segunda-feira, junho 1
Entre patas e palavras
Fui criado por uma gata. Não é metáfora, é memória. A minha mãe contava que, no berço, uma felina vadia vinha todas as noites, pousava uma patinha sobre o meu peito e adormecia comigo. Guardava-me como quem guarda um segredo. Talvez tenham sido elas as primeiras professoras de ternura e bondade, talvez tenham sido elas a ensinar-me que o silêncio também é linguagem.
Depois, vieram muitos outros encontros felinos que marcaram a minha vida: a Vadia, o Pipoca. Lembro-me também de um gato nas ruínas de Cartago — um magnífico felino de pêlo dourado e olhos verdes como o mar mediterrânico que beija aquelas pedras antigas. Aproximou-se com a graça de um verso esquecido, esfregou o queixo nas minhas pernas como quem assina um pacto silencioso e, por instantes, o tempo parou entre colunas romanas e o eco de civilizações desfeitas. Naquele encontro breve, senti que Cartago me acolhia não através dos homens, mas através de um gato que parecia guardião dos segredos do lugar. Chamei-lhe Aníbal.
E recordo, com ternura que ainda me aquece o peito, a gata persa de Sidi Bou Said. Todas as tardes, ao regressar a casa, depois das aulas aos meus alunos do Instituto de Línguas de Tunes, ela lá esperava empoleirada no muro azul-celeste que ladeava o caminho — imóvel, elegante, como uma estátua viva bordada a seda branca e cinza. O seu olhar, âmbar e sereno, parecia saber mais de mim do que eu próprio sabia. Nunca me seguiu, nunca pediu nada; apenas me recebia com a quietude de quem compreende que existem chegadas que são rituais. Nos dias em que o cansaço solitário me pesava nos ombros, bastava vê-la ali — recortada contra o céu do Mediterrâneo, entre jasmim e azulejos — para que o mundo voltasse a fazer sentido.
Lembro-me também de todos e tantos gatos da Tunísia, que exalavam perfume de jasmim, como se a brisa do Mediterrâneo lhes tivesse emprestado a fragrância. E lembro-me, com emoção contida, de que fui acariciado por Gli, em 2019, antes que morresse — sim, por ela, a célebre gata da Hagia Sophia, em Istambul.
Gli não era apenas um felino: era uma instituição viva. Nascida por volta de 2004, fez da basílica-mesquita a sua casa e do mundo inteiro o seu público. Dormia sobre tapetes otomanos, repousava junto aos vitrais bizantinos e recebia turistas com a dignidade de quem habita a história. Quando, em 2020, a Hagia Sophia deixou de ser museu para voltar a ser mesquita, houve temores de que os gatos fossem expulsos. Mas Recep Tayyip Erdoğan, então presidente da Turquia, tranquilizou o mundo: “Os gatos da Hagia Sophia ficam. Sem eles, o lugar não seria o mesmo.” Gli, a gata-imperatriz acariciada por Barack Obama, morreu poucos meses depois, com cerca de dezasseis anos, e foi enterrada nos jardins do monumento, com honras de guardiã eterna. Hoje, os seus descendentes — e os outros felinos da Hagia — continuam a circular entre os fiéis e os visitantes, como se o espírito de Gli ainda ali ronronasse, entre o sagrado e o profano.
Istambul, afinal, é conhecida como a “cidade dos gatos”: ali, os felinos reinam livres, alimentados e acarinhados pelos habitantes, numa cultura muçulmana que os venera pela sua limpeza e lhes abre as portas das mesquitas.
Desde então, os gatos são para mim mais do que animais: são companheiros de sombra, cúmplices de solidão, mestres da pausa. E não estou sozinho nesta devoção. A literatura está cheia de gatos que se aninham nas páginas, que ronronam nos versos, que saltam para os ombros dos poetas como quem reivindica um lugar na eternidade.
O meu querido amigo Eugénio de Andrade sabia disso. No seu texto “Acerca dos gatos”, recorda o “pequeno tigre” da infância, a gata livre de Coimbra, o persa azul que reinava na casa e a rafeira negra que lhe fazia companhia aos domingos. Muitas vezes fui acariciado pela belíssima gata negra. No poema “Gatos”, evoca-os vindos “da Índia, da Pérsia, de Nínive, Alexandria”, como se fossem ecos de civilizações antigas, elegantes e eternos.
