? E as minhas filhas? E todas as amigas delas?
O HOMEM: Iam gritar muito, e eu ia me divertir com isso.
O FREGUÊS: Talvez o senhor não saiba como se tornam as mulheres quando estão de férias.
O HOMEM: Ora! Sei, e muito bem! Digo isso justamente por saber. Todas dizem que não precisam de nada.
O FREGUÊS: Nada? Elas são até capazes de dizer que vão viajar pra fora só com a intenção de economizar. Depois assim que chegam em alguma cidadezinha aqui por perto, quanto mais feia, suja e miserável for, mais elas insistem em enfeitá-la caprichando nos figurinos acessórios. Ora, as mulheres, meu caro senhor! Mas a final, é a profissão delas!...”Se você desse um pulo até a cidade, meu amor!... Eu estava precisando realmente disso... disso... daquilo... e também você podia... se não se incomoda (engraçado esse: ”se não se incomoda”, não acha?)... Já que você vai pra lá, quando passar em frente...”- Mas, minha querida, como é que você quer que eu faça tudo isso em apenas em três horas? – “Ora, o que é que tem? Você pega um táxi...” – O pior é que eu achava que só ia demorar três horas e não trouxe a chave de casa.
O HOMEM: Essa é muito boa! E depois?
O FREGUÊS: Ora, depois eu deixei aquele montão de encomendas e fui jantar num restaurante; depois, eu fui ao teatro pra dar uma espairecida. Lá estava muito quente. Na saída me perguntei: E agora, vou fazer o que? Já passa da meia noite e às quatro da manhã eu tenho que pegar o primeiro trem, então nem vale a pena ir deitar. E vim até aqui. Este café não fecha, né?
O HOMEM: Não fecha, não senhor! (PAUSA) E, então, deixou todos os seus pacotes na estação?
O FREGUÊS: Porque me pergunta isso? Por acaso não estão seguros lá? Estavam todos tão bem embrulhados e...
O HOMEM: Não, não digo isso! Muito bem embrulhados, calculo: Com aquela arte especial dos vendedores, de embrulhar os objetos que vendem... (PAUSA) Que mãos! Uma bela folha de papel dobrada, vermelha, polida... que só de olha-la já é um prazer...Tão lisa, que até dá vontade de encostá-la no rosto para sentir o seu toque delicado... Estendem a folha sobre o balcão, e depois, com elegância e desembaraço, colocam em cima, precisamente no meio, o tecido fino, bem dobrado. Levantam primeiro de baixo, com o dorso da mão, uma ponta da folha de papel; dorso da mão, uma ponta de papel: até lhe fazem uma pequena prega, supérflua, só por amor à arte. Então, dobram de um lado e do outro, em triângulo, a folha de papel, e viram por baixo as duas pontas; estendem uma das mãos para o rolo de fita; puxam o necessário para atar o embrulho. E atam tão rapidamente que nem temos tempo de admirar a habilidade do empregado, e já nos apresentam o embrulho feito, com o nó pronto pra levarmos pendurado nos dedos.
O FREGUÊS: Percebo que o senhor dedicou muita atenção aos empregados das lojas...
O HOMEM: Eu? Meu caro amigo, eu passo dias inteiros observando-os! Sou capaz de ficar mais de uma hora, parado, olhando pra dentro das lojas através das vitrines. Chego a esquecer de mim. Parece que sou, e realmente gostaria de ser, aquele tecido de seda... aquele cetim... a fita vermelha, ou azul, que as vendedoras das lojas, depois de a medirem com o metro... já viu como fazem? Enrolam no polegar em forma de oito, antes de embrulhar. (PAUSA) Observo o cliente ou a cliente que sai da loja com o embrulho na mão, ou numa sacola, ou debaixo do braço... Sigo- os com os olhos, até sumirem da minha vista... fico imaginando... - Ah, quantas coisas imagino!, o senhor não faz ideia! (PAUSA,
O FREGUÊS: (PAUSA) Desculpe... o que é que lhe ajuda?
O HOMEM: Me agarrar assim – quero dizer, com a imaginação – à vida. Como uma planta trepadeira nas grades de um portão... (PAUSA) Ah, nunca deixar a imaginação descansar, nem um instante sequer: - Aderir, aderir com ela, continuamente, à vida dos outros... – mas não à vida de gente que conheço! Não! Não! A essa não! Eu sinto por ela... uma repugnância, se o senhor soubesse! Um nojo! Aderir à vida dos estranhos, em volta dos quais a minha imaginação pode trabalhar livremente; mas isso não é um capricho meu, muito pelo contrario, levando em consideração as menores peculiaridades descobertas neste ou naquele estranho. E se soubesse quanto e como ela trabalha! Dependendo até onde consigo aprofundar, vejo até mesmo a casa deste ou daquele indivíduo; vivo lá dentro; me sinto dentro dela, até sinto o cheiro... sabe? Aquela espécie de cheiro particular de cada casa! Da sua, da minha... – mas na nossa, nos já não sentimos mais, porque já é o cheiro da nossa própria vida...Não sei se eu tô sendo claro. Ah, pelo visto sim e...
O FREGUÊS: Sim, porque...quero dizer: deve ser realmente muito prazeroso para o senhor imaginar todas essas coisas...
O HOMEM: (COM EVIDENTE FADIGA DEPOIS DE PENSAR UM INSTANTE)- Prazeroso? Pra mim?
O FREGUÊS: Quer dizer... calculo...
O HOMEM: Me diz uma coisa. Já foi consultar algum médico de renome?
O FREGUÊS: Eu não! Por que? Não estou doente!
O HOMEM: Não se assuste! Só tô perguntando para saber se já viu, no consultório desses grandes médicos, a sala onde os clientes esperam a sua vez de serem atendidos.
O FREGUÊS: Já vi, sim. Tive de acompanhar uma vez uma das minhas filhas, que sofria dos nervos, e...
O HOMEM: Muito bem. Não me interessa saber. Só me interessam aquelas salas... (PAUSA) Já reparou nelas? Um sofá de tom escuro, desses antigos... as cadeiras estofadas, muitas vezes desiguais... Tudo comprado de ocasião, de segunda mão, colocadas ali para os clientes; não pertencem ao lugar. Já o médico tem na sua casa rica e bela, uma outra sala, para ele e para as amigas da esposa. Imagine como destoaria uma das suas cadeiras ou poltronas se fosse trazida para cá, para o lugar reservado aos clientes, a quem basta esses moveis sem pretensões, decentes, sóbrios. Queria saber se o senhor, quando foi com a sua filha, reparou bem na poltrona ou na cadeira onde se sentou enquanto esperava.
O FREGUÊS: Eu não, com francamente...
O HOMEM: É verdade: o senhor não estava doente... (PAUSA). Mas nem todos os doentes reparam naquilo, mergulhados como estão no pensamento da sua própria doença... (PAUSA) E, no entanto, quantas vezes alguns deles estão ali, atentos, observando os movimentos ansiosos dos dedos que fazem sinais inúteis, no braço puído daquela cadeira em que estão sentados!...Pensam e não veem. Mas que efeito faz. Quando saímos da consulta, e voltamos a atravessar a sala, vendo de novo a cadeira onde há pouco estávamos sentados, à espera da sentença do nosso mal ainda ignorado! Ocupada por outro paciente, também ele com a sua doença secreta; ou ali, vazia, impassível, à espera de um outro qualquer que vai ocupá-la... (PAUSA) Mas o que estávamos falando?... Ah, sim, é verdade... O prazer da imaginação. – Não sei bem porque me lembrei logo de uma das cadeiras dessas salas dos médicos, onde os pacientes estão à espera da consulta...
O FREGUÊS: Sim... realmente...
O HOMEM… Não vê a relação? Nem eu. Mas é que certos laços ligando imagens entre si longínquas, são tão particulares a cada um de nós, e determinados por causas e experiências tão singulares, que deixaríamos de nos compreender se, ao falarmos, não nos inibíssemos de utilizá-los. Nada mais lógico, por vezes, do que estas analogias. Mas a relação pode talvez ser esta, repare: – “Teriam prazer, aquelas cadeiras, em imaginar quem é o paciente que vai sentar-se nelas, à espera da consulta? Que doença ele tem? Para onde ele vai? O que fará depois da consulta?” Nenhum prazer. E assim eu também: Nenhum! Entram e saem os clientes e elas, pobres cadeiras, estão lá à espera de serem ocupadas. Pois bem, a minha é uma ocupação parecida. Ora me ocupa este, ora aquele. Neste momento está me ocupando o senhor, e creia que não sinto prazer algum com o trem que perdeu, com a família que espera o espera na cidadezinha de ferias, com todas as reclamações que eu imagino que tenha...
O FREGUÊS: Ai, tantas, nem calcula!
