segunda-feira, fevereiro 9

Leitura sob o pier

 


Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto

O fiscal da noite

Fui eu que vi o Cruzeiro erguer-se do mar e mais tarde chegar até o horizonte de minha varanda; vi duas estrelas muito brilhantes nascerem depois dele e subir também. Analfabeto olhando as estrelas, segui sua navegação sem saber seus nomes; vigiei de meu imóvel tombadilho.

Estava solitário, mas não triste; lembrei o velho dito dos "A noite ainda é uma criança."

Mas o tempo avança. Agora medito no seio de uma noite como à sombra de uma grande árvore; de raro em raro, madura cai uma estrela e se perde na escureza do céu ou do chão. Quase vejo o mar, apenas o pressinto e o sei arfando lânguido, sem vento.

Deus me pôs nesta rede a olhar a noite. Não tenho sono nem de sair; não telefonarei para ninguém. Sou como um débil mental a quem houvessem dado o emprego de fiscalizar as estrelas, e acompanhado com paciência sua marcha lenta. Devo dizer que estão se comportando bem, tanto as mais novas como as mais velhas; andam de leste para de maneira morosa e sensata, guardando com atenção as respectivas distâncias. Se o major-fiscal me telefonar direi que não há nenhuma ração. O nascimento da lua está marcado para as 24h45m da madrugada; espero que seja pontual e não me dê aborrecimentos. O número de estrelas cadentes é diminuto.

Informarei: "Pequenas baixas; o desperdício de estrelas durante a noite a meu cargo foi mínimo e, creio, inevitável; nosso estoque é imenso, senhor major." O major comunicará ao coronel, este ao general, este ao Presidente da República. O Presidente da República expedirá mensagens congratulatórias a Deus e a Albert Einstein, no Paraíso.

Adormeço na rede, e desperto assustado; mas o céu está em ordem, e as estrelas marcham sempre na mesma direção, como crianças bem-comportadas. Deus me pôs nesta rede, e o Diabo me fez dormir. Felizmente a lua ainda não nasceu. Risco um fósforo para olhar meu relógio ("a opinião do prefeito de Genebra. sobre a hora de Ipanema"), meu famoso relógio antimagnético, antiatômico e antilírico, e suspiro aliviado; ainda faltam 18 minutos para o nascimento da lua. Levanto-me e tomo posição em outro ângulo da varanda, murmurando: "Vamos providenciar isso."
Rubem Braga

O passado que não passa

Ela me escreve que a irmã morreu e foi enterrada na mesma cidadezinha onde, na infância, brincávamos juntas. E diz que agora se sente em primeiro lugar na lista de chamada. Como se tivesse dado um passo à frente rumo “ao grande salto”.

Quando meu irmão morreu deixei, de alguma forma, de ser a caçula da família, aquela família de que eu me tornava a única representante. A meu modo, também dei um passo à frente. Mas não foi isso que me importou. O que mais me doeu, além da dor da ausência, foi perder o interlocutor das minhas lembranças mais remotas.

Quando ele e eu conversávamos, às vezes até em italiano, não havia necessidade de descrições, de narrativas. Um nome ou uma palavra eram suficientes para evocar nos dois as mesmas imagens. Não como se diante do mesmo filme, pois cada um tinha o seu. Mas como se, uma vez mais, nos debruçássemos sobre nossa realidade comum.

Não havia palavras soltas. Cada palavra, cada frase, trazia mochila cheia. E a penumbra de uma casa, os pés gelados dentro das botinhas de neve, uma transparência de mar, um medo, uma conquista não precisavam nem ser evocados, extraídos da mochila. Bastava saber que o outro tinha o catálogo completo.


Agora, se eu disser o nome da minha mãe para minhas filhas, é só o nome da avó que não conheceram, um nome como legenda de um retrato. Meu irmão levou consigo a última pessoa que sabia, comigo, o rosto da mãe.

O amor, nisso, pouco ajuda. Percebo com meu marido. Das tantas vezes que me contou a Juiz de Fora da sua infância, das vezes em que fomos a Juiz de Fora e ele me mostrou a nova rua aberta onde havia sido seu Grupo Escolar, só vi a cidade moderna que conheço e, nela, duas crianças de pelerine varando a neblina. Quando a irmã dele vem, entretanto, a conversa se faz mais econômica e se ilumina, enquanto os dois voltam a andar de mãos dadas no frio da manhã, rumo às aulas.

Recordações partilhadas são uma necessidade.

Um dia, andando em Ipanema, Affonso encontrou um velho assessor de Roberto Marinho, seu conhecido. Pararam, conversaram. E falando de achaques e de idade, o senhor disse que o pior da velhice era não ter mais ninguém com quem manter diálogos cúmplices a respeito do passado. E contou sua alegria por ter estado, dias antes, com um advogado que passava dos 90: “Com ele, finalmente, pude conversar sobre a década de 20 !”.

Nosso passado não passa, é um pretérito que mantemos vivo a poder de lembranças.

A irmã da minha amiga morreu e foi enterrada na tumba da família, a pouca distância da casa onde brincávamos. Não tenho tumba de família, e estou muito distante das terras onde brinquei. Há tempos não vou a enterros, meus amigos estão preferindo a cremação. Parece mais ecológico, mais moderno, embora estejamos apenas deixando espaço para edifícios e viadutos. As tumbas eram outra maneira de manter diálogo com o passado.

É o que diz Thomas W. Laqueur, historiador americano e professor de Berkeley, em seu livro “O trabalho dos mortos”. E diz mais, que os mortos, ao trazerem a obrigação dos rituais funerários, são um elemento civilizatório importante há 40.000 anos. Agora posto em risco pela prática da cremação, que tira a sacralidade da morte e nos devolve à frase final de Diogénes: “Quando eu morrer, entreguem-me aos cães. Já estou acostumado”.

Obstáculos à leitura

A leitura depara-se com uma série de obstáculos, é muito mais fácil sentarmo-nos no sofá a ver televisão do que a ler um jornal até. E a questão parece ser esta sociedade da facilidade em que deixou de se perceber que as coisas que dão algum trabalho também são as que dão mais prazer, porque são conquistadas. A leitura dá algum trabalho e temos de conquistar um espaço para ela na nossa vida, temos de nos empenhar para absorvê-la completamente, para que faça sentido. Isso é que se perdeu um pouco de vista, mas penso que quem procura acabará por encontrar e tenho esperança de que as pessoas não deixem de procurar, não desistam, porque baixar os braços é ficar sempre no mesmo sítio.
José Luís Peixoto

O lobisomem

A primeira bodega que se abria, na feira do Jacaré, era a de seu Bento. Logo muito cedo, mal o dia começava a raiar, ele saía de casa, embrulhado num cobertor de lã, por causa do frio cortante, escancarava as duas portas da frente, ia à ancoreta de cachaça pousada em cima do balcão, tomava um tronco, para esquentar o corpo e ficava, por algum tempo, passeando dentro do quarto, à espera dos primeiros fregueses. Estes não demoravam a chegar. Eram, de ordinário, os mesmos: seu Valdevino, marchante, dono do açougue vizinho, conversador inesgotável e cacete, depois da terceira golada; o capitão Mosqueiro, espírito alegre e vivo, grande contador de anedotas picantes, que, apesar de muito repetidas, arrancavam formidáveis gargalhadas; seu Doca, o mais moço de todos, prosador e poeta, que assombrava a terra com os seus violentos artigos políticos nos jornais da capital e já era uma celebridade consagrada pelo Almanaque de Lembranças... Tivera estudos. Toda a gente o considerava um moço preparado. Fazia graça de um grosseiro materialismo e, de vez em quando, atracava-se em polêmica com o vigário da freguesia, um santo homem, que tomava a peito converter o herege... Só mais tarde chegavam o Baé, o Januário, o Zé Preto, o velho Macedo, o Caboquim, e outros negociantes das imediações, que formavam uma grande roda, aplicada, toda a manhã, até à hora do almoço, a beber copinhos de cachaça e a falar da vida alheia...

Quando seu Bento abria a porta, vinha de dentro do quarto um bafo morno, nauseante complexo, em que se misturava o cheiro de mil coisas heterogêneas: sardinhas secas, jacas, rapaduras, fumo de corda, álcool, drogas, plantas medicinais, queijos, alhos e cebolas brancas, bananas, atas, avoantes... Além de negociante de gêneros alimentícios, seu Bento era também muito entendido em assuntos de medicina caseira. Como na terra não havia médico nem boticário, ele desempenhava o papel de curioso: com o auxílio do seu bojudo Chernoviz, aconselhava remédios a quantos recorriam à sua experiência, e dizia-se que estava só para tratar das doenças do mundo... Jalapa para estes, batata para aqueles outros, eram os seus remédios prediletos. Se não fizessem bem, não podiam fazer mal. Custavam pouco, mas esse pouco lhe bastava para ir vivendo folgadamente, em meio à sua vasta clientela.

Seu Bento era um belo tipo de homem, muito branco, de nariz aquilino, com uma barba cerrada e longa, cujas pontas tinha o hábito de retorcer, com arrogância. Andava pelos setenta anos, mas estava forte, esperando viver, pelo menos, o dobro... Extremamente desasseado, sempre de corrimboque em punho, a fungar pitadas de tabaco, com um enorme lenço de ganga sobre um dos ombros, era uma figura pitoresca pelo seu modo de vestir. Quer de verão, quer de inverno, calçava tamancos e o seu traje compunha-se de uma calça de riscado e de uma camisa de madapolão com as fraldas soltas que lhe alcançavam os joelhos. Nada neste mundo o obrigaria a passar os panos ou a enfiar um paletó. Ia assim a toda parte, à igreja como ao mercado, e, mesmo quando se faziam eleições, era em fralda de camisa que dava o seu voto ao governo.

Certa manhã, ainda com escuro, estava a rodinha formada, uns sentados no balcão, outros em caixas vazias de gás. Era em junho. Fazia um frio de bater o queixo. A cachaça corria com mais abundância e a palestra aumentava de animação, à medida que os copinhos se repetiam. A neve, como lá se chama a cerração, era tão espessa que não deixava ver nada a vinte metros de distância. Por isso, ninguém reparou na chegada do Zé Vicente, um lavrador de Pavuna, senão quando ele, depois de ter amarrado o cavalo à gameleira da porta, entrou na bodega, muito maneiroso, dando os bons dias e apertando a mão de cada um.

Seu Bento quis saber logo que novidade era aquela, porque aparecia ele assim de madrugada. Haveria doença em casa?

— Foi a mulher que quebrou o resguardo — explicou o Zé Vicente. Teve criança há três dias e estava passando muito bem, quando, ontem de noite, aconteceu uma desgraça...

— Que foi? Que foi? — perguntaram todos ao mesmo tempo.

— Acho que foi um lobisomem. Pela meia-noite, ouvimos um bicho rosnar e arranhar a porta do quintal com muita força. A cachorrinha, parida de novo, deu logo sinal do lado de dentro e o bicho largou um grunhido que nos encheu de pavor. Talvez seja um guaxinim, disse eu à mulher. Quis-me levantar, sair fora, para ver que marmota era aquela, mas a Maria não deixou. Depois, mais nada. A Baleia calou-se. Pegamos no sono e, hoje de manhã, ao despertar, verificamos que à porta dos fundos estava aberta e o bicho havia comido a ninhada de cachorrinhos que estava na cozinha. A Maria jura que foi um lobisomem. Eu também acho que sim. O certo é que a pobrezinha tomou um susto medonho, quebrou o resguardo e, agora, está para morrer.

Seu Bento consolou o pobre homem sobre cujo lar desabava uma tamanha calamidade:

— Isso não é nada, Zé Vicente. Dá-se um jeito. Tenha coragem e fé em Deus.

Consultou demoradamente o Chernoviz:

— O remédio é um purgante de Leroy ou então Água Inglesa. Leve o laruá (era assim que ele pronunciava) leve o laruá e venha me dizer, amanhã, se a mulher melhorou.

Ninguém se atrevia a interromper seu Bento, quando ele tratava de medicina. Quem o fizesse, imprudentemente, podia ter a certeza de que o velho curioso esmagá-lo-ia com um olhar colérico e com esta simples apóstrofe — Filho!... Filho, apenas. Não dizia de quem mas todos sabiam o verdadeiro sentido daquele palavrão...

Zé Vicente guardou o remédio, pagou-o, despediu-se dos circunstantes e partiu a galope. Tomou-se mais uma rodada e os comentários, então, esfuziaram.

— Santa simplicidade! — observou seu Doca. — Quanta gente estúpida existe ainda por este mundo! Crer em lobisomem e almas penadas, em pleno século XX, no Século da Eletricidade, só mesmo nesta infeliz terra! Mas, não pode ser de outro modo, porque o governo e a nossa Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, em vez de instruírem o povo, tratam de embrutecê-lo, cada vez mais, para que ele permaneça eternamente, a mesma besta, fácil de governar com um freio — quer esse freio seja o terror do inferno, quer o terror da lei!

Calou-se, desolado, com aquele desabafo, certo de que ninguém compreendia a beleza do seu pensamento. Bebeu mais um copinho. Zangou-se por se julgar um incompreendido, no meio daqueles matutos broncos e passivos. E, de zangado, engoliu, logo em seguida, outro copinho. Irra!

— Esta mocidade de hoje — disse o velho Macedo. — Esta mocidade de hoje não crê mais em nada. Por isso é que o mundo está perdido e acontece tanta desgraça feia... Se até os meninos como você, Doca, já são ateus, maçons, dizem que Deus não existe... Pois fique sabendo, moço, que Deus está lá em cima e que há muita coisa, muita coisa... Almas do outro mundo, lobisomem, tudo isso é verdade. Eu nunca vi alma, mas lobisomem já topei um...

