terça-feira, outubro 6

Leitura no jardim

 


A faca no coração

– Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço.

– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.

– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.

– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.

– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?

– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.

– No começo eles tomam o partido da mãe.

– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.

– A outra filhinha?

– Também do lado da mãe.

– E o filho?

– Esse é o maior inimigo.

– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.

– Se ela está vendo… Tudo!

– Vendo o quê?

– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?

– …

– Meu filho, sinto uma pena de você!

– Ó Maria, mal de cada dia.

– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.

– É a famosa insônia de viúvo.

– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.

– E quando você acorda, a flor está ali?

– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.

– Deve arrumar uma companheira.

– Quem é que vai me querer?

– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.

– Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.

– Mulher é que não falta.

– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.

– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.

– Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.

– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.

– Nunca tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?

– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!

– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?

– …

– Só de traidora degolou o casal de garnisés…

– Nem tremeu a mão de unha dourada.

– … estrangulou o canário no arame da gaiola…

– Não me diga, João!

– … e furou o olho do peixinho vermelho.

– Esqueça a ingrata nos braços de outra.

– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?

– Assim é que se fala, João.

– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.
Dalton Trevisan

Guy de Maupassant

No inverno de mil novecentos e dezesseis fui parar em Petersburgo com um passaporte falso e sem um vintém sequer. Fui acolhido por Aleksei Kazántsev, um professor de filologia russa.

Ele morava em Pieski, numa rua gelada, amarelada e fedorenta. Um ganho extra para seu modesto salario eram as traduções do espanhol; naquela época, Blasco Ibañez estava ganhando fama.

Kazántsev nunca fora a Espanha, mas o amor a esse pais preenchia o seu ser; conhecia todos os castelos, jardins e rios espanhóis. Além de mim, amparava-se em Kazántsev uma multidão de pessoas excluídas da vida legal. Nos passávamos fome. De vez em quando, os jornalecos publicavam em letras miúdas as nossas notas sobre os acontecimentos.

De manha, eu perambulava pelos necrotérios e delegacias de polícia.

Mais feliz do que nós era mesmo Kazántsev. Ele tinha uma pátria: a Espanha.
Em novembro, ofereceram-me uma vaga no escritório da fábrica Obukhovski, um emprego muito bom, que dispensava do serviço militar.

Eu me recusei a me tornar um funcionário de escritório.


Já naquela época, com vinte anos de idade, eu disse a mim mesmo: é melhor a fome, a cadeia e a vagabundagem do que ficar sentado a mesa de um escritório dez horas por dia. Não havia nenhuma grande coragem nessa promessa, mas eu não a quebrei e nem vou quebrá-la. A sabedoria de meus antepassados estava na minha cabeça: nascemos para nos deliciar com o trabalho, a luta e o amor; nascemos para isso e nada mais.

Enquanto ouvia meu sermão, Kazántsev emaranhava a penugem curta e amarelada de sua cabeça. O horror em seu olhar misturava-se com a admiração.
No Natal tivemos sorte. O advogado Bendiérski, dono da editora Altsion, pensou em publicar uma nova edição das obras de Maupassant. A tradução ficou a cargo da esposa do advogado, Raíssa. Mas do intento senhorial não saiu nada.
Perguntaram a Kazántsev, o tradutor de espanhol, se ele não conhecia alguém para ajudar Raissa Mikhailovna. Kazántsev indicou a mim.

No dia seguinte, vestindo um casaco emprestado, eu me dirigi à casa dos Bendiérski. Moravam na esquina da Nievski com o Moika, numa casa construída com granito finlandês e revestida com colunas rosadas, seteiras e brasões de pedra. Banqueiros sem linhagem nem herdeiros cristãos convertidos que enriqueceram no comércio, tinham construído em Petersburgo, antes da guerra, muitos desses castelos vulgares e falsamente majestosos.

Pela escada estendia-se um tapete vermelho. Nos patamares havia ursos empalhados.

Em suas goelas escancaradas brilhavam redomas de cristal.

Os Bendiérski moravam no terceiro andar. A porta foi aberta por uma criada de busto alto, usando uma coifa. Ela me conduziu a uma sala com acabamento em estilo eslavo antigo. Nas paredes havia quadros azuis de Roerich: monstros e pedras pré-históricas. Pelos canto, em suportes, estavam dispostos ícones de escrita antiga. A criada de busto alto movia-se de modo solene pela sala. Era esbelta, míope e arrogante. A libertinagem estava petrificada em seus olhos cinzentos e arregalados. A moça movia-se devagar. Eu imaginei que, durante o amor, talvez ela se revirasse com uma agilidade furiosa. Uma cortina brocada pendurada acima da porta começou a balançar. Na sala, carregando grandes seios entrou uma mulher de cabelos negros e olhos rosados. Não foi preciso muito tempo para reconhecer na senhora Bendiérskaia aquela linhagem arrebatadora das judias vindas de Kíev e Poltava, das ricas cidades das estepes, cercadas de castanheiras e acácias. Essas mulheres transformavam o dinheiro de seus habilidosos maridos na gordura rosada do ventre, da nuca e dos ombros arredondados. O risinho sonolento e carinhoso delas tirava o juízo dos oficiais da guarnição.

— Maupassant é a única paixão da minha vida — disse-me Raissa.

Tentando conter o balanço dos grandes quadris, ela saiu da sala e voltou com uma tradução de “Miss Harriet”. Em sua tradução não restava nenhum vestígio da frase de Maupassant, livre, corrente, com um demorado sopro de paixão. Bendierskaia escrevia de um jeito enfadonhamente correto, sem vida e sem cerimônia, tal como os judeus escreviam antes em russo.

Levei o manuscrito, e em casa, na mansarda de Kazántsev, entre as pessoas que dormiam, passei a noite toda desbastando uma tradução alheia. O trabalho não estava tão ruim como parecia. Uma frase nasce boa ou ruim a um só tempo. O segredo está numa virada quase imperceptível. A chave deve ficar na mão, ser aquecida. é preciso virá-la uma vez, e não duas.

Na manhã seguinte levei o manuscrito corrigido. Raissa não mentiu quando falou de sua paixão por Maupassant. Ela permaneceu imóvel na hora da leitura, com as mãos entrelaçadas; aqueles bravos de cetim escorregavam para o chão, sua testa ficava pálida, a renda entre seus seios comprimidos deslocava-se e tremia.

— Como o senhor fez isso?

Então comecei a falar sobre o estilo, sobre o exército de palavras, um exército no qual circula todo tipo de arma. Nenhum ferro pode penetrar no coração humano de forma tão congelante quanto um ponto colocado na hora certa. Ela escutava com a cabeça inclinada e os lábios pintados entreabertos. Um raio negro resplandeceu em seus cabelos laqueados, bem presos e repartidos. As pernas esmaltadas pela meia, com panturrilhas fortes e delicadas, estavam separadas sobre o tapete.

A criada, desviando os olhos devassos e petrificados, trouxe o café da manhã numa bandeja.

O vítreo sol petersburguense deitava-se sobre o tapete descorado e áspero. Vinte e nove livros de Maupassant estavam numa estante, acima da mesa. O sol tocava com dedos derretidos as lombadas de marroquim dos livros, o maravilhoso túmulo do coração humano.

Serviram-nos café em pequenas xicaras azuis, e nós começamos a traduzir “Idylle”. Todos se lembram do conto do jovem carpinteiro faminto que sugou de uma ama gorda o leite que a oprimia. Isso aconteceu num trem que ia de Nice para Marselha, num meio-dia abrasador, no pais das rosas, na pátria das rosas, lá onde as plantações de flores descem até a beira do mar...

Saí da casa dos Bendiérski com um adiantamento de vinte e cinco rublos. Naquela noite, a nossa comuna de Pieski ficou bêbada como um bando de gansos embriagados. Pegávamos caviar granulado e o comíamos com linguiça de fígado para tirar seu gosto. Meio embriagado, comecei a maldizer Tolstói.

Ele se assustou, o nosso conde, ficou com medo... Sua religião é o medo... Assustado com o frio, com a velhice, o conde teceu uma camisola de fé...

– E o que mais? — perguntou-me Kazántsev, balançando a cabeça de pássaro.

Adormecemos ao lado de nossas camas. Sonhei com Katia, uma lavadeira de quarenta anos que morava no andar de baixo. De manhã, pegávamos água quente com ela. Não tive tempo de enxergar claramente o seu rosto, mas Deus sabe o que eu e Katia fazíamos no sonho. Exauríamos um ao outro com beijos. Não me abstive de passar em sua casa na manhã seguinte em busca de água quente.

Fui recebido por uma mulher definhada, enrolada num xale, com as madeixas grisalhas despenteadas e as mãos úmidas.

A partir de então, passei a tomar o café da manha na casa dos Bendiérski todos os dias. Em nossa mansarda apareceram um fogão novo, arenque e chocolate. Raíssa levou-me às ilhas duas vezes. Eu não me contive, e contei a ela sobre minha infância. Para minha própria surpresa, a história saiu sombria. Sob o gorro de pele de toupeira, olhos brilhantes e assustados olhavam para mim. A tez ruiva dos cílios tremia melancolicamente

Conheci o marido de Raíssa, um judeu de cara amarela com uma cabeça calva e um corpo forte e delgado, que parecia inclinar-se, precipitando-se para o voo. Corriam rumores sobre sua proximidade com Rasputin. Os lucros obtidos por ele com suprimentos de guerra deram-lhe a aparência de um endemoniado. Seus olhos vagavam, o tecido da realidade tinha se rompido para ele. Raíssa ficava confusa ao apresentar novas pessoas a seu marido. Em razão de minha juventude, percebi isso uma semana depois de ocorrido.

