quinta-feira, abril 16

'Limpeza'

 


Emma Zunz

No dia catorze de janeiro de 1922, Emma Zunz, ao voltar da fábrica de tecidos Tarbuch & Loewenthal, achou no fundo do saguão uma carta, datada no Brasil, pela qual soube que seu pai havia morrido. Enganaram-na, à primeira vista, o carimbo e o envelope; logo, inquietou-a a letra desconhecida. Nove ou dez linhas rabiscadas queriam tomar a folha; Emma leu que o senhor Maier havia ingerido por erro uma forte dose de veronal e havia falecido no dia três do corrente mês no hospital de Bajé. Um companheiro de pensão de seu pai assinava a notícia, um tal Fein ou Fain, do Rio Grande, que não podia saber que se dirigia à filha do morto.

Emma deixou cair o papel. Sua primeira impressão foi de mal-estar no ventre e nos joelhos; logo de cega culpa, de irrealidade, de frio, de temor; logo, quis já estar no dia seguinte. Ato contínuo compreendeu que essa vontade era inútil porque a morte de seu pai era a única coisa que havia acontecido no mundo, e continuaria acontecendo sem fim. Recolheu o papel e foi a seu quarto. Furtivamente guardou-o em uma gaveta, como se de algum modo já conhecesse os fatos posteriores. Já havia começado a vislumbrá-los, talvez já era o que seria.

Na crescente escuridão, Emma chorou até ao fim daquele dia o suicídio de Manuel Maier, que nos antigos dias felizes foi Emanuel Zunz. Recordou verões em uma chácara, perto de Gualeguay, recordou (tratou de recordar) sua mãe, recordou a casinha de Lanús que lhes arremataram, recordou os amarelos losângulos de uma janela, recordou o carro de prisão, o vexame, recordou os anônimos com o artigo sobre “o desfalque do caixa”, recordou (porém isso jamais esquecia) que seu pai, na última noite, lhe havia jurado que o ladrão era Loewenthal. Loewenthal, Aaron Loewenthal, antes gerente da fábrica e agora um dos donos. Emma, desde 1916, guardava o segredo. A ninguém o havia revelado, nem mesmo à sua melhor amiga, Elsa Urstein. Talvez evitava a profana incredulidade; talvez acreditava que o segredo era um vínculo entre ela e o ausente. Loewenthal não sabia que ela sabia; Emma Zunz derivava desse fato ínfimo um sentimento de poder.

Não dormiu naquela noite, e quando a primeira luz definiu o retângulo da janela, já estava perfeito o seu plano. Procurou que esse dia, que lhe pareceu interminável, fosse como os outros. Havia na fábrica rumores de greve; Emma se declarou, como sempre, contra toda a violência. Às seis horas, concluído o trabalho, foi com Elsa a um clube para mulheres, que tem academia e piscina. Inscreveram-se; teve que repetir e soletrar seu nome e seu sobrenome, teve que rir das piadas vulgares que comentam na revisão médica. Com Elsa e com a menor das Kronfuss discutiu a que cinematógrafo iriam no domingo à tarde. Logo, falou-se de namorados e ninguém esperou que Emma falasse. Em abril, faria dezenove anos, mas os homens lhe inspiravam, ainda, um temor quase patológico… De volta, preparou uma sopa de tapioca e uns legumes, comeu cedo, deitou-se e obrigou-se a dormir. Assim, laboriosa e trivial, passou a sexta-feira quinze, a véspera.

No sábado, a impaciência a despertou. A impaciência, não a inquietude, e o singular alívio de estar naquele dia, finalmente. Já não tinha mais o que tramar e o que imaginar; dentro de algumas horas bastaria a simplicidade dos fatos. Leu em A Imprensa que o Nordstjärnan, de Malmö, zarparia essa noite do dique três; telefonou para Loewenthal, insinuou que desejava comunicar, sem que as outras soubessem, algo sobre a greve e prometeu passar pelo escritório, ao escurecer. Sua voz tremia; o tremor convinha a uma delatora. Nenhum outro fato memorável ocorreu essa manhã. Emma trabalhou até às doze e combinou com Elsa e com Perla Kronfuss os pormenores do passeio do domingo. Deitou-se depois de almoçar e recapitulou, de olhos fechados, o plano que havia tramado. Pensou que a etapa final seria menos horrível que a primeira e que lhe depararia, sem dúvida, o sabor da vitória e da justiça. Logo, alarmada, se levantou e correu à gaveta da cômoda. Abriu; debaixo do retrato de Milton Sills, onde a havia deixado a noite passada, estava a carta de Fain. Ninguém podia havê-la visto; começou a lê-la e a rasgou.

Referir-se com alguma realidade aos fatos dessa tarde seria difícil e talvez improcedente. Um atributo do infernal é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e que os agrava talvez. Como tornar verossímil uma ação na qual quase não acreditou quem a executava, como recuperar esse breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde? Emma vivia em Almagro, na rua Liniers; consta-nos que essa tarde foi ao porto. Por acaso no infame Passeio de Julho viu-se multiplicada em espelhos, publicada por luzes e desnudada pelos olhos famintos, porém mais racional é conjeturar que ao princípio errou, inadvertida, pela indiferente recova… Entrou em dois ou três bares, viu a rotina ou o procedimento de outras mulheres. Encontrou por fim homens do Nordstjärnan. De um, muito jovem, temeu que lhe inspirasse alguma ternura e optou por outro, talvez mais baixo que ela e grosseiro, para que a pureza do horror não fosse mitigada. O homem a conduziu a uma porta e depois a um turvo saguão e depois a uma escada tortuosa e depois a um vestíbulo (no qual havia uma janela com losângulos idênticos aos da casa em Lanús) e depois a um corredor e depois a uma porta que se fechou. Os fatos graves estão fora do tempo, já porque neles o passado imediato fica meio truncado pelo porvir, já porque não parecem consecutivas as partes que os formam.

Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações inconexas e atrozes, pensou Emma Zunz uma única vez no morto que motivava o sacrifício? Eu tenho para mim que pensou uma vez e que nesse momento perigou seu desesperado propósito. Pensou (não pôde não pensar) que seu pai havia feito à sua mãe a coisa horrível que a ela lhe faziam agora. Pensou isso com débil assombro e se refugiou, em seguida, na vertigem. O homem, sueco ou finlandês, não falava espanhol; foi uma ferramenta para Emma assim como esta foi para ele, mas ela serviu para o gozo e ele para a justiça.

Quando ficou só, Emma não abriu em seguida os olhos. No criado-mudo estava o dinheiro que o homem havia deixado: Emma voltou a si e o rasgou como antes havia rasgado a carta. Rasgar dinheiro é uma impiedade, como jogar fora o pão; Emma se arrependeu, apenas fez um ato de soberbia e naquele dia… O temor se perdeu na tristeza de seu corpo, no nojo. O nojo e a tristeza a encadeavam, mas Emma lentamente se levantou e começou a se vestir. No quarto não restavam cores vivas; o último crepúsculo se agravava. Emma pôde sair sem que a notassem; na esquina subiu a um Lacroze, que ia ao oeste. Escolheu, conforme seu plano, o assento mais dianteiro, para que não vissem sua cara. Talvez lhe confortou verificar, no insípido movimento das ruas, que o acontecido não havia contaminado as coisas. Viajou por bairros decrescentes e opacos, vendo-os e os esquecendo no ato, e desceu em uma das embocaduras de Warnes. Paradoxalmente a sua fatiga vinha a ser uma força, pois a obrigava a se concentrar nos pormenores da aventura e lhe ocultava o fundo e o fim.

Aaron Loewenthal era, para todos, um homem sério; para seus poucos íntimos, um avarento. Vivia nos altos da fábrica, sozinho. Estabelecido no desmantelado subúrbio, temia os ladrões; no pátio da fábrica havia um grande cão e na gaveta de sua mesa, ninguém ignorava, um revólver. Havia chorado com decoro, no ano anterior, a inesperada morte de sua mulher — uma Gauss, que lhe trouxe um bom dote! — mas o dinheiro era sua verdadeira paixão. Com íntimo rubor sabia que era menos apto para ganhá-lo do que para conservá-lo. Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto, que o eximia de obrar bem, a troco de orações e devoções. Calvo, corpulento, enlutado, de óculos esfumaçados e barba loira, esperava de pé, perto da janela, o relatório confidencial da operária Zunz.

Viu-a empurrar a grade (que ele havia entraberto de propósito) e cruzar o pátio sombrio. Viu-a fazer um pequeno rodeio quando o cão atado ladrou. Os lábios de Emma se atarefavam como os de quem reza em voz baixa; cansados, repetiam a sentença que o senhor Loewenthal ouviria antes de morrer.

As coisas não aconteceram como havia previsto Emma Zunz. Desde a madrugada anterior, ela havia sonhado muitas vezes, manejando o firme revólver, forçando o miserável a confessar a miserável culpa e expondo o intrépido estratagema que permitiria à Justiça de Deus triunfar sobre a justiça humana. (Não por temor, mas por ser um instrumento da Justiça, ela não queria ser castigada). Logo, um só balaço na metade do peito rubricaria a sorte de Loewenthal. Mas as coisas não ocorreram assim.

Diante de Aaron Loewenthal, mais que a urgência de vingar seu pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje padecido por tudo isso. Não podia deixar de matá-lo, depois dessa minuciosa desonra. Também não tinha tempo a perder em teatralidades. Sentada, tímida, pediu desculpas a Loewenthal, invocou (na qualidade de delatora) as obrigações da lealdade, pronunciou alguns nomes, deu a entender outros e se interrompeu como se a vencesse o temor. Conseguiu que Loewenthal saísse para buscar um copo de água. Quando este, incrédulo de tais espaventos, porém indulgente, voltou da sala de jantar, Emma já havia tirado da gaveta o pesado revólver. Apertou o gatilho duas vezes. O considerável corpo se desmoronou como se os estampidos e a fumaça o tivessem quebrado, o copo de água quebrou-se, a cara olhou-a com assombro e cólera, a boca da cara a injuriou em espanhol e em ídisch. As más palavras não recuavam; Emma teve que dar fogo outra vez. No pátio, o cão acorrentado desatou a ladrar, e uma efusão de brusco sangue emanou dos lábios obscenos e manchou a barba e a roupa. Emma iniciou a acusação que tinha preparada (“Vinguei meu pai e não poderão me castigar…”) mas não a acabou, porque o senhor Loewenthal já tinha morrido. Não soube nunca nem chegou a entender.

