Canto do Livro
Entre o pó e as traças de uma gaveta de livreiro
quinta-feira, fevereiro 5
Romances são vidas segundas
Os romances são vidas segundas, vidas paralelas às nossas. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam o colorido e as complexidades das nossas vidas e estão cheios de gente, rostos e objetos que pensamos reconhecer. Tal como nos sonhos, quando estamos a ler romances somos, por vezes, tão fortemente atingidos pela natureza extraordinária das coisas com que deparamos que chegamos a esquecer onde estamos e vemo-nos no meio de acontecimentos e pessoas imaginários que se nos apresentam pela frente. Nessas alturas, sentimos que o mundo ficcional com que deparamos e a que nos entregamos com entusiasmo é mais real do que o próprio mundo da realidade quotidiana. Que essa vida paralela, essa vida segunda possa parecer-nos mais real do que a realidade significa frequentemente que substituímos a realidade pelos romances, ou pelo menos que confundimos a realidade do romance com a da vida real. Mas nunca nos queixamos, nunca nos arrependemos dessa ilusão, dessa ingenuidade. Pelo contrário, como quando temos certos sonhos, queremos que o romance que estamos a ler continue e esperamos que essa vida paralela provoque em nós um sentido sólido, consistente de realidade e de autenticidade. Apesar de tudo o que conscientemente sabemos sobre ficção, ficamos contrariados e dececionados se um romance não consegue criar a ilusão de uma verdadeira vida, de uma vida que estamos realmente a viver.
Orhan Pamuk, "O Romancista Ingénuo e o Sentimental"
Orhan Pamuk, "O Romancista Ingénuo e o Sentimental"
Os jardins imaginários
Os jardins imaginários
que de longe vislumbramos
pertencem
aos distraídos insensíveis entes
com que os povoamos
Sempre ficamos
do lado de cá de suas grades
desejosos-receosos de as passarmos
Sentimos o perfume
das rosas que inventamos
vemos o esplendor
dos frutos que sonhamos
Contemplamos
na inventada montra dos prazeres
as sublimes doçuras que sonhamos
sentindo sempre
que não
que não somos dignos
de fruir tais gozos
Nos proibidos jardins
que inventamos
nós
sombras-fantasmas
dum desejo que nos impele em vão
nós
jamais perturbamos
a serenidade
de seu eterno impassível Verão
que de longe vislumbramos
pertencem
aos distraídos insensíveis entes
com que os povoamos
Sempre ficamos
do lado de cá de suas grades
desejosos-receosos de as passarmos
Sentimos o perfume
das rosas que inventamos
vemos o esplendor
dos frutos que sonhamos
Contemplamos
na inventada montra dos prazeres
as sublimes doçuras que sonhamos
sentindo sempre
que não
que não somos dignos
de fruir tais gozos
Nos proibidos jardins
que inventamos
nós
sombras-fantasmas
dum desejo que nos impele em vão
nós
jamais perturbamos
a serenidade
de seu eterno impassível Verão
Ana Hatherly
As duas verdades
Quanto mais avançamos na vida, mais nos convencemos de duas verdades que todavia se contradizem. A primeira é de que, perante a realidade da vida, soam pálidas todas as ficções da literatura e da arte. Dão, é certo, um prazer mais nobre que os da vida; porém são como os sonhos, em que sentimos sentimentos que na vida se não sentem, e se conjugam formas que na vida se não encontram; são contudo sonhos, de que se acorda, que não constituem memórias nem saudades, com que vivamos depois uma segunda vida.
A segunda é de que, sendo desejo de toda alma nobre o percorrer a vida por inteiro, ter experiência de todas as coisas, de todos os lugares e de todos os sentimentos vividos, e sendo isto impossível, a vida só subjectivamente pode ser vivida por inteiro, só negada pode ser vivida na sua substância total.
Estas duas verdades são irredutíveis uma à outra. O sábio abster-se-á de as querer conjugar, e abster-se-á também de repudiar uma ou outra. Terá contudo que seguir uma, saudoso da que não segue; ou repudiar ambas, erguendo-se acima de si mesmo em um nirvana próprio.
Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espectáculo externo de todas as impressões alheiam. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.
O campónio, o leitor de novelas, o puro asceta — estes três são os felizes da vida, porque são estes três que abdicam da personalidade — um porque vive do instinto, que é impessoal, outro porque vive da imaginação que é esquecimento, o terceiro porque não vive, e, não tendo morrido, dorme.
Nada me satisfaz, nada me consola, tudo — quer haja sido, quer não — me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero.
Fernando Pessoa, “Livro do desassossego“
A segunda é de que, sendo desejo de toda alma nobre o percorrer a vida por inteiro, ter experiência de todas as coisas, de todos os lugares e de todos os sentimentos vividos, e sendo isto impossível, a vida só subjectivamente pode ser vivida por inteiro, só negada pode ser vivida na sua substância total.
Estas duas verdades são irredutíveis uma à outra. O sábio abster-se-á de as querer conjugar, e abster-se-á também de repudiar uma ou outra. Terá contudo que seguir uma, saudoso da que não segue; ou repudiar ambas, erguendo-se acima de si mesmo em um nirvana próprio.
Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espectáculo externo de todas as impressões alheiam. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.
O campónio, o leitor de novelas, o puro asceta — estes três são os felizes da vida, porque são estes três que abdicam da personalidade — um porque vive do instinto, que é impessoal, outro porque vive da imaginação que é esquecimento, o terceiro porque não vive, e, não tendo morrido, dorme.
Nada me satisfaz, nada me consola, tudo — quer haja sido, quer não — me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero.
Fernando Pessoa, “Livro do desassossego“
O pescador com um braço só
Numa praia muito distante vivia um velho pescador que tinha somente um braço. Perdera o outro para um tubarão, quando tinha dez anos e morava muito longe dali.
Ele vivia sozinho numa cabana no alto de uma falésia de frente para o mar. Tinha construído para si, na praia, um curralzinho de estacas onde prendia sua rede.
A rede passava a noite dobrada, junto da porta. De manhã ele a apanhava, ia até a borda da falésia e jogava a rede lá para baixo. Depois descia os degraus estreitos escavados na pedra, pegava a rede e ia prendê-la no curral.
No fim do dia, descia para a praia, recolhia a rede, colocava os peixes num cesto e levava para a cabana. Cozinhava alguma coisa para comer, e o resto guardava num tonel com gelo. A carroça do gelo passava ali duas vezes por semana, e ele vendia uma parte dos peixes.
Um dia, ele achou que o mar estava mais agitado do que de costume, mas colocou a rede mesmo assim.
No fim da tarde, quando puxou a rede, viu no meio da agitação dos peixes um objeto brilhando.
Era uma lamparina antiga de metal, parecia de prata, trabalhada com desenhos geométricas, e estava parcialmente coberta com uma crosta. Ele a segurou e a esfregou com o polegar. O dia foi ficando mais claro, como se o sol tivesse aumentado de tamanho, mas não de calor. Depois a luz voltou ao normal e havia um homem diante dele, um homem com o dobro de sua altura.
- Tens direito a três desejos – disse o homem alto, que trajava roupas estranhas.
O pescador pegou os peixes da rede, passou todos para o cesto, em silêncio, enquanto o outro esperava. Depois disse:
- Tem que ser agora?
- Sim.
- Primeiro, quero que o fogo já esteja aceso quando eu chegar lá em cima com estes peixes, e o caldeirão com água para ferver.
- Assim será – disse o homem alto.
- Depois, quero um colchão igual ao que já tenho, mas novo, e mais macio.
- Assim será – disse o homem. O pescador ficou em silêncio, pensativo. – E o último?
O pescador ergueu o rosto para olhar o outro de frente.
- Quero que vás embora e que fiques livre do encantamento que te prendeu a esta lâmpada. Não preciso de mais nada. Vai!
E o homem alto desapareceu.
Ele vivia sozinho numa cabana no alto de uma falésia de frente para o mar. Tinha construído para si, na praia, um curralzinho de estacas onde prendia sua rede.
A rede passava a noite dobrada, junto da porta. De manhã ele a apanhava, ia até a borda da falésia e jogava a rede lá para baixo. Depois descia os degraus estreitos escavados na pedra, pegava a rede e ia prendê-la no curral.
No fim do dia, descia para a praia, recolhia a rede, colocava os peixes num cesto e levava para a cabana. Cozinhava alguma coisa para comer, e o resto guardava num tonel com gelo. A carroça do gelo passava ali duas vezes por semana, e ele vendia uma parte dos peixes.
Um dia, ele achou que o mar estava mais agitado do que de costume, mas colocou a rede mesmo assim.
No fim da tarde, quando puxou a rede, viu no meio da agitação dos peixes um objeto brilhando.
Era uma lamparina antiga de metal, parecia de prata, trabalhada com desenhos geométricas, e estava parcialmente coberta com uma crosta. Ele a segurou e a esfregou com o polegar. O dia foi ficando mais claro, como se o sol tivesse aumentado de tamanho, mas não de calor. Depois a luz voltou ao normal e havia um homem diante dele, um homem com o dobro de sua altura.
- Tens direito a três desejos – disse o homem alto, que trajava roupas estranhas.
O pescador pegou os peixes da rede, passou todos para o cesto, em silêncio, enquanto o outro esperava. Depois disse:
- Tem que ser agora?
- Sim.
- Primeiro, quero que o fogo já esteja aceso quando eu chegar lá em cima com estes peixes, e o caldeirão com água para ferver.
- Assim será – disse o homem alto.
- Depois, quero um colchão igual ao que já tenho, mas novo, e mais macio.
- Assim será – disse o homem. O pescador ficou em silêncio, pensativo. – E o último?
O pescador ergueu o rosto para olhar o outro de frente.
- Quero que vás embora e que fiques livre do encantamento que te prendeu a esta lâmpada. Não preciso de mais nada. Vai!
E o homem alto desapareceu.
Um pobre rico
Houve um homem que, tendo se deitado, não pôde dormir durante toda a noite.
Pensava:
“Por que é a vida tão penosa para os pobres? E... Por que os ricos acumulam tanto dinheiro? Têm caixas cheias de ouro e, no entanto, vivem privados de tudo, para continuar amontoando. Se eu fosse rico, não viveria da mesma forma; daria a mim próprio boa vida e procuraria não ser pior que os demais.”
Repentinamente ouviu uma voz que lhe dizia:
— Queres ser rico? Aqui está uma bolsa. Nela há apenas uma moeda; porém logo que a tires, outra a substituirá. Tira quantas queiras e, depois, atira a bolsa ao rio. Porém, antes de deitar fora a bolsa, não gastes nenhuma das moedas, porque o resto se transformará em pedra.
O pobre homem quase enlouqueceu de alegria. Quando se sentiu mais tranquilo, cuidou de fazer uso do presente maravilhoso.
E apenes tinha retirado a moeda, no fundo da bolsa viu brilhar outra!
— A felicidade é minha! — murmurou com um estremecimento. — Toda a noite passarei tirando moedas da bolsa e amanhã serei rico. Então jogarei a bolsa à água e desde então viverei confortavelmente.
Porém, chegada a manhã, mudou de ideia.
— Se eu quiser ter o dobro — pensou — é bastante conservar a bolsa mais um dia.
E também passou o resto do dia extraindo moedas. No seguinte mais, mais e mais, no outro, mais e mais... Não podia se decidir a abandonar a bolsa.
Nessa altura sentiu fome e recordou que só dispunha de um duro pedaço de pão preto.
Ir comprar outra coisa era impossível, pois embora muito quisesse comer não ousava se separar da bolsa; assim, comeu o infeliz aquele pão preto e duro; e depois continuou tirando moedas da bolsa inesgotável.
Nem mesmo à noite descansava.
Passou, assim, um mês, um ano.
Quem se teria contentado com certa quantidade? Todo o mundo quer possuir mais e mais, o máximo que for possível!
E o infeliz vive uma vida de mendigo, esquecido de que desejara viver para seu prazer e o de seus semelhantes.
De vez em quando toma uma resolução; aproxima-se do rio para lançar a bolsa à água; porém se arrepende e volta. Hoje está velho, fraco e amarelo como seu ouro mas não pode interromper sua tarefa...
E assim morre, pobre, sentado sobre um banco e com a bolsa entre as mãos.
Pensava:
“Por que é a vida tão penosa para os pobres? E... Por que os ricos acumulam tanto dinheiro? Têm caixas cheias de ouro e, no entanto, vivem privados de tudo, para continuar amontoando. Se eu fosse rico, não viveria da mesma forma; daria a mim próprio boa vida e procuraria não ser pior que os demais.”
Repentinamente ouviu uma voz que lhe dizia:
— Queres ser rico? Aqui está uma bolsa. Nela há apenas uma moeda; porém logo que a tires, outra a substituirá. Tira quantas queiras e, depois, atira a bolsa ao rio. Porém, antes de deitar fora a bolsa, não gastes nenhuma das moedas, porque o resto se transformará em pedra.
O pobre homem quase enlouqueceu de alegria. Quando se sentiu mais tranquilo, cuidou de fazer uso do presente maravilhoso.
E apenes tinha retirado a moeda, no fundo da bolsa viu brilhar outra!
