sexta-feira, janeiro 2

Ano novo

 


Jogando com o tempo

O presente ameaça
o futuro não chega
o passado não passa

o passado não passa
o futuro não chega
e o presente ameaça

o passado trespassa
o futuro não chega
o presente escorraça.

O tempo é trapaça?

tempo:
fogo-fátuo
na veia e na praça
floresta
onde o caçador é caça
labirinto
onde mais se perde
quanto mais se acha.
Affonso Romano de Sant’Anna

Escutar os sons do mundo

Lembro-me do livro de contabilidade do meu pai. Ao lado esquerdo ficava a página do “Deve”, onde ele anotava os pagamentos feitos, dinheiro que não era mais seu. Ao lado direito estava a página do “Haver”, onde se registravam as entradas, sua pequena riqueza.

Na alma também se encontra um livro de contabilidade. Tanto assim que o Vinicius escreveu um poema com o título “O haver”. Ele já estava velho e fazia um balanço final do que restara. “Resta”: é assim que cada verso se inicia.
.
Resta […]
Essa intimidade perfeita com o silêncio […]
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado […]
Resta essa vontade de chorar diante da beleza […]
Resta essa comunhão com os sons […]
Resta […]
essa súbita alegria

Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…

Quem diria que o som de passos na madrugada poderia ser parte da herança de felicidade de um poeta! Os poetas são seres muito estranhos. Ficam felizes com nada. A poesia se faz com nadas… Bem disse o Manoel de Barros:

Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia. […]
As coisas que não servem para nada têm grande importância…

Fernando Pessoa sofria da mesma peculiaridade auditiva do Vinicius. Lembro-me de um verso seu que não consegui encontrar, que é mais ou menos assim: “Por esse barulho do vento nos meus ouvidos valeu a pena eu ter nascido”. Se o verso não foi dele, fica sendo meu, porque eu já tive a mesma experiência várias vezes. Caminhando sozinho no silêncio das árvores, o vento me sussurra segredos de felicidades, como revela Fernando Pessoa:

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.


Ouvir os sons do mundo é uma felicidade que somente os artistas recebem por nascimento. Os outros têm de aprender. Para isso há de haver os mestres da escuta. Como John Cage que compôs uma curiosa peça para piano. É assim: o pianista faz precisamente o que fazem todos os pianistas. Entra no palco, encaminha-se para o piano, assenta-se, regula a distância do banco, concentra-se – e não faz o que todo pianista faz. Ele não toca! Não, não! Não está certo! Eu errei! O pianista toca, sim. Ao piano ele executa o silêncio. O piano toca uma grande pausa! Cage faz o piano tocar silêncio para que se ouçam os delicados sons do mundo que não seriam ouvidos se o piano tocasse: as batidas do coração, a respiração, o ranger de uma cadeira, uma tosse, um sussurro… “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”, disse Lichtenberg. O não fazer é a forma suprema de fazer, afirma a filosofia tao. Fazer nada é estar à espera. Por isso se aconselha meditação, que nada tem a ver com a meditação ocidental. A meditação ocidental é falar baixo os próprios pensamentos de uma forma metódica. O piano toca. Mas a meditação oriental é silenciar os próprios pensamentos para que os sons do mundo possam ser ouvidos. O piano não toca. Pra que serve isso? Pra nada. Não é ferramenta. Não tem utilidade. É coisa da caixa de brinquedos. Só dá felicidade.

O mundo está cheio de música. Há os sons que não existem mais, que estão perdidos na memória. Meu amigo Severino Antônio, poeta de voz mansa, sugeriu aos seus alunos que um passo primeiro para a poesia seria chamar do esquecimento os sons que um dia ouviram e que não se ouvem mais. A música do realejo, o canto do carro de bois, o apito das fábricas, das locomotivas, o “din-din” dos bondes, o canto dos galos, o repicar fúnebre dos sinos, o crepitar do fogo nos fogões de lenha, a gaita do sorveteiro, a buzina das charretes… Parece que a poesia fica guardada nos sons que não mais se ouvem. Há também os sons da cidade, os gritos dos vendedores, o vozerio nas feiras, a algazarra das crianças ao sair das escolas, os bate-estacas das construtoras, o canto dos pardais, os rádios ligados dos trabalhadores, o latido ardido dos poodles… E há os sons da natureza: o assobio do vento, o barulho da chuva, os mantras das cachoeiras, o canto dos pássaros, dos sapos, dos grilos (tantos haicais sobre os grilos…), dos galos, o barulho das ondas…

