sexta-feira, julho 10

Para pensar

 


O verbo matar

Quem se espanta com o espetáculo de horror diversificado que o mundo de hoje oferece faria bem se tivesse o dicionário como livro de leitura diurna e noturna. Pois ali está, na letra M, a chave do temperamento homicida, que convive no homem com suas tendências angélicas, e convive em perfeita harmonia de namorados.

O consulente verá que matar é verbo copiosamente conjugado por ele próprio. Não importa que cultive a mansuetude, a filantropia, o sentimentalismo; que redija projetos de paz universal, à maneira de Kant, e considere abominações o assassínio e o genocídio. Vive matando.

A ideia de matar é de tal modo inerente ao homem, que, à falta de atentados sanguinolentos a cometer, ele mata calmamente o tempo. Sua linguagem o trai. Por que não diz, nas horas de ócio e recreação ingênua, que está vivendo o tempo? Prefere matá-lo.

Todos os dias, mais de uma vez, matamos a fome, em vez de satisfazê-la. Não é preciso lembrar como um número infinito de pessoas perpetra essa morte: através da morte efetiva de rebanhos inteiros, praticada tecnicamente em lugar de horror industrial, denominado matadouro. Aí, matar já não é expressão metafórica: é matar mesmo.

O estudante que falta à classe confessa que matou a aula, o que implica matança do professor, da matéria e, consequentemente, de parte do seu acervo individual de conhecimento, morta antes de chegar a destino. No jogo mais intelectual que se conhece, pretende-se não apenas vencer o competidor, mas liquidá-lo pela aplicação de xeque-mate. Não admira que, nas discussões, o argumento mais poderoso se torne arma de fogo de grande eficácia letal: mata na cabeça.

Beber um gole no botequim, ato de aparência gratuita, confortador e pacificante, envolve sinistra conotação. É o mata-bicho, indiscriminado. E quantos bichos se matam, em pensamento, a cada instante! Até para definir as coisas naturais adotamos ponto de vista de morte violenta. Essa planta convolvulácea é apresentada por sua propriedade maléfica: mata-cabras. Nasceu para isso, para dizimar determinada espécie de mamíferos? Não. Assim a batizamos. Outra é mata-cachorro. Uma terceira, mata-cavalo, e o dicionarista acrescenta o requinte: “goza da fama de produzir frutos venenosos”. Certo peixe fluvial atende (ou devia atender) por mata-gato, como se pulasse d’água para caçar felinos por aí, ou se estes mergulhassem com intenção de ajustar contas com ele. Em Santa Catarina, o vento de inverno que sopra lá dos Andes é recebido com a exclamação: “Chegou o mata-baiano”.

Já não se usa, mas usou-se muito um processo de secar a tinta em cartas e documentos quaisquer: botar por cima um papel grosso, chupão, que se chamava mata-borrão e matava mesmo, sugando o sangue azul da vítima, qual vampiro de escritório.

A carreta necessita de correia de couro que una seu eixo ao leito. O nome que se arranjou para identificá-la, com sadismo, é mata-boi. Mata-cachorro não é só planta flacurtiácea, que acumula o título de mata-calado. É também alcunha de soldado de polícia estadual, e do pobre-diabo que, no circo, estende o tapete e prepara o picadeiro para a função.

Matar charadas constitui motivo de orgulho intelectual para o matador. Há um matador profissional, remunerado pelos cofres públicos: o mata-mosquito, que pouca gente conhece como guarda sanitário. Mata-junta? É a fasquia usada para vedar juntas entre tábuas. O sujeito vulgarmente conhecido como chato, ao repetir a mesma cantilena, “mata o bicho do ouvido”. Certa espécie de algodoeiro é mata-mineiro, certa árvore é matamatá, ninguém no interior ignora o que seja mata-burro, mata-cobra tanto é marimbondo como porrete e formiga. Ferida em lombo de animal chama-se matadura. Nosso admirável dedo polegar, só lhe reconhecem uma prestança: a de mata-piolhos.

Mandioca mata-negro. Peixe matante. Vegetal mata-olho. Mata-pulga, planta de que se fazem vassouras. Mata-rato, cigarro ordinário. Enfeites e atavios, meios especiais para atingir certos fins, são matadores. “Ela veio com todos os matadores” provoca admiração e êxtase. “Eunice com seus olhos matadores”, decassílabo de vítima jubilosa.

Se a linguagem espelha o homem, e se o homem adorna a linguagem com tais subpensamentos de matar, não admira que os atos de banditismo, a explosão intencional de aviões, o fuzilamento de reféns, o bombardeio aéreo de alvos residenciais, os pogroms, o napalm, as bombas A e H, a variada tragédia dos dias modernos se revele como afirmação cotidiana do lado perverso do ser humano. Admira é que existam a pesquisa de antibióticos, Cruz Vermelha Internacional, Mozart, o amor.
Carlos Drummond de Andrade, "De notícias e não notícias faz-se a crônica"

Para um amigo tenho sempre um relógio

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, "Viagem através de uma nebulosa"

E é capaz de ter razão

Mas na metrópole há cerejas. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer de brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser. As raparigas daqui não sabem como são as cerejas, dizem que são como as pitangas. Ainda que sejam, nunca as vi com brincos de pitangas a rirem-se umas com as outras como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias.

A mãe insiste para que o pai se sirva da carne assada. A comida vai estragar-se, diz, este calor dá cabo de tudo, umas horas e a carne começa a esverdear, se a ponho na geleira fica seca como uma sola. A mãe fala como se hoje à noite não fôssemos apanhar o avião para a metrópole, como se amanhã pudéssemos comer as sobras da carne assada dentro do pão, no intervalo grande do liceu. Deixa-me, mulher. Ao afastar a travessa o pai derruba a cesta do pão. A mãe endireita-se e ajeita as côdeas com o mesmo cuidado com que todas as manhãs ordena os comprimidos antes de os tomar. O pai não era assim antes de isto ter começado. Isto são os tiros que se ouvem no bairro acima do nosso. E as nossas quatro malas por fechar na sala.

Ficamos num silêncio tão cerimonioso que o barulho da ventoinha surge anormalmente alto. A mãe pega na travessa da carne e serve-se com gestos contidos que costumava usar com as visitas. Quando pousa a travessa na mesa demora a mão sobre a toalha das dálias. Agora já não há ninguém para visitar-nos mas mesmo antes de isto ter começado era raro termos visitas. A minha irmã diz, ainda me lembro do dia em que aquele galo, o galo de louça que está na bancada de pedra mármore, caiu no chão e lascou a crista. Insistimos em pormenores insignificantes porque já começamos a esquecer-nos. E ainda nem saímos de casa. O abião é um bocadinho antes da meia-noite mas temos de ir mais cedo. O tio Zé vai levar-nos ao aeroporto. O pai vai lá ter depois. Depois de matar a Pirata e de deitar fogo à casa e aos camiões. Não acredito que o pai mate a Pirata. Também não acredito que o pai deite fogo à casa e aos camiões. Acho que diz isso para não pensarmos que eles se ficam a rir. Eles são os pretos. No entanto o pai comprou bidões de gasolina que estão guardados no anexo. Talvez seja mesmo verdade, talvez o pai consiga matar a Pirata e queimar tudo. A Pirata podia ficar com o tio Zé que não se vai embora porque quer ajudar os pretos a formar uma nação. O pai ri-se sempre sempre que o tio Zé fala na grandiosa nação que se erguerá pela vontade de um povo oprimido durante cinco séculos. Mesmo que o tio Zé prometesse que tomava conta da pirata não servia de nada, o pai acha que a única coisa que o tio Zé sabe fazer é desonrar a família. E é capaz de ter razão.

