Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
domingo, fevereiro 15
Primavera
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
Cecília Meireles
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
Cecília Meireles
O bibliômano
Todos vocês conheceram esse bom. Teodoro sobre cuja sepultura acabo de espalhar flores, rogando ao dai que a terra lhe seja leve.
Esses dois farrapos de frase, que também conhecem, indicam-lhes suficientemente que me proponho consagrar-lhe algumas páginas de necrológio ou de oração fúnebre.
Havia vinte anos que Teodoro se retirara da sociedade, para trabalhar ou para não fazer coisa alguma; qual das duas, isso era um grande segredo. Ele meditava, e não se sabia em que meditava. Passava sua vida entre os livros e cuidava apenas de livros, o que fizera algumas pessoas pensarem que ele estivesse fazendo um livro que tornaria todos os outros inúteis; mas evidentemente se enganava. Teodoro aproveitara seus estudes bem demais para ignorar que esse livro fora escrito há trezentos anos. É o décimo terceiro capítulo do livro primeiro de Rabelais. Teodoro não falava mais, não ria mais, não jogava mais, não comia mais, não ia mais nem a bailes, nem aos teatros. As mulheres que ele amara na mocidade não mais atraíam seus olhares, ou quando muito ele olhava apenas para seus pés, quando um calçado elegante, de cor vistosa lhe chamavam a atenção. "Ai de mim! dizia ele extraindo do peito um gemido profundo, quanto marroquim perdido!"
Ele sacrificara outrora à moda: as crônicas da época informam-nos que foi o primeiro a dar o laço da gravata à esquerda, apesar da autoridade de Garrat, que dava o laço à direita, e a despeito da maioria que ainda hoje insiste em dar o laço no meio. Teodoro não se preocupava mais com a moda. Durante vinte anos só discutiu uma vez com seu alfaiate: "Senhor, disse-lhe um dia, este terno é o último que recebo de suas mãos se tornarem a esquecer de colocar bolsos cortados in-quarto."
A política, cujas oportunidades ridículas têm feito a carreira de tantos tolos, jamais conseguiu distraí-lo de suas meditações. Punha-o de mau humor, depois que as loucas tentativas de Napoleão, no norte, tinham feito subir o preço do couro da Rússia. Ele aprovou, todavia, a intervenção francesa nas revoluções da Espanha." É, disse, uma boa oportunidade para tarzer da península, romances de cavalaria e Cancioneros". Mas o exército expedicionário não cuidou absolutamente disso e êle ficou despeitado. Quando lhe diziam Trocadero, respondia ironicamente Ronmancero, o que o fez passar por liberal.
A memorável campanha do Sr. de Bournont nas costas da África transportou-o de alegria. "Graças ao céu, disse, esfregando as mãos, teremos os marroquins do levante a baixo prego." que o fez passar por carlista.
No último verão ele estava pateando por uma rua movimentada, examinando um livro. Alguns honestos cidadãos, que saíam da taverna com passos vacilantes, foram rogar-lhe, encostando-lhe o punhal ao pescoço, para gritar, em nome da liberdade de opinião. "Viva os poloneses!" "Não desejo outra coisa, respondeu Teodoro, cujo pensamento era um clamor eterno a favor do gênero humano, mas poderei perguntar-lhes qual o motivo? — É porque declaramos guerra à Holanda que oprime os poloneses, sob o pretexto deles não gostarem dos jesuítas, retrucou o amigo das luzes que era um rude geógrafo, e um lógico intrépido.
"Deus os perdoe, murmurou nosso amigo cruzando lastimosamente as mãos, ficaremos então reduzidos à imitação de papel da Holanda do Sr. Montgolfier!" O homem eminentemente civilizado partiu-lhe as pernas com uma bastonada.
Teodoro passou três meses de cama, a compulsar catálogos de livros. Predisposto, como sempre foi, a levar suas emoções As últimas, essa leitura exacerbou-lhe os nervos.
Em sua convalescença mesma, seu sono era horrivelmente agitado. Sua mulher despertou-o, uma noite, em meio à agonia do pesadelo. "Você chegou a tempo, disse-lhe ele abraçando-a, de impedir que eu morresse de susto e de dor. Eu estava cercado de monstros que não me teriam dado tréguas. — E que monstros pode recear, meu bom amigo, você quê nunca fez mal a ninguém? — Era, se estou lembrado, a sombra de Purgold, cujas funestas tesouras trincavam polegada e meia das margens de meus brochados, enquanto a sombra de Heudier mergulhava implacavelmente num ácido devorador meu mais velho volume de edição princeps, e retirava-o inteiramente branco; mas tenho boas razões para pensar que eles estejam pelo menos no purgatório."
Sua mulher pensou que ele estivesse falando grego, porque ele sabia um pouco de grego, a prova disso é que sua biblioteca estava cheia de livros gregos cujas folhas permaneciam fechadas. Por isso ele nunca os abria, contentando-se em mostrá-los aos amigos mais íntimos pela capa e pela lombada, mas mencionando o lugar da edição, o nome de editor e a data, com fleuma imperturbável. Os simples concluíam daí que era feiticeiro: Não o creio.
Como estivesse definhando a olhos vistos, chamaram seu médico que era, por acaso, filósofo e homem de espírito. Os senhores o encontrarão, se puderem. O médico reconheceu que a congestão cerebral estava iminente e fez uma bela comunicação sobre essa doença à Revista de Ciências Médicas, onde ela é denominada Monomania do marroquim ou, Tifus dos bibliômanos; mas não se tratou disso na Academia de Ciências porque coincidiu com a cólera morbo.
Aconselharam-no a fazer exercício, e como esta ideia lhe agradasse, pôs-se a caminho um belo dia, bem cedo. Eu estava bem pouco tranquilo para poder deixá-lo um instante. Dirigimo-nos para o cais, e alegrei-me com isso, porque pensei que o espetáculo do rio o divertiria. Mas, ele não afastou os olhos da altura do parapeito. O parapeito estava tão nu de mostruários como se tivessem sido visitadas desde cedo pelos defensores da imprensa que atiraram n’água em fevereiro a biblioteca do arcebispado.
Fomos mais felizes no cais das Flores. Havia livros em profusão; mas que livres! Todas as obras de que os jornais falam bem durante um mês e que acabam ali, infalivelmente, no compartimento de cinco soldos da redação ou do fundo de livraria. Filósofos, historiadores, poetas, romancistas, autores de todos os gêneros e de todos os formatos, para quem os anúncios mais pomposos são apenas os limites intransponíveis da imortalidade e que passam desprezados das estantes da livraria para as amuradas rio Sena. Létis profundo de onde eles contemplam, cobrindo-se de mofo, o fim inevitável de seu voo presunçoso. Folheei aí as páginas acetinadas de meus in-oitavos e de cinco ou seis de meus amigos.
Teodoro suspirou, mas não era por ver as obras de meu espírito expostas às chuvas, das quais o obsequioso toldo impermeável as protege deficientemente.
Por onde andará a idade de ouro dos vendedores de alfarrábios ao ar livre? Foi aqui, todavia, que meu ilustre amigo Barbier reuniu tantos tesouros que conseguiu compor uma bibliografia especial de alguns milhares de artigos. Era aqui que se prolongavam, durante horas e horas, os eruditos e frutuosos passeios do sábio Monmerqué quando se dirigia para o Foro e do sábio Labouderie ao sair da metrópole. Era aqui que o verdadeiro Boulard retirava todos os dias um metro de raridades, medido pelo seu metro de madeira, para o qual as suas seis essa pletóricas de volumes não tinham lugar disponível. Oh! quantas vezes ele desejou possuir, em semelhante transe, o modesto angulus de Horácio, ou a cápsula elástica daquele pavilhão de fadas que seria capaz de cobrir o" exército de Xerxes e que se podia levar no cinto tão comodamente quanto a bainha de punhais do avó de Jeannot! Agora, que miséria! Vêem-se apenas os sobejos insípidos desta literatura moderna que nunca será uma literatura antiga e cuja vida se evapora em vinte e quatro horas, como acontecia com as das moscas do rio Hiparus; literatura realmente bem digna da tinta de carvão e do papel de papas que alguns tipógrafos envergonhados, quase tão tolos quanto seus livros, lhes concedem pesarosamente! E dar o nome de livros a esses trapos garatujados de preto que quase não mudaram de destino ao deixar o saco do apanhador de papéis, é profaná-lo! Os cais não passam agora do necrotério das celebridades contemporâneas!
Tornou a suspirar e suspirei também, mas não pelo mesmo motivo.
Tinha pressa em fazê-lo andar, porque sua exacerbação, que aumentava a cada instante, parecia ameaçá-lo de um acesso fatal. Aquele devia ser um dia nefasto, uma vez que tudo contribuía para agravar sua melancolia.
"Eis, disse ele caminhando, a famosa fachada de Ladvoet, o Galiot do campo das letras abastardadas do século XIX, livreiro industrioso e liberal que merecia nascer numa idade melhor, mas cuja. atividade lamentável multiplicou cruelmente os livros novos para eterno prejuízo dos velhos livros; responsável jamais digno de perdão pela fabricação de papel de algodão, pela grafia ignorante é pelas vinhetas rebuscadas, autor fatal da prosa acadêmica e da poesia em voga; como se a França tivesse poesia depois de Ronsard e prosa depois de. Montaigne! Esse palácio de bibliópolo é o cavalo de Tróia que trouxe todos os raptores do palácio, a caixa de Pandora que deu passagem a todos os males da terra! Prefiro os canibais. Escreveria um capítulo para o seu livro, mas não o tornaria a ver!"
Teodoro suspirava cada vez mais, ia de mal a pior.
Chegamos assim à rua das Crianças Boas, ao rico bazar literário das vendas públicas de Silvestre, local honrado pelos sábios onde se sucederam, num quarto de século, mais inapreciáveis raridades do que a biblioteca dos Ptolomeus, que talvez não tenha sido queimada por Omar, malgrado o que dizem os nossos caducos historiadores, jamais encerrou. Nunca eu vira expostos tantos volumes magníficos.
— Infelizes aqueles que os vendem! — disse eu a Teodoro.
— Morreram — respondeu ele, ou morrerão por causa disso.
.......................................................................................................
— Deus que me perdoe! bom Teodoro, — disse o honesto Sr. Silvestre. — O senhor se atrasou um dia. A última venda foi ontem. Os livros que vê estão vendidos e esperam pelos carregadores.
Teodoro cambaleou e empalideceu. Sua fronte ficou da cor de um marroquim de limão um tanto gasto. O golpe que o atingia repercutiu no amargo de meu coração.
— Está perfeitamente certo? — disse ele com ar sucumbido. — Reconheço, nessa notícia horrorosa, minha infelicidade costumeira! Apesar disso, a quem pertencem essas pérolas, esses diamantes, essas riquezas fantásticas de que se vangloriaria a biblioteca dos de Thou e dos Grolier?
— Como de costume, cavalheiro, — replicou o Sr. Silvestre — estes excelentes clássicos de edição original, estes velhos e prefeitos exemplares autografados por eruditos famosos, estas atraentes raridades filológicas desconhecidas pela Academia e pela Universidade, cabiam de direito a Sir Richard Heber. É o quinhão do leão inglês ao qual cedemos de boa vontade o grego e o latim que deixamos de saber, estas belas coleções de história natural, estas obras primas de método e de iconografia pertencem ao príncipe***, cujos pendores para o estudo contribuem para enobrecer ainda mais, com o emprego que lhe dá, uma nobre e imensa fortuna. Estes mistérios medievais, estas moralidades fênix cujo menecma não existe em parte alguma, estes interessantes ensaios dramáticos de nossos antepassados vão aumentar a biblioteca-modelo do Sr. de Solème. Essas facécias, tão esbeltas e elegantes, tão miúdas, tão bem conservadas, constituem o lote de seu amável e engenhoso amigo, Sr. Aimé-Martin. Não preciso dizer-lhe a quem pertencem essas encadernações frescas e brilhantes, com três ordens de frisos, orlas amplas, pomposas dimensões. É o Shakespeare da pequena propriedade, o Corneille do melodrama, o intérprete hábil e muitas vezes eloquente das paixões e das virtudes do povo que, após tê-las chasqueado um pouco pela manhã, venderas à noite a peso de ouro, não sem rosnar entre os dentes, como um javali mortalmente ferido, e sem volver para os competidores seus olhos trágicos sombreados por negras sobrancelhas.
Teodoro deixara de ouvir. Acabava de apanhar um volume de aparência bastante boa, ao qual se aprestara em aplicar seu elzevirômetro, isto é, o meio pé subdividido quase ao infinito pelo qual ele avaliava o preço e o mérito intrínseco de seus livros. Dez vezes aproximou-o do livro maldito. Dez vezes conferiu o cálculo acabrunhador, murmurou algumas palavras que não compreendi, tornou a mudar de cor, e desfaleceu em meus braços. Tive muita dificuldade em levá-lo até o primeiro fiacre que apareceu.
Minha insistência para lhe arrancar o segredo de sua dor súbita, durante muito tempo não obteve resultado. Ele não falava. Minhas palavras não conseguiam alcançá-lo. É o tifo, pensei, é o paroxismo do tifo.
Apertei-o em meus braços. Continuei a interrogá-lo. Pare-ceu ceder a um impulso de expansão.
— Está vendo em mim — disse-me — o mais infeliz dos homens. Aquele volume é o Virgílio de 1676, de grande tamanho, cujo exemplar gigante eu pensava possuir. E ele é maior que o meu um terço de linha. Espíritos inimigos ou prevenidos poderiam mesmo encontrar uma diferença de meia linha. Um terço de linha, Deus todo-poderoso!
Fiquei fulminado. Compreendi que ele estava delirando.
— Um terço de linha! — repetiu ameaçando o céu com um punho furioso, como Ajax ou Lapanéu.
Todo o corpo lhe tremia.
Caiu a pouco e pouco em profunda prostração. O pobre homem vivia somente para sofrer. Repetia, apenas, de vez em quando: "Um terço de linha"! roendo as unhas. E eu repetia baixinho: "Maldito sejam os livros e o tifo!"
— Tranquilize-se, meu amigo — sussurrava eu carinhosamente a seus ouvidos, todas as vezes que a crise se renovava. Um terço de linha não é grande coisa nos negócios mais delicados deste mundo.
— Não é grande coisa! — exclamava ele. — Um terço de linha no Virgílio de 1670. Foi um terço de linha que aumentou em seis luíses o preço do Homero de Nerli, no estabelecimento do Sr. de Cotte; um terço de linha! Ah! não daria o senhor importância ao terço de linha do furador que lhe estivesse atravessando o coração?
Sua fisionomia transtornou-se inteiramente, seus braços se inteiriçaram, suas pernas foram tornadas de uma câimbra de garras de ferro. O tifo visivelmente invadia-lhe as extremidades. Eu não quereria ser obrigado a aumentar um terço de linha o curto caminho que nos separava de sua casa.
Finalmente, chegamos.
— Um terço de linha! — disse ele ao porteiro.
— Um terço de linha! — disse à cozinheira que abriu a porta.
— Um terço de linha! — disse à sua mulher inundando-a com suas lágrimas.
— Meu periquito fugiu — disse sua filhinha que chorava tanto quanto ele.
— Por que deixaram a gaiola aberta? — perguntou Teodoro. — Um terço de linha!
— O povo está se revoltando no Sul e na rua do Mostrador — disse a velha tia que estava lendo o jornal da tarde.
— Em que anda o povo se metendo? — retrucou Teodoro Um terço de linha!
— Sua herdade da Beatice pegou fogo, — disse-lhe o criado ajudando-o a deitar-se.
— Vai ser preciso reconstruí-la, — retrucou Teodoro — se a propriedade merecer isso. Um terço de linha!
