Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quarta-feira, junho 3
Sou ...
Sou como aqueles poemas.
Li os poemas e senti o espanto de me descobrir.
O poema me diz. Diz o que eu já sabia sem saber.
Bem disse Bernardo Soares que
"Arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles."
Meu rosto aparece refletido no espelho de vidro.
Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu rosto conhecido.
Meu reflexo não me surpreende.
Mas o poema é um espelho onde a minha alma, desconhecida,
aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto assim.
O poema me mostra a beleza da minha alma – que eu não via.
Por isso a poesia é salvação.
Na minha solidão dou-me conta de que existe uma outra pessoa
cuja alma se parece com a minha.
Fico grato porque tal pessoa existe.
Minha solidão se transforma em comunhão.
Li os poemas e senti o espanto de me descobrir.
O poema me diz. Diz o que eu já sabia sem saber.
Bem disse Bernardo Soares que
"Arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles."
Meu rosto aparece refletido no espelho de vidro.
Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu rosto conhecido.
Meu reflexo não me surpreende.
Mas o poema é um espelho onde a minha alma, desconhecida,
aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto assim.
O poema me mostra a beleza da minha alma – que eu não via.
Por isso a poesia é salvação.
Na minha solidão dou-me conta de que existe uma outra pessoa
cuja alma se parece com a minha.
Fico grato porque tal pessoa existe.
Minha solidão se transforma em comunhão.
Rubem Alves
Conversa com o devoto
Houve um tempo em que eu ia à igreja todos os dias, pois uma moça pela qual eu havia me apaixonado rezava por lá de joelhos durante meia hora ao anoitecer, e eu podia aproveitar para contemplá-la em silêncio.
Certa vez, quando a moça não veio e eu olhava, incomodado, para os que rezavam, chamou minha atenção um rapaz magro que havia se jogado ao chão. De tempos em tempos, ele movia o crânio com toda a força de seu corpo e o lançava, suspirando, às palmas de suas mãos, que jaziam sobre as pedras.
Na igreja, havia apenas algumas mulheres idosas, que viravam com frequência suas cabecinhas enroladas em panos e inclinadas para o lado para olhar para aquele que rezava. Essa atenção parecia deixá-lo feliz, pois, antes de cada uma de suas explosões devotas, ele olhava em volta para ver se o número de espectadores era grande. Eu achei isso inconveniente, e decidi lhe dirigir a palavra assim que ele saísse da igreja e lhe perguntar por que ele rezava desse modo. Sim, eu estava incomodado porque minha moça não viera.
Mas ele se levantou apenas depois de uma hora, fez um sinal da cruz deveras cuidadoso e andou aos trancos até a pia da água benta. Eu me coloquei no caminho entre a pia e a porta, e sabia que não o deixaria passar se ele não me desse uma explicação. Contorci minha boca, conforme sempre faço quando me preparo para falar com determinação. Avancei a perna direita e me apoiei sobre ela, enquanto mantinha a esquerda descontraidamente apoiada sobre a ponta do pé; também isso me concede segurança.
É até possível que aquele homem já olhasse de esguelha para mim ao borrifar a água benta em seu rosto; talvez também já tivesse me percebido anteriormente com alguma preocupação, pois então, de modo inesperado, ele saiu correndo pela porta afora. A porta de vidro bateu, se fechando. E, quando saí, logo em seguida, não o vi mais, pois lá fora havia algumas ruelas estreitas e o trânsito estava bem movimentado.
Nos dias seguintes, o rapaz não apareceu, mas minha moça veio. Ela usava o vestido negro que tinha tiras transparentes sobre os ombros – a meia-lua da borda do corpete ficava debaixo delas –, das quais a extremidade inferior acabava em uma gola bem- cortada e bem-delineada. E, uma vez que a moça veio, esqueci o rapaz, e não me preocupei com ele nem mesmo quando voltou a aparecer com regularidade mais tarde e, conforme seu costume, rezava. Mas ele sempre passava por mim a toda pressa, de rosto voltado para o outro lado. Talvez isso se devesse ao fato de eu sempre imaginá-lo apenas em movimento, de modo que ele, mesmo quando estava parado sem se mexer, parecia a mim que se esgueirava.
Certa vez, acabei me atrasando em meu quarto. Mesmo assim, ainda fui à igreja. Não encontrei mais a moça por lá e quis voltar para casa. E então eis que vi de novo o rapaz deitado no lugar de sempre. O que acontecera outrora voltou a me ocorrer, e me deixou curioso.
Deslizei até o corredor de entrada sobre a ponta dos pés, dei uma moeda ao mendigo cego que por lá se sentava e me recostei ao lado dele, atrás da asa da porta aberta; e lá fiquei sentado por uma hora, talvez até mesmo fazendo cara de esperto. Me sentia bem naquele lugar, e decidi ir até ele com mais frequência. Na segunda hora, achei absurdo continuar sentado ali por causa do devoto. E ainda assim permiti, já furioso, que uma terceira hora se passasse, com as aranhas já andando sobre as minhas roupas, enquanto as últimas pessoas, respirando alto, saíam do escuro da igreja.
E foi então que também ele veio. Andava com cautela, e seus pés tateavam o chão de leve antes de pisar com firmeza.
Eu me levantei, dei um passo largo e direto e agarrei o rapaz.
– Boa noite – disse eu e o empurrei, minha mão segurando seu colarinho, pelas escadarias abaixo até a praça iluminada.
Quando chegamos ali embaixo ele disse, com uma voz completamente insegura:
– Boa noite, meu senhor, meu caro senhor, não fique irritado comigo, seu mais dedicado servidor.
– Sim – disse eu –, quero lhe perguntar algumas coisas, meu senhor; na última vez conseguiu fugir de mim, mas isso hoje será bem difícil.
– O senhor é compassivo, e me deixará ir para casa, meu senhor. Sou digno de pena, esta é que é a verdade.
– Não – gritei em meio ao barulho do bonde que passava. – Não vou deixar o senhor ir. São justamente histórias assim que me agradam. O senhor é um peixão e tanto. Dou os parabéns a mim mesmo.
Então ele disse:
– Oh, Deus, o senhor tem um coração vivaz e uma cabeça feita de pedra. Chama a mim de peixão, e como deve ser feliz por causa disso! Pois minha infelicidade é uma infelicidade oscilante, uma infelicidade que oscila sobre uma ponta das mais estreitas e, quando é tocada, cai sobre aquele que pergunta. Boa noite, meu senhor.
– Pois bem – disse eu, e segurei sua mão direita com firmeza –, se o senhor não me responder, começarei a chamar todo mundo aqui na rua. E todas as moças das lojas, que agora estão saindo, após o final do expediente, e inclusive seus amantes, que se alegram com elas, vão se juntar aqui, pois irão acreditar que um cavalo de tílburi caiu ou algo do tipo aconteceu. E então eu vou mostrar o senhor para todas as pessoas.
Nesse instante, ele beijou ambas as minhas mãos, uma após a outra.
– Eu vou dizer ao senhor o que o senhor quer saber, mas, por favor, é melhor irmos para a ruela ali do lado. – Eu assenti, e nós fomos até lá.
Mas ele não se contentou com a escuridão da ruela, na qual havia postes de luz amarelada apenas a grande distância uns dos outros, mas me conduziu até a entrada baixa de uma casa antiga, sob um lampiãozinho pendurado, a pingar, diante de uma escada de madeira.
Lá, ele tirou, com ares de importância, seu lenço do bolso, e disse, estendendo-o sobre um dos degraus:
– É melhor que o senhor se sente, aí poderá perguntar melhor, meu caro senhor. Eu ficarei em pé, assim conseguirei responder melhor. Mas, por favor, não me torture.
Então eu me sentei e disse, levantando os olhos aguçados para ele:
– O senhor é um louco que deu certo, isso é o que o senhor é! Como o senhor se comporta na igreja! Como isso é incômodo e desagradável para os que lá estão! Como alguém pode se mostrar devoto, se precisa ficar olhando para o senhor?
Ele havia pressionado seu corpo contra a parede, apenas a cabeça se movia com liberdade no ar:
– Não se incomode… Por que o senhor deveria se incomodar com coisas que não lhe dizem respeito? Eu me incomodo quando me comporto de modo desastroso; mas se é um outro que se comporta mal, eu apenas me alegro. Não se incomode, portanto, se eu digo que o objetivo da minha vida é ser olhado pelas pessoas.
– O que o senhor está dizendo aí – eu exclamei em voz demasiado alta para o corredor estreito, mas em seguida temi baixar a voz e continuei no mesmo tom. – De fato, o que o senhor está dizendo aí? Sim, já imagino muito bem, exatamente, já o imaginava muito bem desde que o vi pela primeira vez, em que estado o senhor está. Tenho experiência e não quero parecer doloroso quando digo que é como se fosse um enjoo marítimo em terra firme. A essência de sua doença está no fato de o senhor ter esquecido o nome verdadeiro das coisas e agora, em sua imensa pressa, apenas derrama sobre elas nomes casuais. Importa apenas ser rápido, ser rápido! Mas, mal o senhor fugiu dessas coisas, já esqueceu seus nomes de novo. O choupo nos campos, que o senhor chamou de “Torre de Babel”, pois o senhor não sabia ou não queria saber que era um choupo, se embala outra vez, sem nome, e o senhor precisa chamá-lo então de “Noé, quando estava bêbado”.
Fiquei um pouco consternado quando ele disse:
– Fico feliz com o fato de não ter entendido aquilo que o senhor diz. Irritado e sem perder tempo, eu disse:
– Ao se mostrar feliz com isso, o senhor apenas deixa claro que entendeu tudo.
– Na verdade, eu posso tê-lo mostrado, honorável senhor, mas também o senhor falou de modo estranho.
Deitei minhas mãos sobre um degrau mais acima, recostei-me um pouco e, nessa postura quase intocável, que é a última salvação dos lutadores no ringue, perguntei:
– O senhor tem um jeito divertido de se salvar, ao pressupor seu próprio estado no outro.
A isso ele se mostrou encorajado. Juntou as mãos para dar unidade a seu corpo e disse, demostrando uma leve resistência:
– Não, não faço isso contra todos, nem mesmo contra o senhor, por exemplo, porque não o consigo. Mas eu ficaria feliz se o conseguisse, pois nesse caso a atenção das pessoas na igreja não seria mais necessária para mim. O senhor sabe por que tenho necessidade dela?
Essa pergunta me deixou desamparado. É claro que eu não sabia, e acreditava, inclusive, que não queria saber. Eu também não quisera ir até ali, conforme dissera comigo mesmo já antes, mas o homem me obrigara a ouvi-lo. De modo que eu agora precisava apenas sacudir minha cabeça para lhe mostrar que não sabia, mas eu não conseguia botar minha cabeça em movimento.
O homem que se encontrava parado diante de mim sorria. Em seguida, ele se encolheu, caindo de joelhos, e contou, mostrando uma careta sonolenta:
– Jamais houve um tempo no qual eu estivesse convencido de minha vida apenas comigo mesmo. É que eu me ocupo das coisas somente em noções tão precárias que sempre acredito que as coisas em algum momento estiveram vivas, e agora apenas naufragaram. Sempre, meu caro senhor, sinto uma vontade de ver as coisas conforme gostaria de mostrá-las antes de elas se mostrarem para mim. Elas por certo se mostram belas e tranquilas assim. Tem de ser assim, pois com frequência ouço pessoas falarem delas desse modo.
– Uma vez que eu permanecia em silêncio, e apenas nas contrações involuntárias do meu rosto mostrava como me sentia desconfortável, ele disse:
– O senhor não acredita que as pessoas falam assim? Eu achava que deveria assentir, mas não consegui.
– Realmente, o senhor não acredita nisso. Mas ouça só. Quando, ainda criança, abri os olhos certo dia, depois de uma breve sesta, ouvi, ainda completamente tomado pelo sono, minha mãe perguntar da sacada em tom bem natural: “O que está fazendo, minha querida? Está tão quente.” Uma mulher respondeu do jardim: “Estou merendando em meio ao verde.” Elas o diziam sem pensar e de modo não muito nítido, como se todos tivessem de esperar por isso.
Achei que ele aguardava minha resposta, por isso botei a mão no bolso traseiro da minha calça e fiz de conta que procurava alguma coisa por lá. Mas eu não procurava nada, queria apenas mudar meu aspecto para demonstrar que participava da conversa. E nisso eu disse que aquele incidente era tão estranho e que eu de modo algum o compreendia. Ainda acrescentei que não acreditava na verdade dele, e que o incidente devia ter sido inventado com algum objetivo que eu agora não conseguia perceber qual era. Em seguida fechei os olhos, pois eles me doíam.
– Oh, mas é muito bom que o senhor seja da minha opinião, e foi desinteressadamente que o senhor me reteve para dizer isso a mim. Não é verdade, porque eu deveria me envergonhar – ou então, porque nós deveríamos nos envergonhar – com o fato de eu não andar empertigado e pesadamente, não bater a bengala sobre o piso e não tocar as roupas das pessoas que passam fazendo barulho. Por acaso eu não deveria, com muito mais razão, me queixar teimosamente que eu, na condição de sombra de ombros angulosos, salto ao longo das casas, por vezes desaparecendo atrás do vidro das vitrines? Que dias são esses que eu passo! Por que tudo é construído tão mal a ponto de prédios altos desabarem de quando em quando sem que para tanto se pudesse encontrar um motivo externo? Eu subo então pelos montes de entulho e pergunto a todos que encontro: “Como foi que isso pôde acontecer? Em nossa cidade – um prédio novo – hoje já é o quinto, imagine só.” E ninguém sabe o que me responder. Muitas vezes pessoas caem no meio da rua e ficam deitadas, mortas. Então todos os homens de negócios abrem suas portas cobertas de mercadorias, se aproximam, ágeis, arrastam o morto para dentro de casa, em seguida, voltam a sair, um sorriso nos lábios e nos olhos, e falam: “Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra.” Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. “Caro senhor”, digo amistosamente, “um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostrá-lo a mim?
Eu lhe imploro.” E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: “Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez.” “Um morto?”, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. “Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente.” Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: “Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vento volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo.”
Maltratado como eu estava, disse:
– Essa história que o senhor contou anteriormente, da senhora sua mãe e da senhora no jardim, eu nem sequer acho estranha. Não apenas porque já ouvi e vivenciei muitas histórias semelhantes, mas inclusive por ter participado de algumas delas. Isso, aliás, é uma coisa completamente natural. O senhor acha que, se eu estivesse na sacada, não poderia dizer a mesma coisa e poderia responder também a mesma coisa se estivesse no jardim? Uma coisa das mais simples.
Quando terminei de dizer isso, ele pareceu muito feliz. Disse que eu estava bem- vestido, e que minha gravata lhe agradava muito. Que pele delicada que eu teria, aliás… E confissões se tornavam tanto mais claras, segundo ele, quando eram negadas em seguida.
Certa vez, quando a moça não veio e eu olhava, incomodado, para os que rezavam, chamou minha atenção um rapaz magro que havia se jogado ao chão. De tempos em tempos, ele movia o crânio com toda a força de seu corpo e o lançava, suspirando, às palmas de suas mãos, que jaziam sobre as pedras.
Na igreja, havia apenas algumas mulheres idosas, que viravam com frequência suas cabecinhas enroladas em panos e inclinadas para o lado para olhar para aquele que rezava. Essa atenção parecia deixá-lo feliz, pois, antes de cada uma de suas explosões devotas, ele olhava em volta para ver se o número de espectadores era grande. Eu achei isso inconveniente, e decidi lhe dirigir a palavra assim que ele saísse da igreja e lhe perguntar por que ele rezava desse modo. Sim, eu estava incomodado porque minha moça não viera.
Mas ele se levantou apenas depois de uma hora, fez um sinal da cruz deveras cuidadoso e andou aos trancos até a pia da água benta. Eu me coloquei no caminho entre a pia e a porta, e sabia que não o deixaria passar se ele não me desse uma explicação. Contorci minha boca, conforme sempre faço quando me preparo para falar com determinação. Avancei a perna direita e me apoiei sobre ela, enquanto mantinha a esquerda descontraidamente apoiada sobre a ponta do pé; também isso me concede segurança.
É até possível que aquele homem já olhasse de esguelha para mim ao borrifar a água benta em seu rosto; talvez também já tivesse me percebido anteriormente com alguma preocupação, pois então, de modo inesperado, ele saiu correndo pela porta afora. A porta de vidro bateu, se fechando. E, quando saí, logo em seguida, não o vi mais, pois lá fora havia algumas ruelas estreitas e o trânsito estava bem movimentado.
Nos dias seguintes, o rapaz não apareceu, mas minha moça veio. Ela usava o vestido negro que tinha tiras transparentes sobre os ombros – a meia-lua da borda do corpete ficava debaixo delas –, das quais a extremidade inferior acabava em uma gola bem- cortada e bem-delineada. E, uma vez que a moça veio, esqueci o rapaz, e não me preocupei com ele nem mesmo quando voltou a aparecer com regularidade mais tarde e, conforme seu costume, rezava. Mas ele sempre passava por mim a toda pressa, de rosto voltado para o outro lado. Talvez isso se devesse ao fato de eu sempre imaginá-lo apenas em movimento, de modo que ele, mesmo quando estava parado sem se mexer, parecia a mim que se esgueirava.
Certa vez, acabei me atrasando em meu quarto. Mesmo assim, ainda fui à igreja. Não encontrei mais a moça por lá e quis voltar para casa. E então eis que vi de novo o rapaz deitado no lugar de sempre. O que acontecera outrora voltou a me ocorrer, e me deixou curioso.