Os latidos tensos lhe recordaram que não podia, ainda, descansar. Desarrumou o divã, desabotoou o paletó do cadáver, tirou-lhe os óculos salpicados e deixou-os sobre o fichário. Logo pegou o telefone e repetiu o que tantas vezes repetiria, com essas e com outras palavras: Aconteceu uma coisa que é incrível… O senhor Loewenthal me fez vir com o pretexto da greve… Abusou de mim, matei-o…

A história era incrível, de fato, mas se impôs a todos, porque substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que havia padecido; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios.
Jorge Luis Borges

A fábrica do poeta

Fabrico uma esperança
como quem apaga
algo sujo num muro,
e ali, rápido, escreve:
Futuro.

Fabrico uma pureza
tão menina,
tão cristal e tão fonte
que, de repente,
É meu todo o horizonte.

Fabrico uma alegria
que é de ver as coisas
como se só agora
é que nascesse
a aurora.

Fabrico uma certeza
exata
para cada instante.
A vida não está atrás,
Mas adiante.

Fabrico com o que tiro
de mim mesmo e do mundo
meu dia.
E ao que, em síntese, sou
junto o que queria.

Fabrico uma hora densa,
como quem te descobre.
Ah, quem diria
que essa hora imensa
já é poesia?
Emílio Moura

Era uma noite de luar

O táxi ia rodando devagar pela rua mal iluminada, para que eu pudesse ir vendo os números das casas. Quando vi o 108, mandei parar. Tinha de ir ao 250 e perguntar por dona Judite. Era quase certo que não me seguiam; de qualquer modo não convinha parar o táxi diante da casa para não chamar a atenção. Tive, além disto, o cuidado de deixar o carro se afastar sem que o chofer pudesse ver a casa em que eu entrava. Naquele tempo vivíamos cercados de precauções. O menor descuido era a prisão – e as notícias que vinham lá de dentro eram de fazer tremer.

Andei pela calçada. Era uma rua sossegada, em um bairro onde antigamente viviam famílias ricas. Agora os ricos moravam em outras partes da cidade, e aqueles casarões envelhecidos, com seus parques de grandes árvores, pareciam dormir. Uma vez ou outra passava um auto; depois o luar aumentava o sossego da rua.

Apertei a campainha. Uma mulher gorda me disse que fosse pelo jardim, ao lado da casa; era uma porta que tinha uma escadinha nos fundos.

Ao bater, ouvi um rumor lá dentro. Depois senti que alguém me espiava pela veneziana, sem dizer nada. Bati outra vez. Ouvi ainda uns rumores dentro do quarto e, por fim, uma voz nervosa:

– Quem é?

Marina não me havia reconhecido e com certeza estava inquieta. Tranquilizei-a:

– Sou eu, Domingos.

A porta abriu-se.

Tinha visto Marina poucas vezes, sempre em companhia do marido, na rua. Nunca havíamos trocado mais de duas ou três palavras. Não se podia dizer que fosse bonita, mas era agradável com seu ar um pouco seco, um pouco nervoso, e seu jeito de vestir-se com severidade. Agora estava diante de mim e não pude deixar de sorrir quando a vi metida em um macacão.

– Trago notícias do Alberto.

Dei o recado que um político solto no dia anterior havia trazido. Alberto mandava dizer que estava bem, que há muito tempo já não o interrogavam, e que não tinha nenhuma esperança de ser libertado tão cedo. Era bom que ela tentasse sair do Rio, onde podia ser presa a qualquer momento, e fosse para o Nordeste, onde morava sua família. A viagem de avião ou por mar seria impossível. O melhor era ir de trem até Belo Horizonte e seguir para Alagoas pelo São Francisco. Havia uma pessoa que podia arranjar uma parte do dinheiro, e um endereço em Belo Horizonte onde talvez conseguisse mais. Era preciso abrir o caixote de livros. e queimar um papel que estava dentro das Poesias de Olavo Bilac. Dei-lhe um número para onde devia telefonar.

– Acha que eles vão deixar o Alberto preso muito tempo?

Dei minha opinião com sinceridade. Alberto estava comprometido. Quando o pegou, a polícia não sabia grande coisa dele, mas lá dentro sua situação tinha piorado muito. Parece que tinham aparecido umas histórias velhas, de São Paulo…

– E você, como vai?

Ela fez um gesto desanimado. Podia continuar naquele quarto com direito a comida, mais uns oito dias. Já não tinha dinheiro nem para cigarros. Ofereci-lhe dos meus:

– Não sabia que você fumava.

Não fumava antes. Mas ali, obrigada a ficar dentro do quarto dias e dias, semanas e semanas começou a fumar. Há mais de três meses que não saía. Andava apenas pelo velho e pequeno parque, nos fundos da casa, quando não chovia. Havia lido todos os livros e estava cansada de ler.

– Isso aqui é pior do que prisão. Às vezes tenho vontade de sair, tomar um ônibus, andar por aí, ir a uma praia…

Arriscara-se a ir a um cinema do bairro, e quase morrera de medo. Na volta, um homem a seguiu. Teve certeza de que ia ser presa; quando estava perto de casa, o homem, mal-encarado, apertou o passo e a deteve, tocando-lhe o braço com a mão. Parou, trêmula, e logo saiu correndo e entrou em casa; jogou-se na cama chorando, num desabafo nervoso. O homem lhe havia feito uma proposta amorosa…

Contava essas coisas sentada na cama, um pouco excitada; e estava engraçada assim, metida no macacão do marido, com uma régua na mão, contando o seu susto. Rimos, mas logo ela se pôs a andar no quarto para um lado e outro, batendo com a régua na coxa.

– Que é que você acha que devo fazer?

Acendi um cigarro. Fazia calor. Na parede havia um quadro sem interesse, de um pintor amigo do casal. Ela pensava em procurar alguém que fosse amigo do governo. Talvez o doutor Antunes conseguisse…

– Também está preso.

– O doutor Antunes? Não é possível!

Vi que estava mal informada do que acontecia, e lhe dei várias notícias. Nenhuma era alegre. Sentou-se novamente na cama, batendo com a régua no joelho. Ficamos em silêncio. Achei que devia me despedir, mas ela me deteve:

– Espere, quero saber de uma coisa…

Perguntou-me pelos Amaral, se era verdade que a mulher tinha se suicidado. Era boato, ou pelo menos, parecia. Havia quem dissesse que o casal estava no Paraguai; outros diziam que ele estava preso no norte do Paraná, em Londrina…

Surgiram outros nomes. Eu quase não podia dar informações sobre ninguém, e muitos eu não conhecia nem de nome nem de vista. Voltamos a falar de Alberto. Ela havia perdido o nervosismo; falava agora no seu tom habitual, um pouco seco, um pouco distante. Falava do marido e de si mesma como se estivesse examinando um problema alheio, com frieza e lógica. Tinha na gaveta um velho Guia Levi, e consultou preços de passagens e horários. Certamente deveria tomar o trem em alguma estação do estado do Rio, se resolvesse ir para o Norte.

– Vai?

– Isso é que estou pensando. Em Alagoas posso ficar na fazenda de minha tia, perto de São Miguel. Ali não haveria nenhum perigo, mas…

Voltou a perguntar se não haveria mesmo nenhum jeito de fazer alguma coisa pela libertação de Alberto. Talvez aquele ex-deputado, amigo do Amaral, pudesse…

Balancei a cabeça. A polícia não estava soltando ninguém. Prendera gente demais, inocentes e culpados, e enquanto não interrogava todo mundo, não apurava as coisas, não queria soltar ninguém. Uma ou outra pessoa conseguia sair quando tinha proteção muito forte e estava completamente inocente. Alberto já fora preso antes, era um elemento marcado. A única esperança estava na mudança que diziam que ia haver no Ministério. Mas estavam sempre dizendo essas coisas, e ninguém saía do governo. Dava a impressão de que ia ser assim eternamente…

– Que coisa!

Voltou a falar de Alberto, contou detalhes de sua prisão. Ela havia escapado por milagre. Mas estava ali, sozinha, sem poder sair de casa… Começou quase a lamentar-se e subitamente pareceu de novo tranquila. Os cabelos despenteados e o macacão lhe davam um ar ao mesmo tempo gracioso e cordial de rapazola. Devia ter uns trinta anos. Agora sua voz parecia ter cinquenta:

– A situação é esta: se não fosse por causa do Alberto eu poderia ter fugido para o Sul. Mas perdi a oportunidade. Mais tarde, na hora de alugar este quarto, estive quase resolvendo outra vez fugir. Mas queria esperar Alberto… Está visto que não posso ficar esperando a vida inteira. O senhor acha que há possibilidade…

Era engraçado que me chamasse de “senhor”, quando começara me tratando de “você”. Mas logo, na frase seguinte, com uma pequena hesitação na voz, voltou a me chamar de “você”.

Levantei-me e procurei com a vista um cinzeiro para pôr o cigarro. Não havia. Abri uma banda da janela para jogá-lo no jardim.

– Posso deixar a janela aberta? Está quente…

Sentada na cama, ela ficou em silêncio. Resolvi ir-me embora, e fiquei pensando se devia lhe dar o pouco dinheiro que tinha no bolso. Eu voltaria de ônibus. Tirei a nota do bolso. Ela aceitou secamente e me deu um aperto de mão rápido.

Sua voz era tranquila, quase fria.

– Obrigada. Se tiver alguma novidade estes dias, apareça outra vez. Meu nome aqui é Judite de Sousa.

– Sei. Tem telefone?

– Não. Ah, um momento! Pode pôr uma carta no correio para mim?

Tirou uma carta da gaveta, meteu-a em um envelope e começou a escrever o endereço. Junto à janela, lá fora, eu via as grandes árvores gordas, beijadas pelo luar, enquanto ouvia o ranger da pena no papel.

Comentei ao acaso:

– Bonito luar…

Ela acabara de escrever o endereço e respondeu, dando um olhar à janela:

– É.

Foi um “é” tão seco que me arrependi do que havia dito, como se tivesse sido alguma coisa inconveniente. Depois de fechar o envelope ela veio para junto da janela onde eu estava. Para ver melhor lá fora, abri o outro lado da janela e a lua apareceu, redonda, branca, entre as copas das árvores. Foi apenas um instante. Ela fechou os dois lados da janela com brutalidade:

– Não faça isso! Estúpido! Não vê que eu não posso com isso? Que estou sozinha desde que Alberto foi preso?

Ficou um momento diante de mim, pálida, os lábios trêmulos; eu não sabia o que dizer.

– Vá-se embora!
Lançou-se na cama, escondeu a cabeça nas mãos e começou a chorar. Os soluços agitavam seu corpo magro e nervoso sob o macacão azul.
Rubem Braga, “Melhores contos“

Júpiter

Nunca me esqueci da sua imagem à beira do canal, contemplando a obra que ele – aquele criminoso, aquele monstruoso! – realizará. Só Deus sabe que, naquele momento, nenhum de nós era capaz de raciocinar. Ainda assim, lembro de saber muito bem o que se passa em seu pequeno cérebro vingativo e extraordinário.

