sábado, fevereiro 21
'A manhã começa a bater no meu poema'
A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.
Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.
Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.
– Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
Herberto Helder, “Poemas completos”
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.
Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.
Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.
– Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
Herberto Helder, “Poemas completos”
Umbigo
Honra lhe seja, ao poeta Vinicius. Coube-lhe, por volta de 1945, a iniciativa de lançar o grito meio esportivo meio libertário:
Meninas, soltai as alças,
bicicletai, seios nus!
As meninas acataram-lhe imediatamente a recomendação, na primeira parte; quanto à segunda, estão (suas filhas) ensaiando ainda. Tanto tempo assim para cumprir a ordem do poeta? Ocorreram fatores vários que justificam a demora. Em 1945, positivamente não dava pé; nos anos seguintes, e nos seguintes aos seguintes, também não. Ultimamente, as coisas vêm mudando, umas em ritmo de tartaruga, outras em ritmo de cápsula espacial. A bicicleta voltou. Este verão é bicicleta pura. Alças, não foi preciso soltá-las; desapareceram. Apareceu o bustier, e o próprio busto oferece fatias laterais generosas, prenúncio da auroral exposição plena. Executado, afinal, o mandamento viniciano? Uma coisa é certa: o verbo bicicletar foi lançado por ele, e hoje, quando as garotas bicicleteiam em bloco, ou a uma, é o verso de Moraes que circula por aí.
O poeta não previu o umbigo em expô, mas que poeta pode prever tudo? Digamos que seu poema de 45 pode ser lido de várias maneiras, e uma delas seria:
Meninas, livrai o umbigo,
bicicletai, seios nus!
Com ou sem bicicleta, o umbigo feminino, particularmente o juvenil, é hoje uma festa da cidade. Os olhos pousam nele antes de tudo; não mais no rosto, ou nas pernas, e isso está certo e conforme às leis do ser humano, pois no umbigo se localiza o centro, o ponto fundamental da figura, na estética da natureza. Dele se irradiam as outras partes do corpo, os outros elementos da “paisagem viva”: “No cânon ideal, a altura do umbigo divide exatamente a altura total, segundo o corte de ouro” (Constable, The Curves of Life).
E não se veja malícia no olhar que vai direto a esse acidente anatômico, pois é o umbigo que o chama, o intima, o imantiza. Ele quer ser visto e considerado em suas variantes de flor, que não se encontram duas iguais. Uns são recolhidos em si mesmos, por assim dizer secretos à luz do sol, misteriosos, exigindo código.
Umbigos andam por aí, desafiando tua capacidade de curtir o novo dentro do eterno. Se na praia eles nem são percebidos, porque se inserem no quadro global, na rua, no coletivo, na loja, no escritório, são uma presença nova, uma graça diferente acrescentada ao espetáculo feminino, um dom sem destinatário certo, que é a bonificação de um ano em que tantos perderam na Bolsa mas acabam lucrando na vista.
O umbigo deixa-se conversar, responde naturalmente. Há um diálogo novo entre ele e o transeunte. Certos umbigos parecem rir da piada que anda no ar, outros sorriem com discrição, e há os que se mostram sérios mas urbanos. De poucos sei que podem ser chamados de antipáticos, e esses, seria melhor que continuassem guardados. Receio que os mais pretensiosos acabem se ostentando em moldura barroca, cercados por um cordão de ouro ou pintura a óleo, quem sabe se com um diamante na cavidade? Nada de artifícios. O umbigo em si, casto e cantante, esse é que merece todo o poder e glória neste morrer de ano de 1972, em que precisamos ansiosamente contemplar alguma coisa pura, repousante: um umbigo que seja.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
Meninas, soltai as alças,
bicicletai, seios nus!
As meninas acataram-lhe imediatamente a recomendação, na primeira parte; quanto à segunda, estão (suas filhas) ensaiando ainda. Tanto tempo assim para cumprir a ordem do poeta? Ocorreram fatores vários que justificam a demora. Em 1945, positivamente não dava pé; nos anos seguintes, e nos seguintes aos seguintes, também não. Ultimamente, as coisas vêm mudando, umas em ritmo de tartaruga, outras em ritmo de cápsula espacial. A bicicleta voltou. Este verão é bicicleta pura. Alças, não foi preciso soltá-las; desapareceram. Apareceu o bustier, e o próprio busto oferece fatias laterais generosas, prenúncio da auroral exposição plena. Executado, afinal, o mandamento viniciano? Uma coisa é certa: o verbo bicicletar foi lançado por ele, e hoje, quando as garotas bicicleteiam em bloco, ou a uma, é o verso de Moraes que circula por aí.
O poeta não previu o umbigo em expô, mas que poeta pode prever tudo? Digamos que seu poema de 45 pode ser lido de várias maneiras, e uma delas seria:
Meninas, livrai o umbigo,
bicicletai, seios nus!
Com ou sem bicicleta, o umbigo feminino, particularmente o juvenil, é hoje uma festa da cidade. Os olhos pousam nele antes de tudo; não mais no rosto, ou nas pernas, e isso está certo e conforme às leis do ser humano, pois no umbigo se localiza o centro, o ponto fundamental da figura, na estética da natureza. Dele se irradiam as outras partes do corpo, os outros elementos da “paisagem viva”: “No cânon ideal, a altura do umbigo divide exatamente a altura total, segundo o corte de ouro” (Constable, The Curves of Life).
E não se veja malícia no olhar que vai direto a esse acidente anatômico, pois é o umbigo que o chama, o intima, o imantiza. Ele quer ser visto e considerado em suas variantes de flor, que não se encontram duas iguais. Uns são recolhidos em si mesmos, por assim dizer secretos à luz do sol, misteriosos, exigindo código.
Outros, ofertantes, radiosos, públicos, democráticos, comunicantes. Há os retorcidos como certos vegetais que nasceram para lutar contra o vento e renunciam à postura comum. Quem ousa dizer que o umbigo é cicatriz, memória da gestação uterina? Estrela, sim, de ocultos raios, a iluminar a abóbada corporal; botão de flor ou de secreta campainha, que domina com seu timbre a orquestra dos membros; microlaguna onde boia, não um barquinho, mas o princípio de toda vida… Tudo isso e mais o que o obstetra, esse escultor, fez dele, ou a imaginação lhe acrescenta escolhendo entre as infinitas virtualidades da forma.
Umbigos andam por aí, desafiando tua capacidade de curtir o novo dentro do eterno. Se na praia eles nem são percebidos, porque se inserem no quadro global, na rua, no coletivo, na loja, no escritório, são uma presença nova, uma graça diferente acrescentada ao espetáculo feminino, um dom sem destinatário certo, que é a bonificação de um ano em que tantos perderam na Bolsa mas acabam lucrando na vista.
O umbigo deixa-se conversar, responde naturalmente. Há um diálogo novo entre ele e o transeunte. Certos umbigos parecem rir da piada que anda no ar, outros sorriem com discrição, e há os que se mostram sérios mas urbanos. De poucos sei que podem ser chamados de antipáticos, e esses, seria melhor que continuassem guardados. Receio que os mais pretensiosos acabem se ostentando em moldura barroca, cercados por um cordão de ouro ou pintura a óleo, quem sabe se com um diamante na cavidade? Nada de artifícios. O umbigo em si, casto e cantante, esse é que merece todo o poder e glória neste morrer de ano de 1972, em que precisamos ansiosamente contemplar alguma coisa pura, repousante: um umbigo que seja.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
Exílio
Por que se gosta de um autor? Gosta-se de um autor quando, ao lê-lo, tem-se a experiência de comunhão. Arte é isso: comunicar aos outros nossa identidade íntima com eles. Ao lê-lo eu me leio, melhor me entendo. Somos do mesmo sangue, companheiros no mesmo mundo. Não importa que o autor já tenha morrido há séculos… Inversamente, quando não gosto de um autor, é porque não há comunhão. É como se ele fosse uma comida estranha que causa repulsa. Essa é a razão por que gosto tanto de Nietzsche. Foi amor à primeira vista. O que ele diz ilumina o meu ser. E há nele um sentimento doloroso: o sentimento de exílio. “Em cada chegada eu sou uma partida”, ele disse. É comum entre os escritores esse sentimento de estranheza no mundo. Drummond via isso na Cecília e dizia que esse era um dos seus traços marcantes. Sinto o mesmo. Se os que creem na reencarnação estão certos, então está tudo explicado. Nasci neste tempo, mas minha alma ficou num lugar do passado que eu muito amei.
Rubem Alves, “Ostra feliz não faz pérola“
Rubem Alves, “Ostra feliz não faz pérola“
Cupins sem fronteiras
Vivo dentro de uma biblioteca. Há livros por toda a parte, banheiros e cozinha inclusive. Pense numa pessoa que adora o carnaval: cinco dias de paz e sossego, espichada com os livros no sofá, na rede, na única poltrona à prova de gato que sobreviveu na casa — não muito bonita, não muito confortável, mas forrada numa camurça quase indestrutível.
Os blocos lá fora e eu aqui dentro, ar-condicionado polar subártico ligado, gatos dormindo ao meu redor, café forte e água gelada, paraíso.
Decidi catalogar os livros mais ou menos na época da pandemia, quando cupins comeram parte das minhas estantes e quase todos os livros importados. Até hoje não sei se foi o gosto requintado da cola estrangeira que os atraiu ou o sabor colonial do papel que veio de fora, mas o fato é que, com exceção de uma meia dúzia, os livros nacionais resistiram ao ataque. Independentemente de suas qualidades gastronômicas, porém, todos tiveram que ser retirados das estantes devoradas, separados, limpos e recolocados nas estantes novas. Era o momento ideal para trazer alguma ordem ao caos.
Um aplicativo chamado Libib (gratuito até cinco mil exemplares) e dois amigos livreiros vêm me ajudando na tarefa interminável. Hoje são exatamente 6.648 livros cadastrados, mas isso muda o tempo todo. Saem uns, entram outros. O total, curiosamente, só aumenta, embora eu me esforce para manter a coisa sob controle.
Cerca de mil são livros selvagens, ou seja, aqueles que ainda não encontraram o seu lugar nas estantes; mas até eles ficaram mais fáceis de achar depois do Libib, porque pelo menos sabemos em que parte da casa estão.
Graças ao meu trabalho, recebo muitos livros, um ou dois pacotinhos por dia, como se fosse um Natal permanente. Os gatos ficam extasiados com as caixas e com o papelão. E, desde que passei a ganhar o suficiente para gastar tudo em livros, gasto tudo em livros.
Agora mesmo não resisti e comprei uma coleção linda da Agatha Christie editada pela Harper Collins, que há meses me provoca pela internet. Não tenho mais onde botar um único exemplar e, de uma tacada só, mandei vir mais de 40. Novas traduções, capas coloridas, uma alegria.
Um dia ainda compro uma enciclopédia só porque as capas são bonitas.
Sim, eu já li tudo da Agatha Christie, e provavelmente algumas vezes; eu até traduzi Agatha Christie. Algumas vezes. Os cupins não pouparam nenhum dos que eu tinha, todos em inglês, naquele papel irresistível. Faz sentido que estejam em português, agora, porque netos e sobrinhos-netos começam a descobrir romances policiais e tenho o sonho secreto de que se tornem traças de biblioteca como a avó.
Onde vou botar tudo isso?
No domingo passado, os amigos livreiros vieram aqui. Estudamos as estantes com a maior seriedade, tiramos a trena da gaveta, fizemos cálculos e... não decidimos nada.
Por enquanto continuo no modo carnaval ativado e não me estresso. No dia em que o cardume chegar, vamos encontrar lugar: há sempre uma solução para quem vive dentro do problema.
Os blocos lá fora e eu aqui dentro, ar-condicionado polar subártico ligado, gatos dormindo ao meu redor, café forte e água gelada, paraíso.
Decidi catalogar os livros mais ou menos na época da pandemia, quando cupins comeram parte das minhas estantes e quase todos os livros importados. Até hoje não sei se foi o gosto requintado da cola estrangeira que os atraiu ou o sabor colonial do papel que veio de fora, mas o fato é que, com exceção de uma meia dúzia, os livros nacionais resistiram ao ataque. Independentemente de suas qualidades gastronômicas, porém, todos tiveram que ser retirados das estantes devoradas, separados, limpos e recolocados nas estantes novas. Era o momento ideal para trazer alguma ordem ao caos.
Um aplicativo chamado Libib (gratuito até cinco mil exemplares) e dois amigos livreiros vêm me ajudando na tarefa interminável. Hoje são exatamente 6.648 livros cadastrados, mas isso muda o tempo todo. Saem uns, entram outros. O total, curiosamente, só aumenta, embora eu me esforce para manter a coisa sob controle.
Cerca de mil são livros selvagens, ou seja, aqueles que ainda não encontraram o seu lugar nas estantes; mas até eles ficaram mais fáceis de achar depois do Libib, porque pelo menos sabemos em que parte da casa estão.
Graças ao meu trabalho, recebo muitos livros, um ou dois pacotinhos por dia, como se fosse um Natal permanente. Os gatos ficam extasiados com as caixas e com o papelão. E, desde que passei a ganhar o suficiente para gastar tudo em livros, gasto tudo em livros.
Agora mesmo não resisti e comprei uma coleção linda da Agatha Christie editada pela Harper Collins, que há meses me provoca pela internet. Não tenho mais onde botar um único exemplar e, de uma tacada só, mandei vir mais de 40. Novas traduções, capas coloridas, uma alegria.
Um dia ainda compro uma enciclopédia só porque as capas são bonitas.
Sim, eu já li tudo da Agatha Christie, e provavelmente algumas vezes; eu até traduzi Agatha Christie. Algumas vezes. Os cupins não pouparam nenhum dos que eu tinha, todos em inglês, naquele papel irresistível. Faz sentido que estejam em português, agora, porque netos e sobrinhos-netos começam a descobrir romances policiais e tenho o sonho secreto de que se tornem traças de biblioteca como a avó.