Explodiu uma gargalhada na roda. Seu Macedo, um velhinho pequenino, melgaço, de olhos azuis, cabeça enorme, era conhecido como o maior mentiroso das redondezas. Não abria a boca que não fosse para contar histórias de onça, cada qual mais estapafúrdia, e ficava furioso, quando punham em dúvida a sua palavra. Como, de resto, as suas mentiras não faziam mal a ninguém, não passando de arrojadas fantasias, todos gostavam de ouvi-lo e muitos o estimulavam a contar casos maravilhosos.

— Pois conte, lá seu Macedo, conte lá a história do lobisomem. Vamos.

— Foi em Santa Quitéria, meninos. Vocês sabem que eu sou daquele sertão, de onde vim para aqui na seca dos três sete. Eu era rapaz moço, dos meus dezoito anos, e nesse tempo não tinha medo de nada. Corria atrás de boi no mato fechado, matava onça de faca, pegava cascavel pelo pescoço e quando ela abria a boca para morder, cuspia-lhe dentro mel de fumo. Depois soltava a cobra. Ela estrebuchava, estrebuchava, e morria. Eu era doido varrido... E se havia coisa que eu tivesse vontade de ver de perto era um lobisomem. Se fosse possível, até pagava para me encontrar, frente a frente, com um bicho desses. Queria tirar-lhe o encanto. Como vocês sabem, o lobisomem é perigoso, mas basta que a gente o fira, mesmo de leve, com uma faca, de ponta, para ele desencantar. Pois bem. Parece que foi mesmo um castigo. Uma noite, escura como breu, eu vagueava sozinho, pelas ruas da vila, levando como única arma uma faquinha de cortar fumo, um quicé à toa... Fui andando, fui andando, perfeitamente calmo, sem encontrar nada no caminho, a não ser uma ou outra rês deitada na rua e que se levantava à minha passagem. Cheguei assim até perto do patamar da matriz, quando um bicho medonho, quase do tamanho de um jumento, com os olhos de fogo e dentes enormes, se botou a mim, como se me quisesse devorar. Tomei um susto pavoroso. Pulei para trás como um gato. Só tive tempo de gritar pelo nome de Nossa Senhora e arrancar o quicé. O bicho estava em cima de mim, danado. Mandei-lhe o ferro de rijo. As primeiras facadas perderam-se e o maldito, de um tapa, arrancou-me o peito da camisa. Fugi o corpo de banda e toquei-lhe a faca mesmo com vontade. Nisto ouvi um grito horroroso, que me fez arrepiar os cabelos.

— Não me mate, seu Targino! Não me mate que eu sou a Joana do padre Francisco.

Era a Joana mesmo, minha gente. Estava diante de mim nua em pelo, suja de terra, com o sangue a escorrer de uma facada do lado esquerdo. Eu tinha desencantado a bicha...

— E depois?

— Depois a Joana confessou-me tudo. Era castigada, por ser amiga do vigário, há muitos anos. Todas as sextas-feiras, houvesse o que houvesse, tinha de cumprir aquela penitência: saía de casa, à meia-noite, e quando chegava a uma encruzilhada, tirava a roupa e espojava-se no chão como uma besta. Imediatamente, virava um bicho feroz e partia a galope para correr as cinco partes do mundo, até o dia clarear. Só de manhãzinha voltava a ser gente. Mas, agora, ficara livre de tudo, porque eu havia quebrado o encanto...

— Isso não foi sonho, seu Macedo? — perguntou um gracioso.

— Sonho? Eu também pensei que fosse sonho quando acordei no dia seguinte. Mas, logo me convenci de que tudo era a pura realidade. Fui à casa da Joana e encontrei-a muito doente, estirada numa rede. Dizia ela às mulheres que lá estavam que lhe tinha dado uma dor, de repente, numa costela, do lado esquerdo. Mas, a mim, quando ficamos sós, pediu-me pelo amor de Deus, por alma de minha mãe, que não dissesse nada a ninguém. Jurei. E só agora, depois que ela e o padre já estão com os ossos brancos, é que eu me atrevo a contar a história.

Acabou, triunfante. Tomou o seu copinho de cachaça e saiu trôpego, apoiando-se à bengala.

— Cabra velho mentiroso! — disseram os outros em coro, mal o viram pelas costas.

— Mentiroso, sim, lá isso é — sentenciou seu Bento gravemente. — Mas, ninguém me tira da cabeça que, desta vez, o Macedo se esqueceu de mentir. — Se essa história não é verdadeira, já vi coisa parecida.
Raimundo Magalhães Júnior

domingo, fevereiro 8

Deus da leitura

 


Página de história

De uma História Universal editada no Século XXXIII: 

“Os homens do Século Vinte, talvez por motivos que só a miséria explicaria, costumavam aglomerar-se inconfortavelmente em enormes cortiços de cimento. Alguns atribuem o fato a não se sabe que misterioso pânico ao simples contato da natureza; mas isso é matéria de ficcionistas, místicos e poetas... O historiador sabe apenas que chegou a haver, em certas grandes áreas, conjuntos de cortiços erguidos lado a lado sem o suficiente espaço e arejamento, que poderiam alojar vários milhões de indivíduos. Era, por assim dizer, uma vida de insetos — mas sem a segurança que apresentam as habitações construídas por estes.”
Mario Quintana, "Caderno H"

O pescador cego


O barco de cada um está em seu próprio peito
Provérbio macúa

Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso. No aconchego da noite, o impossível ganha a suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas.

Tudo isto escrevo, mesmo antes de começar. Escrita de água de quem não quer lembrança, o definitivo destino da tinta. Por causa de Maneca Mazembe, o pescador cego. Deu-se o caso de ele vazar os ambos olhos, dois poços bebidos pelo sol. Maneira como perdeu as vistas é assunto de acreditar. Há essas estórias que, quanto mais se contam, menos se conhece. Muitas vozes, afinal, só produzem silêncio.

Aconteceu em certa pescaria: Mazembe se perdeu nos senfins. A tempestade assustara o pequeno concho e o pescador se infindou, invindável. Passaram as horas, chamadas pelo tempo. Sem rede nem reserva, Mazembe fez fé na espera. Mas a fome começou a fazer ninho em sua barriga. Decidiu lançar a linha, já sem esperança: o anzol carecia de isco. E ninguém conhece peixe que se suicide por gosto, mordendo anzol vazio.

Durante as noites, o frio se esmerava. Maneca Mazembe em si mesmo se cobria. Não existe melhor aconchego que o corpo, pensava ele. Ou será os bebés, dentro da grávida, sofrem de frio?

A semana decorreu-se, cheia de dias. O barco mantinha-se, sobremarinho. O pescador aguentava-se, sobrevivo. À medida da fome, ele apalpava as costelas no caixilho do corpo:

— Já eu nem me apareço.