Depois do Ano Novo, chegaram à casa de Raissa suas duas irmãs de Kíev. Um dia levei o manuscrito de “A confissão”, mas como não encontrei Raíssa, voltei à noite. Estavam ceando na sala de jantar. De lá vinha um relincho argênteo e um ruído surdo de vozes masculinas excessivamente alegres. Na casa de ricos sem tradições, as refeições são barulhentas. O barulho era judaico, com estrondos e desfechos melodiosos. Raíssa me recebeu num vestido de baile, com as costas nuas. Os pés, em sapatinhos laqueados e inseguros, pisavam desajeitados.

— Estou bêbada, querido — e ela me estendeu os braços cobertos de correntes de platina e estrelas de esmeraldas.

Seu corpo balançava como o de uma cobra erguendo-se para o teto ao som de uma música. Ela balançava a cabeça ondulada, tilintando os anéis, e de repente caiu numa poltrona com entalho russo antigo. Em suas costas empoadas ardiam cicatrizes.

Atrás da parede explodiu mais uma vez o riso feminino. Da sala de jantar saíram as irmãs de bigodinhos, tão peitudas e altas quanto Raíssa. Seus seios estavam projetados para a frente, os cabelos negros esvoaçados. Ambas eram casadas com seus próprios Bendiérskis. A sala ficou cheia daquela alegria feminina inconsequente, da alegria de mulheres maduras. Os maridos agasalharam as irmãs com casacos de pele de lontra e xales de Orenburg e calçaram-nas com botas negras; sob a viseira de neve dos xales ficaram apenas as bochechas ardentes e coradas, os narizes de mármore e os olhos de brilho semítico e míope.

Depois de fazer barulho, eles saíram para o teatro, onde era apresentada “Judith”, com Chaliápin.

– Eu quero trabalhar — balbuciou Raíssa, estendendo os braços nus —, perdemos uma semana inteira...

Ela trouxe uma garrafa e duas taças da sala de jantar. Seus seios repousavam livremente no saco de seda do vestido; os mamilos estavam eretos, cobertos pela seda.

– Reserva especial — disse Raíssa, servindo o vinho —, um moscatel de mil oitocentos e oitenta e três. Meu marido vai me matar quando souber...

Eu nunca experimentara um moscatel de mil oitocentos e oitenta e três, nem imaginara beber três taças, uma após a outra. Eles me levaram de imediato para vielas onde tremulava uma chama alaranjada e ouvia-se música.

– Estou bêbada, querido... O que temos hoje?

– Hoje temos “L’aveu”...

– Pois bem, “A confissão”. O sol é o herói desse conto, le soleil de France... Gotas derretidas de sol, ao caírem sobre a ruiva Celeste, transformaram-se em sardas. O sol polia com seus raios íngremes, vinho e sidra a cara do cocheiro Polyte. Duas vezes por semana, Celeste ia à cidade vender creme, ovos e galinhas. Por viagem, ela pagava a Polyte dez tostões por si e quatro pela cesta. E a cada viagem, Polyte dava piscadelas e indagava a ruiva Celeste: “Quando vamos nos divertir, ma belle?”. “O que quer dizer isso, monsieur Polyte?” Saltitando na boleia, o cocheiro explicou: “Mas que diabo, ‘divertir-se’ quer dizer ‘divertir-se’... Um rapaz e uma moça não precisam de música...”. “Eu não gosto dessas brincadeiras, monsieur Polyte” — respondeu Celeste e afastou do rapaz as suas saias, que estavam em desalinho sobre as panturrilhas poderosas com meias vermelhas. Mas o diabo do Polyte gargalhava e tossia: “Um dia vamos nos divertir, ma belle”. E lágrimas felizes rolavam em seu rosto cor de sangue, tijolo e vinho.

Eu bebi mais uma taça do moscatel especial. Raíssa brindou comigo.

A criada de olhos petrificados passou pela sala e desapareceu.

Ce diable de Polyte... Em dois anos, Celeste havia pagado quarenta e oito francos. Eram cinquenta francos menos dois. Ao final dos dois anos, quando eles estavam sozinhos na diligência e Polyte, que tinha tomado sidra antes da partida, perguntou como de costume: “Que tal nos divertirmos hoje, mademoiselle Celeste?”, ela respondeu de olhos baixos: “Estou a seu dispor, monsieur Polyte...”.
Raíssa desabou sobre a mesa com uma gargalhada. Esse diabo do Polyte...

A diligência foi atrelada a um pangaré branco. O animal de lábios rosados por causa da velhice foi a passo. O sol alegre da França cercou o veículo protegido do mundo por uma capota desbotada. Um rapaz e uma moça; eles não precisavam de música...

Raissa estendeu-me a taça. Era a quinta.

– Mon vieux, a Maupassant...

– Que tal nos divertirmos hoje, ma belle...?

Eu me estiquei para Raissa e beijei seus lábios. Eles ficaram trêmulos e inchados.

– O senhor é divertido — murmurou Raíssa entre lábios e recuou.

Ela se encostou na parede, com os braços nus estirados. Pintas brilharam em seus braços e ombros. De todos os deuses crucificados, esse era o mais sedutor.

– Tenha a bondade de sentar-se, monsieur Polyte...

Ela me indicou uma poltrona azul reclinada, feita ao estilo eslavo. Seu encosto era um entrelaçamento de madeira esculpida com pontas pintadas. Caminhei até lá, tropeçando.

A noite pôs diante da minha juventude faminta uma garrafa de moscatel de mil oitocentos oitenta e três e vinte e nove livros, vinte e nove petardos recheados de piedade, espírito, paixão... Eu dei um salto, derrubei a mesa, esbarrei na estante.

Os vinte e nove volumes desabaram sobre o tapete; suas páginas se espalharam, eles ficaram virados... e o pangaré branco do meu destino foi a passo.

– O senhor é divertido — rugiu Raíssa.

Saí da casa de granito no Moika depois das onze horas, antes que as irmãs e o marido voltassem do teatro. Eu estava sóbrio e poderia andar sobre uma tábua, mas era bem melhor cambalear; e eu balançava de um lado para outro, cantando numa língua inventada só por mim. Nos tuneis das ruas contornadas por uma cadeia de lampiões, os vapores da neblina vagavam em ondas. Monstros urravam atrás das paredes em ebulição As calçadas decepavam as pernas que seguiam por elas.

Em casa, dormia Kazántsev. Dormia sentado, com as pernas magras esticadas em botas de feltro. Adormecera junto ao fogão, inclinado sobre o Dom Quixote, uma edição de 1624. No titulo desse livro havia um: dedicatória ao duque de Broglio.

Eu me deitei em silêncio para não acordar Kazántsev, aproximei a lâmpada e comecei a ler o livro de Édouard de Maynial, "Sobre a vida e a obra de Guy de Maupassant".

Os lábios de Kazántsev se mexiam, sua cabeça pendia.

E naquela noite eu soube por Edouard de Maynial que Maupassant nascera em 1850, filho de um fidalgo da Normandia e de Laure de Poittevin, prima de Flaubert. Aos vinte anos teve seu primeiro ataque de sífilis hereditária. A criatividade e o entusiasmo que tinha em si resistiram a doença. No inicio sofreu dores de cabeça e acessos de hipocondria. Depois o fantasma da cegueira apareceu diante dele. Sua vista enfraqueceu. Ele desenvolveu uma mania de desconfiança, insociabilidade e trapaça. Lutou furiosamente, desvairou-se pelo Mar Mediterrâneo, foi a Túnis, ao Marrocos e a África Central; e escrevia sem cessar. Depois de alcançar a fama, cortou a garganta aos quarenta anos de idade, esvaiu-se em sangue, mas ficou vivo. Foi internado num hospício. Ali ele andava engatinhando... O ultimo relatório em sua triste ficha diz:

“Monsieur de Maupassant va s’animaliser.” (“O senhor Maupassant transformou-se num animal.”) Ele morreu aos quarenta e dois anos. Sua mãe sobreviveu a ele.

Li o livro ate o fim e levantei da cama. A nevoa se aproximou da janela e cobriu o mundo. Meu coração ficou apertado. Um pressagio da verdade me roçou.
Isaac Babel

O relógio

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

Mario Quintana

Requerimento

Ao Sr. Chefe de Polícia de Niterói

Exmo. Sr.

O abaixo assinado, cidadão brasileiro, maior, vacinado, amigo da ditadura e profundo admirador de todos os próceres revolucionários, achando-se, portanto, em pleno gozo dos seus direitos políticos, pede licença, vênia e permissão para dirigir-lhe a seguinte exposição:

Fui procurado, há dois dias, por uma comissão de conceituados cachorros da nossa praça, dois “lulus” e dois “fox terriers”, que, apresentando-me um recorte de jornal, me pediram que o lesse, num dos seus parágrafos. O recorte continha as instruções baixadas por V. S. a respeito das praias balneárias da capital fluminense, e nelas, entre outras proibições, V. S. declarava, no 6º item: “Só é permitido o banho de cães e outros animais de 11 às 16 horas nos dias úteis, e de 13 às 15 horas nos domingos e feriados”.

Ora, exmo. Sr. Chefe de Polícia, a honrada comissão canina que me procurou e me delegou poderes para servir de intérprete diante de V. S. não pode, em absoluto, concordar com a exigência descabida e arbitrária com que V. S. está ameaçando os indefesos cães da leal cidade de Niterói, que se acham, agora, devido àquelas instruções, coagidos na sua liberdade física e impedidos de tomar o seu banho à hora que bem lhes aprouver.

Disse que o ato de V. S. é arbitrário e exorbitante. Passarei a prová-lo.

