Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
sexta-feira, abril 24
Resenha de livros que não existem
A moça conheceu o rapaz em um cemitério. Tinha quinze anos, estava entediada e resolveu passear entre as tumbas. Não sei que tipo de sapatos calçava, mas imagino que um par de galochas vermelhas causaria bom impacto na cena que estava para acontecer: a mocinha encontrou um crânio no chão e resolveu chutar para longe. Deu um pontapé no encaixe perfeito de ossos que, um dia, abrigou os pensamentos de alguém. E isso não a abalou em nada, não parecia um gesto reprovável, até chegar aquele homem indignado, em passos rápidos até ela. Observou a cena de longe e chegou para dizer a verdade necessária: que aquilo não se faz, não é certo chutar a cabeça de um morto. Talvez alguém ainda chore por ele, você pensou nisso?
Claro que ela não pensou. No momento ela só pensava no quanto era bonito o moço, naquele sotaque e na força dos traços. Era um sírio, imigrante vindo de longe, trazendo mistérios de outras terras. Casaram, seguiram religiões diferentes em solo brasileiro, tiveram filhos, netos, netas, e uma delas me contou essa história. Encontraram um ao outro por causa de um esqueleto no meio do cemitério.
Na primeira versão do relato a moça chutava umas flores que alguém deixou em homenagem a um falecido recente, mas dar um piparote na caveira causa um efeito muito melhor para um encontro amoroso. Não ouvi isso sozinha, éramos mais de trinta pessoas em uma sala de aula, impressionadas com a ação do acaso nessa história que merece ser escrita em detalhes.
Faz parte do meu ofício o encontro constante com livros inexistentes: as pessoas me contam. São projetos que vagam em pedaços separados, correndo entre os pensamentos de quem quer escrever, algo como as cenas de transeuntes atravessando largas avenidas de seis faixas, as trombadas em sentido contrário, a velocidade, a profusão de gestos, o barulho confuso. Organizar a criação é um trabalho que exige muito. Às vezes o verbo certo não é organizar, mas permitir.
Alguns projetos de livros nunca serão escritos e nem sempre isso é ruim. Ideias podem ser tão insignificantes quanto mosquitos, merecem uma palma da morte e nada mais. É preciso entender isso para aprender a encontrar o que merece dedicação. Escrever um livro é entregar um bom pedaço da própria vida a um devaneio. Diante do fato de que não sabemos quanto tempo temos na vida, é prudente escolher bem o que fazer com ele.
Pois de todos os casos, os meus preferidos sempre são as histórias reais que provam o poder do acaso, como o chute na caveira. Na mesma aula outra aluna contou que seus pais se conheceram por causa de um trote, ao telefone. A moça achou a voz do outro lado bem bonita e resolveu esticar a conversa. Outro aluno relatou o curioso caso que presenciou em uma escola de Educação de Jovens e Adultos, na zona rural do Ceará.
Um aluno e uma aluna, ambos idosos e até pouco tempo analfabetos, exercitaram a capacidade recém adquirida de ler e escrever na gostosa tarefa de trocar bilhetes de amor proibido. Poucas palavras, pontos de interrogação. “Amanhã?” era o conteúdo de um dos bilhetes encontrados. Um belo dia, ao amanhecer, os dois não estavam mais em suas respectivas casas. Fugiram, deixando para trás um marido, uma esposa, filhos e um rastro de espanto. A escrita deu força e impulso para que fizessem o que talvez tivessem vontade de fazer há tempos. Devem estar felizes, em algum lugar.
A sorte que tenho por escutar essa coleção de histórias faz de mim uma leitora de dois tipos de livros: os escritos e os imaginados. Muitos nunca irão nascer, vão ficar pelo caminho, apenas como ideia insana que apareceu na cabeça, um delírio momentâneo. Aprendi a apreciar e falar sobre livros que não existem. São palavras, frases, parágrafos inteiros sobre nossas cabeças. Uma infinidade de livros invisíveis voando pelo céu.
Claro que ela não pensou. No momento ela só pensava no quanto era bonito o moço, naquele sotaque e na força dos traços. Era um sírio, imigrante vindo de longe, trazendo mistérios de outras terras. Casaram, seguiram religiões diferentes em solo brasileiro, tiveram filhos, netos, netas, e uma delas me contou essa história. Encontraram um ao outro por causa de um esqueleto no meio do cemitério.
Na primeira versão do relato a moça chutava umas flores que alguém deixou em homenagem a um falecido recente, mas dar um piparote na caveira causa um efeito muito melhor para um encontro amoroso. Não ouvi isso sozinha, éramos mais de trinta pessoas em uma sala de aula, impressionadas com a ação do acaso nessa história que merece ser escrita em detalhes.
Faz parte do meu ofício o encontro constante com livros inexistentes: as pessoas me contam. São projetos que vagam em pedaços separados, correndo entre os pensamentos de quem quer escrever, algo como as cenas de transeuntes atravessando largas avenidas de seis faixas, as trombadas em sentido contrário, a velocidade, a profusão de gestos, o barulho confuso. Organizar a criação é um trabalho que exige muito. Às vezes o verbo certo não é organizar, mas permitir.
Alguns projetos de livros nunca serão escritos e nem sempre isso é ruim. Ideias podem ser tão insignificantes quanto mosquitos, merecem uma palma da morte e nada mais. É preciso entender isso para aprender a encontrar o que merece dedicação. Escrever um livro é entregar um bom pedaço da própria vida a um devaneio. Diante do fato de que não sabemos quanto tempo temos na vida, é prudente escolher bem o que fazer com ele.
Pois de todos os casos, os meus preferidos sempre são as histórias reais que provam o poder do acaso, como o chute na caveira. Na mesma aula outra aluna contou que seus pais se conheceram por causa de um trote, ao telefone. A moça achou a voz do outro lado bem bonita e resolveu esticar a conversa. Outro aluno relatou o curioso caso que presenciou em uma escola de Educação de Jovens e Adultos, na zona rural do Ceará.
Um aluno e uma aluna, ambos idosos e até pouco tempo analfabetos, exercitaram a capacidade recém adquirida de ler e escrever na gostosa tarefa de trocar bilhetes de amor proibido. Poucas palavras, pontos de interrogação. “Amanhã?” era o conteúdo de um dos bilhetes encontrados. Um belo dia, ao amanhecer, os dois não estavam mais em suas respectivas casas. Fugiram, deixando para trás um marido, uma esposa, filhos e um rastro de espanto. A escrita deu força e impulso para que fizessem o que talvez tivessem vontade de fazer há tempos. Devem estar felizes, em algum lugar.
A sorte que tenho por escutar essa coleção de histórias faz de mim uma leitora de dois tipos de livros: os escritos e os imaginados. Muitos nunca irão nascer, vão ficar pelo caminho, apenas como ideia insana que apareceu na cabeça, um delírio momentâneo. Aprendi a apreciar e falar sobre livros que não existem. São palavras, frases, parágrafos inteiros sobre nossas cabeças. Uma infinidade de livros invisíveis voando pelo céu.
O guarda-chuva preto
Esquecido na mesa,
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.
Adélia Prado, "O Coração Disparado"
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que posou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.
Adélia Prado, "O Coração Disparado"
Encarnação involuntária
Às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho algum tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria autoacusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdoo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesma.
Um dia, no avião... ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida de missionária já me haviam tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar no chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para eu conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. E ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzentas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depurado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, senão no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava sendo hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance de minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Um dia, no avião... ah, meu Deus – implorei – isso não, não quero ser essa missionária!
Mas era inútil. Eu sabia que, por causa de três horas de sua presença, eu por vários dias seria missionária. A magreza e a delicadeza extremamente polida de missionária já me haviam tomado. É com curiosidade, algum deslumbramento e cansaço prévio que sucumbo à vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que não conheço – mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. No avião mesmo percebo que já comecei a andar com esse passo de santa leiga: então compreendo como a missionária é paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar no chão, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou pálida, sem nenhuma pintura nos lábios, tenho o rosto fino e uso aquela espécie de chapéu de missionária.
Quando eu saltar em terra provavelmente já terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-missão. E no meu rosto estará impressa a doçura da esperança moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avião estava tão sadiamente amoral. Estava, não, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionária. Inútil: toda a minha força está sendo usada para eu conseguir ser frágil. Finjo ler uma revista, enquanto ela lê a Bíblia.
Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoço distribui chicletes. E ela cora mal o rapaz se aproxima.
Em terra sou uma missionária ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginárias saias longas e cinzentas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando está fora das horas em que cumpre sua missão. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentação para os homens. E, quando não entendo, é com o mesmo fanatismo depurado dessa mulher pálida que facilmente cora à aproximação do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.
Já sei que só daí a dias conseguirei recomeçar enfim integralmente a minha própria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido própria, senão no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnações. Mas não: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma – então é um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lágrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e saímos com alguma altivez por esse mundo afora.
Uma vez, também em viagem, encontrei uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que já estava sendo hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o único homem ao alcance de minha visão intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Os namorados
O Pião e a Bola achavam-se numa gaveta, junto com outros brinquedos, e o Pião disse a Bola:
- Vamos ser namorados, já que estamos juntos na mesma gaveta?
A Bola, porém, feita de marroquim, e tão vaidosa como uma senhorita elegante, nem resposta quis dar a semelhante pergunta.
No dia seguinte, veio o menino, dono dos brinquedos. Pintou o Pião de vermelho e amarelo, e pregou-lhe bem no centro um prego de latão. Era muito bonito quando o Pião girava.
- Olhe para mim - disse o Pião à Bola - que diz você agora? Não vamos então ser namorados? Servimos muito bem um para o outro: você pula e eu danço. Ninguém poderá ser mais feliz que nós dois.
- É o que o senhor pensa - disse a Bola - certamente não sabe que meu pai e minha mãe foram chinelos de marroquim, e que tenho dentro de mim uma cortiça.
E eu sou feito de mogno - disse o Pião - o próprio prefeito me torneou em seu torno, o que lhe deu um grande prazer.
- Se eu pudesse acreditar nisso! - disse a Bola.
- Quero nunca mais ver uma fieira em toda a minha vida se for mentira o que eu disse - respondeu o Pião.
O senhor advoga bem a própria causa - disse a Bola - mas não posso namorar.
"Quer? Quer?"
Ora, eu intimamente já disse que sim, o que equivale a um meio compromisso. Mas lhe prometo que nunca o esquecerei!
- E isso vai adiantar muito! - disse o Pião.
E nada mais disseram.
No dia seguinte vieram buscar a Bola. O Pião viu como ela subia a grande altura, como um pássaro, desaparecendo de vista. Voltava todas as vezes, mas dava um grande salto cada vez que tocava o chão. Devia ser por causa das saudades, ou por causa da cortiça que ela tinha dentro dela. A nona vez a Bola subiu ao alto, e não mais voltou. O menino procurou muito, e nada: a Bola sumira.
- Bem sei onde ela está - suspirou o Pião - está no ninho do sr. Andorinha e com ele se casou.
Quanto mais o Pião pensava naquilo, tanto mais se apaixonava pela Bola. Por não poder tê-la, seu amor por ela aumentava. O fato de ter ela ficado com outro, tornava o caso mais apaixonante. O Pião dançava ao redor e zunia, mas sempre pensava na Bola, que em seus pensamentos se foi tornando cada vez mais bonita. Passaram-se assim muitos anos e o amor do Pião transformou-se num velho sonho.
O Pião não era mais moço. Um dia, porém, foi inteiramente pintado de dourado. Nunca fora antes tão bonito. Era agora um Pião de Ouro, e pulava, deixando um zunido pairando no ar. Aquilo sim, era formidável! Mas de repente ele saltou alto demais - e sumiu.
Procuraram por toda a parte, até na adega, mas nada de aparecer o Pião.
- Onde estaria ele?
Pulara para dentro da barrica de lixo, onde jaziam amontoados talos de couve, cisco e entulho caído da calha.
"Estou bem arrumado" - pensou o Pião - "aqui a douração não tardará a sair de mim. E que gentalha é essa em cujo meio vim parar!" Olhou de esguelha para um longo talo de couve e para um estranho objeto redondo, que parecia uma maçã velha. Mas não era uma maçã. Era uma velha Bola que durante muitos anos estivera caída na calha, embebida de água.
- Graças a Deus, aí vem alguém com quem se pode falar - disse a Bola ao ver o Pião Dourado - eu, para falar a verdade, sou de marroquim, costurada pelas mãos de uma gentil senhorita, e tenho uma cortiça dentro de mim. Mas duvido que se veja isso agora. Eu estava prestes a casar-me com uma andorinha quando caí na calha, e ali estive por cinco anos, encharcada de água. É um longo tempo, pode crer, para uma jovem.
O Pião não respondeu. Pensava em sua antiga namorada, e quanto mais a ouvia, tanto mais certo estava de que era ela.
Nisto chegou a criada e quis virar a lata de lixo.
- Oh! Aqui está o Pião Dourado! - disse ela.
E o Pião retornou à sala, à antiga posição de respeito, mas da Bola nada mais se ouviu. O Pião nunca mais falou em seu antigo amor. O amor se extingue quando a amada passa cinco anos numa calha, embebendo-se de água. Nem a conhecem mais quando a encontram na lata de lixo.
- Vamos ser namorados, já que estamos juntos na mesma gaveta?
A Bola, porém, feita de marroquim, e tão vaidosa como uma senhorita elegante, nem resposta quis dar a semelhante pergunta.
No dia seguinte, veio o menino, dono dos brinquedos. Pintou o Pião de vermelho e amarelo, e pregou-lhe bem no centro um prego de latão. Era muito bonito quando o Pião girava.
- Olhe para mim - disse o Pião à Bola - que diz você agora? Não vamos então ser namorados? Servimos muito bem um para o outro: você pula e eu danço. Ninguém poderá ser mais feliz que nós dois.
- É o que o senhor pensa - disse a Bola - certamente não sabe que meu pai e minha mãe foram chinelos de marroquim, e que tenho dentro de mim uma cortiça.
E eu sou feito de mogno - disse o Pião - o próprio prefeito me torneou em seu torno, o que lhe deu um grande prazer.
- Se eu pudesse acreditar nisso! - disse a Bola.
- Quero nunca mais ver uma fieira em toda a minha vida se for mentira o que eu disse - respondeu o Pião.
O senhor advoga bem a própria causa - disse a Bola - mas não posso namorar.
Estou quase comprometida com um sr. Andorinha. Cada vez que subo ao espaço, ele põe a cabeça fora do ninho e pergunta:
"Quer? Quer?"
Ora, eu intimamente já disse que sim, o que equivale a um meio compromisso. Mas lhe prometo que nunca o esquecerei!
- E isso vai adiantar muito! - disse o Pião.
E nada mais disseram.
No dia seguinte vieram buscar a Bola. O Pião viu como ela subia a grande altura, como um pássaro, desaparecendo de vista. Voltava todas as vezes, mas dava um grande salto cada vez que tocava o chão. Devia ser por causa das saudades, ou por causa da cortiça que ela tinha dentro dela. A nona vez a Bola subiu ao alto, e não mais voltou. O menino procurou muito, e nada: a Bola sumira.