Deslizei até o corredor de entrada sobre a ponta dos pés, dei uma moeda ao mendigo cego que por lá se sentava e me recostei ao lado dele, atrás da asa da porta aberta; e lá fiquei sentado por uma hora, talvez até mesmo fazendo cara de esperto. Me sentia bem naquele lugar, e decidi ir até ele com mais frequência. Na segunda hora, achei absurdo continuar sentado ali por causa do devoto. E ainda assim permiti, já furioso, que uma terceira hora se passasse, com as aranhas já andando sobre as minhas roupas, enquanto as últimas pessoas, respirando alto, saíam do escuro da igreja.
E foi então que também ele veio. Andava com cautela, e seus pés tateavam o chão de leve antes de pisar com firmeza.
Eu me levantei, dei um passo largo e direto e agarrei o rapaz.
– Boa noite – disse eu e o empurrei, minha mão segurando seu colarinho, pelas escadarias abaixo até a praça iluminada.
Quando chegamos ali embaixo ele disse, com uma voz completamente insegura:
– Boa noite, meu senhor, meu caro senhor, não fique irritado comigo, seu mais dedicado servidor.
– Sim – disse eu –, quero lhe perguntar algumas coisas, meu senhor; na última vez conseguiu fugir de mim, mas isso hoje será bem difícil.
– O senhor é compassivo, e me deixará ir para casa, meu senhor. Sou digno de pena, esta é que é a verdade.
– Não – gritei em meio ao barulho do bonde que passava. – Não vou deixar o senhor ir. São justamente histórias assim que me agradam. O senhor é um peixão e tanto. Dou os parabéns a mim mesmo.
Então ele disse:
– Oh, Deus, o senhor tem um coração vivaz e uma cabeça feita de pedra. Chama a mim de peixão, e como deve ser feliz por causa disso! Pois minha infelicidade é uma infelicidade oscilante, uma infelicidade que oscila sobre uma ponta das mais estreitas e, quando é tocada, cai sobre aquele que pergunta. Boa noite, meu senhor.
– Pois bem – disse eu, e segurei sua mão direita com firmeza –, se o senhor não me responder, começarei a chamar todo mundo aqui na rua. E todas as moças das lojas, que agora estão saindo, após o final do expediente, e inclusive seus amantes, que se alegram com elas, vão se juntar aqui, pois irão acreditar que um cavalo de tílburi caiu ou algo do tipo aconteceu. E então eu vou mostrar o senhor para todas as pessoas.
Nesse instante, ele beijou ambas as minhas mãos, uma após a outra.
– Eu vou dizer ao senhor o que o senhor quer saber, mas, por favor, é melhor irmos para a ruela ali do lado. – Eu assenti, e nós fomos até lá.
Mas ele não se contentou com a escuridão da ruela, na qual havia postes de luz amarelada apenas a grande distância uns dos outros, mas me conduziu até a entrada baixa de uma casa antiga, sob um lampiãozinho pendurado, a pingar, diante de uma escada de madeira.
Lá, ele tirou, com ares de importância, seu lenço do bolso, e disse, estendendo-o sobre um dos degraus:
– É melhor que o senhor se sente, aí poderá perguntar melhor, meu caro senhor. Eu ficarei em pé, assim conseguirei responder melhor. Mas, por favor, não me torture.
Então eu me sentei e disse, levantando os olhos aguçados para ele:
– O senhor é um louco que deu certo, isso é o que o senhor é! Como o senhor se comporta na igreja! Como isso é incômodo e desagradável para os que lá estão! Como alguém pode se mostrar devoto, se precisa ficar olhando para o senhor?
Ele havia pressionado seu corpo contra a parede, apenas a cabeça se movia com liberdade no ar:
– Não se incomode… Por que o senhor deveria se incomodar com coisas que não lhe dizem respeito? Eu me incomodo quando me comporto de modo desastroso; mas se é um outro que se comporta mal, eu apenas me alegro. Não se incomode, portanto, se eu digo que o objetivo da minha vida é ser olhado pelas pessoas.
– O que o senhor está dizendo aí – eu exclamei em voz demasiado alta para o corredor estreito, mas em seguida temi baixar a voz e continuei no mesmo tom. – De fato, o que o senhor está dizendo aí? Sim, já imagino muito bem, exatamente, já o imaginava muito bem desde que o vi pela primeira vez, em que estado o senhor está. Tenho experiência e não quero parecer doloroso quando digo que é como se fosse um enjoo marítimo em terra firme. A essência de sua doença está no fato de o senhor ter esquecido o nome verdadeiro das coisas e agora, em sua imensa pressa, apenas derrama sobre elas nomes casuais. Importa apenas ser rápido, ser rápido! Mas, mal o senhor fugiu dessas coisas, já esqueceu seus nomes de novo. O choupo nos campos, que o senhor chamou de “Torre de Babel”, pois o senhor não sabia ou não queria saber que era um choupo, se embala outra vez, sem nome, e o senhor precisa chamá-lo então de “Noé, quando estava bêbado”.
Fiquei um pouco consternado quando ele disse:
– Fico feliz com o fato de não ter entendido aquilo que o senhor diz. Irritado e sem perder tempo, eu disse:
– Ao se mostrar feliz com isso, o senhor apenas deixa claro que entendeu tudo.
– Na verdade, eu posso tê-lo mostrado, honorável senhor, mas também o senhor falou de modo estranho.
Deitei minhas mãos sobre um degrau mais acima, recostei-me um pouco e, nessa postura quase intocável, que é a última salvação dos lutadores no ringue, perguntei:
– O senhor tem um jeito divertido de se salvar, ao pressupor seu próprio estado no outro.
A isso ele se mostrou encorajado. Juntou as mãos para dar unidade a seu corpo e disse, demostrando uma leve resistência:
– Não, não faço isso contra todos, nem mesmo contra o senhor, por exemplo, porque não o consigo. Mas eu ficaria feliz se o conseguisse, pois nesse caso a atenção das pessoas na igreja não seria mais necessária para mim. O senhor sabe por que tenho necessidade dela?
Essa pergunta me deixou desamparado. É claro que eu não sabia, e acreditava, inclusive, que não queria saber. Eu também não quisera ir até ali, conforme dissera comigo mesmo já antes, mas o homem me obrigara a ouvi-lo. De modo que eu agora precisava apenas sacudir minha cabeça para lhe mostrar que não sabia, mas eu não conseguia botar minha cabeça em movimento.
O homem que se encontrava parado diante de mim sorria. Em seguida, ele se encolheu, caindo de joelhos, e contou, mostrando uma careta sonolenta:
– Jamais houve um tempo no qual eu estivesse convencido de minha vida apenas comigo mesmo. É que eu me ocupo das coisas somente em noções tão precárias que sempre acredito que as coisas em algum momento estiveram vivas, e agora apenas naufragaram. Sempre, meu caro senhor, sinto uma vontade de ver as coisas conforme gostaria de mostrá-las antes de elas se mostrarem para mim. Elas por certo se mostram belas e tranquilas assim. Tem de ser assim, pois com frequência ouço pessoas falarem delas desse modo.
– Uma vez que eu permanecia em silêncio, e apenas nas contrações involuntárias do meu rosto mostrava como me sentia desconfortável, ele disse:
– O senhor não acredita que as pessoas falam assim? Eu achava que deveria assentir, mas não consegui.
– Realmente, o senhor não acredita nisso. Mas ouça só. Quando, ainda criança, abri os olhos certo dia, depois de uma breve sesta, ouvi, ainda completamente tomado pelo sono, minha mãe perguntar da sacada em tom bem natural: “O que está fazendo, minha querida? Está tão quente.” Uma mulher respondeu do jardim: “Estou merendando em meio ao verde.” Elas o diziam sem pensar e de modo não muito nítido, como se todos tivessem de esperar por isso.
Achei que ele aguardava minha resposta, por isso botei a mão no bolso traseiro da minha calça e fiz de conta que procurava alguma coisa por lá. Mas eu não procurava nada, queria apenas mudar meu aspecto para demonstrar que participava da conversa. E nisso eu disse que aquele incidente era tão estranho e que eu de modo algum o compreendia. Ainda acrescentei que não acreditava na verdade dele, e que o incidente devia ter sido inventado com algum objetivo que eu agora não conseguia perceber qual era. Em seguida fechei os olhos, pois eles me doíam.
– Oh, mas é muito bom que o senhor seja da minha opinião, e foi desinteressadamente que o senhor me reteve para dizer isso a mim. Não é verdade, porque eu deveria me envergonhar – ou então, porque nós deveríamos nos envergonhar – com o fato de eu não andar empertigado e pesadamente, não bater a bengala sobre o piso e não tocar as roupas das pessoas que passam fazendo barulho. Por acaso eu não deveria, com muito mais razão, me queixar teimosamente que eu, na condição de sombra de ombros angulosos, salto ao longo das casas, por vezes desaparecendo atrás do vidro das vitrines? Que dias são esses que eu passo! Por que tudo é construído tão mal a ponto de prédios altos desabarem de quando em quando sem que para tanto se pudesse encontrar um motivo externo? Eu subo então pelos montes de entulho e pergunto a todos que encontro: “Como foi que isso pôde acontecer? Em nossa cidade – um prédio novo – hoje já é o quinto, imagine só.” E ninguém sabe o que me responder. Muitas vezes pessoas caem no meio da rua e ficam deitadas, mortas. Então todos os homens de negócios abrem suas portas cobertas de mercadorias, se aproximam, ágeis, arrastam o morto para dentro de casa, em seguida, voltam a sair, um sorriso nos lábios e nos olhos, e falam: “Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra.” Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. “Caro senhor”, digo amistosamente, “um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostrá-lo a mim?
Eu lhe imploro.” E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: “Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez.” “Um morto?”, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. “Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente.” Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: “Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vento volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo.”
Maltratado como eu estava, disse:
– Essa história que o senhor contou anteriormente, da senhora sua mãe e da senhora no jardim, eu nem sequer acho estranha. Não apenas porque já ouvi e vivenciei muitas histórias semelhantes, mas inclusive por ter participado de algumas delas. Isso, aliás, é uma coisa completamente natural. O senhor acha que, se eu estivesse na sacada, não poderia dizer a mesma coisa e poderia responder também a mesma coisa se estivesse no jardim? Uma coisa das mais simples.
Quando terminei de dizer isso, ele pareceu muito feliz. Disse que eu estava bem- vestido, e que minha gravata lhe agradava muito. Que pele delicada que eu teria, aliás… E confissões se tornavam tanto mais claras, segundo ele, quando eram negadas em seguida.
Franz Kafka
Prisão azul
Patas macias sobre folhas mortas. Ao atravessar num salto a janela aberta o tigre sabia muito bem que o lenhador tinha saído. O bebê de dois anos estava sentado no chão, brincando. Sozinho, sozinho. O tigre se aproximou cauteloso e quando a criança viu aquele cachorrão rajado abriu com espanto dois olhos azuis, dois lábios sorridentes, dois bracinhos. O tigre começou pelos braços. Depois devorou o resto da criança e tratou de voltar à floresta.
Suponha, agora, que esse tigre cresceu, deixou de comer criança e relembra um dia como havia devorado o filho do lenhador. Um sorriso estranho paira sobre sua cara, sorriso no qual seu orgulho tigrino só permite que se manifeste um tiquinho de remorso. O resto do sorriso é a pura lembrança da carne tenra da criança, é desprezo pelo lenhador estúpido que deixou a janela aberta — uma completa orgia de satisfação consigo mesmo.
Foi com um sorriso assim (e há sorrisos dificílimos de descrever) que o amigo do homem desaparecido se aproximou da janela do seu apartamento tendo na mão o livro que o desaparecido dedicara a ele: “Para você, meu grande amigo”. O amigo olhou lá fora o mar que ia além da praia de Copacabana e que flambava ao sol do meio-dia como uma poncheira acesa. Era quase um milagre a capacidade que tinha o Rio de dar às pessoas uma sensação de bem-estar, de saúde. O desaparecido também amava o Rio. Curioso como ele tinha desaparecido de forma tão absoluta. Evaporou-se. Soube-se depois da sua morte que ele passara os últimos dez anos de vida nas brenhas de Goiás. Ninguém sabia ao certo de que modo morrera. O manuscrito do livro tinha sido encontrado no meio das coisas dele, o manuscrito em cuja primeira página aparecia a dedicatória a ele, o amigo. O sorriso de tigre regenerado voltou à cara do homem que lembrava o amigo: “Para você, meu grande amigo”.
Antes de sumir, o desaparecido frequentemente ria de si mesmo. Diferenças de grau, só de grau. Diferenças de espécie são um absurdo. Mesmo quando muda, a espécie muda gradualmente, portanto é válido o princípio. Veja-se, como exemplo, a sensação que às vezes tomava conta dele em plena rua e que ele chamava de pedra de contato com a realidade: isso acontecia com todo o mundo. Só que com ele a frequência e a intensidade com que acontecia eram muito maiores. Parecia uma bolha a inchar, inchar e doer. Perguntara a uma porção de pessoas se acontecia com elas de repente, no meio da rua e em hora de movimento, começar subitamente a sentir a estupidez incompreensível de todo aquele ir e vir. Sim, acontecia. Mas ficavam todos surpreendidos e faziam cara de dúvida quando ele lhes perguntava se sentiam aquilo a ponto de parar no meio da multidão; de olhar um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo; de seguir alguém, para descobrir onde estava indo e para resolver o mistério de tanta pressa; de logo depois fazer o mesmo em relação a outra pessoa; de olhar angustiado aqueles arroios humanos que não corriam para nenhum mar comum e sim para lagoas isoladas, piscinas, poças d’água; de segurar com ambas as mãos a cabeça que doía e correr para o meio da rua sem pensar nos carros que passavam rápidos. Não, isso era um exagero e aliás dava para sentir, em todos aqueles que interrogava, que nem acreditavam que ele vivesse momentos assim. Eram pessoas que não acreditavam sequer em diferenças de grau.
— Deve ser sua imaginação, diziam com um sorriso, mas que é interessante não tem dúvida. Aliás, hoje em dia está até na moda uma certa morbidez, acrescentavam, sem saber que estavam usando uma arma muito antiga e possivelmente necessária.
A verdade pura e simples é que ele só fazia essas perguntas com a honesta intenção de obter uma resposta, de descobrir alguma coisa a respeito da pessoa com quem falava, ou, talvez mais ainda, sobre ele mesmo. Já lhe bastava, e muito, o quebra-cabeça representado por todos aqueles desconhecidos que ele tinha ímpetos de parar e interrogar sem mais nem menos no meio da rua.
Uma coisa, porém, o preocupava mais que qualquer outra na véspera do dia em que desapareceu. Aquela sensação que nas ruas apinhadas de gente acabava quase em angústia, pois envolvia estranhos, na sua própria vida íntima, privada, acabava em puro contentamento. Quando lhe aparecia um problema especial a resolver, ele o encarava corajosamente, sem evasões ou truques, pois sabia de antemão qual seria o resultado. Com método, pesando prós e contras, considerando todas as consequências, chegava à própria e nua raiz do problema… e então tudo se evolava, se desfazia no ar, e ele entrava num estado de puro e neutro prazer, um prazer branco, luminoso, para lá do pensamento. Como se fosse entrando com cautela mas com passo firme numa floresta densa na qual, chegado ele ao ponto mais escuro, todas as árvores ainda em volta tombassem ao mesmo tempo, no maior silêncio; e só permanecesse no mundo a luz ofuscante do sol. O que o preocupava na véspera do dia em que desapareceu é que ele tentava, mas ainda não haviam conseguido, concentrar todas as suas faculdades num problema sério.
Por que tão sério? Porque envolvia o amigo. Não por causa de minha mulher, continuou o homem que desapareceu, determinado agora a pensar seu problema até o fim. Para mim minha mulher é feito um sapato velho, cambaio. E meu amigo sabe muito bem disso, o que apenas torna a coisa toda mais incompreensível. Um tolo desejo de aventura? Nunca, jamais. Meu amigo sabe que eu não abandono minha mulher porque ninguém propriamente abandona um par de sapatos velhos. A gente simplesmente os esquece em algum canto. Ele me diria, se fosse o caso, que havia, que há alguma coisa entre os dois — e pronto.
— Usei aquele seu sapato velho outro dia, ele diria. Tudo bem. São inúmeros os caminhos abertos neste mundo mesmo para quem caminhe descalço. Que sentido haveria em criar um caso sobretudo quando eram tão velhos os sapatos? Não, ele está cansado de conhecer meus sentimentos e já teria me falado a respeito. Ou… Caso fosse verdade (o chato é que tanta gente dizia que era que ele se obrigava a pensar tanto sobre tal bagatela), só uma explicação era possível: meu amigo de fato se apaixonou por minha mulher e simplesmente não tem coragem de me dizer. E quem sabe por minha exclusiva culpa? Ela para mim tem tão escasso valor, e isso eu disse ao amigo tantas vezes, que lhe falta coragem para dizer que passou a amar uma pessoa tão depreciada. Sim, talvez fosse isso. E o homem prestes a desaparecer sorriu, meio envergonhado de pensar que estava, ainda que sem intenção, fazendo uso do amigo: seria de todo o cúmulo da amizade se o amigo pensasse em ficar definitiva e legalmente com minha mulher. Aqui se apagou no seu rosto o vago sorriso de até agora. Quem sabe, Deus meu? O amigo sabe como é grande meu amor por Maria Auxiliadora. Será que lhe ocorreu a idéia de se sacrificar por mim? Não, nem eu permitiria nem ele… Eu só quero Maria Auxiliadora como a tenho agora, mesmo porque a gente não se casa com uma mulher assim, a gente simplesmente aceita a luz e o calor, banho de sol no coração do inverno… Ela é quase a Luz! Aquela claridade. A floresta que se deita no chão. Era precisamente quando chegava ao ponto em que a floresta se tragava a si mesma que Johann Sebastian começava a passar a música para o papel, aquela música que se encerrava de repente de forma inesperada, mas que podia ter continuado para sempre, eterna, já que não tinha fim e ele apenas aparentava ou fingia ter chegado ao fim porque chegara isto sim ao fim do papel pautado e porque sabia que ninguém podia suportar sem enlouquecer o luzir permanente daquela Luz em música.
