domingo, junho 21

Boa chuveirada

 


A praia

Aníbal Machado contava que, algum tempo depois de casado, se viu desempregado e sem dinheiro no Rio. Desempregado, sem dinheiro e com várias filhas meninas.

O português, dono da casa em que ele morava, tinha um ar feroz, mas era a flor dos senhorios: esperava meses e meses que “seu dotoire” pudesse dar alguma coisa por conta dos atrasados. Mas nem todo credor era assim, e alguns vinham todo dia bater à porta, enchendo de angústia o escritor.

“O que me salvou foi a praia”, disse Aníbal. Metia um calção de banho e ia para a areia.

Lá respirava feliz, diante do mar. Um dia viu um credor que andava de um lado para outro, na calçada. Fez que não viu — e caiu n'água. O homem foi-se embora...

Se o Rio de Janeiro não tivesse mar, seria a capital da angústia. Vivi aqui dias tristes, sombrios, em que faltava não apenas dinheiro como liberdade. Era perigoso visitar um amigo ou receber uma visita; conversar num bar ou num café, ainda mais. Só havia um território livre, democrático, onde a gente podia se encontrar: a praia. Com o vento do mar e o sol, que brilha para todos. E as ondas recitando Baudelaire:

Homme libre, toujours tu chériras la mer…

Rubem Braga, "Recado de primavera"

Inteiramente vazio

Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios.

Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Pa­rece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa.

Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama.

Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das ­palmas cicatrizaram.

Impossível trabalhar. Dão-me um ofício, um relatório, para datilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro. Tento vencer a obsessão, capricho em não usar a borracha. Concluo o trabalho, mas a resma de papel fica muito reduzida.

À noite fecho as portas, sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal.
Vitória resmunga na cozinha, ratos famintos remexem latas e embrulhos no guarda-comidas, automóveis roncam na rua.

Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte nomes.

Quando não consigo formar combinações novas, traço rabiscos que representam uma espada, uma lira, uma cabeça de mulher e outros disparates. Penso em indivíduos e em obje­tos que não têm relação com os desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretário, políticos, sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo.

Tipos bestas. Ficam dias inteiros fuxicando nos cafés e preguiçando, indecentes. Quando avisto essa cambada, encolho-me, colo-me às paredes como um rato assustado. Como um rato, exatamente. Fujo dos negociantes que soltam gargalhadas enormes, discutem política e putaria.

Não posso pagar o aluguel da casa. Dr. Gouveia aperta-me com bilhetes de cobrança. Bilhetes inúteis, mas dr. Gouveia não compreen­de isto. Há também o homem da luz, o ­Moisés das prestações, uma promissória de quinhentos mil-réis, já reformada. E coisas piores, muito piores.

O artigo que me pediram afasta-se do papel. É verdade que tenho­ o cigarro e tenho o álcool, mas quando bebo demais ou fumo demais, a minha tristeza cresce. Tristeza e raiva. Ar, mar, ria, arma, ira. Passatempo estúpido.

Dr. Gouveia é um monstro. Compôs, no quinto ano, duas colunas que publicou por dinheiro na seção livre de um jornal ordinário. Meteu esse trabalhinho num caixilho dourado e pregou-o na parede, por cima do bureau. Está cheio de erros e pastéis. Mas dr. Gouveia não os sente. O espírito dele não tem ambições. Dr. Gouveia só se ocupa com o temporal: a renda das propriedades e o cobre que o tesouro lhe pinga.

Não consigo escrever. Dinheiro e propriedades, que me dão sempre desejos violentos de mortandade e outras destruições, as duas colunas mal impressas, caixilho, dr. ­Gouveia, Moisés, homem da luz, negociantes, políticos, diretor e secretário, tudo se move na minha cabeça, como um bando de vermes, em cima de uma coisa amarela, gorda e mole que é, reparando-se bem, a cara balofa de Julião Tavares muito aumentada. Essas sombras se arrastam com lentidão viscosa, misturando-se, formando um novelo confuso.

Afinal tudo desaparece. E, inteiramente vazio, fico tempo sem fim ocupado em riscar as palavras e os desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, até que deixo no papel alguns borrões compridos, umas tarjas muito pretas.
Graciliano Ramos, "Angústia"

Chuva

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...
Ribeiro Couto

O vadio

Ele conhecera dias mais felizes, apesar do estado de miséria e de doença em que ora se encontrava.

Na idade de quinze anos, ficara com as pernas esmagadas por uma carruagem, na estrada real de Varville. Desde então mendigou, arrastando-se ao longo dos caminhos, através dos pátios das quintas, balouçado nas muletas, que lhe tinham feito levantar os ombros à altura das orelhas. A sua cabeça dir-se-ia enterrada entre duas montanhas.

Enjeitado encontrado num fosso, pelo cura de Billette, na véspera do dia de Finados, e batizado em razão disso, Nicolau Toussaint, educado por caridade, ficara estranho a todo e qualquer grau de instrução, estropiado depois de ter bebido alguns copos de aguardente oferecidos pelo padeiro da aldeia, para que ele fizesse rir, não tardou em dar em vagabundo, e mais nada sabia fazer do que estender a mão à caridade.


Outrora, a baronesa d'Avray concedia-lhe, para dormir, uma espécie de nicho cheio de palha, ao lado do galinheiro, na herdade que se ligava ao castelo: e ele ali estava ao abrigo, certo de, nos dias de grande fome, encontrar sempre um pedaço de pão e um copo de cidra na cozinha. Muitas vezes, recebia também alguns "sous" atirados pela velha senhora do alto da sua escadaria ou das janelas do seu quarto. Porém, ela morrera.

Nas aldeias, não lhe davam nada: conheciam-no por demais; estavam fartos de o ver; havia quarenta anos que o viam passear o deformado de seu corpo andrajoso sobre as suas duas patas de madeira.

Todavia, ele não queria deixar aqueles sítios, porque não conhecia outra coisa sobre a terra a não ser aquele canto de país, aquelas três ou quatro aldeias onde arrastara a sua vida miserável.

Marcara fronteiras à sua mendicidade e não teria nunca passado os limites que se acostumara a não ultrapassar.

Ignorava se o mundo se estenderia ainda muito para além das árvores que sempre tinham servido de limite à sua vida. Nem sequer o perguntava a si próprio. E quando os camponeses, cantados de o encontrarem todos os dias à beira dos seus campos ou ao longo dos seus fossos, lhe gritavam:

— Por que não vais tu para as outras aldeias, em lugar de andares sempre a mendigar por aqui? Ele não respondia, e afastava-se, tomado de um medo vago pelo desconhecido, de um medo de pobre que receia confusamente mil coisas, as novas caras, as injúrias, os olhares de desconfiança e suspeita das pessoas que o não conheciam, e os guardas que vão dois a dois pelas estradas e que o faziam esconder, por instinto, nas moitas ou por detrás das pedras.

Quando os via de longe, reluzentes ao sol — encontrava de repente uma agilidade singular, uma agilidade de monstro, para alcançar qualquer esconderijo. Saltava nas muletas, e deixava-se cair à maneira de um trapo, rolando como uma bola, tornando-se pequenino, invisível, acaçapado como uma lebre na sua toca, confundindo os seus trapos russos com a terra.

Ele não tivera, no entanto, nada com eles. Mas aquilo estava-lhe na massa do sangue, como se houvesse recebido aquele temor e aquela manha dos seus ascendentes, que não conhecera.

Não tinha refúgio, nem teto, nem cabana, nem abrigo. Dormia por toda a parte, quer de verão quer de inverno, e introduzia-se nas granjas ou nos estábulos com uma ligeireza notável. E raspava-se sempre antes que houvessem dado pela sua presença. Conhecia os buracos para penetrar nas construções, e o manejar das muletas havia-lhe dado aos braços um vigor tão surpreendente, que trepava só à força de pulso até aos celeiros de forragens, onde se conservava quatro ou cinco dias sem bulir, quando havia recolhido no seu giro as provisões suficientes.

Vivia como os animais dos bosques no meio dos homens, sem conhecer ninguém, sem amar ninguém, não excitando aos camponeses mais que uma espécie de desprezo indiferente e de hostilidade resignada. Tinham-lhe posto a alcunha do "Sino" porque se balouçava, entre as duas muletas de pau como um sino se balouça entre os seus suportes.

Havia dois dias que não comia. Ninguém já lhe dava nada. Por fim, nem já o queriam ver. Os camponeses, dos seus portais, gritavam-lhe quando o viam chegar:

— Vê lá se te queres pôr a andar, tonante! Ainda não há três dias que te dei um bocado de pão!

E ele girava sobre as suas estacas e dirigia-se à casa vizinha, onde o recebiam da mesma maneira.

As mulheres declaravam de porta para porta:

— Mas é que a gente não pode dar de comer a este preguiçoso todo o ano.

Todavia, o preguiçoso tinha necessidade de comer todos os dias.

Tinha percorrido Saint-Hilaire, Varville e les Bocettes, sem recolher um cêntimo nem uma simples côdea. Só lhe restava uma esperança, era, Tournolles; mas era-lhe preciso caminhar ainda duas léguas pela estrada real, e sentia-se cansado a ponto de não poder arrastar-se mais, tendo o ventre tão vazio como a algibeira.

Apesar de tudo, pôs-se em marcha.

Era em dezembro. Um vento frio percorria os campos, sibilava nos ramos nus; e as nuvens galopavam através do céu baixo e sombrio, apressando-se não se sabe para onde. O estropiado caminhava lentamente, deslocando os seus suportes um após outro com penoso esforço, escorando-se na perna torcida que lhe restava, terminada por um pé aleijado e calçado por um trapo.

De tempos a tempos, assentava-se no fosso e descansava alguns minutos. A fome punha uma grande mágoa na alma confusa e pesada. Ele sô tinha uma ideia: "comer", mas não sabia por que meio.

Durante três horas, penou na comprida estrada; depois, quando avistou as árvores da aldeia, apressou os seus movimentos.

O primeiro lavrador que encontrou e ao qual pediu esmola, respondeu-lhe:

— Tu ainda por aqui? velho desprezível! Então eu nunca me verei livre de ti?

E o "Sino" afastou-se. De porta em porta, correram-no, recambiaram-no, sem lhe darem nada. E ele continuava, apesar disso, o seu giro, paciente e obstinado. Não recolheu um sou.

Então visitou as herdades, caminhando através das terras amolecidas pelas chuvas, por tal forma extenuado que nem sequer podia levantar as muletas. Escorraçavam-no de toda a parte. Era um desses dias frios e tristes em que os corações se fecham, em que os espíritos se irritam, em que a alma está sombria, em que a mão não se abre nem para dar nem para socorrer.

Quando acabou de visitar todas as casas que conhecia, foi cair ao canto de uma vala, ao longo do pátio do tio Chiquet. Despegou-se, como se dizia para exprimir a maneira porque se deixava cair de entre as muletas que fazia escorregar por debaixo dos braços. Ficou por largo tempo imóvel, torturado pela fome, mas era muito bruto para que pudesse penetrar a sua insondável miséria.

