Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
segunda-feira, março 9
Para a Terra
Seja sincera, Terra, — e gentil.
Esta flor que se abriu na tempestade
Caiu com o silêncio que se seguiu.
Seja sincera, Terra, — e gentil.
Hart Crane
Esta flor que se abriu na tempestade
Caiu com o silêncio que se seguiu.
Seja sincera, Terra, — e gentil.
Hart Crane
Cervantes
– Que novas trazes de nosso pai?
– Jaz, senhor, entre lágrimas e rezas. Inchado está, e de cor cinza. Já pôs a alma em paz com o escrivão e com o padre. As carpideiras esperam.
– Se tivesse eu o bálsamo de Ferrabrás.... Dois goles e no ponto sararia!
– Aos setenta anos que quase tem, e em agonia? Com seis dentes na boca e uma só mão que serve? Com cicatrizes tantas de batalhas, afrontas e prisões? De nada serviria esse feio Brás.
– Não digo dois goles. Duas gotas!
– Tarde chegaria.
– Morreu, dizes?
– Morrendo está.
– Descubra-se, Sancho. E tu, Rocinante, baixa a testa. Ah, príncipe das armas! Rei das letras!
– Sem ele, senhor, o que será de nós?
– Nada haveremos de fazer que não seja em sua alabança.
– Onde iremos parar, tão sozinhos?
– Iremos onde ele quis e não pôde.
– Onde, senhor?
– A endireitar o que torto está na costa de Cartagena, na ribanceira de La Paz e os bosques de Soconuco.
– Para que nos moam por lá os ossos.
– Hás de saber, Sancho, irmão meu de caminhos e correrias, que nas Índias a glória aguarda os cavaleiros andantes, sedentos de justiça e fama...
– Como foram poucas as chibatadas....
– ...e recebem os escudeiros, em recompensa, imensos reinos jamais explorados.
– Não os haverá mais perto?
– E tu, Rocinante, fique sabendo: nas Índias, os cavalos calçam prata e mordem ouro. São tidos por deuses!
– Depois de mil tundas, mil e uma.
– Cale-se, Sancho.
– Não nos disse nosso pai que a América é refúgio de malandros e santuário de putas?
– Cala, te digo!
– Quem às Índias embarca, nos disse, no cais deixa a consciência.
– Pois lá iremos, a lavar a honra de quem livres nos pariu no cárcere!
– E se aqui o choramos?
– Homenagem chamas semelhante traição? Ah, velhaco! Voltaremos ao caminho! Se para ficar no mundo nos fez, pelo mundo o levaremos. Alcançai-me o elmo! A adarga ao braço, Sancho! A lança!
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
– Jaz, senhor, entre lágrimas e rezas. Inchado está, e de cor cinza. Já pôs a alma em paz com o escrivão e com o padre. As carpideiras esperam.
– Se tivesse eu o bálsamo de Ferrabrás.... Dois goles e no ponto sararia!
– Aos setenta anos que quase tem, e em agonia? Com seis dentes na boca e uma só mão que serve? Com cicatrizes tantas de batalhas, afrontas e prisões? De nada serviria esse feio Brás.
– Não digo dois goles. Duas gotas!
– Tarde chegaria.
– Morreu, dizes?
– Morrendo está.
– Descubra-se, Sancho. E tu, Rocinante, baixa a testa. Ah, príncipe das armas! Rei das letras!
– Sem ele, senhor, o que será de nós?
– Nada haveremos de fazer que não seja em sua alabança.
– Onde iremos parar, tão sozinhos?
– Iremos onde ele quis e não pôde.
– Onde, senhor?
– A endireitar o que torto está na costa de Cartagena, na ribanceira de La Paz e os bosques de Soconuco.
– Para que nos moam por lá os ossos.
– Hás de saber, Sancho, irmão meu de caminhos e correrias, que nas Índias a glória aguarda os cavaleiros andantes, sedentos de justiça e fama...
– Como foram poucas as chibatadas....
– ...e recebem os escudeiros, em recompensa, imensos reinos jamais explorados.
– Não os haverá mais perto?
– E tu, Rocinante, fique sabendo: nas Índias, os cavalos calçam prata e mordem ouro. São tidos por deuses!
– Depois de mil tundas, mil e uma.
– Cale-se, Sancho.
– Não nos disse nosso pai que a América é refúgio de malandros e santuário de putas?
– Cala, te digo!
– Quem às Índias embarca, nos disse, no cais deixa a consciência.
– Pois lá iremos, a lavar a honra de quem livres nos pariu no cárcere!
– E se aqui o choramos?
– Homenagem chamas semelhante traição? Ah, velhaco! Voltaremos ao caminho! Se para ficar no mundo nos fez, pelo mundo o levaremos. Alcançai-me o elmo! A adarga ao braço, Sancho! A lança!
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
O Risadinha
Seria melhor dizer que ele não teve infância. Mas não é verdade. Eu o conheci menino, trepando às árvores, armando alçapão para canários-da-terra, bodoqueando as rolinhas, rolando pneu velho pelas ruas, pegando traseira de bonde, chamando o professor Asdrúbal de Jaburu. Foi este último um dos mais divertidos e perigosos brinquedos da nossa infância: o velho corria atrás da gente brandindo a bengala, seus bastos bigodes amarelos fremindo sob as ventas vulcânicas.
Nestor, em suma, teve a meninice normal de um filho de funcionário público em nosso tempo, tempo incerto, pois os recursos da Fazenda na província eram magros, e os pagamentos se atrasavam, enervando a população.
Seus companheiros talvez nem soubessem que se chamasse Nestor; era para todos o Risadinha. Falava pouco e ria muito, um riso de fato diminutivo, nascido de reservados solilóquios, quase sempre extemporâneo. Certa feita, na aula de francês, quando entoávamos em coro o presente do subjuntivo do verbo s`en aller, Risadinha pespegou uma bólide de papel bem na ponta do nariz do professor, que era muito branco, pedante a capricho e tinha o nome de Demóstenes. O rosto do mestre passou do pálido ao rubro das suas tremendas cóleras. Um dos seus prazeres, sendo-lhe vetado por lei castigar-nos com o bastão, era desfiar em cima do culpado uma série de insultos preciosos, que ele ia escandindo um por um, sem pressa e com ódio.
− Levante-se, seu Nestor! Sa-cri-pan-ta! Ne-gli-gen-te! Si-co-fan-ta! Tu-nan-te! Man-dri-ão! Ca-la-cei-ro! Pan-di-lha! Bil-tre! Tram-po-lei-ro! Bar-gan-te! Es-troi-na! Val-de-vi-nos! Va-ga-bun-do!...
Pegando a deixa da única palavra inteligível, Risadinha erguia o dedo no ar e protestava, com ar ofendido:
− Vagabundo, não, professor.
Era um artista do cinismo, e sua momice de inocência era de tal arte que até mesmo seu Demóstenes não conseguia conter o riso. Como também somente ele já arrancara uma gargalhada do padre-prefeito, um alemão da altura da catedral de Colônia, num dia em que vinha caminhando lento e distraído, fora de forma.
