sábado, maio 2

Boas vendas!

 


Chaves da vaguidão

Era um bar da moda naquele tempo em Copacabana e eu tomava meu uísque em companhia de uma amiga. O garçom que nos servia, meu velho conhecido, a horas tantas, se aproximou:

— Não leve a mal eu sair agora, que está na minha hora, mas o meu colega ali continuará atendendo o senhor.

Ele se afastou, e eu voltei ao meu estado de vaguidão habitual. Alguns minutos mais tarde, vejo diante de mim alguém que me cumprimentava cerimoniosamente, com um movimento de cabeça:

— Boa noite, Dr. Sabino.

Era um senhor careca, de óculos, num terno preto de corte meio antigo. Sua fisionomia me era familiar, e embora não o identificasse assim à primeira vista, vi logo que devia se tratar de algum advogado ou mesmo desembargador de minhas relações, do meu tempo de escrivão. Naturalmente disfarcei como pude o fato de não estar me lembrando de seu nome, e me ergui, estendendo-lhe a mão:

— Boa noite, como vai o senhor? Há quanto tempo! Não quer sentar-se um pouco?

Ele vacilou um instante, mas impelido pelo calor de minha acolhida, acabou aceitando: sentou-se meio constrangido na ponta da cadeira e ali ficou, ereto, como se fosse erguer-se de um momento para outro. Ao observá-lo assim de perto, de repente deixei cair o queixo: sai dessa agora, Dr. Sabino! Minha amiga ali ao lado, também boquiaberta, devia estar achando que eu ficara maluco.

Pois o meu desembargador não era outro senão o próprio garçom — e meu velho conhecido! — que nos servira durante toda a noite e que havia apenas trocado de roupa para sair.

Encontro com João Leite num bar em São Paulo. Sou apresentado à sua roda habitual de uísque ao entardecer. São seis ou oito, cada um atrás de seu copo. São alegres, parecem bons sujeitos — mas, como de hábito, não chego a guardar o nome, nem sequer a fisionomia de cada um. Quando, mais tarde, me ergo para sair, João Leite me acompanha até a porta, e só então me dou conta de que não me despedi de ninguém.

— Espere um instante.

Volto até a mesa e me despeço, apertando a mão de um por um:

— Até logo. Muito prazer, hein? Até logo. Muito prazer.

João Leite me aguarda junto à porta:

— Que é que você foi fazer?

— Me despedir de seus amigos.

Ele solta uma gargalhada:

— Aqueles não são os meus amigos. Meus amigos estão na mesa ao lado. Aqueles eu nem conheço.

Esses e outros casos são assunto de conversa, ilustrando a minha desastrosa vaguidão, enquanto almoço com Caio Mourão e sua mulher, num restaurante de Iguaba Grande. Eles têm uma casa a cavaleiro do lago, a alguns quilômetros daqui, e vieram em seu carro encontrar-se comigo, que estou apenas de passagem por estes lados.

— Olha que eu sou bem distraída — comenta ela, rindo. — Mas você ganha de mim.

Agradeço, sorrindo modestamente. Não chego a ser um Antônio Houaiss, por exemplo, que já foi atropelado cinco vezes e já entrou pelo espelho adentro na sala de espera de um cinema. Mas tenho feito das minhas por este mundo de Deus e reconheço que sou dos bons.

Ao fim do almoço, me despeço e tomo o meu carro, deixando o casal amigo ainda no restaurante.

Restaurante onde os dois devem estar até agora, vinte e quatro horas mais tarde: isso foi ontem, e somente há poucos instantes descobri que distraidamente havia metido no bolso e trazido comigo para o Rio o molho de chaves de Caio Mourão, largado por ele sobre a mesa. Chaves do carro, da casa, da gaveta, do cofre, da mala, de tudo — são umas oito, de todos os tamanhos. E o chaveiro, de prata, dos mais belos, acredito que tenha sido feito por ele próprio, grande joalheiro que é.
Fernando Sabino

O direito ao delírio

Que tal começarmos a exercer
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?

No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.

Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.

Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.

A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.

A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.

A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.

E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.
Eduardo Galeano

A pensão

A Sra. Mooney era filha de um açougueiro. Era uma mulher bastante reservada: uma mulher determinada. Casou-se com o capataz do pai e abriu um açougue perto de Spring Gardens. Mas, assim que o sogro morreu, o Sr. Mooney começou a se entregar aos excessos. Bebia, saqueava o caixa e se endividava profundamente. Não adiantava fazê-lo jurar fidelidade: ele certamente voltaria a beber poucos dias depois. Brigando com a esposa na frente dos clientes e comprando carne estragada, arruinou o negócio. Certa noite, atacou a esposa com um cutelo e ela teve que dormir na casa de um vizinho.

Depois disso, viveram separados. Ela foi ao padre e conseguiu a separação, ficando com a guarda dos filhos. Não lhe dava dinheiro, comida ou abrigo; e assim, ele foi obrigado a se alistar como guarda-costas do xerife. Era um bêbado baixinho, curvado e maltrapilho, com o rosto, o bigode e as sobrancelhas brancos, desenhados a lápis acima dos olhinhos, que eram rosados ​​e vermelhos; e passava o dia inteiro sentado na sala do oficial de justiça, esperando para ser designado para alguma tarefa. A Sra. Mooney, que havia investido o que restava do dinheiro do açougue em uma pensão na Rua Hardwicke, era uma mulher grande e imponente. Sua casa tinha uma população flutuante composta por turistas de Liverpool e da Ilha de Man e, ocasionalmente, artistas de casas de espetáculos. A população residente era formada por funcionários da cidade. Ela administrava sua casa com astúcia e firmeza, sabia quando dar crédito, quando ser severa e quando deixar passar. Todos os jovens residentes se referiam a ela como "A Madame".

Os rapazes da Sra. Mooney pagavam quinze xelins por semana por pensão completa (cerveja ou stout no jantar não incluídos). Compartilhavam gostos e profissões em comum e, por isso, eram muito amigos. Discutiam entre si as chances dos favoritos e dos azarões. Jack Mooney, filho da patroa, que era escriturário de um agente de comissões na Fleet Street, tinha fama de ser um sujeito durão. Gostava de usar palavrões de soldados: geralmente chegava em casa de madrugada. Quando encontrava os amigos, sempre tinha uma boa história para contar e sempre sabia de algo promissor — ou seja, um bom cavalo ou um bom artista. Também era habilidoso com luvas e cantava canções cômicas. Aos domingos à noite, era comum haver um reencontro na sala de estar da Sra. Mooney. Os artistas de music hall se apresentavam; e Sheridan tocava valsas e polcas e improvisava acompanhamentos. Polly Mooney, a filha da dona da casa, também cantava. Ela cantava:

Eu sou uma... garota travessa.
Não precisa fingir:
você sabe que sou.


Polly era uma jovem esbelta de dezenove anos; tinha cabelos claros e macios e uma boca pequena e carnuda. Seus olhos, cinzentos com um tom esverdeado, tinham o hábito de se voltarem para cima quando falava com alguém, o que lhe dava um ar de pequena madona perversa. A Sra. Mooney havia inicialmente enviado a filha para trabalhar como datilógrafa no escritório de um comerciante de cereais, mas, como um agente da polícia de má reputação costumava aparecer dia sim, dia não, pedindo permissão para falar com a filha, ela a trouxe de volta para casa e a incumbiu de fazer os trabalhos domésticos. Como Polly era muito vivaz, a intenção era deixá-la à vontade com os rapazes. Além disso, os rapazes gostam de sentir que há uma jovem por perto. Polly, é claro, flertava com os rapazes, mas a Sra. Mooney, que era uma juíza astuta, sabia que os rapazes estavam apenas passando o tempo: nenhum deles tinha segundas intenções. As coisas continuaram assim por um longo tempo, e a Sra. Mooney começou a pensar em mandar Polly de volta para a datilografia quando percebeu que algo estava acontecendo entre Polly e um dos rapazes. Ela observou os dois e manteve-se em silêncio.

Polly sabia que estava sendo observada, mas o silêncio persistente de sua mãe não deixava dúvidas. Não havia nenhuma cumplicidade explícita entre mãe e filha, nenhum entendimento aberto, mas, embora as pessoas na casa começassem a falar sobre o assunto, a Sra. Mooney não interveio. Polly começou a se comportar de maneira um tanto estranha e o jovem ficou visivelmente perturbado. Finalmente, quando julgou ser o momento certo, a Sra. Mooney interveio. Ela lidava com problemas morais como um cutelo lida com carne: e, neste caso, ela já havia tomado sua decisão.

Era uma manhã ensolarada de domingo, início de verão, prometendo calor, mas com uma brisa fresca soprando. Todas as janelas da pensão estavam abertas e as cortinas de renda ondulavam suavemente em direção à rua, sob as persianas levantadas. O campanário da Igreja de São Jorge tocava incessantemente e os fiéis, sozinhos ou em grupos, atravessavam o pequeno círculo em frente à igreja, revelando seu propósito tanto pela sua postura reservada quanto pelos pequenos livros em suas mãos enluvadas. O café da manhã havia terminado na pensão e a mesa da copa estava coberta de pratos com listras amarelas de ovos, pedaços de gordura e pele de bacon. A Sra. Mooney sentou-se na poltrona de palha e observou a empregada Mary retirar os utensílios do café da manhã. Ela pediu a Mary que recolhesse as cascas e pedaços de pão quebrado para ajudar a fazer o pudim de pão de terça-feira. Quando a mesa foi limpa, o pão quebrado recolhido e o açúcar e a manteiga guardados a sete chaves, ela começou a reconstituir a conversa que tivera na noite anterior com Polly. As coisas aconteceram como ela suspeitara: ela fora franca em suas perguntas e Polly em suas respostas. Ambas as situações foram um tanto constrangedoras, é claro. Ela se sentiu constrangida por não querer receber a notícia de forma muito displicente ou parecer ter conspirado, e Polly se sentiu constrangida não apenas porque alusões desse tipo sempre a deixavam desconfortável, mas também porque não queria que pensassem que, em sua sábia inocência, ela havia adivinhado a intenção por trás da tolerância de sua mãe.

A Sra. Mooney lançou um olhar instintivo para o pequeno relógio dourado na lareira assim que se deu conta, em meio aos seus devaneios, de que os sinos da Igreja de São Jorge haviam parado de tocar. Eram onze e dezessete minutos: ela teria bastante tempo para resolver a questão com o Sr. Doran e depois pegar o ônibus da linha doze na Rua Marlborough. Ela tinha certeza de que venceria. Para começar, ela tinha todo o peso da opinião social a seu favor: era uma mãe ultrajada. Ela o havia deixado morar em sua casa, presumindo que ele fosse um homem de honra, e ele simplesmente abusara de sua hospitalidade. Ele tinha trinta e quatro ou trinta e cinco anos, então a juventude não podia ser usada como desculpa; nem a ignorância, já que era um homem que tinha visto um pouco do mundo. Ele simplesmente se aproveitara da juventude e inexperiência de Polly: isso era evidente. A questão era: que reparação ele faria?

É preciso haver reparação nesses casos. Para o homem, tudo bem: ele pode seguir a vida como se nada tivesse acontecido, tendo tido seu momento de prazer, mas a moça tem que arcar com as consequências. Algumas mães se contentariam em remediar uma situação dessas por uma quantia em dinheiro; ela conhecia casos assim. Mas ela não faria isso. Para ela, só uma reparação poderia compensar a perda da honra da filha: o casamento.

