Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sexta-feira, junho 5
Mar de Verão
O doce de ginja brilhava vermelhíssimo entre as vespas amarelas e pretas e o vento remexia os ramos dos carvalhos e as manchas do sol corriam sobre o musgo, sobre a erva suave e húmida e sobre a cara dos convidados e das Mulheres e dos Homens que estavam a fumar e a rir todos ao mesmo tempo. E brilhavam também os cálices azuis do Marie Brizard e os talheres de sobremesa. E os pontinhos de luz – os grandes perseguindo os pequenos – corriam sobre a toalha cheia de nódoas roxas de vinho e de migalhas. E à tarde havia tourada, e os homens tinham o rosto e as faces e o nariz brilhantes. E também brilhava o café, tão preto, com cinza de charuto à volta da chávena. E os homens riam-se meio de lado porque tinham um charuto na boca e falavam e riam-se como os velhos sem dentes, a deitar a ponta da língua de fora cheia de saliva, e tudo entre uma nuvem azulada de fumo. E era tão lindo ver como o fumo ia mudando de cor conforme lhe batia o sol. E, como era dia da Assunção de Nossa Senhora, nós, as crianças, tínhamos ido lançar pétalas de rosa à Virgem Maria e ouvir as gaitas, e os foguetes, e os violinos e a voz dos cantores já dentro da Igreja. E tudo cheirava a incenso, e a flores, e a roscas e a churros e à sidra que os homens estavam a servir no Campo da Igreja, e ao fato novo.
Julian Ayesta, "Helena ou o Mar do Verão"
Julian Ayesta, "Helena ou o Mar do Verão"
Se os poetas dessem as mãos
Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.
Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.
Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.
Fernanda de Castro
Chuchu
Joanita, em sua última carta escrita de Haia: "Mas que saudades de chuchu com molho branco".
Eu sei que toda gente despreza o chuchu, a coisa mais bestinha que Deus pôs no mundo, “Cucurbitácea” reles que medra em qualquer beirada de quintal. Não tenho também nenhuma ternura especial pelo chuchu, mas já reparei que há uma certa injustiça em considerar insípido um prato que é insípido só porque raras são as cozinheiras que sabem prepará-lo.
Sei ainda que os médicos nutricionistas banem o chuchu de todas as suas dietas, dizem que o chuchu não vale nada, é uma mistura de água e celulose, desprovida de qualquer vitamina ou sal. O chuchu é meu eterno ponto da discórdia com meu querido amigo Dr. Rui Coutinho. Quando ele desfaz do chuchu em minha presença, salto logo em defesa do humilde caxixe. Argumento assim: "Antigamente, antes da descoberta das vitaminas, se dizia o mesmo da alface. Mas o sabor da planta, a boniteza de sua folha verdinha, ou talvez o instinto secreto da espécie sempre levará o homem a comer a aristocrática Lactucasativa. Um dia se descobriu que a alface é rica em vitamina A, cálcio e ferro. Então a alface deixou de ser água e celulose, e entrou nos menus autorizados e recomendados pelos nutricionistas.
Quem me dirá que um dia, próximo ou distante, não se descobrirá no chuchu um elemento novo, indispensável à economia orgânica? O que me parece inexplicável é que nós brasileiros persistamos em comer sem quase nenhum deleite essa coisinha verde e mole que se derrete na boca sem deixar vontade de repetir a dose.”
-- Rui Coutinho sorri cético.
Enquanto isso, na Holanda, Joanita, podendo comer os pratos mais saborosos do mundo, tem saudade é de chuchu com molho branco. Que desforra para o chuchu!
Eu sei que toda gente despreza o chuchu, a coisa mais bestinha que Deus pôs no mundo, “Cucurbitácea” reles que medra em qualquer beirada de quintal. Não tenho também nenhuma ternura especial pelo chuchu, mas já reparei que há uma certa injustiça em considerar insípido um prato que é insípido só porque raras são as cozinheiras que sabem prepará-lo.
Sei ainda que os médicos nutricionistas banem o chuchu de todas as suas dietas, dizem que o chuchu não vale nada, é uma mistura de água e celulose, desprovida de qualquer vitamina ou sal. O chuchu é meu eterno ponto da discórdia com meu querido amigo Dr. Rui Coutinho. Quando ele desfaz do chuchu em minha presença, salto logo em defesa do humilde caxixe. Argumento assim: "Antigamente, antes da descoberta das vitaminas, se dizia o mesmo da alface. Mas o sabor da planta, a boniteza de sua folha verdinha, ou talvez o instinto secreto da espécie sempre levará o homem a comer a aristocrática Lactucasativa. Um dia se descobriu que a alface é rica em vitamina A, cálcio e ferro. Então a alface deixou de ser água e celulose, e entrou nos menus autorizados e recomendados pelos nutricionistas.
Quem me dirá que um dia, próximo ou distante, não se descobrirá no chuchu um elemento novo, indispensável à economia orgânica? O que me parece inexplicável é que nós brasileiros persistamos em comer sem quase nenhum deleite essa coisinha verde e mole que se derrete na boca sem deixar vontade de repetir a dose.”
-- Rui Coutinho sorri cético.
Enquanto isso, na Holanda, Joanita, podendo comer os pratos mais saborosos do mundo, tem saudade é de chuchu com molho branco. Que desforra para o chuchu!
Manuel Bandeira
O Cristo do Mar
Naquele ano, vários pescadores de Saint-Valéry afogaram-se no mar. Os corpos, atirados à praia pela maré, foram encontrados de mistura com os restos dos seus barcos, e durante nove dias foram vistos, na trilha montanhosa que conduz à igreja, esquifes carregados nos ombros e acompanhados por viúvas em pranto, sob grandes mantos negros, como as mulheres da Bíblia.
Assim, foram o patrão Jean Lenoèl e seu filho Désiré depostos na grande nave, sob a mesma arcada a que haviam pouco antes pendurado, em oferenda à Santa Virgem, um navio com todo o seu massamé.. Tinham sido homens justos e tementes a Deus, e o abade Guillaume Truphème, vigário de Saint-Valéry, tendo-lhes dado a absolvição, disse em voz lacrimosa:
— Jamais foram depostas em solo sagrado, para aí aguardarem o juízo do Senhor, criaturas mais virtuosas e cristãos mais devotos que Jean Lenoèl e seu filho Désiré.
E enquanto os barcos com seus donos pereciam ao longo da costa, grandes navios soçobravam ao largo, e não se passava dia sem que o oceano produzisse algum destroço. Então, certa manhã, meninos que remavam num batel viram uma figura em decúbito à tona do mar. Era um Cristo, em tamanho de homem, esculpido em madeira dura, pintado em cores naturais, e parecia uma obra antiga. O Cristo flutuava nas águas de braços estendidos. Os meninos o guindaram para bordo e o conduziram a Saint-Valéry. A coroa de espinhos cingia-lhe a fronte. Os pés e as mãos estavam traspassados. Mas faltavam os cravos, assim como a cruz. Com os braços ainda abertos para oferecer-se e bendizer, tinha a mesma postura em que o haviam visto José de Arimatéia e as santas mulheres no momento de o amortalhar.
Os meninos o levaram ao vigário Truphème, que lhes disse:
— Esta imagem do Messias é de valor antigo, e quem o executou certamente de há muito não pertence aos vivos. Ainda que os negociantes de Amiens e de Paris vendam hoje por cem francos, e até mais, estátuas primorosas, é necessário reconhecer que os artesãos de outrora tinham também o seu merecimento. Mas o que me alegra é sobretudo o pensamento de que, se o Salvador vem assim, de braços abertos, a Saint-Valéry, é para abençoar a paróquia tão cruelmente provada, e mostrar a sua piedade por essa pobre gente que na pesca arrisca a sua vida. Ele é o Deus que caminhou sobre as águas, e abençoou as redes de Cefas.
E o cura Truphème, tendo mandado depositar o Cristo na igreja, sobre a toalha do altar-mor, tratou de encomendar ao carpinteiro Lemerre uma bela cruz em lenho de carvalho.
Pronta esta, nela pregaram o Cristo com pregos novos, e o colocaram na nave, por sobre o banco dos mordomos.
Foi então que se viu que os seus olhos estavam repletos de misericórdia e pareciam umedecidos por uma celeste compaixão. Um dos tesoureiros, que assistia à instalação do crucifixo, acreditou ver lágrimas correrem pela divina face.
Na manhã seguinte, entrando com o acólito na igreja para dizer a missa, o vigário surpreendeu-se ao ver na parede a cruz vazia, e o Cristo deitado sobre o altar.
Tão logo acabou de celebrar o santo ofício, mandou chamar o carpinteiro e perguntou-lhe por que ele havia tirado o Cristo da cruz. Mas o carpinteiro respondeu que não lhe havia tocado. E, depois de interrogar o sacristão e os fabriqueiros, o abade Truphème assegurou-se de que ninguém entrara na igreja desde o momento em que o Cristo fora dependurado.
Ocorreu-lhe então que aquelas coisas fossem milagrosas, e meditou sobre elas com prudincia. No domingo seguinte referiu-as na prédica aos seus paroquianos, e convidou-os a contribuir com donativos para a elevação de uma nova cruz mais bela que a primeira e mais digna de suster o Redentor do mundo.
Os pobres pescadores de Saint-Valéry deram todo o dinheiro que puderam, e as viúvas entregaram as suas alianças. Com o que o abade Truphème pôde ir imediatamente a Abbeville encomendar uma cruz de madeira negra, muito reluzente, encimada por uma tabuleta com a inscrição INRI em letras douradas.
Dois meses mais tarde plantaram-na no lugar da primeira, e a ela pregaram o Cristo entre a lança e a esponja. Mas Jesus deixou-a como à outra, e foi, depois do anoitecer, estender-se sobre o altar.
Ao encontrá-lo de manhã, o vigário caiu de joelhos e orou por muito, tempo. A notícia do milagre espalhou-se por toda a redondeza, e as damas de Amiens promoveram peditórios para o Cristo de Saint-Valéry. O abade Truphème recebeu de Paris dinheiro e jóias, e a mulher do ministro da Marinha, Srª. Hyde de Neuville, enviou-lhe um coração de diamantes. Com todas essas riquezas, um ourives da Rue de Saint-Sulpice compôs, em dois anos, uma cruz de ouro e pedrarias, que foi inaugurada em meio a grande pompa na igreja de Saint-Valéry, no segundo domingo após a Páscoa do ano de 18… Mas Aquele que não recusara o madeiro doloroso escapou-se daquela cruz tão rica e foi de novo estender-se sobre o linho branco do altar.
Com medo de ofendê-lo, deixaram-no ficar desta vez, e ele ali repousava por mais de dois anos quando Pierre, filho de Pierre Caillou, veio dizer ao senhor cura Truphème que tinha encontrado na areia da praia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.
Pierre era um inocente, e como não tivesse entendimento bastante para ganhar a vida, davam-lhe pão, por caridade; e gostavam dele, porque era incapaz de fazer mal. Mas costumava engrolar coisas sem nexo, a que ninguém dava ouvidos.
Contudo, o abade Truphème, que incessantemente matutava no mistério do Cristo do Mar, deixou-se impressionar pelo que contara o pobre idiota. Com o sacristão e dois fabriqueiros, dirigiu-se ao lugar onde o rapaz afirmava ter visto uma cruz, e ali encontrou duas pranchas guarnecidas de pregos, que as vagas haviam rolado durante muito tempo, e que efetivamente formavam uma cruz.
Eram detritos de um antigo naufrágio. Em uma das pranchas distinguiam-se ainda duas letras pintadas em preto, um J e um L, e não cabia duvidar que fosse um fragmento do barco de Jean Lenoèl que, cinco anos antes, perecera no mar com seu filho Désiré.
Vendo aquilo, o sacristão e os fabriqueiros começaram a rir de um inocente que tomava as tábuas esfaceladas de um barco pela cruz de Jesus Cristo. Mas o vigário Truphème lhes atalhou as zombarias. Ele meditara muito e muito orara desde que o Cristo do Mar fizera a sua aparição em meio aos pescadores, e o mistério da infinita caridade começava a se lhe revelar. Ele ajoelhou-se na areia, recitou a oração pelos fiéis defuntos, depois ordenou ao sacristão e aos fabriqueiros que carregassem aos ombros o destroço e o depositassem na igreja. Feito isto, ergueu o Cristo de sobre o altar, colocou-o sobre as pranchas do barco e pregou-o, com suas próprias mãos, com os pregos corroídos pelo mar.
Por ordem sua, a nova cruz ocupou, a partir do dia seguinte, sobre o banco dos mordomos, o lugar da cruz de ouro e pedrarias. E nunca mais o Cristo do Mar dali se despregou. Aprouve-Lhe permanecer naquele lenho sobre o qual homens morreram a invocar-Lhe o nome e o de sua Mãe. E ali, entreabrindo a boca augusta e dolorosa, Ele parece dizer: “A minha cruz é feita dos sofrimentos dos homens, pois em verdade vos digo que eu sou o Deus dos pobres e dos desvalidos.”
Assim, foram o patrão Jean Lenoèl e seu filho Désiré depostos na grande nave, sob a mesma arcada a que haviam pouco antes pendurado, em oferenda à Santa Virgem, um navio com todo o seu massamé.. Tinham sido homens justos e tementes a Deus, e o abade Guillaume Truphème, vigário de Saint-Valéry, tendo-lhes dado a absolvição, disse em voz lacrimosa:
— Jamais foram depostas em solo sagrado, para aí aguardarem o juízo do Senhor, criaturas mais virtuosas e cristãos mais devotos que Jean Lenoèl e seu filho Désiré.
E enquanto os barcos com seus donos pereciam ao longo da costa, grandes navios soçobravam ao largo, e não se passava dia sem que o oceano produzisse algum destroço. Então, certa manhã, meninos que remavam num batel viram uma figura em decúbito à tona do mar. Era um Cristo, em tamanho de homem, esculpido em madeira dura, pintado em cores naturais, e parecia uma obra antiga. O Cristo flutuava nas águas de braços estendidos. Os meninos o guindaram para bordo e o conduziram a Saint-Valéry. A coroa de espinhos cingia-lhe a fronte. Os pés e as mãos estavam traspassados. Mas faltavam os cravos, assim como a cruz. Com os braços ainda abertos para oferecer-se e bendizer, tinha a mesma postura em que o haviam visto José de Arimatéia e as santas mulheres no momento de o amortalhar.
Os meninos o levaram ao vigário Truphème, que lhes disse:
— Esta imagem do Messias é de valor antigo, e quem o executou certamente de há muito não pertence aos vivos. Ainda que os negociantes de Amiens e de Paris vendam hoje por cem francos, e até mais, estátuas primorosas, é necessário reconhecer que os artesãos de outrora tinham também o seu merecimento. Mas o que me alegra é sobretudo o pensamento de que, se o Salvador vem assim, de braços abertos, a Saint-Valéry, é para abençoar a paróquia tão cruelmente provada, e mostrar a sua piedade por essa pobre gente que na pesca arrisca a sua vida. Ele é o Deus que caminhou sobre as águas, e abençoou as redes de Cefas.
E o cura Truphème, tendo mandado depositar o Cristo na igreja, sobre a toalha do altar-mor, tratou de encomendar ao carpinteiro Lemerre uma bela cruz em lenho de carvalho.
Pronta esta, nela pregaram o Cristo com pregos novos, e o colocaram na nave, por sobre o banco dos mordomos.
Foi então que se viu que os seus olhos estavam repletos de misericórdia e pareciam umedecidos por uma celeste compaixão. Um dos tesoureiros, que assistia à instalação do crucifixo, acreditou ver lágrimas correrem pela divina face.
Na manhã seguinte, entrando com o acólito na igreja para dizer a missa, o vigário surpreendeu-se ao ver na parede a cruz vazia, e o Cristo deitado sobre o altar.
Tão logo acabou de celebrar o santo ofício, mandou chamar o carpinteiro e perguntou-lhe por que ele havia tirado o Cristo da cruz. Mas o carpinteiro respondeu que não lhe havia tocado. E, depois de interrogar o sacristão e os fabriqueiros, o abade Truphème assegurou-se de que ninguém entrara na igreja desde o momento em que o Cristo fora dependurado.
Ocorreu-lhe então que aquelas coisas fossem milagrosas, e meditou sobre elas com prudincia. No domingo seguinte referiu-as na prédica aos seus paroquianos, e convidou-os a contribuir com donativos para a elevação de uma nova cruz mais bela que a primeira e mais digna de suster o Redentor do mundo.
Os pobres pescadores de Saint-Valéry deram todo o dinheiro que puderam, e as viúvas entregaram as suas alianças. Com o que o abade Truphème pôde ir imediatamente a Abbeville encomendar uma cruz de madeira negra, muito reluzente, encimada por uma tabuleta com a inscrição INRI em letras douradas.
Dois meses mais tarde plantaram-na no lugar da primeira, e a ela pregaram o Cristo entre a lança e a esponja. Mas Jesus deixou-a como à outra, e foi, depois do anoitecer, estender-se sobre o altar.
