— Hoje a gente já imagina a leitora, a mulher que frequenta livrarias, gosta de capas bonitas para postar nas redes sociais e participa de clubes de leitura. Tudo o que a gente faz é pensando no que ela vai gostar — afirma Roberta.
Segundos os Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro (IPL), publicados em 2024, 49% das mulheres e 44% dos homens são leitores. E as pessoas que mais influenciam o gosto pela leitura são as mães ou responsáveis do sexo feminino. Divulgado em 2025, o Panorama do Consumo de Livros, da Nielsen BookData, revelou que as mulheres são 62% daqueles que compraram mais de dez livros nos últimos 12 meses. Segundo os números, 41% dessas mulheres pertencem à classe B e 39%, à classe C.
A supremacia das leitoras se manifesta nos catálogos das editoras, cada vez mais femininos e atentos a temas como menopausa e parentalidade. Entre os best-sellers do momento, destacam-se autoras como Carla Madeira, Conceição Evaristo, Socorro Acioli e as americanas Colleen Hoover e Freida McFadden. Clarice Lispector é outra que anda frequentando as listas de mais vendidos. Diante desse cenário, entende-se o espanto com os indicados ao Prêmio Jabuti de melhor romance este ano: os cinco finalistas eram homens.
— Autores homens sempre definiram o que deveria ser considerado literatura legítima. Mas vemos sinais concretos de mudança e não pode ser coincidência que isso ocorra num momento em que a presença feminina no mercado editorial se tornou incontornável — diz Rafaela Lamas, editora da Autêntica. — Pautamos nossas estratégias em números, é natural que estejamos num movimento de responder a um público que já existe, já compra, já sustenta e já movimenta o catálogo.
Socorro Acioli lembra que, quando lançou seu primeiro romance, “A cabeça do santo”, em 2014, “os homens estavam na crista da onda”: eram eles os best-sellers e quem “pensava a literatura brasileira”. Em 2023, ela lançou seu best-seller “Oração para desaparecer”, e o cenário já era outro.
— Nos meus lançamentos, as filas se estendem por duas, três horas, e eu chutaria que uns 90% do público é de mulheres. Quando tem homem, está acompanhando a mãe, a namorada, a esposa. Eu converso com essas mulheres e a maioria participa de um clube de leitura — diz Socorro, cuja avaliação é que as mulheres estão “abordando com mais profundidade as questões da subjetividade de que trata a boa literatura”. — Os autores homens continuam olhando para o macro e as mulheres estão se aprofundando no micro. Todo dia, recebo mensagens de leitores que querem publicar o próprio livro. As mulheres perguntam se posso indicar um curso de escrita para elas fazerem. Os homens querem que eu envie o original deles direto para a Companhia das Letras!
A decisão de publicar um livro e não outro depende de múltiplas variáveis, mas apelar ao público leitor feminino aumenta as chances de um título chegar às livrarias.
— Ele ganha uns pontinhos na nossa avaliação — diz Amanda Orlando, head editorial de obras adultas da Globo Livros, acrescentando que até gêneros tradicionalmente associados aos homens estão de olhos nas leitoras. — Temos visto mais livros de negócios que ensinam a equilibrar a vida pessoal e profissional, o que é muito importante para as mulheres, que ainda enfrentam dupla ou tripla jornada. Livros sobre transição de carreira também conversam bem com as mulheres, porque muitas delas enfrentam esse processo depois da maternidade.
A consolidação do público leitor feminino tem provocado transformações importantes no mercado editorial. A Bazar do Tempo estreou em 2015 publicando livros de fotografia, as letras de Adriana Calcanhotto e um ensaio do filósofo Eduardo Jardim sobre literatura e música na ditadura. Foi a crítica literária Heloisa Teixeira quem sugeriu uma coleção sobre pensamento feminista. Diante de volumes que beiravam as 400 páginas, a diretora editorial Ana Cecília Impellizieri Martins pensou: “Ou dá muito certo ou vamos à falência!” Deu muito certo. Ana Cecília percebeu que havia um público, composto majoritariamente por leitoras, ávido por consumir livros de mulheres. E assim a Bazar do Tempo passou de uma editora de “interesse geral” à casa de autoras como Audre Lorde, Donna Haraway e Cristina Peri Rossi.