- Bem sei onde ela está - suspirou o Pião - está no ninho do sr. Andorinha e com ele se casou.
Quanto mais o Pião pensava naquilo, tanto mais se apaixonava pela Bola. Por não poder tê-la, seu amor por ela aumentava. O fato de ter ela ficado com outro, tornava o caso mais apaixonante. O Pião dançava ao redor e zunia, mas sempre pensava na Bola, que em seus pensamentos se foi tornando cada vez mais bonita. Passaram-se assim muitos anos e o amor do Pião transformou-se num velho sonho.
O Pião não era mais moço. Um dia, porém, foi inteiramente pintado de dourado. Nunca fora antes tão bonito. Era agora um Pião de Ouro, e pulava, deixando um zunido pairando no ar. Aquilo sim, era formidável! Mas de repente ele saltou alto demais - e sumiu.
Procuraram por toda a parte, até na adega, mas nada de aparecer o Pião.
- Onde estaria ele?
Pulara para dentro da barrica de lixo, onde jaziam amontoados talos de couve, cisco e entulho caído da calha.
"Estou bem arrumado" - pensou o Pião - "aqui a douração não tardará a sair de mim. E que gentalha é essa em cujo meio vim parar!" Olhou de esguelha para um longo talo de couve e para um estranho objeto redondo, que parecia uma maçã velha. Mas não era uma maçã. Era uma velha Bola que durante muitos anos estivera caída na calha, embebida de água.
- Graças a Deus, aí vem alguém com quem se pode falar - disse a Bola ao ver o Pião Dourado - eu, para falar a verdade, sou de marroquim, costurada pelas mãos de uma gentil senhorita, e tenho uma cortiça dentro de mim. Mas duvido que se veja isso agora. Eu estava prestes a casar-me com uma andorinha quando caí na calha, e ali estive por cinco anos, encharcada de água. É um longo tempo, pode crer, para uma jovem.
O Pião não respondeu. Pensava em sua antiga namorada, e quanto mais a ouvia, tanto mais certo estava de que era ela.
Nisto chegou a criada e quis virar a lata de lixo.
- Oh! Aqui está o Pião Dourado! - disse ela.
E o Pião retornou à sala, à antiga posição de respeito, mas da Bola nada mais se ouviu. O Pião nunca mais falou em seu antigo amor. O amor se extingue quando a amada passa cinco anos numa calha, embebendo-se de água. Nem a conhecem mais quando a encontram na lata de lixo.
Hans Christian Andersen
quinta-feira, abril 23
Nós e o mundo
Se a nossa vida fosse um eterno estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos montes. Se assim ficássemos para além de sempre!
Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras!
Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras!
Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
O pedestre
Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de novembro, pousar os pés naquela sólida calçada de concreto, pisar nas fendas de mato, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as calçadas enluaradas nas quatro direções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só, e com uma decisão final tomada, um caminho escolhido, sairia andando, soltando rastros de ar congelado à sua frente, como a fumaça de um cigarro.
Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com suas janelas escuras, e não era diferente de caminhar por um cemitério onde só o mais fraco luzir de um vagalume como que tremeluzia por detrás das janelas. Súbitos espectros acinzentados pareciam manifestar-se sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-tumba ainda estava aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, pés sem fazer ruído na calçada irregular. Há muito, prudentemente, passara a usar sapatos de tênis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam sua caminhada com seus latidos, se usasse calçado com sola de couro, e luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, e toda uma rua sobressaltar-se com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de novembro.
Nesta noite, em particular, começou sua jornada para o oeste rumo ao mar, invisível. Havia um bom frio cristalino, no ar; cortava o nariz e fazia os pulmões arderem por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava seu calçado macio empurrar delicadamente as folhas de outono, satisfeito, e assobiava frio e baixinho, entredentes, ocasionalmente arrancando uma folha, de passagem, examinando o desenho esqueletal, às poucas lâmpadas, enquanto ia adiante, cheirando seu odor enferrujado.
— Ó de casa — ele murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava.
Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com suas janelas escuras, e não era diferente de caminhar por um cemitério onde só o mais fraco luzir de um vagalume como que tremeluzia por detrás das janelas. Súbitos espectros acinzentados pareciam manifestar-se sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-tumba ainda estava aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, pés sem fazer ruído na calçada irregular. Há muito, prudentemente, passara a usar sapatos de tênis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam sua caminhada com seus latidos, se usasse calçado com sola de couro, e luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, e toda uma rua sobressaltar-se com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de novembro.
Nesta noite, em particular, começou sua jornada para o oeste rumo ao mar, invisível. Havia um bom frio cristalino, no ar; cortava o nariz e fazia os pulmões arderem por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava seu calçado macio empurrar delicadamente as folhas de outono, satisfeito, e assobiava frio e baixinho, entredentes, ocasionalmente arrancando uma folha, de passagem, examinando o desenho esqueletal, às poucas lâmpadas, enquanto ia adiante, cheirando seu odor enferrujado.
— Ó de casa — ele murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava.
— O que está passando hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Por onde estão correndo os “cow-boys”, e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?
A rua estava silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, em meio a um campo. Fechou os olhos, e ficou bem quieto, congelado, e podia imaginar-se no meio de uma planície, um deserto Americano, sem ventos, inverno, sem casa nenhuma num raio de mil milhas, e só leitos de rios, as ruas, para companhia.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando para seu relógio de pulso. — Oito e meia? Hora de uma dúzia de assassinatos diversos? Uma charada? Um musical? Um comediante levando um tombo?
Aquilo foi um ruído de dentro de uma casa à luz da lua? Hesitou, mas continuou, quando nada mais se notou. Tropeçou numa irregularidade maior da calçada. O cimento estava desaparecento, sob as flores e o mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa andando, nunca, nem uma só vez.
Chegou a um trevo, deserto, onde duas estradas principais cruzavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insetos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo de seus escapamentos, deslizavam para casa, nas mais diversas direções. Mas agora, estas estradas, eram como rios temporários no verão, só pedra, leito, e luar.
Virou por uma rua secundária, fazendo a volta para casa. Estava a um quarteirão de seu destino, quando aquele carro solitário virou uma esquina, repentinamente, e acendeu um forte cone de luz branca sobre ele. Ficou em transe, não muito diferente de uma mariposa, atordoada pela iluminação, e então, atraído para ela.
Uma voz metálica dirigiu-se a ele:
— Fique parado. Fique onde está! Não se mova!
Ele parou.
— Erga as mãos!
— Mas… — ele falou.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava desaparecendo; não havia necessidade de polícia, exceto este carro solitário vagando e vagando pelas ruas desertas.
— Seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte em seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode chamar de escritor.
— Sem profissão — disse o carro de polícia, como se falando sozinho. A luz mantinha-o transfixado como um espécime de museu, agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer que sim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Não se vendiam mais livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-tumbas, à noite, ele pensou. Os túmulos, mal-iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas sentavam-se como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca de fato tocando a eles.
— Sem profissão — disse a voz de vitrola, chiando. — Que está fazendo aqui fora?
— Andando — disse Leonard Mead.
— Andando!
— Só andando — ele disse, simplesmente, mas seu rosto gelou.
— Andando, só andando, andando?
— Sim, senhor.
— Andando para onde? Para que?
— Para tomar ar. Andando para ver.
— Seu endereço.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E há ar na sua casa; o senhor não tem um condicionador de ar, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela para ver, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção cheia de estalidos, que em si era uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas eram cinzentas e caladas.
— Ninguém me queria — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas andando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para tomar ar, e ver, e simplesmente, só para andar um pouco.
— Já fez isso muitas vezes?
— Toda noite, há anos.
O carro de polícia estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — ele perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Espere, não fiz nada!
— Entre.
— Eu protesto.
— Sr. Mead.
Ele caminhou como um homem subitamente bêbado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para dentro. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma jaulinha escura, com barras. Cheirava a aço rebitado. Cheirava a anti-séptico forte; cheirava a coisa muito limpa, e dura, e metálica. Não havia nada macio, ali.
— Se você tivesse uma esposa, para dar-lhe um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde está me levando?
O carro hesitou, ou melhor, deu um estalido e um zunido, como se a informação, em algum lugar, estivesse sendo dada por cartões perfurados, e olhos elétricos. — Ao Centro Psiquiátrico para Pesquisa de Tendências Regressivas.
Ele entrou. A porta fechou com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, em meio à noite, com as lanternas acesas.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as suas luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias de leitos de rios, afastando-se, deixando as ruas vazias, com suas calçadas vazias, sem som nem movimento, por todo o resto da fria noite de novembro.
A rua estava silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, em meio a um campo. Fechou os olhos, e ficou bem quieto, congelado, e podia imaginar-se no meio de uma planície, um deserto Americano, sem ventos, inverno, sem casa nenhuma num raio de mil milhas, e só leitos de rios, as ruas, para companhia.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando para seu relógio de pulso. — Oito e meia? Hora de uma dúzia de assassinatos diversos? Uma charada? Um musical? Um comediante levando um tombo?
Aquilo foi um ruído de dentro de uma casa à luz da lua? Hesitou, mas continuou, quando nada mais se notou. Tropeçou numa irregularidade maior da calçada. O cimento estava desaparecento, sob as flores e o mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa andando, nunca, nem uma só vez.
Chegou a um trevo, deserto, onde duas estradas principais cruzavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insetos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo de seus escapamentos, deslizavam para casa, nas mais diversas direções. Mas agora, estas estradas, eram como rios temporários no verão, só pedra, leito, e luar.
Virou por uma rua secundária, fazendo a volta para casa. Estava a um quarteirão de seu destino, quando aquele carro solitário virou uma esquina, repentinamente, e acendeu um forte cone de luz branca sobre ele. Ficou em transe, não muito diferente de uma mariposa, atordoada pela iluminação, e então, atraído para ela.
Uma voz metálica dirigiu-se a ele:
— Fique parado. Fique onde está! Não se mova!
Ele parou.
— Erga as mãos!
— Mas… — ele falou.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava desaparecendo; não havia necessidade de polícia, exceto este carro solitário vagando e vagando pelas ruas desertas.
— Seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte em seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode chamar de escritor.
— Sem profissão — disse o carro de polícia, como se falando sozinho. A luz mantinha-o transfixado como um espécime de museu, agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer que sim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Não se vendiam mais livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-tumbas, à noite, ele pensou. Os túmulos, mal-iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas sentavam-se como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca de fato tocando a eles.
— Sem profissão — disse a voz de vitrola, chiando. — Que está fazendo aqui fora?
— Andando — disse Leonard Mead.
— Andando!
— Só andando — ele disse, simplesmente, mas seu rosto gelou.
— Andando, só andando, andando?
— Sim, senhor.
— Andando para onde? Para que?
— Para tomar ar. Andando para ver.
— Seu endereço.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E há ar na sua casa; o senhor não tem um condicionador de ar, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela para ver, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção cheia de estalidos, que em si era uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas eram cinzentas e caladas.
— Ninguém me queria — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas andando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para tomar ar, e ver, e simplesmente, só para andar um pouco.
— Já fez isso muitas vezes?
— Toda noite, há anos.
O carro de polícia estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — ele perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Espere, não fiz nada!
— Entre.
— Eu protesto.
— Sr. Mead.
Ele caminhou como um homem subitamente bêbado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para dentro. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma jaulinha escura, com barras. Cheirava a aço rebitado. Cheirava a anti-séptico forte; cheirava a coisa muito limpa, e dura, e metálica. Não havia nada macio, ali.
— Se você tivesse uma esposa, para dar-lhe um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde está me levando?
O carro hesitou, ou melhor, deu um estalido e um zunido, como se a informação, em algum lugar, estivesse sendo dada por cartões perfurados, e olhos elétricos. — Ao Centro Psiquiátrico para Pesquisa de Tendências Regressivas.
Ele entrou. A porta fechou com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, em meio à noite, com as lanternas acesas.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as suas luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias de leitos de rios, afastando-se, deixando as ruas vazias, com suas calçadas vazias, sem som nem movimento, por todo o resto da fria noite de novembro.
Ray Bradbury, "A cidade inteira dorme e outros contos breves"
Quantos Seremos?
Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Miguel Torga
Objetos sólidos
A única coisa que se movia no vasto semicírculo da praia era um pequeno ponto negro. Quando se aproximou do esqueleto de um barco sardinheiro encalhado, tornou-se mais aparente que o ponto possuía quatro pernas, por um certo esbatimento em seu negror; e cada vez mais podia perceber-se que se compunha das pessoas de dois jovens. Mesmo assim, em delineamento na areia, havia neles uma indubitável vitalidade, um indiscutível vigor na aproximação e recuo dos corpos que, por pouco que fosse, deixava perceber alguma discussão violenta, provinda das bocas minúsculas das pequeninas cabeças redondas. A isso corroborava, num exame mais próximo, o repetido bater de uma bengala, à direita.
Quer você dizer-me… Acredita então… — parecia a bengala à direita sublinhar as frases, ao traçar longos riscos na areia, junto às ondas.
— A política que se dane! — emitiu claramente o corpo à esquerda e, ao serem pronunciadas essas palavras, as bocas, narizes, queixos, bigodinhos, bonés de tweed, grossas botinas, paletós de caça e meias xadrez dos dois iam-se tornando cada vez mais nítidos; a fumaça de seus cachimbos evolava-se no ar, por milhas e milhas de mar e dunas nada era tão sólido, tão vivo, tão colorido, hirsuto e viril como aqueles dois corpos.
Deixaram-se cair ao lado das seis costelas e espinha dorsal do negro barco sardinheiro. Sabemos como o corpo parece sacudir-se quando quer libertar-se de uma discussão, e desculpar-se por um momento de exaltação, como deixar-se cair, exprimindo pela moleza da sua atitude uma disposição para se interessar por outra coisa — o que quer que esteja mais à mão. Assim Charles, com a bengala estivera golpeando a praia por uma meia milha, pôs-se a atirar pedrinhas chatas por sobre a água; e John, que havia exclamado “a política que se dane!”, começou a escavar com os dedos a areia. À medida que a sua mão ia se enterrando até acima do pulso, de modo a obrigá-lo a arregaçar um pouco a manga, os seus olhos perderam a intensidade, ou antes: o fundo de pensamento e experiência que dá uma inescrutável profundeza aos olhos das pessoas adultas, desapareceu deixando apenas a clara e transparente superfície que se nota nos olhos das crianças onde nada transparece senão o pasmo. Sem dúvida o ato de escavar a areia tinha alguma coisa a ver com aquilo. Ele lembrou-se que, depois de se cavar um pouco, a água flui em redor das pontas dos dedos; o buraco transforma-se num poço, numa fonte, num canal secreto para o mar. Enquanto hesitava sobre qual dessas coisas iria fazer, os dedos, ainda imersos na água, curvaram-se em torno de uma coisa dura — um bocado de matéria sólida — e gradualmente deslocaram uma massa irregular e trouxeram-na à superfície. Removida a areia que a recobria, apareceu uma cor verde. Era um pedaço de vidro, tão espesso que quase chegava a ser opaco; o roçar das ondas desgastara tão com-pletamente qualquer aresta ou formato, que era impossível dizer se fora garrafa, copo ou vidraça; era apenas vidro; era quase uma pedra preciosa. Bastaria engastá-lo num aro de ouro, ou perfurá-lo com um fio, e transformar-se-ia numa jóia; parte de um colar; uma verde luz opaca sobre um dedo. Talvez fosse mesmo uma gema — quem sabe? — usada por uma trigueira princesa a deslizar os dedos na água enquanto ouvia o canto dos escravos que remavam levando-a para o outro lado da baía. Ou talvez a estrutura de carvalho de um cofre de tesouros afundado na época isabelina se tivesse partido, soltando do seu bojo esmeraldas que rolaram e rolaram até chegar à praia. John girou o bloco nos dedos; colocou-o contra a luz, contra o corpo e o braço estendido do seu amigo. O verde tornava-se ligeiramente mais claro ou mais proíundo ao ser posto contra o céu ou contra o corpo. Agradava-lhe, intrigava-o, era um objeto tão duro, tão concentrado, tão definido, em comparação com o mar difuso e a praia enevoada!