Ary dos Santos, irreverente e apaixonado, também lhes dedicou versos: chamou-lhes “animais irracionais de fino gosto”, celebrando a independência felina como quem celebra a liberdade humana. Porque um gato é isso: um manifesto silencioso contra todas as prisões.
Maria Teresa Horta, musa da poesia erótica, escreveu um poema chamado “Os Gatos”, musicado nos anos 60, onde o felino surge como metáfora de sedução e segredo. Também o amigo Joaquim Pessoa, por sua vez, confessou: “Não sei falar com os gatos, mas adoraria trocar por miados o carinho que em mim despertam.” Palavras que soam como um ronronar poético.
Manuel António Pina não se limitou a escrever sobre gatos: acolhia-os. Chamava-lhes Hugo, Chico, Adelaide, Ronaldo, transformando cada gato num poema vivo, uma história que se aninhava no seu colo. Eugénio Lisboa foi mais longe: dedicou um livro inteiro aos gatos, com 31 poemas, — “Manual Prático de Gatos para Uso Diário e Intenso” com fotografias recolhidas, explicadas e legendadas pela minha ex-Professora da Universidade de Lisboa, a Otília Pires Martins—, onde cada verso é uma carícia, cada palavra um miado cúmplice. “Começar a gostar de gatos é como entrar para a máfia: uma vez dentro, não há como sair?” E dela não quero sair…
Mas esta paixão não é só nossa, lusitana. Do outro lado do Atlântico, Mark Twain vivia rodeado de gatos com nomes extravagantes. Hemingway colecionava gatos polidáctilos, que viviam na sua antiga casa em Key West, Flórida, descendentes do mítico Snowball. Borges escreveu sobre Beppo, o gato branco que lhe ensinou a filosofia do silêncio. Bukowski, sempre cru, confessou que os gatos lhe davam coragem para enfrentar a vida.
No Egito Antigo, os gatos eram divinos. Bastet, a deusa com cabeça de felino, simbolizava proteção, fertilidade e a graça da casa. Matar um gato era crime punido com a morte. Os faraós dormiam sob o olhar vigilante destes guardiões, e quando um gato morria, a família raspava as sobrancelhas em sinal de luto. Talvez seja por isso que ainda hoje os gatos carregam uma aura sagrada, como se cada passo fosse um rito.
Em Roma, os gatos eram símbolo de liberdade. A palavra “libertas” era associada ao felino, vigilante da Roma Antiga, que caminhava entre templos e praças como quem reivindica o direito de existir sem correntes. Essa herança atravessou séculos e chegou à literatura: um gato é sempre metáfora de independência, um poema que se escreve com patas leves.
Na Idade Média, porém, a sombra caiu sobre os gatos. Acusados de bruxaria, agentes de Satanás, perseguidos e queimados, tornaram-se símbolos de medo. Mas sobreviveram, como sobrevivem os poetas, escondendo-se nos cantos, aguardando o regresso da luz. E regressaram com força, para se tornarem companheiros de reis, artistas e sonhadores, ao longo dos tempos.
Com a modernidade, os gatos conquistaram as cidades. Paris, Madrid, Londres, Lisboa: nos cafés parisienses, inspiravam Baudelaire, que lhes chamou “tigres domésticos”. Em Lisboa, vagueiam pelos miradouros, como sentinelas da saudade, guardando segredos entre azulejos e colinas.
Hoje, os gatos são símbolos literários universais. De Edgar Allan Poe a T. S. Eliot, de Sophia de Mello Breyner Andresen a Pablo Neruda, atravessam páginas e séculos com a mesma elegância. Cada olhar felino é uma metáfora, cada salto é um verso. Talvez porque, como escreveu Robertson Davies, “os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões.”
E quando a noite desce sobre as páginas, vejo-os: gatos que caminham entre livros como sombras líquidas, olhos acesos como faróis de um porto secreto. São eles que guardam as palavras quando nós dormimos, são eles que sopram metáforas para dentro dos sonhos. Talvez a literatura seja, afinal, um imenso jardim onde os gatos passeiam livres, deixando pegadas invisíveis na neve das ideias. E nós, pobres aprendizes, seguimos-lhes o rasto, tentando escrever com a mesma leveza com que eles caminham sobre o silêncio.
E esta crónica é, acima de tudo, um tributo — não só aos gatos que cruzaram a minha vida, mas àquilo que eles representam: a graça do acaso, o luxo da presença, a sabedoria da espera. Em cada patinha silenciosa, um verso que a humanidade ainda não soube escrever — mas que, todos os dias, os gatos nos ensinam a sentir.