Ao encontrá-lo de manhã, o vigário caiu de joelhos e orou por muito, tempo. A notícia do milagre espalhou-se por toda a redondeza, e as damas de Amiens promoveram peditórios para o Cristo de Saint-Valéry. O abade Truphème recebeu de Paris dinheiro e jóias, e a mulher do ministro da Marinha, Srª. Hyde de Neuville, enviou-lhe um coração de diamantes. Com todas essas riquezas, um ourives da Rue de Saint-Sulpice compôs, em dois anos, uma cruz de ouro e pedrarias, que foi inaugurada em meio a grande pompa na igreja de Saint-Valéry, no segundo domingo após a Páscoa do ano de 18… Mas Aquele que não recusara o madeiro doloroso escapou-se daquela cruz tão rica e foi de novo estender-se sobre o linho branco do altar.
Com medo de ofendê-lo, deixaram-no ficar desta vez, e ele ali repousava por mais de dois anos quando Pierre, filho de Pierre Caillou, veio dizer ao senhor cura Truphème que tinha encontrado na areia da praia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.
Pierre era um inocente, e como não tivesse entendimento bastante para ganhar a vida, davam-lhe pão, por caridade; e gostavam dele, porque era incapaz de fazer mal. Mas costumava engrolar coisas sem nexo, a que ninguém dava ouvidos.
Contudo, o abade Truphème, que incessantemente matutava no mistério do Cristo do Mar, deixou-se impressionar pelo que contara o pobre idiota. Com o sacristão e dois fabriqueiros, dirigiu-se ao lugar onde o rapaz afirmava ter visto uma cruz, e ali encontrou duas pranchas guarnecidas de pregos, que as vagas haviam rolado durante muito tempo, e que efetivamente formavam uma cruz.
Eram detritos de um antigo naufrágio. Em uma das pranchas distinguiam-se ainda duas letras pintadas em preto, um J e um L, e não cabia duvidar que fosse um fragmento do barco de Jean Lenoèl que, cinco anos antes, perecera no mar com seu filho Désiré.
Vendo aquilo, o sacristão e os fabriqueiros começaram a rir de um inocente que tomava as tábuas esfaceladas de um barco pela cruz de Jesus Cristo. Mas o vigário Truphème lhes atalhou as zombarias. Ele meditara muito e muito orara desde que o Cristo do Mar fizera a sua aparição em meio aos pescadores, e o mistério da infinita caridade começava a se lhe revelar. Ele ajoelhou-se na areia, recitou a oração pelos fiéis defuntos, depois ordenou ao sacristão e aos fabriqueiros que carregassem aos ombros o destroço e o depositassem na igreja. Feito isto, ergueu o Cristo de sobre o altar, colocou-o sobre as pranchas do barco e pregou-o, com suas próprias mãos, com os pregos corroídos pelo mar.
Por ordem sua, a nova cruz ocupou, a partir do dia seguinte, sobre o banco dos mordomos, o lugar da cruz de ouro e pedrarias. E nunca mais o Cristo do Mar dali se despregou. Aprouve-Lhe permanecer naquele lenho sobre o qual homens morreram a invocar-Lhe o nome e o de sua Mãe. E ali, entreabrindo a boca augusta e dolorosa, Ele parece dizer: “A minha cruz é feita dos sofrimentos dos homens, pois em verdade vos digo que eu sou o Deus dos pobres e dos desvalidos.”
Anatole France
Itens, nem todos básicos
Depois que se casou com uma viúva pobre e mãe de três filhos, o poeta passou a fazer recitais para um tipo só de público: o pagante.
Cinquenta anos atrás, quando se esmerava para escrever seus sonetos, ele os classificava em duas categorias: os românticos e os realistas. Na época, eles ainda não se dividiam em dolosos e culposos.
Que todo sacrifício imposto pela literatura seja assumido pelos escritores e que eles resistam à tentação de repassá-los aos leitores.
Enquanto o poeta social se identifica apresentando a carteirinha do sindicato, o poeta comum continua dependendo do testemunho dos passarinhos e dos seus colegas de confraria.
É um desses poetas que, numa antologia de quinze, fazem sempre pensar que com catorze ela ficaria bem melhor.
Na ideia de imortalidade do escritor municipal não há uma passagem por Estocolmo. Há uma reunião na câmara de vereadores e uma votação que lhe garantirá uma estátua na praça central. Isso lhe bastaria. Se pudesse pedir algo mais, seria que o pusessem de frente para o pequeno lago.
Ando tão diverso, já, de modos e de feições, que a Morte, se me aceitar, há de ser com restrições.
Estou num momento mau, que péssima fase a minha. Minha alma virou mingau, e meu cérebro, farinha.
Eu nasci triste. Isso fez de mim um menino orgulhoso. Repugnava-me o riso dos adultos, como quase tudo que lhes era próprio. Horrorizava-me pensar que logo eu seria um deles. Quando descobri a literatura, escravizei-me aos personagens atormentados, aos miseráveis, aos ressentidos e aos derrotados. Ela nunca me falhou. Até hoje me dá o pão amargo que me alimenta.
Tem uma convicção: a de que um poeta presunçoso jamais receberá a visita de um haicai.
Quando, cinquenta anos depois, abriu a gaveta onde estavam guardados os sonetos de sua juventude, decepcionou-se. Tinha lido já o terceiro e seus olhos permaneciam obstinadamente secos.
***
Cinquenta anos atrás, quando se esmerava para escrever seus sonetos, ele os classificava em duas categorias: os românticos e os realistas. Na época, eles ainda não se dividiam em dolosos e culposos.
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Que todo sacrifício imposto pela literatura seja assumido pelos escritores e que eles resistam à tentação de repassá-los aos leitores.
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Enquanto o poeta social se identifica apresentando a carteirinha do sindicato, o poeta comum continua dependendo do testemunho dos passarinhos e dos seus colegas de confraria.
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É um desses poetas que, numa antologia de quinze, fazem sempre pensar que com catorze ela ficaria bem melhor.
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Na ideia de imortalidade do escritor municipal não há uma passagem por Estocolmo. Há uma reunião na câmara de vereadores e uma votação que lhe garantirá uma estátua na praça central. Isso lhe bastaria. Se pudesse pedir algo mais, seria que o pusessem de frente para o pequeno lago.
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Ando tão diverso, já, de modos e de feições, que a Morte, se me aceitar, há de ser com restrições.
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Estou num momento mau, que péssima fase a minha. Minha alma virou mingau, e meu cérebro, farinha.
***
Eu nasci triste. Isso fez de mim um menino orgulhoso. Repugnava-me o riso dos adultos, como quase tudo que lhes era próprio. Horrorizava-me pensar que logo eu seria um deles. Quando descobri a literatura, escravizei-me aos personagens atormentados, aos miseráveis, aos ressentidos e aos derrotados. Ela nunca me falhou. Até hoje me dá o pão amargo que me alimenta.
***
Tem uma convicção: a de que um poeta presunçoso jamais receberá a visita de um haicai.
***
Quando, cinquenta anos depois, abriu a gaveta onde estavam guardados os sonetos de sua juventude, decepcionou-se. Tinha lido já o terceiro e seus olhos permaneciam obstinadamente secos.
quinta-feira, junho 4
Letra: Ferida Exposta ao Tempo
É forçoso dizer que me faz falta
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais: rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.
O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.
E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais: rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.
O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.
E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.
Affonso Romano de Sant’Anna
Terra presa
Os longes esfarelavam-se num luaceiro grisalho, como de moinha ao vento; mas, a todo o largo da mirada, a terra descobria-se com os mouchões das leiras a reluzir prateados ao luar e os regos coalhados de tinta negra.
Nas leiras onduladas de morro para morro, o centeal dormia debaixo do codo, a meio as pedras intonsas e impressionantes como cabeças mortas saindo debaixo dum lençol.
As giestas projectavam uma sombra muito escura, o que o levou a notar que a sombra que o seu vulto também projectava era tão retinta e desengonçada como se levasse um fantasma à mão direita.
Não se enxergava vivalma nem de homem, nem de bicho, nem de ser nado que fosse.
Mas, pela lua que caminhava sempre, o sete-estrelo muito rútilo, a rija imobilidade da planície, sentia-se a terra presa a amarras que não quebram nem se rendem.
Aquilino Ribeiro, "Terras do Demo"
Nas leiras onduladas de morro para morro, o centeal dormia debaixo do codo, a meio as pedras intonsas e impressionantes como cabeças mortas saindo debaixo dum lençol.
As giestas projectavam uma sombra muito escura, o que o levou a notar que a sombra que o seu vulto também projectava era tão retinta e desengonçada como se levasse um fantasma à mão direita.
Não se enxergava vivalma nem de homem, nem de bicho, nem de ser nado que fosse.
Mas, pela lua que caminhava sempre, o sete-estrelo muito rútilo, a rija imobilidade da planície, sentia-se a terra presa a amarras que não quebram nem se rendem.
Aquilino Ribeiro, "Terras do Demo"
Um livro todo humano
Fim de lançamento à noite, na livraria, aparece um rapaz vagamente interessado e me pergunta: “esse livro seu é todo humano?”. Um lapso de segundos, eu olhando para ele, e ele completa: “ou você usou inteligência artificial?”. Mais alguns segundos, eu degustando o fantástico da coisa até dar com seu travo: de repente imaginar que livros de literatura amanhã venham com algum tipo de certificado de autenticidade humana, como compotas de geleia sem aditivos nem conservantes, ou que livros meio humanos meio máquinas venham com tarjas de aviso como os alertas de transgênicos em pacotes de milho para pipocas.
Então me ouvi dizendo apenas: “sim, esse é um livro todo humano…”. E como atestar a humanidade dos livros ou detectar por trás deles avatares sem alma? Pela qualidade dos erros? Quanto mais excelente o erro, quanto mais imprevisto o desvio, mais humano? Para o pensador dos nossos tempos Byung-Chul Han, a diferença está em que só o humano conhece Eros. Mais que um lance de dados, um lance de pele, de contato. A inteligência artificial, ele diz, “não é capaz de pensar porque não tem amigo, não tem amante”. A inteligência artificial não tem um coração pensante.
E que coisa mais desoladora imaginar um livro de poesia ou um livro de ficção que não seja todo humano… Que grande farsa um escritor abrir mão dos seus desacertos — seus “erros magníficos”, diria a poeta Maria Lúcia Dal Farra —, que fracasso tremendo um escritor delegar à inteligência artificial o poder e o prazer de criar pela linguagem o que quer que seja. Os livros já não seriam nossos amigos, nem seria verdadeiramente vital nossa relação com eles. E não estaria aí o atestado de falência do nosso contato uns com os outros?
Então me ouvi dizendo apenas: “sim, esse é um livro todo humano…”. E como atestar a humanidade dos livros ou detectar por trás deles avatares sem alma? Pela qualidade dos erros? Quanto mais excelente o erro, quanto mais imprevisto o desvio, mais humano? Para o pensador dos nossos tempos Byung-Chul Han, a diferença está em que só o humano conhece Eros. Mais que um lance de dados, um lance de pele, de contato. A inteligência artificial, ele diz, “não é capaz de pensar porque não tem amigo, não tem amante”. A inteligência artificial não tem um coração pensante.
E que coisa mais desoladora imaginar um livro de poesia ou um livro de ficção que não seja todo humano… Que grande farsa um escritor abrir mão dos seus desacertos — seus “erros magníficos”, diria a poeta Maria Lúcia Dal Farra —, que fracasso tremendo um escritor delegar à inteligência artificial o poder e o prazer de criar pela linguagem o que quer que seja. Os livros já não seriam nossos amigos, nem seria verdadeiramente vital nossa relação com eles. E não estaria aí o atestado de falência do nosso contato uns com os outros?
O Edifício
Chegará o dia em que os teus pardieiros se transformarão em edifícios; naquele dia ficarás fora da lei.
(Miquéias, VII, 11)
Batida a última estaca e concluídos os alicerces, o Conselho Superior da Fundação, a que incumbia a direção geral do empreendimento, dispensou os técnicos e operários, para, em seguida, recrutar nova equipe de profissionais e artífices.
1. A LENDA
Ao engenheiro responsável, recém-contratado, nada falaram das finalidades do prédio. Finalidades, aliás, que pouco interessavam a João Gaspar, orgulhoso como se encontrava de, no início da carreira, dirigir a construção do maior arranha-céu de que se tinha notícia.
Ouviu atentamente as instruções dos conselheiros, cujas barbas brancas, terminadas em ponta, lhes emprestavam aspecto de severa pertinácia.
Davam-lhe ampla liberdade, condicionando-a apenas a duas ou três normas, que deveriam ser corretamente observadas. A sua missão não seria somente exercer funções de natureza técnica. Envolvia toda a complexidade de um organismo singular. Os menores detalhes do funcionamento da empresa construtora estariam a seu cargo, cabendo-lhe proporcionar salários compensadores e constante assistência ao operariado. Competia-lhe, ainda, evitar quaisquer motivos de desarmonia entre os empregados. Essa diretriz, conforme lhe acentuaram, destinava-se a cumprir importante determinação dos falecidos idealizadores do projeto e anular a lenda corrente de que sobreviveria irremovível confusão no meio dos obreiros ao se atingir o octingentésimo andar do edifício e, consequentemente, o malogro definitivo do empreendimento.
No decorrer das minuciosas explicações dos dirigentes da Fundação, o jovem engenheiro conservou-se tranquilo, demonstrando absoluta confiança em si, e nenhum receio quanto ao êxito das obras. Houve, todavia, uma hora em que se perturbou ligeiramente, gaguejando uma frase ambígua. Já terminara a entrevista e ele recolhia os papéis espalhados pela mesa, quando um dos velhos o advertiu:
— Nesta construção não há lugar para os pretensiosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. Você morrerá bem antes disso. Nós que aqui estamos constituímos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.
2. A ADVERTÊNCIA
A mesma orientação que recebera dos seus superiores, o engenheiro a transmitiu aos subordinados imediatos. Nem sequer omitiu a advertência que o encabulara. E vendo que suas palavras tinham impressionado bem mais a seus ouvintes do que a ele as do ancião, sentiu-se plenamente satisfeito.
3. A COMISSÃO
Essa medida valeu maior rendimento de trabalho e evitou, por diversas vezes, dissensões entre os assalariados.
A fim de estimular a camaradagem entre os que lidavam na construção, desenvolviam-se aos domingos alegres programas sociais. Devido a esse e outros fatores, tudo corria tranquilamente, encaminhando-se a obra para as etapas previstas.
De cinquenta em cinquenta andares, João Gaspar, oferecia uma festa aos empregados. Fazia um discurso. Envelhecia.
4. O BAILE
Inquietante expectativa marcou a aproximação do 8002 pavimento. Redobraram-se os cuidados, triplicou-se o número de membros da Comissão de Controle, cuja atividade se tornara incessante, superando dificuldades, aplainando divergências, Deliberadamente, adiou-se o baile que se realizava ao termo de cada cinquenta pisos concluídos.
Afinal, dissiparam-se as preocupações. Haviam chegado sem embaraços ao octingentésimo andar. O acontecimento foi comemorado com uma festa maior que as precedentes.
Pela madrugada, porém, o álcool ingerido em demasia e um incidente de pequena importância provocaram um conflito de incrível violência. Homens e mulheres, indiscriminadamente, se atracaram com ferocidade, transformando o salão num amontoado de destroços. Enquanto cadeiras e garrafas cortavam o ar, o engenheiro, aflito, lutava para acalmar os ânimos. Não conseguiu. Um objeto pesado atingiu-o na cabeça, pondo fim a seus esforços conciliatórios. Quando voltou a si, o corpo ensanguentado e dolorido pelas pancadas e pontapés que recebera após a queda, sentiu-se vítima de terrível cilada. De modo inesperado, cumprira-se a antiga predição.
5. O EQUÍVOCO
Depois do incidente, João Gaspar trancou-se em casa, recusando-se a receber os seus mais íntimos colaboradores, para não ouvir deles palavras de consolo.
Já que se fazia impossível continuar as obras, desejava, ao menos, descobrir o erro em que incorrera. Acreditava ter obedecido fielmente às instruções do Conselho. Se fracassara, a culpa deveria ser atribuída à omissão de algum detalhe desconhecido da profecia.
A insistência dos auxiliares venceu sua teimosia e concordou em atendê-los. Queriam saber por que desanimara, não mais comparecera ao edifício. Ficara ressentido pela briga?
— Que adiantaria a minha presença? Não lhes satisfez a minha humilhação?
— Como? — indagaram. — Aquilo fora uma simples bebedeira. — Estavam todos envergonhados com o que acontecera e lhe pediam desculpas.
— E ninguém abandonou o trabalho?
Ante a resposta negativa, ele se abraçou aos companheiros:
— Daqui para frente nenhum obstáculo interromperá nossos planos! (Os olhos permaneciam umedecidos, mas os lábios ostentavam um sorriso de altivez.)