Um suspiro interrompeu-o — profundo, afinal, informando-o de que Charles havia atirado todas as pedras chatas ao seu alcance, ou chegara à conclusão de que não valia a pena atirá-las. Lado a lado, comeram os seus sanduíches. Quando terminaram, e estavam a sacudir as migalhas para se pôr de pé, John pegou no bloco de vidro e olhou-o em silêncio. Charles também o olhou. Mas logo viu que não era uma pedra chata, e enchendo o seu cachimbo disse com a energia de quem afasta um rumo menos sério de pensamento:
— Voltando ao que eu estava dizendo…
Não viu, ou se visse provavelmente não o teria notado, que John, depois de fitar um momento o bloco, e como que hesitante, enfiou-o no bolso. Esse impulso, também, podia ter sido o impulso que leva uma criança a apanhar um seixo num caminho cheio deles, e a prometer-lhe uma vida de calor e segurança sobre a lareira do seu quarto, deliciando-se com a sensação de poder e benignidade que pressupõe um tal gesto, e acreditando que o coração da pedra pulsa de alegria ao sentir-se ela escolhida entre milhões de outras semelhantes, ao gozar dessa felicidade em lugar de uma existência fria e húmida sobre a estrada.
“Poderia ter sido qualquer outra entre os milhões de pedras, mas fui eu, eu, eu!”
Quer fosse este ou não o pensamento de John, o pedaço de vidro teve o seu lugar sobre a lareira, onde, com o seu peso, prendia uma pequena pilha de contas e cartas, e servia não somente como um excelente peso-para-papéis, mas também como o natural lugar de pcuso para os olhos do rapaz, quando ele os erguia do seu livro. Qualquer objeto olhado repetidas vezes e meio inconscientemente por uma mente entretida com outro pensamento, identifica-se tão prontamente com a matéria do pensamento que perde a sua verdadeira forma e recompõe-se de maneira diferente, na forma ideal que persegue o espírito nos momentos menos esperados. Assim John começou a sentir-se atraído pelas montras, quando saía à rua, simplesmente porque via algo que lhe fazia lembrar o bloco de vidro. Qualquer coisa, contanto que fosse um objeto de uma determinada forma, mais ou menos arredondada, talvez com uma chama amortecida nas profundezas da sua massa, qualquer coisa — louça, vidro, âmbar, mármore, pedra — até o liso ovo de um pássaro pré-histórico servia. Deu também em andar de olhos postos no chão, sobretudo na vizinhança dos terrenos baldios onde é lançado o lixo das casas. Tais objetos eram ali freqüentemente encontráveis — atirados fora, sem utilidade para ninguém, informes, imprestáveis. Em poucos meses havia ele coleccionado quatro ou cinco espécimes, que foram enfileirar-se sobre a lareira. Eram úteis, também, pois um homem que se candidata ao Parlamento e em vésperas de uma carreira brilhante, tem muitos papéis para manter em crdem — endereços de eleitores, manifestos políticos, pedidos de subscrições, convites de jantares e outras coisas.
Certo dia, ao sair do seu apartamento em Temple para apanhar um trem a fim de falar aos seus eleitores, pousou os olhos sobre um objeto notável meio escondido num desses pequenos canteiros de relva que costumam cercar a base de grandes edifícios públicos. Através das grades só conseguia tocar-lhe com a ponta da bengala; mas podia ver que era um pedaço de louça de uma forma excepcional, muito semelhante a uma estrela do mar — moldado, ou acidentalmente quebrado, em cinco irregulares mas bem acentuadas pontas. O colorido predominante era o azul, embora estrias ou manchas verdes recobrissem a cor, e laivos carmezim lhe dessem uma riqueza e um brilho dos mais atraentes. John estava resolvido a possuí-lo; mas quanto mais lhe tocava, mais o objeto recuava. Por fim viu-se forçado a voltar ao seu apartamento e a improvisar um laço de arame preso na bengala, com o qual, com muito cuidado e habilidade, conseguiu finalmente puxar o caco de louça até ao alcance da sua mão. Ao segurá-lo, teve uma exclamação triunfante. Nesse momento soou o relógio. Já não poderia mais chegar a tempo ao encontro marcado. A reunião foi realizada sem ele. Mas como teria sido quebrado aquele pedaço de louça num formato tão singular? Um exame minucioso não deixou dúvidas de que a forma estelar era acidental, o que a tornava ainda mais estranha, e era pouco provável que existisse uma outra nas mesmas condições. Colocado sobre a lareira, no lado oposto ao do bloco de vidro que havia sido desenterrado da areia, parecia uma criatura de outro mundo — frágil e fantástica como um arlequim. Dava a impressão de estar a fazer piruetas pelo espaço, cintilando luz como uma estrela vacilante. O contraste entre a louça tão vívida e alerta, e o vidro tão mudo e contemplativo, fascinava-o e, entre intrigado e pasmo, ele perguntava a si mesmo como teriam chegado a existir aqueles dois objetos num mesmo mundo, e ainda mais em cima de uma mesma estreita prateleira de mármore no mesmo quarto. A pergunta ficava sem resposta.
Começou então a freqüentar locais mais prolíficos em louça quebrada, tais como terrenos de despejo entre leitos de estradas de ferro, lugares de prédios demolidos e terrenos baldios dos arredores de Londres. Mas raramente a louça é atirada de grandes alturas; é uma das mais raras ações humanas. Precisa haver ao mesmo tempo uma casa muito alta e uma mulher tão impulsiva e violenta que atire o seu jarro ou pote pela janela sem pensar em quem passa lá em baixo. Louça quebrada era fácil de encontrar, mas quebrada em algum prosaico acidente doméstico, sem intenção ou finalidade. Não obstante, ele freqüentemente se espantava, à medida que penetrava mais fundo na questão, cem a imensa variedade de formas que podem ser encontradas em Londres apenas, e havia ainda mais motivo para espanto e especulação quanto às diferenças de qualidades e desenhos. Os espécimes mais raros, levava-os para casa e colocava-os sobre. a lareira, onde, no entanto, os deveres dos objetos se tornavam cada vez mais de natureza ornamental, pois que os papéis que precisavam de um peso para prendê-los iam-se fazendo cada vez mais escassos.
Ou porque negligenciasse as suas obrigações, ou as executasse distraidamente, ou os seus eleitores, quando o visitavam, ficassem mal impressionados com o aspecto da sua lareira, seja como for, não foi eleito para os representar no Parlamento, e o seu amigo Charles, que levou o caso muito a peito, e se apressou a ir consolá-lo, encontrou-o tão pouco abatido com o desastre que só pôde supor que o caso era sério demais para penetrar imediatamente na sua compreensão.
Na verdade, John tinha estado naquele dia em Barnes Commons, e ali, sob uma moita de tojo, encontrara um pedaço de ferro notável. Na forma era quase idêntico ao bloco de vidro, massiço e globular, mas tão frio e pesado, tão negro e metálico, que, evidentemente era alienígena desta terra, tendo tido sua origem em alguma estrela morta ou era, então, ele próprio, a cinza da lua. Pesava no bolso, pesava sobre a lareira, irradiava fealdade. E no entanto o meteorito estava na mesma borda em que se achavam o bloco de vidro e a estrela de louça.
Ao vagarem seus olhos por aqueles objetos, a determinação de possuir outros que os sobrepujassem atormentava o rapaz. Dediccu-se mais e mais resolutamente à tarefa de procurá-los. Se não estivesse consumido pela ambição e convicto de que um dia descobriria algum novo monte de lixo que o iria recompensar, as decepções de sofrera, sem contar a fadiga e o ridículo, tê-lo-iam feito abandonar a sua busca. Provido de um saco e de uma comprida bengala à qual adaptara um gancho, revolvia todos os depósitos de terra, pesquisava sob moitas de arbustos, sondava áleas e desvãos entre muros onde tinha aprendido a esperar encontrar, deitados fora, objetos dessa espécie. À medida que se tornava mais exigente, o seu gosto mais severo, as decepções eram inumeráveis, mas sempre um vislumbre de esperança, um caco de louça ou vidro curiosamente marcado ou quebrado, o induzia a continuar. Os dias passaram-se. Ele já não era um jovem. A sua carreira — isto é, a sua carreira política — era uma coisa do passado. As pessoas deixaram de visitá-lo. Era muito taciturno para ser convidado a jantares. Nunca falava com ninguém sobre as suas ambições sérias; a falta de compreensão era evidente na atitude dos outros.
Recostou-se agora na cadeira e observou Charles erguer uma dezena de vezes os objetos e tornar a colocá-los enfaticamente sobre a lareira, como para frizar o que estava a dizer com referência à conduta do Governo, e sem que lhe notasse uma só vez a presença.
— Qual foi o verdadeiro motivo de tudo isso, John? — perguntou Charles de súbito, encarando-o. — O que o fez desistir de tudo assim de repente?
— Eu não desisti — replicou John.
— Mas já não existe uma sombra de probabilidade agora — disse Charles com rudeza.
— Não concordo consigo nisso — disse John, com convicção.
Charles olhou-o e sentiu-se profundamente constrangido; invadiram-no as dúvidas mais extraordinárias. Olhou em redor procurando um alívio para a sua horrível depressão, mas o aspeto desarrumado da sala deprimiu-o ainda mais. Que eram aquela bengala e o velho saco de tapeçaria pendurados na parede? E também aquelas pedras? Fitando John, algo de fixo e distante na sua expressão o alarmou. Sabia bem que, numa tribuna, a aparência de seu amigo seria o bastante para pô-lo fora de questão.
— Bonitas pedras — disse ele, tão jovialmente quanto pôde.
E pretextando um encontro marcado, deixou John — para sempre.
Virginia Woolf
Quer você dizer-me… Acredita então… — parecia a bengala à direita sublinhar as frases, ao traçar longos riscos na areia, junto às ondas.
— A política que se dane! — emitiu claramente o corpo à esquerda e, ao serem pronunciadas essas palavras, as bocas, narizes, queixos, bigodinhos, bonés de tweed, grossas botinas, paletós de caça e meias xadrez dos dois iam-se tornando cada vez mais nítidos; a fumaça de seus cachimbos evolava-se no ar, por milhas e milhas de mar e dunas nada era tão sólido, tão vivo, tão colorido, hirsuto e viril como aqueles dois corpos.
Deixaram-se cair ao lado das seis costelas e espinha dorsal do negro barco sardinheiro. Sabemos como o corpo parece sacudir-se quando quer libertar-se de uma discussão, e desculpar-se por um momento de exaltação, como deixar-se cair, exprimindo pela moleza da sua atitude uma disposição para se interessar por outra coisa — o que quer que esteja mais à mão. Assim Charles, com a bengala estivera golpeando a praia por uma meia milha, pôs-se a atirar pedrinhas chatas por sobre a água; e John, que havia exclamado “a política que se dane!”, começou a escavar com os dedos a areia. À medida que a sua mão ia se enterrando até acima do pulso, de modo a obrigá-lo a arregaçar um pouco a manga, os seus olhos perderam a intensidade, ou antes: o fundo de pensamento e experiência que dá uma inescrutável profundeza aos olhos das pessoas adultas, desapareceu deixando apenas a clara e transparente superfície que se nota nos olhos das crianças onde nada transparece senão o pasmo. Sem dúvida o ato de escavar a areia tinha alguma coisa a ver com aquilo. Ele lembrou-se que, depois de se cavar um pouco, a água flui em redor das pontas dos dedos; o buraco transforma-se num poço, numa fonte, num canal secreto para o mar. Enquanto hesitava sobre qual dessas coisas iria fazer, os dedos, ainda imersos na água, curvaram-se em torno de uma coisa dura — um bocado de matéria sólida — e gradualmente deslocaram uma massa irregular e trouxeram-na à superfície. Removida a areia que a recobria, apareceu uma cor verde. Era um pedaço de vidro, tão espesso que quase chegava a ser opaco; o roçar das ondas desgastara tão com-pletamente qualquer aresta ou formato, que era impossível dizer se fora garrafa, copo ou vidraça; era apenas vidro; era quase uma pedra preciosa. Bastaria engastá-lo num aro de ouro, ou perfurá-lo com um fio, e transformar-se-ia numa jóia; parte de um colar; uma verde luz opaca sobre um dedo. Talvez fosse mesmo uma gema — quem sabe? — usada por uma trigueira princesa a deslizar os dedos na água enquanto ouvia o canto dos escravos que remavam levando-a para o outro lado da baía. Ou talvez a estrutura de carvalho de um cofre de tesouros afundado na época isabelina se tivesse partido, soltando do seu bojo esmeraldas que rolaram e rolaram até chegar à praia. John girou o bloco nos dedos; colocou-o contra a luz, contra o corpo e o braço estendido do seu amigo. O verde tornava-se ligeiramente mais claro ou mais proíundo ao ser posto contra o céu ou contra o corpo. Agradava-lhe, intrigava-o, era um objeto tão duro, tão concentrado, tão definido, em comparação com o mar difuso e a praia enevoada!
Um suspiro interrompeu-o — profundo, afinal, informando-o de que Charles havia atirado todas as pedras chatas ao seu alcance, ou chegara à conclusão de que não valia a pena atirá-las. Lado a lado, comeram os seus sanduíches. Quando terminaram, e estavam a sacudir as migalhas para se pôr de pé, John pegou no bloco de vidro e olhou-o em silêncio. Charles também o olhou. Mas logo viu que não era uma pedra chata, e enchendo o seu cachimbo disse com a energia de quem afasta um rumo menos sério de pensamento:
— Voltando ao que eu estava dizendo…
Não viu, ou se visse provavelmente não o teria notado, que John, depois de fitar um momento o bloco, e como que hesitante, enfiou-o no bolso. Esse impulso, também, podia ter sido o impulso que leva uma criança a apanhar um seixo num caminho cheio deles, e a prometer-lhe uma vida de calor e segurança sobre a lareira do seu quarto, deliciando-se com a sensação de poder e benignidade que pressupõe um tal gesto, e acreditando que o coração da pedra pulsa de alegria ao sentir-se ela escolhida entre milhões de outras semelhantes, ao gozar dessa felicidade em lugar de uma existência fria e húmida sobre a estrada.