O HOMEM: Dê graças a Deus que não passam de reclamações. (PAUSA) Existem coisas piores, meu amigo. Eu lhe digo que tenho necessidade de me agarrar com a imaginação à vida alheia; mas assim, sem prazer, sem me interessar de maneira alguma, muito pelo contrário... pelo contrário... para sentir a irritação da vida, para julgá-la estúpida e inútil, tanto que realmente não deve importar muito a ninguém perdê-la. (RAIVOSAMENTE) E isso é necessário que a gente perceba, sabe? Com provas e exemplos contínuos, implacavelmente. Porque, meu caro senhor, não sabemos de que é feito esse desejo de viver, mas existe, existe! Todos a sentimos aqui, como uma angustia na garganta, o gosto da vida que nunca se satisfaz, que nunca se pode satisfazer, porque a vida, no próprio ato de a vivermos, é tão gulosa de si própria, que não se deixa saborear. O sabor está no passado, que permanece vivo dentro de nós. É daí que nos vem o desejo de viver, das recordações que nos mantém presos. Mas presos a que? A esta estupidez... a estas lamentações... a tantas ilusões absurdas... a tantas amarguras que nos ocupam... Sim! Esta, que foi uma estupidez!... Aquela, que foi uma lamentação... e posso até dizer: essa que agora parece ser uma desventura, uma verdadeira desventura... daquí a quatro, cinco, dez anos, quem sabe que gosto virão a ter...que gosto virão a ter as próprias lágrimas de hoje?... E a vida, por Deus, só a ideia de a perdermos... especialmente quando se sabe que é uma questão de dias...(NESTE MOMENTO APARECE O VULTO DA MULHER VESTIDA DE PRETO, ESPREITANDO A ESQUINA.) Pronto... está vendo? Ali, ali, naquela esquina...Então não vê um vulto de mulher? – Já se escondeu!
O FREGUÊS: Quem? Quem era?
O HOMEM: Não viu? Se escondeu.
O FREGUÊS: Uma mulher?
O HOMEM: Sim. Minha mulher.
O FREGUÊS: Ah! Sua esposa?
O HOMEM: (DEPOIS DE UMA PAUSA) Vigia-me de longe. E acredite, tenho vontade de ir até ela e mandá-la embora a pontapés! Mas seria inútil... É como uma dessas cadelas sem dono, teimosas, que quanto mais pontapés nós damos, mais grudam nos nossos calcanhares. (PAUSA) O que aquela mulher está sofrendo por mim, o senhor nem pode imaginar. Já não come, não dorme... Segue-me dia e noite, assim, à distancia. Se pelo menos tentasse escovar aquele cabelo... aqueles vestidos... – Já não parece uma mulher, mas um trapo velho. O cabelo empoeirado. E tem apenas trinta e quatro anos! (PAUSA) Sinto uma raiva tão grande que não imagina. Às vezes a pego nos ombros e grito na sua cara: – Estúpida, imbecil! – E sacudo-a. Aceita tudo. Fica parada, olhando pra mim, com uns olhos.. .com uns olhos que, juro pra você, fazem-me subir aos dedos um desejo selvagem de estrangulá-la. Mas nada. Espera que me afaste, para recomeçar a me seguir de longe. (DE NOVO A MULHER TORNA A ESPREITAR) Olha, olha, espreitou outra vez aquela esquina!
O FREGUÊS: Pobre senhora!
O HOMEM: Que pobre senhora! Percebe o que ela queria? Queria que eu ficasse em casa, muito calmo, muito quieto, descansando no meio dos seus carinhos; admirando a ordem perfeita de todos os cômodos, da beleza de todos os móveis, aquele silêncio de espelho que havia antes na minha casa, medido pelo tique- taque do relógio de pendulo da sala de jantar. – Era isso que ela queria! E eu pergunto a você, para lhe fazer compreender o absurdo... Não! Que estou dizendo? “O absurdo?” – a macabra ferocidade dessa pretensão! Eu pergunto se julga possível que as casas de Avezzano, as casas da Messina, se tivessem tido conhecimento do terremoto que em breve as iriam derrubar, teriam conseguido ficar muito sossegadas sob o luar, ordenadas em fileiras, ao longo das ruas e das praças, obedecendo ao plano regulador da Comissão Organizadora da Câmara Municipal. Casas, por Deus, de pedra e madeira, e também elas teriam fugido! Imagine então os habitantes de Avezzano, os habitantes da Messina, a despirem-se plácidos, para se deitarem, dobrando as roupas, pondo os sapatos diante da porta, e enfiando-se depois debaixo dos cobertores, gozando a brancura fresca dos lençóis bem lavados, com a consciência de que, dentro de algumas horas, morreriam. Parece-lhe possível?
O FREGUÊS: Mas por acaso, a sua esposa...