Dulce Maria Cardoso, "O Retorno"

Metáforas da leitura

Em 26 de março de 1892, Walt Whitman morreu na casa que comprara menos de dez anos antes em Camden, Nova Jersey, parecendo um rei do Velho Testamento ou, como descreveu Edmund Gosse, um grande e velho macho angorá. Uma fotografia tirada alguns anos antes de sua morte por Thomas Eakins, artista da Filadélfia, mostra-o com a juba branca desgrenhada, sentado à janela, observando pensativamente o mundo lá fora, que era, como havia dito aos seus leitores, uma glosa do que escrevera:

Se você me entendesse indo para as alturas ou à praia,
A ninharia mais próxima é uma explicação,
e uma gota ou movimento de ondas uma chave,
A marreta, o remo, o serrote secundam minhas palavras.


Whitman está ali para o olhar do leitor. Dois Whitmans, na verdade: o Whitiman de Folhas da relva, “Walt Whitman, um cosmo, de Manhattan o filho”, mas nascido também em todos os outros lugares (“Sou de Adelaide... Sou de Madri... Pertenço a Moscou”) e o Whitman nascido em Long Island, que gostava de ler romances de aventura e cujos amantes eram jovens da cidade, soldados, motoristas de ônibus. Ambos tornaram-se o Whitman que na velhice deixava a porta aberta para os visitantes que buscavam “o sábio de Camden”, e ambos tinham sido oferecidos ao leitor, cerca de trinta anos antes, na edição de 1860 de Folhas da relva:

Camarada, isto não é um livro,
Quem toca nisto, toca em um homem,
(É noite? Estamos sozinhos?)
Sou eu que seguras, e que te segura,
Eu salto das páginas para teus braços – a morte me chama.



Anos depois, na edição do “leito de morte” de Folhas da relva, tantas vezes revisadas e aumentadas, o mundo não “secunda” suas palavras, mas torna-se a voz primordial. Nem Whitman nem seu verso importavam: o mundo era suficiente, uma vez que não passava de um livro aberto para ser lido por todos nós. Em 1774, Goethe (que Whitman lia e admirava) escrevera: “Vê como a Natureza é um livro vivo,/ Incompreendida, mas não incompreensível?”

Em 1892, alguns dias antes de morrer, Whitman concordava:

Em cada objeto, montanha, árvore e estrela — em cada nascimento e vida,
Como parte de cada — desdobrada de cada — significado, atrás da manifestação,
Uma cifra mística espera involucrada.


Li esses versos pela primeira vez em 1963, numa vacilante tradução espanhola. Certo dia, no colégio, um amigo que queria ser poeta (acabávamos de completar quinze anos na época) veio correndo até mim com um livro que descobrira, uma edição Austral de capa azul dos poemas de Whitman, impressos num papel áspero e amarelado e traduzidos por alguém cujo nome esqueci. Meu amigo era um admirador de Ezra Pound, a quem prestava a homenagem da imitação e, uma vez que os leitores não respeitam as cronologias arduamente estabelecidas por professores universitários bem pagos, ele achou que Whitman era uma imitação pobre de Pound. O próprio Pound tentara esclarecer as coisas, propondo “um pacto” com Whitman:

Foste tu que cortaste a madeira nova,
Agora é tempo de esculpir
Temos uma seiva e uma raiz —
Que haja comércio entre nós.


Mas meu amigo não se convenceu. Aceitei seu veredicto em nome da amizade e foi somente dois anos depois que cruzei com um exemplar de Folhas da relva em inglês, descobrindo então que Whitman dedicara seu livro a mim: “Tu, leitor, que pulsas de vida e orgulho e amor como eu / Por isso, para ti os cantos que seguem”.

Li a biografia de Whitman, primeiro numa série destinada aos jovens que expurgava qualquer referência à sua sexualidade e o tornava ameno a ponto de levá-lo à não-existência, depois li o Walt Whitman de Geoffrey Dutton, instrutivo mas um tanto sóbrio demais. Anos mais tarde, a biografia de Philip Callow deu-me um retrato mais claro do homem e me fez reconsiderar um par de questões que me colocara anteriormente: se Whitman vira o leitor como ele mesmo, quem era esse leitor que Whitman tinha em mente? E como tinha Whitman, por sua vez, se tornado leitor?

Ele aprendeu a ler numa escola quaker do Brooklyn, segundo o que se conhecia como “método lancasteriano” (nome derivado do quaker inglês Joseph Lancaster). Um único professor, ajudado por crianças monitoras, cuidava de uma classe de cerca de cem alunos, dez em cada carteira. Os mais jovens estudavam no porão, as meninas mais velhas no térreo e os meninos mais velhos no andar de cima. Um de seus professores comentou que o achava “um menino de boa índole, de aparência desajeitada e relaxada, mas sem nada que chamasse a atenção”. Os poucos livros de texto eram suplementados pelos livros do pai, um democrata fervoroso que deu aos três filhos os nomes dos fundadores dos Estados Unidos. Muitos desses livros eram tratados políticos de Tom Paíne, do socialista Frances Wright e do filósofo francês do século XVIII Constantin-François, conde de Volney, mas havia também coleções de poesia e uns poucos romances. A mãe era analfabeta, mas, segundo Whitman, “uma excelente contadora de histórias”, “dotada de grandes poderes miméticos”. Whitman aprendeu as primeiras letras na biblioteca do pai, seus sons, aprendeu com as histórias que ouvira a mãe contar.

Whitman deixou a escola aos onze anos e foi trabalhar no escritório do advogado James B. Clark. O filho de Clark, Edward, gostou do menino brilhante e deu-lhe de presente uma assinatura de uma biblioteca circulante. “Foi o evento memorável da minha vida até ali”, disse Whitman mais tarde. Na biblioteca, tomou emprestado e leu As mil e uma noites — “cada volume” — e os romances de sir Walter Scott e James Fenimore Cooper Poucos anos depois, aos dezesseis anos, adquiriu “um robusto e bem fornido volume in-octavo de mil páginas [...] contendo toda a poesia de Walter Scott”. que consumiu avidamente. “Mais tarde, a intervalos, no verão e no outono, costumava ir para o campo ou para as praias de Long Island, às vezes por toda uma semana — ali, em presença das influências do ar livre, li de ponta a ponta o Velho e o Novo Testamento e absorvi (provavelmente com mais proveito do que em qualquer biblioteca ou ambiente fechado — faz muita diferença onde você lê) Shakespeare, Ossian, as melhores traduções que pude obter de Homero, Ésquilo, Sófocles, os velhos nibelungos germânicos, os poemas hindus antigos e outras obras-primas, Dante entre elas. Aconteceu de eu ter a maior parte deste último num velho bosque.” E Whitman interroga: “Desde então, pergunto-me por que não fiquei soterrado por aqueles poderosos mestres. Provavelmente porque os li na presença plena da Natureza, sob o sol, com paisagens e panoramas a perder de vista ou o mar quebrando na praia”. O lugar da leitura, como sugere Whitman, é importante não só porque proporciona um cenário físico para o texto que está sendo lido, mas também porque sugere, ao se justapor ao lugar na página, que ambos partilham da mesma qualidade hermenêutica e tentam o leitor com o desafio da elucidação.

Whitman não ficou muito tempo no escritório de advocacia. Antes do fim do ano já era aprendiz de tipógrafo no Long Island Patriot, aprendendo a trabalhar com um prelo manual que ficava num porão apertado, sob a supervisão do editor do jornal e autor de todos os artigos. Ali Whitman aprendeu “o misterioso prazer das diferentes letras e suas divisões a grande caixa de es - a caixa para espaços [...] a caixa de as, de is e todo o resto”, as ferramentas de seu ofício.