— A felicidade é minha! — murmurou com um estremecimento. — Toda a noite passarei tirando moedas da bolsa e amanhã serei rico. Então jogarei a bolsa à água e desde então viverei confortavelmente.
Porém, chegada a manhã, mudou de ideia.
— Se eu quiser ter o dobro — pensou — é bastante conservar a bolsa mais um dia.
E também passou o resto do dia extraindo moedas. No seguinte mais, mais e mais, no outro, mais e mais... Não podia se decidir a abandonar a bolsa.
Nessa altura sentiu fome e recordou que só dispunha de um duro pedaço de pão preto.
Ir comprar outra coisa era impossível, pois embora muito quisesse comer não ousava se separar da bolsa; assim, comeu o infeliz aquele pão preto e duro; e depois continuou tirando moedas da bolsa inesgotável.
Nem mesmo à noite descansava.
Passou, assim, um mês, um ano.
Quem se teria contentado com certa quantidade? Todo o mundo quer possuir mais e mais, o máximo que for possível!
E o infeliz vive uma vida de mendigo, esquecido de que desejara viver para seu prazer e o de seus semelhantes.
De vez em quando toma uma resolução; aproxima-se do rio para lançar a bolsa à água; porém se arrepende e volta. Hoje está velho, fraco e amarelo como seu ouro mas não pode interromper sua tarefa...
E assim morre, pobre, sentado sobre um banco e com a bolsa entre as mãos.
Leon Tolstói
terça-feira, fevereiro 3
Passagem da noite
É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
E noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
Carlos Drummond de Andrade
Baal
Estou, pois, em Paris... Não penseis, porém, que vos contarei muito de Paris enquanto cidade. Acho que já lestes tanto sobre Paris em russo que estais fartos. Além disso, já lá fostes e, com certeza, vistes tudo melhor do que eu. Além de que eu, no estrangeiro, detestava guiar-me pelo guia, ver as coisas por encomenda, por obrigação do viajante, por isso, nalguns sítios, deixei passar curiosidades tão importantes que até tenho vergonha de o dizer. Em Paris passou-se o mesmo. Por isso não vou especificar as minhas falhas, mas antes dar uma definição geral de Paris, um epíteto, e insisto neste termo de epíteto. Ei-lo: Paris é a mais moral e virtuosa cidade de todo o globo terrestre. Que ordem! Que sensatez, que relações definidas e firmes ali se estabeleceram! Como tudo está bem garantido e regularizado! Como toda a gente anda contente, como todos tentam convencer-se de que estão contentes e felizes! Por fim, até que ponto toda a gente se tem esforçado que chega mesmo a ter certeza de estar feliz e contente, e que... e que... chegou ao ponto final! Mais adiante já não é possível, não há sequer caminho. Não ides acreditar que eles tenham parado, gritareis que eu exagero, que tudo isto é uma biliosa calúnia patriótica, que, francamente, nem tudo poderia passar assim por completo. Mas, meus amigos: logo no primeiro capítulo avisei-vos de que talvez viesse a dizer-vos mentiras terríveis. Deixai-me, então, à vontade. Também já sabeis por certo que, ao mentir, o faço com a convicção de que estou a dizer a verdade. A meu ver, isso é quanto basta. Portanto, deixai-me falar à vontade.
Sim, Paris é uma cidade surpreendente. E que conforto, que comodidades de todo o gênero para quem tem direito às comodidades, e, repito, que ordem em tudo, a ponto de se poder dizer que a cidade é toda uma calmaria de ordem. Volto sempre a esta ordem. A sério, mais um pouco e Paris, com o seu milhão e meio de habitantes, transforma-se numa universitária cidadezinha alemã, petrificada na calmaria e na ordem, do gênero de uma qualquer Heidelberga. Tem toda a tendência para isso. Quem disse que não pode existir uma Heildelberga em formato gigantesco? Que regulamentação em tudo! Compreendei-me bem: não é tanto uma regulamentação exterior, que nesse aspeto é insignificante (de uma insignificância relativa, é claro), mas uma regulamentação interior, espiritual, que provém da alma. Paris estreita-se, de boa vontade se humilha, encolhe-se enternecidamente. Neste sentido não tem comparação, por exemplo, com Londres! Estive em Londres apenas oito dias, e, pelo menos na sua aparência, oferece-nos cenários amplos, perspetivas vivas, peculiares e sem regulamentação; assim se gravou Londres na minha memória! Nesta cidade é tudo gigantesco e nítido na sua originalidade. É possível até iludirmo-nos no meio desta originalidade. Cada traço forte, cada contradição, convive com a sua antítese, caminhando a par, mas contradizendo-se sem se excluírem mutuamente. Ao que parece, toda esta diversidade insiste em existir e vive a sua vida própria; e, pelos vistos, as facetas contrastantes não criam obstáculos umas às outras. No entanto, também aqui decorre a mesma luta persistente, surda e já inveterada, a luta de morte do princípio pessoal, comum a todo o Ocidente, com a necessidade de conviver, de formar comunidade, seja de que maneira for, de se acomodar no formigueiro comum; nem que seja assim: transformando-se em formigueiro, mas acomodar-se de modo a que os indivíduos não se devorem uns aos outros — para não se chegar à antropofagia! Neste sentido, observa-se a mesma coisa que em Paris: a mesma vontade desesperada de, por desespero, a pessoa se agarrar ao statu quo, de arrancar do seu ser, pela raiz, todos os desejos e esperanças, de amaldiçoar o futuro, em que tem pouca fé (talvez mesmo os próprios guias do progresso), e venerar Baal. Por favor, sobretudo não vos deixeis porém arrebatar pelo estilo elevado: tudo isto apenas se consciencializa na alma dos intelectos de vanguarda, mas nota-se, por instinto, inconscientemente, na atividade quotidiana de toda a massa. Mas o bourgeois de Paris, por exemplo, está quase satisfeito, conscientemente, e tem a certeza de que tudo está a correr como deve, e é mesmo capaz de nos dar uma sova se duvidarmos de que as coisas têm de ser assim, e bate-nos, porque, até hoje, ele receia qualquer coisa, apesar de estar convencido de que tudo está bem. Em Londres é igual, mas, em contrapartida, que cenários amplos, esmagadores! O próprio aspeto exterior é diferente do de Paris. Esta cidade em azáfama dia e noite, inabarcável como o mar, os uivos e os guinchos das máquinas, as vias-férreas por cima dos prédios (e em breve também por debaixo dos prédios(1)), toda aquela ousadia de empreendimento, toda aquela aparente desordem que, na sua essência, é a ordem burguesa no seu grau superior, aquele Tamisa poluído, aquele ar impregnado de pó de carvão; aqueles magníficos bulevares e parques, aqueles cantos terríveis da cidade, como Whitechapel, com a sua população seminua, selvagem e faminta. A City com os seus milhões e o comércio internacional, o palácio de cristal, a exposição universal... Sim, a exposição é impressionante. Sentimos ali o poder formidável que juntou todo aquele sem-fim de pessoas, vindas de todo o mundo para se unirem num único rebanho; temos a consciência de uma gigantesca ideia; sentimos que ali já tinha sido alcançada alguma coisa, que ali havia vitória, triunfo. É como se começássemos até a ter medo de qualquer coisa. Por mais independentes que sejamos, por vezes sentimos um medo súbito e incompreensível. Não será isto, realmente, o ideal alcançado? — pensamos. — Não será o fim procurado? Não será isto, de facto, um “rebanho único”(2)? Não deveremos tomá-lo pela verdade absoluta e imobilizarmo-nos definitivamente? Tudo isto é tão solene, triunfante e orgulhoso que nos corta a respiração. Olhamos para estas centenas de milhares, para estes milhões de pessoas que, obedientemente, afluem aqui de todo o globo terrestre — pessoas que vieram com uma única ideia e que, silenciosas e persistentes, se apertam neste palácio gigantesco, e sentimos que aqui aconteceu qualquer coisa de definitivo, que qualquer coisa aconteceu e terminou. É uma espécie de quadro bíblico, uma Babilónia, uma profecia do Apocalipse desenrolando-se aos nossos olhos. Sentimos que é necessária muita resistência e negação espiritual para não cedermos, para não nos curvarmos perante o facto, para não obedecermos a esta sensação e não divinizarmos Baal, ou seja, não tomarmos o que existe e vemos por nosso ideal...
Mas é absurdo, direis, de uma absurdez doentia, são nervos, é exagero. Ninguém vai chegar a este ponto, ninguém vai tomar isto por seu ideal. Além disso, a fome e a escravidão não perdoam e vão, mais e melhor do que tudo, trazer a negação e conceber o ceticismo. Ora, os cevados diletantes que passeiam aqui por divertimento podem, evidentemente, criar à vontade cenas apocalíticas e irritar os próprios nervos, exagerando e espremendo bem de cada fenômeno, em prol de alguma autossatisfação, sensações fortes...
— Sim — respondo —, admitamos que fui influenciado pela decoração, não o contesto. Mas se vísseis como era orgulhoso o espírito potente que criou esta gigantesca decoração e com que soberba este espírito estava convicto da sua vitória, do seu triunfo, também tremeríeis de medo por aqueles sobre quem paira e reina este espírito orgulhoso, com a sua soberba, teimosia e cegueira. Sob o poder desta grandeza enorme, deste orgulho gigantesco do espírito reinante, da perfeição solene das suas criações, também a alma faminta se resigna, se submete, e procura a salvação na genebra e na depravação, e começa a acreditar que as coisas têm de ser mesmo assim. O fato oprime, as massas ficam empedernidas e assimilam o “chinesismo”(3), ou então, se o ceticismo as toca, procuram com soturnidade e maldições a salvação em algo do gênero do mormonismo. Ora, em Londres, podemos ver massas populares em números e ambientes como não se veem em mais lado algum do planeta. Disseram-me, por exemplo, que nas noites de sábado se derrama e espalha por toda a cidade, como um mar, meio milhão de operários e de operárias fabris, concentrando-se nalguns bairros, e durante toda a noite, até às cinco da manhã, desvairam-se num sabat, ou seja, empanturram-se e embebedam-se como porcos para toda a semana. Gastam nisso todas as poupanças da semana, tudo o que, entre maldições, ganharam com o seu trabalho duro. Os feixes grossos de candeeiros a gás dos talhos e das mercearias iluminam as ruas. Organiza-se uma espécie de baile para esses escravos brancos. O povo aperta-se nas tabernas abertas e nas ruas. As cervejarias estão enfeitadas como palácios. Está tudo bêbado mas sem alegria, é tudo soturno, sombrio e estranhamente tácito. O silêncio suspeito e triste somente é interrompido de vez em quando pelas pragas e pelas rixas sangrentas. Toda a gente tem pressa de se embebedar até à perda dos sentidos... As mulheres não ficam atrás dos homens e embebedam-se com eles; as crianças correm e gatinham no meio dos adultos. Numa dessas noites, já passava da uma da manhã, perdi-me e vi-me a vaguear demoradamente pelas ruas no meio da infindável multidão deste povo soturno, perguntando pelo caminho quase só por gestos, porque não conheço uma palavra de inglês. Consegui que me indicassem o caminho, mas a impressão do que vi iria atormentar-me ainda por três dias. Povo é povo, por todo o lado, mas aqui era tudo tão gigantesco, tão gritante, que se me tornou palpável o que antes eu apenas imaginava. Não é tanto o povo que vemos aqui, mas mais a perda sistemática, obediente e estimulada da consciência. E sentimos, olhando para esses párias da sociedade, que, durante muito tempo ainda, não se cumprirá para eles a profecia, não lhes serão estendidos os ramos de palmeira e as vestes brancas, e que, durante muito tempo ainda, eles vão clamar em direção do trono do Todo-Poderoso: “Até quando, Senhor?” E eles próprios o sabem e, entretanto, vão-se vingando da sociedade com os seus mórmones, tremedores(4), peregrinos... Espantamo-nos com a estupidez das gentes por se tornarem “tremedoras” ou peregrinas, mas não percebemos que há nisso o afastamento da nossa fórmula social, um afastamento persistente e inconsciente; um afastamento instintivo, custe o que custar, em prol da salvação; o afastamento de nós todos, com repugnância e pavor. Esses milhões de indivíduos, abandonados e expulsos do banquete humano, apertando-se e atropelando-se nas trevas do subterrâneo para onde foram lançados pelos irmãos mais velhos, batem às portas, às apalpadelas (sejam quais forem as portas), e procuram a saída para não sufocarem na cave escura. Há aqui uma última, uma desesperada tentativa de se unirem no seu grupo, na sua própria massa, e de se separarem de tudo, nem que seja da imagem humana, apenas para viverem à sua maneira, para não estarem conosco...