Esperava não se sabe o que, naquela vaga esperança que existe constante em nós.

Esperava ao canto daquele pátio, sob o vento gelado, o auxílio misterioso que se espera sempre do céu ou dos homens, sem que saiba como, nem por que, nem por quem ele nos poderá chegar. Passava um bando de galinhas pretas, buscando a sua vida na terra que alimenta todos os seres. A cada instante, picavam com uma bicada um grão ou um inseto invisível, depois continuavam a sua busca lenta e segura.

O "Sino" olhava para elas sem pensar em nada; depois veio-lhe, mais ao ventre que propriamente à cabeça, mais à sensação que à ideia, que um daqueles animais seria bom para comer assado no borralho de uns troncos secos. A suposição de que ia cometer um roubo nem de leve roçou pelo seu espírito. Pegou numa pedra que se achava ao alcance da mão, e, como a tinha certeira, matou redondamente, atirando logo por terra a ave que estava mais próxima. O animal caíra de flanco, remexendo as asas. As outras fugiram, balouçando-se nas suas patas delgadas, e o "Sino", escalando novamente as suas muletas, pôs-se em marcha para ir apanhar a sua caça, com movimentos iguais aos das galinhas.

Ao chegar perto do pequeno corpo preto manchado de vermelho na cabeça, recebeu um empurrão terrível pelas costas, que o fez cair das muletas e o fez rolar a dez passos para a frente.

E o tio Chiquet, exasperado, precipitando-se sobre o pilha, encheu-o de pancadas, batendo como um furioso, como bate um camponês roubado, com o punho e com o joelho por todo o corpo do enfermo, que não podia defender-se.

As pessoas da herdade chegaram por sua vez e puseram-se com o patrão a sovar o mendigo. Depois, quando se cansaram de lhe bater, agarraram nele, levaram-no e fecharam-no na casa da lenha, enquanto iam busca das autoridades.

"Sino", meio morto, sangrando e estourando de fome, ficou deitado no chão. Chegou a tarde, veio a noite, depois a aurora, e ele sem comer.

Pelo meio dia, os guardas apareceram e abriram a porta com precaução, esperando uma resistência, porque o tio Chiquet dizia ter sido atacado pelo vadio e ter-se defendido a grande custo.

O cabo bradou:

— Vamos! saia daí!

Mas "Sino" não se podia mexer; ainda tentou erguer-se nos seus suportes, mas não o conseguiu. Julgaram que era fingimento, que era manha, que era má vontade do malfeitor, e os dois homens armados trataram-no asperamente, empunharam-no e puseram-no à força sobre as muletas.

O medo apossara-se dele, aquele medo inato que os desgraçados têm das correias militares, o medo a caça em presença do caçador, do rato diante do gato. E, com esforços sobre-humanos, lá conseguiu pôr-se em pé.

— Marche! disse o cabo. Ele marchou. Todo o pessoal da herdade o via partir. As mulheres mostravam-lhe o punho; os homens chacoteavam-no; injuriavam-no: tinham-lhe dado fim! Estavam livres.

Ele afastou-se entre os dois guardas. Achou a energia desesperada que lhe era precisa para se arrastar ainda até à noite, embrutecido, não sabendo nem sequer o que lhe sucedia, assustado por demais para que pudesse compreender.

As pessoas que o encontravam detinham-se para o ver assar, e os camponeses murmuravam:

— É algum ladrão!

Pela noitinha, chegaram à comarca. Ele nunca tinha ido até ali. Não dava verdadeiramente conta do que se passava nem do que lhe podia acontecer. Todas aquelas casas novas o consternavam.

Não pronunciou mais uma palavra, nada tendo a dizer, porque nada compreendia. Desde muitos anos que não falava a ninguém, por isso quase perdera o uso da linguagem; e o seu pensamento estava também muito confuso para poder formular palavras. Encerraram-no na prisão da Villa. Os guardas não pensaram em que ele poderia ter vontade de comer, e deixaram-no até ao outro dia.

Mas, quando vieram para o interrogar, logo de manhãzinha, acharam-no morto, no chão.

Que surpresa!
Guy de Maupassant

Já li isso em algum lugar

Se você é daqueles que nunca encontra as palavras certas para terminar um relacionamento, saiba que existe um site com dicas para romper. Há cartas em estilo formal ou poético para rompimento por escrito. (02/03/2005)

Ele era um rapaz sério, trabalhador. Ela era uma moça séria, trabalhadora. Namoravam havia muitos anos. Desde a infância, na verdade. Porque as famílias se conheciam, e faziam gosto de que os dois namorassem. E assim eles namoravam, e até falavam em noivar e em casar.

A verdade, porém, é que o relacionamento entre ambos era, no máximo, morno. Muito respeito mútuo, bastante afeto, tratamento cordial; mas paixão, paixão arrebatadora, isso não havia. De qualquer modo foram levando o relacionamento e falando vagamente em datas para o matrimônio.

Mas aí ele conheceu outra garota. Encontro casual, num supermercado. Ela estava atrapalhada com o carrinho, ele a ajudou, começaram a conversar, saíram para tomar alguma coisa, marcaram um encontro – e quando deu por si ele estava, aí sim, apaixonado.

O que representava um tremendo problema de consciência. Como contar à namorada de tantos anos o que estava acontecendo? Como terminar aquela antiga ligação?

Foi então que ouviu falar do site que dava dicas para romper. De imediato entrou ali. Havia numerosos modelos de cartas, desde as curtas e brutais (“Estou cheio de sua cara, desapareça”) até as mais sofisticadas e elegantes. Destas, escolheu uma que lhe pareceu particularmente satisfatória: “Durante muitos anos convivemos com afeto e alegria. Durante muitos anos nossa existência foi iluminada pela lâmpada do amor. Mas seja por falta de energia, seja por outra razão qualquer, a lâmpada do amor está se apagando. Antes que fiquemos totalmente no escuro, é melhor que terminemos nossa relação como amigos. É melhor que busquemos a luz em outros amores. Guardaremos, um do outro, uma terna lembrança; é isso o que importa”.

Imprimiu a carta, assinou-a e telefonou para a namorada marcando um encontro naquela mesma noite. Era uma segunda-feira, e ela não gostava de sair nas segundas-feiras, mas, para surpresa dele, aceitou o convite de imediato: eu também precisava falar com você, é muita coincidência.

Foi mais fácil do que ele esperava, muito mais fácil. Disse que algo tinha acontecido, algo que uma carta explicaria, e entregou-lhe o envelope fechado. Ela replicou que também tinha uma carta para ele. Despediram-se, numa boa.

Ele entrou num bar, abriu o envelope, e leu: “Durante muitos anos convivemos com afeto e alegria. Durante muitos anos nossa existência foi iluminada pela lâmpada do amor. Mas seja por falta de energia, seja por outra razão qualquer, a lâmpada do amor está se apagando. Antes que fiquemos totalmente no escuro, é melhor que terminemos nossa relação como amigos. É melhor que busquemos a luz em outros amores. Guardaremos, um do outro, uma terna lembrança; é isso o que importa”.

Com o que ele concluiu: grandes amores são para poucos. Mas sites na internet estão ao alcance de todos.

Moacyr Scliar, “Histórias que os jornais não contam“

sábado, junho 20

Aproveite o sol

 


O sono das águas

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água.
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...

Guimarães Rosa

A breve passagem na vida

Por vezes sentado sozinho na sala, apenas com o cão por companhia, pensava que, contrariamente ao que ele supunha, não eram precisas palavras para entendermos o essencial: que tudo é uma breve passagem e que não há outra eternidade senão a da solidão partilhada.

Ou no amor, ou na camaradagem das grandes batalhas, ou no silêncio de uma sala entre um leitor e um cão. Talvez estivéssemos a ficar parecidos e até nos imitássemos um ao outro.

Manuel Alegre, "Cão como Nós"

Falas do velho Tug

Quer que eu lhe fale de mim, quer saber de um velho asilado que nem sequer é capaz de se mexer da cama? Sobre mim sou o menos indicado para falar. E sabe porquê? Porque estranhas névoas me afastaram de mim. E agora, que estou no final de mim, não recordo ter nunca vivido.

Estou deitado neste mesmo leito há cinco anos. As paredes em volta parecem já forrar a minha inteira alma. Já nem distingo corpo do colchão. Ambos têm o mesmo cheiro, a mesma cor: o cheiro e cor da morte. Morrer, para mim, sempre foi o grande acontecimento, a surpresa súbita. Afinal, não me coube tal destino. Vou falecendo nesta grande mentira que é a imobilidade.

Também eu amei uma mulher. Foi há tempo distante. Nessa altura, eu receava o amor. Não sei se temia a palavra ou o sentimento. Se o sentimento me parecia insuficiente, a palavra soava a demasiado. Eu a desejava, sim, ela inteira, sexo e anjo, menina e mulher. Mas tudo isso foi noutro tempo, ela era ainda de tenrinha idade.

Este lugar é a pior das condenações. Já nem as minhas lembranças me acompanham. Quando eu chamo por elas me ocorrem pedaços rasgados, cacos desencontrados. Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida. E assim ter a certeza que morro de uma só única vez. Mas não: mesmo para morrer sofro de incompetências. Eu deveria ser generoso a ponto de me suicidar. Sem chamar morte nem violentar o tempo. Simplesmente deixarmos a alma escapar por uma fresta.

Ainda há dias um desses rasgões me ocorreu por dentro. É que me surgiu, mais forte que nunca, esse pressentimento de que alguém me viria buscar. Fiquei a noite às claras, meus ouvidos esgravatando no vão escuro. E nada, outra vez nada. Quando penso nisso um mal-estar me atravessa. Sinto frio mas sei que estamos no pico do Verão. Tremuras e arrepios me sacodem. Me recordo da doença que me pegou mal cheguei a este continente.

África: comecei a vê-la através da febre. Foi há muitos anos, num hospital da pequena vila, mal eu tinha chegado. Eu era já um funcionário de carreira, homem feito e preenchido. Estava preparado para os ossos do ofício mas não estava habilitado às intempéries do clima. Os acessos da malária me sacudiam na cama do hospital apenas uma semana após ter desembarcado. As tremuras me faziam estranho efeito: eu me separava de mim como duas placas que se descolam à força de serem abanadas.

Em minha cabeça, se formavam duas memórias. Uma, mais antiga, se passeava em obscura zona, olhando os mortos, suas faces frias. A outra parte era nascente, reluzente, em estreia de mim. Graças à mais antiga das doenças, em dia que não sei precisar, tremendo de suores, eu dava à luz um outro ser, nascido de mim.

Fiquei ali, na enfermaria penumbrosa, intermináveis dias. Uma estranha tosse me sufocava. Da janela me chegavam os brilhos da vida, os cantos dos infinitos pássaros. Estar doente num lugar tão cheio de vida me doía mais que a própria doença.

Foi então que eu vi a moça. Branca era a bata em contraste com a pele escura: aquela visão me despertava apetites no olhar. Ela se chamava Custódia. Era esta mesma Custódia que hoje está conosco. Na altura, ela não era mais que uma menina, recém— saída da escola. Eu não podia adivinhar que essa mulher tão jovem e tão bela me fosse acompanhar até ao final dos meus dias. Foi a minha enfermeira naqueles penosos dias. A primeira mulher negra que me tocava era uma criatura meiga, seus braços estendiam uma ponte que vencia os mais escuros abismos.