De 1836 a 1838 trabalhou como professor rural em Norwich, Nova York. O salário era baixo e errático, e, provavelmente porque os inspetores escolares desaprovavam suas classes turbulentas, foi forçado a mudar de escola oito vezes naqueles dois anos. Os superiores não podiam ficar muito contentes se ele ensinasse aos alunos: "Não deves mais tomar coisas de segunda ou terceira mão, / nem olhar através dos olhos dos mortos, nem se alimentar dos espectros nos livros". Ou então: "Honra mais o meu estilo quem aprende com ele a destruir o professor.”

Depois de aprender a imprimir e de ensinar a ler, Whitman descobriu que podia combinar as duas habilidades tornando-se editor de um jornal: primeiro o Long Islander, em Huntington, Nova York, mais tarde o Daily Eagle, no Broolklyn. Ali começou a desenvolver sua noção de democracia como uma sociedade de "leitores livres", não contaminada por fanatismos e escolas políticas, a quem o fazedor de textos - poeta, tipógrafo, professor, editor de jornal — deve servir ardorosamente. Em editorial de 1 de junho de 1846 explicou ele: "Sentimos de fato um desejo de falar sobre muitos assuntos a todas as pessoas do Brooklyn, e nem são os seus 9 pence o que mais queremos. Há um tipo curioso de simpatia (já pensaram nisso alguma vez?) que surge na mente de um diretor de jornal em relação ao público a que ele serve [...] A comunhão diária cria uma espécie de irmandade entre as duas partes".

Por essa época, Whitman entrou em contato com os escritos de Margaret Fuler, uma personalidade extraordinária: a primeira resenhadora de livros em tempo integral dos Estados Unidos, a primeira correspondente estrangeira, feminista lúcida, autora do apaixonado panfleto Woman in the nineteenth century [A mulher no século XIX]. Emerson achava que “toda a arte, o pensamento e a nobreza na Nova Inglaterra pareciam relacionados com ela, e ela com eles”. Hawthorne, porém, chamou-a de “um grande embuste”, e Oscar Wilde disse que Vênus dera “tudo” a ela, “exceto beleza”, enquanto Palas lhe dera “tudo, exceto sabedoria”. Embora acreditasse que os livros não podem substituir a experiência real, Fuller via neles “um meio para ver toda a humanidade, um centro em torno do qual todo conhecimento, toda experiência, toda ciência, todo o ideal, bem como tudo o que é prático em nossa natureza, pode reunir-se”. Whitman reagiu com entusiasmo às ideias dela. Escreveu ele:

Não considerávamos magnífico, oh alma, penetrar [nos temas de livros poderosos,
Absorvendo profundos e plenos os pensamentos, peças, especulações?
Mas agora, cá entre nós, pássaro engaiolado, sentir teu gorjeio jubiloso.
Enchendo o ar, a sala solitária, a longa manhã.
Não é igualmente magnífico, oh alma?


Para Whitman, texto, autor, leitor e mundo espelhavam-se uns aos outros no ato da leitura, um ato cujo significado ele expandiu até que servisse para definir cada atividade humana vital, bem como o universo no qual tudo acontecia. Nessa conjunção, o leitor reflete o escritor (ele e eu somos um), o mundo faz eco a um livro (livro de Deus, livro da Natureza), o livro é de carne e sangue (carne e sangue do escritor, que mediante uma transubstanciação literária se tornam meus), o mundo é um livro a ser decifrado (os poemas do escritor tornam-se minha leitura do mundo). Durante toda a sua vida, Whitman parece ter buscado uma compreensão e uma definição do ato de ler, que é a um só tempo ele mesmo e a metáfora de todas as suas partes.

“As metáforas”, escreveu o crítico alemão Hans Blumenberg, em nossos dias; “não são mais consideradas primeiro e antes de mais nada como representação da esfera que guia nossas hesitantes concepções teóricas, como um hall de entrada para a formação de conceitos, como um dispositivo temporário dentro de linguagens especializadas que ainda não foram consolidadas, mas sim um meio autêntico de compreender contextos.” Dizer que um autor é um leitor, ou um leitor, um autor, considerar um livro como um ser humano ou um ser humano como um livro, descrever o mundo como texto ou um texto como o mundo são formas de nomear a arte do leitor.

Tais metáforas são muito antigas, com raízes nas primeiras sociedades judaico-cristãs. O crítico alemão E. R. Curtius, num capítulo sobre o simbolismo do livro em seu monumental Literatura europeia e Idade Média latina, sugeriu que as metáforas do livro começaram na Grécia clássica, mas há poucos exemplos delas, uma vez que a sociedade grega, e posteriormente a romana, não consideravam o livro como um objeto do dia-a-dia. As sociedades judaica, cristã e islâmica desenvolveram uma profunda relação simbólica com seus livros sagrados, que não eram símbolos da palavra de Deus, mas a própria Palavra Divina. Segundo Curtius, “a ideia de que o mundo e a natureza são livros deriva da retórica da Igreja católica, assumida pelos filósofos místicos dos primórdios da Idade Média e finalmente transformada em lugar-comum”.

Para o místico espanhol do século XVI, frei Luís de Granada, se o mundo é um livro, então as coisas deste mundo são as letras do alfabeto com as quais esse livro está escrito. Na Introducción al símbolo de la fé, ele pergunta: “O que são todas as criaturas deste mundo, tão lindas e tão bem-feitas, senão letras separadas e iluminadas que declaram tão justamente a delicadeza e a sabedoria de seu autor? [...] E nós também [...] tendo sido colocados por vós diante deste maravilhoso livro de todo o universo, de tal forma que por meio de suas criaturas, como se fossem letras vivas, podemos ler a excelência do nosso Criador”.
“O Dedo de Deus”, escreveu sir Thomas Browue em Religio Medici, remodelando a metáfora de frei Luís, “deixou uma Inscrição em todas as suas obras, não gráfica ou composta de Letras, mas feita de suas várias formas, constituições, partes e operações que, reunidas apropriadamente, culminam uma palavra que expressa suas naturezas”.

Séculos depois, o filósofo americano de origem espanhola George Santayana acrescentou: “Há livros em que as notas de rodapé, ou os comentários rabiscados por algum leitor nas margens, são mais interessantes do que o texto. O mundo é um desses livros”.

Nossa tarefa, como apontou Whitman, é ler o mundo, pois esse livro colossal é a única fonte de conhecimento para os mortais. (Os anjos, segundo santo Agostinho, não precisam ler o livro do mundo porque podem ver o próprio Autor e receber dele o mundo em toda a sua glória. Dirigindo-se a Deus, santo Agostinho pondera que os anjos "não têm necessidade de olhar para os céus ou de lê-los para ler Vossa palavra. Pois eles sempre veem Vossa face e ali, sem as sílabas do tempo, leem Vossa vontade eterna.

Eles a leem, escolhem-na, amam-na. Estão sempre lendo, e o que leem nunca chega ao fim. [...] O livro que leem não deverá ser fechado, o rolo não deverá ser enrolado novamente. Pois Vós sois o livro deles, e Vós sois eterno.) Os seres humanos, feitos à imagem de Deus, também são livros a serem lidos. Aqui, o ato de ler serve como metáfora para nos ajudar a entender nossa relação hesitante com nosso próprio corpo, o encontro, o toque e a decifração de signos em outra pessoa.

Lemos expressões no rosto, seguimos os gestos de um ser amado como num livro aberto. “Tua face, meu cavaleiro”, diz lady Macbeth ao esposo, “é como um livro onde os homens podem ler estranhas coisas”, e o poeta do século XVII Henry King escreveu sobre sua jovem esposa morta:

Querida Perda! Desde tua morte prematura
Minha sina tem sido meditar
Sobre ti, sobre ti: tu és o livro,
A biblioteca para onde olho
Embora quase cego.