Onde vou botar tudo isso?
No domingo passado, os amigos livreiros vieram aqui. Estudamos as estantes com a maior seriedade, tiramos a trena da gaveta, fizemos cálculos e... não decidimos nada.
Por enquanto continuo no modo carnaval ativado e não me estresso. No dia em que o cardume chegar, vamos encontrar lugar: há sempre uma solução para quem vive dentro do problema.
quinta-feira, fevereiro 19
Peso da solidão
Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita,
prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita,
prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
Clarice Lispector
Sardanápalo
Sou farmacêutico, modesto, de bairro pobre, mas assim como o senhor me vê, apenas bem mais moço e mais sonhador, já tive minhas fumaças de literato, e gozei mesmo de certo renome de poeta estudantil, nos tempos em que cursei farmácia em ouro Preto. Meu Ouro Preto das boemias nos casarões infinitos cheios de quartos e de tradições, com percevejos de barbas multisseculares! Velha cidade que se conserva sempre a mesma, dentro deste século onde tudo mudou. Mas não falemos do meu Ouro Preto de todos os tempos, uma vez que a minha intenção é lhe explicar porque me arrepiei todo à passagem um simples gato pela porta da minha farmácia, a esta hora noturna. Não é nenhuma superstição minha. Somente não gosto de gatos, ou melhor, já gostei excessivamente de gatos, naquele tempo em que me tinha na conta de poeta e levava declaradamente uma vida de intelectual. Baudelaire e os gatos! Me convencera de que era espiritual ter desses bichanos no meu quarto de estudante, bicho amigo dos poetas, dos lunáticos. Influência dos vates franceses, de suas elegâncias esquisses, com pulgas... Eu tinha gato enorme no meu quarto de estudante, bem alimentado, preguiçoso e inútil, que batizara pomposamente, parnasianamente, de Sardanápalo. Imagine o senhor, Sardanápalo, hein! E mesmo pra rir... Assunto tenebroso para mim, gatos. A questão não é propriamente nem deixar de gostar deles. E que me sugerem qualquer coisa como remorso, ou remordimento de consciência, presa este Sardanápalo que se tornou uma mancha negra na minha vida... Bem alimentado, o meu bichano não descia de sua condição especial de gato de poeta para comer os ratos que transitavam pela nossa república. Afugentava-os, às vezes, por desfastio ou talvez respeito tradição de família. Era um gato preto, como convinha a um cultor das boas letras, que já lera Poe traduzido por Baudelaire. Preto e gordo. E lerdo. Tão gordo e lerdo que certa altura observei que ia perdendo inteiramente as qualidades características da raça, que são em suma o ódio de morte aos ratos. Já nem os afugentava! Os ratos de Ouro Preto são também dignos e solenes e — não ria! — tradicionalistas... descendentes de outros ratos que naqueles mesmos casarões presenciaram acontecimentos importantes de nossa história... No sobrado do desembargador Tomás Antônio Gonzaga, imagine o senhor uma reunião dos sonhadores inconfidentes, com os antepassados daqueles ratos a passearem pelo sótão ou mesmo pelo assoalho por entre as pernas dos homens absortos na esperança da independência nacional! E depois, os ancestres daqueles roedores que eu via agora deslizar sutilmente no meu quarto podiam ter subido pelo poste da ignomínia colonial, onde estava exposta a cabeça do Tiradentes! E quando as órbitas se descarnaram ignominiosamente, podiam até ter penetrado no recesso daquele crânio onde verdadeiramente ardera sem literatura, com simplicidade do heroísmo, febre nacionalista... São pensamentos que me vinham daquela ocasião, mas nem por isso desculpavam falta de caráter em que ia chafurdando o meu Sardanápalo, a tal ponto que os ratos começaram trafegar livremente na própria canapé em que ele repousava a sua existência sem qualquer interesse. Via-o entreabrir um dos olhos, espiá-lo uns segundos, continuar a dormir. Enquanto isto, os meus livros, até os meus caros livros dos poetas amados, apareciam roídos! Principiei então a diminuir-lhe os alimentas, devagar mas metodicamente ao mesmo tempo que Sardanápalo voltava mais ou menos a ser gato, saindo de súbito de sua madorna habitual para assustar com um tapa ao rato ousado que lhe passasse por perto. Não os deixava passar fome, o que não estava nos meus planos: desejava apenas que, apesar de bichano literário a que até já dedicara um soneto em alexandrinos, ou em razão disto, ele cumprisse uma função maneira de policiar os meus bens intelectuais contra a ação subversiva dos roedores. Porém a despeito do racionamento, aliás um tanto generoso, eis que aparece parcialmente destruído um dos cadernos dos meus próprios versos. Olhei para Sardanápalo com desprezo, com raivosa insistência: o inútil supôs que se tratasse de um olhar de carinho mais prolongado e veio agradecer-mo roçando pelas minhas pernas! Acabei coçando-lhe a cabeça, sorrindo diante daquele caso sem remédio, e saí para a rua, para a noite que iria terminar com uma daquelas ceias responsáveis pela minha dispepsia atual... Já pelas tantas, ao voltar para casa me lembrei dos versos roídos e resolvi não levar pra ele, como sempre fazia, um pedaço de linguiça da ceia. À última hora, cedendo ao bom coração, reuni somente alguns pedaços de pão largados sobre a mesa. Quando abri a porta Sardanápalo saltou do canapé, festivo e interesseiro: lhe atirei as migalhas num gesto de desdém e caí pesadamente na cama... Despertei com uma estranha barulhada no quarto, uma cadeira que tombava como uma bomba sobre as tábuas do soalho, som que retumbava nos cômodos vazios e abandonados do andar de baixo, de mistura com o chiar assustado de um rato. A pálida madrugada ouro-pretana, ainda em começo, entrava pela minha vidraça perto do céu, para me revelar Sardanápalo sentado no meio do aposento pousando uma das mãos sobre um rato enorme. Seria uma demonstração de sua eficiência, um esforça para se reabilitar? Naquele instante, parecia tão possuído pelo gozo do apresamento que não deu a mínima importância à minha atenção pelo seu triunfo. Retirou a pata de cima presa e deitou em frente dela, preguiçosamente, como numa boa disposição para dormir ou pelo menos para cochilar. Segundos decorreram e de repente a rato disparou em fuga, sem conseguir atingir senão uma pequena distância, menos da largura de uma tábua, pois Sardanápalo deu um salto, abocanhou-o trazendo-o à posição primitiva, humilde, anulado, perto do seu focinho, e se espichou com estudada displicência junto dele. Não o abocanhou propriamente, o que dá a impressão de violência: manteve-o delicadamente entre os dentes, sem magoá-lo, forçando-o a retornar ao ponto de partida. Não era a primeira vez que eu presenciava aquela cena entre um gato e um rato. Mas era a primeira vez que via meu Sardanápalo agir assim, depois de ter sido arrancado do sono da madrugada, naquela hora confusa e indistinta, sem que meu corpo abandonasse a posição do sono, nem mesmo o agradável torpor das células meio adormecidas, até com a cabeça no travesseiro para seguir o desenvolvimento dos fatos... Dentro de alguns minutos, só existíamos no mundo, no universo, no espaço e no tempo, eu, o gato e o rato. Sardanápalo se pôs a sufocar com pequenos golpes das patas dianteiras a menor tentativa de movimento do seu prisioneiro. Depois dos inumeráveis golpes delicados, quase gentis, que não o magoavam, deu início ao combate simulado. O rato, de tão deu início ao combate simulado. O rato, de tão insignificante, parecia ter diminuído de tamanho. Pobre, mísero ratinho que se entregou a movimentos desesperados que facilitaram a simulação da luta: sem ligar mais para a insistente delicadeza com que as patas do gato lhe ordenavam que estivesse quieto, procurava fugir-lhes a toda força, e Sardanápalo caía sobre ele, jogava-o no ar e se punha rapidamente de costas para apará-lo nas quatro patas, embolava-se com ele e vinham rolando juntos, como se o ratinho estivesse mesmo reagindo, até perto da cama; e voltavam rolando... Houve números de acrobacia quando Sardanápalo, de costas, manteve o animalzinho no ar sobre as patas, uma, duas, cinco vezes... Em seguida, permitiu que o rato, cada vez mais diminuído, medisse em correria a extensão do quarto, e foi saltando por cima dele, obliquamente, da cauda para a cabeça, de modo que o fugitivo tinha de momento a momento o seu caminho impedido e mudava constantemente de direção, desorientado e desesperado. Parecia mesmo brincadeira, mas nós três sabíamos que não era. O meu gato cumpria fielmente o imperativo tradicional de raça contra raça, ou de espécie contra espécie, com todo o abuso da superioridade física, da supremacia do tamanho e da agilidade. A madrugada se tornara franca e a claridade descendo das penedias dava absoluta nitidez ao desenrolar natural daquelas crueldades impregnadas de elegância e se gentileza. Eu já não estava deitado e sim sentado, sem me importar com o frio (devia ter febre, parece-me hoje), as pernas pendendo da cama velha e alta, sem perder o mínimo detalhe de tudo, insensatamente entregue à observação da extrema variedade de atos. Mais do que entregue, — dominado eu mesmo por uma crueldade abstrata, com um sentimento bizarro que se me afigurava orgulho de ser dono de Sardanápalo, partícipe indireto mas voluntário daquele suplício que não acabava nunca!... O senhor conhece um conto de Villiers de Lisle Adam, o Suplício da Esperança? Não? Um inquisidor determina que se suplicie uma de suas vítimas, como último recurso para tentar a salvação de sua alma, com a esperança de poder fugir da prisão; o homem descobre que a porta do calabouço foi esquecida com a fechadura aberta, empurra-a e sai pelos intermináveis corredores; os frades passam por ele, sem vê-lo em algum cotovelo de muro em que procurava se ocultar; um deles, que vem discutindo com outro sobre alto problema teológico, pousa sobre o fugitivo o olhar distraído, e o fugitivo se imobiliza num calafrio gelado, dentro de um desvão de parede; mas ambos distraidamente se afastam repetindo, entre outras palavras pias, o nome de Cristo; o fugitivo já está vendo a porta de saída, lá fora há luz e ar; se aproxima da liberdade, quando se sente abraçado pelo próprio inquisidor, que o chama de filho e lhe diz para não fugir dali, para não fugir de Cristo... É assim que guardei a recordação do conto, lido naquele tempo. No entanto, naquela hora estranha, me lembrei apenas daquele sistema original de suplício revelado ou imaginado pelo contista, e Sardanápalo — não ria! — também se lembrou de aplicá-lo, ou melhor, eu lhe transmiti o meu pensamento... O meu gato se deitava nonchalantemente e permitia que o prisioneiro corresse quanto que podia (já estava meio titubeante e exaurido, embora sem um arranhão), até no ângulo do quarto onde havia um buraco de rato que eu entupia vãmente com jornais; já estava perto do buraco enxergando a abertura sombria, prelibando a escuridão e a estreiteza dos meandros onde nenhum gato jamais entrara ou entraria, a liberdade na sombra... já se aproximava do buraco, já estava a poucos centímetros dele! E o algoz em dois pulos alcançava-o e o trazia novamente na boca para o ponto de partida. Aliás, tudo aquilo, desde o começo, era puro suplício da esperança, com todas as variações imagináveis, cada variação repetida uma, duas, cinco, dez vezes... E eu sentado na cama acompanhando-as, empregando nervos e músculos em repetir até certo ponto aquelas diversões, gato eu mesmo, sim gato eu mesmo, não ria! Possuído por um entusiasmo cruel, torcendo como fazem os assistentes das pugnas esportivas de hoje... O rato já era um frangalho, martirizado com tal habilidade que não se lhe via o menor sinal de sangue. Se lhe acontecia, a um golpe de Sardanápalo, virar de costas, permanecia de costas agitando as patinhas e procurando apoio no infinito para tornar à posição normal, sem ânimo e sem forças... Também, já estávamos no fim. Sim, já estávamos no fim, eu e o meu gato contra aquele animalzinho quase sem alento de vida e que já nem se movia a novos e derradeiros tapas das patas. Talvez ainda pudesse se mover um pouco, mas não o tentava, convencido da absoluta inutilidade de tudo, nirvanizado... E o meu interesse pela progressão do acontecimento, interesse sem piedade, antes o contrário, estava atingindo o auge. Porém de minha parte não havia qualquer intenção de vingança ou pesar pelos versos roídos, pois tal espírito de vingança contra um insignificante ratinho, dentro de um ser humano, seria uma imperdoável monstruosidade. Era crueldade gratuita, uma intoxicação estranha e única de perversidade, com os nervos alertas mandando cargas para os músculos, tal se os músculos estivessem todos se movimentando como os de Sardanápalo no corpo do homem sentado, curvado sobre o supliciador e o supliciado, sacudindo as pernas nuas, agitando os braços, sem alma e sem frio, um possesso! Sim, é a palavra: um possesso! Sem repugnância alguma, até com uma certa volúpia demoníaca, vi o gato enorme, que enchia o quarto enorme com sua importância extraordinária, abrir a boca, mostrar a face, e fechar a boca tendo entre os dentes o cabeça do ratinho, esmigalhando-o e engolindo-o lentamente... O rabinho penetrou ainda mais devagar, como uma cobrinha, e Sardanápalo teve uma ânsia de tosse, uma espécie de engasgo, quando a ponta fina e delicada lhe fez cócegas na garganta. Só então se dignou de olhar para mim. Mas que olhar! De cúmplice agradecido e enternecido talvez, depois de cumprir a ordem de matar que provinha do meu desprezo lhe manifestado na véspera. Mas sobretudo de acrobata exibidor gratíssimo por aquele meu aplauso mudo e paciente às suas habilidades. Talvez nada disso e apenasmente uma deferência amável para com o seu dono, após mostrar quanto podia fazer, como era hábil, ágil e poderoso... O certo é que não compreendi bem aquele olhar, a que correspondi constrangido, não pela humilhação da cumplicidade ou porque já me trabalhasse o remorso: — porque percebi assustado e confuso que a crueldade despertada em mim não estava satisfeita! Antes de voltar ao canapé, Sardanápalo veio até junto da cama, fitando-me ainda e sempre, e esfregou o corpo fluxuoso, peludo e quente, contra os meus pés frios e nus. Uma, duas, quatro vezes... Comecei a brincar nervosamente com ele, afastando os pés para que perdesse o equilíbrio quando mais se lhes encostava, calcando levemente com as plantas aquela barriga onde estava sepultado o ratinho. Sardanápalo abandonava-se no chão, agora se fazia pequenino, carinhosamente pequenino. Coloquei um dos calcanhares em cima de sua cabeça que se abaixou reverentemente, mansamente, agradecidamente. Súbita e irreprimível violência, desci o calcanhar com todo o peso do corpo e lhe esmigalhei o crânio. Não morreu logo. Começou a se afastar de costas, arrastando a cabeça, sem poder levantá-la do soalho, com a espinha dorsal partida, como se a cabeça estivesse presa com visgo a tábuas, sem miar nem gemer, apenas com uma espécie de engasgo. Abri a vidraça, agarrei-o pelo rabo e atirei-o para o ar puro e alto, o mais distante que pude. Foi cair lá no fundo do quintal abandonado e cheio de mato, rolou pelo declive forte até que uma moita de assa-peixe o reteve. Lá embaixo, ainda se movia, se arrastava. Desapareceu entre as folhas.