6. O RELATÓRIO
Em ambiente calmo, todos se empenhando nas suas tarefas, mais noventa e seis andares foram acrescidos ao prédio. As coisas seguiam perfeitas, a média de trabalho dos assalariados era excelente.
Empolgado por um delirante contentamento, o engenheiro distribuía gratificações, desfazia-se em gentilezas com o pessoal, vagava pelas escadas, debruçava-se nas janelas, dava pulos, enrolava nas mãos as barbas embranquecidas.
Para prolongar o sabor do triunfo, que o cansaço começava solapar, ocorreu-lhe redigir um circunstanciado relatório aos diretores da Fundação, contando os pormenores da vitória. Demonstraria também a impossibilidade de surgir, no futuro, outras profecias que pudessem embaraçar o prosseguimento das obras. Ultimado o memorial, ele se dirigiu à sede do Conselho, lugar em que estivera poucas vezes e em época bem remota. Em vez dos cumprimentos que julgava merecer, uma surpresa o aguardava: haviam morrido os últimos conselheiros e, de acordo com as normas estabelecidas após a desmoralização da lenda, não se preencheram as vagas abertas.
Ainda duvidando do que ouvira, o engenheiro indagou ao arquivista — único auxiliar remanescente do enorme corpo de funcionários da entidade — se lhe tinham deixado recomendações especiais para a continuação do prédio.
De nada sabia, nem mesmo por que estava ali, sem patrões e serviços a executar.
Ansiosos por descobrir documentos que os orientassem, atiraram-se à faina de revolver armários e arquivos. Nada conseguiram. Só encontraram especificações técnicas e uma frase que, amiúde, aparecia à margem de livros, relatórios e plantas: "É preciso evitar-se a confusão. Ela virá ao cabo do octingentésimo pavimento".
7. A DÚVIDA
Esvaíra-se a euforia de João Gaspar. Vago e melancólico, retornou ao edifício. Da última laje, as mãos apoiadas na cintura, teve um momento de mesquinha grandeza, julgando-se senhor absoluto do monumento que estava a seus pés. Quem mais poderia ser, desde que o Conselho se extinguira?!
Fugaz foi o seu desmedido orgulho. Ao regressar a casa, onde sempre faltara a diligência de uns dedos femininos, as dúvidas o perseguiam. Por que legavam a um mero profissional tamanho encargo? Quais os objetivos dos que tinham idealizado tão absurdo arranha-céu?
As perguntas iam e vinham, enquanto o edifício se elevava e menores se faziam as probabilidades de se tornar claro o que nascera misterioso.
Sorrateiro, o desânimo substituiu nele o primitivo entusiasmo pela obra. Queixava-se aos amigos do tédio que lhe provocava o infindável movimento de argamassa, pedra britada, fôrmas de madeira, além da angústia que sentia, vendo o monótono subir e descer de elevadores.
Quando a ansiedade ameaçou levá-lo ao colapso, convocou os trabalhadores para uma reunião. Explicou-lhes, com enfática riqueza de detalhes, que a dissolução do Conselho obrigava-o a paralisar a construção do edifício.
— Falta-nos, agora, um plano diretor. Sem este não vejo razões para se construir um prédio interminável — concluiu.
Os operários ouviram tudo com respeitoso silêncio e, em nome deles, respondeu firme e duro um especialista em concretagem:
— Acatamos o senhor como chefe, mas as ordens que recebemos partiram de autoridades superiores e não foram revogadas.
8. O DESESPERO
João Gaspar, inutilmente, apelaria para a compreensão dos servidores. Usava recursos convincentes, numa linguagem branda, porque seus propósitos eram pacíficos. Igualmente corteses, os empregados repeliam a ideia de abandonar o trabalho.
— Ouçam-me — pedia ele, impaciente com a obstinação dos subordinados. — É inexequível um monstro de ilimitados pavimentos! Seria necessário que as fundações fossem reforçadas à medida que se aumentasse o número de andares. Também isto é impraticável.
Apesar de ouvido sempre com atenção, não convencia a ninguém. E teve que assumir uma atitude de intransigência, demitindo todo o pessoal.
Os operários se negaram a aceitar o ato de dispensa. Alegavam a irrevogabilidade das determinações dos falecidos conselheiros. Por fim, disseram que iriam trabalhar à noite e aos domingos, independente de qualquer pagamento adicional.
9. O ENGANO
A decisão dos assalariados de aumentar o número de horas de serviço deu novo alento ao engenheiro, que esperava vê-los vencidos pela estafa, pois lhes seria impossível manter por muito tempo semelhante esforço coletivo.
Logo verificaria seu engano. Além de não apresentarem sinais de cansaço, para ajudá-los vieram das cidades vizinhas centenas de trabalhadores que se dispunham a auxiliar gratuitamente os colegas. Vinham cantando, sobraçando as ferramentas, como se preparados para longa e alegre campanha.
Pouco adiantava recusar-lhes a colaboração, eles mesmos escolhiam as tarefas e as iniciavam com entusiasmo, indiferentes à agressiva repulsa de João Gaspar.
10. OS DISCURSOS
Vendo multiplicar as levas de voluntários, o engenheiro, não teve mais ânimo de enxotá-los. Passou a percorrer, um por um, os andaimes, exortando-os a abandonar o trabalho. Fazia longos discursos e, muitas vezes, caía desfalecido de tanto falar.
A princípio, os empregados se desculpavam, constrangidos por não ouvirem atentamente as suas palavras. Com o passar dos anos, habituaram-se a elas e as consideravam peça importante nas recomendações recebidas pelo engenheiro-chefe antes da dissolução do Conselho.
Não raro, entusiasmados com a beleza das imagens do orador, pediam-lhe que as repetisse. João Gaspar se enfurecia, desmandava-se em violentos insultos. Mas estes vinham vazados em tão bom estilo, que ninguém se irritava. E, risonhos, os obreiros retornavam ao serviço, enquanto o edifício continuava a ganhar altura.
Murilo Rubião, Obra completa
quarta-feira, junho 3
Sou ...
Sou como aqueles poemas.
Li os poemas e senti o espanto de me descobrir.
O poema me diz. Diz o que eu já sabia sem saber.
Bem disse Bernardo Soares que
"Arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles."
Meu rosto aparece refletido no espelho de vidro.
Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu rosto conhecido.
Meu reflexo não me surpreende.
Mas o poema é um espelho onde a minha alma, desconhecida,
aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto assim.
O poema me mostra a beleza da minha alma – que eu não via.
Por isso a poesia é salvação.
Na minha solidão dou-me conta de que existe uma outra pessoa
cuja alma se parece com a minha.
Fico grato porque tal pessoa existe.
Minha solidão se transforma em comunhão.
Li os poemas e senti o espanto de me descobrir.
O poema me diz. Diz o que eu já sabia sem saber.
Bem disse Bernardo Soares que
"Arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles."
Meu rosto aparece refletido no espelho de vidro.
Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu rosto conhecido.
Meu reflexo não me surpreende.
Mas o poema é um espelho onde a minha alma, desconhecida,
aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto assim.
O poema me mostra a beleza da minha alma – que eu não via.
Por isso a poesia é salvação.
Na minha solidão dou-me conta de que existe uma outra pessoa
cuja alma se parece com a minha.
Fico grato porque tal pessoa existe.
Minha solidão se transforma em comunhão.
Rubem Alves
Conversa com o devoto
Houve um tempo em que eu ia à igreja todos os dias, pois uma moça pela qual eu havia me apaixonado rezava por lá de joelhos durante meia hora ao anoitecer, e eu podia aproveitar para contemplá-la em silêncio.
Certa vez, quando a moça não veio e eu olhava, incomodado, para os que rezavam, chamou minha atenção um rapaz magro que havia se jogado ao chão. De tempos em tempos, ele movia o crânio com toda a força de seu corpo e o lançava, suspirando, às palmas de suas mãos, que jaziam sobre as pedras.
Na igreja, havia apenas algumas mulheres idosas, que viravam com frequência suas cabecinhas enroladas em panos e inclinadas para o lado para olhar para aquele que rezava. Essa atenção parecia deixá-lo feliz, pois, antes de cada uma de suas explosões devotas, ele olhava em volta para ver se o número de espectadores era grande. Eu achei isso inconveniente, e decidi lhe dirigir a palavra assim que ele saísse da igreja e lhe perguntar por que ele rezava desse modo. Sim, eu estava incomodado porque minha moça não viera.
Mas ele se levantou apenas depois de uma hora, fez um sinal da cruz deveras cuidadoso e andou aos trancos até a pia da água benta. Eu me coloquei no caminho entre a pia e a porta, e sabia que não o deixaria passar se ele não me desse uma explicação. Contorci minha boca, conforme sempre faço quando me preparo para falar com determinação. Avancei a perna direita e me apoiei sobre ela, enquanto mantinha a esquerda descontraidamente apoiada sobre a ponta do pé; também isso me concede segurança.
É até possível que aquele homem já olhasse de esguelha para mim ao borrifar a água benta em seu rosto; talvez também já tivesse me percebido anteriormente com alguma preocupação, pois então, de modo inesperado, ele saiu correndo pela porta afora. A porta de vidro bateu, se fechando. E, quando saí, logo em seguida, não o vi mais, pois lá fora havia algumas ruelas estreitas e o trânsito estava bem movimentado.
Nos dias seguintes, o rapaz não apareceu, mas minha moça veio. Ela usava o vestido negro que tinha tiras transparentes sobre os ombros – a meia-lua da borda do corpete ficava debaixo delas –, das quais a extremidade inferior acabava em uma gola bem- cortada e bem-delineada. E, uma vez que a moça veio, esqueci o rapaz, e não me preocupei com ele nem mesmo quando voltou a aparecer com regularidade mais tarde e, conforme seu costume, rezava. Mas ele sempre passava por mim a toda pressa, de rosto voltado para o outro lado. Talvez isso se devesse ao fato de eu sempre imaginá-lo apenas em movimento, de modo que ele, mesmo quando estava parado sem se mexer, parecia a mim que se esgueirava.
Certa vez, acabei me atrasando em meu quarto. Mesmo assim, ainda fui à igreja. Não encontrei mais a moça por lá e quis voltar para casa. E então eis que vi de novo o rapaz deitado no lugar de sempre. O que acontecera outrora voltou a me ocorrer, e me deixou curioso.
Deslizei até o corredor de entrada sobre a ponta dos pés, dei uma moeda ao mendigo cego que por lá se sentava e me recostei ao lado dele, atrás da asa da porta aberta; e lá fiquei sentado por uma hora, talvez até mesmo fazendo cara de esperto. Me sentia bem naquele lugar, e decidi ir até ele com mais frequência. Na segunda hora, achei absurdo continuar sentado ali por causa do devoto. E ainda assim permiti, já furioso, que uma terceira hora se passasse, com as aranhas já andando sobre as minhas roupas, enquanto as últimas pessoas, respirando alto, saíam do escuro da igreja.
E foi então que também ele veio. Andava com cautela, e seus pés tateavam o chão de leve antes de pisar com firmeza.
Eu me levantei, dei um passo largo e direto e agarrei o rapaz.
– Boa noite – disse eu e o empurrei, minha mão segurando seu colarinho, pelas escadarias abaixo até a praça iluminada.
Quando chegamos ali embaixo ele disse, com uma voz completamente insegura:
– Boa noite, meu senhor, meu caro senhor, não fique irritado comigo, seu mais dedicado servidor.
– Sim – disse eu –, quero lhe perguntar algumas coisas, meu senhor; na última vez conseguiu fugir de mim, mas isso hoje será bem difícil.
– O senhor é compassivo, e me deixará ir para casa, meu senhor. Sou digno de pena, esta é que é a verdade.
– Não – gritei em meio ao barulho do bonde que passava. – Não vou deixar o senhor ir. São justamente histórias assim que me agradam. O senhor é um peixão e tanto. Dou os parabéns a mim mesmo.
Então ele disse:
– Oh, Deus, o senhor tem um coração vivaz e uma cabeça feita de pedra. Chama a mim de peixão, e como deve ser feliz por causa disso! Pois minha infelicidade é uma infelicidade oscilante, uma infelicidade que oscila sobre uma ponta das mais estreitas e, quando é tocada, cai sobre aquele que pergunta. Boa noite, meu senhor.
– Pois bem – disse eu, e segurei sua mão direita com firmeza –, se o senhor não me responder, começarei a chamar todo mundo aqui na rua. E todas as moças das lojas, que agora estão saindo, após o final do expediente, e inclusive seus amantes, que se alegram com elas, vão se juntar aqui, pois irão acreditar que um cavalo de tílburi caiu ou algo do tipo aconteceu. E então eu vou mostrar o senhor para todas as pessoas.
Nesse instante, ele beijou ambas as minhas mãos, uma após a outra.
– Eu vou dizer ao senhor o que o senhor quer saber, mas, por favor, é melhor irmos para a ruela ali do lado. – Eu assenti, e nós fomos até lá.
Mas ele não se contentou com a escuridão da ruela, na qual havia postes de luz amarelada apenas a grande distância uns dos outros, mas me conduziu até a entrada baixa de uma casa antiga, sob um lampiãozinho pendurado, a pingar, diante de uma escada de madeira.
Lá, ele tirou, com ares de importância, seu lenço do bolso, e disse, estendendo-o sobre um dos degraus:
– É melhor que o senhor se sente, aí poderá perguntar melhor, meu caro senhor. Eu ficarei em pé, assim conseguirei responder melhor. Mas, por favor, não me torture.
Então eu me sentei e disse, levantando os olhos aguçados para ele:
– O senhor é um louco que deu certo, isso é o que o senhor é! Como o senhor se comporta na igreja! Como isso é incômodo e desagradável para os que lá estão! Como alguém pode se mostrar devoto, se precisa ficar olhando para o senhor?
Ele havia pressionado seu corpo contra a parede, apenas a cabeça se movia com liberdade no ar:
– Não se incomode… Por que o senhor deveria se incomodar com coisas que não lhe dizem respeito? Eu me incomodo quando me comporto de modo desastroso; mas se é um outro que se comporta mal, eu apenas me alegro. Não se incomode, portanto, se eu digo que o objetivo da minha vida é ser olhado pelas pessoas.
– O que o senhor está dizendo aí – eu exclamei em voz demasiado alta para o corredor estreito, mas em seguida temi baixar a voz e continuei no mesmo tom. – De fato, o que o senhor está dizendo aí? Sim, já imagino muito bem, exatamente, já o imaginava muito bem desde que o vi pela primeira vez, em que estado o senhor está. Tenho experiência e não quero parecer doloroso quando digo que é como se fosse um enjoo marítimo em terra firme. A essência de sua doença está no fato de o senhor ter esquecido o nome verdadeiro das coisas e agora, em sua imensa pressa, apenas derrama sobre elas nomes casuais. Importa apenas ser rápido, ser rápido! Mas, mal o senhor fugiu dessas coisas, já esqueceu seus nomes de novo. O choupo nos campos, que o senhor chamou de “Torre de Babel”, pois o senhor não sabia ou não queria saber que era um choupo, se embala outra vez, sem nome, e o senhor precisa chamá-lo então de “Noé, quando estava bêbado”.
Fiquei um pouco consternado quando ele disse:
– Fico feliz com o fato de não ter entendido aquilo que o senhor diz. Irritado e sem perder tempo, eu disse:
– Ao se mostrar feliz com isso, o senhor apenas deixa claro que entendeu tudo.
– Na verdade, eu posso tê-lo mostrado, honorável senhor, mas também o senhor falou de modo estranho.
Deitei minhas mãos sobre um degrau mais acima, recostei-me um pouco e, nessa postura quase intocável, que é a última salvação dos lutadores no ringue, perguntei:
– O senhor tem um jeito divertido de se salvar, ao pressupor seu próprio estado no outro.
A isso ele se mostrou encorajado. Juntou as mãos para dar unidade a seu corpo e disse, demostrando uma leve resistência:
– Não, não faço isso contra todos, nem mesmo contra o senhor, por exemplo, porque não o consigo. Mas eu ficaria feliz se o conseguisse, pois nesse caso a atenção das pessoas na igreja não seria mais necessária para mim. O senhor sabe por que tenho necessidade dela?
Essa pergunta me deixou desamparado. É claro que eu não sabia, e acreditava, inclusive, que não queria saber. Eu também não quisera ir até ali, conforme dissera comigo mesmo já antes, mas o homem me obrigara a ouvi-lo. De modo que eu agora precisava apenas sacudir minha cabeça para lhe mostrar que não sabia, mas eu não conseguia botar minha cabeça em movimento.
O homem que se encontrava parado diante de mim sorria. Em seguida, ele se encolheu, caindo de joelhos, e contou, mostrando uma careta sonolenta:
– Jamais houve um tempo no qual eu estivesse convencido de minha vida apenas comigo mesmo. É que eu me ocupo das coisas somente em noções tão precárias que sempre acredito que as coisas em algum momento estiveram vivas, e agora apenas naufragaram. Sempre, meu caro senhor, sinto uma vontade de ver as coisas conforme gostaria de mostrá-las antes de elas se mostrarem para mim. Elas por certo se mostram belas e tranquilas assim. Tem de ser assim, pois com frequência ouço pessoas falarem delas desse modo.