Tentarei agora contar desde o início a história toda, quem sabe só para mim mesmo.

Quando me aposentei dos negócios, há cerca de oito anos, minha mulher e eu resolvemos procurar um recanto tranquilo no interior. Descobrimos o que procurávamos próximo ao vilarejo de Dover, no norte do estado de Nova York. A região era permeada por um velho canal que cem anos antes costumava ficar repleto de barcos. Mas então chegou a ferrovia e o trânsito no canal final, os guardadores das eclusas foram demitidos e hoje essa atmosfera especial de solidão torna a região romântica e misteriosa.

Ali, num morro perto do canal, fizemos a casa que compramos, a poucos quilômetros da cidade. Sentados no nosso terraço ao ar livre, víamos a casa, as árvores, o jardim e a relva refletidos na superfície suave da água. Não estávamos completamente isolados, pois havia algumas centenas de metros de distância fora de casa, bastante parecido com a nossa.

Certa manhã, pouco tempo depois de nos mudarmos para a casa, apareceu uma jovem esguia e bonita, de seus vinte e oito ou vinte e nove anos, que se apresentou como sra. Surgis. Tinha olhos inteligentes e gentis, era simpático, e em pouco tempo já estávamos conversando como velhos conhecidos. Surgis trabalhava em Buffalo, e embora precisasse viajar uma hora e meia de trem de manhã e à noite, fazia-o de bom grado por causa da beleza da paisagem.

Achei estranho como um jovem se referia ao marido e tive a impressão de que ela não sentia sua falta, embora, de alguma maneira, gostasse dele.

Quando, alguns dias depois, passamos à margem do canal, escutamos passos atrás de nós. Um homem grande e forte veio ao nosso encontro e abriu nossas mãos. Era Roger Surgis. Disse que sua mulher lhe falara a nosso respeito e que, ao nos ver passando, quis nos cumprir. E não era uma linda manhã? Também não achamos que aquela era o melhor lugar do mundo? E não era inimaginável querer viver na cidade, se existia um lugar como aquele?

Ele falou com tanta excitação que era difícil interrompê-lo, mas assim pelo menos pude observá-lo minuciosamente. Devia ter uns trinta e cinco anos, um metro e oitenta de altura, um verdadeiro gigante de ombros largos e quadrados. É que homem bondoso! Falava e ria sem parar. Ao mesmo tempo, irradiava tal sentimento de felicidade e profundo contentamento que, querendo ou não, nos contagiava. Ambos fomos arrebatados pelo seu bom humor e ficamos tão encantados em ter um vizinho jovial.

Mas nossa paixão não durou muito tempo. Na realidade, não havia menor objeção a fazer Roger Surgis. Era cortês, simpático e solícito – um homem gentil e confiável. E no entanto…

Para dizer a verdade: com o passar do tempo, foi ficando difícil suportar a sua presença, por ser tão ruidoso e ininterruptamente alegre. Para ele, tudo sempre foi ótimo, no melhor dos mundos. Sua casa era perfeita, a mulher era o ideal e o seu cachimbo o melhor jamais fabricado. Antes de conhecer Roger Surgis, nem em sonhos eu imagino como virtudes honradas podem ser cansativas e capazes de nos levar ao desespero.

Aos poucos, comecei a compreender a estranha ambiguidade com que sua mulher falava dele. Ele a amava apaixonadamente, assim como amava qualquer coisa que fosse sua. Mimava-a com um carinho exagerado e chegava a ser constrangedor o orgulho que sentia dela. Ela tinha plena consciência desse constrangimento, mas o que poderia fazer? Era simplesmente impossível aborrecer-se com uma pessoa tão devotada.

Minha mulher e eu conversamos sobre os dois e chegamos à conclusão de que faziam falta um filho. Ela me contou que a sra. Surgis desejava engravidar, e aquela era a grande decepção do casamento. Haviam contado com um filho no primeiro, no segundo e no terceiro ano da união, mas depois de oito anos já havia perdido as esperanças.

Naquela altura, Betty, minha mulher, foi visitar velhos amigos em Rochester e, ao voltar, acreditou ter uma ideia brilhante. Seus conhecidos tinham uma cadela bull terrier que acabara de dar criação. Betty recusou um dos filhotes que uma amiga quis lhe oferecer por achar que não pensava cuidar dele, mas disse que um cachorrinho seria a melhor coisa para a sra. Surgis. Concordei, e na mesma noite pedi o que achariam de ter um filhote de cachorro. A Sra. Surgis ficou calada, como sempre quando o marido estava por perto, mas ele imediatamente aceitou nossa oferta. Maravilhoso! E por que não pensei nisso antes? Que ideia maravilhosa! Ele não parava de nos agradecer.

Dois dias depois chegou o cachorrinho. Era uma criatura engraçada, amável e pequena, de pelo branco, muitas dobras e patas imensas, um exemplar típico da raça. E aconteceu exatamente o contrário daquilo que pensamos.

Tínhamos imaginado o cachorro como companheiro de uma mulher. Todavia, Surgis apoderou-se dele. Pouco depois ele me contou, a qualquer oportunidade, que no mundo inteiro não havia cão mais inteligente e belo, e que era especial, um rei de sua raça.

Parece quase inacreditável o que essa nova paixão fez com Roger Surgis. Às vezes, escutávamos latidos altos na casa vizinha, mas não era Júpiter que latia. Era Surgis que, deitado no chão, brincava como uma criança com seu xodó. Eu seria capaz de jurar que ele se preocupava mais com a dieta do animal do que com a sua própria e lembro que, quando certa vez o jornal noticiou sobre um caso de tifo na vizinhança, Júpiter passou a ganhar apenas água mineral para beber.

Havia uma única vantagem para nós: com cirurgia concentrada no cão, sua impetuosidade afetava menos a sua mulher e a nós. Passava horas brincando com o cachorro sem se entediar e fazia longos passeios com ele. E Deus sabe que a sra. Surgis não era ciumenta. Seu marido encontrou um novo ídolo para adorar, o que foi um enorme rompimento para ela.

Júpiter cresceu e se desenvolveu. Preencheu as dobras de seu pelo com carne rija e firme, seu peito se alargou, as ancas tornaram-se fortes e as patas, imensas. Admito que, com seu pelo sedoso e cuidadosamente escovado, era um belo animal. De início, ainda tinha boa índole. Mas isso logo mudou – primeiro sem que percebêssemos, e depois de forma cada vez mais visível. Era inteligente e logo descobriu que seu senhor – ou melhor, seu escravo – idolatrava-o e fazia vista grossa para todas as suas travessuras. O resultado foi alcançado.

Ele parou de obedecer – não só isso: tornou-se tirânico. Tudo na casa preciso girar em torno dele. Quando chegava visita e ele era deixado do lado de fora, na esperança de que Surgis viesse correndo atirava-se com tal ímpeto contra a porta que ela rangia. Então aparecia na sala, sem se dignar sequer a olhar para as visitas, e saltava no sofá, o móvel mais valioso, onde se esparramava, distraído e entediado. Sempre demorava para atender os chamados de Surgis. Somente dava o ar de sua graça se o dono o pressionasse e suplicasse. E, embora durante o dia se comportasse como um cão normal, cruzando campos e relvas em grande velocidade, caçando galinhas, cavando buracos e explorando a área, seu comportamento se alterava radicalmente quando Surgis voltava da cidade à noite.

Preguiçoso, deitado no sofá, sem tomar o menor conhecimento do dono, que se precipitava sobre ele com um afetivo “Olá, velho Júpiter”, e nem sequer abandonou o rabo em resposta à saudação.

Ele era um tirano cada vez mais consciente de seu poder. Foi quando descobri uma nova brincadeira. Algumas mulheres pobres de uma vila nas vizinhanças costumavam levar cestos de roupa para lavar no canal. Júpiter sabia muito bem os dias em que vinham. Esgueirava-se para perto deles, apoderava-se de seus cestos num momento propício e com um golpe de sua cabeça poderosa lançava-os n'água. Em seguida, desaparecia com a boca entreaberta, como se estivesse rindo. Seus pequenos olhos cor-de-rosa brilhavam, parecendo zombar das lavadeiras que corriam atrás dele e tentavam pegá-lo. E mesmo quando consegui não adiantava nada, pois ele tinha a força de um cavalo. Eles acabaram indo lavar sua roupa no outro ponto do canal, e Júpiter perdeu um pouco de seu poder.

Assim se passou um ano. Júpiter estava totalmente desenvolvido. Era agora um animal crescido, insolente e arrogante que só dominava bem uma arte: a de espezinhar seu senhor, que a ele se submetia como um escravo.

Então chegou o dia em que tudo mudaria.

Havia algum tempo que precisávamos da impressão daquela sra. Surgis evitou qualquer conversa conosco. Essa estranha relutância chamou nossa atenção, e um belo dia Betty decidiu tentar descobrir o motivo.

– Judith – disse ela –, sou bem mais velha que você e não tenho razão alguma para acanhamento. Por isso, resolva quebrar o gelo. Se fizemos algo que a ofendeu, peço que diga o que foi.

Mrs. Surgis gaguejou um pouco, hesitou um momento e em seguida nos confidenciou uma grande novidade. Depois de nove anos de casada, já não acreditava mais que poderia ser mãe, mas agora estava grávida. Estivera no médico e ele confirmou suas suspeitas. Sua alegria era imensa, mas de alguma maneira não conseguia falar com o marido a esse respeito. Ela tem um pouco de virulência por causa de sua ocorrência. Nós sabíamos como ele era. Por isso, pensara em nos pedir que falássemos com ele para preparar o seu espírito. Naturalmente, ficamos encantados. Deixei uma mensagem para Surgis, pedindo que nos procure tão logo voltasse da cidade. Às seis e meia em ponto ele chegou, com toda a sua vitalidade.

– Roger – eu disse –, posso lhe fazer uma pergunta, de brincadeira? O que você pediu se tivesse direito a um desejo?

Meio sério, meio rindo, Surgis balançou a cabeça.

– Quer saber o que eu pediria? Por quê?

– Certamente devo ter algum sonho!

– Mas o que é isso?

– É sério. Qual seria seu maior desejo? Ele sorriu.

– Ai de mim se eu souber o que quero… Tenho tudo de que preciso: minha mulher, minha casa, minha profissão e minha…

Ele queria dizer “meu cachorro”, mas no último momento mudou de ideia, pois sabia bem o que achávamos aquele animal diabólico.

– Bem, e o que será que a sra. Surgis mais gostaria de ter? Estupefato, ele me olhou.

– O que ela poderia querer?

– Talvez algo mais que um cachorro.

Por fim, ele compreendeu. Arregalou os olhos de tal maneira que se via apenas a parte branca. Ergueu-se de um salto e atravessou o gramado correndo, pulou a cerca e só escutamos a porta batendo.