Todas as tardes ela vinha pelo corredor, os botões do uniforme desapertados, não era a roupa que se desabotoava, era a mulher que se entreabria. Ou será que por não ver mulher há tanto tempo eu perdera critério e até uma negra me porventurava? Me admirava a secura daquela pele, 0 gesto cheio de sossegos, educado para maternidades. Enquanto rodava pelo meu leito eu tocava em seu corpo. Nunca acariciara tais carnes: polposas mas duras, sem réstia de nenhum excesso.

Os dias passavam, as maleitas se sucediam. Até que, numa tarde, me assaltou um vazio como se não houvesse mundo. Ali estava eu, na despedida de ninguém. Olhei a janela: um pássaro, pousado no parapeito, recortava o poente. Foi nesse pôr do Sol que Custódia, a enfermeira, se aproximou. Senti seus passos, eram passadas delicadas, de quem sabe do chão por andar sempre descalço.

— Eu tenho um remédio, disse Custódia. É um medicamento que usamos na nossa raça. O Senhor Fernandes quer ser tratado dessa maneira?

— Quero.

— Então, hoje de noite lhe venho buscar.

E saiu, se apagando na penumbra do corredor. Como em caixilho de sombra a sua figura se afastava, imóvel como um retrato. Na janela, o pássaro deixou de se poder ver. Adormeci, doído das costas, a doença já tinha aprisionado todo meu corpo. Acordei com um sobressalto. Custódia me vestia uma bata branca, bastante hospitalar.

— Onde vamos?

— Vamos.

E fui, sem mais pergunta, tropeçando pelo corredor. Dali parei a tomar fôlego e, encostado na umbreira da porta, olhei o leito onde lutara contra a morte. De repente, estranhas visões me sobressaltaram: deitado, embrulhado nos lençóis, estava eu, desorbitado. Meus olhos estavam sendo comidos pelo mesmo pássaro que atravessara o poente. Gritei Custódia, quem está na minha cama?” Ela espreitou e riu-se:

— É das febres, ninguém está lá.

Fui saindo, torteando o passo. Afastámo-nos do hospital, entramos pelos trilhos campestres. Naquele tempo, as palhotas dos negros ficavam longe das povoações. Caminhava em pleno despenhadeiro, o pequeno trilho resvalava as infernais e desluzidas profundezas. Me perdi das vistas, mais tombado que amparado nesse doce corpo de Custódia. Voltei a acordar como se subisse por uma fresta de luminosidade. Aquela luz fugidia me pareceu, primeiro, o pleno dia.

Mas depois senti o fumo dessa ilusão. O calor me confirmou: estava frente a uma fogueira. O calor da cozinha da minha infância me chegou. Escutei o roçar de longas saias, mulheres mexendo em panelas. Saí da lembrança, dei conta de mim: estava nu, completamente despido, deitado em plena areia.

— Custódia!, chamei.

Mas ela não estava. Somente dois homens negros baixavam os olhos em mim. Me deu vergonha ver-me assim, descascado, alma e corpo despejados no chão. Malditos pretos, se preparavam para me degolar? Um deles tinha uma lamina. Vi como se agachava, o brilho da lamina me sacudiu. Gritei: aquela era a minha voz? Me queriam matar, eu estava ali entregue às puras selvajarias, candidato a ser esquartejado, sem dó na piedade. Me desisti, desvalente, desvalido. De nada lucrava recusar os intentos do negro. O homem cortou-me, sim. Mas não passou de uma pequena incisão no peito. Sangrei, fiquei a ver o sangue escorrer, lento como um rio receoso.

Um dos homens falou em língua que eu desconhecia, seus modos eram de ensonar a noite, a voz parecia a mão de Custódia quando ela me empurrava para o sonho. Voltei a deitar-me. Só então reparei que havia uma lata contendo um líquido amarelado. Com esse líquido me pintavam, em besuntação danada. Depois, me ajeitaram o pescoço para me fazerem beber um amargo licor. Choravam, pareceu-me de início. Mas não: cantavam em surdina. Dores de morrer me puxavam as vísceras. Vomitei, vomitei tanto que parecia estar-me a atirar fora de mim, me desfazendo em babas e azedos. Cansado, sem fôlego nem para arfar, me apaguei.

No outro dia, acordei, sem estremunhações. Estava de novo no hospital, vestido de meu regulamentar pijama. Qualquer coisa acontecera? Eu tinha saído em deambulação de magias, rituais africanos? Nada parecia. Verdade era que eu me sentia bem, pela primeira vez me chegavam as forças. Me levantei como uma toupeira saída da pesada tampa do escuro. Primeira coisa: fui à janela. A luz me cegou. Podia haver tantas cores, assim tão vivas e quentes?

Foi então que eu vi as árvores, enormes sentinelas da terra. Nesse momento aprendi a espreitar as árvores. São os únicos monumentos em África, os testemunhos da antiguidade. Me diga uma coisa: lá fora ainda existem? Pergunto sobre as árvores.

Quer saber mais? Agora estou cansado. Tenho que respirar muito. Há tanto tempo que eu não falava assim, às horas de tempo. Não vá ainda, espere. Vamos fazer uma combinação: você divulga estas minhas palavras lá no jornal de Portugal — como é que se chama mesmo o tal jornal? — e depois me ajuda a procurar a minha família. É que sabe: eu só posso sair daqui pela mão deles. Senão, que lugar terei lá no mundo? Traga-me um qualquer parente. Quem sabe, depois disso, ficamos mesmo amigos. Você sabe como eu confirmo que estou ficando velho? É da maneira que não faço mais amigos. Aqueles de que me lembro são os que eu fiz quando era novo. A idade nos vai minguando, já não fazemos novas amizades. Da próxima vez venha com um parente. Ou faça mesmo o senhor de conta que é meu familiar.
Mia Couto, “Contos do nascer da terra”

Os namorados

Dizer que há a inflação e a permanente crise política, os festivais de cinema, a feira de antiguidades, os mísseis, cápsulas no espaço, crimes e o campeonato mundial de futebol. E, com todas essas coisas, para distrair o espírito, há quem se dirija às seções de queixas e reclamações de um jornal para pedir providências contra um ônibus Urca – Erasmo Braga entre as cinco e meia e seis da tarde.

Dei com os olhos na notícia do jornal e achei engraçado. Eis que perturbavam os passantes, os “habitués” da fila, “as expansões”, do casalzinho, vai ver que de volta das aulas ou do trabalho. Não ri, nem chorei: como Machado de Assis, admirei-me simpeslemnte com as turbas.

Rolam os dias, e ontem, de novo, abrem-se colunas, gastam-se letras da imprensa e custoso papel dela ainda para reclamar dos pobres amantes. Acresce, dizem os queixosos, ou um deles, que os representa, “que ele é muito alto, ela muito baixinha”, o que não sei se lhes dificultará ou propiciará as tais “expansões” de que tanto se queixam na coluna.

Ontem, rolava eu pela tarde irrealmente linda de Petrópolis, e, não sei por que, pensava nesses namorados que nunca vi. Pensei em prestar-lhes o meu irrestrito apoio, intenção que ora concretizo, por estas mal traçadas.

Pois que seria de nós, deste complicado mundo, sem vós, namorados, mesmo que sejam estes que tanto reclamam, da fila Erasmo Braga-Urca. Amem-se, expandam-se nas suas expansões, que a ninguém pode fazer mal, mesmo ele sendo muito alto, ela muito baixinha, obedecendo à lei dos contrastes ou ao gênio da espécie. Estamos cansados, neurastênicos, aflitos neste mundo que não sabemos, mas desconfiamos, às vezes, aterrorizados, para onde irá. E um casal se ama, e, se amando, expande-se e se assim se expande às seis horas da tarde, na fila do ônibus, há de ser porque não tem muito lazer nem local para expandir-se em sítio mais cômodo, para eles e para os demais “habitués” da fila.

E fico a pensar em que expansões serão essas dele, muito alto, ela muito baixinha, como fez questão de frisar o reclamante, capaz de tanto perturbar a volta do trabalho desses escandalizados habitantes da Urca.

Não sei, mas estou convosco, ó namorados, ele muito alto etc. etc. O mais que fazeis é estar amando e não é coisa que geralmente faça mal ao próximo. Amando, no Rio de Janeiro, no Brasil, a inflação subindo quatro vírgulas não sei quanto cada mês, cápsulas espaciais a despencarem dos ceús, guerra no Vietnã, aflições e desconfortos vários. E vós ainda vos amais, um ao outro, numa fila humilde de ônibus, entre cinco e seis horas da tarde, vai ver que cansados da lida do dia.

Amem-se, expandam-se, doa a quem doer, que não há de doer muito. Digam o que disserem,é um dos belos ofícios que se pode exercer, neste trsite mundo, este de amar e expandir-se. Mesmo sendo “ele muito alto, ela baixinha”.
Elsie Lessa, "Crônicas de Amor e Desamor"

sexta-feira, junho 19

Leitura no abismo

 


Canção breve

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.
Eugénio de Andrade

Corpo fechado

José Boi caiu de um barranco de vinte metros; ficou com a cabeleira enterrada no chão e quebrou o pescoço. Mas, meio minuto antes, estava completamente bêbado e também no apogeu da carreira: era o “espanta-praças”, porque tinha escaramuçado, uma vez, um cabo e dois soldados, que não puderam reagir, por serem apenas três. — Você o conheceu, Manuel Fulô?

— Mas muito!… Bom homem… Muito amigo meu. Só que ele andava sempre coçando a cabeça, e eu tenho um medo da nado de piolho…

— Podia ser sinal de indecisão…

— Eu acompanhei até o enterro. Nunca vi defunto tão esticado de comprido…

Caixão especial no tamanho: acho que levou mais de peça e meia de galão…

— E quem tomou o lugar dele?

— Lugar? O sujeito não tinha cobre nem p’ra um bom animal de sela.., O que ganhava ia na pinga… Mão aberta…

— Mas, quem ficou sendo o valentão, depois que ele morreu?

— Ah, isso teve muitos: o Desidério…

— Cuera?

— Cabaça… Sé que era bruto como ele sé, e os outros tinham medo dele. Cavalo coiceiro…

Comigo nunca se engraçou!

— Como acabou?

— Acabou em casa de grades. Foi romper aleluia na cidade, e os soldados abotoaram o filho da mãe dele… Não voltou aqui, nunca mais…

— E o tal Dêjo?

— Esse foi depois… Antes teve o Miligido… E o nome daquele era Adejalma, nome bobo, que nem é de santo… Um peste. Muita prosa, muita farroma, mas eu virei o cujo do avesso!

Me respeitou! Me respeitou, seu doutor!

— Briga, Manuel?

— Lhe conto, seu doutor. Foi na venda: eu estava comprando cadarço de roupa, coisa de paz… O homem já veio chegando enjoado, me olhando com cara de herege… Negaceou.