Vi em Londres mais uma multidão semelhante a esta, uma multidão que não poderemos ver em lado nenhum senão em Londres. O cenário também era sui generis. Quem já esteve em Londres foi, pelo menos uma vez, a High Market. É um quarteirão onde de noite, nalgumas ruas, se concentram milhares de prostitutas. As ruas são iluminadas por feixes de lampiões de gás, coisa de que entre nós não se faz a mínima ideia. Os magníficos cafés pululam, ornamentados de espelhos e ouro. É aqui que elas se juntam, e é aqui que elas também encontram abrigo. É medonho entrarmos no meio daquela multidão de estranhíssima composição. Há velhas e há jovens beldades em frente das quais paramos, pasmados. Não há em todo o mundo mulheres tão belas como as inglesas. São tantas que quase não cabem nas ruas, o aperto é grande. A multidão não cabe nos passeios e invade a calçada. Alguém anseia constantemente por caçar alguém, alguém que se atira ao primeiro passante que aparece com um cinismo desavergonhado. As roupas, aqui, vão dos brilhantes trajos caros aos farrapos; as diferenças de idades são bruscas: tudo junto. Nesta multidão monstruosa tanto se incorpora um vagabundo como um ricaço titular. Ouvem-se pragas, altercações, vozes que convidam e, baixinho, o sussurro de uma beldade ainda tímida. E, aqui e ali, que belezas! Rostos como os dos keepsake(5). Lembro-me de que uma vez entrei num “Casino” ribombante de música. Dançava-se, a multidão era enorme. A decoração era magnífica. Porém, mesmo no meio da festa, a soturnidade nunca abandona os ingleses: dançam muito sérios, até sombrios, executando os passos como que por obrigação. Em cima, na galeria, vi uma rapariga e parei, espantado: nunca vira nada de semelhante àquela beleza ideal. Estava sentada a uma mesinha na companhia de um jovem que parecia um gentleman rico e, por todos os indícios, nada habitué dos casinos. Talvez o jovem apenas a quisesse ver e o encontro tivesse sido combinado para ali. Ele falava pouco, sempre em frases sacudidas, como se não dissesse o que lhe apetecia dizer. Silêncios longos interrompiam a conversa. Ela também estava muito triste. Os seus traços de rosto eram ternos, finos, havia qualquer coisa de oculto e triste no seu olhar belo e um pouco orgulhoso, alguma coisa de pensador e angustiado. Dava ares de tísica. Pelo seu porte era com certeza de um desenvolvimento superior ao de todas as desgraçadas mulheres que ali estavam: senão, que significado tem o rosto humano? Entretanto, bebia a genebra que o jovem lhe pagara. Por fim, ele levantou-se, apertou-lhe a mão, despediram-se. O jovem saiu do casino, e ela, com manchas espessas de vermelho que se lhe acenderam nas faces por causa do álcool que bebeu, entrou na multidão de mulheres à procura de cliente e desapareceu entre ela. Em High Market vi mães que traziam para o negócio as suas filhas menores. Garotas de doze anos apanham-nos pela mão e insistem que vamos com elas. Lembro-me de ter visto na multidão da rua uma menina de seis anos, não mais, esfarrapada, suja, descalça, exausta e espancada; viam-se-lhe as nódoas negras no corpinho através dos farrapos que lhe serviam de roupa. Andava ali como que inconsciente, sem pressa, vagueando entre a multidão sabia-se lá para quê; talvez tivesse fome. Mas o que mais me pasmou foi o ar dela: a amargura e o desespero na carinha daquela pequena criatura eram tamanhos, a maldição que carregava em si era tanta e tão antinatural que era muito doloroso olhar para ela. Ia meneando a cabeça desgrenhada, como se raciocinasse consigo mesma, abria os braços, gesticulava, depois juntava as mãos e apertava-as contra o corpinho nu. Voltei atrás e dei-lhe meio xelim. Pegou na moedinha de prata, olhou-me nos olhos como uma demente, com um espanto assustado, e logo fugiu de mim, como se tivesse medo de que eu lhe tirasse o dinheiro. Em geral, matéria brejeira...
Então, uma noite, na multidão dessas mulheres perdidas e de homens depravados, uma senhora furou apressadamente de entre a multidão e fez-me parar. Estava toda de preto, com um chapéu que lhe cobria quase toda a cara; não consegui vê-la bem, lembro-me apenas do seu olhar perscrutador. Disse qualquer coisa que não percebi, num francês macarrônico, meteu-me na mão um papelinho e seguiu rapidamente em frente. Perto da janela iluminada de um café, olhei para o papel: era um pequeno quadrado de papel; de um lado estava impresso: “Crois-tu cela?”(6). Do outro lado, também em francês: “Eu sou a ressurreição e a vida...”(7), etc., e várias outras linhas conhecidas. Tendes de concordar que é um episódio original. Mais tarde explicar-me-iam que aquilo era propaganda católica, que pulula por todo o lado, persistente, incansável. Eles ora distribuem estes papelinhos nas ruas, ora livrinhos com excertos do Novo e do Velho Testamento. Dão-nos aquilo tudo de graça, impingem-no-lo, metem-no-lo à força nas mãos.
Quando passa a noite e desponta o dia, o mesmo espírito orgulhoso e sombrio volta a voar majestosamente por sobre a cidade gigantesca. A cidade não se preocupa com o que se passou de noite nem vê o que à sua volta se passa de dia. Baal reina e nem sequer exige obediência, tão seguro está dela. A fé em si próprio é nele infinita; com desprezo e calma, só para se desfazer dos importunos, distribui uma esmola organizada, e depois disso é impossível abalar a sua presunção. Baal não desvia (ao contrário do que se passa em Paris), não desvia os olhos de certos fenômenos selvagens, suspeitos e preocupantes da vida. A pobreza, o sofrimento, o protesto e o embrutecimento das massas não o preocupam minimamente. Com desdém, deixa que todos esses fenômenos suspeitos e sinistros medrem ao lado da sua vida, perto, à vista. Não tenta, como um parisiense, convencer-se e animar-se a si mesmo, cobarde e forçadamente, e dizer a si próprio que está tudo bem e calmo. Não esconde os pobres em qualquer lado, como se faz em Paris, para que não o incomodem e não lhe perturbem o sono sem necessidade. O parisiense, como o avestruz, gosta de enfiar a cabeça na areia para não ver os caçadores que se aproximam. Em Paris... Mas, credo, o que estou eu a fazer? Não estou em Paris... Mas quando, meus senhores, quando é que eu, finalmente, aprendo a ser disciplinado?…
Fiódor Dostoiévski, "A Submissa e Outras Histórias"
(1) O primeiro caminho de ferro subterrâneo (metropolitano) foi construído em Londres de 1860 a 1863.
(2) “[...] e haverá um só rebanho e um só Pastor”, S. João 10,16.
(3) Nos meados do século XIX, o termo “chinesismo” utilizava-se para a definição da estagnação política, quando os estratos mais baixos da população obedeciam servilmente ao despotismo dos detentores do poder.
(4) Os tremedores (triassuni) são uma seita religiosa que pratica nos seus rituais os métodos extáticos de oração: “tremem” e “profetizam” com palavras incompreensíveis (apareceram na Rússia na segunda metade do século XIX). (
(5) Keepsake (ing.), álbum de gravuras com bustozinhos femininos representando belezas ideais.
(6) “Acreditas nisso?” (fr.).
(7) Evangelho segundo S. João 11, 25.
Sim, Paris é uma cidade surpreendente. E que conforto, que comodidades de todo o gênero para quem tem direito às comodidades, e, repito, que ordem em tudo, a ponto de se poder dizer que a cidade é toda uma calmaria de ordem. Volto sempre a esta ordem. A sério, mais um pouco e Paris, com o seu milhão e meio de habitantes, transforma-se numa universitária cidadezinha alemã, petrificada na calmaria e na ordem, do gênero de uma qualquer Heidelberga. Tem toda a tendência para isso. Quem disse que não pode existir uma Heildelberga em formato gigantesco? Que regulamentação em tudo! Compreendei-me bem: não é tanto uma regulamentação exterior, que nesse aspeto é insignificante (de uma insignificância relativa, é claro), mas uma regulamentação interior, espiritual, que provém da alma. Paris estreita-se, de boa vontade se humilha, encolhe-se enternecidamente. Neste sentido não tem comparação, por exemplo, com Londres! Estive em Londres apenas oito dias, e, pelo menos na sua aparência, oferece-nos cenários amplos, perspetivas vivas, peculiares e sem regulamentação; assim se gravou Londres na minha memória! Nesta cidade é tudo gigantesco e nítido na sua originalidade. É possível até iludirmo-nos no meio desta originalidade. Cada traço forte, cada contradição, convive com a sua antítese, caminhando a par, mas contradizendo-se sem se excluírem mutuamente. Ao que parece, toda esta diversidade insiste em existir e vive a sua vida própria; e, pelos vistos, as facetas contrastantes não criam obstáculos umas às outras. No entanto, também aqui decorre a mesma luta persistente, surda e já inveterada, a luta de morte do princípio pessoal, comum a todo o Ocidente, com a necessidade de conviver, de formar comunidade, seja de que maneira for, de se acomodar no formigueiro comum; nem que seja assim: transformando-se em formigueiro, mas acomodar-se de modo a que os indivíduos não se devorem uns aos outros — para não se chegar à antropofagia! Neste sentido, observa-se a mesma coisa que em Paris: a mesma vontade desesperada de, por desespero, a pessoa se agarrar ao statu quo, de arrancar do seu ser, pela raiz, todos os desejos e esperanças, de amaldiçoar o futuro, em que tem pouca fé (talvez mesmo os próprios guias do progresso), e venerar Baal. Por favor, sobretudo não vos deixeis porém arrebatar pelo estilo elevado: tudo isto apenas se consciencializa na alma dos intelectos de vanguarda, mas nota-se, por instinto, inconscientemente, na atividade quotidiana de toda a massa. Mas o bourgeois de Paris, por exemplo, está quase satisfeito, conscientemente, e tem a certeza de que tudo está a correr como deve, e é mesmo capaz de nos dar uma sova se duvidarmos de que as coisas têm de ser assim, e bate-nos, porque, até hoje, ele receia qualquer coisa, apesar de estar convencido de que tudo está bem. Em Londres é igual, mas, em contrapartida, que cenários amplos, esmagadores! O próprio aspeto exterior é diferente do de Paris. Esta cidade em azáfama dia e noite, inabarcável como o mar, os uivos e os guinchos das máquinas, as vias-férreas por cima dos prédios (e em breve também por debaixo dos prédios(1)), toda aquela ousadia de empreendimento, toda aquela aparente desordem que, na sua essência, é a ordem burguesa no seu grau superior, aquele Tamisa poluído, aquele ar impregnado de pó de carvão; aqueles magníficos bulevares e parques, aqueles cantos terríveis da cidade, como Whitechapel, com a sua população seminua, selvagem e faminta. A City com os seus milhões e o comércio internacional, o palácio de cristal, a exposição universal... Sim, a exposição é impressionante. Sentimos ali o poder formidável que juntou todo aquele sem-fim de pessoas, vindas de todo o mundo para se unirem num único rebanho; temos a consciência de uma gigantesca ideia; sentimos que ali já tinha sido alcançada alguma coisa, que ali havia vitória, triunfo. É como se começássemos até a ter medo de qualquer coisa. Por mais independentes que sejamos, por vezes sentimos um medo súbito e incompreensível. Não será isto, realmente, o ideal alcançado? — pensamos. — Não será o fim procurado? Não será isto, de facto, um “rebanho único”(2)? Não deveremos tomá-lo pela verdade absoluta e imobilizarmo-nos definitivamente? Tudo isto é tão solene, triunfante e orgulhoso que nos corta a respiração. Olhamos para estas centenas de milhares, para estes milhões de pessoas que, obedientemente, afluem aqui de todo o globo terrestre — pessoas que vieram com uma única ideia e que, silenciosas e persistentes, se apertam neste palácio gigantesco, e sentimos que aqui aconteceu qualquer coisa de definitivo, que qualquer coisa aconteceu e terminou. É uma espécie de quadro bíblico, uma Babilónia, uma profecia do Apocalipse desenrolando-se aos nossos olhos. Sentimos que é necessária muita resistência e negação espiritual para não cedermos, para não nos curvarmos perante o facto, para não obedecermos a esta sensação e não divinizarmos Baal, ou seja, não tomarmos o que existe e vemos por nosso ideal...
Mas é absurdo, direis, de uma absurdez doentia, são nervos, é exagero. Ninguém vai chegar a este ponto, ninguém vai tomar isto por seu ideal. Além disso, a fome e a escravidão não perdoam e vão, mais e melhor do que tudo, trazer a negação e conceber o ceticismo. Ora, os cevados diletantes que passeiam aqui por divertimento podem, evidentemente, criar à vontade cenas apocalíticas e irritar os próprios nervos, exagerando e espremendo bem de cada fenômeno, em prol de alguma autossatisfação, sensações fortes...