Depois, vieram muitos outros encontros felinos que marcaram a minha vida: a Vadia, o Pipoca. Lembro-me também de um gato nas ruínas de Cartago — um magnífico felino de pêlo dourado e olhos verdes como o mar mediterrânico que beija aquelas pedras antigas. Aproximou-se com a graça de um verso esquecido, esfregou o queixo nas minhas pernas como quem assina um pacto silencioso e, por instantes, o tempo parou entre colunas romanas e o eco de civilizações desfeitas. Naquele encontro breve, senti que Cartago me acolhia não através dos homens, mas através de um gato que parecia guardião dos segredos do lugar. Chamei-lhe Aníbal.
E recordo, com ternura que ainda me aquece o peito, a gata persa de Sidi Bou Said. Todas as tardes, ao regressar a casa, depois das aulas aos meus alunos do Instituto de Línguas de Tunes, ela lá esperava empoleirada no muro azul-celeste que ladeava o caminho — imóvel, elegante, como uma estátua viva bordada a seda branca e cinza. O seu olhar, âmbar e sereno, parecia saber mais de mim do que eu próprio sabia. Nunca me seguiu, nunca pediu nada; apenas me recebia com a quietude de quem compreende que existem chegadas que são rituais. Nos dias em que o cansaço solitário me pesava nos ombros, bastava vê-la ali — recortada contra o céu do Mediterrâneo, entre jasmim e azulejos — para que o mundo voltasse a fazer sentido.
Lembro-me também de todos e tantos gatos da Tunísia, que exalavam perfume de jasmim, como se a brisa do Mediterrâneo lhes tivesse emprestado a fragrância. E lembro-me, com emoção contida, de que fui acariciado por Gli, em 2019, antes que morresse — sim, por ela, a célebre gata da Hagia Sophia, em Istambul.
Gli não era apenas um felino: era uma instituição viva. Nascida por volta de 2004, fez da basílica-mesquita a sua casa e do mundo inteiro o seu público. Dormia sobre tapetes otomanos, repousava junto aos vitrais bizantinos e recebia turistas com a dignidade de quem habita a história. Quando, em 2020, a Hagia Sophia deixou de ser museu para voltar a ser mesquita, houve temores de que os gatos fossem expulsos. Mas Recep Tayyip Erdoğan, então presidente da Turquia, tranquilizou o mundo: “Os gatos da Hagia Sophia ficam. Sem eles, o lugar não seria o mesmo.” Gli, a gata-imperatriz acariciada por Barack Obama, morreu poucos meses depois, com cerca de dezasseis anos, e foi enterrada nos jardins do monumento, com honras de guardiã eterna. Hoje, os seus descendentes — e os outros felinos da Hagia — continuam a circular entre os fiéis e os visitantes, como se o espírito de Gli ainda ali ronronasse, entre o sagrado e o profano.
Istambul, afinal, é conhecida como a “cidade dos gatos”: ali, os felinos reinam livres, alimentados e acarinhados pelos habitantes, numa cultura muçulmana que os venera pela sua limpeza e lhes abre as portas das mesquitas.
Desde então, os gatos são para mim mais do que animais: são companheiros de sombra, cúmplices de solidão, mestres da pausa. E não estou sozinho nesta devoção. A literatura está cheia de gatos que se aninham nas páginas, que ronronam nos versos, que saltam para os ombros dos poetas como quem reivindica um lugar na eternidade.
O meu querido amigo Eugénio de Andrade sabia disso. No seu texto “Acerca dos gatos”, recorda o “pequeno tigre” da infância, a gata livre de Coimbra, o persa azul que reinava na casa e a rafeira negra que lhe fazia companhia aos domingos. Muitas vezes fui acariciado pela belíssima gata negra. No poema “Gatos”, evoca-os vindos “da Índia, da Pérsia, de Nínive, Alexandria”, como se fossem ecos de civilizações antigas, elegantes e eternos.
Ary dos Santos, irreverente e apaixonado, também lhes dedicou versos: chamou-lhes “animais irracionais de fino gosto”, celebrando a independência felina como quem celebra a liberdade humana. Porque um gato é isso: um manifesto silencioso contra todas as prisões.
Maria Teresa Horta, musa da poesia erótica, escreveu um poema chamado “Os Gatos”, musicado nos anos 60, onde o felino surge como metáfora de sedução e segredo. Também o amigo Joaquim Pessoa, por sua vez, confessou: “Não sei falar com os gatos, mas adoraria trocar por miados o carinho que em mim despertam.” Palavras que soam como um ronronar poético.