João Alphonsus
João Alphonsus
Morto em Resaca
O melhor soldado da nossa guarnição era o tenente Herman Brayle, um dos ajudantes de ordem. Não me recordo bem de onde o general o mandara vir; creio que de Ohio. Para não provocar ciumeira o invejas, o general escolhia seus auxiliares em outros regimentos e todos consideravam isso uma grande honra.
O tenente Brayle era um belo rapaz, de olhos azuis e de cabelos claros. Gostava de andar sempre com o uniforme completo; tinha modos cavalheirescos e uma coragem do leão.
Todos nós apreciávamos Brayle e foi com pesar que notamos — depois da primeiro combate em Stone's River — que ele possuía um torpe defeito: era vaidoso da sua coragem e tinha a mania de se mostrar o mais possível em locais perigosos, só se acautelando quando censurado pelo general. Este, porém, tinha mais que fazer do que tomar conta de seus subordinados.
Brayle montava admiravelmente. Nas refegas, quando os oficiais buscavam abrigo, ele enfrentava proposital e inutilmente o fogo. Enquanto ficávamos apequenados contra o solo por horas a fio, como se faz em luta de campo aberto. Brayle pavoneava-se como se estivesse num passeio. Se tinha de levar uma ordem na linha de fogo, em voz de ir de cabeça baixa e correndo, para evitar ser alvo de algum atirador, ia distraidamente como se estivesse em atividade de lazer.
— Se algum dia eu morrer por imprudência e por não ter ouvido os seus conselhos, prometa que alegrará os meus últimos momentos, dizendo: — Não lhe dizia eu?
Pouco tempo depois, quando o capitão foi despedaçado por uma bala, Brayle, sem preocupar-se com as granadas, ficou longo tempo junto ao corpo, a recompor os membros esfacelados. Ato heroico fácil do censurar e... difícil de imitar...
Afinal chegou o seu dia. Foi em Resaca, na Geórgia, durante o movimento que resultou da captura de Atlanta. Em nossa frente a linha inimiga de terra corria através dos campos abertos sobre uma leve crista. Em cada momento e em cada ponto do terreno, estávamos próximo do inimigo, mas só poderíamos ocupar espaço quando escurecesse. Estávamos aproximadamente a um quilômetro e meio de distância, numa mata, em semicírculo. A linha inimiga achava-se em forma de uma corda de arco.
— Tenente, vá dizer ao coronel Ward que se aproxime com cautela o mais que puder, para não gastar munição desnecessária. Deixo aqui o cavalo.
Mas antes que alguém pudesse impedir, Brayle galopava em direção ao campo!
— Pare aquele idiota — gritou o general.
Um soldado raso, com mais ambição que do que cérebro, tomou um cavalo e partiu a correr; ele e o animal morreram em campo de honra.
Brayle galopava sem parar, sendo alvo de centenas de disparos, obrigando a nossa linha a ir socorrê-lo, pois ninguém podia suportar tanta brutalidade. Isto culminou em tiroteio dos dois lados e seguiu-se uma luta terrível. Brayle, no entanto, único responsável pela carnificina, estava de pé, o cavalo caído a pouca distância. Logo adivinhei porque ele estava parado. Como engenheiro topográfico eu havia, horas antes, feito um leve exame do terreno e me lembrei do que naquele ponto havia um profundo e sinuoso abismo invisível do local em que nos achávamos; Brayle, porém, ignorava isto.
A passagem era impraticável; mais dois passos e seria a morte. Assim que ele caiu o fogo cessou como que por milagre; só alguns tiros esparsos, do longe em longe quebravam o silêncio.
Entre os objetos encontrados nos bolsos de Brayle, estava uma velha carteira de couro oriunda da Rússia; o general me presenteou-a como recordação de um herói.
Um ano depois da guerra, em caminho para a Califórnia, tirando a carteira do bolso, abria-a e examinei-a. Continha uma carta sem envelope o sem endereço. Era letra de mulher e começava com uma palavra de carinho, mas não havia menção do remetente. Estava assinada em caracteres sublinhados: Querida. Abaixo da assinatura: Marian Mendenhall — São Francisco. Julho de 1862. Dizia a missiva:
“O senhor Winters, a quem sempre odiarei por isso, contou-me que numa batalha qualquer, em Virgínia, onde ele foi ferido, você se escondeu atrás de uma árvore. Penso que ele quer diminuir minha estima por você, pois sabe o quanto detesto a covardia. Prefiro saber da morte do meu amado soldado, a sabê-lo covarde”.
Foram estas as palavras que causaram a morte de uma centena de homens. E a mulher culpada?
Uma tarde lembrei-me de procurar a sra. Mendenhall, a fim de lhe devolver a carta. Tencionava dizer-lhe também qual tinha sido o resultado das suas palavras. Encontrei-a: era linda e gentil.
— A senhora conheceu o tenente Brayle? — indaguei estouvadamente. — Sabe decerto que ele morreu em combate; em sua carteira achei esta carta que lhe pertence.
— Foi muito amável — disse ela depois examinar o documento. — Sinto que tenha tido tanto trabalho por tão pouca coisa.
Depois, reparando numa mancha pardacenta sobre o papel:
— É sangue?... sangue? Não pode ser!
— Senhora — retorqui — é exatamente o sangue de um coração valente e nobre; o melhor coração que conheci.
— Não, não posso suportar a vista de sangue — gritou a moça, atirando a carta à chama do fogo. E depois mais calma:
— Diga-me; como foi que morreu?
Eu ainda tentei instintivamente salvar aquele papel tão sagrado para mim. Voltei a cabeça com a intenção de responder à pergunta. A claridade da chama refletiu-se no seu rosto, espalhando-se sobre toda sua fisionomia uma mancha rubra como se fora sangue.
Nunca vira coisa alguma mais linda do que aquela miserável criatura.
— BrayIe morreu — respondi fitando-a — picado por uma víbora.
O tenente Brayle era um belo rapaz, de olhos azuis e de cabelos claros. Gostava de andar sempre com o uniforme completo; tinha modos cavalheirescos e uma coragem do leão.
Todos nós apreciávamos Brayle e foi com pesar que notamos — depois da primeiro combate em Stone's River — que ele possuía um torpe defeito: era vaidoso da sua coragem e tinha a mania de se mostrar o mais possível em locais perigosos, só se acautelando quando censurado pelo general. Este, porém, tinha mais que fazer do que tomar conta de seus subordinados.
Brayle montava admiravelmente. Nas refegas, quando os oficiais buscavam abrigo, ele enfrentava proposital e inutilmente o fogo. Enquanto ficávamos apequenados contra o solo por horas a fio, como se faz em luta de campo aberto. Brayle pavoneava-se como se estivesse num passeio. Se tinha de levar uma ordem na linha de fogo, em voz de ir de cabeça baixa e correndo, para evitar ser alvo de algum atirador, ia distraidamente como se estivesse em atividade de lazer.
Mas, justiça seja feita, ele não fazia isso por deboche aos camaradas ou para depois se gaba; nunca falava de suas proezas. Apenas, uma vez, disse ao capitão:
— Se algum dia eu morrer por imprudência e por não ter ouvido os seus conselhos, prometa que alegrará os meus últimos momentos, dizendo: — Não lhe dizia eu?
Pouco tempo depois, quando o capitão foi despedaçado por uma bala, Brayle, sem preocupar-se com as granadas, ficou longo tempo junto ao corpo, a recompor os membros esfacelados. Ato heroico fácil do censurar e... difícil de imitar...
Afinal chegou o seu dia. Foi em Resaca, na Geórgia, durante o movimento que resultou da captura de Atlanta. Em nossa frente a linha inimiga de terra corria através dos campos abertos sobre uma leve crista. Em cada momento e em cada ponto do terreno, estávamos próximo do inimigo, mas só poderíamos ocupar espaço quando escurecesse. Estávamos aproximadamente a um quilômetro e meio de distância, numa mata, em semicírculo. A linha inimiga achava-se em forma de uma corda de arco.
— Tenente, vá dizer ao coronel Ward que se aproxime com cautela o mais que puder, para não gastar munição desnecessária. Deixo aqui o cavalo.
Mas antes que alguém pudesse impedir, Brayle galopava em direção ao campo!
— Pare aquele idiota — gritou o general.
Um soldado raso, com mais ambição que do que cérebro, tomou um cavalo e partiu a correr; ele e o animal morreram em campo de honra.
Brayle galopava sem parar, sendo alvo de centenas de disparos, obrigando a nossa linha a ir socorrê-lo, pois ninguém podia suportar tanta brutalidade. Isto culminou em tiroteio dos dois lados e seguiu-se uma luta terrível. Brayle, no entanto, único responsável pela carnificina, estava de pé, o cavalo caído a pouca distância. Logo adivinhei porque ele estava parado. Como engenheiro topográfico eu havia, horas antes, feito um leve exame do terreno e me lembrei do que naquele ponto havia um profundo e sinuoso abismo invisível do local em que nos achávamos; Brayle, porém, ignorava isto.
A passagem era impraticável; mais dois passos e seria a morte. Assim que ele caiu o fogo cessou como que por milagre; só alguns tiros esparsos, do longe em longe quebravam o silêncio.
Entre os objetos encontrados nos bolsos de Brayle, estava uma velha carteira de couro oriunda da Rússia; o general me presenteou-a como recordação de um herói.
Um ano depois da guerra, em caminho para a Califórnia, tirando a carteira do bolso, abria-a e examinei-a. Continha uma carta sem envelope o sem endereço. Era letra de mulher e começava com uma palavra de carinho, mas não havia menção do remetente. Estava assinada em caracteres sublinhados: Querida. Abaixo da assinatura: Marian Mendenhall — São Francisco. Julho de 1862. Dizia a missiva:
“O senhor Winters, a quem sempre odiarei por isso, contou-me que numa batalha qualquer, em Virgínia, onde ele foi ferido, você se escondeu atrás de uma árvore. Penso que ele quer diminuir minha estima por você, pois sabe o quanto detesto a covardia. Prefiro saber da morte do meu amado soldado, a sabê-lo covarde”.
Foram estas as palavras que causaram a morte de uma centena de homens. E a mulher culpada?
Uma tarde lembrei-me de procurar a sra. Mendenhall, a fim de lhe devolver a carta. Tencionava dizer-lhe também qual tinha sido o resultado das suas palavras. Encontrei-a: era linda e gentil.
— A senhora conheceu o tenente Brayle? — indaguei estouvadamente. — Sabe decerto que ele morreu em combate; em sua carteira achei esta carta que lhe pertence.
— Foi muito amável — disse ela depois examinar o documento. — Sinto que tenha tido tanto trabalho por tão pouca coisa.
Depois, reparando numa mancha pardacenta sobre o papel:
— É sangue?... sangue? Não pode ser!
— Senhora — retorqui — é exatamente o sangue de um coração valente e nobre; o melhor coração que conheci.
— Não, não posso suportar a vista de sangue — gritou a moça, atirando a carta à chama do fogo. E depois mais calma:
— Diga-me; como foi que morreu?
Eu ainda tentei instintivamente salvar aquele papel tão sagrado para mim. Voltei a cabeça com a intenção de responder à pergunta. A claridade da chama refletiu-se no seu rosto, espalhando-se sobre toda sua fisionomia uma mancha rubra como se fora sangue.
Nunca vira coisa alguma mais linda do que aquela miserável criatura.
— BrayIe morreu — respondi fitando-a — picado por uma víbora.
Ambrose Bierce
O homem que resolveu contar apenas mentiras
Naquela manhã, acordou disposto a só contar mentiras. A não dizer uma única verdade. A ninguém. Nem à própria mulher. E assim quando afirmou: “vou para o trabalho”, empregou sua primeira mentira. Não ia. Tinha resolvido faltar, esquecer o escritório, a mesa, os papéis. Parar, ficar na rua.