É doutrina assente entre os maiores jurisconsultos que o mar tem a qualidade de coisa comum (“res communis omnium”), não podendo, portanto, ser propriedade de ninguém. Desde que, em épocas remotas, se derrubou a tese medieval do “mare clausum”, ficou claro, nos textos jurídicos, que o Estado pode, “jure civili”, apropriar-se, e exercer soberania, sobre uma parte do mar, em casos de exigências de navegação ou de repressão a piratarias. Isso quanto ao mar alto. Quanto, porém, à parte marginal, os textos romanos fazem concessões de direito privativo apenas em dois casos: quanto ao direito de pesca (“locationes piscatus”) e quando o proprietário marginal executa obras em que se faz mister o aproveitamento do mar (“jus proprium”).

Ora, exmo. Sr. Chefe de Polícia, nenhum desses é o nosso caso. Logo, a polícia não tem, sobre o mar das praias de Niterói, direito privativo, podendo, apenas, exercer sobre ele “protectionem” e “jurisdictionem”.

Dir-me-á V. S. que é isso exatamente o que a polícia está praticando… Responder-lhe-ei, todavia, que V. S., ainda assim, continua exorbitando, pois, como V. S. não deve ignorar, por tratar-se de doutrina assente e irrefutável, “a toda obrigação corresponde um direito”.

Ora, o Estado, que exige obrigações dos cachorros, concede-lhes, porventura, direitos?

Não. Tanto não os concede que, quando qualquer pessoa, física ou jurídica, se encontra completa-mente desamparada e perseguida, assegura que leva uma “vida de cachorro”. Com isto, dá-se a entender, clara e insofismavelmente, que o Estado não ampara os cachorros, nem lhes concede direitos; ao contrário, persegue-os implacavelmente, com “carrocinhas” em que se aboletam soldados de armas embaladas, dando, assim, ao seu ato de extermínio, um aparato bélico absolutamente assustador! E, quando um cachorrinho, por acaso, é colhido por um bonde da Light, os seus parentes têm o direito de propor uma ação de indenização? Não têm. O Estado não se preocupa com eles, a não ser para laçá-los nas ruas ou nos jardins, levá-los para o Depósito Público e lá conservá-los como reféns por dois ou três dias, exigindo de seus donos, para a sua liberdade, a quantia de setenta mil-réis, sem o que os desgraçados serão mortos, ou melhor, matados sumariamente, sem apelo nem agravo.

Vê, pois, o Exmo. Sr. Chefe de Polícia de Niterói que há nisso tudo apenas uma violência a que os honrados cachorros fluminenses não podem submeter-se. Se “a toda obrigação corresponde um direito”, como quer o Estado impor aquela sem conceder este? Se os cachorros não têm nem sequer o direito de locomoção — porque a carrocinha os apanha fatalmente —, como quer exigir deles a obrigação de tomarem seus banhos de mar em horas determinadas?

A comissão canina que me procurou está disposta a reagir energicamente contra o ato arbitrário de V. S. arrogando-se um direito privativo (“proprium jus”) de uma coisa que, como o mar, pertence a todo o mundo, quero dizer, é “res communis omnium”. E, Sr. Chefe de Polícia, posso adiantar-lhe que a classe canina está organizando uma “frente única”, na qual entrarão lulus, podengos, mastins, filas, molossos, terriers, policiais, collies, dinamarqueses, pequineses, buldogues, vira-latas etc., com o firme propósito de irem às praias de Niterói e tomarem banho à hora em que entenderem fazê-lo, dispostos a reagir niponicamente contra qualquer tentativa de repressão.

Eis aí, Sr. Chefe de Polícia, o pensamento da comissão canina que me procurou. Se eu, simples intérprete, pudesse dar-lhe um conselho, dir-lhe-ia apenas: revogue o seu ato injusto. Se, contudo, V. S. persistir em mantê-lo, só me cabe dizer-lhe: ponha as suas pernas no seguro, porque V. S. nada poderá fazer contra essa avalanche cachorral; nem sequer prendê-la.

Porque — lá diz a sabedoria popular — cadeia não foi feita para cachorro.

Belmonte (Benedito Carneiro Bastos Barreto, 1896 - 1947), “O mundo pelo avesso”

O terror

E havia luz demais para seus olhos. De repente um repuxão; ajeitavam-no, mas ele não sabia: só tinha mesmo era o terror de rostos inclinados para o seu. E ele não sabia de nada. E não podia se mexer livremente. As vozes que para ele eram trovões, só uma voz era cantante: ele se banhava nela. Mas logo em seguida era depositado e vinha o terror e ele gritava entre as grades e viu cores que depois ele entendeu que eram azuis. O azul o molestava e ele chorava. E o terror das cólicas. Abriam-lhe a boca e depositavam coisas ruins na boca, ele engolia.

Quando era a voz cantante que lhe dava coisas ruins, ele suportava melhor. Mas era logo depositado entre as grades. Sombras gigantescas rodeavam-no. E então ele gritava. A mínima luz de tudo isso é que ele acabara de nascer. Tinha cinco dias de nascido.

Depois de mais velho ouviu sem entender: “Este menino já não dá trabalho mas quando nasceu dava choros e urros. Agora felizmente é mais fácil de criá-lo.” Não, não era fácil, nunca seria fácil. O nascimento era a morte de um ser uno se dividindo em dois solitários. Agora parecia fácil porque ele aprendera a manejar o seu terror secreto que duraria até a morte. Terror de estar na terra, como uma saudade do céu.

Clarice Lispector, "Todas as crônicas"

segunda-feira, outubro 5

Reciclagem

 


O Diabo que assoviava

O problema com essas histórias todas é que é tudo offzirrécorde, como se diz atualmente. Quer dizer, quem diz não escreve e quem escreve não assina. Não tolero isso. Pode estar muito na moda, mas não me convence. Eu, você pode escrever aí: foi eu que disse. O resto de quem sabe, não querendo confirmar, não confirme. Escreva aí, sem o offzirrécorde. O camarada tem medo de dizerem que ele é colhudeiro, a verdade é o sol e ele é a lua, essas coisas. Comigo não, escreva. O diabo Beremoalbo, muitas pessoas estiveram pessoalmente com ele - posso citar diversas, aliás não cito nada, hoje em dia o sujeito cita e, quando está bem do seu, já virou alcaguete, pode deixar - o diabo Beremoalbo era um diabão altamente escroto, dos piores que já apareceram por aqui, inclusive fazia as desgraças dele e dava grandes gaitadas, espécie de curriúque-curriúque, só que com aquele bafo de diabo, absolutamente diferentíssimo. Ele chegava na porta das pessoas explodindo fortemente as letras que movimentam os beiços:

— Boa noite. Meu nome é Beremoalbo.

E aí podia se resignar, que seguia uma escrotidão em cima da outra, encarreirado. Leite azedando, mulher abortando, menino de caganeira, boi de bicheira, água podre no purrão, panarício no dedão, moça velha desonrada, casa nova destelhada, tudo o que possa lhe ocorrer. O bicho tinha uma voz péssima, mestiça de gruta, uma coisa horrível de se ouvir assim no meio da noite — meu nome é Beremoalbo —, imagine o senhor. Pessoas há que procuram achar qualidades nesse diabo Beremoalbo, mas a verdade precisa ser dita, porque não existe coisa ruim neste mundo que não apareça algum descarado para elogiar: nesse Beremoalbo não tem nada que se salve, não se pode ter a mínima confiança nele. Para não dizer mais nada, recordo o dia em que seu Beremoalbo se nos aparece por meio do serviço de alto-falantes. O que ele diz é o seguinte:

— Boa noite. Ao microfone, Beremoalbo. Votem no Medebê.

Agora o senhor veja que conselho porreta que ele achou de dar. Interessante. Com certeza é a mãe dele, se diabo tivesse mãe, que vai ficar aqui aguardando quatro anos sem nem o secretário da Justiça, que é o mais esculhambado de todos, aparecer por aqui, mordamos aqui para vermos se sairmos leite, ora me deixe. Acredito ser isto suficiente para saber de quem se trata Beremoalbo.

Entretanto, Beremoalbo está longe de ser o único da raça do cão a frequentar por aqui, aliás, é exatamente de um caso desses que eu quero tratar, mais tarde lhe falo, logo, logo. Tem gente que nega, mas, quando o senhor virar as costas, vão se benzer e espalhar alho pelos cantos da casa, só que Beremoalbo come alho, com ele o negócio é difícil. Tem gente que nega, mas só de fingimento, pois a verdade é que esse pessoal todo vai se lembrar se o senhor chegar para eles e mencionar alguns dos seguintes cães: Balganoel, o espalha-merda; Virifinário, o que conseguiu fazer aparecer mais cornos nesta terra do que se pode contar; o diabão Jugurta, que convencia todo mundo a dizer a verdade e assim causou toda apresentação de fatos maus que a gente seria feliz se não soubesse; Harpagelão, que meteu na cabeça de diversos padres de ir na terra de uns índios mais do que degenerados, os quais comeram Roquiféler - uns índios que comeram Roquiféler, vai se brincar com um povo desses? - e igualmente que os índios comeram os padres e nem pensaram duas vezes, que quando índio pensa meia vez pensa muito; Rolvinésio, o que botava para falar e, botando gente para falar, causou grande número de misérias; Erundino, que peidava nos ambientes e provocava inimizades; Raimundo Humberto, dador de bofetadas estraladas, levantador de saias de mulheres, assoprador de ventos maus de toda consequência, causador de dor de ouvidos, mandador de moscas na hora do sono, broxador de amantes, atiçador de crianças insuportáveis e tudo mais que faça nós o Homem que possamos dirigir blasfêmias ao Nosso Criador - mas esse Raimundo Humberto, o senhor tem de concordar que um diabo chamado Raimundo Humberto nunca que pode ser a mesma coisa de um diabo atendendo por Beremoalbo, então seu Raimundo Humberto se fazia passar, a quantos coubesse a desgraça de topar com ele, por Ascaltenor, mas esse já é outro diabo, que não atenta aqui.