Ela contou todas as suas cartas novamente antes de mandar Mary subir ao quarto do Sr. Doran para dizer que desejava falar com ele. Estava certa de que conseguiria. Ele era um jovem sério, não libertino ou de voz estridente como os outros. Se tivesse sido o Sr. Sheridan, o Sr. Meade ou Bantam Lyons, sua tarefa teria sido muito mais difícil. Ela não achava que ele aceitaria a publicidade. Todos os hóspedes da casa sabiam algo sobre o caso; alguns haviam inventado detalhes. Além disso, ele trabalhava há treze anos no escritório de uma grande empresa católica de vinhos e a publicidade poderia significar, talvez, a perda do emprego. Por outro lado, se ele concordasse, tudo poderia correr bem. Ela sabia que ele tinha um bom pênis, para começar, e suspeitava que ele tivesse um caso.

Quase meia hora! Ela se levantou e se observou no espelho de parede. A expressão decidida de seu grande rosto corado a satisfez, e ela pensou em algumas mães que conhecia que não conseguiam se livrar de suas filhas.

O Sr. Doran estava muito ansioso naquela manhã de domingo. Tentara fazer a barba duas vezes, mas sua mão tremia tanto que fora obrigado a desistir. Uma barba ruiva de três dias emoldurava seu queixo e, a cada dois ou três minutos, um embaçamento se acumulava em seus óculos, obrigando-o a tirá-los e limpá-los com o lenço de bolso. A lembrança de sua confissão na noite anterior lhe causava uma dor aguda; o padre havia revelado cada detalhe ridículo do ocorrido e, no fim, exagerado tanto seu pecado que ele quase se sentiu grato por ter recebido uma brecha para se redimir. O mal estava feito. O que ele poderia fazer agora senão casar-se com ela ou fugir? Não podia simplesmente ignorar a situação. O assunto certamente seria comentado e seu patrão certamente ficaria sabendo. Dublin é uma cidade tão pequena: todos sabem da vida de todos. Sentiu o coração disparar ao ouvir, em sua imaginação fértil, o velho Sr. Leonard chamando com sua voz rouca: “Mandem o Sr. Doran aqui, por favor.”

Todos os seus longos anos de serviço desperdiçados! Toda a sua indústria e diligência jogadas fora! Quando jovem, ele havia vivido momentos turbulentos, é claro; vangloriava-se de seu pensamento livre e negava a existência de Deus aos seus companheiros nos bares. Mas tudo isso era passado... quase. Ele ainda comprava um exemplar do jornal Reynolds toda semana, mas cumpria seus deveres religiosos e, durante nove décimos do ano, levava uma vida normal. Tinha dinheiro suficiente para se estabelecer; não era isso. Mas a família a desprezaria. Primeiro, havia o pai dela, de má reputação, e depois a pensão da mãe começava a ganhar certa fama. Ele tinha a sensação de estar sendo enganado. Podia imaginar seus amigos comentando o caso e rindo. Ela era um pouco vulgar; às vezes dizia "Eu vi" e "Se eu soubesse". Mas que importância teria a gramática se ele realmente a amasse? Ele não conseguia decidir se gostava dela ou a desprezava pelo que ela havia feito. É claro que ele também havia feito aquilo. Seu instinto o impeliu a permanecer livre, a não se casar. Uma vez casado, você está perdido, dizia ele.

Enquanto ele estava sentado, impotente, na beira da cama, de camisa e calças, ela bateu levemente na porta e entrou. Contou-lhe tudo, que havia confessado tudo à mãe e que esta conversaria com ele naquela manhã. Ela chorou e o abraçou forte, dizendo:

“Ó Bob! Bob! O que eu vou fazer? O que eu vou fazer, afinal?”

Ela disse que iria acabar com a própria vida.

Ele a consolou fracamente, dizendo-lhe para não chorar, que tudo ficaria bem, para não ter medo. Sentiu contra a camisa a agitação do peito dela.

Não fora inteiramente culpa dele que aquilo tivesse acontecido. Ele se lembrava bem, com a curiosa e paciente memória de um celibatário, dos primeiros carinhos casuais que o vestido dela, o hálito, os dedos dela lhe haviam dado. Então, certa noite, enquanto ele se despia para dormir, ela bateu timidamente à porta. Queria reacender a vela na dele, pois a dela havia sido apagada por uma rajada de vento. Era a noite do seu banho. Usava um casaquinho de flanela estampada, folgado e aberto. O peito do pé branco brilhava na abertura dos chinelos felpudos, e o sangue reluzia quente por baixo da pele perfumada. De suas mãos e pulsos também, enquanto acendia e segurava a vela, um perfume suave emanava.

Nas noites em que ele chegava muito tarde, era ela quem esquentava o jantar. Ele mal sabia o que estava comendo, sentindo-a ao seu lado, sozinho, à noite, na casa onde dormia. E a consideração dela! Se a noite estivesse fria, chuvosa ou ventosa, com certeza haveria um pequeno copo de ponche pronto para ele. Talvez pudessem ser felizes juntos…

Eles costumavam subir juntos na ponta dos pés, cada um com uma vela, e no terceiro andar trocavam um relutante boa noite. Costumavam se beijar. Ele se lembrava bem dos olhos dela, do toque da mão dela e do seu delírio…

Mas o delírio passa. Ele repetiu a frase dela, aplicando-a a si mesmo: "O que devo fazer?" O instinto do celibatário o advertia para que se contivesse. Mas o pecado estava ali; até mesmo seu senso de honra lhe dizia que era preciso reparar tal pecado.

Enquanto ele estava sentado com ela na beira da cama, Maria veio até a porta e disse que a patroa queria vê-lo na sala de estar. Ele se levantou para vestir o casaco e o colete, mais impotente do que nunca. Quando terminou de se vestir, foi até ela para confortá-la. "Vai ficar tudo bem, não se preocupe." Ele a deixou chorando na cama e gemendo baixinho: "Ó meu Deus!"

Ao descer as escadas, seus óculos embaçaram tanto que ele teve que tirá-los e limpá-los. Ele ansiava por subir pelo telhado e voar para outro país onde nunca mais ouviria falar de seus problemas, mas uma força o impulsionava escada abaixo, degrau por degrau. Os rostos implacáveis ​​de seu patrão e da Madame o encaravam, observando seu desconforto. No último lance de escadas, ele cruzou com Jack Mooney, que subia da copa com duas garrafas de Bass na mão. Eles se cumprimentaram friamente; e os olhos do amante repousaram por um ou dois segundos em um rosto grosso e musculoso e em um par de braços curtos e grossos. Quando chegou ao pé da escada, ergueu os olhos e viu Jack o observando da porta do depósito.

De repente, ele se lembrou da noite em que um dos artistas de music hall, um loirinho baixinho, fizera uma alusão bastante ousada a Polly. O reencontro quase foi interrompido por causa da violência de Jack. Todos tentaram acalmá-lo. O artista de music hall, um pouco mais pálido que o normal, continuava sorrindo e dizendo que não tinha más intenções; mas Jack gritava com ele que, se algum sujeito tentasse esse tipo de brincadeira com sua irmã, ele ia enfiar os dentes na garganta dele, e ia mesmo.

Polly sentou-se por um instante na beira da cama, chorando. Depois, enxugou as lágrimas e foi até o espelho. Molhou a ponta da toalha na jarra de água e refrescou os olhos com a água fria. Olhou-se de perfil e ajeitou um grampo de cabelo acima da orelha. Em seguida, voltou para a cama e sentou-se aos pés. Observou os travesseiros por um longo tempo, e a visão deles despertou em sua mente lembranças doces e secretas. Encostou a nuca na grade de ferro fria da cama e mergulhou em devaneios. Não havia mais nenhum sinal de perturbação em seu rosto.

Ela esperou pacientemente, quase alegremente, sem alarme, suas memórias gradualmente dando lugar a esperanças e visões do futuro. Suas esperanças e visões eram tão complexas que ela já não via os travesseiros brancos nos quais seu olhar estava fixo, nem se lembrava de que estava esperando por algo.

Finalmente, ela ouviu sua mãe chamando. Levantou-se de um salto e correu em direção à balaustrada.

“Polly! Polly!”

“Sim, mamãe?”

“Desça, querida. O Sr. Doran quer falar com você.”
James Joyce

Filosofia do gato

Olho para o meu gato e medito. Medito teologias. Diziam os teólogos de séculos atrás que a harmonia da natureza deve ser o espelho onde os seres humanos devem buscar suas perfeições. O gato é um ser da natureza. Olho para o gato como um espelho. Não percebo nele nenhuma desarmonia. Sinto que devo imitá-lo.

Camus observou que o que caracteriza os seres humanos é a sua recusa a ser o que são. Eles não estão felizes com o que são. Querem ser outros, diferentes. Por isso somos neuróticos, revolucionários e artistas. Do sentimento de revolta surgem as criações que nos fazem grandes. Mas nesse momento eu não quero ser grande. Quero simplesmente ter a saúde de corpo e de alma que tem o meu gato. Ele está feliz com a sua condição de gato. Não pensa em criações que o farão grande.

Deitado ao lado do aquecedor (que manhã mais fria!), ele se entrega, sem pensar, às delícias do calor macio. Nesse momento, ele é um monge budista: nenhum desejo o perturba. Desejos são perturbações na tranquilidade da alma. Ter um desejo é estar infeliz: falta-me alguma coisa, por isso desejo... Mas para o meu gato nada falta. Ele é um ser completo. Por isso ele pode se entregar ao calor do momento presente sem desejar nada. E esse “entregar-se ao momento presente sem desejar nada” tem o nome de preguiça. Preguiça é a virtude dos seres que estão em paz com a vida.

Por pura brincadeira escrevi um livrinho sobre demônios e pecados. Os demônios continuam soltos pelo mundo do jeito como sempre estiveram. Só que agora fazem uso de disfarces. Até se rebatizaram com nomes diferentes, científicos. Lidando com os demônios, usei palavras filosóficas e psicanalíticas de exorcismo. Lidando com os pecados, usei palavras éticas de condenação.

Tudo ia muito bem até que cheguei ao pecado da preguiça. Preguiça é fazer nada. Nossa tradição religiosa nada sabe da espiritualidade oriental do taoísmo que faz do “fazer nada”, “wu-wei”, a virtude suprema.

E aí, então, aquilo que deveria ser uma condenação do pecado da preguiça virou um elogio às delícias e virtudes da preguiça.

Alguém disse que preferia os gatos aos cachorros porque não há gatos policiais. 
Policiais existem para fazer cumprir a lei, o dever. Dentro de mim, desgraçadamente, mora aquele cão policial a que Freud deu o nome de “superego”: ele rosna ameaças e culpas todas as vezes em que me deito na rede.
Meu gato, na sua imperturbável preguiça, me dá uma lição de filosofia. Não me dá ordens. Ele deve ter aprendido do Tao-Te-Ching, que diz que o homem verdadeiramente bom não faz coisa alguma...

Estou velho e quero que me seja dado o privilégio de me entregar à filosofia do meu gato: fazer nada. Com consciência limpa repetir com Fernando Pessoa: “ Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer...”.

Assim, proponho que se acrescente aos direitos humanos já escritos, um outro, para os velhos: “ Todos os velhos têm o direito à felicidade da preguiça”. Pois, como o Riobaldo disse: “Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso...”.

Assim, “ vou descansar meu fardo no chão,
À margem do rio...
Não vou mais me preocupar com a guerra...
Vou pôr no chão minha espada e meu escudo,
À margem do rio...”

Rubem Alves, "Do universo à jabuticaba"

sexta-feira, maio 1

A diferença

 


Miss Dollar

Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber quem era Miss Dollar. Mas por outro lado, sem a apresentação de Miss Dollar, seria o autor obrigado a longas digressões, que encheriam o papel sem adiantar a ação. Não há hesitação possível: vou apresentar-lhes Miss Dollar.