— Sim — respondo —, admitamos que fui influenciado pela decoração, não o contesto. Mas se vísseis como era orgulhoso o espírito potente que criou esta gigantesca decoração e com que soberba este espírito estava convicto da sua vitória, do seu triunfo, também tremeríeis de medo por aqueles sobre quem paira e reina este espírito orgulhoso, com a sua soberba, teimosia e cegueira. Sob o poder desta grandeza enorme, deste orgulho gigantesco do espírito reinante, da perfeição solene das suas criações, também a alma faminta se resigna, se submete, e procura a salvação na genebra e na depravação, e começa a acreditar que as coisas têm de ser mesmo assim. O fato oprime, as massas ficam empedernidas e assimilam o “chinesismo”(3), ou então, se o ceticismo as toca, procuram com soturnidade e maldições a salvação em algo do gênero do mormonismo. Ora, em Londres, podemos ver massas populares em números e ambientes como não se veem em mais lado algum do planeta. Disseram-me, por exemplo, que nas noites de sábado se derrama e espalha por toda a cidade, como um mar, meio milhão de operários e de operárias fabris, concentrando-se nalguns bairros, e durante toda a noite, até às cinco da manhã, desvairam-se num sabat, ou seja, empanturram-se e embebedam-se como porcos para toda a semana. Gastam nisso todas as poupanças da semana, tudo o que, entre maldições, ganharam com o seu trabalho duro. Os feixes grossos de candeeiros a gás dos talhos e das mercearias iluminam as ruas. Organiza-se uma espécie de baile para esses escravos brancos. O povo aperta-se nas tabernas abertas e nas ruas. As cervejarias estão enfeitadas como palácios. Está tudo bêbado mas sem alegria, é tudo soturno, sombrio e estranhamente tácito. O silêncio suspeito e triste somente é interrompido de vez em quando pelas pragas e pelas rixas sangrentas. Toda a gente tem pressa de se embebedar até à perda dos sentidos... As mulheres não ficam atrás dos homens e embebedam-se com eles; as crianças correm e gatinham no meio dos adultos. Numa dessas noites, já passava da uma da manhã, perdi-me e vi-me a vaguear demoradamente pelas ruas no meio da infindável multidão deste povo soturno, perguntando pelo caminho quase só por gestos, porque não conheço uma palavra de inglês. Consegui que me indicassem o caminho, mas a impressão do que vi iria atormentar-me ainda por três dias. Povo é povo, por todo o lado, mas aqui era tudo tão gigantesco, tão gritante, que se me tornou palpável o que antes eu apenas imaginava. Não é tanto o povo que vemos aqui, mas mais a perda sistemática, obediente e estimulada da consciência. E sentimos, olhando para esses párias da sociedade, que, durante muito tempo ainda, não se cumprirá para eles a profecia, não lhes serão estendidos os ramos de palmeira e as vestes brancas, e que, durante muito tempo ainda, eles vão clamar em direção do trono do Todo-Poderoso: “Até quando, Senhor?” E eles próprios o sabem e, entretanto, vão-se vingando da sociedade com os seus mórmones, tremedores(4), peregrinos... Espantamo-nos com a estupidez das gentes por se tornarem “tremedoras” ou peregrinas, mas não percebemos que há nisso o afastamento da nossa fórmula social, um afastamento persistente e inconsciente; um afastamento instintivo, custe o que custar, em prol da salvação; o afastamento de nós todos, com repugnância e pavor. Esses milhões de indivíduos, abandonados e expulsos do banquete humano, apertando-se e atropelando-se nas trevas do subterrâneo para onde foram lançados pelos irmãos mais velhos, batem às portas, às apalpadelas (sejam quais forem as portas), e procuram a saída para não sufocarem na cave escura. Há aqui uma última, uma desesperada tentativa de se unirem no seu grupo, na sua própria massa, e de se separarem de tudo, nem que seja da imagem humana, apenas para viverem à sua maneira, para não estarem conosco...
Vi em Londres mais uma multidão semelhante a esta, uma multidão que não poderemos ver em lado nenhum senão em Londres. O cenário também era sui generis. Quem já esteve em Londres foi, pelo menos uma vez, a High Market. É um quarteirão onde de noite, nalgumas ruas, se concentram milhares de prostitutas. As ruas são iluminadas por feixes de lampiões de gás, coisa de que entre nós não se faz a mínima ideia. Os magníficos cafés pululam, ornamentados de espelhos e ouro. É aqui que elas se juntam, e é aqui que elas também encontram abrigo. É medonho entrarmos no meio daquela multidão de estranhíssima composição. Há velhas e há jovens beldades em frente das quais paramos, pasmados. Não há em todo o mundo mulheres tão belas como as inglesas. São tantas que quase não cabem nas ruas, o aperto é grande. A multidão não cabe nos passeios e invade a calçada. Alguém anseia constantemente por caçar alguém, alguém que se atira ao primeiro passante que aparece com um cinismo desavergonhado. As roupas, aqui, vão dos brilhantes trajos caros aos farrapos; as diferenças de idades são bruscas: tudo junto. Nesta multidão monstruosa tanto se incorpora um vagabundo como um ricaço titular. Ouvem-se pragas, altercações, vozes que convidam e, baixinho, o sussurro de uma beldade ainda tímida. E, aqui e ali, que belezas! Rostos como os dos keepsake(5). Lembro-me de que uma vez entrei num “Casino” ribombante de música. Dançava-se, a multidão era enorme. A decoração era magnífica. Porém, mesmo no meio da festa, a soturnidade nunca abandona os ingleses: dançam muito sérios, até sombrios, executando os passos como que por obrigação. Em cima, na galeria, vi uma rapariga e parei, espantado: nunca vira nada de semelhante àquela beleza ideal. Estava sentada a uma mesinha na companhia de um jovem que parecia um gentleman rico e, por todos os indícios, nada habitué dos casinos. Talvez o jovem apenas a quisesse ver e o encontro tivesse sido combinado para ali. Ele falava pouco, sempre em frases sacudidas, como se não dissesse o que lhe apetecia dizer. Silêncios longos interrompiam a conversa. Ela também estava muito triste. Os seus traços de rosto eram ternos, finos, havia qualquer coisa de oculto e triste no seu olhar belo e um pouco orgulhoso, alguma coisa de pensador e angustiado. Dava ares de tísica. Pelo seu porte era com certeza de um desenvolvimento superior ao de todas as desgraçadas mulheres que ali estavam: senão, que significado tem o rosto humano? Entretanto, bebia a genebra que o jovem lhe pagara. Por fim, ele levantou-se, apertou-lhe a mão, despediram-se. O jovem saiu do casino, e ela, com manchas espessas de vermelho que se lhe acenderam nas faces por causa do álcool que bebeu, entrou na multidão de mulheres à procura de cliente e desapareceu entre ela. Em High Market vi mães que traziam para o negócio as suas filhas menores. Garotas de doze anos apanham-nos pela mão e insistem que vamos com elas. Lembro-me de ter visto na multidão da rua uma menina de seis anos, não mais, esfarrapada, suja, descalça, exausta e espancada; viam-se-lhe as nódoas negras no corpinho através dos farrapos que lhe serviam de roupa. Andava ali como que inconsciente, sem pressa, vagueando entre a multidão sabia-se lá para quê; talvez tivesse fome. Mas o que mais me pasmou foi o ar dela: a amargura e o desespero na carinha daquela pequena criatura eram tamanhos, a maldição que carregava em si era tanta e tão antinatural que era muito doloroso olhar para ela. Ia meneando a cabeça desgrenhada, como se raciocinasse consigo mesma, abria os braços, gesticulava, depois juntava as mãos e apertava-as contra o corpinho nu. Voltei atrás e dei-lhe meio xelim. Pegou na moedinha de prata, olhou-me nos olhos como uma demente, com um espanto assustado, e logo fugiu de mim, como se tivesse medo de que eu lhe tirasse o dinheiro. Em geral, matéria brejeira...
Então, uma noite, na multidão dessas mulheres perdidas e de homens depravados, uma senhora furou apressadamente de entre a multidão e fez-me parar. Estava toda de preto, com um chapéu que lhe cobria quase toda a cara; não consegui vê-la bem, lembro-me apenas do seu olhar perscrutador. Disse qualquer coisa que não percebi, num francês macarrônico, meteu-me na mão um papelinho e seguiu rapidamente em frente. Perto da janela iluminada de um café, olhei para o papel: era um pequeno quadrado de papel; de um lado estava impresso: “Crois-tu cela?”(6). Do outro lado, também em francês: “Eu sou a ressurreição e a vida...”(7), etc., e várias outras linhas conhecidas. Tendes de concordar que é um episódio original. Mais tarde explicar-me-iam que aquilo era propaganda católica, que pulula por todo o lado, persistente, incansável. Eles ora distribuem estes papelinhos nas ruas, ora livrinhos com excertos do Novo e do Velho Testamento. Dão-nos aquilo tudo de graça, impingem-no-lo, metem-no-lo à força nas mãos.
São muitos os propagandistas, homens e mulheres. A propaganda deles é sofisticada, bem calculada. Um padre católico descobre uma família operária pobre e mete-se lá dentro. Encontra um doente deitado, por exemplo, no meio dos seus andrajos, no chão úmido, rodeado de filhos asselvajados pela fome e pelo frio, a mulher faminta, muitas vezes bêbada. O padre dá de comer a todos, veste-os, aquece-os, trata do doente, compra os medicamentos, torna-se amigo da casa e, por fim, converte-os a todos ao catolicismo. Por vezes, aliás, também acontece que, recuperado o doente, o padre seja corrido à pancada e aos insultos. Mas o padre não desiste, vai a outros. Expulsam-no de lá também; aguentará tudo, mas por fim há de apanhar alguém. O pastor anglicano, esse, não visita os pobres. Os pobres não podem entrar na igreja, porque não têm dinheiro para pagar o lugar no banco. Os casamentos entre operários e entre os pobres em geral reduzem-se, muitas vezes, a uniões de facto, porque o casamento legítimo fica caro. A este propósito, direi que muitos maridos batem terrivelmente nas mulheres, mutilam-nas, e fazem-no normalmente com os atiçadores com que mexem as brasas nas lareiras. O atiçador, entre eles, é já um instrumento consagrado de espancamento. Pelo menos, nos jornais, quando se noticiam brigas nas famílias, mutilações e assassínios, o atiçador é sempre mencionado. Os filhos, mal crescem um pouco, vão para a rua e misturam-se com a multidão, acabando muitas vezes por não voltar para junto dos pais. Os sacerdotes e os bispos anglicanos são orgulhosos e ricos, como ricas são as suas paróquias, e engordam de consciência perfeitamente tranquila. São grandes pedantes, muito cultos, e acreditam a sério e com solenidade na sua dignidade moral, no seu direito de pregarem sermões de uma moral calma e convencida, e de engordarem e viverem para os ricos do país. É a religião dos ricos, e já sem máscara. Pelo menos tudo é racional e sem disfarces.
Estes professores de religião e moral, convencidos até à estupidez, têm uma espécie de divertimento: o missionarismo. Fazem as suas andanças por todo o globo terráqueo, entram no interior de África para converterem um selvagem e descuram o milhão de selvagens que há em Londres, porque estes não têm dinheiro para lhes pagar. Ora, os ingleses ricos e, em geral, todos os bezerros de oiro de lá, são extremamente religiosos, sombria, tenebrosa e originalmente religiosos. Os poetas ingleses, desde os primórdios dos tempos, gostam de cantar a beleza das residências dos sacerdotes de província, as suas casas sombreadas pelos carvalhos e pelos castanheiros centenários, as suas esposas virtuosas e as suas filhas dotadas da beleza ideal, loiras e de olhos azul-celestes.
Quando passa a noite e desponta o dia, o mesmo espírito orgulhoso e sombrio volta a voar majestosamente por sobre a cidade gigantesca. A cidade não se preocupa com o que se passou de noite nem vê o que à sua volta se passa de dia. Baal reina e nem sequer exige obediência, tão seguro está dela. A fé em si próprio é nele infinita; com desprezo e calma, só para se desfazer dos importunos, distribui uma esmola organizada, e depois disso é impossível abalar a sua presunção. Baal não desvia (ao contrário do que se passa em Paris), não desvia os olhos de certos fenômenos selvagens, suspeitos e preocupantes da vida. A pobreza, o sofrimento, o protesto e o embrutecimento das massas não o preocupam minimamente. Com desdém, deixa que todos esses fenômenos suspeitos e sinistros medrem ao lado da sua vida, perto, à vista. Não tenta, como um parisiense, convencer-se e animar-se a si mesmo, cobarde e forçadamente, e dizer a si próprio que está tudo bem e calmo. Não esconde os pobres em qualquer lado, como se faz em Paris, para que não o incomodem e não lhe perturbem o sono sem necessidade. O parisiense, como o avestruz, gosta de enfiar a cabeça na areia para não ver os caçadores que se aproximam. Em Paris... Mas, credo, o que estou eu a fazer? Não estou em Paris... Mas quando, meus senhores, quando é que eu, finalmente, aprendo a ser disciplinado?…
Fiódor Dostoiévski, "A Submissa e Outras Histórias"
(1) O primeiro caminho de ferro subterrâneo (metropolitano) foi construído em Londres de 1860 a 1863.
(2) “[...] e haverá um só rebanho e um só Pastor”, S. João 10,16.
(3) Nos meados do século XIX, o termo “chinesismo” utilizava-se para a definição da estagnação política, quando os estratos mais baixos da população obedeciam servilmente ao despotismo dos detentores do poder.
(4) Os tremedores (triassuni) são uma seita religiosa que pratica nos seus rituais os métodos extáticos de oração: “tremem” e “profetizam” com palavras incompreensíveis (apareceram na Rússia na segunda metade do século XIX). (
(5) Keepsake (ing.), álbum de gravuras com bustozinhos femininos representando belezas ideais.
