Viajante da madrugada, desde os treze anos de idade. Beirava já os oitenta. Recolhido sempre aos jardins da ilusão. Encontrava assim outras gentes. Conhecia hábitos diferentes. Descobria-se com os outros no mundo. Para existir basta escrever livros, pensava, viagens longes enchiam de sonho o vazio das páginas.
Chegou a alcançar impressionante marca, cem livros publicados.
Armazenara precioso legado.
Em conflito permanente com a mulher, os filhos, os colegas no trabalho. O ideário feito de vento e flor, secretas dores, uma coisa só música, não encaixava com as horas do mundo concreto, feito de trabalho e suor para suprir desejos físicos.
O real é o real, ninguém consegue mudar, sonho não dá camisa a ninguém, não enche a barriga, a família inconformada. Viver e escrever, coisa de irresponsável.
Em tessitura da palavra, continuava na madrugada, um homem só, tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo, dizia para si, convencido.
Alegaram mulher e filhos: “Sua idade avançada pode não suportar mais viagens por entre as sombras da noite.” Acrescentavam: “Viajar por terras desconhecidas é coisa de louco. Nunca vai parar com isso?”
Simulações da emoção mais a razão vestida de sonho diante do real. Nessa hora em que tudo dentro dele entrelaçava-se com novas vozes, outras cores, fluindo ora suaves, ora pesadas. Importava o que resultava de tudo isso. Dava sentido à vida.
“Precisa cuidar de você mesmo, deixar esse vício de andar por paisagens fugitivas”, gritante a mulher, mais uma tentativa frustrada.
“Enquanto viver, prefiro o sonho ao feijão”, voz firme. ”É uma questão de destino, que me arde, faz o meu signo na existência.”
Completava o pensamento: “Se não escrever morro, se escrever morro também. Ser ou não ser, essa a questão.”
Os filhos: “O senhor precisa mudar os conceitos.”
Audaz viajante da noite ou bicho esquisito que se desviou do mundo cotidiano? Distante do ter? Íntimo do ser? Um fingidor do mundo ao redor, irreversível.
Justificava-se: “A melhor maneira de enriquecer qualquer criatura é dar a ela para ler uma boa história. O homem triste ressurge menos pesado, equilibrado entre os vazios.”
Sem entregar os pontos.
A mulher balançava a cabeça, discordando. Não tinha jeito mesmo. Dera até para pedir que colocasse no túmulo o seguinte: Sem o sonho é o caos, sem ele viver é impossível.
Isso não! Isso não! Depois de morto, ainda querer impor sua paixão pelo sonho aos outros. Que coisa triste! Horrível! Bradava a família.
Aborrecido, remordendo-se pelos cantos: o seu último desejo não seria atendido.
Modulava-se com as mais diversas situações e realidades. Em prosa e no verso. Envolvia-se, dos pés à cabeça, numa rede de experiências espirituais. Não traziam soluções para o lado concreto do viver. Embora fossem ligadas ao mundo humano numa inevitável relação de cumplicidades e anseios. Qualquer obra literária resultava de uma experiência humana, raciocinava.
Um dia, não irá mais regressar de suas viagens noturnas. Ausente de odores, fragrâncias neste ofício que encanta com as palavras, tomadas emprestadas ao sonho. Para sempre sem os caminhos deste mundo imaginário, em sua maneira de estar solitário no drama das horas.
Viajou, não voltou. Habitante do país do não regresso, do sono sem sonho, do luto perpétuo. Só poderia ser encontrado agora quem viajasse no comboio de suas histórias e poemas, gravados com riscos luminosos nos sinais visíveis da escrita. Sofrida, amada, bem ou mal, tão dele.
Depois de algum tempo ausente, de repente a mulher e os filhos o descobriram.
Comparece desde então vestido de lucidez, em histórias, poemas, inaugurando sentidos, em sustos esplêndidos, descobertas surpreendentes.
Seu verso-semente ilumina um terreno coberto de coisas inúteis desde os tempos imemoriais. Com braço ao abraço. Com os fios sem fim do sonho.
A cada última página lida, do livro escrito por ele, no íntimo aplaudem todos eles, comovidos agradecem. Afirmam que seu legado não tem preço. Prova de amor maior não há, a palavra ser doada sem querer nada de volta, a não ser transmitir luz, mesclada com o bem para a compreensão do mundo. Fundamental como o amanhecer.
Resolveram atender seu pedido. Colocaram na lápide o que mais desejou da vida, a não ser o belo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário