segunda-feira, maio 11

Do prazer de cheirar livros e da tirania simpática do 'muito sucesso'

Há um momento íntimo — e deliberadamente silencioso, quase erótico — que nenhum escritor deveria partilhar em excesso: aquele em que recebe o livro acabado. Não o PDF obediente, nem a maquete digital com comentários técnicos, mas o objeto real. O livro enquanto corpo. O peso preciso, a textura discreta, o cheiro quase indecente e inebriante a tinta e papel. Nesse instante, não há público, nem mercado, nem promessas: há apenas uma suspensão do mundo. O livro repousa nas mãos como algo que já não nos pertence totalmente e que, sem o sabermos ainda, nos deslocou ligeiramente o coração do sítio. Tudo o resto virá depois. Se vier.

Eu sei: isto soa a sentimentalismo de autor, essa doença crónica que se agrava com dedicatórias e piora com fotografias ao lado de pilhas de exemplares. Mas é um sentimentalismo com prova material — e com cheiro. Quem nunca encostou o nariz a um livro novo e sentiu uma espécie de euforia primitiva, como se o cérebro dissesse “finalmente, uma coisa verdadeira”, que atire a primeira caixa de cartão da transportadora.

Depois há o gesto de mirá‑lo: capa, contracapa, lombada. A lombada é o sítio onde a vaidade se torna minimalista e, por isso mesmo, mais perigosa. Na lombada, o nome parece sempre mais sério do que nós. E o título — ali, fininho, vertical, a lembrar que a literatura é uma forma elegante de teimosia.

E há o toque. A capa tem uma temperatura. Um livro recém‑nascido ainda está morno, como se tivesse saído de uma incubadora tipográfica. Apetece dizer coisas ridículas: “Olá.” “Chegaste.” “Foste tu que me escolheste?” Apetece, sobretudo, fazer aquilo que as pessoas sensatas fazem com os filhos dos outros: sorrir, elogiar e devolvê‑los rapidamente, antes que comecem a chorar.

Só que este filho não chora. Este filho exige. Exige tempo. Exige atenção. Exige leitores — essa espécie rara que, em Portugal, é frequentemente confundida com “pessoas que têm estantes bonitas na sala”.

Portugal é um país de poetas, já se sabe. Um país onde quase toda a gente conhece um verso, uma citação, um refrão, uma frase “muito profunda” que viu num story. A poesia aqui é como o bacalhau: há sempre uma receita na ponta da língua. O problema é quando se pergunta: “E ler, lê?” A pergunta cai no chão e parte‑se. Porque ler é uma intimidade que dá trabalho. Obriga a parar. Obriga a estar só. E a solidão, hoje, é um luxo ofensivo: parece preguiça, parece deserção, parece falta de produtividade.

É aqui que entram os amigos. Os verdadeiros e os outros — e, num lançamento de livro, há sempre de ambos, como num casamento: os que aparecem por amor e os que aparecem por buffet.

Há os amigos‑leitores. Não os que “adoram livros”, mas os que os abrem. São pessoas perigosas: fazem perguntas sobre páginas concretas, citam passagens, notam repetições, lembram‑se do que disseram duas crónicas antes. Esses são os que nos salvam da fantasia narcísica de escrever para o vácuo. E também nos aterrorizam, porque, em literatura, o elogio mais sério vem sempre com uma sombra de exigência: “Li. E voltei a ler.”

Depois há os outros, os que eu trato com carinho irónico, porque são muitos e, se os ofendo demasiado, fico a falar sozinho para as plantas: os pseudo‑leitores. São pessoas de uma delicadeza impecável. Dizem “que bonito”, “que importante”, “que orgulho”, e têm uma relação com o livro semelhante à relação que muitos têm com o ginásio: defendem a ideia, mas não frequentam o local. Um pseudo‑leitor compra um livro como quem compra um amuleto: não é para usar, é para dar sorte. E isto não é apenas maldade minha — é uma constatação civilizacional: a leitura dá trabalho e, por isso, é constantemente ameaçada pela vida em modo “scroll”.

Foi por isso que, quando Daniel Pennac escreveu que o verbo ler não tolera a ordem, estava a apontar o essencial: a leitura é uma liberdade, não uma marcha militar. E há outra ideia, igualmente luminosa e cruel: quando a leitura se torna obrigação, deixa de ser leitura e passa a ser castigo com capa.

O que nos leva ao ritual mais simpático e mais devastador do mundo literário: “Parabéns! Muito sucesso!”

