terça-feira, novembro 6

Halterofilismo cerebral


Quadrinha do dia

Francesc Rovira
Se eu pela literatura
Um bem posso ainda fazer
É restringir-me à leitura
E nunca mais escrever.

Raul Drewnick

Conecte-se!


Vício secreto

Depois de vários assaltos, ela decidiu que estava na hora de mudar de vida. De nada adianta, dizia, andar de carro de luxo e morar em palacete se isso serve apenas para atrair assaltantes. De modo que comprou um automóvel usado, mudou-se para um apartamento menor e até começou a evitar os restaurantes da moda.

Tudo isso resultou em inesperada economia e criou um problema: o que fazer com o dinheiro que ela já não gastava? Aplicar na Bolsa de Valores parecia-lhe uma solução temerária; não poucos tinham perdido muito dinheiro de uma hora para outra -quase como se fosse um assalto. Outras aplicações também não a atraíam. De modo que passou a comprar aquilo de que mais gostava: jóias. Sobretudo relógios caros. Multiplicavam-se os Bulgan, os Breitling, os Rolex. Já que o tempo tem de passar, dizia, quero vê-lo passar num relógio de luxo.

E aí veio a questão; onde usar todas essas jóias? Na rua, nem pensar. Em festas? Tanta gente desconhecida vai a festas, não seria impossível que ali também houvesse um assaltante, ou pelo menos alguém capaz de ser tentado a um roubo ao ter a visão de um Breitling. Sua paranóia cresceu, e lá pelas tantas desconfiava até de seus familiares. De modo que decidiu: só usa as jóias quando está absolutamente só.

Uma vez por semana tranca-se no quarto, abre o cofre, tira as jóias e as vai colocando: os colares, os anéis, os braceletes -os relógios, claro, os relógios. E admira-se longamente no espelho, murmurando: que tesouros eu tenho, que tesouros.

O que lhe dá muito prazer. Melhor: lhe dava muito prazer. Porque ultimamente há algo que a incomoda. É o olhar no rosto que vê no espelho. Há uma expressão naquele olhar, uma expressão de sinistra cobiça que não lhe agrada nada, nada.
Moacyr Scliar

segunda-feira, novembro 5

Leitor em viagem


Aí pelas três da tarde

Nick Botting 
Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo ‘ciao’ ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pelo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobram a boca com a mãe enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa com que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.
Raduan Nassar, "Menina a Caminho"

domingo, novembro 4

Multiutilitário

Honor Appleton (1879-1951)

Os jornais

Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:

— Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime. “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz…” Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim: 

“Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, de 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: “Meu amor”, ao que ele retorquiu: “Deolinda”. Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às 7:45 da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal.”

A impressão que a gente tem, lendo os jornais — continuou meu amigo — é que “lar” é um local destinado principalmente à prática de “uxoricídio”. E dos bares, nem se fala. Imagine isto:

“Ontem, cerca de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar “Flor Mineira”, à rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amâncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegado a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada.”

E meu amigo:

— Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida…
Rubem Braga, in "200 crônicas escolhidas"

Leitor em viagem


Soneto do que se perde com a poesia

Daniela Zekina
Quem há de o tempo gastar
Com a leitura de poesias?
Já são tão curtos os dias,
Ainda os vamos abreviar?

Os poemas fazem sonhar,
Nos levam a fantasias
E o rumo das utopias
Mais faz o tempo passar.

Saber de estrelas e rosas
Nos priva de horas preciosas
Que nunca mais voltarão.

Melhor os frutos provarmos
Porque, se amanhã voltarmos,
Aqui não mais estarão.

sábado, novembro 3

Começa o dia


Moço de cego

Dos nove aos onze anos, o José Pais foi moço de cego. Sua mãe, que estava carregada de filhos e não tinha um palmo de terra onde cair morta, dera-o por uma malga de feijões para os dois manos da Aldeia de Nacomba, que andavam no peditório. Aprendeu a moina... e disse. Eram uma gente cainha de todo, dobrados sobre a própria miséria, tão futres que, tantos dias que passou com eles, nem uma carapuça lhe compraram.

Gémeos e feridos desde nascença de gota serena, iam de povo em povo cantando e tocando, ele rabeca, ela violão. Armavam nos largos e à boqueira dos pátios a zanguizarra, e recolhendo o cinco reizinhos aqui, o coirato acolá, uma côdea nesta porta, duas cebolas naquela, lá iam acalentando os dias.

O José Pais carregava com o bornal e guiava-os pelos tortuosos caminhos de Cristo, tendo cuidado que não tropeçassem nas pedras ou metessem os pés nos charcos. Marchavam em bicha como se fossem engatados: o moço na dianteira, descalço e roto; o cego, de tabardo de burel, a mão no ombro do moço; a cega, de vasquinha escarlata, a mão no ombro do irmão e instrumento para as costas, tal o escudo dum peltasta.

No estio esta vida airada não era a pior de todas. Sempre havia que imolar, pomos e cachos em suspensão dos taludes, o fundo das caçoilas a varrer pelas malhadas e os restos dos farnéis pelas romarias. O José Pais, sacudido para fora do regaço materno superpovoado, como sucede nos ninhos de certas aves quando os filhos são muitos, tirava o ventre de misérias. A melhor bocada, de resto, ia ao direito para o fole do gato, que ali era ele, o lazarilho, tão ágil de garra como ladino de olho.