− Por que o senhorrr não está na forma? − perguntou-lhe rosnando o padre, como se estivesse de promotor da Inquisição, diante de um herege horripilante.
− É porque estou com meu pezinho machucado, respondeu com doçura o Risadinha.
− E por que o senhorrr não está mancando?
Risadinha olhou com espanto para os seus próprios pés, começando a mancar vistosamente:
− Desculpe, seu padre, é porque eu tinha esquecido.
Foi um precursor de Cantinflas e, a despeito da opinião do leitor, nós lhe achávamos uma graça de doer a barriga.
Paulo Mendes Campos, "Para gostar de ler"
Nestor, em suma, teve a meninice normal de um filho de funcionário público em nosso tempo, tempo incerto, pois os recursos da Fazenda na província eram magros, e os pagamentos se atrasavam, enervando a população.
Seus companheiros talvez nem soubessem que se chamasse Nestor; era para todos o Risadinha. Falava pouco e ria muito, um riso de fato diminutivo, nascido de reservados solilóquios, quase sempre extemporâneo. Certa feita, na aula de francês, quando entoávamos em coro o presente do subjuntivo do verbo s`en aller, Risadinha pespegou uma bólide de papel bem na ponta do nariz do professor, que era muito branco, pedante a capricho e tinha o nome de Demóstenes. O rosto do mestre passou do pálido ao rubro das suas tremendas cóleras. Um dos seus prazeres, sendo-lhe vetado por lei castigar-nos com o bastão, era desfiar em cima do culpado uma série de insultos preciosos, que ele ia escandindo um por um, sem pressa e com ódio.
− Levante-se, seu Nestor! Sa-cri-pan-ta! Ne-gli-gen-te! Si-co-fan-ta! Tu-nan-te! Man-dri-ão! Ca-la-cei-ro! Pan-di-lha! Bil-tre! Tram-po-lei-ro! Bar-gan-te! Es-troi-na! Val-de-vi-nos! Va-ga-bun-do!...
Pegando a deixa da única palavra inteligível, Risadinha erguia o dedo no ar e protestava, com ar ofendido:
− Vagabundo, não, professor.
Era um artista do cinismo, e sua momice de inocência era de tal arte que até mesmo seu Demóstenes não conseguia conter o riso. Como também somente ele já arrancara uma gargalhada do padre-prefeito, um alemão da altura da catedral de Colônia, num dia em que vinha caminhando lento e distraído, fora de forma.
− Por que o senhorrr não está na forma? − perguntou-lhe rosnando o padre, como se estivesse de promotor da Inquisição, diante de um herege horripilante.
− É porque estou com meu pezinho machucado, respondeu com doçura o Risadinha.
− E por que o senhorrr não está mancando?
Risadinha olhou com espanto para os seus próprios pés, começando a mancar vistosamente:
− Desculpe, seu padre, é porque eu tinha esquecido.
Foi um precursor de Cantinflas e, a despeito da opinião do leitor, nós lhe achávamos uma graça de doer a barriga.
Paulo Mendes Campos, "Para gostar de ler"
A sereiazinha
Em Copenhague, no lugar preferido pelo povo para os seus passeios, existia uma figura de bronze, obra do escultor Eriksen, representando uma pequena sereia pousada num rochedo. Com uma das mãos apoiada na pedra e a outra abandonada no regaço, ela contemplava, na sua casta nudez, este mundo incrível dos homens. Por trás dela perfilavam-se belos navios brancos e armações de altos guindastes. Ela estava ali, entre o céu, a terra e o mar e era uma das mais delicadas expressões de amor que se podia ter oferecido àquele gênio da bondade que se chamou Hans Christian Andersen, cujas histórias causaram a felicidade de milhões de crianças que as ouviram, no mundo inteiro, e certamente a dos adultos que as contaram.
A sereiazinha vivia no fundo do mar, no palácio do rei seu pai, em companhia de suas irmãs e de sua avó. Quando as pequenas sereias chegavam aos quinze anos, tinham permissão para subir à tona da água e contemplar o mundo dos homens. As irmãs não se encontraram muito com esse mundo; mas a sereiazinha caçula aprendeu com a sua avó que as sereias duram apenas três séculos e, ao morrer, tornam-se em espuma, enquanto que os seres humanos possuem uma alma imortal. A sereiazinha desejou possuir também uma alma assim. Mas era difícil; segundo o que lhe contara a avó, para possuir uma alma imortal, que um homem a amasse mais que aos seus próprios pais e, naturalmente, a desposasse. (Eu estou contando isto pelo prazer que me dá relembrar a linda história, mas na certeza que todos os leitores a conhecem.)
Então a sereiazinha salva um príncipe de um naufrágio, e, para vir a encontrá-lo, mais tarde, no seu palácio, pede à feiticeira do mar que lhe transforme a cauda em pés humanos, pagando pelo serviço com a sua voz, e resignando-se à mudez.
No palácio, todos a acham linda. Mas que pode ela fazer, se não fala? O príncipe trata-a com uma delicada ternura de amigo; mas está noivo e em breve se casará… Oh! A sereiazinha não conseguirá possuir uma alma imortal! E também já não poderá voltar ao palácio submarino, não tornará à sua vida antiga: morrerá de um raio de sol e se transformará em simples espuma. A não ser que, segundo lhe vêm explicar as irmãs, que circundam o navio do príncipe, tenha a coragem de matá-lo, antes do amanhecer. Com o seu sangue tornará a adquirir sua cauda de sereia, não morrerá com o primeiro raio de sol, voltará para a sua família (Sem a alma imortal, é certo, mas com cerca de trezentos anos de vida …)
Como todos sabem, a sereiazinha não foi capaz de matar seu belo príncipe: aproximou-se do leito onde ele dormia, murmurando em sonho o nome da noiva, deu-lhe um beijo na testa, atirou a faca ao mar, lançou-se também às ondas e notou como a sua forma se dissolvia em espuma. Não sentiu, porém, que morria. Percebeu uma infinidade de formas aéreas, esvoaçantes, e essas formas falaram com ela, disseram-lhe que se as sereias, para possuírem uma alma imortal, precisavam de um amor humano, elas, filhas do ar, conquistavam uma alma imortal com seu próprio esforço, praticando o bem, protegendo a terra e os homens, sem dependerem desse amor que a sereiazinha em vão tentara merecer. E a sereiazinha pela primeira vez sentiu lágrimas nos olhos, e partiu pelo céu, com as filhas do ar, procurando alcançar a imortalidade pelas boas obras, talvez em menos de trezentos anos.
Sensíveis à maravilhosa invenção de Andersen, os dinamarqueses levantaram numa pedra esse monumento à sereiazinha: a menina vinda dos profundos abismos do mar desejosa de deixar a sua condição de sereia para possuir a alma eterna, e conseguindo, pela sua perfeita bondade, elevar-se a espírito dos ares, conquistando essa alma pelas boas ações.