Em 2020, a editora criou o Clube F., voltado à criação de uma biblioteca feminista, tanto com obras teóricas quanto de ficção. Hoje, há cerca de 500 assinantes (a imensa maioria é mulher). O clube obrigou a Bazar do Tempo a se “profissionalizar”, recorda Ana Cecília.
— A gente passou a ter um compromisso que não tinha antes, de publicar um livro por mês, de seguir cronogramas rigorosos para o livro sair no dia 15 e chegar rápido para os assinantes do Brasil todo — diz ela. — Em 2025, publicamos 20 livros: 17 de mulheres. Em 2026, a proporção deve ser a mesma.
O mercado editorial ficou mais atento ao poder das leitoras a partir de meados da década passada, com o advento da quarta onda do feminismo. Em 2018, a Record ressuscitou o selo Rosa dos Ventos, dedicado a elas. Diretora executiva editorial da Companhia das Letras, Julia Moritz Schwarcz aponta que não só a ficção literária escrita por mulheres ganhou mais espaço na casa, mas também os selos comerciais, como a Paralela (literatura de entretenimento) e a Fontanar (bem-estar), que visavam um público mais amplo, foram remodelados por influência das leitoras.
— No caso da Paralela, fomos vendo cada vez mais romances eróticos e romantasias nas listas de mais vendidos. A Fontanar, no início, era para todos os públicos, mas percebemos que quem consome nossos livros é a mulher entre 30 e 60 anos à procura de olhar holístico para a vida — diz Julia.
A Companhia das Letras, aliás, confeccionou um boné em homenagem às leitoras, distribuído a escritoras e influenciadoras junto com o romance “O tempo das cerejas”, da catalã Montserrat Roig (1946-1991).
Às vezes, até a tiragem de livros com potencial de cair nas graças das leitoras podem ser maiores. Ana Cecília Impellizieri Martins, da Bazar do Tempo, diz que livros de autoria feminina costumam sair com tiragem maior. Roberta Machado, da Record, dá um exemplo: se uma obra pode interessar ao público de autoras boas de venda, como Andréa Del Fuego, Natalia Timerman ou Giovana Madalosso (ou de autores que agradam às leitoras, como Itamar Vieira Junior e Sandro Veronesi), é natural que a tiragem seja mais ambiciosa.
No mundo dos livros, o entusiasmo com o protagonismo das leitoras convive com uma preocupação: como trazer os homens de volta para a literatura? Em junho, o New York Times publicou uma reportagem sobre o sumiço do leitor de ficção e aventou uma hipótese alarmante: em vez de ler, homens jovens têm desperdiçado seu tempo com videogames, apostas on-line e conteúdo misógino na web.
Os entrevistados concordam que atrair os homens para os livros tem sido um desafio. As editoras têm penado para encontrar livros que cativem os rapazes. Na infância, os índices de leitura de meninos e meninas não variam muito. A diferença começa a se acentuar na adolescência, depois que os garotos terminam séries como “Diário de um banana”. Antes, a fantasia costumava mantê-los interessados em literatura, mas até esse gênero, outrora tão popular entre os leitores homens, conquistou as mulheres. Nas listas de mais vendidos, multiplicam-se obras que unem mundos fantásticos, magia e romance, as “romantasias”.
— Talvez pelo fato de serem estimulados desde cedo a competir, a ficção pode parecer uma atividade improdutiva para muitos homens — especula Roberta Machado, da Record. — Trazê-los de volta para a literatura é muito importante. Ler mais ficção poderia, inclusive, melhorar a safra masculina.

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