E sempre é assim: o juízo emagrece mais rápido que o corpo. Foi nessa magreza que cresceu a decisão de Maneca. Puxou da faca e segurou o gesto com firmeza. Tirou o esquerdo. Deixou o outro para os restantes serviços. E espetou o olho no anzol. Era já órgão estranho, desencovado. Mas ele se arrepiou de o contemplar. Parecia que aquele olho deserdado o continuava a fitar, em magoada solidão de órfão. E assim, aquele anzol, entrando em sua alheia carne, lhe doeu como nenhum espinho pode tanto aleijar.

Lançou a linha e esperou. Já adivinhava o tamanho de um peixe, afogando-se no ar. Sim, porque não é todos os dias um peixe pode trincar um petisco desses. E riu-se de suas próprias palavras.

O peixe, ao cabo de muitos enfins, lá veio. Gordo de prata. Aliás: alguém já viu um peixe magrinho? Nunca. O mar é generoso, mais do que a terra.

Assim pensava Mazembe enquanto se vingava dos jejuns. Assou o peixe no pleno barco. Cuidado, um dia arde o concho, contigo dentro. Era o aviso de Salima, sua esposa. Agora, de estômago resolvido, ele sorria. Salima, que sabia ela? Magrita, sua delicadeza era a dos caniços, submissos, mesmo à suave brisa. Nem se entendia que força ela tirava de si mesma quando erguia bem alto o pau do pilão. E no embalo de Salima, Maneca amoleceu até sonecar.

Mas não se mede a árvore pelo tamanho da sombra. As fomes, teimosas, regressaram. Mazembe queria remar, desconseguia. Já nenhuma força lhe atendia. Resolveu-se, então: arrancaria o direito. Assim, de novo, se cirurgiou. O escuro encerrou o pescador. Mazembe, bicego, só nos dedos se confiava à visão. Voltou a lançar a linha no mar. Não esperou até sentir o esticão, anunciando o maior peixe que ele nunca pescara.

No provisório alívio da fome, seus braços reganharam competência. Sua alma regressara do mar. Remou, remou, remou. Até que o barco chocou, escuro de encontro ao escuro. Pelo modo das ondas, barulhando em vagas infantis, adivinhou ter chegado a uma praia. Levantou-se e gritou por ajuda. Esperou vários silêncios. Por fim, escutou vozes, gente que chegava. Ele se admirou: aquelas vozes lhe eram familiares, as mesmas do seu mesmo lugar. Seria que os seus braços reconheceram o caminho de regresso, sem ajuda das vistas? Foi arrancado por muitas mãos que lhe ajudaram a descer.

Havia choros, estremunhos. Todos lhe queriam ver, ninguém lhe queria olhar. Sua chegada espalhava alegrias, seu aspecto semeava horrores. Mazembe regressara despido daquilo que mais nos constitui: os olhos, janelas onde nossa alma se acende.

Desde então, Maneca Mazembe jamais se fez ao mar. Não que fosse de sua vontade ficar naquele exílio, desmarado. Ele insistia: seus braços tinham provado conhecer os atalhos da água. Mas ninguém não autorizava. Muito-muito sua mulher lhe negava entregar os remos.

— Tenho que ir, Salima. Vamos comer o quê?

— Mais vale pobre que viúva.

Ela lhe descansou, haveria de apanhar amêijoa, magajojo, búzios de comer e vender. E, assim, entreteriam a miséria.

— Também eu posso pescar, Maneca, no barco…

— Nunca, mulher. Nunca.

Mazembe se tempestou: que ela nunca mais repetisse a ideia. Era cego mas não perdera o seu macho estatuto.

Passaram-se os tempos. Nas longas manhãs, o cego se apetrechava de sol. No onduralar, seus sonhos imaginadavam. Até que, nos meios-dias, sua filha lhe puxava para o carinho de uma sombra. Ali lhe serviam comida. Só os filhos o podiam fazer. Porque o pescador se entregara a uma única guerra: afastar os cuidados de Salima, sua dedicada esposa. Aceitar o seu amparo era, para Mazembe, a mais dolorosa rebaixeza. Salima lhe oferecia uma ternura, ele recusava. Ela chamava-lhe, ele respondia um resmungo.

Mas, no afundar do tempo, a fome se instalou. Salima se arrastava, mais pontual que as marés, colhendo cascas de miséria, demasiada concha para pouco comer.

Salima, então, se anunciou ao marido: por muito que lhe custasse ela barquejaria no dia seguinte. Iria pescar, seu corpo escondia mandos que ele ignorava. Mazembe negou, em desespero. Nunca! Onde se viu uma mulher pescando, dando ordem a barco? Que diriam os outros pescadores?

— Nem que seja eu te marrar no meu pé, Salima: tu não vais no mar.

Com palavra já feita, ele gritou pelos filhos. Desceu de encontro à praia. Toda sua magreza se fazia tensa no arco do corpo. A maré estava baixa e a embarcação deitara-se de barriga na areia, espreguicenta.

— Vamos crianças. Vamos puxar este barco lá para cima.

Ele e os filhos empurraram o barco para o alto das dunas. Levaram-no para onde nunca chegavam as ondas. Mazembe sacudia as mãos, injuriando a mulher.

— Tu, Salima, não experimenta comigo.

E, virando-se para o barco, determinou:

— Agora vais ser casa.

Desde então, Maneca Mazembe viveu no barco, marinho-terrestre. Ele junto com a embarcação, parecia uma tartaruga virada, incapaz de regressar ao mar. E, nessa extensa solidão, Mazembe se deixou ao abandono.

Até uma manhã incerta. Salima se aproximou do barco, ficou contemplando o marido. Ele estava em apurado desleixo, com cara de muitas barbas. A mulher sentou-se, ajeitou nos braços uma panela com arroz. Falou:

— Maneca, você há muito tempo não me bate as porradas.

Quem sabe, adiantou ela, se aquele azedo dele seria devido da abstinência. Talvez ele precisasse sentir as lágrimas dela, exclusivo proprietário das suas sofrências.

— Mazembe, você pode bater. Eu ajudo: fico quietinha, sem desviar para nenhum lado.

O pescador, silencioso, percorria os atalhos da alma. Conhecia as armadilhas das mulheres. Por isso, desgovernou a conversa:

— Nem sei que horas são. Agora, eu nunca sei.

Salima insistia, quase em súplica. Ele que lhe batesse. O homem, ao cabo de muito instante, ergueu-se. Tropeçou no vulto dela, segurou-lhe o braço, em laço acusador. Salima esperou a conjugal violência. A mão dele desceu mas foi para segurar a panela. Num gesto brusco lançou por terra o alimento.

— Nunca mais me traga comida. Não preciso de nenhuma sua coisa. Nunca mais.

A mulher sentou entre arroz e areia, o mundo desfeito em grãos. Olhou o marido regressando ao barco e viu como se parentavam, homem e coisa: este, carente da luz; aquele, saudoso das ondas. Quando se encaminhava, Salima foi detida pelo seu chamamento:

— Mulher, estou a pedir trazer-me o fogo.

Ela estremeceu. O fogo, era para quê? Um fundo pressentimento lhe fez negar. Em pranto, ela lhe obedeceu. Trouxe um pau de lenha, ardendo.