Se o leitor é rapaz e dado ao gênio melancólico, imagina que Miss Dollar é uma inglesa pálida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo à flor do rosto dois grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas tranças loiras. A moça em questão deve ser vaporosa e ideal como uma criação de Shakespeare; deve ser o contraste do roastbeef britânico, com que se alimenta a liberdade do Reino Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se souber o português deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Camões ou os Cantos de Gonçalves Dias. O chá e o leite devem ser a alimentação de semelhante criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e biscoitos para acudir às urgências do estômago. A sua fala deve ser um murmúrio de harpa eólia; o seu amor um desmaio, a sua vida uma contemplação, a sua morte um suspiro.

A figura é poética, mas não é a da heroína do romance.

Suponhamos que o leitor não é dado a estes devaneios e melancolias; nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente diferente da outra. Desta vez será uma robusta americana, vertendo sangue pelas faces, formas arredondadas, olhos vivos e ardentes, mulher feita, refeita e perfeita. Amiga da boa mesa e do bom copo, esta Miss Dollar preferirá um quarto de carneiro a uma página de Longfellow, coisa naturalíssima quando o estômago reclama, e nunca chegará a compreender a poesia do pôr-do-sol. Será uma boa mãe de família segundo a doutrina de alguns padres-mestres da civilização, isto é, fecunda e ignorante.

Já não será do mesmo sentir o leitor que tiver passado a segunda mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso. Para esse, a Miss Dollar verdadeiramente digna de ser contada em algumas páginas, seria uma boa inglesa de cinqüenta anos, dotada com algumas mil libras esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance, realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor aludido. Uma tal Miss Dollar seria incompleta se não tivesse óculos verdes e um grande cacho de cabelo grisalho em cada fonte. Luvas de renda branca e chapéu de linho em forma de cuia, seriam a última demão deste magnífico tipo de ultramar.

Mais esperto que os outros, acode um leitor dizendo que a heroína do romance não é nem foi inglesa, mas brasileira dos quatro costados, e que o nome de Miss Dollar quer dizer simplesmente que a rapariga é rica.

A descoberta seria excelente, se fosse exata; infelizmente nem esta nem as outras são exatas. A Miss Dollar do romance não é a menina romântica, nem a mulher robusta, nem a velha literata, nem a brasileira rica. Falha desta vez a proverbial perspicácia dos leitores; Miss Dollar é uma cadelinha galga.

Para algumas pessoas a qualidade da heroína fará perder o interesse do romance. Erro manifesto. Miss Dollar, apesar de não ser mais que uma cadelinha galga, teve as honras de ver o seu nome nos papéis públicos, antes de entrar para este livro. O Jornal do Comércio e o Correio Mercantil publicaram nas colunas dos anúncios as seguintes linhas reverberantes de promessa:

Desencaminhou-se uma cadelinha galga, na noite de ontem, 30. Acode ao nome de Miss Dollar. Quem a achou e quiser levar à Rua de Mata-cavalos no…, receberá duzentos mil-réis de recompensa. Miss Dollar tem uma coleira ao pescoço fechada por um cadeado em que se lêem as seguintes palavras: De tout mon coeur.

Todas as pessoas que sentiam necessidade urgente de duzentos mil-réis, e tiveram a felicidade de ler aquele anúncio, andaram nesse dia com extremo cuidado nas ruas do Rio de Janeiro, a ver se davam com a fugitiva Miss Dollar. Galgo que aparecesse ao longe era perseguido com tenacidade até verificar-se que não era o animal procurado. Mas toda esta caçada dos duzentos mil-réis era completamente inútil, visto que, no dia em que apareceu o anúncio, já Miss Dollar estava aboletada na casa de um sujeito morador nos Cajueiros que fazia coleção de cães.

II

Quais as razões que induziram o Dr. Mendonça a fazer coleção de cães, é coisa que ninguém podia dizer; uns queriam que fosse simplesmente paixão por esse símbolo da fidelidade ou do servilismo; outros pensavam antes que, cheio de profundo desgosto pelos homens, Mendonça achou que era de boa guerra adorar os cães.

Fossem quais fossem as razões, o certo é que ninguém possuía mais bonita e variada coleção do que ele. Tinha-os de todas as raças, tamanhos e cores. Cuidava deles como se fossem seus filhos; se algum lhe morria ficava melancólico. Quase se pode dizer que, no espírito de Mendonça, o cão pesava tanto como o amor, segundo uma expressão célebre: tirai do mundo o cão, e o mundo será um ermo.

O leitor superficial conclui daqui que o nosso Mendonça era um homem excêntrico. Não era. Mendonça era um homem como os outros; gostava de cães como outros gostam de flores. Os cães eram as suas rosas e violetas; cultivava-os com o mesmíssimo esmero. De flores gostava também; mas gostava delas nas plantas em que nasciam: cortar um jasmim ou prender um canário parecia-lhe idêntico atentado.

Era o Dr. Mendonça homem de seus trinta e quatro anos, bem apessoado, maneiras francas e distintas. Tinha-se formado em medicina e tratou algum tempo de doentes; a clínica estava já adiantada quando sobreveio uma epidemia na capital; o Dr. Mendonça inventou um elixir contra a doença; e tão excelente era o elixir, que o autor ganhou um bom par de contos de réis. Agora exercia a medicina como amador. Tinha quanto bastava para si e a família. A família compunha-se dos animais citados acima.

Na memorável noite em que se desencaminhou Miss Dollar, voltava Mendonça para casa quando teve a ventura de encontrar a fugitiva no Rocio. A cadelinha entrou a acompanhá-lo, e ele, notando que era animal sem dono visível, levou-a consigo para os Cajueiros.

Apenas entrou em casa examinou cuidadosamente a cadelinha, Miss Dollar era realmente um mimo; tinha as formas delgadas e graciosas da sua fidalga raça; os olhos castanhos e aveludados pareciam exprimir a mais completa felicidade deste mundo, tão alegres e serenos eram. Mendonça contemplou-a e examinou minuciosamente. Leu o dístico do cadeado que fechava a coleira, e convenceu-se finalmente de que a cadelinha era animal de grande estimação da parte de quem quer que fosse dono dela.

— Se não aparecer o dono, fica comigo, disse ele entregando Miss Dollar ao moleque encarregado dos cães.

Tratou o moleque de dar comida a Miss Dollar, enquanto Mendonça planeava um bom futuro à nova hóspede, cuja família devia perpetuar-se na casa.

O plano de Mendonça durou o que duram os sonhos: o espaço de uma noite. No dia seguinte, lendo os jornais, viu o anúncio transcrito acima, prometendo duzentos mil-réis a quem entregasse a cadelinha fugitiva. A sua paixão pelos cães deu-lhe a medida da dor que devia sofrer o dono ou dona de Miss Dollar, visto que chegava a oferecer duzentos mil-réis de gratificação a quem apresentasse a galga. Consequentemente resolveu restituí-la, com bastante mágoa do coração. Chegou a hesitar por alguns instantes; mas afinal venceram os sentimentos de probidade e compaixão, que eram o apanágio daquela alma. E, como se lhe custasse despedir-se do animal, ainda recente na casa, dispôs-se a levá-lo ele mesmo, e para esse fim preparou-se. Almoçou, e depois de averiguar bem se Miss Dollar havia feito a mesma operação, saíram ambos de casa com direção a Mata-cavalos.

Naquele tempo ainda o Barão do Amazonas não tinha salvo a independência das repúblicas platinas mediante a vitória de Riachuelo, nome com que depois a Câmara Municipal crismou a Rua de Mata-cavalos. Vigorava, portanto, o nome tradicional da rua, que não queria dizer coisa nenhuma de jeito.

A casa que tinha o número indicado no anúncio era de bonita aparência e indicava certa abastança nos haveres de quem lá morasse. Antes mesmo que Mendonça batesse palmas no corredor, já Miss Dollar, reconhecendo os pátrios lares, começava a pular de contente e a soltar uns sons alegres e guturais que, se houvesse entre os cães literatura, deviam ser um hino de ação de graças.

Veio um moleque saber quem estava; Mendonça disse que vinha restituir a galga fugitiva. Expansão do rosto do moleque, que correu a anunciar a boa nova. Miss Dollar, aproveitando uma fresta, precipitou-se pelas escadas acima. Dispunha-se Mendonça a descer, pois estava cumprida a sua tarefa, quando o moleque voltou dizendo-lhe que subisse e entrasse para a sala.

Na sala não havia ninguém. Algumas pessoas, que têm salas elegantemente dispostas, costumam deixar tempo de serem estas admiradas pelas visitas, antes de as virem cumprimentar. É possível que esse fosse o costume dos donos daquela casa, mas desta vez não se cuidou em semelhante coisa, porque mal o médico entrou pela porta do corredor surgiu de outra interior uma velha com Miss Dollar nos braços e a alegria no rosto.

— Queira ter a bondade de sentar-se, disse ela designando uma cadeira à Mendonça.

— A minha demora é pequena, disse o médico sentando-se. Vim trazer-lhe a cadelinha que está comigo desde ontem…

— Não imagina que desassossego causou cá em casa a ausência de Miss Dollar…

— Imagino, minha senhora; eu também sou apreciador de cães, e se me faltasse um sentiria profundamente. A sua Miss Dollar…

— Perdão! interrompeu a velha; minha não; Miss Dollar não é minha, é de minha sobrinha.

— Ah!…

— Ela aí vem.

Mendonça levantou-se justamente quando entrava na sala a sobrinha em questão. Era uma moça que representava vinte e oito anos, no pleno desenvolvimento da sua beleza, uma dessas mulheres que anunciam velhice tardia e imponente. O vestido de seda escura dava singular realce à cor imensamente branca da sua pele. Era roçagante o vestido, o que lhe aumentava a majestade do porte e da estatura. O corpinho do vestido cobria-lhe todo o colo; mas adivinhava-se por baixo da seda um belo tronco de mármore modelado por escultor divino. Os cabelos castanhos e naturalmente ondeados estavam penteados com essa simplicidade caseira, que é a melhor de todas as modas conhecidas; ornavam-lhe graciosamente a fronte como uma coroa doada pela natureza. A extrema brancura da pele não tinha o menor tom cor-de-rosa que lhe fizesse harmonia e contraste. A boca era pequena, e tinha uma certa expressão imperiosa. Mas a grande distinção daquele rosto, aquilo que mais prendia os olhos, eram os olhos; imaginem duas esmeraldas nadando em leite.

Mendonça nunca vira olhos verdes em toda a sua vida; disseram-lhe que existiam olhos verdes, ele sabia de cor uns versos célebres de Gonçalves Dias; mas até então os olhos verdes eram para ele a mesma coisa que a fênix dos antigos. Um dia, conversando com uns amigos a propósito disto, afirmava que se alguma vez encontrasse um par de olhos verdes fugiria deles com terror.

— Por quê? perguntou-lhe um dos circunstantes admirado.

— A cor verde é a cor do mar, respondeu Mendonça; evito as tempestades de um; evitarei as tempestades dos outros.

Eu deixo ao critério do leitor esta singularidade de Mendonça, que de mais a mais é preciosa, no sentido de Molière.

III

Mendonça cumprimentou respeitosamente a recém-chegada, e esta, com um gesto, convidou-o a sentar-se outra vez.

— Agradeço-lhe infinitamente o ter-me restituído este pobre animal, que me merece grande estima, disse Margarida sentando-se.

— E eu dou graças a Deus por tê-lo achado; podia ter caído em mãos que o não restituíssem.