O homem que ia desaparecer perdeu-se nas profundezas do seu problema… Ao voltar a si passou o lenço na testa úmida. A inexistência de todos os problemas. O compromisso que tinha assumido que cuidasse de si mesmo. Ele ia, isto sim, ver Maria Auxiliadora. Tomou o ônibus e no caminho deixou-se invadir pelo salgado travo de onda e de alga que subia das praias de alva areia, a infinita, angustiada fieira de areia que é a única coisa a impedir que as montanhas azuis e o mar azul se dissolvam num único e irreparável azul. O ônibus beirou primeiro a praia de Santa Luzia, depois Flamengo, Botafogo, as vastas areias brancas de Copacabana, Ipanema, Leblon. Quando parou no fim da linha o homem que ia desaparecer saltou e foi andando para a pequena casa em que morava Maria Auxiliadora. Aproximou-se das tábuas brancas do portão, espantadas de vê-lo àquela hora do dia. E lá estava a fascinante casa branca, feito um brinquedo esquecido na grama. Entrou, atravessou o jardim e espiou pela janela da sala de estar. Não viu Maria Auxiliadora, que ainda estaria dormindo. Abriu a porta da frente e ia atravessar a sala, em direção ao quarto de dormir, quando ouviu vozes e riso que vinham de lá. Ia chamar Maria Auxiliadora em voz alta, alegre, mas se conteve e andou até a porta. Ouviu as únicas duas vozes que realmente conhecia bem. Pela única e última vez em sua vida curvou-se até o buraco da fechadura. As venezianas estavam cerradas. Só havia no quarto aquela luz baça e enjoativa na qual se escondem aqueles que preferem não encarar nem o amor. O homem que naquele momento já quase havia desaparecido ouviu a voz do amigo, seguida do riso de Maria Auxiliadora.
— Pois é. Quanto mais ele acha que há alguma coisa entre a mulher dele e eu, menos consegue adivinhar que…
O homem que desapareceu saiu da sala de estar pé ante pé, fechou sem ruído a porta, passou em silêncio pelo portão de tábuas brancas e se foi. Como um ladrão. E qualquer policial que o pegasse naquele momento teria a certeza, sem lhe fazer qualquer pergunta, que o ladrão tinha encontrado jóias, jóias do mais alto preço, que ninguém imaginaria pudessem estar guardadas numa casa tão pequena e simples.
Suponha, agora, que esse tigre cresceu, deixou de comer criança e relembra um dia como havia devorado o filho do lenhador. Um sorriso estranho paira sobre sua cara, sorriso no qual seu orgulho tigrino só permite que se manifeste um tiquinho de remorso. O resto do sorriso é a pura lembrança da carne tenra da criança, é desprezo pelo lenhador estúpido que deixou a janela aberta — uma completa orgia de satisfação consigo mesmo.
Foi com um sorriso assim (e há sorrisos dificílimos de descrever) que o amigo do homem desaparecido se aproximou da janela do seu apartamento tendo na mão o livro que o desaparecido dedicara a ele: “Para você, meu grande amigo”. O amigo olhou lá fora o mar que ia além da praia de Copacabana e que flambava ao sol do meio-dia como uma poncheira acesa. Era quase um milagre a capacidade que tinha o Rio de dar às pessoas uma sensação de bem-estar, de saúde. O desaparecido também amava o Rio. Curioso como ele tinha desaparecido de forma tão absoluta. Evaporou-se. Soube-se depois da sua morte que ele passara os últimos dez anos de vida nas brenhas de Goiás. Ninguém sabia ao certo de que modo morrera. O manuscrito do livro tinha sido encontrado no meio das coisas dele, o manuscrito em cuja primeira página aparecia a dedicatória a ele, o amigo. O sorriso de tigre regenerado voltou à cara do homem que lembrava o amigo: “Para você, meu grande amigo”.
Antes de sumir, o desaparecido frequentemente ria de si mesmo. Diferenças de grau, só de grau. Diferenças de espécie são um absurdo. Mesmo quando muda, a espécie muda gradualmente, portanto é válido o princípio. Veja-se, como exemplo, a sensação que às vezes tomava conta dele em plena rua e que ele chamava de pedra de contato com a realidade: isso acontecia com todo o mundo. Só que com ele a frequência e a intensidade com que acontecia eram muito maiores. Parecia uma bolha a inchar, inchar e doer. Perguntara a uma porção de pessoas se acontecia com elas de repente, no meio da rua e em hora de movimento, começar subitamente a sentir a estupidez incompreensível de todo aquele ir e vir. Sim, acontecia. Mas ficavam todos surpreendidos e faziam cara de dúvida quando ele lhes perguntava se sentiam aquilo a ponto de parar no meio da multidão; de olhar um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo; de seguir alguém, para descobrir onde estava indo e para resolver o mistério de tanta pressa; de logo depois fazer o mesmo em relação a outra pessoa; de olhar angustiado aqueles arroios humanos que não corriam para nenhum mar comum e sim para lagoas isoladas, piscinas, poças d’água; de segurar com ambas as mãos a cabeça que doía e correr para o meio da rua sem pensar nos carros que passavam rápidos. Não, isso era um exagero e aliás dava para sentir, em todos aqueles que interrogava, que nem acreditavam que ele vivesse momentos assim. Eram pessoas que não acreditavam sequer em diferenças de grau.
— Deve ser sua imaginação, diziam com um sorriso, mas que é interessante não tem dúvida. Aliás, hoje em dia está até na moda uma certa morbidez, acrescentavam, sem saber que estavam usando uma arma muito antiga e possivelmente necessária.
A verdade pura e simples é que ele só fazia essas perguntas com a honesta intenção de obter uma resposta, de descobrir alguma coisa a respeito da pessoa com quem falava, ou, talvez mais ainda, sobre ele mesmo. Já lhe bastava, e muito, o quebra-cabeça representado por todos aqueles desconhecidos que ele tinha ímpetos de parar e interrogar sem mais nem menos no meio da rua.
Uma coisa, porém, o preocupava mais que qualquer outra na véspera do dia em que desapareceu. Aquela sensação que nas ruas apinhadas de gente acabava quase em angústia, pois envolvia estranhos, na sua própria vida íntima, privada, acabava em puro contentamento. Quando lhe aparecia um problema especial a resolver, ele o encarava corajosamente, sem evasões ou truques, pois sabia de antemão qual seria o resultado. Com método, pesando prós e contras, considerando todas as consequências, chegava à própria e nua raiz do problema… e então tudo se evolava, se desfazia no ar, e ele entrava num estado de puro e neutro prazer, um prazer branco, luminoso, para lá do pensamento. Como se fosse entrando com cautela mas com passo firme numa floresta densa na qual, chegado ele ao ponto mais escuro, todas as árvores ainda em volta tombassem ao mesmo tempo, no maior silêncio; e só permanecesse no mundo a luz ofuscante do sol. O que o preocupava na véspera do dia em que desapareceu é que ele tentava, mas ainda não haviam conseguido, concentrar todas as suas faculdades num problema sério.
Por que tão sério? Porque envolvia o amigo. Não por causa de minha mulher, continuou o homem que desapareceu, determinado agora a pensar seu problema até o fim. Para mim minha mulher é feito um sapato velho, cambaio. E meu amigo sabe muito bem disso, o que apenas torna a coisa toda mais incompreensível. Um tolo desejo de aventura? Nunca, jamais. Meu amigo sabe que eu não abandono minha mulher porque ninguém propriamente abandona um par de sapatos velhos. A gente simplesmente os esquece em algum canto. Ele me diria, se fosse o caso, que havia, que há alguma coisa entre os dois — e pronto.
— Usei aquele seu sapato velho outro dia, ele diria. Tudo bem. São inúmeros os caminhos abertos neste mundo mesmo para quem caminhe descalço. Que sentido haveria em criar um caso sobretudo quando eram tão velhos os sapatos? Não, ele está cansado de conhecer meus sentimentos e já teria me falado a respeito. Ou… Caso fosse verdade (o chato é que tanta gente dizia que era que ele se obrigava a pensar tanto sobre tal bagatela), só uma explicação era possível: meu amigo de fato se apaixonou por minha mulher e simplesmente não tem coragem de me dizer. E quem sabe por minha exclusiva culpa? Ela para mim tem tão escasso valor, e isso eu disse ao amigo tantas vezes, que lhe falta coragem para dizer que passou a amar uma pessoa tão depreciada. Sim, talvez fosse isso. E o homem prestes a desaparecer sorriu, meio envergonhado de pensar que estava, ainda que sem intenção, fazendo uso do amigo: seria de todo o cúmulo da amizade se o amigo pensasse em ficar definitiva e legalmente com minha mulher. Aqui se apagou no seu rosto o vago sorriso de até agora. Quem sabe, Deus meu? O amigo sabe como é grande meu amor por Maria Auxiliadora. Será que lhe ocorreu a idéia de se sacrificar por mim? Não, nem eu permitiria nem ele… Eu só quero Maria Auxiliadora como a tenho agora, mesmo porque a gente não se casa com uma mulher assim, a gente simplesmente aceita a luz e o calor, banho de sol no coração do inverno… Ela é quase a Luz! Aquela claridade. A floresta que se deita no chão. Era precisamente quando chegava ao ponto em que a floresta se tragava a si mesma que Johann Sebastian começava a passar a música para o papel, aquela música que se encerrava de repente de forma inesperada, mas que podia ter continuado para sempre, eterna, já que não tinha fim e ele apenas aparentava ou fingia ter chegado ao fim porque chegara isto sim ao fim do papel pautado e porque sabia que ninguém podia suportar sem enlouquecer o luzir permanente daquela Luz em música.
O homem que ia desaparecer perdeu-se nas profundezas do seu problema… Ao voltar a si passou o lenço na testa úmida. A inexistência de todos os problemas. O compromisso que tinha assumido que cuidasse de si mesmo. Ele ia, isto sim, ver Maria Auxiliadora. Tomou o ônibus e no caminho deixou-se invadir pelo salgado travo de onda e de alga que subia das praias de alva areia, a infinita, angustiada fieira de areia que é a única coisa a impedir que as montanhas azuis e o mar azul se dissolvam num único e irreparável azul. O ônibus beirou primeiro a praia de Santa Luzia, depois Flamengo, Botafogo, as vastas areias brancas de Copacabana, Ipanema, Leblon. Quando parou no fim da linha o homem que ia desaparecer saltou e foi andando para a pequena casa em que morava Maria Auxiliadora. Aproximou-se das tábuas brancas do portão, espantadas de vê-lo àquela hora do dia. E lá estava a fascinante casa branca, feito um brinquedo esquecido na grama. Entrou, atravessou o jardim e espiou pela janela da sala de estar. Não viu Maria Auxiliadora, que ainda estaria dormindo. Abriu a porta da frente e ia atravessar a sala, em direção ao quarto de dormir, quando ouviu vozes e riso que vinham de lá. Ia chamar Maria Auxiliadora em voz alta, alegre, mas se conteve e andou até a porta. Ouviu as únicas duas vozes que realmente conhecia bem. Pela única e última vez em sua vida curvou-se até o buraco da fechadura. As venezianas estavam cerradas. Só havia no quarto aquela luz baça e enjoativa na qual se escondem aqueles que preferem não encarar nem o amor. O homem que naquele momento já quase havia desaparecido ouviu a voz do amigo, seguida do riso de Maria Auxiliadora.
— Pois é. Quanto mais ele acha que há alguma coisa entre a mulher dele e eu, menos consegue adivinhar que…
O homem que desapareceu saiu da sala de estar pé ante pé, fechou sem ruído a porta, passou em silêncio pelo portão de tábuas brancas e se foi. Como um ladrão. E qualquer policial que o pegasse naquele momento teria a certeza, sem lhe fazer qualquer pergunta, que o ladrão tinha encontrado jóias, jóias do mais alto preço, que ninguém imaginaria pudessem estar guardadas numa casa tão pequena e simples.
Antonio Callado
Um cão, apenas
Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim — plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito —, eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. E um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pelo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas. Com um grande esforço, acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem...
Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento... Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.
Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens.
Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.
Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.
Cecília Meireles. "Ilusões do mundo"
Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento... Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.
Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens.
Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.
Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.
Cecília Meireles. "Ilusões do mundo"
terça-feira, junho 2
Minha aldeia
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.
Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.
Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.
Antonio Gedeão
Do mínimo e do escondido
11 de novembro
Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto. Daí vem que, enquanto o telégrafo nos dava notícia tão graves como a taxa francesa sobre a falta de filhos e o suicídio do chefe de polícia paraguaio, coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam.
Não nego que o imposto sobre a falta de filhos e o celibato podia dar de si uma página luminosa, sem aliás tocar na estatística. Só a parte cívica. Só a parte moral. Dava para elogio e para descompostura. A grandeza da pátria, da indústria e dos exércitos faria o elogio. O regímen de opressão inspirava a descompostura, visto que obriga casar para não pagar a taxa; casado, obriga a fazer filhos, para não pagar a taxa; feitos os filhos, obriga a criá-los e educá-los, com o que afinal se paga uma grande taxa. Tudo taxas. Quanto ao suicídio do chefe de polícia, são palavras tão contrárias umas as outras que não há crer nelas. Um chefe de polícia exerce funções essencialmente vitais e alheias à melancolia e ao desespero. Antes de se demitir da vida, era natural demitir-se do cargo, e o segundo decreto bastaria acaso para evitar o primeiro.
Deixei taxas e mortes e fui à casa de um leiloeiro, que ia vender objetos empenhados e não resgatados. Permitam-me um trocadilho. Fui ver o martelo bater no prego. Não é lá muito engraçado, mas é natural, exato e evangélico. Está autorizado por Jesus Cristo: Tu es Petrus, etc. Mal comparando, o meu ainda é melhor. O da Escritura está um pouco forçado, ao passo que o meu, ― o martelo batendo no prego, ― é tão natural que nem se concebe dizer de outro modo. Portanto, edificarei a crônica sobre aquele prego, no som daquele martelo.
Havia lá broches, relógios, pulseiras, anéis, botões, o repertório do costume. Havia também um livro de missa, elegante e escrupulosamente dito para missa, a fim de evitar confusão de sentido. Valha-me Deus! até nos leilões persegue-nos a gramática. Era de tartaruga, guarnecido de prata. Quer dizer que, além do valor espiritual, tinha aquele que propriamente o levou ao prego. Foi uma mulher que recorreu a esse modo de obter dinheiro. Abriu mão da salvação da alma, para salvar o corpo, a menos que não tivesse decorado as orações antes de vender o manual delas. Pobre desconhecida! Mas também (e é aqui que eu vejo o dedo de Deus), mas também quem é que lhe mandou comprar um livro de tartaruga com ornamentações de prata? Deus não pede tanto; bastava uma encadernação simples e forte, que durasse, e feia para não tentar a ninguém. Deus veria a beleza dela.
Mas vamos ao que me põe a pena na mão; deixemos o livro e os artigos do costume. Os leilões desta espécie são de uma monotonia desesperadora. Não saem de cinco ou seis artigos. Raro virá um binóculo. Neste apareceu um, e um despertador também, que servia a acordar o dono para o trabalho. Houve mais uns cinco ou seis chapéus-de-sol, sem indicação do cabo… Deus meu! Quanto teriam recebido os donos por eles, além de algum magro tostão? Ríamos da miséria. É um derivativo e uma compensação. Eu, se fosse ela, preferia fazer rir a fazer chorar.
O lote inesperado, o lote escondido, um dos últimos do catálogo, perto dos chapéus-de-sol, que vieram no fim, foi uma espada. Uma espada, senhores, sem outra indicação; não fala dos copos, nem se eram de ouro. É que era uma espada pobre. Não obstante, quem diabo a teria ido pendurar do prego? Que se pendurem chapéus-de-sol, um despertador, um binóculo, um livro de missa ou para missa, vá. O sol mata os micróbios, a gente acorda sem máquina, não é urgente chamar a vista as pessoas dos outros camarotes, e afinal o coração também é livro de missa. Mas uma espada!
Há dois tempos na vida de uma espada, o presente e o passado. Em nenhum deles se compreende que ela fosse parar ao prego. Como iria lá ter uma espada que pode ser a cada instante intimada a comparecer ao serviço? Não é mister que haja guerra; uma parada, uma revista, um passeio, um exercício, uma comissão, a simples apresentação ao ministro da guerra basta para que a espada se ponha a cinta e se desnude, se for caso disso. Eventualmente, pode ser útil em defender a vida ao dono. Também pode servir para que este se mate, como Bruto.
Quanto ao passado, posto que em tal hipótese a espada não tenha já préstimos, é certo que tem valor histórico. Pode ter sido empregada na destruição do despotismo Rosas ou López, ou na repressão da revolta, ou na guerra de Canudos, ou talvez na fundação da República, em que não houve sangue, é verdade, mas a sua presença terá bastado para evitar conflitos.