— Não faça isso, marido.

O cego segurou a acha como se fosse uma espada. Depois, lançou fogo no barco. Salima gritava, rodando as chamas, fossem elas ardendo era dentro de si. Aquela loucura dele era um convite à desgraça. Por isso, ela lhe sacudiu a velha camisa, para que ele escutasse sua decisão de partir, levar os filhos para nunca mais. E a mulher foi-se, sequer deixando que seus meninos figurassem seu velho pai, em estado de feitiço, desabençoando suas vidas.

O pescador ficou só, parecia o areal ficara ainda mais imenso. No seu ínfimo desenho ele se deixou anoitecer, apalpando nos dedos o sabor das cinzas. O tatear dos restos lhe dava um sentido de grandeza. Ao menos, lhe coubesse desfazer, destruir o quanto lhe estava interdito.

Os dias se seguiram sem Maneca reparar. Certa noite, porém, se confirmou o presságio de Salima: aquele fogo voara demasiado alto, incomodando os espíritos. Porque, no topo dos coqueiros, o vento se deu de uivar. Mazembe se afligiu, o chão mesmo se arrepiou. Súbito, o céu se rasgou e grossas pedras de gelo tombaram em toda a praia. O pescador corria no vazio, à procura de abrigo. O granizo, implacável, lhe castigava. Maneca desconhecia explicação. Nunca ele se cruzara com tais fenómenos. A terra subiu para o céu, pensou. Virado do avesso, o mundo deixava tombar seus materiais. Em angústia de órfão, o pescador caiu sobre os joelhos, braços enrolados sobre a cabeça. Ele nem a si se ouvia, senão se notava chamando por Salima, entre soluços seus e gemidos da terra.

Foi quando sentiu a suave mão tocando-lhe os ombros. Ergueu o rosto: alguém lhe limpava a febre. Ele primeiro resistiu. Depois, se abandonou, meninando-se em colo materno. Chamou:

— Salima?

Silêncio. Quem era aquela silhueta tão cheia de ternura? Com certeza, era Salima, aquele corpo de mulher, esguio e firme. Mas as mãos desta semelhavam mais idade, com rugas de numerosas tristezas.

Ela lhe trouxe para um abrigo, seria a sua velha cabana. No entanto, o lugar parecia ter outro silêncio, outra fragrância. Lá fora, os ventos se fatigavam. A tempestade se recolhia. Agora, as mãos lhe lavavam o rosto, amansando o sal.

— Você, nem sei quem és…

Um pente lhe alinhou os cabelos. No embalo, quase Maneca adormecia. Com um gesto de ombro ajudou a que se lhe vestisse uma camisa, roupa engomada.

— Você, quem é, lhe peço: nunca use sua voz. Eu não quero ouvir nunca sua palavra.

A identidade daquela mulher, no silêncio, se haveria de perder. Fossem de Salima aquelas mãos, fosse aquela a sua cabana: na ignorância ele haveria de aceitar-se. No mais, ele estava avisado da esperteza das mulheres para amansar os homens, converter-lhes em crianças, almas de insuficiente confiança.

Maneca assim foi retomando o tempo. Se deixava tratar no consolo daquela anónima mulher. Ela cumpria seu pedido, jamais pronunciando nem suspiro que fosse.

Todas as tardes ele se ausentava, para os matos. Executava um clandestino serviço, sua única devoção. Até que, uma tarde, compareceu diante da emudecida companheira e disse:

— Leva esses remos. Lá, na praia, está um barco que eu fiz para você sair na pesca.

E prosseguiu: ela que saísse, baixasse seus mandos naquele barco. Nem se preocupasse consigo. Ele ficaria na beira-água, dedicado aos despojos do mar.

— Faz conta ando a procurar esses meus olhos que perdi.

Desde então, todas as infalíveis manhãs, se viu o pescador cego vagandeando pela praia, remexendo a espuma que o mar soletra na areia. Assim, em passos líquidos, ele aparentava buscar seu completo rosto, gerações e gerações de ondas.
Mia Couto, “Cada Homem é uma raça”

No restaurante submarino

Jerônimo me liga. Tenho uma grande notícia, diz, a voz estranhamente excitada para quem é, habitualmente, um homem reservado. Uma grande notícia, repete, acrescentando que pelo telefone não dá para dizer. Propõe um almoço conjunto: nós dois, mais Hélio e Sadi. Onde, pergunto, um tanto inquieto. No restaurante submarino, ele responde. Pondero que é meio longe; além disso a época não é muito apropriada para ir ao restaurante submarino; chove e faz frio. Por isso mesmo vamos lá, diz Jerônimo, não quero que nos vejam. Aliás, já telefonei e reservei o restaurante só para nós.

Acabo concordando. Que remédio? Jerônimo é conhecido por sua tenacidade, por sua férrea determinação. Não há o que não consiga, dizem todos.

De carro, dirijo-me para o local onde fica o restaurante submarino. Na estrada, passo por Hélio, que me olha com uma expressão de interrogação. Pelo visto, também ele não sabe do que se trata.

Chego à praia, deixo meu carro no estacionamento. Ali já estão os carros dos outros. Sou o último, como sempre.

Caminho ao longo do antigo cais, na extremidade do qual foi construído o restaurante. Entro no hall, cumprimento o discreto gerente, desço uma escada em caracol. O restaurante propriamente dito fica abaixo do nível do mar. Por suas janelas, escotilhas, melhor dizendo, pode-se apreciar a fauna marítima da região.

Jerônimo e os outros lá estão, numa mesa de canto. Cumprimento-os, tomo assento. Estão falando sobre banalidades. Mas Jerônimo está radiante, vê-se.

Um alto-falante, colocado logo acima de nossas cabeças, range e emite um silvo agudo. — Alô — diz uma voz de homem. — Alô, alô. Testando, testando. Um, dois, três, um, dois, três. Testando, testando.

Uma pausa, e a voz prossegue:

– Senhores, bem-vindos ao restaurante submarino, o único de seu gênero no Brasil. A direção deseja que se sintam como em suas casas. Enquanto saboreiam nossos deliciosos pratos, daremos algumas explicações sobre os seres marinhos que nos rodeiam. Voltaremos em instantes. Por ora, obrigado.

Hélio, que não conhecia o lugar, está maravilhado: que beleza de instalações, diz. Que coisa bem bolada.

– Atenção — o alto-falante, de novo. — Senhores, sua atenção, por favor. Aproxima-se de nós, vindo do sul, um polvo. O polvo, senhores, não é peixe, mas sim molusco. Repito: molusco. E aí está o nosso herói!

Trata-se, com efeito, de um pequeno polvo. Passa lentamente diante de nossa escotilha e desaparece.

Sensacional, brada o entusiasta Hélio. Sensacional, este lugar, Jerônimo! Jerônimo não diz nada; sorri, apenas.

O alto-falante de novo:

– Atenção. Estamos vendo agora um cação. Esse peixe é parente próximo do tubarão, o assassino dos mares.