Dizem‑no com a melhor das intenções, eu sei. Dizem‑no como se oferecessem flores. Mas há ali um equívoco cultural inteiro. Porque, no mundo dos livros, o “sucesso” foi sequestrado pelas vendas, como se a literatura fosse uma espécie de supermercado com ambição metafísica. Confunde‑se sucesso com faturação, leitores com clientes, livros com detergentes. E, a partir desse instante, o escritor transforma‑se num comerciante envergonhado: se não vende, “falhou”; se vende, “finalmente conseguiu”. É um raciocínio tão português quanto injusto: mede‑se a qualidade pelo ruído, mede‑se a importância pela lotação, mede‑se a literatura pela caixa registadora.

Mas o verdadeiro sucesso de um autor não acontece nas contas — acontece no leitor. E é, quase sempre, silencioso. O sucesso real é um acontecimento íntimo: alguém lê devagar, sublinha uma frase (e bem conheço quem o faça!), pousa o livro para pensar, regressa a uma página dias depois, sente que uma ideia lhe mexeu no sítio. Isto não cabe em rankings. Não dá para fotografar. Não dá para “partilhar” sem estragar. E, no entanto, é a única coisa que importa.

Italo Calvino (que sabia brincar com o leitor como poucos) insistiu, ao seu modo, que ler é um encontro com algo que ainda está a tornar‑se — e que ninguém sabe, à partida, no que dará. É por isso que o livro, quando sai das mãos do autor, começa verdadeiramente a existir: cada leitor reescreve‑o dentro de si, com a sua memória, os seus medos, a sua biografia e até os seus silêncios. O autor publica; o leitor inaugura.

E foi exatamente isso — essa inauguração — que se sentiu no lançamento de Serendipidade – 50 Crónicas do acaso e do ocaso, no passado dia 6 de maio de 2026, às 21h00, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa.

Não foi apenas uma sessão. Foi um encontro com gosto. A Fábrica Braço de Prata tem esse poder: a literatura ali não parece um adereço — parece uma forma de estar. Houve a apresentação por Raquel Varela. Houve intervenções de Onésimo Teotónio de Almeida, Alberto Jorge Santos, Ângelo Ribeiro e Ana Sofia Melo. Houve ainda a leitura de uma mensagem editorial de Avelina Ferraz, lida por Catarina Pombo Nabais, representando a livraria.

E houve — isto é importante — uma ideia clara, dita sem barroquismos: aquele livro convidava o leitor a reencontrar-se com o essencial num tempo de ruído e fragmentação, propondo cinquenta textos onde o pensamento, a emoção e a consciência se cruzam. Num país onde se fala muito de cultura como quem fala de meteorologia (“sim, é importante, sim, devia haver mais”), ouvir isto em voz alta, num espaço intimista, teve o sabor raro do concreto.

Mais: havia ali um elogio à criação que não era banal. A mensagem destacava o trabalho artístico de Ângelo Ribeiro e a forma como a dimensão visual elevava o livro. E isso lembrou-nos outra coisa que se esquece frequentemente: um livro também é matéria plástica. É desenho. É forma. É objeto que se deseja. Não é só “conteúdo”. Um livro que entra bem no olhar prepara o coração para entrar bem no texto.

O prefácio — ou, pelo menos, o modo como dele se falou e como o material de divulgação o ecoa — sublinha essa dimensão de esperança e de resistência: as crónicas chegam “de outro mundo”, apontam para a vida e para o futuro, como uma luz que reaparece ao fundo do túnel. Em tempos de cinismo fácil, dizer isto sem soar a propaganda é um ato de coragem literária. Porque esperança, quando não é tonta, dá trabalho. Exige lucidez. E exige leitores.

No fim, a mesa com exemplares empilhados tinha uma beleza quase doméstica: livros como pão acabado de cozer. Alguns saíram logo, debaixo do braço, como quem leva um segredo. Outros ficaram à espera — e os livros sabem esperar melhor do que nós. O autor assina, sorri, agradece, faz de conta que está tranquilo. Mas por dentro acontece aquilo que só a literatura provoca: um nervo exposto que, paradoxalmente, dá prazer.

E é aqui que eu volto ao início: ao silêncio. Porque, depois do barulho bom de um lançamento — os abraços, as palavras, os brindes, a alegria breve de sentir que não se está sozinho — vem o regresso a casa. Vem o corredor. Vem a luz da sala. Vem o livro pousado na mesa, novamente só, como se nada tivesse acontecido. E acontece uma coisa estranha: naquele silêncio doméstico, o livro parece ainda mais livro. Mais verdadeiro. Mais inevitável. O objeto respira. E nós percebemos — com uma humildade tardia — que ele não foi feito para a nossa vaidade, nem para as contas da editora, nem para as fotografias. Foi feito para o leitor. Para esse desconhecido que, algures, há de abrir a primeira página e entrar numa vida que não é a sua — e, ao mesmo tempo, é.

E, se isso acontecer, tudo se justifica.

O sucesso de um escritor não se mede em vendas, mas no silêncio atento de quem, algures, fecha um livro com o coração ligeiramente deslocado.

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