– Uma vez que eu permanecia em silêncio, e apenas nas contrações involuntárias do meu rosto mostrava como me sentia desconfortável, ele disse:
– O senhor não acredita que as pessoas falam assim? Eu achava que deveria assentir, mas não consegui.
– Realmente, o senhor não acredita nisso. Mas ouça só. Quando, ainda criança, abri os olhos certo dia, depois de uma breve sesta, ouvi, ainda completamente tomado pelo sono, minha mãe perguntar da sacada em tom bem natural: “O que está fazendo, minha querida? Está tão quente.” Uma mulher respondeu do jardim: “Estou merendando em meio ao verde.” Elas o diziam sem pensar e de modo não muito nítido, como se todos tivessem de esperar por isso.
Achei que ele aguardava minha resposta, por isso botei a mão no bolso traseiro da minha calça e fiz de conta que procurava alguma coisa por lá. Mas eu não procurava nada, queria apenas mudar meu aspecto para demonstrar que participava da conversa. E nisso eu disse que aquele incidente era tão estranho e que eu de modo algum o compreendia. Ainda acrescentei que não acreditava na verdade dele, e que o incidente devia ter sido inventado com algum objetivo que eu agora não conseguia perceber qual era. Em seguida fechei os olhos, pois eles me doíam.
– Oh, mas é muito bom que o senhor seja da minha opinião, e foi desinteressadamente que o senhor me reteve para dizer isso a mim. Não é verdade, porque eu deveria me envergonhar – ou então, porque nós deveríamos nos envergonhar – com o fato de eu não andar empertigado e pesadamente, não bater a bengala sobre o piso e não tocar as roupas das pessoas que passam fazendo barulho. Por acaso eu não deveria, com muito mais razão, me queixar teimosamente que eu, na condição de sombra de ombros angulosos, salto ao longo das casas, por vezes desaparecendo atrás do vidro das vitrines? Que dias são esses que eu passo! Por que tudo é construído tão mal a ponto de prédios altos desabarem de quando em quando sem que para tanto se pudesse encontrar um motivo externo? Eu subo então pelos montes de entulho e pergunto a todos que encontro: “Como foi que isso pôde acontecer? Em nossa cidade – um prédio novo – hoje já é o quinto, imagine só.” E ninguém sabe o que me responder. Muitas vezes pessoas caem no meio da rua e ficam deitadas, mortas. Então todos os homens de negócios abrem suas portas cobertas de mercadorias, se aproximam, ágeis, arrastam o morto para dentro de casa, em seguida, voltam a sair, um sorriso nos lábios e nos olhos, e falam: “Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra.” Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. “Caro senhor”, digo amistosamente, “um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostrá-lo a mim?
Eu lhe imploro.” E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: “Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez.” “Um morto?”, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. “Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente.” Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: “Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vento volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo.”
Maltratado como eu estava, disse:
– Essa história que o senhor contou anteriormente, da senhora sua mãe e da senhora no jardim, eu nem sequer acho estranha. Não apenas porque já ouvi e vivenciei muitas histórias semelhantes, mas inclusive por ter participado de algumas delas. Isso, aliás, é uma coisa completamente natural. O senhor acha que, se eu estivesse na sacada, não poderia dizer a mesma coisa e poderia responder também a mesma coisa se estivesse no jardim? Uma coisa das mais simples.
Quando terminei de dizer isso, ele pareceu muito feliz. Disse que eu estava bem- vestido, e que minha gravata lhe agradava muito. Que pele delicada que eu teria, aliás… E confissões se tornavam tanto mais claras, segundo ele, quando eram negadas em seguida.
Certa vez, quando a moça não veio e eu olhava, incomodado, para os que rezavam, chamou minha atenção um rapaz magro que havia se jogado ao chão. De tempos em tempos, ele movia o crânio com toda a força de seu corpo e o lançava, suspirando, às palmas de suas mãos, que jaziam sobre as pedras.
Na igreja, havia apenas algumas mulheres idosas, que viravam com frequência suas cabecinhas enroladas em panos e inclinadas para o lado para olhar para aquele que rezava. Essa atenção parecia deixá-lo feliz, pois, antes de cada uma de suas explosões devotas, ele olhava em volta para ver se o número de espectadores era grande. Eu achei isso inconveniente, e decidi lhe dirigir a palavra assim que ele saísse da igreja e lhe perguntar por que ele rezava desse modo. Sim, eu estava incomodado porque minha moça não viera.
Mas ele se levantou apenas depois de uma hora, fez um sinal da cruz deveras cuidadoso e andou aos trancos até a pia da água benta. Eu me coloquei no caminho entre a pia e a porta, e sabia que não o deixaria passar se ele não me desse uma explicação. Contorci minha boca, conforme sempre faço quando me preparo para falar com determinação. Avancei a perna direita e me apoiei sobre ela, enquanto mantinha a esquerda descontraidamente apoiada sobre a ponta do pé; também isso me concede segurança.
É até possível que aquele homem já olhasse de esguelha para mim ao borrifar a água benta em seu rosto; talvez também já tivesse me percebido anteriormente com alguma preocupação, pois então, de modo inesperado, ele saiu correndo pela porta afora. A porta de vidro bateu, se fechando. E, quando saí, logo em seguida, não o vi mais, pois lá fora havia algumas ruelas estreitas e o trânsito estava bem movimentado.
Nos dias seguintes, o rapaz não apareceu, mas minha moça veio. Ela usava o vestido negro que tinha tiras transparentes sobre os ombros – a meia-lua da borda do corpete ficava debaixo delas –, das quais a extremidade inferior acabava em uma gola bem- cortada e bem-delineada. E, uma vez que a moça veio, esqueci o rapaz, e não me preocupei com ele nem mesmo quando voltou a aparecer com regularidade mais tarde e, conforme seu costume, rezava. Mas ele sempre passava por mim a toda pressa, de rosto voltado para o outro lado. Talvez isso se devesse ao fato de eu sempre imaginá-lo apenas em movimento, de modo que ele, mesmo quando estava parado sem se mexer, parecia a mim que se esgueirava.
Certa vez, acabei me atrasando em meu quarto. Mesmo assim, ainda fui à igreja. Não encontrei mais a moça por lá e quis voltar para casa. E então eis que vi de novo o rapaz deitado no lugar de sempre. O que acontecera outrora voltou a me ocorrer, e me deixou curioso.
Deslizei até o corredor de entrada sobre a ponta dos pés, dei uma moeda ao mendigo cego que por lá se sentava e me recostei ao lado dele, atrás da asa da porta aberta; e lá fiquei sentado por uma hora, talvez até mesmo fazendo cara de esperto. Me sentia bem naquele lugar, e decidi ir até ele com mais frequência. Na segunda hora, achei absurdo continuar sentado ali por causa do devoto. E ainda assim permiti, já furioso, que uma terceira hora se passasse, com as aranhas já andando sobre as minhas roupas, enquanto as últimas pessoas, respirando alto, saíam do escuro da igreja.
E foi então que também ele veio. Andava com cautela, e seus pés tateavam o chão de leve antes de pisar com firmeza.
Eu me levantei, dei um passo largo e direto e agarrei o rapaz.
– Boa noite – disse eu e o empurrei, minha mão segurando seu colarinho, pelas escadarias abaixo até a praça iluminada.
Quando chegamos ali embaixo ele disse, com uma voz completamente insegura:
– Boa noite, meu senhor, meu caro senhor, não fique irritado comigo, seu mais dedicado servidor.
– Sim – disse eu –, quero lhe perguntar algumas coisas, meu senhor; na última vez conseguiu fugir de mim, mas isso hoje será bem difícil.
– O senhor é compassivo, e me deixará ir para casa, meu senhor. Sou digno de pena, esta é que é a verdade.
– Não – gritei em meio ao barulho do bonde que passava. – Não vou deixar o senhor ir. São justamente histórias assim que me agradam. O senhor é um peixão e tanto. Dou os parabéns a mim mesmo.
Então ele disse:
– Oh, Deus, o senhor tem um coração vivaz e uma cabeça feita de pedra. Chama a mim de peixão, e como deve ser feliz por causa disso! Pois minha infelicidade é uma infelicidade oscilante, uma infelicidade que oscila sobre uma ponta das mais estreitas e, quando é tocada, cai sobre aquele que pergunta. Boa noite, meu senhor.
– Pois bem – disse eu, e segurei sua mão direita com firmeza –, se o senhor não me responder, começarei a chamar todo mundo aqui na rua. E todas as moças das lojas, que agora estão saindo, após o final do expediente, e inclusive seus amantes, que se alegram com elas, vão se juntar aqui, pois irão acreditar que um cavalo de tílburi caiu ou algo do tipo aconteceu. E então eu vou mostrar o senhor para todas as pessoas.
Nesse instante, ele beijou ambas as minhas mãos, uma após a outra.
– Eu vou dizer ao senhor o que o senhor quer saber, mas, por favor, é melhor irmos para a ruela ali do lado. – Eu assenti, e nós fomos até lá.
Mas ele não se contentou com a escuridão da ruela, na qual havia postes de luz amarelada apenas a grande distância uns dos outros, mas me conduziu até a entrada baixa de uma casa antiga, sob um lampiãozinho pendurado, a pingar, diante de uma escada de madeira.
Lá, ele tirou, com ares de importância, seu lenço do bolso, e disse, estendendo-o sobre um dos degraus:
– É melhor que o senhor se sente, aí poderá perguntar melhor, meu caro senhor. Eu ficarei em pé, assim conseguirei responder melhor. Mas, por favor, não me torture.
Então eu me sentei e disse, levantando os olhos aguçados para ele:
– O senhor é um louco que deu certo, isso é o que o senhor é! Como o senhor se comporta na igreja! Como isso é incômodo e desagradável para os que lá estão! Como alguém pode se mostrar devoto, se precisa ficar olhando para o senhor?
Ele havia pressionado seu corpo contra a parede, apenas a cabeça se movia com liberdade no ar:
– Não se incomode… Por que o senhor deveria se incomodar com coisas que não lhe dizem respeito? Eu me incomodo quando me comporto de modo desastroso; mas se é um outro que se comporta mal, eu apenas me alegro. Não se incomode, portanto, se eu digo que o objetivo da minha vida é ser olhado pelas pessoas.
– O que o senhor está dizendo aí – eu exclamei em voz demasiado alta para o corredor estreito, mas em seguida temi baixar a voz e continuei no mesmo tom. – De fato, o que o senhor está dizendo aí? Sim, já imagino muito bem, exatamente, já o imaginava muito bem desde que o vi pela primeira vez, em que estado o senhor está. Tenho experiência e não quero parecer doloroso quando digo que é como se fosse um enjoo marítimo em terra firme. A essência de sua doença está no fato de o senhor ter esquecido o nome verdadeiro das coisas e agora, em sua imensa pressa, apenas derrama sobre elas nomes casuais. Importa apenas ser rápido, ser rápido! Mas, mal o senhor fugiu dessas coisas, já esqueceu seus nomes de novo. O choupo nos campos, que o senhor chamou de “Torre de Babel”, pois o senhor não sabia ou não queria saber que era um choupo, se embala outra vez, sem nome, e o senhor precisa chamá-lo então de “Noé, quando estava bêbado”.
Fiquei um pouco consternado quando ele disse:
– Fico feliz com o fato de não ter entendido aquilo que o senhor diz. Irritado e sem perder tempo, eu disse:
– Ao se mostrar feliz com isso, o senhor apenas deixa claro que entendeu tudo.
– Na verdade, eu posso tê-lo mostrado, honorável senhor, mas também o senhor falou de modo estranho.
Deitei minhas mãos sobre um degrau mais acima, recostei-me um pouco e, nessa postura quase intocável, que é a última salvação dos lutadores no ringue, perguntei:
– O senhor tem um jeito divertido de se salvar, ao pressupor seu próprio estado no outro.
A isso ele se mostrou encorajado. Juntou as mãos para dar unidade a seu corpo e disse, demostrando uma leve resistência:
– Não, não faço isso contra todos, nem mesmo contra o senhor, por exemplo, porque não o consigo. Mas eu ficaria feliz se o conseguisse, pois nesse caso a atenção das pessoas na igreja não seria mais necessária para mim. O senhor sabe por que tenho necessidade dela?
Essa pergunta me deixou desamparado. É claro que eu não sabia, e acreditava, inclusive, que não queria saber. Eu também não quisera ir até ali, conforme dissera comigo mesmo já antes, mas o homem me obrigara a ouvi-lo. De modo que eu agora precisava apenas sacudir minha cabeça para lhe mostrar que não sabia, mas eu não conseguia botar minha cabeça em movimento.
O homem que se encontrava parado diante de mim sorria. Em seguida, ele se encolheu, caindo de joelhos, e contou, mostrando uma careta sonolenta:
– Jamais houve um tempo no qual eu estivesse convencido de minha vida apenas comigo mesmo. É que eu me ocupo das coisas somente em noções tão precárias que sempre acredito que as coisas em algum momento estiveram vivas, e agora apenas naufragaram. Sempre, meu caro senhor, sinto uma vontade de ver as coisas conforme gostaria de mostrá-las antes de elas se mostrarem para mim. Elas por certo se mostram belas e tranquilas assim. Tem de ser assim, pois com frequência ouço pessoas falarem delas desse modo.
– Uma vez que eu permanecia em silêncio, e apenas nas contrações involuntárias do meu rosto mostrava como me sentia desconfortável, ele disse:
– O senhor não acredita que as pessoas falam assim? Eu achava que deveria assentir, mas não consegui.
– Realmente, o senhor não acredita nisso. Mas ouça só. Quando, ainda criança, abri os olhos certo dia, depois de uma breve sesta, ouvi, ainda completamente tomado pelo sono, minha mãe perguntar da sacada em tom bem natural: “O que está fazendo, minha querida? Está tão quente.” Uma mulher respondeu do jardim: “Estou merendando em meio ao verde.” Elas o diziam sem pensar e de modo não muito nítido, como se todos tivessem de esperar por isso.
Achei que ele aguardava minha resposta, por isso botei a mão no bolso traseiro da minha calça e fiz de conta que procurava alguma coisa por lá. Mas eu não procurava nada, queria apenas mudar meu aspecto para demonstrar que participava da conversa. E nisso eu disse que aquele incidente era tão estranho e que eu de modo algum o compreendia. Ainda acrescentei que não acreditava na verdade dele, e que o incidente devia ter sido inventado com algum objetivo que eu agora não conseguia perceber qual era. Em seguida fechei os olhos, pois eles me doíam.
– Oh, mas é muito bom que o senhor seja da minha opinião, e foi desinteressadamente que o senhor me reteve para dizer isso a mim. Não é verdade, porque eu deveria me envergonhar – ou então, porque nós deveríamos nos envergonhar – com o fato de eu não andar empertigado e pesadamente, não bater a bengala sobre o piso e não tocar as roupas das pessoas que passam fazendo barulho. Por acaso eu não deveria, com muito mais razão, me queixar teimosamente que eu, na condição de sombra de ombros angulosos, salto ao longo das casas, por vezes desaparecendo atrás do vidro das vitrines? Que dias são esses que eu passo! Por que tudo é construído tão mal a ponto de prédios altos desabarem de quando em quando sem que para tanto se pudesse encontrar um motivo externo? Eu subo então pelos montes de entulho e pergunto a todos que encontro: “Como foi que isso pôde acontecer? Em nossa cidade – um prédio novo – hoje já é o quinto, imagine só.” E ninguém sabe o que me responder. Muitas vezes pessoas caem no meio da rua e ficam deitadas, mortas. Então todos os homens de negócios abrem suas portas cobertas de mercadorias, se aproximam, ágeis, arrastam o morto para dentro de casa, em seguida, voltam a sair, um sorriso nos lábios e nos olhos, e falam: “Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra.” Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. “Caro senhor”, digo amistosamente, “um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostrá-lo a mim?
Eu lhe imploro.” E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: “Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez.” “Um morto?”, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. “Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente.” Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: “Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vento volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo.”
Maltratado como eu estava, disse:
– Essa história que o senhor contou anteriormente, da senhora sua mãe e da senhora no jardim, eu nem sequer acho estranha. Não apenas porque já ouvi e vivenciei muitas histórias semelhantes, mas inclusive por ter participado de algumas delas. Isso, aliás, é uma coisa completamente natural. O senhor acha que, se eu estivesse na sacada, não poderia dizer a mesma coisa e poderia responder também a mesma coisa se estivesse no jardim? Uma coisa das mais simples.
Quando terminei de dizer isso, ele pareceu muito feliz. Disse que eu estava bem- vestido, e que minha gravata lhe agradava muito. Que pele delicada que eu teria, aliás… E confissões se tornavam tanto mais claras, segundo ele, quando eram negadas em seguida.