Vai-se, rápido, o cação.

Chega o garçom, com uma grande travessa. Tomei a liberdade de encomendar para nós, explica Jerônino. Vocês vão gostar. É robalinho. Muito bom. Muito bom, mesmo.

Não gosto de peixe, diz Sadi, preferia camarão. Seu tom tem algo de ressentido; mas já Jerônimo está pedindo ao garçom que providencie camarões. Como não, senhor, diz o homem, e se afasta.

Jerônimo ergue o copo: a nós, diz. Bebemos, e depois o silêncio cai sobre nós, um silêncio que a mim (mas sou meio paranoico) parece opressivo. Inclino-me para Jerônimo:

– Vamos lá, conte o que você tem a nos dizer.

Jerônimo toma mais um gole de vinho. Bom, este vinho, comenta. Limpa os lábios com o guardanapo, olha-nos — sorrindo sempre — e anuncia:

– O homem está liquidado. Cai na semana que vem. E o cargo, é quase certo, será meu. Posso contar com vocês?

Mas você é um gênio, exclama Hélio. Um gênio mesmo, concordo. Só Sadi é que não diz nada. Olha pela escotilha: há um cardume ali. O alto-falante não diz o nome deles mas sou capaz de apostar: são bordalos, também conhecidos como robalinhos. Fitam Sadi com seus olhos inexpressivos.
Moacyr Scliar, "No restaurante submarino"

Operário indiano aposentado construiu biblioteca com dois milhões de livros

Dois milhões de livros, armazenados em um prédio enorme, disponíveis gratuitamente para empréstimo e leitura para qualquer pessoa.

Essa é a riqueza que Anke Gowda, um trabalhador aposentado de uma fábrica de açúcar do estado de Karnataka, no sul da Índia, acumulou ao longo das últimas cinco décadas.

O homem de 79 anos foi notícia no mês passado ao receber o Padma Shri - uma honraria civil concedida pelo governo federal - por sua extraordinária contribuição à promoção da alfabetização e do aprendizado.

Gowda, cuja coleção impressionante inclui edições raras da Bíblia, além de livros sobre todos os assuntos imagináveis, vem de uma família de agricultores onde os livros eram um luxo.

"Cresci em uma aldeia. Nunca tínhamos livros para ler, mas eu sempre tive curiosidade por eles. Ficava pensando que deveria ler, colecionar livros e adquirir conhecimento", disse ele à BBC.

A biblioteca de Gowda está localizada em Pandavapura, um pequeno município no distrito de Mandya, em Karnataka. Ela carece da organização rígida geralmente associada às bibliotecas. Na verdade, o acervo de Gowda não tem um bibliotecário e os livros estão empilhados nas prateleiras e no chão de forma desordenada.

Do lado de fora, sob os toldos da biblioteca, estão sacos cheios de cerca de 800.000 livros, ainda à espera de serem desembalados. A coleção continua a crescer, graças às compras de Gowda e às doações de terceiros.

O local é frequentado por estudantes, seus pais, professores e amantes de livros. Os frequentadores assíduos parecem conhecer bem a biblioteca e encontram os livros de que precisam com facilidade. E mesmo que não encontrem, dizem que Gowda consegue achar qualquer coisa.

Gowda, sua esposa e filho moram em um canto da biblioteca, que fica aberta todos os dias da semana - e por longas horas.

Gowda passou a infância conciliando os estudos com a ajuda ao pai nos trabalhos da fazenda. Frequentemente, pedia dinheiro aos pais e à irmã mais velha para comprar livros.

Quando começou a ler livros sobre lutadores pela liberdade e líderes espirituais da Índia, ficou fascinado.

"Eram como doces", diz ele.

Inspirado por um professor, ele começou a construir uma pequena coleção de livros para que outros alunos de áreas rurais também pudessem ler.

Ele frequentemente usava o dinheiro que seus pais lhe davam para comida para comprar livros.

Logo após terminar os estudos, ele começou a trabalhar como cobrador de ônibus.

Certo dia, cerca de 10 meses após começar no emprego, ele encontrou um antigo professor que ficou chocado ao saber que ele havia abandonado os estudos. O professor insistiu para que Gowda se demitisse e voltasse para a faculdade.

Gowda seguiu seu conselho e cursou uma pós-graduação em Kannada (o idioma oficial de Karnataka), antes de ingressar na usina de açúcar de Pandavapura como cronometrista.

Ele gastava dois terços do seu salário mensal em livros e usava o restante para compras de supermercado e outras necessidades.

"Os salários eram baixos naquela época, mas os preços também eram baixos", diz ele.

Ao longo dos 33 anos em que trabalhou na fábrica, Gowda participou de dezenas de conferências da Kannada Sahitya Parishat - uma organização sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento da língua e literatura locais - e costumava comprar livros com desconto dessas instituições.

Ele também complementava sua renda criando vacas e vendendo leite, além de trabalhar como agente de seguros.

Seu próximo obstáculo seria familiar para os amantes de livros em todo o mundo: encontrar espaço para abrigar sua coleção transbordante.

"Comecei guardando os livros em baús [grandes caixas de metal]. Depois instalei estantes em casa. Mas chegou um momento em que não havia mais espaço", diz ele.

Naquela época, ele já havia adquirido cerca de 50.000 livros.

A coleção de Gowda inclui edições raras da Bíblia.

A ajuda chegou quando alguns de seus amigos conheceram Hari Khoday, o falecido magnata das bebidas alcoólicas que estava construindo um templo em Pandavapura.

Khoday, lembra Gowda, não conseguia acreditar que um homem pudesse possuir tantos livros.

"Ele veio e viu os livros pessoalmente. Depois me perguntou o que eu precisava. Eu disse que não queria dinheiro para mim. Meu único pedido era que ele construísse uma biblioteca", conta Gowda.

Khoday concordou e pagou pela construção de um enorme edifício, que agora faz parte da extensa biblioteca de Gowda, que se estende por 15.800 pés quadrados (1.467 metros quadrados).

Alguns anos mais tarde, um legislador local levou o então Ministro-Chefe HD Kumaraswamy para ver a biblioteca, e ele autorizou a verba para a construção de mais duas estruturas anexas à primeira.

Hoje, alunos e professores de todo o estado visitam a biblioteca. Entre eles está Ravi Bettaswami, professor assistente em uma faculdade particular, que afirma ter se inspirado a construir uma coleção de milhares de livros.

"Já utilizei a biblioteca de Gowda para estudar e levei meus alunos lá para que pudessem ler e também ajudar a organizar os livros", diz ele.

Shilpashree Haranu, professora em uma faculdade pública, afirma que o acervo pode parecer desorganizado, pois não foi organizado por um bibliotecário profissional.

"Mas ele [Gowda] sabe exatamente onde cada livro está e pode te dizer num instante", diz ela.

Quando questionado sobre por que nunca contratou um bibliotecário, Gowda responde que ninguém jamais lhe sugeriu isso.