“Poderia ter sido qualquer outra entre os milhões de pedras, mas fui eu, eu, eu!”
Quer fosse este ou não o pensamento de John, o pedaço de vidro teve o seu lugar sobre a lareira, onde, com o seu peso, prendia uma pequena pilha de contas e cartas, e servia não somente como um excelente peso-para-papéis, mas também como o natural lugar de pcuso para os olhos do rapaz, quando ele os erguia do seu livro. Qualquer objeto olhado repetidas vezes e meio inconscientemente por uma mente entretida com outro pensamento, identifica-se tão prontamente com a matéria do pensamento que perde a sua verdadeira forma e recompõe-se de maneira diferente, na forma ideal que persegue o espírito nos momentos menos esperados. Assim John começou a sentir-se atraído pelas montras, quando saía à rua, simplesmente porque via algo que lhe fazia lembrar o bloco de vidro. Qualquer coisa, contanto que fosse um objeto de uma determinada forma, mais ou menos arredondada, talvez com uma chama amortecida nas profundezas da sua massa, qualquer coisa — louça, vidro, âmbar, mármore, pedra — até o liso ovo de um pássaro pré-histórico servia. Deu também em andar de olhos postos no chão, sobretudo na vizinhança dos terrenos baldios onde é lançado o lixo das casas. Tais objetos eram ali freqüentemente encontráveis — atirados fora, sem utilidade para ninguém, informes, imprestáveis. Em poucos meses havia ele coleccionado quatro ou cinco espécimes, que foram enfileirar-se sobre a lareira. Eram úteis, também, pois um homem que se candidata ao Parlamento e em vésperas de uma carreira brilhante, tem muitos papéis para manter em crdem — endereços de eleitores, manifestos políticos, pedidos de subscrições, convites de jantares e outras coisas.
Certo dia, ao sair do seu apartamento em Temple para apanhar um trem a fim de falar aos seus eleitores, pousou os olhos sobre um objeto notável meio escondido num desses pequenos canteiros de relva que costumam cercar a base de grandes edifícios públicos. Através das grades só conseguia tocar-lhe com a ponta da bengala; mas podia ver que era um pedaço de louça de uma forma excepcional, muito semelhante a uma estrela do mar — moldado, ou acidentalmente quebrado, em cinco irregulares mas bem acentuadas pontas. O colorido predominante era o azul, embora estrias ou manchas verdes recobrissem a cor, e laivos carmezim lhe dessem uma riqueza e um brilho dos mais atraentes. John estava resolvido a possuí-lo; mas quanto mais lhe tocava, mais o objeto recuava. Por fim viu-se forçado a voltar ao seu apartamento e a improvisar um laço de arame preso na bengala, com o qual, com muito cuidado e habilidade, conseguiu finalmente puxar o caco de louça até ao alcance da sua mão. Ao segurá-lo, teve uma exclamação triunfante. Nesse momento soou o relógio. Já não poderia mais chegar a tempo ao encontro marcado. A reunião foi realizada sem ele. Mas como teria sido quebrado aquele pedaço de louça num formato tão singular? Um exame minucioso não deixou dúvidas de que a forma estelar era acidental, o que a tornava ainda mais estranha, e era pouco provável que existisse uma outra nas mesmas condições. Colocado sobre a lareira, no lado oposto ao do bloco de vidro que havia sido desenterrado da areia, parecia uma criatura de outro mundo — frágil e fantástica como um arlequim. Dava a impressão de estar a fazer piruetas pelo espaço, cintilando luz como uma estrela vacilante. O contraste entre a louça tão vívida e alerta, e o vidro tão mudo e contemplativo, fascinava-o e, entre intrigado e pasmo, ele perguntava a si mesmo como teriam chegado a existir aqueles dois objetos num mesmo mundo, e ainda mais em cima de uma mesma estreita prateleira de mármore no mesmo quarto. A pergunta ficava sem resposta.
Começou então a freqüentar locais mais prolíficos em louça quebrada, tais como terrenos de despejo entre leitos de estradas de ferro, lugares de prédios demolidos e terrenos baldios dos arredores de Londres. Mas raramente a louça é atirada de grandes alturas; é uma das mais raras ações humanas. Precisa haver ao mesmo tempo uma casa muito alta e uma mulher tão impulsiva e violenta que atire o seu jarro ou pote pela janela sem pensar em quem passa lá em baixo. Louça quebrada era fácil de encontrar, mas quebrada em algum prosaico acidente doméstico, sem intenção ou finalidade. Não obstante, ele freqüentemente se espantava, à medida que penetrava mais fundo na questão, cem a imensa variedade de formas que podem ser encontradas em Londres apenas, e havia ainda mais motivo para espanto e especulação quanto às diferenças de qualidades e desenhos. Os espécimes mais raros, levava-os para casa e colocava-os sobre. a lareira, onde, no entanto, os deveres dos objetos se tornavam cada vez mais de natureza ornamental, pois que os papéis que precisavam de um peso para prendê-los iam-se fazendo cada vez mais escassos.
Ou porque negligenciasse as suas obrigações, ou as executasse distraidamente, ou os seus eleitores, quando o visitavam, ficassem mal impressionados com o aspecto da sua lareira, seja como for, não foi eleito para os representar no Parlamento, e o seu amigo Charles, que levou o caso muito a peito, e se apressou a ir consolá-lo, encontrou-o tão pouco abatido com o desastre que só pôde supor que o caso era sério demais para penetrar imediatamente na sua compreensão.
Na verdade, John tinha estado naquele dia em Barnes Commons, e ali, sob uma moita de tojo, encontrara um pedaço de ferro notável. Na forma era quase idêntico ao bloco de vidro, massiço e globular, mas tão frio e pesado, tão negro e metálico, que, evidentemente era alienígena desta terra, tendo tido sua origem em alguma estrela morta ou era, então, ele próprio, a cinza da lua. Pesava no bolso, pesava sobre a lareira, irradiava fealdade. E no entanto o meteorito estava na mesma borda em que se achavam o bloco de vidro e a estrela de louça.
Ao vagarem seus olhos por aqueles objetos, a determinação de possuir outros que os sobrepujassem atormentava o rapaz. Dediccu-se mais e mais resolutamente à tarefa de procurá-los. Se não estivesse consumido pela ambição e convicto de que um dia descobriria algum novo monte de lixo que o iria recompensar, as decepções de sofrera, sem contar a fadiga e o ridículo, tê-lo-iam feito abandonar a sua busca. Provido de um saco e de uma comprida bengala à qual adaptara um gancho, revolvia todos os depósitos de terra, pesquisava sob moitas de arbustos, sondava áleas e desvãos entre muros onde tinha aprendido a esperar encontrar, deitados fora, objetos dessa espécie. À medida que se tornava mais exigente, o seu gosto mais severo, as decepções eram inumeráveis, mas sempre um vislumbre de esperança, um caco de louça ou vidro curiosamente marcado ou quebrado, o induzia a continuar. Os dias passaram-se. Ele já não era um jovem. A sua carreira — isto é, a sua carreira política — era uma coisa do passado. As pessoas deixaram de visitá-lo. Era muito taciturno para ser convidado a jantares. Nunca falava com ninguém sobre as suas ambições sérias; a falta de compreensão era evidente na atitude dos outros.
Recostou-se agora na cadeira e observou Charles erguer uma dezena de vezes os objetos e tornar a colocá-los enfaticamente sobre a lareira, como para frizar o que estava a dizer com referência à conduta do Governo, e sem que lhe notasse uma só vez a presença.
— Qual foi o verdadeiro motivo de tudo isso, John? — perguntou Charles de súbito, encarando-o. — O que o fez desistir de tudo assim de repente?
— Eu não desisti — replicou John.
— Mas já não existe uma sombra de probabilidade agora — disse Charles com rudeza.
— Não concordo consigo nisso — disse John, com convicção.
Charles olhou-o e sentiu-se profundamente constrangido; invadiram-no as dúvidas mais extraordinárias. Olhou em redor procurando um alívio para a sua horrível depressão, mas o aspeto desarrumado da sala deprimiu-o ainda mais. Que eram aquela bengala e o velho saco de tapeçaria pendurados na parede? E também aquelas pedras? Fitando John, algo de fixo e distante na sua expressão o alarmou. Sabia bem que, numa tribuna, a aparência de seu amigo seria o bastante para pô-lo fora de questão.
— Bonitas pedras — disse ele, tão jovialmente quanto pôde.
E pretextando um encontro marcado, deixou John — para sempre.
Virginia Woolf
Uns inhos engenheiros
Onde eu estava ali era um quieto. O ameno âmbito, lugar entre-as-guerras e invasto territorinho, fundo de chácara. Várias árvores. A manhã se-a-si bela: alvoradas aves. O ar andava, terso, fresco. O céu — uma blusa. Uma árvore disse quantas flores, outra respondeu dois pássaros. Esses, limpos. Tão lindos, meigos, quê? Sozinhos adeuses. E eram o amor em sua forma aérea. Juntos voaram, às alamedas frutíferas, voam com uniões e discrepâncias. Indo que mais iam, voltavam. O mundo é todo encantado. Instante estive lá, por um evo, atento apenas ao auspício.
Pois, plumas.
Estes têm linguagem entre si, sua aviação singulariza-se. Segue-se-lhes no meneio um intentar, e gerir, o muito modo, a atenção concêntrica — e um jeito proposituído, negocioso, de como demoram o lugar e rabiscam os momentos, mas virando sempre a um ponto, escaninho, no engalhe da árvore, sob sombra.
O ninho — que erguem — é néxil, pléxil, difícil. Já de segredo o começaram: com um bicadinho de barro, a lama mais doce, a mais terna. De barro, dos lados, à vária vez, ajuntam outros arrebiques. À muita fábrica, que se forma de ticos, estilhas, gravetos, em curtas proporções; e argueiros, crinas, cabelos, fibrilas de musgos, e hábeis ciscos, discernidas lãs, painas — por estofo. Com o travar, urdir, feltrar, enlaçar, entear, empastar, de sua simples saliva canora, e unir, com argúcia e gume, com — um atilho de amor, suas todas artes. Após, ao fim, na afofagem, forrá-lo com a própria única e algodoída penugem — do peito, a que é mais quente do coração. O ninho — que querem — é entre asas e altura. Como o pássaro voa trans abismos. A mais, num esperanceio: o grácil, o sutil, o pênsil.
Se pois, que, na estreitez do que armam, vê-se, o trabalho se parte. Ele provê os materiais; ela afadigada avia-os, a construtora dita, aos capítulos. Ele traz, ela faz; ela o manda. Ele, cabecinha principal? A irrequietá-la, certo já não avoaça, assíduo. Às vezes, porém, para, num fino de ramo se suspende, volatim prebixim — com lequebros e cochilos eventuais: belpraz-se. A mirá-la de reolho, com um trejeitar, ou repausado — tiroliro — biquiabertinho. Ela o insta, o afervoriza, increpa-o. Aí ele vivo se eclipsa. E volta à lida, subsequente ativo, ágil djim, finge-se deparador, vira, vira, bicoca e corre de lado: — Aqui... aqui... aqui... Só que o a seguir-se é que de novo se esquece, empinado se ergue, preparadinho para cantar; que todo tentar de melodia já é um ensaio do indefinido. O que sai é um tritil, pipilo pífio: um piapo — e a alegria a mais, que ele assim se adjudica.
Está perfeito o nidifício, no feliz findar. Os dois vão avir-se. Ele se sobe a andares altos, plenivoa, desce em festa. Ela se faz a femeazinha, instantânea tanagrinha. São casal. Sem tris, se achegam. Simetrizam. Os outros, os trêfegos aos figos, se avistam acolá, na figogueio, de figuifo. Sem reticenciar, entoa ele então um tema, em sua flauta silbisbil. Deram-lhe outro canto? Sai do mais límpido laringe, eóa siringe, e é um alarir, um eloquir, um ironir, um alegrir-se — um cachinar com toda a razão
Perto, pelo pomar, tem-se o plenário deles, que pilucam as frutas: gaturamossabiassanhaços. De seus pios e cantos respinga um pouco até aqui. Vez ou vez, qual que qual, vem um, pessoativo, se avizinha. Aonde já se despojaram as laranjeiras, do redondo de laranjas só resta uma que outra, se sim podre ou muruchuca, para se picorar. Mas há uma figueira, parrada, a grande opípara. Os figos atraem. O sabiá pulador. O sabiazinho imperturbado. Sabiá dos pés de chumbo. Os sanhaços lampejam um entrepossível azul, sacam-se oblíquos do espaço, sempre novos, sempre laivos. O gaturamo é o antes, é seu reflexo sem espelhos, minúscula imensidão, é: minuciosamente indescritível. O sabiá, só. Ou algum guaxe, brusco, que de mais fora se trouxe. Diz-se tlique — e dá-se um se dissipar de voos. Tão enfins, punhado. E mesmo os que vêm a outro esmo, que não o de frugivorar. O tico-tico, no saltitanteio, a safar-se de surpresa em surpresa, tico-te-tico no levitar preciso. Ou uma garricha, a corruir, a chilra silvestriz das hortas, de traseirinho arrebitado, que se espevita sobre a cerca, e camba — apontada, iminentíssima. De âmago: as rolas. No entre mil, porém, este par valeria diferente, vê-se de outra espécie — de rara oscilabilidade e silfidez. Quê? Qual? Sei, num certo sonho, um deles já acudiu por “o apavoradinho”, ave Maria! e há quem lhes dê o apodo de Mariquinha Tece-Seda. São os que sim sós. Podem se imiscuir com o silêncio. O ao alto. A alma arbórea. A graça sem pausas. Amavio. São mais que existe o sol, mais a mim, de outrures. Aqui entramos dentro da amizade.
Pois, plumas.
Estes têm linguagem entre si, sua aviação singulariza-se. Segue-se-lhes no meneio um intentar, e gerir, o muito modo, a atenção concêntrica — e um jeito proposituído, negocioso, de como demoram o lugar e rabiscam os momentos, mas virando sempre a um ponto, escaninho, no engalhe da árvore, sob sombra.
Súbitos, sus, aos lanços, como que operam e traçam. Terão seus porfins: o porfim. Nidificam! Aqui, no avisado, preferiram, para sua ninhança, no desfrequentado. A manhã se trança de perfumes e o orvalho é um pintalgamento lúcido. O ramo a enfolhar não se conclui, nem tem a quem acariciar. O tempo não voa. Todo galhozinho é uma ponte. Ao que eles dois se aplicam, em suave açodo. Tudo é sério demais, como num brinquedo. Sem suor, às ruflas, mourejam, cumprem rotina obstinaz. Um passarinho, que faz seu ninho, tem mãos a medir?