(6) “Acreditas nisso?” (fr.).
(7) Evangelho segundo S. João 11, 25.
A inquietação do amor
Se ao menos o amor desse uma trégua e nos permitisse dormir uma hora ou duas. Se ele fosse paciente conosco e não nos sacudisse toda vez que começamos a fechar os olhos. Se ele nos desejasse boa noite. Se ele não nos flagelasse até nos sonhos. Se ele, se ele, se ele. Ele jamais fará isso. É da natureza do amor fazer-nos sofrer. Se ele nos desse paz, não seria amor, seria um entretenimento, um passatempo com dia e hora marcadas. Melhor assim, então. Não dormiremos, não descansaremos, porque ele amanhã vai querer nos ver assim, com estas olheiras, com este rosto pálido, essas marcas que ele permanentemente exige de nós. Ele nos cobrará isso e nós lhe prestaremos contas, como sempre prestamos. Estaremos mentindo se dissermos que fazemos isso de má vontade.
Quando passarmos a dormir bem, a não nos inquietar, a sorrir como os outros, estaremos prontos para renegar o amor. O amor há de ser sempre aflição, instabilidade, insegurança. O amor não dorme em redes, não coça a barriga pachorrentamente. O amor está sempre naufragando sem barcos de salvamento, pulando de décimos andares sem rede. O amor estará sempre se lastimando, tentando expressar-se em poesia. O amor estará sempre morrendo. O amor não é um piquenique. O amor há de sempre aspirar à eternidade, embora sabendo que a perenidade é mortal para ele como as traças dentro de um livro. O amor é fluido, frágil, perecível. É dessa efemeridade que se faz sua essência. O amor nunca será encontrado em álbuns de família. Nunca será apontado como vovô Pedro ou vó Lucinda. O amor é sempre o abençoado transgressor que não aparece em foto nenhuma, a não ser naquelas escondidas bem no fundo das gavetas, guardadas num envelope no qual se lê “selos” ou “receitas”.
O amor é um processo, não é uma meta. O amor não se perfaz, o amor é só um caminho. Não existe amor feito, perfeito. Fotos de pai, mãe e filhos são fotos de família, não são fotos de amor. O amor não é o passeio pelo campo num domingo. O amor é inquietação, tormento. O amor não é a bonança. O amor é a tempestade, a fúria das ondas, os gritos no convés.
O amor, como eu o vejo, não pode nunca dar certo, e é isso que mantém, eu penso, sua mística. Há quem tenha do amor a imagem de uma família acomodando as malas, os filhos e os cachorros no carro, para uma viagem de férias. Não consigo acreditar que tudo o que os poetas vêm dizendo há séculos se refira a isso. O amor é aflição, é ciúme, é insônia, é insânia, é tormento. O amor é Werther. Tudo que fuja a esse script é acomodação, é arranjo social, é conveniência, é qualquer coisa menos amor. O amor precisa doer, machucar, ser uma dúvida e uma conquista de cada manhã, de cada tarde, de cada noite. O amor há de incomodar, jamais aliviar. No dia em que ele não atormentar mais, já não será amor. Amor em álbum de fotos, tenham paciência, pode haver maior disparate?
***
Quando passarmos a dormir bem, a não nos inquietar, a sorrir como os outros, estaremos prontos para renegar o amor. O amor há de ser sempre aflição, instabilidade, insegurança. O amor não dorme em redes, não coça a barriga pachorrentamente. O amor está sempre naufragando sem barcos de salvamento, pulando de décimos andares sem rede. O amor estará sempre se lastimando, tentando expressar-se em poesia. O amor estará sempre morrendo. O amor não é um piquenique. O amor há de sempre aspirar à eternidade, embora sabendo que a perenidade é mortal para ele como as traças dentro de um livro. O amor é fluido, frágil, perecível. É dessa efemeridade que se faz sua essência. O amor nunca será encontrado em álbuns de família. Nunca será apontado como vovô Pedro ou vó Lucinda. O amor é sempre o abençoado transgressor que não aparece em foto nenhuma, a não ser naquelas escondidas bem no fundo das gavetas, guardadas num envelope no qual se lê “selos” ou “receitas”.
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O amor é um processo, não é uma meta. O amor não se perfaz, o amor é só um caminho. Não existe amor feito, perfeito. Fotos de pai, mãe e filhos são fotos de família, não são fotos de amor. O amor não é o passeio pelo campo num domingo. O amor é inquietação, tormento. O amor não é a bonança. O amor é a tempestade, a fúria das ondas, os gritos no convés.
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O amor, como eu o vejo, não pode nunca dar certo, e é isso que mantém, eu penso, sua mística. Há quem tenha do amor a imagem de uma família acomodando as malas, os filhos e os cachorros no carro, para uma viagem de férias. Não consigo acreditar que tudo o que os poetas vêm dizendo há séculos se refira a isso. O amor é aflição, é ciúme, é insônia, é insânia, é tormento. O amor é Werther. Tudo que fuja a esse script é acomodação, é arranjo social, é conveniência, é qualquer coisa menos amor. O amor precisa doer, machucar, ser uma dúvida e uma conquista de cada manhã, de cada tarde, de cada noite. O amor há de incomodar, jamais aliviar. No dia em que ele não atormentar mais, já não será amor. Amor em álbum de fotos, tenham paciência, pode haver maior disparate?
Onde cantam as cigarras do verão 2026
Antes da música da Marina, sabia-se que vinha chegando o verão não porque as moças estavam todas de bundinha de fora, como anuncia a letra de Renato Rocketh, mas porque das árvores ao redor de cada bairro do Rio vinha o canto veemente da natureza tropical. “Zinem as cigarras”, registrou o poeta Manoel Bandeira nos versos de “Elegia de verão”, em 1952.
Hoje, dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar, das árvores vem apenas o silêncio ensurdecedor de que alguma coisa acontece no coração da mata, e desta vez não tem poesia. O verão já embica para a metade, graças a Deus as moças já estão nas praias exatamente como a música previra – mas e as cigarras? Você ouviu alguma zinindo neste verão 2026?
Numa playlist de sons benignos da natureza carioca, eu botaria o das maritacas cruzando o Jardim Botânico, o do vento no pilotis do Capanema, o “festa na favela” cantado pela torcida do Flamengo, o bater solitário do surdo de primeira da Mangueira, o “deixa solto, doutor” do flanelinha, o “aaaaaaabacaxi” do vendedor de praia e o zino das cigarras. Por mais desaparecido que esteja, ainda ecoa nos tímpanos, trazido da infância.
Não me interessam aqui as cigarras das fábulas morais de Esopo ou La Fontaine, símbolos da frivolidade, da imprevidência, sempre cantando enquanto a formiga labuta esforçada pela sobrevivência de seu condado subterrâneo. Falo das que conheci e de que sinto falta.
O Rio tem, ou ainda deve ter, escondidos no meio de alguma mata que circunda a aldeia, quatro tipos delas, entre os dois mil catalogados pelos zoólogos. Formam a fauna carioca a que todos pertencemos, junto com os biguás de São Conrado, as cotias do Campo de Santana, as capivaras da Lagoa e os cisnes do Itamaraty.
Com as cigarras desaparecem as praças repletas da casquinha-esqueleto que elas deixavam para trás depois de alçar voo em busca de acasalamento. Gosto da história de que elas morrem depois de estourar os timbais de tanto cantar. Seria a mais bonita das causas mortis – mas, que pena, é lenda urbana, zoologicamente fake.
“Quem será esta cigarra que me acorda todos os dias neste verão do diabo – quero dizer, de todos os diabos, que eu nunca vi outro que me matasse tanto?”, escreveu Machado de Assis numa crônica de janeiro de 1894 na Gazeta de Notícias.
O “bruxo” certamente se referia àquelas agarradas às árvores da hoje Praça São Judas Tadeu, vizinha à casa onde morava, no Cosme Velho – e, desculpem, leitores, se esse parágrafo soar um tanto melancólico como o canto de nossas musas. Já não se acorda mais com aquela melodia, o calor do planeta superaquecido não mata apenas metaforicamente e, como se pode avaliar por essas maltraçadas que ora chegam ao fim, faltam aos jornais da cidade cronistas com o fino zino do mestre Machado.
Joaquim Ferreira dos Santos
Hoje, dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar, das árvores vem apenas o silêncio ensurdecedor de que alguma coisa acontece no coração da mata, e desta vez não tem poesia. O verão já embica para a metade, graças a Deus as moças já estão nas praias exatamente como a música previra – mas e as cigarras? Você ouviu alguma zinindo neste verão 2026?
O canto das cigarras, num tempo em que o serviço de meteorologia não tinha tantos computadores, era um indicador urbano confiável de que “amanhã vai dar praia”. O zinir delas no fim da tarde cortava o espaço, fundia-se à “Ave Maria” do Júlio Louzada, às 18 horas na Rádio Tupi, e enchia os corações de uma melancolia preguiçosa, bonita que só vendo.
Numa playlist de sons benignos da natureza carioca, eu botaria o das maritacas cruzando o Jardim Botânico, o do vento no pilotis do Capanema, o “festa na favela” cantado pela torcida do Flamengo, o bater solitário do surdo de primeira da Mangueira, o “deixa solto, doutor” do flanelinha, o “aaaaaaabacaxi” do vendedor de praia e o zino das cigarras. Por mais desaparecido que esteja, ainda ecoa nos tímpanos, trazido da infância.
Não me interessam aqui as cigarras das fábulas morais de Esopo ou La Fontaine, símbolos da frivolidade, da imprevidência, sempre cantando enquanto a formiga labuta esforçada pela sobrevivência de seu condado subterrâneo. Falo das que conheci e de que sinto falta.
O Rio tem, ou ainda deve ter, escondidos no meio de alguma mata que circunda a aldeia, quatro tipos delas, entre os dois mil catalogados pelos zoólogos. Formam a fauna carioca a que todos pertencemos, junto com os biguás de São Conrado, as cotias do Campo de Santana, as capivaras da Lagoa e os cisnes do Itamaraty.
Com as cigarras desaparecem as praças repletas da casquinha-esqueleto que elas deixavam para trás depois de alçar voo em busca de acasalamento. Gosto da história de que elas morrem depois de estourar os timbais de tanto cantar. Seria a mais bonita das causas mortis – mas, que pena, é lenda urbana, zoologicamente fake.
“Quem será esta cigarra que me acorda todos os dias neste verão do diabo – quero dizer, de todos os diabos, que eu nunca vi outro que me matasse tanto?”, escreveu Machado de Assis numa crônica de janeiro de 1894 na Gazeta de Notícias.
O “bruxo” certamente se referia àquelas agarradas às árvores da hoje Praça São Judas Tadeu, vizinha à casa onde morava, no Cosme Velho – e, desculpem, leitores, se esse parágrafo soar um tanto melancólico como o canto de nossas musas. Já não se acorda mais com aquela melodia, o calor do planeta superaquecido não mata apenas metaforicamente e, como se pode avaliar por essas maltraçadas que ora chegam ao fim, faltam aos jornais da cidade cronistas com o fino zino do mestre Machado.
Joaquim Ferreira dos Santos
domingo, fevereiro 1
Mundo imaginário
Sob o olhar desta tarde,
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.
A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.
A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?
Emílio Moura
Nada há mais saudável do que estarmos vivos.
Lisboa, 21 de janeiro de 2017 (sábado) – Dívidas de gratidão para com o meu corpo. À parte uma asma alérgica trazida de África, entretanto debelada, uma apendicite operada de urgência em Espanha, já sob ameaça de peritonite, a artrite reumatoide do pulso, o meu foi sempre um corpo amável, cordato, satisfatoriamente competente em dar-me o que podia e em receber o que lhe era devido. Em 2014 veio-lhe um sobressalto, um desvio de rumo, talvez uma distorção. Sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo. Aprenderei a escutar os seus silêncios e o menor suspiro que dele me venha, sabendo que daqui em diante paira sobre nós os dois uma sombra, uma ameaça. Nele, corpo, mora a minha vida. Nada há mais saudável do que estarmos vivos.
João de Melo, "Novas Fases da Lua"
João de Melo, "Novas Fases da Lua"
A bravata
Z. M. sentia que a vida lhe fugia por entre os dedos. Na sua humildade esquecia que ela mesma era fonte de vida e de criação. Então saía pouco, não aceitava convites. Não era mulher de perceber quando um homem estava interessado nela a menos que ele o dissesse – então se surpreendia e aceitava.
De tarde – era primavera, primeiro dia de primavera – foi visitar uma amiga que a pôs em brios. Como então ela, uma mulher feita, era tão humilde? como é que não percebia que vários homens a queriam? como não percebia que devia, dentro de sua própria dignidade, ter um caso de amor? Disse ainda que a vira entrar numa sala onde todos eram conhecidos. E por acaso nenhum dos presentes chegava a seus pés. E no entanto entrou tímida como ausente, como uma corça de cabeça baixa. “Você precisa andar de cabeça levantada, você tem que sofrer porque você é diferente, cosmicamente diferente, então aceite que você não pode ter a vida burguesa, e entre numa sala com a cabeça levantada.” “Mas entrar sozinha numa sala cheia de gente?” “Exatamente. Você não precisa de companhia para ir, você mesma é bastante.”