Quanto ao futuro da biblioteca, Gowda adota um tom filosófico, sugerindo que agora cabe a outros levar seu legado adiante.

"Cumpri minha responsabilidade. Mas não tenho mais energia. Talvez o governo e o público possam assumir agora?"

"Fiz o meu melhor, agora depende dos outros."
Imran Qureshi 

sábado, fevereiro 7

De volta pra casa

 


Ruína

Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos que a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.

Manoel de Barros

O vento e suas maneiras

A mãe dizia:

– Pra dentro menino! É vem o vento levado levando cisco!

Quando feria o olho com um cisco, causava aborrecimento.

No verão abafado refrescava. Se fosse no tempo de veraneio, na cidade vizinha, de praias lindíssimas, tinha o gosto de sal. Rolava com as ondas, que rugiam como se fossem leões de jubas brancas e luminosas. Zangado batia, voltava, batia. Reinventava-se na areia como colares de espuma. Rendilhado murmurejava, cochichava com peixinhos minúsculos no raso. Ao largo fazia das vagas tirânicos vagões, incríveis vagalhões, tufão. Emborcava a embarcação. Mostrava-se indiferente aos gritos lancinantes dos náufragos pedindo por socorro. Era impiedoso, esbagaçava as ondas no rochedo.

Mágico, mais ligeiro do que tudo em movimento veloz, o único que sem pernas ia até o fim do mundo, chegando primeiro. Esmurrava o rio na enchente, causando estragos nas casas ribeirinhas e na avenida principal onde estava instalado um comercinho ativo. No mar tomava altura inimaginável.

Travesso tirava assovio na greta da porta e da janela. Interrompia o sono das pessoas quando dormiam na cidade pequena, após mais um dia de trabalho estafante, fazendo barulho nas telhas de alumínio no telhado.

Salpicado de verdes e azuis rolava no mar, pra lá, pra cá. Dava uma sensação agradável quando soprava no campo com o gosto de terra molhada. Morno, gostava de fazer carícia no rosto da árvore frutífera, folhas como cílios pestanejavam.

Tocava uma música suave nas folhas da palmeira, farfalhava no quintal durante a primavera cheia de passarinhos saltitantes, voos e gorjeios.

No inverno esvoaçava toalhas de névoa pelas ruas vazias da cidade, penetrada de frieza, os ares gelatinosos, tendo aspecto fantasmal. Em trêmulos movimentos, seus espectros de névoa vagavam por todos os cantos.

Vento, ventania, vendaval. Levava tudo que encontrava pela frente. Derrubava árvore, poste, ponte. Mudava a casa de um lugar para outro. Emborcava o caminhão, rompia a ponte, fazia rachaduras nas paredes do prédio. A lona do circo fora jogada longe, o sobrado desmoronou-se, ficou reduzido a escombros, não perdoou nem o nome do dono, Comendador Ataulfo Seabra, em grandes letras de bronze gravadas na fachada. Botou abaixo o muro que cercava o estádio de futebol, as torres de iluminação do campo ficaram aos pedaços.

Quando era leve, chegava de mansinho para soprar na florzinha da plantinha sozinha no brejo.

No velório amolava sua lâmina com os mudos gemidos da mulher, inconformada com a perda irreparável do marido. Dava frio na barriga dos que estavam presentes na vigília. A expressão do rosto assombrado, os olhos sem compreender o que estava acontecendo, atemorizados com a presença daquele vento, frio, sem cor, pousado no morto.

Era este o vento que metia mais medo, imóvel, surdo, cego, mudo, habitava no funeral das horas.

Uma esperança

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.

Houve um grito abafado de um de meus filhos:

– Uma esperança! e na parede bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não podia ser.

– Ela quase não tem corpo, queixei-me.

– Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.

Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.

– Ela é burrinha, comentou o menino.

– Sei disso, respondi um pouco trágica.

– Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.

– Sei, é assim mesmo.

– Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.

– Sei, continuei mais infeliz ainda.

Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não apagasse.

– Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.

Andava mesmo devagar – estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.

Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia “a” aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:

– É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...

– Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.

– Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros – falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.

O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.

Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E acho que não aconteceu nada.

Clarice Lispector, "Todos os contos"

Leitura tem queda dramática – e preocupante – pelo mundo

Uma queda vertiginosa no número de leitores está atingindo diversas partes do planeta – e a tendência é preocupante. De acordo com um estudo da Universidade da Flórida e do University College London, da Inglaterra, a quantidade de pessoas nos Estados Unidos que mantêm o hábito da leitura por prazer caiu mais de 40% nos últimos 20 anos. A cada ano, essa parcela recua cerca de 3%, algo "significativo e muito preocupante", afirma Jill Sonke, diretora do Centro de Artes em Medicina da Universidade da Flórida.

O levantamento também mostra a desigualdade no acesso à leitura dos americanos: a retração no hábito é maior para afro-americanos, pessoas com menor renda ou escolaridade e moradores de áreas rurais. "Mas, embora as pessoas com maior nível de escolaridade e as mulheres continuem lendo com mais frequência, observamos mudanças mesmo dentro desses grupos", alertou Jessica Bone, pesquisadora sênior de estatística e epidemiologia da University College London.

No Brasil, a situação também é drástica. Pela primeira vez, a parcela dos que não leem livros é maior que a daqueles que recorrem à literatura nos momentos de lazer. A conclusão é da pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", do Instituto Pró-Livro.

A mais recente edição do levantamento mostrou que, em 2024, 53% dos entrevistados se consideraram "não-leitores", contra 47% dos leitores. Em 2019, eram 52% leitores e 48% não-leitores.

Na comparação entre os sexos, mulheres leem mais: estima-se que elas sejam 50 milhões, contra 43 milhões de leitores homens no Brasil.

O único segmento da população brasileira que não teve queda no número de leitores foi nas faixas etárias de 11 a 13 anos e de mais de 70 anos.

Na Europa, a situação também não é muito diferente, de acordo com uma pesquisa de 2024 do Eurostat, órgão de estatística da União Europeia (UE). Segundo o estudo, quase metade dos cidadãos do bloco não conseguiu ler nem um livro por ano. A distribuição do hábito pelos países europeus também é desigual: Irlanda, Finlândia, Suécia, França, Dinamarca e Luxemburgo têm o maior nível de leitura. Itália, Chipre e Romênia vêm por último.

Na Europa e nos EUA, também há diferenças significativas em relação à idade e ao sexo: os jovens entre 16 e 29 anos leem com mais frequência do que os maiores de 65 anos, e as mulheres leem significativamente mais livros do que os homens.

Livros digitais costumam ser práticos, leves e personalizáveis. Mas a grande maioria dos leitores continua preferindo as edições em papel. No continente europeu, o percentual de pessoas que compram livros físicos foi mais que o dobro de quem fez downloads de ebooks ou audiolivros, mostrou o levantamento da Eurostat.

Estudos científicos comprovam que os livros impressos oferecem vantagens importantes em relação aos formatos digitais em muitos pontos.