Franz Kafka
Prisão azul
Patas macias sobre folhas mortas. Ao atravessar num salto a janela aberta o tigre sabia muito bem que o lenhador tinha saído. O bebê de dois anos estava sentado no chão, brincando. Sozinho, sozinho. O tigre se aproximou cauteloso e quando a criança viu aquele cachorrão rajado abriu com espanto dois olhos azuis, dois lábios sorridentes, dois bracinhos. O tigre começou pelos braços. Depois devorou o resto da criança e tratou de voltar à floresta.
Suponha, agora, que esse tigre cresceu, deixou de comer criança e relembra um dia como havia devorado o filho do lenhador. Um sorriso estranho paira sobre sua cara, sorriso no qual seu orgulho tigrino só permite que se manifeste um tiquinho de remorso. O resto do sorriso é a pura lembrança da carne tenra da criança, é desprezo pelo lenhador estúpido que deixou a janela aberta — uma completa orgia de satisfação consigo mesmo.
Foi com um sorriso assim (e há sorrisos dificílimos de descrever) que o amigo do homem desaparecido se aproximou da janela do seu apartamento tendo na mão o livro que o desaparecido dedicara a ele: “Para você, meu grande amigo”. O amigo olhou lá fora o mar que ia além da praia de Copacabana e que flambava ao sol do meio-dia como uma poncheira acesa. Era quase um milagre a capacidade que tinha o Rio de dar às pessoas uma sensação de bem-estar, de saúde. O desaparecido também amava o Rio. Curioso como ele tinha desaparecido de forma tão absoluta. Evaporou-se. Soube-se depois da sua morte que ele passara os últimos dez anos de vida nas brenhas de Goiás. Ninguém sabia ao certo de que modo morrera. O manuscrito do livro tinha sido encontrado no meio das coisas dele, o manuscrito em cuja primeira página aparecia a dedicatória a ele, o amigo. O sorriso de tigre regenerado voltou à cara do homem que lembrava o amigo: “Para você, meu grande amigo”.
Antes de sumir, o desaparecido frequentemente ria de si mesmo. Diferenças de grau, só de grau. Diferenças de espécie são um absurdo. Mesmo quando muda, a espécie muda gradualmente, portanto é válido o princípio. Veja-se, como exemplo, a sensação que às vezes tomava conta dele em plena rua e que ele chamava de pedra de contato com a realidade: isso acontecia com todo o mundo. Só que com ele a frequência e a intensidade com que acontecia eram muito maiores. Parecia uma bolha a inchar, inchar e doer. Perguntara a uma porção de pessoas se acontecia com elas de repente, no meio da rua e em hora de movimento, começar subitamente a sentir a estupidez incompreensível de todo aquele ir e vir. Sim, acontecia. Mas ficavam todos surpreendidos e faziam cara de dúvida quando ele lhes perguntava se sentiam aquilo a ponto de parar no meio da multidão; de olhar um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo; de seguir alguém, para descobrir onde estava indo e para resolver o mistério de tanta pressa; de logo depois fazer o mesmo em relação a outra pessoa; de olhar angustiado aqueles arroios humanos que não corriam para nenhum mar comum e sim para lagoas isoladas, piscinas, poças d’água; de segurar com ambas as mãos a cabeça que doía e correr para o meio da rua sem pensar nos carros que passavam rápidos. Não, isso era um exagero e aliás dava para sentir, em todos aqueles que interrogava, que nem acreditavam que ele vivesse momentos assim. Eram pessoas que não acreditavam sequer em diferenças de grau.
— Deve ser sua imaginação, diziam com um sorriso, mas que é interessante não tem dúvida. Aliás, hoje em dia está até na moda uma certa morbidez, acrescentavam, sem saber que estavam usando uma arma muito antiga e possivelmente necessária.
A verdade pura e simples é que ele só fazia essas perguntas com a honesta intenção de obter uma resposta, de descobrir alguma coisa a respeito da pessoa com quem falava, ou, talvez mais ainda, sobre ele mesmo. Já lhe bastava, e muito, o quebra-cabeça representado por todos aqueles desconhecidos que ele tinha ímpetos de parar e interrogar sem mais nem menos no meio da rua.
Uma coisa, porém, o preocupava mais que qualquer outra na véspera do dia em que desapareceu. Aquela sensação que nas ruas apinhadas de gente acabava quase em angústia, pois envolvia estranhos, na sua própria vida íntima, privada, acabava em puro contentamento. Quando lhe aparecia um problema especial a resolver, ele o encarava corajosamente, sem evasões ou truques, pois sabia de antemão qual seria o resultado. Com método, pesando prós e contras, considerando todas as consequências, chegava à própria e nua raiz do problema… e então tudo se evolava, se desfazia no ar, e ele entrava num estado de puro e neutro prazer, um prazer branco, luminoso, para lá do pensamento. Como se fosse entrando com cautela mas com passo firme numa floresta densa na qual, chegado ele ao ponto mais escuro, todas as árvores ainda em volta tombassem ao mesmo tempo, no maior silêncio; e só permanecesse no mundo a luz ofuscante do sol. O que o preocupava na véspera do dia em que desapareceu é que ele tentava, mas ainda não haviam conseguido, concentrar todas as suas faculdades num problema sério.
Por que tão sério? Porque envolvia o amigo. Não por causa de minha mulher, continuou o homem que desapareceu, determinado agora a pensar seu problema até o fim. Para mim minha mulher é feito um sapato velho, cambaio. E meu amigo sabe muito bem disso, o que apenas torna a coisa toda mais incompreensível. Um tolo desejo de aventura? Nunca, jamais. Meu amigo sabe que eu não abandono minha mulher porque ninguém propriamente abandona um par de sapatos velhos. A gente simplesmente os esquece em algum canto. Ele me diria, se fosse o caso, que havia, que há alguma coisa entre os dois — e pronto.
— Usei aquele seu sapato velho outro dia, ele diria. Tudo bem. São inúmeros os caminhos abertos neste mundo mesmo para quem caminhe descalço. Que sentido haveria em criar um caso sobretudo quando eram tão velhos os sapatos? Não, ele está cansado de conhecer meus sentimentos e já teria me falado a respeito. Ou… Caso fosse verdade (o chato é que tanta gente dizia que era que ele se obrigava a pensar tanto sobre tal bagatela), só uma explicação era possível: meu amigo de fato se apaixonou por minha mulher e simplesmente não tem coragem de me dizer. E quem sabe por minha exclusiva culpa? Ela para mim tem tão escasso valor, e isso eu disse ao amigo tantas vezes, que lhe falta coragem para dizer que passou a amar uma pessoa tão depreciada. Sim, talvez fosse isso. E o homem prestes a desaparecer sorriu, meio envergonhado de pensar que estava, ainda que sem intenção, fazendo uso do amigo: seria de todo o cúmulo da amizade se o amigo pensasse em ficar definitiva e legalmente com minha mulher. Aqui se apagou no seu rosto o vago sorriso de até agora. Quem sabe, Deus meu? O amigo sabe como é grande meu amor por Maria Auxiliadora. Será que lhe ocorreu a idéia de se sacrificar por mim? Não, nem eu permitiria nem ele… Eu só quero Maria Auxiliadora como a tenho agora, mesmo porque a gente não se casa com uma mulher assim, a gente simplesmente aceita a luz e o calor, banho de sol no coração do inverno… Ela é quase a Luz! Aquela claridade. A floresta que se deita no chão. Era precisamente quando chegava ao ponto em que a floresta se tragava a si mesma que Johann Sebastian começava a passar a música para o papel, aquela música que se encerrava de repente de forma inesperada, mas que podia ter continuado para sempre, eterna, já que não tinha fim e ele apenas aparentava ou fingia ter chegado ao fim porque chegara isto sim ao fim do papel pautado e porque sabia que ninguém podia suportar sem enlouquecer o luzir permanente daquela Luz em música.
O homem que ia desaparecer perdeu-se nas profundezas do seu problema… Ao voltar a si passou o lenço na testa úmida. A inexistência de todos os problemas. O compromisso que tinha assumido que cuidasse de si mesmo. Ele ia, isto sim, ver Maria Auxiliadora. Tomou o ônibus e no caminho deixou-se invadir pelo salgado travo de onda e de alga que subia das praias de alva areia, a infinita, angustiada fieira de areia que é a única coisa a impedir que as montanhas azuis e o mar azul se dissolvam num único e irreparável azul. O ônibus beirou primeiro a praia de Santa Luzia, depois Flamengo, Botafogo, as vastas areias brancas de Copacabana, Ipanema, Leblon. Quando parou no fim da linha o homem que ia desaparecer saltou e foi andando para a pequena casa em que morava Maria Auxiliadora. Aproximou-se das tábuas brancas do portão, espantadas de vê-lo àquela hora do dia. E lá estava a fascinante casa branca, feito um brinquedo esquecido na grama. Entrou, atravessou o jardim e espiou pela janela da sala de estar. Não viu Maria Auxiliadora, que ainda estaria dormindo. Abriu a porta da frente e ia atravessar a sala, em direção ao quarto de dormir, quando ouviu vozes e riso que vinham de lá. Ia chamar Maria Auxiliadora em voz alta, alegre, mas se conteve e andou até a porta. Ouviu as únicas duas vozes que realmente conhecia bem. Pela única e última vez em sua vida curvou-se até o buraco da fechadura. As venezianas estavam cerradas. Só havia no quarto aquela luz baça e enjoativa na qual se escondem aqueles que preferem não encarar nem o amor. O homem que naquele momento já quase havia desaparecido ouviu a voz do amigo, seguida do riso de Maria Auxiliadora.
— Pois é. Quanto mais ele acha que há alguma coisa entre a mulher dele e eu, menos consegue adivinhar que…
O homem que desapareceu saiu da sala de estar pé ante pé, fechou sem ruído a porta, passou em silêncio pelo portão de tábuas brancas e se foi. Como um ladrão. E qualquer policial que o pegasse naquele momento teria a certeza, sem lhe fazer qualquer pergunta, que o ladrão tinha encontrado jóias, jóias do mais alto preço, que ninguém imaginaria pudessem estar guardadas numa casa tão pequena e simples.
Suponha, agora, que esse tigre cresceu, deixou de comer criança e relembra um dia como havia devorado o filho do lenhador. Um sorriso estranho paira sobre sua cara, sorriso no qual seu orgulho tigrino só permite que se manifeste um tiquinho de remorso. O resto do sorriso é a pura lembrança da carne tenra da criança, é desprezo pelo lenhador estúpido que deixou a janela aberta — uma completa orgia de satisfação consigo mesmo.
Foi com um sorriso assim (e há sorrisos dificílimos de descrever) que o amigo do homem desaparecido se aproximou da janela do seu apartamento tendo na mão o livro que o desaparecido dedicara a ele: “Para você, meu grande amigo”. O amigo olhou lá fora o mar que ia além da praia de Copacabana e que flambava ao sol do meio-dia como uma poncheira acesa. Era quase um milagre a capacidade que tinha o Rio de dar às pessoas uma sensação de bem-estar, de saúde. O desaparecido também amava o Rio. Curioso como ele tinha desaparecido de forma tão absoluta. Evaporou-se. Soube-se depois da sua morte que ele passara os últimos dez anos de vida nas brenhas de Goiás. Ninguém sabia ao certo de que modo morrera. O manuscrito do livro tinha sido encontrado no meio das coisas dele, o manuscrito em cuja primeira página aparecia a dedicatória a ele, o amigo. O sorriso de tigre regenerado voltou à cara do homem que lembrava o amigo: “Para você, meu grande amigo”.
Antes de sumir, o desaparecido frequentemente ria de si mesmo. Diferenças de grau, só de grau. Diferenças de espécie são um absurdo. Mesmo quando muda, a espécie muda gradualmente, portanto é válido o princípio. Veja-se, como exemplo, a sensação que às vezes tomava conta dele em plena rua e que ele chamava de pedra de contato com a realidade: isso acontecia com todo o mundo. Só que com ele a frequência e a intensidade com que acontecia eram muito maiores. Parecia uma bolha a inchar, inchar e doer. Perguntara a uma porção de pessoas se acontecia com elas de repente, no meio da rua e em hora de movimento, começar subitamente a sentir a estupidez incompreensível de todo aquele ir e vir. Sim, acontecia. Mas ficavam todos surpreendidos e faziam cara de dúvida quando ele lhes perguntava se sentiam aquilo a ponto de parar no meio da multidão; de olhar um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo; de seguir alguém, para descobrir onde estava indo e para resolver o mistério de tanta pressa; de logo depois fazer o mesmo em relação a outra pessoa; de olhar angustiado aqueles arroios humanos que não corriam para nenhum mar comum e sim para lagoas isoladas, piscinas, poças d’água; de segurar com ambas as mãos a cabeça que doía e correr para o meio da rua sem pensar nos carros que passavam rápidos. Não, isso era um exagero e aliás dava para sentir, em todos aqueles que interrogava, que nem acreditavam que ele vivesse momentos assim. Eram pessoas que não acreditavam sequer em diferenças de grau.
— Deve ser sua imaginação, diziam com um sorriso, mas que é interessante não tem dúvida. Aliás, hoje em dia está até na moda uma certa morbidez, acrescentavam, sem saber que estavam usando uma arma muito antiga e possivelmente necessária.
A verdade pura e simples é que ele só fazia essas perguntas com a honesta intenção de obter uma resposta, de descobrir alguma coisa a respeito da pessoa com quem falava, ou, talvez mais ainda, sobre ele mesmo. Já lhe bastava, e muito, o quebra-cabeça representado por todos aqueles desconhecidos que ele tinha ímpetos de parar e interrogar sem mais nem menos no meio da rua.
Uma coisa, porém, o preocupava mais que qualquer outra na véspera do dia em que desapareceu. Aquela sensação que nas ruas apinhadas de gente acabava quase em angústia, pois envolvia estranhos, na sua própria vida íntima, privada, acabava em puro contentamento. Quando lhe aparecia um problema especial a resolver, ele o encarava corajosamente, sem evasões ou truques, pois sabia de antemão qual seria o resultado. Com método, pesando prós e contras, considerando todas as consequências, chegava à própria e nua raiz do problema… e então tudo se evolava, se desfazia no ar, e ele entrava num estado de puro e neutro prazer, um prazer branco, luminoso, para lá do pensamento. Como se fosse entrando com cautela mas com passo firme numa floresta densa na qual, chegado ele ao ponto mais escuro, todas as árvores ainda em volta tombassem ao mesmo tempo, no maior silêncio; e só permanecesse no mundo a luz ofuscante do sol. O que o preocupava na véspera do dia em que desapareceu é que ele tentava, mas ainda não haviam conseguido, concentrar todas as suas faculdades num problema sério.
Por que tão sério? Porque envolvia o amigo. Não por causa de minha mulher, continuou o homem que desapareceu, determinado agora a pensar seu problema até o fim. Para mim minha mulher é feito um sapato velho, cambaio. E meu amigo sabe muito bem disso, o que apenas torna a coisa toda mais incompreensível. Um tolo desejo de aventura? Nunca, jamais. Meu amigo sabe que eu não abandono minha mulher porque ninguém propriamente abandona um par de sapatos velhos. A gente simplesmente os esquece em algum canto. Ele me diria, se fosse o caso, que havia, que há alguma coisa entre os dois — e pronto.
— Usei aquele seu sapato velho outro dia, ele diria. Tudo bem. São inúmeros os caminhos abertos neste mundo mesmo para quem caminhe descalço. Que sentido haveria em criar um caso sobretudo quando eram tão velhos os sapatos? Não, ele está cansado de conhecer meus sentimentos e já teria me falado a respeito. Ou… Caso fosse verdade (o chato é que tanta gente dizia que era que ele se obrigava a pensar tanto sobre tal bagatela), só uma explicação era possível: meu amigo de fato se apaixonou por minha mulher e simplesmente não tem coragem de me dizer. E quem sabe por minha exclusiva culpa? Ela para mim tem tão escasso valor, e isso eu disse ao amigo tantas vezes, que lhe falta coragem para dizer que passou a amar uma pessoa tão depreciada. Sim, talvez fosse isso. E o homem prestes a desaparecer sorriu, meio envergonhado de pensar que estava, ainda que sem intenção, fazendo uso do amigo: seria de todo o cúmulo da amizade se o amigo pensasse em ficar definitiva e legalmente com minha mulher. Aqui se apagou no seu rosto o vago sorriso de até agora. Quem sabe, Deus meu? O amigo sabe como é grande meu amor por Maria Auxiliadora. Será que lhe ocorreu a idéia de se sacrificar por mim? Não, nem eu permitiria nem ele… Eu só quero Maria Auxiliadora como a tenho agora, mesmo porque a gente não se casa com uma mulher assim, a gente simplesmente aceita a luz e o calor, banho de sol no coração do inverno… Ela é quase a Luz! Aquela claridade. A floresta que se deita no chão. Era precisamente quando chegava ao ponto em que a floresta se tragava a si mesma que Johann Sebastian começava a passar a música para o papel, aquela música que se encerrava de repente de forma inesperada, mas que podia ter continuado para sempre, eterna, já que não tinha fim e ele apenas aparentava ou fingia ter chegado ao fim porque chegara isto sim ao fim do papel pautado e porque sabia que ninguém podia suportar sem enlouquecer o luzir permanente daquela Luz em música.