— Que deram em casa da senhora Micas brasileira? — perguntava o cego.

— Duas dentadas de broa tão rijas que só o Diabo as pode tragar.

— Deixa ver, menino...

O José Pais afundia a mão no taleigo e, como lá houvesse de tudo, apartando o pão fresco e folhado, arrancava o pedaço mais bolorento e empedernido.

— Já não há caridade! — gemia o velho.

Rodando para outra porta, não cessava de rosnar:

— Quanto mais santanários, mais fonas. Se Cristo tornasse a este mundo, morria de larica!

Pernoitavam a talhe de mão, umas vezes nos cabanais quentes dos poviléus, outras vezes, surpreendidos pelo temporal, nas cortes da serra de mistura com o gado. Altas horas, o José Pais erguia-se do grabato, muito sorrateiro, e a rastos como a giboia chegava-se às cabras. Assim que palpava um úbero bem repleto, punha-lhe os beiços e sugava, sugava até à última gota. Depois desse, outro. Voltava à cama refarto, a cheirar-se ele próprio a menino de mama, pesadão, para mergulhar numa soneira de que só acordava aos safanões.

Os cegos sabiam trovas de todo o género, umas que faziam rir, outras chorar. Cantavam o rimance do sapateiro que fora entregar a obra aos fregueses e à volta apanhara a mulher a cear com um frade, e as bocas escancaravam-se até às orelhas e as risadas caíam das queixadas, estrepitosas como espadanas em cima do linho. Mas lá vinha a história do filho a quem a amiga pediu o coração da mãe, se queria dormir com ela, e os olhos vidravam-se de lágrimas.

O José Pais gostava pouco daquelas cantorias. A voz dos dois cegos, como se fizesse coro com as órbitas revolcando-se brancas, vazias e absurdas nas capelas ramelosas, soava a outro mundo. Parecia-lhe ouvir o acompanhamento dos defuntos no traço da porta dos cemitérios. Tinha também a plangência dos ralos que cantam de noite debaixo da terra. Estava morto por despegar.

Um dia, o cego apanhou-o enliçado no sono e passou-lhe revista aos bolsos. No fundo da algibeira das calças, dentro dum trapo, encontrou-lhe o tesoiro, dinheiro escamoteado moeda a moeda, desde o primeiro dia. Enquanto o sujeitava contra o solo com a mão esquerda, com a direita zurziu, zurziu sem dó nem piedade. A cega, em vez de lhe valer, açulava o algoz:

— Mata, mata-me esse ladrão!

No mesmo dia abalou. Estava farto da bordoada, daquela macarena azarenta, dos padre-nossos dos cegos entremeados de pragas:

oxalá que vos caia a casa em cima e vos esborrache a todos! Que ainda hoje comam lume no inferno!

da vida de cão, umas vezes molhado até o umbigo, outras a estorricar com a soalheira.

Pois que a mãe o não queria em casa — todas as tetas duma porca não chegavam para os irmãos, cada um de seu pai — foi procurar amo.

Ajustou-se na azenha dum moleiro que tinha fama de mau e ladrão.
Aquilino Ribeiro, "Caminhos Errados" 

sexta-feira, novembro 2

Que não falte leitura

Abigail Larson

O segundo governo

Um grande escritor é, por assim dizer, um segundo governo. Por isso nenhum governo, em nenhum lugar, amou seus grandes escritores, mas somente os menores
Alexander Soljenítsin, " O primeiro círculo"

Reciclagem


Soneto do Café Lamas

No Largo do Machado a pedida era o “Lamas”
Para uma boa média e uma “canoa” torrada
E onde à noite cumpria ir tomar umas brahmas
E apanhar uma zinha ou entrar numa porrada.


Bebendo, na tenção de putas e madamas
Batidas de limão até de madrugada
Difícil era prever se o epílogo das tramas
Seria algum michê ou alguma garrafada.

E em meio a cafetões concertando tramoias
Estudantes de porre e mulatas bonitas
Sem saber se ir dormir ou ir na Lili das Joias

Ordenar, a cavalo, um bom filé com fritas
E ao romper da manhã, não tendo mais aonde
Morrer de solidão no reboque de um bonde.

Vinicius de Moraes

quinta-feira, novembro 1

Véspera de feriadão


O fruto amargo

 Élod
Praza ao céu que o leitor, audacioso e tornado misteriosamente feroz com isto que ele está lendo, encontre sem desorientar-se seu caminho abrupto e selvagem através dos pântanos desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois, a não ser que mantenha uma lógica rigorosa em sua leitura e uma tensão do espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro embeberão sua alma, assim como a água ao açúcar. Não convém que qualquer um leia as páginas a seguir; só alguns conseguirão saborear este fruto amargo sem maiores riscos
Lautréamont, "Cantos de Maldoror"

Porta de livraria

Katarzyna Oronska

Retrato de Mónica

Marianna Sztyma
Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria. 

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta. 


Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias. 

Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, "qualquer distracção pode causar a morte do artista". Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos. 

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande. 

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante. 

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum. 

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve. 

Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. 

Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto. 

Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor. 

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Contos Exemplares"