Margarida fez um gesto a Miss Dollar, e a cadelinha, saltando do regaço da velha, foi ter com Margarida; levantou as patas dianteiras e pôs-lhas sobre os joelhos; Margarida e Miss Dollar trocaram um longo olhar de afeto. Durante esse tempo uma das mãos da moça brincava com uma das orelhas da galga, e dava assim lugar a que Mendonça admirasse os seus belíssimos dedos armados com unhas agudíssimas.

Mas, conquanto Mendonça tivesse sumo prazer em estar ali, reparou que era esquisita e humilhante a sua demora. Pareceria estar esperando a gratificação. Para escapar a essa interpretação desairosa, sacrificou o prazer da conversa e a contemplação da moça; levantou-se dizendo:

— A minha missão está cumprida…

— Mas… interrompeu a velha.

Mendonça compreendeu a ameaça da interrupção da velha.

— A alegria, disse ele, que restituí a esta casa é a maior recompensa que eu podia ambicionar. Agora peço-lhes licença…

As duas senhoras compreenderam a intenção de Mendonça; a moça pagou-lhe a cortesia com um sorriso; e a velha, reunindo no pulso quantas forças ainda lhe restavam pelo corpo todo, apertou com amizade a mão do rapaz.

Mendonça saiu impressionado pela interessante Margarida. Notava-lhe principalmente, além da beleza, que era de primeira água, certa severidade triste no olhar e nos modos. Se aquilo era caráter da moça, dava-se bem com a índole de médico; se era resultado de algum episódio da vida, era uma página do romance que devia ser decifrada por olhos hábeis. A falar verdade, o único defeito que Mendonça lhe achou foi a cor dos olhos, não porque a cor fosse feia, mas porque ele tinha prevenção contra os olhos verdes. A prevenção, cumpre dizê-lo, era mais literária que outra coisa; Mendonça apegava-se à frase que uma vez proferira, e foi acima citada, e a frase é que lhe produziu a prevenção. Não mo acusem de chofre; Mendonça era homem inteligente, instruído e dotado de bom senso; tinha, além disso, grande tendência para as afeições românticas; mas apesar disso lá tinha calcanhar o nosso Aquiles. Era homem como os outros, outros Aquiles andam por aí que são da cabeça aos pés um imenso calcanhar. O ponto vulnerável de Mendonça era esse; o amor de uma frase era capaz de violentar-lhe afetos; sacrificava uma situação a um período arredondado.

Referindo a um amigo o episódio da galga e a entrevista com Margarida, Mendonça disse que poderia vir a gostar dela se não tivesse olhos verdes. O amigo riu com certo ar de sarcasmo.

— Mas, doutor, disse-lhe ele, não compreendo essa prevenção; eu ouço até dizer que os olhos verdes são de ordinário núncios de boa alma. Além de que, a cor dos olhos não vale nada, a questão é a expressão deles. Podem ser azuis como o céu e pérfidos como o mar.

A observação deste amigo anônimo tinha a vantagem de ser tão poética como a de Mendonça. Por isso abalou profundamente o ânimo do médico. Não ficou este como o asno de Buridan entre a selha d’água e a quarta de cevada; o asno hesitaria, Mendonça não hesitou. Acudiu-lhe de pronto a lição do casuísta Sánchez, e das duas opiniões tomou a que lhe pareceu provável.

Algum leitor grave achará pueril esta circunstância dos olhos verdes e esta controvérsia sobre a qualidade provável deles. Provará com isso que tem pouca prática do mundo. Os almanaques pitorescos citam até à saciedade mil excentricidades e senões dos grandes varões que a humanidade admira, já por instruídos nas letras, já por valentes nas armas; e nem por isso deixamos de admirar esses mesmos varões. Não queira o leitor abrir uma exceção só para encaixar nela o nosso doutor. Aceitemo-lo com os seus ridículos; quem os não tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento.

Para compensar essas fraquezas, já disse que Mendonça tinha qualidades não vulgares. Adotando a opinião que lhe pareceu mais provável, que foi a do amigo, Mendonça disse consigo que nas mãos de Margarida estava talvez a chave do seu futuro. Ideou nesse sentido um plano de felicidade; uma casa num ermo, olhando para o mar ao lado do ocidente, a fim de poder assistir ao espetáculo do pôr-do-sol. Margarida e ele, unidos pelo amor e pela Igreja, beberiam ali, gota a gota, a taça inteira da celeste felicidade. O sonho de Mendonça continha outras particularidades que seria ocioso mencionar aqui. Mendonça pensou nisto alguns dias; chegou a passar algumas vezes por Mata-cavalos; mas tão infeliz que nunca viu Margarida nem a tia; afinal desistiu da empresa e voltou aos cães.

A coleção de cães era uma verdadeira galeria de homens ilustres. O mais estimado deles chamava-se Diógenes; havia um galgo que acudia ao nome de César; um cão d’água que se chamava Nelson; Cornélia chamava-se uma cadelinha rateira, e Calígula um enorme cão de fila, vera-efígie do grande monstro que a sociedade romana produziu. Quando se achava entre toda essa gente, ilustre por diferentes títulos, dizia Mendonça que entrava na história; era assim que se esquecia do resto do mundo.

IV

Achava-se Mendonça uma vez à porta do Carceller, onde acabava de tomar sorvete em companhia de um indivíduo, amigo dele, quando viu passar um carro, e dentro do carro duas senhoras que lhe pareceram as senhoras de Mata-cavalos. Mendonça fez um movimento de espanto que não escapou ao amigo.

— Que foi? perguntou-lhe este.

— Nada; pareceu-me conhecer aquelas senhoras. Viste-as, Andrade?

— Não.

O carro entrara na Rua do Ouvidor; os dois subiram pela mesma rua. Logo acima da Rua da Quitanda, parara o carro à porta de uma loja, e as senhoras apearam-se e entraram. Mendonça não as viu sair; mas viu o carro e suspeitou que fosse o mesmo. Apressou o passo sem dizer nada a Andrade, que fez o mesmo, movido por essa natural curiosidade que sente um homem quando percebe algum segredo oculto.

Poucos instantes depois estavam à porta da loja; Mendonça verificou que eram as duas senhoras de Mata-cavalos. Entrou afoito, com ar de quem ia comprar alguma coisa, e aproximou-se das senhoras. A primeira que o conheceu foi a tia. Mendonça cumprimentou-as respeitosamente. Elas receberam o cumprimento com afabilidade. Ao pé de Margarida estava Miss Dollar, que, por esse admirável faro que a natureza concedeu aos cães e aos cortesãos da fortuna, deu dois saltos de alegria apenas viu Mendonça, chegando a tocar-lhe o estômago com as patas dianteiras.

— Parece que Miss Dollar ficou com boas recordações suas, disse D. Antônia (assim se chamava a tia de Margarida).

— Creio que sim, respondeu Mendonça brincando com a galga e olhando para Margarida.

Justamente nesse momento entrou Andrade.

— Só agora as reconheci, disse ele dirigindo-se às senhoras.

Andrade apertou a mão das duas senhoras, ou antes apertou a mão de Antônia e os dedos de Margarida.

Mendonça não contava com este incidente, e alegrou-se com ele por ter à mão o meio de tornar íntimas as relações superficiais que tinha com a família.

— Seria bom, disse ele a Andrade, que me apresentasses a estas senhoras.

— Pois não as conheces? perguntou Andrade estupefato.

— Conhece-nos sem nos conhecer, respondeu sorrindo a velha tia; por ora quem o apresentou foi Miss Dollar.

Antônia referiu a Andrade a perda e o achado da cadelinha.

— Pois, nesse caso, respondeu Andrade, apresento-o já.

Feita a apresentação oficial, o caixeiro trouxe a Margarida os objetos que ela havia comprado, e as duas senhoras despediram-se dos rapazes pedindo-lhes que as fossem ver.

Não citei nenhuma palavra de Margarida no diálogo acima transcrito, porque, a falar verdade, a moça só proferiu duas palavras a cada um dos rapazes.

— Passe bem, disse-lhes ela dando as pontas dos dedos e saindo para entrar no carro.

Ficando sós, saíram também os dois rapazes e seguiram pela Rua do Ouvidor acima, ambos calados. Mendonça pensava em Margarida; Andrade pensava nos meios de entrar na confidência de Mendonça. A vaidade tem mil formas de manifestar-se como o fabuloso Proteu. A vaidade de Andrade era ser confidente dos outros; parecia-lhe assim obter da confiança aquilo que só alcançava da indiscrição. Não lhe foi difícil apanhar o segredo de Mendonça; antes de chegar à esquina da Rua dos Ourives já Andrade sabia de tudo.

— Compreendes agora, disse Mendonça, que eu preciso ir à casa dela; tenho necessidade de vê-la; quero ver se consigo…

Mendonça estacou.

— Acaba! disse Andrade; se consegues ser amado. Por que não? Mas desde já te digo que não será fácil.

— Por quê?

— Margarida tem rejeitado cinco casamentos.

— Naturalmente não amava os pretendentes, disse Mendonça com o ar de um geômetra que acha uma solução.

— Amava apaixonadamente o primeiro, respondeu Andrade, e não era indiferente ao último.

— Houve naturalmente intriga.

— Também não. Admiras-te? É o que me acontece. É uma rapariga esquisita. Se te achas com força de ser o Colombo daquele mundo, lança-te ao mar com a armada; mas toma cuidado com a revolta das paixões, que são os ferozes marujos destas navegações de descoberta.

Entusiasmado com esta alusão, histórica debaixo da forma de alegoria, Andrade olhou para Mendonça, que, desta vez entregue ao pensamento da moça, não atendeu à frase do amigo. Andrade contentou-se com o seu próprio sufrágio, e sorriu com o mesmo ar de satisfação que deve ter um poeta quando escreve o último verso de um poema.

V

Dias depois, Andrade e Mendonça foram à casa de Margarida, e lá passaram meia hora em conversa cerimoniosa. As visitas repetiram-se; eram porém mais freqüentes da parte de Mendonça que de Andrade. D. Antônia mostrou-se mais familiar que Margarida; só depois de algum tempo Margarida desceu do Olimpo do silêncio em que habitualmente se encerrara.

Era difícil deixar de o fazer. Mendonça, conquanto não fosse dado à convivência das salas, era um cavalheiro próprio para entreter duas senhoras que pareciam mortalmente aborrecidas. O médico sabia piano e tocava agradavelmente; a sua conversa era animada; sabia esses mil nadas que entretêm geralmente as senhoras quando elas não gostam ou não podem entrar no terreno elevado da arte, da história e da filosofia. Não foi difícil ao rapaz estabelecer intimidade com a família.

Posteriormente às primeiras visitas, soube Mendonça, por via de Andrade, que Margarida era viúva. Mendonça não reprimiu o gesto de espanto.

— Mas tu falaste de um modo que parecias tratar de uma solteira, disse ele ao amigo.

— É verdade que não me expliquei bem; os casamentos recusados foram todos propostos depois da viuvez.

— Há que tempo está viúva?

— Há três anos.

— Tudo se explica, disse Mendonça depois de algum silêncio; quer ficar fiel à sepultura; é uma Artemisa do século.

Andrade era cético a respeito de Artemisas; sorriu à observação do amigo, e, como este insistisse, replicou:

— Mas se eu já te disse que ela amava apaixonadamente o primeiro pretendente e não era indiferente ao último.

— Então, não compreendo.

— Nem eu.

Mendonça desde esse momento tratou de cortejar assiduamente a viúva; Margarida recebeu os primeiros olhares de Mendonça com um ar de tão supremo desdém, que o rapaz esteve quase a abandonar a empresa; mas, a viúva, ao mesmo tempo que parecia recusar amor, não lhe recusava estima, e tratava-o com a maior meiguice deste mundo sempre que ele a olhava como toda a gente.