Rimos. Sua ocorrência não nos surpreendeu.

Mas houve quem ficou surpreso: alguém que estava deitado no sofá, de olhos fechados, esperando a reverência cotidiana que, na sua opinião, o seu dono lhe desviava. Alguém que esperava que o homem entrasse na sala, se ajoelhasse ao seu lado e o acariciasse – e que esperava poder ignorar totalmente essa veneração.

Mas o que era aquilo? Sem uma palavra sequer, o homem correu por ele até o quarto, e ele escutou um falatório interminável, risadas e choro. Ninguém deu atenção a ele, Júpiter, o tirano, o maravilhoso e orgulhoso Júpiter.

Passou-se uma hora. A empregada trouxe uma tigela com a ração. Ele está desprezou. Chegou até a rosnar para a mulher. Que todos vissem que ele não admitia ser tratado daquela maneira! Mas naquela noite ninguém parecia notar que ele desprezara sua comida. Surgis falava incessantemente com a esposa, inundando-a com seus conselhos preocupados e com seu carinho. Júpiter estava orgulhoso demais para forçar a atenção do dono para si. Enroscado em seu canto, ficou esperando.

Mas esperou em vão.

Na manhã seguinte, Surgis voltou a passar correndo por ele, sem sequer lhe lançar um olhar. A sensação amarga ele teria à mesma noite, e na manhã e na noite seguinte – dia após dia.

O animal era inteligente, mas aquilo superava sua capacidade de compreensão. Ficou nervoso e irritado. Não correria atrás do dono, jamais! Surgis que voltasse ao normal e esse o primeiro passo para aproximar-se dele.

Na terceira semana, começou um mancar. Nas operações normais, a cirurgia teria sido chamada por um veterinário, mas dessa vez nem ele nem qualquer outra pessoa da casa reparou aquele comportamento, e assim ele desistiu, cheio de amargura. Alguns dias mais tarde, tentei uma greve de fome. Era suficientemente inteligente para lançar mão também esses expedientes sutis. Mas ninguém ligou. Durante dois dias, ele escolheu qualquer alimento. Se ninguém se preocupasse, morreria de inanição. Mas no final sua fome foi maior do que a força de vontade. Sim, eu disse força de vontade, pois eu conhecia aquele cachorro – e ele voltou a comer, mas certamente sem a menor alegria.

Emagreceu. E começou a se mover de maneira diferente. Em vez de correr por aí, indômito e insolente, agora se esgueirava pelos cantos. Seu pelo, antes cuidadosamente escovado, perdeu o brilho sedoso. Seus olhos cor-de-rosa tinham um ar desorientado. Quando o encontramos, baixamos a cabeça e passamos direto por nós, para que não pudéssemos ver seus olhos.

Sua greve de fome, mancar, todos os seus truques foram inúteis. Algo mudaria naquela casa que ele dominaria. O que diferencia a mente animal da humana é que a primeira se limita ao passado e ao presente; o futuro, para ela, é uma dimensão desconhecida. E assim Júpiter foi condenado a sentir, com medo e desespero, que algo invisível crescia na casa e se preparava, algo que era contra ele: um ladrão vil e diabólico.

Meses depois, ele estava no fim de suas forças – pelo menos parecia o fim. Se fosse uma pessoa, com certeza teria ocorrido suicídio. Sumiu durante três dias inteiros. Na noite do terceiro dia, voltou, sujo, faminto e estropiado, parecendo que saiu de uma luta. Em sua fúria irada e cega deve ter atacado todo e qualquer cachorro que tivesse cruzado seu caminho. Mas voltou como um homem que atravessara as profundezas. Quem sabe algo havia mudado… Porém novas humilhações o esperavam. Ninguém o recebeu, ninguém se alegrou com o seu retorno. A empregada sequer o deixou entrar.

Foi uma decisão acertada, pois o parto da sra. Surgis foi por acontecer e a casa estava repleta de gente ocupadíssima. Surgis quis que o bebê nascesse em casa, e como o hospital mais próximo estava superlotado, o médico concordou. Assim, todos estavam reunidos: o médico, uma enfermeira, a mãe da sra. Surgis, minha mulher e eu.

E naturalmente Roger Surgis. Trêmulo de nervosismo e com as faces ardentes, ele estava atravancando o caminho de todos.

E diante da porta havia mais alguém à espera: Júpiter!

O que conta ali dentro? Ele escutava vozes, o ruído de água, o tilintar de vidro e barulho de metal. Alguma coisa se passou ali que ele não entendeu, mas instintivamente ele sabia que o responsável era aquele ser misterioso que causava sua derrota e sua humilhação – aquele inimigo invisível, infame, covarde.

No momento em que a porta se abrisse, aquele apareceria – e não teria que escapar.

Seus poderosos músculos se retesaram. Ele se agachou e esperou.

Dentro de casa, nem imaginávamos nada. Betty e eu fomos incumbidos de reter Surgis na sala. Dada a sua motivação, foi uma missão torturante para nós. Mas finalmente veio a boa-nova: era uma menina. E logo a porta do quarto se abriu e a enfermeira apareceu com uma pequena trouxa. O médico está abalado, sorridente.

– Bem, Sr. Surgis – disse –, venha e proteja sua filha um momento, e nos conte como se sente como pai.

Trêmulo, o homem estendeu os braços e a enfermeira lhe entregou o bebê, que ele admirou com os olhos marejados.

O médico calçou as luvas para sair.

– Tudo em ordem – disse. – Não precisa se preocupar. Eu me vou, pois. Depois de se despedir de todos, abriu a porta de entrada.

Naquele instante algo passou voando por entre suas pernas, e foi que Júpiter estava no meio da sala.

Encarou Surgis. Seus pequenos olhos cor-de-rosa estavam estabelecidos na trouxa que seu dono segurava, e finalmente ele compreendeu – tenho certeza disso! – que aquele pacotinho branco era o ser misterioso.

Atacou, latindo furioso.

E o ataque foi tão súbito e violento que o homem pesado e largo cambaleou sob o impacto e caiu contra a parede. No último instante, ainda tentei instintivamente salvar a criança, erguendo o travesseiro com o bebê. Betty estava ao seu lado. Agarrou a trouxinha e passou-a para a enfermeira, que estava na porta do quarto. Em seguida, empurrou a enfermeira para o quarto e bateu a porta com toda a força.

Enquanto isso, Surgis recupera o equilíbrio. Acometido pela mesma fúria do cachorro, atirou-se sobre Júpiter. Cadeiras e mesas voaram. Finalmente, o médico e eu voltamos à razão. Batemos em Júpiter com tudo o que nos caiu nas mãos, até o animal ficar inconsciente. Então, amarramos suas patas e arrastamos para o gramado. Surgis cambaleava como um bêbado. Seu sobretudo estava rasgado e só então vimos – ele próprio ainda não notara – que seu braço direito estava bastante ensanguentado. O doutor o levou para o outro quarto, tirou sua roupa e tratou das feridas causadas pelos dentes de Júpiter. Só então Surgis caiu no sono, exausto física e psiquicamente.

E o que deve acontecer com Júpiter?

– Vamos dar-lhe um tiro de misericórdia – sugeri ao médico, que foi contra, dizendo que seria melhor observá-lo por algum tempo, a fim de verificar se era hidrófobo, pois nesse caso a cirurgia teria que ser solicitada a um tratamento especial.

Assim, Júpiter foi levado embora no carro do médico, meio inconsciente, com as patas amarradas.

Mais tarde descobrimos que os exames de Pasteur tinham sido negativos e que Júpiter se comportava dentro da normalidade absoluta. Surgis, seu dono, que antes o idolatrara, naturalmente nunca mais quis vê-lo. Por acaso, o médico descobriu que um comerciante de ferro procurava um cão de guarda. Ofereceu-lhe Júpiter, e ele aceitou.

Assim, o cachorro desapareceu por algum tempo do nosso horizonte. Não pensamos mais nele, nem mesmo Surgis. Pois ele agora tinha um novo ídolo, infinitamente mais precioso. E com ele esbanjava toda a sua paixão e o seu carinho. A cada dia, cada hora, cada minuto ele descobriu novos deleites no seu lindo bebezinho. Mal aguentava despedir-se dele da manhã e ir para o escritório. De lá, ligava durante o dia para ouvir como estava o bebê. E toda noite quando voltava trazia um chocalho, um mordedor ou outros brinquedos. Sua era idolatria total.

Todos nós esquecemos de Júpiter – ele não passou de um pesadelo –, até, certa noite, eu serei lembrado dele por um acaso.

Por algum motivo, eu não consigo dormir. Finalmente, levantei-me, vesti o roupão e fui à cozinha para esquentar um pouco de leite. Quando voltei e passei pela sala, olhei pela janela e vi como estava bonita a noite. A lua estava escondida atrás de um tênue véu de nuvens prateadas, e toda vez que aparecia, pura e clara, o jardim inteiro brilhava como se estivesse coberto de neve. Tudo estava em silêncio; acho que escutaria se uma única folha se movesse.

Assustei-me ao notar de repente uma sombra se incomoda sem ruído algum naquele silêncio absoluto na cerca entre os nossos dois jardins.

Era Júpiter.

Rastejando, a barriga quase tocando o chão, avançava devagar. Parecia que viera para investigar e espionar o terreno, mas dessa vez sem aquela segurança arrogante e rápida que o caracterizamos antes. Instintivamente, me inclinei na janela para observá-lo melhor. Minha Copenhaga bateu num vaso de plantas, que caiu no chão com grande ruído. Com um salto silencioso, o imenso cão escondido no escuro. O jardim voltou a ficar à luz do luar, brilhante e solitário.

Fechei a janela, trancando-a.

No dia seguinte, tudo me pareceu inacreditável. Afinal, não passou de um cachorro, não era um ser pensante, nem mesmo um lobo, um tigre ou uma fera. Assim, não mencionei nada para Surgis. No entanto, alguns dias mais tarde, enquanto trabalhava no jardim, vi uma empregada deles pendurando a roupinha do neném no varal e perguntando se ela vira Júpiter nos últimos tempos.

Ela respondeu que não queria contar nada para a sra. Surgis para não deixá-la preocupada, mas há cerca de uma semana ela vira algo inusitado. Quando eu estava passando com o bebê, um carro passou por eles. No momento em que o carro emparelhou com elas, ouviu um latido nervoso. Olhando para cima vi um grande cachorro branco sentado ao lado do motorista. Era um carro de entregas com a inscrição “Artigos de ferro”.

Devia ser Júpiter. E havia apenas uma explicação: ele vira e pondera a babá, o carrinho e o bebê e latira exprimindo todo o seu ódio. Então fiquei preocupado. O cachorro não esquece nada. Eu o virei casualmente uma noite, mas quantas noites antes ou depois ele ainda se esgueirara por perto da casa?