Em 2022, pesquisadores da Universidade de Valência analisaram dados de mais de 450 mil participantes. A conclusão deles: quem ficou com os livros físicos demonstrou uma compreensão melhor do texto e um processamento mais profundo do conteúdo por causa do tato, o que não ocorre com e-books. Esse efeito foi maior principalmente em crianças em idade escolar.

A ciência sugere que manter um hábito de leitura pode impactar positivamente na saúde. Ler um livro regularmente pode gerar níveis mais baixos de estresse, melhorar a memória, proteger contra declínio cognitivo e demência e proporcionar até mesmo uma vida mais longa.

Uma pesquisa da Escola de Saúde Pública de Yale descobriu, por exemplo, que quem tem o hábito de leitura vive, em média, 23 meses a mais que quem não lê nada – independentemente de fatores como educação, renda, saúde básica e capacidade cognitiva.

A explicação para isso pode estar na conexão social proporcionada na leitura de um romance, por exemplo. Cenas vividas por um personagem, segundo especialistas, funcionariam como uma espécie de treinamento, uma projeção das relações que o leitor consegue praticar, mesmo que não tenha uma vida social ativa: a solidão é um fator de risco grave para a mortalidade precoce, comparada ao tabagismo ou à obesidade.

sexta-feira, fevereiro 6

Leitura e circulação

 


Pedra filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão

O moço da farmácia

Na cidadezinha de cinco mil habitantes, elevados a dez mil pelo bairrismo, o caixeiro da farmácia publica experiências de boas letras no semanário independente e noticioso, que tira quinhentos números e, por ser pouco noticioso e muito independente, já rendeu sérios desgostos ao diretor. Moléstias, remédios nauseabundos, suspensão da folha, que, depois de quinze dias, três semanas, um mês, volta a circular com mais notícias e menos independência. Vêm daí as relações do ajudante da farmácia com o diretor da folha. Há nela uma seção literária — e foi isto que seduziu o rapaz, homem de raras ocupações e desejos imoderados.

Vira ele em jornal grande uma linha preciosa: “As ruas fustigadas por violentíssimo temporal.” Folheava atento o dicionário pequeno e ficara surpreendido. Ora muito bem. “Fustigadas por violentíssimo temporal.” Que beleza! Nunca ninguém na cidadezinha de cinco mil habitantes, elevados a dez mil pelo bairrismo, havia composto frase tão sonora e difícil. O vocabulário da povoação era minguado, e a sintaxe variava de indivíduo para indivíduo. A filha do telegrafista cantava, desafinada e sentimental: “A brisa corre de manso.” Mas a professora vizinha achava que, sendo brisa uma palavra feminina, devia emendar-se a cantiga: ‘‘A brisa corre de mansa.”

O moço da farmácia decidira servir-se dos temporais e evitar as brisas. Redigira e publicara na folha independente uma coluna verbosa, mas com tanta infelicidade que o promotor, hábil em poesia e gramática, afirmara nas barbearias que aquilo era de Vítor Hugo. Intimado a exibir prova, o bacharel respondera que não se lembrava da passagem plagiada, mas tinha certeza de que havia furto. O autor, brioso, lera todos os livros de Vítor Hugo, alcançara a absolvição e, dono dessa cultura razoável, xingara o promotor em becos e esquinas.

Assim teve princípio a carreira literária do ajudante da farmácia. Adquiriu diversos volumes, encheu-se de regras, estudou metrificação e leu jornais.

Deseja transpor os limites da cidadezinha, mas por enquanto ainda é um escritor municipal. Capricha na organização de contos, manda-os a revistas, aos concursos que se fazem na cidade grande, sonha com prêmios de vulto, com ilustrações vivas, em tricromia. Esforço vão. Ninguém lá fora o enxerga. Zanga-se, julga-se vítima de injustiça. Depois desanima. As histórias arranjadas pacientemente, desmanchadas, refeitas, são ruins. Por quê? Não há ali uma criatura que lhe possa dar explicações. Aprende só — e isto é doloroso. Necessário enorme trabalho para compreender, em seguida esquecer, recomeçar, orientar-se de novo. Evidentemente as lições vistas nos livros estavam erradas. Volta, procura lições diferentes, que abandona. Avança em alguns pontos, em outros permanece ignorante. Não dispensa os temporais que fustigam as ruas.

Bem. Agora é capaz de utilizar brisas e temporais, certo de que a combinação está sofrível. A diretora do grupo escolar pediu-lhe discursos para os meninos que tinham findo o curso primário. Fez uns quatro, que foram preteridos pelos do juiz de direito, um maluco. Está melhorando, sem dúvida. Os chavões do juiz de direito foram recebidos com muito elogio, sinal de que não prestavam. Bobagens de arrepiar.

Provavelmente os temporais que açoitam as ruas também não valem nada. Se valessem, os contos, direitinhos na conjugação e na concordância, teriam sido publicados, com ilustrações de Santa Rosa.

Continua a trabalhar, só, adiantando-se em alguns lugares, emperrando em outros. Tem um bando de nomes na cabeça, mas emprega-os sem discernimento e deforma-os na pronúncia. Envergonha-se de usá-los em conversa, porque ali não os conhecem. Certamente o consideram pedante quando, receoso, larga uma daquelas palavras longas que viu no romance cacete. Cacete, pois não, embora lhe falte coragem para dizer isto. Descobriu num rodapé louvores excessivos ao romance e ficou grogue, matutando, como quem decifra charada. Precisa reler aquela droga, bocejar, cochilar em cima dela. Dirá que é magnífica, está visto. Presumirão que ele sabe julgar. Ainda não sabe, mas saberá.

Tem armazenado noções valiosas, dando por paus e por pedras, vencendo crises de apatia. Ultimamente conseguiu perceber defeitos graves nuns versos e isto o alegrou. Assevera interiormente os seus progressos. Pensa em sujeitos animosos que subiram sozinhos. Como se chamava o carvoeiro que chegou a presidente dos Estados Unidos? Lincoln ou Washington? Um dos dois.

Efetivamente os temporais são chinfrins: arruinaram-lhe os contos. Os temporais e as brisas. É bom livrar-se dessa verbiagem. Mas habituou-se. Que adotará para substituí-la? Impossível achar um conselho. Irá caminhando às apalpadelas, batendo nas paredes. E talvez acerte. Acertará, sem dúvida. Dentro de vinte anos terá os cabelos brancos e os joelhos duros, morderá com dentes postiços e lerá com óculos. Permanecerá solteiro e abstêmio. Mas poderá juntar palavras, modificá-las, envernizá-las. Será um técnico e assinará coisas notáveis. Choca projetos doidos. Não os confessa por temer que o metam a ridículo. Vinte anos, trinta anos quando muito.

— Vejam o Lincoln.

Graciliano Ramos

Prazer com livros

Os livros devem ser lidos por prazer, e quem pode afirmar que o que agrada a uma pessoa deve necessariamente agradar à outra?

W. Somerset Maugham