Ambos e a alvo ao em ar, afã, e o leviano com que pousam, a amimar o chão — o chãozinho. Como corrivoam, às múltiplas mímicas cabecinhas, a acatitar-se, asas de vestir, revestir. Têm o ninho em início. Aonde vão, acham ainda o orvalho. Arre que catam a palha mínima, fio, cerda ou cílio, xepam. O mundo é cheio do que se precisa, em migalhificências: felpas, filamentos, flóculos. À vez de esmiuçar-se, nada seja nhufa ou nica: por uma ninharia, os pássaros passam, em desazo. Nem nem comem? O tempo parco, o mundo movediço e mágico. Seu dever é ver, extrair, extricar, içar, levar a lar. Sim, aqui os dois, nidulantes, não cessam, os filhos da delicadeza. Outros só estão a picoritar na figueira, meliantes, conforme ferem os figos, de vizbico. Conquanto, do ao-fundo, os mais outros, segundo as matérias: o incoativo, o repetitivo, o pio puro; tié, tietê, teiteí. O pomar é uma pequena área florestária. Bem-te-vi — monotonia aguda — seu grito de artifício. O sabiá reza: — Senhora... Senhora... — a penas um rebate de saudade. Sempre mais longe, mais fundo, mais grave. Aonde os anjos, que ainda à terra vêm, agora. Vigem disfarçados?
Ambos e a alvo ao em ar, afã, e o leviano com que pousam, a amimar o chão — o chãozinho. Como corrivoam, às múltiplas mímicas cabecinhas, a acatitar-se, asas de vestir, revestir. Têm o ninho em início. Aonde vão, acham ainda o orvalho. Arre que catam a palha mínima, fio, cerda ou cílio, xepam. O mundo é cheio do que se precisa, em migalhificências: felpas, filamentos, flóculos. À vez de esmiuçar-se, nada seja nhufa ou nica: por uma ninharia, os pássaros passam, em desazo. Nem nem comem? O tempo parco, o mundo movediço e mágico. Seu dever é ver, extrair, extricar, içar, levar a lar. Sim, aqui os dois, nidulantes, não cessam, os filhos da delicadeza. Outros só estão a picoritar na figueira, meliantes, conforme ferem os figos, de vizbico. Conquanto, do ao-fundo, os mais outros, segundo as matérias: o incoativo, o repetitivo, o pio puro; tié, tietê, teiteí. O pomar é uma pequena área florestária. Bem-te-vi — monotonia aguda — seu grito de artifício. O sabiá reza: — Senhora... Senhora... — a penas um rebate de saudade. Sempre mais longe, mais fundo, mais grave. Aonde os anjos, que ainda à terra vêm, agora. Vigem disfarçados?
O ninho — que erguem — é néxil, pléxil, difícil. Já de segredo o começaram: com um bicadinho de barro, a lama mais doce, a mais terna. De barro, dos lados, à vária vez, ajuntam outros arrebiques. À muita fábrica, que se forma de ticos, estilhas, gravetos, em curtas proporções; e argueiros, crinas, cabelos, fibrilas de musgos, e hábeis ciscos, discernidas lãs, painas — por estofo. Com o travar, urdir, feltrar, enlaçar, entear, empastar, de sua simples saliva canora, e unir, com argúcia e gume, com — um atilho de amor, suas todas artes. Após, ao fim, na afofagem, forrá-lo com a própria única e algodoída penugem — do peito, a que é mais quente do coração. O ninho — que querem — é entre asas e altura. Como o pássaro voa trans abismos. A mais, num esperanceio: o grácil, o sutil, o pênsil.
Se pois, que, na estreitez do que armam, vê-se, o trabalho se parte. Ele provê os materiais; ela afadigada avia-os, a construtora dita, aos capítulos. Ele traz, ela faz; ela o manda. Ele, cabecinha principal? A irrequietá-la, certo já não avoaça, assíduo. Às vezes, porém, para, num fino de ramo se suspende, volatim prebixim — com lequebros e cochilos eventuais: belpraz-se. A mirá-la de reolho, com um trejeitar, ou repausado — tiroliro — biquiabertinho. Ela o insta, o afervoriza, increpa-o. Aí ele vivo se eclipsa. E volta à lida, subsequente ativo, ágil djim, finge-se deparador, vira, vira, bicoca e corre de lado: — Aqui... aqui... aqui... Só que o a seguir-se é que de novo se esquece, empinado se ergue, preparadinho para cantar; que todo tentar de melodia já é um ensaio do indefinido. O que sai é um tritil, pipilo pífio: um piapo — e a alegria a mais, que ele assim se adjudica.
Ela é intrínseca. Ela é muito amanhã, seu em breve ser, mãe até na raiz das penas. Toda mãe se desorbita. O que urge, urge-a, cativa de fadária servidão — um dom. O que teme é ovo anteposto. E ainda não está pronto o ninho, amorável. Donde o diligir, de afinco, de rápido coração, no mais dar. Sumiu-se a gentil trapeirinha em gandaia. Repousa-e-voa, sofridulante, o físico aflito, vã, vã. Já ali a erguitar um til de capim, que é um quindim, que é um avo. Recuida-o agora, em enlevo de cobiça, com sem biquinho tecelão. E engendra. Com pouco, estará na poesia: um pós um — o-o-o — no fofo côncavo, para o choco — com o carinho de um colecionador; prolonga um problema.
Está perfeito o nidifício, no feliz findar. Os dois vão avir-se. Ele se sobe a andares altos, plenivoa, desce em festa. Ela se faz a femeazinha, instantânea tanagrinha. São casal. Sem tris, se achegam. Simetrizam. Os outros, os trêfegos aos figos, se avistam acolá, na figogueio, de figuifo. Sem reticenciar, entoa ele então um tema, em sua flauta silbisbil. Deram-lhe outro canto? Sai do mais límpido laringe, eóa siringe, e é um alarir, um eloquir, um ironir, um alegrir-se — um cachinar com toda a razão
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Se sim, quando. Se às vezes, simplesmente. Onde um lugar — os quietos curtos horizontes, o tempo um augúrio ininterrupto — que merece demorada. A inteira alma. As várias árvores. O céu — ficção concreta. Um par de pequeninos, edificantes. O tremer de galho que um mínimo corpo deixa. E o nomezinho de Deus, no bico dos pássaros.
João Guimarães Rosa, "Ave, Palavra"
Se sim, quando. Se às vezes, simplesmente. Onde um lugar — os quietos curtos horizontes, o tempo um augúrio ininterrupto — que merece demorada. A inteira alma. As várias árvores. O céu — ficção concreta. Um par de pequeninos, edificantes. O tremer de galho que um mínimo corpo deixa. E o nomezinho de Deus, no bico dos pássaros.
João Guimarães Rosa, "Ave, Palavra"
segunda-feira, abril 20
Nos salões do sonho
Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!
Mario Quintana
Conversa com o Diabo
Ele cumpriu a promessa. Veio visitar-me de novo. Veio elegantemente trajado, dessa vez usando um blazer vermelho, por conselho de um famoso figurinista. Depois dos abraços iniciais, ele relembrou o fim da nossa conversa anterior, quando disse que as pessoas que se dizem endemoninhadas não estão possuídas pelo Diabo coisa nenhuma. Estão é possuídas pelo seu próprio traseiro...
“Ah! O reverso da palavra! Os que não entendem poesia leem poesia do mesmo jeito que leem bula de remédio, em que cada palavra tem de significar precisamente o que o dicionário diz. Já os poetas sabem que cada palavra significa uma outra coisa. Se um poema dissesse que um peixe engoliu um homem que ficou três dias dentro dele e até escreveu poesia durante esse tempo, você pensaria que isso aconteceu de verdade ou que é literatura, realismo fantástico?
“Pois Deus resolveu oferecer um banquete de palavras para os homens e desandou a escrever poemas lindos. E pediu minha opinião.
“‘O que é que você acha disso? Será que os homens vão gostar?’
“Eu provei e gostei, mas ponderei: ‘Senhor, banquete maravilhoso. Mas é preciso não se enganar. Os homens vão comer? Claro que vão comer. Vão comer por quê? Porque têm um agudo senso de discriminação, porque são sábios, porque sabem diferenciar literatura boa de literatura ruim? Não é nada disso. Vão comer porque — lamento dizer isso — frequentemente o seu gosto não se diferencia do gosto dos porcos. Eles não sabem distinguir qualidade de quantidade. Falta-lhes o dom da discriminação. Comem tudo, engolem tudo, engordam, quanto mais melhor... Acham que, se está escrito no livro, é palavra de Deus... E aí o senhor vai sorrir enganado pensando que eles realmente perceberam a finura da sua culinária literária. Já viu as revistas que eles devoram? E as revistas pornô? E os livrinhos piedosos, melado de rapadura de tão doces e bobos. Senhor, o povo come qualquer coisa e gosta...’.
“‘É preciso reconhecer que Dostoiévski estava certo: os homens não estão atrás de Deus por amor; o que eles querem mesmo são os milagres...’
“Deus então me perguntou: ‘Que devo fazer? Quero convidar para o meu banquete só aqueles que têm o gosto refinado para que possam se deleitar com a beleza dos meus poemas’.
“Aí eu respondi: ‘É simples. Vamos misturar os seus poemas com literatura vagabunda, sem sentido, boba, essas revistas que ficam em pilhas nos consultórios médicos e dentários, mais coisas de horror, de absurdo, de autoajuda... Vamos pôr todos os pratos num bufê imenso, os poemas divinos com os pratos que eu, o Testador, vou inventar. Misturamos tudo e observamos.
“Deus ponderou a minha sugestão e pediu-me então que escrevesse umas estórias para misturar com os seus poemas. Foi o que fiz. Que isso que estou dizendo é verdade está confirmado pelo próprio Jesus, na parábola do trigo e do joio. Um homem plantou um campo de trigo. Veio um inimigo de noite e semeou joio no meio do trigo. Quando os empregados viram o joio nascendo ficaram horrorizados e puseram-se a arrancá-lo. O dono do campo ordenou que parassem. Que o trigo e o joio crescessem misturados. Assim, usando as palavras do próprio Jesus, os textos ditos sagrados são uma mistura de trigo e joio. Quem pegar o joio pensando que é trigo é um tolo. Vai ficar de fora do banquete...
“Na próxima vez vou contar a estória que inventei sobre o primeiro assassinato da história da humanidade. E vou adiantar: o seu tema é uma querela sobre a dieta divina...”
Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"
“Ah! O reverso da palavra! Os que não entendem poesia leem poesia do mesmo jeito que leem bula de remédio, em que cada palavra tem de significar precisamente o que o dicionário diz. Já os poetas sabem que cada palavra significa uma outra coisa. Se um poema dissesse que um peixe engoliu um homem que ficou três dias dentro dele e até escreveu poesia durante esse tempo, você pensaria que isso aconteceu de verdade ou que é literatura, realismo fantástico?
“Coisa que Deus gosta de fazer é cozinhar. Mas a culinária divina tem uma peculiaridade: Deus mistura poemas com a comida. Comida que não tem poema misturado não é coisa de Deus. Pois não é isso que é a eucaristia, comida misturada com palavras?
“Pois Deus resolveu oferecer um banquete de palavras para os homens e desandou a escrever poemas lindos. E pediu minha opinião.
“‘O que é que você acha disso? Será que os homens vão gostar?’
“Eu provei e gostei, mas ponderei: ‘Senhor, banquete maravilhoso. Mas é preciso não se enganar. Os homens vão comer? Claro que vão comer. Vão comer por quê? Porque têm um agudo senso de discriminação, porque são sábios, porque sabem diferenciar literatura boa de literatura ruim? Não é nada disso. Vão comer porque — lamento dizer isso — frequentemente o seu gosto não se diferencia do gosto dos porcos. Eles não sabem distinguir qualidade de quantidade. Falta-lhes o dom da discriminação. Comem tudo, engolem tudo, engordam, quanto mais melhor... Acham que, se está escrito no livro, é palavra de Deus... E aí o senhor vai sorrir enganado pensando que eles realmente perceberam a finura da sua culinária literária. Já viu as revistas que eles devoram? E as revistas pornô? E os livrinhos piedosos, melado de rapadura de tão doces e bobos. Senhor, o povo come qualquer coisa e gosta...’.
“‘É preciso reconhecer que Dostoiévski estava certo: os homens não estão atrás de Deus por amor; o que eles querem mesmo são os milagres...’
“Deus então me perguntou: ‘Que devo fazer? Quero convidar para o meu banquete só aqueles que têm o gosto refinado para que possam se deleitar com a beleza dos meus poemas’.
“Aí eu respondi: ‘É simples. Vamos misturar os seus poemas com literatura vagabunda, sem sentido, boba, essas revistas que ficam em pilhas nos consultórios médicos e dentários, mais coisas de horror, de absurdo, de autoajuda... Vamos pôr todos os pratos num bufê imenso, os poemas divinos com os pratos que eu, o Testador, vou inventar. Misturamos tudo e observamos.
Aqueles que comerem tudo e gostarem de tudo — acham que assim estão agradando a Deus —, esses são os tolos. Incapazes de distinguir o belo das tolices. Mas aqueles que forem seletivos, que não aceitarem tudo, que cheirarem e separarem, aqueles que tiverem a sensibilidade para dizer: ‘Isso é poesia divina e isso é literatura de terceira categoria’, esses merecem ser convidados para o banquete final’.
“Deus ponderou a minha sugestão e pediu-me então que escrevesse umas estórias para misturar com os seus poemas. Foi o que fiz. Que isso que estou dizendo é verdade está confirmado pelo próprio Jesus, na parábola do trigo e do joio. Um homem plantou um campo de trigo. Veio um inimigo de noite e semeou joio no meio do trigo. Quando os empregados viram o joio nascendo ficaram horrorizados e puseram-se a arrancá-lo. O dono do campo ordenou que parassem. Que o trigo e o joio crescessem misturados. Assim, usando as palavras do próprio Jesus, os textos ditos sagrados são uma mistura de trigo e joio. Quem pegar o joio pensando que é trigo é um tolo. Vai ficar de fora do banquete...
“Na próxima vez vou contar a estória que inventei sobre o primeiro assassinato da história da humanidade. E vou adiantar: o seu tema é uma querela sobre a dieta divina...”
Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"
Tardes imprevistas
Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara —, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história contínua, mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Com outros olhos
Da ampla janela, aberta sobre o jardinzinho pênsil da casa, via-se, como que pousado no azul vivo da fresca manhã, um ramo de amendoeira florida, e ouvia-se, misturado ao quieto e rouco gotejar do chafariz no meio do jardim, o bimbalhar festivo das igrejas distantes e a garrulice das andorinhas ébrias de ar e de sol.
Ao retirar-se da janela, suspirando, Ana percebeu que o marido, naquela manhã, esquecera-se de decompor a cama, como fazia sempre, para que os criados não notassem que ele não dormira em seu quarto. Pousou então os cotovelos na cama intacta, depois ali se apoiou com o busto todo, dobrando a bela cabeça loura sobre os travesseiros e semicerrando os olhos, como que para saborear, no frescor do linho, os sonos que ali costumava dormir. Um bando de andorinhas tresmalhadas veio rumorejar diante da janela.