O HOMEM: Deixe-me falar! Se a morte, meu amigo, fosse como um daqueles insetos esquisitos, repugnantes, que pousam em cima de nós, sem percebermos... O senhor vai passando pela rua; outro pedestre, de repente o faz parar, e com toda cautela, com os dedos estendidos, lhe diz: “Perdão amigo, com licença. Vossa excelência tem a morte em cima de si!” E, com os tais dedos estendidos, pega-lhe e atira com ela para longe... Então seria magnifico! Mas a morte não é como um desses insetos repugnantes. Quantos daqueles que passeiam tranquilos e sem preocupações, talvez a tragam em cima em si; ninguém a vê; e eles vão tranquilamente planejando seu dia de amanhã e depois de amanhã. Ora, eu, meu caro senhor... (LEVANTA-SE) Vem!... vem mais pra cá... (CONDUZ O FREGUÊS PARA JUNTO DO CANDEEIRO ACESO)...Quero mostrar uma coisa...Olhe aqui, debaixo do bigode... Aqui, está vendo? Não vê que linda tuberosidade violácea? Sabe como se chama isso? Ah, um nome muito doce, mais doce que um rocambole: – Epitelioma, é assim que se chama. Pronuncie, verá que doçura: Epitelioma... A morte, percebe? Passou por mim. Pôs esta flor na boca, e disse: - “Fica com ela, querido: voltarei a passar por aqui dentro de oito ou dez meses!” (PAUSA). E agora me diz, se com essa flor na boca, eu podia ficar em casa tranquilo e sossegado, como desejava aquela infeliz. Eu grito com ela: - Ah, então, você quer que eu te beije? – Sim, me beija! – Mas sabe o que ela fez?: Com um alfinete, a semana passada, fez um arranhão aqui no lábio superior, e depois agarrou minha cabeça e queria me beijar... me beijar na boca... Porque diz que quer morrer comigo... (PAUSA) Está louca... (RAIVOSAMENTE) Em casa é que eu não fico! Preciso estar atrás das vitrines das lojas, admirando a habilidade dos vendedores. Porque, o senhor compreende, se por momentos sinto um vazio dentro de mim... compreende, posso até matar, como se nada fosse, uma pessoa que nem sequer conheço... sacar uma arma e matar um sujeito que, como o senhor, tenha apenas perdido o trem... (RINDO) Não, não se assuste, meu caro senhor, estou brincando! (PAUSA) Eu vou embora (PAUSA) Eu me mataria primeiro (PAUSA) Mas existem, nesta altura do ano, certos damascos tão bons... De que maneira costuma comê-los? Com a boca toda, não é? Abre-se pelo meio; depois apertamos com os dedos até escorrer o sumo... como dois lábios carnudos... Que delícia! (RI. PAUSA) Meus respeitos à sua distinguida esposa e às suas filhas que estão de férias. (PAUSA) Eu as imagino vestidas de branco ou de azul celeste, numa linda ladeira, sob a sombra. (PAUSA) E talvez possa me fazer um favor, amanhã de manhã, quando chegar. Imagino que a cidadezinha estará perto da estação. – Ao romper do dia, poderá fazer o caminho a pé. – O primeiro ramo de ervas que encontrar ao longo da estação, repare bem nele. Conte os fios de erva por mim. Quantos fios contar, tantos serão os dias que ainda terei que viver. Mas escolhe um bem grande, pelo amor de Deus! (RI.) Boa noite, meu caro senhor.
AFASTA-SE CANTAROLANDO, DE BOCA FECHADA. A ÁRIA QUE O BANDOLIM TOCA, AO LONGE. MAS ANTES DE CHEGAR À ESQUINA DA DIREITA, LEMBRA-SE DE QUE A MULHER ESTÁ LÁ À SUA ESPERA. ENTAO RECUA UNS PASSOS, ATRAVESSA A RUA E DOBRA A ESQUINA DO OUTRO LADO, SEGUIDO PELO O OLHAR DO PACÍFICO FREGUÊS, QUASE PETRIFICADO.)
ATO ÚNICO
CENA – Noite de verão. Uma pequena rua solitária que acaba numa avenida. Ao fundo, entre os galhos das arvores, aparecem os candeeiros elétricos acesos. No prédio de esquina da pequena rua, à esquerda, um pobre café noturno, com mesinhas e cadeiras de passeio fracamente iluminadas pelo candeeiro aceso, à beira do mesmo passeio. Diante da casa da direita uma lâmpada acesa. No ângulo da ultima casa da esquerda que faz esquina com a avenida outro candeeiro aceso.
Quase no fim do dialogo, na altura indicada no texto, aparecerá por duas vezes um vulto de mulher, vestida de preto, com um velho chapéu enfeitado com penas já sem frescura.
É um pouco mais de meia noite. Em alguns intervalos da peça ouvir-se-á um som distante tilintante de um bandolim. Quando o pano sobe, aparece o Homem da Flor na Boca sentado numa das mesas, observando demoradamente e em silencio um Pacifico Freguês que na mesa ao lado chupa com um canudo um refrigerante.