— O senhor acha que isso tem gravidade? — perguntou-me a ama.
— Então não leu, boa mulher, a Revista de Ciências Médicas? Que está esperando para ir buscar um padre?
Felizmente o pároco entrara no mesmo instante para conversar conforme o costume, sobre mil lindas frioleiras literárias e bibliográficas das quais seu breviário nunca o conseguira afastar inteiramente, mas não pensou mais nisso, depois que apalpou o pulso de Teodoro.
— Ai de nós! meu filho, — disse-lhe — a vida do homem é somente uma passagem e o próprio mundo não repousa em alicerces eternos. Ele deve acabar como tudo que começou.
— Terá o senhor lido a esse respeito — respondeu Teodoro — o tratado de sua origem e antiguidade?
— Aprendi o que sei no Gêneses — respondeu o respeitável sacerdote —; mas ouvi dizer que um sofista do século passado, chamado Sr. de Mirabeau, escreveu um livro a esse respeito.
— Sub judice lis est, — interrompeu subitamente Teodoro — provei em meus Stromatos que as duas primeiras partes do mundo eram desse lamentável pedante de Mirabeau e a terceira do abade Le Máscrier.
— Ah! meu Deus, — interrompeu a tia idosa levantando os óculos — quem foi então que fez a América?
— Não é disso que se está tratando — continuou o sacerdote. — Crê na Trindade?
— Como não acreditaria eu no famoso volume De Trinitate de Servet, — disse Teodoro soerguendo-se sobre um travesseiro — uma vez que vi cederem ipsisimis oculais, pela módica importância de duzentos e quinze francos, no estabelecimento do Sr. Mac Carthy, um exemplar que custara a este último setecentas libras no leilão de La Vallière?!
— Não estamos cogitando disso —, exclamou o apóstolo um pouco desconcertado.
Esses dois farrapos de frase, que também conhecem, indicam-lhes suficientemente que me proponho consagrar-lhe algumas páginas de necrológio ou de oração fúnebre.
Havia vinte anos que Teodoro se retirara da sociedade, para trabalhar ou para não fazer coisa alguma; qual das duas, isso era um grande segredo. Ele meditava, e não se sabia em que meditava. Passava sua vida entre os livros e cuidava apenas de livros, o que fizera algumas pessoas pensarem que ele estivesse fazendo um livro que tornaria todos os outros inúteis; mas evidentemente se enganava. Teodoro aproveitara seus estudes bem demais para ignorar que esse livro fora escrito há trezentos anos. É o décimo terceiro capítulo do livro primeiro de Rabelais. Teodoro não falava mais, não ria mais, não jogava mais, não comia mais, não ia mais nem a bailes, nem aos teatros. As mulheres que ele amara na mocidade não mais atraíam seus olhares, ou quando muito ele olhava apenas para seus pés, quando um calçado elegante, de cor vistosa lhe chamavam a atenção. "Ai de mim! dizia ele extraindo do peito um gemido profundo, quanto marroquim perdido!"
Ele sacrificara outrora à moda: as crônicas da época informam-nos que foi o primeiro a dar o laço da gravata à esquerda, apesar da autoridade de Garrat, que dava o laço à direita, e a despeito da maioria que ainda hoje insiste em dar o laço no meio. Teodoro não se preocupava mais com a moda. Durante vinte anos só discutiu uma vez com seu alfaiate: "Senhor, disse-lhe um dia, este terno é o último que recebo de suas mãos se tornarem a esquecer de colocar bolsos cortados in-quarto."
A política, cujas oportunidades ridículas têm feito a carreira de tantos tolos, jamais conseguiu distraí-lo de suas meditações. Punha-o de mau humor, depois que as loucas tentativas de Napoleão, no norte, tinham feito subir o preço do couro da Rússia. Ele aprovou, todavia, a intervenção francesa nas revoluções da Espanha." É, disse, uma boa oportunidade para tarzer da península, romances de cavalaria e Cancioneros". Mas o exército expedicionário não cuidou absolutamente disso e êle ficou despeitado. Quando lhe diziam Trocadero, respondia ironicamente Ronmancero, o que o fez passar por liberal.
A memorável campanha do Sr. de Bournont nas costas da África transportou-o de alegria. "Graças ao céu, disse, esfregando as mãos, teremos os marroquins do levante a baixo prego." que o fez passar por carlista.
No último verão ele estava pateando por uma rua movimentada, examinando um livro. Alguns honestos cidadãos, que saíam da taverna com passos vacilantes, foram rogar-lhe, encostando-lhe o punhal ao pescoço, para gritar, em nome da liberdade de opinião. "Viva os poloneses!" "Não desejo outra coisa, respondeu Teodoro, cujo pensamento era um clamor eterno a favor do gênero humano, mas poderei perguntar-lhes qual o motivo? — É porque declaramos guerra à Holanda que oprime os poloneses, sob o pretexto deles não gostarem dos jesuítas, retrucou o amigo das luzes que era um rude geógrafo, e um lógico intrépido.
"Deus os perdoe, murmurou nosso amigo cruzando lastimosamente as mãos, ficaremos então reduzidos à imitação de papel da Holanda do Sr. Montgolfier!" O homem eminentemente civilizado partiu-lhe as pernas com uma bastonada.
Teodoro passou três meses de cama, a compulsar catálogos de livros. Predisposto, como sempre foi, a levar suas emoções As últimas, essa leitura exacerbou-lhe os nervos.
Em sua convalescença mesma, seu sono era horrivelmente agitado. Sua mulher despertou-o, uma noite, em meio à agonia do pesadelo. "Você chegou a tempo, disse-lhe ele abraçando-a, de impedir que eu morresse de susto e de dor. Eu estava cercado de monstros que não me teriam dado tréguas. — E que monstros pode recear, meu bom amigo, você quê nunca fez mal a ninguém? — Era, se estou lembrado, a sombra de Purgold, cujas funestas tesouras trincavam polegada e meia das margens de meus brochados, enquanto a sombra de Heudier mergulhava implacavelmente num ácido devorador meu mais velho volume de edição princeps, e retirava-o inteiramente branco; mas tenho boas razões para pensar que eles estejam pelo menos no purgatório."
Sua mulher pensou que ele estivesse falando grego, porque ele sabia um pouco de grego, a prova disso é que sua biblioteca estava cheia de livros gregos cujas folhas permaneciam fechadas. Por isso ele nunca os abria, contentando-se em mostrá-los aos amigos mais íntimos pela capa e pela lombada, mas mencionando o lugar da edição, o nome de editor e a data, com fleuma imperturbável. Os simples concluíam daí que era feiticeiro: Não o creio.
Como estivesse definhando a olhos vistos, chamaram seu médico que era, por acaso, filósofo e homem de espírito. Os senhores o encontrarão, se puderem. O médico reconheceu que a congestão cerebral estava iminente e fez uma bela comunicação sobre essa doença à Revista de Ciências Médicas, onde ela é denominada Monomania do marroquim ou, Tifus dos bibliômanos; mas não se tratou disso na Academia de Ciências porque coincidiu com a cólera morbo.
Aconselharam-no a fazer exercício, e como esta ideia lhe agradasse, pôs-se a caminho um belo dia, bem cedo. Eu estava bem pouco tranquilo para poder deixá-lo um instante. Dirigimo-nos para o cais, e alegrei-me com isso, porque pensei que o espetáculo do rio o divertiria. Mas, ele não afastou os olhos da altura do parapeito. O parapeito estava tão nu de mostruários como se tivessem sido visitadas desde cedo pelos defensores da imprensa que atiraram n’água em fevereiro a biblioteca do arcebispado.
Fomos mais felizes no cais das Flores. Havia livros em profusão; mas que livres! Todas as obras de que os jornais falam bem durante um mês e que acabam ali, infalivelmente, no compartimento de cinco soldos da redação ou do fundo de livraria. Filósofos, historiadores, poetas, romancistas, autores de todos os gêneros e de todos os formatos, para quem os anúncios mais pomposos são apenas os limites intransponíveis da imortalidade e que passam desprezados das estantes da livraria para as amuradas rio Sena. Létis profundo de onde eles contemplam, cobrindo-se de mofo, o fim inevitável de seu voo presunçoso. Folheei aí as páginas acetinadas de meus in-oitavos e de cinco ou seis de meus amigos.
Teodoro suspirou, mas não era por ver as obras de meu espírito expostas às chuvas, das quais o obsequioso toldo impermeável as protege deficientemente.
Por onde andará a idade de ouro dos vendedores de alfarrábios ao ar livre? Foi aqui, todavia, que meu ilustre amigo Barbier reuniu tantos tesouros que conseguiu compor uma bibliografia especial de alguns milhares de artigos. Era aqui que se prolongavam, durante horas e horas, os eruditos e frutuosos passeios do sábio Monmerqué quando se dirigia para o Foro e do sábio Labouderie ao sair da metrópole. Era aqui que o verdadeiro Boulard retirava todos os dias um metro de raridades, medido pelo seu metro de madeira, para o qual as suas seis essa pletóricas de volumes não tinham lugar disponível. Oh! quantas vezes ele desejou possuir, em semelhante transe, o modesto angulus de Horácio, ou a cápsula elástica daquele pavilhão de fadas que seria capaz de cobrir o" exército de Xerxes e que se podia levar no cinto tão comodamente quanto a bainha de punhais do avó de Jeannot! Agora, que miséria! Vêem-se apenas os sobejos insípidos desta literatura moderna que nunca será uma literatura antiga e cuja vida se evapora em vinte e quatro horas, como acontecia com as das moscas do rio Hiparus; literatura realmente bem digna da tinta de carvão e do papel de papas que alguns tipógrafos envergonhados, quase tão tolos quanto seus livros, lhes concedem pesarosamente! E dar o nome de livros a esses trapos garatujados de preto que quase não mudaram de destino ao deixar o saco do apanhador de papéis, é profaná-lo! Os cais não passam agora do necrotério das celebridades contemporâneas!
Tornou a suspirar e suspirei também, mas não pelo mesmo motivo.
Tinha pressa em fazê-lo andar, porque sua exacerbação, que aumentava a cada instante, parecia ameaçá-lo de um acesso fatal. Aquele devia ser um dia nefasto, uma vez que tudo contribuía para agravar sua melancolia.
"Eis, disse ele caminhando, a famosa fachada de Ladvoet, o Galiot do campo das letras abastardadas do século XIX, livreiro industrioso e liberal que merecia nascer numa idade melhor, mas cuja. atividade lamentável multiplicou cruelmente os livros novos para eterno prejuízo dos velhos livros; responsável jamais digno de perdão pela fabricação de papel de algodão, pela grafia ignorante é pelas vinhetas rebuscadas, autor fatal da prosa acadêmica e da poesia em voga; como se a França tivesse poesia depois de Ronsard e prosa depois de. Montaigne! Esse palácio de bibliópolo é o cavalo de Tróia que trouxe todos os raptores do palácio, a caixa de Pandora que deu passagem a todos os males da terra! Prefiro os canibais. Escreveria um capítulo para o seu livro, mas não o tornaria a ver!"
Teodoro suspirava cada vez mais, ia de mal a pior.
Chegamos assim à rua das Crianças Boas, ao rico bazar literário das vendas públicas de Silvestre, local honrado pelos sábios onde se sucederam, num quarto de século, mais inapreciáveis raridades do que a biblioteca dos Ptolomeus, que talvez não tenha sido queimada por Omar, malgrado o que dizem os nossos caducos historiadores, jamais encerrou. Nunca eu vira expostos tantos volumes magníficos.
— Infelizes aqueles que os vendem! — disse eu a Teodoro.
— Morreram — respondeu ele, ou morrerão por causa disso.
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— Deus que me perdoe! bom Teodoro, — disse o honesto Sr. Silvestre. — O senhor se atrasou um dia. A última venda foi ontem. Os livros que vê estão vendidos e esperam pelos carregadores.
Teodoro cambaleou e empalideceu. Sua fronte ficou da cor de um marroquim de limão um tanto gasto. O golpe que o atingia repercutiu no amargo de meu coração.
— Está perfeitamente certo? — disse ele com ar sucumbido. — Reconheço, nessa notícia horrorosa, minha infelicidade costumeira! Apesar disso, a quem pertencem essas pérolas, esses diamantes, essas riquezas fantásticas de que se vangloriaria a biblioteca dos de Thou e dos Grolier?
— Como de costume, cavalheiro, — replicou o Sr. Silvestre — estes excelentes clássicos de edição original, estes velhos e prefeitos exemplares autografados por eruditos famosos, estas atraentes raridades filológicas desconhecidas pela Academia e pela Universidade, cabiam de direito a Sir Richard Heber. É o quinhão do leão inglês ao qual cedemos de boa vontade o grego e o latim que deixamos de saber, estas belas coleções de história natural, estas obras primas de método e de iconografia pertencem ao príncipe***, cujos pendores para o estudo contribuem para enobrecer ainda mais, com o emprego que lhe dá, uma nobre e imensa fortuna. Estes mistérios medievais, estas moralidades fênix cujo menecma não existe em parte alguma, estes interessantes ensaios dramáticos de nossos antepassados vão aumentar a biblioteca-modelo do Sr. de Solème. Essas facécias, tão esbeltas e elegantes, tão miúdas, tão bem conservadas, constituem o lote de seu amável e engenhoso amigo, Sr. Aimé-Martin. Não preciso dizer-lhe a quem pertencem essas encadernações frescas e brilhantes, com três ordens de frisos, orlas amplas, pomposas dimensões. É o Shakespeare da pequena propriedade, o Corneille do melodrama, o intérprete hábil e muitas vezes eloquente das paixões e das virtudes do povo que, após tê-las chasqueado um pouco pela manhã, venderas à noite a peso de ouro, não sem rosnar entre os dentes, como um javali mortalmente ferido, e sem volver para os competidores seus olhos trágicos sombreados por negras sobrancelhas.
Teodoro deixara de ouvir. Acabava de apanhar um volume de aparência bastante boa, ao qual se aprestara em aplicar seu elzevirômetro, isto é, o meio pé subdividido quase ao infinito pelo qual ele avaliava o preço e o mérito intrínseco de seus livros. Dez vezes aproximou-o do livro maldito. Dez vezes conferiu o cálculo acabrunhador, murmurou algumas palavras que não compreendi, tornou a mudar de cor, e desfaleceu em meus braços. Tive muita dificuldade em levá-lo até o primeiro fiacre que apareceu.
Minha insistência para lhe arrancar o segredo de sua dor súbita, durante muito tempo não obteve resultado. Ele não falava. Minhas palavras não conseguiam alcançá-lo. É o tifo, pensei, é o paroxismo do tifo.
Apertei-o em meus braços. Continuei a interrogá-lo. Pare-ceu ceder a um impulso de expansão.
— Está vendo em mim — disse-me — o mais infeliz dos homens. Aquele volume é o Virgílio de 1676, de grande tamanho, cujo exemplar gigante eu pensava possuir. E ele é maior que o meu um terço de linha. Espíritos inimigos ou prevenidos poderiam mesmo encontrar uma diferença de meia linha. Um terço de linha, Deus todo-poderoso!
Fiquei fulminado. Compreendi que ele estava delirando.
— Um terço de linha! — repetiu ameaçando o céu com um punho furioso, como Ajax ou Lapanéu.
Todo o corpo lhe tremia.
Caiu a pouco e pouco em profunda prostração. O pobre homem vivia somente para sofrer. Repetia, apenas, de vez em quando: "Um terço de linha"! roendo as unhas. E eu repetia baixinho: "Maldito sejam os livros e o tifo!"
— Tranquilize-se, meu amigo — sussurrava eu carinhosamente a seus ouvidos, todas as vezes que a crise se renovava. Um terço de linha não é grande coisa nos negócios mais delicados deste mundo.
— Não é grande coisa! — exclamava ele. — Um terço de linha no Virgílio de 1670. Foi um terço de linha que aumentou em seis luíses o preço do Homero de Nerli, no estabelecimento do Sr. de Cotte; um terço de linha! Ah! não daria o senhor importância ao terço de linha do furador que lhe estivesse atravessando o coração?
Sua fisionomia transtornou-se inteiramente, seus braços se inteiriçaram, suas pernas foram tornadas de uma câimbra de garras de ferro. O tifo visivelmente invadia-lhe as extremidades. Eu não quereria ser obrigado a aumentar um terço de linha o curto caminho que nos separava de sua casa.
Finalmente, chegamos.
— Um terço de linha! — disse ele ao porteiro.
— Um terço de linha! — disse à cozinheira que abriu a porta.
— Um terço de linha! — disse à sua mulher inundando-a com suas lágrimas.
— Meu periquito fugiu — disse sua filhinha que chorava tanto quanto ele.
— Por que deixaram a gaiola aberta? — perguntou Teodoro. — Um terço de linha!
— O povo está se revoltando no Sul e na rua do Mostrador — disse a velha tia que estava lendo o jornal da tarde.
— Em que anda o povo se metendo? — retrucou Teodoro Um terço de linha!
— Sua herdade da Beatice pegou fogo, — disse-lhe o criado ajudando-o a deitar-se.
— Vai ser preciso reconstruí-la, — retrucou Teodoro — se a propriedade merecer isso. Um terço de linha!
— O senhor acha que isso tem gravidade? — perguntou-me a ama.
— Então não leu, boa mulher, a Revista de Ciências Médicas? Que está esperando para ir buscar um padre?
Felizmente o pároco entrara no mesmo instante para conversar conforme o costume, sobre mil lindas frioleiras literárias e bibliográficas das quais seu breviário nunca o conseguira afastar inteiramente, mas não pensou mais nisso, depois que apalpou o pulso de Teodoro.
— Ai de nós! meu filho, — disse-lhe — a vida do homem é somente uma passagem e o próprio mundo não repousa em alicerces eternos. Ele deve acabar como tudo que começou.
— Terá o senhor lido a esse respeito — respondeu Teodoro — o tratado de sua origem e antiguidade?
— Aprendi o que sei no Gêneses — respondeu o respeitável sacerdote —; mas ouvi dizer que um sofista do século passado, chamado Sr. de Mirabeau, escreveu um livro a esse respeito.
— Sub judice lis est, — interrompeu subitamente Teodoro — provei em meus Stromatos que as duas primeiras partes do mundo eram desse lamentável pedante de Mirabeau e a terceira do abade Le Máscrier.
— Ah! meu Deus, — interrompeu a tia idosa levantando os óculos — quem foi então que fez a América?
— Não é disso que se está tratando — continuou o sacerdote. — Crê na Trindade?
— Como não acreditaria eu no famoso volume De Trinitate de Servet, — disse Teodoro soerguendo-se sobre um travesseiro — uma vez que vi cederem ipsisimis oculais, pela módica importância de duzentos e quinze francos, no estabelecimento do Sr. Mac Carthy, um exemplar que custara a este último setecentas libras no leilão de La Vallière?!
— Não estamos cogitando disso —, exclamou o apóstolo um pouco desconcertado.
— Pergunto-lhe meu filho, o que pensa sobre a divindade de Jesus Cristo.
— Bem, bem, — disse Teodoro —, é questão apenas de nos entendermos. Afirmarei perante e contra todos que o Toldos jeschu, onde esse gracejador de mau gosto chamado Voltaire re-colheu tantas histórias tolas dignas das Mil e uma noites, não passa de uma perversa inépcia rabínica, indigna de figurar na biblioteca de um sábio.
— A menos que algum dia se encontre —, prosseguiu Teodoro —, o exemplar in carta maxima, ao qual há referência, se não me falha a memória, na mochinifada inédita de David Clemente.
Dessa vez o cura gemeu, muito audivelmente, levantou-se muito comovido de sua cadeira e inclinou-se sobre Teodoro para fazê-lo compreender claramente, sem cerimônias e sem equívoco, que ele estava acometido em último grau pelo tifo dos bibliômanos, a que se refere a Revista de Ciências Médicas, e que só lhe restava cuidar de sua salvação.
Teodoro não se desligara de sua vida com essa negativa impertinente dos incrédulos que é a ciência dos tolos, mas o querido herdem levara longe demais em seus livros o vão estudo da letra, para ter tempo para cuidar do espírito. De boa saúde, uma doutrina lhe teria causado febre e um dogma convulsões tetânicas. Em moral teológica ele desceria o pavilhão diante de um saint-simoniano. Voltou-se para a parede.
Tão prolongado foi o lapso de tempo que ele levou sem falar que nós o teríamos julgado morto se aproximando-me dele, eu não o ouvisse murmurar em voz abafada:
— Um terço de linha! Deus de justiça e de bondade! Mas onde me restituireis esse terço de linha, e até que ponto vossa onipotência poderá reparar a falta irreparável desse encadernador?
Um bibliófilo seu amigo chegou um instante depois. Disseram-lhe que Teodoro estava agonizante, que delirava a ponto de julgar que o abade Le Maserier fizera a terceira parte do mundo e que havia um quarto de hora que perdera a palavra.
— Vou verificar isso — replicou o amador. — Por que falha de paginação se reconhece a boa edição de César, elzevir de 1635? — perguntou a Teodoro.
— 153 em vez de 149.
— Muito bem. E do Terêncio do mesmo ano?
— 108 em vez de 104.
— Diabo! — disse eu — os elzevir estavam sem sorte naquele ano quanto aos números. Fizeram muito bem em não imprimir nessa data seus logaritmos.
— Ótimo — continuou o amigo de Teodoro. — Se eu houvesse acreditado nas pessoas presentes, julgaria que estavas a um dedo da morte.
— A um terço de linha —, respondeu Teodoro cuja voz se extinguiu gradativamente.
— Conheço teia história: ela, porém, nada representa ao lado da minha. Imagina que perdi, há oito dias, num desses leilões bastardos e anônimos de que só temos notícia pelo anúncio da porta um Bocácio de 1527, tão magnífico quanto o teu, encadernado em pergaminho de Veneza com os aa pontudos, marcas por toda a parte e nenhuma folha substituída.
Todas as faculdades de Teodoro convergiam para um único pensamento.
— Estás bem certo que os aa eram pontudos?
— Como o ferro que guarnece a alabarda de um lanceiro.
— Nesse caso não há a menor dúvida de que se tratava da própria vintisettine!
— Ela própria. Naquele dia tínhamos um belo jantar, mulheres encantadoras, ostras verdes, convivas espirituosos e champanha. Cheguei três minutos depois da adjudicação.
— Cavalheiro!, — bradou Teodoro, furioso. — Quando a vintisettine está à venda, não se janta!
Este derradeiro esforço exauriu o resto de vida que ainda o animava e que o interesse dessa conversação alimentava como o fole que sopra numa chama agonizante. Todavia, seus lábios ainda balbuciaram:
— Um terço de linha!
Foram suas últimas palavras.
Depois que perdemos a esperança de conservá-lo, empurramos sua cama para junto de sua biblioteca, de onde descemos um a um todos os Volumes que seus olhos pareciam chamar, conservando diante deles mais demoradamente aquelas obras que julgávamos mais próprias para confortá-lo. Morreu à meia-noite, entre um Deseil e um Pasdel, apertando amorosamente com ambas as mãos um Thouvenin.
No dia seguinte acompanhamos seu enterramento, à frente de numeroso cortejo de marroquineiros lacrimosos, e fomos cimentar sobre seu túmulo uma lápide com a seguinte inscrição que ele próprio parodiara do epitáfio de Franklin:
— Bem, bem, — disse Teodoro —, é questão apenas de nos entendermos. Afirmarei perante e contra todos que o Toldos jeschu, onde esse gracejador de mau gosto chamado Voltaire re-colheu tantas histórias tolas dignas das Mil e uma noites, não passa de uma perversa inépcia rabínica, indigna de figurar na biblioteca de um sábio.
— A menos que algum dia se encontre —, prosseguiu Teodoro —, o exemplar in carta maxima, ao qual há referência, se não me falha a memória, na mochinifada inédita de David Clemente.
Dessa vez o cura gemeu, muito audivelmente, levantou-se muito comovido de sua cadeira e inclinou-se sobre Teodoro para fazê-lo compreender claramente, sem cerimônias e sem equívoco, que ele estava acometido em último grau pelo tifo dos bibliômanos, a que se refere a Revista de Ciências Médicas, e que só lhe restava cuidar de sua salvação.
Teodoro não se desligara de sua vida com essa negativa impertinente dos incrédulos que é a ciência dos tolos, mas o querido herdem levara longe demais em seus livros o vão estudo da letra, para ter tempo para cuidar do espírito. De boa saúde, uma doutrina lhe teria causado febre e um dogma convulsões tetânicas. Em moral teológica ele desceria o pavilhão diante de um saint-simoniano. Voltou-se para a parede.
Tão prolongado foi o lapso de tempo que ele levou sem falar que nós o teríamos julgado morto se aproximando-me dele, eu não o ouvisse murmurar em voz abafada:
— Um terço de linha! Deus de justiça e de bondade! Mas onde me restituireis esse terço de linha, e até que ponto vossa onipotência poderá reparar a falta irreparável desse encadernador?
Um bibliófilo seu amigo chegou um instante depois. Disseram-lhe que Teodoro estava agonizante, que delirava a ponto de julgar que o abade Le Maserier fizera a terceira parte do mundo e que havia um quarto de hora que perdera a palavra.
— Vou verificar isso — replicou o amador. — Por que falha de paginação se reconhece a boa edição de César, elzevir de 1635? — perguntou a Teodoro.
— 153 em vez de 149.
— Muito bem. E do Terêncio do mesmo ano?
— 108 em vez de 104.
— Diabo! — disse eu — os elzevir estavam sem sorte naquele ano quanto aos números. Fizeram muito bem em não imprimir nessa data seus logaritmos.
— Ótimo — continuou o amigo de Teodoro. — Se eu houvesse acreditado nas pessoas presentes, julgaria que estavas a um dedo da morte.
— A um terço de linha —, respondeu Teodoro cuja voz se extinguiu gradativamente.
— Conheço teia história: ela, porém, nada representa ao lado da minha. Imagina que perdi, há oito dias, num desses leilões bastardos e anônimos de que só temos notícia pelo anúncio da porta um Bocácio de 1527, tão magnífico quanto o teu, encadernado em pergaminho de Veneza com os aa pontudos, marcas por toda a parte e nenhuma folha substituída.
Todas as faculdades de Teodoro convergiam para um único pensamento.
— Estás bem certo que os aa eram pontudos?
— Como o ferro que guarnece a alabarda de um lanceiro.
— Nesse caso não há a menor dúvida de que se tratava da própria vintisettine!
— Ela própria. Naquele dia tínhamos um belo jantar, mulheres encantadoras, ostras verdes, convivas espirituosos e champanha. Cheguei três minutos depois da adjudicação.
— Cavalheiro!, — bradou Teodoro, furioso. — Quando a vintisettine está à venda, não se janta!
Este derradeiro esforço exauriu o resto de vida que ainda o animava e que o interesse dessa conversação alimentava como o fole que sopra numa chama agonizante. Todavia, seus lábios ainda balbuciaram:
— Um terço de linha!
Foram suas últimas palavras.
Depois que perdemos a esperança de conservá-lo, empurramos sua cama para junto de sua biblioteca, de onde descemos um a um todos os Volumes que seus olhos pareciam chamar, conservando diante deles mais demoradamente aquelas obras que julgávamos mais próprias para confortá-lo. Morreu à meia-noite, entre um Deseil e um Pasdel, apertando amorosamente com ambas as mãos um Thouvenin.
No dia seguinte acompanhamos seu enterramento, à frente de numeroso cortejo de marroquineiros lacrimosos, e fomos cimentar sobre seu túmulo uma lápide com a seguinte inscrição que ele próprio parodiara do epitáfio de Franklin:
AQUI JAZ
EM SUA ENCADERNAÇÃO DE MADEIRA
UM EXEMPLAR IN-FÓLIO
DA MELHOR EDIÇÃO
DO HOMEM
ESCRITA NUMA LÍNGUA DA IDADE DO OURO
QUE O MUNDO NÃO COMPREENDE MAIS.
AGORA É
UM LIVRO
ESTRAGADO
MANCHADO
TRUNCADO
COM A FRENTE INCOMPLETA
ROÍDO PELOS VERMES
E MUITO DANIFICADO PELA PODRIDÃO
NÃO SE OUSA ESPERAR PARA ELE
A HOMENAGEM TARDIA
E INÚTIL
DA REIMPRESSÃO.
Charles Nodier
Primeiros passos
Começar a ler foi para mim como entrar num bosque pela primeira vez e dar de repente com todas as árvores, todas as flores, todos os pássaros. Quando fazes isso, o que te deslumbra é o conjunto. Não dizes: gosto mais desta árvore que das outras. Não, cada livro que eu entrava, eu considerava algo único.
José Saramago, "As palavras de Saramago"
José Saramago, "As palavras de Saramago"
O mistério do telegrama
Há tanta história horrivelmente triste sobre interrogatórios e prisões, que acho que vale a pena contar uma, verdadeira e engraçada, acontecida há algum tempo. Altero apenas os nomes dos personagens, mas garanto a autenticidade do caso, que está registrado em cartório.
Uma senhora (por sinal bem bonita) passou um telegrama a um cavalheiro, com quem andava de amores. O telegrama era um tanto estranho; foi retido, e a sua remetente, detida, passou toda uma noite na polícia. Eis o relato de seu interrogatório: "Aos dez dias do mês de outubro de mil novecentos e... às vinte e três horas e trinta minutos, na Delegacia de Ordem Política e Social, compareceu Maria da Silva, brasileira, desquitada, com 33 anos, residente na rua tal, número tal, apartamento tal, em Copacabana, a fim de esclarecer um telegrama que fora passado e interceptado na Agência Telegráfica do Galeão.