O homem que ia desaparecer perdeu-se nas profundezas do seu problema… Ao voltar a si passou o lenço na testa úmida. A inexistência de todos os problemas. O compromisso que tinha assumido que cuidasse de si mesmo. Ele ia, isto sim, ver Maria Auxiliadora. Tomou o ônibus e no caminho deixou-se invadir pelo salgado travo de onda e de alga que subia das praias de alva areia, a infinita, angustiada fieira de areia que é a única coisa a impedir que as montanhas azuis e o mar azul se dissolvam num único e irreparável azul. O ônibus beirou primeiro a praia de Santa Luzia, depois Flamengo, Botafogo, as vastas areias brancas de Copacabana, Ipanema, Leblon. Quando parou no fim da linha o homem que ia desaparecer saltou e foi andando para a pequena casa em que morava Maria Auxiliadora. Aproximou-se das tábuas brancas do portão, espantadas de vê-lo àquela hora do dia. E lá estava a fascinante casa branca, feito um brinquedo esquecido na grama. Entrou, atravessou o jardim e espiou pela janela da sala de estar. Não viu Maria Auxiliadora, que ainda estaria dormindo. Abriu a porta da frente e ia atravessar a sala, em direção ao quarto de dormir, quando ouviu vozes e riso que vinham de lá. Ia chamar Maria Auxiliadora em voz alta, alegre, mas se conteve e andou até a porta. Ouviu as únicas duas vozes que realmente conhecia bem. Pela única e última vez em sua vida curvou-se até o buraco da fechadura. As venezianas estavam cerradas. Só havia no quarto aquela luz baça e enjoativa na qual se escondem aqueles que preferem não encarar nem o amor. O homem que naquele momento já quase havia desaparecido ouviu a voz do amigo, seguida do riso de Maria Auxiliadora.
— Pois é. Quanto mais ele acha que há alguma coisa entre a mulher dele e eu, menos consegue adivinhar que…
O homem que desapareceu saiu da sala de estar pé ante pé, fechou sem ruído a porta, passou em silêncio pelo portão de tábuas brancas e se foi. Como um ladrão. E qualquer policial que o pegasse naquele momento teria a certeza, sem lhe fazer qualquer pergunta, que o ladrão tinha encontrado jóias, jóias do mais alto preço, que ninguém imaginaria pudessem estar guardadas numa casa tão pequena e simples.
Antonio Callado
Um cão, apenas
Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim — plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito —, eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. E um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pelo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas. Com um grande esforço, acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem...
Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento... Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.
Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens.
Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.
Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.
Cecília Meireles. "Ilusões do mundo"
Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento... Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.
Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens.
Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.
Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.
Cecília Meireles. "Ilusões do mundo"
terça-feira, junho 2
Minha aldeia
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.
Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.
Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.
Antonio Gedeão
Do mínimo e do escondido
11 de novembro
Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto. Daí vem que, enquanto o telégrafo nos dava notícia tão graves como a taxa francesa sobre a falta de filhos e o suicídio do chefe de polícia paraguaio, coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam.
Não nego que o imposto sobre a falta de filhos e o celibato podia dar de si uma página luminosa, sem aliás tocar na estatística. Só a parte cívica. Só a parte moral. Dava para elogio e para descompostura. A grandeza da pátria, da indústria e dos exércitos faria o elogio. O regímen de opressão inspirava a descompostura, visto que obriga casar para não pagar a taxa; casado, obriga a fazer filhos, para não pagar a taxa; feitos os filhos, obriga a criá-los e educá-los, com o que afinal se paga uma grande taxa. Tudo taxas. Quanto ao suicídio do chefe de polícia, são palavras tão contrárias umas as outras que não há crer nelas. Um chefe de polícia exerce funções essencialmente vitais e alheias à melancolia e ao desespero. Antes de se demitir da vida, era natural demitir-se do cargo, e o segundo decreto bastaria acaso para evitar o primeiro.
Deixei taxas e mortes e fui à casa de um leiloeiro, que ia vender objetos empenhados e não resgatados. Permitam-me um trocadilho. Fui ver o martelo bater no prego. Não é lá muito engraçado, mas é natural, exato e evangélico. Está autorizado por Jesus Cristo: Tu es Petrus, etc. Mal comparando, o meu ainda é melhor. O da Escritura está um pouco forçado, ao passo que o meu, ― o martelo batendo no prego, ― é tão natural que nem se concebe dizer de outro modo. Portanto, edificarei a crônica sobre aquele prego, no som daquele martelo.
Havia lá broches, relógios, pulseiras, anéis, botões, o repertório do costume. Havia também um livro de missa, elegante e escrupulosamente dito para missa, a fim de evitar confusão de sentido. Valha-me Deus! até nos leilões persegue-nos a gramática. Era de tartaruga, guarnecido de prata. Quer dizer que, além do valor espiritual, tinha aquele que propriamente o levou ao prego. Foi uma mulher que recorreu a esse modo de obter dinheiro. Abriu mão da salvação da alma, para salvar o corpo, a menos que não tivesse decorado as orações antes de vender o manual delas. Pobre desconhecida! Mas também (e é aqui que eu vejo o dedo de Deus), mas também quem é que lhe mandou comprar um livro de tartaruga com ornamentações de prata? Deus não pede tanto; bastava uma encadernação simples e forte, que durasse, e feia para não tentar a ninguém. Deus veria a beleza dela.
Mas vamos ao que me põe a pena na mão; deixemos o livro e os artigos do costume. Os leilões desta espécie são de uma monotonia desesperadora. Não saem de cinco ou seis artigos. Raro virá um binóculo. Neste apareceu um, e um despertador também, que servia a acordar o dono para o trabalho. Houve mais uns cinco ou seis chapéus-de-sol, sem indicação do cabo… Deus meu! Quanto teriam recebido os donos por eles, além de algum magro tostão? Ríamos da miséria. É um derivativo e uma compensação. Eu, se fosse ela, preferia fazer rir a fazer chorar.
O lote inesperado, o lote escondido, um dos últimos do catálogo, perto dos chapéus-de-sol, que vieram no fim, foi uma espada. Uma espada, senhores, sem outra indicação; não fala dos copos, nem se eram de ouro. É que era uma espada pobre. Não obstante, quem diabo a teria ido pendurar do prego? Que se pendurem chapéus-de-sol, um despertador, um binóculo, um livro de missa ou para missa, vá. O sol mata os micróbios, a gente acorda sem máquina, não é urgente chamar a vista as pessoas dos outros camarotes, e afinal o coração também é livro de missa. Mas uma espada!
Há dois tempos na vida de uma espada, o presente e o passado. Em nenhum deles se compreende que ela fosse parar ao prego. Como iria lá ter uma espada que pode ser a cada instante intimada a comparecer ao serviço? Não é mister que haja guerra; uma parada, uma revista, um passeio, um exercício, uma comissão, a simples apresentação ao ministro da guerra basta para que a espada se ponha a cinta e se desnude, se for caso disso. Eventualmente, pode ser útil em defender a vida ao dono. Também pode servir para que este se mate, como Bruto.
Quanto ao passado, posto que em tal hipótese a espada não tenha já préstimos, é certo que tem valor histórico. Pode ter sido empregada na destruição do despotismo Rosas ou López, ou na repressão da revolta, ou na guerra de Canudos, ou talvez na fundação da República, em que não houve sangue, é verdade, mas a sua presença terá bastado para evitar conflitos.
As crônicas antigas contam de barões e cavaleiros já velhos, alguns cegos, que mandavam vir a espada para mirá-la, ou só apalpá-la, quando queriam recordar as ações de glória, e guardá-la outra vez. Não ignoro que tais heróis tinham castelo e cozinha, e o triste reformado que levou esta outra espada ao prego pode não ter cozinha nem teto. Perfeitamente. Mas ainda assim é impossível que a alma dele não padecesse ao separar-se da espada.
Antes de a empenhar, devia ir ter a alguém que lhe desse um prato de sopa. “Cidadão, estou sem comer há dois dias e tenho de pagar a conta da botica, que não quisera desfazer-me desta espada, que batalhou pela glória e pela liberdade…” É impossível que acabasse o discurso. O boticário perdoaria a conta, e duas ou três mãos se lhe meteriam pelas algibeiras dentro, com fins honestos. E o triste reformado iria alegremente pendurar a espada de outro prego, o prego da memória e da saudade.
©Gustavo Aimar
Catei, catei, catei, sem dar por explicação que bastasse. Mas eu já disse que é faculdade minha entrar por explicações miúdas. Vi casualmente uma estatística de São Paulo, os imigrantes do ano passado, e achei milhares de pessoas desembarcadas em Santos ou idas daqui pela Estrada de Ferro Central. A gente italiana era a mais numerosa. Vinha depois a espanhola, a inglesa, a francesa, a portuguesa, a alemã, a própria turca, uns quarenta e cinco turcos. Enfim, um grego. Bateu-me o coração, e eu disse comigo; o grego é que levou a espada ao prego.
E aqui vão as razões da suspeita ou descoberta. Antes de mais nada, sendo o grego não era nenhum brasileiro, ― ou nacional, como dizem as notícias da polícia. Já me ficava essa dor de menos. Depois, o grego era um, e eu corria menor risco do que supondo algum das outras colônias, que podiam vir acima de mim, em desforço do patrício. Em terceiro lugar, o grego é o mais pobre dos imigrantes. Lá mesmo na terra é paupérrimo. Em quarto lugar, talvez fosse também poeta, e podia ficar-lhe assim uma canção pronta, com estribilho:
Eu cá sou grego,
Levei a minha espada ao prego.
Finalmente, não lhe custaria empenhar a espada, que talvez fosse turca. About refere de um general, Hadji-Petros, governador de Lâmia, que se deixou levar dos encantos de uma moça fácil de Atenas, e foi demitido do cargo. Logo requereu à rainha pedindo a reintegração: “Digo a Vossa Majestade pela minha honra de soldado que, se eu sou amante dessa mulher, não é por paixão, é por interesse; ela é rica, eu sou pobre, e tenho filhos, tenho uma posição na sociedade, etc.” Vê-se que empenhar a espada é costume grego e velho.
Agora que vou acabar a crônica, ocorre-me se a espada do leilão não será acaso alguma espada de teatro, empenhada pelo contra-regra, a quem a empresa não tivesse pago os ordenados. O pobre-diabo recorreu a esse meio para almoçar um dia. Se tal foi, façam de conta que não escrevi nada, e vão almoçar também, que é tempo.
Machado de Assis, "Todas as crônicas – vol. 3"
Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto. Daí vem que, enquanto o telégrafo nos dava notícia tão graves como a taxa francesa sobre a falta de filhos e o suicídio do chefe de polícia paraguaio, coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam.
Não nego que o imposto sobre a falta de filhos e o celibato podia dar de si uma página luminosa, sem aliás tocar na estatística. Só a parte cívica. Só a parte moral. Dava para elogio e para descompostura. A grandeza da pátria, da indústria e dos exércitos faria o elogio. O regímen de opressão inspirava a descompostura, visto que obriga casar para não pagar a taxa; casado, obriga a fazer filhos, para não pagar a taxa; feitos os filhos, obriga a criá-los e educá-los, com o que afinal se paga uma grande taxa. Tudo taxas. Quanto ao suicídio do chefe de polícia, são palavras tão contrárias umas as outras que não há crer nelas. Um chefe de polícia exerce funções essencialmente vitais e alheias à melancolia e ao desespero. Antes de se demitir da vida, era natural demitir-se do cargo, e o segundo decreto bastaria acaso para evitar o primeiro.
Deixei taxas e mortes e fui à casa de um leiloeiro, que ia vender objetos empenhados e não resgatados. Permitam-me um trocadilho. Fui ver o martelo bater no prego. Não é lá muito engraçado, mas é natural, exato e evangélico. Está autorizado por Jesus Cristo: Tu es Petrus, etc. Mal comparando, o meu ainda é melhor. O da Escritura está um pouco forçado, ao passo que o meu, ― o martelo batendo no prego, ― é tão natural que nem se concebe dizer de outro modo. Portanto, edificarei a crônica sobre aquele prego, no som daquele martelo.
Havia lá broches, relógios, pulseiras, anéis, botões, o repertório do costume. Havia também um livro de missa, elegante e escrupulosamente dito para missa, a fim de evitar confusão de sentido. Valha-me Deus! até nos leilões persegue-nos a gramática. Era de tartaruga, guarnecido de prata. Quer dizer que, além do valor espiritual, tinha aquele que propriamente o levou ao prego. Foi uma mulher que recorreu a esse modo de obter dinheiro. Abriu mão da salvação da alma, para salvar o corpo, a menos que não tivesse decorado as orações antes de vender o manual delas. Pobre desconhecida! Mas também (e é aqui que eu vejo o dedo de Deus), mas também quem é que lhe mandou comprar um livro de tartaruga com ornamentações de prata? Deus não pede tanto; bastava uma encadernação simples e forte, que durasse, e feia para não tentar a ninguém. Deus veria a beleza dela.
Mas vamos ao que me põe a pena na mão; deixemos o livro e os artigos do costume. Os leilões desta espécie são de uma monotonia desesperadora. Não saem de cinco ou seis artigos. Raro virá um binóculo. Neste apareceu um, e um despertador também, que servia a acordar o dono para o trabalho. Houve mais uns cinco ou seis chapéus-de-sol, sem indicação do cabo… Deus meu! Quanto teriam recebido os donos por eles, além de algum magro tostão? Ríamos da miséria. É um derivativo e uma compensação. Eu, se fosse ela, preferia fazer rir a fazer chorar.
O lote inesperado, o lote escondido, um dos últimos do catálogo, perto dos chapéus-de-sol, que vieram no fim, foi uma espada. Uma espada, senhores, sem outra indicação; não fala dos copos, nem se eram de ouro. É que era uma espada pobre. Não obstante, quem diabo a teria ido pendurar do prego? Que se pendurem chapéus-de-sol, um despertador, um binóculo, um livro de missa ou para missa, vá. O sol mata os micróbios, a gente acorda sem máquina, não é urgente chamar a vista as pessoas dos outros camarotes, e afinal o coração também é livro de missa. Mas uma espada!
Há dois tempos na vida de uma espada, o presente e o passado. Em nenhum deles se compreende que ela fosse parar ao prego. Como iria lá ter uma espada que pode ser a cada instante intimada a comparecer ao serviço? Não é mister que haja guerra; uma parada, uma revista, um passeio, um exercício, uma comissão, a simples apresentação ao ministro da guerra basta para que a espada se ponha a cinta e se desnude, se for caso disso. Eventualmente, pode ser útil em defender a vida ao dono. Também pode servir para que este se mate, como Bruto.
Quanto ao passado, posto que em tal hipótese a espada não tenha já préstimos, é certo que tem valor histórico. Pode ter sido empregada na destruição do despotismo Rosas ou López, ou na repressão da revolta, ou na guerra de Canudos, ou talvez na fundação da República, em que não houve sangue, é verdade, mas a sua presença terá bastado para evitar conflitos.
As crônicas antigas contam de barões e cavaleiros já velhos, alguns cegos, que mandavam vir a espada para mirá-la, ou só apalpá-la, quando queriam recordar as ações de glória, e guardá-la outra vez. Não ignoro que tais heróis tinham castelo e cozinha, e o triste reformado que levou esta outra espada ao prego pode não ter cozinha nem teto. Perfeitamente. Mas ainda assim é impossível que a alma dele não padecesse ao separar-se da espada.
Antes de a empenhar, devia ir ter a alguém que lhe desse um prato de sopa. “Cidadão, estou sem comer há dois dias e tenho de pagar a conta da botica, que não quisera desfazer-me desta espada, que batalhou pela glória e pela liberdade…” É impossível que acabasse o discurso. O boticário perdoaria a conta, e duas ou três mãos se lhe meteriam pelas algibeiras dentro, com fins honestos. E o triste reformado iria alegremente pendurar a espada de outro prego, o prego da memória e da saudade.
©Gustavo AimarCatei, catei, catei, sem dar por explicação que bastasse. Mas eu já disse que é faculdade minha entrar por explicações miúdas. Vi casualmente uma estatística de São Paulo, os imigrantes do ano passado, e achei milhares de pessoas desembarcadas em Santos ou idas daqui pela Estrada de Ferro Central. A gente italiana era a mais numerosa. Vinha depois a espanhola, a inglesa, a francesa, a portuguesa, a alemã, a própria turca, uns quarenta e cinco turcos. Enfim, um grego. Bateu-me o coração, e eu disse comigo; o grego é que levou a espada ao prego.