— Teria sido melhor que houvesse deitado aqui — murmurou entre si; e levantou-se cansada.
O marido ia partir naquela mesma noite, e ela entrara no quarto dele a fim de preparar-lhe o necessário para a viagem.
Ao abrir o guarda-roupa, ouviu como que um chiado na gaveta interna e logo se afastou, assustada. Apanhou de um canto do quarto uma bengala de cabo recurvo e, mantendo junto às pernas o vestido, pegou a bengala pela ponta e experimentou abrir com ela, assim afastada, a gaveta. Mas, ao puxar, ao invés da gaveta veio para fora, agilmente, da bengala, uma luzidia e perigosa lâmina. Isso ela não esperava; ficou assustada e deixou cair das mãos a bainha do estoque.
Naquele momento, um outro chiado fê-la voltar-se de repente, na dúvida de que também o primeiro tivesse partido de alguma andorinha batendo nas vidraças.
Afastou com o pé a arma desembainhada e puxou para fora, entre as duas portinholas abertas, a gaveta repleta de roupas velhas, ali guardadas pelo marido. Por improvisa curiosidade, passou então a revistá-la e, ao mexer num paletó velho e desbotado, ocorreu-lhe esbarrar nas orlas, sob o forro, como num pedaço de papelão, deslizado para ali do bolso furado; quis ver o que seria aquela carta caída ali, quem sabe há quantos anos, e esquecida; e assim, por acaso, Ana descobriu o retrato da primeira mulher de seu marido.
Empalidecendo, com a vista turva e o coração em suspenso, correu à janela, e ali permaneceu longo tempo, atônita, a contemplar a imagem desconhecida, como que presa de uma sensação de espanto.
O volumoso arranjo do penteado e o vestido de estilo antigo não lhe fizeram notar a princípio a beleza daquele rosto; mas, apenas pôde apanhar-lhe os traços, abstraindo-os dos enfeites, que agora, tantos anos depois, pareciam grotescos, e fixar-lhe especialmente os olhos, sentiu-se quase ofendida, e um ímpeto de ódio lhe saltou do coração ao cérebro: ódio de ciúme póstumo; ódio misto a desprezo, que experimentara por aquela que se enamorara do homem que agora era seu marido, depois de onze anos da tragédia conjugal que destruíra de chofre o primeiro lar dele.
Ana odiara aquela mulher, não sabendo compreender como pudera trair o homem que ela agora adorava e, em segundo lugar, porque seus parentes se haviam oposto ao seu casamento com Brívio, como se este houvesse sido responsável pela infâmia e pela morte violenta da mulher infiel.
Era ela, sim, era, sem dúvida! a primeira mulher de Vittore: aquela que se suicidara!
Teve disso a confirmação pela dedicatória escrita no verso do retrato: Ao meu Vittore, a sua Almira — 11 de novembro de 1873.
Ana tivera notícias muitos vagas a respeito da morta: sabia apenas que o marido, descoberta a traição, obrigara-a, com a impassibilidade de um juiz, a suicidar-se.
Agora, ela evocou com prazer esta condenação do marido, irritada por aquele “meu” e por aquele “sua” da dedicatória, como se a outra houvesse desejado ostentar, assim, estreitamente, o liame que reciprocamente unira ela e Vittore, unicamente para fazer-lhe desaforo.
Ante aquele primeiro relâmpago de ódio, faiscado pela rivalidade para ela agora existente, seguiu-se na alma de Ana a curiosidade feminina de examinar os traços daquele rosto, mas quase contida pela estranha consternação que se experimenta perante um objeto que pertenceu a alguém tragicamente desaparecido; consternação agora mais viva, mas a ela não desconhecida, porque nisso se concentrara todo o seu amor pelo marido, que já pertencera àquela outra mulher.
Ao examinar-lhe o rosto, Ana percebeu logo quanto se diferenciava do seu; e surgiu-lhe ao mesmo tempo do coração a pergunta: como pudera o marido amar aquela mulher, aquela mocinha, certamente mais bonita para ele, e pudesse depois enamorar-se dela, tão diferente?
Parecia-lhe belo, muito mais belo que o seu também, aquele rosto que, pelo retrato, devia ser moreno. Ei-lo: e aqueles lábios se haviam unido, no beijo, aos dele; mas, por que então, nos cantos da boca, aquela prega dolorosa? E porque tão triste o olhar daqueles olhos profundos? O rosto inteiro transpirava uma intensa mágoa; e Ana sentiu quase raiva da bondade humilde e real que aqueles traços exprimiam, e daí um gesto de repulsa e aversão, parecendo-lhe de súbito descobrir no olhar daqueles olhos a mesma expressão dos seus, quando, ao pensar no marido, se olhava ao espelho, pela manhã, depois de se haver arrumado.
Teve o tempo ainda de pôr no bolso o retrato: o marido apareceu, bufando, à entrada do quarto.
— Que fez você? Como sempre? Arrumou? Oh, pobre de mim! Agora não encontro mais nada!
Ao ver o estoque desembainhado no chão:
— Ah! Você brincou também de esgrima, com as roupas do armário?
E riu com aquele seu riso, que partia somente da garganta, como se alguém lha houvesse beliscado; e, ao rir assim, olhou para a mulher, talvez para perguntar-lhe o porquê de seu próprio riso. E, olhando, batia as pálpebras sem cessar, celeríssimamente, sobre os olhinhos agudos, negros, irrequietos.
Vittore Brívio tratava a mulher como a uma menina incapaz de outra coisa a não ser daquele amor ingênuo e quase pueril de que se sentia circundado, às vezes com tédio, e ao qual se propusera prestar atenção somente de vez em quando, mostrando, também então, uma condescendência quase embebida de leve ironia, parecendo dizer-lhe: “Pois bem, que seja! durante algum tempo, serei criança também com você: é preciso mesmo fazer isto, mas não percamos demasiado tempo!”
Ana deixara cair a seus pés o velho paletó, onde encontrara o retrato. Ele ergueu-o, metendo-lhe a ponta do estoque, depois chamou da janela o criado, que se achava no jardim e que servia também de cocheiro e que, no momento, estava atrelando o cavalo ao trole. Assim que o rapaz se apresentou, em mangas de camisa, diante da janela, Brívio atirou-lhe à cara, grosseiramente, o paletó espetado, acompanhando a esmola com um: “Tome, isto é para você!”
— Assim você terá menos para escovar — acrescentou, dirigindo-se à mulher — e também para arrumar, esperemos!
E novamente emitiu aquele seu riso forçado, batendo mais e mais as pálpebras.
Outras vezes, o marido afastara-se da cidade e não por poucos dias apenas, partindo mesmo à noite, como desta vez; mas Ana, ainda sob a impressão da descoberta daquele retrato, experimentou um medo estranho, e disse-o, chorando, ao marido.
Vittore Brívio, apressado, receando sair tarde, e todo absorto no pensamento de seus negócios, recebeu com mau humor aquele pranto insólito da mulher.
— Como! Por quê? Vamos, vamos, criancices!
E saiu a toda pressa, sem sequer despedir-se.
Ana estremeceu ao ruído da porta que se lhe fechou empós, com ímpeto; ficou ali com o lampião na mão, na saleta, e sentiu as lágrimas se lhe regelarem nos olhos. Depois reagiu e voltou rápida para seu quarto, a fim de deitar-se logo.
No aposento já arrumado, ardia a lamparina da noite.
— Vá, pode ir dormir — disse Ana à camareira, que a esperava. — Eu mesma me arranjo. Boa noite.
Apagou a luz, mas, ao invés de pousá-la na mísula, como sempre fazia, sobre o criado-mudo, pressentindo — mesmo contra sua própria vontade — que talvez dela necessitaria mais tarde. Começou a despir-se à pressa, conservando os olhos fixos no chão, diante de si. Quando o vestido lhe caiu aos pés, pensou que o retrato estava lá e, com viva raiva, se sentiu olhada e compadecida por aqueles olhos dolentes, que tanta impressão lhe haviam causado. Curvou-se resolutamente, para apanhar do tapete o vestido, e pousou-o, sem dobrar, sobre a poltrona aos pés da cama, como se o bolso que guardava o retrato e o envoltório do pano devessem e pudessem impedir-lhe de reconstruir a imagem daquela morta.
Mal se deitara, fechou os olhos e se propôs a seguir, com o pensamento, o marido pela estrada que levava à estação ferroviária. Impôs-se isso por uma irada revolta ao sentimento que, durante aquele dia todo, a conservara vigilante, a observar, a estudar o marido. Sabia de onde proviera tal sentimento e queria expulsá-lo de si.
No esforço da vontade, que lhe provocava viva super-excitação nervosa, imaginou ter diante dos olhos, com extraordinária evidência, a comprida rua, deserta na noite, iluminada pelos lampiões que reverberam sua luz trémula na calçada, que parecia palpitar; e aos pés de cada lampião, um círculo de sombra; as lojas, todas fechadas; e eis a carruagem que conduzia Vittore. Como se a houvesse esperado à passagem, passou a segui-la até à estação; viu o trem lúgubre, sob o telhado de vidro; uma grande confusão de pessoas naquele interior vasto, enfumaçado, mal iluminado, sombriamente sonoro: eis que o trem partia; e, como se realmente o visse afastar-se e desaparecer nas trevas, voltou logo a si, abriu os olhos no quarto silencioso e experimentou uma angustiosa sensação de vácuo, como se algo lhe faltasse dentro.
Sentiu, então, confusamente, desnorteando-se, que, desde três anos, talvez desde o momento em que partira da casa paterna, ela estava mergulhada naquele vácuo, de que só agora começava a ter conhecimento. Não notara antes, porque o havia preenchido somente consigo, com seu amor, aquele vazio; percebia-o agora, porque, durante aquele dia todo, conservara quase suspenso seu amor, para ver, para observar, para julgar.
“Nem sequer se despediu de mim!” pensou; e pôs-se a chorar de novo, como se este pensamento fosse determinadamente a causa do pranto.
Sentou-se na cama: mas logo deteve a mão estendida, ao levantar-se, para apanhar o lenço do vestido. Ora, seria mesmo inútil proibir-se de rever aquele retrato, de observá-lo! Apanhou-o. Reacendeu a luz.
Como imaginara diversamente, aquela mulher! Contemplando-lhe agora a verdadeira efígie, sentia remorsos pelos sentimentos que a imaginação lhe sugerira. Pensara sempre nela como uma mulher gorda e corada, com os olhos relampejantes e risonhos, inclinada ao riso, a distrações vulgares. E, ao contrário, ei-la: uma jovem, e dos seus puros traços emanava uma alma profunda e atormentada; diferente dela, sim, mas não no sentido inconveniente de antes: ao contrário, até parecia que aquela boca não houvesse nunca sorrido, ao passo que a sua tantas vezes rira alegremente; e, certamente, se moreno aquele rosto (como pelo retrato parecia) era de um ar menos risonho que o seu, louro e róseo.
Por que, por que tão triste?
Um pensamento odioso atravessou-lhe a mente, e logo desprendeu os olhos da imagem daquela mulher, descobrindo-lhe de improviso um perigo não só à sua paz, ao seu amor, que também naquele dia recebera mais de uma ferida, mas também à sua orgulhosa dignidade de mulher honesta, que jamais se permitira nem mesmo o mínimo pensamento contra o marido. Aquela tivera um amante! E por causa deste, ela talvez estivesse tão triste, por causa daquele amor adúltero, e não pelo marido!
Atirou o retrato sobre o criado-mudo e apagou de novo a luz, esperando adormecer, desta vez, sem mais pensar naquela mulher, com a qual nada podia ter em comum. Mas, fechando as pálpebras, reviu logo, malgrado seu, os olhos da morta, e em vão procurou expulsar aquela visão.
— Não por ele, não por ele! — murmurou, com aflitiva obstinação, como se, injuriando-a, contasse libertar-se dela.
E esforçou-se por trazer de novo à memória quanto sabia sobre o outro, o amante, quase que obrigando o olhar e a tristeza daqueles olhos a se dirigirem não mais a ela mas sim ao antigo amante, do qual conhecia apenas o nome: Artur Valli. Sabia que ele se casara, alguns anos depois, quase para provar que era inocente do crime que lhe queria atribuir Brívio, do qual sempre repelira energicamente o desafio, protestando que jamais se bateria em duelo com um louco assassino. Depois desta recusa, Vittore tinha ameaçado matá-lo onde o encontrasse, até mesmo na igreja; e então ele saíra dali, com a mulher, voltando mais tarde àquela cidade, assim que soubera que Vittore, de novo casado, partira.
Mas da tristeza desses acontecimentos por ela relembrados, pela covardia de Valli e, depois de tantos anos, pelo esquecimento do marido o qual, como se nada fosse, conseguira reabilitar-se na vida e tornar a casar, pela alegria que ela própria sentira ao se tornar sua mulher, por aqueles três anos transcorridos sem jamais se lembrar da outra, inesperadamente, um motivo de compaixão por ela se impôs a Ana espontâneo: reviu-lhe viva a imagem, mas como se estivesse longe, longe, e pareceu-lhe que, com aqueles olhos, de tanta mágoa inundados, ela lhe dissesse, abanando levemente a cabeça:
— Somente eu, porém, morri! Vocês todos vivem!
Viu-se, sentiu-se sozinha em casa; teve medo. Vivia, sim, ela; mas fazia três anos, desde o dia de seu casamento, não mais vira, nem uma só vez, seus pais, sua irmã. Ela, que os adorava, e que sempre tinha sido para com eles dócil e confiante, pudera rebelar-se à sua vontade, aos seus conselhos, por amor àquele homem; por amor àquele homem adoecera mortalmente e teria morrido, se os médicos não houvessem induzido seus pais a condescender no casamento. O pai cedera, não consentindo, porém, e até jurando que ela para ele, para sua casa, depois daquele casamento, deixaria de existir. Além da diferença de idade, dos dezoito anos que o marido tinha mais que ela, obstáculo mais grave para o pai tinha sido a posição financeira do marido, sujeita a rápidas mudanças devido a negócios arriscados a que costumava atirar-se, com temerária confiança em si mesmo e na sorte.
Em três anos de casamento, Ana, rodeada de conforto, pudera considerar injustas ou ditadas por contrárias prevenções as considerações da prudência paterna, quanto à fortuna do marido, na qual, de resto, ela, ignara, depositava a mesma confiança que ele em si próprio; quanto então à diferença de idade, até agora nenhum manifesto argumento de desilusão para ela ou de admiração para os outros, porque, dos anos, Brívio não sentia o mínimo prejuízo nem no corpo vivacíssimo e nervoso, nem muito menos no ânimo, dotado de infatigável energia, de irrequieta alacridade.