Tendo a declarante sido inquirida, DISSE: A propósito de um telegrama que fora interceptado na Agência Telegráfica do Galeão, expedido pela declarante no dia 9 do corrente mês, aproximadamente às 13 horas, em que figurava como destinatário o sr. Dr. João Silveira, residente na rua tal, número tal, em Belo Horizonte, vazado nos seguintes termos: Tombai — Igreja — Arco-íris — Borboleta — Camelo — Pressão baixa — Rosas vermelhas — Pianista — Vitória — Bahia — Recife — Aeroporto — Eu te amo — Saudades — Maria', esclareceu a declarante: POMBAL — se refere a um pombal existente no Parque de Florianópolis, que, visto ao entardecer, causou a ambos grande impressão; IGREJA — templo católico no Recife onde ambos fizeram um pedido; ARCO-ÍRIS — sensação visual experimentada pela declarante, quando viajava de avião, a baixa altura, em companhia do Dr. João Silveira, ao verem eles, por cinco vezes consecutivas, a aparição de um arco-íris, no trajeto entre Rio e Ilhéus; BORBOLETA — sendo a declarante supersticiosa e acreditando que borboleta amarela traz sorte, e tendo visto uma no início e outra no fim da viagem, ficou impressionada; CAMELO — que a declarante, ao visitar o Parque de Florianópolis em companhia do Dr. João Silveira, teve a oportunidade de se dirigir a um camelo nos seguintes termos: 'Senhor camelo, o senhor não preferia estar agora no deserto, a estar aqui neste parque com todo o conforto?' Que o camelo, com um gesto afirmativo de cabeça, confirmou. Que a declarante fez questão de esclarecer que, tendo sido assistente de Zoologia no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro de mil novecentos e sessenta a mil novecentos e sessenta e dois, devotava grande afeição aos animais, especialmente ao camelo, pela sua solidão; PRESSÃO BAIXA — que o Dr. João Silveira, ao se despedir, frequentemente, da declarante, demonstrava a sua tristeza ao se separar com a sua forte queda de pressão; ROSAS VERMELHAS — que a declarante sempre se acha cercada de rosas vermelhas e, quando obsequiada pelo Dr. João com essas flores, dá a isso enorme valor; PIANISTA — esclareceu que se refere a um pianista que toca maravilhosamente, apesar de cego, num restaurante em Recife, de nome Restaurante Leite, e que nessa viagem teve a oportunidade de distinguir o casal, com a música de sua predileção: O Amor É a Coisa Mais Esplêndida do Mundo; VITÓRIA — BAHIA — RECIFE — localidades onde o casal esteve e sobretudo onde teve a ocasião de experimentar essas sensações; AEROPORTO — local das despedidas do casal, onde sempre um levava saudades do que ficava; EU TE AMO — que a declarante acha desnecessário, digo, que a frase em si dispensa maiores esclarecimentos; e finalmente: SAUDADES — que a declarante afirma que só quem a sente é quem sabe, e que só usou essa frase como despedida; que, perguntado à declarante sobre a razão da expedição do referido telegrama, esclareceu que o mesmo tinha o objetivo de reviver momentos felizes que viveram em comum, dando a ele uma surpresa agradável no meio de sua vida atribulada de homem de negócios; que a declarante faz questão de esclarecer que não havia nenhuma intenção subversiva e que essa declaração e esses incidentes referidos poderão ser confirmados pelo dr. João; que a declarante, no ato de suas declarações, se compromete a comparecer a esta delegacia a qualquer momento, a respeito do referido assunto.
E mais não disse nem lhe foi perguntado. E como nada mais houvesse a lavrar, mandou a autoridade encerrar o presente, o qual, depois de lido e achado conforme, assina com a declarante. Eu, Fulano de Tal, escrivão, o datilografei e assino.
Rubem Braga, "Recado de primavera"
Uma senhora (por sinal bem bonita) passou um telegrama a um cavalheiro, com quem andava de amores. O telegrama era um tanto estranho; foi retido, e a sua remetente, detida, passou toda uma noite na polícia. Eis o relato de seu interrogatório: "Aos dez dias do mês de outubro de mil novecentos e... às vinte e três horas e trinta minutos, na Delegacia de Ordem Política e Social, compareceu Maria da Silva, brasileira, desquitada, com 33 anos, residente na rua tal, número tal, apartamento tal, em Copacabana, a fim de esclarecer um telegrama que fora passado e interceptado na Agência Telegráfica do Galeão.
Tendo a declarante sido inquirida, DISSE: A propósito de um telegrama que fora interceptado na Agência Telegráfica do Galeão, expedido pela declarante no dia 9 do corrente mês, aproximadamente às 13 horas, em que figurava como destinatário o sr. Dr. João Silveira, residente na rua tal, número tal, em Belo Horizonte, vazado nos seguintes termos: Tombai — Igreja — Arco-íris — Borboleta — Camelo — Pressão baixa — Rosas vermelhas — Pianista — Vitória — Bahia — Recife — Aeroporto — Eu te amo — Saudades — Maria', esclareceu a declarante: POMBAL — se refere a um pombal existente no Parque de Florianópolis, que, visto ao entardecer, causou a ambos grande impressão; IGREJA — templo católico no Recife onde ambos fizeram um pedido; ARCO-ÍRIS — sensação visual experimentada pela declarante, quando viajava de avião, a baixa altura, em companhia do Dr. João Silveira, ao verem eles, por cinco vezes consecutivas, a aparição de um arco-íris, no trajeto entre Rio e Ilhéus; BORBOLETA — sendo a declarante supersticiosa e acreditando que borboleta amarela traz sorte, e tendo visto uma no início e outra no fim da viagem, ficou impressionada; CAMELO — que a declarante, ao visitar o Parque de Florianópolis em companhia do Dr. João Silveira, teve a oportunidade de se dirigir a um camelo nos seguintes termos: 'Senhor camelo, o senhor não preferia estar agora no deserto, a estar aqui neste parque com todo o conforto?' Que o camelo, com um gesto afirmativo de cabeça, confirmou. Que a declarante fez questão de esclarecer que, tendo sido assistente de Zoologia no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro de mil novecentos e sessenta a mil novecentos e sessenta e dois, devotava grande afeição aos animais, especialmente ao camelo, pela sua solidão; PRESSÃO BAIXA — que o Dr. João Silveira, ao se despedir, frequentemente, da declarante, demonstrava a sua tristeza ao se separar com a sua forte queda de pressão; ROSAS VERMELHAS — que a declarante sempre se acha cercada de rosas vermelhas e, quando obsequiada pelo Dr. João com essas flores, dá a isso enorme valor; PIANISTA — esclareceu que se refere a um pianista que toca maravilhosamente, apesar de cego, num restaurante em Recife, de nome Restaurante Leite, e que nessa viagem teve a oportunidade de distinguir o casal, com a música de sua predileção: O Amor É a Coisa Mais Esplêndida do Mundo; VITÓRIA — BAHIA — RECIFE — localidades onde o casal esteve e sobretudo onde teve a ocasião de experimentar essas sensações; AEROPORTO — local das despedidas do casal, onde sempre um levava saudades do que ficava; EU TE AMO — que a declarante acha desnecessário, digo, que a frase em si dispensa maiores esclarecimentos; e finalmente: SAUDADES — que a declarante afirma que só quem a sente é quem sabe, e que só usou essa frase como despedida; que, perguntado à declarante sobre a razão da expedição do referido telegrama, esclareceu que o mesmo tinha o objetivo de reviver momentos felizes que viveram em comum, dando a ele uma surpresa agradável no meio de sua vida atribulada de homem de negócios; que a declarante faz questão de esclarecer que não havia nenhuma intenção subversiva e que essa declaração e esses incidentes referidos poderão ser confirmados pelo dr. João; que a declarante, no ato de suas declarações, se compromete a comparecer a esta delegacia a qualquer momento, a respeito do referido assunto.
E mais não disse nem lhe foi perguntado. E como nada mais houvesse a lavrar, mandou a autoridade encerrar o presente, o qual, depois de lido e achado conforme, assina com a declarante. Eu, Fulano de Tal, escrivão, o datilografei e assino.
Rubem Braga, "Recado de primavera"
sábado, fevereiro 14
Os sonhos de Astiages
Após quarenta anos de reinado, morreu o rei medo Ciaxares, e sucedeu-o no trono seu filho Astiages. Tinha Astiages uma filha chamada Mandane; sonhou que ela vertia tanta urina que esta cobria toda a Ecbátana e toda a Ásia. Tratou de não deixá-la casar-se com nenhum medo, e deu-a em matrimônio ao persa Cambises, homem de boa família, caráter pacífico e condições medianas. Voltou Astiages a sonhar, e viu que do centro do corpo de sua filha saía uma parreira que cobria toda a Ásia com sua sombra. O significado era claro: o filho dela o substituiria. Mandou sua filha retornar, e quando esta deu a luz, entregou a criança ao seu parente Hárpago para que ele o matasse.
Hárpago sentiu medo e piedade, e entregou o menino ao vaqueiro Mitradates, ordenando-lhe que o matasse. Mitradates tinha Perra por esposa e esta acabara de parir um filho morto. O menino que lhe haviam entregado estava luxuosamente vestido; decidiram fazer a troca, pois também sabiam que era filho de Mandane e assim preservavam seu futuro. O menino cresceu e seus companheiros pastores proclamaram-no rei de seus jogos, e o menino rei se revelou inflexível.
Astiages inteirou-se e obrigou a Mitradates confessar sua origem. Soube da desobediência de Hárpago, mas fingiu perdoá-lo e convidou-o a um banquete, e pediu que lhe entregasse o filho para ser companheiro de seu neto. Durante o banquete fez servir a Hárpago, assados, pedaços de seu filho. Quando soube disso, Hárpago dominou-se. Astiages consultou novamente seus adivinhos, e eles responderam: Se vive, há de reinar; porém como já reinou entre os pastores, não há perigo de que alcance uma nova coroa. Satisfeito, Astiages enviou-o suposto filho de Mitradates aos seus verdadeiros pais, que ficaram felizes em vê-lo com vida. O menino cresceu, fez-se rapaz e jovem guerreiro, e, com a ajuda de Hárpago, destronou Astiages, tratando-o com benevolência. Assim fundou Ciro, o antigo pastor, o império persa, e assim o conta Heródoto no quinto dos Nove Livros da História.
Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"
Hárpago sentiu medo e piedade, e entregou o menino ao vaqueiro Mitradates, ordenando-lhe que o matasse. Mitradates tinha Perra por esposa e esta acabara de parir um filho morto. O menino que lhe haviam entregado estava luxuosamente vestido; decidiram fazer a troca, pois também sabiam que era filho de Mandane e assim preservavam seu futuro. O menino cresceu e seus companheiros pastores proclamaram-no rei de seus jogos, e o menino rei se revelou inflexível.
Astiages inteirou-se e obrigou a Mitradates confessar sua origem. Soube da desobediência de Hárpago, mas fingiu perdoá-lo e convidou-o a um banquete, e pediu que lhe entregasse o filho para ser companheiro de seu neto. Durante o banquete fez servir a Hárpago, assados, pedaços de seu filho. Quando soube disso, Hárpago dominou-se. Astiages consultou novamente seus adivinhos, e eles responderam: Se vive, há de reinar; porém como já reinou entre os pastores, não há perigo de que alcance uma nova coroa. Satisfeito, Astiages enviou-o suposto filho de Mitradates aos seus verdadeiros pais, que ficaram felizes em vê-lo com vida. O menino cresceu, fez-se rapaz e jovem guerreiro, e, com a ajuda de Hárpago, destronou Astiages, tratando-o com benevolência. Assim fundou Ciro, o antigo pastor, o império persa, e assim o conta Heródoto no quinto dos Nove Livros da História.
Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"
Tudo de novo
Até que você não pode queixar-se, meu mano: o astrólogo previu sua morte em 1966, e quem morreu foi o astrólogo. E não foi você que o matou; foi uma ceia de Natal à go go. É certo que, durante o ano, a profecia esvoaçou em torno de você que nem pernilongo enxerido; enxotada, vinha de novo e zumbia. Mas também é certo que ninguém parecia rejubilar-se com ela; a afeição de uns, e, para outros, o fato de você não deixar vaga em cartório nem em diretoria de banco terão contribuído para isso. E a vidinha foi tocada pra frente, sem lances históricos nem medalhas, mas igualmente sem IPM. Em suma, individualmente, o ano lhe foi camarada. As dores maiores foram cívicas; a bem dizer, tristezas à beira-mar, que o mar se encarrega de repelir, com seu espetáculo de grandeza e força. Quem mora perto dele encontra sempre intimação para acreditar na vida. E esse País, mano, lembra o mar, coisa grande e bela em si, na variedade de formas, de ímpetos ritmados.
E não me venha, no dia 2, com a lamentação de que isso e mais aquilo e aquilo outro subiram tão de preço a partir de 1° de janeiro, que tudo agora vai ser mais impossível do que já era no dia 31 de dezembro, quando as impossibilidades reunidas e somadas desde a fundação do País pelo almirante realizaram esta maravilha: era praticamente impossível viver, e vivia-se. A vida é talvez um milagre dentro do qual subjugamos todas as negações. Não há imposto de circulação de mercadorias nem alta da gasolina nem nada que impeça o milagre cotidiano de alguém acordar e rever-se no mesmo espelho e sentir que o rosto lavado perde a fadiga sebosa do rosto noturno, e tudo é um vir-a-ser. Você, aliás, é doutor-de-Salamanca em filosofias baratas, e com elas tem divertido o seu caminho já longo. Distraia-se em cultivá-las, mano, enquanto não vem outro astrólogo de luneta mais sábia.
E para que esta conversa não resulte demasiado individual em tempos de comunicação reclamada a todos para todos, invente aí qualquer coisa que possa alcançar o seu vizinho e despertar nele o desejo de comunicá-la a outro vizinho, e este a outro, e outro a outro, até os grandes da Terra, tão coitados na solidão do poder; invente qualquer coisa, olhar compreensivo, gesto, palavra. Não achou? Então recorra ao dicionário, tire de lá paciência, tire boa vontade. Use-as. Não há melhor chiclete, meu mano, para a humanidade mascar.
Carlos Drummond de Andrade, "Caminhos de João Brandão"
Agora, você vai repetir aquela velha brincadeira de começar tudo de novo, isto é, de fingir quê, sem conscientizar (eta palavrinha antipática) que está fingindo quê. Não importa. Esse faz-de-conta de começar outra vez (desta vez, melhor) é uma das astúcias do homem para manter alerta o seu lado menino, e o lado menino hoje cresceu tanto que faz a gente ter certa esperança na humanidade. Essas roupas moderninhas de cavalheiros e damas, que pelo menos divertem, esses jogos, essas coleções de miniaturas, esses campeonatos de canto de curió, tudo que é infantil no comportamento adulto, inclusive e principalmente a ambição de chegar à lua cada qual primeiro que o outro, são minhas razões de confiar. Confiar é exagero, mas de esperar alguma coisa de bom de meu semelhante, isto é, de você, de mim mesmo.
E não me venha, no dia 2, com a lamentação de que isso e mais aquilo e aquilo outro subiram tão de preço a partir de 1° de janeiro, que tudo agora vai ser mais impossível do que já era no dia 31 de dezembro, quando as impossibilidades reunidas e somadas desde a fundação do País pelo almirante realizaram esta maravilha: era praticamente impossível viver, e vivia-se. A vida é talvez um milagre dentro do qual subjugamos todas as negações. Não há imposto de circulação de mercadorias nem alta da gasolina nem nada que impeça o milagre cotidiano de alguém acordar e rever-se no mesmo espelho e sentir que o rosto lavado perde a fadiga sebosa do rosto noturno, e tudo é um vir-a-ser. Você, aliás, é doutor-de-Salamanca em filosofias baratas, e com elas tem divertido o seu caminho já longo. Distraia-se em cultivá-las, mano, enquanto não vem outro astrólogo de luneta mais sábia.
E para que esta conversa não resulte demasiado individual em tempos de comunicação reclamada a todos para todos, invente aí qualquer coisa que possa alcançar o seu vizinho e despertar nele o desejo de comunicá-la a outro vizinho, e este a outro, e outro a outro, até os grandes da Terra, tão coitados na solidão do poder; invente qualquer coisa, olhar compreensivo, gesto, palavra. Não achou? Então recorra ao dicionário, tire de lá paciência, tire boa vontade. Use-as. Não há melhor chiclete, meu mano, para a humanidade mascar.
Carlos Drummond de Andrade, "Caminhos de João Brandão"
Herança
Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.
Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?
E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?
Cecília Meireles
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.
Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?
E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?
Cecília Meireles
Nunca fiz senão sonhar
(a child hand's playing with cotton-reels, etc.)
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumavam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.
A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo – mas tenho pena de o não fazer.., e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições – irrealizável infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as vizinhanças de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atração ... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando.., quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.
Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!
O que eu sinto quando penso no passado que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida,... Isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.
A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independentes da minha consciência deles!
Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que não existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam... Tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado na minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida-real morta que fito, solene no seu caixão.
Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura de um quarto onde dormi já não em pequeno!
Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia.
Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... E cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-Lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum exceto Deus.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumavam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.
A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo – mas tenho pena de o não fazer.., e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições – irrealizável infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as vizinhanças de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atração ... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando.., quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.
Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!