As crônicas antigas contam de barões e cavaleiros já velhos, alguns cegos, que mandavam vir a espada para mirá-la, ou só apalpá-la, quando queriam recordar as ações de glória, e guardá-la outra vez. Não ignoro que tais heróis tinham castelo e cozinha, e o triste reformado que levou esta outra espada ao prego pode não ter cozinha nem teto. Perfeitamente. Mas ainda assim é impossível que a alma dele não padecesse ao separar-se da espada.
Antes de a empenhar, devia ir ter a alguém que lhe desse um prato de sopa. “Cidadão, estou sem comer há dois dias e tenho de pagar a conta da botica, que não quisera desfazer-me desta espada, que batalhou pela glória e pela liberdade…” É impossível que acabasse o discurso. O boticário perdoaria a conta, e duas ou três mãos se lhe meteriam pelas algibeiras dentro, com fins honestos. E o triste reformado iria alegremente pendurar a espada de outro prego, o prego da memória e da saudade.
©Gustavo Aimar
Catei, catei, catei, sem dar por explicação que bastasse. Mas eu já disse que é faculdade minha entrar por explicações miúdas. Vi casualmente uma estatística de São Paulo, os imigrantes do ano passado, e achei milhares de pessoas desembarcadas em Santos ou idas daqui pela Estrada de Ferro Central. A gente italiana era a mais numerosa. Vinha depois a espanhola, a inglesa, a francesa, a portuguesa, a alemã, a própria turca, uns quarenta e cinco turcos. Enfim, um grego. Bateu-me o coração, e eu disse comigo; o grego é que levou a espada ao prego.
E aqui vão as razões da suspeita ou descoberta. Antes de mais nada, sendo o grego não era nenhum brasileiro, ― ou nacional, como dizem as notícias da polícia. Já me ficava essa dor de menos. Depois, o grego era um, e eu corria menor risco do que supondo algum das outras colônias, que podiam vir acima de mim, em desforço do patrício. Em terceiro lugar, o grego é o mais pobre dos imigrantes. Lá mesmo na terra é paupérrimo. Em quarto lugar, talvez fosse também poeta, e podia ficar-lhe assim uma canção pronta, com estribilho:
Eu cá sou grego,
Levei a minha espada ao prego.
Finalmente, não lhe custaria empenhar a espada, que talvez fosse turca. About refere de um general, Hadji-Petros, governador de Lâmia, que se deixou levar dos encantos de uma moça fácil de Atenas, e foi demitido do cargo. Logo requereu à rainha pedindo a reintegração: “Digo a Vossa Majestade pela minha honra de soldado que, se eu sou amante dessa mulher, não é por paixão, é por interesse; ela é rica, eu sou pobre, e tenho filhos, tenho uma posição na sociedade, etc.” Vê-se que empenhar a espada é costume grego e velho.
Agora que vou acabar a crônica, ocorre-me se a espada do leilão não será acaso alguma espada de teatro, empenhada pelo contra-regra, a quem a empresa não tivesse pago os ordenados. O pobre-diabo recorreu a esse meio para almoçar um dia. Se tal foi, façam de conta que não escrevi nada, e vão almoçar também, que é tempo.
Machado de Assis, "Todas as crônicas – vol. 3"
Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto. Daí vem que, enquanto o telégrafo nos dava notícia tão graves como a taxa francesa sobre a falta de filhos e o suicídio do chefe de polícia paraguaio, coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam.
Não nego que o imposto sobre a falta de filhos e o celibato podia dar de si uma página luminosa, sem aliás tocar na estatística. Só a parte cívica. Só a parte moral. Dava para elogio e para descompostura. A grandeza da pátria, da indústria e dos exércitos faria o elogio. O regímen de opressão inspirava a descompostura, visto que obriga casar para não pagar a taxa; casado, obriga a fazer filhos, para não pagar a taxa; feitos os filhos, obriga a criá-los e educá-los, com o que afinal se paga uma grande taxa. Tudo taxas. Quanto ao suicídio do chefe de polícia, são palavras tão contrárias umas as outras que não há crer nelas. Um chefe de polícia exerce funções essencialmente vitais e alheias à melancolia e ao desespero. Antes de se demitir da vida, era natural demitir-se do cargo, e o segundo decreto bastaria acaso para evitar o primeiro.
Deixei taxas e mortes e fui à casa de um leiloeiro, que ia vender objetos empenhados e não resgatados. Permitam-me um trocadilho. Fui ver o martelo bater no prego. Não é lá muito engraçado, mas é natural, exato e evangélico. Está autorizado por Jesus Cristo: Tu es Petrus, etc. Mal comparando, o meu ainda é melhor. O da Escritura está um pouco forçado, ao passo que o meu, ― o martelo batendo no prego, ― é tão natural que nem se concebe dizer de outro modo. Portanto, edificarei a crônica sobre aquele prego, no som daquele martelo.
Havia lá broches, relógios, pulseiras, anéis, botões, o repertório do costume. Havia também um livro de missa, elegante e escrupulosamente dito para missa, a fim de evitar confusão de sentido. Valha-me Deus! até nos leilões persegue-nos a gramática. Era de tartaruga, guarnecido de prata. Quer dizer que, além do valor espiritual, tinha aquele que propriamente o levou ao prego. Foi uma mulher que recorreu a esse modo de obter dinheiro. Abriu mão da salvação da alma, para salvar o corpo, a menos que não tivesse decorado as orações antes de vender o manual delas. Pobre desconhecida! Mas também (e é aqui que eu vejo o dedo de Deus), mas também quem é que lhe mandou comprar um livro de tartaruga com ornamentações de prata? Deus não pede tanto; bastava uma encadernação simples e forte, que durasse, e feia para não tentar a ninguém. Deus veria a beleza dela.
Mas vamos ao que me põe a pena na mão; deixemos o livro e os artigos do costume. Os leilões desta espécie são de uma monotonia desesperadora. Não saem de cinco ou seis artigos. Raro virá um binóculo. Neste apareceu um, e um despertador também, que servia a acordar o dono para o trabalho. Houve mais uns cinco ou seis chapéus-de-sol, sem indicação do cabo… Deus meu! Quanto teriam recebido os donos por eles, além de algum magro tostão? Ríamos da miséria. É um derivativo e uma compensação. Eu, se fosse ela, preferia fazer rir a fazer chorar.
O lote inesperado, o lote escondido, um dos últimos do catálogo, perto dos chapéus-de-sol, que vieram no fim, foi uma espada. Uma espada, senhores, sem outra indicação; não fala dos copos, nem se eram de ouro. É que era uma espada pobre. Não obstante, quem diabo a teria ido pendurar do prego? Que se pendurem chapéus-de-sol, um despertador, um binóculo, um livro de missa ou para missa, vá. O sol mata os micróbios, a gente acorda sem máquina, não é urgente chamar a vista as pessoas dos outros camarotes, e afinal o coração também é livro de missa. Mas uma espada!
Há dois tempos na vida de uma espada, o presente e o passado. Em nenhum deles se compreende que ela fosse parar ao prego. Como iria lá ter uma espada que pode ser a cada instante intimada a comparecer ao serviço? Não é mister que haja guerra; uma parada, uma revista, um passeio, um exercício, uma comissão, a simples apresentação ao ministro da guerra basta para que a espada se ponha a cinta e se desnude, se for caso disso. Eventualmente, pode ser útil em defender a vida ao dono. Também pode servir para que este se mate, como Bruto.
Quanto ao passado, posto que em tal hipótese a espada não tenha já préstimos, é certo que tem valor histórico. Pode ter sido empregada na destruição do despotismo Rosas ou López, ou na repressão da revolta, ou na guerra de Canudos, ou talvez na fundação da República, em que não houve sangue, é verdade, mas a sua presença terá bastado para evitar conflitos.
As crônicas antigas contam de barões e cavaleiros já velhos, alguns cegos, que mandavam vir a espada para mirá-la, ou só apalpá-la, quando queriam recordar as ações de glória, e guardá-la outra vez. Não ignoro que tais heróis tinham castelo e cozinha, e o triste reformado que levou esta outra espada ao prego pode não ter cozinha nem teto. Perfeitamente. Mas ainda assim é impossível que a alma dele não padecesse ao separar-se da espada.
Antes de a empenhar, devia ir ter a alguém que lhe desse um prato de sopa. “Cidadão, estou sem comer há dois dias e tenho de pagar a conta da botica, que não quisera desfazer-me desta espada, que batalhou pela glória e pela liberdade…” É impossível que acabasse o discurso. O boticário perdoaria a conta, e duas ou três mãos se lhe meteriam pelas algibeiras dentro, com fins honestos. E o triste reformado iria alegremente pendurar a espada de outro prego, o prego da memória e da saudade.
©Gustavo AimarCatei, catei, catei, sem dar por explicação que bastasse. Mas eu já disse que é faculdade minha entrar por explicações miúdas. Vi casualmente uma estatística de São Paulo, os imigrantes do ano passado, e achei milhares de pessoas desembarcadas em Santos ou idas daqui pela Estrada de Ferro Central. A gente italiana era a mais numerosa. Vinha depois a espanhola, a inglesa, a francesa, a portuguesa, a alemã, a própria turca, uns quarenta e cinco turcos. Enfim, um grego. Bateu-me o coração, e eu disse comigo; o grego é que levou a espada ao prego.
E aqui vão as razões da suspeita ou descoberta. Antes de mais nada, sendo o grego não era nenhum brasileiro, ― ou nacional, como dizem as notícias da polícia. Já me ficava essa dor de menos. Depois, o grego era um, e eu corria menor risco do que supondo algum das outras colônias, que podiam vir acima de mim, em desforço do patrício. Em terceiro lugar, o grego é o mais pobre dos imigrantes. Lá mesmo na terra é paupérrimo. Em quarto lugar, talvez fosse também poeta, e podia ficar-lhe assim uma canção pronta, com estribilho:
Eu cá sou grego,
Levei a minha espada ao prego.
Finalmente, não lhe custaria empenhar a espada, que talvez fosse turca. About refere de um general, Hadji-Petros, governador de Lâmia, que se deixou levar dos encantos de uma moça fácil de Atenas, e foi demitido do cargo. Logo requereu à rainha pedindo a reintegração: “Digo a Vossa Majestade pela minha honra de soldado que, se eu sou amante dessa mulher, não é por paixão, é por interesse; ela é rica, eu sou pobre, e tenho filhos, tenho uma posição na sociedade, etc.” Vê-se que empenhar a espada é costume grego e velho.
Agora que vou acabar a crônica, ocorre-me se a espada do leilão não será acaso alguma espada de teatro, empenhada pelo contra-regra, a quem a empresa não tivesse pago os ordenados. O pobre-diabo recorreu a esse meio para almoçar um dia. Se tal foi, façam de conta que não escrevi nada, e vão almoçar também, que é tempo.
Machado de Assis, "Todas as crônicas – vol. 3"
O menino
Sentou-se num tamborete, fincou os cotovelos nos joelhos, apoiou o queixo nas mãos e ficou olhando para a mãe. Agora ela escovava os cabelos muito louros e curtos, puxando-os para trás. E os anéis se estendiam molemente para em seguida voltarem à posição anterior, formando uma coroa de caracóis sobre a testa. Deixou a escova, apanhou um frasco de perfume, molhou as pontas dos dedos, passou-os nos lóbulos das orelhas, no vértice do decote e em seguida umedeceu um lencinho de rendas. Através do espelho, olhou para o menino. Ele sorriu também, era linda, linda, linda! Em todo o bairro não havia uma moça linda assim.
– Quantos anos você tem, mamãe?
– Ah, que pergunta! Acho que trinta ou trinta e um, por aí, meu amor, por aí. Quer se perfumar também?
– Homem não bota perfume.
– Homem, homem! – Ela inclinou-se para beijá-lo.
– Você é um nenenzinho, ouviu bem? É o meu nenenzinho.
O menino afundou a cabeça no colo perfumado. Quando não havia ninguém olhando, achava maravilhoso ser afagado como uma criancinha. Mas era preciso mesmo que não houvesse ninguém por perto.
Agora vamos que a sessão começa às oito – avisou ela, retocando apressadamente os lábios.
O menino deu um grito, montou no corrimão da escada e foi esperá-la embaixo. Da porta, ouviu-a dizer à empregada que avisasse ao doutor que tinham ido ao cinema.
Na rua, ele andava pisando forte, o queixo erguido, os olhos acesos. Tão bom sair de mãos dadas com a mãe. Melhor ainda quando o pai não ia junto porque assim ficava sendo o cavalheiro dela. Quando crescesse haveria de se casar com uma moça igual. Anita não servia que Anita era sardenta. Nem Maria Inês com aqueles dentes saltados. Tinha que ser igualzinha à mãe.
– Você acha a Maria Inês bonita, mamãe?
– É bonitinha, sim.
– Ah! tem dentão de elefante.
E o menino chutou um pedregulho. Não, tinha que ser assim como a mãe, igualzinha à mãe. E com aquele perfume.
– Como é o nome do seu perfume?
– Vent Vert. Por que, filho? Você acha bom?
– Que é que quer dizer isso?
– Vento Verde.
Vento verde, vento verde. Era bonito, mas existia vento verde?
Vento não tinha cor, só cheiro. Riu.
– Posso te contar uma anedota, mãe? Posso?
– Se for anedota limpa, pode.
– Não é limpa não.
– Então não quero saber.
– Mas por quê, pô!?
– Eu já disse que não quero que você diga pô.
Ele chutou uma caixa de fósforos. Pisou-a em seguida.
– Olha, mãe, a casa do Júlio…
Júlio conversava com alguns colegas no portão. O menino fez questão de cumprimentá-los em voz alta para que todos se voltassem eficassem assim mudos, olhando. Vejam, esta é minha mãe! – teve vontade de gritar-lhes. Nenhum de vocês tem uma mãe linda assim! E lembrou deliciado que a mãe de Júlio era grandalhona e sem graça, sempre de chinelo e consertando meia. Júlio devia estar agora roxo de inveja.
– Ele é bom aluno? Esse Júlio.
– Que nem eu.
– Então não é.
O menino deu uma risadinha.
– Que fita a gente vai ver?
– Não sei, meu bem.
– Você não viu no jornal? Se for fita de amor, não quero! Você não viu no jornal, hein, mamãe?
Ela não respondeu. Andava agora tão rapidamente que às vezes o menino precisava andar aos pulos para acompanhá-la. Quando chegaram à porta do cinema, ele arfava. Mas tinha no rosto uma vermelhidão feliz.
A sala de espera estava vazia. Ela comprou os ingressos e em seguida, como se tivesse perdido toda a pressa, ficou tranqüilamente encostada auma coluna, lendo o programa. O menino deu-lhe um puxão na saia.
– Mãe, mas o que é que você está fazendo?! A sessão já começou, já entrou todo mundo, pô!
Ela inclinou-se para ele. Falou num tom muito suave, mas os lábios se apertavam comprimindo as palavras e os olhos tinham aquela expressão que o menino conhecia muito bem, nunca se exaltava, nunca elevava a voz. Mas ele sabia que quando ela falava assim, nem súplicas nem lágrimas conseguiam fazê-la voltar atrás.
– Sei que já começou mas não vamos entrar agora, ouviu? Não vamos entrar agora, espera.
O menino enfiou as mãos nos bolsos e enterrou o queixo no peito. Lançou à mãe um olhar sombrio. Por que é que não entravam logo? Tinham corrido feito dois loucos e agora aquela calma, espera. Esperar o que, pô?!…
– É que a gente já está atrasado, mãe.
– Vá ali no balcão comprar chocolate – ordenou ela entregando-lhe uma nota nervosamente amarfanhada.
Ele atravessou a sala num andar arrastado, chutando as pontas de cigarro pela frente. Ora, chocolate. Quem é que quer chocolate? E se o enredo fosse de crime, quem é que ia entender chegando assim começado? Sem nenhum entusiasmo, pediu um tablete de chocolate. Vacilou um instante e pediu em seguida um tubo de drágeas de limão e um pacote de caramelos de leite, pronto, também gastava à beça. Recebeu o troco de cara fechada. Ouviu então os passos apressados da mãe que lhe estendeu a mão com impaciência:
– Vamos, meu bem, vamos entrar.
Num salto, o menino pôs-se ao lado dela. Apertou-lhe a mão freneticamente.
– Depressa que a fita já começou, não está ouvindo a música? Na escuridão, ficaram um instante parados, envolvidos por um grupo de pessoas, algumas entrando, outras saindo. Foi quando ela resolveu.
– Venha vindo atrás de mim.
Os olhos do menino devassavam a penumbra. Apontou para duas poltronas vazias.
– Lá, mãezinha, lá tem duas, vamos lá!
Ela olhava para um lado, para outro e não se decidia.
– Mãe, aqui tem mais duas, está vendo? Aqui não está bom? insistiu ele, puxando-a pelo braço. E olhava aflito para a tela e olhava de novo para as poltronas vazias que apareciam aqui e ali como coágulos de sombra. – Lá tem mais duas, está vendo?Ela adiantou-se até as primeiras filas e voltou em seguida até o meio do corredor. Vacilou ainda um momento. E decidiu-se. Impeliu-o suave, mas resolutamente.
– Entre aí.
– Licença? Licença?… – ele foi pedindo. Sentou-se na primeira poltrona desocupada que encontrou, ao lado de uma outra
desocupada também.
– Aqui, não é, mãe?
– Não, meu bem, ali adiante – murmurou ela, fazendo-o levantar-se. Indicou os três lugares vagos quase no fim da fileira. Lá é melhor.
