terça-feira, abril 14

Os assassinos de Calas e Labarre

Antes da revolução, a construção social era:

Abaixo, o povo; acima do povo, uma religião representada pelo clero; ao lado da religião, a justiça representada pela magistratura E, neste momento da sociedade humana, que era o povo? Era a ignorância. O que era uma religião? Era a intolerância. E que era a justiça? Era uma injustiça. Você porventura vai muito longe em minhas palavras? Julgai-o. Limitar-me-ei a citar dois fatos, mas decisivos.


Em 13 de outubro de 1761, em Toulouse, é encontrado um mancebo forçado no sótão de uma casa. A multidão amotina-se, o clero fulmina, a magistratura investiga.

É um suicídio que faz um assassinato por interesses da religião. E quem acusa? Ó pai. É um huguenote, e quis impedir que o filho de se fizesse católico. Há aqui uma monstruosidade moral e uma impossibilidade material: não importa! Este pai matou seu filho, este velho enforcou este mancebo. A justiça trabalha, e é aqui o desenlace. Em 2 de março de 1762 um homem de cabelos brancos, João Calas, é conduzido à praça pública, despem-no, estende-se-no sobre uma roda, com os membros ligados e o corpo em falso, de cabeça pendente. Há três homens sobre o cadafalso: um almotacel chamado David, encarregado de vigiar o suplício, um sacerdote, com um crucifixo, e o carrasco, com uma barra de ferro. O paciente, estupefato e terrível, não olha para o padre e olha para o carrasco. O carrasco levanta a barra de ferro e quebra-lhe um braço. O paciente ruge e desmaia. O almotacel aproxima-se, é que faz respirar sais ao condenado, que volta à vida; então nova pancada da barra, novo rugido, e Calas perde os sentidos; reanimam-no e o carrasco recomeça: e, como cada membro deve ser quebrado em dois pontos, são oito suplícios. Depois do oitavo desmaio o sacerdote dá-lhe o crucifixo a beijar. Calas afastou a cabeça e o carrasco dá-lhe o golpe de misericórdia, isto é, escangalha-lhe o peito com a extremidade mais grossa da barra de ferro. Assim expirou João Calas. Durou isto duas horas. Depois da sua morte, apareceu a prova do suicídio. Mas tinha sido perpetrado um assassinato. Por quem? Pelos juízes.

Depois do velho, o mancebo. Três anos mais tarde, em 1765, em Abbeville, no dia seguinte a uma tempestade e ventania, é encontrada no chão, sobre a calçada de uma ponte, um velho crucifixo de pau carunchoso que há três séculos esteve chumbado ao parapeito. Quem lançou a terra o crucifixo? Quem cometeu o sacrilégio? Ignora-se. Talvez alguém que passe. Talvez o vento. Quem está preocupado? O bispo de Amiens expediu uma monitória. Eis o que é uma monitória: é uma ordem a todos os votos, sob pena do inferno, de dizer o que sabem ou julgam saber sobre tal ou tal fato; injunção homicida do fanatismo à ignorância. A monitória do bispo de Amiens produz os seus efeitos, as amplificações da bisbilhotice tomam as proporções da denúncia. A justiça descobre, ou julga descobrir, que, na noite em que o crucifixo foi lançado à terra, dois homens, dois oficiais, Labarre e d'Etallonde, passaram na ponte de Abbeville, que estavam embriagados e que cantaram uma canção de corpo de guarda. Ó tribunal à senescalia de Abbeville. Os senescais de Abbeville valem os almotacés de Tolosa. Eles não são menos justos. Expedem-se dois mandatos de captura. D'Etallonde foge, Labarre está preso. Entregam-no à instrução judiciária. Ele negou ter passado na ponte, e confessou ter cantado a canção. A senescalia de Abbeville condena-o, ele apela ao Parlamento de Paris. Trazem-no a Paris, a sentença é julgada boa e confirmada. Conduzem-no a Abbeville, encadeado. Vou resumir. Chega a hora horrível. Princípios por submissão Labarre à questão ordinária e extraordinária para ele declarar os seus cúmplices. Cumplices de quê? De ter passado numa ponte e de ter cantado uma canção. Esmagam-lhe um joelho na tortura; o confessor, ouvindo estalar os ossos, desmaia; no dia seguinte, 5 de junho de 1766, Labarre é arrastado para a praça grande de Abbeville: flameja lá uma fogueira ardente; leem a sentença a Labarre, depois decepam-lhe um punho, depois arrancam-lhe a língua com um tenaz de ferro, depois, por misericórdia, cortam-lhe a cabeça, que é lançada à fogueira. Assim morreu Labarre. Tinha dezenove anos.
Victor Hugo

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