– Se voltar a vê-lo, conte logo para mr. Surgis ou para mim, se ele não estiver em casa – disse eu para a babá. – Na próxima vez em que eu estiver na cidade, direi ao ferragista que não deixe o cachorro solto.

Mas eu fiz a seguinte pergunta: era possível que um cachorro se lembrasse de maneira tão vívida e dolorosa? Entre humanos, a rivalidade é um sentimento natural, mas aquele era um animal normal, sem capacidades intelectuais, que há meses já tinha um dono novo e vivia em outro ambiente. Seria possível um cão ter tal memória?

Isso não aconteceria com qualquer cachorro doméstico normal – o bom e velho Rover, Jack ou Sport. Mas Júpiter não era um cachorro comum. Em primeiro lugar, tinha sido mimado ao extremo. Havia sido coberto de atenção e veneração, e de um só golpe fora privado de tudo. Aquele cachorro era inteligente, de uma inteligência insidiosa, amarga. Eu odiava, mas só o fato de ter tais sentimentos por ele, como jamais imaginaria ter por um animal, revelava que eu acreditava em sua inteligência.

O que eu deveria fazer? Informar a polícia sobre meus temores e pedir que impeçam a circulação do cachorro? Talvez devesse ter feito isso. Mas a ideia me pareceu muito absurda e até imaginei os policiais rindo de mim.

– O que? Quem é o criminoso? Um cachorro? Ou seu dono? E pensei também no comerciante de artigos de ferro:

– Por quê? O que aconteceu? É um cachorro maravilhoso, um excelente cão de guarda, além disso tem pedigree. Eu o ganho de presente e quero ficar com ele.

Assim, nada aconteceu. Mas continuei preocupado, dando tratos à bola, sem fazer nada. E assim se passaram os dias até aquele domingo fatídico e inesquecível.

Era uma belíssima tarde e nós íamos visitar os Surgis. Estávamos sentados conversando no terraço inferior, de onde descia um gramado num declive suave até o canal. Perto de nós e no mesmo plano estava o carrinho de bebê, e não preciso mencionar que Surgis interrompia sempre a nossa conversa para ir até o bebê e falar com ele, rir e brincar.

Depois de algum tempo, sra. Surgis nos chamaram para a casa, que ficaram uns cem pés acima do terraço interior:

– Venham tomar o chá logo, senão as torradas esfriam!

Nós subimos e surgimos nos efeitos alguns instantes depois. Já estava sentado à mesa quando ele entrou. Mrs. Surgis serviu a todos e nós conversamos sobre o tempo, as rosas e outras coisas, até Surgis, como sempre, falar do seu assunto preferido.

– O bebê está dormindo. Sabem, acho maravilhoso, ela mal nos dá trabalho.

Jamais nos acorda à noite, nunca chora…

– Ela não está sol? – Disse a Sra. Surgis.

– Um pouco, mas é bom para ela. Pensei em trazê-la, mas achei que poderia despertar com o movimento.

– Você deixou no terraço? – quis, na suposição de que ele teria empurrado o carrinho para cima.

– Sim. Ela estava dormindo, e eu pensei…

Tive um pressentimento ruim. Ele viu, fez menção de se erguer e olhou para mim. Era como se o seu amor fosse rendensurável e devotado pela filha o tivesse habilitado a ler o pensamento que nem terminara de pensar.

– Ah, Roger, agora sente e tome o seu chá – disse a sra. Surgis. – Você realmente está mais preocupado com aquela avó!

Ela sorriu. Ele, não. Olhei para ele, ele para mim, e embora eu tentesse espantar o pensamento, não consegui. Ele não se enviou mais. Alguma coisa, talvez um leve ruído bem ao longe, o fez ir até a porta. Então ouvimos o seu grito terrível e desesperado.

Ele não falou alto, mas acho que foi o pior ruído que jamais ouviu – abafado, lamurioso, como o último som de um moribundo.

– Pelo amor de Deus, o que aconteceu? – Berrei.

Era como se Surgis tivesse ficado totalmente petrificado com a cena terrível que vira. Empurramos nossas cadeiras e corremos em sua direção. Esse movimento o tirou de seu imobilismo. Ele abriu a porta e saiu correndo pela varanda.

O carrinho de bebê não estava mais no terraço.

Foi quando o vi flutuando no canal. Rolara morro abaixo até a água. Como por milagre, ainda estava em pé, mas enquanto olhávamos e ainda tentávamos compreender o inacreditável, ele tombou e afundou em poucos segundos.

E Júpiter estava ali.

Júpiter, o imenso animal branco que, quando ainda dominava a casa, divertia-se descendo até o canal e jogando os cestos de roupa dentro d'água, empurrando-os com seus poderosos músculos.

Ali estava ele, assistiu como o carrinho afundava lentamente, um vencedor que, no final, triunfava sobre todos.

O carrinho virou para o lado. Vimos panos brancos, bracinhos e perninhas se agitando e a criança caindo na água.

Então eu vi como os poderosos músculos do animal se retesaram. Vi como ele se lançou no canal. Só precisou nadar um pouco. Seus poderosos maxilares se abriram e ele agarrou a criança. Mas foi uma mordida suave. Júpiter voltou nadando e deu o bebê na margem. E Surgis já chegará. Ele abraçou a criança e abriu contra si. Viu que respirava e estava incólume. O cachorro estava lá, olhando para ambos: o senhor que o venerara e o inimigo que lhe roubara a veneração, e que agora era amorosamente abraçado pelo seu senhor – o inimigo que ele, Júpiter, voltara a entregar ao seu senhor.

Surgis se ajoelhou. Os músculos do seu rosto se contraíram. De joelhos, abraçava a criança, mas olhava para o cão. E eu o escutei dizendo:

– Júpiter.

A mão estava cortada para acariciar o cão. O cachorro ficou imóvel.

– Vem, meu velho!

Júpiter se virou e saiu andando, e Surgis ficou para trás com o bebê. Eu sei quem foi o vencedor.
Stefan Zweig

quarta-feira, abril 15

Floresta encantada

 


As águas do mundo

Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.


São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha.

O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e abre caminho na gelidez que, líquida, se põe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé, fertilizada.

Agora o frio se transforma em frígido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes, bons.

E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.

Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas – ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas – mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.

E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.
Clarice Lispector, "Todos os contos"

A paixão da leitura

Nesta época tardia da história do mundo, encontram-se livros por toda parte da casa – no quarto das crianças, na sala de estar, na sala de jantar, na cozinha. E, em algumas casas, eles aumentaram tanto que têm que ser acomodados num aposento exclusivo. Romances, poemas, histórias, memórias, livros caros em couro, livros baratos em brochura – detemo-nos diante deles e, num assombro passageiro, perguntamos: que prazer extraímos ou que proveito tiramos ao percorrer com os olhos essas inumeráveis linhas em letra de imprensa?

Ler é uma arte muito complexa – é o que nos revelará até mesmo o exame mais apressado de nossas sensações como leitores. E nossas obrigações como leitores são muitas e variadas. Mas talvez se possa dizer que nossa primeira obrigação para com um livro é que devemos lê-lo pela primeira vez como se o tivéssemos escrevendo. Para começar, devemos nos sentar no banco dos réus e não na poltrona do juiz. Devemos, nesse ato de criação, não importa se bom ou ruim, ser cúmplices do escritor. Pois cada um desses livros, não importando o gênero ou a qualidade, representa um esforço para criar algo. E nossa primeira obrigação como leitores é tentar entender o que o escritor está fazendo, desde a primeira palavra com que compõe a primeira frase até a última com que termina o livro. Não devemos impor-lhe nosso plano, não devemos tentar fazer com que sua vontade se conforme à nossa. Devemos deixar que Defoe seja Defoe e que Jane Austen seja Jane Austen tão livremente quanto deixamos que o tigre tenha seu pelo e a tartaruga sua carapaça. E isso é muito difícil. Pois uma das qualidades da grandeza consiste em deixar que o céu e a terra e a natureza se conformem à visão que lhes é própria.

Os grandes escritores exigem, assim, que façamos frequentes e heroicos esforços para lê-los corretamente. Eles nos vergam, eles nos quebram. Ir de Defoe a Jane Austen, de Hardy a Peacock, de Trollope a Meredith, de Richardson a Rudyard Kipling é ser torcido e distorcido, é ser jogado violentamente para um lado e para o outro. E isso vale também para os escritores menores. Cada um deles é singular; cada um tem uma visão, uma experiência, uma característica própria que pode entrar em conflito com a nossa, mas que devemos permitir que se expresse plenamente se quisermos fazer-lhe justiça. E os escritores que mais têm para nos oferecer são, muitas vezes, os que mais violentam os nossos preconceitos, particularmente se são nossos contemporâneos, de maneira que precisamos de toda a imaginação e compreensão se quisermos tirar o máximo proveito daquilo que eles podem nos oferecer.

Mas ler, como sugerimos, é um ato complexo. Não consiste simplesmente em estar em sintonia e compreender. Consiste, também, em criticar e em julgar. O leitor deve deixar o banco dos réus e se acomodar na poltrona do juiz. Deve deixar de ser amigo; deve se tornar juiz. E este segundo processo, que podemos chamar de processo pós-leitura, pois é, frequentemente, realizado sem termos o livro à nossa frente, proporciona um prazer ainda mais sólido do que o obtido quando estamos virando as páginas. Durante a leitura, novas impressões estão sempre anulando ou completando as velhas. Deleite, raiva, enfado, riso se alternam, enquanto lemos sem parar. O julgamento fica em suspenso, pois não podemos saber o que está por vir. Mas agora o livro acabou. Tomou uma forma definitiva. E o livro como um todo é diferente do livro há pouco absorvido em variadas e diferentes partes. Ele tem uma forma, ele tem um ser. E essa forma, esse ser, pode ser retido na mente e comparado com a forma de outros livros e se lhe pode atribuir o seu próprio tamanho e insignificância em comparação com os deles.

