Agora, você vai repetir aquela velha brincadeira de começar tudo de novo, isto é, de fingir quê, sem conscientizar (eta palavrinha antipática) que está fingindo quê. Não importa. Esse faz-de-conta de começar outra vez (desta vez, melhor) é uma das astúcias do homem para manter alerta o seu lado menino, e o lado menino hoje cresceu tanto que faz a gente ter certa esperança na humanidade. Essas roupas moderninhas de cavalheiros e damas, que pelo menos divertem, esses jogos, essas coleções de miniaturas, esses campeonatos de canto de curió, tudo que é infantil no comportamento adulto, inclusive e principalmente a ambição de chegar à lua cada qual primeiro que o outro, são minhas razões de confiar. Confiar é exagero, mas de esperar alguma coisa de bom de meu semelhante, isto é, de você, de mim mesmo.
E não me venha, no dia 2, com a lamentação de que isso e mais aquilo e aquilo outro subiram tão de preço a partir de 1° de janeiro, que tudo agora vai ser mais impossível do que já era no dia 31 de dezembro, quando as impossibilidades reunidas e somadas desde a fundação do País pelo almirante realizaram esta maravilha: era praticamente impossível viver, e vivia-se. A vida é talvez um milagre dentro do qual subjugamos todas as negações. Não há imposto de circulação de mercadorias nem alta da gasolina nem nada que impeça o milagre cotidiano de alguém acordar e rever-se no mesmo espelho e sentir que o rosto lavado perde a fadiga sebosa do rosto noturno, e tudo é um vir-a-ser. Você, aliás, é doutor-de-Salamanca em filosofias baratas, e com elas tem divertido o seu caminho já longo. Distraia-se em cultivá-las, mano, enquanto não vem outro astrólogo de luneta mais sábia.
E para que esta conversa não resulte demasiado individual em tempos de comunicação reclamada a todos para todos, invente aí qualquer coisa que possa alcançar o seu vizinho e despertar nele o desejo de comunicá-la a outro vizinho, e este a outro, e outro a outro, até os grandes da Terra, tão coitados na solidão do poder; invente qualquer coisa, olhar compreensivo, gesto, palavra. Não achou? Então recorra ao dicionário, tire de lá paciência, tire boa vontade. Use-as. Não há melhor chiclete, meu mano, para a humanidade mascar.
Carlos Drummond de Andrade, "Caminhos de João Brandão"

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