Ele resmungou, pediu licença, licença, e deixou-se cair pesadamente no primeiro dos três lugares. Ela sentou-se em seguida.
– Ih, é fita de amor, pô!
– Quieto, sim?
O menino pôs-se na beirada da poltrona. Esticou o pescoço, olhou para a direita, para a esquerda, remexeu-se.
– Essa bruta cabeçona aí na frente!
– Quieto, já disse.
– Mas é que não estou enxergando direito, mãe! Troca comigo que não estou enxergando!
Ela apertou-lhe o braço. Esse gesto ele conhecia bem e significava apenas: não insista!
– Mas, mãe…
Inclinando-se até ele, ela falou-lhe baixinho, naquele tom perigoso, meio entre os dentes e que era usado quando estava no auge, um tom tão macio que quem a ouvisse julgaria que ela lhe fazia um elogio. Mas só ele sabia o que havia debaixo daquela maciez.
– Não quero que mude de lugar, está me escutando? Não quero. E não insista mais.
Contendo-se para não dar um forte pontapé na poltrona da frente, ele enrolou o pulôver como uma bola e sentou-se em cima. Gemeu. Mas por que aquilo tudo? Por que a mãe lhe falava daquele jeito, por quê? Não fizera nada de mal, só queria mudar de lugar, só isso… Não, desta vez ela não estava sendo nem um pouquinho camarada. Voltou-se então para lembrar- lhe que estava chegando muita gente, se não mudasse de lugar imediatamente, depois não poderia mais porque aquele era o último lugar vago que restava; Olha aí, mamãe, acho que aquele homem vem pra cá! Veio. Veio e sentou-se na poltrona vazia ao lado dela.
O menino gemeu, Ai! meu Deus… Pronto. Agora é que não restava mesmo nenhuma esperança. E aqueles dois enjoados lá na fita numa conversa comprida que não acabava mais, ela vestida de enfermeira, ele de soldado, mas por que o tipo não ia pra guerra, pô!… E a cabeçona da mulher na sua frente indo e vindo para a esquerda, para a direita, os cabelos armados a flutuarem na tela como teias monstruosas de uma aranha. Um punhado de fios formava um frouxo topete que chegava até o queixo da artista. O menino deu uma gargalhada.
– Mãe, daqui eu vejo a mocinha de cavanhaque.
– Não faça assim, filho, a fita é triste… Olha, presta atenção, agora ele vai ter que fugir com outro nome… O padre vai arrumar o passaporte.
– Mas por que ele não vai pra guerra duma vez?
– Porque ele é contra a guerra, filho, ele não quer matar ninguém – sussurrou-lhe a mãe num tom meigo. Devia estar sorrindo e ele sorriu também,
ah! que bom, a mãe não estava mais nervosa, não estava mais nervosa. As coisas começavam a melhorar e para maior alegria, a mulher da poltrona da frente levantou-se e saiu. Diante dos seus olhos apareceu o retângulo inteiro da tela.
– Agora sim! – disse baixinho, desembrulhando o tablete de chocolate. Meteu-o inteiro na boca e tirou os caramelos do bolso para oferecê-los à mãe. Então viu: a mão pequena e branca, muito branca, deslizou pelo braço da poltrona e pousou devagarinho nos joelhos do homem que acabara de chegar.
O menino continuou olhando, imóvel. Pasmado. Por que a mãe fazia aquilo?! Por que a mãe fazia aquilo?!… Ficou olhando sem nenhum pensamento, sem nenhum gesto.
Foi então que as mãos grandes e morenas do homem tomaram avidamente a mão pequena e branca. Apertaram-na com tanta força que pareciam querer esmagá-la.
O menino estremeceu. Sentiu o coração bater descompassado, bater como só batera naquele dia na fazenda quando teve de correr como louco, perseguido de perto por um touro. O susto ressecou-lhe a boca. O chocolate foi-se transformando numa massa viscosa e amarga. Engoliu-o com esforço, como se fosse uma bola de papel. Redondos e estáticos, os olhos cravaram-se na tela. Moviam-se as imagens sem sentido num sonho fragmentado. Os letreiros dançavam e se fundiam pesadamente, como chumbo derretido. Mas o menino continuava imóvel, olhando obstinadamente.
Um bar esfumaçado, brigas, a fuga do moço de capa perseguido pela sereia da polícia, mais brigas numa esquina, tiros. A mão pequena e branca a deslizar no escuro como um bicho. Torturas e gritos nos corredores paralelos da prisão, os homens agarrando as portas de grade, mais conspirações. Mais homens. A mão pequena e branca. A fuga, os faróis na noite, os gritos, mais tiros, tiros. O carro derrapando sem freios. Tiros.
Espantosamente nítido em meio do fervilhar de sons e falas – e ele não queria, não queria ouvir! – o ciciar delicado dos dois num diálogo entre os dentes.
Antes de terminar a sessão – mas isso não acaba mais, não acaba? -, ele sentiu, mais do que sentiu, adivinhou a mão pequena e branca desprender-se das mãos morenas. E do mesmo modo manso como avançara, recuar deslizando pela poltrona e voltar a se unir à mão que ficara descansando no regaço. Ali ficaram entrelaçadas e quietas como estiveram antes..
– Está gostando, meu bem? – perguntou ela inclinando-se para o menino.
Ele fez que sim com a cabeça, os olhos duramente fixos na cena final. Abriu a boca quando o moço também abriu a sua para beijar a enfermeira.
Apertou os olhos enquanto durou o beijo. Então o homem levantou-se embuçado na mesma escuridão em que chegara o menino retesou-se, os maxilares contraídos, trêmulo. Fechou os punhos. Eu pulo no pescoço dele, eu esgano ele!
O olhar desvairado estava agora nas espáduas largas interceptando a tela como um muro negro. Por um brevíssimo instante ficaram paradas em sua frente. Próximas, tão próximas. Sentiu a perna musculosa do homem roçar no seu joelho, esgueirando-se rápida. Aquele contato foi como ponta de um alfinete num balão de ar. O menino foi-se descontraindo. Encolheu-se murcho no fundo da poltrona e pendeu a cabeça para o peito.
Quando as luzes se acenderam, teve um olhar para a poltrona vazia. Olhou para a mãe. Ela sorria com aquela mesma expressão que tivera diante do espelho, enquanto se perfumava. Estava corada, brilhante.
– Vamos, filhote?
Estremeceu quando a mão dela pousou no seu ombro. Sentiu­ lhe o perfume. E voltou depressa a cabeça para o outro lado, a cara pálida, a boca apertada como se fosse cuspir. Engoliu penosamente. De assalto, a mão dela agarrou a sua. Sentiu-a quente, macia. Endureceu as pontas dos dedos, retesado, queria cravar as unhas naquela carne.
– Ah, não quer mais andar de mãos dadas comigo?
Ele inclinara-se, demorando mais do que o necessário para dobrar a barra da calça rancheira.
– É que não sou mais criança.
– Ah, o nenenzinho cresceu? Cresceu? – Ela riu baixinho. Beijou-lhe o rosto. – Não anda mais de mão dada?
O menino esfregou as pontas dos dedos na umidade dos beijos no queixo, na orelha. Limpou as marcas com a mesma expressão com que limpava as mãos nos fundilhos da calça quando cortava as minhocas para o anzol.
Na caminhada de volta, ela falou sem parar, comentando excitada o enredo do filme. Explicando. Ele respondia por monossílabos.
– Mas que é que você tem, filho? Ficou mudo…
– Está me doendo o dente.
– Outra vez? Quer dizer que fugiu do dentista? Você tinha hora ontem, não tinha?
– Ele botou uma massa. Está doendo – murmurou inclinando-se para apanhar uma folha seca. Triturou-a no fundo do bolso. E respirou abrindoa boca.
– Como dói, pô.
– Assim que chegarmos você toma uma aspirina. Mas não diga, por favor, essa palavrinha que detesto.
– Não digo mais.
Diante da casa de Júlio, instintivamente ele retardou o passo. Teve um olhar para a janela acesa. Vislumbrou uma sombra disforme passar através da cortina.
– Dona Margarida.
– Hum?
– A mãe do Júlio.
Quando entraram na sala, o pai estava sentado na cadeira de balanço, lendo o jornal. Como todas as noites, como todas as noites. O menino estacou na porta. A certeza de que alguma coisa terrível ia acontecer paralisou-o atônito, obumbrado. O olhar em pânico procurou as mãos do pai.
– Então, meu amor, lendo o seu jornalzinho? – perguntou ela, beijando o homem na face. – Mas a luz não está muito fraca?
– A lâmpada maior queimou, liguei essa por enquanto – disse ele, tomando a mão da mulher. Beijou-a demoradamente. Tudo bem?
– Tudo bem.
O menino mordeu o lábio até sentir gosto de sangue na boca.
Como nas outras noites, igual. Igual.
– Então, filho? Gostou da fita? – perguntou o pai dobrando o jornal. Estendeu a mão ao menino e com a outra começou a acariciar o braço nu da mulher. – Pela sua cara, desconfio que não.
– Gostei, sim.
– Ah, confessa, filhote, você detestou, não foi? – contestou ela. – Nem eu entendi direito, uma complicação dos diabos, espionagem, guerra, máfia… Você não podia ter entendido.
– Entendi. Entendi tudo – ele quis gritar e a voz saiu num sopro tão débil que só ele ouviu.
– E ainda com dor de dente! – acrescentou ela desprendendo-se do homem e subindo a escada. Ah, já ia esquecendo a aspirina.
O menino voltou para a escada os olhos cheios de lágrimas.
– Que é isso? – estranhou o pai. – Parece até que você viu assombração. Que foi?
O menino encarou-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados. O rosto feio e bom.
– Pai… – murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: – Pai…
– Mas meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!
– Nada. Nada.
Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço.
Lygia Fagundes Telles
– Quantos anos você tem, mamãe?
– Ah, que pergunta! Acho que trinta ou trinta e um, por aí, meu amor, por aí. Quer se perfumar também?
– Homem não bota perfume.
– Homem, homem! – Ela inclinou-se para beijá-lo.
– Você é um nenenzinho, ouviu bem? É o meu nenenzinho.
O menino afundou a cabeça no colo perfumado. Quando não havia ninguém olhando, achava maravilhoso ser afagado como uma criancinha. Mas era preciso mesmo que não houvesse ninguém por perto.
Agora vamos que a sessão começa às oito – avisou ela, retocando apressadamente os lábios.
O menino deu um grito, montou no corrimão da escada e foi esperá-la embaixo. Da porta, ouviu-a dizer à empregada que avisasse ao doutor que tinham ido ao cinema.
Na rua, ele andava pisando forte, o queixo erguido, os olhos acesos. Tão bom sair de mãos dadas com a mãe. Melhor ainda quando o pai não ia junto porque assim ficava sendo o cavalheiro dela. Quando crescesse haveria de se casar com uma moça igual. Anita não servia que Anita era sardenta. Nem Maria Inês com aqueles dentes saltados. Tinha que ser igualzinha à mãe.
– Você acha a Maria Inês bonita, mamãe?
– É bonitinha, sim.
– Ah! tem dentão de elefante.
E o menino chutou um pedregulho. Não, tinha que ser assim como a mãe, igualzinha à mãe. E com aquele perfume.
– Como é o nome do seu perfume?
– Vent Vert. Por que, filho? Você acha bom?
– Que é que quer dizer isso?
– Vento Verde.
Vento verde, vento verde. Era bonito, mas existia vento verde?
Vento não tinha cor, só cheiro. Riu.
– Posso te contar uma anedota, mãe? Posso?
– Se for anedota limpa, pode.
– Não é limpa não.
– Então não quero saber.
– Mas por quê, pô!?
– Eu já disse que não quero que você diga pô.
Ele chutou uma caixa de fósforos. Pisou-a em seguida.
– Olha, mãe, a casa do Júlio…
Júlio conversava com alguns colegas no portão. O menino fez questão de cumprimentá-los em voz alta para que todos se voltassem eficassem assim mudos, olhando. Vejam, esta é minha mãe! – teve vontade de gritar-lhes. Nenhum de vocês tem uma mãe linda assim! E lembrou deliciado que a mãe de Júlio era grandalhona e sem graça, sempre de chinelo e consertando meia. Júlio devia estar agora roxo de inveja.
– Ele é bom aluno? Esse Júlio.
– Que nem eu.
– Então não é.
O menino deu uma risadinha.
– Que fita a gente vai ver?
– Não sei, meu bem.
– Você não viu no jornal? Se for fita de amor, não quero! Você não viu no jornal, hein, mamãe?
Ela não respondeu. Andava agora tão rapidamente que às vezes o menino precisava andar aos pulos para acompanhá-la. Quando chegaram à porta do cinema, ele arfava. Mas tinha no rosto uma vermelhidão feliz.
A sala de espera estava vazia. Ela comprou os ingressos e em seguida, como se tivesse perdido toda a pressa, ficou tranqüilamente encostada auma coluna, lendo o programa. O menino deu-lhe um puxão na saia.
– Mãe, mas o que é que você está fazendo?! A sessão já começou, já entrou todo mundo, pô!
Ela inclinou-se para ele. Falou num tom muito suave, mas os lábios se apertavam comprimindo as palavras e os olhos tinham aquela expressão que o menino conhecia muito bem, nunca se exaltava, nunca elevava a voz. Mas ele sabia que quando ela falava assim, nem súplicas nem lágrimas conseguiam fazê-la voltar atrás.
– Sei que já começou mas não vamos entrar agora, ouviu? Não vamos entrar agora, espera.
O menino enfiou as mãos nos bolsos e enterrou o queixo no peito. Lançou à mãe um olhar sombrio. Por que é que não entravam logo? Tinham corrido feito dois loucos e agora aquela calma, espera. Esperar o que, pô?!…
– É que a gente já está atrasado, mãe.
– Vá ali no balcão comprar chocolate – ordenou ela entregando-lhe uma nota nervosamente amarfanhada.
Ele atravessou a sala num andar arrastado, chutando as pontas de cigarro pela frente. Ora, chocolate. Quem é que quer chocolate? E se o enredo fosse de crime, quem é que ia entender chegando assim começado? Sem nenhum entusiasmo, pediu um tablete de chocolate. Vacilou um instante e pediu em seguida um tubo de drágeas de limão e um pacote de caramelos de leite, pronto, também gastava à beça. Recebeu o troco de cara fechada. Ouviu então os passos apressados da mãe que lhe estendeu a mão com impaciência:
– Vamos, meu bem, vamos entrar.
Num salto, o menino pôs-se ao lado dela. Apertou-lhe a mão freneticamente.
– Depressa que a fita já começou, não está ouvindo a música? Na escuridão, ficaram um instante parados, envolvidos por um grupo de pessoas, algumas entrando, outras saindo. Foi quando ela resolveu.
– Venha vindo atrás de mim.
Os olhos do menino devassavam a penumbra. Apontou para duas poltronas vazias.
– Lá, mãezinha, lá tem duas, vamos lá!
Ela olhava para um lado, para outro e não se decidia.
– Mãe, aqui tem mais duas, está vendo? Aqui não está bom? insistiu ele, puxando-a pelo braço. E olhava aflito para a tela e olhava de novo para as poltronas vazias que apareciam aqui e ali como coágulos de sombra. – Lá tem mais duas, está vendo?Ela adiantou-se até as primeiras filas e voltou em seguida até o meio do corredor. Vacilou ainda um momento. E decidiu-se. Impeliu-o suave, mas resolutamente.
– Entre aí.
– Licença? Licença?… – ele foi pedindo. Sentou-se na primeira poltrona desocupada que encontrou, ao lado de uma outra
desocupada também.
– Aqui, não é, mãe?
– Não, meu bem, ali adiante – murmurou ela, fazendo-o levantar-se. Indicou os três lugares vagos quase no fim da fileira. Lá é melhor.
Ele resmungou, pediu licença, licença, e deixou-se cair pesadamente no primeiro dos três lugares. Ela sentou-se em seguida.
– Ih, é fita de amor, pô!
– Quieto, sim?
O menino pôs-se na beirada da poltrona. Esticou o pescoço, olhou para a direita, para a esquerda, remexeu-se.
– Essa bruta cabeçona aí na frente!
– Quieto, já disse.
– Mas é que não estou enxergando direito, mãe! Troca comigo que não estou enxergando!
Ela apertou-lhe o braço. Esse gesto ele conhecia bem e significava apenas: não insista!
– Mas, mãe…
Inclinando-se até ele, ela falou-lhe baixinho, naquele tom perigoso, meio entre os dentes e que era usado quando estava no auge, um tom tão macio que quem a ouvisse julgaria que ela lhe fazia um elogio. Mas só ele sabia o que havia debaixo daquela maciez.
– Não quero que mude de lugar, está me escutando? Não quero. E não insista mais.
Contendo-se para não dar um forte pontapé na poltrona da frente, ele enrolou o pulôver como uma bola e sentou-se em cima. Gemeu. Mas por que aquilo tudo? Por que a mãe lhe falava daquele jeito, por quê? Não fizera nada de mal, só queria mudar de lugar, só isso… Não, desta vez ela não estava sendo nem um pouquinho camarada. Voltou-se então para lembrar- lhe que estava chegando muita gente, se não mudasse de lugar imediatamente, depois não poderia mais porque aquele era o último lugar vago que restava; Olha aí, mamãe, acho que aquele homem vem pra cá! Veio. Veio e sentou-se na poltrona vazia ao lado dela.