E aqui vão as razões da suspeita ou descoberta. Antes de mais nada, sendo o grego não era nenhum brasileiro, ― ou nacional, como dizem as notícias da polícia. Já me ficava essa dor de menos. Depois, o grego era um, e eu corria menor risco do que supondo algum das outras colônias, que podiam vir acima de mim, em desforço do patrício. Em terceiro lugar, o grego é o mais pobre dos imigrantes. Lá mesmo na terra é paupérrimo. Em quarto lugar, talvez fosse também poeta, e podia ficar-lhe assim uma canção pronta, com estribilho:
Eu cá sou grego,
Levei a minha espada ao prego.
Finalmente, não lhe custaria empenhar a espada, que talvez fosse turca. About refere de um general, Hadji-Petros, governador de Lâmia, que se deixou levar dos encantos de uma moça fácil de Atenas, e foi demitido do cargo. Logo requereu à rainha pedindo a reintegração: “Digo a Vossa Majestade pela minha honra de soldado que, se eu sou amante dessa mulher, não é por paixão, é por interesse; ela é rica, eu sou pobre, e tenho filhos, tenho uma posição na sociedade, etc.” Vê-se que empenhar a espada é costume grego e velho.
Agora que vou acabar a crônica, ocorre-me se a espada do leilão não será acaso alguma espada de teatro, empenhada pelo contra-regra, a quem a empresa não tivesse pago os ordenados. O pobre-diabo recorreu a esse meio para almoçar um dia. Se tal foi, façam de conta que não escrevi nada, e vão almoçar também, que é tempo.
Machado de Assis, "Todas as crônicas – vol. 3"
O menino
Sentou-se num tamborete, fincou os cotovelos nos joelhos, apoiou o queixo nas mãos e ficou olhando para a mãe. Agora ela escovava os cabelos muito louros e curtos, puxando-os para trás. E os anéis se estendiam molemente para em seguida voltarem à posição anterior, formando uma coroa de caracóis sobre a testa. Deixou a escova, apanhou um frasco de perfume, molhou as pontas dos dedos, passou-os nos lóbulos das orelhas, no vértice do decote e em seguida umedeceu um lencinho de rendas. Através do espelho, olhou para o menino. Ele sorriu também, era linda, linda, linda! Em todo o bairro não havia uma moça linda assim.
– Quantos anos você tem, mamãe?
– Ah, que pergunta! Acho que trinta ou trinta e um, por aí, meu amor, por aí. Quer se perfumar também?
– Homem não bota perfume.
– Homem, homem! – Ela inclinou-se para beijá-lo.
– Você é um nenenzinho, ouviu bem? É o meu nenenzinho.
O menino afundou a cabeça no colo perfumado. Quando não havia ninguém olhando, achava maravilhoso ser afagado como uma criancinha. Mas era preciso mesmo que não houvesse ninguém por perto.
Agora vamos que a sessão começa às oito – avisou ela, retocando apressadamente os lábios.
O menino deu um grito, montou no corrimão da escada e foi esperá-la embaixo. Da porta, ouviu-a dizer à empregada que avisasse ao doutor que tinham ido ao cinema.
Na rua, ele andava pisando forte, o queixo erguido, os olhos acesos. Tão bom sair de mãos dadas com a mãe. Melhor ainda quando o pai não ia junto porque assim ficava sendo o cavalheiro dela. Quando crescesse haveria de se casar com uma moça igual. Anita não servia que Anita era sardenta. Nem Maria Inês com aqueles dentes saltados. Tinha que ser igualzinha à mãe.
– Você acha a Maria Inês bonita, mamãe?
– É bonitinha, sim.
– Ah! tem dentão de elefante.
E o menino chutou um pedregulho. Não, tinha que ser assim como a mãe, igualzinha à mãe. E com aquele perfume.
– Como é o nome do seu perfume?
– Vent Vert. Por que, filho? Você acha bom?
– Que é que quer dizer isso?
– Vento Verde.
Vento verde, vento verde. Era bonito, mas existia vento verde?
Vento não tinha cor, só cheiro. Riu.
– Posso te contar uma anedota, mãe? Posso?
– Se for anedota limpa, pode.
– Não é limpa não.
– Então não quero saber.
– Mas por quê, pô!?
– Eu já disse que não quero que você diga pô.
Ele chutou uma caixa de fósforos. Pisou-a em seguida.
– Olha, mãe, a casa do Júlio…
Júlio conversava com alguns colegas no portão. O menino fez questão de cumprimentá-los em voz alta para que todos se voltassem eficassem assim mudos, olhando. Vejam, esta é minha mãe! – teve vontade de gritar-lhes. Nenhum de vocês tem uma mãe linda assim! E lembrou deliciado que a mãe de Júlio era grandalhona e sem graça, sempre de chinelo e consertando meia. Júlio devia estar agora roxo de inveja.
– Ele é bom aluno? Esse Júlio.
– Que nem eu.
– Então não é.
O menino deu uma risadinha.
– Que fita a gente vai ver?
– Não sei, meu bem.
– Você não viu no jornal? Se for fita de amor, não quero! Você não viu no jornal, hein, mamãe?
Ela não respondeu. Andava agora tão rapidamente que às vezes o menino precisava andar aos pulos para acompanhá-la. Quando chegaram à porta do cinema, ele arfava. Mas tinha no rosto uma vermelhidão feliz.
A sala de espera estava vazia. Ela comprou os ingressos e em seguida, como se tivesse perdido toda a pressa, ficou tranqüilamente encostada auma coluna, lendo o programa. O menino deu-lhe um puxão na saia.
– Mãe, mas o que é que você está fazendo?! A sessão já começou, já entrou todo mundo, pô!
Ela inclinou-se para ele. Falou num tom muito suave, mas os lábios se apertavam comprimindo as palavras e os olhos tinham aquela expressão que o menino conhecia muito bem, nunca se exaltava, nunca elevava a voz. Mas ele sabia que quando ela falava assim, nem súplicas nem lágrimas conseguiam fazê-la voltar atrás.
– Sei que já começou mas não vamos entrar agora, ouviu? Não vamos entrar agora, espera.
O menino enfiou as mãos nos bolsos e enterrou o queixo no peito. Lançou à mãe um olhar sombrio. Por que é que não entravam logo? Tinham corrido feito dois loucos e agora aquela calma, espera. Esperar o que, pô?!…
– É que a gente já está atrasado, mãe.
– Vá ali no balcão comprar chocolate – ordenou ela entregando-lhe uma nota nervosamente amarfanhada.
Ele atravessou a sala num andar arrastado, chutando as pontas de cigarro pela frente. Ora, chocolate. Quem é que quer chocolate? E se o enredo fosse de crime, quem é que ia entender chegando assim começado? Sem nenhum entusiasmo, pediu um tablete de chocolate. Vacilou um instante e pediu em seguida um tubo de drágeas de limão e um pacote de caramelos de leite, pronto, também gastava à beça. Recebeu o troco de cara fechada. Ouviu então os passos apressados da mãe que lhe estendeu a mão com impaciência:
– Vamos, meu bem, vamos entrar.
Num salto, o menino pôs-se ao lado dela. Apertou-lhe a mão freneticamente.
– Depressa que a fita já começou, não está ouvindo a música? Na escuridão, ficaram um instante parados, envolvidos por um grupo de pessoas, algumas entrando, outras saindo. Foi quando ela resolveu.
– Venha vindo atrás de mim.
Os olhos do menino devassavam a penumbra. Apontou para duas poltronas vazias.
– Lá, mãezinha, lá tem duas, vamos lá!
Ela olhava para um lado, para outro e não se decidia.
– Mãe, aqui tem mais duas, está vendo? Aqui não está bom? insistiu ele, puxando-a pelo braço. E olhava aflito para a tela e olhava de novo para as poltronas vazias que apareciam aqui e ali como coágulos de sombra. – Lá tem mais duas, está vendo?Ela adiantou-se até as primeiras filas e voltou em seguida até o meio do corredor. Vacilou ainda um momento. E decidiu-se. Impeliu-o suave, mas resolutamente.
– Entre aí.
– Licença? Licença?… – ele foi pedindo. Sentou-se na primeira poltrona desocupada que encontrou, ao lado de uma outra
desocupada também.
– Aqui, não é, mãe?
– Não, meu bem, ali adiante – murmurou ela, fazendo-o levantar-se. Indicou os três lugares vagos quase no fim da fileira. Lá é melhor.
Ele resmungou, pediu licença, licença, e deixou-se cair pesadamente no primeiro dos três lugares. Ela sentou-se em seguida.
– Ih, é fita de amor, pô!
– Quieto, sim?
O menino pôs-se na beirada da poltrona. Esticou o pescoço, olhou para a direita, para a esquerda, remexeu-se.
– Essa bruta cabeçona aí na frente!
– Quieto, já disse.
– Mas é que não estou enxergando direito, mãe! Troca comigo que não estou enxergando!
Ela apertou-lhe o braço. Esse gesto ele conhecia bem e significava apenas: não insista!
– Mas, mãe…
Inclinando-se até ele, ela falou-lhe baixinho, naquele tom perigoso, meio entre os dentes e que era usado quando estava no auge, um tom tão macio que quem a ouvisse julgaria que ela lhe fazia um elogio. Mas só ele sabia o que havia debaixo daquela maciez.
– Não quero que mude de lugar, está me escutando? Não quero. E não insista mais.
Contendo-se para não dar um forte pontapé na poltrona da frente, ele enrolou o pulôver como uma bola e sentou-se em cima. Gemeu. Mas por que aquilo tudo? Por que a mãe lhe falava daquele jeito, por quê? Não fizera nada de mal, só queria mudar de lugar, só isso… Não, desta vez ela não estava sendo nem um pouquinho camarada. Voltou-se então para lembrar- lhe que estava chegando muita gente, se não mudasse de lugar imediatamente, depois não poderia mais porque aquele era o último lugar vago que restava; Olha aí, mamãe, acho que aquele homem vem pra cá! Veio. Veio e sentou-se na poltrona vazia ao lado dela.
O menino gemeu, Ai! meu Deus… Pronto. Agora é que não restava mesmo nenhuma esperança. E aqueles dois enjoados lá na fita numa conversa comprida que não acabava mais, ela vestida de enfermeira, ele de soldado, mas por que o tipo não ia pra guerra, pô!… E a cabeçona da mulher na sua frente indo e vindo para a esquerda, para a direita, os cabelos armados a flutuarem na tela como teias monstruosas de uma aranha. Um punhado de fios formava um frouxo topete que chegava até o queixo da artista. O menino deu uma gargalhada.
– Mãe, daqui eu vejo a mocinha de cavanhaque.
– Não faça assim, filho, a fita é triste… Olha, presta atenção, agora ele vai ter que fugir com outro nome… O padre vai arrumar o passaporte.
– Mas por que ele não vai pra guerra duma vez?
– Porque ele é contra a guerra, filho, ele não quer matar ninguém – sussurrou-lhe a mãe num tom meigo. Devia estar sorrindo e ele sorriu também,
ah! que bom, a mãe não estava mais nervosa, não estava mais nervosa. As coisas começavam a melhorar e para maior alegria, a mulher da poltrona da frente levantou-se e saiu. Diante dos seus olhos apareceu o retângulo inteiro da tela.
– Agora sim! – disse baixinho, desembrulhando o tablete de chocolate. Meteu-o inteiro na boca e tirou os caramelos do bolso para oferecê-los à mãe. Então viu: a mão pequena e branca, muito branca, deslizou pelo braço da poltrona e pousou devagarinho nos joelhos do homem que acabara de chegar.
O menino continuou olhando, imóvel. Pasmado. Por que a mãe fazia aquilo?! Por que a mãe fazia aquilo?!… Ficou olhando sem nenhum pensamento, sem nenhum gesto.
Foi então que as mãos grandes e morenas do homem tomaram avidamente a mão pequena e branca. Apertaram-na com tanta força que pareciam querer esmagá-la.
O menino estremeceu. Sentiu o coração bater descompassado, bater como só batera naquele dia na fazenda quando teve de correr como louco, perseguido de perto por um touro. O susto ressecou-lhe a boca. O chocolate foi-se transformando numa massa viscosa e amarga. Engoliu-o com esforço, como se fosse uma bola de papel. Redondos e estáticos, os olhos cravaram-se na tela. Moviam-se as imagens sem sentido num sonho fragmentado. Os letreiros dançavam e se fundiam pesadamente, como chumbo derretido. Mas o menino continuava imóvel, olhando obstinadamente.
Um bar esfumaçado, brigas, a fuga do moço de capa perseguido pela sereia da polícia, mais brigas numa esquina, tiros. A mão pequena e branca a deslizar no escuro como um bicho. Torturas e gritos nos corredores paralelos da prisão, os homens agarrando as portas de grade, mais conspirações. Mais homens. A mão pequena e branca. A fuga, os faróis na noite, os gritos, mais tiros, tiros. O carro derrapando sem freios. Tiros.
Espantosamente nítido em meio do fervilhar de sons e falas – e ele não queria, não queria ouvir! – o ciciar delicado dos dois num diálogo entre os dentes.
Antes de terminar a sessão – mas isso não acaba mais, não acaba? -, ele sentiu, mais do que sentiu, adivinhou a mão pequena e branca desprender-se das mãos morenas. E do mesmo modo manso como avançara, recuar deslizando pela poltrona e voltar a se unir à mão que ficara descansando no regaço. Ali ficaram entrelaçadas e quietas como estiveram antes..
– Está gostando, meu bem? – perguntou ela inclinando-se para o menino.
Ele fez que sim com a cabeça, os olhos duramente fixos na cena final. Abriu a boca quando o moço também abriu a sua para beijar a enfermeira.
Apertou os olhos enquanto durou o beijo. Então o homem levantou-se embuçado na mesma escuridão em que chegara o menino retesou-se, os maxilares contraídos, trêmulo. Fechou os punhos. Eu pulo no pescoço dele, eu esgano ele!
O olhar desvairado estava agora nas espáduas largas interceptando a tela como um muro negro. Por um brevíssimo instante ficaram paradas em sua frente. Próximas, tão próximas. Sentiu a perna musculosa do homem roçar no seu joelho, esgueirando-se rápida. Aquele contato foi como ponta de um alfinete num balão de ar. O menino foi-se descontraindo. Encolheu-se murcho no fundo da poltrona e pendeu a cabeça para o peito.
Quando as luzes se acenderam, teve um olhar para a poltrona vazia. Olhou para a mãe. Ela sorria com aquela mesma expressão que tivera diante do espelho, enquanto se perfumava. Estava corada, brilhante.
– Vamos, filhote?
Estremeceu quando a mão dela pousou no seu ombro. Sentiu­ lhe o perfume. E voltou depressa a cabeça para o outro lado, a cara pálida, a boca apertada como se fosse cuspir. Engoliu penosamente. De assalto, a mão dela agarrou a sua. Sentiu-a quente, macia. Endureceu as pontas dos dedos, retesado, queria cravar as unhas naquela carne.
– Ah, não quer mais andar de mãos dadas comigo?
Ele inclinara-se, demorando mais do que o necessário para dobrar a barra da calça rancheira.
– É que não sou mais criança.
– Ah, o nenenzinho cresceu? Cresceu? – Ela riu baixinho. Beijou-lhe o rosto. – Não anda mais de mão dada?
O menino esfregou as pontas dos dedos na umidade dos beijos no queixo, na orelha. Limpou as marcas com a mesma expressão com que limpava as mãos nos fundilhos da calça quando cortava as minhocas para o anzol.
Na caminhada de volta, ela falou sem parar, comentando excitada o enredo do filme. Explicando. Ele respondia por monossílabos.
– Mas que é que você tem, filho? Ficou mudo…
– Está me doendo o dente.
– Outra vez? Quer dizer que fugiu do dentista? Você tinha hora ontem, não tinha?
– Ele botou uma massa. Está doendo – murmurou inclinando-se para apanhar uma folha seca. Triturou-a no fundo do bolso. E respirou abrindoa boca.
– Como dói, pô.
– Assim que chegarmos você toma uma aspirina. Mas não diga, por favor, essa palavrinha que detesto.
– Não digo mais.
Diante da casa de Júlio, instintivamente ele retardou o passo. Teve um olhar para a janela acesa. Vislumbrou uma sombra disforme passar através da cortina.
– Dona Margarida.
– Hum?
– A mãe do Júlio.
Quando entraram na sala, o pai estava sentado na cadeira de balanço, lendo o jornal. Como todas as noites, como todas as noites. O menino estacou na porta. A certeza de que alguma coisa terrível ia acontecer paralisou-o atônito, obumbrado. O olhar em pânico procurou as mãos do pai.
– Então, meu amor, lendo o seu jornalzinho? – perguntou ela, beijando o homem na face. – Mas a luz não está muito fraca?
– A lâmpada maior queimou, liguei essa por enquanto – disse ele, tomando a mão da mulher. Beijou-a demoradamente. Tudo bem?