Mas se esse processo de julgar e decidir está cheio de prazer, está também cheio de dificuldades. Não se pode esperar muita ajuda do exterior. Críticos e resenhas críticas abundam, mas ler as opiniões de outra mente não ajuda muito quando a nossa ainda está fervendo de um livro que acabamos de ler. É só depois que formamos nossa opinião que as opiniões dos outros se mostram mais esclarecedoras. É quando podemos defender nosso próprio julgamento que obtemos o máximo do julgamento dos grandes críticos – os Johnson, os Dryden e os Arnold. Para que possamos tomar nossa decisão, a melhor forma de ajudarmos a nós mesmos é, primeiro, compreender tão completa e exatamente quanto possível a impressão que o livro deixou e, depois, comparar essa impressão com as impressões que formulamos no passado. Elas estão ali, penduradas no armário da mente – as formas dos livros que já lemos, como roupas que tiramos e penduramos à espera da estação adequada. Assim, se acabamos de ler pela primeira vez, digamos, Clarissa Harlowe, nós o pegamos e deixamos que se mostre contra a forma que continua em nossa mente desde que lemos Ana Karenina. Colocamos os dois lado a lado e, imediatamente, as silhuetas dos dois livros aparecem recortadas uma contra a outra tal como o canto de uma casa (para mudar de figura) aparece recortado contra a plenitude da lua cheia. Contrastamos as características salientes de Richardson com as de Tolstói. Contrastamos a sua obliquidade e verbosidade com a brevidade e a falta de rodeios de Tolstói. Perguntamo-nos por que cada escritor escolheu um ângulo tão diferente de abordagem. Comparamos a emoção que sentimos em diferentes crises de seus livros. Especulamos sobre as diferenças entre o século dezoito na Inglaterra e o século dezenove na Rússia – mas as questões que se insinuam assim que juntamos os livros não têm fim. Assim, por etapas, fazendo perguntas e respondendo-as, descobrimos que decidimos que o livro que acabamos de ler é deste tipo ou do outro, que tem este ou aquele nível de mérito, toma o seu lugar neste ou naquele ponto na literatura como um todo. E se somos bons leitores julgamos, assim, não apenas os clássicos e as obras-primas dos mortos, mas prestamos aos escritores vivos o cumprimento de compará-los como devem ser comparados: com o padrão dos grandes livros do passado.

Assim, pois, quando os moralistas nos perguntam o que ganhamos quando nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer livros bons ao mundo e a tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente. Na verdade, o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo. Quando o dia do juízo final chegar e todos os segredos forem revelados, não devemos ficar surpresos ao saber que a razão pela qual evoluímos do macaco ao homem, e deixamos nossas cavernas e depusemos nossos arcos e flechas e sentamos ao redor do fogo e conversamos e demos aos pobres e ajudamos os doentes, a razão pela qual construímos, partindo da aridez do deserto e dos emaranhados da floresta, abrigos e sociedades, é simplesmente esta: nós desenvolvemos a paixão da leitura.
Virginia Woolf, "O sol e o peixe"

Para a fadiga dos homens

Em todos os perdidos portos do mundo,
sob o crepúsculo
balouçam barcos mansamente.
A brisa é uma carícia lenta
nos mastros e nas velas.
A voz da água é um segredo baixinho.
É preciso não acordar os homens.
É preciso que se encha o mundo de doçura infinita,
de infinito silêncio,
porque os homens estão fatigados, fatigados...
Tasso da Silveira

Embargo

Acordou com a sensação aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse a voltar a dormir já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém o ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com um lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro d seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a idéia do casulo morno q era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava, e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono. O olho cinzento da vidraça foi-se azulando aos poucos, fitando fixo as duas cabeças pousadas na cama, como restos aquecidos de uma mudança para outra casa ou para outro mundo. Quando o despertador tocou, passadas duas horas, o quarto estava claro.

Disse à mulher que não se levantasse, que aproveitasse um pouco mais da manhã, e escorregou para o ar frio, para a humidade indefinível das paredes, dos puxadores das portas, das toalhas da casa de banho. Fumou o primeiro cigarro enquanto se barbeava e o segundo com o café, que entretanto aquecera. Tossiu como todas as manhãs. Depois vestiu-se às apalpadelas, sem acender a luz do quarto. Na queria acordar a mulher. Um cheiro fresco de água-de-colônia avivou a penumbra, e isso fez que a mulher suspirasse de prazer quando o marido debruçou-se na cama para lhe beijar os olhos fechados. E ele sussurrou que não viria almoçar a casa.

Fechou a porta e desceu rapidamente a escada. O prédio parecia mais silencioso que de costume. Talvez do nevoeiro, pensou. Reparara que o nevoeiro era assim como uma campânula que abafava os sons e os transformava, dissolvendo-os, fazendo deles o que fazia com as imagens. Estaria nevoeiro. No último lanço da escada já poderia ver a rua e saber se acertara. Afinal havia uma luz ainda cinzenta, mas dura e rebrilhante, de quartzo. Na berma do passeio, um grande rato morto. E enquanto, parado à porta, acendia o terceiro cigarro, passou um garoto embaçado, de gordo, que cuspiu em cima do animal, como lhe tinham ensinado e sempre via fazer.

O automóvel estava cinco prédios abaixo. Grande sorte ter podido arruma-lo ali. Ganhara a superstição de que o perigo de lhe roubarem seria tanto maior quanto mais longe o tivesse deixado à noite. Sem nunca o ter dito em voz alta, estava convencido de que não voltaria a ver o carro se o deixasse em qualquer extremo da cidade. Ali, tão perto, tinha confiança. O automóvel apareceu-lhe coberto de gotículas, os vidros tapados de humidade. Se não fosse o frio tanto, poderia dizer-se que transpirava como um corpo vivo. Olhou os pneus segundo o deu hábito, verificou de passagem que a antena não fora partida e abriu a porta. O interior do carro estava gelado. Com os vidros embaciados, era uma caverna translúcida afundada sob um dilúvio de água. Pensou que teria sido melhor deixar o carro em sítio onde pudesse faze-lo descair para pegar mais facilmente. Ligou a ignição, e no mesmo instante o motor roncou alto, com um arfar profundo e impaciente. Sorriu, satisfeito da surpresa. O dia começava bem.

Rua acima, o automóvel arrancou, raspando o asfalto como um animal de cascos, triturando o lixo espalhado. O conta-quilómetros deu um salto repentino para 90, velocidade de suicídio na rua estreita e ladeada de carros parados. Que seria isto? Retirou o pé de acelerador, inquieto. Por pouco diria que lhe teriam trocado o motor por outro muito mais potente. Pisou à cautela o acelerador dominou o carro. Nada de importância. Às vezes não se controla bem o balanço do pé. Basta que o tacão do sapato não assente no lugar habitual para que se altere o movimento e a pressão. É simples.

Distraído com o incidente, ainda não olhara o marcador da gasolina. Ter-lhe-iam roubado durante a noite, como já não era a primeira vez? Não. O ponteiro indicava precisamente meio depósito. Parou num sinal vermelho, sentindo o carro vibrante e tenso nas suas mãos. Curioso. Nunca dera por essa espécie de frémito animal que percorria em ondas a chapas da carroçaria e lhe fazia estremecer o ventre. Ao sinal verde, o automóvel pareceu serpentear, alongar-se como um fluido, para ultrapassar os que lhe estavam à frente. Curioso. Mas, na verdade, sempre se considerara muito melhor condutor do que o comum. Questão de boa disposição, esta agilidade dos reflexos hoje, talvez excepcional. Meio depósito. Se encontrasse um posto de abastecimento a funcionar, aproveitaria. Pelo seguro, com todas as voltas que tinha que dar antes de ir para o escritório, melhor de mais que de menos. Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, filas de dezenas e dezenas de carros. Meio depósito. Outros andam a essa hora com muito menos, mas se for possível atestar. O carro fez uma curva balançada, e, no mesmo movimento, conhecida, talvez tivesse sorte. Como um perdigueiro que acode ao cheiro, o carro insinuou-se por entre o trânsito, voltou duas esquinas e ocupar espaço na fila que esperava. Boa lembrança.

Olho o relógio. Deviam estar à frente uns vinte carros. Nada de exagerado. Mas pensou que seria melhor ir ao escritório e deixar as voltas para a tarde, já cheio o depósito, sem preocupações. Baixou o vidro para chamar um vendedor de jornais que passava. O tempo arrefecera muito. Mas ali, dentro do automóvel, de jornal aberto sobre o volante, fumando enquanto esperava, havia um calor agradável, como o dos lençóis. Fez mover os músculos das costas, com uma torção de gato voluptuoso, ao lembrar-se da mulher ainda enroscada na cama àquela hora, e recostou-se melhor no assento. O jornal não prometia nada de bom. O embargo mantinha-se. Um Natal escuro e frio, dizia um dos títulos. Mas ele ainda dispunha de meio depósito e ao tardaria a té-lo cheio. O automóvel da frente avançou um pouco. Bem.

Hora e meia mais tarde estava a atestar, e três minutos depois arrancava. Um pouco preocupado porque o empregado lhe dissera, sem qualquer expressão particular na voz, de tão repetida a informação, que não haveria ali gasolina antes de quinze dias. No banco, ao lado, o jornal anunciava restrições rigorosas. Enfim, do mal o menos, o depósito estava cheio. Que faria? Ir directamente ao escritório, ou passar primeiro por casa de cliente, a ver se apanharia a encomenda? Escolheu o cliente. Era preferível justificar o atraso com a visita, a ter de dizer que passara hora e meia na fila da gasolina quando lhe restava meio depósito. O carro estava óptimo. Nunca se sentira tão bem a conduzi-lo. Ligou o rádio e apanhou um noticiário. Notícias cada vez piores. Estes árabes. Este estúpido embargo.

De repente, o carro deu uma guinada e descaiu para a rua à direita, até parar numa fila de automóveis mais pequena do que a primeira. O que fora aquilo? Tinha o depósito cheio, sim, praticamente cheio, porque diabo de lembrança. Manejou a alavanca das velocidades para meter a marcha atrás, mas caixa não lhe obedeceu. Tentou forçar, mas as engrenagens pareciam bloqueadas. Que disparate. Agora avaria. O automóvel da frente avançou. Receosamente, a contar com o pior, engatou a primeira. Tudo perfeito. Suspirou de alívio. Mas como estaria a marcha atrás quando tornasse a precisar dela?

Cerca de meia hora depois metia meio litro de gasolina no depósito, sentindo-se ridículo sob o olhar desdenhoso do empregado da bomba. Deu uma gorjeta absurdamente alta e arrancou num grande alarido de pneus e acelerações. Que diabo de ideia. Agora ao cliente, ou será uma manhã perdida. O carro estava melhor do que nunca. Respondia aos seus movimentos como se fosse um prolongamento mecânico do seu próprio corpo. Mas o caso da marcha atrás dava que pensar. E eis que teve que pensar mesmo. Uma grande camioneta avariada tapava todo o leito da rua. Não podia contorná-la, não tivera tempo, estava colado a ela. Outra vez a medo, manejou a alavanca, e a marcha atrás engrenou com um ruído suave de sucção. Não se lembrava de a caixa de velocidades ter reagido dessa maneira antes. Rodou o volante para esquerda, acelerou, e de um só arranco o automóvel subiu o passeio, rente aa camioneta, e saiu do outro lado, solto, com uma agilidade de animal. O diabo do carro tinha sete fôlegos. Talvez que por causa de toda essa confusão do embargo, tudo em pânico, os serviços desorganizados tiveram feito meter nas bombas gasolina de muito maior potência. Teria a sua graça.