Pode o senhor assim consultar a nossa praça e perceber o que quiser. Porque cada um percebe o que quer, apesar de todo o offzirrécorde. Embora não perceber certas coisas já pareça descaração, mas manda a caridade que se deixe isso de lado. Nunca me esqueço de que uns americanos estiveram aqui e filmaram o povo todo - sem porém pagar um tostão a ninguém, como eles pagam por exemplo a Tarzan, claro que ninguém aqui é Tarzan, mas também é filhos de Deus - e, quando notaram que a maior parte só trabalha quando está com fome, disseram que todo mundo aqui somos uma sociedade rica. E ainda sustentaram e botaram na rádio. Quer dizer, quanto mais a gente estiver morando no oco dos pés de pau e cagando nos matos, mais eles estão gostando. Americano é mais sabido até do que paulista. Estamos de olho neles todos. O diabo Gildélio, conforme o senhor sabe, do contrário não estava perguntando a respeito dele, era mais especial do que esses outros, isto porque, de acordo com todas as testemunhas, trazia sempre franzido o sobrolho e a cara ensombreada, por isso que não suportava ser diabo. Se bem que nessa eu não creio assim cem por cento, porque cansei de ver ele sair da bodega de Ernestino com cada lasca de jabá deste tamanho na mão, que ele roubava, provocando com isso peixeiradas e tentativas de Ernestino contra qualquer pessoa que apresentasse cara de haver comido jabá naqueles dias, notadamente jabá crua. Eu mesmo estive acusado falsamente. Quer dizer, são umas coisas que fazem a pessoa alimentar certas dúvidas.

No entanto, de relação aos assovios, posso muitíssimo bem prestar depoimento, isto porque todos nesta cidade sabem que um certo tipo de assovio, antes muito ouvido por aqui, podia contar como uma espécie de aviso, porque lá vinha miséria. Acúrcio mesmo, depois que ele já tinha metido no juízo de Acúrcio casar com Isabel Rosália e morar com a mãe lá dela, dona Aurora, que só não se podia chamar de jararaca porque a jararaca tem a natureza mais cortês. Por aí o senhor tira a natureza de dona Aurora. Pois Acúrcio garante que, na hora do pedido de casamento, ele ouviu aquele assoviozinho como que de curió, assim no pé do ouvido bem lá dele. A consciência cochichou: atenção nos assobeios, que possa ser Gildélio. Mas aí é que está o particularismo da situação. Na hora, o sujeito não dá importância ao assovio, de forma que a desgraça fica feita. A mesma coisa pode ser dita dúzias e dúzias de vezes, como no caso de Genival, esse mesmo que o senhor está pensando, que vem ouvindo esses assovios toda vez que se candidata, desde vereador aqui até prefeito, deputado, vai a senador — quer dizer, chegando em todas as alturas políticas, não tem quem salve ele do inferno. Como no caso de Totonho, para mim ele continua a ser Totonho, lá fora é que chamam de doutor, doutor para mim é ourinol, não vou chamar de doutor um moleque daquele, que eu vi o pai muitas vezes passando cabresto em jegue alheio nos pastos, ora me deixe. O caso dele é que hoje, de grau em grau, é dono de altos bancos e altíssimas fábricas e é empregador — que ele chama empregador e não gosta que chamem de patrão, por causa do natural acanhamento — de diversas pessoas, porém sempre ele ouvindo o assovio de Gildélio, quanto mais dinheiro ele vai ganhando. Tem uns dinheiros de viúvas que ele também arrecada e escreve numa caderneta e esses incrementam muitíssimo a assoviação. Deixe ele.
Fala-se em Gildélio também, quando, por uma razão ou por outra, a pessoa se engana com alguém e pega esse alguém com a boca na botija em alguma desgraceira contra si, isto porque, segundo se diz, seu Gildélio me comete as piores safadezas por entre os disfarces mais descarados e as mais altas finuras. O sujeito pega ele armando uma sacanagem e ele faz o seguinte discurso:

— Creia, meu senhor, neste mundo é muito fácil condenar e ainda mais fácil ignorar. O senhor me compreenda, eu sou diabo, é uma fatalidade, o que é que se pode fazer? Alguém tem que ser diabo, havemos de convir. Vamos compreender. Não se condena pela profissão, sem conhecer o caráter. Se eu fosse anjo, está certo. Mas eu não sou. De forma que só posso fazer esse tipo de coisa, o senhor por fineza queira relevar. Posso garantir que, se o senhor fosse diabo, estava na mesma situação, firuri-firuri.

Bom consolo, pode o senhor dizer e, de fato, nada disso ia impedir que a desgraceira fosse feita. Pelo contrário, acho que nisso vai a demonstração de que Gildélio pode ser o exemplo de todos os diabos, pois devia ser verdade conhecida que nenhum assovio ou até apito de trem vai desviar o homem de seu mau destino. De maneira que podemos considerar esses assovios na qualidade de deboche, mesmo porque a situação aqui é de molde que, se o urubu de baixo está cagando no de cima, isso se descreve como boas notícias. É assim que vemos as coisas pretas, Deus é grande. Aliás, podia chegar uma banda de assoviadores que nada se alterava, pois desde que este mundo é mundo que existe um assoviador, sem que ninguém devote a ele preocupação, porventura senão um maestro ou outro, para lhe comunicar que o seu dó maior enganchou no si bemol.

Não sei de nada, até nem sou daqui e, mesmo que fosse, não estava aqui e, mesmo que estivesse, não falava nada. Estou ficando nos paraxismos, a culpa é sua, que me deu álcool. Estou sabendo apenas que esse diabo tanto atanazou a vida do meu compadre Tito Procópio que esse compadre, ouvindo embora os assovios, fez mais filhos do que devia a consciência consentir, pois afirmava Tito Procópio que o filho era a riqueza do pobre, convencimento este assoprado pelo Gildélio mencionado. Sendo que Gildélio, que tinha se provado amigo da família, tudo bem disfarçadinho, mostrou que não ter filhos ia ser bem pior. Além de ser maldição, exibia aos vizinhos gala fraca ou mulher maninha e, mais do que importante, podia ser - estou dizendo assim: sempre podia ser, às vezes possa ser até que não podia ser, que eu não sou comunista - podia ser que, sem mais gente para ajudar na produção, podia ser que eles não pudessem mais ficar ali, naquelas terras que não eram deles. Considerado isso, lembre que tanto faz nascer como não nascer, que a comida não aumenta, mas a produção pode aumentar. E tal e coisa. E só os assovios. Pois então Tito Procópio foi tendo filhos, juntamente com despesas de enterros diversos, muito embora tenha feito muitos que viviam ali mesmo, comendo o barrinho deles e esfregando as barriguinhas d'água deles e dois ou três quem sabe se não pode vir a ser até peão, se forte?

Terminou, naturalmente, que Tito Procópio desmascarou Gildélio e se preparou para envergonhar esse diabo, quando ele então começou com a história de que culpa ele tinha se ele era diabo. Mas logo eu, disse Tito Procópio, logo eu, que sou pobre e nada possuo nesse mundo? Podendo vosmecê ir infernar quem por aí explora e torpedeia?

É por isso mesmo, disse o diabo Gildélio, olhando para os meninos amarelos com seus olhos maus e dando um sorriso horrível como só o diabo pode dar, o sorriso mais feio do mundo. E ele sorri porque sabe que não pode obrar coisa pior do que fazer nascer. Pelo menos nascer por aqui.
João Ubaldo Ribeiro

E de súbito um sino

Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras:
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra.
Teu génio.

E o teu silêncio
é de súbito um sino
tocado pelo vento
em todas as aldeias do meu sangue.

Porque tudo começa onde começas
porque tudo se chama o nome do teu nome
porque tudo se escreve com a tua história.

Porque tu estás em tudo o que circula
e tudo tem o preço do teu sangue.
Porque tu moves com teus ombros as cidades
tocaste a pedra e a pedra fez-se casa
tocaste o bosque e o bosque fez-se barco.

Porque um país tem o tamanho dos seus homens
e o meu país tem o teu tamanho e nada mais.
Porque nada é tão grande como as tuas mãos:
oitenta e nove mil quilómetros quadrados.
O céu e o mar. E todos os navios.
E todos os poemas.
Manuel Alegre. "O Canto e as Armas"

A caixa de laranjada

Deixei a roça sem saudades. A saudade vem com a velhice. Não sofri com a mudança. Como disse Caeiro, “as crianças são de novo nascidas a cada momento para a eterna novidade do mundo”. Tudo era novidade. Não me importava que a casa para onde nos mudamos fosse do tamanho de uma caixa de fósforos. Eu não sabia que ela era do tamanho de uma caixa de fósforos. O que me importava era o fato de minha casa se encontrar atrás de um Castelo Encantado. Lá estava ele, no alto da colina, enorme, fechado, misterioso. Dos pátios vazios que o circundavam, olhando-se para baixo se via um lago azul imenso, coisa que eu desconhecia porque na roça eu só conhecera riachinhos e lagoinhas. E havia marrequinhos a nadar...

Depois de grande pensei que não havia razões objetivas para nos termos mudado para Lambari. Meu pai era agora viajante, precisava de trens, e o mais lógico teria sido Três Corações, entroncamento ferroviário. Por que ele escolheu Lambari? Acho que foi por causa do Castelo Encantado... Ele me levou a visitar o Castelo por dentro, graças à amizade que fizera com o guarda. Eram salas imensas, empoeiradas, silenciosas, escuras, os móveis cobertos com lençóis, lustres de cristal, mesas de veludos vermelhos e verdes. Tudo parecia dormir. Eu estava no Castelo Bela Adormecida...