Quando disse bom-dia para o zelador do prédio, também mentia, porque odiava o zelador, um oportunista, que não conservava o prédio, fazia fofocas entre empregadas, pedia gorjetas, ganhava porcentagem na compra de materiais de limpeza.
Quando disse o endereço ao motorista do táxi, também mentia, não pretendia ir para aquele lugar. Mas o chofer exigira o destino pois as pessoas vivem exigindo as coisas. E nem sempre temos vontade ou possibilidade de fazer. E as exigências crescem e se tornam parte de nossa vida diária. Nos acostumamos com elas, nos acomodamos, sem perceber que cada concessão é um pedaço da gente mesmo, envenenado, que a gente engole.
Quando o homem entrou no bar e pediu café, mentia, porque não queria café. Estava apenas fazendo um teste, enquanto observava o gesto maquinal daquele empregado que destacava uma ficha e a entregava. Será que aquele funcionário, alguma vez, imaginou que alguém pudesse não querer café? Pedir, por pedir, mas não querer? Nem sequer desejar ver a xícara fumegante?
Com a ficha na mão, saiu pela rua. Outra mentira, não queria ficar na rua. Mas se entrasse no escritório, seria mentira maior. Odiava o escritório, o empregado, os colegas. De duas mentiras, preferiu a menor, ainda que, ponderando, descobrisse que ficar com a mentira menor era igualmente fuga, mentira, porque nesse dia tinha decidido mentir. E, quando se decide uma coisa, o melhor é levá-la até o fim.
Andou. Pensando como a cidade era bonita com seus prédios batidos de Sol e os vidros dando mil reflexos. Bonita com a gente que andava apressada para trabalhar e construir alguma coisa. Bonita na tranquilidade da vida, no sossego das casas, na calma que se estampava nos rostos das gentes. Bonita no que oferecia de futuro e de perspectivas. Bonita nos carros que andavam em fila, ruidosamente, um atrás do outro, sempre para frente, sempre para frente. Bonita na fumaça negra que escapava dos veículos e subia em espirais, milhares de fumaças reunidas, formando uma bela nuvem negra, como um negro véu, que surgia sobre a terra, espanando o Céu.
Andou sem querer andar.
Viu, sem querer ver.
Sentiu, sem querer sentir.
Cansou, sem querer cansar.
Tudo uma grande mentira neste dia. Como mentira era a vida que ele vivia, cotidianamente, falsificada, pré-fabricada, exaurida, imposta. Suada. Que repousante era viver este dia de mentira. Negar tudo. Reviver.
Andou até a hora de voltar para casa. Outra mentira, não queria voltar para casa, o lar, o aconchego, o refúgio, a fuga. A verdade de sua vida encerrada entre aquelas quatro paredes, a família, o amor, o carinho, o aconchego, o lar, o refúgio, a fuga, a realidade.
Não voltar e andar. Percorrendo as ruas, entrando nos prédios, conversando com as pessoas. No entanto, não tinha vontade de conversar. Sabia que precisava, mas não tinha vontade de falar. Falava pouco, sua língua andava entorpecida, sem prática. O medo é que um dia desacostumasse e perdesse a capacidade de se comunicar. E como andava difícil se comunicar. Ficou parado numa esquina, esperando a noite passar.
Quando o dia chegou, tinha acabado o período da mentira, podia enfrentar de novo a verdade. E disse bom-dia ao porteiro, deu o endereço ao táxi, ligou para a mulher e o patrão. Disse no emprego que estava doente. E, na verdade, estava.
Ignácio de Loyola Brandão, "O homem do furo na mão e outras histórias"
Quando disse bom-dia para o zelador do prédio, também mentia, porque odiava o zelador, um oportunista, que não conservava o prédio, fazia fofocas entre empregadas, pedia gorjetas, ganhava porcentagem na compra de materiais de limpeza.
Quando disse o endereço ao motorista do táxi, também mentia, não pretendia ir para aquele lugar. Mas o chofer exigira o destino pois as pessoas vivem exigindo as coisas. E nem sempre temos vontade ou possibilidade de fazer. E as exigências crescem e se tornam parte de nossa vida diária. Nos acostumamos com elas, nos acomodamos, sem perceber que cada concessão é um pedaço da gente mesmo, envenenado, que a gente engole.
Quando o homem entrou no bar e pediu café, mentia, porque não queria café. Estava apenas fazendo um teste, enquanto observava o gesto maquinal daquele empregado que destacava uma ficha e a entregava. Será que aquele funcionário, alguma vez, imaginou que alguém pudesse não querer café? Pedir, por pedir, mas não querer? Nem sequer desejar ver a xícara fumegante?
Com a ficha na mão, saiu pela rua. Outra mentira, não queria ficar na rua. Mas se entrasse no escritório, seria mentira maior. Odiava o escritório, o empregado, os colegas. De duas mentiras, preferiu a menor, ainda que, ponderando, descobrisse que ficar com a mentira menor era igualmente fuga, mentira, porque nesse dia tinha decidido mentir. E, quando se decide uma coisa, o melhor é levá-la até o fim.
Andou. Pensando como a cidade era bonita com seus prédios batidos de Sol e os vidros dando mil reflexos. Bonita com a gente que andava apressada para trabalhar e construir alguma coisa. Bonita na tranquilidade da vida, no sossego das casas, na calma que se estampava nos rostos das gentes. Bonita no que oferecia de futuro e de perspectivas. Bonita nos carros que andavam em fila, ruidosamente, um atrás do outro, sempre para frente, sempre para frente. Bonita na fumaça negra que escapava dos veículos e subia em espirais, milhares de fumaças reunidas, formando uma bela nuvem negra, como um negro véu, que surgia sobre a terra, espanando o Céu.
Andou sem querer andar.
Viu, sem querer ver.
Sentiu, sem querer sentir.
Cansou, sem querer cansar.
Tudo uma grande mentira neste dia. Como mentira era a vida que ele vivia, cotidianamente, falsificada, pré-fabricada, exaurida, imposta. Suada. Que repousante era viver este dia de mentira. Negar tudo. Reviver.
Andou até a hora de voltar para casa. Outra mentira, não queria voltar para casa, o lar, o aconchego, o refúgio, a fuga. A verdade de sua vida encerrada entre aquelas quatro paredes, a família, o amor, o carinho, o aconchego, o lar, o refúgio, a fuga, a realidade.
Não voltar e andar. Percorrendo as ruas, entrando nos prédios, conversando com as pessoas. No entanto, não tinha vontade de conversar. Sabia que precisava, mas não tinha vontade de falar. Falava pouco, sua língua andava entorpecida, sem prática. O medo é que um dia desacostumasse e perdesse a capacidade de se comunicar. E como andava difícil se comunicar. Ficou parado numa esquina, esperando a noite passar.
Quando o dia chegou, tinha acabado o período da mentira, podia enfrentar de novo a verdade. E disse bom-dia ao porteiro, deu o endereço ao táxi, ligou para a mulher e o patrão. Disse no emprego que estava doente. E, na verdade, estava.
Ignácio de Loyola Brandão, "O homem do furo na mão e outras histórias"
quarta-feira, fevereiro 18
Como se faz um homem
A neve
derrete-se rapidamente
e rapidamente desaparecem
as pegadas dos caminhantes
pequenas e grandes.
Abbas Kiarostami, "Nuvens de algodão"
derrete-se rapidamente
e rapidamente desaparecem
as pegadas dos caminhantes
pequenas e grandes.
Abbas Kiarostami, "Nuvens de algodão"
Eu sei, mas não devia
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti, “Eu sei, mas não devia”
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti, “Eu sei, mas não devia”
Símios aperfeiçoados
É preciso viver em estado de prevenção. Não ir na enxurrada do colectivismo e morrer afogado num bairro económico ou numa colónia balnear, resistir às pressões políticas mirabolantes, quer sejam de uma banda ou de outra, manter a condição do homem-artista em luta com o homem-massa foi sempre o que em mim se tornou claro desde que aos poucos tomei posse da minha personalidade. É fatal que se caminhe para a sanidade de vida das classes baixas, é humano que isso se faça, no entanto também é humano, mais talvez, que se lute desesperadamente para que a condição mais sagrada do homem evolua libertando-se das massas satisfeitas com a assistência médica, televisão e funeral pago. Essa massa vai criar um novo espírito animal, vai catalogar-se em Darwin e, convencidos que essa massa está feliz, constatamos ao fim de pouco tempo que esses grandes grupos de populações standardizadas deixaram de pensar e o seu sentir é apenas tactual, sem nada de sublimação em momentos mais íntimos.
O mundo que pensa, do artista e do intelectual, tem de libertar-se do incómodo desses homens que trouxeram como contribuição para a humanidade uma ideia abstracta do colectivo em marcha, que passaram a emitir sons, como pequenas estações emissoras, que não precisam de se articular em palavras, bastando-lhes os gestos. Ao fim e ao cabo aqueles que julgaram ter contribuído para a evolução da humanidade, dessa massa informe, é com tristeza, se ainda forem vivos, que constatam o facto de terem criado mais uma categoria animal, símios aperfeiçoados, em substituição do processo normal e não aflitivo do homem que evolui gradualmente dentro da sua própria missão de homem.
Ruben A., "O Mundo À Minha Procura I"
O mundo que pensa, do artista e do intelectual, tem de libertar-se do incómodo desses homens que trouxeram como contribuição para a humanidade uma ideia abstracta do colectivo em marcha, que passaram a emitir sons, como pequenas estações emissoras, que não precisam de se articular em palavras, bastando-lhes os gestos. Ao fim e ao cabo aqueles que julgaram ter contribuído para a evolução da humanidade, dessa massa informe, é com tristeza, se ainda forem vivos, que constatam o facto de terem criado mais uma categoria animal, símios aperfeiçoados, em substituição do processo normal e não aflitivo do homem que evolui gradualmente dentro da sua própria missão de homem.
Ruben A., "O Mundo À Minha Procura I"
A Loja Mágica
Eu já tinha visto várias vezes a Loja Mágica, a distância; já tinha passado diante da sua vitrine cheia de objetos curiosos, bolas mágicas, galinhas mágicas, cones coloridos, bonecos de ventríloquo, material para mágicas usando cestos, baralhos que pareciam comuns, todo tipo de coisa; mas nunca me ocorrera entrar ali até que um dia, quase sem aviso, Gip me puxou pelo dedo até aquela vitrine, e se comportou de tal forma que não tive escolha senão entrar ali com ele. Eu não lembrava que a loja ficava justamente ali, para falar a verdade — uma fachada de tamanho modesto em Regent Street, entre uma loja de fotografias e uma loja cheia de pintos recém-saídos das incubadoras. Mas lá estava ela. Eu tinha imaginado que ela ficava mais perto de Piccadilly Circus, ou depois da esquina, em Oxford Street, ou mesmo em Holborn; sempre a vira do outro lado da rua e um pouco inacessível, com algo em sua posição que lembrava uma miragem; mas aqui estava ela, agora, sem nenhuma dúvida, e a ponta do dedinho gordo de Gip batia com ruído na vitrine.
— Se eu fosse rico — disse Gip, apontando para o Ovo Que Desaparece — eu compraria aquele ali para mim. E aquele. — Era o Bebê Que Chora, Muito Humano. — E aquele também. — Este último era uma coisa misteriosa, e se chamava, de acordo com um cartãozinho pregado sobre a caixa, “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”.
— Qualquer coisa — explicou Gip — desaparece embaixo de um desses cones. Li isso num livro. E ali, pai, está a Moeda Que Desaparece... só que eles a colocaram com o outro lado para cima, para ninguém perceber como é feito.
Gip, bom menino, herdou as boas maneiras de sua mãe, e não pediu para entrar na loja nem me aborreceu em qualquer sentido; mas, sabem como é, de maneira inconsciente ele puxava meu dedo na direção da porta e suas intenções eram muito claras.
— Olhe aquilo — disse, apontando a Garrafa Mágica.
— E se você tivesse uma dessas? — perguntei, e ele me olhou radiante, ao ouvir uma pergunta tão promissora.
— Eu ia mostrá-la a Jessie — respondeu ele, como sempre pensando nos outros.
— Faltam menos de cem dias para seu aniversário, Gibbles — falei, pousando minha mão na maçaneta.
Gip não respondeu, mas agarrou meu dedo com mais força, e assim entramos na loja.
Não era uma loja como as outras; era um bazar mágico, e toda a desenvoltura que Gip iria assumir se se tratasse de uma simples loja de brinquedos ia fazer-lhe falta agora.
Ele deixou a conversação por minha conta.
A loja era pequena, estreita, não muito bem-iluminada, e os sininhos presos à porta tintinaram novamente sua musiquinha plangente quando ela se fechou às nossas costas. Por alguns instantes ficamos ali sozinhos e pudemos olhar à nossa volta. Havia um tigre de papel machê sobre a tampa de vidro que cobria um balcão não muito alto: um tigre sério, com olhos bondosos, que agitava a cabeça metodicamente; havia uma porção de bolas de cristal, uma mão de porcelana segurando cartas de um baralho mágico, um bom estoque de aquários mágicos de variados tamanhos, e uma cartola que exibia suas molas internas com pouca modéstia. No chão estavam pousados espelhos mágicos: um que nos reproduzia longos e finos, um que inchava nossas cabeças e sumia com nossas pernas, e um que nos tornava atarracados e gordos como peças do jogo de damas; e enquanto ríamos diante deles o lojista, suponho, entrou no aposento.
De qualquer modo, em certo momento ali estava ele atrás do balcão: um homem moreno, de aspecto curioso, pele macilenta, com uma orelha maior que a outra e um queixo como o bico de uma bota.
— Em que posso ajudá-los? — disse ele, abrindo os seus dedos longos e mágicos sobre o tampo de vidro do balcão; e com um sobressalto percebemos sua presença ali.