O que eu sinto quando penso no passado que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida,... Isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.
A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independentes da minha consciência deles!
Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que não existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses que passam... Tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado na minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida-real morta que fito, solene no seu caixão.
Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura de um quarto onde dormi já não em pequeno!
Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia.
Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito dos nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus... E tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço intimo que entretém essas pobres realidades...
Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... E cedo ainda. Mal passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-Lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum exceto Deus.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
sexta-feira, fevereiro 13
Tratado geral das grandezas do ínfimo
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
Manoel de Barros
Acorrentados
Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.
Paulo Mendes Campos, “O Anjo Bêbado“
Paulo Mendes Campos, “O Anjo Bêbado“
A uma alma sensível
Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível, que está decerto um pouquito agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez.., sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, – que isso às vezes é dos óculos, – e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
Um escritor diferente
De origem operária, criado por uma antiga escrava (na verdade sua mãe adotiva), ele cresceu em uma fazendinha na Califórnia e aos dez anos de idade vendia jornais pelas ruas de uma cidade norte-americana. Seis anos depois, adquire um barco, chegando a conhecer o Japão como marinheiro. E se tornou pescador de ostras. Nessa condição, chegou a assaltar uma embarcação, pilotada por pescadores chineses, apontando um revólver para eles, pois precisava de uma vela nova para o seu barco. Em seguida, ele também foi roubado e acabou tendo que vender seu barco - ou o que sobrou dele.
E foi fazer de tudo um pouco para sobreviver: trabalhou como operário em uma fábrica de conservas, labutou em lavanderias, foi cortador de grama, lavador de tapetes e de vidraças. Segundo ele, aquilo “fazia parte do jogo” e era preciso ganhar a vida. Mas revoltou-se ao ver crianças de seis anos de idade trabalhando 12 horas por dia nas usinas. O capitalismo não estava para brincadeiras. Tornou-se eletricista, indo trabalhar em uma fábrica, porém sentiu-se demasiadamente explorado e largou o serviço. Optou por ser vagabundo, perambulando e deslocando-se por várias cidades dos Estados Unidos. “Suei sangue e água nos cortiços e nas prisões”, escreveu mais tarde. A tortura então era moeda corrente nas cadeias.
Percebeu, desde muito cedo, que o trabalho, fosse ele muscular ou cerebral. E preferiu mergulhar nos livros, passando a entender, cientificamente, segundo ele, o que já havia aprendido na prática como trabalhador braçal. Foi aí que se fez socialista, integrando grupos de operários e intelectuais, interessados em mudar a ordem social. Teve até oportunidade de frequentar os salões elegantes, mas não se deixou iludir. Como ele mesmo dizia, seu lugar era junto à classe operária.
Valendo-se de sua experiência como marinheiro, escreveu Tufão nas costas do Japão, recebendo um prêmio literário. Aos 21 anos de idade, integrou a chamada Corrida do Ouro de Klondike. Na volta para a Califórnia, com a saúde debilitada, decidiu se dedicar à Literatura e seu primeiro grande sucesso foi Caninos Brancos. Logo depois, publicou O chamado selvagem. Outros livros se seguiram, fazendo dele um dos autores emblemáticos do século XX.
Publicou reportagens formidáveis sobre a guerra russo-japonesa e a revolução mexicana. É bem verdade que por vezes se deixou levar pelas ideias darwinistas aplicadas (ou mal aplicadas) à realidade social, relativas à “luta pela vida” ou à sobrevivência do mais forte. Daí ter flertado, durante um determinado momento, com as ideias colonialistas, mudando sua perspectiva após suas viagens pelo Pacífico.
Casou-se duas vezes e era muito ligado aos filhos. Morava então em uma propriedade rural, onde encontrou a paz para escrever, dedicando-se a experimentos que hoje denominamos de ecológicos.
Jack London (John Griffith Chaney) morreu aos 40 anos de idade, mas deixou seu nome na história da Literatura.
E foi fazer de tudo um pouco para sobreviver: trabalhou como operário em uma fábrica de conservas, labutou em lavanderias, foi cortador de grama, lavador de tapetes e de vidraças. Segundo ele, aquilo “fazia parte do jogo” e era preciso ganhar a vida. Mas revoltou-se ao ver crianças de seis anos de idade trabalhando 12 horas por dia nas usinas. O capitalismo não estava para brincadeiras. Tornou-se eletricista, indo trabalhar em uma fábrica, porém sentiu-se demasiadamente explorado e largou o serviço. Optou por ser vagabundo, perambulando e deslocando-se por várias cidades dos Estados Unidos. “Suei sangue e água nos cortiços e nas prisões”, escreveu mais tarde. A tortura então era moeda corrente nas cadeias.
Percebeu, desde muito cedo, que o trabalho, fosse ele muscular ou cerebral. E preferiu mergulhar nos livros, passando a entender, cientificamente, segundo ele, o que já havia aprendido na prática como trabalhador braçal. Foi aí que se fez socialista, integrando grupos de operários e intelectuais, interessados em mudar a ordem social. Teve até oportunidade de frequentar os salões elegantes, mas não se deixou iludir. Como ele mesmo dizia, seu lugar era junto à classe operária.
Valendo-se de sua experiência como marinheiro, escreveu Tufão nas costas do Japão, recebendo um prêmio literário. Aos 21 anos de idade, integrou a chamada Corrida do Ouro de Klondike. Na volta para a Califórnia, com a saúde debilitada, decidiu se dedicar à Literatura e seu primeiro grande sucesso foi Caninos Brancos. Logo depois, publicou O chamado selvagem. Outros livros se seguiram, fazendo dele um dos autores emblemáticos do século XX.
Publicou reportagens formidáveis sobre a guerra russo-japonesa e a revolução mexicana. É bem verdade que por vezes se deixou levar pelas ideias darwinistas aplicadas (ou mal aplicadas) à realidade social, relativas à “luta pela vida” ou à sobrevivência do mais forte. Daí ter flertado, durante um determinado momento, com as ideias colonialistas, mudando sua perspectiva após suas viagens pelo Pacífico.
Casou-se duas vezes e era muito ligado aos filhos. Morava então em uma propriedade rural, onde encontrou a paz para escrever, dedicando-se a experimentos que hoje denominamos de ecológicos.
Jack London (John Griffith Chaney) morreu aos 40 anos de idade, mas deixou seu nome na história da Literatura.
quinta-feira, fevereiro 12
Vou lá ser feliz…
Apronto agora os meus pés na estrada.
Ponho-me a caminhar sob sol e vento.
Eles secam as lágrimas,
Vou ali ser feliz e já volto.
Caio Fernando Abreu
Os gatos
Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.
Mas espera, já estou me precipitando, eu pensava naquela fábula da infância: é que Deus Nosso Senhor pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos e mesuras foi levá-lo ao Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que fez o gato? O fingido escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo nojento na mão divina.
Acreditei na fábula, na infância a gente só acredita. Mais tarde, conhecendo melhor o gato, descobri que ele jamais teria esse comportamento, questão de feitio. De caráter. Ele ouviria a ordem e continuaria deitado na almofada, olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. E mergulharia no sono sem sonhos, gato sonha menos do que cachorro que até dormindo se parece com o homem. Outro ponto discutível: dando gargalhadas? Mas gato não dá gargalhada, só cachorro. Meus cachorros riam demais abanando o rabo, que é o jeito natural que eles têm de manifestar alegria, chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse é o sorriso do gato – ô bicho sutil! indecifrável. Inatingível.
Nem pior nem melhor do que o cachorro, mas diferente. Fingido? Não, ele nem se dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave – aquele recôncavo onde o vinho envelhece.
Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas o cachorro se expõe, inocente.
Foi na minha juventude que conheci o gato bem de perto. Me preparava para os vestibulares da Academia do Largo de São Francisco, era noite. E eu lia Iracema sem vontade, lia em voz alta, aos brados, para espantar o sono. Então ouvi um ruído brusco de coisa algodoada entrando pela janela e parando atrás da minha cadeira. Senti o olhar da coisa se fixando em mim. Fui me voltando devagar, afetando aquela calma que estava longe de sentir: um gato malhado, espetado nas quatro patas, me encarava, perplexo. Eu também perplexa. Fomos nos recuperando do susto, eu menos tensa do que ele. Meu apartamento era no primeiro andar de um prédio cercado de casario e essa janela da sala dava para o telhado de uma casa velhíssima, por onde transitavam os gatos do bairro.
Por onde andam hoje os gatos que não encontro mais nenhum. Naquele tempo havia gato à beça nos muros, nos telhados. “É que a vida apertou e gato dá um bom cozido”, explicou o jornaleiro. A fome aumentou e o telhado diminuiu, onde agora os telhados nos quais eles ficavam tomando sol? Caçando passarinho. Amando. Os ratos todos em plena circulação, fortalecidos. E os gatos, onde estão os gatos? Pois aquele era um gato de telhado, as manchas amarelas e pretas num fundo branco. E os olhos. Por alguma razão obscura, escolheu minha casa: estendi a mão afeita a acariciar cabeça de cachorro. Mas cabeça de gato não é cabeça de cachorro – primeira lição que ele deu ao recuar com uma soberba que me confundiu. A conquista do gato é difícil, embrulhada, não tem isso de amor repentino: mais um movimento de aproximação e ele fugiria ventando.
Fui buscar o pires de leite, deixei-o ao alcance do visitante da noite e continuei a ler o romance da virgem dos lábios de mel, mas em voz baixa, intuí que ele preferia o silêncio. Ele ou ela? Sexo de gato não é nítido como sexo de cachorro, outra diferença importante. Leva algum tempo para a descoberta do sexo, da unha e da idade.
Gato ou gata, vai se chamar Iracema, resolvi. E deixei meu hóspede, a casa é sua.
Então ouvi o ruído delicado, ele bebia leite, mas não como os cachorros bebem, sofregamente, espirrando em redor. O gato é discreto. Há que amá-lo discretamente, pensei e fiquei sorrindo. Tenho um gato.
“Tudo passa sobre a terra!” – estava escrito no final do romance que achei triste. Olhei para a outra Iracema que dormia no meio do tapete. Também você vai passar? Tu quoque, Iracema?! Não sabia ainda que permaneceria infinita na minha finitude.
Mas espera, já estou me precipitando, eu pensava naquela fábula da infância: é que Deus Nosso Senhor pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos e mesuras foi levá-lo ao Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que fez o gato? O fingido escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo nojento na mão divina.
Acreditei na fábula, na infância a gente só acredita. Mais tarde, conhecendo melhor o gato, descobri que ele jamais teria esse comportamento, questão de feitio. De caráter. Ele ouviria a ordem e continuaria deitado na almofada, olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. E mergulharia no sono sem sonhos, gato sonha menos do que cachorro que até dormindo se parece com o homem. Outro ponto discutível: dando gargalhadas? Mas gato não dá gargalhada, só cachorro. Meus cachorros riam demais abanando o rabo, que é o jeito natural que eles têm de manifestar alegria, chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse é o sorriso do gato – ô bicho sutil! indecifrável. Inatingível.
Nem pior nem melhor do que o cachorro, mas diferente. Fingido? Não, ele nem se dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave – aquele recôncavo onde o vinho envelhece.
Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas o cachorro se expõe, inocente.
Foi na minha juventude que conheci o gato bem de perto. Me preparava para os vestibulares da Academia do Largo de São Francisco, era noite. E eu lia Iracema sem vontade, lia em voz alta, aos brados, para espantar o sono. Então ouvi um ruído brusco de coisa algodoada entrando pela janela e parando atrás da minha cadeira. Senti o olhar da coisa se fixando em mim. Fui me voltando devagar, afetando aquela calma que estava longe de sentir: um gato malhado, espetado nas quatro patas, me encarava, perplexo. Eu também perplexa. Fomos nos recuperando do susto, eu menos tensa do que ele. Meu apartamento era no primeiro andar de um prédio cercado de casario e essa janela da sala dava para o telhado de uma casa velhíssima, por onde transitavam os gatos do bairro.
Por onde andam hoje os gatos que não encontro mais nenhum. Naquele tempo havia gato à beça nos muros, nos telhados. “É que a vida apertou e gato dá um bom cozido”, explicou o jornaleiro. A fome aumentou e o telhado diminuiu, onde agora os telhados nos quais eles ficavam tomando sol? Caçando passarinho. Amando. Os ratos todos em plena circulação, fortalecidos. E os gatos, onde estão os gatos? Pois aquele era um gato de telhado, as manchas amarelas e pretas num fundo branco. E os olhos. Por alguma razão obscura, escolheu minha casa: estendi a mão afeita a acariciar cabeça de cachorro. Mas cabeça de gato não é cabeça de cachorro – primeira lição que ele deu ao recuar com uma soberba que me confundiu. A conquista do gato é difícil, embrulhada, não tem isso de amor repentino: mais um movimento de aproximação e ele fugiria ventando.
Fui buscar o pires de leite, deixei-o ao alcance do visitante da noite e continuei a ler o romance da virgem dos lábios de mel, mas em voz baixa, intuí que ele preferia o silêncio. Ele ou ela? Sexo de gato não é nítido como sexo de cachorro, outra diferença importante. Leva algum tempo para a descoberta do sexo, da unha e da idade.
Gato ou gata, vai se chamar Iracema, resolvi. E deixei meu hóspede, a casa é sua.
Então ouvi o ruído delicado, ele bebia leite, mas não como os cachorros bebem, sofregamente, espirrando em redor. O gato é discreto. Há que amá-lo discretamente, pensei e fiquei sorrindo. Tenho um gato.
“Tudo passa sobre a terra!” – estava escrito no final do romance que achei triste. Olhei para a outra Iracema que dormia no meio do tapete. Também você vai passar? Tu quoque, Iracema?! Não sabia ainda que permaneceria infinita na minha finitude.
Lygia Fagundes Telles, "A disciplina do amor"
O messias
“Todos temos aquele sonho especial quando somos jovens”, disse o bispo Kelly.
Os outros, à mesa, murmuraram, assentiram.
“Não existe nenhum menino cristão”, o bispo continuou, “que não tenha se perguntado em uma noite dessas: eu sou Ele? E esta é a Segunda Vinda, afinal de contas, e eu sou Ela? E se, e se, ah, Deus meu, e se eu fosse Jesus? Que grandioso!”
Os sacerdotes, os ministros e o único rabino solitário riram delicadamente, lembrando-se de coisas de suas próprias infâncias, seus próprios sonhos desvairados e de como eram grandes tolos.
“Será”, disse o jovem sacerdote, padre Niven, “que os meninos judeus não se imaginam como Moisés?”
“Não, não, meu caro amigo”, disse o rabino Nittler. “O Messias! O Messias!”
Mais risadas brandas de todos.
“É claro”, disse o padre Niven, o rosto jovial, rosa e creme, “que tolice a minha. Cristo não era o Messias, era? E seu povo continua esperando que Ele chegue. Estranho. Ah, as ambigüidades.”
“E nada mais ambíguo do que isso.” O bispo Kelly se levantou para acompanhar todos até um terraço com vista para as colinas marcianas, as cidades marcianas antigas, as velhas rodovias, os rios de poeira e a Terra, sessenta milhões de milhas distante, brilhando com uma luz clara neste céu alienígena.
“Alguma vez, em nossos sonhos mais loucos”, disse o reverendo Smith, “imaginamos que um dia cada um de nós teria uma Igreja Batista, uma Capela Santa Maria, uma Sinagoga Monte Sinai, aqui, aqui em Marte?”
A resposta foi não, não, suavemente, da parte de todos eles.