Mais tarde me explicaram, e com a explicação o Castelo deixou de ser Castelo. Foi-se o mistério. Virou um cassino. O assombroso desse cassino é que ele teve uma noite de glória, uma única noite de glória. Foi fechado por ordens superiores no dia seguinte ao de sua inauguração, sem explicações, e nunca mais foi aberto.

O tempo realizou o seu trabalho de desencantamento. Hoje nele funcionam repartições da prefeitura. As riquezas antigas desapareceram. Parece que foram saqueadas. Agora ele está reduzido à banalidade de um prédio onde funcionam repartições burocráticas. Visitei-o sob sua nova forma. O lago é o mesmo. Os marrecos continuam a nadar. Observei os funcionários. Eles não sabem que estão andando num espaço onde, em tempos esquecidos, viveram reis e donzelas. Agora, na lanchonete, se serve um cafezinho com pães de queijo...

Cheguei e percebi que acabara de entrar num mundo diferente daquele em que eu vivera. Mas o desconhecido não me amedrontava. Ao contrário. Dava-me uma alegre sensação de liberdade. Lá não havia nem onças nem meninos abandonados dentro da mata. Tive uma cadela que, quando novinha, de repente, sem nenhuma razão especial, se punha a correr e a saltar como doida, em círculos, pela própria alegria de viver. E eu me vejo, menino de seis anos, como a minha cadelinha, correndo de alegria, sem nenhuma razão, entrando pela porta da frente da casa, atravessando alpendre, a sala, saindo pela porta da cozinha, voltando para a frente da casa, para fazer tudo de novo, em círculos...

As evidências da novidade do mundo eram claras. A primeira era a maravilha das lâmpadas elétricas que pendiam do teto ao fim de um fio coberto de cocôs de moscas. Mas que são cocôs de moscas diante do assombro? Bastava girar uma orelha no bocal para que a lâmpada acendesse! Adeus, lamparinas! Adeus, cheiro de querosene! Adeus, fuligem negra! Na roça o mundo e a vida eram misteriosos.

Mas não os objetos. Bastava olhar para compreender como eram feitos e como funcionavam. Uma lamparina, nada mais simples: um recipiente de vidro ou lata, querosene, pavio, fogo, luz. Era fácil fazer uma lamparina. Mas a lâmpada elétrica pertencia a um novo mundo, onde os objetos eram opacos. Como são feitas as lâmpadas? Como acontece o milagre da luz? Que coisa é essa chamada eletricidade que ninguém vê, que faz a lâmpada acender e que dá choque quando se toca nela, invisível?

A outra evidência era a privada. Bastava puxar uma cordinha para que acontecesse uma descarga de água que fazia desaparecer os cocôs...

Não tínhamos móveis. Mas o meu pai dava um jeito. Foi a um armazém, arranjou um caixote grande de madeira, trouxe-o para casa, tirou uma porta das dobradiças, pregou a porta sobre o caixote — e eis a nossa mesa! Infelizmente a mesa apresentava um problema devido à sua construção: ela funcionava como uma gangorra. Quem estivesse assentado à cabeceira, se se apoiasse sobre a mesa, corria o risco de receber uma terrina de feijão na testa. Guarda-roupas, nem pensar. Meu pai não se perturbou. Juntou uns cabos de vassoura abandonados, fez buracos nos ângulos das paredes e neles encaixou os cabos de vassoura que, assim, se transformaram nos nossos guarda-roupas, onde pendurávamos os cabides. Muito pouco, mas o suficiente para as poucas roupas que tínhamos.

Um dia o pai, viajante, chegou de uma de suas viagens com uma surpresa alegre. Como já disse, ele vendia de tudo. E também caixas de doces de frutas em pasta: goiabada, pessegada, marmelada, laranjada. Pois uma caixa de doce de laranja de cinco quilos ficara encalhada e assim ele a trazia como presente. Foi uma felicidade! Comeríamos sobremesa! No primeiro dia foi uma festa. Também no segundo, no terceiro e no quarto. Acontece, porém, que cinco quilos de doce de laranja é muito... Por mais que comêssemos, a laranjada não diminuía de tamanho. Transcorridas duas semanas, já não podíamos ver a caixa, que voltava sempre para a mesa. E, sendo pobres, não podíamos nos entregar ao luxo de jogá-la fora. A laranjada, de alegria se transformou em tortura. Levou muito tempo para que terminasse. Terminou. Mas o trauma ficou.
Rubem Alves, "O Velho que Acordou Menino"

Rústico

Ao virar a cabeça sobre o lado direito para dormir o último, breve e leve sono da manhã, dom Fulgêncio teve que fazer um grande esforço e chifrou o travesseiro. Abriu os olhos. O que até então foi uma ligeira suspeita, virou certeza pontiaguda.

Com um poderoso movimento do pescoço dom Fulgêncio levantou a cabeça, e o travesseiro voou pelos ares. Em frente ao espelho, não pôde ocultar sua admiração, convertido em um soberbo exemplar de touro com a nuca encaracolada e esplêndidas aspas. Profundamente inseridos na testa, os chifres eram embranquecidos na sua base, marmorizados na metade e de um preto acentuado nos extremos.


A primeira coisa que ocorreu a dom Fulgêncio foi experimentar o chapéu. Contrariado, teve que jogá-lo para trás: isso lhe dava certo ar de fanfarrão.

Como ter chifres não é uma razão suficiente para que um homem metódico interrompa o curso de suas ações, dom Fulgêncio começou a tarefa de seu cuidado pessoal com os ornamentos, com minucioso esmero, dos pés à cabeça.

Depois de lustrar os sapatos, dom Fulgêncio escovou ligeiramente seus chifres, já por si só resplandecentes.

Sua mulher lhe serviu o café da manhã com tato refinado. Nem um só gesto de surpresa, nem a mais mínima alusão que pudesse ferir o marido nobre e audacioso. Apenas uma suave e receosa olhada por um instante, como se não se atrevesse a pousá-la nas afiadas pontas.

O beijo na porta foi como o dardo da divisa. E dom Fulgêncio saiu para a rua escoiceando, disposto a lançar-se contra sua nova vida. As pessoas o cumprimentavam como de costume; mas ao dar-lhe passagem na calçada, um jovenzinho, dom Fulgêncio percebeu um giro cheio de gestos de toureiro. E uma velha que voltava da missa deu-lhe uma dessas olhadas estupendas, maliciosa e desdobrada como uma comprida serpentina. Quando o ofendido quis ir contra ela, a danada entrou em sua casa como o matador de touros detrás da barreira na tourada. Dom Fulgêncio deu um golpe contra a porta, fechada imediatamente, que lhe fez ver estrelas. Longe de ser uma aparência, os chifres tinham que ver com a última derivação de seu esqueleto. Sentiu o choque e a humilhação até a ponta dos pés.

Por sorte a profissão de dom Fulgêncio não sofreu nenhuma desonra nem decadência. Os clientes o procuravam entusiasmados, porque sua agressividade se fazia cada vez mais patente no ataque e na defesa. De terras distantes vinham os litigantes para buscar patrocínio de um advogado com chifres.

Mas a vida tranquila do povoado tomou ao seu redor um ritmo sufocante de tourada, cheia de brigas e confusões. E dom Fulgêncio embesta a torto e a direito, contra todos, por qualquer coisa sem importância. Para dizer a verdade, ninguém lhe jogava os chifres na cara, ninguém sequer os via. Mas todos aproveitavam a menor distração para lhe pôr um bom par de bandarilhas; no mínimo, os mais tímidos se conformavam em fazer uns burlescos e floridos movimentos de cintura.

Alguns cavalheiros de estirpe medieval não desdenhavam a ocasião de dar em dom Fulgêncio uma boa espetada, desde suas convencidas e honoráveis alturas. As serenatas do domingo e as festas nacionais davam motivo para improvisar ruidosas brincadeiras populares com a capa à base de dom Fulgêncio, que investia cego de ira, contra os mais atrevidos toureiros.

Enojado de lances de capa e passos de toureiro, constrangido com insolências, grosserias e humilhações, dom Fulgêncio chegou à hora da verdade muito ressabiado e perigosamente derrotado; convertido em uma besta feroz. Já não o convidavam para nenhuma festa nem cerimônia pública, e sua mulher se queixava amargamente do isolamento em que a fazia viver o mau caráter de seu marido.

À força de espetadas, agulhas e farpas, dom Fulgêncio desfrutava sangrias cotidianas e pomposas hemorragias dominicais. Mas todos os derramamentos lhe iam até dentro, até o coração inchado de rancor.

Seu grosso pescoço de Miúra fazia pressentir o instantâneo fim dos pletóricos. Rechonchudo e sanguíneo, seguia embestando em todas as direções, incapaz de repouso e dieta. E em um dia que cruzava a Plaza de Armas, trotando para a sua casa, dom Fulgêncio se deteve e levantou aturdido a cabeça, ao toque de um longínquo clarim. O som se aproximava, entrando em suas orelhas como uma tromba ensurdecedora. Com os olhos nublados, viu abrir-se ao seu redor uma praça de touros gigantesca; algo assim como um Vale de Josafat cheio de pessoas com trajes de toureiros. A congestão se fundiu logo em sua espinha dorsal, como uma estocada até a cruz. E dom Fulgêncio rodou patas para cima sem punhal.

Apesar de sua profissão, o notório advogado deixou seu testamento no rascunho. Ali expressava, em um surpreendente tom de súplica, a vontade póstuma de que ao morrer lhe tirassem os chifres, fosse à serra, cinzel ou martelo. Mas seu comovedor pedido se viu traído pela diligência de um carpinteiro oficioso, que lhe fez de presente um ataúde especial, provido de dois vistosos acréscimos laterais.

