sábado, abril 25

Semelhanças

Espero chegar o livro “Menos que um”, de Patrícia Melo. Segundo as recomendações, é um relato sensível sobre a vida interior dos que moram nas ruas. Um de meus interesses também, mas a timidez (ainda resiste) me impede que os aborde e os ouça. Coleciono histórias de alguns que falam várias línguas, são formados em diversas profissões, mas, por alguma cruel razão, perderam seu lugar na sociedade. Sei que o assunto é prato cheio para a pieguice, mas me recuso a ignorar a condição desses anônimos, lamentando que o país não consiga beneficiá-los de forma eficiente.


Poucos dias atrás, estava numa via movimentada e notei a presença invisível de um homem ainda moço, sentado junto às paredes, muito atento ao livro em suas mãos. Ao me aproximar, vi que se tratava de uma dessas publicações para colorir, que ele preenchia lenta e caprichosamente com um toco de lápis de cor. Teria sido um artista plástico em outros tempos? Teria filhos que já não via e com quem talvez pudesse dividir o passatempo? Seria sua maneira de anestesiar a solidão?

Num primeiro impulso, pensei em ir até uma papelaria e lhe dar lápis de presente. Porém suas roupas sujas, o cabelo e a barba grandes, a coberta rasgada onde se acomodara provavam que suas necessidades eram muito maiores. Segui meu caminho, sentindo culpa pela atitude burguesa, arremedo de indiferença. Desde que mudei para cá, ando avessa a envolvimentos pessoais, como bicho em posição de defesa. Espero que, quando conhecer melhor lugares e habitantes, volte à atitude risonha e franca.

O afeto pelas pessoas não mudou, assim como aos animais e vegetais, a arquitetura, o metrô, as paisagens, o céu com todas as cores, meu apartamento ninho. Mas a metrópole impõe um comportamento de alerta permanente, a mídia me enche de preocupação, a ponto de ouvir os helicópteros que a toda hora passam por aqui e logo pensar na guerra atual e seus mísseis.

Quatro meses e ainda me sinto um pouco peixe fora d’água nesta cidade que sempre amei, mas até o momento não desvendo. Aos poucos, estendo minhas andanças e descubro novas facetas, mas o ritmo urbano é alucinante para quem desconhece certezas. Se duvidar, guardadas as proporções, a sensação de desamparo muito se assemelha à dos sem-teto que me ferem os olhos e a alma por essas calçadas onde não chega o futuro.

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