O HOMEM: Pelo que vejo, o senhor, um homem pacifico e metódico... perdeu o trem?
O FREGUÊS: Por um minuto, sabe? Chego na estação e lá o vejo, fugindo diante de mim.
O HOMEM: Podia ter corrido atrás dele!
O FREGUÊS: Podia! É engraçado, eu sei! Se eu não tivesse que carregar todos aqueles embrulhos e embrulhinhos... Mais carregado que um burro! Mas as mulheres... sabe como é – pedindo sempre encomendas e não param. Você acredita que quando desci do carro, eu levei três minutos só para arrumar nos dedos os barbantes de todos os pacotes: dois em cada dedo.
O HOMEM: Gostaria de ter visto isso. Sabe o que eu faria no seu lugar? Teria deixado tudo no carro.
O FREGUÊS: E minha mulher? E as minhas filhas? E todas as amigas delas?
O HOMEM: Iam gritar muito, e eu ia me divertir com isso.
O FREGUÊS: Talvez o senhor não saiba como se tornam as mulheres quando estão de férias.
O HOMEM: Ora! Sei, e muito bem! Digo isso justamente por saber. Todas dizem que não precisam de nada.
O FREGUÊS: Nada? Elas são até capazes de dizer que vão viajar pra fora só com a intenção de economizar. Depois assim que chegam em alguma cidadezinha aqui por perto, quanto mais feia, suja e miserável for, mais elas insistem em enfeitá-la caprichando nos figurinos acessórios. Ora, as mulheres, meu caro senhor! Mas a final, é a profissão delas!...”Se você desse um pulo até a cidade, meu amor!... Eu estava precisando realmente disso... disso... daquilo... e também você podia... se não se incomoda (engraçado esse: ”se não se incomoda”, não acha?)... Já que você vai pra lá, quando passar em frente...”- Mas, minha querida, como é que você quer que eu faça tudo isso em apenas em três horas? – “Ora, o que é que tem? Você pega um táxi...” – O pior é que eu achava que só ia demorar três horas e não trouxe a chave de casa.
O HOMEM: Essa é muito boa! E depois?
O FREGUÊS: Ora, depois eu deixei aquele montão de encomendas e fui jantar num restaurante; depois, eu fui ao teatro pra dar uma espairecida. Lá estava muito quente. Na saída me perguntei: E agora, vou fazer o que? Já passa da meia noite e às quatro da manhã eu tenho que pegar o primeiro trem, então nem vale a pena ir deitar. E vim até aqui. Este café não fecha, né?
O HOMEM: Não fecha, não senhor! (PAUSA) E, então, deixou todos os seus pacotes na estação?
O FREGUÊS: Porque me pergunta isso? Por acaso não estão seguros lá? Estavam todos tão bem embrulhados e...
O HOMEM: Não, não digo isso! Muito bem embrulhados, calculo: Com aquela arte especial dos vendedores, de embrulhar os objetos que vendem... (PAUSA) Que mãos! Uma bela folha de papel dobrada, vermelha, polida... que só de olha-la já é um prazer...Tão lisa, que até dá vontade de encostá-la no rosto para sentir o seu toque delicado... Estendem a folha sobre o balcão, e depois, com elegância e desembaraço, colocam em cima, precisamente no meio, o tecido fino, bem dobrado. Levantam primeiro de baixo, com o dorso da mão, uma ponta da folha de papel; dorso da mão, uma ponta de papel: até lhe fazem uma pequena prega, supérflua, só por amor à arte. Então, dobram de um lado e do outro, em triângulo, a folha de papel, e viram por baixo as duas pontas; estendem uma das mãos para o rolo de fita; puxam o necessário para atar o embrulho. E atam tão rapidamente que nem temos tempo de admirar a habilidade do empregado, e já nos apresentam o embrulho feito, com o nó pronto pra levarmos pendurado nos dedos.
O FREGUÊS: Percebo que o senhor dedicou muita atenção aos empregados das lojas...
O HOMEM: Eu? Meu caro amigo, eu passo dias inteiros observando-os! Sou capaz de ficar mais de uma hora, parado, olhando pra dentro das lojas através das vitrines. Chego a esquecer de mim. Parece que sou, e realmente gostaria de ser, aquele tecido de seda... aquele cetim... a fita vermelha, ou azul, que as vendedoras das lojas, depois de a medirem com o metro... já viu como fazem? Enrolam no polegar em forma de oito, antes de embrulhar. (PAUSA) Observo o cliente ou a cliente que sai da loja com o embrulho na mão, ou numa sacola, ou debaixo do braço... Sigo- os com os olhos, até sumirem da minha vista... fico imaginando... - Ah, quantas coisas imagino!, o senhor não faz ideia! (PAUSA,
DEPOIS PARA SI) Mas me ajuda, isso me ajuda.