— Gostaria de comprar alguns truques simples para o meu filho — respondi.
— De prestidigitação? — perguntou ele. — Mecânicos? Domésticos?
— Tem alguma coisa divertida? — perguntei.
— Hmmm... — disse o lojista, e coçou a cabeça por um instante, pensativo. Então, com um gesto bem visível, retirou da cabeça uma bola de vidro. — Alguma coisa assim? — perguntou, estendendo a bola.
Aquilo foi inesperado. Eu já tinha visto esse truque em parques de diversões inúmeras vezes — faz parte do repertório de qualquer mágico — mas não estava esperando por ele ali.
— Muito bom — falei, com uma risada.
— Não é mesmo? — disse o lojista.
Gip estendeu a mão que estava livre para receber o objeto... e achou apenas uma mão aberta e vazia.
— Está no seu bolso — disse o lojista. E lá estava mesmo!
— Quanto custa? — perguntei.
— Não cobramos pelas bolas de vidro — disse o lojista, com cortesia. — Elas vêm para nós... — tirou mais uma, agora do cotovelo — ... de graça. — Tirou mais uma bola da nuca, e a colocou em cima do balcão, junto da outra. Gip examinou sua bola de vidro com olhar esperto, depois observou as duas sobre o balcão, e finalmente encarou o lojista, que estava sorrindo.
— Pode ficar com estas também — disse o lojista — e, se não se incomodar, fique com esta, da minha boca. Olhe aí!
Gip me olhou calado em busca de orientação, e com um silêncio profundo separou para si as quatro bolas, agarrou de novo meu dedo, e preparou-se para o prodígio seguinte.
— É assim que obtemos nosso material mais barato — observou o lojista.
Dei aquela risada de quem soube entender a piada.
— Em vez de ir ao armazém de atacado — falei. — Claro que fica bem mais em conta.
— De certa forma, sim — disse o lojista. — Embora sempre acabemos pagando. Mas não pagamos tão caro quanto as pessoas imaginam. Nossos equipamentos maiores, nossas provisões diárias e todas as outras coisas de que precisamos vêm todas de dentro dessa cartola. E, sabe, cavalheiro, se me permite dizê-lo, não existe uma grande loja de atacado, não para artigos de Mágica Genuína. Não sei se reparou no nosso letreiro: A GENUÍNA LOJA MÁGICA. — Ele puxou um cartão de visita da bochecha e o estendeu para mim. — Genuína — repetiu, apontando a palavra com o dedo. — Não há o menor engano, cavalheiro.
Pensei que ele estava mantendo a piada com bastante seriedade.
Ele se virou para Gip com o mais afável dos sorrisos.
— E você, sabia? É o Tipo Certo de Garoto.
Fiquei surpreso com o fato de ele saber disso, porque, no interesse da disciplina, nós mantemos isto em segredo, em nossa casa; mas Gip recebeu a informação com um sólido silêncio, mantendo os olhos fitos no homem.
— Somente o Tipo Certo de Garoto consegue entrar por aquela porta.
E então, como que para ilustrar o que ele dizia, ouviu-se um barulho na porta, e uma voz de criança quase guinchando se ouviu do lado de fora.
— Nãããão... Eu quero entrar lá dentro, papai, eu QUERO entrar lá! Nããão...
E depois a voz cansada de um pai, cheia de consolos e promessas.
— Está fechada, Edward — dizia ele.
— Mas não está! — disse eu.
— Está, senhor — disse o lojista. — Sempre está, para esse tipo de criança.
Enquanto ele falava tive pela vitrine o vislumbre do rosto do menino, um rosto branco, miúdo, pálido de tanto comer doces e comidas açucaradas, distorcida por maus sentimentos; um pequeno e implacável egoísta, batendo no vidro mágico.
— Não adianta, senhor — disse o lojista quando eu, com meu impulso instintivo para ajudar, fui na direção da porta. Logo o garoto mimado foi levado para longe, aos berros.
— Como consegue fazer isto? — perguntei, já mais à vontade.
— Mágica! — disse o lojista, fazendo um gesto descuidado com a mão, e, presto! Faíscas de um fogo multicor brotaram dos seus dedos e sumiram por entre as sombras da loja.
— Você estava dizendo — falou ele, virando-se para Gip —, antes de entrar, que gostaria de ter uma caixinha dos nossos “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”?
Gip, com um valoroso esforço, respondeu:
— Sim.
— Está no seu bolso.
E inclinando-se sobre o balcão — ele tinha um corpo extraordinariamente longo — aquele sujeito incrível produziu o objeto no estilo habitual dos mágicos.
— Papel! — disse ele, e tirou uma folha de papel de embrulho da cartola que exibia suas molas. — Barbante! — e vejam só, sua boca tornou-se um estojo oco de onde ele começou a puxar um interminável fio de barbante, que cortou com os dentes depois de amarrar o pacote (e, ao que me pareceu, engoliu o rolo).
Depois ele acendeu uma vela no nariz de um dos bonecos de ventríloquo, colocou um dos dedos (que tinha se transformado num bastão de cera de lacrar) na chama, e selou o pacote.
— E há também o Ovo Que Desaparece — lembrou ele, e, retirando um exemplar do bolso do meu casaco, fez outro pacote, e depois repetiu tudo com o Bebê Que Chora, Muito Humano. Quando todos os pacotes ficaram prontos, entreguei-os a Gip, que os apertou de encontro ao peito.
Ele quase não disse nada, mas seu olhar era eloquente; o modo como apertava os pacotes nos braços era eloquente. Naquele instante ele era um playground de emoções indizíveis. Aquilo, sim, era Mágica verdadeira.
Então, com um sobressalto, senti alguma coisa se movendo dentro do meu chapéu, alguma coisa macia e irrequieta. Ergui-o, e um pombo com as penas eriçadas — um cúmplice, sem dúvida — saltou sobre o balcão e correu a se esconder, pelo que pude ver, dentro de uma caixa de papelão por trás do tigre.
— Ora, ora! — exclamou o lojista, tomando meu chapéu com um gesto hábil. — Que pássaro descuidado, e ainda por cima chocando!
Ele balançou meu chapéu e derramou na mão estendida dois ou três ovos, uma bola de gude, um relógio, mais uma meia dúzia das inevitáveis bolinhas de vidro, e pedaços de papel amassado, cada vez mais e mais e mais, falando o tempo inteiro de como as pessoas esquecem de limpar os seus chapéus pelo lado de dentro do mesmo modo como o fazem por fora, falando com polidez, é claro, mas com certa determinação pessoal.
— Todo tipo de coisa se acumula, cavalheiro... Não no seu caso particular, é claro... Mas quase todo cliente... Incrível as coisas que conduzem consigo...
O monte de papel amassado acumulava-se e erguia-se em cima do balcão até que ele ficou praticamente oculto, menos sua voz, que prosseguia.
— Nenhum de nós sabe na verdade o que se oculta por trás de nossa aparência de seres humanos, cavalheiro. Será que não somos mais do que fachadas limpas, sepulcros caiados por fora...
Sua voz parou, exatamente como quando a gente alveja o gramofone de um vizinho com um tijolo e boa pontaria; o mesmo silêncio instantâneo, e o roçagar do papel se interrompeu, e tudo ficou muito calmo...
— Ainda precisa do meu chapéu? — perguntei, após um intervalo.
Não houve resposta.
Olhei para Gip, e Gip olhou para mim, e ali estavam nossas imagens distorcidas nos espelhos mágicos, com uma aparência muito esquisita, e grave, e quieta...
— Acho que vamos embora agora — falei. — Pode me dizer quanto foi? — E depois de uma pausa, num tom mais alto: — Quero a conta, por favor, e também o meu chapéu.
Pensei ter ouvido um fungado por trás da pilha de papel amassado.
— Vamos olhar atrás do balcão, Gip — falei. — Ele está brincando conosco.
Conduzi Gip e demos uma volta em torno do tigre, que ainda agitava a cabeça, e quem acha que estava atrás do balcão? Ninguém! Somente meu chapéu caído no chão, e um coelho de longas orelhas, o típico coelhinho dos mágicos, perdido em meditação, e com uma aparência tão amarfanhada e boba como só os coelhos de mágico têm. Recuperei meu chapéu, e o coelho se afastou dando pulinhos.
— Pai! — disse Gip, com um sussurro culpado.
— O que é, Gip?
— Eu gosto desta loja, pai.
“Eu também deveria estar gostando”, pensei comigo mesmo, “se este balcão não tivesse se alongado até barrar o nosso acesso à porta de saída”. Mas não chamei a atenção de Gip para esse detalhe.
— Coelhinho! — disse ele, estendendo a mão para o coelho, que passou por nós pulando. — Coelhinho, faça uma mágica para Gip!
Seus olhos acompanharam o bichinho enquanto este se esgueirava através de uma porta cuja existência eu, com toda certeza, não tinha percebido até então. Essa porta abriu-se, e através dela avistei o homem que tinha uma orelha maior que a outra. Continuava sorrindo; seu olhar, ao cruzar com o meu, tinha uma expressão divertida, mas com um quê de desafio.
— Acho que gostaria de ver a nossa sala de demonstrações, cavalheiro — disse ele, com inocente suavidade. Gip puxou meu dedo, querendo avançar. Olhei para o balcão e olhei de novo o lojista. Eu estava começando a achar aquela mágica genuína demais.
— Acho que não temos muito tempo — falei. Mas antes que concluísse a frase já estávamos na tal sala de demonstrações.
— Todo o material é da mesma qualidade — disse o homem, esfregando suas mãos muito flexíveis. — Ou seja, a melhor. Não existe nada aqui que não seja de Mágica genuína, com todas as garantias. Se me der licença...
Ele estendeu a mão e puxou alguma coisa agarrada à manga do meu casaco, e vi que era um pequeno diabinho vermelho, que se contorcia, pendurado pela cauda.
— Veja só — falei em voz baixa, indicando Gip e depois o diabinho vermelho com o olhar —, vocês não têm muitas dessas coisas por aqui, não?
— Não, não é nosso! Provavelmente entrou aqui com o senhor — disse o lojista, também em voz baixa, e com um sorriso mais desconcertante do que nunca. — É espantosa a quantidade de coisas que conduzimos conosco sem perceber! — E virando-se para Gip: — E então? Algo lhe interessou?
Muitas coisas ali tinham interessado Gip.
Ele virou-se para o comerciante com uma mistura de confidencialidade e respeito.
— Aquela é uma Espada Mágica? — perguntou.
— Uma Espada Mágica de Brinquedo. Ela não curva, não quebra, nem corta os dedos. Ela pode tornar invisível durante uma batalha qualquer pessoa com menos de dezoito anos. O preço vai de meia-coroa até sete coroas e seis pence, de acordo com o tamanho. Aquelas panóplias são artigos para cavaleiros andantes muito jovens, e são muito úteis: escudo de segurança, sandálias de velocidade, elmo de invisibilidade.
— Oh, pai! — exclamou Gip.
Tentei me informar sobre o preço, mas ele não me deu atenção. Tinha se voltado totalmente para Gip, o qual já havia largado meu dedo, e agora estava lhe mostrando todo o seu estoque como se nada pudesse impedi-lo. Daí a pouco percebi, com alguma desconfiança e uma ponta de ciúme, que Gip estava segurando o dedo daquele sujeito do modo como geralmente segura o meu. Sem dúvida era um indivíduo interessante, pensei, e tinha um estoque interessante de truques falsos, truques falsos muito bem-feitos, mas mesmo assim...
Fui acompanhando os dois, falando pouco, mas mantendo sempre um olho nas prestidigitações do sujeito. Afinal, Gip estava se divertindo. E sem dúvida quando quiséssemos ir embora poderíamos fazê-lo sem dificuldade.
Era um lugar enorme, desordenado, uma espécie de galeria cujo espaço era dividido por barracas, estandes, pilastras, e arcadas que conduziam a outras divisões, onde era possível ver ajudantes de aparência esquisita vagabundeando e olhando para nós; aqui e ali viam-se cortinas e espelhos de aparência estranha.
O lojista mostrou a Gip trens mágicos que se moviam sem usar vapor ou mecanismos de relojoaria, bastando ligar o sinal; e algumas caixas muito valiosas de soldadinhos que começavam a se movimentar assim que se erguia a tampa da caixa e alguém dizia... bem, não tenho um ouvido muito bom, e era um som que parecia um travalínguas, mas Gip, que tem o ouvido da mãe, aprendeu bem rápido. “Bravo!”, exclamou o lojista, jogando os soldados de volta à caixa sem a menor cerimônia, e entregando-a a Gip. “Agora!”, disse e Gip fez com que voltassem a se mover.
— Vai levar esta caixa? — perguntou o homem.
— Sim, vamos levar, a menos que você cobre o preço total. Nesse caso vou precisar da ajuda de algum magnata.
— Deus meu! Não! — exclamou o lojista, voltando a guardar os soldadinhos e fechando a tampa. Ele agitou a caixa no ar — e ali estava ela, envolta em papel pardo, amarrada, e com o nome e o endereço completos de Gip!
O homem riu ao ver o meu espanto.
— Esta é a mágica genuína — disse. — A coisa de verdade.
— É genuína demais para meu gosto — falei novamente.
Depois ele se dedicou a mostrar outros truques a Gip, truques bizarros, e feitos de um modo mais bizarro ainda. Ele explicava o método, revirava os objetos, e lá estava o meu garoto, abanando com firmeza a cabecinha, com ar de entendedor.