Todo o povoado acompanhou dom Fulgêncio até o cemitério, comovido pela lembrança de sua bravura. E apesar do auge de luto das oferendas, as exéquias e os trajes da viúva, o enterro teve um não sei que de jovial e risonha farsa.
Juan Jose Arreola

sábado, outubro 3

É preciso recarga

 


Saber ouvir a voz do Destino

Julinha acreditava em destino. E acreditava com tanto fervor que, para respeitar um de seus direitos de personagem, refaço a frase e digo que ela acreditava no Destino (assim, com maiúscula). Tinha tanta reverência pelo Destino que o confundia com Deus. Houve um tempo em que ela via a teia do Destino em todos os acontecimentos do seu dia a dia, mesmo os mais insignificantes: pegar ou perder o ônibus das sete, chegar ou não chegar dez minutos atrasada ao trabalho, conseguir ou não marcar as férias para janeiro.

Depois, concluiu que a intervenção do Destino não podia se dar nesse nível do faz-frio-ou-calor, do chove-ou-deixa-de-chover. E, por atribuir tão importante papel ao Destino, ela se pôs a esperar que ele a recompensasse. Não pedia muito: um emprego melhor e um amor que merecesse o nome.

Trabalhava fazia dois anos na lojinha e, apesar das contínuas promessas de promoção, continuava na mesma. Quando falava com o dono, ele dizia que a loja ia mal, como se Julinha não visse que das oito às dezoito os fregueses formigavam ali, tanto que outra garota havia sido contratada para ajudar.

Esse não era o maior desgosto de Julinha. Poderia suportá-lo, se, ao sair do trabalho, triturada de cansaço, tivesse alguém que a levasse ao cinema, ou ao shopping, ou ao restaurante, e lhe dissesse Julinha eu te amo. Não faltava quem se dispusesse a fazer isso, e até mais. Toda semana, dois ou três se candidatavam. Mas nenhum vinha recomendado pelo Destino. Se viesse, Julinha saberia reconhecer os sinais.

Certa manhã, Julinha viu no balcão um jornal aberto nos classificados. Um freguês devia tê-lo esquecido ali. Quando ela leu o anúncio que estava no alto da página, sentiu que era um recado do Destino. Uma grande loja precisava de uma balconista e oferecia um salário cinco vezes superior ao dela. Julinha não pensou duas vezes. Eram nove horas e, se ela hesitasse, perderia a oportunidade. Pôs a mão na cabeça e começou a gemer. A outra garota disse ao dono da loja que Julinha estava passando mal. Julinha pediu licença para ir à farmácia. Saiu já sabendo que jamais voltaria a trabalhar lá. O Destino já havia escrito a sequência da história.

Andou dois quarteirões, pegou um ônibus e meia hora depois estava na grande loja, pondo numa ficha suas qualificações. O rapaz incumbido de orientar as candidatas piscou para ela e disse, baixo, que ela era muito bonita, sabia? Não havia mais dúvida. Era o Destino, atendendo de uma só vez os dois pedidos de Julinha.

O rapaz, ao pedir que Julinha voltasse às seis da tarde, para saber a resposta, piscou de novo. Ela foi à lojinha e pediu as contas.

O dono não mostrou surpresa e disse que aquilo era até bom. Podia, assim, promover a outra garota, que já estava merecendo. E a garota abriu para Julinha um sorriso estranho.

Julinha foi para casa, almoçou e dormiu até as três. Depois, tomou um banho bem longo, vestiu a melhor roupa e saiu. Chegou à loja cinco minutos antes das seis. O rapaz a recebeu com a terceira piscada do dia e pediu que ela esperasse um pouco. Às seis, todos foram saindo. Ele saiu também, com ela.

“Bom, fui aprovada?”, ela perguntou.

“Aconteceu um problema. O gerente deu o lugar para uma prima.”

Ela quase disse que aquilo era impossível, que o Destino não se enganaria assim, mas o rapaz já a estava fazendo entrar num carro, no estacionamento do prédio. Bom, ela pensou, se não se pode ter tudo, que se tenha pelo menos o amor.

O rapaz ligou o carro, deslizou a mão pela perna dela ao pôr a primeira marcha e disse:

“Olha, antes de qualquer coisa você precisa saber que eu sou casado e tenho três filhos.”

Alegrias da velhice

Até ficar velho, operação antigamente simples e natural, resumível na venerável sentença “quem não morre fica velho”, está se tornando cada vez mais complicado, a ponto de, receio eu, causar algumas crises de identidade nesse cada vez mais vasto contingente da população. Acho que vou sugerir a criação, nas faculdades de Filosofia, de um curso de epistemologia da velhice, porque a confusão, pelo menos entre os menos ilustrados, como eu, aumenta a cada dia. Talvez até os próprios geriatras se beneficiem desse estudo, porque tenho praticamente certeza de que, entre eles, há divergências sobre o conceito de “velho”.

A mim, confesso, já enche um pouco o saco esse negócio. Começou, se não me falham os rateantes neurônios, com essa conversa de terceira idade, inventada pelos americanos, que são muito bons de eufemismo, como testemunha a exemplar frase “lide com preconceito extremo”, que, dizem, a CIA usava quando ordenava um assassinato. Passou a não pegar bem chamar velho de velho mesmo e agora a velharada é agredida com designações tais como “boa idade”, “melhor idade”, “feliz idade” e outras qualificações ofensivas. E, dentro dessas categorias, já me contaram que há subcategorias. Ninguém mais é velho, fica até feio o sujeito hoje em dia dizer que é velho.

De minha parte, reivindico apenas alguns direitos, entre os quais devo ressaltar não ser obrigado a entrar na fila dos idosos dos bancos. Aliás, a não entrar em fila de idoso nenhum, a não ser que, na hora, o que raramente sucede, isso apresente alguma vantagem. Fila de banco é uma furada séria, porque não só alguns de nossa variegada turma ou são surdos ou requerem primeiros socorros se começam a lhes explicar o que significa “o sistema caiu”, por exemplo. Me contaram que, numa agência aqui do bairro, uma senhora teve um pitaco, porque pensou que isso queria dizer que o banco falira e suas economias de viúva tinham ido juntar-se à vaca no brejo.

Imagino que, pelo tom acima, talvez alguém entre vocês tenha antecipado que vou lembrar outra vez o que Jorge Amado, entre as incontáveis peças de sabedoria que me presenteou ao longo de nossa convivência de décadas, me disse a respeito da velhice. Aliás, vou dar um furo de reportagem — sou do tempo do furo de reportagem, espero ser cumprimentado pela direção do jornal. Jorge não me falou somente uma vez sobre a velhice, embora não fosse seu assunto favorito. Há muitas outras frases, mas não se destaca entre elas somente a que divulguei aqui: “Compadre, já me falaram muito das alegrias da velhice, mas ainda não me apresentaram a nenhuma.” Teve outra, saquem agora o tremendo furo: “Compadre, não importa o que lhe digam, a gente não aprende nada com a velhice; a única coisa que a gente aprende com a velhice é que velhice é uma merda.”

Entrevendo os setentinha a média distância, temo que, como tudo mais que o compadre me ensinou, isso tudo seja a impiedosíssima verdade. Pode ser que, a depender da categoria empregada, eu não seja velho (cartas sobre o que é ser velho, principalmente as escritas por velhos como eu, que vão dizer que a velhice está na mente etc. etc., para o editor, por caridade), mas, outro dia, não lembro onde, fui descer dois degraus do palco aonde havia antes subido e quatro jovens pressurosas me apararam as costas e me seguraram os cotovelos como se eu fosse um hipopótamo paraplégico tentando um salto ornamental. Eu talvez pareça um hipopótamo paraplégico, mas sou no máximo uma anta com artrite e ainda tenho lepidez bastante para descer um meio-fio com relativa confiança. (A velhice não está na mente, está nas juntas.)

Quanto ao aspecto didático da velhice, também parece confirmar-se o que me falou meu amigo. A vida pode ensinar alguma coisa e geralmente ensina, embora quase sempre a gente aprenda tarde demais — besteira, esse negócio de “nunca é tarde demais”, costuma ser tarde demais mesmo. Mas a velhice mesmo só ensina o que ele disse. Certo, talvez eu não seja velho o suficiente para esta confirmação, mas os indícios são claros. Calçar meias, para citar um caso, já me parece uma modalidade olímpica e nem me passa pela cabeça alcançar um centésimo do índice. Um dos meus joelhos volta e meia faz um barulho alarmante, dói uma besteirinha e depois volta ao silêncio enigmático com que minhas noites são atormentadas por visões de ossinhos se esfarelando, enquanto eu vou à banca de jornal. E por aí vai, o pudor me cala.