E Benjamin Franklin, um grande amante dos livros, compôs para si mesmo um epitáfio (infelizmente não utilizado em seu túmulo) no qual a imagem do leitor como livro encontra sua representação plena:

O Corpo de
B. Franklin, Impressor,
Tal como a capa de um velho Livro,
Seu conteúdo arrancado,
E despido de suas Letras e Douradas,
Jaz aqui, Alimento para Vermes.
Mas a Obra não se perderá;
Pois irá como ele acreditava.
Aparecer outra vez
Em nova e mais elegante Edição
Corrigida e melhorada
Pelo Autor.

Dizer que lemos — o mundo, um livro, o corpo — não basta. A metáfora da leitura solicita por sua vez outra metáfora, exige ser explicada em imagens que estão fora da biblioteca do leitor e, contudo, dentro do corpo dele, de tal forma que a função de ler é associada a outras funções corporais essenciais. Ler — como vimos — serve como um veículo metafórico, mas para ser compreendido precisa ele mesmo ser reconhecido por meio de metáforas. Tal como escritores falam em cozinhar uma história, misturar os ingredientes do enredo, ter ideias cruas para uma trama, apimentar uma cena, acrescentar pitadas de ironia, pôr molho, retratar uma fatia de vida, nós, os leitores, falamos em saborear um livro, encontrar alimento nele, devorá-lo de uma sentada, ruminar um texto, banquetearmo-nos com poesia, mastigar as palavras do poeta, viver numa dieta de romances policiais. Em um ensaio sobre a arte de estudar, o erudito inglês do século XVI Francis Bacon catalogou o processo: “Alguns livros são para se experimentar, outros para serem engolidos, e uns poucos para se mastigar e digerir”.

Por uma sorte extraordinária sabemos em que dia essa curiosa metáfora foi registrada pela primeira vez. Em 31 de julho de 593 a.C., às margens do Chebar, na terra dos caldeus, Ezequiel, o sacerdote, teve uma visão de fogo na qual viu “a imagem da glória do Senhor" ordenando-lhe que falasse com os filhos rebeldes de Israel. “Abre a boca e come o que te vou dar”, diz a visão.

Olhei e vi avançando para mim uma mão que segurava um manuscrito enrolado. E foi desdobrado diante de mim: estava coberto com escrita de um e outro lado: eram cânticos de tristeza, de queixumes e de gemidos.

São João, registrando sua visão apocalíptica em Patmos, recebeu a mesma revelação de Ezequiel. Enquanto olhava aterrorizado, um anjo desceu dos céus com um livro aberto e uma voz de trovão disse-lhe que não escrevesse o que aprendera, mas pegasse o livro da mão do anjo.

Fui eu, pois, ter com o anjo, dizendo-lhe que me desse o pequeno livro. E ele me disse: “Toma-o e devora-o! Ele te será amargo nas entranhas, mas, na boca, doce como o mel”. Tomei então o pequeno livro da mão do anjo e comecei a comê-lo.

De fato, em minha boca tinha a doçura do mel, mas depois de o ter comido, amargou-me nas entranhas. Então me foi dito: “Urge que ainda profetizes de novo a numerosas nações, povos, línguas e reis”.

Com o tempo, à medida que a leitura se desenvolveu e se expandiu, a metáfora gastronômica tornou-se retórica comum. Na época de Shakespeare, contava-se com ela na conversação literária, e a própria rainha Isabel usou-a para descrever suas leituras devotas: “Eu caminho muitas vezes pelos campos agradáveis das Escrituras Sagradas, onde colho as verdes e formosas ervas das sentenças, como-as lendo, mastigo-as meditando e deito-as no assento da memória, li para que possa perceber menos a amargura desta vida miserável”. Em 1695, a metáfora já se arraigara tanto na língua que William Congreve pôde parodiá-la na cena de abertura de Love for love [Amor por amor], fazendo o pedante Valentine dizer a seu criado: “Lê, lê, imbecil, e refina teu apetite; aprende a viver com instrução; banqueteia tua mente e mortifica tua carne; lê, e ingere teu alimento pelos olhos; fecha tua boca e mastiga o bolo alimentar do entendimento”.

“Ficareis extremamente gordo com esta dieta de papel”, é o comentário do criado.

Menos de um século depois, o dr. Johnson lia um livro com as mesmas maneiras que exibia à mesa. Lia, disse Boswell, “sofregamente, como se o devorasse, o que era aparentemente seu método de estudo”. Segundo Boswell, durante o jantar o dr. Johnson mantinha no colo um livro embrulhado na toalha de mesa, “ávido como era por ter um entretenimento à mão quando terminasse o outro, parecendo (se me permitem usar tão grosseiro símile) um cão que segura um osso de reserva entre as patas, enquanto come outra coisa que lhe foi jogada”.

Por mais que os leitores se apropriem de um livro, no final, livro e leitor tornam-se uma só coisa. O mundo que é um livro, é devorado por um leitor, que é uma letra no texto do mundo; assim, cria-se uma metáfora circular para a infinitude da leitura. Somos o que lemos. O processo pelo qual o círculo se completa não é, argumentava Whitman, apenas intelectual; lemos intelectualmente num nível superficial, apreendendo certos significados e conscientes de certos fatos, mas, ao mesmo tempo, invisivelmente, inconscientemente, texto e leitor se entrelaçam, criando novos níveis de significado e, assim, toda vez que, ingerindo-o, fazemos o texto entregar algo, simultaneamente nasce sob ele outra coisa que ainda não apreendemos. Esse é o motivo por que — como acreditava Whitman, reescrevendo e reeditando seus poemas sem parar – nenhuma leitura pode ser definitiva.
Em 1867 ele escreveu, numa espécie de explicação:

Não fechem suas portas para mim, orgulhosas bibliotecas,
Pois aquilo que faltava em todas as suas estantes abarrotadas, mas carentes,
Eu trago da guerra emergindo, um livro que fiz,
As palavras do meu livro sem motivo, impulsionando todas as coisas,
Um livro separado, não ligado ao resto, nem sentida pelo intelecto,
Mas suas latências não ditas pulsarão em cada página.

Alberto Manguel, "Uma História da Leitura"

quinta-feira, julho 9

Café da manhã

 


Graça

O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã.
A dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com berloques, um príncipe. Eu passeio nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.
Adélia Prado

No princípio dos tempos

1

Difícil dizer quando tudo começou. Mas tudo começou, é claro, muito antes desse dia dezasseis de Junho de mil novecentos e onze. Vavó Uála das Ingombotas diria que tudo começou no princípio dos tempos e que desde o princípio estava previsto que seria assim. Os acontecimentos se amarrariam uns aos outros – uns puxando os outros – através do confuso turbilhão das noites e dos dias. Infalivelmente, irremediavelmente, tudo haveria de desaguar naquela tarde vertiginosa e absurda.

É preciso, contudo, marcar data menos remota. Para o humilde autor deste relato, os casos tiveram o seu berço foi mesmo nesse ano esquecido de mil oitocentos e oitenta, aquando da chegada a Luanda de um moço benguelense, de sua graça Jerónimo Caninguili.

Vamos pois começar desde o princípio.

2

Muitos houve que estranharam aquele nome de Fraternidade posto por Caninguili à sua loja de barbeiro. Alguns reprovaram-no abertamente, e entre estes estão não só os realistas mas mesmo certos republicanos a quem assustava o atrevimento desse moço, negro e pequenino, ainda agora chegada à capital e já afrontando as regras, atraindo os desamores da autoridade.

Outros teve que acharam graça, aproveitaram com ruído a ousadia; logo se fizeram clientes e amigos certos. A simplicidade do barbeiro, a sua candura e alegria, depressa cativaram, contudo, mesmo os mais recalcitrantes, e assim é que, quatro meses após a sua chegada, já a Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade se tinha transformado num pequeno clube de ideias.