Olhou o relógio. Valeria ir ao cliente? Por sorte apanharia o estabelecimento ainda aberto. Se o trânsito ajudasse, sim, se o trânsito ajudasse, teria tempo. Mas o trânsito não ajudou. Tempo do Natal, mesmo faltando a gasolina, toda a gente vem para a rua, a empatar quem precisa de trabalhar. E ao ver uma transversal descongestionada, desistiu de ir ao cliente. Melhor seria explicar qualquer coisa no escritório o e deixar para tarde. Com tantas hesitações desviara-se muito do centro. Gasolina queimada sem proveito. Enfim, o depósito estava cheio. Num largo ao fundo da rua por onde descia viu outra fila de automóveis, à espera de vez. Sorriu de gozo e acelerou, decidido a passar roncando contra os entanguidos automobilistas que esperavam. Mas o carro, a vinte metros, obliquou para esquerda, por si mesmo, e foi parar, suavemente, como se suspirasse, no fim da fila. Que coisa fora aquela, se não decidira meter mais gasolina? Que coisa era, se tinha o depósito cheio? Ficou a olhar os diversos mostradores, a apalpar o volante custando-lhe a reconhecer o carro, e nessa sucessão de gestos puxou o retrovisor e olhou-se no espelho. Viu que estava perplexo e considerou que tinha razão. Outra vez pelo retrovisor distinguiu um automóvel que descia a rua, com todo o ar de vir colocar-se na fila. Preocupado com ideia de ficar ali imobilizado, quando tinha o depósito cheio, manejou rapidamente a alavanca para a marcha atrás. O carro resistiu e alavanca fugiu-lhe das mãos. No segundo imediato achou-se apertado entre seus dois vizinhos. Diabo. Que teria o carro? Precisava de leva-lo à oficina. Uma marcha atrás que funcionava ora sim ora não, é um perigo.

Tinha passado mais de vinte minutos quando fez avançar o carro até à bomba. Viu chegar-se o empregado e a voz apertou-se-lhe ao pedir que atesta-se o depósito. No mesmo instante, fez uma tentativa para fugir à vergonha, meteu uma rápida primeira e arrancou. Em vão. O carro não se mexeu. O homem da bomba olhou desconfiado, abriu o depósito, e, passados poucos segundo, veio pedir o dinheiro de um litro, que guardou resmungando. No instante logo, a primeira entrava sem qualquer dificuldade e o carro avançava, elástico, respirando pausadamente. Alguma coisa não estaria bem no automóvel, nas mudanças, no motor, em qualquer sítio, diabo levasse. Ou estaria ele a perder a suas qualidades de condutor? Ou estria doente? Dormira ainda assim bem, não tinha mais preocupações da vida que em todos os outros dias dela. O melhor seria desistir por agora de cliente, não pensar neles durante o resto do dia e ficar no escritório. Sentia-se inquieto. Em redor de si, as estruturas do caro vibravam rapidamente, não à superfície, mas no interior dos aços, e o motor trabalhava com aquele rumor inaudível de pulmões enchendo e esvaziando, enchendo e esvaziando. Ao princípio, sem saber por quê, deu por que estava a traçar mentalmente um itinerário que o afastasse das outras bombas de gasolina, e quando percebeu o que fazia assustou-se, temeu-se de não estar bom da cabeça. Foi dando voltas, alongando e cortando caminho, até que chegou em frente ao escritório. Pôde arrumar o carro suspirou de alívio. Desligou o motor, tirou a chave e abriu a porta. Não foi capaz de sair.

Julgou que a aba da gabardina se prendera, que a perna ficara entalada na coluna do volante, e fez outro movimento. Ainda procurou o cinto de segurança, a ver se o colocara sem dar por isso. Não. O cinto estava pendurado ao lado, tripa negra e mole. Disparate, pensou. Devo estar doente. Podia mexer livremente os braços e as pernas, flectir ligeiramente o tronco consoante as manobras, olhar para trás, debruçar-se um pouco para a direita, para o cacifo das luvas, mas as costas aderiam ao encosto do banco. Não rigidamente, mas como um membro adere ao corpo. Acendeu um cigarro, e de repente preocupou-se com o que diria ao patrão se assomasse a uma janela e o visse ali sentado, dentro do carro, a fumar, sem nenhuma pressa de sair. Um toque violento de claxon fé-lo fechar a porta, que abrira para a rua. Quando o outro carro passou, deixou descair lentamente a porta outra vez, atirou o cigarro fora e, segurando-se as mãos ambas ao volante, fez um movimento brusco, violento. Inútil. Nem sequer sentiu dores. O encosto do banco segurou-o docemente e manteve-o preso. Que era isto que estava a acontecer? Puxou para baixo retrovisor e olhou-se. Nenhuma diferença no rosto. Apenas uma aflição imprecisa que mal se dominava. Ao voltar a cara para a direita, para o passeio, viu uma rapariguinha a espreitá-lo, ao mesmo tempo intrigada e divertida. Logo a seguir surgiu uma mulher com um casaco de abafo nas mãos, que a rapariga vestiu, sem deixar de olhar. E as duas afastaram-se, enquanto a mulher compunha a gola e os cabelos da menina.

Voltou a olhar no espelho e compreendeu o que devia fazer. Mas não ali. Havia pessoas a olhar, gente que o conhecia. Manobrou para desencostar, rapidamente, deixando a mão à porta para fechá-la, e desceu a rua o mais depressa que podia. Tinha um fito, um objectivo muito definido que já o tranqüilizava e tanto que se deixou ir com um sorriso que aos poucos lhe abrandara a aflição.

Só reparou na bomba de gasolina quando lhe ia a passar pela frente. Tinha um letreiro que dizia esgotado, e o carro seguiu, sem o mínimo desvio, sem diminuir a velocidade. Não quis pensar no carro. Sorriu mais. Estava a sair da cidade, eram já os subúrbios, estava perto o sito que procurava. Meteu por uma rua em construção, virou à esquerda e à direita, até uma azinhaga deserta, entre valados. Começava a chover quando parou o automóvel.

A sua ideia era simples. Consistia em sair de dentro da gabardina, torcendo os braços e o corpo, deslizando para fora dela, tal como faz a cobra quando abandona a pele. No meio de gente não se atreveria, mas, ali, sozinho, com um deserto em redor, só longe a cidade que se escondia por trás da chuva, nada mais fácil. Enganara-se, porém. A gabardina aderia ao encosto do banco, do mesmo modo que ao casaco, à camisola de lã, à camisa, à camisola anterior, à pele, aos músculos, aos ossos. Foi isso que pensou não pensando quando daí a dez minutos se retorcia dentro do carro, a chorar. Desesperado. Estava preso no carro. Por mais que se torcesse para fora, para a abertura da porta, por onde a chuva entrava emperrada por rajadas súbitas e frias, por mais que fincasse os pés na saliência alta da caixa de velocidades, não conseguia arrancar-se do assento. Com as duas mãos segurou-se ao tejadilho e tentou içar-se. Era como se quisesse levantar o mundo. Diante dos seus olhos, os limpa-vidros, que sem querer pusera em movimento no meio da agitação, oscilavam com um ruído seco, de metrônomo. De longe veio o apito da fábrica. E logo a seguir, na curva do caminho, apareceu um homem pedalando numa bicicleta, coberto com uma grande folha de plástico preto, por onde a chuva escorria como sobre a pele de uma foca. O homem que pedalava olhou curiosamente para dentro do carro e seguiu, talvez decepcionado ou intrigado, por ver um homem sozinho, e não o casal que de longe lhe parecera.

O que estava a passar-se era absurdo. Nunca ninguém ficara preso dessa maneira no seu próprio carro, pelo seu próprio carro. Tinha de haver um processo qualquer de sair dali. À força não podia ser. Talvez numa garagem? Não. Como iria explicar? Chamar a polícia? E depois? Juntar-se ia gente, tudo a olhar, enquanto a autoridade evidentemente o puxaria por um braço e pediria ajuda aos presentes, e seria inútil, porque o encosto do banco docemente o prenderia a si. E viriam os jornalista, os fotógrafos, e ele seria mostrado metido no seu carro em todos os jornais do dia seguinte, cheio de vergonha como um animal tosquiado à chuva. Tinha de arranjar outra maneira. Desligou o motor e sem interromper o gesto atirou-se violentamente para fora, como quem ataca de surpresa. Nem um resultado. Feriu-se na testa e na mão esquerda, e a dor causou-lhe uma vertigem que se prolongou, enquanto uma súbita e irreprimível vontade de urinar se expandia, libertando interminável o líquido quente que vertia e escorria entre as pernas para piso do carro. Quando tudo isso sentiu, começou a chorar baixinho, num ganido, miseravelmente, e assim esteve até que um cão, vindo da chuva, veio ladrar-lhe, esquálido e sem convicção, à porta do carro.

Embraiou devagar, com os movimentos pesados de um sonho de cavernas, e avançou pela azinhaga fazendo força para não pensar, para não deixar que a situação se lhe figurasse num entendimento. De um modo vago sabia que teria de procurar alguém que o ajudasse. Mas quem poderia ser? Não queria assustar a mulher, mas não restava outro remédio. Talvez ela conseguisse. Ao menos não se sentiria tão desgraçadamente sozinho.

Voltou a entrar na cidade, atento aos sinais, sem movimentos bruscos no assento, como se quisesse apaziguar os poderes que o prendiam. Passavam das duas horas e o dia escurecera muito. Viu três bombas de gasolina, mas o carro não reagiu. Todas tinham o letreiro de “esgotado”. À medida que penetrava na cidade, ia vendo automóveis abandonados em posições anormais, com os triângulos vermelhos colocados na janela de trás, sinal que noutras ocasiões seria de avaria, mas que significava, agora, quase sempre, falta de gasolina. Por duas vezes viu grupos de homens a empurrar automóveis para cima dos passeios, com grandes gestos de irritação, debaixo da chuva que não parara ainda.

Quando enfim chegou à rua onde morava, teve de imaginar como iria chamar a mulher. Parou o carro em frente da porta, desorientado, quase à beira doutra crise nervosa. Esperou que acontecesse o milagre de a mulher descer por obra e merecimento do seu silencioso chamado de socorro. Esperou muitos minutos, até que um garoto curioso da vizinhança se aproximou e ele pôde pedir-lhe, com o argumento de uma moeda, que subisse ao terceiro andar e dissesse à senhora que lá morava que o marido estava em baixo à espera, no carro. Que viesse depressa, que era muito urgente. O rapaz foi e desceu, disse que a senhora já vinha e afastou-se a correr, com o dia ganho.