Amor repelido é amor multiplicado. Cada repulsa de Margarida aumentava a paixão de Mendonça. Nem já lhe mereciam atenção o feroz Calígula, nem o elegante Júlio César. Os dois escravos de Mendonça começaram a notar a profunda diferença que havia entre os hábitos de hoje e os de outro tempo. Supuseram logo que alguma coisa o preocupava. Convenceram-se disso quando Mendonça, entrando uma vez em casa, deu com a ponta do botim no focinho de Cornélia, na ocasião em que esta interessante cadelinha, mãe de dois Gracos rateiros, festejava a chegada do doutor.

Andrade não foi insensível aos sofrimentos do amigo e procurou consolá-lo. Toda a consolação nestes casos é tão desejada quanto inútil; Mendonça ouvia as palavras de Andrade e confiava-lhe todas as suas penas. Andrade lembrou a Mendonça um excelente meio de fazer cessar a paixão: era ausentar-se da casa. A isto respondeu Mendonça citando La Rochefoucauld:

“A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras.”

A citação teve o mérito de tapar a boca de Andrade, que acreditava tanto na constância como nas Artemisas, mas que não queria contrariar a autoridade do moralista, nem a resolução de Mendonça.

VI

Correram assim três meses. A corte de Mendonça não adiantava um passo; mas a viúva nunca deixou de ser amável com ele. Era isto o que principalmente retinha o médico aos pés da insensível viúva; não o abandonava a esperança de vencê-la.

Algum leitor conspícuo desejaria antes que Mendonça não fosse tão assíduo na casa de uma senhora exposta às calúnias do mundo. Pensou nisso o médico e consolou a consciência com a presença de um indivíduo, até aqui não nomeado por motivo de sua nulidade, e que era nada menos que o filho da Sra. D. Antônia e a menina dos seus olhos. Chamava-se Jorge esse rapaz, que gastava duzentos mil-réis por mês, sem os ganhar, graças à longanimidade da mãe. Freqüentava as casas dos cabeleireiros, onde gastava mais tempo que uma romana da decadência às mãos das suas servas latinas. Não perdia representação de importância no Alcazar; montava bons cavalos, e enriquecia com despesas extraordinárias as algibeiras de algumas damas célebres e de vários parasitas obscuros. Calçava luvas da letra E e botas nº 36, duas qualidades que lançava à cara de todos os seus amigos que não desciam do nº 40 e da letra H. A presença deste gentil pimpolho, achava Mendonça que salvava a situação. Mendonça queria dar esta satisfação ao mundo, isto é, à opinião dos ociosos da cidade. Mas bastaria isso para tapar a boca aos ociosos?

Margarida parecia indiferente às interpretações do mundo como à assiduidade do rapaz. Seria ela tão indiferente a tudo mais neste mundo? Não; amava a mãe, tinha um capricho por Miss Dollar, gostava da boa música, e lia romances. Vestia-se bem, sem ser rigorista em matéria de moda; não valsava; quando muito dançava alguma quadrilha nos saraus a que era convidada. Não falava muito, mas exprimia-se bem. Tinha o gesto gracioso e animado, mas sem pretensão nem faceirice.

Quando Mendonça aparecia lá, Margarida recebia-o com visível contentamento. O médico iludia-se sempre, apesar de já acostumado a essas manifestações. Com efeito, Margarida gostava imenso da presença do rapaz, mas não parecia dar-lhe uma importância que lisonjeasse o coração dele. Gostava de o ver como se gosta de ver um dia bonito, sem morrer de amores pelo sol.

Não era possível sofrer por muito tempo a posição em que se achava o médico. Uma noite, por um esforço de que antes disso se não julgaria capaz, Mendonça dirigiu a Margarida esta pergunta indiscreta:

— Foi feliz com seu marido?

Margarida franziu a testa com espanto e cravou os olhos nos do médico, que pareciam continuar mudamente a pergunta.

— Fui, disse ela no fim de alguns instantes.

Mendonça não disse palavra; não contava com aquela resposta. Confiava demais na intimidade que reinava entre ambos; e queria descobrir por algum modo a causa da insensibilidade da viúva. Falhou o cálculo; Margarida tornou-se séria durante algum tempo; a chegada de D. Antônia salvou uma situação esquerda para Mendonça. Pouco depois Margarida voltava às boas, e a conversa tornou-se animada e íntima como sempre. A chegada de Jorge levou a animação da conversa a proporções maiores; D. Antônia, com olhos e ouvidos de mãe, achava que o filho era o rapaz mais engraçado deste mundo; mas a verdade é que não havia em toda a cristandade espírito mais frívolo. A mãe ria-se de tudo quanto o filho dizia; o filho enchia, só ele, a conversa, referindo anedotas e reproduzindo ditos e sestros do Alcazar. Mendonça via todas essas feições do rapaz, e aturava-o com resignação evangélica.

A entrada de Jorge, animando a conversa, acelerou as horas; às dez retirou-se o médico, acompanhado pelo filho de D. Antônia, que ia cear. Mendonça recusou o convite que Jorge lhe fez, e despediu-se dele na Rua do Conde, esquina da do Lavradio.

Nessa mesma noite resolveu Mendonça dar um golpe decisivo; resolveu escrever uma carta a Margarida. Era temerário para quem conhecesse o caráter da viúva; mas, com os precedentes já mencionados, era loucura. Entretanto, não hesitou o médico em empregar a carta, confiando que no papel diria as coisas de muito melhor maneira que de boca. A carta foi escrita com febril impaciência; no dia seguinte, logo depois de almoçar, Mendonça meteu a carta dentro de um volume de George Sand, mandou-o pelo moleque a Margarida.

A viúva rompeu a capa de papel que embrulhava o volume, e pôs o livro sobre a mesa da sala; meia hora depois voltou e pegou no livro para ler. Apenas o abriu, caiu-lhe a carta aos pés. Abriu-a e leu o seguinte:

Qualquer que seja a causa da sua esquivança, respeito-a, não me insurjo contra ela. Mas, se não me é dado insurgir-me, não me será lícito queixar-me? Há de ter compreendido o meu amor, do mesmo modo que tenho compreendido a sua indiferença; mas, por maior que seja essa indiferença está longe de ombrear com o amor profundo e imperioso que se apossou de meu coração quando eu mais longe me cuidava destas paixões dos primeiros anos. Não lhe contarei as insônias e as lágrimas, as esperanças e os desencantos, páginas tristes deste livro que o destino põe nas mãos do homem para que duas almas o leiam. É-lhe indiferente isso.

Não ouso interrogá-la sobre a esquivança que tem mostrado em relação a mim; mas por que motivo se estende essa esquivança a tantos mais? Na idade das paixões férvidas, ornada pelo céu com uma beleza rara, por que motivo quer esconder-se ao mundo e defraudar a natureza e o coração de seus incontestáveis direitos? Perdoe-me a audácia da pergunta; acho-me diante de um enigma que o meu coração desejaria decifrar. Penso às vezes que alguma grande dor a atormenta, e quisera ser o médico do seu coração; ambicionava, confesso, restaurar-lhe alguma ilusão perdida. Parece que não há ofensa nesta ambição.

Se, porém, essa esquivança denota simplesmente um sentimento de orgulho legítimo, perdoe-me se ousei escrever-lhe quando seus olhos expressamente mo proibiram. Rasgue a carta que não pode valer-lhe uma recordação, nem representar uma arma.

A carta era toda de reflexão; a frase fria e medida não exprimia o fogo do sentimento. Não terá, porém, escapado ao leitor a sinceridade e a simplicidade com que Mendonça pedia uma explicação que Margarida provavelmente não podia dar.

Quando Mendonça disse a Andrade haver escrito a Margarida, o amigo do médico entrou a rir despregadamente.

— Fiz mal? perguntou Mendonça.

— Estragaste tudo. Os outros pretendentes começaram também por carta; foi justamente a certidão de óbito do amor.

— Paciência, se acontecer o mesmo, disse Mendonça levantando os ombros com aparente indiferença; mas eu desejava que não estivesses sempre a falar nos pretendentes; eu não sou pretendente no sentido desses.

— Não querias casar com ela?

— Sem dúvida, se fosse possível, respondeu Mendonça.

— Pois era justamente o que os outros queriam; casar-te-ias e entrarias na mansa posse dos bens que lhe couberam em partilha e que sobem a muito mais de cem contos. Meu rico, se falo em pretendentes não é por te ofender, porque um dos quatro pretendentes despedidos fui eu.

— Tu?

— É verdade; mas descansa, não fui o primeiro, nem ao menos o último.

— Escreveste?

— Como os outros; como eles, não obtive resposta; isto é, obtive uma: devolveu-me a carta. Portanto, já que lhe escreveste, espera o resto; verás se o que te digo é ou não exato. Estás perdido, Mendonça; fizeste muito mal.

Andrade tinha esta feição característica de não omitir nenhuma das cores sombrias de uma situação, com o pretexto de que aos amigos se deve a verdade. Desenhado o quadro, despediu-se de Mendonça, e foi adiante.

Mendonça foi para casa, onde passou a noite em claro.

CAPÍTULO VII

Enganara-se Andrade; a viúva respondeu à carta do médico. A carta dela limitou-se a isto:

Perdôo-lhe tudo; não lhe perdoarei se me escrever outra vez. A minha esquivança não tem nenhuma causa; é questão de temperamento.

O sentido da carta era ainda mais lacônico do que a expressão. Mendonça leu-a muitas vezes, a ver se a completava; mas foi trabalho perdido. Uma coisa concluiu ele logo; era que havia coisa oculta que arredava Margarida do casamento; depois concluiu outra, era que Margarida ainda lhe perdoaria segunda carta se lha escrevesse.

A primeira vez que Mendonça foi a Mata-cavalos achou-se embaraçado sobre a maneira por que falaria a Margarida; a viúva tirou-o do embaraço, tratando-o como se nada houvesse entre ambos. Mendonça não teve ocasião de aludir às cartas por causa da presença de D. Antônia, mas estimou isso mesmo, porque não sabia o que lhe diria caso viessem a ficar sós os dois.

Dias depois, Mendonça escreveu segunda carta à viúva e mandou-lha pelo mesmo canal da outra. A carta foi-lhe devolvida sem resposta. Mendonça arrependeu-se de ter abusado da ordem da moça, e resolveu, de uma vez por todas, não voltar à casa de Mata-cavalos. Nem tinha ânimo de lá aparecer, nem julgava conveniente estar junto de uma pessoa a quem amava sem esperança.

Ao cabo de um mês não tinha perdido uma partícula sequer do sentimento que nutria pela viúva. Amava-a com o mesmíssimo ardor. A ausência, como ele pensara, aumentou-lhe o amor, como o vento ateia um incêndio. Debalde lia ou buscava distrair-se na vida agitada do Rio de Janeiro; entrou a escrever um estudo sobre a teoria do ouvido, mas a pena escapava-se-lhe para o coração, e saiu o escrito com uma mistura de nervos e sentimentos. Estava então na sua maior nomeada o romance de Renan sobre a vida de Jesus; Mendonça encheu o gabinete com todos os folhetos publicados de parte a parte, e entrou a estudar profundamente o misterioso drama da Judéia. Fez quanto pôde para absorver o espírito e esquecer a esquiva Margarida; era-lhe impossível.

Um dia de manhã apareceu-lhe em casa o filho de D. Antônia; traziam-no dois motivos: perguntar-lhe por que não ia a Mata-cavalos, e mostrar-lhe umas calças novas. Mendonça aprovou as calças, e desculpou como pôde a ausência, dizendo que andava atarefado. Jorge não era alma que compreendesse a verdade escondida por baixo de uma palavra indiferente; vendo Mendonça mergulhado no meio de uma chusma de livros e folhetos, perguntou-lhe se estava estudando para ser deputado. Jorge cuidava que se estudava para ser deputado!