Pois neste triste mundo dos homens, onde sofre a alma imortal, veio alguém e degolou agora a sereiazinha de bronze ! Por quê ? Por amor? Para ter em sua casa o suave rosto, de sereno perfil, de delicadas madeixas? Por ódio àquela que sofreu tanto para possuir a alma imortal? Ou por simples vadiação, pelo gosto de destruir, pelo mórbido prazer de desfazer o que os outros fizeram com ternura? Hans Christian Andersen, o gênio da bondade, teria enxugado uma lágrima nos seus olhos repletos de carinho mesmo pelos que outrora não o entendiam. Mas, não, embora degolada, a sereiazinha não morreu; há um século que sua figura invisível paira pelo céu, distribuindo benefícios pela humanidade. Tanta alegria tem dado a tanta gente que já conseguiu alcançar aquela alma imortal que pretendia.
Cecília Meireles, "Crônicas de viagem"
A sereiazinha vivia no fundo do mar, no palácio do rei seu pai, em companhia de suas irmãs e de sua avó. Quando as pequenas sereias chegavam aos quinze anos, tinham permissão para subir à tona da água e contemplar o mundo dos homens. As irmãs não se encontraram muito com esse mundo; mas a sereiazinha caçula aprendeu com a sua avó que as sereias duram apenas três séculos e, ao morrer, tornam-se em espuma, enquanto que os seres humanos possuem uma alma imortal. A sereiazinha desejou possuir também uma alma assim. Mas era difícil; segundo o que lhe contara a avó, para possuir uma alma imortal, que um homem a amasse mais que aos seus próprios pais e, naturalmente, a desposasse. (Eu estou contando isto pelo prazer que me dá relembrar a linda história, mas na certeza que todos os leitores a conhecem.)
Então a sereiazinha salva um príncipe de um naufrágio, e, para vir a encontrá-lo, mais tarde, no seu palácio, pede à feiticeira do mar que lhe transforme a cauda em pés humanos, pagando pelo serviço com a sua voz, e resignando-se à mudez.
No palácio, todos a acham linda. Mas que pode ela fazer, se não fala? O príncipe trata-a com uma delicada ternura de amigo; mas está noivo e em breve se casará… Oh! A sereiazinha não conseguirá possuir uma alma imortal! E também já não poderá voltar ao palácio submarino, não tornará à sua vida antiga: morrerá de um raio de sol e se transformará em simples espuma. A não ser que, segundo lhe vêm explicar as irmãs, que circundam o navio do príncipe, tenha a coragem de matá-lo, antes do amanhecer. Com o seu sangue tornará a adquirir sua cauda de sereia, não morrerá com o primeiro raio de sol, voltará para a sua família (Sem a alma imortal, é certo, mas com cerca de trezentos anos de vida …)
Como todos sabem, a sereiazinha não foi capaz de matar seu belo príncipe: aproximou-se do leito onde ele dormia, murmurando em sonho o nome da noiva, deu-lhe um beijo na testa, atirou a faca ao mar, lançou-se também às ondas e notou como a sua forma se dissolvia em espuma. Não sentiu, porém, que morria. Percebeu uma infinidade de formas aéreas, esvoaçantes, e essas formas falaram com ela, disseram-lhe que se as sereias, para possuírem uma alma imortal, precisavam de um amor humano, elas, filhas do ar, conquistavam uma alma imortal com seu próprio esforço, praticando o bem, protegendo a terra e os homens, sem dependerem desse amor que a sereiazinha em vão tentara merecer. E a sereiazinha pela primeira vez sentiu lágrimas nos olhos, e partiu pelo céu, com as filhas do ar, procurando alcançar a imortalidade pelas boas obras, talvez em menos de trezentos anos.
Sensíveis à maravilhosa invenção de Andersen, os dinamarqueses levantaram numa pedra esse monumento à sereiazinha: a menina vinda dos profundos abismos do mar desejosa de deixar a sua condição de sereia para possuir a alma eterna, e conseguindo, pela sua perfeita bondade, elevar-se a espírito dos ares, conquistando essa alma pelas boas ações.
Pois neste triste mundo dos homens, onde sofre a alma imortal, veio alguém e degolou agora a sereiazinha de bronze ! Por quê ? Por amor? Para ter em sua casa o suave rosto, de sereno perfil, de delicadas madeixas? Por ódio àquela que sofreu tanto para possuir a alma imortal? Ou por simples vadiação, pelo gosto de destruir, pelo mórbido prazer de desfazer o que os outros fizeram com ternura? Hans Christian Andersen, o gênio da bondade, teria enxugado uma lágrima nos seus olhos repletos de carinho mesmo pelos que outrora não o entendiam. Mas, não, embora degolada, a sereiazinha não morreu; há um século que sua figura invisível paira pelo céu, distribuindo benefícios pela humanidade. Tanta alegria tem dado a tanta gente que já conseguiu alcançar aquela alma imortal que pretendia.
Cecília Meireles, "Crônicas de viagem"
Sobre ser claro
Quando vejo um açougue, vejo os nacos de carne pendurados, banhados pela luz branca, quase não penso, nem leio o letreiro. Só reparo no letreiro quando vou ao Rio ou a Portugal, por achar interessante se chamar por lá “Talho”. Divirto-me com os nomes em outras regiões e sempre os comparo. Mas a curiosidade das mudanças dos nomes nunca se abate sobre a natureza do lugar, os talhos vendem carne de vaca e de outros bichos, não me parece isso ser uma questão.
Com livros é diferente. Apresentarei aqui uma breve passagem para pensarmos juntos. Tem acontecido muitas vezes de o visitante entrar na nossa livraria e perguntar se somos um “sebo”. Vocês sabem: os sebos são os espaços de venda de livros usados, de segunda mão, que adoro conhecer, visitar, mas não é o meu ofício. É um mundo distinto, diferente das livrarias de novos, é um mundo muito diferente e também tem o seu encanto e tem o meu respeito. É bonito pensar num lugar em que os livros, além de conter suas histórias, contêm histórias dos seus primeiros donos — os livros guardam aventuras em suas vidas nas mãos de outros leitores.
Pensando sobre essa dúvida dos visitantes, talvez o nosso ambiente clássico, que remete à art nouveau, aos anos 1920, que lembra livrarias portenhas, cariocas ou francesas, talvez esse ambiente meio vintage faça os visitantes pensarem que não somos uma livraria de novos. Também me ocorre que simplesmente o desejo de encontrar um sebo faça o visitante perguntar mesmo achando em seu íntimo que ali não é o que ele vê, ele quer que se materialize na sua frente o seu desejo. E também pode ser alguém distraído mesmo, que não percebe detalhes ou que não reparou na lousa cavalete que coloquei na entrada da Realejo com as dúvidas frequentes. Sim, criamos um cavalete um tanto divertido que traz informações aos leitores. São elas: Não somos sebo; sim, somos uma livraria: não somos copiadora: sim, somos uma editora; não somos a CET (Companhia de engenharia de tráfego) e por aí vai… Quando os visitantes reparam na lousa, alguns se divertem, outros postam em suas redes e assim tocamos a nossa vida entre livros.