Depois, virou p’ra o Pércio, que era caixeiro nesse tempo, e perguntou: “O senhor tem aí dessa raça de faca que entra na barriga e murgueia?” E olhou p’ra mim, outra vez, p’ra ver se eu estava com receio,..

— E você, Manuel Fulô?

— Eu ia serrar de cima, mas nem não tive tempo, porque nessa horinha vinha entrando um tropeiro da Soledade, que era homem duro, e pensou que a ofensa era p’ra ele… E aquilo foi o tropeiro dando um murro no balcão, e tossindo, e perguntando também p’ra o Pércio: “Por falar nisso, o senhor não terá também dessa raça de bala que bate na testa e chateia?!”

Pois aí o Adejalma se riu de medo, e disse que estava era brincando…

— Mas, então, Manuel, como foi que você virou o Dêjo pelo avesso?

— Ara, ara, seu doutor! Se o tropeiro não tivesse entrado, eu fazia desordem, e fazia mesmo… Porque, depois, o cachorro do Adejalma ainda me perguntou, sé por deboche, porque ele estava cansado de saber quem eu era: “Como é que você chama, rapaz?”…

— E você?

— Eu pus a mão na coronha da garrucha, e respondi: “Sé eu perguntando p’r’a minha mãe”…

— E ele?

— Um desgraçado! Era sé ele bulir, e eu mais o tropeiro mandávamos o corpo dele p’ra o quincumbim… Aquele sujo! Assassino! Tralha!

— Que raiva é essa, fora de hora, Manuel?

— Pois o senhor não imagina que, ao depois, o miserável desse Adejalma, sé por medo da minha macheza, me convidou, mais o tropeiro, p’ra beber com ele e fazer companhia?… O tropeiro agradeceu e não aceitou, mas eu fui, porque não sou soberbo… Pois o senhor não acredita que o canalha foi encomendando despesas, e me elogiando e respeitando, até que eu fiquei assim meio escurecido, e aí ele foi-s’embora e me deixou sozinho p’ra eu ter de pagar tudo, por perto de uns quatro mil réis É ou não é p’ra uma pessoa correta ter raiva? É ou não é?!… Cachorro! Morreu de erisipela na cara…

— – E o Miligido?

— Esse era bom… Homem justo. O que ele era era preto… Mais preto do que os outros pretos, engomado de preto… Eu acho que ele era preto até por dentro! Mas foi meu amigo.

Valentão valente, mesmo. Um dia ele me deu uma escova de dente, quase nova… Eu acho que ele encontrou a tal nalgum lugar e não sabia que serventia aquilo tinha…

— Matou muita gente, o Miligido?

— Quase nenhum, que eu esteja lembrado… Também, todo o mundo tinha medo dele…

Cada um dizia amém antes de ele rezar o fim da reza… Está vivo, mas não é valentão mais.

Muito velho… Deve de andar beirando uns setenta… Agora…

— Agora, o valentão é o Targino…

— Nem fala, seu doutor. Esse é ruim mesmo inteirado… Não respeita nem a honra das famílias! É um flagelo…

— Mas não parece…

— O quê?! Aquilo é cobra que pisca olho… Quando ele em birra, briga até com quem não quer brigar com ele… Nenhum dos outros não fazia essa maldade.., O senhor acha que isso é regra de ser valentão? Eu sei que, por causa de uns assim, até o Governo devia era de mandar um quartel de soldados p’ra aqui p ‘ra a Laginha…

— Você tem raiva desse, também, Manuel?

— Não é raiva, não seu doutor: é gastura… Esse-um é maligno e está até excomungado…

Ele é de uma turma de gente sem-que-fazer, que comeram carne e beberam cachaça na frente da igreja, em sexta-feira da Paixão, só p’ra pirraçar o padre e experimentar a paciência de Deus… Eles todos já foram castigados: o Roque se afogou numa água rasinha de enxurrada.., ele estava de chifre cheio… Gervásio sumiu no mundo, sem deixar rasto…

Laurindo, a mulher mesma torou a cabeça dele com um machado, uma noite.., foi em janeiro do ano passado… Camilo Matias acabou com mal-de-lázaro… Só quem está sobrando mesmo é o Targino. E o castigo demora, mas não falta…

— Mas, nesta sobrança, ele é quem vai castigando os outros, por conta própria, Manuel Fulô…

— Deixa ele, seu doutor… P’ra cavalo ruim, Deus bambeia a rédea… Um dia ele encontra outro mais grosso… Eu já estou vendo o diabo, com defunto na cacunda! … Esse sujeitinho ainda vai ter de dançar de ceroula, seu doutor! Isto aqui é terra de gente brava…

— Verdade, Manuel?

— Pode aprovar, seu doutor. Até João Brandão, que foi patente no clavinote, deu volta, quando passou por aqui… Meu pai viu isso… João Brandão vinha vindo p’ra o norte, com os seus homens, diz-se que ia levando armas p’ra o povo de Antônio Conselheiro, mais de uns vinte burros, com as cangalhas encalcadas… Na passagem de onde hoje é a ponte da Quininha, tiveram um tiroteio com os soldados… Isto aqui é uma terra terrível, seu doutor…

Eu mesmo… O senhor me vê mansinho deste jeito, mas eu fui batizado com água quente…

E assim falou Manuel Fulô.

José Boi, Desidério, Miligido, Dêjo… Só podia haver um valentão de cada vez. Mas o último, o Targino, tardava em ceder o lugar. O challenger não aparecia: rareavam os nascidos sob o signo de Marte, e Laginha estava, na ocasião, mal provida de bate-paus.

Havia, sim, os sub-valentões, sedentários de mão pronta e mau gênio, a quem, por garantia, todos gostavam de dar os filhos para batizar.

Os do-Quintiliano, por exemplo. Eram dois ou três irmãos, que mandavam na Vargem, espécie de arrabalde que prolongava o arraial para lá da linha férrea. Um dia, apareceu — papel pregado em árvore — um “pasquim”, sátira anônima, desabafo de algum oprimido:

“A Sofia mais os filho o lastro.
A Guilir o trem.
Joao do Quintiliano prosa com o que nao tem.
Cala a boca gente, que o Quintiliano envem!
Sebastiana mais a Lina passam bem.
Agora vira da outra banda.
Viva o povo da rua da Avenida,
Quem fez isto foi o Tonico da Rabada.”


Antonico da Rabada protestou: por todos os santos e mais deus-do-céu, a luz que alumia, esta cruz, e a alma da sua mãe, que não tinha escrito nada. E se escondeu.

João do Quintiliano saiu furioso, recendendo a cachaça, brandindo as armas, gritando desaforos a esmo; esbarrou no moirão da portela, tinha a cara encruada de dor-de-dente, deu tiros para cima, levava uma flor amarela no peito, e, junto com os parentes, conflagrou a Vargem. Muita porretada, algumas facadas, e foi um dia-de-domingo no meio da semana, porque ninguém trabalhou, Os do-Quintiliano andavam, casa por casa, procurando o editor responsável. Então, alguém pensou, naturalmente, no Manuel Baptista, o Aretino do arraial.

Foram atrás dele, para a satisfação, e encontraram-no no paiol do João Italiano, dando escola para os meninos do negociante.

Mas Manuel Baptista ficou bravo: vissem lá se ele era homem para andar pregando em árvore bobagens sem assinatura! E com tantos erros! Ele entendia de gramática, e seus pasquins, muito bem caprichados, sempre numa meia folha de papel almaço, só eram lidos por pessoas capazes de apreciá-los, e, mesmo assim, tendo cada um de solicitar a sua vez, com muito empenho! E, como prova, exibiu e leu, muito digno e neurastênico, a sua última produção, que debochava de muitas atualidades, terminando, como sempre, com o seu nome, bem rima do, no verso final:

“Essa história de phonetica
eu nunca pude entendê!
E tao feio se assigná
Manuel Batista, sem P!.."


João do Quintiliano ouviu, respeitoso, humilhado pelo poder da arte e da ciência. Pediu desculpas e veio reproduzindo, em sentido contrário, a peregrinação suburbana, dando pan cada em todo o pessoal com quem antipatizava. E só de tardinha, esfalfado, suado, foi que achou de bom aviso pôr uma pe dra em cima da questão.

Pois foi nesse tempo calamitoso que eu vim para Laginha, de morada, e fui tomando de tudo a devida nota.

O arraial era o mais monótono possível. Logo na chegada, ansioso por conversas à beira do fogo, desafios com viola, batuques e cavalhadas, procurei, procurei, e quebrei a foice. As noites, principalmente, impressionavam. Casas no escuro, rua deserta. Raro, o pataleio de um cavalo no cascalho. O responso pluralíssimo dos sapos. Um só latido, mágico, feito por muitos cachorros remotos. Grilos finfininhos e bezerros fonfonando. E pronto.

— Mas, gente, que é que vocês fazem de-noite?

— De noite, a gente lava os pés, come leite e dorme.

Agora, aos domingos, só aos domingos, gente como enchente. Cavalos, burros e ainda outros cavalos, amarrados em frente às casas — e aí foi que fiquei conhecendo o préstimo daqueles postes de guarantã ou de aroeira, cheios de argolas e plantados por toda a parte.

Vinha povo extraído e exumado de tudo quanto era grota e biboca, num raio de légua e meia. Tocava o sino, reinava o divino. E, depois da missa, derramava-se pelas duas ruas a balbúrdia sarapintada das comadres, com o cortejo dos homens: olhando muito para as pontas das botinas, assim joão gouveia-sapato-sem-meia, ou de meias e chinelos — mas só os que estavam de purgante.

Fastio. Há, neste mundo, muito tamanho de papo: pequi, pé ra, laranja, coco da Bahia. Um boi que tenha um chifre mais baixo que o outro é bisco, e o de cabeça negra com uma pinta branca na testa é silveiro. E os pretos vendem a vida pela festa do Congado, que, por sinal, leva três dias, mas exige ensaios que devem durar o ano inteiro.

Então foi que me mostraram o valentão Targino. Era magro, feio, de cara esverdeada.

Usava botinas e meias, e ligas que prendiam as meias por cima dos canos das calças. E não ria, nunca. Era uma pessoa excedente. Não me interessou.

Agora, o Manuel Fulô, este, sim! Um sujeito pingadinho, quase menino — “pepino que encorujou desde pequeno” — cara de bobo de fazenda, do segundo tipo ; porque toda fazenda tem o seu bobo, que é, ou um velhote baixote, de barba rara no queixo, ou um eterno rapazola, meio surdo, gago, glabro e alvar. Mas gostava de fechar a cara e roncar voz, todo enfarruscado, para mostrar brabeza, e só por descuido sorria, um sorriso manhoso de dono de hotel. E, em suas feições de caburé insalubre, amigavam-se as marcas do sangue aimoré e do gálico herdado: cabelo preto, corrido, que boi lambeu; dentes de fio em meia-lua; malares pontudos; lobo da orelha aderente; testa curta, fugidia; olhinhos de viés e nariz peba, mongol.