— Não, respondeu Mendonça.

— É verdade que a prima também lá anda com livros, e não creio que pretenda ir à câmara.

— Ah! sua prima?

— Não imagina; não faz outra coisa. Fecha-se no quarto, e passa os dias inteiros a ler.

Informado por Jorge, Mendonça supôs que Margarida era nada menos que uma mulher de letras, alguma modesta poetisa, que esquecia o amor dos homens nos braços das musas. A suposição era gratuita e filha mesmo de um espírito cego pelo amor como o de Mendonça. Há várias razões para ler muito sem ter comércio com as musas.

— Note que a prima nunca leu tanto; agora é que lhe deu para isso, disse Jorge tirando da charuteira um magnífico havana do valor de três tostões, e oferecendo outro a Mendonça. Fume isto, continuou ele, fume e diga-me se há ninguém como o Bernardo para ter charutos bons.

Gastos os charutos, Jorge despediu-se do médico, levando a promessa de que este iria à casa de D. Antônia o mais cedo que pudesse.

No fim de quinze dias Mendonça voltou a Mata-cavalos.

Encontrou na sala Andrade e D. Antônia, que o receberam com aleluias. Mendonça parecia com efeito ressurgir de um túmulo; tinha emagrecido e empalidecido. A melancolia dava-lhe ao rosto maior expressão de abatimento. Alegou trabalhos extraordinários, e entrou a conversar alegremente como dantes. Mas essa alegria, como se compreende, era toda forçada. No fim de um quarto de hora a tristeza apossou-se-lhe outra vez do rosto. Durante esse tempo, Margarida não apareceu na sala; Mendonça, que até então não perguntara por ela, não sei por que razão, vendo que ela não aparecia, perguntou se estava doente. D. Antônia respondeu-lhe que Margarida estava um pouco incomodada.

O incômodo de Margarida durou uns três dias; era uma simples dor de cabeça, que o primo atribuiu à aturada leitura.

No fim de alguns dias mais, D. Antônia foi surpreendida com uma lembrança de Margarida; a viúva queria ir viver na roça algum tempo.

— Aborrece-te a cidade? perguntou a boa velha.

— Alguma coisa, respondeu Margarida; queria ir viver uns dois meses na roça.

D. Antônia não podia recusar nada à sobrinha; concordou em ir para a roça; e começaram os preparativos. Mendonça soube da mudança no Rocio, andando a passear de noite; disse-lho Jorge na ocasião de ir para o Alcazar. Para o rapaz era uma fortuna aquela mudança, porque suprimia-lhe a única obrigação que ainda tinha neste mundo, que era a de ir jantar com a mãe.

Não achou Mendonça nada que admirar na resolução; as resoluções de Margarida começavam a parecer-lhe simplicidades.

Quando voltou para casa encontrou um bilhete de D. Antônia concebido nestes termos:

Temos de ir para fora alguns meses; espero que não nos deixe sem despedir-se de nós. A partida é sábado; e eu quero incumbi-lo de uma coisa.

Mendonça tomou chá, e dispôs-se a dormir. Não pôde. Quis ler; estava incapaz disso. Era cedo; saiu. Insensivelmente dirigiu os passos para Mata-cavalos. A casa de D. Antônia estava fechada e silenciosa; evidentemente estavam já dormindo. Mendonça passou adiante, e parou junto da grade do jardim adjacente à casa. De fora podia ver a janela do quarto de Margarida, pouco elevada, e dando para o jardim. Havia luz dentro; naturalmente Margarida estava acordada. Mendonça deu mais alguns passos; a porta do jardim estava aberta. Mendonça sentiu pulsar-lhe o coração com força desconhecida. Surgiu-lhe no espírito uma suspeita. Não há coração confiante que não tenha desfalecimentos destes; além de que, seria errada a suspeita? Mendonça, entretanto, não tinha nenhum direito à viúva; fora repelido categoricamente. Se havia algum dever da parte dele era a retirada e o silêncio.

Mendonça quis conservar-se no limite que lhe estava marcado; a porta aberta do jardim podia ser esquecimento da parte dos fâmulos. O médico refletiu bem que aquilo tudo era fortuito, e fazendo um esforço afastou-se do lugar. Adiante parou e refletiu; havia um demônio que o impelia por aquela porta dentro. Mendonça voltou, e entrou com precaução.

Apenas dera alguns passos surgiu-lhe em frente Miss Dollar latindo; parece que a galga saíra de casa sem ser pressentida; Mendonça amimou-a e a cadelinha parece que reconheceu o médico, porque trocou os latidos em festas. Na parede do quarto de Margarida desenhou-se uma sombra de mulher; era a viúva que chegava à janela para ver a causa do ruído. Mendonça coseu-se como pôde com uns arbustos que ficavam junto da grade; não vendo ninguém, Margarida voltou para dentro.

Passados alguns minutos, Mendonça saiu do lugar em que se achava e dirigiu-se para o lado da janela da viúva. Acompanhava-o Miss Dollar. Do jardim não podia olhar, ainda que fosse mais alto, para o aposento da moça. A cadelinha apenas chegou àquele ponto, subiu ligeira uma escada de pedra que comunicava o jardim com a casa; a porta do quarto de Margarida ficava justamente no corredor que se seguia à escada; a porta estava aberta. O rapaz imitou a cadelinha; subiu os seis degraus de pedra vagarosamente; quando pôs o pé no último ouviu Miss Dollar pulando no quarto e vindo latir à porta, como que avisando a Margarida de que se aproximava um estranho.

Mendonça deu mais um passo. Mas nesse momento atravessou o jardim um escravo que acudia ao latido da cadelinha; o escravo examinou o jardim, e não vendo ninguém retirou-se. Margarida foi à janela e perguntou o que era; o escravo explicou-lho e tranquilizou-a dizendo que não havia ninguém.

Justamente quando ela saía da janela aparecia à porta a figura de Mendonça. Margarida estremeceu por um abalo nervoso; ficou mais pálida do que era; depois, concentrando nos olhos toda a soma de indignação que pode conter um coração, perguntou-lhe com voz trêmula:

— Que quer aqui?

Foi nesse momento, e só então, que Mendonça reconheceu toda a baixeza do seu procedimento, ou para falar mais acertadamente, toda a alucinação do seu espírito. Pareceu-lhe ver em Margarida a figura da sua consciência, a exprobrar-lhe tamanha indignidade. O pobre rapaz não procurou desculpar-se; a sua resposta foi singela e verdadeira.

— Sei que cometi um ato infame, disse ele; não tinha razão para isso; estava louco; agora conheço a extensão do mal. Não lhe peço que me desculpe, D. Margarida; não mereço perdão; mereço desprezo; adeus!

— Compreendo, senhor, disse Margarida; quer obrigar-me pela força do descrédito quando me não pode obrigar pelo coração. Não é de cavalheiro.

— Oh! isso… juro-lhe que não foi tal o meu pensamento…

Margarida caiu numa cadeira parecendo chorar. Mendonça deu um passo para entrar, visto que até então não saíra da porta; Margarida levantou os olhos cobertos de lágrimas, e com um gesto imperioso mostrou-lhe que saísse.

Mendonça obedeceu; nem um nem outro dormiram nessa noite. Ambos curvavam-se ao peso da vergonha: mas, por honra de Mendonça, a dele era maior que a dela; e a dor de uma não ombreava com o remorso de outro.

VIII

No dia seguinte estava Mendonça em casa fumando charutos sobre charutos, recurso das grandes ocasiões, quando parou à porta dele um carro, apeando-se pouco depois a mãe de Jorge. A visita pareceu de mau agouro ao médico. Mas apenas a velha entrou, dissipou-lhe o receio.

— Creio, disse D. Antônia, que a minha idade permite visitar um homem solteiro.

Mendonça procurou sorrir ouvindo este gracejo; mas não pôde. Convidou a boa senhora a sentar-se, e sentou-se ele também esperando que ela lhe explicasse a causa da visita.

— Escrevi-lhe ontem, disse ela, para que fosse ver-me hoje; preferi vir cá, receando que por qualquer motivo não fosse a Mata-cavalos.

— Queria então incumbir-me?

— De coisa nenhuma, respondeu a velha sorrindo; incumbir disse-lhe eu, como diria qualquer outra coisa indiferente; quero informá-lo.

— Ah! de quê?

— Sabe quem ficou hoje de cama?

— D. Margarida?

— É verdade; amanheceu um pouco doente; diz que passou a noite mal. Eu creio que sei a razão, acrescentou D. Antônia rindo maliciosamente para Mendonça.

— Qual será então a razão? perguntou o médico.

— Pois não percebe?

— Não.

— Margarida ama-o.

Mendonça levantou-se da cadeira como por uma mola. A declaração da tia da viúva era tão inesperada que o rapaz cuidou estar sonhando.

— Ama-o, repetiu D. Antônia.

— Não creio, respondeu Mendonça depois de algum silêncio; há de ser engano seu.

— Engano! disse a velha.

D. Antônia contou a Mendonça que, curiosa por saber a causa das vigílias de Margarida, descobrira no quarto dela um diário de impressões, escrito por ela, à imitação de não sei quantas heroínas de romances; aí lera a verdade que lhe acabava de dizer.

— Mas se me ama, observou Mendonça sentindo entrar-lhe n’alma um mundo de esperanças, se me ama, por que recusa o meu coração?

— O diário explica isso mesmo; eu lhe digo. Margarida foi infeliz no casamento; o marido teve unicamente em vista gozar da riqueza dela; Margarida adquiriu a certeza de que nunca será amada por si, mas pelos cabedais que possui; atribui o seu amor à cobiça. Está convencido?

Mendonça começou a protestar.

— É inútil, disse D. Antônia, eu creio na sinceridade do seu afeto; já de há muito percebi isso mesmo; mas como convencer um coração desconfiado?

— Não sei.

— Nem eu, disse a velha, mas para isso é que eu vim cá; peço-lhe que veja se pode fazer com que a minha Margarida torne a ser feliz, se lhe influi a crença no amor que lhe tem.

— Acho que é impossível…

Mendonça lembrou-se de contar a D. Antônia a cena da véspera; mas arrependeu-se a tempo.

D. Antônia saiu pouco depois.

A situação de Mendonça, ao passo que se tornara mais clara, estava mais difícil que dantes. Era possível tentar alguma coisa antes da cena do quarto; mas depois, achava Mendonça impossível conseguir nada.

A doença de Margarida durou dois dias, no fim dos quais levantou-se a viúva um pouco abatida, e a primeira coisa que fez foi escrever a Mendonça pedindo-lhe que fosse lá à casa.

Mendonça admirou-se bastante do convite, e obedeceu de pronto.

— Depois do que se deu há três dias, disse-lhe Margarida, compreende o senhor que eu não posso ficar debaixo da ação da maledicência… Diz que me ama; pois bem, o nosso casamento é inevitável.

Inevitável! amargou esta palavra ao médico, que aliás não podia recusar uma reparação. Lembrava-se ao mesmo tempo que era amado; e conquanto a idéia lhe sorrisse ao espírito, outra vinha dissipar esse instantâneo prazer, e era a suspeita que Margarida nutria a seu respeito.

— Estou às suas ordens, respondeu ele.

Admirou-se D. Antônia da presteza do casamento quando Margarida lho anunciou nesse mesmo dia. Supôs que fosse milagre do rapaz. Pelo tempo adiante reparou que os noivos tinham cara mais de enterro que de casamento. Interrogou a sobrinha a esse respeito; obteve uma resposta evasiva.

Foi modesta e reservada a cerimônia do casamento. Andrade serviu de padrinho, D. Antônia de madrinha; Jorge falou no Alcazar a um padre, seu amigo, para celebrar o ato.