Eu não lhe dei a atenção que deveria dar. O Lojista Mágico dizia: “Hey, presto!”, e eu escutava sua voz de menino ecoando: “Hey, presto!” Mas minha atenção estava voltada para outras coisas. Eu começava a ter uma percepção mais clara do quanto aquele lugar era bizarro; ele era, para falar a verdade, impregnado por uma impressão tremenda de bizarrice. Havia algo de bizarro em sua própria aparência, no teto, no piso, nas cadeiras distribuídas ao acaso. Eu tinha a sensação esquisita de que quando não estava olhando diretamente para aquelas coisas elas mudavam, moviam-se, ficavam silenciosamente brincando de esconder às minhas costas. E a cornija era adornada por uma guirlanda de máscaras, que eram muito mais expressivas do que era possível a uma máscara de gesso.
De súbito, meu olhar foi atraído por um daqueles estranhos assistentes. Estava um pouco afastado, e sem se dar conta da minha presença — eu o avistava em diagonal, junto a uma pilha de brinquedos e através de uma arcada; ele estava encostado a um pilar numa atitude ociosa, e fazendo as coisas mais horríveis com o rosto! A mais horrível de todas era algo que ele fazia com o nariz. Fazia aquilo na atitude de quem não tem nenhuma tarefa para cumprir e está apenas se divertindo à toa. No começo o nariz era pequeno, bulboso, mas de repente ele se projetava para diante como um telescópio, e ia se alongando e se afinando até tornar-se uma espécie de chicote vermelho e flexível. Parecia uma coisa de pesadelo! Ele ficava fazendo floreios e atirando aquilo para diante, como um pescador que atira a linha de sua vara.
Pensei de imediato que Gip não deveria ver aquilo. Virei-me, e vi que ele estava completamente entretido pelo lojista, sem imaginar nada desagradável. Os dois conferenciavam em voz baixa e olhavam na minha direção. Gip estava de pé sobre um banquinho, e o lojista segurava na mão uma espécie de barril grande.
— Vamos brincar de esconder, pai! — gritou Gip. — Você me procura!
E, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa para evitá-lo, o lojista o cobriu com o barril enorme. Percebi de imediato o que aconteceria.
— Tire isso daí! — ordenei. — Agora! Vai assustar o menino. Tire-o daí!
O homem das orelhas desiguais me obedeceu sem dizer nada, e virou o barril na minha direção, mostrando que não havia nada dentro. E o banquinho também estava vazio! Bastara um segundo para meu filho desaparecer?...
Vocês conhecem, talvez, aquela sensação sinistra quando alguma coisa como uma mão enorme brota de um lugar desconhecido e aperta nosso coração. Sabem, portanto, que aquilo afasta de cena o Eu normal de um indivíduo e o deixa tenso, decidido, nem lento nem apressado, nem enfurecido nem com medo. Foi o que aconteceu comigo.
Fui na direção do lojista e dei um chute no banquinho, jogando-o para longe.
— Pare com essa palhaçada — disse. — Onde está meu filho?
— Está vendo? — disse ele, ainda mostrando o interior do barril. — Não há ilusão alguma...
Estendi a mão para agarrá-lo pela lapela, mas ele se esquivou, com um movimento ágil. Tentei de novo, e ele voltou a me evitar, e abriu uma porta para fugir.
— Pare! — gritei, e ele recuou, rindo. Saltei para agarrá-lo, e mergulhei na escuridão.
Thud!
— Meu Deus! Desculpe, senhor, não vi que estava aí!
Eu estava em Regent Street, e tinha acabado de esbarrar num operário, um homem de aparência decente; e a um metro de distância, talvez, e também numa atitude perplexa, estava Gip. Houve um rápido pedido de desculpas, e Gip virou-se para mim com um sorriso radiante, como se por alguns instantes tivesse me perdido de vista.
E carregava quatro pacotes embaixo do braço!
Imediatamente apossou-se do meu dedo.
Por um segundo fiquei completamente perdido. Olhei em redor à procura da porta da lojinha, e vejam só, não havia porta nenhuma ali! Nenhuma loja, nada, apenas uma pilastra comum separando a loja de fotografias e a loja com os pintos e as incubadoras!...
Fiz a única coisa que me foi possível no meio daquele tumulto mental. Fui direto até a beira da calçada e ergui meu guarda-chuva, chamando um cabriolé.
— Vamos de carro! — exclamou Gip, no auge da exultação.
Ajudei-o a subir; com algum esforço lembrei-me do meu endereço para informar o cocheiro, e acomodei-me. Alguma coisa inesperada proclamava sua presença no bolso do meu casaco; extraí dele uma bola de vidro. Com um trejeito petulante, joguei-a pela janela do carro.
Gip não disse nada.
Durante algum tempo nenhum de nós falou.
— Pai! — disse ele daí a pouco. — Aquela, sim, é que era uma loja!
Aquilo me serviu de deixa para começar a examinar de que maneira ele tinha visto todo o episódio. Ele me parecia ileso, e até aí, tudo bem; não estava assustado nem desorientado, estava, sim, tremendamente satisfeito com as aventuras daquela tarde, e trazia quatro pacotes apertados de encontro ao peito.
Que diabos! O que poderia haver dentro deles?
— Hmmm... — falei. — Garotos não podem ir todos os dias a uma loja como aquela.
Ele recebeu isto com seu estoicismo habitual, e por um momento lamentei ser seu pai e não sua mãe, e não poder naquele mesmo instante, na rua, dentro do carro, dar-lhe um beijo. Afinal, pensei, a coisa não tinha sido tão grave.
Mas foi somente quando começamos a abrir os pacotes que me senti mais seguro.
Acompanhei a abertura dos pacotes com um alívio provisório, e fiquei por ali, pelo quarto do garoto, durante um tempo maior que o normal.
Isto aconteceu há seis meses. E agora estou começando a acreditar que tudo está bem. O gatinho tinha apenas a mágica natural de todos os gatos, e os soldados formam uma companhia tão confiável quanto a que qualquer coronel poderia desejar. E Gip?
Os pais mais inteligentes devem compreender que com Gip tenho que usar bastante cuidado.
O máximo que consegui, certo dia, foi isto. Falei:
— Não gostaria que seus soldados ficassem vivos, Gip, e pudessem marchar sozinhos?
— Os meus fazem isso — disse ele. — Basta que eu diga uma palavra que sei, antes de abrir a caixa.
— E então eles marcham sozinhos por aí?
— Oh, claro, pai. Eu não ia gostar se não fosse assim.
Não externei nenhuma surpresa inadequada, e desde então já por uma ou duas vezes me aproximei dele, sem avisar, enquanto brincava com os soldadinhos, mas não os vi se comportar magicamente.
É tão difícil perceber.
Há também a questão financeira. Tenho o hábito incurável de pagar minhas contas. Tenho percorrido Regent Street de cima a baixo, várias vezes, procurando a loja. Estou inclinado a considerar que, da minha parte, minha obrigação está cumprida, e, já que o nome e o endereço de Gip são conhecidos, posso deixar que essas pessoas, sejam elas quem forem, nos enviem a conta de acordo com a sua conveniência.
H. G. Wells, "O país dos cegos e outras histórias"
— Se eu fosse rico — disse Gip, apontando para o Ovo Que Desaparece — eu compraria aquele ali para mim. E aquele. — Era o Bebê Que Chora, Muito Humano. — E aquele também. — Este último era uma coisa misteriosa, e se chamava, de acordo com um cartãozinho pregado sobre a caixa, “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”.
— Qualquer coisa — explicou Gip — desaparece embaixo de um desses cones. Li isso num livro. E ali, pai, está a Moeda Que Desaparece... só que eles a colocaram com o outro lado para cima, para ninguém perceber como é feito.
Gip, bom menino, herdou as boas maneiras de sua mãe, e não pediu para entrar na loja nem me aborreceu em qualquer sentido; mas, sabem como é, de maneira inconsciente ele puxava meu dedo na direção da porta e suas intenções eram muito claras.
— Olhe aquilo — disse, apontando a Garrafa Mágica.
— E se você tivesse uma dessas? — perguntei, e ele me olhou radiante, ao ouvir uma pergunta tão promissora.
— Eu ia mostrá-la a Jessie — respondeu ele, como sempre pensando nos outros.
— Faltam menos de cem dias para seu aniversário, Gibbles — falei, pousando minha mão na maçaneta.
Gip não respondeu, mas agarrou meu dedo com mais força, e assim entramos na loja.
Não era uma loja como as outras; era um bazar mágico, e toda a desenvoltura que Gip iria assumir se se tratasse de uma simples loja de brinquedos ia fazer-lhe falta agora.
Ele deixou a conversação por minha conta.
A loja era pequena, estreita, não muito bem-iluminada, e os sininhos presos à porta tintinaram novamente sua musiquinha plangente quando ela se fechou às nossas costas. Por alguns instantes ficamos ali sozinhos e pudemos olhar à nossa volta. Havia um tigre de papel machê sobre a tampa de vidro que cobria um balcão não muito alto: um tigre sério, com olhos bondosos, que agitava a cabeça metodicamente; havia uma porção de bolas de cristal, uma mão de porcelana segurando cartas de um baralho mágico, um bom estoque de aquários mágicos de variados tamanhos, e uma cartola que exibia suas molas internas com pouca modéstia. No chão estavam pousados espelhos mágicos: um que nos reproduzia longos e finos, um que inchava nossas cabeças e sumia com nossas pernas, e um que nos tornava atarracados e gordos como peças do jogo de damas; e enquanto ríamos diante deles o lojista, suponho, entrou no aposento.
De qualquer modo, em certo momento ali estava ele atrás do balcão: um homem moreno, de aspecto curioso, pele macilenta, com uma orelha maior que a outra e um queixo como o bico de uma bota.
— Em que posso ajudá-los? — disse ele, abrindo os seus dedos longos e mágicos sobre o tampo de vidro do balcão; e com um sobressalto percebemos sua presença ali.
— Gostaria de comprar alguns truques simples para o meu filho — respondi.
— De prestidigitação? — perguntou ele. — Mecânicos? Domésticos?
— Tem alguma coisa divertida? — perguntei.
— Hmmm... — disse o lojista, e coçou a cabeça por um instante, pensativo. Então, com um gesto bem visível, retirou da cabeça uma bola de vidro. — Alguma coisa assim? — perguntou, estendendo a bola.
Aquilo foi inesperado. Eu já tinha visto esse truque em parques de diversões inúmeras vezes — faz parte do repertório de qualquer mágico — mas não estava esperando por ele ali.
— Muito bom — falei, com uma risada.
— Não é mesmo? — disse o lojista.
Gip estendeu a mão que estava livre para receber o objeto... e achou apenas uma mão aberta e vazia.
— Está no seu bolso — disse o lojista. E lá estava mesmo!
— Quanto custa? — perguntei.
— Não cobramos pelas bolas de vidro — disse o lojista, com cortesia. — Elas vêm para nós... — tirou mais uma, agora do cotovelo — ... de graça. — Tirou mais uma bola da nuca, e a colocou em cima do balcão, junto da outra. Gip examinou sua bola de vidro com olhar esperto, depois observou as duas sobre o balcão, e finalmente encarou o lojista, que estava sorrindo.
— Pode ficar com estas também — disse o lojista — e, se não se incomodar, fique com esta, da minha boca. Olhe aí!
Gip me olhou calado em busca de orientação, e com um silêncio profundo separou para si as quatro bolas, agarrou de novo meu dedo, e preparou-se para o prodígio seguinte.
— É assim que obtemos nosso material mais barato — observou o lojista.
Dei aquela risada de quem soube entender a piada.
— Em vez de ir ao armazém de atacado — falei. — Claro que fica bem mais em conta.
— De certa forma, sim — disse o lojista. — Embora sempre acabemos pagando. Mas não pagamos tão caro quanto as pessoas imaginam. Nossos equipamentos maiores, nossas provisões diárias e todas as outras coisas de que precisamos vêm todas de dentro dessa cartola. E, sabe, cavalheiro, se me permite dizê-lo, não existe uma grande loja de atacado, não para artigos de Mágica Genuína. Não sei se reparou no nosso letreiro: A GENUÍNA LOJA MÁGICA. — Ele puxou um cartão de visita da bochecha e o estendeu para mim. — Genuína — repetiu, apontando a palavra com o dedo. — Não há o menor engano, cavalheiro.
Pensei que ele estava mantendo a piada com bastante seriedade.
Ele se virou para Gip com o mais afável dos sorrisos.
— E você, sabia? É o Tipo Certo de Garoto.
Fiquei surpreso com o fato de ele saber disso, porque, no interesse da disciplina, nós mantemos isto em segredo, em nossa casa; mas Gip recebeu a informação com um sólido silêncio, mantendo os olhos fitos no homem.
— Somente o Tipo Certo de Garoto consegue entrar por aquela porta.
E então, como que para ilustrar o que ele dizia, ouviu-se um barulho na porta, e uma voz de criança quase guinchando se ouviu do lado de fora.
— Nãããão... Eu quero entrar lá dentro, papai, eu QUERO entrar lá! Nããão...
E depois a voz cansada de um pai, cheia de consolos e promessas.
— Está fechada, Edward — dizia ele.
— Mas não está! — disse eu.
— Está, senhor — disse o lojista. — Sempre está, para esse tipo de criança.
Enquanto ele falava tive pela vitrine o vislumbre do rosto do menino, um rosto branco, miúdo, pálido de tanto comer doces e comidas açucaradas, distorcida por maus sentimentos; um pequeno e implacável egoísta, batendo no vidro mágico.
— Não adianta, senhor — disse o lojista quando eu, com meu impulso instintivo para ajudar, fui na direção da porta. Logo o garoto mimado foi levado para longe, aos berros.
— Como consegue fazer isto? — perguntei, já mais à vontade.
— Mágica! — disse o lojista, fazendo um gesto descuidado com a mão, e, presto! Faíscas de um fogo multicor brotaram dos seus dedos e sumiram por entre as sombras da loja.