A tranquilidade foi interrompida por uma outra voz que se movia entre eles. O padre Niven, enquanto eles estavam na balaustrada, havia sintonizado seu rádio transistor para saber a hora. Notícias eram transmitidas da nova e pequena colônia americano-marciana no deserto lá embaixo. Eles escutaram: “...boatos perto da cidade. Este é o primeiro marciano de que se tem notícia em nossa comunidade este ano. Pede-se aos cidadãos que respeitem qualquer um desses visitantes. Se...”.
O padre Niven desligou o rádio.
“Essa nossa esquiva congregação”, suspirou o reverendo Smith. “Devo confessar: eu vim para Marte não apenas para trabalhar com cristãos, mas esperando convidar um marciano para a ceia de domingo, para conhecer suas teologias, suas necessidades.”
“Ainda somos algo novo demais para eles”, disse o padre Lipscomb. “Em mais um ano, aproximadamente, acho que eles irão entender que não somos caçadores de búfalos em busca de peles. Mesmo assim, é difícil controlar a curiosidade. Afinal, as fotografias de nosso Mariner não indicaram nenhuma vida aqui. Entretanto, há vida, muito misteriosa e meio parecida com vida humana.”
“Meio, Sua Eminência?” O rabino meditava diante de sua xícara de café. “Sinto que são até mais humanos do que nós mesmos. Eles nos deixaram vir.
“O senhor realmente acredita que eles possuam poderes telepáticos e habilidades hipnóticas que lhes possibilitam andar por nossas cidades, enganando-nos com máscaras e visões, sem que ninguém de nós se aperceba?”
“Acredito sim.”
“Então”, disse o bispo, passando aos outros os conhaques e crémes de menthes, “esta é uma verdadeira noite de frustrações. Marcianos que não querem se revelar para que sejam salvos por Nós, os Iluminados...”
Muitos sorriram a essa afirmação.
“... e por Segundas Vindas de Cristo adiadas por vários milhares de anos. Quanto tempo devemos esperar, ó, Senhor?”
“Quanto a mim”, disse o jovem padre Niven, “eu nunca desejei ser Cristo, a Segunda Vinda. Eu sempre quis apenas, com todo o meu coração, encontrá-Lo. Desde que eu tinha oito anos penso nisso. Pode muito bem ser o principal motivo de me tornar sacerdote.”
“Para ter informações privilegiadas, por via das dúvidas. Será que Ele já voltou alguma vez?”, sugeriu o rabino, delicadamente.
O jovem sacerdote sorriu e assentiu. Os outros sentiram um impulso de estender a mão e tocá-lo, pois ele havia tocado alguma pequena ferida vaga e doce em cada um. Eles se sentiram imensamente abrandados.
“Com sua permissão, rabino, cavalheiros”, disse o bispo Kelly, levantando o copo. “À Primeira Vinda do Messias, ou à Segunda Vinda do Cristo. Tomara que sejam mais do que alguns antigos sonhos tolos.”
Eles beberam e ficaram em silêncio.
O bispo assoou o nariz e enxugou os olhos.
O resto da noite foi como muitas outras para os sacerdotes, os reverendos e o rabino. Puseram-se a jogar cartas e a discutir santo Tomás de Aquino, mas sucumbiam ao massacre da lógica educada do rabino Nittler. Chamavam-no de jesuíta, bebiam as últimas bebidas da noite e escutavam as últimas notícias no rádio:
“… teme-se que este marciano possa se sentir encurralado em nossa comunidade. Qualquer um que o encontre deve-se afastar para deixar o marciano passar. Ele parece ser movido pela curiosidade. Não há motivo para alarme. Isso conclui nosso...”
Enquanto se encaminhavam para a porta, os sacerdotes, os ministros e o rabino discutiam traduções que haviam feito para várias línguas do Antigo e do Novo Testamento. Foi então que o padre Niven os surpreendeu:
“Os senhores sabiam que uma vez me pediram que escrevesse um roteiro dos Evangelhos para o cinema? Precisavam de um final para o filme deles!”
“Será que existe, com certeza”, protestou o bispo, “somente um final para a vida de Cristo?”
“Mas, Sua Santidade, os Quatro Evangelhos contam-na com quatro variações. Eu comparei. Fiquei entusiasmado. Por quê? Porque redescobri algo que quase havia esquecido. A Última Ceia não foi realmente a Última Ceia!”
“Minha nossa, o que é então?”
“Ora, Sua Santidade, a primeira de várias, senhor. A primeira de várias! Depois da Crucificação e do Sepultamento de Cristo, Simão-chamado-Pedro, junto com os discípulos, não pescaram no mar da Galiléia?”
“Pescaram.”
“E suas redes não se encheram com o milagre dos peixes?”
“Encheram-se.”
“E, ao verem na costa da Galiléia, uma luz pálida, eles não atracaram e aproximaram-se do que parecia ser um leito de brasas incandescentes em que se assavam peixes recém-pescados?”
“Sim, ah, sim”, disse o reverendo Smith.
“E lá, para além do brilho do fogo brando do carvão, eles não sentiram uma presença espiritual e a chamaram?”
“Sentiram.”
“Sem obter resposta, Simão-chamado-Pedro não sussurrou novamente: ‘Quem está aí?’. E o Fantasma, não reconhecido, nas praias da Galiléia, estendeu a mão à luz do fogo e, em sua palma, não viram eles a marca do cravo, a chaga que nunca se fecharia?
“Eles quiseram fugir, mas o Fantasma falou e disse: ‘Tomai destes peixes e dai de comer a vossos irmãos’. E Simão-chamado-Pedro tomou dos peixes que assavam por sobre as brasas incandescentes e alimentou os discípulos. E o frágil Fantasma de Cristo então disse: ‘ Tomai de minha palavra e espalhai-a entre as nações de todo o mundo e assim pregai o perdão do pecado’.
“E então Cristo os deixou. E, em meu roteiro, eu O fiz andar ao longo da costa da Galiléia em direção ao horizonte. E quando alguém caminha rumo ao horizonte, parece ascender, não é? Pois toda a terra se eleva à distância. E Ele caminhou ao longo da praia até se tornar apenas um pequeno ponto bem ao longe. E eles não puderam mais vê-Lo.
“E, enquanto o sol nascia sobre o mundo antigo, todas as Suas mil pegadas ao longo da praia se desmancharam ao sopro dos ventos da alvorada sem deixar nenhum sinal.
“E os Discípulos deixaram as cinzas daquele leito de brasas se espalharem em fagulhas, e com o gosto da Real e Final e Verdadeira Última Ceia na boca, eles se foram. E em meu roteiro, faço a câmera subir para observar os Discípulos andando, alguns para o norte, alguns para o sul, alguns para o leste, para dizerem ao mundo o que Precisava Ser Dito sobre Um Homem. E suas pegadas, indo em todas as direções, como os raios de uma imensa roda, apagavam-se na areia, ao vento da manhã. E surgiu um novo dia. Fim.”
O jovem sacerdote estava no centro da roda de amigos, as faces coradas, olhos fechados. De repente, abriu os olhos, como se estivesse se lembrando de onde estava:
“Desculpem”.
“Pelo quê?”, falou o bispo, esfregando as pálpebras com as costas da mão, piscando rapidamente. “Por me fazer chorar duas vezes em uma noite? Como pode estar constrangido na presença de seu próprio amor por Cristo? Ora esta, o senhor me devolveu a Palavra, a mim, que sou conhecedor da Palavra parece que há séculos! O senhor renovou minha alma, ah, meu bom jovem com coração de um menino. Comer os peixes nas praias da Galiléia foi a verdadeira Última Ceia. Bravo. O senhor merece se encontrar com Ele. A Segunda Vinda, por uma questão de justiça, deve ser para o senhor!”
“Eu não sou digno!”, disse o padre Niven.
“Nenhum de nós é! Mas, se fosse possível trocar de almas, eu cederia a minha neste instante e tomaria emprestada a sua, recém-saída da lavanderia. Mais um brinde, cavalheiros? Ao padre Niven! Então, boa noite, é tarde, boa noite.”
O brinde foi bebido e todos partiram; o rabino e os ministros desceram a colina rumo a seus lugares sagrados, deixando os sacerdotes desfrutarem um último momento à porta, olhando Marte, esse estranho mundo. Soprava um vento frio.
Chegou a meia-noite e depois uma e depois duas e, às três, na madrugada fria e profunda de Marte, o padre Niven se agitava. Velas bruxuleavam em brandos sussurros.
Folhas tremulavam contra sua janela.
De repente, ele se sentou na cama, meio sobressaltado por um sonho com gritos e perseguição de uma multidão enfurecida. Ficou escutando.
Longe dali, lá embaixo, ele ouviu o cerrar de uma porta externa.
Colocando um robe, o padre Niven desceu as escadas mal iluminadas da casa paroquial e atravessou a igreja, onde dezenas de velas aqui e ali formavam sua própria poça de luz.
Verificou todas as portas, pensando: Tolice, para que trancar igrejas? O que há para ser roubado? Mas, ainda assim, ele rondou a noite adormecida...
.... e encontrou a porta da frente da igreja destrancada, sendo empurrada suavemente pelo vento.
Tremendo, ele fechou a porta.
Corrida de passos leves.
Ele procurou ao redor.
A igreja estava vazia. As chamas das velas se inclinavam para cá e para lá, em seus santuários. Havia apenas o cheiro antigo de cera e incenso queimando, coisas que sobraram de todos os mercados do tempo e da história; outros sóis e outras luas.
Enquanto olhava para o crucifixo acima do altar principal, estacou.
Ouviu o som de uma única gota d’água caindo na noite.
Lentamente, ele se virou para olhar para o batistério no fundo da igreja.
Não havia nenhuma vela ali, no entanto...
“Bispo Kelly?”, ele chamou baixinho.
Subindo lentamente entre as fileiras de bancos, ele começou a sentir muito frio e parou, porque...
Uma outra gota d’água havia pingado, caído, dissolvido.
Era como se houvesse uma torneira gotejando em algum lugar. Mas não havia torneiras. Apenas a pia batismal, dentro da qual, gota a gota, caía um líquido lento, com intervalo de três batidas de coração entre cada som.
Secretamente, o coração do padre Niven dizia algo a si mesmo e disparava, depois diminuía o ritmo e quase parava. Ele começou a suar profusamente.
Viu-se incapaz de se mover, mas mover-se era preciso, um pé depois do outro, até chegar ao arco de entrada do batistério.
Havia de fato uma luz pálida na escuridão do pequeno lugar.
Não, uma luz não. Uma forma, um vulto.
O vulto estava em pé atrás e além da pia batismal. O som dos pingos havia parado.
Língua travada na boca, olhos arregalados em uma espécie de loucura, o padre Niven sentiu-se cego. Então, a visão retornou, e ele ousou gritar:
“Quem!”
Uma única palavra, que ecoou em todos os lados da igreja, que fez as chamas das velas se agitarem em reverberação, que sacudiu o pó de incenso, que apavorou seu coração ao responder rapidamente “Quem!”.
A única luz dentro do batistério vinha das vestes pálidas do vulto ali postado diante dele. E essa luz foi suficiente para que ele visse uma coisa incrível.
Enquanto o padre Niven observava, o vulto se moveu, estendeu a mão pálida sobre o batistério.
A mão pendeu ali como se não quisesse, uma coisa separada do Fantasma ali atrás, como se tivesse sido agarrada e puxada para a frente, resistindo a revelar, diante do olhar apavorado e fascinado do padre Niven, o que estava no centro da palma branca e aberta.
Ali havia um buraco de bordas irregulares, um orifício de onde, lentamente, gota a gota, pingava, caía e escorria sangue para dentro da pia batismal.
As gotas de sangue atingiam a água benta, coloriam-na e se dissolviam em lentas ondas.
A mão permaneceu ali por um momento diante dos olhos ora cegos, ora sãos.
Como se atingido por um golpe terrível, o sacerdote caiu de joelhos desatando em um choro engasgado, meio desespero, meio revelação, uma das mãos sobre os olhos e a outra afastando a visão.
“Não, não, não, não, não, não, não, não pode ser!”
Era como se um dentista medonho tivesse chegado sem anestesia e, com um único puxão, tivesse arrancado do seu corpo a alma dessangrada. Ele se sentiu aprisionado, sua vida arrancada e as raízes, ó, Deus, eram... profundas!
“Não, não, não, não!”
Mas, sim.
Olhou novamente por entre os dedos entrelaçados.
E a horrível palma trêmula, ensangüentada, gotejava sobre o batistério.
“Chega!”
A palma recuou, desapareceu. O Fantasma ficou esperando.
E a face do Espírito era boa e familiar. Aqueles olhos estranhos, bonitos, profundos e incisivos eram como ele sabia que sempre deveriam ser. Havia a delicadeza da boca e a palidez emoldurada pelas madeixas esvoaçantes dos cabelos e da barba.
O sacerdote, com um grande esforço de vontade, impediu as próprias lágrimas de caírem, interrompeu a agonia de sua surpresa, dúvida, choque, essas coisas incômodas que se rebelavam dentro dele e ameaçavam irromper. Ele tremia.
E então viu que o Vulto, o Espírito, o Homem, o Fantasma, seja lá o que for, estava tremendo também.
Não, pensou o sacerdote. Não pode ser Ele! Com medo? Com medo... de mim?
E então o Espírito se contorceu em imensa agonia, não diferente da sua, como uma imagem espelhada de seu próprio choque, escancarou a boca, fechou os olhos e rogou:
“Por favor, deixe-me ir”.
Ao ouvir isso, o jovem sacerdote arregalou ainda mais os olhos e ofegou. Ele pensou: Mas você é livre. Ninguém o mantém preso aqui!
E naquele instante:
“Sim!”, gritou a Visão. “Você me mantém! Por favor! Desvie o olhar! Quanto mais você olha, mais eu me torno assim! Não sou o que pareço!”
Mas, pensou o sacerdote, eu não falei nada! Meus lábios não se moveram! Como esse Fantasma sabe o que está em minha mente?
“Eu sei tudo o que você pensa”, disse a Visão, trêmula, pálida, escondendo-se na escuridão do batistério. “Toda frase, toda palavra. Eu não pretendia vir. Eu me aventurei na cidade. De repente, eu era muitas coisas para muitas pessoas. Corri. Elas me seguiram. Fugi para cá. A porta estava aberta. Entrei. E então, e então... Ah, e então fui aprisionado.”
Não, pensou o sacerdote.
“Sim”, choramingou o Fantasma. “Por você.”
Lentamente, então, vergando sob o peso de uma revelação ainda mais terrível, o sacerdote agarrou-se à borda da pia e se colocou de pé, oscilante. Finalmente, ousou perguntar:
“Você não é... o que parece?”
“Não sou”, disse o outro. “Perdoe-me.”
Eu, o sacerdote pensou, vou enlouquecer.
“Não faça isso”, disse o Fantasma, “ou eu serei arrastado à loucura junto com você.”
“Não posso desistir de Vós, ó, meu bom Deus, agora que estais aqui, depois de todos estes anos, todos os meus sonhos, não vedes, estais pedindo demais. Dois mil anos, uma raça inteira de pessoas espera por Vossa volta! E eu sou aquele que Vos encontrei, que Vos vê...”
“Você encontrou apenas o seu próprio sonho. Você vê apenas a sua própria necessidade. Por trás de tudo isso...”, a figura tocou as próprias vestes e o peito, “sou uma outra coisa.”
“O que tenho de fazer?”, o sacerdote explodiu, olhando ora para os céus, ora para o Fantasma, que tremeu com seu grito. “O quê?”
“Desvie o olhar. Nesse momento, eu sairei pela porta e irei embora.”
“Assim... simplesmente assim?”
“Por favor”, disse o Homem.
O sacerdote, tremendo, deu uma série de suspiros.
“Ah, se este momento pudesse durar pelo menos uma hora.”
“Você quer me matar?”
“Não!”
“Se me mantiver, me forçar a ficar nesta forma por mais algum tempo, minha morte será culpa sua.”