Lembrou-se que no fim da tarde havia uma espécie de coquetel para os professores primários, em férias. Lembrou-se da atitude nova que desejava, não combinou a ida com nenhum professor ou professora – arriscar-se-ia toda só. Vestiu um vestido mais ou menos novo, mas a coragem não vinha. Então – só o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo.
Pareceu-lhe que as torturas de uma pessoa tímida jamais foram completamente descritas. No táxi que rolava ela morria um pouco.
E ei-la de repente diante de um salão enorme com talvez muitas pessoas, mas pareciam poucas dentro do descomunal espaço onde se processava como um ritual moderno o coquetel.
Quanto tempo suportou de cabeça falsamente erguida? A máscara a incomodava, ela sabia ainda por cima que era mais bonita sem pintura. Mas sem pintura seria a nudez da alma. E ela não podia se arriscar nem se dar esse luxo.
Falava sorrindo com um, falava sorrindo com outro. Mas como em todos os coquetéis, nesse era impossível a conversa e quando ela viu estava de novo sozinha.
Viu um homem que tinha sido seu amante. E ela pensou: por mais amor que este homem tenha recebido, fui eu que lhe dei toda a minha alma e todo o meu corpo. Os dois se olharam, perscrutaram-se, ele com certeza espantado com a máscara de pintura. Não soube o que fazer senão perguntar-lhe se ele era seu amigo, se podia ser. Ele disse que sim, para sempre.
Até que sentiu que não suportava mais manter a cabeça de pé. Mas como atravessar a enorme extensão até a porta? Sozinha, como uma fugitiva? Então em meias palavras confessou seu drama a uma das professoras e ela levou-a pela enorme extensão até a porta.
E no escuro da noite primaveril ela era uma mulher infeliz. Sim, era diferente. Mas sim, era tímida. Sim, era supersensível. Sim, vira um amor passado. O escuro e o perfume da primavera. O coração do mundo batia-lhe no peito. Sempre soubera sentir o cheiro da natureza. Achou finalmente um táxi onde se sentou quase em lágrimas de alívio, lembrando-se que em Paris lhe acontecera o mesmo porém pior ainda. Foi para casa como uma foragida do mundo. Era inútil esconder: a verdade é que não sabia viver. Em casa estava agasalhante, ela se olhou ao espelho quando estava lavando as mãos e viu a persona afivelada no seu rosto: a persona tinha um sorriso parado de palhaço. Então lavou o rosto e com alívio estava de novo de alma nua. Tomou então uma pílula para dormir. Antes que chegasse o sono, ficou alerta e se prometeu que nunca mais se arriscaria sem proteção. A pílula de dormir começava a apaziguá-la. E a noite incomensurável dos sonhos começou.
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"
De tarde – era primavera, primeiro dia de primavera – foi visitar uma amiga que a pôs em brios. Como então ela, uma mulher feita, era tão humilde? como é que não percebia que vários homens a queriam? como não percebia que devia, dentro de sua própria dignidade, ter um caso de amor? Disse ainda que a vira entrar numa sala onde todos eram conhecidos. E por acaso nenhum dos presentes chegava a seus pés. E no entanto entrou tímida como ausente, como uma corça de cabeça baixa. “Você precisa andar de cabeça levantada, você tem que sofrer porque você é diferente, cosmicamente diferente, então aceite que você não pode ter a vida burguesa, e entre numa sala com a cabeça levantada.” “Mas entrar sozinha numa sala cheia de gente?” “Exatamente. Você não precisa de companhia para ir, você mesma é bastante.”
Lembrou-se que no fim da tarde havia uma espécie de coquetel para os professores primários, em férias. Lembrou-se da atitude nova que desejava, não combinou a ida com nenhum professor ou professora – arriscar-se-ia toda só. Vestiu um vestido mais ou menos novo, mas a coragem não vinha. Então – só o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo.
Esse alguém era exatamente o que ela não era. Mas na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo demais de si mesma? Toda vestida, com uma máscara de pintura no rosto – ah persona, como não te usar e enfim ser! –, sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia que previa que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-de-coragem, levantou-se e foi.
Pareceu-lhe que as torturas de uma pessoa tímida jamais foram completamente descritas. No táxi que rolava ela morria um pouco.
E ei-la de repente diante de um salão enorme com talvez muitas pessoas, mas pareciam poucas dentro do descomunal espaço onde se processava como um ritual moderno o coquetel.
Quanto tempo suportou de cabeça falsamente erguida? A máscara a incomodava, ela sabia ainda por cima que era mais bonita sem pintura. Mas sem pintura seria a nudez da alma. E ela não podia se arriscar nem se dar esse luxo.
Falava sorrindo com um, falava sorrindo com outro. Mas como em todos os coquetéis, nesse era impossível a conversa e quando ela viu estava de novo sozinha.
Viu um homem que tinha sido seu amante. E ela pensou: por mais amor que este homem tenha recebido, fui eu que lhe dei toda a minha alma e todo o meu corpo. Os dois se olharam, perscrutaram-se, ele com certeza espantado com a máscara de pintura. Não soube o que fazer senão perguntar-lhe se ele era seu amigo, se podia ser. Ele disse que sim, para sempre.
Até que sentiu que não suportava mais manter a cabeça de pé. Mas como atravessar a enorme extensão até a porta? Sozinha, como uma fugitiva? Então em meias palavras confessou seu drama a uma das professoras e ela levou-a pela enorme extensão até a porta.
E no escuro da noite primaveril ela era uma mulher infeliz. Sim, era diferente. Mas sim, era tímida. Sim, era supersensível. Sim, vira um amor passado. O escuro e o perfume da primavera. O coração do mundo batia-lhe no peito. Sempre soubera sentir o cheiro da natureza. Achou finalmente um táxi onde se sentou quase em lágrimas de alívio, lembrando-se que em Paris lhe acontecera o mesmo porém pior ainda. Foi para casa como uma foragida do mundo. Era inútil esconder: a verdade é que não sabia viver. Em casa estava agasalhante, ela se olhou ao espelho quando estava lavando as mãos e viu a persona afivelada no seu rosto: a persona tinha um sorriso parado de palhaço. Então lavou o rosto e com alívio estava de novo de alma nua. Tomou então uma pílula para dormir. Antes que chegasse o sono, ficou alerta e se prometeu que nunca mais se arriscaria sem proteção. A pílula de dormir começava a apaziguá-la. E a noite incomensurável dos sonhos começou.
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"
Os pães de centeio
Naquele tempo Nicolau Nerli era banqueiro na nobre cidade de Florença. Ao soar a terceira hora já estava sentado em sua mesa de trabalho e ao soar a hora nona ainda continuava sentado. Durante todo o dia desenhava números em suas tábuas. Emprestava dinheiro ao Imperador e ao Papa, e, se não chegou a emprestar ao Diabo, foi por temor de que lhe corressem mal os negócios este que se chama o Maligno e que tem demasiada esperteza. Nicolau Nerli era atrevido e desconfiado. Adquiriu enormes riquezas despojando muitas pessoas, pelo que sempre teve boa reputação na cidade de Florença. Habitava um palácio onde a luz que Deus criou só entrava por estreitas janelas, e nisto deve-se reconhecer uma justa previsão, porque a morada dos ricos deve ser como uma cidadela, e os que possuem considerável fortuna agem prudentemente defendendo, pela força, o que adquiriram com malícia.
Assim, pois, o palácio de Nicolau Nerli estava provido de trancas e cadeados. No interior, as paredes eram pintadas por hábeis artesãos que ali representavam as Virtudes sob aparência de mulheres, os patriarcas, os profetas e os reis de Israel. Tapeçarias estendidas nos cômodos ofereciam, aos olhos, as histórias de Alexandre e de Tristão, tal como se relatam nas lendas.
Para ostentar sua riqueza na cidade, fundava Nicolau Nerli instituições piedosas. Construiu, fora do recinto murado, um hospital em cujo friso, de relevos pintados, eram representados os atos mais honrosos de sua vida. Em agradecimento à quantidade de prata que facilitou para que se terminasse Santa Maria a Nova, no coro daquela igreja achava-se pendurado o seu retrato. Viam-no ajoelhado aos pés da Santa Virgem, com as mãos juntas, e era facilmente reconhecível por seu gorro de lã vermelha, por sua capa forrada de pele, por seu rosto gorduroso e amarelado por seus olhinhos espertos. Sua bondosa mulher, Mona Bismantova, de aspecto triste e honrado, cuja aparência fazia supor que jamais havia agradado a alguém, achava-se do outro lado da Virgem, em humilde atitude de meditação. Aquele homem era um dos principais cidadãos da República; como nunca havia demandado contra as leis e tão pouco se havia preocupado com os pobres nem com aqueles a quem os poderosos dominantes condenam à multa e ao desterro, nada pôde diminuir, perante os magistrados, o alto conceito que, aos olhos destes, suas imensas riquezas o fizeram merecedor.
Ao entardecer de um dia de inverno, entrando em seu palácio a uma hora mais avançada do que acontecia, na soleira da porta se viu rodeado por um grupo de mendigos seminus que lhe estendiam as mãos.
Repeliu-os com palavras rudes; a fome, porém, os obrigava a se mostrarem ariscos e atrevidos como lobos. Fizeram um círculo em torno de Nicolau Nerli e lhe pediram pão com voz queixosa e enrouquecida. Inclinava-se já para apanhar pedras do solo e atirá-las, quando viu chegar um de seus criados que trazia sobre a cabeça um cesto de pães de centeio destinados aos moços das cavalariças, da cozinha e dos jardins.
Indicou ao padeiro que se aproximasse, e, tirando do cesto os pães a mãos-cheias, os atirou aos miseráveis; depois entrou em seu palácio, deitou e dormiu. Enquanto dormia, teve um ataque epilético e morreu tão repentinamente que ainda se considerava em seu leito quando num lugar, "falto de toda luz", lhe apareceu São Miguel, iluminado pela claridade que irradiava seu próprio corpo!
Com a balança na mão, o arcanjo enchia os pratos. Ao reconhecer, no mais pesado, as joias das viúvas que guardava como garantia, os inumeráveis escudos que havia retido indevidamente, e algumas peças de ouro muito formosas que só ele possuía e que havia adquirido pela usura ou pela fraude, Nicolau Nerli supôs que era sua vida passada o que o arcanjo pesava naquele instante, pelo que se mostrou atento e temeroso.
— Messer São Miguel — disse — se colocais num lado todos os lucros que eu tive em minha vida, colocai no outro, se vos apraz, todas as formosas fundações pelas quais manifestei, magnificamente, minha devoção. Não esqueçais a cúpula de Santa Maria a Nova, para a qual contribui com uma boa terça parte, nega o hospital extramuros que mandei construir só com o meu dinheiro.
— Não tenhas temor, Nicolau Nerli — respondeu São Miguel — nunca esqueço nada.
E, com suas mãos gloriosas, colocou, no prato que pesava menos, a cúpula de Santa Maria e o hospital com seu friso de relevos pintados; o prato, porém, não baixava.
O banqueiro começou a inquietar-se profundamente.
— Messer São Miguel — insistiu — procurai mais. Não colocastes neste prato da balança, nem a formosa pia de água benta de São João, nem o púlpito de Santo André, onde o batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo se acha representado em tamanho natural. É uma obra que me custou muito caro.
O arcanjo pós o púlpito e a pia de água benta sobre o hospital, no prato que, apesar de tudo, não baixava.
Nicolau Nerli começou a sentir sua testa inundada por um gélido suor.
— Messer arcanjo — perguntou — estais certo de que vossas balanças pesam bem?
São Miguel respondeu, sorridente, que ainda que não fossem construídas conforme o modelo das balanças que usam os lombardos de Paris ou os cambistas de Veneza, nem por isso deixavam de ser precisas.
— É possível — suspirou Nicolau Nerli angustiado — que minha cúpula, meu púlpito, meu hospital, com todas suas camas, não pesem mais do que um fiapo de palha, do que uma pena de pássaro?
— Assim, o vês, Nicolau — disse o arcanjo — o peso de tuas iniquidades é muito maior que o de tuas piedosas obras.
— Neste caso, irei para o Inferno! — disse o florentino.
Seus dentes batiam de pavor.
— Paciência, Nicolau Nerli! — retorquiu o pesador celeste. — Paciência! Não acabamos ainda; falta uma coisa.
E o bem-aventurado Miguel apanhou os pães de centeio que o rico havia atirado na véspera aos pobres, colocou-os no prato das boas obras que prontamente desceu enquanto o outro subia.
Os dois pratos ficaram na mesma altura: o fiel da balança não oscilava nem para a direita nem para a esquerda indicando a igualdade perfeita dos dois pesos.
O banqueiro não dava crédito aos seus olhos.
O glorioso arcanjo lhe disse:
— Tu o vês, Nicolau Nerli; não serves nem para o Céu nem para o Inferno. Tu o vês. Volta à Florença; continua repartindo pela tua cidade pães, como os que deu tua mão esta noite, sem que ninguém o veja e te salvarás, porque não é bastante que o céu se abra para o ladrão que se arrepende e para a prostituta que chora. A misericórdia de Deus é infinita! É capaz de salvar um rico! Sê tu o rico digno de salvar-se. Continua repartindo pães que pesam muito em minhas balanças. Vai-te.