O menino gemeu, Ai! meu Deus… Pronto. Agora é que não restava mesmo nenhuma esperança. E aqueles dois enjoados lá na fita numa conversa comprida que não acabava mais, ela vestida de enfermeira, ele de soldado, mas por que o tipo não ia pra guerra, pô!… E a cabeçona da mulher na sua frente indo e vindo para a esquerda, para a direita, os cabelos armados a flutuarem na tela como teias monstruosas de uma aranha. Um punhado de fios formava um frouxo topete que chegava até o queixo da artista. O menino deu uma gargalhada.
– Mãe, daqui eu vejo a mocinha de cavanhaque.
– Não faça assim, filho, a fita é triste… Olha, presta atenção, agora ele vai ter que fugir com outro nome… O padre vai arrumar o passaporte.
– Mas por que ele não vai pra guerra duma vez?
– Porque ele é contra a guerra, filho, ele não quer matar ninguém – sussurrou-lhe a mãe num tom meigo. Devia estar sorrindo e ele sorriu também,
ah! que bom, a mãe não estava mais nervosa, não estava mais nervosa. As coisas começavam a melhorar e para maior alegria, a mulher da poltrona da frente levantou-se e saiu. Diante dos seus olhos apareceu o retângulo inteiro da tela.
– Agora sim! – disse baixinho, desembrulhando o tablete de chocolate. Meteu-o inteiro na boca e tirou os caramelos do bolso para oferecê-los à mãe. Então viu: a mão pequena e branca, muito branca, deslizou pelo braço da poltrona e pousou devagarinho nos joelhos do homem que acabara de chegar.
O menino continuou olhando, imóvel. Pasmado. Por que a mãe fazia aquilo?! Por que a mãe fazia aquilo?!… Ficou olhando sem nenhum pensamento, sem nenhum gesto.
Foi então que as mãos grandes e morenas do homem tomaram avidamente a mão pequena e branca. Apertaram-na com tanta força que pareciam querer esmagá-la.
O menino estremeceu. Sentiu o coração bater descompassado, bater como só batera naquele dia na fazenda quando teve de correr como louco, perseguido de perto por um touro. O susto ressecou-lhe a boca. O chocolate foi-se transformando numa massa viscosa e amarga. Engoliu-o com esforço, como se fosse uma bola de papel. Redondos e estáticos, os olhos cravaram-se na tela. Moviam-se as imagens sem sentido num sonho fragmentado. Os letreiros dançavam e se fundiam pesadamente, como chumbo derretido. Mas o menino continuava imóvel, olhando obstinadamente.
Um bar esfumaçado, brigas, a fuga do moço de capa perseguido pela sereia da polícia, mais brigas numa esquina, tiros. A mão pequena e branca a deslizar no escuro como um bicho. Torturas e gritos nos corredores paralelos da prisão, os homens agarrando as portas de grade, mais conspirações. Mais homens. A mão pequena e branca. A fuga, os faróis na noite, os gritos, mais tiros, tiros. O carro derrapando sem freios. Tiros.
Espantosamente nítido em meio do fervilhar de sons e falas – e ele não queria, não queria ouvir! – o ciciar delicado dos dois num diálogo entre os dentes.
Antes de terminar a sessão – mas isso não acaba mais, não acaba? -, ele sentiu, mais do que sentiu, adivinhou a mão pequena e branca desprender-se das mãos morenas. E do mesmo modo manso como avançara, recuar deslizando pela poltrona e voltar a se unir à mão que ficara descansando no regaço. Ali ficaram entrelaçadas e quietas como estiveram antes..
– Está gostando, meu bem? – perguntou ela inclinando-se para o menino.
Ele fez que sim com a cabeça, os olhos duramente fixos na cena final. Abriu a boca quando o moço também abriu a sua para beijar a enfermeira.
Apertou os olhos enquanto durou o beijo. Então o homem levantou-se embuçado na mesma escuridão em que chegara o menino retesou-se, os maxilares contraídos, trêmulo. Fechou os punhos. Eu pulo no pescoço dele, eu esgano ele!
O olhar desvairado estava agora nas espáduas largas interceptando a tela como um muro negro. Por um brevíssimo instante ficaram paradas em sua frente. Próximas, tão próximas. Sentiu a perna musculosa do homem roçar no seu joelho, esgueirando-se rápida. Aquele contato foi como ponta de um alfinete num balão de ar. O menino foi-se descontraindo. Encolheu-se murcho no fundo da poltrona e pendeu a cabeça para o peito.
Quando as luzes se acenderam, teve um olhar para a poltrona vazia. Olhou para a mãe. Ela sorria com aquela mesma expressão que tivera diante do espelho, enquanto se perfumava. Estava corada, brilhante.
– Vamos, filhote?
Estremeceu quando a mão dela pousou no seu ombro. Sentiu­ lhe o perfume. E voltou depressa a cabeça para o outro lado, a cara pálida, a boca apertada como se fosse cuspir. Engoliu penosamente. De assalto, a mão dela agarrou a sua. Sentiu-a quente, macia. Endureceu as pontas dos dedos, retesado, queria cravar as unhas naquela carne.
– Ah, não quer mais andar de mãos dadas comigo?
Ele inclinara-se, demorando mais do que o necessário para dobrar a barra da calça rancheira.
– É que não sou mais criança.
– Ah, o nenenzinho cresceu? Cresceu? – Ela riu baixinho. Beijou-lhe o rosto. – Não anda mais de mão dada?
O menino esfregou as pontas dos dedos na umidade dos beijos no queixo, na orelha. Limpou as marcas com a mesma expressão com que limpava as mãos nos fundilhos da calça quando cortava as minhocas para o anzol.
Na caminhada de volta, ela falou sem parar, comentando excitada o enredo do filme. Explicando. Ele respondia por monossílabos.
– Mas que é que você tem, filho? Ficou mudo…
– Está me doendo o dente.
– Outra vez? Quer dizer que fugiu do dentista? Você tinha hora ontem, não tinha?
– Ele botou uma massa. Está doendo – murmurou inclinando-se para apanhar uma folha seca. Triturou-a no fundo do bolso. E respirou abrindoa boca.
– Como dói, pô.
– Assim que chegarmos você toma uma aspirina. Mas não diga, por favor, essa palavrinha que detesto.
– Não digo mais.
Diante da casa de Júlio, instintivamente ele retardou o passo. Teve um olhar para a janela acesa. Vislumbrou uma sombra disforme passar através da cortina.
– Dona Margarida.
– Hum?
– A mãe do Júlio.
Quando entraram na sala, o pai estava sentado na cadeira de balanço, lendo o jornal. Como todas as noites, como todas as noites. O menino estacou na porta. A certeza de que alguma coisa terrível ia acontecer paralisou-o atônito, obumbrado. O olhar em pânico procurou as mãos do pai.
– Então, meu amor, lendo o seu jornalzinho? – perguntou ela, beijando o homem na face. – Mas a luz não está muito fraca?
– A lâmpada maior queimou, liguei essa por enquanto – disse ele, tomando a mão da mulher. Beijou-a demoradamente. Tudo bem?
– Tudo bem.
O menino mordeu o lábio até sentir gosto de sangue na boca.
Como nas outras noites, igual. Igual.
– Então, filho? Gostou da fita? – perguntou o pai dobrando o jornal. Estendeu a mão ao menino e com a outra começou a acariciar o braço nu da mulher. – Pela sua cara, desconfio que não.
– Gostei, sim.
– Ah, confessa, filhote, você detestou, não foi? – contestou ela. – Nem eu entendi direito, uma complicação dos diabos, espionagem, guerra, máfia… Você não podia ter entendido.
– Entendi. Entendi tudo – ele quis gritar e a voz saiu num sopro tão débil que só ele ouviu.
– E ainda com dor de dente! – acrescentou ela desprendendo-se do homem e subindo a escada. Ah, já ia esquecendo a aspirina.
O menino voltou para a escada os olhos cheios de lágrimas.
– Que é isso? – estranhou o pai. – Parece até que você viu assombração. Que foi?
O menino encarou-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados. O rosto feio e bom.
– Pai… – murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: – Pai…
– Mas meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!
– Nada. Nada.
Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço.
Lygia Fagundes Telles
Crônica da solidão
A solidão vem acompanhando os seres humanos como a sombra o próprio corpo. Um rosto que vê o céu sente como esmaga o brilho das estrelas perdidas nas vastidões desoladas. Quem é que nos deixa vislumbrar distâncias inconcebíveis nos vácuos da desesperação? A visão de nossa condição como um grão na poeira dos ventos causa espanto, projeta sombras e abismos. Apesar de tudo, o reino humano prossegue de janeiro a janeiro, sustentando nos seus ermos todo o peso terrestre.
A existência deixou-se ficar como um vício nessa coisa que chamamos solidão. Construiu-se muitas vezes na ausência de cada noite. Na multidão vive-se só, cheirando nesse galope do medo o suor dos que lutam, por entre rostos velozes e anônimos. Em contato com esse mundo, a vida possui uma capacidade incrível de urdir dramas dolorosos e pungentes. Na cidade pequena, a mesmice da vidinha apura-se em tudo. A calma pende invariável no sumidouro da alma. Entoa uma música triste, antiga, de uma nota só, que faz e refaz o existir aqui sem invocar desejos ou até mesmo curiosidade. Mumificam-se os sentimentos sem que haja sinal de alento. A solidão não tem pressa, converte-se nos cerrados de estreitas fixações provincianas. É então que a tua voz torna-se desfalecente, pois no início era o abismo, que era eu e não distinguia.
Solidão em família. Ausência de afeto nos gestos. O pai comparece no desamor da fala. O irmão dá as costas. Os cunhados permanecem neutros enquanto os dias passam. O sogro, no ápice da crise, coloca genro e filha porta afora. Ai, essas rosas, com o seu hálito de mágoa, como dói lembrá-las.
Haverá remédio para banir para sempre a solidão que, traiçoeira, alojou-se de repente na alma? A receita que tenho agora chega pelo canto do curió. Quando alguém estiver só, é só ouvi-lo, que não paga nada. Vai ver que a solidão desaparece logo, derrotada no seu tom maior em dó.
Recomenda-se a crença em Deus, o criador do mundo, como âncora salvadora na travessia do coração em águas misteriosas da vida e da morte. Diante da paisagem soberba, ouvi gente grande dizer que melhor do que nascer, sofrer neste mundo e cair depois no nada, é não ter nascido.
A solidão do homem que foi deixado pela mulher amada faz a existência ficar sem sentido. O amor perdido não se encontra no confronto com o vazio rolando na cama. Tudo que era reconhecido pelos impulsos do amor no outro esvai e implica no germe que destrói o amante, até mesmo o ser amado, em muitos casos.
Uma das coisas que mais tem colaborado para que a solidão afaste de mim esse cálice é a literatura. Sem os livros não sei como conseguiria ficar no Rio de Janeiro num período de minha vida. À noite retornava do trabalho no jornal e, horas depois, via-me sozinho no apartamento pequeno da Correia Dutra, no Flamengo. Longe da noiva e de minha cidade no interior baiano, sentia as horas do mundo escoarem no silêncio do apartamento, derramarem-se pelas paredes, cadeiras, mesa, cama e objetos. Não adiantava ligar a televisão, gente que aparecia na telinha apresentava-se, como sempre, distante. O ruído da geladeira agravava mais os vagares da solidão no apartamento, infiltrando-se escorregadia nas camadas espessas da noite com o seu caldo oleoso.
Desde adolescente sempre houve entre mim e os livros uma relação como que sagrada. A princípio foi entretenimento, com o tempo passou a ser uma forma de conhecimento da vida. A leitura justificava-se como forma de conhecer na escrita uma experiência de vida. Na visibilidade dos sinais da escrita sentia o invisível sendo transformado por sofredores do ver em nova realidade. E assim me dava a certeza de que eu não estava sozinho no mundo não mundo. A leitura de romances, contos e poemas desarmava aquela solidão de que falei no apartamento, tentando fazer-me prisioneiro da insônia enquanto a noite durasse.
Sem tremor, resistia à solidão quanto mais viajava através de leituras, tendo como companhia gente criada por aqueles autores que tocavam em verdades essenciais dos seres humanos. Depois que passei a escrever livros, fiquei sabedor também duma solidão inquietante, que tem como marca comum sua presença enriquecedora. Essa solidão do escritor frequentemente me socorre da vida cansativa diária, habitada por gente que se amesquinha em sua pobre dimensão humana. Gente que por inveja gosta de fazer estragos no caráter do escritor para tirar os outros no foco de seu valor literário. É na leitura de bons livros e nas minhas criações solitárias que busco minhas saídas, respostas para fugir das armadilhas dos que datam esse mundo como o reino exclusivo das coisas materiais, colocando o dinheiro como a chave única para abrir portas. Inclusive a da inocência, usurpada pelo mal, sem deixar no logro pelo vilão qualquer vestígio de remorso.
A existência deixou-se ficar como um vício nessa coisa que chamamos solidão. Construiu-se muitas vezes na ausência de cada noite. Na multidão vive-se só, cheirando nesse galope do medo o suor dos que lutam, por entre rostos velozes e anônimos. Em contato com esse mundo, a vida possui uma capacidade incrível de urdir dramas dolorosos e pungentes. Na cidade pequena, a mesmice da vidinha apura-se em tudo. A calma pende invariável no sumidouro da alma. Entoa uma música triste, antiga, de uma nota só, que faz e refaz o existir aqui sem invocar desejos ou até mesmo curiosidade. Mumificam-se os sentimentos sem que haja sinal de alento. A solidão não tem pressa, converte-se nos cerrados de estreitas fixações provincianas. É então que a tua voz torna-se desfalecente, pois no início era o abismo, que era eu e não distinguia.
Solidão em família. Ausência de afeto nos gestos. O pai comparece no desamor da fala. O irmão dá as costas. Os cunhados permanecem neutros enquanto os dias passam. O sogro, no ápice da crise, coloca genro e filha porta afora. Ai, essas rosas, com o seu hálito de mágoa, como dói lembrá-las.
Haverá remédio para banir para sempre a solidão que, traiçoeira, alojou-se de repente na alma? A receita que tenho agora chega pelo canto do curió. Quando alguém estiver só, é só ouvi-lo, que não paga nada. Vai ver que a solidão desaparece logo, derrotada no seu tom maior em dó.
Recomenda-se a crença em Deus, o criador do mundo, como âncora salvadora na travessia do coração em águas misteriosas da vida e da morte. Diante da paisagem soberba, ouvi gente grande dizer que melhor do que nascer, sofrer neste mundo e cair depois no nada, é não ter nascido.
A solidão do homem que foi deixado pela mulher amada faz a existência ficar sem sentido. O amor perdido não se encontra no confronto com o vazio rolando na cama. Tudo que era reconhecido pelos impulsos do amor no outro esvai e implica no germe que destrói o amante, até mesmo o ser amado, em muitos casos.
Uma das coisas que mais tem colaborado para que a solidão afaste de mim esse cálice é a literatura. Sem os livros não sei como conseguiria ficar no Rio de Janeiro num período de minha vida. À noite retornava do trabalho no jornal e, horas depois, via-me sozinho no apartamento pequeno da Correia Dutra, no Flamengo. Longe da noiva e de minha cidade no interior baiano, sentia as horas do mundo escoarem no silêncio do apartamento, derramarem-se pelas paredes, cadeiras, mesa, cama e objetos. Não adiantava ligar a televisão, gente que aparecia na telinha apresentava-se, como sempre, distante. O ruído da geladeira agravava mais os vagares da solidão no apartamento, infiltrando-se escorregadia nas camadas espessas da noite com o seu caldo oleoso.
Desde adolescente sempre houve entre mim e os livros uma relação como que sagrada. A princípio foi entretenimento, com o tempo passou a ser uma forma de conhecimento da vida. A leitura justificava-se como forma de conhecer na escrita uma experiência de vida. Na visibilidade dos sinais da escrita sentia o invisível sendo transformado por sofredores do ver em nova realidade. E assim me dava a certeza de que eu não estava sozinho no mundo não mundo. A leitura de romances, contos e poemas desarmava aquela solidão de que falei no apartamento, tentando fazer-me prisioneiro da insônia enquanto a noite durasse.
Sem tremor, resistia à solidão quanto mais viajava através de leituras, tendo como companhia gente criada por aqueles autores que tocavam em verdades essenciais dos seres humanos. Depois que passei a escrever livros, fiquei sabedor também duma solidão inquietante, que tem como marca comum sua presença enriquecedora. Essa solidão do escritor frequentemente me socorre da vida cansativa diária, habitada por gente que se amesquinha em sua pobre dimensão humana. Gente que por inveja gosta de fazer estragos no caráter do escritor para tirar os outros no foco de seu valor literário. É na leitura de bons livros e nas minhas criações solitárias que busco minhas saídas, respostas para fugir das armadilhas dos que datam esse mundo como o reino exclusivo das coisas materiais, colocando o dinheiro como a chave única para abrir portas. Inclusive a da inocência, usurpada pelo mal, sem deixar no logro pelo vilão qualquer vestígio de remorso.
segunda-feira, junho 1
Entre patas e palavras
Fui criado por uma gata. Não é metáfora, é memória. A minha mãe contava que, no berço, uma felina vadia vinha todas as noites, pousava uma patinha sobre o meu peito e adormecia comigo. Guardava-me como quem guarda um segredo. Talvez tenham sido elas as primeiras professoras de ternura e bondade, talvez tenham sido elas a ensinar-me que o silêncio também é linguagem.