Foi por meio de uma mensagem via whatsapp da livraria, uma moça jovem pergunta de forma leve se podíamos tirar uma dúvida. Ela nunca havia nos visitado e por isso a questão: se ali se podia ler sentado às cadeiras ou se podia pegar livros emprestados ou até mesmo alugar os livros. Achei bonitinho por um átimo de segundo para depois me bater um certo cansaço por ter que explicar quem somos de maneira frequente. Expliquei que somos uma livraria clássica, que, portanto, vendemos livros e que se pode visitar e examinar as obras, mas com intenção de adquirir as mesmas e terminei dizendo que somos livreiros, que atendemos sempre os leitores com cuidado, mas não somos uma biblioteca. Digitei e esperei a resposta que veio rápida e aguda. A figura utilizou siglas — a primeira era “vtmnc” seu grosso, só perguntei porque não ficou claro para mim e depois soltou mais palavrões que prefiro poupar o paciente leitor ou a paciente leitora. Arregalei os olhos, contei até dez e respondi com calma e alguma ironia, afinal se puder me divertir por que não? Escrevi para ela respirar e tomar um chá e que se no futuro ela estiver ainda com curiosidade, poderia nos conhecer e… bem, ela me bloqueou, a mensagem não chegou até ela, foi como se batesse a porta na minha cara.
Pensando ainda sobre o diálogo, é interessante tentar entender o porquê das confusões, das dúvidas sobre algo secular como são as livrarias. Será que essa pessoa tem hábito de ler livros? Será que as invenções e junções de negócios como barbearia com mesa de sinuca e cerveja e guitarras pros clientes se divertirem, essas ideias tiraram o recado dos lugares? Sem dúvida o trabalho nunca termina e seguiremos mostrando o que fazemos, tentando sermos claros na proposta, lembrando que também agregamos na nossa livraria um bar/café, que temos shows musicais e que recebemos com criatividade os leitores, mas sempre sem esquecer a missão que nos trouxe até aqui, a missão de vender livros.
Vou tomar um chá, obrigado pela preferência, voltem sempre.
Com livros é diferente. Apresentarei aqui uma breve passagem para pensarmos juntos. Tem acontecido muitas vezes de o visitante entrar na nossa livraria e perguntar se somos um “sebo”. Vocês sabem: os sebos são os espaços de venda de livros usados, de segunda mão, que adoro conhecer, visitar, mas não é o meu ofício. É um mundo distinto, diferente das livrarias de novos, é um mundo muito diferente e também tem o seu encanto e tem o meu respeito. É bonito pensar num lugar em que os livros, além de conter suas histórias, contêm histórias dos seus primeiros donos — os livros guardam aventuras em suas vidas nas mãos de outros leitores.
Pensando sobre essa dúvida dos visitantes, talvez o nosso ambiente clássico, que remete à art nouveau, aos anos 1920, que lembra livrarias portenhas, cariocas ou francesas, talvez esse ambiente meio vintage faça os visitantes pensarem que não somos uma livraria de novos. Também me ocorre que simplesmente o desejo de encontrar um sebo faça o visitante perguntar mesmo achando em seu íntimo que ali não é o que ele vê, ele quer que se materialize na sua frente o seu desejo. E também pode ser alguém distraído mesmo, que não percebe detalhes ou que não reparou na lousa cavalete que coloquei na entrada da Realejo com as dúvidas frequentes. Sim, criamos um cavalete um tanto divertido que traz informações aos leitores. São elas: Não somos sebo; sim, somos uma livraria: não somos copiadora: sim, somos uma editora; não somos a CET (Companhia de engenharia de tráfego) e por aí vai… Quando os visitantes reparam na lousa, alguns se divertem, outros postam em suas redes e assim tocamos a nossa vida entre livros.
Foi por meio de uma mensagem via whatsapp da livraria, uma moça jovem pergunta de forma leve se podíamos tirar uma dúvida. Ela nunca havia nos visitado e por isso a questão: se ali se podia ler sentado às cadeiras ou se podia pegar livros emprestados ou até mesmo alugar os livros. Achei bonitinho por um átimo de segundo para depois me bater um certo cansaço por ter que explicar quem somos de maneira frequente. Expliquei que somos uma livraria clássica, que, portanto, vendemos livros e que se pode visitar e examinar as obras, mas com intenção de adquirir as mesmas e terminei dizendo que somos livreiros, que atendemos sempre os leitores com cuidado, mas não somos uma biblioteca. Digitei e esperei a resposta que veio rápida e aguda. A figura utilizou siglas — a primeira era “vtmnc” seu grosso, só perguntei porque não ficou claro para mim e depois soltou mais palavrões que prefiro poupar o paciente leitor ou a paciente leitora. Arregalei os olhos, contei até dez e respondi com calma e alguma ironia, afinal se puder me divertir por que não? Escrevi para ela respirar e tomar um chá e que se no futuro ela estiver ainda com curiosidade, poderia nos conhecer e… bem, ela me bloqueou, a mensagem não chegou até ela, foi como se batesse a porta na minha cara.
Pensando ainda sobre o diálogo, é interessante tentar entender o porquê das confusões, das dúvidas sobre algo secular como são as livrarias. Será que essa pessoa tem hábito de ler livros? Será que as invenções e junções de negócios como barbearia com mesa de sinuca e cerveja e guitarras pros clientes se divertirem, essas ideias tiraram o recado dos lugares? Sem dúvida o trabalho nunca termina e seguiremos mostrando o que fazemos, tentando sermos claros na proposta, lembrando que também agregamos na nossa livraria um bar/café, que temos shows musicais e que recebemos com criatividade os leitores, mas sempre sem esquecer a missão que nos trouxe até aqui, a missão de vender livros.
Vou tomar um chá, obrigado pela preferência, voltem sempre.
sábado, março 7
A verdade dividida
A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"
A criada
Seu nome era Eremita. Tinha dezenove anos. Rosto confiante, algumas espinhas. Onde estava a sua beleza? Havia beleza nesse corpo que não era feio nem bonito, nesse rosto onde uma doçura ansiosa de doçuras maiores era o sinal da vida.
Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas – senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E – de repente – a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira – em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera – tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis – ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera nas suas florestas.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Beleza, não sei. Possivelmente não havia, se bem que os traços indecisos atraíssem como água atrai. Havia, sim, substância viva, unhas, carnes, dentes, mistura de resistências e fraquezas, constituindo vaga presença que se concretizava porém imediatamente numa cabeça interrogativa e já prestimosa, mal se pronunciava um nome: Eremita. Os olhos castanhos eram intraduzíveis, sem correspondência com o conjunto do rosto. Tão independentes como se fossem plantados na carne de um braço, e de lá nos olhassem – abertos, úmidos. Ela toda era de uma doçura próxima a lágrimas.
Às vezes respondia com má-criação de criada mesmo. Desde pequena fora assim, explicou. Sem que isso viesse de seu caráter. Pois não havia no seu espírito nenhum endurecimento, nenhuma lei perceptível. “Eu tive medo”, dizia com naturalidade. “Me deu uma fome”, dizia, e era sempre incontestável o que dizia, não se sabe por quê. “Ele me respeita muito”, dizia do noivo e, apesar da expressão emprestada e convencional, a pessoa que ouvia entrava num mundo delicado de bichos e aves, onde todos se respeitam. “Eu tenho vergonha”, dizia, e sorria enredada nas próprias sombras. Se a fome era de pão – que ela comia depressa como se pudessem tirá-lo – o medo era de trovoadas, a vergonha era de falar. Ela era gentil, honesta. “Deus me livre, não é?”, dizia ausente.
Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas – senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E – de repente – a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira – em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera – tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis – ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera nas suas florestas.
Clarice Lispector, "Todos os contos"
Passeio noturno à beira-mar
Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram pela minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram-no, o que as almas foram e ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta — tudo isso, no meu passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste, O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção!
Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio noturno à beira-mar!
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram-no, o que as almas foram e ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta — tudo isso, no meu passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste, O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção!
Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amámos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso noturno do meu passeio à beira-mar...
Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio noturno à beira-mar!
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
quinta-feira, março 5
O último da fila
Daí que, sem perceber, a gente entra na fila. Fila para quê? Para onde? Não há placa que indique, seta que oriente. Não importa, algo ancestral nos manda ficar na fila. E, quando você entra numa delas, inevitavelmente é o último da fila.
Você espicha a cabeça, procura enxergar até onde ela vai, constata que dobra o quarteirão, moleza. Só quando chega ali, vê que tem outro quarteirão mais à frente, e outro, e outro. Mas sempre aparece algum desastre, música ou show de calouros para a gente se distrair.
A princípio, a fila anda devagar. Os pés se arrastam, lentos, indecisos. Enfrentam as garoas, cozinham ao sol, buscam as sombras das árvores. Sem ter a menor ideia de que, com o tempo, um mecanismo misterioso os acelera e, mero número na fila, a gente obedece, vai sendo levado (iludido que não), até que, no final, vira atropelo de cena de filme mudo em preto e branco.
Numa fila, a gente olha mais para a frente. Só muito de vez em quando para trás e constata que, estranhamente, aquele cara de boné não está mais lá, mas sim uma senhorinha de bolsa estampada e, mesmo essa, será substituída por um vereador em campanha e, esse, por uma dançarina dos sete véus.
Mesmo dentro da fila, a gente entra em outras filas: fila do pão, do embarque, para entrar no estádio (essa, mais para tumulto), da imigração. É, essa coisa de uma fila dentro da outra ficou confusa, mas é assim mesmo. Passam amores, uns menores, outros vou contar; passam empregos, que pareciam a coisa mais preciosa do universo (não são), passam até alguns cachorros, que a gente nem sabia que podiam entrar na fila — mas que depois a gente vê que, sem eles, fica meio sem graça. O dinheiro vem e passa, a saúde vem e passa, a gente assobia Vai passar, do Chico, e arrisca algum livro de autoajuda para ver se.
Saudades de dar a mão para os pais ou para os filhos na fila.
A fila sobe e desce escada. Entra no mar e fura as ondas. Dorme em camas de hotel e se senta nos bancos escolares. Cai num buraco fundo, sai no Japão e volta. A fila na cabeça da gente. Os mais preparados e espertos chegam lá primeiro, e a gente vai ficando. O grandão tosco dá um chega pra lá e o lugar vira dele. Alguém cutuca nossos ombros e pergunta: “É essa a fila?” Respondemos que sim e, na maior sem-cerimônia, a pessoa entra na frente. Cadê o guarda? Cadê o segurança? Cadê Deus?
Por gentileza, a gente cede o lugar aos mais velhos, aos mais frágeis, aos perdidos. Por distração, a gente esquece de avançar. Por burrice, empaca. Como em toda fila que merece o nome, chega o vendedor de algodão-doce. Já estou escolhendo o rosinha, quando meu gastro, duas pessoas adiante, se vira e me olha com cara feia. Ainda bem que se pode beber na fila. E a gente sempre acaba exagerando, tomando três saideiras sem sair, mistura bebida, perde o rumo, faz besteira — você não?
Há o tropeço e o gozo. Há a risada e a lágrima que a gente esconde. Os advérbios e a fé na loteria. As prestações da casa e a correição das formigas. Carros com motor turbo e gasolina aditivada, mas que não são capazes de nos fazer ganhar posição alguma. A gente se gasta na fila. A gente se perde e reencontra. Consome nove sapatos, mas jamais se aborrece, pois prefere ficar descalço.
Um sujeito saiu da fila. Por que isso aconteceu?
E quando se descobre que sua fila era outra? — bem que você não estava reconhecendo ninguém ao redor. Aquele ali furou a fila. Aquela aproveitou para distribuir santinhos. Uma bola chegou quicando, bem na sua direção, você armou o chute, um mané chegou do nada e, catapimba, chutou primeiro. Onde fica a fila da reclamação? E a das sugestões?
Tanto passou, tanto aconteceu, gente do céu. Falta muito? Quem sabe? Quanto acontecimento na vida das minhas retinas tão fatigadas etc.
Olho ao redor. Continuo sendo o último da fila.
Você espicha a cabeça, procura enxergar até onde ela vai, constata que dobra o quarteirão, moleza. Só quando chega ali, vê que tem outro quarteirão mais à frente, e outro, e outro. Mas sempre aparece algum desastre, música ou show de calouros para a gente se distrair.
A princípio, a fila anda devagar. Os pés se arrastam, lentos, indecisos. Enfrentam as garoas, cozinham ao sol, buscam as sombras das árvores. Sem ter a menor ideia de que, com o tempo, um mecanismo misterioso os acelera e, mero número na fila, a gente obedece, vai sendo levado (iludido que não), até que, no final, vira atropelo de cena de filme mudo em preto e branco.
Numa fila, a gente olha mais para a frente. Só muito de vez em quando para trás e constata que, estranhamente, aquele cara de boné não está mais lá, mas sim uma senhorinha de bolsa estampada e, mesmo essa, será substituída por um vereador em campanha e, esse, por uma dançarina dos sete véus.
Mesmo dentro da fila, a gente entra em outras filas: fila do pão, do embarque, para entrar no estádio (essa, mais para tumulto), da imigração. É, essa coisa de uma fila dentro da outra ficou confusa, mas é assim mesmo. Passam amores, uns menores, outros vou contar; passam empregos, que pareciam a coisa mais preciosa do universo (não são), passam até alguns cachorros, que a gente nem sabia que podiam entrar na fila — mas que depois a gente vê que, sem eles, fica meio sem graça. O dinheiro vem e passa, a saúde vem e passa, a gente assobia Vai passar, do Chico, e arrisca algum livro de autoajuda para ver se.
Saudades de dar a mão para os pais ou para os filhos na fila.
A fila sobe e desce escada. Entra no mar e fura as ondas. Dorme em camas de hotel e se senta nos bancos escolares. Cai num buraco fundo, sai no Japão e volta. A fila na cabeça da gente. Os mais preparados e espertos chegam lá primeiro, e a gente vai ficando. O grandão tosco dá um chega pra lá e o lugar vira dele. Alguém cutuca nossos ombros e pergunta: “É essa a fila?” Respondemos que sim e, na maior sem-cerimônia, a pessoa entra na frente. Cadê o guarda? Cadê o segurança? Cadê Deus?