Fisicamente, Caninguili devia poucas graças ao Criador. Ezequiel gostava de se referir a ele chamando-o de «o nosso sapinho capenga»; e assim resumia a feiura do designado, o seu escasso metro e sessenta e o facto de mancar da perna esquerda. Quando falava, porém, com aquele seu jeito manso de acariciar as palavras, operava-se em Caninguili uma transformação sensível e tudo seria nessa altura, menos certamente um sapo. Capenga! Razão por que, fatigado já da velha pilhéria, Alfredo Trony repreendera certa vez Ezequiel observando-lhe que sempre houvera no mundo príncipes disfarçados de sapos e sapos disfarçados de príncipes.

- É no falar que se revelam os príncipes e no coaxar que os sapos se denunciam – dissera Trony, para logo acrescentar -, pelo que ao meu amigo lhe aconselho a mais severa abstinência verbal. Não abra a boca que não seja para engolir as moscas.

José Eduardo Agualusa, "A conjura"

Superioridade animal

As andorinhas, que ao voltar a primavera vemos esquadrinharem todos os cantos de nossas casas, procuram sem discernimento e escolhem sem ponderação, entre mil lugares, o que lhes é mais cômodo para se alojarem? E na bela e admirável textura de suas construções poderiam os pássaros utilizar uma forma quadrada em vez de uma redonda, um ângulo obtuso em vez de um ângulo reto, sem conhecer-lhes as características e os efeitos? Usam ora da água ora da argila, sem pensar que a rigidez amolece ao ser umedecida? Atapetam de musgo seu palácio, ou de penugem, sem prever que os tenros membros de seus filhotes ficarão assim em maior maciez e conforto? Protegem-se do vento chuvoso e erguem o seu abrigo no lado leste sem conhecer as diferentes características desses ventos e considerar que um lhes é mais salutar que o outro? 


Reconhecemos suficientemente, na maioria de suas obras, quanta superioridade os animais têm sobre nós e o quanto nossa arte é fraca em imitá-los. Entretanto vemos nas nossas, mais grosseiras, as faculdades que nelas empregamos, e que nelas nossa alma se serve de todas suas forças; por que não julgamos da mesma forma as deles? por que atribuímos a não sei que inclinação natural e inferior as obras que superam tudo o que conseguimos por natureza e por arte? Nisso, sem pensarmos, lhes damos sobre nós a grande vantagem de fazer que a natureza, por uma doçura maternal, os acompanhe e guie, como pela mão, para todas as ações e facilidades de sua vida; e quanto a nós ela nos abandona ao acaso e à fortuna, e para procurarmos, por arte, as coisas necessárias à nossa preservação; e ao mesmo tempo nos recusa os meios para podermos chegar, por uma educação e tensão de espírito, à habilidade natural dos animais; de tal maneira que em todas as aptidões sua estupidez animal supera tudo o que pode nossa divina inteligência.
Michel de Montaigne

Menino medroso

Era um menino triste. Gostava de saltar com os meus primos e fazer tudo o que eles faziam. Metia-me com os moleques por toda a parte. Mas, no fundo, era um menino triste. Às vezes dava para pensar comigo mesmo, e solitário andava por debaixo das árvores da horta, ouvindo sozinho a cantoria dos pássaros.

Pensava então naquilo que junto de gente eu não podia pensar. Já estava no engenho há mais de quatro anos. Mudara muito desde que viera de Recife.

– Para o ano – diziam – iria para o colégio.

E o que seria esse colégio? Os meus primos contavam tanta coisa de lá, de um diretor medonho, de bancas, de castigos, de recreios, de exercícios militares, que me deixavam mesmo com vontade de ir com eles. Mas o engenho tinha tudo para mim. Tia Maria tomava conta de mim como se fosse mãe. E a lembrança de minha mãe enchia os meus retiros de cinza. Por que morrera ela? E de meu pai, por que não me davam notícias? Quando perguntava por ele, afirmavam que estava doente no hospital. E o hospital ia ficando assim um lugar donde não se voltava mais. Via gente do engenho que ia para lá, com carta do meu avô, não retornar nunca. E as negras quando falavam do hospital mudavam a voz: “Foi para o hospital.” Queriam dizer que foi morrer.

Tinha um medo doentio da morte. Aquilo da gente apodrecer debaixo da terra, ser comido pelos tapurus, me parecia incompreensível. Todo o mundo tinha que morrer. As negras diziam que alguns ficavam para semente. Eu me desejava entre estes felizardos. Por que não podia ficar para semente? Dentro de um navio, enquanto o mundo todo se acabasse. E nesse barco eu me via cercado de tudo que era bicho, e a minha tia Maria, a negra Generosa, a vovó Galdina, o meu avô, tudo que me amava estaria comigo. Esta horrível preocupação da morte tomava conta da minha imaginação.

Fiquei um menino medroso. De dia, porém, esperando meus canários, amava a solidão. Era ela que deixava falar o que eu guardava por dentro – as minhas preocupações, os meus medos, os meus sonhos. O mundo de um menino solitário é todo dos seus desejos. Tudo eu queria ter nesses meus retiros: o tesouro da história de Trancoso, o cavalinho de sela, aquela vara mágica das fadas, que viravam em tudo que a gente quisesse. Eu desejava também que a velha Sinhazinha morresse. Então começava a ver a minha inimiga trucidada, com os cavalos desembestados puxando-lhe o corpo pelos espinhos.
José Lins do Rego, “Menino do Engenho”

quarta-feira, julho 8

Viela da felicidade

 


Quem era o homem feio dos sonhos

Ela já estava chegando aos 31 anos e, desde o início da adolescência, quase todas as noites sonhava com um homem feio. Nunca era o mesmo homem, mas era sempre um homem feio, muito feio, alguém que ela havia visto naquele dia em algum lugar. Nos sonhos, o homem nunca falava. Olhava para ela, aproximava-se, cada passo durando uma eternidade, e quando chegava perto, muito perto, parava e ficava mais uma eternidade olhando para ela, só olhando. Quando esses sonhos se desfaziam, ela permanecia de olhos abertos, fitando o escuro, mas sem medo. Era sempre uma decepção o desfecho. Preferiria que o homem a atacasse, a xingasse, a aterrorizasse. O que não aguentava era aquele silêncio, aquela omissão, aquela indiferença pior do que um insulto. O que ele queria, afinal, com ela? Por que aparecia assim nas suas noites, nas suas madrugadas e até, às vezes, quando o sol e os primeiros ruídos da manhã já se elevavam?

O sonho era sempre aquele: um homem muito feio, que andava na sua direção e parava de repente, como se descobrisse que tinha se enganado. Os amigos, ao interpretar o sonho, resvalavam para a comédia e até para a galhofa. Um viu no homem o Diabo, outro adivinhou nele um príncipe que se revelaria em toda sua formosura se fosse beijado ou tocado com carinho. Mas, quando ela estava com 15 anos, uma amiga sugeriu que o visitante noturno poderia ser a Morte. Por muito tempo, talvez pelo nome de vidente da amiga (Zora), ela achou lógica essa hipótese, mas agora, com quase 31 anos, não acreditava numa Morte que tivesse a pachorra de se anunciar com tanta antecedência e empenho.

Aos 21 anos, tinha ido morar com um homem tão belo que, quando saía com ele, ela sentia dores no pescoço, enjoo, comichões: era a inveja feroz das outras mulheres. Viveu com esse homem um ano e meio e não sonhou com ele uma noite sequer. Continuava a sonhar com desconhecidos: alguém que tivesse visto no escritório dele, no elevador, no restaurante onde jantavam. Sempre alguém feio – não horrendo, não assustador, mas muito feio. Não podia dizer que eram pesadelos, porque o homem dos sonhos se mantinha calado e a uma distância mais que respeitosa. Mas isso ainda a perturbava: o que, afinal, ele queria com ela?