Todo homem – até mesmo o rico – é poeta entre os quinze e os vinte anos. A nova educação deverá fazer do homem um poeta em todas as idades, sem que lhe seja necessário escrever versos. Viver a poesia é muito mais necessário e importante do que escrevê-la, assim disse Murilo Mendes. Poesia é música. A primeira poesia que se ouve é uma canção de ninar. Depois, é a música do mundo…

“Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram”, escreveu Cummings. Acordar os ouvidos! Não me consta que essa tarefa tenha sido jamais mencionada em tratados sobre a educação. É compreensível. Para isso os professores teriam que ser artistas, pianos que não tocam nada e que só fazem ouvir. Quando isso acontecer, quem sabe, os nossos jovens aprenderão a identificar o canto dos pássaros e ficarão subitamente alegres “ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…”
R
ubem Alves, "A educação dos sentidos"

Aqueles olhos azuis

Quando me vejo hoje, antigo e amargo, o que vou dizer agora parece imaginação. Mas, na longínqua manhã que a memória traz de volta, tenho certeza: eu estava com 5 anos e era véspera de Natal. Minha mãe me encheu a caneca de leite, preparou meu pão e, como se fosse revelar o maior segredo da história da humanidade, cochichou:

— Esta noite nós vamos poder ver Papai Noel aqui em casa.

Eu, que já era um menino de poucas palavras, fiquei sem nenhuma. Perplexo não é um termo simpático, nem eu conhecia na época, mas foi perplexo que eu me senti. Sabia que era o velhinho de roupa escarlate e barbas brancas quem recebia os pedidos das crianças. Sabia também que era ele quem fazia os brinquedos e ele mesmo, com seu trenó e suas renas, quem os entregava. Mas jamais, na plenitude dos meus 5 anos, tinha ouvido alguém dizer que em qualquer uma dessas atividades a incansável e eterna criatura se deixava surpreender por olhos mortais. Lembrava-me de ter consultado uma vez minha mãe sobre essa capacidade do santo homem de fazer tantas coisas sem ser visto por ninguém. A resposta havia sido convincente: ele, além de tímido, tinha o dom da invisibilidade. Só aparecia quando queria mesmo aparecer.

No instante em que me recordei dessa conversa sobre os poderes do bom velhinho, eu já não estava só perplexo. Estava também atônico, estupefato e aparvalhado. Se Papai Noel se mostrava apenas onde e quando bem entendia, como é que minha mãe podia garantir que ele viria à nossa casa naquela noite?

Quando recuperei a voz, quis saber mais sobre a inacreditável notícia. Supliquei, pedi, implorei. Invoquei os sagrados direitos da infância e os incontestáveis privilégios de filho caçula. Esperneei, fingi um ataque de asma, ameacei chorar. Tudo que consegui extorquir com a encenação foi um agradinho em meus cabelos encaracolados – eu tinha cabelos nessa manhã distante! Sobre a visita anunciada, minha mãe só fez duas recomendações: que eu tivesse paciência de esperar a noite e mantivesse segredo. Papai Noel era arisco e, se notasse algum movimento, por menor que fosse, não viria.

Eu, que até aquele momento só tinha em meu currículo vítimas sem importância, como besouros e formigas, fui para a rua com a missão de matar nada mais nada menos do que o tempo. Procurei o amigo Jorge, com a esperança de que ele me ensinasse a rodar pião, mas a única lição que aprendi naquela manhã longa e naquela tarde arrastada foi a de que nem sempre os dias têm 24 horas.

Quando finalmente anoiteceu, não vacilei. Tomei posição na mesa da sala, bem ao lado da árvore de Natal, e avisei à minha mãe: não sairia dali enquanto Papai Noel não aparecesse com a bicicleta que eu tinha pedido. Dali a pouco meu pai chegou do trabalho e, muito camarada, resolveu me ajudar. Ficou de prontidão ali comigo. Na cozinha, mamãe cuidava do jantar. Nossa vigília deve ter durado dez minutos. No décimo primeiro, minha mãe nos chamou.

— Acho que ele está aqui no quintal – disse, agitada.

Meti a mão no trinco, ansioso, mas meu pai recomendou calma. Se não, o bondoso velhinho poderia levar um susto e fugir. Apesar de toda minha impaciência, aceitei a sugestão de contar até 20 antes de abrir a porta. Quando eu ia pronunciar o 14, ouvi gritos na sala. Minha mãe, que tinha saído da cozinha sem eu perceber, estava dando o alarme:

— Corre, menino! Ele está aqui!

Cheguei a tempo de ver, pela ampla janela escancarada, uma cintilação rubra de cetim no céu estrelado. Junto à árvore, havia uma reluzente bicicleta.