– Tudo bem.
O menino mordeu o lábio até sentir gosto de sangue na boca.
Como nas outras noites, igual. Igual.
– Então, filho? Gostou da fita? – perguntou o pai dobrando o jornal. Estendeu a mão ao menino e com a outra começou a acariciar o braço nu da mulher. – Pela sua cara, desconfio que não.
– Gostei, sim.
– Ah, confessa, filhote, você detestou, não foi? – contestou ela. – Nem eu entendi direito, uma complicação dos diabos, espionagem, guerra, máfia… Você não podia ter entendido.
– Entendi. Entendi tudo – ele quis gritar e a voz saiu num sopro tão débil que só ele ouviu.
– E ainda com dor de dente! – acrescentou ela desprendendo-se do homem e subindo a escada. Ah, já ia esquecendo a aspirina.
O menino voltou para a escada os olhos cheios de lágrimas.
– Que é isso? – estranhou o pai. – Parece até que você viu assombração. Que foi?
O menino encarou-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados. O rosto feio e bom.
– Pai… – murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: – Pai…
– Mas meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!
– Nada. Nada.
Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço.
Lygia Fagundes Telles
– Quantos anos você tem, mamãe?
– Ah, que pergunta! Acho que trinta ou trinta e um, por aí, meu amor, por aí. Quer se perfumar também?
– Homem não bota perfume.
– Homem, homem! – Ela inclinou-se para beijá-lo.
– Você é um nenenzinho, ouviu bem? É o meu nenenzinho.
O menino afundou a cabeça no colo perfumado. Quando não havia ninguém olhando, achava maravilhoso ser afagado como uma criancinha. Mas era preciso mesmo que não houvesse ninguém por perto.
Agora vamos que a sessão começa às oito – avisou ela, retocando apressadamente os lábios.
O menino deu um grito, montou no corrimão da escada e foi esperá-la embaixo. Da porta, ouviu-a dizer à empregada que avisasse ao doutor que tinham ido ao cinema.
Na rua, ele andava pisando forte, o queixo erguido, os olhos acesos. Tão bom sair de mãos dadas com a mãe. Melhor ainda quando o pai não ia junto porque assim ficava sendo o cavalheiro dela. Quando crescesse haveria de se casar com uma moça igual. Anita não servia que Anita era sardenta. Nem Maria Inês com aqueles dentes saltados. Tinha que ser igualzinha à mãe.
– Você acha a Maria Inês bonita, mamãe?
– É bonitinha, sim.
– Ah! tem dentão de elefante.
E o menino chutou um pedregulho. Não, tinha que ser assim como a mãe, igualzinha à mãe. E com aquele perfume.
– Como é o nome do seu perfume?
– Vent Vert. Por que, filho? Você acha bom?
– Que é que quer dizer isso?
– Vento Verde.
Vento verde, vento verde. Era bonito, mas existia vento verde?
Vento não tinha cor, só cheiro. Riu.
– Posso te contar uma anedota, mãe? Posso?
– Se for anedota limpa, pode.
– Não é limpa não.
– Então não quero saber.
– Mas por quê, pô!?
– Eu já disse que não quero que você diga pô.
Ele chutou uma caixa de fósforos. Pisou-a em seguida.
– Olha, mãe, a casa do Júlio…
Júlio conversava com alguns colegas no portão. O menino fez questão de cumprimentá-los em voz alta para que todos se voltassem eficassem assim mudos, olhando. Vejam, esta é minha mãe! – teve vontade de gritar-lhes. Nenhum de vocês tem uma mãe linda assim! E lembrou deliciado que a mãe de Júlio era grandalhona e sem graça, sempre de chinelo e consertando meia. Júlio devia estar agora roxo de inveja.
– Ele é bom aluno? Esse Júlio.
– Que nem eu.
– Então não é.
O menino deu uma risadinha.
– Que fita a gente vai ver?
– Não sei, meu bem.
– Você não viu no jornal? Se for fita de amor, não quero! Você não viu no jornal, hein, mamãe?
Ela não respondeu. Andava agora tão rapidamente que às vezes o menino precisava andar aos pulos para acompanhá-la. Quando chegaram à porta do cinema, ele arfava. Mas tinha no rosto uma vermelhidão feliz.
A sala de espera estava vazia. Ela comprou os ingressos e em seguida, como se tivesse perdido toda a pressa, ficou tranqüilamente encostada auma coluna, lendo o programa. O menino deu-lhe um puxão na saia.
– Mãe, mas o que é que você está fazendo?! A sessão já começou, já entrou todo mundo, pô!
Ela inclinou-se para ele. Falou num tom muito suave, mas os lábios se apertavam comprimindo as palavras e os olhos tinham aquela expressão que o menino conhecia muito bem, nunca se exaltava, nunca elevava a voz. Mas ele sabia que quando ela falava assim, nem súplicas nem lágrimas conseguiam fazê-la voltar atrás.
– Sei que já começou mas não vamos entrar agora, ouviu? Não vamos entrar agora, espera.
O menino enfiou as mãos nos bolsos e enterrou o queixo no peito. Lançou à mãe um olhar sombrio. Por que é que não entravam logo? Tinham corrido feito dois loucos e agora aquela calma, espera. Esperar o que, pô?!…
– É que a gente já está atrasado, mãe.
– Vá ali no balcão comprar chocolate – ordenou ela entregando-lhe uma nota nervosamente amarfanhada.
Ele atravessou a sala num andar arrastado, chutando as pontas de cigarro pela frente. Ora, chocolate. Quem é que quer chocolate? E se o enredo fosse de crime, quem é que ia entender chegando assim começado? Sem nenhum entusiasmo, pediu um tablete de chocolate. Vacilou um instante e pediu em seguida um tubo de drágeas de limão e um pacote de caramelos de leite, pronto, também gastava à beça. Recebeu o troco de cara fechada. Ouviu então os passos apressados da mãe que lhe estendeu a mão com impaciência:
– Vamos, meu bem, vamos entrar.
Num salto, o menino pôs-se ao lado dela. Apertou-lhe a mão freneticamente.
– Depressa que a fita já começou, não está ouvindo a música? Na escuridão, ficaram um instante parados, envolvidos por um grupo de pessoas, algumas entrando, outras saindo. Foi quando ela resolveu.
– Venha vindo atrás de mim.
Os olhos do menino devassavam a penumbra. Apontou para duas poltronas vazias.
– Lá, mãezinha, lá tem duas, vamos lá!
Ela olhava para um lado, para outro e não se decidia.
– Mãe, aqui tem mais duas, está vendo? Aqui não está bom? insistiu ele, puxando-a pelo braço. E olhava aflito para a tela e olhava de novo para as poltronas vazias que apareciam aqui e ali como coágulos de sombra. – Lá tem mais duas, está vendo?Ela adiantou-se até as primeiras filas e voltou em seguida até o meio do corredor. Vacilou ainda um momento. E decidiu-se. Impeliu-o suave, mas resolutamente.
– Entre aí.
– Licença? Licença?… – ele foi pedindo. Sentou-se na primeira poltrona desocupada que encontrou, ao lado de uma outra
desocupada também.
– Aqui, não é, mãe?
– Não, meu bem, ali adiante – murmurou ela, fazendo-o levantar-se. Indicou os três lugares vagos quase no fim da fileira. Lá é melhor.
Ele resmungou, pediu licença, licença, e deixou-se cair pesadamente no primeiro dos três lugares. Ela sentou-se em seguida.
– Ih, é fita de amor, pô!
– Quieto, sim?
O menino pôs-se na beirada da poltrona. Esticou o pescoço, olhou para a direita, para a esquerda, remexeu-se.
– Essa bruta cabeçona aí na frente!
– Quieto, já disse.
– Mas é que não estou enxergando direito, mãe! Troca comigo que não estou enxergando!
Ela apertou-lhe o braço. Esse gesto ele conhecia bem e significava apenas: não insista!
– Mas, mãe…
Inclinando-se até ele, ela falou-lhe baixinho, naquele tom perigoso, meio entre os dentes e que era usado quando estava no auge, um tom tão macio que quem a ouvisse julgaria que ela lhe fazia um elogio. Mas só ele sabia o que havia debaixo daquela maciez.
– Não quero que mude de lugar, está me escutando? Não quero. E não insista mais.
Contendo-se para não dar um forte pontapé na poltrona da frente, ele enrolou o pulôver como uma bola e sentou-se em cima. Gemeu. Mas por que aquilo tudo? Por que a mãe lhe falava daquele jeito, por quê? Não fizera nada de mal, só queria mudar de lugar, só isso… Não, desta vez ela não estava sendo nem um pouquinho camarada. Voltou-se então para lembrar- lhe que estava chegando muita gente, se não mudasse de lugar imediatamente, depois não poderia mais porque aquele era o último lugar vago que restava; Olha aí, mamãe, acho que aquele homem vem pra cá! Veio. Veio e sentou-se na poltrona vazia ao lado dela.
O menino gemeu, Ai! meu Deus… Pronto. Agora é que não restava mesmo nenhuma esperança. E aqueles dois enjoados lá na fita numa conversa comprida que não acabava mais, ela vestida de enfermeira, ele de soldado, mas por que o tipo não ia pra guerra, pô!… E a cabeçona da mulher na sua frente indo e vindo para a esquerda, para a direita, os cabelos armados a flutuarem na tela como teias monstruosas de uma aranha. Um punhado de fios formava um frouxo topete que chegava até o queixo da artista. O menino deu uma gargalhada.
– Mãe, daqui eu vejo a mocinha de cavanhaque.
– Não faça assim, filho, a fita é triste… Olha, presta atenção, agora ele vai ter que fugir com outro nome… O padre vai arrumar o passaporte.
– Mas por que ele não vai pra guerra duma vez?
– Porque ele é contra a guerra, filho, ele não quer matar ninguém – sussurrou-lhe a mãe num tom meigo. Devia estar sorrindo e ele sorriu também,
ah! que bom, a mãe não estava mais nervosa, não estava mais nervosa. As coisas começavam a melhorar e para maior alegria, a mulher da poltrona da frente levantou-se e saiu. Diante dos seus olhos apareceu o retângulo inteiro da tela.
– Agora sim! – disse baixinho, desembrulhando o tablete de chocolate. Meteu-o inteiro na boca e tirou os caramelos do bolso para oferecê-los à mãe. Então viu: a mão pequena e branca, muito branca, deslizou pelo braço da poltrona e pousou devagarinho nos joelhos do homem que acabara de chegar.
O menino continuou olhando, imóvel. Pasmado. Por que a mãe fazia aquilo?! Por que a mãe fazia aquilo?!… Ficou olhando sem nenhum pensamento, sem nenhum gesto.
Foi então que as mãos grandes e morenas do homem tomaram avidamente a mão pequena e branca. Apertaram-na com tanta força que pareciam querer esmagá-la.
O menino estremeceu. Sentiu o coração bater descompassado, bater como só batera naquele dia na fazenda quando teve de correr como louco, perseguido de perto por um touro. O susto ressecou-lhe a boca. O chocolate foi-se transformando numa massa viscosa e amarga. Engoliu-o com esforço, como se fosse uma bola de papel. Redondos e estáticos, os olhos cravaram-se na tela. Moviam-se as imagens sem sentido num sonho fragmentado. Os letreiros dançavam e se fundiam pesadamente, como chumbo derretido. Mas o menino continuava imóvel, olhando obstinadamente.
Um bar esfumaçado, brigas, a fuga do moço de capa perseguido pela sereia da polícia, mais brigas numa esquina, tiros. A mão pequena e branca a deslizar no escuro como um bicho. Torturas e gritos nos corredores paralelos da prisão, os homens agarrando as portas de grade, mais conspirações. Mais homens. A mão pequena e branca. A fuga, os faróis na noite, os gritos, mais tiros, tiros. O carro derrapando sem freios. Tiros.
Espantosamente nítido em meio do fervilhar de sons e falas – e ele não queria, não queria ouvir! – o ciciar delicado dos dois num diálogo entre os dentes.
Antes de terminar a sessão – mas isso não acaba mais, não acaba? -, ele sentiu, mais do que sentiu, adivinhou a mão pequena e branca desprender-se das mãos morenas. E do mesmo modo manso como avançara, recuar deslizando pela poltrona e voltar a se unir à mão que ficara descansando no regaço. Ali ficaram entrelaçadas e quietas como estiveram antes..
– Está gostando, meu bem? – perguntou ela inclinando-se para o menino.
Ele fez que sim com a cabeça, os olhos duramente fixos na cena final. Abriu a boca quando o moço também abriu a sua para beijar a enfermeira.
Apertou os olhos enquanto durou o beijo. Então o homem levantou-se embuçado na mesma escuridão em que chegara o menino retesou-se, os maxilares contraídos, trêmulo. Fechou os punhos. Eu pulo no pescoço dele, eu esgano ele!
O olhar desvairado estava agora nas espáduas largas interceptando a tela como um muro negro. Por um brevíssimo instante ficaram paradas em sua frente. Próximas, tão próximas. Sentiu a perna musculosa do homem roçar no seu joelho, esgueirando-se rápida. Aquele contato foi como ponta de um alfinete num balão de ar. O menino foi-se descontraindo. Encolheu-se murcho no fundo da poltrona e pendeu a cabeça para o peito.
Quando as luzes se acenderam, teve um olhar para a poltrona vazia. Olhou para a mãe. Ela sorria com aquela mesma expressão que tivera diante do espelho, enquanto se perfumava. Estava corada, brilhante.
– Vamos, filhote?
Estremeceu quando a mão dela pousou no seu ombro. Sentiu­ lhe o perfume. E voltou depressa a cabeça para o outro lado, a cara pálida, a boca apertada como se fosse cuspir. Engoliu penosamente. De assalto, a mão dela agarrou a sua. Sentiu-a quente, macia. Endureceu as pontas dos dedos, retesado, queria cravar as unhas naquela carne.
– Ah, não quer mais andar de mãos dadas comigo?
Ele inclinara-se, demorando mais do que o necessário para dobrar a barra da calça rancheira.
– É que não sou mais criança.
– Ah, o nenenzinho cresceu? Cresceu? – Ela riu baixinho. Beijou-lhe o rosto. – Não anda mais de mão dada?
O menino esfregou as pontas dos dedos na umidade dos beijos no queixo, na orelha. Limpou as marcas com a mesma expressão com que limpava as mãos nos fundilhos da calça quando cortava as minhocas para o anzol.
Na caminhada de volta, ela falou sem parar, comentando excitada o enredo do filme. Explicando. Ele respondia por monossílabos.
– Mas que é que você tem, filho? Ficou mudo…
– Está me doendo o dente.
– Outra vez? Quer dizer que fugiu do dentista? Você tinha hora ontem, não tinha?
– Ele botou uma massa. Está doendo – murmurou inclinando-se para apanhar uma folha seca. Triturou-a no fundo do bolso. E respirou abrindoa boca.
– Como dói, pô.
– Assim que chegarmos você toma uma aspirina. Mas não diga, por favor, essa palavrinha que detesto.
– Não digo mais.
Diante da casa de Júlio, instintivamente ele retardou o passo. Teve um olhar para a janela acesa. Vislumbrou uma sombra disforme passar através da cortina.
– Dona Margarida.
– Hum?
– A mãe do Júlio.
Quando entraram na sala, o pai estava sentado na cadeira de balanço, lendo o jornal. Como todas as noites, como todas as noites. O menino estacou na porta. A certeza de que alguma coisa terrível ia acontecer paralisou-o atônito, obumbrado. O olhar em pânico procurou as mãos do pai.
– Então, meu amor, lendo o seu jornalzinho? – perguntou ela, beijando o homem na face. – Mas a luz não está muito fraca?
– A lâmpada maior queimou, liguei essa por enquanto – disse ele, tomando a mão da mulher. Beijou-a demoradamente. Tudo bem?
– Tudo bem.
O menino mordeu o lábio até sentir gosto de sangue na boca.
Como nas outras noites, igual. Igual.
– Então, filho? Gostou da fita? – perguntou o pai dobrando o jornal. Estendeu a mão ao menino e com a outra começou a acariciar o braço nu da mulher. – Pela sua cara, desconfio que não.
– Gostei, sim.
– Ah, confessa, filhote, você detestou, não foi? – contestou ela. – Nem eu entendi direito, uma complicação dos diabos, espionagem, guerra, máfia… Você não podia ter entendido.
– Entendi. Entendi tudo – ele quis gritar e a voz saiu num sopro tão débil que só ele ouviu.
– E ainda com dor de dente! – acrescentou ela desprendendo-se do homem e subindo a escada. Ah, já ia esquecendo a aspirina.
O menino voltou para a escada os olhos cheios de lágrimas.
– Que é isso? – estranhou o pai. – Parece até que você viu assombração. Que foi?
O menino encarou-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados. O rosto feio e bom.
– Pai… – murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: – Pai…
– Mas meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!
– Nada. Nada.
Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço.
Lygia Fagundes Telles
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