Nicolau Nerli despertou, em seu leito, resolvido a seguir os conselhos do arcanjo e a repartir o pão entre os pobres para entrar no reino dos céus.
Durante os três anos que viveu ainda na terra, depois de sua primeira morte, mostrou-se piedoso com os desditados e deu muitas esmolas.
Assim, pois, o palácio de Nicolau Nerli estava provido de trancas e cadeados. No interior, as paredes eram pintadas por hábeis artesãos que ali representavam as Virtudes sob aparência de mulheres, os patriarcas, os profetas e os reis de Israel. Tapeçarias estendidas nos cômodos ofereciam, aos olhos, as histórias de Alexandre e de Tristão, tal como se relatam nas lendas.
Para ostentar sua riqueza na cidade, fundava Nicolau Nerli instituições piedosas. Construiu, fora do recinto murado, um hospital em cujo friso, de relevos pintados, eram representados os atos mais honrosos de sua vida. Em agradecimento à quantidade de prata que facilitou para que se terminasse Santa Maria a Nova, no coro daquela igreja achava-se pendurado o seu retrato. Viam-no ajoelhado aos pés da Santa Virgem, com as mãos juntas, e era facilmente reconhecível por seu gorro de lã vermelha, por sua capa forrada de pele, por seu rosto gorduroso e amarelado por seus olhinhos espertos. Sua bondosa mulher, Mona Bismantova, de aspecto triste e honrado, cuja aparência fazia supor que jamais havia agradado a alguém, achava-se do outro lado da Virgem, em humilde atitude de meditação. Aquele homem era um dos principais cidadãos da República; como nunca havia demandado contra as leis e tão pouco se havia preocupado com os pobres nem com aqueles a quem os poderosos dominantes condenam à multa e ao desterro, nada pôde diminuir, perante os magistrados, o alto conceito que, aos olhos destes, suas imensas riquezas o fizeram merecedor.
Ao entardecer de um dia de inverno, entrando em seu palácio a uma hora mais avançada do que acontecia, na soleira da porta se viu rodeado por um grupo de mendigos seminus que lhe estendiam as mãos.
Repeliu-os com palavras rudes; a fome, porém, os obrigava a se mostrarem ariscos e atrevidos como lobos. Fizeram um círculo em torno de Nicolau Nerli e lhe pediram pão com voz queixosa e enrouquecida. Inclinava-se já para apanhar pedras do solo e atirá-las, quando viu chegar um de seus criados que trazia sobre a cabeça um cesto de pães de centeio destinados aos moços das cavalariças, da cozinha e dos jardins.
Indicou ao padeiro que se aproximasse, e, tirando do cesto os pães a mãos-cheias, os atirou aos miseráveis; depois entrou em seu palácio, deitou e dormiu. Enquanto dormia, teve um ataque epilético e morreu tão repentinamente que ainda se considerava em seu leito quando num lugar, "falto de toda luz", lhe apareceu São Miguel, iluminado pela claridade que irradiava seu próprio corpo!
Com a balança na mão, o arcanjo enchia os pratos. Ao reconhecer, no mais pesado, as joias das viúvas que guardava como garantia, os inumeráveis escudos que havia retido indevidamente, e algumas peças de ouro muito formosas que só ele possuía e que havia adquirido pela usura ou pela fraude, Nicolau Nerli supôs que era sua vida passada o que o arcanjo pesava naquele instante, pelo que se mostrou atento e temeroso.
— Messer São Miguel — disse — se colocais num lado todos os lucros que eu tive em minha vida, colocai no outro, se vos apraz, todas as formosas fundações pelas quais manifestei, magnificamente, minha devoção. Não esqueçais a cúpula de Santa Maria a Nova, para a qual contribui com uma boa terça parte, nega o hospital extramuros que mandei construir só com o meu dinheiro.
— Não tenhas temor, Nicolau Nerli — respondeu São Miguel — nunca esqueço nada.
E, com suas mãos gloriosas, colocou, no prato que pesava menos, a cúpula de Santa Maria e o hospital com seu friso de relevos pintados; o prato, porém, não baixava.
O banqueiro começou a inquietar-se profundamente.
— Messer São Miguel — insistiu — procurai mais. Não colocastes neste prato da balança, nem a formosa pia de água benta de São João, nem o púlpito de Santo André, onde o batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo se acha representado em tamanho natural. É uma obra que me custou muito caro.
O arcanjo pós o púlpito e a pia de água benta sobre o hospital, no prato que, apesar de tudo, não baixava.
Nicolau Nerli começou a sentir sua testa inundada por um gélido suor.
— Messer arcanjo — perguntou — estais certo de que vossas balanças pesam bem?
São Miguel respondeu, sorridente, que ainda que não fossem construídas conforme o modelo das balanças que usam os lombardos de Paris ou os cambistas de Veneza, nem por isso deixavam de ser precisas.
— É possível — suspirou Nicolau Nerli angustiado — que minha cúpula, meu púlpito, meu hospital, com todas suas camas, não pesem mais do que um fiapo de palha, do que uma pena de pássaro?
— Assim, o vês, Nicolau — disse o arcanjo — o peso de tuas iniquidades é muito maior que o de tuas piedosas obras.
— Neste caso, irei para o Inferno! — disse o florentino.
Seus dentes batiam de pavor.
— Paciência, Nicolau Nerli! — retorquiu o pesador celeste. — Paciência! Não acabamos ainda; falta uma coisa.
E o bem-aventurado Miguel apanhou os pães de centeio que o rico havia atirado na véspera aos pobres, colocou-os no prato das boas obras que prontamente desceu enquanto o outro subia.
Os dois pratos ficaram na mesma altura: o fiel da balança não oscilava nem para a direita nem para a esquerda indicando a igualdade perfeita dos dois pesos.
O banqueiro não dava crédito aos seus olhos.
O glorioso arcanjo lhe disse:
— Tu o vês, Nicolau Nerli; não serves nem para o Céu nem para o Inferno. Tu o vês. Volta à Florença; continua repartindo pela tua cidade pães, como os que deu tua mão esta noite, sem que ninguém o veja e te salvarás, porque não é bastante que o céu se abra para o ladrão que se arrepende e para a prostituta que chora. A misericórdia de Deus é infinita! É capaz de salvar um rico! Sê tu o rico digno de salvar-se. Continua repartindo pães que pesam muito em minhas balanças. Vai-te.
Nicolau Nerli despertou, em seu leito, resolvido a seguir os conselhos do arcanjo e a repartir o pão entre os pobres para entrar no reino dos céus.
Durante os três anos que viveu ainda na terra, depois de sua primeira morte, mostrou-se piedoso com os desditados e deu muitas esmolas.
Anatole France, Revista Carioca (1947)
sábado, janeiro 31
A Cinderela chinesa
Ao que se sabe, esta é a mais antiga história da Cinderela escrita no mundo. Cinderela é um dos contos folclóricos mais conhecidos em todos os países e dela têm sido coligidas, estudadas e comparadas pelos entendidos centenas de versões. Contudo, de acordo com o professor R. D. Jameson, autoridade em assuntos do longínquo oriente e que, bondosamente, correspondeu-se comigo sobre o caso: "A história (a versão que aqui vai) é anterior à mais antiga versão ocidental de Des Perriers em seu "Nouvelles Récréations et Iojeux Devis", Lião, 1558, cerca de uns 700 anos." A versão chinesa é tirada de "Yuyang Tsatsu", um livro de mágicas e contos sobrenaturais e de fundo histórico. outrossim, escrito por Tuan Ch'eng-shih que morreu em 863 da era cristã. A história lhe foi contada por uma velha serva da família que provinha de Yungchow (moderna Nanning) em Kwangsei, e que descendia dos povos das cavernas (aborígines) daquele distrito. Tuan era filho de um primeiro ministro e era letrado e em "Yuyang Tsatsu", deu disso vários exemplos: pesquisou certos contos populares indo encontrá-los até nos clássicos budistas, pois no século IX, as histórias sobrenaturais budistas eram bem conhecidas e populares na China. Entretanto esse conto provou ser de tradição oral. Existem versões siamesas bem conhecidas e Nanning fica bem perto da Indochina. Respondendo à minha pergunta sobre se essa versão podia ter vindo da Índia, o professor Jameson disse - "Tanto quanto lhe posso afirmar, e até onde vão meus conhecimentos, a mais velha versão impressa é chinesa. Sabemos muito pouco sobre os processos da imaginação humana e são incontáveis os lugares folclóricos do mapa asiático que ainda não foram completamente explorados para justificar, parece-me, muita especulação." O que nos fere nessa versão chinesa é que ela contém elementos de todas as duas tradições, eslava e alemã, na primeira das quais um animal amigo é o motivo principal e onde, na segunda, a perda do sapatinho num baile é o fato mais importante. A madrasta cruel e as filhas são comuns a ambas. – Lin Yutang
Certa vez, antes de Ch'in (222-206 a.C.) e Han havia um chefe das cavernas da montanha a quem os nativos chamavam chefe Wu. Ele se casou com duas mulheres uma das quais morreu deixando-lhe uma menina chamada Yeh Hsien. Essa menina era muito inteligente e habilidosa no bordado a ouro e o pai amava-a ternamente, mas, quando êle morreu, viu-se maltratada pela madrasta que seguidamente a forçava a cortar lenha e mandava-a a lugares perigosos para apanhar água em poços profundos.
Um dia, Yeh Hsien pescou um peixe com mais de duas polegadas de comprimento e que tinha as barbatanas vermelhas e os olhos dourados. Trouxe-o para casa e o pôs numa vasilha com água. Cada dia o peixe crescia mais e tanto cresceu que, finalmente, a vasilha não lhe serviu mais e a menina o soltou numa lagoa que havia por trás de sua casa. Yeh Hsien costumava alimentá-lo com as sobras de sua comida. Quando ela chegava à lagoa, o peixe vinha até a superfície e descansava a cabeça na margem, mas se alguém se aproximasse não aparecia.
Esse hábito curioso foi notado pela madrasta que esperou o peixe sem que este lhe aparecesse. Um dia, lançou mão de astúcia e disse à enteada: - "Não está cansada de trabalhar? Quero dar-lhe uma roupa nova." Em seguida fêz Yeh Hsien tirar a roupa que vestia e mandou-a a várias centenas de li para trazer água de um poço. A velha, então, pôs o vestido de Yeh Hsien e estendeu uma faca afiada na manga da blusa; dirigiu-se para a lagoa e chamou o peixe. Quando o peixinho pôs a cabeça fora d’água, ela o matou. Por essa ocasião, o animalzinho já media mais de dez pés de comprimento e, depois de cozido, mostrou ter sabor mil vezes melhor do que qualquer outro. E a madrasta enterrou seus ossos num monturo.
No dia seguinte, Yeh Hsien voltou e ao aproximar-se da lagoa verificou que o peixe desaparecera. Correu para chorar escondida no meio do mato e nisso um homem de cabelo desgrenhado e coberto de andrajos desceu dos céus e a consolou, dizendo: - “Não chore. Sua mãe matou o peixe e enterrou os ossos num monturo. Vá para casa, leve os ossos para seu quarto e os esconda. Tudo o que você quiser peça que lhe será concedido". Yeh Hsien seguiu o conselho e pouco tempo depois tinha uma porção de ouro, de jóias e roupas de tecido tão caro que seriam capazes de deleitar o coração de qualquer donzela.
Na noite de uma festa tradicional chinesa, Yeh Hsien recebeu ordens de ficar em casa para tomar conta do pomar. Quando a jovem solitária viu que a mãe já ia longe, meteu-se num vestido de seda verde e seguiu-a até o local a festa. A irmã, que a reconhecera virou-se para a mãe dizendo: - "Não acha aquela jovem estranhamente parecida com minha irmã mais velha ?" A mãe também teve a impressão de reconhecê-la. Quando Yeh Hsien percebeu que a fitavam, correu, mas com tal pressa que perdeu um dos sapatinhos, o qual foi cair nas mãos dos populares.
Quando a mãe voltou para casa encontrou a filha dormindo com os braços ao redor de uma árvore; assim pôs de lado qualquer pensamento que pudesse ter sido acerca da identidade da jovem ricamente vestida.
Ora, perto das cavernas, havia um reino insular chamado T'o Huan. Por intermédio de forte exército governava duas vezes doze ilhas e suas águas territoriais cobriam vários milhares de li. O povo vendeu, portanto, o sapatinho para o Reino T'o Huan, onde foi ter às mãos do rei. O rei fêz as suas mulheres experimentá-lo, mas o sapatinho era cerca de uma polegada menor dos das que tinham os menores pés. Depois fez com que o experimentassem todas as mulheres do reino sem que nenhuma conseguisse calçá-lo.
O rei, então, suspeitou que o homem que o tinha levado o tivesse obtido por meios mágicos e mandou aprisioná-lo e torturá-lo. Mas o pobre infeliz nada pôde dizer sobre a procedência do sapato. Finalmente, emissários e correios foram enviados pela estrada para irem de casa em casa a fim de prenderem quem quer que tivesse o outro sapatinho. O rei estava muito intrigado.