Durante dois ou três anos censurei minha mãe pelo que aconteceu naquele 24 de dezembro. Achava que, se ela não tivesse sido tão espalhafatosa ao me chamar, eu poderia ver algo além da fulguração grená. Hoje, lembrando o esforço que ela sempre fazia para tirar de meu pai o dinheiro para uma boa ceia de Natal, lamento não haver entendido, naquela noite, que devia minha bicicleta e minha alegria não à centelha escarlate que imaginava ter visto, mas aos olhos azuis que já não posso ver.
Raul Drewnick, “Antes de Madonna” 

Mulheres leem mais e compram mais livros: protagonismo das leitoras mudou o mercado editorial

Vice-presidente do Grupo Editorial Record, Roberta Machado trabalha com livros há duas décadas e se lembra de quando o leitor hipotético que orientava o trabalho das editoras era do sexo masculino. Era o leitor de John le Carré, fã de romances de espionagem. Toda as decisões eram tomadas com esse leitor em mente: a ilustração da capa, a campanha de divulgação, como apresentar a obra para os livreiros. Já se supunha que as mulheres liam mais (afinal, elas sustentavam best-sellers como Danielle Steel e Sidney Sheldon). Porém, na falta de pesquisas, entre uma onda e outra do feminismo, o protagonista era o leitor. Agora, é a leitora.

— Hoje a gente já imagina a leitora, a mulher que frequenta livrarias, gosta de capas bonitas para postar nas redes sociais e participa de clubes de leitura. Tudo o que a gente faz é pensando no que ela vai gostar — afirma Roberta.


Segundos os Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro (IPL), publicados em 2024, 49% das mulheres e 44% dos homens são leitores. E as pessoas que mais influenciam o gosto pela leitura são as mães ou responsáveis do sexo feminino. Divulgado em 2025, o Panorama do Consumo de Livros, da Nielsen BookData, revelou que as mulheres são 62% daqueles que compraram mais de dez livros nos últimos 12 meses. Segundo os números, 41% dessas mulheres pertencem à classe B e 39%, à classe C.

A supremacia das leitoras se manifesta nos catálogos das editoras, cada vez mais femininos e atentos a temas como menopausa e parentalidade. Entre os best-sellers do momento, destacam-se autoras como Carla Madeira, Conceição Evaristo, Socorro Acioli e as americanas Colleen Hoover e Freida McFadden. Clarice Lispector é outra que anda frequentando as listas de mais vendidos. Diante desse cenário, entende-se o espanto com os indicados ao Prêmio Jabuti de melhor romance este ano: os cinco finalistas eram homens.

— Autores homens sempre definiram o que deveria ser considerado literatura legítima. Mas vemos sinais concretos de mudança e não pode ser coincidência que isso ocorra num momento em que a presença feminina no mercado editorial se tornou incontornável — diz Rafaela Lamas, editora da Autêntica. — Pautamos nossas estratégias em números, é natural que estejamos num movimento de responder a um público que já existe, já compra, já sustenta e já movimenta o catálogo.

Socorro Acioli lembra que, quando lançou seu primeiro romance, “A cabeça do santo”, em 2014, “os homens estavam na crista da onda”: eram eles os best-sellers e quem “pensava a literatura brasileira”. Em 2023, ela lançou seu best-seller “Oração para desaparecer”, e o cenário já era outro.

— Nos meus lançamentos, as filas se estendem por duas, três horas, e eu chutaria que uns 90% do público é de mulheres. Quando tem homem, está acompanhando a mãe, a namorada, a esposa. Eu converso com essas mulheres e a maioria participa de um clube de leitura — diz Socorro, cuja avaliação é que as mulheres estão “abordando com mais profundidade as questões da subjetividade de que trata a boa literatura”. — Os autores homens continuam olhando para o macro e as mulheres estão se aprofundando no micro. Todo dia, recebo mensagens de leitores que querem publicar o próprio livro. As mulheres perguntam se posso indicar um curso de escrita para elas fazerem. Os homens querem que eu envie o original deles direto para a Companhia das Letras!

A decisão de publicar um livro e não outro depende de múltiplas variáveis, mas apelar ao público leitor feminino aumenta as chances de um título chegar às livrarias.

— Ele ganha uns pontinhos na nossa avaliação — diz Amanda Orlando, head editorial de obras adultas da Globo Livros, acrescentando que até gêneros tradicionalmente associados aos homens estão de olhos nas leitoras. — Temos visto mais livros de negócios que ensinam a equilibrar a vida pessoal e profissional, o que é muito importante para as mulheres, que ainda enfrentam dupla ou tripla jornada. Livros sobre transição de carreira também conversam bem com as mulheres, porque muitas delas enfrentam esse processo depois da maternidade.