Era de uma apócrifa e abundante família Véiga, de uma veiguíssima veigaria molambo-mazelenta, tribo de trapeiros fracassados, que se mexiam daqui p’r’ali, se queixando da lida e da vida: “Um maltírio”… —; uns homens que trotavam léguas a bordo de uma égua magra, empilhados um na garupa, um na sela, mais um meninote no arção para virem vender no arraial um cacho de banana-ouro, meio saco de polvilho pubo, ou uma pele de raposão.

Mas, com o Manuel Véiga — vulgo Manuel Flor, melhor mente Mané Fulô, ás vezes Mané das Moças, ou ainda, quando xingado, Mané-minha-égua, — outros eram os acontecimentos e definitiva a ojeriza: não trabalhava mesmo, de jeito nenhum, e gostaria de saber quem foi que inventou o trabalho, para poder tirar vingança. Por isso, ou por qualquer outro motivo, acostumei-me a tratá-lo de Manuel Fulô, que não deixava de ser uma boa variante.

Começou por falar-me de um irmão seu, que tinha uma galinha d’angola domesticada e ensinada, que dormia debaixo do jirau. Não acreditei. Mas pessoas respeitáveis afiançaram o fato, ajuntando que, além da cocar mansinha, o rapaz conservava um rato enjaulado, pretendendo obter que ele e um gato de rajas se fizessem amigos de infância. Tive de pedir desculpas ao Manuel. E, aí, ficamos ótimos amigos. Mais o admirei, contudo, ao saber que ele era o único no arraial a comer cogumelos, com carne, à moda de quiabos. Não um urupê qualquer do mato, nem esses fungos de formato obsceno, nem as orelhas-de-pau, nem os chapéus-de-sol-de-sapo, nem os micetos que crescem na espuma seca dos regos de enxurrada, não senhor! Só o tortulho amarelo do chão das queimadas, “champignon” gostoso, o simpático carapicum. Provei. Exultei. E a nossa amizade cresceu.

O meu amigo gostava de moças, de cachaça, e de conversar fiado. Mas tinha a Beija-Flor.

Ah, essa era mesmo um motivo! Uma besta ruana, de cruz preta no dorso, lisa, vistosa e lustrosa, sábia e mansa — mas só para o dono. Tinha apenas um defeito: era nhata; e as maxilas erradas impediam-na de tosar os talos, já rentes à terra, da última relva da seca, e não deixavam que ela rasoirasse os brotos cio primeiro capim das águas. Mas tinha custado mais de conto de réis, num tempo em que os animais não valiam quase nada, e era o orgulho do Manuel Fulô.

Mais do que isso, era o seu complemento: juntos, centaurizavam gloriosamente.

Aos domingos, Manuel Fulô era infalível: — Vim p’r’a missa… — dizia. Mas chegava sempre atrasado, com o povo saindo da igreja; e então corria, um por um, todos os botequins e bitáculas, reclamador, difícil, mal-encarado, importante. Gostava, principal e fatalmente, de afirmar que era filho natural do Nhô Peixoto, o maior negociante do arraial; e isso, depois da posse da Beija-Flor, constituía a razão da sua importância.

De tardinha, na hora de pegar a estrada, tocavam, tardos: ele, tonto qual jamais outro, perdia logo a perpendicularidade, e se abraçava ao pescoço da mula, que se extremava em cuida dos e atenções. Se a barrigueira estava frouxa e o arreio meio caindo, Beija-Flor estacava e ficava muito quieta. Sabia também abrir porteiras e era por causa dessa e de mais outras habilidades que Manuel Fulô conseguia chegar em casa. “Nem minha mãe não cuidava melhor de mim, assim!”…

Mas, quando era para se mostrar no comércio, antes dos descalabros alcoólicos, o meu amigo caprichava em forçar a anda dura da burra, fornecendo-lhe pouca rédea e fazendo-a pedalar, garbosa, crânio alto, bate crina, como um cavalo de esquadrão. — Quando eu entro no arraial, amontado na minha mulinha formosa, que custou conto e trezentos na baixa, todos ficam gemendo de raiva de inveja, mas falam baixinho uns p’ra os outros: — “Lá vem Mané Fulô, na sua Beija-Fulô, aferrada dos quatro pés e das mãos também!”…

— E você, Manuel?

— Tenho pena deles…

— E as moças?

— Não falo nisso. Começa em olho e acaba em honra… E negócio de honra é na faca!

Pois bem, Manuel Fulô dera para visitar-me, mais que diariamente. E, como a Beija-Fulô depressa aprendia as coisas, assustei-me bastante, numa tarde em que ela veio escoucear minha porta, com o seu proprietário escornado em cima do arreio, na mais concreta abstração. Beija-Fulô queria entrar, por força, talvez para despejar o Manuel em cima de algum catre. Então, eu esvaziei um jarro d’água na cabeça do cava leiro, e depois perguntei aonde ele pretendia ir. Perene e solene, respondeu: — Eu?!… Eu: Tões, Militões, Canindéis, Maquinéis!

Loucura, porque nem nunca que ele havia de poder chegar à fazenda do Tão, nem na do Militão, pior ainda no Canindé, nem nunca que nunca no Maquiné, principalmente com a Beija-Fulô assim disposta a arrombar portas e ir embocando no domicílio de gente importante.

Ora pois, um dia, um meio-dia de mormaço e modorra, gritaram “Ó de casa!” e eu gritei “Ó de fora!”, e aí foi que a história começou. Bom, fui ver. Era uma rapariguinha risonha e redonda, peituda como uma perdiz. Bonita mesmo, e diversa, com sua pele muito clara e os olhos cor de chuchu. Pasmou parada, e virou pitanga, pois não contava decerto encontrar gente de cidade e gravata. Animei-a:

— Hã?

Então ela me disse que ia casar, e que por isso estava percorrendo o arraial, pedindo “adjutório”. Dei, com prazer, o “adju-tório”, mas perguntei quem era o noivo. Era o Manuel!

— Fulô?

— Sim, senhor…

E lá se foi embora a noivinha ditosa, mais a dona idosa que a acompanhava. A bem dizer, eram cor de abóbora os seus olhos. Tinha até um respingo de sardas, eu vi.

— Com que, heín, seu Manuel Fulô, Mané das Moças, que vai casar!
Manuel Fulô viera ver-me, nessa mesma tarde, chamando-me de flor dos doutores e pedindo para beber cerveja p’ra eu pagar.

— Caso mesmo. É este sangue de Peixoto! Não tem outro jeito…

— Que você casa, já sei, e bem que podia, antes, ter-me participado. E você não é Peixoto, é Véiga, dos Véigas do São Thomé…

— Vou lhe contar, seu doutor: sou filho natural de Nhô Peixoto! O senhor não reparou que eu não sou branquelo nem perrengue como esses Véigas?… Meu pai é meu pai por cortesia, e eu respeito… Mas sou mesmo é Peixoto. Raça de gente braba! Eu cá sou assim: estou quieto, não bulo com ninguém… Mas, não venham mexer comigo! porque desfeita eu não levo p’ra casa, e p’ra desaforo grosso a minha Beija-Fulô não dá condução…

— Bom, Manuel Fulô Peixoto, sua noiva é bonita…

— Não caçoa, seu doutor. Isto eu sei que ela não é, por causa que eu ainda não estou cego.

Mas, sacudidona, boazinha e trabalhadeira, ela é… O senhor não acha?
— Acho. Bem, Manuel, vamos tomar cerveja, para festejar o noivado!
Preferi fôssemos para a venda, porque sabia que Manuel Fulô gostava de exibir a nossa amizade. E, mal nos sentamos nas cadeiras dobradiças, fui perguntando: — Me conta, Manuel, você gosta mesmo dela?

— Amo! isso, lá, amo mesmo, seu doutor…

— Faz bem, Manuel, faz bem…

Então nos desolhamos, e pegamos a pensar, cada um para o seu lado, até que Manuel suspirou e explicou:

— É o jeito. Eu só queria treis coisas só: ter uma sela mexicana, p’ra arrear a Beija-Fulô…

E ser boticário ou chefe de trem-de-ferro, fardado de boné! Mas isso mesmo é que ainda é mais impossível… A pois, estando vendo que não arranjo nem trem-de-ferro, nem farmácia, nem a sela, me caso… Me caso! seu doutor…
E Manuel Fulô babou cerveja queixo abaixo, mas seus olhos ficaram sérios.

— Mas você não gosta da moça, Manuel Fulô?

— Gosto sim. Já estamos criando amor. Ela é boazinha… Pobre como eu… Mas eu queria uma sela mexicana, um arreio de gaúcho, graúdo, com bordados no couro dos estribos, com topete adiante e cabide de prego p’ra o laço, no santantônio… Aí é que era! Aí é que era, seu doutorzinho meu amigo!…

— Chega de beber, Manuel Fulô Peixoto meu amigo…

— Eu cá não estou bêb’do nenhuns-nada! Estou é com raiva. Sangue de Peixoto não é brinquedo, esquenta à toa, à toa… Estou com ódio não é por mim, é por causa da minha Beija-Fulô…

— Boa mula…

— Boa?! Uma santa de beleza de besta é que ela é!… Aquilo nem dorme… Nunca vi a Beija— Fulô deitada, por Deus do céu!… Montaria assim supimpa, assim desse jeito, nunca me disseram que houve… E olha que isso de animal é minha comida: entendo disso direito, sei puxar uma matéria!

— Claro que você sabe, Manuel Fulô…

— E sei mesmo! Então, p’ra que foi que eu havia de andar dois anos amadrinhado com os ciganos, acompanhando aquele povo p’ra baixo e p’ra riba? Então?!…

— Você viveu com os ciganos, Manuel Fulô? Me conta como foi que foi…
— Foi por causa que eu estava sem gosto p’ra caçar serviço bruto, naquele tempo… Garrei a maginar: o que eu nasci mesmo p’ra saber fazer é negócio de negociar com animal. Mas eu queria ser o melhor de todos… E quem é que é mestre nessa mexida? Não é cigano? Pois então eu quis viajar no meio da ciganada, por amor de aprender as mamparras lá deles. Me ajustei com um bando…

— Boa vida, Manuel?

— Assim-assim… Que me importa!? Eu só queria era estudar as tretas todas dos calões…

Dormia em barraca, comia quase que só repolho com cebola e carne de cabrito cozida… E tomei assunto, ligeiro, de um ror de coisas na língua disgramada que eles falam… Mas olha aqui: sou besta?… Fazia mas era de conta que não entendia nada! Ficava marombando…

P’ra negócio de consertar fundo de tacho e de gramar no cabo do mar telo p’ra fazer caldeirão, não vê que eu dava confiança!… Mas, opa! Que beleza de gente p’ra ser esperta!…

— Roubavam muito cavalo, heim?