A casa foi encontrada, bem como Yeh Hsien. Fizeram-na calçar os sapatinhos e eles couberam perfeitamente. Depois ela apareceu com os sapatinhos e o vestido de seda verde tal como uma deusa. Mandaram contar o caso ao rei e o rei levou Yeh Hsien para seu palácio na ilha juntamente com os ossos do peixe.
Assim que Yeh Hsien foi levada, a mãe e a irmã foram mortas a pedradas. Os populares apiedaram-se delas, sepultando-as num buraco e erigindo um túmulo a que deu o nome de "Túmulo das Arrependidas". Passaram a reverenciá-las como espíritos casamenteiros e sempre que alguém pedia-lhes uma graça no sentido de arranjar ou ser feliz em negócios de casamento tinha certeza de que sua prece era atendida.
O rei voltou à sua ilha e fêz de Yeh Hsien sua primeira espôsa. Mas durante o primeiro ano de seu casamento, ele pediu aos ossos do peixe tantos jades e coisas preciosas que eles se recusaram a conceder-lhe mais desejos. Por isso o rei pegou os ossos e enterrou-os bem perto do mar, junto com uma centena de pérolas e uma porção de ouro. Quando seus soldados se rebelaram contra ele, foi ter ao lugar em que enterrara os ossos, mas a maré os levara e nunca mais foram encontrados até hoje. Essa história me foi contada por um velho servo de minha família, Li Shih-yüan. Ele descendia de um povo chamado Yungchow e sabia de muitas historias estranhas do sul.
Certa vez, antes de Ch'in (222-206 a.C.) e Han havia um chefe das cavernas da montanha a quem os nativos chamavam chefe Wu. Ele se casou com duas mulheres uma das quais morreu deixando-lhe uma menina chamada Yeh Hsien. Essa menina era muito inteligente e habilidosa no bordado a ouro e o pai amava-a ternamente, mas, quando êle morreu, viu-se maltratada pela madrasta que seguidamente a forçava a cortar lenha e mandava-a a lugares perigosos para apanhar água em poços profundos.
Um dia, Yeh Hsien pescou um peixe com mais de duas polegadas de comprimento e que tinha as barbatanas vermelhas e os olhos dourados. Trouxe-o para casa e o pôs numa vasilha com água. Cada dia o peixe crescia mais e tanto cresceu que, finalmente, a vasilha não lhe serviu mais e a menina o soltou numa lagoa que havia por trás de sua casa. Yeh Hsien costumava alimentá-lo com as sobras de sua comida. Quando ela chegava à lagoa, o peixe vinha até a superfície e descansava a cabeça na margem, mas se alguém se aproximasse não aparecia.
Esse hábito curioso foi notado pela madrasta que esperou o peixe sem que este lhe aparecesse. Um dia, lançou mão de astúcia e disse à enteada: - "Não está cansada de trabalhar? Quero dar-lhe uma roupa nova." Em seguida fêz Yeh Hsien tirar a roupa que vestia e mandou-a a várias centenas de li para trazer água de um poço. A velha, então, pôs o vestido de Yeh Hsien e estendeu uma faca afiada na manga da blusa; dirigiu-se para a lagoa e chamou o peixe. Quando o peixinho pôs a cabeça fora d’água, ela o matou. Por essa ocasião, o animalzinho já media mais de dez pés de comprimento e, depois de cozido, mostrou ter sabor mil vezes melhor do que qualquer outro. E a madrasta enterrou seus ossos num monturo.
No dia seguinte, Yeh Hsien voltou e ao aproximar-se da lagoa verificou que o peixe desaparecera. Correu para chorar escondida no meio do mato e nisso um homem de cabelo desgrenhado e coberto de andrajos desceu dos céus e a consolou, dizendo: - “Não chore. Sua mãe matou o peixe e enterrou os ossos num monturo. Vá para casa, leve os ossos para seu quarto e os esconda. Tudo o que você quiser peça que lhe será concedido". Yeh Hsien seguiu o conselho e pouco tempo depois tinha uma porção de ouro, de jóias e roupas de tecido tão caro que seriam capazes de deleitar o coração de qualquer donzela.
Na noite de uma festa tradicional chinesa, Yeh Hsien recebeu ordens de ficar em casa para tomar conta do pomar. Quando a jovem solitária viu que a mãe já ia longe, meteu-se num vestido de seda verde e seguiu-a até o local a festa. A irmã, que a reconhecera virou-se para a mãe dizendo: - "Não acha aquela jovem estranhamente parecida com minha irmã mais velha ?" A mãe também teve a impressão de reconhecê-la. Quando Yeh Hsien percebeu que a fitavam, correu, mas com tal pressa que perdeu um dos sapatinhos, o qual foi cair nas mãos dos populares.
Quando a mãe voltou para casa encontrou a filha dormindo com os braços ao redor de uma árvore; assim pôs de lado qualquer pensamento que pudesse ter sido acerca da identidade da jovem ricamente vestida.
Ora, perto das cavernas, havia um reino insular chamado T'o Huan. Por intermédio de forte exército governava duas vezes doze ilhas e suas águas territoriais cobriam vários milhares de li. O povo vendeu, portanto, o sapatinho para o Reino T'o Huan, onde foi ter às mãos do rei. O rei fêz as suas mulheres experimentá-lo, mas o sapatinho era cerca de uma polegada menor dos das que tinham os menores pés. Depois fez com que o experimentassem todas as mulheres do reino sem que nenhuma conseguisse calçá-lo.
O rei, então, suspeitou que o homem que o tinha levado o tivesse obtido por meios mágicos e mandou aprisioná-lo e torturá-lo. Mas o pobre infeliz nada pôde dizer sobre a procedência do sapato. Finalmente, emissários e correios foram enviados pela estrada para irem de casa em casa a fim de prenderem quem quer que tivesse o outro sapatinho. O rei estava muito intrigado.
A casa foi encontrada, bem como Yeh Hsien. Fizeram-na calçar os sapatinhos e eles couberam perfeitamente. Depois ela apareceu com os sapatinhos e o vestido de seda verde tal como uma deusa. Mandaram contar o caso ao rei e o rei levou Yeh Hsien para seu palácio na ilha juntamente com os ossos do peixe.
Assim que Yeh Hsien foi levada, a mãe e a irmã foram mortas a pedradas. Os populares apiedaram-se delas, sepultando-as num buraco e erigindo um túmulo a que deu o nome de "Túmulo das Arrependidas". Passaram a reverenciá-las como espíritos casamenteiros e sempre que alguém pedia-lhes uma graça no sentido de arranjar ou ser feliz em negócios de casamento tinha certeza de que sua prece era atendida.
O rei voltou à sua ilha e fêz de Yeh Hsien sua primeira espôsa. Mas durante o primeiro ano de seu casamento, ele pediu aos ossos do peixe tantos jades e coisas preciosas que eles se recusaram a conceder-lhe mais desejos. Por isso o rei pegou os ossos e enterrou-os bem perto do mar, junto com uma centena de pérolas e uma porção de ouro. Quando seus soldados se rebelaram contra ele, foi ter ao lugar em que enterrara os ossos, mas a maré os levara e nunca mais foram encontrados até hoje. Essa história me foi contada por um velho servo de minha família, Li Shih-yüan. Ele descendia de um povo chamado Yungchow e sabia de muitas historias estranhas do sul.
"Yuyang Tsatsu", século IX
Tato
Na poltrona da sala
as mãos sob a nuca
sinto nos dedos
a dureza do osso da cabeça
a seda dos cabelos
que são meus
A morte é uma certeza invencível
mas o tato me dá
a consistente realidade
de minha presença no mundo
as mãos sob a nuca
sinto nos dedos
a dureza do osso da cabeça
a seda dos cabelos
que são meus
A morte é uma certeza invencível
mas o tato me dá
a consistente realidade
de minha presença no mundo
Ferreira Gullar
A leitura morreu, viva a decoração!
Há quem diga que o conhecimento é poder. Eu digo que o conhecimento é decoração. Claro, existe aquele grupo seleto de pessoas que realmente lê livros. São criaturas místicas, de olhos miúdos e costas curvadas, que frequentam bibliotecas não por causa do Wi-Fi, mas pela literatura. E eu? Sempre vi os livros como uma oportunidade estética. E, com um toque de criatividade, também utilitária.
Foi assim que começou meu projeto de reutilização literária criativa. Ou, como meu primo, delegado de polícia, prefere chamar: crime contra o patrimônio público.
Tudo começou numa tarde nublada, com a minha estante implorando por relevância. Peguei emprestado (veja bem, emprestado com intenção artística) um volume esquecido da biblioteca: História da artilharia do século 19, tomo II. Havia um volume I, mas pesava como uma vaca morta, e eu estava sem carro naquele dia.
Em casa, retirei o casaco, o livro e qualquer vestígio de culpa. Colei todas as páginas com cola branca escolar (ah, aquele aroma nostálgico do ensino fundamental) e furei um buraco no centro da capa com a ajuda de um saca-rolha. Pronto! Agora eu tinha um belíssimo porta-vela tremeluzente, que transmitia uma aura de intelectualidade gótica.
Descobri que livros antigos são ótimos para esconder coisas. Um dicionário de latim virou meu estojo de escovas de dentes para visitas. A coletânea de romances russos agora guarda minhas meias perdidas. O que, preciso admitir, também transmite uma certa melancolia existencial.
Mas foi com O jogador, de Dostoiévski, que atingi o ápice da arte: transformei-o em um porta-contas atrasadas, uma homenagem ao espírito da inadimplência de Fiódor.
Recebi algumas críticas, é claro. A bibliotecária me reconheceu na câmera de segurança e enviou uma intimação. Que, ironicamente, agora repousa enrolada dentro de O crime do padre Amaro, fazendo jus ao título. Há quem diga que fui longe demais, mas reitero que fui apenas até a página três. Depois, ficou tudo colado.
A verdade é que, hoje em dia, os livros perderam a batalha contra as telas. Ninguém mais se dá ao trabalho de folhear páginas quando pode assistir a um vídeo de 30 segundos que resume Finnegans wake com emojis e trilha sonora de kuduro. As estantes viraram cenário de videoconferência. E os livros, coitados, coadjuvantes decorativos. Muitas vezes, são comprados por metro, como papel de parede. Diante disso, nada mais justo do que ressignificar seu uso: se já não informam, que pelo menos combinem com o sofá da Tok&Stok. Afinal, entre a sabedoria de Wittgenstein e o tom exato do bege da cortina, o segundo é que realmente causa impacto nas visitas.
Se reaproveitar livros é um crime, então me declaro culpado. Porque, no fim das contas, quem precisa ler quando pode decorar?
Foi assim que começou meu projeto de reutilização literária criativa. Ou, como meu primo, delegado de polícia, prefere chamar: crime contra o patrimônio público.
Tudo começou numa tarde nublada, com a minha estante implorando por relevância. Peguei emprestado (veja bem, emprestado com intenção artística) um volume esquecido da biblioteca: História da artilharia do século 19, tomo II. Havia um volume I, mas pesava como uma vaca morta, e eu estava sem carro naquele dia.
Em casa, retirei o casaco, o livro e qualquer vestígio de culpa. Colei todas as páginas com cola branca escolar (ah, aquele aroma nostálgico do ensino fundamental) e furei um buraco no centro da capa com a ajuda de um saca-rolha. Pronto! Agora eu tinha um belíssimo porta-vela tremeluzente, que transmitia uma aura de intelectualidade gótica.
Descobri que livros antigos são ótimos para esconder coisas. Um dicionário de latim virou meu estojo de escovas de dentes para visitas. A coletânea de romances russos agora guarda minhas meias perdidas. O que, preciso admitir, também transmite uma certa melancolia existencial.
Mas foi com O jogador, de Dostoiévski, que atingi o ápice da arte: transformei-o em um porta-contas atrasadas, uma homenagem ao espírito da inadimplência de Fiódor.
Recebi algumas críticas, é claro. A bibliotecária me reconheceu na câmera de segurança e enviou uma intimação. Que, ironicamente, agora repousa enrolada dentro de O crime do padre Amaro, fazendo jus ao título. Há quem diga que fui longe demais, mas reitero que fui apenas até a página três. Depois, ficou tudo colado.
A verdade é que, hoje em dia, os livros perderam a batalha contra as telas. Ninguém mais se dá ao trabalho de folhear páginas quando pode assistir a um vídeo de 30 segundos que resume Finnegans wake com emojis e trilha sonora de kuduro. As estantes viraram cenário de videoconferência. E os livros, coitados, coadjuvantes decorativos. Muitas vezes, são comprados por metro, como papel de parede. Diante disso, nada mais justo do que ressignificar seu uso: se já não informam, que pelo menos combinem com o sofá da Tok&Stok. Afinal, entre a sabedoria de Wittgenstein e o tom exato do bege da cortina, o segundo é que realmente causa impacto nas visitas.
Se reaproveitar livros é um crime, então me declaro culpado. Porque, no fim das contas, quem precisa ler quando pode decorar?
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