O sacerdote mordeu o nó dos dedos e sentiu um acesso de tristeza fustigar seus ossos.
“Você... você é um marciano então?”
“Nem mais. Nem menos.”
“E eu fiz isso a você com meus pensamentos?”
“Você não teve a intenção. Quando desceu as escadas, seu antigo sonho se apossou de mim e me transformou. As palmas de minhas mãos ainda sangram com as feridas que você tirou do íntimo de sua mente.”
O sacerdote balançou a cabeça, estupefato.
“Só mais um pouco... espere...”
Ele olhava fixamente, ávido, para a escuridão onde o Fantasma se escondia da luz. Aquela face era linda. E, ah, aquelas mãos eram adoráveis e além de qualquer descrição.
O sacerdote fez um gesto de assentimento, uma tristeza em si como se tivesse naquela hora voltado do verdadeiro Calvário. E o tempo passou. E as brasas espalhadas se extinguiam na areia próximo à Galiléia.
“Se... Se eu deixá-lo ir...”
“Você precisa, ah, você precisa!”
“Se eu deixá-lo ir, promete...”
“O quê?”
“Promete que irá voltar?”
“Voltar?”, gritou o vulto na escuridão.
“Uma vez por ano, é tudo o que peço, volte uma vez por ano, aqui, a este lugar, a esta pia, à mesma hora da noite...”
“Voltar...?”
“Prometa! Ah, eu preciso viver este momento de novo. Você não sabe como é importante! Prometa ou não o deixarei ir!”
“Eu...”
“Diga. Jure!”
“Eu prometo”, disse o Fantasma, pálido, no escuro. “Eu juro.”
“Obrigado, ah, obrigado.”
“Em que dia do ano a partir de agora eu devo retornar?”
As lágrimas começaram então a escorrer pelo rosto do jovem sacerdote. Ele mal conseguia se lembrar do que queria dizer e, quando disse, mal conseguiu ouvir:
“Na Páscoa, ah, Deus, sim, na Páscoa, daqui a um ano!”
“Por favor, não chore”, disse o vulto. “Eu virei. Na Páscoa, você disse? Conheço o seu calendário. Sim. Agora...” A mão pálida e ferida se mexeu no ar, implorando baixinho. “Posso ir?”
O sacerdote cerrou os dentes para impedir que o choro de angústia irrompesse.
“Abençoe-me e vá.”
“Deste jeito?”, disse a voz.
E a mão estendeu-se para tocá-lo muito delicadamente.
“Rápido!”, gritou o sacerdote, olhos fechados, apertando os punhos com força contra as costelas para evitar que suas mãos o agarrassem. “Vá antes que eu o prenda aqui para sempre. Corra. Corra!”
A mão pálida tocou sua fronte uma última vez. Ouviu-se um leve correr de pés descalços.
Uma porta se abriu em direção às estrelas; a porta bateu.
Houve um momento longo em que o eco da batida da porta atravessou a igreja, chegando a cada altar, entrando em cada alcova e subindo como o vôo cego de algum pássaro solitário, procurando e encontrando a liberdade na abside. A igreja finalmente parou de tremer e o sacerdote colocou as mãos sobre si mesmo, parecendo dizer-se como se comportar, respirar novamente; aquietar-se, acalmar-se, compor-se...
Por fim, correu até a porta e se agarrou a ela, desejando escancará-la, olhar para a estrada que devia estar vazia então, talvez com um vulto de branco, fugindo ao longe. Ele não abriu a porta.
Andou pela igreja, feliz pelas coisas a fazer, terminando o ritual de trancar tudo. Era um longo caminho até todas as portas. Era um longo caminho até a próxima Páscoa.
Parou junto à pia e viu a água limpa sem nenhum traço de vermelho. Mergulhou a mão e refrescou a testa e as têmporas e as bochechas e as pálpebras.
Então, subiu lentamente pela passagem entre os bancos e se deitou diante do altar e deixou-se irromper em lágrimas e chorar de verdade. Ouviu o som de sua tristeza subir, e descer, em agonia, da torre onde o sino pendia silencioso.
E chorou por muitas razões.
Por si mesmo.
Pelo Homem que havia estado aqui um momento antes.
Pelo longo tempo até que a pedra fosse removida e o sepulcro novamente encontrado vazio.
Até que Simão-chamado-Pedro visse mais uma vez o Fantasma na praia marciana, e a si mesmo, Simão Pedro.
E, acima de tudo, chorou porque, ah, porque... nunca em sua vida poderia falar dessa noite a ninguém…
Ray Brabury, "A cidade inteira dorme e outros contos breves"
Os outros, à mesa, murmuraram, assentiram.
“Não existe nenhum menino cristão”, o bispo continuou, “que não tenha se perguntado em uma noite dessas: eu sou Ele? E esta é a Segunda Vinda, afinal de contas, e eu sou Ela? E se, e se, ah, Deus meu, e se eu fosse Jesus? Que grandioso!”
Os sacerdotes, os ministros e o único rabino solitário riram delicadamente, lembrando-se de coisas de suas próprias infâncias, seus próprios sonhos desvairados e de como eram grandes tolos.
“Será”, disse o jovem sacerdote, padre Niven, “que os meninos judeus não se imaginam como Moisés?”
“Não, não, meu caro amigo”, disse o rabino Nittler. “O Messias! O Messias!”
Mais risadas brandas de todos.
“É claro”, disse o padre Niven, o rosto jovial, rosa e creme, “que tolice a minha. Cristo não era o Messias, era? E seu povo continua esperando que Ele chegue. Estranho. Ah, as ambigüidades.”
“E nada mais ambíguo do que isso.” O bispo Kelly se levantou para acompanhar todos até um terraço com vista para as colinas marcianas, as cidades marcianas antigas, as velhas rodovias, os rios de poeira e a Terra, sessenta milhões de milhas distante, brilhando com uma luz clara neste céu alienígena.
“Alguma vez, em nossos sonhos mais loucos”, disse o reverendo Smith, “imaginamos que um dia cada um de nós teria uma Igreja Batista, uma Capela Santa Maria, uma Sinagoga Monte Sinai, aqui, aqui em Marte?”
A resposta foi não, não, suavemente, da parte de todos eles.
A tranquilidade foi interrompida por uma outra voz que se movia entre eles. O padre Niven, enquanto eles estavam na balaustrada, havia sintonizado seu rádio transistor para saber a hora. Notícias eram transmitidas da nova e pequena colônia americano-marciana no deserto lá embaixo. Eles escutaram: “...boatos perto da cidade. Este é o primeiro marciano de que se tem notícia em nossa comunidade este ano. Pede-se aos cidadãos que respeitem qualquer um desses visitantes. Se...”.
O padre Niven desligou o rádio.
“Essa nossa esquiva congregação”, suspirou o reverendo Smith. “Devo confessar: eu vim para Marte não apenas para trabalhar com cristãos, mas esperando convidar um marciano para a ceia de domingo, para conhecer suas teologias, suas necessidades.”
“Ainda somos algo novo demais para eles”, disse o padre Lipscomb. “Em mais um ano, aproximadamente, acho que eles irão entender que não somos caçadores de búfalos em busca de peles. Mesmo assim, é difícil controlar a curiosidade. Afinal, as fotografias de nosso Mariner não indicaram nenhuma vida aqui. Entretanto, há vida, muito misteriosa e meio parecida com vida humana.”
“Meio, Sua Eminência?” O rabino meditava diante de sua xícara de café. “Sinto que são até mais humanos do que nós mesmos. Eles nos deixaram vir.
Esconderam-se nas colinas, só aparecendo entre nós ocasionalmente, disfarçados de terráqueos, é o que achamos...”
“O senhor realmente acredita que eles possuam poderes telepáticos e habilidades hipnóticas que lhes possibilitam andar por nossas cidades, enganando-nos com máscaras e visões, sem que ninguém de nós se aperceba?”
“Acredito sim.”
“Então”, disse o bispo, passando aos outros os conhaques e crémes de menthes, “esta é uma verdadeira noite de frustrações. Marcianos que não querem se revelar para que sejam salvos por Nós, os Iluminados...”
Muitos sorriram a essa afirmação.
“... e por Segundas Vindas de Cristo adiadas por vários milhares de anos. Quanto tempo devemos esperar, ó, Senhor?”
“Quanto a mim”, disse o jovem padre Niven, “eu nunca desejei ser Cristo, a Segunda Vinda. Eu sempre quis apenas, com todo o meu coração, encontrá-Lo. Desde que eu tinha oito anos penso nisso. Pode muito bem ser o principal motivo de me tornar sacerdote.”
“Para ter informações privilegiadas, por via das dúvidas. Será que Ele já voltou alguma vez?”, sugeriu o rabino, delicadamente.
O jovem sacerdote sorriu e assentiu. Os outros sentiram um impulso de estender a mão e tocá-lo, pois ele havia tocado alguma pequena ferida vaga e doce em cada um. Eles se sentiram imensamente abrandados.
“Com sua permissão, rabino, cavalheiros”, disse o bispo Kelly, levantando o copo. “À Primeira Vinda do Messias, ou à Segunda Vinda do Cristo. Tomara que sejam mais do que alguns antigos sonhos tolos.”
Eles beberam e ficaram em silêncio.
O bispo assoou o nariz e enxugou os olhos.
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“… teme-se que este marciano possa se sentir encurralado em nossa comunidade. Qualquer um que o encontre deve-se afastar para deixar o marciano passar. Ele parece ser movido pela curiosidade. Não há motivo para alarme. Isso conclui nosso...”
Enquanto se encaminhavam para a porta, os sacerdotes, os ministros e o rabino discutiam traduções que haviam feito para várias línguas do Antigo e do Novo Testamento. Foi então que o padre Niven os surpreendeu:
“Os senhores sabiam que uma vez me pediram que escrevesse um roteiro dos Evangelhos para o cinema? Precisavam de um final para o filme deles!”
“Será que existe, com certeza”, protestou o bispo, “somente um final para a vida de Cristo?”
“Mas, Sua Santidade, os Quatro Evangelhos contam-na com quatro variações. Eu comparei. Fiquei entusiasmado. Por quê? Porque redescobri algo que quase havia esquecido. A Última Ceia não foi realmente a Última Ceia!”
“Minha nossa, o que é então?”
“Ora, Sua Santidade, a primeira de várias, senhor. A primeira de várias! Depois da Crucificação e do Sepultamento de Cristo, Simão-chamado-Pedro, junto com os discípulos, não pescaram no mar da Galiléia?”
“Pescaram.”
“E suas redes não se encheram com o milagre dos peixes?”
“Encheram-se.”
“E, ao verem na costa da Galiléia, uma luz pálida, eles não atracaram e aproximaram-se do que parecia ser um leito de brasas incandescentes em que se assavam peixes recém-pescados?”
“Sim, ah, sim”, disse o reverendo Smith.
“E lá, para além do brilho do fogo brando do carvão, eles não sentiram uma presença espiritual e a chamaram?”
“Sentiram.”
“Sem obter resposta, Simão-chamado-Pedro não sussurrou novamente: ‘Quem está aí?’. E o Fantasma, não reconhecido, nas praias da Galiléia, estendeu a mão à luz do fogo e, em sua palma, não viram eles a marca do cravo, a chaga que nunca se fecharia?
“Eles quiseram fugir, mas o Fantasma falou e disse: ‘Tomai destes peixes e dai de comer a vossos irmãos’. E Simão-chamado-Pedro tomou dos peixes que assavam por sobre as brasas incandescentes e alimentou os discípulos. E o frágil Fantasma de Cristo então disse: ‘ Tomai de minha palavra e espalhai-a entre as nações de todo o mundo e assim pregai o perdão do pecado’.
“E então Cristo os deixou. E, em meu roteiro, eu O fiz andar ao longo da costa da Galiléia em direção ao horizonte. E quando alguém caminha rumo ao horizonte, parece ascender, não é? Pois toda a terra se eleva à distância. E Ele caminhou ao longo da praia até se tornar apenas um pequeno ponto bem ao longe. E eles não puderam mais vê-Lo.
“E, enquanto o sol nascia sobre o mundo antigo, todas as Suas mil pegadas ao longo da praia se desmancharam ao sopro dos ventos da alvorada sem deixar nenhum sinal.
“E os Discípulos deixaram as cinzas daquele leito de brasas se espalharem em fagulhas, e com o gosto da Real e Final e Verdadeira Última Ceia na boca, eles se foram. E em meu roteiro, faço a câmera subir para observar os Discípulos andando, alguns para o norte, alguns para o sul, alguns para o leste, para dizerem ao mundo o que Precisava Ser Dito sobre Um Homem. E suas pegadas, indo em todas as direções, como os raios de uma imensa roda, apagavam-se na areia, ao vento da manhã. E surgiu um novo dia. Fim.”
O jovem sacerdote estava no centro da roda de amigos, as faces coradas, olhos fechados. De repente, abriu os olhos, como se estivesse se lembrando de onde estava:
“Desculpem”.
“Pelo quê?”, falou o bispo, esfregando as pálpebras com as costas da mão, piscando rapidamente. “Por me fazer chorar duas vezes em uma noite? Como pode estar constrangido na presença de seu próprio amor por Cristo? Ora esta, o senhor me devolveu a Palavra, a mim, que sou conhecedor da Palavra parece que há séculos! O senhor renovou minha alma, ah, meu bom jovem com coração de um menino. Comer os peixes nas praias da Galiléia foi a verdadeira Última Ceia. Bravo. O senhor merece se encontrar com Ele. A Segunda Vinda, por uma questão de justiça, deve ser para o senhor!”
“Eu não sou digno!”, disse o padre Niven.
“Nenhum de nós é! Mas, se fosse possível trocar de almas, eu cederia a minha neste instante e tomaria emprestada a sua, recém-saída da lavanderia. Mais um brinde, cavalheiros? Ao padre Niven! Então, boa noite, é tarde, boa noite.”
O brinde foi bebido e todos partiram; o rabino e os ministros desceram a colina rumo a seus lugares sagrados, deixando os sacerdotes desfrutarem um último momento à porta, olhando Marte, esse estranho mundo. Soprava um vento frio.
***
Folhas tremulavam contra sua janela.
De repente, ele se sentou na cama, meio sobressaltado por um sonho com gritos e perseguição de uma multidão enfurecida. Ficou escutando.
Longe dali, lá embaixo, ele ouviu o cerrar de uma porta externa.
Colocando um robe, o padre Niven desceu as escadas mal iluminadas da casa paroquial e atravessou a igreja, onde dezenas de velas aqui e ali formavam sua própria poça de luz.
Verificou todas as portas, pensando: Tolice, para que trancar igrejas? O que há para ser roubado? Mas, ainda assim, ele rondou a noite adormecida...
.... e encontrou a porta da frente da igreja destrancada, sendo empurrada suavemente pelo vento.
Tremendo, ele fechou a porta.
Corrida de passos leves.
Ele procurou ao redor.
A igreja estava vazia. As chamas das velas se inclinavam para cá e para lá, em seus santuários. Havia apenas o cheiro antigo de cera e incenso queimando, coisas que sobraram de todos os mercados do tempo e da história; outros sóis e outras luas.
Enquanto olhava para o crucifixo acima do altar principal, estacou.
Ouviu o som de uma única gota d’água caindo na noite.
Lentamente, ele se virou para olhar para o batistério no fundo da igreja.
Não havia nenhuma vela ali, no entanto...
Uma luz pálida saía daquele pequeno recanto onde ficava a pia batismal.
“Bispo Kelly?”, ele chamou baixinho.
Subindo lentamente entre as fileiras de bancos, ele começou a sentir muito frio e parou, porque...
Uma outra gota d’água havia pingado, caído, dissolvido.