De bem outra coisa, agora, pela primeira vez, olhando (sem sequer desconfiar) para sua vida com os olhos da morta, encontrava motivo para queixar-se do marido. Sim, era verdade: da indiferença quase altiva dele ela se sentira ferir já outras vezes: porém, nunca como naquele dia; e agora, pela primeira vez, se sentia tão angustiosamente só, separada dos parentes, os quais, lhe parecia naquele momento, a houvessem abandonado ali, quase que, ao casar com Brívio, tivesse já algo em comum com aquela morta e não fosse mais digna de outra companhia. E o marido, que deveria consolá-la, o próprio marido parecia não dar-lhe mérito algum quanto ao sacrifício que ela fizera de seu amor filial e fraternal, como se a ela nada tivesse custado, como se àquele sacrifício ele tivesse direito, e por isso agora nenhum dever tinha para consolá-la ou compensá-la. Direito, sim, mas porque ela se enamorara tão perdidamente por ele, àquele tempo; então ele tinha agora o dever de compensá-la. E ao invés…
— Sempre assim! — pareceu a Ana que os lábios da morta suspirassem.
Reacendeu a luz e de novo, contemplando a imagem, foi atraída pela expressão daqueles olhos. Também ela, então, deveras, sofrera por ele? Também ela, também ela, ao perceber que não era amada, experimentara aquele angustioso vazio?
— Sim? sim? — perguntou Ana, sufocada pelo pranto, à imagem.
E pareceu-lhe, então, que aqueles olhos bondosos, repletos de paixão, se compadecessem dela por sua vez, tivessem pena dela por aquele abandono, pelo sacrifício não recompensado, pelo amor que lhe ficava preso no seio, qual tesouro no escrínio, do qual ele possuísse as chaves, mas nunca dele se servira, tal como o avarento.
Ao retirar-se da janela, suspirando, Ana percebeu que o marido, naquela manhã, esquecera-se de decompor a cama, como fazia sempre, para que os criados não notassem que ele não dormira em seu quarto. Pousou então os cotovelos na cama intacta, depois ali se apoiou com o busto todo, dobrando a bela cabeça loura sobre os travesseiros e semicerrando os olhos, como que para saborear, no frescor do linho, os sonos que ali costumava dormir. Um bando de andorinhas tresmalhadas veio rumorejar diante da janela.
— Teria sido melhor que houvesse deitado aqui — murmurou entre si; e levantou-se cansada.
O marido ia partir naquela mesma noite, e ela entrara no quarto dele a fim de preparar-lhe o necessário para a viagem.
Ao abrir o guarda-roupa, ouviu como que um chiado na gaveta interna e logo se afastou, assustada. Apanhou de um canto do quarto uma bengala de cabo recurvo e, mantendo junto às pernas o vestido, pegou a bengala pela ponta e experimentou abrir com ela, assim afastada, a gaveta. Mas, ao puxar, ao invés da gaveta veio para fora, agilmente, da bengala, uma luzidia e perigosa lâmina. Isso ela não esperava; ficou assustada e deixou cair das mãos a bainha do estoque.
Naquele momento, um outro chiado fê-la voltar-se de repente, na dúvida de que também o primeiro tivesse partido de alguma andorinha batendo nas vidraças.
Afastou com o pé a arma desembainhada e puxou para fora, entre as duas portinholas abertas, a gaveta repleta de roupas velhas, ali guardadas pelo marido. Por improvisa curiosidade, passou então a revistá-la e, ao mexer num paletó velho e desbotado, ocorreu-lhe esbarrar nas orlas, sob o forro, como num pedaço de papelão, deslizado para ali do bolso furado; quis ver o que seria aquela carta caída ali, quem sabe há quantos anos, e esquecida; e assim, por acaso, Ana descobriu o retrato da primeira mulher de seu marido.
Empalidecendo, com a vista turva e o coração em suspenso, correu à janela, e ali permaneceu longo tempo, atônita, a contemplar a imagem desconhecida, como que presa de uma sensação de espanto.
O volumoso arranjo do penteado e o vestido de estilo antigo não lhe fizeram notar a princípio a beleza daquele rosto; mas, apenas pôde apanhar-lhe os traços, abstraindo-os dos enfeites, que agora, tantos anos depois, pareciam grotescos, e fixar-lhe especialmente os olhos, sentiu-se quase ofendida, e um ímpeto de ódio lhe saltou do coração ao cérebro: ódio de ciúme póstumo; ódio misto a desprezo, que experimentara por aquela que se enamorara do homem que agora era seu marido, depois de onze anos da tragédia conjugal que destruíra de chofre o primeiro lar dele.
Ana odiara aquela mulher, não sabendo compreender como pudera trair o homem que ela agora adorava e, em segundo lugar, porque seus parentes se haviam oposto ao seu casamento com Brívio, como se este houvesse sido responsável pela infâmia e pela morte violenta da mulher infiel.
Era ela, sim, era, sem dúvida! a primeira mulher de Vittore: aquela que se suicidara!
Teve disso a confirmação pela dedicatória escrita no verso do retrato: Ao meu Vittore, a sua Almira — 11 de novembro de 1873.
Ana tivera notícias muitos vagas a respeito da morta: sabia apenas que o marido, descoberta a traição, obrigara-a, com a impassibilidade de um juiz, a suicidar-se.
Agora, ela evocou com prazer esta condenação do marido, irritada por aquele “meu” e por aquele “sua” da dedicatória, como se a outra houvesse desejado ostentar, assim, estreitamente, o liame que reciprocamente unira ela e Vittore, unicamente para fazer-lhe desaforo.
Ante aquele primeiro relâmpago de ódio, faiscado pela rivalidade para ela agora existente, seguiu-se na alma de Ana a curiosidade feminina de examinar os traços daquele rosto, mas quase contida pela estranha consternação que se experimenta perante um objeto que pertenceu a alguém tragicamente desaparecido; consternação agora mais viva, mas a ela não desconhecida, porque nisso se concentrara todo o seu amor pelo marido, que já pertencera àquela outra mulher.
Ao examinar-lhe o rosto, Ana percebeu logo quanto se diferenciava do seu; e surgiu-lhe ao mesmo tempo do coração a pergunta: como pudera o marido amar aquela mulher, aquela mocinha, certamente mais bonita para ele, e pudesse depois enamorar-se dela, tão diferente?
Parecia-lhe belo, muito mais belo que o seu também, aquele rosto que, pelo retrato, devia ser moreno. Ei-lo: e aqueles lábios se haviam unido, no beijo, aos dele; mas, por que então, nos cantos da boca, aquela prega dolorosa? E porque tão triste o olhar daqueles olhos profundos? O rosto inteiro transpirava uma intensa mágoa; e Ana sentiu quase raiva da bondade humilde e real que aqueles traços exprimiam, e daí um gesto de repulsa e aversão, parecendo-lhe de súbito descobrir no olhar daqueles olhos a mesma expressão dos seus, quando, ao pensar no marido, se olhava ao espelho, pela manhã, depois de se haver arrumado.
Teve o tempo ainda de pôr no bolso o retrato: o marido apareceu, bufando, à entrada do quarto.
— Que fez você? Como sempre? Arrumou? Oh, pobre de mim! Agora não encontro mais nada!
Ao ver o estoque desembainhado no chão:
— Ah! Você brincou também de esgrima, com as roupas do armário?
E riu com aquele seu riso, que partia somente da garganta, como se alguém lha houvesse beliscado; e, ao rir assim, olhou para a mulher, talvez para perguntar-lhe o porquê de seu próprio riso. E, olhando, batia as pálpebras sem cessar, celeríssimamente, sobre os olhinhos agudos, negros, irrequietos.
Vittore Brívio tratava a mulher como a uma menina incapaz de outra coisa a não ser daquele amor ingênuo e quase pueril de que se sentia circundado, às vezes com tédio, e ao qual se propusera prestar atenção somente de vez em quando, mostrando, também então, uma condescendência quase embebida de leve ironia, parecendo dizer-lhe: “Pois bem, que seja! durante algum tempo, serei criança também com você: é preciso mesmo fazer isto, mas não percamos demasiado tempo!”
Ana deixara cair a seus pés o velho paletó, onde encontrara o retrato. Ele ergueu-o, metendo-lhe a ponta do estoque, depois chamou da janela o criado, que se achava no jardim e que servia também de cocheiro e que, no momento, estava atrelando o cavalo ao trole. Assim que o rapaz se apresentou, em mangas de camisa, diante da janela, Brívio atirou-lhe à cara, grosseiramente, o paletó espetado, acompanhando a esmola com um: “Tome, isto é para você!”
— Assim você terá menos para escovar — acrescentou, dirigindo-se à mulher — e também para arrumar, esperemos!
E novamente emitiu aquele seu riso forçado, batendo mais e mais as pálpebras.
Outras vezes, o marido afastara-se da cidade e não por poucos dias apenas, partindo mesmo à noite, como desta vez; mas Ana, ainda sob a impressão da descoberta daquele retrato, experimentou um medo estranho, e disse-o, chorando, ao marido.
Vittore Brívio, apressado, receando sair tarde, e todo absorto no pensamento de seus negócios, recebeu com mau humor aquele pranto insólito da mulher.
— Como! Por quê? Vamos, vamos, criancices!
E saiu a toda pressa, sem sequer despedir-se.
Ana estremeceu ao ruído da porta que se lhe fechou empós, com ímpeto; ficou ali com o lampião na mão, na saleta, e sentiu as lágrimas se lhe regelarem nos olhos. Depois reagiu e voltou rápida para seu quarto, a fim de deitar-se logo.
No aposento já arrumado, ardia a lamparina da noite.
— Vá, pode ir dormir — disse Ana à camareira, que a esperava. — Eu mesma me arranjo. Boa noite.
Apagou a luz, mas, ao invés de pousá-la na mísula, como sempre fazia, sobre o criado-mudo, pressentindo — mesmo contra sua própria vontade — que talvez dela necessitaria mais tarde. Começou a despir-se à pressa, conservando os olhos fixos no chão, diante de si. Quando o vestido lhe caiu aos pés, pensou que o retrato estava lá e, com viva raiva, se sentiu olhada e compadecida por aqueles olhos dolentes, que tanta impressão lhe haviam causado. Curvou-se resolutamente, para apanhar do tapete o vestido, e pousou-o, sem dobrar, sobre a poltrona aos pés da cama, como se o bolso que guardava o retrato e o envoltório do pano devessem e pudessem impedir-lhe de reconstruir a imagem daquela morta.
Mal se deitara, fechou os olhos e se propôs a seguir, com o pensamento, o marido pela estrada que levava à estação ferroviária. Impôs-se isso por uma irada revolta ao sentimento que, durante aquele dia todo, a conservara vigilante, a observar, a estudar o marido. Sabia de onde proviera tal sentimento e queria expulsá-lo de si.
No esforço da vontade, que lhe provocava viva super-excitação nervosa, imaginou ter diante dos olhos, com extraordinária evidência, a comprida rua, deserta na noite, iluminada pelos lampiões que reverberam sua luz trémula na calçada, que parecia palpitar; e aos pés de cada lampião, um círculo de sombra; as lojas, todas fechadas; e eis a carruagem que conduzia Vittore. Como se a houvesse esperado à passagem, passou a segui-la até à estação; viu o trem lúgubre, sob o telhado de vidro; uma grande confusão de pessoas naquele interior vasto, enfumaçado, mal iluminado, sombriamente sonoro: eis que o trem partia; e, como se realmente o visse afastar-se e desaparecer nas trevas, voltou logo a si, abriu os olhos no quarto silencioso e experimentou uma angustiosa sensação de vácuo, como se algo lhe faltasse dentro.
Sentiu, então, confusamente, desnorteando-se, que, desde três anos, talvez desde o momento em que partira da casa paterna, ela estava mergulhada naquele vácuo, de que só agora começava a ter conhecimento. Não notara antes, porque o havia preenchido somente consigo, com seu amor, aquele vazio; percebia-o agora, porque, durante aquele dia todo, conservara quase suspenso seu amor, para ver, para observar, para julgar.
“Nem sequer se despediu de mim!” pensou; e pôs-se a chorar de novo, como se este pensamento fosse determinadamente a causa do pranto.
Sentou-se na cama: mas logo deteve a mão estendida, ao levantar-se, para apanhar o lenço do vestido. Ora, seria mesmo inútil proibir-se de rever aquele retrato, de observá-lo! Apanhou-o. Reacendeu a luz.
Como imaginara diversamente, aquela mulher! Contemplando-lhe agora a verdadeira efígie, sentia remorsos pelos sentimentos que a imaginação lhe sugerira. Pensara sempre nela como uma mulher gorda e corada, com os olhos relampejantes e risonhos, inclinada ao riso, a distrações vulgares. E, ao contrário, ei-la: uma jovem, e dos seus puros traços emanava uma alma profunda e atormentada; diferente dela, sim, mas não no sentido inconveniente de antes: ao contrário, até parecia que aquela boca não houvesse nunca sorrido, ao passo que a sua tantas vezes rira alegremente; e, certamente, se moreno aquele rosto (como pelo retrato parecia) era de um ar menos risonho que o seu, louro e róseo.
Por que, por que tão triste?
Um pensamento odioso atravessou-lhe a mente, e logo desprendeu os olhos da imagem daquela mulher, descobrindo-lhe de improviso um perigo não só à sua paz, ao seu amor, que também naquele dia recebera mais de uma ferida, mas também à sua orgulhosa dignidade de mulher honesta, que jamais se permitira nem mesmo o mínimo pensamento contra o marido. Aquela tivera um amante! E por causa deste, ela talvez estivesse tão triste, por causa daquele amor adúltero, e não pelo marido!
Atirou o retrato sobre o criado-mudo e apagou de novo a luz, esperando adormecer, desta vez, sem mais pensar naquela mulher, com a qual nada podia ter em comum. Mas, fechando as pálpebras, reviu logo, malgrado seu, os olhos da morta, e em vão procurou expulsar aquela visão.
— Não por ele, não por ele! — murmurou, com aflitiva obstinação, como se, injuriando-a, contasse libertar-se dela.
E esforçou-se por trazer de novo à memória quanto sabia sobre o outro, o amante, quase que obrigando o olhar e a tristeza daqueles olhos a se dirigirem não mais a ela mas sim ao antigo amante, do qual conhecia apenas o nome: Artur Valli. Sabia que ele se casara, alguns anos depois, quase para provar que era inocente do crime que lhe queria atribuir Brívio, do qual sempre repelira energicamente o desafio, protestando que jamais se bateria em duelo com um louco assassino. Depois desta recusa, Vittore tinha ameaçado matá-lo onde o encontrasse, até mesmo na igreja; e então ele saíra dali, com a mulher, voltando mais tarde àquela cidade, assim que soubera que Vittore, de novo casado, partira.
Mas da tristeza desses acontecimentos por ela relembrados, pela covardia de Valli e, depois de tantos anos, pelo esquecimento do marido o qual, como se nada fosse, conseguira reabilitar-se na vida e tornar a casar, pela alegria que ela própria sentira ao se tornar sua mulher, por aqueles três anos transcorridos sem jamais se lembrar da outra, inesperadamente, um motivo de compaixão por ela se impôs a Ana espontâneo: reviu-lhe viva a imagem, mas como se estivesse longe, longe, e pareceu-lhe que, com aqueles olhos, de tanta mágoa inundados, ela lhe dissesse, abanando levemente a cabeça:
— Somente eu, porém, morri! Vocês todos vivem!