D. Antônia quis que os noivos ficassem residindo em casa com ela. Quando Mendonça se achou a sós com Margarida, disse-lhe:

— Casei-me para salvar-lhe a reputação; não quero obrigar pela fatalidade das coisas um coração que me não pertence. Ter-me-á por seu amigo; até amanhã.

Saiu Mendonça depois deste speech, deixando Margarida suspensa entre o conceito que fazia dele e a impressão das suas palavras agora.

Não havia posição mais singular do que a destes noivos separados por uma quimera. O mais belo dia da vida tornava-se para eles um dia de desgraça e de solidão; a formalidade do casamento foi simplesmente o prelúdio do mais completo divórcio. Menos ceticismo da parte de Margarida, mais cavalheirismo da parte do rapaz, teriam poupado o desenlace sombrio da comédia do coração. Vale mais imaginar que descrever as torturas daquela primeira noite de noivado.

Mas aquilo que o espírito do homem não vence, há de vencê-lo o tempo, a quem cabe final razão. O tempo convenceu Margarida de que a sua suspeita era gratuita; e, coincidindo com ele o coração, veio a tornar-se efetivo o casamento apenas celebrado.

Andrade ignorou estas coisas; cada vez que encontrava Mendonça chamava-lhe Colombo do amor; tinha Andrade a mania de todo o sujeito a quem as idéias ocorrem trimestralmente; apenas pilhada alguma de jeito repetia-a até a saciedade.

Os dois esposos são ainda noivos e prometem sê-lo até a morte. Andrade meteu-se na diplomacia e promete ser um dos luzeiros da nossa representação internacional. Jorge continua a ser um bom pândego; D. Antônia prepara-se para despedir-se do mundo.

Quanto a Miss Dollar, causa indireta de todos estes acontecimentos, saindo um dia à rua foi pisada por um carro; faleceu pouco depois. Margarida não pôde reter algumas lágrimas pela nobre cadelinha; foi o corpo enterrado na chácara, à sombra de uma laranjeira; cobre a sepultura uma lápide com esta simples inscrição: A Miss Dollar.
Machado de Assis

Zap

Não faz muito que temos esta nova TV com controle remoto, mas devo dizer que se trata agora de um instrumento sem o qual eu não saberia viver. Passo os dias sentado na velha poltrona, mudando de um canal para outro — uma tarefa que antes exigia certa movimentação, mas que agora ficou muito fácil. Estou num canal, não gosto — zap, mudo para outro. Não gosto de novo — zap, mudo de novo. Eu gostaria de ganhar em dólar num mês o número de vezes que você troca de canal em uma hora, diz minha mãe. Trata-se de uma pretensão fantasiosa, mas pelo menos indica disposição para o humor, admirável nessa mulher.


Sofre, minha mãe. Sempre sofreu: infância carente, pai cruel etc. Mas o seu sofrimento aumentou muito quando meu pai a deixou. Já faz tempo; foi logo depois que nasci, e estou agora com treze anos. Uma idade em que se vê muita televisão, e em que se muda de canal constantemente, ainda que minha mãe ache isso um absurdo. Da tela, uma moça sorridente pergunta se o caro telespectador já conhece certo novo sabão em pó. Não conheço nem quero conhecer, de modo que — zap — mudo de canal. “Não me abandone, Mariana, não me abandone!” Abandono, sim. Não tenho o menor remorso, em se tratando de novelas: zap, e agora é um desenho, que eu já vi duzentas vezes, e — zap — um homem falando. Um homem, abraçado à guitarra elétrica, fala a uma entrevistadora. É um roqueiro. Aliás, é o que está dizendo, que é um roqueiro, que sempre foi e sempre será um roqueiro. Tal veemência se justifica, porque ele não parece um roqueiro. É meio velho, tem cabelos grisalhos, rugas, falta-lhe um dente. É o meu pai.

É sobre mim que fala. Você tem um filho, não tem?, pergunta a apresentadora, e ele, meio constrangido — situação pouco admissível para um roqueiro de verdade —, diz que sim, que tem um filho, só que não o vê há muito tempo. Hesita um pouco e acrescenta: você sabe, eu tinha de fazer uma opção, era a família ou o rock. A entrevistadora, porém, insiste (é chata, ela): mas o seu filho gosta de rock? Que você saiba, seu filho gosta de rock?

Ele se mexe na cadeira; o microfone, preso à desbotada camisa, roça-lhe o peito, produzindo um desagradável e bem audível rascar. Sua angústia é compreensível; aí está, num programa local e de baixíssima audiência — e ainda tem de passar pelo vexame de uma pergunta que o embaraça e à qual não sabe responder. E então ele me olha. Vocês dirão que não, que é para a câmera que ele olha; aparentemente é isso, aparentemente ele está olhando para a câmera, como lhe disseram para fazer; mas na realidade é a mim que ele olha, sabe que em algum lugar, diante de uma tevê, estou a fitar seu rosto atormentado, as lágrimas me correndo pelo rosto; e no meu olhar ele procura a resposta à pergunta da apresentadora: você gosta de rock? Você gosta de mim? Você me perdoa? — mas aí comete um erro, um engano mortal: insensivelmente, automaticamente, seus dedos começam a dedilhar as cordas da guitarra, é o vício do velho roqueiro, do qual ele não pode se livrar nunca, nunca. Seu rosto se ilumina — refletores que se acendem? — e ele vai dizer que sim, que seu filho ama o rock tanto quanto ele, mas nesse momento zap — aciono o controle remoto e ele some. Em seu lugar, uma bela e sorridente jovem que está — à exceção do pequeno relógio que usa no pulso — nua, completamente nua.

Moacyr Scliar, “Contos Reunidos”

Inscrição para um portão de cemitério

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!”

Mario Quintana

Saramago de fora das leituras obrigatórias

Comecemos pelo princípio, que neste caso é também o meio e o fim: as Aprendizagens Essenciais do 12.º ano estão a ser revistas e, com isso, os romances de José Saramago deixam de ser leitura obrigatória no currículo de Português. A decisão surge com o brilho institucional da “flexibilidade pedagógica”, esse termo que soa sempre a liberdade, mas que tantas vezes funciona como licença para aliviar o peso do rigor. Assim, de um dia para o outro, obras como Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis deixam de estar no pedestal das leituras imperativas e passam a ocupar o confortável sofá das leituras opcionais.

E enquanto se abre espaço para alternativas como Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho, abre‑se também um espaço ainda maior para nos perguntarmos: o que se ganha quando se perde a obrigatoriedade do único Nobel português da Literatura no Ensino Secundário?


Há quem garanta que estas alterações promovem diversidade e enriquecem o leque de autores estudados. Talvez seja verdade. Mas também é verdade que, num tempo em que se lê pouco, retirar referências literárias centrais tem o sabor ambíguo de uma libertação que saberá, inevitavelmente, a empobrecimento. O Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) assegura que a revisão é uma etapa de “aperfeiçoamento e validação” da matriz curricular, aberta à participação de professores e especialistas até 28 de abril.

Aparentemente, tudo é democrático, dialogado e muito participativo. Mas há decisões que, mesmo participadas, nos deixam a pensar se a liberdade pedagógica não está a ser confundida com uma espécie de alívio literário — como se o problema residisse nos livros difíceis, e não na falta de hábito de os ler.

É aqui que entra a agnotologia, esse conceito tão necessário no século XXI. Criado pelo historiador da ciência Robert Proctor, designa o estudo da produção deliberada da ignorância, seja através de desinformação, omissão ou manipulação cultural.

Originalmente identificada em casos como o da indústria do tabaco — que disseminou a dúvida para travar a compreensão pública dos malefícios do fumo — a agnotologia rapidamente passou a servir para descrever fenómenos bem mais amplos: a desinformação política, a superficialidade mediática e a decadência do pensamento crítico numa sociedade saturada de distrações.

Quando aplicada à escola, a agnotologia não se manifesta através de conspirações secretas ou planos maquiavélicos, mas pela soma silenciosa de pequenas decisões que, ao longo do tempo, retiram profundidade, complexidade e densidade ao processo educativo. Uma disciplina menos exigente aqui, uma obra desafiadora retirada acolá. Pouco a pouco, forma‑se um currículo confortável… mas intelectualmente anémico.

O drama não está apenas em deixar de ler Saramago; está em deixar de habituar os alunos a ler textos que exigem paciência, persistência e compreensão profunda. Hoje, a concorrência é feroz: vídeos de 12 segundos, resumos instantâneos, frases motivacionais que parecem explicações, mas apenas substituem pensamento por consumo. A cada scroll, a atenção encolhe mais um milímetro.

Se a leitura obrigatória já era um esforço num mundo de estímulos digitais permanentes, torná‑la opcional pode equivaler a retirá‑la gentilmente da vida de muitos estudantes. E não por falta de mérito literário, mas por excesso de distração. Quando o algoritmo ganha, o ensino perde.

É assim que a agnotologia escolar se instala: não com uma porta arrombada, mas com uma janela entreaberta. Primeiro, desvaloriza‑se o livro difícil. Depois, privilegia‑se o conteúdo breve. Mais tarde, aceita‑se que “não vale a pena insistir” em autores exigentes. E, quando damos por isso, a escola tornou‑se um espaço onde se aprende, sim — mas cada vez menos aquilo que dura.

Num país que tantas vezes se orgulha da sua herança literária, abdicar de Saramago não é uma tragédia. Mas é, sem dúvida, um sintoma. E os sintomas merecem diagnóstico.

As leituras obrigatórias servem para obrigar — no melhor sentido da palavra: obrigar a ler o que talvez não se escolheria espontaneamente. Obrigam à descoberta, à estranheza, ao confronto com estilos literários complexos e ideias densas. Servem para expandir o intelecto, contrariar a preguiça e, acima de tudo, para garantir que cada aluno tem acesso a obras que fazem parte da identidade cultural do País.

O fim da obrigatoriedade não é o fim de Saramago nas escolas. Mas torna‑o, inevitavelmente, mais vulnerável à erosão do costume e à ditadura do imediato. Numa sala de aula em que tudo compete pela atenção, aquilo que não é obrigatório facilmente se torna invisível.

A verdade é simples: não se trata de idolatrar José Saramago, mas de reconhecer que retirar pilares literários do currículo, num momento histórico marcado pela superficialidade, é um presente involuntário para a ignorância. E a ignorância, ao contrário do que se pensa, não cresce de um dia para o outro — cresce devagar, discretamente, até se tornar normal.

O Nobel português não precisa de ser canonizado. Mas talvez fosse prudente mantê‑lo como referência firme num país que precisa desesperadamente de textos que obriguem a pensar. A escola não é inimiga da liberdade — mas também não deve ser cúmplice da desinformação. E, se há algo que a agnotologia nos ensina, é que a ignorância nunca é fruto do acaso: é sempre consequência do que deixamos de ensinar.

Olhos mortos de sono

É noite. A babá Varka, de uns treze anos, embala o berço da criança e vai ronronando, quase imperceptivelmente:

Báiu-báiuchki-baiú,

Vou cantar-te uma canção…

Arde, em frente da imagem, um candeeiro verde. Estende-se, através do quarto, de um canto a outro, uma corda com cueiros e um enorme par de calças negras. O candeeiro projeta no teto uma grande mancha verde, enquanto os cueiros e as calças lançam sombras compridas sobre o fogão, sobre o berço e sobre Varka… Quando a luz começa a bruxulear, a mancha e as sombras animam-se e põem-se em movimento, como tangidas pelo vento. Falta ar. Cheira a sopra de repolho e couro de botas.

