Então me ouvi dizendo apenas: “sim, esse é um livro todo humano…”. E como atestar a humanidade dos livros ou detectar por trás deles avatares sem alma? Pela qualidade dos erros? Quanto mais excelente o erro, quanto mais imprevisto o desvio, mais humano? Para o pensador dos nossos tempos Byung-Chul Han, a diferença está em que só o humano conhece Eros. Mais que um lance de dados, um lance de pele, de contato. A inteligência artificial, ele diz, “não é capaz de pensar porque não tem amigo, não tem amante”. A inteligência artificial não tem um coração pensante.
E que coisa mais desoladora imaginar um livro de poesia ou um livro de ficção que não seja todo humano… Que grande farsa um escritor abrir mão dos seus desacertos — seus “erros magníficos”, diria a poeta Maria Lúcia Dal Farra —, que fracasso tremendo um escritor delegar à inteligência artificial o poder e o prazer de criar pela linguagem o que quer que seja. Os livros já não seriam nossos amigos, nem seria verdadeiramente vital nossa relação com eles. E não estaria aí o atestado de falência do nosso contato uns com os outros?

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