— Você estava dizendo — falou ele, virando-se para Gip —, antes de entrar, que gostaria de ter uma caixinha dos nossos “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”?
Gip, com um valoroso esforço, respondeu:
— Sim.
— Está no seu bolso.
E inclinando-se sobre o balcão — ele tinha um corpo extraordinariamente longo — aquele sujeito incrível produziu o objeto no estilo habitual dos mágicos.
— Papel! — disse ele, e tirou uma folha de papel de embrulho da cartola que exibia suas molas. — Barbante! — e vejam só, sua boca tornou-se um estojo oco de onde ele começou a puxar um interminável fio de barbante, que cortou com os dentes depois de amarrar o pacote (e, ao que me pareceu, engoliu o rolo).
Depois ele acendeu uma vela no nariz de um dos bonecos de ventríloquo, colocou um dos dedos (que tinha se transformado num bastão de cera de lacrar) na chama, e selou o pacote.
— E há também o Ovo Que Desaparece — lembrou ele, e, retirando um exemplar do bolso do meu casaco, fez outro pacote, e depois repetiu tudo com o Bebê Que Chora, Muito Humano. Quando todos os pacotes ficaram prontos, entreguei-os a Gip, que os apertou de encontro ao peito.
Ele quase não disse nada, mas seu olhar era eloquente; o modo como apertava os pacotes nos braços era eloquente. Naquele instante ele era um playground de emoções indizíveis. Aquilo, sim, era Mágica verdadeira.
Então, com um sobressalto, senti alguma coisa se movendo dentro do meu chapéu, alguma coisa macia e irrequieta. Ergui-o, e um pombo com as penas eriçadas — um cúmplice, sem dúvida — saltou sobre o balcão e correu a se esconder, pelo que pude ver, dentro de uma caixa de papelão por trás do tigre.
— Ora, ora! — exclamou o lojista, tomando meu chapéu com um gesto hábil. — Que pássaro descuidado, e ainda por cima chocando!
Ele balançou meu chapéu e derramou na mão estendida dois ou três ovos, uma bola de gude, um relógio, mais uma meia dúzia das inevitáveis bolinhas de vidro, e pedaços de papel amassado, cada vez mais e mais e mais, falando o tempo inteiro de como as pessoas esquecem de limpar os seus chapéus pelo lado de dentro do mesmo modo como o fazem por fora, falando com polidez, é claro, mas com certa determinação pessoal.
— Todo tipo de coisa se acumula, cavalheiro... Não no seu caso particular, é claro... Mas quase todo cliente... Incrível as coisas que conduzem consigo...
O monte de papel amassado acumulava-se e erguia-se em cima do balcão até que ele ficou praticamente oculto, menos sua voz, que prosseguia.
— Nenhum de nós sabe na verdade o que se oculta por trás de nossa aparência de seres humanos, cavalheiro. Será que não somos mais do que fachadas limpas, sepulcros caiados por fora...
Sua voz parou, exatamente como quando a gente alveja o gramofone de um vizinho com um tijolo e boa pontaria; o mesmo silêncio instantâneo, e o roçagar do papel se interrompeu, e tudo ficou muito calmo...
— Ainda precisa do meu chapéu? — perguntei, após um intervalo.
Não houve resposta.
Olhei para Gip, e Gip olhou para mim, e ali estavam nossas imagens distorcidas nos espelhos mágicos, com uma aparência muito esquisita, e grave, e quieta...
— Acho que vamos embora agora — falei. — Pode me dizer quanto foi? — E depois de uma pausa, num tom mais alto: — Quero a conta, por favor, e também o meu chapéu.
Pensei ter ouvido um fungado por trás da pilha de papel amassado.
— Vamos olhar atrás do balcão, Gip — falei. — Ele está brincando conosco.
Conduzi Gip e demos uma volta em torno do tigre, que ainda agitava a cabeça, e quem acha que estava atrás do balcão? Ninguém! Somente meu chapéu caído no chão, e um coelho de longas orelhas, o típico coelhinho dos mágicos, perdido em meditação, e com uma aparência tão amarfanhada e boba como só os coelhos de mágico têm. Recuperei meu chapéu, e o coelho se afastou dando pulinhos.
— Pai! — disse Gip, com um sussurro culpado.
— O que é, Gip?
— Eu gosto desta loja, pai.
“Eu também deveria estar gostando”, pensei comigo mesmo, “se este balcão não tivesse se alongado até barrar o nosso acesso à porta de saída”. Mas não chamei a atenção de Gip para esse detalhe.
— Coelhinho! — disse ele, estendendo a mão para o coelho, que passou por nós pulando. — Coelhinho, faça uma mágica para Gip!
Seus olhos acompanharam o bichinho enquanto este se esgueirava através de uma porta cuja existência eu, com toda certeza, não tinha percebido até então. Essa porta abriu-se, e através dela avistei o homem que tinha uma orelha maior que a outra. Continuava sorrindo; seu olhar, ao cruzar com o meu, tinha uma expressão divertida, mas com um quê de desafio.
— Acho que gostaria de ver a nossa sala de demonstrações, cavalheiro — disse ele, com inocente suavidade. Gip puxou meu dedo, querendo avançar. Olhei para o balcão e olhei de novo o lojista. Eu estava começando a achar aquela mágica genuína demais.
— Acho que não temos muito tempo — falei. Mas antes que concluísse a frase já estávamos na tal sala de demonstrações.
— Todo o material é da mesma qualidade — disse o homem, esfregando suas mãos muito flexíveis. — Ou seja, a melhor. Não existe nada aqui que não seja de Mágica genuína, com todas as garantias. Se me der licença...
Ele estendeu a mão e puxou alguma coisa agarrada à manga do meu casaco, e vi que era um pequeno diabinho vermelho, que se contorcia, pendurado pela cauda.
A criaturinha mexia-se sem parar, tentando morder sua mão, mas ele logo o atirou para trás de um balcão afastado. Claro que aquilo não passava de um bonequinho de borracha, mas, por um instante...! E o gesto dele foi exatamente o de quem pega a contragosto algum bichinho repulsivo e que morde. Olhei para Gip, mas Gip estava com o olhar pregado num cavalinho mágico. Alegrei-me por ele não ter visto aquela coisa.
— Veja só — falei em voz baixa, indicando Gip e depois o diabinho vermelho com o olhar —, vocês não têm muitas dessas coisas por aqui, não?
— Não, não é nosso! Provavelmente entrou aqui com o senhor — disse o lojista, também em voz baixa, e com um sorriso mais desconcertante do que nunca. — É espantosa a quantidade de coisas que conduzimos conosco sem perceber! — E virando-se para Gip: — E então? Algo lhe interessou?
Muitas coisas ali tinham interessado Gip.
Ele virou-se para o comerciante com uma mistura de confidencialidade e respeito.
— Aquela é uma Espada Mágica? — perguntou.
— Uma Espada Mágica de Brinquedo. Ela não curva, não quebra, nem corta os dedos. Ela pode tornar invisível durante uma batalha qualquer pessoa com menos de dezoito anos. O preço vai de meia-coroa até sete coroas e seis pence, de acordo com o tamanho. Aquelas panóplias são artigos para cavaleiros andantes muito jovens, e são muito úteis: escudo de segurança, sandálias de velocidade, elmo de invisibilidade.
— Oh, pai! — exclamou Gip.
Tentei me informar sobre o preço, mas ele não me deu atenção. Tinha se voltado totalmente para Gip, o qual já havia largado meu dedo, e agora estava lhe mostrando todo o seu estoque como se nada pudesse impedi-lo. Daí a pouco percebi, com alguma desconfiança e uma ponta de ciúme, que Gip estava segurando o dedo daquele sujeito do modo como geralmente segura o meu. Sem dúvida era um indivíduo interessante, pensei, e tinha um estoque interessante de truques falsos, truques falsos muito bem-feitos, mas mesmo assim...
Fui acompanhando os dois, falando pouco, mas mantendo sempre um olho nas prestidigitações do sujeito. Afinal, Gip estava se divertindo. E sem dúvida quando quiséssemos ir embora poderíamos fazê-lo sem dificuldade.
Era um lugar enorme, desordenado, uma espécie de galeria cujo espaço era dividido por barracas, estandes, pilastras, e arcadas que conduziam a outras divisões, onde era possível ver ajudantes de aparência esquisita vagabundeando e olhando para nós; aqui e ali viam-se cortinas e espelhos de aparência estranha.
Tudo era tão fora do comum que acabei me vendo incapaz de apontar a porta por onde tínhamos entrado.
O lojista mostrou a Gip trens mágicos que se moviam sem usar vapor ou mecanismos de relojoaria, bastando ligar o sinal; e algumas caixas muito valiosas de soldadinhos que começavam a se movimentar assim que se erguia a tampa da caixa e alguém dizia... bem, não tenho um ouvido muito bom, e era um som que parecia um travalínguas, mas Gip, que tem o ouvido da mãe, aprendeu bem rápido. “Bravo!”, exclamou o lojista, jogando os soldados de volta à caixa sem a menor cerimônia, e entregando-a a Gip. “Agora!”, disse e Gip fez com que voltassem a se mover.
— Vai levar esta caixa? — perguntou o homem.
— Sim, vamos levar, a menos que você cobre o preço total. Nesse caso vou precisar da ajuda de algum magnata.
— Deus meu! Não! — exclamou o lojista, voltando a guardar os soldadinhos e fechando a tampa. Ele agitou a caixa no ar — e ali estava ela, envolta em papel pardo, amarrada, e com o nome e o endereço completos de Gip!
O homem riu ao ver o meu espanto.
— Esta é a mágica genuína — disse. — A coisa de verdade.
— É genuína demais para meu gosto — falei novamente.
Depois ele se dedicou a mostrar outros truques a Gip, truques bizarros, e feitos de um modo mais bizarro ainda. Ele explicava o método, revirava os objetos, e lá estava o meu garoto, abanando com firmeza a cabecinha, com ar de entendedor.
Eu não lhe dei a atenção que deveria dar. O Lojista Mágico dizia: “Hey, presto!”, e eu escutava sua voz de menino ecoando: “Hey, presto!” Mas minha atenção estava voltada para outras coisas. Eu começava a ter uma percepção mais clara do quanto aquele lugar era bizarro; ele era, para falar a verdade, impregnado por uma impressão tremenda de bizarrice. Havia algo de bizarro em sua própria aparência, no teto, no piso, nas cadeiras distribuídas ao acaso. Eu tinha a sensação esquisita de que quando não estava olhando diretamente para aquelas coisas elas mudavam, moviam-se, ficavam silenciosamente brincando de esconder às minhas costas. E a cornija era adornada por uma guirlanda de máscaras, que eram muito mais expressivas do que era possível a uma máscara de gesso.
De súbito, meu olhar foi atraído por um daqueles estranhos assistentes. Estava um pouco afastado, e sem se dar conta da minha presença — eu o avistava em diagonal, junto a uma pilha de brinquedos e através de uma arcada; ele estava encostado a um pilar numa atitude ociosa, e fazendo as coisas mais horríveis com o rosto! A mais horrível de todas era algo que ele fazia com o nariz. Fazia aquilo na atitude de quem não tem nenhuma tarefa para cumprir e está apenas se divertindo à toa. No começo o nariz era pequeno, bulboso, mas de repente ele se projetava para diante como um telescópio, e ia se alongando e se afinando até tornar-se uma espécie de chicote vermelho e flexível. Parecia uma coisa de pesadelo! Ele ficava fazendo floreios e atirando aquilo para diante, como um pescador que atira a linha de sua vara.
Pensei de imediato que Gip não deveria ver aquilo. Virei-me, e vi que ele estava completamente entretido pelo lojista, sem imaginar nada desagradável. Os dois conferenciavam em voz baixa e olhavam na minha direção. Gip estava de pé sobre um banquinho, e o lojista segurava na mão uma espécie de barril grande.
— Vamos brincar de esconder, pai! — gritou Gip. — Você me procura!
E, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa para evitá-lo, o lojista o cobriu com o barril enorme. Percebi de imediato o que aconteceria.
— Tire isso daí! — ordenei. — Agora! Vai assustar o menino. Tire-o daí!
O homem das orelhas desiguais me obedeceu sem dizer nada, e virou o barril na minha direção, mostrando que não havia nada dentro. E o banquinho também estava vazio! Bastara um segundo para meu filho desaparecer?...
Vocês conhecem, talvez, aquela sensação sinistra quando alguma coisa como uma mão enorme brota de um lugar desconhecido e aperta nosso coração. Sabem, portanto, que aquilo afasta de cena o Eu normal de um indivíduo e o deixa tenso, decidido, nem lento nem apressado, nem enfurecido nem com medo. Foi o que aconteceu comigo.
Fui na direção do lojista e dei um chute no banquinho, jogando-o para longe.
— Pare com essa palhaçada — disse. — Onde está meu filho?
— Está vendo? — disse ele, ainda mostrando o interior do barril. — Não há ilusão alguma...
Estendi a mão para agarrá-lo pela lapela, mas ele se esquivou, com um movimento ágil. Tentei de novo, e ele voltou a me evitar, e abriu uma porta para fugir.
— Pare! — gritei, e ele recuou, rindo. Saltei para agarrá-lo, e mergulhei na escuridão.
Thud!
— Meu Deus! Desculpe, senhor, não vi que estava aí!
Eu estava em Regent Street, e tinha acabado de esbarrar num operário, um homem de aparência decente; e a um metro de distância, talvez, e também numa atitude perplexa, estava Gip. Houve um rápido pedido de desculpas, e Gip virou-se para mim com um sorriso radiante, como se por alguns instantes tivesse me perdido de vista.
E carregava quatro pacotes embaixo do braço!
Imediatamente apossou-se do meu dedo.