Viu-se, sentiu-se sozinha em casa; teve medo. Vivia, sim, ela; mas fazia três anos, desde o dia de seu casamento, não mais vira, nem uma só vez, seus pais, sua irmã. Ela, que os adorava, e que sempre tinha sido para com eles dócil e confiante, pudera rebelar-se à sua vontade, aos seus conselhos, por amor àquele homem; por amor àquele homem adoecera mortalmente e teria morrido, se os médicos não houvessem induzido seus pais a condescender no casamento. O pai cedera, não consentindo, porém, e até jurando que ela para ele, para sua casa, depois daquele casamento, deixaria de existir. Além da diferença de idade, dos dezoito anos que o marido tinha mais que ela, obstáculo mais grave para o pai tinha sido a posição financeira do marido, sujeita a rápidas mudanças devido a negócios arriscados a que costumava atirar-se, com temerária confiança em si mesmo e na sorte.
Em três anos de casamento, Ana, rodeada de conforto, pudera considerar injustas ou ditadas por contrárias prevenções as considerações da prudência paterna, quanto à fortuna do marido, na qual, de resto, ela, ignara, depositava a mesma confiança que ele em si próprio; quanto então à diferença de idade, até agora nenhum manifesto argumento de desilusão para ela ou de admiração para os outros, porque, dos anos, Brívio não sentia o mínimo prejuízo nem no corpo vivacíssimo e nervoso, nem muito menos no ânimo, dotado de infatigável energia, de irrequieta alacridade.
De bem outra coisa, agora, pela primeira vez, olhando (sem sequer desconfiar) para sua vida com os olhos da morta, encontrava motivo para queixar-se do marido. Sim, era verdade: da indiferença quase altiva dele ela se sentira ferir já outras vezes: porém, nunca como naquele dia; e agora, pela primeira vez, se sentia tão angustiosamente só, separada dos parentes, os quais, lhe parecia naquele momento, a houvessem abandonado ali, quase que, ao casar com Brívio, tivesse já algo em comum com aquela morta e não fosse mais digna de outra companhia. E o marido, que deveria consolá-la, o próprio marido parecia não dar-lhe mérito algum quanto ao sacrifício que ela fizera de seu amor filial e fraternal, como se a ela nada tivesse custado, como se àquele sacrifício ele tivesse direito, e por isso agora nenhum dever tinha para consolá-la ou compensá-la. Direito, sim, mas porque ela se enamorara tão perdidamente por ele, àquele tempo; então ele tinha agora o dever de compensá-la. E ao invés…
— Sempre assim! — pareceu a Ana que os lábios da morta suspirassem.
Reacendeu a luz e de novo, contemplando a imagem, foi atraída pela expressão daqueles olhos. Também ela, então, deveras, sofrera por ele? Também ela, também ela, ao perceber que não era amada, experimentara aquele angustioso vazio?
— Sim? sim? — perguntou Ana, sufocada pelo pranto, à imagem.
E pareceu-lhe, então, que aqueles olhos bondosos, repletos de paixão, se compadecessem dela por sua vez, tivessem pena dela por aquele abandono, pelo sacrifício não recompensado, pelo amor que lhe ficava preso no seio, qual tesouro no escrínio, do qual ele possuísse as chaves, mas nunca dele se servira, tal como o avarento.
Luigi Pirandello
sábado, abril 18
Matéria de poesia
1.
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
Terreno de 10 x 20, sujo de mato — os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia
Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia
As coisas que não levam a nada
têm grande importância
Cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral
O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia
As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia
As coisas que os líquenes comem— sapatos, adjetivos —
têm muita importância para os pulmões
da poesia
Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso
Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada
Tudo que explique
a lagartixa da esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia
O que é bom para o lixo é bom para a poesia
Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços
As coisas jogadas fora
têm grande importância
— como um homem jogado fora
Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória
As coisas sem importância são bens de poesia
Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.
Manoel de Barros, "Matéria de poesia"
Namoro de pombos
Com o olhar aumentado pelo meu Bausch & Lomb, acompanho, desde a janela de 18º andar, um interminável namoro de pombos.
A fêmea é branca, graciosa, leve, em inquietação permanente e movimento contínuo. O macho é manchado de cinza sobre um fundo claro, retrizes escuras e as rêmiges cendradas com matiz mais intenso e decorativo.
Creio que esta conquista paciente e de repetição sem fim é mais uma excitação que forma de fixação da fêmea no campo da simpatia. Não há competidor nas cercanias, nem a requestada distância do contato seu corpinho airoso e fugitivo, intermitentemente arredio aos afagos do amorudo pombo. Deduzo que todo esse cortejo de evitações e oferecimentos, em que se afaste demasiado do raio da insistência do companheiro, manterá em estado de ebulição crescente seu desejo sexual que necessitará deste longo estado de provocação e incitamento para que os hormônios preparem a fase decisiva do ato fecundante. E para a companheira esses preparativos darão receptibilidade de alto rendimento.
É preciso tenacidade para este namoro infindável.
A fêmea fica no bordo do muro, paradinha, fazendo que nada vê. O pombo voa do caixote-pombal e pousa junto à sua amada. Fica quieto um momento. A fêmea inicia um passeio de passos miudinhos e é seguida de perto. Um minuto depois a fêmea voa para o caixote-pombal ou rebordo da janela próxima. O macho pensa uns instantes se deve ou não insistir, mas sempre a continuidade é a regra. Voa também para junto da amada, que repete a manobra anterior, terminada em voo e acompanhamento fatal do apaixonado. E assim horas e horas... Aquele plano de perseguição circular, no mesmo âmbito e com atitudes repetidas, daria título lógico de convite à fuga num compasso ad libitum.
A fêmea tem ocasião de “dar o fora” mais de mil vezes no seu enamorado, e este, de insistir na fidelidade seguidora, tudo no espaço de algumas horas. Durante o dia seguinte a cena se repete, monotoníssima para nós e encantadora para os participantes.
O casal é de vida doméstica e recatada. Não voa buscando alimentos fora do recinto familiar. Em cima do caixote-pombal enxergo a mancha dos alimentos acumulados, esperando a fome da parelha. Não há grandes voos e descidas rumorosas, catando invisíveis e presentes cibos na areia ou calçadas urbanas. Enquadrado pelos arranha-céus o casal comparta-se num ritmo de adaptação resignada ao ambiente do seu destino ecológico. Ao crepúsculo, quando a tarde esfria, vejo-os ensaiar um voo mais ousado e amplo, roçando os telhados vizinhos e findando no muro, aeródromo das suas façanhas aladas.
Não sei por que se afirma o dogma do amor ardente dos pombos e sua impaciência sexual. Como todos seus arrulhos e voejos aperitivais demonstram positivamente a necessidade de uma excitação prolongada e prévia, tanto mais extensa quanto significativa da lentidão com que o sexo desperta. Nem a proximidade da companheira consegue diminuir o inevitável ciclo das andanças e voos, horas e horas, indispensável à junção conubial. A companheira precisará fugir e fugir, sem distanciar-se para uma área desanimadora e decepcionante, como elemento não apenas de captação fixadora como de preparação fisiológica do tipo masculino. O pombo, como certos playboys que precisam de uma longa antecipação preparatória de canto, dança, olhar e contato, música, álcool e movimento da gaiola dourada de um Night Club, tem como fatalmente obrigatória a fase do cortejo sedutor, da provocação contínua, da perseguição próxima, horas e horas, avivando as brasas da ardência fecundadora.
Parece que as afirmativas clássicas dos amores fulminantes, independentes de preâmbulos de conquista, merecem revisão tranquila. Os modelos deste ímpeto sexual, imediato e bruto, nunca dispensaram a corte teimosa ao elemento feminino. Bodes, macacos, cães seguem cativamente as namoradas com notórias mostras de predileção e esperança de aceitação. Só o homem conhece o pecado da violação bárbara, da posse cruel e sem o consentimento da fêmea subjugada. Mesmo os gigantescos gorilas são tão amorosos que esperam o gesto de consentimento da possante companheira inda que seja de companhia habitual e certa.
“Lúbrico como o macaco” diz o ditado feito parcialmente. São dignas de vista as gatimonhas, trejeitos e reviravoltas do macaco ao derredor da predileta cobiçada. Só se vendo... O cortejo obstinado de cães atrás da cadela, as batalhas pela posse, a defesa do “objeto amado”, o estágio até que “ela” faça “o gesto que consente”, rua acima e rua abaixo, sob pedradas dos moleques de todas as cores, chuva, sol, desdéns e dentadas, é merecedor de registro encomiástico. A série apaixonada dos bufos do bode percorre escala dodecaédrica, variando de acentos e timbres, na persistência do apelo sexual. Não apenas os bufos terão intencionalidade melódica, mas os saltos mimosos e repetidos, as atitudes erguidas com as patas dianteiras juntas, em súplica ou ostentação estética, merecem destaque e relevo como significações requerentes de feliz amor. Tantas amostras de protocolo amoroso têm sido negadas e o bufador bailarino reduzido a ser expressão típica de estuprador bestial.
Luís da Câmara Cascudo, "Canto de muro"
A fêmea é branca, graciosa, leve, em inquietação permanente e movimento contínuo. O macho é manchado de cinza sobre um fundo claro, retrizes escuras e as rêmiges cendradas com matiz mais intenso e decorativo.
Depois do almoço fico assistindo àquele processo inacabável de assistência amorosa. Todos os dias, horas e horas, vejo as várias técnicas sedutoras que não me parecem alcançar solução prática ou visível, digna de menção. Canso-me e vou tratar de outras coisas. Acidentalmente, voltando ao apartamento e olhando a janela, revejo o casal na perseguição obstinada e afetuosa que desanimaria qualquer enamorado da espécie humana.
Creio que esta conquista paciente e de repetição sem fim é mais uma excitação que forma de fixação da fêmea no campo da simpatia. Não há competidor nas cercanias, nem a requestada distância do contato seu corpinho airoso e fugitivo, intermitentemente arredio aos afagos do amorudo pombo. Deduzo que todo esse cortejo de evitações e oferecimentos, em que se afaste demasiado do raio da insistência do companheiro, manterá em estado de ebulição crescente seu desejo sexual que necessitará deste longo estado de provocação e incitamento para que os hormônios preparem a fase decisiva do ato fecundante. E para a companheira esses preparativos darão receptibilidade de alto rendimento.
É preciso tenacidade para este namoro infindável.
A fêmea fica no bordo do muro, paradinha, fazendo que nada vê. O pombo voa do caixote-pombal e pousa junto à sua amada. Fica quieto um momento. A fêmea inicia um passeio de passos miudinhos e é seguida de perto. Um minuto depois a fêmea voa para o caixote-pombal ou rebordo da janela próxima. O macho pensa uns instantes se deve ou não insistir, mas sempre a continuidade é a regra. Voa também para junto da amada, que repete a manobra anterior, terminada em voo e acompanhamento fatal do apaixonado. E assim horas e horas... Aquele plano de perseguição circular, no mesmo âmbito e com atitudes repetidas, daria título lógico de convite à fuga num compasso ad libitum.
A fêmea tem ocasião de “dar o fora” mais de mil vezes no seu enamorado, e este, de insistir na fidelidade seguidora, tudo no espaço de algumas horas. Durante o dia seguinte a cena se repete, monotoníssima para nós e encantadora para os participantes.
O casal é de vida doméstica e recatada. Não voa buscando alimentos fora do recinto familiar. Em cima do caixote-pombal enxergo a mancha dos alimentos acumulados, esperando a fome da parelha. Não há grandes voos e descidas rumorosas, catando invisíveis e presentes cibos na areia ou calçadas urbanas. Enquadrado pelos arranha-céus o casal comparta-se num ritmo de adaptação resignada ao ambiente do seu destino ecológico. Ao crepúsculo, quando a tarde esfria, vejo-os ensaiar um voo mais ousado e amplo, roçando os telhados vizinhos e findando no muro, aeródromo das suas façanhas aladas.
Não sei por que se afirma o dogma do amor ardente dos pombos e sua impaciência sexual. Como todos seus arrulhos e voejos aperitivais demonstram positivamente a necessidade de uma excitação prolongada e prévia, tanto mais extensa quanto significativa da lentidão com que o sexo desperta. Nem a proximidade da companheira consegue diminuir o inevitável ciclo das andanças e voos, horas e horas, indispensável à junção conubial. A companheira precisará fugir e fugir, sem distanciar-se para uma área desanimadora e decepcionante, como elemento não apenas de captação fixadora como de preparação fisiológica do tipo masculino. O pombo, como certos playboys que precisam de uma longa antecipação preparatória de canto, dança, olhar e contato, música, álcool e movimento da gaiola dourada de um Night Club, tem como fatalmente obrigatória a fase do cortejo sedutor, da provocação contínua, da perseguição próxima, horas e horas, avivando as brasas da ardência fecundadora.
Parece que as afirmativas clássicas dos amores fulminantes, independentes de preâmbulos de conquista, merecem revisão tranquila. Os modelos deste ímpeto sexual, imediato e bruto, nunca dispensaram a corte teimosa ao elemento feminino. Bodes, macacos, cães seguem cativamente as namoradas com notórias mostras de predileção e esperança de aceitação. Só o homem conhece o pecado da violação bárbara, da posse cruel e sem o consentimento da fêmea subjugada. Mesmo os gigantescos gorilas são tão amorosos que esperam o gesto de consentimento da possante companheira inda que seja de companhia habitual e certa.
“Lúbrico como o macaco” diz o ditado feito parcialmente. São dignas de vista as gatimonhas, trejeitos e reviravoltas do macaco ao derredor da predileta cobiçada. Só se vendo... O cortejo obstinado de cães atrás da cadela, as batalhas pela posse, a defesa do “objeto amado”, o estágio até que “ela” faça “o gesto que consente”, rua acima e rua abaixo, sob pedradas dos moleques de todas as cores, chuva, sol, desdéns e dentadas, é merecedor de registro encomiástico. A série apaixonada dos bufos do bode percorre escala dodecaédrica, variando de acentos e timbres, na persistência do apelo sexual. Não apenas os bufos terão intencionalidade melódica, mas os saltos mimosos e repetidos, as atitudes erguidas com as patas dianteiras juntas, em súplica ou ostentação estética, merecem destaque e relevo como significações requerentes de feliz amor. Tantas amostras de protocolo amoroso têm sido negadas e o bufador bailarino reduzido a ser expressão típica de estuprador bestial.
Luís da Câmara Cascudo, "Canto de muro"
Telas
Quando eu era menino, nas décadas de cinquenta/sessenta, só havia uma tela em casa: a da televisão Philco, dezesseis polegadas. Nela assistíamos, em preto e branco, aos programas que faziam sucesso na época. Geralmente à noitinha, depois de deixarmos a rua e tomarmos banho, já de pijama, antes do jantar e um pouquinho depois dele. O horário de dormir era rígido. Cedo para os padrões de hoje, estávamos deitados, em nossas camas, nos braços de Morfeu.
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
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