Os blocos lá fora e eu aqui dentro, ar-condicionado polar subártico ligado, gatos dormindo ao meu redor, café forte e água gelada, paraíso.
Decidi catalogar os livros mais ou menos na época da pandemia, quando cupins comeram parte das minhas estantes e quase todos os livros importados. Até hoje não sei se foi o gosto requintado da cola estrangeira que os atraiu ou o sabor colonial do papel que veio de fora, mas o fato é que, com exceção de uma meia dúzia, os livros nacionais resistiram ao ataque. Independentemente de suas qualidades gastronômicas, porém, todos tiveram que ser retirados das estantes devoradas, separados, limpos e recolocados nas estantes novas. Era o momento ideal para trazer alguma ordem ao caos.
Um aplicativo chamado Libib (gratuito até cinco mil exemplares) e dois amigos livreiros vêm me ajudando na tarefa interminável. Hoje são exatamente 6.648 livros cadastrados, mas isso muda o tempo todo. Saem uns, entram outros. O total, curiosamente, só aumenta, embora eu me esforce para manter a coisa sob controle.
Cerca de mil são livros selvagens, ou seja, aqueles que ainda não encontraram o seu lugar nas estantes; mas até eles ficaram mais fáceis de achar depois do Libib, porque pelo menos sabemos em que parte da casa estão.
Graças ao meu trabalho, recebo muitos livros, um ou dois pacotinhos por dia, como se fosse um Natal permanente. Os gatos ficam extasiados com as caixas e com o papelão. E, desde que passei a ganhar o suficiente para gastar tudo em livros, gasto tudo em livros.
Agora mesmo não resisti e comprei uma coleção linda da Agatha Christie editada pela Harper Collins, que há meses me provoca pela internet. Não tenho mais onde botar um único exemplar e, de uma tacada só, mandei vir mais de 40. Novas traduções, capas coloridas, uma alegria.
Um dia ainda compro uma enciclopédia só porque as capas são bonitas.
Sim, eu já li tudo da Agatha Christie, e provavelmente algumas vezes; eu até traduzi Agatha Christie. Algumas vezes. Os cupins não pouparam nenhum dos que eu tinha, todos em inglês, naquele papel irresistível. Faz sentido que estejam em português, agora, porque netos e sobrinhos-netos começam a descobrir romances policiais e tenho o sonho secreto de que se tornem traças de biblioteca como a avó.
Onde vou botar tudo isso?
No domingo passado, os amigos livreiros vieram aqui. Estudamos as estantes com a maior seriedade, tiramos a trena da gaveta, fizemos cálculos e... não decidimos nada.
Por enquanto continuo no modo carnaval ativado e não me estresso. No dia em que o cardume chegar, vamos encontrar lugar: há sempre uma solução para quem vive dentro do problema.

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