Com 28 anos, havia morado com um homem de 21, inacreditavelmente mais belo que o anterior, e nem nos seis meses em que viveu com ele, nem depois, quando se separaram, sonhou com ele. Assim que completou 30 anos, começou a sonhar com um homem que era tão feio quanto os outros, mas tinha algo que ela, se fosse definir, diria que era charme. Isso a inquietou profundamente, e também o fato de que nunca, antes, havia sonhado mais de uma vez com o mesmo rosto. E, agora, sonhava com esse até três vezes por noite. E ele, ao contrário dos outros, falava, embora só uma palavra: o nome dela.

Num fim de tarde, voltando para casa, ao descer do metrô, ela viu o homem. Ele se aproximou, chamou-a pelo nome e a conduziu suavemente por uma dezena de ruas que ela conhecia mas que pareciam diferentes, como se ela estivesse num sonho. “Fazia muito tempo que eu queria falar com você. Vamos, minha casa é logo ali”, disse o homem. Ela foi. A casa parecia simples, mas ao entrar ela se viu numa sala descomunal. Na parede, havia uma tela muito grande, na qual o homem aparecia sorrindo ao lado de gente que ela não conhecia, e também de pessoas célebres, algumas de fama recente, outras de meio século antes, de um século, de um milênio atrás. Ela quis perguntar como aquilo era possível, mas ele já a tinha levado para a cozinha. Quando viu a faca na mão dele, soube que a amiga Zora tinha razão.

Rua da amargura

A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge
E tem casas baixas que ficam me espiando de noite
Quando a minha angústia passa olhando o alto.
A minha rua tem avenidas escuras e feias
De onde saem papéis velhos correndo com medo do vento
E gemidos de pessoas que estão eternamente à morte.
A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladram
Tem árvores grandes que tremem na noite silente
Fugindo as grandes sombras dos pés aterrados.
A minha rua é soturna…
Na capela da igreja há sempre uma voz que murmura louvemos
Sozinha e prostrada diante da imagem
Sem medo das costas que a vaga penumbra apunhala.
A minha rua tem um lampião apagado
Na frente da casa onde a filha matou o pai
Porque não queria ser dele.
No escuro da casa só brilha uma chapa gritando quarenta.


A minha rua é a expiação de grandes pecados
De homens ferozes perdendo meninas pequenas
De meninas pequenas levando ventres inchados
De ventres inchados que vão perder meninas pequenas.
É a rua da gata louca que mia buscando os filhinhos nas portas das casas.

É a impossibilidade de fuga diante da vida
É o pecado e a desolação do pecado
É a aceitação da tragédia e a indiferença ao degredo
Como negação do aniquilamento.

É uma rua como tantas outras
Com o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite.
É a rua por onde eu passo a minha angústia
Ouvindo os ruídos subterrâneos como ecos de prazeres inacabados.
É a longa rua que me leva ao horror do meu quarto
Pelo desejo de fugir à sua murmuração tenebrosa
Que me leva à solidão gelada do meu quarto...

Rua da amargura…
Vinícius de Moraes

Inverno

Desde vinte e um de junho vivemos o inverno. Por aqui, o frio começou antes; meu inferno particular, gelado, estava apressado. Há alguns dias, tenho andado cheio de roupas quentes, meias de lã, casacos, moletons, até mesmo gorros. Dizer que não gosto é pouco. As baixas temperaturas e o céu acinzentado parecem unir-se para me deixar triste, acabrunhado, infeliz. Muita gente afirma ser um período civilizado, época de andarmos vestidos elegantemente, com roupas e tons mais sóbrios. O problema é minha sobriedade interna excessiva no período. A alma transformada em picolé. De limão. Azeda!

No momento, enquanto escrevo, tenho à minha frente uma xícara de chá fumegante. Envolvo o recipiente com as duas mãos na esperança de aquecer os dedos. Respiro sobre o líquido para ver se descongelo o nariz. E nem sou muito fã de chás; considero o hábito britânico mais uma exibição de fleuma, um jeito de dizerem que são sofisticados. Como podem gostar daquela água quente na qual derramam um dedal de leite mais encorpado? Mas tive que apelar, buscando desesperadamente uma forma de me aquecer. Em vão! Os pés não encontram possibilidade de se comportarem adequadamente. Endurecem, dormentes; insistem na sensação de formigamento, tenho certeza de que estão, apesar de envoltos em meião grosso, arroxeados e frios.

Recentemente, estive na Finlândia. Para eles, é normal saírem ao relento em uma temperatura para nós impossível: – 23 °C. Passeiam, andam pelas ruas e matas, consideram importante levar uma vida normal apesar das implicâncias do tempo. Tentamos acompanhar os locais. Apesar de calçar sapatos com pregos, não fiz boa figura caminhando sobre o gelo. Inseguro, bambo, sentia-me como um ganso fora da água. Lento, vacilando, escorregando muito e tentando reequilibrar-me, não consegui evitar um tombo. De frente, de cara naquele chão duro, salpicado de neve. Na ânsia de proteger o rosto, joguei o tronco meio de lado e concentrei o impacto todo sobre as costelas. Fora a vergonha e a humilhação de saber-me estatelado naquele cenário branco, apenas uma dorzinha terrível lateral — provável trincamento do osso —, que duraria semanas. Levantei-me úmido, sujo, maldizendo a sensação de sentir-me como uma peça de carne pendurada no freezer.

Tenho um sol tatuado no braço. Talvez, considero vivamente a hipótese, venha a acrescentar ao corpo a imagem de um mandacaru estilizado. Tudo para dizer que tenho gravado atavicamente o calor em meu espírito. O agreste e o sertão circulam em meu sangue, fervem a minha alegria de viver. Agora, no final das festas juninas no querido Nordeste, terra de meus antepassados, todo encolhido aqui, no meu apartamento geladeira sulino, tiritando, imagino o som do acordeão chacoalhando um forró:

— Tá danado de bom! Tá danado de bom!

E deliro na voz imaginada do Gonzagão.

— Luiz, respeita Januário!

À tardinha, o sol avermelha o horizonte empoeirado, a caatinga rachada, e meu coração se enche de luz. Acho que é isso. Eu sou do tipo que precisa ser iluminado. Ou me apago nas sombras de um vento triste, uivando lá fora um inverno, inferno de mim.

O riso das mães

As mães não nos deixam ficar mal: não nos deixam. Por muito bem que estejamos elas voltam.

A minha mãe está sempre a voltar. Aparece-me mais vezes do que quando estava viva. Sinto-a a rir-se dentro de mim, a desafiar-me a lembrar-me dela: "Diz lá então o que é que diz esta mãe tão chata que não te deixa em paz?"

Antes de morrer ela confidenciou-me "as mães, por muito boas que sejam, acabam sempre por deixar mal os filhos". Em inglês: they always let you down. Senti-me imediatamente culpado: não estaria ela a falar nos filhos? Não somos nós que as desiludimos, num instantinho?

As mães não nos deixam ficar mal: não nos deixam. Por muito bem que estejamos elas voltam. Até voltam mais quando estamos bem e esquecemos as saudades que temos delas. Voltam para nos fazer rir, voltam para nos mostrar como, voltam para ver as coisas com os olhos delas.

Há um grande amor que se solta quando a presença física desaparece. Há um grande amor que espera por esse vazio para se mostrar. É como a voz dela dentro de mim: só comecei a ouvi-la no silêncio que caiu à minha volta quando ela se foi embora. Durante uns tempos — que nunca mais acabavam — doía-me que eu não pudesse falar com ela. Mas doía-me ainda mais ela não poder falar comigo.

