sábado, maio 9

Referências

Meu pai tinha um pato de estimação. Esperava por ele no portão, quando voltava da escola, e lhe fazia companhia no quintal, durante as brincadeiras. Ambos cresciam juntos, até que a cozinheira da avó o serviu no almoço de domingo. O garoto não comeu e foi chorar escondido no quarto, ferido com a traição dos adultos.

Soube do episódio por minha mãe, anos mais tarde, e magoei o pai novamente, ao convidá-lo para almoçar num restaurante oriental e escolher pato no cardápio. Notei que ele demonstrava desconforto, mas então não sabia de sua dor através do tempo.

Lembro sempre disso a caminho de casa, quando costumo passar por um estabelecimento chinês que exibe na vitrine patos prontos para consumo, pendurados em ganchos, como nos açougues. Noto que agradam a freguesia, porque esgotam rapidamente. E sinto alívio que o pai já não esteja por aqui para reabrir suas feridas.

Quantas coisas desconhecemos de nossos familiares… Quantas referências levarei para o túmulo sem que, por sua vez, meu filho tenha conhecimento. A vida é assim, vasta, mutante e muito particular, já que só nós vivemos a própria história, muitas vezes sem testemunhas.

Por isso, deixo aqui registradas impressões recentes, a quem possa interessar. Sem fotos ou postagens, apenas gravadas na memória que um dia poderá se apagar. Além dos patos, meu bairro atual é cheio de curiosidades: um beco que me lembra Montmartre, em que uma escadaria íngreme leva a uma rua secundária, formada apenas por sobradinhos.

Um elevado cujo trânsito jamais dorme. O ferro-velho que mantém as portas sempre abertas, à espera dos carrinheiros. Uma padaria que só atende os fregueses pela janela. Uma escola, com aulas diurnas e noturnas. Uma viatura policial que permanece dia e noite estacionada em determinado trecho da avenida próxima. Um vendedor de frutas que ocupa a esquina de um movimentado cruzamento com seu carrinho e já se tornou atração turística, exibido em programas de tevê.

Mercado, bistrô, loja de ferragens, boteco e ateliê de costura dividem a mesma quadra. Meu prédio, um dos mais altos e recentes, que pode ser visto de vários pontos, como a Torre Eiffel em Paris. Os sinos da igreja que tocam em vários horários, com sabor de bênção divina. Sim, os sentidos tropeçam em belezas e feiuras, igualmente surpreendentes para sonhadoras como eu. E vou vivendo, com saudade dos que já se foram e seu baú de histórias.

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