Depois, vieram muitos outros encontros felinos que marcaram a minha vida: a Vadia, o Pipoca. Lembro-me também de um gato nas ruínas de Cartago — um magnífico felino de pêlo dourado e olhos verdes como o mar mediterrânico que beija aquelas pedras antigas. Aproximou-se com a graça de um verso esquecido, esfregou o queixo nas minhas pernas como quem assina um pacto silencioso e, por instantes, o tempo parou entre colunas romanas e o eco de civilizações desfeitas. Naquele encontro breve, senti que Cartago me acolhia não através dos homens, mas através de um gato que parecia guardião dos segredos do lugar. Chamei-lhe Aníbal.
E recordo, com ternura que ainda me aquece o peito, a gata persa de Sidi Bou Said. Todas as tardes, ao regressar a casa, depois das aulas aos meus alunos do Instituto de Línguas de Tunes, ela lá esperava empoleirada no muro azul-celeste que ladeava o caminho — imóvel, elegante, como uma estátua viva bordada a seda branca e cinza. O seu olhar, âmbar e sereno, parecia saber mais de mim do que eu próprio sabia. Nunca me seguiu, nunca pediu nada; apenas me recebia com a quietude de quem compreende que existem chegadas que são rituais. Nos dias em que o cansaço solitário me pesava nos ombros, bastava vê-la ali — recortada contra o céu do Mediterrâneo, entre jasmim e azulejos — para que o mundo voltasse a fazer sentido.
Lembro-me também de todos e tantos gatos da Tunísia, que exalavam perfume de jasmim, como se a brisa do Mediterrâneo lhes tivesse emprestado a fragrância. E lembro-me, com emoção contida, de que fui acariciado por Gli, em 2019, antes que morresse — sim, por ela, a célebre gata da Hagia Sophia, em Istambul.
Gli não era apenas um felino: era uma instituição viva. Nascida por volta de 2004, fez da basílica-mesquita a sua casa e do mundo inteiro o seu público. Dormia sobre tapetes otomanos, repousava junto aos vitrais bizantinos e recebia turistas com a dignidade de quem habita a história. Quando, em 2020, a Hagia Sophia deixou de ser museu para voltar a ser mesquita, houve temores de que os gatos fossem expulsos. Mas Recep Tayyip Erdoğan, então presidente da Turquia, tranquilizou o mundo: “Os gatos da Hagia Sophia ficam. Sem eles, o lugar não seria o mesmo.” Gli, a gata-imperatriz acariciada por Barack Obama, morreu poucos meses depois, com cerca de dezasseis anos, e foi enterrada nos jardins do monumento, com honras de guardiã eterna. Hoje, os seus descendentes — e os outros felinos da Hagia — continuam a circular entre os fiéis e os visitantes, como se o espírito de Gli ainda ali ronronasse, entre o sagrado e o profano.
Istambul, afinal, é conhecida como a “cidade dos gatos”: ali, os felinos reinam livres, alimentados e acarinhados pelos habitantes, numa cultura muçulmana que os venera pela sua limpeza e lhes abre as portas das mesquitas.
Desde então, os gatos são para mim mais do que animais: são companheiros de sombra, cúmplices de solidão, mestres da pausa. E não estou sozinho nesta devoção. A literatura está cheia de gatos que se aninham nas páginas, que ronronam nos versos, que saltam para os ombros dos poetas como quem reivindica um lugar na eternidade.
O meu querido amigo Eugénio de Andrade sabia disso. No seu texto “Acerca dos gatos”, recorda o “pequeno tigre” da infância, a gata livre de Coimbra, o persa azul que reinava na casa e a rafeira negra que lhe fazia companhia aos domingos. Muitas vezes fui acariciado pela belíssima gata negra. No poema “Gatos”, evoca-os vindos “da Índia, da Pérsia, de Nínive, Alexandria”, como se fossem ecos de civilizações antigas, elegantes e eternos.
Ary dos Santos, irreverente e apaixonado, também lhes dedicou versos: chamou-lhes “animais irracionais de fino gosto”, celebrando a independência felina como quem celebra a liberdade humana. Porque um gato é isso: um manifesto silencioso contra todas as prisões.
Maria Teresa Horta, musa da poesia erótica, escreveu um poema chamado “Os Gatos”, musicado nos anos 60, onde o felino surge como metáfora de sedução e segredo. Também o amigo Joaquim Pessoa, por sua vez, confessou: “Não sei falar com os gatos, mas adoraria trocar por miados o carinho que em mim despertam.” Palavras que soam como um ronronar poético.
Manuel António Pina não se limitou a escrever sobre gatos: acolhia-os. Chamava-lhes Hugo, Chico, Adelaide, Ronaldo, transformando cada gato num poema vivo, uma história que se aninhava no seu colo. Eugénio Lisboa foi mais longe: dedicou um livro inteiro aos gatos, com 31 poemas, — “Manual Prático de Gatos para Uso Diário e Intenso” com fotografias recolhidas, explicadas e legendadas pela minha ex-Professora da Universidade de Lisboa, a Otília Pires Martins—, onde cada verso é uma carícia, cada palavra um miado cúmplice. “Começar a gostar de gatos é como entrar para a máfia: uma vez dentro, não há como sair?” E dela não quero sair…
Mas esta paixão não é só nossa, lusitana. Do outro lado do Atlântico, Mark Twain vivia rodeado de gatos com nomes extravagantes. Hemingway colecionava gatos polidáctilos, que viviam na sua antiga casa em Key West, Flórida, descendentes do mítico Snowball. Borges escreveu sobre Beppo, o gato branco que lhe ensinou a filosofia do silêncio. Bukowski, sempre cru, confessou que os gatos lhe davam coragem para enfrentar a vida.
No Egito Antigo, os gatos eram divinos. Bastet, a deusa com cabeça de felino, simbolizava proteção, fertilidade e a graça da casa. Matar um gato era crime punido com a morte. Os faraós dormiam sob o olhar vigilante destes guardiões, e quando um gato morria, a família raspava as sobrancelhas em sinal de luto. Talvez seja por isso que ainda hoje os gatos carregam uma aura sagrada, como se cada passo fosse um rito.
Em Roma, os gatos eram símbolo de liberdade. A palavra “libertas” era associada ao felino, vigilante da Roma Antiga, que caminhava entre templos e praças como quem reivindica o direito de existir sem correntes. Essa herança atravessou séculos e chegou à literatura: um gato é sempre metáfora de independência, um poema que se escreve com patas leves.
Na Idade Média, porém, a sombra caiu sobre os gatos. Acusados de bruxaria, agentes de Satanás, perseguidos e queimados, tornaram-se símbolos de medo. Mas sobreviveram, como sobrevivem os poetas, escondendo-se nos cantos, aguardando o regresso da luz. E regressaram com força, para se tornarem companheiros de reis, artistas e sonhadores, ao longo dos tempos.
Com a modernidade, os gatos conquistaram as cidades. Paris, Madrid, Londres, Lisboa: nos cafés parisienses, inspiravam Baudelaire, que lhes chamou “tigres domésticos”. Em Lisboa, vagueiam pelos miradouros, como sentinelas da saudade, guardando segredos entre azulejos e colinas.
Hoje, os gatos são símbolos literários universais. De Edgar Allan Poe a T. S. Eliot, de Sophia de Mello Breyner Andresen a Pablo Neruda, atravessam páginas e séculos com a mesma elegância. Cada olhar felino é uma metáfora, cada salto é um verso. Talvez porque, como escreveu Robertson Davies, “os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões.”
E quando a noite desce sobre as páginas, vejo-os: gatos que caminham entre livros como sombras líquidas, olhos acesos como faróis de um porto secreto. São eles que guardam as palavras quando nós dormimos, são eles que sopram metáforas para dentro dos sonhos. Talvez a literatura seja, afinal, um imenso jardim onde os gatos passeiam livres, deixando pegadas invisíveis na neve das ideias. E nós, pobres aprendizes, seguimos-lhes o rasto, tentando escrever com a mesma leveza com que eles caminham sobre o silêncio.
E esta crónica é, acima de tudo, um tributo — não só aos gatos que cruzaram a minha vida, mas àquilo que eles representam: a graça do acaso, o luxo da presença, a sabedoria da espera. Em cada patinha silenciosa, um verso que a humanidade ainda não soube escrever — mas que, todos os dias, os gatos nos ensinam a sentir.
Depois, vieram muitos outros encontros felinos que marcaram a minha vida: a Vadia, o Pipoca. Lembro-me também de um gato nas ruínas de Cartago — um magnífico felino de pêlo dourado e olhos verdes como o mar mediterrânico que beija aquelas pedras antigas. Aproximou-se com a graça de um verso esquecido, esfregou o queixo nas minhas pernas como quem assina um pacto silencioso e, por instantes, o tempo parou entre colunas romanas e o eco de civilizações desfeitas. Naquele encontro breve, senti que Cartago me acolhia não através dos homens, mas através de um gato que parecia guardião dos segredos do lugar. Chamei-lhe Aníbal.
E recordo, com ternura que ainda me aquece o peito, a gata persa de Sidi Bou Said. Todas as tardes, ao regressar a casa, depois das aulas aos meus alunos do Instituto de Línguas de Tunes, ela lá esperava empoleirada no muro azul-celeste que ladeava o caminho — imóvel, elegante, como uma estátua viva bordada a seda branca e cinza. O seu olhar, âmbar e sereno, parecia saber mais de mim do que eu próprio sabia. Nunca me seguiu, nunca pediu nada; apenas me recebia com a quietude de quem compreende que existem chegadas que são rituais. Nos dias em que o cansaço solitário me pesava nos ombros, bastava vê-la ali — recortada contra o céu do Mediterrâneo, entre jasmim e azulejos — para que o mundo voltasse a fazer sentido.
Lembro-me também de todos e tantos gatos da Tunísia, que exalavam perfume de jasmim, como se a brisa do Mediterrâneo lhes tivesse emprestado a fragrância. E lembro-me, com emoção contida, de que fui acariciado por Gli, em 2019, antes que morresse — sim, por ela, a célebre gata da Hagia Sophia, em Istambul.
Gli não era apenas um felino: era uma instituição viva. Nascida por volta de 2004, fez da basílica-mesquita a sua casa e do mundo inteiro o seu público. Dormia sobre tapetes otomanos, repousava junto aos vitrais bizantinos e recebia turistas com a dignidade de quem habita a história. Quando, em 2020, a Hagia Sophia deixou de ser museu para voltar a ser mesquita, houve temores de que os gatos fossem expulsos. Mas Recep Tayyip Erdoğan, então presidente da Turquia, tranquilizou o mundo: “Os gatos da Hagia Sophia ficam. Sem eles, o lugar não seria o mesmo.” Gli, a gata-imperatriz acariciada por Barack Obama, morreu poucos meses depois, com cerca de dezasseis anos, e foi enterrada nos jardins do monumento, com honras de guardiã eterna. Hoje, os seus descendentes — e os outros felinos da Hagia — continuam a circular entre os fiéis e os visitantes, como se o espírito de Gli ainda ali ronronasse, entre o sagrado e o profano.
Istambul, afinal, é conhecida como a “cidade dos gatos”: ali, os felinos reinam livres, alimentados e acarinhados pelos habitantes, numa cultura muçulmana que os venera pela sua limpeza e lhes abre as portas das mesquitas.
Desde então, os gatos são para mim mais do que animais: são companheiros de sombra, cúmplices de solidão, mestres da pausa. E não estou sozinho nesta devoção. A literatura está cheia de gatos que se aninham nas páginas, que ronronam nos versos, que saltam para os ombros dos poetas como quem reivindica um lugar na eternidade.
O meu querido amigo Eugénio de Andrade sabia disso. No seu texto “Acerca dos gatos”, recorda o “pequeno tigre” da infância, a gata livre de Coimbra, o persa azul que reinava na casa e a rafeira negra que lhe fazia companhia aos domingos. Muitas vezes fui acariciado pela belíssima gata negra. No poema “Gatos”, evoca-os vindos “da Índia, da Pérsia, de Nínive, Alexandria”, como se fossem ecos de civilizações antigas, elegantes e eternos.
Ary dos Santos, irreverente e apaixonado, também lhes dedicou versos: chamou-lhes “animais irracionais de fino gosto”, celebrando a independência felina como quem celebra a liberdade humana. Porque um gato é isso: um manifesto silencioso contra todas as prisões.
Maria Teresa Horta, musa da poesia erótica, escreveu um poema chamado “Os Gatos”, musicado nos anos 60, onde o felino surge como metáfora de sedução e segredo. Também o amigo Joaquim Pessoa, por sua vez, confessou: “Não sei falar com os gatos, mas adoraria trocar por miados o carinho que em mim despertam.” Palavras que soam como um ronronar poético.
Manuel António Pina não se limitou a escrever sobre gatos: acolhia-os. Chamava-lhes Hugo, Chico, Adelaide, Ronaldo, transformando cada gato num poema vivo, uma história que se aninhava no seu colo. Eugénio Lisboa foi mais longe: dedicou um livro inteiro aos gatos, com 31 poemas, — “Manual Prático de Gatos para Uso Diário e Intenso” com fotografias recolhidas, explicadas e legendadas pela minha ex-Professora da Universidade de Lisboa, a Otília Pires Martins—, onde cada verso é uma carícia, cada palavra um miado cúmplice. “Começar a gostar de gatos é como entrar para a máfia: uma vez dentro, não há como sair?” E dela não quero sair…
Mas esta paixão não é só nossa, lusitana. Do outro lado do Atlântico, Mark Twain vivia rodeado de gatos com nomes extravagantes. Hemingway colecionava gatos polidáctilos, que viviam na sua antiga casa em Key West, Flórida, descendentes do mítico Snowball. Borges escreveu sobre Beppo, o gato branco que lhe ensinou a filosofia do silêncio. Bukowski, sempre cru, confessou que os gatos lhe davam coragem para enfrentar a vida.
No Egito Antigo, os gatos eram divinos. Bastet, a deusa com cabeça de felino, simbolizava proteção, fertilidade e a graça da casa. Matar um gato era crime punido com a morte. Os faraós dormiam sob o olhar vigilante destes guardiões, e quando um gato morria, a família raspava as sobrancelhas em sinal de luto. Talvez seja por isso que ainda hoje os gatos carregam uma aura sagrada, como se cada passo fosse um rito.
Em Roma, os gatos eram símbolo de liberdade. A palavra “libertas” era associada ao felino, vigilante da Roma Antiga, que caminhava entre templos e praças como quem reivindica o direito de existir sem correntes. Essa herança atravessou séculos e chegou à literatura: um gato é sempre metáfora de independência, um poema que se escreve com patas leves.
Na Idade Média, porém, a sombra caiu sobre os gatos. Acusados de bruxaria, agentes de Satanás, perseguidos e queimados, tornaram-se símbolos de medo. Mas sobreviveram, como sobrevivem os poetas, escondendo-se nos cantos, aguardando o regresso da luz. E regressaram com força, para se tornarem companheiros de reis, artistas e sonhadores, ao longo dos tempos.
Com a modernidade, os gatos conquistaram as cidades. Paris, Madrid, Londres, Lisboa: nos cafés parisienses, inspiravam Baudelaire, que lhes chamou “tigres domésticos”. Em Lisboa, vagueiam pelos miradouros, como sentinelas da saudade, guardando segredos entre azulejos e colinas.
Hoje, os gatos são símbolos literários universais. De Edgar Allan Poe a T. S. Eliot, de Sophia de Mello Breyner Andresen a Pablo Neruda, atravessam páginas e séculos com a mesma elegância. Cada olhar felino é uma metáfora, cada salto é um verso. Talvez porque, como escreveu Robertson Davies, “os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões.”
E quando a noite desce sobre as páginas, vejo-os: gatos que caminham entre livros como sombras líquidas, olhos acesos como faróis de um porto secreto. São eles que guardam as palavras quando nós dormimos, são eles que sopram metáforas para dentro dos sonhos. Talvez a literatura seja, afinal, um imenso jardim onde os gatos passeiam livres, deixando pegadas invisíveis na neve das ideias. E nós, pobres aprendizes, seguimos-lhes o rasto, tentando escrever com a mesma leveza com que eles caminham sobre o silêncio.
E esta crónica é, acima de tudo, um tributo — não só aos gatos que cruzaram a minha vida, mas àquilo que eles representam: a graça do acaso, o luxo da presença, a sabedoria da espera. Em cada patinha silenciosa, um verso que a humanidade ainda não soube escrever — mas que, todos os dias, os gatos nos ensinam a sentir.
Silêncio
É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar.
É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.
A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.
Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
O coração bate ao reconhecê-lo.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.
Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.
Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.
Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.
Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se veem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.
Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo – de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.
Clarice Lispector, “Onde estivestes de noite“
É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.
A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.
Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
O coração bate ao reconhecê-lo.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.
Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.
Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.
Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.
Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se veem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.
Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo – de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.
Clarice Lispector, “Onde estivestes de noite“
Soneto 18
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
William Shakespeare, "Sonetos"
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
William Shakespeare, "Sonetos"
Como devem morrer as flores
Vejo, com tristeza, o amor sendo destituído de suas magias e poderes. Não há mais garotas suspirando nem garotos rabiscando poemas em bloquinhos. O amor é hoje um personagem estranho e é preciso preparar o ambiente para que, ao mencioná-lo, não estourem gargalhadas de zombaria. Pobre amor, merece ele isso, são justos todos esses sarcasmos? Dizem que ele não faz mais nascer flores. Mesmo que seja verdade, penso que estamos sendo impiedosos com ele. Poupemos nosso herói. Que ele, se já não faz nascer flores, possa ao menos fazê-las murchar romanticamente, melancolicamente, maravilhosamente, como devem morrer sempre as flores.