Mas Jorge não testemunhou o que hoje testemunho. As alegrias da velhice, afinal, não são meramente individuais. E não é que agora vejo o Brasil a transformar-se mesmo num grande canteiro de obras? Falam até que o Bolsa Família será gradualmente extinto, pois o governo vai chamar cada beneficiário e dar a ele um emprego. Claro, não há empregos nem para os que estão fora do BF, mas também não se pode querer tudo. E as coletividades que agora verão instalar-se a concórdia e a prosperidade, através dos Territórios da Cidadania? Até mesmo as eleições municipais, frequentemente causa de rancor e hostilidade, deverão ser bem mais tranquilas. E, finalmente, o Big Brother Brazil deixou de ocupar o primeiro lugar entre as contribuições do Brasil para o progresso da Humanidade neste século. Agora, através da visão e da generosidade do Nosso Guia, o Brasil deu um passo muito à frente de Orwell e até do BBB. Não disse ele que d. Dilma Rousseff é a mãe do PAC? O PAC não é o nascimento de um novo Brasil, para o povo e não para a Zelite? Então, além do Nosso Guia, temos a nossa Big Mother. Perfeito, até do ponto de vista psicanalítico. A única desvantagem sobre o BBB é que eles não deixam a gente ver o que eles fazem, mesmo entrando compulsoriamente para o pay-per-view.
João Ubaldo Ribeiro, "O rei da noite"

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade, "Sentimento do Mundo"

Carta da Herdade

Amigo longínquo e querido:

Apresento-lhe a charneca ao entardecer, a minha triste charneca donde nasceu a minha triste alma. Selvagem e rude, patética e trágica, tem a suprema graça, cheia de amargura, dos infinitamente tristes, a quem foi negada a doçura das lágrimas. É enorme e é simples; fala e escuta. O que eu lhe tenho ouvido! O que eu lhe tenho dito! Toda morena do sol, que a queima em verões sem fim, e como eu uma revoltada, sem gestos e sem gritos. Nesta hora do entardecer, toda ela palpita em misteriosas vibrações, toda ela é cor, vida, chama e alvoroço, contido e encadeado por uma secreta maldição!

Mas como ela é bonita, a minha charneca!

Borboletas azuis, minúsculas, tombam lá do alto como bocadinhos de céu. Outras roxas... as urzes, talvez, a que, por milagre, tivessem nascido asas. Os crepúsculos, nestas imensas extensões, são longos, longos; um êxtase que se prolonga e que chega a fatigar-nos. O sol constela o poente de pedrarias, e são uma maravilha os montes azulados de Espanha, brumas perdidas ao longe, vagas, aéreas, irreais.

A noite desce por fim, arrastada, luarenta, uma claridade que se confunde com o crepúsculo.

Voltam os homens do trabalho, volta o gado ao seu estábulo caiado como uma ermida. Ladram os cães, festivos, enchendo o silêncio de brados. Começa a cegarrega dos grilos. Cai no espaço, como gotas de água, o lamento dos sapos sequiosos.

Volto para o grande monte iluminado, lá ao fundo, lentamente, sem grande pressa de chegar. A noite envolve-me toda, anestesia-me, mãos pálidas e suaves que afagassem devagarinho um mendigo leproso. Sinto-me mais pura nesta pureza imensa, mais limpa, mais lavada de culpas do que se tivesse nascido agora.

O grande cão de guarda, o Morgado, caminha ao meu encontro, solene e grave, a dar-me as boas-noites como quem cumpre uma missão diplomática. Baloiça o farto penacho da cauda como uma pluma doirada. Há nos seus olhos, cor de tabaco loiro, ao fixar-me, qualquer coisa de humano, de compreensivo," de caricioso: a sua linda alma de cão que não sabe que tem alma. Numa amabilidade de bruto, roça-se por mim sem nenhuma piedade pelo meu vestido branco, onde as grandes patas desenham a carvão flores desgrenhadas em tragos futuristas, e o meu rosto tenta-o para um beijo amigo que — ingrata! — resolvo desdenhar, sem explicações supérfluas. Não se aproxima do monte para onde me dirijo: solitário, sente o máximo desprezo pelas multidões ululantes; aristocrata, tem horror aos gritos e às vozes sonoras dos seus outros irmãos de sangue vermelho, de raça plebeia. Fica de longe a ver-me, e o seu olhar, que me segue, dá-me uma impressão de calor, de bem-estar, de ternura, como um olhar humano. Adivinho que tem piedade de mim, que me estudou nos nossos longos passeios solitários pela planície, que sabe no que eu penso e o que eu vim esquecer, que vê como os fantasmas me saem ao caminho. Aquela sombra, ao longe, não será aquele meu irmão, cavaleiro de lenda, que um dia partiu para não voltar? Quem sabe! Amigos vivos que me morreram, amigos mortos cheios de vida, quem sabe se, como eu, o luar os tenta nesta doce noite misericordiosa e pura! Estendo as mãos ao luar branco, como a uma fogueira, e a recordação doutros beijos enche-me da nostalgia amarga dos que se sabem exilados para sempre. Ergo os olhos ao céu: um jasmineiro florido, longe, longe! As estrelas empalidecem deslumbra- das, elas também, pela brancura milagrosa.

0 Morgado é agora uma grande sombra imóvel. Que pensará, ele também, sozinho, na imensidade da charneca luarenta?... Ouve-se mais próxima a algazarra da chegada, no monte iluminado. O vozeirão dos homens, as vozes mais agudas das mulheres, o tropear dos machos nas pedras do pátio formam uma sinfonia bárbara que perturba a noite nos seus sonhos de paz.

A senhora lavradora, o senhor lavrador, os filhos e os netos rodeiam-me solícitos e acolhem-me com um sorriso claro. Naqueles rostos, tostados de sol, o sorriso é uma fo­gueira a arder. Calada, sento-me a porta, e enquanto os arabescos azulados do meu «Muratti’s», saboreado com volúpia e olhado com reprovação, traçam no ar palavras que não entendo, outras palavras recordo; erguidas do mais profundo de mim mesma como dum túmulo, mortas que não querem morrer, que não se resignam a fria mortalha do esquecimento em que um dia as envolvi, para as sepultar.

Janela aberta, noite alta, o luar canseiroso vem ainda dar a última demão de cal às paredes do meu quarto, e quando o sono me vem, enfim, fechar os olhos, ainda fica a trabalhar até de madrugada, até a esse instante em que a andorinha, a primeira ave acordada, solta o seu grito de oiro e atravessa, como uma flecha, o céu ainda pálido sobre a charneca ainda adormecida.

Amigo, longínquo e querido, a triste charneca desdenhada envia-lhe, em nome doutra desdenhada ainda mais triste, um braçado de saudades acabadinhas de colher.

Alentejo, Junho 1930
Maria
Florbela Espanca, "Charneca em Flor"

O barril de Amontillado


Suportei o melhor que pude as injúrias de Fortunato; mas, quando ousou insultar-me, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza de meu caráter, não havereis de supor, no entanto, que eu tenha proferido qualquer ameaça. No fim, eu seria vingado. Este era um ponto definitivamente assentado, mas a própria decisão com que eu assim decidira excluía qualquer ideia de perigo. Assim devia apenas castigar, mas castigar impunemente. Uma injúria permanece irreparada, quando o castigo alcança aquele que se vinga. Permanece, igualmente, sem reparado, quando o vingador deixa de fazer com que aquele que o ofendeu compreenda que e ele quem se vinga.

É preciso que se saiba que, nem por meio de palavras, nem de qualquer ato, dei a Fortunato motivo para que duvidasse de minha boa vontade. Continuei, como de costume, a sorrir em sua presença, e ele não percebia que o meu sorriso, agora, tinha como origem a ideia da sua imolação.


Esse tal Fortunato tinha um ponto fraco, embora, sob outros aspectos, fosse um homem digno de ser respeitado e, até mesmo, temido. Vangloriava-se sempre de ser entendido em vinhos. Poucos italianos possuem verdadeiro talento para isso. Na maioria das vezes, seu entusiasmo se adapta aquilo que a ocasião e a oportunidade exigem, tendo em vista enganar os milionários ingleses e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunado, como todos os seus compatriotas, era um intrujão; mas, com respeito a vinhos antigos, era sincero. Sob este aspecto, não havia grande diferença entre nós – pois que eu também era hábil conhecedor de vinhos italianos, comprando-os sempre em grande quantidade, sempre que podia. Uma tarde, quase ao anoitecer, em plena loucura do carnaval, encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessiva cordialidade, pois que havia bebido muito. Usava um traje de truão, muito justo e listrado, tendo à cabeça um chapéu cônico, guarnecido de guizos.

Fiquei tão contente de encontrá-lo, que julguei que jamais estreitaria a sua mão como naquele momento.

– Meu caro Fortunato – disse-lhe eu -, foi uma sorte encontrá-lo. Mas, que bom aspecto tem você hoje! Recebi um barril como sendo de Amontillado, mas tenho minhas duvidas.

– Como? – disse ele. – Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno carnaval!

– Tenho minhas dúvidas – repeti – e seria tolo que o pagasse como sendo de Amontillado antes de consultá-lo sobre o assunto. Não conseguia encontrá-lo em parte alguma, e receava perder um bom negócio.

– Amontillado!

– Tenho minhas dúvidas.

– Amontillado!

– E preciso efetuar o pagamento.

– Amontillado!

– Mas, como você esta ocupado, irei à procura de Luchesi. Se existe alguém que conheça o assunto, esse alguém é ele. Ele me dirá …

– Luchesi é incapaz de distinguir entre um Amontillado e um Xerez.

– Não obstante, há alguns imbecis que acham que o paladar de Luchesi pode competir com o seu.

-Vamos, vamos embora.

– Para onde?

– Para as suas adegas.

– Não, meu amigo. Não quero abusar de sua bondade. Penso que você deve ter algum compromisso. Luchesi…

– Não tenho compromisso algum. Vamos.

– Não, meu amigo. Embora você não tenha compromisso algum, vejo que esta com muito frio. E as adegas são insuportavelmente úmidas. Estão recobertas de salitre.

– Apesar de tudo, vamos. Não importa o frio. Amontillado! Você foi enganado. Quanto a Luchesi, não sabe distinguir entre Xerez e Amontillado.

Assim falando, Fortunato tomou-me pelo braço. Pus uma máscara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo.

Não havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam saído para celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que não regressaria antes da manhã seguinte, e lhes dera ordens estritas para que não arredassem pé da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurai o seu desaparecimento imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, através de uma seqüência de compartimentos, à passagem abobadada que levava à adega.