A consolidação do público leitor feminino tem provocado transformações importantes no mercado editorial. A Bazar do Tempo estreou em 2015 publicando livros de fotografia, as letras de Adriana Calcanhotto e um ensaio do filósofo Eduardo Jardim sobre literatura e música na ditadura. Foi a crítica literária Heloisa Teixeira quem sugeriu uma coleção sobre pensamento feminista. Diante de volumes que beiravam as 400 páginas, a diretora editorial Ana Cecília Impellizieri Martins pensou: “Ou dá muito certo ou vamos à falência!” Deu muito certo. Ana Cecília percebeu que havia um público, composto majoritariamente por leitoras, ávido por consumir livros de mulheres. E assim a Bazar do Tempo passou de uma editora de “interesse geral” à casa de autoras como Audre Lorde, Donna Haraway e Cristina Peri Rossi.

Em 2020, a editora criou o Clube F., voltado à criação de uma biblioteca feminista, tanto com obras teóricas quanto de ficção. Hoje, há cerca de 500 assinantes (a imensa maioria é mulher). O clube obrigou a Bazar do Tempo a se “profissionalizar”, recorda Ana Cecília.

— A gente passou a ter um compromisso que não tinha antes, de publicar um livro por mês, de seguir cronogramas rigorosos para o livro sair no dia 15 e chegar rápido para os assinantes do Brasil todo — diz ela. — Em 2025, publicamos 20 livros: 17 de mulheres. Em 2026, a proporção deve ser a mesma.

O mercado editorial ficou mais atento ao poder das leitoras a partir de meados da década passada, com o advento da quarta onda do feminismo. Em 2018, a Record ressuscitou o selo Rosa dos Ventos, dedicado a elas. Diretora executiva editorial da Companhia das Letras, Julia Moritz Schwarcz aponta que não só a ficção literária escrita por mulheres ganhou mais espaço na casa, mas também os selos comerciais, como a Paralela (literatura de entretenimento) e a Fontanar (bem-estar), que visavam um público mais amplo, foram remodelados por influência das leitoras.

— No caso da Paralela, fomos vendo cada vez mais romances eróticos e romantasias nas listas de mais vendidos. A Fontanar, no início, era para todos os públicos, mas percebemos que quem consome nossos livros é a mulher entre 30 e 60 anos à procura de olhar holístico para a vida — diz Julia.

A Companhia das Letras, aliás, confeccionou um boné em homenagem às leitoras, distribuído a escritoras e influenciadoras junto com o romance “O tempo das cerejas”, da catalã Montserrat Roig (1946-1991).

Às vezes, até a tiragem de livros com potencial de cair nas graças das leitoras podem ser maiores. Ana Cecília Impellizieri Martins, da Bazar do Tempo, diz que livros de autoria feminina costumam sair com tiragem maior. Roberta Machado, da Record, dá um exemplo: se uma obra pode interessar ao público de autoras boas de venda, como Andréa Del Fuego, Natalia Timerman ou Giovana Madalosso (ou de autores que agradam às leitoras, como Itamar Vieira Junior e Sandro Veronesi), é natural que a tiragem seja mais ambiciosa.

No mundo dos livros, o entusiasmo com o protagonismo das leitoras convive com uma preocupação: como trazer os homens de volta para a literatura? Em junho, o New York Times publicou uma reportagem sobre o sumiço do leitor de ficção e aventou uma hipótese alarmante: em vez de ler, homens jovens têm desperdiçado seu tempo com videogames, apostas on-line e conteúdo misógino na web.

Os entrevistados concordam que atrair os homens para os livros tem sido um desafio. As editoras têm penado para encontrar livros que cativem os rapazes. Na infância, os índices de leitura de meninos e meninas não variam muito. A diferença começa a se acentuar na adolescência, depois que os garotos terminam séries como “Diário de um banana”. Antes, a fantasia costumava mantê-los interessados em literatura, mas até esse gênero, outrora tão popular entre os leitores homens, conquistou as mulheres. Nas listas de mais vendidos, multiplicam-se obras que unem mundos fantásticos, magia e romance, as “romantasias”.

— Talvez pelo fato de serem estimulados desde cedo a competir, a ficção pode parecer uma atividade improdutiva para muitos homens — especula Roberta Machado, da Record. — Trazê-los de volta para a literatura é muito importante. Ler mais ficção poderia, inclusive, melhorar a safra masculina.