Por gentileza, a gente cede o lugar aos mais velhos, aos mais frágeis, aos perdidos. Por distração, a gente esquece de avançar. Por burrice, empaca. Como em toda fila que merece o nome, chega o vendedor de algodão-doce. Já estou escolhendo o rosinha, quando meu gastro, duas pessoas adiante, se vira e me olha com cara feia. Ainda bem que se pode beber na fila. E a gente sempre acaba exagerando, tomando três saideiras sem sair, mistura bebida, perde o rumo, faz besteira — você não?
Há o tropeço e o gozo. Há a risada e a lágrima que a gente esconde. Os advérbios e a fé na loteria. As prestações da casa e a correição das formigas. Carros com motor turbo e gasolina aditivada, mas que não são capazes de nos fazer ganhar posição alguma. A gente se gasta na fila. A gente se perde e reencontra. Consome nove sapatos, mas jamais se aborrece, pois prefere ficar descalço.
Um sujeito saiu da fila. Por que isso aconteceu?
E quando se descobre que sua fila era outra? — bem que você não estava reconhecendo ninguém ao redor. Aquele ali furou a fila. Aquela aproveitou para distribuir santinhos. Uma bola chegou quicando, bem na sua direção, você armou o chute, um mané chegou do nada e, catapimba, chutou primeiro. Onde fica a fila da reclamação? E a das sugestões?
Tanto passou, tanto aconteceu, gente do céu. Falta muito? Quem sabe? Quanto acontecimento na vida das minhas retinas tão fatigadas etc.
Olho ao redor. Continuo sendo o último da fila.
Esquecimento
O esquecimento é como uma canção
Que, livre de ritmo e compasso, vagueia.
O esquecimento é como um pássaro cujas asas estão em paz,
Abertas e imóveis, —
Um pássaro que plana ao sabor do vento.
O esquecimento é a chuva à noite,
Ou uma velha casa na floresta, — ou uma criança.
O esquecimento é branco, — branco como uma árvore destroçada,
E pode atordoar a sibila a ponto de profetizar,
Ou sepultar os deuses.
Eu me lembro de muitos esquecimentos.
Que, livre de ritmo e compasso, vagueia.
O esquecimento é como um pássaro cujas asas estão em paz,
Abertas e imóveis, —
Um pássaro que plana ao sabor do vento.
O esquecimento é a chuva à noite,
Ou uma velha casa na floresta, — ou uma criança.
O esquecimento é branco, — branco como uma árvore destroçada,
E pode atordoar a sibila a ponto de profetizar,
Ou sepultar os deuses.
Eu me lembro de muitos esquecimentos.
Hart Crane
Por não estarem distraídos
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Clarice Lispector
Clarice Lispector
Uma visita ao campo
Não sendo um cockney nato, não tenho quaisquer ilusões sobre o campo. As estradas onduladas e tortuosas, as sebes poeirentas, as valas com os seus cadáveres de cães, urtigas e nuvens de moscas venenosas, os grupos de crianças que trituram qualquer coisa, o camponês boçal e prematuramente envelhecido pelo trabalho, o vagabundo velhaco, os montões de estrume de cheiro nauseabundo, a cadeia de marcos miliários entre duas estalagens; por tudo isto eu passo apressado e ansioso de ver o primeiro post telegráfico indicando-me estar próximo o trem salvador. Da estrada do vilarejo à estação ferroviária, vai um salto de cinco séculos, desde uma tirania brutal da natureza sobre o Homem até ao domínio organizado deste sobre aquela.
E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um fim de semana com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de inteligência excepcional em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma moradia num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford me convertesse da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser transito ao cume de uma impostura cênica, designada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o lugar onde três homens foram forçados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre em sua companhia.
Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, após ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessados um cemitério enorme e um campo imenso, chegamos finalmente a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Consultei o caminho para Tilford, e fui informado de que estavam quatro milhas na linha reta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Sal, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirou a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, diminuindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma colocação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passava por um pinheiral, com um tapete de musgo úmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de proteção para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás comparecer a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a excitação sensação, olhei para as joelheiras das calças e, imediatamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largaram ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitetura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.
Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por mim ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de fato, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Sal “Ele aí vem!”, e o meu amigo veio me receber, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido numa roupa pertencente ao cunhado de Sal, um poeta promessa cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.
As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora fossem escolhidos uns dois ou três centímetros, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, posso-me de espirrar e o Sr.ª Sal, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de essência de cânfora. Não conheço a natureza violenta deste remédio, engolir, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, depois de ter sentido a respiração, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa úmida, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movida e tojo, já seca pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme reservatório de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia ao sotavento e sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a tristeza inefável espetáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegamos a casa, começou um passeio planejado para a manhã seguinte, até Hindhead. Só uma simples sugestão de novo passeio me trouxe um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e a Sr.ª Salt ministrou-me nas suas substituições, uma postura vulgar preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.
Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos passarinhos. Percebi, contudo, que me levantei antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à cidade. O sal estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o café-da-manhã, pusemo-nos no caminho de Hindhead, através de um nevoeiro que faz as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Sal assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não poderia se aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu. Quando, após termos subido e descido por lugares que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegamos por fim a Hindhead (que era igual às outras colinas) onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude das nuvens cerrado que fazia. Vi o lugar onde os três homens foram forçados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém foi assassinado, por induzir semelhantes aos seus passeios campestres.
Quando regressamos, Salt não estava no auge da paixão. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrônomo. Quanto à Sr.ª Salt, a conclusão de que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um traje de banho habilmente confeccionado.
Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estava tão saturada em água, que fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal do Sr. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direção do rebanho eram cuidadosamente frustrados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postadas novamente a seca e quando voltei a envergá-las, sugerem ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.
Não preciso descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu me aproximo de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.
E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um fim de semana com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de inteligência excepcional em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma moradia num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford me convertesse da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser transito ao cume de uma impostura cênica, designada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o lugar onde três homens foram forçados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre em sua companhia.
Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, após ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessados um cemitério enorme e um campo imenso, chegamos finalmente a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Consultei o caminho para Tilford, e fui informado de que estavam quatro milhas na linha reta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Sal, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirou a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, diminuindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma colocação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passava por um pinheiral, com um tapete de musgo úmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de proteção para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás comparecer a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a excitação sensação, olhei para as joelheiras das calças e, imediatamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largaram ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitetura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.
Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por mim ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de fato, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Sal “Ele aí vem!”, e o meu amigo veio me receber, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido numa roupa pertencente ao cunhado de Sal, um poeta promessa cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.
As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora fossem escolhidos uns dois ou três centímetros, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, posso-me de espirrar e o Sr.ª Sal, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de essência de cânfora. Não conheço a natureza violenta deste remédio, engolir, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, depois de ter sentido a respiração, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa úmida, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movida e tojo, já seca pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme reservatório de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia ao sotavento e sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a tristeza inefável espetáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegamos a casa, começou um passeio planejado para a manhã seguinte, até Hindhead. Só uma simples sugestão de novo passeio me trouxe um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e a Sr.ª Salt ministrou-me nas suas substituições, uma postura vulgar preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.
Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos passarinhos. Percebi, contudo, que me levantei antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à cidade. O sal estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o café-da-manhã, pusemo-nos no caminho de Hindhead, através de um nevoeiro que faz as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Sal assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não poderia se aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu. Quando, após termos subido e descido por lugares que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegamos por fim a Hindhead (que era igual às outras colinas) onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude das nuvens cerrado que fazia. Vi o lugar onde os três homens foram forçados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém foi assassinado, por induzir semelhantes aos seus passeios campestres.
Quando regressamos, Salt não estava no auge da paixão. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrônomo. Quanto à Sr.ª Salt, a conclusão de que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um traje de banho habilmente confeccionado.
Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estava tão saturada em água, que fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal do Sr. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direção do rebanho eram cuidadosamente frustrados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postadas novamente a seca e quando voltei a envergá-las, sugerem ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.
Não preciso descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu me aproximo de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.
Bernard Shaw
quarta-feira, março 4
O Poema
Um poema
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata
perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia
que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata
perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia
que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
Mario Quintana
Perde o gato
Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio cor incomum em gatos comuns e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
Carlos Drummond de Andrade
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio cor incomum em gatos comuns e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço.
E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua.
Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
Carlos Drummond de Andrade
Como matar um leitor
É assustador, enquanto professora de Português, assistir diariamente à aversão da maioria dos alunos pela leitura. Por mais que tentemos, por mais que nos esforcemos, conseguir que um aluno leia um livro verdadeiro, à moda antiga, em papel, tornou-se uma verdadeira aventura. Quantos aos outros, os digitais, parece ser ainda pior (enchem-me a memória do telemóvel, stora, ou ainda, adormeço sempre que tento, afirmam). Os livros de leitura obrigatória do Ensino Secundário em nada nos facilitam a vida. Pode ser o imperador da língua portuguesa, como lhe chamava Fernando Pessoa, mas os sermões de Padre António Vieira afastam, ano após ano, os alunos da literatura portuguesa. Pode ter sido o grande impulsionador do teatro em Portugal, depois de Gil Vicente, mas o drama romântico da Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, em pouco contribui para despertar o prazer da leitura nos adolescentes. Ainda conseguimos fazer pequenos milagres com o Amor de Perdição, tendo em conta o enredo e a juventude dos protagonistas mas as mais de setecentas páginas da obra Os Maias de imediato afastam qualquer jovem leitor. E assumem, sem medos: – Stora, nem pense que eu vou ler isso. E, na verdade, nem tentam.
Como preparar para a leitura, então? Se deixarmos de lado alguns conteúdos programáticos, talvez consigamos tempo para, de forma sistemática e consistente, criar momentos específicos, variados e frequentes para os livros, permitindo aos alunos a (re)descoberta do prazer da leitura. Mas se o fizermos, lá se vai o tempo para os restantes domínios que exigem ser trabalhados. Assim, em que ficamos? Como criar nos nossos alunos o gosto pela leitura é o grande desafio de um professor de Português nos tempos que correm.
Neste mundo em que vivemos, atolado em tecnologia, onde o avanço científico galga a olhos vistos e a comunicação se torna de tal forma global que quase nos perdemos no meio dela, ler e saber ler torna-se uma ferramenta chave para o contacto com o mundo, com os outros. É do conhecimento generalizado a dificuldade ao nível da capacidade de ler em grande parte da população mundial. Esta crise da competência de leitura tem vindo num crescendo na maioria das sociedades, colocando em cima da mesa um problema estrutural de consequências graves.
Esta generalizada crise da capacidade de leitura leva-nos a tomar consciência dos verdadeiros processos de aquisição para melhor instruir e (re)educar os indivíduos no sentido de uma leitura funcional numa sociedade de exigências crescentes de formação e de informação constantes. Dados recentes da OCDE (2025) sobre as competências de leitura em Portugal mostram desafios significativos na medida em que quase metade dos adultos (46%) com idades entre os 25-64 anos conseguem compreender apenas textos curtos e simples. Há factos preocupantes nesta matéria: cerca de 30% dos jovens de 15 anos apresentam apenas níveis elementares de competências de leitura, verificando-se um declínio na leitura por prazer. Por outro lado, os alunos portugueses demonstram dificuldades específicas em extrair informação implícita, relações lógicas e avaliação da linguagem.
Vários estudos têm comprovado que o hábito de leitura dos pais se reflete na competência de leitura dos filhos e, por outro lado, que raparigas e rapazes de contextos socioeconómicos mais elevados demonstram melhores desempenho de leitura. Na verdade, no atual contexto de mudança quase permanente em que vivemos, a leitura ganha cada vez mais uma função social e económica, tornando-se indispensável no dia a dia do cidadão comum. É verdade que a leitura se faz cada vez mais no ecrã e, neste contexto de informatização generalizada, em que quilos e quilos de informação correm para vários destinos, é fundamental dotar os alunos de ferramentas que lhe permitam selecionar, armazenar e manipular a informação. Como conseguir isto sem o domínio de competências de leitura?
A ausência de competências de leitura pode constituir uma espécie de amputação mental no plano cognitivo mas, em boa verdade, estende-se muito para além do cognitivo. Como afirma Morais (1997), “a leitura constitui uma importante via de acesso às ideologias, aos sistemas éticos, a certas formas de expressão emocional”, sem referir essa capacidade imperdível de usufruir da arte em geral e da literatura em particular. A acreditar na frase de Alberto Manguel (1996), de que “nós somos aquilo que lemos”, então estes alunos virão a ser exatamente o quê?
Como fazer dos nossos alunos, leitores hábeis? Como incentivá-los à leitura? Como mostrar-lhes que ler, saber ler, gostar de ler, lhes desenvolve o vocabulário, a autoconfiança, a segurança e a sua capacidade de integração no meio, escolar primeiro, social depois?
Quem souber responder, pode, por favor, ajudar-nos?
Como preparar para a leitura, então? Se deixarmos de lado alguns conteúdos programáticos, talvez consigamos tempo para, de forma sistemática e consistente, criar momentos específicos, variados e frequentes para os livros, permitindo aos alunos a (re)descoberta do prazer da leitura. Mas se o fizermos, lá se vai o tempo para os restantes domínios que exigem ser trabalhados. Assim, em que ficamos? Como criar nos nossos alunos o gosto pela leitura é o grande desafio de um professor de Português nos tempos que correm.
Neste mundo em que vivemos, atolado em tecnologia, onde o avanço científico galga a olhos vistos e a comunicação se torna de tal forma global que quase nos perdemos no meio dela, ler e saber ler torna-se uma ferramenta chave para o contacto com o mundo, com os outros. É do conhecimento generalizado a dificuldade ao nível da capacidade de ler em grande parte da população mundial. Esta crise da competência de leitura tem vindo num crescendo na maioria das sociedades, colocando em cima da mesa um problema estrutural de consequências graves.
