sexta-feira, janeiro 9

A cidade pequena

A cidade pequena vive sua infância tropeçando nas ruas enlameadas quando é chegado o tempo de chuva pesada. Lateja nas veias a vontade visível de como ela quer crescer através do trabalho de seu povo. Move-se pela riqueza de poucos abastados e o esforço da maioria pobre, mas sem miséria. É evidente que se mostra como uma cidade ainda acanhada nos gestos e nas coisas. Há pouco movimento de carro na rua, os primeiros sobrados começam a ser erguidos no local onde moram as famílias ricas. Essa cidade caminha nos dias atribulados, sem hesitar nos passos incansáveis, tornozelos e pulsos no esforço dos que levantam coisas pesadas.


Mãos rústicas arrumam maxixes, quiabos e pimentões sobre a tábua rústica da mesa armada perto do ponto de ônibus. O verdureiro carrega o tabuleiro na cabeça mercando pelas ruas couve, alface e coentro, alardeando o verde na semana, feito de verduras e legumes. Por onde passa, segue com a voz que não para, entoa uma música com notas vagarosas, quentes, que agrada a quem escuta. Merca seu produto batido pelos raios de sol, enquanto o verão aquece todas as coisas através do seu brilho trazido do infinito e que se reflete pelas pedras irregulares das ruas estreitas.

Entra e sai verão, o sol atira seus raios como flechas luminosas sobre todos os cantos da cidade. No inverno, o aguaceiro bate no dorso do rio, escorrendo pelas valetas, deixando com lama as ruas sem calçamento. No tempo de estio, a cidade esbanja ardor debaixo dos azuis do céu e por entre os verdes que gramam os barrancos do rio. Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos nas águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos rasgando fendas no silêncio da natureza. Era quando mais sorria. Isso acontecia quando o rio, pleno de inocências e purezas, tinha peixe em abundância.

avia a cidade vizinha de praias belíssimas. Lá acontecia o veraneio em cada verão com o sol iluminando os seres e as coisas postas no mundo por Deus para que sejam alcançadas, contempladas, apanhadas e utilizadas. Aquela cidade marinha havia sido abençoada pela natureza, o mar batia, voltava, batia. O sol se admirava nos mil espelhos que espalhavam nas ondas que jogavam pra lá, pra cá.

No entanto, a cidade pequena, com um rio que a dividia em duas partes, ofertava ao menino de calção, peito nu, pé no chão as aventuras mais incríveis. Sustos esplêndidos, surpresas inesquecíveis. Ah, a vida era compreendida com suas marcas ardorosas no verão, aconchegantes no sono quando o inverno chegava com suas toalhas esvoaçantes e envolvia na manhã fria a paisagem escondida no fumo das horas.

Aquela cidade pequena enchia de sentimentos a alma do menino. Era mais envolvente por isso. Muito linda.

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