Manuel António Pina não se limitou a escrever sobre gatos: acolhia-os. Chamava-lhes Hugo, Chico, Adelaide, Ronaldo, transformando cada gato num poema vivo, uma história que se aninhava no seu colo. Eugénio Lisboa foi mais longe: dedicou um livro inteiro aos gatos, com 31 poemas, — “Manual Prático de Gatos para Uso Diário e Intenso” com fotografias recolhidas, explicadas e legendadas pela minha ex-Professora da Universidade de Lisboa, a Otília Pires Martins—, onde cada verso é uma carícia, cada palavra um miado cúmplice. “Começar a gostar de gatos é como entrar para a máfia: uma vez dentro, não há como sair?” E dela não quero sair…
Mas esta paixão não é só nossa, lusitana. Do outro lado do Atlântico, Mark Twain vivia rodeado de gatos com nomes extravagantes. Hemingway colecionava gatos polidáctilos, que viviam na sua antiga casa em Key West, Flórida, descendentes do mítico Snowball. Borges escreveu sobre Beppo, o gato branco que lhe ensinou a filosofia do silêncio. Bukowski, sempre cru, confessou que os gatos lhe davam coragem para enfrentar a vida.
No Egito Antigo, os gatos eram divinos. Bastet, a deusa com cabeça de felino, simbolizava proteção, fertilidade e a graça da casa. Matar um gato era crime punido com a morte. Os faraós dormiam sob o olhar vigilante destes guardiões, e quando um gato morria, a família raspava as sobrancelhas em sinal de luto. Talvez seja por isso que ainda hoje os gatos carregam uma aura sagrada, como se cada passo fosse um rito.
Em Roma, os gatos eram símbolo de liberdade. A palavra “libertas” era associada ao felino, vigilante da Roma Antiga, que caminhava entre templos e praças como quem reivindica o direito de existir sem correntes. Essa herança atravessou séculos e chegou à literatura: um gato é sempre metáfora de independência, um poema que se escreve com patas leves.
Na Idade Média, porém, a sombra caiu sobre os gatos. Acusados de bruxaria, agentes de Satanás, perseguidos e queimados, tornaram-se símbolos de medo. Mas sobreviveram, como sobrevivem os poetas, escondendo-se nos cantos, aguardando o regresso da luz. E regressaram com força, para se tornarem companheiros de reis, artistas e sonhadores, ao longo dos tempos.
Com a modernidade, os gatos conquistaram as cidades. Paris, Madrid, Londres, Lisboa: nos cafés parisienses, inspiravam Baudelaire, que lhes chamou “tigres domésticos”. Em Lisboa, vagueiam pelos miradouros, como sentinelas da saudade, guardando segredos entre azulejos e colinas.
Hoje, os gatos são símbolos literários universais. De Edgar Allan Poe a T. S. Eliot, de Sophia de Mello Breyner Andresen a Pablo Neruda, atravessam páginas e séculos com a mesma elegância. Cada olhar felino é uma metáfora, cada salto é um verso. Talvez porque, como escreveu Robertson Davies, “os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões.”
E quando a noite desce sobre as páginas, vejo-os: gatos que caminham entre livros como sombras líquidas, olhos acesos como faróis de um porto secreto. São eles que guardam as palavras quando nós dormimos, são eles que sopram metáforas para dentro dos sonhos. Talvez a literatura seja, afinal, um imenso jardim onde os gatos passeiam livres, deixando pegadas invisíveis na neve das ideias. E nós, pobres aprendizes, seguimos-lhes o rasto, tentando escrever com a mesma leveza com que eles caminham sobre o silêncio.
E esta crónica é, acima de tudo, um tributo — não só aos gatos que cruzaram a minha vida, mas àquilo que eles representam: a graça do acaso, o luxo da presença, a sabedoria da espera. Em cada patinha silenciosa, um verso que a humanidade ainda não soube escrever — mas que, todos os dias, os gatos nos ensinam a sentir.
Silêncio
É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar.
É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.
A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.
Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
O coração bate ao reconhecê-lo.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.
Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.
Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.
Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.
Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se veem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.
Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo – de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.
Clarice Lispector, “Onde estivestes de noite“
É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.
A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.
Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
O coração bate ao reconhecê-lo.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.
Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.
Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.
Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.
Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se veem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.
Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo – de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.
Clarice Lispector, “Onde estivestes de noite“
Soneto 18
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
William Shakespeare, "Sonetos"
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
William Shakespeare, "Sonetos"
Como devem morrer as flores
Vejo, com tristeza, o amor sendo destituído de suas magias e poderes. Não há mais garotas suspirando nem garotos rabiscando poemas em bloquinhos. O amor é hoje um personagem estranho e é preciso preparar o ambiente para que, ao mencioná-lo, não estourem gargalhadas de zombaria. Pobre amor, merece ele isso, são justos todos esses sarcasmos? Dizem que ele não faz mais nascer flores. Mesmo que seja verdade, penso que estamos sendo impiedosos com ele. Poupemos nosso herói. Que ele, se já não faz nascer flores, possa ao menos fazê-las murchar romanticamente, melancolicamente, maravilhosamente, como devem morrer sempre as flores.
Ah, se fôssemos loucos o bastante para ver nossa rua de repente coberta de flores tão soberbas que os carros se recusassem a passar por ela, para poupá-las. E se, saindo de casa pisando com cuidado, descalços, víssemos as outras ruas do bairro atapetadas de flores e soubéssemos, pela televisão, que todas as ruas de nossa cidade, e todas as ruas de todas as cidades do mundo estavam ocupadas por elas. E se pudéssemos, todos os homens, mulheres e crianças do planeta, esquecer de tudo mais e dedicar-nos à nossa saudável loucura de contemplar as flores e de ocupar-nos em mantê-las vivas.
Os dias passam em vão. Para o amor morto, já não importam a chuva, o orvalho, o sol. Talvez venham a nascer flores da terra sob a qual o sepultaram. Mas de que lhe servem flores, agora? Se fossem para assinalar onde ele está, haveriam de ser flores tristes e doentias, como ele sempre foi, e ninguém irá parar para vê-las.
O menino de cinco anos perguntou por que haviam posto flores no peito do padrinho. Disseram-lhe que talvez não houvesse flores no lugar para onde ele estava indo. O menino tirou então dois biscoitos do pacote e os juntou às flores.
Tão feiosas são estas flores. Envergonha-me pensar que as rego para ti. Talvez por serem regadas por mão de homem, são mofinas, raquíticas, e é um milagre a brisa não as ter levado. O sol pouco as visita, não para poupá-las, mas porque lhe repugna seu aspecto, e os beija-flores não as incluem em seu plano de voo. Rego-as e quando olho para elas me vem – embora isso me doa tanto – a ideia de que melhor será tu tardares a vir, ou não vires nunca, para não saberes que meu amor continua sáfaro, incapaz e triste.
***
Ah, se fôssemos loucos o bastante para ver nossa rua de repente coberta de flores tão soberbas que os carros se recusassem a passar por ela, para poupá-las. E se, saindo de casa pisando com cuidado, descalços, víssemos as outras ruas do bairro atapetadas de flores e soubéssemos, pela televisão, que todas as ruas de nossa cidade, e todas as ruas de todas as cidades do mundo estavam ocupadas por elas. E se pudéssemos, todos os homens, mulheres e crianças do planeta, esquecer de tudo mais e dedicar-nos à nossa saudável loucura de contemplar as flores e de ocupar-nos em mantê-las vivas.
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Os dias passam em vão. Para o amor morto, já não importam a chuva, o orvalho, o sol. Talvez venham a nascer flores da terra sob a qual o sepultaram. Mas de que lhe servem flores, agora? Se fossem para assinalar onde ele está, haveriam de ser flores tristes e doentias, como ele sempre foi, e ninguém irá parar para vê-las.
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O menino de cinco anos perguntou por que haviam posto flores no peito do padrinho. Disseram-lhe que talvez não houvesse flores no lugar para onde ele estava indo. O menino tirou então dois biscoitos do pacote e os juntou às flores.
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Tão feiosas são estas flores. Envergonha-me pensar que as rego para ti. Talvez por serem regadas por mão de homem, são mofinas, raquíticas, e é um milagre a brisa não as ter levado. O sol pouco as visita, não para poupá-las, mas porque lhe repugna seu aspecto, e os beija-flores não as incluem em seu plano de voo. Rego-as e quando olho para elas me vem – embora isso me doa tanto – a ideia de que melhor será tu tardares a vir, ou não vires nunca, para não saberes que meu amor continua sáfaro, incapaz e triste.
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