O FREGUÊS: (PAUSA) Desculpe... o que é que lhe ajuda?
O HOMEM: Me agarrar assim – quero dizer, com a imaginação – à vida. Como uma planta trepadeira nas grades de um portão... (PAUSA) Ah, nunca deixar a imaginação descansar, nem um instante sequer: - Aderir, aderir com ela, continuamente, à vida dos outros... – mas não à vida de gente que conheço! Não! Não! A essa não! Eu sinto por ela... uma repugnância, se o senhor soubesse! Um nojo! Aderir à vida dos estranhos, em volta dos quais a minha imaginação pode trabalhar livremente; mas isso não é um capricho meu, muito pelo contrario, levando em consideração as menores peculiaridades descobertas neste ou naquele estranho. E se soubesse quanto e como ela trabalha! Dependendo até onde consigo aprofundar, vejo até mesmo a casa deste ou daquele indivíduo; vivo lá dentro; me sinto dentro dela, até sinto o cheiro... sabe? Aquela espécie de cheiro particular de cada casa! Da sua, da minha... – mas na nossa, nos já não sentimos mais, porque já é o cheiro da nossa própria vida...Não sei se eu tô sendo claro. Ah, pelo visto sim e...
O FREGUÊS: Sim, porque...quero dizer: deve ser realmente muito prazeroso para o senhor imaginar todas essas coisas...
O HOMEM: (COM EVIDENTE FADIGA DEPOIS DE PENSAR UM INSTANTE)- Prazeroso? Pra mim?
O FREGUÊS: Quer dizer... calculo...
O HOMEM: Me diz uma coisa. Já foi consultar algum médico de renome?
O FREGUÊS: Eu não! Por que? Não estou doente!
O HOMEM: Não se assuste! Só tô perguntando para saber se já viu, no consultório desses grandes médicos, a sala onde os clientes esperam a sua vez de serem atendidos.
O FREGUÊS: Já vi, sim. Tive de acompanhar uma vez uma das minhas filhas, que sofria dos nervos, e...
O HOMEM: Muito bem. Não me interessa saber. Só me interessam aquelas salas... (PAUSA) Já reparou nelas? Um sofá de tom escuro, desses antigos... as cadeiras estofadas, muitas vezes desiguais... Tudo comprado de ocasião, de segunda mão, colocadas ali para os clientes; não pertencem ao lugar. Já o médico tem na sua casa rica e bela, uma outra sala, para ele e para as amigas da esposa. Imagine como destoaria uma das suas cadeiras ou poltronas se fosse trazida para cá, para o lugar reservado aos clientes, a quem basta esses moveis sem pretensões, decentes, sóbrios. Queria saber se o senhor, quando foi com a sua filha, reparou bem na poltrona ou na cadeira onde se sentou enquanto esperava.
O FREGUÊS: Eu não, com francamente...
O HOMEM: É verdade: o senhor não estava doente... (PAUSA). Mas nem todos os doentes reparam naquilo, mergulhados como estão no pensamento da sua própria doença... (PAUSA) E, no entanto, quantas vezes alguns deles estão ali, atentos, observando os movimentos ansiosos dos dedos que fazem sinais inúteis, no braço puído daquela cadeira em que estão sentados!...Pensam e não veem. Mas que efeito faz. Quando saímos da consulta, e voltamos a atravessar a sala, vendo de novo a cadeira onde há pouco estávamos sentados, à espera da sentença do nosso mal ainda ignorado! Ocupada por outro paciente, também ele com a sua doença secreta; ou ali, vazia, impassível, à espera de um outro qualquer que vai ocupá-la... (PAUSA) Mas o que estávamos falando?... Ah, sim, é verdade... O prazer da imaginação. – Não sei bem porque me lembrei logo de uma das cadeiras dessas salas dos médicos, onde os pacientes estão à espera da consulta...
O FREGUÊS: Sim... realmente...
O HOMEM… Não vê a relação? Nem eu. Mas é que certos laços ligando imagens entre si longínquas, são tão particulares a cada um de nós, e determinados por causas e experiências tão singulares, que deixaríamos de nos compreender se, ao falarmos, não nos inibíssemos de utilizá-los. Nada mais lógico, por vezes, do que estas analogias. Mas a relação pode talvez ser esta, repare: – “Teriam prazer, aquelas cadeiras, em imaginar quem é o paciente que vai sentar-se nelas, à espera da consulta? Que doença ele tem? Para onde ele vai? O que fará depois da consulta?” Nenhum prazer. E assim eu também: Nenhum! Entram e saem os clientes e elas, pobres cadeiras, estão lá à espera de serem ocupadas. Pois bem, a minha é uma ocupação parecida. Ora me ocupa este, ora aquele. Neste momento está me ocupando o senhor, e creia que não sinto prazer algum com o trem que perdeu, com a família que espera o espera na cidadezinha de ferias, com todas as reclamações que eu imagino que tenha...