Ah, se fôssemos loucos o bastante para ver nossa rua de repente coberta de flores tão soberbas que os carros se recusassem a passar por ela, para poupá-las. E se, saindo de casa pisando com cuidado, descalços, víssemos as outras ruas do bairro atapetadas de flores e soubéssemos, pela televisão, que todas as ruas de nossa cidade, e todas as ruas de todas as cidades do mundo estavam ocupadas por elas. E se pudéssemos, todos os homens, mulheres e crianças do planeta, esquecer de tudo mais e dedicar-nos à nossa saudável loucura de contemplar as flores e de ocupar-nos em mantê-las vivas.
Os dias passam em vão. Para o amor morto, já não importam a chuva, o orvalho, o sol. Talvez venham a nascer flores da terra sob a qual o sepultaram. Mas de que lhe servem flores, agora? Se fossem para assinalar onde ele está, haveriam de ser flores tristes e doentias, como ele sempre foi, e ninguém irá parar para vê-las.
O menino de cinco anos perguntou por que haviam posto flores no peito do padrinho. Disseram-lhe que talvez não houvesse flores no lugar para onde ele estava indo. O menino tirou então dois biscoitos do pacote e os juntou às flores.
Tão feiosas são estas flores. Envergonha-me pensar que as rego para ti. Talvez por serem regadas por mão de homem, são mofinas, raquíticas, e é um milagre a brisa não as ter levado. O sol pouco as visita, não para poupá-las, mas porque lhe repugna seu aspecto, e os beija-flores não as incluem em seu plano de voo. Rego-as e quando olho para elas me vem – embora isso me doa tanto – a ideia de que melhor será tu tardares a vir, ou não vires nunca, para não saberes que meu amor continua sáfaro, incapaz e triste.
***
Ah, se fôssemos loucos o bastante para ver nossa rua de repente coberta de flores tão soberbas que os carros se recusassem a passar por ela, para poupá-las. E se, saindo de casa pisando com cuidado, descalços, víssemos as outras ruas do bairro atapetadas de flores e soubéssemos, pela televisão, que todas as ruas de nossa cidade, e todas as ruas de todas as cidades do mundo estavam ocupadas por elas. E se pudéssemos, todos os homens, mulheres e crianças do planeta, esquecer de tudo mais e dedicar-nos à nossa saudável loucura de contemplar as flores e de ocupar-nos em mantê-las vivas.
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Os dias passam em vão. Para o amor morto, já não importam a chuva, o orvalho, o sol. Talvez venham a nascer flores da terra sob a qual o sepultaram. Mas de que lhe servem flores, agora? Se fossem para assinalar onde ele está, haveriam de ser flores tristes e doentias, como ele sempre foi, e ninguém irá parar para vê-las.
***
O menino de cinco anos perguntou por que haviam posto flores no peito do padrinho. Disseram-lhe que talvez não houvesse flores no lugar para onde ele estava indo. O menino tirou então dois biscoitos do pacote e os juntou às flores.
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Tão feiosas são estas flores. Envergonha-me pensar que as rego para ti. Talvez por serem regadas por mão de homem, são mofinas, raquíticas, e é um milagre a brisa não as ter levado. O sol pouco as visita, não para poupá-las, mas porque lhe repugna seu aspecto, e os beija-flores não as incluem em seu plano de voo. Rego-as e quando olho para elas me vem – embora isso me doa tanto – a ideia de que melhor será tu tardares a vir, ou não vires nunca, para não saberes que meu amor continua sáfaro, incapaz e triste.
sexta-feira, maio 29
Crepúsculo
É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
David Mourão-Ferreira
Cor-de-rosa
O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa sua casa, e de azul-claro o beiral e os marcos e folhas das janelas. Esta providência dá margem a algumas divagações que aqui se transmitem ao leitor, nosso companheiro.
O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.
Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua existência.
De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar aquilo no chão.
A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição de algo fundamental, como é a casa em que vivemos.
Tendo destruído essa parte do ser, as pessoas transportam os remanescentes para os ossuários erguidos apressadamente no mesmo local, e que se arrumam pelo princípio da superposição de urnas. Aí aguardarão, talvez até a consumação dos séculos, o dia da ressurreição das casas.
Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa. Vale dizer que ele não atendeu o telefone, quando o chamaram para consultá-lo vagamente sobre a hipótese da derrubada, que não compareceu ao escritório onde peritos blandiciosos o convenceriam da inconveniência de morar à maneira antiga, metendo em brios o seu amor-próprio, pois se todo mundo desistiu de tal maneira, por que só ele continua teimando? Ou compareceu, foi amaciado, reagiu, tornaram a amaciá-lo, esteve a ponto de ceder, a vista se lhe turvou qual plúmbeo véu, eram tantos milhões de cruzeiros, mas cobrou ânimo e reagiu outra vez, o senhor é louco, não vê que a valorização naquela zona o proíbe de continuar a deter o surto imobiliário, isso é um crime, o senhor está perdendo dez mil cruzeiros por semana, onde é que anda o amor que devota a seus filhos, e o gabarito, e a vaga na garagem, e o fabuloso jardim de inverno, e o vizinho vai capitular, não, ainda, não; passa-lhe pela mente o frontispício cor-de-rosa, com elementos azuis, de uma antiga mansão onde a vida era feliz, ou pelo menos ficou sendo naquele tempo; depois que considerou bem, o vizinho enxuga o suor da testa, grita nããão, e sai e chama o pintor e lhe ordena: pinte tudo cor-de-rosa, com os beirais e as janelas de azul de mês de Maria, quero minha casa bem bonita, como bonito era o sobradão de 1800 e tantos onde meu bisavô nasceu, e quero ver, mas quero ver quem derruba minha casinha!
.
De cor-de-rosa e de azul-claro ele pintou sua casa, de azul-claro e de rosa devíamos todos revestir uma fração de nossa vida, já que não é possível pintá-la completamente de cores tão puras.
Carlos Drummond de Andrade, “Fala, amendoeira”
O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.
Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua existência.
De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar aquilo no chão.
A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição de algo fundamental, como é a casa em que vivemos.
Tendo destruído essa parte do ser, as pessoas transportam os remanescentes para os ossuários erguidos apressadamente no mesmo local, e que se arrumam pelo princípio da superposição de urnas. Aí aguardarão, talvez até a consumação dos séculos, o dia da ressurreição das casas.
Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa. Vale dizer que ele não atendeu o telefone, quando o chamaram para consultá-lo vagamente sobre a hipótese da derrubada, que não compareceu ao escritório onde peritos blandiciosos o convenceriam da inconveniência de morar à maneira antiga, metendo em brios o seu amor-próprio, pois se todo mundo desistiu de tal maneira, por que só ele continua teimando? Ou compareceu, foi amaciado, reagiu, tornaram a amaciá-lo, esteve a ponto de ceder, a vista se lhe turvou qual plúmbeo véu, eram tantos milhões de cruzeiros, mas cobrou ânimo e reagiu outra vez, o senhor é louco, não vê que a valorização naquela zona o proíbe de continuar a deter o surto imobiliário, isso é um crime, o senhor está perdendo dez mil cruzeiros por semana, onde é que anda o amor que devota a seus filhos, e o gabarito, e a vaga na garagem, e o fabuloso jardim de inverno, e o vizinho vai capitular, não, ainda, não; passa-lhe pela mente o frontispício cor-de-rosa, com elementos azuis, de uma antiga mansão onde a vida era feliz, ou pelo menos ficou sendo naquele tempo; depois que considerou bem, o vizinho enxuga o suor da testa, grita nããão, e sai e chama o pintor e lhe ordena: pinte tudo cor-de-rosa, com os beirais e as janelas de azul de mês de Maria, quero minha casa bem bonita, como bonito era o sobradão de 1800 e tantos onde meu bisavô nasceu, e quero ver, mas quero ver quem derruba minha casinha!
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De cor-de-rosa e de azul-claro ele pintou sua casa, de azul-claro e de rosa devíamos todos revestir uma fração de nossa vida, já que não é possível pintá-la completamente de cores tão puras.
Carlos Drummond de Andrade, “Fala, amendoeira”
Passeio à infância
Primeiro vamos lá embaixo no córrego; pegaremos dois pequenos cacas dourados. E como faz calor, veja, os lagostins saem da toca. Quer ir de batelão, na ilha, comer ingás? Ou vamos ficar bestando nessa areia onde o sol dourado atravessa a água rasa? Não catemos pedrinhas redondas para a atiradeira, porque é urgente subir no morro; os sanhaços estão bicando os cajus maduros. É janeiro, grande mês de janeiro!
.
Podemos cortar folhas de pita, ir para o outro lado do morro e descer escorregando no capim até a beira do açude. Com dois paus de pita, faremos uma balsa, e, como o carnaval é no mês que vem, vamos apanhar tabatinga para fazer fôrmas de máscaras. Ou então vamos jogar bola-preta: do outro lado do jardim tem um pé de saboneteira.
.
Se quiser, vamos. Converta-se, bela mulher estranha, numa simples menina de pernas magras e vamos passear nessa infância de uma terra longe. É verdade que jamais comeu angu de fundo de panela?
Bem pouca coisa eu sei: mas tudo que sei lhe ensino. Estaremos debaixo da goiabeira; eu cortarei uma forquilha com o canivete. Mas não consigo imaginá-la assim; talvez se na praia ainda houver pitangueiras… Havia pitangueiras na praia? Tenho uma ideia vaga de pitangueiras junto a praia. Iremos catar conchas cor-de-rosa e búzios crespos, ou armar o alçapão junto do brejo para pegar papa-capim. Quer? Agora devem ser três horas da tarde, as galinhas lá fora estão cacarejanda de sono, você gosta de fruta-pão assada com manteiga? Eu lhe dou aipim ainda quente com melado. Talvez você fosse como aquela menina rica;, de fora, que achou horrível nosso pobre doce de abóbora e coco.
.
Mas eu a levarei para a beira do ribeirão, na sombra fria do bambual; ali pescarei piaus. Há rolinhas. Ou então ir descendo o rio numa canoa bem devagar e de repente dar um galope na correnteza, passando rente às pedras, como se a canoa fosse um cavalo solto. Ou nadar mar afora até não poder mais e depois virar e ficar olhando as nuvens brancas. Bem pouca coisa eu sei; os outros meninos riram de mim porque cortei uma iba de assa-peixe. Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado com os soldados de canoa dando tiros, e havia uma mulher do outro lado do rio gritando.
Mas como eu poderia, mulher estranha, convertê-la em menina para subir comigo pela capoeira? Uma vez vi uma urutu junto de um tronco queimado; e me lembro de muitas meninas. Tinha uma que era para mim uma adoração. Ah, paixão da infância, paixão que não amarga. Assim eu queria gostar de você, mulher estranha que ora venho conhecer, homem madura. Homem maduro, ido e vivido; mas quando a olhei, você estava distraída, meus olhos eram outra vez os encantados olhos daquele menino feio do segundo ano primário que quase não tinha coragem de olhar a menina um pouco mais alta da ponta direita do banco.
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Adoração de infância. Ao menos você conhece um passarinho chamado saíra? É um passarinho miúdo imagine uma saíra grande que de súbito aparecesse a um menino que só tivesse visto coleiros e curiós, ou pobres cambaxirras. Imagine um arco-íris visto na mais remota infância, sobre os morros e o rio. O menino da roça que pela primeira vez vê as algas do mar se balançando sob a onda clara, junto da pedra.
Ardente da mais pura paixão de beleza é a adoração da infância. Na minha adolescência você seria uma tortura. Quero levá-la para ,a meninice. Bem pouca coisa eu sei; uma vez na fazenda riram: ele não sabe nem passar um barbicacho! Mas o que sei lhe ensino; são pequenas coisas do mato e da água, são humildes coisas, e você é tão bela e estranha! Inutilmente tento convertê-la em menina de pernas magras, o joelho ralado, um pouco de lama seca do brejo no meio dos dedos dos pés.
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Linda como a areia que a onda ondeou. Saíra grande! Na adolescência me torturaria; mas sou um homem maduro. Ainda assim às vezes é como um bando de sanhaços bicando os cajus de meu cajueiro, um cardume de peixes dourados avançando, saltando ao sol, na piracema; um bambual com sombra fria, onde ouvi silvo de cobra, e eu quisera tanto dormir. Tanto dormir! Preciso de um sossego de beira de rio, com remanso, com cigarras. Mas você é como se houvesse demasiadas cigarras cantando numa pobre tarde de homem.
Rubem Braga, “200 crônicas escolhidas”
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Podemos cortar folhas de pita, ir para o outro lado do morro e descer escorregando no capim até a beira do açude. Com dois paus de pita, faremos uma balsa, e, como o carnaval é no mês que vem, vamos apanhar tabatinga para fazer fôrmas de máscaras. Ou então vamos jogar bola-preta: do outro lado do jardim tem um pé de saboneteira.
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Se quiser, vamos. Converta-se, bela mulher estranha, numa simples menina de pernas magras e vamos passear nessa infância de uma terra longe. É verdade que jamais comeu angu de fundo de panela?
Bem pouca coisa eu sei: mas tudo que sei lhe ensino. Estaremos debaixo da goiabeira; eu cortarei uma forquilha com o canivete. Mas não consigo imaginá-la assim; talvez se na praia ainda houver pitangueiras… Havia pitangueiras na praia? Tenho uma ideia vaga de pitangueiras junto a praia. Iremos catar conchas cor-de-rosa e búzios crespos, ou armar o alçapão junto do brejo para pegar papa-capim. Quer? Agora devem ser três horas da tarde, as galinhas lá fora estão cacarejanda de sono, você gosta de fruta-pão assada com manteiga? Eu lhe dou aipim ainda quente com melado. Talvez você fosse como aquela menina rica;, de fora, que achou horrível nosso pobre doce de abóbora e coco.
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Mas eu a levarei para a beira do ribeirão, na sombra fria do bambual; ali pescarei piaus. Há rolinhas. Ou então ir descendo o rio numa canoa bem devagar e de repente dar um galope na correnteza, passando rente às pedras, como se a canoa fosse um cavalo solto. Ou nadar mar afora até não poder mais e depois virar e ficar olhando as nuvens brancas. Bem pouca coisa eu sei; os outros meninos riram de mim porque cortei uma iba de assa-peixe. Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado com os soldados de canoa dando tiros, e havia uma mulher do outro lado do rio gritando.
Mas como eu poderia, mulher estranha, convertê-la em menina para subir comigo pela capoeira? Uma vez vi uma urutu junto de um tronco queimado; e me lembro de muitas meninas. Tinha uma que era para mim uma adoração. Ah, paixão da infância, paixão que não amarga. Assim eu queria gostar de você, mulher estranha que ora venho conhecer, homem madura. Homem maduro, ido e vivido; mas quando a olhei, você estava distraída, meus olhos eram outra vez os encantados olhos daquele menino feio do segundo ano primário que quase não tinha coragem de olhar a menina um pouco mais alta da ponta direita do banco.
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Adoração de infância. Ao menos você conhece um passarinho chamado saíra? É um passarinho miúdo imagine uma saíra grande que de súbito aparecesse a um menino que só tivesse visto coleiros e curiós, ou pobres cambaxirras. Imagine um arco-íris visto na mais remota infância, sobre os morros e o rio. O menino da roça que pela primeira vez vê as algas do mar se balançando sob a onda clara, junto da pedra.
Ardente da mais pura paixão de beleza é a adoração da infância. Na minha adolescência você seria uma tortura. Quero levá-la para ,a meninice. Bem pouca coisa eu sei; uma vez na fazenda riram: ele não sabe nem passar um barbicacho! Mas o que sei lhe ensino; são pequenas coisas do mato e da água, são humildes coisas, e você é tão bela e estranha! Inutilmente tento convertê-la em menina de pernas magras, o joelho ralado, um pouco de lama seca do brejo no meio dos dedos dos pés.
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Linda como a areia que a onda ondeou. Saíra grande! Na adolescência me torturaria; mas sou um homem maduro. Ainda assim às vezes é como um bando de sanhaços bicando os cajus de meu cajueiro, um cardume de peixes dourados avançando, saltando ao sol, na piracema; um bambual com sombra fria, onde ouvi silvo de cobra, e eu quisera tanto dormir. Tanto dormir! Preciso de um sossego de beira de rio, com remanso, com cigarras. Mas você é como se houvesse demasiadas cigarras cantando numa pobre tarde de homem.
Rubem Braga, “200 crônicas escolhidas”
Progresso
O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho do seu pai no tempo em que não havia computadores. O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs-se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada — e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar, encontrou-a dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preta e metade vermelha, colocando-a então de novo no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes sem conta eles estiveram juntos. “Como é que funciona, pai?”, o menino perguntou. “É assim que funciona...”, respondeu o pai. A seguir, colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquitilografar” (era assim que o meu pai falava) umas frases soltas. Ao ver a máquina em ação, o menino fez um “oh” de espanto. “Que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar as letras que o texto sai impresso...” O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Cortázar que se chama, se não me engano, A história das invenções. Só que tudo acontece não de trás para a frente, mas da frente para trás. A história começa num voo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens, inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, em vez de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de quinze quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim, poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e ver os rios, bosques e vilas... E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor... Até que, depois de muito progresso, da invenção dos navios a vela não poluentes e das bicicletas que fazem bem ao coração, os humanos inventam a mais fantástica de todas as invenções: eles inventam o “andar a pé”…
Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"
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