Era como se houvesse uma torneira gotejando em algum lugar. Mas não havia torneiras. Apenas a pia batismal, dentro da qual, gota a gota, caía um líquido lento, com intervalo de três batidas de coração entre cada som.
Secretamente, o coração do padre Niven dizia algo a si mesmo e disparava, depois diminuía o ritmo e quase parava. Ele começou a suar profusamente.
Viu-se incapaz de se mover, mas mover-se era preciso, um pé depois do outro, até chegar ao arco de entrada do batistério.
Havia de fato uma luz pálida na escuridão do pequeno lugar.
Não, uma luz não. Uma forma, um vulto.
O vulto estava em pé atrás e além da pia batismal. O som dos pingos havia parado.
Língua travada na boca, olhos arregalados em uma espécie de loucura, o padre Niven sentiu-se cego. Então, a visão retornou, e ele ousou gritar:
“Quem!”
Uma única palavra, que ecoou em todos os lados da igreja, que fez as chamas das velas se agitarem em reverberação, que sacudiu o pó de incenso, que apavorou seu coração ao responder rapidamente “Quem!”.
A única luz dentro do batistério vinha das vestes pálidas do vulto ali postado diante dele. E essa luz foi suficiente para que ele visse uma coisa incrível.
Enquanto o padre Niven observava, o vulto se moveu, estendeu a mão pálida sobre o batistério.
A mão pendeu ali como se não quisesse, uma coisa separada do Fantasma ali atrás, como se tivesse sido agarrada e puxada para a frente, resistindo a revelar, diante do olhar apavorado e fascinado do padre Niven, o que estava no centro da palma branca e aberta.
Ali havia um buraco de bordas irregulares, um orifício de onde, lentamente, gota a gota, pingava, caía e escorria sangue para dentro da pia batismal.
As gotas de sangue atingiam a água benta, coloriam-na e se dissolviam em lentas ondas.
A mão permaneceu ali por um momento diante dos olhos ora cegos, ora sãos.
Como se atingido por um golpe terrível, o sacerdote caiu de joelhos desatando em um choro engasgado, meio desespero, meio revelação, uma das mãos sobre os olhos e a outra afastando a visão.
“Não, não, não, não, não, não, não, não pode ser!”
Era como se um dentista medonho tivesse chegado sem anestesia e, com um único puxão, tivesse arrancado do seu corpo a alma dessangrada. Ele se sentiu aprisionado, sua vida arrancada e as raízes, ó, Deus, eram... profundas!
“Não, não, não, não!”
Mas, sim.
Olhou novamente por entre os dedos entrelaçados.
E o Homem estava ali.
E a horrível palma trêmula, ensangüentada, gotejava sobre o batistério.
“Chega!”
A palma recuou, desapareceu. O Fantasma ficou esperando.
E a face do Espírito era boa e familiar. Aqueles olhos estranhos, bonitos, profundos e incisivos eram como ele sabia que sempre deveriam ser. Havia a delicadeza da boca e a palidez emoldurada pelas madeixas esvoaçantes dos cabelos e da barba.
O Homem estava envolto na simplicidade das vestes usadas nas praias e no deserto próximos à Galiléia.
O sacerdote, com um grande esforço de vontade, impediu as próprias lágrimas de caírem, interrompeu a agonia de sua surpresa, dúvida, choque, essas coisas incômodas que se rebelavam dentro dele e ameaçavam irromper. Ele tremia.
E então viu que o Vulto, o Espírito, o Homem, o Fantasma, seja lá o que for, estava tremendo também.
Não, pensou o sacerdote. Não pode ser Ele! Com medo? Com medo... de mim?
E então o Espírito se contorceu em imensa agonia, não diferente da sua, como uma imagem espelhada de seu próprio choque, escancarou a boca, fechou os olhos e rogou:
“Por favor, deixe-me ir”.
Ao ouvir isso, o jovem sacerdote arregalou ainda mais os olhos e ofegou. Ele pensou: Mas você é livre. Ninguém o mantém preso aqui!
E naquele instante:
“Sim!”, gritou a Visão. “Você me mantém! Por favor! Desvie o olhar! Quanto mais você olha, mais eu me torno assim! Não sou o que pareço!”
Mas, pensou o sacerdote, eu não falei nada! Meus lábios não se moveram! Como esse Fantasma sabe o que está em minha mente?
“Eu sei tudo o que você pensa”, disse a Visão, trêmula, pálida, escondendo-se na escuridão do batistério. “Toda frase, toda palavra. Eu não pretendia vir. Eu me aventurei na cidade. De repente, eu era muitas coisas para muitas pessoas. Corri. Elas me seguiram. Fugi para cá. A porta estava aberta. Entrei. E então, e então... Ah, e então fui aprisionado.”
Não, pensou o sacerdote.
“Sim”, choramingou o Fantasma. “Por você.”
Lentamente, então, vergando sob o peso de uma revelação ainda mais terrível, o sacerdote agarrou-se à borda da pia e se colocou de pé, oscilante. Finalmente, ousou perguntar:
“Você não é... o que parece?”
“Não sou”, disse o outro. “Perdoe-me.”
Eu, o sacerdote pensou, vou enlouquecer.
“Não faça isso”, disse o Fantasma, “ou eu serei arrastado à loucura junto com você.”
“Não posso desistir de Vós, ó, meu bom Deus, agora que estais aqui, depois de todos estes anos, todos os meus sonhos, não vedes, estais pedindo demais. Dois mil anos, uma raça inteira de pessoas espera por Vossa volta! E eu sou aquele que Vos encontrei, que Vos vê...”
“Você encontrou apenas o seu próprio sonho. Você vê apenas a sua própria necessidade. Por trás de tudo isso...”, a figura tocou as próprias vestes e o peito, “sou uma outra coisa.”
“O que tenho de fazer?”, o sacerdote explodiu, olhando ora para os céus, ora para o Fantasma, que tremeu com seu grito. “O quê?”
“Desvie o olhar. Nesse momento, eu sairei pela porta e irei embora.”
“Assim... simplesmente assim?”
“Por favor”, disse o Homem.
O sacerdote, tremendo, deu uma série de suspiros.
“Ah, se este momento pudesse durar pelo menos uma hora.”
“Você quer me matar?”
“Não!”
“Se me mantiver, me forçar a ficar nesta forma por mais algum tempo, minha morte será culpa sua.”
O sacerdote mordeu o nó dos dedos e sentiu um acesso de tristeza fustigar seus ossos.
“Você... você é um marciano então?”
“Nem mais. Nem menos.”
“E eu fiz isso a você com meus pensamentos?”
“Você não teve a intenção. Quando desceu as escadas, seu antigo sonho se apossou de mim e me transformou. As palmas de minhas mãos ainda sangram com as feridas que você tirou do íntimo de sua mente.”
O sacerdote balançou a cabeça, estupefato.
“Só mais um pouco... espere...”
Ele olhava fixamente, ávido, para a escuridão onde o Fantasma se escondia da luz. Aquela face era linda. E, ah, aquelas mãos eram adoráveis e além de qualquer descrição.
O sacerdote fez um gesto de assentimento, uma tristeza em si como se tivesse naquela hora voltado do verdadeiro Calvário. E o tempo passou. E as brasas espalhadas se extinguiam na areia próximo à Galiléia.
“Se... Se eu deixá-lo ir...”
“Você precisa, ah, você precisa!”
“Se eu deixá-lo ir, promete...”
“O quê?”
“Promete que irá voltar?”
“Voltar?”, gritou o vulto na escuridão.
“Uma vez por ano, é tudo o que peço, volte uma vez por ano, aqui, a este lugar, a esta pia, à mesma hora da noite...”
“Voltar...?”
“Prometa! Ah, eu preciso viver este momento de novo. Você não sabe como é importante! Prometa ou não o deixarei ir!”
“Eu...”
“Diga. Jure!”
“Eu prometo”, disse o Fantasma, pálido, no escuro. “Eu juro.”
“Obrigado, ah, obrigado.”
“Em que dia do ano a partir de agora eu devo retornar?”
As lágrimas começaram então a escorrer pelo rosto do jovem sacerdote. Ele mal conseguia se lembrar do que queria dizer e, quando disse, mal conseguiu ouvir:
“Na Páscoa, ah, Deus, sim, na Páscoa, daqui a um ano!”
“Por favor, não chore”, disse o vulto. “Eu virei. Na Páscoa, você disse? Conheço o seu calendário. Sim. Agora...” A mão pálida e ferida se mexeu no ar, implorando baixinho. “Posso ir?”
O sacerdote cerrou os dentes para impedir que o choro de angústia irrompesse.
“Abençoe-me e vá.”
“Deste jeito?”, disse a voz.
E a mão estendeu-se para tocá-lo muito delicadamente.
“Rápido!”, gritou o sacerdote, olhos fechados, apertando os punhos com força contra as costelas para evitar que suas mãos o agarrassem. “Vá antes que eu o prenda aqui para sempre. Corra. Corra!”
A mão pálida tocou sua fronte uma última vez. Ouviu-se um leve correr de pés descalços.
Uma porta se abriu em direção às estrelas; a porta bateu.
Houve um momento longo em que o eco da batida da porta atravessou a igreja, chegando a cada altar, entrando em cada alcova e subindo como o vôo cego de algum pássaro solitário, procurando e encontrando a liberdade na abside. A igreja finalmente parou de tremer e o sacerdote colocou as mãos sobre si mesmo, parecendo dizer-se como se comportar, respirar novamente; aquietar-se, acalmar-se, compor-se...
Por fim, correu até a porta e se agarrou a ela, desejando escancará-la, olhar para a estrada que devia estar vazia então, talvez com um vulto de branco, fugindo ao longe. Ele não abriu a porta.
Andou pela igreja, feliz pelas coisas a fazer, terminando o ritual de trancar tudo. Era um longo caminho até todas as portas. Era um longo caminho até a próxima Páscoa.
Parou junto à pia e viu a água limpa sem nenhum traço de vermelho. Mergulhou a mão e refrescou a testa e as têmporas e as bochechas e as pálpebras.
Então, subiu lentamente pela passagem entre os bancos e se deitou diante do altar e deixou-se irromper em lágrimas e chorar de verdade. Ouviu o som de sua tristeza subir, e descer, em agonia, da torre onde o sino pendia silencioso.
E chorou por muitas razões.
Por si mesmo.
Pelo Homem que havia estado aqui um momento antes.
Pelo longo tempo até que a pedra fosse removida e o sepulcro novamente encontrado vazio.
Até que Simão-chamado-Pedro visse mais uma vez o Fantasma na praia marciana, e a si mesmo, Simão Pedro.
E, acima de tudo, chorou porque, ah, porque... nunca em sua vida poderia falar dessa noite a ninguém…
Ray Brabury, "A cidade inteira dorme e outros contos breves"
O jardim onde Jorge Amado permanece
Acabo de voltar de uma viagem rápida à Bahia, lugar que gosto de revisitar pela energia, pelo ritmo e, sobretudo, pelas pessoas. Desta vez, a missão era apresentar a terra de Caetano, Gil, Caymmi e João Ubaldo à minha afilhada, Maria Ady. A Bahia também é terra de Jorge Amado, claro – e o deixei por último porque ele é, no fundo, o verdadeiro motivo desta crônica.
Jorge e Zélia moraram por muitos anos na Casa do Rio Vermelho, hoje transformada em museu. Fomos até lá acompanhadas pela filha do casal, a querida Paloma, que nos presenteou com histórias vividas e guardadas naquele espaço – histórias que parecem brotar das paredes, do chão e do jardim. Um verdadeiro privilégio.
E já que esta coluna se dedica à natureza, é nela que me detenho.
Vencidos os dois lances de escada logo na entrada, somos recebidas por uma jaqueira plantada há quase 60 anos por Jorge Amado. Em uma crônica recente, Paloma conta que foi a primeira árvore do jardim. Era, como ela diz, “indispensável garantir a presença da fruta preferida”. Até hoje, a jaqueira segue generosa. Estava carregada quando estivemos ali, firme, viva, produtiva.
À esquerda, alguns passos adiante, aparece uma pequena mangueira, plantada junto aos bancos de azulejos preferidos de Zélia e Jorge. Foi ali que, a pedido dele – que tinha horror à ideia de ser enterrado –, suas cinzas foram espalhadas. Um gesto final de pertencimento: voltar à terra como presença. Ficamos emocionadas.
O jardim da Casa do Rio Vermelho é uma das grandes estrelas do lugar. Árvores frutíferas, sombras, caminhos, espaços de descanso e interação com os visitantes. Um jardim que acolhe brasileiros e estrangeiros, fãs de dois grandes nomes da literatura mundial.
Vale lembrar: nos livros de Jorge Amado, a natureza nunca é cenário. Ela é personagem: as plantas, o mar, o cacau, o dendê, os orixás, as ervas, os chás. Tudo pulsa, tudo age, tudo participa da vida humana.
Para Jorge Amado, para Zélia e para Paloma, a natureza é cotidiano, é afeto, é ancestralidade – não algo a ser contemplado a distância, mas vivido, cuidado, compartilhado.
Talvez por isso, começar o ano relendo Jorge Amado faça ainda mais sentido. Seus livros nasceram em um tempo anterior à urgência climática, é verdade. Mas falam de uma relação com a terra que hoje nos falta: íntima, respeitosa, quase amorosa. Um tempo em que o mundo ainda parecia um jardim possível, e não um território em ruínas à espera de reparo.
Viva Jorge Amado! Viva Zélia Gattai! Viva Paloma Jorge Amado!
Jorge e Zélia moraram por muitos anos na Casa do Rio Vermelho, hoje transformada em museu. Fomos até lá acompanhadas pela filha do casal, a querida Paloma, que nos presenteou com histórias vividas e guardadas naquele espaço – histórias que parecem brotar das paredes, do chão e do jardim. Um verdadeiro privilégio.
E já que esta coluna se dedica à natureza, é nela que me detenho.
Vencidos os dois lances de escada logo na entrada, somos recebidas por uma jaqueira plantada há quase 60 anos por Jorge Amado. Em uma crônica recente, Paloma conta que foi a primeira árvore do jardim. Era, como ela diz, “indispensável garantir a presença da fruta preferida”. Até hoje, a jaqueira segue generosa. Estava carregada quando estivemos ali, firme, viva, produtiva.
À esquerda, alguns passos adiante, aparece uma pequena mangueira, plantada junto aos bancos de azulejos preferidos de Zélia e Jorge. Foi ali que, a pedido dele – que tinha horror à ideia de ser enterrado –, suas cinzas foram espalhadas. Um gesto final de pertencimento: voltar à terra como presença. Ficamos emocionadas.
O jardim da Casa do Rio Vermelho é uma das grandes estrelas do lugar. Árvores frutíferas, sombras, caminhos, espaços de descanso e interação com os visitantes. Um jardim que acolhe brasileiros e estrangeiros, fãs de dois grandes nomes da literatura mundial.
Vale lembrar: nos livros de Jorge Amado, a natureza nunca é cenário. Ela é personagem: as plantas, o mar, o cacau, o dendê, os orixás, as ervas, os chás. Tudo pulsa, tudo age, tudo participa da vida humana.
Para Jorge Amado, para Zélia e para Paloma, a natureza é cotidiano, é afeto, é ancestralidade – não algo a ser contemplado a distância, mas vivido, cuidado, compartilhado.
Talvez por isso, começar o ano relendo Jorge Amado faça ainda mais sentido. Seus livros nasceram em um tempo anterior à urgência climática, é verdade. Mas falam de uma relação com a terra que hoje nos falta: íntima, respeitosa, quase amorosa. Um tempo em que o mundo ainda parecia um jardim possível, e não um território em ruínas à espera de reparo.
Viva Jorge Amado! Viva Zélia Gattai! Viva Paloma Jorge Amado!
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