Sim, não posso telefonar-lhe. Mas já não preciso. Ela fala comigo várias vezes por dia. Eu conto à Maria João, tal e qual tivesse acabado de falar com ela. Ela ajuda-me a rir, a perceber, a entregar-me.

As mães só fingem que nos deixam ficar mal. A verdade — que também é triste — é que não nos largam. Porque nós não as deixamos. Nem podemos.
Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, julho 6

Guardião

 


Canção Dolente

Salgueiros trêmulos, belos!
meus camaradas tão bons!
vós sois como violoncelos
onde o vento acorda sons…

Melodia dos destinos!
voz do tempo! voz plangente!
Ah! na saudade dos sinos,
canta a saudade da gente…

Corujas de vida obscura!
a vossa sorte me diz
que a verdadeira ventura
é não tentar ser feliz…

Álvaro Moreyra

Luz e emoção

De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro da roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.

- Deus te abençoe, pequenino. Como é o teu nome?

- Miguilim. Eu sou irmão do Dito.

- E o seu irmão Dito é dono daqui?

- Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.

O homem esbarrava o avanço do cavalo, que ere zelado, manteúdo, formoso como nenhuma outro. Redizia:

- Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda... Mas, que é que há, Miguilim?

Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.

- Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em sua casa?

- É Mãe, e os meninos...

Estava Mãe, estava Tio Terêz, estavam todos. O Senhor alto e claro se apeou. O outro que vinha com ele era uma camarada. O senhor perguntava a Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: __ “Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?”

Miguilim espremia os olhos. Drelina e a Chica riam. Tomezinho tinha ido se esconder.

- Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...

E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.

- Olha, agora!

Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo... O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava o que tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompassado, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, a Mãitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: -- “Miguilim, você é piticego...” E ele respondeu: -- “Donazinha”...

Quando voltou, o doutor José Lourenço já tinha ido embora.

“Você está triste, Miguilim?” __ Mãe perguntou.

Miguilim não sabia. Todos eram maiores do que ele, as coisas reviravam sempre dum modo tão diferente, eram grandes demais.

- Pra onde ele foi?

- A foi pra a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas amanhã ele volta, de manhã, antes de ir s’embora para a cidade. Disse que, você, querendo, Miguilim, ele junto te leva... -- O doutor era homem muito bom, levava o Miguilim, lá ele comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola, depois aprendia ofício. -- “Você mesmo quer ir?”

Miguilim não sabia. Fazia peso para não soluçar. Sua alma, até ao fundo, se esfriava. Mas Mãe disse:

Vai meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai. Fim do ano, a gente puder faz a viagem também. Um dia todos se encontram...
João Guimarães Rosa, "Corpo e alma. Manuelzão e Miguilim"

O lampião da Rua do Fogo

Ali, naquele velho canto onde a Rua de Joaquim Rodrigues faz um recanteio, morava Seu Maia, casado com Dona Placidina, numa casa de beirais, janelas virgens da profanação das tintas, porta da rua e porta do meio. Portão do quintal, abrindo no velho cais do Rio Vermelho. Isso, há muito tempo, antes da rua passar a 13 de Maio e da casa ser fantasiada de platibanda.

Seu Maia era muito conhecido em Goiás e era porteiro da Intendência. Boa pessoa. Serviçal, amigo de todo mundo e companheirão de boas farras. Gostava de uma pinguinha em doses dobradas, dessas antigas que pegavam fogo. Então, se misturava vinho, conhaque e aniseta; só voltava para casa carregado pelos companheiros, que o entregavam aos cuidados da mulher.

Esta, acostumada, embora com a sina ruim, como dizia, não poupava a descalçadeira quando recebia o marido naquele fogo, arrastando a língua, de pernas moles, isto quando não virava valente, quebrando pratos e panelas e disposto a lhe chegar a peia.

Dona Placidina era muito prática, nessas e noutras coisas… Ajeitava logo um café amargo, misturado com frutinhas de jurubeba torrada, que o marido engolia careteando e o empurrava para a rede, onde roncava até pela manhã ou se agitava e falava a noite inteira.

— Coitada de Dona Placidina, comentavam as amigas. Seu Maia é um santo homem sem esse diabo da pinga.

E ensinavam remédios, simpatias, responsos, rezas fortes. Simpatia que dera certo em outros casos, era nada para ele. Remédios? Inofensivos como a água do pote. Os próprios santos se faziam desentendidos dos responsos, velas acesas e jaculatórias recitadas.

Dona Placidina, cansada daquele marido incorrigível, acabou botando o coração ao largo, embora achasse, no íntimo, que melhor seria uma boa hora de morte para ela… ou antes, para o marido, esta parte no subconsciente.

Naquele dia, como a dose da boa fosse mais pesada, Seu Maia, que já vinha se ressentindo do fígado com passamentos e vista escura, se achou pior.

Os amigos o trouxeram para casa mais cedo. Tiveram mesmo de o levar para a cama e o meter entre as cobertas. De nada valeu a chazada caseira.

No dia seguinte, chamaram Seu Foggia que diagnosticou empanchamento e doença do coração. Receitou um purgativo e uma poção. Seu Maia piorou. Dona Placidina se desdobrou em cuidados especiais. Esqueceu o defeito do marido, as desavenças, os pratos quebrados e passou a sentir, antecipadamente, os percalços da viuvez.

Os amigos não arredaram. Faz-se a conferência médica das vizinhas prestativas. Escalda-pés, benzimentos, sinapismo, nada deu jeito. Nem valeu promessa de muito boa cera ao senhor São Sebastião. Seu Maia morreu.

Os companheiros tomaram conta do morto. Levaram o corpo. Vestiram-lhe o fato preto de sarjão, que tinha sido do casamento. Calçaram meias, ajuntaram-lhe as mãos no peito. Pearam as pernas e passaram um lenção branco, bem apertado, no queixo. Chamaram um canapé, largo de palhinha, para o meio da sala, deitaram o cadáver, cobriram com um lençol. Cuidou-se do pucarinho de água benta, com seu ramo de alecrim. Acenderam-se as quatro velas e, nos pés do morto, botou-se um caco de telha com brasa e grãos de incenso. Era assim que se arrumava defunto em Goiás, antigamente.

Os amigos foram chegando, tomando posição e começou o velório. Dona Placidina, entregue aos cuidados das amigas, mal escapava de uma vertigem, caía noutra. Afinal, à força de chás de arruda, de casca de tomba e de Água Florida de Murray, voltou a si e, como era decidida e de espírito prático, botou de parte o abatimento e passou a cuidar do pessoal que fazia sentinela.

Café com biscoito pelas 10 horas. Mais tarde, mexido de lombo de porco e ovos fritos com farofa, comido na cozinha, e requentão quando a noite esfriou mais e os galos passaram amiudar.

Entre a diligência caseira e suspiros puxados, a viúva, de vez em quando, levantava a ponta do lençol que cobria o marido e enxugava umas lágrimas hipotéticas. “Bom marido”, lastimava e, lá consigo, “não fosse a pinga, era a falta que tinha…”

No dia seguinte, veio o caixão com tampa solta, como de costume. Agasalharam ali o defunto. Chegaram mais amigos e mais comadres. Dona Placidina louvava as virtudes conjugais do finado, em crises nervosas de choro seco — sem lágrimas, o choro mais difícil que existe.

A cada visita que chegava, com seu carinhoso abraço e formalíssimos “meus pêsames”; havia uma exaltação no choro ressecado da viúva.