A criança chora. Seu pranto há muito já se tornou rouco e cansado, mas continua gritando e não se sabe quando vai parar. Mas Varka está com sono. Seus olhos grudam, a cabeça pende, dói-lhe o pescoço. Não consegue mover as pálpebras, nem os lábios, e tem a impressão de que seu rosto secou e lenhificou-se, que a cabeça ficou pequena como uma cabeça de alfinete.

— Báiu-báiuchki-báiu, — ronrona — vou fazer-te um mingauzinho…

Um grilo ruída no fogão. Atrás da porta, no quarto vizinho, roncam o patrão e o aprendiz Afanássi… O berço range, como se fora um lamento, Varka vai ronronando — e tudo isto funde-se num canto soturno, acalentador, que é tão doce ouvir, quando se vai para a cama. Agora, porém, esse canto apenas irrita e constrange, porque traz um entorpecimento, e dormir é impossível. Se isso, Deus não o permita acontecer, os patrões vão moê-la de pancada.

Bruxuleia o candeeiro. A mancha verde e as sombras põem-se em movimento, entram pelos olhos entrecerrados, imóveis, de Varka, confundem-se, em seu cérebro meio adormecido, em imagens nebulosas. Ela vê nuvens escuras, que se perseguem pelo céu, gritando como aquela criança. Mas eis que soprou o vento, sumiram as nuvens, e Varka vê uma estrada larga de macadame, coberta de lama quase líquida. Sobre aquela estrada, carroças deslocam-se devagar em fila, arrastam-se homens de alforje ao ombro e perpassam sombras estranhas. De ambos os lados, vê-se uma floresta, através do nevoeiro gélido. De repente, os homens de alforje e as sombras caem por terra, na lama semilíquida. “Para que isso?”, pergunta Varka. “Dormir, dormir!”, respondem-lhe. E eles adormecem profunda e docemente. Pegas e corvos estão pousados sobre os fios telegráficos, gritam como a criança e procuram acordar os homens.

— Báiu-báiuchki-baiú, vou cantar-te uma canção… — ronrona Varka e já se vê em certa isbá escura, abafada.

Revolve-se no chão o seu falecido pai, Iefim Stiepanov. Ela não o vê, mas ouve como rola de dor e geme. Como diz o doente, a hérnia “tomou conta dele”.A dor é tão forte que ele não pode, agora, dizer palavra e comente sorve o ar e bate os dentes como se bate num tambor:

— Bu-bu-bu…

Mãe Pielaguéia correu à casa senhorial, para avisar os patrões de que Iefim estava morrendo. Já saiu há muito e está demorando demais. Varka fica deitada sobre o fogão, sem dormir, prestando atenção àquele “bu-bu-bu”. Mas, eis que se ouve um carro chegar à isbá. Os patrões enviaram para ver o doente um médico jovem, hóspede deles. O médico entra na isbá. Não se consegue vê-lo no escuro, mas ouve-se como tosse e faz barulho com a fechadura.

— Acendam a luz — diz ele.

— Bu-bu-bu… — responde Iefim.

Pielaguéia corre para o fogão, à procura dos fósforos. Depois de um minuto de silêncio, o médico encontra um no bolso e o acende.

— Nesse instante, paizinho, nesse mesmo instante — diz Pielaguéia e corre para fora, um pouco depois, e volta com um toco de vela.

Iefim está com as faces coradas, brilham-lhe os olhos, e o olhar parece estranhamente penetrante, como se pudesse ver através do médico e das paredes.

— E então? O que foi que você inventou? — pergunta-lhe o médico, inclinando-se sobre ele. — O quê! Faz muito tempo que tem isso?

— Como? Chegou a hora da morre, Vossa Nobreza… Vou deixar o mundo dos vivos…

— Chega de bobagem… Vamos curá-lo!

— Seja como quiser, Vossa Nobreza, agradecemos humildemente, mas a gente compreende… Se já chegou a hora da morte, que se vai fazer?

O médico passa um quarto de hora lidando com Iefim, depois se levanta e diz:

— Não posso fazer mais nada… Você deve ir para o hospital, eles vão te operar lá. Vá agora mesmo… Se, falta! Já é um pouco tarde, no hospital estão todos dormindo, mas não faz mal, vou dar a você um bilhetinho. Está ouvindo?

— Mas, como é que ele pode ir, paizinho?— diz Pielaguéia. — Não temos cavalo.

— Não faz mal, falarei com os patrões, eles vão emprestar um.

O médico sai, apaga-se a vela e escuta-se novamente: “bu-bu-bu…”Depois de meia hora, ouve-se chegar à isbá uma telega pequena, enviada pelos patrões, Iefim apronta-se e vai…

Mas, eis que chega uma clara, luminosa manhã. Pielaguéia foi ao hospital para se informar sobre Iefim. Uma criança chora e Varka ouve alguém cantar, com a sua voz:

— Báiu-báiuchki-baiú, vou cantar-te uma canção…

Volta Pielaguéia, persigna-se e murmura:

— De noite, eles o operaram e. de manhãzinha, entregou a alma a Deus… Que esteja em paz, lá no céu… Dizem que o levamos para lá muito tarde…

Varka vai para o mato e chora lá. Mas, eis que alguém lhe bateu na nuca, com tanta força que sua testa choca-se contra uma bétula. Eergue os olhos e vê. Diante de si, o patrão sapateiro.

— Que está fazendo, porca? A criança chora e você está dormindo.

Puxa-lhe a orelha com força. Ela sacode a cabeça e torna a balançar o berço e a ronronar sua canção. A mancha verde e as sombras das calças e dos cueiros balançam-se, piscam-lhe e, pouco depois, dominam-lhe novamente o cérebro. Vê mais uma vez a estrada de macadame, coberta de lama semilíquida. Os homens de alforje às costas e as sombras estão estirados e dormem profundamente. Vendo-os, Varka sente uma vontade louca de dormir, dormir com toda a alma; mãe Pielaguéia, porém, caminha a seu lado, apressando-a. Vão à cidade pedir emprego.

— Uma esmolinha, pelo amor de Deus! — implora a mãe aos transeuntes. — Por caridade, meus bons senhores!

— Me dá a criança! -responde-lhe uma voz conhecida. — Me dá a criança! — repete a mesma voz, mas agora já abruptamente, com rancor. — Está dormindo, animal?

Varka levanta-se de um salto e, olhando em redor, compreende o que sucedeu: não hás mais estrada, nem Pielaguéia, nem gente, mas, no meio do quarto, está a patroa, que veio amamentar a criança. Enquanto a patroa gorda, de ombros largos, alimenta a acalma a criança, Varka olha-a de pé, esperando que acabe. Além das janelas, o ar já está se tornando azul, empalidecem as sombras e a mancha verde no reto. Não demora a manhã.

— Toma! — diz a patroa, abotoando a camisola sobre o peito. — Está chorando. Deve ser mau-olhado.

Varka apanha a criança, deita-a no berço e recomeça a embalá-la. A mancha verde e as sombras desaparecem pouco a pouco e já não há ninguém que se esgueire para dentro de sua cabeça e enevoe-lhe o cérebro. Mas não passou o sono, um sono terrível! Varka deitas a cabeça na beirada do berço e balança-se com todo o corpo, a fim de dominar este sono, mas, apesar de tudo, seus olhos estão grudados e pesa-lhe a cabeça.

— Varka, vai acender o fogão! — ressoa a voz do patrão, atrás da porta.

Quer dizer que já é tempo de se levantar e começar o trabalho. Varka deixa o berço e corre a buscar lenha no depósito. Está contente. Quando se anda ou corre, não se tem tanto sono. Traz lenha, acende o fogão e sente voltar a si o rosto lenhificado e aclararem-se as idéias.

— Varka, vai pôr o samovar! — grita a patroa,.

Varka pica a lenha em gravetos, mas apenas tem tempo de acendê-los e enfiá-los no samovar, já se ouve nova ordem:

— Varka, limpa as galochas do patrão!

Senta-se no chão, limpa as galochas e pensa em como seria bom enfiar a cabeça numa galocha grande e funda e cochilar um pouco… De repente, a galocha cresce, fica inchada, enche todo o quarto. Varka deixa cair a escova, mas, no mesmo instante, sacode a cabeça, arregala os olhos, procura fazer com que os objetos não cresçam e não se movam em seus olhos.

— Varka, vai lavar a escada lá fora, que até dá vergonha perante os fregueses.

Varka lava a escada, arruma os quartos, depois acende outro fogão e corre à venda. Hás muito serviço, não sobra um instante de lazer.

Mas, não há nada tão difícil como ficar parada, diante da mesa da cozinha, e descascar batata. A cabeça tende a pender sobre a mesa, a batata parece saltitar-lhe nos olhos, a faca tomba-lhe da mão. Ao lado dela, vai andando de um lado para outro a patroa gorda e zangada, de mangas arregaçadas, e fala tão alto que sua voz reboa no ouvido. é outra tortura servir à mesa, um inferno lavar roupa, costurar. Há momentos em que se tem vontade de não ligar a coisa alguma, arremessar-se ao chão e dormir.

Passa o dia. Vendo a escuridão chegar às janelas, Varka aperta com as mãos as têmporas, que tendem a lenhificar-se e sorri, sem saber por quê. A treva acaricia-lhe os olhos que grudam e promete-lhe um sono forte, para daqui a pouco. De noite, chegam visitas.

— Varka, vai pôr o samovar! — grita a patroa.

— O samovar é pequeno e, antes que as visitas se dêem por satisfeitas, torna-se necessário esquentá-lo umas cinco vezes. Depois do chá, Varka passa uma hora inteira, parada, olhando as visitas e esperando ordens.

— Varka, corre para comprar três garrafas de cerveja!

Levanta-se de um salto e procura correr o mais depressa possível, para enxotar o sono.

— Varka, vai buscar vodca! Varka, onde está o saca-rolhas? Varka, limpa os arenques!

— Mas, eis que as visitas se foram, finalmente. Apagam-se as luzes, os patrões vão dormir.

— Varka, embala a criança! — ressoa a ordem derradeira. Um, grilo trila no fogão. A mancha verde no teto e as sombras das calças e dos cueiros esgueiram-se novamente para os olhos entrecerrados de Varka, bruxuleiam e enevoam-lhe a cabeça.

— Báiu.báiuchki-baiú — ronrona — vou cantar-te uma canção…

Mas a criança grita, extenua-se de tanto berrar. Varka vê novamente o macadame lamacento, os homens de alforje às costas, Pielaguéia, pai Iefim. Compreende tudo, reconhece a todos, mas, através da modorra, somente não consegue compreender aquela força que lhe amarra pés e mãos, que a esmaga e impede-lhe a vida. Olha ao redor, procura aquela força, para se livrar dela, mas não a encontra. Por fim, extenuada, concentra todas as energias e todo o seu olhar, espia para cia, para a mancha verde que bruxuleia e, prestando atenção aos gritos, encontra o inimigo que a impede de viver.

O inimigo é a criança.

Ri. Acha estranho que, até então, não tenha compreendido uma coisa tão simples. A mancha verde, as sombras e o grilo parecem rir igualmente, surpreendidos.

A ideia absurda toma conta de Varka. Ergue-se do tamborete e passeia pelo quarto, sem piscar, um sorriso largo no rosto. Está contente e excitada com a idéia de que, dentro de um instante, vai livrar-se da criança, que a deixa amarrada de pés e mãos… Matar a criança e, depois, dormir, dormir, dormir…

Rindo, pestanejando e ameaçando a mancha verde com os dedos, Varka aproxima-se cautelosa do berço e inclina-se sobre a criança. Depois de estrangulá-la, deita-se rapidamente no chão, ri de alegria porque já pode dormir e, um instante depois, dorme profundamente, como se estivesse morta…
Anton Tchekhov