Por um segundo fiquei completamente perdido. Olhei em redor à procura da porta da lojinha, e vejam só, não havia porta nenhuma ali! Nenhuma loja, nada, apenas uma pilastra comum separando a loja de fotografias e a loja com os pintos e as incubadoras!...
Fiz a única coisa que me foi possível no meio daquele tumulto mental. Fui direto até a beira da calçada e ergui meu guarda-chuva, chamando um cabriolé.
— Vamos de carro! — exclamou Gip, no auge da exultação.
Ajudei-o a subir; com algum esforço lembrei-me do meu endereço para informar o cocheiro, e acomodei-me. Alguma coisa inesperada proclamava sua presença no bolso do meu casaco; extraí dele uma bola de vidro. Com um trejeito petulante, joguei-a pela janela do carro.
Gip não disse nada.
Durante algum tempo nenhum de nós falou.
— Pai! — disse ele daí a pouco. — Aquela, sim, é que era uma loja!
Aquilo me serviu de deixa para começar a examinar de que maneira ele tinha visto todo o episódio. Ele me parecia ileso, e até aí, tudo bem; não estava assustado nem desorientado, estava, sim, tremendamente satisfeito com as aventuras daquela tarde, e trazia quatro pacotes apertados de encontro ao peito.
Que diabos! O que poderia haver dentro deles?
— Hmmm... — falei. — Garotos não podem ir todos os dias a uma loja como aquela.
Ele recebeu isto com seu estoicismo habitual, e por um momento lamentei ser seu pai e não sua mãe, e não poder naquele mesmo instante, na rua, dentro do carro, dar-lhe um beijo. Afinal, pensei, a coisa não tinha sido tão grave.
Mas foi somente quando começamos a abrir os pacotes que me senti mais seguro.
Três deles continham caixas de soldados, soldadinhos de chumbo bem comuns, mas de tão boa qualidade que Gip logo esqueceu terem sido eles, originalmente, parte de um truque mágico do tipo mais genuíno; e o quarto pacote continha um gatinho, um pequeno gatinho branco, vivo, com excelente saúde, excelente temperamento e um notável apetite.
Acompanhei a abertura dos pacotes com um alívio provisório, e fiquei por ali, pelo quarto do garoto, durante um tempo maior que o normal.
Isto aconteceu há seis meses. E agora estou começando a acreditar que tudo está bem. O gatinho tinha apenas a mágica natural de todos os gatos, e os soldados formam uma companhia tão confiável quanto a que qualquer coronel poderia desejar. E Gip?
Os pais mais inteligentes devem compreender que com Gip tenho que usar bastante cuidado.
O máximo que consegui, certo dia, foi isto. Falei:
— Não gostaria que seus soldados ficassem vivos, Gip, e pudessem marchar sozinhos?
— Os meus fazem isso — disse ele. — Basta que eu diga uma palavra que sei, antes de abrir a caixa.
— E então eles marcham sozinhos por aí?
— Oh, claro, pai. Eu não ia gostar se não fosse assim.
Não externei nenhuma surpresa inadequada, e desde então já por uma ou duas vezes me aproximei dele, sem avisar, enquanto brincava com os soldadinhos, mas não os vi se comportar magicamente.
É tão difícil perceber.
Há também a questão financeira. Tenho o hábito incurável de pagar minhas contas. Tenho percorrido Regent Street de cima a baixo, várias vezes, procurando a loja. Estou inclinado a considerar que, da minha parte, minha obrigação está cumprida, e, já que o nome e o endereço de Gip são conhecidos, posso deixar que essas pessoas, sejam elas quem forem, nos enviem a conta de acordo com a sua conveniência.
H. G. Wells, "O país dos cegos e outras histórias"
Rodeado por livros
Gosto de me sentir rodeado por livros. A presença de livros, de muitos livros, tem um poder calmante, como flutuar num oceano pacífico, olhando o céu, numa tarde de sol. Escrevo melhor em casa, na minha biblioteca. Ontem, interrompi o romance em que estou a trabalhar para procurar uma coletânea de haikus, na secção de poesia. Não encontrei o livro que procurava, de forma que comecei a desmontar tudo. Reparei, sem grande surpresa, dado tal fenómeno ser recorrente sempre que começo a remexer nas estantes, que, nas filas de trás, iam surgindo títulos desconhecidos. Não me lembro de ter comprado aqueles livros. Não sei como se introduziram na minha casa.
Acredito, desde há muito tempo, que livros esquecidos nos confins de estantes remotas tendem a chamar ou a engendrar novos livros. Trata-se de um prodígio ignorado pela ciência. Isso não o invalida. A ciência reconhece hoje prodígios muitíssimo mais assombrosos, infinitamente menos credíveis, como o chamado entrelaçamento quântico. Segundo a mecânica dois ou mais objetos situados a milhões de anos-luz de podem estar ligados uns aos outros de tal forma que, atuando sobre o primeiro, os restantes respondem a tal ação no mesmo instante.
Quem acredita em teses como esta não tem por que não acreditar que livros esquecidos evoquem para o seu convívio outros livros esquecidos, ou — possibilidade que exige um esforço de credulidade apenas um pouco maior — que dois ou mais livros juntos interajam uns com os outros, numa espécie de festiva suruba literária, de forma a gerar títulos inteiramente originais. Pode ser que os dois prodígios ocorram simultaneamente: uns livros chegam através de misteriosas cerimónias de evocação; os outros são engendrados, ali mesmo, nas estantes, a partir de terceiros.
Em determinada altura da minha busca caiu-me aos pés um volume magro, Silogismos da Amargura, de Emil Cioran. Ficou caído de borco, aberto, indefeso, em meio à desordem geral. Debrucei-me para o apanhar, segurando-o pela primeira vez entre as minhas mãos espantadas, e li: «Passados os 30 anos deveríamos dar tanta importância aos acontecimentos quanto um astrónomo aos mexericos.»
Coloquei o livro de E.M. Cioran na pilha dos «livros evocados», juntamente com um volumoso ensaio, em francês, sobre poesia chinesa, e a biografia, em inglês, de Ryszard Kapuscinski, de Artur Domoslawski (que, entretanto, comecei a ler). Todos aqueles livros foram realmente publicados. Os seus autores são conhecidos. As editoras que os publicaram têm existência mais ou menos comprovada. Antes de surgirem na minha biblioteca residiam certamente em alguma outra. A biografia de Kapuscinski aliás, traz na terceira página uma nota, a lápis, do presumível proprietário original.
Mais curiosos são os livros tão improváveis que só podem ter nascido do concúbito ansioso de vários títulos desencontrados. Descobri, por exemplo, um tratado romeno de pogonologia (o estudo da barba), e um título de poesia redigido num perverso dialecto do português. O livro de poemas trazia a indicação de ter sido impresso em 2017. Pode ser um erro de ortografia. Pode ser que o livro inteiro não seja outra coisa senão uma penosa coleção de erros de ortografia. Ou não — talvez tenha mesmo sido escrito num tempo futuro, num dialeto futuro.
Fiquei particularmente maravilhado com um volume, em caracteres árabes, que me pareceu uma reprodução moderna de um ensaio muito antigo sobre a extinção dos unicórnios. Guardei-o entre um exemplar autografado da primeira edição moçambicana de Vozes Anoitecidas, do Mia Couto, e uma volumosa biografia do grande viajante inglês Richard Francis Burton (por este exemplo podem avaliar a desordem em que se encontra a minha biblioteca). Quando voltei a procurá-lo já não estava lá. Suponho que terá sido convocado para outra biblioteca.
Visitei recentemente aquela que deve ser a maior biblioteca privada de Portugal. Pertence a José Pacheco Pereira, conhecido comentador político. Pacheco Pereira começou por adquirir um casarão enorme numa localidade perto de Lisboa, mas depressa compreendeu que não iria conseguir colocar lá todos os seus livros — mais de 100 mil. Então foi comprando as propriedades em redor — uma escola, um lagar, um quartel da Polícia —, e agora a biblioteca estende-se por todos aqueles espaços. Emergimos de um corredor sombrio e estamos num pátio e logo a seguir nos antigos calabouços da Polícia, sempre entre livros. A biblioteca ameaça devorar a povoação inteira. Imagino o furor noturno nas estantes dobradas ao peso dos livros. Os desvairados títulos que ali se engendram. O fantasma de Borges vagando feliz pelos corredores.
José Eduardo Agualusa, "O Paraíso e Outros Infernos"
Acredito, desde há muito tempo, que livros esquecidos nos confins de estantes remotas tendem a chamar ou a engendrar novos livros. Trata-se de um prodígio ignorado pela ciência. Isso não o invalida. A ciência reconhece hoje prodígios muitíssimo mais assombrosos, infinitamente menos credíveis, como o chamado entrelaçamento quântico. Segundo a mecânica dois ou mais objetos situados a milhões de anos-luz de podem estar ligados uns aos outros de tal forma que, atuando sobre o primeiro, os restantes respondem a tal ação no mesmo instante.
Quem acredita em teses como esta não tem por que não acreditar que livros esquecidos evoquem para o seu convívio outros livros esquecidos, ou — possibilidade que exige um esforço de credulidade apenas um pouco maior — que dois ou mais livros juntos interajam uns com os outros, numa espécie de festiva suruba literária, de forma a gerar títulos inteiramente originais. Pode ser que os dois prodígios ocorram simultaneamente: uns livros chegam através de misteriosas cerimónias de evocação; os outros são engendrados, ali mesmo, nas estantes, a partir de terceiros.
Em determinada altura da minha busca caiu-me aos pés um volume magro, Silogismos da Amargura, de Emil Cioran. Ficou caído de borco, aberto, indefeso, em meio à desordem geral. Debrucei-me para o apanhar, segurando-o pela primeira vez entre as minhas mãos espantadas, e li: «Passados os 30 anos deveríamos dar tanta importância aos acontecimentos quanto um astrónomo aos mexericos.»
Coloquei o livro de E.M. Cioran na pilha dos «livros evocados», juntamente com um volumoso ensaio, em francês, sobre poesia chinesa, e a biografia, em inglês, de Ryszard Kapuscinski, de Artur Domoslawski (que, entretanto, comecei a ler). Todos aqueles livros foram realmente publicados. Os seus autores são conhecidos. As editoras que os publicaram têm existência mais ou menos comprovada. Antes de surgirem na minha biblioteca residiam certamente em alguma outra. A biografia de Kapuscinski aliás, traz na terceira página uma nota, a lápis, do presumível proprietário original.
Mais curiosos são os livros tão improváveis que só podem ter nascido do concúbito ansioso de vários títulos desencontrados. Descobri, por exemplo, um tratado romeno de pogonologia (o estudo da barba), e um título de poesia redigido num perverso dialecto do português. O livro de poemas trazia a indicação de ter sido impresso em 2017. Pode ser um erro de ortografia. Pode ser que o livro inteiro não seja outra coisa senão uma penosa coleção de erros de ortografia. Ou não — talvez tenha mesmo sido escrito num tempo futuro, num dialeto futuro.
Fiquei particularmente maravilhado com um volume, em caracteres árabes, que me pareceu uma reprodução moderna de um ensaio muito antigo sobre a extinção dos unicórnios. Guardei-o entre um exemplar autografado da primeira edição moçambicana de Vozes Anoitecidas, do Mia Couto, e uma volumosa biografia do grande viajante inglês Richard Francis Burton (por este exemplo podem avaliar a desordem em que se encontra a minha biblioteca). Quando voltei a procurá-lo já não estava lá. Suponho que terá sido convocado para outra biblioteca.
Visitei recentemente aquela que deve ser a maior biblioteca privada de Portugal. Pertence a José Pacheco Pereira, conhecido comentador político. Pacheco Pereira começou por adquirir um casarão enorme numa localidade perto de Lisboa, mas depressa compreendeu que não iria conseguir colocar lá todos os seus livros — mais de 100 mil. Então foi comprando as propriedades em redor — uma escola, um lagar, um quartel da Polícia —, e agora a biblioteca estende-se por todos aqueles espaços. Emergimos de um corredor sombrio e estamos num pátio e logo a seguir nos antigos calabouços da Polícia, sempre entre livros. A biblioteca ameaça devorar a povoação inteira. Imagino o furor noturno nas estantes dobradas ao peso dos livros. Os desvairados títulos que ali se engendram. O fantasma de Borges vagando feliz pelos corredores.
José Eduardo Agualusa, "O Paraíso e Outros Infernos"
terça-feira, fevereiro 17
Passagem da noite
É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
Carlos Drummond de Andrade
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
Carlos Drummond de Andrade
Uma história de fadas
Era comum, que nem a gente
A única diferença é que ele
era um Homem Que Acreditava.
Era uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muita gente (a maioria) até duvidava que ficasse em algum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor ideia de como fazer para chegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito e acabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar.
Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido, ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nem a gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair em busca do País das Fadas. E saiu.
Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras. O homem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.
Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, em direção àquilo em que acreditava.
Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.
De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.
De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o sorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?
Caio Fernando Abreu, "Pequenas Epifanias"
A única diferença é que ele
era um Homem Que Acreditava.
Era uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muita gente (a maioria) até duvidava que ficasse em algum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor ideia de como fazer para chegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito e acabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar.
Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido, ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nem a gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair em busca do País das Fadas. E saiu.
Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras. O homem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.
Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, em direção àquilo em que acreditava.
Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.
De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.
De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o sorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?
Caio Fernando Abreu, "Pequenas Epifanias"
É preciso selecionar
Diferentes das papelarias da minha infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas escritoras do período Heian (794 a 1185, no Japão): escalar as paredes, pegar qualquer livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência puseram na sua mesinha-de-cabeceira.
Alberto Manguel, "Uma História da Leitura"
Alberto Manguel, "Uma História da Leitura"
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