Pelas duas horas, começou a fazer vento de chuva e um trovão surdo se ouviu ao lado da Santa Bárbara. Como o caixão teria mesmo de ser carregado na força dos braços, os amigos resolveram apressar o saimento, antes que o tempo enfarruscado se decidisse em água. Vento da Santa Bárbara é chuva certa no São Miguel. E enterro debaixo de chuva era a coisa mais estragada que podia acontecer em Goiás.

Dona Placidina se debruçou em cima do morto. Não queria deixar sair Seu Maia, coitado… As amigas com chazadas de alecrim. Os amigos tomaram conta das alçadas e ganharam a rua. Entraram na outra, que era Direita, naquele tempo. Passaram a ponte da Lapa, subiram e entraram no Rosário para encomendação do corpo.

Os sinos das igrejas, todas, dobrando a lamentação de finados. Pela intenção do morto, cada amigo mandava dar um sinal nas igrejas, quanto quisesse. Ainda que os sinos tocam como a gente quer, alegres ou soturnos.

Os sineiros sempre tiveram esmero especial para anjinho ou defunto. Essas duas palavras, em Goiás, delimitavam as circunstâncias da idade, sem mais explicações. Anjinho era criança mesma ou moça virgem e, defunto, gente pecadora.

Ia o cortejo subindo e os homens se revezando nas alças, que o morto estava pesado. Com a doença curta, nem tivera tempo de emagrecer. Iam depressa, que a chuva já tinha posto uma carapuça branca no cocuruto do Canta Galo.

Na frente, um popular, afeito àquele préstimo, carregava a tampa que só ia ser colocada na beira da cova. Outros levavam os dois tamboretes, tradicionais, para o descanso do ataúde, quando se trocavam os que iam carregando. Os músicos, de fardão escuro, tocavam um funeral muito triste. Sendo de notar que não havia enterro em Goiás sem acompanhamento de música, somente os muito pobrezinhos. Na rabeira, a molecada da rua. Queriam ver o caixão descer no buraco, se divertiam com aquilo.

Na esquina da Rua do Fogo com a Rua da Abadia, existiu, durante muito tempo, um poste de lampião antigo, saliente, fora de linha, puxando mesmo para o meio da rua. Era um tropeço. Coisa embaraçosa. Não foram poucos os esbarros, cabeçadas, encontrões verificados ali.

Enterros que subiam, já de longe, começavam a torcer à direita para se desviar do lampião, que não tinha outra consequência senão atrapalhar. Naquele dia, com a aflição da chuva que vinha perto e com o peso do caixão que era demais, ninguém se lembrou do poste. Foi quando o compadre Mendanha, que ia na alça dianteira pela esquerda, pisou de mau jeito num calhau roliço, falseou o pé, fraquejou a perna e… bumba! Lá se foi o caixão bater com toda força no lampião.

Com a violência do baque, o defunto abriu os olhos, desarrumou as mãos e fez força de levantar o corpo.

A essa hora, o pessoal do enterro tinha se desabalado, em doida carreira pela rua abaixo e largado o morto se soltando da laçada das pernas. O dia inda estava claro, não era hora de assombração. Alguns, mais esclarecidos, resolveram voltar e ver de perto o acontecido.

Encontraram Seu Maia de pé, muito amarelo, escorado no poste, com tremuras pelo corpo e olhando, com desânimo o caixão vazio. Reconheceram, então, que o mesmo estava vivo e que era preciso voltar com ele para casa. Guardaram o caixão inútil na igreja da Abadia e desceram a rua, amparando o ex-morto.

Todas as janelas, agora, com gente assombrada ante aquele caso novo na cidade. A meninada na frente, gritava:

— Evém o defunto…

De dentro das casas, os moradores corriam para as portas e só se ouvia:

— Vem ver, Maricota… vem ver, Joaninha. Óia o defunto que evém voltando…

Amparado pelos amigos, metido naquele sarjão preto, desusado, calçado só de meias, lenço na cara e muito devagarinho vinha Seu Maia de volta.

Um portador foi na frente avisar Dona Placidina, daquela ressurreição e conseqüente retorno, ao que ela só teve expressão sintomática:

— Seja pelo amor de Deus.

Seu Maia chegou afinal, entrou, recebendo um abraço de boas-vindas mais ou menos calorosas da mulher. Bebeu um cordial. Meteu-se na cama e de novo foram chamar Seu Foggia. Este veio. Examinou, apalpou, auscultou, pediu para ver a língua. Concluiu, com sabedoria, que tinha sido um ataque de catalepsia, muito parecido com a morte, mas que não era morte, não.

A providência tinha sido o lampião do meio da rua, senão teria sido mesmo enterrado vivo.

A cidade comentou o caso por muito tempo. Seu Maia foi entrevistado por todos os sensacionalistas da terra — gente insuportável daquele tempo. Muita língua desocupada levantou a suspeita de que vários fulanos e sicranos daquele tempo tivessem sido enterrados vivos e toda a gente ficou se pelando de catalepsia. Os letrados foram até o Chernoviz e Langard. Conferiram-se diploma no assunto e discorriam de doutor e com muita prosódia, sobre catalepsia ou morte aparente.

Enquanto os comentaristas faziam roda, o doente recuperava a saúde. Dona Placidina, muito prática como sempre, aproveitou o acontecimento para uma pequena homilia doméstica, complicada e cheia de boa dialética feminina, de que “aquilo fora aviso do céu e castigo de Deus…”

E já pelo choque emocional — vá lá que naquele tempo não havia destas coisas não — já pelo medo de novo ataque e de ser mesmo enterrado vivo, o certo é que o homem moderou a bebida.

Dona Placidina, no entanto, já havia, no seu foro íntimo, aceitado a idéia da viuvez e aquela volta inesperada do marido vivo não melhorou de muito os pontos de vista da ex-viúva.

Alguns meses depois, Seu Maia adoecia gravemente. Vieram os amigos da primeira viagem. Apareceram as clássicas e inefáveis comadres. Deram-se os remédios. Da botica e extrabotica. Foi bem purgado e lhe aplicaram ventosas e sinapismos. Nada serviu. Seu Maia morreu.

Seu Foggia então declarou que, por via das dúvidas, só levassem o morto quando começasse a feder. Fez-se de novo o velório com todas as regrinhas de costume. Café com biscoito pelas dez horas. Viradinho de feijão e lingüiça comidos, com voracidade e discrição na cozinha, e quentão forte de canela e gengibre, quando a noite esfriou e os galos amiudaram.

Contaram-se casos. Louvaram as virtudes do finado, num breve necrológio. Passaram a anedotas discretas. Falou-se da carestia da vida, dos erros do governo e se fez a filosofia da morte.

A viúva chorou, mais ou menos conformada com aquela segunda via. O compadre Mendanha tomou conta de trocar as velas que iam se consumindo, de regrar o pucarinho de água benta com seu raminho de alecrim.

No dia seguinte, quando perceberam que não mais haveria engano, os amigos ajuntaram as alças e levantaram o caixão.

Dona Placidina, muito experiente, despediu-se do morto em soluços alternados. Teimou com as amigas: dessa vez havia de acompanhar, ao menos até a porta.

O compadre Mendanha, muito metódico e apegado aos velhos hábitos de sempre pegar caixão pela alça da frente e da esquerda, tomou posição. Outros pegaram pelos lados, adiante saiu a tampa, carregada por um popular e os tamboretes indispensáveis, renteando o caixão aberto.

Espalhado pelas ruas, o acompanhamento, só de homens. Agrupada com seus instrumentos enlaçados de crepes, a banda do funeral. Arrumado o cortejo, Dona Placidina botou o corpo fora da porta e chamou alto:

— Compadre Mendanha… Escuta, compadre, cuidado com o lampião da Rua do Fogo, viu… Não vá acontecer como da outra vez.
Cora Coralina