— Ah, isso era só ter jeito de roubar, que estava roubado mesmo! E, ao depois, trabalhavam com os animais, p’ra botar eles bonitos, que nem cavalgadura de lei… Até pintar, p’ra ficar de cor diferente, eles pintavam… Muita vez nem o dono não era capaz de arreconhecer o bicho!… Pegavam num pangaré pelado, mexiam com ele daqui p’r’ali, repassavam, acertavam no freio, e depois era só chegar p’ra o ganjão e passar a perna nele, na barganha… E volta boa, em dinheiro, porque cigano só faz baldroca recebendo volta…

Senão, também, como é que eles haviam de poder viver? Como é?!…
…Eles gostavam muito de mim, porque pensavam que eu era bobo de deveras… Mesmo, por fim, por eu dar jeito assim de bobo, eles mandavam que eu fosse negociar os animais com os pessoais… E falavam comigo em antes: “Tu pode conversar o que quiser, mas não deixa eles te empulharem, e só aceita negócio a troco da besta preta do padeiro, com volta de cem, ou por aquele cavalo bragado da mulher do homem do beco, com volta de sessentão…”

…Ô beleza!… Eu saía com a cavalhada, e era que nem artista de circo-de-cavalinho!

Primeiro, fazia bonito na rua, repassando… Aquilo, eu caprichava comigo: p’ra animal murzelo, eu punha roupa preta, p’ra malhado, paletó d’uma cor, calça doutra… E fazia um negocião, porque todo o mundo pensavam que estavam me cinzando…

— E você gostou de alguma ciganinha, Manuel?

— É baixo! Não vê! Negócio é só negócio. E eu estava ali era feito menino de escola, só p’ra mór de aprender. Quando vi que tinha sabido tudo, vim membora… Bem que eles pediram p’ra eu ficar. Mas eu lá precisava mais de ciganada velhaca?!… Uma osga!

P’r’aqui mais p’r’aqui que eu fiquei!… (E Manuel Fulô toca os cotovelos.) …Já entendia de tudo quanto era manha de lidar com cavalo. Batia a mão num bicho de anca chata, cesto-de-urso, cambeta, de galope desunido, rasga-tapete, baixo de quartela, transcurvo ou boletado… Revirava com ele, fazia ele comer bastante milho, dava sal com enxofre, dava arsênico, dava outras coisas, que depois se o senhor quiser aprender eu lhe conto… Ajeitava um freio de-propósito, com bridão ou bocal de ferro, sojigando ou afrouxando a barbeia, aconforme os casos… Acostumava o bruto, e aquilo ele ficava prontinho uma montada luxenta, de ginete, manteúdo p’ra troca, de galope espertado, batido do lado esquerdo… Só vendo!

…P’ra conhecer; então, não tinha mais ninguém p’ra poder comigo: era só deixar eu empurrar a mão fechada no peito de um macho, p’ra eu ir gritando: — Passa p’ra cá, que este é dos meus!

..ou então, indas que ele fosse vistoso e sacudido, de es tampa: — Arrenego, que não presta! Não presta nem p’ra puxar pedra, por causa que é aberto de frente!…

…Passava o dedo na boca aberta de outra azêmula, e já sabia: — Barra com calo.., queixudo… Aparta esse p’ra lá, que nem de graça que ele não serve p’ra mim não!…

…Agora, canjica, niquento, debruçado ou ajoelhado, pesado de frente que nem jumento, isso então era coisa corriqueira: eu chamava nas truvancas, e, em menos de uma semana, punha o tal num preceito, que quando saía comigo p’r’a rua o diabo vinha rebolando, todo repinicado, pegando andorinha no ar!

…..Quando eu larguei a ciganagem, vim p’r’aqui p’r’o arraial, negociar por minha conta. Aí foi que eu ganhei um dinheirão! Merenguém bonito…

— Lesando os outros, Manuel?

— Não vê! A modo e coisa que, p’ra se fazer tratantagem, só mesmo quando a gente é andejo, porque não pára em lugar nenhum, e, quando o crente dá fé de que levou manta, a gente já está longe, e custa muito p’ra voltar. Aí, enquanto isso, é o tempinho certo do tal-um esfriar a raiva, mas ficar querendo cobrar o logro… E, quando a gente volta, o freguês quer porque quer fazer outra berganha, p’ra tirar a forra… E aí a gente torna a jogar cinza nos olhos dele outra vez…

…Mas, morando aqui de sempre, eu não podia fazer esperteza, tinha de negociar direito…

Ah, mas, também, isso eu garanto: p’ra ser honesto e honrado feito eu naquele tempo, não teve outro! Não havia!…

— Mas, Manuel, por que foi então que você deixou esse ramo?

— Ah, pois aí é que está! Isso mesmo é que eu ia condizendo… Foi tudo por causa do raio de uma bestagem que eu fiz… Calcule o senhor que, de vez em quando, eu pegava a pensar e tinha uma raiva danada dos ciganos terem me abusado, achando que eu era coió… E eu nunca fiquei por baixo! Não deixo rasto mal firmado! Tou de calça até dormindo!

…Cada vez, cada mês, a minha raiva era mais muita, e então eu arresolvi amostrar p’ra eles o quê que é gente que tem sangue de Peixoto! Imaginei, imaginei, e daí cacei dois sujeitinhos ordinários de cavalos, que eram mesmo o restolho da porcaria maior de tudo quanto é cavalo ruim que não presta…

— Que dois eram esses, Manuel?

— Um se chamava Furta-Moça. Só mesmo por graça, que nem velha coroca ele não era gente p’ra furtar! Era um alazão sopa-de-leite, com uma perna torta de defeito de nascença… Gázeo, remelento, que nem negro-aço, que não podia abrir os olhos p’r’a banda do sol… Sem-andar, manco, tirador de cabresto… Tinha p’ra mais de uns vinte anos de idade… E estirava, quando a gente prendia o tal na estaca…

..O outro ainda era ainda mais pior, porque era doido, mesmo, doido feito gente doida!

Estava com as canelas que eram isto, de sobrecanas… Se a gente punha o pobre num galope, era só alcançando, arregaçando ou arrastando os pés… No picado, arpejava e acalentava… Na andadura, era aquela feieza: interrompia o andar, com a gente escutando quatro batidas em vez de duas, em cada passada… Pois aquela sombração era um baio-lavado, chamado Ventarola… Cabeça chata… Até de travagem ele estava, e não podia mastigar!…

— Tanta coisa junta, Manuel?

— Verdade pura! Rico de rabo é que ele era, seu doutor!

— E, então…

— Então eu pus um perto do outro, e dei risada: pois há-de ser mesmo com estes mais mambembes que eu vou tochar uma certa naquela cambada!…

Isso foi que eu falei sozinho, p’ra eu mesmo sozinho escutar e ficar ainda mais enjerizado com os ciganos. Porque, só de pensar em cigano, eu ficava tinindo de tiririca!

…Foi uma campanha! Levei quase treis meses. Mas caprichei, porque eu estava todo determinado p’ra etcétera… E co mo eu sou mesmo opiniúdo, e quando entesto de fazer alguma coisa faço mesmo, nem comia nem dormia direito, só inventando outras papiatas p’ra compor com a minha junta de mulas-sem-cabeças de tirar vingança de cigano… Passei banha de jibóia no aleijão cia perna do Furta-Moça, trabalhei de dentista, p’r’amór de retocar os cientes dos dois… Pelejei, pelejei!… Pintando de preto, só um pouco, ao redor dos olhos, Furta-Moça aguentava o sol… E, p’ra andar, eu ensinei postiço, que nem com bicho de circo: eu estando perto, e sendo curtas distâncias, eles faziam força e caminhavam correto… Quando que riam voltar outra vez p’r’as suas desordens, eu assobiava, e tornavam a tomar jeito de gente, com medo de entrar no couro, que se não eu chegava mesmo o pau!

E eles concordaram com a minha regra, e cruzaram trato comigo, de andar direito o principiado dos minutos, eu acho que por causa que eles tinham bom coração…

…Eu sabia que na Semana-Santa os tais tinham de vir no arraial. E vieram mesmo. Mas aí Ventarola e Furta-Moça já estavam no ponto. Limpei as orelhas, tosei direito, escovei, lavei, pus bom freio, fantasiei a visagem deles… Fiz tudo!…

…A derradeira coisa, que eu aprontei, foi fazer Deus que me perdoe sendo maldade foi fazer um machucado nos beiços do Ventarola, porque, quando eles vissem que o pobre não podia comer direito, pensavam que era por via daquilo, e não iam espiar o céu-da-boca, p’ra mór de descobrir a travagem, não… E, aí então, chegou o dia!

…Tinha muita gente no largo de em frente da igreja, quando eu vim com os animais, no sábado-de-aleluia, de manhã. Vim passando, amontado no Furta-Moça, com Ventarola adestro, e fiz de conta que não sabia de nada de cigano ali, e que nem não estava campeando negócio. Mas seu Pachencho, que tinha sido meu patrão cigano, foi me vendo e esgoelando:

— “Eh, ganjão! Esses granéis são seus? Quer bater uma baldroca?”…

— Deus me livre, chefe! — arrespondi. — Tenho medo de levar manta… P’ra eu ficar molhando minhas costas, é? Eu não… Eu é que sei do meu respeito!
…Mas, aí por aí, o Cuntrino, um outro disgramado de cigano sem-vergonha, já estava examinando o Ventarola, e gritando:

— “Deixa de doença, amigo! Você não é nenhum ganjão… Você é mas é patrício, calão como nós… Vamos barganhar esses gráis!”… Gráis é cavalo…

— Eu sei. E depois?

— Depois, então, eu fui deixando… Eles estudaram tudo, olharam, cheiraram, cansaram de olhar, montaram, desamontaram, tornaram a olhar, apalpando, passando a unha, abrindo a boca dos dois éguas-velhas, puxando pelas cambas do freio, fazendo andarem de-fasto, tudo…

… Aí, tinha chegado também o Bertolameu, outro lá deles, que ficou espiando de longe, porque tem uns defeitos de cavalo que só mesmo de longe é que a gente pode ver… E aí foi que eu fiquei com uma despesa no estômago, porque eu estava cansado de saber que: um cigano sozinho, mesmo estando com os olhos fechados, já acerta com a metade dos defeitos de um animal; dois ciganos, juntos, são capazes de adivinhar o que é que c o bicho comeu e está dentro da barriga dele; mas, treis ciganos, então, seu doutor, eles falam p’ra o senhor até qual é que foi o nome da égua mãe…

… . E o Bertolameu juntou com seu Pachencho mais com o Cuntrino, e futricaram, um tempo todo, falando depressa na língua atrapalhada lá deles. Depois, vieram p’ra mim, e me ofereceram dois cavalinhos: um pica-pau assim héctico, tordilho, e um matungo ruço, passarinheiro e de duas crinas…

…Eu fui vendo logo que os animais deles não prestavam, O matungo, p’ra se deitar, ajoelhava que nem vaca, e a modo e coisa que era cego de um olho. Mas eu entendi que ele não era cego nenhuns-nada: era uma pelinha que tinha crescido tapando a vista que, até, depois, seu Raymundo boticário tirou p ‘ra mim.., O pica-pau parecia que não ia durar mais muito tempo vivo… Tinha sinal de duas sangraduras… Mau, mau! Mas depois eu farejei que o que ele precisava era só de descanso, porque os ciganos tinham viajado demais naqueles dois meses, e tinham vindo tocando muito ligeiro e maltratando a tropa deles, p’ra poderem chegar no arraial na Semana-Santa… Isso eu vi, por que as ferraduras dos cavalos estavam todas gastadas, e os cascos dos desferrados estavam desiguais de roidos, também…