A mulher descera como sempre andava em casa, nem sequer lembrara de trazer um guarda-chuva e agora estava entreportas, indecisa, desviando sem querer os olhos para um rato morto na berma do passeio, para o rato mole, de pelo arrepiado, hesitando em atravessar o passeio debaixo da chuva, um pouco irritada contra o marido que a fizera descer sem motivo, quando poderia muito bem ter subido a dizer o que queria. Mas o marido acenava de dentro do carro e ela assustou-se e correu. Deitou a mão ao puxador, precipitando-se para fugir à chuva, e quando enfim abriu a porta e viu diante do seu rosto a mão do marido aberta empurrando-a sem lhe tocar. Teimou e quis entrar, mas ele gritou-lhe que não, que era perigoso, e contou-lhe o que acontecia, enquanto ela encurvada recebia nas costas toda a chuva que caía e os cabelos se lhe desmanchavam, e o horror lhe crispava a cara toda. E viu o marido, naquele casulo quente e embaciado que o isolava do mundo, torcer-se todo no assento para sair do carro e não conseguir. Atreveu-se a agarra-lo por um braço e puxou, incrédula, e não pode também move-lo dali. E como aqui era horrível demais para ser acreditado, ficaram calados a olhar-se, até que ela pensou que o marido estava doido e fingia não poder sair. Tinha de ir chamar alguém para o tratar, para o levar aonde as loucuras se tratam. Cautelosamente, com muitas palavras, disse ao marido que esperasse um bocadinho, que ela não tardaria, ia procurar ajuda para ele sair, e assim até poderiam almoçar juntos e ele telefonaria para o escritório a dizer que estava constipado. E não iria trabalhar da parte da tarde. Quer sossegasse, o caso não tinha importância, a aver que não demora nada.

Mas quando ela desapareceu na escada, ele tornou a imaginar-se rodeado de gente, o retrato nos jornais, a vergonha de se ter urinado pelas pernas abaixo, e esperou ainda uns minutos. E quando em cima a mulher fazia telefonemas para toda a parte, para a polícia, para o hospital, lutando para que acreditassem nela, e não na sua voz, dando seu nome e o do marido, a cor do carro, e a marca, e a matrícula, ele não pôde agüentar a espera e a imaginação, e ligou o motor. Quando a mulher tornou a descer, o automóvel já desaparecera e o rato escorregara da berma do passeio, enfim, e rolava na rua inclinada, arrastado pela água que corria dos algeroses. A mulher gritou, mas as pessoas tardaram a aparecer e foi muito difícil de explicar.

Até o anoitecer o homem circulou pela cidade, passando por bombas esgotadas, entrando em filas de espera sem o ter decidido, ansioso por o dinheiro se lhe acabava e ele não saberia o que poderia acontecer quando não houvesse mais dinheiro e o automóvel parasse ao pé duma bomba para receber mais gasolina. E isso só não aconteceu porque todas as bombas começaram a fechar e as filas de espera que ainda se viam apenas aguardando o dia seguinte, e então o melhor era fugir de encontrar bombas ainda abertas para não ter que parar. Numa avenida muito longa e larga, quase sem outro trânsito, o carro da polícia acelerou e ultrapassou-o, e quando o ultrapassava um guarda fez-lhe sinal para que parasse. Mas ele teve outra vez medo e não parou. Ouviu atrás de si a sereia da polícia e viu, também, vindo não soube donde, um motociclista fardado quase a alcançá-lo. Mas o carro, o seu carro, deu um rondo, um arranco poderoso e saiu, de um salto, logo adiante, para o acesso duma auto-estrada. A polícia seguia-o de longe, cada vez mais longe, e quando a noite se fechou não havia sinais deles, e o automóvel rolava por outra estrada.

Sentia fome. Urinara outra vez, humilhado demais para se envergonhar e delirava um pouco: humilhado, himolhado. Ia declinando sucessivamente, alterando as consoante e as vogais, num exercício in consciente e obsessivo que o defendia da realidade. Não parava porque não sabia para que iria parar. Mas, de madrugada, por duas vezes, encostou o carro a berma e tentou sair devagarinho, como se entretanto ele e o carro tivessem chegado a um acordo de pazes e fosse a altuar de tirar a prova da boa-fé de cada um. Por duas vezes falou baixinho quando o assento o segurou, por duas vezes tentou convencer o automóvel a deixa-lo sair a bem, por duas vezes num descampado nocturno e gelado, onde a chuva não parava, explodiu em gritos, em uivos, em lágrimas, em desespero cego. As feridas da cabeça e da mão voltaram a sangrar. E ele, soluçando, sufocado, gemendo como um animal aterrorizado, continuou a conduzir o carro. A deixar-se conduzir.

Toda a noite viajou sem saber por onde. Atravessou povoações de que não viu o nome, percorreu longas rectas, subiu e desceu montes, fez e desfez laços e deslaços de curvas, e quando a manhã começou a nascer estava em qualquer parte, numa estrada arruinada, onde a água da chuva se juntava em charcos arrepiados à superfície. O motor roncava poderosamente, arrancando as rodas à lama, e toda a estrutura do carro vibrava, com um som inquietante. A manhã abriu por completo, sem que o sol chegasse a mostrar-se, mas a chuva parou de repente. A estrada transformava-se num simples caminho, que adiante, a cada momento, parecia que se perdia entre pedras. Onde estava o mundo? Diante dos olhos eram serras e um céu espantosamente baixo. Ele deu um grito e bateu com os punhos cerrados no volante. Foi nesse momento que viu que ponteiro do indicador da gasolina estava em cima do zero. O motor pareceu arrancar-se a si mesmo e arrastou o carro por mais vinte metros. Era outra vez estrada para lá daquele lugar, mas a gasolina acabara.

A testa cobriu-se-lhe de suor frio. Uma náusea agarrou nele e sacudiu-o dos pés a cabeça, um véu cobriu-lhe por três vezes os olhos. Às apalpadelas, abriu a porta para se libertar da sufocação que aí vinha, e nesse movimento, por que fosse morrer ou porque o motor morrera, o corpo pendeu para o lado esquerdo e escorregou do carro. Escorregou um pouco mais, e ficou deitado sobre as pedras. A chuva recomeçara a cair.
José Saramago

terça-feira, abril 14

Faça esporte!

 


Os assassinos de Calas e Labarre

Antes da revolução, a construção social era:

Abaixo, o povo; acima do povo, uma religião representada pelo clero; ao lado da religião, a justiça representada pela magistratura E, neste momento da sociedade humana, que era o povo? Era a ignorância. O que era uma religião? Era a intolerância. E que era a justiça? Era uma injustiça. Você porventura vai muito longe em minhas palavras? Julgai-o. Limitar-me-ei a citar dois fatos, mas decisivos.


Em 13 de outubro de 1761, em Toulouse, é encontrado um mancebo forçado no sótão de uma casa. A multidão amotina-se, o clero fulmina, a magistratura investiga.

É um suicídio que faz um assassinato por interesses da religião. E quem acusa? Ó pai. É um huguenote, e quis impedir que o filho de se fizesse católico. Há aqui uma monstruosidade moral e uma impossibilidade material: não importa! Este pai matou seu filho, este velho enforcou este mancebo. A justiça trabalha, e é aqui o desenlace. Em 2 de março de 1762 um homem de cabelos brancos, João Calas, é conduzido à praça pública, despem-no, estende-se-no sobre uma roda, com os membros ligados e o corpo em falso, de cabeça pendente. Há três homens sobre o cadafalso: um almotacel chamado David, encarregado de vigiar o suplício, um sacerdote, com um crucifixo, e o carrasco, com uma barra de ferro. O paciente, estupefato e terrível, não olha para o padre e olha para o carrasco. O carrasco levanta a barra de ferro e quebra-lhe um braço. O paciente ruge e desmaia. O almotacel aproxima-se, é que faz respirar sais ao condenado, que volta à vida; então nova pancada da barra, novo rugido, e Calas perde os sentidos; reanimam-no e o carrasco recomeça: e, como cada membro deve ser quebrado em dois pontos, são oito suplícios. Depois do oitavo desmaio o sacerdote dá-lhe o crucifixo a beijar. Calas afastou a cabeça e o carrasco dá-lhe o golpe de misericórdia, isto é, escangalha-lhe o peito com a extremidade mais grossa da barra de ferro. Assim expirou João Calas. Durou isto duas horas. Depois da sua morte, apareceu a prova do suicídio. Mas tinha sido perpetrado um assassinato. Por quem? Pelos juízes.

Depois do velho, o mancebo. Três anos mais tarde, em 1765, em Abbeville, no dia seguinte a uma tempestade e ventania, é encontrada no chão, sobre a calçada de uma ponte, um velho crucifixo de pau carunchoso que há três séculos esteve chumbado ao parapeito. Quem lançou a terra o crucifixo? Quem cometeu o sacrilégio? Ignora-se. Talvez alguém que passe. Talvez o vento. Quem está preocupado? O bispo de Amiens expediu uma monitória. Eis o que é uma monitória: é uma ordem a todos os votos, sob pena do inferno, de dizer o que sabem ou julgam saber sobre tal ou tal fato; injunção homicida do fanatismo à ignorância. A monitória do bispo de Amiens produz os seus efeitos, as amplificações da bisbilhotice tomam as proporções da denúncia. A justiça descobre, ou julga descobrir, que, na noite em que o crucifixo foi lançado à terra, dois homens, dois oficiais, Labarre e d'Etallonde, passaram na ponte de Abbeville, que estavam embriagados e que cantaram uma canção de corpo de guarda. Ó tribunal à senescalia de Abbeville. Os senescais de Abbeville valem os almotacés de Tolosa. Eles não são menos justos. Expedem-se dois mandatos de captura. D'Etallonde foge, Labarre está preso. Entregam-no à instrução judiciária. Ele negou ter passado na ponte, e confessou ter cantado a canção. A senescalia de Abbeville condena-o, ele apela ao Parlamento de Paris. Trazem-no a Paris, a sentença é julgada boa e confirmada. Conduzem-no a Abbeville, encadeado. Vou resumir. Chega a hora horrível. Princípios por submissão Labarre à questão ordinária e extraordinária para ele declarar os seus cúmplices. Cumplices de quê? De ter passado numa ponte e de ter cantado uma canção. Esmagam-lhe um joelho na tortura; o confessor, ouvindo estalar os ossos, desmaia; no dia seguinte, 5 de junho de 1766, Labarre é arrastado para a praça grande de Abbeville: flameja lá uma fogueira ardente; leem a sentença a Labarre, depois decepam-lhe um punho, depois arrancam-lhe a língua com um tenaz de ferro, depois, por misericórdia, cortam-lhe a cabeça, que é lançada à fogueira. Assim morreu Labarre. Tinha dezenove anos.
Victor Hugo