Chegamos, por fim, aos últimos degraus e detivemo-nos sobre o solo úmido das catacumbas dos Montresor.

O andar de meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos.

– E o barril? – perguntou.

– Está mais adiante – respondi. – Mas observe as brancas teias de aranha que brilham nas paredes dessas cavernas.

Voltou-se para mim e olhou-me com suas nubladas pupilas, que destilavam as lágrimas da embriaguez.

– Salitre? – perguntou, por fim.

– Salitre – respondi. – Há quanto tempo você tem essa tosse?

Meu pobre amigo pôs-se a tossir sem cessar e, durante muitos minutos, não lhe foi possível responder.

– Não é nada – disse afinal.

– Vamos – disse-lhe com decisão. – Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz, como eu também o era. Você é um homem cuja falta será sentida. Quanto a mim, não impor-ta. Vamos embora. Você ficará doente, e não quero arcar com essa responsabilidade. Além disso, posso procurar Luchesi . . .

– Basta – exclamou ele. – Esta tosse não tem importância; não me matará. Não morrerei por causa de uma simples tosse.

-É verdade, é verdade – respondi. – E eu, de fato, não tenho intenção alguma de alarmá-lo sem motivo. Mas você deve tomar precauções. Um gole deste Medoc nos defenderá da umidade.

E, dizendo isto, parti o gargalo de uma garrafa que se achava numa longa
fila de muitas outras iguais, sobre o chão úmido.

– Beba – disse, oferecendo-lhe o vinho.

Levou a garrafa aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e saudou-me com familiaridade, enquanto seus guizos soavam.

– Bebo – disse ele – à saúde dos que repousam enterrados, em torno de nós.

– E eu para que você tenha vida longa. Tomou-me de novo o braço e prosseguimos. – Estas cavernas – disse-me – são extensas.

– Os Montresor – respondi – formavam uma família grande e numerosa.

– Esqueci qual o seu brasão.

– Um grande pé de ouro, em campo azul. O pé esmaga uma serpente ameaçadora, cujas presas se acham cravadas no salto.

– E a divisa?

– Nemo me impune lacessit.

– Muito bem! – exclamou.

O vinho brilhava em seus olhos e os guizos retiniam. Minha própria imaginação se animou, devido ao Medoc. Através de paredes de ossos empilhados, entremeados de barris e tonéis, penetramos nos recintos mais profundos das catacumbas. Detive-me de novo e, essa vez, me atrevi a segurar Fortunato pelo braço, acima do cotovelo.

– O salitre! – exclamei. – Veja como aumenta. Prende-se, como musgo, nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade filtram-se por entre os ossos. Vamos. Voltemos, antes que seja tarde demais. Sua tosse…

– Não é nada – respondeu ele. – Prossigamos. Mas, antes, tomemos outro gole do Medoc.

Parti o gargalo de uma garrafa de vinho De Grâve a dei-a a Fortunato. Ele a esvaziou de um trago. Seus olhos cintilaram com brilho ardente. Pôs-se a rir e atirou a garrafa para o ar, com gesticulação que não compreendi.

Olhei-o, surpreso. Repetiu o movimento, um movimento grotesco.

– Você não compreende? – perguntou.

– Não, não compreendo – respondi.

– Então é porque você não pertence à irmandade.

– Como?

– Não pertence à maçonaria.

– Sim, sim. Pertenço.

– Você? Impossível! Um maçom?

– Um maçom – respondi.

– Prove-o – disse ele.

– Eis aqui – respondi, tirando de debaixo das dobras de meu roquelaire uma colher de pedreiro.

– Você está gracejando! – exclamou recuando alguns passos. – Mas prossigamos: vamos ao Amontillado.

– Está bem – disse eu, guardando outra vez a ferramenta debaixo da capa e oferecendo-lhe o braço. Apoiou-se pesadamente em mim. Continuamos nosso caminho, em busca do Amontillado. Passamos através de uma série de baixas abóbadas, descemos, avançamos ainda, tornamos a descer e chegamos, afinal, a uma profunda cripta, cujo ar, rarefeito, fazia com que nossas velas bruxuleassem, ao invés de arder normalmente.

Na extremidade mais distante da cripta aparecia uma outra, menos espaçosa. Despojos humanos empilhavam-se ao longo de seus muros, até o alto das abóbadas, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três dos lados dessa cripta eram ainda adornados dessa maneira. Do quarto, os ossos haviam sido retirados e jaziam espalhados pelo chão, formando, num dos cantos, um monte de certa altura. Dentro da parede, que, com a remoção dos ossos, ficara exposta, via-se ainda outra cripta ou recinto interior, de uns quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia haver sido construída para qualquer uso determinado, mas constituir apenas um intervalo entre os dois enormes pilares que sustinham a cúpula das catacumbas, tendo por fundo uma das paredes circundantes de sólido granito.

Foi em vão que Fortunato, erguendo sua vela bruxuleante, procurou divisar a profundidade daquele recinto. A luz, fraca, não nos permitia ver o fundo.

– Continue – disse-lhe eu. – O Amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi. . .

– É um ignorante – interrompeu o meu amigo, enquanto avançava com passo vacilante, seguido imediatamente por mim.

Num momento, chegou ao fundo do nicho e, vendo o caminho interrompido pela rocha, deteve-se, estupidamente perplexo. Um momento após, eu já o havia acorrentado ao granito, pois que, em sua superfície, havia duas argolas de ferro, separadas uma da outra, horizontalmente, por um espaço de cerca de dois pés. De uma delas pendia uma corrente; da outra, um cadeado. Lançar a corrente em torno de sua cintura, para prendê-lo, foi coisa de segundos. Ele estava demasiado atônito para oferecer qualquer resistência.

Retirando a chave, recuei alguns passos.

– Passe a mão pela parede – disse-lhe eu. – Não poderá deixar de sentir o salitre. Está, com efeito, muito úmida. Permita-me, ainda uma vez, que lhe implore para voltar. Não? Então, positivamente, tenho de deixá-lo. Mas, primeiro, devo prestar-lhe todos os pequenos obséquios ao meu alcance.

– O Amontillado! – exclamou o meu amigo, que ainda não se refizera de seu assombro.

– É verdade – respondi -, o Amontillado.

E, dizendo essas palavras, pus-me a trabalhar entre a pilha de ossos a que já me referi. Jogando-os para o lado, deparei logo com uma certa quantidade de pedras de construção e argamassa. Com este material e com a ajuda de minha colher de pedreiro, comecei ativamente a tapar a entrada do nicho.

Mal assentara a primeira fileira de minha obra de pedreiro, quando descobri que a embriaguez de Fortunato havia, em grande parte, se dissipado. O primeiro indício que tive disso foi um lamentoso grito, vindo do fundo do nicho. Não era o grito de um homem embriagado. Depois, houve um longo e obstinado silêncio. Coloquei a segunda, a terceira e a quarta fileiras. Ouvi, então, as furiosas sacudidas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para deleitar-me com ele, interrompi o meu trabalho e sentei-me sobre os ossos. Quando, por fim, o ruído cessou, apanhei de novo a colher de pedreiro e acabei de colocar, sem interrupção, a quinta, a sexta e a sétima fileiras. A parede me chegava, agora, até a altura do peito. Fiz uma nova pausa e, segurando a vela por cima da obra que havia executado, dirigi a fraca luz sobre a figura que se achava no interior.

Uma sucessão de gritos altos e agudos irrompeu, de repente, da garganta do vulto acorrentado, e pareceu impelir-me violentamente para trás. Durante breve instante, hesitei… tremi. Saquei de minha espada e pus-me a desferir golpes no interior do nicho; mas um momento de reflexão bastou para tranqüilizar-me. Coloquei a mão sobre a parede maciça da catacumba e senti-me satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede e respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os, acompanhei-os e os venci em volume e em força. Fiz isso, e o que gritava acabou por silenciar.

Já era meia-noite, a minha tarefa chegava ao fim. Completara a oitava, a nona e a décima fileiras. Havia terminado quase toda a décima primeira – e restava apenas uma pedra a ser colocada e rebocada em seu lugar. Ergui-a com grande esforço, pois que pesava muito, e coloquei-a, em parte, na posição a que se destinava. Mas, então, saiu do nicho um riso abafado que me pôs os cabelos em pé. Seguiu-se-lhe uma voz triste, que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. A voz dizia:

– Ah! ah! ah! . . . eh! eh! eh! . . . Esta é uma boa piada… uma excelente piada! Vamos rir muito no palazzo por causa disso . . . ah! ah! ah! . . . por causa do nosso vinho… ah! ah! ah!

– O Amontillado! – disse eu.

– Ah! ah! ah! . . . sim, sim . . . o Amontillado. Mas não está ficando tarde? Não estarão nos esperando no palácio. . . a Sra. Fortunato e os outros? Vamos embora.

– Sim – respondi -, vamos embora.

– Pelo amor de Deus, Montresor!

– Sim – respondi -, pelo amor de Deus!

Mas esperei em vão qualquer resposta a estas palavras. Impacientei-me.

Gritei, alto:

– Fortunato!

Nenhuma resposta.

Tornei a gritar:

– Fortunato!

Ainda agora, nenhuma resposta. Introduzi uma vela pelo orifício que restava e deixei-a cair dentro do nicho. Chegou até mim, como resposta, apenas um tilintar de guizos. Senti o coração opresso, sem dúvida devido à umidade das catacumbas. Apressei-me para terminar o meu trabalho. Com esforço, coloquei em seu lugar a última pedra – e cobri-a com argamassa. De encontro à nova parede, tornei a erguer a antiga muralha de ossos. Durante meio século, mortal algum os perturbou.
Edgar Allan Poe