…E tinham mais outros desmandos, mas eram muito mais p’ra o desconto do que os defeitos da parelha minha… Por isso eu fiz cara de quem não estava conhecendo as miserinhas dos deles… Ah, porque eu tinha de fazer de capim, p’ra comer o burro!… E até peguei a gabar: — Eta! Bonitinhos eles são… Mas, dinheiro p’ra volta é que eu não tenho, e até estou triste por não ter!…

…Aí, eles riram um p’ra o outro, e eu cá quieto, fazendo de conta que não estava vendo…

Queriam-porque-queriam que eu chegasse vinte mil-réis. Mas eu sabia que cigano tem uma esganação medonha, mesmo que doença, p ‘ra baldrocar cavalos, e fiz fincapé, suspirando, mentindo que nem um botão de calça eu não podia voltar. Ai, seu doutor meu amigo, a cacunda do bobo é o poleiro do esperto!… Eles tinham que dar o beiço e cair o cacho!… E eu fiquei mesmando…

…Por fim, quando eu relanceei que eles já estavam meio querendo me aceitar, entrei de zápede, espadilha e treis: — Bom, mas vocês têm de me voltar dez’tões de lambujem, que é p’ra uma cachacinha, porque o dinheiro aqui na minha terra anda vasqueiro…

…Mentira pura! Eu queria volta era só por a-mór de desonrar a raça toda de ciganos, p’ra uma vez!…

…Seu Pachencho fechou a cara, mas o tal Cuntrino veio comigo: — “Dez’tões é nada… Eu dou. …”

…Ai, meu pai! Não sei como é que eu não morri de alegria naquela hora! … Foi só a gente fechar o negócio, e eu peguei a dar viva, gritando que tinha embrulhado os ciganos, e chamando o povo p’ra escutar, e o povo querendo saber por quê, e eu mostrando os defeitos todos que eles não tinham sido gente p ‘ra descobrir! E até deitei no chão, com os pés p’ra cima, e gritei:

— Rach’ ou parta ô melodência!, que por mim o mundo agora já pode se acabar!…

— E os ciganos, Manuel?

— Ficaram danados, eles, e me rogaram muita praga, e até queriam desmanchar a troca.

Mas aí eu me alembrei do sangue que tenho, e falei minhas ordens. Mostrei só o biquinho da garrucha e dei um eco neles: Ti-ó-Frade, Tio-fró!… Fiquem sabendo que eu sou filho natural de Nhô Peixoto, e, já, já, vocês têm que desaparecer esses cavalos daqui!…

….E eles não fizeram nada, e foram-s’embora, porque, em qualquer parte em que cigano briga, seja lá com quem for, o povo todo do lugar se ajunta e todo o mundo aproveita p’ra dar pancada neles… Até eu não acho que seja direito…

…Mas, ôi, diabo! Até hoje eu ainda gosto mais de me alembrar disso do que de comer doce!…

— Foi bonito, Manuel…

— Pois não foi? Eu acho que a gente deve de fazer umas coisas assim, p’ra se consolar; mais tarde, com qualquer tristeza que tiver…

— Mais cerveja, Manuel?

— Eu cá nunca enjeito, seu doutor. Mas, lhe conto: o ruim foi depois: ninguém não queria fazer mais negócio comigo… Perdi a freguesia… E, eles, era ingratidão, porque eu nunca tinha feito velhacaria nenhuma com pessoa nenhuma do arraial. Não carrego rabo de palha… Mas, que-o-quê! Eles diziam: — “Qual, com você, não. Nunca mais! Sai p’ra lá, você embroma até cigano”…

….. De formas que foi só por via disso mesmo que eu não fiquei rico, e que agora estou me coçando com um dedo s E isso de se querer fazer bonito, seu doutor, é a pior coisa que tem.

Nunca que dá certo!… Basta só usar penacho uma vez, p’ra uma pessoa se emporcalhar toda ao despois. Um coice mal dado chega p’ra desmanchar a igrejinha da gente…

— Razão você tem, Manuel Fulô.. Mas, vê se bebe mais devagar…

— Não estou bêb’do, nada. Estou é com raiva, já falei! Fico que não posso, de jeriza, quando magino que o Toniquinho das Pedras tem uma sela mexicana boa, encostada, porque ele não tem cavalo nenhum, nem besta!… Podia me vender aquela, barato, porque ele não precisa de arreio… Precisa algum? Sé se for p’ra botar nas costas dele-lá-mesmo…!

Mas não vende, nem por nada, e eu já peguei qual é a manha dele: é porque ele quer apanhar a minha Beija-Fulô! Desaforo!… Não pega a minha mulinha, nem a troco de uma mina de brilhante!… Nem se ela, Deus a livre guarde, morresse, o que não é bom falar, eu nem o couro não havia de vender p’r’aquele judeu!…

— Sossega, Manuel.

— Tenho ódio dele, tenho mesmo! E um sujeito sem préstimo, sem aquela-coisa na cara… É o pior pedreiro do arraial, não sabe nem plantar uma parede. Sé sabe é fazer feitiço, vender garrafada de raiz do mato, e rezar reza brava. Tem partes com o porco sujo… Não presta!

Gente assim não devia de ter!…

— Mas tem muita, Manuelzinho Fulô.

— Não brinca, seu doutor! O senhor também devia mas é me ajudar a ter ódio do cachorro do Toniquinho das Águas… Ele vive desencaminhando o povo de ir se consultar com o senhor. Dizendo que o doutor-médico não cura nada, que ele sara os outros muito mais em-conta, baratinho… Ele quer plantar mato na sua roça e frigir ovo no seu fogão! O senhor não vê? Ele não faz receita no papel, sé porque não conhece os símplices, e acho que não sabe escrever, e isso que nem o boticário não aviava nenhuns-nada… Mas benze, trata de tudo, e aconselha que a gente não deve de tomar remédio de botica, que deve de tomar é só cordial… Qualquer dia ele arruma uma coisa-feita, p’ra modo de fazer o senhor ir-s’embora daqui…

— Feitiço em mim não pega, Manuel…

— É, mas o senhor devia era de fazer medo nele, falando em mandar vir um tenente com os soldados, se ele não parar com esses embondos de feitiço, e se não quiser vender a sela mexi cana p’ra mim!.., O senhor porque é bom demais, e não vê que ele está mas é roubando o de-comer de seus filhos…
— Mas eu não tenho filhos, Manuel!

— Ara, que ideia! Não tem, mas podia ter, e é a mesma coisa que ter!… Não tem mas vai ter!… E, olha aqui, seu doutor, falando sério, o senhor agora vai me responder uma pergunta: se uma pessoa tem uma sela guardada, sem serventia… E outra pessoa tem uma besta de-primeira, mas mesmo, de que não há outra igual, manteúda e talentosa, andadeira e esperta que nem gente… E se o que tem a sela quer comprar a mula, e o da mula quer comprar a sela, e ainda por riba falou primeiro no negócio… Quem é que o senhor acha que deve de ter direito? Não é o da besta, o da Beija-Fulô?!
— Mas, Manuel…

— Pois ‘tá’í! … Qualquer um vê logo que eu estou com o certo. Mas o tralha não tem crisma, só senta perto do cacifre… E eu até fico com medo, porque a sela, com tanto tempo que passa, pode querer se estragar. E já pensei também que ele, sabendo que gente dos Peixotos é gente mesmo opiniúda, e que eu não vendo — nã-o ven-do! — , que ele queira pôr algum quebranto na minha Beija-Fulozinha, benza-a Deus!

— Benza-a Deus, Manuel!

— É, mas se ele fizer algum caborje, morre no meu pinguelo! Seis tiros!…
— Chega de beber, Manuel Fulô. Você já está ficando vesgo.

— Bom, vamos mesmo parar, que a despesa já está alta, com tanta garrafa aberta… Só queria lhe explicar ainda, seu doutor, que, eu…

E Manuel Fulô desceu cachoeira, narrando alicantinas, praga e ponto e ponto e praga, até que. .. Até que assomou à porta da venda— feio como um defunto vivo, gasturento como faca em nervo, esfriante como um sapo — Sua Excelência o Valentão dos Valentões, Targino e Tal. E foi então que de fato a história começou.

O tigrão derreou o ombro esquerdo, limpou os pés, e riscou reto para nós, com o ar de um criado que vem entregar qual quer coisa.

Manuel Fulô se escorregara para a beira da cadeira, meio querendo se levantar, meio curvado em mesura, visivelmente desorganizado. E eu me imobilizei, bastante digno mas com um sus to por dentro, porque o ricto do fulano era mau mesmo mau.

Manuel Fulô nem esperou que o outro chegasse perto; foi cantando: — Boa noite, seu Targino, com’passou?

— … .noite!… noite, seu doutor…

E eu impei, com o tom respeitoso e com a completa tirada de chapéu. Mas o homem foi lacônico:

— Mané Fulô, tenho um particular, com licença de seu doutor…

Pura formalidade, a convocação:Targino falou alto, ali à por ta da venda, a três passos da minha pessoa. Manuel Fulô tremia nas pernas, e eu ouvi tudo. Peremptório e horrível: — Escuta, Mané Fulô: a coisa é que eu gostei da das Dor, e venho visitar sua noiva, amanhã… Já mandei recado, avisando a ela… E um dia só, depois vocês podem se casar…

Se você ficar quieto, não te faço nada… Se não… — E Targino, com o indicador da mão direita, deu um tiro mímico no meu pobre amigo, rindo, rindo, com a gelidez de um carrasco mandchu. Então, sem mais cortesias, virou-se e foi-se.

Eu perdi o peso cio corpo, e estava frio. Me mexia todo, sem querer. Manuel Fulô oscilou para o balcão, mas não pôde segurar o copo; passou a mão no suor da testa: — Eu… eu… eu…

Aí eu vi que já se ajuntara gente, todos falando por metades só: — Coitado do Mané… Coitadinha dessa moça… Coitado do Mané Fulô…

Peguei-lhe do braço. Arrastei-o.

A rua já estava escura, e tropeçávamos na buraqueira. Subiu do chão, solerte, uma cabrita alvacenta. E, se o Manuel quisesse falar, cortava a língua, porque os seus dentes se mastigavam sem pausa.

Pus o amigo para dentro da minha casa:

— Você dorme aqui, Manuel. Eu vou agir…

Mas o infeliz, desmesurando os olhos, e numa vozinha aflita, que vinha de lá de mais baixo do que a cachaça, do que o gálico, do que a taba voz que vinha de tempo fundo suplicou: — Não faz nada não, seu doutor… Ele é o demônio… Não respeita nada e não tem medo de ninguém…

— Mas, Manuel! E até uma vergonha você dizer isso…

— Eu… Eu?

— Não fazer nada seria uma infâmia… Temos de defender a das Dor! Há momentos em que qualquer um é obrigado a ser herói…

— Uma osga!