O FREGUÊS: Ai, tantas, nem calcula!
O HOMEM: Dê graças a Deus que não passam de reclamações. (PAUSA) Existem coisas piores, meu amigo. Eu lhe digo que tenho necessidade de me agarrar com a imaginação à vida alheia; mas assim, sem prazer, sem me interessar de maneira alguma, muito pelo contrário... pelo contrário... para sentir a irritação da vida, para julgá-la estúpida e inútil, tanto que realmente não deve importar muito a ninguém perdê-la. (RAIVOSAMENTE) E isso é necessário que a gente perceba, sabe? Com provas e exemplos contínuos, implacavelmente. Porque, meu caro senhor, não sabemos de que é feito esse desejo de viver, mas existe, existe! Todos a sentimos aqui, como uma angustia na garganta, o gosto da vida que nunca se satisfaz, que nunca se pode satisfazer, porque a vida, no próprio ato de a vivermos, é tão gulosa de si própria, que não se deixa saborear. O sabor está no passado, que permanece vivo dentro de nós. É daí que nos vem o desejo de viver, das recordações que nos mantém presos. Mas presos a que? A esta estupidez... a estas lamentações... a tantas ilusões absurdas... a tantas amarguras que nos ocupam... Sim! Esta, que foi uma estupidez!... Aquela, que foi uma lamentação... e posso até dizer: essa que agora parece ser uma desventura, uma verdadeira desventura... daquí a quatro, cinco, dez anos, quem sabe que gosto virão a ter...que gosto virão a ter as próprias lágrimas de hoje?... E a vida, por Deus, só a ideia de a perdermos... especialmente quando se sabe que é uma questão de dias...(NESTE MOMENTO APARECE O VULTO DA MULHER VESTIDA DE PRETO, ESPREITANDO A ESQUINA.) Pronto... está vendo? Ali, ali, naquela esquina...Então não vê um vulto de mulher? – Já se escondeu!
O FREGUÊS: Quem? Quem era?
O HOMEM: Não viu? Se escondeu.
O FREGUÊS: Uma mulher?
O HOMEM: Sim. Minha mulher.
O FREGUÊS: Ah! Sua esposa?
O HOMEM: (DEPOIS DE UMA PAUSA) Vigia-me de longe. E acredite, tenho vontade de ir até ela e mandá-la embora a pontapés! Mas seria inútil... É como uma dessas cadelas sem dono, teimosas, que quanto mais pontapés nós damos, mais grudam nos nossos calcanhares. (PAUSA) O que aquela mulher está sofrendo por mim, o senhor nem pode imaginar. Já não come, não dorme... Segue-me dia e noite, assim, à distancia. Se pelo menos tentasse escovar aquele cabelo... aqueles vestidos... – Já não parece uma mulher, mas um trapo velho. O cabelo empoeirado. E tem apenas trinta e quatro anos! (PAUSA) Sinto uma raiva tão grande que não imagina. Às vezes a pego nos ombros e grito na sua cara: – Estúpida, imbecil! – E sacudo-a. Aceita tudo. Fica parada, olhando pra mim, com uns olhos.. .com uns olhos que, juro pra você, fazem-me subir aos dedos um desejo selvagem de estrangulá-la. Mas nada. Espera que me afaste, para recomeçar a me seguir de longe. (DE NOVO A MULHER TORNA A ESPREITAR) Olha, olha, espreitou outra vez aquela esquina!
O FREGUÊS: Pobre senhora!
O HOMEM: Que pobre senhora! Percebe o que ela queria? Queria que eu ficasse em casa, muito calmo, muito quieto, descansando no meio dos seus carinhos; admirando a ordem perfeita de todos os cômodos, da beleza de todos os móveis, aquele silêncio de espelho que havia antes na minha casa, medido pelo tique- taque do relógio de pendulo da sala de jantar. – Era isso que ela queria! E eu pergunto a você, para lhe fazer compreender o absurdo... Não! Que estou dizendo? “O absurdo?” – a macabra ferocidade dessa pretensão! Eu pergunto se julga possível que as casas de Avezzano, as casas da Messina, se tivessem tido conhecimento do terremoto que em breve as iriam derrubar, teriam conseguido ficar muito sossegadas sob o luar, ordenadas em fileiras, ao longo das ruas e das praças, obedecendo ao plano regulador da Comissão Organizadora da Câmara Municipal. Casas, por Deus, de pedra e madeira, e também elas teriam fugido! Imagine então os habitantes de Avezzano, os habitantes da Messina, a despirem-se plácidos, para se deitarem, dobrando as roupas, pondo os sapatos diante da porta, e enfiando-se depois debaixo dos cobertores, gozando a brancura fresca dos lençóis bem lavados, com a consciência de que, dentro de algumas horas, morreriam. Parece-lhe possível?