Esta generalizada crise da capacidade de leitura leva-nos a tomar consciência dos verdadeiros processos de aquisição para melhor instruir e (re)educar os indivíduos no sentido de uma leitura funcional numa sociedade de exigências crescentes de formação e de informação constantes. Dados recentes da OCDE (2025) sobre as competências de leitura em Portugal mostram desafios significativos na medida em que quase metade dos adultos (46%) com idades entre os 25-64 anos conseguem compreender apenas textos curtos e simples. Há factos preocupantes nesta matéria: cerca de 30% dos jovens de 15 anos apresentam apenas níveis elementares de competências de leitura, verificando-se um declínio na leitura por prazer. Por outro lado, os alunos portugueses demonstram dificuldades específicas em extrair informação implícita, relações lógicas e avaliação da linguagem.
Vários estudos têm comprovado que o hábito de leitura dos pais se reflete na competência de leitura dos filhos e, por outro lado, que raparigas e rapazes de contextos socioeconómicos mais elevados demonstram melhores desempenho de leitura. Na verdade, no atual contexto de mudança quase permanente em que vivemos, a leitura ganha cada vez mais uma função social e económica, tornando-se indispensável no dia a dia do cidadão comum. É verdade que a leitura se faz cada vez mais no ecrã e, neste contexto de informatização generalizada, em que quilos e quilos de informação correm para vários destinos, é fundamental dotar os alunos de ferramentas que lhe permitam selecionar, armazenar e manipular a informação. Como conseguir isto sem o domínio de competências de leitura?
A ausência de competências de leitura pode constituir uma espécie de amputação mental no plano cognitivo mas, em boa verdade, estende-se muito para além do cognitivo. Como afirma Morais (1997), “a leitura constitui uma importante via de acesso às ideologias, aos sistemas éticos, a certas formas de expressão emocional”, sem referir essa capacidade imperdível de usufruir da arte em geral e da literatura em particular. A acreditar na frase de Alberto Manguel (1996), de que “nós somos aquilo que lemos”, então estes alunos virão a ser exatamente o quê?
Como fazer dos nossos alunos, leitores hábeis? Como incentivá-los à leitura? Como mostrar-lhes que ler, saber ler, gostar de ler, lhes desenvolve o vocabulário, a autoconfiança, a segurança e a sua capacidade de integração no meio, escolar primeiro, social depois?
Quem souber responder, pode, por favor, ajudar-nos?
A serpente de ouro
Ao ir um homem rico à cidade, perdeu o que levava consigo: um saco repleto, com mil talentos, sobre os quais havia uma serpente de ouro com olhos de ametista. Um pobre que passava pela mesma estrada achou o saco e o entregou à esposa, contando-lhe como o achara. Ouvida a história, a mulher disse:
— Guardemos o que Deus nos deu.
No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:
— Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.
Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:
— Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.
— Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu — replicou a mulher.
O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.
Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:
— Fica sabendo que falta a outra serpente.
Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.
Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado. Passou o caso a ser comentado entre os pobres e entre os ricos. Afinal, pelo relato dos ministros, chegou aos ouvidos do rei. Mal tomou conhecimento dele, o rei mandou trazer à sua presença o rico, o pobre e o tesouro.
Quando todos lá se achavam, mandou o rei vir um filósofo muito criterioso, juntamente com outros sábios, e ordenou-lhes que ouvissem a palavra do acusador e a do acusado, e esclarecessem a contenda. Ouvido o caso, o filósofo, movido de compaixão, chamou a si o pobre e disse-lhe em segredo:
— Dize-me, irmão, se ainda tens algum bem daquele homem. Pois, se não o tens, procurarei libertar-te com o auxílio de Deus.
— Sabe Deus que tudo o que encontrei eu restituí.
Então foi o filósofo ao soberano, e disse-lhe:
— Se quiseres ouvir um alvitre certo, eu o apresentarei.
O rei mandou-lhe que falasse, e ele argumentou:
— O homem rico é muito honesto e digno de crédito, e tem grandes testemunhos de sua veracidade. Nem é crível que reclamasse alguma coisa que não perdeu. Por outro lado, parece-me provável que o homem pobre não tenha encontrado nada além daquilo que restituiu, pois, se fosse desonesto, não devolveria o que devolveu, mas esconderia tudo.
— Que concluís daí, ó filósofo?
— Concluo que o tesouro encontrado não é o desse homem. Deveis tirar do tesouro cem talentos e dá-los ao pobre, guardando o restante até que apareça quem o reclame, pois não pertence a esse rico. Ele que se dirija ao arauto e mande procurar um saco com duas serpentes.
O alvitre agradou ao rei e a todos os circunstantes. Então o rico disse:
— Ó bom rei, digo-te a verdade: este tesouro realmente é meu. Mas, como eu não queria dar a este homem o que o arauto prometera, aleguei que me faltava uma segunda serpente. Tem piedade de mim, e darei a ele o que foi prometido.
Então o rei retirou do tesouro duzentos talentos e os deu ao pobre, devolvendo ao rico apenas o que restara, como punição por ter levantado falsa acusação sobre a honestidade do pobre.
— Guardemos o que Deus nos deu.
No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:
— Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.
Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:
— Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.
— Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu — replicou a mulher.
O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.
Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:
— Fica sabendo que falta a outra serpente.
Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.
Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado. Passou o caso a ser comentado entre os pobres e entre os ricos. Afinal, pelo relato dos ministros, chegou aos ouvidos do rei. Mal tomou conhecimento dele, o rei mandou trazer à sua presença o rico, o pobre e o tesouro.
Quando todos lá se achavam, mandou o rei vir um filósofo muito criterioso, juntamente com outros sábios, e ordenou-lhes que ouvissem a palavra do acusador e a do acusado, e esclarecessem a contenda. Ouvido o caso, o filósofo, movido de compaixão, chamou a si o pobre e disse-lhe em segredo:
— Dize-me, irmão, se ainda tens algum bem daquele homem. Pois, se não o tens, procurarei libertar-te com o auxílio de Deus.
— Sabe Deus que tudo o que encontrei eu restituí.
Então foi o filósofo ao soberano, e disse-lhe:
— Se quiseres ouvir um alvitre certo, eu o apresentarei.
O rei mandou-lhe que falasse, e ele argumentou:
— O homem rico é muito honesto e digno de crédito, e tem grandes testemunhos de sua veracidade. Nem é crível que reclamasse alguma coisa que não perdeu. Por outro lado, parece-me provável que o homem pobre não tenha encontrado nada além daquilo que restituiu, pois, se fosse desonesto, não devolveria o que devolveu, mas esconderia tudo.
— Que concluís daí, ó filósofo?
— Concluo que o tesouro encontrado não é o desse homem. Deveis tirar do tesouro cem talentos e dá-los ao pobre, guardando o restante até que apareça quem o reclame, pois não pertence a esse rico. Ele que se dirija ao arauto e mande procurar um saco com duas serpentes.
O alvitre agradou ao rei e a todos os circunstantes. Então o rico disse:
— Ó bom rei, digo-te a verdade: este tesouro realmente é meu. Mas, como eu não queria dar a este homem o que o arauto prometera, aleguei que me faltava uma segunda serpente. Tem piedade de mim, e darei a ele o que foi prometido.
Então o rei retirou do tesouro duzentos talentos e os deu ao pobre, devolvendo ao rico apenas o que restara, como punição por ter levantado falsa acusação sobre a honestidade do pobre.
Petrus Alphonsi, "Mar de Histórias"
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