— E o amor, Manuel? Ela é a tua noiva! Esta história… Que história, que mané-história! O senhor está é caçoando comigo…

— Não, porque…

— Porque-isquê!

— A minha…

— Que-inha?

— Cala a boca!

— Que-ôca?

— Manuel, se você não dominar um pouco essa bebedeira, eu jogo um josé na rua! … Ah, melhorou, não é? Precisamos de pensar… Por que você não vai pedir proteção ao Nhô Peixoto?

— Ele é pirrônico… Não amarro cavalo com ele… Bem, mas se o sangue de Peixoto é bom mesmo para fér ver, você vai preparar as armas, para enfrentar o Targino amanhã, na hora da baderna, não vai?

— Pois será que nem o senhor não é mais meu amigo? Está querendo ver a minha morte?

Qualquer um outro eu escorava mesmo, mas o senhor não sabe que esse Targino é o valentão?!…

— Bom, Manuel Fulô, não iremos pela força… Mas, você, que logrou até os ciganos, vai me ajudar agora a inventar um estratagema, um modo de fintarmos o Targino?

Manuel Fulô abriu um riso feio — vançando os dentes amarelos e grandes, como fieiras de grãos numa espiga de milho — tal e qual um cavalo; depois disse: — Ah, não tem jeito… Não tem prazo, seu doutor! Assim, de hoje p’r’amanhã, não adianta… Mal-e-mal eu estou podendo pensar o trivial…
Face ao inajeitável, me alvitrei que o melhor seria reforçar a anestesia, dar-lhe mais bebida.

E dei.

Bebeu, arrotou, e suplicou:

— O senhor não esquece de mandar cuidar da minha Beija Fulô?

— Oh, Manuel! Você gosta mais é da das Dor ou da Beija Fulô?

— Me desculpe, seu doutor, mas isto é pergunta que se faça? Gosto das duas por igual, mas primeiro da das Dor!…

E dormiu.

De manhã, acordei cedo. Manuel Fulô curtia o epílogo da cachaceira. Fui providenciar.

Quando ia saindo, encontrei o meu amigo Vicente Sorrente sapateiro, com olhos amplos, me avisando:

— Não faça isso, doutor. Mande o Manuel embora, O Targino pode pensar que o senhor esteja se metendo…

Até chegar à casa do Coronel Melguério, ouvi, mais ou me nos, essas mesmas palavras, umas quinze vezes. Porque a rua estava cheia dos habitantes de Laginha, assanhados que nem correição de saca-saia em véspera de mau tempo. Havia meses que o Targino não cometia alguma barbaridade, e forte era a sensação.

— Hoje é dia… E hoje!

O Coronel era boa pessoa, só que o chamavam de berda-Merguério. Ouviu, deu de ombros, e indeferiu:

— Se o senhor quiser, pode arranjar quem pegue o Targino à unha, que a autoridade aprova. Agora, gente p’ra isso é que não há por aqui… Ninguém não tem sopro p’ra esse homem…

Então, fui ao vigário. O reverendo olhou para cima, com um jeito de virgem nua rojada à arena, e prometeu rezar; o que não recusei, porque: dinheiro, carinho e reza, nunca se despreza.

E, aí, eu comecei a temer por minha pele própria, e voltei, frouxo, aflito por que passasse o dia, tudo acabasse, e a gente pudesse ver o resto como ia ser. Manuel Fulô não tivera coragem de pôr o pé fora da porta. E a Veigaria toda, que, não sei como, tivera ciência do ultimatum e acorrera, enchia a minha morada.

Uma mulher Véiga se ajoelhou, de mãos postas: — Não deixa acontecer nada com o Manezinho, que ele gosta muito do senhor!

E um Véiga barbaçudo, com um pouquinho mais de reserva, explicou: — Nós viemos aconselhar o Mané, p’ra ele não fazer nenhuma doideira… O senhor não acha que ele deve de entregar p’ra Deus e ficar quieto? A moça gosta dele… A gente esquece o que se deu, e eles casam… Faz de conta que foi coisa que nem doença… É que nem a gente se casar com mulher viúva…
E aqueles parentes não viam que o Manuel estava mesmo o mais Véiga de todos, pedindo a Deus que o pusesse entrevado num momento, ou que abrisse o chão, em grota fofa, para ele se enfiar e afundar.

Mas, com a barafunda, não se sabia o que fazer, e mais, ainda, com tanta gente curiosa, querendo consulta ou fazendo visita, em hora tão matinal. E, logo, de cochicho em cochicho, formou-se uma corrente informativa:.., o subdelegado saíra do arraial, de madrugadinha, para assunto urgente de capturar, a duas léguas do comércio, um ladrão de cavalos… Maria das Dores, na cafua, adoecera de pavor, e estava sozinha com a mãe, chamando pelo noivo.. . Targino ainda não saíra de casa.

— Quem sabe se ele não esqueceu ou desistiu?

— Ara, ara! Que esperança!

E, a que horas a Bela seria procurada pela Fera, não se podia saber.

Mas, de fato, cartas dadas, a história começa mesmo é aqui. Porque: era uma vez um pedreiro Antonico das Pedras ou Antonico das Águas, que tinha alma de pajé; e tinha também uma sela mexicana, encostada por falta de animal, e cobiçava ainda a Beija-Fulô, a qual, mesmo sendo nhata, custara um conto e trezentos, na baixa, e era o grande amor do meu amigo Manuel Fulô. Pois o Antônio curandeiro-feiticeiro, apesar de meu concorrente, lá me entrou de repente em casa, exigindo o Manuel Fulô a um canto — para assunto secretíssimo.

Nem eu pude ouvir. Isto é, escutava pouca coisa: Manuel Fulô dizia que não, gaguejava e relutava. E o outro falava pompeado, com grã viveza de gestos e calor para convencer.

O tempo passava, O povaréu falava, todo a uma vez, depois silenciava. Pesava demais a espera; e já era insuportável a situação.

Aí, de chofre, se abriu a porta do quarto-da-sala, onde os dois davam suas vozes, e o Antonico das Pedras surgiu, muito cínico e sacerdotal, requisitando agulha-e-linha, um prato fundo, cachaça e uma lata com brasas. E Manuel Fulô reapareceu também, muito mais amarelo do que antes, dizendo ao povo Véiga, funebremente: Podem entregar a minha Beija-Fulô p’ra o seu Toniquinho das Águas, que ela agora é dele…

Então eu me sobressaltei, e umas mulheres choramingaram, porque o dito equivalia a um perfeito legado testamentário. Mas os dois donos da Beija-Fulô tornaram a fechar-se no quar to, com o prato fundo, as brasas, a agulha-e-linha e a cachaça, e ainda outros aviamentos.

Houve um parado de próxima tempestade. Uma voz fina rezou o credo. Correram, na rua. E alguém, esbofado, entrou:

— Fechem as portas e as janelas, que seu Targino já vem vindo, e vai passar mesmo por aqui por frente da casa!

O povo se mexeu, como água em assoalho.

— Entra p’ra dentro, Tibitíu! gritou-se.

— Aí vem o homem!… — gritaram.

E, nisso, abriram outra vez a porta do quarto-da-sala, e Manuel Fulô saiu primeiro. Surgiu como uma surpresa, trans-mudado, teso, sonambúlico.

Abrimos caminho, e ele passou, para a rua. Ia do jeito com que os carneiros investem para a ponta da faca cio matador. Vilhe um brilho estricto, nos olhos.

E só depois que ele saiu foi que aVéiga mãe de todos os Véigas se desapalermou e pôde gritar:

— Me valei-me agora, minha Nossa Senhora!

E vi também o Antonico das Pedras, lampeiro e fagueiro, perguntando pela Beija-Fulô. Mas ninguém lhe deu atenção. Só perguntaram:

— O-quê que o senhor foi fazer com o meu irmão, seu Toniquinho?

— Fechei o corpo dele. Não careçam de ter medo, que para arma de fogo eu garanto!…

— Jesus! Targino mata o Manezinho… Não levou nem garrucha nem nada, o pobre!

— Corre atrás dele, gente! Seu Toniquinho botou meu filho doido!

Mas ninguém transpôs a porta. O Targino já aparecera lá adiante. Vinha lento, mas com passadas largas. E de certo se admirou de ver Manuel Fulô caminhar. Naquela hora, a rua, ancha e comprida, só estava cabendo os dois.

E eu pensei no trem-de–ferro colhendo e triturando um bezerro, na passagem de um corte.

Pronto! A dez metros do inimigo, Manuel Fulô parou, e rompeu numa voz, que de tão enérgica eu desconhecia, gritando uma inconveniência acerca da mãe do valentão.

Targino puxou o revólver. Eu me desdebrucei um pouco da janela. Cruzaram-se os insultos: — Arreda daí, piolho! Sujeito idiota!…

— Atira, cachorro, carantonho! Filho sem pai! Cedo será, que eu estou rezado fechado, e a tua hora já chegou!…

E só aí foi que o Manuel mexeu na cintura. Tirou a faquinha, uma quicé quase canivete, e cresceu. Targino parara, desconhecendo o adversário. Hesitava? Hesitou.

Eu tirei a cara da janela, e só ouvi as balas, que assoviaram, cinco vezes, rua a fora, de enfiada, com o zunido de arames es ticados que se soltam.

E, quando espiei outra vez, vi exato: Targino, fixo, como um manequim, e Manuel Fulô pulando nele e o esfaqueando, pela altura do peito tudo com rara elegância e suma precisão.

Targino girou na perna esquerda, ceifando o ar com a direita; capotou; e desviveu, num átimo. Seu rosto guardou um ar de temor salutar. Conheceu, diabo, o que é raça de Peixoto?!

E eis que isso foi ingratidão, em vista da lealdade dos Véigas, que agora enchiam o pedaço de rua. Pouco sério, também, foi ele ter dado mais uma porção de facadas no defunto, num as somo de raiva supérflua. E ainda cuspia e pontapeava, sujando-se todo de sangue. Mas grande era a sua desculpa, já que não é coisa vulgar a gente topar com um valentão na estrada da guerra, e extingui-lo a ferro frio.

Manuel Fulô fez festa um mês inteiro, e até adiou, por via disso, o casamento, porque o padre teimou que não matrimoniava gente bêbeda. Eu fui o padrinho.

E o melhor foi que meu afilhado conservou o titulo, porque, pouco depois, um destacamento policial veio para Laginha, e desapareceram os cabras possantes, com vocação para o disputar. Mas Manuel Fulô ficou sendo um valentão manso e decorativo, como mantença da tradição e para a glória do arraial. Só, de vez em longe, quando conseguia burlar a vigilância da es posa, ingeria um excesso de meia garrafa da branquinha, pedia a Beija-Fulô emprestada ao Antonico das Pedras-Águas, e dava trabalho ao povo, bloqueando a rua Direita, galopando e disparando, para cima, tiros de mentira ou de verdade, e gritando até adormecer, abraçado à tábua-do-pescoço da mula:

— Conheceu, gente, o que é sangue de Peixoto?!…
João Guimarães Rosa, “Sagarana“