O FREGUÊS: Mas por acaso, a sua esposa...
O HOMEM: Deixe-me falar! Se a morte, meu amigo, fosse como um daqueles insetos esquisitos, repugnantes, que pousam em cima de nós, sem percebermos... O senhor vai passando pela rua; outro pedestre, de repente o faz parar, e com toda cautela, com os dedos estendidos, lhe diz: “Perdão amigo, com licença. Vossa excelência tem a morte em cima de si!” E, com os tais dedos estendidos, pega-lhe e atira com ela para longe... Então seria magnifico! Mas a morte não é como um desses insetos repugnantes. Quantos daqueles que passeiam tranquilos e sem preocupações, talvez a tragam em cima em si; ninguém a vê; e eles vão tranquilamente planejando seu dia de amanhã e depois de amanhã. Ora, eu, meu caro senhor... (LEVANTA-SE) Vem!... vem mais pra cá... (CONDUZ O FREGUÊS PARA JUNTO DO CANDEEIRO ACESO)...Quero mostrar uma coisa...Olhe aqui, debaixo do bigode... Aqui, está vendo? Não vê que linda tuberosidade violácea? Sabe como se chama isso? Ah, um nome muito doce, mais doce que um rocambole: – Epitelioma, é assim que se chama. Pronuncie, verá que doçura: Epitelioma... A morte, percebe? Passou por mim. Pôs esta flor na boca, e disse: - “Fica com ela, querido: voltarei a passar por aqui dentro de oito ou dez meses!” (PAUSA). E agora me diz, se com essa flor na boca, eu podia ficar em casa tranquilo e sossegado, como desejava aquela infeliz. Eu grito com ela: - Ah, então, você quer que eu te beije? – Sim, me beija! – Mas sabe o que ela fez?: Com um alfinete, a semana passada, fez um arranhão aqui no lábio superior, e depois agarrou minha cabeça e queria me beijar... me beijar na boca... Porque diz que quer morrer comigo... (PAUSA) Está louca... (RAIVOSAMENTE) Em casa é que eu não fico! Preciso estar atrás das vitrines das lojas, admirando a habilidade dos vendedores. Porque, o senhor compreende, se por momentos sinto um vazio dentro de mim... compreende, posso até matar, como se nada fosse, uma pessoa que nem sequer conheço... sacar uma arma e matar um sujeito que, como o senhor, tenha apenas perdido o trem... (RINDO) Não, não se assuste, meu caro senhor, estou brincando! (PAUSA) Eu vou embora (PAUSA) Eu me mataria primeiro (PAUSA) Mas existem, nesta altura do ano, certos damascos tão bons... De que maneira costuma comê-los? Com a boca toda, não é? Abre-se pelo meio; depois apertamos com os dedos até escorrer o sumo... como dois lábios carnudos... Que delícia! (RI. PAUSA) Meus respeitos à sua distinguida esposa e às suas filhas que estão de férias. (PAUSA) Eu as imagino vestidas de branco ou de azul celeste, numa linda ladeira, sob a sombra. (PAUSA) E talvez possa me fazer um favor, amanhã de manhã, quando chegar. Imagino que a cidadezinha estará perto da estação. – Ao romper do dia, poderá fazer o caminho a pé. – O primeiro ramo de ervas que encontrar ao longo da estação, repare bem nele. Conte os fios de erva por mim. Quantos fios contar, tantos serão os dias que ainda terei que viver. Mas escolhe um bem grande, pelo amor de Deus! (RI.) Boa noite, meu caro senhor.
AFASTA-SE CANTAROLANDO, DE BOCA FECHADA. A ÁRIA QUE O BANDOLIM TOCA, AO LONGE. MAS ANTES DE CHEGAR À ESQUINA DA DIREITA, LEMBRA-SE DE QUE A MULHER ESTÁ LÁ À SUA ESPERA. ENTAO RECUA UNS PASSOS, ATRAVESSA A RUA E DOBRA A ESQUINA DO OUTRO LADO, SEGUIDO PELO O OLHAR DO PACÍFICO FREGUÊS, QUASE PETRIFICADO.)
Luigi Pirandello
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